Dilson Vargas Peixoto TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

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Dilson Vargas Peixoto

  TRABALHO FINAL DE GRADUAđấO

  

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A

PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

  

Dilson Vargas Peixoto

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

  Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  Orientadora: Janaina Souza Teixeira

  Dilson Vargas Peixoto

  

DOS GADOS ÀS MATAS: O IMPACTO AMBIENTAL NO RIO GRANDE DO SUL A

PARTIR DA MEMÓRIA DE VIAJANTES (1808-1822)

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Historiador – Licenciado em História.

  

__________________________________________

  Janaina Souza Teixeira – Orientadora (Unifra)

  

__________________________________________

  Nikelen Acosta Witter (Unifra)

  

_________________________________________

  Paula Simone Bolzan (Unifra)

AGRADECIMENTOS Primeiramente agradeço ao Deus que oportunizou todas as coisas e minha existência

  Logo agradeço aos meus pais Clovis Antonio Darsing Peixoto e Cleonice de Jesus Vargas Peixoto por terem me gerado e me criado tão bem. Igualmente agradeço aos meus irmãos Jeferson Vargas Peixoto e Gerson Vargas Peixoto por todo o incentivo dado, influência, atenção e aprendizagem que me proporcionaram. Agradeço a Romilda Gomes de Morais por ter convivido comigo como se fosse parte da família, assim como aos meus ancestrais e parentes, que não citarei os nomes para não ficar um agradecimento maçante.

  Agradeço às pessoas que conviveram comigo como minha babá, aos meus professores da Escola Santa Catarina e do Colégio Maneco, ao pessoal do cursinho Decisão. Todos estes os meus agradecimentos por terem me proporcionado etapas da aprendizagem até chegar ao Ensino Superior. Agradeço aos professores da Unifra, em especial os do curso de História que foram sempre tão dedicados e atenciosos, nos incentivando a buscar o saber. Sabei que todos os que foram meus professores, tenham minhas sinceras considerações.

  Também não pode faltar meus amigos como Alfeu de Arruda Souza, Ana Cláudia Carlos, Anelise Fenalti, Renata Gomes Deolindo, Rodrigo Fuchs Miranda, e em especial os historiadores que foram meus colegas Daniela Silveira, Dérico Berleze e Tamiris Carvalho por todas as “loucuras” dos tempos de graduação, nossas “comilanças” nas aulas, nossos estudos divertidos e apresentações de trabalhos. Também à família Gomes, meus vizinhos tão queridos. Agradeço aos demais amigos e conhecidos por terem convivido comigo e me proporcionado aprendizagem, principalmente o pessoal do Grupo de Danças Folclóricas Alemãs Edelweiss, que me fez ser uma pessoa mais desinibida.

  Agradeço a todos os seres que comigo conviveram, como os cães, as aves, as plantas, os répteis e toda a gama de seres que me deram aprendizagem (e que se fosse listar o nome de cada um precisaria de muitas páginas). Estes seres não humanos me fizeram acreditar em uma vida simples, sem preocupações e ambições. Vocês são muito importantes para mim. Agradeço também a todas as coisas do universo, desde as criaturas que serviram de alimento para mim até as coisas que proporcionaram a existência do mundo, pois sem tudo isso, eu não estaria aqui. E novamente agradeço ao Deus, o inonimável.

  ... O que hoje é calma já foi paisagem Ver nuas índias de estranhos tigres

  E bugres machos que nem sabiam Que eram felizes por serem livres

  Viria o tempo em que o rio de sombras Escurecer essa liberdade

  Era imperioso que eles viessem Fazer caminhos, plantar cidades Foram-se os tigres, foram-se os bugres...

RESUMO

  Com a chegada de espanhóis e portugueses, o território do atual estado do Rio Grande do Sul foi inserido nas práticas culturais européias de forma direta ou indireta. Conseguir perceber e observar como se deu o impacto ambiental no Rio Grande do Sul ajudará na compreensão de como se processou a mudança paisagística da região, assim como a colonização ibérica. Mas seria observável o impacto ambiental causado pelo europeu e seus elementos nos relatos de viajantes do início do século XIX? Através das obras dos franceses Nicolau Dreys e Auguste de Saint-Hilaire, bem como do inglês John Luccock foram identificados elementos de utilização do meio ambiente por parte do ibérico entre os anos 1808-1822. Juntando tais elementos a obras de cunho historiográfico e biológico, foram analisados os processos de colonização e impacto ambiental pelo europeu no Rio Grande do Sul. A pesquisa é baseada na História Ambiental, relacionando, então, os processos naturais como processos históricos. Assim, é possível identificar organismos exóticos trazidos pelos europeus que se adaptaram tão bem ao Rio Grande do Sul que passaram a se proliferar e se integrar à natureza local de forma a mudar e ajudar na mudança paisagística da região. Além disso, é possível ter noção da dimensão das atividades de “depredação” de matas em busca de melhores terras utilizadas por alguns lavradores e da caça de animais silvestres.

  Palavras-chave: Rio Grande do Sul, Impacto Ambiental, Colonização.

ABSTRACT

  With the arrival of spanish and portuguese people, the territory of the current state of Rio Grande do Sul was inserted into the European cultural practices directly or indirectly. It can perceive and observe how the environmental impact in Rio Grande do Sul will help in understanding how the change took place landscape of the region and the Iberian colonization. But it would be observable environmental impact caused by the European and its elements in the reports of travelers in the early nineteenth century? Through the French’s works Nicholas Dreys and Auguste Saint-Hilaire, and the Englishman John Luccock elements have been identified for use of the environment from the Iberian Peninsula between the years 1808-1822. Combining these elements works of historiography and biological processes were analyzed and the environmental impact of colonization by Europe in Rio Grande do Sul. The research is based on the Environmental History, linking, then, natural processes such as historical processes. Thus, it is possible to identify exotic organisms brought by the Europeans who have adapted so well to the Rio Grande do Sul began to proliferate and become part of the local nature of change and help shape the changing landscape in the region. Furthermore, it is possible to grasp the scale of the activities of "degradation " of forests in search of better land used by some farmers and hunting of wild animals.

  Key-words: Rio Grande do Sul, Environmental impact, Colonization.

  

SUMÁRIO

  

1 INTRODUđấO ..................................................................................................................... 7

  

2 ANTECEDENTES À CHEGADA EUROPÉIA ............................................................... 10

  

3 BRANCOS COMO NUVENS E AMEAÇADORES COMO FOGO ............................. 12

  

4 ESTRANHOS EM TERRA ESTRANHA ......................................................................... 16

  

5 A NATUREZA AO SERVIÇO DO HOMEM .................................................................. 29

  

6 ABORÍGENES OU ESTRANGEIROS? ........................................................................... 39

  

7 CONSIDERAđỏES FINAIS .............................................................................................. 45

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 47

Fontes consultadas .............................................................................................................. 52 Fontes em meio eletrônico .................................................................................................. 53

  

ANEXO I – Mapa do Rio Grande do Sul com vegetação e povoamentos de 1809, região

das estâncias missioneiras e das Reduções do Tapes, rota dos tropeiros. ......................... 55

ANEXO II – Tropeiro Paulista, 1827 ................................................................................... 56

  Isso se dá por um simples e óbvio motivo: por ele pertencer à natureza. Como qualquer criatura, o Homem submete o território onde está aos seus caprichos (sendo tal submissão parcial ou total), modificando parte dele e interagindo de forma a deixar sua marca. Mas, o humano parece que supera os demais animais na interação com o meio ambiente, plantando e criando em extensos territórios e transitando por muitos lugares, deixando o rastro de suas culturas e suas vivências.

  Por muitos anos, principalmente a partir do final do século XVIII, houve uma forte afirmação de se pensar a dissociação do Homem com a natureza (SILVA, 1997). Tal pensamento passou a ser proeminente nos estudos de História, que ressaltavam grandes líderes, fatos, economia, política e até mesmo rupturas sociais. Porém, com a abrangência da área de pesquisa histórica através da segunda geração da Escola dos Annales já no século XX, muitos assuntos foram revelados e muitas possibilidades de se entender o processo histórico surgiram.

  Aproximando-se da questão natureza, a História das Paisagens torna-se um caminho pelo qual o historiador deixa de lado a produção e economia, ambas oriundas da domesticidade de outros organismos, para tratar do ambiente ao qual o humano vive, seja ele submetido à lavoura/pecuária ou não. Com isso, “devemos entender a natureza, nesta visão, não mais como um dado externo e imóvel, mas como produto de uma prolongada atividade humana” (SILVA, 1997, p. 204).

  A prolongada atividade humana não se daria em um tempo curto de décadas, mas sim no que é chamado de “tempo longo”, também relacionado ao tempo geológico. Justamente nesse tempo longo que a História Ambiental se apóia, mostrando que as relações humanas vão além do perceptível de uma geração. Essa corrente teórica surgida na segunda metade do século XX trata do meio ambiente como pertinente à história, mostrando uma gama de assuntos que podem ser abordados ao se buscar em disciplinas das ciências naturais fontes que embasem a historiografia para analisar as sociedades humanas, suas relações com o território e demais organismos. Drummond (1991, p. 181) aponta que:

  “objetivos” a capacidade de condicionar significativamente a sociedade e a cultura humanas (grifo do autor).

  Através do social e do cultural um território pode ser transformado, mesmo que de maneira quase imperceptível. O simples ato de plantar algo ou de colocar um bando de animais exóticos em um campo já causa alguma mudança paisagística e de relações com o meio ambiente ao serem utilizados os recursos naturais “escondidos” (a fertilidade do solo), além daqueles que estão à vista (as plantas e animais nativos). Para poder identificar tal impacto ambiental deve-se escolher alguma região (ou território) com certa identidade natural para ser analisada (DRUMMOND, 1991). A partir de então é necessário buscar fontes históricas auxiliadas pelas ciências naturais para poder perceber eficazmente as relações Homem-Natureza, temática pelo qual o presente Trabalho Final de Graduação (TFG) é baseado.

  O território escolhido para o desenvolvimento do trabalho é o que forma atualmente o estado do Rio Grande do Sul, sendo sua delimitação cronológica correspondente aos primeiros anos do século XIX, mais especificamente de 1809 a 1821, época em que a região ainda pertencia ao Império Português. Se aborígenes interagiram com o meio ambiente, modificando-o através de sua horticultura e deixando suas marcas, o que esperar de gente que veio de lugares muito distantes como o europeu, trazendo uma cultura cuja característica marcante é a submissão do natural e cujas técnicas de agricultura e pecuária são mais eficazes? Certamente um impacto ambiental maior. Mas, ainda restam algumas dúvidas: se houve o impacto ambiental causado pelo europeu no Rio Grande do Sul, como ele se deu e o mesmo foi perceptível no final do período colonial brasileiro?

  As informações contidas nos relatos de três viajantes europeus que estiveram no território estudado no início do século XIX podem ser a resposta a tais perguntas. John Luccock, Nicolau Dreys e Auguste de Saint-Hilaire são os tais viajantes, cujos relatos serviram de base para a elaboração do presente TFG. De suas obras foram selecionados fragmentos que demonstram a interação da população européia (ou europeizada) com o ambiente sul-rio-grandense, mostrando que organismos exóticos aí foram introduzidos e quais recursos naturais foram utilizados.

  Com a vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, a antiga colônia tomou ares de metrópole. Com isso, em 1815, o Brasil se tornou Reino Unido de Portugal e Algarve,

  Inseridos nesse contexto de “metropolização” da Colônia Brasil que os viajantes chegaram à Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Esses estrangeiros descreveram as paisagens sul-rio-grandenses, suas gentes, faunas e floras que observaram durante sua estadia na província. Os viajantes estiveram no Rio Grande do Sul em tempos diferentes de um mesmo século. Como primeiro está o comerciante inglês John Luccock que esteve no Brasil entre 1808 e 1818, época da fuga da corte real portuguesa ao Brasil e da abertura dos portos às “nações amigas” (Inglaterra). O segundo viajante foi o francês Nicolau Dreys que esteve na província de Rio Grande de São Pedro do Sul entre 1817 e 1827, conhecendo o naturalista (também considerado botânico) de mesma procedência Auguste Prouvansal de Saint-Hilaire, que visitou as partes meridionais do Brasil em meado de 1820-21.

  Os traços ambientais selecionados nos relatos dos três viajantes serão identificados ao longo do estudo como sinais da ação ibérica (ou de outros europeus que vieram por intermédio dos ibéricos), tendo em mente que “o sujeito que observa não é de forma alguma o sujeito da antropologia filosófica, e sim um outro indivíduo que pertence ele próprio a uma época e a uma cultura” (LAPLANTINE, 2001, p. 61). Portanto, não se deve apenas colher informações “cruas” do documento, mas processá-las, ou seja, processar observações e interpretar interpretações (LAPLANTINE, 2001). Isso mostra que o viajante não é alguém imparcial, mas um indivíduo que pertence a uma cultura e tem seus valores, descrevendo aquilo que lhe é de interesse, deixando passar despercebido o que lhe é tão familiar ou o que desconhece e não entende. Logo, os traços referentes ao meio ambiente selecionados nos relatos não abordam totalmente as relações humanas com o meio, mas indicam alguma relação do colonizador com um território estranho.

  Não será tratado neste estudo o início de um impacto ambiental, mas sim as conseqüências de um processo ocorrido desde a chegada do primeiro europeu ao território e que pôde ser observado pelo olhar atento do viajante, mesmo este não tendo o intuito ambientalista em seus escritos. Devido a isso, foram consultadas diversas bibliografias, tanto

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  de cunho historiográfico quanto de história natural com o intuito de discutir como se formou e consolidou o processo de modificação ambiental causado pelo europeu, ficando tal análise 1 em aberto para estudos posteriores que a complementem. Para analisar as relações da natureza

  

Foram utilizados alguns guias de campo para a identificação de algumas espécies baseadas em suas

denominações populares, podendo tal informação ser incerta, pois nomes populares de organismos são muito com o Homem, fizeram-se necessárias algumas breves abordagens biológicas, a fim de embasar melhor o estudo. Por isso, há a identificação de alguns organismos presentes nos relatos dos viajantes.

  Diferentemente da historiografia tradicional que retrata o Rio Grande do Sul pelo viés político/econômico, o presente trabalho aborda a história do estado por um viés ambiental. Isso não quer dizer que aspectos principalmente econômicos e culturais não serão abordados. Pelo contrário, a historiografia tradicional contribuiu muito para a elaboração deste estudo, dando base para novos enfoques históricos.

  Como primeira parte do estudo será brevemente comentado os impactos ambientais ocorridos no que hoje é o Rio Grande do Sul em um tempo geológico recente, a fim de mostrar impactos ambientais de tempos pré-humanos. Logo será abordada como se deu a ocupação européia do território sul-rio-grandense, ressaltando as atividades agropastoris nele empregadas. No terceiro capítulo serão analisados os relatos dos viajantes para identificar se houve alguma inserção de espécies exóticas. O quarto capítulo é referente ao que o europeu “tirou” do território, ou seja, o que de nativo foi utilizado pelo ibérico para sua sobrevivência. Já no quinto capítulo serão abordadas as relações observadas pelos viajantes entre o que foi “tirado” e o que foi “inserido” pelo europeu no Rio Grande do Sul, proporcionando uma visão mais ampla das relações do Homem com a natureza. Por fim ter-se-ão as considerações finais seguidas das referências bibliográficas. Para melhor entendimento e visualização do território, é importante consultar o mapa em anexo (anexo 1) apresentando os locais de ocupação e os unidades de vegetação do território em estudo.

  A América do Sul esteve isolada de outros continentes durante muito tempo, desde o Cretáceo Inferior (cerca de 135 milhões de anos atrás, quando os dinossauros ainda reinavam) até o final do Plioceno (cerca de 3 milhões de anos atrás, já no apogeu da diversificação dos mamíferos), desenvolvendo uma fauna particular não vista em outros lugares do mundo, como uma gama de espécies de preguiças, tatus de variadas formas e tamanduás (todos estes compondo a típica ordem sul-americana Xenarthra), assim como aves dos mais diversos tamanhos e cadeia trófica apropriada para a manutenção dessas espécies. Porém, ao se

  As criaturas distintas que passaram do istmo do Panamá ao sul “exploraram nichos adicionais sem competir e causar extinção entre os gêneros já presentes” (BENTON, 2008, p. 323). Apesar disso, tais imigrantes do norte se estabeleceram tão bem nas partes meridionais que, após a extinção da megafauna pleistocênica, em que entre “12 e 10 mil anos atrás (...), na América do Sul, 46 gêneros desapareceram (80%)” (BENTON, 2008, p. 360), muitos organismos descendentes de imigrantes do norte se multiplicaram de forma espantosa, aparentemente tornando-se mais bem sucedidos que os seres que saíram da América do Sul e foram para a América do Norte (como os tatus). São felinos e artiodactyla (como porcos do mato e cervos) alguns dos descendentes de imigrantes nortistas que passaram a ocupar o nicho deixado por espécies em extinção ou menos adaptadas às mudanças climáticas de período

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  interglacial . A América do Sul estava mudada em questão faunística, principalmente com a

  3 chegada de um animal com características singulares: o Homem.

  Estando inserido nas partes meridionais da América do Sul, o território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul obviamente foi palco das mudanças climáticas e

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  paisagísticas que ocorreram durante o Quaternário. Quando as culturas humanas aqui se estabeleceram, encontraram um lugar de florestas nas encostas dos morros e margens de rios. Fauna composta por felinos, macacos, aves de variadas espécies, flora de diversas cores e tamanhos e campos de perder de vista com cervos e emas correndo entre as gramíneas. Tudo que o nativo necessitava para sobreviver havia: caça, frutos, sementes e água.

  Quando vieram populações falantes de idiomas do tronco lingüístico Tupi-Guarani, a paisagem sul-rio-grandense foi sendo mais afetada pelos humanos do que na época em que havia somente caçadores-coletores. Os guaranis trouxeram uma técnica até então inovadora para estas terras: a horticultura. Embora de forma rudimentar, essas populações desmataram para plantar mandioca e milho, assim como para construir suas aldeias. Quando o solo e o 2 território não proporcionavam mais alimento, o local desmatado era abandonado,

  

Oliveira et al. (2009) aponta para o fim da Era do Gelo em aproximadamente 14 mil anos atrás, sendo seguido

por um gradativo aquecimento que é o período entre duas eras glaciais (período interglacial). Apesar disso,

quando da chegada européia no que hoje é o Rio Grande do Sul, o mundo estava sofrendo um pequeno

resfriamento em que “entre 1400 e 1850 d.C., as temperaturas caíram cerca de 0,5 °C, em média (...) o que levou

os cientistas a denominarem este período de “Pequena Idade do Gelo” (OLIVEIRA et al, 2009, p. 124). Daí,

devido a esse resfriamento se tem o possível sucesso adaptativo de alguns organismos trazidos pelos europeus

3 (se não dos próprios europeus) abordados ao longo do estudo.

  

Kühn (2002) aponta para a existência de humanos no Rio Grande do Sul a partir de 8 mil anos atrás, sendo que

na época da chegada do europeu haviam três grupos principais: guaranis, jês e pampeanos. Em contrapartida

Frantz & Silva Neto (2005) apontam para a ocupação por indígenas a partir de 6 mil anos, sendo os guaranis os recuperando-se lentamente até atingir novamente a comunidade de clímax, ou seja, o porte de uma mata antes do desmatamento.

  Mais tarde, pelos idos do século XVI da Era Cristã, chegaram outras culturas humanas que também desempenharam papel de mudança paisagística (muito mais intensa) no Rio Grande do Sul: os europeus. Com os europeus vieram organismos diferentes dos nativos e que aos poucos foram ocupando seu espaço por essas paragens.

  A ocupação do território que atualmente corresponde ao estado do Rio Grande do Sul pelo europeu ocorreu de forma lenta e gradual. Sua posição como fronteira entre os impérios Português e Espanhol foi fator importante para desencadear a configuração paisagística atual. “A formação histórica do atual estado do Rio Grande do Sul está intrinsecamente relacionada à questão fronteiriça existente entre os domínios das duas coroas Ibéricas” (NEUMANN, 2004, p. 25).

  Inicialmente, em meados do século XVI, os europeus tiveram contato com o território através de “expedições de reconhecimento ou exploradoras” que “chegaram às costas da América Meridional” (GUTFREIND & REICHEL, 1998, p. 63). A efetiva instalação de europeus na região se deu com os espanhóis através da Companhia de Jesus e seu papel de evangelizar o indígena, sendo fundada a redução de São Nicolau do Piratini em 1626 (VENTURINI, 2009). Espanhóis chegaram ao território sul-rio-grandense pelo “lado” oeste, instalando reduções jesuíticas para converter o “gentil”, especialmente povos linguisticamente identificados como guaranis. Os “jesuítas que penetraram sob bandeira espanhola (...) ocuparam a área que se estendeu pela zona de Ijuí, Piratini, Jacuí, Taquari, Guaíba, Rio Pardo, fundando reduções, onde dedicaram-se à agricultura e formaram estâncias de criação de gado (...)” (MACHADO, 2004, pg. 39). Agricultura essa de caráter europeu, plantando trigo e outros organismos estrangeiros mistos às produções nativas. Ao conseguirem autorização governamental para atuar na região, os jesuítas fundaram mais reduções, integrando a região à Província Jesuítica do Paraguai. Assim, foram criadas as Missões do Tape, que duraram até 1638, quando foram atacadas por bandeirantes paulistas.

  Através de combates entre jesuítas e paulistas em meados de 1640, houve um abandono das regiões de influência jesuíta, deixando assim o gado vacum (da espécie Bos constituíram expedições com a finalidade de escravizar os indígenas guaranis, inicialmente os

carijós que habitavam o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul” (KUHN, 2002, p.

10), sendo responsáveis, no século XVII, pelos ataques às reduções jesuíticas do Tape. Aí, o conflito entre as coroas espanhola e portuguesa se acirrou e o Rio Grande do Sul passou a adquirir certa importância por ser uma região fronteiriça.

  Em 1682 novos jesuítas espanhóis retornavam ao território do Rio Grande do Sul, mas dessa vez mais ao noroeste, onde fundaram as reduções de São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo (PESAVENTO, 2002). Próximas a essas reduções foram criadas outras cabeças bovinas como reserva (a Vacaria dos Pinhais), aumentando, dessa maneira, a população de ruminantes nas partes meridionais do atual Brasil. Quando os guaranis conduziam as cabeças de gado da Vacaria dos Pinhais para a região das Missões, provavelmente tais cabeças tenham levado consigo alguns carrapichos e plantas não típicas da região.

  Os produtos cultivados nas Missões eram muitas vezes exportados, como a erva-mate (Ilex paraguaiensis A. St.-Hil.) e o couro de bovinos, além de haver plantações de produtos

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  nativos e europeus, como o trigo. A introdução do trigo não trouxe somente essa espécie vegetal, podendo ter vindo outras espécies não utilizadas pelo homem na alimentação e comércio (CROSBY, 2002).

  Apesar de ser uma região de domínio espanhol de acordo com o Tratado de Tordesilhas, o extremo sul do atual Brasil foi alvo de expedições portuguesas, principalmente em regiões próximas ao litoral. Conforme Frantz & Silva Neto (2005, p. 49):

  A ocupação portuguesa mais efetiva deste território (referência ao extremo leste do planalto) ocorre mais tarde, quando em 1734 Cristóvão Pereira constrói o Caminho do Planalto. Os tropeiros que sobem a Serra desde Viamão limitam-se a ocupar as suas invernadas, numa posse precária.

  O movimento de tropas e o contrabando eram os principais causadores da penetração européia no território. As fases do tropeirismo provavelmente ajudaram na dispersão dos mamíferos quadrúpedes vindos do outro lado do Atlântico, já que tais animais (seu couro e carne em charque) eram produtos de comércio às regiões mineiras. Com o comércio tropeiro na Vacaria do Mar e o tropeirismo paulista, a situação da interiorização de organismos europeus se tornou mais intensa. Dessa vez não só bovinos, eqüinos (Equus caballus L.) e pega”. Os humanos descendentes de europeus também aumentavam seu “território”, gerando núcleos populacionais em alguns de seus caminhos e derrubando matas para sua instalação e/ou passagem.

  Apesar da presença de paulistas no tropeirismo, a instalação de lagunenses nos chamados de Campos de Viamão (KÜHN, 2006) foi crucial para o povoamento português na região. Conforme Kühn (2006, p. 75):

  Durante o primeiro terço do século XVIII, o Continente foi desbravado pelos pioneiros lagunenses. Mas, até então, as incursões visavam apenas ao reconhecimento, ao contato com o indígena e ao arrebanhamento do gado. A partir de (...) meados da década de 1730, teve início a um movimento migratório (...) de

fluxo e refluxo entre os campos sulinos e a vila de Laguna.

  Além disso, em 1737 foi fundado por uma dessas expedições luso-brasileiras o forte de Rio Grande, bem como concedidas sesmarias a famílias que queriam se instalar no Continente de São Pedro, sendo principalmente militares quem recebiam tais concessões e se instalavam em vastos territórios denominados estâncias. A intensificação populacional européia se deu com a vinda de açorianos a partir de 1748 e a distribuição de terras a estas famílias nas mais diversas localidades da província, sendo os imigrantes “todos agricultores” que “fundaram pequenos núcleos de povoamento em torno da terra distribuída (...) e se envolveram na produção de alimentos para a subsistência e (...) mercado interno” (MARCÍLIO, 2004, p. 323), fixando-se em terras não rentáveis para as grandes estâncias. Junto com açorianos (especialmente cristão-novos, ou seja, judeus convertidos ao cristianismo) vieram escravos africanos para povoar o território. Em seu estudo intitulado

  , Farinatti

  Escravos do Pastoreio: pecuária e escravidão na fronteira meridional do Brasil (2006) mostra a importância que tinham os escravos no trabalho nas estâncias da Província.

  Com isso, a ocupação luso-brasileira do Rio Grande do Sul foi se configurando com a formação de povoados, vilas, freguesias, estâncias e charqueadas, estando estas situadas na região leste, próximo às vias fluviais. Já nos campos do sudoeste, a ocupação efetiva com a concessão de sesmarias se deu somente a partir de 1814 (PONT, 1984), tendo-se aí o motivo pelo qual a região é pouco mencionada pelos relatos dos viajantes analisados no presente estudo.

  Os campos do nordeste foram ocupados por paulistas, abrindo-se caminhos entre os Campos de Viamão com os Campos de Vacaria (BERNARDES, 1997). Com isso, “os

  (BERNARDES, 1997, p. 56). O clima ameno do Rio Grande do Sul, semelhante ao da Europa poderia ter sido um fator que contribuiu para a instalação e sucesso dos europeus e suas culturas.

  Com a criação do Tratado de Madri, a Espanha trocaria os Sete Povos das Missões (que faziam parte dos Trinta Povos da Província do Paraguai) pela Colônia do Santíssimo Sacramento (situada na atual República Oriental do Uruguai). Expedições para demarcar novos limites das posses de Portugal (agora tendo a região missioneira) foram recebidas com hostilidade pelos guaranis e jesuítas, desencadeando a Guerra Guaranítica em 1754. Então, tropas espanholas se juntaram às tropas luso-brasileiras, aumentando a tensão entre a Companhia de Jesus e as nações ibéricas. Alguns anos mais tarde, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madri, restituindo os Sete Povos para a Espanha (VENTURINI, 2009).

  Por irem contra as ordens reais e criarem territórios autônomos e desenvolvidos, os jesuítas passaram a ser mal vistos pelos reis ibéricos, culminando com a sua expulsão em 1768 (PESAVENTO, 2002). Assim, a administração das Missões passou a ser feita por leigos espanhóis.

  As negociações pelas fronteiras meridionais entre os impérios ibéricos não estavam bem definidas. Em sua política do uti possidetis os portugueses marcharam em direção às Missões e as conquistaram em 1801, sendo essa conquista reconhecida pela Espanha através do Tratado de Badajós, ao qual Portugal entregaria a Colônia do Sacramento em troca da região conquistada. Não houve resistência por parte dos espanhóis para proteger as missões dos portugueses, pois muitos missioneiros passaram ao “lado luso” em busca de melhores tratamentos (VENTURINI, 2009). Com Portugal tendo posse do noroeste do Rio Grande do Sul, famílias açorianas foram designadas a nessa região se instalarem, da mesma forma que em outras partes da província para legitimar o domínio português.

  Por ser uma região fronteiriça, o Rio Grande do Sul presenciou conflitos luso- castelhanos e índio-afro-europeus por muitos anos, ajudando, assim, na disseminação de organismos exóticos vindos com as populações humanas estrangeiras, bem como no processo de modificação paisagística antrópica. Tal fronteira móvel entre os impérios espanhol e português necessitou de gente, postos que guardassem os limites estabelecidos. E, junto com essa gente vieram seres necessários à sobrevivência dessas populações. Alguns desses organismos europeus se adaptaram tão bem que se tornaram selvagens, como os cavalos e pampeano tornaram-se tão bem unidos, que estes indígenas roubavam os eqüinos para apresar os bovinos da Vacaria Del Mar. Muito da cultura material charrua e minuana se modificou com a inserção desses vertebrados exóticos. Conforme Hugarte (2007, p. 87):

  sólo con la difusión del ganado y la consiguiente de contar con cueros de buen tamaño en abundancia, construyeron con ese material chozas de techo redondeado y forma alargada o circular(...).

  Apesar de essas etnias (charrua e minuanos) terem sido relativamente abundantes na Banda Oriental, não podemos ignorar que ambas eram nômades e que andavam pelo território sul-rio-grandense, já que não há um grande limite natural que impeça sua passagem. Além disso, a face geográfica dessa região é muito semelhante a das imediações do Rio Negro e partes meridionais. Hugarte (2007) constata em sua obra Los Indios del Uruguay o “intercâmbio” com etnias europeizadas (mais especificamente guarani) pertencentes ao Rio Grande do Sul. Juntamente com isso, as populações nômades aborígenes usaram tão bem a montaria eqüina que muitas vezes foram solicitadas para batalhas, sendo também agentes indiretos do impacto ambiental causado pelo europeu.

  É após todo esse processo histórico, no início do século XIX, que os viajantes analisados no presente trabalho descrevem o Rio Grande do Sul. “Apenas nos lugares onde se estabeleceu o homem é que surgiram os perfis das árvores cultivadas que transformaram o aspecto primeiro da paisagem” (CANABRAVA,1984, p. 28). Assim, o impacto ambiental causado pelo europeu pode ser visto à luz da História, mostrando-se como um processo de longa duração, sendo realizado diretamente pelo europeu ou por agentes influenciados pela cultura européia, como indígenas, africanos e mestiços, configurando-se a fisionomia do Homem sul-rio-grandense e mais tarde o gaúcho.

  A ocupação do espaço sul-rio-grandense pelo europeu se configurou de forma que o território tenha adquirido particularidades das culturas européias. Tais particularidades, no foco em estudo, são a introdução de organismos exóticos, ou seja, animais e plantas presentes na flora e fauna da Europa ou de outros continentes que foram introduzidos através do

  6 colonizador à região platina . Estes aspectos serão abordados no presente capítulo.

  O espaço referente ao atual Rio Grande do Sul foi palco não só da ocupação humana e de suas lutas e artimanhas para disseminar sua cultura européia, mas também foi lugar de uma adaptação de espécies não vistas antes na região. O europeu foi o responsável por transportar animais e vegetais por caminhos difíceis e oferecer-lhes outro território, longe daquele de seus ancestrais. Esse tipo de transporte pode ser definido como Transporte Passivo (BROWN & LOMOLINO, 2006), em que organismos se dispersam através de outros agentes que não eles próprios. Tais organismos, que no território em estudo permaneceram, tiveram que se adaptar ao mesmo. Os que resistiam a tais condições ambientais reproduziam e levavam adiante sua linhagem, enquanto que outros nem sequer tiveram que fazer “manobras adaptativas”, mas encontraram um local adequado à sua vivência.

  Com a chegada dos europeus à América, espécies oriundas da região do Mar Mediterrâneo e outras localidades se instalaram e se propagaram em um novo território, como a tanchagem [Plantago spp., conforme Caribé & Campos (1999) sendo referida a espécie

  

Plantago major L. nativa da Europa vegetando espontaneamente por todo o Brasil, apesar de

  ter espécies nativas do estado], o pastinho-de-inverno (Poa annua L.) e a urtiga (Urtica dioica L.). Isso causou uma transposição das barreiras naturais, que antes impediam a dispersão de tais organismos. Com as grandes navegações, os europeus transpuseram uma grande barreira que era o oceano Atlântico, transportando consigo espécies exóticas dos continentes por onde visitavam. Esses processos de colonização e migração humanas são (e foram) os principais responsáveis para a dispersão de espécies exóticas (ESPÍNOLA & JÚLIO JUNIOR, 2007).

  Foi com os espanhóis que os primeiros organismos exóticos chegaram. Conforme Mörner (2004, p. 203):

  Os espanhóis (...) recusavam-se a depender das culturas americanas nativas. Assim, em 1532, para garantir o abastecimento de todo o alimento normalmente consumido pelos espanhóis, todo navio que partia para o Novo Mundo era obrigado a levar sementes, plantas vivas e animais domesticados.

  O encontro de condições ambientais ideais, além da ausência de predadores e competidores naturais pode fazer com que espécies exóticas se tornem invasoras (ESPÍNOLA & JÚLIO JUNIOR, 2007). Isso define o porquê de alguns organismos exóticos se proliferarem e se dispersarem tão bem que houvesse efetiva interação com o território, como se os exóticos fossem nativos. Aí mostra que a “disseminação de animais domésticos do Velho Mundo” ser “mais revolucionária devido à ausência de congêneres do Novo Mundo” (MÖRNER, 2004, p. 204).

  Os mais evidentes organismos exóticos (potencialmente invasores) trazidos pelos europeus propositalmente ao Rio Grande do Sul foram os bovinos, o que mantém a historiografia desde a tradicional até as análises mais recentes em consenso. Tais criaturas

  7

  chegaram ao território por duas vias, sendo a primeira pelas mãos de Hernandarias em 1611 e a segunda pela ação dos jesuítas (REICHEL, 2006). As criações de gado nas Missões do Tape foram deixadas aos cuidados da natureza à medida que os bandeirantes, à procura de índios a serem cativos, foram expulsando os jesuítas daquela região. Com isso, segundo Frantz & Silva Neto (2005, p. 41):

  Com a pecuária praticada pelos jesuítas no interregno 1626-1628 e retomada novamente a partir de 1682, as pastagens naturais do Rio Grande do Sul foram modificadas nas suas características florísticas. A seleção e o pastoreio sistemático de algumas gramíneas por parte dos animais alteraram as características originais dos campos.

  Isso é traço evidente do impacto ambiental causado por organismos exóticos introduzidos pelos europeus, sendo, portanto, tal impacto causado indiretamente pelo colonizador. Na região das Missões, território das antigas estâncias jesuítas (ver anexo I), os viajantes registram em seus relatos o que lhes é mais perceptível. Saint-Hilaire (2002) mostra que em São José (tempo antes de sua chegada àquele local) havia grande quantidade de bovinos e que a estância de “São Vicente (...) se contam quatorze mil bovinos, pertencentes a São Miguel” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 290). O mesmo autor menciona que nos arredores

  8

  das Missões os animais comiam uma planta por ele chamada de Capim-limão , sendo boa para engorde. Nota-se que aí (em referência ao “para engorde”) o gado tirava seu sustento de plantas que cresciam provavelmente sem cultivo e ainda de uma planta que não pertencia à flora nativa da província. De modo semelhante talvez fizessem às plantas nativas os bois e 7 vacas que o viajante relatou antes de chegar à região missioneira, ao sul do rio Ibicuí, na

  

Pecuarista e governador das províncias do Rio da Prata e Paraguai. Hernandarias e uma expedição, segundo

Coni (1941, p. 85), andou pelos campos da margem oriental do Rio Uruguai por “seis días tierra adentro, chamada Fazenda do Salto. Então, tem-se aí uma espécie exótica que usa os recursos naturais e que pôde ter agido de forma predatória nas espécies aborígenes, mostrando o impacto ambiental causado pelo europeu de forma indireta.

  De visão diferente, mas igualmente relatando os bovinos da região missioneira, Nicolau Dreys (1961, p. 107) menciona que:

  O negócio de exportação das Missões, como geralmente de todo o território a O. do Rio Pardo, consiste em gado para as charqueadas do país; em mulas e cavalos que vinham anualmente comprar os habitantes das províncias limítrofes (...)

  A quantidade de gado vacum na região era grande na época dos viajantes e que tal quantidade era oriunda de uma população menor, trazida pelas primeiras levas de europeus. Tal fenômeno presente nos relatos não foram mudanças repentinas de décadas, mas sim de vários anos, consistindo em um período de longa duração. Desde que as primeiras manadas de gado instalaram na região até sua adaptação a esses campos, como comer ervas que seu paladar não estava acostumado, requer tempo. Além disso, para tal proliferação requer saber explorar o ambiente, algo que demora, principalmente para se formarem grandes manadas.

  A formação e manutenção de grandes manadas de vacum foi diretamente desempenhado pelo humano europeu. Desde que Hernandarias introduziu as primeiras cabeças nos pampas, os bovinos foram se adaptando e se reproduzindo, logo integrando a economia da região platina através de seus couros e sebos. Assim, a Vacaria do Mar foi dando forma às sociedades que cresceram às suas custas, como as Missões e o tropeirismo. Percebendo a dizimação que tal vacaria estava tendo devido ao contrabando e as atividades de apresamento de gado, os jesuítas (após os conflitos com os bandeirantes, mais ou menos quando estavam restabelecendo as Reduções no noroeste) fizeram uma reserva mais ao norte, na chamada Vacaria dos Pinhais. Apesar de ter sido oficialmente fundada em 1704, esta Vacaria teve seu número de reses diminuído, sendo refundada em 1717 com maior número de cabeças (MASY, 1988, p. 189).

  Com o crescimento das manadas e a procura por pastagens melhores, o gado vacum se espraiou por mais e mais terras, adquirindo cada vez mais importância econômica. Assim, sua interferência no meio ambiente provinciano passou a ser mais drástica e ter maior efeito. Com a população aumentada, mais eficiência teriam suas ações sobre os biomas do Rio Grande do Sul. Da mesma forma se deu o deslocamento do gado para a região das charqueadas e o

  Estado (...) grandes criatórios de mulas” (PONT, 1984, p. 861). Sua importância econômica se deu com os Tropeiros, que carregavam tais animais aos locais de mineração (tanto da região andina quanto das minas brasileiras) por serem criaturas resistentes às cargas e que melhor desempenhavam trabalho em locais de montanha.

  Algo igualmente exótico para a província, mas não mencionado com tanta

  9

  familiaridade pela historiografia foi o cultivo do pêssego , relatado nas memórias dos viajantes. Não só na região missioneira tal fruto era abundante, e sim em todo o território ocupado por europeus. Saint-Hilaire (2002) refere-se aos pêssegos nas margens do rio Butuí e em São Borja (p. 270: “tomei a dianteira com Matias, deixando os outros empregados sob o abrigo dos pessegueiros”), sejam os pessegueiros cultivados ou não, como os encontrados no convento da mesma localidade.

  Além disso, em São Borja o mesmo viajante relata outras plantas exóticas ao mencionar que “as laranjeiras (...) as melancias, (...) as maçãs e os melões são excelentes, mesmo não se lhes dispensando o menor cuidado” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 277). Mais adiante ele acrescenta que produziam na região “em abundância trigo, (...) arroz (...),

  10

  melancia, (...) melão e todas as frutas da Europa” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 291). Neste capítulo não se levou em consideração plantas nativas mencionadas pelos viajantes como “agentes europeus” do impacto ambiental, como a erva-mate e o milho, apesar de seu cultivo em larga escala utilizado pelo europeu em relação ao indígena tenha causado impacto maior do que a época pré-européia. Mas, a introdução de espécies exóticas como a laranjeira e o pessegueiro são mais notáveis, pois além de terem se adaptado e se reproduzido, modificaram a configuração paisagística do Rio Grande do Sul, que passou a abrigar tais organismos não antes fixados em suas terras. Certamente isso revela o emprego destes frutos na dieta da população colonial, o que inclui, em maior ou menor medida, os elementos indígenas, africanos e mestiços. A disseminação desse hábito iria refletir uma maior modificação na paisagem.

  Os produtos cultivados na região missioneira no período em que Saint-Hilaire (2002) a visitou são praticamente os mesmos da época jesuítica. Kern (1982) aponta que o trigo (tratando-se de planta exótica) já era plantado pelos indígenas no Abambaé, sua propriedade, embora raramente. Portanto, a prática da triticultura na região das Missões era anterior à chegada dos açorianos, demonstrando que plantas exóticas foram instaladas no território do

  Rio Grande do Sul logo que os primeiros europeus (neste caso os jesuítas espanhóis) se estabeleceram. A vinda de organismos exóticos presentes na alimentação européia pode ser explicado devido o aumento da demanda por alimento, “mormente daqueles produtos que ainda não eram prontamente fornecidos pelos agricultores índios, como carne, trigo, açúcar e vinho” (MÖRNER, 2004, p. 189).

  Os produtos que a Província Jesuítica do Paraguai (e logicamente o noroeste do atual Rio Grande do Sul) exportava eram principalmente a erva-mate e o couro. Este couro era oriundo do gado apresado nas estâncias pertencentes às Missões, em que o guarani a cavalo ia buscar. Junto com os cavalos e o próprio gado, plantas exóticas poderiam ter sido transportadas em seus excrementos ou pêlos (CROSBY, 2002). Saint-Hilaire (2002, p. 52) relata da existência de algumas espécies exóticas (algumas podendo ser potencialmente invasoras) que ele mesmo identifica como sendo européias: Conium maculatum L. (cicuta),

  

Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Urtica dioica L. (a popular urtiga), Geranium

  L. (bico-de-cegonha), Linum sp. (podendo se referir ao Linum perenne L. nativa

  robertianum

  da Europa e Ásia) e Alsine media L. [sinônimo de Stellaria media (L.) Vill.] nos arredores de Porto Alegre. Além dessas espécies nas imediações do rio Pelotas o naturalista encontrou

  

Linaria sp. [podendo ser as espécies européias mencionadas por Lorenzi & Souza (2001)

  P. Gaertn., B, Mey. & Scherb., ou Linaria genistifolia (L.) Mill.] e Poa

  Cymbalaria muralis annua L. (pastinho-de-inverno).

  Nos relatos de Saint-Hilaire (2002) existem plantas que ele trata pelo nome das famílias, organismos que não serão analisados devido a sua denominação superficial (pois podem ser nativos ou exóticos pertencentes a uma mesma família). De forma semelhante e igualmente para não gerar equívocos, foram deixadas de lado as plantas que possuem número de coleta, como, por exemplo, “a cerastium nº 1875, a anemona nº 1864, uma outra oxalis nº 1875-5, o carex Nº 1875 ter, e a composta nº 1875 quater” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 98). Plantas com o número de coleta estão presentes no Museu Nacional de História Natural de Paris e estão identificadas com as espécies. Como ainda não temos acesso a tais dados, essas espécimes numeradas não serão consideradas no presente trabalho, apenas as que não

  11 possuem número de coleta serão analisadas.

  Outras plantas exóticas que o botânico francês aponta para o Rio Grande do Sul são o mamoeiro, a violeta e o narciso nos arredores de Viamão (p. 53 e 54); Polygonum aviculare L. (erva-de-bicho), uma Cerastium sp. (orelha-de-rato) e Senecio sp. nas imediações de Rio Grande (p. 66 e p. 73); mostarda, Poa annua L. (pastinho-de-inverno), Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Alsina media L. (esperguta) e ranuncula próximo ao rio Pelotas; coentro (p. 106), Oxalis sp. (trevo-azedo, p. 104), Cerastium sp. (p. 108 e 110), pau-d’água (p. 110),

  (provavelmente ervilha-de-cheiro), Anethum foeniculum L. (erva-doce), violeta, Lathyrus sp. sileno e malva (p. 119) ao sul de Rio Grande, nas imediações do Taim. Mais ao oeste ele nota a presença de vernônia (p. 254) nos arredores do Ibicuí, bem como salgueiros em São Borja (p. 263), em Porto Alegre (p. 31), no Ibicuí (p. 254) e na região central (p. 229-230) da

  Das espécies exóticas apontadas por Saint-Hilaire (2002), apenas Stellaria media (L.) Vill. (mourrião-dos-passarinhos) é corroborada por Crosby (2002) como uma planta que atingiu outros continentes devido os europeus. Também, algumas das plantas relatadas pelo botânico foram identificadas por Schneider (2007) como sendo introduzidas no estado de forma acidental. Entre as espécies introduzidas desta maneira temos Polygonum aviculare L.

  (erva-de-bicho), Cerastium glometarum Thuill. (orelha-de-rato), Poa annua L. (pastinho-de- inverno), Rumex pulcher L. (língua-de-vaca), Stellaria media (L.) Vill. (esperguta),

  

Ranunculus sp. , Oxalis sp. (trevo-azedo), Senecio madagascariensis Poir (identificada como

  invasora de alta agressividade) e Silene sp. (alfinente). Já o Coriandrum sativum L. (coentro) foi introduzido por ser um condimento, a Brassica sp. (mostarda) como forrageira e a Viola 12

odorata L. como ornamental. Das plantas observadas pelo botânico, o mesmo aponta que

  

Origem das plantas descritas. Mamoeiro é “nativo da América Central e Caribe” (LORENZI & MATOS,

2002, p. 115), para violeta a espécie Viola odorata L. é nativa da Europa, Ásia ocidental e África e a espécie

Saintpaulia ionantha Wendl., a mais conhecida, é “originária da África Tropical” (LORENZI & SOUZA, 2001,

p. 540), enquanto que o narciso Narcissus cyclamineus DC. originado em Portugal e o Narcissus hybridus Hort.

da Europa e norte africano. Já o Polygonum aviculare L. é nativo da Eurásia e o provavelmente Cerastium

glomeratum Thuill. oriundo da Europa e, conforme Schneider (2007) ambas espécies foram introduzidas de

forma acidental no estado, da mesma forma que a africana Senecio madagascariensis Poir.; a Poa annua L.,

Rumex pulcher L., Stellaria (Alsina) media (L.) Vill. e espécies de Ranunculaceae Ranunculus sp. são nativas da

Europa, bem como o coentro (Coriandrum sativum L.), a mostarda (Brassica rapa L. ou B. nigra (L.) Koch) e a

espécie Oxalis latifolia Kunth. Já outra espécie denominada Oxalis corniculata L. é nativa da América do Norte

e presente no estado conforme Schneider (2007). De acordo com Lorenzi & Souza (2001) existem duas espécies

conhecidas como pau-d’água que poderiam ser tanto a africana Dracaena fragrans (L.) Ker Gawl. quanto a

espécie Pleomele reflexa N. E. Br. oriunda de Madagascar, Índia e Ilha Maurício. Já Lathyrus poderia ser a

espécie européia Lathyrus odoratus L.; e Anethum foeniculum L. (Foeniculum vulgare Mill.) também é nativa da

Europa. Sileno poderia representar um erro de grafia para Silene. Se assim for (o que se trata de uma hipótese),

Saint-Hilaire (2002) poderia estar se referindo à espécie Silene anthirrhina L. oriunda da América do Norte ou S.

gallica L. da Europa. Para malva temos duas espécies européias (ignorando outras espécies cujos nomes

populares são malva-roxa e malva-de-crista): Malva parviflora L. e Malva silvestris L.. Já para vernônia temos a

  “será necessário comparar na Europa todas essas plantas (...) para verificar se, realmente, existe alguma diferença” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 86).

  Conforme Matos & Pivello (2009, p. 27):

  As ações humanas são certamente os principais fatores que criam oportunidades para episódios de invasão biológica, seja pela introdução proposital ou acidental de novas espécies, ou por distúrbios provocados no ambiente físico ou na própria comunidade. No caso das plantas, são freqüentes causas de invasão biológica o revolvimento ou a fertilização do solo, alterações microclimáticas, ou ainda, a eliminação de espécies indesejáveis.

  Tratando-se de condições ótimas para o crescimento de algumas plantas, Dreys (1961) refere-se ao potencial da província para cultivos. Segundo ele “todos os frutos da Europa ali prosperam (...) como o figo” (DREYS, 1961, p. 107). O figo é um fruto largamente mencionado pelo naturalista francês e também por Dreys (1961). Porém, existem diversas espécies de figueiras nativas do Rio Grande do Sul, não definindo se as encontradas e

  13

  utilizadas pelo europeu fossem estrangeiras (o que poderia ser uma hipótese) . Devido a isso, não será levado em consideração o figo como fruto exótico, pois não se sabe qual espécie de figo que os viajantes estão se referindo, se figos nativos ou estrangeiros, apesar de o próprio botânico se referir algumas vezes às figueiras selvagens. Outro tipo de figueira que o botânico (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 112) aponta é a figueira-da-índia [Opuntia fícus-indica (L.) Mill.], que apesar do nome, não possui relação alguma com as outras figueiras que produzem figo verdadeiro, já que a figueira-da-índia é um cacto originário da América Central, portanto, exótico.

  Ainda na região das Missões, Saint-Hilaire (2002) refere-se ao cultivo do algodão, arroz, abóbora e melancia em São Luís, sendo estas duas algumas das “plantas que os índios

  14

  aí cultivam” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 303), assim como de canas-de-açúcar em regiões adjacentes; e “as terras daqui, como quase em todas as das Missões, são excelentes e produzem trigo” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 316) em São João, bem como algodão, sendo suas plantações “imensas, as das outras aldeias não se lhes podem comparar” (SAINT- HILAIRE, 2002, p. 315). Ao sul de São Nicolau, Dreys (1961) relata da produção de algodão, 13 fumo e cana, sendo que “ao Sul de S. Nicolau (...) a terra se cobre de uma vegetação

  

Existe figo (Ficus carica L.) que é cultivado e originário da Ásia, mas no Rio Grande do Sul existem outras

plantas nativas que também são denominadas “figos”. Em uma pequena região de montanhas no centro do estado

que durante a segunda metade do século XIX foi colonizada por italianos, Itaqui (2002) aponta para a existência esplêndida; produz algodão, milho, fumo, cana e grande abundância de erva-mate; (...) a pêra, o figo, a ameixa, o marmelo” (DREYS, 1961, p. 107). Tal junção de organismos de diferentes procedências evidencia o impacto ambiental causado pelo europeu e suas culturas, corroborando com o relato de Dreys (1961) em que o Rio Grande do Sul:

  (...) dá com profusão todos os que lhe pede a cultura; e estando a província como no ponto de contato entre a temperatura dos Trópicos e o céu mais brando dos climas temperados, daí resulta que, debaixo dessas influências mistas, os produtos do Equador vêm-se ajuntar com os frutos da Europa. (DREYS, 1961, p. 80)

  Tais cultivos e criações na região missioneira são reflexos de uma sociedade que necessitava desses produtos para a sobrevivência. Com tais produtos a sociedade jesuítica tinha algum comércio, utilizando-se dele para ter relações com outras regiões da América e do mundo. Conforme Kühn (2002, p. 44):

  As principais atividades econômicas estavam assentadas na criação de diversos tipos de gado (vacas, cavalos, mulas e ovelhas) e na produção de erva-mate. Além desses produtos, que eram comercializados no mercado interno colonial ou, ainda, exportados (como o couro), os índios missioneiros cultivavam algodão para a fabricação de tecidos e roupas (...).

  São costumes ibéricos que os indígenas guaranis adotaram e mesclaram ao seu modo de vida, perpetuando-o e o fazendo ser observado pelo olhar atento do viajante tempos mais tarde da decadência das Reduções.

  Embora não tão povoado como a região dos Sete Povos, o território que hoje corresponde à fronteira Oeste do Rio Grande do Sul também sofria de alguma intervenção européia. Dos viajantes analisados, apenas Sain-Hilaire (2002) faz menção a essa região. Nas imediações da Guarda de Quaraim (Quaraí) o viajante observa uma grande plantação de pessegueiros. Já nos arredores do rio Ibicuí relata da existência de plantação de trigo e melões,

  15

  assim como arroz, outra espécie de trigo , o “trigo-manco, introduzido recentemente na região não era atacado pela ferrugem” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 263) e novamente os persistentes pêssegos.

  Mais para o interior da província (região central do estado), o mesmo viajante relata a existência da cultura do tabaco perto de São Xavier, assim como arroz e nos arredores do rio Toropi já houve bom rendimento do trigo. No Rincão da Boca do Monte aparecem novamente pessegueiros, arroz e trigo. Já Dreys (1961) mostra a existência de numerosas manadas de gado na Freguesia de Cachoeira (DREYS, 1961, p. 124). O tabaco ou fumo relatado anteriormente poderia ser uma forma econômica extra (ou seja, não seguindo apenas os moldes de criação de gado e plantação de trigo), podendo coexistir com a criação de gado. “Eram comuns as fazendas mistas de criação de gado e plantação de fumo, porque era o esterco o melhor fertilizante para a produção do fumo de melhor qualidade” (SCHWARTZ, 2004, p. 374).

  Fazendo parte dessa freguesia, ao leste da Capela de Santa Maria, na Estância da Tronqueira, Saint-Hilaire (2002) aponta para o cultivo do trigo, bem como a existência de cavalos e bois pelos campos. Nessa região relata o viajante que “os arredores de Santa Maria são habitados por estancieiros que, na maior parte, além de criar gado, se dedicam ao cultivo da terra” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 338). Osório (2006) corrobora com o botânico ao analisar a estrutura agrária no Rio Grande do Sul, mencionando que “a existência concomitante de currais e cercados demonstra a combinação, também para esses pequenos produtores, da agricultura e pecuária” (OSÓRIO, 2006, p. 168).

  Com o relato dos viajantes e estudos como o de Helen Osório (2006) é notado que no Rio Grande do Sul as pessoas sobreviviam não apenas da pecuária, mas sim de uma cultura mista entre criação e plantação. O trigo plantado e muito mencionado nos relatos poderia ser de mais de uma variedade, conforme o encontrado por Saint-Hilaire (2002) “nos vastos terrenos cultivados” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 362) em Rio Pardo ao apontar a introdução do trigo-branco e trigo-moro. Tais variações tritícolas se deram, de acordo com o botânico, devido a uma doença que atacava o trigo comum. “Desde 1818, apareceu (...) uma doença

  16 chamada ferrugem, e que aniquilou parte da colheita” (DREYS, 1961, p. 81).

  O cultivo de trigo no Rio Grande do Sul foi mais intensificado com a vinda dos açorianos, dispersando-se para vários lugares (FRANTZ & SILVA NETO, 2005). A introdução de outras variedades do trigo pode indicar a importância que o produto tinha na região, já que “a triticultura foi a atividade econômica que provocou o enriquecimento e a ascensão social de alguns açorianos, inclusive o seu acesso à mão-de-obra africana” (KÜHN, 2002, p. 65). Além da cultura tritícola, a plantação de pomares e criação eram bastante presentes. Na mesma região de Rio Pardo o botânico menciona laranjeiras, assim como no caminho a Porto Alegre, e Dreys (1961) aponta para a criação de gado nas proximidades do rio Jacuí (DREYS, 1961, p. 123).

  A região leste da Província do Rio Grande do Sul é a que mais aparece nos relatos dos viajantes, talvez porque nela a ocupação é mais recente e mais perto das vias marítimas, além de ser a mais populosa.

  17 Ao visitar a charqueada de Gonçalves Chaves , o botânico faz descrição de outras

  plantas exóticas cultivadas como as macieiras, pereiras, ameixeiras, cerejeiras, parreiras, laranjeiras e novamente os pessegueiros, assim como uma possível criação de bois e cavalos, por ele os ter visto pastando nos espaços entre as árvores. Para outros animais criados, só que mais ao sul da charqueada de Chaves, Saint-Hilaire (2002, p. 96) aponta para os rebanhos de ovelhas (Ovis aries L.) guardados por cães ovelheiros (Canis familiaris L.).

  Nos arredores de Rio Grande, Luccock (1975, p. 131) aponta para grande quantidade de gado e criação de porcos (Sus domesticus L.), cujos animais eram alimentados com pêssegos. Além disso, diferentemente dos demais viajantes consultados, o comerciante inglês menciona a existência de alfafa. Novamente têm-se relatados os cultivos de vegetais ao sul de Rio Grande: o trigo e “as árvores frutíferas e várias hortaliças exóticas, tais como diversas espécies de couves, alfaces, ervilhas, são muito encontradas” (SAINT-HILAIRE, 2002, p.

  18 97) .

  A alimentação dos porcos com pêssego pode indicar uma grande e/ou fértil plantação de pessegueiros. Com isso, uma maior área cultivada existiria, assim como maior a área impactada. Plantas tropicais de origem asiática como a cana também passaram a fazer parte da fisionomia do Rio Grande do Sul. Pequenos canaviais são mencionados por Dreys (1961) nesta localidade (Rio Grande), da mesma forma que quintais nas casas que “produz frutas e hortaliças com tão exata periodicidade que vão quase inutilizando os suprimentos diários que recebe a cidade da horticultura vizinha” (DREYS, 1961, p. 113). O mesmo estrangeiro relata que na Ilha dos Marinheiros (e Turutama) há abundante produção de hortaliças e que sua escassa população também ocupa o tempo com a criação do gado. Já Saint-Hilaire (2002, p. 65), para a região, afirma da existência de pomares feitos de laranjeiras e pessegueiros, bem como de figueiras selvagens e o êxito do cultivo de legumes.

  E a lista de relato de cultivo de espécies exóticas aumenta. Em São José do Norte,

  19 Dreys (1961, p. 80) aponta para a produção de cebolas, nabos, melões e melancias , sendo 17 estes dois últimos produtos (chamados de melão e melancia-d’água, não podendo-nos informar se são espécies nativas) também cultivados na localidade de Povo Novo, juntamente com o milho, constituindo uma cultura dupla, segundo Luccock (1975, p. 139). Também foi observado por este comerciante inglês a existência de pêssegos e de cavalos que pastavam soltos (LUCCOCK, 1975, p. 138). Já na lagoa da Mangueira o mesmo viajante menciona a existência de árvores de mangueiras (já não tão comuns em sua época), assim como do cultivo

  20 de cebolas na Ilha de Santa Maria (LUCCOCK, 1975, p. 115) .

  Mais ao sul, próximo à fronteira com a Província Cisplatina (atual República Oriental do Uruguai), os relatos do botânico francês novamente fazem referência a algo exótico no território: um considerável rebanho de carneiros, muitos cabritos (Capra hircus L.), assim como gado e cavalos, embora em menor quantidade que nos outros lugares. Ao descansar em uma estância denominada Jerebatuba, o viajante aponta para o cultivo de cana-do-reino, que

  21 ele acredita ser a planta mediterrânea Arundo donax.

  Em Porto Alegre, Dreys (1961) comenta do cultivo de jardins e em suas adjacências, como próximo à embocadura do rio Gravataí, há uvas, “os pêssegos, os figos, as peras, os marmelos, juntos com a laranja, a lima, a banana, crescem na mesma latada” (DREYS, 1961, p. 101), assim também como havia cultivo de cana e café. Por sua vez, Saint-Hilaire (2002) descreve que nesta cidade havia plantações de trigo, cana-de-açúcar e laranjeiras e que, em seus arredores, muito bem se desenvolvem pessegueiros, amendoeiras, ameixeiras, macieiras, pereiras, cerejeiras, oliveiras e vinhas, bem como cultivo de violetas e narcisos nos jardins da

  22

  cidade (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 34-35; 53). As plantações descritas pelo botânico francês nos arredores da capital provincial corroboram com Dreys (1961) que afirma que:

  a cidade recebe das chácaras circunvizinhas todas as qualidades de frutas, de hortaliças, e de verdura que produz a vegetação indígena, ou que brotam das sementes exóticas, que as mãos do sábio cultivador souberam naturalizar num solo estrangeiro. Seus mercados estão por isso sempre abundantemente providos (DREYS, 1961, p. 102)

  Sobre a Capela de Viamão Saint-Hilaire (2002) é novamente fonte de estudo. Ele 20 relata da existência de rebanhos em suas estâncias, principalmente dos carneiros em Bujuru, 21 A mangueira (Mangifera indica L.) é originária da Ásia.

  “Semi-lenhosa, rizomatosa, entouceirada, originária do Mediterrâneo, de 2-4 m de altura, de folhagem

ornamental... Cultivada a pleno sol, como planta isolada, em grupos ou formando renques densos, em canteiros

22 de terra rica em matéria orgânica. É tolerante a geadas” (LORENZI & SOUZA, 2001, p. 545).

  

Conforme observado em Caribé & Campos (1999), o marmelo (Cydonia oblonga Mill.) é originários da Ásia, bem como do cultivo de trigo e centeio (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 55). Já em Estreito há menção em seu relato sobre o cultivo de parreiras, chicórias, cebola, mostarda, nabo, aipo, couve, brócolis e couve-flor (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 56). Sobre o litoral norte ele relata da existência de laranjeiras e trigo em Tramandaí, assim como de cana-de-açúcar, novamente trigo e criação de gado nos arredores de Itapeva.

  Os organismos exóticos introduzidos pelo europeu renderam frutos na província do Rio Grande do Sul, tanto que onde quer que o colono estivesse, lá estava sua plantação e sua criação, principalmente nessa região leste, mais recentemente ocupada e com políticas de

  23

  incentivo à ocupação de terras pelo açoriano através da concessão de Sesmarias. Ao contrário do que convencionalmente se afirma sobre a alimentação do sul-rio-grandense, a dieta da população da província era variada, tendo um repertório de frutas, legumes e carnes, conforme pôde ser observado nos relatos dos viajantes. Luccock (1975) enfaticamente mostra isto ao apontar que:

  A carne de vaca não basta, porém, para a alimentação do povo; por isso, cultivam com grande êxito, embora cuidado pequeno, várias espécies de abóboras, mandioca, milho, mandubí, que é uma pequena raiz comestível, trigo e uma casta de cevada, conseguindo pôr de lado pequena quantidade destinada à venda. Cultivam, também, uma grande variedade de frutas, tanto nativas como estrangeiras que, conservadas, especialmente pêssegos e pêras, são bem aceitas em lugares mais adiantados. (LUCCOCK, 1975, p. 155)

  Esta descrição sobre os cultivos e criações observados pelos viajantes em determinadas localidades mostra o quanto o europeu interferiu no território ocupado por ele. Tal europeização do ambiente, ao qual Crosby (2002) chama de Neo-Europa, é um reflexo da cultura de um povo estranho em uma terra estranha, procurando nela elementos (ou até a transformando) que lembrassem a terra de seus ancestrais e gerando locais onde sua cultura seria coerente em existir. Apesar dos indígenas terem impactado o ambiente do Rio Grande do Sul com a horticultura e introdução de plantas tropicais como milho e mandioca, a europeização da província se deu de forma mais acentuada, uma vez que os organismos trazidos pelos europeus eram de terras muitos distantes (não fazendo parte do continente Americano como as “domesticações” indígenas) e que requeriam um espaço maior para se fixarem e sobreviverem (referência à agricultura e as criações de animais). Através do europeu, o escravo africano também poderia ter contribuído para a introdução de organismos exóticos.

  A introdução de espécies exóticas passou a desempenhar papel crucial para a configuração paisagística, faunística e florística da província, gerando relações entre organismos estrangeiros e nativos. Apesar de ser relativamente simples a identificação dos animais exóticos, há um que guarda dúvida quanto a sua procedência: o rato. Ao hospedar-se em uma casa perto de Taim, Luccock (1975) relata da grande quantidade de ratos que não o deixavam dormir. Os roedores nativos do Rio Grande do Sul são muitos, porém não podemos ignorar que o rato europeu (Rattus norvegicus L. e Rattus rattus L.) foi um companheiro

  24

  quase que constante do homem do Velho Mundo. Estes seres, principalmente o rato marrom (Rattus norvegicus L.), atingiu plenamente a América em cerca de 1775 e dando a “volta ao mundo” em meados de 1850 (THÉRIEN, 1975, pg. 6). Isso dá a impressão de que o rato era o companheiro dos europeus. Esses roedores “embarcaram como clandestinos para todos os lugares que os ibéricos foram na América” (CROSBY, 2002, p. 172), sendo outros agentes europeus do impacto ambiental, concorrendo com a fauna nativa e até mesmo se inserindo na cadeia alimentar da região, comendo sementes ou sendo presas de outros animais.

  O europeu não apenas trouxe seres vivos de outras terras para poder se sustentar na América (ou até mesmo introduzindo espécies exóticas de forma acidental), mas também retirou recursos dos próprios territórios ocupados. Com isso, um novo fator de impacto ambiental causado pelo europeu, o de retirada e utilização de recursos nativos, é também o interesse nesse estudo.

  Além de trazer organismos exóticos para se adaptar ao território que aos poucos era ocupado, o ibérico teve também que se apropriar de recursos naturais, configurando elementos-chave da ocupação do europeu. A relação direta entre o europeu e os recursos aborígenes do território do Rio Grande do Sul é foco do presente capítulo, considerando o que o ibérico utilizou da província para seu sustento e para aprimorar suas relações sociais e econômicas.

  O europeu, ao se instalar no Rio Grande do Sul, trouxe parte de sua cultura, inserindo nestas paragens criaturas estranhas à região. Mas, para poder ter sucesso na ocupação do espaço, o ibérico teve também que usufruir dos frutos da terra, utilizando o que a natureza tinha para poder sobreviver. Isto é perceptível, pois as “populações de muitas espécies que vivem livremente na natureza são exploradas como alimento pelos humanos, que ‘selecionam’ ou ‘colhem’ uma parte da população, deixando alguns indivíduos como material de crescimento e reprodução” (BEGON et al., 2010, p. 448). Porém, não apenas o humano (no caso em estudo, o europeu) utilizou os recursos nativos para se alimentar, mas também para aprimorar sua economia, suas relações sociais e até mesmo para curar de suas doenças, como, por exemplo, o tratamento de doentes com plantas da região em São Nicolau.

  O costume de tratar doentes com plantas pode ter sido trazido da Europa pelos jesuítas. Porém, não se deve esquecer que as Missões foram lugares de foco guarani, sendo mais forte a indicação de que as “plantas da região” sejam elementos nativos que os indígenas tinham conhecimento e acreditavam em suas propriedades medicinais. Conforme Witter (2005, p. 25):

  O uso de ervas medicinais pelos habitantes como forma de preservar o corpo e tratar doenças era, certamente, um costume difundido entre todos os grupos humanos que habitavam a região. (...) Esse conhecimento misturou-se ao do uso de ervas trazidas pelos europeus e africanos formando o conjunto de medicamentos tradicionais usados tanto no campo quanto nas vilas e cidades.

  Então, a utilização de ervas para curar doenças pôde ter se originado de diversas práticas culturais, mas isso não nos faz ignorar a utilização que o europeu fazia de plantas da região para suprir suas necessidades. Seja imitando o costume indígena ou se apropriando de plantas exóticas que cresciam na região, o hábito do europeu (e seus “descendentes culturais”) de colher ervas contribuiu para o impacto ambiental, da mesma forma que o recolhimento de sementes de araucária [Araucaria angustifolia (Bert.) O. Ktze.], observado por Saint-Hilaire (2002, p. 46) nos arredores de Porto Alegre para serem vendidos. Para ser vendido, deve-se necessitar de uma quantidade de sementes maior do que aquela para consumo próprio. Este foi um diferencial entre o colher “frutos” dos indígenas e dos europeus.

  Outra maneira de interferir no meio ambiente sul-rio-grandense era na construção das Missões desempenhadas pelos espanhóis no século XVII, referida anteriormente, sendo que eles também não ignoraram a existência dos recursos naturais do território. O naturalista francês já citado menciona a utilização de bambus e cipós como ripas para o restauro de edificações, assim como a utilização da concha de moluscos para fazer cal e colocá-lo nas igrejas. Luccock (1975, p. 154), de uma forma geral, também menciona a prática de extração de cal das conchas, porém, ele menciona a existência dos montes de conchas dos quais eram

  25 extraídos a cal, provavelmente sambaquis.

  Esta utilização dos recursos naturais para a construção e/ou manutenção de edificações pode ser entendida, ao nosso ver, por um motivo bastante simples: a distância das Missões com os entrepostos de produtos vindos da Europa. Seria mais fácil e vantajoso o jesuíta iniciar suas construções (os andaimes, ou seja, toda a estrutura de madeira para a construção das paredes em alvenaria) com árvores do mato ao lado do que esperar vir alguma madeira da Espanha. Apesar disso, não foram somente as matas alvos da construção civil.

  As olarias existentes e a utilização do barro para a construção não devem ser ignorados. Em Porto Alegre, Saint-Hilaire (2002, p. 53) aponta para a existência de três olarias. Também Dreys (1961, p. 100) relata da existência de algumas nesta mesma localidade, assim como as casas de paredes cobertas de barro em Santo Amaro. Seja qual for a localidade da província que o barro foi retirado, certamente sua extração influenciou na paisagem local (mesmo que em pequenas dimensões), mostrando o quanto o europeu contribuiu para a mudança paisagística da província e o quanto ele utilizou dos recursos naturais para se manter. Sendo assim, “a própria natureza pode ser pensada, aqui, como uma ‘construção cultural’” (MARTINEZ, 2006, p. 17), indicando as relações entre o humano e a paisagem.

  Com isso, é notável o avanço da área urbana durante o final do período colonial. Dreys (1961, p. 98) afirma que em sessenta anos Porto Alegre cresceu à custa da derrubada de matos, dando sinal de que a urbanização, mesmo que precária na província, afetou bastante a fauna e flora nativas. Desde a fundação das Missões até o estabelecimento de aldeias, capelas e cidades na região leste do Rio Grande do Sul, o europeu lentamente foi agente causador de modificação da configuração ambiental, tendo como elementos indicadores suas criações, suas plantações, sua economia e suas moradias.

  Dirigindo-se à região central da Província, o naturalista francês relata da derrubada de matas para dar lugar à lavoura. No Rincão da Boca do Monte “cultivam de preferência em terras de mata, onde a produção rende mais, e onde se pode plantar durante três anos seguidos” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 333). De forma semelhante, ele relata sobre a estância 25 de Tronqueira, próximo a Boca do Monte, quanto ao bom rendimento das lavouras em terra de mata e da existência de plantações também em regiões de mata nos arredores de Itapeva. Tal prática pode ser entendida principalmente ao observar estudos referentes à ocupação açoriana no Rio Grande do Sul.

  Em seu estudo sobre a vida cotidiana dos açorianos, Graebin (2006) menciona que “os casais agricultores tiveram que derrubar a mata e construir suas casas, apropriando-se da natureza” (GAEBRIN, 2006, p. 217). O construir casas não era a única atividade feita em terreno desmatado. Conforme foi visto com Saint-Hilaire (2002), houve a prática da agricultura em locais onde antes havia florestas e que os europeus, “dependendo do espaço (...) no qual se estabeleciam, plantavam trigo, abóbora, feijão, couve (...), nabos, melancias, cana-de-açúcar, cevada, alpiste, aveia, ervilha, centeio” (GAEBRIN, 2006, p. 217).

  Além dos açorianos mencionados por Gaebrin (2006), a ocupação de locais de florestas se

deu principalmente pelo lavrador nacional, gente que não tinha posse de latifúndios (estâncias),

ocupando, então, espaço que não era de interesse dos estancieiros para a criação de gado, ou seja,

as matas (ZARTH, 2002). Em seu estudo Do Arcaico ao Moderno: o Rio Grande do Sul Agrário

do século XIX

  , Zarth (2002) aponta esse lavrador nacional como um ocupante das regiões de

florestas, logo intensificada sua ocupação pelos colonos alemães e italianos após a independência

do Brasil. Na época em estudo, temos, então, dois agentes do desmatamento: o lavrador nacional

e/ou o colono açoriano.

  Provavelmente a madeira retirada no desmatamento era utilizada, talvez como fora feito “quando os espanhóis ocupavam até o Riacho dos Ferreiros, os bascos exploravam o corte de madeira do lado do Rincão da Boca do Monte e enviavam (...) até Montevidéu” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 339). Também, dependendo do que o europeu encontrasse, algumas árvores serviriam unicamente para lenha, como o “ingá, madeira aqui somente empregada como lenha” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 361). Também folhas de palmeiras poderiam ser utilizadas como telhados de casas na Capela de Santa Maria, que eram feitos de folhas de jerivá [Syagrus romanzoffiana (Cham.) Glassman] (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 352).

  Além do ingá (Inga spp.), outras árvores poderiam servir de lenha. Nos arredores do rio Jacuí, Saint-Hilaire (2002, p. 375) também relata que árvores como Cambuí (Schinus

  

terebinthifolius Raddi) e Capororoca-de-folha-larga (Rapanea guianensis Aubl.) foram tiradas

da mata ciliar para serem comercializadas como lenha em Rio Grande, pois queimavam bem.

  Aí se têm o relato de que a madeira nativa fazia parte da economia da população provinciana,

  Em Rio Grande, o botânico aponta que as lenhas que se usavam naquela região vinham de Camaquã e que, a existente na Ilha dos Marinheiros era de uso exclusivo do hospital (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 76), mostrando-nos a íntima relação do europeu com a natureza da província e sua dependência dela. Seja qual for o propósito da queima de lenha, para aquecimento, para cozinhar ou até a queima de ervas odoríferas conforme relatado por Luccock (1975, p. 126), o desmatamento realizado pelo ibérico era perceptível aos viajantes no início do século XIX. Das matas se tiravam lenha e até materiais de construção como o cipó mencionado por Luccock (1975), ao relatar uma casa que

  Era feita de um arcabouço de madeira, a que se prendiam barrotes por meio de cavilhas ou vergônteas de uma planta aqui chamada de Cipó, que cresce abundantemente por todas estas paragens, suporta bem o ser torcida e amarrada solidamente as partes componentes do edifício. (LUCCOCK, 1975, p. 130)

  Aumentando a lista de desmatamentos, o viajante inglês aponta que o estaleiro em Porto Alegre retirava madeira da mata ciliar dos rios próximos. Ao referir-se das bandas do rio Taquari, Dreys (1961) revela a existência de “máquinas de serrar, com que os habitantes têm adiantado bastante suas exportações” (DREYS, 1961, p. 142). Das cinzas das madeiras de algumas espécies eram-se feitos sabões, conforme atesta Saint-Hilaire (2002) ao referir-se da aroeira (Schinus spp.) nos arredores de Tramandaí e Luccock (1975, p. 148) ao relatar do uso das cinzas de três espécies de madeira (não identificadas) para a fabricação de sabão na região que chama de Cangazú.

  Para se instalar em um local desconhecido, o estrangeiro procurou utilizar os recursos naturais para desempenhar uma efetiva ocupação. O crescimento de vilarejos e cidades, principalmente da região leste da província a partir da imigração açoriana em 1748, ocasionou uma demanda na utilização dos recursos provincianos. Os europeus necessitavam de madeira para a construção de casas, assim como lenhas para se proteger do rigoroso inverno, não podendo esquecer de espaços ocupados pelas florestas para a construção de sua moradia.

  A maneira de cortar árvores foi aperfeiçoada com os instrumentos metálicos trazidos pelos europeus. Com isso, além do fogo devastador, o ferro era um elemento importante na queda de árvores. Além do mais, o aumento populacional e sua demanda por madeira foi o agravante do desmatamento. A madeira da Ilha dos Marinheiros destinada ao hospital de Porto Alegre, apontado anteriormente por Saint-Hilaire (2002), pode indicar preocupação com dos recursos naturais e um pequeno comércio interno. Nos finais do século XVIII e início do

  XIX o desmatamento pôde ter se tornado mais intenso, já que “com o povoamento açoriano às margens dos rios, pode-se inferir um desmatamento parcial da mata ciliar em determinadas localidades” (BUBLITZ & CORREA, 2006, p. 50).

  A ocupação de novos espaços pelo colonizador causava uma mudança na configuração da paisagem, principalmente quando o fogo era utilizado. Nos arredores de Porto Alegre o botânico denuncia que poderia ser visto a fumaça das queimadas das pastagens de longe. Esta prática também foi observada por ele nas imediações do Chuí, onde “põe-se fogo às pastagens, nos meses de agosto e setembro” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 124). Nas Missões, o mesmo viajante relata tal prática de queimar as pastagens anualmente como precaução contra o crescimento de gramíneas incapazes de engordar o gado. Segundo ele “podem ser encontradas outras excelentes pastagens, sobretudo, quando se toma como aqui a precaução de queimá-las anualmente” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 259).

  O uso das queimadas de campos e matos pode ter sido uma troca cultural dos povos nativos com os europeus. Essa prática denominada de Coivara era usada pelos horticultores guaranis como forma rápida e eficiente de livrar a terra das plantas indesejáveis, dando lugar à sua plantação e que o sul-rio-grandense, em sua cultura miscigenada, adotou. A extensão das lavouras, bem como a necessidade de seus produtos serem comercializados poderiam ter sido um diferencial entre a coivara indígena e a do colonizador. O indígena era horticultor, praticando a queimada em zonas onde ia se instalar temporariamente e ali plantar, abandonando o território após algum tempo. Já o europeu queimava o campo para fazer agricultura, utilizando um território geralmente nos arredores de cidades e causando um impacto maior daquele feito pelo aborígene.

  Mas, consultando o medievalista Jacques Le Goff, podemos observar que na Europa Medieval também havia a prática da queimada de campos. Segundo ele, “a prática da queimada (...) é largamente usada sobre solos pobres” (LE GOFF, 2005, p. 205). Porém, “estudos (...) mostram que o fogo ocorreu com mais freqüência a partir de 7.400 anos antes do presente, possivelmente provocado por populações indígenas em áreas de campo (BEHLING et al. Apud ZARTH & GERHARDT, 2009, p. 259). Com isso, não podemos ter certeza que se a prática da queima de campos no Rio Grande do Sul era oriundo de uma cultura européia ou indígena, podendo ser uma prática mista culturalmente, mas tornando-se mais intensa com os

  A agricultura no Rio Grande do Sul veio como uma maneira complementar à pecuária, sendo ela destinada ao mercado interno, com exceção do trigo que era também exportado (GUTFREIND & REICHEL, 1998, p. 137). A exportação de produtos oriundos da agricultura mostra a maior quantidade de terras cultivadas pelos europeus, e conseqüentemente impactadas por eles. Principalmente “durante o século XVIII e nos anos iniciais do século

  XIX, o Rio Grande do Sul inseriu-se economicamente no mercado interno brasileiro, principalmente pela produção de trigo” (KÜHN, 2002, p. 65). Tal época corresponde ao auge da produção tritícola, que se situa entre os anos de 1787 a 1813, épocas próximas da chegada dos viajantes analisados, corroborando, então, com suas observações sobre queimadas de campos e derrubadas de matas para agricultura, principalmente próximos aos focos de colonização açoriana.

  O desmatamento e a queimada não eram os únicos meios pelo qual o colonizador europeu usufruía dos recursos naturais do Rio Grande do Sul. A caça também estava presente, conforme mencionado por Saint-Hilaire (2002), referindo-se a “um tatu bem pequeno chamado mulita pelos espanhóis e que dizem ser muito bom para comer” (SAINT-HILAIRE,

  26

  2002, p. 238) nos arredores da Guarda de Quaraim. Outros exemplos são dados por Luccock (1975, p. 146), em que os habitantes das margens da lagoa da Mangueira sobreviviam colhendo melancias, apresando gado e saqueando ninhos de emas (Rhea

  

americana L.). Tal pilhagem de ninhos talvez tenha sido utilizado pelos indígenas e que foi

  adotado pelo europeu. Mas, é possível que o europeu tenha adquirido tal hábito espontaneamente para garantir sua sobrevivência, devido sua necessidade protéica.

  Ao consultar obras literárias que retratam indiretamente através de contos e “causos” a mentalidade de um povo e de uma época, é possível perceber a prática da caçada pelo descendente da cultura européia. Nela o animal não é objeto unicamente de fonte de alimento ou perigo de sobrevivência, como poderia ter sido para o indígena, mas sim um ser que deveria ser submetido e morto por seu estado selvagem.

  Em sua obra Aventuras de um tropeiro, Tietböhl (1996) mostra a forma como a fauna nativa era encarada pelo habitante do Rio Grande do Sul, descendente da cultura europeizante. Foram jacarés, tamanduás e principalmente onças as vítimas dos “causos” do narrador Chico Ventana. Em uma de suas histórias ele foi pedir poso para um tal de Pai André. Não obteve resposta ao chamar pelo homem na frente de sua casa. Então, conforme o conto, Chico le repeti ‘Bôas noite’; mas êle se apinchou p’ra riba de mim e me agarrou (...)” e “um clarão da lua (...) alumiou o lugá”, revelando que quem o abraçava “era um tamanduá-bandêra, dos mais macota” e então, como solução, “um dos companhêro enterrou o facão bem no sangradô do tamanduá” (TIETBÖHL, 1996, p. 69).

  Novamente consultando obras literárias, temos Contos Gauchescos, onde Lopes Neto (1992) aponta em seu conto No Manantial que um homem chamado Chicão gostava tanto de uma moça que lhe trazia “ovos de perdiz, ou ninhadas de mulitas, que ela criava com paciência e (...) largava para o campo” (LOPES NETO, 1992, p, 32). Em outro conto chamado Penar de Velhos no qual trata brevemente da vida de um garoto e de um cavalo paralelamente, há indicação de caça à avestruz (ema), bem como o recolhimento “de ovos de tico-tico, de alma-de-gato, de corruíras, canarinhos, sabiás” (LOPES NETO, 1992, p. 120). A caça a mulitas também está presente no conto O “Menininho” do Presépio, assim como a ação predatória frente a emas e veados. Isso mostra o quanto a predação de animais nativos estava presente no imaginário do habitante sul-rio-grandense. Apesar de as populações indígenas já terem praticado tal ato, com a chegada dos europeus a caça tomou outros ares, pois suas armas eram mais eficientes, o ferro de suas espadas mais cortantes que as pedras afiadas dos indígenas, a montaria dava resistência e velocidade ao caçador e as plantações passaram a restringir a fauna nativa a alguns pontos.

  A caça de animais nativos, assim como sua possível inserção na economia provincial pode ser também constatada nos relatos dos viajantes. Sobre os porcos do mato, ao passar pelos arredores de Povo Novo, Luccock (1975) relata que seu guia

  ... descobriu uma toca de uma vara de porcos do mato e, tendo-nos postado de maneira a cortar-lhes a retirada para o mato, galopou para o meio deles de laço em punho, agarrando cinco fêmeas. Em seguida praticou três incisões na orelha direita de cada qual, dizendo que passavam a ser suas e que, assim marcadas, ninguém mais se intrometeria e que ele havia de voltar quando cada uma já devesse estar acompanhada de uma cria de leitões, para levá-los embora ou pôr marca nos filhotes. (LUCCOCK, 1975, p. 140).

  Aí se têm base para afirmar que o europeu colonizador utilizou a fauna nativa de forma distinta do que o indígena, não a utilizando apenas para alimentação, mas como forma econômica alternativa. Devido à falta de descrição detalhada, não é possível saber se tais porcos do mato eram porcos domésticos asselvajados (organismos trazidos pelos europeus) ou

  27

  porcos nativos, como o cateto ou o queixada. Mas, o mesmo viajante dá uma pista ao referir que “alguns porcos de que pouco cuidado toma, porém; vagueiam à toa, destocando raízes, devorando répteis e tirando uma boa parte do seu sustento dos sobejos do gado abatido” (LUCCOCK, 1975, p. 144). Se forem porcos domésticos asselvajados, o impacto ambiental causado pelo europeu seria maior ainda, pois estes animais concorreriam com os animais nativos tanto por se alimentarem de plantas, desde raízes, brotos ou sementes quanto por animais, ameaçando a flora e fauna aborígene (CROSBY, 2002).

  Os porcos estavam presentes na criação do europeu, principalmente do açoriano. Na propriedade deste “h

  avia a criação de animais domésticos, como galinhas, patos, marrecas (...),

porcos, ovelhas, mulas e cavalos” (GRAEBIN, 2006, p. 217). Toda uma gama de organismos

exóticos que, assim como o ibérico, procurou se adaptar e sobreviver em uma terra estranha.

  A pesca utilizada pelo nativo também foi utilizada pelo europeu e seus descendentes. Dreys (1961) mostra que na barra do Rio Grande todos os anos pescavam tainhas (Mugil sp.) para tirar-lhes as ovas. O mesmo menciona que “é provável que, mesmo nas grandes povoações, onde o consumo do peixe é mais extenso, por pouco entraria esse alimento no regime dietético dos habitantes” (DREYS, 1961, p. 89). Não foi encontrada na bibliografia consultada alguma importância econômica do peixe para o europeu, fazendo-nos crer que o mesmo utilizava o pescado para seu sustento ou até para pequenas negociações em algum mercado de algum vilarejo ou cidade, sem muita significação e muito impacto na quantidade de cardumes.

  Um dos efeitos mais notáveis do colonizador europeu na Província do Rio Grande do

  28 Sul foi a caça à onça, ao qual os viajantes chamam de “tigres” ou jaguares. Onde se poderia

  esperar mais referências à caça a esses felinos seria nos relatos do naturalista Saint-Hilaire (2002). Porém, em seus relatos à poucas referências sobre os “tigres”, apenas mencionando que ouviu falar por outrem sobre que existem muitos na província. Ao contrário, Dreys (1961) enfaticamente aponta que “o homem tem ali, em sua missão de destruir, um concorrente que, às vezes, indiferente na escolha das vítimas, faz recair sobre o mesmo homem o terrível abuso da força: é o tigre” (DREYS, 1961, p. 90). A concorrência que o autor menciona é a referente ao gado, pois tanto o homem quanto a onça utilizavam estes herbívoros como alimento.

  O mesmo estrangeiro mostra a existência de caçadores especialistas em “tigres” que “muitas vezes se obrigaram a fornecer-nos cinqüenta peles de tigre por mês, e sempre cumpriam com o trato” (DREYS, 1961, p. 92). Luccock (1975) também menciona a caça à onça por causa de sua pele. De acordo com o inglês, a “onça, a que por recoberta de linda penugem, que se caçam por esse motivo e se exportam sob o nome de flanela” (LUCCOCK, 1975, p. 156). Muito provavelmente devido sua excessiva caça (aliado a desmatamentos e plantações) que atualmente as onças estão quase extintas no Rio Grande do Sul. A comercialização da pele de onças na época colonial é vista na pintura do inglês Charles Landseer de 1827 intitulada Tropeiro Paulista, podendo fazer relação desta pintura com o tropeirismo no Rio Grande do Sul (anexo II).

  O movimento do tropeirismo foi um incremento a mais no processo de impacto ambiental causado pelo europeu durante o período colonial brasileiro. Apesar de os viajantes consultados não mencionarem as ações dos tropeiros na natureza (e nem os lugares fundados por eles), é importante ser comentado sobre as alterações que tais ambulantes ocasionaram. Segundo Barroso (2006, p. 172) “através do trânsito de tropas, paisagens foram alteradas e processos sociais desencadeados”, sendo, portanto, o movimento tropeirista uma penetração da cultura européia no planalto e conseqüentemente nas matas e campos que nele existem. Novamente procurando elementos históricos na literatura, temos os “causos” do tropeiro Chico Ventana se referindo aos animais silvestres que encontrava e que geralmente eram alvo de ataque por parte do elemento humano.

  Com o tropeirismo, novas povoações surgiram, utilizando os recursos do território ao seu redor. O movimento de gados tanto oriundos da Vacaria dos Pinhais quanto da Vacaria do Mar certamente alterou parte da paisagem da província, principalmente devido sua pastagem e cascos, como se verá no próximo capítulo. “Com

  o esgotamento do gado xucro da zona abaixo

da serra, ocorre uma ocupação mais efetiva dos campos de Cima da Serra visando à criação de

animais” (FRANTZ & SILVA NETO, 2005, p. 49). Campos e matos foram transpostos para a

  passagem das tropas, interferindo, dessa maneira, na paisagem provinciana (os principais caminhos utilizados pelos tropeiros podem ser vistos no Anexo I).

  Com isso, é perceptível o impacto ambiental causado pelo colono europeu na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Além das caças, pescas e desmatamentos, assim como a utilização de vagalumes para enfeitar os cabelos (LUCCOCK, 1975, p. 127: penteado à moda portuguesa enfeitado com flores e, por vezes, à noite, com vagalumes) ao “uso de armas de fogo, como do laço, de cães e de todos os demais estratagemas que se empregam contra animais ferozes” (LUCCOCK, 1975, p. 153), mostram o quanto o europeu forma tão surpreendente que pareciam sempre terem existido na província, sendo plenamente compreendidos quando são tratados os fenômenos de longa duração.

  As interações que o europeu teve com o território sul-rio-grandense compuseram-se de uma complexa trama de relações. Não apenas o ato de usufruir dos recursos naturais da província ou introduzir espécies exóticas nela geraram relações homem-natureza, mas também as modificações que o ibérico fez no terreno à sua volta, e a adaptação que organismos exóticos tiveram que ter para sobreviverem a um meio ambiente ao qual não estavam acostumados. Estas relações entre o europeu e os organismos exóticos trazidos por ele, juntamente com os biomas do Rio Grande do Sul são foco do presente capítulo, mostrando, assim, a interação entre elementos nativos e exóticos.

  Ao longo do estudo foi analisado que organismos exóticos foram introduzidos no Rio Grande do Sul e que foram perceptíveis ao olhar dos viajantes. De maneira semelhante, foi abordado anteriormente as relações de “destruição” que o europeu causava nos locais onde passava. Porém, resta ainda uma questão a ser analisada: qual a relação das criações e plantações européias com a flora e fauna nativas? O relato dos viajantes do início do século

  XIX mostram tais relações entre os elementos europeus e os indígenas.

  Os gados (vacum e/ou cavalar), em especial, eram os seres exóticos que mais se tem relatos de suas relações com o meio ambiente da província. Nos arredores da Guarda de , Saint-Hilaire (2002) faz referência de que “são freqüentes as tropas de jumentos

  Quaraim

  selvagens” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 230). Não só os jumentos (Equus asinus L.) o naturalista observou naquelas paragens, mas também “imensa quantidade de cavalos selvagens” em que “a relva, pastada constantemente, não cresce nada” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 246). Estes jumentos e cavalos provavelmente seriam os principais geradores de um importante artigo comercial dos tropeiros nas regiões mais boreais do Brasil: a mula, que é um animal oriundo da cruza das duas espécies. Através do tropeirismo, o gado muar teve importância nas feiras de Sorocaba, passando cerca de trinta mil animais entre 1800 e 1826 (BARROSO, 2006). Por tais animais trazidos pelos europeus estarem utilizando os campos nativos como pastagens, a vegetação, não acostumada com este tipo de predação, começou a não crescer tão bem quanto antes, deixando lacunas para a proliferação de ervas já adaptadas duas vezes destruídas, durante a guerra, pelos gaúchos e eles não tiveram ainda a coragem de restabelecê-los pela terceira vez” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 247). Provavelmente os cavalos e jumentos fossem descendentes ou os próprios animais abandonados pelos portugueses naquela região. Sobre os cavalos da província, Dreys (1961) faz alguns comentários sobre sua origem, dizendo que pertenciam à raça dos Andaluzes que vieram com os primeiros conquistadores. A relação dos eqüinos, assim como dos bovinos com os campos pode ser entendido com a afirmação de Crosby (2002, p. 145):

  A usurpação da biota nativa do pampa já devia ter começado no fim do século XVI, quando animais da Europa chegaram, vicejaram e se propagaram em enormes rebanhos. Seus hábitos de alimentação, seus cascos atropeladores, seus excrementos e as sementes das plantas que carregavam com eles (...) alteraram para sempre o solo e a flora do pampa.

  Integrando-se aos campos sul-rio-grandenses, os eqüinos passaram a fazer parte da dieta de criaturas nativas, como as onças. Em seu relato às margens do Arroio Santana, o botânico francês escreve que seu companheiro “Matias veio dizer-nos que acabava de encontrar quatro tigres (...) que estavam comendo o melhor de meus cavalos” (SAINT- HILAIRE, 2002, p. 239). Mais adiante, o mesmo encontrou ossadas de cavalos comidos pelas onças e sua égua, nas nascentes do Arroio Guarapuitã, havia sido atacada por um destes felinos.

  Então, torna-se perceptível que não apenas o europeu e seus descendentes se adaptaram à natureza sul-rio-grandense, mas que a própria natureza da província também se adaptou às mudanças trazidas pelos ibéricos. Exemplo disso é o encontrado em São Luís, nas Missões, onde o naturalista aponta para a grande quantidade de morcegos habitando a igreja local. A construção serviu como meio de refúgio para criaturas nativas como morcegos, seja devido à derrubada de matas ou por encontrarem na igreja um novo tipo de moradia, mais segura e agradável. Em região relativamente próxima, na Estância de Santiago, novamente aparecem criaturas, mas dessa vez exóticas integradas à paisagem da província. Segundo o botânico, “as mulas encontram no sertão o melhor alimento” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 323) e na região do Rincão da Boca do Monte “grandes quantidade de bois e cavalos pastam aqui e acolá nos campos” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 332), assim como bandos de cavalos selvagens na Capela de Santa Maria.

  A interação de organismos exóticos trazidos pela colonização européia com os mudassem parte da configuração dos biomas da província. Segundo McNEELY et al. (2001, p. 6):

  Invasive alien species can transform the structure and species composition of ecosystems by repressing or excluding native species, either directly by out- competing them for resources or indirectly by changing the way nutrients are cycled 29 through the system.

  Como o colonizador, o gado também utilizou os recursos nativos, agindo, portanto, como um agente impactante do meio ambiente do Rio Grande do Sul, sendo, então, a forma indireta de o europeu causar interferência ambiental/paisagística na província. Além da interação de bois e cavalos pastando pelos campos próximos à vila de Cachoeira, plantas que não eram cultivadas pelos europeus, mas que provavelmente tenham sido trazidas por eles também ocupavam aquelas paragens. É o caso do joio (Lolium temulentum L. originária do Velho Mundo) e a aveia (Avena sativa L. também de origem do Velho Mundo) comum que eram “muito prejudiciais às plantações de trigo, nascendo em meio delas e sufocando-as” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 363). Plantas não utilizadas pelo colonizador poderiam ter vindo junto com sementes de trigo, por exemplo, brotando e espalhando por um novo território (CROSBY, 2002). A radiação de plantas exóticas teria se processado através das andanças do gado, sendo suas sementes presas em seus pêlos ou armazenadas em seus excrementos (CROSBY, 2002).

  Com o comércio tropeiro na Vacaria do Mar e o tropeirismo paulista, a situação da interiorização de organismos europeus talvez tenha se tornado mais intensa. Dessa vez não só bovinos, eqüinos e muares expandiam sua área de passagem junto com possíveis plantas “pega-pega”. Os humanos descendentes de europeus também aumentavam seu “território”, gerando núcleos populacionais em alguns de seus caminhos e derrubando matas para sua instalação e/ou passagem. Com a movimentação de gado rumo aos campos de cima da serra para comercializar nas feiras de Sorocaba, o tropeirismo pôde ter contribuído para a disseminação de espécies exóticas já adaptadas aos biomas da província, logo, interferindo na configuração paisagística. Segundo Dean (1996, p. 129):

  O gado era vulnerável a morcegos vampiros, moscardos e às larvas que invadiam as feridas que aqueles provocavam. Indiretamente, as moscas eram outra causa de invasão da floresta. Para escapar a elas, o gado e os cavalos habitualmente penetravam nas franjas da floresta, fazendo com os cascos suas próprias clareiras e transportando neles sementes de capim. O relato de bois e cavalos pastando é, até certo ponto, comum no discurso de Saint- Hilaire (2002), principalmente nos arredores de Viamão e Rio Grande, onde as plantações necessitavam ser cercadas para impedir o avanço do gado. Outra forma de proteção contra o avanço bovino era a construção de profundos fossos, conforme relatado pelo naturalista. A construção de fossos é prova evidente da mudança paisagística causada pelo europeu na província, e esta forma de proteção mostra o grau de devastação que uma manada poderia provocar, já que o gado ia seguindo as plantas em seus refúgios de umidade nas cabeceiras dos rios (DREYS, 1961).

  Ao pastar pelos campos nativos, o gado reduziria o pasto a pequenas alturas, como observado pelo botânico em Palmares. Segundo ele, nesta estância “as pastagens são rentes ao chão, o que sempre acontece perto das habitações, porque é principalmente o gado que aí pasta” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 52). De modo semelhante ele aponta para a redução das plantas nos arredores de Tramandaí, em que a “floração tardia é, muitas vezes, a conseqüência de mutilação devida aos animais, que comem a haste principal” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 16). Dreys (1961) também mostra o poderio do pisoteio do gado, ao abordar que

  dizem mesmo que a planície em que está edificada a cidade do Rio Grande foi a princípio agradável, rica de vegetação, coberta de árvores; mas que, no tempo da última invasão dos Espanhóis, chegaram estes acompanhados de tantos animais, e tanto tempo os conservaram no território para o serviço da tropa, que na retirada dela a vegetação circunvizinha se achou completamente arruinada. (DREYS, 1961, p. 74)

  A redução do tamanho das espécies dos campos poderia ter outra conseqüência além de unicamente a pastagem. O trânsito do gado teria sido outro fator importante na mudança paisagística, sendo que a mudança “da biota nativa do pampa já devia ter começado no fim do século XVI, quando animais da Europa chegaram” com “seus hábitos de alimentação, seus cascos atropeladores” (CROSBY, 2002, p. 145). Vendo o poderio do pisoteio vacum na estância de Médanas-Chico, próximo ao Taim, Saint-Hilaire (2002) expõe uma valiosa informação de que “outrora o lago não passava de um banhado; mas que o gado, à força de aí andar, cavou a terra, espalhando a água do lago” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 108).

  Além de interferência européia indireta com a ação do gado, os recursos hídricos foram diretamente impactados, como quando o botânico relata da existência de uma casa nas margens do canal de São Gonçalo, em que o morador havia desmatado a mata ciliar, drenado o terreno e feito lotes. Restolhos também eram depositados em margens de corpos d’água em se formarem nas margens de rios, já que necessitavam deles para “se lhes entregue geralmente a massa voluminosa dos intestinos, que são por ele levados ao mar onde se vão perder” (DREYS, 1961, p. 133).

  Os rios e as charqueadas tiveram uma íntima relação, principalmente por estas dependerem muito dos cursos d’água. Através deles, que o produto oriundo das charqueadas era transportado para ser comercializado, já que era um meio de transporte mais rápido e viável na época, além de possuir contato direto com o oceano para exportação. A produção de charque “

  determinava que as atividades econômicas se localizassem nos espaços litorâneos para

melhor operacionalizar suas atividades”, sendo a localização estratégica das charqueadas nos

arredores de Pelotas (ASSUMPđấO, 2006, p. 189). Conforme o relato de Dreys (1961), os rios

não apenas serviam como meio de transporte, mas como forma de se expulsar material indesejável

dos centros charqueadores, certamente reduzindo a qualidade limnica e afetando a população de

organismos que desses recursos dependiam.

  Sendo lugares de grandes abates de gado, as charqueadas foram foco de atração de aves que usufruíam dos restos de animais não utilizados pelo europeu. Luccock (1975), em sua visita a um destes lugares relata que “havia milhares de ‘urubus’, o abutre sul-americano, adejando em volta e comendo os restolhos” (LUCCOCK, 1975, p. 142). A relação das charqueadas com a avifauna parecia ser íntima, já que:

  (...) as aves são hóspedes benquistos das charqueadas; o maior desgosto que se pode causar a um charqueador é matar uma delas, o que às vezes acontece aos estrangeiros inadvertidos: e, com efeito, as charqueadas devem às aves a maior parte de sua sanidade; todos os dias o trabalho dos pássaros sucede, sem descanso ao trabalho dos homens; eles devoram os resíduos das carnes que, sem eles, se transformariam em foco de putrefação; limpam os ossos e preparam o esqueleto com toda a nitidez do mais curioso anatomista, enquanto que os entomófagos limpam o solo dos vermes que se geram da mistura do sangue e das partes moles inutilizadas. No inverno, quando nas charqueadas cessa o trabalho, o cuidado das aves, de que tratamos, dirige-se para os animais que morrem nos campos por falta de alimento (DREYS, 1961, p. 87).

  A morte de grande quantidade de bovinos, principal riqueza da província muitas vezes comentada por Dreys (1961), atraía não apenas aves, mas uma diversificada população de carnívoros. Luccock (1975) aponta para relatos de que cães selvagens e onças também limpavam a carne dos ossos nas charqueadas, ignorando-se ou desconhecendo que também outros seres não relatados como gambás e lagartos poderiam ter participado da limpeza dos ossos. Porém, aí paira uma dúvida de quem seriam os cães selvagens apontados pelo inglês. cães domésticos asselvajadas, como os descritos por Saint-Hilaire (2002) perto do Chuí, sendo eles evadidos das habitações.

  No Uruguai, Pintos (apud PONT, 1984, p. 557) menciona o seguinte dos cães chimarrões:

  De su multiplicación peligrosa da cuenta, una comunicación al virrey Pedro Melo de Portugal, por el comandante de Albín, quien en fecha de 19 de noviembre de 1796, informó que se habían matado ese dia unos 10.000 (...). Los perros traídos desde el viejo continente por los oficiales británicos, todos aficionados a la caza, la transmitieron a los perros criollos. Algunas de las estancias fueron rodeadas de estacadas con el objeto de preservalas de los perros cimarrones rabiosos que abundaron em los campos por muchos años, como lo documenta el Pe. Dámaso Larrañaga en su viaje a Paysandú en 1815.

  Os cães selvagens não eram apenas os únicos predadores a atacarem rebanhos. Luccock relata de uma pouca animação com a criação de rebanhos, pois além dos cães, as aves de rapina devoravam os indivíduos. Dreys (1961) também faz observação semelhante no alto da serra, em que a “multiplicação incômoda das aves de rapina que não deixam crescer os filhinhos dos quadrúpedes domésticos, mormente os cordeiros, a que dão a morte, arrancando- lhes os olhos” (DREYS, 1961, p. 69). Outro que aponta para tal utilização da cultura européia como meio de sustento por parte das aves é o naturalista francês, relatando que “mal as ovelhas dão cria, os urubus e carcarás se atiram sobre os indefesos animais, comendo-lhes os olhos, caso não sejam corajosamente defendido pelas mães” (SAINT-HILAIRE, 2002, p. 55).

  exceções filhotes fragilizados ou impossibilitados de se defender. Em um tempo bastante recente foram “perseguidas e envenenadas (...) por eventualmente atacarem cordeiros e bezerros recém-nascidos, especialmente na Campanha Gaúcha” (SIGRIST, 2009, p. 43). Já o carcará ou caracará (Caracara plancus Miller) é uma ave de rapina que habita “campos, savanas, pastos, plantações” sendo “oportunistas e generalistas” (SIGRIST, 2009, p. 56). Pelo hábito de tais animais, possivelmente eles realmente tenham se aproveitado de pequenas crias de gado ovinum, nova fonte de alimento proporcionada pelo europeu.

  Em sua adaptação a um ambiente desconhecido, o europeu adotou algumas plantas nativas e alguns costumes dos aborígenes, desenvolvendo a cultura miscigenada do sul-rio- grandense. Entre estes costumes está o hábito de tomar mate, oriundo das tradições guaranis. Por ser o mate uma bebida feita de ramos jovens de uma planta denominada erva-mate (Ilex

  paraguaiensis

  A. St.-Hil.), esta mesma foi cultivada em larga escala pelos jesuítas, sendo até mesmo exportada (KERN, 1982). Tal coisa não era, ao que se sabe, feita pelos guaranis. O plantio de Ilex paraguaiensis A. St.-Hil. não foi o único meio de domesticação (ou tentativa) de organismos aborígenes. Além das plantações de figueiras selvagens (provavelmente nativas, já que o termo selvagem, atualmente, pode se referir algo descendente de um ser domesticado que não precisa de cuidados humanos) nos arredores de Porto Alegre apontadas por Saint-Hilaire (2002), havia também a criação de emas “para que comam moscas e outros insetos, o que fazem com a mais perseverante e bem-sucedida das seriedades” (LUCCOCK, 1975, p. 156). A extração de ouro nas minas de Caçapava e Santa Maria, de acordo com Dreys (1961), também era sinal da interferência européia na paisagem do Rio Grande do Sul.

  Durante a colonização ibérica, o território que atualmente compõe o estado do Rio Grande do Sul sofreu de um impacto ambiental nunca sentindo antes. Através dos colonos europeus organismos exóticos se instalaram e se adaptaram às novas terras, concorrendo com organismos nativos e aos poucos se naturalizando sul-rio-grandenses.

  Desde as primeiras ocupações européias através da Companhia de Jesus no século

  XVII, o europeu desempenhou um papel crucial na mudança paisagística da mais tarde chamada Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, introduzindo elementos de sua agricultura e pecuária, sendo esta de especial enfoque, pois o gado vacum se proliferou de forma selvagem, tornando-se um agente europeu do impacto ambiental. Mesmo residindo em locais afastados, o impacto sofrido pelo meio ambiente sul-rio-grandense era sentido há quilômetros de distância através dos cavalos e vacas com seus cascos atropeladores, bem como através de plantas cujas sementes se propagavam e germinavam de forma espantosa. Tal sucesso adaptativo dos organismos trazidos pelos europeus pode ser constatado pela falta de predadores e bons recursos existentes na América, tornando-os agentes indiretos do impacto ambiental.

  Com a vinda de açorianos no século XVIII para legitimar a ocupação portuguesa, o ambiente do Rio Grande do Sul foi exposto novamente a condições das culturas européias. Com os açorianos, a plantação do trigo se tornou mais intensa e cidades começaram a crescer. Olarias, desmatamentos para dar lugar à lavoura e queimas de campos para as pastagens tornaram-se freqüentes. Aos poucos, o europeu conquistava espaços e integrava suas culturas

  Onde quer que fosse, o Homo sapiens modificava o meio ambiente como qualquer animal, mas, diferentemente da maioria das outras espécies, o impacto que ele causa em uma região é absurdamente maior. A presença européia no Rio Grande do Sul é um exemplo de como uma espécie pode transformar, mesmo sem querer, uma região. Saint-Hilaire (2002), Nicolau Dreys (1961) e John Luccock (1975) foram testemunhas de um processo de longa duração, um impacto ambiental causado tempos antes de todo o maquinário moderno. Seus relatos são preciosidades para perceber o poderio de transformação da humanidade e tirar do véu das sombras a assustadora homogeneidade da biodiversidade que o ato de disseminar uma cultura pode gerar.

  Como a cultura européia não imperou em detrimento das culturas africanas e indígenas, mas sim se misturou a elas no Rio Grande do Sul, formando toda uma gama de particularidades, o habitante dos pampas também herdou toda a miscigenação ocorrida durante o processo historio de ocupação humana do território. Mas, também da mesma forma que surgiram gente e cultura miscigenada, a natureza do Rio Grande do Sul seguiu o mesmo exemplo, como que embalada em uma sincronia para caracterizar um novo ambiente e novos tempos.

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ANEXO I – Mapa do Rio Grande do Sul com vegetação e povoamentos de 1809, região

das estâncias missioneiras e das Reduções do Tapes, rota dos tropeiros.

  

Mapa adaptado de Harnisch (1952), Flores (2003), Barroso (2006), RADAM (www.biodiversidade.rs.gov.br),

  ANEXO II – Tropeiro Paulista, 1827 Tropeiro Paulista, Charles Lanseer, 1827.

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