Dilson Vargas Peixoto TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

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Dilson Vargas Peixoto

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

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Dilson Vargas Peixoto

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau

de Licenciado em História.

Orientadora: Janaina Souza Teixeira

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Dilson Vargas Peixoto

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

Historiador – Licenciado em História.

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Janaina Souza Teixeira – Orientadora (Unifra)

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Nikelen Acosta Witter (Unifra)

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Paula Simone Bolzan (Unifra)

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço ao Deus que oportunizou todas as coisas e minha existência. Logo agradeço aos meus pais Clovis Antonio Darsing Peixoto e Cleonice de Jesus Vargas Peixoto por terem me gerado e me criado tão bem. Igualmente agradeço aos meus irmãos Jeferson Vargas Peixoto e Gerson Vargas Peixoto por todo o incentivo dado, influência, atenção e aprendizagem que me proporcionaram. Agradeço a Romilda Gomes de Morais por ter convivido comigo como se fosse parte da família, assim como aos meus ancestrais e parentes, que não citarei os nomes para não ficar um agradecimento maçante.

Agradeço às pessoas que conviveram comigo como minha babá, aos meus professores da Escola Santa Catarina e do Colégio Maneco, ao pessoal do cursinho Decisão. Todos estes os meus agradecimentos por terem me proporcionado etapas da aprendizagem até chegar ao Ensino Superior. Agradeço aos professores da Unifra, em especial os do curso de História que foram sempre tão dedicados e atenciosos, nos incentivando a buscar o saber. Sabei que todos os que foram meus professores, tenham minhas sinceras considerações.

Também não pode faltar meus amigos como Alfeu de Arruda Souza, Ana Cláudia Carlos, Anelise Fenalti, Renata Gomes Deolindo, Rodrigo Fuchs Miranda, e em especial os historiadores que foram meus colegas Daniela Silveira, Dérico Berleze e Tamiris Carvalho por todas as “loucuras” dos tempos de graduação, nossas “comilanças” nas aulas, nossos estudos divertidos e apresentações de trabalhos. Também à família Gomes, meus vizinhos tão queridos. Agradeço aos demais amigos e conhecidos por terem convivido comigo e me proporcionado aprendizagem, principalmente o pessoal do Grupo de Danças Folclóricas Alemãs Edelweiss, que me fez ser uma pessoa mais desinibida.

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... O que hoje é calma já foi paisagem Ver nuas índias de estranhos tigres E bugres machos que nem sabiam Que eram felizes por serem livres

Viria o tempo em que o rio de sombras Escurecer essa liberdade Era imperioso que eles viessem Fazer caminhos, plantar cidades Foram-se os tigres, foram-se os bugres...

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RESUMO

Com a chegada de espanhóis e portugueses, o território do atual estado do Rio Grande do Sul foi inserido nas práticas culturais européias de forma direta ou indireta. Conseguir perceber e observar como se deu o impacto ambiental no Rio Grande do Sul ajudará na compreensão de como se processou a mudança paisagística da região, assim como a colonização ibérica. Mas seria observável o impacto ambiental causado pelo europeu e seus elementos nos relatos de viajantes do início do século XIX? Através das obras dos franceses Nicolau Dreys e Auguste de Saint-Hilaire, bem como do inglês John Luccock foram identificados elementos de utilização do meio ambiente por parte do ibérico entre os anos 1808-1822. Juntando tais elementos a obras de cunho historiográfico e biológico, foram analisados os processos de colonização e impacto ambiental pelo europeu no Rio Grande do Sul. A pesquisa é baseada na História Ambiental, relacionando, então, os processos naturais como processos históricos. Assim, é possível identificar organismos exóticos trazidos pelos europeus que se adaptaram tão bem ao Rio Grande do Sul que passaram a se proliferar e se integrar à natureza local de forma a mudar e ajudar na mudança paisagística da região. Além disso, é possível ter noção da dimensão das atividades de “depredação” de matas em busca de melhores terras utilizadas por alguns lavradores e da caça de animais silvestres.

Palavras-chave: Rio Grande do Sul, Impacto Ambiental, Colonização.

ABSTRACT

With the arrival of spanish and portuguese people, the territory of the current state of Rio Grande do Sul was inserted into the European cultural practices directly or indirectly. It can perceive and observe how the environmental impact in Rio Grande do Sul will help in understanding how the change took place landscape of the region and the Iberian colonization. But it would be observable environmental impact caused by the European and its elements in the reports of travelers in the early nineteenth century? Through the French’s works Nicholas Dreys and Auguste Saint-Hilaire, and the Englishman John Luccock elements have been identified for use of the environment from the Iberian Peninsula between the years 1808-1822. Combining these elements works of historiography and biological processes were analyzed and the environmental impact of colonization by Europe in Rio Grande do Sul. The research is based on the Environmental History, linking, then, natural processes such as historical processes. Thus, it is possible to identify exotic organisms brought by the Europeans who have adapted so well to the Rio Grande do Sul began to proliferate and become part of the local nature of change and help shape the changing landscape in the region. Furthermore, it is possible to grasp the scale of the activities of "degradation " of forests in search of better land used by some farmers and hunting of wild animals.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 7

2 ANTECEDENTES À CHEGADA EUROPÉIA ... 10

3 BRANCOS COMO NUVENS E AMEAÇADORES COMO FOGO ... 12

4 ESTRANHOS EM TERRA ESTRANHA ... 16

5 A NATUREZA AO SERVIÇO DO HOMEM ... 29

6 ABORÍGENES OU ESTRANGEIROS? ... 39

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 45

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 47

Fontes consultadas ... 52

Fontes em meio eletrônico ... 53

ANEXO I – Mapa do Rio Grande do Sul com vegetação e povoamentos de 1809, região das estâncias missioneiras e das Reduções do Tapes, rota dos tropeiros. ... 55

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1 INTRODUÇÃO

O humano, desde sua origem, sempre esteve intimamente relacionado com a natureza. Isso se dá por um simples e óbvio motivo: por ele pertencer à natureza. Como qualquer criatura, o Homem submete o território onde está aos seus caprichos (sendo tal submissão parcial ou total), modificando parte dele e interagindo de forma a deixar sua marca. Mas, o humano parece que supera os demais animais na interação com o meio ambiente, plantando e criando em extensos territórios e transitando por muitos lugares, deixando o rastro de suas culturas e suas vivências.

Por muitos anos, principalmente a partir do final do século XVIII, houve uma forte afirmação de se pensar a dissociação do Homem com a natureza (SILVA, 1997). Tal pensamento passou a ser proeminente nos estudos de História, que ressaltavam grandes líderes, fatos, economia, política e até mesmo rupturas sociais. Porém, com a abrangência da área de pesquisa histórica através da segunda geração da Escola dos Annales já no século XX, muitos assuntos foram revelados e muitas possibilidades de se entender o processo histórico surgiram.

Aproximando-se da questão natureza, a História das Paisagens torna-se um caminho pelo qual o historiador deixa de lado a produção e economia, ambas oriundas da domesticidade de outros organismos, para tratar do ambiente ao qual o humano vive, seja ele submetido à lavoura/pecuária ou não. Com isso, “devemos entender a natureza, nesta visão, não mais como um dado externo e imóvel, mas como produto de uma prolongada atividade humana” (SILVA, 1997, p. 204).

A prolongada atividade humana não se daria em um tempo curto de décadas, mas sim no que é chamado de “tempo longo”, também relacionado ao tempo geológico. Justamente nesse tempo longo que a História Ambiental se apóia, mostrando que as relações humanas vão além do perceptível de uma geração. Essa corrente teórica surgida na segunda metade do século XX trata do meio ambiente como pertinente à história, mostrando uma gama de assuntos que podem ser abordados ao se buscar em disciplinas das ciências naturais fontes que embasem a historiografia para analisar as sociedades humanas, suas relações com o território e demais organismos. Drummond (1991, p. 181) aponta que:

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“objetivos” a capacidade de condicionar significativamente a sociedade e a cultura humanas (grifo do autor).

Através do social e do cultural um território pode ser transformado, mesmo que de maneira quase imperceptível. O simples ato de plantar algo ou de colocar um bando de animais exóticos em um campo já causa alguma mudança paisagística e de relações com o meio ambiente ao serem utilizados os recursos naturais “escondidos” (a fertilidade do solo), além daqueles que estão à vista (as plantas e animais nativos). Para poder identificar tal impacto ambiental deve-se escolher alguma região (ou território) com certa identidade natural para ser analisada (DRUMMOND, 1991). A partir de então é necessário buscar fontes históricas auxiliadas pelas ciências naturais para poder perceber eficazmente as relações Homem-Natureza, temática pelo qual o presente Trabalho Final de Graduação (TFG) é baseado.

O território escolhido para o desenvolvimento do trabalho é o que forma atualmente o estado do Rio Grande do Sul, sendo sua delimitação cronológica correspondente aos primeiros anos do século XIX, mais especificamente de 1809 a 1821, época em que a região ainda pertencia ao Império Português. Se aborígenes interagiram com o meio ambiente, modificando-o através de sua horticultura e deixando suas marcas, o que esperar de gente que veio de lugares muito distantes como o europeu, trazendo uma cultura cuja característica marcante é a submissão do natural e cujas técnicas de agricultura e pecuária são mais eficazes? Certamente um impacto ambiental maior. Mas, ainda restam algumas dúvidas: se houve o impacto ambiental causado pelo europeu no Rio Grande do Sul, como ele se deu e o mesmo foi perceptível no final do período colonial brasileiro?

As informações contidas nos relatos de três viajantes europeus que estiveram no território estudado no início do século XIX podem ser a resposta a tais perguntas. John Luccock, Nicolau Dreys e Auguste de Saint-Hilaire são os tais viajantes, cujos relatos serviram de base para a elaboração do presente TFG. De suas obras foram selecionados fragmentos que demonstram a interação da população européia (ou europeizada) com o ambiente sul-rio-grandense, mostrando que organismos exóticos aí foram introduzidos e quais recursos naturais foram utilizados.

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Inseridos nesse contexto de “metropolização” da Colônia Brasil que os viajantes chegaram à Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Esses estrangeiros descreveram as paisagens sul-rio-grandenses, suas gentes, faunas e floras que observaram durante sua estadia na província. Os viajantes estiveram no Rio Grande do Sul em tempos diferentes de um mesmo século. Como primeiro está o comerciante inglês John Luccock que esteve no Brasil entre 1808 e 1818, época da fuga da corte real portuguesa ao Brasil e da abertura dos portos às “nações amigas” (Inglaterra). O segundo viajante foi o francês Nicolau Dreys que esteve na província de Rio Grande de São Pedro do Sul entre 1817 e 1827, conhecendo o naturalista (também considerado botânico) de mesma procedência Auguste Prouvansal de Saint-Hilaire, que visitou as partes meridionais do Brasil em meado de 1820-21.

Os traços ambientais selecionados nos relatos dos três viajantes serão identificados ao longo do estudo como sinais da ação ibérica (ou de outros europeus que vieram por intermédio dos ibéricos), tendo em mente que “o sujeito que observa não é de forma alguma o sujeito da antropologia filosófica, e sim um outro indivíduo que pertence ele próprio a uma época e a uma cultura” (LAPLANTINE, 2001, p. 61). Portanto, não se deve apenas colher informações “cruas” do documento, mas processá-las, ou seja, processar observações e interpretar interpretações (LAPLANTINE, 2001). Isso mostra que o viajante não é alguém imparcial, mas um indivíduo que pertence a uma cultura e tem seus valores, descrevendo aquilo que lhe é de interesse, deixando passar despercebido o que lhe é tão familiar ou o que desconhece e não entende. Logo, os traços referentes ao meio ambiente selecionados nos relatos não abordam totalmente as relações humanas com o meio, mas indicam alguma relação do colonizador com um território estranho.

Não será tratado neste estudo o início de um impacto ambiental, mas sim as conseqüências de um processo ocorrido desde a chegada do primeiro europeu ao território e que pôde ser observado pelo olhar atento do viajante, mesmo este não tendo o intuito ambientalista em seus escritos. Devido a isso, foram consultadas diversas bibliografias, tanto de cunho historiográfico quanto de história natural1 com o intuito de discutir como se formou e consolidou o processo de modificação ambiental causado pelo europeu, ficando tal análise em aberto para estudos posteriores que a complementem. Para analisar as relações da natureza

1 Foram utilizados alguns guias de campo para a identificação de algumas espécies baseadas em suas

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com o Homem, fizeram-se necessárias algumas breves abordagens biológicas, a fim de embasar melhor o estudo. Por isso, há a identificação de alguns organismos presentes nos relatos dos viajantes.

Diferentemente da historiografia tradicional que retrata o Rio Grande do Sul pelo viés político/econômico, o presente trabalho aborda a história do estado por um viés ambiental. Isso não quer dizer que aspectos principalmente econômicos e culturais não serão abordados. Pelo contrário, a historiografia tradicional contribuiu muito para a elaboração deste estudo, dando base para novos enfoques históricos.

Como primeira parte do estudo será brevemente comentado os impactos ambientais ocorridos no que hoje é o Rio Grande do Sul em um tempo geológico recente, a fim de mostrar impactos ambientais de tempos pré-humanos. Logo será abordada como se deu a ocupação européia do território sul-rio-grandense, ressaltando as atividades agropastoris nele empregadas. No terceiro capítulo serão analisados os relatos dos viajantes para identificar se houve alguma inserção de espécies exóticas. O quarto capítulo é referente ao que o europeu “tirou” do território, ou seja, o que de nativo foi utilizado pelo ibérico para sua sobrevivência. Já no quinto capítulo serão abordadas as relações observadas pelos viajantes entre o que foi “tirado” e o que foi “inserido” pelo europeu no Rio Grande do Sul, proporcionando uma visão mais ampla das relações do Homem com a natureza. Por fim ter-se-ão as considerações finais seguidas das referências bibliográficas. Para melhor entendimento e visualização do território, é importante consultar o mapa em anexo (anexo 1) apresentando os locais de ocupação e os unidades de vegetação do território em estudo.

2 ANTECEDENTES À CHEGADA EUROPÉIA

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As criaturas distintas que passaram do istmo do Panamá ao sul “exploraram nichos adicionais sem competir e causar extinção entre os gêneros já presentes” (BENTON, 2008, p. 323). Apesar disso, tais imigrantes do norte se estabeleceram tão bem nas partes meridionais que, após a extinção da megafauna pleistocênica, em que entre “12 e 10 mil anos atrás (...), na América do Sul, 46 gêneros desapareceram (80%)” (BENTON, 2008, p. 360), muitos organismos descendentes de imigrantes do norte se multiplicaram de forma espantosa, aparentemente tornando-se mais bem sucedidos que os seres que saíram da América do Sul e foram para a América do Norte (como os tatus). São felinos e artiodactyla (como porcos do mato e cervos) alguns dos descendentes de imigrantes nortistas que passaram a ocupar o nicho deixado por espécies em extinção ou menos adaptadas às mudanças climáticas de período interglacial2. A América do Sul estava mudada em questão faunística, principalmente com a chegada de um animal com características singulares: o Homem.3

Estando inserido nas partes meridionais da América do Sul, o território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul obviamente foi palco das mudanças climáticas e paisagísticas4 que ocorreram durante o Quaternário. Quando as culturas humanas aqui se estabeleceram, encontraram um lugar de florestas nas encostas dos morros e margens de rios. Fauna composta por felinos, macacos, aves de variadas espécies, flora de diversas cores e tamanhos e campos de perder de vista com cervos e emas correndo entre as gramíneas. Tudo que o nativo necessitava para sobreviver havia: caça, frutos, sementes e água.

Quando vieram populações falantes de idiomas do tronco lingüístico Tupi-Guarani, a paisagem sul-rio-grandense foi sendo mais afetada pelos humanos do que na época em que havia somente caçadores-coletores. Os guaranis trouxeram uma técnica até então inovadora para estas terras: a horticultura. Embora de forma rudimentar, essas populações desmataram para plantar mandioca e milho, assim como para construir suas aldeias. Quando o solo e o território não proporcionavam mais alimento, o local desmatado era abandonado,

2 Oliveira et al. (2009) aponta para o fim da Era do Gelo em aproximadamente 14 mil anos atrás, sendo seguido

por um gradativo aquecimento que é o período entre duas eras glaciais (período interglacial). Apesar disso, quando da chegada européia no que hoje é o Rio Grande do Sul, o mundo estava sofrendo um pequeno resfriamento em que “entre 1400 e 1850 d.C., as temperaturas caíram cerca de 0,5 °C, em média (...) o que levou os cientistas a denominarem este período de “Pequena Idade do Gelo” (OLIVEIRA et al, 2009, p. 124). Daí,

devido a esse resfriamento se tem o possível sucesso adaptativo de alguns organismos trazidos pelos europeus (se não dos próprios europeus) abordados ao longo do estudo.

3 Kühn (2002) aponta para a existência de humanos no Rio Grande do Sul a partir de 8 mil anos atrás, sendo que

na época da chegada do europeu haviam três grupos principais: guaranis, jês e pampeanos. Em contrapartida Frantz & Silva Neto (2005) apontam para a ocupação por indígenas a partir de 6 mil anos, sendo os guaranis os primeiros a praticar a horticultura, praticando “técnicas da derrubada e da queimada cultivando mandioca, milho, batata-doce, feijão, abóbora, fumo, mate e algodão (..) complementada com a caça e a pesca” (FRANTZ & SIVA NETO, 2005, p. 34).

4 “Desde a colisão das Américas do Sul e do Norte (...) a vegetação da América do Sul sofreu os efeitos

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recuperando-se lentamente até atingir novamente a comunidade de clímax, ou seja, o porte de uma mata antes do desmatamento.

Mais tarde, pelos idos do século XVI da Era Cristã, chegaram outras culturas humanas que também desempenharam papel de mudança paisagística (muito mais intensa) no Rio Grande do Sul: os europeus. Com os europeus vieram organismos diferentes dos nativos e que aos poucos foram ocupando seu espaço por essas paragens.

3 BRANCOS COMO NUVENS E AMEAÇADORES COMO FOGO

A ocupação do território que atualmente corresponde ao estado do Rio Grande do Sul pelo europeu ocorreu de forma lenta e gradual. Sua posição como fronteira entre os impérios Português e Espanhol foi fator importante para desencadear a configuração paisagística atual. “A formação histórica do atual estado do Rio Grande do Sul está intrinsecamente relacionada à questão fronteiriça existente entre os domínios das duas coroas Ibéricas” (NEUMANN, 2004, p. 25).

Inicialmente, em meados do século XVI, os europeus tiveram contato com o território através de “expedições de reconhecimento ou exploradoras” que “chegaram às costas da América Meridional” (GUTFREIND & REICHEL, 1998, p. 63). A efetiva instalação de europeus na região se deu com os espanhóis através da Companhia de Jesus e seu papel de evangelizar o indígena, sendo fundada a redução de São Nicolau do Piratini em 1626 (VENTURINI, 2009). Espanhóis chegaram ao território sul-rio-grandense pelo “lado” oeste, instalando reduções jesuíticas para converter o “gentil”, especialmente povos linguisticamente identificados como guaranis. Os “jesuítas que penetraram sob bandeira espanhola (...) ocuparam a área que se estendeu pela zona de Ijuí, Piratini, Jacuí, Taquari, Guaíba, Rio Pardo, fundando reduções, onde dedicaram-se à agricultura e formaram estâncias de criação de gado (...)” (MACHADO, 2004, pg. 39). Agricultura essa de caráter europeu, plantando trigo e outros organismos estrangeiros mistos às produções nativas. Ao conseguirem autorização governamental para atuar na região, os jesuítas fundaram mais reduções, integrando a região à Província Jesuítica do Paraguai. Assim, foram criadas as Missões do Tape, que duraram até 1638, quando foram atacadas por bandeirantes paulistas.

Através de combates entre jesuítas e paulistas em meados de 1640, houve um abandono das regiões de influência jesuíta, deixando assim o gado vacum (da espécie Bos

taurus L.), que dentro de pouco tempo se reproduziu de forma semi-selvagem, formando a

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constituíram expedições com a finalidade de escravizar os indígenas guaranis, inicialmente os

carijós que habitavam o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul” (KUHN, 2002, p.

10), sendo responsáveis, no século XVII, pelos ataques às reduções jesuíticas do Tape. Aí, o conflito entre as coroas espanhola e portuguesa se acirrou e o Rio Grande do Sul passou a adquirir certa importância por ser uma região fronteiriça.

Em 1682 novos jesuítas espanhóis retornavam ao território do Rio Grande do Sul, mas dessa vez mais ao noroeste, onde fundaram as reduções de São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo (PESAVENTO, 2002). Próximas a essas reduções foram criadas outras cabeças bovinas como reserva (a Vacaria dos Pinhais), aumentando, dessa maneira, a população de ruminantes nas partes meridionais do atual Brasil. Quando os guaranis conduziam as cabeças de gado da Vacaria dos Pinhais para a região das Missões, provavelmente tais cabeças tenham levado consigo alguns carrapichos e plantas não típicas da região.

Os produtos cultivados nas Missões eram muitas vezes exportados, como a erva-mate

(Ilex paraguaiensis A. St.-Hil.) e o couro de bovinos, além de haver plantações de produtos

nativos e europeus, como o trigo.5 A introdução do trigo não trouxe somente essa espécie vegetal, podendo ter vindo outras espécies não utilizadas pelo homem na alimentação e comércio (CROSBY, 2002).

Apesar de ser uma região de domínio espanhol de acordo com o Tratado de Tordesilhas, o extremo sul do atual Brasil foi alvo de expedições portuguesas, principalmente em regiões próximas ao litoral. Conforme Frantz & Silva Neto (2005, p. 49):

A ocupação portuguesa mais efetiva deste território (referência ao extremo leste do planalto) ocorre mais tarde, quando em 1734 Cristóvão Pereira constrói o Caminho do Planalto. Os tropeiros que sobem a Serra desde Viamão limitam-se a ocupar as suas invernadas, numa posse precária.

O movimento de tropas e o contrabando eram os principais causadores da penetração européia no território. As fases do tropeirismo provavelmente ajudaram na dispersão dos mamíferos quadrúpedes vindos do outro lado do Atlântico, já que tais animais (seu couro e carne em charque) eram produtos de comércio às regiões mineiras. Com o comércio tropeiro na Vacaria do Mar e o tropeirismo paulista, a situação da interiorização de organismos europeus se tornou mais intensa. Dessa vez não só bovinos, eqüinos (Equus caballus L.) e muares (Equusmulus L.) expandiam sua área de passagem junto com possíveis plantas

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pega”. Os humanos descendentes de europeus também aumentavam seu “território”, gerando núcleos populacionais em alguns de seus caminhos e derrubando matas para sua instalação e/ou passagem.

Apesar da presença de paulistas no tropeirismo, a instalação de lagunenses nos chamados de Campos de Viamão (KÜHN, 2006) foi crucial para o povoamento português na região. Conforme Kühn (2006, p. 75):

Durante o primeiro terço do século XVIII, o Continente foi desbravado pelos pioneiros lagunenses. Mas, até então, as incursões visavam apenas ao reconhecimento, ao contato com o indígena e ao arrebanhamento do gado. A partir de (...) meados da década de 1730, teve início a um movimento migratório (...) de fluxo e refluxo entre os campos sulinos e a vila de Laguna.

Além disso, em 1737 foi fundado por uma dessas expedições luso-brasileiras o forte de Rio Grande, bem como concedidas sesmarias a famílias que queriam se instalar no Continente de São Pedro, sendo principalmente militares quem recebiam tais concessões e se instalavam em vastos territórios denominados estâncias. A intensificação populacional européia se deu com a vinda de açorianos a partir de 1748 e a distribuição de terras a estas famílias nas mais diversas localidades da província, sendo os imigrantes “todos agricultores” que “fundaram pequenos núcleos de povoamento em torno da terra distribuída (...) e se envolveram na produção de alimentos para a subsistência e (...) mercado interno” (MARCÍLIO, 2004, p. 323), fixando-se em terras não rentáveis para as grandes estâncias. Junto com açorianos (especialmente cristão-novos, ou seja, judeus convertidos ao cristianismo) vieram escravos africanos para povoar o território. Em seu estudo intitulado

Escravos do Pastoreio: pecuária e escravidão na fronteira meridional do Brasil, Farinatti

(2006) mostra a importância que tinham os escravos no trabalho nas estâncias da Província. Com isso, a ocupação luso-brasileira do Rio Grande do Sul foi se configurando com a formação de povoados, vilas, freguesias, estâncias e charqueadas, estando estas situadas na região leste, próximo às vias fluviais. Já nos campos do sudoeste, a ocupação efetiva com a concessão de sesmarias se deu somente a partir de 1814 (PONT, 1984), tendo-se aí o motivo pelo qual a região é pouco mencionada pelos relatos dos viajantes analisados no presente estudo.

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(BERNARDES, 1997, p. 56). O clima ameno do Rio Grande do Sul, semelhante ao da Europa poderia ter sido um fator que contribuiu para a instalação e sucesso dos europeus e suas culturas.

Com a criação do Tratado de Madri, a Espanha trocaria os Sete Povos das Missões (que faziam parte dos Trinta Povos da Província do Paraguai) pela Colônia do Santíssimo Sacramento (situada na atual República Oriental do Uruguai). Expedições para demarcar novos limites das posses de Portugal (agora tendo a região missioneira) foram recebidas com hostilidade pelos guaranis e jesuítas, desencadeando a Guerra Guaranítica em 1754. Então, tropas espanholas se juntaram às tropas luso-brasileiras, aumentando a tensão entre a Companhia de Jesus e as nações ibéricas. Alguns anos mais tarde, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madri, restituindo os Sete Povos para a Espanha (VENTURINI, 2009). Por irem contra as ordens reais e criarem territórios autônomos e desenvolvidos, os jesuítas passaram a ser mal vistos pelos reis ibéricos, culminando com a sua expulsão em 1768 (PESAVENTO, 2002). Assim, a administração das Missões passou a ser feita por leigos espanhóis.

As negociações pelas fronteiras meridionais entre os impérios ibéricos não estavam bem definidas. Em sua política do uti possidetis os portugueses marcharam em direção às Missões e as conquistaram em 1801, sendo essa conquista reconhecida pela Espanha através do Tratado de Badajós, ao qual Portugal entregaria a Colônia do Sacramento em troca da região conquistada. Não houve resistência por parte dos espanhóis para proteger as missões dos portugueses, pois muitos missioneiros passaram ao “lado luso” em busca de melhores tratamentos (VENTURINI, 2009). Com Portugal tendo posse do noroeste do Rio Grande do Sul, famílias açorianas foram designadas a nessa região se instalarem, da mesma forma que em outras partes da província para legitimar o domínio português.

Por ser uma região fronteiriça, o Rio Grande do Sul presenciou conflitos luso-castelhanos e índio-afro-europeus por muitos anos, ajudando, assim, na disseminação de organismos exóticos vindos com as populações humanas estrangeiras, bem como no processo de modificação paisagística antrópica. Tal fronteira móvel entre os impérios espanhol e português necessitou de gente, postos que guardassem os limites estabelecidos. E, junto com essa gente vieram seres necessários à sobrevivência dessas populações. Alguns desses organismos europeus se adaptaram tão bem que se tornaram selvagens, como os cavalos e jumentos, que em uma primeira leva foram abandonados por jesuítas como os bovinos.

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pampeano tornaram-se tão bem unidos, que estes indígenas roubavam os eqüinos para apresar os bovinos da Vacaria Del Mar. Muito da cultura material charrua e minuana se modificou com a inserção desses vertebrados exóticos. Conforme Hugarte (2007, p. 87):

sólo con la difusión del ganado y la consiguiente de contar con cueros de buen tamaño en abundancia, construyeron con ese material chozas de techo redondeado y forma alargada o circular(...).

Apesar de essas etnias (charrua e minuanos) terem sido relativamente abundantes na Banda Oriental, não podemos ignorar que ambas eram nômades e que andavam pelo território sul-rio-grandense, já que não há um grande limite natural que impeça sua passagem. Além disso, a face geográfica dessa região é muito semelhante a das imediações do Rio Negro e partes meridionais. Hugarte (2007) constata em sua obra Los Indios del Uruguay o “intercâmbio” com etnias europeizadas (mais especificamente guarani) pertencentes ao Rio Grande do Sul. Juntamente com isso, as populações nômades aborígenes usaram tão bem a montaria eqüina que muitas vezes foram solicitadas para batalhas, sendo também agentes indiretos do impacto ambiental causado pelo europeu.

É após todo esse processo histórico, no início do século XIX, que os viajantes analisados no presente trabalho descrevem o Rio Grande do Sul. “Apenas nos lugares onde se estabeleceu o homem é que surgiram os perfis das árvores cultivadas que transformaram o aspecto primeiro da paisagem” (CANABRAVA,1984, p. 28). Assim, o impacto ambiental causado pelo europeu pode ser visto à luz da História, mostrando-se como um processo de longa duração, sendo realizado diretamente pelo europeu ou por agentes influenciados pela cultura européia, como indígenas, africanos e mestiços, configurando-se a fisionomia do Homem sul-rio-grandense e mais tarde o gaúcho.

4 ESTRANHOS EM TERRA ESTRANHA

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na flora e fauna da Europa ou de outros continentes que foram introduzidos através do colonizador à região platina6. Estes aspectos serão abordados no presente capítulo.

O espaço referente ao atual Rio Grande do Sul foi palco não só da ocupação humana e de suas lutas e artimanhas para disseminar sua cultura européia, mas também foi lugar de uma adaptação de espécies não vistas antes na região. O europeu foi o responsável por transportar animais e vegetais por caminhos difíceis e oferecer-lhes outro território, longe daquele de seus ancestrais. Esse tipo de transporte pode ser definido como Transporte Passivo (BROWN & LOMOLINO, 2006), em que organismos se dispersam através de outros agentes que não eles próprios. Tais organismos, que no território em estudo permaneceram, tiveram que se adaptar ao mesmo. Os que resistiam a tais condições ambientais reproduziam e levavam adiante sua linhagem, enquanto que outros nem sequer tiveram que fazer “manobras adaptativas”, mas encontraram um local adequado à sua vivência.

Com a chegada dos europeus à América, espécies oriundas da região do Mar Mediterrâneo e outras localidades se instalaram e se propagaram em um novo território, como a tanchagem [Plantago spp., conforme Caribé & Campos (1999) sendo referida a espécie

Plantago major L. nativa da Europa vegetando espontaneamente por todo o Brasil, apesar de

ter espécies nativas do estado], o pastinho-de-inverno (Poa annua L.) e a urtiga (Urtica dioica L.). Isso causou uma transposição das barreiras naturais, que antes impediam a dispersão de tais organismos. Com as grandes navegações, os europeus transpuseram uma grande barreira que era o oceano Atlântico, transportando consigo espécies exóticas dos continentes por onde visitavam. Esses processos de colonização e migração humanas são (e foram) os principais responsáveis para a dispersão de espécies exóticas (ESPÍNOLA & JÚLIO JUNIOR, 2007).

Foi com os espanhóis que os primeiros organismos exóticos chegaram. Conforme Mörner (2004, p. 203):

Os espanhóis (...) recusavam-se a depender das culturas americanas nativas. Assim, em 1532, para garantir o abastecimento de todo o alimento normalmente consumido pelos espanhóis, todo navio que partia para o Novo Mundo era obrigado a levar sementes, plantas vivas e animais domesticados.

O encontro de condições ambientais ideais, além da ausência de predadores e competidores naturais pode fazer com que espécies exóticas se tornem invasoras (ESPÍNOLA & JÚLIO JUNIOR, 2007). Isso define o porquê de alguns organismos exóticos se

6 Entende-se por região platina as imediações do Estuário da Prata (Río de la Plata), principalmente a bacia

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proliferarem e se dispersarem tão bem que houvesse efetiva interação com o território, como se os exóticos fossem nativos. Aí mostra que a “disseminação de animais domésticos do Velho Mundo” ser “mais revolucionária devido à ausência de congêneres do Novo Mundo” (MÖRNER, 2004, p. 204).

Os mais evidentes organismos exóticos (potencialmente invasores) trazidos pelos europeus propositalmente ao Rio Grande do Sul foram os bovinos, o que mantém a historiografia desde a tradicional até as análises mais recentes em consenso. Tais criaturas chegaram ao território por duas vias, sendo a primeira pelas mãos de Hernandarias7 em 1611 e a segunda pela ação dos jesuítas (REICHEL, 2006). As criações de gado nas Missões do Tape foram deixadas aos cuidados da natureza à medida que os bandeirantes, à procura de índios a serem cativos, foram expulsando os jesuítas daquela região. Com isso, segundo Frantz & Silva Neto (2005, p. 41):

Com a pecuária praticada pelos jesuítas no interregno 1626-1628 e retomada novamente a partir de 1682, as pastagens naturais do Rio Grande do Sul foram modificadas nas suas características florísticas. A seleção e o pastoreio sistemático de algumas gramíneas por parte dos animais alteraram as características originais dos campos.

Isso é traço evidente do impacto ambiental causado por organismos exóticos introduzidos pelos europeus, sendo, portanto, tal impacto causado indiretamente pelo colonizador. Na região das Missões, território das antigas estâncias jesuítas (ver anexo I), os viajantes registram em seus relatos o que lhes é mais perceptível. Saint-Hilaire (2002) mostra que em São José (tempo antes de sua chegada àquele local) havia grande quantidade de bovinos e que a estância de “São Vicente (...) se contam quatorze mil bovinos, pertencentes a São Miguel” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 290). O mesmo autor menciona que nos arredores das Missões os animais comiam uma planta por ele chamada de Capim-limão8, sendo boa para engorde. Nota-se que aí (em referência ao “para engorde”) o gado tirava seu sustento de plantas que cresciam provavelmente sem cultivo e ainda de uma planta que não pertencia à flora nativa da província. De modo semelhante talvez fizessem às plantas nativas os bois e vacas que o viajante relatou antes de chegar à região missioneira, ao sul do rio Ibicuí, na

7

Pecuarista e governador das províncias do Rio da Prata e Paraguai. Hernandarias e uma expedição, segundo Coni (1941, p. 85), andou pelos campos da margem oriental do Rio Uruguai por “seis días tierra adentro, anotando observaciones sobre lo apropriada que sería aquella tierra para traer pobladores y haciendas”.

8 Pode ser tanto a espécie Cymbopogon citratus (DC) Stapf. ou Cymbopogon flexuosus (DC), ambas originárias

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chamada Fazenda do Salto. Então, tem-se aí uma espécie exótica que usa os recursos naturais e que pôde ter agido de forma predatória nas espécies aborígenes, mostrando o impacto ambiental causado pelo europeu de forma indireta.

De visão diferente, mas igualmente relatando os bovinos da região missioneira, Nicolau Dreys (1961, p. 107) menciona que:

O negócio de exportação das Missões, como geralmente de todo o território a O. do Rio Pardo, consiste em gado para as charqueadas do país; em mulas e cavalos que vinham anualmente comprar os habitantes das províncias limítrofes (...)

A quantidade de gado vacum na região era grande na época dos viajantes e que tal quantidade era oriunda de uma população menor, trazida pelas primeiras levas de europeus. Tal fenômeno presente nos relatos não foram mudanças repentinas de décadas, mas sim de vários anos, consistindo em um período de longa duração. Desde que as primeiras manadas de gado instalaram na região até sua adaptação a esses campos, como comer ervas que seu paladar não estava acostumado, requer tempo. Além disso, para tal proliferação requer saber explorar o ambiente, algo que demora, principalmente para se formarem grandes manadas.

A formação e manutenção de grandes manadas de vacum foi diretamente desempenhado pelo humano europeu. Desde que Hernandarias introduziu as primeiras cabeças nos pampas, os bovinos foram se adaptando e se reproduzindo, logo integrando a economia da região platina através de seus couros e sebos. Assim, a Vacaria do Mar foi dando forma às sociedades que cresceram às suas custas, como as Missões e o tropeirismo. Percebendo a dizimação que tal vacaria estava tendo devido ao contrabando e as atividades de apresamento de gado, os jesuítas (após os conflitos com os bandeirantes, mais ou menos quando estavam restabelecendo as Reduções no noroeste) fizeram uma reserva mais ao norte, na chamada Vacaria dos Pinhais. Apesar de ter sido oficialmente fundada em 1704, esta Vacaria teve seu número de reses diminuído, sendo refundada em 1717 com maior número de cabeças (MASY, 1988, p. 189).

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Estado (...) grandes criatórios de mulas” (PONT, 1984, p. 861). Sua importância econômica se deu com os Tropeiros, que carregavam tais animais aos locais de mineração (tanto da região andina quanto das minas brasileiras) por serem criaturas resistentes às cargas e que melhor desempenhavam trabalho em locais de montanha.

Algo igualmente exótico para a província, mas não mencionado com tanta familiaridade pela historiografia foi o cultivo do pêssego9, relatado nas memórias dos viajantes. Não só na região missioneira tal fruto era abundante, e sim em todo o território ocupado por europeus. Saint-Hilaire (2002) refere-se aos pêssegos nas margens do rio Butuí e em São Borja (p. 270: “tomei a dianteira com Matias, deixando os outros empregados sob o abrigo dos pessegueiros”), sejam os pessegueiros cultivados ou não, como os encontrados no convento da mesma localidade.

Além disso, em São Borja o mesmo viajante relata outras plantas exóticas ao mencionar que “as laranjeiras (...) as melancias, (...) as maçãs e os melões são excelentes, mesmo não se lhes dispensando o menor cuidado” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 277). Mais adiante ele acrescenta que produziam na região “em abundância trigo, (...) arroz (...), melancia, (...) melão e todas as frutas da Europa” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 291). 10 Neste capítulo não se levou em consideração plantas nativas mencionadas pelos viajantes como “agentes europeus” do impacto ambiental, como a erva-mate e o milho, apesar de seu cultivo em larga escala utilizado pelo europeu em relação ao indígena tenha causado impacto maior do que a época pré-européia. Mas, a introdução de espécies exóticas como a laranjeira e o pessegueiro são mais notáveis, pois além de terem se adaptado e se reproduzido, modificaram a configuração paisagística do Rio Grande do Sul, que passou a abrigar tais organismos não antes fixados em suas terras. Certamente isso revela o emprego destes frutos na dieta da população colonial, o que inclui, em maior ou menor medida, os elementos indígenas, africanos e mestiços. A disseminação desse hábito iria refletir uma maior modificação na paisagem.

Os produtos cultivados na região missioneira no período em que Saint-Hilaire (2002) a visitou são praticamente os mesmos da época jesuítica. Kern (1982) aponta que o trigo (tratando-se de planta exótica) já era plantado pelos indígenas no Abambaé, sua propriedade, embora raramente. Portanto, a prática da triticultura na região das Missões era anterior à chegada dos açorianos, demonstrando que plantas exóticas foram instaladas no território do

9 Planta arbórea nativa da Ásia, cujo nome científico é Prunus persica (L.) Batsch.

10

A maçã (Malus sp.) é originária da Ásia, assim como a laranja (Citrus sinensis (L.) Osbeck.) e o arroz

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Rio Grande do Sul logo que os primeiros europeus (neste caso os jesuítas espanhóis) se estabeleceram. A vinda de organismos exóticos presentes na alimentação européia pode ser explicado devido o aumento da demanda por alimento, “mormente daqueles produtos que ainda não eram prontamente fornecidos pelos agricultores índios, como carne, trigo, açúcar e vinho” (MÖRNER, 2004, p. 189).

Os produtos que a Província Jesuítica do Paraguai (e logicamente o noroeste do atual Rio Grande do Sul) exportava eram principalmente a erva-mate e o couro. Este couro era oriundo do gado apresado nas estâncias pertencentes às Missões, em que o guarani a cavalo ia buscar. Junto com os cavalos e o próprio gado, plantas exóticas poderiam ter sido transportadas em seus excrementos ou pêlos (CROSBY, 2002). Saint-Hilaire (2002, p. 52) relata da existência de algumas espécies exóticas (algumas podendo ser potencialmente invasoras) que ele mesmo identifica como sendo européias: Conium maculatum L. (cicuta),

Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Urtica dioica L. (a popular urtiga), Geranium

robertianum L. (bico-de-cegonha), Linum sp. (podendo se referir ao Linum perenne L. nativa

da Europa e Ásia) e Alsine media L. [sinônimo de Stellaria media (L.) Vill.] nos arredores de Porto Alegre. Além dessas espécies nas imediações do rio Pelotas o naturalista encontrou

Linaria sp. [podendo ser as espécies européias mencionadas por Lorenzi & Souza (2001)

Cymbalaria muralis P. Gaertn., B, Mey. & Scherb., ou Linaria genistifolia (L.) Mill.] e Poa

annua L. (pastinho-de-inverno).

Nos relatos de Saint-Hilaire (2002) existem plantas que ele trata pelo nome das famílias, organismos que não serão analisados devido a sua denominação superficial (pois podem ser nativos ou exóticos pertencentes a uma mesma família). De forma semelhante e igualmente para não gerar equívocos, foram deixadas de lado as plantas que possuem número de coleta, como, por exemplo, “a cerastium nº 1875, a anemona nº 1864, uma outra oxalis nº 1875-5, o carex Nº 1875 ter, e a composta nº 1875 quater” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 98). Plantas com o número de coleta estão presentes no Museu Nacional de História Natural de Paris e estão identificadas com as espécies. Como ainda não temos acesso a tais dados, essas espécimes numeradas não serão consideradas no presente trabalho, apenas as que não possuem número de coleta serão analisadas.11

Outras plantas exóticas que o botânico francês aponta para o Rio Grande do Sul são o mamoeiro, a violeta e o narciso nos arredores de Viamão (p. 53 e 54); Polygonum aviculare

11 O projeto Herbário Virtual A. de Saint-Hilaire está em construção e, durante a elaboração do presente TFG

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L. (erva-de-bicho), uma Cerastium sp. (orelha-de-rato) e Senecio sp. nas imediações de Rio Grande (p. 66 e p. 73); mostarda, Poa annua L. (pastinho-de-inverno), Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Alsina media L. (esperguta) e ranuncula próximo ao rio Pelotas; coentro (p. 106), Oxalis sp. (trevo-azedo, p. 104), Cerastium sp. (p. 108 e 110), pau-d’água (p. 110),

Lathyrus sp. (provavelmente ervilha-de-cheiro), Anethum foeniculum L. (erva-doce), violeta,

sileno e malva (p. 119) ao sul de Rio Grande, nas imediações do Taim. Mais ao oeste ele nota a presença de vernônia (p. 254) nos arredores do Ibicuí, bem como salgueiros em São Borja (p. 263), em Porto Alegre (p. 31), no Ibicuí (p. 254) e na região central (p. 229-230) da Província.12

Das espécies exóticas apontadas por Saint-Hilaire (2002), apenas Stellaria media (L.) Vill. (mourrião-dos-passarinhos) é corroborada por Crosby (2002) como uma planta que atingiu outros continentes devido os europeus. Também, algumas das plantas relatadas pelo botânico foram identificadas por Schneider (2007) como sendo introduzidas no estado de forma acidental. Entre as espécies introduzidas desta maneira temos Polygonum aviculare L. (erva-de-bicho), Cerastium glometarum Thuill. (orelha-de-rato), Poa annua L. (pastinho-de-inverno), Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Stellaria media (L.) Vill. (esperguta),

Ranunculus sp., Oxalis sp. (trevo-azedo), Senecio madagascariensis Poir (identificada como

invasora de alta agressividade) e Silene sp. (alfinente). Já o Coriandrum sativum L. (coentro) foi introduzido por ser um condimento, a Brassica sp. (mostarda) como forrageira e a Viola

odorata L. como ornamental. Das plantas observadas pelo botânico, o mesmo aponta que

12

Origem das plantas descritas. Mamoeiro é “nativo da América Central e Caribe” (LORENZI & MATOS, 2002, p. 115), para violeta a espécie Viola odorata L. é nativa da Europa, Ásia ocidental e África e a espécie Saintpaulia ionantha Wendl., a mais conhecida, é “originária da África Tropical” (LORENZI & SOUZA, 2001,

p. 540), enquanto que o narciso Narcissus cyclamineus DC. originado em Portugal e o Narcissus hybridus Hort.

da Europa e norte africano. Já o Polygonum aviculare L. é nativo da Eurásia e o provavelmente Cerastium glomeratum Thuill. oriundo da Europa e, conforme Schneider (2007) ambas espécies foram introduzidas de

forma acidental no estado, da mesma forma que a africana Senecio madagascariensis Poir.; a Poa annua L., Rumex pulcher L., Stellaria (Alsina) media (L.) Vill. e espécies de Ranunculaceae Ranunculus sp. são nativas da

Europa, bem como o coentro (Coriandrumsativum L.), a mostarda (Brassica rapa L. ou B. nigra (L.) Koch) e a

espécie Oxalis latifolia Kunth. Já outra espécie denominada Oxalis corniculata L. é nativa da América do Norte

e presente no estado conforme Schneider (2007). De acordo com Lorenzi & Souza (2001) existem duas espécies conhecidas como pau-d’água que poderiam ser tanto a africana Dracaena fragrans (L.) Ker Gawl. quanto a

espécie Pleomele reflexa N. E. Br. oriunda de Madagascar, Índia e Ilha Maurício. Já Lathyrus poderia ser a

espécie européia Lathyrus odoratus L.; e Anethumfoeniculum L. (Foeniculum vulgare Mill.) também é nativa da

Europa. Sileno poderia representar um erro de grafia para Silene. Se assim for (o que se trata de uma hipótese), Saint-Hilaire (2002) poderia estar se referindo à espécie Silene anthirrhina L. oriunda da América do Norte ou S. gallica L. da Europa. Para malva temos duas espécies européias (ignorando outras espécies cujos nomes

populares são malva-roxa e malva-de-crista): Malva parviflora L. e Malva silvestris L.. Já para vernônia temos a

espécie africana Vernonia condensata Baker que foi “trazida ao Brasil ainda nos tempos coloniais pelos

escravos” (LORENZI & MATOS, 2002, p. 179). Mas, Lorenzi & Matos (2002) mostram outras espécies de vernonia, só que nativas do Brasil: V. polyanthes, V. ferruginea e V.tweediana. Sobre o salgueiro, há a espécie

nativa Salixhumboldtiana Kunth e as demais espécies do gênero exóticas, sendo estas utilizadas para fazer vime

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“será necessário comparar na Europa todas essas plantas (...) para verificar se, realmente, existe alguma diferença” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 86).

Conforme Matos & Pivello (2009, p. 27):

As ações humanas são certamente os principais fatores que criam oportunidades para episódios de invasão biológica, seja pela introdução proposital ou acidental de novas espécies, ou por distúrbios provocados no ambiente físico ou na própria comunidade. No caso das plantas, são freqüentes causas de invasão biológica o revolvimento ou a fertilização do solo, alterações microclimáticas, ou ainda, a eliminação de espécies indesejáveis.

Tratando-se de condições ótimas para o crescimento de algumas plantas, Dreys (1961) refere-se ao potencial da província para cultivos. Segundo ele “todos os frutos da Europa ali prosperam (...) como o figo” (DREYS, 1961, p. 107). O figo é um fruto largamente mencionado pelo naturalista francês e também por Dreys (1961). Porém, existem diversas espécies de figueiras nativas do Rio Grande do Sul, não definindo se as encontradas e utilizadas pelo europeu fossem estrangeiras (o que poderia ser uma hipótese)13. Devido a isso, não será levado em consideração o figo como fruto exótico, pois não se sabe qual espécie de figo que os viajantes estão se referindo, se figos nativos ou estrangeiros, apesar de o próprio botânico se referir algumas vezes às figueiras selvagens. Outro tipo de figueira que o botânico (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 112) aponta é a figueira-da-índia [Opuntia fícus-indica (L.) Mill.], que apesar do nome, não possui relação alguma com as outras figueiras que produzem figo verdadeiro, já que a figueira-da-índia é um cacto originário da América Central, portanto, exótico.

Ainda na região das Missões, Saint-Hilaire (2002) refere-se ao cultivo do algodão, arroz, abóbora e melancia em São Luís, sendo estas duas algumas das “plantas que os índios aí cultivam” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 303), assim como de canas-de-açúcar14 em regiões adjacentes; e “as terras daqui, como quase em todas as das Missões, são excelentes e produzem trigo” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 316) em São João, bem como algodão, sendo suas plantações “imensas, as das outras aldeias não se lhes podem comparar” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 315). Ao sul de São Nicolau, Dreys (1961) relata da produção de algodão, fumo e cana, sendo que “ao Sul de S. Nicolau (...) a terra se cobre de uma vegetação

13 Existe figo (Ficus carica L.) que é cultivado e originário da Ásia, mas no Rio Grande do Sul existem outras

plantas nativas que também são denominadas “figos”. Em uma pequena região de montanhas no centro do estado que durante a segunda metade do século XIX foi colonizada por italianos, Itaqui (2002) aponta para a existência de figueira-do-mato (Ficus luschnathiana Miq.) e figueira-da-folha-miúda (Ficus organensis Miq.). Já o Decreto

Estadual nº 42.099 sobre a flora ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul aponta para as espécies figueira-do-mato (Oreopanax fulvum E. Mach.) e a figueira (Ficus glabra Vell.).

14

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esplêndida; produz algodão, milho, fumo, cana e grande abundância de erva-mate; (...) a pêra, o figo, a ameixa, o marmelo” (DREYS, 1961, p. 107). Tal junção de organismos de diferentes procedências evidencia o impacto ambiental causado pelo europeu e suas culturas, corroborando com o relato de Dreys (1961) em que o Rio Grande do Sul:

(...) dá com profusão todos os que lhe pede a cultura; e estando a província como no ponto de contato entre a temperatura dos Trópicos e o céu mais brando dos climas temperados, daí resulta que, debaixo dessas influências mistas, os produtos do Equador vêm-se ajuntar com os frutos da Europa. (DREYS, 1961, p. 80)

Tais cultivos e criações na região missioneira são reflexos de uma sociedade que necessitava desses produtos para a sobrevivência. Com tais produtos a sociedade jesuítica tinha algum comércio, utilizando-se dele para ter relações com outras regiões da América e do mundo. Conforme Kühn (2002, p. 44):

As principais atividades econômicas estavam assentadas na criação de diversos tipos de gado (vacas, cavalos, mulas e ovelhas) e na produção de erva-mate. Além desses produtos, que eram comercializados no mercado interno colonial ou, ainda, exportados (como o couro), os índios missioneiros cultivavam algodão para a fabricação de tecidos e roupas (...).

São costumes ibéricos que os indígenas guaranis adotaram e mesclaram ao seu modo de vida, perpetuando-o e o fazendo ser observado pelo olhar atento do viajante tempos mais tarde da decadência das Reduções.

Embora não tão povoado como a região dos Sete Povos, o território que hoje corresponde à fronteira Oeste do Rio Grande do Sul também sofria de alguma intervenção européia. Dos viajantes analisados, apenas Sain-Hilaire (2002) faz menção a essa região. Nas imediações da Guarda de Quaraim (Quaraí) o viajante observa uma grande plantação de pessegueiros. Já nos arredores do rio Ibicuí relata da existência de plantação de trigo e melões, assim como arroz, outra espécie de trigo15, o “trigo-manco, introduzido recentemente na região não era atacado pela ferrugem” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 263) e novamente os persistentes pêssegos.

Mais para o interior da província (região central do estado), o mesmo viajante relata a existência da cultura do tabaco perto de São Xavier, assim como arroz e nos arredores do rio Toropi já houve bom rendimento do trigo. No Rincão da Boca do Monte aparecem novamente pessegueiros, arroz e trigo. Já Dreys (1961) mostra a existência de numerosas manadas de

15 Pode-se tratar de outra variedade de uma mesma espécie. Na bibliografia consultada não foi encontrada

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gado na Freguesia de Cachoeira (DREYS, 1961, p. 124). O tabaco ou fumo relatado anteriormente poderia ser uma forma econômica extra (ou seja, não seguindo apenas os moldes de criação de gado e plantação de trigo), podendo coexistir com a criação de gado. “Eram comuns as fazendas mistas de criação de gado e plantação de fumo, porque era o esterco o melhor fertilizante para a produção do fumo de melhor qualidade” (SCHWARTZ, 2004, p. 374).

Fazendo parte dessa freguesia, ao leste da Capela de Santa Maria, na Estância da Tronqueira, Saint-Hilaire (2002) aponta para o cultivo do trigo, bem como a existência de cavalos e bois pelos campos. Nessa região relata o viajante que “os arredores de Santa Maria são habitados por estancieiros que, na maior parte, além de criar gado, se dedicam ao cultivo da terra” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 338). Osório (2006) corrobora com o botânico ao analisar a estrutura agrária no Rio Grande do Sul, mencionando que “a existência concomitante de currais e cercados demonstra a combinação, também para esses pequenos produtores, da agricultura e pecuária” (OSÓRIO, 2006, p. 168).

Com o relato dos viajantes e estudos como o de Helen Osório (2006) é notado que no Rio Grande do Sul as pessoas sobreviviam não apenas da pecuária, mas sim de uma cultura mista entre criação e plantação. O trigo plantado e muito mencionado nos relatos poderia ser de mais de uma variedade, conforme o encontrado por Saint-Hilaire (2002) “nos vastos terrenos cultivados” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 362) em Rio Pardo ao apontar a introdução do trigo-branco e trigo-moro. Tais variações tritícolas se deram, de acordo com o botânico, devido a uma doença que atacava o trigo comum. “Desde 1818, apareceu (...) uma doença chamada ferrugem, e que aniquilou parte da colheita” (DREYS, 1961, p. 81).16

O cultivo de trigo no Rio Grande do Sul foi mais intensificado com a vinda dos açorianos, dispersando-se para vários lugares (FRANTZ & SILVA NETO, 2005). A introdução de outras variedades do trigo pode indicar a importância que o produto tinha na região, já que “a triticultura foi a atividade econômica que provocou o enriquecimento e a ascensão social de alguns açorianos, inclusive o seu acesso à mão-de-obra africana” (KÜHN, 2002, p. 65). Além da cultura tritícola, a plantação de pomares e criação eram bastante presentes. Na mesma região de Rio Pardo o botânico menciona laranjeiras, assim como no caminho a Porto Alegre, e Dreys (1961) aponta para a criação de gado nas proximidades do rio Jacuí (DREYS, 1961, p. 123).

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A região leste da Província do Rio Grande do Sul é a que mais aparece nos relatos dos viajantes, talvez porque nela a ocupação é mais recente e mais perto das vias marítimas, além de ser a mais populosa.

Ao visitar a charqueada de Gonçalves Chaves17, o botânico faz descrição de outras plantas exóticas cultivadas como as macieiras, pereiras, ameixeiras, cerejeiras, parreiras, laranjeiras e novamente os pessegueiros, assim como uma possível criação de bois e cavalos, por ele os ter visto pastando nos espaços entre as árvores. Para outros animais criados, só que mais ao sul da charqueada de Chaves, Saint-Hilaire (2002, p. 96) aponta para os rebanhos de ovelhas (Ovisaries L.) guardados por cães ovelheiros (Canisfamiliaris L.).

Nos arredores de Rio Grande, Luccock (1975, p. 131) aponta para grande quantidade de gado e criação de porcos (Sus domesticus L.), cujos animais eram alimentados com pêssegos. Além disso, diferentemente dos demais viajantes consultados, o comerciante inglês menciona a existência de alfafa. Novamente têm-se relatados os cultivos de vegetais ao sul de Rio Grande: o trigo e “as árvores frutíferas e várias hortaliças exóticas, tais como diversas espécies de couves, alfaces, ervilhas, são muito encontradas” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 97)18.

A alimentação dos porcos com pêssego pode indicar uma grande e/ou fértil plantação de pessegueiros. Com isso, uma maior área cultivada existiria, assim como maior a área impactada. Plantas tropicais de origem asiática como a cana também passaram a fazer parte da fisionomia do Rio Grande do Sul. Pequenos canaviais são mencionados por Dreys (1961) nesta localidade (Rio Grande), da mesma forma que quintais nas casas que “produz frutas e hortaliças com tão exata periodicidade que vão quase inutilizando os suprimentos diários que recebe a cidade da horticultura vizinha” (DREYS, 1961, p. 113). O mesmo estrangeiro relata que na Ilha dos Marinheiros (e Turutama) há abundante produção de hortaliças e que sua escassa população também ocupa o tempo com a criação do gado. Já Saint-Hilaire (2002, p. 65), para a região, afirma da existência de pomares feitos de laranjeiras e pessegueiros, bem como de figueiras selvagens e o êxito do cultivo de legumes.

E a lista de relato de cultivo de espécies exóticas aumenta. Em São José do Norte, Dreys (1961, p. 80) aponta para a produção de cebolas, nabos, melões e melancias19, sendo estes dois últimos produtos (chamados de melão e melancia-d’água, não podendo-nos

17 Antônio José Gonçalves Chaves foi um charqueador (proprietário de charqueada) em Pelotas, podendo ser um

dos fundadores de Pelotas.

18 A alfafa (Medicago sativa L.) é originária da Argentina , o alface (Lactuca sativa L.) é originário do leste do

Mediterrâneo e a ervilha (Pisum sativum L.) da Eurásia.

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informar se são espécies nativas) também cultivados na localidade de Povo Novo, juntamente com o milho, constituindo uma cultura dupla, segundo Luccock (1975, p. 139). Também foi observado por este comerciante inglês a existência de pêssegos e de cavalos que pastavam soltos (LUCCOCK, 1975, p. 138). Já na lagoa da Mangueira o mesmo viajante menciona a existência de árvores de mangueiras (já não tão comuns em sua época), assim como do cultivo de cebolas na Ilha de Santa Maria (LUCCOCK, 1975, p. 115)20.

Mais ao sul, próximo à fronteira com a Província Cisplatina (atual República Oriental do Uruguai), os relatos do botânico francês novamente fazem referência a algo exótico no território: um considerável rebanho de carneiros, muitos cabritos (Capra hircus L.), assim como gado e cavalos, embora em menor quantidade que nos outros lugares. Ao descansar em uma estância denominada Jerebatuba, o viajante aponta para o cultivo de cana-do-reino, que ele acredita ser a planta mediterrânea Arundo donax.21

Em Porto Alegre, Dreys (1961) comenta do cultivo de jardins e em suas adjacências, como próximo à embocadura do rio Gravataí, há uvas, “os pêssegos, os figos, as peras, os marmelos, juntos com a laranja, a lima, a banana, crescem na mesma latada” (DREYS, 1961, p. 101), assim também como havia cultivo de cana e café. Por sua vez, Saint-Hilaire (2002) descreve que nesta cidade havia plantações de trigo, cana-de-açúcar e laranjeiras e que, em seus arredores, muito bem se desenvolvem pessegueiros, amendoeiras, ameixeiras, macieiras, pereiras, cerejeiras, oliveiras e vinhas, bem como cultivo de violetas e narcisos nos jardins da cidade (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 34-35; 53).22 As plantações descritas pelo botânico francês nos arredores da capital provincial corroboram com Dreys (1961) que afirma que:

a cidade recebe das chácaras circunvizinhas todas as qualidades de frutas, de hortaliças, e de verdura que produz a vegetação indígena, ou que brotam das sementes exóticas, que as mãos do sábio cultivador souberam naturalizar num solo estrangeiro. Seus mercados estão por isso sempre abundantemente providos (DREYS, 1961, p. 102)

Sobre a Capela de Viamão Saint-Hilaire (2002) é novamente fonte de estudo. Ele relata da existência de rebanhos em suas estâncias, principalmente dos carneiros em Bujuru,

20 A mangueira (

Mangifera indica L.) é originária da Ásia.

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“Semi-lenhosa, rizomatosa, entouceirada, originária do Mediterrâneo, de 2-4 m de altura, de folhagem ornamental... Cultivada a pleno sol, como planta isolada, em grupos ou formando renques densos, em canteiros de terra rica em matéria orgânica. É tolerante a geadas” (LORENZI & SOUZA, 2001, p. 545).

22 Conforme observado em Caribé & Campos (1999), o marmelo (

Cydonia oblonga Mill.) é originários da Ásia,

assim como o café (Coffea arabica L.); a pêra (Pyrus communis L.) da região do Mar Mediterrâneo, a ameixa

(Prunus domestica L.) da Europa ou China, a amêndoa (Amygdalus communis L.) do norte da África, a oliveira

(Olea europaea L.) e a cereja (Prunus cerasus L.) da Ásia Menor, podendo a espécie mencionada ser a popular

cerejeira do mato (Eugeniainvolucrata DC), que é nativa; a lima (Citrus aurantifolia (Christm.) Swingle) da

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bem como do cultivo de trigo e centeio (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 55). Já em Estreito há menção em seu relato sobre o cultivo de parreiras, chicórias, cebola, mostarda, nabo, aipo, couve, brócolis e couve-flor (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 56). Sobre o litoral norte ele relata da existência de laranjeiras e trigo em Tramandaí, assim como de cana-de-açúcar, novamente trigo e criação de gado nos arredores de Itapeva.

Os organismos exóticos introduzidos pelo europeu renderam frutos na província do Rio Grande do Sul, tanto que onde quer que o colono estivesse, lá estava sua plantação e sua criação, principalmente nessa região leste, mais recentemente ocupada e com políticas de incentivo à ocupação de terras pelo açoriano através da concessão de Sesmarias.23 Ao contrário do que convencionalmente se afirma sobre a alimentação do sul-rio-grandense, a dieta da população da província era variada, tendo um repertório de frutas, legumes e carnes, conforme pôde ser observado nos relatos dos viajantes. Luccock (1975) enfaticamente mostra isto ao apontar que:

A carne de vaca não basta, porém, para a alimentação do povo; por isso, cultivam com grande êxito, embora cuidado pequeno, várias espécies de abóboras, mandioca, milho, mandubí, que é uma pequena raiz comestível, trigo e uma casta de cevada, conseguindo pôr de lado pequena quantidade destinada à venda. Cultivam, também, uma grande variedade de frutas, tanto nativas como estrangeiras que, conservadas, especialmente pêssegos e pêras, são bem aceitas em lugares mais adiantados. (LUCCOCK, 1975, p. 155)

Esta descrição sobre os cultivos e criações observados pelos viajantes em determinadas localidades mostra o quanto o europeu interferiu no território ocupado por ele. Tal europeização do ambiente, ao qual Crosby (2002) chama de Neo-Europa, é um reflexo da cultura de um povo estranho em uma terra estranha, procurando nela elementos (ou até a transformando) que lembrassem a terra de seus ancestrais e gerando locais onde sua cultura seria coerente em existir. Apesar dos indígenas terem impactado o ambiente do Rio Grande do Sul com a horticultura e introdução de plantas tropicais como milho e mandioca, a europeização da província se deu de forma mais acentuada, uma vez que os organismos trazidos pelos europeus eram de terras muitos distantes (não fazendo parte do continente Americano como as “domesticações” indígenas) e que requeriam um espaço maior para se fixarem e sobreviverem (referência à agricultura e as criações de animais). Através do

23 O centeio (Secale cereale L.) é originário da Ásia. Novamente conforme Caribé & Campos (1999) o brócolis

(Brassica oleracea L. var. itálica Plenck) é originado da Europa, a chicória (Chicorium endívia L.) da Índia, a

couve [Brassica oleracea L. var. acephala (DC) Alef.] e a parreira (Vitis vinifera L.) da Europa, a couve-flor

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