OS ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO SUL NO PERÍODO DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

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OS ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO SUL NO PERÍODO DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

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OS ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO SUL NO PERÍODO DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

Trabalho final de graduação apresentado ao curso de História- Licenciatura, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aquisição do grau de licenciada em História.

Orientador: Genivaldo Gonçalves Pinto

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Trabalho final de graduação apresentado ao curso de História- Licenciatura, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aquisição do grau de licenciada em História.

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_____________________________________________ Prof. Genivaldo Gonçalves Pinto – Orientador (UNIFRA)

_________________________________

Profª. Janaina Souza Teixeira (UNIFRA)

___________________________________ Prof. Luís Augusto Ebling Farinatti (UFSM)

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RESUMO

O presente trabalho objetivou investigar como se deu a participação dos escravos no período da Revolução Farroupilha através de uma pesquisa bibliográfica. Pretendeu-se rever a historiografia sobre o tema a partir de uma abordagem com elementos da História Social envolvendo considerações da História Econômica e Política. Diante dos argumentos exumados a partir da bibliografia basilar, constatou-se que os escravos tiveram participação crucial na economia da Província do Rio Grande do Sul, cujo desenvolvimento proporcionou uma significativa taxa de crescimento demográfico e arquitetônico, transparecendo na estética urbana elementos de pura semelhança européias contemporâneas, somados a estilos ecléticos inclusive. Durante a Revolução Farroupilha, marco inflexível na História Regional e do Brasil, o escravo teve destacada importância política e militar. Importância política, em virtude de ter sido alvo de disputas tanto pelos imperiais quanto dos farrapos. Para qualquer dos lados que pendesse a sua presença numerosa, influiria como o fiel da balança, para o sucesso de um grupo em detrimento do insucesso do outro. Importância militar, porque sua presença nas forças revoltosas proporcionava ou mantinha um significativo poder de combate, fundamental para a causa. Decorre disso que a inclemência imperial tentou a todo custo minimizar, administrativamente, o poder farrapo, provocando uma baixa em seu efetivo negro, contudo não obteve sucesso. O êxito só foi conseguido no plano arquitetado por Caxias e Canabarro, na Surpresa de Porongos, onde quase todo o efetivo de lanceiros negros foram covardemente mortos. Seu sacrifício, um epitáfio político, é um dos alicerces da história do Estado do Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: Escravo. Rio Grande do Sul. Trabalho. Revolução Farroupilha.

ABSTRACT

The aim of this work was to investigate how the participation of slaves in the age of the Farroupilha Revolution came about through bibliographic research. The intention was to look at the historiography of the theme based on studies which include elements of Social History involving Economic History and Politics. Looking at arguments extracted from the fundamental bibliography, it was found that the slaves had a crucial role in the economy of the Province of Rio Grande do Sul, whose development caused a significant rate of demographic and architectural growth, creating elements of similarity in urban aesthetics to contemporary Europe, coupled with eclectic styles. During the Farroupilha Revolution, a fixed point in regional and national history, the slaves had marked political and military importance. They obtained political importance because they had been the focus of disputes between imperials and “farrapos” (Farroupilha soldiers) alike. To whichever side they gave their strong presence, they would have a strong influence, providing the success of one group and the failure of the other. Their military importance came from the fact that their presence in the revolutionary forces provided, or maintained, significant combat power, which was fundamental for the cause. Meanwhile, imperial inclemency tried at all costs to minimise, administratively, the power of the “farrapos”, creating a decline in their body of black slaves, but they were unsuccessful. Success was only achieved through a plan contrived by Caxias and Canabarro in the “Surprise of the Porongos”, where almost all the body of black lancers were pointlessly killed. Their sacrifice, a political epitaph, is one of the foundations of the history of the state of Rio Grande do Sul.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 3

2 PRODUÇÃO ECONÔMICA NO RIO GRANDE DO SUL DA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX (1801-1850)... 5

3 PARTICIPAÇÃO DOS ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO SUL DO SÉCULO XIX... 8

4 REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835-1845)... 11

5 PARTICIPAÇÃO DOS ESCRAVOS NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA... 15

6 CONCLUSÃO... 19

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 20

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1 INTRODUÇÃO

Este trabalho discute uma importante temática na área de estudos da história do Rio Grande do Sul, qual seja, os escravos no Estado, no período da Revolução Farroupilha.

Segundo Flores (2004, p. 28), “o governo republicano usou negros e mulatos” para o trabalho burocrático e também no exército e na marinha. A presença do negro é marcada por várias atividades nesse período histórico do Rio Grande do Sul, sendo a economia e a cultura muito influenciadas pela presença do negro no início do século XIX.

Diante disso, delineou-se o seguinte problema de pesquisa: como se deu a participação dos escravos na Revolução Farroupilha?

O objetivo geral consiste em conhecer o papel dos escravos na Revolução Farroupilha.

Tendo como objetivos específicos, identificar as principais atividades econômicas existentes no RS, no século XIX; entender como os escravos se inseriram nas atividades econômicas no RS; listar as principais motivações da Revolução Farroupilha e analisar a forma da participação dos escravos na Revolução Farroupilha.

Este estudo se justifica, considerando que existe necessidade de esclarecer os dados históricos que mostram a importância dos escravos na Revolução Farroupilha. Os “mitos” que ainda podem ser encontrados em parte das obras sobre o tema e o que certamente foi vivenciado nesse período histórico povoam a mente dos pesquisadores da área e instigam o surgimento de novas pesquisas. Para além disso, compreender a história desse período no Estado do Rio Grande do Sul possibilita a compreensão do presente momento histórico, permitindo que as questões sociais, econômicas e culturais possam ser mais bem compreendidas a partir do esclarecimento desse período da história.

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2 PRODUÇÃO ECONÔMICA NO RIO GRANDE DO SUL DA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX(1801-1850)

No século XVIII e no começo do século XIX, a Província do Rio Grande do Sul destacou-se economicamente no mercado interno brasileiro, principalmente pelas produções de trigo e charque1. A produção tritícola sul-rio-grandense atingiu seu auge entre os anos de 1787 e 1813, tendo entrado em decadência a partir da década de 1820, devido a uma praga chamada ferrugem, e à concorrência externa do trigo norte-americano. “Os principais mercados consumidores do trigo sul-rio-grandense eram o Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco” (KÜHN, 2002, p.65).

A primeira fase da pecuária foi caracterizada pela criação do gado selvagem, ou seja, pela “caça” aos animais soltos nos campos, e, na segunda fase, foi associada à produção de charque. A atividade charqueadora já existia no continente antes de 1780, mas não como atividade mercantil.

A primeira charqueada comercial estava voltada para a exportação e foi implantada por José Pinto Martins2 às margens do Arroio Pelotas, em terreno concedido pelo governo. O desenvolvimento da charqueada teve a influência de três fatores, quais sejam, uma efêmera situação de paz por conseqüência da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso (1777), permitindo a expansão das estâncias de criação sobre as novas terras, e a influência das secas ocorridas no Nordeste (Ceará, Piauí e Bahia), nas décadas de 1770 e 1790, que desarticularam a produção de carne seca naquelas regiões (KÜHN, 2002). “Os principais mercados consumidores do charque sul-rio-grandense eram o Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco” (KÜHN, 2002, p. 68).

No final do século XVIII, o charque tornou-se o primeiro produto de exportação do Vice-reinado do Prata, reorientando a criação de gado para fins mercantis. Através da criação de gado e da produção de charque, o Rio Grande do Sul integrou-se à economia central de exportação como abastecedora do mercado interno. O escravo foi a mão de obra por excelência na charqueada, mas não na estância, onde ele apareceu desde o início sem, contudo, ser fundamental no processo produtivo.

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Carne de vaca ou boi, salgada e cortada em mantas. 2

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As duas principais conseqüências do desenvolvimento da economia charqueadora foram a valorização do rebanho bovino e o aumento do número de escravos africanos, utilizados como mão de obra preferencial.

A charqueada aumentou a utilização da mão de obra escrava no Rio Grande do Sul, o que levou os charqueadores a ter certa dependência em relação aos traficantes de escravos, além de criar problemas de competição com o charque platino, que utilizava a mão de obra livre.

Junto com a atividade charqueadora, foi criado um mercado regional para o gado no Rio Grande do Sul, em que os lucros maiores eram obtidos pelos charqueadores, em prejuízo dos criadores.

As charqueadas foram estabelecidas em diversas partes da Província: existiam estabelecimentos na Região do Rio Jacuí, nas lagunas dos Patos e Mirim, em Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e Jaguarão, entre outras localidades.

Pela sua excelente posição geográfica, Pelotas passou a ser o grande centro charqueador sul-rio-grandense. Entre os motivos do sucesso das charqueadas pelotenses estavam o fácil acesso aos rebanhos de gado da campanha e as vias navegáveis de escoamento pelo Canal de São Gonçalo até ganhar o Oceano Atlântico, através do porto de Rio Grande3.

Apesar da importância da charqueada para a economia sul-rio-grandense, não se pode definir o século XIX somente por essa atividade. A atividade da pecuária era a mais relevante, mas, em outras regiões da província, novos modelos sociais e econômicos começavam a se desenvolver. A produção sul-rio-grandense de erva-mate abastecia o mercado interno regional e também era exportada para a região do Prata.

A vinda dos imigrantes para o Brasil, no século XIX, foi um fato que se inseriu no processo mais amplo da expansão do capitalismo em nível mundial. No que diz respeito às nações que receberam imigração, como o Brasil, a inserção no processo fortificava-se na medida em que, internamente, ocorria a transição da mão de obra escrava para a mão de obra livre.

No que toca à inserção do Rio Grande do Sul neste processo de escolha das localidades para onde seguiriam os imigrantes, a província concorria com o centro

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cafeicultor do eixo São Paulo – Rio de Janeiro, notadamente quanto aos imigrantes alemães e italianos, que aqui chegaram em 1824 e 1875, respectivamente.

A partir da década de 1840, seguindo até a de 1870, é possível evidenciar o desenvolvimento de uma agricultura comercial de gêneros de subsistência para a capital da província.

Antes da década de 1890, a indústria estava concentrada no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, em Pelotas, visando mais ao abastecimento do mercado nacional do que às necessidades locais.

A elevada concentração fundiária, que impedia um crescimento demográfico mais acentuado, era um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura de subsistência, considerando que os latifundiários davam maior importância à criação de gado.

Um dos grandes problemas naquele período era a falta de mão de obra livre, fator contributivo para a manutenção e incremento do negócio de escravos para tocar as atividades dos estabelecimentos.

As limitações da agricultura de subsistência tinham como reflexo a geração de problemas de abastecimento e de carestia, que eram agravados pela precária estrutura detransporte.

A história da agricultura para o mercado interno do Sul apresentou-se em três fases básicas: a primeira, desenvolvida pelos colonos açorianos na produção de trigo; a segunda, caracterizou-se por um período de abandono da agricultura em favor da criação de gado e, a última, é identificada como a da expansão da produção agrícola a partir a imigração de colonos alemães e à colonização das terras florestais.

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3 PARTICIPAÇÃO DOS ESCRAVOS NO RIO GRANDE DO SUL DO SÉCULO XIX

O escravo era utilizado de diversas formas no Brasil Meridional. De acordo com a área considerada, inseriu-se num momento histórico, no plano da economia mercantil organizada para atender os estímulos implementados nas áreas mais desenvolvidas do país bem como da região do Prata, ou para organizar-se em uma economia de subsistência.

Existiam negros escravos desde a primeira metade do século XVIII, no início da formação do Rio Grande do Sul. De acordo com Cardoso (1997, p. 48), o “escravo foi utilizado somente em escala restrita na economia das vilas fortificadas e nos currais, que retinham o gado preado”.

O comércio, e em alguns casos o contrabando de negros escravos com o Rio da Prata, foi insistente, embora as fontes de informação para avaliar a importância numérica dessa atividade sejam escassas e precárias.

Para a produção de trigo no Rio Grande do Sul do início do século XIX, optou-se parcialmente pela mão de obra escrava e, mesmo assim, não optou-se explica a maioria de negros na população do Rio Grande, no começo do século XIX. Pode-se compreender que, além de realizarem trabalhos diversos, “houve outro canal regular de absorção da mão de obra escrava na economia gaúcha: a estância e o charque” (CARDOSO, 1997, p.60).

Foi através da indústria do charque que o trabalho do escravo tornou-se regular e mais intenso. A indústria do charque, apesar dos vários períodos de crise pelos quais passou, constituiu-se, durante todo o século XIX, o setor da economia gaúcha que mais utilizou o trabalho escravo.

O Sul não se diferenciou das demais regiões do Brasil em relação à utilização da mão de obra escrava. Exemplo disso é que, nas cidades, nos serviços domésticos e no artesanato, também existiu a participação da mão de obra negra. Salienta-se que sua participação no sistema artesanal urbano colaborou para a “integração dos negros a sociedade de classes” (CARDOSO, 1997, p. 78).

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As maiores fazendas pastoris da Região da Campanha também foram povoadas com grande número de cativos, que se dedicavam às atividades domésticas, também nas das roças e da pecuária.

Já no Uruguai, o escravismo foi uma relação social de produção dependente, mas não dominante. Os escravos negros dedicavam-se às tarefas domésticas, não produtivas. O escravo, no saladeiro, ao contrário do Rio Grande do Sul, ocupou um papel secundário mas não essencial, desde as primeiras décadas do século XIX.

Durante os anos de 1845-52, enquanto se extinguia a escravidão no Uruguai, o contrabando de cativos pelos criadores sulinos e uruguaios, desde os departamentos setentrionais daquele país para o Rio Grande do Sul, contribuiu decisivamente para o crescimento da população cativa sul-rio-grandense.

Através das dificuldades que o escravismo impôs à charqueada sul-rio-grandense, deve-se explicar a quantidade dos escravos no conjunto das inversões do charqueador, principalmente, devido a ser esta “inversão inicial de compra de escravos” própria e específica do modo de produção escravista e determinante para sua economia política (MAESTRI, 1984).

A historiografia mais recente começa a reconhecer que a produção da pecuária se realizava no Rio Grande do Sul também por meio de uma combinação de trabalho escravo e livre.

A escravidão, nas regiões nas quais predominava a atividade da pecuária, não é um dos temas mais usados na historiografia brasileira. Com uma produção voltada para o mercado interno e para a economia exportadora, por muito tempo a criação de gado foi vista como uma atividade que, muitas vezes, não proporcionava acumulação de capital suficiente para sustentar a incorporação contínua de trabalhadores cativos.

O Rio Grande do Sul foi uma das mais importantes zonas de criação de gado dos séculos XVIII e XIX. Ficou demonstrada a centralidade das relações escravistas nas charqueadas, principal elo entre a economia sulina e as áreas da grande lavoura, em outras regiões do Brasil ao longo do séculoXIX.

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Os escravos constituíam de forma efetiva o conjunto de mão-de-obra das estâncias, ao lado dos trabalhadores livres. O costeio do gado, atividade principal dos estabelecimentos pecuários, seguia sendo descrito como domínio quase que exclusivo dos peões livres. Ali, a utilização dos escravos teria sido apenas eventual e menos ocasional (FARINATTI, 2006, p.2).

O autor supracitado aponta que os escravos foram importantes tanto nas lavouras de pequena extensão ou não, dentro das estâncias como no costeio do gado, esta última atividade realizada ao lado dos peões livres.

A proporção da quantidade de africanos e crioulos entre pequenos, médios e grandes criadores de gado estava menos para o tamanho do rebanho do que para o número de homens adultos, mulheres e crianças, exigindo, assim, a existência de uma maior especialização nas atividades a que eram destinados.

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4 REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835-1845)

A Revolução Farroupilha foi uma revolta promovida por parte da elite sul-rio-grandense contra o governo imperial e seus aliados na Província. Essa rebelião ocorreu entre 1835 e 1845, e resultou na declaração de independência da República Rio-grandense, em 1836. A república nunca foi reconhecida pelo Império do Brasil, mas chegou a ter presidente, ministros e até uma assembléia constituinte.

As principais causas do conflito são múltiplas, mas podem se resumir dois temas básicos: insatisfação com a condição econômica desfavorável a que era submetida a Província, principalmente quanto a tarifas e também às questões políticas que não haviam sido resolvidas entre o governo do Império e as elites locais para a administração da Província.

No início do século XIX, deu-se a conquista, pelos luso-brasileiros, do território que hoje é a metade oeste do Rio Grande do Sul. Esse era um espaço disputado entre as coroas ibéricas. Com a efetiva conquista portuguesa das Missões, desde o fim da Guerra Guaranítica, em 1756, os criadores de gado se estabeleceram no antigo território dos Sete Povos das Missões Guaranis, que antes pertencia ao Império Espanhol. As melhores terras da Província para a criação de gado ficavam ao sul do Rio Ibicuí, “na Campanha, as pastagens do sudoeste, pendendo para o vale do Uruguai e a bacia do Prata” (LEITMAN,1979, p.16).

Os proprietários brasileiros estabeleceram-se também ao norte do Rio Negro, em uma região que ficou pertencendo à República Oriental do Uruguai, após o fim das Guerras Cisplatinas, em 1828. Aproximadamente no final da Guerra dos Farrapos, uma das maiores estâncias abrangia 60 léguas quadradas. De acordo com Leitman (1979, p. 23), existia um “número muito grande de escravos em quase todas as estâncias”.

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O gado produzido nas estâncias era enviado às charqueadas de Pelotas e do Jacuí. Dali o charque era comercializado para as regiões de “plantations” do Sudeste e do Nordeste do Brasil.

No princípio do século XIX, o Rio Grande do Sul já tinha definido o seu perfil sócio-econômico: grande fornecedor para o mercado interno brasileiro e uma sociedade militarizada forjada nas lutas contínuas contra os castelhanos (PESAVENTO, 1985, p. 23).

Foi com o charque que a economia sul-rio-grandense encontrou a sua colaboração de abastecedor do mercado interno brasileiro. O salgamento da carne já era praticado no Rio Grande do Sul, mais foi só no final do século XVIII que essa atividade passou a ser realizada em escala comercial, destinada ao abastecimento do restante do Brasil, onde o charque era utilizado como alimento dos escravos.

Nas zonas de guerra, a pecuária representava um perigo menor do que a agricultura. À medida que os luso-brasileiros entravam na Cisplatina, no período de 1811 a 1825, o cultivo de trigo começou a cair. Enquanto isso, a indústria da charqueada local expandiu-se rapidamente. Os sul-rio-grandenses começaram a criar gado na Banda Oriental, fazendo grandes estoques. O preço do gado subiu, atraindo os homens para a pecuária, com isso tornando-se um negócio lucrativo e afastando-os das atividades agrícolas. As guerras colaboraram para uma grande transformação na indústria de carne sul-rio-grandense, assim como para a sociedade. Os estabelecimentos de charque surgiram em Pelotas e ao longo do Rio Guaíba. O gado da Banda Oriental, vendido a preço muito baixo, e a interrupção do funcionamento das indústrias de carne salgada (os “saladeros”) de Montevidéu, em razão das guerras de independência, colaboraram para o sucesso dos sul-rio-grandenses.

Os estancieiros e charqueadores protestavam contra os impostos. Os primeiros tinham dois interesses: o mercado externo de couro e o mercado interno de carne salgada. Com os protestos, tentavam influenciar de certa maneira apolítica brasileira, exigindo impostos maiores para as importações de seus competidores e taxas mais baixas para suas exportações.

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fronteiriço, principalmente. Na primeira metade da década de 1830, foram muitos os conflitos com os governantes da Província do Rio Grande do Sul, nomeados pelo poder central contrariando os interesses políticos e econômicos da elite sul-rio-grandense.

Existia certa esperança no Rio Grande do Sul, nos primeiros anos da década de 1830, de que novas idéias liberais dos círculos governamentais do Rio de Janeiro resolveriam muitos problemas políticos e econômicos sul-rio-grandenses.

O início da revolta farroupilha se deu em 20 de setembro de 1835, em razão da frustração com o fato dos liberais não terem atendido às pretensões federalistas dos grupos sul-rio-grandenses mais radicais. Além disso, como já foi dito, havia descontentamento com os impostos pagos pelo charque gaúcho e seu desfavorecimento em relação à concorrência do charque platino. O presidente da província e o comandante de armas tinham destituído Bento Gonçalves e Bento Manoel Ribeiro, grandes chefes da Guarda Nacional, de seus postos de comandantes da fronteira. Estes tornaram-se os líderes do nascedouro da Revolução Farroupilha.

Em seu momento inicial, a Revolução Farroupilha não tinha claramentecomo objetivo a separação e o republicanismo, mas, sim, a substituição dos representantes do governo central (LEITMAN, 1979, p.25). Na verdade, havia dois grupos entre os farroupilhas. De um lado, estavam os que pretendiam apenas a modificação da presidência da província, liderados por Bento Manuel e, de outro, os liberais exaltados, liderados por Bento Gonçalves, que tinham projetos mais radicais, como a monarquia federativa ou até mesmo a separação e a república.

O movimento teve um ritmo crescente até mais ou menos 1839, com a conquista de Pelotas e Rio Pardo e a invasão de Santa Catarina. Em Laguna, Garibaldi e Davi Canabarro fundaram a República Juliana (PESAVENTO, 1980).

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5 PARTICIPAÇÃO DOS ESCRAVOS NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

Como foi visto, havia escravos nas diversas atividades econômicas da Província do Rio Grande do Sul, na época da Revolução Farroupilha. Isso se dava inclusive nas grandes estâncias do interior. A população rural se dividiu na guerra entre os farroupilhas e os imperiais. Os farroupilhas utilizaram escravos em suas fileiras e prometeram a liberdade para aqueles que lutassem pela causa da república. Porém, esses escravos vinham, de preferência, das propriedades dos legalistas imperiais e não das próprias estâncias e charqueadas dos farroupilhas. Muitos destes mantiveram seus escravos trabalhando em seus estabelecimentos ou tentaram enviá-los para novas propriedades no Uruguai, como fez Domingos José de Almeida, ministro da fazenda da República sul-rio-grandense.

O objetivo dos revolucionários era desequilibrar os legalistas, alistando sua mão de obra, os escravos, a quem prometiam liberdade em troca do serviço militar. Quando o escravo dos legalistas era capturado, podia escolher entre servir ao exército republicano ou continuar como escravo, agora sendo propriedade do Tesouro Nacional dos farroupilhas. O escravo de propriedade do governo republicano podia ser alugado aos oficiais do exército e aos cidadãos.

Assim, pode-se perceber que o fato dos farroupilhas prometerem a liberdade para os escravos que lutassem em seu exército não significou que a república sul-rio-grandense fosse antiescravista. Ao contrário, a república nunca aboliu a escravidão em seu território e a liberdade para os escravos não constou em seu projeto de constituição. A escravidão era uma instituição importante na economia pecuária das grandes estâncias e das charqueadas, e o governo republicano não estava disposto a abrir mão dela.

Existia distinção de homens livres, isto porque era permitida a existência de outros não-livres. Mantendo, desta forma, os diferentes tipos de status ou de classes dentro da mesma população, o projeto de Constituiçãonão dava aos libertos direitos políticos, excluindo-os das eleições paroquiais e impedindo-os de votar nas eleições para deputados, senadores e conselheiros do Estado (FLORES, 2004).

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Por outro lado, os imperiais também buscaram desestabilizar o exército farroupilha e fizeram propostas aos escravos que lutavam do lado republicano. O escravo que abandonasse os republicanos receberia perdão e seria enviado para fora da província, à custa do governo imperial, a fim de evitar qualquer vingançapor parte dos rebeldes (FLORES, 2004, p. 32).

O governo imperial tinha como objetivo minar as forças militares dos republicanos, que tinham a colaboração de negros em sua infantaria, a única arma capaz de manter o terreno conquistado, pois a maior parte do exército farroupilha era composta de cavalaria, arma de ataque que necessitava de apoio da infantaria.

A cavalaria republicana era composta pelos guardas nacionais que se desmobilizavam, após os combates, até que, quando necessário, fossem reunidos para a próxima missão. Os negros, por serem libertos, continuavam reunidos em acampamentos, mantendo sempre seu potencial bélico.

Outra forma de admissão dos escravos no exército farroupilha ocorria quando um senhor de escravo substituía seu filho por um escravo seu com a carta de liberdade. Aquele podia então ser dispensado do serviço militar. Enquanto o liberto permanecesse nas fileiras do exército, seu antigo dono teria a isenção do serviço em campanha (FLORES, 2004).

A principal participação dos escravos nas forças farroupilhas se deu no Corpo de Lanceiros, fazendo parte da infantaria, ao lado de índios e mulatos.

Também foi determinado que todo homem de cor negra a serviço da república quedesertasse ou fugisse para o inimigo retornaria a condição de escravo. Existia um pacto entre os escravos que optavam por servir na Infantaria ou no Corpo de Lanceiros, com o governo republicano. Os lanceiros, junto com todos os componentes do exército da república, fizeram um juramento de fidelidade à causa da independência. A fidelidade sendo quebrada por parte do escravo que tinha sido libertado, obrigava-o a retornar à condição de escravo.

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documento. Nem Caxias ou qualquer outro representante do Império colocou sua assinatura. Essa farsa era justificada por encobrir a tal “Surpresa de Porongos, onde os negros foram traídos, abandonados e levados como escravos para o Rio de Janeiro” (FLORES, 2004).

Para Leitman (1985), a “Surpresa de Porongos” foi uma batalha resultante de um acordo entre Caxias e David Canabarro. Em uma negociação secreta, decidiu-se por destruir parte do exército farroupilha, em especial o contingente de negros. Sem conhecimento do que Canabarro havia negociado, os negros foram emboscados e mortos após terem bravamente lutado.

Segundo os cálculos do exército imperial, os negros formavam de um terço à metade do exército rebelde, mas tinham que continuar ligados à Revolução, que prometia liberdade quando chegasse a vitória final, pois eles, um contingente numeroso e aguerrido, eram mais importantes do que parecia.

No ano de 1837, um decreto imperial declarava que os farrapos negros que abandonassem a causa rebelde receberiam liberdade se fossem apresentados às autoridades imperiais. Estava incluído no Tratado de Paz de Ponche Verde, assinado no dia 1º de Março de 1845, o artigo quarto, que libertava os escravos que haviam servido para os rebeldes. Mesmo assim, ficariam livres do serviço militar no exército imperial e seriam libertados. Para se proteger contra represálias dos Farrapos, o governo resolveu transportá-los com tudo pago para outra Província.

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Os negros que estavam presos em Porongos e em Arroio Grande seguiram nessa condição, prisioneiros, para o Rio de Janeiro, conforme ordens recebidas pelo Barão de Caxias (FLORES, 2004).

Os farrapos não estavam respeitando o acordo que fizeram com os escravos dos imperiais, por eles capturados para lutarem em troca de liberdade. ”Caxias apenas cumpriu as ordens que recebeu do governo imperial, de não dar a liberdade aos negros” (FLORES, 2004, p. 65).

Segundo Moacyr Flores, os historiadores sul-rio-grandenses, com medo de macular nossos heróis, ignoraram os documentos, criando imagens falsas de Porongos e da anistia concedida aos índios e brancos por Caxias (FLORES, 2004).

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6 CONCLUSÃO

Este estudo sobre o escravo no Rio Grande do Sul teve por objetivo conhecer seu papel na Revolução Farroupilha e também no período que cerca este grande acontecimento. A tão sonhada república rio-grandense mesmo prometendo liberdade aos seus escravos que lutassem em seu nome, não ficou conhecida como antiescravista e a liberdade para os seus escravos não fez parte do projeto de constituição. Os negros não tinham direito de participar nas eleições para cargos importantes.

Para isso, foi necessário identificar as principais atividades econômicas na Província do Rio Grande do Sul, nesse período da história, verificando que os escravos, na condição de maior contingente de mão de obra, tiveram uma participação importante no desenvolvimento econômico. As principais atividades desenvolvidas estavam relacionadas à agricultura, pecuária e produção de charque. Esses produtos tinham consumidores nas Províncias do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, o que fortalecia a economia sul-rio-grandense.

Nesse contexto, as motivações da Revolução Farroupilha, que foi uma revolta da elite sul-rio-grandense contra o governo imperial, ocorrida entre 1835 e 1845, só tiveram como resultado prático a efêmera independência da república sul-rio-grandense, por motivos óbvios, não reconhecida pelo Império.

As causas dessa revolução foram a insatisfação com a condição econômica da província e questões políticas entre o império e as elites locais. O escravo participou intensa e ativamente dessa luta, quer como mão de obra escravizada, quer como integrante da tropa farrapa, seu ativo combatente. O ônus pago pelo escravo foi a própria vida, com a promessa de liberdade.

Finalmente, para além da ativa participação do escravo na Revolução Farroupilha, na economia, na cultura da Província do Rio Grande do Sul, que se considera incontestável, parece haver uma dívida social para com os negros. Destaca-se a importância de trazer à tona esses dados históricos, para que as pessoas possam compreender muito dos eventos passados da história que ainda repercutem nos dias atuais, como forma de desenvolver a consciência social.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Figura 1: Imagem atual de satélite localizando a Cidade de Pelotas, o Arroio Pelotas serpenteando de Norte para Sul, as Lagunas dos Patos e Mirim e entre elas, o Canal de São Gonçalo.

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Figura 2: Identificação da charqueada à entrada.

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Figura 3: Fachada da Charqueada São João.

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Figura 4: Detalhe Sul da Charqueada São João.

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Figura 5: Detalhe da fachada da Charqueada São João.

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Figura 6: Detalhe Sul da Charqueada São João onde toca o Arroio Pelotas. O sentido da corrente é da esquerda para a direita.

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Figura 7: Vista do Arroio Pelotas tendo a montante a Charqueada São João, local de onde foi tirada a foto.

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Figura 8: Identificação da charqueada à entrada.

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Figura 9: Detalhe Norte da fachada da Charqueada Boa Vista.

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Figura 10: Vista do Arroio Pelotas tendo ao fundo, próximo à sua curva, detalhe da Charqueada Santa Rita. O sentido da corrente é de cima para baixo.

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Figura 11: Vista do Arroio Pelotas. O sentido da corrente é dos barcos para o horizonte. As charqueadas aqui identificadas estão à montante desta posição.

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