UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  JORGE LUIZ FEITOZA MACHADO

  

AđấO POLễTICA, MISSấO PASTORAL E INSTÂNCIAS DE INSERđấO:

engajamento de clérigos no Maranhão (1970-1980)

  São Luís - MA JORGE LUIZ FEITOZA MACHADO

AđấO POLễTICA, MISSấO PASTORAL E INSTÂNCIAS DE INSERđấO: engajamento de clérigos no Maranhão (1970-1980)

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais Orientadora: Profª. Dra. Eliana Tavares dos Reis

  São Luis - MA Machado, Jorge Luiz Feitoza.

Ação política, missão pastoral e instâncias de inserção: engajamento de

clérigos no Maranhão (1970-1980) / Jorge Luiz Feitoza Machado. – 2012.

  133f. Impresso por computador (Fotocópia). Orientadora: Eliana Tavares dos Reis.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão, Programa

de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2012.

  

Militantes religiosas – Maranhão – Aspectos sociais 2. Clérigos –

JORGE LUIZ FEITOZA MACHADO Intervenção militante 3. Domínio religioso – Politização I. Título CDU 316:2 - 76 (812.1)

  

AđấO POLễTICA, MISSấO PASTORAL E INSTÂNCIAS DE INSERđấO:

engajamento de clérigos no Maranhão (1970-1980)

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do grau de mestre em Ciências Sociais

Aprovada em / /

  

Banca Examinadora

__________________________________________

Profª. Dr.ª Eliana Tavares dos Reis (Orientadora)

  

__________________________________________

Prof. Dr. Igor Gastal Grill

Cientista Político - PPGCSO/UFMA

__________________________________________

  

Prof. Dr. Ernesto Seidl

Cientista Político - NPPCS/UFS

  À maior incentivadora das minhas

conquistas na vida: Dona Fátima (Mãe).

  AGRADECIMENTOS Diversas foram as formas de contribuição na empreitada de elaboração deste

trabalho e todas elas, neste momento, ensejam os mais sinceros agradecimentos de minha

parte. Em caso de alguma omissão, espero que seja relevada, pois a todos aqueles que

manifestaram, a seu modo, um apoio ou um incentivo à consecução da presente dissertação,

mencionados ou não, o sentimento de gratidão é generalizado.

  Diante das ressalvas apresentadas, gostaria de agradecer de imediato à minha mãe,

Fátima de Jesus Feitosa e ao meu irmão Jobson, que incentivaram incondicionalmente os

meus esforços e que, certamente, estão orgulhosos. Sou grato também à Eurilanda Cristina,

companheira que soube compreender as angústias e contratempos da pesquisa, oferecendo

as palavras certas nos momentos complicados. Agradeço ainda ao casal Eib, Sebastien e

Eurides, pela força importante com o envio de livros em francês e com a ajuda nas

traduções.

  Agradeço a CAPES por ter viabilizado materialmente as condições de realização

desta pesquisa. Estendo esses agradecimentos ao padre Everaldo, atual pároco da Igreja de

Santa Terezinha na capital, quem mediou o contato com um dos padres entrevistados, bem

como aos demais sacerdotes que contribuíram com seus depoimentos.

  Devo agradecer também aos colegas de mestrado pelo companheirismo recíproco

necessário diante das oscilações de ânimo a cada dificuldade e também nos momentos de

alegria celebrados com bastante expectativa frente ao desafio. Desafio de consecução de

uma etapa de nossa qualificação, conduzida de modo competente pelos professores do

Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, aos quais são dirigidos os

agradecimentos pela acolhida e pelas experiências partilhadas em sala de aula que,

certamente, foram decisivas para o amadurecimento intelectual e crítico de todos nós.

  Não poderia esquecer de agradecer a contribuição do LEEPOC – Laboratório de

Estudos sobre Elites Políticas e Culturais – espaço de discussões e reflexões aguçadas e

incentivadas pelos professores Igor Grill e Eliana Reis. Experiência de construção coletiva

de conhecimento sociológico que, sem dúvida, acrescentou, de modo positivo, à pesquisa

desenvolvida durante esse mestrado.

  Dedico o agradecimento final, de forma especial, a professora Eliana Reis,

responsável pela orientação segura e competente deste trabalho. A atenção e interesse

dispensados foram imprescindíveis para os desdobramentos de qualidade de uma incipiente

  

proposta de pesquisa. A conclusão deste ciclo com a produção da dissertação também é

creditada aos teus esforços de orientação que apontaram os passos a serem seguidos.

  “

  O artesão tem uma imagem do produto acabado, e mesmo que não o faça inteiro, vê o lugar de sua parte no todo e, por conseguinte, compreende o significado de seu esforço em termos desse todo”.

RESUMO

  Este trabalho se propõe à análise dos condicionantes históricos e sociais que influenciaram objetivamente no processo de constituição de perfis militantes de clérigos que atuaram no Estado do Maranhão, durante as décadas de 1970 e 1980, do século passado. Partindo do exame das propriedades sociais e recursos culturais apresentados pelo conjunto da população recortada, procurou-se cotejar como se constitui a dinâmica de intervenção dos agentes segundo uma lógica de intersecção em diferentes domínios sociais, enfatizando-se as relações existentes entre o domínio político e o religioso. Buscou-se também neste estudo, com base nas características dos sacerdotes investigados, apreender os mecanismos que interferem na emergência de porta-vozes culturalmente favorecidos e dedicados em defender as mais diversas causas sociais e políticas, resultado estas de um trabalho de produção coletiva de agentes sociais. Priorizou-se como foco desta investigação a análise da correspondência entre recursos de origem, investimentos escolares realizados, constituição de competências e habilidades e a tradução desses elementos em posições ocupadas e tomadas de posições apresentadas pelos clérigos no decurso de seu itinerário militante, demonstrado em breves reconstituições de trajetória de alguns sacerdotes do grupo em questão.

  

Palavras-chave: Intervenção militante de clérigos. Diversificação do engajamento.

  Constituição de “causas” legítimas. Politização do domínio religioso. Itinerários engajados.

RÉSUMÉ

  Ce travail propose l'analyse des conditions historique et sociales qui influancaient objectivement le processus de constitution de profil militantes des religieux qui agissaient dans l'état du Maranhao, pendant les années 1970 et 1980 du siècle passe. A partir de l'examen des propriétés des ressources sociales et culturelles présente par l'ensemble de la population recoupé, essayé rassembler la dynamique de l'intervention des agents selon une logique d'intersection dans les différents domaines sociaux, soulignant si les relations existant entre la politique et le religieux. Nous avons également dans cette etude, fondée sur les caracteristiques des prétres en enquete, apprendre les mécanismes qui interfèrent avec l'apparition des porte-paroles culturellement favorisés et voué à la défense des plus diverses causes sociales et politiques, Ces suite d'un travail de production collective des agents sociaux. Priorité comme orientation de cette recherche pour l'analyse de la correspondance entre les ressources d'origine, investissements réalisés, constitution des compétences et des aptitudes et de la traduction de ces éléments dans les positions et les positions présentées par les prétres dans leurs parcours de voyage de militants , démontrés en bréf la reconstitution de trajectoire de certains prétres du groupe en question.

  

Mots-cléf: Intervention de militants écclesiastiques. Diversification des engagements.

  Constitution des “causes" légitimes. Politisation du domaine religieux. Itineraire engages.

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấOẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨẨ.....Ẩ10

  Capítulo 1:

   P ropriedades sociais, recursos culturais e mecanismos de socialização:

  descrição geral dos clérigos investigados........................................................................43 Capítulo 2: Origens, ocupação, pertença religiosa

  

e modalidades de atuação..............................................................................................54

  Capítulo 3: Formas de crença ou militância, recursos, investimentos,

  

concepções e experiências sociais..................................................................................60

  Capítulo 4: Funções desempenhadas, instâncias de inserção e

  

ocorrência de vínculos....................................................................................................68

  Capítulo 5: Redes de contatos, por uma independência de ação e a

  

consagração do ofício de sacerdote...............................................................................72

  Capítulo 6: “Matriz ética” da ação engajada: concepções, adesões, concorrência e “relevância social das questões”.............................................................79 Capítulo 7: Dinâmica da ação engajada: eventos, temas e mobilizações......................89

  7.1 Uma agenda em comum: a questão da terra em foco e as percepções sobre o “popular”.........................................................................................................................105

  7.2 Estratégias de afirmação “em nome do povo”: engajado pelo direito à moradia......................................................................................111

  7.3 Educação popular e direitos da periferia: disposição para o engajamento social.............................................................................117 CONSIDERAđỏES FINAIS........................................................................................124 FONTES.........................................................................................................................128

INTRODUđấO

  Esta dissertação tem como foco a análise – a partir do exame de dinâmicas de intervenção militante no Maranhão (1970/1980) – das relações existentes entre lógicas religiosas e políticas em diferentes domínios sociais. A proposta é empreender um esforço de investigação no sentido de verificar os condicionantes históricos e sociais que possibilitaram a emergência de “causas” sociais e políticas legítimas e de porta- vozes dedicados a defendê-las, bem como os efeitos que produziram sobre a (re) configuração social no Estado. O presente estudo baseia-se na análise da correspondência entre recursos de origem, investimentos realizados, constituição de competências e habilidades e sua reconversão em posições ocupadas e tomadas de posição dos agentes em espaços de inserção.

  Essas diretrizes analíticas que orientam a pesquisa em questão constituem uma pauta comum que remonta uma rede mais ampla de estudos produzidos e debatidos entre discentes e orientadores que integram o Laboratório de Estudos sobre Elites Políticas e Culturais (LEEPOC), espaço vinculado ao Departamento de Sociologia e Antropologia e ao Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, desenvolvendo suas atividades sob orientação e coordenação dos professores Eliana Tavares dos Reis e Igor Gastal Grill.

  A pesquisa em pauta é desenvolvida através do estudo de itinerários e de carreiras militantes e religiosas. Para isso, são observados: os perfis dos agentes (origens sociais, formação escolar, atividade profissional etc.); as causas em nome das quais falavam; os tipos de vínculos propícios à constituição de redes sociais; os recursos mobilizados (títulos escolares, consagração da profissão etc.); as estratégias com vistas ao engajamento; os domínios de inserção privilegiados; e os repertórios de mobilização, acionados ao longo das trajetórias individuais e coletivas.

  O universo específico para análise desses aspectos é constituído pelo conjunto de instâncias e movimentos de intervenção favoráveis ao engajamento político e social. A articulação destes espaços e/ou eventos de militância (Comunidades Eclesiais de Base, Comissão Justiça e Paz, Greve pela Meia Passagem, etc.) mantêm certa vinculação com o domínio religioso e a dinâmica de atuação de seus agentes. Para compreender melhor institucional da Igreja Católica e seus efeitos na redefinição das relações dos religiosos com o domínio eclesial e destes com outras esferas sociais.

  O evento representativo dessas mudanças é a realização do Concílio Vaticano II (1962/1965), reunião das autoridades eclesiais católicas. A partir do encontro evidenciou-se uma abertura maior da Igreja, fato que produziu efeitos sobre a “reestruturação das relações de força do espaço religioso”, bem como introduziu novas concepções acerca do posicionamento da Igreja inserida numa sociedade secular. Uma perspectiva aberta pela Igreja conciliar está relacionada à “emergência da Teologia da

  redefinição das práticas de seus agentes, sobretudo entre grupos de clérigos que se identificam com esta proposta preenchendo “novos espaços de atuação”, onde se destaca o perfil de “intenso engajamento político e o investimento em movimentos sociais de base – operários, sem-terra, desempregados etc.” (SEIDL, 2009, p. 13-14).

  A perspectiva teológica em questão assumida por parte do clero encontrou, num plano mais pragmático, uma recepção entre as chamadas Comunidades Eclesiais de Base que buscaram – a partir do método ver, julgar e agir – associar às suas práticas religiosas e caritativas questões como organização sindical e política. Em diferentes partes do Maranhão as CEB’s teriam representado um ponto de apoio ao trabalho dos clérigos, sobretudo, com relação aos problemas agrários, acentuando o “compromisso social” como uma espécie de bandeira de luta. A proposta de “libertação”, elemento presente no discurso mais “progressista” da Igreja, cotejada por teólogos e assumida por leigos e sacerdotes é justificada por uma revisão de diretrizes, onde a instituição religiosa, sobretudo na América Latina, lança as bases para uma inserção maior de seus agentes nos meios sociais.

  O panorama descrito como adverso envolveu também os desdobramentos da política de governo militar, corolária do regime de exceção instalado no Brasil em 1964. O referido contexto, marcado por transformações no âmbito político e institucional, foi propício à entrada de agentes com outros perfis, voltados para a prática de determinadas modalidades de engajamento.

  Uma condição a ser considerada, segundo (MAINWARING, 1989, p. 172-173), 1 diz respeito à contribuição da Igreja “para as pressões que conduziram à abertura”

  

Um efeito prático na atuação dos leigos, segundo a influência de heterodoxias como a teologia da

libertação, é que estas “conseguem legitimar a intervenção de agentes da Igreja em outras esferas sociais, política. Essa contribuição se efetivou com a ajuda das “organizações eclesiais de base aos movimentos populares e da posição da Igreja, junto com os partidos de oposição, como importante defensora dos direitos humanos” (idem). Nesse sentido, a dinâmica de

  2

  transformações ocorridas , seja no âmbito da política ou da instituição eclesial católica, oportunizou as condições para a redefinição das estratégias de intervenção de religiosos.

  Da confluência de transformações que favoreceram a mobilização de porta- vozes em torno de “causas” constituídas, tem-se no conjunto de práticas dos religiosos a

  3 percepção de “lógicas cruzadas” explicitadas em possibilidades abertas de intervenção .

  No que se refere à presença de agentes oriundos de outros países, este movimento parece estar relacionado às “tensões existentes nas relações entre centro/periferia”. Mais precisamente, a entrada de novos agentes (com o perfil identificado a heterodoxias, como a teologia da libertação), em arenas de disputa definidas em condições periféricas é resultado de “confrontos entre elites culturais e religiosas” que “atravessam os trajetos sociais” dos próprios agentes. Nesse sentido, sua posição como formuladores ou mesmo difusores de ideologias vinculadas à noção de “terceiro mundo”, aspecto conjugado às ações inscritas na lógica de um “dever missionário” desses agentes, reforça o sentido de sua presença em localidades periféricas, como o Brasil (CORADINI, 2004, p. 3-4).

  A noção de “periferia” em oposição às lógicas externas é uma temática abordada em análises de dinâmicas sociais a partir de recortes diversificados, sendo sempre associada a outras dimensões, a exemplo da idéia de circulação internacional dos agentes, eixo fundamental para se compreender os princípios de constituição ou acumulação de recursos sociais e culturais. Tendo como parâmetro os “centros”, países de origem e outros destinos, no que se refere à produção de regras de funcionamento, critérios de hierarquização e princípios de legitimidade de domínios sociais (cultural, político, intelectual, etc.), os agentes ao ingressarem em realidades “periféricas” redefinem suas percepções, ajustam sua visão de mundo, estabelecem vínculos e reivindicam um lugar num dado espaço, a partir de lógicas que não estão circunscritas a 2 mera transposição de modelos tidos como centrais.

  

Referência à realização dos Concílios episcopais de Medelín (1968) e Puebla (1979), reunião de Bispos

da América Latina, ocasiões em que a Igreja reafirma a “opção preferencial pelos pobres” acentuando o

protagonismo do leigo como elemento primordial. Tais eventos foram significativos e estão inseridos

entre “os diferentes impactos da série de transformações trazidas pelo Vaticano II sobre o conjunto de

3 clérigos e religiosos no Brasil” (SEIDL, 2009a, p 15).

  

Desta forma, observa-se nos trabalhos pastorais de agentes de comunidades eclesiais de base um trânsito

  Há um movimento constante de (re) definição de princípios presentes em domínios periféricos que caracteriza uma situação de “baixa autonomia” das esferas sociais, fato que possibilita a maior influência – não transposição direta – de critérios exógenos. A abordagem desses elementos está vinculada a um conjunto de produções sociológicas que partem de referências comuns centrando em temas como os processos de formação de elites e o fenômeno de constituição de “especialistas” em domínios específicos como o cultural, o intelectual e o religioso (CORADINI, 2004:2005; REIS, 2007; SEIDL, 2007b:2008a; NERIS, 2009).

  Na condição de “especialistas” legítimos num espaço de inserção tido como periférico, os diversos registros de engajamento associados à participação de clérigos em determinadas causas estão orientados por princípios definidores dessa condição e/ou posição, que mantêm estreita relação com esquemas de percepção assimilados pelos agentes, ensejando, deste modo, as lógicas que estão na composição do referido perfil.

  Tais lógicas podem ser detectadas mediante a análise do papel desempenhado pelos agentes enquanto mediadores de “causas” constituídas em certos domínios sociais. Neste tocante, são observadas as condições objetivas de aquisição, de afirmação, de reconhecimento e uso de habilidades e competências que possibilitam a constituição de um conjunto de capitais, como o capital de notoriedade e de relações, fundamentais ao reconhecimento de um agente como detentor de uma fala autorizada, uma vez que “a eficácia simbólica das palavras se exerce apenas na medida em que a pessoa-alvo reconhece quem a exerce como podendo exercê-la de direito” (BOURDIEU, 1996b, p. 95).

  Convém reforçar que o universo da análise não é tomado, por si, enquanto mero instrumento de mobilização social. Este é concebido, para fins de investigação, como um conjunto de eventos inaugurais (ou fundadores), que se apresentam como entradas pertinentes ao exame das propriedades sociais específicas e demais recursos mobilizados em espaços de contestação, engajamento e militantismo segundo lógicas que se intercruzam. Por esse intermédio, os agentes em questão colaboram na construção de questões “sociais” e “políticas” relevantes. Portanto, o caráter da análise sociológica tem foco na dinâmica, sobretudo, política e religiosa, dos agentes que operam sob tais lógicas.

  Deste modo, o estudo está centrado – sob vários aspectos – no processo mais imprescindível, busca nas formas de mediação que orientam o engajamento, a apreensão de princípios sob os quais se registra a ação efetiva dos agentes. Deste modo, ressalta- se a centralidade em se analisar a imbricação desses princípios que é produzida na sua intersecção, elemento que dá o sentido às intervenções.

  A análise acerca das ações desses agentes procura levar em consideração possíveis efeitos que a conjuntura específica em que atuaram possa ter produzido sobre suas práticas. Essa dimensão apresentada com freqüência em estudos sobre práticas militantes, politização e engajamento de uma forma ampla (SEIDL, 2009a; REIS, 2007; GAXIE, 2002) refere-se às imbricações, precisamente entre as circunstâncias históricas, seus elementos conjunturais, e as gerações que atuam em determinados contextos. De modo mais específico, trata-se de analisar que tipo de conseqüência ou efeitos certos eventos, decorridos em circunstâncias temporais particulares, podem produzir na trajetória individual ou coletiva de agentes militantes – perspectiva enunciada que retoma o aspecto das múltiplas inserções dos agentes e da suscetibilidade a inflexões na trajetória ocasionada por contingências imprevisíveis.

  Decorre desses apontamentos mais gerais que a dimensão das transformações de conjunturas, aspecto residual da análise de trajetórias militantes, tem sua importância pela perspectiva diacrônica aberta, por meio da qual, é possível situar os agentes uns em relação aos outros em diferentes momentos de seu percurso biográfico. Entretanto, o estudo em questão baseia-se, sobretudo, na dimensão sociográfica – aspecto central de análise – que prioriza as características singulares dos agentes sociais apresentando um peso relevante na abordagem das práticas de engajamento.

  O nível de análise referente à militância dos agentes está inserido, portanto, num quadro mais complexo de mudanças, onde as décadas de 1960, 1970 e 1980 representam um momento particular de transformações de ordem institucional, enfatizando-se aquelas ocorridas nos domínios político e religioso. Nesse sentido, as mudanças sinalizadas – sobretudo em âmbito eclesial – enfatizavam a “missão social da Igreja” e a “importância do laicato” para a instituição religiosa, definições que teriam motivado, na percepção de (MAINWARING, 1989, p. 62), um senso mais aguçado de “responsabilidades” e “co-responsabilidade” no que se refere às relações entre clérigos e leigos.

  Essa tendência a redefinições criou as condições necessárias à emergência de quanto à reorientação das ações dos agentes frente às questões de ordem política e social em que se registra o envolvimento da instituição. O posicionamento mais “crítico” da Igreja Católica ou, pelo menos, de seu segmento mais progressista teve, a partir das conclusões das Conferências episcopais de Medelín (1968) e Puebla (1979), o respaldo formal por parte de suas lideranças, os bispos da América Latina, acerca da assimilação de novos valores às práticas de seus agentes. Os registros de intervenção dos clérigos se apoiavam, conforme os relatos, da motivação teológica expressa na “opção preferencial pelos pobres”, síntese das resoluções desses encontros.

  Considerando os efeitos dos eventos eclesiais mencionados para a redefinição das bases institucionais do espaço católico, bem como a influência que podem ter representado no percurso biográfico de padres, deve-se enfatizar a necessidade de se estabelecer uma vinculação entre essas redefinições e o peso decorrente das transformações processadas e os estágios de aquisição de disposições para a militância dentro de lógicas especificas que delimitam o processo de engajamento individual (SEIDL, 2008; SAWICK & BERLIVET, 1994).

  O efeito imediato deste processo resulta na emergência de uma “Igreja popular”, inspirada por elaborações teológicas que os clérigos relacionam com a questão da “libertação”, da “justiça social” e da “transformação da realidade”. Essas transformações são representativas se pensarmos que, direta ou indiretamente, condicionaram esforços coletivos no sentido da constituição de espaços privilegiados de intervenção. Com relação a isso, outros estudos destacam, especificamente, a importância das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) como ponto de apoio e base social imprescindível à composição de “estruturas auxiliares atreladas à Igreja, como a Comissão Pastoral da Terra”. Nesse sentido, as experiências de (CEBs) que vinculam os agentes da Igreja à militância política e social em instâncias como a (CPT), por exemplo, caracterizam uma “Igreja popular” que prioriza a participação política de seus membros. Em alguns casos, o posicionamento mais crítico incorporado pela Igreja e seus clérigos, inspirados pela perspectiva da doutrina religiosa identificada com o tema da “libertação”, constitui um dos principais recursos ao militantismo voltado para as questões agrárias (DELLA CAVA, 1986; LÖWY, 1996).

  Essa disposição para o engajamento reforça, nesse sentido, uma tendência à politização experimentada pelos agentes vinculados à instituição com as mudanças percepções apresentadas, é resultante de uma redefinição de princípios que produzem uma nova ética pautada numa espécie de cultura político-religiosa de engajamento. Convém assinalar, entretanto, que o processo em questão também traduz uma correlação de forças no espaço religioso, uma vez que opõem formas de concepções, definições de princípios e práticas legítimas a esse domínio. Nesse sentido, entende-se que a politização de segmentos específicos da Igreja implica na incorporação de objetivos e preocupações da política na esfera de atividade religiosa, aparentemente não inscrita, legitimamente, nas finalidades, regras e modos de fazer da ordem política (LAGROYE, 2003, p. 365).

  Decorre precisamente disso, conforme enfatiza o autor, que as requalificações de princípios de um domínio envolvem transgressões da distinção institucionalizada e vivida entre ordens de atividades diferentes. Nesse sentido, as ações de padres que se dedicam às questões de cunho político ou social podem ser encaradas por outros agentes do domínio religioso como um desvio de finalidades, uma vez que a mobilização de temas ou causas identificadas com o mètier da política pode ser percebida como um perigo ao desempenho de atividades diversas, sobretudo aquelas que envolvem princípios e interesses de demais agentes ligados ao universo religioso.

  Nesta perspectiva, as tomadas de posições dos agentes caracterizadas por um viés “politizado” podem estar relacionadas ainda com aspectos de seu percurso biográfico, em suas distintas etapas, onde as experiências eventualmente geradoras de disposições específicas estariam inscritas num processo de “socialização política” a que os agentes são submetidos no decurso de seu itinerário social. A assimilação de certas disposições que podem ser acionadas pelos agentes em registros diferenciados da atividade social, no que diz respeito à diversificação de um engajamento assumido, pode estruturar, a partir de suas concepções, a idéia da politização atrelada não apenas a uma questão de “interesse”, “vontade” ou “voluntarismo”, mas também de alguma “qualificação” em termos ditos “intelectuais” (SEIDL, 2009b, p. 160).

  Para a perspectiva de análise em questão, o processo de engajamento que envolve registros de intervenções empreendidas por clérigos, é razoável o uso da noção de politização como um mecanismo de requalificação dos objetivos e bens ofertados pela Igreja, fato que implica na construção e disseminação de significações indissociavelmente políticas e religiosas a uma variedade de atividades no tempo e assumidos pelos agentes estão inseridos num repertório de ações mobilizadas a partir de um duplo registro constituído, simultaneamente, por códigos do domínio religioso e lógicas da arena política. Nesta interface são produzidas as diferentes concepções acerca dos sentidos atribuídos ao engajamento, bem como as definições formuladas pelos clérigos sobre determinadas causas, temas e questões que orientam sua compreensão e forjam suas ações no mundo social.

  A diversificação do engajamento, decorrente de amplas possibilidades de inserção, reflete também o estabelecimento de distinções de perfis. Nesse sentido, a militância de padres à frente, sobretudo, de movimentos sociais, mas também inseridos em outros espaços de participação política (como os próprios partidos e estruturas de administração pública), deve ser cotejada enfatizando-se as competências e habilidades adquiridas e mobilizadas pelos agentes numa perspectiva de disputas e afirmação.

  Tais aspectos integram uma questão mais ampla que está centrada na apreensão e análise dos mecanismos que favorecem a prática efetiva de uma ação engajada. Com a análise da redefinição do espaço religioso e das atividades tidas como “politizadas” na esfera eclesial, dispõe-se de elementos necessários à (re) constituição de lógicas e princípios que envolvem a participação de clérigos como agentes atuantes em domínios “externos” ao universo religioso.

  Nesse sentido, enfatiza-se com um peso maior neste trabalho, o exame de indicadores das origens sociais dos agentes (com base em variáveis como profissão dos pais, nível de instrução de familiares, tipo de crença ou militância na família, país de origem, etc.), dos investimentos escolares realizados (estudos em estabelecimentos religiosos, linha de formação nos seminários, estudos superiores, etc.), dos recursos que podem ser adquiridos e suas formas de aquisição. Em linhas gerais, analisa-se a especificidade de cada perfil com base nos condicionantes sociais implicados em sua constituição.

  Deste modo, a dimensão sociográfica de análise tangencia ainda o aspecto da formação cultural dos agentes investigados (gosto pelas artes como cinema, literatura, música, etc.), tendo-se em vista que este conjunto de recursos está compreendido em estágios específicos (de aquisição, de afirmação, de reconhecimento e uso) estando correlacionados às competências detidas por cada clérigo que constitui o conjunto de agentes investigados.

  Convém ressaltar que a esses estágios mencionados correspondem processos de socialização que perpassam o trajeto social dos agentes, remetendo às experiências familiares, escolares, religiosas (participação em missas, freqüência à catequese, serviço de coroinha), bem como lembranças reatualizadas de outras modalidades de inserção que precederam a experiência propriamente sacerdotal, como a passagem pelo exército, pelo grupo de escoteiros, entre outras. A dimensão da socialização desses agentes é imprescindível, portanto, para a apreensão de disposições sociais diversas.

  Cabe ainda a este estudo a verificação de determinadas estratégias que são acionadas consciente ou inconscientemente pelos agentes, enfatizando com uma atenção particular, o mecanismo de articulação de redes de relações que são constituídas pelo fato de que elas favorecem e são favorecidas pela configuração de um espaço social marcado pela inexistência de fronteiras rígidas entre os domínios sociais” (REIS, 2009, p. 88).

  Em termos mais precisos, o objetivo aqui é apreender os princípios relativamente determinantes para as múltiplas inserções militantes de clérigos, efetuadas como resultante de vínculos e contatos recíprocos. Nesse sentido, a dimensão de pesquisa que trata das múltiplas inserções caracterizadas pelo trânsito de padres em diversos espaços sociais, mostra-se compatível com outras vertentes de análise que demonstram a inexistência ou fraca objetivação de lógicas e regras próprias de hierarquização para as diferentes esferas sociais (PÉCAUT, 1990; CORADINI, 1998).

  Considerando-se as possibilidades múltiplas de inserção dos religiosos (no domínio eclesial, nos movimentos sociais, no domínio acadêmico, etc.), bem como os vínculos que podem ser constituídos, tem-se que os agentes compõem um espaço de concorrência que pressupõe relações interdependentes justificadas no entendimento de que as inserções e disputas entre os agentes definem um “sistema de desvios de níveis diferentes em que, nem os atos ou discursos produzidos por agentes ou instituições, tem sentido senão relacionalmente por meio das oposições e das distinções” (BOURDIEU, 2007, p. 179).

  Constitui também objetivo desta pesquisa a identificação, nos registros de intervenção dos agentes, de elementos que podem definir a conversão de uma “causa” legítima em um problema social. É necessário aqui, uma análise articulada do conjunto de recursos legítimos detidos pelos agentes e de suas disposições sociais, conjugados objetivo em pauta, interessa compreender mais detidamente a capacidade que os agentes detêm e os mecanismos de que se utilizam para efetivar a referida conversão. Cabe ressaltar que esse trabalho de conversão de “causas” empreendido por clérigos no Brasil se estende à militância no domínio político, também por conta do contexto específico de redemocratização.

  No que se refere a este momento, é fundamental se pensar a relação entre a Igreja Católica, as classes populares e os movimentos sociais na redefinição do cenário político do país. De acordo com (MAINWARING 1989, p. 232), “entre 1968 e 1976, os setores progressistas da Igreja Católica detinham o monopólio virtual do trabalho

  4 político com as classes populares”. Com a abertura essa situação teria se modificado .

  Por esse motivo o processo de reabertura política é um evento significativo para os desdobramentos da problemática, uma vez que possibilita a verificação de eventuais registros de atuação, afirmação e concorrência entre os agentes.

  Uma dinâmica de concorrência objetivada pelo conjunto das práticas dos agentes implica na observação que se lança sobre “as relações existentes entre a posição social ocupada, mensurada a partir de propriedades sociais apresentadas, e os posicionamentos assumidos pelos agentes” (REIS, 2008a, p. 45). Os domínios privilegiados onde essas relações se objetivam em experiências práticas são as comunidades de base, a união de moradores, sindicatos, universidades, partidos etc. A lógica de disputas também é explícita nas estratégias de intervenção, como manifestações públicas, debates, produção de material escrito, entre outras.

  Este expediente possibilita que se verifique a “construção ao longo do tempo, de alguns elementos que influenciaram na configuração de visões de mundo e de um sistema de distinções entre os agentes” durante o processo de redemocratização, bem como em momentos ou movimentos posteriores. Por outro lado, permite igualmente captar alguns alinhamentos que figuram no cenário político, eclesial e cultural do Maranhão, sobretudo no que tange às “alianças e rivalidades entre agentes que atuam em diversos meios sociais. E, finalmente, fornece o suporte para inferências acerca da existência de uma articulação entre domínios, lógicas e práticas sociais que estruturam o espaço social” maranhense (idem).

  As causas constituídas e o trabalho de mobilização conduzido pelos agentes em suas inserções (padres, agentes pastorais etc.), bem como seus efeitos sociais e políticos, conduz à reflexão sobre os mecanismos que estruturam a “gênese de um problema

  5

  social . A especificidade desta questão sugere o estudo de intermediários culturalmente favorecidos que desempenham a função de porta-vozes” (LENOIR, 1996, p. 86). Os agentes a serem investigados podem, então, ser considerados como mediadores (políticos, culturais, etc.). Assim, a investigação direciona-se ao exame das condições de emergência da figura do mediador, da composição do “especialista”, a partir de características sociais dos agentes e dos trunfos acionados como recursos significativos que garantem o trânsito social graças, sobretudo, ao valor conferido às “competências” detidas.

  A noção de mediador define-se como sendo os “indivíduos que estão aptos a atuar em termos de expectativas orientadas para a comunidade e para a nação, que tendem a ser selecionados para a mobilidade” (WOLF, 1971, apud GRILL, 2008, p. 23). Desta forma, entende-se que seu papel é desempenhado no intermédio de âmbitos distintos. O mediador pode ser entendido ainda como um “tipo específico de intermediário que se particulariza pela função crítica e pela exclusividade” (SILVERMAN, 1977, apud GRILL, 2008, p. 23). Nesse sentido, a investigação está direcionada para a percepção – entre uma gama variada de perfis – das lógicas de constituição dos agentes mediadores (críticos pela “capacidade de manipular códigos” e influenciar nos interesses dos diferentes níveis mediados) e, a depender de seu escopo

  6

  de atuação e nível de influência, exclusivos pelo monopólio da função de mediação através do reconhecimento que lhe é atribuído.

  No que tange ao exercício da função de mediação, esta mantém relação estreita com os processos que envolvem aspectos sociais e históricos dos quais podem resultar na constituição de um mediador. No estudo em pauta, os mediadores seriam agentes especializados e peça fundamental numa lógica político-religiosa de mediação, “pautada pelo fluxo de recursos materiais e simbólicos entre diferentes níveis, esferas e espaços 5 sociais” (SEIDL, 2007a).

  

“uma das fases essenciais da constituição de um problema em problema social é justamente seu

6 reconhecimento como tal pelas instâncias estatais” (idem)

De acordo com (SEIDL 2007a, p. 78), parte das estratégias de legitimação social de determinados

grupos sociais, a mediação cultural, insere-se entre os esforços de consagração de estilos de vida, práticas

sociais e valores culturais empreendida dentro de diferentes esferas, como a intelectual, a acadêmico-

  Reiterando a questão das “modalidades de intervenção priorizadas pelos agentes, tomando-as ao mesmo tempo como possibilidade de acúmulo e de ativação de capital militante” (REIS, 2008c, p. 109), convém distinguir – quanto à participação de clérigos na posição de mediadores – os níveis de intervenção a partir das noções de “contestação”, “engajamento” e “militantismo”. Tais idéias, de acordo com Reis (2007), contêm sentidos diferenciados atrelados ao grau de envolvimento dos agentes, bem como aos seus perfis sociais e às situações de contingência (históricas, políticas, etc.) que se apresentam no decurso dos trajetos.

  • Como se sabe, considerável parte dos estudos sociológicos dedicados às intervenções militantes, considerando as diferentes modalidades de ação dos agentes, atribuem influência as transformações processadas no curso dos acontecimentos, podendo estas exercer um papel decisivo na redefinição de lógicas e princípios específicos de um domínio social. O contexto no qual se compreende os registros de engajamento de religiosos – de modo amplo – tanto de agentes inseridos no espaço católico pelo vínculo do sacerdócio como o envolvimento de leigos é marcado, em parte, por eventos de cunho institucional que demarcaram certas mudanças no âmbito eclesial. No Brasil, o curso dessa dinâmica pode ser verificado de forma mais aguda na “polarização”, por assim dizer, de tendências no seio da Ação Católica (Organização de leigos promovida pela alta hierarquia da Igreja). Destaca-se neste processo de redefinição, no interior da (AC), a mesma perspectiva de mudança em um dos segmentos a ela vinculado: a JUC (Juventude Universitária Católica).

  De modo preciso, a evolução gradual de um perfil conservador para um posicionamento mais crítico e propenso ao engajamento social e político teve na manifestação da Juventude Universitária o indício de que a instituição católica, (longe de se apresentar como uma estrutura monolítica, do ponto de vista consensual entre seus filiados), passava por um momento de reavaliação acerca do papel de seus fiéis. O debate instalado, intensamente, nos anos de 1950, refletia diretamente uma questão mais geral que estaria na base dos princípios do espaço católico a serem afirmados naquele momento: qual a forma mais autêntica de ser cristão e a relação que se estabelece com a

  O referido quadro remete a uma polarização vivenciada pela Igreja Católica no Brasil, cujos desdobramentos são expressos um pouco mais tarde com a tendência à politização das atividades de segmentos ligados à esfera eclesial, como a JUC. Essas posições divergentes no interior da instituição, entretanto, não se davam no vazio. Havia toda uma matriz de referências elaboradas por agentes vinculados ao espaço religioso, que pautavam as discussões e influenciavam decisivamente na opção por uma prática cristã mais voltada para as questões políticas. Conforme aponta Ridenti (2002), para os militantes da JUC era necessário encontrar soluções cristãs para os problemas sociais, buscando novas linhas de ação com base em um ideal histórico concreto, uma essência

  

ideal realizável . Nesse sentido, a contribuição teórica de Jacques Maritain tem seu peso

  neste processo de redefinição do espaço religioso no Brasil. Sua noção de ideal , por exemplo, baseia-se no princípio do “engajamento cristão eficaz, em sua

  histórico

  luta, no interior da Igreja, pela participação política ativa de todos os católicos – e fora dela, em busca de uma sociedade justa e cristã” (RIDENTI, 2002, pg. 218).

  Além da influência de Maritain, o processo de redefinição do espaço católico no Brasil, que teria ensejado uma reavaliação da dimensão das esferas de atividade de um setor da Igreja, também foi marcado pelas idéias de intelectuais como Emmanuel Mounier, Lebret, Pierre Teilhard de Chardin e José Cardjin. Compunha-se, desta maneira, um espectro de vertentes do pensamento cristão com sua filosofia específica cuja apropriação de uma delas, representava a sobreposição de uma forma de pensamento a inspirar as diretrizes de uma ação cristã em processo de redefinição de seus objetivos no Brasil.

  Convém sublinhar que essas concepções originadas em centros como a França refletem, sobretudo, nas décadas de 1960/70, um panorama de disputas mais amplo em que o pensamento cristão, inspirado numa filosofia de participação ativa e engajamento coletivo de seus membros, coexiste com outras correntes de pensamento gestadas no seio de transformações sociais e culturais que valorizam crescentemente a autonomia do

  7

indivíduo , cada vez mais inserido numa cultura secular assimilada em diversos

  domínios sociais. Resulta deste cenário mais amplo de redefinições, marcado 7 intensamente também pelos debates na arena intelectual (humanismo cristão contra anti-

  

Tendência presente na sociedade francesa desde meados dos anos 1960 e designada pelo sociólogo

Henri Mendras como a “segunda revolução francesa”, esta autonomia seria marcada pelo triunfo do

individualismo e pelo questionamento das principais instituições coletivas – política, religião, família humanismo teórico; história contra estrutura; filosofia do sujeito contra ciências sociais), a tentativa de afirmação da posição da Igreja que sofria freqüentes críticas de posições exógenas às lógicas do universo religioso. Um exemplo ilustrativo disto são as formulações de Emanuel Mounier sobre o “personalismo cristão no momento em que os direitos da consciência são contestados por Lacan e pela arqueologia do saber de Michel Foucault” (PELLETIER, 2002, p. 22).

  Considerando-se as condições de produção e, sobretudo, o contexto de emergência dessas concepções ajustadas a uma necessidade de afirmação, infere-se que as vertentes de pensamento cristão, como a filosofia do aggiornamento, de Jacques Maritain, passa a ocupar em determinado momento uma posição marginal no espaço mais abrangente de circulação de idéias não apenas na França, como em outros países da Europa. Nesse sentido, podemos pensar o contexto de redefinição como uma abertura propícia também à circulação de agentes representantes dessas idéias que passam a ser difundidas em outras dinâmicas sociais. É razoável inferir, deste modo, que o curso dos acontecimentos na realidade européia teria despertado o interesse de clérigos estrangeiros em disseminar alguns desses ideais onde houvesse espaço para tal recepção. Ainda que as bases empíricas deste estudo não permitam afirmar se os eventos estão correlacionados, convém pontuar que se verifica neste período de redefinições, na segunda metade do século XX, a entrada de muitos sacerdotes estrangeiros que difundiram um padrão de atuação religiosa no Maranhão.

  O sentido das redefinições em processo apontam para a idéia de um “cristianismo engajado” que procurava ser afirmado a partir do trabalho de seus porta- vozes que sinalizavam para uma “revolução na Igreja”. O envolvimento de agentes vinculados ao universo religioso em questões políticas e sociais se traduzia na necessidade da presença de cristãos na “revolução”, fato que, de acordo com Pelletier (2002), sugere a presença da revolução na própria Igreja, no modo de vida de seus membros e em suas formas de pensamento, nas expressões tanto coletivas quanto individuais.

  De qualquer modo, estas concepções extrapolam as fronteiras da concorrência estabelecida no “centro” e penetraram com suas especificidades em domínios “periféricos”, sendo adaptadas a novas dinâmicas sociais. Neste processo de infiltração de idéias tem-se a redefinição de sentidos (uma hibridização de princípios) no que tange

  à entrada de novas tendências teóricas e ideológicas, que orientam as práticas dos agentes receptores.

  O processo de redefinição do espaço católico brasileiro, em meados do século

  XX, mantém interface com essa influência externa que, por sua vez, sofre ajustes e/ou adequações em termos de novas disputas por afirmação numa dinâmica com características diferentes da central, sobretudo no que se refere à baixa ou quase inexistente autonomia das esferas sociais situadas na periferia. Deste modo, as percepções sobre engajamento católico baseadas na revolução personalista de Mounier, na visão histórica, de Teilhard de Chardin, ou no método ver, julgar e agir, de padre Cardjin, por exemplo, seria o produto de concepções de pensamento exteriores que encontram fácil recepção no domínio religioso brasileiro caracterizado por fronteiras mal delimitadas (aspecto peculiar em contextos “periféricos”). A redefinição do espaço religioso brasileiro, nesta perspectiva de apropriação de modelos de pensamento, mantém conexão com a vertente inspirada na idéia de importação de modelos políticos, que destaca a contribuição das estratégias de importação tanto para a produção de formas de poder como de formas de oposição (BADIE e HERMET, 1993).

  A implicação mais direta do fato de se importar modelos de pensamento reside na estrutura de poder que é constituída no interior de um espaço, baseada, por sua vez, na morfologia que o referido espaço apresenta a partir das posições distintas de seus agentes. Para além deste aspecto mais evidente, a apropriação de modelos estrangeiros para legitimar um conjunto de práticas e concepções, num âmbito periférico, expõe a dimensão do efeito de hibridação que caracteriza os espaços importadores de lógicas externas. Desta maneira, a ausência de princípios reguladores de funcionamento do espaço católico favorece a penetração de idéias e valores de matizes diferenciados, criando condições para a emergência de uma nova lógica.

  No caso dos clérigos estrangeiros que atuaram no Maranhão, o material coletado em pesquisa permite inferir como possível motivo para a inserção considerável destes agentes, que os efeitos produzidos por estas redefinições mais amplas no domínio religioso tiveram reflexo, de certo modo, nas novas práticas empregadas pelos clérigos em seu ofício de sacerdote, a partir de uma base da qual se extraia definições legítimas sobre o papel do clérigo na Igreja, na política e na dinâmica em sociedade. O ingresso de um grupo cada vez mais representativo de sacerdotes estrangeiros em detrimento da entrada desses agentes. Entretanto, deve-se observar a dinâmica local como possibilidade objetiva para aplicação de preceitos teóricos à margem no contexto europeu.

  Deste modo, com base nos indícios colhidos e analisados, é plausível a afirmação de que o conjunto de clérigos estrangeiros, cada um atuando a partir de modalidades específicas de trabalho (professores, formadores populares, dirigindo paróquias, à frente de movimentos sociais, na burocracia política, etc.), trata-se de representantes legítimos de modelos exógenos e que tenham contribuído, de modo significativo, para a transformação e/ou redefinição da dinâmica social maranhense. Decorre disso, a percepção de que a opção da Igreja local por clérigos estrangeiros está relacionada ao grau de qualificação adquirido por esses agentes em seu processo de formação. Em certo sentido, a entrada de agentes com um perfil diferenciado, portadores de uma matriz específica de concepção do mundo social, reflete uma adaptação da Igreja local aos pressupostos de um novo modelo que interferiu consideravelmente na redefinição das tomadas de posições da própria instituição e seu corpo de agentes (religiosos e leigos em geral).

  Dentro de uma perspectiva secular face às redefinições processadas no espaço católico brasileiro, verifica-se a tendência a uma revisão das ações de setores da Igreja Católica, pautados numa reavaliação dos propósitos institucionais refletidos objetivamente na resignificação de valores e práticas dos agentes vinculados a esse universo. Nesse sentido, as redefinições processadas no espaço católico exercem considerável influência que auxilia na compreensão do processo de inserção militante de religiosos. Compreende-se, assim, conforme Mainwaring (1989), que a relação entre movimentos diversos, com a presença de clérigos, em geral, mundo social e Igreja, resulta da interação dos agentes com a sociedade e das tendências produzidas por esta, como um todo e, em particular, pelos movimentos sociais dentro do próprio espaço de atuação.

  No que tange a essas transformações que colocaram a Igreja em interface com o mundo da política, bem como redefiniram as relações dos mesmos com outros espaços sociais, remetem ao aprofundamento de reflexões sobre a atuação da Igreja Católica em espaços designados como “bases” e a relativa independência de ação do segmento “progressista” no espaço católico. Essas idéias mais gerais constituem as diretrizes de análise abordadas em outros trabalhos (MAINWARING, 1989; DELLA CAVA, 1986; KRISCHKE, 1986).

  A inserção de uma Igreja em contato mais estreito com as “questões seculares” (“desigualdades sociais” geradas pelo modelo político e econômico, por exemplo), pela via da radicalização política de setores como “a esquerda católica”, tornou-se mais evidente pela diversificação de posicionamentos. Tal dinâmica de redefinição, todavia, não transcorreu sem conflitos que expunham divergências políticas

  e, mesmo, oposição de concepções religiosas entre a hierarquia católica (representada pelo episcopado), detentora da autoridade formal da instituição, e os segmentos tidos como mais “radicais” ou “progressistas” no interior da Igreja. Conseqüência mais direta desta polarização de posições foi a marginalização institucional destes setores relegados

  8 à condição de heterodoxias do espaço religioso.

  No que concerne ao segmento mais heterodoxo, mais precisamente, aos seus agentes componentes, seu perfil de engajamento mantém vinculação com uma forte socialização católica sobre a qual está pautada a visão de mundo desses agentes, sem que se descarte, no entanto, “o interesse pela questão da transformação que o catolicismo desses militantes” pode sofrer no decurso de seu trajeto social (SAWICK & BERLIVET, 1994). Deste modo, registros de intervenção caracterizados por tomadas de posições a partir de posições periféricas relacionam-se diretamente aos recursos de origem e às disposições incorporadas pelos agentes. Nesse sentido, seria legítimo pensar que as tomadas de posições mais radicais, apontando para rupturas sejam manifestadas por agentes ocupantes de posições dominadas dentro do espaço católico (SEIDL, 2009a). Segundo essa lógica, a natureza das inserções e as especificidades das funções executadas conformam critérios definidores da posição dos agentes em relação à aproximação e ao distanciamento da hierarquia eclesiástica.

  Decorre, precisamente, desta relação polarizada no espaço religioso a necessidade de afirmação da posição daqueles agentes que representam o segmento heterodoxo. Esses perfis são influenciados por uma espécie de cultura político-religiosa assimilada e manifestada pelos clérigos em registros objetivos de intervenção, a partir 8 de distintos canais de inserção resultantes de um trabalho coletivo de mobilização

  

Expressão empregada por Coradini (2004) em relação à Teologia da Libertação como efeito do

fortalecimento de posições mais “periféricas” acentuadas no espaço religioso católico. Sua observação

integra um eixo de análise referente a estudos mais amplos com ênfase no Ensino Universitário, nas desses agentes. Nesse sentido, o expediente legítimo que define a posição assumida por determinados clérigos e, conseqüentemente, sua afirmação e reconhecimento no domínio religioso refere-se às formas de intervenção constituídas como “legítimas”.

  Deste modo, o segmento dito mais politizado representado por um corpo clerical diverso em relação à posição de seus agentes (padres e bispos), articulou – como forma de estratégia de intervenções políticas e sociais – as condições para a emergência e estruturação de novos espaços de engajamento, cuja composição de seus quadros expressava a heterogeneidade quanto às bases sociais destes domínios de inserção. Nesse sentido, cabe analisar o papel efetivo desses agentes na constituição desses espaços de disputas que implicam na produção legítima de questões, que, em última instância, garantem sua afirmação enquanto porta-vozes reconhecidos.

  Este trabalho de legitimação das causas defendidas e de constituição de espaços privilegiados de inserção ocorre concomitante ao aparecimento de novas organizações civis (sindicatos, partidos políticos, associações de bairro etc.), momento em que a Igreja Católica era reconhecida por seu caráter predominantemente popular, sendo responsável pela reprodução ou influência, notadamente, nas Comunidades Eclesiais de Base, um fenômeno vertiginoso que constituía o alicerce, “através da organização de cerca de 80.000 CEBs espraiadas pelo território, da hierarquia eclesiástica considerada um dos mais importantes porta-vozes das classes subalternas da nação” (DELLA CAVA, 1986, p. 13).

  Assumindo-se enquanto “animadores” dessas estruturas – concebidas como comunidades religiosas, porém identificadas com as questões político-sociais de seu interesse – estiveram diversos padres que, reivindicando para si a condição de representantes dos interesses populares, exerceram influência na produção de “demandas” apresentadas como relevantes. Sem essas estratégias, seria mais difícil a esses agentes lograrem sucesso em sua auto-afirmação na condição de sacerdotes mediadores, ou mesmo que extraíssem de suas ações certas retribuições como o prestígio da consagração por representar determinada vertente do espaço religioso.

  Desta maneira, a atividade militante em suas modalidades variadas (política, cultural, religiosa e social), possibilita aos agentes que se dedicam a determinada causa extrair dela benefícios ou gratificações, podendo estes ser tipificados na ordem de uma retribuição material, ou mesmo, designarem um valor simbólico atribuído a um perfil estudo sobre a aquisição de retribuições da atividade militante, ajusta-se a outras vertentes de análise empenhadas em demonstrar esta espécie de contrapartida

  

desinteressada advinda da participação dos agentes sociais em “causas” coletivas com

  base na reconstituição de trajetórias, processos anteriores de socialização e engajamento em outros meios sociais como partidos políticos, movimentos sociais e ONGs (AGRIKOLIANSKY, 2001; SIMÉANT, 2001).

  Nesse sentido, o papel de mediador colocado em prática pelos sacerdotes, através de uma ação pastoral desenvolvida em meios populares e, sobretudo ancorada nas CEB’s, é uma dimensão imprescindível para compreendermos as lógicas que conferem legitimidade e relevância social a determinadas causas que os próprios agentes constituem. No que tange detidamente a esse processo de constituição – geralmente, de caráter coletivo – enfatiza-se aqui propriamente as características sociais, bem como a detenção de recursos culturais que possibilitam a determinados agentes mobilizá-los, de forma que, uma “demanda” particular possa adquirir amplitude e, por conseqüência, seja reconhecida socialmente.

  O conjunto de “causas” alçadas à condição de demanda legítima é resultante, em grande medida, da matriz de percepções que orientam as ações dos agentes no sentido de conferir evidência a temas específicos que são objeto de lutas sociais decorrentes de princípios de visão e divisão do mundo social, que estão na base da mobilização de determinados agrupamentos. A conversão de uma causa em problema social, portanto, deve-se a “princípios de classificação” cuja origem está “associada a um trabalho social de produção” (LENOIR, 1996, p.64).

  Tomando a perspectiva da produção coletiva de “demandas” sociais, tem-se no trabalho, precisamente na capacidade de mediação de um conjunto de agentes especializados, a legitimação de causas que dão sentido às práticas de intervenção militante. No caso específico dos sacerdotes com atuação no Maranhão, o processo de constituição de causas como a questão fundiária, as ocupações urbanas, os direitos das populações indígenas e camponesas, por exemplo, expõe a dimensão que situa as experiências de engajamento como produto de uma cultura baseada num duplo registro (político e religioso) envolvido nas ações efetivas dos clérigos.

  Desta forma, sendo a constituição de causas socialmente relevantes o resultado de um trabalho de mediação social e cultural que tem nos religiosos os agentes que, nada mais são do que artefatos de abstração mobilizados pelos agentes para classificar o mundo social segundo uma disposição de princípios. Decorre precisamente deste ponto, que o estudo das mobilizações sociais, ou melhor, dos processos de engajamento em torno de causas constituídas como relevantes pode ser tanto mais profícuo, na medida em que esta dimensão seja tratada como produto de representações

  

coletivas , tendo em vista que “uma vez constituídas, tornam-se realidades parcialmente

  autônomas” atuando sobre a realidade pela ação da explicação, formulação e informação inerente a qualquer forma de representação (DURKHEIM, apud, LENOIR, 1996, p. 77).

  Podemos identificar, portanto, a partir da dinâmica de inserção em instâncias de engajamento e participação política, pelo menos dois aspectos imprescindíveis para a compreensão da emergência de um problema social, em referência às “causas” mobilizadas no curso das intervenções. O primeiro reforça a iniciativa dos agentes no sentido de formulação pública de determinada causa, cujo interesse em sua defesa assume proporções coletivas. Este aspecto remete, em particular, à própria função de mediação desses “porta-vozes culturalmente favorecidos”, que, precisamente, por estarem investidos nesta condição “podem ser considerados como representantes senão de um grupo social, pelo menos de uma causa implicitamente compartilhada” e reconhecida pelos outros agentes (LENOIR, 1996, p. 86).

  O segundo elemento deriva necessariamente da atuação desse mediador enfatizando-se, na base de suas intervenções, as representações elaboradas, as aspirações pronunciadas e o vinculo dessas coisas presentes no discurso formulado por esse agente. Cabe salientar sobre este aspecto, a força dos discursos produzidos que, não sendo tomados em si mesmos, devem ser cotejados – de forma indissociável – a partir de sua fonte de enunciação, os próprios agentes sociais, bem como, reconhecer nas instâncias de produção e difusão o lugar de emergência desses discursos, os mecanismos imprescindíveis à constituição de uma “causa” legítima (BOURDIEU, 1996b).

  Nesse sentido, as tomadas de posições pronunciadas por clérigos estão situadas na composição de um repertório que sugere “formas de argumentação” ou estratégia retórica cuja “eficácia simbólica” não seria estabelecida, senão pela “relação entre as propriedades do discurso, as propriedades daquele que o pronuncia e as propriedades da classificações do mundo social produzidas numa relação de imposição de definições, constituem corpus discursivos específicos que necessitam, além da compreensão, do “reconhecimento enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio”, desde que o agente que pronuncia o discurso seja também “conhecido e reconhecido por sua habilidade e aptidão em produzir uma classe particular de discursos” (BOURDIEU, 1996b, p. 89-91).

  Soma-se aos dois aspectos mencionados o fato de que o trabalho de legitimação social de determinada causa será bem sucedido na medida em que todos os esforços de mobilização empreendidos impliquem em seu reconhecimento nos espaços de debate mediados pelos poderes públicos.

  Desta maneira, a dimensão das causas constituídas como problemas sociais e que são produto da atividade de um grupo de agentes deve ser apreendida com base na combinação do estudo das características daqueles que enunciam um discurso, cuja “consistência social” seja capaz de produzir certa “demanda” enquanto problema social legítimo, e das formas de consagração que incidem sobre esse discurso por meio do reconhecimento e das modalidades de intervenção por parte das esferas de poder político. A necessidade de imposição de um problema, de forma que o mesmo seja evidenciado publicamente, adquirindo relevância no cenário dos debates públicos, constitui, portanto, o que Lenoir (1996) define como uma das fases essenciais do processo de consagração estatal deste problema.

  O conjunto das práticas efetivas dos agentes vinculados ao universo religioso reproduz uma visão oferecida pelos próprios sacerdotes sobre uma ação pautada nos referenciais de “missão”, “justiça social” e “compromisso cristão”, percepções que subsidiam um “discurso afinado” de forma a conferir coesão e difundir um sentido particular para a noção de engajamento concebido por um grupo de sacerdotes. No Maranhão, o trabalho de base realizado por clérigos estrangeiros tanto no interior como na capital, à frente de Comunidades Eclesiais de Base e de outras estruturas de atuação, a exemplo da Comissão Pastoral da Terra, demonstram uma maneira distinta que os agentes empregam no exercício do sacerdócio. Deste modo, o envolvimento de padres em questões que não se limitam apenas a esfera religiosa, mas que atinge outros domínios de ação, sobretudo aqueles pautados pelos princípios da política, ensejam nas trajetórias dos clérigos um sentido de realização pessoal, de missão pastoral que

  Convém ressaltar, no entanto, que o trabalho de “conscientização política”, forma de intervenção mobilizada pelos religiosos nas comunidades e em outros espaços compõe um conjunto de estratégias de reconhecimento a partir do registro religioso, mas “constituem por intercruzamento de lógicas”, Pécaut (1990), o mesmo espaço de concorrência e alianças entre si e com outros agentes.

  No que tange às ações dos padres, estas se efetivam com regularidade em espaços de atuação como associações de bairro, sindicatos de categorias profissionais, notadamente de trabalhadores rurais, instâncias voltadas para a educação popular – escolas, oficinas, cursos de formação –, de um público diversificado como lavradores, quilombolas, extrativistas, indígenas etc. O engajamento de caráter político e social praticado por esses agentes também se registra, em casos específicos, no trabalho desenvolvido junto a instâncias oficiais de administração pública (ocupando cargos políticos). As ações se efetuam, ainda, através de organismos e entidades que encontram no perfil específico do clérigo militante, os requisitos necessários para a mediação com determinada dinâmica. Deste quadro diversificado de intervenções enfatiza-se a inserção de religiosos em entidades como a Cáritas, a Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos, a Comissão Pastoral da Terra, bem como a participação em movimentos como greves e campanhas, destacando-se a luta do movimento contra a Carestia em São Luis.

  Outros espaços de inserção são os estabelecimentos de ensino superior, sobretudo instituições voltadas para a formação de novos agentes que aspiram iniciar a carreira do sacerdócio. O itinerário religioso de parte dos agentes que atuaram no Maranhão, nas décadas de 1970/1980, mesmo nos decênios posteriores e até antes da chegada ao estado, é marcado por registros de docência em seminários ou institutos de estudos, este mais aberto a um público leigo (catequistas, animadores de comunidades etc.). Quanto a registros de inserção em partidos políticos, predomina a ausência de vínculos com a política partidária, entretanto, o envolvimento com a esfera política se processa pela relação de alianças estabelecidas com agentes deste domínio, como ilustram as experiências de clérigos em situação de conflito que receberam apoio de parlamentares. Havia também uma contrapartida de religiosos simpatizantes de certos grupos políticos, manifestando seu apoio, mas, denegando qualquer pertencimento ou vinculo mais sólido.

  Cabe ressaltar que a fluidez desse trânsito de agentes favorece a constituição de redes de reciprocidade onde os registros se intercruzam mediante estratégias de afirmação em concorrência. Nesse sentido, as causas mobilizadas e apresentadas pelos clérigos encontravam recepção também nos agentes vinculados em outros domínios sociais (políticos iniciantes, advogados etc.).

  Podemos pensar essas alianças, enfatizando-se o papel de agentes com vínculos em outros domínios, no sentido de constituição de uma interlocução favorável à função de mediação, exercida também por esses agentes em um trabalho conjugado com os clérigos. Convém observar com base neste ponto que, independente das lógicas ou princípios motivadores do engajamento – no caso dos agentes sem vínculos mais sólidos com a Igreja – podendo se apresentar os mais heterogêneos, todos podem reunir condições para o exercício do papel de mediador. Quanto aos mecanismos empregados para essa mediação, devemos pontuar ainda o papel dos instrumentos midiáticos no processo de constituição de causas em problemas sociais, haja vista que essas causas “reconhecidamente legítimas” tiveram ampla repercussão na mídia, principalmente, a mídia impressa.

  Neste tocante, destacam-se os instrumentos de publicização mobilizados pela Arquidiocese de São Luis, como o jornal arquidiocesano, boletins, carta aberta à sociedade (conjunto de documentos coletados em um dossiê da DOPS-MA), sobre as questões que envolviam membros do clero. Algumas paróquias da cidade, como a de São João, situada na rua da paz, centro da capital, também se utilizavam de recursos

  9

  impressos para a difusão de “problemas”. A partir de jornais publicados e, ainda, de programas veiculados por uma rádio local, cuja direção estava sob a responsabilidade do pároco de São João, certas “demandas” como os casos de despejos relacionados à problemática da terra e da falta de moradia, notabilizaram-se nos círculos de debate. Deste modo, a ampla exposição de causas produzidas pelos clérigos para garantia de um escopo privilegiado de intervenção, geralmente é apresentada como uma ação de dever do “compromisso cristão com a justiça”, percepção que engendra uma forma de consagração social tanto da causa defendida, como daquele que promove sua defesa (PASSERINI, entrevista ao autor, na casa dos padres combonianos, em novembro de 9 2010 ).

  

Destaca-se a edição do folheto “voz no deserto” que era veiculado no jornal “25 de março”. Esta

produção tratava de temas relacionados a problemas sociais, sobretudo questões vinculadas a situação de

  O conjunto de “demandas” produzidas e veiculadas no jornal da Igreja de São João, “25 de março”, resultou de um trabalho coletivo de agentes alocados em outras esferas de atuação, que apresentavam nas edições do periódico uma pauta comum de mobilizações legítimas. Temas como as condições sociais dos menores abandonados de São Luis, seu envolvimento com a violência, com a criminalidade e a devida responsabilidade das autoridades políticas diante disso, eram refletidos por pessoas vinculadas a domínios diversos, como profissionais da Antropologia e da promotoria de justiça local.

  Cabe ressaltar que a publicação de periódicos, folhetos, cartas e outros recursos impressos por iniciativa da Igreja, a exemplo da paróquia de São João e da própria Arquidiocese de São Luis, ensejam tomadas de posições mobilizadas por alianças empreendidas pelos agentes na forma de estratégias de afirmação de posição no espaço mais amplo de debates. Essa forma de intervenção traduz interações e formas de contato entre os agentes, situados relacionalmente em concorrência, porém, explicitam também rivalidades. As percepções produzidas por agentes de outros domínios nem sempre se alinham àquelas que são formuladas pelos agentes do universo religioso. Pelo contrário, são apresentadas como percepções opostas.

  O engajamento político e social de uma parcela do clero local distribuído nas diferentes instâncias de inserção ou movimentos redefiniu os padrões de atuação da Igreja frente aos problemas passíveis de intervenção. Nesse sentido, a presença da instituição através de seus membros inseridos em estruturas eclesiais, bem como em outras instâncias de participação, é imprescindível na tentativa de apreensão da (re) redefinição do cenário político maranhense à época em questão (1970-1980).

  Tem-se, portanto, em diversos domínios sociais, um fluxo representativo de sacerdotes alocados a partir de uma estrutura de organização definida da Igreja maranhense, que através de um trabalho de base desenvolvido em diversas dioceses, criou condições objetivas ao engajamento desses clérigos. Essa presença da Igreja local se expressava por meio do apoio manifestado pelas autoridades do clero através de posições públicas. Nessa linha de ação política, destaca-se a mediação do Arcebispo de

  10 São Luis, Dom Motta, nos episódios relativos à greve da Meia-Passagem , e, 10 sobretudo, à intervenção de um bispo do interior para a resolução de conflitos

Sobre a mediação de Dom Mota com agentes da esfera política à época da Greve da Meia Passagem em relacionados à questão fundiária. Tais ocorrências em que a posição ocupada pelos

  11

  agentes na alta hierarquia eclesial, traduzida em tomadas de posições na intersecção com o domínio da política, produziram efeitos no que tange aos desdobramentos das situações. bO tema relativo à questão fundiária, bem como outras problemáticas da dinâmica social local, estiveram na composição de um repertório comum de causas formuladas e mobilizadas não apenas por clérigos, mas por agentes inseridos no mundo universtário (professores da área das ciências sociais e humanas), eventualmente vinculados a esses religiosos nos mesmos espaços de inserção, desenvolvendo atividades em conjunto (monitoria em instância de formação social e política) e expondo tomadas de posições sobre as mesmas questões. A relação dos religiosos com o espaço universitário se resume a esses contatos que podem gerar ainda retribuições pelo reconhecimento da trajetória, como homenagens recebidas pelo histórico de engajamento social.

  Quanto às tomadas de posições dos intelectuais da universidade sobre as mais diversas questões, convém situar que tais percepções produzidas numa lógica de concorrência com aquelas formuladas por religiosos contribuem para a existência e relevância social de uma “causa”, uma vez que podem circular em diferentes espaços de debate, sendo inclusive objeto de apropriação dos agentes sociais em seus registros de intervenções. Esse aspecto remete ainda a uma dimensão relevante dos estudos relativos aos processos de engajamento que diz respeito aos usos militantes dos discursos

  12 científicos .

  Isso se deve, por um lado, a relação que é estabelecida entre os agentes que compõem o domínio acadêmico, sobretudo através das disciplinas humanas com o mundo social, onde não se tem uma definição de fronteira entre o mètier exclusivamente cientifico e a atividade militante dedicada a uma causa específica. Essa situação 11 favorece a apropriação direta de saberes especializados mobilizados em intervenções na

  

Em muitos casos, o envolvimento de clérigos em mobilizações e intervenções relacionados à defesa dos

direitos dos lavradores, sobretudo, se seguia de ameaças e, até mesmo, da consumação de atos violentos

praticados contra esses padres. Diante dessa situação registra-se, tanto no interior como na capital, a

manifestação pública de bispos em defesa e apoio aos padres ameaçados e também seu trabalho de

mediação no sentido de resolução das questões (caso de D. Pascásio, em Bacabal, e D. Motta, em São

12 Luis).

  

Reflexão apresentada por (CORADINI, 2004, p. 12), ao expor a contribuição de Siméant (2002) no que

tange a “utilização do conhecimento “expert” e “savant” de maneira generalizada na ação ou ativismo

político e as fronteiras fluídas entre os discursos e universos “savants” e militantes e as maneiras dinâmica social, como é o caso das tomadas de posição de agentes da universidade, a partir desse próprio espaço, no que tange às adesões manifestadas em questões políticas e sociais.

  Por outro lado, verifica-se o mesmo processo de apropriação desses saberes produzidos no domínio universitário que penetram o mundo social e estão presentes no discurso e nas práticas de agentes externos, no repertório de intervenções de uma liderança sindical, de um clérigo, de um político, de um militante de movimento social, enfim, de diversos agentes que em suas intervenções operam com registros apropriados por efeito de teoria. Essa relação de proximidade entre a esfera científica e a dinâmica do mundo social traduz a “incapacidade do domínio científico de refratar e retraduzir sob uma forma específica as pressões ou as demandas externas”, sobretudo em contextos tidos como periféricos (BOURDIEU, 2004, p. 22).

  Nesse sentido, as abordagens que enfatizam o envolvimento da instituição religiosa, ou pelo menos, de segmentos “progressistas” integrantes de sua estrutura, com questões de teor político-social vigentes nas décadas de 1960 a 1980, como a mobilização de diversas causas populares, a criação de instâncias de participação e o processo de reformulação e criação de partidos, compõem uma agenda de análise que remonta a relação da Igreja diante do processo político mais abrangente no estado (COSTA, 1994; BORGES, 1998; ALMEIDA, 2008).

  A ênfase nas práticas militantes de agentes sociais inscritos no universo eclesial, padres vinculados ao espaço católico, constitui a base empírica tomada como ponto de partida para apreensão de lógicas que orientam práticas sociais distintas. O propósito do estudo ao centrar a abordagem precisamente nas intervenções militantes é captar – com base em diferentes formas de engajamento apresentadas num trajeto social – como se processa, efetivamente, os mecanismos de mediação que conferem sentido a uma intervenção.

  O recurso de análise ancorado na idéia de intervenção militante permite, dessa forma, delimitarmos pelo menos dois aspectos importantes que balizam o encaminhamento do estudo, a saber: I) a especificação, com base nas experiências diversas de intervenção dos clérigos, de possíveis padrões de atuação militante através do exame dos recursos sociais apresentados pelos diferentes perfis pertencentes à unidade compósita religiosa; II) o peso dos recursos sociais e culturais detidos e suas nos permite analisar mais a fundo o papel desses agentes enquanto mediadores de causas socialmente constituídas (função de legitimação por meio de um esforço individual e/ou coletivo de engajamento).

  Convém acrescentar que a análise das experiências de atuação clerical no Maranhão nos diferentes meios sociais e entidades, em geral, vinculados à Igreja Católica propiciam ainda a apreensão dos limites que caracterizam as intervenções de agentes alocados em diferentes regiões do Estado. Trata-se aqui de verificar, procedendo à comparação dos perfis sociais dos clérigos, os efeitos que tais experiências possam ter produzido na (re) definição do espaço social mais amplo, considerando-se, em maior ou menor medida, o envolvimento dos agentes nas causas constituídas. O intento de conduzir essa dimensão de abordagem por este viés se justifica pela relevância das relações entre as particularidades das configurações políticas, bem como as condições e os processos de engajamento individual na defesa de causas coletivas (FILLIEULE, 2001).

  Tal perspectiva de reflexão emerge como imprescindível para as pretensões do estudo em pauta, no sentido de instrumentalizar analiticamente o caso empírico ilustrado pela diversificação da ação engajada de religiosos. Desta diretriz mais genérica, podemos desdobrar as seguintes questões: I) as conexões que envolvem as próprias experiências militantes, compreendidas como um conjunto de práticas efetivas, que podem sofrer redefinições e produzir efeitos nos trajetos individuais ou coletivos;

  II) e os limites das intervenções militantes, levando em conta possíveis tensões e contingências presentes na intersecção entre os próprios domínios constituídos, seja com base na natureza das interações, destacando-se eventuais conflitos entre agentes num mesmo espaço, ou na relação de interlocução entre agentes de espaços sociais distintos.

  O desdobramento dessas questões, condicionadas ao estágio preliminar de construção empírica, sugere a coexistência de perfis heterogêneos constituídos com base em uma matriz social específica. Para os propósitos explícitos aqui, as pistas empíricas que apontam para a constituição e emergência de perfis diferenciados são relevantes no sentido da plausibilidade de estipularmos padrões militantes. Em outras palavras, a partir da problematização das questões enunciadas podemos apreender as mediações implícitas à atividade militante dos clérigos, engendrando uma dimensão fundamental efetiva”, ou mais precisamente, nos princípios e lógicas subjacentes às práticas militantes (FILLIEULE, 2001, p.199).

  A abordagem que orienta o estudo em questão inspira-se numa série de outros estudos pautados na relação estabelecida entre práticas militantes, constituição de espaços legítimos de atuação, bem como outros eixos de análise perpassados pela dimensão do “militantismo” (considerando-se os processos de mediação e estratégias analíticas particulares a cada caso). De forma ampla, a referida dimensão constitui instrumento fundamental na operacionalização de indicadores e variáveis específicos a recortes empíricos diferenciados que recobrem uma dinâmica social múltipla.

  Decorre daí a importância de produções que, independente do foco de estudo instrumentalizado pela noção de “militância” (constituição de espaços de debate, composição de carreiras militantes, ocupação de cargos políticos não eletivos, protestos públicos em defesa de causas específicas), compõem uma agenda de pesquisa apresentando similaridades que interessam para os propósitos do estudo em pauta como, por exemplo, a ênfase nos recursos sociais dos agentes, seus repertórios de ação, processos de socialização em seu percurso biográfico, entre outros aspectos (FERREIRA, 2009; SEIDL, 2009b; REIS, 2009; OLIVEIRA, 2009).

  • Com base no referencial teórico apresentado, dois aspectos são tomados como ponto de partida para operacionalização das informações: o envolvimento dos agentes em determinado espaço de engajamento e sua vinculação com outros grupos ou organizações do período em questão. Com base nesta perspectiva, o procedimento de pesquisa consiste predominantemente no exame dos aspectos sociográficos, já demonstrados, que são relativos aos agentes investigados. A apreensão dessas informações se deu com base na coleta de depoimentos.

  A realização de entrevistas possibilitou captar as origens sociais e o conjunto de posições ocupadas pelos agentes investigados, bem como as estratégias de constituição das redes de pertencimentos, identificações, sociabilidades, rupturas e alianças. A utilização de entrevistas mostrou-se primordial como instrumento de pesquisa, favorecendo a percepção de interferências das estratégias de consagração e de sobre os eventos e sobre as biografias. A reconstrução biográfica oferecida pelos agentes é definida por elementos que podem não ser tão evidentes. Da posição social e política ocupada pelo agente no momento da sua enunciação e tendo em vista as demais posições correntes, derivam duas construções. A primeira refere-se às expectativas quanto à maximização do depoimento para o próprio “jogo”, a segunda, e talvez a mais importante, é a busca daquele que se apresenta e apresenta a sua vida de construir uma “constância de si mesmo como uma história bem construída” (BOURDIEU, 1996a, p. 81).

  Convém observar que o recurso às entrevistas enfatiza, precisamente, a dimensão de caráter sociográfico, na medida em que favorece a apreensão de aspectos distintivos dos agentes sociais. Isto pode ser explicado pelo modo como os agentes elaboram sua auto-apresentação, mobilizando com freqüência, elementos consagradores ao reconstituírem seu trajeto. Em outros termos, a partir das características sociográficas e dos princípios de diferenciação captados é possível a reconstituição de um trajeto social na perspectiva de uma “série de posições ocupadas sucessivamente por um mesmo agente em um espaço submetido a transformações” (idem).

  O conjunto de depoimentos empreendidos com vistas à realização desta pesquisa é constituído por dez entrevistas, com duração aproximada de uma hora e meia cada, sendo que dentre estes contatos, sete aconteceram em São Luis. Os sacerdotes que integram a lista de agentes entrevistados foram nomes que surgiram de indicações de outras pessoas vinculadas ao universo religioso. Os agentes apontados se encaixam nos critérios estipulados para a composição do grupo investigado. Primeiramente, definiu-se como critério a atuação de clérigos num determinado recorte temporal (1970/1980), devido a particularidades desta conjuntura. O segundo critério decorre do fluxo registrado no que se refere à presença de clérigos estrangeiros, neste momento, exercendo alguma forma de atuação no Maranhão.

  As condições de entrevista com esses religiosos foram bastante favoráveis à consecução do objetivo pretendido, que foi a aplicação em profundidade de um roteiro de entrevista contendo questões relativas às dimensões abordadas na pesquisa (dimensão sociográfica, dimensão dos investimentos dos agentes, dimensão das esferas de inserção, etc.). Em todas as ocorrências de coleta dos depoimentos fui ao encontro dos sacerdotes, geralmente em espaços vinculados com atividades religiosas como a congregação dos padres combonianos, nas dependências de um seminário da capital (Seminário Santo Antônio), local de residência de um dos sete entrevistados e no espaço

  13

  de trabalho de um sacerdote, situado no centro da capital . A exceção neste grupo dos sete entrevistados na capital foi o contato com o padre comboniano Claúdio Bombieri, que se deu no espaço de sua residência de modo informal (longe do ambiente de trabalho ou de qualquer interferência).

  Quanto às três entrevistas restantes, foi necessário o deslocamento a outras cidades como Caxias, no interior do Maranhão e Teresina, capital do Piauí. Nestas ocasiões, os depoimentos foram coletados em circunstâncias semelhantes, em espaços vinculados com atividades religiosas desenvolvidas pelos entrevistados. Em Caxias, onde dois sacerdotes foram entrevistados, os encontros aconteceram no palácio episcopal da cidade (residência oficial dos bispos) e o outro ocorreu num centro de formação e capacitação pertencente a esta diocese. Na mesma oportunidade das entrevistas em Caxias foi possível o contato, em Teresina, com um Frei franciscano que atuou no Maranhão no período em questão.

  Utilizando esse procedimento de análise, a partir da sistematização dos dados coletados nos depoimentos (em quadros sinópticos com as dimensões de pesquisa) foi possível visualizar relacionalmente concepções de política e religião que “orientam as práticas e saberes com vistas à intervenção” dos agentes estudados (REIS, 2007). “Estas concepções se revelam justamente na análise dos vários registros e lógicas que configuram os repertórios de afirmação e mobilização militante” (idem).

  Com base nos relatos fornecidos pelos agentes tem-se que a reconstituição das biografias enfatiza trunfos que são valorizados tomando-se em conta condicionantes sociais específicos. Nesse sentido, os trunfos enfatizados retrospectivamente pelos agentes implicam ou sugerem um duplo reconhecimento em domínios distintos, como o político e o intelectual, a exemplo das lógicas identitárias que reforçam e conferem sentido ao engajamento em si, caracterizado pela ocorrência desse duplo registro (SAWICKI et BERLIVET, 1994).

  Outras fontes de pesquisa utilizadas foram os arquivos pessoais dos agentes, como registros das experiências de conflitos (crônicas) e cartas de protesto emitidas pela 13 ordem religiosa franciscana, encontrados em documentos institucionais (Dossiês)

  

O espaço mencionado se refere à sede da Associação da Saúde da Periferia (ASP), local de trabalho do organizados em séries pela Delegacia de Ordem Pública e Social (DOPS/MA). A série pesquisada refere-se ao tema subversão e encontra-se com outros dossiês recolhidos junto ao acervo do sistema de informações do arquivo público do Maranhão. Dentre os documentos contidos na série subversão, constam produções da própria Arquidiocese de São Luis como a exposição dos aspectos históricos e jurídicos sobre a problemática da

  

ocupação do solo urbano na ilha de São Luis e uma carta do clero dirigida ao povo do

Maranhão , produções geralmente de caráter coletivo envolvendo em seu processo de

  elaboração a participação de outros segmentos sociais da cidade, além de documentos contendo lista de abaixo assinado de clérigos. A consistência empírica desta pesquisa é reforçada ainda pela utilização de edições de jornais locais como o Debate, o Imparcial (que também compõem o dossiê) e o Jornal Vias de Fato, fornecido em alguns exemplares por um contato vinculado ao periódico.

  Além do conjunto denso de entrevistas e das fontes documentais mencionadas (tanto as jornalísticas como as institucionais), utilizou-se como suporte empírico para esta pesquisa, produções da universidade como artigos, monografias e dissertações cujas temáticas destes trabalhos mantêm, em algum aspecto, conexões com a problemática mais ampla abordada pela pesquisa em pauta. O tratamento conjugado de fontes distintas será imprescindível, sobretudo pela dificuldade de acesso ou escassez de produções mais isentas, em nível local, com relação à politização de religiosos e suas inserções em outros espaços sociais. Com base em dados contidos em materiais como produções universitárias é possível tratar mais objetivamente questões predominantemente fornecidas pelas versões dos próprios agentes entrevistados. Nesse sentido, a utilização de materiais do tipo jornalístico e daquele produzido na universidade permite confrontar os discursos e percepções bem articulados sobre o mundo social, que os agentes enunciam ao narrarem suas experiências.

  Em termos de operacionalização da pesquisa procedemos aqui a um delineamento esquemático. Primeiramente, identificar os agentes inseridos num espaço de intervenção específico, a partir de um mapeamento dos movimentos ou organizações da “sociedade civil” adeptas a uma causa constituída como legítima. Uma vez situados nos espaços de inserção, é possível efetuar o exame de registros e/ou homenagens (construções biográficas, menções honrosas, sessões solenes nas esferas política e acadêmica etc.) dirigidos a esses agentes, recursos concebidos aqui como estratégias de inserido. Numa etapa posterior, são priorizados os dados relativos aos perfis sociais, identificações com grupos, atuação em espaços diversos (universidade, igreja, movimentos sociais, partido político, etc.), características da formação, entre outros.

  • Orientada por uma lógica de sistematização que esboça a economia geral da pesquisa, a dissertação está organizada em sete capítulos mais breves por conta do volume considerável de material coletado, sendo esta a maneira mais viável de racionalização do trabalho e apresentação das reflexões. No primeiro capítulo, apresentamos uma descrição geral dos agentes investigados, elemento que perpassa outros capítulos, sendo que esta seção inicial enfatiza precisamente as propriedades, os recursos culturais e determinados mecanismos de socialização entendidos como aspectos imprescindíveis à apreensão de perfis sociais dedicados a carreira religiosa e a alguma de atividade engajada.

  O segundo capítulo aborda a questão das origens sociais, a ocupação desenvolvida pelos agentes, seu pertencimento no domínio religioso e as modalidades de atuação colocadas em prática nas intervenções objetivas do grupo de religiosos desta pesquisa. No terceiro capítulo, são apresentadas as formas de crença e militância manifestada pelos agentes e no meio familiar, bem como outras experiências sociais do trajeto social dos religiosos. Ainda nesta seção, cotejamos as dimensões dos recursos sociais, dos investimentos escolares e das concepções de engajamento manifestadas objetivamente. O quarto capítulo expõe as práticas militantes dos clérigos pelo viés das funções desempenhadas, das instâncias de inserção privilegiadas e da ocorrência de vínculos estabelecidos.

  No capítulo cinco a noção de redes de contatos é mais detidamente abordada, uma vez que constitui recurso recorrente em diferentes etapas do itinerário dos clérigos, que reivindicam, por meio de suas intervenções, uma independência para suas ações engajadas, fato que produz uma tendência à consagração do ofício de sacerdote que os agentes exercem. O capítulo seis apresenta os aspectos definidores de uma matriz da ação engajada baseada em concepções formuladas, adesões registradas, concorrências objetivadas nas relações entre os agentes e na relevância que socialmente aborda a dinâmica das atividades militantes pontuando eventos, temas e mobilizações em que alguns sacerdotes desta pesquisa estiveram envolvidos, como manifestações estudantis, a questão agrária, a educação popular ou a defesa dos direitos de populações periféricas, que são formas de intervenção apresentadas pelos agentes como estratégias de afirmação.

Capítulo 1: P ropriedades sociais, recursos culturais e mecanismos de socialização:

  descrição geral dos clérigos investigados As diferentes dimensões apresentadas até o momento compõem uma estratégia de análise acerca dos registros de intervenções militantes e dos processos de engajamento como ação efetiva que pode ser manifestada por agentes sociais. Desta forma, a análise dos princípios que orientam as ações de agentes vinculados ao espaço religioso mantém relação direta com uma série de disposições sociais, que podem conduzir ou favorecer certa atividade voltada para a intervenção militante. Nesse sentido, a opção analítica para o desdobramento do referido estudo está baseada, precisamente, no esquema sociológico definido como relacional e disposicional, aplicado a esta abordagem.

  Priorizamos, neste momento, os aspectos imprescindíveis à análise da constituição de perfis sociais que apresentam como ponto comum em sua trajetória a escolha de um modo de vida particular dedicado ao sacerdócio, bem como o registro de alguma modalidade de engajamento. Tais aspectos, como determinadas propriedades sociais ou a posse de recursos culturais, constituem princípios de diferenciação que podem (re) definir o espaço social em que os agentes se encontram distribuídos, numa configuração específica. Segundo a perspectiva de Bourdieu (1996c), a (re) definição de um espaço social está relacionada à posição dos agentes em função do peso relativo de determinados capitais que possuem, sendo a comparação entre estes capitais (cultural, econômico) o modo mais eficaz de apreensão de suas posições e tomadas de posições.

  No que se refere ao caso dos clérigos militantes, além da relevância de certas propriedades como origem social, esferas de socialização, pertencimento de parentes ao universo religioso, entre outras, tem-se na detenção de recursos culturais como títulos escolares, aprofundamento da formação religiosa, pós-graduações etc, elementos que apresentam um peso representativo na constituição e desdobramento de uma trajetória religiosa permeada por registros de atividade militante. Desta forma, deve-se enfatizar com uma atenção particular os mecanismos de aquisição e a maneira com que são mobilizados os recursos desta natureza, uma vez que identificados na forma de capital cultural constituem, essencialmente, um princípio de diferenciação privilegiado, embora não se descarte a influência de outras formas de capitais na distribuição dos agentes em

  Decorre destas questões pontuadas que a composição de determinados perfis sugere a idéia de padrões militantes, a partir dos quais é possível captar a dimensão das concepções (política, religião, sociedade, cultura) produzidas pelos agentes sociais, que são forjadas nos registros de inserção e trocas favorecidas pelas relações que estabelecem entre si. O peso de determinado recurso ou propriedade analisados de modo relacional produzem, objetivamente, diferenciações que estão implícitas no plano mais superficial de observação. Ao considerarmos, portanto, a relevância desses aspectos na constituição de trajetórias militantes, a idéia de distinção é reforçada num sentido amplo de práticas e concepções que orientam cada modalidade de ação praticada por um agente.

  Nesse sentido, os registros de intervenções militantes de padres são analisados com base na correspondência, por assim dizer, que se estabelece entre o “espaço de posições ocupadas no espaço social e o espaço de disposições de seus ocupantes”. Deste modo, dispõe-se de um modelo que funciona como princípio de classificação. Assim, ao procedermos com um recorte no espaço social redefinindo sua lógica de estruturação a partir dos agentes, podemos “produzir classes que agrupam agentes tão homogêneos quanto possível também do ponto de vista de suas práticas culturais e de suas opiniões políticas” (BOURDIEU, 1996a, p. 30).

  Desta forma, o conjunto de ações voltadas para alguma modalidade de engajamento na trajetória individual dos clérigos pode apresentar um sentido de coerência na forma de representações, em muitos casos, produzidas pelos próprios religiosos ou pela unidade confessional a que estejam vinculados: uma diocese, uma ordem religiosa específica etc. Desta maneira, determinadas práticas que podem se manifestar de modo diferenciado (mais independente da instituição eclesial, em caráter associativo com segmentos populares, em parceria com políticos etc.), são ativadas em momentos distintos na carreira de alguns clérigos. Com isso, existe uma expectativa maior de que agentes com grau de formação elevado, portadores de títulos adquiridos em seu país de origem ou em outras instituições consideradas “centrais” na Europa, estejam mais bem posicionados no espaço social em relação aos clérigos “locais” para uma inserção militante requisitada e legitimada pela própria Igreja Católica do Maranhão.

  Nesta perspectiva, podemos pensar o repertório de intervenções e de tomadas de representações do clero como grupo homogêneo destinado a produzir mensagens unívocas para públicos variados, garantindo com isso a imagem de unidade do próprio grupo (SEIDL, 2007b, p. 146). Decorre dessa noção que o conjunto de ações mobilizadas pelos clérigos estrangeiros no Maranhão pode ser compreendido sob a forma de estratégias de organização e afirmação dos próprios especialistas da Igreja com o respaldo, via de regra, das lideranças hierárquicas, responsáveis, conforme entende o autor, pela elaboração e apresentação de discursos que visam legitimar a posição da Igreja como instituição capaz de falar com autoridade sobre ampla gama de temas.

  Considerando o que foi pontuado e tomando a dimensão da intersecção dos domínios sociais em questão no estudo, podemos ponderar que o grau de envolvimento de um grupo de profissionais da Igreja com as questões de ordem política e social está assentado numa base de “competências” apresentadas por certos agentes qualificados para se manifestarem sobre os mais diversos assuntos, por mais que a intrusão e a apreciação de temáticas políticas não seja habitual nas esferas mais altas da hierarquia. De qualquer forma, uma tendência observada com base nos perfis dos agentes investigados, independentemente de posições ocupadas no domínio religioso (pároco, frade ou bispo), expõe que as “manifestações públicas” empreendidas por esse grupo de agentes em suas atividades “constituem um dos instrumentos mais difundidos de explicitação do ponto de vista católico, bem como uma das tarefas mais legítimas” atualmente que o seu corpo de especialistas coloca em prática (SEIDL, 2007b, p. 148).

  Entretanto, convém reiterar que as freqüentes representações de unidade e coerência acerca da ação de agentes vinculados ao universo religioso são contrapostas pela vigência de operadores de distinções, no caso das disposições incorporadas, que são elementos definidores de determinado perfil. Deste modo, é favorecida a compreensão do processo de engajamento se considerarmos a influência que os mecanismos ou meios de socialização podem representar na trajetória de cada agente.

  O meio primário e, talvez, uma das mais eficientes formas de socialização seja aquela que deriva das relações familiares. No âmbito da família são transmitidos e reproduzidos determinados valores, comportamentos ou noções iniciais de educação que buscam orientar e situar o indivíduo no mundo social.

  O conjunto de dados demonstrados no quadro abaixo corresponde à descrição do escolha dos perfis em questão se justifica pela consistência das respostas fornecidas, uma vez que nem todos os religiosos responderam satisfatoriamente às questões propostas acerca das dimensões exploradas. Por esse motivo, a construção não apenas deste, mas dos demais quadros deste trabalho é orientada por esta lógica. Ademais, os casos elencados são representativos e expõem as características fundamentais, para fins comparativos, que auxiliam no processo de mais fácil apreensão das distinções e aproximações estabelecidas com base nas propriedades e demais recursos detidos pelos agentes sociais.

  Quadro I Algumas propriedades sociais de agentes entrevistados Dados referentes a 7/10 entrevistas

  Participação em Idade/ Profissão dos pais Escolaridade Instrução Pós-graduação ou outros espaços de ano de dos pais superior cursos realizados socialização nasc.

  Escola básica Filosofia e Congregação dos

  56 Lavradores ____________ (5ª série) Teologia padres (1955)

  Combonianos Conv. Padres Lavrador, Primário Torneiro Capuchinhos/

  58 Teologia pedreiro/doméstica incompleto mecânico/Magistério Exper. Relig c/ (1953) jovens operários Tradutor/ Escola básica Filosofia Mestrado em ciências Escolas de

  64 Profª. de piano, primária Teologia éticas e religiosas orientação religiosa (1947) vendedora de farmácia

  Seminário

  70 ____________ Mestre de Primário Filosofia e (formador) e mov.

  

(1941) obra/Operária incompleto Teologia de juventude

Lavrador/ Escola básica Letras, Filosofia, Especialização em Movimentos de

  73 Professora primária Teologia, questões sociais e ação católica (1938) Sociologia e missionárias Direito Militar/ Escola básica Licenciatura em Convalidação da Escoteiros

  76 Doméstica Filosofia e Filosofia Exército (1935) Direito Seminário/ Educação Filosofia e Pastoral latino Ordem dos

  77 Agricultor/ primária Teologia americana e franciscanos Doméstica (1934)

  Parapsicologia missionários Fonte: Dados coletados em entrevistas

  Com base nas informações apresentadas acima, podemos estabelecer relações que apontam para a configuração de determinados perfis sociais, enfatizando-se as propriedades dos agentes, a relação destas com o processo de aquisição de disposições e sua influência sobre a definição de registros objetivos de intervenção. O primeiro aspecto diz respeito às origens sociais dos agentes representadas pelos indicadores de escolaridade e profissão dos pais. Esses dados demonstram uma regularidade com relação ao universo social do qual provêm os agentes em questão. Sendo oriundos de uma socialização familiar humilde, caracterizada predominantemente pela atividade agrícola e outros trabalhos manuais, além do baixo nível de instrução dos pais (que atingiram no máximo a educação básica primária, em alguns casos incompleta), os futuros clérigos tiveram nos estudos preliminares que visavam a uma carreira sacerdotal a via mais acessível de ascensão social por meio da religião.

  No decorrer deste processo de formação, destacam-se os recursos culturais adquiridos pelos agentes, sobretudo na etapa de instrução superior e através de especializações em áreas distintas do conhecimento. Tais investimentos demonstrados no quadro, bem como determinadas inserções em espaços de socialização, implicam objetivamente numa correspondência entre acúmulo/detenção de títulos escolares e disposições adquiridas (que podem gerar um perfil engajado “politizado”, social, comunitário) com base na constituição de competências e habilidades técnicas necessárias ao desempenho de certas atividades.

  Nesse sentido, a mobilização de determinados recursos relativos aos títulos adquiridos aponta para uma articulação de saberes especializados que credenciam os agentes a atuarem com autoridade reconhecida em um domínio específico. Desta maneira, tem-se conjugada à aquisição dos conhecimentos básicos para a formação sacerdotal (filosofia e teologia), a detenção de outros títulos que legitimam uma “perícia” vinculada à área de atuação dos agentes, a exemplo do caso de clérigos que direcionaram investimentos na área do direito ou priorizaram especializações na dimensão do “social”, vertendo suas ações de intervenção em defesa de segmentos situados numa posição dominada no espaço mais amplo da hierarquia social.

  Podemos pensar, deste modo, o conjunto de recursos adquiridos com vistas à assimilação de uma competência específica como um investimento que pode ser objetivamente instrumentalizado como trunfo nas ações efetivas dos agentes. Ademais, investir na qualificação em uma área determinada ou diversificar o background por meio da aquisição de outros saberes reflete o critério mais efetivo na definição das posições ocupadas pelos agentes. Dito de outro modo, os investimentos mais ou menos como são mobilizados, por exemplo, um padre advogado atuando em defesa dos direitos de lavradores, são decisivos para situar a posição de um sacerdote na hierarquia eclesial.

  Neste espaço específico, as distinções ficam mais evidentes na medida em que o nível de instrução atingido pelos agentes – nível mensurado por meio dos títulos obtidos

  • – corresponde, por homologia, a uma divisão do trabalho religioso estabelecendo-se assim graduações de competências ou níveis de independência que legitimam os clérigos a manipularem os bens simbólicos referentes à atividade religiosa. Nesse sentido, a matriz de saberes constituídos define objetivamente as distinções existentes entre os agentes que ocupam altos postos hierárquicos (bispos com atribuições de destaque, cardeais) e aqueles que administram paróquias ou atuam de modo periférico no domínio religioso.

  Essa matriz de qualificação dos agentes, baseada em seus investimentos escolares, expressa o que na gramática em voga sobre estudos de militantismo se define por um “conjunto de saberes” ou de “savoir-faires” que os agentes “incorporam sob a forma de técnicas e disposições”, precisamente “mobilizáveis em ações coletivas” (MATONTI; POUPEAU, 2006, p. 130). As estratégias mobilizadas em torno de investimentos passíveis de sofrer conversões objetivadas em universos específicos, também apontam para a centralidade e valorização desses recursos escolares num nível de “especialização” que é instrumentalizada para as intervenções.

  O conjunto difuso de experiências em outros espaços de socialização, processadas em diferentes fases do percurso biográfico dos agentes, acentua a constituição de valores, percepções sobre o mundo social em seus variados domínios, que mantêm correspondência com disposições assimiladas e acionadas em situações práticas de ação. Sendo assim, a conformação de um capital militante, proveniente dos registros de inserção efetuados no transcorrer de um trajeto social (escotismo, movimentos de juventude da Igreja, exército, seminário, etc.) traduz apostas específicas e investimentos diversos em dado contexto. Essa sucessão de experiências implica, portanto, na composição de um background militante com base em “saberes, vínculos e habilidades” que, conjugados a outros recursos, pode ser acionado em “diferentes domínios de atuação” (REIS, 2008c, p. 109).

  De modo abrangente, em relação aos clérigos deste estudo a socialização culturais, sociais e, sobretudo, religiosos. Influenciados pela convivência em família, cuja matriz de socialização é marcada fortemente pelo catolicismo, os futuros sacerdotes atribuem aos ensinamentos dos parentes os primeiros contornos de uma conduta pautada em códigos de ordem moral, como “respeito”, “justiça”, “compromisso”, etc., apresentadas como características vinculadas ao seu perfil. Desta forma, os laços familiares representariam não apenas um meio mais direto na difusão de valores e “formação de conduta”, como relatam os religiosos, mas, com base nessas relações são originadas e/ou gestadas as disposições sociais necessárias a determinadas modalidades de inserção social.

  Conjugada à socialização no seio familiar, existem outros mecanismos que favorecem as interações sociais e, conseqüentemente, influenciam nos princípios de visão do mundo social dos agentes. No que concerne a esses mecanismos, os estabelecimentos de ensino (escola básica, secundária, superior) possuem uma representação relevante, uma vez que têm a função de assegurar a reprodução de um modelo específico de educação. As estratégias educativas que funcionam como base de apoio, assim como outras estratégias, à tendência de perpetuação do ser social familiar são traduzidas em “investimentos quanto mais importante for seu capital cultural e o peso relativo em relação a outras estratégias de reprodução” (BOURDIEU, 1996a, p. 35-36).

  Nesse sentido, podemos pensar o papel dos seminários e instituições de ensino vinculadas à Igreja na formação educacional e preparação de clérigos. Embora de origem social humilde cuja pertença familiar remete, em muitos casos, ao mundo rural

  e, a incidência de um relativo capital cultural se registre apenas em casos específicos, o percurso dos agentes aspirantes ao sacerdócio, que ingressaram em instituições de caráter religioso se deve, pelo menos em parte, às influências absorvidas das relações em família e ainda da própria atmosfera religiosa tida como cultural em certos registros de socialização, processados em outros espaços que não fosse exclusivamente o familiar. Destaca-se a freqüência às missas e, sobretudo, a inserção em instâncias educacionais de orientação religiosa.

  Se o ingresso e formação desses agentes em estabelecimentos escolares ligados a unidade confessional católica resultam de uma opção, é preciso considerar que esta escolha provavelmente mantém relação com os valores incorporados a partir de uma de estratégias, mais ou menos conscientes, do grupo familiar a que os agentes pertencem, tendo-se em vista que a realização pessoal do membro postulante a uma vida sacerdotal é a satisfação do próprio grupo familiar. Em certos casos, esta opção é reforçada por registros de parentes inseridos no universo religioso e já consagrados à carreira religiosa.

  Desta forma, os vínculos estabelecidos com o mundo religioso desde cedo, a partir das relações familiares (no caso de um padre, família de sacristãos e colaboradores da Igreja), da participação freqüente às missas (“servindo como coroinha”), através do contato com parentes sacerdotes, favorecem o processo de aquisição de disposições a uma inserção no domínio religioso. Nesse sentido, é pertinente reiterar o papel de uma socialização primária com base em laços de relações que se restringem a grupos específicos, como o núcleo de parentes, a Igreja e os vínculos constituídos no âmbito dos estabelecimentos de ensino.

  

Quadro II

Estabelecimentos de ensino freqüentados

  

Estabelecimentos de ensino / Seminários

Seminário de Saint-Suplice – França

Universidade Federal do Maranhão - Brasil

  

Universidade Federal da Paraíba - Brasil

Seminário de Cave, Convento de Píglio, Faculdade de São Boa ventura

Roma

Universidade de Ottawa – Canadá

  

Universidade Federal do Maranhão - Brasil

Instituto Inter regional de formação teológica - Turim

Escola popular – Colégio Seráfico/São Ludovico/Holanda

Escola internato da ordem franciscana

  

Liceu Clássico/Mantova, Universidade Católica de Milão, Universidade

Estatal de Milão

Sint Norbertus Instituut, Sint Edmonduscollege, Sint Stannislascollege,

Universidade Católica de Lovaina

  Fonte: Dados coletados em entrevistas

  Os dados demonstrados no quadro exposto são referentes aos depoimentos fornecidos por sete agentes num universo de dez clérigos entrevistados. A exposição das se justifica pelo tipo de formação recebida e a correspondência desses saberes adquiridos efetivamente nos registros de engajamento dos padres.

  Convém observar que as experiências e os ensinamentos obtidos nas instâncias de educação, além de proporcionar as bases para a constituição de perfis religiosos, propiciam ainda a inculcação de disposições militantes. Essa relação é apresentada por SEIDL (2009b) em uma análise sobre a composição de carreiras militantes que demonstra o peso da educação formal e a detenção de títulos escolares como recursos sobrevalorizados pelos agentes em seus registros de atuação, sendo os recursos provenientes de investimentos escolares determinantes para a definição de formas de militância. Pensando nessa lógica, o engajamento de clérigos voltado para questões políticas e sociais mantém correspondência com investimentos realizados em seu

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  histórico de formação, como por exemplo, o ingresso em estabelecimentos de ensino dedicado à preparação de padres, religiosos e leigos para atuarem na América Latina.

  Ao caráter formal de transmissão de conhecimentos e “reprodução da estrutura do capital cultural, que se dá na lógica específica da instituição escolar”, acrescenta-se a propriedade concreta que deriva das relações objetivas nestes espaços de interação, favorecendo a constituição de redes privilegiadas de relação entre os agentes. Precisamente, as interações que se constituem como uma rede relacional durável, no âmbito dos estabelecimentos de ensino, como seminários, institutos e universidades especializados na formação de sacerdotes, baseiam-se nas “propriedades comuns” apresentadas por um “conjunto de agentes”, que “unidos por ligações permanentes e úteis”, são portadores de um “conjunto de recursos atuais ou potenciais” traduzidos na forma de capital social ativado como trunfo para afirmação em determinado espaço. (BOURDIEU, 2010, p. 67).

  Essas cadeias de relacionamento tecidas nestes espaços de socialização, ressaltando-se também o perfil da instituição – aquela que preza por uma formação na área de humanidades ou a que imprime uma ortodoxia mais acentuada, etc. –, favorecem certamente uma diferenciação de perfis. Deste modo, entende-se que as disposições adquiridas são produzidas, de forma representativa, pelas relações de 14 proximidade, ou melhor, pelo conjunto de afinidades potencias que se manifestam na

  

Seminário de Lovaina, Bélgica, instituição freqüentada pelo clérigo Jean Marie Van Damme investindo

em uma formação que lhe oferecesse condições para atuar em um “país de terceiro mundo”. (VAN DAMME, entrevista ao jornal Vias de Fato, janeiro de 2011 ) relação com seus interlocutores e correligionários responsáveis pela iniciação das gerações mais novas no universo religioso, como professores de teologia, filosofia, ética religiosa, doutrina da Igreja etc. Destas relações em que afinidades são construídas, as disposições e investimentos com vistas ao ingresso em uma carreira sacerdotal são estimulados.

  Os próprios registros de inserção nos trabalhos pastorais, com a alocação dos sacerdotes em estruturas eclesiais, são meios privilegiados de socialização através dos quais os perfis se ajustam às disposições mediante novas experiências dos agentes. O destacamento de um sacerdote para a realização de determinados serviços pastorais, sobretudo o serviço de organização de comunidades de base, constitui experiência social propícia ao desenvolvimento de um perfil mais voltado, por exemplo, a um engajamento pautado na idéia de “compromisso social”, noção freqüentemente acionada nos relatos. Entretanto, a alocação de clérigos nos diversos serviços pastorais como orientação espiritual, formação política, assessorias, consultorias, passando por funções mais administrativas da estrutura da Igreja, é um parâmetro eficaz – se estabelecermos eventuais correspondências com as posições ocupadas pelos agentes –, na apreensão de padrões específicos de engajamento.

  Nesse sentido, o universo religioso, com base na estrutura eclesial e na distribuição de seus agentes em diversas funções, representa não apenas canais legítimos de socialização favoráveis a alguma forma de atividade, mas representam – de certo modo – uma hierarquização de atribuições. Desta forma, a constituição de padrões de engajamento relaciona-se à posição ocupada pelo agente em função de princípios de diferenciação , que correspondem a formas de atividade.

  Sem dúvida, mecanismos de socialização como os estabelecimentos de ensino, as experiências em família e, até mesmo, a Igreja, com suas estruturas de inserção, compõem meios privilegiados que são determinantes para a qualificação e definição de uma carreira religiosa ou de um perfil engajado. A dedicação a uma vida religiosa apresenta vinculação direta com essas etapas de socialização onde certos valores baseados em uma educação específica são incorporados como disposições potenciais inscritas no agente. De modo razoável, as experiências práticas dos padres corroboram para a constituição das mais diversas percepções produzidas coletivamente, por exemplo, a definição de um senso comunitário, a idéia de “dignidade” e o “sentido da favor de uma causa comum. Esses aspectos presentes nos múltiplos registros de intervenção refletem, segundo Siméant (2001), a freqüência de uma pedagogia de caráter religioso, aprofundada com os ensinamentos do catolicismo nas diferentes etapas de socialização dos agentes.

  Nessa perspectiva, os meios de interação social de base religiosa (núcleo familiar vinculado ao universo católico, escolarização básica e formação superior em estabelecimentos cristãos de ensino, etc.), constituem um estágio primário de socialização, a partir do qual, pode-se pensar uma matriz de valores morais necessários ao exercício do sacerdócio. Convém refletir, precisamente, sobre o tipo de relações estabelecidas, ou melhor, saber em que medida a emergência de um militantismo clerical – com destaque para a participação de padres em instâncias e meios populares – seria produto de uma nova forma de catolicismo.

Capítulo 2: Origens, ocupação, pertença religiosa e modalidades de atuação

  Para o estudo em pauta, no que se refere ao período de nascimento dos padres entrevistados, este varia entre 1928 e 1955, espaço de tempo que compreende gerações distintas. Quanto à origem, são predominantemente europeus, 8/10, sendo que a nacionalidade italiana, 5/10, é um dado significativo em termos quantitativo tomado o conjunto de sacerdotes que se dispuseram a fornecer seu depoimento. Representa objetivamente, nesse caso, metade dos agentes que constituem a população pesquisada.

  No que tange ao universo familiar, a variável escolaridade dos pais apresentada pelos agentes são similares em todas as respostas fornecidas. Tratando-se do grau escolar paterno, a educação básica primária foi o nível que conseguiram atingir os pais de 9/10 dos entrevistados. A mesma tendência é observada com relação ao grau de educação das mães. A formação básica na modalidade primária se repete na proporção de 7/10 dos que informaram precisamente. Quanto à escolaridade do avô paterno, das respostas obtidas, 3/10, cursaram o ensino básico primário. Na mesma proporção foram apresentadas as respostas referentes à escolaridade do avô materno, 3/10 também tiveram escolaridade apenas em nível fundamental. As informações referentes à variável escolaridade dos familiares, pais e avós, demonstram um nível de educação formal deficiente no âmbito familiar. Situação diferente do panorama de educação dos futuros padres, cada um à sua época.

  Sobre a atividade profissional exercida pelo pai dos entrevistados, tem-se uma diversidade de profissões, atividades como militar, mestre de obra, negociante de gado, locutor de rádio, etc. A ocupação profissional de agricultor/lavrador de roça é apresentada por três agentes como fonte de sustento da família a partir do trabalho do pai. Com relação à ocupação da mãe, observa-se atividades diversas como professora, operária e lavradora, ressaltando-se o predomínio da ocupação de dona de casa (4/10). Pela descendência paterna desses agentes, a atividade profissional predominante exercida pelo avô é de lavrador (6/10). Outras ocupações destacadas são as atividades de militar e o ofício de mestre de obras. Do lado materno, a atividade de agricultura, 4/10, também é marcante como ocupação profissional do avô desses agentes. Outras atividades mencionadas são as ocupações de militar, sapateiro, fazendeiro e encanador

  Na socialização familiar dos sacerdotes a prática do catolicismo, mais

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devocional ou mais engajado, pelos membros da família e a “fé cristã” desses

  parentes, 7/10 dos que forneceram resposta, são dados relevantes que auxiliam na percepção de um universo simbólico, cuja influência pode ser representativa no percurso biográfico desses agentes. Essa opção de crença religiosa pode se manifestar de diferentes formas, desde a participação de parentes em ordens religiosas específicas (clero regular) ou ainda no clero secular, até a identificação e inserção de um ente familiar em movimentos da Igreja como a Ação Católica.

  Com relação à variável tipo de crença ou militância na família, manifestada basicamente por meio do envolvimento paroquial (assistência em missas, preparação de liturgias, etc.), é patente a predominância de um catolicismo mais sacramentalista e devocionista. Entretanto, outro tipo de crença ou militância, de caráter mais político, foi ressaltado como prática na família de dois sacerdotes. No que diz respeito a essa informação, o ambiente familiar – em casos particulares de socialização – representava um espaço não apenas de assimilação de valores éticos, expressos a partir da fé e da devoção religiosa, mas também um meio favorável à aquisição e constituição de um senso político. Em casos específicos, as percepções sobre religião, política e outras dimensões do mundo social são articuladas, de forma indissociável, nesta etapa de socialização.

  Quanto à ocupação desses religiosos, há uma diversidade de funções ou atividades desenvolvidas por eles em seu ministério de sacerdote. Para 5/10 dos agentes, predominam atribuições pastorais como assessoria religiosa em níveis de arquidiocese e de regional, a função de vigário judicial do tribunal eclesiástico, formação e espiritualidade, acompanhamento de grupos, celebrações de missas, e ainda, a incumbência administrativa de direção paroquial e coordenação de centros de formação ligados a uma diocese.

  Para a parcela de sacerdotes restante, 5/10, a variável ocupação implica o envolvimento e a dedicação a trabalhos que extrapolam o público especificamente eclesial. Considerando essa parcela de agentes, os mesmos se ocupam de atividades como participação em conselhos específicos ligados a determinadas questões, que são traduzidas em “causas” reivindicadas (causa da saúde, da garantia dos direitos dos encarcerados e dos trabalhadores rurais etc.).

  Todos os agentes em questão possuem um grau de pertencimento (mais ou menos institucional), aspecto que pode influenciar, senão de forma determinante, mas significativa em sua ocupação conferindo certo sentido às suas ações. Neste tocante, para o conjunto de sacerdotes investigados tem-se a predominância de padres oriundos de quadros diocesanos de formação (6/10). O segmento complementar deste universo, 4/10, é composto de clérigos pertencentes a ordens religiosas específicas: Combonianos, Franciscanos e Fidei Donum.

  No que diz respeito ao local de trabalho desses agentes, há uma dispersão por três Estados da região nordeste. Situa-se, predominantemente, no Maranhão, a proporção de 8/10 dos agentes, sendo que metade desta parcela desenvolve seus trabalhos na capital, fato que não inviabiliza eventuais deslocamentos para realização de trabalhos no interior (trânsito constante realizado por alguns clérigos).

  Dos que têm trabalho efetivo fora da capital, 4/10, sua atuação está distribuída por regiões diversas do Estado como as dioceses de Caxias e Coroatá, e as localidades de Arame e Grajaú. A parcela que complementa o conjunto de clérigos, 2/10, atualmente desenvolve atividades nas capitais do Ceará e do Piauí. É importante observar que os dois agentes que atuam fora do Maranhão apresentam registro de atuação neste Estado em determinado momento de suas trajetórias.

  Sobre as formas de atuação desses agentes, têm-se uma pluralidade de linhas de trabalho marcadas por continuidades e descontinuidades, permanecendo ou dando lugar a outras “causas”, de acordo com as motivações objetivas dos agentes em etapas diferenciadas de seu percurso biográfico. Dentre as modalidades de atuação dos religiosos que caracterizaram ou ainda identificam uma forma trabalho, destaca-se o serviço de acompanhamento e orientação dos “meios populares” (Paróquias, CEB’s, movimentos sociais).

  As dimensões de assessoria e consultoria, inclusive de escopo jurídico, em auxílio às comunidades rurais em conflitos agrários, compõem um instrumental de atuação dos agentes, sobretudo, aqueles envolvidos diretamente com a “causa” dos trabalhadores rurais. Considerando-se a proporção de 4/10 dos agentes, esses padres têm ou tiveram sua atuação pautada no trabalho de formação de lideranças, organização de perspectiva de “fé e política”, enfatizada pelos religiosos na auto-apresentação de seu perfil, orienta um conjunto de ações que os religiosos mobilizam em nome de segmentos sociais populares.

  Nesse sentido, categorias como “povo”, “popular”, dentre outras formas de designações que façam alusão a uma coletividade, são freqüentemente mobilizadas por agentes que reivindicam a autoridade para falar em nome desses segmentos no curso das lutas internas que compõem a dinâmica de um espaço específico. O ato da mediação reconhecida em nome de grupos sociais categorizados como populares produz, por si, uma força inversamente proporcional à autonomia apresentada em determinado domínio social. No caso em questão, a intervenção de agentes culturalmente favorecidos e reconhecidos por sua competência de mediação não apenas na esfera religiosa, mas no cruzamento com outros domínios, exerce essa força precisamente pela ausência de autonomia dos domínios nos quais estejam inseridos. Com relação aos clérigos deste estudo, sua influência se verifica, predominantemente, nos domínios social e religioso (BOURDIEU, 2004).

  A mobilização das referidas categorias estão relacionadas ainda às tomadas de posições que guardam uma dependência, em sua “forma e conteúdo”, com “interesses específicos” do agente vinculado a determinado domínio, bem como correspondem também à “posição ocupada” pelo agente no interior do domínio ao qual está inscrito. Deste modo, o cruzamento de registros engajados de clérigos que remonta a uma lógica de concorrência pela imposição de visões do mundo social produzidas por agentes de outros domínios, reforça o sentido de disputa em torno das categorias de “povo” e “popular” que constituem “um dos alvos em jogo na luta entre os intelectuais” (BOURDIEU, 2004, p. 181-183).

  Para o conjunto de agentes em foco, 2/10 dos religiosos têm sua atuação marcada por características bem particulares. Um deles apresenta em seu itinerário de sacerdote, um tipo de atuação mais institucional explícita em acompanhamentos pastorais, em formações na linha de “espiritualidade” e na ocupação de postos como administrador, professor e reitor em seminários e institutos. O outro tem sua atuação marcada por um engajamento social e político na defesa dos direitos humanos dos encarcerados. Precisamente, seu trabalho é de articulação com outras entidades como a defensoria pública, o ministério público e a sociedade de direitos humanos de

  É importante observar no caso desse agente atuando, hoje, em Fortaleza, que em seu itinerário de sacerdote suas intervenções se registraram no Maranhão sendo a capital, sobretudo nas questões relacionadas à “periferia”, o espaço privilegiado para o seu engajamento. Enquanto esteve em São Luis, fins de 1970/80, foi responsável por uma paróquia da cidade, época em que atuou no trabalho com jovens estudantes, e interveio nos principais movimentos de ocupação urbana, em meados de 1980.

  Outro agente situado no universo investigado, residindo atualmente em Teresina, teve sua atuação e engajamento marcados pelo trabalho de organização das comunidades rurais em que trabalhou durante sua passagem pelo Maranhão. Com ênfase nos “problemas” constituídos, sua atuação se deu na metade da década de 1980, na região de Lago da Pedra e outras localidades (povoados) pertencentes à diocese de Bacabal, região profundamente marcada por conflitos fundiários à época.

  Ainda no tocante à modalidade de atuação, predomina a dimensão dos trabalhos de formação política e social de segmentos populares quer seja organizados nas comunidades eclesiais de base da Igreja ou nos movimentos sociais diversos com os quais os agentes preservam algum vinculo. Para 7/10 desses sacerdotes, há um aspecto central em sua forma de atuação que implica na idéia de mobilização em torno da “conscientização popular” alçada na condição de discurso recorrente numa lógica de disputas com outros setores e agentes que falam e contribuem para a construção dessas causas como legítimas.

  As dimensões social e política dos sacerdotes, com base na participação e nas tomadas de posições efetivas, coexistem com outros registros que priorizam ações mais direcionadas de assessoria ou consultoria nas modalidades de formação bíblica, cursos de capacitação de leigos, formação comunitária, encontros e palestras onde são discutidos temas relativos à prática religiosa no âmbito da própria Igreja (o aprimoramento em conhecimentos de liturgia, estudos sobre documentos específicos do universo católico, etc.).

  Outras modalidades de atuação compõem o repertório de trabalho de, pelo menos, quatro agentes enquadrados na proporção de 7/10. A ênfase aqui recai sobre a produção de artigos, crônicas/denúncias em boletins e jornais paroquiais, intervenção em espaços públicos, bem como concessão de entrevistas sobre questões políticas e sociais, cuja circulação se verifica em meios diversos como o jornal da arquidiocese, periódicos da cidade e livros, sendo esta modalidade de menor incidência no repertório de produção dos clérigos.

  O conjunto elencado de modalidades de atuação empreendidas no itinerário dos clérigos expõe uma gama de estratégias inscritas nas situações objetivas de engajamento, ensejando sentidos para a ação do agente que articula recursos passíveis de mobilização com vistas à afirmação de temas e/ou questões tidas como relevantes.

Capítulo 3: Formas de crença ou militância, recursos, investimentos, concepções e experiências sociais

  A exposição das características mais gerais desses agentes envolve também a questão do tipo de crença ou militância reivindicada por eles. Esse aspecto particular é relevante na identificação de perfis específicos, conseqüentemente, de formas de engajamento diversificadas. Para 3/10 desses sacerdotes, segundo seus relatos, a “crença religiosa confirmada pelo batismo” daria sentido à “missão pastoral” do cristão. Para a parcela que corresponde a 7/10 dos clérigos, a manifestação de uma crença ou militância está associada, mais explicitamente, a um padrão de engajamento político e social.

  Nesse sentido, o envolvimento militante dos padres em causas como a luta fundiária, a defesa dos direitos humanos dos presos ou uma “militância de solidariedade com relação aos indígenas” (Padre Bombieri, em entrevista), é apresentado como dimensão indissociável da fé.

  Parte do percurso biográfico desses agentes (infância e juventude) é marcada por acontecimentos particulares que representam, em maior ou menor medida, um peso em sua decisão por uma vida sacerdotal. Para 4/10 dos sacerdotes, aqueles da geração mais antiga entre os entrevistados, as lembranças de uma guerra são marcantes nas primeiras décadas de suas vidas. Ter passado pela experiência de um conflito armado, (como espectador ou como sujeito ativo), suscita imagens de medo, fome, sofrimento e aflição familiar pela participação de algum parente. Para um agente, em particular, que foi militar, o envolvimento direto em uma guerra (na Argélia) teria significado a descoberta de um “mundo de fé do Islã e o mundo dos pobres” (Dom Xavier Gilles, em entrevista).

  A vivência no seminário também é enfatizada como uma passagem importante do itinerário dos clérigos. Para a proporção de 3/10 dos sacerdotes, a experiência seminarística contribuiu para a constituição de boas relações, com a formação e a consolidação de uma matriz de pensamento, e com um clima favorável ao reforço das convicções pela “vocação” sacerdotal, vista como uma “finalidade que podia realizar a vida” (Dom Luis D’Andrea, em entrevista)

  O seminário também constitui uma experiência aberta (com a influência de construção de uma “idéia de padre cidadão, com visão de mundo, de projetos, de valores éticos, alguém que crê na transformação da realidade local e macro” (Pe.

  

Cláudio Bombieri , em entrevista). Neste caso, em particular, tem-se o peso

  representativo de uma gama de conhecimentos adquiridos com a passagem pelo seminário, instância de socialização cujo peso é decisivo – conforme suas características

  • – na constituição de carreiras e de perfis religiosos.

  Todavia, convém pontuar, que a reatualização do conjunto de experiências apresentadas pelos agentes engendra um sentido de coerência articulado, talvez de modo inconsciente, no ato em que as etapas de um itinerário social são reconstituídas. Deste modo, a auto-apresentação fornecida (seja ressaltando a formação recebida, seja apontando eventos marcantes de seu trajeto) pode representar um artifício discursivo que procura dotar de linearidade uma trajetória que, em si, não possui tal coerência senão pela articulação de um enredo próprio. Mas ao remontar o próprio percurso biográfico de modo encadeado, coeso e linear, em última instância, os clérigos procuram afirmar sua posição e justificar suas tomadas de posições mediante as inserções, que se orientam a partir das disputas pela imposição de princípios acerca do mundo social. Uma forma eficaz de atingir esse objetivo é distinguir-se pelo nível de instrução.

  Os estudos clássicos (grego e latim), a formação universitária, um maior contato com leituras diversas e o acesso à comunicação são aspectos de uma educação que se deu fora de seminários e que marcou o percurso de um agente específico no conjunto mais amplo de sacerdotes investigados. Para esse caso em questão, o aprofundamento dos estudos proporcionou a participação desse agente em movimentos como a Ação Católica.

  Considerando a proporção de 3/10 dos agentes, que relatam algumas experiências pessoais, a fase da juventude é marcada por dificuldades de acesso a informações (como relata o padre Victor Asselin sobre os pequenos meios de comunicação como único veículo de aquisição de uma visão política), pela vivência cotidiana com valores religiosos, por algumas privações em momentos difíceis da vida (perda de familiares), bem como pela influência de pessoas do universo católico, como teólogos mais progressistas. Nesse caso, em particular, a inspiração de teólogos teria apontado para uma “perspectiva radical de catolicismo, para uma ruptura com um catolicismo simplesmente tradição ou religião civil, mas a um catolicismo que interpelava para a contestação” (LAZARIN, entrevista ao autor, em Abril de 2011).

  No que concerne a outras influências atribuídas à atuação desses agentes, as motivações apresentadas são as mais diversas. Para o universo de sacerdotes investigados, 5/10 atribuem à família e ao meio católico vivenciado em seu processo de socialização, papel relevante como influências para sua opção e atuação como religioso. O aspecto motivador e a conseqüente decisão pelo sacerdócio têm como fonte o apoio familiar, a prática intensa do catolicismo em uma cultura específica, bem como a inserção em estabelecimentos escolares de orientação religiosa (desde o nível mais básico, até a instrução superior “marcada por uma cultura universitária rica no sentido da formação oferecida”) (Padre Van Damme, em entrevista).

  Mais dois aspectos de influência na atuação da outra metade dos agentes, 5/10, é a representação de pessoas tomadas como referencias, bem como, a relevância de determinados contextos nos quais se inscrevem as trajetórias específicas. Tanto a “capacidade” de interpelação e incentivo que um professor pode mobilizar, como a atitude de autoridades religiosas em acolher e auxiliar um clérigo estrangeiro são apresentadas como formas relevantes de influência que alguns indivíduos, pertencentes ou não ao mundo católico, exerceram no itinerário dos agentes aqui investigados. Decorre dessas influências, sobretudo aquelas que se referem às relações construídas pelos agentes, que o delineamento de um perfil específico está atrelado às afinidades e aos efeitos que elas podem produzir no itinerário dos clérigos a partir dos vínculos que estabelecem.

  Como se tem compreensão, as possíveis formas de engajamento estão inseridas na esfera das atividades sociais que podem ser desenvolvidas na dinâmica das relações estabelecidas. Conforme essa premissa, as diferentes modalidades da ação engajada se processam segundo lógicas específicas em domínios sociais que têm, por meio da intervenção dos agentes inscritos, seus critérios redefinidos com freqüência. Nesse sentido, a ação engajada como atividade produtora de bens culturais e simbólicos nos domínios de atuação será mais bem assimilada na medida em que tais ações forem apreendidas na forma de relações entre recursos sociais, investimentos escolares e concepções elaboradas e reatualizadas pelos agentes.

  Conjugada aos recursos sociais apresentados, a dimensão da formação dos para compreendermos essa relação imbricada que favorece certas formas de engajamento, em última instância, forjados pelas concepções dos agentes socais. Sobre este aspecto, o universo pesquisado fornece dados consistentes que nos permite supor conexões com registros de ação que caracterizam certos itinerários. Segundo uma lógica presumível, quanto aos investimentos básicos exigidos para a formação sacerdotal o grupo dos dez entrevistados apresenta os estudos em Teologia e Filosofia, recursos legítimos às pretensões iniciais de um aspirante ao sacerdócio.

  Além dos estudos filosóficos e teológicos, alguns desses agentes também incorporam à sua formação conhecimentos de outras áreas como aqueles pertinentes ao Direito, 2/10, e ainda, os saberes adquiridos do domínio das Letras, da Sociologia, da História e da Literatura. A formação que privilegia uma matriz de conhecimento voltada para a área das humanidades e para o estudo de línguas como o grego e o latim constitui a base escolar, antes mesmo do ingresso no ensino superior, para 2/10 dos clérigos que freqüentaram o Liceu Clássico (nível de educação básica) em seu país de origem (Itália). Com base na matriz de formação que os agentes apresentam, observa-se que o processo de aquisição de conhecimentos em teologia e filosofia é complementado ou reforçado na forma de investimentos em disciplinas, predominantemente, da área das ciências humanas.

  Essa associação remete à perspectiva de estudo explorada por Coradini (2004), por meio da qual procura demonstrar a constituição de um espaço ocupado pelas disciplinas de teologia e filosofia em relação a outras disciplinas componentes das ciências sociais aplicadas, destacando-se, para o caso em pauta, a área do Direito por representar um domínio de conhecimento priorizado como investimento empreendido por clérigos atuantes, sobretudo nas questões sociais. Nesse sentido, as reflexões sobre o processo de expansão e oferta das ciências humanas em contextos periféricos, uma das dimensões do estudo mencionado, adquire uma centralidade para a análise de perfis engajados, uma vez que auxiliam na compreensão das formas de apropriação de certos conhecimentos que são incorporados e aplicados às práticas militantes dos sacerdotes.

  Deste modo, a assimilação de conhecimentos como a Sociologia, a Antropologia e a História, que podem ser instrumentalizados e, ao que indica, mantêm uma relação complementar com a base de formação sacerdotal dos agentes, reveste novos princípios de legitimação das práticas religiosas. Mais precisamente, há uma tendência, nas que conformam um apêndice de saberes autorizados, acionados segundo princípios específicos. Nesta perspectiva, as disciplinas das ciências humanas e sociais que compõem um background no sentido de saberes e competências acumuladas nas etapas de socialização, teriam a função de legitimar as concepções e visões do mundo social que são produzidas e difundidas por agentes do universo religioso.

  A formação superior desses agentes se deu em instituições de ensino, se não na integra, pelo menos o início de seus estudos (sobretudo em filosofia e teologia), predominantemente situadas na Europa (9/10). Com relação ao perfil dessas instituições por onde passaram os agentes em diferentes fases de sua formação acadêmica, têm-se seminários católicos ligados a universidades, institutos de formação voltados para a teologia e, ainda, estabelecimentos de formação específicos vinculados à determinada ordem do clero regular. Na maior parte dos casos, 8/10, o ingresso dos agentes nas instituições de formação para futuros sacerdotes se deu em seus próprios países (nem sempre em sua região de nascimento), uma vez que todos eles são oriundos de regiões relativamente afastadas em relação a sua capital nacional. Este aspecto do deslocamento em busca de formação em cidades de maior porte favoreceu, certamente, experiências mais intensas de socialização política e engajamento social por meio da inserção no universo operário, através de trabalhos em bairros violentos, atuando nas mobilizações estudantis, etc.

  O percurso de instrução superior desses agentes se efetuou em instituições situadas em contextos diferentes de seus lugares de origem ou das experiências iniciais de formação acadêmica peculiares de sua região. A proporção de 4/10 dos agentes teve seus estudos superiores, não necessariamente na área da filosofia e da teologia, complementados em outros países. Para esta mesma proporção, os estudos tiveram seqüência em instituições de ensino superior no Brasil, sendo que o trânsito desses agentes se deu em cidades diferentes de duas regiões brasileiras. Três destas situadas na região nordeste (São Luis, João Pessoa e Teresina), e outras duas na região sudeste (Petrópolis-RJ e São Paulo).

  Tomando-se o conjunto dos agentes em questão e ressaltando-se ainda as gerações distintas de sacerdotes que compõem esse grupo, tem-se um percurso escolar coletivo – com ênfase na formação superior – compreendido entre 1952-1985. Considerando-se os locais de estudo em que esse percurso tem seu ponto de partida, tem-se a proporção de 8/10 para os agentes que iniciaram sua formação em seu próprio país.

  Observa-se a respeito dos estudos superiores o investimento realizado por um agente, o único do grupo em questão, que inicia seu processo de formação fora de seu lugar de origem. Nesse caso, em particular, o destino primeiro de seus estudos foi uma congregação religiosa vinculada aos padres combonianos, situada em Portugal, sendo que a seqüência da instrução essencial à formação de clérigo, a teologia propedêutica, aconteceu já em domínios de sua nacionalidade (Itália). Embora o conjunto de agentes tomados para esta pesquisa seja de origem estrangeira, registra-se, em certos casos, uma circulação que extrapola as fronteiras da região de onde determinados clérigos são oriundos. Essa mobilidade mantém correspondência com as próprias origens étnicas, ou melhor, com a ausência de condições objetivas de estudos no lugar de origem dos agentes. Nesses casos, os agentes se deslocam a destinos com mais oferta de ensino, geralmente cidades mais centralizadas em seu próprio país e, em casos específicos, outros países circunscritos à região da Europa.

  Além da oportunidade de ingresso em uma etapa de formação superior que possibilita a aquisição de novos saberes, conseqüentemente, a consolidação de uma forma de capital, a circulação dos agentes (sobretudo aqueles que ingressaram em outros países) representa o tipo de socialização favorável à assimilação de disposições e à constituição de competências no decurso dos trajetos individuais.

  Convém acrescentar que a experiência dos estudos iniciais no nível acadêmico e outras experiências não propriamente institucionais (vivência religiosa com trabalhadores operários) tiveram registro no itinerário de metade dos sacerdotes investigados, que passaram por essas etapas de formação nos próprios domínios de sua nacionalidade. Nesse sentido, a Itália se destaca como “celeiro” de formação de futuros padres não apenas pelo contingente maior dos aspirantes ao sacerdócio serem italianos, 5/10, mas pela diversidade da oferta de um ensino específico em diversas regiões do país (Florença, Milão, Mantova, Roma, Trento e Turim). Quanto a esta diversificação na oferta da formação religiosa, bem como em outras áreas, como os investimentos direcionados às disciplinas humanas, deve-se estar atento às influências dessas matrizes como geradoras de disposições particulares.

  Apesar de a Itália ser reconhecidamente um “centro” no que tange à difusão de agente realiza alguma etapa dos estudos em Roma, esse descentramento da oferta de ensino para outras regiões do país e, mais do que isso, o tipo de ensino que é oferecido em cada lugar, representa um investimento que será refletido objetivamente na idéia de sacerdócio e nas práticas sacerdotais. Em outras palavras, a descentralização das modalidades de formação na Itália propicia uma gama de possibilidades, em termos de métodos, concepções institucionais, influências de contatos e/ou vínculos estabelecidos, que pesam na constituição dos perfis. Tal pressuposto apresenta alguma coerência se, relacionalmente, comparamos visões de mundo, posições e tomadas de posição de agentes com uma matriz de formação obtida em centros distintos de aprendizado (Roma e Mantova, por exemplo).

  Com relação a possíveis títulos de pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado), apenas 3/10 do conjunto de agentes aprofundaram seus estudos em nível de mestrado. Sobre as especificidades das opções de mestrado e/ou especializações, destaca-se a área da Teologia (especialização em questões missionárias e sociais), a área das Ciências Éticas e Religiosas e a área da História e outras Ciências Humanas (Filosofia, Sociologia, Psicologia).

  O conjunto de investimentos realizados pelos agentes (aquisição de saberes e títulos em estabelecimentos de ensino superior), bem como a assimilação de conhecimentos e outras habilidades que não estão submetidas à chancela da universidade, sendo adquiridas em outros espaços, constituem um quadro geral de especializações que produzem efeitos ou condicionam as disposições dos agentes. Nesse sentido, um investimento específico empreendido por um agente que não tem o perfil acadêmico universitário, mas se dedica, por exemplo, a estudos na área antropológica, política ou social, pode resultar na constituição de competências igualmente reconhecidas em comparação com a “perícia” adquirida no caso de percursos mais escolados.

  Convém observar, neste caso em particular, que a ausência da experiência de universidade, embora sejam deste domínio algumas referências absorvidas, bem como a falta de uma formação respaldada por títulos, constitui precisamente um principio de distinção deste clérigo em relação aos demais colegas de sacerdócio. O fato desse agente não deter ou acumular grandes títulos no domínio acadêmico funciona como um elemento de valorização de sua auto-apresentação e busca de afirmação enquanto outros agentes que também reivindicam seu lugar com base em recursos que melhor convém mobilizar.

  Deste modo, a constituição de competências necessárias a certas modalidades de intervenção efetuadas por agentes desprovidos de grandes trunfos escolares pode se processar por meio de outros canais: grupos de discussão, vínculos com intelectuais acadêmicos ou correligionários. Esta perspectiva de composição de um repertório de saberes e técnicas por canais que não sejam estritamente acadêmicos, sem desconsiderar a circulação desses agentes neste espaço, ajustam-se ao perfil dos outros sete agentes entrevistados que não apresentam uma alta titulação escolar em termos de pós- graduação (mestrado, doutorado), elemento que parece manter correspondência a posição ocupada por esses agentes.

  Nesse sentido, a correspondência entre títulos possuídos (trunfos escolares raros) e forma de engajamento explicita a coexistência de modalidades engajadas similares no que se refere à natureza das atividades desenvolvidas, mas quanto à posse de recursos culturais de quem as executa constata-se o desequilíbrio, sobretudo se o parâmetro de apreensão do peso desses recursos é o título formal que legítima o agente enquanto “especialista”. Decorre disso, que as ações são orientadas tanto por formas antigas (uma espécie de habilidade prática adquirida com a experiência) de engajamento quanto por novas exigências pautadas na aquisição de saberes especializados.

Capítulo 4: Funções desempenhadas, instâncias de inserção e ocorrência de vínculos

  O repertório de atuação do conjunto de clérigos investigados é caracterizado pelos múltiplos registros efetuados em suas inserções, aspecto que oferece uma idéia de versatilidade às intervenções operadas. O caráter polivalente das ações engajadas no sentido da simultaneidade de alguns registros (engajamento em movimentos sociais, assessoria em paróquias, representatividade em conselhos, etc.) aponta para a questão da diversificação das intervenções, elemento que permite a apreensão de pontos de fricção entre domínios diferentes pelos quais transitam os clérigos. Convém reiterar que tais registros sugerem a efetivação de redes relacionais constituídas com base nos objetivos que os agentes colocam em jogo em determinada circunstância de intervenção. Nesse sentido, é pertinente pensarmos as diversas experiências de participação dos clérigos nesses espaços em termos de composição de alianças, contatos, vínculos e relações múltiplas que favoreçam a imposição de determinadas questões.

  Quanto às diferentes instâncias, instituições e meios sociais pelos quais os agentes passaram ou ainda estão inseridos, há um quadro bastante heterogêneo desses domínios múltiplos que recobrem o conjunto de crenças, visões do mundo social e causas mobilizadas no decurso de uma trajetória religiosa e/ou militante. Numa descrição mais geral sobre a participação dos clérigos em domínios sociais diversos, tem-se que 5/10 desses agentes estiveram vinculados ou ainda mantém algum contato com movimentos eclesiais do tipo CEB’s, Ação católica organizada, Juventude operária e/ou movimentos populares, e instâncias dedicadas a uma causa específica. Estão inseridos ainda em organizações associativas, bem como instâncias de formação social e política etc.

  Sobre o conjunto dos dados apresentados a seguir, são justificados pela consistência que expressam no que tange aos registros de inserção, funções desempenhadas e instâncias de atuação referentes às diferentes etapas que os itinerários dos agentes apresentam. O registro das múltiplas inserções efetuadas pelos clérigos, bem como sua capacidade de estabelecer relações potenciais de reciprocidade, são, em si, mecanismos que produzem as próprias condições do processo de engajamento individual, dos quais resultam as ações objetivas dos agentes.

  É pertinente enfatizar que as ações efetivas dos agentes estão orientadas por lógicas que mantêm relação com o universo de percepções, visões de mundo e concepções que os mesmos constroem com base em suas experiências. Com relação a esse aspecto, a dimensão coletiva é relevante também no repertório de experiências sociais vivenciadas pelos clérigos. As informações fornecidas nas entrevistas expõem, mais precisamente, o delineamento de perfis tipificados como engajados a partir das funções, ocupações e vínculos registrados.

  Quadro III Principais funções, meios de inserção e instâncias de atuação Dados referentes a 5/10 entrevistas

  

Vínculos/funções/ocupações antigas (1960-1995) Vínculos/funções/ocupações recentes (1995-2011)

Assessor da JOC, CEB’s (no interior), paróquias na capital (pároco), bispo no interior (diocese de Viana), CPT (regional e nacional), secretariado do Comitê episcopal França / América Latina, seminário interdiocesano - São Luis (reitor), assessor das pastorais sociais no Maranhão (bispo responsável)

  Vigário judicial adjunto do tribunal eclesiástico de São Luis (sede arquidiocena), vigário paroquial (área metropolitana da capital) Vigário no interior (diocese de Pinheiro), coordenador estadual das CEB’s, coordenador regional e nacional da CPT, superintendente da Cáritas regional (Maranhão/Piauí), assessor da diocese de Porto Nacional (Goiânia)

  Chefe de gabinete (prefeitura de Balsas/MA), assessoria jurídica (prefeitura de Guimarães/MA), consultor do projeto segurança e cidadania (ONU), secretaria de segurança cidadã (adm. Estadual do Ma), formador de lideranças sociais, educador popular Atuou nas CEB’s/cidade de Zé Doca-Ma (missionário), responsável por um seminário franciscano de uma paróquia na capital, dirigiu a diocese de Caxias (bispo), acompanhamento de pastorais, coordenação do seminário menor de Caxias

  Bispo emérito da diocese de Caxias, colaborador no convento dos frades franciscanos em São Luis (celebra missas, ordena padres, etc.) Assessor teológico e educacional da CPT-MA, educador popular na ASP, professor de Introdução e História da Filosofia/CETEMA, representante titular da ASP-MA no Conselho Estadual da Reforma Sanitária (CERES) e Secretário do CERES, membro da Comissão Organizadora da II Conferência Estadual de Saúde, vice- presidente da III Conferência Estadual de Saúde

  Assessor regional da CNBB N5, das Pastorais Sociais e das CEB’s-MA, educador Popular (com assessorias em cursos solicitados no Maranhão todo), direção da Associação de Saúde da Periferia do Maranhão – ASP- MA, professor de Introdução à Sociologia no IESMA, professor de Sociologia e História no Projeto de qualificação de professores – Turilândia, Centro de Guilherme, Cândido Mendes e Presidente Médici - MA

  Atuou nas CEB’s / Balsas-MA (organização de comunidades de lavradores, grupos de jovens, etc.), dirigiu uma paróquia do centro da capital, atuou no radialismo (Rádio Educadora de São Luis), membro da Comissão Justiça e Paz (estrutura ligada à Arquidiocese de São Luis)

  Membro do conselho penitenciário em outro Estado / CE (atuando em defesa dos direitos humanos dos encarcerados), responsável pela parte de comunicação da congregação dos combonianos (criação de blogs, páginas virtuais, etc.) Fonte: Dados coletados em entrevistas Bem mais que uma disposição de dados aleatórios, as informações contidas no quadro representam as possibilidades diversas de atuação que os agentes incorporam ao seu itinerário social. Nesta perspectiva, o conjunto difuso dos registros de participação de clérigos em determinados domínios permite cotejar o fenômeno das múltiplas posições que os mesmos podem assumir. Analisando tais inserções e as relações que a partir delas podem ser estabelecidas pelos agentes, podemos apreender o conjunto das posições assumidas pelos sacerdotes.

  Os dados elencados relacionalmente permitem visualizar características específicas quanto aos perfis constituídos possibilitando, deste modo, estipularmos certos padrões. Nesse sentido, observa-se, predominantemente, uma regularidade nos registros de intervenção em instâncias e meios de atuação voltados para questões sociais. Percebe-se na relação entre os vínculos registrados em etapas anteriores do percurso biográfico e os vínculos mais recentes, com exceção de um perfil, a afirmação de tomadas de posições que reforçam o sentido de um engajamento voltado para as questões constituídas no domínio “social”. Este padrão de engajamento apresenta uma tendência à continuidade, com base nos vínculos redefinidos, variando apenas os registros de inserção dos agentes.

  Convém ressaltar que este padrão se efetua no cruzamento com outros espaços de atuação, como estabelecimentos de ensino, instâncias de representação na “sociedade civil”, e até mesmo em estruturas de administração pública. A ação engajada desses clérigos situados nessas múltiplas esferas de inserção expõe o nível de “politização” da atividade religiosa favorecida pelas influências dos meios socializadores, bem como, pelos sucessivos investimentos realizados pelos próprios agentes. Nesse trajeto que se apresenta bastante dinâmico, registra-se a constituição de vínculos, contatos, ou rivalidades estabelecidas na intersecção com outros domínios.

  Cabe ressaltar o caso específico de uma instância não elencada no quadro, uma escola de formação social e política, meio de inserção que além da participação de um religioso (clérigo pertencente à congregação dos combonianos), tem em sua composição a presença de agentes vinculados ao domínio universitário local.

  Este espaço de atuação tipifica uma rede de contatos e alianças constituída pela presença de agentes portadores de “saberes especializados” na área das ciências humanas que, ao mobilizarem conhecimentos específicos deste domínio, atuam como resultante do cruzamento de registros distintos num espaço comum de interação. Possíveis decorrências dos vínculos estabelecidos com esses “especialistas” repousariam nas estratégias de afirmação do registro religioso em face das tomadas de posição desses intelectuais, ou mesmo, pela apropriação de recursos ou concepções que esses contatos podem oferecer.

  Para além das formas de inserção constituídas com base nos vínculos apresentados, há experiências de socialização e participação em outros meios que se realizam fora do contexto, propriamente, de atuação dos clérigos. Nesse sentido, a presença em cursos de longa duração e de ampla abrangência é a expressão de mais uma entre tantas possibilidades de trânsito desses agentes. Tais cursos ou encontros podem ocorrer em escalas variadas apresentando uma amplitude que vai de um nível mais regional atingindo, inclusive, proporções continentais (como o encontro latino americano de Quito, há trinta anos), ocasião em que estiveram reunidos, por cinco meses, clérigos de dezessete países com o objetivo de tomarem conhecimento da realidade do continente no qual muitos viriam a prestar serviços.

  A participação em ordens religiosas, como a dos franciscanos, “sob a influência de uma Igreja renovada na América Latina, como afirma um dos entrevistados, também teria marcado sua experiência pessoal na condição de sacerdote. A experiência com as “bases” comunitárias, conjugada a uma tendência teológica embasada na fé e na dimensão prática de vida dos agentes, são aspectos apresentados como justificativas ou fundamentação para que os religiosos reivindiquem ou busquem demarcar uma posição legítima nos espaços orientados pela dinâmica das disputas pela imposição de princípios acerca do mundo social.

Capítulo 5: Redes de contatos, por uma independência de ação e a consagração do ofício de sacerdote

  Quanto à cadeia de contatos desses clérigos, sua mera exposição remete a um eixo importante da pesquisa que aborda as múltiplas inserções desses agentes. Sua rede de contatos, vínculos e alianças pode se apresentar estável durante uma trajetória, podendo também ser redefinida dependendo da ampliação ou conservação de laços estabelecidos, que, por sua vez, mantém uma conexão com o trabalho e especificidades das causas que são constituídas. Desta forma, o universo dos principais contatos desses clérigos apresenta-se bastante heterogêneo no sentido de um lócus ou mesmo de suas características sociais.

  Compõem esta plêiade social de interlocução e/ou vínculos agentes de movimentos, grupos sociais e entidades como (CPT, MST, INCRA, Cáritas, sindicatos, camponeses, quilombolas), pessoas que elaboram concepções sobre problemáticas apresentadas como comuns (religiosos, colegas de congregação, membros de comunidades, pastorais), e, ainda, intelectuais do mundo universitário (professores das áreas de Sociologia e História, principalmente), agentes que têm uma inserção no espaço de produção universitária e elaboram leituras da dinâmica social nos seus diferentes aspectos (social, político e econômico). Esses agentes, em particular, embora na condição de produtores de visões do mundo social concorrentes com as visões dos clérigos, são apresentados como interlocutores importantes uma vez que auxiliam no “processo permanente de crítica e autocrítica” dos religiosos (Pe. Claudio Bombieri, em entrevista). Nesse sentido, essa interlocução deve ser pensada em termos de vínculos e alianças estratégicas (relações de cooperação, produção conjunta e consagração recíproca) entre agentes de domínios sociais distintos.

  A extensa rede de contatos e/ou vínculos mantém relação estreita com os investimentos e as formas de trabalho colocadas em prática pelos clérigos. Deste modo, um religioso que orienta sua atuação por um trabalho mais institucional (acompanhamento de pastorais, de famílias e formação de seminaristas) mobiliza uma rede de contatos mais atuante no domínio eclesial, fato que não inviabiliza contatos e/ou vínculos com agentes de outros domínios. Há também posicionamentos de sacerdotes que articulam estratégias de afirmação de sua posição, sustentando a “necessidade de se trabalhar com indivíduos ao invés de fazer alianças com instituições” (Pe. Victor

  

Asselin , em entrevista). Esse ponto de vista reflete uma tendência à valorização da

  “independência” que o trabalho com grupos sem vínculos institucionais pode favorecer, ao passo que também apresenta uma concepção de engajamento que procura maximizar a capacidade de representação que pode ser exercida por um “porta-voz legítimo” de causas “populares”. Esse modo de atuação mais “independente” reivindicada pelos padres reforça a percepção de que esses agentes precisam afirmar constantemente sua posição, garantindo dessa forma um lugar reconhecido onde suas práticas são reconhecidas como legitimas.

  Nesta perspectiva, são freqüentes os contatos com outros padres, religiosos, agentes do mundo católico em geral, como leigos, além do contato com agentes vinculados ao domínio político que em determinado momento definem estratégias, traçam objetivos, constituem causas comuns e estabelecem alianças e/ou vínculos que podem se apresentar duradouros ou mais circunstanciais. No caso específico de dois clérigos, devido a características de sua forma de atuação, estão entre seus contatos órgãos que constituem estruturas de poder dentro de uma dinâmica social, como prefeituras, promotoria pública, polícia militar, defensoria e ministério público. Essa rede de vínculos estabelecidos entre agentes de domínios sociais diferentes expõe a dimensão de interdependência das relações que se estabelecem nos registros de intervenção.

  Tratando-se precisamente de uma eventual inserção dos clérigos em outras esferas de militância como partidos políticos e sindicatos, o conjunto dos religiosos investigados não demonstrou interesse ou convicção em participar ativamente como membro integrante de tais instâncias da vida social. Embora a atuação de muitos deles mantivesse relativa aproximação com essas instâncias (apoiando um grupo político emergente ou participando da vida de sindicatos no interior), efetivamente, a experiência de engajamento desses clérigos, ao que indica, não apresenta em seu histórico registros oficiais de militância político-partidária ou sindical.

  O discurso que preza pelo distanciamento no que se refere a registros de inserções oficiais em estruturas partidárias ou sindicais pode ser interpretado como uma forma de denegação do interesse desses agentes, uma vez que os mesmos (uns mais explicitamente, outros menos) estabelecem contatos extra-oficiais com essas instâncias decorra de um recurso estratégico que consiste na apresentação de um perfil mais “independente”, onde os clérigos investidos dessa “independência” preservariam, segundo o sacerdote Victor Asselin, seu poder de análise e de crítica nas questões em que intervêm. A recorrência a esse discurso reforça a idéia de um engajamento mais “independente” com relação às ações e opiniões sustentadas por alguns dos religiosos.

  Em alguns casos, tal posicionamento representa a demarcação de uma posição identificada ao perfil “heterodoxo” pela criticidade e pela distinção dentro de um espaço definido de posições no domínio religioso.

  Em outros termos, a manutenção do discurso de “independência” das ações implica na estratégia de preservação da posição ocupada em virtude de constrangimentos ou padrões de atuação que o domínio possa exigir de seu ocupante, ressalvada a fragilidade das esferas sociais, em contextos periféricos, na imposição de critérios rígidos sobre a ação dos agentes, o que não exclui por completo a existência de constrangimentos internos, sobretudo no domínio religioso, com relação à atuação de seus agentes. Por outro lado, um perfil mais independente constitui requisito imprescindível na aquisição de gratificações das mais diversas ordens, sobretudo recompensas materiais resultante de serviços prestados pelos sacerdotes.

  Desta forma, entre os clérigos investigados há aqueles que manifestavam apoio direto a políticos e sindicatos, os que apenas observavam os acontecimentos sem maior envolvimento nas questões e os religiosos que contribuíam de modo mais efetivo nesses domínios (registro de um padre que atuou em uma secretaria de governo). A ausência de militância direta, pelo menos oficialmente, em partidos e sindicatos se justificaria na opinião de um dos clérigos pelo fato de que a Igreja Católica – apesar de suas contradições e pluralidades – ainda seria um “lugar possível de se expressar com liberdade” (Pe. Flávio Lazarin, em entrevista). Depreende-se desse ponto de vista, tomando em conta a posição de dominação que esses clérigos ocupam no espaço religioso, que as tomadas de posições mais radicais projetadas no discurso da liberdade de ação e pensamento são formas de legitimação/afirmação de um espaço heterodoxo que seria o lócus privilegiado de inserção e atuação de alguns agentes.

  Sobre a independência de ação em alguns setores do domínio eclesial com relação a outros domínios, como o político, padre Lazarin manifesta a opinião de que o envolvimento e participação direta nessas instâncias de intervenção social ficariam para agentes que compõem o universo religioso, onde caberia aos clérigos a função de orientar, formar, instruir, e aos leigos, o papel de engajarem-se com mais “protagonismo no processo de transformação da realidade”. Para este religioso, os “partidos políticos não constituem mais um lugar de reflexão e críticas bem aceitas”, concepção que sugere ser o domínio religioso esse espaço legítimo de inserção, manifestação de idéias e tomadas de posições, posicionamento que não exclui uma interface deste domínio com a esfera política e seus agentes.

  O conjunto das intervenções operadas pelos clérigos, apesar de não apresentar registros mais explícitos desses agentes nas esferas político-partidária e sindical, desloca a ocorrência de suas práticas – neste caso, uma regularidade – para os diversos meios sociais de organização. As estratégias ou formas de desenvolvimento de trabalho nesses diferentes domínios, bem como as concepções e sentidos que esses religiosos atribuem ao que fazem, são noções que auxiliam na compreensão da sua relação com o mundo da política, por exemplo.

  Nesse sentido, a disposição para a ação engajada dos clérigos pode ser mensurada pelas formas de intervenção (assessoria/consultoria) prestadas a um público bastante amplo (CEB’s, leigos em geral, camponeses, comunidades indígenas...), e, predominantemente, homogêneo no sentido da ocupação de posições dominadas no espaço das relações sociais. O trabalho desses padres mobilizadores de “causas” diversas possui a característica do apelo ao “popular”, reforçado pela crença coletiva dos religiosos de que a “missão clerical está pautada na denúncia e no enfrentamento de tudo que atinge a “dignidade humana”. Assim, o serviço de assessoria e consultoria mantém uma correspondência, baseada em competências, com a função desempenhada pelo religioso em determinado momento de sua carreira de sacerdote.

  Assessorias através de cursos e oficinas relacionadas à educação indígena, embora dirigidas a um público bem específico, também enfatizam, a partir de uma atuação pastoral, a metodologia de intervenção dos clérigos na dinâmica social (uma formação voltada para a atuação na realidade social e política, como ressalta um clérigo). Existem ainda experiências de consultoria em parceria com instituições e organismos internacionais de auxílio e incentivo a projetos de desenvolvimento, como a

  16 16 ONU e a MISERIOR , que possibilitou trabalhos de consultoria realizados por um

ONU (Organização das Nações Unidas) e MISERIOR (Obra Episcopal de Cooperação para o clérigo nas áreas de segurança, cidadania e desenvolvimento via inserção em administrações públicas numa interface direta com o domínio político.

  Outros serviços na linha de assessoria e consultoria estão relacionados à formação voltada para a afirmação de princípios éticos e morais vinculados aos registros militantes (religioso, comunitário, sindical, etc), cursos visando à organização de associações comunitárias e análise de conjuntura, enfim, um conjunto de ações enquadradas na perspectiva definida por alguns clérigos como “educação popular” (a atuação no meio do “povo”). As práticas de intervenção do conjunto de clérigos investigados, entre outras modalidades, seriam mediadas predominantemente por esses serviços de assessoria/consultoria que revelam lógicas políticas específicas de atuação. Essas características de intervenção nos meios sociais populares atreladas a uma opção teologicamente fundamentada estruturam os princípios pelos quais esses padres baseiam suas relações e concebem a política em sentido mais amplo.

  Em termos de possíveis resultados atingidos com esse trabalho, apenas 3/10 dos clérigos expuseram seu ponto de vista acerca de suas intervenções. Com base nas percepções oferecidas pelos padres, um deles afirma viver-se um momento de estagnação com relação às questões trabalhadas junto ao público indígena. Outro deles aponta que a contribuição dada começava a apresentar resultados no sentido de se perceber a formação de núcleos de segurança cidadã aptos a atuarem com projetos já aprovados no governo federal. No último caso, a experiência de apoio do padre teria resultado na articulação de uma associação que funcionou com um número relativo de membros na cidade em que reside, Caxias-MA.

  O quadro variado de experiências do conjunto de clérigos, que teve nas décadas de 1970/80 o ponto de partida para sua atuação no Maranhão, pode ser avaliado conforme a percepção distinta de cada um desses agentes. Esse engajamento é apresentado como a síntese de uma trajetória cuja ênfase recai sobre a “fidelidade à missão da Igreja e à palavra de Jesus Cristo” (Dom Xavier Gilles, em entrevista). A representação de um perfil engajado, com base no apoio à causa dos pobres, também está vinculada, segundo Dom Luis D’Andrea, ao sentimento de gratidão pelo país que oportunizou um trabalho pautado na idéia de “justiça social” e na luta pela garantia de direitos dos quais o segmento “popular” era destituído.

  

progressistas da Igreja Católica, tendo como finalidade funcional efetuar investimentos financeiros em

ONG’s ou instâncias sociais e políticas para a realização de trabalhos e projetos diversos executados, em

  A “tomada de consciência” gradual atribuída a uma experiência militante se processa simultaneamente em seus aspectos político, social e religioso. A “satisfação pessoal” gerada pela colaboração dos trabalhos realizados e os “estímulos” proporcionados pelo contexto encontrado no Brasil, desde o ponto de vista intelectual, de produção e de dinâmica social estariam, segundo a ótica de dois clérigos, na base do processo de aprendizado cuja prática cotidiana ao lado do povo é destacada como experiência valiosa. Para além desta experiência com o povo, avaliada como aspecto relevante da trajetória dos clérigos, os estudos e os contatos a que esses padres puderam ter acesso têm uma centralidade em seus registros de inserções e investimentos dentro da própria Igreja ou em questões mais amplas na interface com outros domínios sociais (Dom Luis D’Andrea e Pe. Victor Asselin, em entrevista).

  Observa-se, na forma como os agentes apresentam seu itinerário, um elemento comum no discurso de cada um deles ao ressaltarem o lugar do “povo” vinculado às suas experiências pessoais. De modo semelhante ao que ocorre no domínio político (REIS, 2008), a ação dos agentes “especialistas” em seu domínio de intervenção está voltada estrategicamente para a constituição de “causas legítimas” inseridas numa lógica de disputas por definições que, freqüentemente, envolvem a idéia de “popular”. Segundo essa lógica, os agentes do domínio religioso atribuem um sentido às suas intervenções enfatizando um engajamento dedicado ao “povo” que os legitimam em sua posição de “porta-vozes”, condição exclusiva que possibilita a esses agentes extrair rendimentos diretos da apropriação que realizam em nome do “povo” e do “popular” nos domínios de concorrências (BOURDIEU, 2004).

  O sacerdócio seria a escolha de um modo de vida reafirmado pelos padres que, ao atribuírem uma valorização às “causas” que ajudaram a constituir, elaboram uma narrativa de autoconsagração retrospectiva que também passa pelo reconhecimento daqueles que compõem os meios de atuação do sacerdote. Numa avaliação pontual do cenário político-social de inserção desses padres, um desses agentes ressalta a bandeira de luta referente à criação de oportunidades de educação dirigidas, sobretudo, aos jovens, como aspecto imprescindível para a construção de uma “nova realidade social”.

  Sentir-se realizado pessoalmente pelo exercício do “dever de clérigo” exprime o sentimento de “missão cumprida”, onde os religiosos destacam as dificuldades superadas, os “momentos de tensão na caminhada” e a “coragem” apresentada nas individuais dos clérigos. Ao avaliar sua trajetória, cada clérigo reatualiza impressões com base em experiências concretas que oportunizaram condições favoráveis à militância e à produção de sentidos para a mesma (Pe. Marcos Passerini e Frei Adolfo Temme , em entrevista).

  Assenta-se precisamente sobre a dimensão dos sentidos que os agentes atribuem às suas práticas o mecanismo de concepções baseado nas experiências de vida de cada um dos religiosos, que elaboram, instituem, definem e redefinem freqüentemente os princípios que melhor expressam sua posição no mundo social. O conjunto das percepções e reatualizações de etapas do itinerário que os agentes apresentam, exprime ou tem o propósito de demonstrar uma constância que os clérigos oferecem sobre si mesmos e acerca da representação da posição que ocupam em determinados domínios onde atuam. Essa constância de si, reproduzida pelo relato de experiências diversas que objetivam a consagração do próprio ofício de sacerdote, sugere a instituição de uma “identidade social constante e duradoura que garante a identidade dos indivíduos (os clérigos) em todos os domínios possíveis nos quais eles intervêm como agentes”. Os relatos consagradores acerca do ofício de sacerdote implicariam, portanto, numa estratégia mais ou menos consciente que os agentes acionam ao reproduzirem todas as suas histórias de vida possíveis, afirmando, deste modo, seu nome em um domínio social específico, neste caso, o religioso (BOURDIEU, 1996a, p. 78).

Capítulo 6: “Matriz ética” da ação engajada: concepções, adesões, concorrência e

  “relevância social das questões” Quanto aos referenciais teóricos e éticos presentes na formação dos religiosos, a bíblia é enfatizada como “fonte de inspiração”, lida a partir de uma perspectiva de

  “libertação das estruturas de dominação social”, cujos preceitos, são considerados pelos agentes elementos de interpelação para ação. Para 7/10 dos clérigos, o conteúdo de “libertação e justiça” extraído das escrituras sagradas propõe uma nova abordagem da religião atrelada à idéia de ser “cidadão”, de agir na “sociedade” em favor das garantias de dignidade a que teriam direito todos os homens. Nessa linha, a vertente teológica dos “pobres” e do “conflito”, sintetizada na literatura da libertação, emerge como orientação ética e diretriz teológica que vai legitimar o trabalho dos clérigos.

  Valores típicos de uma moral religiosa, tais como fé, amor a Deus, amor ao próximo e justiça também são referências assimiladas da bíblia e da tradição da Igreja Católica mencionados por 3/10 dos agentes investigados. Desta forma, a ênfase no apoio aos pobres e na defesa de seus direitos constitui a base de um “comportamento ético” que coloca a “vida humana como prioridade absoluta”. Têm-se, nesse sentido, uma matriz ético-religiosa assentada em preceitos teológicos de conotação libertária, que apresenta ressonância mais abrangente em outros domínios sociais.

  Considerando a opinião de 7/10 dos agentes, esses princípios são sintetizados sob a forma de um “ideal” mais amplo de que a “vida humana em plenitude” e, sua defesa, configura o eixo fundamental das intervenções objetivas, que são coletivamente apresentadas como expressão de uma atividade “missionária” inerente à ocupação de sacerdote.

  Nesse sentido, noções recorrentes como a defesa de valores de justiça social, dignidade, liberdade, enfim, o interesse deliberado em se colocar como defensor legítimo dos “injustiçados” (pobre, negro, mulher etc.), seria uma “luta, ao mesmo tempo, política e religiosa” que encontra sua afirmação nos registros de intervenção efetuados por agentes investidos de “autoridade” reconhecida. Como relata um dos clérigos, “na posição de sacerdote e de cidadão a missão é estar ao lado do mais fraco”. Tais princípios suscitariam, ainda, do ponto de vista dos agentes, a “necessidade de uma difundindo mais “consciência política” e “criando novas estruturas para um mundo mais aberto”.

  Para um agente, em particular, esses princípios que sintetizam os referenciais éticos e teóricos que fundamentam suas ações, não deveriam legitimar exclusivamente uma espécie de protagonismo clerical, ilustrado pelo perfil do sacerdote que vai ao encontro dos pobres, marginalizados e injustiçados que nada têm ou nada podem oferecer. Pelo contrário, o principio fundamental que deveria orientar a ação do sacerdote em seu trabalho seria a idéia da troca.

  “Todos têm algo a ensinar e a aprender”. Apropriando-se de Paulo Freire, a atuação do clérigo é expressa na idéia de que “todos são docentes e discentes”. Desta forma, para este religioso, as pessoas possuem um “capital de experiência, de conhecimento e de leitura que deve ser compartilhado”. Tem-se, nesse sentido, uma concepção de engajamento que procura enfatizar a dimensão coletiva da ação, acentuando a reciprocidade entre os agentes envolvidos e minimizando o peso imprescindível da função de mediação exercida pelos clérigos nesses processos de engajamento (Padre Flávio Lazarin, em entrevista).

  Com uma atuação dispersa, no sentido de lócus diferenciados de intervenção, aspecto que evidencia a dinâmica do trânsito social dos agentes naquele período, as formas de engajamento dos religiosos se davam em oportunidades de intervenções, como através do envolvimento em movimentos favoráveis à ocupação urbana, por meio da participação em romarias da terra, no grito dos excluídos, em mobilizações de apoio aos trabalhadores no 1º de maio, em intervenções pelo Comitê de defesa dos Direitos Humanos, em passeatas de estudantes, greves, etc.

  Para 6/10 dos clérigos os anos de ditadura e, mesmo o período que se seguiu ao regime, teriam representado circunstâncias propícias no itinerário desses agentes pelos registros de envolvimento com a “causa” dos lavradores. Nesse sentido, seus registros de atuação são caracterizados pela adesão e legitimação de instâncias como a CPT e pela forma de intervenção quer seja mais direta (tomando partido nos embates), ou indireta, apoiando entidades nas questões relacionadas aos conflitos agrários. Conforme afirmação de um desses agentes (Padre Victor Asselin), essa época da ditadura ilustra uma conjuntura específica em que teria se notabilizado o “poder de articulação da Igreja frente aos movimentos sociais”, o que reflete um mecanismo de afirmação da própria instituição religiosa, bem como dos agentes a ela filiados e que têm inserção direta nesses meios de intervenção.

  O interesse específico e o empenho particular na constituição de espaços legítimos de atuação, como os meios populares e sociais, é conseqüência de circunstância específica em uma trajetória, motivada, inclusive, por influência de outros agentes que compõem o universo de relações desses clérigos. Predominantemente, a parcela de 8/10 dos clérigos teve contato com determinada atividade, na época em questão, através do auxílio de outros religiosos radicados no Maranhão (quase sempre autoridades eclesiais responsáveis pela vinda desses padres estrangeiros), ou através da própria dinâmica da Igreja em articular espaços propícios de atuação que possibilitavam aos clérigos um trânsito fluído e uma abertura para intervenções em diferentes meios sociais.

  A intervenção na constituição de causas coletivas e a freqüente inserção em movimentos de iniciativa da Igreja Católica, como a Cáritas, a CPT, entre outras estruturas, implicava, segundo padre Victor Asselin, assumir um compromisso com “os diversos rostos da Igreja”, cuja orientação fundamental naquele contexto baseava-se no posicionamento da instituição religiosa, dos espaços mencionados e dos próprios clérigos em afirmar determinadas questões como a conscientização política e a defesa dos direitos dos “injustiçados”. O contato dos agentes com certas atividades seria motivado, ainda, por ideais políticos e sociais que se manifestavam na ocasião de “circunstâncias privilegiadas” como as lutas influenciadas pelas Diretas Já ou as

  

mobilizações pela moradia , eventos transcorridos na experiência de 2/10 dos clérigos

investigados.

  Para as diversas atividades e causas mobilizadas pelos clérigos tem-se um conjunto de posições existentes em seu circulo de relações, que refletem tomadas de posições específicas, concepções e, mesmo, interesses que denotam como esses agentes estão, em determinado momento, dispostos relacionalmente num espaço de lutas. Em meios sociais pelos quais muitos desses agentes passaram como a CPT e as CEB’s, o caráter “participativo”, de “colegiado” dessas instâncias é reforçado como aspecto fundamental de um trabalho coletivo necessário.

  Considerando o relato de um dos clérigos investigados, este confere acerca dos movimentos sociais um sentido de “coesão” para a ação dos agentes que investem no freqüente de religiosos. Em oposição à imagem consagradora de “unidade” dos movimentos sociais, o clérigo afirma que não haveria tal coesão entre os bispos da CNBB (Padre Victor Asselin, em entrevista). Nesse sentido, a percepção do agente contida em seu discurso, é apresentada sob forma de estratégia de consagração dos movimentos sociais com os quais mantém uma identificação que perpassa seu itinerário militante.

  Quanto à existência de posições contrárias de colegas padres nos meios em que atuava, havia sim clérigos com outras inclinações num universo eclesial segmentado em posições e opções distintas de se conceber a dimensão religiosa. Os posicionamentos eram relativos ao desalinhamento de concepções que, em última instância, remetia à discussão sobre o papel dos clérigos frente às questões políticas e sociais. Para os críticos dos padres “progressistas”, o espaço de intervenção dos religiosos deveria limitar-se à “manipulação legítima dos bens de salvação, encarnação ideal típica do padre católico” que enfrenta a concorrência de outros agentes num espaço religioso marcado pelo processo de dissolução (BOURDIEU, 2004).

  O ponto de vista do clérigo ao criticar a postura institucional da Igreja e dos bispos da CNBB na atualidade, justifica-se pela mudança de perfil nessas últimas décadas das lideranças eclesiásticas ao privilegiarem outros temas e questões que não caracterizam o perfil propriamente engajado no sentido consagrado pelo clérigo que tece as críticas. O paralelo feito pelo sacerdote entre uma Igreja hierárquica, na atualidade, marcada pela acomodação e inexpressão de seus agentes frente às lutas por justiça social, e uma Igreja de bispos mais críticos nos anos 1970/80, ilustra, com propriedade, a emergência de um novo perfil que poderia ser descrito pela tendência conservadora dos agentes ocupantes dos postos mais altos. O relato do padre expõe, por fim, a reivindicação de uma forma legítima de exercício do sacerdócio, que se ocupasse de questões e temas de cunho político e social.

  Na vivência relatada de 3/10 dos clérigos, registra-se o apoio marcante de seus pares religiosos em diferentes frentes de intervenção. Tais manifestações de apoio direcionavam-se a grupos políticos emergentes, tidos como alternativa viável nas disputas locais, e às diversas comunidades de lavradores em favor das quais se procurava afirmar como legítima a questão da reforma agrária. As posições favoráveis aos clérigos em suas lutas partiam tanto de colegas sacerdotes, que atuavam diretamente ministro provincial de ordem religiosa etc.). Essa rede de apoio mútuo e heterogêneo, uma vez que partia de espaços e de agentes distintos, teria um peso representativo no sentido do reconhecimento simbólico do engajamento desses clérigos, fato que produziria um efeito de reforço na afirmação de sua posição enquanto porta- voz/mediador investido de competência.

  Para além da retribuição simbólica que o reconhecimento de outros agentes pode gerar sobre o posicionamento dos clérigos, tem-se aí a composição de uma rede de relações entre agentes que é central ao empreendimento das intervenções efetivadas pelos clérigos. Nesse sentido, o mecanismo de vínculos e alianças que pode ser estabelecido nas relações objetivas dos agentes em diversos espaços de atuação pode ser apreendido com base no principio de organização das pessoas empenhadas em alcançar seus objetivos, articulando-se para isso, em alianças que são temporais (BOISSEVAIN, 2003, 147).

  Convêm ressaltar que os múltiplos registros de inserção dos religiosos e as prováveis redes de vínculos e alianças que podem ser constituídas e mobilizadas pelos agentes, dependem significativamente da reciprocidade das relações que os agentes redefinem constantemente entre si. No caso dos clérigos deste estudo, sua posição de porta-voz atuante na intersecção de domínios sociais diferenciados pode favorecer a emergência de coalizões (apropriando o sentido político do termo), que podem ser expandidas no tempo ou serem desfeitas na medida em que os agentes que a compõem atingem seus objetivos concretos. Deste modo, o conjunto de ligações (vínculos, contatos, alianças) estabelecidas entre grupos de agentes que formam coalizões em determinadas e diferenciadas experiências de inserção, no decurso de um itinerário podem ser caracterizadas pela instabilidade das relações produzidas (idem).

  No plano político, há registros de oposição dirigida a atuação de um dos clérigos que desenvolveu trabalhos em diversas frentes na capital maranhense. Entre os opositores do religioso em questão havia agentes do domínio acadêmico e político, uma vez que uma das formas de atuação deste padre se dava no apoio às causas constituídas a partir do domínio da universidade. No caso deste sacerdote, em particular, havia também posições favoráveis ao seu trabalho, que partiam de políticos locais de orientação mais “progressista”. De forma ampla, os posicionamentos existentes em torno da atuação dos religiosos investigados manifestavam-se em pólos contrários

  Algumas “causas” em particular foram apresentadas como positivas e práticas no sentido de “conquista social”. Para além da “tomada de consciência como fruto de uma caminhada”, 2/10 dos clérigos atribuem como conquistas relevantes de seu engajamento junto aos meios populares, desapropriações em favor das famílias de lavradores no interior do Estado, com o apoio de políticos de projeção nacional, bem como a instalação definitiva de outras famílias da capital em ocupações que se tornaram grandes bairros. Cabe enfatizar aqui, de acordo com o relato do padre Victor Asselin, uma tendência de consagração das lutas sociais reivindicadas pelos “movimentos populares de base” que, na opinião do religioso, teriam “contribuído inclusive para a elaboração da própria constituição federal de 1988”.

  No que tange ao momento de entrada no Maranhão, registra-se um intervalo de tempo regular, dez anos em média, que demarca a chegada de agentes situados numa faixa aproximada com relação à idade. Tomando em conta esse detalhe e o momento específico de chegada de cada geração de padres estrangeiros, podemos inferir que o aspecto geracional e as posições aproximadas desses agentes no espaço social mais amplo exercem relativa influência na definição de padrões de atuação, considerando-se alguns elementos que são transversais ao conjunto dos itinerários, como a identificação com as mesmas “causas”, os registros de inserção nos mesmos domínios de atuação, a similaridade quanto a algumas propriedades sociais, as redes relacionais passíveis de constituição e mobilização etc.

  O período de atuação do conjunto de agentes, sobretudo daqueles com mais tempo de permanência no Maranhão, pode ser recortado em conformidade com as atribuições assumidas no decurso de seu ministério sacerdotal. De forma bem genérica, nesse instante, o período de atuação para 4/10 dos agentes se inicia ainda na década de 1960, época em que se registra o primeiro contato com a dinâmica social local. A década seguinte, 1970, é o momento inaugural de atuação para 4/10 dos sacerdotes recém-chegados. Já para a parcela restante dos agentes, 2/10, sua atuação tem início no decênio de 1980. Ressalta-se que o conjunto de religiosos em questão continua atuando ainda hoje nas mais diversas modalidades de trabalho.

  Com relação a outras causas e temas defendidos por esses clérigos, são apresentadas ainda questões relativas ao enfrentamento da violência (por meio da intervenção em instâncias atuantes na política de segurança) e à “educação popular”. relacionados à “necessidade de uma reforma política” (reestruturação da representação política, controle sobre os parlamentares, os partidos de aluguel e sobre o financiamento de campanhas). Quanto a convicções religiosas mencionou-se o sacerdócio às mulheres, o fim do estado do Vaticano e a autonomia às conferências episcopais. As percepções apresentadas expõem, de certa maneira, uma tendência a formas de engajamento baseadas na “radicalidade” das tomadas de posições dos agentes, fato que mantém correspondência com a posição periférica que ocupam no espaço relacional do domínio no qual estão inscritos.

  Numa perspectiva mais ampla, as causas defendidas pelos clérigos traduzem suas concepções acerca do mundo social que são postas em disputa com as concepções de outros agentes constituindo, portanto, uma agenda múltipla de questões que ensejam sentidos distintos ao público que recepciona essas idéias. No caso dos padres, seu domínio de influência ou público alvo predominante são as comunidades religiosas que reconhecem nesses agentes “culturalmente favorecidos” as competências que o credenciam a introduzir temáticas legítimas, como a preservação das liberdades individuais (liberdade de expressão, liberdade de vida etc.), temas em evidência no contexto em que se estabeleceram no estado.

  Em âmbito mais abrangente, os clérigos têm a crença de que essas questões apresentadas seriam relevantes no sentido de propiciarem relações coesas entre os indivíduos, capazes de estabelecer “laços de fraternidade” que possibilitariam um “despertar para um empenho coletivo por mais justiça social”. Essas percepções que são critérios de definição do mundo social produzidas pelos agentes são afirmadas enquanto temáticas e compõem seu repertório de intervenções freqüentemente calcado na idéia de “participação coletiva” que conduziria a um senso de “compromisso” a ser assumido pelos agentes frente às “demandas” constituídas

  O tema da “educação popular” é apontado como outra questão relevante para a dinâmica social mais ampla, uma vez que a própria idéia de um mecanismo educacional mobilizado por agentes competentes e habilitados a intervir junto aos segmentos “populares” contribuiria, segundo a percepção de alguns clérigos, para o amadurecimento de formas de cidadania que deveriam ser assimiladas pelos grupos sociais receptores de seus ensinamentos. Nesse sentido, a proposta de uma educação voltada ao “povo” como modalidade definida de intervenção concerne em uma perpassa vários aspectos das práticas sociais dos interlocutores (público-alvo) desses sacerdotes. Os investimentos mobilizados em torno de uma “educação cidadã” teriam o objetivo de instruir a população para questões como a conservação do espaço público e o ato de reivindicar por direitos junto à administração pública.

  Na visão dos clérigos as dimensões da política e da economia exercem influência marcante na vida prática dos grupos sociais. Há um consenso entre eles em afirmarem que ambas as dimensões podem se refletir diretamente nas “condições de vida do povo (mais saúde, melhores salários, infra-estrutura, água potável, transporte regular, melhor habitação), enfim, devem implicar em direitos reconhecidos”. Para 4/10 dos clérigos, as dimensões em questão se fundem numa lógica calculista dos indivíduos ou antiética, por assim dizer, produzindo efeitos perversos para as relações entre grupos sociais. Nesse sentido, um dos sacerdotes expõe o que poderia ser definido como um ponto de vista “politizado” ou apropriado de conhecimentos sociológicos ao apresentar sua opinião sobre a “classe de políticos que vivem da política e não para ela, fazendo desta uma fonte de lucro e projeção econômica. Para o padre Victor Asselin, seria preciso nos repensar como cidadão e como sociedade.

  No processo de definição e redefinição do mundo social, os clérigos produtores de concepções apresentam a dinâmica social a partir de um complexo de relações que pressupõem oposições que estão em constante redefinição com base no posicionamento assumido pelos indivíduos. Deste modo, suas relações podem ser redefinidas a cada momento em diferentes domínios das práticas sociais como no mundo político eleitoral, onde as relações seriam pautadas na idéia de dependência e de troca de favores. A noção de que as práticas dos indivíduos estariam perpassadas por uma gramática política conectada à dimensão econômica estaria bem “representada no trabalho de lideranças populares nos pleitos eleitorais”.

  As formas de encaminhamento das diversas questões colocadas pelos clérigos são apresentadas de maneira bem heterogênea. Se pensarmos tais questões como temáticas produzidas numa lógica de concorrência, podemos inferir que a mesma lógica é verificada quanto aos meios empregados ou modalidades aplicadas com vistas ao tratamento desses temas. Deste modo, o tratamento de determinadas “questões” pelos clérigos varia, segundo percepções distintas, de um ponto de vista crítico em torno dos limites e/ou fragilidades quanto a atuação, a opiniões mais otimistas sobre a capacidade divergentes sobre um conjunto de temáticas produzidas reforçam o sistema de oposição estabelecido entre agentes que lutam entre si pela imposição de princípios.

  Ao apresentar as concepções que orientam sua forma de atuação e recobrem estratégias que afirmam sua posição, um dos clérigos faz referência ao “envolvimento pessoal sem oportunismo”, privilegiando uma proposta de “educação libertária” como a melhor maneira de encaminhar “questões” que emergem como “demandas” legítimas nas relações objetivas entre os agentes. Um perfil engajado com base em concepções que abrangem esse propósito apresenta posicionamento apoiado na idéia de que a “formação dos indivíduos das gerações mais novas seria capaz de produzir mudanças na dinâmica social” (Padre Victor Asselin, em entrevista). Mais uma vez, o tema da educação é mencionado como pauta integrante de uma série de questões passíveis de serem mobilizadas, na medida em que atualizam os critérios que redefinem os registros de intervenção dos agentes.

  Outras possibilidades de atuação são (re) definidas com base em concepções que reproduzem lógicas de oposição firmadas em novas pautas que os agentes apresentam, a exemplo de questões oriundas das relações de economia no sentido de um desenvolvimento sustentável. Conforme algumas percepções, a atuação pode se definir, em dado momento, pelo envolvimento ou “defesa” de posicionamentos que expõem a “questão” da ecologia como tema. Nesse sentido, um registro de intervenção legítimo deveria levar em conta o impacto de uma “economia caracterizada como destrutiva do ecossistema e das terras”. De acordo com a visão de um clérigo, as “experiências de agro-ecologia, de reflorestamento e do cultivo sem uso de agro-tóxicos” seriam alternativas viáveis de encaminhamento de soluções (Padre Flávio Lazarin, em entrevista).

  Uma forma de atuação mais técnica junto a determinadas instâncias é ressaltada como modalidade legítima de intervenção. Nesse sentido, dois clérigos mencionam a “competência” técnica da Comissão Pastoral da Terra no encaminhamento de causas referentes ao latifúndio. Sua atuação nas comunidades teria recebido o “auxílio da CPT com projetos e políticas públicas viáveis a cada necessidade”. As formas de atuação se diversificavam através da “realização de congressos, encontros e experiências interessantes de produção agro-ecológicas”. Uma característica a ser ressaltada destes registros de intervenção é o apoio angariado pelos sacerdotes junto a instâncias como a clérigos poderia ser material (através de financiamento), ou em forma de assistência especializada por meio de cursos, oficinas, palestras, etc (Padres Zuffelato e Lazarin,

  em entrevista ).

  Capítulo 7: Dinâmica da ação engajada: eventos, temas e mobilizações

  60, 70 e 80, no século XX, como um recorte privilegiado para análises sobre engajamento político, formas de militância e demais processos que remetam a uma modalidade de intervenção. Retrospectivamente, tal importância para o recorte em questão não se dá apenas por ser um momento de consagração histórica de certos acontecimentos, mas sim porque representa um lapso temporal onde as ações dos agentes sociais, (seja pontualmente ou como grupo), estariam orientadas por lógicas circunstanciais, objetivadas em situações específicas e desenvolvidas oportunamente dentro de uma dinâmica social (REIS, 2007; CORADINI, 1998).

  A descrição de eventos, causas e mobilizações desta época, das quais se tem registro do envolvimento de padres estrangeiros, bem mais que a simples exposição de uma sucessão de acontecimentos ou a apresentação de aspectos da rotina de um grupo de indivíduos, implica mais propriamente em lançar mão de um recurso analítico que evidencia um momento pontual da trajetória desses agentes. Os diversos eventos e mobilizações que marcaram a trajetória dos padres tomados para esse estudo, destacam a correlação de forças sociais vivenciada por eles a partir de sua inserção militante em múltiplos espaços na dinâmica social. O relato de experiências desses padres é um esforço por esboçar um “objetivismo provisório que é a condição da apreensão de lógicas da verdade objetivada dos sujeitos sendo também a condição da compreensão completa da relação vivida que os sujeitos mantêm com sua verdade objetivada em um sistema de relações objetivas” (BOURDIEU, 2007, p. 29).

  Dentre os eventos e mobilizações que foram relatados como experiências de atuação dos clérigos, estão em evidência aqueles relacionados à greve estudantil da meia passagem, em São Luis, 1979, e, predominantemente, os acontecimentos referentes à questão dos conflitos de terra, no interior, bem como, das ocupações de 17 bairros na capital. Descrever aspectos da trajetória desses padres não seria apenas a

  

Noção que, segundo Norbert Elias, “refere-se essencialmente a grupos de seres humanos

interdependentes, a configurações específicas que as pessoas formam umas com as outras” (ELIAS, 1999,

p. 13-14). A noção de configuração favorece, pela interdependência estabelecida entre grupos, um

modelo de análise mais objetivo das relações entre os agentes, por meio do qual é possível cotejar tentativa de reconstituir eventos, quase sempre produzidos pelos próprios agentes com base em narrativas consagradoras ou enredos estandardizados, mas sim uma tentativa de redefinição do contexto ao qual estiveram vinculados a partir do complexo de relações objetivas constituídas em suas inserções sociais.

  Nesse sentido, o conjunto de eventos e/ou mobilizações em torno de determinadas causas podem representar situações privilegiadas, onde o envolvimento coletivo a partir de registros comuns de inserção e atuação favorece a oportunidade de criação de laços relacionais. Deste modo, a atividade engajada de clérigos direcionada a uma “causa” específica ou acionada em múltiplas inserções deve possibilitar, pela ligação entre os agentes, a constituição de um repertório comum de mobilização com base no qual se processam as tomadas de posições dos agentes nas suas relações com outros agentes sociais, podendo estas tomadas de posições se apresentarem distintamente nas ações dos clérigos envolvidos nas mesmas experiências de intervenção. Essa perspectiva de articulação pautada na distinção das suas tomadas de posições permite relacionar os níveis de engajamento dos agentes, bem como a definição de padrões apresentados com base no peso relativo que a posse de certos recursos pode representar nessa definição.

  As reatualizações fornecidas com a memória dos eventos ou situações práticas de engajamento expõem além da dimensão das estruturas favoráveis às intervenções, a dimensão subjetiva apresentada pelos agentes, que evidenciam uma gama de percepções que estão na base das disposições traduzidas em ações efetivas. Nesse sentido, a enunciação dessas percepções conforma um discurso consagrador dos registros de intervenções processados no itinerário dos agentes que, inseridos em domínios relacionais de atuação, necessitam impor suas definições sobre o mundo social.

  Dentre os registros de intervenção de clérigos em movimentos, eventos ou mobilizações sociais, ressalta-se o meio estudantil universitário (a partir da organização de diretórios acadêmicos), como um canal legítimo de participação de agentes que mantinham vínculos com o universo religioso e, conseqüentemente, tais vínculos eram concretizados nas relações objetivas com padres que exerciam o papel de orientadores de lideranças estudantis. A proposta de engajamento pautada no apoio ao movimento dos estudantes caracterizaria o perfil de atuação de padre Marcos Passerini em determinado momento de seu itinerário, precisamente no período em que o religioso Reatualizando momentos de sua atuação junto aos estudantes, o clérigo relata uma grande caminhada, evento organizado pelos líderes estudantis em homenagem ao Papa Paulo VI, falecido em 1978. O episódio teve repercussão na cidade mobilizando reações

  18 de autoridades políticas e eclesiais que se mostraram contrários à manifestação.

  Nascido no norte da Itália, em 16 de maio de 1941, padre Marcos Passerini é oriundo de uma família de origem humilde, onde o nível baixo de escolaridade dos jovens, em sua região, os obrigava desde cedo a ingressarem no trabalho nas fábricas. Caso de sua mãe que, ainda na juventude, tornou-se operária e não teve condições de concluir nem os estudos primários, grau de escolarização também atingido por seu pai e por seus avós. O jovem Marcos Passerini, filho de um mestre de mão de obras, cresceu num ambiente patriarcal, onde a família era constituída por muitos membros. No seio familiar, com relação a manifestações políticas de parentes, havia apenas tendências. Seu pai manifestava uma tendência à esquerda, ao passo que a mãe, pelo pertencimento à ação católica, era inclinada à democracia cristã, mesma orientação de um de seus tios.

  Com uma socialização fortemente marcada por uma cultura religiosa cristã católica predominante em sua região de origem, padre Marcos Passerini iniciou aos dezesseis anos, em Portugal, com os combonianos, os seus estudos do noviciado quando cursou três anos de filosofia. Regressando de Portugal, em 1962, fez quatro anos de teologia nas cidades Trento e Milão, na Itália. Em 1968, no auge das manifestações pela Europa, foi ordenado sacerdote trabalhando por três anos na Itália atuando como formador em seminário e no acompanhamento de grupos de jovens. Sua chegada ao Maranhão ocorre no início da década de 1970, tendo sido a região de Balsas, num lugar chamado Loreto, o primeiro destino do clérigo. Logo que vem para São Luis, no ano de 1974, o clérigo assume uma paróquia no centro da capital. À frente da paróquia de São João, padre Marcos Passerini desenvolveu trabalhos de formação e orientação junto à juventude, bem como prestou assistência aos menores abandonados que se concentravam aos arredores da Igreja de São João.

  Na década de 1980, a atuação do religioso notabiliza-se pelos diversos registros 18 de intervenção em defesa das comunidades de periferia. Eram recorrentes, naquele

  

Neste evento foi registrada a intervenção da polícia local que teria interrompido a caminhada com um

forte aparato e submetido à detenção e posterior abertura de inquérito o padre Marcos Passerini. Registra-

se ainda a intervenção de padre Sidney, vigário da catedral de São Luis e professor de sociologia da

Universidade Federal do Maranhão, que teria tentado convencer padre Marcos Passerini a não participar momento, os casos de conflitos em torno da fixação de grupos de famílias no solo urbano. Desde o início dos anos 1990, padre Marcos Passerini reside em outro Estado, atuando todos esses anos na pastoral carcerária, em fortaleza, onde integra um conselho local vinculado à secretaria de segurança pública, engajado pela defesa dos direitos dos encarcerados (PASSERINI, entrevista ao autor).

  Sobre a Greve da Meia Passagem, evento que também repercutiu na capital, ocorrido em 1979, atribui-se a participação do clérigo Marcos Passerini que mais uma vez, vinculado aos estudantes, teria sido apontado como um dos responsáveis pelo movimento. No caso, em particular, das mobilizações pela meia passagem, os vínculos estabelecidos entre religioso e estudantes, assumem um caráter efêmero na medida do alcance dos objetivos que estão em jogo. Nesse sentido, as alianças firmadas numa lógica de dependência mútua das relações entre os agentes, tendem a serem desfeitas ao passo que se atinge um propósito desejado (BOISSEVAIN, 2003).

  No referido episódio, as tomadas de posições do clérigo diretamente envolvido não se registram isoladamente. Elas produzem, mediante a amplitude que a causa assume e às circunstâncias do evento, outras tomadas de posições que podem consistir em estratégias de afirmação de um conjunto de agentes que compõem a mesma rede de contatos e vínculos.

  Essa dinâmica é expressa em tomadas de posições públicas, como foi o caso em questão, onde em uma carta dirigida ao “povo” maranhense, várias entidades locais como diretórios acadêmicos, diretórios de grupos políticos, movimentos da Igreja, entre outros, manifestaram apoio ao clérigo a quem foi atribuída, pelo governo, participação direta nos eventos decorrentes da greve. Conforme o documento, os fatos eram justificados da seguinte maneira: “os responsáveis pela revolta do povo são: o desemprego, a fome, os baixos salários, a marginalidade, a falta de moradia, o custo de vida, etc.”

  O documento acima, coletado dentre outros recortes, compõe o dossiê subversão da DOPS/MA, que serve de fonte a esta pesquisa. A carta representa uma tomada de posição coletiva, uma vez que envolve a manifestação de outras entidades, tendo iniciativa da igreja, cujo objetivo seria expor as motivações da greve e também ensejar um protesto pelo fim do inquérito federal aberto contra o padre Marcos Passerini. A produção e divulgação do documento reforça a percepção de uma rede privilegiada de contatos e vínculos que favorecem um trabalho de mobilização comum em torno da afirmação de “causas” em disputa com outros agentes (no caso da “Meia Passagem”, agentes políticos com outras tomadas de posições acerca das mobilizações dos estudantes). Entretanto, com base nessas oposições expostas através dos múltiplos registros efetuados, elemento que possibilita a mobilização de repertórios diferenciados, podemos captar a lógica da distinção que os agentes procuram impor pela manutenção de uma posição, ou pela afirmação de uma “causa” que se torna objeto de disputas.

  A dinâmica da ação engajada no Maranhão dos anos 1970/80 caracterizava-se pelo conjunto de “demandas” apresentadas como coletivas e de caráter reivindicativo junto aos poderes políticos constituídos num contexto específico de mobilizações. Os diferentes temas que compõem uma agenda de atuação dos clérigos como a posse da terra ao lavrador, a garantia da meia passagem aos estudantes, o direito à moradia nas periferias da cidade, entre outros, refletem esta tendência onde a atividade engajada dos religiosos, em suas distintas modalidades de atuação, é auto referenciadas pelos agentes como uma ação “politizada”. Nesse sentido, os registros de intervenção efetuados por clérigos estariam orientados pela percepção de que o conteúdo político de suas tomadas de posições ensejaria uma forma de engajamento imprescindível na luta contra a “desigualdade social”.

  O desafio de animar e organizar as pequenas comunidades de base, cuja dinâmica social oferecia a oportunidade aos padres de constituírem causas legítimas de intervenção, como o “problema” da terra, teria sido recorrente, dentro das particularidades de cada itinerário, na atuação dos clérigos investigados. Em certos casos de religiosos que forneceram depoimento, essas experiências pastorais seriam orientadas, segundo dão a entender, por uma espécie de preceito moral e social baseado na noção de defesa da dignidade da pessoa humana, uma forma de máxima da ética que os sacerdotes incorporam ao seu ofício e reproduzem em seu discurso ensejando certa coerência às ações dos agentes. Desta forma, o tema do “latifúndio” adquire legimitidade na medida em que é amplamente mobilizado pelos agentes, sendo considerado na opinião dos religiosos, de modo consensual, um problema que “agredia a dignidade das pessoas mais simples”, por essa razão, uma justificativa “legítima” para suas intervenções.

  Dentre os sacerdotes mobilizadores da temática agrária e engajados na afirmação desta “questão”, o trabalho de Pe. Victor Asselin e Dom Xavier Gilles é referenciado com ares de consagração entre os que se identificam com a causa pela representação que é atribuída às suas ações neste domínio de atuação no Maranhão. Os problemas mais freqüentes derivados de suas tomadas de posições estariam relacionados a represálias, prisões, ameaças de morte, eventos resultantes da decisão desses agentes em promoverem denúncias contra latifundiários. A propósito, convém registrar que a entrada e atuação de outros clérigos neste domínio legítimo de disputas são favorecidas ocupação de posições de influência no domínio da militância social, o clérigo teria

  19

  exercido um papel fundamental de incentivo àqueles que iniciavam o engajamento na questão fundiária.

  Essa rede de contatos e vínculos entre os religiosos se expandia na medida em que novos clérigos, com um perfil de engajamento em questões sociais, se inseriam no contexto local e se apresentavam para o trabalho de “missão” nos domínios da Igreja maranhense. O percurso do clérigo Xavier Gilles, em seus primeiros momentos no estado, é caracterizado por esse contato que possibilitou uma experiência inaugural do religioso à frente das comunidades de base no interior, atuação que o aproximaria da CPT. O clérigo relata a influência dos contatos em sua inserção nos trabalhos pastorais:

  “Com o trabalho nas comunidades começamos a refletir a partir do fato dos conflitos e da bíblia [...]. E como precisávamos de um instrumento para refletir entramos em contato com a Comissão Pastoral da Terra. Naquela época o padre Victor Asselin que era o coordenador que me ajudou muito. Nesta descoberta deu um trabalho de presença, de apoio, de ajuda, de caminhada com os pobres da terra e com os povos da terra” (GILLES, entrevista ao autor, Catedral da Sé, em abril de 2011).

  Como se percebe, a ação engajada dos clérigos – resultante da mobilização de determinada causa constituída – relaciona-se tanto às percepções subjetivas do agente quanto às suas disposições para certas atividades, aparentemente, sem “especialistas” da Igreja que se ocupassem delas, como sugere o padre Victor Asselin ao falar da “necessidade de clérigos para o trabalho com a CEB’s”. Todos esses elementos estão envolvidos numa cadeia de relações objetivas constituídas a partir das interações entre os agentes que se mobilizam em torno de um repertório comum de ações. Essa agenda seria resultante de um trabalho coletivo acerca da constituição dessas “demandas” que são objeto de disputas no espaço mais amplo de concorrência. Os contatos estabelecidos seriam reforçados pela entrada de novos agentes. De outro modo, o processo de afirmação de “causas” legítimas depende do trabalho de reprodução de agentes ocupados em garantir um espaço legítimo de atuação a partir do universo religioso.

  Nesta perspectiva, enquadra-se a função do religioso Victor Asselin, cuja 19 representatividade atribuída à sua posição como referência no trabalho direcionado às

  

Os registros de inserção do religioso Jean Marie Van Damme no trabalho com as comunidades eclesiais

de base, à época de sua chegada ao Maranhão, teriam sido motivados por uma carta de padre Victor

Asselin informando da necessidade de clérigos que atuassem nessas comunidades. Deste contato teria

resultado o engajamento “voluntário” de Padre Van Damme na CPT que, em sua opinião, “foi uma causas sociais, é apresentada numa breve reconstituição, como caso ilustrativo, dos aspectos relacionados ao seu percurso biográfico.

  Padre Victor Asselin tem nacionalidade canadense, nascido na província de Québec, em 26/07/1938. Sendo o sexto entre quatorze filhos, é de origem familiar modesta (“a família da minha mãe era uma família muito pobre”) e religiosa, “todo mundo era católico praticante”. O ramo paterno da família tinha envolvimento com a política em sua região de origem (povoado de Sully), tendo seu avô paterno exercido a função de prefeito por três vezes. Oriundo de um núcleo familiar com baixa instrução escolar dos pais, o religioso apresenta nível de escolarização superior tendo passado pela Universidade de Ottawa, onde adquiriu formação em Letras, Filosofia, Teologia e Sociologia durante o decênio de 1960. Posteriormente, já radicado no Brasil, tornou-se bacharel em Direito, na Universidade Federal do Maranhão, em 1982. Possui ainda o título escolar de mestre em Teologia (“especialização voltada para questões missionárias e sociais”), adquirido também na década de 1980, na mesma instituição em que se formara duas décadas antes, em Ottawa, capital do Canadá.

  O clérigo Victor Asselin chegou ao Maranhão no dia 31 de julho de 1966 após ter exercido o ensino de filosofia no seminário maior de sua diocese e depois de dois anos de ordenação sacerdotal. O território maranhense como destino é justificado por uma decisão do bispo de sua diocese que, acatando um pedido do Papa Pio XII, decide enviar religiosos para o trabalho de colaboração com o clero local. Sua atuação inicia pelo interior ocupando a função de vigário no município de Guimarães e na diocese de Pinheiro, sendo indicado em 1971 para o cargo de coordenador de pastoral desta mesma diocese. Coordenou, entre 1973 e 1975, as comunidades eclesiais de base em nível estadual, tornando-se o primeiro coordenador das comunidades da Arquidiocese de São Luis atendendo a um pedido de Dom Mota, arcebispo da capital naquele momento. Dessa experiência, possibilitada pelo contato com a alta hierarquia local, o clérigo afirma que “este trabalho (a frente das comunidades de base no estado) o levou a descobrir a necessidade de uma articulação maior, regional e nacional. Foi uma bela experiência de uma Igreja inserida na vida do povo”.

  Nesta passagem de sua trajetória, padre Victor Asselin teve contato com a “realidade do continente” tendo participado, em 1973, do curso de teologia latino- americana realizado na cidade de Quito (Equador). O convite foi feito pelo padre evento relatou: “participavam deste curso, padres e agentes de pastoral de diversos países da América Latina. Era um momento de reflexão profunda sobre a ação da Igreja em busca de sua libertação”. “Pra mim foi fundamental... Eu tive uma idéia muito clara de que eu devia me dedicar a causa dos empobrecidos, dos excluídos aqui no Brasil”. Sua participação no referido evento coincide com seu envolvimento nas articulações que resultaram na fundação, em nível nacional, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Goiânia, no ano de 1975, sendo padre Victor Asselin o primeiro vice-presidente da entidade.

  Um ano depois, em 1976, fundou a CPT no Maranhão, onde esteve na direção até 1980. Depois desenvolveu a atividade de assessoria na diocese de Porto Nacional, no Estado de Goiás (atualmente Tocantins), exercendo também nesta mesma década a função de diretor da Cáritas no Maranhão. Esses anos de sua trajetória foram marcados ainda pela atuação jurídica através do exercício da atividade de advogado, recurso que possibilitou a abertura de um escritório exclusivamente voltado para o trabalho de “assessoria jurídica aos pobres”. O religioso apresenta como recurso necessário, a aquisição de seu título de bacharel em Direito, para justificar a “prestação de serviço” dirigida ao “segmento popular, especialmente na área criminal”. Nesta esfera jurídica, “tanto na área do direito agrário como na área do direito penal”, sua atuação “dedicada às causas rurais e as causas sociais” se estendeu até 1988.

  Na carreira de padre Victor Asselin também se tem registros, em meio a constância de sua atuação pelas pastorais sociais, de inserção do clérigo em processos de administração política. Entre 1995 e 2000, o religioso exerceu a função de chefe de gabinete na prefeitura de Balsas, sul do Maranhão. Até recentemente, 2006, o religioso desenvolveu a atividade de consultoria vinculada ao projeto de segurança e cidadania. Dessa experiência de assessorar o projeto, que resultou de um convite da ONU, o padre foi “levado a trabalhar de maneira direta com a secretaria de segurança”, onde foi criado o programa de “segurança cidadã” do governo de Jackson Lago (PDT).

  O clérigo ressalta a inexistência de laços institucionais com a secretária durante o exercício de sua função como consultor. A atuação de padre Victor Asselin, embora aposentado, é dedicada, ainda hoje, à formação de lideranças, especialmente nas questões sociais. O religioso define seu perfil reivindicando a “competência” de “educador popular” (ASSELIN, entrevista ao jornal Vias de fato, agosto de 2010;

  A trajetória de engajamento de Padre Victor Asselin é constituída de episódios que dão a dimensão de sua posição no espaço religioso maranhense nas décadas de 1970/1980, bem como representam um recurso estratégico que aponta para a construção de si mesmo (o enredo de vida como forma de consagração) quando o agente reproduz diacronicamente seu percurso.

  Um episódio emblemático relatado pelo clérigo se refere à grande repercussão instalada, sobretudo no meio religioso, em torno de ameaças de morte recebidas por conta de denúncias contidas em um livro de autoria do padre. A concepção do livro (1982), publicado recentemente, em 2009, seria o resultado de registros produzidos até o fim de seu mandato à frente da CPT, em 1980.

  Nos relatórios que originaram o livro, padre Victor Asselin reforça sua tomada de posição diante da questão fundiária no Maranhão, apresentando toda uma estrutura de práticas que teriam favorecido a grilagem e a violência. A repercussão de seu trabalho foi veiculada em jornais de São Luís e Imperatriz com posições contrárias e favoráveis às denúncias publicadas no livro.

  Convém pontuar que o itinerário de religiosos, caracterizado por diversas atividades de engajamento é pautado, em alguns casos, por competências específicas e habilidades que legitimam a posição dos agentes num determinado domínio de atuação. No caso do clérigo em questão, a produção do livro, como qualquer outra forma de bem simbólico empregada para a racionalização das próprias experiências militantes, enseja estratégias (mais ou menos conscientes) de afirmação, apresentação e consagração de um perfil que detém algum capital simbólico pelo reconhecimento atribuído à sua trajetória.

  Nesse sentido, os agentes se ocupariam em demarcar um lugar legítimo dentro da lógica de disputas inscrita nos espaços em que estão inseridos. Esse aspecto é reforçado com base nos elementos envolvidos na sociodicéia que os agentes apresentam ao fornecerem um enredo coerente e heroicizante de suas experiências. No domínio religioso, bem como em outros espaços a afirmação e reconhecimento dos agentes sociais mantém uma relação com as gratificações auferidas da atividade militante. Tais retribuições de ordem simbólica, como a publicização do livro, e até aquelas de ordem material, como remunerações recebidas por trabalhos realizados, ensejam esforços de independência de ação de clérigos frente aos pares mais vinculados à instituição, o que reflete, em última instância, a distinção entre perfis que galgam uma posição legítima dentro de seu ofício.

  As experiências de trabalho do clérigo, reunidas em um livro, renderam-lhe momentos “inesquecíveis” e “preocupantes”. Suas tomadas de posições sobre essas questões resultaram na abertura de um processo contra o sacerdote e, segundo o próprio, na montagem de um plano para sua morte: “Tive que pedir proteção pela minha segurança e responsabilizar quem tomaria medidas contra minha vida”. No centro dessa intriga política, apontado como responsável por qualquer coisa que viesse a sofrer o padre, estaria um agente que atuava na área jurídica da Delegacia de Terras, “órgão que deveria resolver os problemas fundiários, mas agiu em favor do latifúndio e acobertou a grilagem” (ASSELIN, entrevista ao jornal Vias de Fato, agosto de 2010).

  Uma forma de reconhecimento e consagração da trajetória deste religioso, que compõe, inclusive, com a publicação do livro ritos de enaltecimento social, são as homenagens manifestadas por outros domínios sociais, como a universidade. A situação em questão se refere à cerimônia promovida pela Universidade Federal do Maranhão, em outubro de 2010, que, dentre personalidades de destaque da sociedade civil, homenageou o padre Victor Asselin pelos “serviços relevantes prestados às lutas sociais” (motivação da homenagem). Na mesma ocasião, também recebeu menção honrosa o líder camponês e amigo pessoal de padre Victor Asselin, Manoel da Conceição, aquele que, na opinião do clérigo, teria prestado uma colaboração de suma importância para a dinâmica das lutas sociais no estado, além de reforçar, por meio de vínculos e alianças duradouras, a atuação dos próprios clérigos

  A repercussão sobre a produção do religioso gerou ainda o reconhecimento do clero maranhense que tomou posição em defesa do padre. Manifestando-se através da mídia, a Comissão Justiça e Paz da arquidiocese de São Luis ressaltou o valor histórico e social do livro produzido pelo Pe. Victor e vem “manifestar sua solidariedade ao sacerdote pela coragem e destemor em denunciar, no exercício de sua missão profética, os fatos lamentáveis que envolvem a grilagem de terras no Estado do Maranhão” (O

  ). A mobilização do clero local em favor do padre expõe um

  Imparcial, em 12/07/1982

  sentido de reciprocidade entre os agentes que pertencem à mesma unidade confessional (o universo religioso católico), bem como reforça a dimensão de “missão” atrelada ao engajamento coletivo.

  Tomada de posição do clero em defesa do Pe. Victor Asselin Recorte coletado do dossiê subversão organizado em pastas de arquivos da DOPS/MA, sob guarda do Arquivo Público Estadual

  O envolvimento de agentes da Igreja Católica em conflitos relacionados a terra problema de amplas proporções, conforme justificam os clérigos, colocaria aos agentes um “senso de moralidade”. Ou seja, a atuação de um clérigo em favor de grupos sociais, como os de lavradores, seria orientada – a partir da reprodução de uma percepção comum – por valores morais, como “dignidade, respeito e justiça”. A causa constituída para a intervenção seria um investimento num quadro complexo de problemáticas sociais e políticas desse contexto específico no Maranhão. A questão da terra é apresentada, então, como pauta relevante e causa a ser afirmada no repertório de atuação desses clérigos.

  Outro caso de percurso emblemático inserido neste panorama conjuntural se refere às experiências do sacerdote Xavier Gilles, cuja posição de liderança e mediador dos conflitos relacionados à questão fundiária seria apenas uma dimensão dos múltiplos registros de inserção que compõem seu itinerário.

  Dom Xavier Gilles possui nacionalidade francesa, tendo como região de nascimento a cidade de Saumur, em 13 de março do ano de 1935. Membro de uma família numerosa e de tradição militar (pai, avô paterno e avô materno eram militares) é o sexto entre onze filhos. As disposições religiosas também estavam presentes nas práticas familiares. Com as duas partes da família “professando a fé católica apostólica romana”, havia no agrupamento parental de Dom Xavier Gilles membros inseridos no universo religioso. Seu pai pertencia à ordem dos vicentinos, um grupo de benfeitores inspirados em São Vicente de Paulo. Uma avó era engajada em movimentos religiosos ajudando num estabelecimento escolar dirigido por irmãs. Seu avô paterno era muito participante de sua paróquia e três tios paternos foram ordenados sacerdotes. Dois destes pertenciam ao clero diocesano (diocese de Lemand, na França) e outro pertencia à ordem dos padres do Espírito Santo. Sua formação escolar básica se deu na cidade Nantes, parte dela num estabelecimento de orientação religiosa (Escola Santo Estanislau).

  Concluído os estudos básicos, pelos dezessete anos, ingressou na escola militar, onde ficou por três anos. Ainda bastante jovem, viveu a experiência de uma guerra na Argélia (norte da África). Esse episódio é ressaltado em sua trajetória como um momento de “descoberta do mundo dos pobres”, “um mundo fantástico de fé do islã”. Depois da experiência de exército e do conflito em outro continente, o futuro religioso ingressou num seminário perto de Paris, num lugar chamado Issy-les-Molineux, sendo em ao chegou ao Brasil, época em que a arquidiocese de São Luis era administrada pelo arcebispo Dom José de Medeiros Delgado e seu auxiliar Dom Antônio Batista Fragoso.

  Sua vinda para o Maranhão (1963) se deu através de um pedido do arcebispo local que necessitava de sacerdotes para o trabalho específico com o meio operário. Esse trânsito foi mediado pelo comitê episcopal para as relações com a América Latina. Obtendo a liberação do episcopado da França, o sacerdote Xavier Gilles iniciou aqui o trabalho de evangelização do mundo operário, a partir da Ação Católica Operária, em particular, atuando junto à juventude operária católica feminina (JOC-F), tendo como seu assistente eclesiástico o padre Manoel de Jesus Soares. Ao reatualizar suas lembranças do inicio do trabalho no Maranhão, o religioso francês recorda as palavras que traduziam a expectativa do bispo auxiliar Dom Antônio Batista Fragoso com relação a sua atuação: - “nós precisamos de um padre maranhense para os jovens trabalhadores do Maranhão. Você não sabe nada do Maranhão e você não sabe nada da classe operária. Esta moça e suas companheiras vão lhe ensinar a ser padre”. O clérigo recém-chegado contou com o apoio de uma equipe composta de oito moças que apresentaram a ele o mundo operário dos bairros de São Luis. Segundo palavras do religioso, “a partir dessa equipe, eu descobri os bairros populares, os movimentos populares, os sindicatos (...)”.

  Os anos iniciais de sua presença no Brasil, no decorrer dos anos 1960, representaram também um período de investimentos em sua formação intelectual, época em que o religioso convalidou seu curso de filosofia pela Universidade Federal do Piauí, em Teresina. Sua experiência acadêmica teve seqüência com a aquisição do título de bacharel em Direito pela Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. Quanto à carreira sacerdotal, o clérigo Xavier Gilles exerceu a função de vigário na paróquia do Monte Castelo, sendo, posteriormente, nomeado pároco do Bairro de Fátima (comunidades situadas na capital). Permaneceu no comando dessa paróquia por quatro anos, sendo designado por volta de (1968), como novo pároco de Urbano Santos e São Benedito do Rio Preto junto com o padre José Antônio Monteiro (“lá eu fiquei uns vinte anos”).

  Em seguida, cuidou alguns anos, seis anos aproximadamente, do secretariado das relações entre a Igreja da França com as Igrejas da Europa e as Igrejas da América Latina (realizava viagens freqüentes nesse trabalho). Exerceu por seis anos, na primeira bispo de Viana, interior do Maranhão, posição que ocupou até setembro de 2010. Deste período em diante é bispo na condição emérita de Viana. Investido na “missão recebida de trabalhar nos meios populares”, o religioso atuou em média três anos a frente da CPT, sendo eleito coordenador em nível arquidiocesano e estadual, estando recentemente também na coordenação nacional. Por igual período, três anos, esteve na organização e “animação” das comunidades de base. Dom Xavier Gilles exerce hoje oficialmente a função de vigário judicial adjunto do tribunal eclesiástico de São Luis e no fim de semana é vigário paroquial do Maiobão (GILLES, entrevista ao jornal Vias de

  fato, dezembro de 2009; GILLES, entrevista ao autor, abril de 2011)

  O perfil engajado do religioso também lhe rendeu notoriedade através de debates intensos nos jornais locais, forma de afirmação manifestada em suas tomadas de posições contrárias à política fundiária do governo do Estado. Em declaração do secretário do interior, Fernando Castro, em edição de O Imparcial, 12/06/1982, as críticas de Xavier Gilles seriam injustas e produto de um desconhecimento propositado do trabalho realizado pelo governo nas questões relativas aos problemas da terra. “O padre Xavier, de todos conhecidos pela sua maneira apaixonada e radical de enfocar a questão fundiária, se preocupa em atacar o sistema e omite as realizações em favor do pequeno trabalhador”. Investido na posição de porta-voz legítimo dos interesses dos lavradores, suas tomadas de posições no debate mais amplo sobre a questão fundiária seriam traduções de como os agentes percebem o mundo social, sendo que as percepções traduzidas em tomadas de posição dos agentes se opõem às percepções de outros agentes a partir das relações objetivas que são estabelecidas.

  Essa configuração de oposição entre os agentes (clérigos/agentes do governo, Igreja/Estado) se apresenta constantemente no que se refere à dinâmica dos debates em torno das temáticas que emergem como “demandas coletivas”. Nesse sentido, os dois pólos dessa relação oposta procuram acionar estratégias que afirmem seus agentes, enquanto ocupantes de posições num espaço relacional, diante de uma “causa” em disputa. Caso notório dessas estratégias de afirmação é explicitado nas tomadas de posição do clero maranhense que, representado pelo seu episcopado “autêntico” e “transparente”, tinha o respaldo institucional para intervir nas mais diversas questões sociais e políticas.

  Na ausência dos “grandes discursos”, havia os “gestos concretos” de “apoio à posição é veiculada em outra nota da instituição eclesial reiterando o apoio da Igreja local e de amplos segmentos da “sociedade civil”, em face de ameaças dirigidas a alguns clérigos como o padre Victor Asselin. As percepções que enunciam as práticas na dimensão do “testemunho”, da “opção de fé” e do “compromisso social” ensejam um mecanismo de reconhecimento que consagra não apenas o agente singular, mas também a unidade confessional como agente coletivo. Tais estratégias de afirmação de posição (com base no reconhecimento recíproco entre os agentes) produzem um efeito de retribuição simbólica pautado na disseminação da idéia de “dever missionário da construção de uma sociedade humana, mais justa e fraterna”, lógica que assegura aos agentes gratificações, como as “honras e menções respeitosas pelo compromisso da militância (O Imparcial, 1982).

  “popular” De maneira fragmentada, independente do lugar onde estivessem prestando seus serviços pastorais, os clérigos investigados, com exceção de um caso (um perfil de formador de seminaristas e administrador institucional), desempenhavam suas funções de sacerdote mobilizando os “problemas” constituídos frente uma demanda representada pelas comunidades assistidas por eles. Convém observar que o trabalho de organização e “conscientização” dessas comunidades de lavradores, camponeses e indígenas, apresentado no discurso do grupo de religiosos como uma “vocação presbiteral”, um “serviço em favor dos mais humildes”, traduz-se nas “diferentes posições dos agentes (que não se deixam apreender senão através das propriedades de seus ocupantes) e correspondem a tomadas de posições homólogas” (BOURDIEU, 1996c, p. 261-262).

  Nesse sentido, bem mais que meramente expor uma causa a que esses agentes tenham se dedicado, interessa captar – a partir de suas experiências – os princípios que orientam suas opções e investimentos que dão sentido a uma atuação engajada sob dadas condições históricas e sociais. A questão fundiária, no Maranhão, certamente não era uma causa exclusiva em que os clérigos deveriam estar necessariamente engajados, mas representou, em algum momento da trajetória deles, uma “demanda social” inscrita num quadro mais complexo que abrigava uma série de outras questões desencadeadas simultaneamente no contexto em foco.

  Outro caso envolvendo a participação de sacerdotes em situações de conflitos agrários remete à experiência de Frei Adolfo Temme (religioso membro da ordem dos franciscanos no Maranhão). Sua atuação, na região do Médio Mearim, no final dos anos 1980, foi marcada por episódios de tensão relacionados a terra. Embora seu engajamento não tenha ocorrido precisamente nos anos do regime militar, situa-se no contexto de abertura política. Essa conjuntura ainda era marcada pela dinâmica dos conflitos agrários, momento em que se tem a inserção de novos agentes neste domínio de atuação no interior do estado.

  Os eventos que marcaram a disputa pela terra em diferentes regiões do Médio Mearim foram acompanhados pelo clero da diocese de Bacabal que tinha entre seus membros alguns sacerdotes alemães, dentre eles, frei Adolfo Temme. Esse religioso relata a situação de perseguição e sofrimento das famílias de lavradores de povoados como Pau Santo, São Manoel e Aldeia. A dinâmica social na qual o religioso estava inserido era marcada, segundo o clérigo, por episódios como assassinatos de trabalhadores rurais e despejos com certa regularidade.

  O cenário descrito por frei Adolfo nessa região, onde procurava orientar as famílias, de forma pacífica, a resistirem no direito de permanecer em seu lugar, contando, inclusive, com assistência jurídica da diocese de Bacabal, caracterizava-se ainda pela violência policial, por chacinas resultantes da pistolagem, pela destruição de habitações, por decisões judiciais favoráveis aos fazendeiros, enfim, por uma série de fatores que acirravam mais os conflitos agrários. A atuação do religioso não se restringia às celebrações de missas ou animação de comunidades, pautava-se também no trabalho de apoio às famílias de lavradores e de denúncia dos conflitos.

  Convém reiterar que os registros de engajamento de um agente refletem suas percepções acerca do mundo social, que são medidas por suas experiências objetivas na dinâmica em que está inserido. Seus esquemas de percepção da “realidade” conjugados a uma dimensão de conjuntura produzem tomadas de posições correspondentes à posição ocupada pelo agente em determinado domínio de inserção. De um modo mais amplo, os registros de ação engajada de clérigos sugerem a constituição de estratégias que buscam afirmar sua posição dentro de um domínio de atuação, bem como reforçar o sentido de coesão deste domínio numa lógica de reciprocidade. Deste modo, não apenas os agentes, em si, têm a necessidade de se afirmarem, mas os próprios domínios dos quais são provenientes precisam também dessa afirmação que, no caso em questão, é manifestada em tomadas de posições públicas.

  Um caso emblemático disso foi a reação do clero diante da situação relatada pelo religioso Adolfo Temme. A rede de alianças representada pelos laços de pertencimento à mesma unidade confessional teria sido acionada a partir da reação das autoridades eclesiais de Bacabal em “defesa” dos lavradores expropriados e violentados, bem como, em “solidariedade” aos sacerdotes ameaçados em conflito. O envolvimento do clero

  20

  teria sido registrado negativamente na mídia impressa através de notas que 20 responsabilizavam os padres pela implantação do terror na região. Em resposta às Notícia publicada no jornal O Debate, em 26/04/1986. acusações lançadas sobre a atuação dos clérigos, a Vice Província de Frades Franciscanos de Bacabal manifestou-se afirmando que o problema seria a “injustiça dos fazendeiros que armados resistem à execução da reforma agrária” (Carta resposta

  emitida pelos Frades Franciscanos da Vice Província, Bacabal, em 1986 ).

  Essa rede de contatos caracterizada pelo cruzamento com outros domínios sociais teria favorecido o desfecho para o conflito de Pau santo, em Lago da Pedra, episódio em que frei Adolfo teve participação auxiliando os lavradores quando das tentativas de ações de despejo. Na ocasião, a solução política foi mediada pela intervenção de Dom Pascásio Rettler, o bispo de Bacabal que teria viajado à Brasília para encontrar com José Sarney (político maranhense de projeção nacional naquele momento). Frei Adolfo relata que o bispo “conseguiu falar com Sarney e explicar a situação que antes já tinha outras mortes”. “Ele conseguiu uma desapropriação da terra Pau Santo, e assim o povo ficou no lugar de onde não deveria ter saído” (TEMME, casa ).

  dos franciscanos, Teresina, em novembro de 2010

  De uma forma similar, as problemáticas relacionadas à questão da terra vivenciadas pelos padres já mencionados fazem parte da experiência de outros clérigos com atuação por regiões distintas do Maranhão. Deste modo, registra-se o trabalho de Pe. Flávio Lazarin, que chegou ao município de São Mateus (1987) para substituir um colega padre assassinado em virtude de conflitos agrários. Sua atuação esteve pautada nas “lutas pela conquista da terra na região de Coroatá, diocese de Coroatá”. O religioso destaca as conquistas do povo de São Mateus, de Alto Alegre do Maranhão, de Pirapemas e, mais tardiamente, de Miranda do Norte. O aspecto positivo dessas lutas, apresentado pelo clérigo, seria o “compromisso ético e político de lideranças populares que dão continuidade na construção de caminhos positivos (na produção, na defesa da liberdade do conjunto e na relação não apadrinhada por políticos locais)” (LAZARIN,

  entrevista ao autor, arquidiocese de São Luis, em abril de 2011 ).

  Na pauta de atuação pastoral dos clérigos, o tema que remete aos conflitos fundiários é apresentado, a partir do relato dos religiosos, como uma “demanda” freqüente de trabalho. O “serviço pastoral” realizado por esses padres no interior do Maranhão e objetivado por suas disposições específicas pode manter relação com passagens de suas trajetórias antes de chegarem ao Maranhão. Dentre os sacerdotes investigados, alguns passaram por experiências conflituosas como os eventos de maio conflitos armados, entre outros eventos que são ativados na percepção dos agentes ao relatarem e, até mesmo justificarem, experiências mais recentes sobre seu engajamento no contexto maranhense em recorte (1970/1980).

  É necessário ponderar que os religiosos ativam essas experiências como forma de consagração e de atribuição de uma coerência às biografias, bem como tais reatualizações certificam um background não só disposicional, mas prático. Em termos mais precisos, fazer memória de experiências objetivas que podem conferir um sentido coeso ao itinerário social dos agentes significa uma estratégia de justificação de um engajamento presente bem sucedido pelo respaldo que os acontecimentos decorridos conferem às suas intervenções mais recentes. Um perfil engajado é tanto mais reconhecidamente legítimo, sobretudo na arena da militância social, quando o agente mobiliza em seu favor os recursos que atestam sua capacidade prática (competências e habilidades) de um saber fazer prático.

  O registro de atuação desses agentes em questões políticas com desdobramentos sociais, a exemplo dos conflitos de terra, está inscrito num conjunto mais amplo de intervenções vinculadas a outras temáticas que circulam em outros espaços sociais e são debatidas por outros agentes que fazem parte, em casos específicos, de uma rede de interlocução com os religiosos investigados. Deste modo, “demandas” apresentadas como “problemas sociais” são produzidas em várias instâncias sociais sofrendo as mais distintas redefinições que são colocadas em disputa pela mediação de seus “porta- vozes”. No caso particular dos clérigos, a exposição desses temas surge no discurso do grupo de agentes como motivação pelo caráter de denúncia, aspecto qualificativo enfatizado pelos clérigos, que tacitamente consagram uma forma de exercício do sacerdócio inserido no mundo social. A consagração de um modo específico de atuação via inserção política ou social, reflete as disputas por definições legítimas da dinâmica social, bem como a busca de afirmação de posição pelos agentes sociais.

  As experiências de outro padre, que faz parte do conjunto de agentes investigados estão, em sua percepção, conectadas ao sentido de desafio que teria representado sua atuação orientada, em determinado momento de seu itinerário, para o engajamento em torno da questão da terra. Este religioso atuou onde hoje é o município de Arame-MA que, na época de sua chegada, segundo relato do clérigo, “era um grande acampamento com quatro ou cinco mil pessoas que estavam sem terra no meio da mata e não podiam trabalhar porque a terra era tomada por grandes empresas” (Zufellato, entrevista ao autor, Caxias, em novembro de 2010) .

  Com base na estratégia de intervenção apresentada na forma de “ação conscientizadora dos trabalhadores rurais” acerca dos conflitos gerados pela disputa da terra, e por meio da constituição de alianças da Igreja Católica com a Comissão Pastoral da Terra, padre Gianluigi Zufellato – membro da CPT – teria contribuído para a resolução de alguns impasses. No exercício de suas atribuições na coordenação da instância, em sua passagem por São Luis, o clérigo ressalta o apoio recebido de outros agentes que também mantinham vínculos com a estrutura e com o domínio religioso (não há menção a agentes desvinculados da atividade sacerdotal). As intervenções do padre no referido domínio de atuação estiveram respaldadas por uma rede de contatos composta por outros sacerdotes, como Dom Xavier Gilles, padre Cláudio Bergamasci (já falecido) e o sacerdote Marcos Passerini com quem desenvolveu produções e eventos em conjunto, a exemplo, da edição do jornal tempos novos e da organização da primeira romaria da terra no Maranhão ocorrida em Vargem Grande, 1986.

  As tomadas de posições efetivas do clérigo Zufellato em aliança com os demais religiosos mencionados, favoráveis à “causa” dos lavradores, teriam produzido resultados como a desapropriação de 90 mil hectares de terra, onde as famílias poderiam se reinstalar. Posteriormente ao episódio de Arame, padre Gianluigi Zufellato foi designado para prestar serviços pastorais na Diocese de Caxias, onde contou com o apoio de padre Ézio Saviolo, religioso envolvido com questões agrárias no município e atualmente dedicado a formação de seminaristas, ministrando a disciplina de história da Igreja, no Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (IESMA).

  Atuando pela CPT, na época em que era coordenador, 1986/1987, este religioso reatualiza suas impressões sobre outros episódios como o de Arame. “Eu me lembro de um conflito em Lago Verde que tinha um fazendeiro que tinha o terreno dele. 500 hectares ele dizia. Os lavradores diziam que era muito mais. Ele tinha grilado uma área grande” (Zufellato, entrevista ao autor, novembro de 2010).

  A solução para este conflito teria sido mediada pelo Vice-governador do Estado que era João Alberto. Segundo o padre, “O ITERMA fez a demarcação e o problema foi resolvido sem tanta burocracia, sem tanta confusão”. O fato de o padre Gianluigi ter recorrido ao político para resolver o impasse entre fazendeiro e lavradores rendeu-lhe Alberto para o senado federal. Mas, conforme a versão do padre, sua “preocupação era encontrar uma solução para todas aquelas famílias. Eram muitas famílias lá. E assim agente resolveu outros casos em Lago Verde ou ali na região de Bacabal” (Zufellato, entrevista ao autor, novembro de 2010).

  Novamente, a dimensão das percepções apresentadas por um clérigo acerca de sua experiência de atuação tem como foco a valorização da temática dos conflitos fundiários, que resulta da mobilização de agentes sociais orientados por perspectivas específicas quanto à forma de concepção destes temas. No domínio religioso, pelo menos em relação a uma parte predominante dos clérigos investigados, 9/10, sustenta-se a posição de que o problema da terra no Maranhão seria a causa de “desigualdades sociais” e da “opressão do segmento popular” cristalizado na imagem do lavrador. Esses elementos recorrentes no discurso dos clérigos remetem à idéia de que sua ação engajada é constituída com base numa “causa” produzida por um corpo de especialistas, mas que não é exclusiva dos agentes vinculados ao espaço religioso, bem como, por meio da apropriação e do uso legítimo de noções como povo, dignidade humana, popular, conscientização, que são códigos semânticos compartilhados sugerindo a “coesão” de um segmento, cujas relações entre os agentes constituem objetivamente desvios.

  Nesse sentido, constitui uma regularidade nas experiências relatadas, a mobilização das noções de “povo” instrumentalizando as intervenções dos agentes nos domínios de concorrência em que se registra a inserção dos religiosos. Deste modo, o uso freqüente de categorias que aludem a formas de organização e a identidade coletiva de grupos sociais (lavradores, indígenas, camponeses, operários, população de periferia, etc.), compõem um léxico abrangente de termos que ensejam estratégias dos agentes, no nível do discurso, com vistas à afirmação de uma posição na lógica de disputas estabelecida em diferentes domínios sociais de atuação. De acordo com essa perspectiva, os registros de engajamento enquadrados na esfera das atividades sociais dos agentes na medida em que eles redefinem seus objetivos, fato que reflete na própria dinâmica de intervenções, assumem um caráter entendido como “politizado”.

  Enquanto o panorama no interior do Maranhão apresentava-se nesse estado de tensão gerado pelas disputas fundiárias, na capital, São Luis, vivia-se o fenômeno, não menos tenso, de expansão da cidade. Caracterizadas como invasões, designação pejorativa dada às periferias, ou como “ocupações urbanas”, a questão do crescimento desordenado da cidade ocupou as manchetes do noticiário local nas décadas de 1970/80. No referido contexto estão inscritas novas formas de reivindicações envolvendo agentes diversos em torno da questão da moradia, destacando-se os movimentos de bairro, a articulação de padres, as organizações vinculadas à igreja católica, o envolvimento de agentes ligados ao espaço da política e ao mundo acadêmico. Tais elementos estão presentes na perspectiva de análise de Pereira (2010), sobre o fenômeno da militância voltada para a questão da moradia em São Luis.

  Vários segmentos da sociedade civil como a Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos, a Comissão Justiça e Paz, bem como agentes vinculados ao cenário da política ludovicense tomaram posições neste domínio legítimo de disputas constituído em torno da moradia. O crescimento da cidade a partir do surgimento das periferias configurava, naquele momento, um problema social apresentado como questão relevante mobilizada em diversos espaços sociais por um conjunto distinto de agentes.

  As ações de intervenção desse conjunto heterogêneo de agentes ensejam percepções diferenciadas em torno do problema da moradia, uma vez que a percepção dos agentes mobilizadores de determinada temática ou “problema social”, observada sua vinculação a um domínio social específico (político, religioso, jurídico, universitário, etc.), é acionada por disposições que se relacionam a processos específicos de socialização. Nesse sentido, a emergência e afirmação de uma “causa”, como a questão da moradia, se deve à capacidade de mobilização dos agentes que redefinem constantemente, em suas relações, um repertório amplo na forma de questões passíveis de intervenção.

  Deste modo, as ações articuladas envolvendo diferentes instâncias da chamada sociedade civil de São Luis, sugerem uma cadeia de contatos, alianças e vínculos onde

  “causa” constituída e mobilizada por diversos agentes. Para além do que se apresenta como pauta comum de mobilização, em última instância, um trabalho coletivo de constituição de questões legítmas, o nível das percepções em torno do “problema da moradia”, da mesma forma como as visões sobre outras temáticas, seria resultante de lógicas imbricadas que se efetuam a partir de registros cruzados de intervenção. É precisamente nessa intersecção que as percepções dos agentes conformam discursos ajustados à dimensão de sua prática engajada.

  Os eventos de ocupação em áreas da cidade que, posteriormente, se tornariam grandes bairros, são relatados como episódios sempre muito tensos, envolvendo situações de violência policial, tumultos e agitação popular. Alocar um contingente grande de pessoas, de forma ordenada na cidade, oferecendo condições razoáveis de moradia era o grande debate colocado para os agentes que manifestavam suas tomadas de posição diante da questão. Muitas situações de conflito relacionadas à posse sobre determinado espaço da cidade tiveram mediação de agentes ligados a entidades e instituições locais. A intervenção desses agentes se dava através de uma rede de conexões que envolvia a mobilização de saberes especializados na forma de assessoria. Nesse sentido, destaca-se o trabalho especializado de entidades que podem ser tipificadas como ONGs, cuja atuação seria favorecida pelos “investimentos dos agentes” a elas vinculados, bem como, pelo “perfil e interesses específicos” que estão associados à determinada entidade (LANDIM, 1998, p. 24).

  Deste modo, a problemática das ocupações urbanas, esteve na pauta de intervenções e se tornou um escopo privilegiado de atuação para profissionais de diferentes áreas, sobretudo agentes com inserção e experiência no mundo acadêmico. A “temática da moradia” com seus desdobramentos teriam produzido um efeito de intervenção que partia da ação organizada de agentes sociais, mobilizados na prestação de serviços e/ou assessoria nas questões mais técnicas relativas ao processo de ocupação do espaço da cidade. Nesse sentido, a assistência de entidades articuladas com base na interlocução, nos contatos pessoais, enfim, numa rede relacional entre agentes do mundo acadêmico, demonstra a heterogeneidade de concepções coexistentes em torno da mesma temática.

  A composição profissional de agentes aglutinados no quadro de entidades como corpo especializado de assessoria, recobre as mais distintas áreas de atuação. No que diferenciados, duas entidades de visibilidade que atuaram na questão da moradia em São Luis – Comissão Justiça e Paz e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – contavam, em seu quadro de profissionais, com os serviços de sociólogos, antropólogos, assistentes sociais, advogados, jornalistas, economistas, entre outros (PEREIRA, 2010, p. 73).

  Neste cenário de mobilização social, em que se destaca um espectro de estratégias empreendidas nas dimensões coletiva ou individual de atuação, a “causa da moradia” e, tantas outras, como a “questão dos menores abandonados” ou a “situação do homem do campo” compunham a pauta de intervenções, a exemplo da questão estudantil, de Pe. Marcos Passerini cuja função de mediação em muitos desses eventos se processou com base na competência e habilidade detidas para o trabalho com os meios de comunicação, sobretudo o rádio. O referido clérigo utilizava a estrutura de uma estação de rádio local – a rádio educadora – como instrumento de publicização de questões diversas que ocorriam em várias regiões do Maranhão. Através da estratégia de intervenção pautada no meio de comunicação, o religioso vinculado a um grupo de universitários apresentava suas tomadas de posições divulgando e fomentando os debates em torno dos mais diferentes temas, sobretudo, a questão da moradia. A apropriação deste instrumento pode ser percebida ainda como um trunfo de auto consagração da trajetória do agente que procura se distinguir pela versatilidade.

  Os diversos eventos relacionados à questão das ocupações urbanas como notícias de despejo ou assassinatos de lavradores no interior eram repercutidos via publicização pela atividade de mediação do religioso. Atuando como “intérprete” dessas “causas”, o pároco da Igreja de São João, “alto falante do que acontecia”, também manifestava suas tomadas de posições a partir de matérias e artigos produzidos pela rádio educadora. Segundo o religioso, a rádio teria sido “decisiva nos episódios de ocupação dos bairros João de Deus e São Bernardo”, ocasiões em que o clérigo esteve presente tentando impedir a ação da polícia que cumpria a ordem de despejo judicialmente autorizada.

  Numa descrição consagradora de suas intervenções nos eventos, o clérigo se apresenta como um articulador da população na resistência contra as arbitrariedades praticadas pela polícia. De acordo com a reconstituição oferecida pelo religioso, sua atuação se dava, em algumas situações, diretamente dos locais ameaçados de despejo e do orelhão”, o que se passava e, assim, “em pouco tempo a informação estava no ar”. Dessa forma, a atuação direta do padre nas comunidades ocupadas reforça – com base em sua posição de porta-voz – a função de mediação exercida pelo padre Marcos Passerini, na medida em que este agente consegue mobilizar em diferentes instâncias a temática da moradia, colocando-se como representante legítimo das aspirações do povo da periferia.

  Convém reiterar que, a exemplo dos demais relatos oferecidos, as estratégias de consagração dos registros de intervenção dos clérigos são recorrentes e ensejam, como já mencionado em outro momento, possíveis gratificações que valorizam a história de engajamento desses agentes e os singularizam, por assim dizer, pela grandeza das suas ações, cuja reprodução heroicizante do enredo sobre si próprio, tende a proporcionar rendimentos simbólicos e de outras ordens àquele que reivindica uma posição de destaque numa narrativa auto-referente.

  Nesse sentido, é recorrente nos registros de atuação dos agentes que possuem o perfil de inserção social, o fato de reivindicarem para si o direito de falar pelo “povo”, exercendo a mediação junto a outras instâncias que, da mesma forma, procuram se afirmar em relação a um conjunto de agentes também produtores de concepções que concorrem com os clérigos pela imposição de uma visão sobre as necessidades ou anseios da “população”. No caso dos clérigos, essas tomadas de posições que produzem uma forma de identificação com os segmentos populares, em nome dos quais se manifestam, mantêm correspondência com uma gama de propriedades sociais, recursos de origem e investimentos que sofrem redefinições e são mobilizados no decurso do itinerário dos agentes.

  Empreendendo estratégias de afirmação de sua posição e de apresentação da

  21

  causa da moradia como legítima, o clero local se manifestava expondo a questão para o debate em diferentes instâncias sociais, na dimensão de denúncia ao descrever “os abusos” gerados por conta dos conflitos de moradia. Tradução de uma lógica de disputas na qual os agentes estavam inseridos, a crítica dos clérigos recaia sobre a política de governo no tocante à propriedade de terra no espaço urbano. “Os organismos 21 criados para cuidar desse assunto” seriam os mediadores da instalação de “grandes

  

Nota do presbitério da Arquidiocese de São Luis ao povo e às autoridades, publicada em 05 de junho de

1982. Documento coletado no inventário analítico das séries da DOPS (“Série subversão”) como parte do empreendimentos que pleiteavam o registro e a posse de terrenos já ocupados por comunidades”.

  Convém observar, entretanto, que os diversos mecanismos de intervenção do clero maranhense no que tange ao “problema da moradia”, bem como outros aspectos associados a essa problemática mais ampla, como a “defesa dos direitos humanos” das comunidades periféricas, a “especulação e os lucros” gerados pela expropriação de grupos dos espaços urbanos, entre outros, compõem um repertório diversificado de estratégias apresentadas com base nas tomadas de posições manifestadas tanto através dos agentes individuais como por meio de um agrupamento coletivo (nesse caso, o corpo clerical da Arquidiocese de São Luis). Podemos pensar essas tomadas de posições considerando, por exemplo, a dimensão de denúncia apontada pelo clero como justificativas ou estratégias heroicizantes de seus agentes que se ocupam do trabalho de afirmação de determinadas causas.

  O mesmo documento emitido pelo clero – a nota dos presbíteros ao povo e às autoridades – é utilizado como recurso estratégico para reforçar a posição da Igreja Católica e afirmar como legítima a causa da moradia, baseando-se na apresentação de um dos artigos da declaração universal dos direitos do homem como fundamentação jurídica e justificativa para o engajamento de seus agentes religiosos. “todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação [...]”. O trecho documental mencionado enseja a idéia de “dignidade” que está presente nas concepções dos agentes como um direito que precisaria ser restabelecido ao “povo” pela mediação dos “especialistas” do domínio religioso.

  22 Os relatos de violência e prisões que constam na mesma fonte consultada

  constituem outro aspecto que pode ser analisado também como estratégia de heroicização e recurso de legitimidade elaborado pela instituição. Nesse sentido, a publicização de experiências comuns vinculadas à trajetória de agentes do universo religioso reforça a dimensão da consagração desses trajetos a partir das tomadas de posições de outros agentes manifestadas no próprio espaço de inserção comum a um conjunto de clérigos. Deste modo, o manifesto do clero representa, a partir de uma 22 lógica de oposição feita a agentes de outros domínios sociais, e da necessidade de

  

Nota do presbitério da Arquidiocese de São Luis ao povo e às autoridades, publicada em 05 de junho de imposição dos clérigos e da Igreja como parte legítima nos debates, um posicionamento em reação ao “deliberado propósito de desmoralizar e desautorizar a ação pastoral” dos padres (Nota dos presbíteros do maranhão).

  Essa ação pastoral legítima reivindicada pela Igreja e incorporada pelos agentes desse universo social é refletida na experiência de outro clérigo que atuou simultaneamente em instâncias eclesiais e em domínios da sociedade civil. Os registros de engajamento do Pe. Jean Marie Van Damme são apresentados num variado repertório de intervenções, como a defesa de comunidades afetadas pela instalação de projetos industriais na periferia de São Luis, a luta por melhores condições sanitárias nas zonas periféricas, o envolvimento nos conflitos agrários, entre outros registros de atuação. Os mecanismos de intervenção de agentes com o perfil do clérigo mencionado caracterizam uma ação pastoral legitimada e potencializada pelos recursos e competências acionados nos múltiplos registros de inserção militante em seu itinerário. Da mesma forma que outros clérigos, as intervenções do Pe. Jean Marie estiveram pautadas, dentre outros aspectos, por sua percepção e apropriação da noção de popular, recurso discursivo que situa sua posição de intelectual, mediador e porta-voz inserido num espaço de disputas em torno da produção de concepções.

  O padre Jean Marie é oriundo da Bélgica, tendo nascido na cidade de Mortsel, em 11 de julho de 1947. De origem familiar simples, o nível de instrução escolar dos ascendentes – tanto por parte da mãe quanto do lado paterno – corresponde ao ensino fundamental. O aspecto da educação em seu país de origem é bem enfatizado pelo clérigo ao comentar o nível de escolaridade de seus avós: “Na Bélgica, nas décadas de 1930 e 1940, não havia mais analfabetismo ou ele era muito residual. Já havia obrigação escolar até os 14 anos”. A vigência de um sistema de educação consistente, do qual o clérigo e as gerações anteriores de parentes receberam sua formação, conjugada às instruções da mãe professora no seio familiar são experiências geradoras de disposições que devem ter influência, reforçadas por investimentos posteriores (Pós-Graduação em Educação de Jovens e Adultos), na atuação do padre como educador de populações periféricas.

  Filho mais velho entre dez irmãos, Jean Marie Van Damme possui raízes estreitamente vinculadas ao catolicismo tradicional cristão, religião predominante não apenas em sua região de origem (Mortsel), mas no país como um todo. Socialmente, a social se caracterizava pelo exercício de trabalhos autônomos realizados pelo pai e pelo tio materno do religioso (serviços de instalação de banheiros, encanação de água e impermeabilização de telhados). A atuação no ramo era complementada com a manutenção de um pequeno comércio de materiais hidráulicos, do qual a avó materna e a tia eram responsáveis. Desde muito cedo, então, o contato com essas atividades teria despertado uma valorização especial pelo trabalho enquanto instrumento de aprendizado: “quando eu era garotinho trabalhava com meu avô nas férias. Eu tenho um viés de trabalho também manual. Aprendi a assentar tijolos, construir casas... trabalhei não pra ganhar a vida, mas para aprender a trabalhar”.

  O trabalho manual como ofício absorvido da convivência com o avô e o tio, não seria a única forma de aprendizado que o seio familiar deixaria como experiência ao jovem Jean Marie. A curta convivência com seu pai, prematuramente falecido quando Jean Marie tinha apenas 13 anos de idade, teria deixado ensinamentos importantes ao futuro religioso. Dentre muitas atividades exercidas por seu pai, que estudou somente até o quarto ano, destaca-se o trabalho de tradutor oficial do tribunal militar durante a segunda guerra. Apesar da baixa escolaridade atingida, o genitor do clérigo se notabilizou pela capacidade de auto-aprendizagem, chegando a falar perfeitamente quatro línguas, fato que o caracterizava, segundo a definição do próprio filho, como um “aprendiz próprio”, um “autodidata”. Desde os 11 anos, Jean Marie auxiliava seu pai no trabalho de tradução de peças documentais em francês, inglês, alemão, além do flamengo como língua oficial. O conhecimento de seu pai é justificado pelo religioso como um saber prático que independia da aquisição de diplomas, “título simbólico que não traduz aquilo que você conhece”.

  Com melhores oportunidades de formação que os parentes, tendo avançado no nível de estudos e adquirido saberes específicos legitimados por títulos simbólicos, como o mestrado em ciências éticas e religiosas, o jovem Jean Marie preservou do trabalho de tradução com seu pai, o hábito de registrar eventos importantes, costume que se tornaria uma característica forte de sua atuação como clérigo inserido em diversos espaços de representação onde exerceu funções de coordenador, representante, secretário etc. O aprendizado incorporado pelo religioso resulta, então, de uma combinação entre recursos de origem (os saberes e habilidades adquiridos na convivência familiar) e investimentos realizados no decorrer de seu processo de

  Dos ensinamentos mais informais adquiridos das relações familiares à instrução mais escolarizada (ingresso em estabelecimentos escolares religiosos, universidade católica, instituto superior de ensino em filosofia, entre outros mecanismos de socialização), a formação recebida pelo padre Jean Marie teria consolidado um perfil de sacerdote intelectualizado, cujas ações são respaldadas, reconhecidamente legítimas e constituída por um conjunto de saberes e competências detidas no percurso biográfico do agente.

  Os múltiplos registros de engajamento e atuação que compõem a carreira do religioso apresentam a característica da mediação exercida pelo clérigo entre diferentes domínios sociais. Pelo fato de representar um perfil culturalmente favorecido (SEIDL, 2008b), detendo competências e propriedades específicas que o legitimam nesta posição de mediador, padre Jean Marie é notabilizado pela condição reivindicada de representante dos interesses populares. Essa condição é objetivamente reconhecida por algumas funções exercidas pelo religioso no decorrer de sua trajetória. Após a defesa de sua tese sobre as Comunidades Eclesiais de Base, na Universidade de Lovaina, alguns anos depois de sua chegada ao Maranhão (1975), padre Jean Marie desempenhou as funções de assessor teológico e educacional da Comissão Pastoral da Terra, educador popular da Associação da Saúde da Periferia, representante no Conselho Estadual da Reforma Sanitária, representante no Conselho de Assistência Social, sendo a maioria dessas representações na condição de agente vinculado a ASP.

  A trajetória do padre Jean Marie é permeada não apenas por estas modalidades de atuação voltadas para as representações em conselhos de gestões de políticas públicas (parte considerável desses registros de intervenções iniciados no decurso da década de 1980), mais se constitui também de outros modos de intervenção. Combinada a esse tipo específico de inserção mais política (instâncias de representação dos “interesses populares”), observa-se em momentos diferenciados de seu percurso biográfico, a atuação do clérigo professor em institutos de estudos na capital, em projetos de qualificação de profissionais da educação lecionando diferentes disciplinas, inclusive algumas que compõem a área de saber das ciências humanas e sociais, como História, Sociologia, além da Filosofia.

  De modo objetivo, essa dimensão prática da experiência em ministrar essas disciplinas condiciona, de maneira particular, as concepções acerca do mundo social conta para a definição que esse religioso concebe sobre a dinâmica social mais ampla (política, economia, sociedade, religião) mantêm relação direta com os recursos de origem e investimentos que são refletidos, de maneira mais ou menos consciente, em tomadas de posições que correspondem à posição ocupada pelo agente. No caso do perfil do religioso Jean Marie, o interesse em desenvolver uma atuação em interface com outros domínios sociais – através da educação, da representação em instâncias da sociedade civil ou através de estruturas da própria Igreja Católica –, sobretudo, a partir do trabalho com as CEB’s, parece se manifestar tão logo no momento de sua chegada ao Maranhão, como descreve o próprio padre:

  “Depois dos estudos médios (1966), me dispus a entrar no seminário. No entanto, não queria ficar na Bélgica. Estava a procura de me colocar a serviço de um chamado país de terceiro mundo. Conheci em Lovaina um seminário que preparava agentes de pastoral – padres, religiosas e leigos – para servir na América Latina... O Arcebispo de São Luis, Dom João da Mota e Albuquerque demandava por professores para o seminário e respondemos a esta solicitação. Quando chegamos, o seminário estava fechado. Mas o padre Victor Asselin nos tinha escrito antes da nossa saída que o que o Maranhão mais precisava eram de padres que trabalhassem com Comunidades Eclesiais de Base. Então, desde o primeiro momento eu me engajei” [...].

  A narrativa reproduzida sobre a chegada e a inserção do clérigo, bem como as formas e espaços de atuação parecem estar relacionadas a algumas questões pertinentes acerca das condições objetivas que orientam as práticas efetivas de um agente social dentro de um processo de engajamento individual. Um primeiro aspecto refere-se à dimensão dos investimentos pessoais que os agentes realizam no decurso de sua trajetória, destacando-se, no caso do sacerdote Jean Marie, a iniciativa de buscar ainda na Bélgica qualificação adequada ou a mais direcionada aos seus propósitos de atuação pastoral. Nesse sentido, o senso de engajamento apresentado nos registros objetivos de intervenção do religioso mantém correspondência com o gosto pessoal por questões relacionadas à política, à cidadania e à participação social, percepções que são reforçadas com o aprofundamento dos estudos de disciplinas que se ocupam da dinâmica social.

  Podemos observar ainda, a partir de outros relatos oferecidos pelo religioso, a importância de vínculos pessoais constituídos e a influência, no nível das concepções geradas, das relações com outros agentes do universo católico. Na trajetória do padre Jean Marie esses vínculos privilegiados podem ser pensados, com base no modelo da

  

díade (LANDÉ, 1977), como uma relação de auxílio mútuo entre dois indivíduos. De modo mais objetivo, essa perspectiva é ilustrada na trajetória do religioso precisamente na ocasião em que tem seu mestrado concluído, em 1975. Àquela época, Jean Marie Van Damme estabeleceu uma relação de amizade pessoal com o padre José Maria, um religioso brasileiro, da cidade de São Paulo. Os estudos sistemáticos sobre a teologia das Comunidades Eclesiais de Base, assunto de interesse do padre belga, desenvolvidos pelo clérigo brasileiro representaria uma afinidade temática que complementava ou reforçava outras disposições das quais o sacerdote estrangeiro era portador.

  Do vinculo estabelecido entre os dois religiosos resultou uma relação prática de auxílio baseada na reciprocidade que satisfazia os interesses dos agentes envolvidos na díade. Numa lógica de troca instrumentalizada, proporcionada pelos laços de amizade constituída, o contato regular firmado entre os sacerdotes, na prática, redeu ao belga Jean Marie acesso direto a informações e subsídios teóricos necessários ao desenvolvimento de sua tese sobre as CEB’s, uma vez que havia se tornado amigo pessoal de um de seus estudiosos no Brasil, ao passo que, ao teólogo brasileiro, a contrapartida gerada pelo vínculo se manifestou em auxílios eventuais de tradução simultânea (do português para o flamenco ou francês) na ocasião de visitas do padre José Maria convidado a ministrar palestras em universidades da Bélgica. Convém pontuar que a habilidade com a tradução remete a experiências de infância do clérigo Jean Marie, período em que ajudava o seu pai com trabalhos de tradução. Nesse caso, podemos inferir que o seu domínio de idiomas seria resultante de experienciais objetivas incorporadas como habilidade e/ou disposição herdada, e provavelmente

  23 aperfeiçoada na universidade .

  Conjugado ao perfil intelectual engajado resultante de um background constituído, aspecto favorecido pela vigência de uma “política pública de educação eficiente na Bélgica”, responsável pela formação superior de todos os irmãos do clérigo, devem ser consideradas determinadas experiências sociais ou influências específicas geradoras de disposições que são acionadas em modalidades específicas de atuação do religioso. Nesse sentido, deduz-se, segundo tais associações, que as ações engajadas do

  

Jean Marie Van Damme foi marcada pela convivência entre culturas diferentes, e pela vasta oferta de

ensino de outros idiomas (VAN DAMME, entrevista ao autor).

  24

  padre Jean Marie em favor de comunidades de base são reflexos de experiências sociais como a participação em movimentos juvenis, forma de socialização que preza pelo senso comunitário, pelo bem estar coletivo, ou ainda, refletirem influências de um exemplo de engajamento político dentro da própria família pela convivência com um de seus irmãos dedicado a um grupo de defesa do meio ambiente, organização ligada ao partido verde local.

  A vertente da educação popular compõe uma temática mobilizada nos registros

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  de inserção do religioso, em sua passagem por instâncias como a CPT e a ASP , atuando em ambas como articulador de ações nas áreas específicas de intervenção dessas entidades. Nesse sentido, a competência detida para o ensino voltado à instrução de outros agentes – disposição aprimorada com a experiência do magistério em diversas instâncias (seminário, institutos superiores, projetos de educação pelo interior, etc.) – teria se manifestado na modalidade de “educação direcionada ao povo”, da qual o religioso se utiliza ao definir seu perfil de “educador popular”. Esse recurso teria sido mobilizado na forma de atividades como a formação sindical dirigida ao público dos trabalhadores rurais e o trabalho em torno da educação, especialmente com escolas comunitárias (VAN DAMME, entrevista ao Jornal Vias de Fato, em janeiro de 2011).

  Inserida no rol da vasta produção de temáticas apresentadas como “demandas de grupos sociais” na década de 1980, a atuação da ASP (espaço de inserção do clérigo atualmente) esteve voltada para um trabalho de educação sanitária e de lutas por melhorias sanitárias. Segundo padre Jean Marie, tais ações eram dirigidas aos bairros de periferia envolvidos no processo mais abrangente definido como ocupações urbanas. A estratégia de afirmação da entidade como mediadora dos interesses da população de periferia se pautava na “organização destas populações em torno de várias ações que iam desde a discussão das reivindicações de água, esgoto, coleta de lixo e saneamento básico” (VAN DAMME, entrevista ao Jornal Vias de Fato, em janeiro de 2011).

  O panorama exposto com base nas experiências de alguns clérigos considerados neste estudo apresenta, de modo abrangente, uma tendência ao fenômeno das múltiplas 24 inserções que esses agentes colocam em prática em espaços sociais favoráveis ao

  

Conjunto de comunidades sob a jurisdição da paróquia do Anjo da Guarda na capital, ameaçadas de

desapropriação de terras para construção do porto de exportação da Vale do Rio Doce. Este seria um dos

25 primeiros registros de intervenção do clérigo Jean Marie depois de sua chegada ao Maranhão (1975).

  

As siglas das instâncias de inserção se referem, respectivamente, a Comissão Pastoral da Terra e a engajamento onde, predominantemente, suas intervenções estariam orientadas por princípios imbricados referentes à estrutura de funcionamento desses diferentes espaços. Convém reiterar que tais práticas podem ser resultantes de uma dinâmica social específica que mantêm conexões, de acordo com a percepção dos agentes, com “princípios éticos e morais” que orientariam suas intervenções, de modo a angariarem uma posição afirmada e legítima nos espaços constituídos em que atuam.

CONSIDERAđỏES FINAIS

  Em linhas gerais, procuramos demonstrar desde o início do trabalho que a atividade militante de agentes sociais vinculados ao universo religioso é orientada por princípios e lógicas específicas referentes aos processos de socialização de cada agente do grupo em questão. De modo mais detido, o objetivo da análise foi esboçar que o mecanismo de engajamento individual, manifestado em múltiplas atividades da esfera social, política ou religiosa, preserva uma interface e resulta de processos constantes de redefinição dos espaços pelos quais transitam os clérigos, onde procuram afirmar suas posições objetivando impor suas visões e definições legítimas sobre o mundo social.

  Nesse sentido, um procedimento de análise indispensável à pesquisa foi o exame das propriedades sociais apresentadas pelo conjunto de sacerdotes que compõe a amostra da população investigada. Com base no exame de variáveis, indicadores (origens sociais, modalidades de atuação, investimentos escolares, etc.) e recursos culturais diversos apreendidos das sucessivas etapas de socialização foi possível identificar perfis específicos de ação engajada, a partir dos quais, através de uma descrição geral das propriedades fornecidas são traduzidas, simultaneamente, lógicas que os agentes empreendem na constituição legítima de “causas” em que atuam, de um senso político de engajamento que reflete na diversificação das intervenções em espaços distintos de atuação.

  Deste modo, compreendeu-se que o conjunto das experiências do grupo de religiosos, como participação em eventos, movimentos e instâncias diversas, compõe uma sucessão difusa de movimentos que os agentes realizam no decurso de seu itinerário a partir de relações objetivas que os mesmos estabelecem orientados por princípios assimilados e mobilizados para afirmação na carreira religiosa. O perfil militante (no sentido da ação política e envolvimento em questões sociais) constitui, portanto, um elemento de distinção entre os agentes sendo que esta característica apresenta diferenciações quando comparadas as propriedades sociais, os recursos detidos e mobilizados ao longo das trajetórias, as percepções do mundo social e as tomadas de posições manifestadas pelos religiosos.

  Decorre precisamente desta dinâmica, bem como das experiências anteriores de socialização, o sentido das intervenções militantes objetivas pelas escolhas e formas de ou adquiridas), os recursos e investimentos mobilizados pelos agentes nas diferentes etapas e registros de inserção em seu itinerário.

  Em outras palavras, a apreensão das lógicas que norteiam o envolvimento dos padres em questões como a causa latifundiária, as ocupações urbanas e em outras reivindicações populares, implicou compreender a relação imbricada que existe entre os elementos apontados na constituição de um perfil, e que são determinantes para a definição de um padrão de engajamento. Evidenciou-se, desta maneira, que essas formas de trunfos (investimentos e recursos) mobilizados ao longo do percurso biográfico são decisivas, por exemplo, nas escolhas pessoais dos agentes no que tange à opção pelo sacerdócio e, uma vez constituída como especialistas do domínio religioso, são determinantes quanto às investidas por “demandas” específicas, cuja emergência se deve ao trabalho de produção coletiva empreendido pelos próprios agentes segundo suas percepções e objetivos. O processo das intervenções militantes de sacerdotes nas dimensões política e social ensejou, dessa forma, o esforço pela apreensão de dinâmicas específicas que apresentam regularidades nas relações objetivas dos agentes, que são imprescindíveis no processo de afirmação da ação engajada.

  No decorrer do trabalho procuramos demonstrar também a centralidade das redes de relações pessoais como trunfos acionados pelos religiosos (de modo mais ou menos consciente), com vistas a objetivos bem específicos que podem se apresentar na dinâmica da carreira religiosa e/ou militante. No que se refere aos laços recíprocos que são constituídos, cotejou-se a apreensão do que eles representam, na prática, para os objetivos dos agentes que decidem ingressar no domínio religioso ou a efetividade dessas relações para a afirmação de um perfil. Mais precisamente, observamos que determinado recurso baseado em vínculos e alianças que podem ser temporários, mas também duradouros são imprescindíveis, por exemplo, na formação seminarística dos agentes, na ocupação de postos após a ordenação sacerdotal, o que em ultima instância, constitui um trunfo valorizado quanto às pretensões de carreira (já que uma boa relação pode definir uma posição de destaque).

  Convém reiterar, que a apreensão das relações estabelecidas pelos agentes mostrou-se um recurso analítico favorável à compreensão do processo de entrada desses clérigos no Maranhão e ao seu ingresso efetivo em atividades engajadas, caracterizadas pelo duplo registro das lógicas específicas aos domínios político e religioso. Observou- sua diocese de origem ou com os superiores hierárquicos da ordem religiosa a que pertencem, foram relevantes e decisivos para sua vinda ao Maranhão. A dimensão das relações pessoais, conjugada a investimentos de outra ordem, também deixou evidente que a entrada desses clérigos resultou de uma demanda local por agentes estrangeiros face à fragilidade no processo de renovação do contingente de religiosos maranhenses autorizados a atuarem representando a Igreja.

  O grau das relações retraduzidas em estratégias pôde ser verificado, no itinerário dos religiosos, na perspectiva de Landé (1977), com base no auxílio mútuo firmado entre parceiros definidos. Este contato seria caracterizado por uma rígida reciprocidade (díade) entre os agentes, perspectiva de vínculo presumível no universo das relações entre religiosos, sobretudo no processo de preparação de novas lideranças religiosas com o perfil engajado, que estejam aptas a dar seqüência a uma linha de trabalho calcada na militância social. Não por acaso em alguns depoimentos, os clérigos entrevistados mencionam sacerdotes da nova geração como prováveis substitutos de uma geração mais antiga na qual estão inseridos. Os níveis relacionais que ensejam alianças e contatos entre os agentes são baseados ainda, segundo Boissevain (2003), na idéia de “centralidade focal”, de objetivos definidos a partir de “interesses comuns” ou do “conteúdo” que envolve a interação entre os agentes.

  Nesse sentido, procuramos demonstrar com a pesquisa que os itinerários engajados cuja característica principal está assentada na idéia de polivalência de atuação dos agentes no domínio social, bem como em outros domínios de atividades são constituídos, em síntese, pelos “recursos de posição e de situação, que dependem da inserção em sistemas de ação e das redes de interdependência que têm um peso decisivo na definição das causas que são objeto de adesão” (LAGROYE, FRAÇOIS e SAWICKI, 2002, apud, CORADINI, 1998, p. 79).

  O conjunto das ações engajadas dos agentes sociais, efetivadas a partir de eventos, temas ou causas mobilizadas pelos mesmos, ensejam uma lógica particular que procura recobrir de coerência as etapas de um itinerário militante. Com a análise dos relatos coletados para esta pesquisa percebemos que a reconstituição dos fatos que remontam a trajetória dos religiosos apresenta uma dimensão de consagração que os agentes atribuem a si próprios, e que ao reproduzirem o enredo de seu trajeto com base em suas experiências de intervenção, oferecem, em ultima instância, uma percepção domínios de atuação. Entendendo que a reconstituição de trajetória oferecida guarda estratégias de afirmação e apresentação dos agentes, procuramos captar de que modo determinadas ocorrências que perpassam o itinerário dos agentes, contribuem para a (re) definição de suas percepções refletindo na dinâmica das práticas engajadas dos clérigos.

  Ao explorar a constituição de perfis distintos de clérigos, levando-se em conta todos os aspectos implicados na ocorrência da ação militante, buscou-se cotejar na dimensão relacional estabelecida entre os agentes aquilo que, de forma objetiva, tais perfis representam para um sistema de desvios constituído com base na apreensão da posição e das tomadas de posições do conjunto de agentes. Desse modo, o que há de mais particular em cada perfil, como a manifestação de concepções diversas sobre política, religião, cultura, bem como cada definição elaborada acerca do mundo social, em última instância, confluem para a composição deste sistema de desvios que é constantemente redefinido pelo peso relativo dos recursos dos quais os agentes sejam portadores. Este estudo procurou salientar que tal lógica de desvios é reproduzida objetivamente na dinâmica relacional que os clérigos estabelecem, entre si, no domínio religioso e com agentes de outros domínios sociais na busca pela afirmação de sua posição em espaços legítimos e possíveis de intervenção.

  De modo geral, o propósito desta pesquisa deteve-se em compreender os processos que orientam a atividade engajada sendo estes expressos pela correlação entre origens sociais, recursos culturais detidos, concepções do mundo social e posicionamentos apresentados e assumidos pelos agentes, havendo a mediação de disposições incorporadas nas diferentes etapas de socialização via mecanismos diversos de inculcação, como os níveis de relações e experiências estabelecidas no âmbito familiar, escolar, seminarístico, etc. Nesse sentido, independente da posição ocupada e do pertencimento específico no domínio religioso (clérigo secular vinculado a uma diocese ou confrade ligado a uma congregação religiosa determinada) essas correlações esboçadas através do exame das propriedades e recursos apresentados sugerem um “gosto pelo social”, geralmente vinculado às causas de apelo “popular”. Em síntese, podemos partilhar do entendimento de que esse “interesse ou gosto pela “participação”, pelo “social” ou pela “política” aparece como evolução de disposições que se atualizam em diferentes espaços de investimento pessoal e se revelam de formas variadas” (SIMEANT, 2003, apud, SEIDL, 2009b, p. 161).

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  Jornal O Debate, edição de 26/04/1986 Jornal Vias de Fato, São Luis, Edições: Dezembro - 2009, Ano 01, nº 03 / Agosto - 2010, Ano 01, nº11 / Janeiro - 2011, ano 02, nº 16 Comunicação (Carta de Protesto) emitida pelos Frades Franciscanos da Vice Província de Bacabal – Ma / Documento escrito pelo Bispo Dom Pascásio Rettler – 1986 Crônicas de Frei Adolfo Temme: Lago da Pedra, Festa da trindade (25/05/1986); A chacina do povoado Aldeia (15/02/1988)

ENTREVISTAS COM OS PADRES

  Dom Xavier Gilles Dom Luis D’Andrea Pe. Marcelo Pepin Pe. Marcos Passerini Pe. Victor Asselin Pe. Claudio Bombieri Pe. Flávio Lazarin Pe. Gianluigi Zufellato Frei Adolfo Temme Pe. João Maria Van Damme

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