PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA IMIGRAÇÃO À PRODUÇÃO DO ESPAÇO SIMBÓLICO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

  LUDMILA SANTOS PETROHILOS

  

PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA

  

IMIGRAđấO ầ PRODUđấO DO ESPAđO SIMBốLICO

São Paulo

2014

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

  LUDMILA SANTOS PETROHILOS

  PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA

  IMIGRAđấO ầ PRODUđấO DO ESPAđO SIMBốLICO DISSERTAđấO DE MESTRADO

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Geografia, sob a orientação da Prof.

  ͣ. Dr. ͣ. Marcia Maria Cabreira Monteiro de Souza.

  São Paulo 2014

  BANCA EXAMINADORA ______________________________________________ ______________________________________________ ______________________________________________

  A ela. Razão da minha existência e da mulher que sou hoje. Fonte inesgotável de amor e de dedicação. Este aqui é para você, mamãe, Sonia Maria Santos.

  

Agradecimentos

  O processo de construção da minha dissertação de mestrado me colocou em prova muitas vezes. Posso até dizer que essa produção ajudou no conhecimento sobre mim mesma.

  Essa pesquisa, ainda que não elucide por palavras escritas, revela uma imensidão de sentimentos, muitas vezes contraditórios, mas ainda sentimentos. A sensação de plena realização, esta que sinto agora, nunca havia sentido antes. E como é boa!

  Passei por muitas fases cruciais durante o meu percurso no mestrado e, sinceramente, nenhuma delas foi fácil. Mas, o melhor dessa história toda é que eu consegui fechar mais um ciclo da minha vida.

  Acredito que fechar um ciclo em nossa vida vai muito mais além da nossa força de vontade e determinação. Conseguimos fechar um ciclo porque contamos com a ajuda de pessoas muito especiais e que realmente gostam de nós.

  Eu pude contar com muitas pessoas boas ao longo dessa jornada e sou verdadeiramente grata a cada uma delas. A todos vocês, o meu Muito Obrigada!

  Agradeço demais a minha mãe, Sonia, pelo apoio constante, por toda a ajuda (em todos os sentidos) que me deu, pela dedicação, cuidado e por suas tantas outras intermináveis provas de amor sendo que, uma delas, foi, simplesmente, a possibilidade a mim destinada de cursar o mestrado na PUC. Muito obrigada, mãe, eu amo você.

  Agradeço incansavelmente a você, amor da minha vida, Paulo Renato, pela sua dedicação em querer me ver sempre feliz (sempre deu certo), pelo seu bom-humor que tanto me faz rir, pela sua paciência, seu companheirismo, cumplicidade, otimismo inabalável, lealdade e pelo seu amor que é o meu tesouro. Muito obrigada, meu amor e meu melhor amigo. Eu amo você.

  Agradeço a minha querida orientadora e amiga Prof.ª Marcia Maria Cabreira Monteiro de Souza pelo seu carinho, sua enorme disposição em me ajudar, discutir, sugerir, aconselhar, sempre procurando me confortar e me orientar pelo caminho certo. Agradeço pela sua confiança e pelo seu constante incentivo. Muito obrigada.

  Agradeço às queridas Prof.

  ͣ Dulce Maria Tourinho Baptista e Prof. ͣ Marísia Margarida Santiago Buitoni, pela presença em minha banca de qualificação do mestrado, pela grande ajuda nesse momento tão importante, pelas dicas e pelo carinho.

  Agradeço ao Prof. Gustavo Coelho de Souza pelo apoio, carinho e conselhos dados ao longo da minha trajetória na universidade. Agradeço ao Prof. Mauro pelo apoio, carinho e sempre disposto a me ouvir com valiosos conselhos. Agradeço aos Profs. Edson Cabral, Carlos Alberto Bistrichi e João

  Evangelista de Souza Lima Neto, (integrantes da minha banca do trabalho de conclusão de curso na graduação), pelo carinho e pelos conselhos valiosos no momento em que eu estava decidindo sobre o mestrado. Eu consegui!

  Agradeço a todos os outros professores do departamento de Geografia pela sabedoria, carinho e dedicação a todos os alunos. Agradeço ao Prof. Carlos Eduardo Ferreira de Carvalho, pelas deliciosas gentilezas, carinho e atenção a mim conferida. Agradeço à Vera, secretária do Programa de Pós-Graduação em Geografia, por estar sempre disponível e com informações seguras e precisas. Agradeço às funcionárias da PUC, em especial àquelas que me conhecem de longa data, pela amizade, carinho e constante prestatividade. Agradeço aos meus colegas do mestrado pelas discussões tão ricas e importantes para o nosso próprio desenvolvimento. Agradeço a minha amiga Marta Minussi pela atenção e total dedicação na confecção dos mapas. Agradeço ao meu cunhado e amigo Gabriel Garcia, pelo seu tempo e incrível trabalho com as fotografias. Agradeço aos meus dois grandes amigos de PUC: Heloísa dos Santos

  Almiñana e Allan Navarro, pelas intermináveis risadas, companheirismo, cumplicidade e amizade. Sou muito grata por ter cruzado com vocês nessa fase da vida e terem feito dela tão leve e especial.

  Agradeço aos colaboradores dos encontros de Geografia, especialmente ao XVII Encontro Nacional de Geografia (2012), pela oportunidade de apresentação do meu artigo científico.

  Agradeço à PUC, pelo acolhimento desde 2005 e por ter me proporcionado ferramentas valiosas para que eu me transformasse em tudo que sou hoje. Obrigada por ter me proporcionado o título de Bacharel em Geografia e agora Mestre em Geografia, por ter sido palco de muitas realizações, de construções, de alegrias e memoráveis lembranças.

  Por fim, agradeço a Deus pela vida que é tão bela e preciosa.

  “E todos nós, quem quer que sejamos ou onde quer que estejamos, não fazemos mais na vida do que procurar o lugar onde iremos ficar para sempre”.

  José Saramago

  

Resumo

  A proposta desta dissertação é examinar a singularidade e particularidade da presença boliviana na cidade de São Paulo, por meio de sua integração com o lugares, especialmente com a Praça Kantuta, localizada no bairro do Pari. Transcorrer na percepção de espaço enquanto produção do social e suas manifestações nas práticas da vida cotidiana.

  O trabalho analisa essa expressão boliviana na cidade, do ponto de vista concreto e abstrato, a partir de importantes categorias da Geografia como espaço, território, lugar e paisagem.

  Para a análise da produção subjetiva que se estabelece nos lugares de convívio, o trabalho promove uma dialética entre demais saberes, bem como outras categorias como a cultura e a identidade. Faz-se uso da Filosofia, da Sociologia, da Antropologia e da História na intenção de estabelecer junto à Geografia o enriquecimento da discussão.

  O viés adotado para a análise aqui apresentada corresponde ao reconhecimento das causas que tornam as imigrações uma questão de ordem internacional, bem como o processo histórico-geográfico que culminou na imigração boliviana para o Brasil e, de um modo mais intenso, na cidade de São Paulo.

  A partir dessa espacialização da problemática, a pesquisa debate a relevância de lugares de convívio como as praças, para a manifestação da cultura, das expressões de territorialidade e do cotidiano enquanto prática de vivências e de esperanças.

  Palavras-chave: Imigrações Internacionais – Bolivianos –Lugar – Praça Kantuta – São Paulo.

  

Abstract

The purpose of this study is to examine the uniqueness and particularity

of the Bolivian presence in the city of São Paulo, through its integration with

places, especially with Kantuta Square, located in the district of Pari. In addition,

to elapse in the perception of space as social production and its manifestations

in quotidian practices of life.

  This study analyzes the Bolivian behavior and language, into the city,

based on a solid and abstract view. For this Geographic immersion It was

adopted as essence theory of space, territory, place and landscape.

  For the subjective production that is established in places of conviviality,

the work promotes a dialectic between other knowledge, as well as other

categories such as culture and identity. Use is made of Philosophy, Sociology,

Anthropology and History of the intention to establish by the Geography

enriching the discussion.

  The adopted to bias the analysis presented here corresponds to the

recognition of the causes that make immigration a matter of international order

as well as the historical-geographical process that culminated in the Bolivian

immigration to Brazil and, more intensely, in the city of São Paulo.

  From this spatialization of the problem, the research discusses the

importance of places of conviviality as squares, for the manifestation of culture,

the expressions of territoriality and the everyday experiences while practicing

and hopes.

  

Key-words: International Migration – Bolivians – Place – Kantuta Square – São

Paulo

  

Sumário

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

Índice de Tabelas, Gráficos e Mapas

  Tabelas

   Gráficos

  • Mapas

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  Introdução

  A presença de bolivianos na cidade de São Paulo tem tomado uma posição de grande relevância e de discussões sobre os seus aspectos de envolvimento com a mesma. A notoriedade que se faz presente nessa expressão latina no território paulistano é resultado da construção da territorialidade desses imigrantes face aos espaços de uso público, as praças.

  A praça Kantuta, localizada no bairro do Pari da cidade de São Paulo é o retrato vivo da manifestação da cultura e tradições bolivianas bem como um indicador de condição de mobilidade dos bolivianos na cidade e o uso da praça enquanto lugar de socialização e convívio, incidência de sentimento de abrigo e pertencimento a partir do depósito de seus valores simbólicos e particularidades.

  Para que seja possível o debate sobre a configuração da consciência que envolve a presença dos bolivianos no uso dos lugares da cidade e o modo como se expressa a vida cotidiana desses imigrantes, foi considerado o contexto mundial dos fluxos migratórios ocorridos no século XX e XXI, como condição sine qua non dos aspectos que fomentaram a vinda de bolivianos para o Brasil e, em caráter especial, para a cidade de São Paulo e suas consequências na prática de criação da territorialidade neste lugar.

  É por via dos processos migratórios impressos em todo o mundo que milhares de homens e mulheres reconstroem suas relações no e pelo o espaço, reconfiguram meios de integração para a o convívio social e negociam suas relações de trabalho.

  A presente pesquisa trata as causas do modo de uso e as transformações ocorridas no espaço pelos bolivianos na cidade de São Paulo a partir da gênese do processo que os impulsionaram para firmar residência na mesma. Uma vez reconhecidas essas causas foi possível compreender a importância do sentimento de estar e ser presente em qualquer lugar do mundo.

  Para tanto, quatro vertentes formaram a base de construção da pesquisa como um todo. A saber:

   Construção do panorama internacional, no limite da América Latina, acerca dos fluxos migratórios para a revelação de sua implicância na

  • – entrada de bolivianos no Brasil, a partir de seus aspetos quantitativos apresentação e análise de dados históricos e recentes;

   A exposição dos atrativos da cidade de São Paulo que engendram a manifestação da presença boliviana, a partir da contextualização histórica-econômica da cidade;  Roteiro de produção para o conhecimento desses bolivianos na cidade de São Paulo: quem são, onde estão e o que fazem;  Reconhecer os lugares de concentração dos bolivianos residentes na cidade que estejam fora do circuito do trabalho. Os lugares de lazer.

  Para que essa problemática pudesse ser resolvida desde os processos histórico-geográficos que culminaram na imigração boliviana para o Brasil e para a cidade de São Paulo até o modo de produção espacial visando a socialização e relações de convívio e integração com a própria cidade, exigiu a busca por fontes específicas que abarcassem todas as vertentes acima expostas.

  A busca de dados numéricos foi uma das dificuldades que se apresentaram para a fomentação da primeira parte da pesquisa, cuja orientação volta-se ao conhecimento quantitativo da mobilidade e da presença boliviana na cidade de São Paulo, bem como dos seus aspectos gerais acerca da construção do perfil desses imigrantes, pois alguns dados cruciais estão disponibilizados em pesquisas mais antigas como a feita pelo Censo Demográfico de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda assim, os dados numéricos utilizados e apresentados ao longo da pesquisa permitiram a obtenção da magnitude dos níveis de concentração dos imigrantes bolivianos.

  Quanto à segunda parte da pesquisa, os capítulos três e quatro, que retratam e analisam a produção da subjetividade que se inserem nas praças da cidade de São Paulo, sobretudo a Praça Kantuta, fez-se necessário o entrelaçamento de categorias advindas da Geografia com outros saberes, na intenção de propiciar à análise um enriquecimento dialético.

  Além da organização e da análise dos dados quantitativos e qualitativos realizadas em gabinete, ou seja, produzida através das leituras de outros autores sobre o tema, a necessidade da experiência empírica foi ponto crucial para a amarração da pesquisa.

  Foi através da visita à Praça Kantuta e a experiência do convívio que pôde ser compreendido o peso que lhe é atribuída por ser símbolo da imigração boliviana na cidade, e mais, por ser reconhecida como o fragmento da Bolívia em território brasileiro e paulistano.

  A experiência empírica foi importante no sentido de ratificar as análises feitas previamente. A compreensão da prática espacial em detrimento da construção de territorialidade só foi realmente entendida e percebida quando a pesquisa a campo aconteceu. Sem essa experiência, a análise estaria, certamente, fincada no piso frágil da superficialidade.

  O desafio metodológico desta pesquisa apresentou, portanto, a possibilidade de ir além dos limites da Geografia, ainda que esta área do conhecimento esteja presente em grandes parcelas do trabalho.

  A principal consequência que a prática da dialética propiciou foi o exercício da construção de diferentes olhares sobre o mesmo objeto de estudo, o que levou ao enriquecimento da pesquisa.

  Portanto, o entrelaçamento dos dados numéricos, das leituras e do empirismo, resultou neste produto final que aqui é apresentada. A estrutura desta pesquisa revela-se da seguinte maneira: O capítulo primeiro desta pesquisa tem como proposição o reconhecimento dos padrões de deslocamento migratório em escala internacional a partir da diversidade dos espaços da migração na América Latina contribuindo para a dispersão dos imigrantes.

  Partindo do exercício inicial de compreensão da dinâmica que se inscreve na América Latina, busca-se concentrar no contexto histórico- geográfico em que se deu a imigração boliviana no Brasil, propondo a análise inicial acerca da migração de fronteira entre a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e as cidades de origem dos bolivianos. Tal dinâmica é fundamental para a compreensão da formação deste fluxo migratório, evidenciando suas características e configurando cidade de Corumbá como o primeiro momento da imigração boliviana no Brasil.

  O capítulo segundo parte da espacialidade da presença boliviana na cidade de São Paulo como destino principal desses imigrantes para o fluxo de trabalho, em sua grande maioria, disponíveis em oficinas de confecção de vestuário.

  Propõe-se o reconhecimento das diferenças dos tempos dos bolivianos na cidade, uma vez que o fluxo que se inscreveu na década de 1950 difere àquele inscrito a partir da década de 1980. Busca-se a caracterização do diferentes perfis dos imigrantes bolivianos e suas inserções na cidade de São Paulo para o entendimento acerca da transformação de alguns espaços da cidade de São Paulo como lugares de trabalho, de moradia e, portanto, de convívio e integração.

  O capítulo terceiro expõe a importância do lugar da praça como cenário de encontros, expressões da cultura e construção de territorialidade dos imigrantes bolivianos residentes na cidade de São Paulo.

  O papel das praças como espectro do convívio social e integração de seus frequentadores com a cidade é a base fundamental para a construção deste capítulo.

  Insere-se uma avaliação das praças a partir das principais categorias da Geografia como espaço, lugar e paisagem, na configuração da sua importância face aos seus frequentadores. Debruça-se, em um segundo momento, no papel da Praça Kantuta frente à configuração de seu espaço para a prática de convívio e expressão da identidade dos bolivianos.

  Finalmente, no capitulo quarto analisa-se a Praça Kantuta a partir da sua importância enquanto espaço da experiência boliviana dentro da cidade de São Paulo. A produção da subjetividade inscrita em seu espaço é a fonte para a análise da sua relevância e dimensão na vida dos antigos bolivianos moradores bem como dos recém-chegados.

  A praça se posiciona como um grande lócus das manifestações andinas, em especial dos bolivianos, e por ser dotada de simbologia, essa será a principal vertente para o arrolamento deste capítulo: promoção da sua valorização analisada a partir entendimento de território simbólico.

  O estudo possibilitou o diálogo interdisciplinar entre as perspectivas teóricas e evidência empírica, bem como a compreensão de que um fenômeno atual se (re)configura a partir dos processos sociais e históricos, favorecendo a constante produção espacial e a integração de seus agentes transformadores.

1 Migrações internacionais hoje

  Ao falarmos de século XX e início do século XXI, apontamos alterações de grande significância de ordem internacional no campo da economia, da política, da sociedade e da cultura. Tais modificações influenciaram de maneira notável a conjuntura da imigração mundial, especificamente a latino-americana e do Brasil.

  O poder de mobilidade do capital e do trabalho, produto do processo de reestruturação da produção, atingiu diferentes partes do mundo, sobretudo o Brasil, cuja configuração do sistema de imigração internacional passou a integrar esse novo cenário.

  Sob os efeitos da globalização, a imigração internacional adquiriu novas dimensões, sendo que essas são diretamente ligadas à intensificação dos fluxos de capital, a reestruturação da hierarquia internacional do trabalho, a compressão do espaço e do tempo, a conexão do mundo em redes e o deslocamento populacional em virtude do rearranjo da produção. A partir desses fenômenos é que são (re)definidos os espaços transnacionais.

  Características advindas dessa nova configuração no contexto internacional refletidas no fenômeno migratório deixam de ser pensadas em montante, ou seja, a porção quantitativa e qualitativa acerca do deslocamento populacional envolvido, mas sim suas especificidades e transformações em nível local. O produto disso é a condição irregular de muitos imigrantes, inviabilizando a mensuração desses fluxos.

  Como Harvey (1993) nos aponta, a diversificação dos fluxos migratórios internacionais está relacionada com o contexto do país de origem e com o de destino, implicando nas diferentes formas de mobilidade espacial da população no mundo.

  1 Deve-se salientar que o processo de globalização mostrou-se ilusório 1 ao passo que a revolução tecnológica, especialmente com o uso da informática A globalização entendida aqui como uma grande re de. “Noção de um espaço reticulado.

Construção deliberada do espaço como quadro de vida, pronto para responder aos estímulos da produção em todas suas formas materiais e imateriais”. (SANTOS, 1997: 177). e outros, como instrumento de produção, passou a descartar a mão-de-obra em muitas situações, gerando um alto excedente populacional em escala mundial, bem como a intensificação da divisão internacional do trabalho.

  O que, na teoria, traria benefícios culminou na mudança de padrão de desenvolvimento: de dinâmica includente para crescimento direcionado e altamente seletivo.

  As consequências da globalização possuem, basicamente, duas vertentes fundamentadas. A primeira é decorrente das transformações incididas no trabalho as quais o tornou mais complexo e heterogêneo.

  A impossibilidade de completo descarte da mão-de-obra no novo padrão de produção se moldou de forma perversa, fazendo com que o trabalho ganhasse dimensões precárias, informais e superexploradoras. Por conta desse cenário, a segregação, automaticamente, foi o resultado que se instituiu.

  A segunda vertente se debruça no desaceleramento da atividade de produção (desconcentração industrial) em determinadas regiões sem que nasçam outras formas produtivas como possibilidades de reprodução e sustentação para a população ali residente.

  A relevância do assunto se faz valer à medida que as modificações no cenário mundial se direcionam a um novo arranjo socioespacial e o entendimento da dinâmica dos fluxos que conduz a essa nova organização é priorizada.

  Duas características marcantes que fazem com que o processo de globalização só acentue o fluxo migratório em escala internacional condizem à ilusão e a esperança. A sociedade entendida neste processo como sociedade global experimenta uma evolução no campo tecnológico e informacional, no entanto, não são todas as pessoas que integram essa chamada que colhem bons frutos. A evolução da globalização, ainda assim, permeia a construção da ilusão e da esperança no imaginário do migrante.

1.1 Dinâmica migratória na América Latina

  Os movimentos migratórios entre os países da América Latina possuem uma alta complexidade e devem ser analisados a partir da leitura histórico- geográfica, para que se compreenda a gênese de tais fluxos. As migrações entre os países sul-americanos compreendem diferentes justificativas de mobilidade dessa população, mas, sobretudo justificativas de caráter político e econômico.

  Segundo Baeninger (2012) o padrão migratório intrarregional tornou-se nítido a partir de 1970 quando se notou um progresso no incremento de latino- americanos residentes na região que não a sua morada de origem. Segundo a autora, o incremento passou de 1.218.990 latino-americanos em 1970, para 1.995.149 em 1980 e 2.242.268 em 1990.

  Entretanto, há de se considerar a grande crise instalada nos anos de 1980, conhecida como a década perdida, que culminou numa estabilidade dos fluxos migratórios e que, portanto, fez permanecer volumes próximos nas décadas de 1970 e de 1980. Isso porque os efeitos da crise atingiram, com força singular, os países de destino dessa população migrante intrarregional.

  Ainda, o restabelecimento dos estilos democráticos de governo também ocasionou uma diminuição das tensões migratórias e facilitou o retorno de um número importante de pessoas (Baeninger, 2012).

  Outro fator é o alargamento das possibilidades de mobilidade, conduzindo o deslocamento migratório em nível pendular (reversível), uma vez que a permeabilidade das fronteiras entre os países da América Latina, a partir do contexto de integração econômica regional, intensificou os movimentos migratórios entre países limítrofes.

  Estabelece-se, portanto, um novo padrão de deslocamento migratório cuja evidência se faz presente na diversidade dos espaços da migração na América Latina, colaborando para a dispersão dos migrantes.

  Segundo Baeninger (2012), nos anos de 1970, a Argentina e a Venezuela revelaram-se como os mais importantes polos da migração internacional da América Latina. A Argentina, especificamente, foi destino de muitos migrantes atraídos pelas possibilidades de trabalho na agricultura,

  manufatura, construção e serviços. A atratividade da Venezuela ficou por conta de sua economia impulsionada pelo petróleo.

  A tabela 1.1-1 a seguir, revela o número total de estrangeiros latino- americanos nos países da América Latina nos anos de 1990 e 2000, bem como o índice de crescimento revelado neste decênio. Percebe-se que a Argentina e a Venezuela lideram com o maior número de migrantes, revelando em 2000, uma concentração de 916.268 imigrantes e de 720.712 respectivamente.

  Tabela 1.1-1: Total de estrangeiros nos países latino-americanos, 2000. Nº total de País estrangeiros Cresc. (%) 1990 2000 Colômbia 43.285 ... ...

  El Salvador 8.666 ... ... Haiti ... ... ... Nicarágua 9.473 ... ... Rep. Dominicana ... ... ... Uruguai 47.151 ... ... Argentina 780.278 916.268 17,4 Venezuela 641.653 720.712 12,3 Paraguai 155.298 144.343 -7,1 Brasil 102.758 118.612 15,4 Chile 49.793 96.958 94,7 Equador 37.553 51.556 37,3 Bolívia 32.220 50.346 56,3 México 240.624 23.529 -90,2 Panamá 13.644 21.069 54,4 Guatemala 19.675 11.481 -41,6 Costa Rica 59.460 10.270 -82,7 Honduras ... 6.633 ...

  Peru 17.658 2.523 -85,7

Fonte: IMILA/ CELADE (2006) apud Baeninger, 2012.

  Os países da América Latina que se apresentam como os principais destinos dos imigrantes latino-americanos são a Argentina, a Venezuela, o Paraguai, o Brasil e o Chile.

  A Argentina, em 1990, apresentou uma concentração de 780.278 imigrantes. Nos anos de 2000, o número subiu para 916.268, ou seja, um crescimento de 17,4%.

  A Venezuela, enquanto segundo principal destino dos fluxos migratórios latino-americanos, revela em 1990 uma concentração de 641.653 imigrantes e, em 2000, 720.712, ou seja, um índice de crescimento de 12,3%.

  O Paraguai como o quarto destino mais procurado dos imigrantes latino- americanos, revelou em 1990 uma concentração de 155.298 imigrantes e, em 2000, 144.343. Entretanto, neste decênio, o Paraguai apresentou uma queda no índice de crescimento, ou seja, -7,1%.

  A situação do Brasil, enquanto país de destino revela uma posição de destaque na América Latina, ocupando o quinto lugar mais procurado pelos imigrantes latino-americanos. Em 1990, o apresentou uma concentração de 102.758 imigrantes em 2000 uma concentração de 118.612. A taxa de crescimento no decênio, para o Brasil, foi de 15,4%.

  O Chile, como pode ser visto na tabela 1.1-1 é um país que também exerce uma condição de receptor de imigrantes latino-americanos. Em 1990 apresentou uma concentração de 49.793 imigrantes e 96.958 em 2000.

  A seguir, a compilação de gráficos apresenta a evolução imigratória desses países selecionados da América Latina considerando o lugar de origem dos imigrantes residentes nesses países.

  Gráfico 1.1-1: Evolução imigratória – Argentina, 1990 e 2000.

  

Evolução imigratória (em mil) - Argentina

61,3 251,1 323,0 28,6 218,2 211,1 231,8 133,7 143,7 116,7 0,6

  • -3,3
  • Paraguai Chile Bolívia Uruguai Brasil

    1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

    -12,7 33,5 33,7

    Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

      No cenário dos anos de 1990, A Argentina apresentou um volume de 780.278 imigrantes, com uma contribuição significativa do Paraguai de 251.130

      Já nos anos 2000, a Argentina ainda detém a maior inserção de imigrantes paraguaios, apresentando um incremento de mais 118.612 pessoas (7% face aos anos de 1990) que buscaram o país como seu lugar de residência, totalizando 323.962 pessoas.

      Entretanto, a evolução de concentração de imigrantes é atribuída à Bolívia revelando uma taxa de crescimento de 61,3%.

      Gráfico 1.1-2: Evolução imigratória – Venezuela, 1990 e 2000

    Evolução imigratória (em mil) - Venezuela

    28,6 22,4 29,1 15,5 -25,3 27,7 35,8 -5,3 13,9 -18,9 -5,7 20,8

    Chile Equador Peru Guiana Rep. Cuba Argentina

    23,4 4,5 -100,0 17,1 10,2 9,6 9,1 8,6

    1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

    Dominicana

    Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

      Os anos 1990, para a Venezuela, apresentou um incremento total de 641.653 imigrantes, sendo que desse total, a participação da Colômbia é quase dominante: 528.893 colombianos imigraram para o país. Em 2000, o total de imigrantes foi para 720.712 imigrantes, sendo, 608.691 colombianos. Dado a este fato, o gráfico acima não expõe essa participação, uma vez que não seria possível visualizar a dinâmica dos demais países.

      O segundo maior país com participação no incremento de imigrantes na Venezuela é o Peru, contabilizando, em 19990, uma concentração de 27.748 peruamos e em 2000, 35.823. Sua taxa de crescimento é a maior apresentada nesse decênio, de 29,1% contra 15% da Colômbia.

      Gráfico 1.1-3: Evolução imigratória – Paraguai, 1990 e 2000.

      

    Evolução imigratória (em mil) - Paraguai

    31,7 107,5 81,3 63,0

    Brasil Argentina

    -24,3 47,8

    1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

    Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

      Nos anos de 1990, o Paraguai revelou uma concentração de 155.298 imigrantes, com uma contribuição significativa de 107.452 brasileiros e 47.846 de argentinos.

      Já nos anos 2000, o Paraguai apresentou uma queda no número de imigrantes, 144.343 pessoas sendo 81.337 brasileiros e 63.006 argentinos. Todavia, a taxa de crescimento apresentada no Paraguai deve-se à população de imigrantes argentinos, revelando neste decênio de 1990 a 2000, uma evolução de 31,7% contra uma queda de 24,3% de imigrantes brasileiros.

      1.1-4: Evolução imigratória

    • – Brasil, 1990 e 2000

      Evolução imigratória (em mil) - Brasil 51,6 25,5 27,5 8,1 20,4 19,0 28,8 22,1 24,7 11,7 20,4 29,9

    Argentina Chile Paraguai Uruguai Bolívia

    17,1 -16,2 15,7

    1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

    Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

      No cenário dos anos de 1990, o Brasil apresentou um volume de 102.758 imigrantes, com uma contribuição significativa da Argentina de 25.468 (25,5%) pessoas e de 15.694 (15,7%) pessoas da Bolívia.

      Já nos anos 2000, o Brasil apresentou um incremento de 118.612 pessoas (7% face aos anos de 1990) que buscaram o país como seu lugar de residência.

      A maior participação no incremento da população imigrantes no Brasil vem do Paraguai, com uma taxa de crescimento (decênio de 1990 a 2000) de 51,6%, seguidos pela Bolívia com uma taxa de crescimento de quase 30%.

      Segundo Baeninger (2012), a inclusão do Brasil nas migrações internacionais latino-americanas, acabou por configurar o país em uma região de expansão desses movimentos reforçado pelo processo de migração do tipo fronteiriço.

      Gráfico 1.1-5: Evolução imigratória – Chile, 1990 e 2000 Evolução imigratória (em mil) - Chile 395,0 34,4 40,0 48,2 7,7 7,6 41,3 10,9 37,9 Argentina Bolívia Peru

    1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

    Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

      O cenário dos anos 1990 para o Chile revelou uma participação significativa de imigrantes da Argentina, como 34.415 pessoas. Essa condição perdura nos anos 2000 sendo que agora, a participação de argentinos na composição de imigrantes residentes no Chile foi de 48.176.

      Entretanto, o maior índice de crescimento da evolução participativa dos imigrantes neste país veio do Peru, sendo que em 1990 o Chile detinha 7.649 imigrantes peruanos e em 2000 esse número subiu para 37.863 peruanos, ou seja, uma taxa de 395%.

    1.2 A imigração boliviana no Brasil

      Ainda que hoje tenhamos ciência da presença de bolivianos residentes em diversos lugares do Brasil, o fenômeno não é algo recente. Indícios apontam que bolivianos já se apresentavam nas áreas de fronteira desde o término do século XIX.

      De acordo com Xavier (2010), data-se de 1938 os primeiros registros de entrada de bolivianos no Brasil: 38 entradas e 40 no ano seguinte. Todavia,

      2

      esses números, comparados ao de entrada de outros imigrantes no país , acabam se definindo como uma pequena fração.

      O gráfico 1.2-1 a seguir revela a expressão da presença boliviana no Brasil por ano de chegada.

      

    Gráfico 1.2-1: Estrangeiros bolivianos que entraram no Brasil, por ano de

    chagada, 1938-1969.

      Fonte: IBGE: Estatísticas do Século XXI.

      Nota-se que no ano de 1948 é registrado um primeiro incremento no

      3

      número de imigrantes no país: 306 bolivianos, seguido pelos anos de 1950 1951, sendo o seu ápice: 855 bolivianos. Nos anos seguintes, os números caíram, com fracas subidas, registrando 45 registros em 1969.

      As épocas que se estenderam nos anos de 1930 e 1940 foram marcadas pela baixa expressividade dos movimentos migratórios frente à

      

    2 Em comparação a outros grupos de imigrantes, no mesmo período, tais como os de origem

    europeia (italianos, portugueses, alemães) ou até mesmo argentinos, o número de registros

    condizentes ao ingresso de bolivianos torna-se limitado. Para a época, foram registrados 5.674

    3 argentinos no Brasil em 1938.

      

    Em 1950 é registrado um saldo migratório negativo da população brasileira. Ou seja, o

    número de brasileiros que saem do país supera o número de imigrantes que ingressam no

    Brasil.

      “grande migração” que o Brasil já conheceu na virada do século XIX para o século XX.

      Historicamente, a posição política dos anos de 1930 frente à dinâmica migratória se altera de maneira voraz, quando o Estado brasileiro contraria o favorecimento explícito da imigração internacional no Brasil e em estados como São Paulo, cuja produção principal era a de café ao final do século XIX e início

      4 do século XX .

      A criação de bases jurídicas bem definidas para o controle e, principalmente, para a restrição dos fluxos migratórios no país tem sua gênese na crise econômica provocada pela baixa do preço do café e da premissa de proteção da mão-de-obra nacional (BERNASCONI e TRUZZI, 2002 apud

      XAVIER, 2010).

      O fluxo migratório agora era visto como um mal a ser combatido, cuja causa provocava o desemprego urbano. Essa atitude não foi, exclusivamente, adotada pelo Brasil, mas em toda a América.

      Os anos de 1950, entretanto, podem ser lembrados como o início da chegada de bolivianos ao Brasil, sobretudo em São Paulo. Essa vinda tinha como motivação principal os estudos possibilitados pelo intercâmbio entre os países envolvidos, mas não deve ser desconsiderada a motivação de fuga política.

      Muitos desses imigrantes que chegaram ao Brasil para estudar permaneceram no país, uma vez que a oferta de empregos era atraente frente à realidade da Bolívia naquele momento.

    5 Esse acordo ou intercâmbio feito entre os dois países foi firmado em

      4 1958, e tinha, ainda, outras vertentes como a: resolução de questões quanto à

      

    O incentivo à imigração era pautado em bases políticas (já que a escravidão havia sido

    abolida), econômicas (mudança da economia agrária para capitalista) e ideológicas (processo

    de “embranquecimento” da nação). Esse incentivo era materializado por meio de leis e

    medidas criadas pelos estados, sobretudo São Paulo. Os primeiros imigrantes europeus

    5 trabalham nas lavouras de café.

      

    Intitulado como ata de Roboré: acordo firmado em 1958 entre cujo último trecho havia sido inaugurado em janeiro de 1955, e a circulação de mercadorias bolivianas. exploração petrolífera, pendências na demarcação fronteiriça, na área de transporte ferroviário, comércio, dentre outros.

      Essa expressão pouco significativa do início do século XX muda categoricamente nos anos de 1980, quando nesse momento a sua presença adquire uma nova escala: são 12.980 bolivianos residindo no Brasil.

      O gráfico 1.2-2 a seguir aponta, por decênios, a evolução de migrantes residentes no Brasil pelos principais países de origem.

      

    Gráfico 1.2-2: Imigrantes residentes no Brasil segundo país de origem e

    décadas de chegada, 1970-2000.

      

    Imigrantes residentes no Brasil por países e década de

    26,6 25,5 27,5

    chegada

    24,7 28,8 10,7 13,0 15,7 20,4 17,2 13,6 21,2 20,0 22,1 17,6 19,0 10,8 17,8 20,4 17,1

    Bolívia Argentina Uruguai Paraguai Peru Chile

    2,4 3,8 5,8 1,9

    1970 1980 1990 2000

    Fonte: IMILA/ CELADE apud Baeninger (2012). Elaborado pela autora.

      Para que se tenha uma boa compreensão da dinâmica cada vez mais acentuada no que diz respeito ao incremento no número de imigrantes bolivianos no país, entre 1950 e 1969 totalizaram aproximadamente 2.000 indivíduos residentes no Brasil. Nos anos 2000, de acordo como o censo, revela-se um total de 20.388, enquanto que nos anos de 1930 e 1940 resumem-se em apenas 261 residentes.

      Ao falarmos de fluxos migratórios de bolivianos embasados em um processo puramente histórico, ou seja, temporal, a tese acaba por não se sustentar visto que há de se evidenciar as espacialidades do fenômeno. Por mais que se faça uso de um ordenamento histórico para a compreensão do processo migratório, os fluxos não apontam para linha contínua de união entre eles, à medida que em termos de perfil, de origem e de objetividade esses fluxos possuem suas características as quais diferem de um momento histórico a outro.

      A análise do fluxo migratório boliviano para o Brasil requer a consideração da espacialidade desse fenômeno em território nacional. O fluxo direcionado ao estado de São Paulo difere, ainda que assaz substancial numericamente, de outras rotas balizadas nas regiões de fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Dessa variante é possível observar o desequilíbrio do ponto de vista do perfil desses migrantes em intervalos que se iniciam na década de 1950 e 1960 para a década de 1980 em diante.

      A tabela 1.2-1 a seguir demonstra a espacialidade dos migrantes bolivianos residentes no Brasil por tempo de residência na UF.

      

    Tabela 1.2-1: População boliviana residente no Brasil por lugar de

    residência e período em que fixaram residência no país.

      Período de fixação de residência no Brasil UF de 1990 - 1980 - 1970 - 1960 - 1950 - 1940 - 1930 - residência 2000 1989 1979 1969 1959 1949 1939 Total São Paulo 4.974 1.360 1.139 695

      77

      40

      10 Rondônia 944 395 213 156

      38

      36

      9 M. G. Sul 555 259 277 241 203

      62

      9 Rio de Janeiro 550 138 198 180

      53

      9 Mato Grosso 420 158

      

    68

      32

      19

      17 Acre 389 118 154

      70

      23

      18 Minas Gerais 244 143 128 Paraná 191

      92

      

    27

      5 Distrito Federal 104

      22

      

    10

      40 R. G. Sul 96 105

      

    95

      24 Santa Catarina

      86

      44

      

    28

    Goiás

      59

      49

      

    19

      9 Ceará

      49

      11

      

    13

    Tocantins

      42 Pará

      40

      27

      

    4

      8

      13

      17 Paraíba

      39

    7 Amazonas

      38

      41

      

    5

      11 Pernambuco

    19 Espírito Santo

      19

      

    21

      5 Bahia

      15

      29

      14 Piauí

    9 Maranhão

      10 R. G. Norte

      30

    17 Fonte: Censo 2000, IBGE.

      A partir dessa distribuição espacial dos bolivianos no território nacional fica nítido o crescimento do fluxo migratório ao longo dos anos com uma grande expressão nos anos 1980 e 1990. Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre são estados de maior influência de acolhimento desses migrantes, ressaltando que estes fazem fronteira com a Bolívia.

      De acordo com a evolução representada na tabela 1.2-1 acima, é possível identificar dois grandes momentos de incremento populacional, o primeiro condizente ao estado do Mato Grosso do Sul nos anos 1950 (203) e na década de 1960 no estado de São Paulo (695).

      A soma do índice populacional impressa nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, nos anos 1960 e 1970, aproxima-se de 60% do total da migração ao Brasil, número que em épocas anteriores não ultrapassava a marca de 25%.

      Os lugares onde se configuraram tais fluxos são de ordem distinta. Se hoje os espaços que acolhem maior parcela de bolivianos é o estado de São Paulo, sobretudo a cidade, no início dessa dinâmica se inscrevia nas áreas de fronteira Bolívia-Brasil, como é o caso do município de Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

      Corumbá está localizado na área de fronteira com a Bolívia, como pode ser visto no mapa 1.2-1 e, conforme muito estudos que se dedicam a compreender a dinâmica da imigração boliviana no Brasil, possui uma base muito sólida, uma vez que é através desse município que muitos imigrantes ingressam ao país.

      O município tem uma população estimada em 103.703 habitantes (IBGE, 2010) em um território de 64.962,836 km². Os municípios como Puerto Guijarro e Puerto Suarez (ambos na Bolívia) fazem fronteira com Corumbá e a comunicação é via terrestre. A ligação com outras cidades da Bolívia se dá via ferrovia, além do aeroporto internacional.

      Mapa 1.2-1: Área de fronteira Bolívia e Brasil.

      Corumbá, desde o século XVIII, exibe uma dinâmica muito própria tanto pelo fato de sua localização estratégica quanto pela economia e população que se instalou nesse período. Seu ritmo e especificidades singulares iam ao desencontro da dinâmica do contexto nacional e regional.

      O desdobramento da história de Corumbá que suscitou na presença boliviana no município servirá de base para que se possa compreender o fluxo desses imigrantes para o estado de São Paulo, em especial para a cidade.

      O contexto de ocupação da região de fronteira de Corumbá se apresenta numa caracterização distinta daquelas dos limites brasileiros com outros países, a exemplo o Paraguai.

      A ocupação da fronteira oeste do país foi produto do esgotamento das fronteiras agrícolas e a mecanização da produção foi fundamental para essa dinâmica. Porém, Corumbá revelou outros fatores os quais favoreceram a sua ocupação enquanto região de fronteira.

      Obstáculos naturais (Souchaud, Fusco e Carmo, 2007) impediram a ocupação da região de acordo com o observado no caso da fronteira Brasil

    • – Paraguai. A articulação histórica da região com outros espaços em função do Rio Paraguai e de suas rotas comerciais é determinante e distingue o caso de Corumbá do padrão observado na ocupação da fronteira oeste do Brasil. Trata-se, portanto, de um espaço específico em que a fronteira, muito mais do que uma divisão geopolítica, é cenário de uma dinâmica diferenciada. (PERES, 2009:70).

      O que revela a região fronteiriça de Corumbá como um espaço de movimento migratório de bolivianos para o Brasil deve-se à trajetória de reorganização da população na Bolívia ao longo dos últimos 50 anos.

      No caso de Santa Cruz existe, desde a década de 1950, um importante programa oficial e nacional de reforma agrária com incentivos à colonização dos departamentos orientais. Mas esse movimento, até hoje, se concentrou no extremo oeste de Santa Cruz e não alcançou a fronteira brasileira. Houve, realmente, nos últimos 50 anos, uma transferência importante da população boliviana desde as zonas altiplânicas até as regiões baixas do Oriente. Esse movimento é o responsável pelo crescimento importante de Santa Cruz de La Sierra, hoje principal cidade do país. (PERES, 2009:71 apud SOUCHAUD, FUSCO e CARMO, 2007:45).

      Segundo o INE (Instituto Nacional de Estadística de Bolívia), o departamento de Santa Cruz contava com 1.364.389 habitantes no ano de 1992. Em 2001, o número elevou-se para 2.029.471, sendo desse grupo 67% nascidos em outros departamentos bolivianos (Peres, 2009). Concomitantemente, outras cidades cresciam como é o caso de Puerto Suarez e Puerto Quijarro. Cidades que se localizam na área de fronteira com o Brasil.

      A questão fronteiriça que marca a presença de bolivianos no Brasil, sobretudo em Corumbá, não é a única vertente de justificativa para tais fluxos. A reorganização populacional da Bolívia por conta da reforma agrária na década de 1950 teve relevante contribuição para a transferência de pessoal das zonas altiplanas para regiões do baixo oriente.

      No decorrer da década de 1980, no âmbito econômico, houve transformações na Bolívia que impulsionaram os fluxos migratórios: flexibilização do mercado de trabalho por conta de planos econômicos que

      6 culminou no afastamento do Estado .

      Desse modo, a imigração boliviana para o município de Corumbá não se limita no cruzamento de suas fronteiras. A justificativa dessa dinâmica se encontra no processo de redistribuição da população boliviana em território boliviano e que, os imigrantes que ingressam no Brasil não são, na sua totalidade, provindos dos municípios limítrofes ao Brasil.

      O mapa 1.2-2 a seguir indica os municípios de origem dos migrantes bolivianos no município de Corumbá.

    6 O governo boliviano transfere para o mercado boa parte da produção mineira, diminuindo os

      

    postos de trabalho. A liberalização dos mercados por meios de planos econômicos aumentou o

    número de mulheres e crianças na força de trabalho e a migração interna, ocasionando na

    precarização dos empregos.

      

    Mapa 1.2-2: Municípios de nascimento dos bolivianos residentes em

    Corumbá, 2006.

      Fonte: Encuesta Corumbá, 2006. Nepo/UNICAMP.

      Conforme gráfico acima, os municípios de Santa Cruz de La Sierra (28%) e La Paz (11%) são os municípios que mais contribuem para o incremento de Corumbá, municípios que são capitais dos mais populosos departamentos da Bolívia (Santa Cruz e La Paz). Os municípios que fazem fronteira com o Brasil, Puerto Quijarro e Puerto Suarez, representam juntos apenas 11%, um percentual baixo frente as suas localidades.

      Como dito anteriormente, um dos fatores para a redistribuição populacional dentro da Bolívia se deu pela reforma agrária decorrente da década de 1950. Todavia, esse volume de imigrantes que cruzaram a fronteira com destino a Corumbá são, em grande parcela, urbano. Esse fato elucida um falso caráter rural do fenômeno migratório.

      Corumbá revela uma dinâmica urbana pautada em atividades comerciais e industriais presentes desde os primeiros registros de bolivianos na região. Portanto, muitos bolivianos estabelecidos no Brasil possuem uma experiência de vida urbana, justamente por suas trajetórias de migração dentro do próprio território boliviano.

    2 A presença boliviana na cidade de São Paulo

      A significante presença boliviana em São Paulo data a década de 1980, ainda que tal fluxo possa ser verificado a partir dos anos de 1950 quando bolivianos estudantes vieram para São Paulo estimulados pelo programa de intercâmbio cultural Brasil-Bolívia. Ao final dos estudos, muitos desses bolivianos optaram pela permanência na cidade pelo fato da oferta das oportunidades e possibilidades no mercado de trabalho paulistano.

      As razões de constantes saídas do país de origem são inúmeras, embora tenha como fator principal a questão de ordem econômica. Essa situação era encarada nos anos de 1980 e ainda perdura nos novos fluxos, pois o Brasil, em especial São Paulo, oferece mais oportunidades visto às condições da Bolívia que sofre com constantes crises econômicas, altos índices de inflação e desemprego.

      A atração desses imigrantes bolivianos oriundos, sobretudo de La Paz e Cochabamba, resume-se nas promessas de bons salários oferecidos pelos empregadores da indústria de confecção que são coreanos, brasileiros e até mesmo outros bolivianos.

      Ao passo que os primeiros bolivianos se estabelecem, outros familiares como os pais e irmãos iniciam os preparos de vinda. À medida que eles vão se estabelecendo na cidade, inicia-se um processo de reunificação familiar, com a vinda de irmãos, parentes e pais, muitas vezes oriundas do campo e com pouco domínio do espanhol. Em São Paulo, os mais idosos são incorporados de alguma forma ao processo de produção nas oficinas de costura, exercendo atividades suplementares, como é o caso das mulheres que preparam a comida servida aos trabalhadores. (SILVA, 2006).

      Essa unificação de familiares em detrimento de uma prática de trabalho é compreendida na formação das redes, que segundo Santos (1997) são também “social e política, pelas pessoas, mensagens, valores que a frequentam. Sem isso, e a despeito da materialidade com que se impõe aos nossos s entidos, a rede é, na verdade, uma mera abstração.”. (SANTOS, 1997:176).

      A vinda de milhares de bolivianos à cidade de São Paulo refere-se a uma conjuntura material que se dispõe dos mecanismos de poder oferecidos ou não pelo seu lugar de origem. O caso é que as condições nacionais acabam por pesar nos níveis da sociedade, uma vez que o trabalho local depende das infraestruturas oferecidas localmente.

      No momento em que essas infraestruturas são inexistentes, a mão-de- obra é reorganizada, resultando em um rearranjo de pessoal e configuração territorial. Como aponta Santos (1997):

      Hoje, o centro de decisão pode encontrar-se no estrangeiro, no mesmo continente ou em outro. São as cidades locais que exercem esse comando técnico, ligado ao que, na divisão territorial do trabalho, deve-se à produção propriamente dita. Cidades distantes, colocadas em posições superiores no sistema urbano (sobretudo as cidades globais), têm o comando político, mediante ordens, disposição da mais-valia, controle do movimento, tudo isso que guia a circulação, a distribuição e a regulação. (SANTOS, 1997:184).

      Outro fator de grande relevância e consequência, no que se atribui à presença de bolivianos na cidade de São Paulo, é a potencialização, ao longo de cada fluxo migratório, de famílias constituídas, em geral de forma endogâmica.

      A necessidade de se estabelecer no território paulistano em virtude das redes de produção trouxe a necessidade de direito à própria cidade. Consequentemente, foram criadas organizações socioculturais como: a Associação dos Residentes Bolivianos, o Círculo Boliviano, a Associação Interligas, a Associação Bolívia/Brasil, a Associação Gastronômica Praça Kantuta e outros. Hoje, os bolivianos é o grupo mais numeroso entre os hispano-americanos que vivem na cidade de São Paulo (SILVA, 2006).

    2.1 O perfil

      A apreensão do tema foi feito por Sidney da Silva (1997) sobre a migração boliviana para São Paulo transformado no livro Costurando Sonhos. Historicamente, segundo esse autor, a vinda dos bolivianos para a cidade data os anos de 1950 quando existiam convênios de intercâmbio universitário entre o Brasil e a Bolívia.

      Entretanto, o perfil dos bolivianos que se apresentava na década de 1950 é diferente do grande fluxo de bolivianos que se mobilizaram para São Paulo em 1980, ano este de grande intensificação do fenômeno migratório boliviano no Brasil.

      Em 1980 apresentavam-se trabalhadores com pouquíssima qualificação e que serviriam de combustível para o funcionamento das oficinas de costura da cidade.

      Esses bolivianos trabalhadores já vinham com a atividade a ser exercida definida e as relações que aí se estabeleceriam já se iniciavam no momento em que as despesas da viagem de vinda eram pagas pelo empregador.

      Uma vez criados tais laços de poder e que, aos olhos dos imigrantes bolivianos, expressam uma melhor condição de vida, a chegada de mais bolivianos cresceu ano a ano, com uma forte expressão na década de 1990 (devido ao controle da inflação com o Plano Real) e por volta de 2005.

      A população boliviana que reside na cidade de São Paulo tem, em média, 36 anos de idade, enquanto que a população total de São Paulo tem, aproximadamente, 29 anos e outros imigrantes residentes na cidade tem, em média, 58 anos. Essa diferença de idades, em especial, entre bolivianos e paulistanos é resposta do fenômeno da imigração de mão-de-obra pouco qualificada, sendo esses imigrantes bolivianos que chegam a São Paulo adultos acompanhados (ou não) de seus cônjuges também bolivianos.

      A imigração boliviana em São Paulo, embora apresente um equilíbrio entre os sexos, é predominantemente masculina (56%), padrão que não se aplica à fronteira corumbaense, onde se concentram mais mulheres. Essa diferença reside, basicamente, nas atividades desenvolvidas nos dois lugares.

      Em São Paulo a atividade têxtil entre os imigrantes é a principal função associada aos homens enquanto que, na fronteira, prevalece uma atividade voltada ao comércio formal e informal de rua, função exercida, historicamente,

      7 por mulheres na sociedade andina boliviana (SOUCHAUD, 2010).

      Ainda que a imigração boliviana em São Paulo seja considerada um fenômeno novo, de acordo com o Censo de 2000, do total de imigrantes residentes na cidade, 30,5% residem há mais de 20 anos.

      Por mais que os dados quantitativos acerca do real número de bolivianos no Brasil e em São Paulo sejam superficiais, é possível compreender que essa percentagem refere-se a um perfil diferente e que, por isso, obteve um melhor registro.

      Por outro lado, como pode ser visto no gráfico 2.1-1, os bolivianos que possuem até 4 anos de residência no Estado de São Paulo representam 27,6% do total desses imigrantes bolivianos.

    7 A distinção de atividades exercidas por bolivianos é consequência dos critérios do lugar de

      

    destino. A atividade comercial acompanha a história de Corumbá por ser um lugar de travessa,

    enquanto que em São Paulo a confecção reflete a dinâmica industrial e sua implicância na

    economia nacional, característica territorial predominante do lugar. Os lugares de destino,

    enquanto territórios, correspondem a própria imigração.

      

    Gráfico 2.1-1: Percentual de tempo de residência no estado de São Paulo

    dos imigrantes bolivianos residentes na RMSP, 2000.

      Tempo de residência de bolivianos no estado de 30,5 São Paulo 27,6 10 a 19 anos 5 a 9 anos 0 a 4 anos 23,9 18,0 20 ou mais

    Fonte: Censo 2000, IBGE.

      De qualquer modo, por mais que a imigração boliviana tenha uma evolução representativa nos 5 anos que precederam o Censo 2000, a mesma não é um fato recente e isso pode ser constatado em estudos que apontam os primeiros fluxos de estudantes nos anos 1950.

      Ainda baseado nos índices do Censo 2000, quanto ao estado civil, a percentagem de bolivianos solteiros é de 41,7% contra 45,5% casados, ainda que não haja exatidão acerca desses cônjuges residirem no Brasil ou se vieram juntamente com seus companheiros no momento de saída da Bolívia.

      Sobre esse aspecto, a exogamia se revela como um fator relevante por se tratar, percentualmente, de 58% do total dos bolivianos residentes no Brasil sendo 47% a proporção de bolivianos residentes na região sudeste.

      Em adição, do ponto de vista geográfico, os padrões de união estabelecidos entre os bolivianos de origem andina (origem dos bolivianos que residem em São Paulo) são distintos daqueles oriundos do departamento de

    8 Santa Cruz residentes em Corumbá . A união exogâmica do primeiro grupo é menos frequente se comparadas ao segundo.

      Segundo Xavier (2010) essa disparidade de padrões de união não define a dificuldade de inserção dos bolivianos andinos na cidade de São Paulo por apresentarem maior proporção de endogamia, uma vez que esse fator seja de cunho temporal, já que os andinos são mais recentes em Corumbá face aos bolivianos de outras origens.

      Do ponto de vista educacional, o perfil do grupo de bolivianos que chegaram ao Brasil nos anos 1950 difere, substancialmente, daquele chegado nas décadas de 1980 e 1990.

      A tabela 2.1-2 a seguir apresenta os níveis de escolaridade entre os bolivianos residentes na RMSP.

      Tabela 2.1-1: Escolaridade dos bolivianos residentes na RMSP, 2000. Escolaridade Frequência % Ensino Fundamental 1.753 19,7 Ensino Médio 3.090 34,7 Superior 1.726 19,4 Mestrado ou doutorado 133 1,5 Nenhum 12 0,1 Outros* 2.196 24,6 Total 8.910 100,0

      

    Fonte: Censo 2000, IBGE. *Os outros compõem de especificações como: antigo primário,

    antigo ginásio, antigo clássico.

      Como pode ser visto na tabela acima, a maior frequência de bolivianos encontra-se com o nível médio completo, cerca de 35% do total. Esse percentual refere-se aos bolivianos que, em 1950, buscaram estudos por meio do intercâmbio entre o Brasil e a Bolívia. Os bolivianos com apenas o ensino fundamental completo somam-se quase 20%, um índice relevante que se

    8 O que ocorre em Corumbá, distintivamente de São Paulo, deve-se à grande diversificação

      

    das origens geográficas dos bolivianos que residem neste município, o que acarreta, consequentemente, em uma maior diversidade étnica. refere, substancialmente, aos trabalhadores das oficinas de costura, que, buscaram na cidade de São Paulo, melhores condições de vida.

    2.2 O exercício ocupacional e a indústria de confecção

      A década de 1980 foi o momento de grande mudança no panorama do fluxo migratório boliviano para o Brasil e, especialmente, para a cidade de São Paulo. Como dito anteriormente, bolivianos que entraram nessa época trabalham, em sua grande maioria, no setor de costura por ser um segmento do mercado de trabalho que não exige experiência e nem idade mínima para ser executado, por isso da incorporação de menores nessa atividade.

      O que acontece é que, a partir das ilegalidades em que as relações desse trabalho se estabelecem, uma vez que não existe nenhuma regulamentação das leis trabalhistas, os empregados são expostos às condições insalubres de trabalho.

      O modelo pelo qual o exercício do setor de costura se dá é o de acumulação flexível do capital, ou seja, a produção é determinada pela quantidade de peças que o trabalhador é capaz de costurar. A situação em que os bolivianos, ou grande parte deles, estão acondicionados são conduzidas por relações de parentesco, o que promove uma produção em família em que cada um exerce funções distintas, mas todas orientadas para a finalização das peças.

      Do ponto de vista da nacionalidade de seus empregadores, grande parte deles são coreanos, brasileiros e até mesmo outros bolivianos e o produto final destina-se às lojas da cidade, sendo que boa parte delas possuem grande notoriedade da população.

      Embora o ramo da confecção de vestuário tenha uma significância e grande visibilidade no que compete à ocupação profissional desses imigrantes bolivianos, esta não é a única atividade exercida por eles. Os bolivianos no Brasil, em especial na cidade de São Paulo também podem ser encontrados entre os profissionais liberais como médicos e dentistas. O problema que essas classes enfrentam, todavia, debruça-se nas complicações da revalidação dos seus títulos acadêmicos, sendo processos muitos lentos e custosos. O ramo de serviços e do comércio ambulante também é exercido por muitos bolivianos que são, na sua maioria, indocumentados.

      Em números, aproximadamente 44% dos bolivianos na cidade de São

      9 Paulo estão inseridos no setor de confecções de vestuário , sendo que desse

      percentual, 38% são operadores de máquina de costura. Todavia, há de se apresentar as outras atividades dessa variante profissional.

      Ainda segundo o Censo 2000, são 3,8%, dos bolivianos ativos, que trabalham com comércio ambulante, 5,8% são médicos, 1,8% são dentistas e 1,3% dirigem empresas, como pode ser visto na tabela 2.2-1 a seguir.

      

    Tabela 2.2-1: Ocupação principal dos ocupados bolivianos residentes na

    RMSP.

      Ocupações Frequência % Operadores de máquinas de costura de roupas 2.045 38,8 Médicos

      306 5,8 Vendedores ambulantes 199 3,8 Trabalhadores polivalentes das indústrias de confecção de roupas 158 3,0

      Vendedores e demonstradores em lojas ou mercados 158 3,0 Gerentes de produção e operações 143 2,7 Cirurgiões-dentistas

      97 1,8 Trabalhadores dos serviços domésticos em geral 77 1,5 Trabalhadores agrícolas 75 1,4 Marceneiros e afins 74 1,4 Dirigentes de empresas- empregadores com mais de 5 empregados 71 1,3 Outros

      1.869 35,5 Total

      5.272 100,0

    Fonte: Censo 2000, IBGE. *Ocupações descritas de acordo com a Classificação Brasileiro de

    Ocupações.

      Conforme a tabela 2.2-2 a seguir, o percentual de bolivianos ocupados que trabalham por conta própria é de 42,2% e os que são empregados sem carteira assinada somam 31% sendo que 17,8% possuem registro de trabalho. Os trabalhadores que não possuem carteira assinada somam 1,4%.

    9 As ocupações “operadores de máquinas de costura de roupas”, “trabalhadores polivalentes

      

    das indústrias de confecção de roupas” entre outras fazem parte da categoria intitulada

    “trabalhadores da confecção de roupas”, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações,

    usada pelo Censo 2000.

      

    Tabela 2.2-2: Posição ocupacional dos bolivianos residentes na RMSP,

    2000.

      Posição Frequência % Trabalhador doméstico com carteira de trabalho assinada 14 0,2 Trabalhador doméstico sem carteira de trabalho assinada

      73 1,4 Empregado com carteira de trabalho assinada 939 17,8 Empregado sem carteira de trabalho assinada 1.665 31,6 Empregador

      356 6,7 Conta-própria 2.225 42,2

      Total 5.272 100,0 Fonte: Censo 2000, IBGE.

      Quantos aos seus rendimentos, a maioria dos bolivianos ocupados (40,3%) recebem até 3 salários mínimos. Ainda que se apresente uma condição de baixa renda, muitos bolivianos enviam boa parte de sua renda para familiares que moram na Bolívia.

      

    Tabela 2.2-3: Rendimento na atividade em salários mínimos dos

    bolivianos residentes na RMSP, 2000.

      Faixas de rendimento em salários mínimos Frequência % De 0 a 2,99 SM 2.125 40,3 De 3 a 4,99 SM 1.239 23,5 De 5 a 9,99 SM 902 17,1 Mais de 10 SM 1.005 19,1 Total

      5.271 100,0

    Fonte: Censo 2000, IBGE.

      Como já visto anteriormente, a década de 1980 foi marcada pela intensidade do fluxo migratório de bolivianos para o Brasil, sobretudo para a cidade de São Paulo. Concomitantemente, os anos de 1980 também foram marcados por grandes transformações de caráter econômico, podendo ser exemplificadas pela diminuição do processo de concentração industrial.

      A cidade de São Paulo, bem como toda a Região Metropolitana (RMSP) na década de 1970 concentrava metade da força industrial de todo o estado. Em 1991 essa realidade passou para um terço, e atrelada a isso, o desenvolvimento do setor terciário. Embora existam alguns autores que considerem essa condição como um processo de desconcentração, a cidade de São Paulo e toda a RMSP não perderam o status de centro financeiro e industrial do país.

      É a partir dessa nova estruturação, ou reestruturação, do processo produtivo da economia de toda a RMSP que mudanças relevantes alcançaram

      10

      o que tange à indústria da confecção : sua produção, disposição de mão-de- obra e distribuição espacial.

      Historicamente, pode-se dizer que o ramo da confecção, que data por volta dos anos de 1950, tem seu destino ligado a três importantes vertentes: o desenvolvimento de grandes projetos industriais, a instauração dos bairros centrais da cidade, como Brás e Bom Retiro e a chegada em massa de

      11 imigrantes que se concentraram nessas regiões centrais.

      Os bairros centrais Brás e Bom Retiro tiveram suas bases econômicas atreladas à produção têxtil e o fluxo migratório que se apresentava nesse momento foi o grande responsável por esse desenvolvimento e, mais tarde, pelas adaptações do espaço (regionalidade) e para o abarcamento dos próximos fluxos (FELDMAN, 2009, KONTIC, 2007 apud XAVIER, 2010).

      Os anos de 1970 para a indústria têxtil, do ponto de vista organizacional, foi o momento em que novas formas de produção foram adotadas, diferentemente daquelas que se baseavam na verticalização da produção nas fábricas. Essa década apresenta significativas transformações tais como: a diminuição dessas fábricas, (passando de grande para pequeno ou médio porte), e mais interessadas no processo de criação, modelagem, cortes de

    10 Embora a atividade industrial na cidade de São Paulo como em outros municípios da RMSP

      

    obteve uma desconcentração, o setor de confecção ainda é o segmento industrial que mais

    11 emprega na cidade.

      

    Os primeiros imigrantes chegaram na cidade de São Paulo ao final do século XIX e início do

    século XX, sobretudo na década de 20. Entre suas nacionalidades destacavam-se italianos,

    judeus, espanhóis e portugueses, além de grupos menos expressivos como os sírios e libaneses (Xavier, 2010). tecido e comercialização do produto final e a terceirização da mão-de-obra do

      12 processo de costura (serviços prestados por oficinas externas ).

      O trabalho, basicamente, condiz à especialização, por parte dos estilistas, de um dado modelo de roupa e uma vez que os tecidos já estão cortados são distribuídos, em lotes, para várias oficinas de costura. Finalizadas, as peças voltam para as fábricas para que então sejam comercializadas.

      A mão-de-obra constituinte da indústria de confecção de São Paulo era feminina e quem compunha o quadro eram migrantes internos (mulheres em sua maioria) que já dispunham de experiência do ramo da costura por virem de trabalhos das antigas fábricas desses bairros centrais.

      A malha da distribuição das oficinas de costura na cidade de São Paulo hoje vem do processo de transporte do trabalho para o campo doméstico, conferindo, dessa maneira, um espalhamento da produção de roupas e um novo arranjo produtivo.

      Grande característica desse novo arranjo é a participação veemente de grupos de migrantes internacionais, sobretudo coreanos, que são considerados os primeiros nessa atividade.

    13 Os coreanos , inicialmente, contratavam outros coreanos para

      trabalharem em suas pequenas oficinas e o bairro do Bom Retiro também se transformava em região autossuficiente para a produção de roupas.

      Quantitativamente, na cidade de São Paulo e outros municípios da RMSP, em 2000, foram contabilizados 150 mil costureiros (boa parte nordestinos) e dentro dessa representação, apenas 5 mil eram de origem latino-americanos.

      A partir de tais dados parece, em um primeiro momento, irrelevante a presença boliviana no setor da costura, no entanto, vale salientar que desses 5 12 mil costureiros latino-americanos, 98% são bolivianos.

      

    Com a terceirização do processo de costura, a lógica do trabalho assalariado dá lugar à

    forma de prestação de serviço. Consequência disso é a diminuição dos empregos formais

    13 nesse setor.

      

    A apropriação da produção têxtil por parte dos coreanos vêm da transferência da base

    material econômica instalada por outro grupo migrante anterior a eles: os judeus.

      Os bolivianos iniciam seus trabalhos nas oficinas de costura na década de 1980, como já foi dito, cujos proprietários ainda são os coreanos. Posteriormente, os bolivianos passam a ter maior responsabilidade na produção quando os coreanos se voltam para outros setores (design) e com isso muitos coreanos acabam vendendo suas oficinas para os bolivianos.

      A nova situação de proprietário de alguns bolivianos podem trazer certas contradições. Embora a propriedade sugira autonomia do processo produtivo, afrouxamento do tempo de trabalho e até mesmo certo status social, os bolivianos deparam-se com vulnerabilidades e pouca rentabilidade.

      14 Consequência desse sistema é a exploração cíclica , ou seja, bolivianos exploradores de outros bolivianos.

      A hierarquização presente na relação entre coreanos e bolivianos está organizada em cadeias funcionais: os bolivianos recebem dos coreanos as peças a serem costuradas que então pagam por cada peça produzida. A função dos coreanos é a elaboração das peças (tendências, modelos etc), distribuição e comércio das mercadorias.

      Alguns bolivianos também exercem o papel de comerciantes, em barracas, próximos ao Largo da Concórdia, na Feirinha da Madrugada e em outros pontos do bairro do Brás.

      Quanto ao conhecimento básico do processo de costura exercida pelos bolivianos na cidade de São Paulo, o mesmo vem da experiência prévia nesse setor (cursos de costura) na cidade de El Alto, ainda que seja difícil dizer o que precedeu: a especialização em El Alto ou a demanda na cidade de São Paulo.

      Ainda que alguns venham com certo conhecimento do trabalho exercido nesse setor, muitos bolivianos ainda vem sem nenhuma experiência. A principal característica que marca a diferença entre brasileiros e bolivianos é a participação ativa e intensa de homens bolivianos no processo de produção. As bolivianas também exercem tal atividade, mas competem a elas também o serviço de comercialização dos produtos, cuidar da casa e o café servido para os costureiros.

    14 Embora haja pouco conhecimento, há exploração de outras etnias latino-americanas como paraguaios, peruanos e equatorianos.

    2.3 Tempo e lugares da inserção boliviana na cidade de São Paulo

      A distribuição espacial dos imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo é singular e particular, uma vez que estão alocados, em um mesmo momento, no centro e na periferia.

      A análise deste processo de imigração de bolivianos para São Paulo sugere, concomitantemente, uma compreensão do crescimento da própria cidade de São Paulo como território.

      Historicamente os imigrantes, tais como os portugueses, italianos, espanhóis, poloneses, libaneses e japoneses, que vinham para a cidade concentravam-se nas regiões centrais em bairros como o Bom Retiro, Pari Liberdade, Brás e Barra Funda.

      As regiões centrais promovem, nesse sentido a produção da territorialização dos imigrantes, uma vez que essa produção está relacionada ao tempo de residência dessas pessoas bem como o tempo de existência do fluxo migratório na cidade.

      Tal processo temporal que envolve tanto o individual quanto o grupo propicia a territorialização, pois os imigrantes criam suas próprias centralidades pelo uso contínuo e frequente desses lugares, fazendo, consequentemente, com que novos imigrantes também busquem esses locais.

      Desta maneira, o uso contínuo das áreas centrais da cidade por imigrantes antigos e pelos recém-chegados corresponde à significação desses lugares como acolhedores da densidade e da diversidade (SOUCHAUD, 2010).

      Entretanto, o crescimento da cidade ao longo do tempo, bem como as transformações do fluxo migratório, modificou e estendeu essa distribuição para outros lugares e a concentração desses bolivianos vai além dos bairros da zona central.

      Há também significativa presença nos bairros da zona leste como Belém, Tatuapé, Penha, Itaquera, Cangaíba, Engenheiro Goulart, Ermelino Matarazzo, Guaianases, São Mateus e da zona norte como Vila Maria, Vila Guilherme, Casa Verde, Cachoeirinha e outros. Bairros da zona oeste como Alto de Pinheiros e Morumbi também apresentam agrupamentos dessa população.

      A distribuição dos imigrantes, ainda que desigual, atinge todas as áreas do perímetro urbanizado da cidade de São Paulo e prolonga-se para alguns outros municípios da região metropolitana como Guarulhos, Osasco, Diadema, Santo André, Ferraz de Vasconcelos, Cajamar, Diadema e São Bernardo. Os municípios de Campinas, Jundiaí e Americana também apresentam relevante presença de bolivianos (SOUCHAUD, 2010).

      

    Mapa 2.3-1: Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e seus

    municípios.

      Mapa 2.3-2: O município de São Paulo e seus distritos.

      Em índices quantitativos, de acordo com o Censo 2000, os imigrantes bolivianos residem em 82 (dos 96) distritos da cidade de São Paulo e em outros 23 municípios (dos 39) que compõem a Região Metropolitana (RMSP).

      Na cidade de São Paulo, em termos residenciais, as áreas centrais são que mais apresentam a presença boliviana, com um percentual de 27,2%, seguido da zona norte com 26,4%. Na zona leste há uma incidência de 19,6%,

      15 de 9,2% na zona sul e de 4,3% na zona oeste.

      Nos outros municípios, os quais ajudam a compor a RMSP, há um percentual de 4,3% em Guarulhos (RMSP Nordeste), 3,1% no eixo ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano), Mauá e Diadema. Municípios de Osasco e Jandira apresentam 2,8% (RMSP Oeste).

      15

    É preciso lembrar que em cada zona onde foi detectada a presença boliviana, existem

    distritos com maior ou menor concentração, bem como os bairros que neles localizam.

      

    Mapa 2.3-3: Localização dos domicílios dos bolivianos residentes na

    RMSP por zonas, 2000.

      Fonte: Censo 2000, IBGE.

      Os distritos da zona norte o centro da cidade de São Paulo são os que apresentam a maior concentração de bolivianos. Em seguida a zona leste, ainda que essa seja a maior zona da cidade e com maior número de distritos.

      Dentro dos distritos, temos grande incidência de bolivianos no Bom Retiro, Belém e Brás, com uma pequena presença na Sé e Cambuci. Nos distritos da zona leste, a incidência se apresenta em Lajeado, Cangaíba, Penha e Itaquera. Nos distritos da zona norte (dos 19 distritos, há incidência em 17), encontram-se em maior expoente na Vila Maria, Vila Guilherme, Casa verde,

      16 Vila Medeiros e Santana

      16 As fontes utilizadas são de caráter alternativos, não se restringindo unicamente aos dados do

    Censo 2000, mas também utilizando-se de dados obtidos pelo registro de usuários do SUS e

    entrevistas e anúncios de emprego.

      

    Mapa 2.3-4: Número de usuários bolivianos cadastrados no Sistema

    Único de Saúde (SUS) segundo distritos da cidade de São Paulo, 2009.

      

    Fonte: Sistema de Informação para a gestão da Assistência à Saúde (SIGA) fornecido por

    Ceinfo Centro Oeste (Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de São Paulo), 2009.

      Um fator que deve ser salientado, a partir do mapa 2.3-4 acima, refere- se também à incidência de tuberculose entre os bolivianos residentes na cidade de São Paulo. A condição dos bolivianos nas oficinas de costura está diretamente ligada à incidência de tal enfermidade.

      Diversos são os fatores que comprometem a saúde desses imigrantes, que vão desde o nível socioeconômico ao isolamento social. As condições de fragilidade que essas pessoas se encontram, seja pela situação precária e insalubre de emprego e moradia, dificuldades comunicação, a questão da ilegalidade, tabagismo, desnutrição, alcoolismo etc., propiciam a proliferação da tuberculose.

      Muitos são os casos de imigrantes com tuberculose na cidade de São Paulo, sobretudo de bolivianos. Quantitivamente, não existem dados precisos acerca dessa situação, ainda que o Ministério da Saúde tenha registrado um total de 7.476 casos de tuberculose na cidade, em 2009, sendo que aproximadamente 300 levados à óbito.

      O grande número de bolivianos em alguns distritos da cidade, bem como a alta incidência de tuberculose na Bolívia somam-se para que se tenha um melhor conhecimento acerca dessa enfermidade dentro da comunidade boliviana, além de se pensar em aspectos facilitadores do acesso aos serviços de saúde por essa população, tendo em vista possíveis disparidades de atuação do Programa de Controle da Tuberculose com a população brasileira e a boliviana residente na cidade.

      

    Tabela 2.3-1: Distribuição bolivianos residentes na RMSP por zona e

    tempo de residência no estado de São Paulo, 2000.

      Zonas Tempo de residência Centro Leste Norte Sul Oeste RMSP Total frequência 612 259 733

      78

      18 96 1.892 0 a 3 anos % 33,3 14,1 40 4,2 1,0 5,2 100,0 frequência 611 769 557 102

      7 184 2.414 4 a 9 anos % 27,4 34,5 25,0 4,6 0,3 8,2 100,0 frequência 493 248 401 121

      40 190 1.683 10 a 14 anos % 33,0 16,6 26,8 8,1 2,7 12,7 100,0 frequência 345 236 196 131 124 248 1.528

      15 a 24 anos % 27,0 18,4 15,3 10,2 9,7 19,4 100,0 frequência 363 231 465 384 199 427 2.496 25 ou mais anos % 17,5 11,2 22,5 18,6 9,6 20,5 100,0 frequência 2.424 1.743 2.352 816 388 1.145 10.013 Total % 27,2 19,6 26,4 9,2 4,4 12,7 100 Fonte: Censo 2000, IBGE.

      A tabela 2.3-2 acima apresenta a distribuição de bolivianos que residem na RMSP por zona e tempo de residência na Unidade de Federação de São

    17 Paulo .

      Se avaliarmos pelo menor tempo de residência (de 0 a 9 anos), pode-se afirmar que a concentração na zona norte (com maior incidência) e leste, respectivamente, são maiores face às outras zonas. Isso indica a importância de referência que ambas apresentam no que condiz ao fluxo migratório em São Paulo e como à área central, como visto anteriormente, desde a década de 1970 abriga um grande percentual de imigrantes.

      Quanto mais tempo de residência essa população conquista, mais diversificado fica a distribuição espacial no estado de São Paulo. Consideração essa que pode ser feita para a zona oeste que apresenta uma alta frequência de bolivianos que residem há mais de 30 anos.

      Os conjuntos recentes de bolivianos estabelecem moradia em bairros 17 mais longes do centro rumo às zonas leste e norte, lugares mais significativos a

      

    Vale lembrar que esses bolivianos captados pelo Censo não fizeram deslocamentos para fora da UF e se trata de tempo de residência plena. partir dos anos de 1980 quando a migração boliviana para São Paulo adquiriu uma nova escala e conjuntura ocupacional.

      A presença histórica de grupos de imigrantes como os bolivianos em bairros centrais como o Bom Retiro, o Brás e o Pari acentua os diferentes momentos de fluxos migratórios internacionais, bem como a mobilidade interna quando tais grupos encontram nessas regiões melhores condições para a sustentação da sua presença na cidade de São Paulo.

      Ainda que cada bairro possua sua história e singularidades, os atributos apresentados pelos bairros centrais debruçam-se em suas capacidades de servir tanto para os imigrantes do passado como os do presente e do futuro, por serem, em sua essência histórica, industriais e operários, além da associação direta com o período de imigração em massa.

      O caso dos bairros como o Bom Retiro e o Brás desencadeou numa estruturação espacial e produtiva especializada, uma vez que são bairros detentores da atividade industrial voltada para o setor de confecção. Por essa estruturação ter a participação de vários grupos imigrantes, evidencia uma condição particular à indústria do vestuário que vai além da agregação grupos imigrantes-espaço-trabalho.

      Durante a formação do bairro do Bom Retiro, reproduziu-se uma ambivalência de seu valor enquanto bairro/centro. Isso porque o bairro não se localizava no centro apesar de perto deste, porém sua atividade industrial do setor de confecção o intitulou como bairro central, integrando-se à cidade (FELDMAN, 2009 apud XAVIER, 2010).

      Portanto, a inserção dos imigrantes bolivianos no Bom Retiro é orientada pelo fato do bairro dispor de uma base material completa, uma vez que este está notoriamente atrelado à produção e comercialização do setor têxtil, além da disposição de moradias. O centro é a condição espacial de proximidade de tudo que se refere à atividade: linhas, tecidos, fornecedores, locais de venda de máquinas de costura, locais de comercialização e circulação etc.

      Partindo da localização, do ponto de vista ocupacional, fica evidente, por consequência, a localização das moradias dos bolivianos na cidade. De acordo com estudos, é comum trabalhar e morar no mesmo local. Essa condição é clara, pois soluciona inúmeras questões recorrentes tanto à residência como o trabalho.

      Para os bolivianos recém-chegados, a oficina é a sua moradia, o que para o empregador se torna rentável uma vez que se tem a mão-de-obra por perto, não havendo gastos com transporte. A comida, por ser feita em casa, é dividida entre todos os trabalhadores e com isso os seus salários são levemente preservados.

      Ainda que os bairros centrais detenham uma grande concentração de bolivianos envolvidos nesse tipo de atividade, não é difícil encontrar em outros lugares da cidade, pois não há uma concentração espacial exclusiva.

      A compilação dos mapas a seguir revelam a localização por tipo de

      18 ocupação dos imigrantes bolivianos residentes na RMSP e por zonas.

      

    Mapa 2.3-5: Localização dos operadores de máquinas de costura de

    roupas, por zonas.

    18 As nomenclaturas utilizadas para definir a ocupação dos bolivianos residentes na RMSP segue o padrão da Classificação Brasileiro de Ocupações.

      Como pode ser visto no mapa 2.3-5 a concentração de oficinais localizam-se em lugares diversos da cidade de São Paulo, sobretudo nas regiões norte, onde a concentração é de 36,2%, no centro com um percentual de 31,1% e zona leste com 27, 3%.

      Do total de bolivianos ocupados em atividades industriais de confecção de roupas, há uma grande evidência de concentração na zona central da cidade de São Paulo, com 52,5%, seguida pela zona leste com 15,2%, como pode ser visto no mapa 2.3-6.

      

    Mapa 2.3-6: Localização dos trabalhadores polivalentes das indústrias de

    confecção de roupas, por zonas.

      Mapa 2.3-7: Localização dos médicos, por zonas.

      mapa 2.3-7, prevalece a concentração na área central, com um percentual de 31,9%, seguindo de 20,5% que se localizam na zona sul da cidade. A zona leste é a que representa menor contingência de médicos na cidade, apresentando apenas 2,6%.

      

    Mapa 2.3-8: Localização dos vendedores e demonstradores em lojas ou

    mercados, por zonas.

      Os bolivianos que se dedicam ao comércio como vendedores em lojas ou mercados, demonstrado no mapa 2.3-8, apresentam maior concentração no centro seguida da zona norte, com um percentual de 51% e 24,2% respectivamente. Percebe-se que essa ocupação tem maior influência apenas da cidade de São Paulo, as cidades que compõem o restante da região metropolitana não apresentam nenhum dado.

      

    Mapa 2.3-9: Localização dos gerentes de produção e operações, por

    zonas.

      No mapa 2.3-9 acima, percebe-se um enfoque à zona oeste da cidade de São Paulo no que se refere aos gerentes de produção e operações, revelando um percentual de 35%, seguida da zona norte e centro, com 23,1%.

      Mapa 2.3-10: Localização dos dentistas, por zonas.

      se afirma com maior intensidade nas áreas centrais da cidade. Os dentistas revelam um percentual de 39,2%, seguida da zona leste com 18,6%.

      O mapa 2.3-11 revela a grande intensidade de empregados domésticos na zona norte da cidade, com um percentual que se aproxima dos 50%. Logo atrás segue o centro com 23,7%.

      O mapa 2.3-12 indica uma forte concentração de marceneiros e áreas afins na zona leste da cidade, evidenciando um percentual de 41,8%. As zonas sul e norte estão com um percentual aproximado de 30%.

      

    Mapa 2.3-11: Localização dos trabalhadores dos serviços domésticos em

    geral, por zonas.

      

    Mapa 2.3-13: Localização dos dirigentes de empresas com mais de 5

    empregados, por zona.

      Fonte: Censo 2000, IBGE.

      Por fim, o mapa 2.3-13 acima aponta a maior concentração de dirigentes de empresas na zona sul com 27,8%. Percebe-se uma concentração equilibrada entre a zona leste o centro da cidade de São Paulo, mas também nas zonas norte e leste da região metropolitana.

      Quanto à condição de residência, a alternativa de moradia alugada obtém o maior índice percentual entre os bolivianos, baseada nos dados fornecidos pelo Censo 2000.

      Sobre a RMSP, em sua totalidade, a metade da população boliviana residente mora em domicílios alugados (51,8%), enquanto que a outra parte está em processo de quitação ou em residências já pagas (43,8%).

      A zona leste e zona norte são as que detêm maiores índices de condição de moradia quitada (depois do centro), sendo 34% e 34,9% respectivamente (ambos do total de domicílios próprios quitados). No centro, 71,4% das residências ocupadas por bolivianos são alugadas. Esse índice é superior ao percentual de domicílios alugados na zona central em sua totalidade (40,9%).

      O centro da cidade, todavia, guarda uma dualidade que estimula a concentração de imigrantes, sobretudo os bolivianos. Os fatores que podem ser indicados como característicos do centro que contribuem para a valorização fundiária baseiam-se em duas frentes: a possibilidade do aluguel que o centro disponibiliza, o que agrega multifuncionalidades do ponto de vista espacial (acessibilidade) e social (diversidade étnica); infraestrutura urbana.

      A dualidade citada se orienta a partir desses aspectos qualitativos face à perda da atratividade para o quesito habitação. Os bairros centrais da cidade de São Paulo, ainda que possibilitem boas alternativas estruturais, apresentam uma redução da demografia, desde a década de 1960, que está ligada aos altos custos, fomentando a ocupação irregular e o aumento de cortiços.

      Fica evidente, portanto, que a presença boliviana no centro da cidade de São Paulo (bem como em outras regiões) possui muitas pontes e, uma dessas, liga tais imigrantes aos lugares de socialização; pontos de encontro carregados de valor simbólico atrelando à cidade a uma (re)construção da paisagem, tornando-a singular. Essa é a discussão do próximo capítulo.

    3 As praças e a construção da territorialidade

      O modo como conhecemos as praças não vislumbra a totalidade em que nelas estão inseridas. A praça é, visualmente, um lugar de encontros, de descanso e de sossego. Algumas são usufruídas como abrigo aos moradores de rua, revelam-se também como lugares desprovidos de atenção direta possibilitando práticas ilícitas e imorais aos olhos da cidade.

      Algumas praças são cenários de reivindicações, de protestos e de luta, mas também servem de palco para festividades, celebrações, espetáculos de dança e música. A praça, historicamente, é o centro de todas as atividades da cidade. E assim perdura.

      A diversidade dos modos de uso e de apropriação das praças é realmente vasta. O entendimento acerca desse espaço público, todavia, não se limita, unicamente, às destinações que o coletivo lhe confere.

      As praças são peças-chave para a compreensão de toda a vida cotidiana, dos anseios de seus frequentadores e dos não frequentadores, é a justificativa da construção da identidade, é o elo com o lugar, é a responsável pela permanência da memória feliz (ou infeliz) de épocas passadas, é o passado e o presente. A praça é atemporal.

      A vida turbulenta da cidade dos tempos de hoje que rodeia as praças não se permite adentrá-las. A configuração das praças enquanto lugar de

      

    refúgio é latente, uma vez que o lazer e o descanso também fazem parte da

    vida social.

      Servindo de paisagem para uma fotografia ou de lugar para a construção de territorialidades, as praças são munidas de mistérios, de simbologias, de valores e de sentimentos contraditórios.

      A vida que se estabelece na praça, bem como o seu tempo, difere em absoluto de tudo que se experimenta fora dela, mas são nas praças que a verdadeira manifestação do social acontece: a genuinidade das relações a partir do que os indivíduos realmente são. Na praça prevalece, portanto, a veracidade, a possibilidade de liberdade, ainda que essa seja, muitas vezes, a perdição.

    3.1 A paisagem e o lugar das praças

      O papel que as praças exercem na constituição da cidade e nas relações sociais em que nelas acontecem é tão importante quanto à própria espacialidade em que elas estão inseridas.

      A praça, historicamente, se apresenta como um dos mais importantes e, reconhecidos, agentes de integração social. Santos (1997) já apontava que “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e, também, contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações como quadro único no qual a hi stória de dá”.

      O papel das praças na estrutura urbana compõe intrinsicamente à relação das pessoas com um espaço de vivências, carregado de valores simbólicos que se arrastam, na maioria das vezes, desde a infância. A praça se transforma, nesse momento, em um lugar de tranquilidade, de nostalgias e lembranças.

      Ainda que as praças sejam espaços livres e que comportem uma imensa gama de simbologias, hoje, muitas delas estão servindo de cenários para encontros de dependentes químicos e de prostituição. Neste caso, as praças, enquanto espaços livres e em situações de abandono, não exercem o seu papel fundamental: o da integração da sociedade em práticas de lazer e de descanso.

      Uma vez que as praças são alvos de transformações sociais e exprimem, na sua essência, um conjunto de heranças das relações entre os homens e a natureza, pode, portanto, chamá-las de paisagens.

      Segundo Santos (1997), “a paisagem se dá como um conjunto de objetos reais concretos. Nesse sentido a paisagem é transtemporal, juntando objetos passados e presentes, uma construção transversal ”.

      As praças são uma representação da sobreposição dos tempos, onde se encontra o passado, o presente e a projeção de um futuro. Todos os tempos abarcados em um mesmo espaço de convivências e trocas sociais.

      De acordo com Santos:

      Paisagem e espaço são sempre uma espécie de palimpsesto onde, mediante acumulações e substituições, a ação das diferentes gerações se superpõe. O espaço constitui a matriz sobre a qual as novas ações substituem as ações passadas. É ele, portanto, presente, porque passado e futuro. (SANTOS, 1997:67).

      Como é sabido, as praças possuem várias destinações, sejam elas de caráter social, religioso, político, comercial ou atividades que contemplam o lazer e o descanso. A praça é, intencionalmente, um ponto de encontro, da permanência, dos acontecimentos, das práticas sociais e de manifestações do cotidiano urbano.

      Além das suas diversas destinações, as praças são a representação concreta de valores de uma sociedade, cujo âmago está fincado na sua cultura, suas simbologias e hábitos de vida da cidade. Ao passo que essas características são modificadas, a praça também se transforma.

      Todavia, em sua maioria, as praças vêm sendo subtraídas a meros espaços com presença, ou não, de arborização, sem ter em sua essência, uma representatividade do que é o convívio social, tornando- se lugares “vazios” sem atribuições de manutenção e valorização, seja pelo poder público ou pela própria sociedade.

      A paisagem que a cidade traz à vista dos nossos olhos é a expressão da urbanidade dos lugares, das pessoas e do seu cotidiano. Expressa relações e ações que permeiam as pesquisas intermináveis sobre a própria cidade e seus espaços.

      A paisagem, do ponto de vista geográfico, tem uma relação direta com o imediatismo: a vista do espaço transformado pela sociedade a partir dos recursos da natureza.

      Ainda, a paisagem está em constante transformação e isso faz com que ela seja caracterizada como um espaço transtemporal, ou seja, agrega o passado no presente:

      Cada paisagem se caracteriza por uma dada distribuição de formas-objetos, providas de um conteúdo técnico específico. A paisagem é, pois, um sistema material e, nessa condição, relativamente imutável: o espaço é um sistema de valores, que se transforma permanentemente. (SANTOS, 1997:67). As formas que os diferentes momentos históricos criaram perduram nas paisagens da cidade, contribuindo para a sobreposição de diferentes tempos no momento atual.

      As praças são paisagens, pois nelas podem ser analisadas as transformações advindas da sociedade, produzindo em seu espaço, diversas formas de uso, seja pela construção da identidade, pela manifestação do lazer, das festas e procura de abrigo e sossego.

      A praça, enquanto paisagem, revela dois momentos: no plano da abstração, confere laços de mistérios, de memórias, significações e simbologias. Essas características são apenas absorvidas por um olhar mais profundo e crítico.

      No plano do concreto se vê a exposição de uma beleza peculiar, as ações nelas impressas pelos seus frequentadores e os sentimentos que essas trazem junto ao cenário que compõe a própria praça: diversão, alegria, contemplação etc. Tudo dentro de uma imagem imediata da orientação do nosso olhar.

      O papel das praças, bem como da paisagem propriamente dita, é a expressão da obra elaborada pelo coletivo, assim como a própria cidade. Desse modo, as praças são uma representação do que a cidade é: cheia de vida, de sentimentos paradoxos e de produção constante.

      As marcas do tempo fincadas na paisagem da cidade revelam o poder da sociedade em transformar e reconstruir o seu lugar de moradia, entretanto, mantêm as lembranças que ali aconteceram. Nas praças o mesmo pode ser verificado, uma vez que elas também são espaços da manifestação da vida.

      As praças, não obstante, são atuais. Nelas existem a possibilidade de sincronia dos tempos e as relações que se observam ali são consequências do presente, do agora.

      As praças também são percepções, ainda que se revelem, em um primeiro instante, imagens imóveis. “A paisagem é história congelada, mas participa da história viva. São as suas formas que realizam, no espaço, as fu nções sociais”. (SANTOS, 1997).

      Segundo Carlos:

      As relações com o lugar se determinam no cotidiano, para além do convencional. O espaço é o lugar do encontro e o produto do próprio encontro e a cidade ganha teatralidade e não existe dissociada da sociedade que lhe dá conteúdo. Assim a observação da paisagem vai permitindo uma leitura e uma interpretação da nossa situação no mundo de hoje, revelando na sua dimensão visível a história do lugar. (CARLOS, 2007:34).

      O crescimento urbano, muitas vezes, acaba por modificar a dinâmica dos lugares e a sua configuração territorial. O aumento do tráfego de carros que necessitam a ampliação de pistas, novos traçados de ruas, a destruição para construção de mais linhas do metrô. Esses e outros impasses da urbanidade alteram, direta ou indiretamente, os espaços de convívio, fragmentando, automaticamente, a própria consciência urbana.

      As praças, bem como outras paisagens, são vítimas do processo de transformação de uma urbanização crescente. Muitas delas perdem sua memória e o papel de agente tranquilizador em detrimento do crescimento desenfreado e estressante da cidade. A sua destruição ou modificação atinge a vida das pessoas que ali residem e que construíram, ao longo de muitos anos, uma identidade com aquele lugar.

      A configuração de um lugar compõe-se a partir da dimensão do tempo: a presença do passado nos eventos do presente. A história da vida cotidiana se inclui nessa composição por esta estabelecer vínculos entre o está fora com o que está dentro. A reprodução da vida, portanto.

      O que se percebe nas praças da cidade é a presença da história particular do lugar onde elas estão localizadas. As revelações que se subscrevem nesses espaços públicos são, em parte, a história de uma prática cotidiana, do trabalho estressante que ali se libertam para uma paz e para um desprendimento dos pensamentos e atividades alienantes.

      As praças possuem o poder de trazer a tradição, a cultura, os hábitos de lazer e cidadania. Feições esquecidas na cidade enquanto palco do processo de divisão do trabalho. Recebe, positivamente, o que vem de fora como um agregador, ou seja, o que chega para construir e transformar o lugar (aqui considerando os imigrantes) construindo assim a sua particularidade. Logo, as praças podem ser consideradas o ligamento do mundo ao lugar.

      Assim, como para a reprodução da vida leva-se em consideração a tríade habitante-identidade-lugar, as praças podem ser adicionais nesse processo, sendo uma das bases para a configuração da identidade. Praças constituem e são constituídas pela identidade, transformando o lugar em um espaço singular.

      As relações que se estabelecem entre os habitantes da cidade, refletem- se nas praças por meio da percepção. Percepção de seus moradores, do mundo, do seu corpo e do outro, pois é através da percepção que o homem reside e se apropria do espaço.

      Assim como Carlos (2007) nos aponta que:

    • – O lugar é a porção do espaço apropriável para a vida apropriada através do corpo
    • – dos sentidos – dos passos de seus moradores, é o bairro é a praça, é a rua (...) Motorista de ônibus, bilheteiros, são conhecidos-reconhecidos como parte da comunidade (...) não simples prestadores de serviços. (CARLOS, 2007:17).

      Às praças competem uma significação que foge à cidade: a de espaço imediato das relações cotidianas mais finas. Em outras palavras, a cidade enquanto lugar não pode ser vivida em sua totalidade como a vivência que se configura em uma praça. Relações de vizinhança, de encontro, de confraternização e socialização são as que dão vida à praça e as fazem lugares reais, completos.

      São os lugares que as pessoas habitam, e isso se aplica também às praças, que o cotidiano se manifesta. É no uso desses lugares que se estabelecem os significados dos mesmos, é a extensão da vida dos seus frequentadores.

      Por outro lado, enquanto que um lugar não se limita, apenas, à história concreta de um povo, às praças, nem sempre, competem a funcionalidade de um elemento da história do cotidiano de um determinado lugar. Praças podem

      19 ser constituídas por um vazio monumental , ser, desse modo, inóspita.

    19 Vazio monumental aqui expresso provém do que Carlos (2007) propõe sobre a construção

      

    da intencionalidade. Monumentos intencionais que afastam os moradores, não criando laços de

    identidade com lugar e que, portando, não podem ser sentido, percebidos e vividos.

      A cidade de São Paulo apresenta muito lugares de grandes vazios monumentais. Isso porque o entendimento do lugar está diretamente ligado às práticas cotidianas que ali se inscrevem. Os vazios que se estabelecem estão fora do circuito do vivido, desprovidos de sentido para os cidadãos, do ponto de vista das possibilidades de uso. Logo, são espaços de formas e não de vivências.

      Assim como o lugar é o espaço do vivido, as praças também o são, uma vez que nelas se formulam o múltiplo. A reunião de vivências, de experiências, de sentimentos e de conteúdo.

      Isto que se vê nas praças, em exemplo da Praça Kantuta, e em tantos outros lugares em que se instituem a reunião de pessoas, é a constatação de algumas consequências da globalização, ainda que essas não sejam de fácil percepção.

      Visto que as grandes facetas da globalização são a fluidez, a velocidade da informação e da comunicação, o estreitamento das distâncias unindo os lugares em rede e derrubando as fronteiras, a percepção do corpo revelou-se como o único instrumento de ligação concreta que possuímos.

      Como afirma Santos:

      A globalização faz também redescobrir a corporeidade. O mundo da fluidez, a vertigem da velocidade, a frequência dos deslocamentos e a banalidade do movimento e das alusões a lugares e a coisas distantes, revelam, por contraste, no ser humano, o corpo como uma certeza materialmente sensível, diante de um universo difícil de apreender. (SANTOS, 1997:212).

      Trazendo à luz da Praça Kantuta, fica clara a fluidez representada pela troca de histórias e experiências entre os seus frequentadores. E, ao passo que um lugar é compartilhado, a conexão com o mundo torna-se uma realidade.

      A espacialidade do mundo parece ser longínqua enquanto estamos presentes em um determinado lugar, mas o fascínio que se registra é que são esses lugares locais onde vivemos e onde estamos inseridos que nos liga ao mundo. O mundo, portanto, tornou-se um grande lugar.

      Não há dúvidas de que o lugar é definido pela identidade histórica que o cidadão estabelece ao local onde se configura a vida, entretanto, nessa situação de experiência global que se fundamenta a vida hoje, a identidade dos lugares transcorre por uma história que não é só deles, em singularidades, mas por uma história compartilhada pelo mundo, este que vai além dos limites físicos dos lugares.

      Tal realidade ratifica o multiculturalismo inscrito hoje na cidade. A experiência da troca e da vivência de outras tradições, hábitos e culturas implicam na riqueza e na relativização de localização dos próprios lugares, uma vez que todos se encontram em um único lugar.

      Simultaneamente, a articulação, que se faz contraditória, da produção dos lugares se anuncia na especificidade histórica do particular. O lugar se apresenta como ponto de articulação entre a mundialidade em constituição e o local enquanto especificidade concreta, enquanto momento. (CARLOS, 2007).

      Cada lugar é, à sua maneira, o mundo. Ou, como afirma M. A. de Souza (1995, p. 65), "todos os lugares são virtualmente mundiais". Mas, também, cada lugar, irrecusavelmente imerso numa comunhão com o mundo, torna-se exponencialmente diferente dos demais. A uma maior globalidade, corresponde uma maior individualidade. (SANTOS, 1997:213).

      As praças, aqui se referindo à Praça Kantuta, que será analisada mais a fundo no próximo capítulo, é um exemplo dessa manifestação da contração do mundo em um lugar. Nela se subscrevem, no plano abstrato, as simbologias, as tradições e até mesmo as situações de conflito armazenadas no histórico de seus frequentadores, os latinos, sobretudo os bolivianos.

      As praças enquanto formadoras de relações entre o homem e o seu espaço, utilizam-se da característica do plano vivido, das ações do cotidiano, garantindo a construção de uma grande rede de significados e sentidos, logo, garante a construção da identidade.

      O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar liga-se indissociavelmente à produção da vida. No lugar emerge a vida, pois é aí que se dá a unidade da vida social. Cada sujeito se situa num espaço concreto e real onde se reconhece ou se perde, usufrui e modifica, posto que o lugar tem usos e sentidos em si. (CARLOS, 2007:22). O processo de construção da identidade tem como um dos seus elementos o sentimento de pertencimento ao lugar e nas formas de apropriação do espaço em que ela se suscita. Essa construção identitária liga- se aos lugares habitados, onde se exprimem a história por meio de uma a manifestação dos acumulação de práticas sociais. A identidade é, também, sentimentos.

      Muitas praças onde se encontram imigrantes, em especial a Kantuta, guarda em si a essência de significados da história desses frequentadores, as dimensões do plano da vida transformadas em memórias, sentidos e simbologias.

      É perceptível que, mesmo com a compressão do mundo em um só lugar, este último não perde as suas particularidades, pois cada sociedade determina no seu espaço o seu ritmo e as formas de apropriação em detrimento da vida social.

      As praças, nesse sentido, estão em um patamar acima, uma vez que estão fora do circuito alucinante da vida do trabalho. Nelas encontramos a calma, o abrigo solidário, os desejos.

      O lugar, portanto, ele é múltiplo. Múltiplo no que concerne às relações, à práticas sociais e de trabalho. Ao mesmo tempo em que ele revela o dinamismo das relações e da produção global em escala local, ele também é um espaço de libertação do ego aprisionado pelas hierarquias da divisão espacial do trabalho.

      Segundo Carlos:

      Os lugares tanto se opõem como se completam ou se reúnem o que introduz uma classificação por topias, (isotopias, heterotopias, utopias, quer dizer lugares contrastantes), mas também e, sobretudo, uma oposição altamente pertinente entre os espaços dominados e apropriados. (CARLOS apud LEFEBVRE, 2007:23).

      Isso nos demonstra que, cada vez mais, há um distanciamento do entendimento dos lugares, e aqui transcendendo às praças, enquanto ponto de localização ou referência. Isso torna-se, agora, uma ilusão mentirosa do que as praças realmente significam na vida social.

      A diversidade que pode ser encontrada nos lugares e nas próprias praças, sobretudo as de encontro de imigrantes, não compete mais à análise do local em virtude das suas funcionalidades, mas sim das dinâmicas simultâneas do mundo que refletem na produção e significação desses lugares, as praças.

      Isso, portanto, significa dizer que a simultaneidade determina a natureza dos lugares, articulando o mundo em pequenas porções. O conjunto de tais lugares, destas porções, então, compete a uma totalidade.

      A Praça Kantuta, localizada em um bairro central da cidade de São Paulo, pode ser considerada como mediadora do que é próximo e do que está distante. Uma compressão de tempos e distância em detrimento da construção de uma territorialidade de um povo.

      Vale ressaltar que a territorialidade inscrita na Praça Kantuta é apenas um fragmento da totalidade que a cidade de São Paulo representa: lugar de multiterritorialidade. As condições que a fazem ser notória representante desse fenômeno é a presença de uma grande multiplicidade de territórios e sua articulação na forma de territórios-rede que são:

      Territórios múltiplos, na medida em que podem conjugar territórios-zona (manifestados numa escala espacialmente mais restrita) através de redes de conexão (numa escala mais ampla). A partir daí se desenham também diferenciações dentro da própria dinâmica de “multiterritorialização”. (HAESBART, 2004:16)

      Assim como as consequências que a era das redes trouxe para a transformação do espaço do mundo, reconfigurando-o a partir de novos processos de produção e de troca em tempos rápidos e fluídos, o mesmo entendimento pode ser transferido para a análise das praças enquanto lugares de conectividade de pessoas.

      Nas praças observa-se a anulação do tempo e a ligação do mundo. As praças, portanto, são redes integradoras entre os seus frequentadores às mais distantes culturas, signos e tradições.

      As praças transformaram-se em paisagens expandidas, não se sabe do ponto de vista abstrato (não o concreto), onde elas começam e onde terminam, pois elas são extensões dos seus frequentadores. Elas estão dentro de cada um que as usufrui, ou mesmo a usam como passagem. As praças são lugares sem fronteiras.

    3.2 O papel do cotidiano e seus agentes na composição das praças

      O papel da vizinhança na produção da consciência é mostrado por J. Duvignaud (1977, p. 20), quando identifica na "densidade social" produzida pela fermentação dos homens em um mesmo espaço fechado, uma "acumulação que provoca uma mudança surpreendente" movida pela afetividade e pela paixão, e levando a uma percepção global, "holista", do mundo e dos homens. (SANTOS, 1997: 216).

      A referência que Santos (1997) traz a partir de J. Duvignaud não está elucidando a ideia de lugares limitados amedrontados pelo que vem de fora e com um tempo próprio que difere do externo, mas sim o fim da individualidade. Alguns lugares da cidade de São Paulo são onde se apresentam grandes mobilidades. As praças são redutos dessas relações interpessoais, dos encontros.

      A situação da cidade de São Paulo é potencializada pelo que Santos (1997) indica acerca da densidade e intercâmbio social. São Paulo é um polo atrativo de mobilidades migratórias, sejam elas, em um primeiro instante, pela oferta de trabalho, ou em um segundo instante, como uma matriz de trocas simbólicas e de culturas.

      O indivíduo desconhecido torna-se parceiro na construção do coletivo. A Praça Kantuta é um exemplo do poder da coletividade, uma vez que, antes de ser a Praça Kantuta propriamente dita e reconhecida hoje, o espaço que lhe abarcava não dispunha de notória significação como ela representa atualmente.

      A Praça Kantuta conquistou um maior raio de ação e reconhecimento como um lugar de encontro de cultura, sobretudo a dos bolivianos. A vizinhança a reconhece e reproduz a fala de que a mesma é o ponto de encontro de muitas pessoas, não unicamente imigrantes latinos, mas também de outros imigrantes e também de brasileiros.

      Esse fenômeno inscrito na cidade é de grande significância na análise da configuração da consciência, uma vez que é através da cultura que pessoas interagem e a informação tende a expandir para outros lugares.

      A cultura desses povos imigrantes, sobretudo dos bolivianos, assume um lugar na cultura da cidade de São Paulo e isso, não permite, na consciência dos seus moradores, a sua negação, o seu sufocamento.

      Por mais que muitas pessoas a neguem, julgue-a de maneira depreciativa, o reconhecimento desse fenômeno existe e é real. Sobre esse aspecto, a Praça Kantuta vem concretizar a existência dessa realidade e promover esse espaço para novos frequentadores. Nela inscreve-se, portanto a prática da liberdade.

      Como o mundo de hoje se estrutura a partir das relações, a vida cotidiana das pessoas é interferida, diretamente, pelas dimensões das mesmas. É através dessa compreensão das relações que os lugares revelam- se como um componente da condição para as ações que lhe são incumbidas, ou seja, a possibilidade da própria vida cotidiana.

      Os lugares do cotidiano se encarregam da conexão de um homem com o outro. Supõe-se, dessa forma, que a informação e a comunicação são as dimensões das relações e das ações que neles se estruturam, uma vez que tudo que fazemos produz informação e comunicação. De acordo com Santos (1997), no lugar, um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas e instituições – cooperação e conflito – são a base da vida em comum. Logo:

      O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade. (SANTOS, 1997: 218).

      A complexidade que remonta à existência e à sobrevivência da cidade se determina nas vertentes que a faz ser complexa. É nela que se instituem as formas de organização: convivência social e trabalho. Por essa organização é que faz da cidade um lugar complexo e propício à prosperidade. A cidade é promissora, do ponto de vista socioespacial e econômico, porque nela se permite a prática de atividades de todos os tipos, quaisquer trabalhos e ações, e isso alimenta a sua atração que acaba arrastando para debaixo do seu teto, multidões esfomeadas. E as pessoas que constituem tais multidões têm como característica peculiar a baixa renda, em outras palavras, são pessoas pobres.

      Santos (1997) nos aponta a importância da presença dos pobres no enriquecimento da cidade por meio das formas de trabalho que esses se destinam. Em detrimento dessa realidade, torna-se necessária a formulação de estruturas que possibilitem a interação destes com o lugar, direcionando-os ao consumo objetivo concreto e também ao consumo subjetivo.

      Como os pobres são a força da cidade e, conforme a tese de Santos (1997), eles detém o “tempo lento”, ou seja, são mais passíveis de desejar a cidade pelas suas imagens viciantes regadas de fabulações.

      As surpresas que se escondem nos lugares da cidade não são enxergadas, do mesmo jeito, pelos pobres e pelos ricos. Os últimos estão condicionados à mecanização das práticas que compõem suas rotinas resumidas em confortos materiais.

      Os lugares da cidade que se destinam aos pobres são como opacidades que, simultaneamente, contrapõem-se, superpõem-se e justapõem-se aos lugares dos ricos, lugares “luminosos”.

      Os lugares tidos como “opacos”, referidos por Santos (1997), são onde a criatividade emerge e se faz presente. Lugares abertos como praças são notórios alvos para a manifestação desta criatividade. Eis o que os latinos, sobretudos os bolivianos, fizeram do espaço quase inorgânico onde se localizava a Praça Padre Bento, no bairro do Pari: as primeiras reuniões de confraternização.

      Como Santos (1997) assinala, “é assim que os pobres reavaliam a tecnosfera e a psicosfera, encontrando novos usos e finalidades para objetos e técnicas e também novas articulações práticas e novas normas, na vida social e afetiva”.

      Diante das redes técnicas e informacionais, pobres e migrantes são passivos, como todas as demais pessoas. É na esfera comunicacional que eles, diferentemente das classes ditas superiores, são fortemente ativos. Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado como carência a satisfazer - carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar. (SANTOS, 1997: 221).

      O anseio pelo consumo que a cidade provoca nos pobres é a perdição dos mesmos, uma vez que a impossibilidade dessa prática é o grande enclave. Um desconforto perante aos chamados “ricos”, subtraem essas pessoas a empecilhos sociais. A cultura do consumo material julga-se superior à cultura subjetiva.

      Contudo, o que os pobres, ou a maioria deles, não sabem é que a cidade engole e devolve tudo que nela acontece e se produz. A Praça Kantuta, por exemplo, é o resultado desse processo. Foi reconhecida, configurada como um lugar da cidade de São Paulo e o mais importante, a cultura que ali se apresenta foi introduzida na totalidade cultural da cidade, promovendo, “inconscientemente”, a produção da consciência de São Paulo.

      Assim, a cultura, em outras palavras, é a ferramenta que liga o indivíduo ao seu grupo e ao universo. A cultura é uma herança, mas também se deixa transformar a partir de um reaprendizado das relações entre o homem e o seu meio.

      As classes médias amolecidas deixam absorver-se pela cultura de massa e dela retiram argumento para racionalizar sua existência empobrecida. Os carentes, sobretudo os mais pobres, estão isentos dessa absorção, mesmo porque não dispõem dos recursos para adquirir aquelas coisas que transmitem e asseguram essa cultura de massa. É por isso que as cidades, crescentemente inegalitárias, tendem a abrigar, ao mesmo tempo, uma cultura de massa e uma cultura popular, que colaboram e se atritam, interferem e se excluem, somam-se e se subtraem num jogo dialético sem fim. (SANTOS, 1997:222).

      Os bolivianos, ainda que não tenham essa consciência, são criadores no espaço paulistano e transformadores dos lugares da cidade. A sua bagagem histórica e cultural não permitem, junto aos outros imigrantes residentes, a uniformização dos lugares. Competem a eles, os imigrantes, à riqueza da cultura que hoje São Paulo apresenta para o mundo e a faz ser tão libertária para os novos imigrantes.

      Essa busca de caminhos é, também, visão iluminada do futuro e não apenas prisão em um presente subalternizado pela lógica instrumental ou aprisionado num cotidiano vivido como preconceito. É a vitória da individualidade refortalecida, que ultrapassa a barreira das práxis repetitivas e se instala em uma práxis libertadora, a práxis inventiva. (SANTOS, 1997:222 apud LEFEBVRE, 1958:240).

      Os fluxos migratórios que se instalam no mundo de hoje representam, abstratamente, um fluxo de bagagens cultuais e de memórias. O que acontece é que os lugares receptivos ganham novas dimensões espaciais, tendo que se reestruturarem para receber os novos moradores, mas, além disso, os lugares receptivos ganham mais subjetividade.

      A convivência que se dava nos lugares de saída, uma vez que lá a vida se encontrava em um nível de esgotamento, do ponto de vista econômico, político e até social, renova-se no momento em que se coloca em teste no novo lugar. Faz-se necessária a construção de novas experiências, vivências, familiaridades com os lugares, objetos e pessoas que cercam esses imigrantes.

      20 Em uma referência ao que Bauman sugere, os imigrantes retiram a

      vida do repouso, do esgotamento e da limitação para tornarem-se peregrinos no mundo. A visão que eles passam a ter, aqui como uma necessidade, permite o deslumbre pelos lugares por onde passam. A experiência se torna parte do percurso e este ganha significação, não reside mais no âmbito da passagem.

      Pode-se relembrar uma palavra que faz toda a diferença quando se trata 20 de fluxos migratórios: a desterritorialização.

      Zigmund Bauman, sociólogo que usa a metáfora do “peregrino e o turista”, sendo o primeiro

    um indivíduo que viaja e busca elevação e o encontro do seu eu verdadeiro, tendo o percurso

    tão importante quanto o próprio local de destino. Enquanto que o segundo limita-se,

    unicamente, ao local do destino, visando a superação da expectativa que criou sobre o lugar.

      A desterritorialização incide na prática do deslocamento, mas essa saída, bem como o percurso e bem como a chegada, não subtrai o que os imigrantes revelam no seu interior.

      A troca de La Paz, Cochabamba e outras cidades por São Paulo, não reflete no esvaziamento da consciência dos indivíduos em curso. A cultura de berço não é deixada para trás, mas ela reserva um espaço para que a nova venha e se insira.

      O lugar desconhecido, ainda que em um primeiro instante, mostra-se perigoso e completamente estranho, propicia aos chegados, a tarefa árdua de desocupar a mente e o corpo, deixando de lado os vícios, marcas e tradições de convivência do lugar de saída, para se preencherem das novas atribuições e às novas relações.

      A necessidade de residência torna a vida do imigrante intensa, do ponto de vista afetivo, social e econômico. O trabalho que deve ser exercido da melhor maneira possível, as relações com lugar que o cerca, bem como os serviços que possibilitam a supressão das suas necessidades vitalícias. O convívio com pessoas desconhecidas e com os seus hábitos distintos.

      Tudo tem um peso significativo na produção do novo cotidiano e de uma nova territorialidade. O que se configura nesse processo é um embate do tempo de ação com o tempo da memória.

      A desterritorialização dá lugar uma nova territorialização, ou seja, a bagagem inserida na memória dos imigrantes encontram um novo lugar e um novo momento para sua manifestação.

      Essa territorialização está favorável às mudanças, pois não é a mesma que se tinha no lugar de saída, bem como a territorialização do lugar de chegada, que recebe um novo morador. Acontece, nesse momento, o processo de integração.

      Vale a observação de que a originalidade (o inédito) é outro fator que se faz presente na relação do imigrante com o lugar de residência e com os seus moradores.

      A territorialidade que defino aqui de “longo prazo”, ou seja, aquela que foi construída há tempos atrás a partir da situação de longa vivência em um mesmo lugar e com seus objetos e instrumentos comuns pedem para que novos eventos aconteçam. É importante ressaltar também que essa necessidade do novo não banaliza e nem faz alusão à insignificância da territorialidade “de longo prazo”, pelo contrário.

      A territorialidade que construímos anteriormente serve de ferramenta primordial de sobrevivência na sociedade, de garantia de coesão com o lugar de convívio, bem como de garantia de permanência.

      O que se inscreve nesse fenômeno é tradução e reprodução da agitação que se configura no mundo de hoje: das pessoas, dos objetos, dos lugares e da própria cultura.

      A exigência de adaptação e adequação do que é novo, bem como a necessidade de novas experiências, torna-se elemento balizador para a vida. A descoberta e a experiência do novo sustenta a vida em sociedade e do cotidiano.

      Desse modo a desterritorialização vem como uma realidade vantajosa na vida das pessoas, em especial dos imigrantes, pois se quanto menos ou mais recente for a inserção do indivíduo no lugar, mas fácil será o enfrentamento e, consequentemente, a absorção do inédito, da descoberta. O lugar novo o obriga a um novo aprendizado e a uma nova formulação. A memória olha para o passado. A nova consciência olha para o futuro. O espaço é um dado fundamental nessa descoberta. Ele é o teatro dessa novação por ser, ao mesmo tempo, futuro imediato e passado imediato, um presente ao mesmo tempo concluído e inconcluso, num processo sempre renovado. (SANTOS, 1997: 224).

      Nesse sentido, as praças são também, como dito anteriormente, cenário da manifestação da consciência. Nelas se inscrevem a consciência pelo lugar, sobrepondo-se à consciência no lugar.

      A produção da história que se revela nas praças, enquanto ponto de encontro e confraternização, como a Kantuta, liberta-se da sombra que antes era reflexo do desconhecido. Hoje, essas praças como a Kantuta e outros lugares da cidade, conquistaram uma conotação positiva, por serem infinitas fontes de novidades.

      O que se pode ver na Praça Kantuta é a realização do presente vinculado às decorrências do passado, mas que essas não sejam entendidas como a única vertente de resultado do que a praça representa atualmente.

      Nesse lugar se vivencia o presente, o momento do agora e, isso também, não será a única justificativa das feições que se revelarão no futuro, ainda que, segundo Santos (1997) apud Sartre (1969), é o futuro que comanda as ações do presente.

    4 Praça Kantuta: a práxis da dialética

      Ao depararmos com a magnitude de uma cidade como São Paulo há de se considerar sua inegável abrangência no que tange ao multiculturalismo. São Paulo corrobora sua habilidade de incorporação de diferentes raças e, portanto, culturas através da constante transformação de sua paisagem.

      A Praça Kantuta apresenta um arsenal de significações e simbologia aos povos latinos aqui residentes, em especial, os bolivianos. Nela se encontra um fragmento da Bolívia em meio território paulistano. Insere-se, discretamente, na vida da sociedade como um símbolo dessa nação estrangeira. Serve, sobretudo, de lugar para refugiados da ordem a qual lhes foi imposta: uma vida semelhante àquelas conhecidas como escravocratas e sem pretensão de uma possível devolução da identidade perdida na fronteira.

      Chegar a um território novo é enfrentar o estranho, cujos hábitos e costumes diferem, substancialmente, daquilo que estavam acostumados a vivenciar. Por isso a necessidade de ser abrir às novas experiências é irrevogável. Tudo na tentativa de se fazer presente na sociedade.

      O lugar de abrigo é dotado de signos com grande valor subjetivo: sentimentalismo e proteção. Por mais que, nesse lugar inscreva-se uma relação de poder, há a possibilidade de retomada às origens, uma restauração da memória.

      A compreensão da singularidade da Praça Kantuta, localizada no bairro do Pari na cidade de São Paulo, necessita a análise crítica e reflexiva da mesma: a sua inserção na cidade, bem como suas dinâmicas particulares conferidas, diretamente, pela forte presença boliviana.

      A busca pelo entendimento da necessidade de pertencimento é o carro- chefe desse capítulo. Milhares de bolivianos desembarcam na cidade de São Paulo, assim como em outras regiões do país em busca de melhores condições de vida e trabalho àquelas que são, econômica e politicamente, inviáveis no seu país de origem.

      A necessidade da reestruturação da identidade e, consequentemente, do lugar de pertencimento (lugares de referência) são as vertentes que comandam e justificam as ações dos bolivianos em certos lugares da cidade de São Paulo.

      A dualidade da representação depositada à Praça Kantuta, tida como símbolo da população boliviana na cidade de São Paulo e, simultaneamente, como lugar de superficial significação por parte de alguns outros componentes e atores da cidade serve de reflexão ao que realmente engendra a valorização do sentimento de pertencimento.

      A intenção desse último capítulo é de ampliar o entendimento sobre a importância do conhecimento desse fragmento da cidade de São Paulo para que seja possível a construção da consciência fincada nas bases do respeito e do reconhecimento por essa população que, firmemente, não nega suas origens e que busca na paisagem paulistana um lugar para chamar de “sua casa”.

      A marca deixada pelos bolivianos no contexto de vida paulistana compete às construções de “semióforos” na paisagem, como a própria Praça Kantuta, uma vez que tal termo empregado pela filósofa Marilena Chauí (2000) alude a um signo carregado de simbologia cuja essência não pode ser medida por sua materialidade.

      Um “semióforo”, portanto, pode ser um acontecimento, um objeto, uma pessoa ou instituição, qualquer coisa que esteja fora ou dentro do circuito de uso diário, servindo de um signo de orgulho, de admiração e significação para um grupo.

      Involuntariamente, a Praça Kantuta, assim como muitas outras, também é um lugar de passagem, onde pessoas a utilizam como trecho de seus percursos pela cidade. Entretanto, isso não subtrai a territorialidade que a mesma revela face aos moradores do entorno e, especialmente aos bolivianos que transformaram a Praça em um grande reduto da sua cultura.

      A Praça Kantuta, ainda que apresente laços de dominação e de exclusividade, promove em seu espaço uma comunhão de sentimentos e desejos comuns, exprime territorialidades de caráter identitário, doravante. Os partícipes buscam nesse espaço dotado de sentimentalismo, combustível para se sentirem vivos novamente, uma saída da escuridão ocasionada pela rotina da nova ordem. Uma passagem do invisível para o visível.

      A simbologia transferida para a Praça Kantuta é, como qualquer outra simbologia, de proeminência subjetiva, porém, mais do que isso, a Praça é referida, neste trabalho, como “semióforo” dos bolivianos. Sua funcionalidade perpassa o limite da possibilidade de relações entre esses latinos, refere-se a um signo de glória e de proteção.

      O lugar de trabalho dos bolivianos na cidade de São Paulo, vistos nos capítulos anteriores, é dotado de significado paradoxo àquele lugar escolhido como símbolo, a Praça Kantuta.

      A necessidade de ser encontrar como indivíduo na sociedade, fez, e ainda faz, da Praça Kantuta um espaço de sonhos. Os bolivianos, assim como todos os imigrantes ao longo da história dos fluxos migratórios no Brasil e em especial na cidade de São Paulo, buscam algo que os liguem com o novo lugar de vivência. A identificação que se estabelece hoje entre os latinos, sobretudos os bolivianos com a Praça é o resultado de um longo processo de transformação e reestruturação do lugar.

      Posto que a Praça Kantuta se define e é reconhecida hoje como um lugar de encontros e festividades, do ponto de vista da subjetividade, ela revela memórias e muitas histórias de vida. Seu reconhecimento e valor enquanto um lugar simbólico é tão notório que a sua relevância alcançou níveis maiores: a consciência da cidade de São Paulo acerca existência da manifestação da cultura boliviana.

      Kantuta é o nome de uma flor boliviana pintada nas cores vermelha, verde e amarela cujo desenvolvimento ocorre nos vales andinos. Nome que estampa a placa de uma famosa praça localizada no bairro do Pari, em São Paulo.

      A Praça Kantuta, localizada entre as ruas Pedro Vicente, Carnot e das Olarias, está inscrita no território paulistano de modo que sua função ultrapassa os limites da simples reunião de latinos, em especial bolivianos, na cidade. A Praça passa a ser, estrategicamente, um ponto de socialização, de retomada das origens e reencontro com a identidade, as quais foram parcialmente perdidas no momento em que esses aportaram em São Paulo.

    21 Segundo o site Brasil Bolívia , a administração da Praça Kantuta é

      realizada pela Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana "Padre Bento", qual é sustentada pelos feirantes e pelas empresas ligadas, sobretudo, ao transporte Bolívia

    • – Brasil. Segundo o site, a reunião acontecia na Praça Padre Bento, localizada também no bairro do Pari entre as Ruas Rodrigues dos Santos e Maria Marcolina. A mudança para a Praça Kantuta ocorreu no ano de 2002, ano em que foi fundada a associação, devido à necessidade de maior espaço para a instalação das barracas e ao próprio movimento inscrito no local.

      O nome Kantuta era utilizado informalmente até o ano de 2004 quando o mesmo foi oficializado pelo Decreto Municipal número 45.326 de 24 de

      22 setembro de 2004 . O espaço até então não dispunha de denominação.

      Conforme informações colhidas no site referido, o evento foi legalizado e hoje se encontra no guia de ruas da cidade. Em março de 2012 houve o ato de posse de Paulo Araújo como o atual presidente da associação e responsável pela organização da feira.

      Segundo estimativas, a Praça Kantuta recebe, por domingo, cerca de 2

      23

      mil pessoas , dentre sua maioria, bolivianos. E o que se pode encontrar lá é, substancialmente, a cultura boliviana: comidas, espetáculos de dança e canto. Suas atrações mais expressivas ocorrem em datas comemorativas, no mais, compatriotas reúnem-se para partidas de futebol e procura por trabalho que estão estampadas pelos muros e postes que envolver a Praça.

    21 Endereço do site onde foi extraída as informações http://brasilbolivia.com. Acessado em

      22 setembro de 2011.

      

    Decreto Municipal nº 45.326, de 24 de setembro de 2004. Fica denominado Praça Kantuta, o

    espaço livre sem denominação delimitado pelas Ruas Pedro Vicente, Carnot e das Olarias e

    23 por equipamentos institucionais, situado no distrito do Pari, da Subprefeitura da Mooca.

      Número extraído do sitem setembro de 2011.

    4.1 A Praça: um território

      Considerar a relevância do conceito de território é de extrema importância para que se compreenda a relação construída entre os bolivianos e o território paulistano. Dessa maneira, cabe ressaltar alguns conceitos acerca do termo.

      Corrêa (1996) classifica como território algo dotado de significado de pertencimento (a terra que pertence a alguém), não como propriedade, invariavelmente.

      Pensar em território é assumir um compromisso à compreensão das concepções de territorialização, desterritorialização e reterritorialização. A primeira já referida como uma construção de significados de pertencimento, a segunda conferida à perda do território apropriado (e vivido) determinada por um seguimento de processos contraditórios e a última como:

      A criação de novos territórios seja através da reconstrução parcial de velhos territórios, seja por meio da recriação parcial, em outros lugares, de um território novo que contém, entretanto, parcela das características do velho território (...) (CORRÊA 1996: 252).

      Uma vez pensado o território como algo produzido no tempo-espaço através do exercício de poder de um determinado grupo social, Haesbaert (1997) indica pensá-lo a partir de três frentes: 1ª jurídico-política: definido por delimitações e controle do poder (estatal); 2ª cultural: produto da apropriação proveniente da identidade social criada sobre o espaço; 3ª econômica: a partir da desterritorialização como produto do confronto de classes, além da relação capital-trabalho. Cabe salientar que uma frente não se posiciona majoritariamente, e sim se sobrepõem.

      Haesbaert (1997) revela, portanto, que o território não se limita ao controle político, embora este tenha grande força, mas também o compreende a partir da dimensão simbólica dos grupos que o constitui.

      A funcionalidade de se abarcar o processo que configura o território como um espaço dotado de significações está na abrangência de quem domina e como domina esse espaço, a partir das ligações afetivas e identitárias. De acordo com Raffestin (1993), o território é uma apropriação onde se configuram relações de poder, mas simultaneamente, serve de palco para articulações de caráter afetivo e identitário entre um grupo social e seu espaço. Carl os (1996) observa que “o lugar é a base da reprodução da vida e pode ser analisado pela tríade habitante-identidade- lugar”, sendo este a “porção do espaço apropriável para a vida” (CARLOS, 1996:20).

      Logo, o território configura-se como tal a partir de uma identidade criada pelos seus habitantes que o reside de modo que suas culturas e ideologias são manifestadas nas relações de cunho político, social, econômico e cultural.

      Em se tratando de identidade territorial, esta se refere a um tipo de identidade social cuja expressão dá-se na relação de pertencimento de um determinado grupo a partir de uma escala territorialmente delimitada de referência identitária.

      Portanto, cabe proferir que a força dos grupos sociais, do ponto de vista político e cultural, reporta à capacidade de produzir identidade no território em que se inscrevem. Não é o território que funde uma nova identidade, mas sim o grupo com suas ações.

      Discutir acerca da acuidade do espaço geográfico para com os processos de identificação social é de extrema relevância. Haesbaert (1999b) articula sobre a identidade social como um fruto do território, concebido através da relação de apropriação assentada tanto no campo das ideias como no da realidade. A identidade territorial pode ser reconhecida como algo construído, ou seja, algo atribuído uma vez que o indivíduo se reconhece quanto a sua nacionalidade.

      Reconhecer-se a partir do território – sou boliviano – não é só se compreender de modo egocêntrico, mas é também reconhecer a identidade do outro. Uma ratificação nascida de várias negações, portanto

    • – não sou brasileiro.

      Admitir a existência do outro é um dos efeitos de se afirmar identitariamente. O que pode ocorrer, como Haesbaert (1999b) nos orienta, é o cruzamento dessa cultura migrante com aquela instaurada no novo território, bem como a tentativa de reproduzir sua territorialidade:

      Determinados grupos culturais migrantes podem não apenas entrecruzar sua identidade no confronto com outras culturas, mas também levar sua territorialidade consigo, tentando reproduzi - lá nas áreas para onde se dirigem. (HAESBAERT 1999b:184).

      Compreender a tentativa desses grupos, em especial dos bolivianos na cidade, de fazer parte da dinâmica paulistana é perceber que uma maneira de agir e de produzir foi imposta, de modo que façam deles um pouco (ou muito) cidadãos paulistanos e que, ao mesmo tempo, a intenção de se construir um reconhecimento, por parte dos paulistanos, em relação as suas origens é demonstrar afeto e fidelidade a sua cultura, as suas raízes.

      De tal modo percebe-se que mesmo esses imigrantes tenham saído de sua terra, muitos ainda buscam manter sua territorialidade, reproduzindo no novo país ligações e conexões com sua terra de origem. A Praça Kantuta é o produto dessa dinâmica, uma vez que contribuiu para identificação de uma nova geograficidade instalada na cidade: a cultura boliviana.

      Pode-se entender que, de acordo com Haesbaert (1999b), o território é um produto e produtor de identidades, em outras palavras, o território é o “ter” e o “ser” de cada grupo social. Território entendido como palco de construções sociais e entendido como agente construtor de identidade.

    4.2 A Praça: uma cultura híbrida

      Buscar identificação com o território onde se está instalado é correlacionar sua bagagem histórico-cultural com a atual dinâmica, bem como a cultura e costumes do novo lugar. Pode-se dizer, portanto, da existência de um processo híbrido, fluído, capaz de absorver características do outro e produzir, a partir dos novos ingredientes, um encontro com o passado e o presente.

      Bhabha (1998) já atentava-nos a compreender o signo de hibridismo e sua relação direta com a construção da cultura, ao passo que a ambivalência do arrolamento entre colonizadores (ingleses) e colonizados (indianos) esboçava uma experiência de ironia tal qual engendra dois sistemas de valores e de verdades que se sobrepõem, relativizam-se e questionam-se, contribuindo para o fortalecimento do que chama de hibridismo.

      De acordo com Bhabha:

      O trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com “o novo” que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. [...] O “passado-presente” torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver. (BHABHA 1998:27).

      Segundo Bhabha (1998), a ambivalência transcrita entre colonizadores e colonizados refletiu na questão acerca da descrição dos indivíduos: seria a linguagem a ferramenta empregada para que se represente o sujeito ou o próprio conhecimento do mesmo (identidade)?

      Desse modo, o hibridismo enquanto produto da linguagem tende à inviabilizar uma descrição real do sujeito por conter traços dos dois discursos, ainda que, segundo o autor, é da diferença que se emerge o autêntico.

      O boliviano encontra-se, a partir das afirmações sugeridas por Bhabha, no posto de sujeito do “entre-lugar”, cuja essência desse indivíduo manifesta- se, culturalmente, a partir do embate entre polos dicotômicos: tradição e contemporaneidade, passado e presente, dependência e autonomia. Bhabha ressalta que:

      A existência dos indivíduos concentra-se nos limites da cultura, embora esta não esteja tão clara e definida como aparenta estar. O tempo e o espaço cruzam-se à maneira que produzem figuras complexas de diferença e identidade. (BHABHA 1998:29).

      Sob um contexto cultural, Bhabha (1998) pontua três vertentes fundamentais para a construção da identidade: 1ª: existência - existir para outro externo (ir de encontro à, possuir relação de desejo para com uma alteridade); 2ª: cisão - a aspiração de atingir a posição de superioridade do colonizador sem ter que se desligar de sua condição; 3ª imagem de identidade

    • – processo de identificação pelo qual o sujeito sofrerá tentativas de transformação, bem como o uso de uma máscara qual dificultará a percepção do que é autêntico.
    A relação percebida por Bhabha entre colonizado e colonizador reflete- se no atual cenário da condição do boliviano na cidade de São Paulo. A tática de mímicas, apontada por Bhabha, para a construção de uma imagem convincente de indivíduo com o objetivo de apropriação do outro cria uma

      24

      imagem de identidade híbrida, fluida e que, sob o olhar fetichizado , a imagem procura afirmar-se de uma totalidade para que não se perceba a multiplicidade cultural já absorvida.

      Bhabha ainda sugere uma nova atribuição ao conceito de cultura, considerando-a um verbo, uma vez que esta é híbrida, dotada de dinamismo e transnacional (trânsito de experiências entre nações) e tradutória (geração de novos significados para símbolos culturais). A esta nova atribuição dada à cultura, funda-se no litígio da sobrevivência, uma vez que movimentos, aqui estudado como migratórios, colocam em choque diferenças culturais.

      Desse modo,

      A atividade negadora é, de fato, a intervenção do “além” que est abelece uma fronteira: uma ponte onde o “fazer-se presente” começa porque capta algo do espírito de distanciamento que acompanha a relocação do lar e do mundo. (Bhabha 1998:29).

      Portanto, o hibridismo cultural aludido por Bhabha confere à cultura uma condição de produto a partir de construções desterritorializadas (culturas são construídas e sem território), enquanto que as tradições são invenções.

    4.3 A Praça é, portanto, um território simbólico

      A cidade de São Paulo abarca inúmeros povos e, portanto, inúmeras culturas. Os bolivianos residentes na cidade atribuíram-lhe um caráter identitário tendo a Praça Kantuta é seu maior símbolo.

    24 H. Bhabha utiliza-se do conceito de fetiche (fantasia) para compreender a intencionalidade da identidade em assegurar uma imagem imaculada, pura do ponto de vista cultural.

      A Praça Kantuta, ainda que se conjugue como um território dos grupos diferenciados, dos excluídos e estigmatizados pela sociedade, exerce uma territorialidade.

      Sua funcionalidade face aos fenômenos que ocorrem aos domingos é explicitamente divergente àquela registrada nos demais dias da semana, sugerindo-nos, de tal modo, a pensá-la como um território flexível ou

      25

      flutuante , já que muitos bolivianos dizem não frequentar a praça em outros dias senão aos domingos.

      Uma vez que o território é entendido aqui como flutuante, a sua territorialidade é compreendida como um fenômeno de comportamento associado, diretamente, à organização do espaço (modo como utilizam a terra) e como os indivíduos dão significado ao lugar.

      Se de tal maneira, a Praça Kantuta apresenta, territorialmente, um caráter definidor propriamente boliviano, dotada de grande valor identitário e afetivo, há de se considerá-la como um semióforo para tal raça.

      Como sugere Chauí (2000), um semióforo é um signo carregado de simbologia cuja essência não pode ser medida por sua materialidade. Um semióforo é, pois:

      Um acontecimento, um animal, um objeto, uma pessoa ou uma instituição retirados do circuito do uso ou sem utilidade direta e imediata na vida cotidiana [...] um semióforo é fecundo porque dele não cessam de brotar efeitos de significação. (CHAUÍ, 2000:7;8).

      O modo como a Praça Kantuta está inserida, fazendo-se presente na vida de milhares de bolivianos, revela-se como um semióforo em território estrangeiro.

      Ocorre nesse lugar (lugar aqui como espaço provido de valor simbólico) uma dinâmica e utilização singular as quais representam uma retomada às origens, uma possibilidade de ir ao encontro do seu verdadeiro eu.

    25 Marcelo Lopes de Souza caracteriza como um território flutuante ou flexível aquele cuja

      

    funcionalidade se modifica em determinados períodos do tempo. Submetendo a criação da

    identidade aos limites da função que, naquele momento, o território desempenha.

      Provida de valor simbólico, a Praça Kantuta permite “a relação do visível e o invisível, seja no espaço, seja no tempo, pois o invisível pode ser o sagrado ( um espaço além de todo espaço)” (Chauí, 2000).

      Em um lugar de celebração, o boliviano torna-se peregrino no momento em que se liberta da sua vida rotineira, uma vida alienada, e se permite ser seduzido pelo lugar onde acredita reencontrar sua verdadeira identidade: ser ele mesmo. A Praça, portanto, age como um local de comunhão regada de sentimentalismo, um semióforo, portanto.

      Chauí (2000) nos alerta ainda que, embora, o semióforo esteja encarregado de “simbolizar o invisível espacial ou temporal e de celebrar a unidade indivisa dos que compartilham uma crença comum ou um passado comum” ele é também “posse e propriedade daqueles que detêm o poder para produzir e conservar um sistema de crenças ou um sistema de instituições qual lhes permite dominar um meio social”.

      Papel este que o Estado exerce ao apoiar as associações e feirantes ali inscritos, bem como as empresas diretamente ligadas ao transporte Brasil- Bolívia. Em outras palavras, a concentração do poder sobre a Praça revela-se nas mãos daqueles que não são bolivianos, os quais depositam riqueza e prestígio sob forma monetária em um semióforo de significado subjetivo e abstrato.

      Considerações Finais

      A discussão que permeia os fluxos migratórios nos dias de hoje vai além da observação numérica de entradas e saídas, da observação do contexto econômico-social doa países de origem e os de destino. A discussão nesse trabalho traz a importância da percepção do conteúdo inserido, indiretamente, nesses fluxos, ou seja, dos seus próprios atores enquanto sujeitos dotados de significações, anseios, sentimentos e esperanças.

      O processo histórico-geográfico das migrações internacionais na América Latina, sobretudo a mobilidade boliviana em território paulistano serve de palco para o entendimento das transformações espaciais e buscas realizadas pelos bolivianos para o alcance e construção de uma vida integrada com a cidade e, ao mesmo tempo, vinculada aos valores culturais e identitários armazenados em suas histórias.

      Mesmo que hoje tenhamos consciência da presença boliviana em diversos lugares do território brasileiro, o fenômeno não é recente. Os bolivianos já se apresentam em algumas áreas da fronteira desde o século XIX.

      Em 1948, registrou-se um primeiro incremento de imigrantes bolivianos no Brasil e, posteriormente, em 1950 quando se apresentou um grande ápice, quando bolivianos chegaram ao país a partir do intercâmbio cultural que possibilitava o estudo no Brasil.

      Entretanto, o fluxo migratório boliviano para o Brasil difere do fluxo orientado para a cidade de São Paulo e isso fez com que se percebesse um desequilíbrio do ponto de vista do perfil dessa população. Os períodos de inserção dos bolivianos nos anos de 1950 transcrevem uma dinâmica completamente distinta do fluxo revelado nos anos 1980 em diante.

      Os principais aspectos que levam tantos bolivianos a saírem de seu país para viverem no Brasil são, principalmente, de ordem econômica. Essa situação se estabeleceu no fluxo da década de 1980 e até hoje perdura, uma vez que o Brasil, especialmente a cidade de São Paulo, oferece oportunidades visto às condições da Bolívia que sofre com constantes crises econômicas e desemprego.

      Em consequência de instalação nos lugares da cidade de São Paulo em detrimento das redes de produção no campo da confecção de roupas, trouxe a necessidade de direito à própria cidade, o que levou os bolivianos a criarem seus espaços de confraternização como é a Praça Kantuta, no bairro do Pari.

      A distribuição dos bolivianos nos lugares da cidade são de ordem singular, pois são encontrados, em um momento, no centro e na periferia. Isso deve-se, ao crescimento da própria cidade como território.

      A necessidade de se estabelecer na cidade e fazer uso dela, fez com que os bolivianos encarassem São Paulo como uma possibilidade de palco para as suas manifestações culturais.

      A importância das praças na constituição de territorialidades se faz presente quando orientamos a consciência para a percepção desses lugares como uma história viva, que como sugere Santos (1997), “são suas formas que realizam, no espaço, as fu nções sociais”. À praça é sustentadora de uma grande bagagem de significação que foge à cidade, enquanto que essa não pode ser vivida em totalidade como a vivência que se confere às praças.

      As praças enquanto formadoras de relações entre o homem e o seu espaço, utilizam-se da característica do plano vivido, das ações do cotidiano, garantindo a construção de uma grande rede de significados e sentidos, logo, pode-se constituir como um elemento assaz importante no processo de formação identitária. Em outras palavras, são nas praças que são traduzidas o cotidiano dos indivíduos, como extensão de suas próprias vidas.

      A contribuição da Praça Kantuta para o entendimento da relevância das praças na cidade de São Paulo confere a realidade de que a mesma é mediadora do que é próximo e do que está distante. A Praça, portanto, é a compressão dos tempos e da distância que separam os bolivianos na cidade com as suas origens.

      A possibilidade de construção da territorialidade inscrita na Praça Kantuta configura um fragmento do que a cidade de São Paulo é em sua totalidade: território múltiplo.

      A Praça Kantuta conquistou reconhecimento como um lugar de encontro de cultura, sobretudo a dos bolivianos. A vizinhança a reconhece como ponto de encontro de muitas pessoas, não unicamente imigrantes latinos, mas também de outros imigrantes e também de brasileiros.

      Desse modo, a Praça Kantuta é a realização do presente vinculado às decorrências do passado, já que é nesse lugar que se vivencia a cultura, a tradição de uma população nascente em outra região e em outros tempos.

      Por conseguinte, tal marca deixada pelos bolivianos no contexto de vida paulistana compete às construç ões de “semióforos” na paisagem, que segundo

      Chauí (2000), alude a um signo carregado de simbologia cuja essência não pode ser medida por sua materialidade.

      A Praça Kantuta é, reconhecida por esse estudo, como o semióforo da população boliviana na cidade de São Paulo e a simbologia transferida a ela serve de um signo de orgulho, de admiração e significação.

      A produção da subjetividade manifestada na Praça Kantuta perpassa o limite da possibilidade de relações entre esses latinos, refere-se a um signo de pertencimento e de proteção.

      Os bolivianos, assim como todos os imigrantes ao longo da história dos fluxos migratórios no Brasil e em especial na cidade de São Paulo, buscam algo que os liguem com o novo lugar de vivência.

      E é na Praça Kantuta que se encontra a possibilidade de ser entendido como um indivíduo presente na sociedade paulistana e mais do que isso, a Praça Kantuta traz a possibilidade dos sonhos e de esperança.

      Relatório Fotográfico A Praça Kantuta vista do lado de cá

      Imagem de Satélite Nota: Perímetro Praça Kantuta, Cidade de São Paulo, Brasil. Fonte: Google Earth 23°31'32.37"S 46°37'18.26"O

      Horizonte He cambiado de piel tres veces Me ha costado darle la vuelta al mundo Para llegar al punto de partida Mis piernas me sostienen mejor Tengo una cicatriz en el pecho Más bien una costura, un bolsillo roto Acceso directo al corazón Estoy de regreso de mí mismo Noches enteras buscando una estrella fugaz Que me conceda un deseo Nada extravagante Tan sólo la habilidad de reconocer La verdad de la mentira Es otoño aún y los días son largos La luz se recuesta cálida sobre la montaña Quiero decir que el horizonte se distingue ¿El horizonte es una línea firme? ¿Es una pintura mural que cambia cada día Movida por tempestades de color? ¿Hay un atajo para llegar al horizonte? Quizás sirva de algo haber adquirido Una cicatriz en el pecho Una costura de piel y nervio Una entrada directa al corazón Alfonso Gumucio Dragon

      Referências Bibliográficas

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