Juliana Maria Manfio DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA (NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX)

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Juliana Maria Manfio

DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

(NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX)

Santa Maria, RS.

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Juliana Maria Manfio

DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

(NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciada em História.

Orientadora: Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim

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Juliana Maria Manfio

DE CRIMES E DE NARRATIVAS: IMIGRAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

(NOVA PALMA, FINAL DO SÉCULO XIX)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciada em História.

__________________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim- Orientadora (UNIFRA).

__________________________________________________ Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter (UNIFRA).

__________________________________________________ Prof. Dr. Jorge Luiz da Cunha (UFSM).

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Aos meus pais, Magdalena e Sergio,

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AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais Magdalena e Sérgio pela confiança e por viabilizarem as condições necessárias para que eu conseguisse efetuar a graduação. Agradeço minha irmã Kelli pelo apoio e carinho sempre. Vocês são parte desta pesquisa.

A outra parte dessa pesquisa deve-se ao meu colega, amigo e companheiro Eduardo. Você também embarcou na minha pesquisa, trazendo os processos crimes em um momento que não tinha condições para ir buscá-las. Sem tua compreensão e apoio em momentos de dificuldades e desespero, jamais teria seguido em frente.

Agradeço em especial ao Eric, que nos últimos meses faz parte dos meus dias, deixando-os mais lindo com seus sorrisos. Um muito obrigado ao meu filho, esse teu sorriso me encanta, me acalma, me emociona.

À Mariane Cansian, pelo grande empurrão no início da graduação. Ela pode não lembrar, mas aquele incentivo foi primordial para eu ter me jogado na pesquisa.

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RESUMO:

A narrativa escrita pelo Padre Luiz Sponchiado sobre a trajetória do casal Stoch é o ponto de partida para investigar a construção do discurso do imigrante italiano produzido e por ele propagado em Nova Palma. Nesse sentido, o estudo tem por interesse entender a constituição do discurso do religioso alinhado ao da imigração italiana no RS e, assim identificar outras características da imigração na região. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica sobre a temática proposta, fazendo uma relação com as fontes analisadas: a narrativa e os processos crimes. Com essa pesquisa, percebeu-se como a imagem do imigrante foi propagada pelo Padre Luiz Sponchiado na atualidade e que, através dos novos elementos encontrados em fontes, é possível apontar um imigrante diferente daquele conhecido na região.

Palavras-chave: Imigração Italiana. Nova Palma. Narrativa. Discurso. Quarta Colônia.

ABSTRACT

The narrative written by priest Luiz Sponchiado on the trajectory of the couple Stoch is the starting point to investigate the construction of the discourse of Italian immigrant and produced by himself propagated in Nova Palma. In this sense, the study is of interest to understand the formation of the religious discourse aligned to the Italian immigration in RS and thus identify new characteristics of immigration in the region. For this, we conducted a literature review on the subject proposal, making a relationship with the sources analyzed: the narrative and criminal cases. With this research, it was realized as the image of the immigrant was propagated by religious nowadays and that through the new elements found in sources, it is possible to point to an immigrant different from that known in the region.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES:

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Sumário

LISTA DE ILUSTRAÇÕES: ... 7

1. INTRODUÇÃO ... 9

2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO SUL DO BRASIL: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA ... 12

2.1 PORQUE ESTUDAR A REGIÃO DA QUARTA COLÔNIA? ... 17

3. UMA HISTÓRIA DE SANGUE: DOS CRIMES À NARRATIVA ... 21

3.1 HISTÓRIA E NARRATIVA ... 21

3.2 HISTÓRIA DE SANGUE E LÁGRIMAS DA COLONIZAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE ... 24

3.3 É DE VOZ PÚBLICA: O QUE PODE TRAZER OS PROCESSOS CRIMES ... 34

4. UMA HISTÓRIA PARA UM MONUMENTO: ENTRE O PASSADO E O PRESENTE ... 37

4.1 LEMBRANÇA E ESQUECIMENTO: INSTRUMENTOS DE CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE ... 37

4.2 UM MONUMENTO, UMA HISTÓRIA: QUAL A SUA FINALIDADE? ... 40

5.CONSIDERAÇÕES FINAIS: ... 45

6. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ... 47

7. FONTES:... 50

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1. INTRODUÇÃO

Poderia ser somente mais um daqueles encontros de famílias que costumam acontecer na região da Quarta Colônia. Porém, o grande público presente não era de descendentes da família Stoch, mas sim da comunidade de Linha Três1, local onde se realizou a festividade. A certeza dessa afirmação vem porque participei dessa festa, ocorrida no ano de 2002, quando tinha apenas 11 anos2. Nessa época, não imaginava cursar História, porém a narrativa contada pelo Padre Luiz Sponchiado sobre os Stoch causou certo impacto, bem como a todos aqueles que escutaram.

Padre Luiz Sponchiado foi um religioso representante da Igreja Católica. Construiu ao longo de sua vida o Centro de Pesquisas Genealógicas, acervo referente à história da imigração italiana na Quarta Colônia. Esse acervo possui mais de 50 mil famílias catalogadas, com 1.634 sobrenomes registrados. Sua dedicação de mais de meio século de pesquisa e de registro dados e informações sobre os imigrantes e descendentes de italianos foi reconhecido através do prêmio Honra ao Mérito Cultural, recebido pelo Presidente da República, no período, Fernando Henrique Cardoso.

A narrativa3 conta a história de imigrantes italianos, o casal Stoch, que se instalaram em Nova Palma no final do século XIX. Depois de alguns anos estabelecidos, o sonho do casal de fazer a América foi destruído por um crime. Maria e o filho caçula foram mortos brutalmente. O principal acusado foi Ângelo, o marido e o pai das vítimas. Segundo o manuscrito, Ângelo ficou retido na prisão até que outro crime ocorresse na localidade, provando assim sua inocência.

O intuito inicial de investigação acadêmica foi tentar encontrar verdades na narrativa escrita pelo religioso – o ponto de partida. Assim, buscou-se saber se havia algum processo criminal4 sobre o que foi narrado pelo padre, que mais tarde se evidenciou uma trama em dois processos crimes. Inicialmente houve dificuldades na procura, acreditando-se na sua inexistência. O padre Luiz Sponchiado dava uma denominação às vítimas e acusados diferentemente daquelas encontradas mais tarde nos documentos judiciais. Isso ocasionou a demora no encontro dos processos crimes que só estiveram disponíveis em janeiro deste ano.

1 Comunidade rural pertencente ao município de Nova Palma, distante aproximadamente 9 km do centro urbano.

2

Além de ser natural de Nova Palma, a minha família paterna pertence a essa comunidade.

3 A narrativa foi encontrada na Igreja de Santo Antonio, na localidade de Linha Três, em Nova Palma.

4 Os processos de acusação referentes a Antonio Stoch e a Juvêncio José Dos Santos foram encontrados no

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Com tais fontes foi possível realizar uma análise, comparando-as e entendendo algumas características dos imigrantes que colonizaram a região.

O tema central para essa pesquisa é entender a construção do discurso produzido por Sponchiado, alinhado a da imigração italiana no RS que foi propagado em comunidades colonizadas por imigrantes italianos em Nova Palma.

A pesquisa é vinculada a História Cultural, pois aborda questões de interpretação da cultura de um determinado grupo étnico, período e espaço. Isso foi possível a partir de uma descrição densa dos documentos como forma de entender a teia construída por Padre Luiz Sponchiado sobre o discurso da imigração italiana na região da Quarta Colônia.

Para a realização dessa pesquisa, a maior parte da discussão teórico-metodológica girou em torno da história da imigração italiana no RS: do que foi escrito; por quem foi documentado; o que foi abordado ao longo dos anos e como os discursos acerca da colonização construíram e constroem a figura do imigrante entre seus descendentes. Nesse sentido, foi realizada revisão bibliográfica relacionando-a com as fontes encontradas.

Pensando nisso, esse estudo busca justificar-se inicialmente como uma obra de caráter revisionista sobre a historiografia tradicional, por apresentar um olhar diferente sobre temáticas e fontes diferenciadas ao tratar da imigração italiana. Por exemplo, a narrativa analisada neste trabalho foi escrita para explicar a saga do imigrante italiano que, sob uma visão histórica, acaba por transformar e trazer à historiografia da imigração outras características sobre esse grupo social.

Além disso, são poucos os estudos com essa outra tendência historiográfica sobre a imigração italiana na região da Quarta Colônia5. Como todo o movimento imigratório no RS tem semelhanças, o processo ocorrido na região tem peculiaridades que o difere do restante do Estado, possuindo assim, características próprias que merecem ser trabalhadas.

Ainda é válido ressaltar que o trabalho de pesquisa foi bastante instigante, pois abriu a possibilidade do contato com diferentes fontes, propondo diversas alternativas de estudos. A narrativa, quando escrita pelo padre Luiz Sponchiado, tem como objetivo enaltecer a saga da imigração italiana. Porém, quando analisada sob um olhar diferente, apresenta outras características sobre a imigração, complexificando ainda mais a historiografia da imigração italiana no RS.

Assim, para uma melhor compreensão, o texto foi dividido em três capítulos: 1) a historiografia sobre a imigração italiana no Sul do Brasil: uma discussão necessária que

5 A Quarta Colônia compreende sete municípios da região central do RS: São João do Polêsine, Faxinal do

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2. A HISTORIOGRAFIA SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO SUL DO BRASIL: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA

Em 1929, na França, os historiadores March Bloch e Lucien Febvre fundaram a chamada Escola dos Annales, que se instituiu como um movimento de renovação e revisão dentro da História. A constituição de uma Nova História, que problematiza o social, preocupou-se com as massas anônimas, mostrou-se contrária a historiografia factual, centrada nas ideias e decisões dos grandes homens, dos acontecimentos e nas batalhas (VAINFAS, 1997).

O surgimento da História Social, como um dos leques da Nova História, passou a dar voz às minorias escondidas pela historiografia anterior aos Annales. Como nos coloca CASTRO (1997, p.48): “A história social em sentido restrito surgiria, assim, como abordagem que buscava formular problemas históricos específicos quanto ao comportamento e às relações entre os diversos grupos sociais”.

Vale salientar que, apesar desta renovação da histografia, as mudanças não ocorreram de forma instantânea. A adaptação a essa nova tendência foi tardia em diversos locais, inclusive no Brasil, datando as décadas de 1960 e 1970. Os traços dessa demora são perceptíveis, por exemplo, no assunto que será abordado neste trabalho: a imigração italiana no Rio Grande do Sul.

O tema “imigração” pode ser considerado universal, pois independe do período histórico que será abordado. A movimentação de pessoas de um lugar para outro é uma constante, quando de forma coletiva, por meio de redes familiares. O estudo desse processo se faz de duas formas: através das razões que causaram o êxodo e as maneiras de adaptação (WEBER, 2006). Pensando nas maneiras de adaptação dos grupos sociais, o presente estudo tem como principal foco a abordagem dos discursos produzidos por Padre Luiz Sponchiado acerca da imigração italiana na região da Quarta Colônia, abarcando novas características desse grupo social.

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da Quarta Colônia, vivendo por oito anos. Segundo a definição de WEBER (2006) sobre colonização, pode-se dizer que o casal Stoch foi colonizador? Essa questão será respondida ao longo dessa pesquisa.

Com isso, ao investigar a historiografia, a primeira obra escrita sobre a temática de imigração italiana no Rio Grande do Sul foi o álbum comemorativo ao Cinquentenário da imigração no Estado, em 1925. Teve o financiamento do governo italiano de Benitto Mussolini6, que queria construir uma nova imagem de representação frente aos seus cidadãos. Além disso, no Rio Grande do Sul, o governo de Borges de Medeiros7 também apoiou a publicação desse álbum como forma de valorizar os colonos e seu trabalho nessas terras, pois incentivava o estabelecimento de imigrantes (CONSTANTINO, 2011). Promoveu ainda melhorias: como à abertura de estradas, construção de escolas e ocupação de novas terras. Dessa forma, enraizado em um discurso positivista, o governo borgista promoveu a valorização dos imigrantes italianos. Complementa Constantino (2010, p.143):

Desde que assumira o poder, usava como estratégia um elaborado e exaustivo discurso de valorização do imigrante italiano que, assim, acabou servindo de modelo, definido como indivíduo capaz de fácil assimilação, ordeiro e trabalhador. Imigrantes italianos acabaram personalizando o lema positivista: Ordem e Progresso. O estímulo de Borges de Medeiros coincidia com os valores dos imigrantes que, em geral, trabalhavam arduamente, poupavam e desejavam inserir-se na sociedade rio-grandeninserir-se.

Pela primeira vez, há um escrito sobre a imigração italiana, no qual há exaltação, de forma individual, das figuras representativas dentro das colônias: o colono imigrante. Nesse sentido, o italiano Giuseppe Garibaldi, que lutou na Revolução Farroupilha8, acabou sendo eleito como herói emblemático da coletividade italiana. É importante salientar que, ambos os governos, tanto o italiano, como o sulino, apropriaram-se da figura de Garibaldi para construir a história dos italianos no Estado, bem como valorizar a imagem do imigrante (CONSTANTINO, 2011).

Nesse sentido, outro herói enaltecido pela historiografia da colonização italiana é o imigrante que com muito sofrimento e luta, prosperou em terras estrangeiras. Essa forma de construção da escrita histórica lembra a utilizada antes das mudanças protagonizadas pelos

Annales, dando voz aos grandes vultos dos tempos históricos, pois somente estes mereceriam

destaque. Os setores dominados e marginalizados foram ocultados no decorrer da historiografia tradicional, igualmente os italianos que não obtiveram sucesso com a imigração.

6 Foi um dos fundadores do Partido Fascista e governou a Itália.

7 Antônio Augusto Borges de Medeiros governou o Rio Grande do Sul por 25 anos, tomando posse em 1898 a

1928, com interrupção entre 1908 a 1913.

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Então, ao escrever sobre essa temática, os autores preocupavam-se em ouvir relatos de imigrantes e descendentes, mas expor somente o que representa a concordância da maioria dos entrevistados (COSTA, 1974). Os relatos que destoassem eram esquecidos em nome da unanimidade. Pode-se pensar que seria um critério na busca da verdade: quanto mais recorrente, mais verídico; assim se construiu uma vertente da historiografia.

Essa vertente historiográfica criou características próprias para o grupo social em estudo a partir de uma homogeneização de traços que identificariam os imigrantes. Os autores reconhecidos com essa abordagem são, na sua maioria, religiosos, descendentes de italianos e/ou memorialistas. Dentre estes, serão abordados os trabalhos de: De Boni (1996), Manfroi (1975), Costa (1974), Sponchiado (1996) E Sponchiado (1996.a). Estes escritores mostram-se interessados em promover e divulgar o discurso ligado à criação de uma identidade9 sobre o imigrante e isto, necessariamente associado à ideia de heroísmo no processo de colonização.

A construção da imagem do imigrante por esta historiografia tradicional enfatizou o sofrimento, o heroísmo e as dificuldades que foram enfrentadas e superadas pelo colono e sua família, criando uma espécie de saga. Segundo Campbell (1990) o herói é aquele que realizou algo muito aquém a normalidade, por isso merece ser lembrado, pelo meio oral ou escrito. Além disso, sua heroicidade é colocada sempre em teste, como uma maneira de provar e comprovar se o pretendente a herói esta a altura do “posto” que sustenta.

O imigrante herói também segue essa mesma lógica: o teste é o sucesso da colonização, comprovada através do sofrimento e da luta diária em construir uma vida melhor. O sucesso que englobou este processo de imigração valida à proposta de uma viagem sem volta, da Itália ao Brasil. Sponchiado (1996. a) nos apresenta essa proposição:

Valera a pena imigrar. Ainda que as saudades da Patria Lontana esbraseassem o peito, enchesse os sonhos noturnos, fossem assunto obrigatório das conversas com os filhos que iam crescendo; outras vezes, já com os netos, que agora poderiam viver no seu, e, com a segurança que toda a propriedade proporciona (Luiz Sponchiado apud, 1996.a, p. 40).

Outro ponto bastante salientado pela historiografia tradicional é o trabalho. Este faz do italiano o herói e, a partir das atividades que exerce, vai constituindo-se uma imagem do imigrante ligada à glória. O homem, junto à família, trabalhou duramente dia após dia para produzir, alimentar sua linhagem bem como, vender o excedente para pagar as dívidas contraídas com o governo brasileiro. Complementa Manfroi (1975, p.121):

9 Podemos identificar como identidade italiana, alguns elementos que os indivíduos de um grupo social étnico se

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Pelo trabalho de sol-sol de toda a família. O imigrante italiano foi um trabalhador incansável, rude e persistente. É essa uma das qualidades, por toda reconhecida, do imigrante e que constituiu sua glória.

Além disso, a harmonia familiar é outro destaque da historiografia tradicional. A ideia de união e solidariedade entre o casal, à educação transmitida aos filhos promoveu o bom

imigrante. Valores comuns são passados de geração em geração, reforçando assim, a figura heroica do italiano através do seio familiar. Acrescenta Costa (1974, p.96):

A educação familiar centra-se na vida em comum, na amizade, no entusiasmo. Os pais transmitiam aos filhos a vivência profunda da união, de colaboração, de doação e de sacrifícios.

Percebeu-se então, as características que envolvem a dita historiografia tradicional da imigração italiana no RS. Ela vem enraizada nas escolas históricas anteriores a Escola dos Analles, na qual enalteceram a figura do imigrante, bem como do grupo familiar. Porém, essa historiografia passou por transformações com a influência da escola francesa que repercutem em novos objetos de estudo que vão complementando as lacunas deixadas pela primeira. Com isso, com a Nova História, tornou-se possível um novo olhar sobre esse grupo social, possibilitando uma abordagem diferente da imigração italiana no RS.

O cotidiano das minorias antes comentadas de forma vaga, com a implementação de novas tendências historiográficas entre historiadores do RS, foi o que possibilitou complementar as lacunas antes deixadas pela “velha historiografia”. Os assuntos ligados à vida privada passaram a ocupar um lugar de relevo da nova historiografia, no qual foi ganhando novos temas de estudo da imigração italiana no RS, através de uma renovação a partir dos anos 2000, nos programas de pós-graduação das universidades. Mudou-se a forma de tratar o assunto do cotidiano dos imigrantes italianos, antes impregnado da moral restrita e dos preceitos religiosos na forma de abordar a vida privada dos colonos que venceram os desafios da imigração.

Assim, durante a historiografia tradicional, muitos dos acontecimentos permaneceram ocultos. Acredita-se que as peculiaridades não foram esquecidas pelos autores da historiografia tradicional da imigração italiana no RS. Poderiam ter conhecimento de fatos isolados e contraditórios dentro da história da colonização, mas estas situações acabam deixadas de lado, pois não representam objetivos do que se propunha como história: a busca da experiência venturosa da travessia e adaptação.

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para o Rio Grande do Sul. Muitos dos que chegaram, não prosperaram devido inúmeros motivos como: não haver terras disponíveis, não ser apto ao trabalho na terra, não ter recursos financeiros para investir, entre outros. Os autores HERÉDIA (2010) e MARCHIORI (2000) corroboram com essas proposições. Afirma MAESTRI (2010) que as bibliografias ignoram o real imigrante e ainda o transformam em um herói mitológico:

Enfatizando ad nausean a disposição natural do colono ao sucesso, propondo-lhe fé e moral beatificantes, negou-se habitualmente a complexidade da história real ao ignorar e sufocar suas contradições, seus tropeços, seus fracassos, suas misérias e, portanto, suas grandezas. Para transformar o imigrante em espécie de herói mitológico, essas narrativas jamais abordam os imigrantes que fracassaram na experiência colonial, retornando a Itália, partindo para outras cidades, entregando-se ao alcoolismo, enlouquecendo etc (MAESTRI, 2010, p. 106).

A transformação do imigrante italiano em um herói mitológico segue os preceitos de CAMPBELL (1990) que, “o protagonista é um herói ou uma heroína que descobriu ou realizou alguma coisa além do nível normal de realizações ou de experiência” (p. 137). Nesse sentido, a mutação sofrida pelo imigrante italiano quando chega ao RS, ao deparar-se com os inúmeros desafios da colonização, faz com que se criasse um discurso sobre o labor e a dedicação do colono à terra que o levou ao desenvolvimento do lote, ao pagamento das dívidas e ter condições melhores de vida. Mas somente serão heróis aqueles que, apesar de adversidades, conseguiram prosperar nos lotes financiados.

Contudo, essa prosperidade não foi vivida por todos. Nem todos conseguiram fazer de suas terras produtivas, devido aos fatores de infertilidade do solo e/ou de não habilidade do colono a agricultura. Ou ainda, existem aqueles que, nem o lote de terra conseguiram. Segundo FAVARO (2006):

Apesar do esforço de milhares de imigrantes e de seus descendentes em fazer da terra de adoção a concretização de um sonho, o sucesso material não atingiu a todos, embora o discurso ufanista inclua a totalidade. No processo, milhares foram excluídos (p. 317).

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caráter revisionista, dando relevo a temáticas antes ocultadas pela historiografia tradicional. Os novos estudos trazem peculiaridades que preenchem algumas lacunas dentro do cenário imigratório no RS e possibilitam uma nova abordagem, contribuindo para o enriquecimento da historiografia da imigração italiana.

2.1 PORQUE ESTUDAR A REGIÃO DA QUARTA COLÔNIA?

Nos últimos anos vem crescendo o número de publicações a respeito da imigração italiana no Rio Grande do Sul, sendo uma historiografia renovada que apresenta novas temáticas de abordagem. Isso se deve, principalmente, aos programas de pós-graduações de instituições de ensino superior no Estado. Porém, muito das divulgações privilegiam ainda a região da Serra Gaúcha, a qual formou as primeiras três10 colônias, esquecendo-se da quarta zona de imigração italiana, localizada na região central do Rio Grande do Sul.

FIGURA 1: Mapa da localização da Quarta Colônia de Imigração Italiana no RS.

Fonte: http://www.biodiversidade.rs.gov.br

Apesar do crescente número de publicações dentro da área de História, há dificuldades iniciais no encontro de obras que contemplassem a imigração italiana na Quarta Colônia. Isso aconteceu porque nem todos os bancos de teses e dissertações das universidades do Estado disponibilizaram on line tais obras11, dificultando a procura e o acesso. Existem publicações

10 São as três primeiras colônias italianas no RS: Cond'Eu(Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Campo

dos Bugres(atual Caxias do Sul).

11 Embora as adversidades, foram encontradas algumas obras de suma importância, como: a tese de doutorado de

Moacir Bolzan, intitulada de “Quarta Colônia: da fragmentação a integração” e outra tese de doutorado em andamento, “A Memória da Quarta Colônia: Um Estudo Sobre o Centro de Pesquisas Genealógicas de Nova Palma - Rio Grande do Sul”, de Liriana Zanon Stefanello, ambas da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS); uma dissertação de Mestrado (2007) denominada de “Lá éramos servos, aqui somos senhores”: a

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em outras pós-graduações, que se referem à imigração italiana na Quarta Colônia, porém poucas foram encontradas na área especifica de História.

Ao investigar o processo imigratório na região da Quarta Colônia, percebeu-se que o processo ocorreu de maneira diferenciada: os imigrantes que passaram a chegar nessa região vinham de forma “espontânea”, pois no período que se constituiu a colônia Silveira Martins (1878), o Império Brasileiro decreta a suspensão dos benefícios da imigração (IOTTI, 2001). Mesmo com a interrupção do financiamento, o fluxo de imigrantes continua intenso, pois acreditavam que ainda receberiam as terras do governo. Como a Província sulina manteve a política de concessão de terras, muitos colonos ainda receberam lotes. Mas essa ação não se manteve por muito tempo: todos os lotes foram demarcados e distribuídos aos seus futuros donos (SPONCHIADO, 1996. a).

Os imigrantes não paravam de chegar ao Núcleo de Silveira Martins, a maneira encontrada foi procurar terras aos arredores que pudessem ser desapropriadas ou até mesmo, compradas pelo Governo Rio-grandense para estabelecer esses imigrantes (SPONCHIADO, 1996.a). Essas terras aos arredores da sede colonial deram origem a pequenos núcleos, formando em tempos mais tarde os sete municípios da Quarta Colônia.

Outro ponto de destaque quanto à pesquisa referente à Quarta Colônia é com relação ao objeto de estudo: uma narrativa escrita pelo padre Luiz Sponchiado. O manuscrito analisado menciona dois crimes ocorridos na região da Quarta Colônia, no núcleo Soturno.

Ela é arquitetada através de depoimentos orais colhidos pelo Pe. Sponchiado, bem como por registros oficiais de paróquias e do Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul. O propósito de sua confecção está em reconstituir a trajetória de um casal de imigrantes que ao chegar ao núcleo teve sua vida destruída por um brutal crime. Por se tratar de uma descrição densa a partir dos documentos, traz peculiaridades relevantes para a nova historiografia da imigração italiana no RS, sinalizando a imigração no centro do Estado com características próprias.

Uma das peculiaridades da região da Quarta Colônia para as outras três regiões de colonização italiana é a figura de Padre Luiz Sponchiado. Pode-se dizer que, o religioso foi um formador e um propagador da identidade italiana entre os descendentes, visto que perpetuou o discurso da saga migratória entre a população do quarto núcleo de imigração.

assunto abordado esse trabalho: “História, sexualidade e crime: imigrantes e descendentes na (RCI) região colonial italiana do RS (1938-1958)”- tese de doutorado (2008), de Ismael Antônio Vaninni; “Prazeres velados

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Além do discurso, utilizou como recursos de propagação seus manuscritos, a construção de monumento e festas comemorativas. Com isso, construiu-se um cenário de identificação com a cultura italiana e a sua reafirmação entre os descendentes de imigrantes, mesmo com a morte do religioso, no ano 2010. Isso se tornou possível porque Sponchiado, durante 60 anos de sua vida, constituiu um importante acervo sobre imigração italiana, localizado em Nova Palma. O Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG) tornou-se referência internacional em pesquisa sobre essa temática, bem como, para os pedidos de dupla-cidadania. Por isso, o presente estudo se faz necessário para usufruir desse acervo, de seus documentos, como uma possibilidade de abrir ainda mais o campo do conhecimento para futuras pesquisas nessa localidade. As versões dessa narrativa trabalhada são encontradas nesse acervo, bem como parte documentação referente à reconstituição da trajetória do casal estudado.

Vale salientar que, a imigração italiana na região da Quarta Colônia aconteceu em tempo, espaço e forma diferente, contendo aqui, peculiaridades próprias que a distingue de outras regiões. A criação, desde o início da colonização da Quarta Colônia, de um discurso sobre o colono italiano é carregada na cultura local. Além disso, ela tem sido reafirmada desde o período da imigração. A vinda de outros grupos étnicos anteriores aos italianos reforça mais ideia de que, somente o italiano adaptou-se a imigração, através de seu trabalho árduo, sua luta diária, com o auxílio da família e os vizinhos compatriotas. Isso é justificado porque, antes da chegada dos italianos, em 1877, a região de Silveira Martins havia recebido os imigrantes russo-alemães. Estes, não permaneceram por muito tempo, devido à forte seca e um inverno de enchentes que assolou o local, faltando alimentos e água, prejudicando as plantações e pela disseminação de doenças. Com a saída dos russos alemães, dita como uma imigração fracassada, também reforça a saga migratória italiana, pois logo foram introduzidos os italianos nessa região, não como uma solução ao insucesso da anterior, mas sim porque era uma prática no período, a colonização com indivíduos de nacionalidade italiana. Como acontecia em todo o RS, o núcleo Silveira Martins passou a receber os italianos a partir de 1878 e, logo no ano de 1882, obteve sua emancipação, tornando-se o 5º Distrito de Santa Maria (SPONCHIADO, 1996).

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sendo a ocupação pelos italianos do quarto núcleo ocorreu depois de 1878. No caso, houve antecipação da introdução de imigrantes na região da serra gaúcha.

Quanto ao espaço, os três primeiros núcleos estão próximos a capital da Província, onde havia um maior giro de mercadorias, capital e pessoas. A região da Quarta Colônia está mais afastada desse centro de circulação, sendo que, com a construção da via férrea, houve uma maior movimentação desse local.

Quanto ao desenvolvimento, nas colônias da Serra, os colonos foram deixando de trabalhar na terra, no qual passaram a abrir pequenas oficinas e manufaturas. Estas foram evoluindo e transformando-se em indústrias. Com isso, a cidade de Caxias do Sul com um grande polo industrial. No núcleo de Silveira Martins, a circulação simples de mercadorias produzidos pelo trabalho familiar gerou um mercado interno. Assim, algumas atividades como as artesanais e comercias foram identificadas nessa zona de colonização que, ao longo do tempo, algumas foram desaparecendo (SAQUET, 2003).

Dessa forma, percebe-se o quanto a imigração na região da Quarta Colônia tem características próprias, sendo um movimento diferenciado do que aconteceu na Serra Gaúcha. E o quanto esses elementos díspares são fundamentais para enriquecer o movimento imigratório do Rio Grande do Sul.

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3. UMA HISTÓRIA DE SANGUE12: DOS CRIMES À NARRATIVA

3.1 HISTÓRIA E NARRATIVA

Havia a hipótese de que a história escrita, desde o período do Iluminismo, deveria ser uma narrativa de acontecimentos. Contudo, desde o início do século XIX, a historiografia parece que trouxe o acontecimento para o centro das atenções dos historiadores, ganhando outro impulso. Já no século XX, houve um ataque à história dos acontecimentos, assim chamada. A sugestão dada foi que, ao invés de o historiador narrar acontecimentos, deveria analisar as estruturas. Nesse sentido, os historiadores estruturais apontavam que a narrativa tradicional passa por cima de aspectos relevantes do passado, sendo incapaz de harmonizar desde a estrutura econômica e social até a vida privada dos indivíduos. Os defensores da narrativa sustentavam que a análise da estrutura é estática e, dessa forma, não-história

(BURKE, 1992).

Pensando nesse embate histórico entre a narrativa e a análise das estruturas, será construído o estudo desse trabalho. O padre Luiz Sponchiado, provavelmente sem conhecer essa briga histórica, narrou os acontecimentos entorno de uma família que residiu em uma localidade no interior do município de Nova Palma, no período da colonização italiana. Utilizou, sem conhecimento, a micro-narrativa como forma de abordar a história sobre as pessoas comuns no local onde elas viviam. Sem presenciar o que narrou, escreveu os acontecimentos de uma trajetória familiar que se desfaz em um crime brutal através de depoimentos de pessoas que ouviram falar do fato quando crianças, em um tom testemunhal. E ainda, o narrador aqui estudado fala com tal convicção dos fatos que parece que presenciou tudo o que está sendo apresentado no texto.

A narrativa construída foi o meio que o padre utilizou para contar os acontecimentos do casal Stoch. Porém, o meio de divulgação se dá com o discurso. Assim, o aporte teórico necessário para entender como se propagou os fatos narrados do religioso foi buscado em Foucault (2011). Para o autor, um discurso quando investido pelo desejo para sua maior exaltação, carrega terríveis poderes. Assim, o trabalho que está sendo desenvolvido analisará as formas como esse manuscrito foi redigido pelo religioso, uma maneira de buscar dentro dele, os elementos que caracterizam o discurso produzido pelo padre sobre a imigração

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italiana em Nova Palma e na região da Quarta Colônia. Nesse sentido, de acordo com Carr (1996, p.52):

Os fatos, mesmo se encontrados em documentos, ou não, ainda têm de ser processados pelo historiador antes que se possa fazer qualquer uso deles: o uso que se faz deles é, se me permitem colocar dessa forma, o processo do processamento.

Com o processamento das informações encontradas na narrativa, não se quer fazer um julgamento do melhor método da escrita da história. A ideia é provar que, o passado é narrado a partir de um presente que carrega no discurso, uma série de intenções. Neste sentido, precisa-se saber sobre o que e quem o escreve, para que público esta escrita é destinado e, qual o conteúdo que ela traz. Dessa forma, o passado se mostra bem vivo no presente. Acrescenta Carr (1996, p.57): “O passado que o historiador estuda não é um passado morto mas um passo que, em algum sentido, está ainda vivo no presente”. Daí usou-se o termo

narrativa, sobre o que aconteceu como uma versão possível e plausível dentro do método histórico. Não o faz no singular porque não se entende que se está diante da verdade singular dos fatos.

O enunciador do texto, Padre Luiz Sponchiado destinou parte de sua vida a pesquisa sobre a movimentação dos imigrantes italianos na região da Quarta Colônia. Seu trabalho gerou um acervo valiosíssimo – o Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG) – que contém diferenciadas fontes de pesquisa sobre a temática. Entre os documentos disponíveis no acervo encontram-se os manuscritos, fotografias, recortes de jornais, certidões, fitas de vídeo, entre outros, incluindo o material empregado para a construção do texto sobre a história da família Stoch.

O interesse em narrar à história do casal partiu do próprio religioso, informação essa confirmada ao revirar os documentos da caixa da família13 Stoch. O intuito foi relatar a saga migratória de famílias italianas à pequena comunidade de Linha Três, no interior de Nova Palma.Para tal, iniciou as investigações sobre o caso referido em 1964, quando visitou o local onde ocorreu o crime. Em 1973, o religioso desloca-se a Cruz Alta14 e a Passo Fundo15, onde residem os descendentes dos Stoch para colher informações sobre a família, que foram acrescentadas ao relatório que o mesmo havia produzido. As pesquisas tiveram uma parada, da qual foi retomada nos anos noventa. No início dos anos dois mil, o projeto foi concluído da seguinte maneira: uma narrativa foi escrita para contar a história do casal, um monumento foi

13 São caixas que contém documentos dos mais diversos tipos sobre os sobrenomes de descendência italiana,

sistema de guarda estabelecido pelo pároco. O acervo disponibiliza mais de 800 caixas de família. No caso, a caixa utilizada é a da família Stoch.

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construído para homenagear as famílias italianas e a saga da imigração e uma missa campal foi celebrada como forma de marcar na memória local o acontecido (CAIXA DE FAMÍLIA STOCH).

O religioso, ao escrever a narrativa, utilizou dados oficiais, não oficiais e também emitiu julgamentos morais sem critérios científicos que são acrescentadas na história narrada. Ele foi um pesquisador que, na verdade, produziu um romance sobre a família Stoch.

Já o historiador que tem um compromisso social, agregando as fontes oficiais e não oficiais, porém tenta manter um controle deliberado na utilização das informações adicionadas na escrita. Com isso, aqui o trabalho do historiador se torna relevante ao analisar uma fonte diferenciada como uma narrativa. A ele compete aproximar os acontecimentos, como uma maneira de (re)familiarizá-los para si e para eventuais leitores (ELMIR, 2004).

O historiador consulta inúmeros acervos, codifica textos, leituras e imagens que são deixadas ao longo do tempo pelas gerações (ALBUQUERQUE, 2007). Sendo assim, para esse estudo, foram utilizadas as seguintes fontes: a narrativa escrita pelo religioso Padre Luiz Sponchiado e os processos de acusação de Antônio Stoch e Juvêncio José dos Santos. A narrativa foi primeira fonte que se teve acesso, conhecendo o caso e interessando-se em estudá-lo. O manuscrito envolve a pessoa que o lê montando o cenário dos crimes, tentando constituir imagens de cada fato acontecido. Com um olhar histórico, pode-se perceber que além de uma rica narrativa que aborda a vida de imigrantes italianos na saga migratória, vê-se um discurso construindo um imigrante e afirmando suas particularidades que encontra eco nos dias atuais. Segundo Geertz (1989), compreender o comportamento humano é entender as representações e a ação simbólica dos indivíduos nas sociedades no qual pertencem. Como se usa uma fatalidade para enaltecer ainda mais a figura do imigrante, o sofrimento e a coragem, indo além do acontecimento. Percebem-se aí indícios de traços ainda invisíveis ou ocultados que podem ajudar nos estudos migratórios no RS.

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depoimentos orais coletados, pois se sabe que memória não é apenas lembrar, mas esquecer de fatos, bem como, fazer confusão com as informações do passado (TEDESCO, 2004).

A seguir, serão expostos os trabalhos do religioso sob a análise histórica. O primeiro, na construção de uma narrativa para reafirmação da identidade dos moradores da comunidade. O segundo, sob um olhar histórico, faz uma análise sobre o manuscrito, no qual apontará traços que caracterizam os imigrantes italianos em Nova Palma. Em concomitância, será realizado o entrelaço da história do casal com a historiografia da imigração no RS.

3.2 HISTÓRIA DE SANGUE E LÁGRIMAS DA COLONIZAÇÃO16: A CONSTRUÇÃO DO DISCURSO IMIGRANTE

A ideia de manter a chama da imigração acesa da figura do imigrante italiano que colonizou a região parece ser a base das intenções para que Padre Luiz Sponchiado se empenhasse na pesquisa que culminou na elaboração de uma narrativa enaltecedora sobre a história de um casal imigrante. Como o intuito de fazer a comunidade de Linha Três lembrar e esquecer acontecimentos que envolvem a saga da colonização. Nesse sentido, o manuscrito narra os acontecimentos e o discurso torna-se o meio de propagação desta narrativa. Segundo Foucault (2011), em todas as sociedades, a produção dos discursos é caracterizado pelo poder da palavra e os eventuais perigos decorrentes dela. Com isso, o poder que a palavra tem para estabelecer a lembrança e/ou esquecimento entre os indivíduos sobre a colonização. Além disso, o manuscrito promove uma sensibilização entre os moradores da localidade, como forma reforçar a identidade de seus ancestrais.

Assim, para interpretar uma série de informações trazidas no manuscrito, se encontrou apoio no paradigma indiciário de Ginzburg (2003). Ao avaliar a narrativa foi necessário examinar os pormenores mais negligenciáveis para descobrir as características da imigração italiana. Com isso, o papel do historiador se faz necessário, pois ele é capaz de ler pistas ocultas e, através disso, encontrar indícios que não são perceptíveis à maioria que lê a narrativa do religioso.

Como forma de entender a construção do discurso produzido pelo padre sobre a imigração italiana, foi utilizado Geertz (1989) com a descrição densa dos documentos. Ela funciona quando o objeto carrega inúmeros dados significativos, no qual a densidade necessita de interpretações. Tal descrição, por ser densa, possui características que são

16

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peculiares. A descrição densa interpreta ainda o discurso, este carregado de significações, como forma de perpetuá-lo e/ou transformá-lo.

Nesse sentido, ao analisar a narrativa, se lê cada termo e frase com o intuito de encontrar indícios que levam a novas características do processo migratório, tendo como base o paradigma indiciário de Ginzburg (2003) e a descrição densa de Geertz (1989). Assim, primeiramente será avaliado o título da mesma. O padre intitula a narrativa da seguinte maneira: Uma historia de sangue na colonização italiana, no núcleo Soturno da ex-colônia de Silveira Martins do Rio Grande do Sul. A história de Sangue na colonização italiana refere-se às mortes narradas pelo religioso, os assassinatos das imigrantes italianas Maria Stoch17 e Maria Vedovato18. Destaca-se o uso da palavra sangue para dois momentos, reforçando o aspecto trágico que seria exposto na sequência. O restante do título refere-se ao espaço no qual constituiu a narrativa: no núcleo Soturno, local dos crimes; da ex-colônia de Silveira Martins, o núcleo que pertencia à colônia; do Rio Grande do Sul, território no qual o casal estabeleceu-se e que ocorreram os crimes tratados. Por mais simples que seja a intitulação da narrativa, percebe-se desde aqui o apelo do religioso, com a figura do imigrante. Encontra-se na narrativa, os elementos do discurso sobre o processo imigratório. Isso será perceptível durante toda a escrita. Complementa Foucault (2011, p.8): “por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”.

O padre iniciou a narrativa trabalhando de forma breve com a questão da imigração italiana, elencando os fatores que atraiam os imigrantes ao Brasil, bem como, os fatores de repulsão da Itália. Desenvolve a ideia da imigração espontânea, ocorrido após o cancelamento de benefícios da mesma pelo governo federal. Depois de apresentar o cenário que envolveu os imigrantes do período, apresentou as personagens de sua trama: Ângelo Antônio e Maria Stoch.

Em 1889, o casal teria resolvido imigrar para o Brasil, logo após ter se unido em matrimônio. É plausível o padre ter alegado essa informação devido de o casal ainda não ter filhos. Já sobre as motivações da imigração o padre deixa subentendido, porque é provável que ele não as soubesse, pois não teve contato com o casal para saber os motivos que os fizeram imigrar. A narrativa deixa espaço para supor que, ou o casal teria recebido o convite de amigos, ou teria simplesmente decidido imigrar. Acredita-se que o casal enfrentasse

17 Maria Stoch foi a vítima do primeiro crime narrado pelo padre Luiz Sponchiado. Ele se refere a ela como

Maria Stella Stoch.

18 Maria Vedovato foi vítima do segundo crime narrado por Padre Luiz Sponchiado. Ele se refere a ela como

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dificuldades em território italiano, igualmente a outros compatriotas que decidiram pela imigração. Então, como comenta Hérédia (2010, p.215), os italianos

viam a imigração como meio de fazer fortuna e ter acesso a terra; representava estabilidade econômica, uma vez que a terra sempre foi um elemento promotor de mobilidade social.

Seguindo a narrativa, em um parágrafo abaixo, logo o religioso atribuiu o provável convite a parentes já estabelecidos, na Colônia Silveira Martins, no Rio Grande do Sul. Tamanha é a incerteza dos motivos que fizeram com que o casal imigrasse que o narrador apresenta três deles e ainda, ficando mais clara na expressão “Seja como for” dasequência a narrativa.

Em fevereiro, o casal que havia chegado a Porto Alegre no início do ano de 188919, segue para a Quarta Colônia20. Os imigrantes seguiam até Rio Pardo de barca e o restante do trajeto até o núcleo era feito em carretas (SPONCHIADO, 1996). Nesse período, a maioria dos imigrantes realizava desta maneira a trajetória ao quarto núcleo.

A partir de 1888, o imigrante que chegasse ao quarto estabelecimento era direcionado para outro novo núcleo em Jaguari. Os motivos para esse redirecionamento de imigrantes devem-se ao fato de não existir mais lotes disponíveis na colônia Silveira Martins, com a formação de um novo núcleo, houve disponibilidade de terras para colonização. Segundo Marchiori (2000), Ângelo e Maria Stella Stoch teriam entrado e estabelecido na Colônia Jaguari em agosto de 1889, mas logo a família abandonou o núcleo igualmente a outros imigrantes que se estabeleceram nessa colônia.

A falta de financiamento do governo aos imigrantes no estabelecimento dos lotes pode ter sido um fator decisivo para o abandono da terra, um ponto não abordado pelo religioso. Além dos Stoch, muitas outras famílias abandonaram a região. Vale mencionar que a historiografia tradicional não trabalha frequentemente com os imigrantes que não receberam o financiamento do governo, bem como, em consequência disso, com os mesmos imigrantes que abandonaram os lotes de terra. Os colonos necessitavam de recursos para desenvolver o lote de terra, como também, para manter a si e a família. Com isso, os primeiros imigrantes do novo núcleo Jaguari21 não receberam itens como “casa provisória, ferramentas e sementes”. Ressalta Marchiori (2000, p.17):

19 Em 15 de novembro de 1889, o Brasil vive o período de transição entre o fim do Império e o início de uma

nova política, a República.

20 Essa informação foi colhida em manuscritos do religioso e não consta nessa narrativa estudada.

21 Neste núcleo vieram imigrantes de várias etnias, tais como alemães, polacos e italianos. Também, os primeiros

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Cabe observar que não constam, para os primeiros imigrantes, empréstimos relativos aos itens “casa provisória” e “ferramentas e sementes”. O primeiro imigrante a receber empréstimo para a compra de ferramentas e sementes foi Wilhelm Kauffmann (n. 1056, AS 290), no valor de 45$000. Josef Hertwing, integrante da mesma leva (n. 1057), foi o primeiro a receber empréstimo para “casa provisória”, no valor de 150$000. Antes desta data, raros foram os empréstimos a imigrantes, salientando-se, neste caso, o concedido a família de Nicolau Steibel, primeiro imigrante registrado na Colônia, que recebeu o valor de 202$900, para “estabelecer um moinho”.

As leis da colonização e imigração no Brasil e na Província sulina são importantes para se ter entendimento dessa mobilidade. Elas justificariam muitas das ações e medidas adotadas com os indivíduos, bem como teria uma compreensão melhor do processo migratório. Nesse sentido, salienta-se o Decreto N.7570 de 20 de Dezembro de 1879, que suspendia provisoriamente com os favores e financiamentos para a imigração (IOTTI, 2001). Então, o governo não teria a obrigação de ceder benefícios com os imigrantes que vinham depois da suspensão do decreto e, por isso, os primeiros imigrantes que chegaram ao núcleo Jaguari, como Ângelo e Maria Stella Stoch não teriam recebido os benefícios por meio desse decreto suspensório.

Com isso, é provável que sem os recursos da imigração, o casal teria retornado a Colônia de Silveira Martins, no núcleo Seis Norte. O estabelecimento do casal nesse núcleo é a única convicção que o padre tem sobre o casal. Segue um trecho do manuscrito: “Seja como for, o certo é que, no final de 1889 (Proclamação da República) ou início de 1890, o casal Ângelo e Maria Stella Stochi22, se encontravam, na Linha Seis Norte de Silveira Martins”.

Nesse local havia um barracão23 para a instalação dos colonos que chegavam, porque no núcleo Jaguari, “a ausência de um barracão para abrigo dos imigrantes recomendava o imediato encaminhamento dos mesmos para os respectivos lotes” (MARCHIORI, 2000, p.16).

A circulação e o estabelecimento do casal da colônia Silveira Martins são confirmados pelo religioso na narrativa através dos batizados dos filhos do casal, que passam a nascer em solo brasileiro. Para essa informação, provavelmente o religioso tenha usufruído dos registros paroquiais, pois dá precisão nas datas e nos padrinhos das crianças. Segue os trechos da narrativa:

22 O padre Luiz utiliza a grafia do nome Stoch de duas formas, tanto Stochi quanto Stoch. 23

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- Aí nasce o filho primogênito do casal, JOÃO ANTÔNIO STOCHI, precisamente à 03/03/1890, que batizaram à 03/04/19891, servindo-lhe de padrinhos Francisco Sandri e Augusta Ateniér e sendo celebrante Don Antônio Sório, sacerdote pecular de Verona, então Pároco de Silveira Martins.

- Em 17/07/1891, na mesma localidade, nasce o segundo gênito, que cognominaram ADÃO, devido ao padrinho, Adamo Vieira e sua esposa Eva. Isto à 27/07/1891. O pequenino porém pouco viveu, por quanto à 09/09/1891, morria na Linha Seis Norte e foi enterrado, segundo consta no livro de óbitos número 1, de Silveira Martins, nas folhas 52 e número de ordem 168 no cemitério da Linha Seis Norte.

[...]

- O vazio deixado no lar pela morte, pouco durou. Foi preenchido com o nascimento de GERONIMO STOCHI, acontecera à 22/07/1892, que foi levado, 4 dias após, à 26 do mesmo mês e ano, a pia batismal, pelos padrinhos Diogo e Ema Tognotti, que eram negociantes24 no povoado de Silveira Martins.

O religioso, ao longo da narrativa que ele próprio produziu, fez questionamentos acerca do deslocamento e de ações realizadas pela família Stoch. Isso foi percebido desde o início e vai se encaminhando e se estendendo no texto. Essa situação é perceptível em mais um trecho da narrativa, quando o padre indaga o deslocamento da Colônia Seis Norte para o Núcleo Soturno:

Após o nascimento, deste terceiro filho (pouco antes ou já no inicio da famigerada revolução de 1893), a família Stochi, vem morar nas terras e no terreiro das casas do cunhado Antônio Valeri e Domênica Pellegrin no lote 122 da Linha Três do Soturno (hoje Nova Palma). O que houve? ...

Mais uma vez, o padre fez um questionamento a respeito dos Stoch’s: o que teria acontecido para que eles se deslocassem até o núcleo Soturno? O que se sabe é que, a família crescia com o nascimento das crianças e era preciso instalar-se em uma residência. Não possuindo casa para estabelecer os familiares, ferramentas e sementes para desenvolver um lote, o casal decidiu morar em terras de parentes no núcleo Soturno.

É interessante fazer menção sobre a movimentação do casal dentro da região central do RS: primeiramente chegaram à Colônia Silveira Martins, sede da Quarta Colônia. Por não haver terras disponíveis para a colonização, foram direcionados a um novo núcleo, em Jaguari. O local não tinha barracão, sendo recomendado o imediato encaminhamento dos novos imigrantes que ingressavam na região aos lotes recém-medidos (MARCHIORI, 2000). Sem os benefícios do governo para o estabelecimento nos lotes, o casal abandonou a terra concedida, retornando ao núcleo Seis Norte em Silveira Martins, onde existia um barracão. Depois de passarem algum tempo nesse lugar, no qual, nasceram três filhos, o casal decidiu morar em terras de parentes. Mais uma vez, o casal deslocou-se: de Silveira Martins para o núcleo Soturno, local onde aconteceu a tragédia com a família. Percebeu-se então a movimentação do casal dentro da região central do Estado sulino: fatores como a falta de lotes

24 Os italianos residentes na Colônia Silveira Martins não eram apenas agricultores e sim, imigrantes com outras

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e a suspensão dos benefícios da imigração, levando muitos colonos ao abandono de lotes de terras foram decisivos para a circulação de imigrantes dentro das colônias. Sendo assim, uma característica da imigração na região da Quarta Colônia.

O religioso afirmou que o casal não vivia em harmonia, possuindo desavenças. Mas não detalhou os tipos de desavenças. Estaria ele ocultando os tipos de discórdias entre o casal, ou realmente ele não sabia o que acontecia? Além isso, deixou subentendido que Ângelo estaria trabalhando na estrada de ferro, questionando se seria por necessidade de sustentar a família, ou ainda se ele arranjado um motivo para viver afastado da esposa. Produziu ainda um discurso moralizante acerca dos desentendimentos vividos entre Ângelo e Maria Stoch. Segundo trecho da narrativa:

O casal tinha entre si, sérias desavenças. Não se davam, Ângelo afastava-se por longos tempos de casa, para trabalhar na estrada de ferro, que então estendia seus trilhos em direção à fronteira, além de Santa Maria. Necessidades da vida? ... Ou maneira “justificada” de abandonar a casa, onde não se sentia bem com a esposa... Ambas as coisas, por certo que em desavenças de casa, ninguém tem razão e ambos tem culpa, “Se um não quer, dois não brigam”, diz judicioso adágio popular.

Ao ler o trecho, percebeu-se que, para Sponchiado, Ângelo poderia não se sentir bem com a esposa e por isso a abandonava para trabalhar na estrada de ferro. Porém, o que se sabe é que era comum que os imigrantes trabalhassem para o Estado como forma de arrecadar dinheiro enquanto o lote ainda não produzia o suficiente para sustentar a família (SPONCHIADO, 1996. a). Além disso, percebeu-se aqui o indício de outra característica dos imigrantes da região da Quarta Colônia: desarmonia entre os casais imigrantes.

No núcleo Soturno, na localidade de Linha Três, se estabelece a família Stoch. Morando em uma residência de aluguel de parentes ali estabelecidos, nasceram o quarto e o quinto filho do casal, como fica esclarecido na narrativa. O quarto filho foi chamado de Beneveduto e o quinto25 não se soube o nome - não chegou a ser batizado26 pois foi assassinado antes, segundo a narrativa do Padre. Porém, no processo de acusação de Antonio Stoch, o bebê foi identificado como um menino de nome Guilherme27.

25 O quinto filho de Maria Stoch era um menino, segundo o processo crime. Porém, na narrativa, Padre Luiz

Sponchiado, em inúmeros momentos referiu como uma menina. 26

Nesse período, somente Vale Vêneto e Silveira Martins tinham padres. E eles acompanham todos os núcleos da Colônia Silveira Martins. Devido à precariedade das estradas e as dificuldades de locomoção, bem como, de atender a demanda de fieis, as idas desses padres aos núcleos aconteciam de poucas vezes ao ano, por isso, muitas crianças não foram batizadas, como no caso do quinto filho do casal Stoch.

27 Antônio Stoch. Processo-crime, Júlio de Castilhos, cível e crime, nº 1005, maço 34, 1897, Arquivo público do

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O texto ganha aspectos dramáticos ao constituir o cenário do crime que envolvem as personagens. Logo, um pequeno trecho da narrativa escrita pelo religioso, ensaia os primeiros momentos antes do crime:

Maria Stella Stochi, um domingo de tarde, provavelmente 08/08/1896, deixando os filhos com a cunhada Domênica e tomando consigo o bebê de peito, como boa vizinha, subiu para visitar a enferma28.

Ao analisar o processo crime, essa situação não é mencionada. Porém, quanto à data do crime, o documento judicial apresenta como dia 06 de janeiro de 189729.

De forma literária, o padre narrou a trajetória da família e criou o cenário do crime. A ideia de criação parte do pressuposto que, o padre como narrador não vivenciou ou presenciou esse acontecimento, bem como não conviveu com as pessoas que estão envolvidas no caso. O segundo motivo deve-se as partes envolvidas encontrarem-se mortas, sendo assim dificilmente teriam deixado algum registro do ocorrido. Terceiro porque o processo crime não traz a situação que foi narrada pelo padre. Contudo, a arte pelo qual foi escrito o texto fascina o leitor e o faz acreditar que o crime aconteceu exatamente daquela maneira, buscando garantir uma profunda comoção e identificação com a mulher, que era “boa vizinha”. A narrativa apresenta um narrador onisciente, tendo a capacidade de saber tudo o que estava acontecendo no momento do crime, mesmo não estando presente (ELMIR, 2004). Isso aconteceu por que parece existir uma testemunha que presenciou o fato, descrevendo a cena com detalhes, apresentando o horror vivido pelas vítimas, como o episódio em que Maria Stella e o filho foram surpreendidos por um homem denominado Lúcio José dos Santos:

Alcançou-a na vereda sombria das florestas, junto ao lote 144. Sádico inveterado, com ameaças e desaforos, obrigou-a a satisfazer seus instintos bestiais que, devido a sua perversão sexual, tinha satisfação com judiaria de sangue. - Deixou prostada de tal maneira e com tanta equimoses, que achou melhor matá-la de vez, grossas pedras, ferros abundantes no local, liquidaram-na. Foi então que o bárbaro se deu conta, pelo choro da criança que fora atirada aí, pelo chão. – Temendo que o choro o traísse, procurou sossegá-lo, decepando do cadáver da mãe o peito, que colocou na boca inútil. Daquela posta de carne porém não escorria leite, e o inocente também foi linchado a pedradas.

Na narrativa, apesar as especulações acerca de Ângelo ter cometido o crime, tendo sido ele acusado e preso como assassino, o padre atribuiu o crime a outro homem, Lúcio José dos Santos, que anos mais tarde, teria assassinado de forma parecida uma moça de 14 anos. O processo30 acusou o marido da vítima como assassino e em nenhum momento apresenta outro suspeito. Sendo assim, todo o horror relatado acima, nada consta no processo crime. Segundo

28 A enferma era uma vizinha.

29

Antônio Stoch. Op cit. 30

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o processo crime, a morte de uma das vítimas ocorreu através de pedradas, mas não teria acontecido a violência sexual, nem mesmo decepado o seio da mulher. Quanto à morte da criança, não foi a pedradas, como retrata a narrativa, mas sim, segundo o processo, através de estrangulamento. Ambos os documentos, não conseguem estabelecer a verdade sobre os fatos ocorridos no dia do crime.

Nesse sentido, buscou-se inspiração na obra de Cláudio Pereira Elmir que trabalhou em sua tese de doutorado com os discursos que envolveram os crimes do arvoredo, ocorrido em Porto Alegre, nos anos de 1863 a 1864. Muitas narrativas foram escritas sobre o caso do açougueiro que produzia linguiça com carne humana, sendo que teria sido consumida pela alta sociedade porto alegrense. Mas nada foi comprovado judicialmente, somente as mortes. As histórias foram criadas como forma de gerar uma verdade absoluta sobre o caso, de tornar cada versão mais real e verídica que a outra. Além disso, os textos analisados pelo autor também possuem um narrador onisciente, aquele que sabe de tudo, mesmo não presenciando o acontecimento, igual à narrativa estudada nesse trabalho.

Alguns dias depois, o corpo de Maria foi encontrado pelo marido da vítima. Segundo o Padre, por existir desavenças entre o casal, esse fator foi decisivo para Ângelo ser suspeito pelo assassinato da própria esposa e filho. Fatos esses confirmados no processo de acusação de Ângelo Antônio Stoch, com depoimentos de testemunhas e do próprio acusado. Lúcio José dos Santos nem é mencionado no processo crime que acusa o Ângelo, sendo somente este responsabilizado pelo crime. Na narrativa, o acusado protestou sua inocência, negando ter cometido o crime, o qual estava sendo acusado:

Com veemência ele protestou e jurou inocência, porém manietado, foi levado pelo piquete policial, que também ajuntou os três filhinhos para serem entregues ao Juiz de Menores.

Assim, Ângelo Stoch foi preso na cadeia de Vila Rica31, ficando trancafiado por alguns anos. O religioso, ao escrever a narrativa, procurou registros oficiais, mas não obteve sucesso. O mesmo afirma no manuscrito:

Acredita-se que sem outro processo de investigação, visto que até hoje não encontraram qualquer libelo contra o mesmo, uma vez que a justiça daqueles anos de cangaço, post32-revolucionário, era feita de forma falha, caudilhescamente.

O que ele não soube é que no Arquivo Público do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, estavam guardados tais processos que tanto buscou e que estamos utilizando nesse trabalho. Por não ter conhecimento do documento, o padre chamou a justiça de falha devido à

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condenação de Ângelo, sendo que havia 12 testemunhas de acusação que o denunciaram como assassino da esposa.

Assim, Ângelo teria permanecido preso até que outro crime acontecesse na localidade e, a partir disso, sua inocência fosse comprovada. Então, seguindo a narrativa do pároco, antes de terminar o século XIX, em cinco de dezembro de 1899, foi encontrada morta a jovem italiana Maria Vedovato. Segundo o processo de acusação de Juvêncio José dos Santos33, o crime teria ocorrido realmente nessa data, porém o nome da moça seria Luiza Vedovato, de 14 anos. É incrível a cena de pavor descrita pelo narrador, sobre o encontro do corpo da vítima:horrivelmente deformada por machadadas na cabeça, vastas equimoses em todo o corpo bestial, rasgamento dos órgãos sexuais, a jovem de 16 anos de idade34. Conforme o processo de investigação, o assassino, ao ver a moça sozinha na picada que vai a Linha Três, no Faxinal do Soturno, “seguiu-a, violentando-a fisicamente e saciando seus desejos carnais, desvirginando-a de modo bestial, feroz e covarde” 35. Ela foi encontrada semimorta, deitada

de costas com as pernas e braços abertos, com ferimentos na cabeça provocados por um machado, que tornou o osso em migalhas, levando-a ao óbito. A descrição do crime pelo processo é muito semelhante ao cenário monstruoso que o padre escreve, sendo diferentemente do primeiro delito em que há inúmeras peculiaridades que diferenciam a narrativa do processo de investigação, onde os trechos se contradizem.

O autor desse crime seria Lúcio José dos Santos, considerado foragido da Casa de Correção em Porto Alegre, segundo a narrativa. Contudo, no processo de investigação, o nome do acusado é Juvêncio José dos Santos, desertor da Brigada Militar diferentemente do que havia afirmado Sponchiado. O padre apresenta duas situações no qual Juvêncio é encontrado. Segue trechos da narrativa:

Lúcio José dos Santos, foi encontrado lavando um machado ensanguentado, junto ao Lageado dos Porcos, - Inquirido respondeu que matara um tatu, junto a mata que estava derrubando.

[...]

Encontrado logo adiante o corpo da vítima e tendo ele desaparecido na mesma noite, após apresentar-se ao local do crime com roupas mudadas, as suspeitas tornaram-se certezas.

Diante das duas situações, o processo de acusação de Juvêncio José dos Santos foi arquivado após o linchamento e morte do réu. Porém, haviam sido chamadas cinco testemunhas de acusação, no qual nenhuma era italiana. No processo consta que a moça teria sido morta por um objeto cortante, um machado, pois o acusado foi visto com esse

33

Juvêncio dos Santos. Processo-crime: Cartório Cível e Crime, Cachoeira do Sul, nº 2507, maço 81, 1899.

34 Juvêncio José dos Santos. Op cit.

35

(33)

instrumento no ombro, próximo do local do crime. Além disso, as roupas do suspeito encontravam-se molhadas, justificando-se que ao tomar banho, caiu no rio. Logo teria sido convidado para ver o corpo da vítima que, ao aproximar-se, entrou mato à dentro, fugindo. Tal atitude, fez com que as testemunhas apontassem Juvêncio como o assassino da moça italiana. Enfim, as informações da narrativa condizem com a apresentada no processo-crime.

Após a fuga do acusado, ele teria se apresentado na casa do inspetor. Nesse momento, o narrador onisciente tornou-se presente e uma testemunha oculta parece relatar ao religioso com detalhes o aprisionamento e o linchamento de Lúcio, que na verdade é Juvêncio. Segue mais um trecho narrando com certo horror sobre o fim da vida do réu:

[...] foi levado para Dona Francisca, onde as autoridades de Cachoeira, tinham mais fácil acesso. Aí o grupo resolveu lincha-lo sumariamente. – Estaquiado em decúbito dorsal em quatro pontaletes, vendo seu fim se aproximar, resolveu confessar todos os crimes, diante do rumoroso e rancoroso grupo que rodeava com suas armas, “Taquaris”, com chumbo, buchas e espoletas, prontas para detonar. – Entre outros desvarios, confessou que “soltassem o Stochi, pois fora ele quem matou a mulher Maria Stella”... – Salvas de tiros, deram fim ao miserável, junto ao “Campestre”, plaino alagado pelas margens do Soturno, pouco antes de chegar a Dona Francisca. – Seu corpo foi reduzido a cinzas, sobrando a cabeça, que alguns dias depois, como bola de jogo, os suínos disputavam pelo descampado”.

E é incrível o desenrolar da história apresentada por Sponchiado, o trágico final de um assassino cruel parecendo final de novela. Além do linchamento, o religioso procurou dramatizar ainda mais o fim da vida de Lúcio: a disputa pelos restos mortais do acusado pelos porcos.

Conforme o processo de investigação, o linchamento de Juvêncio realmente existiu, sendo realizado por 400 pessoas, na Colônia Dona Francisca e, em nenhum momento é referido os restos mortais do acusado. Além disso, em nenhum momento foi mencionado no processo que Juvêncio haveria confessado os crimes que havia cometido, incluindo aqui o assassinato da esposa de Stoch e o filho.

É relevante mencionar que a narrativa é direcionada a história de apenas uma família. O crime que envolveu a jovem Vedovato fica praticamente em segundo plano, visível apenas para justificar a inocência de Ângelo. O grande foco do religioso foi relatar a trajetória da família Stoch, pois através disso realiza a construção de um monumento em homenagens as mães da colonização italiana na região da Quarta Colônia.

Praticamente usando para concluir a narrativa, o padre deixou clara sua intenção com o manuscrito. Segue mais um trecho da narrativa:

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