BIOS MIDIÁTICO: O CORPO COMO O LIMITE DA COMUNICAÇÃO

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Marco André Vinhas de Souza BIOS MIDIÁTICO: O CORPO COMO O LIMITE DA COMUNICAđấO Tese de Doutorado

  

Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 2006

  Marco André Vinhas de Souza BIOS MIDIÁTICO: O CORPO COMO O LIMITE DA COMUNICAđấO Tese de Doutorado apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de DOUTOR em Comunicação e Semiótica sob a orientação da Profª Drª Christine Greiner. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 2006

  TERMO DE APROVAđấO Banca Examinadora: Encaminhador (a) e Orientador (a)_______________________ 1º Examinador (a)_____________________________________ 2º Examinador (a)_____________________________________ 3º Examinador (a)_____________________________________ 4º Examinador (a)_____________________________________ São

Paulo,______de___________________de_______________

RESUMO

  O propósito desta tese é apresentar um modelo teórico que mostre as interdependências e contaminações entre a comunicação humana e a comunicação de massa. Para tanto, procura-se entender e demonstrar como estas duas instâncias interagem e que conexões são configuradas entre elas. É uma premissa primordial que, pelo viés do pensamento comunicacional, opta por um processo epistemológico que permite a reflexão da ciência da comunicação sobre si própria. Com isso, o caminho buscado por esta pesquisa ampara-se, propriamente, na problematização de tais questões ao suscitar a compreensão de um modelo teórico que leva em conta as características comunicacionais específicas do corpo humano como o fundamento básico para a existência dos meios de comunicação de massa. Explicita-se, dessa forma, uma possibilidade de modelo teórico que trata do corpo, da comunicação e da mídia através de combinações direcionadas pela emergência de um sistema cognitivo onde estão combinadas a teoria da comunicação humana e a teoria da comunicação de massa, como também, as ciências biológicas e as ciências humanas.

ABSTRACT

  This thesis works with a theoretical model that displays the fundamental relations between the human communication and the mass communication. Through a communicational bias, this research suggests a theory view that works with the communication principles of the human body as basis for the communication principles of the media system. Relating body, communication, media with a combination between mass communication theories and human communication theories, as between nature and culture.

  Para Christine.

  Agradeço, imensamente, minha família que está sempre comigo

e Cecília e Christine que são as melhores coisas que a pós-

graduação trouxe.

  

O que hoje une a humanidade é a negação

do que a espécie humana tem em comum.

   Eric Hobsbawn

SUMÁRIO Introdução (página 10) Capítulo I (página 22) Capítulo II (página 55)

  

Capítulo III (página 103)

Conclusão (página 127)

Bibliografia (página 130)

INTRODUđấO

  Quando se acompanha qualquer panorama amplo, crítico e comparativo das teorias da comunicação, é habitual encontrar uma distinção entre as premissas da teoria da comunicação humana com as premissas da teoria da comunicação de massa. Também é possível encontrar modelos teóricos que buscam mostrar como a comunicação humana pode ser expressa com diferentes intenções através de um meio de comunicação. Mas qualquer tentativa de vincular combinadamente estas duas instâncias costuma estar ausente de qualquer panorama comunicacional. Tal situação se revela, ao mesmo tempo, como instigante e paradoxal porque, através de um exame atento, a presença do corpo (substrato fundamental da comunicação de todo ser vivo) pode ser verificada, com destaque ou sorrateiramente, nas linhas e extensões de cartografias comunicacionais que têm como objeto de análise a mídia.

  De fato, pode-se constatar que o corpo aparece como um elemento constituinte do próprio campo da comunicação (MATTELART, 1996; SPENCER, 1969; LASSWELL, 1975; ADORNO & HORKHEIMER, 1969; DEBORD, 1997; etc.). Servindo como um elemento metafórico ou análogo, o corpo atuou como um catalisador que acabou proporcionando a constituição de um discurso científico e acadêmico que influenciou a formação e os primórdios dos princípios comunicacionais. Isto porque o corpo está presente, inclusive, nas colocações do paradigma pragmático (Mass Communication Research) e do crítico (Escola de Frankfurt), assim como nas suas respectivas pesquisas midiáticas. Por trás da problematização comunicacional e midiática trazida com a modernidade, também é cabível, em certo sentido, afirmar que uma espécie de paradigma do corpo contribuiu, decisivamente, para o surgimento da comunicação como objeto de análise. Entretanto, tal viés fez com que o corpo, a comunicação e a mídia fossem tratados por uma produção de conhecimento que, significativamente, nunca tentou harmonizá-los como um assunto combinado. É como se qualquer tentativa de compreensão das influências conjuntas entre corpo, comunicação e mídia assumisse, para a grande maioria, uma posição automaticamente inadequada e incapaz de gerar conexões frutíferas para as análises comunicacionais.

  Nesse sentido, ir além destas fraturas é lidar com a questão básica da relação entre comunicação e sociedade através das características específicas do indivíduo, que como membro pertencente à espécie humana tem um corpo com uma série de singularidades genéticas e culturais. O corpo é a mola-mestra e a célula básica que trouxe o desenvolvimento e a persistência de meios de comunicação e das próprias sociedades humanas. Portanto ligar teoria da comunicação de massa com teoria da comunicação humana torna-se, eficazmente, adequado ao se perceber como as particularidades do corpo humano implicam em uma aptidão comunicacional característica, justamente, destas particularidades. No amplo espectro das relações comunicacionais, o ser humano pode ser entendido como detentor de uma espécie de propensão à comunicação que ultrapassa as fronteiras do próprio corpo e culmina com a criação, a utilização, a apropriação e até mesmo a distensão de meios de comunicação de massa. Com isso, para compreender a mídia é necessário, igualmente, perceber como a propensão comunicativa do ser humano é um elemento-chave para a própria existência de habilidades e de estruturas midiáticas.

  A idéia principal desta tese é, portanto, apresentar um modelo teórico que mostre, claramente, as interdependências e contaminações entre a comunicação humana e a comunicação de massa. A pesquisa proposta aqui procura preencher lacunas e abrir portas para o campo comunicacional ao permitir a discussão de questões que não envolvem apenas comunicação, mas também o âmago da condição humana na medida em que o ser humano depende para existir de uma série de processos comunicativos. Dessa forma, explicitar estas ligações entre o corpóreo e o comunicativo, enseja um viés metodológico instigante, não só por possibilitar estudar a sobrevivência, o desenvolvimento e a manutenção destes enlaces no campo da comunicação, mas, por tentar entender e demonstrar como estas duas instâncias interagem e que conexões são configuradas entre elas. É uma premissa primordial que, pelo viés do pensamento comunicacional, opta por um processo epistemológico que permite a reflexão da ciência da comunicação sobre si própria. Além disso, demonstra como o enfraquecimento das fronteiras disciplinares só contribui para uma produção mais completa de conhecimento.

  A partir de um contexto mais geral, tentar equacionar, apropriadamente, corpo e mídia através de, conseqüentemente, uma produção complexa de conhecimento é reflexo de toda uma situação, em que não é mais possível dar conta de um campo específico de atuação sem fazer incursões por outros territórios do conhecimento. Não se trata de mostrar erudição, nem de resgatar o modelo clássico dos humanistas do Renascimento, são decorrências da velocidade e da complexidade dos acontecimentos atuais que demandam uma abordagem plural das múltiplas e multifacetadas ocorrências e experiências do mundo moderno. Um mundo que está enredado por uma seqüência de linhas indefinidas e fronteiras intelectuais compartilhadas através da materialização de uma espécie de contaminação acadêmica entre diferentes áreas que também coincide com o declínio de um dogmático discurso exclusivo no âmbito das ciências acadêmicas e, por conseguinte, dentro de cada disciplina em particular.

  A distinção de limites claros entre os diversos fatos e fenômenos que compõem a tessitura desta trama de acontecimentos, sejam eles físicos, biológicos ou humanos, só sobrevive, à base de convenções arbitrárias ou de reduções simplificadoras. Nessas circunstâncias, insistir na distinção das diversas dualidades justificadoras dos limites disciplinares, tais como as infinitas subdivisões do espaço, do tempo, da cultura e da natureza, seria seguir investindo apenas em métodos que aprofundam o fosso existente entre os próprios campos do conhecimento. Nesse sentido, as inúmeras críticas que um grande número de acadêmicos têm oferecido tanto as suas próprias e respectivas áreas, como as simplificações e idealizações que lhes têm dificultado os procedimentos investigativos, demonstram, agudamente, uma série de esforços direcionados para reavaliar um desprezo relativo dispensado às dimensões que lhes são estrangeiras. Ou seja: os objetos de estudo dos outros.

  Pode-se mencionar, entretanto, que a produção de conhecimento está sempre pautada por uma série de interações. Nos escritos de Platão, considerações acerca do que, hoje em dia, denomina-se teoria do conhecimento despontam como tema filosófico. Há neles também uma teoria astronômica e uma cosmologia, conforme a tradição investigativa herdada dos físicos jônios e dos pitagóricos. Descartes e Kant pontificaram sobre a natureza e também desenvolveram trabalhos sobre física, fisiologia e geologia. Galileu, Newton e Darwin debateram sobre o método e a validade do saber, e não distinguiram se o que faziam era ciência ou filosofia.

  É claro que este tipo de conduta intelectual pode ser verificada com uma certa freqüência no transcorrer das épocas, mas ela foi sendo constrita nos próprios limites impostos pelas distinções acadêmicas que têm o seu símbolo máximo representado, básica e emblematicamente, pela arraigada noção de disciplina. Ao se abrir um dicionário qualquer do século XIX para procurar os significados do termo disciplina, encontra-se uma ausência total de referência como ramo do conhecimento ou como conteúdo específico. É comum encontrar-se apenas designações como ordem, organização e subordinação. Somente nos primeiros decênios do século XX, o termo disciplina aparece revestido de um novo sentido, passando também a ser classificado como matéria de ensino suscetível de servir de exercício intelectual exclusivo .

  Até meados do século XIX e início do século XX, a pluralização do termo disciplina era inconcebível porque a Universidade reconhecia apenas as humanidades clássicas como disciplina, na assepsia mais contundente que o termo permite. A educação fundamentada na matemática ou nas ciências não era reconhecida antes do século XX como formadora ou constituinte de especialidades intelectuais. Este reconhecimento, que acompanhou as transformações sociais desta época de transição, só foi possível com a confrontação entre as disciplinas literárias e científicas, estimulando uma ampliação classificatória e ressaltando a necessidade urgente da autonomia de um termo genérico e aglutinador. Mesmo assim, em decorrência dos enlaces com os significados disciplinares, o termo em si traz a lembrança constante deste sentido, agudo e contundente, de restrição que está, subliminarmente ou ostensivamente, sempre presente.

  As próprias instituições de ensino refletem, lembrando o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), este ambiente disciplinar ao se sedimentarem como locais que comportam divisões moldadas e manipuláveis. Nestes espaços são operacionalizados dispositivos eficazes para medir, selecionar, hierarquizar, comparar e sancionar uma reunião muito bem orquestrada de normas e de códigos imprescindíveis para a delimitação de uma série de domínios. Entronizada como representante de um saber instituído, a disciplina é orientada, justamente, para funcionar como uma forma de dominação que não admite lacunas ou fissuras. Assim, a disciplina, lembrando o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), pode também ser entendida como um campo de relativa autonomia que é regido por regras particulares. A distinção das disciplinas pode ser vista, então, como um determinado local de relações entre grupos com posicionamentos distintos que engendram uma disputa de poder como inimigos declarados.

  Com isso, a tradicional organização disciplinar tem uma responsabilidade manifesta pela produção difusa do conhecimento e pela dissociação do saber. Apesar de ser cada vez mais difícil o enquadramento de fenômenos no âmbito de uma única disciplina, ainda é possível verificar um tirocínio fortemente enraizado que promove uma fragmentação estagnante dos objetos do conhecimento nas diversas áreas. Uma prática que sem a contrapartida do incremento de uma visão de conjunto do saber instituído, tem se revelado crescentemente desorientadora por conduzir para especializações limítrofes e para um fechamento nos discursos.

  Diante desta tarefa destinada à construção do conhecimento, a disciplina (como ordenações e condutas singulares) é, inevitavelmente, fundamental mesmo que insuficiente no seu confinamento extremo e no seu projeto de domínio. Contudo, da mesma maneira que as estruturas, os problemas, os procedimentos e os resultados valorizados também diferem. Portanto, um eixo extradisciplinar assentado como uma rede de significações não implica, necessariamente, na eliminação ou na diminuição da importância das disciplinas. Ao contrário, manifesta o desafio de um aumento de complexidade de conhecimento que leve em conta a preservação dos interesses de cada disciplina e a conservação de sua autonomia e objetos específicos para, ainda assim, conseguir produzir, ao mesmo tempo, novas combinações e novas aberturas a outras idéias ou à discussão de idéias vigentes.

  É habitual que o processo de diálogo considerado mais incompatível entre disciplinas (cindidas pelas três áreas nomeadas como biológicas, exatas e humanas) encontra-se nas tentativas de relacionar as das ciências humanas com as das ciências biológicas. Estas duas áreas simbolizam, para muitos, princípios e propósitos que não estão aptos para nenhum tipo de consubstanciação adequada ou até mesmo lícita. A despeito das diferenças significativas entre estas duas áreas, qualquer proposta que almeje estatuir algum tipo de relação entre elas está, normalmente, sujeita a um número imenso de opiniões e de rejeições fundamentadas, basicamente, pela negação de todo resquício sequer que possa advertir e atestar a presença de tendências genéticas nas organizações e nos comportamentos humanos.

  Toda esta espécie de “campanha higienizadora” praticada pela grande maioria das humanidades para ocultar a herança e a compleição genéticas na vida humana lembra, com as devidas proporções, o próprio processo civilizador que as sociedades experimentaram, experimentam e experimentarão ao longo de sua secular existência. Os ditames e as ações que pontuaram tal processo foram destrinchados pela obra referencial de Norbert Elias (1897-1990). O sociólogo alemão apresentou, pioneiramente, a originalidade de analisar o assunto aparentemente fútil que são as maneiras de gerenciar as funções corporais como, por exemplo, se comportar à mesa, assoar o nariz, cuspir, urinar, defecar, se lavar, copular, etc.

  Os manuais de civilidade da Renascença forneceram a Elias um conjunto de dados muito rico e quase inexplorado, ilustrando não somente o estado destes costumes em um dado momento, mas também sua evolução. Tal evolução é acelerada no decorrer do século XVII com uma direção claramente marcada, pois, os seres humanos, durante este processo civilizador, aplicam-se em reprimir tudo o que está relacionado com a sua natureza genética. De fato, a ordem geral é a de aumentar o controle sobre tudo o que possa rememorar os princípios corporais dos seres vivos, tornando-os menos visíveis ou relegando-os à intimidade. Assim, a nudez se mostra menos, os odores corporais são dissimulados, as funções naturais tendem a ser exercidas em lugares específicos e isolados, não se cospe mais no chão, mas em uma escarradeira, não se assoa mais o nariz na manga, mas em um lenço, não se come mais com as mãos, mas com um garfo.

  São constatações que para Elias mostram como estas funções chamadas de naturais foram sendo, em certo sentido, acomodadas e sonegadas por um complexo contexto histórico e social. Além disso, a evolução dos gestos que definem tais costumes é indissociável da evolução da sensibilidade e, em particular, da intensificação progressiva e coletiva do sentimento de repugnância, que torna insuportáveis as manifestações corporais do outro, e sentimentos de vergonha, de constrangimento, de pudor, que incitam a esquivar do outro o espetáculo de seu próprio corpo, de suas excreções e de seus impulsos. Passando por um processo de aceitação e de incorporação, estes sentimentos levaram à formalização de regras de conduta que construíram um consenso sobre os gestos que convêm ou não fazer.

  Em contrapartida, estes gestos contribuem para a apropriação e a propagação de um modelo aceitável de sensibilidade que junto aos comportamentos se encaminharam para estas modificações profundas devido a dois fatores fundamentais. O primeiro é a monopolização estatal da violência que obriga o controle dos impulsos e pacifica, desse modo, o espaço social, e, o segundo, o estreitamento das relações interindividuais que implica necessariamente em um controle mais severo das emoções e dos afetos. Pode-se, acompanhar, ainda hoje, a evolução deste processo de relegar as funções corporais e de interiorizar as limitações, inclusive sob a ótica da relativa liberalização dos costumes e do aumento da violência cotidiana na contemporaneidade. As condições atuais, pelo viés de Elias, não são nada além de um jogo com normas tão profundamente interiorizadas que permitem, com o passar do tempo, uma certa margem de transgressão, que não ameaça o nível de sensibilidade e de apaziguamento coletivamente atingido.

  A adequação do corpo em seus níveis mais básicos é o que, na visão de Elias, erige os alicerces das variadas civilizações. Esta contenção do corpóreo também imprimiu marcas entranhadas no discurso de muitos

  , representantes das ciências humanas, que advogam a

  Homo academicus

  terminante recusa de qualquer influência das tendências genéticas nas criações e nas práticas humanas tanto coletivas quanto individuais. É como se o reconhecimento da importância das especificidades da composição biológica significasse um rebaixamento das ciências humanas e da própria condição humana para um nível inferior (o nível do corpo) que seria uma contradição diante do tipo de produção e de condutas elaboradas (cultural, social, comportamental, etc.) que os seres humanos foram desenvolvendo ao longo dos séculos. Para as ciências humanas, tudo que o indivíduo faz e tudo que o cerca está além da biologia, que deve ser vista como um fator irrelevante para as ações e as reações do gênero humano. Apesar de se constatar um considerável esforço pelo diálogo entre as diferentes disciplinas das designadas

   1 humanidades , as possibilidades de diálogos entre as ciências humanas e

Um esforço de diálogo que se estende à sub-divisões específicas das ciências biológicas que são a as ciências biológicas acabam recaindo neste desmerecimento do corpo que, na maioria das vezes, faz com que estas duas áreas de conhecimento pratiquem, exaustivamente, a esterilidade do monólogo imposto pelo idolatrado limite entre disciplinas.

  Mesmo assim, por mais contraditório que pareça neste momento desta introdução e a despeito de toda esta desconsideração dos componentes genéticos, as ciências humanas têm servido de palco para uma numerosa apropriação e utilização de uma série de metáforas e de analogias. O corpo humano acaba sendo apossado pelas ciências humanas através de práticas tropológicas que adequam a matéria corpórea para os princípios acadêmicos das humanidades. Com isso, o corpo passa a ser um objeto de estudo direcionado para os preceitos estabelecidos pelas disciplinas humanísticas. Estes costumam direcionar e desvirtuar a própria questão biológica para as prescrições e os interesses instituídos pelas especificidades destas disciplinas. As ciências humanas fomentaram, então, a fundação de uma identidade do corpo que não quer, na maioria das vezes, entender ou corresponder aos alicerces biológicos, mas aos pontos de vista particulares deste campo acadêmico. Assim, ao invés de produzir uma confluência entre as ciências humanas e as ciências biológicas, este assenhoreamento do corpo (que também ocorre nas ciências biológicas) inscreve o espaço corporal como um assunto pontual para o afastamento e a demarcação de domínios entre estas duas áreas.

  Indo um pouco mais adiante na discussão, diagnosticar a diagramação destas relações acadêmicas de poder que recaem sobre o corpo, implica, ainda, em perceber que dentre as ciências humanas, é, justamente, o campo da comunicação, que desdobra algumas das mais

  acabam não sendo consideradas como tais pelas humanidades por explorarem de maneira regrada as curiosas e significativas formalizações corporais. Assim, a utilização do corpo pelo campo da comunicação é um indício preciso de como este tópico serve, simultaneamente, como fundamento e desordenamento dos rumos tomados por esta área acadêmica. O caminho buscado pela pesquisa desta tese ampara-se, propriamente, na problematização destas questões ao suscitar a compreensão de um modelo teórico que leva em conta as características comunicacionais específicas do corpo humano como o fundamento básico para a existência dos meios de comunicação de massa. É importante ressaltar que ao invés de colocar a comunicação humana como causa e a comunicação de massa como efeito, o que se propõe aqui, no plano ontológico, é uma relação de interdependência funcional, como é o caso para o estômago e o cérebro, para as instituições econômicas e políticas, ou até mesmo para os humanos e a natureza. Ou seja, são sistemas relacionais de um tipo que não pode mais ser adequadamente compreendido por um modelo mecânico de causa/efeito. Os processos circulares com múltiplos vínculos constituem um princípio comum e interdependente. Trata-se, então, de mudar radicalmente o modelo usual de representação da complexa e multifacetada conjuntura humana, substituindo-o por uma casualidade com diversos níveis que ligam diferentes instâncias pela circularidade da interdependência de infinitas interações.

  Para tentar desenvolver estas proposições, o primeiro capítulo desta tese apresenta as características de um sentido geral de comunicação, da formação da mídia e do campo acadêmico da comunicação, as suas principais linhas teóricas e como elas lidam com o corpo e o relacionam com a mídia. Tal exame se completa com o segundo capítulo, no qual são expostos os tipos de entendimentos e de noções que mostram a influência das tendências genéticas na formação do comportamento e da cultura humanas, e, conseqüentemente, na formação de todas as criações e organizações humanas. Para terminar, será demonstrado como os preceitos comunicativos inerentes ao corpo são o princípio de todos os meios de comunicação. No terceiro capítulo há a explicitação de uma possibilidade de modelo teórico que trata do corpo, da comunicação e da mídia através de combinações direcionadas pela emergência de um sistema cognitivo onde estão combinadas a teoria da comunicação humana e a teoria da comunicação de massa, como também, as ciências biológicas e as ciências humanas.

  Na articulação dos três capítulos, configura-se a conclusão de que o corpo e a comunicação têm muitas faces e dimensões, como um ser mitológico de natureza enigmática. Por isso, expor as conexões e os elos entre eles revela uma série de incompreensões entre as ciências biológicas e as ciências humanas, ao mesmo tempo em que se revela uma série de possibilidades de compreensão que devem ser vistas como uma lógica da descoberta, como uma abertura recíproca, como uma fecundação mútua que é capaz de contribuir para uma liberdade em relação aos recortes acadêmicos, às periodizações admitidas e às problemáticas obrigatórias. Resgatando-se, assim, o clamor pelas trocas, pelos diálogos e pela probabilidade de mostrar como pontes construídas em meio à turbulência

  

dos saberes podem e devem representar uma chave que não ameaça mas,

ao contrário, é capaz de nos aproximar daquilo que nos vincula a outros

sistemas inteligentes da natureza, apostando na negação da hegemonia

epistemológica e dos dualismos (GREINER, 2005: 12).

  

CAPÍTULO I

[1.1]

  Para entender a comunicação, é necessário conhecer, mesmo que através de uma retrospectiva resumida, a história, os acontecimentos, os caminhos e os paradigmas que, pouco a pouco, foram forjando a própria problematização desenvolvida pelas diversas vertentes do pensamento comunicacional. Afinal, a comunicação é um terreno de confluências de estudos teóricos e empíricos com pressupostos epistemológicos muito diferentes entre si. A própria articulação da comunicação fundamenta-se em um conjunto de saberes e de práticas pertinentes a diversas disciplinas e a distintos campos. As proposições acadêmicas classificadas como Ciências da Comunicação compõem, então, um conjunto de conhecimentos de ordem inter e pluridisciplinar em permanente processo de atualização, e ao qual os teóricos da comunicação recorrem para identificar, definir, conceituar, descrever e analisar uma série de processos comunicativos.

  Embora comunicação seja um termo utilizado há muito tempo com outras conotações, pode ser considerado um conceito recente do modo como vem sendo discutido hoje. Ou seja, como um problema. Foi necessário chegar na metade do século XX para a sua extensão e exaustão semântica alcançarem a amplidão em que é concebida e consumida na contemporaneidade. Assim, apesar de ter um sentido geral normalmente associado com a modernidade, os seres humanos, desde o seu surgimento, sempre comunicaram. A comunicação é uma parte indissociável da história da humanidade e não foi inventada pela imprensa, pelo cinema, pela televisão ou pela internet. A modernidade apenas complexificou seu desenvolvimento, promovendo o surgimento de múltiplas variações e percepções na sua realização e na sua compreensão. A modernidade transformou a comunicação em problema, levantando questões e produzindo novas observações para uma prática que era vista como corriqueira e natural na vida humana.

  

Na França, o termo comunicação remonta ao século

  

XIV, inventado por Nicole Oresme, filósofo e físico,

conselheiro do rei Carlos V que fundou a primeira

biblioteca real. (...) No século XIV, esse conceito era

novo, pois o universo medieval conhecia apenas o

conceito de comunhão que supõe uma não-distância,

uma simbiose não somente entre seus atores, mas

também entre a mídia e as mensagens. A intriga

midiológica se trama talvez, completamente e montante,

em redor desse primeiro desgrudamento, dessa

flutuação, dessa liberação de uma distância

problemática, insólita, entre um saber e uma forma,

uma informação e uma mídia lingüística (o latim),

reflexo de uma distância nova entre os seres humanos

em que a questão da circulação do sentido surge como

algo que já não é evidente, que deixou de ser “natural” .

  (DEBRAY, 1993: 33)

  Portanto, a comunicação não foi uma invenção da modernidade. A problematização da comunicação por um espectro amplo de análise acadêmica é que pode ser compreendida como uma conseqüência direta da modernidade. O próprio estudo de processos comunicacionais arcaicos, como a importância da comunicação oral, escrita e visual na Grécia Antiga e na Idade Média, resultam do estado e das demandas trazidos pelos tempos modernos. Então, no bojo de toda esta conjuntura, a comunicação, como um fenômeno com tantas facetas, suscita múltiplos olhares que, no mundo contemporâneo, a circundam através de uma variedade paradigmática de sentidos e de uma fértil polissemia semântica, expressas, igualmente, por uma imensa proliferação de práticas profissionais e acadêmicas e de tecnologias altamente elaboradas. É uma configuração extremamente complexa que enfatiza a existência de uma íntima relação entre os processos comunicacionais e os desenvolvimentos sociais.

  Por isso, para entender o percurso e a formação das particularidades das correntes, paradigmas e tendências do pensamento comunicacional, é necessário entender que o estudo das diferentes civilizações humanas evidencia a necessidade, a presença e o desenvolvimento de uma variedade de sistemas comunicacionais. Não é por acaso que:

  

Cada época histórica e cada tipo de sociedade possuem

uma determinada configuração favorável à

comunicação, que lhes é devida. Esta configuração com

os seus diversos níveis (econômico, social, técnico e

mental) e as suas diferentes escalas (local, nacional,

regional ou internacional) produz um conceito de

comunicação hegemônica. Na passagem de uma

configuração a outra, importa sublinhar continuidades

  

e rupturas. Ao longo do tempo que é estudado, o

conceito recompor-se-á imensas vezes numa figura

inédita, sem contudo se abstrair dos elementos presentes

  . (MATELLART, no modo de comunicação anterior 1996: 10)

  Por tal viés, em todas as eras da humanidade, a comunicação esteve presente e, ao mesmo tempo, tornou-se diversa por ser agregada, freqüentemente, com novas instâncias. Com isso, ao se centrar a atenção sobre as mudanças ocorridas nos meios de comunicação ao longo dos séculos e enfatizar os contextos sociais em que elas se deram, pode-se estabelecer uma correlação entre a intensificação das práticas comunicativas e a maior necessidade de seu conhecimento, em conjunto com um quadro de desenvolvimento dos meios de comunicação (e dos estudos sobre o meio) de dinâmica mais ampla que marcou a passagem do final do século XIX para o início do XX, período convulsionado por intensas transformações vividas pelo mundo e também pelas necessidades que as sociedades formularam a comunicação. Assim, os estudos sobre a comunicação tanto foram provocados pela chegada dos novos meios, como demandados por uma sociedade que necessitava usar melhor a comunicação para a consecução de sua própria organização.

  Foi a partir destas transformações da modernidade que aconteceram sistematizações de estudos que tentaram definir os conceitos de mídia e de massa advindos de um mundo modificado em que a urbanização e a industrialização crescentes sob a égide do capitalismo impulsionaram uma ampla complexificação tecnológica das redes comunicativas deste novo formato social. De um modo fundamental, esta complexificação transformou a estruturação espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e de interação, novos tipos de relações sociais e maneiras de relacionamento do indivíduo com os outros e consigo mesmo. Por isso, o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa pode ser entendido como uma parte integral da formação das sociedades modernas.

  Indo além, a própria presença da comunicação nas sociedades humanas sofre uma série de transformações com o surgimento de novos meios de comunicação. Ou seja, a comunicação como um todo também é, completamente, modificada com o aparecimento de novas mídias no transcorrer da modernidade. Sendo assim, pensar a linha de formação dos fenômenos sociais no mundo moderno, implica em pensar no comparecimento contínuo de fenômenos comunicacionais em que:

  

A fala e a escrita não são, de modo algum, nossos

únicos sistemas de comunicação. O intercâmbio social é

grandemente reforçado por hábitos de gesticulação —

pequenos movimentos das mãos e da face. Podemos

comunicar com acenos de cabeça, sorrisos, carrancas,

apertos de mão, beijos, agitar de punhos, e outros

gestos. Temos também sistemas econômicos para

transitar não em idéias, mas, em bens e serviços

materiais; os sinais de comunicação são moedas,

títulos, cartas de créditos, e assim por diante. Temos

convenções de traje, de tráfego, formalidades sociais, e

boas maneiras; temos regras de filiação e função em

negócios, instituições e famílias. A vida, no mundo

moderno, depende cada vez mais de meios técnicos de

comunicação. É somente por meio deles que é possível a

  

comunicação entre grupos, sociedades, culturas,

economias, religiões, leis, línguas e códigos. A

comunicação torna a verdadeira vida social praticável,

  . (CHERRY, pois comunicação significa organização 1962: 24)

  Ao se compreender a comunicação como um fenômeno contínuo, deve-se perceber, entretanto, que a modernidade tem determinados tipos de mídia, mas a importância do passado para o presente mostra que cada período histórico também possui seus meios de comunicação. Algo que contradiz um senso comum que, habitualmente, quando tenta exemplificar quais são os meios da comunicação, cita, imediatamente, televisão, rádio, cinema, jornal, revista, internet, celular, iPod, etc., porque são meios de comunicação que, explicitamente, fazem parte da vida moderna. Mas pode-se pensar também em uma série de estruturas precursoras presentes em meios de comunicação coletiva como a escrita, a pedra, o barro cozido, a fumaça, o tambor, o papiro, o pergaminho, etc. Entretanto, uma diferenciação básica cabível entre estes dois tipos reside, obviamente, no fato de que os do primeiro tipo são meios de longo alcance característicos dos processos massivos de alta urbanização e de intensa industrialização do sistema capitalista, enquanto que os do segundo tipo são meios de pequeno alcance característicos de comunidades e organizações sociais baseadas em processos comunicacionais restritos a efeitos e usos limitados.

  É possível, contudo, também estabelecer um ponto comum capaz de relacionar os dois tipos de meios. Todos eles funcionam a partir do princípio básico da comunicação: a transmissão de informação. Ou seja, tanto nos tempos antigos quanto nos modernos qualquer tipo de mídia (sejam aquelas com a mais avançada tecnologia ou aquelas com a mais rudimentar) tem como premissa fundamental comunicar alguma forma de informação. Por tal ponto de vista, todo modelo de comunicação é necessariamente um processamento de informações. Assim, apesar de todas as etapas de evolução e de diversificação que os tipos de mídia sofreram ao longo da história da humanidade, esta é uma constante que pode ser continuamente verificada nas diferentes épocas de todas estas passagens evolutivas.

  Nesse sentido, o economista canadense Harold Adams Innis (1894- 1952) foi um dos vários acadêmicos do século XX a apontar a importância da mídia no mundo antigo. Para ele (1986), por exemplo, o papiro e o pergaminho e depois o papel, juntamente com o alfabeto fonético, modularam o império romano em suas diversas fases. Cada um destes meios é mais leve que o outro, e, por isso, mais fácil de transporte e de circulação. O desenvolvimento destes três meios acompanhou o crescimento e a descentralização do império romano. De acordo com Innis, o transporte e a circulação de mídias leves conduziu a transmissão e a liberdade de informações contrárias ao controle e a administração do império.

  Além disso, os meios atuais apresentam relações diretas com os meios antigos (BRIGSS & BURKE, 2004). As séries de televisão copiam o modelo das novelas radiofônicas que, por sua vez, se moldam nos folhetins em capítulos do século XVIII e XIX. Algumas das convenções das histórias em quadrinhos seguem tradições muito anteriores, os balões de fala das HQs podem ser encontrados em publicações do século XVIII, que, por sua vez, são uma adaptação dos textos em forma de rolo que saíam das bocas de figuras da arte religiosa do século XVI.

  A noção de meio de comunicação transmissor de informação também deve ser extendida a modelos de transporte (WEISZ & CONNELY, 2001) capazes de tornar provável a circulção de informações e a ligação entre distâncias. O desenvolvimento das estradas, das rotas fluviais, marítimas e urbanas, do sistema ferroviário, rodoviário e viário, fazem, igualmente, parte de processos comunicativos fundamentais que alargam as possibilidades da comunicação e dos sentidos da mídia.

  Assim, percebe-se como a comunicação e os seus meios ocupam posições de destaque nas organizações sociais humanas. Por isso, não é por acaso que a reflexão sistemática sobre a comunicação seja uma conseqüência concomitante com a formação da modernidade. As complexificações comunicacionais trazidas por este período tornaram claro a necessidade de tentar compreender, com detalhes, como funciona, atua e se transforma um dos princípios centrais da própria organização social. Como objeto de saber, a comunicação foi, pouco a pouco, também ocupando uma posição de destaque no mundo acadêmico. A acepção da comunicação passou a ser conceitualizada nas mais diversas conjunturas como, também, foi sendo associada aos mais divergentes fenômenos analisados, por exemplo, pelos campos da biologia, da sociologia, da antropologia, da filosofia, das ciências cognitivas, da física, da química, da história, da geografia, da psicologia, da psicanálise, da medicina, da lingüística, da informática, da engenharia, da economia, da ciência política, do direito e da administração. Isto demonstra, com exatidão, porque usos e significados da comunicação passaram a ser uma das principais questões da produção de conhecimento acadêmico.

  [1.2]

  A teoria da comunicação caracteriza-se, sobretudo, pela heterogeneidade das correntes e das concepções que abriga. Por isso, a apresentação de um quadro geral das teorias esbarra na dificuldade de sistematização. Vários esquemas de agrupamento vêm sendo tentados, e cada época se identifica melhor com um tipo de critério. Por exemplo, normalmente é utilizada (em larga escala e até o momento presente) uma classificação, principal, básica e generalizante, que divide e agrupa os estudos e as correntes teóricas de acordo com dois influentes paradigmas: o pragmático (associado com a Mass Communication Reserach) e o crítico (associado com a Escola da Frankfurt). Esta classificação, apesar de consistente, é uma baliza categórica no meio de um aglomerado de concepções e de filiações da maioria dos estudos, sem falar nas inúmeras tendências em que se desdobram cada corrente, cada modelo teórico e cada pesquisa.

  Além destes dois paradigmas, pode-se também ordenar os estudos de acordo com uma distinção disciplinar como sociologia da comunicação, psicologia da comunicação, filosofia da comunicação, fundamentos da comunicação, comunicação e semiótica, etc. Em outros casos, pode-se adotar uma referência geográfica como Escola Americana, Escola Alemã, Escola Francesa, Escola Britânica, Escola Latino- Americana, etc. Uma outra forma ainda é a identificação de universidades, institutos ou centros de pesquisa. Há também o agrupamento temático distinguido pela abordagem e pela ênfase utilizada no processo comunicacional e que analisado pode pesquisar a recepção, a produção, a técnica, o meio, a mensagem, o código, etc., através de enfoques que podem tratar da conceitualização e formalização do processo, de uma perspectiva singular ou macroscópica, de uma visão social ou individual, etc. Com isso, tentar delimitar um panorama do pensamento comunicacional é uma opção intrincada que deve lidar com um corpo variado e fracionado tanto em seus fundamentos quanto em seu desenvolvimento. Isto faz com que qualquer tentativa de exprimir e detalhar este pensamento comunicacional envolva uma seleção e um esforço de interpretação muitas vezes parcial e questionável, mas que, igualmente, obedeça a uma série de escolhas inevitáveis a um empreendimento tão complicado quanto este.

  A Comunicação ocupa hoje uma posição reflexiva sobre

a vida social, se não com “um” objeto claramente

discernível, certamente como um “nó” ou um núcleo

objetivável, onde se entrelaçam problematizações

diversas do que significa a vinculação ou a atração

social. (...) Reduzir esse problema à pura intenção

midiática resulta em (...) uma ciência da comunicação

que coloca de si mesma a tarefa de produção de

conhecimento específico (e não marcadamente

sociológico, antropológico, psicológico, jornalístico,

etc.) sobre a sociabilização decorrente dessa nova

realidade histórica, com o objetivo de buscar

perspectivas críticas e orientações práticas . (SODRÉ,

2002: 223-239)

  Em relação a isso, a própria designação plural (Ciências da Comunicação), reservada ao campo acadêmico comunicacional, demonstra a prevalência de uma variedade de domínios de aplicação em detrimento de uma perspectiva conceitual e formal mais específica. Apesar de existir a classificação de comunicólogo para quem é bacharel em Comunicação Social, não há o termo Comunicologia, como existem, por exemplo, as especificações acadêmicas da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, etc. Devendo ficar claro, contudo, que para que haja um processo de troca e de interação entre diferentes áreas de conhecimentos, é fundamental uma delimitação do que singulariza cada disciplina para que seja possível buscar em outras disciplinas novos complementos capazes de enriquecer e de complexificar a singularidade própria de cada disciplina. Então, qualquer tentativa de cruzamento entre saberes depende, em primeiro lugar, do estabelecimento das necessidades do particular em relação ao plural.

  Dessa maneira, ao se montar um panorama, pode-se, em primeiro lugar, ressaltar que o próprio espaço acadêmico da comunicação apresenta-se permeado por diferentes tensões que envolvem, por exemplo, a articulação das teorias, a relação entre teoria e prática, a diferenciação, a pluralidade e a alternância de objetos. Esta escolha faz com que o campo de estudos da comunicação obedeça a regras de ação e de conduta regidas por um comportamento acadêmico que legitima e deslegitima situações e que, ao mesmo tempo, elege um determinado ambiente epistêmico em detrimento de outro. Este tipo de comportamento deriva de um conjunto congruente de conceitos que ocultam no seu âmago as motivações, os interesses e as fundamentações daqueles que os adotam e os preconizam. Propaga-se a crença de um campo estruturado por idéias, juízos, dogmas e doutrinas que têm o poder outorgado de definir bibliografias genuínas, comunidades de pesquisa válidas, linhas de pesquisa justificadas, pesquisadores autênticos, grupos de trabalho concludentes e publicações lídimas. Ao se examinar a história do campo dos estudos da comunicação constata-se a presença de todas estas distinções e ocorrências.

  Assim, os conflitos pela definição de procedimentos apropriados de análise tornam patentes uma pluralidade de correntes teóricas que almejam a hegemonia e a predominância doutrinária de suas escolhas acadêmicas por determinados mecanismos de pesquisa e estratégias de tirocínio. É uma dinâmica de legitimação que pressupõe uma espécie de emulação, direta ou indireta, entre e pelos representantes destas correntes que acabam sendo posicionadas por um âmbito histórico-social de contínuas sucessões e reelaborações de métodos e de escolas que, de acordo com os modismos de cada época, ficam fortalecidos ou amargam períodos de exclusão. Trata-se do resultado de um processo secular que acompanha as instâncias de um:

  

Campo de observação científica que, historicamente, se

inscreveu em tensão entre as redes físicas e imateriais,

entre o biológico e o social, a natureza e a cultura, as

perspectivas micro e macro, o local e o global, o ator e

o sistema, o indivíduo e a sociedade, o livre-arbítrio e

os determinismos sociais . (MATTELART &

  Através desta inclinação formativa houve, conseqüentemente, a constituição de uma:

  

Apropriação de uma determinada teoria ou o monopólio

de distribuição de um conhecimento específico que

regem a construção de hipóteses, erigem e deslegitimam

objetos, formas e métodos de estudo na configuração do

sistema institucional de produção de conhecimento e na

criação conseqüente de um corpo de especialistas

dotados em altíssima escala de um saber prático de

ação profissional tanto mais transformado em

elaborações simbólicas quanto mais alta for sua

posição e reconhecimento no campo específico.

  (BARROS FILHO & MARTINO, 2003: 152)

  É uma situação que indica, com precisão, como o campo da comunicação é, exatamente, o produto e a sistematização de todas estas inúmeras e distintas iniciativas de estabelecer um conhecimento e um domínio científico sobre os processos comunicacionais. Ou seja, o campo da comunicação não existe, unicamente, como uma intersecção passiva ou um simples efeito das influências e dos modelos de diferentes orientações do saber acadêmico. Os fatos e as práticas que constituem o estudo comunicacional advêm de uma série de disputas que estabelecem os seus limites como disciplina acadêmica e a sua pertinência em relação a outras áreas de conhecimento. Por conseqüência, um exame acurado da produção de conhecimento e da formação do campo comunicacional descortina muitos conflitos que também representam um esforço pertinaz para relacionar e utilizar diferentes áreas, modelos, teorias e paradigmas capazes de estabelecer os fundamentos de uma série de estudos. Estes promovem uma combinação entre o particular e o plural e buscam não só a constituição, mas o diálogo de saberes em torno da temática da comunicação.

  Nesse sentido, retornando, ao propósito de demonstrar um panorama do pensamento comunicacional, é possível estabelecer também um fio condutor que tenha início através de como os contornos acadêmicos que adquiriram os estudos da comunicação formaram-se a partir das reflexões sobre as características particulares da modernidade. Isto se dá, principalmente, através de preceitos que suscitaram a crença de que a sociedade havia deixado de se constituir por relações pessoais, por relações de intimidade e de solidariedade comunitária, para adquirir uma nova conformação, definida por relações impessoais, anônimas e insolidárias trazidas e estimuladas por uma organização social massiva. Com isso, surge uma determinada conceituação de massa como a expressão de um conjunto homogêneo de indivíduos. Estes, enquanto membros de uma “sociedade de massa”, seriam essencialmente iguais, indiferenciáveis, mesmo que provenientes de ambientes diferentes, heterogêneos e de outros grupos sociais. Trata-se de indivíduos que não se conhecem, que estão separados, uns dos outros, pelo espaço urbano e que não têm nenhuma possibilidade de exercer uma ação de influência recíproca na realidade à sua volta. Assim, a principal maneira de se comunicar com este enorme agrupamento de indivíduos ocorre, justamente, através da comunicação de massa. Mais propriamente, através dos meios de comunicação de massa: a mídia.

  Todo este eixo indivíduo-massa-comunicação está construído sobre

   2 um modelo sociológico, clássico e datado , que advoga uma estrutura

Atualmente, a massa é um conceito mais do que revisto. Não sendo mais cabível, hoje em dia,

considerar-se que na massa são abolidas todas as singularidades, nela reina a igualdade homogênea

entre seus membros (cada cabeça equivale a cada outra cabeça), a densidade deve ser absoluta (...),

nela predomina uma direção única, que se sobrepõe a todas as direções individuais e privadas. (...)

Homogênea, compacta, unidirecional (PELBART, 2003: 26). Tal idealização em torno do que é a social na qual existe um centro de controle que domina e rege as vidas de seus controlados. Por tal viés, os indivíduos são moldados por esta imperante estrutura forjada pelo capitalismo, não havendo nenhum poder do indivíduo sobre a estrutura. A racionaização do capitalismo impunha uma dissolução da socialização, dos costumes, das crenças e dos comportamentos tradicionais. Com isso, o principal agente da modernização era a própria razão. A modernidade, por tal viés, não é a obra, por exemplo, de um déspota esclarecido, de uma revolução popular ou da vontade de um grupo específico, a modernidade é obra da própria razão, portanto da ciência, da tecnologia, da educação, etc. A modernidade pode ser entendida como a difusão dos produtos da atividade racional, científica, tecnológica, administrativa através de uma crescente diferenciação dos diversos setores da vida social. Fundando-se nestas ambivalências, o que vale para sociedade, vale para o indivíduo que tem sua vida direcionada pela participação em uma sociedade na qual a ação da razão é o princípio básico de organização do comportamento social e individual. (BAUMAN, 1991; TOURAINE, 2002).

  Nessa perspectiva, os meios de comunicação geram informações voltadas para um controle social uniformizador e inquestionável. São princípios comunicativos que podem ser explicados por um processo de estímulo e resposta, que, assim, provocaria efeitos instantâneos, mecânicos e amplos, de tal forma que se um “indivíduo-massa” fosse atingido pelo veículo comunicativo, poderia ser facilmente controlado, manipulado e direcionado para determinado comportamento. Então, mesmo diante da amplitude de tradições de pesquisa com métodos, finalidades e doutrinas radicalmente opostas, é possível constatar, pelo viés panorâmico proposto, que o indivíduo social, a massa e os meios de

  

participação social acompanham motivações multidirecionais. E apenas uma forma de entendimento e comunicação (em termos de conteúdo, presença, extensão, direção, recepção, formato e tecnologia) compõem, desde o seu começo até a atualidade, os elementos-chave das teorias da comunicação, sendo utilizados, em conjunto ou separadamente, por diferentes modelos teóricos que tornam a mídia o assunto principal e mais estudado pelo campo comunicacional.

  Nesse contexto, a construção de uma área de conhecimento depende, centralmente, da formulação e do desenvolvimento de estratégias de trabalho intelectual, que se concretizam em programas de investigação empírica e teórica. No processo de sua constituição como campo de saber, o pensamento comunicacional revela e reflete também a história social, política, econômica e geográfica das comunidades de investigadores; das formas de divulgação e discussão de resultados e inquietações; dos centros de pesquisa e ensino; dos esforços pragmáticos de utilização de conclusões e descobertas; e do comportamento profissional e pessoal das equipes e dos investigadores. Por isso, a complexidade das escolas, correntes e tradições de investigação midial engloba, em diferentes graus, todos estes aspectos que foram citados. A dificuldade de sua caracterização advém, diretamente, da intrincada diversidade estrutural, intelectual e institucional com que se congregam e se comportam.

  Com isso em vista, na constituição do academicismo comunicativo, existem dois principais paradigmas (os já citados pragmático e crítico) que se revestem de especial interesse por estarem, totalmente, incorporados ao patrimônio dos estudos da comunicação, e por fazerem parte, em graus variados, da formação acadêmica dos teóricos comunicacionais até o momento atual. Tais paradigmas não podem ser vistos como ultrapassados e devem ser compreendidos como fundamentos básicos que, de um jeito ou de outro, exibem marcas profundas ou superficiais que comprovam sua importância e sua presença constantes para o pensamento comunicacional. Então, ao se optar por um panorama que parte destes dois paradigmas, opta-se por um ponto de vista que tem um sentido adequado para quem, realmente, conhece e vivencia, com intimidade, os meandros da teoria da comunicação.

  Sendo assim, muitas das pesquisas estadunidenses exploram os fenômenos comunicativos. São linhas de análise que englobam desde Charles Horton Cooley, Ernest Watson Burgess e Robert Ezra Park que reuniram seus enfoques pioneiros em torno da cultuada Escola de

  

   Chicago até a revolucionária Escola de Palo Alto (também conhecida

  como o Colégio Invisível) com Gregory Bateson, Ray Birdwhistell, Edward T. Hall, Erving Goffman, Don Jackson, Paul Watzlawick e Stuart Sigman. Contudo, a primeira configuração específica de um campo de estudos da comunicação foi, de fato, o Mass Communication Research que surgiu na década de 1920 com a criação dos primeiros institutos de sondagem de opinião pública do mundo e que pode ser dividido em três grandes grupos: o da corrente do Paradigma Funcionalista-Pragmático

  

  

  (representada, por exemplo, por Harold D. Lasswell , Walter Lipmann e

  

realizados, entre 1915 e 1940, por professores e estudantes da Universidade de Chicago. Nem sempre

se trata, é claro, de uma corrente de pensamento homogênea, com uma abordagem teórica comum.

Mas, apesar disso, a Escola de Chicago apresenta diversas características que sem dúvida lhe conferem

uma grande unidade e lhe atribuem um lugar particular e distinto no campo sociológico. E é em apenas

alguns textos, entre muitos, de Cooley, Burgess e Park que é possível encontrar determinadas análises

sobre a presença e o papel da mídia na estrutura espacial e na ecologia humana das sociedades urbanas

4 e industrializadas.

  

A Escola de Palo Alto é composta por pesquisadores que vêm de áreas diversas. O antropólogo

Gregory Bateson procurou formular uma teoria geral da comunicação. Os antropólogos Ray

Birdwhistell e Edward T. Hall são estudiosos de lingüística que procuram ampliar o terreno da

comunicação, introduzindo a gestualidade (caracterizada pelo termo kinésica) e o espaço interpessoal

(caracterizado pelo termo proxêmica). O sociólogo Erving Goffman estuda os fundamentos

microssociológicos da ordem social. Don Jackson e Paul Watzlawick ampliam alguns aspectos da obra

de Bateson, e Stuart Sigman retoma e relaciona o pensamento de Birdwhistell e Goffman. Então, a

comunicação para esses estudiosos é um processo social permanente que integra múltiplos modos de

5 comportamento e de expressão.

  

O considerado marco inicial, por uma maioria de fontes bibliográficas, da Mass Communication da Informação (criada por Claude E. Shannon e Warren Weaver), e o da corrente dos Estudos dos Efeitos Comunicativos (representada, por

  

  

  exemplo, por Paul F. Lazarsfeld, Robert K. Merton , Carl I. Hovland ,

  

  

   Kurt Lewin , Leon Festinger e Joseph T. Klapper ). Como a Mass

Communication Research é composta por abordagens e autores tão

  variados que passam pela engenharia das comunicações, pela psicologia, pela filosofia, pela ciência política e pela sociologia, esta tradição de estudos tem pressupostos teóricos e resultados tão distintos que, em muitos casos, tornam-se quase inconciliáveis.

  Mesmo assim, o que permite dar coerência a este conjunto de estudos são quatro características comuns. A primeira é a orientação empiricista dos estudos, tendendo na maioria das vezes, para enfoques que privilegiam a dimensão quantitativa de uma série de estatísticas. A segunda é a orientação pragmática, mais política do que científica, que determinou a problemática dos estudos. Isto porque as pesquisas em comunicação desta tradição acadêmica têm origem em demandas instrumentais do Estado, das Forças Armadas ou dos grandes monopólios da área de comunicação de massa, e têm por objetivo compreender como funcionam os processos comunicativos para adequá-los aos propósitos 6 destas demandas. A terceira característica é o objeto de pesquisa que está

  

Uma minoria de fontes bibliográficas aponta o livro de Lipmann, Public Opinion de 1922, como a

primeira publicação impressa a observar os mecanismos de funcionamento da mídia em relação ao

7 público.

  

Wright criou um modelo funcionalista de análise baseado em uma estrutura conceitual que prevê

8 funções e disfunções inerentes aos meios de comunicação.

  

As pesquisas de Merton colocam a mídia como transmissor social de hierarquia, de normatização e de

9 alienação. 10 As pesquisas de Hovland examinam a eficácia da propaganda junto aos soldados norte-americanos.

  

As pesquisas de Lewin tratam das relações dos indivíduos dentro de grupos e seus processos de

11 decisão.

  

As pesquisas de Festinger discorrem sobre a sua Teoria da Dissonância Cognitiva, que advoga sobre

12 o comportamento individual e suas motivações em relação a realidade.

  

As pesquisas de Klapper visam sobre os efeitos das influências exercidas pelos meios de sempre direcionado para a comunicação midiática. Por fim, a quarta característica diz respeito a um modelo comunicativo unidirecional (de um centro para o resto da sociedade) que fundamenta todos os estudos.

  Dessa maneira, pode-se passar para uma das principais contribuições da corrente funcionalista que foi a tentativa de formalização do processo comunicativo, a partir da “questão-programa” do cientista

  

  político, Harold Dwight Lasswell (1902-1978). Através da observação das estruturas dramáticas utilizadas pela propaganda política e comercial, Lasswell (1979, 1980) criou um modelo “da estrutura e da função da comunicação na sociedade”. Para tanto, ele retomou e expandiu os princípios da retórica grega de Aristóteles que identificou os principais componentes do processo: o locutor, o discurso e o ouvinte; e apontou como propósito principal da retórica a busca de prender a atenção e de comunicar informações para o maior número possível de pessoas. Assim,

  

  se Aristóteles havia identificado o quem, o o quê e o a quem, a Lasswell coube acrescentar um por que meio e um com que efeitos. Com isso, o ato comunicacional passava a ser descrito como uma seqüência interrogativa:

  

Quem diz o quê, por que meio, a quem e com que efeitos ? É, portanto,

  uma teoria da comunicação que formula a identificação de determinados componentes de um modelo de ação comunicativa.

  Além disso, para Lasswell, toda comunicação é intencional porque tem por objetivo obter um efeito provocado pelo conteúdo comunicado, que, então, atua como um todo integrado e encerra uma função no processo social derivada de um modelo linear em que os componentes 13 Lasswell também foi o criador do termo comunicacional “agulha hipodérmica” que acabou gerando a

  Teoria Hipodérmica ou Teoria da Bala Mágica ou Teoria da Correia de Transmissão. É uma teoria que

trabalha a relação público-mídia através do behaviorismo de estímulo e resposta e que, curiosamente,

não foi, até a atualidade, relacionada como resultado de criação do trabalho de um intelectual

14 específico.

  

Para o filósofo grego Aristóteles (1994), a prática da retórica, a prática da comunicação oral tinha

uma eficácia plena quando estruturada a partir de uma fala que especificasse suas intenções ao deixar comunicativos são encadeados em uma única ordem e não podem se dispor de outra forma. A mídia, de acordo com essa ótica, gera reações no público pelos conteúdos que dissemina, e as reações do público dependem de suas identificações projetivas, de seus anseios e expectativas, latentes ou não. Com isso, a mídia tem, nesse sentido, o papel de integrar e de trocar informações entre os diferentes componentes sociais para que aconteça, entre eles, uma relação e um funcionamento adequados aos interesses do sistema social.

  Tais formulações encontraram novos horizontes com a Teoria Matemática da Comunicação (1975) elaborada pelos engenheiros matemáticos, Claude Eldwood Shannon (1916-2001) e Warren Weaver (1894-1978), em 1949. Essa teoria é uma sitematização do processo comunicativo a partir de uma perspectiva puramente técnica, com ênfase nos aspectos quantitativos. De acordo com eles, uma fonte emissora de informação (eminentemente humana) seleciona, em um conjunto de mensagens possíveis, uma mensagem específica. Um emissor (mecânico) codifica esta mensagem específica em consonância com as regras e a combinação de um código determinado, que convertem esta mensagem específica em sinais que são transmitidos por meio de um canal específico ao receptor (mecânico). O receptor capta os sinais e os decodifica, recuperando a mensagem original e permitindo sua assimilação por parte de um destinatário humano.

  Em sua concepção original, este modelo destinava-se à estimativa da quantidade de informação transmitida, tomando-se por referência a improbabilidade estatística de aparecimento de certas mensagens sem levar em conta seus sentidos prováveis ou possíveis. Foi de Weaver, todavia, a iniciativa de acrescentar um receptor semântico ao esquema original, situando-o entre o receptor e o destinatário. O receptor, assim caracterizado, tende a submeter uma mensagem a uma segunda decodificação, em razão de uma necessidade de compatibilizar as características semânticas da mensagem (os ruídos) à capacidade de entendimento daqueles aos quais ela se destina. A comunicação é vista, aqui, não como um processo, mas como um sistema que é constituído por elementos que podem ser relacionados e montados em um modelo, novamente, unidirecional.

  Enfim, para citar apenas um exemplo entre muitos da corrente dos efeitos, é adequado discorrer sobre a preocupação fundamental do sociólogo Paul Felix Lazarsfeld (1901-1976) com as reações imediatas da audiência dos conteúdos da comunicação de massa. Para Lazarsfeld (1969), as mensagens elaboradas e transmitidas pela mídia nem sempre atingem os potenciais receptores de forma direta, isso se dá em função de um repasse informativo que funciona de acordo com os contextos sociais em que os indivíduos vivem. Cada membro de uma sociedade integra vários grupos, formal ou informalmente constituídos, e, ao interagir com eles, se faz permeável à sua influência.

  Assim, a exposição à mídia é também uma experiência de grupo, os meios de comunicação atuam de modo bastante semelhante ao papel que as relações interpessoais desempenham na vida das pessoas. Essas relações servem como um instrumento para que se alcance uma rápida adaptação individual ao modo de ser, pensar e agir do grupo. Para Lazarsfeld, um coletivo jamais deixa de oferecer uma base de apoio social ao indivíduo a ele adaptado, por isso, os indivíduos integram grupos socialmente bem definidos, e não se comportam como elementos isolados da sociedade. Então, os efeitos proporcionados pela mídia teriam alcance limitado, uma vez que o público não se comporta de maneira passiva ou inteiramente desprovida de intenção crítica, e os indivíduos interatuam interpretativamente com seu entorno social imediato. Só que aqui, o que vigora é também o modelo unidirecional que trata sempre do caminho que vai da mídia ao indivíduo e nunca o contrário.

  

Os meios de comunicação de massa, então, têm sido

utilizados com muito bom resultado para canalizar as

atitudes básicas, mas parecem existir muito poucas

provas de que tenham servido para modificar estas

atitudes. (...) O papel atual dos mass media está quase

por completo limitado a assuntos socais periféricos e os

media não mostram o grau de potência social que

normalmente se lhes atribui. Pela mesma razão e em

vista da presente organização da propriedade e do

controle dos mass media, estes têm servido para

sedimentar a estrutura da sociedade. (...) Assim, as

mesmas condições que agem em favor da máxima

eficácia dos mass media operam em favor da

manutenção da estrutura social vigente. Ou seja,

trabalham muito mais para a manutenção desta

estrutura sócio-cultural do que para a sua modificação .

  (LAZARSFELD & MERTON, 1969: 124-127)

  São poucos exemplos, mas que, ao mesmo tempo, oferecem uma visão eficaz de como a evolução da pesquisa comunicacional estadunidense está, intimamente, marcada pela consolidação de uma grande perspectiva teórica formada, basicamente, por uma combinação entre a “questão-programa” de Harold Lasswell e o modelo comunicativo da Teoria Matemática. Esta combinação desenvolve-se em estudos mais operacionais, preocupados com as funções da comunicação e, sobretudo, com a questão dos efeitos. Portanto, é a partir dos princípios da Mass

  

Communication Research que todas as análises midiais estadunidenses

  

  

  subseqüentes (e muitas análises feitas em outros países ) reelaboram, em vários sentidos, o eixo indivíduo-massa-comunicação, ao fazerem uso de conceitos acadêmicos com pressupostos diversos e ao inaugurarem outras frentes de investigação científica.

  No outro extremo destas questões, mas, propriamente, do outro lado do Oceano Atlântico, as pesquisas comunicacionais européias assinalam um posicionamento destacado com as proposições germânicas crítico-conceituais da famosa Escola de Frankfurt. Na época da República de Weimar, na Alemanha, um grupo de intelectuais, do qual faziam parte os filósofos Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), fundou, no dia 3 de fevereiro de 1923, o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, que viria a ser mudado para apenas Escola de Frankfurt. Em 1930, Horkheimer foi designado diretor, introduzindo, então, mudanças na orientação intelectual da Escola. O método marxista de interpretação da história foi revisto e reproposto por uma filosofia da cultura, da ética, da psicologia e da psicanálise. As idéias de Karl Marx referentes a ideologia, ao fetiche da mercadoria e ao valor de troca foram associadas com as idéias de Sigmund Freud referentes às necessidades supérfluas incutidas na psique humana e aos

  a partir de 1974, que advoga para mídia a função de suprir e de suprimir necessidades individuais e coletivas. Como também é cabível citar a Teoria do Agendamento ou Teoria dos Efeitos a Longo Prazo, que passou a ser formulada por Maxwell E. McCombs e Donald L. Shaw com base nos trabalhos, de 1952, de Kurt Lang e Gladys Engel Lang e que pensa a mídia como um alterador da estrutura cognitiva dos indivíduos, e, assim, grande parte da realidade social é fornecida pela relação 16 entre a mídia e o indivíduo.

  

Podendo-se citar como, provavelmente, a mais famosa, a Teoria da Espiral do Silêncio arquitetada pela alemã Elisabeth Noelle-Neumann desde 1972. Esta teoria advoga que a mídia não se limita a

representar as tendências da opinião pública, mas que, ao contrário, lhe conferem forma e condicionamentos comportamentais, e, com isso, surgiram os fundamentos básicos da Teoria Crítica da Cultura (1985).

  Por meio de tal teoria, a Escola de Frankfurt direciona seus esforços para a afirmação categórica da Kultur, ou seja, pelo viés germânico da cultura como modelo de requinte e de civilização. Isto mostra porque as considerações filosóficas de Adorno e Horkheimer apresentam rejeição a expressão Mass Culture, substituindo-a por

  (indústria cultural). Ao associar pesquisa sociológica,

  Kulturindustrie

  reflexão filosófica e princípios psicanalíticos, a Teoria Crítica opõem-se

  

  ao empirismo estadunidense da Mass Communication Research , assim como a toda espécie de análise descritiva e factual do processo da comunicação. Aplicando-se na vida social, à qual entende como totalidade constituída, tal teoria estima que as análises setoriais e as disciplinas compartimentadas expressam o triunfo da razão instrumental, que se amolda admiravelmente à manutenção de uma determinada ordem social. Dessa maneira, a prática acadêmica não pode confinar-se à coleta de dados, ignorando as mediações sociais, nem pode esquecer de referir os fenômenos investigados às forças sociais que os determinam. E esta razão instrumental, vigente em sociedades capitalistas e industrializadas, não garante o exercício de um livre arbítrio, mas, na verdade, a submissão à ideologia dominante e o aumento do desnivelamento socioeconômico.

  As teses defendidas pela Escola de Frankfurt colocam em relevo o papel central que a ideologia desempenha nas formas de comunicação das sociedades modernas. Agentes da “barbárie cultural”, os meios de 17

  

É famosa a troca de “desavenças teóricas” entre o austríaco (naturalizado cidadão estadunidense) Paul

  F. Lazarsfeld e a dupla germânica Max Horkheimer e Theodor W. Adorno. Os três expuseram seus diferentes pontos de vista através de ensaios e de artigos inflamados nos quais sempre defendiam as especificidades do seu modelo teórico em detrimento do modelo contrário. Só que estas “desavenças” revelam, de fato, que nenhum deles tinha um conhecimento, verdadeiramente, profundo sobre as teorias, as pesquisas e os escritos do modelo que estava sendo atacado. Além disso, estas desavenças aconteceram na época em que Adorno e Horkheimer chegaram aos EUA fugindo do nazismo para trabalhar na Universidade de Colúmbia, e, com isso, adotaram a tática da polêmica para chamar a comunicação de massa seriam veículos propagadores de ideologias próprias das classes dominantes, impondo-as às classes dominadas pela persuasão ou pela manipulação das informações transmitidas através da mídia. Por integrarem uma indústria cultural, os meios de comunicação são os principais responsáveis por este estado de coisas porque a produção em série e a promoção publicitária acarretaram a homogeneização dos padrões de gosto, proporcionando uma deterioração da Kultur. A razão instrumental subordinou a cultura a um princípio de serialização e de padronização massivas, e a indústria cultural é o resultado primordial do processo de mercantilização capitalista de qualquer artefato produzido pela cultura. O capitalismo rompeu os limites da economia e penetrou no campo da formação da consciência, convertendo bens culturais em mercadoria. A tensão entre cultura e barbárie, arte e entretenimento, foi superada com a criação de um modelo cultural de mercado direcionado, unicamente, para a venda e para o consumo.

  

A indústria cultural ao juntar elementos de há muito

correntes, ela atribui-lhes uma nova qualidade. Em

todos os seus ramos fazem-se, mais ou menos, segundo

um plano, produtos adaptados ao consumo das massas e

que em grande medida determinam esse consumo. Os

diversos ramos assemelham-se por sua estrutura, ou

pelo menos ajustam-se uns aos outros. Eles somam-se

quase sem lacuna para constituir um sistema. Isso,

graças tanto aos meios atuais da técnica, quanto à

concentração econômica e administrativa. A indústria

cultural é a intergração deliberada, a partir do alto, de

  seus consumidores. Ela força a união dos domínios, separados há milênios, da arte elaborada e da arte popular. Com o prejuízo de ambas. A arte elaborada se vê frustrada de sua seriedade pela especulação sobre o efeito; a popular perde, através de sua domesticação civilizadora, o elemento de resistência, que lhe era inerente enquanto o controle social não era total. .

  (ADORNO & HORKHEIMER, 1978: 287-288)

   Toda esta análise frankfurtiana transformou-se,

  progressivamente, em um manancial de referências obrigatórias nos estudos da comunicação em vários países (até mesmo em alguns estudos estadunidenses), compondo também o principal ponto de antagonismo e de alternativa à pesquisa estadunidense. Em certo sentido, são dois lados opostos em que a linha estadunidense representa um saber empírico da coleta de dados, da montagem de estatísticas, da entrevista de pessoas, da descoberta de fatos e da compilação de resultados sobre o assunto proposto, enquanto que a linha européia representa um saber conceitual e

  Adorno e de Horkheimer, não sendo adequado associar outros pensadores frankfurtianos como Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, Erich Fromm e Siegfried Kracauer a esse tipo de modelo teórico. Já que Benjamin acredita que o capitalismo criou sem querer as condições para uma democratização da cultura, ao tornar os bens culturais objeto de produção industrial. Para ele, as tecnologias de comunicação surgidas depois da fotografia se caracterizam pela sua reprodutibilidade, que acaba gerando não apenas novos produtos estéticos como também novas formas de percepção e de fruição estéticas. Marcuse, por exemplo, também se deteve na análise da razão instrumental no mundo moderno. Mas, ele afirmou que as formas habituais de se pensar, prática e teoricamente, a mídia contribuíram para o predomínio dessa razão instrumental. Habermas, por sua vez, seguiu por uma linha de ciência social crítica para criar sua Teoria da Ação Comunicativa que advoga que agir comunicacionalmente significa corrigir as distorções de uma consciência tecnocrática fundamentada pela razão instrumental. Fromm, na contracorrente, ficou conhecido por causa dos seus livros sobre psicologia humana. Kracauer, por fim, advoga, assim como Benjamin, ser próprio do progresso ensaístico que depende da capacidade de análise, do nível de

   conhecimento e da habilidade de fazer relações de cada autor .

  Por meio deste contexto de um cenário empírico e conceitual em transição, constata-se que tanto o paradigma pragmático como o crítico fundamentaram a pergunta básica dos estudos comunicacionais: o que a mídia (em suas variações tecnológicas) provoca e estabelece na sociedade e no indivíduo? Estas duas correntes articularam possíveis respostas que lidam com as transformações surgidas com diferentes meios de

  

  comunicação através de dois pólos : a onipresença e a onipotência da mídia ou a sua limitada presença e influência regida pela capacidade de recepção e de singularização dos indivíduos. Com isso, a Mass

  

Communication Research e a Escola de Frankfurt acabaram, não

  

  intencionalmente , criando tipos de interesse e pontos de vista que guiam, por matizes diversificados, toda uma história central das diferentes abordagens teóricas utilizadas para a investigação dos meios de comunicação de massa. Então, apesar de todas as décadas e até séculos, e diferentes estágios da comunicação e da mídia, que separam o paradigma pragmático e o paradigma crítico do tempo presente, as proposições e as 19 práticas deles ecoam, com força ou com descrição, em inúmeras análises

  

É claro que também se verifica, em níveis gradativos, uma presença desse posicionamento ensaístico

na Mass Communication Research e da pesquisa quantitativa na Escola de Frankfurt. Sendo notório o

estudo A Personalidade Autoritária (1952) que foi um projeto frankfurtiano elaborado em torno de

uma série de questionários que procuravam traçar as motivações e o perfil de anti-semitas. O que

mostra, então, como nestes dois lados opostos é, igualmente, possível encontrar uma combinação entre

20 as diferenças metodológicas que os dois representam.

  

Mesmo em uma extensão tão variada que envolve, por exemplo, a escola inglesa dos estudos culturais

representada por Raymond Williams, Richard Hoggart, E.P. Thompson e Stuart Hall; a escola

canadense da Teoria da Mídia representada por Herbert Marshall McLuhan, Harold Adams Innis e Eric

Havelock; ou a escola latino-americana representada por Antonio Pasquali, Eliseo Véron, Luis Ramiro

Beltrán e Armand Mattelart. É claramente perceptível a presença da divisão entre esses dois pólos no

21 tipo de pensamento comunicacional que aparece no trabalho de todos esses pesquisadores.

  

Tanto os estadunidenses quanto os frankfurtianos não tinham, realmente, a intenção de criar um

campo de estudos comunicacionais, mas, unicamente, analisar este tipo de fenômeno de acordo com os

saberes acadêmicos já existentes. Só que, apesar, desta “falta de intenção”, estas formas de pensamento

comunicacional são, de fato, organizações teóricas suscitadas pela emergência de determinadas

estruturas de comunicação. Algo que, por si só, já implica em uma espécie de ligação específica capaz

de unir e de particularizar este modo de esforço acadêmico como característico da área do que a atualidade do campo comunicacional realiza. Análises que atravessam fronteiras estabelecidas, promovem migrações conceituais e constituem novos olhares.

  Por ser resultado de uma estrutura muito mais complexa, a configuração dos processos comunicativos pressupõe o convívio, a influência e a contaminação de uma seqüência de fatores diversos. Assim, a mídia não deve ser entendida como um conceito isolado e fechado em si mesmo, mas precisa, de fato, ser considerada como uma parte fundamental inserida em um processo intrincado que resulta e que depende de uma cadeia de conexões extremamente complexas e elaboradas. Por isso, a definição e a análise dos elementos que compõem a comunicação favoreceram a elaboração de abordagens conceituais diversificadas. Procurando por outras questões a serem exploradas, tais abordagens partem de processos comunicacionais que buscam expandir as fronteiras da mídia delimitadas pela teoria da comunicação de massa.

  Dessa forma, uma temática que é, igualmente, muito explorada é a chamada comunicação humana que, basicamente, independe da presença de um meio de comunicação. Esta ramificação da teoria da comunicação concentra abordagens que, por mais variadas que sejam, parecem apontar sempre para duas direções. A da fala como uma característica distintiva do ser humano e a da criação e uso de símbolos como a característica principal da comunicação humana. Então, a teoria da comunicação humana é um modelo que trata das possibilidades inerentes ao corpo humano. Lidando ou não com questões de fundo biológico, o corpo humano é, por tal viés comunicacional, o objeto de estudo que não só corresponde, como é, em certo sentido, a própria mídia da comunicação.

  [1.3]

  Nas primeiras fases de formação do campo comunicacional, a analogia biológica com o corpo foi um parâmetro fundamental para explicar o funcionamento dos meios de comunicação e sua relação com o arranjo social. Eram metáforas que associavam a mídia e a sociedade com preceitos inerentes ao orgânico e ao organismo. Palavras que são entendidas como sinônimos de corpo. Corpo que, por tal viés, possui níveis de organização que funcionariam de acordo com os mesmos princípios de organização que regem a vida como um todo. E, conseqüentemente, que regem as próprias organizações sociais e os seus diferentes meios de comunicação.

  

A função social é um modo de atividade socialmente

padronizado, ao mesmo tempo em que é um modo de

pensamento, com sua relação com a estrutura social

para cuja existência e continuidade traz alguma

contribuição. Analogamente, em um organismo vivo, a

função fisiológica das batidas do coração, ou da

secreção de sucos gástricos, é sua relação com a

disposição orgânica . (RADCLIFFE-BROWN, 1977:

32)

  Para analisar este primado do organismo, a filósofa francesa Judith Schlanger produziu um estudo referencial sobre o imaginário corporal e o papel analógico-retórico desempenhado pelas noções organicistas difundidas entre o século XVIII e o século XIX:

  

O sucesso da linguagem do organismo político e social

é um caso particular e particularmente notável de

valorização analógica. Quando a idéia mesma do

organismo é supervalorizada, todos os enunciados que

se ligam a ela ou invocam a sua caução, participam de

um mesmo quadro geral de valorização. (...) A noção de

organismo, nos seus diversas componentes, descobriu-

se generalizada e absolutizada como arquétipo da

racionalidade. O organismo deixa de designar uma

ordem importante, mas localizada, de fenômenos que

são objeto de um saber. Passando a remeter a um

complexo de significados, a partir do qual se organiza

diretamente qualquer saber. O termo organismo revela-

se dotado de um poder de integração racional,

comparável mas muito superior ao papel desempenhado

pela noção de estrutura. (...) Nesse sentido, é possível

falar de uma verdadeira racionalidade orgânica .

  (SCHLANGER, 1983: 30-36)

  Tal racionalidade orgânica associa, por exemplo, a circulação do sangue no corpo com a circulação de informações e de produtos na sociedade. Então, o próprio meio de comunicação é também percebido pela ótica organicista que entende sua importância social de acordo com a importância orgânica das veias, artérias, vasos e capilares. Por tal viés, a anatomia corporal é colocada como uma espécie de espelho do qual a anatomia social é um reflexo direto. A sociedade seria um organismo, havendo uma continuidade entre a ordem biológica e a ordem social. Esta ligação pode, igualmente, ser relacionada com as transformações da modernidade, onde uma série de descobertas da tecnologia e da biologia trouxeram outras possibilidades de entender a realidade. Sendo a biologia, neste período, o descortinamento de um mundo novo, ao qual, naquele momento, as questões fisiológicas serviam não apenas como metáfora ou analogia, mas como a confirmação de toda uma conjuntura social que via no corpo não só o motivo, como também a explicação plausível para o formato moderno ao qual a vida humana, pouco a pouco, seguia. Assim, como o corpo é algo natural, este formato social moderno deveria ser aceito também como algo natural e inerente à vida humana. Então, a implantação da modernidade, traz a invenção da mídia. Uma situação que corresponde, igualmente, a uma espécie de invenção do próprio corpo de acordo com premissas pelas quais a sociedade moderna expandia e firmava seus limites.

  Nesse sentido, da mesma maneira que o organicismo contaminou uma série reflexões sobre a malha social e sua rede de comunicações, a formação do pensamento comunicacional também apresenta conexões com o discurso orgânico. No paradigma pragmático existe a influência de modelos sociológicos que privilegiam o fundamento organicista. A equivalência entre funções biológicas e funções sociais é uma das bases do organicismo. É uma matriz teórica, na qual as simbioses do seres vivos são vistas como um modelo universal de organização. Nos termos desta equivalência, as relações entre organizações de seres vivos ultrapassam o âmbito das comparações metafóricas e adquirem uma base epistemológica. Com isso, a associação dos seres vivos em qualquer grau da escala biológica, explica-se pela ação de certos mecanismos fisiológicos que determinam o comportamento associativo, decorrendo fundamentalmente deles, para cada espécie, suas formas de associação. Os mecanismos culturais complementam os fisiológicos, e, sobretudo, os imitam. Assim, estende-se a equivalência entre funções biológicas e sociais para processos comunicativos. Para Lasswell, por exemplo, entre os mecanismos fisiológicos, destacam-se os de reação aos estímulos do meio, como uma espécie de padrão explicativo para a compreensão e a definição do que são os processos de comunicação e quais as suas características.

  

Podemos ter uma visão mais ampla das sociedades

humanas quando notamos até que grau a comunicação

é uma característica da vida em qualquer nível. Uma

entidade vital, quer esteja relativamente isolada ou em

associação, tem recursos especializados para receber

estímulos do meio ambiente. O organismo unicelular ou

o grupo mais complexo tende a manter um equilíbrio

interno e a reagir às mudanças de ambiências de forma

a manter esse equilíbrio. O processo de reação aos

estímulos do meio exige maneiras especializadas de

organizar as partes do todo para uma ação harmoniosa.

(…) Os processos de comunicação da sociedade

humana quando analisados em pormenor, revelam

equivalência em relação às especializações encontradas

no organismo físico e nas sociedades animais .

  (LASSWELL, 1975: 106-109)

  Portanto, é a partir de um trânsito epistemológico entre as ciências biológicas e as ciências humanas pela via das equivalências, que a descrição dos mecanismos de estímulo e resposta corporais, torna-se um quadro de referência para a formação do paradigma pragmático encampado pela Mass Communication Research. Isto vai além de Lasswell, porque Lazarsfeld, por exemplo, associou a seletividade diante dos efeitos da mídia com a capacidade dos anticorpos, assim como Shannon e Weaver foram influenciados por descobertas da biologia sobre o sistema nervoso acerca da transmissão de informação nos níveis fisiológicos. Na mesma medida, o paradigma crítico expressa as metáforas orgânicas de maneira mais sutil. Adorno e Horkheimer associam, por exemplo, a modernidade com o desmembramento de um corpo. Para eles, a modernidade desestabilizou a unidade social (identificada com a analogia organicista) e trouxe o desequilíbrio para um corpo que funciona, em termos fisiológicos, de maneira saudável. Cabendo aí ainda, a associação da modernidade com um corpo doente. Também é possível encontrar passagens na obra dos dois, em que o meio de comunicação é relacionado com metáforas orgânicas do corpo social, da neuralgia e da capacidade dos nervos produziram dor ou alívio na estrutura social.

  O corpo, em suas intimidades estruturais, aparece, então, como um elemento fundamental e, simultaneamente, fundante das reflexões de modelos teóricos dos estudos comunicacionais. Além da mídia e da comunicação, o corpo, travestido de organismo ou de orgânico, manifesta uma ascendência clara em diferentes formas de pensar as instâncias comunicativas. Mais do que isto, a apropriação do corpo para refletir sobre a comunicação, faz parte de uma prática acadêmica que, aparentemente, tenta relacionar as ciências humanas com as ciências biológicas. Mas, de fato, tal prática, na maioria das vezes, aponta uma tendência para desvirtuar as questões genéticas para os princípios das ciências humanas. Ou seja, o corpo é, supostamente, analisado pelo seu substrato biológico, quando o que acontece, realmente, é uma adequação para os parâmetros das humanidades. Não há, na maior parte dos casos, um interesse autêntico em procurar ligar, de maneira balanceada e abalizada, os pontos comuns e as interações dos predicados biológicos com as diversas alçadas e prerrogativas da existência humana. Ao invés de ocorrer um trânsito epistemológico real entre a área de humanas e a área biológica, o que existe é uma disputa pela conformação do corpo por um único ponto de vista, e não pela possibilidade de uma pluralidade acadêmica que poderia equacionar, enriquecedoramente, diferentes lados de uma mesma questão. O tratamento que é dado ao corpo na formação do campo comunicacional e na seqüência de uma série de estudos comunicativos até a contemporaneidade, tem indicado a persistência de uma conjuntura mais ampla. Nesta, o corpo como objeto de análise é fragmentado por interesses variados que não buscam descobrir relações possíveis, mas sim estabelecer frentes de batalha nas quais o corpo é o alvo disputado e, ao mesmo tempo, a munição que deflagra o combate.

  

CAPÍTULO II

[2.1]

  A produção de conceitos, conhecimentos, tratados, livros, teses, pesquisas, artigos, imagens e manifestações sobre o corpo no transcorrer da história da humanidade é vasta e diversificada. Isto indica, com clareza, porque o corpo se tornou um dos assuntos mais discutidos, referentes e atrativos no contexto contemporâneo. No entanto, a imensa maioria, destas discussões sobre o corpo e suas representações são herdeiras de princípios que, desde tempos antigos, desenvolvem-se, normalmente, em torno de duas interpretações: a visão do corpo como um dado natural, possuindo unidade, estabilidade e adaptações, e a abordagem construtivista em que a cultura surge como algo que intervém e que interfere nos menores gestos, de tal forma que o corpo torna-se, infinitamente, moldável.

  Assim, para os adeptos da visão naturalista, o corpo é a base pré- social e biológica sobre a qual as estruturas do indivíduo e da sociedade estão fundadas, já para os adeptos da visão construtivista, tudo acontece por causa da cultura que funcionaliza, instrumentaliza e direciona o corpo. De fato, através das inúmeras posições e propostas geradas pelas variações entre estes dois pontos de vista, o corpo acaba aparecendo, raras vezes, como uma entidade simultaneamente biológica e cultural, para ser situado por dois pólos que o colocam como apenas um produto determinado geneticamente ou como apenas um produto determinado culturalmente.

  Estas são duas linhas de abordagem que, até o momento presente, exercem uma grande influência em diferentes áreas de conhecimento, mas que procuram, entretanto, não entender o corpo, mas, na verdade, submetê-lo, por meio de um confronto de interesses a uma série de controles e de instâncias que determinam quais são os significados corporais que devem ser aceitos como vigentes e válidos. Conhecer o corpo é um empreendimento, constantemente, irresoluto, e as certezas que se supõe possuir acerca dele são, de fato, totalmente provisórias. Isto porque as formas de atuação do corpo, tal como tudo que existe no universo e até mesmo o próprio universo, estão, freqüentemente, em transformação. Por isso, a passagem dos séculos testemunhou profundas mudanças no mapeamento e no saber de tudo que envolve e fundamenta os paradoxos da matéria corporal como algo que é sempre descoberto e redescoberto, mas, nunca, completamente, revelado e desvendado.

  É uma situação que demonstra, com precisão, como as fronteiras entre natureza e cultura relacionam disposições e dados de heranças e de épocas distintas. Torna-se cabível, então, notar a preponderância de um emprego característico expresso por diferentes enfoques cujo primordial intento está explicitado por correspondências e incidências de sistemas de conhecimento e de autoridade (medicina, biologia, genética, antropologia, sociologia, psiquiatria, etc.) que se propõem a colocar em evidência um esforço divisório para captar e para separar as forças que atuam a partir do e no corpo. Por essa perspectiva, o corpo é balizado como o eixo de um processo de figuração no qual navegam e interatuam discursos, práticas, saberes e desígnios que não tratam, sobremaneira, do corpo, mas, sobretudo, das estruturas sociais e simbólicas que o conformam.

  Por causa disso, constata-se toda uma produção de conhecimento que colabora, propriamente, para mostrar a predominância de um campo, prístino e fecundo, de estudos do corpo. Aglomerado em áreas díspares e

  ângulos diversos, expostos por destacadas correntes intelectuais através das quais são veiculados e modificados os legados culturais e biológicos que comprovam a prevalência de todo um percurso histórico que mostra como:

  

Seria simplista demais assumir que o corpo humano

existiu eternamente como um objeto natural não

problemático, com necessidades e desejos universais,

afetado de maneiras variadas pela cultura e pela

sociedade (em uma época “reprimido”, em outra,

“liberado”, etc.). Tal divisão grosseira entre natureza e

cultura seria obviamente inútil, e seria equivocado e

irônico proporcionar ao velho dualismo mente/corpo

uma nova vida. (...) Evidentemente devemos enxergar o

corpo como ele tem sido vivenciado e expresso no

interior de sistemas culturais particulares, tanto

privados quanto públicos, por eles mesmos alterados

através dos tempos. (...) Os corpos estão presentes para

nós, apenas por meio da percepção que temos deles,

então a história dos corpos deve incorporar a história

de suas percepções . (PORTER, 1997: 195)

  Dessa forma, mesmo ao se levar em conta toda esta proporção variada de percepções e de, conseqüentemente, “discernimentos corporais”, é possível ressaltar que reconhecer o corpo é, habitualmente, estabelecer gradações que fazem com que o corpo seja construído e desconstruído através de opções e de modos pessoais, comunitários, sociais, globais, instituídos e analíticos que estão, igualmente, exteriorizados e expressos por noções científicas e acadêmicas, por princípios populares e tradicionais, e por crenças particulares e coletivas. Com isso, ocupar-se do corpo é também entendê-lo, desde uma distinção primordial que é o de substrato básico da existência de qualquer organismo vivo até distinções gerais que o fazem objeto de determinadas práticas e de significados singulares para a presença corporal em condições variadas. Como, por exemplo, o nascimento, o crescimento, a alimentação, o sexo, a reprodução, a doença, a raça, a dor, as emoções, o movimento, o trabalho, a aprendizagem, o vestuário e a morte. Ou seja, o corpo, com suas características, necessidades e imposições, é o componente-chave de, indubitavelmente, tudo que compõe o cotidiano humano, indo da organização global das sociedades até os arranjos culturais.

  Nesse sentido, é, extremamente, complicado, a partir de todos estes aspectos, entender porque as complexas determinações e indeterminações entre natureza e cultura estão, na maioria das vezes, distanciadas por uma espécie de limite que, incompreensivelmente, traça uma separação clara dentre as chamadas ciências biológicas e as chamadas ciências humanas. Por causa deste limite, o corpo acaba, repetidamente, sendo ainda analisado através de preceitos que são, ao mesmo tempo, diferenciados, mas, que também:

  

São quase sempre apenas nova roupagem para antigos

pensamentos e convicções como a de que o corpo é

apenas a máquina habitada por alguma substância

hierarquicamente mais importante, e menos perecível

  

do que a carne. Em sintonia com essa visão, o corpo

ainda aparece descrito como espécie de tabula rasa que

recebe informações da cultura, com capacidade para

moldá-lo, confinando-o mais uma vez ao papel de

instrumento do determinismo sociocultural. Qualquer

referência ao corpo, como sujeito de si mesmo e mídia

do conhecimento, é considerada como perigosa porque

propõe analisar seu funcionamento genético e

neurofisiológico. Esta é a armadilha mais saborosa das

novas pesquisas porque é só estudando mais de perto

este “como o corpo funciona” que parece possível

compreender como as informações do mundo são

internalizadas no organismo e, então, modificadas. Isto nada tem a ver com o cientificismo maroto ou o discurso

do poder. Mais do que nunca, ciência e filosofia

aparecem irremediavelmente conectadas, assim como a

natureza e a cultura . (GREINER, 2003: 12-13)

  Então, é como se desassociar a evolução biológica da evolução cultural fosse a fonte de todo um empreendimento secular que almeja, acima de tudo, determinar o corpo como uma conformidade que depende para existir do parecer de especialistas agrupados em disciplinas distintas que estudam fenômenos biológicos ou culturais que, de forma estanque e diferenciada, não estão fundamentados sobre relações, objeções e contaminações que questionam e identificam a interferência e o cruzamento entre fatores biológicos e fatores culturais. Afinal, todo este domínio academicista do corpo deriva, fundamentalmente, das simplificações generalizadas advindas dessa separação natural-cultural.

  Desse ponto de vista, a fragmentação disciplinar articulada pelas linguagens à parte desta linha de ação incita a produção de uma série de “obstáculos epistemológicos” que se posicionam, essencialmente, a favor de um determinismo biológico ou de um determinismo cultural. Por isso, romper com estas barreiras implica, principalmente, em estruturar uma conciliação que desfaz, exatamente, o rigor deste tipo de determinismo que condiciona a existência e a atuação do corpo por meio de formas, perpetuamente, inflexíveis, constantes, idênticas e unidirecionais.

  Portanto, para rever e redefinir estes conceitos é necessário perceber que as condições corporais emergem, totalmente, dessa ligação paradigmática entre a natureza (como aquilo que é, supostamente, inato) e a cultura (como aquilo que é, supostamente, adquirido). Nesse sentido, é devido a estas noções que a visão construtivista apregoa que apesar de produzida por indivíduos, a cultura é adquirida por aprendizagem social e é transmitida entre os membros de uma sociedade sem ser suscitada ou até incorporada biologicamente. Só que ao se contrapor e se recuperar esta proposição (que, de fato, qualifica o corpo como algo secundário, desimportante e até acidental) através de uma combinação com as noções da visão naturalista, torna-se fatível de verificação que a maneira com que se lida com a cultura provém, igualmente, de características biológicas específicas.

  Características que envolvem desde a presença de genes próprios até mesmo a formação de uma anatomia corporal singular. Com efeito, a evolução natural humana foi marcada por uma adaptação via cultura até certo ponto paradoxal porque, em certo sentido, os seres humanos acabaram se transformando nos seres vivos mais completamente dependentes da cultura para existir e subsistir. Como evidência disto, acumulam-se indicadores filogenéticos e ontogenéticos de todo um processo evolutivo que mostra, claramente, o equívoco de colocar a evolução cultural como um momento de ruptura com a evolução genética.

  Por uma perspectiva evolucionista, ao mesmo tempo em que os ancestrais humanos começaram a produzir cultura, eles também contavam com um código genético para o comportamento cultural. De acordo com princípios biológicos, as características anatômicas, fisiológicas e comportamentais de qualquer espécie formam um complexo co-adaptado, de tal forma que mudanças evolucionárias em uma característica têm efeitos que se ramificam no conjunto. Assim, embora a característica mais básica da evolução humana tenha sido, justamente, esta espécie de “culturalização” exacerbada, a principal conseqüência da seleção associada à manifestação e ao estabelecimento destes traços culturais foi produzir alterações em todos os níveis. Por isso o ser humano é, simultaneamente, criador e criação da cultura por causa de todo um percurso de evolução genética que produziu aptidões naturais e singulares para a criação e a propagação de determinados modelos e condutas de prática cultural.

  Portanto, fixar a existência de uma esfera biológica e de uma esfera cultural (na qual o ser humano não é nem mesmo considerado biológico) separadas como duas instâncias indisponíveis, distintas, e até mesmo opostas revela-se, completamente, inadequado. Torna-se urgente perceber a relação entre estas duas esferas como um processo dinâmico e indissociável que contribui, de maneira direta, para formar a estrutura genética-cultural que compõe, coexistentemente, qualquer ser humano. É uma posição que encaminha toda a problemática que envolve esta questão para um rumo que procura tornar claro que através da dissolução desta dualidade natureza/cultura, acontece, conseqüentemente, a dissolução tanto do determinismo cultural quanto do determinismo biológico.

  [2.2]

  A vocação para a cultura é uma parte essencial da natureza humana, não se tratando, então, de algo que acontece da pele do indivíduo para fora, mas, de fato, de uma característica básica, de um detalhe intrínseco à estrutura do corpo humano. Por isso, não se pode conceber o ser humano como um estado indeterminado de vazio total que se oferece de maneira neutra e inerte à influência de diferentes níveis culturais. Com isso, o termo natureza humana deve ser entendido como uma circunstância indeclinável porque diz respeito, justamente, a biologia humana, às particularidades que a seleção natural imprimiu no código genético humano. Assim, estão presentes no DNA não apenas a codificação para fazer cinco dedos em cada mão e um nariz no meio dos olhos, mas, igualmente, uma programação básica e adaptativa que, literalmente, instaura uma condição humana que tem desde a aptidão de aprender regras lingüísticas até a capacidade de realizar cálculos matemáticos para construir um micro-chip de computador (PINKER, 2003; RIDLEY, 2004).

  As culturas humanas não são um aglomerado eventual de potencialidades e de hábitos arbitrários. É possível discernir princípios recorrentes em todas as sociedades humanas como: o grupo, a comunidade, a família, o ritual, a troca, o amor, a hierarquia, a amizade, o ciúme, etc. Por causa disso, apesar das distinções de línguas e de costumes, todos os agrupamentos humanos funcionam em níveis essenciais de motivações, de emoções e de práticas sociais.

  

Todos os povos têm algum modo de obter meios de vida.

Conseguem-no através de equipamento tecnológico

  

utilizado para arrancar do ambiente natural os recursos

para viver e os levar avante em suas atividades diárias.

Desenvolvem uma forma de distribuir o que assim

produzem, um sistema econômico que lhes permite tirar

proveito dos meios de que dispõem. Todos os povos dão

expressão formal à instituição da família ou a vários

gêneros de estruturas mais amplas de parentesco e a

associações baseadas em laços de sangue. Nenhum vive

em completa anarquia, pois que por toda parte se

encontram provas de um gênero de controle político.

Não existe nenhum que não tenha uma filosofia de vida,

um conceito de origem e do funcionamento do universo

e de como se deve tratar com os poderes do mundo

sobrenatural para conseguir os fins desejados; em

síntese, um sistema religioso. Com cantos, danças,

fábulas e formas de arte gráfica e plástica para obter

satisfação estética, linguagem para dar curso às idéias,

e um sistema de sanções para dar significação e direção

à vida. Por este sumário, estes são aspectos da cultura,

como ela própria em seu conjunto, que mostram os

atributos de todos os grupos humanos, onde quer que

possam viver . (HERSKOVITS, 1999: 33)

  Portanto, falar em natureza humana não significa proclamar a existência de programas genéticos imutáveis, mas, na verdade, constatar a existência de predisposições biológicas que possuem, simultaneamente, um mesmo substrato e também diferentes possibilidades de reação e de adaptação com o ambiente. Todos as formas conhecidas de organismos são extraordinariamente complexas. Até os organismos unicelulares como as bactérias são genuínos viveiros de atividades envolvendo inúmeros elementos e relações. Em parte, esta complexidade é o que permite a existência e a variação dos organismos.

  A interação dos organismos com outros organismos e com o ambiente seleciona os mais aptos e determina, proporcionalmente, quem vai sobreviver e formar as gerações futuras. Só que, ao mesmo tempo, outro tipo de seleção também ocorre na estrutura genética de cada ser vivo, como uma espécie de triagem apta para direcionar tanto os limites quanto às possibilidades do que cada organismo pode se tornar. Assim, é como se a evolução genética e a evolução cultural se impulsionassem mutuamente não apenas através de um modo cumulativo, mas, igualmente, por meio de uma conformação genética capaz de expressar e de seguir princípios culturais.

  A análise ontogenética, por exemplo, permite a identificação dessas possibilidades ligadas à aquisição e ao desenvolvimento culturais selecionadas ao longo da evolução. Podem se circunscrever, por exemplo, as praticabilidades inerentes a relações sociais, a linguagem e a percepção. Nesse sentido, é comum apresentar argumentos (BELUZZO, 1979; BOAS, 1969; GEERTZ, 1977; GERVAIS, 1990; KROEBER, 1989; WISSLER, 1981) que defendem que não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais.

  Qualquer criança humana normal pôde ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado. Entretanto, este modelo argumentativo deixa de lado o simples fato de que as características peculiares da cultura humana estão, unicamente, disponíveis para a criação, a compreensão e a utilização do aparato biológico próprio e imanente a composição genésica da humanidade. O famoso caso do “garoto selvagem” Victor de l’Aveyron relatado em livro (2000) pelo médico francês Jean-Marc-Gaspard Itard (1774-1838) é um exemplo que serve de parâmetro freqüente para esta questão. Por um lado, o fato de Victor ter sido desprovido da convivência social e ter convivido com animais selvagens, é utilizado para demonstrar como a ausência do contato com a chamada cultura adquirida o tornou inadequado para o modo de vida humano. Por outro lado, estudos recentes mostram que Victor, na verdade, era autista, uma disfunção genética que, naquela época, era, praticamente, desconhecida. Esta era a razão real para a sua “inadequação cultural”. Ou seja, as propriedades particulares da cultura humana são, realmente, acessíveis apenas para quem dispõe da chave genética que abre as possibilidades deste tipo específico de cultura (DAVIES, 2000). O ser humano, ao tomar conhecimento de qualquer coisa, o faz dentro de um sistema ou estrutura de pensamento, que, em última instância, é sua cultura. Nunca foi constatada a existência de seres humanos desprovidos de cultura. Então, qualquer contato ou prática cultural de uma criança ou de um adulto depende, necessariamente, das singularidades corporais presentes nos organismos humanos. Depende, absolutamente, das propriedades do corpo enquanto representante das unicidades de uma determinada espécie (GANIMEDE, 2003).

  A espécie é uma função categorial. Um conjunto de normas genéticas que materializam, propriamente, a existência pormenorizada de um organismo e as suas capacidades singulares de interagir com outros organismos e com o ambiente. As estruturas e as faculdades distintas que permitem que um ser vivo seja classificado como um membro de uma espécie específica são, justamente, os rumos e os recursos que definem qualquer espécie. As relações estabelecidas com o ambiente e com os organismos advêm, exatamente, das características corporais de cada espécie. Características que são sempre muito complexas, muito normativas e muito particulares.

  Viver em determinado ambiente significa conhecer e interpretar esse ambiente mediante as categorias próprias de cada espécie. Assim, até mesmo o nível de sofisticação, em comparação com outras espécies, da cultura humana, é o resultado direto dessa condição fundamental. Portanto, a definição de uma espécie resulta de um conjunto de igualdades e de diferenças que, simultaneamente, demarcam e unem o que existe de essencial e o que existe de semelhante entre todos os seres vivos. Com isso, torna-se claro que todas as espécies são únicas porque constituem a possibilidade da diferença através de princípios parecidos. Apesar da derivação de processos evolutivos com preceitos genéticos próximos, todas as espécies são fisiológica, ecológica e comportamentalmente únicas. Embora os seres humanos sejam únicos em sua forma de existir e de se relacionar com o mundo a sua volta, também o são todas as outras espécies. O ser humano pode ver:

  

Uma rua cheia de casas com passeios cheios de

passantes e uma calçada atulhada de automóveis. Uma mosca no mesmo lugar, no mesmo momento, não habita o mesmo mundo. Os significantes biológicos não são os mesmos para ela. Com seus grandes olhos facetados, vê amplos obstáculos brancos, a que o humano chama “casas”, justapostos a massas negras que fazem vento, a que o humano chama “carros”. Ficará, certamente, cativada por um bocadinho de proteínas podres a que o humano chama “bocado de carne jogado fora”, mas que, num mundo de moscas, é um objeto portador de

  

significados loucamente enfeitiçadores. Um molusco, na

mesma rua, habitaria um mundo de sombras secas mais

ou menos claras e de profundidades mais ou menos

  . (CYRULNIK, 1999: 22) palpáveis

  Cada espécie tem uma identidade própria. Os humanos são somente uma espécie em uma família que abrange até vinte outras espécies, em uma ordenação que inclui vinte ou mais famílias vivas e muitas outras já extintas. Esta ordenação, classificada cientificamente como primatas, é, unicamente, uma das mais de vinte e cinco ordenações de mamíferos. É uma cadeia que prossegue, amplamente, pela extensão da variedade da vida, algo que envolve bilhões de espécies distintas habitando um único planeta. Apesar disso, também é possível discernir a presença de princípios comuns de origem, de composição e de

  

  características entre todas as coisas vivas. Esta espécie de continuidade é um aspecto constante, e o principal indício disto está na marca mais

  

  universal compartilhada por todas as espécies, o DNA . Cada espécie é, então, um organismo biológico com precedentes genéricos, mas, com adaptações diversas que possibilitam transformações e diferenciações nas 22 maneiras que as espécies têm de viver e de sobreviver.

  

Sobre esta continuidade, em 1872, Charles Darwin publicou A Expressão das Emoções no Homem e

nos Animais . Um livro que demonstra que os seres não-humanos também têm emoções (raiva, medo,

ciúme, etc.) manifestadas por meio das expressões corporais (movimentos, reflexos, faciabilidades,

sons, gritos, vocalizações, etc.). Darwin examina e explica essas expressões do ponto de vista de sua

funcionalidade no processo de adaptação do organismo ao ambiente. Ao tratar destas questões nos

humanos, ele defende que algumas destas expressões são resquícios herdados de antepassados

primitivos (algo comum tanto no humano quanto no não-humano). E Darwin ainda afirma que muitas

destas expressões são inatas e não aprendidas porque são repetidas por homens e mulheres de variados

23 estratos culturais e sociais. Sendo repetidas, inclusive, por indivíduos cegos de nascença.

  

Em seu livro The Ancestor’s Tale: A Pilgrimage to the Dawn of Evolution (2004), o zoólogo inglês

Richard Dawkins afirma que testes de DNA mostram não só a unidade da espécie humana, como

também o parentesco humano com todos os seres vivos que compõem a biosfera do planeta Terra. E de

acordo com Dawkins, todos os seres vivos têm sua origem advinda de moléculas simples de RNA que,

há mais de três bilhões de anos, habitavam as fendas das rochas escaldantes das profundezas da crosta

  Mas, o que deve ficar claro é que os seres humanos não são autômatos que agem simplesmente tendo em vista as instruções dos seus genes. A forma de a humanidade atuar, enquanto espécie, deriva, propriamente, de sua estrutura genética. No entanto, não há um determinismo genético que faz com que, obrigatoriamente, todas as ações e reações dos humanos sejam totalmente idênticas e imutáveis através dos séculos. Os genes estão, atiladamente, relacionados com a cultura, de um modo profundo e, igualmente, sutil. A cultura humana é articulada pelas características particulares do aparato biológico humano. Esta cultura, como um todo, possui também princípios comuns, que levam, não obstante, a resultados e práticas diversas, já que é possível e habitual existir uma grande variedade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico.

  Por exemplo, os Lapões e os Esquimós habitam a calota polar, os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. Os dois grupos vivem em ambientes geográficos semelhantes, caracterizados por um longo e rigoroso inverno. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna parecidas. Mas, contrariando o chamado determinismo genético, não expressam os mesmos tipos de expressões culturais. Os Esquimós constroem iglus cortando blocos de neve e amontoando-os em um formato de colméia. Por dentro, a casa é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior aquecido. O Esquimó pode ainda abandonar o seu iglu tendo que carregar apenas os seus pertences. Os Lapões vivem em tendas de peles de rena. Quando querem mudar os seus acampamentos, necessitam realizar o esforço do desmonte, da retirada do gelo acumulado sobre as peles, da secagem das peles e do seu transporte para um novo local.

  Outro exemplo de variação cultural pode ser encontrado entre os indígenas do sudoeste da América do Norte. Os índios Pueblo e Navajo ocupam essa mesma área, sendo que alguns índios Pueblo vivem, até hoje, em bolsões dentro da reserva Navajo. Os Pueblo são campesinos, com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. Os Navajo são descendentes de coletores de víveres, que se alimentavam de semeaduras e de caça. Com a introdução de ovinos vindos da Europa, os Navajo passaram a ser pastoreadores, vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. Posteriormente, nessa mesma área do sudoeste, anglo-saxões tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária, na agricultura irrigada e na urbanização. Do outro lado do continente, na América do Sul, o despojamento de civilizações indígenas contrastou e conviveu, durante muito tempo, com a suntuosidade dos Maias, Astecas, Incas, Toltecas e Zapotecas.

  São exemplos clássicos sempre citados pelos representantes da Antropologia Cultural (principal domínio acadêmico defensor da cultura como um fator independente da genética) que, mesmo no mundo moderno, mostram, agudamente, como o aparato biológico que permeia a cultura humana segue preceitos gerais (ajuntamentos, habitações, subsistência, normas de conduta, hierarquia, etc.) e, ao mesmo tempo, tem a capacidade de variar e de modificar as formas como esses preceitos são exteriorizados. Cada grupo humano desenvolve-se através de caminhos múltiplos traçados pelas interações dadas aos eventos que esses grupos tiveram que enfrentar ao longo da história. A história seguiu diferentes rumos para os diferentes povos por causa dessas diversas interações. As diferenças e as possibilidades da cultura humana provêm, exatamente, da combinação das características e das limitações do aparato biológico com a capacidade que este aparato biológico exprime ao criar e ao ser criado por determinados tipos de cultura. A cultura é o provento de uma miríade de ações cognitivas pessoais, e a conseqüência de um vasto número de escolhas realizadas pelos membros individuais das sociedades. Mas essas ações e escolhas culturais só são, estritamente, possíveis para os seres humanos por causa dos limites impostos pelo formato genético de seus corpos.

  Todos os seres vivos possuem limitações e habilidades moldadas pelo percurso evolutivo de suas estruturas biológicas. Algo que não está

  

  restrito, simplesmente, à presença de um cérebro . Os componentes de um organismo devem cooperar uns com os outros, senão o organismo vai deixar de funcionar como uma unidade coerente. Por exemplo, um conjunto de artérias e veias não tem muita utilidade sem um coração para bombear o sangue através dele. Um par de pernas oferecerá pouca vantagem locomotora, se cada perna se mover por conta própria, sem referência à outra. Mesmo dentro das células individuais, o grau de cooperação é intrínseco. As moléculas não funcionam puramente ao acaso, mas, apresentam todas as características, guardadas as devidas proporções, de uma linha de montagem, com um alto grau de especialização, uma divisão de trabalho e uma estrutura de comando e de controle. O corpo representa o fundamento, a origem e o princípio da cultura, enquanto que esta significa a distensão e a potencialização das fronteiras corporais.

  

está, diretamente, ligada com as mudanças causadas pelo bipedalismo. Já que o bipedalismo envolve

adaptações anatômicas como: um encurtamento dos braços, um endireitamento dos pés e um

estreitamento da pélvis. No animal vertical, o crânio fica apenso à extremidade, essa nova disposição

confere uma liberdade de movimentos que permite aos órgãos sensoriais cefálicos captar o máximo de

informações, e que possibilita também que a massa craniana cresça em todos os diâmetros e tenha uma

melhor equilíbrio em relação à gravidade. Com o bipedalismo, o aumento do volume do cérebro não é

uniforme, determinadas zonas se desenvolvem preferencialmente: o neocórtex dos lobos frontais,

temporais e parietais, que são as áreas capazes de registrar múltiplas informações, de enviar ordens

precisas, e de elaborar reflexões lógicas. Além disso, a posição ereta permite que as mãos (com o

polegar preênsil) estejam aptas para coordenar gestos mais articulados e minuciosos. No humano o

polegar obtém uma mobilidade maior do que a possível para os dedos, em função da natureza da

articulação entre carpo e metacarpo. A mão humana pode ser usada para preensão, locomoção e outras

atividades como empurrar ou puxar objetos; os dedos podem ser usados para encaixar, pressionar,

coçar, apontar, etc. Além do refinamento de habilidades envolvendo o uso das mãos tais como, por

exemplo, escrita, desenho, pintura, artesanato, leitura tátil, tocar instrumentos. Então, um dispositivo

  O corpo humano tem, então, um design singular que o torna sensível ao ambiente de acordo com as características próprias que esse corpo tem. Com isso, entender as formas pelas quais os fatores genéticos e ambientais interagem é o que torna possível também perceber as interações corporais e culturais como uma força-motriz que torna provável, por exemplo, a apreensão da linguagem, o partilhamento de crenças, a utilização de tecnologias e o desenvolvimento de habilidades. Os seres humanos evoluíram graças a circunstâncias específicas advindas de uma complexa série de ocorrências. Entretanto, toda esta lógica evolucionária é, normalmente, deixada de lado em favor da cultura. Nesse sentido, tentar demonstrar o entendimento, geral e habitual, do que é cultura envolve a compreensão de que esse é, sem sombra de dúvida, o conceito (em conjunto com o conceito de corpo) mais discutido e utilizado na história da humanidade. Por causa disso, recebeu inúmeros significados de acordo com diferentes épocas, lugares e autores.

  No final do século XVIII e no princípio do XIX, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se às realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados pelo antropólogo inglês Edward Burnett Tylor (1823-1917) no vocábulo inglês Culture, que tomado em seu amplo sentido etnográfico é um todo

  

complexo que inclui conhecimentos, convicções, arte, moral, leis,

costumes ou qualquer outra capacidade ou hábito adquiridos pelo ser

humano como membro de uma sociedade . Com essa definição, Tylor

  abrangia, em uma só palavra, as possibilidades de realização humana, além de marcar, decididamente, o propalado caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, instaurada e transmitida pelas capacidades de criação e de compreensão advindas de mecanismos biológicos. O conceito de cultura, como é essencialmente utilizado até o

   presente, foi, historicamente, definido pela primeira vez por Tylor .

  Mas, o que ele fez, na verdade, foi formalizar uma idéia que já vinha há algum tempo sendo desenvolvida, principalmente pelo filósofo inglês John Locke (1623-1704) que, em 1690, ao escrever Ensaio acerca

  

do Entendimento Humano , procurou demonstrar que a mente humana

  pode ser vista como uma caixa vazia por ocasião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. Com isso, Locke almejava refutar noções daquela época que pregavam a existência de

  

  princípios inatos, impressos hereditariamente na mente humana . Na esteira de Locke e de Tylor, destaca-se toda uma longa corrente 25 culturalista que entende o ser humano como resultado direto do meio

  

Curiosamente, Tylor foi muito influenciado pelas idéias de Darwin. Tanto que no ramo da

antropologia, ele é considerado um dos fundadores do Evolucionismo Cultural (CARNEIRO, 2003: 1-

9), que é um modelo teórico antropológico que analisa as sociedades humanas de acordo com

princípios da Teoria da Evolução. Há, para este modelo, um processo de evolução social que segue,

pejorativamente, uma linha evolutiva que vai de sociedades “primitivas” (com, supostamente, uma

26 inferioridade cultural) para sociedades “avançadas” (com, supostamente, uma superioridade cultural).

  

A polêmica filosófica do inatismo começa, na verdade, com o filósofo francês René Descartes (1596-

1650) que advoga a existência de um inatismo humano como uma forma autêntica de conhecimento.

Contrariando, com isso, a teoria aristotélico-tomista, que entendia que por causa do dualismo corpo-

alma, não haveria nenhum conhecimento sem o auxílio dos sentidos. Descartes (1979) acreditava,

entretanto, que a alma seria possuidora de certos atributos, os quais não necessitariam de nenhum

auxílio exterior (sendo, portanto, inatos) para serem produzidos, tal como, por exemplo, as noções

matemáticas e religiosas. Mas, Descartes classificava o inato não como um conceito pronto e acabado,

e sim , como uma propensão ao conhecimento. Para Locke, crítico devoto do cartesianismo, a alma,

contudo, é como uma lousa a ser preenchida única e exclusivamente como o resultado de experiências

sensíveis, que permitem a obtenção do conhecimento. Só que muitos especialistas defendem também

que Locke tinha uma compreensão dividida e até mesmo ambígua do que é inato. Tanto que no

Dicionário Locke (1997: 131-132), o verbete inatismo afirma que: o ataque de Locke contra o

inatismo estava primordialmente interessado em refutar princípios práticos, regras e injunções morais.

(...) Tendo presente que o que Locke rejeitou como inatas eram as proposições, verdades,

especulativas e práticas, assim como idéias de Deus e de bem e de mal, cumpre-nos assinalar que

Locke identificou outras classes de princípios que poderiam ser considerados inatos, não aprendidos.

(...) As faculdades da mente também são descritas como inatas; identificando diversos traços de

caráter com que as crianças nascem. Assim, não era o inatismo como tal que Locke atacava; eram,

especificamente, os princípios de conhecimento e de ação moral, com suas idéias concomitantes, que

eram rejeitados como inatos . Portanto, para Locke, na verdade, a natureza humana deve ser respeitada

nas suas diferenças, caso se pretenda resultados. A metáfora usada por Locke do humano como Dark

Room (quarto escuro) ou White Paper (papel em branco), era apenas uma “noção apelativa” com uma

função determinada pelas questões teóricas propostas por ele. Mas, era uma noção que não pretendia

dar conta da complexidade e da diversidade existentes na natureza humana. Tanto que Locke afirmou

que ninguém jamais negou que a mente seria capaz de conhecer várias verdades. Afirmo que a

capacidade é inata, mas o conhecimento adquirido (1978: 146). Nesse sentido, pode-se perceber que o

pensamento de Locke não representava, de certa maneira, um único ponto de vista, mas, era, de fato, cultural em que foi socializado. Por tal viés, o ser humano é, unicamente, o herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridos pelas numerosas gerações anteriores. Assim, a cultura, e não a genética, determina o comportamento dos seres humanos e justifica as suas realizações.

  Por outro lado, a palavra cultura, de acordo com uma perspectiva das gramáticas ocidentais, vem, originalmente, do latim arcaico colere (que tem a forma nominal cultum e que vem da raiz grega kol) que significa cultivar, habitar, tomar conta, criar, preservar, adorar, enfim, todo o tipo de ação que abranja, justamente, o contato do ser humano com a natureza. Desta procedência filológica surge a palavra latina cultura que designava, primeiramente, o cuidado dispensado ao campo e aos animais. Com o passar do tempo, esta palavra foi sendo associada a variados aspectos, podendo designar o desenvolvimento individual e coletivo expresso por comportamentos e por valores. Atualmente, a cultura é explicada por meio de três classificações básicas: como um substantivo abstrato que nomeia um processo de incremento mental; como a designação de um modo de vida característico; e como o termo que descreve os trabalhos e práticas de atividade intelectual e especialmente artística.

  Dessa forma, a cultura passou a ser, extensivamente, a soma dos saberes acumulados e transmitidos pelo seres humanos representando, com isso, noções de evolução, de educação, de progresso, de razão e até mesmo de humanidade. Então, mais do que um conceito, a cultura (assim como o corpo), traz em suas amplitudes uma longínqua história de disputas e de esforços para se fixar um sentido específico que possa, realmente, defini-la e, igualmente, estabelecer qual é o tipo de função exclusiva dela. De um ponto de vista genérico, a acepção aplicada por este viés proporciona uma discrição que tende a ressaltar como a cultura:

  

Se constrói e reconstrói em cada modo de pensar

individual. A formação desse modo individual é, a

princípio, a expressão de formas, propósitos e

significados de modo a possibilitar o trabalho, a

observação e a comunicação. Depois, em segundo

lugar, mas de igual importância, está a comprovação

destes na experiência, na construção de novas

observações, comparações e significados. Uma cultura

tem dois aspectos: os significados que são apresentados

e testados. Estes são os processos ordinários das

sociedades humanas e das mentes humanas, e

observamos através deles a natureza de uma cultura:

que é sempre tanto tradicional quanto criativa; que é

tanto os mais ordinários significados comuns quanto os

mais refinados significados individuais. Usamos a

palavra cultura nesses dois sentidos: para designar todo

um modo de vida — os significados comuns; e para

designar as artes e o aprendizado — os processos

especiais de descoberta e de esforço criativo. (...) A

cultura é de todos, em todas as sociedades e em todos os

modos de pensar . (WILLIAMS, 1958: 5)

  Pode-se acrescentar que o próprio corpo é de todos, em todas as sociedades e em todos os modos de pensar. Sendo possível acrescentar também que a cultura, por esta ótica, não pode ser limitada por uma forma de entendimento restrito. Esta restrição não pode nem mesmo ser demarcada, unicamente, na espécie humana porque estudos etológicos (ALTMANN, 1969; DURHAM, 1996; ESSER & DEUSTCH, 1987; GOODALL, 1978; KOENIG, 1977; WICKLER, 1981) comprovam a existência de práticas culturais em outros tipos de seres vivos. Pelo

  

  campo da Etologia , o fenômeno cultural seria caracterizado como um fenômeno de individuação e de complexidade comportamental progressiva, e o tipo de cultura humana seria apenas um caso particular dentre outros processos culturais desenvolvidos pelos seres vivos em geral.

  Assim, existem características culturais presentes em outras espécies e não só na espécie humana. Estudos do comportamento dos seres vivos mostram descobertas extremamente complexas na análise dos sistemas sociais e culturais das diferentes espécies. Demonstrando como, ao longo da evolução, as intrincadas interações adaptativas elaboradas pelos organismos, mesmo os mais biologicamente simples, comprovam, de fato, como o comportamento social, assim como o cultural, não é privilégio exclusivo dos seres humanos. O que se nota em tais estudos, é, exatamente, o caráter de singularidade que as configurações culturais das variadas espécies apresentam.

  

Quando observadas em separado, muitas das

características da cultura humana podem ser

encontradas, pelo menos na forma rudimentar, nos

animais não-humanos. Os chimpanzés fabricam e

utilizam ferramentas e, a fabricação de utensílios, assim

27

como a grande modificação dos materiais encontrados

  

Ao longo da história, o animal não-humano surge sob a forma do Outro, que, na grande maioria das

vezes, serve como exemplo incondicional da superioridade e da diferença do ser humano em relação a todas as outras espécies. Foi só com o aparecimento do campo de conhecimento etológico que esse tipo arraigado de crença pode ser desacreditada. A Etologia é uma disciplina científica, radicada na Teoria

Darwinista da Evolução das Espécies, voltada para a compreensão dos comportamentos como um

indicador taxonômico válido para o entendimento da Filogenética. A idéia de que os padrões

comportamentais específicos podiam ser tão estáveis e fixos como as próprias características

morfológicas, e que, portanto, constituíam critérios tanto ou mais seguros para o estabelecimento das

taxonomias e para o traçado retrospectivo dos caminhos da Evolução, é central no desenvolvimento da

Etologia como abordagem científica do comportamento. E com passar do tempo, acabou se criando

  

no ambiente (como ocorre na construção do ninho), são

observadas em outras partes do reino animal. Os

chimpanzés são capazes de uso sistemático de

linguagem gestual (tal como a Linguagem de Sinais), de

modo a sugerir um domínio de símbolos e estrutura

gramatical. Além do mais, em seu estado natural, os

primatas empregam uma ampla variedade de sistemas

de comunicação. Por exemplo, Seyfarth, Cheney e

Maller (1980) mostraram que os macacos Vervet

(Cercopithecus aethiops) são capazes de vocalizar

formas precisas que estão próximas ao que entendemos

por “palavras”. O comportamento adquirido é também

muito comum entre os animais, desde chapins-azuis que

aprendem a abrir garrafas de leite a certos tipos de

focas que aprendem canções de seus vizinhos, e até os

macacos japoneses do gênero Macaca fuscata que

aprendem a tirar a areia de sua comida. Em cada um

desses exemplos está envolvido não apenas o

aprendizado, mas também uma rápida transmissão de

informação e o desenvolvimento de “tradições” entre

populações . (FOLEY, 1993: 32-33)

  Portanto, quando tratada independentemente, aquilo que é, habitualmente, classificado como cultura ocorre, de várias maneiras, em outras espécies além da espécie humana. Animais não-humanos são capazes de lidar com problemas difíceis como as circunstâncias de restrição de acesso aos alimentos, onde, após a mera observação, uma única vez, de como fazer para conseguir obter alimento, o animal não- humano repete, sem treinamento, aquilo que acabou de presenciar. É possível aos animais não-humanos a realização de operações lógicas de raciocínio, envolvendo dedução, abstração e articulação com símbolos, desde que, preferencialmente, associados a resolutividade de problemas como alimentação e proteção. Algumas espécies desenvolvem formas de convívio que incluem, além de divisão social do trabalho, estratégias de manipulação, punição e reconciliação, e, obviamente, de cooperação entre si para atividades como a busca de alimentos e a inspeção de seus predadores.

  As emoções também estão presentes em animais não-humanos, externalizando-se, por exemplo, na forma de prazer, dor, medo, raiva, etc. O afeto e a lealdade são, igualmente, pontos marcantes, sobretudo naquelas espécies mais próximas da convivência humana. Não se tratando, claro, de repetição dos comportamentos humanos, já que os animais não-humanos demonstram personalidade própria, desenvolvendo gostos e opiniões sobre coisas e pessoas com as quais interagem. A demonstração da sensibilidade é outro fator constatado, sendo os animais não-humanos capazes de perceber as intenções humanas, por um juízo lógico conhecido como abdução, que se manifesta, por exemplo, no intelecto canino na formulação de hipóteses sobre situações particulares, a partir de conceitos apreendidos em experiências anteriores.

  Desse modo, o pensamento não-humano é encarado como uma maneira de processar informações, de forma a se adaptar às situações e condições do meio ambiente. Isto demonstra a existência de uma espécie de habilidade de cálculo presente em todos os cérebros de animais não- humanos (mesmo nos pequenos seres unicelulares como o paramécio). Além disso, a noção de sua própria e individual existência em variadas espécies fica marcante nos experimentos com espelhos, onde os mesmos se reconhecem e desaprovam qualquer alteração substancial em suas aparências, como, por exemplo, o tingimento de seus pêlos.

  Todos os seres vivos expressam padrões comportamentais que são

  

  fruto da interação entre herança genética e situações ambientais . Assim, concomitantemente com as gradações de um determinado comportamento, existe uma estrutura mais profunda que caracteriza todos os membros de uma dada espécie, gênero ou grupo taxonômico. Por isso, apesar das variáveis culturais serem mais amplas, complicadas e refinadas no caso específico da humanidade, os seres humanos não são, absolutamente, privilegiados ou exceções em relação ao resto dos seres vivos. Existindo, então, uma marca corporal subjacente e inerente a todos os artifícios culturais.

  Estudos em Genética Comportamental (BYRNE, 2004; BUSS, 1994; CLAREMONT, 2005; HARRIS, 1998; PLOOMIN, 2000) examinam essa questão para, justamente, resgatar os aspectos biológicos que são, normalmente, negados pela visão dominante da cultura. Estes estudos revelam que embutidos nas condutas comportamentais humanas, encontram-se encobertas pela cultura, a ação de caracteres gênicos interagindo com o ambiente, e sofrendo os efeitos do que o naturalista

   28 inglês Charles Darwin (1809-1882) definiu como Teoria da Evolução

Os insetos, por exemplo, constituem sociedades definidas, onde cada membro executa uma função

determinada. Para que insetos sejam considerados sociais, devem possuir três características: divisão de trabalho cooperativo, castas reprodutivas e sobreposição de gerações. Características que estão presentes em todas as espécies de formigas, cupins e em algumas abelhas e vespas. Há grupos de insetos que apresentam somente algumas das características citadas, sendo chamados de subsociais ou coloniais, de acordo com o estágio em que vivem: alguns têm cuidado com a prole, como algumas vespas que põem o ovo e depositam junto a este o alimento necessário ao desenvolvimento da cria.

  Outros, como certas baratas, gafanhotos, percevejos, besouros, traças e borboletas vivem de forma gregária e em maior ou menor grau, cuidam da sua prole. Entre os artrópodes não-insetos, existem também ácaros e aranhas sociais ou subsociais. No caso específico das formigas, que são consideradas os insetos sociais mais avançados, o sucesso evolutivo delas se deve em grande parte por causa da sua organização em sociedade que lhes confere uma extraordinária capacidade de adaptação. Adaptação que se expressa, principalmente, através da variedade da arquitetura de seus formigueiros. Muitas espécies de formigas usam cavidades naturais preexistentes para fazer seu formigueiro, enquanto outras constroem ou modificam os formigueiros de acordo com diferentes necessidades. Outras não possuem formigueiros fixos como as formigas legionárias, que apresentam no seu ciclo de vida uma fase nômade onde grandes colunas de formigas se deslocam dentro de grandes áreas e atacam e se 29 alimentam de diversos tipos de seres vivos, sobretudo outros insetos.

  

Evolução é a mudança no pool genético de uma população ao longo do tempo. Um gene é uma

unidade hereditária que pode ser transmitida inalteradamente por várias gerações. O pool genético é o

  (1859). Assim, tais caracteres estariam, de certa forma, a serviço da cultura. A Genética Comportamental é a área de intersecção entre a genética e as ciências comportamentais. Por causa da diversidade de abordagens e de metodologias que podem ser adotadas no estudo do comportamento, a Genética Comportamental combina preceitos da genética com preceitos de estudos comportamentais para compreender os mecanismos genéticos e neurobiológicos envolvidos nos diversos comportamentos dos seres vivos.

  Historicamente, tanto no meio científico como entre o público leigo, comportamentos não-humanos e humanos têm sido vistos de uma maneira dicotômica, ou seja, certos comportamentos são classificados como instintivos (geneticamente determinados) e outros como aprendidos (adquiridos através da interação com o meio ambiente). Por uma visão determinista, o indivíduo humano (em sua fisiologia e personalidade) seria definido pelos seus genes, que guardariam de maneira absoluta todos os segredos dos destinos individuais. Atualmente, acredita-se que todo o comportamento depende, em maior ou menor grau, de fatores genéticos e de fatores ambientais, interagindo de maneira extremamente complexa.

  Com isso, questionar se determinado comportamento é herdado ou aprendido, a rigor, deixa de ter sentido. Os genes definem tendências e as experiências individuais as direcionam. Para a expressão de todo o gene,

  

viagem com o navio Beagle, Darwin encontrou variações significativas no bico do tentilhão. O

primeiro passo foi o de dissecar os pássaros a fim de verificar se realmente tratava-se da mesma espécie

ou de outra ave próxima aos tentilhões. Após comprovar que se tratava da mesma espécie de pássaros,

surgia o seguinte questionamento: que mecanismo age provocando diferenciações morfológicas na

mesma espécie? A resposta: pressões seletivas do meio ambiente.A particularidades do ambiente

produzem pressões ecológicas as quais às espécies têm de se adaptar. Como resultado, o tentilhão varia

de bico conforme o meio ambiente e de acordo com os recursos disponíveis neste meio ambiente em

questão. Em alguns casos pode-se encontrar um bico mais favorável a pinçar insetos do chão e em

outro caso um bico mais propício a perfurar frutos disponíveis no ambiente. Darwin desvenda,

portanto, o mecanismo catalisador destas características nas espécies. A Seleção Natural. Seres vivos

que, devido à sua composição genética, têm determinado comportamento, tendem a ser favorecidos

pela Seleção Natural em relação a aqueles que, devido a sua composição genética, não se comportam são necessárias certas condições externas. Portanto, qualquer alteração externa pode representar uma determinada influência sobre o resultado final do comportamento. Além disso, acredita-se também que os comportamentos, de maneira geral, são influenciados, na imensa maioria dos casos, não por um, mas, por muitos genes diferentes, o que aumenta ainda mais a sua complexidade. A engenharia genética moderna forneceu as ferramentas necessárias ao estudo do comportamento associado à genésica molecular. Isso permite que, progressivamente, seja possível avançar na identificação de genes capazes de propor certos comportamentos, e de entender como esses genes interagem com o ambiente na formação de traços normais e patológicos da personalidade humana.

  Nesse sentido, a palavra determinação é, totalmente, equivocada, e deve ser mais adequadamente substituída pela palavra tendência. Os genes definem tendências, mas, são as experiências individuais que, freqüentemente, as modulam. Sendo que o termo tendência se opõe a determinação porque pode significar uma inclinação, uma propensão, uma intenção ou uma disposição. A tendência é, então, uma espécie de indicação de um caminho que pode ou não ser seguido. Por exemplo, nascer homem ou mulher não é necessariamente determinante, do ponto de vista biológico, quanto à função desempenhada tanto pelo homem como pela mulher no ambiente em que se vive. Qualquer gene precisa para funcionar de circunstâncias exteriores propícias, sejam bioquímicas, físicas ou fisiológicas. Com isso, perde o significado a habitual pergunta

  tal comportamento é inato ou adquirido?

  O que se deve questionar é como os genes interagem com o ambiente na produção de um comportamento particular. O que mais uma

  

  vez reitera que a biologia não é destino . Principalmente porque os recentes estudos em Genética Comportamental confirmam a importância dos fatores ambientais. Mesmo uma característica fortemente hereditária

  

  como a fenilcetonúria pode ter a sua expressão fenotípica modulada de modo decisivo pelo ambiente (WARD, 1999). Alterações nutricionais podem permitir uma vida normal aos portadores desses genes. Mas, que sem estas mudanças da dieta certamente desenvolveriam o problema.

  Outro aspecto fundamental que provoca uma série de equívocos é a chamada influência poligênica (ROISON, 2000). O comportamento não é diretamente influenciado por um gene individual. A maioria das características complexas é modulada pela ação de vários genes, o que também é chamado de influência poligênica. Na realidade, quem produz o comportamento é o cérebro, através do processamento que ocorre em circuitos neurais específicos. No entanto, são os genes que influem poderosamente no desenho do cérebro, predispondo o organismo a responder aos estímulos de certo modo. Com, por exemplo, uma preferência por certas classes de estímulos. Cada célula nervosa expressa genes que, em última análise, condicionam a síntese de determinadas proteínas. Um circuito neural envolvido com uma forma de comportamento requer normalmente todo um conjunto de proteínas (tanto estruturais como catalíticas) sintetizadas no tempo e no lugar certos para ocorrer o desenvolvimento e a função desempenhada pelas células nervosas. E isso tudo é orquestrado pelos genes.

  No entanto, apesar de muitas características sofrerem ação 30 poligênica, às vezes um só gene pode ter efeitos decisivos no

  

Mesmo a palavra destino no dicionário é definida como uma sucessão de fatos que podem ou não

31 ocorrer .

  

Fenilcetonúria é uma doença hereditária que se caracteriza pela falta de uma enzima, em maiores ou

menores proporções, que impede que o organismo metabolize e elimine o aminoácido fenilalanina.

Este aminoácido em excesso no sangue é tóxico, atacando, principalmente, o cérebro e causando comportamento. Pesquisas com seres vivos muito simples (MORTIMER,

  

  2005), como o nematódeo Caenorhabditis elegans , a mosca da fruta

  

   Drosophila melanogaster e o camundongo Mus musculus revelam a

  importância de genes específicos no comportamento. Mesmo em seres vivos complexos um único gene pode ser significativo. Em humanos com

  

  a doença de Huntington (GOMES, 2003), um gene sintetiza uma proteína ingente, também chamada Huntington, e como resultado ocorrem perdas de neurônios colinérgicos e gabaérgicos (que promovem a neurotransmissão através da acetilcolina e do ácido aminobutírico) entre outros efeitos. Ou seja, um único gene pode ter um efeito devastador no comportamento, dependendo das conseqüências específicas de sua ação. Assim, as propensões genéticas interatuam, constantemente, de forma complexa com os eventos da vida, dificultando a crença inabalável em relações estritamente causais.

  Por outro lado, é evidente também que os fatores não genéticos são muito importantes e é, justamente, a Genética Comportamental que 32 oferece substrato a esta afirmação. Mas, novamente, um exame imparcial

  

Atualmente, um consórcio internacional de laboratórios desenvolve projetos de extensão e de análise

do genoma do C. elegans. Este nematódeo é um organismo microscópico complexo com um processo

de gestação que envolve embriogênese, morfogênese e maturação, com funções nervosas, com

comportamento, e até mesmo com capacidade de aprendizagem. Em 2002, o sul-africano Sydney

Brenner, o inglês John Sulston e o estadunidense Robert Horvitz ganharão o Prêmio Nobel por

pesquisas feitas no C. elegans sobre como os genes afetam o desenvolvimento de órgãos e a morte das

33 células.

  

O uso da Drosophila melanogaster como organismo experimental para estudos genéticos começou

em 1908. Em uma pequena sala da Universidade de Colúmbia, que ficou conhecida como sala das

moscas, o pesquisador Thomas Hunt Morgan (1866-1945) vislumbrou a possibilidade de localizar os

genes ao longo dos cromossomos da mosca. Seu sucesso nesta empreitada inovadora definiu novos

rumos para as pesquisas genéticas, que hoje culminam com o sequenciamento do genoma de diversos

organismos. A Drosophila melanogaster fornece, até o momento presente, informações importantes

não só sobre a estrutura e o funcionamento dos genes, mas, também no campo da evolução e do

34 desenvolvimento genético.

  

O camundongo Mus musculus é a cobaia mais utilizada em pesquisa biomédica de laboratório e já é

adotado para o estudo de dezenas de doenças humanas de origem genética. Com o sequenciamento do

genoma do Mus musculus identificou-se uma grande quantidade de trechos em que a seqüência das

bases é, exatamente, a mesma do genoma humano. Estes trechos não se restringem aos segmentos de

DNA que comandam a síntese de proteínas (genes), o que sugere que se trate de trechos

35 funcionalmente importantes e preservados pela evolução.

  

Mal de Huntington é uma doença degenerativa cujos sintomas são causados pela perda acentuada de

células em uma parte do cérebro denominada gânglios de base. Esta doença afeta a capacidade das evidências aponta conexões diferentes do senso comum. É importante lembrar que as influências ambientais, ou não-genéticas, incluem fatores que incidem desde a concepção até o nascimento e a totalidade dos estímulos do ambiente durante o desenvolvimento da pessoa após o nascimento. Portanto, é fundamental que aconteça uma interação do organismo com o ambiente.

  Desse modo, o ambiente não é apenas um fator externo dado ao indivíduo desde seu nascimento, e sim, um lugar organizado pelos intercâmbios entre os membros das populações e o próprio ambiente. Então, o ambiente deve ser entendido tanto como o ecossistema quanto como os arranjos e as variações das manifestações culturais. O ambiente contém uma série, totalmente, determinante de variantes, sejam elas variantes climáticas como períodos de glaciações, variantes geológicas como terremotos e maremotos, variações nas espécies como extinções e transformações profundas dos organismos vivos, recursos ambientais, fontes de alimentos e nutrientes, e uma série de outros fatores. Assim, é cabível perceber que a cultura é um provento manifesto por uma combinação de influências genéticas e ambientais. É preciso:

  

Reconhecer que a cultura, apesar de toda a sua

importância, não é um miasma que penetra nas pessoas

através da epiderme. A cultura depende de um conjunto

de circuitos neurais responsável pela proeza que

denominamos aprendizado. Esses circuitos não fazem

de nós imitadores indiscriminados, têm de funcionar de

modos surpreendentemente sutis para possibilitar a

transmissão da cultura. Por isso é que o enfoque sobre

as faculdades inatas do corpo não é alternativa a um

  enfoque sobre aprendizado, cultura e socialização, e sim uma tentativa de explicar como essas faculdades funcionam . (PINKER, Op. Cit.: 93)

  E aqui se abre a perspectiva para entender que:

  A evolução progressiva da cultura aconteceu sem que a mente humana se alterasse. A cultura parece ser a carroça, não o cavalo; a conseqüência, e não a causa, de alguma mudança no cérebro humano. A diferença entre mim e um de meus ancestrais Homo sapiens não está em nossos cérebros ou nossos genes, que são os mesmos, mas no conhecimento acumulado que foi possível graças à arte, à literatura e à tecnologia. Meu cérebro é cheio de tais informações, enquanto que o cérebro do meu ancestral era igualmente cheio, mas de um conhecimento muito mais local e efêmero. (...) Os genes são os dentes de engrenagem da máquina, não deuses no céu . Ativando e desativando a vida, por eventos externos bem como pelos internos, sua tarefa é absorver informação do ambiente com a mesma freqüência com que a transmite do passado. Os genes fazem mais do que portar informação; eles reagem à

  . (RIDLEY, Op. Cit.: 288-289) experiência O que se pretende com essa posição, então, é precisar o modo pelo qual a cultura, ao participar de uma organização e de um acúmulo de princípios comuns e de práticas diferenciadas, constitui uma série de estruturas, em graus de informação crescentemente complexos, dotados de propriedades, de relações e de fenômenos que vão surgindo para, com isso, reverberar os ecos evolutivos da própria humanidade como espécie. Para tanto, existem estudos (HALLIWELL, 2005; HAMILTON, 2004; WILSON, 1975) que defendem que a cultura (o que supostamente teria dado primazia à humanidade diante das outras espécies) seria, de fato, uma forma de adaptação da espécie, inserida diretamente na evolução e vinculada com a Seleção Natural.

  Ao partir da verificação de que determinados comportamentos das variadas espécies podem assegurar aos seus membros possibilidades ativas de evolução, estes estudos consideram que os seres humanos estão constantemente tendendo a desenvolver formas adaptativas apropriadas para a sua sobrevivência. Dessa maneira, a busca pela origem do comportamento na evolução humana demonstra que os aspectos comportamentais podem ser entendidos como uma espécie de órgão que possui uma filogênese (história evolutiva), uma ontogênese (um desenvolvimento) e uma função: assegurar a perpetuação da espécie através da complexidade dos processos de expressão de esquemas comportamentais e da modulação da experiência individual como fator de mediação.

  Esta visão possibilita que se leve em conta interações particulares de cada organismo, suas capacidades perceptivas individualizadas e diferenciadas. Isto implica em observar como os organismos se organizam, como exploram seu meio-ambiente, como escolhem determinados padrões comportamentais em detrimento de outros, e como também organizam seu próprio habitat, influenciando e sofrendo influências. Esta tendência admite que as ações dos seres humanos não são homogêneas e uníssonas, mas, que são, de fato, estratégias variadas, selecionadas no transcorrer da evolução para interagir com objetivos adaptativos precisos. Assim, o ser humano pode optar por uma ou por outra estratégia, de acordo com as características específicas de cada situação.

  Isto tudo significa que não há uma homogeneização no comportamento. Afinal, na imensa faixa de expressão comportamental de todas as espécies existem, constantemente, comportamentos diferenciados, individuais e exclusivos. Se possuírem valor adaptativo serão transmitidos e aprendidos, via cultura, para serem acrescentados ao repertório tanto individual como coletivo da espécie.

  É para examinar estas questões que, atualmente, estudiosos do processo evolutivo humano (BRUCKHEIMER & GARBER, 2004) procuram ultrapassar os limites da pesquisa da estrutura cerebral e anatômica. Eles buscam entender como estas estruturas se relacionam, por exemplo, com o modo de vida social, com a sexualidade, com o pensamento, com a consciência, e até com traços culturais, comportamentais, evolutivos e adaptativos de primitivos ancestrais que podem estar presentes, até agora, na espécie humana. De todos os seres vivos da história da Terra, os humanos foram os únicos a desenvolver um cérebro tão elaborado, um acentuado verticalismo bípede, a propensão para a gramática lingüística, e tudo mais que caracteriza a vida humana em termos de padrões sócio-culturais.

  Assim, um indivíduo nunca pode ser visto como uma folha em branco, mas, pode ser visto, em certo sentido, como uma folha com alguns caracteres já impressos. Por isso, deve-se entender que a cultura faz parte da natureza humana, o que significa que o comportamento humano, em sua gama de complexidades, não pode ser entendido, unicamente, por um único ponto de vista, já que a cultura humana também não está, inteiramente, independente ou dependente da condição natural. A cultura não se sustenta, puramente, como uma situação unívoca e unidimensional, mas, como uma composição com vários ângulos multifacetados e, extremamente, intrincados que exploram, justamente, o comportamento cultural com a ajuda da problemática biológica. Não há, então, nem um determinismo biológico absoluto, nem um determinismo cultural imperativo. Ocorre, na verdade, uma espécie de multideterminismo que combina diferentes influências.

  O comportamento deve ser interpretado por meio de todas as atividades de um organismo, determinadas ao nascer ou empreendidas como interação a estímulos ambientais. Um comportamento abrange a gama de processos pelo qual se percebe o mundo externo e o estado interno do corpo e a maneira pelo qual se interage com as mudanças percebidas. Assim, a proposição de que o comportamento humano não recebe qualquer influência genética, sendo constituído, essencialmente, de fatores interativos promovidos pela cultura, é, no momento presente, uma tese insustentável em qualquer meio acadêmico atualizado.

  Entretanto, perceber que os genes influenciam o comportamento não lhes atribui o papel de centros controladores do comportamento. Isto apenas reforça a necessidade de descobrir como diferenças individuais, na constituição genética, podem provocar diferenças comportamentais significativas. Assim, é indispensável levar em conta a combinação das variáveis biológicas e das variáveis ambientais na formação e na manutenção dos comportamentos culturais de todas as espécies. Os genes demarcam o comportamento das pessoas, desde as características físicas até a personalidade e as aptidões, mas, estes elementos, em variados graus, são influenciados pelo ambiente que pode até mesmo transformar a própria maneira como os genes são ativados (MOSS, 2003). Ao mesmo tempo, os organismos não são alvos passivos de seus ambientes. Cada espécie modifica o seu próprio ambiente.

  Diante disso, torna-se cabível compreender que a estrutura biológica e as diferenças genéticas entre os seres humanos e os outros seres vivos são os elementos que permitem qualquer relação com o ambiente, e qualquer relação com o ambiente implica, necessariamente, em um modo de vida e em processos especiais de descoberta e de esforço

  . Ou seja, implica em cultura que depende da dinâmica corporal

  criativo

  de cada espécie. Então, ao se levar em consideração às distinções e as convergências entre a espécie humana e as outras espécies, tem que se levar em consideração, justamente, que tipo de traços culturais são selecionados e implementados por cada uma dessas espécies.

  A razão para isso é que a Seleção Natural não exige que toda a variação deva ser genética. O que é necessário para que funcione é que pelo menos parte da variação entre seres vivos deva ser genética. Quanto mais genética for a variação, maior será a velocidade de atuação da Seleção Natural, mas, mesmo uma pequena diferença genética entre seres vivos será, cedo ou tarde, suficiente. O curso da evolução pode ser alterado assim que seres vivos com resultados favoráveis em relação às demandas do ambiente puderem passar para as próximas gerações ao menos algumas de suas características de êxito adaptativo.

  Nesse sentido, os padrões culturais de comportamento têm valor de sobrevivência, porém não são transmitidos geneticamente, e, portanto, não estão sujeitos ao processo de seleção natural. O que é transmitido geneticamente são as características que tornam o ser vivo mais adaptado à estratégia cultural de sobrevivência, ou seja, às capacidades de criar padrões de comportamento com os seus semelhantes, e de inventar novos padrões de acordo com ações estabelecidas em contato e em conjunto com o meio ambiente. A evolução genética da linhagem humana acrescentou o caminho análogo da evolução cultural, e essas duas formas de evolução estão interligadas, havendo uma relação mútua entre transmissão genética e transmissão cultural.

  Dessa maneira, a existência dos seres vivos não é um gigantesco vácuo a ser preenchido com qualquer coisa, e no qual se aprende, gradual e unicamente, por tentativa e erro, o que fazer e o que não fazer. Afinal, os seres vivos nascem e se desenvolvem com um equipamento biológico determinado que os possibilita a exercer comportamentos culturais que os ajudam a sobreviver e a se reproduzir. Por isso, mesmo o chamado aprendizado adquirido não pode ser caracterizado como a inscrição em um molde vazio, afinal, alguns seres vivos aprendem muito melhor algumas coisas do que outras. Os seres vivos fazem muitas coisas que não tiveram oportunidade de aprender. Eles nasceram ou eclodiram de um ovo e imediatamente assumem comportamentos culturais que os ajudam a sobreviver. Estes comportamentos, que os impelem a procurar abrigo ou alimento, são tanto uma parte de sua anatomia e biologia estruturais quanto qualquer escama, pinta, pena ou pele. Os seres vivos agem de acordo com o que percebem, mas, ao mesmo tempo, os seres vivos só podem perceber de acordo com a organização corporal que possuem.

  Portanto, a cultura não pode, de maneira alguma, ser encarada como algo que os seres humanos fazem e todos os outros seres vivos da face da Terra não fazem. Pelo contrário, as especificidades da cultura humana apresentam diferenças-chave das organizações culturais de outras espécies porque advêm, justamente, das formas pelas quais a humanidade está geneticamente apta para produzir e vivenciar traços culturais. Assim, os limites entre o inato (natureza) e o adquirido (cultura) são o ponto de encontro que permite que um ser humano possa se comportar de maneira apropriada para sua sobrevivência e reprodução na primeira vez que se encontrar em uma situação completamente nova.

  Então, a emergência de determinados padrões culturais depende, consideravelmente, de como as propriedades do corpo humano obedecem a padrões específicos vindos de singularidades biológicas, e são estas singularidades que possibilitam ao ser humano imbricar-se por diferentes níveis de cultura consigo mesmo, com outros seres e com o ambiente que o cerca. Por isso, o momento atual no qual a cultura humana chegou é um resultado direto de incontáveis acontecimentos que marcaram as inúmeras contaminações entre natureza e cultura no caminho da evolução dos seres humanos.

  [2.3]

  Todas as variações e fundações da evolução humana estão baseadas sobre redes complexas de interações comunicacionais. O ser humano é um dado evolutivo, infinitamente intrincado, no qual às vezes interagem dezenas de genes para uma única informação. O ser humano é, simultaneamente, o resultado de casualidades e também de um conjunto de possibilidades que se exprimem de maneira diferente, dependendo do ambiente do indivíduo. Cada indivíduo é uma soma considerável de genes potencializados ou modelados por condições de existência particulares.

  No entanto, pertencer a uma espécie é muito mais do que ser membro de um grupo que partilha um genoma similar. Pertencer a uma espécie é, principalmente, ser um elo vital de toda uma cadeia de relações entre o ser humano e o ambiente (composto também de outros seres humanos e não-humanos) que o cerca. Mas estas relações só são possíveis, justamente, por causa da existência de algum tipo de processo comunicativo capaz de ligar e de combinar estas duas instâncias. A comunicação depende das conexões entre o corpo e o ambiente e a evolução cultural humana jamais teria atingido a complexidade que apresenta, sem uma complexa diversidade comunicacional.

  Com isso, de acordo com princípios evolutivos, aqueles seres cuja anatomia, fisiologia e comportamento se adaptam aos requisitos do ambiente terão mais chances de sobreviver até a idade reprodutiva e de ter maior descendência. Caso estas características sejam herdáveis, a geração seguinte apresentará uma freqüência maior de indivíduos portadores destes traços e, com o passar do tempo, a espécie consistirá de tipos mais aptos. Mas, se a evolução por Seleção Natural faz com que os organismos se adaptem cada vez melhor a um determinado conjunto de circunstâncias ambientais, então, os grupos de seres vivos que vivem em épocas e espaços distintos evoluirão de maneira a se adaptar aos diferentes conjuntos de circunstâncias que encontrarem. A diversidade orgânica é, portanto, conseqüência da existência de diferentes conjuntos de ambientes aos quais diferentes espécies se compatibilizaram mediante a Seleção Natural, e todo este processo de adequação entre o corpo e o ambiente é, justamente, um processo de comunicação.

  O corpo e o ambiente interagem, unicamente, por meio de processos comunicacionais. Ou seja, assim como não pode haver corpo sem ambiente, não pode haver ambiente sem corpo. Um ambiente é algo que envolve ou cerca, mas, para que haja envolvimento, é preciso que haja algo para ser envolvido. O ambiente de um corpo é o limite de condições externas que para ele são relevantes diante das interações efetivas mantidas através da contaminação entre aspectos interiores e exteriores. Dessa maneira, o corpo não só possibilita a seleção dos aspectos do mundo exterior que são, em função de suas peculiaridades biológicas, relevantes para ele, como também constrói ativamente, no sentido literal da palavra, um mundo à sua volta.

  

Todos os organismos terrestres, tanto plantas como

animais, criam conchas à sua volta que podem ser

observadas com instrumentação simples. Se filmarmos

um ser humano com lentes Schlieren, capazes de

detectar diferenças na densidade óptica do ar,

observaremos uma camada mais densa de ar ao redor

de todo o corpo, com um ligeiro movimento para cima,

em direção ao topo da cabeça. Trata-se de uma camada

de ar tépido e úmido, criada pela água e pelo calor

metabólico do corpo. Ela existe à de todos os

organismos que fazem metabolismo e vivem em contato

com o ar, inclusive as árvores. A conseqüência desse

fato é que o indivíduo não vive na atmosfera como

normalmente pensamos nela, mas sim em uma

atmosfera autoproduzida que isola o ar exterior. A

existência dessa camada explica porque o vento produz

uma sensação de calafrio, uma vez que remove a

camada de ar isolante, o que deixa o corpo exposto à

temperatura real do ambiente. Em circunstâncias

normais, é esta concha tépida, úmida e autoproduzida

que constitui o espaço imediato dentro do qual o

organismo opera, um espaço que o indivíduo leva

consigo, assim como um caracol leva sua concha .

  (LEWONTIN, 2002: 59-60)

  Sendo assim, a estrutura genética do corpo é decisiva para eleger e implementar um conjunto de seleções e de relações com os aspectos mais importantes do ambiente. A comunicação é, desse jeito, o que permite ao corpo (com suas singularidades biológicas) e ao ambiente (também com suas singularidades) um processo mútuo de conhecimento e de interação. Por exemplo, existem (LINDAUER & KERR, 1960: 34-36) certas abelhas que conseguem se comunicar umas com as outras por meio de vibrações transmitidas através do piso das colméias. Além, é claro, da famosa dança das abelhas que indica a localização, a direção e a quantidade das flores com néctar de pólen. Entre as aranhas, a Theridion

  

saxotile consegue, diante de alguma ameaça, alertar seus filhotes

  vibrando a teia (WILSON, Op. Cit.: 133). Duas espécies de formigas (ZERBE, 1998: 67), a Atta cephalotes e a Acromyrmex eostopinosa, possuem estridulações que emitem vibrações para atrair outras formigas em caso de perigo. As formigas também se comunicam através do contato tátil de suas antenas e, principalmente, por meio dos sinais químicos dos seus feromônios. O canto das aves serve como sinal de atração sexual e como forma de demarcação de território. Um pássaro pode emitir um grito de alarme que faz com que seu bando todo alce vôo. Uma galinha pode cacarejar para fazer com que os seus filhotes venham correndo para

  

  junto dela. Os golfinhos possuem, através de sua percepção de sonar, um rico repertório gramatical de vocalizações que podem ser comparadas com palavras, privilegiando-se, segundo a lei do menor esforço, as de sons curtos, que mesmo assim, atingem um grau de complexidade similar aos da gramática humana.

  Nos macacos Cercopithecus aethiops do Quênia, o biólogo estadunidense Thomas T. Struhsaker estudou (1967: 281-324) a 36 comunicação oral entre os indivíduos de um mesmo bando ou entre

  

Os golfinhos têm, inclusive, a capacidade de desenvolver uma cultura material (RICHARDSON,

2005) com técnicas de uso de instrumentos que são transmitidas por aprendizado. Ou seja, nos

golfinhos existe a chamada transmissão cultural verificada no ensino feito pelas fêmeas aos seus bandos diferentes. Ele descreveu 35 sons diferentes produzidos por esses primatas. Pelo menos 21 ou 23 diferentes comunicações puderam ser reconhecidas, bem como 18 e 22 respostas a esses sons. Struhsaker ainda cita 23 outros pesquisadores que, entre 1964 e 1965, estudaram 19 espécies de primatas, no que se refere à comunicação sonora. O número de sons reconhecíveis variou 37 vezes no Macaca fuscata, estudado em 1963, a apenas 4 no Aotus trivirgetus, estudado em 1959. Indo além, a comunicação dos animais não-humanos entre si permite, em observações comparativas, perceber distinções entre os sons de uma mesma espécie. O que demonstra como diferenças culturais entre animais não-humanos de diferentes lugares podem também ser vistos como os dialetos, os sotaques

   e as gírias locais dos agrupamentos humanos .

  Todos os seres vivos possuem habilidades comunicativas moldadas por sua formação evolutiva. Por isso, os seres humanos não estão sozinhos na propensão para estabelecer processos comunicativos. É necessário entender, igualmente, que as formas comunicacionais de outras espécies não devem ser classificadas por nenhum tipo de parâmetro antropomórfico que, normalmente, classifica os outros seres vivos de acordo com as características humanas. Afinal, utilizar o humano como medida de tudo é uma extrema contradição porque, sintomaticamente, o planeta Terra e também milhões de seres vivos já existiam muito antes do surgimento do Homo sapiens. Nesse sentido:

  37

É possível verificar (JANEWAY, 2004) a utilização de elementos sonoros de membros de uma

espécie em diferentes locais do planeta Terra. Por exemplo, representantes da ave Ponelia meloris

foram catalogados com sonidos e silvos diferenciados em pesquisas feitas na África e na América do

  Um rato pode aprender a atravessar um labirinto em que deve virar à esquerda a cada duas bifurcações, mas

não consegue cruzar aquele em que deve virar à

esquerda a cada bifurcação que corresponda a um

número primo. A maioria dos animais não-humanos

são, de acordo com sua estrutura biológica, capazes de

uma série de distinções. Eles conseguem distinguir

centenas de possibilidades alimentares em comestível e

não-comestível. Dependendo do apetite, outras

categorias podem ser adotadas, embora a

comestibilidade seja fundamental, tendo em vista que muitos alimentos são potencialmente tóxicos. Inclusive, já se observaram chimpanzés ensinando à sua progênie . quais alimentos podem ser ingeridos e quais não podem (CAVALLI-SFORZA, 2003: 48)

  Portanto, todo processo comunicacional no qual qualquer ser vivo está inserido corresponde, necessariamente, as singularidades genéticas de cada espécie. Não há, então, níveis hierárquicos que possam, de fato, inferir um determinado processo comunicacional como primário e outro como superior. Qualquer organismo é, em si, um exemplo de elaboração biológica distinta com habilidades comunicativas, igualmente, elaboradas e eficientes. O seu desenvolvimento não é uma mera resposta a estímulos diversos, mas é um aprimoramento progressivo a partir das situações apresentadas pelo ambiente. Dessa forma, nenhum processo comunicacional é, unicamente, uma resposta a dados exteriores, sendo, na verdade, uma interação intrincada que se relaciona com informações biológicas (caracterizadas por estruturas endógenas e esquemas internos de percepção) que interagem, ativamente, com as informações do ambiente.

  No caso específico da humanidade, as habilidades comunicativas dos humanos possuem uma variação significativa em relação às outras espécies, já que os seres humanos dispõem de um conjunto vocal lingüístico baseado em arranjos gramaticais verbais. A grande maioria da comunidade científica que, direta ou indiretamente, trata desta questão das línguas humanas concorda, atualmente, com a existência de uma série de princípios genéticos que permitem a criação e a utilização das línguas. Esta faculdade cognitiva, inata e universal, fundamenta a aquisição da linguagem e faz com que o indivíduo ao nascer seja detentor de um programa neurológico que o permite perceber e expressar, rapidamente e espontaneamente, os sons, o vocabulário e os percursos de construção das palavras e das frases da língua praticada na comunidade que o rodeia. Com o desenvolvimento dos estudos lingüísticos no âmbito das Ciências Cognitivas, quer se compreenda a linguagem humana como um produto

  

  de uma aptidão modular do cérebro (CHOMSKY , 1957), quer se a

  

  compreenda como um instinto (PINKER , 2002), tornou-se inquestionável entender que as línguas humanas advêm de propriedades representacionais e simbólicas que funcionam por meio de uma série de

  existência de estruturas lingüísticas inatas na configuração neurológica do cérebro humano. As idéias de Chomsky sobre a competência lingüista inata ao ser humano são à base de uma série de teorias subseqüentes que concordam ou antagonizam com a teoria de Chomsky. Então, qualquer discussão sobre as relações entre a genética e a verbalização humanas deriva do trabalho de Chomsky. Mesmo a teoria de Steven Pinker, citado abaixo, é, igualmente, uma variação sobre as idéias de Chomsky. E Pinker, ao mesmo tempo, também procura criar antagonismos com Chomsky, uma tática que, intencionalmente, procura chamar atenção sobre Pinker, mas que não deixa de mostrar como Chomsky é ainda a referência máxima deste tipo de teorização. Portanto, por mais que Pinker critique Chomsky, é ele que ocupa a posição de ser o primeiro intelectual a indicar as ligações entre lingüística e biologia através de uma teoria complexa que vem sendo desenvolvida e aprofundada por meio de uma série de 39 livros escritos de 1957 até o momento presente.

  

O psicolingüista canadense Steven Pinker defende que a linguagem é um instinto adaptativo

fomentado pela Seleção Natural e direcionado para estabelecer benefícios e formas de sobrevivência

  

  conformidades neuronais inerentes ao aparato biológico humano e interagentes com as particularidades de cada ambiente.

  Os bebês humanos nascem antes de seus cérebros estarem completamente formados. Caso os seres humanos permanecessem na barriga de suas mães por um período proporcional ao de outros primatas, nasceriam aos dezoito meses, que é a faixa habitual de idade na qual os bebês começam a falar. O cérebro dos bebês muda, consideravelmente, depois do nascimento. Nesta etapa, os neurônios já estão formados e já migraram para as suas posições no cérebro, mas, o tamanho da cabeça, o peso do cérebro e a espessura do córtex cerebral continuam a aumentar no primeiro ano de vida. Conexões a longa distância não se completam antes

  

  do nono mês e a bainha da mielina continua se adensando por toda a infância. As sinapses aumentam, significativamente, entre o nono e o vigésimo quarto mês. A atividade metabólica atinge níveis adultos entre o nono e o décimo mês, e continuam aumentando até os quatro anos. O cérebro também perde material neural nesta fase. Um enorme número de neurônios morre ainda na barriga da mãe. Esta perda continua nos dois primeiros anos e só se estabiliza aos sete anos.

  As sinapses também diminuem a partir dos dois anos até a adolescência quando a atividade metabólica se equilibra com a do adulto. 40 Dessa forma, existe todo um desenvolvimento genético que mostra como

  

Sendo guiados pelo preceito da continuidade entre todos os seres vivos, existem estudos científicos

que procuram os princípios genéticos da gramática humana através das possibilidades semânticas e

sintáticas presentes no aparato biológico de outras espécies. Por exemplo, experiências com

determinados tipos de papagaios (PEPPERBERG, 1995) mostram que eles são capazes de reconhecer e

de verbalizar os materiais e as cores de alguns objetos, e ainda são capazes de entender certos conceitos

abstratos expressos pela língua humana. Outras experiências feitas com ratos (TORO, 2005), mostram

que esses roedores são capazes de usar o ritmo da língua humana para fazerem distinções entre o

holandês e o japonês. Os ratos foram testados para responder ao holandês ou ao japonês, recebendo

alimento como recompensa. Os treinados em uma das duas línguas foram incapazes de responder à

outra, e também só reagiam à língua apropriada quando ouviam a mesma pessoa falando. Outras

experiências também mostram que um cão adulto (TAPPING, 1999) consegue alcançar o nível

intelectual e lingüístico de uma criança de dois anos dada a sua capacidade de aprender mais de 120

comandos de adestramento diferentes, o cão é unicamente incapaz de verbalizar essas situações devido 41 às razões anatômicas de seu aparato biológico. a expressão da língua humana depende de uma maturação cerebral e como as chamadas fases do balbucio, das primeiras palavras e da aquisição gramatical demandam determinados níveis de tamanho cerebral, de conexões a longa distância e de sinapses. Além disso, a expressão apropriada da língua humana é certa até os seis anos de

  

  idade , ficando comprometida depois desta idade e é rara após isto. Uma explicação plausível provém das alterações maturativas que ocorrem no cérebro, como o declínio da atividade metabólica e do número de neurônios durante o início da vida escolar, e como a estagnação no nível mais baixo do número de sinapses e da atividade metabólica por volta da puberdade.

  Não é por acaso, então, que todas as línguas humanas do mundo funcionam a partir de disposições fonológicas, sintáticas e semânticas,

  

  plenamente semelhantes . Ninguém aprende a sintaxe antes de falar, o cérebro humano tem, claramente, uma capacidade gramatical inata. Esta 42 não é uma estrutura superficial (sons e palavras), mas, que é, entretanto,

  

Até os deficientes auditivos têm mais facilidade de aprender a linguagem de sinais na infância. Além

disso, ao estudar uma nova linguagem de sinais desenvolvida por crianças surdas na Nicarágua,

lingüistas afirmam (SENGHAS & KITA & ÖZYÜREK, 2004) ter confirmado a existência de

mecanismo universais que facilitam a aquisição de uma língua, seja, ela falada ou não. Nos últimos 25

anos, surgiu na Nicarágua uma língua completa, o Idioma de Signos Nicaragüense (ISN). O ISN é uma

língua que apareceu na década de 1980, quando surdos nicaragüenses, após tentativas fracassadas de

ensinar espanhol através de professores sem deficiência auditiva, foram agrupados com outros surdos.

Reunidos em grupos, eles começaram a utilizar algo que, inicialmente, se parecia com um sistema

pantomímico imperfeito usado para a comunicação sem palavras. Mas, este sistema simplificado

transformou-se em uma verdadeira língua, as crianças que chegavam a esse grupo de surdos,

aprendiam o sistema e acabavam aperfeiçoando-o com regras lingüísticas. Embora, a versão inicial do

  

ISN utilizasse gestos gráficos que, simplesmente, imitavam a forma dos objetos e dos movimentos, as

crianças expostas a este sistema mudaram-no completamente, decompondo os gestos em sinais

complexos sem intenção imitativa. Estes sinais, bem como as regras que os combinam em frases

longas, são extremamente obscuros para não iniciados como seria, por exemplo, para quem nunca

aprendeu determinada língua. Esta habilidade lingüística de indivíduos surdos que os permite

estruturarem uma linguagem com regras gramaticais distintas e precisas, seria um indício claro da

43 presença no cérebro de preceitos genéticos direcionados para a semântica e a sintaxe.

  

Atualmente estão sendo desenvolvidas pesquisas que unem lingüística com cladística (WILKINSON,

2005). Esta técnica da biologia evolutiva (cujo nome vem da palavra gregra klados que significa

galho), usa características compartilhadas entre os seres vivos para traçar uma árvore genealógica de

espécies. Por meio de análises estatísticas sofisticadas feitas por computador, separa-se primos

próximos dos mais distantes. Com isso, lingüistas e antropólogos estão achando indícios de parentesco

entre idiomas que se separaram há mais de 10 mil anos e cujas palavras perderam toda semelhança uma estrutura profunda que condiciona o formato que qualquer língua humana adquire. Contudo, toda esta neurologia lingüística do cérebro humano não permite apenas a fala, mas, a compreensão e a estruturação do mundo. A língua (a base do pensamento humano) é a principal maneira para estabelecer uma relação direta e criativa entre o ser humano e o ambiente. O desenvolvimento das inúmeras variações (que envolvem gramática, percepções simbólicas, noções matemáticas, invenções técnicas, etc.) da linguagem humana constituiu um imenso avanço evolutivo, e, conseqüentemente, um imenso avanço genético-cultural. A partir desta habilidade comunicativa de organizar os pensamentos gramaticalmente, aconteceu a proliferação de organizações sociais e a classificação de conhecimentos de toda espécie, o que acabou dando a humanidade um potencial organizativo extremamente ampliado. Já que:

  

Com o advento da linguagem e da necessidade de

comunicar, o ser humano começou a elaborar produtos

culturais e a afinar habilidades técnicas específicas que,

com o passar do tempo, deram à linguagem um perfil

característico e transformaram a comunicação num

sistema complexo de símbolos. Isso teve efeitos

formidáveis no plano evolutivo. Todo o sistema

cognitivo foi influenciado, numa dinâmica circular em

que a evolução biológica promoveu a evolução cultural

e vice-versa. As capacidades comunicativas tornaram-se

assim a causa e o efeito, a premissa e o resultado de

uma competência comunicativa essencial à

sobrevivência, num processo baseado na estreita

interdependência de todas as esferas da vida humana .

  (MALDONATO, 2004: 14) A partir deste ângulo de reflexão, entender a comunicação como uma forma de organização implica, então, em notar como as diversas culturas humanas constituem realidades complexas, cuja peculiar formação é coerente com determinados tipos de processos comunicacionais. Em certo sentido, é como se além de uma propensão genética à linguagem, o aparato biológico humano, como um todo, funcionasse, de fato, de acordo com uma espécie de propensão genética à comunicação. Esta tendência comunicacional possibilita, continuamente, a produção, o armazenamento e a circulação de padrões comunicativos que possuem uma importância significativa para os seres humanos que, simultaneamente, os produzem, os utilizam e os perpetuam. Para uma compreensão mais adequada desta proposição, deve-se levar em consideração que as sociedades sempre foram constituídas a partir das possibilidades de comunicação entre seus membros, mas, com o avanço tecnológico e o aumento da complexidade das relações sociais, houve uma multiplicação dos aparatos técnicos e organizacionais para o cumprimento deste papel.

  Em todas as sociedades, os seres humanos se ocupam

da produção e do intercâmbio de informações e de

conteúdo simbólico. Desde as mais antigas formas de comunicação gestual e de uso da linguagem até os mais recentes desenvolvimentos na tecnologia

computacional, a produção, o armazenamento e a

circulação de informação e conteúdo simbólico têm sido

aspectos centrais da vida social. Mas com o

desenvolvimento de uma variedade de instituições de

comunicação a partir do século XV até os nossos dias,

  

os processos de produção, armazenamento e circulação

têm passado por significativas transformações. (...) De

uma forma profunda e irreversível, o desenvolvimento

da mídia transformou a natureza da produção e do

intercâmbio simbólicos . (THOMPSON, 1998: 19)

  A própria criação destes meios de comunicação externos ao corpo pode também ser relacionada com essa espécie de propensão genética à comunicação. A imensa quantidade do conhecimento advindo das pesquisas do ramo da etologia (GRAY, 2001; GRAZETTI, 2004; LESTEL, 2001; WHEDON, 2004) comprova que nas outras espécies de seres vivos é possível verificar a existência de muitos fatores idênticos (formas de comunicação, hábitos comportamentais, produção de cultura) aos dos seres humanos. Até o momento presente ainda não foram descobertas nas outras espécies, algum tipo de habilidade que resulte na criação de um meio de comunicação externo ao corpo. A comunicação destas outras espécies depende exclusivamente de suas propriedades corporais características expressas através de grunhidos, uivos, silvos, cantos, plumagens, colorações, odores, gesticulações, posturas, etc. A comunicação é a trama da vida social dos seres vivos. É através dela que se influenciam uns aos outros para reunir-se em cardumes, bandos e manadas e para distanciar-se formando territórios. É por meio dela que os sexos interagem, que os rivais resolvem suas disputas sem brigar, que os filhotes conseguem o alimento de seus pais. Assim, a maioria dos seres vivos despende uma boa parte de suas vidas influenciando ou sendo influenciado pelo comportamento de outros seres vivos ao participarem de alguma forma de comunicação.

  Não se encontrou, até agora, nenhuma outra espécie (afora, a humana) que tenha sido capaz de desenvolver algum tipo de artefato que sirva como um meio de comunicação que extrapole as especificidades e as possibilidades de sua composição genética. Todas as diferentes espécies de seres vivos da Terra se comunicam, unicamente através do corpo, os seres humanos são a única espécie que além do corpo, também estruturam outras possibilidades de comunicação expressas por meio de artefatos. É importante observar que há exemplos desta capacidade em outras espécies (as quais não produzem artefatos comunicacionais) como os ninhos dos pássaros, as colméias das abelhas ou determinadas ferramentas rudimentares feitas por macacos, no entanto não tem sido constatada a produção de artefatos especificamente comunicacionais.

  Naturalmente, é possível questionar isto e afirmar, por exemplo, que a colméia, em si, comunica para a abelha que este tipo de edificação tem como função servir como um lar para ela. No entanto, ao se aprofundar sobre as capacidades perceptivas da abelha descobre-se (PAPAZIAN: 2003) que ela não faz esse tipo de associação comunicativa, ela não identifica a colméia como uma estrutura que comunica algo, e sim a presença de outras abelhas que comunicam a reunião de um grupo da mesma espécie e, conseqüentemente, de um lar. Então, como artefato, a colméia não funciona no nível da comunicação para as próprias abelhas. Ao menos, não isoladamente, apenas com a presença de outras abelhas.

  O meio de comunicação, a mídia, pode ser vista, em certo sentido, como uma possibilidade inerente às características intrínsecas ao corpo humano. E mesmo sem levar em conta estas questões genéticas, os processos comunicacionais humanos abrem caminho para todo um emaranhado de possíveis relações e homologações do corpo com a mídia. No entanto, isto não ocorre através de metáforas e analogias corporais, mas, de fato, através de relações precisas e de aportes teóricos que procurem compreender de maneira adequada às capacidades corporais de acordo com um entendimento genético e cultural capaz de ligar, apropriadamente, a comunicação humana com a comunicação midiática. Revelando os vestígios do corpo em esferas comunicacionais que parecem distantes e, ao mesmo tempo, também estão próximas como os diferentes elos de uma mesma cadeia.

  

CAPÍTULO III

[3.1]

  O conjunto das práticas que, atualmente, são denominadas comunicação são uma parte indistinguível da humanidade. De fato, o ser humano sempre se comunicou, assim como usou a linguagem e artefatos, dois recursos essenciais para a existência e a sobrevivência da humanidade desde a pré-história até o momento presente. Nesse sentido, a comunicação humana pode ser indissociada da combinação integrada entre a linguagem e os artefatos. De um lado, o desenvolvimento da capacidade cada vez mais sofisticada de se comunicar por diferentes meios e, de outro, as diferentes formas de interagir com o meio ambiente permitiram a evolução humana ao longo dos milênios.

  Assim, o ser humano e a comunicação desenvolveram-se simultaneamente, já que o ser humano é indissociável da linguagem verbal, do sistema de expressão corporal, e de práticas simbólicas, três instâncias advindas do seu desenvolvimento enquanto espécie. Apesar de, até a atualidade, não terem sido encontradas, ainda, evidências precisas dos modos comunicativos dos humanos pré-históricos, é provável supor que signos, gestos, sons, técnicas e práticas também estivessem presentes em suas ações comunicacionais e cotidianas. A comunicação é a origem do humano propriamente dito. A habilidade comunicativa e o modo como tem sido implementada no processo evolutivo, marcam a especificidade da natureza humana. Devido a seu caráter complexo, o estudo da comunicação humana tira, necessariamente, a biologia humana do âmbito da pura estrutura fisiológica, e inclui nela o âmbito da estrutura conceitual, ao tornar possível um mundo de descrições no qual o ser humano deve considerar sua organização e sua adaptação.

  Não é por acaso, então, que os organismos criam sua própria resposta ao ambiente sempre de forma particular e única. Para um mesmo ambiente pode-se observar as mais diversas formas de adaptação. Todo ser vivo para sobreviver precisa estabelecer uma série de relações com seu meio e com outros seres vivos que compartilham este meio. Porém, percebe-se que, em virtude de uma maior variedade e complexidade da estrutura corporal, o surgimento de comportamentos coordenados entre os seres vivos de determinadas espécies que concorrem para determinar o lugar ou função destes mesmos seres vivos. A partir disto, estabelecem-se comportamentos comunicacionais que, dependendo da plasticidade da estrutura corporal envolvida, podem ocasionar o surgimento de processos de comunicação cada vez mais complexos.

  Entretanto, ao se seguir por este tipo de caminho, acaba-se acreditando na proeminência de algum modelo de princípio teleológico por trás de cada acontecimento, percurso ou forma de vida presente no transcorrer do surgimento do universo até a atualidade. Nesse sentido, acaba se concebendo o desenvolvimento da vida em geral como orientada em direção a um objetivo fixado, quer seja fixado por uma divindade, pela natureza ou pela ação humana. Algo que é, propriamente, um pensamento mítico-mágico, que impregna não somente as crenças religiosas, mas também muitas ideologias políticas e teorias científicas. Portanto, deve ficar claro que:

  

Em qualquer um dos cem mil degraus de uma

determinada seqüência que levou aos modernos

  

humanos, uma minúscula e perfeitamente plausível

variação produziria um resultado diferente, fazendo

com que a história se estendesse em outro percurso que

nunca levaria ao Homo sapiens, ou a qualquer outra

criatura autoconsciente. (...) Se uma pequena e estranha

linhagem de peixes não tivesse desenvolvido nadadeiras

capazes de suportar seu peso em terra (embora

desenvolvido por diferentes razões em lagos e mares),

os vertebrados terrestres nunca teriam existido. Se um

grande objeto extraterrestre — o raio definitivo vindo

do azul — não tivesse desencadeado a extinção dos

dinossauros há 65 milhões de anos, os mamíferos ainda

seriam criaturas pequenas, confinadas a esconderijos e

frestas de um mundo de dinossauros, incapazes de

evoluir para tamanhos maiores e cérebros grandes o

bastante para o que exige a autoconsciência. Se uma

pequena e tênue população de proto-humanos não

tivesse sobrevivido a centenas de fundas e setas da má

sorte (e a potencial extinção) nas savanas da África, o

Homo sapiens nunca teria emergido para se espalhar

pelo globo. Somos felizes acidentes de um processo

imprevisível sem impulso para a complexidade, não os

previsíveis resultados de princípios evolutivos que

anseiam em produzir uma criatura capaz de

compreender o modo de sua própria e necessária

construção . (GOULD, 2000: 298)

  No entanto, mesmo apesar de todo este comparecimento decisivo do aleatório, tal situação não implica, necessariamente, em que se recuse a identificar uma lógica, uma espécie de coerência no âmago da vida. A evolução da humanidade e o mundo não são, exatamente, um caos. Mas são, parcialmente, acessíveis a uma série de sucessões e de previsões, podendo-se perceber aí uma ordem ou, ao menos, ordens de inteligibilidade, estruturações, linhas de coerência. A idéia de que a formação, a organização e a experiência humanas são providas de uma certa dose de lógica, não é para postular uma progressão linear, em uma perspectiva totalizante que relacionaria tudo a uma única determinação, a uma única finalidade, a uma única teleologia. Desde o momento em que um processo aparece como não sendo devido ao acaso, ele é espontaneamente interpretado como o produto de uma vontade. No entanto, mesmo que um fenômeno seja estruturado e, conseqüentemente, suscetível de explicação, não significa que ele seja voluntário ou intencional. Ele é, de fato, o produto da imbricação de projetos múltiplos, heterogêneos e nem sempre conscientes. E estas ações são múltiplas e heterogêneas demais para responder a uma finalidade que implica intencionalidade, planejamento, consciência e unicidade do objetivo visado.

  Mesmo assim, apesar desta multiplicidade que pode ser, necessariamente, desprovida de algum tipo de finalidade específica, a vida, em todas as suas formas, manifesta diversos níveis de organização, não havendo agregação galáctica, esquema motor ou atividade cognitiva onde não intervenha algum modo de funcionamento organizador. Então, se é realmente cabível e apropriado constatar uma espécie de princípio teleológico na vida, este princípio é, justamente, a possibilidade da comunicação.

  Todos os seres humanos e outros seres vivos organizam-se em relação ao ambiente e entre si por causa da comunicação, ou seja, por causa de um conjunto de ações que permitem o estabelecimento de conexões variadas e a propagação de informações diversificadas. Sem comunicação não haveria, nem mesmo, a existência e o funcionamento de tudo que compõe o cosmos. São afirmações que soam taxativas e até mesmo bombásticas, mas, afinal, qualquer tipo de acontecimento que sucede com regularidade, a cada instante no amplo espectro da vida depende, exclusivamente, da transmissão, da seleção e da ligação de diferentes modos de informação através de processos comunicativos. A ação microscópica de uma célula ou até a constituição gigantesca de uma galáxia são fenômenos que não poderiam ocorrer sem a presença de alguma forma de comunicação, ou seja, aquilo que tem a capacidade de atuar como um princípio através do qual se torna possível organizar padrões. Para uma compreensão mais adequada desta asserção, o termo padrão deve ficar limitado, estritamente, a um significado específico que o define como um nível de separação que serve de modelo para a formação de estruturas determinadas de informações que acabam, sucessivamente, gerando outras estruturas por meio de um percurso contínuo de comunicação.

  Para entender este tipo de disposição, torna-se necessário enfatizar uma distinção básica entre informação e comunicação. Deve ficar claro que a informação não é um padrão em si, já que uma mesma informação pode ser utilizada para fins completamente opostos. Cabe à comunicação, dessa maneira, um papel atuante que demarca, combina e categoriza uma determinada informação para levá-la até o patamar estabelecido de um padrão preclaro, ativo e notório. Assim, toda comunicação se processa por meio da distinção de informações e da definição de padrões. Algo que ocorre, continuamente, nos diferentes elementos que conformam à efetividade da origem e da consolidação química, física e biológica do universo.

  Por exemplo, em uma fábrica de automóveis, o robô é abastecido com metal e plástico, mas não consegue fazer nada sem o processo de comunicação que informa as partes que devem ser soldadas para estruturar os padrões de um carro. O ribossomo de uma célula do corpo acolhe blocos de aminoácidos que são potencializados pela energia da conversão ATP em ADP, mas também não é capaz de sintetizar proteínas sem o processo de comunicação que conecta o DNA com o núcleo da célula (HENLEIN, 2001).

  A comunicação é, então, um denominador comum e extensivo a todo possuidor de organização química, ou seja, a tudo que existe. No vegetal e no animal, a unidade atômica fundamental é a célula viva que se caracteriza por processos de comunicação que estruturam trocas efetivas e incessantes de energia e de matéria. Estes ciclos comunicacionais informam, relacionam e padronizam as partículas nucleares capazes de ligar os átomos, as macrocélulas e as substâncias integrantes dos organismos vivos. No mineral, a unidade fundamental de constituição é o átomo que também funciona a partir de processos de comunicação capazes de integrar e organizar diferentes formas (MOLINS, 2002).

  Mesmo muito antes do surgimento das galáxias, o universo estava preenchido por um plasma de núcleos atômicos e de partículas subatômicas. A radiação permeava o plasma e conservava-o extremamente homogêneo. Flutuações de densidade deste plasma não tinham chance de crescer e desenvolver galáxias até que, através de um intrincado processo de comunicação, foram se estabelecendo possibilidades informativas e padrões que transformaram o plasma em um gás neutro, que, assim, não interage com a radiação e pode, então, impulsionar o nascimento das galáxias (GOTT, 2002).

  Por conseguinte, a comunicação também não depende, exclusivamente, da presença de um cérebro para acontecer. Afinal, organismos vivos como uma planária ou uma nanobactéria não dispõem de cérebros, mas, ainda assim, desenvolvem processos de comunicação na sua estrutura corporal e na sua relação com o meio ambiente (VERICA, 2004). É óbvio, entretanto, que apesar de diferentes processos de comunicação possuírem princípios comuns, todos funcionam através de níveis gradativos diferenciados. Por isso, um processo de comunicação que acontece com o comparecimento de um cérebro humano tem uma condição de complexidade comunicacional completamente diversa dos padrões estabelecidos por outras formas de organização química. Assim como estas, outras formas de organização química podem manifestar graus comunicacionais tão complexos que também estão além das capacidades de um cérebro humano (SCHWARTZ & BEGLEY, 2002).

  Nesse sentido, a vida pode ser entendida como uma seqüência contínua de existências e de modelos, como uma seqüência contínua de comunicação que não permanece estática, mas que se beneficia, freqüentemente, de ocorrências constantes que estão sujeitas a variações provenientes de uma imensa diversidade de estímulos comunicacionais. Nem caos total, nem organização total. Nem pura estabilidade, nem pura instabilidade. A vida é, em si, um processo de comunicação:

  

Vida inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e

subjetiva no contexto de produção material e imaterial

contemporânea, o intelecto geral. (...) O bios é

redefinido intensivamente, no interior de um caldo

semiótico e maquínico, molecular e coletivo, afetivo e

econômico. Aquém da divisão corpo/mente,

individual/coletivo, humano/inumano, a vida ao mesmo

tempo se pulveriza e se hibridiza, se dissemina e se

alastra, se moleculariza e se totaliza. (...) Ganha uma

  

amplitude inesperada e passa a ser redefinida como

poder de afetar e de ser afetado . (PELBART, 2003: 25) [3.2]

  A linguagem surgiu e se manteve ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação eficaz, não só para o convívio coletivo entre os indivíduos, mas também para a própria comunicação individual que acontece através dos pensamentos. A linguagem é o fundamento básico para organizar a realidade em conceitos objetivos e abstratos, a fim de compreendê-la e apreendê-la. A linguagem apareceu quando o ser humano soube conceber e ordenar ações, elaborar e classificar as representações mentais, assim como eventos e relações. Da mesma forma, os bebês concebem e manipulam conceitos e arranjam inúmeras operações muito antes de pronunciar as primeiras palavras e frases. No entanto, nem sempre a maturação da linguagem depende da dos conceitos. Algumas crianças têm deficiência dos sistemas conceituais, mas possuem uma sintaxe correta. Os centros neuronais que asseguram certas manobras sintáticas parecem se desenvolver de maneira autônoma. A linguagem é, então, uma produção humana voltada para uma série de conexões com o mundo interior e exterior.

  O cérebro elabora a linguagem mediante a interação de três conjuntos de estruturas neuronais (DAMÁSIO & DAMÁSIO, 2005). O primeiro conjunto, composto de numerosos sistemas neuronais dos dois hemisférios, representa interações não lingüísticas entre o corpo e o seu meio. Através de diversos sistemas sensoriais e motores, este conjunto implementa uma representação de tudo o que uma pessoa percebe, pensa ou sente. Além de decompor estas representações não lingüísticas (forma, cor, odor, sucessão temporal, noção de direção, etc.), ele cria representações de níveis superiores, pelas quais gere os resultados desta classificação. Assim, são ordenados intelectualmente objetos, acontecimentos e ligações. Os níveis sucessivos produzidos pelo cérebro gerenciam as capacidades de abstração e de metáfora. O segundo, um conjunto menor de estruturas neuronais, geralmente situadas no hemisfério esquerdo, representa os fonemas, suas combinações e as regras sintáticas da ordem das palavras em frases. Quando solicitados pelo cérebro, estes sistemas reúnem palavras em frases destinadas a ser ditas ou escritas. Quando demandados em reação a um estímulo lingüístico externo (uma palavra ouvida ou um texto lido), asseguram os processamentos iniciais das palavras e frases percebidas. O terceiro conjunto, também presente no hemisfério esquerdo, coordena os dois primeiros. Produzindo palavras a partir de um conceito ou conceitos a partir de palavras. As atividades destes conjuntos de estruturas neuronais permitem a compreensão e a expressão da linguagem.

  Além do cérebro, a linguagem humana precisa de uma série de estruturas neuroanatômicas que sustentam e articulam os empregos lingüísticos. Então, para uma organização lingüística apropriada é necessário uma integração funcional e acústica entre a língua, os lábios, a laringe, o diafragma e estruturas neurológicas. É essencial ainda, uma capacidade senso-perceptiva que envolve as orelhas e os canais auditivos. Por isso, a existência e a vazão da linguagem não estão fundadas, unicamente, em áreas de recepção e de elaboração dos impulsos aferentes e eferentes, nas áreas lingüísticas descritas pelas descobertas médicas do neurologista francês Pierre Paul Broca (1824-1880) e do neurologista alemão Carl von Wernicke (1848-1905) ou na atividade de nervos cranianos. A estrutura do corpo humano como um todo tem que estar ordenada, de tal maneira, que seja possível para a linguagem ser expressa e percebida pela disposição corporal. Cada detalhe do corpo, por mínimo que seja, é indispensável e específico para que a linguagem possa ser utilizada e entendida pelos seres humanos. Assim, a linguagem não deriva, exclusivamente, do cérebro, mas das singularidades do corpo humano como um todo.

  A competência comunicativa dos seres humanos depende, propriamente, da competência comunicativa implícita ao formato específico do corpo humano. O ser humano é dotado, desde o nascimento, de um sistema sensório altamente elaborado, apto para organizar, diferenciar e selecionar os estímulos provenientes do ambiente. O recém- nascido manifesta precocemente a capacidade de interagir com o meio através de diversos canais sensoriais. O desenvolvimento da visão permite, por exemplo, que ele possa concentrar sua atenção em diferentes formas como um rosto que tem características tridimensionais e móveis (CHANNING, 2001). O desenvolvimento da audição permite que ele também possa, após poucos dias de nascimento, reconhecer a voz materna (DAVALOS, 2000). No período que precede a maturação da linguagem, a criança já consegue iniciar uma linguagem gestual análoga aos princípios da linguagem verbal (KREUK, 2003). E logo depois das primeiras semanas de vida, o recém-nascido é socialmente ativo. Isto faz com que o choro, o sorriso, as expressões faciais, a dor, a carência, o prazer, possam, do mesmo modo, ampliar e mostrar outras particularidades das propensões comunicativas do corpo.

  Assim, a competência comunicativa humana deriva, diametralmente, de uma série de mecanismos genéticos inerentes a composição biológica do corpo. A maneira como o corpo humano está estruturado modula as possibilidades de produzir, de utilizar, de compreender e de fazer parte de diferentes processos comunicacionais. Por exemplo, em termos lingüísticos, os partidários da teoria inatista

  (abalizados pela obra referencial de Noam Chomsky), acreditam que a linguagem humana não resulta, basicamente, da influência de fatores externos ao corpo e sim, do amadurecimento de um conjunto de fatores geneticamente programados. Por tal viés, a aprendizagem e a manifestação verbal advêm de disposições genéticas. Advêm de uma capacidade inata de organizar e de conhecer as regras básicas da sintaxe para a elaboração gramatical.

  Através da sua teoria da gramática gerativa (1957, 1965, 1978, 1999, 2006), Chomsky defende que há dois principais aspectos que podem justificar a predominância de uma espécie de inatismo lingüístico.

  Em um primeiro nível, o de adequação descritiva, a gramática é justificada na medida em que descreve corretamente seu objeto, sua intuição lingüística, através da competência tácita do falante nativo. Assim, a gramática é justificada por motivos externos, por razões de correspondência com fatos lingüísticos que representam a realidade. Em outro nível mais profundo, o da adequação explicativa, uma gramática é justificada na proporção em que é um sistema adequado a um sentido descritivo, baseado em dados lingüísticos. Neste nível, a gramática é justificada por motivos internos.

  Segundo Chomsky, é possível dividir a linguagem em estruturas superficiais e estruturas profundas. As primeiras consistem na organização das unidades sintagmáticas como aparecem na forma do enunciado, as segundas consistem em proposições nucleares (do tipo sujeito-predicado), enquanto que as estruturas superficiais determinam a interpretação semântica. Para Chomsky, a estrutura profunda não está constituída por expressões formais, mas por um processo que acompanha o enunciado formal produzido pela estrutura superficial. São estas estruturas que tornam possível a percepção da existência de preceitos sintáticos universais, de uma gramática inata e de um conjunto de princípios que direcionam as organizações gerativas das diferentes línguas através de uma gramática, literalmente, universal. As estruturas profundas, de acordo com Chomsky, fundamentam qualquer linguagem humana e constituem o suporte direcional, semântico e verbalizável de uma gramática que, por este caminho, é, propriamente, gerativa. Por ser gerada, e poder existir, essencialmente, a partir de estruturas gramaticais inerentes a programação genética do corpo humano. Nesse sentido, a aprendizagem lingüística estaria regulada não somente por algumas regras inatas, mas por uma verdadeira hierarquia gramatical que direciona rudimentos inscritos nos circuitos cerebrais através dos quais dependem as criações, as elaborações e as ligações entre as palavras e as frases.

  Pela teoria de Chomsky, a aquisição da linguagem é um processo ativo de descoberta de regras e de verificação de hipóteses. As regras derivam de um conhecimento inato da natureza da linguagem e de seu funcionamento, estando inscritas no patrimônio genético da espécie humana. Como um aparato de aquisição da linguagem, tal mecanismo está programado para permitir que o ser humano elabore a linguagem, construa regras, entenda e produza discursos gramaticais consistentes. A aquisição genética da linguagem não está programada para uma língua específica, está direcionada para uma gramática universal que contém a descrição dos aspectos estruturais presentes em todas as línguas humanas. Através deste inatismo, o ser humano pode combinar as palavras em frases e entender o significado daquilo que ouve.

  Este tipo de propensão lingüística depende, entretanto, de um processo mais complexo que seria, justamente, uma propensão comunicacional. Por um sentido mais amplo, a competência comunicativa do ser humano não se limita a questões lingüísticas. A própria expressão e expansão da linguagem humana depende de uma série de experiências e de interações com o ambiente. Para acontecer necessita, justamente, de comunicação, de processos comunicacionais diversos. A linguagem é apenas um tipo de processo comunicacional, existindo inúmeras outras possibilidades comunicativas. Ela é apenas um reflexo da competência comunicativa inerente à estrutura corporal de cada indivíduo.

  Em conjunto com a predisposição lingüística é preciso, portanto, acontecer adaptações e interferências ativas de acordo com situações e ambientes diferenciados. Os mecanismos específicos e inatos da linguagem humana precisam de um amadurecimento biológico, de um desenvolvimento cognitivo e de uma ambiência lingüística para atuar. Ou seja, sem a possibilidade de interagir social e verbalmente com interlocutores disponíveis e sem a possibilidade de exercer sua competência comunicativa (que é voltada tanto para o individual quanto para o social), a propensão lingüística do ser humano acaba sendo limitada.

  É como no já citado caso do garoto selvagem, Victor de l´Aveyron, em que não só o autismo, mas o isolamento, no período de formação, de outros seres humanos também contribuiu para suas deficiências lingüísticas. O contato do ser humano com seus pares e com outros seres vivos, assim como com diversos meios é muito mais do que uma atividade da linguagem. É, de fato, um percurso, extremamente, complexo que carece de um vasto contexto comunicativo. A própria competência comunicativa do corpo humano não está centrada, unicamente, em verbalizações gramaticais. Por exemplo, a linguagem gestual, a expressão facial, a expressão corporal, sons não verbais emitidos pela voz, odores corpóreos, são possibilidades comunicativas que extrapolam a gramática verbal. São fontes diversas permitidas, produzidas, transmitidas e compreendidas pelas estruturas corporais humanas. Não só a fala, mas a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato possuem propriedades comunicativas.

  Como já foi mencionado, todo ser vivo possui alguma forma de competência comunicativa. Apesar de só os humanos organizarem uma linguagem verbal, todos os outros seres também dispõem de capacidades comunicacionais utilizadas para diferentes propósitos, inclusive, não apenas para uma comunicação intra-espécies, como interespécies. Por exemplo (MARGUILES, 2002), se um leão procurando por alimento aproxima-se de um grupo de babuínos próximo a uma manada de zebras, o sinal de alarme emitido por uma das duas espécies é interpretado da mesma maneira pela outra. A comunicação, de um jeito ou de outro, é intrínseca a qualquer ser vivo. Nesse sentido, a organização e a disposição comunicativa é um território extenso que depende e que envolve muitas probabilidades. Estas ultrapassam até mesmo os limites físicos de cada corpo, uma vez que o ambiente é também uma parte indispensável do processo comunicativo. Interagir e até mesmo se consubstanciar com o que está a sua volta, é uma das principais propensões da competência comunicativa. Ou seja, a realidade é percebida e compreendida através do próprio corpo, e, com isso, a comunicação aparece, claramente, como um processo constante de identificação, de padronização e de modificação. Um processo que, então, depende, fundamentalmente, do corpo para ser transmitido, expandido e implementado.

  Por um viés comunicacional, esta interação de diferentes elementos formando novas possibilidades não resulta apenas de realizações materiais que remetem ao corpo humano, mas, realmente, de realizações materiais que se originam de uma proveniência direta das maneiras como o corpo está organizado. Portanto, o estudo da comunicação pela perspectiva do corpo faz apelo a uma outra concepção de meio de comunicação. Mais do que um intermediário, o corpo humano deve ser entendido, plenamente, como uma espécie de meio (mídia), genética e culturalmente constituído, no qual se processam e se criam uma série de relações comunicativas.

  Dessa forma, deve-se perceber a existência de uma variada gama de possibilidades de um corpo humano que, em certo sentido, é capaz de até mesmo estender seus limites em relação à sua dimensão material para, com isso, demonstrar porque as balizas entre o que é natural e artificial estão cada vez mais combinadas e indistintas na vida humana contemporânea. Sendo assim, é através destes encontros e destas trocas das informações de um corpo em evolução com as informações do mundo que a estruturação dos padrões dos meios de comunicação de massa pode também ser entendida como um desdobramento efetivo de todo este trânsito.

  [3.3]

  O filósofo alemão Harry Pross (1987: 38-41) considera que os sistemas de comunicação podem ser classificados em três tipos que ele denomina mídia primária, mídia secundária e mídia terciária. Para ele, toda comunicação se inicia e termina na mídia que não depende de nenhum aparato para a interlocução, mas, apenas do corpo. Assim, o corpo deve ser entendido não só como o corpo biológico, mas, igualmente, como o corpo social (criador de vínculos sociais e comunitários) e como o corpo cultural (que inscreve a história e a memória dos seres humanos). Nesse sentido, o corpo como linguagem é a mídia primária e o alicerce de todas as outras mídias. Quando os seres humanos passam a desenvolver artefatos para que sua comunicação perdure por mais tempo e alcance distâncias maiores, este tipo de ampliação das possibilidades da linguagem geram a mídia secundária. Uma mídia que necessita de pelo menos um artefato para estruturar a comunicação porque o emissor utiliza um meio de transmissão para o receptor. Na mídia secundária estão incluídos artefatos tipográficos. Na mídia terciária, é preciso a utilização de artefatos de comunicação de massa tanto para o emissor quanto para o receptor para que ocorra algum tipo de processo comunicacional.

  Indo além destas conceituações, o corpo em uma perspectiva dinâmica não é controlado como se fosse uma máquina, mas é percebido como um sistema físico que gera padrões de cooperação autônoma entre todos os componentes que o constituem. Novos padrões vão sendo incorporados pelo organismo na ânsia de buscar uma adaptação constante ao meio em que se vive. Estes padrões são vistos como a combinação de qualidades, atos e tendências que formam um arranjo característico e consistente, os quais estão presentes nas capacidades utilizadas no cotidiano de cada um. Dependendo das demandas sociais e ambientais, ou mesmo das necessidades ou vontades, aprende-se a realizar ações para atingir diferentes metas.

  Esta troca constante com o meio é o que leva o ser humano à procura de novas formas de adaptação e de harmonia, reforçando a perspectiva de compreensão do indivíduo como um organismo dinâmico e complexo que almeja, em termos comunicacionais, manter uma relação de estabilidade com um ambiente, que de forma alguma pode ser considerado estável. Tudo isto ocorre porque o corpo humano, em toda a sua anatomia, abriga um sofisticado e complexo aparelho sensório-motor, através do qual as informações acerca do meio ambiente, tanto o externo quanto o interno ao corpo, atingem o sistema nervoso central pela intermediação de vários tipos de receptores sensitivos. Ao longo do tempo, as estruturas do sistema neuronal mudam em forma e volume devido às alterações, em proporções diferentes nos seus vários componentes. Estas estruturas permitem a reprodução de uma mesma ação, ainda que não exatamente da mesma forma, relativamente independente das condições iniciais em que é realizada. Além disso, estas estruturas podem produzir ações motoras não vivenciadas anteriormente, sem uma organização prévia. Esta característica sugere que o sistema neuronal se auto-organiza frente a determinadas metas que o mantêm em sintonia com o ambiente. Por tal viés, os indivíduos não necessitam processar as informações advindas dos estímulos ambientais para poderem agir. A informação já está presente na própria relação que se estabelece entre a ação do sujeito e o contexto no qual ele se encontra.

  Diante disso, fica patente uma compreensão do corpo humano como uma organização de elaboração extremamente intrincada, na qual uma suposta separação entre natureza e cultura é, hoje em dia, mais adequadamente compreendida por meio de uma espécie de estado de dissolução advindo dos arranjos deste sistema de trocas contínuas disposto por informações variadas. É uma situação que indica como a informação, ao contrário de crenças propaladas por um senso comum arraigado, não é uma invenção humana criada para se estabelecer padrões de comunicação com os elementos diversificados que compõem a realidade. A informação faz parte do universo, podendo ser considerada uma constante dele da mesma maneira como a matéria ou a energia. Assim:

  

O ambiente no qual toda mensagem é emitida,

transmitida e interpretada nunca é estático, mas uma

espécie de contexto sensitivo que exibe um caráter

relacional co-evolutivo no seu contato e convívio com o

  

corpo. Há muito que o ambiente deixou de ser o

“onde”, o “lugar” dos acontecimentos para se tornar

um ambiente contextual . (GREINER, 2005: 129-130)

  Por tal nível de descrição, introduz-se uma perspectiva de apreensão dos fenômenos comunicacionais como um todo dinâmico, composto por partes que se relacionam entre si, e não como partes artificialmente isoladas umas das outras. Com isso, a percepção do próprio corpo como uma forma de mídia está estruturada em cima de uma hipótese que pressupõe o fato de que os seres humanos estão sob a ação de uma corrente perpétua de informações. Para que as informações possam ser transmitidas, elas, necessariamente, têm que se ordenar por modos altamente eficazes. Então, para que isto aconteça é indispensável alcançar-se um nível de estabilidade. Dessa maneira, torna-se admissível compreender o corpo como um modelo que procura se estabilizar através da percepção de uma série de informações. Por tal viés, não é por acaso que o DNA se repete, em praticamente todas as células, com as mesmas seqüências de bases, estas células apresentam alto grau de especialização, com diferenciação de forma e função. Este fato, por si só, implica na existência de um mecanismo de diversificação da informação genética no seu ato de expressão. Um sistema vivo coordena simultaneamente suas operações bioquímicas internas e seu comportamento no ambiente, obtendo condições de sobrevivência a partir de seu genótipo individual, da organização obtida em sua história individual precedente e das condições ambientais momentâneas. O organismo vivo é uma totalidade complexa, estruturada hierarquicamente e em que diferentes graus de organização vão sendo reinformados e sobredeterminados por relações sistemáticas. Afinal:

  

A troca de informações químicas do corpo é tão

complexa e específica, a ponto de poder-se dizer que

superam, em organização e complexidade, qualquer

sistema de comunicação até agora criado pelo ser

humano como extensões. Isto inclui a linguagem sob

todas as formas — falada, escrita ou matemática, bem

como a manipulação de vários tipos de informação

pelos mais avançados computadores . (HALL, 1977: 54)

  Isto configura um cenário extremamente sensível no que se refere à percepção de novos dados informacionais e relacionais. De tal forma que é necessário ressaltar como:

  

Nós, seres humanos, somos resultado de 0,6 a 1,2

bilhões de anos de evolução metazoária (organismos

unicelulares não estão sendo contabilizados nessas

cifras, apesar de sua singular rede química).

Evidentemente, um tempo tão longo produz um sem

número de adaptações, isto é, de negociações entre

corpos e ambientes. Se o sopro em torno também

compõe a coisa, a cultura (entendida como produto do

meio, do entorno) encarna no corpo. O que está fora

  

adentra e as noções de dentro e de fora deixam de

designar espaços não conectos para identificar

situações geográficas propícias ao intercâmbio de

informação. As informações do meio se instalam no

corpo; o corpo alterado por elas, continua a se

relacionar com o meio, mas agora de outra maneira, o

que o leva a propor novas formas de troca. Meio e

corpo se ajustam permanentemente num fluxo

inestancável de transformações e mudanças .

  (GREINER & KATZ, 2001: 71)

  Sendo assim, o corpo está continuamente processando informações no meio onde existe, e por fazer isto, ele próprio pode, então, ser inferido como uma mídia. Por isso, o corpo não pode ser visto como um veículo, como um meio de transporte. Mas deve, de fato, ser entendido como uma parte de toda esta corrente, que está conectada como uma forma das informações estarem estabilizadas, mesmo que de maneira transitória. Através deste imenso grau de permeabilidade, a relação entre corpo e meio só acontece por causa de uma rede complexa de informações que se organiza por necessidade de atuação e de sobrevivência no mundo. Então, partindo deste princípio de que o corpo é uma conseqüência de modificações e de reorganizações tanto biológicas quanto culturais, a ligação com os meios de comunicação de massa advém, exatamente, desta espécie de moto-contínuo de sobrevivência da informação manifestado através das possibilidades de um corpo dotado de um movimento incessante de reverberação orgânica e simbólica dos seus limites.

  A percepção corporal só atua sobre a diferença. São necessárias, pelo menos, duas entidades relacionadas para produzir sinais de diferença, isto é, uma informação nova. Isto ocorre de tal forma, que a diferença entre elas pode ser imanente à sua relação mútua. As informações que o corpo gera e recebe emanam de sinais de diferença. A diferença é convertida, através de uma decodificação, em um acontecimento dentro do sistema de percepção e é precisamente a percepção da diferença que desencadeia uma série de possibilidades midiáticas do corpo. É por isso que o ambiente tem de ser entendido em conjunto com o organismo, uma situação que põe em evidência a necessidade de compreensão de um todo unido inseparavelmente por relações, o que faz com que o ambiente cultural e comunicacional tenha que ser pensado como uma totalidade sistêmica de relações, da qual o corpo é uma parte integrante e indissociável.

  Seguindo por tal caminho, é adequado imaginar eventos naturais ou reações químicas nas quais elementos distintos aproximam-se e, dependendo das situações contextuais, fazem emergir novas formas ou estruturas totalmente diferentes das que a originaram. As informações dependem do corpo para coexistir com as possibilidades deste mesmo corpo para também conceber informações através de um processo comunicacional que atua através de um percurso informacional de transformação, adequação e estabilização contínuas que dependem do corpo para se estruturar e se expandir. Ou seja, a probabilidade das informações ganharem estabilidade só existe, de fato, em conformidade com as capacidades singulares do próprio corpo em aclimatar padrões possíveis para estas informações. Então, a conexão entre corpo humano e ambiente é o fundamento básico para a operacionalização e para a compreensão das qualidades corporais como componente-chave e, igualmente, força-motriz para os inumeráveis acontecimentos e soluções comunicacionais. Algo que demonstra, com exatidão, como nenhuma teoria da comunicação de massa ou da comunicação humana faz sentido sem levar em conta as especificidades do corpo humano que é, em si, um fator inerente e fundamental de todo princípio comunicativo.

  O conceito de remediação proposto por Edward Bolter e David Grusin (2000) ajuda a elucidar a discussão. De acordo com eles, o termo

  

  remediação serve para explicar como os meios digitais são produto de uma espécie de processo de reorganização de determinadas características específicas dos outros meios de comunicação de massa. Nesse sentido, o conceito do corpo como mídia pode, então, ser relacionado de tal modo com os meios de comunicação de massa que permite inferir que a mídia é, de certa maneira, conseqüência de um processo de remediação das habilidades midiáticas do corpo:

  

As mídias não são os meios de comunicação

contemporânea mas emergência de relações dialógicas

agenciadas por formas culturais em processos

comunicacionais precisos contemporâneos ou não.

Como tudo na cultura, as mídias criaram seus

precursores, ainda que não seja nada fácil deslumbrá-

los. A própria denominação mídia, mídias, do modo

como usamos, é uma forma de escamoteamento dessa

questão fundamental. No entanto, do ponto de vista

dialógico, a palavra mídias não passa de uma

heteroglossia: um neologismo barbarizante atravessado

44

por injunções lexicais e prosódicas de entroncamentos

  

Um jogo de palavras que no original em inglês faz com que remediation seja uma forma de

reestruturação de algum tipo de mídia (re-media-tion). Mas que em português pode também ser

relacionado como o termo remediação que tem origem no latim remediare e que pode significar,

  

lingüísticos eqüidistantes: latim > inglês americano >

português brasileiro. Uma palavra que já traz no étimo

o hibridismo não pode designar outra coisa senão a

. emergência de formas igualmente híbridas (MACHADO, 2003: 20)

  O ponto chave é, portanto, reconhecer a pertinência para as teorias dos estudos comunicativos desta espécie de acoplamento no qual os meios de comunicação de massa podem ser vistos como uma reverberação ampliada das capacidades comunicacionais do corpo. Ou melhor dizendo, como a mídia pode ser vista como uma ressonância amplificada das habilidades de remediação inerentes ao corpo humano. Demonstrando, claramente, como qualquer forma de comunicação recobre uma multiplicidade de sentidos que, mesmo assim, acaba sempre tendo origem e sendo dependente das capacidades intrínsecas ao corpo. O corpo é o esteio de todas as mídias. Não existe comunicação sem corpo,

  

  pois, toda comunicação humana começa e termina no corpo . Então, a tendência genética para uma propensão à comunicação não envolve só a criação de meios de comunicação. Principalmente porque muitos são os seres humanos que utilizam e produzem diferentes formas de comunicação, mas são poucos os que, de fato, inventaram meios de comunicação de massa. Mesmo assim, esta propensão comunicativa é o fundamento básico que permite a existência de todo tipo de meio de comunicação de massa.

  

momentos de ressignificação, de rupturas, de produção de sentidos, de acordo com o surgimento de

  A mídia não tem sentido sem o humano, sem o corpo humano. Por isso, não é mais possível estabelecer uma distinção abrupta entre natureza e cultura, cultura e técnica, natural e artificial, já que estas são dimensões do processo de organização da evolução da vida. Por escalas de complexidade, no horizonte biológico desdobram-se formas muito diversas de comunicação, que podem ser consideradas tanto do ponto de vista decisivo do meio utilizado quanto com relação aos mecanismos de emissão e de recepção, nos quais recursos anatômicos e fisiológicos ocupam uma posição primeva e fundamental. Toda a rede comunicacional na qual a mídia está inserida é, completamente, direcionada e limitada pelas particularidades e propensões das estruturas corporais. Qualquer ação ou uso expressos pela mídia só tem efeito ou proveito por causa da presença do corpo humano e da maneira específica como ele está organizado. O indivíduo é, freqüentemente, o vértice da encruzilhada. A sua relação com a mídia não é, exclusivamente, de formatação, dominação, aceitação ou singularização (como afirmam as habituais teorias da comunicação). Mas é, igualmente, de composição e de complementação entre possibilidades e propósitos comunicacionais. Veiculando, amplificando, transformando, traduzindo, conduzindo, influindo, em um sentido, uma ação, em outro sentido, uma informação, desde o início até o fim, o corpo é sempre o limite da comunicação.

  Como limite da comunicação, o corpo não é, evidentemente, imóvel, integrando-se no curso da motilidade própria de cada anatomia, o corpo é a matriz constante da comunicação e da adaptação do ser vivo em cada momento da existência. É todo um conjunto de manifestações envolvendo a corporalidade, indissociáveis dela e que se completam por meio de redes de significações continuamente reelaboradas, reprocessadas e midiatizadas nas bases e nos materiais sobre os quais qualquer meio de comunicação se estabelece. Dessa forma, em oposição ao conceito dominante de mídia como algo estático, substantivo e essencialista, o corpo como mídia deve ser visto como algo híbrido,

  

produtivo, dinâmico, aberto, em freqüente transformação; não mais um

substantivo, mas um verbo, uma estratégia de sobrevivência (BHABHA,

  1995: 48). Como estratégia de sobrevivência, o processo de comunicação-midiatização deve ser entendido como um processo de contaminação entre natureza e cultura. Em qualquer trânsito entre aquilo que é corpo e aquilo que não é corpo há um processo de comunicação. Então, mais do que um produto que carrega as marcas de diversas experiências e memórias de deslocamentos e origens, as relações entre corpo e comunicação atuam como um princípio básico no qual a existência do corpo é, propriamente, uma existência comunicacional.

CONCLUSÃO

  A questão de saber se é possível pensar diferente do que se pensa, e perceber diferente do que se percebe, é indispensável para qualquer forma de reflexão. Começar uma conclusão com esta afirmação é uma tentativa de sublinhar como a análise dos fundamentos básicos das principais teorias da comunicação de massa e das teorias da comunicação humana abrem caminho para uma série de dúvidas e de questionamentos cuja colocação e organização suscitam novos e inúmeros problemas ontológicos e filosófico-científicos. Ultrapassar os limites impostos entre a comunicação de massa e a comunicação humana através dos pressupostos do corpo é uma proposição que procura renunciar a qualquer teoria geral e unificante de todos os fenômenos da comunicação.

  Algo que soa contraditório ao se observar como as características específicas do corpo humano podem ser entendidas como um princípio comum e combinatório às especificidades de cada meio de comunicação. No entanto, a propensão comunicacional do corpo é, justamente, a possibilidade de estabelecer diferentes processos comunicativos com diversos tipos de mídia. Mais do que um princípio comum, o corpo é a diferença que materializa a diversidade dos fenômenos da comunicação e dos fenômenos midiais. Reconhecer o corpo e suas tendências midiáticas não segue, então, a imensa propensão epistemológica das generalizações limitantes. Pelo contrário, reconhecer o corpo como mídia é encarar uma rede de contaminações em que cada estágio só funciona através de uma série de complementações. Portanto, reconhecer o corpo é também ficar longe de asserções do tipo: a culpa é da genética. Já que não se trata de ficar com apenas um lado, mas, de fato, perceber como acontecem, realmente, as conciliações e indistinções entre natureza e cultura. Entender o papel fundamental que as particularidades genético-culturais apresentam nos processos da comunicação, é entender novas probabilidades epistemológicas para muitos campos de conhecimento.

  Assim, a mídia precisa ser vista como um sistema em contínua mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor destaque. E pensar os diferentes estágios da vida humana e o estágio atual dela implica, necessariamente, pensar processos comunicativos de expressão e de constituição de diferentes mídias. Muito mais fundamental do que se estabelecer à natureza da comunicação, é refletir sobre ela de maneira aberta e sistemática. Mas qualquer reflexão acadêmica é um resultado direto de seres humanos e de condições particulares, o que implica, então, na presença de uma série de necessidades, vicissitudes, limites e investimentos.

  Não existe uma única teoria da comunicação, não existe um único ponto de vista, existem vários com diferentes sentidos, propósitos, qualidades e validades. Mas, todos procuram, de fato, alguma maneira de entender os processos comunicacionais, mesmo que por enfoques diversificados. Então, conseguir perceber e pelo menos tentar compreender mais uma possibilidade da teoria da comunicação através da perspectiva do corpo. É permitir a entrada de mais uma peça do quebra- cabeças que torna evidente que não há uma única organização do vivo, como não há uma única organização da comunicação, da mídia, da sociedade ou do saber. Há uma série de organizações superpostas e sobrepostas umas nas outras como bonecas russas. Atrás de cada uma esconde-se uma outra. Além de cada estrutura acessível à análise acaba se revelando uma nova estrutura, de outra ordem, que integra a primeira e lhe confere suas propriedades específicas. Com a descoberta de cada boneca russa, a explicitação destes níveis diferentes não resulta, simplesmente, de um acúmulo de observações e de experiências. Resulta também na expressão de uma mudança mais profunda, de uma transformação na natureza do próprio saber. Saber que, como a comunicação e como o corpo, é ação, reciprocidade, trama e trânsito.

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