A saúde na América Latina

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  UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS FORMAđấO HUMANễSTICA EIXO: AMÉRICA LATINA

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  (2008)

  Almiro Petry A vulnerabilidade representa a interface entre a exposição a ameaças físicas ao bem-estar humano e a capacidade das pessoas e comunidades de lidar com tais ameaças.

  (GEO3, p.326)

  1 Introdução

  Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde “não é a simples ausência de doenças, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social”, como um direito fundamental da pessoa humana. E para estarem perfeitamente saudáveis homens e mulheres, crianças e jovens, precisam de uma boa alimentação, de higiene pessoal e ambiental, de habitação adequada, de educação e uma série de outros bens que lhes permitam viver e progredir. Na concepção da OMS, a saúde de um povo, na individualidade e na coletividade, está diretamente ligada ao grau de desenvolvimento econômico e social. Isto significa que há uma estreita correlação entre o nível de renda das pessoas e a qualidade de vida, incluindo-se aí, a qualidade do estado de saúde. Na lógica da correlação, quanto mais baixo for a renda familiar menor será o acesso aos bens essenciais para satisfazer o mínimo vital, de modo particular a educação e a saúde. Assim, os problemas de saúde de uma população podem ser identificados sob diferentes enfoques: “as condições de morbidade, de que as pessoas adoecem, e de mortalidade, de que as pessoas morrem, são aproximações usuais para retratar o perfil epidemiológico da população”, segundo o Radar Social 2006 (p.53).

  Neste texto vamos voltar o nosso breve olhar sobre os povos latino-americanos para identificar algumas condições de vida para o bem-estar saudável das pessoas.

  2 Aspectos gerais 3 Na perspectiva do BM, expressa no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006 duas ,

  áreas se destacam na redução das desigualdades e tratamento das distorções econômicas na prestação 1 de serviços de saúde.

  Mestre em Sociologia Rural (UFRGS) e Doutor em Ciências Sociais (Unisinos); Professor do Curso de 2 Ciências Sociais da Unisinos e do Departamento de Sociologia da UFRGS ( almiro.petry@gmail.com ). 3 Versão ampliada da publicada em 2007.

  Disponível: http://www.bancomundial.org.br/index.php/content/view_folder/2410.html

  Em primeiro lugar, há muitos casos em que os benefícios atingem além do beneficiário direto em várias áreas de prestação de serviços: imunização, água e saneamento e informações sobre higiene e saúde da criança. A garantia pública de fornecimento do serviço faz sentido nessas áreas. Os subsídios do lado da demanda para oferecer incentivos à saúde materno-infantil têm aumentado a sua utilização, compensando os possíveis problemas de informação, como ocorre no programa Oportunidades no México. Em segundo lugar, os mercados de seguro para problemas de saúde em catástrofes

  4 estão repletos de falhas. O modelo tradicional do lado da oferta baseado em hospitais públicos funciona mal, especialmente para os grupos de baixa renda e excluídos. O que pode funcionar melhor é o fornecimento público ou a regulamentação que proporcione seguro para todos.

  Os especialistas alertam, no entanto, que as intervenções em saúde pública, tal como na educação, “precisam estar combinadas com incentivos para que os fornecedores atendam a todos os grupos” e a correspondente contrapartida do usuário.

  O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas que prepara o Relatório sobre o

  Desenvolvimento Humano (IDH)

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  enfatiza, nos últimos anos, que o foco na eqüidade visa a criar “um clima institucional que incentive o investimento e o empoderamento das pessoas de baixa renda” . Quando as instituições asseguram e reforçam os direitos “pessoais, políticos e de propriedade para todos, incluindo os atualmente excluídos”, os países poderão ser mais eficazes na “prestação de serviços para todos os cidadãos”, resultando num crescimento econômico mais rápido. O relatório conclui de que “o crescimento rápido e o desenvolvimento humano nos países mais pobres são fundamentais para a redução da desigualdade global e para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio”.

  Segundo o relatório da OCDE

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  ,

  a focalização dos gastos públicos com saúde também depende da distribuição de postos de atendimento em todo o país. Isto ocorre porque os orçamentos de saúde permanecem predominantemente voltados para a demanda por serviços de saúde, de modo que as transferências federais para estados e municípios dependem da infra-estrutura existente, que é relativamente mais desenvolvida nos estados mais ricos. As transferências federais tendem, portanto, a favorecer estados com renda per capita relativamente maior a despeito das necessidades de saúde mais prementes nos estados relativamente mais pobres. Mas desde o final da década de 1990 as diferenças nas despesas federais com saúde per capita têm sido reduzidas, uma vez que o governo tem substituído parte dessas transferências por dotações em bloco com base nas necessidades estimadas de assistência primária e preventiva.

  Desde a década de 1980, segundo a CEPAL, em quase todos os países latino- americanos, vem sendo processada uma reforma na área da saúde, privilegiando o setor privado nos serviços e na gestão, reduzindo a intervenção do Estado, na aplicação dos princípio apregoados pelo neoliberalismo. Há, no entanto, um convencimento de que é necessário fortalecer a capacidade reguladora dos Estados e de darem a garantia dos serviços

  4

“Catástrofes” aqui está relacionado à capacidade da família de arcar com os custos diretos e perda de rendimentos. 5 Visitar: http://www.pnud.org.br/idh/ 6 Visitar: http://www.bancomundial.org.br/index.php/content/view/6.html básicos de saúde para toda a população. Em vários países isto se expressa em planos nacionais, com objetivos sanitários e de seguridade social, o que implica na reestruturação dos

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  sistemas de saúde para atingir o modelo da “atenção básica integral” definido, em 1978 , pela OMS/UNICEF, na Conferência Internacional da Alma Ata.

  Naquela conferência lança-se a meta “Saúde para Todos no ano 2000”. Mesmo assim, apesar dos esforços e das melhorias, segundo as autoridades na área da saúde, permanecem como principais problemas latino-americanos a alta mortalidade infantil seguido das enfermidades infecto-contagiosas, das enfermidades crônico-degenerativas e das lesões e mortes por causas externas. Não há, contudo, uma homogeneidade devido à variação da transição demográfica, dos controles epidemiológicos, das políticas públicas, acentuadamente diferenciados, seja por opções políticas e pelo papel do Estado, ou por questões culturais, ou por tradições, ou por crenças religiosas.

  Na Conferência de Alma Ata a OMS e a UNICEF consideraram fundamental que cada

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  país formulasse um plano nacional de “atenção primária à saúde” , visando a proteção e a promoção da saúde de suas populações. Tais medidas foram consideradas indispensáveis para o desenvolvimento econômico e social, bem como, a melhoria da qualidade de vida da população. Segundo a Declaração da conferência a atenção primária à saúde consiste na assistência sanitária essencial baseada em métodos e tecnologias práticas, cientificamente

  fundamentados e socialmente aceitáveis, posta ao alcance de todos os indivíduos e famílias da comunidade [...], com um espírito de auto-responsabilidade e auto-determinação. A atenção primária forma parte integrada tanto do sistema nacional de saúde, do qual constitui a função central e o núcleo principal, como do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. A atenção primária representa o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, levando o mais próximo possível a atenção à saúde ao lugar onde residem e trabalham as pessoas e constitui o primeiro elemento de um processo permanente de assistência sanitária (OMS/UNICEF, apud: Souza e Ferrari, 1997, p.61).

  Mediante estes pressupostos passa-se a entender de que uma política pública de “atenção primária à saúde” procura enfrentar os principais problemas de saúde coletiva e individual, por abranger as seguintes atividades:

  educação em saúde, estabelecimento de métodos de promoção para uma nutrição apropriada, melhoria do saneamento básico, assist6encia materno-infantil, prevenção de doenças end6emicas, tratamento apropriado das doenças comuns e fornecimento de medicamentos essenciais (Souza e Ferrari, 1997, p. 61).

  7 8 Conferência de Alma Ata, hoje Almaty, capital do Cazaquistão.

  

São aquelas que se realizam na comunidade (na Unidade Básica de Saúde); as secundárias são as que

envolvem exames de investigação (laboratoriais etc.); as terciárias envolvem internações hospitalares e seus

correlatos; e, mais recentemente, cria-se as quaternárias que são as que envolvem quimioterapia e radioterapia.

No futuro, novas categorias serão definidas quando estivermos na fase pós-humana, característica dos implantes,

dos transplantes, das próteses e de membros biônicos etc.

  A partir da definição e aceitação destes conceitos, a preocupação volta-se para o conceito de vulnerabilidade e a identificação de grupos mais vulneráveis às influências de condições ambientais e a maior probabilidade de contrair alguma enfermidade, de modo particular em ambientes de pobreza e de indigência. As crianças, até a faixa de seis anos, formam entendidas como o principal grupo vulnerável a ser contemplada pelas políticas públicas de prevenção, independentemente das condições sócio-econômicas. Para tanto, formam estabelecidas ações prioritárias, como

  Incentivo ao aleitamento materno e orientação para o desmame; acompanhamento do crescimento e desenvolvimento de crianças menores de seis anos; controle das doenças respiratórias agudas; controle das doenças diarréicas e uso da terapia de reidratação oral; orientação quanto à importância da imunização (Souza e Ferrari, 1997, p. 62).

  Tais medidas aplicadas através de políticas públicas salvaram muitas vidas e qualificaram a vida de muitas mães e famílias latino-americanas e passou-se a entender de que uma boa saúde era possível com baixos custos. Estas ações foram aperfeiçoadas e ampliadas, em especial após os regimes militares, quando se expandiu a consciência da cidadania e a necessidade de as comunidades locais se envolverem mais diretamente na execução destas práticas a medida que o Estado se foi retraindo. Nesta linha de ação, dois países latino- americanos são destaques: Costa Rica e Cuba.

  Entretanto, este processo foi interrompido pelas reformas neoliberais feitas na América Latina. O objetivo destas reformas no setor de saúde executadas era atacar os problemas estruturais dos sistemas de saúde tais como: gastos sem limite do setor de saúde e de má utilização de recursos; fraca gestão de sistemas; acesso inadequado aos serviços de saúde pela população pobre; má qualidade dos serviços em muitos países e regiões.

  Lamentavelmente, em muitos países latino-americanos, as reformas executadas não conseguiram resolver estes problemas e, em alguns casos, conseguiram piorar a situação. Os propugnadores das reformas neoliberais sabiam que elas deveriam se adaptar ao contexto local, mas, na prática, as reformas acabaram adotando medidas predominantemente universais. O Brasil é um dos poucos países que manteve um sistema público de saúde – o SUS, apesar da precariedade com que ele se apresenta e sustenta.

  Do conceito de “atenção primária à saúde”, parte-se, na década de 1990, para o de “atenção primária ambiental” e, mais recentemente, para o de “atenção primária em saúde ambiental”. A Organização Pan-Americana de Saúde definiu, nos seguintes termos, a “atenção primária ambiental”:

  A atenção primária ambiental é uma estratégia de ação ambiental, basicamente preventiva e participativa em nível local, que reconhece o direito do ser humano de viver em um ambiente saudável e adequado, e a ser informado sobre os riscos do ambiente em relação à saúde, bem- estar e sobrevivência, ao mesmo tempo que define suas responsabilidades e deveres em relação à proteção, conservação e recuperação do ambiente e da saúde (OPS, 1999).

  As bases desta conceituação são extraídas da “atenção primária à saúde” da conferência da Alma Ata, entretanto, inclui novos valores como a gestão descentralizada, a interdisciplinaridade, a intersetorialidade, a participação ativa e efetiva da comunidade, a organização, a prevenção e proteção do entorno, a diversidade, a co-gestão, e a solidariedade. Portanto, busca valorizar as ações orientadas a mudanças nos modos de produção, consumo e práticas que destroem e deterioram o meio ambiente.

  Para a OMS, em torno de 30% dos danos à saúde humana mundial estão relacionados aos fatores ambientais decorrentes da inadequação do saneamento básico (água, lixo, esgoto), poluição atmosférica, exposição a substâncias químicas e físicas, desastres naturais, fatores biológicos (vetores, hospedeiros e reservatórios), entre outros. E, ¼ de todas as mortes humanas são atribuídas a fatores ambientais. Além disso, mais de 40% das doenças em crianças abaixo de cinco anos são causadas por fatores ambientais e que afetam o crescimento e o desenvolvimento destas crianças. Em espaços e territórios subdesenvolvidos estes fatores são mais marcantes porque se apresentam de forma mais agravada e intensa.

  9 O conceito de “atenção primária em saúde ambiental” inspira-se no paradigma

  holístico da interdependência, da mutualidade e da solidariedade da biogênese planetária na constituição do ecossistema. Segundo a OMS, a saúde ambiental se ocupa de los riesgos y efectos que para la salud humana, representan el medio que habita y trabaja, los cambios naturales o artificiales que ese lugar manifiesta y la contaminación natural o antropogénica del medio. Ampliando o conceito, a OMS insiste de que

  […] son todos aquellos aspectos de la salud humana, incluyendo la calidad de vida, que están determinadas por factores físicos, químicos, biológicos, sociales y psicológicos en el ambiente. También se refiere a la teoría y práctica de valorar, corregir, controlar y evitar aquellos factores en el medio ambiente que potencialmente pueden perjudicar la salud degeneraciones actuales y futuras (OMS, 1993 Carta de Sofía).

  Desta conceituação deriva a que se refere à vigilância ambiental em saúde, tão necessária hoje, na complementação da vigilância epidemiológica. Por isso, em 2002, o 9 Ministério da Saúde (MS) criou a Comissão Permanente de Saúde Ambiental para possibilitar

  

O descritor Saúde ambiental refere-se ap controle de todos os processos, influências e fatores físicos, químicos

e biológicos que exercem ou podem exercer. Direta ou indiretamente, efeito significativo sobre a saúde e bem- estar físico e mental do homem e da sociedade.

O descritor Promoção da saúde é o processo de capacitação do indivíduo em melhorar e controlar sua saúde.

Para alcançar o estado de completo bem-estar físico, mental e social, um indivíduo ou grupo deve ser capaz de

identificar aspirações, satisfazer necessidades e mudar ou lidar com seu ambiente. Saúde é vista, portanto, como

um meio de vida e não um objetivo. Política de promoção de saúde envolve abordagens diversas, mas complementares, levando em conta as diferenças sociais, culturais e econômicas de cada país. a construção da política de saúde ambiental e sua sólida articulação entre os órgãos do MS, que desenvolvem ações e atividades no campo da saúde humana e da saúde ambiental.

  Em princípio, o nível de vida e de saúde de uma população humana depende das condições de vida, de seus hábitos culturais e da qualidade do meio ambiente em que se habita. Além disso, um fator determinante é o modo de como está estruturado o sistema produtivo e sua dinâmica na relação com o meio ambiente, porque podem causar impactos (contaminação, degradação, perda de biodiversidade, etc.) que são capazes de afetar a qualidade de vida e da saúde da população ou, ao menos, capazes de pô-las em risco.

  Na avaliação da metodologia aplicada na análise da relação entre saúde e meio ambiente que o PNUMA e a OPS (2005) fazem da América Latina e do Caribe, se expressam da seguinte forma:

  Es necesario reconocer, sin embargo, que en los últimos 50 años se han alcanzado en la región avances significativos en los sectores de salud y de ambiente. En términos de salud, se observan notables mejores en el control de enfermedades infecciosas; se ha reducido la mortalidad infantil y cuidado del ambiente, los resultados quizá hayan sido menos notables, pero merecen ser mencionados: existe ahora un mayor debate sobre la importancia de los problemas ambientales en la región; han sido firmados y ratificados varios acuerdos internacionales para tratar estos problemas; se ha creado una legislación nacional y local mucho más amplia y adecuada para la protección del medio-ambiente, y existen ahora mucho más áreas y especies protegidas.

  Los problemas de ambiente y salud en América Latina y el Caribe son tan complejos como su propia geografía y su variedad sociocultural. Entenderlos, atenderlos y resolverlos de manera adecuada representa un gran desafío (PNUMA/OPS, 2005, p. 10-11).

  Em todos os países da região aumentam os investimentos públicos no setor da saúde, sendo, no entanto, ainda um percentual muito baixo em alguns países. Talvez o indicador mais sensível seja a mortalidade infantil, que, em 1990 era de 42,9 mortes por mil crianças nascidas vivas e baixou para 22, em 2005. Esta média regional distancia-se muito de países como Cuba (6), Chile (8), Costa Rica (11), Uruguai (12) e Argentina (14). No entanto, a média brasileira continua acima da média regional (31), como também a do Haiti, que era de 84, a da Bolívia, que era de 52 e tantos outros. Cabe destacar alguns casos em que as desigualdades sócio-econômicas se refletem explicitamente na taxa de mortalidade infantil. Assim, a) no Brasil, entre os 20% mais pobres ela se eleva par 83 e entre os 20% mais ricos ela cai para 29; b) na Bolívia, entre os 20% mais pobres ela se eleva para 72 e entre os 20% mais ricos ela cai para 27. Este é um segmento social “africanizada”, uma verdadeira apartação social do Brasil.

  Na medida em que as políticas públicas de saúde voltam-se com intensidade para a mulher, a taxa de natalidade também cai significativamente. De uma cifra de 3 filhos por mulher, no período de 1990-1995, cai para 2,6 no período de 2000-2005, evidenciando, no entanto, grandes diferenças entre os países, como Cuba onde é apenas de 1,8. Esta queda global pode significar uma desaceleração do crescimento demográfico e, com a melhoria das condições de vida, um envelhecimento da população. Permanece, contudo, o problema das desigualdades sócio-econômicas que é uma das causas da grande diferença reprodutiva humana, bem como da reprodução precoce nos estratos sociais mais baixos.

  Para o Brasil temos o exemplo da esperança de vida ao nascer que era de 44,89 anos (H 42,75; M 47,15) em 1940, atingindo os 68,55 (H 64,77; M 72,55), em 2000. Em 2006, a expectativa elevou-se a 72,2 anos, sendo 68,3 para os homens e 76,3 para as mulheres. No entanto, há uma acentuada diferença entre o Nordeste (69,4 anos) e o Sul (74,4 anos), determinada pelas condições sócio-econômicas mais favoráveis do Sul. A Tabela de Mortalidade do IBGE mostra que todos os estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste estão com a média acima da nacional e os do Norte e os do Nordeste, com média abaixo da nacional. O próprio IBGE atribui às desigualdades regionais, que são persistentes, as causas destas diferenças e não vislumbra perspectivas de mudanças num futuro próximo.

  Quanto à mortalidade geral, o Ministério da Saúde agrupa em sete grandes causas o total de óbitos no Brasil que, no ano de 2004, foram: doenças do aparelho circulatório (31,8%); neoplasias (15,7%); causas externas (14,2%); doenças do aparelho respiratório (11,4%); doenças infecciosas e parasitárias (5,1%); doenças originadas no período perinatal (3,5%) e; demais causas definidas (18,3%). Chama a atenção o grande impacto sobre a mortalidade da população brasileira das “causas externas” (violência, homicídios e acidentes de transporte). Segundo o Radar Social 2006 “a proporção de óbitos por causas externas manteve-se relativamente estável: 14,6%, em 2001 e 14,2% em 2004. No entanto, o diferencial das taxas entre as unidades da federação é significativo, alcançando 44,6 óbitos por 100 mil no Acre e 97,8 por 100 mil no Rio de Janeiro. Aqui, ao contrário da mortalidade infantil, o problema está concentrado em estados com maior nível de desenvolvimento econômico, mas, nos quais esse desenvolvimento não tem sido suficiente para garantir maior equidade e justiça social” (p.53). 10 Este quadro nos remete a investigar os determinantes sociais da saúde programa da

  OMS, implantado em 2004 e no Brasil, em 2006, com a comissão nacional dos determinantes sociais da saúde (CNDSS). Conhecendo a realidade sócio-cultural, econômica e política, haverá melhores condições para desenvolver ações preventivas que resultarão em maior eficácia e mais vidas poderão ser salvas.

  O vocabulário dos “determinantes sociais da saúde” passou a ser utilizado amplamente 10 a partir de meados da década de 1990, na medida em que se aceitavam quatro categorias de

  Visitar: http://bvsms.saude.gov.br/html/pt/home.html determinantes de saúde: fatores genéticos e biológicos; atenção médica; comportamento individual; e as características sociais dentro das quais se dá a vida.

  A Comissão de Determinantes Sociais do MS considera que os determinantes sociais de saúde são condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham. Os determinantes sociais de saúde apontam tanto para as características específicas do contexto social que afetam a saúde, como para a maneira com que as condições sociais traduzem esse impacto sobre a saúde. Os determinantes sociais de saúde que merecem a atenção são aqueles que podem ser potencialmente alterados pela ação baseada em informações. Pretende-se superar a compreensão de que os determinantes de saúde são características do indivíduo, tais como a rede de apoio social da pessoa, ou o salário, ou função.

  Segundo o documento da FIOCRUZ Determinantes Sociais da Saúde, os determinantes sociais da saúde (DSS)

  incluem as condições mais gerais socioeconômicas, culturais e ambientais de uma sociedade, e relacionam-se com as condições de vida e trabalho de seus membros, como habitação, saneamento, ambiente de trabalho, serviços de saúde e educação, incluindo também a trama de redes sociais e comunitárias.

  Esses determinantes influenciam os estilos de vida, já que as decisões relativas, por exemplo, ao hábito de fumar, praticar exercícios, hábitos dietéticos e outras estão também condicionadas pelos DSS.

  Sabe-se hoje, também, que a percepção de pertencer a grupos sociais excluídos da maioria dos benefícios da sociedade gera sofrimento e sentimentos de inferioridade e

discriminação, e isso contribui na determinação dos padrões de saúde dos indivíduos .

11 Tendo o IDH como referência, o Brasil ocupa o 70º lugar (0,800) no ranking

  mundial com um gasto em saúde de US$ 1.520 per capita/ano (2004) e tem 115 médicos por 100 mil habitantes, contra Cuba que ocupa o 51º lugar (0,838), gasta em saúde US$ 229 per capita e tem 591 médicos por 100 mil habitantes. Na mesma lógica comparativa, o México ocupa o 52º lugar (0,829), gasta US$ 655 e tem 198 médicos por 100 mil habitantes; a Costa Rica ocupa o 48º lugar (0,846), gasta US$ 592 e tem 132 médicos por 100 mil habitantes; o Uruguai ocupa 46º lugar (0,852), gasta US$ 784 e tem 365 médicos por 100 mil habitantes; o Chile ocupa o 40º lugar (0,867), gasta US$ 720 e tem 109 médicos por 100 mil habitantes; a Argentina ocupa o 38º lugar (0,869), gasta US$ 1.274 e tem 301 médicos por 100 mil 11 PNUD/IPAD. Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 - Combater as alterações climáticas:

  Solidariedade humana num mundo dividido. Disponível: http://www.cofecon.org.br/dmdocuments/relatorioPNUDhdr_20072008_pt_complete.pdf

Conceito e metodologia: “O índice de desenvolvimento humano (IDH) é um índice composto que mede a média

de metas alcançadas num país em três dimensões básicas de desenvolvimento humano: uma vida longa e

saudável, acesso à educação e condições de vida condignas. Estas dimensões básicas são medidas pela esperança

de vida à nascença, a alfabetização entre os adultos e a escolarização bruta combinada nos níveis de ensino

primário, secundário e superior, bem como o produto interno bruto per capita em Poder de Paridade de Compra

(PPC) em dólares americanos (PPC US$), respectivamente. O índice é construído a partir de indicadores que estão disponíveis globalmente usando uma metodologia que seja simples e transparente” (p.227). habitantes. No outro extremo da América Latina estão o Haiti e a Bolívia: o Haiti ocupa o 146º lugar (0,529), gasta US$ 82 e tem 25 médicos por 100 mil habitantes; a Bolívia ocupa o 117º lugar (0,696) e gasta US$ 186 e tem 122 médicos por 100 mil habitantes. Os dois primeiros lugares do ranking mundial são ocupados pela Islândia: 1º lugar (0,968), gasta US$ 3.294 e tem 362 médicos por 100 mil habitantes; a Noruega ocupa o 2º lugar (0,869), gasta US$ 4.080 e tem 313 médicos por 100 mil habitantes. Eis aí duas razões que determinam a qualidade de vida de uma população: os investimentos em saúde e a relação médicos por habitantes.

3 Conclusão

  As iniqüidades em saúde entre grupos e indivíduos, ou seja, aquelas desigualdades de saúde que além de sistemáticas e relevantes são também evitáveis, injustas e desnecessárias, são um dos traços mais marcantes da situação de saúde do Brasil. A mortalidade infantil apresenta grandes disparidades regionais, observando-se taxas inferiores a 10 por mil nascidos vivos em alguns municípios do Sul e Sudeste e valores maiores do que 50 em áreas do Nordeste.

  Na medida em que se reconhece que tais iniqüidades decorrem da má distribuição da riqueza, dos desequilíbrios e disparidades regionais é urgente elaborar e executar políticas públicas que venham corrigir tais distorções. Não é possível conviver como nação com tais iniqüidades.

  No campo da saúde a questão da dependência das patentes farmacológicas gera agravamentos do estado de saúde de indivíduos e da coletividade pelos altos custos que envolvem. Nesta área, o Brasil lidera as iniciativas de “quebra das patentes” de corporações transnacionais detentoras da propriedade industrial, para reduzir os custos terapêuticos de tantos tratamentos que se fazem necessários. No entanto, a curto e médio prazos não há perspectivas de emancipação pelo insuficiente investimento que o país realiza nesta área, associado ao reduzido quadro de pesquisadores hoje existente nestas áreas de conhecimentos.

  O processo histórico de elevar o nível qualitativo da saúde está vinculado ao de elevação da escolarização, sem o qual as terapias tornam-se mecânicas, desvinculadas da compreensão humana de que as doenças não podem ser tratadas dissociadas das pessoas. Na realidade são as pessoas que adoecem e a doença deve ser tratada na pessoa e não como uma entidade que subsiste isoladamente. Da mesma forma, a coletividade passa por um processo similar quando deve haver uma compreensão das estruturas sociais vigentes, tema abordado na investigação dos determinantes sociais da saúde.

  Podemos, enfim, concluir com o texto que segue:

  Saúde, educação, segurança, identidade e liberdade são aspectos do desenvolvimento humano claramente relacionados ao desenvolvimento econômico, ainda que o excedam em grande medida. Diferenças drásticas no acesso a essas importantes necessidades humanas são uma característica do cenário contemporâneo mundial. O empobrecimento e a desigualdade são problemas críticos para os países mais pobres, mas existem diferenças visíveis até mesmo nos países mais ricos. À medida que o mundo fica mais interconectado, essas forças afetam a todos direta ou indiretamente, por meio da pressão da imigração, da instabilidade geopolítica, da degradação ambiental e das restrições a oportunidades econômicas mundiais (GEO 3, p.3489).

  Referências BANCO MUNDIAL. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006.

  Disponível: http://www.bancomundial.org.br/index.php/content/view_folder/2410.html FIOCRUZ. Determinantes Sociais da Saúde ou Por que alguns grupos da população são

  mais saudáveis que outros? Disponível: http://www.determinantes.fiocruz.br/chamada_home.htm

  OMS. Os determinantes sociais da saúde. Disponível:

  http://bvsms.saude.gov.br/html/pt/home.html

  PNUD/IPAD. Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 - Combater as

  alterações climáticas: Solidariedade humana num mundo dividido. Disponível: http://www.cofecon.org.br/dmdocuments/relatorioPNUDhdr_20072008_pt_complete.pdf

  PNUMA/IBAMA/UMA. GEO3 – Perspectivas do Meio ambiente Mundial – 2002: Passado, presente e futuro. Brasília/DF: PNUMA/IBAMA/UMA, 2004. Disponível: http://www.worldwatch.org.br/geo_mundial_arquivos/index.htm PNUMA/OPS. Evaluación de las Metodologías de Medio Ambiente y Salud en América Latina y el Caribe. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2005. SOUZA, Maria H. e FERRARI, Alexandre A. Prevenção da desnutrição energético-

  

protéica na comunidade. In: FERRARI, Alexandre A. et alii. Desnutrição Urbana no

Brasil em um período de transição. São Paulo: Cortez, 1997; p. 61-73.

  • Visitar: 1 http://www.adital.com.br/site/tema.asp?lang=PT&cod=54 2 http://www.ipea.gov.br/pub/td/2002/td_0933.pdf 3 http://www.ipea.gov.br/pub/td/2002/td_0921.pdf 4 http://www.ipea.gov.br/pub/td/2002/td_0867.pdf 5 http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/2002/por/f010502p.html 6 http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/2002/por/f171002p.html 7 http://www.planobrasil.gov.br/noticia.asp?cod=606 8 http://www.ibfan-alc.org/medios_07/0204/0204_idx.htm 9 http://www.paho.org/spanish/DD/AIS/HSA2006.htm 10 http://www.paho.org/spanish/DD/AIS/HSA2006_ST.pdf

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