Juliana Maria Manfio DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA (NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX)

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(1)Juliana Maria Manfio DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA (NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX) Santa Maria, RS. 2013

(2) 2 Juliana Maria Manfio DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA (NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX) Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciada em História. Orientadora: Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim Santa Maria, RS. 2013

(3) 3 Juliana Maria Manfio DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA (NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX) Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciada em História. __________________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim- Orientadora (UNIFRA). __________________________________________________ Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter (UNIFRA). __________________________________________________ Prof. Dr. Jorge Luiz da Cunha (UFSM). Aprovado em 08 de Julho de 2013.

(4) 4 Aos meus pais, Magdalena e Sergio, Por embarcarem comigo nesta pesquisa.

(5) 5 AGRADECIMENTOS Agradeço aos meus pais Magdalena e Sérgio pela confiança e por viabilizarem as condições necessárias para que eu conseguisse efetuar a graduação. Agradeço minha irmã Kelli pelo apoio e carinho sempre. Vocês são parte desta pesquisa. A outra parte dessa pesquisa deve-se ao meu colega, amigo e companheiro Eduardo. Você também embarcou na minha pesquisa, trazendo os processos crimes em um momento que não tinha condições para ir buscá-las. Sem tua compreensão e apoio em momentos de dificuldades e desespero, jamais teria seguido em frente. Agradeço em especial ao Eric, que nos últimos meses faz parte dos meus dias, deixando-os mais lindo com seus sorrisos. Um muito obrigado ao meu filho, esse teu sorriso me encanta, me acalma, me emociona. À Mariane Cansian, pelo grande empurrão no início da graduação. Ela pode não lembrar, mas aquele incentivo foi primordial para eu ter me jogado na pesquisa. À professora Paula, pela confiança em toda a graduação, dando-me uma chance, sem me conhecer, desde o primeiro semestre.

(6) 6 RESUMO: A narrativa escrita pelo Padre Luiz Sponchiado sobre a trajetória do casal Stoch é o ponto de partida para investigar a construção do discurso do imigrante italiano produzido e por ele propagado em Nova Palma. Nesse sentido, o estudo tem por interesse entender a constituição do discurso do religioso alinhado ao da imigração italiana no RS e, assim identificar outras características da imigração na região. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre a temática proposta, fazendo uma relação com as fontes analisadas: a narrativa e os processos crimes. Com essa pesquisa, percebeu-se como a imagem do imigrante foi propagada pelo Padre Luiz Sponchiado na atualidade e que, através dos novos elementos encontrados em fontes, é possível apontar um imigrante diferente daquele conhecido na região. Palavras-chave: Imigração Italiana. Nova Palma. Narrativa. Discurso. Quarta Colônia. ABSTRACT The narrative written by priest Luiz Sponchiado on the trajectory of the couple Stoch is the starting point to investigate the construction of the discourse of Italian immigrant and produced by himself propagated in Nova Palma. In this sense, the study is of interest to understand the formation of the religious discourse aligned to the Italian immigration in RS and thus identify new characteristics of immigration in the region. For this, we conducted a literature review on the subject proposal, making a relationship with the sources analyzed: the narrative and criminal cases. With this research, it was realized as the image of the immigrant was propagated by religious nowadays and that through the new elements found in sources, it is possible to point to an immigrant different from that known in the region. Keywords: Italian immigration. Nova Palma. Narrative. Speech. Quarta Colônia.

(7) 7 LISTA DE ILUSTRAÇÕES: 1. Mapa da localização da Quarta Colônia de Imigração Italiana no RS........17 2. Monumento Stoch. Imagem registrada em 25 de dezembro de 2012...............41 3. Monumento Stoch. Detalhe da imagem descrita acima...................................42

(8) 8 Sumário LISTA DE ILUSTRAÇÕES: .................................................................................................................. 7 1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 9 2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO SUL DO BRASIL: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA ............................................................................................................... 12 2.1 PORQUE ESTUDAR A REGIÃO DA QUARTA COLÔNIA? .................................................... 17 3. UMA HISTÓRIA DE SANGUE: DOS CRIMES À NARRATIVA ............................................... 21 3.1 HISTÓRIA E NARRATIVA .......................................................................................................... 21 3.2 HISTÓRIA DE SANGUE E LÁGRIMAS DA COLONIZAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE.................................................................................................................... 24 3.3 É DE VOZ PÚBLICA: O QUE PODE TRAZER OS PROCESSOS CRIMES ............................... 34 4. UMA HISTÓRIA PARA UM MONUMENTO: ENTRE O PASSADO E O PRESENTE ............. 37 4.1 LEMBRANÇA E ESQUECIMENTO: INSTRUMENTOS DE CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE ......................................................................... 37 4.2 UM MONUMENTO, UMA HISTÓRIA: QUAL A SUA FINALIDADE? ................................... 40 5.CONSIDERAÇÕES FINAIS: ............................................................................................................ 45 6. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ............................................................................................. 47 7. FONTES:........................................................................................................................................... 50 8. ANEXOS: ......................................................................................................................................... 51

(9) 9 1. INTRODUÇÃO Poderia ser somente mais um daqueles encontros de famílias que costumam acontecer na região da Quarta Colônia. Porém, o grande público presente não era de descendentes da família Stoch, mas sim da comunidade de Linha Três1, local onde se realizou a festividade. A certeza dessa afirmação vem porque participei dessa festa, ocorrida no ano de 2002, quando tinha apenas 11 anos2. Nessa época, não imaginava cursar História, porém a narrativa contada pelo Padre Luiz Sponchiado sobre os Stoch causou certo impacto, bem como a todos aqueles que escutaram. Padre Luiz Sponchiado foi um religioso representante da Igreja Católica. Construiu ao longo de sua vida o Centro de Pesquisas Genealógicas, acervo referente à história da imigração italiana na Quarta Colônia. Esse acervo possui mais de 50 mil famílias catalogadas, com 1.634 sobrenomes registrados. Sua dedicação de mais de meio século de pesquisa e de registro dados e informações sobre os imigrantes e descendentes de italianos foi reconhecido através do prêmio Honra ao Mérito Cultural, recebido pelo Presidente da República, no período, Fernando Henrique Cardoso. A narrativa3 conta a história de imigrantes italianos, o casal Stoch, que se instalaram em Nova Palma no final do século XIX. Depois de alguns anos estabelecidos, o sonho do casal de fazer a América foi destruído por um crime. Maria e o filho caçula foram mortos brutalmente. O principal acusado foi Ângelo, o marido e o pai das vítimas. Segundo o manuscrito, Ângelo ficou retido na prisão até que outro crime ocorresse na localidade, provando assim sua inocência. O intuito inicial de investigação acadêmica foi tentar encontrar verdades na narrativa escrita pelo religioso – o ponto de partida. Assim, buscou-se saber se havia algum processo criminal4 sobre o que foi narrado pelo padre, que mais tarde se evidenciou uma trama em dois processos crimes. Inicialmente houve dificuldades na procura, acreditando-se na sua inexistência. O padre Luiz Sponchiado dava uma denominação às vítimas e acusados diferentemente daquelas encontradas mais tarde nos documentos judiciais. Isso ocasionou a demora no encontro dos processos crimes que só estiveram disponíveis em janeiro deste ano. 1 Comunidade rural pertencente ao município de Nova Palma, distante aproximadamente 9 km do centro urbano. Além de ser natural de Nova Palma, a minha família paterna pertence a essa comunidade. 3 A narrativa foi encontrada na Igreja de Santo Antonio, na localidade de Linha Três, em Nova Palma. 4 Os processos de acusação referentes a Antonio Stoch e a Juvêncio José Dos Santos foram encontrados no Arquivo público do Estado do Rio Grande do Sul. 2

(10) 10 Com tais fontes foi possível realizar uma análise, comparando-as e entendendo algumas características dos imigrantes que colonizaram a região. O tema central para essa pesquisa é entender a construção do discurso produzido por Sponchiado, alinhado a da imigração italiana no RS que foi propagado em comunidades colonizadas por imigrantes italianos em Nova Palma. A pesquisa é vinculada a História Cultural, pois aborda questões de interpretação da cultura de um determinado grupo étnico, período e espaço. Isso foi possível a partir de uma descrição densa dos documentos como forma de entender a teia construída por Padre Luiz Sponchiado sobre o discurso da imigração italiana na região da Quarta Colônia. Para a realização dessa pesquisa, a maior parte da discussão teórico-metodológica girou em torno da história da imigração italiana no RS: do que foi escrito; por quem foi documentado; o que foi abordado ao longo dos anos e como os discursos acerca da colonização construíram e constroem a figura do imigrante entre seus descendentes. Nesse sentido, foi realizada revisão bibliográfica relacionando-a com as fontes encontradas. Pensando nisso, esse estudo busca justificar-se inicialmente como uma obra de caráter revisionista sobre a historiografia tradicional, por apresentar um olhar diferente sobre temáticas e fontes diferenciadas ao tratar da imigração italiana. Por exemplo, a narrativa analisada neste trabalho foi escrita para explicar a saga do imigrante italiano que, sob uma visão histórica, acaba por transformar e trazer à historiografia da imigração outras características sobre esse grupo social. Além disso, são poucos os estudos com essa outra tendência historiográfica sobre a imigração italiana na região da Quarta Colônia5. Como todo o movimento imigratório no RS tem semelhanças, o processo ocorrido na região tem peculiaridades que o difere do restante do Estado, possuindo assim, características próprias que merecem ser trabalhadas. Ainda é válido ressaltar que o trabalho de pesquisa foi bastante instigante, pois abriu a possibilidade do contato com diferentes fontes, propondo diversas alternativas de estudos. A narrativa, quando escrita pelo padre Luiz Sponchiado, tem como objetivo enaltecer a saga da imigração italiana. Porém, quando analisada sob um olhar diferente, apresenta outras características sobre a imigração, complexificando ainda mais a historiografia da imigração italiana no RS. Assim, para uma melhor compreensão, o texto foi dividido em três capítulos: 1) a historiografia sobre a imigração italiana no Sul do Brasil: uma discussão necessária que 5 A Quarta Colônia compreende sete municípios da região central do RS: São João do Polêsine, Faxinal do Soturno, Nova Palma, Pinhal Grande, Silveira Martins, Ivorá, Dona Francisca.

(11) 11 aborda o debate da historiografia da imigração italiana no Estado, no qual se percebe uma divisão entre a tradicional e a recente; 2) Uma história de sangue: dos crimes à narrativa, no qual trabalha com a análise da narrativa e dos processos crimes com o intuito de encontrar elementos que caracterizam o discurso criado pelo padre sobre o imigrante e identificar novas particularidades do processo imigratório; 3) Uma história para um monumento: entre o passado e o presente, que busca compreender as motivações da construção de um monumento na localidade de Linha Três.

(12) 12 2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO SUL DO BRASIL: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA Em 1929, na França, os historiadores March Bloch e Lucien Febvre fundaram a chamada Escola dos Annales, que se instituiu como um movimento de renovação e revisão dentro da História. A constituição de uma Nova História, que problematiza o social, preocupou-se com as massas anônimas, mostrou-se contrária a historiografia factual, centrada nas ideias e decisões dos grandes homens, dos acontecimentos e nas batalhas (VAINFAS, 1997). O surgimento da História Social, como um dos leques da Nova História, passou a dar voz às minorias escondidas pela historiografia anterior aos Annales. Como nos coloca CASTRO (1997, p.48): “A história social em sentido restrito surgiria, assim, como abordagem que buscava formular problemas históricos específicos quanto ao comportamento e às relações entre os diversos grupos sociais”. Vale salientar que, apesar desta renovação da histografia, as mudanças não ocorreram de forma instantânea. A adaptação a essa nova tendência foi tardia em diversos locais, inclusive no Brasil, datando as décadas de 1960 e 1970. Os traços dessa demora são perceptíveis, por exemplo, no assunto que será abordado neste trabalho: a imigração italiana no Rio Grande do Sul. O tema “imigração” pode ser considerado universal, pois independe do período histórico que será abordado. A movimentação de pessoas de um lugar para outro é uma constante, quando de forma coletiva, por meio de redes familiares. O estudo desse processo se faz de duas formas: através das razões que causaram o êxodo e as maneiras de adaptação (WEBER, 2006). Pensando nas maneiras de adaptação dos grupos sociais, o presente estudo tem como principal foco a abordagem dos discursos produzidos por Padre Luiz Sponchiado acerca da imigração italiana na região da Quarta Colônia, abarcando novas características desse grupo social. Contudo, nem todo o processo de imigração resulta em colonização. Por exemplo: deslocamentos forçados e imigrantes em espaços urbanos não são reconhecidos como uma ação colonizadora. A colonização se define quando os habitantes que migram de um lugar para outro, ocupam determinado território e neste passam a transformá-lo segundo suas necessidades: com a construção de moradias, a abertura de estradas, o desenvolvimento de uma produção agrícola e/ou comércio (WEBER, 2006). Percebendo isso, o caso estudado é de um casal de imigrantes que, ao sair da Itália rumo ao Brasil, estabeleceu-se no RS, na região

(13) 13 da Quarta Colônia, vivendo por oito anos. Segundo a definição de WEBER (2006) sobre colonização, pode-se dizer que o casal Stoch foi colonizador? Essa questão será respondida ao longo dessa pesquisa. Com isso, ao investigar a historiografia, a primeira obra escrita sobre a temática de imigração italiana no Rio Grande do Sul foi o álbum comemorativo ao Cinquentenário da imigração no Estado, em 1925. Teve o financiamento do governo italiano de Benitto Mussolini6, que queria construir uma nova imagem de representação frente aos seus cidadãos. Além disso, no Rio Grande do Sul, o governo de Borges de Medeiros 7 também apoiou a publicação desse álbum como forma de valorizar os colonos e seu trabalho nessas terras, pois incentivava o estabelecimento de imigrantes (CONSTANTINO, 2011). Promoveu ainda melhorias: como à abertura de estradas, construção de escolas e ocupação de novas terras. Dessa forma, enraizado em um discurso positivista, o governo borgista promoveu a valorização dos imigrantes italianos. Complementa Constantino (2010, p.143): Desde que assumira o poder, usava como estratégia um elaborado e exaustivo discurso de valorização do imigrante italiano que, assim, acabou servindo de modelo, definido como indivíduo capaz de fácil assimilação, ordeiro e trabalhador. Imigrantes italianos acabaram personalizando o lema positivista: Ordem e Progresso. O estímulo de Borges de Medeiros coincidia com os valores dos imigrantes que, em geral, trabalhavam arduamente, poupavam e desejavam inserirse na sociedade rio-grandense. Pela primeira vez, há um escrito sobre a imigração italiana, no qual há exaltação, de forma individual, das figuras representativas dentro das colônias: o colono imigrante. Nesse sentido, o italiano Giuseppe Garibaldi, que lutou na Revolução Farroupilha8, acabou sendo eleito como herói emblemático da coletividade italiana. É importante salientar que, ambos os governos, tanto o italiano, como o sulino, apropriaram-se da figura de Garibaldi para construir a história dos italianos no Estado, bem como valorizar a imagem do imigrante (CONSTANTINO, 2011). Nesse sentido, outro herói enaltecido pela historiografia da colonização italiana é o imigrante que com muito sofrimento e luta, prosperou em terras estrangeiras. Essa forma de construção da escrita histórica lembra a utilizada antes das mudanças protagonizadas pelos Annales, dando voz aos grandes vultos dos tempos históricos, pois somente estes mereceriam destaque. Os setores dominados e marginalizados foram ocultados no decorrer da historiografia tradicional, igualmente os italianos que não obtiveram sucesso com a imigração. 6 Foi um dos fundadores do Partido Fascista e governou a Itália. Antônio Augusto Borges de Medeiros governou o Rio Grande do Sul por 25 anos, tomando posse em 1898 a 1928, com interrupção entre 1908 a 1913. 8 Revolta ocorrida no sul do Brasil, entre 1835 a 1845. 7

(14) 14 Então, ao escrever sobre essa temática, os autores preocupavam-se em ouvir relatos de imigrantes e descendentes, mas expor somente o que representa a concordância da maioria dos entrevistados (COSTA, 1974). Os relatos que destoassem eram esquecidos em nome da unanimidade. Pode-se pensar que seria um critério na busca da verdade: quanto mais recorrente, mais verídico; assim se construiu uma vertente da historiografia. Essa vertente historiográfica criou características próprias para o grupo social em estudo a partir de uma homogeneização de traços que identificariam os imigrantes. Os autores reconhecidos com essa abordagem são, na sua maioria, religiosos, descendentes de italianos e/ou memorialistas. Dentre estes, serão abordados os trabalhos de: De Boni (1996), Manfroi (1975), Costa (1974), Sponchiado (1996) E Sponchiado (1996.a). Estes escritores mostram-se interessados em promover e divulgar o discurso ligado à criação de uma identidade9 sobre o imigrante e isto, necessariamente associado à ideia de heroísmo no processo de colonização. A construção da imagem do imigrante por esta historiografia tradicional enfatizou o sofrimento, o heroísmo e as dificuldades que foram enfrentadas e superadas pelo colono e sua família, criando uma espécie de saga. Segundo Campbell (1990) o herói é aquele que realizou algo muito aquém a normalidade, por isso merece ser lembrado, pelo meio oral ou escrito. Além disso, sua heroicidade é colocada sempre em teste, como uma maneira de provar e comprovar se o pretendente a herói esta a altura do “posto” que sustenta. O imigrante herói também segue essa mesma lógica: o teste é o sucesso da colonização, comprovada através do sofrimento e da luta diária em construir uma vida melhor. O sucesso que englobou este processo de imigração valida à proposta de uma viagem sem volta, da Itália ao Brasil. Sponchiado (1996. a) nos apresenta essa proposição: Valera a pena imigrar. Ainda que as saudades da Patria Lontana esbraseassem o peito, enchesse os sonhos noturnos, fossem assunto obrigatório das conversas com os filhos que iam crescendo; outras vezes, já com os netos, que agora poderiam viver no seu, e, com a segurança que toda a propriedade proporciona (Luiz Sponchiado apud, 1996.a, p. 40). Outro ponto bastante salientado pela historiografia tradicional é o trabalho. Este faz do italiano o herói e, a partir das atividades que exerce, vai constituindo-se uma imagem do imigrante ligada à glória. O homem, junto à família, trabalhou duramente dia após dia para produzir, alimentar sua linhagem bem como, vender o excedente para pagar as dívidas contraídas com o governo brasileiro. Complementa Manfroi (1975, p.121): 9 Podemos identificar como identidade italiana, alguns elementos que os indivíduos de um grupo social étnico se identificam.

(15) 15 Pelo trabalho de sol-sol de toda a família. O imigrante italiano foi um trabalhador incansável, rude e persistente. É essa uma das qualidades, por toda reconhecida, do imigrante e que constituiu sua glória. Além disso, a harmonia familiar é outro destaque da historiografia tradicional. A ideia de união e solidariedade entre o casal, à educação transmitida aos filhos promoveu o bom imigrante. Valores comuns são passados de geração em geração, reforçando assim, a figura heroica do italiano através do seio familiar. Acrescenta Costa (1974, p.96): A educação familiar centra-se na vida em comum, na amizade, no entusiasmo. Os pais transmitiam aos filhos a vivência profunda da união, de colaboração, de doação e de sacrifícios. Percebeu-se então, as características que envolvem a dita historiografia tradicional da imigração italiana no RS. Ela vem enraizada nas escolas históricas anteriores a Escola dos Analles, na qual enalteceram a figura do imigrante, bem como do grupo familiar. Porém, essa historiografia passou por transformações com a influência da escola francesa que repercutem em novos objetos de estudo que vão complementando as lacunas deixadas pela primeira. Com isso, com a Nova História, tornou-se possível um novo olhar sobre esse grupo social, possibilitando uma abordagem diferente da imigração italiana no RS. O cotidiano das minorias antes comentadas de forma vaga, com a implementação de novas tendências historiográficas entre historiadores do RS, foi o que possibilitou complementar as lacunas antes deixadas pela “velha historiografia”. Os assuntos ligados à vida privada passaram a ocupar um lugar de relevo da nova historiografia, no qual foi ganhando novos temas de estudo da imigração italiana no RS, através de uma renovação a partir dos anos 2000, nos programas de pós-graduação das universidades. Mudou-se a forma de tratar o assunto do cotidiano dos imigrantes italianos, antes impregnado da moral restrita e dos preceitos religiosos na forma de abordar a vida privada dos colonos que venceram os desafios da imigração. Assim, durante a historiografia tradicional, muitos dos acontecimentos permaneceram ocultos. Acredita-se que as peculiaridades não foram esquecidas pelos autores da historiografia tradicional da imigração italiana no RS. Poderiam ter conhecimento de fatos isolados e contraditórios dentro da história da colonização, mas estas situações acabam deixadas de lado, pois não representam objetivos do que se propunha como história: a busca da experiência venturosa da travessia e adaptação. A ideia de insucesso na imigração não foi abordada pela historiografia tradicional, ganhando visibilidade com a historiografia recente. Afinal, a investigação proposta para essa pesquisa aponta que não foi um processo bem sucedido para todos os colonos que imigraram

(16) 16 para o Rio Grande do Sul. Muitos dos que chegaram, não prosperaram devido inúmeros motivos como: não haver terras disponíveis, não ser apto ao trabalho na terra, não ter recursos financeiros para investir, entre outros. Os autores HERÉDIA (2010) e MARCHIORI (2000) corroboram com essas proposições. Afirma MAESTRI (2010) que as bibliografias ignoram o real imigrante e ainda o transformam em um herói mitológico: Enfatizando ad nausean a disposição natural do colono ao sucesso, propondo-lhe fé e moral beatificantes, negou-se habitualmente a complexidade da história real ao ignorar e sufocar suas contradições, seus tropeços, seus fracassos, suas misérias e, portanto, suas grandezas. Para transformar o imigrante em espécie de herói mitológico, essas narrativas jamais abordam os imigrantes que fracassaram na experiência colonial, retornando a Itália, partindo para outras cidades, entregando-se ao alcoolismo, enlouquecendo etc (MAESTRI, 2010, p. 106). A transformação do imigrante italiano em um herói mitológico segue os preceitos de CAMPBELL (1990) que, “o protagonista é um herói ou uma heroína que descobriu ou realizou alguma coisa além do nível normal de realizações ou de experiência” (p. 137). Nesse sentido, a mutação sofrida pelo imigrante italiano quando chega ao RS, ao deparar-se com os inúmeros desafios da colonização, faz com que se criasse um discurso sobre o labor e a dedicação do colono à terra que o levou ao desenvolvimento do lote, ao pagamento das dívidas e ter condições melhores de vida. Mas somente serão heróis aqueles que, apesar de adversidades, conseguiram prosperar nos lotes financiados. Contudo, essa prosperidade não foi vivida por todos. Nem todos conseguiram fazer de suas terras produtivas, devido aos fatores de infertilidade do solo e/ou de não habilidade do colono a agricultura. Ou ainda, existem aqueles que, nem o lote de terra conseguiram. Segundo FAVARO (2006): Apesar do esforço de milhares de imigrantes e de seus descendentes em fazer da terra de adoção a concretização de um sonho, o sucesso material não atingiu a todos, embora o discurso ufanista inclua a totalidade. No processo, milhares foram excluídos (p. 317). O movimento imigratório que o sul do país vivenciou é único e, não se assemelha com o processo ocorrido em São Paulo. Os imigrantes que chegaram ao solo gaúcho eram destinados à colonização do território a partir do financiamento de lotes de terra. No sudeste, os italianos eram contratados para trabalhar nas fazendas de café, tendo em virtude a substituição da mão de obra escrava pela assalariada (CONSTANTINO, 2011). O outro ponto a ser mencionado são as duas vertentes historiográficas existentes, no qual aborda a história da imigração italiana no RS. A primeira dá voz aos imigrantes que obtiveram sucesso com a imigração, transformando-os em heróis da colonização. Com isso, construiu-se a imagem do imigrante italiano através de situações comuns entre esse grupo étnico. A segunda tem um

(17) 17 caráter revisionista, dando relevo a temáticas antes ocultadas pela historiografia tradicional. Os novos estudos trazem peculiaridades que preenchem algumas lacunas dentro do cenário imigratório no RS e possibilitam uma nova abordagem, contribuindo para o enriquecimento da historiografia da imigração italiana. 2.1 PORQUE ESTUDAR A REGIÃO DA QUARTA COLÔNIA? Nos últimos anos vem crescendo o número de publicações a respeito da imigração italiana no Rio Grande do Sul, sendo uma historiografia renovada que apresenta novas temáticas de abordagem. Isso se deve, principalmente, aos programas de pós-graduações de instituições de ensino superior no Estado. Porém, muito das divulgações privilegiam ainda a região da Serra Gaúcha, a qual formou as primeiras três10 colônias, esquecendo-se da quarta zona de imigração italiana, localizada na região central do Rio Grande do Sul. FIGURA 1: Mapa da localização da Quarta Colônia de Imigração Italiana no RS. Fonte: http://www.biodiversidade.rs.gov.br Apesar do crescente número de publicações dentro da área de História, há dificuldades iniciais no encontro de obras que contemplassem a imigração italiana na Quarta Colônia. Isso aconteceu porque nem todos os bancos de teses e dissertações das universidades do Estado disponibilizaram on line tais obras11, dificultando a procura e o acesso. Existem publicações 10 São as três primeiras colônias italianas no RS: Cond'Eu(Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Campo dos Bugres(atual Caxias do Sul). 11 Embora as adversidades, foram encontradas algumas obras de suma importância, como: a tese de doutorado de Moacir Bolzan, intitulada de “Quarta Colônia: da fragmentação a integração” e outra tese de doutorado em andamento, “A Memória da Quarta Colônia: Um Estudo Sobre o Centro de Pesquisas Genealógicas de Nova Palma - Rio Grande do Sul”, de Liriana Zanon Stefanello, ambas da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS); uma dissertação de Mestrado (2007) denominada de “Lá éramos servos, aqui somos senhores”: a organização dos imigrantes na ex-colônia Silveira Martins (1877-1914), e a tese de doutorado (2013), “Ares de vingança: redes sociais, honra familiar e práticas de justiça entre imigrantes italianos no sul do Brasil (18781910)”, ambas de Maíra Inês Vendrame, ambas da Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Além disso, nessa instituição foram encontradas obras de suma relevância, que levam ao encontro do

(18) 18 em outras pós-graduações, que se referem à imigração italiana na Quarta Colônia, porém poucas foram encontradas na área especifica de História. Ao investigar o processo imigratório na região da Quarta Colônia, percebeu-se que o processo ocorreu de maneira diferenciada: os imigrantes que passaram a chegar nessa região vinham de forma “espontânea”, pois no período que se constituiu a colônia Silveira Martins (1878), o Império Brasileiro decreta a suspensão dos benefícios da imigração (IOTTI, 2001). Mesmo com a interrupção do financiamento, o fluxo de imigrantes continua intenso, pois acreditavam que ainda receberiam as terras do governo. Como a Província sulina manteve a política de concessão de terras, muitos colonos ainda receberam lotes. Mas essa ação não se manteve por muito tempo: todos os lotes foram demarcados e distribuídos aos seus futuros donos (SPONCHIADO, 1996. a). Os imigrantes não paravam de chegar ao Núcleo de Silveira Martins, a maneira encontrada foi procurar terras aos arredores que pudessem ser desapropriadas ou até mesmo, compradas pelo Governo Rio-grandense para estabelecer esses imigrantes (SPONCHIADO, 1996.a). Essas terras aos arredores da sede colonial deram origem a pequenos núcleos, formando em tempos mais tarde os sete municípios da Quarta Colônia. Outro ponto de destaque quanto à pesquisa referente à Quarta Colônia é com relação ao objeto de estudo: uma narrativa escrita pelo padre Luiz Sponchiado. O manuscrito analisado menciona dois crimes ocorridos na região da Quarta Colônia, no núcleo Soturno. Ela é arquitetada através de depoimentos orais colhidos pelo Pe. Sponchiado, bem como por registros oficiais de paróquias e do Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul. O propósito de sua confecção está em reconstituir a trajetória de um casal de imigrantes que ao chegar ao núcleo teve sua vida destruída por um brutal crime. Por se tratar de uma descrição densa a partir dos documentos, traz peculiaridades relevantes para a nova historiografia da imigração italiana no RS, sinalizando a imigração no centro do Estado com características próprias. Uma das peculiaridades da região da Quarta Colônia para as outras três regiões de colonização italiana é a figura de Padre Luiz Sponchiado. Pode-se dizer que, o religioso foi um formador e um propagador da identidade italiana entre os descendentes, visto que perpetuou o discurso da saga migratória entre a população do quarto núcleo de imigração. assunto abordado esse trabalho: “História, sexualidade e crime: imigrantes e descendentes na (RCI) região colonial italiana do RS (1938-1958)”- tese de doutorado (2008), de Ismael Antônio Vaninni; “Prazeres velados e silêncios suspirados: sexualidade e contravenções na região colonial italiana (1920-1950)”- dissertação de Mestrado (2008), de Aline Karen Matté; “Imigração e poder: a palavra oficial sobre os imigrantes italianos no Rio Grande do Sul (1875-1914)” - tese de Doutorado (2003), de Luiza Horn Iotti.

(19) 19 Além do discurso, utilizou como recursos de propagação seus manuscritos, a construção de monumento e festas comemorativas. Com isso, construiu-se um cenário de identificação com a cultura italiana e a sua reafirmação entre os descendentes de imigrantes, mesmo com a morte do religioso, no ano 2010. Isso se tornou possível porque Sponchiado, durante 60 anos de sua vida, constituiu um importante acervo sobre imigração italiana, localizado em Nova Palma. O Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG) tornou-se referência internacional em pesquisa sobre essa temática, bem como, para os pedidos de dupla-cidadania. Por isso, o presente estudo se faz necessário para usufruir desse acervo, de seus documentos, como uma possibilidade de abrir ainda mais o campo do conhecimento para futuras pesquisas nessa localidade. As versões dessa narrativa trabalhada são encontradas nesse acervo, bem como parte documentação referente à reconstituição da trajetória do casal estudado. Vale salientar que, a imigração italiana na região da Quarta Colônia aconteceu em tempo, espaço e forma diferente, contendo aqui, peculiaridades próprias que a distingue de outras regiões. A criação, desde o início da colonização da Quarta Colônia, de um discurso sobre o colono italiano é carregada na cultura local. Além disso, ela tem sido reafirmada desde o período da imigração. A vinda de outros grupos étnicos anteriores aos italianos reforça mais ideia de que, somente o italiano adaptou-se a imigração, através de seu trabalho árduo, sua luta diária, com o auxílio da família e os vizinhos compatriotas. Isso é justificado porque, antes da chegada dos italianos, em 1877, a região de Silveira Martins havia recebido os imigrantes russo-alemães. Estes, não permaneceram por muito tempo, devido à forte seca e um inverno de enchentes que assolou o local, faltando alimentos e água, prejudicando as plantações e pela disseminação de doenças. Com a saída dos russos alemães, dita como uma imigração fracassada, também reforça a saga migratória italiana, pois logo foram introduzidos os italianos nessa região, não como uma solução ao insucesso da anterior, mas sim porque era uma prática no período, a colonização com indivíduos de nacionalidade italiana. Como acontecia em todo o RS, o núcleo Silveira Martins passou a receber os italianos a partir de 1878 e, logo no ano de 1882, obteve sua emancipação, tornando-se o 5º Distrito de Santa Maria (SPONCHIADO, 1996). Não se coloca a formação da Quarta Colônia como uma excepcionalidade, mas compreende-se que teve suas características que merecem ser exploradas para um melhor entendimento do processo de colonização no RS. Contudo, esse movimento se torna diferenciado das primeiras três outras colônias, quanto a tempo, espaço e desenvolvimento. Quanto ao tempo, a formação dos três primeiros estabelecimentos ocorreu a partir de 1875,

(20) 20 sendo a ocupação pelos italianos do quarto núcleo ocorreu depois de 1878. No caso, houve antecipação da introdução de imigrantes na região da serra gaúcha. Quanto ao espaço, os três primeiros núcleos estão próximos a capital da Província, onde havia um maior giro de mercadorias, capital e pessoas. A região da Quarta Colônia está mais afastada desse centro de circulação, sendo que, com a construção da via férrea, houve uma maior movimentação desse local. Quanto ao desenvolvimento, nas colônias da Serra, os colonos foram deixando de trabalhar na terra, no qual passaram a abrir pequenas oficinas e manufaturas. Estas foram evoluindo e transformando-se em indústrias. Com isso, a cidade de Caxias do Sul com um grande polo industrial. No núcleo de Silveira Martins, a circulação simples de mercadorias produzidos pelo trabalho familiar gerou um mercado interno. Assim, algumas atividades como as artesanais e comercias foram identificadas nessa zona de colonização que, ao longo do tempo, algumas foram desaparecendo (SAQUET, 2003). Dessa forma, percebe-se o quanto a imigração na região da Quarta Colônia tem características próprias, sendo um movimento diferenciado do que aconteceu na Serra Gaúcha. E o quanto esses elementos díspares são fundamentais para enriquecer o movimento imigratório do Rio Grande do Sul. Essa proposição será apresentada no próximo capítulo, com o estudo de uma narrativa redigida por Padre Luiz Sponchiado no qual, ao ser realizada uma comparação com processos crimes, será percebida elementos que caracterizam não somente o processo imigratório, mas também o discurso propagado pelo religioso sobre imigrante na região da Quarta Colônia.

(21) 21 3. UMA HISTÓRIA DE SANGUE12: DOS CRIMES À NARRATIVA 3.1 HISTÓRIA E NARRATIVA Havia a hipótese de que a história escrita, desde o período do Iluminismo, deveria ser uma narrativa de acontecimentos. Contudo, desde o início do século XIX, a historiografia parece que trouxe o acontecimento para o centro das atenções dos historiadores, ganhando outro impulso. Já no século XX, houve um ataque à história dos acontecimentos, assim chamada. A sugestão dada foi que, ao invés de o historiador narrar acontecimentos, deveria analisar as estruturas. Nesse sentido, os historiadores estruturais apontavam que a narrativa tradicional passa por cima de aspectos relevantes do passado, sendo incapaz de harmonizar desde a estrutura econômica e social até a vida privada dos indivíduos. Os defensores da narrativa sustentavam que a análise da estrutura é estática e, dessa forma, não-história (BURKE, 1992). Pensando nesse embate histórico entre a narrativa e a análise das estruturas, será construído o estudo desse trabalho. O padre Luiz Sponchiado, provavelmente sem conhecer essa briga histórica, narrou os acontecimentos entorno de uma família que residiu em uma localidade no interior do município de Nova Palma, no período da colonização italiana. Utilizou, sem conhecimento, a micro-narrativa como forma de abordar a história sobre as pessoas comuns no local onde elas viviam. Sem presenciar o que narrou, escreveu os acontecimentos de uma trajetória familiar que se desfaz em um crime brutal através de depoimentos de pessoas que ouviram falar do fato quando crianças, em um tom testemunhal. E ainda, o narrador aqui estudado fala com tal convicção dos fatos que parece que presenciou tudo o que está sendo apresentado no texto. A narrativa construída foi o meio que o padre utilizou para contar os acontecimentos do casal Stoch. Porém, o meio de divulgação se dá com o discurso. Assim, o aporte teórico necessário para entender como se propagou os fatos narrados do religioso foi buscado em Foucault (2011). Para o autor, um discurso quando investido pelo desejo para sua maior exaltação, carrega terríveis poderes. Assim, o trabalho que está sendo desenvolvido analisará as formas como esse manuscrito foi redigido pelo religioso, uma maneira de buscar dentro dele, os elementos que caracterizam o discurso produzido pelo padre sobre a imigração 12 Trecho que faz parte do título da narrativa escrita pelo Padre Luiz Sponchiado sobre os crimes estudados. O título da narrativa é: “Uma história de sangue na colonização italiana, no Núcleo Soturno da ex-colônia de Silveira Martins do Rio Grande do Sul”. Tal manuscrito está em anexos.

(22) 22 italiana em Nova Palma e na região da Quarta Colônia. Nesse sentido, de acordo com Carr (1996, p.52): Os fatos, mesmo se encontrados em documentos, ou não, ainda têm de ser processados pelo historiador antes que se possa fazer qualquer uso deles: o uso que se faz deles é, se me permitem colocar dessa forma, o processo do processamento. Com o processamento das informações encontradas na narrativa, não se quer fazer um julgamento do melhor método da escrita da história. A ideia é provar que, o passado é narrado a partir de um presente que carrega no discurso, uma série de intenções. Neste sentido, precisa-se saber sobre o que e quem o escreve, para que público esta escrita é destinado e, qual o conteúdo que ela traz. Dessa forma, o passado se mostra bem vivo no presente. Acrescenta Carr (1996, p.57): “O passado que o historiador estuda não é um passado morto mas um passo que, em algum sentido, está ainda vivo no presente”. Daí usou-se o termo narrativa, sobre o que aconteceu como uma versão possível e plausível dentro do método histórico. Não o faz no singular porque não se entende que se está diante da verdade singular dos fatos. O enunciador do texto, Padre Luiz Sponchiado destinou parte de sua vida a pesquisa sobre a movimentação dos imigrantes italianos na região da Quarta Colônia. Seu trabalho gerou um acervo valiosíssimo – o Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG) – que contém diferenciadas fontes de pesquisa sobre a temática. Entre os documentos disponíveis no acervo encontram-se os manuscritos, fotografias, recortes de jornais, certidões, fitas de vídeo, entre outros, incluindo o material empregado para a construção do texto sobre a história da família Stoch. O interesse em narrar à história do casal partiu do próprio religioso, informação essa confirmada ao revirar os documentos da caixa da família13 Stoch. O intuito foi relatar a saga migratória de famílias italianas à pequena comunidade de Linha Três, no interior de Nova Palma. Para tal, iniciou as investigações sobre o caso referido em 1964, quando visitou o local onde ocorreu o crime. Em 1973, o religioso desloca-se a Cruz Alta14 e a Passo Fundo15, onde residem os descendentes dos Stoch para colher informações sobre a família, que foram acrescentadas ao relatório que o mesmo havia produzido. As pesquisas tiveram uma parada, da qual foi retomada nos anos noventa. No início dos anos dois mil, o projeto foi concluído da seguinte maneira: uma narrativa foi escrita para contar a história do casal, um monumento foi 13 São caixas que contém documentos dos mais diversos tipos sobre os sobrenomes de descendência italiana, sistema de guarda estabelecido pelo pároco. O acervo disponibiliza mais de 800 caixas de família. No caso, a caixa utilizada é a da família Stoch. 14 Cidade pertencente ao Estado do Rio Grande do Sul. 15 Cidade pertencente ao Estado do Rio Grande do Sul.

(23) 23 construído para homenagear as famílias italianas e a saga da imigração e uma missa campal foi celebrada como forma de marcar na memória local o acontecido (CAIXA DE FAMÍLIA STOCH). O religioso, ao escrever a narrativa, utilizou dados oficiais, não oficiais e também emitiu julgamentos morais sem critérios científicos que são acrescentadas na história narrada. Ele foi um pesquisador que, na verdade, produziu um romance sobre a família Stoch. Já o historiador que tem um compromisso social, agregando as fontes oficiais e não oficiais, porém tenta manter um controle deliberado na utilização das informações adicionadas na escrita. Com isso, aqui o trabalho do historiador se torna relevante ao analisar uma fonte diferenciada como uma narrativa. A ele compete aproximar os acontecimentos, como uma maneira de (re)familiarizá-los para si e para eventuais leitores (ELMIR, 2004). O historiador consulta inúmeros acervos, codifica textos, leituras e imagens que são deixadas ao longo do tempo pelas gerações (ALBUQUERQUE, 2007). Sendo assim, para esse estudo, foram utilizadas as seguintes fontes: a narrativa escrita pelo religioso Padre Luiz Sponchiado e os processos de acusação de Antônio Stoch e Juvêncio José dos Santos. A narrativa foi primeira fonte que se teve acesso, conhecendo o caso e interessando-se em estudá-lo. O manuscrito envolve a pessoa que o lê montando o cenário dos crimes, tentando constituir imagens de cada fato acontecido. Com um olhar histórico, pode-se perceber que além de uma rica narrativa que aborda a vida de imigrantes italianos na saga migratória, vê-se um discurso construindo um imigrante e afirmando suas particularidades que encontra eco nos dias atuais. Segundo Geertz (1989), compreender o comportamento humano é entender as representações e a ação simbólica dos indivíduos nas sociedades no qual pertencem. Como se usa uma fatalidade para enaltecer ainda mais a figura do imigrante, o sofrimento e a coragem, indo além do acontecimento. Percebem-se aí indícios de traços ainda invisíveis ou ocultados que podem ajudar nos estudos migratórios no RS. As outras fontes utilizadas nessa pesquisa foram os processos crimes. O uso desse tipo de documentação oficial teve o objetivo de promover uma comparação com a narrativa escrita pelo religioso, fazendo assim uma equiparação com os documentos. Outros trabalhos referidos nesta pesquisa também usufruíram desse tipo de documentação, como por exemplo, Matté (2008) e Elmir (2004). Porém, houve certa dificuldade em encontrar as fontes, devido à confusão de datas e nomes descritos pelo Padre na narrativa – situação que quase inviabilizou o encontro de documentos oficiais, no caso, os processos crimes dos dois casos estudados. É provável que nem o próprio religioso tenha tido o contato com esses documentos. Por isso ele acreditava que não existiam. Essas trocas de nomes e datas deve-se a memória e aos

(24) 24 depoimentos orais coletados, pois se sabe que memória não é apenas lembrar, mas esquecer de fatos, bem como, fazer confusão com as informações do passado (TEDESCO, 2004). A seguir, serão expostos os trabalhos do religioso sob a análise histórica. O primeiro, na construção de uma narrativa para reafirmação da identidade dos moradores da comunidade. O segundo, sob um olhar histórico, faz uma análise sobre o manuscrito, no qual apontará traços que caracterizam os imigrantes italianos em Nova Palma. Em concomitância, será realizado o entrelaço da história do casal com a historiografia da imigração no RS. 3.2 HISTÓRIA DE SANGUE E LÁGRIMAS DA COLONIZAÇÃO16: A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE A ideia de manter a chama da imigração acesa da figura do imigrante italiano que colonizou a região parece ser a base das intenções para que Padre Luiz Sponchiado se empenhasse na pesquisa que culminou na elaboração de uma narrativa enaltecedora sobre a história de um casal imigrante. Como o intuito de fazer a comunidade de Linha Três lembrar e esquecer acontecimentos que envolvem a saga da colonização. Nesse sentido, o manuscrito narra os acontecimentos e o discurso torna-se o meio de propagação desta narrativa. Segundo Foucault (2011), em todas as sociedades, a produção dos discursos é caracterizado pelo poder da palavra e os eventuais perigos decorrentes dela. Com isso, o poder que a palavra tem para estabelecer a lembrança e/ou esquecimento entre os indivíduos sobre a colonização. Além disso, o manuscrito promove uma sensibilização entre os moradores da localidade, como forma reforçar a identidade de seus ancestrais. Assim, para interpretar uma série de informações trazidas no manuscrito, se encontrou apoio no paradigma indiciário de Ginzburg (2003). Ao avaliar a narrativa foi necessário examinar os pormenores mais negligenciáveis para descobrir as características da imigração italiana. Com isso, o papel do historiador se faz necessário, pois ele é capaz de ler pistas ocultas e, através disso, encontrar indícios que não são perceptíveis à maioria que lê a narrativa do religioso. Como forma de entender a construção do discurso produzido pelo padre sobre a imigração italiana, foi utilizado Geertz (1989) com a descrição densa dos documentos. Ela funciona quando o objeto carrega inúmeros dados significativos, no qual a densidade necessita de interpretações. Tal descrição, por ser densa, possui características que são 16 Trecho da narrativa do padre Luiz sobre os Stoch.

(25) 25 peculiares. A descrição densa interpreta ainda o discurso, este carregado de significações, como forma de perpetuá-lo e/ou transformá-lo. Nesse sentido, ao analisar a narrativa, se lê cada termo e frase com o intuito de encontrar indícios que levam a novas características do processo migratório, tendo como base o paradigma indiciário de Ginzburg (2003) e a descrição densa de Geertz (1989). Assim, primeiramente será avaliado o título da mesma. O padre intitula a narrativa da seguinte maneira: Uma historia de sangue na colonização italiana, no núcleo Soturno da ex-colônia de Silveira Martins do Rio Grande do Sul. A história de Sangue na colonização italiana referese às mortes narradas pelo religioso, os assassinatos das imigrantes italianas Maria Stoch 17 e Maria Vedovato18. Destaca-se o uso da palavra sangue para dois momentos, reforçando o aspecto trágico que seria exposto na sequência. O restante do título refere-se ao espaço no qual constituiu a narrativa: no núcleo Soturno, local dos crimes; da ex-colônia de Silveira Martins, o núcleo que pertencia à colônia; do Rio Grande do Sul, território no qual o casal estabeleceu-se e que ocorreram os crimes tratados. Por mais simples que seja a intitulação da narrativa, percebe-se desde aqui o apelo do religioso, com a figura do imigrante. Encontra-se na narrativa, os elementos do discurso sobre o processo imigratório. Isso será perceptível durante toda a escrita. Complementa Foucault (2011, p.8): “por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”. O padre iniciou a narrativa trabalhando de forma breve com a questão da imigração italiana, elencando os fatores que atraiam os imigrantes ao Brasil, bem como, os fatores de repulsão da Itália. Desenvolve a ideia da imigração espontânea, ocorrido após o cancelamento de benefícios da mesma pelo governo federal. Depois de apresentar o cenário que envolveu os imigrantes do período, apresentou as personagens de sua trama: Ângelo Antônio e Maria Stoch. Em 1889, o casal teria resolvido imigrar para o Brasil, logo após ter se unido em matrimônio. É plausível o padre ter alegado essa informação devido de o casal ainda não ter filhos. Já sobre as motivações da imigração o padre deixa subentendido, porque é provável que ele não as soubesse, pois não teve contato com o casal para saber os motivos que os fizeram imigrar. A narrativa deixa espaço para supor que, ou o casal teria recebido o convite de amigos, ou teria simplesmente decidido imigrar. Acredita-se que o casal enfrentasse 17 Maria Stoch foi a vítima do primeiro crime narrado pelo padre Luiz Sponchiado. Ele se refere a ela como Maria Stella Stoch. 18 Maria Vedovato foi vítima do segundo crime narrado por Padre Luiz Sponchiado. Ele se refere a ela como Maria, porém no processo crime, é denominada de Luiza Vedovato.

(26) 26 dificuldades em território italiano, igualmente a outros compatriotas que decidiram pela imigração. Então, como comenta Hérédia (2010, p.215), os italianos viam a imigração como meio de fazer fortuna e ter acesso a terra; representava estabilidade econômica, uma vez que a terra sempre foi um elemento promotor de mobilidade social. Seguindo a narrativa, em um parágrafo abaixo, logo o religioso atribuiu o provável convite a parentes já estabelecidos, na Colônia Silveira Martins, no Rio Grande do Sul. Tamanha é a incerteza dos motivos que fizeram com que o casal imigrasse que o narrador apresenta três deles e ainda, ficando mais clara na expressão “Seja como for” da sequência a narrativa. Em fevereiro, o casal que havia chegado a Porto Alegre no início do ano de 188919, segue para a Quarta Colônia20. Os imigrantes seguiam até Rio Pardo de barca e o restante do trajeto até o núcleo era feito em carretas (SPONCHIADO, 1996). Nesse período, a maioria dos imigrantes realizava desta maneira a trajetória ao quarto núcleo. A partir de 1888, o imigrante que chegasse ao quarto estabelecimento era direcionado para outro novo núcleo em Jaguari. Os motivos para esse redirecionamento de imigrantes devem-se ao fato de não existir mais lotes disponíveis na colônia Silveira Martins, com a formação de um novo núcleo, houve disponibilidade de terras para colonização. Segundo Marchiori (2000), Ângelo e Maria Stella Stoch teriam entrado e estabelecido na Colônia Jaguari em agosto de 1889, mas logo a família abandonou o núcleo igualmente a outros imigrantes que se estabeleceram nessa colônia. A falta de financiamento do governo aos imigrantes no estabelecimento dos lotes pode ter sido um fator decisivo para o abandono da terra, um ponto não abordado pelo religioso. Além dos Stoch, muitas outras famílias abandonaram a região. Vale mencionar que a historiografia tradicional não trabalha frequentemente com os imigrantes que não receberam o financiamento do governo, bem como, em consequência disso, com os mesmos imigrantes que abandonaram os lotes de terra. Os colonos necessitavam de recursos para desenvolver o lote de terra, como também, para manter a si e a família. Com isso, os primeiros imigrantes do novo núcleo Jaguari21 não receberam itens como “casa provisória, ferramentas e sementes”. Ressalta Marchiori (2000, p.17): 19 Em 15 de novembro de 1889, o Brasil vive o período de transição entre o fim do Império e o início de uma nova política, a República. 20 Essa informação foi colhida em manuscritos do religioso e não consta nessa narrativa estudada. 21 Neste núcleo vieram imigrantes de várias etnias, tais como alemães, polacos e italianos. Também, os primeiros imigrantes a receberem os recursos, datado de 1890.

(27) 27 Cabe observar que não constam, para os primeiros imigrantes, empréstimos relativos aos itens “casa provisória” e “ferramentas e sementes”. O primeiro imigrante a receber empréstimo para a compra de ferramentas e sementes foi Wilhelm Kauffmann (n. 1056, AS 290), no valor de 45$000. Josef Hertwing, integrante da mesma leva (n. 1057), foi o primeiro a receber empréstimo para “casa provisória”, no valor de 150$000. Antes desta data, raros foram os empréstimos a imigrantes, salientando-se, neste caso, o concedido a família de Nicolau Steibel, primeiro imigrante registrado na Colônia, que recebeu o valor de 202$900, para “estabelecer um moinho”. As leis da colonização e imigração no Brasil e na Província sulina são importantes para se ter entendimento dessa mobilidade. Elas justificariam muitas das ações e medidas adotadas com os indivíduos, bem como teria uma compreensão melhor do processo migratório. Nesse sentido, salienta-se o Decreto N.7570 de 20 de Dezembro de 1879, que suspendia provisoriamente com os favores e financiamentos para a imigração (IOTTI, 2001). Então, o governo não teria a obrigação de ceder benefícios com os imigrantes que vinham depois da suspensão do decreto e, por isso, os primeiros imigrantes que chegaram ao núcleo Jaguari, como Ângelo e Maria Stella Stoch não teriam recebido os benefícios por meio desse decreto suspensório. Com isso, é provável que sem os recursos da imigração, o casal teria retornado a Colônia de Silveira Martins, no núcleo Seis Norte. O estabelecimento do casal nesse núcleo é a única convicção que o padre tem sobre o casal. Segue um trecho do manuscrito: “Seja como for, o certo é que, no final de 1889 (Proclamação da República) ou início de 1890, o casal Ângelo e Maria Stella Stochi22, se encontravam, na Linha Seis Norte de Silveira Martins”. Nesse local havia um barracão23 para a instalação dos colonos que chegavam, porque no núcleo Jaguari, “a ausência de um barracão para abrigo dos imigrantes recomendava o imediato encaminhamento dos mesmos para os respectivos lotes” (MARCHIORI, 2000, p.16). A circulação e o estabelecimento do casal da colônia Silveira Martins são confirmados pelo religioso na narrativa através dos batizados dos filhos do casal, que passam a nascer em solo brasileiro. Para essa informação, provavelmente o religioso tenha usufruído dos registros paroquiais, pois dá precisão nas datas e nos padrinhos das crianças. Segue os trechos da narrativa: 22 O padre Luiz utiliza a grafia do nome Stoch de duas formas, tanto Stochi quanto Stoch. Estalagem precária que abrigava os primeiros imigrantes italianos, antes do recebimento dos lotes de terra. Este local, a alimentação era limitada, a assistência médica praticamente era inexistente. Surtos epidêmicos mataram inúmeros imigrantes dentro dos barracões, nas colônias do RS (Sponchiado, 1996. a). 23

(28) 28 - Aí nasce o filho primogênito do casal, JOÃO ANTÔNIO STOCHI, precisamente à 03/03/1890, que batizaram à 03/04/19891, servindo-lhe de padrinhos Francisco Sandri e Augusta Ateniér e sendo celebrante Don Antônio Sório, sacerdote pecular de Verona, então Pároco de Silveira Martins. - Em 17/07/1891, na mesma localidade, nasce o segundo gênito, que cognominaram ADÃO, devido ao padrinho, Adamo Vieira e sua esposa Eva. Isto à 27/07/1891. O pequenino porém pouco viveu, por quanto à 09/09/1891, morria na Linha Seis Norte e foi enterrado, segundo consta no livro de óbitos número 1, de Silveira Martins, nas folhas 52 e número de ordem 168 no cemitério da Linha Seis Norte. [...] - O vazio deixado no lar pela morte, pouco durou. Foi preenchido com o nascimento de GERONIMO STOCHI, acontecera à 22/07/1892, que foi levado, 4 dias após, à 26 do mesmo mês e ano, a pia batismal, pelos padrinhos Diogo e Ema Tognotti, que eram negociantes24 no povoado de Silveira Martins. O religioso, ao longo da narrativa que ele próprio produziu, fez questionamentos acerca do deslocamento e de ações realizadas pela família Stoch. Isso foi percebido desde o início e vai se encaminhando e se estendendo no texto. Essa situação é perceptível em mais um trecho da narrativa, quando o padre indaga o deslocamento da Colônia Seis Norte para o Núcleo Soturno: Após o nascimento, deste terceiro filho (pouco antes ou já no inicio da famigerada revolução de 1893), a família Stochi, vem morar nas terras e no terreiro das casas do cunhado Antônio Valeri e Domênica Pellegrin no lote 122 da Linha Três do Soturno (hoje Nova Palma). O que houve? ... Mais uma vez, o padre fez um questionamento a respeito dos Stoch’s: o que teria acontecido para que eles se deslocassem até o núcleo Soturno? O que se sabe é que, a família crescia com o nascimento das crianças e era preciso instalar-se em uma residência. Não possuindo casa para estabelecer os familiares, ferramentas e sementes para desenvolver um lote, o casal decidiu morar em terras de parentes no núcleo Soturno. É interessante fazer menção sobre a movimentação do casal dentro da região central do RS: primeiramente chegaram à Colônia Silveira Martins, sede da Quarta Colônia. Por não haver terras disponíveis para a colonização, foram direcionados a um novo núcleo, em Jaguari. O local não tinha barracão, sendo recomendado o imediato encaminhamento dos novos imigrantes que ingressavam na região aos lotes recém-medidos (MARCHIORI, 2000). Sem os benefícios do governo para o estabelecimento nos lotes, o casal abandonou a terra concedida, retornando ao núcleo Seis Norte em Silveira Martins, onde existia um barracão. Depois de passarem algum tempo nesse lugar, no qual, nasceram três filhos, o casal decidiu morar em terras de parentes. Mais uma vez, o casal deslocou-se: de Silveira Martins para o núcleo Soturno, local onde aconteceu a tragédia com a família. Percebeu-se então a movimentação do casal dentro da região central do Estado sulino: fatores como a falta de lotes 24 Os italianos residentes na Colônia Silveira Martins não eram apenas agricultores e sim, imigrantes com outras profissões, como, por exemplo, negociantes.

(29) 29 e a suspensão dos benefícios da imigração, levando muitos colonos ao abandono de lotes de terras foram decisivos para a circulação de imigrantes dentro das colônias. Sendo assim, uma característica da imigração na região da Quarta Colônia. O religioso afirmou que o casal não vivia em harmonia, possuindo desavenças. Mas não detalhou os tipos de desavenças. Estaria ele ocultando os tipos de discórdias entre o casal, ou realmente ele não sabia o que acontecia? Além isso, deixou subentendido que Ângelo estaria trabalhando na estrada de ferro, questionando se seria por necessidade de sustentar a família, ou ainda se ele arranjado um motivo para viver afastado da esposa. Produziu ainda um discurso moralizante acerca dos desentendimentos vividos entre Ângelo e Maria Stoch. Segundo trecho da narrativa: O casal tinha entre si, sérias desavenças. Não se davam, Ângelo afastava-se por longos tempos de casa, para trabalhar na estrada de ferro, que então estendia seus trilhos em direção à fronteira, além de Santa Maria. Necessidades da vida? ... Ou maneira “justificada” de abandonar a casa, onde não se sentia bem com a esposa... Ambas as coisas, por certo que em desavenças de casa, ninguém tem razão e ambos tem culpa, “Se um não quer, dois não brigam”, diz judicioso adágio popular. Ao ler o trecho, percebeu-se que, para Sponchiado, Ângelo poderia não se sentir bem com a esposa e por isso a abandonava para trabalhar na estrada de ferro. Porém, o que se sabe é que era comum que os imigrantes trabalhassem para o Estado como forma de arrecadar dinheiro enquanto o lote ainda não produzia o suficiente para sustentar a família (SPONCHIADO, 1996. a). Além disso, percebeu-se aqui o indício de outra característica dos imigrantes da região da Quarta Colônia: desarmonia entre os casais imigrantes. No núcleo Soturno, na localidade de Linha Três, se estabelece a família Stoch. Morando em uma residência de aluguel de parentes ali estabelecidos, nasceram o quarto e o quinto filho do casal, como fica esclarecido na narrativa. O quarto filho foi chamado de Beneveduto e o quinto25 não se soube o nome - não chegou a ser batizado26 pois foi assassinado antes, segundo a narrativa do Padre. Porém, no processo de acusação de Antonio Stoch, o bebê foi identificado como um menino de nome Guilherme27. 25 O quinto filho de Maria Stoch era um menino, segundo o processo crime. Porém, na narrativa, Padre Luiz Sponchiado, em inúmeros momentos referiu como uma menina. 26 Nesse período, somente Vale Vêneto e Silveira Martins tinham padres. E eles acompanham todos os núcleos da Colônia Silveira Martins. Devido à precariedade das estradas e as dificuldades de locomoção, bem como, de atender a demanda de fieis, as idas desses padres aos núcleos aconteciam de poucas vezes ao ano, por isso, muitas crianças não foram batizadas, como no caso do quinto filho do casal Stoch. 27 Antônio Stoch. Processo-crime, Júlio de Castilhos, cível e crime, nº 1005, maço 34, 1897, Arquivo público do Estado do Rio Grande do Sul.

(30) 30 O texto ganha aspectos dramáticos ao constituir o cenário do crime que envolvem as personagens. Logo, um pequeno trecho da narrativa escrita pelo religioso, ensaia os primeiros momentos antes do crime: Maria Stella Stochi, um domingo de tarde, provavelmente 08/08/1896, deixando os filhos com a cunhada Domênica e tomando consigo o bebê de peito, como boa vizinha, subiu para visitar a enferma 28. Ao analisar o processo crime, essa situação não é mencionada. Porém, quanto à data do crime, o documento judicial apresenta como dia 06 de janeiro de 189729. De forma literária, o padre narrou a trajetória da família e criou o cenário do crime. A ideia de criação parte do pressuposto que, o padre como narrador não vivenciou ou presenciou esse acontecimento, bem como não conviveu com as pessoas que estão envolvidas no caso. O segundo motivo deve-se as partes envolvidas encontrarem-se mortas, sendo assim dificilmente teriam deixado algum registro do ocorrido. Terceiro porque o processo crime não traz a situação que foi narrada pelo padre. Contudo, a arte pelo qual foi escrito o texto fascina o leitor e o faz acreditar que o crime aconteceu exatamente daquela maneira, buscando garantir uma profunda comoção e identificação com a mulher, que era “boa vizinha”. A narrativa apresenta um narrador onisciente, tendo a capacidade de saber tudo o que estava acontecendo no momento do crime, mesmo não estando presente (ELMIR, 2004). Isso aconteceu por que parece existir uma testemunha que presenciou o fato, descrevendo a cena com detalhes, apresentando o horror vivido pelas vítimas, como o episódio em que Maria Stella e o filho foram surpreendidos por um homem denominado Lúcio José dos Santos: Alcançou-a na vereda sombria das florestas, junto ao lote 144. Sádico inveterado, com ameaças e desaforos, obrigou-a a satisfazer seus instintos bestiais que, devido a sua perversão sexual, tinha satisfação com judiaria de sangue. - Deixou prostada de tal maneira e com tanta equimoses, que achou melhor matá-la de vez, grossas pedras, ferros abundantes no local, liquidaram-na. Foi então que o bárbaro se deu conta, pelo choro da criança que fora atirada aí, pelo chão. – Temendo que o choro o traísse, procurou sossegá-lo, decepando do cadáver da mãe o peito, que colocou na boca inútil. Daquela posta de carne porém não escorria leite, e o inocente também foi linchado a pedradas. Na narrativa, apesar as especulações acerca de Ângelo ter cometido o crime, tendo sido ele acusado e preso como assassino, o padre atribuiu o crime a outro homem, Lúcio José dos Santos, que anos mais tarde, teria assassinado de forma parecida uma moça de 14 anos. O processo30 acusou o marido da vítima como assassino e em nenhum momento apresenta outro suspeito. Sendo assim, todo o horror relatado acima, nada consta no processo crime. Segundo 28 A enferma era uma vizinha. 29 Antônio Stoch. Op cit. Antônio Stoch. Op cit. 30

(31) 31 o processo crime, a morte de uma das vítimas ocorreu através de pedradas, mas não teria acontecido a violência sexual, nem mesmo decepado o seio da mulher. Quanto à morte da criança, não foi a pedradas, como retrata a narrativa, mas sim, segundo o processo, através de estrangulamento. Ambos os documentos, não conseguem estabelecer a verdade sobre os fatos ocorridos no dia do crime. Nesse sentido, buscou-se inspiração na obra de Cláudio Pereira Elmir que trabalhou em sua tese de doutorado com os discursos que envolveram os crimes do arvoredo, ocorrido em Porto Alegre, nos anos de 1863 a 1864. Muitas narrativas foram escritas sobre o caso do açougueiro que produzia linguiça com carne humana, sendo que teria sido consumida pela alta sociedade porto alegrense. Mas nada foi comprovado judicialmente, somente as mortes. As histórias foram criadas como forma de gerar uma verdade absoluta sobre o caso, de tornar cada versão mais real e verídica que a outra. Além disso, os textos analisados pelo autor também possuem um narrador onisciente, aquele que sabe de tudo, mesmo não presenciando o acontecimento, igual à narrativa estudada nesse trabalho. Alguns dias depois, o corpo de Maria foi encontrado pelo marido da vítima. Segundo o Padre, por existir desavenças entre o casal, esse fator foi decisivo para Ângelo ser suspeito pelo assassinato da própria esposa e filho. Fatos esses confirmados no processo de acusação de Ângelo Antônio Stoch, com depoimentos de testemunhas e do próprio acusado. Lúcio José dos Santos nem é mencionado no processo crime que acusa o Ângelo, sendo somente este responsabilizado pelo crime. Na narrativa, o acusado protestou sua inocência, negando ter cometido o crime, o qual estava sendo acusado: Com veemência ele protestou e jurou inocência, porém manietado, foi levado pelo piquete policial, que também ajuntou os três filhinhos para serem entregues ao Juiz de Menores. Assim, Ângelo Stoch foi preso na cadeia de Vila Rica31, ficando trancafiado por alguns anos. O religioso, ao escrever a narrativa, procurou registros oficiais, mas não obteve sucesso. O mesmo afirma no manuscrito: Acredita-se que sem outro processo de investigação, visto que até hoje não encontraram qualquer libelo contra o mesmo, uma vez que a justiça daqueles anos de cangaço, post32-revolucionário, era feita de forma falha, caudilhescamente. O que ele não soube é que no Arquivo Público do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, estavam guardados tais processos que tanto buscou e que estamos utilizando nesse trabalho. Por não ter conhecimento do documento, o padre chamou a justiça de falha devido à 31 32 Atual cidade de Julio de Castilhos. Optou-se por manter a grafia da narrativa.

(32) 32 condenação de Ângelo, sendo que havia 12 testemunhas de acusação que o denunciaram como assassino da esposa. Assim, Ângelo teria permanecido preso até que outro crime acontecesse na localidade e, a partir disso, sua inocência fosse comprovada. Então, seguindo a narrativa do pároco, antes de terminar o século XIX, em cinco de dezembro de 1899, foi encontrada morta a jovem italiana Maria Vedovato. Segundo o processo de acusação de Juvêncio José dos Santos33, o crime teria ocorrido realmente nessa data, porém o nome da moça seria Luiza Vedovato, de 14 anos. É incrível a cena de pavor descrita pelo narrador, sobre o encontro do corpo da vítima:“horrivelmente deformada por machadadas na cabeça, vastas equimoses em todo o corpo bestial, rasgamento dos órgãos sexuais, a jovem de 16 anos de idade34”. Conforme o processo de investigação, o assassino, ao ver a moça sozinha na picada que vai a Linha Três, no Faxinal do Soturno, “seguiu-a, violentando-a fisicamente e saciando seus desejos carnais, desvirginando-a de modo bestial, feroz e covarde” 35 . Ela foi encontrada semimorta, deitada de costas com as pernas e braços abertos, com ferimentos na cabeça provocados por um machado, que tornou o osso em migalhas, levando-a ao óbito. A descrição do crime pelo processo é muito semelhante ao cenário monstruoso que o padre escreve, sendo diferentemente do primeiro delito em que há inúmeras peculiaridades que diferenciam a narrativa do processo de investigação, onde os trechos se contradizem. O autor desse crime seria Lúcio José dos Santos, considerado foragido da Casa de Correção em Porto Alegre, segundo a narrativa. Contudo, no processo de investigação, o nome do acusado é Juvêncio José dos Santos, desertor da Brigada Militar diferentemente do que havia afirmado Sponchiado. O padre apresenta duas situações no qual Juvêncio é encontrado. Segue trechos da narrativa: Lúcio José dos Santos, foi encontrado lavando um machado ensanguentado, junto ao Lageado dos Porcos, - Inquirido respondeu que matara um tatu, junto a mata que estava derrubando. [...] Encontrado logo adiante o corpo da vítima e tendo ele desaparecido na mesma noite, após apresentar-se ao local do crime com roupas mudadas, as suspeitas tornaram-se certezas. Diante das duas situações, o processo de acusação de Juvêncio José dos Santos foi arquivado após o linchamento e morte do réu. Porém, haviam sido chamadas cinco testemunhas de acusação, no qual nenhuma era italiana. No processo consta que a moça teria sido morta por um objeto cortante, um machado, pois o acusado foi visto com esse 33 Juvêncio dos Santos. Processo-crime: Cartório Cível e Crime, Cachoeira do Sul, nº 2507, maço 81, 1899. Juvêncio José dos Santos. Op cit. 35 Juvêncio José dos Santos. Op cit. 34

(33) 33 instrumento no ombro, próximo do local do crime. Além disso, as roupas do suspeito encontravam-se molhadas, justificando-se que ao tomar banho, caiu no rio. Logo teria sido convidado para ver o corpo da vítima que, ao aproximar-se, entrou mato à dentro, fugindo. Tal atitude, fez com que as testemunhas apontassem Juvêncio como o assassino da moça italiana. Enfim, as informações da narrativa condizem com a apresentada no processo-crime. Após a fuga do acusado, ele teria se apresentado na casa do inspetor. Nesse momento, o narrador onisciente tornou-se presente e uma testemunha oculta parece relatar ao religioso com detalhes o aprisionamento e o linchamento de Lúcio, que na verdade é Juvêncio. Segue mais um trecho narrando com certo horror sobre o fim da vida do réu: [...] foi levado para Dona Francisca, onde as autoridades de Cachoeira, tinham mais fácil acesso. Aí o grupo resolveu lincha-lo sumariamente. – Estaquiado em decúbito dorsal em quatro pontaletes, vendo seu fim se aproximar, resolveu confessar todos os crimes, diante do rumoroso e rancoroso grupo que rodeava com suas armas, “Taquaris”, com chumbo, buchas e espoletas, prontas para detonar. – Entre outros desvarios, confessou que “soltassem o Stochi, pois fora ele quem matou a mulher Maria Stella”... – Salvas de tiros, deram fim ao miserável, junto ao “Campestre”, plaino alagado pelas margens do Soturno, pouco antes de chegar a Dona Francisca. – Seu corpo foi reduzido a cinzas, sobrando a cabeça, que alguns dias depois, como bola de jogo, os suínos disputavam pelo descampado”. E é incrível o desenrolar da história apresentada por Sponchiado, o trágico final de um assassino cruel parecendo final de novela. Além do linchamento, o religioso procurou dramatizar ainda mais o fim da vida de Lúcio: a disputa pelos restos mortais do acusado pelos porcos. Conforme o processo de investigação, o linchamento de Juvêncio realmente existiu, sendo realizado por 400 pessoas, na Colônia Dona Francisca e, em nenhum momento é referido os restos mortais do acusado. Além disso, em nenhum momento foi mencionado no processo que Juvêncio haveria confessado os crimes que havia cometido, incluindo aqui o assassinato da esposa de Stoch e o filho. É relevante mencionar que a narrativa é direcionada a história de apenas uma família. O crime que envolveu a jovem Vedovato fica praticamente em segundo plano, visível apenas para justificar a inocência de Ângelo. O grande foco do religioso foi relatar a trajetória da família Stoch, pois através disso realiza a construção de um monumento em homenagens as mães da colonização italiana na região da Quarta Colônia. Praticamente usando para concluir a narrativa, o padre deixou clara sua intenção com o manuscrito. Segue mais um trecho da narrativa: História de sangue e lágrimas da colonização, parece um romance, mas é infelizmente verídica e para a posteridade um documento, de quanto sofreram os

(34) 34 ancestrais, que partindo da Europa para terras da América, nem sempre achavam a sonhada prosperidade, fortuna e vida que sonhavam36. Os crimes realmente aconteceram na localidade de Linha Três, no final do século XIX. Mas é incrível como se referiu à história que ele mesmo escreve, e porque não dizer também, que criou: de sangue e lágrimas, representando o sofrimento e a luta promovida pelo imigrante que chegou a região da Quarta Colônia. A narrativa foi considerada por ele um documento para a posteridade, enfim, que deve atravessar os tempos e deve ser lembrada sempre entre os descendentes de imigrantes italianos que se estabeleceram em Nova Palma. Percebeu-se que existem aproximações e distanciamentos entre os escritos do religioso e o processo crime. Cabe ao historiador ler e reler as fontes, realizar anotações que considere relevante dos documentos, intercruzar com as bibliografias lidas e, partir disso, chegar a uma conclusão. Pois se o historiador não decifrar o material, ele não significará nada (CARR, 1996). Por isso é relevante a comparação dos dois documentos, porque será possível encontrar indícios que possibilitam estabelecer elementos de/para uma verdade histórica: o que há de comum entre os dois acontecimentos. Mas antes de buscar uma verdade entre as peculiaridades dos crimes, o que é correto é assinalar a veracidade dos dois acontecimentos e a brutalidade com que ocorreram os crimes. 3.3 É DE VOZ PÚBLICA: O QUE PODE TRAZER OS PROCESSOS CRIMES O trabalho do historiador em analisar as fontes é diferenciado, pois ele consegue, nas entrelinhas e sob o olhar histórico, retirar do documento, minúcias que não serão perceptíveis à maioria das pessoas. Segundo Carr (1996, p.48): O historiador é necessariamente um selecionador. A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de erradicar. Nesse sentido, os processos de acusação dos dois crimes citados pelo padre e aqui estudados, além de relatar os incidentes, trazem peculiaridades da imigração italiana que foram “deixadas de lado” ao longo da historiografia tradicional. O processo de investigação instaurado para julgar o réu Antônio Stoch, assim denominado tal documento, foram ouvidas 12 testemunhas. Todas elas pertencentes à comunidade de Linha Três, localizada no Núcleo Soturno, no município de Vila Rica. Além disso, todas as testemunhas convocadas eram italianas, atribuíam como profissão de agricultor e alegavam conhecer a família Stoch. Quanto aos depoimentos, praticamente todos foram 36 A narrativa, esse trecho está em itálico. Então será mantida a forma original do manuscrito.

(35) 35 unânimes em acusá-lo de maus tratos a esposa e filhos, que não trabalhava, vivia embriagado, fazia a esposa mendigar, sendo esse o meio de sustento da família. A conduta irregular mantida por Ângelo fez com que o vissem nele o assassino da esposa e do filho. O processo de acusação traz ainda os tipos de desavenças do casal. As testemunhas afirmaram que, além de ameaças contra a vida da esposa, ele batia nela, espancando-a. O réu atribuiu tal atitude devido à esposa não cumprir com as atividades do lar. Outro ponto relevante é que nenhuma das testemunhas viu Ângelo cometer o crime, porém os comentários na localidade o incriminavam. As testemunhas apontavam que era voz pública que o réu era o assassino. É importante salientar que Ângelo Antônio Stoch se autodeclarava agricultor no processo, diferentemente do que foi dito pelo religioso. As acusações que foram feitas pelas testemunhas revelam algumas características que envolvem esse grupo de italianos, possibilitando uma nova abordagem acerca da imigração italiana em Nova Palma. A partir do caso estudado, percebe-se a ausência de harmonia familiar, bem como a violência doméstica existente entre os Stoch, pois o marido maltratava a esposa e ainda a fazia esmolar na vizinhança para alimentar a si e os filhos. Essa característica também é mencionada na narrativa do padre ao narrar que o casal possuía desavenças, porém de uma forma mais suavizada. Segundo Matté (2008, p.97): A violência doméstica é outra lacuna referente à história regional. A supervalorização à entidade familiar e ao matrimônio fica explícita também na historiografia, na qual os casos de violências e abusos realizados por maridos contra as suas esposas não são retratadas. Além disso, a ideia de um bom imigrante acaba sendo maculada, pois Ângelo não trabalhava e ainda vivia embriagado – são esses os motivos pelos quais as testemunhas do processo de acusação o denunciaram, atribuindo-lhe uma má índole. Aqui existe outra brecha deixada pela historiografia tradicional, que emprega o discurso pelo qual o imigrante prosperou através do labor diário. Casos como o de Ângelo não são citados, sendo ocultados. Com o conjunto de denúncias, percebeu-se ainda a falta de solidariedade entre os italianos, outro fato pouco retratado pela historiografia. Todas as testemunhas julgam o réu como o responsável pelo assassinato da esposa, mesmo que ninguém tenha – presenciado o crime, sua má índole seria fator primordial para condená-lo como assassino. Como já foi mencionado acima, a conduta irregular do réu reforça as suspeitas de ser o assassino – um julgamento moral. Esse ponto também foi levantado pelo religioso na narrativa, sendo que nada havia de conclusivo para acusar Ângelo como assassino, apenas as constantes desavenças que tinha com sua mulher.

(36) 36 Dando sequência a análise, nada oficialmente é encontrado que mostre a inocência de Ângelo Stoch. Ele teria cumprido a pena estabelecida no julgamento. A única fonte que atribuiu à inocência do Stoch é a narrativa do religioso, que traz outro crime que ocorreu nessa mesma localidade, alguns anos depois, em 1899. A comunidade onde Ângelo e sua família viviam o julga, tanto no processo, como na narrativa. Porém, o manuscrito apresentou o que seria o verdadeiro assassino de Maria e seu filho, Lúcio José dos Santos. Segundo o processo de acusação37, o réu Juvêncio José dos Santos assassinou brutalmente a jovem italiana Luiza Vedovato em cinco de dezembro de 1899. Juvêncio foi linchado, uma morte com muitos culpados que não vira processo, segundo Vendrame (2011, p.301): “nesses locais a própria população que encontrava o culpado e escolhia a forma pela qual ele seria punido, antes mesmo de a justiça do Estado agir”. É relevante salientar que na narrativa o crime, Luiza Vedovato é coadjuvante, pois serve apenas para alegar a inocência de Ângelo Antônio Stoch. Mas pensando na historia da imigração italiana no RS, o crime traz mais uma temática pouco explorada pela historiografia: os crimes sexuais ocorridos no período da colonização italiana na Quarta Colônia. Esses pontos levantados no processo de investigação e na narrativa escrita pelo padre traçam um perfil de imigrante que destoa da historiografia tradicional e mostra uma variedade de experiência ainda não suficientemente abordada na história da imigração da região central do RS. Por fim, há possíveis rastros falseáveis tanto nos processos-crime, quanto na narrativa do padre. Desta forma, levanta-se uma série de questionamentos: teria realmente Ângelo Stoch assassinado sua esposa e filho? Seria Juvêncio o executor dos dois crimes? Os dois processos estudados que aparentemente não possuem ligações, com a narrativa, estariam ligados? Será que realmente os dois crimes tem ligação? Será que o religioso sabia ou não da conduta moral de Ângelo? O que se pode afirmar é que se ele sabia, acabou ocultando a má índole do italiano? Estariam as testemunhas de acusação de Ângelo mais próximas da verdade ao construir uma imagem sobre o mesmo como um homem violento e de má índole? A ideia não é responder esses questionamentos, pois seria impossível nesse trabalho, mas sim levantar indagações sobre a criação da figura heroica atribuída ao imigrante italiano. A necessidade de construção de um monumento para reafirmação da identidade local é o próximo assunto a ser abordado nessa pesquisa. 37 Juvêncio José dos Santos. Op cit.

(37) 37 4. UMA HISTÓRIA PARA UM MONUMENTO: ENTRE O PASSADO E O PRESENTE Há locais de memória porque não há mais meios de memória (NORA, 1993, p.7). 4.1 LEMBRANÇA E ESQUECIMENTO: INSTRUMENTOS DE CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE O manuscrito que conta a história dos Stoch foi redigido por Padre Luiz. Seu trabalho acaba por remeter a um questionamento sobre o papel da narrativa nos acontecimentos históricos na escrita de História. Destaca-se as diferenças entre a narrativa do religioso e do historiador. A primeira mais romanceada, sem compromisso com o real. A segunda, chamada de narrativa histórica, preocupada em se aproximar ao máximo possível da verdade. A narrativa regenerou-se com o passar dos anos. A narrativa histórica tem como proposta o relacionamento entre os acontecimentos e a estrutura, dando uma amenizada a disputa história entre os historiadores estruturalistas e narrativos. Desta forma, o trabalho do historiador está em interpretar os acontecimentos e assim, poder criar uma forma de narrativa dentro dos trabalhos científicos (BURKE, 1992). Através da narrativa romanceada do religioso, promoveu-se uma pequena releitura para compreender o discurso do religioso acerca do imigrante italiano. Percebeu-se que, o enunciador escreveu a história do casal sem ignorar os fatos ruins, porém ele apresentou sua versão. Ao proporcionar seu ponto de vista, enfatizou alguns aspectos, os quais merecem ser recordados pela comunidade através da construção de um monumento. Esta edificação cristaliza na memória local os elementos considerados positivos pelo padre. Os outros elementos que seriam considerados negativos não são ignorados, mas sim, amenizados como forma de não comprometer a figura mitológica criada pelo religioso. Se o intuito era fazer com que a comunidade lembrasse alguns fatos da trajetória desses imigrantes, a construção da narrativa não poderia estar sozinha. Com isso, edificou-se um monumento à família Stoch, no qual são contemplados ao público através de uma missa católica e de uma festividade, que foi denominada como I Festa da família Stoch38. Durante a celebração, a história foi narrada pelo padre às pessoas presentes e, enquanto se organizavam 38 É um costume de a região promover festas de família, que são encontros entre parentescos próximos ou distantes, no qual reúnem-se para conhecer as inúmeras histórias que envolvem desde os primeiros ancestrais e como o tronco familiar foi dividindo até os dias atuais. Essas festas são regidas por missa católica e por uma festividade que equivale a comida e música.

(38) 38 os preparativos do evento, fragmentos da história do casal circulavam entre as conversas da comunidade39. Estes elementos tornam-se materiais na memória dos moradores da localidade da Linha Três, pois os mesmos participaram dos preparativos. Todos esses instrumentos fazem com que as pessoas do local provoquem suas memórias a lembrar do que foi contado e como foi contada desta história do casal Stoch. Isso acontece porque, segundo Tedesco (2004, p. 93): O individuo isolado teria dificuldade de mensurar e ter a consciência do tempo; poderia, inclusive ignorar a sua passagem. O individuo necessita de referência, de representações sociais do tempo, de testemunhos, de discurso que o sustente, memórias e experiências de outros, de influência social [...]. Nesse sentido, os moradores da localidade dificilmente conseguiriam lembrar-se dos fatos sozinhos. Com o auxílio do padre, a comunidade relembra o crime através da organização da festa e com a edificação do monumento. Para o religioso, é provável que a manutenção da história desses imigrantes seja apenas uma forma de manter viva a saga da imigração italiana, para que esta lembrança seja das dificuldades e sofrimentos dos primeiros colonizadores. Sob o olhar histórico, é possível ver esta ação como uma maneira de reafirmação da identidade italiana, tentando criar assim um grupo étnico homogêneo entre os moradores da comunidade de Linha Três. Além disso, a construção de uma narrativa e um monumento tem como intuito a perpetuação do discurso do bom imigrante e das dificuldades enfrentadas na saga migratória para as futuras gerações. Pensando nisso, o que merece ser lembrado daquilo que foi narrado pelo padre? E o que dever ser esquecido, ocultado ou até mesmo apagado da memória sobre a história dos Stoch? A função de glorificação, segundo Pozenato (2000), visa impedir o processo de degradação cultural, sendo necessária, a lembrança das raízes. Pensando nisso, a história do casal é cristalizada da memória local através do monumento. Contudo, alguns pontos da história narrada pelo padre merecem serem lembrados e perpetuados para as gerações futuras. Como, por exemplo, a trajetória em si do casal, apresenta o imigrante que não conseguiu realizar o sonho de fazer a América e ainda o teve destruído por um brutal crime. Nesse sentido, a preocupação é mostrar as dificuldades enfrentadas pelos italianos no período da imigração. Outro ponto da narrativa que merece ser lembrada é o assassinato de uma mãe e seu filho de colo, isso acabou acarretando a fragmentação de uma família de imigrantes italianos e 39 Existe um filme amador desta festividade que inaugurou o monumento. Este vídeo encontra-se no acervo do Padre Luiz, o Centro de Pesquisas Genealógicas, em Nova Palma.

(39) 39 dos laços que a unem. O monumento construído pela égide do padre presta uma homenagem às “mães de imigração”. Segundo Favaro (1996, p.282): Sob o ângulo das histórias de família, são os mesmos critérios –agora coletivos- que dão suporte a construção de identidade do grupo, acrescido de elementos de afetividade, tais como amor (maternal, filial, conjugal), dedicação e solidariedade, seja na família nuclear, seja no parental. O pano de fundo? A alegria e a fé, apesar das agruras e percalços do caminho. E o primordial nessa história é a acusação de um inocente, no caso Ângelo. Segundo a narrativa do religioso, ele foi acusado de assassinar a esposa e o filho, sendo que jurava a sua inocência. Depois de anos de cárcere em uma cadeira de Vila Rica, o verdadeiro assassino aparece e, somente assim, Ângelo volta à liberdade. Porém, encontrou sua vida destroçada com a morte da esposa e de um dos filhos, sendo que os outros foram distribuídos para famílias diferentes. Nesse sentido, o que deve ser lembrado da historia narrada, constrói o discurso do bom imigrante considerado um herói, no qual é perpetuado para futuras gerações. Com isso, se estabelece duas ações: uma de reforçar a saga imigrante e a outra de reafirmar a identidade italiana entre os moradores da localidade. Segundo Pozenato (2000, p.122), os discursos “são contextualizados na perspectiva de glorificar o passado para assegurar uma identidade cultural no presente”. Porém, existem pontos da narrativa que merecem ser esquecidos, ocultados ou até mesmo deixados de lado, como aconteceu com a vertente tradicional da historiografia da imigração. Esses pontos desconstroem o discurso do bom imigrante que o padre propagou na região e assim, sob a ótica histórica, não auxiliariam na manutenção da identidade italiana. Com isso, merecem ser esquecidos os fatos que levaram Ângelo a ser acusado de assassino: as desavenças que ele teria com a esposa. Além das discórdias do casal, havia a possibilidade de afastamento de Ângelo da família pra trabalhar na estrada de ferro. O religioso chegou a abrir possibilidade que Stoch queria se afastar da família. Estes embates revelam a desarmonia familiar no qual conviviam os imigrantes italianos, obviamente nem todos, mas a omissão destas brigas pode ser respondida com a forma que se deram as narrativas, dotadas de uma moralização religiosa. Além disso, a circulação de imigrantes italianos também se deve manter oculta nos discursos, pois expõe a movimentação dentro da região, apresentando a não permanência dos colonos nos lotes. Simplificando: alguns imigrantes abandonavam os lotes recebidos do governo, desmistificando a figura do colono trabalhador, que fez da terra o seu sustento. Complementa Constantino (2011) algumas ideias são transformadas em mitos e são

(40) 40 propagadas para as comunidades, na tentativa de formar identidades relacionadas aos grupos étnicos. Nesse sentido, percebeu-se que existem elementos na narrativa escrita pelo padre que constroem e desconstroem o discurso do imigrante pregado nas comunidades em Nova Palma. Trabalhando com a memória, alguns pontos do manuscrito são lembrados e outros são esquecidos. Para o religioso, foi a maneira encontrada de recordar a saga da imigração e, sob o olhar do historiador, percebeu-se as formas de reafirmação da identidade italiana utilizadas pelo padre entre os moradores da comunidade da Linha Três. E como forma de consolidar o discurso do bom imigrante, foi necessário construir um monumento, assunto que será tratado no próximo subcapítulo. 4.2 UM MONUMENTO, UMA HISTÓRIA: QUAL A SUA FINALIDADE? O monumento é um material da memória, sendo assim, um sinal que evoca o passado. Além disso, tem o poder de perpetuação das recordações das sociedades históricas, de forma voluntária ou não. E o que sobreviveu não é daquilo que existiu no passado, mas sim, são escolhas feitas por determinadas pessoas que as transformaram em monumento (LE GOFF, 1990). Assim, o monumento tem como natureza a afetiva, pois não se apresenta e nem passa informações neutras. Seu intuito é tocar com emoção, uma memória viva. Nesse sentido, a construção de um monumento desperta sentimentos, provocando lembranças e esquecimentos de fatos bons e ruins. Complementa Choay (2006, p.18): Nesse sentido primeiro, chamar-se á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. O passado evocado remete ao final do século XIX, quando ocorreram os assassinatos de Maria Stoch e seu filho. Ao se aproximar dos cem anos do crime envolvendo os Stoch, o Padre Luiz reconstituiu a história da triste trajetória desse casal através de uma narrativa já mencionada no capítulo anterior. Parece haver uma necessidade do padre em lembrar o centenário desse crime. Apesar da existência de mais duas versões da narrativa, além desta que está sendo estudada, todas tem a mesma finalidade: a de reforçar a identidade italiana entre os moradores da pequena comunidade de Linha Três, em Nova Palma, local onde ocorreram os crimes. Complementa essa ideia Nora (1993, p.7):

(41) 41 A curiosidade pelos lugares onde se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória. Para isso acontecer, além da narrativa, foi construído com o auxílio da comunidade um monumento à família Stoch, que homenageia as vítimas assassinadas, em um lugar próximo onde ocorreram os crimes. Houve uma missa e uma festividade para a inauguração do monumento, ocorrida no dia 20 de Janeiro de 2002, no qual participaram a comunidade e parentes das vítimas. Acrescenta Choay (2006, p.18): Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional tribal ou familiar. Com isso, percebeu-se que o passado a ser lembrado não é qualquer um: é destinada aos moradores da comunidade de Linha Três e, a escolha de tal acontecimento é para mostrar como um crime acabou fragmentando uma família de imigrantes e que, o sonho de fazer a América não aconteceu. Abaixo, a imagem do monumento que está sendo feita a referência. Figura 2: Monumento Stoch. Imagem registrada em 25 de dezembro de 2012. Fonte: Arquivo pessoal. Percebe-se ainda a figura materna enaltecida no monumento. A fotografia de uma mãe acalentando seu filho e a escrita constituem a edificação. A imagem que está localizada

(42) 42 dentro de um triângulo, acima da parte escrita, não corresponde a Maria e seu filho, como o próprio padre relata em um manuscrito40. Figura 3: Monumento Stoch. Detalhe da imagem descrita acima. Fonte: Arquivo pessoal. Já a parte escrita, tem as seguintes informações: Nesta picada, a sete de agosto de 1898, o casal Ângelo Stoch foi destruído pelo assassinato de Stella Maria Casini Stoch e a filhinha. Os descendentes e a comunidade recordam. Homenageando a presença de todas as mães na aventura imigratória de nossa colonização. Vale salientar as informações trazidas no monumento: - Como forma dar ênfase às vítimas assassinadas, o religioso acrescentou ao monumento uma fotografia em porcelana de uma mãe com um bebê; - Data do assassinato: outra referência quanto a dia e ano do acontecimento, sendo diferente do que foi apresentado na narrativa e no processo de acusação de Ângelo; - O nome da vítima: o religioso referencia na narrativa como Maria Stella e o processo de acusação apenas Maria; - Sexo da criança: o padre atribuiu como sexo feminino a criança assassinada. O processo de acusação traz que a criança é um menino. 40 Documento encontrado dentro da caixa de família STOCH.

(43) 43 - Os descendentes das vítimas e a comunidade de Linha Três recordam a triste história desse casal; - Ressalta mais uma vez a figura materna, homenageando todas as mães italianas no processo de colonização; - A existência de uma placa de agradecimento por graças alcançadas, levando a crer no surgimento de uma possível santa popular; As informações trazidas no monumento buscam a cristalização da memória dos moradores dessa comunidade do crime ocorrido. Mas não é em si a morte que é lembrada, mas sim o desenrolar de uma história de imigração italiana que acabou sendo trágica. É ainda uma forma de mostrar aos moradores atuais da comunidade o quanto foi sofrida e difícil à luta da colonização de seus ancestrais. É válido lembrar mais uma vez que, a narrativa, o monumento e a festividade são voltados para a família Stoch. Os Vedovatos são coadjuvantes nessa história narrada pelo padre, pois são necessários apenas para inocentar Ângelo e apresentar um final trágico ao verdadeiro assassino, como uma forma de mostrar que houve justiça e glorificar esses imigrantes vitimados. Nesse sentido, a versão escrita e narrada pelo padre dos crimes envolvendo os italianos aqui já mencionados torna-se uma verdade absoluta, pois todos se lembrarão do que foi contado como aquilo que realmente aconteceu. E a lembrança só será possível se manter viva na comunidade graças ao monumento construído, pois se torna um marco, porque toda vez que alguém passar por ele, se lembrará da história que foi transmitida pelo religioso. É provável que essa história já não mais se mantivesse viva na memória dos moradores e/ou as informações a respeito dela já não mantinham a mesma cordialidade. Então por isso a necessidade de rememorar tal data. Segundo Choay (2006, p. 18): Para aqueles que edificam, assim como para os destinatários das lembranças que veiculam, o monumento é uma defesa contra o traumatismo da existência, um dispositivo de segurança. A versão narrada pelo padre sobre o crime é imortalizada com a construção do monumento, pois este solidifica na memória o acontecimento. A edificação faz com que a população se lembre do crime. Mas também possibilita lembrar-se das dificuldades enfrentadas pelos seus ancestrais no período da colonização. O trabalho não tem o objetivo de encontrar o verdadeiro culpado pelo assassinato das vítimas homenageadas nesse monumento, mas sim compreender como a narrativa e a edificação que são trabalhadas dentro da comunidade, onde seus ancestrais são na maioria imigrantes italianos.

(44) 44 O monumento, segundo NORA (1993), denomina de lugares de memória, para explicitar os locais que guardam recordações do passado. Para a autora, esses locais envolvem a imaginação de quem vivencia. Assim, uma edificação consolida as lembranças e faz sua transmissão, garantindo sua identidade. Há um jogo entre história e a memória para constituir os lugares de memória: nestes, não existe uma memória espontânea e, se a história não se apoderasse desses locais de memória, eles não existiriam. Nesse sentido, poderia ser somente um monumento perdido na comunidade de Linha Três, em Nova Palma. Porém, percebeu-se que com os documentos analisados, o monumento tem uma função para o tempo presente: a de lembrar e esquecer os acontecimentos vivenciados pelos antepassados na comunidade no período da colonização italiana. Sua manutenção está a serviço do presente e do futuro, reafirmando a identidade italiana entre os moradores locais e das futuras gerações. Pensando nas colocações de NORA (1993), a edificação construída por Padre Luiz Sponchiado é um lugar de memória.

(45) 45 5.CONSIDERAÇÕES FINAIS: A narrativa que conta a história do casal Stoch foi o ponto de partida para compreender como o discurso produzido pelo padre Luiz sobre o imigrante italiano é construindo em Nova Palma. Através da análise desse manuscrito comparando-os com os processos crimes, podem-se encontrar elementos que se alinham ao discurso sobre a imigração italiana, bem como novas características que identificam esse grupo étnico. Porém, os percalços da pesquisa com esse tipo de análise propôs dificuldades no encontro de algumas documentações, sendo que tais limitações devem-se a maneira pelo qual o padre Luiz colheu e teceu algumas das informações. Para compreender a narrativa e os processos crimes foi necessário uma revisão bibliográfica sobre a escrita da imigração italiana no RS. Com isso, perceberam-se duas vertentes historiográficas: a tradicional e a recente. A primeira voltada ao imigrante visto como um herói, sendo através de muita luta e sofrimento, conseguiu progredir, transformando essa trajetória em uma saga. A segunda retrata as peculiaridades da imigração italiana, como uma forma de demonstrar algumas características desse grupo social, que foram ocultadas ao longo da história. Os estudos sob a óptica desta vertente recente vêm crescendo muito durante os últimos anos. Isso contribuiu para mostrar como o movimento imigratório no RS é tão diversificado, com características próprias, diferente do que foi pregado, desde o primeiro escrito. Através desse entendimento e relacionando com as fontes, foi possível identificar a arquitetura do discurso do religioso sobre a imigração italiana, que reforça a ideia do imigrante que lutou e sofreu, porém não conseguiu ter êxito com a colonização. Enraizado na vertente tradicional da historiografia da imigração italiana, foi criado o discurso sobre o bom imigrante, propagado pelo padre em Nova Palma e região da Quarta Colônia. Nesse sentido, usou imigrantes que não obtiveram sucesso, como forma de mostrar aos moradores da comunidade de Linha Três as dificuldades enfrentadas com o processo de imigração. Além do discurso do padre Luiz pregado sobre a imigração, perceberam-se ao longo da pesquisa as peculiaridades da imigração. Dessa maneira, foram apontados outros elementos que caracterizam os colonos imigrantes vindos a Nova Palma e Quarta Colônia. Tais como: a circulação de imigrantes nas colônias, o abandono dos lotes, a falta de financiamentos por parte do governo, ausência de solidariedade entre os vizinhos, violência doméstica, crimes sexuais, vícios e não aptidão ao trabalho na terra. Com esses indicadores, nota-se que nem

(46) 46 todos os imigrantes praticaram a colonização41 e, o quão diferente é o processo de colonização narrado pelos memorialistas, bem como dos processos ocorridos na Serra Gaúcha. Pensando na ideia de colonização, pode-se dizer que o casal Stoch não colonizou a região, por não ter transformado o espaço onde vivia segundo suas necessidades, como também pela rápida passagem ao local. Assim, considera-se que, por mais que a região tenha sido colonizada por imigrantes italianos, nem todos os imigrantes que estiveram na região praticaram a colonização. O trabalho do religioso em valorizar a figura do imigrante deu origem à narrativa do casal Stoch. Sob a ótica do padre, ela reforça a saga migratória. Sob o olhar histórico, reafirma a identidade italiana entre os moradores locais. Como forma de cristalizar na memória local o colono italiano, construiu um monumento para recordar a trajetória dos Stoch, bem como do processo imigratório, criando assim um lugar de memória. As lembranças e esquecimentos dessa história são recursos para compreender o discurso empregado pelo padre na propagação do discurso do imigrante em Nova Palma e Quarta Colônia. 41 O significado de colonização segundo Weber(2006).

(47) 47 6. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALBURQUERQUE JR, Durval de. História: a arte de inventar o passado. In: História: a arte de inventar o passado. Bauru-SP: Edusc, 2007, p.53-65. BURKE, Peter. A história dos acontecimentos e o renascimento da narrativa. In: A Escrita da História. São Paulo: UNESP, 1992. CAMPBELL, Joseph. A saga do herói. In: O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990, p.137-182. CARR, Edward Hallet. Que é História?. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1996. CASTRO, Hebe. História Social. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAIFAS, Ronaldo. Domínios da História: Ensaios de teoria e metodologia. Rio De Janeiro: Campus. 1997, p. 45-59. CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: EDUSP, 2006. CONSTANTINO, Núncia Santoro de. A inscrição dos imigrantes italianos na historiografia do Rio Grande do Sul. In: TEDESCO, João Carlos; ZANINI, Maria Catarina C. (org.). Migrantes do Sul do Brasil. Santa Maria: Ed.UFSM, 2010, p.137152. ____________________________. Estudos de imigração italiana: tendências historiográficas no Brasil meridional. Anais do XXVI Simpósio Nacional de HistóriaANPUH, Mesa Redonda. São Paulo, julho de 2011, p.1-9. COSTA, Rovílio; e outros. Imigração italiana: vida, costumes e tradições. Porto Alegre: EST/Sulina. 1974. DE BONI, Luiz Alberto. O sucesso apesar do caos: os presidentes da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul a respeito da colonização (1869-1889). In: DE BONI, Luiz Alberto (org.). A presença italiana no Brasil. Porto Alegre; Torino: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Fondazione Giovanni Agnelli, 1996. V.3, p.101-112. ELMIR, Cláudio Pereira. A história devorada: no rastro dos crimes da Rua do Arvoredo. Porto Alegre: Escritos, 2004.

(48) 48 FAVARO, Cleci Eulália. Amor à italiana (o real e o imaginário nas relações familiares na região de Colonização italiana no Rio Grande do Sul). In: DE BONI, Luiz A.(org.). A Presença Italiana no Brasil Volume III. Porto Alegre/Torino: EST/Fondazione Agnelli, 1996, p.281-286. ________________. Os Italianos: entre a realidade e o discurso. In: BOEIRA, Nelson & GOLIN, Tau (Organizadores). Império. Passo fundo: Méritos, 2006.V2, p. 301- 320. FOUCAULT, Michel. A ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo. Edições Loyola. 2011. GEERTZ, Clifford. Uma descrição densa: por uma Teoria Interpretativa da Cultura. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC. 1989, p.13-41. GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. IN: GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das letras. 2003, p.143-179. HERÉDIA, Vânia. Os imigrantes italianos na formação econômica regional do Rio Grande do Sul. In: TEDESCO, João Carlos; ZANINI, Maria Catarina C. (org.). Migrantes do Sul do Brasil. Santa Maria: Ed.UFSM, 2010, p.211-229. IOTTI, Luiza Horn (org). Imigração e Colonização: legislação de 1747 a 1915. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Caxias: EDUSC, 2001. LE GOFF. Jacques. Documento/monumento. In: História e memória. Campinas: Ed. UNICAMP, 1990, p. 535- 549. MAESTRI, Mário. A região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul: a construção da memória. In: TEDESCO, João Carlos; ZANINI, Maria Catarina C. (org.). Migrantes do Sul do Brasil. Santa Maria: Ed.UFSM, 2010, p.85-118. MANFROI, Olívio. A colonização italiana no Rio Grande do Sul: implicações econômicas, políticas e culturais. Porto Alegre: Grafosul, 1975. MARCHIORI, José Newton Cardoso. Gênese da Colônia Jaguari. Porto Alegre: Arquivo Histórico de Rio Grande do Sul, 2000. MATTÉ, Aline Karen. Prazeres velados e silêncios suspirados: sexualidade e contravenções na Região Colonial Italiana (1920-1950). 2008. 167f. Dissertação

(49) 49 (Mestrado em História). Programa de Pós-graduação em História. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. NORA, Pierre. Entre memória e a história: a problemática dos lugares. In: Projeto História 10. São Paulo, dez/1993, p. 7-28. POZENATO, José Clemente. A cultura da imigração italiana. In: MAESTRI, Mário; CARBONI, Florence. Raízes italianas no Rio Grande do Sul (1875-1997). Passo Fundo: UPF. 2000, p.117-129. SAQUET, Marcos Aurélio. Os tempos e os territórios da colonização italiana: O desenvolvimento econômico na Colônia Silveira Martins (RS). Porto Alegre: Edições EST, 2003. SPONCHIADO, Breno Antônio. Imigração e 4º Colônia: Nova Palma e Pe. Luizinho. Santa Maria: Ed. UFSM, 1996. SPONCHIADO, Pe. Luiz. A anágrafe de Nova Palma e os núcleos da ex-colônia Silveira Martins. In: DE BONI, Luiz A.(org.). A Presença Italiana no Brasil Volume III. Porto Alegre/Torino: EST/Fondazione Agnelli, 1996, p.148-167. TEDESCO, João Carlos. Nas cercanias da memória: Temporalidade, experiência e narração. Passo Fundo: UPF: Caxias do Sul: EDUCS, 2004. VAIFAS, Ronaldo. História das mentalidades e História Cultural. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAIFAS, Ronaldo. Domínios da História: Ensaios de teoria e metodologia. Rio De Janeiro: Campus. 1997, p.127-160. VENDRAME, Maíra Inês. Entre ofensas e punições: reflexões sobre as concepções de honra e justiça entre os italianos no sul do Brasil (Rio Grande do Sul, 1880-1900). In: MARTINS, Ismênia de Lima; HECKER, Alexandre (org). E/imigrações: histórias, culturas, trajetórias. São Paulo: Expressão e Arte editora, 2011, p.297-307. WEBER, Regina. Imigração e identidade étnica: temáticas historiográficas e conceituações. In: Dimensões. Vitória: Dep. História/ UFES, 2006. V.18, p.236-250.

(50) 50 7. FONTES: Antônio Stoch. Processo-crime, Júlio de Castilhos, Cartorio cível e crime, nº 1005, maço 4, 1897, Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Juvêncio dos Santos. Processo-crime, Cachoeira do Sul, Cartório Cível e Crime, nº 2507, maço 81, 1899, Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Uma história de sangue na colonização italiana, no Núcleo Soturno da ex-Colônia de Silveira Martins do Rio Grande do Sul. Narrativa: Igreja de Santo Antônio- Linha Três, Nova Palma.

(51) 51 8. ANEXOS: A narrativa escrita pelo Padre Luiz Sponchiado sobre o casal Stoch.

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