PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA IMIGRAÇÃO À PRODUÇÃO DO ESPAÇO SIMBÓLICO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

LUDMILA SANTOS PETROHILOS

PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA

IMIGRAÇÃO À PRODUÇÃO DO ESPAÇO SIMBÓLICO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

LUDMILA SANTOS PETROHILOS

PRESENÇA BOLIVIANA NA CIDADE DE SÃO PAULO: DA

IMIGRAÇÃO À PRODUÇÃO DO ESPAÇO SIMBÓLICO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Geografia, sob a orientação da Prof. ͣ. Dr. ͣ. Marcia Maria Cabreira Monteiro de Souza.

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BANCA EXAMINADORA

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Agradecimentos

O processo de construção da minha dissertação de mestrado me colocou em prova muitas vezes. Posso até dizer que essa produção ajudou no conhecimento sobre mim mesma.

Essa pesquisa, ainda que não elucide por palavras escritas, revela uma imensidão de sentimentos, muitas vezes contraditórios, mas ainda sentimentos. A sensação de plena realização, esta que sinto agora, nunca havia sentido antes. E como é boa!

Passei por muitas fases cruciais durante o meu percurso no mestrado e, sinceramente, nenhuma delas foi fácil. Mas, o melhor dessa história toda é que eu consegui fechar mais um ciclo da minha vida.

Acredito que fechar um ciclo em nossa vida vai muito mais além da nossa força de vontade e determinação. Conseguimos fechar um ciclo porque contamos com a ajuda de pessoas muito especiais e que realmente gostam de nós.

Eu pude contar com muitas pessoas boas ao longo dessa jornada e sou verdadeiramente grata a cada uma delas. A todos vocês, o meu Muito Obrigada!

Agradeço demais a minha mãe, Sonia, pelo apoio constante, por toda a ajuda (em todos os sentidos) que me deu, pela dedicação, cuidado e por suas tantas outras intermináveis provas de amor sendo que, uma delas, foi, simplesmente, a possibilidade a mim destinada de cursar o mestrado na PUC. Muito obrigada, mãe, eu amo você.

Agradeço incansavelmente a você, amor da minha vida, Paulo Renato, pela sua dedicação em querer me ver sempre feliz (sempre deu certo), pelo seu bom-humor que tanto me faz rir, pela sua paciência, seu companheirismo, cumplicidade, otimismo inabalável, lealdade e pelo seu amor que é o meu tesouro. Muito obrigada, meu amor e meu melhor amigo. Eu amo você.

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orientar pelo caminho certo. Agradeço pela sua confiança e pelo seu constante incentivo. Muito obrigada.

Agradeço às queridas Prof. ͣ Dulce Maria Tourinho Baptista e Prof. ͣ Marísia Margarida Santiago Buitoni, pela presença em minha banca de qualificação do mestrado, pela grande ajuda nesse momento tão importante, pelas dicas e pelo carinho.

Agradeço ao Prof. Gustavo Coelho de Souza pelo apoio, carinho e conselhos dados ao longo da minha trajetória na universidade.

Agradeço ao Prof. Mauro pelo apoio, carinho e sempre disposto a me ouvir com valiosos conselhos.

Agradeço aos Profs. Edson Cabral, Carlos Alberto Bistrichi e João Evangelista de Souza Lima Neto, (integrantes da minha banca do trabalho de conclusão de curso na graduação), pelo carinho e pelos conselhos valiosos no momento em que eu estava decidindo sobre o mestrado. Eu consegui!

Agradeço a todos os outros professores do departamento de Geografia pela sabedoria, carinho e dedicação a todos os alunos.

Agradeço ao Prof. Carlos Eduardo Ferreira de Carvalho, pelas deliciosas gentilezas, carinho e atenção a mim conferida.

Agradeço à Vera, secretária do Programa de Pós-Graduação em Geografia, por estar sempre disponível e com informações seguras e precisas. Agradeço às funcionárias da PUC, em especial àquelas que me conhecem de longa data, pela amizade, carinho e constante prestatividade. Agradeço aos meus colegas do mestrado pelas discussões tão ricas e importantes para o nosso próprio desenvolvimento.

Agradeço a minha amiga Marta Minussi pela atenção e total dedicação na confecção dos mapas.

Agradeço ao meu cunhado e amigo Gabriel Garcia, pelo seu tempo e incrível trabalho com as fotografias.

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Agradeço aos colaboradores dos encontros de Geografia, especialmente ao XVII Encontro Nacional de Geografia (2012), pela oportunidade de apresentação do meu artigo científico.

Agradeço à PUC, pelo acolhimento desde 2005 e por ter me proporcionado ferramentas valiosas para que eu me transformasse em tudo que sou hoje. Obrigada por ter me proporcionado o título de Bacharel em Geografia e agora Mestre em Geografia, por ter sido palco de muitas realizações, de construções, de alegrias e memoráveis lembranças.

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“E todos nós, quem quer que sejamos ou onde quer que estejamos, não fazemos mais na vida do que procurar o lugar onde iremos ficar para sempre”.

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Resumo

A proposta desta dissertação é examinar a singularidade e particularidade da presença boliviana na cidade de São Paulo, por meio de sua integração com o lugares, especialmente com a Praça Kantuta, localizada no bairro do Pari. Transcorrer na percepção de espaço enquanto produção do social e suas manifestações nas práticas da vida cotidiana.

O trabalho analisa essa expressão boliviana na cidade, do ponto de vista concreto e abstrato, a partir de importantes categorias da Geografia como espaço, território, lugar e paisagem.

Para a análise da produção subjetiva que se estabelece nos lugares de convívio, o trabalho promove uma dialética entre demais saberes, bem como outras categorias como a cultura e a identidade. Faz-se uso da Filosofia, da Sociologia, da Antropologia e da História na intenção de estabelecer junto à Geografia o enriquecimento da discussão.

O viés adotado para a análise aqui apresentada corresponde ao reconhecimento das causas que tornam as imigrações uma questão de ordem internacional, bem como o processo histórico-geográfico que culminou na imigração boliviana para o Brasil e, de um modo mais intenso, na cidade de São Paulo.

A partir dessa espacialização da problemática, a pesquisa debate a relevância de lugares de convívio como as praças, para a manifestação da cultura, das expressões de territorialidade e do cotidiano enquanto prática de vivências e de esperanças.

Palavras-chave:

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Abstract

The purpose of this study is to examine the uniqueness and particularity of the Bolivian presence in the city of São Paulo, through its integration with places, especially with Kantuta Square, located in the district of Pari. In addition, to elapse in the perception of space as social production and its manifestations in quotidian practices of life.

This study analyzes the Bolivian behavior and language, into the city, based on a solid and abstract view. For this Geographic immersion It was adopted as essence theory of space, territory, place and landscape.

For the subjective production that is established in places of conviviality, the work promotes a dialectic between other knowledge, as well as other categories such as culture and identity. Use is made of Philosophy, Sociology, Anthropology and History of the intention to establish by the Geography enriching the discussion.

The adopted to bias the analysis presented here corresponds to the recognition of the causes that make immigration a matter of international order as well as the historical-geographical process that culminated in the Bolivian immigration to Brazil and, more intensely, in the city of São Paulo.

From this spatialization of the problem, the research discusses the importance of places of conviviality as squares, for the manifestation of culture, the expressions of territoriality and the everyday experiences while practicing and hopes.

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Sumário

Introdução 13

1 Migrações internacionais hoje 18

1.1 Dinâmica migratória na América Latina 20

1.2 A imigração boliviana no Brasil 27

2 A presença boliviana na cidade de São Paulo 39

2.1 O perfil 41

2.2 O exercício ocupacional e a indústria de confecção 45 2.3 Tempo e lugares da inserção boliviana na cidade de São Paulo 51

3 As praças e a construção da territorialidade 71

3.1 A paisagem e o lugar das praças 72

3.2 O papel do cotidiano e seus agentes na composição das praças 81

4 Praça Kantuta: a práxis da dialética 89

4.1 A Praça: um território 93

4.2 A Praça: uma cultura híbrida 95

4.3 A Praça é, portanto, um território simbólico 97

Considerações Finais 100

Relatório Fotográfico 103

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Índice de Tabelas, Gráficos e Mapas

Tabelas

Tabela 1.1-1: Total de estrangeiros nos países latino-americanos, 2000. ... 21

Tabela 1.2-1: População boliviana residente no Brasil por lugar de residência e período em que fixaram residência no país. ... 32

Tabela 2.1-2: Escolaridade dos bolivianos residentes na RMSP, 2000. ... 44

Tabela 2.2-1: Ocupação principal dos ocupados bolivianos residentes na RMSP. ... 46

Tabela 2.2-2: Posição ocupacional dos bolivianos residentes na RMSP, 2000. ... 47

Tabela 2.2-3: Rendimento na atividade em salários mínimos dos bolivianos residentes na RMSP, 2000... 47

Tabela 2.3-2: Distribuição bolivianos residentes na RMSP por zona e tempo de residência no estado de São Paulo, 2000. ... 60

Gráficos Gráfico 1.1-1: Evolução imigratória – Argentina, 1990 e 2000. ... 23

Gráfico 1.1-2: Evolução imigratória – Venezuela, 1990 e 2000... 24

Gráfico 1.1-3: Evolução imigratória Paraguai, 1990 e 2000. ... 25

1.1-4: Evolução imigratória Brasil, 1990 e 2000 ... 26

Gráfico 1.1-5: Evolução imigratória Chile, 1990 e 2000 ... 27

Gráfico 1.2-1: Estrangeiros bolivianos que entraram no Brasil, por ano de chagada, 1938-1969. ... 28

Gráfico 1.2-2: Imigrantes residentes no Brasil segundo país de origem e décadas de chegada, 1970-2000. ... 30

Gráfico 2.1-1: Percentual de tempo de residência no estado de São Paulo dos imigrantes bolivianos residentes na RMSP, 2000. ... 43

Mapas

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Mapa 1.2-2: Municípios de nascimento dos bolivianos residentes em Corumbá,

2006. 37

Mapa 2.3-1: Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e seus municípios. 53 Mapa 2.3-2: O município de São Paulo e seus distritos. 54 Mapa 2.3-3: Localização dos domicílios dos bolivianos residentes na RMSP por

zonas, 2000. 56

Mapa 2.3-4: Número de usuários bolivianos cadastrados no Sistema Único de Saúde (SUS) segundo distritos da cidade de São Paulo, 2009. 58 Mapa 2.3-5: Localização dos operadores de máquinas de costura de roupas,

por zonas. 62

Mapa 2.3-6: Localização dos trabalhadores polivalentes das indústrias de

confecção de roupas, por zonas. 63

Mapa 2.3-7: Localização dos médicos, por zonas. 64

Mapa 2.3-8: Localização dos vendedores e demonstradores em lojas ou

mercados, por zonas. 65

Mapa 2.3-9: Localização dos gerentes de produção e operações, por zonas. 66 Mapa 2.3-10: Localização dos dentistas, por zonas. 67 Mapa 2.3-11: Localização dos trabalhadores dos serviços domésticos em geral,

por zonas. 68

Mapa 2.3-12: Localização dos marceneiros e afins, por zonas. 68 Mapa 2.3-13: Localização dos dirigentes de empresas com mais de 5

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Introdução

A presença de bolivianos na cidade de São Paulo tem tomado uma posição de grande relevância e de discussões sobre os seus aspectos de envolvimento com a mesma. A notoriedade que se faz presente nessa expressão latina no território paulistano é resultado da construção da territorialidade desses imigrantes face aos espaços de uso público, as praças. A praça Kantuta, localizada no bairro do Pari da cidade de São Paulo é o retrato vivo da manifestação da cultura e tradições bolivianas bem como um indicador de condição de mobilidade dos bolivianos na cidade e o uso da praça enquanto lugar de socialização e convívio, incidência de sentimento de abrigo e pertencimento a partir do depósito de seus valores simbólicos e particularidades.

Para que seja possível o debate sobre a configuração da consciência que envolve a presença dos bolivianos no uso dos lugares da cidade e o modo como se expressa a vida cotidiana desses imigrantes, foi considerado o contexto mundial dos fluxos migratórios ocorridos no século XX e XXI, como condição sine qua non dos aspectos que fomentaram a vinda de bolivianos para o Brasil e, em caráter especial, para a cidade de São Paulo e suas consequências na prática de criação da territorialidade neste lugar.

É por via dos processos migratórios impressos em todo o mundo que milhares de homens e mulheres reconstroem suas relações no e pelo o espaço, reconfiguram meios de integração para a o convívio social e negociam suas relações de trabalho.

A presente pesquisa trata as causas do modo de uso e as transformações ocorridas no espaço pelos bolivianos na cidade de São Paulo a partir da gênese do processo que os impulsionaram para firmar residência na mesma. Uma vez reconhecidas essas causas foi possível compreender a importância do sentimento de estar e ser presente em qualquer lugar do mundo.

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 Construção do panorama internacional, no limite da América Latina, acerca dos fluxos migratórios para a revelação de sua implicância na entrada de bolivianos no Brasil, a partir de seus aspetos quantitativos apresentação e análise de dados históricos e recentes;

 A exposição dos atrativos da cidade de São Paulo que engendram a manifestação da presença boliviana, a partir da contextualização histórica-econômica da cidade;

 Roteiro de produção para o conhecimento desses bolivianos na cidade de São Paulo: quem são, onde estão e o que fazem;

 Reconhecer os lugares de concentração dos bolivianos residentes na cidade que estejam fora do circuito do trabalho. Os lugares de lazer.

Para que essa problemática pudesse ser resolvida desde os processos histórico-geográficos que culminaram na imigração boliviana para o Brasil e para a cidade de São Paulo até o modo de produção espacial visando a socialização e relações de convívio e integração com a própria cidade, exigiu a busca por fontes específicas que abarcassem todas as vertentes acima expostas.

A busca de dados numéricos foi uma das dificuldades que se apresentaram para a fomentação da primeira parte da pesquisa, cuja orientação volta-se ao conhecimento quantitativo da mobilidade e da presença boliviana na cidade de São Paulo, bem como dos seus aspectos gerais acerca da construção do perfil desses imigrantes, pois alguns dados cruciais estão disponibilizados em pesquisas mais antigas como a feita pelo Censo Demográfico de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda assim, os dados numéricos utilizados e apresentados ao longo da pesquisa permitiram a obtenção da magnitude dos níveis de concentração dos imigrantes bolivianos.

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15 Além da organização e da análise dos dados quantitativos e qualitativos realizadas em gabinete, ou seja, produzida através das leituras de outros autores sobre o tema, a necessidade da experiência empírica foi ponto crucial para a amarração da pesquisa.

Foi através da visita à Praça Kantuta e a experiência do convívio que pôde ser compreendido o peso que lhe é atribuída por ser símbolo da imigração boliviana na cidade, e mais, por ser reconhecida como o fragmento da Bolívia em território brasileiro e paulistano.

A experiência empírica foi importante no sentido de ratificar as análises feitas previamente. A compreensão da prática espacial em detrimento da construção de territorialidade só foi realmente entendida e percebida quando a pesquisa a campo aconteceu. Sem essa experiência, a análise estaria, certamente, fincada no piso frágil da superficialidade.

O desafio metodológico desta pesquisa apresentou, portanto, a possibilidade de ir além dos limites da Geografia, ainda que esta área do conhecimento esteja presente em grandes parcelas do trabalho.

A principal consequência que a prática da dialética propiciou foi o exercício da construção de diferentes olhares sobre o mesmo objeto de estudo, o que levou ao enriquecimento da pesquisa.

Portanto, o entrelaçamento dos dados numéricos, das leituras e do empirismo, resultou neste produto final que aqui é apresentada.

A estrutura desta pesquisa revela-se da seguinte maneira:

O capítulo primeiro desta pesquisa tem como proposição o reconhecimento dos padrões de deslocamento migratório em escala internacional a partir da diversidade dos espaços da migração na América Latina contribuindo para a dispersão dos imigrantes.

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16 evidenciando suas características e configurando cidade de Corumbá como o primeiro momento da imigração boliviana no Brasil.

O capítulo segundo parte da espacialidade da presença boliviana na cidade de São Paulo como destino principal desses imigrantes para o fluxo de trabalho, em sua grande maioria, disponíveis em oficinas de confecção de vestuário.

Propõe-se o reconhecimento das diferenças dos tempos dos bolivianos na cidade, uma vez que o fluxo que se inscreveu na década de 1950 difere àquele inscrito a partir da década de 1980. Busca-se a caracterização do diferentes perfis dos imigrantes bolivianos e suas inserções na cidade de São Paulo para o entendimento acerca da transformação de alguns espaços da cidade de São Paulo como lugares de trabalho, de moradia e, portanto, de convívio e integração.

O capítulo terceiro expõe a importância do lugar da praça como cenário de encontros, expressões da cultura e construção de territorialidade dos imigrantes bolivianos residentes na cidade de São Paulo.

O papel das praças como espectro do convívio social e integração de seus frequentadores com a cidade é a base fundamental para a construção deste capítulo.

Insere-se uma avaliação das praças a partir das principais categorias da Geografia como espaço, lugar e paisagem, na configuração da sua importância face aos seus frequentadores. Debruça-se, em um segundo momento, no papel da Praça Kantuta frente à configuração de seu espaço para a prática de convívio e expressão da identidade dos bolivianos.

Finalmente, no capitulo quarto analisa-se a Praça Kantuta a partir da sua importância enquanto espaço da experiência boliviana dentro da cidade de São Paulo. A produção da subjetividade inscrita em seu espaço é a fonte para a análise da sua relevância e dimensão na vida dos antigos bolivianos moradores bem como dos recém-chegados.

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1 Migrações internacionais hoje

Ao falarmos de século XX e início do século XXI, apontamos alterações de grande significância de ordem internacional no campo da economia, da política, da sociedade e da cultura. Tais modificações influenciaram de maneira notável a conjuntura da imigração mundial, especificamente a latino-americana e do Brasil.

O poder de mobilidade do capital e do trabalho, produto do processo de reestruturação da produção, atingiu diferentes partes do mundo, sobretudo o Brasil, cuja configuração do sistema de imigração internacional passou a integrar esse novo cenário.

Sob os efeitos da globalização, a imigração internacional adquiriu novas dimensões, sendo que essas são diretamente ligadas à intensificação dos fluxos de capital, a reestruturação da hierarquia internacional do trabalho, a compressão do espaço e do tempo, a conexão do mundo em redes e o deslocamento populacional em virtude do rearranjo da produção. A partir desses fenômenos é que são (re)definidos os espaços transnacionais.

Características advindas dessa nova configuração no contexto internacional refletidas no fenômeno migratório deixam de ser pensadas em montante, ou seja, a porção quantitativa e qualitativa acerca do deslocamento populacional envolvido, mas sim suas especificidades e transformações em nível local. O produto disso é a condição irregular de muitos imigrantes, inviabilizando a mensuração desses fluxos.

Como Harvey (1993) nos aponta, a diversificação dos fluxos migratórios internacionais está relacionada com o contexto do país de origem e com o de destino, implicando nas diferentes formas de mobilidade espacial da população no mundo.

Deve-se salientar que o processo de globalização1 mostrou-se ilusório

ao passo que a revolução tecnológica, especialmente com o uso da informática

1 A globalização entendida aqui como uma grande rede. “Noção de um espaço reticulado.

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19 e outros, como instrumento de produção, passou a descartar a mão-de-obra em muitas situações, gerando um alto excedente populacional em escala mundial, bem como a intensificação da divisão internacional do trabalho.

O que, na teoria, traria benefícios culminou na mudança de padrão de desenvolvimento: de dinâmica includente para crescimento direcionado e altamente seletivo.

As consequências da globalização possuem, basicamente, duas vertentes fundamentadas. A primeira é decorrente das transformações incididas no trabalho as quais o tornou mais complexo e heterogêneo.

A impossibilidade de completo descarte da mão-de-obra no novo padrão de produção se moldou de forma perversa, fazendo com que o trabalho ganhasse dimensões precárias, informais e superexploradoras. Por conta desse cenário, a segregação, automaticamente, foi o resultado que se instituiu. A segunda vertente se debruça no desaceleramento da atividade de produção (desconcentração industrial) em determinadas regiões sem que nasçam outras formas produtivas como possibilidades de reprodução e sustentação para a população ali residente.

A relevância do assunto se faz valer à medida que as modificações no cenário mundial se direcionam a um novo arranjo socioespacial e o entendimento da dinâmica dos fluxos que conduz a essa nova organização é priorizada.

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20 1.1 Dinâmica migratória na América Latina

Os movimentos migratórios entre os países da América Latina possuem uma alta complexidade e devem ser analisados a partir da leitura histórico-geográfica, para que se compreenda a gênese de tais fluxos. As migrações entre os países sul-americanos compreendem diferentes justificativas de mobilidade dessa população, mas, sobretudo justificativas de caráter político e econômico.

Segundo Baeninger (2012) o padrão migratório intrarregional tornou-se nítido a partir de 1970 quando se notou um progresso no incremento de latino-americanos residentes na região que não a sua morada de origem. Segundo a autora, o incremento passou de 1.218.990 latino-americanos em 1970, para 1.995.149 em 1980 e 2.242.268 em 1990.

Entretanto, há de se considerar a grande crise instalada nos anos de 1980, conhecida como a década perdida, que culminou numa estabilidade dos fluxos migratórios e que, portanto, fez permanecer volumes próximos nas décadas de 1970 e de 1980. Isso porque os efeitos da crise atingiram, com força singular, os países de destino dessa população migrante intrarregional. Ainda, o restabelecimento dos estilos democráticos de governo também ocasionou uma diminuição das tensões migratórias e facilitou o retorno de um número importante de pessoas (Baeninger, 2012).

Outro fator é o alargamento das possibilidades de mobilidade, conduzindo o deslocamento migratório em nível pendular (reversível), uma vez que a permeabilidade das fronteiras entre os países da América Latina, a partir do contexto de integração econômica regional, intensificou os movimentos migratórios entre países limítrofes.

Estabelece-se, portanto, um novo padrão de deslocamento migratório cuja evidência se faz presente na diversidade dos espaços da migração na América Latina, colaborando para a dispersão dos migrantes.

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21 manufatura, construção e serviços. A atratividade da Venezuela ficou por conta de sua economia impulsionada pelo petróleo.

A tabela 1.1-1 a seguir, revela o número total de estrangeiros latino-americanos nos países da América Latina nos anos de 1990 e 2000, bem como o índice de crescimento revelado neste decênio. Percebe-se que a Argentina e a Venezuela lideram com o maior número de migrantes, revelando em 2000, uma concentração de 916.268 imigrantes e de 720.712 respectivamente.

Tabela 1.1-1: Total de estrangeiros nos países latino-americanos, 2000.

1990 2000

Colômbia 43.285 ... ...

El Salvador 8.666 ... ...

Haiti ... ... ...

Nicarágua 9.473 ... ...

Rep. Dominicana ... ... ...

Uruguai 47.151 ... ...

Argentina 780.278 916.268 17,4 Venezuela 641.653 720.712 12,3 Paraguai 155.298 144.343 -7,1

Brasil 102.758 118.612 15,4

Chile 49.793 96.958 94,7

Equador 37.553 51.556 37,3

Bolívia 32.220 50.346 56,3

México 240.624 23.529 -90,2

Panamá 13.644 21.069 54,4

Guatemala 19.675 11.481 -41,6 Costa Rica 59.460 10.270 -82,7

Honduras ... 6.633 ...

Peru 17.658 2.523 -85,7

Nº total de estrangeiros

País Cresc. (%)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006) apud Baeninger, 2012.

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22 A Argentina, em 1990, apresentou uma concentração de 780.278 imigrantes. Nos anos de 2000, o número subiu para 916.268, ou seja, um crescimento de 17,4%.

A Venezuela, enquanto segundo principal destino dos fluxos migratórios latino-americanos, revela em 1990 uma concentração de 641.653 imigrantes e, em 2000, 720.712, ou seja, um índice de crescimento de 12,3%.

O Paraguai como o quarto destino mais procurado dos imigrantes latino-americanos, revelou em 1990 uma concentração de 155.298 imigrantes e, em 2000, 144.343. Entretanto, neste decênio, o Paraguai apresentou uma queda no índice de crescimento, ou seja, -7,1%.

A situação do Brasil, enquanto país de destino revela uma posição de destaque na América Latina, ocupando o quinto lugar mais procurado pelos imigrantes latino-americanos. Em 1990, o apresentou uma concentração de 102.758 imigrantes em 2000 uma concentração de 118.612. A taxa de crescimento no decênio, para o Brasil, foi de 15,4%.

O Chile, como pode ser visto na tabela 1.1-1 é um país que também exerce uma condição de receptor de imigrantes latino-americanos. Em 1990 apresentou uma concentração de 49.793 imigrantes e 96.958 em 2000.

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23 Gráfico 1.1-1: Evolução imigratória Argentina, 1990 e 2000.

251,1

218,2

143,7 133,7

33,5 323,0

211,1 231,8

116,7

33,7

28,6

-3,3

61,3

-12,7

0,6

Paraguai Chile Bolívia Uruguai Brasil

Evolução imigratória (em mil) - Argentina

1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

No cenário dos anos de 1990, A Argentina apresentou um volume de 780.278 imigrantes, com uma contribuição significativa do Paraguai de 251.130 pessoas e de 218.217 pessoas do Chile.

Já nos anos 2000, a Argentina ainda detém a maior inserção de imigrantes paraguaios, apresentando um incremento de mais 118.612 pessoas (7% face aos anos de 1990) que buscaram o país como seu lugar de residência, totalizando 323.962 pessoas.

(25)

24 Gráfico 1.1-2: Evolução imigratória Venezuela, 1990 e 2000

20,8 23,4

27,7

4,5 17,1

10,2 9,1 15,5

28,6

35,8

13,9

9,6 8,6

-25,3

22,4 29,1

-100,0

-18,9

-5,7 -5,3

Chile Equador Peru Guiana Rep. Dominicana

Cuba Argentina

Evolução imigratória (em mil) - Venezuela

1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

Os anos 1990, para a Venezuela, apresentou um incremento total de 641.653 imigrantes, sendo que desse total, a participação da Colômbia é quase dominante: 528.893 colombianos imigraram para o país. Em 2000, o total de imigrantes foi para 720.712 imigrantes, sendo, 608.691 colombianos. Dado a este fato, o gráfico acima não expõe essa participação, uma vez que não seria possível visualizar a dinâmica dos demais países.

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25 Gráfico 1.1-3: Evolução imigratória Paraguai, 1990 e 2000.

107,5

47,8 81,3

63,0

-24,3

31,7

Brasil Argentina

Evolução imigratória (em mil) - Paraguai

1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

Nos anos de 1990, o Paraguai revelou uma concentração de 155.298 imigrantes, com uma contribuição significativa de 107.452 brasileiros e 47.846 de argentinos.

(27)

26 1.1-4: Evolução imigratória Brasil, 1990 e 2000

25,5

20,4 19,0 22,1

15,7 27,5

17,1

28,8

24,7

20,4

8,1

-16,2

51,6

11,7

29,9

Argentina Chile Paraguai Uruguai Bolívia

Evolução imigratória (em mil) - Brasil

1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

No cenário dos anos de 1990, o Brasil apresentou um volume de 102.758 imigrantes, com uma contribuição significativa da Argentina de 25.468 (25,5%) pessoas e de 15.694 (15,7%) pessoas da Bolívia.

Já nos anos 2000, o Brasil apresentou um incremento de 118.612 pessoas (7% face aos anos de 1990) que buscaram o país como seu lugar de residência.

(28)

27 Gráfico 1.1-5: Evolução imigratória Chile, 1990 e 2000

34,4

7,7 7,6

48,2

10,9

37,9

40,0 41,3

395,0

Argentina Bolívia Peru

Evolução imigratória (em mil) - Chile

1990 2000 Cresc. em % (2000 vs 1990)

Fonte: IMILA/ CELADE (2006). Elaborado pela autora.

O cenário dos anos 1990 para o Chile revelou uma participação significativa de imigrantes da Argentina, como 34.415 pessoas. Essa condição perdura nos anos 2000 sendo que agora, a participação de argentinos na composição de imigrantes residentes no Chile foi de 48.176.

Entretanto, o maior índice de crescimento da evolução participativa dos imigrantes neste país veio do Peru, sendo que em 1990 o Chile detinha 7.649 imigrantes peruanos e em 2000 esse número subiu para 37.863 peruanos, ou seja, uma taxa de 395%.

1.2 A imigração boliviana no Brasil

Ainda que hoje tenhamos ciência da presença de bolivianos residentes em diversos lugares do Brasil, o fenômeno não é algo recente. Indícios apontam que bolivianos já se apresentavam nas áreas de fronteira desde o término do século XIX.

(29)

28 esses números, comparados ao de entrada de outros imigrantes no país2,

acabam se definindo como uma pequena fração.

O gráfico 1.2-1 a seguir revela a expressão da presença boliviana no Brasil por ano de chegada.

Gráfico 1.2-1: Estrangeiros bolivianos que entraram no Brasil, por ano de chagada, 1938-1969.

Fonte: IBGE: Estatísticas do Século XXI.

Nota-se que no ano de 1948 é registrado um primeiro incremento no número de imigrantes no país: 306 bolivianos, seguido pelos anos de 19503

1951, sendo o seu ápice: 855 bolivianos. Nos anos seguintes, os números caíram, com fracas subidas, registrando 45 registros em 1969.

As épocas que se estenderam nos anos de 1930 e 1940 foram marcadas pela baixa expressividade dos movimentos migratórios frente à

2 Em comparação a outros grupos de imigrantes, no mesmo período, tais como os de origem europeia (italianos, portugueses, alemães) ou até mesmo argentinos, o número de registros condizentes ao ingresso de bolivianos torna-se limitado. Para a época, foram registrados 5.674 argentinos no Brasil em 1938.

3 Em 1950 é registrado um saldo migratório negativo da população brasileira. Ou seja, o

(30)

29 “grande migração” que o Brasil já conheceu na virada do século XIX para o século XX.

Historicamente, a posição política dos anos de 1930 frente à dinâmica migratória se altera de maneira voraz, quando o Estado brasileiro contraria o favorecimento explícito da imigração internacional no Brasil e em estados como São Paulo, cuja produção principal era a de café ao final do século XIX e início do século XX4.

A criação de bases jurídicas bem definidas para o controle e, principalmente, para a restrição dos fluxos migratórios no país tem sua gênese na crise econômica provocada pela baixa do preço do café e da premissa de proteção da mão-de-obra nacional (BERNASCONI e TRUZZI, 2002 apud XAVIER, 2010).

O fluxo migratório agora era visto como um mal a ser combatido, cuja causa provocava o desemprego urbano. Essa atitude não foi, exclusivamente, adotada pelo Brasil, mas em toda a América.

Os anos de 1950, entretanto, podem ser lembrados como o início da chegada de bolivianos ao Brasil, sobretudo em São Paulo. Essa vinda tinha como motivação principal os estudos possibilitados pelo intercâmbio entre os países envolvidos, mas não deve ser desconsiderada a motivação de fuga política.

Muitos desses imigrantes que chegaram ao Brasil para estudar permaneceram no país, uma vez que a oferta de empregos era atraente frente à realidade da Bolívia naquele momento.

Esse acordo ou intercâmbio5 feito entre os dois países foi firmado em

1958, e tinha, ainda, outras vertentes como a: resolução de questões quanto à

4 O incentivo à imigração era pautado em bases políticas (já que a escravidão havia sido

abolida), econômicas (mudança da economia agrária para capitalista) e ideológicas (processo de “embranquecimento” da nação). Esse incentivo era materializado por meio de leis e medidas criadas pelos estados, sobretudo São Paulo. Os primeiros imigrantes europeus trabalham nas lavouras de café.

5 Intitulado como ata de Roboré: acordo firmado em 1958 entre o Brasil e a Bolívia que tratava

(31)

30 exploração petrolífera, pendências na demarcação fronteiriça, na área de transporte ferroviário, comércio, dentre outros.

Essa expressão pouco significativa do início do século XX muda categoricamente nos anos de 1980, quando nesse momento a sua presença adquire uma nova escala: são 12.980 bolivianos residindo no Brasil.

O gráfico 1.2-2 a seguir aponta, por decênios, a evolução de migrantes residentes no Brasil pelos principais países de origem.

Gráfico 1.2-2: Imigrantes residentes no Brasil segundo país de origem e décadas de chegada, 1970-2000.

10,7 17,2 13,6 20,0 2,4 1,9 13,0 26,6 21,2 17,6 3,8 17,8 15,7 25,5 22,1 19,0 5,8 20,4 20,4 27,5 24,7 28,8 10,8 17,1

Bolívia Argentina Uruguai Paraguai Peru Chile

Imigrantes residentes no Brasil por países e década de chegada

1970 1980 1990 2000

Fonte: IMILA/ CELADE apud Baeninger (2012). Elaborado pela autora.

Para que se tenha uma boa compreensão da dinâmica cada vez mais acentuada no que diz respeito ao incremento no número de imigrantes bolivianos no país, entre 1950 e 1969 totalizaram aproximadamente 2.000 indivíduos residentes no Brasil. Nos anos 2000, de acordo como o censo, revela-se um total de 20.388, enquanto que nos anos de 1930 e 1940 resumem-se em apenas 261 residentes.

(32)

31 Por mais que se faça uso de um ordenamento histórico para a compreensão do processo migratório, os fluxos não apontam para linha contínua de união entre eles, à medida que em termos de perfil, de origem e de objetividade esses fluxos possuem suas características as quais diferem de um momento histórico a outro.

A análise do fluxo migratório boliviano para o Brasil requer a consideração da espacialidade desse fenômeno em território nacional. O fluxo direcionado ao estado de São Paulo difere, ainda que assaz substancial numericamente, de outras rotas balizadas nas regiões de fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Dessa variante é possível observar o desequilíbrio do ponto de vista do perfil desses migrantes em intervalos que se iniciam na década de 1950 e 1960 para a década de 1980 em diante.

(33)

32 Tabela 1.2-1: População boliviana residente no Brasil por lugar de residência e período em que fixaram residência no país.

1990 - 2000 1980 - 1989 1970 - 1979 1960 - 1969 1950 - 1959 1940 - 1949 1930 - 1939

Total 0 0 0 0 0 0 0

São Paulo 4.974 1.360 1.139 695 77 40 10

Rondônia 944 395 213 156 38 36 9

M. G. Sul 555 259 277 241 203 62 9

Rio de Janeiro 550 138 198 180 53 9 0

Mato Grosso 420 158 68 32 19 17 0

Acre 389 118 154 70 0 23 18

Minas Gerais 244 143 128 0 0 0 0

Paraná 191 92 27 5 0 0 0

Distrito Federal 104 22 10 40 0 0 0

R. G. Sul 96 105 95 24 0 0 0

Santa Catarina 86 44 28 0 0 0 0

Goiás 59 49 19 9 0 0 0

Ceará 49 11 13 0 0 0 0

Tocantins 42 0 0 0 0 0 0

Pará 40 27 4 8 13 17 0

Paraíba 39 7 0 0 0 0 0

Amazonas 38 41 5 0 0 11 0

Pernambuco 19 0 0 0 0 0 0

Espírito Santo 19 0 21 5 0 0 0

Bahia 15 29 0 14 0 0 0

Piauí 9 0 0 0 0 0 0

Maranhão 0 0 0 10 0 0 0

R. G. Norte 0 30 17 0 0 0 0

Período de fixação de residência no Brasil UF de

residência

Fonte: Censo 2000, IBGE.

A partir dessa distribuição espacial dos bolivianos no território nacional fica nítido o crescimento do fluxo migratório ao longo dos anos com uma grande expressão nos anos 1980 e 1990. Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre são estados de maior influência de acolhimento desses migrantes, ressaltando que estes fazem fronteira com a Bolívia.

(34)

33 A soma do índice populacional impressa nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, nos anos 1960 e 1970, aproxima-se de 60% do total da migração ao Brasil, número que em épocas anteriores não ultrapassava a marca de 25%.

Os lugares onde se configuraram tais fluxos são de ordem distinta. Se hoje os espaços que acolhem maior parcela de bolivianos é o estado de São Paulo, sobretudo a cidade, no início dessa dinâmica se inscrevia nas áreas de fronteira Bolívia-Brasil, como é o caso do município de Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

Corumbá está localizado na área de fronteira com a Bolívia, como pode ser visto no mapa 1.2-1 e, conforme muito estudos que se dedicam a compreender a dinâmica da imigração boliviana no Brasil, possui uma base muito sólida, uma vez que é através desse município que muitos imigrantes ingressam ao país.

(35)

34 Mapa 1.2-1: Área de fronteira Bolívia e Brasil.

Corumbá, desde o século XVIII, exibe uma dinâmica muito própria tanto pelo fato de sua localização estratégica quanto pela economia e população que se instalou nesse período. Seu ritmo e especificidades singulares iam ao desencontro da dinâmica do contexto nacional e regional.

O desdobramento da história de Corumbá que suscitou na presença boliviana no município servirá de base para que se possa compreender o fluxo desses imigrantes para o estado de São Paulo, em especial para a cidade. O contexto de ocupação da região de fronteira de Corumbá se apresenta numa caracterização distinta daquelas dos limites brasileiros com outros países, a exemplo o Paraguai.

(36)

35 Obstáculos naturais (Souchaud, Fusco e Carmo, 2007) impediram a ocupação da região de acordo com o observado no caso da fronteira Brasil – Paraguai. A articulação histórica da região com outros espaços em função do Rio Paraguai e de suas rotas comerciais é determinante e distingue o caso de Corumbá do padrão observado na ocupação da fronteira oeste do Brasil. Trata-se, portanto, de um espaço específico em que a fronteira, muito mais do que uma divisão geopolítica, é cenário de uma dinâmica diferenciada. (PERES, 2009:70).

O que revela a região fronteiriça de Corumbá como um espaço de movimento migratório de bolivianos para o Brasil deve-se à trajetória de reorganização da população na Bolívia ao longo dos últimos 50 anos.

No caso de Santa Cruz existe, desde a década de 1950, um importante programa oficial e nacional de reforma agrária com incentivos à colonização dos departamentos orientais. Mas esse movimento, até hoje, se concentrou no extremo oeste de Santa Cruz e não alcançou a fronteira brasileira. Houve, realmente, nos últimos 50 anos, uma transferência importante da população boliviana desde as zonas altiplânicas até as regiões baixas do Oriente. Esse movimento é o responsável pelo crescimento importante de Santa Cruz de La Sierra, hoje principal cidade do país. (PERES, 2009:71 apud SOUCHAUD, FUSCO e CARMO, 2007:45).

Segundo o INE (Instituto Nacional de Estadística de Bolívia), o departamento de Santa Cruz contava com 1.364.389 habitantes no ano de 1992. Em 2001, o número elevou-se para 2.029.471, sendo desse grupo 67% nascidos em outros departamentos bolivianos (Peres, 2009). Concomitantemente, outras cidades cresciam como é o caso de Puerto Suarez e Puerto Quijarro. Cidades que se localizam na área de fronteira com o Brasil. A questão fronteiriça que marca a presença de bolivianos no Brasil, sobretudo em Corumbá, não é a única vertente de justificativa para tais fluxos. A reorganização populacional da Bolívia por conta da reforma agrária na década de 1950 teve relevante contribuição para a transferência de pessoal das zonas altiplanas para regiões do baixo oriente.

(37)

36 flexibilização do mercado de trabalho por conta de planos econômicos que culminou no afastamento do Estado6.

Desse modo, a imigração boliviana para o município de Corumbá não se limita no cruzamento de suas fronteiras. A justificativa dessa dinâmica se encontra no processo de redistribuição da população boliviana em território boliviano e que, os imigrantes que ingressam no Brasil não são, na sua totalidade, provindos dos municípios limítrofes ao Brasil.

O mapa 1.2-2 a seguir indica os municípios de origem dos migrantes bolivianos no município de Corumbá.

6 O governo boliviano transfere para o mercado boa parte da produção mineira, diminuindo os

(38)

37 Mapa 1.2-2: Municípios de nascimento dos bolivianos residentes em Corumbá, 2006.

Fonte: Encuesta Corumbá, 2006. Nepo/UNICAMP.

Conforme gráfico acima, os municípios de Santa Cruz de La Sierra (28%) e La Paz (11%) são os municípios que mais contribuem para o incremento de Corumbá, municípios que são capitais dos mais populosos departamentos da Bolívia (Santa Cruz e La Paz). Os municípios que fazem fronteira com o Brasil, Puerto Quijarro e Puerto Suarez, representam juntos apenas 11%, um percentual baixo frente as suas localidades.

(39)

38 com destino a Corumbá são, em grande parcela, urbano. Esse fato elucida um falso caráter rural do fenômeno migratório.

(40)

39

2 A presença boliviana na cidade de São Paulo

A significante presença boliviana em São Paulo data a década de 1980, ainda que tal fluxo possa ser verificado a partir dos anos de 1950 quando bolivianos estudantes vieram para São Paulo estimulados pelo programa de intercâmbio cultural Brasil-Bolívia. Ao final dos estudos, muitos desses bolivianos optaram pela permanência na cidade pelo fato da oferta das oportunidades e possibilidades no mercado de trabalho paulistano.

As razões de constantes saídas do país de origem são inúmeras, embora tenha como fator principal a questão de ordem econômica. Essa situação era encarada nos anos de 1980 e ainda perdura nos novos fluxos, pois o Brasil, em especial São Paulo, oferece mais oportunidades visto às condições da Bolívia que sofre com constantes crises econômicas, altos índices de inflação e desemprego.

A atração desses imigrantes bolivianos oriundos, sobretudo de La Paz e Cochabamba, resume-se nas promessas de bons salários oferecidos pelos empregadores da indústria de confecção que são coreanos, brasileiros e até mesmo outros bolivianos.

Ao passo que os primeiros bolivianos se estabelecem, outros familiares como os pais e irmãos iniciam os preparos de vinda.

À medida que eles vão se estabelecendo na cidade, inicia-se um processo de reunificação familiar, com a vinda de irmãos, parentes e pais, muitas vezes oriundas do campo e com pouco domínio do espanhol. Em São Paulo, os mais idosos são incorporados de alguma forma ao processo de produção nas oficinas de costura, exercendo atividades suplementares, como é o caso das mulheres que preparam a comida servida aos trabalhadores. (SILVA, 2006).

(41)

40 nossos sentidos, a rede é, na verdade, uma mera abstração.”. (SANTOS, 1997:176).

A vinda de milhares de bolivianos à cidade de São Paulo refere-se a uma conjuntura material que se dispõe dos mecanismos de poder oferecidos ou não pelo seu lugar de origem. O caso é que as condições nacionais acabam por pesar nos níveis da sociedade, uma vez que o trabalho local depende das infraestruturas oferecidas localmente.

No momento em que essas infraestruturas são inexistentes, a mão-de-obra é reorganizada, resultando em um rearranjo de pessoal e configuração territorial.

Como aponta Santos (1997):

Hoje, o centro de decisão pode encontrar-se no estrangeiro, no mesmo continente ou em outro. São as cidades locais que exercem esse comando técnico, ligado ao que, na divisão territorial do trabalho, deve-se à produção propriamente dita. Cidades distantes, colocadas em posições superiores no sistema urbano (sobretudo as cidades globais), têm o comando político, mediante ordens, disposição da mais-valia, controle do movimento, tudo isso que guia a circulação, a distribuição e a regulação. (SANTOS, 1997:184).

Outro fator de grande relevância e consequência, no que se atribui à presença de bolivianos na cidade de São Paulo, é a potencialização, ao longo de cada fluxo migratório, de famílias constituídas, em geral de forma endogâmica.

(42)

41 2.1 O perfil

A apreensão do tema foi feito por Sidney da Silva (1997) sobre a migração boliviana para São Paulo transformado no livro Costurando Sonhos. Historicamente, segundo esse autor, a vinda dos bolivianos para a cidade data os anos de 1950 quando existiam convênios de intercâmbio universitário entre o Brasil e a Bolívia.

Entretanto, o perfil dos bolivianos que se apresentava na década de 1950 é diferente do grande fluxo de bolivianos que se mobilizaram para São Paulo em 1980, ano este de grande intensificação do fenômeno migratório boliviano no Brasil.

Em 1980 apresentavam-se trabalhadores com pouquíssima qualificação e que serviriam de combustível para o funcionamento das oficinas de costura da cidade.

Esses bolivianos trabalhadores já vinham com a atividade a ser exercida definida e as relações que aí se estabeleceriam já se iniciavam no momento em que as despesas da viagem de vinda eram pagas pelo empregador.

Uma vez criados tais laços de poder e que, aos olhos dos imigrantes bolivianos, expressam uma melhor condição de vida, a chegada de mais bolivianos cresceu ano a ano, com uma forte expressão na década de 1990 (devido ao controle da inflação com o Plano Real) e por volta de 2005.

A população boliviana que reside na cidade de São Paulo tem, em média, 36 anos de idade, enquanto que a população total de São Paulo tem, aproximadamente, 29 anos e outros imigrantes residentes na cidade tem, em média, 58 anos. Essa diferença de idades, em especial, entre bolivianos e paulistanos é resposta do fenômeno da imigração de mão-de-obra pouco qualificada, sendo esses imigrantes bolivianos que chegam a São Paulo adultos acompanhados (ou não) de seus cônjuges também bolivianos.

(43)

42 Em São Paulo a atividade têxtil entre os imigrantes é a principal função associada aos homens enquanto que, na fronteira, prevalece uma atividade voltada ao comércio formal e informal de rua, função exercida, historicamente, por mulheres na sociedade andina boliviana (SOUCHAUD, 2010).7

Ainda que a imigração boliviana em São Paulo seja considerada um fenômeno novo, de acordo com o Censo de 2000, do total de imigrantes residentes na cidade, 30,5% residem há mais de 20 anos.

Por mais que os dados quantitativos acerca do real número de bolivianos no Brasil e em São Paulo sejam superficiais, é possível compreender que essa percentagem refere-se a um perfil diferente e que, por isso, obteve um melhor registro.

Por outro lado, como pode ser visto no gráfico 2.1-1, os bolivianos que possuem até 4 anos de residência no Estado de São Paulo representam 27,6% do total desses imigrantes bolivianos.

7A distinção de atividades exercidas por bolivianos é consequência dos critérios do lugar de

(44)

43 Gráfico 2.1-1: Percentual de tempo de residência no estado de São Paulo dos imigrantes bolivianos residentes na RMSP, 2000.

27,6

18,0 23,9

30,5

Tempo de residência de bolivianos no estado de

São Paulo

0 a 4 anos

5 a 9 anos

10 a 19 anos

20 ou mais

Fonte: Censo 2000, IBGE.

De qualquer modo, por mais que a imigração boliviana tenha uma evolução representativa nos 5 anos que precederam o Censo 2000, a mesma não é um fato recente e isso pode ser constatado em estudos que apontam os primeiros fluxos de estudantes nos anos 1950.

Ainda baseado nos índices do Censo 2000, quanto ao estado civil, a percentagem de bolivianos solteiros é de 41,7% contra 45,5% casados, ainda que não haja exatidão acerca desses cônjuges residirem no Brasil ou se vieram juntamente com seus companheiros no momento de saída da Bolívia.

Sobre esse aspecto, a exogamia se revela como um fator relevante por se tratar, percentualmente, de 58% do total dos bolivianos residentes no Brasil sendo 47% a proporção de bolivianos residentes na região sudeste.

(45)

44 Santa Cruz residentes em Corumbá8. A união exogâmica do primeiro grupo é

menos frequente se comparadas ao segundo.

Segundo Xavier (2010) essa disparidade de padrões de união não define a dificuldade de inserção dos bolivianos andinos na cidade de São Paulo por apresentarem maior proporção de endogamia, uma vez que esse fator seja de cunho temporal, já que os andinos são mais recentes em Corumbá face aos bolivianos de outras origens.

Do ponto de vista educacional, o perfil do grupo de bolivianos que chegaram ao Brasil nos anos 1950 difere, substancialmente, daquele chegado nas décadas de 1980 e 1990.

A tabela 2.1-2 a seguir apresenta os níveis de escolaridade entre os bolivianos residentes na RMSP.

Tabela 2.1-1: Escolaridade dos bolivianos residentes na RMSP, 2000.

Escolaridade Frequência %

Ensino Fundamental 1.753 19,7

Ensino Médio 3.090 34,7

Superior 1.726 19,4

Mestrado ou doutorado 133 1,5

Nenhum 12 0,1

Outros* 2.196 24,6

Total 8.910 100,0

Fonte: Censo 2000, IBGE. *Os outros compõem de especificações como: antigo primário,

antigo ginásio, antigo clássico.

Como pode ser visto na tabela acima, a maior frequência de bolivianos encontra-se com o nível médio completo, cerca de 35% do total. Esse percentual refere-se aos bolivianos que, em 1950, buscaram estudos por meio do intercâmbio entre o Brasil e a Bolívia. Os bolivianos com apenas o ensino fundamental completo somam-se quase 20%, um índice relevante que se

8 O que ocorre em Corumbá, distintivamente de São Paulo, deve-se à grande diversificação

(46)

45 refere, substancialmente, aos trabalhadores das oficinas de costura, que, buscaram na cidade de São Paulo, melhores condições de vida.

2.2 O exercício ocupacional e a indústria de confecção

A década de 1980 foi o momento de grande mudança no panorama do fluxo migratório boliviano para o Brasil e, especialmente, para a cidade de São Paulo. Como dito anteriormente, bolivianos que entraram nessa época trabalham, em sua grande maioria, no setor de costura por ser um segmento do mercado de trabalho que não exige experiência e nem idade mínima para ser executado, por isso da incorporação de menores nessa atividade.

O que acontece é que, a partir das ilegalidades em que as relações desse trabalho se estabelecem, uma vez que não existe nenhuma regulamentação das leis trabalhistas, os empregados são expostos às condições insalubres de trabalho.

O modelo pelo qual o exercício do setor de costura se dá é o de acumulação flexível do capital, ou seja, a produção é determinada pela quantidade de peças que o trabalhador é capaz de costurar. A situação em que os bolivianos, ou grande parte deles, estão acondicionados são conduzidas por relações de parentesco, o que promove uma produção em família em que cada um exerce funções distintas, mas todas orientadas para a finalização das peças.

Do ponto de vista da nacionalidade de seus empregadores, grande parte deles são coreanos, brasileiros e até mesmo outros bolivianos e o produto final destina-se às lojas da cidade, sendo que boa parte delas possuem grande notoriedade da população.

(47)

46 serviços e do comércio ambulante também é exercido por muitos bolivianos que são, na sua maioria, indocumentados.

Em números, aproximadamente 44% dos bolivianos na cidade de São Paulo estão inseridos no setor de confecções de vestuário9, sendo que desse

percentual, 38% são operadores de máquina de costura. Todavia, há de se apresentar as outras atividades dessa variante profissional.

Ainda segundo o Censo 2000, são 3,8%, dos bolivianos ativos, que trabalham com comércio ambulante, 5,8% são médicos, 1,8% são dentistas e 1,3% dirigem empresas, como pode ser visto na tabela 2.2-1 a seguir.

Tabela 2.2-1: Ocupação principal dos ocupados bolivianos residentes na RMSP.

Ocupações Frequência %

Operadores de máquinas de costura de roupas 2.045 38,8

Médicos 306 5,8

Vendedores ambulantes 199 3,8

Trabalhadores polivalentes das indústrias de confecção de roupas 158 3,0

Vendedores e demonstradores em lojas ou mercados 158 3,0

Gerentes de produção e operações 143 2,7

Cirurgiões-dentistas 97 1,8

Trabalhadores dos serviços domésticos em geral 77 1,5

Trabalhadores agrícolas 75 1,4

Marceneiros e afins 74 1,4

Dirigentes de empresas- empregadores com mais de 5 empregados 71 1,3

Outros 1.869 35,5

Total 5.272 100,0

Fonte: Censo 2000, IBGE. *Ocupações descritas de acordo com a Classificação Brasileiro de

Ocupações.

Conforme a tabela 2.2-2 a seguir, o percentual de bolivianos ocupados que trabalham por conta própria é de 42,2% e os que são empregados sem carteira assinada somam 31% sendo que 17,8% possuem registro de trabalho. Os trabalhadores que não possuem carteira assinada somam 1,4%.

9 As ocupações “operadores de máquinas de costura de roupas”, “trabalhadores polivalentes

(48)

47 Tabela 2.2-2: Posição ocupacional dos bolivianos residentes na RMSP, 2000.

Posição Frequência %

Trabalhador doméstico com carteira de trabalho assinada 14 0,2 Trabalhador doméstico sem carteira de trabalho assinada 73 1,4 Empregado com carteira de trabalho assinada 939 17,8 Empregado sem carteira de trabalho assinada 1.665 31,6

Empregador 356 6,7

Conta-própria 2.225 42,2

Total 5.272 100,0

Fonte: Censo 2000, IBGE.

Quantos aos seus rendimentos, a maioria dos bolivianos ocupados (40,3%) recebem até 3 salários mínimos. Ainda que se apresente uma condição de baixa renda, muitos bolivianos enviam boa parte de sua renda para familiares que moram na Bolívia.

Tabela 2.2-3: Rendimento na atividade em salários mínimos dos bolivianos residentes na RMSP, 2000.

Faixas de rendimento em salários mínimos Frequência %

De 0 a 2,99 SM 2.125 40,3

De 3 a 4,99 SM 1.239 23,5

De 5 a 9,99 SM 902 17,1

Mais de 10 SM 1.005 19,1

Total 5.271 100,0

Fonte: Censo 2000, IBGE.

Como já visto anteriormente, a década de 1980 foi marcada pela intensidade do fluxo migratório de bolivianos para o Brasil, sobretudo para a cidade de São Paulo. Concomitantemente, os anos de 1980 também foram marcados por grandes transformações de caráter econômico, podendo ser exemplificadas pela diminuição do processo de concentração industrial.

(49)

48 Embora existam alguns autores que considerem essa condição como um processo de desconcentração, a cidade de São Paulo e toda a RMSP não perderam o status de centro financeiro e industrial do país.

É a partir dessa nova estruturação, ou reestruturação, do processo produtivo da economia de toda a RMSP que mudanças relevantes alcançaram o que tange à indústria da confecção10: sua produção, disposição de

mão-de-obra e distribuição espacial.

Historicamente, pode-se dizer que o ramo da confecção, que data por volta dos anos de 1950, tem seu destino ligado a três importantes vertentes: o desenvolvimento de grandes projetos industriais, a instauração dos bairros centrais da cidade, como Brás e Bom Retiro e a chegada em massa de imigrantes11 que se concentraram nessas regiões centrais.

Os bairros centrais Brás e Bom Retiro tiveram suas bases econômicas atreladas à produção têxtil e o fluxo migratório que se apresentava nesse momento foi o grande responsável por esse desenvolvimento e, mais tarde, pelas adaptações do espaço (regionalidade) e para o abarcamento dos próximos fluxos (FELDMAN, 2009, KONTIC, 2007 apud XAVIER, 2010).

Os anos de 1970 para a indústria têxtil, do ponto de vista organizacional, foi o momento em que novas formas de produção foram adotadas, diferentemente daquelas que se baseavam na verticalização da produção nas fábricas. Essa década apresenta significativas transformações tais como: a diminuição dessas fábricas, (passando de grande para pequeno ou médio porte), e mais interessadas no processo de criação, modelagem, cortes de

10 Embora a atividade industrial na cidade de São Paulo como em outros municípios da RMSP

obteve uma desconcentração, o setor de confecção ainda é o segmento industrial que mais emprega na cidade.

11 Os primeiros imigrantes chegaram na cidade de São Paulo ao final do século XIX e início do

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49 tecido e comercialização do produto final e a terceirização da mão-de-obra do processo de costura (serviços prestados por oficinas externas12).

O trabalho, basicamente, condiz à especialização, por parte dos estilistas, de um dado modelo de roupa e uma vez que os tecidos já estão cortados são distribuídos, em lotes, para várias oficinas de costura. Finalizadas, as peças voltam para as fábricas para que então sejam comercializadas.

A mão-de-obra constituinte da indústria de confecção de São Paulo era feminina e quem compunha o quadro eram migrantes internos (mulheres em sua maioria) que já dispunham de experiência do ramo da costura por virem de trabalhos das antigas fábricas desses bairros centrais.

A malha da distribuição das oficinas de costura na cidade de São Paulo hoje vem do processo de transporte do trabalho para o campo doméstico, conferindo, dessa maneira, um espalhamento da produção de roupas e um novo arranjo produtivo.

Grande característica desse novo arranjo é a participação veemente de grupos de migrantes internacionais, sobretudo coreanos, que são considerados os primeiros nessa atividade.

Os coreanos13, inicialmente, contratavam outros coreanos para

trabalharem em suas pequenas oficinas e o bairro do Bom Retiro também se transformava em região autossuficiente para a produção de roupas.

Quantitativamente, na cidade de São Paulo e outros municípios da RMSP, em 2000, foram contabilizados 150 mil costureiros (boa parte nordestinos) e dentro dessa representação, apenas 5 mil eram de origem latino-americanos.

A partir de tais dados parece, em um primeiro momento, irrelevante a presença boliviana no setor da costura, no entanto, vale salientar que desses 5 mil costureiros latino-americanos, 98% são bolivianos.

12 Com a terceirização do processo de costura, a lógica do trabalho assalariado dá lugar à

forma de prestação de serviço. Consequência disso é a diminuição dos empregos formais nesse setor.

13 A apropriação da produção têxtil por parte dos coreanos vêm da transferência da base

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50 Os bolivianos iniciam seus trabalhos nas oficinas de costura na década de 1980, como já foi dito, cujos proprietários ainda são os coreanos.

Posteriormente, os bolivianos passam a ter maior responsabilidade na produção quando os coreanos se voltam para outros setores (design) e com isso muitos coreanos acabam vendendo suas oficinas para os bolivianos.

A nova situação de proprietário de alguns bolivianos podem trazer certas contradições. Embora a propriedade sugira autonomia do processo produtivo, afrouxamento do tempo de trabalho e até mesmo certo status social, os bolivianos deparam-se com vulnerabilidades e pouca rentabilidade. Consequência desse sistema é a exploração cíclica14, ou seja, bolivianos

exploradores de outros bolivianos.

A hierarquização presente na relação entre coreanos e bolivianos está organizada em cadeias funcionais: os bolivianos recebem dos coreanos as peças a serem costuradas que então pagam por cada peça produzida. A função dos coreanos é a elaboração das peças (tendências, modelos etc), distribuição e comércio das mercadorias.

Alguns bolivianos também exercem o papel de comerciantes, em barracas, próximos ao Largo da Concórdia, na Feirinha da Madrugada e em outros pontos do bairro do Brás.

Quanto ao conhecimento básico do processo de costura exercida pelos bolivianos na cidade de São Paulo, o mesmo vem da experiência prévia nesse setor (cursos de costura) na cidade de El Alto, ainda que seja difícil dizer o que precedeu: a especialização em El Alto ou a demanda na cidade de São Paulo. Ainda que alguns venham com certo conhecimento do trabalho exercido nesse setor, muitos bolivianos ainda vem sem nenhuma experiência.

A principal característica que marca a diferença entre brasileiros e bolivianos é a participação ativa e intensa de homens bolivianos no processo de produção. As bolivianas também exercem tal atividade, mas competem a elas também o serviço de comercialização dos produtos, cuidar da casa e o café servido para os costureiros.

14 Embora haja pouco conhecimento, há exploração de outras etnias latino-americanas como

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51 2.3 Tempo e lugares da inserção boliviana na cidade de São Paulo

A distribuição espacial dos imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo é singular e particular, uma vez que estão alocados, em um mesmo momento, no centro e na periferia.

A análise deste processo de imigração de bolivianos para São Paulo sugere, concomitantemente, uma compreensão do crescimento da própria cidade de São Paulo como território.

Historicamente os imigrantes, tais como os portugueses, italianos, espanhóis, poloneses, libaneses e japoneses, que vinham para a cidade concentravam-se nas regiões centrais em bairros como o Bom Retiro, Pari Liberdade, Brás e Barra Funda.

As regiões centrais promovem, nesse sentido a produção da territorialização dos imigrantes, uma vez que essa produção está relacionada ao tempo de residência dessas pessoas bem como o tempo de existência do fluxo migratório na cidade.

Tal processo temporal que envolve tanto o individual quanto o grupo propicia a territorialização, pois os imigrantes criam suas próprias centralidades pelo uso contínuo e frequente desses lugares, fazendo, consequentemente, com que novos imigrantes também busquem esses locais.

Desta maneira, o uso contínuo das áreas centrais da cidade por imigrantes antigos e pelos recém-chegados corresponde à significação desses lugares como acolhedores da densidade e da diversidade (SOUCHAUD, 2010). Entretanto, o crescimento da cidade ao longo do tempo, bem como as transformações do fluxo migratório, modificou e estendeu essa distribuição para outros lugares e a concentração desses bolivianos vai além dos bairros da zona central.

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