UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA (PROPEP) INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES (ICHCA) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA (PROPEP)

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES (ICHCA) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

MESTRADO EM HISTÓRIA

DISCURSOS, PRÁTICAS E MEMÓRIA: O MDB EM ALAGOAS E A DITADURA MILITAR (1966-1979)

PAULO VITOR BARBOSA DOS SANTOS

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PAULO VITOR BARBOSA DOS SANTOS

DISCURSOS, PRÁTICAS E MEMÓRIA: O MDB EM ALAGOAS E A DITADURA MILITAR (1966-1979)

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Alagoas (PPGH-UFAL), como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História. Orientadora: Profª Drª. Michelle Reis de Macedo.

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AGRADECIMENTOS

Depois de um curto longo caminho de dois anos, chegamos aos agradecimentos! Tarefa de responsabilidade, tendo em vista a quantidade de pessoas que contribuíram direta e indiretamente para conclusão desta pesquisa. Não poderia iniciar essa parte sem agradecer a pessoa que é a base de toda minha educação e humanidade, minha mãe Ângela, sustentáculo de toda minha trajetória. Igualmente, agradecer a paciência durante a confecção desta dissertação de minha família, minhas duas meninas, a pequenina Alice e minha companheira Janaína. Agradecer igualmente, a orientação da professora Michelle, pelo incentivo e contribuição à pesquisa, grande parte deste trabalho é fruto desta relação de confiança e estímulo. Aos companheiros de mestrado, Magno, Gustavo, Osnar, Rodrigo, Adson, Roseane e Anne, cujas conversas pós aula renderam bons aprendizados e a amizade ficará literalmente na ―história‖.

Aos professores que estiveram presentes desde o tempo da graduação, José Roberto, Arrisete, José Ferreira, Alberto Vivar, Ana Cláudia, Clara, Filipe, Osvaldo, Célia, Tadeu e Irinéia. Em especial ao professor Alberto Saldanha pela paciência de orientar meu trabalho de conclusão de curso, e de contribuir com seu rigor na análise do meu projeto de mestrado, na qualificação e na defesa deste. A todos os professores que integram o Programa de Pós Graduação em História da UFAL, em particular ao professor José Vieira por compor minha banca de defesa.

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relação às instituições não poderia deixar de citar o Arquivo Público de Alagoas, o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e a Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos. A consulta aos arquivos, documentos, jornais e livros nestes locais foram fundamentais nessa pesquisa. Igualmente, essa dissertação não seria possível sem o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), agradeço em particular à pessoa do Irinaldo Diniz, coordenador de Pós-graduação no período, pela solicitude nos trâmites burocráticos.

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“Os crimes, os atentados, a supressão da liberdade e dos direitos civis, as torturas, as mortes, tudo isso ocorreu em todas as partes do Brasil e também em Alagoas, mas tudo ficou perdido na memória historiográfica do país, por que simplesmente caiu no rol da impunidade. (Djalma Falcão – Deputado Federal/MDB-AL – In memorian).

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RESUMO

O objeto de estudo do presente trabalho concentra-se no Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Alagoas, seu surgimento, trajetória e atuação no contexto da ditadura militar. O recorte historiográfico escolhido contempla os anos de 1966 a 1979, período de seu surgimento e consolidação no cenário político estadual e nacional, até sua dissolução com a extinção do bipartidarismo. Destaca-se nesta pesquisa a conjuntura social e política alagoana nas décadas de 1950, 1960 e suas determinadas lutas políticas que ensejaram a formação do MDB e da ARENA em Alagoas, assim como as peculiaridades locais na formatação e execução do golpe civil-militar de 1964. Explora-se também, o contexto da ditadura militar e suas implicações sociais, políticas e econômicas no Brasil e em Alagoas, tal como os discursos e práticas emedebistas no decorrer das décadas de 1960 e 1970, procurando entender as correlações de força entre a oposição institucional, representada pelo MDB e o sustentáculo político da ditadura militar, encarnada na ARENA, bem como, os conflitos, disputas, cisões e reconfigurações intrapartidárias da sigla.

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ABSTRACT

The object of study of the present work focuses on the Brazilian Democratic Movement (MDB) in Alagoas, its emergence, trajectory and performance in the context of the military dictatorship. The historiographical selection chosen covers the years 1966 to 1979, the period of its emergence and consolidation in the state and national political scene, until its dissolution with the extinction of Bipartisanship. In this research the social and political conjuncture of Alagoas in the 1950s and 1960s and its determined political struggles that led to the formation of the MDB and the ARENA in Alagoas, as well as the local peculiarities in the format and execution of the civil-military coup of 1964. The context of the military dictatorship and its social, political and economic implications in Brazil and Alagoas, as well as the emedebistas discourses and practices during the 1960s and 1970s, are also explored. Looking to understand the correlations of force between the Institutional opposition, represented by the MDB and the political support of the military dictatorship, embodied in ARENA. As well as the conflicts, disputes, divisions and intra-party reconfigurations of the acronym.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 11

1– AS DÉCADAS DE 1950 E 1960 E A CONJUNTURA SOCIAL E POLÍTICA ALAGOANA. ... 21

1.1 - A Redemocratização nacional pós 1945 ... 21

1.1.1- Projetos em disputa: Nacional Estatismo e Liberalismo Conservador na experiência democrática em Alagoas (1947-1964). ... 28

1.2– O Golpe de 1964 e suas consequências ... 40

2– CONTRADIÇÕES, DIFICULDADES E EXPECTATIVAS: SURGE A “OPOSIÇÃO LEGAL” ... 55

2.1A instauração do bipartidarismo ... 55

2.1.1O MDB entre o passado e o presente ... 58

2.2 - As eleições de 1966 ... 69

3 – RECRUDESCIMENTO DA DITADURA MILITAR E A DERROTA OPOSICIONISTA (1967-1970) ... 81

3.1Ensaios de liberalização e compressão: Militares, MDB e Sociedade Civil ... 81

3.2 - Oposições na ofensiva, baionetas de prontidão ... 88

3.3 - MDB e o caso dos Excedentes... 96

3.4 - O MDB nos municípios ... 101

3.5 - A Ditadura sem máscara ... 109

4 DO OSTRACISMO À RECONSTRUÇÃO: MDB E AS NOVAS PAUTAS NO CONTEXTO DA DISTENSÃO (1970-1979) ... 116

4.1 A estratégia armada como alternativa à “oposição legal ... 116

4.2 - O “Milagre Econômico”e a modernizaçãoconservadora ... 124

4.3O novo MDB; autênticos e a inflexão nas urnas de 1974 ... 133

4.4 - José Costa e Mendonça Neto : novas vozes do MDB em Alagoas ... 143

4.5 - A campanha de 1978 e o fim do bipartidarismo ... 157

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 166

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INTRODUÇÃO

O interesse pela temática desta pesquisa surgiu ainda no ano de 2010, quando através de um estágio no Arquivo Público de Alagoas, em parceria com a UFAL e o Arquivo Nacional, pudemos trabalhar sob orientação do professor Alberto Saldanha, com um rico acervo referente ao período republicano recente em Alagoas. Tratava-se do projeto Memórias Reveladas : As Lutas Políticas em Alagoas (1964-1985) articulado com o projeto nacional Memórias Reveladas: Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964 -1985), desenvolvido pela Casa Civil da Presidência da República, por intermédio do Arquivo Nacional e dos arquivos públicos estaduais. O acervo que tínhamos em mãos constituia-se de arquivos pessoais de antigos militantes de partidos políticos, fichas e relatórios da extinta Delegacia de Ordem Política, Social e Econômica (DOPSE), material de divulgação de entidades estudantis, partidos e sindicatos, além de diversas fotografias, e documentos da Secretaria de Segurança Pública. A medida que tratávamos esta documentação, percebíamos a importância daquelas fontes até então inéditas para o estudo da história de Alagoas. Em especial, para compreender o contexto social e político de Alagoas na ditadura militar, com suas manifestações sociais, sindicais e estudantis, campanhas políticas, atuação dos mecanismos de repressão, etc.

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12 sua utilização como campo identitário do partido. O realinhamento partidário dos setores conservadores na ARENA local, e a execução de um projeto político e econômico aliado ao processo de modernização conservadora proposto pela ditadura militar. E por fim, o papel de revigoração oposicionista a partir de jovens políticos desvinculados do modus operandi da política local.

Em realação aos objetivos específicos, estes, centralizam-se em: caracterizar a conjuntura social e política alagoana nas décadas de 1950 e 1960 e seus respectivos projetos políticos; entender como o MDB surge em Alagoas através do processo de reestruturação do bloco político liderado por Muniz Falcão, identificado com o trabalhismo nacionalista; entender como os grupos políticos identificados com o projeto liberal conservador alinham-se no pós 1964 à ARENA; entender o contexto da modernização conservadora que marca o ―Milagre Econômico‖ em Alagoas e no Brasil; analisar as participações do MDB nas eleições estaduais de 1966, 1970, 1974 e 1978, assim como a inserção da sigla nos municípios; analisar a relação do MDB com a luta armada; analisar as dificuldades e coações enfrentadas pelos emedebistas; analisar a reestruturação do MDB a partir da década de 1970, seu crescimento e capacidade de aglutinação de grupos de esquerda, estudantes e trabalhadores; A formação do grupo ―Autêntico‖ a partir de 1974 e os mandatos de José Costa e Mendonça Neto, na defesa da redemocratização, da anistia e no enfretamento à repressão.

No campo teórico-metodológico, conforme tratamento das fontes, percebemos que as abordagens mais elucidativas perpassam a Nova História Política. A análise política, entendida como um campo renovado pela historiografia nas últimas décadas, se insere numa perspectiva, segundo Rémond, de ―rediscussão dos conceitos clássicos e das práticas tradicionais‖1. A opção por esse aporte teórico-metodológico levou em conta diversas fontes (jornais, entrevistas, revistas, livros de memória, documentos oficiais, discursos, etc.), como a utilização de importantes conceitos no transcorrer da pesquisa; entre eles, o de Cultura Política, desenvolvido por Serge Berstein e Jean Pierre Rioux, (entendida como um campo que articula crenças, símbolos, valores, ritos, mitos e ideologias), utilizada aqui para entender a cultura política trabalhista e sua

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13 influência nos grupos políticos alagoanos da década de 1950 e 1960. E o conceito mais específico de Mediação Política de Serge Berstein, para compreender o papel que o MDB adquire em sua trajetória, de aglutinador das forças oposicionistas. Na compreensão dos processos de transformações sociais e econômicas da ditadura militar, utilizamos o conceito da Modernização Conservadora, elaborado por Barrington Moore Jr., percebendo o modelo de desenvolvido tutelado pelas setores conservadores agrários de Alagoas. No tratamento da memória utilizamos o entendimento de Michael Pollak, para analisar as relações entre memória e identidade social, primeiro no tocante à importância da memória como fator de construção da identidade individual e de grupo; segundo pelo caráter de continuidade e reconstrução das suas representações. Este entendimento está nas tentativas de construção da identidade emedebista em seus primeiros anos de existência, além dos conflitos internos inerentes a esse processo. Por fim, a pesquisa procurou dialogar com a estruturação do Estado de Segurança Nacional, problemática desenvolvida por Maria Helena Moreira Alves, na compreensão da organização e elaboração de todo um aparato repressivo englobando questões militares, econômicas, sociais, judiciais e políticas no funcionamento da ditadura militar brasileira.

Os capítulos que compõe esse trabalho e as fontes utilizadas estão divididos desta forma: Cap. 1 – As décadas de 1950 e 1960 e a conjuntura social e política alagoana; O primeiro capítulo tem como proposta analisar o cenário político e social formado após o fim do Estado Novo, de que modo os grupos políticos alagoanos adaptam-se no contexto da redemocratização nacional, através do confronto de dois projetos políticos distintos: o Nacional Estatismo atuando como tutor e propulsor da organização do mundo do trabalho sob às bases de um desenvolvimentismo nacionalista. E o Liberal Conservador, estruturado nas tradicionais oligarquias rurais, revestidas do liberalismo antigetulista. Esse recuo histórico se fez importante, à medida que procuramos analisar pelo viés da longa duração os embates e os vínculos políticos e partidários estabelecidos após a instauração do bipartidarismo em 1966.

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14 particularidades também foram apreciadas. Os tópicos do capítulo estão postos da seguinte forma: 1.1- A Redemocratização nacional pós 1945; O tópico analisa o quadro político instaurado após a redemocratização, as rupturas ensejadas pelo contexto do fim dos regimes nazifascistas, proporcionando a nivel mundial um processo de abertura democrática, com efeitos diretos no fim do Estado Novo e na promulgação da constituição de 1946, ensejando uma estruturação completa no sistema político e eleitoral e o surgimento dos partidos nacionais como PTB, PSD e a UDN e seus repectivos projetos políticos e embates nas décadas de 1950 e 1960. Em evidência também está o quadro de ampliação da democracia e o crescimento dos movimentos sociais, através de uma politização crescente dos trabalhadores, que tornavam-se cidadãos cada vez mais ativos e participativos no processo de democratização política e da sociedade civil. Trabalhamos nesse tópico com dois conceitos: Nacional Estatismo e Trabalhismo, com intuito de jogar luzes à análise do próximo tópico.

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1.3 - O golpe de 1964 e suas consequências; No tópico realizamos um sucinto panorama dos debates realizados na historiografia nacional sobre o golpe de 1964, destacando a renovação da temática através de novos estudos e contextualizando o governo de João Goulart dentro de uma conjuntura de efervescência política e acirramento de posições, plasmadas pela politização em escalada dos trabalhadores; e pela intensa onda anticomunista dos setores conservadores. O contexto do golpe civil-militar em Alagoas foi analisado levando em consideração a correlação com os eventos nacionais, mas também suas particularidades, dessa forma, abordando o cenário pré e pós golpe e a atuação de importantes atores sociais do período. As fontes que serviram de aporte foram: a edição especial do jornal A Tribuna de 28 de março de 2004 (edição rememorativa dos 40 anos do golpe de 1964, trazendo relatos dos atores sociais que participaram ativamente contra e favor do golpe); o períodico Diário de Alagoas nos meses de março a novembro de 1964; os documentos da Delegacia de Ordem, Política, Social e Econômica (DOPSE), referentes aos funcionários públicos cassados por ocasião do Ato Institucional nº1 (AI-1); o artigo do historiador Rodrigo José da Costa sobre o golpe: “Do comício que não houve” à marcha da vitória: deflagração do golpe civil militar em Alagoas”[2014];o artigo do jornalista Ênio Lins: Pastoril de trágicas jornadas [2004];os livros do historiador Geraldo de Majella: Rubens Colaço: paixão e vida: a trajetória de um lider sindical [2010] e O PCB em Alagoas – Documentos (1982-1990) [2011] (livros que trazem importantes relatos da conjuntura do golpe em Alagoas e das torturas sofridas pelo dirigente sindical Rubens Colaço).

Cap. 2 Contradições, dificuldades e expectativas: Surge a “oposição legal”;

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16 Alagoas. 2.1 A instauração do bipartidarismo; Neste tópico abordamos o surgimento do bipartidarismo e a reorganização do quadro partidário.

2.1.1 - O MDB Alagoano entre o passado e o presente; O intuito do tópico foi entender a organização do MDB em Alagoas através da transferência da máquina partidária pessepista (PSP) capitaneada por Muniz Falcão e seu grupo político. E de que forma os emedebistas utilizaram a imagem de Muniz Falcão, após sua morte, como a principal bandeira de luta oposicionista na campanha de 1966. Denunciando os antigos adversários (udenistas) realinhados após a instauração do bipartidarismo na ARENA. Com o objetivo de entender as primeiras linhas de atuação traçadas pelos emedebistas, analisamos a primeira convenção do partido, realizada em 10 de agosto de 1966. Evento que reuniu pela primeira vez as lideranças do partido de todo o estado, no sentido de alinhar o programa nacional às expectativas locais. As fontes utilizadas nesse tópico foram o jornal Diário de Alagoas, que nos possibilitou o mapeamento das atividades realizadas pela sigla no estado; o Manifesto Programa do MDB, e suas principais diretrizes. Como aporte teórico-metodológico utilizamos o conceito de Mediação Política de Serge Berstein, para analisar como o MDB coloca-se como eixo de mediação no enfrentamento aos problemos nacionais, buscando construir seu caráter de Frente popular. O entendimento de Michael Pollak no tocante à importância da memória como fator de construção da identidade individual e de grupo foi utilizado para entender como a coesão dos emedebistas em torno da imagem de Muniz Falcão possuia o intuito de convencer o eleitorado da continuação de um projeto político popular.

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17 regime. Dentre os temas, podemos destacar: a luta pela redemocratização, contra a censura, a repressão política e as perseguições, e as cassações arbitrárias. Presentes também estão críticas aos arenistas e à política econômica do governo Castelo Branco.

Como aporte analítico, utilizamos o entendimento de René Remond sobre o estudo das campanhas políticas ―a campanha é parte integrante de uma eleição, é seu primeiro ato […] é a entrada em operação de estratégias, a interação entre os cálculos dos políticos e os movimentos de opinião‖.2 Nesse sentido, o estudo das campanhas políticas não compreendem unicamente seus resultados, mas também o entendimento de sua construção através dos discursos produzidos pelos seus atores sociais. Esse direcionamento nos possibilita compreender a dinâmica de um processo eleitoral, e de uma maneira mais objetiva a relação entre expectativa e realidade.

Cap.3. Recrudescimento da ditadura militar e a derrota oposicionista (1967-1970; O objetivo geral do capítulo é compreender o modo como o aparelho repressivo estatal organizou-se estruturalmente e ideologicamente. Do mesmo modo, os consequentes embates entre as oposições e a ditadura militar. Dentro desse contexto analisamos a atuação do MDB alagoano. Os tópicos estão divididos desta forma: 3.1 Ensaios de liberalização e compressão: militares, MDB e sociedade civil; Neste tópico analisamos a institucionalização dos mecanismos de controle da sociedade civil, destacando os governos do Marechal Castelo Branco no plano nacional e suas medidas nas áreas econômica e social, assim como, a interventoria em Alagoas de José Tubino e seu reflexo no fortalecimento da ARENA local. 3.2 Oposições na ofensiva, baionetas de prontidão; Neste tópico abordamos a estruturação ideológica do aparelho repressivo estatal, dialogando com os estudos de Nilson Borges (A Doutrina de Segurança Nacional e os governos militares) e de Maria Helena Moreira Alves (Estado e oposição no Brasil (1964-1984), assim como, o modus operandi dos organismos da ditadura militar através da análise da formulação da Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e da articulação do sistema de informações. Abordamos, também, a ofensiva da oposição com a ação dos estudantes, da Igreja Católica e da formação da Frente Ampla.

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3.3 MDB e o caso dos “excedentes”; Analisamos dentro do contexto de agitação estudantil e reformulação do ensino universitário, o papel que os emedebistas alagoanos exerceram na condução da crise estudantil que marca o caso dos ―excedentes‖. As fontes utilizadas foram: o jornal Diário de Alagoas, a obra de Alberto Saldanha (A Mitologia Estudantil: Uma abordagem sobre o Movimento Estudantil Alagoano), e a obra referencial de Thomas Skidmore (Brasil: de Castelo a Tancredo, 1964-1985). 3.4 O MDB nos municípios; Abordamos o desempenho do MDB alagoano nas eleições municipais. Analisamos os principais problemas que a sigla enfrentava no contexto das reformas do sistema eleitoral, como a instituição da sublegenda e da inclusão de importantes municípios nas ―zonas de segurança nacional‖. Utilizamos como fontes: os dados eleitorais contidos na obra de Heider Lisboa (A Justiça Eleitoral em Alagoas), o jornal Diário de Alagoas, e discursos de parlamentares emedebistas na Assembleia Legislativa de Alagoas. 3.5 – A ditadura sem máscara;

Neste tópico, tratamos da instauração do Ato Institucional número 5 (AI-5) e dos seus efeitos na oposição. Particularmente, suas consequências em Alagoas, com a cassação de parlamentares da ARENA e do MDB, além do significativo encolhimento da sigla com a derrota nas eleições de 1970. Utilizamos como fontes: o Jornal de Alagoas, os estudos de Maria Kinzo (Oposição e Autoritarismo: Gênese e trajetória do MDB), Thomas Skidmore (Brasil: de Castelo a Tancredo, 1964-1985), e o Tomo II, Vol. II do Projeto Brasil Nunca Mais (Os atingidos).

Cap. 4 . – Do ostracismo a reconstrução: MDB e as novas pautas no contexto da distensão (1970-1979); Este capítulo trata da reorganização do MDB no decorrer da década de 1970, levando em conta seus embates internos – com o surgimento do grupo dos Autênticos - e externos através de seus posicionamentos com as oposições armadas e o governo. Abordamos também o ―Milagre Econômico‖ e suas contradições, e por fim, a revitalização emedebista, plasmada na inflexão das urnas de 1974, e no mandato de jovens deputados alinhados no enfrentamento à ditadura militar.

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19 das esquerdas em Alagoas, em especial, o PCB e sua relação com o MDB local. O referencial teórico deste tópico foi balizado nas obras de Jacob Gorender (Combate nas Trevas); Marcelo Ridenti (O fantasma da Revolução Brasileira); Denis de Moraes (A esquerdas e o golpe de 64); Ana Beatriz Nader (Autênticos do MDB; semeadores da democracia) e Denise Rollemberg (Esquerdas Revolucionárias e luta armada). Na análise da conjuntura local foram utilizadas as obras de Geraldo de Majella (O PCB em Alagoas: Documentos (1982-1990), Alberto Saldanha (A Mitologia Estudantil: Uma abordagem sobre o Movimento Estudantil Alagoano) e o artigo de Golbery Lessa (Os Principais Momentos do PCB em Alagoas). Fontes primárias, como os artigos do Partido Comunista Revolucionário (PCR), também foram utilizadas.

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4.3 O novo MDB; autênticos e a inflexão nas urnas de 1974; Neste tópico analisamos o processo de revigoração emedebista, ensejado pelo surgimento do grupo Autênticos, assim como, os conflitos internos nas disputas intrapartidárias que marcaram o processo da anticandidadura de Ulysses Guimarães à Presidência da República. Avaliamos a campanha de 1974 e a consequente revitalização eleitoral do MDB, e seus reflexos na legenda alagoana. As fontes utilizadas foram as obras de Maria Kinzo (Oposição e Autoritarismo: Gênese e trajetória do MDB), Nader (Autênticos do MDB; semeadores da democracia) e Heider Lisboa (A Justiça Eleitoral em Alagoas).

4.4 – José Costa e Mendonça Neto: novas vozes do MDB em Alagoas; Analisamos o processo de renovação do MDB alagoano com a chegada de jovens parlamentares. Tendo por foco a trajetória dos novos emedebistas e sua interação com os problemas nacionais e estaduais. As fontes utilizadas foram as reportagens do Jornal de Alagoas; discursos dos emedebistas no Congresso Nacional e os livros de memórias (Alagoas: História de um sobrevivente) e (A luta continua) de Mendonça Neto.

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1. - AS DÉCADAS DE 1950 E 1960 E A CONJUNTURA SOCIAL E POLÍTICA ALAGOANA.

1.1 - A Redemocratização nacional pós 1945

O período convencionalmente chamado de experiência democrática (1946-1964)3 marcou uma época de transformações significativas na sociedade brasileira, encerrando o Estado Novo e inciando um processo de mudanças profundas, alicerçadas na promulgação da Constituição de 1946. Substituindo a Constituição de 1937 – marcada pelo viés centralizador-autoritário - a nova carta constitucional ensejava aos brasileiros acesso aos direitos políticos e a concretização de sua cidadania política, garantindo o fim da censura, a liberdade de associação, além de uma estruturação completa no sistema eleitoral e autonomia dos três poderes.

Apesar do caráter democrático possibilitado pela Carta de 1946, muitos aspectos mantinham estreita ligação com a orientação estadonovista, uma vez que a condução do processo de redemocratização foi marcada pelo controle e influência de Getúlio Vargas. Não obstante a nova conjuntura pós-45, é possível perceber permanências que estarão imbricadas nas práticas sociais e políticas. O movimento queremista4 foi uma prova do quanto o getulismo fazia-se presente na condução das transformações da época. Assim como a manutenção de uma estrutura sindical ligada ao Ministério do Trabalho, entusiasmando os trabalhadores através de conquistas reais e simbólicas.

As rupturas também foram evidentes, o novo cenário mundial respirando a liberdade pós-guerra, não toleraria novamente o autoritarismo encarnado no ―caudilho gaúcho‖. Tão pouco era possível não considerar uma emergente classe de trabalhadores que almejavam participar da política nacional, com objetivos que se delineavam em reivindicações legítimas. Muitos historiadores consideram os anos de 1945 a 1964 um período singular de eferverscência social e ampliação da democracia. Segundo Lucília

3Para uma visão aprofundada do período ver: DELGADO, Lucilia. FERREIRA, Jorge. O tempo da experiência democrática. Volume 3 – O Brasil Republicano. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008.

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22 Delgado:

Foi uma conjuntura de ampliação da participação cidadã. Foi também uma conjuntura de franco crescimento de múltiplas formas de organização social e política, tanto no espectro da sociedade civil, como no interior do aparelho do Estado. Na verdade, naqueles anos, a principal mudança no campo da política ocorreu através de um forte movimento de ampliação da cidadania, traduzido pela presença – nos embates próprios à democracia – de sujeitos históricos até então usualmente tolhidos em suas iniciativas de se inserir no processo participativo.5

A participação popular não apenas como expectadora, mas força ativa social, opinando, tomando posições, inserindo-se organicamente nos embates políticos, pela primeira vez agitou o país e possibilitou diversas vicissitudes que marcariam as décadas seguintes. Ângela de Castro Gomes considera que,

O período da experiência liberal-democrática de 1945-64 é uma oportunidade de explorar o momento em que a sociedade brasileira viveu sua primeira experiência de eleitoralização da política. Ou seja, o período em que conheceu partidos políticos nacionais e de massa; em que experimentou eleições sistemáticas para o Executivo e o Legislativo (federal, estadual, e municipal); enfim, em que realizou o que se chama ―aprendizado da política‖ eleitoral, em novos e mais amplos marcos6

Os ventos da mudança que traziam um universo novo ao cenário nacional, apesar das contradições já apontadas, ficaram plasmados na edificação de um sistema pluripartidário. A instauração da democracia representativa fez surgir diversos partidos caracterizados pela diversidade de seus programas ideológicos. O contexto pós Segunda Guerra movimentava o jogo político para uma crítica aos regimes totalitários derrotados em 1945, a negação ao nazifascismo não harmonizava com a ausência de uma estrutura partidária nacional. Os grupos liberais, conservadores e de centro, - principais críticos do estadonovismo - beneficiados pela descentralização do poder e pela autonomia frente aos estados e municípios, uniram-se em torno da União Democrática Nacional (UDN).

5 DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Partidos políticos e frentes parlamentares: projetos, desafios e conflitos na democracia In: O Brasil Republicano. Orgs: FERREIRA, Jorge. DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008, p.147.

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23 ―A principal linha de ação da UDN consistia em fazer agremiações pró-getulistas seu principal alvo de oposição‖7. Do lado oposto, estavam as siglas do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e do Partido Social Democrata (PSD).―Enquanto o PSD reunia interventores estaduais que controlavam importantes aparatos administrativos e clientelísticos, o PTB tinha uma proposta mais diretamente dirigida às classes trabalhadoras‖.8 Surgidos da engenharia política de Getúlio Vargas, cada agremiação possuiria um objetivo específico: o primeiro, de cunho eminentemente conservador, teria por missão precípua garantir uma transição política controlada, que evitasse mudanças abruptas nos rumos políticos do país; o segundo, estava encarregado de veicular a proposta trabalhista de Vargas em termos partidários.9

De uma tradição anterior, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922, construiu participação significativa no cenário político e de organização de massas – muitas vezes rivalizando com os petebistas - enfrentou a ilegalidade e a sistemática repressão ao longo das décadas de 1950 e 1960. Atuando clandestinamente depois de 1947, fora do jogo eleitoral, integrou as frentes nacionalistas na defesa das reformas de base.

UDN, PSD e PTB constituíram-se, portanto, fortes partidos estruturados no processo de redemocratização nacional. A tríade partidária seria responsável por fortes conflitos durante suas turbulentas trajetórias. Curioso é observar que os três partidos surgiram, paradoxalmente, ligados ao getulismo, por oposição ou adesão. Apesar da gênese em comum, os interesses e projetos de cada um, ficariam evidentes no decorrer das eleições de 1950 e 1954. A dobradinha PTB/PSD representando o projeto Nacional Estatista alcançaria vitórias importantes; do outro lado, os udenistas, acumulando derrotas, alimentavam seus anseios antidemocráticos. Fato verificado nas tentativas golpistas de 1950, 1954 e 1961, até 1964 quando do golpe militar. Muitos dos udenistas, membros de oligarquias regionais e liberais de cunho conservador, sentiam-se excluídos do poder desde a Revolução de 1930, quando as velhas estruturas de poder local foram desalojadas pelo intervencionismo autoritário.

Logicamente, o crescimento das agremiações adversárias à UDN, representara,

7 DELGADO, op. cit p.137.

8 GOMES, Ãngela de Castro. D´ARAÚJO, Maria Celina. Getulismo e Trabalhismo: Tensões e Dimensões do Partido Trabalhista Brasileiro. Rio de Janeiro, FGV, 1987, p.4.

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24 para os udenistas, um sinal terrível dos ecos estadonovistas. Operou-se na UDN, então, o sentimento de impossibilidade da vitória, da quebra da legalidade, da intervenção, retroalimentado nos discursos contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, e superdimensionada na sociedade nos debates, marchas, contra o trabalhismo e o comunismo.

O desequilíbrio de forças, contudo, adquiriu novos contornos no decorrer da década de 1960, tendo o PTB se aproximado do PCB na defesa das reformas de base e do projeto nacionalista. A UDN viu, então, grande parte do PSD engrossar suas fileiras, unidos no afã de defesa de seus interesses de classe. Fato verificado no uníssono contra os projetos, mesmo que ainda discretos, da reforma agrária, dentro do contexto das Reformas de Base.

A dicotomia desse processo ficaria evidente quando da renúncia de Jânio Quadros e a luta pela posse do seu vice, João Goulart. A campanha da Legalidade de 196110 serviu de alerta para os setores nacionalistas entenderem o radicalismo que daria o tom dos anos seguintes. O clima daqueles dias demonstra bem os projetos que se delineavam para o Brasil: de um lado os comunistas, trabalhistas, estudantes, alas das forças armadas e a classe operária lutando por reformas sociais, maior participação do Estado na economia e um governo nacionalista desvinculado da dependência dos trustes norte-americanos

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do outro, políticos conservadores e facções golpistas do Exército, Marinha e Aeronáutica, defendendo o livre mercado e a contenção dos movimentos sociais.

A crise entre esses dois blocos aumentaria consideravelmente no transcorrer de 1960, desembocando num processo de radicalização dos discursos tanto de nacionalistas mais radicais (como Leonel Brizola) quanto de conspiradores declarados e histriônicos (como Carlos Lacerda). O conflito entre os antagônicos blocos, o Nacional-Estatista e o grupo Liberal-Conservador, estava prestes a chegar ao seu ápice. A consumação do ato

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25 foi o Comício das Reformas de Base no Rio de Janeiro11. Jango, tomando posição frente às mudanças, desencadeou, alheio à sua vontade, um processo que culminaria num novo regime autoritário.

Para entender a dinâmica do conflito dos dois blocos, faz-se necessário caracterizá-los. Daniel Aarão Reis Filho elenca as características presentes do bloco Nacional-Estatista:

Um Estado controlador e intervencionista, quando não, ditatorial. Políticas públicas desenvolvimentistas e mercado regulado. Movimentos ou partidos, aglutinando diferentes classes sociais em torno de ideologias nacionais e de lideranças carismáticas, baseadas em alianças concertadas, ativas e conscientes, entre Estados, empresários privados e trabalhadores.12

Segundo o autor, ―Nacional, pela ambição de tomar cada povo com uma única identidade. Estatal, por ser considerado o Estado o melhor instrumento histórico para articular a vontade nacional na direção de um processo autônomo de modernização‖13 .

As raízes do programa Nacional-Estatista brasileiro14 estariam fincadas no processo desencadeado pela Revolução de 1930 e teriam na figura de Getúlio Vargas seu motor propulsor:

A análise da Cultura Nacional-Estatista em sua gênese, por meio dos discursos de seu líder Getúlio Vargas, evidencia alguns dispositivos estratégicos, entre os quais são relevantes: a) Um estado centralizado e integrador, ao qual se subordinam todas as ―particularidades egoísticas‖ - a ideia é assinalada como marca registrada de uma ―nova era‖ b); um ideário nacionalista, unificador; c) O esteio das Forças Armadas […] d) amplas alianças sociais, incluindo-se os trabalhadores urbanos e rurais, sempre sob vigilância e tutela; e) concepções de modernização e industrialização em nome das quais todos os sacrifícios são demandados; f) uma política externa de afirmação nacional.15

11 Concentração realizada no Rio de Janeiro no dia 13 de março de 1964, em frente à estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro, o Comício das Reformas, também conhecido por Comício da Central, reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo membros de entidades sindicais e outras organizações de trabalhadores, servidores públicos civis e militares, estudantes etc. Tinha por meta demonstrar a decisão do governo federal de implementar as chamadas reformas de base e defender as liberdades democráticas e sindicais.

12 REIS FILHO, Daniel Aarão. Uma Cultura política: O Nacional Estatismo. Disponível em http://danielaaraoreis.ig.com.br/?tag=estado. Acesso em 03 de abr, 2015.

13 REIS FILHO, Daniel Aarão. Ditadura e Democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988. 1ª ed. - Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p.19.

14 Jorge Ferreira e Daniel Aarão destacam que o projeto Nacional-Estatista foi comum a vários países latino-americanos, como Argentina, México, Peru e Bolívia (grifo nosso).

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26 Portanto, a construção de um projeto nacional inauguraria uma nova etapa no processo de modernização, durante anos negligenciado pela República Velha e seu liberalismo excludente. A difusão desse programa só foi possível devido à cultura política do Trabalhismo que foi gestada no seio dessas transformações.

Entendemos por culturas políticas um campo amplo que abrange e articula crenças, símbolos, valores, ritos, mitos e ideologias. Trata-se de ―uma espécie de código e de um conjunto de referentes, formalizados no seio de um partido ou, mais largamente, difundidos no seio de uma família ou de uma tradição política‖16, desse modo,

A cultura política constitui um conjunto coerente em que todos os elementos estão em estreita relação uns com os outros, permitindo definir uma forma de identidade do individuo que dela se reclama‖ […] Esse conjunto se compõe de 1) uma base filosófica e doutrinal, 2) uma leitura comum do passado histórico 3)uma visão institucional 4) uma concepção ideal de sociedade 5) um discurso17.

Nas décadas de 1950 e 1960, nenhum outro projeto alcançou tanto crescimento como o Trabalhismo, constituindo-se um polo aglutinador dos anseios progressistas e nacionalistas, crescendo e tornando-se uma forte tradição da cultura política nacional. Se em seu início tinha no getulismo seu norte principal, ao decorrer de sua trajetória será capaz de inserir-se firmemente no movimento operário, nas lutas dos trabalhadores, criando uma identidade própria e se tornando alternativa aos trabalhadores até para partidos como o PCB.

O Nacional-Estatismo, encarnado na tradição do Trabalhismo, não só cresceu e agregou interesses, como se colocou como projeto político das frentes nacionalistas. Um Estado que fosse capaz de desenvolver um processo modernizador com justiça social e soberania, tendo o controle dos processos de transformações.

Contra essa concepção estavam as forças liberais conservadoras, receosas das mudanças que ameaçam seu status quo. Muitas alijadas do poder em 1930,

16 BERSTEIN, Serge. A Cultura Política IN: Para uma História Cultural, Orgs: RIOUX, Jean-Pierre. SIRINELLI, Jean François. Lisboa, Editora Estampa, 1998, p.350.

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27 reestruturavam-se em torno de um projeto distinto: frear o crescimento da politização dos trabalhadores, reconquistar ou manter suas antigas estruturas de poder, desatrelar do estado o protagonismo na condução das relações econômicas, associação aos capitais internacionais, não permitir as Reformas de Base, entre outras bandeiras. Longe de serem homogêneas, essas forças mostravam-se numa ―condensação de várias correntes de oposição às reformas: das elites tradicionais – reacionárias – a grupos empresariais modernizantes. Aliavam-se também nessa ampla frente social boa parte das classes médias e até mesmo setores populares‖.18

Existia, de fato, o medo de um Estado forte, centralizado e regulador das relações de trabalho, preocupado em afirmar as identidades dos trabalhadores e garantir direitos sociais. A figura desse estado protetivo com grande poder decisório, atingia em cheio as esferas de poder local, arraigadas pelo interior do Brasil. Superdimensionando o Estado, reduzia, em partes, o controle direto das elites locais sob o mundo do trabalho e as esferas administrativas e jurídicas. As grandes empresas multinacionais, preocupadas com o viés nacionalista e reformista (como a Lei de remessa de lucros do governo Jango19) endossaram o coro antirreformista, assim como os empresários urbanos e os coronéis locais desconfiados das novas leis regulamentadoras trabalhistas e da organização sindical. Setores de classe média e populares que compunham o bloco possuíam receios diversos, desde o medo de uma convulsão social provocada pelos atentados às tradições – leia-se a manutenção da velha ordem conservadora da família brasileira, até o fantasma do comunismo que rodeava os lares e ameaçava transformar o país numa ―nova Cuba‖.20

18 REIS FILHO, op. cit. p,37.

19 Diante de um cenário econômico que apresentava perceptíveis dificuldades no gerenciamento das contas públicas e dos contratos externos, foi anunciada, em 30 de dezembro de 1962, a adoção de um novo modelo geral de orientação da política econômica do governo Jango. Elaborado pela equipe chefiada pelo ministro extraordinário do Planejamento, o economista Celso Furtado, o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social procurou estabelecer regras e instrumentos rígidos para o controle do déficit público e refreamento do crescimento inflacionário. Dentre essas regras, a lei da remessa de lucros que considerava como capital nacional os lucros obtidos em atividades no Brasil e estabelecia o limite de remessas para o estrangeiro em 10% do total do capital registrado das empresas. A lei acabou por recrudescer o clima de radicalização política e de insolvência econômica que marcaria o final do governo João Goulart.

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28 Essa vertente no campo político-institucional ficou representada pela Ação Democrática Parlamentar (ADP), formada em grande parte por parlamentares da UDN, defensora do anticomunismo e do antirreformismo.―Suas principais bandeiras eram: defesa intransigente da iniciativa privada, apoio incondicional aos investimentos estrangeiros no Brasil e defesa de princípios liberais‖21. Sua principal rival nesse sentido era a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN) alinhada, apesar de sua diversidade, ao projeto Nacional-Estatista. Tinha como bandeira a defesa de um país livre, soberano e independente, e levaria em suas propostas a mudança efetiva das estruturas do país. Era formada em sua maioria por políticos do PTB, mas também aglutinava setores da sociedade civil progressista.

Os embates entre as duas frentes tornaram-se inevitáveis, os antagonismos evidentes e os grandes conflitos que permearam a radicalização dos anos 1960 colocaram em questão a disputa desses dois projetos. O Golpe de 1964 em ―nome da democracia‖, que ceifou o período da experiência democrática, não foi uma investida somente para tirar João Goulart e acabar com os ―laços comunistas‖ e o intento reformista do presidente. Os golpistas queriam ir além, depor o presidente significaria tornar o projeto dos que conspiraram hegemônico, desse modo destruindo qualquer tentativa de modernizar o Estado pela via nacionalista progressista.

1.1.1 – Projetos em disputa: Nacional Estatismo e Liberalismo Conservador na experiência democrática em Alagoas (1947-1964).

Seria possível inserir Alagoas no contexto nacional de lutas políticas em torno dos projetos que apresentavam-se em disputa? A estruturação das agremiações partidárias alagoanas representam em nível local o antagonismo dos blocos ou o mero fisiologismo eleitoral?

Durante as décadas de 1950 e 1960, Alagoas não só esteve incorporada no desenrolar dos fatos nacionais, mas, segundo Douglas Apratto (1992) o microcosmo político do estado esteve amarrado por laços estreitos à evolução do quadro político visita em fins de abril de 1959 de Fidel Castro ao Rio de Janeiro, e a controversa condecoração de Che Guevara com a ―Ordem do Cruzeiro do Sul‖ em agosto de 1961 pelo presidente Jânio Quadros.

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29 brasileiro. De 1946 a 1964, a estrutura partidária que se formará a partir do bloco identificado com o nacionalismo trabalhista será o esteio do que virá a ser o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Alagoas. Na trincheira oposta, os grupos conservadores liberais ocuparão posições importantes na ditadura militar22 reunidos em torno da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Entender o antagonismo desse processo possibilita estabelecer certas permanências e rupturas que estarão presentes no pós 1964.

O período da experiência democrática em Alagoas tem início com Silvestre Péricles, governador entre os anos de 1947-1951, membro do clã oligárquico dos Góis Monteiro. Sua família ganha projeção nacional através da atuação de seu irmão Pedro Aurélio, ministro da Guerra de Vargas e responsável por debelar a Revolução Constitucionalista de 1932. Seu prestígio fará de seus outros dois irmãos interventores estaduais: Ismar e Edgar. A Revolução de 1930, inciada por Vargas contra o jogo político das oligarquias locais, em Alagoas, teve paradoxalmente sua edificação na presença constante desse clã.

Silvestre lança-se candidato após dissidência23 entre os Góis Monteiro. Sua opção revelaria um direcionamento por um Estado intervencionista e mais desembaraçado do mundo oligárquico, afinado com setores mais urbanos, muitos conservadores, descontentes por não participarem do universo político alagoano, incorporando também ―as aspirações da baixa classe média (que) o colocam como

22 Optamos durante o trabalho utilizar o conceito de ditadura militar e não ditadura civil-militar. A Opção, contudo, não excluiu o entendimento da participação de setores civis, mas reforça o caráter de centralismo das principais decisões ensejadas nas cúpulas militares, que permearam o final da década de 1960 e a década de 1970. Dessa forma, nos aproximamos das análises de (FICO, 2004. p.52 ) ―[..]se a preparação do golpe foi de fato ―civil-militar‖, no golpe, propriamente, sobressaiu o papel dos militares. Além das movimentações de tropas, desde o início do regime foi indiscutível a preponderância dos militares, em detrimento das lideranças golpistas civis. […] Se podemos falar de um golpe civil-militar, trata-se, contudo, da implantação de um regime militar — em duas palavras: de uma ditadura militar‖. E de (NAPOLITANO, 2011, p.7) ―[…]parece-me claro de que se trata de um golpe civil-militar, com tem enfatizado a historiografia atual, que se transmuta em um regime militar. […] Se houve participação ativa dos civis no golpe, a partir de 1965, sobretudo, o topo do sistema político e os processos decisórios de alto-nível ficam restritos ao alto comando das Forças Armadas, acessorados por intelectuais orgânicos civis (a ―tecnocracia‖). Obviamente, a elite econômica civil foi sócia e beneficiária do regime militar, com seus prepostos desempenhando papel central na alta burocracia‖.

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30 representante desta e de um movimento operário tutelado pelo estado.‖24. O governo de Silvestre será marcado por inúmeros conflitos políticos, querelas com os poderes legislativo e judiciário, explosões de violências em redutos eleitorais e perseguição ao Partido Comunista, com empastelamento do jornal A Voz do Povo. O discurso silvestrista é marcado por intenso anticomunismo:

[…] Infelizmente, foi bem efêmero o período de harmonia e sossego no nosso campo político. Silvestre não escondia o seu firme propósito de luta sem quartel aos comunistas, e em constantes declarações a respeito do assunto, juntou também os comunistas, os deputados da UDN, que lhe faziam oposição. Anunciou mesmo estar organizando um exército alagoano anti-comunista para o que der e vier.25

A virulência do autoritarismo silvestrista dirigida aos comunistas, udenistas e alguns outros inimigos políticos revela a ambiguidade das ações de seu governo, uma vez que se utiliza da violência clássica das facções oligárquicas como instrumento de combate. Seu ódio aos comunistas e aos udenistas, identificados no seu discurso como ―udeno-comunistas‖, provinha da aliança realizada entre o PCB e a UDN nas eleições estaduais de 1947, através da candidatura do udenista Rui Palmeira. Inconformado, Péricles guardou um profundo rancor do episódio, dizia ―que Alagoas era o único Estado em que as forças vitoriosas do movimento de 30 não ocuparam o poder‖26

. Silvestre, militar como seus irmãos, revestia-se à sui generis do discurso tenentista, na noção de um governo centralizador forte e na implantação da legislação trabalhista, tutelada pelo Estado. Seu governo, no entanto, não avançaria nas questões sociais, apesar de ter apoio de sua ―poeira de ouro‖27. Sua desastrada atuação na esfera das relações políticas e institucionais cristalizaram-se como marcas indeléveis de um período sangrento, levando seu irmão Ismar a vaticinar ―O demônio anda solto em Alagoas: não para, não cansa, enlutando lares, ceifando vidas, traz a família alagoana em constante sobressalto‖28.

24 TENÓRIO, Douglas Apratto. A tragédia do populismo: o impeachment de Muniz Falcão – 2ª ed. Maceió: Edufal, 2007, p.147.

25 LIMA, Mário de Carvalho. Sururu Apimentado: Apontamento para a história política de Alagoas. Maceió, EDUFAL, 1979. p.45.

26TENÓRIO, op. cit. p.102.

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31 Silvestre não representará, apesar do seu inegável apoio popular, um projeto dirigido ao desenvolvimento de Estado com participação social, seu modus operandi marcado pelos constantes confrontos e intolerâncias diversas, afastará paulatinamente seus aliados e eleitores, e suplantará o ideário original do tenentismo nacionalista, baseados na intervenção estatal na economia, eliminação do latifúndio, desenvolvimento das leis trabalhistas29.

Apesar de ser considerado ―a primeira liderança do trabalhismo alagoano‖30, sua atuação nas hostes trabalhistas foram limitadas. O aprofundamento dessas relações serão percebidas só com o advento de Muniz Falcão, governador entre 1956 e 1960, representando em nível local o projeto Nacional-Estatista. Este, pernambucano de Araripina, trazido pelos Góis Monteiro em 1942 para assumir o posto de Delegado do Trabalho e aplicar efetivamente a legislação trabalhista em Alagoas. Sua atuação de fiscalizador do trabalho, num estado predominantemente oligárquico será um dos motivos do ódio mortal que a elite conservadora destilará durante toda sua trajetória. Tendo sua imagem ligada ao clã Góis Monteiro, Muniz Falcão herdará todos os ódios dirigidos ao silvestrismo, todavia,

A diferença entre Muniz e Silvestre é que, apesar de ambos serem personalistas e cultivarem o apoio da massa, o primeiro é mais estruturado, menos dependente das influências locais e com um sentindo de futuro mais forte. Sua consciência ideológica em torno do confronto de classes é mais perceptível, mesmo optando em não aprofundar a questão, para não ultrapassar uma linha de fronteira que não é seu território. Ele sabe que a construção de sua carreira pública não dependeu de pessoas ou grupos familiares, mas dele próprio, escolhendo o caminho que lhe pareceu mais correto, segundo sua consciência moral. Nessa trilha, entende, ademais, que é preciso dar respostas objetivas aos problemas surgidos pela modernização, visando ao que era a pedra filosofal da época: o desenvolvimento econômico. Daí sua luta sincera, buscando reformar a estrutura social vigente em Alagoas, que considera atrasada, elitista, oligárquica, ultrapassada.31

Dissuadido, em sua genealogia, das linhas oligárquicas alagoanas – apesar das relações com o dissidente Góis Monteiro – Muniz inaugurará um projeto político, dentro de suas limitações, de planejamento e modernização do Estado. O discurso

29 PANDOLFI, Dulce Chaves. Os anos 1930: As incertezas do regime.IN: O Brasil Republicano: O tempo do Nacional Estatismo- do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Orgs: FERREIRA, Jorge. DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008, p.22.

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32 desenvolvimentista tem fortes ligações com o cenário nacional. No mesmo período, Juscelino Kubitschek anunciava seu plano de metas ―50 anos em 5‖, com vistas a incentivar a industrialização e dinamizar a economia. Muniz, alinhado à dimensão desenvolvimentista nacional, trará um discurso reformista preocupado com os novos problemas ensejados pelas rápidas mudanças que marcam os anos 1950/1960

O individualismo cego que ainda se observa em certos grupos da sociedade contemporânea, não pode resistir ao impacto das transformações sociais impostas pelo Estado Moderno. Uma nova consciência política se forma em todas as classes e a compreensão desse fenômeno é vital para a sobrevivência do próprio regime. É preciso entender que os bens da sociedade não devem ser apenas privilégios dos poderosos, mas usufruídos por toda comunhão humana.32

Para as elites alagoanas, seu discurso reformista-trabalhista era uma afronta, significava propor alterações alinhadas com o desenvolvimento tutelado pelo Estado. A defesa da participação estatal em causas sociais e trabalhistas era visto com receio e repulsa por colocar como ordem do dia mudanças que pretendiam mexer no secular patrimonialismo no qual a coisa pública sempre foi gerida33. Mesmo não ―ultrapassando a fronteira de seu território‖ sua atuação será a efetiva experiência do trabalhismo em Alagoas, capaz de agregar tanto usineiros e coronéis do sertão como comunistas, numa frente ampla, com um projeto nitidamente progressista.

Com uma visão progressista e reformista, próximo do que João Goulart faria entre 1961 e 1964, Muniz Falcão atraiu para perto de si todo o contingente de trabalhistas, socialistas e comunistas alagoanos. Estes últimos em especial, pois seu mandato foi o único momento em que o PCB e seus militantes não foram perseguidos e o jornal A Voz do Povo funcionou normalmente. Muniz Falcão tentou atrair e conseguir apoio de parte da elite. Ou pelo menos neutralizá-la. Em especial, os industriais, entre os quais se destacavam os produtores de açúcar e os têxteis.34

Estabelecendo o diálogo, defendendo a liberdade de imprensa e principalmente

32Arquivo Público de Alagoas – Mensagem à Assembleia Legislativa – Governo Muniz Falcão apud SALDANHA, Alberto. Governadores Alagoanos e os ―Tempos de Antes. Revista Crítica Histórica, Maceió, Ano I, Nº 1, Junho, 2010. p.69

33 Sobre o assunto ver: FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Edição comemorativa 50 anos. 4.ed. São Paulo: Globo, 2008.

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33 planejando o Estado, Muniz tornou-se ―a primeira experiência alagoana, e uma das primeiras do país de planejamento sistemático‖, cristalizando no Estado a expressão ―modelo de desenvolvimento‖ através de um plano governamental com definição de objetivos e estratégias de ação‖35. Muniz, dessa forma, identificou-se com a proposta Nacional-Estatista, no sentido que, através de sua atuação trabalhista, compôs alianças para um processo de unificação em torno da modernização e do progresso, tendo como tutor e fiscalizador dessas transformações o próprio Estado.

Sua atuação, contudo, dentro desse projeto será alvo de constantes ataques. No primeiro ano de seu mandato, propôs a Taxa Pró-Economia, Educação e Saúde36, taxando a produção de açúcar para realização de melhorias no Estado. Essa medida reformista será um dos motivos que levará seus adversários a inciarem uma campanha pelo seu impeachment. No dia 13 de setembro de 1957, dia da votação do impedimento de Muniz, um violento tiroteio é deflagrado em plena Assembleia Legislativa, exemplo radical do confronto entre os liberais conservadores e o bloco trabalhista. Afastado do governo, Muniz só retornaria em 24 de janeiro de 1958. Alguns anos depois em 1965, Muniz Falcão elege-se novamente governador, porém é mais uma vez preterido em face da não homologação do seu nome pela Assembleia Legislativa. Seu papel de opositor ao bloco liberal-conservador, desalinhado dos intentos das elites, gestará a construção de uma imagem de luta, de oposição, que servirá de bandeira emedebista pós 1964.

Se o bloco Nacional-Estatista tem sua atuação em Alagoas através da figura trabalhista de Muniz, é importante destacar que não é do esteio do PTB que trabalhistas terão sua maior representação, mas do Partido Social Trabalhista (PST)37 , agremiação que será a base para a posterior estruturação do PTB em Alagoas.38 O papel do PST, entretanto, seria após a saída de Muniz em 1954 substituído pela atuação do Partido Social Progressista (PSP)39. Em 1962, a bancada pessepista contava com 7 deputados

35TENÓRIO, op. cit. p.218.

36Lei 2.013, de 22/10/1956, tinha o intuito de ―fomentar as atividades econômicas e promover o desenvolvimento dos serviços de educação em saúde pública do Estado‖. (Art.1º) Cf. TENÓRIO, p.254. 37 Existiu entre os anos de 1946 e 1965, criado por dissidentes do antigo PTB ,De pequena expressão, em

Alagoas elegeu Silvestre Péricles senador em 1958, foi extinto pelo AI-2.

38 TENÓRIO, op. cit. pp.121-122.

39 Fundado em São Paulo por Ademar de Barros, em junho de 1946. Criado a partir do Partido

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34 estaduais40, adquirindo expressão e se consolidando como bloco nacional trabalhista em detrimento da liderança nacional do PTB e da própria Frente Democrática Trabalhista alagoana, composta pelo PSD-PTB-PRP. Dos seus quadros, aglutinam-se nomes como Elísio Maia, Rubens de Mendonça Canuto, Luiz Gonzaga Moreira Coutinho, Robson Tavares Mendes, Cleto Marques Luz, Muniz Falcão, todos esses integrados posteriormente ao MDB.

Do lado liberal-conservador, Arnon Afonso de Farias de Mello, governador entre os anos de 1951 e 1956 pela UDN, pertencente à classe oligárquica do açúcar, chegou ao governo com um discurso modernizador e pacificador, utilizando como contraponto a administração caótica de Silvestre Péricles. Seu discurso visava criar ―um clima de tranquilidade, indispensável à recuperação do Estado após a fase de terríveis agitações e arbitrariedades que vencera‖ seu intuito era combater ―a ligação entre a noção de governo e violência característica do governo anterior‖41. Apesar de sua retórica apontar para a ―paz‖, manteve como no governo anterior, ostensiva perseguição aos comunistas, utilizando da mesma truculência no empastelamento do jornal A Voz do Povo. Denunciavam os comunistas

Arnon não pode continuar! É uma afronta ao povo que ele quis mergulhar numa ditadura militar fascista. Fora com esse golpista salteador de jornais. […] Avante com a Voz do Povo! Tudo pela renúncia do golpista Arnon! Exijamos a punição dos golpistas assaltadores de jornais democratas e populares!42

Arnon representava o discurso do falso liberalismo udenista, compromissado muito mais com a ofensiva conservadora na manutenção das velhas estruturas sociais de dominação do que com uma mentalidade progressista e não autoritária. Seu governo coincide na esfera federal com a volta de Vargas ao poder, período em que a radicalização e os intentos golpistas udenistas afloram na política nacional.

A UDN alagoana tinha a mesma concepção do diretório nacional: o partido das elites, dos bacharéis, com a presença de alguns jornalistas e parte das Forças Armadas. A postura decisiva contra os trabalhadores e contra seus

40 SÁ JÚNIOR, Heider Lisboa de. A Justiça Eleitoral em Alagoas. Maceió: Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, 2008, p.199

41MELLO, Arnon de. Uma Experiência de Governo. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1958 Apud op. cit. SALDANHA, 2010, p.61.

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35 opositores trabalhistas e comunistas seria um traço marcante de sua atuação. Mas a UDN alagoana era principalmente o partido das elites agrárias, ligadas ao açúcar e descendentes dos senhores de engenho, com os bacharéis e jornalistas filiados ao partido forjando uma faceta liberal e moderna dentro desta UDN fortemente agrária e conservadora.43

Surgido no seio das elites agrárias, Arnon personificou o projeto liberal-conservador, ao mesmo tempo que desenvolveu projetos como a integração dos municípios através de investimentos rodoviários, criação da Companhia de desenvolvimento de Alagoas (CODEAL), criação do Banco do Estado de Alagoas (PRODUBAN) possibilitando um significativo avanço nas questões de desenvolvimento do estado – diga-se de passagem, uma modernização conservadora44– não abre mão da utilização da repressão às causas sociais e dos interesses da classe que representa.

Prestigiei o trabalhador sem pretender destruir o patrão, pois no bom entendimento entre o trabalho e o capital está, dentro do nosso regime, o interesse de ambos […] As classes produtoras sempre mereceram de mim todo o acatamento. Não cuidei apenas de fazer o bem, mas procurei sempre evitar e neutralizar o mal, prevenindo acontecimentos e reduzindo ou fazendo desaparecer consequências deles que não se ajustassem à tranquilidade dos alagoanos.45

Seu discurso pela ―paz‖ ―renovação‖ ―liberdade e progresso‖ é na verdade a defesa de uma alternativa de desenvolvimento do estado que não estivesse atrelada à participação social, conduzida pelas velhas elites agrárias, agora revestidas de facetas modernizantes. Os grupos liberais conservadores que surgem pós 1945, grande parte oriundo das antigas estruturas agrárias, tentavam a todo custo se manterem como os condutores dos processos de transformação social e econômico emergentes. Essa meta entraria em choque com qualquer projeto que visasse propor novos caminhos no desenvolvimento nacional, principalmente aqueles que possuíam estreita relação com a

43 COSTA, Rodrigo José da. O golpe civil-militar em Alagoas: o governo Luiz Cavalcante e as lutas sociais (1961-1964). (Dissertação de mestrado – Recife: UFPE, 2013. p.44.

44O conceito ―Modernização Conservadora‖ é trabalhado por Barrington Moore (1975), para analisar as revoluções burguesas que aconteceram na Alemanha e no Japão na passagem das economias pré-industriais para as economias capitalistas e pré-industriais. Neste sentido, o eixo central do processo desencadeado pela modernização conservadora é entender como o pacto político tecido entre as elites dominantes condicionou o desenvolvimento capitalista nestes países, conduzindo-os para regimes políticos autocráticos e totalitários.

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36 abertura para participação política de trabalhadores, ampliando o escopo democrático fora do universo demagógico discursivo.

Desse modo, para Arnon, manter a ―tranquilidade‖ e a ordem, é nada mais do que conservar o predomínio das antigas teias de poder, alicerçadas tão firmemente na configuração de um Estado autoritário e oligárquico. Muitos membros de seu partido, a UDN, serão os primeiros a identificaram-se com o golpe militar de 1964, alguns ocupando cargos importantes até o fim da ditadura. Afrânio Lages, Oséas Cardoso, Siloé Tavares, Areski Freitas, Antônio Gomes de Barros, Manoel Sampaio Luz, Jorge Duarte Quintela Cavalcante, Luiz de Souza Cavalcante, entre outros, são exemplos de udenistas que viriam a integrar a ARENA.

Luiz de Souza Cavalcante, o ―Major Luiz‖, eleito pela coligação (UDN-PL), 1960-1966, será o último governador antes da instauração da ditadura militar, e dará continuação ao projeto liberal-conservador de Arnon. Sua eleição após a gestão de Muniz Falcão foi concretizada devido ao racha que marcou as eleições em 1960 no lado nacional trabalhista, que no pleito apresentou três candidaturas independentes, Abrahão de Fidélis Moura (PSP), Silvestre Péricles (PDC) e Ari Pitombo (PTB-PSD)46. A volta da UDN ao poder estadual representou nas áreas sociais um intenso retrocesso na política de conciliação desenvolvida por Muniz Falcão.

Luiz Cavalcante, à medida que representava um bloco composto por liberais conservadores, oligarquias ligadas ao setor agrário e um segmento militar igualmente conservador, promoveu uma política que ainda que retoricamente se dirigisse ―as classes trabalhadoras‖, excluía a estas últimas, de forma que as mobilizações empreendidas pelos trabalhadores, organizados em sindicatos ou não, eram muitas vezes tachadas de subversão, ou de comunização.47

Apesar da sua ótica repressiva no campo trabalhista, Cavalcante, assim como seu antecessor udenista, procurou elaborar um projeto de modernização do estado. Em 1962, lança o Plano Trienal com o intuito de racionalizar a administração pública ―procurava transformar Alagoas num Estado com projeção nacional no que se refere à gestão de alguns setores, como: Educação, Saúde, Segurança e Assistência Social.‖48. Ainda segundo Costa:

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37 Os grandes objetivos a serem alcançados com a execução do plano estavam divididos em: melhoria das condições do homem, incluindo saneamento, saúde pública, habitação, serviço social, educação e cultura, recreação, justiça e segurança. No campo da Infraestrutura foram contempladas a implementação de energia elétrica e rodovias, além da expansão agrícola e industrial, tendo como metas específicas o desenvolvimento agrícola, o desenvolvimento industrial e o Banco da Produção.49

Essas medidas, aliadas à intensa repressão aos movimentos sociais, objetivavam manter o controle de uma sociedade que anos antes experimentara no Governo de Muniz significativo avanço e incentivo ao desenvolvimento de Alagoas, com base no diálogo com as classes baixa e média. O alargamento das obras nas diversas áreas que compunham o Estado visavam um modelo de desenvolvimento excludente, que tutelava as transformações de cima para baixo. No campo rural, o desenvolvimento proposto aliava-se a uma concepção de constante controle e repressão, frequentemente denunciados:

Mais das vezes (sic) temos denunciado as arbitrariedades e as inomináveis violências de que tem sido vítimas os trabalhadores rurais em nosso Estado. Para o governo do sr. Luiz Cavalcanti, a organização dos trabalhadores de campo em sindicatos é crime inafiançável, para cuja execução, a sua política está sempre atenta, para juntamente com os vigias e capangas dos usineiros e latifundiários prender e espancar camponeses […] Este é o governo de paz, cujas reivindicações dos camponeses, operários e estudantes é pura e simplesmente um caso de polícia.50

A mínima organização dos trabalhadores do campo para o bloco liberal conservador poderia ser o embrião que germinaria na defesa da Reforma Agrária, espectro tão ameaçador para as classes produtoras ligadas à monocultura da cana-de-açúcar. Além do mais, o vizinho estado pernambucano na década de 1960 despontava com a politização rural através das Ligas Camponesas51. A questão do campo, desta forma, era um ponto delicadíssimo na condução da modernização do Estado.

49 Ibidem, p.61

50Sindicalização Rural em Alagoas é caso de Polícia: A Voz do Povo. Maceió. 20/10/1963. ANO XVII, Nº 39. p.1

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