O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Elaine Cardia Laviola

  

O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de

camadas médias

  

São Paulo

2010

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Elaine Cardia Laviola O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Psicologia Social, sob a orientação da Profª. Doutora Fúlvia Rosemberg. São Paulo 2010

  

ERRATA

Résumé – 15ª linha - Onde se lê: ... et en contexte politique...

  Leia-se: ... et en contexte publique...

  

Página 15 Onde se lê: ... No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e

modalidades de educação e cuidado foi, também, procurar compreender se as escolhas por determinados tipo

de atendimento às crianças é influenciada, ou não, pela pouca oferta de modalidades coletivas...

  

Leia-se: ... No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e modalidades de educação e

cuidado foi, também, procurar compreender se as escolhas por determinados tipos de atendimento às

crianças são influenciadas, ou não, pela pouca oferta de modalidades coletivas...

  Página 22 Onde se lê: ... Procuramos escutar mães que, por serem de classe média, supostamente...

  

Leia-se: ... Procuramos escutar mães que, por pertencerem às camadas médias da população,

supostamente...

  

Página 25 - Onde se lê: ... Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais,

provenientes das camadas médias, associaram-na às classes menos favorecidas. ...

  

Leia-se: ... Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais, provenientes das

camadas médias, associaram-na às camadas menos favorecidas. ...

  

Página 25 – Onde se lê: ... No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu somente 9,4%

segundo dados do IBGE (2009). O crescimento pouco acelerado do atendimento, nessa etapa da educação

básica, coloca em xeque a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das

crianças dessa faixa etária em 2011. ...

  

Leia-se: ... No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu 9,4 pontos percentuais segundo

dados do IBGE (2009). Entretanto, o crescimento do atendimento, nessa etapa da educação básica, ainda

coloca em xeque a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das crianças

dessa faixa etária em 2011. ...

  Páginas 37, 41, 69 e 203 - Onde se lê: ... Érica Burman...

  Leia-se: ... Erica Burman ...

  

Página 79 - Onde se lê: ... A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG, 2007b) que

as novas concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais importantes na família, especialmente em

decorrência dos movimentos de mulheres, e mudanças nas concepções de criança...

  

Leia-se: ... A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG, 2007b) que as novas

concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais importantes na família, especialmente em

decorrência dos movimentos de mulheres, e de mudanças nas concepções de criança...

  

Página 82 – Onde se lê: ... apontam que indivíduos das camadas médias e com maior escolaridade tendem a

expressar valores mais modernos, liberais e democráticos...

  

Leia-se: ... apontam que indivíduos das camadas médias e com maior escolaridade tendem a expressar

valores mais “modernos”, liberais e democráticos...

  

Página 92 – Onde se lê: ... a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é ainda muito

baixa (18,1%), como já destacamos, quando comparada à taxa de freqüência das crianças maiores que

freqüentam a pré-escola (79,8%) (IBGE, 2009). ...

  

Leia-se: ... a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é ainda muito baixa (18,1%),

como já destacamos, quando comparada à taxa de freqüência das crianças maiores (4 a 6 anos de idade) que

freqüentam a pré-escola/escola (79,8%) (IBGE, 2009). ...

  

Página 98 - Onde se lê: ... As que não haviam matriculado seus filhos na creche apresentavam uma rede de

apoio maior dos que as que tinham optado por essa instituição...

  

Leia-se: ... As que não haviam matriculado seus filhos na creche apresentavam uma rede de apoio maior do

que as que tinham optado por essa instituição...

  Página 103 - Onde se lê: ... Daí, nosso interesse de nos debruçarmos sobre os discursos de mães...

  Leia-se: ... Daí, nosso interesse em nos debruçarmos sobre os discursos de mães...

  

Página 104 - Onde se lê: ... Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e não de

classes médias, considerei, como enfatizado por Romanelli (2003)...

  

Leia-se: ... Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e não de classe média,

considerei, como enfatizado por Romanelli (2003)...

  

Página 105 - Onde se lê: ... e também classificada pelo UNICEF como a terceira melhor do Brasil e a

segunda melhor do estado de São Paulo no atendimento à infância...

  

Leia-se: ... e também classificado pelo UNICEF como o terceiro melhor do Brasil e o segundo melhor do

estado de São Paulo no atendimento à infância...

  

Página 105 e páginas 247, 252, 279, 315, 335, 355, 379, 404, 405 – Onde se lê: ... As crianças brasileiras de

0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, mas somente 18,1% das crianças de 0 a 3 anos freqüentam

creche, enquanto quase 80% de crianças de 4 e 5 anos freqüentam pré-escola. O que pensa sobre isso? ...

  

Leia-se: ... As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, mas somente 18,1% das

crianças de 0 a 3 anos freqüentam creche, enquanto quase 80% de crianças de 4 a 6 anos freqüentam pré-

escola/escola. O que pensa sobre isso? ...

  

Página 129 - Onde se lê: ... Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na

decodificação do choro de seus bebês...

  

Leia-se: ... Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na decodificação do choro de

bebês...

  

Página 147 - Onde se lê: ... uma efetiva opção por não contar nem com a ajuda da sogra e nem com a da

própria mãe...

  Leia-se: ... uma efetiva opção para não contar nem com a ajuda da sogra e nem com a da própria mãe...

  

Página 181 - Onde se lê: ... A classe média que seria, na concepção de Natália, o segmento com melhores

condições para reivindicar acabaria, quase sempre, optando pela creche particular para seus filhos...

  

Leia-se: ... As camadas médias que seriam, na concepção de Natália, os segmentos com melhores condições

para reivindicar acabariam, quase sempre, optando pela creche particular para seus filhos...

  

Página 181 – Onde se lê: ... as demais expressam acreditar que seria necessária uma maior reivindicação

dos direitos, com a escolha de políticos que se interessassem por essas questões e que atuassem com maior

boa vontade...

  

Leia-se: ... as demais citam que seria necessária uma maior reivindicação dos direitos, com a escolha de

políticos que se interessassem por essas questões e que atuassem com maior “boa vontade”...

Banca Examinadora

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_____________________________

DEDICATÓRIA

  

Aos meus pais, Ângelo e Ivone (In Memoriam), pelo

dom maior, o dom da vida. Todo meu amor e minha

gratidão.

  

Em especial, à memória de minha mãe, que partiu

durante a realização desta tese. Sua presença estará

em minha vida, nas minhas memórias e no meu

coração para sempre.

AGRADECIMENTOS

  À minha orientadora Professora Doutora Fúlvia Rosemberg pela extrema competência e dedicação. Ao Henrique, meu grande amor, pela companhia em todos os momentos, pela enorme paciência e compreensão e também pela ajuda com as traduções. À minha irmã Marlene, Doutoranda em Ciências Sociais, com quem compartilhei todo o percurso de elaboração desta tese. Obrigada por me motivar e por estar sempre ao meu lado! Ao meu irmão Roberto, com quem compartilho a paixão pelos nossos gatos e pelo nosso time, pelas indicações de mães para as entrevistas e o auxílio com as cópias e encadernações. À Maria Isabel, sempre na torcida para que tudo desse certo e eu conseguisse finalizar o trabalho. Aos(às) professores(as) Doutores(as) do Programa de Estudos Pós–Graduados em Psicologia Social da PUC-SP. Em especial, Mary Jane Spink, Silvia Lane (In Memoriam), Sérgio Ozella, José Leon Crochík, com quem cursei disciplinas e que muito contribuíram para minha formação. À Marlene Camargo, secretária do Programa, pela atenção e respostas às inúmeras questões burocráticas e acadêmicas. À Professora Doutora Josildeth Gomes Consorte do Programa de Estudos Pós– Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP, com quem cursei a disciplina Marcel Mauss: sobre o dom e o Sacrifício. Ao professor Doutor Pedrinho Guareschi do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com quem cursei a disciplina Representações Sociais e Ideologia como aluna especial. Às Professoras Doutoras Ana Paula Soares da Silva e Heloísa Szymanski pela leitura cuidadosa e contribuições durante o Exame de Qualificação. À professora Heloísa Szymanski pela elaboração de parecer sobre o projeto de tese para envio ao Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP. Aos(às) professores(as) que gentilmente aceitaram participar da Banca de Defesa.

  Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão de bolsa de estudos. Aos(às) antigos(as) e novos(as) colegas do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI) Honório, Leila, Renata, Vanessa, Etelma, Elisângela, Maysa, Carlos, Carla, Lourdes, Flávio, pelas leituras do trabalho, sugestões e incentivos. À amiga Carmem Sussel Mariano, pela paciência e disponibilidade para me escutar nos momentos mais difíceis da elaboração desta tese, pela força e auxílio constantes. À amiga Bárbara Radovanski Galvão, pela ajuda com traduções, leituras e inúmeras conversas sobre o projeto, pela motivação ao longo de todas as etapas da pesquisa, pela amizade que se construiu. Aos(às) meus(minhas) amigos(as) queridos(as), alguns de muitos anos, que sempre se interessaram e acompanharam a realização deste trabalho, mesmo que de longe. Aos(às) amigos(as) e conhecidos(as) que procuraram auxiliar-me indicando mães de bebês para as entrevistas. Às cinco mulheres que me concederam entrevistas ainda na fase exploratória, colaborando para que eu pudesse treinar a situação de entrevista e também adequar o roteiro de questões. Às oito mulheres entrevistadas que se dispuseram a participar da pesquisa e a compartilhar comigo suas concepções sobre o bebê, sua educação e cuidado, suas vivências, suas decisões, suas dúvidas e questionamentos. Aos bebês que, do colo de suas mães e entre uma mamada e outra, participaram dos momentos de entrevistas.

  

[...] quanto mais óbvio parecer o que se vê e ouve,

mais se deve desconfiar e buscar desatar as tramas.

Porque não há imagem produzida sobre a criança e

a infância [...] que não seja, de algum modo, produto

de um contexto sociocultural e histórico específico

[...]. (COHN, 2005, p. 50).

  

LAVIOLA, Elaine Cardia. O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas

médias. São Paulo. Tese (Doutorado em Psicologia Social). PUC-SP, 2010.

  RESUMO

  Esta tese de doutorado vincula-se ao Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), integrando o projeto coletivo de pesquisas que vem focalizando discursos proferidos por adultos sobre o bebê, sua educação e cuidado. Seu objetivo foi descrever e interpretar discursos de oito mães de bebês, inseridas profissionalmente, com formação universitária, pertencentes às camadas médias urbanas e residentes no município paulista de São Caetano do Sul, sobre o bebê e suas concepções sobre o que consideram adequado em termos de modalidades de educação e cuidado não só para seus filhos, mas também, para outros bebês. Partimos da hipótese de que prevaleceria, nos discursos das entrevistadas, uma concepção de criança pequena, considerada frágil, imatura, dependente, que vincula o bebê, prioritária ou exclusivamente, ao espaço doméstico, sustentando sua invisibilidade no plano social e em contexto público, dificultando que seus direitos à educação sejam plenamente contemplados pelas políticas de Educação Infantil. Adotamos os aportes teóricos proporcionados tanto pelos novos estudos sobre a infância, que procuram romper com concepções adultocêntricas e naturalizantes, quanto pela produção acadêmica das pesquisadoras francesas Bloch e Buisson (1998, 1999) sobre o processo de escolha de casais por modalidades de educação infantil, analisado, por elas, a partir da perspectiva das relações intergeracionais e de gênero. Com base na utilização de técnicas de análise de conteúdo apresentamos os resultados, que corroboram nossa hipótese inicial, em torno de cinco eixos interpretativos: os contextos sociais das entrevistadas; concepções sobre o bebê e a criança pequena; modalidades de educação e cuidado para bebês; responsabilidades do Estado e da sociedade; aspectos intergeracionais.

  Palavras-chave: bebê; creche; educação infantil; infância; camadas médias.

  

LAVIOLA, Elaine Cardia. The baby, its upbringing, education and care in the discourse of

middle class mothers. São Paulo. Thesis (Doctor's degree in Social Psychology). PUC-SP, 2010.

  ABSTRACT

  This doctoral thesis is linked with the Center of Studies of Gender, Race and Age (Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade – NEGRI) of the postgraduate studies program in Social Psyhcology from the Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), as part of the collective research project which focus on the discourse made by adults about their babies, their upbringing, education and care.

  This thesis' objective is to describe and interpret the discourse of eight mothers of babies, professionally active, with a university degree, belonging to the urban middle class and living in the city of São Caetano do Sul, in the state of São Paulo, about the baby and their perception of what they consider adequate methods od upbringing, education and care not only for their own children, but also for other babies. We assumed that, in the interviewees' discourse, the perception of the small child as fragile, immature and dependent would prevail. This view links the baby, first and foremost or exclusively, to the domestic realm, sustaining its invisibility in the social level and in public context, making it difficult for its rights for education to be completely fulfilled by the policies of education of children ages 0-

  3. We adopted the theoretical approaches offered by the new studies on childhood, which attempt to break away from the adult-centered and naturalizing concepts, as well as the academic production of the French researchers Bloch and Buisson (1998,1999), on the process of choice of couples of methods of child upbringing and education, analyzed by them, from the perspective of relations between generations as well as gender relations. Based on the use of content analysis techniques we present the results, which confirm our initial hypothesis, around five interpretative axles: the interviewees' social contexts; perceptions of the baby and the toddler; methods of upbringing, education and care for babies; the government and the society's responsibilities; and aspects related to the relations between generations.

  

Keywords: baby; day care center; upbringing and education of children ages 0-3;

childhood, middle class.

  LAVIOLA, Elaine Cardia. Le bébé, son éducation et soins selon des discours de mères de classe moyenne. São Paulo. Thèse (Doctorat en Psychologie Sociale). PUC-SP, 2010.

  

RÉSUMÉ

  Cette thèse de doctorat est associée au Centre d’Études du Genre, Race et Âge (NEGRI) du Programme d’Études de Postlicence en Psychologie Sociale de l’ Université Pontificale Catholique de São Paulo (PUC-SP), intégrant le projet collectif de recherches qui se focalise sur des discours proférés par des adultes à propos du bébé, son éducation et soins. Son objectif a été de décrire et d’interpréter les discours de huit mères de bébés - insérées professionnellement dans le marché, ayant une formation universitaire et appartenant aux classes moyennes urbaines et résidantes dans la Commune de São Caetano do Sul (région de São Paulo) - à propos du bébé et de leurs conceptions sur ce qu’elles considèrent être adéquat en termes de modalités d’éducation et de soins, pour leurs enfants ainsi que pour d’autres bébés. Nous sommes partis de l’hypothèse qu’il prévaudrait, dans les discours des mères interviewées, une conception de petit enfant considéré fragile, immature, dépendant, qui le soumet, prioritaire ou exclusivement, à l’espace domestique, renforçant son invisibilité sur le plan social et en contexte politique et rendant plus difficile que ses droits à l’éducation soient pleinement contemplés par les politiques de l’Éducation de l’Enfant. Nous avons adopté les apports théoriques fournis par les nouvelles études sur l’enfance, qui cherchent à rompre avec des conceptions naturalisantes et centrées sur les adultes, ainsi que par la production académique des chercheuses françaises Bloch et Buisson (1998, 1999) , sur le procès de choix de couples par des modalités d’éducation de l’enfant, analysé, par elles, à partir de la perspective des relations intergénérationnelles et de genre. Basés sur l’utilisation de techniques d’analyse de contenu, nous présentons les résultats, qui valident notre hypothèse initiale, autour de cinq axes interprétatifs: les contextes sociaux des interviewées; des conceptions à propos du bébé et du petit enfant; des modalités d’éducation et soins pour les bébés; des responsabilités de l’État et de la société; des aspects intergénérationnels.

  Mots-clés: bébé; crèche; éducation de l’enfant; enfance; classes moyennes.

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ___________________________________________________13

CAPễTULO 1 Ố CONSTRUđấO DO OBJETO ___________________________18

CAPÍTULO 2 – TEORIAS E MÉTODO_________________________________32

  2.1 Teorias

  2.1.1 Infância e seus estudos contemporâneos__________________________32

  2.1.2 Teoria sobre a dádiva__________________________________________49

  2.2 Método

  2.2.1 Hermenêutica de profundidade__________________________________70

  

CAPÍTULO 3 - CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO_________________________78

  3.1 Educação e cuidado da criança pequena no Brasil contemporâneo________79

  3.1.1 Famílias contemporâneas_______________________________________79

  3.1.2 Conciliação entre trabalho e educação e cuidado das crianças pequenas________________________________________________________83

  3.1.3 Consensos e dissensos envolvendo as políticas e práticas de Educação Infantil __________________________________________________________87

  3.1.4 Demanda por modalidades de Educação Infantil_____________________95

  

CAPÍTULO 4 – ENTREVISTANDO MÃES_____________________________104

  4.1 As entrevistadas e o contexto de produção das entrevistas_____________104

  4.2 A análise dos dados____________________________________________117

  4.2.1 Eixo 1. Os contextos sociais das entrevistadas_____________________119

  4.2.2 Eixo 2. Concepções sobre o bebê e a criança pequena______________129

  4.2.3 Eixo 3. Modalidades de educação e cuidado para bebês_____________139

  4.2.4 Eixo 4. Responsabilidades do Estado e da sociedade________________178

  4.2.5 Eixo 5. Aspectos intergeracionais________________________________189

  

CONSIDERAđỏES FINAIS________________________________________196

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _________________________________200

ANEXOS_______________________________________________________219

  Termo de compromisso do(a) pesquisador(a) responsável________________220 Termo de consentimento livre e esclarecido____________________________221 Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP____________________224 Transcrição primeira entrevista______________________________________225 Transcrição segunda entrevista______________________________________252 Transcrição terceira entrevista_______________________________________278 Transcrição quarta entrevista_______________________________________315 Transcrição quinta entrevista________________________________________335 Transcrição sexta entrevista________________________________________354 Transcrição sétima entrevista_______________________________________379 Transcrição oitava entrevista________________________________________404

  INTRODUđấO

  1 A pesquisa, base desta tese de doutorado , teve como objetivo descrever e

  interpretar discursos de mães das camadas médias sobre o bebê, sua educação e cuidado.

  Neste estudo, estamos considerando bebê uma etapa da vida, um momento da pequena infância que inclui as crianças recém-nascidas ou de poucos meses, as crianças menores de 1 ano de idade, definição esta encontrada

  2 nos principais dicionários de Língua Portuguesa .

  A hipótese subjacente ao nosso trabalho foi a de que ainda prevalece, na sociedade brasileira, uma concepção de criança pequena (considerada imatura, frágil, dependente) que vincula o bebê ao espaço privado (GALVÃO, 2008; LIMA, 2004). Essa concepção mantém relações discriminatórias de idade - com as crianças de 4 e 5 anos podendo freqüentar a pré-escola enquanto poucas crianças menores de 3 anos freqüentam creche -, além de sustentar a invisibilidade do bebê no plano social, dificultando que seus direitos à educação sejam plenamente contemplados pelas políticas de Educação Infantil (EI).

  Notamos que, em geral, no Brasil, pouca atenção vem sendo dada às necessidades dos bebês pelas políticas públicas, em especial, pelas educacionais. O baixo investimento em creches, quando comparado aos recursos alocados para outros níveis educacionais, vem revelando descaso com essa população.

  Focamos, neste estudo, discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado proferidos por mães pertencentes às camadas médias e com escolaridade

  3

  superior, residentes em São Caetano do Sul e que, potencialmente, poderiam optar pela creche como modalidade de EI para seus filhos e/ou recomendá-la 1 também para outros bebês. 2 Neste trabalho, ainda não são adotadas as novas regras da Reforma Ortográfica.

  

Consultamos também três dicionários de Psicologia e dois dicionários de Educação, mas

somente encontramos definição para o termo bebê em um dos dicionários de Psicologia

(DORSCH, 2008) pesquisados. Segundo esse dicionário, bebê é a criança (lactente) até o 2º mês

de vida. Como essa definição nos pareceu mais restrita, preferimos adotar, nesta tese, as

3 definições dos dicionários de Língua Portuguesa.

  

Município do ABC paulista de 144.857 habitantes (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO

CAETANO DO SUL, 2008), incluindo 5598 crianças entre 0 a 3 anos de idade (IBGE, dados de

2001) e que possui indicadores de qualidade de vida e investimentos em educação bastante

diferenciados em relação à grande maioria dos municípios brasileiros.

  13 A opção pela análise de discursos de mães pertencentes às camadas médias se deveu não somente à constatação de que muitos estudos sobre EI focam suas análises na população de baixa renda, de que mães com maior escolaridade e renda tendem mais a optar por modalidades coletivas de educação para seus filhos (CARVALHO, KAPPEL, KRAMER, 2001; CEDEPLAR/UFMG, 1999; IBGE, 2007, 2009; IPEA,1999, entre outros estudos), mas também na hipótese de que, mesmo em um contexto de ausência de carência pessoal e social, vivendo em uma cidade com maior investimento em EI e melhores indicadores sociais, prevaleça, nos discursos das entrevistadas, uma concepção de bebê vinculada, prioritária ou exclusivamente, ao espaço doméstico, à esfera do privado.

  No Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI), grupo de pesquisa vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), temos adotado como referencial teórico para nos auxiliar em nossas análises e interpretações envolvendo concepções sobre bebês e relações de idade, os novos estudos sobre a infância, com destaque para os paradigmas propostos, especialmente a partir da década de 1990, pela Sociologia da Infância (MONTANDON, 2001; SARMENTO, 2007; SIROTA, 2001), que, ao considerarem a criança como ator social e a infância como categoria construída sócio-histórica e culturalmente, rompem com concepções adultocêntricas e naturalizantes.

  De forma complementar, utilizamos também como referencial teórico nesta tese, a produção acadêmica das pesquisadoras francesas Bloch e Buisson (1998, 1999) sobre o processo de escolha de casais por modalidades de educação e cuidado infantil, analisado por elas, sobretudo, de uma perspectiva de gênero e do ponto de vista intergeracional.

  Embora as autoras francesas apresentem uma abordagem importante, ela não nos pareceu suficiente para servir como referencial teórico principal, pois mesmo comentando que a escolha por modalidades de EI também é influenciada

  4 4 pelo que os pais desejam ou têm como expectativas para seus filhos(as) , elas A partir deste ponto do texto, adotarei o genérico masculino, abandonando a fórmula o(a).

  14 deixaram de lado em suas análises as novas concepções sobre criança pequena e bebê.

  Assim, para além da compreensão proposta por Bloch e Buisson (1998, 1999) que centraram seu olhar na mulher, focalizamos nossa atenção na apreensão de componentes das concepções sobre o bebê, sua educação e cuidado que podem estar orientando escolhas por determinadas modalidades de EI.

  Como essas escolhas dependem também de como se concebe a criança pequena e não apenas a mulher, o homem e o filho, nos pareceu adequado adotar como teoria principal, nesta análise, os estudos contemporâneos sobre infância, já que estamos considerando relações de idade, voltando nosso foco para o bebê, o bebê compreendido enquanto uma etapa da vida, um momento da pequena infância, enquanto criança (puer) e não somente enquanto filho (filius).

  No âmbito desta tese, pesquisar os discursos de mães sobre o bebê e modalidades de educação e cuidado foi, também, procurar compreender se as escolhas por determinados tipo de atendimento às crianças é influenciada, ou não, pela pouca oferta de modalidades coletivas, como creches, por exemplo.

  Como ressaltam Bloch e Buisson (1999):

  [...] é necessário ainda que essa escolha [da modalidade de educação e cuidado infantil] seja efetivamente possível. Ao [...] disponibilizar seu auxílio para desenvolver tal ou tal tipo de modalidade de guarda e favorecendo o acesso a estes últimos a certas camadas sociais, os poderes públicos podem assumir um papel não negligenciável nas capacidades de que dispõem os pais para modificar as práticas sociais [...]. (p. 27, tradução nossa).

  Esta tese participa da luta pela efetivação da creche enquanto direito do bebê e da criança pequena à educação e aos cuidados, respeitando sua condição de cidadã; e enquanto direito de escolha por parte das famílias de um serviço que, com qualidade e eqüidade, venha atender suas expectativas, procurando evitar modelos assistencialistas e maternalistas e permitindo, ao liberar a mulher para o trabalho e para a autonomia econômica, uma maior igualdade entre homens e mulheres.

  15 Para o NEGRI, sem que a sociedade brasileira reconheça, efetivamente, o direito da criança pequena de ser cuidada e educada em ambiente social mais amplo que a família, dificilmente esse direito se tornará prioridade nas agendas de políticas públicas. Complementarmente, para que políticas públicas, visando facilitar a conciliação entre vida familiar e trabalho, possam ser implementadas, se faz necessário que a sociedade brasileira reconheça o direito das famílias de dividir com o Estado, e com a sociedade em geral, caso desejem, as responsabilidades pela educação e o cuidado das crianças pequenas.

  O estudo de discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado ganha relevância quando se pensa, também, na necessidade de avaliação dos serviços oferecidos à criança pequena, e à sua família no Brasil, permitindo que se venha a comparar o que é oferecido ao que as famílias gostariam que fosse, possibilitando uma melhor análise dos projetos e programas em EI, e conseqüente adequação na formulação de políticas públicas (ROSEMBERG, 2001), visando melhorar a qualidade do que é oferecido.

  A pesquisa que sustenta esta tese me possibilitou retomar questionamentos, baseados em minha prática na área da EI, além de constituir um desdobramento e um avanço em relação à minha dissertação de mestrado (LAVIOLA, 1998). O tema “EI em contexto de creche” permaneceu, bem como, a estratégia de trabalho a partir de entrevistas, enquanto a utilização das reflexões proporcionadas pelos novos estudos sobre a infância (especialmente os de: MONTANDON, 2001; ROSEMBERG, 2006b, 2006c; SARMENTO, 2007; SIROTA, 2001), do referencial teórico de Bloch e Buisson (1998, 1999) e do método da hermenêutica de profundidade (HP) proposto por John B. Thompson (2002), que orientou a estruturação do texto e a análise dos discursos das entrevistadas, me permitiu avançar.

  No primeiro capítulo deste trabalho, descrevo a construção do objeto de pesquisa. Inicio o segundo capítulo, focalizando infância e seus estudos contemporâneos, já que as escolhas por modalidades de EI dependem também das concepções de criança e eu estarei analisando-as da perspectiva das relações de idade.

  16 Em seguida, apresento a teoria sobre a dádiva tal como desenvolvida por Bloch e Buisson (1998, 1999), a partir do referencial de Marcel Mauss (1950), sobre o princípio da troca e da reciprocidade, com as autoras francesas compreendendo as escolhas por modalidades de educação e cuidado infantil, a partir de uma dinâmica de dependência intergeracional.

  Finalizando o segundo capítulo, descrevo o método da HP de Thompson (2002) que orientou a estrutura desta tese, bem como, me auxiliou na análise e na interpretação da produção simbólica, no caso específico, as entrevistas, os discursos das mães.

  No terceiro capítulo, abordo o contexto sócio-histórico focalizando políticas e práticas de EI no Brasil com base na revisão de literatura. No quarto capítulo, descrevo, primeiramente, a coleta de dados e o contexto de produção das entrevistas que realizei e, na seqüência, apresento os resultados, com o conteúdo apreendido nos discursos, a partir da utilização das principais orientações da análise de conteúdo, segundo Bardin (1977) e Rosemberg (1981), e re-interpretados com base nos referenciais teóricos utilizados e no contexto sócio-histórico apresentado.

  Nas considerações finais, retomo a hipótese inicial desta tese, destacando os principais resultados e interpretações que poderão orientar outros pesquisadores em suas investigações sobre o tema, contribuindo para que os direitos e necessidades dos bebês e de suas famílias, em termos de EI, possam adquirir maior visibilidade na sociedade brasileira e nas políticas públicas.

  17

  CAPễTULO 1 Ố CONSTRUđấO DO OBJETO

  Minha opção por pesquisar discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado, a partir da ótica de mães, é fruto, inicialmente, de meu interesse acadêmico e prático por creche.

  Durante o mestrado, pesquisando o tema da sexualidade infantil por meio de entrevistas com educadoras de creche (LAVIOLA, 1998), tive a oportunidade de visitar 63 instituições públicas no município de São Paulo apreendendo realidades de atendimento bastante diversas. Tendo atuado também, por quase dois anos, como dirigente de creche na rede pública de EI no município paulista de São Bernardo do Campo, pude vivenciar o cotidiano de educação e cuidado oferecido às crianças, bem como refletir sobre as expectativas das famílias em relação à creche pública e ao atendimento prestado.

  Esse contato prático com a realidade do atendimento despertou minha atenção para a insuficiente oferta de vagas, que, em geral, não dá conta da demanda quantitativa – aquela que, a princípio, poderia ser medida a partir das listas de espera para inscrições ou pela realização de cadastros específicos –, mas gerou, também, algumas questões, não menos importantes: quais seriam, na visão das mães, as melhores opções de atendimento para bebês? Que concepções sobre o bebê ou sobre como educar uma criança pequena estariam implicadas nas escolhas por modalidades de EI? Quais seriam os discursos das mães sobre a creche, em especial, sobre a creche pública?

  Foi, entretanto, com o início de minha participação no NEGRI, e a partir de

  5

  meu contato com a tese de doutorado intitulada A demanda e escolha das mães

  

por educação infantil: um novo tema para o estudo da educação infantil,

  defendida, em 2004, por Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima, então integrante do Núcleo e também orientanda da professora Fúlvia Rosemberg, que a presente tese começou a ser esboçada.

  18 Pareceu-me interessante tomar como base o estudo desenvolvido por Lima (2004), mas, ao mesmo tempo, ampliar suas discussões, investigando os

  6

  discursos de mães das camadas médias, e com nível superior de escolaridade , sobre concepções referentes ao bebê, sua educação e cuidado que poderiam estar orientando essas mulheres em suas escolhas por modalidades de EI para seus filhos(as), mas também, em seus posicionamentos sobre educação e cuidado para os bebês em geral.

  Inserido na linha de pesquisa sobre EI do NEGRI, que focaliza relações de gênero e de idade (entre outras pesquisas: LAVIOLA, 1998; LYRA, 1997; PAULA, 1999; ROSENBAUM, 1998), este estudo integra o grupo de pesquisas sobre discursos sobre o bebê em um projeto coletivo. Nosso projeto coletivo envolve outras dissertações de mestrado e teses de doutorado, que também apreenderam ou procurarão descrever e interpretar concepções da sociedade brasileira contemporânea sobre bebês e modalidades de sua educação e cuidado, a partir da escuta de diversos atores sociais: homens-pais (GALVÃO, 2008), mídia (NAZARETH, 2008; PELLICER DOS SANTOS, 2009), pediatras (URRA, 2008), instituição de ensino superior (SECANECHIA, 2009).

  A linha de pesquisa que focaliza discursos brasileiros sobre o bebê, sua educação e cuidado compartilha, com as demais linhas de pesquisa do NEGRI, o objetivo geral de compreender processos de construção da infância brasileira e sua incidência na elaboração da agenda de políticas públicas para esta etapa da vida humana. Porém, nossa linha de pesquisa focaliza um segmento etário específico: os bebês.

  Temos como objetivo pesquisar componentes que estão envolvidos na construção da concepção por um modo considerado “ideal ou adequado” de educação e cuidado para bebês, na orientação da escolha por, e na oferta de, modalidades de educação e cuidado infantil considerando que “[...] escarafunchar as representações sociais sobre o bebê pode ser um caminho para sua 6 visibilidade pública [...].” (ROSEMBERG, 2006b, p.3).

  

Das oito mães entrevistadas por Lima (2004), somente duas apresentavam renda familiar

superior a cinco salários mínimos e apenas uma apresentava nível superior de escolaridade. A

maioria não havia concluído o ensino fundamental.

  19 Apesar dos avanços na legislação nos últimos anos no Brasil (CAMPOS, 2009; ROSEMBERG, 2009b), na prática, a creche, enquanto espaço institucional de educação e cuidado para a criança entre 0 e 3 anos de idade - concepção que compartilho com outros gestores e pesquisadores brasileiros (BRASIL, 1995ª, 1995b, 2003; CAMPOS, ROSEMBERG e FERREIRA, 1995; HADDAD, 2006; KRAMER, 1985, entre outros) -, ainda não constitui um direito infantil universal.

  O número de crianças pequenas freqüentando creche é ainda muito baixo: somente 18,1% da população brasileira na faixa etária entre 0 e 3 anos freqüentavam creche em 2008, segundo dados divulgados em 2009 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

  Com base nos dados obtidos na Pesquisa sobre Padrões de Vida (PPV) de 1996/1997 e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1997, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) realizou, em 1999, um estudo sobre o Desenvolvimento da Primeira Infância. Nesse trabalho, a partir dos dados coletados em 4800 domicílios brasileiros, o que mais chamou minha atenção foi o reduzido número de bebês tendo acesso a um espaço coletivo de educação e cuidado: menos de 1% do total de crianças de 0 a 6 anos residentes nos domicílios pesquisados que freqüentavam creche ou pré-escola eram menores de 1 ano.

  Vários estudos brasileiros e internacionais (CARVALHO, KAPPEL, KRAMER, 2001; CEDEPLAR/UFMG, 1999; FRENETTE, 1987; IBGE, 2007, 2009;

  IPEA,1999; NERI, 2005; PUNGELLO, KURTZ-COSTES, 1999; RAPOPORT, PICCININI, 2004) têm mostrado que quanto maior a idade da criança, a renda domiciliar per capita e o nível de escolaridade dos pais - em especial, o das mães -, maior é a freqüência à creche.

  Com relação ao nível de escolaridade das mães, a pesquisa brasileira de Carvalho, Kappel e Kramer (2001) apontou, inclusive, que a probabilidade de as crianças de 0 a 3 anos freqüentarem creche chega a 100% para as mães com mestrado ou doutorado.

  A opção por uma determinada modalidade de educação e cuidado infantil - confiar o bebê a uma instituição coletiva como a creche; confiar a criança aos

  20 cuidados de avós ou outros parentes; contratar alguém no domicílio parental ou educar e cuidar pessoalmente do bebê em casa - é baseada, além da experiência concreta, em valores e crenças construídas a partir da interação do indivíduo com instituições e grupos sociais e culturais, e influenciada, também, pela história pessoal de cuidados e educação recebidos (BLOCH, BUISSON, 1998).

  Além disso, o contexto social e a política de atendimento disponível também influenciam as escolhas por modalidades de EI. Permeadas pelas vivências ou pelo imaginário de cada família, essas escolhas não seriam, portanto, opções imutáveis ou universais (BLOCH, BUISSON, 1998, 1999; PUNGELLO, KURTZ- COSTES, 1999), o que Lima (2004) também pôde apreender em seu estudo, observando que algumas famílias mudaram, ao longo do tempo, suas opções.

  Em seu estudo, Lima (2004) identificou que nem sempre o que a família utilizava enquanto instituição ou atendimento (a chamada oferta) correspondia ao que a família (mãe) demandava ou escolhia como modalidade “ideal ou adequada” para seu filho.

  Lima (2004) entrevistou oito mães com filhos menores de 3 anos de idade (sendo que apenas uma entrevistada era mãe de uma criança menor de 1ano), residentes na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

  Quatro das entrevistadas por Lima (2004) eram mães de crianças que freqüentavam uma mesma creche conveniada, situada em um bairro de classe média e que atendia famílias de baixa renda que trabalhavam na região. As outras mães tinham escolhido outras modalidades de educação e cuidado para seus filhos, deixando as crianças em casa com outros parentes, especialmente avó ou avô, ou com a empregada.

  A maioria das entrevistadas já havia experimentado outros arranjos familiares ou outras modalidades de EI tendo, por exemplo, interrompido sua atividade profissional para que pudesse cuidar da criança ou mesmo levando-a para seu local de trabalho quando possível.

  A entrevistada com mais alta renda e escolaridade, e que tinha um bebê de 6 meses, havia optado pela creche como modalidade de EI para seu filho.

  21 De forma geral, a pesquisa de Lima (2004) apreendeu a presença de uma forte crença materna sustentando que o bebê deve ser educado e cuidado pela mãe, impondo-se esse modelo como um ideal.

  A maior parte das mães entrevistadas declarou que a criança, até a idade de 3 anos – algumas mães referiam-se à idade de 5, 6 e 7 anos – deve permanecer em casa, com a mãe ou com outro membro da família, em decorrência da sua situação de fragilidade, tanto física quanto psicológica. (LIMA, 2004, p. 133).

  No estudo de Lima (2004), o foco é sempre a demanda pessoal/familiar por modalidades de educação e cuidado para os filhos. Nosso estudo, porém, se diferencia do de Lima (2004), não somente por entrevistar mães de camadas médias, com nível superior de ensino e com filhos menores de 1 ano de idade, mas também por dirigir seu foco de atenção para os discursos maternos sobre suas concepções sobre o bebê, não somente seu filho, e sobre as modalidades de EI que consideram adequadas também para outros bebês.

  Procuramos escutar mães que, por serem de classe média, supostamente, teriam tido maior oportunidade de formação e por residirem em São Caetano do Sul, se encontrariam em uma situação de maior possibilidade de escolha quanto às modalidades de EI.

  São Caetano do Sul aparece em 1º lugar no ranking dos municípios brasileiros no IFDM (Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal), com base em indicadores de emprego e renda, saúde e educação, especialmente analisando a oferta e qualidade do ensino fundamental e da pré-escola com base nas seguintes variáveis: taxa de atendimento no ensino infantil; taxa de distorção idade-série; percentual de docentes com curso superior; número médio diário de horas-aula; taxa de abandono escolar; resultado médio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (FIRJAN, 2008).

  O município apresenta, também, um IDH de 0,919, com menos de 1% de analfabetismo, 18,5% de população com nível superior completo, 100% de infra-

  22

  7

  estrutura (água, luz e esgoto ), renda per capita estimada em US$ 16.500 e 35,5% de receita aplicada em Educação em 2002 (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL, 2003a, 2003b).

  Embora São Caetano tenha apresentado queda no Índice de

  para 0,895, em 2004, segundo informações do UNICEF (2005), o município encontra-se na 59ª posição no grupo de somente 560 cidades brasileiras apresentando desenvolvimento infantil elevado (aqueles com IDI acima de 0,800).

  Segundo dados apresentados por Neri (2005), 40,6% das crianças de 0 a 3 anos freqüentavam creche em São Caetano (colocando o município na 16ª posição no Brasil em termos de freqüência à creche), sendo que dessas crianças, 28,1% freqüentavam creche pública e 12,5% a rede privada. Nunca haviam freqüentado creche 58,4% das crianças de 0 a 3 anos residentes no município.

  O Censo Escolar de 2008 (BRASIL, 2009a), com informações mais recentes, informa também que o município apresenta 2166 crianças matriculadas em creches, sendo que 1483 freqüentam a rede municipal distribuídas em 11 Escolas Municipais Integradas (EMIs) e em três creches assistenciais. Outras 683 crianças freqüentam creches ou escolas privadas.

  Em paralelo ao presente estudo que focaliza os discursos de mães residentes em São Caetano do Sul, Bárbara Radovanski Galvão (2008), em sua dissertação de mestrado, investigou as concepções de homens-pais, de camadas médias residentes no município de São Paulo, sobre criança pequena, sua educação e cuidado. Não desconsiderando a grande responsabilidade que recai 7 sobre a mãe no processo de escolha por tipo de atendimento à criança pequena

  

São Caetano do Sul é o município brasileiro com maior taxa de acesso à rede e coleta de esgoto

8 (NERI, 2007b). Em 2009, atingiu 100% de coleta e tratamento.

  

O Índice de Desenvolvimento Infantil (IDI) é calculado pelo UNICEF, Fundo das Nações Unidas

para a Infância, com o objetivo de monitoramento da situação da primeira infância em municípios,

estados e regiões brasileiras. O IDI é composto por quatro indicadores básicos: porcentagem de

crianças menores de 6 anos morando com pais com escolaridade precária (até três anos de

estudo); cobertura vacinal em crianças menores de 1 ano de idade (vacina tríplice contra difteria,

coqueluche e tétano (DTP) e a tetravalente composta pela DTP e pela Hib (Haemophilus

influenzae tipo b); proporção de gestantes com mais de seis consultas pré-natais; porcentagem de

crianças de 4 a 6 anos de idade matriculadas na pré-escola. O Índice tem uma variação de 0 a 1.

  Quanto mais próximo de 1, melhor a situação da primeira infância (UNICEF, 2005, 2008).

  23

  (BLOCH, BUISSON, 1998, 1999; PUNGELLO, KURTZ-COSTES, 1999), mas visando apreender a influência ou participação paterna nessas decisões, o trabalho de Galvão (2008) mostrou-se relevante e complementar a esta investigação.

  Os seis homens-pais entrevistados por Galvão (2008) apresentaram discurso sofisticado sobre a educação e o cuidado em relação aos seus próprios filhos, mas poucas reflexões sobre e mobilização por EI em ambientes coletivos e públicos. O foco dos discursos foi o próprio filho pequeno no âmbito privado e doméstico, embora a pesquisa tenha tido como objetivo dar voz aos homens-pais, especialmente, no que se referia aos bebês, sua educação e cuidado em espaços coletivos.

  Galvão (2008) também apreendeu, nos discursos de seus entrevistados, uma oposição entre um discurso genérico que diria respeito ao conjunto de homens-pais e um discurso mais pessoal, com um posicionamento mais específico sobre a forma de cada um agir ou pensar. A pesquisadora observou que seus ideais de educação e cuidado para os filhos pequenos envolvem conceitos “modernos” que valorizam: a participação do homem-pai no cuidado (com maior presença do pai nos cuidados diários com o filho); a autonomia do filho; a promoção do convívio entre crianças de mesma idade; o rompimento com padrões anteriores de exercício da paternidade (os homens-pais entrevistados procurando se diferenciar da postura de seus próprios pais, por exemplo).

  Importante destacar, também, que os homens-pais entrevistados por Galvão (2008) diferenciam nitidamente bebê e criança pequena e que essa diferenciação, para eles, não se dá pela idade, mas sim pelo desenvolvimento das competências. “Enquanto o bebê se caracteriza pela dependência acentuada, a criança pequena se diferencia pela capacidade de comunicação.” (p. 92).

  Embora nem todos os pais entrevistados por Galvão (2008) tenham optado por uma modalidade coletiva de EI para seus filhos, eles consideram que, a partir de 1 ano de idade, a criança poderia começar a freqüentar “escola”. Para eles, a escola ideal deveria ser um espaço onde se cuida bem das crianças, que funciona

  24 em prédio limpo e adaptado às necessidades das crianças e que promove a socialização entre pares.

  Questionados sobre suas concepções sobre a creche pública, esses pais, provenientes das camadas médias, associaram-na às classes menos favorecidas. O termo creche é mal visto por eles e, em geral, associado somente ao cuidado com a criança e não orientado por objetivos educacionais. A pesquisa de Galvão (2008) revelou forte rejeição dos serviços públicos pelos homens-pais de camadas médias.

  Além das concepções dos adultos sobre o bebê e sobre as modalidades de EI, deve-se levar em conta, também, a oferta, ou seja, o número de vagas disponíveis em estabelecimentos públicos, nas diferentes regiões geográficas brasileiras e locais de inserção ou localização do domicílio, e a qualidade do atendimento oferecido.

  No período de 1998 a 2008, o atendimento em creches cresceu somente 9,4% segundo dados do IBGE (2009). O crescimento pouco acelerado do atendimento, nessa etapa da educação básica, coloca em xeque a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) de atender 50% das crianças dessa faixa etária em 2011.

  As políticas de EI implementadas no Brasil parecem não convergir para os direitos ou expectativas e necessidades dos principais interessados, crianças pequenas e famílias, especialmente mães. Não se trata da ausência de políticas voltadas para a infância, mas sim como esses direitos e necessidades de bebês e

  9 de suas famílias aparecem na agenda de políticas públicas .

  No NEGRI, temos recorrido à produção sobre construção de problemas sociais (BEST, 1987, 2008; HILGARTNER, BOSK, 1988; LAHIRE, 2005; OSZLAK, O’DONNELL, 1976) em nossas análises e interpretações sobre como a agenda de políticas públicas é negociada e construída, isto é, como os problemas sociais são

  

econômica, política social. As políticas educacionais se inserem nas políticas sociais e as políticas

de educação infantil nas políticas educacionais. As políticas sociais são, portanto, um setor das

políticas públicas e as políticas educacionais um sub-setor das políticas sociais.

  25 hierarquizados ou considerados prioritários para investimento de recursos e/ou implementação de ações.

  Segundo a definição proposta por Oszlak e O’Donnell (1976), política pública pode ser conceituada como: “[...] um conjunto de ações e omissões que manifestam uma determinada modalidade de intervenção do Estado em relação a uma questão que incita a atenção, interesse ou mobilização de outros atores na sociedade civil.” (p. 25, tradução nossa).

  Para Oszlak e O’Donnell (1976), a política pública se insere em uma estrutura de arena de negociações, onde ocorre debate e embate entre uma

  10

  multiplicidade de operadores/atores sociais (mídia, igrejas, movimentos sociais, organizações multilaterais, especialistas, juristas, academia etc.) com desiguais oportunidades de participação, que representam numerosos e contraditórios interesses, em uma perspectiva dinâmica, em um jogo de conflitos e tensões.

  A política pública é o produto de uma arena: onde consensos e legitimidades devem ser construídos. Vivemos em situações de interlocuções plurais, competitivas, polêmicas, assimétricas, pois há muitos grupos sociais que por discriminação e exploração não conseguem incluir seus problemas na agenda de Governo. (AGUILAR, 2006, p. 38, tradução nossa).

  Na constituição da agenda de políticas públicas, a hierarquia dos problemas sociais a serem enfrentados/resolvidos é estabelecida a partir de jogos de interesse, do poder social, econômico e político dos atores, alguns mais “visíveis” que outros, com status diferenciados e marcados por hierarquias de gênero, raça, idade e classe. Os grupos dominantes apresentariam maior poder de barganha e de negociação do que os grupos mais “invisíveis” que, nem sempre, participam das negociações ou são ouvidos sobre temas de seu interesse.

  Cada um desses atores sociais não constitui, entretanto, um grupo monolítico. Coexistem contradições e conflito de interesses, tendências diversas e divergências nas instâncias onde atuam os atores. Nem o Estado, nem a 10 sociedade civil, nem as instituições são homogêneos. São nessas fissuras e na

  

Hilgartner e Bosk (1988) utilizam o termo ator, enquanto Oszlak e O’Donnell (1976) utilizam o

termo operador.

  26 correlação de forças entre os vários grupos que se encontram espaços de negociação. Compreendemos, portanto, que essas contradições e conflitos de

  11 interesses são constituintes da construção de problemas sociais.

  Hilgartner e Bosk (1988) sugerem caminhos para o estudo dos fatores e forças que direcionam a atenção pública para alguns problemas ou desviam-na de outros. Segundo esses autores, cada problema social compete com outros problemas por atenção pública. Para eles, um problema social é “[...] uma dada condição ou situação suposta, presumida, que é nomeada ou rotulada como um problema nas arenas públicas de discurso e ação”. (p.55, tradução nossa).

  Partimos da idéia de que o reconhecimento social de uma dada necessidade é importante, já que implica a mobilização de recursos para atendê- la. Como os recursos são finitos e as demandas, por sua vez, infinitas, se um problema não tem visibilidade social, dificilmente receberá investimentos. Se não vai para a agenda, não vira política pública.

  A agenda de políticas públicas prioriza o que é considerado como necessidade objetiva ou simbólica, o que é reconhecido, ou não, como necessidade social. Os problemas sociais podem ser construídos a partir de necessidades objetivas, mas também a partir de necessidades não concretas, já que são projeções de sentimentos coletivos, são construídos subjetiva e simbolicamente, não se constituindo, portanto, em um espelho real de condições objetivas de existência (HILGARTNER, BOSK, 1988).

  Pode-se, pois, aventar que nem todos os problemas têm o mesmo apelo. Aparentemente, alguns segmentos etários (bebês, crianças pequenas) e instituições (como a creche) não vêm recebendo a mesma atenção que outros.

  Para o NEGRI, certos temas, como “menino de rua”, “prostituição infanto-juvenil”, “gravidez adolescente”, obtiveram visibilidade midiática, passando a orientar as políticas públicas, na medida em que conseguiram espaço na agenda, receberam 11 recursos e motivaram o desenvolvimento de políticas específicas. Esses temas

  

A promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990 (BRASIL, 2005), reflete bem

a participação de diversos setores da sociedade movidos por interesses, muitas vezes, conflitantes

e pode ser citado como exemplo de lei que foi criada a partir de intensas negociações sociais.

  27 têm conseguido, nos últimos anos, despertar a atenção social e alimentar a política espetáculo (ROSEMBERG, 2005b).

  Fragmentando a pobreza, e também a infância e adolescência, em subgrupos, canalizam-se olhar e recursos para programas específicos de atendimento, desconectando-os de uma política social mais abrangente voltada

  12 para o conjunto de crianças e de adolescentes .

  Na perspectiva do NEGRI, a agenda de políticas públicas para a infância não é uma agenda que prioriza o combate à desigualdade. Para nós, a agenda deveria adotar mais políticas universalistas de educação e menos políticas focalizadas em subgrupos considerados “anômicos”. Não será através de ações focadas em segmentos que se combaterá a desigualdade, pois esses subgrupos são formas muito específicas de expressão da pobreza.

  Por isso, consideramos fundamental que os direitos das crianças pequenas, incluindo creches de qualidade, ocupem um papel mais importante na agenda e nas prioridades públicas.

  A ausência de poder de barganha por parte dos bebês parece fazer com que uma necessidade que para nós do NEGRI é uma necessidade social não obtenha reconhecimento social, nem espaço na agenda. A pequena infância não tem cidadania plena, não tem direito a voto e são os adultos que se dão o direito de falar em nome das crianças e que formulam propostas para a infância. Desse modo, elas permanecem invisibilizadas na cena pública.

  [...] O que importa aqui acentuar é o fato de que as crianças privadas de direitos políticos diretos tendem a ser, em conseqüência da sua ausência forçada da cena política representativa (governo, parlamento, câmaras municipais etc.), invisibilizadas enquanto atores políticos concretos. (SARMENTO, 2007, p. 37).

  As reflexões e pesquisas do NEGRI têm partido de algumas pistas ou hipóteses que podem estar associadas à invisibilidade política do bebê em nossa 12 sociedade (ROSEMBERG, 2006b, 2006d):

  

É importante ressaltar que muitas políticas sociais específicas foram dirigidas às crianças e

adolescentes de famílias consideradas desestruturadas, com o objetivo de redução da

delinqüência e da criminalidade (PASSETTI, 2004).

  28

  • a sociedade ainda parece considerar o bebê ou a pequena infância como um tempo social relativo à esfera privada (família, casa) e não à esfera pública, concebendo-a como dimensão da vida reprodutiva e não da vida produtiva. A criança pequena guardada em espaços fechados não tem tanta visibilidade pública enquanto geração;
  • apesar de poucos bebês e crianças pequenas freqüentarem creches, se relacionando com outros adultos e crianças não pertencentes às suas famílias, o convívio das crianças em instituições específicas para elas acaba escondendo-as também, de certo modo, da esfera pública;
  • os adultos não conseguem decodificar amplamente a comunicação dos bebês;
  • os brasileiros adultos, formadores de opinião, parecem não ter

  13

  experiências concretas com espaços institucionais coletivos para educação e cuidado de crianças pequenas. As imagens que fazem desses espaços são alimentadas por representações arcaicas e suspeitosas, muitas vezes associadas à roda de expostos, ao abandono, ao orfanato, aos maus-tratos ou à falta de atenção;

  14

  • as mídias não têm contribuído para ampliar a visibilidade de bebês em outros espaços sociais além da casa. Além disso, crianças pequenas são modelos para produtos usados em espaço doméstico

  e, geralmente, são retratadas em matérias na mídia, quase sempre,

  15

  associadas à condição de vítima em situações de tragédia no espaço privado e/ou público e em abordagens sensacionalistas que

  16 13 mobilizam a sociedade no sentido do espetáculo ;

Nenhum dos homens-pais entrevistados por Galvão (2008) vivenciou, quando criança,

14 experiências em creches ou outros espaços coletivos de EI.

  

Apesar da realização de estudos (BRASIL, 1995a; ZABALZA, 1998) sobre o que seria um

atendimento de qualidade que respeitasse os direitos das crianças, a mídia (uma fonte de

informação poderosa e acessível para muitas famílias brasileiras) não vem abordando ou

15 divulgando adequadamente bons parâmetros para avaliação da EI (LIMA, 2004).

  

Os entrevistados de Galvão (2008) também citaram notícias veiculadas pela mídia envolvendo

16 babás e creches em situações de maus-tratos ou tragédias.

  

Estudos do NEGRI (ANDRADE, 2001; BIZZO, 2008; FREITAS, 2004) vêm apontando, também,

o uso retórico da infância pela mídia enquanto “cabide de notícias”. A infância é, quase sempre,

  29

  • a redução do número de nascimentos e o aumento da esperança de vida parecem tornar muito curta a duração da pequena infância na

  17

  trajetória de vida familiar . Para um bebê aqueles anos são a vida toda, mas para suas famílias e sociedade não;

  • a sociedade ainda associa intensamente bebês e crianças pequenas às mulheres, segmento social com ainda menor poder de atuação ou negociação política que os homens;
  • as famílias, por ocasião do nascimento e dos primeiros anos de vida do bebê, vivenciam um momento de maior intimidade e fragilidade, voltadas para suas necessidades próprias, se adaptando à nova composição familiar, muitas vezes, ainda, procurando se inserir no mercado de trabalho e conquistar autonomia, com maior dificuldade para participar de ações políticas;
  • a sociedade ainda associa o bebê exclusivamente à condição de filho e não o reconhece plenamente como criança cidadã. “Não votando nem sendo eleitas, as crianças são tematizadas fora do quadro do referencial de destinatários políticos, designem-se eles como ‘cidadãos’, ‘contribuintes’ [...] ou mesmo ‘povo’. (SARMENTO, 2007, p.38).

  Para além da invisibilidade pública do bebê na sociedade brasileira, apreendemos, também, a invisibilidade da necessidade de se conciliar trabalho e atividades familiares e de se diminuir a desigualdade entre homens e mulheres no que tange aos cuidados e à educação de crianças pequenas.

  A maior parte dos estudos sobre escolha por modalidades de EI, concepções sobre creche ou avaliação da qualidade do atendimento oferecido às crianças pequenas, que apresentaremos no capítulo 3, tem entrevistado famílias ou pais de camadas populares, enfocando, sobretudo, itinerários pessoais/familiares de escolha e compreendendo o bebê e a criança pequena enquanto filhos. Daí, a

  

associada na mídia à violência, à sexualidade, à exploração, ao trabalho e ao abandono (BIZZO,

17 2008). E, dificilmente, a voz das crianças é ouvida pelos jornalistas.

  

Homens-pais entrevistados por Galvão (2008) também se referiram à curta duração da pequena

infância na trajetória familiar como um dos motivos possíveis para a desmobilização política dos

adultos frente aos direitos das crianças de 0 a 3 anos.

  30 importância de pesquisas como a de Galvão (2008) e a presente investigação, que sustenta esta tese, que focalizam as concepções sobre o bebê, enquanto etapa da pequena infância, e as escolhas por modalidades de EI para os bebês em geral, nos discursos de pais e mães pertencentes às camadas médias.

  31

  CAPÍTULO 2 – TEORIAS E MÉTODO

  Neste capítulo teórico, procurarei integrar dois campos de conhecimento que compartilham a desconstrução de uma naturalização de concepções sobre a criança, sua educação e cuidado.

  Iniciarei, apresentando o campo de novos estudos sobre a infância com destaque para os novos paradigmas da Sociologia da Infância, e seguirei, descrevendo, brevemente, a teoria de Marcel Mauss (1950) sobre a dádiva e como vem sendo atualizada por Bloch e Buisson (1998, 1999), na interpretação de opções familiares por modalidades de educação e cuidado infantis.

  O ponto chave para a compreensão do que se tem conveniado denominar “novos estudos” ou “novos paradigmas” nos estudos sobre a infância é concebê-la como resultante de um processo de construção social.

  18 Ao publicar L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, em 1960 ,

  Philippe Ariès revolucionou a compreensão do conceito de infância, desconstruindo uma concepção, até então vigente e compartilhada, de infância natural e universal.

  Ariès (1981) apontou a ausência de um sentimento de infância na Idade Média com as crianças sendo consideradas adultos em miniatura. Segundo esse autor, foi a partir dos séculos XVII e XVIII, sobretudo nas famílias burguesas, que a idéia de infância compreendida enquanto uma fase autônoma e distinta da vida adulta foi construída.

  32

  19 Embora seu trabalho tenha sofrido inúmeras críticas , segundo Singly

  (1993), os estudos de Ariès (1981) constituíram um divisor de águas. Há um antes e um depois desses estudos e da apreensão do surgimento do sentimento de infância associado ao nascimento também do sentimento de família. A partir do novo lugar do filho na família e das modificações nas relações internas da família com essa criança é que essa família também se transformou.

  Segundo Ariès (1981), o sentimento de infância se constrói historicamente a partir da privatização do universo familiar, da atribuição de um estatuto social à infância, do desenvolvimento de novas formas de se exercer a maternidade e a

  20

  paternidade e da institucionalização das crianças, com o ingresso na escola . A infância passa a ser objeto pedagógico com o ofício da criança passando a ser o de escolar (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986).

  Como apontam Ferreira (2002) e Sarmento (2007), dentre múltipas concepções sobre criança, as imagens da criança má, da criança inocente, das crianças como futuro do mundo, da criança como tábula rasa, frágil, vulnerável, amoral, imatura, irresponsável, irracional ou incapaz foram as que mais se propagaram e atingiram o senso comum, influenciando de forma direta a vivência das crianças no cotidiano.

  Não é de hoje, portanto, que se reflete sobre a infância e que circulam múltiplos olhares e concepções sobre criança (BURMAN, 1999). Entretanto, como veremos mais adiante, os novos estudos sobre a infância, somente mais recentemente, têm proposto uma ruptura de paradigmas, passando a compreender a criança como sujeito e ator de seu desenvolvimento. Será que a concepção que temos sobre criança e, em especial, sobre a criança pequena está 19 mudando?

  

Muitas críticas se basearam no fato de Ariès ter, em seus trabalhos: partido de fontes

iconográficas e tê-las considerado como expressões de atitudes e valores da época (PINTO,

1997); produzido generalizações afirmando a ocorrência de oposição entre as relações privadas,

valorizadas pela família burguesa, e vida social (SNYDERS, 1984); desconsiderado a existência de

manuscritos que apontavam uma diferenciação entre adultos e adolescentes já na Idade Média, o

20 que contradizia suas afirmações (SANTOS,1996).

  

Vale lembrar, entretanto, que no Brasil, a privatização dos lares, a ênfase na intimidade e a

preocupação com a escolarização das crianças desenvolveram-se muito tempo depois, quando

comparados com a sociedade burguesa européia (DEL PRIORE, 2004a).

  33 O lugar da criança na sociedade brasileira terá sido sempre o mesmo? Como terá ela passado do anonimato [se é que realmente saiu do anonimato ou da invisibilidade] para a condição de cidadão com direitos e deveres aparentemente reconhecidos? Numa sociedade desigual e marcada por transformações culturais, teremos recepcionado, ao longo do tempo, nossas crianças da mesma forma? Sempre choramos do mesmo jeito a sua perda? O que diferencia as crianças de hoje, daquelas que as antecederam no passado? Mas há, também, questões mais contundentes: por que somos insensíveis às crianças que mendigam nos sinais? Por que as altas taxas de mortalidade infantil, que agora começam a decrescer,

pouco nos interessam? (DEL PRIORE, 2004a, p. 8).

  No Brasil, em 1976, em seu texto Educação: para quem? Fúlvia Rosemberg chamava a atenção para a adoção pela Psicologia de uma postura adultocêntrica no estudo do desenvolvimento humano, compreendendo a criança sempre com base em um padrão adulto (especialmente de homem, adulto, ocidental, de classe média) a servir de referência. Desta ótica, as relações adulto-criança, e em especial adulto-bebê, seriam, de forma geral, marcadas pela subordinação da infância ao mundo adulto.

  A visão adultocêntrica apreende a criança como um vir a ser, uma promessa, sobre quem é possível projetar e idealizar, como se ela já não fosse alguém com individualidade e com história. Enquanto promessa, a criança encarnaria todas as possibilidades de realizar o que os adultos ainda não puderam.

  Uma das concepções idealizadoras da infância:

  [...] ao invés de propor a modificação da sociedade-centrada-no-adulto, paradoxalmente, aceita ou submete-se a seu paradigma. Parte, inicialmente, da crítica à sociedade adulta corrompida e domesticadora da infância. A salvação da humanidade só seria possível pela contribuição da criança, pela preservação de suas qualidades, de sua natureza boa, ainda não corrompida, porque a-social. Não podendo enfrentar a contradição fundamental, que opõe a sociedade-centrada-no-adulto à criança, tal concepção cria o mito e protege a infância, isolando e separando-a da sociedade, recolocando-a no seu meio ideal, a natureza. (ROSEMBERG, 1976, p. 1467).

  Rosemberg (1976) questionava a concepção que considera a infância como um fenômeno natural e universal. A biologização e naturalização da criança,

  34 especialmente do bebê, com os padrões adultos e de maturidade permeando a compreensão do desenvolvimento, retiram da infância seu caráter histórico e seu potencial transformador, “[...] pois cada nova infância é reconstruída à luz do paradigma adulto atual, que viveu sua infância em outro tempo histórico.” (ROSEMBERG, 1996, p. 21). Essa concepção norteou as diversas teorias da Psicologia do Desenvolvimento que deram pouca atenção ao tempo social, privilegiando o aspecto orgânico e as chamadas “etapas” do desenvolvimento, com ênfase no preparo da criança para a vida adulta, não reconhecendo a criança como ativa em seu próprio processo de socialização (bem como, no processo de socialização de outras crianças e adultos).

  A infância e a criança têm sido compreendidas como dependentes devido ao seu suposto ou preconcebido “déficit” em relação ao corpo adulto e a todas as dependências consideradas como infantis (FERREIRA, 2002; ROSEMBERG, 1976) e essa forma de compreender as crianças parece ser, ainda, mais acentuada quanto menor é a criança. Essas concepções baseadas nas diferenças corporais entre adultos e crianças tendem a dualizar criança-adulto e infância- adultez.

  Mesmo algumas teorias feministas, apesar de terem revolucionado os paradigmas científicos, por meio da utilização da categoria analítica gênero, desafiando a concepção essencialista e o reducionismo biológico, e considerarem as relações entre homens e mulheres como histórica, cultural e socialmente construídas, continuaram a incorporar um modelo adultocêntrico. Com base nesse olhar, segundo Rosemberg (1996), a família nuclear e as relações de parentesco permaneceram no centro desses estudos, não se compreendendo a infância fora do universo adulto e do contexto privado.

  Para várias teóricas feministas, como por exemplo, Rubin (1975 apud ROSEMBERG, 1996) e Gilligan (1992 apud ROSEMBERG, 1996) é:

  [...] como se na família se sediasse toda a dinâmica psicológica das crianças, como se a partir da primeira infância outras instituições não fossem indicadas pela hierarquia de gênero (construídas por e marcando adolescentes e adultos), e como se toda dinâmica psicológica das crianças se esgotasse na família, sempre em uma relação etariamente assimétrica. (ROSEMBERG, 1996, p.21).

  35 Certas teorias feministas, como as que citamos, segundo Rosemberg (2006c), apresentam uma abordagem adultocêntrica quando:

  • generalizam as relações de gênero características da condição de adulto para todas as fases da vida;
  • reconstroem a construção da identidade de gênero na infância partindo da bipolaridade masculino-feminino que marca a fase adulta;
  • opõem infância natureza X adulto cultura;
  • silenciam sobre as contradições e relações de dominação entre adultos e crianças nos planos material e simbólico como, por exemplo, na hierarquia etária na definição de prioridades em políticas públicas.

  Essas teorias feministas que apresentam uma abordagem adultocêntrica se mantêm coerentes frente ao eixo de dominação que querem combater – a subordinação de gênero – mas, se mantêm internamente coerentes através da naturalização e essencialização da infância.

  Segundo Rosenbaum (1998, p. 104), “[...] as pesquisas sobre gênero dos anos 1990 têm orientado pouco seu olhar para a dinâmica geracional.” A proposta teórica de Bloch e Buisson (1998, 1999), que apresento no próximo tópico e que também utilizo como referencial teórico nesta tese, aporta, nesse sentido, um olhar interessante e inovador sobre a questão geracional, ao afirmar que os casais podem ou não transformar aquilo que receberam de seus pais ao escolherem modalidades de educação e cuidado para seus filhos, embora ainda se restrinja, como abordaremos mais adiante, ao âmbito da família.

  Diferentemente do que pensa Martins (1993), Rosemberg (1995) considera que a sociedade contemporânea não vive o fim da infância, mas sim a subordinação da infância. Para essa autora, há uma demarcação da infância como período com necessidades específicas submetido à autoridade adulta, enquanto categoria subordinada.

  Outro foco de crítica destacado pelos novos estudos sobre infância é o conceito de socialização tal como usado por teorias funcional-estruturalistas. O modelo de socialização funcionalista compreendendo a socialização como

  36 processo de inculcação que se daria em mão única (do adulto ativo ou das instituições para a criança considerada receptor passivo) está na base da subordinação da infância. Essa compreensão desconsidera a participação da criança no seu próprio processo de socialização, no de seus pares e na socialização de adultos, pais e profissionais de educação (MOLLO-BOUVIER, 2005).

  A pesquisadora Érica Burman (1999) também destaca que a Psicologia do Desenvolvimento desqualifica os discursos das crianças como sendo inferior ao dos adultos. Para essa autora, não é possível pensar a infância sem se abordar as relações de poder na sociedade.

  Na perspectiva do NEGRI, pressupomos um modelo de sociedade constituída por conflitos e contradições, no qual as relações de idade (ou as gerações) participam, ao lado das classes sociais, gênero, raça-etnia, da construção das desigualdades sociais. Partimos de uma visão de sujeito histórico e ativo que enfrenta desigualdades e contradições em diversas esferas da vida social e nas diferentes dinâmicas de classe, gênero, raça e idade. Mas, não consideramos que as desigualdades sigam um modelo associativo ou cumulativo, em um movimento sincrônico, com uma pessoa ou grupo enfrentando, ao longo de sua vida, todos os efeitos das desigualdades de classe, gênero, raça e idade ao mesmo tempo e da mesma forma (ROSEMBERG, 2006b, 2006c).

  Não encontramos dados que indiquem que bebês meninas sofram

  21

  discriminação de gênero no Brasil, mas parece ocorrer desigualdade em termos de relações raciais e de idade, por exemplo. Bebês e crianças negras vivem em áreas com piores condições de saneamento e maior pobreza, mais sujeitas à desnutrição e mortalidade na infância. A não sincronia também se expressa em termos de direitos na sociedade contemporânea. Os homens os conquistaram antes, as mulheres e as crianças depois.

  Em uma sociedade centrada no adulto, a dominação adulta sobre a infância 21 evidencia-se pela pouca visibilidade e voz que é dada às crianças, especialmente

  

Na pesquisa de Galvão (2008), os homens-pais entrevistados relataram expectativas

semelhantes em relação ao futuro de seus filhos, sendo eles meninos ou meninas.

  37

  às pequenas. Crianças não consideradas como atores sociais não conseguem exercer seu protagonismo social.

  Nos anos 1990, novos aportes e paradigmas procurando romper com visões naturalizantes, universalizantes, adultocêntricas e a concepção de socialização como inculcação são propostos pela Sociologia da Infância que considera as crianças como agentes sociais ativos, procurando compreender a infância enquanto categoria construída sócio-historicamente (FERREIRA, 2002; MONTANDON, 2001; QUINTEIRO, 2002; SARMENTO, 2007; SIROTA, 2001).

  Os chamados novos paradigmas para o estudo da infância, propostos por Alan Prout e Allison James (SIROTA, 2001; MONTANDON, 2001), são os seguintes:

  • [A] infância é entendida como uma construção social. Como tal ela provê um quadro interpretativo para contextualizar os primeiros anos da vida humana. Infância, diferente da maturidade biológica, não é nem um atributo material, nem universal dos grupos humanos, mas aparece como um componente estrutural e cultural específico de muitas sociedades.
  • [A] infância é uma variável da análise social. Ela não deve ser inteiramente isolada de outras variáveis tais como classe, gênero ou etnicidade. Análise comparativa e intercultural revela uma variedade de infâncias ao invés de um fenômeno técnico e universal.
  • As culturas e relações sociais das crianças merecem ser estudadas em si mesmas, independentemente das perspectivas e preocupações dos adultos.
  • Crianças são e devem ser vistas como ativas na construção e determinação de suas próprias vidas sociais, nas vidas de seu entorno e da sociedade em que vivem. Crianças não são sujeitos passivos das estruturas e processos sociais.
  • [A] etnografia é uma metodologia particularmente útil para estudar a infância. Ela permite que a criança disponha de uma voz indireta e tenha maior participação na produção de dados sociológicos que o que é

    possível pelas pesquisas experimentais e os surveys.

  • [A] infância é um fenômeno no qual a dupla hermenêutica das ciências sociais está particularmente presente (ver GIDDENS, 1976). Isto é, proclamar um novo paradigma da sociologia da infância é também engajar- se e responder pelo processo de reconstrução da infância na sociedade.

    (JAMES, PROUT, 2003 apud FREITAS, 2004, p. 39).

  Produções acadêmicas em países francófonos ou anglo-saxões, considerando a criança como ator social competente, são, portanto, relativamente recentes. Esses novos estudos sobre a infância compreendem que:

  38

  [...] a infância não é a idade da não-fala: todas as crianças, desde bebês, têm múltiplas linguagens (gestuais, corporais, plásticas e verbais) porque se expressam. A infância não é a idade da não-razão: para além da racionalidade técnico-instrumental, hegemônica na sociedade industrial, outras racionalidades se constroem, designadamente nas interações de crianças, com a incorporação de afetos, da fantasia e da vinculação ao real. A infância não é a idade do não-trabalho: todas as crianças trabalham, nas múltiplas tarefas que preenchem os seus quotidianos, na escola, no espaço doméstico e, para muitas, também nos campos, nas oficinas ou na rua. A infância não vive a idade da não-infância: está aí, presente nas múltiplas dimensões que a vida das crianças (na sua heterogeneidade) continuamente preenche. (SARMENTO, 2007, p. 35-36).

  As abordagens da construção social da infância procuram considerar as crianças a partir de seus próprios referenciais e a se interessar pelo que as crianças têm a dizer sobre elas e sobre suas vidas. A criança é considerada capaz de produzir e modificar culturas, capaz também de intervir na própria construção social da infância. Essas novas concepções de infância chamam a atenção para a produção de cultura infantil a partir do protagonismo de seus próprios atores na interação não somente entre pares, mas também entre crianças e adultos, emitindo opiniões, exercendo sua curiosidade, construindo saberes e produzindo conhecimentos. Concebe-se a infância como produtora de cultura e as crianças constituindo e sendo constituídas pelos contextos sócio-culturais onde se inserem (FERREIRA, 2002; SARMENTO, 2007; VASCONCELOS, 2007).

  A concepção da criança de todas as idades como ator-sujeito abre novas perspectivas para as pesquisas e altera o estatuto da criança enquanto participante ou enquanto pesquisadora: “[...] seres sociais plenos [as crianças] ganham legitimidade como sujeitos nos estudos que são feitos sobre elas” (COHN, 2005, p. 21).

  A realização de pesquisas com crianças abre espaço para que se conheça a diversidade de infâncias e experiências sociais infantis em contextos sócio- histórico-culturais diversos, bem como pode lhes proporcionar maior visibilidade social (FERREIRA, 2002). Assim, vários pesquisadores partiram à escuta das

  22

  crianças (ALDERSON, 2005; CORSARO, 2005; FERREIRA, 2002; PRADO, 22 2002; SIROTA, 2005).

  

Deve-se salientar, entretanto, que a maior parte desses estudos não ouviu ou observou crianças

na faixa etária que é o foco de meu estudo (bebês de até 1 ano de idade).

  39 Pesquisando crianças de 0 a 3 anos de idade, brincando em creches públicas brasileiras, Prado (2002, p. 106) percebeu que elas:

  [...] transgrediam a divisão etária proposta no contexto da creche, aquela utilizada em todo o sistema escolar, que parte de uma concepção de infância como algo que se compartimentaliza em fases tão delimitáveis que, quase naturalmente, coloca às crianças um modelo definitivo e definidor na construção de seu desenvolvimento e de sua identidade social, reforçada pelas teorias etapistas de desenvolvimento infantil e por pré-noções em relação à infância, como por exemplo, que as crianças maiores machucam as crianças menores ou que crianças maiores e menores não sabem brincar juntas, dentre tantas outras.

  Sirota (2005), analisando a experiência de crianças por ocasião das festas de aniversário, percebeu que entre 2 e 3 anos de idade, as crianças já apresentam um círculo de amigos, o que é bastante característico da infância moderna, segundo essa autora.

  Por sua vez, Alderson (2005) descreveu inúmeros exemplos bem sucedidos de pesquisas também realizadas por crianças (algumas a partir de 3 anos de idade) e adolescentes que conseguiram, não só de maneira eficiente divulgar os resultados dessas pesquisas, mas influenciar e alterar decisões adultas sobre inúmeros temas.

  Ao se fazer pesquisas com crianças, segundo Alderson (2005), deve-se tomar o cuidado para não tratá-las como imaturas. Essa autora cita a pesquisa de Kendrick (1986) em que crianças de 2 anos com câncer foram ouvidas sobre a natureza e o objetivo dos tratamentos médicos e se expressaram com tanta clareza que desafiaram as crenças sobre suas possíveis incapacidades de compreensão.

  Alderson (2005) também cita várias pesquisas, da década de 1990 (BOYDEN, ENNEW, 1997; HART, 1997; JOHNSON et al., 1996), que indicam que crianças bem pequenas, e que ainda não sabem ler ou escrever, podem contribuir com informações precisas, por meio de sonhos, músicas, desenhos ou mapas, informando sobre sua mobilidade, rotina cotidiana e aspectos da natureza local.

  Relatando sua experiência em pesquisas etnográficas com crianças pré- escolares norte-americanas (a partir de 4 anos de idade) e italianas (a partir de 3

  40 anos de idade), Corsaro (2005) também apreendeu a competência das crianças enquanto atores sociais ativos na construção de suas culturas infantis.

  Diante da realização dessas novas pesquisas, pesquisadores adultos se depararam com o surgimento de debates e tensões envolvendo questões éticas e relacionadas aos direitos das crianças (ALDERSON, 2005; KRAMER, 2002).

  O direito da criança à autonomia, à voz, ao reconhecimento, por um lado, e à proteção, por outro, geram uma tensão, um conflito, ainda pouco debatido na sociedade. A infância protegida pode ser emancipada?

  Internacionalmente, os direitos das crianças adquiriram uma nova dimensão na última década com os assim chamados direitos de participação. Tradicionalmente, as crianças sempre foram excluídas do que é conhecido como a primeira geração de direitos, ou direitos à autonomia: proteção contra as interferências e direitos à integridade física e mental e à autodeterminação. Eram consideradas estando sob a proteção e o controle de seus pais. (ALDERSON, 2005, p. 421).

  Alain Renaut (2002) e Irène Théry (2001) são alguns dos autores franceses que vêm debatendo essa contradição observada no campo dos direitos das crianças, especialmente a partir de análises da Declaração de Genebra, de 1924, da Declaração dos Direitos da Criança, de 1959, e da Convenção Internacional

  23 sobre os Direitos da Criança aprovada em 1989 .

  Em pesquisa sobre as representações sociais da criança e do adolescente entre atores sociais que participaram do processo de elaboração e aprovação da Constituição Brasileira de 1988 (a primeira a dedicar um capítulo especificamente à criança e ao adolescente brasileiro), Pinheiro (2004) também apreendeu tensões entre concepções que compreendiam a criança e o adolescente como objeto de proteção social e aquelas que os definiam como sujeito de direitos.

  

24

  Érica Burman (informação verbal) também aponta o paradoxo atual entre uma concepção de infância que compreende as crianças como boas e considera 23 que elas necessitam ser protegidas e uma concepção de infância que as

  Para um maior aprofundamento sobre as tensões envolvendo o debate sobre a criança e o

adolescente enquanto sujeito de direitos, sugiro a leitura da pesquisa de Carmem Sussel Mariano

24 (2009) que atualmente desenvolve sua tese de Doutorado também no contexto do NEGRI.

  Palestra proferida na PUC-SP em 7 de março de 2007.

  41 caracteriza como perigosas ou más. A sociedade ocidental contemporânea deseja proteger as crianças, mas, ao mesmo tempo, parece também querer controlá-las.

  No âmbito do NEGRI, temos optado por desenvolver pesquisas sobre discursos proferidos por adultos sobre criança(s) e infância(s). Isto porque nosso interesse se volta para a compreensão da articulação entre a agenda de políticas sociais e a concepção de infância que a sustenta. A este interesse no plano do conhecimento se alia um objetivo político que visa a construção de uma agenda de políticas públicas mais sensível aos direitos da criança pequena, particularmente dos bebês.

  A partir dessa ótica de análise, Neyrand (1999, 2000), na França, estudando discursos proferidos por adultos sobre o bebê e a pequena infância, especificamente discursos acadêmicos, apreendeu três rupturas sucessivas que produziram, de certa forma, alterações no modo de se conceber a infância:

  • uma ruptura epistemológica e política;
  • uma ruptura social e ideológica; • uma ruptura científica e moral.

  Com base nesse autor descreverei, brevemente, cada um desses momentos de mudança sobre as concepções de infância, alguns que ocorreram mais especificamente em contexto francês.

  A ruptura epistemológica e política

  Com o fim da Segunda Guerra mundial e com a apropriação pelos médicos e pediatras do discurso da psicanálise, um novo olhar sobre o bebê e sobre a importância de sua vida afetiva se desenvolveu. Embora a psicanálise tenha se interessado pelos bebês, muito antes do final dos anos 1940, foi com os efeitos da guerra sobre bebês separados de suas famílias que as teorias do hospitalismo e da carência materna ganharam força.

  Os estudos de René Spitz e Bowlby, entre outros, marcaram o momento de disseminação da psicanálise entre várias áreas médicas ligadas à infância, mas também sobre a puericultura e a educação e cuidado coletivo da criança pequena. A psicanálise tornou-se referência no campo do conhecimento sobre a infância,

  42 não somente entre especialistas, mas também entre o público em geral, tendo sido intensamente popularizada pela mídia.

  Ao mesmo tempo em que a psicanálise reforçava a importância do vínculo mãe-bebê (ao qual Winnicott concedeu estatuto de díade), renegava as instituições coletivas de educação e cuidado de crianças, bem como, menosprezava o papel do pai. Com efeito, no plano do desenvolvimento afetivo do bebê, segundo essas teorias, modalidades coletivas de cuidado produziriam carência e tanto elas, quanto o pai da criança, jamais conseguiriam substituir a mãe no processo de socialização de seu bebê.

  A ruptura social e ideológica

  Com o início dos anos 1970, esse panorama vai, entretanto, se alterar. As mudanças passam a se referir mais à mulher e à criança pequena e, nos anos 1980, ao pai.

  O movimento feminista rompe com padrões de relações de gênero, especialmente no que diz respeito ao controle de natalidade e à participação da mulher no mercado de trabalho.

  A idéia de instinto maternal como algo natural é questionada por Badinter e a experiência de Bettelheim, sobre Kibboutz em Israel, mostra a possibilidade de cuidados do bebê para além da díade mãe-filho.

  A concepção de mulher dona-de-casa, dependente do marido, começa a ser substituída pela idéia de um casal onde tanto o homem quanto a mulher trabalham fora. Apesar disso, e da necessidade crescente de atendimento das crianças pequenas em instituições de educação e cuidado, a mulher continua sendo associada aos cuidados infantis. A díade mãe-bebê parece ser substituída pela díade mulher-bebê.

  A partir dos trabalhos de Françoise Dolto, na França, surge uma nova imagem de criança pequena. O bebê sendo considerado como uma criança- sujeito, simbolizado pela máxima “o bebê é uma pessoa”. Partindo dessa concepção, é desenvolvido, na França, um novo tipo de instituição para cuidado e educação das crianças pequenas, a Maison verte, que procurava reconciliar a

  43 valorização das famílias com a socialização coletiva, através da sua integração nesse cuidado e procurando evitar tanto os riscos da fusão excessiva entre a criança e a mãe, bem como os malefícios de uma transição abrupta para um atendimento coletivo que fosse despersonalizado.

  Nos anos 1980, outra questão que ganhou força foi a do papel do pai na parentalidade. A ausência ou distanciamento do pai em relação à gestação e ao cuidado da criança passam a ser problematizados, na medida em que a carência paterna passa a ser associada aos problemas de adaptação, de delinqüência e outras perturbações durante a vida.

  Especialmente na França, a teoria lacaniana repercute e, ao valorizar a função simbólica e de autoridade do pai, acaba por reforçar uma ideologia de divisão dos papéis parentais na sociedade. Enquanto a função de cuidado continua associada à figura materna e a de autoridade associada à função paterna, mesmo que essas funções sejam consideradas como simbólicas e independentes de atribuições concretas, essa divisão acaba “oficializando” e contrapondo os papéis materno e paterno. Entretanto, quando mãe e pai não são mais associados a funções específicas no âmbito da educação e cuidados dos filhos, ambos podem exercer tanto cuidados quanto autoridade.

  Funções de cuidado e educação desvinculadas dos papéis de mãe e pai possibilitam, também, que outras pessoas possam assumi-las, sem serem consideradas como substitutos maternos ou paternos, mas como educadores de crianças. Isso permite que se reconheça a especificidade de cada pessoa próxima da criança, inclusive dos educadores, bem como possibilita que o modelo de família nuclear ocidental burguesa não seja mais considerado como universal.

  Contudo, o modelo que ainda prevalece, nesse período, nas sociedades ocidentais é mesmo o da divisão sexual das atribuições com a dominação masculina se exercendo no espaço público e o poder feminino no espaço privado e na relação com a criança pequena.

  O papel do pai, marcado por sua função simbólica e pelas alterações, cada vez mais freqüentes em seu estatuto jurídico (pais divorciados, separados),

  44 continua frágil e clama por uma nova ruptura que o campo dos conhecimentos sobre infância aportará nos anos seguintes.

  A ruptura científica e moral

  A responsável por essa nova ruptura foi a Medicina, por meio de seus avanços e novas possibilidades de intervenção médica na reprodução assistida. Essas novas técnicas marcam o começo de uma nova concepção de filiação e do lugar do filho trazendo novas questões e conflitos éticos que devem ser regulamentados pelo direito.

  A questão da relação do pai com o filho volta à tona, mas agora, confrontada com a questão da própria filiação materna. A partir desse momento, a paternidade biológica se torna certa pelo empréstimo de material genético, enquanto a maternidade biológica pode ser colocada em dúvida: a mãe biológica é a que fornece o óvulo ou o útero?

  A medicina retoma sua posição de poder sobre a infância, tal qual ostentava no século XIX e que foi contestada pelas ciências humanas no século

  XX. O Direito, por sua vez, cada vez mais solicitado a acompanhar a evolução dos costumes no domínio familiar, particularmente na França, se vê envolvido com a regulação das práticas sociais no âmbito do privado, especialmente com relação à filiação.

  Essa dupla ruptura, social e médica, que também esteve implicada nas mudanças iniciadas nos anos 1970, constitui a base do questionamento sobre o modo de se apreender o contexto relacional do bebê.

  Não é mais possível, pois, conceber o desenvolvimento psicomotor e cognitivo independentemente da vida relacional e afetiva que o sustenta. A idéia piagetiana de um desenvolvimento essencialmente interno da inteligência sensório-motora se encontra questionada em benefício de uma nova importância acordada às estimulações sensoriais do entorno. Do mesmo modo, as análises modernas da linguagem tendem a sublinhar, sobre a base de uma predisposição inata à aprendizagem, o seu caráter ativo e a importância do meio, redescobrindo de certa forma o trabalho precursor de Vygotsky. (NEYRAND, 1999, p. 10, tradução nossa).

  45 Em paralelo com a Medicina, a Psicologia do Desenvolvimento revê saberes anteriores e passa a reconhecer a importância das estimulações sensoriais do ambiente no desenvolvimento infantil.

  Novas concepções sobre o bebê construídas a partir de pesquisas sobre suas capacidades cognitivas, intelectuais, relacionais e afetivas, vêm destacando cada vez mais, seu papel de sujeito ativo, inclusive, em seu próprio desenvolvimento.

  Embora tenhamos apreendido, através dos estudos de Neyrand (1999, 2000), a ocorrência de rupturas e transformações nos discursos acadêmicos sobre o bebê e a criança pequena, ainda nos parece que o foco de suas análises recai mais sobre a família (mais do que sobre as modalidades de educação e cuidado coletivos) e, quase sempre, sobre o bebê na condição de filho.

  Apesar de os novos estudos sobre a infância terem proposto, como vimos, novos paradigmas importantes, essa área de conhecimento em construção também apresenta três dificuldades ou tensões quando tentamos pensar especificamente o bebê, a criança de pouca idade que dispõe de uma linguagem que os adultos apresentam dificuldade em decodificar, daí nossa opção por estudarmos, nesse momento, discursos proferidos por adultos sobre os bebês.

  A primeira tensão, segundo Rosemberg (2006c, p.6), refere-se “[...] ao estatuto epistemológico da categoria infância na Sociologia da Infância contemporânea. Trata-se de uma categoria descritiva ou analítica?” Infância, classe, gênero e etnicidade (ou raça) teriam a mesma equivalência heurística? Classe, gênero e raça pressupõem um outro como contraponto relacional. Qual seria o outro termo para a Sociologia da Infância que se relacionaria com a variável infância? Para a Sociologia da Infância, seria a infância, ou a categoria “idades da vida”, que estaria sendo considerada como variável? Infância enquanto categoria analítica estaria para relações de idade (como um dos pólos), como mulheres está para a categoria gênero?

  Uma segunda tensão diz respeito à linguagem. Na produção de conhecimentos sobre a infância pode estar havendo uma não precisão em relação ao sentido de criança - considerada como fase da vida ou considerada como filho-,

  46 de acordo com a língua de produção. Em alguns idiomas como o português, o espanhol e o italiano, por exemplo, se faz a distinção clara entre criança (puer) e filho (filius). Já, em outros, como o inglês e o francês, a mesma palavra remete aos dois sentidos (ROSEMBERG, 2006c). O uso de um mesmo termo pode gerar imprecisão teórica e política, encobrindo a condição de cidadã da criança e sua possível associação ao espaço público em contraposição à condição de filho, ainda vinculado mais ao espaço privado.

  Rosemberg (2006b, 2006c) destaca, também, a tensão relacionada à faixa etária. Qual a idade da criança para a Sociologia da Infância? A impressão que se tem é que o grupo etário de referência para esses estudos é o das crianças entre 5 e 16 anos. Aparentemente, as crianças da Sociologia da Infância falam, mas essa delimitação da faixa etária é vaga. Os novos paradigmas da Sociologia da Infância estariam também incluindo os bebês? O bebê também poderia ser considerado ator social ou produtor de cultura, mesmo sem ter as suas formas de linguagem facilmente ou adequadamente compreendidas pelos adultos ou por outras crianças?

  Procurando buscar possíveis respostas para esses questionamentos, os integrantes do NEGRI tiveram a oportunidade de indagar Régine Sirota e Manuel Sarmento, pesquisadores de renome no campo dos novos estudos sobre a infância, por ocasião de suas palestras proferidas na PUC-SP em 16 de abril de 2007 e 20 de junho de 2007, respectivamente. Em suas respostas, os pesquisadores destacaram que a Sociologia da Infância compreende a criança de 0 a 18 anos, mas tiveram dificuldade para precisar como a autonomia proposta pelos novos estudos sobre a infância poderia ser pensada para o bebê. Régine Sirota propôs que pensássemos no bebê provocando alterações a partir de seu nascimento, no estatuto social de seus pais (que deixariam de ser apenas filhos e se tornariam pais), mas concluiu que essas mudanças provocadas pelo nascimento do bebê não poderiam ser totalmente caracterizadas como manifestação de autonomia, como pressupõe a expressão ator social.

  47

  25 Mesmo Priscilla Alderson (2002), ao apontar três objeções que

  habitualmente são feitas à participação e capacidade dos bebês em opinar e exercer seus direitos, não se refere propriamente aos bebês (ou crianças menores de 1 ano) participando de pesquisas enquanto atores sociais, mas fornece alguns exemplos de como eles, desde bem pequenos, podem se manifestar de outras formas, que não somente através da fala, por exemplo, frente a situações

  26 envolvendo sua própria alimentação e higiene .

  Reconhecer as crianças como sujeitos em vez de objetos de pesquisa acarreta aceitar que elas podem “falar” em seu próprio direito e relatar visões e experiências válidas. Essas “falas” podem envolver língua de sinais, quando as crianças não podem ouvir ou falar, e outros sons e linguagens corporais expressivas, tais como os das crianças autistas ou com graves dificuldades de aprendizagem (ALDERSON, GOODEY, 1998 apud ALDERSON, 2005, p. 423).

  É interessante notar também que a Convenção Internacional sobre os

  

Direitos da Criança (1989) se refere de forma geral, a uma criança que fala, que

anda e que tem autonomia.

  Nossas problematizações não se referem à concepção de bebê como sujeito, pessoa ativa que age e reage frente ao seu meio, capaz de expressar preferências, afetos, de comunicar-se. Problematizamos a atribuição do estatuto de ator social ao bebê, como também a não demarcação de divisões internas à categoria infância. Isto nos leva a refletir sobre a prevalência de concepções referentes a todo o “ciclo vital” da infância ou a concepções diferenciadas internamente à própria infância. As diferenciações internas à infância não decorreriam apenas de posições de classe, raça-etnia, gênero, região/país, mas 25 também das próprias idades.

  

Segundo Alderson (2002), a primeira objeção à participação infantil baseia-se na concepção de

que a criança pequena não saberia o que é o melhor para si e que considerar seu ponto de vista

poderia ameaçá-la em seu bem-estar ou proteção. A segunda objeção parte da concepção de que

a criança não apresenta um pensamento racional e, portanto, seria incapaz de exercer seus

direitos. Por sua vez, a terceira objeção concebe que a criança pequena é ainda pouco

26 desenvolvida, ignorante, emotiva e egoísta para exercer seus direitos.

  

A autora citou exemplos envolvendo bebês de 7, 12 e até 17 semanas de vida que estavam

internados em unidades de terapia intensiva e que se expressavam sobre seus desejos durante o

banho, amamentação ou quando se sentiam incomodados com a fralda molhada.

  48 Os novos estudos sobre infância não têm separado as etapas da vida e/ou não têm chamado atenção para distinções internas à infância. Mesmo esforços como os de Neyrand (1999, 2000) e Chamboredon e Prévot (1986) abordam mais a incorporação das crianças pequenas na reflexão sociológica e os dispositivos sociais criados para elas e menos, ou muito pouco, as distinções internas à infância.

  Diante das tensões que apontamos, embora estudos diretos com crianças pequenas sejam importantes, eles não se mostram suficientes, especialmente quando lidamos com crianças menores de 1 ano.

  Assim, optei pela análise e interpretação dos discursos adultos, no caso, discursos das mães sobre o bebê, sua educação e cuidado. Para tanto, além de me basear nos estudos contemporâneos sobre a infância, utilizei também, como referencial teórico, os estudos das pesquisadoras francesas Françoise Bloch e Monique Buisson (1998, 1999) que, com base na teoria sobre a dádiva de Marcel Mauss (1950), pesquisam e interpretam as escolhas de casais por modalidades de educação e cuidado para crianças como veremos a seguir.

  Por meio da tese de doutorado de Lima (2004), entrei em contato com os estudos das autoras francesas Bloch e Buisson (1998, 1999) que, a partir do conceito sobre o dom/dádiva de Mauss (1950), desenvolvem uma teoria para a análise da demanda por modalidades de cuidado e EI na França.

  Antes de apresentar a teoria de Bloch e Buisson (1998, 1999), proponho

  27

  que conheçamos um pouco da obra de Mauss , base para o trabalho das francesas.

  

autoras francesas, tive a oportunidade, no segundo semestre de 2005, de cursar a disciplina

Marcel Mauss: sobre o Dom e o Sacrifício, ministrada pela Profª. Drª. Josildeth Gomes Consorte ,

do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP.

  49 Para escrever, em 1920, o que se tornaria sua obra mais importante e reconhecida, Essai sur le don, Marcel Mauss se baseou em relatos de outros antropólogos sobre as sociedades na Polinésia, na Melanésia e no noroeste norte- americano. Segundo o autor, nessas sociedades ocorriam trocas não somente de bens ou recursos. O que se podia perceber é que os clãs ou famílias trocavam, por intermédio de, ou representadas por, um chefe, toda sorte de bens, não só os econômicos, mas também serviços, festas, ritos, mulheres e crianças, além de presentes. As trocas, aparentemente voluntárias, eram, na realidade, obrigatórias e a retribuição era quase sempre esperada. A esse sistema, Mauss (1950) denominou sistema das prestações totais.

  A troca estava ligada à produção de bens de toda a natureza e não só aos bens de consumo. Todos os aspectos da vida, todas as transações, todos os contratos, todas as relações eram e podiam ser permeadas pela troca. Parecia que tudo que circulava (através dessas trocas) estava reforçando e atualizando, constantemente, as relações entre famílias ou clãs.

  Dentre os temas e instituições complexas que compõem a vida em sociedade, Mauss (1950) definiu seu problema de estudo procurando formular perguntas específicas sobre esse tipo de prestação, que envolvia muito mais do que uma simples troca comercial ou econômica, e que ocorria, segundo ele, em quase todas as sociedades.

  Qual é a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa que se dá que faz com que o donatário a retribua? (MAUSS, 1950, p. 52).

  Estudando a forma de relacionamento e de prestação entre os Tlingit e os Haïda, do noroeste norte-americano, Mauss assinalou a ocorrência do potlatch que “[...] quer dizer essencialmente ‘alimentar’, ‘consumir’ [...] uma forma, típica sem dúvida, mas evoluída e relativamente rara, dessas prestações totais.” (MAUSS, 1950, p. 56). Os Tlingit e os Haïda, com suas estruturas hierárquicas bem demarcadas, apresentavam todo tipo de prestações com festas, ritos, negociações jurídicas e econômicas, mas tudo permeado por grande rivalidade

  50 visando preservar o poder e a hierarquia, podendo mesmo levar à destruição de recursos. A esse sistema Mauss chamou de prestações totais de tipo agonístico.

  “A obrigação de dar é a essência do potlatch.” (MAUSS, 1950, p. 115, grifo nosso). Para mostrar-se soberano, o chefe de uma família ou clã deve dar, mostrando tanto que tem para dar, quanto preservando sua imagem, seu poder e sua honra. “A obrigação de receber não é menos constrangedora. Não se tem o direito de recusar uma dádiva, de recusar o potlatch.” (MAUSS, 1950, p.121, grifo nosso). Recusar uma dádiva é demonstrar medo ao ter de retribuir, é sentir-se inferior, humilhado pela dádiva e pelo poder do outro, ou inversamente, demonstrar suposta superioridade.

  O autor acredita que a obrigação de retribuir está mesmo ligada ao espírito

  • hau - da coisa dada , algo que transcenderia a materialidade, tendo uma dimensão subjetiva e mágica que acompanharia o objeto dado e que implicaria na obrigação de retribuí-lo. Mauss (1950) parte do vínculo, da força da coisa dada,

  28

  que não é inerte, mas tem um espírito . “Tudo se passa como se houvesse troca constante de uma matéria espiritual, compreendendo coisas e homens, entre os clãs e os indivíduos, repartidos entre as classes, os sexos e as gerações.” (MAUSS, 1950, p. 69).

  Mauss (1950) reconhece que coisas trocadas são trocadas em momentos diferentes e têm pesos e valores diversos. A troca é um genérico. A especificidade como ela ocorre diz respeito aos valores, podendo haver um estatuto para cada troca.

  Apesar de o autor ter identificado poucos exemplos de sociedades onde prevalecia a prestação total permeada por rivalidade entre famílias, ele apontou a ocorrência de uma forma intermediária, entre um número considerável de sociedades, onde a rivalidade não era tão declarada, mas onde, mesmo assim, a retribuição era aguardada e necessária e os indivíduos rivalizavam moderadamente, mas rivalizavam por meio de festas, presentes e convites.

  51

  52 Para Mauss (1950), o comportamento ou gesto de dar, que pode ser por

  obrigação ou por generosidade, gera, para o outro, a obrigação de receber e retribuir o dom. Para o autor, o fato é social. Cria-se um vínculo social, um relacionamento entre quem dá e aquele que recebe e retribui, vínculo esse que supera o próprio contrato real que possa existir entre as partes. Uma relação de pertença ao grupo, de compromisso, é construída.

  Todo tipo de troca pressupõe um tempo de espera, já que muitas vezes, a retribuição não é imediata. É, então, no momento da retribuição que os vínculos sociais se fortificam e que a troca se completa. A dádiva não retribuída, ou a retribuída de forma desigual ou não equivalente, inferioriza aquele que a recebeu, ainda mais quando recebeu sem a intenção de retribuir. Segundo a análise de Mauss (1950), a capacidade de retribuir preservaria a honra e o poder.

  Ora, em todas essas numerosas sociedades, em todos os tipos de graus de civilização, [...] essas trocas e esses dons de coisas que ligam as pessoas se efetuam a partir de um fundo comum de idéias: a coisa recebida como dom, a coisa recebida, em geral, compromete, liga mágica, religiosa, moral e juridicamente o doador e o donatário. Vindo de uma pessoa, fabricada ou apropriada por ela, e sendo dela, confere-lhe poder

sobre o outro que a aceita. (MAUSS, 2001, p. 365).

  Como a vida social se baseia em múltiplos e complexos aspectos morais, jurídicos, religiosos, econômicos e subjetivos que se articulam, não haveria para o autor um só fator determinante do fato social. O fato social total abrangeria essa cadeia de aspectos em relação.

  Nesse sistema [Mauss refere-se ao sistema social das prestações totais] não somente jurídico e político, mas também econômico e religioso, os clãs, as famílias e os indivíduos ligam-se por meio de prestações e de contraprestações perpétuas e de todos os tipos, comumente empenhadas sob forma de dons e de serviços, religiosos ou outros. (MAUSS, 2001, p. 364).

  Segundo Mauss (1950), as trocas também ocorrem em uma mesma família. Ocorrem trocas que podem não seguir o potlatch, mas que também podem gerar conflitos. Ao refletir sobre a dádiva, Mauss (1950) pensava sobre o sentido de dar e também sobre o paradoxo da retribuição que, para ele, está na raiz das relações humanas. Para o autor, estudar o significado social do ato, do gesto de dar, é estudar o que caracterizaria os humanos.

  A troca é, para Mauss (1950), um componente essencial da vida social e, através de seus estudos, ele procurou compreender melhor o que nos une e nos conecta enquanto seres humanos. As trocas, segundo ele, vinculam coisas às pessoas e pessoas às coisas. Mais do que isso, talvez, as trocas vinculem pessoas a pessoas através de suas coisas, emoções, sentimentos e experiências trocadas, pois, como apontam Bloch e Buisson (1998, 1999), já nascemos devedores da vida e dos cuidados que recebemos de nossos pais.

  Ao relacionarem o dar, o receber e o retribuir com as escolhas de casais por modalidades de educação e cuidado para seus filhos, as pesquisadoras

  29

  30

  francesas apresentam uma leitura contemporânea da obra de Marcel Mauss e recuperam seus conceitos para a análise de temas que deveriam obter maior destaque e visibilidade na área social, como a EI, já que a cada dia mais mulheres ingressam no mercado de trabalho e encontram-se diante da necessidade de conciliar carreira profissional e família.

  A teoria de Bloch e Buisson (1998, 1999) compreende que a escolha por uma determinada modalidade de educação e cuidado infantil baseia-se em crenças construídas a partir da interação entre o indivíduo e seu grupo social e cultural e são influenciadas, também, pela história pessoal de cuidados e educação recebidos pela mãe e pelo pai do bebê e por uma dinâmica intergeracional.

  As pesquisadoras focalizam o processo de escolha de mães e pais por

  31

  32 29 modalidades de educação e cuidado para seus filhos , no contexto francês ,

O trabalho de Bloch e Buisson é fruto de pesquisas, durante ao menos uma década, sobre a

dádiva, a dívida e a filiação, constituintes da construção do vínculo familiar e da rede de

30 interdependência entre gerações.

  

Sirota (2005) também apresenta uma leitura contemporânea da teoria da dádiva proposta por

Marcel Mauss (1950), ao analisar a troca de presentes e contrapresentes em festas de aniversário

infantis. A autora chega, inclusive, a utilizar o termo potlatch da infância para esse evento que

envolve socialização, mas também produção de cultura infantil e, ao mesmo tempo, exercício de

31 parentalidade.

  

Como já comentamos, Rosemberg (2007) vem chamando a atenção sobre os sentidos

vinculados ao termo criança em idiomas que possuem palavras específicas para puer e filius, como

em português, criança e filho, ou que não possuem, como em francês enfant e em inglês children

(ROSEMBERG, ANDRADE, 2007). Sendo a questão da linguagem tão importante, procurei realizar

  53 enquanto eu procuro descrever e interpretar discursos maternos sobre o bebê, não somente filho, sua educação e cuidado, no contexto brasileiro. Acreditamos que as mulheres-mães que escolhemos entrevistar, representantes das camadas médias da população, urbanas, com formação universitária e residentes em um município que apresenta bons indicadores de qualidade de vida e é vizinho da maior cidade brasileira, se aproximam, em parte, da população francesa estudada por Bloch e Buisson (1998, 1999).

  As autoras francesas mostram, em seus estudos, que mais do que uma livre escolha ou uma escolha racional - baseada somente em uma análise custo- benefício de cada modalidade -, optar por um tipo de atendimento para crianças pequenas envolve sempre uma reflexão sobre a história de muitas vidas: a dos pais (e o que eles já viveram enquanto experiências até aquele momento – incluindo como se relacionaram com os modelos materno e paterno) e de seus filhos (ou o que os pais planejam, desejam ou fantasiam para a vida deles).

  A primeira experiência social que a criança tem é a de estar inscrita, socializada em uma configuração familiar específica. Este primeiro vínculo tem a particularidade de inscrever o indivíduo em uma genealogia, em uma história, em uma cadeia de interdependências na qual seu nascimento modifica o lugar ocupado por cada um; seu pai, sua mãe deixam suas posições de filhos para ocuparem, por sua vez, a de pais. (BLOCH, BUISSON, 1998, p. 19, tradução nossa).

  Para Bloch e Buisson (1998), “[...] o cimento do vínculo familiar que une cada geração às precedentes é a dádiva e seu princípio dinâmico: a dívida.” (p. 20, tradução nossa). Passar a fazer parte de uma genealogia familiar, sem

  

uma leitura e tradução cuidadosas para que pudéssemos, de forma mais fidedigna, nos aproximar

dos sentidos que estavam sendo atribuídos pelas autoras francesas à expressão enfant, se elas

32 estariam se referindo à criança, enquanto fase da vida ou enquanto filho.

  

Segundo dados franceses referentes ao ano de 2002 (FRANCE, 2008), dois terços das crianças

francesas entre 4 meses e 3 anos de idade ficavam, durante a semana, principalmente com um de

seus pais. Outros 18% ficavam com assistentes maternais ou em creches domiciliares, enquanto

8% freqüentavam principalmente creches coletivas, o que significava dizer que as modalidades

coletivas de EI representavam cerca de um terço dos modos de educação e cuidado infantis que

vinham sendo utilizados por essa população. É importante destacar, também, que, na França,

convivem várias modalidades coletivas de EI (FRANCE, 2009), dentre elas: as creches coletivas

que atendem, de forma regular, crianças com menos de 3 anos; as creches domiciliares que se

baseiam no atendimento fornecido por uma assistente maternal conveniada que acolhe as crianças

em seu próprio domicílio; e as “haltes-garderies” que oferecem atendimento eventual às crianças

de menos de 6 anos. Além disso, a escola maternal (sistema nacional de educação) acolhe

crianças a partir de 2 anos de idade.

  54 imaginar que nós próprios estaríamos na origem de nossa existência e sem nos confundirmos com nossos ascendentes, é reconhecer que a vida nos foi dada.

  Que se trate do dom inicial - este da vida - ou mais amplamente da herança material e simbólica recebida, reconhecer esses dons, é se sentir devedor para com nossos pais como foram eles mesmos devedores para com seus ascendentes. Nessa cadeia de interdependência que são a família e a transmissão intergeracional, os “dons” aos filhos revestem, em um mesmo movimento, o sentido de contra-dom destinados aos ascendentes: perpetuar a vida, retomar a herança material e simbólica, é, então, reconhecer uma dívida para com seus pais, e mais amplamente para com seus ascendentes, e com sorte, introduzir seus filhos no mesmo tipo de relação. [...] A dinâmica dessa ligação reside, então, no ponto de vista daquele que recebe: esse que se sente devedor e convocado a ocupar por sua vez a posição de doador, tentando como sublinhou Mauss (1968) dar mais do que recebeu, transformando dessa forma a herança e as práticas sociais; ou então, sentindo uma incapacidade de reduzir a dívida tanto que o dom recebido foi excessivo e o aniquilou? Ou ainda considerando esse dom como não tendo satisfeito sua expectativa? (BLOCH, BUISSON, 1998, p. 20, tradução nossa).

  Segundo as pesquisadoras, para conquistar, então, um lugar na genealogia familiar, o indivíduo deve assumir um papel ou uma posição frente aos seus ancestrais, bem como frente ao social. Ele vai assim ou retomar certos elementos de sua história familiar ou transformar outros visando se distanciar. Dentre os aspectos que podem possibilitar a transformação e o distanciamento em relação às práticas das gerações anteriores estão: a união, isto é, a presença do cônjuge com seu posicionamento em relação à sua própria herança e história; o filho ou algum outro membro da família e as instâncias de socialização exteriores à família. É aqui que as modalidades e as políticas públicas de educação e cuidado destinadas às crianças pequenas ganham importância.

  O filho, depositário dessa herança e da transformação que seus pais desejam aportar, se encontra no centro dessa dinâmica do dom e da dívida. Essa famosa “disponibilidade” para com a criança, constantemente atribuída às mulheres [...] é o objeto de uma re-interpretação recorrente que responde como em eco às concepções sócio-historicamente construídas sobre a infância e o ideal normativo da boa mãe. Esse ideal está, ele mesmo, em constante metamorfose ao longo das mudanças sócio-históricas, mas também segundo a maneira como cada um re- interpreta sua história familiar e social. (BLOCH, BUISSON, 1998, p. 21, tradução nossa).

  55 Para as francesas, a compreensão de como a norma social da boa mãe se torna perene ou se transforma constitui um dos eixos importantes para se refletir sobre a opção por determinados modos de educação e cuidado infantil. Segundo Bloch e Buisson, com o nascimento do primeiro filho, o casal terá de decidir com quem e onde deixar o bebê e essa decisão se situa entre contradições sociais reveladoras das relações sociais de gênero: a atividade profissional da mulher em oposição à norma da boa mãe (essa que estaria o tempo todo disponível para os

  33

  filhos). Diante dessas contradições, os pais podem “externalizar” a educação de seu filho, optando por um tipo de atendimento realizado por pessoas estranhas à rede familiar (babás, educadoras ou professoras, por exemplo) em sua própria residência ou em um ambiente coletivo (como creche ou escola/berçário), ou

  34

  então “internalizá-la” , confiando o cuidado de seu filho a uma pessoa de sua própria família como a avó da criança, por exemplo, ou com a própria mãe do bebê assegurando seu cuidado e educação no domicílio familiar.

  A norma social da boa mãe, aliada ao sentimento de dívida em relação aos próprios ascendentes, poderia levar os pais, e em especial as mães, a procurarem retribuir as dádivas recebidas - a vida e cuidados recebidos - ao cuidarem, de forma semelhante ou não, de seus filhos.

  As pesquisadoras francesas propõem, portanto, investigar como se mantém ou se alteram as práticas sociais e a norma relacionada aos cuidados infantis, bem como o que está em jogo, na educação do filho. Elas procuram compreender como e porque, por exemplo, certas famílias preferem não externalizar a educação e o cuidado de seus filhos, optando pela interrupção da atividade profissional da mãe ou mesmo delegando esse cuidado à avó da criança.

  Bloch e Buisson (1998) acreditam que muitos componentes sociais estão 33 presentes na escolha de um determinado tipo de modalidade de educação e

  

O termo “externalizar” significa a delegação da educação e cuidado da criança a uma pessoa

exterior à família, ou seja, que não possui vínculo com a família e que é remunerada por esse

serviço. A modalidade de educação e cuidado infantil que poderia, portanto, ser considerada a

34 mais externa seria a creche.

  

O termo “internalizar”, por sua vez, significa que a educação e o cuidado da criança são

assegurados por alguém da própria família, na maior parte dos casos, pela mãe ou pela avó. A

educação e os cuidados oferecidos pela própria mãe do bebê em sua casa constituiriam, assim, a

modalidade considerada mais interna.

  56 cuidado infantis. Elas escolheram analisar três desses componentes: a família; o dinheiro; e o Estado (através das políticas sociais que implementa). Para as autoras, essas três dimensões se articulam no momento da reflexão sobre onde e com quem deixar seu bebê e nessa articulação podem surgir vários conflitos.

  A configuração familiar

  Ao nascer, a criança se inscreve em uma configuração familiar, alterando os papéis de todos. Homem e mulher deixam de ser apenas filhos e tornam-se pais. Além disso, o bebê se inscreve em uma dada genealogia e história, onde além de ter recebido o dom da vida, estará recebendo uma herança material e simbólica (que incluirá não só os cuidados que receberá, mas também práticas culturais e sociais).

  Nessa nova configuração familiar, o filho inscreve-se, também, na dinâmica da dádiva e da sua contrapartida, a dívida. Ao identificar ter recebido um dom, gera-se o contra-dom, ou um posicionamento de devedor, de quem possui uma dívida para com seus ascendentes. Para Bloch e Buisson (1998), que abordam, sobretudo, a questão geracional familiar, o “[...] peso das heranças e das transmissões se exprime no jogo das ‘dívídas’ contraídas por uma geração em relação àquela que a precedeu ou entre os membros da rede familiar [...].” (p. 6, tradução nossa).

  Ao possibilitar a vida e o cuidado de seus filhos, os pais estariam, além de inserí-los na dinâmica, retribuindo, de certa forma, o que receberam, por sua vez, de seus próprios ascendentes. Assim, dar significaria devolver, retribuir; e retribuir significaria dar. Esse modo de funcionamento entre as gerações foi nomeado pelas autoras francesas como “funcionamento por meio de dívida”.

  O funcionamento por meio de dívida é, segundo Bloch e Buisson (1998), o princípio dinâmico do dom, no qual retribuir não significa nunca abolir a relação social concreta na qual nos encontramos; é o princípio pelo qual retribuir se confunde com dar, já que é, ao mesmo tempo, um movimento de tentar se desfazer da posição de devedor e inserir o outro, por sua vez, nessa posição.

  57 Para as autoras, existe um laço de união entre a disponibilidade frente ao filho e o dom. O dar a vida, os cuidados e as tarefas para com o filho estão no centro dessa relação. Bloch e Buisson (1999) afirmam que uma dimensão de

  35

  oblação pode permear a dinâmica do dom/da dádiva, com aquele que dá - nesse caso, a mãe - se preocupando, prioritariamente, com as necessidades daquele que recebe - nesse caso, o filho -, muitas vezes em detrimento de suas próprias necessidades.

  [...] A dinâmica do dom/da dádiva apresenta essa característica de tornar inseparáveis sujeitos – aqui a mãe e os filhos – e objetos – os cuidados e prestações domésticas: dissociá-los implicaria o risco de esvaziar de seu sentido a relação que lhe serve de suporte. O dom/a dádiva, constitutiva da ligação social familiar, está a serviço dessa ligação, assim como a qualidade da ligação depende da relação que se estabelece entre doadores e aqueles que recebem a doação. A dimensão oblativa da disponibilidade permanente frente ao filho, no centro do que está em jogo em sua guarda, não seria eficiente se sujeitos e objetos fossem separados, se as tarefas não estivessem a serviço da relação. (BLOCH, BUISSON, 1998, p. 22, tradução nossa).

  Embora o filho seja fruto de um duplo dom, o dom da vida recebido de seu pai e de sua mãe, quase sempre “uma norma social” acaba por delegar a educação e os cuidados do bebê e da criança exclusivamente à mulher, atribuindo-lhe as características, qualidades e disponibilidade necessárias para essa tarefa. Mesmo fora do ambiente doméstico, as mulheres são, ainda, em

  36

  grande maioria , as responsáveis pelos cuidados/educação das crianças, mesmo que não seus filhos.

  Para nós, bem como para as autoras francesas, além dessa associação com a criança pequena, essas atividades são, geralmente, desvalorizadas por serem consideradas uma extensão das características nomeadas como “naturais” das mulheres, e, assim, não profissionais. Apenas as profissionais exigiriam 35 Bloch e Buisson (1998) utilizam, em francês, o termo “oblative” ao se referirem à preocupação

  

daquele que dá prioritariamente com aquele que recebe, em detrimento de suas próprias

36 necessidades.

  

A pesquisa de Saparolli (1997) intitulada Educador Infantil: uma ocupação de gênero feminino

apresenta dados referentes às creches paulistanas que revelam ser a profissão de educador de creche, uma profissão de gênero feminino, exercida quase que exclusivamente por mulheres e desvalorizada, mesmo quando homens a exercem.

  58 formação e capacitação. Com a construção social de uma norma tradicional da

  

boa mãe, todas as mulheres seriam identificadas como portadoras de habilidades

consideradas adequadas e suficientes para o exercício dessas atividades.

  A disponibilidade frente ao filho pode ser considerada, segundo Bloch e Buisson (1998), como um valor que revela a dinâmica da dádiva, tomada somente sob o aspecto feminino, tornando-se produto de uma norma social construída e que, embora, se altere ao longo da história, permanece associando as mulheres aos cuidados e à EI. A disponibilidade é sempre considerada em relação à imagem da mãe em casa com seu filho e é essa imagem que permanece como a referência, como o modelo que se procura repetir ou se distanciar ao se escolher um modo de educação e cuidado.

  No processo de escolha da modalidade de EI, segundo Bloch e Buisson (1999), os casais relembram e re-avaliam os próprios cuidados recebidos na infância. Independente das características ou da qualidade desses cuidados e das possíveis re-interpretações feitas ao longo da vida, pais e mães não serão indiferentes frente às suas próprias experiências enquanto filhos. Eles procurarão retomar, ou rejeitar, o modelo de disponibilidade que lhes foi conferido quando eram crianças.

  A relação obrigatória de retribuição da dádiva constitui o elo entre as gerações familiares. Os indivíduos, homens e mulheres, fazem re-interpretações, ao longo de suas vidas, sobre os cuidados recebidos de seus pais e as comparam com as experiências vivenciadas por outras pessoas. Segundo Bloch e Buisson (1999), os indivíduos produzem interpretações críticas sobre seus ascendentes e os cuidados que eles lhes dispensaram na infância.

  O que os pais (homens e mulheres) fornecem, ou não, aos filhos em termos de cuidados é produto de suas experiências pessoais, bem como da formação que receberam de outros modelos sociais que conheceram e do relacionamento que estabeleceram entre si. A presença maior ou menor de modelos masculinos na educação recebida ou no contexto social próximo pode propiciar a manutenção ou rejeição da norma. O que eles receberam de seus pais é re-interpretado, ao longo dos anos, e serve de base para a retribuição agora com seus filhos.

  59 Cuidado, em sua infância, sobretudo por mulheres (mãe, avó, babá ou educadora de creche), o homem pode acreditar não ser devedor do dom recebido, pois compreenderia que a disponibilidade frente ao filho seria uma característica feminina. Já, as mulheres reconheceriam haver recebido cuidados de outras mulheres (mãe, avó, babá, educadora de creche) e, assim, se sentiriam devedoras e necessitando retribuir da mesma, ou de outra, forma a disponibilidade recebida na infância.

  Não seria a relação obrigatória de retribuição dos cuidados, e da vida, recebidos que seria normativa em si mesma, mas sim a ocultação de que o filho é produto de um duplo dom, atribuindo-se, então, somente às mulheres, as características e capacidades necessárias para o cuidado e a educação das crianças pequenas. Porém, o filho é fruto de uma dupla dádiva – a de sua mãe e a de seu pai. A mãe pode ter trazido seu filho ao mundo, mas ele não foi gerado somente por ela. A participação do pai na dádiva fica, entretanto, obscurecida. A ocultação desse fato facilita que a educação e o cuidado fiquem restritos às mães e, por conseqüência, às mulheres, como se somente elas possuíssem as qualidades e capacidades de oblação necessárias para essas tarefas.

  [...] Se a dívida inicial, que todo humano contrai em relação aos seus ascendentes, se ancora na dádiva da vida que ele recebeu, mas também nas modalidades segundo as quais ele foi criado, cuidado e educado, por que as mães seriam mais devedoras que os pais? Por que a representação da disponibilidade frente ao filho seria unicamente maternal? [...] Por que somente elas teriam a missão de inscrever o filho em uma forma de continuidade ou de distância em relação à herança recebida? (BLOCH, BUISSON, 1999, p. 19, tradução nossa).

  Em outras palavras, por que somente a mulher ficaria com a dívida? Se o pai de seu filho também recebeu a dádiva de seu pai e de sua mãe? “A ideologia produzida a partir dessa característica biológica [a gestação] construiu a maternidade como única possibilidade, para uma mulher, de se realizar plenamente” (BLOCH, BUISSON, 1999, p.19, tradução nossa). Com base em uma característica biológica, várias concepções procuraram naturalizar ou tornar inerente à mulher a capacidade de cuidar/educar crianças, como se a

  60 particularidade de “trazer ao mundo uma criança” lhe fornecesse os atributos necessários e suficientes para o exercício desses cuidados.

  Com a disponibilidade frente ao filho sendo considerada uma característica feminina, mães que trabalham e que, assim, não se encontram totalmente disponíveis para seus filhos, poderiam pensar que estão “compensando” essa suposta “falha”, deixando seus filhos com outras mulheres. Não se perceberia essa norma da boa mãe, da disponibilidade associada às mulheres, como uma construção social.

  Acredita-se que as mulheres, mesmo quando na atuação profissional, ao terem como profissão o cuidado e a educação de crianças, estão “colocando em prática” a disponibilidade e a dimensão de oblação desse cuidado considerado, equivocadamente, como característica do feminino.

  A associação construída socialmente entre uma característica biológica e uma suposta capacidade de ser/estar disponível para a criança, se impõe como se fosse uma norma, com regras estipulando as relações. Ocultando a participação masculina no dom da vida, se esqueceria que os homens também podem ser devedores de seus ascendentes e que também teriam a “obrigação” de retribuir. As capacidades de oblação em relação ao cuidado e à educação das crianças pequenas associadas somente às mulheres acabam por excluir os homens dos ambientes domésticos e familiares e também de atividades profissionais ligadas aos cuidados dos pequenos.

  Apesar de o cuidado das crianças tradicionalmente ser atribuído às mulheres, a “disponibilidade” efetiva delas para esse cuidado vem sofrendo alterações, de acordo com diferentes contextos sócio-históricos e dependendo de sua inserção profissional. O estudo e a compreensão de como a norma social, que associa as mulheres à disponibilidade frente aos filhos se mantém, é transmitida

  37

  ou modificada, exige sempre uma contextualização sócio-histórica . Em muitos momentos, as mulheres sofreram pressão para retornarem ao lar e ao cuidado 37 das crianças. Hoje, mesmo com a grande participação das mulheres no mercado

  

No capítulo 3, daremos especial atenção à contextualização sócio-histórica e descreveremos as

principais características das famílias brasileiras contemporâneas tanto em termos de composição,

quanto em termos de valores e inserção profissional das mulheres.

  61 de trabalho, talvez a norma social da disponibilidade materna frente ao filho não tenha desaparecido, mas possa ter sofrido modificações.

  As pesquisadoras francesas se interessaram em compreender como delegar a educação e o cuidado de seus filhos pequenos a outrem permite, ou não, às mulheres se distanciarem do modelo de mãe disponível em tempo integral para seus filhos, e também, em mostrar que, ao conceder a educação de seus filhos a outras mulheres, a norma, praticamente, não é alterada.

  Para as mães, é necessário um distanciamento em relação à norma social para conseguir delegar a outra pessoa a educação e o cuidado de seus filhos. A transformação da norma estaria ligada à capacidade de obtenção de uma remuneração financeira no mercado de trabalho e à negociação entre o casal para que a formação profissional da mulher seja valorizada. Segundo Bloch e Buisson (1999), essa negociação é mais fácil entre o casal quando a diferença de formação ou de status profissional é favorável à mulher.

  Confiar a criança a uma “mãe crecheira” em creche domiciliar manteria os cuidados da criança em uma esfera doméstica, onde a polivalência da dona-de- casa e mãe de família seria característica. A dimensão de oblação da disponibilidade, como discutem Bloch e Buisson (1998, 1999), seria somente

  38

  transferida a uma outra mulher. Entrevistando casais que optaram por esse tipo de modalidade, as autoras observaram a prevalência de uma distribuição mais sexuada das atividades ligadas aos cuidados dos filhos e da casa. Para 72% deles, o cuidado das crianças era considerada uma responsabilidade quase exclusiva das mulheres.

  Mães que escolhem uma outra pessoa para cuidar dos seus filhos em ambiente doméstico acreditam que essa pessoa (babá, parente ou “crecheira” em creche domiciliar) teria maior disponibilidade para com a criança, pois se ocuparia apenas de seu bebê ou de um número menor de crianças do que ocorreria na 38 creche, estando mais atenta e mais próxima de um contato maternal e do

  

As pesquisadoras francesas realizaram pesquisa com 41 casais que haviam escolhido a creche

como modalidade de educação e cuidado para, ao menos, seu primeiro filho, e 72 casais tendo

confiado o cuidado de todos os seus filhos a uma mãe crecheira em creches domiciliares (esses

casais tinham 2 ou 3 filhos e, ao menos, um dos cônjuges, exercia profissão de nível

intermediário).

  62 ambiente doméstico. Esse tipo de cuidado/atendimento seria, na ótica dessas mães, semelhante ao que ela própria poderia oferecer em um ambiente também similar, onde a criança se sentiria mais acolhida afetivamente.

  Por outro lado, segundo Bloch e Buisson (1998), as mães que decidem delegar a educação e o cuidado de seu primeiro filho à creche, de modo a externalizar essa educação, parecem rejeitar a idéia de confiar o bebê a uma outra mulher dentro de um ambiente familiar evitando uma possível situação de rivalidade, dada sua proximidade com as tarefas da casa e com a idéia da disponibilidade frente ao filho. Para essas mães, delegando o cuidado da criança à creche, seria possível separar esse cuidado das atividades domésticas e de sua dimensão de oblação, já que as profissionais receberiam salário para desempenhar essa atividade. No entanto, essas mães acreditam que as profissionais de creche estarão também disponíveis para as crianças, pois esse é o seu trabalho, e, embora haja mais crianças sob sua responsabilidade, há também mais adultos para desempenhar a função.

  Para uma parte desses casais que optam pela creche, a norma da boa mãe parece ser questionada, ao menos, parcialmente. Eles experimentam um relacionamento diferenciado em relação aos de seus pais, com maior divisão das tarefas - não seguindo tanto o modelo de divisão por sexos - entre o casal e também com menor diferenciação na educação de meninos ou meninas. A manutenção desse estatuto social distanciado da repartição sexuada das atividades supõe que ambos os cônjuges sejam provedores econômicos e que redefinam as atribuições no espaço doméstico e familiar.

  Entre esses casais, apenas 43% consideravam o cuidado das crianças como uma atribuição somente feminina. Assim, os casais que haviam inscrito seus dois filhos na creche relatavam maior participação masculina nas atividades domésticas, bem como, descreviam uma trajetória profissional feminina contínua e quase sem alterações ou interrupções ao longo do tempo, segundo Bloch e Buisson (1998, 1999).

  Permitir aos seus filhos conservar, ou até ultrapassar, esse estatuto social [distanciado da repartição sexuada das atividades entre os cônjuges], passaria igualmente pela adoção de um modo de guarda - a creche -

  63 concebido como um espaço de socialização oferecendo as melhores chances de abertura e de sucesso escolar. (BLOCH, BUISSON, 1999, p. 23, tradução nossa).

  Estudando também as famílias contemporâneas e suas relações de parentesco e troca entre gerações, em contexto francês, Singly (1993) observa que tanto a autonomia em relação à família de origem, quanto o sentido dos laços de parentesco vêm se modificando. Embora sejam mais valorizadas a independência do indivíduo e a ênfase no casal e nos filhos, ainda se mantêm as relações entre a família de origem e a conjugal. Os laços de parentesco próximo (com pais, irmãos, cunhados e sogros) se mantêm, especialmente através da troca de bens e serviços nas relações entre gerações, como nos apontam Bloch e Buisson (1998, 1999).

  É nessa perspectiva [do fornecimento de serviços] que deve ser apreendida a descrição das formas de apoio familiar descrita primeiramente por Agnès Pitrou: dos filhos em direção aos seus pais (com o problema da dependência das pessoas idosas), dos pais em direção aos seus filhos (com as ajudas em dinheiro, estas recebidas para a habitação, para o equipamento do lar, para as férias, a guarda das crianças, com a ajuda doméstica da mãe ou da sogra, os auxílios, os presentes). (SINGLY, 1993, p. 71-72, tradução nossa).

  Segundo Singly (1993), as formas de ajuda entre as gerações e entre as famílias conjugais e suas famílias de origem podem variar, mas seguem princípios comuns com relação: ao respeito frente à independência e à autonomia; ao lugar do dinheiro nessas trocas; à observância de reciprocidade e seletividade; à rejeição afetiva.

  O respeito à independência parece ser um princípio bastante valorizado pelas famílias francesas contemporâneas. Os casais querem ter seu espaço de autonomia respeitado, sem a interferência de suas famílias de origem em suas decisões. Em alguns casos, visando manter sua autonomia e independência, certos casais vão mesmo recusar auxílio, ou deixar de solicitá-lo, às suas famílias de origem (SINGLY, 1993).

  64 Segundo esse autor, o parentesco que pode ser chamado a ajudar, no caso das famílias contemporâneas, é restrito e selecionado de acordo com uma maior ou menor proximidade afetiva ou afinidade.

  O dinheiro

  Ao delegar a educação e o cuidado de seus filhos a outra pessoa ou instituição, a mulher se vê entre a norma social que prevê que toda mãe seja disponível gratuitamente aos seus filhos e sua atividade profissional remunerada, que lhe proporciona autonomia econômica.

  Nesse desejo de separar a disponibilidade frente ao filho da função materna é que poderíamos visualizar uma tentativa de certo distanciamento da norma. Entretanto, ao externalizarem a educação e o cuidado de seus filhos, essas mães desejam que as profissionais (em geral, outras mulheres) que venham a se ocupar das crianças também sejam e estejam disponíveis para as crianças. A disponibilidade e a oblação ligadas à norma da boa mãe parecem continuar relacionadas ao serem transferidas indiretamente para outras mulheres.

  Se as mães reconhecessem a disponibilidade e a dimensão de oblação no atendimento das profissionais de creche aos seus filhos, elas se sentiriam, provavelmente, devedoras frente a essas profissionais, assim como eram em relação às suas mães. O fato de pagar para alguém cuidar de seus filhos, não reconhecendo a dimensão de oblação também presente no cuidado oferecido pela educadora “profissional”, permitiria às mães se distanciarem dessa relação obrigatória que torna devedor aquele que recebe.

  [...] a remuneração do serviço facilita a ocultação da dimensão de oblação da disponibilidade: pagando uma instituição e não uma pessoa específica que se ocuparia especialmente de seu filho, as mães têm, portanto, o sentimento de estarem quites com as profissionais. (BLOCH, BUISSON, 1999, p. 23, tradução nossa).

  O dinheiro atuaria, portanto, como um terceiro elemento na relação. O valor pago pelos pais a uma creche particular ou a uma babá, por exemplo, operaria como moeda de circulação, pelo valor de uso do serviço (BLOCH, BUISSON,

  65

  1998). Ao procurar externalizar os cuidados e a educação de seus filhos, os casais estariam, de certa forma, procurando uma “disponibilidade” que fosse paga.

  As pesquisadoras francesas, ao entrevistarem mulheres que atuavam como mães crecheiras em creches domiciliares ou como educadoras de creche, puderam perceber como, mesmo sendo remuneradas pelo trabalho, essas profissionais apresentavam grande dificuldade em diferenciar sua atividade profissional do papel materno. As educadoras consideravam que “gostar de criança” é uma qualidade essencial para realizar um bom trabalho, como se a disponibilidade fosse mesmo e somente uma característica feminina e como se elas tivessem que ser tão disponíveis com as crianças que cuidam, assim como o são para com seus próprios filhos. O aspecto profissional e remunerado ficava, portanto, camuflado.

  Em relação ao lugar do dinheiro e da remuneração econômica na família e no parentesco, Singly (1993) pondera que, para que o afeto continue ligado à gratuidade, serviços prestados deveriam ser remunerados ou compensados por serviços recíprocos. Se os serviços não são pagos ou se não há reciprocidade, aquele que recebeu o serviço se sente devedor afetivamente.

  [...] Françoise Dolto propunha, no caso em que a avó cuida de seu neto, que os pais separassem a cada mês a soma, total ou parcial, que eles teriam em outras circunstâncias pago a uma babá. Eles poderiam assim evitar “serem forçados a obedecer à vontade dos avós” e permanecer livres e mestres para definir a relação educativa entre a avó e a criança pequena. O relacional não deveria ser misturado ao interesse, de onde a proposição paradoxal de introduzir o dinheiro como modalidade de extinção da dívida. (SINGLY, 1993, p. 75 -76, tradução nossa).

  Como vimos, ao abordarem a configuração familiar e o dinheiro como componentes sociais que estão presentes nas opções dos pais por modalidades de educação e cuidado para seus filhos, as autoras francesas se concentram mais na abordagem e análise da demanda familiar e individual por EI e nas relações entre gerações familiares e de gênero. O foco está nas mulheres e no bebê na condição de filho.

  66 Neste projeto de tese, procuraremos avançar trazendo para a análise as novas concepções sobre o bebê e seu direito à educação enquanto cidadão. Nesta perspectiva, a análise sobre a responsabilidade e participação do Estado, outro componente social importante abordado por Bloch e Buisson (1998, 1999), na oferta de modalidades de educação e cuidado infantis, nos parece fundamental.

  Os pais (homens e mulheres) podem apresentar uma visão fragmentada e abstrata do que cada modalidade de educação e cuidado oferece às crianças. Muito se dá pelo “boca a boca”, troca de informações com amigos ou familiares, pelo que os pais ouvem dizer de cada atendimento ou de uma dada creche, pelo que vivenciaram quando crianças e, também, através da experiência com filhos anteriores.

  A oferta de serviços para crianças pequenas, os custos, a adaptação ou flexibilidade do que é oferecido frente às necessidades dos pais, a qualidade do atendimento, tudo isso se relaciona com a escolha por modalidades de EI. O Estado, que deveria garantir a igualdade entre os cidadãos, tem aqui um importante papel a cumprir.

  Segundo Bloch e Buisson (1999), em concordância com o que Pungello e Kurtz-Costes (1999) e também Rosemberg (2004) apontam, mulheres com status sócio-econômico mais elevado (com renda, educação e prestígio ocupacional mais altos) tenderiam a expressar maior compromisso com o trabalho, a atribuir maior importância ao desenvolvimento profissional e ao prazer pessoal resultante da ocupação e pensariam retomar o trabalho logo após o término da licença 39 maternidade, procurando uma modalidade de atendimento que se ajuste aos

  

Nesta tese estamos, assim como Bloch e Buisson (1998), empregando o termo Estado dentro de

“... uma concepção globalizante, capaz de abranger diferentes níveis de exercício dos poderes

públicos, como federal, estadual [...] e municipal.” (p. 25, tradução nossa). Essa definição é muito

próxima das definições que encontramos, ao empreendermos uma breve busca sobre esse termo,

como a de que o Estado é a sociedade política, social e jurídicamente organizada ou, ainda, a

definição de que o Estado é o conjunto de instituições que controlam e administram uma nação.

  67 objetivos educacionais que têm para seus filhos, bem como à sua rotina profissional.

  Para Rosemberg (2004), mulheres com nível superior de escolaridade ou pós-graduação, como as que entrevistamos, têm menor número de filhos, em geral, e possuem recursos simbólicos e materiais ampliando suas possibilidades de escolha e proporcionando novas concepções sobre a educação e o cuidado infantis, especialmente fora do ambiente doméstico.

  A implementação de políticas públicas que assegurassem, não só, quantidade de vagas, mas também, qualidade no atendimento oferecido às crianças pequenas, facilitaria a conciliação entre carreira profissional e família por parte das mulheres.

  O desenvolvimento e a maior oferta de serviços de EI e cuidados coletivos, como creches, fora da configuração familiar, e a contratação de profissionais de

  40

  sexo masculino , como educadores ou professores de creche, facilitariam a autonomia econômica feminina proporcionando uma maior inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho; auxiliariam a transformação da norma da boa mãe com o cuidado das crianças deixando de ser atribuído

  41

  somente às mulheres; promoveriam uma valorização da profissão de educador/professor de creche; e favoreceriam, do nosso ponto de vista, o reconhecimento do direito da criança à creche.

  Com base nos estudos de Singly (1993) sobre família e atuação do Estado, podemos perceber que, ao mesmo tempo em que a família contemporânea está cada vez mais centrada em si, em sua vida intrafamiliar e privada, mais o Estado e as instituições a controlam e a regulamentam com base em preocupações sanitárias, educativas e de direito. “O interesse da criança é uma noção que serviu (e serve) de justificativa às intervenções do Estado na família.” (SINGLY, 1993, p.8, tradução nossa). 40 Em São Paulo, Saparolli (1997) encontrou apenas quatro homens atuando como educadores de 41 creche em 71 Centros municipais de Convivência Infantil pesquisados em 1994.

  

Izquierdo (1991) chama nossa atenção para a desvalorização (em termos de prestígio social,

poder e dinheiro) a que estão submetidas as pessoas (em grande maioria, mulheres) que se

ocupam de atividades diretamente relacionadas à produção e manutenção da vida humana, como

por exemplo, as educadoras de creche.

  68

  • jurídico, com leis sobre a contracepção, o aborto, o divórcio, a autoridade parental; as licenças maternidade e paternidade;
  • econômico, com leis regulando a previdência social, aposentadorias, incentivos fiscais, auxílios (especialmente no caso da sociedade francesa onde predomina a sociedade do Bem-Estar em que quase todas as classes usam serviços públicos/oferecidos pelo Estado);
  • institucional, procurando ou não responder às demandas das famílias por creche e tornando ou não possível a emancipação das mães (como bem destacado por Bloch e Buisson, 1998, 1999).

  69 Em concordância com o apontado por Singly (1993), Érica Burman

  (informação verbal)

  42

  apreendeu, a partir da análise de políticas relacionadas à infância, que as famílias têm perdido poder em relação ao Estado. Essa autora destaca, também, o papel muito importante e valorizado que os especialistas e a Psicologia passaram a ter na forma como as famílias educam seus filhos.

  O Estado regulamenta a esfera privada através de ações em diversos campos. Por exemplo:

  Ao regulamentar a esfera privada, o Estado, ao mesmo tempo:

  [...] ajuda a diminuir os laços de dependência: da família em relação à solidariedade de parentesco, de vizinhança; da mulher em relação ao homem; do filho em relação aos seus pais [...] [mas, torna menos autônomos a família e seus membros] frente aos representantes do Estado, juízes, psicólogos, professores, sociólogos etc. (SINGLY, 1993, p.34, tradução nossa).

  Mesmo quando destacam o papel e a responsabilidade do Estado, Bloch e Buisson (1998, 1999) continuam enfatizando, em suas análises, a questão da mulher e da demanda pessoal/familiar por modalidades de educação e cuidado infantil.

  Sabemos que mudanças e questionamentos no âmbito das relações de gênero provocam alterações na forma como se pensa a EI, mas, como vimos no tópico anterior, concepções sobre criança e infância também podem embasar ou 42 Palestra proferida na PUC-SP em 7 de março de 2007. sustentar o que se escolhe para seus próprios filhos ou se recomenda para outras crianças em termos de educação e cuidado.

  Expostos os campos teóricos que sustentam esta tese, é necessário explicitar o método que orienta a pesquisa, objeto do próximo tópico.

  Em seu livro Ideologia e Cultura Moderna (2002), John B. Thompson descreve a proposta metodológica da hermenêutica de profundidade (HP) que atua como referencial metodológico, nesta investigação, não somente para análise das entrevistas, mas também para a estruturação do texto da tese.

  Embora pesquisadores do NEGRI venham utilizando o interessante referencial teórico de Thompson (2002), baseado em uma concepção crítica do conceito de ideologia, em estudos especialmente relacionados com a análise da produção de discursos pela mídia (ANDRADE, 2001; FREITAS, 2004; BIZZO, 2008, entre outros), não me pareceu ser essa proposta teórica a mais adequada para utilização como referencial nesta tese. Assim, optei por utilizar somente a proposta metodológica de Thompson, já que ela pode ser integrada e se articular com outras teorias.

  mundo social e histórico tecendo redes de significados que são transmitidos a outros sujeitos e que os constituem enquanto humanos. Assim, para Thompson (2002), as formas simbólicas (falas, entrevistas, textos, imagens, ações) podem ser compreendidas e interpretadas por serem construções significativas e 43 contextualizadas. No caso específico desta investigação, considerei as

  

Para desenvolver o referencial metodológico da HP, Thompson apoiou-se no referencial da

hermenêutica, uma tradição clássica grega de pensamento que foi bastante transformada e

desenvolvida por filósofos dos séculos XIX e XX – especialmente Dilthey, Heidegger, Gadamer e

Ricoeur.

  70 transcrições das entrevistas realizadas com as mães de bebês como formas simbólicas que foram descritas e interpretadas.

  Quando interpretamos formas simbólicas, nos propomos a interpretar campos pré-interpretados. Daí a hermenêutica como método. Porém, a pré- interpretação efetuada pelos sujeitos (pesquisador e entrevistados) não ocorre em vazio social.

  Para esse autor, “[...] o objeto-domínio da pesquisa sócio-histórica é um

  

campo pré-interpretado em que os processos de compreensão e interpretação se

  dão como uma parte rotineira da vida cotidiana das pessoas que, em parte, constituem esse domínio.” (THOMPSON, 2002, p. 32-33; grifo do autor).

  Na pesquisa sócio-histórica, trabalhamos com um campo que não se trata de um campo objetivo, um campo-objeto, mas sim com um campo-sujeito-objeto em que os próprios sujeitos significam, procuram compreender, expressar-se e reagir frente aos outros. O campo é rotineiramente alterado pelos sujeitos que o constituem. Procuramos re-interpretar um campo já pré-interpretado pelas pessoas que fazem parte do mundo sócio-histórico. Trata-se de uma realidade já interpretada pelos sujeitos que produzem, transmitem ou recebem as formas simbólicas que analisamos (no caso desta tese, as entrevistas das mães).

  Na perspectiva da HP, as interpretações que as mães entrevistadas produziram sobre campos pré-interpretados (em especial, sobre o bebê, sua educação e cuidados) foram descritas e re-interpretadas pela pesquisadora, ela própria, um sujeito que também atribui significado à vida social e que também produziu pré-interpretações sobre o tema desta pesquisa antes mesmo de entrevistar as mulheres-mães.

  O modo como os sujeitos do campo sócio-histórico interpretam as formas simbólicas deve ser considerado pela HP. A “hermenêutica da vida quotidiana” segundo Thompson, é uma base importante para se iniciar a análise.

  Através de entrevistas, observação participante e outros tipos de pesquisa etnográfica, podemos reconstruir as maneiras como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas nos vários contextos da vida social. É evidente que essa reconstrução é, ela própria, um processo interpretativo; é uma interpretação do entendimento quotidiano – ou, como o denominarei, uma interpretação da doxa, uma interpretação das opiniões,

  71 crenças e compreensões que são sustentadas e partilhadas pelas pessoas que constituem o mundo social. (THOMPSON, 2002, p. 363-364, grifo do autor).

  A interpretação da doxa, apesar de imprescindível, não é o ponto final. Devemos avançar para além dessa interpretação ou re-interpretação, considerando na análise outras características das formas simbólicas, como sua estrutura e sua contextualização sócio-histórica.

  O referencial metodológico da HP compreende três fases - análise do contexto sócio-histórico de produção, transmissão e recepção das formas simbólicas, análise discursiva e interpretação/re-interpretação - que serão descritas a seguir.

  • • Análise sócio-histórica: nessa fase, o pesquisador procura identificar e

  descrever as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas analisadas, já que elas são fenômenos sociais contextualizados, produzidos, veiculados e recebidos sob condições específicas. A contextualização sócio-histórica é necessária e devemos, ao realizá-la, estar atentos às características típicas dos contextos sociais, isto é, a:

  • situações espaços-temporais - as formas simbólicas são produzidas e transmitidas por sujeitos situados em uma dada época, em um dado local, e recebidas por outros também situados em locais e épocas específicos;
  • campos de interação - podemos analisar as posições e trajetórias que determinam as relações entre as pessoas e a quantidade e qualidade de recursos e “capital” disponíveis e acessíveis, bem como regras e convenções. Campos de interação são “estruturados”, pois

  44

  são caracterizados por assimetrias de recursos e de poder . Não só 44 a subordinação de classe deve ser considerada na análise, mas

  

Segundo Bourdieu (apud THOMPSON, 2002, p. 195), um campo de interação pode ser

conceituado, sincronicamente, como um espaço de posições e, diacronicamente, como um

conjunto de trajetórias. Indivíduos particulares estão situados em determinadas posições dentro de

um espaço social e seguem, no curso de suas vidas, determinadas trajetórias. Essas posições e

trajetórias são determinadas, em certa medida, pelo volume e distribuição de variados tipos de

recursos ou “capital”.

  72 também as assimetrias de gênero, raça, entre nações e também, entre idades e gerações. De acordo com a posição que uma pessoa ocupa em um campo de interação, ela pode empregar certo tipo de estratégia de valorização simbólica. Se o sujeito ocupa uma posição que pode ser considerada como dominante - com amplo acesso a recursos e capital - ele tende a adotar estratégias como distinção, menosprezo e condescendência ao produzir ou “avaliar” formas simbólicas; já os sujeitos ocupando uma posição considerada intermediária - com acesso a somente certos tipos de recursos ou capital ou em quantidades limitadas - podem agir com moderação, pretensão ou desvalorização frente às formas simbólicas que produzem ou recebem, e, aqueles com uma posição considerada como subordinada - com acesso restrito a recursos e capital ou com acesso a quantidades mínimas de recursos - podem adotar uma estratégia de praticidade, resignação respeitosa ou rejeição em relação às formas simbólicas produzidas ou recebidas;

  • instituições sociais - devemos reconstruir as regras, recursos e relações que podem permear ou regular os relacionamentos entre as pessoas nas instituições; analisá-las no tempo e em suas práticas através das pessoas que as representam. As instituições sociais estão situadas dentro de campos de interação, mas também os criam, por estabelecerem novas posições e trajetórias. Mesmo ações e interações que ocorrem fora de instituições específicas podem ser também influenciadas por regras e recursos;
  • estrutura social - sua análise nos permite voltar o olhar para as divisões e assimetrias de poder ou recursos que podem ocorrer nas interações entre as pessoas. As assimetrias estáveis e sistemáticas, diferenças coletivas e não só individuais devem ser consideradas, especialmente as que se mantém no tempo e que impedem o acesso de alguns aos recursos ou ao poder. Essas assimetrias podem caracterizar tanto os campos de interação quanto as instituições

  73

  • meios técnicos de construção de mensagens e transmissão - para que as formas simbólicas possam ser “trocadas” entre as pessoas é necessário algum meio de transmissão. Os meios de transmissão implicam em diferentes características - possibilidade dos sujeitos participarem, grau de fixidez, grau de reprodutibilidade - para as formas simbólicas. Assim como as formas simbólicas, os próprios meios de transmissão também estão inseridos em contextos sócio- históricos específicos no tempo e no espaço, também são submetidos a tipos e quantidades de recursos e capital diversos, a regras e convenções e são desenvolvidos, muitas vezes, em instituições e em certos campos de interação.
    • Análise formal ou discursiva: estudo da estrutura, dos padrões, da articulação e das relações das formas simbólicas compreendidas enquanto construções significativas estruturadas que dizem alguma coisa sobre algo. O pesquisador, durante a análise formal ou discursiva, se preocupa com a organização e com a estrutura interna da forma simbólica, com seus padrões, relações e características estruturais. Ele não deve tomar isoladamente os dados provenientes dessa fase de análise, mas deve relacioná-los com os dados da fase anterior, para não perder a contextualização das formas simbólicas, e também, com os da fase posterior, para através da re-interpretação, poder identificar o que

  74

  sociais. A análise aqui é mais teórica e deve considerar assimetrias de classe social, raça, gênero, nações, idade;

  Nesta pesquisa, as formas simbólicas que analisei foram as entrevistas produzidas em um dado contexto sócio-histórico, a partir da interação entre a pesquisadora e as mães de bebês, durante encontros realizados no município de São Caetano do Sul, em 2009 e início de 2010, com base em práticas e políticas públicas sobre EI e concepções sobre infância e bebê no Brasil contemporâneo. Todos esses temas, pré-interpretados por diversos atores sociais (mães de bebês entrevistadas, pesquisadora, academia, mídia, governo, movimentos sociais e organizações internacionais) participaram também do contexto de produção das entrevistas. as formas simbólicas estruturadas e contextualizadas expressam em termos de sentido e significado.

  Como cabe a cada pesquisador identificar quais procedimentos mostram-se mais adequados para o objetivo de sua pesquisa, utilizei, para a análise formal das entrevistas, o conjunto de técnicas propostas pela análise de conteúdo na perspectiva de Bardin (1977) e Rosemberg (1981) e o apresentarei no quarto capítulo deste trabalho.

  • - Interpretação/re-interpretação: nesta fase da HP, o analista procura

  explicitar o que a forma simbólica “diz” ou “representa”, ou seja, interpretá-la. A interpretação se constrói a partir das fases anteriores de análise, mas também avança, procurando interpretar uma forma simbólica com base nas suas condições sociais de produção, circulação e recepção e também em suas características estruturais.

  Nesta investigação, a re-interpretação se construiu a partir dos debates sobre infância e da proposta teórica de Bloch e Buisson (1998, 1999) articulados com a análise sócio-histórica e com os resultados da análise formal das entrevistas.

  Ao oferecer uma interpretação das formas simbólicas, estamos re- interpretando um campo pré-interpretado e, assim, engajando-nos num processo que, por sua própria natureza, faz surgir um conflito de interpretações. (THOMPSON, 2002, p. 34-35).

  A possível ocorrência de um conflito de interpretações (entre a pré- interpretação dos sujeitos e a re-interpretação do analista) é o que abre a possibilidade para o que Thompson (2002) descreve como “potencial crítico da interpretação”.

  Na investigação social, quando o analista propõe uma interpretação, essa interpretação pode ser apropriada pelos sujeitos que constituem o campo-sujeito- objeto e provocar alterações no campo no processo de apropriação. Para Thompson, pode ocorrer uma “relação de apropriação potencial”, de retro- alimentação potencial. Os resultados de uma análise social podem ser

  75 apropriados pelos sujeitos, mesmo que, em muitos casos, isso não ocorra ou não produza transformações efetivas nesse campo-sujeito-objeto estudado.

  A interpretação [...] pode possibilitar que as pessoas vejam as formas simbólicas diferentemente, sob uma nova luz e, por isso, que se vejam a si mesmas de modo diferente. Pode capacitá-las a re-interpretar uma forma simbólica em relação às condições de sua produção e recepção, em relação às suas características estruturais e organização. Pode capacitá- las a questionar ou revisar sua compreensão anterior da forma simbólica e, com isso, alterar os horizontes da compreensão de si mesmas e dos outros. (THOMPSON, 2002, p. 38).

  Thompson (2002) descreve essa possibilidade de transformação interpretativa das crenças, comportamentos e atitudes cotidianas dos sujeitos que constituem o mundo social, como a transformação interpretativa da doxa.

  Para esse autor, a preocupação deve estar na interpretação (na apresentação de mais uma interpretação ou re-interpretação possível) e não na explicação, pois não estamos atrás de relações de causa e efeito.

  Analisando as formas simbólicas podemos chegar à re-interpretações plausíveis e aceitáveis, nunca incontestáveis. Por isso, faz-se necessária uma boa argumentação que justifique e dê sustentação à re-interpretação do analista.

  Para se garantir a dialogicidade, devemos buscar interpretações justificadas que possam passar pelo escrutínio do outro. É fundamental a argumentação e a explicitação do caminho percorrido durante a análise, para que os leitores possam acompanhar como foi possível a construção daquela dada re-interpretação.

  No processo de interpretação/re-interpretação, deve-se evitar o que Thompson (2002) chama de “falácia do reducionismo”, ou seja, o erro de se considerar que as formas simbólicas possam ser interpretadas somente em função de seu contexto sócio-histórico. Deve-se evitar também a “falácia do internalismo” – ao se tomar os métodos da análise formal ou discursiva isoladamente, supondo-se que as formas simbólicas possam ser interpretadas somente a partir da sua estrutura interna, sem se considerar o contexto sócio- histórico onde elas se inserem e as próprias interpretações e compreensões quotidianas que os sujeitos do campo sócio-histórico apresentam. Todas as fases devem se relacionar e não podem ser analisadas em si mesmas.

  76 A proposta metodológica da HP de Thompson (2002) permitiu, não só, que eu adotasse um método de trabalho para a análise das formas simbólicas (as entrevistas das mães), mas também me auxiliou a estruturar a apresentação da pesquisa. Tanto as teorias quanto o método, apresentados neste segundo capítulo, quanto o contexto sócio-histórico (educação e cuidado da criança pequena no Brasil contemporâneo), que será desenvolvido no terceiro capítulo, constituíram o contexto de produção das entrevistas, no que diz respeito não só às perguntas da pesquisadora, mas também, às respostas das entrevistadas.

  77

  CAPÍTULO 3 - CONTEXTO SÓCIO- HISTÓRICO

  Para a elaboração da síntese sobre o contexto sócio-histórico, que apresento a seguir, parti da bibliografia encontrada por Lima (2004) para começar a desenvolver meu trabalho.

  Outros estudos que também serviram de referência para a redação desta tese foram, em sua maioria, localizados a partir de pesquisa bibliográfica realizada nas Bibliotecas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da Fundação Carlos Chagas e também através de consulta às seguintes bases de dados: Dedalus, Scielo, Lilacs, Google, Google Acadêmico, Unibibliweb (acervos da Universidade de São Paulo e da Universidade de Campinas), resumos no banco de dissertações e teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), teses e dissertações na biblioteca digital do Instituto Brasileiro de Ciência e Tecnologia (IBICT), artigos publicados na Revista Brasileira de Educação e disponíveis no site da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação.

  As bases de dados foram consultadas inicialmente no mês de julho de 2004 e atualizações no levantamento bibliográfico foram realizadas em agosto de 2006, em março de 2007, no primeiro semestre de 2008 e, mais recentemente, nos meses de agosto e setembro de 2009.

  A busca se deu a partir do cruzamento dos seguintes descritores: demanda, escolha, mãe, criança pequena, bebê, mulher trabalhadora, creche, educação infantil e Sociologia da Infância.

  Muitos dos textos utilizados, como base para o debate sobre infância e políticas públicas, vêm norteando as discussões no NEGRI. Sobre educação infantil consultei também a Bibliografia selecionada sobre educação infantil

  

brasileira: 1988-2006 (ROSEMBERG, 2006e). Foi possível também localizar

  bibliografia pertinente ao estudo através da verificação de referências citadas por outros pesquisadores no material consultado.

  78

  

3.1 EDUCAđấO E CUIDADO DA CRIANđA PEQUENA NO BRASIL

CONTEMPORÂNEO

  A literatura aponta (CHAMBOREDON, PRÉVOT, 1986; ROSEMBERG, 2007b) que as novas concepções sobre EI são tributárias de mudanças sociais importantes na família, especialmente em decorrência dos movimentos de mulheres, e mudanças nas concepções de criança, tema tratado no capítulo 2. As modificações nas relações de gênero e na concepção de criança pequena (como apontadas, entre outros autores, por NEYRAND, 1999, 2000), foram fundamentais para que a educação e o cuidado da criança pequena passassem a ser realizados também em instituições coletivas.

  Neste capítulo, vamos analisar o contexto sócio-histórico da ótica das políticas e práticas de EI no Brasil, abordando: as principais transformações que ocorreram nas famílias brasileiras tanto em termos de composição quanto de valores; a necessidade de conciliação entre trabalho e educação e cuidado das crianças pequenas; os consensos e dissensos envolvendo as políticas e práticas de EI; os estudos sobre demanda por modalidades de EI.

  Inúmeras pesquisas (ARAÚJO, SCALON, 2005; BERQUÓ, 1998; BRUSCHINI, PUPPIN, 2004; BRUSCHINI, 2007; GALVÃO, 2008; GOLDANI, 1994; MACHADO, 2001; PICANÇO, 2005; ROCHA-COUTINHO, 2000; ROMANELLI, 2006; ROSENBAUM, 1998; SALÉM, 1980; SARTI, 2006; SORJ, 2005; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007; VITALE, 2006) vêm apontando a coexistência de permanências e transformações nas famílias contemporâneas no Brasil, especialmente nos segmentos médios urbanos, não somente em termos de sua estrutura e organização, com novas configurações familiares, mas também no que diz respeito aos ideais e valores assumidos.

  A composição das famílias brasileiras vem se alterando, nas últimas décadas, e embora a composição tradicional baseada em um casal e filhos ainda

  79 predomine, vem crescendo o número de estruturas menores compostas por casais sem filhos, de famílias monoparentais e o número de mulheres morando sozinhas (BERQUÓ, 1998; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).

  Os arranjos domésticos também vêm mudando. Em 2005, 30,6% das famílias residentes em domicílios particulares eram chefiadas por mulheres (BRUSCHINI, 2007; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).

  O crescimento intenso desse tipo de arranjo familiar [famílias monoparentais chefiadas por mulheres] nos dias atuais abrange igualmente mulheres pertencentes às camadas médias urbanas. Nesse caso, uniões conjugais desfeitas ou interrompidas alteram o padrão de vida das mulheres e de seus filhos. (BERQUÓ, 1998, p. 432).

  A queda da taxa de fecundidade, que atingiu 1,89 filho por mulher em 2008 no Brasil (IBGE, 2009), destaca-se dentre os fatores demográficos. Nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, a taxa é ainda mais baixa, com valores próximos a 1,5 filho por mulher. São, ainda, as mulheres com maior escolaridade e renda as que têm menor número de filhos.

  Os fatores sócio-culturais e econômicos, como o novo papel das mulheres (com a busca de um projeto de vida profissional a partir dos anos 1970), a maior escolaridade (com maior acesso das mulheres à educação, inclusive às universidades) e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho (com progressivo aumento da inserção feminina), contribuíram também para alterar o perfil das trabalhadoras brasileiras.

  No período entre 1995 e 2005 “[...] a PEA/População Economicamente Ativa feminina passou de 28 para 41,7 milhões, a taxa de atividade aumentou de 47% para 53,0% e a porcentagem de mulheres no conjunto de trabalhadores subiu de 39,6% para 43,5%.” (BRUSCHINI, 2007, p.2).

  As trabalhadoras, que, até o final dos anos setenta, em sua maioria, eram jovens, solteiras e sem filhos, passaram a ser mais velhas, casadas e 45 mães . (BRUSCHINI, 2007, p. 4).

  80 Quanto maior a escolaridade feminina, maior é sua inserção no mercado de trabalho. “Em 2005, enquanto mais da metade das brasileiras, em geral, eram ativas, entre aquelas com 15 anos ou mais de escolaridade, a taxa de atividade atingia 83%.” (BRUSCHINI, 2007, p. 10).

  Embora a inserção feminina no mercado de trabalho pareça irreversível e se acentue a cada ano, os cuidados domésticos e com os filhos continuam sendo atividades atribuídas, sobretudo, às mulheres. Para elas, as atividades domésticas e responsabilidades familiares apresentam um impacto maior que para os homens e dificultam a sua disponibilidade para obtenção de empregos de melhor qualidade e em tempo integral e uma maior dedicação às atividades profissionais (BRUSCHINI, 2007; BRUSCHINI, PUPIN, 2004; DELGADO, 2005; MADALOZZO, MARTINS, SHIRATORI, 2008; SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).

  As famílias compostas por casais com filhos, e que contam com a presença de outros parentes em casa, o que poderia auxiliá-las no cuidado com as crianças, vêm registrando queda nos últimos anos. “Essa mudança pode indicar que as soluções privadas para a conciliação entre trabalho e cuidados familiares que se assenta no apoio dos parentes, sobretudo nas avós, pode estar hoje menos disponível do que no passado.” (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007, p. 9).

  Além disso, as avós de hoje também apresentam mudanças em seus perfis, com maior escolaridade e inserção profissional (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).

  Nas famílias de tendências igualitárias, nos segmentos médios, a tensão existente entre a mulher-mãe e a mulher-indivíduo pode continuar com a mulher-avó, que muitas vezes ainda trabalha, tem seus desejos e sonhos para essa etapa da vida e, ainda, ajuda no trato com as crianças da família. Essas mulheres procuram conciliar demandas eventualmente contraditórias: os projetos individuais com as reciprocidades familiares. (VITALE, 2005, p. 101).

  No plano dos valores, o modelo de família mais hierarquizada, com papéis claramente demarcados e diferenciados entre adulto-criança e homem-mulher, estaria coexistindo ou sendo substituído por outro mais igualitário em termos de

  81 relações entre homem e mulher, com menor ênfase ou diferenciação entre idade e sexo (VITALE, 2006; SARTI, 2006).

  Vários autores (entre outros, ALMEIDA, 2007; BERQUÓ, 1998; ROMANELLI, 2006; SALÉM, 1980) apontam que indivíduos das camadas médias e com maior escolaridade tendem a expressar valores mais modernos, liberais e democráticos; a adotar novas práticas afetivas e a incorporar com maior facilidade novas formas de conduta nas relações domésticas, redefinindo a divisão sexual do trabalho e estando mais abertos às mudanças nas relações de autoridade e poder que vêm ocorrendo no interior das famílias.

  [...] a vida doméstica tende a se democratizar, criando condições para a emergência e concretização de interesses individuais. Conseqüentemente, o familismo tende a ser gradativamente deslocado e substituído pelo individualismo. Nessas circunstâncias que são cada vez mais presentes nas famílias de camadas médias, a redução da autoridade do marido e do pai contribui de modo decisivo para que os filhos assimilem a posição de “sujeitos de direitos”, dentro e fora da unidade doméstica, ficando em segundo plano a condição de “sujeitos de deveres”. Assim, a ação socializadora das famílias de camadas médias, que é fruto de mudanças em sua estrutura, concorre para que o individualismo dos filhos prevaleça sobre as aspirações de cunho coletivo. (ROMANELLI, 2006, p. 87).

  46 No Brasil, portanto, os autores vêm destacando o individualismo como

  uma característica das famílias das camadas médias. Com a valorização da qualidade das relações familiares, bem como, com a necessidade de dedicação aos filhos, de mobilização para a garantia de seu futuro e sucesso e de personalização das relações, a família se voltou mais para seu interior, na busca de realização individual para cada um de seus membros.

  O valor do individualismo seria mais reivindicado por pessoas que dispõem de maior capital cultural ou social. E, para Machado (2001, p. 24), esse valor (baseado também na idéia de igualdade de direitos) seria “[...] em grande parte responsável [...] pela dessensibilização do indivíduo em relação ao seu

  

a revista como um dos instrumentos de divulgação de valores individualistas para famílias

brasileiras das camadas médias.

  82 semelhante e [...] ao seu pertencimento social, diminuindo a apreensão dos seus limites e da sua situação de compartilhamento.” Em síntese, valores e concepções ambíguas e contraditórias parecem permear a família contemporânea, em um movimento, ao mesmo tempo, de superação e de permanência entre novos e antigos modelos, entre ideais igualitários e menos hierárquicos, entre autonomia e dependência frente ao Estado e ao parentesco, entre o desejo de individualidade e a necessidade de socialização de suas crianças.

  Vimos, especialmente a partir das pesquisas brasileiras sobre família que acabamos de apresentar (pesquisas essas que têm, sobretudo, focalizado as relações de gênero), que a necessidade de se conciliar trabalho e educação e cuidado das crianças pequenas vem se acentuando com a maior inserção das mulheres e mães no mercado de trabalho.

  Se pensarmos nos efeitos ou impactos que a política de EI poderia ter na articulação entre trabalho e família, a creche surge como uma importante rede de apoio social com forte impacto positivo.

  [...] a eficácia deste mecanismo [atendimento em creches em tempo integral] em facilitar a conciliação entre demandas do trabalho e da família é notável com repercussões importantes no aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, na renda e na ampliação da jornada de trabalho. Este impacto positivo ocorre, em geral, em todas as classes

sociais. (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007, p. 5).

  Entretanto, no Brasil, diferentemente do que ocorre em países da Comunidade Européia, a articulação entre família e trabalho parece não ser reconhecida como um problema social relevante, obtendo fraca legitimação social e política, permanecendo, ainda, sobretudo como assunto privado, na medida em que ocorre desenvolvimento insuficiente de políticas públicas que possibilitem uma

  83

  • procurem proporcionar aos pais uma maior liberdade de escolha com relação às modalidades de cuidado/EI, oferecendo benefícios, isenções fiscais, incentivos que auxiliem a família;
  • criem, até 2010, serviços de atendimento com qualidade, para no mínimo 33% das crianças com menos de 3 anos;
  • procurem encorajar e flexibilizar a diversidade de modalidades de EI proporcionando maior escolha por parte das famílias, bem como, procurando responder às preferências e necessidades das crianças e de seus pais;
  • facilitem o acesso às licenças parentais remuneradas, respeitando a autonomia de escolha dos pais;
  • busquem assegurar o princípio de igualdade de remuneração entre os trabalhadores masculinos e femininos, para que decisões sobre licença parental e outras licenças para o cuidado das crianças possam ser tomadas com base nessa igualdade.

  84

  maior conciliação entre o trabalho e o cuidado com as crianças (SORJ, FONTES, MACHADO, 2007).

  A aprovação pelo Parlamento Europeu, em março de 2004, de uma resolução sobre a conciliação entre vida profissional, familiar e privada, pode ser citada como exemplo de como outros países têm buscado promover políticas que favoreçam essa articulação. Nessa resolução (PARLAMENTO EUROPEU, 2004), se solicitou e recomendou, aos Estados-Membros e aos que aderirem à Comunidade Européia, que, por exemplo:

  Para além de propiciar a articulação entre trabalho e família e promover maior igualdade entre homens e mulheres, o que a legislação oferece, ou não, às mães e pais que trabalham, em termos de licença após o nascimento do bebê, diz respeito também a como a sociedade concebe o bebê e suas necessidades.

  No Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê licença maternidade, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias e licença paternidade de cinco dias após o nascimento ou adoção do filho, com ônus para o empregador.

  Em 9 de setembro de 2008, foi sancionado pelo Presidente da República o projeto de autoria da Senadora Patrícia Saboya, que permite que a licença- maternidade seja prorrogada por mais sessenta dias mediante concessão de

  47 incentivo fiscal às empresas da iniciativa privada .

  A prorrogação da licença maternidade é facultativa tanto para as mulheres quanto para as empresas.

  48 Inicialmente elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria , em

  parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o projeto de lei aprovado pautou-se pela necessidade de promoção e defesa dos direitos das crianças, mas também, e, com muita ênfase, na necessidade de se garantir o estreitamento do vínculo mãe-bebê e a amamentação até os seis meses de vida do bebê. A concepção que embasa a prorrogação da licença maternidade é a de que o melhor para o bebê é permanecer junto à sua mãe em casa sendo amamentado.

  Às mulheres que optem pela prorrogação da licença, será vedado que inscrevam seus bebês em creches ou outras modalidades de EI durante os dois meses adicionais.

  A fala do presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Dioclécio Campos Júnior, intitulada Maternidade - a importância do vínculo afetivo, publicada no Jornal Correio Braziliense em 10/05/2006 e divulgada no site da entidade, apresenta uma concepção de como o bebê deve ser educado/cuidado, na qual a criança é vinculada à mãe e o pai não é sequer citado.

  Na esteira desse avanço [o ingresso da mulher no mercado de trabalho], algumas mudanças de costumes revelaram-se inelutáveis. A maior delas se deu na maternidade, alterada pelas novas atribuições que a mulher passou a ter. A função maternal perdeu relevo, dispõe de pouco tempo. O binômio mãe-filho cedeu lugar ao bebê solitário, habitante de creches, cuidado por babás ou pela tia de todos. O aleitamento materno substituiu- se por alternativas artificiais de alimentação. Essa realidade nega direitos à mulher e à criança. Direitos cuja doutrina se fortalece à medida em que a 47 ciência mostra o caráter essencial da relação mãe-filho nos primeiros

Deve-se salientar que 80 municípios e 8 estados brasileiros já possuíam leis próprias ampliando

48 a licença-maternidade para 6 meses, mesmo antes da aprovação do projeto.

  

Visando obter assinaturas e pressionar o Senado para que o projeto fosse aprovado, a

Sociedade Brasileira de Pediatria desenvolveu a campanha Licença-maternidade: 6 meses é

melhor.

  85 tempos da existência da criatura. (CAMPOS JÚNIOR, 2006, versão eletrônica).

  Mais recentemente, em fevereiro de 2010, a Comissão da Câmara dos Deputados, que analisa a Proposta de Emenda à Constituição 30/07, aprovou, por unanimidade, o aumento da licença maternidade de 120 dias para 180 dias, em caráter obrigatório, devendo ser a proposta ainda encaminhada para votação no plenário da Câmara e, posteriormente, enviada ao Senado.

  Com relação à licença-paternidade, o projeto de lei que prevê sua ampliação de cinco para quinze dias, de autoria também da senadora Patrícia Saboya, ainda aguarda aprovação no Congresso Nacional. Apesar de ainda não aprovado, tem sido adotado por algumas instituições, como a Fundação Carlos Chagas, em São Paulo, e a Caixa Econômica Federal, e governos como os de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Amapá que vêm concedendo a ampliação aos funcionários públicos.

  Os cinco (ou 15) dias de licença-paternidade e os seis meses de licença- maternidade revelam a enorme desigualdade de gênero em nosso país. Consolida-se, com esse abismo, o monopólio feminino dos prazeres, encargos e sacrifícios com os filhos. Reforça-se, também, a falta de respeito e de reconhecimento da importância do exercício da função paterna. (GOLDENBERG, 2007, p. A3).

  Destacamos que na pesquisa de Galvão (2008), os homens-pais entrevistados criticaram a insuficiência ou adequação do período de cinco dias previstos em lei, embora não tenham se mobilizado para que este direito fosse revisto. Para alguns, a licença deveria variar de 10 a 15 dias, para outros ela deveria ser equivalente ou superior ao período de 1 mês. Apenas um pai entrevistado considerou que a licença paternidade deveria ser equivalente à da mulher.

  86

  87 A educação e o cuidado da criança pequena compreendidos como responsabilidade que deve ser compartilhada por toda a sociedade constituem ainda um consenso relativo e novo na sociedade brasileira.

  Segundo Haddad (2006), para que a El se efetive enquanto um sistema integrado de educação e cuidado de qualidade, onde a educação e cuidado da criança pequena deixe de ser uma atribuição somente familiar e do âmbito do privado, é necessária uma mudança de paradigma que requer:

  • uma redefinição dos papéis e da relação entre o Estado e a família no que diz respeito à infância;
  • o reconhecimento de que a criança tem o direito de ser cuidada e socializada em ambiente social mais amplo que a família;
  • o reconhecimento de que a família tem o direito de dividir com a sociedade a educação e o cuidado das crianças;
  • o reconhecimento de que cuidar e educar crianças pequenas em contexto institucional são atividades profissionais que devem promover o desenvolvimento global das crianças.

  Como aponta Rosemberg (2007b), a mobilização social pela expansão da oferta de vagas em creches de qualidade, para crianças de 0 a 3 anos, integrando educação e cuidado e respondendo, ao mesmo tempo, ao direito das crianças à educação e ao direito dos pais, principalmente ao das mães, de exercer uma atividade profissional, é um consenso que vem sendo construído a partir da década de 1970 e que, apesar de ter sido legitimado por textos legais (BRASIL, 1988, 1996, 2007), não se encontra, ainda, totalmente implementado.

  A partir dos anos 1970, grandes transformações sócio-econômicas, culturais e demográficas, como vimos, começaram a questionar o que era consensual até então: o cuidado e a educação da criança pequena constituíam uma atribuição exclusiva da família, especialmente das mães. O Estado e a sociedade identificavam que somente algumas crianças (abandonadas, órfãs,

  88 necessitadas) deveriam receber cuidado e educação em instituições coletivas (ROSEMBERG, 2007b).

  A crescente inserção profissional das mulheres, a possibilidade de planejamento familiar com conseqüente queda de fecundidade, a urbanização intensa, a queda da mortalidade infantil, novas concepções de criança e a organização dos movimentos de mulheres e de luta por creches contribuíram para que a creche passasse a ser reconhecida enquanto reivindicação social e direito da mulher trabalhadora.

  Ainda em pleno regime militar, o Estado implementou uma política de expansão intensa da oferta de vagas, com forte caráter assistencialista e baseado em uma concepção de educação compensatória voltada para o atendimento da população pobre.

  Como Haddad (2006) destaca, embora as reivindicações sociais tenham sido, de certa forma, acolhidas naquele período, elas foram incorporadas principalmente às políticas sociais e não às políticas educacionais, sobretudo no que diz respeito ao atendimento das crianças de 0 a 3 anos.

  Segundo Rosemberg (1999, 2002), essas políticas implementadas, tanto no Brasil quanto em outros países subdesenvolvidos, sofreram os efeitos perversos de modelos dito não-formais, com baixos investimentos por parte do poder público, defendidos e divulgados por organismos multilaterais como UNICEF, UNESCO e Banco Mundial.

  A opção por expandir a educação infantil através de um modelo não-formal apoiado nos baixos salários de professoras leigas, prioritariamente para as regiões Norte e Nordeste, diferenciou o padrão de oferta do atendimento não só quanto ao desenvolvimento regional, mas, também, aos segmentos raciais. Esses programas atingiram principalmente as crianças negras, principais usuárias de creches públicas e conveniadas. (ROSEMBERG, 2006c, p. 9).

  Com o término do regime militar e a abertura política no Brasil, a mobilização social, através da atuação do movimento de mulheres e do movimento pelos direitos das crianças e dos adolescentes, foi fundamental para que a Constituição de 1988 reconhecesse a creche como um direito à educação da criança pequena (ROSEMBERG, 1999).

  89 Com a formulação de novas propostas de políticas nacionais de EI, orientadas por pesquisadores que já se interessavam pelo tema, o perfil assistencialista de atendimento em creches foi sendo questionado. Apesar disso, somente com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996, é que a creche e a pré-escola foram reconhecidas como primeira etapa da educação básica.

  Apesar dos avanços da Constituição Brasileira de 1988, da LDB de 1996, dos documentos, de 1993 e de 2003, de Política Nacional de Educação Infantil do MEC que visavam garantir um atendimento de qualidade com a equivalência entre creches e pré-escolas, ambas reconhecidas como instituições de educação e cuidado, as políticas são tensas, contraditórias. Isto é, apesar de suas conquistas em termos de legislação, a EI vem sofrendo, há anos, os impactos de investimentos insuficientes e mesmo pertencendo à mesma etapa educacional, creche e pré-escola vêm recebendo tratamento bastante diferenciado.

  Com a instituição, em 1996, do FUNDEF – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Fundamental e de Valorização do Magistério -, ficou evidente a priorização do ensino fundamental pelos municípios, estados e governo federal, em detrimento do investimento em creches e pré-escolas.

  Mesmo com pesquisadores da área e economistas (CARVALHO, KAPPEL, KRAMER, 2001; IPEA, 1999, 2007a; NERI, 2005) apontando o alto índice de retorno social (por exemplo, impacto na escolaridade futura e no mercado de trabalho) e financeiro quando se investe em EI, segundo análises do IPEA (1999, 2007a, 2007b), o financiamento da educação no Brasil nos últimos anos, vem apresentando instabilidade com elevações e recuos nos gastos educacionais. Os gastos do MEC em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) variaram de 1,44% em 1995, 1,22% em 2000 para somente 1,03% em 2005. O baixo investimento em

  49 49 educação foi ainda mais acentuado na primeira etapa da educação básica, com

Pereira (2007) chama, também, nossa atenção para a comparação entre o montante gasto no

Brasil em publicidade dirigida ao público infantil – R$ 210 milhões segundo o IBOPE - e o

investimento no Programa Federal de Desenvolvimento da Educação Infantil (FNDE) –

aproximadamente 28 milhões. A criança pequena, pouco atendida em suas necessidades

educacionais, parece, entretanto, ser considerada e valorizada como consumidora.

  90 as creches recebendo o menor investimento dentre todos os níveis de ensino e, mesmo internamente à EI, também recebendo menos investimento que as pré- escolas.

  Além de ter sido o nível educacional que menos cresceu na década de 90 (ROSEMBERG, 2006d), a EI é o que apresenta o mais baixo custo médio anual por aluno do sistema educacional brasileiro: US$ 820,00, sendo que o do ensino superior era de US$ 10.000,00 em 2000 (segundo dados da OCDE apud ROSEMBERG, 2006d).

  Apesar de ter como objetivo a elevação e distribuição de forma mais racional dos recursos em educação, a lei do FUNDEB - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – que foi, finalmente, promulgada em dezembro de 2006, substituindo o FUNDEF, modifica os critérios de financiamento, proporcionando investimentos também em educação básica, inclusive em creches, mas mantém, ainda, diferenças quanto aos níveis de investimento.

  Através da Emenda Constitucional nº 53, o FUNDEB insere-se na Constituição Federal, estimando beneficiar cerca de 48,1 milhões de estudantes após sua total implementação. A Emenda Constitucional nº 53 adéqua também a redação do artigo 7º, parágrafo XXV, e do artigo 208, entre outros, da Constituição Brasileira, com a garantia de “[...] assistência gratuita [como dever do Estado] aos filhos e dependentes [de trabalhadores urbanos e rurais] desde o nascimento até cinco [e não mais seis] anos de idade em creches e pré-escolas” (BRASIL, 2007, versão eletrônica).

  O FUNDEB prevê, também, a fixação de um valor mínimo nacional por aluno para cada etapa e tipo de modalidade e estabelecimento de ensino, bem como a definição de um piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público, visando promover a melhoria da qualidade de ensino, assegurando um padrão mínimo definido nacionalmente.

  Em abril de 2007, algumas alterações foram aprovadas e as instituições de EI conveniadas com o poder público foram também inseridas no FUNDEB com vistas ao recebimento de recursos.

  91

  É importante ressaltar que as creches, e posteriormente, as instituições conveniadas, só foram incluídas no FUNDEB após importante mobilização e pressão de vários atores sociais (pesquisadores da área, políticos, mídia, movimentos sociais), para que essas decisões, em benefício da criança pequena, fossem assumidas. Sem esse movimento, as creches teriam sido excluídas do FUNDEB e não receberiam parte desses recursos.

  O debate envolvendo a aprovação do FUNDEB escancarou as tensões e dissensos na negociação de políticas públicas educacionais. Segundo Rosemberg (2007a), com a aprovação desse novo fundo, a sociedade brasileira reafirmou “em parte” seu compromisso com a causa da EI, visto que, ao mesmo tempo em que as creches, inclusive as conveniadas, foram incluídas no FUNDEB, o montante de recursos a elas destinado se manterá ainda em um patamar inferior ao que será repassado ao ensino fundamental.

  Com base nos baixos investimentos e na insuficiente oferta de creches de qualidade, Rosemberg (2006b, 2007b) apreende um descaso histórico e pouca mobilização política da sociedade brasileira para com as necessidades e direitos das crianças pequenas.

  Do ponto de vista da oferta de vagas e da qualidade, observam-se iniqüidades sócio-econômicas, regionais e etárias:

  • como já citamos, quanto maior a renda familiar e o nível de escolaridade dos pais, maior a chance de uma criança pequena freqüentar creche - em 2008, a taxa de freqüência à creche mostrava-se bastante superior entre as crianças de 0 a 3 anos pertencentes às famílias com rendimento superior a 3 salários mínimos per capita (46,2%) quando comparada à taxa de freqüência entre crianças de mesma idade pertencentes às famílias com renda de até ½ salário mínimo per capita (18,5%) - (IBGE, 2009);
  • crianças residentes na região Sudeste do País têm mais chance de freqüentar creche que aquelas que moram na região Norte - segundo dados da PNAD de 2006, enquanto na região Sudeste 19,2% das crianças entre 0 a 3 anos freqüentavam creche, na região Norte apenas 8% das crianças tinham acesso a esse serviço (IBGE, 2007);

  92

  • apesar de encontrarmos crianças pequenas freqüentando mais creches públicas que particulares - segundo dados da PNAD de 2006 (IBGE, 2007), das crianças brasileiras de 0 a 3 anos de idade freqüentando creche, 57,7% freqüentavam a rede pública, enquanto 42,3% tinham acesso à rede particular -, algumas cidades apresentam histórico de atendimento educacional público praticamente inexistente para essa população. Mota e Albuquerque (2002), em pesquisa sobre demanda por EI no município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, constataram que, em 1998, não havia sequer uma creche pública no município e que somente em 2002, o município passou a contar com a sua primeira creche pública.
  • a região Nordeste é a que apresenta os piores indicadores de qualidade, com maior índice de professoras leigas recebendo piores salários e trabalhando em creches com piores condições de infra-estrutura (ROSEMBERG, 2006d);
  • de forma geral, muitas creches brasileiras ainda não apresentam condições mínimas de infra-estrutura para atender às necessidades dos bebês e crianças pequenas. Somente 55,8% dessas instituições contam com parque infantil e apenas 23,5% apresentam espaço diferenciado para troca de fraldas. A oferta de material didático também é insuficiente: somente 84,1% das creches contam com brinquedos, 58,1% utilizam livros de literatura e 61,7% possuem material para expressão artística (BRASIL, 2000).
  • a freqüência à creche por parte de crianças de 0 a 3 anos de idade é ainda muito baixa (18,1%), como já destacamos, quando comparada à taxa de freqüência das crianças maiores que freqüentam a pré-escola (79,8%) (IBGE, 2009).

  A pré-escola tem se aproximado, cada vez mais, da formalização do ensino

  50

  fundamental com elevada taxa de cobertura, enquanto a creche pública, que 50 procura se integrar ao sistema educacional, ainda caminha lado a lado com

  

Rosemberg (2009c) tem debatido os impactos da Emenda Constitucional 59/09, que instituiu a

obrigatoriedade da matrícula/freqüência da educação pré-escolar para crianças de 4 e 5 anos e do

ensino médio para jovens de até 17 anos. Para a autora, tal emenda, não só, provocaria uma cisão

e distanciamento ainda maiores entre a pré-escola e a creche, tanto em termos de políticas quanto

de investimentos, mas também alteraria a “...concepção consagrada pela Constituição de 1988 da

EI como uma opção da família...” (p.1).

  93 políticas de tipo familiaristas (creches domiciliares e programas de educação de pais, especialmente voltados para as mães) que parecem ressurgir financiadas, agora, por recursos da EI e no âmbito das políticas educacionais (ROSEMBERG, 2006b, 2006c).

  Para Rosemberg (2002), os modelos alternativos propagados pelos organismos multilaterais continuam a exercer influência e a ameaçar a EI no Brasil. Podemos citar, como exemplo, o programa Primeira Infância Melhor (PIM) que vem sendo implementado pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul com grande divulgação.

  O PIM se baseia no programa “Educa a tu hijo”, que tem servido de referência para a América Latina como um programa de política familiarista e de atendimento domiciliar. No PIM, visitadores (em grande maioria mulheres) percorrem os domicílios explicando aos pais, especialmente às mães ou outros cuidadores, como estimular a criança desde o nascimento, além de esclarecerem dúvidas sobre saúde, alimentação e higiene.

  Alguns dos responsáveis pela implementação do PIM se vangloriam do fato do programa “ser mais barato” do que a implementação de creches, mas se esquecem que além de não liberar as mulheres para o exercício de atividades extrafamiliares, o que implica na manutenção de desigualdades de gênero, o programa acaba por reforçar a idéia de que o bebê deve e pode ser cuidado em casa pela mãe ou por outra mulher que a substitua, além de também não assegurar às crianças o direito à educação de qualidade em ambientes coletivos com a interação entre pares.

  O descaso social em relação às crianças pequenas não é revelado apenas por dados referentes ao atendimento em creches. Outros indicadores, como por exemplo, mortalidade vinculada à falta de saneamento básico e índices de desnutrição (NERI, 2007b; ROSEMBERG, 2005b), também nos fornecem pistas de como a infância brasileira vem sendo “maltratada” pelas políticas públicas e de como não estamos, de forma geral, nos mobilizando adequadamente para defender e assegurar os direitos das crianças pequenas. “A análise de um amplo

  94 espectro de indicadores sociais consolida a imagem das crianças como o grupo prioritariamente desfavorecido de nossa sociedade.” (NERI, 2001, p. 50).

  Apesar das tensões e desigualdades ainda persistentes, alguns movimentos sociais não vêm dando mais tanta atenção às crianças pequenas. O movimento feminista que, nas décadas de 1970 e 1980, se mobilizava por creches para crianças pequenas, filhas de mães trabalhadoras, hoje, concentra mais sua atenção na mulher adulta, no combate à violência doméstica e na descriminalização do aborto. O movimento negro também tem voltado suas ações para a reivindicação de direitos para adultos, crianças maiores e adolescentes, enfocando a implementação de ações afirmativas e políticas de cotas nas universidades brasileiras (ROSEMBERG, 2006d).

  Atualmente, o Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (MIEIB) destaca-se como um dos movimentos mais ativos e que têm dirigido ações específicas para as crianças pequenas. O MIEIB, organização laica, tem como meta o monitoramento das políticas de EI (ROSEMBERG, 2006d).

  Apreendemos que apesar de haver consenso na área de estudos sobre EI no Brasil, ainda coexistem dissensos e tensões em termos das políticas implementadas. A cisão entre creche e pré-escola mesmo dentro da mesma etapa educacional nos leva a pensar que não há consenso sobre o estatuto do bebê, sua educação e cuidado. O menor investimento, o menor acesso e a menor qualidade estão muito mais associados ao atendimento em creches para crianças de 0 a 3 anos do que ao atendimento em pré-escolas para crianças de 4 e 5 anos.

  Embora tanto creches quanto pré-escolas integrem a EI, notamos diferenciações internas, com tratamentos desiguais. Daí nosso interesse em discursos proferidos por diversos atores sociais adultos sobre o bebê, sua educação e cuidado no âmbito das políticas sociais, especialmente das educacionais.

  Como abordaremos no próximo tópico, notamos diversidade de discursos sobre o bebê, sua educação e cuidado: de um lado, os discursos e práticas de educação e cuidado compartilhados; de outro, os que concebem que a criança

  95 pequena está melhor em sua casa, cuidada por mães ou outros parentes, de sexo feminino de preferência, e no espaço da casa.

  O pequeno acesso das crianças de 0 a 3 anos, e em especial de bebês, às vagas em creche no Brasil e a desigualdade em termos de oferta, qualidade e investimento nos leva a questionar:

  • quais motivos estariam impedindo/dificultando as crianças pequenas de freqüentarem creche?
  • será que algumas mães/pais não querem creche para seus filhos? Será que as mães/pais indicam a creche somente para as outras crianças que não são seus filhos?

  A definição de uma demanda quantitativa ou a utilização de um indicador de demanda por creche não parece ser tarefa muito fácil. A Lei nº 14.127, do município de São Paulo, de janeiro de 2006, instituiu a criação de um cadastro único da demanda por vagas no ensino público. Entretanto, os Conselhos Tutelares da cidade, bem como, promotoras de Justiça, vêm questionando os números apresentados pela Secretaria Municipal de Educação.

  Em 18 de março de 2009, foi instaurado inquérito civil com o intuito de obter esclarecimentos sobre o processo de recadastramento de crianças que aguardavam vaga em creche e pré-escola no município de São Paulo. Em recadastramento que a Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo realizou no 2º semestre de 2008, a demanda por vagas em creche no município seria de 57.607 e de 14.585 em pré-escolas. Em outro cadastro anteriormente divulgado, a demanda quantitativa por vagas em creche e pré-escola era de 158.000 vagas. A retirada de 86.000 crianças de 0 a 6 anos do novo cadastro foi o que motivou a abertura do inquérito, segundo as promotoras.

  Acessando o cadastro eletrônico da Secretaria Municipal de Educação, o que se verifica é que a demanda ali registrada está muito abaixo da que se sabe real. Para constatar a demanda potencial basta comparar o número

  96

  • através de surveys incluindo perguntas sobre a freqüência ou não à creche e os motivos pela eventual não freqüência - e micro – mais qualitativos e entrevistando um menor número de pessoas.

  97 total de crianças de 0 a 3 anos com o número de crianças matriculadas em creches. (MONTEIRO, 2007, p. 28).

  Embora possa se tratar de uma demanda “potencial”, o número total de crianças de 0 a 3 anos que não estão freqüentando creche não corresponde por si só à demanda por vagas. Visto que a creche é um direito da criança, mas não é obrigatória, pode-se supor que nem todas as famílias desejam ou optarão pela creche para seus filhos como modalidade de EI.

  Rosemberg (2001) aponta para a diferenciação entre dois tipos de demanda, a explícita e a latente:

  A demanda é uma necessidade sentida e expressa. Ela pode ser explícita ou latente: a explícita é avaliada através da procura de um serviço. A demanda latente é aquela que não se expressa espontaneamente, por alguma razão (distância entre domicílio e equipamento, qualidade ou tipo de serviço oferecido etc). A única forma de aferição da demanda latente é a realização de enquetes específicas. No Brasil são raríssimos, quase inexistentes, os estudos sobre demanda: não sabemos quais as modalidades de serviços preferidos pela população e qual a extensão da demanda latente. Não dispomos de instrumentos para avaliar qualquer tipo de demanda, além da extensão da “lista de espera”. (ROSEMBERG, 2001, p. 25).

  As listas de espera ou cadastros têm apontado uma elevada demanda explícita por creche, mas pesquisas tipo survey ou qualitativas revelam ambigüidades. Múltiplos discursos sobre a criança pequena, sobre a creche e sobre qual seria a melhor forma de EI podem revelar diferentes demandas.

  No Brasil, ainda poucos estudos têm investigado as escolhas por modalidades de EI (ROSEMBERG, 2002). Esses estudos são de dois tipos: macro

  Como vimos, tanto em um tipo de pesquisa quanto em outro, a crença, de que a criança pequena deve ser cuidada e educada em contexto privado e doméstico, aparece com força no Brasil, especialmente entre as famílias de menor renda (CEDEPLAR/UFMG, 1999; DELGADO, 2005; LIMA, 2004). Esses estudos têm apontado também para a prevalência, nos discursos das famílias, de uma diferenciação entre o que se considera adequado para crianças bem pequenas e para aquelas maiores de 3 anos.

  [...] 81,79% dos entrevistados consideram que a melhor forma de criar filhos de até 3 anos de idade é na própria casa, com mãe, pais e irmãos, e, para as crianças entre 4 e 6 anos de idade, a educação na creche/pré- escola em horário parcial é a opção de maior preferência entre os entrevistados (72,32%). (CEDEPLAR/UFMG, 1999, p.17).

  Delgado (2005), Torres e Silva (1998 apud DELGADO, 2005) e Lima (2004) apontam que os setores mais populares com rendimentos baixos e menor escolaridade tendem a apresentar uma procura por uma educação mais familiarista na escolha da modalidade de educação e cuidado, deixando as crianças com uma outra pessoa ou com parentes que cuidem da criança em casa ou em ambiente semelhante ao doméstico, como com uma “mãe crecheira”, em uma creche domiciliar. Mães que optaram por essas modalidades de EI preferem que a “mãe crecheira”, em uma creche domiciliar, atenda um pequeno número de crianças para que elas possam receber maior atenção, como a que receberiam em suas próprias casas. Já, as mães que optaram por deixar seus filhos em casa com um parente consideram que somente essas pessoas da família é que poderiam transmitir segurança, amor, carinho e atenção na relação com a criança. Além disso, com essa opção, essas mães procuravam evitar que valores estranhos ao contexto familiar fossem transmitidos às crianças por outros adultos.

  No estudo de Lima (2004), bem como no de Galvão (2008), os adultos entrevistados e que não optaram pela creche como modalidade de EI para seus filhos apresentavam uma concepção bastante negativa sobre a instituição, a considerando como “[...] ‘um lugar ruim e triste’, isto é, um local de abandono e carente de afetividade” (LIMA, 2004, p. 138).

  A Consulta sobre qualidade da educação infantil (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO ầ EDUCAđấO, 2006), que entrevistou 254 crianças de 5 e 6 anos e 882 adultos (incluindo pais e mães usuários e não-usuários de 53 creches e pré- escolas públicas, particulares e sem fins lucrativos, profissionais e comunidade), a maioria pertencentes às camadas populares, em 4 estados brasileiros (Ceará, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), apreendeu que, possivelmente,

  98 a não freqüência de crianças à creche ou pré-escola estaria sendo sustentada por uma concepção familiar de que a criança ainda seria muito nova para essa freqüência, de que não haveria necessidade para a criança ingressar na creche, ou, ainda, pela falta de vagas ou de estabelecimentos.

  Moro (2002), em sua pesquisa de mestrado intitulada Infância e educação

  

infantil pública: concepções maternas, também procurou investigar motivos para a

  não freqüência de crianças menores de 6 anos à creche. Nesse estudo descritivo, a autora realizou entrevistas coletivas com 30 mulheres-mães de camadas

  51

  populares , residentes no município paranaense de São José dos Pinhais, sendo que 15 entrevistadas haviam optado pela creche pública como modalidade de EI para seus filhos e outras 15 não. As que não haviam matriculado seus filhos na creche apresentavam uma rede de apoio maior dos que as que tinham optado por essa instituição e apontaram como principais motivos para essa decisão “quero

  

acompanhar o crescimento; sempre tive alguém para ajudar; optei por trabalhar

em casa; você não sabe como é o tratamento; não estou precisando trabalhar;

não consegui vaga” (p. 101). Ao avaliarem as creches municipais, essas mesmas

  mães criticaram a localização e a inadequação de seu horário de funcionamento às necessidades ou expectativas das famílias. Elas prefeririam horários mais flexíveis para a entrada ou saída das crianças e até mesmo que o atendimento na creche fosse oferecido também em meio-período.

  Em sua investigação, Moro (2002) também procurou conhecer os motivos pelos quais algumas mães haviam optado pela creche como modalidade de EI para seus filhos e obteve as seguintes respostas: “para começar a trabalhar;

  

minha mãe não podia ficar; acabaram levando meus filhos para a creche [por uma

  questão de extrema vulnerabilidade da família].” (p. 101). Segundo essa autora, essas mães apresentavam mais informações sobre aspectos educacionais da creche do que aquelas que não haviam optado por essa modalidade.

  As mães entrevistadas por Lima (2004), e que também haviam optado por 51 matricular seus filhos na creche, expressaram conceitos positivos sobre a

  

Apenas quatro mulheres entrevistadas por Moro (2002) declararam renda superior a 5 salários

mínimos e nenhuma apresentava escolaridade superior.

  99 instituição, considerando-a como um ambiente seguro, rico em estimulações e uma “extensão do lar”. Essas concepções ou avaliações positivas também puderam ser apreendidas, de certa forma, quando a grande maioria das famílias de crianças matriculadas em creche ou pré-escola ouvidas na Consulta sobre

  

qualidade da educação infantil (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À

  EDUCAđấO, 2006) revelou que seus filhos gostavam de freqüentar a instituição e,

  52 também, na pesquisa de Martinez (1998) com relação à escola /creche particular.

  Em sua pesquisa, Martinez (1998) acompanhou o ingresso de cinco crianças com idades variando de 1 ano e 3 meses a 3 anos de idade em uma creche particular no município paulista de São Carlos, a partir de observações dos momentos em que essas crianças chegavam e eram recebidas pela escola nas quatro primeiras semanas de ingresso escolar.

  Além das observações e de entrevistas com a diretora, professoras e outras profissionais da creche, Martinez (1998) realizou também entrevista semi-dirigida com quatro mães e dois pais das crianças. Todos os pais e mães entrevistados apresentavam escolaridade superior e pertenciam às camadas médias.

  Essa pesquisadora identificou diferentes motivos que levaram os pais entrevistados a optarem pela creche/escola particular como modalidade de EI para seus filhos. Os pais esperam que essa instituição promova uma aceleração no desenvolvimento de seus filhos em diferentes áreas (social, afetiva, cognitiva e da comunicação) e, além disso, “[...] é valorizada pela possibilidade de proporcionar à criança pequena independência, sociabilidade e espaço físico ainda que a disciplina e organização sejam também esperadas.” (MARTINEZ, 1998, p. 71). A opção pela modalidade coletiva, em detrimento de outras possibilidades, como por exemplo, deixar a criança com uma empregada ou babá, foi influenciada pela valorização da qualidade da interação adulto-criança na creche.

  Segundo Martinez (1998), os pais entrevistados esperam que o ensino particular ofereça um ambiente repleto de atenção e afeto, um pouco como se fosse a extensão da casa da criança. Alguns pais, entretanto, apesar de terem 52 optado pela creche para seus filhos, apresentavam uma avaliação negativa, A pesquisadora utiliza o termo escola, e não o termo creche, em seu estudo.

  100 considerando que a criança ainda era muito nova e que deveria ter ingressado na creche somente quando já estivesse falando.

  Vale frisar que a pesquisa de Martinez (1998) não questionou esses pais sobre suas impressões a respeito da creche pública e nem sobre os possíveis motivos de sua não escolha como local de educação para seus filhos.

  Com relação a representações sobre creche, a Consulta sobre qualidade da

  

educação infantil (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO ầ EDUCAđấO, 2006)

  apreendeu que ela é caracterizada como um local de atendimento para crianças cujas mães precisam trabalhar, onde são realizadas tarefas ligadas aos cuidados infantis - guarda, alimentação, higiene -, cuidados esses habitualmente atribuídos às mulheres. A socialização da criança a partir de sua convivência com outras crianças e adultos e o aprendizado de regras foram citados nessa pesquisa como papéis relacionados à EI.

  Uma boa creche/pré-escola foi considerada, pela maioria dos respondentes dessa mesma pesquisa, como aquela que “cuida bem da criança”, que “funciona em prédio limpo e bem cuidado” e que “trata bem as crianças, não importando suas diferençasỂ (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO ầ EDUCAđấO, 2006, p. 46-47). A maior parte dos entrevistados enfatizou, portanto, aspectos relacionados aos cuidados.

  [...] pais/mães mais pobres almejam da instituição [creche ou pré-escola] que ela seja capaz de suprir aquelas necessidades básicas das crianças que eles não se julgam em condições de proporcionar: alimentação, cuidados com a saúde. Pais/mães, assim como outros segmentos, também se preocupam com o tratamento que as crianças recebem na instituição, desejando que sejam cuidadas com carinho, por pessoas que gostem de crianças, de acordo com suas próprias palavras. Uma boa creche ou pré- escola seria aquela em que os educadores demonstrassem essas qualidades. (CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO ầ EDUCAđấO, 2006, p. 63).

  Alguns estudos como os de Cruz (2001), França (2001) e Monção (1999) que se propuseram a estudar as representações de famílias sobre creche entrevistaram, em geral, somente mães e pais de camadas populares e que já tinham atribuído a educação de seus filhos a essa instituição. Poucas famílias entrevistadas, usuárias dos serviços prestados por essas creches, conseguiram,

  101 de forma geral, expor suas críticas em relação ao serviço oferecido. Reconhecendo a creche pública (e a vaga finalmente conseguida) como um milagre, uma dádiva ou um favor, muitas famílias entrevistadas não a identificavam como um direito da criança.

  Múltiplos discursos sobre o bebê e sobre a creche podem traduzir ou concretizar, portanto, expectativas de diferentes naturezas em relação à EI. Pudemos apreender que os pais tendem a procurar modalidades de EI que assegurem à criança um contato muito próximo ao que recebem em suas casas. A expressão “como se fosse uma extensão da casa” aparece com freqüência nas pesquisas. Mesmo pais que optam por modalidades coletivas de cuidado como a creche parecem desejar que o ambiente que acolha as crianças seja semelhante ao da casa.

  A creche aparece nas concepções das famílias, quase sempre, relacionada aos cuidados e, ainda, muito pouco à educação. Devemos, entretanto, antes de finalizar esse tópico, atentar para o fato de que algumas pesquisas brasileiras, que vêm investigando os motivos pelos quais crianças na faixa etária de 0 a 6 anos estavam ou não estavam freqüentando creche ou pré-escola, muitas vezes, não apresentam resultados desagregados por idade da criança ou subdivididos pelas faixas etárias de 0 a 3 e de 4 a 6 anos. Assim, muitos resultados acabam se referindo, de forma geral, às crianças de 0 a 6 anos, abrangendo ou avaliando tanto a demanda por creche quanto por pré- escola. Em conseqüência, como ressalta Rosemberg (2009c), notamos uma maior fragilidade e insuficiência nas informações relativas aos motivos pelos quais crianças pequenas não estão freqüentando creche, ao atendimento em creche e às especificidades ou distinções internas entre as crianças de 0 a 3 anos.

  A desagregação dos dados por idades tem se mostrado fundamental para expor a intensidade das diferenças de freqüência à creche entre bebês menores de 1 ano e crianças já maiores, a partir de 2 e 3 anos de idade, como podemos observar nas informações apresentadas no quadro 1 e provenientes de dados coletados na PNAD (2008).

  102

  Quadro 1. Freqüência à creche/pré-escola/escola, segundo a idade da criança

Idade População Freqüência à creche/pré- Idade das Porcentagens de freqüência à

das por idade escola/escola crianças creche/pré-escola/ escola

crianças

  (em (em anos) anos) Educação Ensino Educação Ensino Infantil Fundamental Infantil Fundamental

  2.553.221 59.527 2,33% 1 2.618.009 236.579 1 9,04% 2 2.706.386 518.946 2 19,17% 3 2.849.041 1.127.309 3 39,57% 4 2.895.074 1.849.531 4 63,89% 5 2.870.331 1.584.009 715 5 55,19% 0,02% 6 2.959.157 676.411 1.330.597 6 22,86% 44,97% 7 3.081.044 89.975 2.694.733 7 2,92% 87,46% 8 3.396.581 23.916 3.246.875 8 0,70% 95,59% 9 3.463.140 9.472 3.390.352 9 0,27% 97,90% Fonte: (PNAD, 2008, micro dados processados por Sergei Soares, apud ROSEMBERG, no prelo).

  Em uma breve análise do quadro apresentado, apreendemos que menos de 3% dos bebês menores de 1 ano de idade estão freqüentando creches no Brasil, enquanto que essa taxa se eleva para quase 10% entre crianças com 1 ano de idade e mostra-se, ainda, muito maior - quase 20% para crianças de 2 anos e aproximadamente 40% entre as de 3 anos -, quanto maior é a idade da criança, como já havíamos apontado no início desta tese. Essas informações nos levam a supor que as pesquisas que objetivam investigar demanda ou a não freqüência à creche devem procurar obter informações específicas sobre as diferenciações internas à faixa etária de 0 a 3 anos.

  Com taxas de freqüência tão diferentes, também, entre as crianças que estão matriculadas nas creches e àquelas que freqüentam a pré-escola, pode-se imaginar que as famílias apresentem motivos ou demandas específicas de acordo com a idade das crianças. Não seria recomendável, portanto, que as pesquisas continuassem considerando a EI como se fosse um bloco homogêneo. Sem que ocorra a separação dos dados por idades sempre teremos muito menos informação, ou informações frágeis, sobre as especificidades da freqüência, ou não freqüência, à creche por parte de bebês.

  103 Daí, nosso interesse de nos debruçarmos sobre os discursos de mães sobre os bebês menores de 1 ano e suas especificidades em termos de educação e cuidados.

  104

  CAPÍTULO 4 – ENTREVISTANDO MÃES

  Este capítulo aborda a segunda fase prevista pelo método da hermenêutica de profundidade (THOMPSON, 2002), ou seja, descreve as formas simbólicas, no caso, as entrevistas, seu contexto de produção e também seu conteúdo. Em um primeiro momento, explicitarei os procedimentos que nortearam a coleta de dados e, na seqüência, apresentarei a análise do conteúdo apreendido.

  

4.1 AS ENTREVISTADAS E O CONTEXTO DE PRODUđấO DAS

ENTREVISTAS

  As mulheres-mães entrevistadas foram selecionadas intencionalmente, como na pesquisa de Galvão (2008), com base na literatura consultada e no objeto de pesquisa.

  No total, foram entrevistadas oito mulheres, mães de primeiro filho (com até no máximo 1 ano de idade), casadas ou residindo com companheiro, moradoras de São Caetano do Sul, com formação em nível superior, inseridas no mercado de trabalho e pertencentes às camadas médias da população.

  Por que entrevistei mulheres com estas características? Ora, como vimos na revisão bibliográfica que efetuamos, renda e escolaridade materna elevadas atuam como variáveis importantes, influenciando positivamente a freqüência aos equipamentos coletivos de educação e cuidado por parte de crianças pequenas, inclusive bebês.

  Ao propor um estudo com mulheres pertencentes às camadas médias, e não de classes médias, considerei, como enfatizado por Romanelli (2003), que mesmo que elas se encontrem, através de seus rendimentos econômicos, posicionadas dentro de uma mesma camada econômica ou social, elas vivem no dia-a-dia experiências de vida e organização familiar diversas.

  [...] a opção pelo uso de camadas médias implica uma postura teórica segundo a qual elas não constituem uma classe social, no sentido marxista, mas se configuram como categoria descritiva, cuja diferenciação

  105 em segmentos específicos resulta da articulação entre determinantes sociais e culturais (ROMANELLI, 2003, p. 248).

  Escolhi escutar mães de bebês moradoras de São Caetano do Sul por diversos fatores já citados, mas também pela facilidade de acesso, já que também resido na cidade e pelo interesse em entrevistar residentes no município brasileiro considerado como “O melhor para se viver” em pesquisa realizada pela FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) em 2008; que possui o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), segundo a Fundação SEADE e a Organização das Nações Unidas em 2000, e também classificada pelo UNICEF como a terceira melhor do Brasil e a segunda melhor do estado de São Paulo no atendimento à infância, graças ao trabalho nas áreas de educação, cultura, saúde e esportes (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL, 2003a).

  Para a coleta de dados, optei por realizar entrevista individual em profundidade, pois, segundo Gaskell (2003, p. 65):

  A entrevista qualitativa [...] fornece os dados básicos para o desenvolvimento e a compreensão das relações entre os atores sociais e sua situação. O objetivo é uma compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos.

  As entrevistas foram guiadas por um roteiro composto pelos temas e

  53 questões detalhadas abaixo.

  • Percepção sobre política, direito do bebê e participação da sociedade
    • pensando em um contexto mais geral, acha que a sociedade ou o Estado têm algum dever para com os bebês, alguma responsabilidade? De quem seria essa responsabilidade? As crianças brasileiras de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, mas somente 18,1% das crianças de 0 a 3 anos freqüentam creche, enquanto quase 80% de crianças de 4 e 5 anos freqüentam pré-escola. O que
    • 53 pensa sobre isso? Por que os adultos, em geral, não se preocupam ou se

      Durante o Exame de Qualificação, foi sugerido pela Banca Examinadora que a ordem das

    questões fosse alterada, para que as relacionadas à percepção sobre política, direito do bebê e

    participação da sociedade atuassem nas entrevistas como questões desencadeadoras. Por essa

    razão, somente a primeira entrevista, a única realizada antes da Qualificação, apresentou uma

    ordem diferente na proposição das questões.

      106 mobilizam pela questão dos direitos dos bebês e das políticas de creche? Como os adultos, incluindo aí os políticos e a sociedade em geral, poderiam se mobilizar para procurar atender aos direitos dos bebês e agir mais ativamente em relação às políticas de creche? Você se preocupa ou se mobiliza? Por quê? Como?

    • Concepções sobre o bebê – você poderia descrever um bebê para mim; o que vem à cabeça quando falamos em bebê, o que é um bebê para você? Existe diferença entre um bebê e uma criança pequena? O que os diferencia? Bebê seria até mais ou menos qual idade? Como a entrevistada se instrui ou como aprendeu sobre os cuidados para com um bebê? Como acha que os bebês gostariam de ser cuidados/educados; qual seria a melhor maneira de educá-los; do que um bebê necessita? Qual seria a idade que você considera ideal para um bebê começar a freqüentar a creche? Qual é a rotina de um bebê em casa? Como é ou seria a rotina de um bebê na creche?
    • Conhecimento sobre creche – o que vem à cabeça quando falo creche; o que o termo evoca? O que é, para que serve uma creche? A quem se destina? Conhece alguma? Sabe se tem creche pública no seu bairro? Conhece alguém que utiliza ou trabalha em uma creche? No município? Já ouviu alguém comentar sobre creche? Quem? Tem alguma impressão ou avaliação sobre as creches de São Caetano? Há diferença entre as creches públicas de São Caetano e as de outros municípios? O que é uma boa creche (uma creche de boa qualidade)? O que a creche deveria oferecer para um bebê se sentir bem? O que é uma creche ruim (de má qualidade)? Colocaria o bebê em uma creche? Colocaria o bebê em uma creche pública? Colocaria o bebê em creche em período integral? Recomendaria a creche pública para outros pais/bebês? O que acha da oferta de vagas? O que fazer diante da oferta insuficiente de vagas? Existem diferenças entre creche pública e creche particular? Quais? Por que você acha que essas diferenças existem? Existe alguma diferença entre os bebês que freqüentam creche pública e os que freqüentam creche particu
    • • Contexto familiar – breve descrição da família (idade da entrevistada e a

      de seu marido/cônjuge, escolaridade/formação/profissão, bem como a do cônjuge,

      107 tipo de trabalho/ocupação, idade e sexo do bebê, religião da família, local de residência).

    • Cuidados e educação recebidos na infância – como se recorda dos cuidados e educação recebidos quando era criança? Sua mãe trabalhava fora? Freqüentou creche (pública ou privada) e com qual idade? Ficava com outros familiares ou com outras pessoas em casa? O que pensa da educação recebida? Do que recebeu de seus pais, o que gostaria de transmitir para seu filho ou adotar na educação dele? Do que recebeu, o que gostaria de modificar em relação à educação de seu filho?
    • Licença-maternidade - o que sabe sobre licença maternidade? Usufruiu dela por quanto tempo? Considera que este tempo foi suficiente ou adequado? O que achou do projeto aprovado e da possibilidade de poder prorrogá-la por mais 2 meses; acha que 6 meses de licença maternidade é suficiente ou adequado para as famílias e para os bebês? Qual seria o tempo “ideal” de licença maternidade? Por quê?
    • Licença-paternidade – o que sabe sobre licença paternidade? O pai do seu filho usufruiu de licença paternidade? Por quanto tempo? Considera o tempo previsto em lei adequado? O que acha do projeto que propõe a ampliação de 5 para 15 dias? Qual seria o tempo “ideal” de licença paternidade para as famílias e para os bebês? Por quê?
    • Expectativa/escolha – o que pretende fazer ou fez ao término da licença maternidade: voltar (voltou) a trabalhar, deixar (deixou) o bebê com alguém, colocar (colocou) na creche, reduzir (reduziu) a jornada de trabalho, parar (parou) de trabalhar? Qual o tipo de educação escolhida? Por que essa escolha? Como se deu a escolha: consultou alguém, conversou com o pai da criança, visitou alguma creche, pensou em parar de trabalhar ou sofreu algum tipo de pressão para parar de trabalhar e cuidar pessoalmente do bebê em casa? A escolha é pessoal ou também a recomenda para outros pais/bebês? A idade da criança influenciou a escolha? O que pessoas conhecidas falaram sobre a escolha ou escolheram para seus bebês? Em algum momento pensou na possibilidade de o bebê ficar com as avós ou avôs (paterno ou materno)? Por que sim? Por que não? Alguém (a avó)

      108 se ofereceu para ficar com o bebê ou vocês que pediram? Como é para ela, o que ela acha de educar, cuidar do bebê?

    • Nomenclatura/vocabulário – qual termo utiliza ou prefere utilizar ao se referir às instituições de educação e cuidado infantil? Por que utiliza ou prefere esse termo?

      Este roteiro baseou-se, não somente no recorte do objeto de pesquisa e no estudo teórico realizado, mas, também, em cinco entrevistas exploratórias que tive a oportunidade de realizar em diferentes estágios de desenvolvimento deste projeto.

      Em outubro de 2004, durante meu primeiro semestre de estudos, dentro das atividades desenvolvidas no NEGRI, apresentei um seminário sobre entrevista, com base no livro A entrevista na pesquisa em educação: a prática

      

    reflexiva, organizado pela professora Heloisa Szymanski (2002), e esbocei um

      roteiro prévio de questões, com base nos estudos de Lima (2004), Bloch e Buisson (1998, 1999), CEDEPLAR/UFMG (1999) e IPEA (1999). Realizei, também, uma primeira entrevista com uma mãe que havia optado pela creche como modalidade de educação e cuidado para seus dois filhos.

      Após a análise dessa primeira entrevista, e com o desenvolvimento do projeto de pesquisa, foi possível ampliar o roteiro de questões e realizar, no início de 2006 e também em 2008, mais quatro entrevistas exploratórias com mães que já apresentavam características próximas às das que foram, posteriormente, entrevistadas.

      As entrevistas exploratórias, além de terem me auxiliado a melhor estruturar o roteiro de questões/temático, que passou a focar mais o bebê enquanto criança e menos enquanto filho, também serviram como “treino” para a situação e a função de entrevistar. Como nos lembra Luna (2002, p.61-62):

      Com alguma freqüência, um pesquisador pode descobrir que a formulação adequada do seu problema pode depender de algumas informações a serem coletadas preliminarmente [...] Esse procedimento poderá ter a finalidade de “treinar” o pesquisador iniciante à situação concreta que enfrentará durante a pesquisa, mas também poderá ser um recurso de um pesquisador experiente que adentra uma área ainda pouco explorada. Pode, ainda, ter o sentido de um pré-teste de instrumentos ou de determinados procedimentos a serem empregados, com o objetivo de não

      109

      “queimar” o trabalho efetivo de pesquisa (em geral, isto é feito em uma situação mais restrita, com menos indivíduos).

      54 Realizei, em 29 de setembro de 2009, a primeira entrevista e todas as

      demais foram realizadas durante os meses de janeiro e fevereiro de 2010, tendo sido a última realizada em 05 de fevereiro de 2010. Todas as entrevistas foram gravadas com a concordância das entrevistadas, após leitura do termo de consentimento informado, que foi assinado por todas as participantes. Em respeito aos princípios éticos, todas as entrevistadas tiveram seus nomes e os das pessoas por elas citadas alterados, para a garantia de anonimato.

      Também visando garantir o cumprimento de aspectos éticos, foi encaminhada ao Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP a versão do projeto de tese contendo os objetivos da pesquisa, sua justificativa, os procedimentos e cuidados éticos que seriam adotados, bem como, caracterizada a população que

      55 seria entrevistada. Após avaliação pelo Comitê, o projeto foi aprovado .

      Para localizar as entrevistadas, divulguei minha pesquisa entre parentes, amigos, conhecidos e contatei pediatras e também algumas direções de creches particulares de São Caetano do Sul, informando sobre as características das mães que poderiam compor minha amostra. Dessa forma, pude contar com as indicações de mulheres que, eventualmente, poderiam se interessar em participar da pesquisa.

      Em apenas um caso, fiz uma abordagem direta ao observar uma mulher acompanhada de seu bebê em um restaurante. Essa mãe, não só apresentava o perfil que eu procurava, como se interessou pelo tema e aceitou participar.

      Vale destacar, também, que, apesar do contato com pediatras e creches particulares, a maior parte das indicações que recebi partiu, mesmo, de pessoas de meu convívio social, que serviram como intermediárias entre a pesquisadora e as mulheres entrevistadas. 54 A transcrição da primeira entrevista realizada foi parte integrante do Projeto de Tese que foi

      

    avaliado em 07 de dezembro de 2009 durante Exame de Qualificação. Nessa ocasião, a Banca

    Examinadora sugeriu que fossem realizadas no mínimo seis entrevistas. As transcrições das oito

    55 entrevistas realizadas constam dos anexos.

      

    Em anexo, são apresentados os termos de compromisso do pesquisador responsável e de

    consentimento livre e esclarecido, bem como, o parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-

    SP.

      110 Quando as possíveis entrevistadas se mostravam dispostas a participar, eu entrava em contato por telefone, fornecia dados mais detalhados sobre a pesquisa, verificava se elas realmente se encaixavam no perfil de composição da

      56

      amostra e se desejavam conceder a entrevista. A partir daí, agendávamos, de acordo com a preferência e sugestão das entrevistadas, o dia, horário e local de realização das entrevistas.

      Antes da análise das entrevistas, será necessário descrevermos o contexto em que foram produzidas, como nos lembra Thompson (2002). A descrição do local onde cada uma foi realizada, a qualidade da interação entre pesquisadora e entrevistada, incluindo sentimentos, perguntas ou outros comentários que possam ter sido expressos, também devem ser considerados na análise.

      Quanto ao contexto no qual foram produzidas, vale lembrar que as entrevistas envolveram diferentes atores sociais. Um primeiro ator fui eu, a pesquisadora: psicóloga, ex-dirigente de creche, branca, com idade entre 35 e 40 anos, casada, sem filhos, também moradora de São Caetano e pertencente às camadas médias da sociedade, representando a academia e a universidade. Um segundo ator foram as mulheres entrevistadas, profissionais com nível superior, brancas, com idades variando entre 27 e 40 anos, casadas ou residindo com companheiro, mães de primeiro filho, moradoras de São Caetano e representantes das camadas médias que discursaram não somente sobre seus filhos e suas escolhas em termos de EI, mas também, sobre os bebês, em geral, e sobre as modalidades de EI que consideram mais adequadas e/ou recomendadas para bebês.

      A descrição do contexto de produção de cada entrevista se mostra também bastante útil ao pensarmos que, embora tenham sido gravadas, as entrevistas foram analisadas a partir de transcrição de falas, o que não registra entonações, importantes referências para interpretar seu conteúdo. Todas as transcrições, ainda que correspondam o mais fielmente possível ao que foi gravado e tenham 56 sido totalmente realizadas por esta pesquisadora, como recomendado por Queiroz

      

    Três mulheres que me foram indicadas, infelizmente, não puderam ser entrevistadas ou porque

    não residiam em São Caetano ou porque eram mães de crianças acima de 1 ano de idade.

      111

      (1983), não traduzem completamente o ambiente das entrevistas e as suas condições de produção.

      Quero ainda registrar que, de forma geral, me senti bastante à vontade com todas as entrevistadas e considerei que o fato de apresentarmos similaridades em relação à escolaridade, renda, residência em São Caetano e, em um caso, profissão, facilitou o contato e interação com as entrevistadas. Além disso, relato que todas as oito mães mostraram-se interessadas em receber as transcrições de suas entrevistas, bem como, em ter acesso ao trabalho final para poderem conhecer não só o que as outras participantes pensam sobre o tema, mas também os resultados da pesquisa.

      A seguir, apresentarei uma breve descrição introdutória sobre cada uma das entrevistas.

      Joana

      Joana foi a primeira mãe a ser entrevistada e me recebeu em seu local de trabalho no período da tarde, sem a presença de sua filha, Maria Clara. Quando nos encontramos, a entrevistada perguntou se eu era psicóloga e se trabalhava em consultório. Perguntou, também, se eu morava na cidade e se tinha filhos, ao que respondi prontamente. Contei que eu trabalhava com educação infantil, que já havia sido dirigente de creche, que morava na cidade e que não tinha filhos.

      A entrevista que durou 1 hora e 8 minutos não sofreu qualquer interrupção e pudemos contar com privacidade e silêncio para sua realização. A entrevistada participou bastante, apesar de ter comentado, em um dado momento da entrevista, ser uma pessoa reservada. Minha percepção era a de que a entrevistada sentia-se à vontade, o que, de fato, ela confirmou após o término da entrevista. Quando finalizamos, ela perguntou se eu já havia realizado outras. Falei que sim e que algumas tinham servido para definir o roteiro e para treinar a situação de entrevista.

      Joana relatou ter sido a primeira vez que participou de uma pesquisa e comentou ter achado muito interessante poder apresentar o seu ponto de vista sobre o assunto.

      112 De forma geral, o relacionamento entre entrevistadora e entrevistada foi marcado pela cordialidade. Ao final, obtive junto à entrevistada o número de telefone de um pediatra na cidade para, eventualmente, conseguir contatar outras mulheres para entrevistas posteriores.

      Na análise pessoal de minha postura durante a entrevista, percebi que, embora eu tenha me mantido atenta ao que a entrevistada respondia, em alguns momentos, fiquei presa ao roteiro e à ordem das questões, o que acabou promovendo algumas idas e vindas na entrevista, deixando alguns assuntos para depois e retomando-os mais à frente.

      Natália

      Natália me recebeu em sua residência, no período da manhã, antes de sair para o trabalho. A entrevista, que durou 1 hora e 12 minutos, foi realizada em uma sala reservada, sem a presença do bebê. Pudemos contar com privacidade e silêncio e o clima entre pesquisadora e entrevistada também foi de cordialidade.

      A entrevistada pareceu-me bastante tranqüila e focada no tema da entrevista. Antes que eu me despedisse, me apresentou sua filha, Laura, que dormia no carrinho sob os cuidados da babá. Considerei, enquanto entrevistadora, que a alteração na ordem de apresentação das questões, procedimento que, como já comentei, havia sido proposto durante o exame de qualificação do projeto e que passei a adotar a partir dessa segunda entrevista, foi bastante positiva para a pesquisa, visto que, ao propor, logo de início, questões referentes à percepção sobre política, direitos do bebê e participação da sociedade, de certa forma, propiciou que a entrevistada refletisse sobre outros bebês e não somente sobre sua filha.

      Aléxia

      Fui recebida pela terceira entrevistada, Aléxia, na casa de sua mãe, onde reside com seu companheiro e bebê. Essa entrevista foi realizada na mesma data

      113 que a entrevista de Natália, porém no período da tarde, e contou com a presença do bebê, Juliano, já que Aléxia informou não ter com quem deixá-lo.

      Ao agradecer sua disponibilidade em participar, comentei que Juliano mostrava-se bastante observador e participante. A mãe comentou que ele até parava de mamar para olhar para nós. O bebê tomou mamadeira, mas acabou dormindo durante quase todo o decorrer da entrevista. Aléxia e eu conversamos sem interrupções, com tranqüilidade, privacidade e silêncio.

      A entrevistada pareceu-me estar à vontade. Notei uma atitude expansiva e bastante participativa por parte da entrevistada, o que talvez possa ser justificado pela proximidade entre sua atividade laboral - ex-professora de EI - e o objeto desta pesquisa. Esta foi a entrevista de mais longa duração, 1hora e 42 minutos.

      Apesar disso, Aléxia não considerou sua duração como desagradável. Ao terminarmos, ela me ofereceu suco e bolachas e ainda pudemos conversar mais um pouco. Comentei que eu já tinha sido diretora de creche em São Bernardo do Campo e justifiquei, também, minha opção por entrevistar mães residentes em São Caetano.

      A entrevistada também me indicou o pediatra de seu bebê como um contato na busca por indicações para outras entrevistas.

      Malu

      Malu foi a quarta mãe entrevistada e me recebeu em sua residência, no período da tarde. Seu bebê, Anjinho, que estava dormindo quando eu cheguei, acordou no decorrer da entrevista e foi amamentado.

      No início da entrevista, Malu perguntou se eu morava em São Caetano, se eu era casada e se tinha filhos ou se pensava em ter. Respondi, de forma breve, informando que também morava na cidade, que era casada e não tinha filhos.

      De forma geral, pudemos contar com um ambiente silencioso e com privacidade para a realização da entrevista. Aparentando estar bastante focada no tema da entrevista, Malu pareceu-me bastante direta e objetiva na maior parte das respostas, o que transparece na duração da entrevista: 1 hora (das oito realizadas foi uma das mais curtas).

      114 Ao final da entrevista, a relação entre pesquisadora e entrevistada que havia me dado a impressão de ter sido relativamente formal, pareceu-me mais descontraída com o café que me foi gentilmente oferecido e com a presença do bebê que tinha acordado.

      Malu considerou o tema da entrevista importante e me cumprimentou pela iniciativa em pesquisá-lo: “... É muito bom, parabéns. É muito importante esses

      

    trabalhos que vocês fazem, essas pesquisas, porque isso contribui, de alguma

    forma, para melhorar esse tema...” Beatriz

      Entrevistei Beatriz em sua residência, às 20h30, como havíamos combinado e, logo de início, agradeci não só sua participação, mas, também, sua disponibilidade de tempo, sua disposição em me receber à noite depois de um dia de trabalho e a participação de sua filha, Mariana, que estava no colo e acordada.

      A entrevista transcorreu sem maiores interrupções, em ambiente cordial, com privacidade. Beatriz, que informou estar participando de uma pesquisa pela primeira vez, não forneceu respostas muito longas, mas restringiu-as ao tema da entrevista. A duração da entrevista foi de 1 hora e, assim como a entrevista com Malu, foi uma das mais curtas.

      Ela considerou o tema da entrevista válido e disse que esperava ter ajudado, mesmo sem conhecer muito sobre creche ou sobre a realidade das creches em São Caetano.

      Ao final da entrevista, Beatriz quis confirmar se a pesquisa era para a minha tese e se eu era psicóloga de criança. Respondi que estava desenvolvendo minha tese em Psicologia Social, que eu não era psicóloga de criança, mas que já tinha trabalhado com crianças na área de EI.

      Um pequeno incidente com o gravador foi descoberto pouco antes do término da entrevista. O aparelho não havia registrado as últimas respostas de Beatriz. Para compensar esse problema, logo após a entrevista, transcrevi a parte final recorrendo a minha memória e, no dia seguinte, encaminhei a transcrição

      115 completa da entrevista para que Beatriz a avaliasse, a completasse ou corrigisse qualquer eventual equívoco.

      A entrevistada se mostrou compreensiva com o ocorrido e gentilmente leu a transcrição e deu seu aval, confirmando que o que estava escrito era o que havíamos conversado e o que ela havia respondido.

      Manuela

      Entrevistei Manuela, a mais jovem das oito mulheres, na residência de seus pais, logo após o almoço. Diferentemente das outras entrevistas, em que estávamos só eu, a entrevistada e o bebê no local de entrevista, a entrevista com Manuela sofreu mais interrupções, não só pela presença do bebê, João, que chorou e foi amamentado, mas também pela circulação de outras pessoas na casa. Os pais de Manuela entraram uma vez no local de entrevista e o pai dela me perguntou se a pesquisa era sobre pós-parto. Em outro momento, interrompemos a entrevista, pois nos foi servido café.

      Manuela tratou-me como se fôssemos amigas de longa data. Foi extremamente simpática e pareceu-me muito à vontade não somente para responder às questões, mas também para me questionar sobre os temas abordados, especialmente sobre as creches. Dentre as perguntas que fez ao longo da entrevista, perguntou-me também se eu tinha filhos, ao que respondi prontamente.

      A entrevistada utilizou uma linguagem que qualifico como tendo sido mais informal e descontraída que a das demais e, às vezes, também um pouco menos focada.

      Apreendi uma certa preocupação de Manuela com o fato de não conhecer creches em São Caetano e de, em sua análise, não ter tanto conhecimento pelo fato de estar começando, de só ter 3 meses de experiência com o bebê e de ser “marinheira de primeira viagem”. Procurei tranqüilizá-la, informando que eu estava entrevistando somente “mães de primeira viagem” e que eu queria conhecer suas impressões, mesmo que ela nunca tivesse visitado uma creche.

      116 Ela afirmou ter gostado de participar da pesquisa: “... achei legal as

      

    perguntas que você fez, às vezes, fazem perguntas meio, como se diz, meio,

    como fala, ai fugiu a palavra, tipo invadindo a privacidade, mas não, eu achei

    super tranqüilo, você não perguntou nada que eu não quisesse responder, o que

    eu não respondi é porque eu não sabia mesmo...”

      Ao final, comentei com ela que eu já havia trabalhado como dirigente de creche pública em São Bernardo e que me parecia que a Secretaria de Educação de São Caetano estava tentando assegurar que todos os matriculados em creche residissem mesmo no município. Manuela revelou-me ter ficado satisfeita com essa informação, já que, ao longo de sua entrevista, criticou o fato de as creches públicas de São Caetano estarem, possivelmente, sendo utilizadas por pessoas de outras cidades na busca por uma vaga ou um melhor atendimento.

      Milena

      Fui recebida por Milena em seu local de trabalho, no período da tarde, e sem a presença de seu bebê, Raul. Procurei iniciar rapidamente a entrevista, pois sabia que, logo após, Milena iria para casa ficar com seu filho.

      Pudemos conversar durante 1hora e 14 minutos em uma sala tranqüila, sem sermos interrompidas. Como ela atua na área da EI, pude fazer algumas perguntas relativas, também, ao seu trabalho e ao atendimento oferecido aos bebês.

      O clima da entrevista pareceu-me cordial, mas ficou bem mais simpático quando a entrevista terminou e pudemos conversar sem o gravador. Milena perguntou-me, mais que as demais, sobre minha formação e interesse em EI. Assim, comentei sobre meus trabalhos anteriores na creche e também a informei sobre os estudos que vêm sendo desenvolvidos no âmbito do NEGRI. Ela, que durante a entrevista, afirmou se ressentir da falta de material de estudo relativo aos bebês, mostrou-se animada com a possibilidade de ter acesso, por exemplo, a minha dissertação de mestrado na área de sexualidade infantil, à pesquisa de Galvão (2008) com pais de camadas médias, e aos resultados da pesquisa que sustenta esta tese.

      117

      Júlia

      A oitava entrevistada me recebeu na companhia de seu bebê, Diogo, em seu local de trabalho, no período da manhã. Apesar de ainda estar em licença maternidade, ela preferiu que a entrevista não fosse realizada em sua casa, para que, assim, eu pudesse conhecer o seu local de trabalho.

      No início da entrevista, agradeci a gentileza de Júlia de ter aceitado me receber e participar da pesquisa, mesmo estando com o bebê bem novinho no colo. Ao utilizar o termo “novinho”, eu me referia ao fato de Diogo ter 1 mês e meio de vida e ser o bebê com menor idade entre todos que eu havia conhecido durante o período de entrevistas. O bebê dormiu durante quase todo o tempo da entrevista e só precisamos fazer uma breve interrupção para que ele fosse amamentado no horário correto.

      Considero que a entrevista transcorreu de forma muito tranqüila com grande participação de Júlia. Sua duração de 1h e 30 minutos, pareceu-me não ter gerado qualquer reação de incômodo por parte da entrevistada.

      Júlia relatou que a entrevista tinha sido diferente do que ela havia imaginado ao comentar suas impressões, quando chegávamos ao final. Ela esperava que eu fosse questioná-la mais sobre questões relativas ao seu próprio bebê.

      A entrevistada ressaltou, também, que eu havia contribuído com informações interessantes, como a do projeto de lei para ampliação da licença paternidade que ela desconhecia.

      Antes de nos despedirmos, conversamos um pouco também sobre meu percurso profissional e como ele tinha contribuído para que eu, hoje, estivesse entrevistando mães sobre o bebê, sua educação e cuidado.

      Retomando Thompson (2002), e lembrando que cabe a cada pesquisador adotar na fase de análise formal das formas simbólicas os procedimentos que julgue ser os mais apropriados para o objetivo de sua pesquisa, empreguei, assim

      118 como outras pesquisas realizadas no âmbito do NEGRI, um conjunto de técnicas de análise de conteúdo, com base em Bardin (1977) e Rosemberg (1981), para descrever os discursos das mães entrevistadas. A análise do conteúdo das entrevistas mostrou-se necessária, já que as formas simbólicas precisam ser analisadas não somente em relação ao seu contexto sócio-histórico de produção, recepção e divulgação, mas também em si mesmas.

      Nesta pesquisa, as transcrições das entrevistas constituíram o corpus, ou seja, o “[...] conjunto dos documentos tidos em conta para serem submetidos aos procedimentos analíticos.” (BARDIN, 1977, p. 96).

      A reprodução das transcrições integrais das entrevistas em anexo tem como finalidade, não somente disponibilizar aos leitores o acesso aos discursos das entrevistadas e possibilitar o acompanhamento do processo realizado por esta pesquisadora de transformação das informações em dados úteis para a análise, mas também proporcionar, eventualmente, que outras re-interpretações, também plausíveis e justificadas, venham a ser elaboradas por outros pesquisadores com base em diferentes enfoques teóricos.

      Finalizada a etapa de transcrição das entrevistas, empreendi sucessivas leituras de cada uma, visando estruturar meu plano de análise com foco nos aspectos comuns dos discursos da maioria das entrevistadas e não em suas falas individuais e identificar, em um primeiro momento, os temas de maior aparição ou destaque.

      O tema, portanto, foi a unidade de significação e de registro que utilizei. Segundo Bardin (1977, p. 105-106):

      Fazer uma análise temática consiste em descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença, ou freqüência de aparição, podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido. [...] O tema, enquanto unidade de registro, corresponde a uma regra de recorte (do sentido e não da forma) que não é fornecida uma vez por todas, visto que o recorte depende do nível de análise e não de manifestações formais reguladas. [...] O tema é geralmente utilizado como unidade de registro para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc. As respostas a questões abertas, as entrevistas (não diretivas ou mais estruturadas) individuais ou de grupo, de inquérito [...] podem ser, e são freqüentemente, analisados tendo o tema por base.

      119 Partindo do conteúdo temático das entrevistas, e com base também nas referências teóricas e no roteiro de questões, procurei construir quadros que permitissem a codificação das respostas. Esses quadros contêm sínteses ou citações de cada entrevista organizadas em torno de categorias e serão apresentados ao longo do texto para permitir ao leitor uma melhor visualização dos dados.

      Após a análise dos quadros, foi possível estabelecer uma apresentação dos resultados em torno de cinco eixos, a saber:

    • eixo 1: os contextos sociais das entrevistadas;
    • eixo 2: concepções sobre o bebê e a criança pequena;
    • eixo 3: modalidades de educação e cuidado para bebês;
    • eixo 4: responsabilidades do Estado e da sociedade; • eixo 5: aspectos intergeracionais.

      Eixo 1. Os contextos sociais das entrevistadas

      Em síntese, podemos dizer que as mulheres-mães que entrevistamos representam as camadas médias urbanas, apresentam formação universitária, são bem situadas profissionalmente, optaram ou tiveram seus bebês em uma fase mais madura de suas vidas, têm acesso a fontes variadas de informação (profissionais, parentes e conhecidos, mídia, internet, livros, cursos), vivem em contextos pessoais e sociais de não carência, não apresentando limitações de ordem econômica ou social para poderem escolher ou optar pelas modalidades de EI que consideram mais adequadas para seus bebês.

      A apresentação sobre os contextos sociais das entrevistadas será dividida em duas partes. Primeiramente, forneceremos informações que as caracterizam, e na seqüência, descreveremos suas experiências e práticas em relação à vivência da maternidade e ao cuidado com bebês.

      As entrevistadas são brancas, situadas na faixa etária dos 27 aos 40 anos, mães de bebês com idades variando entre 1 mês e meio e 11 meses, sendo que

      120 três bebês são meninas e cinco são meninos, casadas ou vivendo com companheiro, estão inseridas no mercado de trabalho, bem como seus maridos, que se situam na faixa etária dos 29 aos 41 anos (quadro 2).

      A formação universitária das mães entrevistadas ocorreu em áreas distintas: Pedagogia, Administração de Empresas, Psicologia, Arquitetura, Ciências da Computação, Economia. Apenas a mãe economista cursou pós- graduação.

      Quatro das mães são mais escolarizadas que seus cônjuges. Três deles completaram apenas o nível médio, um está atualmente cursando nível superior, enquanto os outros concluíram suas formações universitárias e um também cursou pós-graduação.

      As profissões que as entrevistadas exercem são variadas: três são proprietárias ou sócias de seus negócios (escola de idiomas, escola de educação infantil, comércio) atuando, em alguns casos, com outros membros da família; duas trabalham em universidades; uma é profissional liberal autônoma; uma é assalariada e atua no comércio; uma é funcionária pública municipal. Dos seus cônjuges, três são funcionários de grandes empresas, três são proprietários de seus negócios ou atuam na empresa da família, um é guarda-municipal e um é gerente de vendas.

      Como procedemos a uma busca intencional de nossas entrevistadas, todas residem com suas famílias em São Caetano do Sul, mas três exercem suas atividades profissionais em São Paulo.

      Com exceção de Aléxia que mora com seu companheiro e bebê na casa de sua mãe, todas as demais entrevistadas, residem somente com seus maridos e bebês.

      As entrevistadas, em sua maioria, se declaram como praticantes de alguma religião. Duas são evangélicas, sendo uma batista e a outra presbiteriana, outras duas são católicas. Três das quatro mães que se definem como católicas não praticantes informaram também se identificar com a religião espírita, sendo que uma, dentre elas, se define, inclusive, como praticante dessa religião (quadro 2).

      121

      Das praticantes de alguma religião, apenas as mães evangélicas discursaram um pouco mais sobre suas vivências religiosas no cotidiano. Júlia, por exemplo, se referiu ao trabalho voluntário que desenvolve na Igreja e, quando questionei se consideraria a religião como um critério para, eventualmente, escolher uma creche para seu bebê, respondeu negativamente. Já, no discurso de Malu, entretanto, pudemos apreender referência religiosa ao explicitar suas concepções sobre o bebê: “Bebê para mim é uma benção de Deus [...] porque a

      

    criança, ela pertence ao reino dos céus, ela é um cordeirinho de Deus, então

    acredito que por ser um anjinho, que nada de mal vai acontecer com a criança...”

      Como sabemos pelas condições de nossa busca intencional, todas as entrevistadas são mães de filhos únicos, até o presente momento. Todas elas, embora já mantivessem um relacionamento afetivo ou estivessem casadas há algum tempo, vinham se dedicando às suas carreiras profissionais, algumas já atuando profissionalmente há 17 ou 20 anos.

      Seis dessas mulheres se tornaram mães após os 35 anos. Três entrevistadas (dentre elas, as duas mães mais jovens) declararam que a gravidez não tinha sido planejada, embora, todas tenham relatado que, em algum momento de suas vidas, já tinham pensado ou desejado ter um bebê. Três mães informaram que a gravidez tinha sido planejada e dois casais tiveram que recorrer a processos de fertilização para poderem gerar seus bebês. A fertilização foi apontada pelas mães como, talvez, sustentando uma maior preocupação com o bem-estar do bebê: “...eu também fiz fertilização, [...] então gera uma expectativa muito grande,

      

    talvez até isso que gera essa coisa de ‘ai, a escola, vai ficar doente, ai’, acho que

    isso também tem um pouco a ver. Tudo o que a gente passa, toda a expectativa,

    toda a angústia, nós temos outros casos [na escola] de mãe que também fizeram

    fertilização, então é sempre assim os cuidados, o excesso de zelo, acaba ficando.”

      (Milena); “...eu fiz fertilização in vitro, então a gente queria muito um bebê. Eu

      

    acho assim que (risos) eu sonhei tanto assim em ter um bebê, eu e ele [marido] e

    tudo, ah, pra gente é, tem coisas que a gente não sabe explicar, o sentimento que

    a gente tem assim é uma coisa, [o bebê] é um ser assim tão puro, tão frágil...”

    (Beatriz).

      122

      A gravidez, em idade mais avançada, também foi mencionada pelas entrevistadas: “... eu estou com 40 anos, é evidente que eu até gostaria de ter tido

      

    filho com uns 30, até os 35, ter tido filho antes, mas foi até bom porque eu

    amadureci bastante...” (Malu).

      Consideramos que talvez, a experiência da primeira gravidez após os 35 anos de idade, que seis mães vivenciam, possa constituir uma particularidade de nossas entrevistadas.

      Todas as oito mães, sem exceção, relatam estar vivenciando intensamente a experiência da primeira maternidade e expressaram, em momentos diversos da entrevista, tanto sentimentos de prazer quanto de insegurança com relação a isso. A maioria delas informa que muita coisa mudou com a chegada do bebê e que se reconhecem pensando diferentemente do que pensavam antes e, por vezes, revendo concepções anteriormente defendidas como, por exemplo, em relação ao retorno ao trabalho, à dificuldade em se separar do bebê, à necessidade da licença maternidade: “Ah, é amor, é uma coisa assim, é um sentimento assim

      

    maravilhoso, é uma coisa que eu falo parece que hoje em dia, parece que a minha

    vida era sem graça sem a minha filha, parece que a vida ganha um sentido com

    uma criança [...] antes eu não ligava muito pra esse negócio de criança, sempre fui

    mais racional, depois que eu tive a minha filha fiquei muito mais sentimental...”

      (Joana); “... antes de ter filho, eu pensava de uma outra forma ‘assim, deixa ele

      

    [bebê] na escola já que você precisa trabalhar [...]’, hoje, eu já vejo que é uma

    situação um pouco mais delicada para a mulher, para a mãe, em olhar assim e

    deixar ele o dia inteiro, ‘ah, vou ficar longe dele o dia inteiro’, sabe assim, é uma

    outra visão que eu tenho hoje por ser mãe [...] enquanto mãe, coração de mãe,

    fala que eu deveria colocar [o bebê] um pouco mais para frente [na escola].”

      (Aléxia); “Eu só comecei a pensar nisso, nem quando eu estava grávida, eu

      

    comecei a pensar nisso depois que eu tive ele e assim, não foi nem no primeiro

    mês, porque no primeiro mês você ainda está em surto né, você ainda está

    assustada. Eu comecei a pensar mais agora que ele está melhorando assim de

    comportamento, que agora vou ter que deixar ele.” (Manuela); “A gente fica super

    corujona assim. É um misto, na verdade, de sentimentos que a gente tem [...] o

      123

      

    nosso olhar muda, a verdade é essa. Às vezes, você passa quinhentas mil vezes

    na frente de uma escola, enfim, e nunca deu conta que ali é uma escola e agora

    [quando se é mãe] o teu olhar já está diferente, já está buscando isso...” (Júlia);

    “...eu acho que é tudo de bom, para mim está sendo uma experiência muito boa,

    muito gratificante, a princípio eu estou gostando de cuidar de um bebê. Eu acho

    que é muito gostoso.” (Beatriz); “...é uma diferença bem grande entre a gente ser

    mãe e a gente ser pedagoga, muito grande. Hoje, eu enxergo muito diferente...”

    (Milena); “... acho que a licença maternidade é fundamental [enfática]. Nunca dei

    valor para isso, sempre achei um exagero uma pessoa ter que ficar 5 meses em

    casa, incluindo férias, para ficar com uma criança. Achava uma coisa absurda e eu

    [hoje] acho que é fundamental.” (Natália); “...eu tive que deixar um filho que era o

    trabalho para assumir um filho que requer muita responsabilidade, eu acho que é

    responsabilidade para a vida toda, e eu falei ‘eu vou ter que me dedicar, não é

    fácil’, você acorda de madrugada, não dorme, você fica um pouco como um zumbi

    (risos), mas acho que é gratificante porque é como aquele ditado ‘é sofrer no

    paraíso’. Vale à pena passar por essa experiência porque é única. Depois que a

    gente é mãe, a gente vive em função do filho, a responsabilidade aumenta muito,

    enfim.” (Malu).

      Das entrevistadas, Aléxia e Milena, com formação em magistério e pedagogia, apresentam experiência profissional na área de EI: a primeira trabalhou em creche pública como auxiliar de primeira infância e também em creche particular, tendo atuado no berçário e participado de vários cursos de aperfeiçoamento sobre o trabalho com bebês; a segunda é proprietária há vários anos de uma escola de educação infantil que atende bebês a partir de 4 meses.

      Aléxia e Milena são também as únicas, dentre as entrevistadas, a relatarem experiência pessoal, anterior ao exercício da maternidade, de cuidado com bebês, ambas tendo participado ou acompanhado a educação de seus sobrinhos. Nas citações seguintes, veremos também que as demais entrevistadas mencionam a ausência dessa experiência pessoal prévia: “... sempre tive muito medo de pegar

      

    neném no colo [...] a primeira experiência já foi com a minha filha já, aprendendo

    na prática.” (Joana); “... Eu [...] nunca cuidei, mas eu sempre gostei. Então, aí, eu

    124

      

    acho que fica mais fácil também. Eu nunca tive medo de pegar a criança, de

    trocar, então parece que quando é a sua, parece que é mais fácil, você vai vendo

    o que você acha que é melhor. Na verdade, assim, eu acho que a minha

    adaptação foi muito fácil...” (Natália); “... eu sou filha única, meu marido também,

    então a gente não tinha muito contato com criança [...] como que cuida, como

    troca uma fralda, como faz um leite, [...] eu não sabia nada.” (Beatriz); “Nada [de

    experiência anterior]. Só aquela coisa de você chegar em algum lugar, está lá o

    bebê e você ‘ai, que bonitinho...’, pega 5 minutos no colo, estraga, dá uma coca-

    cola e depois devolve para a mãe (risos).” (Manuela).

      Questionadas sobre como haviam aprendido sobre os cuidados para com os bebês, as entrevistadas informaram ter recorrido principalmente aos livros (entre os títulos citados: Nana neném; Durma com os anjos; A encantadora de

      

    bebês; Mãe, e agora?), às revistas sobre gravidez e parto, às leituras indicadas

      por pediatras e obstetras, a filmes e à internet, especialmente consultando sites sobre bebê e gestação: “... eu me cadastrei em um site lá da internet daquele

      

    www.bebê.com e todo mês eu ia lendo a fase que eu estava da gestação. A partir

    do momento em que eu estava grávida, a gente começou a ler bastante coisa, a

    ver filmes, ver documentário. Então, conforme foi acontecendo, a gente foi

    procurando, fuçando, pesquisando.” (Beatriz); “[...] hoje em dia [...] você entra na

    internet, tem um monte de sites, você pega livro, enfim, tem muita informação. O

    obstetra indica, o pediatra indica leitura [..] são bem legais os sites, porque você

    vai sentindo mesmo as modificações no corpo e, também depois, os cuidados que

    tem que ter com a criança, então você acha com facilidade...” (Júlia); “... eu

    comprei os livros, assim, para compreender o mundinho deles, porque eu não

    tinha a menor noção.” (Joana).

      Duas entrevistadas (Malu e Júlia) freqüentaram cursos oferecidos às gestantes ou aos casais pelas maternidades onde nasceram seus bebês. Malu, apesar de ter avaliado positivamente o curso freqüentado e toda a equipe de enfermagem, da pediatria e do berçário que a ensinou a trocar fralda e dar banho no bebê, considerou que, muito do que se aprende é teoria e que, somente na prática, no dia-a-dia com o bebê, é que se verifica o que realmente pode ser feito

      125

      ou não. Em sua análise, algumas prescrições do curso acabaram não fazendo muito sentido. Júlia, por sua vez, valorizou o trabalho realizado pela equipe da maternidade freqüentada, tanto em relação ao grupo de aleitamento materno e ao curso para casais, que freqüentou com seu marido, quanto em relação ao suporte para dúvidas que é oferecido aos pais através do programa “disk-bebê”: “Eles têm

      

    toda essa parte, ela [maternidade] é muito conhecida e é um centro mesmo,

    porque tem esse grupo de apoio ao aleitamento e tem essa parte dos cursos, tem

    um disk-bebê que eles falam, que você pode ligar para tirar dúvidas, então é bem

    legal, principalmente, pra gente que é mãe de primeira viagem, é tudo de bom. Eu

    acho que fez muita diferença.”

      Outras duas mães (Beatriz e Manuela), apesar de não terem freqüentado cursos específicos, relataram terem recebido informações sobre os primeiros cuidados para com o bebê também nas respectivas maternidades: “Eu não sabia

      

    trocar fralda, eu não sabia dar de mamar, aprendi na maternidade, que elas me

    ensinaram, não sabia dar banho, eu aprendi tudo quando ele nasceu.” (Manuela).

      Todas as mulheres que entrevistamos utilizaram pronome na primeira pessoa, assumindo seus discursos, mas mencionaram também seus maridos em algumas oportunidades. Quatro mães (Joana, Aléxia, Malu e Júlia), por exemplo, citaram a participação dos cônjuges na educação ou cuidados para com o bebê, como veremos em algumas falas: “... ele [marido] fica muito com ela [bebê],

      

    embora assim ele não cuida assim de dar mamadeira porque ele não tem muito

    jeito, mas ele está sempre assim, quando der ele fica, ele está com ela, ele cuida

    e comigo assim em casa ele ajuda muito a fazer mamadeira, às vezes janta, ele

    está sempre apoiando muito [...] então precisa fazer mamadeira, eu vou trocando,

    cuidando e ele já vai, faz mamadeira, ele ajuda bastante, então ele é um bom

    companheiro.” (Joana); “Eu vejo isso pelo meu marido. Ele sai para trabalhar de

    manhã, ele [bebê] está dormindo, ele volta ou o bebê está dormindo ou ele acorda

    para mamar de novo, então tem o período da noite e ele [marido] fala ‘ai, é tão

    pouco tempo que eu fico com ele [bebê]’...” (Aléxia); “[Marido tinha] menos

    conhecimento que eu (risos). Porque homem fica meio que com medo, com receio

    ‘ah, muito pequenininho, molinho’. No começo assim ele também não queria

      126

      

    pegar. Única coisa assim que quando ele [bebê] fazia algum barulhinho, ele

    [marido] já escutava, já falava, já cutucava sabe, ficava bem alerta preocupado

    com o menino... [...] Agora, ele [marido] já está se envolvendo mais com ele

    [bebê], brincando. Também ele [bebê] já está com quase 4 meses...” (Malu); “À

    noite, eu tenho a facilidade que meu marido ajuda [a cuidar do bebê] [...] o meu

    marido fica [com o bebê] e me dá essa força...” (Júlia).

      Além dos discursos maternos terem feito referência aos seus cônjuges e pais dos bebês, eles mencionam também outros familiares (todas as entrevistadas se referiram, em algum momento da entrevista, às suas próprias mães, por exemplo), amigos e conhecidos, especialmente, citando-os como fonte de informação ou de comentários sobre creches, babás, pediatras e profissionais que atuam em creches, como abordaremos no eixo 3.

      A mídia também aparece nos discursos das entrevistadas, tanto como fonte de informações sobre como escolher uma creche, quanto como divulgando casos de crianças vítimas de maus-tratos e acidentes tanto em contexto público quanto privado e exemplos de creches sem qualidade, como Rosemberg (2006b, 2006d) já vinha apontando e como também foi apreendido na pesquisa de Galvão (2008). Vejamos algumas falas: “... às vezes, a gente vê na televisão mães que reclamam

      

    [das creches em outras cidades] até mesmo você vê condições de escolas que

    não têm aquele espaço adequado [...] é sempre falado até mesmo na televisão

    ‘você tem que pesquisar, você tem que cobrar, você tem que até perguntar, exigir

    documentos da própria escola para saber onde você está deixando [o bebê]’.”

      (Aléxia); “[...] acho que eu fiquei meia que traumatizada de ver alguns casos na

      

    TV, aí já me assustou um pouco [...] eu já vi ‘n’ casos aí de pais que deixaram

    câmeras em casa e filmou a babá maltratando, judiando, fazendo unha com

    acetona lá para a criança dormir, então, quer dizer, não dá...” (Malu); “...às vezes,

    a gente ouve em noticiário de que tem 3, 4 crianças no mesmo berço, as

    responsáveis ali pelo cuidado da criança que não têm tanta orientação, não têm

    respeito, enfim, que acabam judiando da criança, essa questão que eu te falei de

    amarrar, de queimar, a gente ouve assim coisas medonhas. E também já ouvi de

    deixarem a criança suja o dia inteiro, que não troca a fralda [...] locais em que, às

      127

      

    vezes, deixam as crianças sozinhas, as crianças acabam se machucando [...]

    atrocidades que a gente ouve em noticiário ‘que a tia amarrou’, enfim, essas

    coisas horríveis que a gente acaba ouvindo...” (Júlia); “... as mães vêm com um rol

    de perguntas, mãe moderna, [...] que as revistas indicam o que a mãe deve

    procurar, que tipo de pergunta ela deve fazer...” (Milena); “...a gente vê certas

    barbaridades que acontecem com bebê na televisão...” (Beatriz); “...tem creche

    que você ouve, tem casos em que você ouve falar de, sei lá, acidentes com bebê,

    sei lá, que deixam [o bebê] cair...” (Manuela).

      128

      129 Quadro 2. Caracterização das entrevistadas Entrevistada Idade (em anos) Ocupação/ Formação Idade (em meses) e sexo do bebê Vínculo conjugal Idade do pai do bebê (em anos) Ocupação/ Formação do pai do bebê Religião da família

      Beatriz

      36 Psicóloga/ Atua em consultório particular

    1 e ½ /M Casada

      Júlia

      Católica não praticante/ Identifica-se com a religião espírita

      41 Administrador de Empresas/ Trabalha em uma grande empresa

      37 Pedagoga/ Proprietária de uma escola de educação infantil

    11/M Casada

      29 Nível universitário em Turismo/ Proprietário de uma empresa em outro setor de atividade Católica não praticante Milena

      27 Arquiteta/ Trabalha como vendedora em uma boutique de luxo

    3/M Casada

      Católica não praticante/ Espírita praticante Manuela

      39 Ensino médio/ Trabalha no comércio de propriedade da familia

      37 Administradora de Empresas/ Trabalha no comércio de propriedade da família

    6/F Casada

      40 Ensino médio/ Comerciante, dono do próprio negócio Evangélica presbiteriana praticante

      Joana

      40 Administradora de Empresas/ Trabalha em uma universidade

    3 e ½/M Casada

      30 Cursando nível superior/ Gerente de vendas Católica praticante Malu

      39 Pedagoga/ Trabalha como professora do ensino fundamental na rede pública 3 e ½/M Mora com companheiro

      Católica praticante Aléxia

      40 Pós-graduação em Marketing/ Gerente em uma grande empresa

      35 Economista com pós-graduação/ Proprietária de uma escola de idiomas

    3/F Casada

      Identifica-se com a religião espírita Natália

      31 Ensino médio/ Guarda Municipal Católica não praticante /

      

    9/F Casada

      29 Formada em Ciências da Computação/ Analista programadora e professora universitária

      40 Engenheiro/ Trabalha em uma grande empresa Evangélica batista praticante

      Eixo 2. Concepções sobre o bebê e a criança pequena De forma geral, as entrevistadas definem bebê como um ser (uma coisa,

    uma pessoa ou uma figura, são outros termos também utilizados) frágil,

    delicado, pequenininho, novinho, indefeso, muito dependente, inocente, sem

    maldade, puro, anjinho, que se comunica através do choro e do grito, mas que

    não fala, que age por instintos (não reconhece, mas sente pelo cheiro, por

    exemplo), que gera sentimentos nos outros (um ser maravilhoso, que traz

    felicidade, coisas boas, tranqüilidade), que necessita de cuidados e preocupa,

    dá trabalho, e que absorve o que é passado pela família (quadro 3).

      Algumas mães, entretanto, o concebem como um ser em constante

    aprendizado, complexo, que aprende desde que nasce, enquanto outras já

    enfatizam que o bebê não pensa, não reconhece, não raciocina.

      Ao discursarem sobre como compreendiam os bebês, várias

    entrevistadas fizeram menção ao fato de pensarem diretamente em seus

    bebês. No atual momento de suas vidas, suas impressões ou concepções

    sobre um bebê parecem-me muito associadas às, ou sustentadas pelas,

    imagens de seus próprios filhos: “Um bebê? Meu filho [enfática]! As bochechas

    dele, apertar muito, a risada que ele me dá de manhã (sorrisos), um bebê, vem

    ele à cabeça, óbvio [...] Agora, é ele, não tem como. Antes? Um bebê para mim

    era, tipo, era um E.T. porque eu não sabia trocar fralda, eu não sabia fazer

    nada...” (Manuela); “... eu estou [...] com a imagem do meu filho na cabeça.”

    (Milena); “... é [o] meu lindo agora...” (Júlia).

      Quase todas as entrevistadas fazem referência às suas dificuldades na

    decodificação do choro de seus bebês: “O bebê é muito teste [...] o choro você

    vai interpretando no começo [...] é muito não saber...” (Milena); “... É a forma

    que acho que ele tem de falar que ele quer alguma coisa ou choro ou as

    sílabas, as vogais que ele fala “a, má, dá”, de, certa forma, ele está se

    comunicando. A gente, às vezes, só não entende muito bem o que ele está

    querendo dizer (risos).” (Joana); “... o bebezinho ele não fala, você não sabe se

    ele está chorando porque ele está com fome, se está com cólica [...] se ele

    quer dormir, tem hora que confunde [enfática], você não consegue, você tenta

    de todas as maneiras para descobrir realmente o que ele quer, porque, de

    repente, o choro não está expressando realmente o que ele está sentindo ou o

      

    que ele quer...” (Malu); “ [Com] um bebê, você [fica] meio no escuro assim, ah,

    está chorando aí você vai tentando se é fome, se é frio, se é calor [...] o bebê

    agora é que você começa a entender ou a compreender que cada choro é

    diferente. É diferente quando ela chora [...] se ela está com frio ou fome, no

    começo é muito difícil...” (Beatriz); “... não vem com manual de instruções

    (risos), a gente tem que aprender a identificar suas vontades porque ele só

    sabe chorar no começo...” (Aléxia).

      A concepção de bebê como tábula rasa é expressa em um dos

    discursos: “... bebê é assim matéria bruta no sentido assim, no começo a

    mente é um pedaço de carne que você vai criando vínculo, vai colocando toda

    a sua emoção, toda a sua expectativa, todo o seu, os seus desejos, as suas

    vontades, coitadinho né do bebê (risos), carrega de tudo e mais um pouco,

    projeções, tudo ele carrega, mas ele é puro.” (Milena).

      A criança compreendida como tábula rasa parece embutir também uma

    concepção de socialização enquanto processo de inculcação, onde o bebê,

    considerado passivo, não é percebido como participando de seu próprio

    processo de socialização e nem influenciando a socialização de adultos e de

    outras crianças, como apontado por Mollo-Bouvier (2005) e mencionado no

    capítulo 2 desta tese.

      Como pudemos apreender a partir dos discursos das entrevistadas, suas

    concepções sobre bebê se assemelham às imagens ou representações que

    Ferreira (2002) e Sarmento (2007) mencionam como sendo as que mais se

    dissiparam e atingiram o senso comum.

      Nossas entrevistadas, assim como os homens-pais ouvidos por Galvão

    (2008), também diferenciam com precisão um bebê de uma criança pequena e

    essa diferenciação, para elas, também é marcada muito mais pelo

    desenvolvimento de competências do que propriamente pela idade. A criança

    pequena, segundo elas, anda, fala, entende, raciocina, já é um pouco mais

    independente, já acumulou conhecimento, se expressa e é também melhor

    compreendida pelos adultos (quadro 3).

      Para elas, a passagem de bebê para criança pequena se daria entre 6

    meses e 2 anos de idade variando de criança para criança: “... Bebezinho são

    os que entram com 4 meses, 5 meses na escola. Então, na verdade, eu tenho

    um pouco isso por ter trabalhado com criança, então quando você olha uma

      

    criança de 1 ano e quando você olha um bebezinho, você fala ‘ai, nossa, mas

    já é um mocinho’ o de 1 ano, mas o bebezinho não.” (Aléxia); “Eu acho que

    esse é um marco, uma divisão dos dois períodos. É claro que cada bebê tem o

    seu tempo, mas 1 ano e meio eu diria que é quando ele já desabrocha mais

    com a linguagem e com a marcha.” (Milena); “... acho que bebê vai até uns 6

    meses, 7 ou 8 meses, porque depois ele [...] já começa a exigir coisas...”

    (Manuela); “... acho que até uns 2 anos seria um bebê [...] a partir daí, já é uma

    criança pequena porque 2 aninhos ainda eu acho assim bem novinho, às

    vezes, tem criança que nem fala direito.” (Beatriz).

      Somente uma entrevistada considera que as crianças pequenas até 4 - 5

    anos, embora não sejam mais denominadas bebês, são ainda bastante

    dependentes: “... até uns 4 ou 5 anos ainda é um ser totalmente dependente de

    uma pessoa [...] [Com essa idade é que] aí a criança já tem uma base, aí ela já

    consegue, com o que ela já aprendeu [...] ela já começa a pedir, ela já tem

    condição de fazer algumas coisas sozinha [...] é o que você fizer até lá que ele

    vai conseguir, vai ter condição de mais para a frente, aí você vai começar a

    deixar mais sozinho, já descobrindo as coisas e tal...” (Natália).

      As falas das mães entrevistadas apontam fortemente para distinções

    internas à faixa etária de 0 a 3 anos, com cada idade apresentando uma certa

    especificidade, tanto em termos de necessidades quanto em termos de

    competências. Essas distinções parecem ser, segundo alguns discursos

    maternos, ainda maiores quanto menor é o bebê: “Conforme [o bebê] vai

    desenvolvendo vai... não tem como ser igual, o primeiro mês já não é igual ao

    segundo. Uma semana para ele já faz muita diferença.” (Manuela).

      Além dos termos bebê, criança e filho, as entrevistadas utilizaram

    algumas outras palavras (algumas no diminutivo) para se referirem aos

    próprios ou a outros bebês: neném, bebezinho, filhinha, nenê, nenêzinho,

    criancinha, recém-nascido, menininha, coisa, coisinha, serzinho (quadro 4).

      Nos discursos de todas as entrevistadas nota-se o emprego de grande

    quantidade e variedade de palavras no diminutivo. Ao refletir sobre isso,

    percebi que eu mesma havia utilizado dois termos também no diminutivo:

    “novinho” e “pouquinho”. O primeiro foi utilizado somente quando me referi ao

    bebê de Júlia (o de menor idade entre todos os filhos das mães entrevistadas),

    como eu já havia comentado. Já, o segundo foi empregado em momentos

      

    variados em todas as entrevistas, a meu ver com a intenção tanto de demarcar

    que eu e a entrevistada conversaríamos sobre um dado assunto por alguns

    minutos quanto de apresentar as questões de uma maneira talvez menos

    formal.

      De qualquer forma, procedi a um levantamento de todas as palavras

    utilizadas no diminutivo pelas entrevistadas e exclui a palavra “pouquinho” da

    listagem. O uso pelas entrevistadas de palavras tão variadas e, em alguns

    casos, tão pouco empregadas em linguagem corrente e oral no diminutivo,

    como por exemplo, “saboneteirazinha” ou “estimuladinhos” chamou minha

    atenção. No quadro 4, o leitor conseguirá visualizar com maior detalhamento a

    riqueza desse vocabulário que nos dá a impressão de se referir a um certo

    “mundo em miniatura”, como se essas palavras no diminutivo estivessem

    sendo associadas nos discursos maternos talvez ao tamanho físico do bebê ou

    à sua suposta condição de “fragilidade”. Por ora, citarei apenas algumas

    palavras que foram utilizadas: “suquinho, tadinha, fichinha, almocinho,

    roupinha, passinho, mocinho, chineladinha, frescurinhas, comidinha,

    quintalzinho, doentinha, coitadinho, animadinhos, shampoozinho, cuidadinha,

    sorrizinho, bolachinha, pãozinho...”

      Indagadas sobre qual seria a melhor forma de se educar e cuidar de um

    bebê ou do que um bebê necessitaria (quadro 4), a maioria das entrevistadas

    organizou suas respostas em torno de cinco grandes pilares: muito amor, afeto

    e carinho; muita atenção, disponibilidade constante e cuidados adequados;

    limites, disciplina e constância na rotina; muita conversa, explicação e

    orientação; sem violência, sem descaso, respeitando o bebê: “... com muito

    amor, nada de tapas. Eu acho que conversar, eu já percebi uma coisa, uma

    bela diferença quando você pega ele, por exemplo, você tem que trocar, vai um

    exemplo, [...] se você pega ele e simplesmente vai e troca, ele berra. Se você

    pega e fala ‘oi, vamos trocar’, não sei o que, ‘vamos tirar essa fralda, mamãe

    vai ter que trocar você’, se você vai falando tudo, ele te ouve e não fica... Ele

    não chora, sabe, ele sabe o que você está fazendo, acho que ele entende...”

    (Manuela); “... tem que ter respeito por um bebê...” (Malu); “... eles necessitam

    de uma pessoa 100% com eles assim para tudo, alguém que cuide deles, das

    necessidades que eles têm, mas que oriente, que converse, que explique as

    coisas [...] nessa fase assim pequena eu acho até muito difícil escola, por

      

    exemplo. Por mais que seja um, dois ou três que cuidem, mas não é aquela

    dedicação 100%. Conversar, eu acho que o bebê tem que ter aquela

    identificação com aquela pessoa. Então, acho assim, é integral, é horário

    integral você com a criança orientando, conversando, se dedicando.” (Natália);

    “... acho que a constância da rotina, independente de onde for, é claro que a

    rotina dentro de casa é uma, com a vovó também é outra, mas essa

    constância, acho que é tudo que eles [bebês] precisam, porque aí já é a

    segurança, já é o limite também, é saber realmente o que vai acontecer com

    eles, eles vão interpretando isso, tanto é que se você demora um pouquinho

    mais no banho, se demora a hora de dormir, eles vão ficando estressadinhos

    (risos), estressam todo mundo da família, então assim, eu diria que a rotina é o

    principal cuidado que você tem que ter assim com o bebezinho.” (Milena); “...

    eu falo com ele, eu brinco, a gente vai tentando estimular de toda forma por

    menorzinho que ele seja, a gente sabe hoje que até mesmo quando a criança

    está no útero é importante você estar conversando e tentar ficar tranqüila

    também, porque isso é uma coisa que a gente percebe mesmo, se eu fico um

    pouco mais agitada ou muito cansada ou até irritada reflete nele...” (Júlia).

      Estimular o bebê, a partir da apresentação de músicas e brincadeiras,

    também foi apontado por Júlia e Manuela como importante para o seu

    desenvolvimento.

      Algumas mães, como Natália, Joana e Beatriz, embora tenham se

    referido mais diretamente à importância da mãe na educação e cuidados para

    com o bebê comentando que o bebê necessita de muita atenção e

    disponibilidade e que, preferencialmente, esse cuidado deveria ser realizado

    pela própria mãe da criança, como abordado por Bloch e Buisson (1998, 1999)

    em seus estudos e também apreendido por Lima (2004) em sua pesquisa,

    reconhecem que, nem sempre a mãe está totalmente disponível (não se

    trataria somente de uma questão de quantidade de horas passadas com o

    bebê) ou apresenta as características adequadas (paciência, ter o dom, gostar

    de criança) para se dedicar com qualidade ao bebê: “... tem que ser a mãe se a

    mãe tiver essa disponibilidade [...] se você tiver, acho que seria o ideal uma

    mãe que goste, que tenha esse dom e que tenha disponibilidade, agora [...] se

    isso não for possível, acho que você encontrar uma pessoa que se encaixe

    melhor naquilo para você [...] tem que ser uma pessoa muito especial que

      

    tenha paciência porque, às vezes, o fato de estar perto não significa que você

    está educando. Às vezes, você está segurando, chacoalhando, mas não

    significa que você está junto...então tem que ser uma pessoa que goste muito,

    que tenha muita dedicação, por isso que acho que é importante quando você

    decide ter um filho você realmente querer muito, porque eles são bonitinhos,

    mas na hora ‘h’, quando você acorda às 2 horas da manhã, se você realmente

    não quiser... então, tem que ter muita paciência. Eu acho que ele realmente

    precisa de uma pessoa que goste de criança, que tenha o dom.” (Natália); “O

    melhor é ser cuidada pela mãe, no meu caso, é ir junto ao meu trabalho, pois

    tenho essa possibilidade. Lá, o meu bebê tem o meu cuidado, a minha

    presença e cuidados dos avós e do pai [...] Eu acho que tem que pensar muito

    bem antes de ter um filho porque não é fácil, é difícil, dá trabalho, envolve

    muita coisa, ainda mais que eu trabalho, tem gente que vai tendo filho e não,

    não liga ou não pensa o que acarreta ter um filho, que é para a vida toda...”

    (Beatriz); “... eu acho que ele tendo afeto, acho que assim, a mãe, ele sente

    falta, eu acredito que ele sinta falta da mãe, mas [...] eu acredito é que o

    importante é você dar atenção com qualidade mais do que a quantidade,

    porque às vezes, vamos supor você fica o dia inteiro com o seu filho, mas você

    não dá atenção pra ele, ele fica lá, você fica lá fazendo as suas coisas mas,

    assim, ele não recebeu a atenção que ele precisa [...] meio como um robozinho

    e o neném fica lá, largado.” (Joana).

      As mães entrevistadas apresentam também um discurso sofisticado e,

    aparentemente, bastante influenciado pelos aportes da Psicologia, quando se

    referem ao que acreditam ser o melhor em termos de educação e cuidado para

    os bebês, ou seja, uma educação que garanta afeto com limites, atenção com

    qualidade e que privilegie a rotina.

      Não foram observadas diferenças em relação ao que as mães

    consideram ser importante em termos de educação e cuidado para bebês de

    sexo masculino ou de sexo feminino.

      Quadro 3. O bebê e a criança pequena Entrevistada/ Concepção de bebê Há Concepção de criança pequena Passagem de bebê para criança Idade (em diferença pequena meses) e entre bebê sexo do bebê e criança

    Joana Pequeno; frágil; não fala ainda; criança ainda, novinho; muito dependente; é muito molinho; Sim “... já começa a racionalizar muita coisa.” “... até 1 ano e meio, 2 anos é bebê ainda

    9/F tem grande vínculo com a mãe; fofinho; inocente; demonstra os sentimentos; não racionaliza, não pensa, não entende; age de instinto, reage ao que você dá para ele, ao que “... já começa a falar, a se expressar da forma correta.” a partir desse momento é que eles Não reconhece, mas sente pelo cheiro quem cuida dele “Acho que a criança mais velha, ela já se expressa com o consegue explicar e eles entenderem o que você ensina, aprende o que a gente ensina “... a comunicação dele é chorar...” falar e acho que não é só com o desconforto, acho que está acontecendo.” pequena? começam a entender as coisas, que aí você [...]

    Natália “É a coisa mais maravilhosa que tem (sorrisos), mas é um ser assim 100% dependente de Sim Dependente “... bebê acho que é até 1 ano, até que não

    3/F você, que traz muita felicidade, mas assim tudo é uma coisa que ele precisa de você, tudo é Já acumulou conhecimento anda...” novo, tudo que ele vai descobrir é através de você, então é uma pessoa 100% dependente, porque ele está querendo alguma coisa ou ele está com algum desconforto. Ou ele quer “... acho que ele não sabe ainda, acho que assim, ele chora ou fala “mamama, dádádá”, “... eles não sabem as palavras, então acho que eles se expressam com sons.” se ela quer alguma coisa específica...” comer ou ele quer carinho ou alguma coisa.” Considera que uma criança de 4 ou 5 anos Aléxia Aprende desde o nascimento, ser em constante aprendizado, absorve o que a família tem Sim É maior “bebê [...] vai até 1 ano, depois já começa 1 dedicar, você tem que ter alguém assim tempo integral se dedicando, porque assim, bebê não é uma coisa que mama, dorme, não é um relógio. É uma criança, é uma coisa assim é um ser assim... é maravilhoso, mas é uma coisa que te dá trabalho, você tem que se que precisa de 100% de dedicação de uma pessoa.” [filha] que fez 3 meses ontem e falei assim “... o termo bebê, talvez, não seja mais o caso. Eu até brinquei, olhei para a minha ‘ah, você não é mais um bebê, você já é ainda é muito dependente uma criancinha’...”

    3 e ½/M “... bebê é uma figura especial...” exemplo, já está andando, ela já consegue estar falando, Quando começa a falar e a andar eu acho

    3 e ½/M de educação, ações, gestos Malu Anjinho; benção de Deus; indefeso Sim “... a criança pequena já está mais independente, ela, por “... eu acho que até 1 ano mais ou menos. Tem menos condições de se defender do que uma criança pequena iniciando Mais delicado no sentido do cuidar e do educar Já tem algo que foi aprendido, enquanto um bebê está Muito dependente então ela já consegue se expor, ela já tem uma que ele já consegue entender melhor...” Complexo Tem mais condições de se defender do que um bebê bebezinho’”. Já fala ano, já é grandinho, já fala ‘já não é

    Beatriz Puro Sim “Única coisa é que uma criança pequena já começa a Até 2 anos é bebê, a partir daí já é uma

    6/F Frágil Molinho; pequenininho Está acima de tudo

    Não entende nada personalidade formada, porque quando fala você

    Não tem maldade Pequenininho expressar melhor e você começa, que nem ela chora, falar e é mais fácil você cuidar porque ela começa a se criança pequena consegue entender...”

    Manuela Coisinha linda Sim “... uma criança de 1 ano começou a andar você não É bebê enquanto “... você está ainda com

    3/M “... um bebê está ali total à sua disposição. Você pega ele no colo, ele chora...” segura mais, não quer saber de colo, não quer saber de ele no colo, ainda mamando...”

    “... só coisas boas, porque, afinal de contas, um bebê só traz coisa boa, eu acho, mesmo nada. Eu acho que eles ficam mais exigentes assim do Novinho você começa a saber porque ela está chorando [...] uma criança quando estiver maiorzinha é mais fácil você começar a entender o que ela quer, o que ela está precisando, se ela está com dor...” com dificuldades que você tem para cuidar etc. Mas é só uma energia boa, é isso que vem que quando [...] é bebezinho.” Acha que bebê vai até uns 6, 7 ou 8 meses à minha cabeça [ao pensar em um bebê]...” A criança pequena come, tem uma alimentação diferente da de um bebê, o cocô é diferente, começa a falar

      136

      137 Continuação quadro 3. O bebê e a criança pequena Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Concepção de bebê Há diferença entre bebê e criança pequena? Concepção de criança pequena Passagem de bebê para criança pequena Milena 11/M Pureza Fragilidade

      Sensibilidade Aconchego “... parece que cada bebê é de um jeito, mas não é...” “[Bebê] é, ao mesmo tempo, tranqüilidade também para o dia-a-dia de hoje em dia em que a gente corre tanto, tem tanta preocupação que quando você chega em casa, apesar de tudo que você tem também com o bebê, apesar de tudo, você vê um sorriso já te compensa tudo. Sorriso marca muito, do meu filho, no caso, o sorriso é tudo de bom [sorrisos].” “...mudanças intensas a cada segundo, realmente assim, não tem como você assim, hoje você define alguma coisa, amanhã ou no momento seguinte muda, muita alegria [enfática], muita preocupação [enfática]. Mas, assim, é uma mudança na vida do casal, é tudo de bom, mas, ao mesmo tempo, tudo diferente (risos). Mas, traz alegria total.” Sim “... a criança pequena, [...] ela já tem todo um contexto que você vai formando ela. Cada dia você vai passando uma mensagem pra ela de como você é, de como você responde, o que você espera dela e isso vai formando e a resposta dela já começa a ser mais de acordo com a tua ação e reação também.” “... a criança pequena você já sabe, eles também já sabem, você já compreende a questão do choro, a resposta, as manhas...” 1 ano e meio, quando já está falando e andando e fica mais independente

      Júlia 1 e ½ /M “... serzinho que depende de você...” “... Às vezes, grita, chora, esperneia...” Não é fácil identificar a causa do choro Hoje em dia, a criança se mexe muito cedo e já nasce de olho aberto “Serzinho...” que desperta vários sentimentos nos outros e gera responsabilidade para a vida toda “... coisinha fofinha, rechonchudinha, gostosinha, cheirosinha [...] que não é assim 100% do tempo...” Bebê ainda não reage tanto ao outro, pede muito, quer mamar, está sujo, quer dormir, exige cuidados. Só aos poucos, vai reagindo mais, começa a sorrir ou fazer carinho “... a gente sabe que bem pequenininho eles não interagem tanto assim com outras crianças, isso vem aos poucos, ao longo do desenvolvimento deles.” Sim Já fala Responde Brinca com o adulto Deixa de usar fraldas “... acho que até 1 ano. Depois de 1 ano já é mais uma criança mesmo, pequena ainda [enfática], exigindo muito cuidado...”

      138 Quadro 4. Discursando sobre o bebê e as melhores formas de educá-lo Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Outras palavras ao se referir ao próprio ou a outros bebês Utilização de outros diminutivos Qual a melhor forma de se educar e cuidar de um bebê? Do que um bebê necessita? Joana 9/F Bebezinho Filhinha Neném Criança

      Filha Nenêzinho Nenê Criancinha Recém-nascido Suquinho Tadinha Robozinho Prézinho Negócinho Pequenininho(a) Bercinho Carrinho Brinquedinhos Maiorzinha Mundinho Tempinho Novinha Fichinha Colchãozinho Almocinho Necessita “... de amor, afeto, carinho, atenção, cuidados que precisa e limites.” Ter rotina, horários de refeições, controle “... Não é aquela coisa assim ‘ah, faz o que quer’ [...] eu sou mais [...] ‘tem que ensinar’.” Atenção com qualidade Natália 3/F Neném Criança Nenê Filho Coisa Salinha Cantinho “... você tem que se dedicar, você tem que ter alguém assim tempo integral se dedicando...” “... você tem que ter dedicação, você tem que ter cuidado, você tem que ter atenção, é uma forma assim que eu acho que tudo que você ensinar, tudo o que você fizer vai refletir lá na frente.” “... não é você fazer para eles até 2 ou 3 anos você fazer as coisas no lugar deles, é você ensinar, você se dedicar, ter tempo de se dedicar para ensinar para ele [bebê] fazer sozinho [...] esse acompanhamento no começo é essencial.” O ideal seria que essa pessoa que se dedicasse 100% fosse a mãe, se ela tiver essa disponibilidade, se tiver o dom A disponibilidade tem que ser em tempo integral “Eu acho que quando você tem a disponibilidade da família e que tem essa pessoa assim, eu acho que é o mais ideal, mas que não seja aquela avó que estrague... [...] que não seja aquela pessoa também que estrague e eu não falo assim no sentido de proteção, porque proteção a gente sabe que a família vai dar. Eu acho assim aquela orientação, aquela paciência, eu acho que se você tiver alguém da família é o mais ideal, senão você tem que procurar alguém no mercado mesmo, que tenha experiência, que você confie, geralmente por indicação ou até que você conheça [...] mas [...] se você olhar hoje o jeito de pegar uma criança você já percebe se a pessoa tem jeito ou não.” Importante também manter a rotina de horários Aléxia 3 e ½/M Bebezinho Criança Filhinha Neném Menininha Filho

      Pequenos “... já dá para trabalhar com os pequenos vários aspectos...” Prézinho Parquinho Grandinho Mocinho Passinho Turminhas Pequenininhos Roupinha Com muito amor, carinho, atenção, assim a criança crescerá sadia Não maltratar “... acho que se você se dispõe a ter um bebê você tem que cuidar da melhor maneira possível [...] você não precisa dar tudo do mais caro, mas você tem que acima de tudo cuidar com amor...” Malu 3 e ½/M Filho Criança Chineladinha Parquinho Bercinho Quartinho Frescurinhas Varinha Novinho Papinhas Coisinha Frutinha Comidinha Grandinho Postinho Molinho Pequenininho Barulhinho Dinheirinho Merece todo o respeito do mundo Seria covardia não respeitar um bebê “Amor, carinho, afeto, muito diálogo, muita conversa...” Sem violência, sem espancar Mas, “... acredito no castigo também, você tirar alguma coisa que a criança gosta muito, então, acho que tem que ter, lógico, disciplina também porque você não vai deixar a criança fazer o que ela quer. A importância do não, de mostrar para ela os valores e eu acredito que a criança precisa, acima de tudo, de respeito. Ela precisa ser respeitada pelos pais [...] assim, a criança também vai respeitar os pais.” Beatriz 6/F Criança Filho Papinha Direitinho Probleminha Quintalzinho Suquinho Prézinho Maiorzinha Pequenininho Novinho Bercinho Mercadinho Doentinha Todinha Aninhos Precisa de carinho, “... ser amado, ser bem cuidado, ter bons exemplos, para ser um ser humano [e um adulto] melhor [...] Não [...] tratar com descaso como muitas pessoas fazem, muitas famílias...” Evitar brigas no lar para não traumatizar a criança...” Dar “... bastante atenção, tentando fazer tudo assim bem saudável, tudo fazer em casa, não comprar tudo coisa pronta, porque eu trabalho e, às vezes, eu preciso, não dá tempo de fazer a sopinha dela, a papinha dela num determinado dia e aí eu compro a papinha da Nestlé e dou (risos), mas eu acho assim quanto menos der é melhor, bastante variedade assim para que a criança cresça saudável e com bastante alegria [...] passar uma paz, uma segurança para o bebê, para ela se sentir confortável e ter um desenvolvimento melhor.” O melhor seria o bebê ser cuidado pela mãe

      Continuação quadro 4. Discursando sobre o bebê e as melhores formas de educá-lo Entrevistada/ Outras palavras ao Utilização de outros diminutivos Qual a melhor forma de se educar e cuidar de um bebê? Do que um bebê necessita? Idade (em se referir ao meses) e próprio ou a outros sexo do bebê bebês Manuela Coisinha Filho Suquinho Amiguinhos Pequenininha(s) “Com muita conversa e paciência, porque precisa de muita (risos).”

    Milena Bebezinho(s) Filho Coitadinho Estressadinhos Aninho Cedinho “... com um amor firme. A gente sempre escuta isso em educação, como eu sou pedagoga, então amor firme é sentido, é

    3/M Bebezinho Criança Jeitinho Coisinhas Regularzinho “Ele necessita de educação, de escola, aprender muito, brincar muito, acho que ele precisa brincar muito, acho que isso é

    Netinho Carrinho “Agora, que ele é bebê eu quero estimular bastante, eu quero que ele seja uma criança feliz, conversar com ele acho que é super importante [...] eu acho que ele quer falar, acho que ele quer responder, não sei o que é (risos)...” muito importante.” 1 e ½ /M Criança Filho Sujinho Chorinho Olhinho Muito carinho, muita atenção, mas sem dar atenção em excesso

    11/M Criança(s) Suquinho Soninho Frutinha Solzinho necessário um olhar terno da mãe [enfática], no sentido assim, eles esperam isso tudo, mas eles precisam da firmeza, da

    Júlia Serzinho Coisinha Rechonchudinho(a) Gordinho Limpinho De higiene, limpeza, cuidados, alimentação adequada Danadinho Finalzinho Fortinho Bobinha Animadinhos Estimuladinhos Pãozinho Bolachinha segurança, do limite, para eles seria um norte [...] eles precisam [de] um olhar que realmente cative, porque o olhar já diz tudo Maiorzinho(s) Pezinho Direitinho Espertinho nas relações, mas ao mesmo tempo os “nãos” são necessários, eu acho que eles pedem por isso também.” Irmãzinha Comecinho Amiguinho Pequenininhos Constância da rotina Cadeirinha(s) Brinquedinho Cuidadinha Comecinho Novinho Horinhas Fechadinho Quentinho Cantinho Musiquinha Shampoozinho Saboneteirazinha Mãe deve estar disponível para o bebê, ao menos, por um tempo Menorzinho Tempinho Pertinho Não é só cuidar da parte física, mas também ver o aspecto emocional Sorrisinho Pequenininho(a) Piniquinho Precisam de estímulos, como música, brincadeiras Fofinha Gostosinha Cheirosinha Fazer acompanhamento com pediatra todo mês para avaliar o peso e o crescimento Maiorzinho

      139

      Eixo 3. Modalidades de educação e cuidado para bebês Iniciaremos, a apresentação dos resultados referentes a esse eixo,

    abordando a licença maternidade e a licença paternidade, pois

    compreendemos que para além de refletirem o que a sociedade concebe como

    adequado para que mães e pais possam conciliar trabalho e a educação e

    cuidado de bebês logo após o nascimento, elas apontam também para o que

    as famílias, ao usufruírem ou não dessas licenças, podem estar valorizando em

    termos do atendimento aos direitos e necessidades tanto de bebês, quanto das

    próprias famílias.

      A partir de nossas indagações sobre licença maternidade e paternidade,

    identificamos que tanto as entrevistadas quanto seus cônjuges vivenciaram

    experiências bastante variadas com relação ao tempo em que puderam

    desfrutar de suas licenças.

      Das quatro mães que estavam em licença maternidade (quadro 5)

    quando entrevistadas, duas (Aléxia e Malu) já estavam usufruindo a licença de

    6 meses, enquanto Manuela usufruía a de 4 meses e Júlia, que é profissional

    autônoma, havia optado por se afastar de suas atividades profissionais por 3

    meses, mas já avaliava a possibilidade de ampliação desse período para 4

    meses. Todas essas mães estavam pessoalmente cuidando de seus bebês,

    sem ajuda de babás ou das avós.

      Dentre as entrevistadas que já haviam retornado ao trabalho, Joana

    relatou ter usufruído a licença de 4 meses, enquanto Milena permaneceu em

    casa com seu bebê por um período de 5 meses.

      Natália e Beatriz que relataram ter retomado suas atividades

    profissionais em seus próprios negócios, respectivamente após 15 e 40 dias do

    nascimento de seus bebês, não desfrutaram da licença pelo período de 4

    meses.

      Apesar das diferentes vivências, metade das entrevistadas considera

    que o tempo que está usufruindo ou que pôde usufruir foi adequado, enquanto

    a outra metade o considerou como totalmente insatisfatório ou satisfatório

    somente do ponto de vista profissional (quadro 5).

      Cinco entrevistadas, ao refletirem sobre o tempo de licença maternidade

    que julgavam ideal (quadro 6), foram favoráveis ao período de 6 meses e

      

    consideraram que tanto a mãe quanto o filho se beneficiariam desse maior

    período juntos. Segundo elas, a mãe poderia amamentar o bebê por mais

    tempo e também se reorganizar para o retorno ao trabalho, enquanto o bebê se

    desenvolveria um pouco mais para, eventualmente, ingressar na creche a partir

    dos 6 meses. Natália e Beatriz, que praticamente não usufruíram da licença

    maternidade, consideram que o período ideal é o de 4 meses e apenas Aléxia

    expressou seu desejo de que a licença fosse de 1 ano.

      Mesmo as entrevistadas que consideram a licença de 6 meses ideal,

    tanto para as mães quanto para os bebês, não a consideram adequada em

    termos profissionais para as mulheres. Joana, por exemplo, avalia que como

    mãe gostaria de ficar o maior tempo possível com o bebê, mas enquanto

    profissional considera que não seria adequado ficar mais que 4 meses afastada

    do trabalho.

      Nos primeiros dias após o nascimento de seus bebês, os cônjuges de

    cinco entrevistadas usufruíram da licença paternidade, sendo que dois deles

    permaneceram com seus bebês e esposas por um período um pouco maior

    que os 5 dias previstos em lei: o marido de Manuela, que trabalha por conta

    própria, ficou uma semana em casa, enquanto o marido de Aléxia conseguiu

    acompanhar por um período de 10 dias o seu bebê que ainda estava

    hospitalizado (quadro 7).

      Porém, três entrevistadas não contaram com a presença ou auxílio de

    seus maridos, pois esses não desfrutaram da licença paternidade. No entanto,

    com exceção de uma, todas as outras entrevistadas relataram ter contado com

    a ajuda de suas mães ou sogras nos seus primeiros dias em casa com os

    bebês.

      Chamou nossa atenção o fato de duas entrevistadas terem relatado não possuir muitas informações a respeito da licença paternidade. Com a exceção de Natália, que considera o período de 5 dias da licença

    paternidade como adequado, apesar de seu marido não ter usufruído, todas as

    demais entrevistadas avaliam esse período como insuficiente para que o pai

    possa se envolver mais com os cuidados do bebê e também auxiliar a esposa

    (quadro 7). Essa crítica que nossas entrevistadas fazem à duração da licença

    paternidade foi compartilhada também pelos homens-pais que Galvão (2008)

    entrevistou.

      Questionadas sobre qual seria o período ideal para a licença

    paternidade (quadro 8), quatro entrevistadas (Aléxia, Malu, Beatriz e Milena)

    apoiaram o projeto de ampliação desse período para 15 dias e duas (Joana e

    Manuela) expressaram o desejo de que essa licença fosse ampliada para 1

    mês. Apenas uma entrevistada (Júlia) defendeu que os homens-pais possam

    contar com o mesmo período de licença concedido às mulheres-mães, ou com

    1 mês de licença.

      Júlia, que não conhecia o projeto de lei prevendo a ampliação da licença

    paternidade, foi uma das poucas entrevistadas a destacar a ocorrência de

    transformações nas famílias em termos das práticas de cuidados infantis, com

    o homem participando mais ativamente e se envolvendo cada vez mais com os

    cuidados para com seus filhos: “... 1 mês seria melhor que os 15 dias, mas

    acho que o ideal seria os pais terem o mesmo, tanto o pai quanto a mãe, terem

    o mesmo tempo, porque antigamente que tinha aquela coisa de ‘ai, quem cuida

    da criança é a mãe’, hoje em dia, já não é assim. Hoje em dia, tem muitos pais

    que a mãe retorna ao trabalho e o pai fica em casa para cuidar das crianças,

    então assim, eu acho que a gente está deixando esse preconceito de lado de

    que o homem não ajuda, não troca fralda, não dá banho, não dá de comer,

    enfim, [...] acho que se está deixando esse preconceito de lado. O ideal

    mesmo, o sonho, era ter o mesmo tempo para o pai e para a mãe [sabe que

    tem países em que o tempo de licença é o mesmo para o pai e para a mãe].”

      Em sentido contrário ao de Júlia, podemos citar os discursos de duas

    entrevistadas. Natália enfatiza a primazia da mãe junto ao bebê durante seus

    primeiros meses de vida para justificar a não necessidade de ampliação da

    licença paternidade: “Eu acho que para o pai é o ideal [o período de 5 dias].

      

    Porque eu acho assim durante os primeiros meses é a mãe mesmo, não tem

    jeito. O pai ajuda? Ajuda assim para comprar alguma coisa, para trocar uma

    fralda ou outra, mas o dia-a-dia é a mãe mesmo. É a mãe que conhece, é a

    mãe que vai amamentar, acho que o principal é a mãe mesmo.” Por sua vez,

    Milena concebe que essa licença deve durar no máximo 15 dias, pois não

    saberia avaliar até que ponto seu marido mais a “atrapalharia” do que a

    auxiliaria no caso de uma licença mais prolongada: “... 15 dias era até razoável.

      

    É complicado, porque eu penso assim, tudo bem que muda muito na tua vida a

    chegada de um bebê, muda tudo, vira de ponta cabeça a sua vida, a sua casa,

      

    tudo, mas acho que, pelo menos no meu caso, ele [marido] não é tão

    participativo [enfática], não é tão, eu não sei até que ponto mais me

    atrapalharia do que ajudaria (risos) [...] 10 dias acho que tudo bem, mais do

    que 5 dias [...] pelo menos para chegar em casa, viver um pouquinho mais os

    primeiros momentos de agitação, de desespero assim junto com o marido eu

    acho que é interessante, mas mais do que isso acho que atrapalharia, no meu

    caso, atrapalharia.”

      Conciliar trabalho e a educação e os cuidados para com o bebê, não tem

    se apresentado como tarefa fácil, especialmente, para as mães e pais que não

    têm desfrutado das licenças maternidade e paternidade. A grande maioria das

    entrevistadas aponta para a necessidade de licenças mais prolongadas: 6

    meses para a licença maternidade e 15 dias ou mais para a licença

    paternidade.

      Em algum momento de suas vivências da maternidade, cinco

    entrevistadas refletiram sobre a possibilidade de interromperem suas atividades

    profissionais para cuidarem de seus bebês. No momento da entrevista,

    entretanto, Joana relatou já ter desistido totalmente dessa idéia, enquanto

    Aléxia, Manuela, Beatriz e Júlia, mesmo reafirmando a importância do trabalho

    em suas vidas tanto em termos pessoais quanto em termos econômicos, ainda

    pensavam na hipótese de parar de trabalhar temporariamente. Das outras três

    mães que não haviam refletido sobre essa possibilidade, duas tinham reduzido

    suas jornadas de trabalho para passar mais tempo com seus bebês.

      Neste eixo 3, abordaremos a partir de agora, as justificativas das mães

    para suas escolhas pelas modalidades de educação e cuidado, atuais e

    previstas (quadro 9) para seus bebês, mas também os motivos que as levam a

    rejeitar algumas opções. Destacaremos, ainda, as concepções e avaliações

    das entrevistadas sobre uma modalidade em especial, a creche.

      No momento da entrevista, como mencionado anteriormente, quatro

    entrevistadas estavam em licença maternidade em casa cuidando de seus

    bebês.

      Dos bebês das outras quatro mães que já haviam retomado suas

    atividades profissionais, um ficava com uma babá (a filha de Natália), outros

    dois ficavam com suas avós maternas (a filha de Joana e o filho de Milena) e a

    filha de Beatriz acompanhava seus pais e avós ao trabalho mas, apesar de

      

    passar o dia no mesmo ambiente que sua mãe, seu pai e seu avô, ficava

    mesmo sob os cuidados e atenção de sua avó materna.

      Tanto as mães que haviam optado por deixar seus filhos sob os

    cuidados das avós maternas (Joana, Milena e Beatriz), quanto Natália que

    havia optado pela contratação de uma babá para sua filha, relataram, de forma

    geral, considerar que seus bebês eram muito pequenos para freqüentar a

    creche (quadro 9) e mencionaram ter optado por deixá-los sob os cuidados de

    pessoas em quem confiavam (mesmo que fosse alguém contratado, como no

    caso de Natália) e que, segundo acreditavam, poderiam se dedicar com

    qualidade aos cuidados para com o bebê: “...em uma escolinha, não que eu

    ache que o pessoal vai deixar a criança chorando, mas o cuidado não vai ser o

    mesmo do que eu ou mesmo a minha mãe deu para a minha filha.” (Joana); “...

    ele [bebê] fica com a minha mãe de olhos fechados [...] mãe é mãe [enfática], a

    minha mãe é muito mãezona, então assim, eu estou sossegada...” (Milena).

      Beatriz e Milena, entretanto, apresentaram mais algumas motivações

    justificando suas escolhas atuais. A primeira, que voltou ao trabalho 40 dias

    após o parto, decidiu, em comum acordo com seus pais e cônjuge, que o

    melhor seria que sua filha pudesse acompanhá-los ao trabalho, já que todos

    trabalham juntos na empresa da família, pois lá haveria espaço para ela, sua

    própria mãe poderia se dedicar ao bebê e a criança também estaria perto dos

    pais e avós. Já Milena, mesmo sendo proprietária de uma escola de EI, preferiu

    que o bebê permanecesse em ambiente doméstico (casa da avó) para evitar

    que seu filho adoecesse: “... foi realmente com relação à saúde mesmo o

    motivo. E eu não escondo também [...] as mães [que deixam seus bebês na

    escola de EI de sua propriedade] sabem, eles [bebês] ficam mesmo doentes,

    quando os pais vêm procurar é uma pergunta que eles sempre fazem e que né,

    não tem como [...] você não tem como negar, a criança realmente fica muito

    doente, com uma freqüência maior mesmo do que quando ela fica em casa.”

      Como podemos perceber, nenhum dos bebês freqüentava creche ou

    outra modalidade de educação e cuidado coletiva. Todas as entrevistadas

    adotavam, portanto, no momento da entrevista, modalidades de EI que

    circunscreviam seus bebês ao espaço doméstico, sob a responsabilidade da

    própria mãe da criança ou das avós, e em apenas um caso da babá, optando,

      

    em sua maioria, por não externalizar, como compreendem Bloch e Buisson

    (1998, 1999), a educação e o cuidado de seus filhos.

      Todas as entrevistadas foram indagadas também sobre as modalidades

    de EI que previam como possíveis escolhas futuras (quadro 9) para seus

    bebês, já que metade delas voltaria a trabalhar com o término de suas licenças

    e algumas, mesmo satisfeitas com as modalidades atuais que haviam

    escolhido, já buscavam novas alternativas considerando que a criança já

    estava maior.

      Quatro mães (Joana, Malu, Milena e Júlia) estavam optando por colocar

    seus filhos na creche pública ou particular em São Caetano, enquanto Natália e

    Beatriz manteriam as atuais opções (manter o bebê sob os cuidados de uma

    babá e levar o bebê para o trabalho na empresa da família, respectivamente)

    que estavam considerando adequadas.

      Assim, com exceção de Júlia, que pretende colocar seu bebê aos 4

    meses de idade na creche mesmo o considerando ainda muito novo, as demais

    mães que estarão fazendo a mesma opção pretendem matricular seus filhos já

    maiores na creche, com idades variando de 7 meses e 20 dias a 1 ano.

      Ao optarem pela creche no futuro, essas mães expressam o desejo de

    que seus bebês possam interagir com outras crianças, recebam estímulos e

    vivenciem atividades que os auxiliem em seus processos de desenvolvimento.

    Elas acreditam também que muitas dessas atividades e estímulos, ao serem

    propostos por profissionais capacitados na creche, são diferentes daqueles que

    as mães ou avós da criança poderiam oferecer aos bebês em suas casas: “...

    as escolinhas têm muita atividade para desenvolver o aspecto psicomotor [...] a

    escola está mais preparada até para desenvolver a criança...” (Joana); “...eu

    valorizo essa parte da estimulação da criança. Por mais que a gente tenha um

    certo conhecimento dentro da nossa área, uma pessoa que está trabalhando

    em um lugar é, como eu te falei, ela está sempre passando por treinamento,

    por reciclagem. Então, ela tem muito mais contato com o que está aí de mais

    novo no mercado do que eu. Por mais que a gente estude, que a gente corra

    atrás, é o trabalho dela, ela vivencia aquilo.” (Júlia).

      Joana e Malu apontaram, ainda, o alto custo das creches particulares

    como um fator que as motivava a optar pela creche pública em São Caetano.

    Milena e Joana, com suas escolhas pela creche como modalidade prevista,

      

    relataram também estar liberando as avós maternas da responsabilidade de

    continuarem cuidando dos netos.

      Aléxia, não encontrando uma creche pública em São Caetano que

    oferecesse atendimento em meio-período, o que teria sido sua primeira opção,

    pretendia que seu bebê ficasse somente meio-período com uma babá, sob a

    supervisão da avó materna, mas ainda ponderou sobre a possibilidade de

    usufruir licença sem vencimentos, prolongando seu período de permanência

    em casa com o bebê.

      Manuela, por sua vez, informa ter decidido que, com seu retorno ao

    trabalho, seu bebê ficaria sob os cuidados da avó paterna. Sua decisão se

    baseava não somente na disponibilidade por parte dos avós que haviam se

    oferecido para cuidar do neto, mas também no custo-benefício dessa opção, já

    que Manuela avaliava a creche particular como muito cara, não poderia contar

    com creche em seu local de trabalho e além disso, orientada pela pediatra do

    bebê também considerava que aos 4 meses ele ainda seria muito novo ou

    pequeno para entrar na creche.

      De modo geral, pudemos apreender que as escolhas das entrevistadas

    foram também sustentadas por particularidades do contexto familiar, como por

    exemplo, a idade, a inserção profissional ou o local de moradia de suas

    próprias mães. Na ocasião da entrevista, quatro avós maternas dos bebês

    trabalhavam e duas moravam longe da residência de suas filhas. Várias

    entrevistadas fizeram, ainda, referência à idade avançada de suas mães (60,

    70 ou 75 anos foram algumas idades mencionadas) e, eventualmente, de suas

    sogras, como algo que dificultava que as avós estivessem disponíveis para

    cuidar de seus netos. Como apresentamos no capítulo 3, com base na

    pesquisa de Sorj, Fontes e Machado (2007), as mudanças nos perfis das avós

    podem estar tornando menos disponível tal ajuda familiar.

      Para além das preferências pessoais e dos contextos familiares,

    apreendemos, também, que concepções sobre criança parecem exercer

    influência nas decisões sobre modalidades de EI a serem escolhidas. Nos

    discursos das mães, a idade da criança, sua suposta imaturidade (“bebê é

    muito novo, bebê é muito pequeno”) e sua fragilidade (mais risco de adoecer)

    aparecem como justificativas quanto a sua permanência em ambientes

    domésticos, com menos contato com outras crianças e adultos. Citamos como

      

    exemplo a fala de Natália: “... Até os 3 meses a gente não estava saindo não

    [...] eu não levei ela ainda em shopping, a neném ficou em casa praticamente

    até os 3 meses. A gente foi viajar, fomos para a praia, mas ela [babá] ficou

    dentro do apartamento com a nenê, por causa das vacinas... então a nenê não

    saiu pra nada não, por enquanto a rotina está em casa mesmo.”

      A opção por certas modalidades de EI revela, também, a rejeição por

    parte das entrevistadas de algumas outras alternativas de educação e cuidado

    para bebês. A contratação de uma babá foi a modalidade mais rejeitada entre

    nossas entrevistadas. Metade das mães não considera essa opção como

    adequada por não confiar na pessoa que cuidaria dos bebês em suas casas,

    pelo receio de que essa pessoa pudesse maltratar a criança (receio esse,

    muitas vezes, alimentado pelo mídia, como já citamos) e por acreditar que, na

    creche, o bebê poderia estar sendo mais estimulado do que ficando em casa

    com uma babá: “... nunca pensei nessa hipótese [de babá] porque eu não acho

    legal ou ela [bebê] vai estar na escolinha com um monte de gente ou vai estar

    com a minha mãe (risos).” (Joana); “É, pela falta de confiança porque assim eu

    poderia até ver alguém lá da minha Igreja, mas, às vezes, a gente pensa que

    conhece a pessoa, mas não conhece. Então fica complicado isso [...] Eu prefiro

    mil vezes deixar um, o meu bebê, em uma escola municipal com educadores,

    pedagogos do que deixar em casa com uma babá, correr o risco dela judiar da

    criança, maltratar, bater na criança [...] deixando com empregada, com babá,

    com “vó” [avó] [...] não é bom porque a criança não vai interagir com outras

    crianças, não vai ter aquela integração de arrumar amiguinhos, amiguinhas,

    fica muito presa, fica muito reprimida dentro de casa, não sai, não vai passear,

    porque a escola já tem todo aquele programa de interatividade, jogos

    pedagógicos, lúdicos que envolve a criança, acaba que com a criança se

    tornando mais assim extrovertida, enfim, está em contato com pessoas, mesmo

    que ela não esteja passeando no parque, na rua, mas ela está em contato com

    pessoas, enquanto que dentro de casa acho que fica uma criança muito

    parada...” (Malu); “... às vezes, você coloca uma pessoa na sua casa, você

    pensa que é de confiança e acaba judiando do bebê...” (Beatriz); “... por essa

    questão da estimulação é que eu não imagino deixar ela [criança] em casa com

    alguém [...] claro que se minha mãe estivesse mais perto eu tinha mais

    confiança de deixar o bebê com ela em um retorno ao trabalho, pelo menos no

      

    princípio [para depois colocá-lo na creche], do que com uma desconhecida...”

    (Júlia).

      Como Singly (1993) já havia comentado com relação às famílias

    francesas, entre as mães brasileiras entrevistadas, o parentesco que pode ser

    chamado a ajudar nos cuidados para com o bebê é, em sua maioria, também

    restrito e selecionado de acordo com uma maior proximidade afetiva. Assim,

    observamos em algumas entrevistas, uma certa rejeição a deixar o bebê sob

    os cuidados da sogra, rejeição essa sustentada por diversas razões: a idade

    avançada, como já mencionamos, da avó paterna; o oferecimento de cuidados

    diferentes daqueles que a avó materna ofereceria; um certo “ciúmes” por parte

    da mãe do bebê; uma efetiva opção por não contar nem com a ajuda da sogra

    e nem com a da própria mãe (como no caso de Natália): “A mãe dele se

    deixasse, é lógico ela iria adorar, mas é uma pessoa que tem 70 anos, eu acho

    assim também que não tem condição física e nem essa disposição [...] Deixar

    com mãe e sogra a gente sempre foi muito contra, porque a gente acha ‘o filho

    é nosso, quem tem que...’, avó gosta, mas assim, cada um tem sua vida, e

    essa era uma opção que a gente nunca queria.” (Natália); “... sinto que há uma

    cobrança de ficar com a minha sogra e eu justamente não deixo meio a meio

    [metade do tempo com a avó materna e outra metade com a avó paterna],

    porque eu acho que falta a rotina igual dos dois lados. Não sou muito a favor

    de deixar a criança cada dia com uma pessoa. Eu acho que é complicado [...]

    sofro um pouquinho com isso [...] avó sogra, é diferente dos cuidados da avó

    mãe da mãe...” (Milena); “Ela [sogra] me ajudava no banho [do bebê] porque eu

    não deixava ela fazer nada (risos), eu mesma passava roupa, lavava roupa do

    bebê, enfim, trocava, cuidava e não deixava ela fazer nada de ciúmes assim

    (risos). A única coisa é que ela me ajudou no banho, também por pouco

    tempo...” (Malu).

      Quanto à modalidade creche como opção para o cuidado e a educação

    das crianças pequenas, as mães ofereceram muitas pistas em suas

    entrevistas.

      Em primeiro lugar, o termo creche, de modo geral, foi rejeitado pela

    maioria das entrevistadas, que o associou, em alguns casos, ao atendimento

    público (como fizeram Natália, Beatriz e Milena), ou considerou que essa

    denominação não deve mais ser empregada já que em São Caetano do Sul,

      

    tanto creches públicas quanto particulares são denominadas igualmente como

    escolas: “... não importa assim se é privada ou público porque, de certa forma,

    os dois [particular ou pública] tratam até como escolinha [...] em São Caetano,

    não se procura por creche, se procura por escola [...] são escolas para o ensino

    infantil.” (Joana); “Então, a gente nunca usou essa terminologia quando eu

    trabalhava e acabou incorporando. Então, eu não falo ‘vou botar ele na creche’,

    não, creche não, falo ‘vou botar ele na escola ou na escolinha’, às vezes, a

    gente também usa esse termo para dizer que são os pequenininhos, como se

    escola fosse para os grandes e escolinha para os pequenos [...] a gente [nas

    creches públicas de São Caetano] extinguiu a palavra creche.” (Aléxia); “...

    acho que esse termo creche não deveria ser usado. Eu acho que deveria ser

    usado escola [...] se você olhar está escrito lá ‘Escola Municipal Infantil’, que

    acho que é o que eles usam aqui [em São Caetano] e a outra é EMEI [Escola

    Municipal de Educação Infantil]. É, eu gosto do termo escola [enfática].” (Malu).

      Rejeitado pela maioria das entrevistadas, assim como havia sido pelos

    entrevistados por Galvão (2008), o termo creche foi associado, em alguns

    discursos, ao oferecimento de serviços de baixa qualidade (freqüentado por

    muitas crianças que seriam atendidas por poucos profissionais) e à sua

    concepção “antiga”, enquanto local somente destinado ao oferecimento de

    cuidados físicos básicos (alimentação, higiene, sono) aos bebês (quadro 10):

    “... talvez seja por causa desse termo ‘creche’ que as pessoas ficam até com

    receio de deixar o filho, ‘ah, será que vão cuidar de qualquer jeito, é um monte

    de criança e poucas pessoas para cuidar, ah, a criança vai ficar assada, não

    vão trocar direito, se eu levar um leite lá vão dar o leite para outra criança’...”

    (Malu); “... creche seria mais ou menos o cuidado que eu tenho em casa com a

    minha filha.” (Joana); “...sinceramente... acho que é até uma visão um pouco

    preconceituosa, infelizmente, eu tenho que dizer isso, preciso mudar isso

    [enfática], na verdade [...] A creche já dá, o termo, não sei te explicar por que,

    mas já dá uma questão de ser uma coisa mais largada, sem tanto estímulo,

    onde a criança fica mais deixada assim sabe, é o mínimo do mínimo, não sei

    nem te explicar por que me vem essa imagem, mas é a imagem que me vem à

    cabeça.” (Júlia).

      Por outro lado, o termo escola (ou o termo creche compreendido em sua

    nova concepção) já englobaria, na fala das entrevistadas, não somente o

      

    cuidar, mas também o educar, através do oferecimento de atividades,

    brincadeiras e estímulos que proporcionariam o desenvolvimento infantil em

    várias áreas (quadro 10): “... muita gente só direciona para o lado do cuidar [...]

    mudou o conceito [...] antigamente tinha só esse [...] de cuidar, a creche era só

    cuidar, então era mamar, dar de mamar, cuidar da alimentação, cuidar até

    mesmo do bem-estar também, da higiene pessoal, essas coisas [...] E hoje em

    dia não, a gente já tem uma outra concepção especialmente por conta do

    Referencial que existe, que já tem os Parâmetros para você seguir [...] sobre o

    que trabalhar, que já dá para trabalhar com os pequenos vários aspectos

    [enfática], quer dizer, então tem o educar, não é só o cuidar, então mudou essa

    concepção, então eu tenho essa visão de que não é uma creche, é uma escola

    [...] é uma escola normal, de aprender, de fazer, de conhecer.” (Aléxia); “... na

    lista [telefônica], se você procurar não são creches que aparecem, são escolas

    infantis, então pode ser até uma outra denominação que as pessoas estão

    dando pelo fato de terem essas outras atividades.” (Joana); “Um lugar cheio de

    crianças com várias tias (risos) que cuidam do seu bebê, do seu filho, um

    monte de criança [...] Para cuidar dos bebês [enfática], das crianças, para dar

    educação, ensino. Eu não sei se elas ensinam coisinhas. Acho que elas devem

    estimular né com brinquedos e essas coisas. Sem dúvida, elas não colocam

    [os bebês] na TV, eu acho, não sei, eu acho (risos)...” (Manuela).

      Para algumas entrevistadas, como Beatriz, a creche se apresentava, de

    forma geral, como uma das últimas opções para se deixar o bebê caso a mãe

    precise trabalhar, não possa levá-lo ao trabalho e nem conte com a ajuda de

    uma pessoa de confiança. Natália, por sua vez, rejeitava a creche por

    considerar não somente que um bebê de menos de 1 ano é ainda novo para

    freqüentá-la, mas também porque acreditava que, mesmo quando de excelente

    qualidade, as creches não conseguiriam assegurar um atendimento exclusivo

    ou uma disponibilidade em tempo integral a cada bebê: “... até 6 meses, 1 ano,

    eu acho que ela [bebê] tem algumas rotinas que mesmo em uma escola top a

    criança não consegue ter essa rotina, porque aí entra naquilo de ter uma

    pessoa dedicada, de acordá-la no horário, de dar aquela mamada, de pegar

    manha [...] a gente sabe que se ela estiver em uma escola, mesmo que seja

    top, ela [profissional] não tem tempo de ficar andando para dar mamar [para se

    adaptar à necessidade da criança].”

      Outras duas mães (Júlia e Aléxia), que contavam com flexibilidade em

    seus horários de trabalho e poderiam passar mais tempo com seus bebês, de

    certa forma, não rejeitavam a creche, mas sim o horário de atendimento em

    período integral. Elas expressavam o desejo de poder contar com

    atendimentos em meio-período ou até mesmo com horários eventuais, não

    rígidos e adequados à realidade das famílias: “... eu não sabia que tinha isso,

    mas alguns berçários eles falam que eles têm esquema de hotel, ou seja, você

    leva a criança no horário que você precisa, você retira a criança no horário que

    você precisa, então, não tem aquela rigidez de ‘ah, ou fica a manhã toda ou a

    tarde toda ou até o período integral’ [...] Eu sei que é possível na particular, em

    algumas que já me indicaram. Na pública, eu não sei...” (Júlia); “... eu não

    queria passar tanto tempo longe dele. O problema é mesmo o período integral

    (risos) [...] ‘ah, se tivesse [creche pública em São Caetano] meio-período seria

    o ideal’ (risos) [...] falam que a criança o dia inteiro aprende mais, até por isso

    que as escolas estão se transformando em período integral, mas eu acho que

    deveria ser uma opção, não uma obrigação você colocar. Acho assim que tem

    que ter o meio-período para você aprender o básico e o período integral para

    quem realmente precisa, que queira, de repente, porque, às vezes, a mãe quer

    ficar com seu filho meio-período, ela não quer deixar o dia inteiro na escola

    para só vê-lo à noite, quer ter esse contato maior com ele, então eu acho que

    deveria ser uma escolha, ter para todas as opções assim.” (Aléxia).

      Algumas creches particulares são rejeitadas por Aléxia, por não

    disporem de profissionais devidamente capacitados para o atendimento

    específico de bebês. Ela que já havia trabalhado tanto em creches particulares

    quanto em públicas, relata ter observado que em algumas particulares se

    exigia menos a formação específica dos profissionais: “Porque as escolas

    [particulares] não exigem, foi o que eu te falei, em uma creche, em um berçário,

    professores assim que tenham formação tudo, que nem, por exemplo, aqui em

    São Caetano [na creche pública] não, a gente já vê que a partir do berçário

    maior, que agora tem outro nome que eu não lembro, que agora é por grupo,

    mudou, acho que é grupo 2, uma coisa assim, que mudou a terminologia, já

    tem professor. Então, bebês de 1 ano, 1 ano e pouco já têm um professor em

    sala junto com as auxiliares para cuidar das crianças [...] Então, quer dizer, já

    tem um direcionamento, tem uma pessoa que está preparada para estar

      

    cuidando, no caso de necessidade já tem uma forma, uma visão diferente, não

    que quem, por exemplo, já trabalha há 15 anos como pajem ou auxiliar de

    primeira infância, ou sei lá o nome que queiram dar para quem cuida, não tem

    experiência, mas acho que você tem que ter uma pessoa ali do lado

    acompanhando, que tenha um conhecimento...”

      Como pudemos apreender nos discursos das entrevistadas, a idade que

    as mães consideram como a ideal para o bebê começar a freqüentar a creche

    parece sustentar suas escolhas por EI.

      Com pequenas variações para mais ou para menos, nas respostas de

    várias de nossas entrevistadas (Joana, Milena, Manuela, Beatriz e Aléxia), as

    crianças só deveriam ingressar na creche com idades variando entre 1 e 2

    anos (quadro 11). Diferentemente do que relataram os pais entrevistados por

    Galvão (2008), algumas de nossas entrevistadas preferiam que as crianças

    entrassem na creche já mais velhas (a partir de 2 ou 3 anos). De forma geral,

    apenas Júlia (que previa colocar seu bebê na creche a partir dos 4 meses) e

    Malu (que expressava o desejo de matricular seu bebê quando ele estivesse

    com 7 meses e 20 dias) consideraram que o ideal seria o bebê freqüentar a

    creche a partir dos 6 meses de idade.

      Para a maior parte das entrevistadas, as crianças entre 1 e 2 anos já

    estariam maiores, seriam menos frágeis fisicamente, já teriam acumulado

    conhecimento e vivências familiares, já reconheceriam as pessoas e já

    conseguiriam expressar suas reações frente aos cuidados que estariam

    recebendo podendo, assim, passar a freqüentar a creche e também informar

    aos pais quando não estivessem sendo bem cuidadas.

      Parece-nos, portanto, haver quase uma associação direta, nos discursos

    das mães, entre a idade em que o bebê já teria desenvolvido algumas

    competências, como a fala e sua capacidade de raciocinar e acumular

    conhecimentos, quando eles já seriam considerados crianças pequenas por

    suas mães, como vimos no eixo 2, e a idade ideal para o bebê ingressar na

    creche.

      Quanto ao conhecimento mais específico das entrevistadas sobre

    creche, apreendemos que até o momento da entrevista, três mães (Beatriz,

    Manuela e Júlia) não haviam tido a oportunidade de visitar ou conhecer uma

    creche. As demais, por experiência profissional, por interesse em colocar seu

      

    bebê ou por conhecer pessoas que atuam em EI, já haviam visitado alguma

    creche pública ou particular em São Caetano do Sul ou mesmo creches

    conveniadas ou assistenciais em outros municípios. Metade das entrevistadas

    soube informar, também, a existência de creches públicas em seus bairros de

    residência.

      Embora eu tenha utilizado durante, e ao longo de, todas as entrevistas o

    termo creche, assumindo sua denominação “oficial”, todas as entrevistadas

    utilizaram, em momentos diversos de seus discursos, outros termos como

    “escola” e “escolinha” ao se referirem à creche. Três usaram também a palavra

    “berçário” e apenas Júlia empregou o termo “centros” se referindo tanto a

    creches quanto a berçários (quadro 10).

      De forma geral, as entrevistadas consideram que uma creche de boa

    qualidade deve oferecer: um ambiente adequado com boa infra-estrutura e

    espaço físico (com lugares para as crianças dormirem, espaços ao ar livre,

    locais bem ventilados, iluminados, limpos e seguros); boa alimentação; um

    número de adultos adequado ao número de crianças atendidas; atividades

    pedagógicas, brincadeiras e estímulos; uma equipe de profissionais

    qualificados e capacitados, comprometidos, responsáveis e pacientes, que

    gostem de criança e cuidem delas com atenção, carinho e respeito (quadro 12):

    “... precisa ter uma pessoa que gosta do que está fazendo e que vai tratar o

    seu filho com carinho, carinho e respeito.” (Joana); “... os profissionais

    constantemente têm cursos de capacitação, o espaço físico é sempre

    adequado, eles buscam sempre a adequação do espaço físico, a alimentação é

    de qualidade...” (Aléxia); “... limpeza, a higiene, a alimentação adequada, uma

    boa alimentação porque já me falaram também que [em São Caetano] a

    merenda é muito boa, enfim... ah, em geral assim, o envolvimento [...] das

    pessoas, o respeito com os bebês e com as crianças de forma geral [...] na

    escola tem toda uma disciplina, tem horários para seguir, são profissionais que

    estão cuidando...” (Malu); “... eu não sei quantos bebês uma pessoa em uma

    creche ela cuida. Acho assim ter bastante gente para cuidar direitinho para não

    ter problema de se machucar ou até de engasgar [...] Ah, ter bastante atenção,

    uma alimentação adequada para a idade. Ah acho que, ser confortável, um

    lugar limpo, com bastante higiene para a criança não ter problema de ficar

    doentinha.” (Beatriz); “Que tivesse realmente preocupação pedagógica, acho

      

    que pensar o tempo todo em ações para que a criança não esteja só, porque a

    gente fala a liberdade, a garantia do brincar é super importante, é a brincadeira

    simbólica enfim, todo o espaço que deixa ela ser criança, assim sem tanta

    condição assim no sentido de formalidade...” (Milena); “... Porque tem

    escolinhas que são assim micro né. Você olha, bem pequenininhas assim que

    está lotada de criança e tem também essa coisa de cada tia né, que elas falam,

    são responsáveis por tantas crianças, eu acho isso importante também dar

    uma olhada [...] Como 3 pessoas vão dar conta de 25 bebês? [enfática] Me

    fala, não dá! Eu acho muita coisa [...] 3 pessoas para 15 bebês. Tudo bem, é

    bastante também, é, mas já [diminui a proporção]...” (Manuela).

      Em oposição, uma creche de má qualidade seria aquela que não conta

    com profissionais qualificados e especializados, que não privilegia os aspectos

    pedagógicos ou emocionais da criança, oferecendo somente cuidados físicos

    básicos, que não assegura uma boa alimentação e nem conta com um

    ambiente adequado, limpo ou seguro, onde a proporção adulto/criança é

    inadequada (quadro 12): “... onde a criança faz o que quer, não tem pessoas

    que [...] prestariam atenção na característica da criança [que] deixaria

    chorando, que [...] não tem muita paciência, vamos supor tem criança que

    gosta de dormir ninando e não vai cuidar da criança como, às vezes, ela

    precisaria, respeitando as características que ela tem.” (Joana); “[...] um lugar

    onde você só deixe e que não tenha pessoas que sejam especializadas, que

    seja, por exemplo, um lugar onde só tenha voluntários. Voluntário é bom, mas

    não são pessoas que estudaram para aquilo.” (Natália); “... eu acredito que

    uma creche ruim, de má qualidade para começar não deveria existir (risos),

    porque você lida com vidas [...] [e] você não pode deixar, se deparar com um

    lugar que não tenha qualidade porque tem que ter [enfática], eu acho que é o

    fator principal, tem que ter qualidade tanto sabe na parte da alimentação [...]

    [e] dos profissionais...” (Aléxia); “Ruim, acho que seria não ter pessoas

    qualificadas pra isso, não serem professoras. Não ter [...] um lugar legal

    também acho que é importante. Muita gente, muito bebê para poucas pessoas

    cuidarem, sabe aquela coisa de quanto mais dinheiro melhor...” (Manuela).

      Como pudemos apreender, dentre os indicadores considerados para a

    avaliação do que seria uma boa creche, as entrevistadas valorizam a formação

    e capacitação dos profissionais que atendem os bebês e relatam o desejo de

      

    que esses profissionais gostem de crianças. Somente uma mãe mencionou o

    critério “ser mãe” como uma característica importante para esse profissional.

    Ao se referir aos critérios que sua escola particular utilizava para contratar os

    profissionais que atendem os bebês, Milena disse: “A exigência não é a

    formação em Pedagogia, mas [...] o critério é ser mãe [enfática] que a gente

    utiliza, ser mãe e meia idade também [enfática] porque muito mais velha por

    volta dos 50 ou 60 anos a agilidade, enfim, a gente já teve algumas

    experiências de que já foi mais difícil. E bebê é o tempo todo abaixa, levanta,

    pega, uma pessoa mais velha já tem mais dificuldade né, e uma pessoa muito

    nova, porque a faixa das nossas professoras é assim na média de 25 ou 20 e

    poucos anos. No berçário, já é mais na faixa dos 40, 40 e poucos anos. Então,

    tem que ser mãe, não precisa ter pedagogia porque tem uma assistente que

    trabalha direto no berçário [...] que faz a supervisão. E a gente oferece alguns

    cursos [...] para elas fazerem, mas não tem que ter pedagogia [enfática].”

      Para a escola de Milena, “ser mãe” é considerado um critério ainda mais

    importante para admissão do que a própria formação profissional e, ao mesmo

    tempo, um critério que parece sugerir que a disponibilidade para o atendimento

    dos bebês seria uma característica somente feminina, inviabilizando a

    contratação de profissionais de sexo masculino.

      A predominância de profissionais de sexo feminino nas creches se

    revela, também, em diferentes momentos dos discursos das entrevistadas,

    quando elas, ao utilizarem denominações variadas para se referirem aos

    profissionais que atuam diretamente com os bebês e crianças, empregam

    algumas palavras somente no feminino: “moças, tias, menina, profissionais,

    orientadores, professores(as), assistentes, educadores, pedagogos, auxiliar de

    primeira infância, pajem.”

      Questionadas sobre se existiriam ou não diferenças entre a rotina de um

    bebê em casa e a rotina de um bebê na creche (quadro 13), notamos que as

    entrevistadas forneceram respostas que poderiam ser divididas em dois grupos

    distintos. Metade delas (Manuela, Joana, Milena e Júlia) acredita que as

    creches seguem mais ou menos a mesma rotina que é proposta aos bebês em

    suas casas, mas oferecendo mais atividades, estímulos e brincadeiras e a

    possibilidade de convivência com outras crianças e adultos. Por outro lado,

    outras entrevistadas (Aléxia, Beatriz, Natália) acreditam haver diferença entre a

      

    rotina da criança em casa e a rotina proposta por uma creche porque

    consideram que em casa o bebê receberia atenção exclusiva por parte de

    quem cuida dele, enquanto que na creche os profissionais estariam menos

    disponíveis já que teriam mais bebês para cuidar.

      Essa concepção, expressa por algumas mães, de que a criança

    receberia maior atenção em casa quando cuidada pela mãe, avó ou babá, em

    contraposição a uma menor atenção ou disponibilidade que estaria recebendo

    na creche, também foi apreendida por Bloch e Buisson (1998, 1999) em suas

    pesquisas. No contexto francês, entretanto, as mães que optavam pela creche

    tendiam a acreditar que os profissionais também poderiam se dedicar aos seus

    filhos, porque embora houvesse mais crianças haveria também mais

    profissionais para esse cuidado. Em contexto brasileiro, poderíamos supor que

    essas mães, que consideram que a disponibilidade será menor nas creches,

    possam estar sustentando suas impressões não somente no fato de que na

    creche existem mais crianças para serem atendidas, mas também, talvez, na

    possibilidade de que em muitas creches o número de profissionais ainda não

    seja adequado para esse atendimento, no fato de que elas mesmas não

    freqüentaram creches quando crianças, como veremos no eixo 5, e não

    apresentam contato extenso ou freqüente com essa instituição e por

    conceberem que os bebês necessitam de cuidados e de uma atenção mais

    individualizadas.

      A imagem da creche ainda parece atrelada à necessidade da mãe

    trabalhadora, embora a maior parte das entrevistadas tenha considerado que a

    creche destina-se às crianças e aos bebês (citamos como exemplo a fala de

    Aléxia: “Ah, para os bebês, as crianças, porque tem essa divisão de 0 a 3 e de

    3 a 6, então tem uma forma de trabalho direcionado para as crianças de 0 a 3

    [...], então é direcionada para eles.”); que Joana defenda que todas as crianças

    possam freqüentar “escolas” de EI e não “creches” para se desenvolverem; que

    Júlia considere a creche como uma instituição que destina-se tanto aos bebês,

    que têm o direito de receber estímulos para o seu desenvolvimento, quanto às

    mães, incluindo aquelas que não trabalham e que também queiram matricular

    seus filhos.

      Natália e Beatriz consideram que a creche se destina às mães que

    trabalham e que não têm com quem deixar seus bebês: “... para as pessoas

      

    [...] que não têm essa condição de ficar em casa, para as mães que não têm a

    condição de ficar em casa cuidando e que não têm também a opção de deixar

    [o bebê] com alguém que conheça ou pagar uma profissional.” (Natália); “Eu

    acho que às mulheres que trabalham e que querem continuar trabalhando, eu

    acho que elas teriam preferência. Eu sei que tem... parece que não é assim,

    parece que funciona mesmo que a mulher não trabalhe, ela consegue vaga na

    creche. Eu acho que ela tira, como acho que não tem tanta vaga, eu acho que

    ela tira o direito, a vaga de alguém que realmente precisa trabalhar [...] acho

    que creche é para as mulheres que trabalham fora, que não têm uma pessoa

    da família que possa cuidar do bebê, que ela possa trabalhar e deixar a criança

    em boas mãos, eu acredito.” (Beatriz).

      De forma geral, as avaliações que parte das entrevistadas expressam

    sobre a creche pública são muito semelhantes, não somente às que os

    homens-pais de camadas médias entrevistados por Galvão (2008) também

    referiram, mas também, aos comentários que as entrevistadas ouvem de

    conhecidos que trabalham e/ou utilizam creches. Essas avaliações são sempre

    muito menos positivas em relação às creches de outros municípios (como São

    Paulo, por exemplo) do que as avaliações da maioria das entrevistadas em

    relação às creches públicas de São Caetano do Sul. As creches públicas, de

    forma geral e em outras cidades, são associadas a um cenário de carência de

    recursos, com poucos investimentos na área pedagógica e de capacitação dos

    profissionais e a uma baixa utilização por parte das famílias pertencentes às

    camadas médias.

      Para a maioria das mães com quem conversamos, há diferença de

    atendimento entre creches públicas e particulares (quadro 14), sendo que

    apenas para duas entrevistadas (Joana e Malu) essa diferença não existiria, ao

    menos em São Caetano, em termos dos cuidados oferecidos às crianças.

      As creches particulares, quando comparadas às públicas, se

    aproximariam mais dos indicadores de creches de boa qualidade, segundo a

    maioria de nossas entrevistadas, pois ao contarem com maiores recursos ou

    investimentos e com um menor número de crianças para atenderem, poderiam

    oferecer pessoal mais capacitado, além de uma proporção adulto/criança mais

    adequada: “... a diferença principal é você ter uma pessoa qualificada para

    cuidar do seu filho conforme a idade dele [...] Uma escola boa vai atrás dos

      

    melhores profissionais, sabe que os pais vão procurar isso [...]. A creche

    pública não vai estar preocupada com isso, vai colocar um profissional x e vai

    pagar por aquilo um salário mínimo ou um pouco mais. Então, aí é questão

    realmente de salário, das condições que vão ofertar para a pessoa trabalhar.

    Às vezes, o profissional que está lá na creche [pública] é até bom, mas ele não

    tem material, ele não tem condições de ofertar alguma coisa.” (Natália); “Acho

    que na particular, você consegue, talvez, arrecadar mais dinheiro para suprir

    todas as necessidades, não tem nenhum desvio que geralmente a gente

    conhece no público...” (Beatriz).

      Apresentando um discurso na direção oposta e centrado no que

    conhecia das creches em São Caetano, Aléxia considera que a creche pública

    no município não só valoriza mais que a creche particular a capacitação dos

    profissionais que atendem as crianças, como também os remunera melhor.

    Para ela, a creche pública, em São Caetano, se caracterizaria também por

    atender todos os níveis sociais enquanto a creche particular atenderia somente

    pessoas com mais recursos e que valorizariam um certo “status” que a creche

    particular proporcionaria: “A escola pública ela abrange todo mundo, qualquer

    pessoa pode estudar. Tem desde a classe mais paupérrima quanto pode

    estudar o que tiver muito dinheiro. Se você tiver vaga, ele vai lá e estuda e é

    tratado igual, de maneira igual, todo mundo é igual, porque lá na escola não

    tem diferenciação, são crianças [...] [Na creche particular] era sempre um nível

    [...] de uma classe média para alta porque, por exemplo, para poder ter o filho

    em uma escola, para se pagar é porque precisa ter o mínimo de uma condição

    financeira para estar abrindo mão, para estar dando esse dinheiro [...] como eu

    trabalhei em uma escola particular, eu digo isso muito pelas falas dos pais,

    enfim, entendeu, ‘ah não, colocar na escola pública não, tem muita criança’,

    como se na particular não fosse também, tem menos porque é mais caro,

    porque tem que pagar, por isso acaba tendo menos criança, mas na verdade é

    isso, então assim acaba colocando na particular porque ‘ah não, meu filho

    estudou na particular’, faz questão, às vezes, até de falar o nome da escola

    para gerar um certo status. Tem gente que ainda pensa nisso, não pensa na

    qualidade, pensa no status.”

      Além de Aléxia, outras mães também mencionaram o alto custo de

    algumas creches particulares. Destacaremos dois discursos que, ao tentarem

      

    mostrar sua indignação com o valor cobrado por algumas dessas creches,

    parecem revelar, também, sinais de hierarquização de idade (onde “não teria

    cabimento” um bebê receber para sua educação e cuidados recursos ou

    investimentos equivalentes aos da educação de um adulto) e de uma certa

    desvalorização do atendimento que seria oferecido: “... não tem cabimento

    você pagar mais de R$ 500,00, mais caro que uma faculdade para deixar uma

    criança [...] não concordo com isso [...] quem agüenta pagar R$ 500,00, não

    tem condição, é muita coisa.” (Malu); “Você paga R$ 1500,00 para o seu filho

    (risos) ficar lá dormindo, comendo, acho meio complicado.” (Manuela)

      Ao indagarmos nossas entrevistadas sobre a possibilidade de elas

    inscreverem seus bebês em creches públicas, pudemos apreender que, em

    sua maioria, elas consideravam a creche pública, ou melhor dizendo a “escola”

    pública, em São Caetano do Sul como uma efetiva opção de atendimento para

    seus bebês. Apenas três entrevistadas (Natália, Milena e Beatriz) prefeririam

    optar, em qualquer cenário, pela creche particular.

      As mães, que visualizam a EMI [Escola Municipal Integrada] em São

    Caetano como uma possibilidade de escolha, sustentam sua opção tanto em

    seu conhecimento pessoal quanto nos comentários de outras pessoas. Tais

    avaliações tendem a valorizar não somente a qualidade da educação ou a

    capacitação dos profissionais, mas também a adesão por parte das camadas

    médias ao atendimento oferecido: “...sem dúvida [colocaria na creche pública

    em São Caetano], sem nenhum medo, sem nenhum constrangimento [...] se eu

    não trabalhasse eu não poderia estar te falando isso ‘ah, eu prefiro mil vezes a

    escola pública do que a particular’ [...] os profissionais têm um curso, os

    professores estão em constante formação, não só, no caso das EMIs que foi

    como eu te falei tanto as auxiliares também têm curso de formação, como no

    meu caso, eu era auxiliar e a gente fazia, desde o berçário como de outras

    fases a gente faz curso de formação, então aqui assim, a população digo de

    uma maneira geral não pode reclamar, acho que é mais assim, claro faz parte

    do governo dar essa educação de qualidade, então aqui existe essa educação

    de qualidade, não posso dizer em outros lugares, assim onde nunca trabalhei,

    em outras cidades [...] eu vejo [aqui] muita gente assim elogiando, muita gente

    tira da escola particular para pôr na pública, só não põe, às vezes, ou porque

    não consegue vaga que é um caso ou outro ou porque, às vezes, quer por

      

    status, só porque tem uma condição financeira melhor de manter o filho em

    uma escola particular por status mesmo. Mas, assim, muita gente que eu vejo

    que até tem condições consegue vaga, tira [da particular] e põe [na pública]

    porque não está preocupado com isso de status [...] você vê [...] mães [...] que

    elogiam, que falam super bem da educação pública de São Caetano...”

    (Aléxia); “.. como São Caetano é menor, então a quantidade de crianças é

    menor por escola, você vê, é diferente [...] aqui tem bem menos crianças e

    deve ter um número já adequado de pessoas para cuidar dessas crianças [...]

    as pessoas precisam confiar mais nessas escolas municipais porque são muito

    boas, inclusive, conheço pessoas de classe média alta que deixam crianças [e

    bebês] em creches [em São Caetano] [...] principalmente nessa escola aqui [na

    frente da casa da entrevistada há uma EMI, escola municipal integrada e

    também uma EMEI, escola municipal infantil], eu vejo as pessoas parando aqui

    com carrões, a gente sabe que são pessoas bem informadas e de classe

    média alta que confiam e deixam suas crianças [enfática]. Então eu acho que a

    gente precisa confiar mais nessas escolas porque são escolas muito boas, em

    São Caetano né [enfática], eu falo por São Caetano, não vou responder, por

    exemplo, por Santo André, Mauá, São Paulo, porque já não conheço.” (Malu);

    “... eu sou de São Paulo, a maioria das pessoas que eu conheço está lá, então

    eu não conheço ninguém lá que deixa uma criança em uma EMEI em São

    Paulo. As pessoas se viram em mil para conseguirem pagar uma escola

    particular, porque vêem uma grande diferença no ensino lá e aqui [em São

    Caetano] não, aqui são pessoas que trabalham junto com a gente, enfim, têm

    mais ou menos o mesmo estilo de vida da gente e fazem questão de deixar

    porque vêem que o ensino é bom. Então, partindo disso, se a EMEI é boa, eu

    imagino, e também assim, já ouvi alguns comentários do ensino fundamental

    ser bom também [...] [e] partindo desse pressuposto, eu acredito que deva ser

    de qualidade também a creche...” (Júlia); “...porque eu já ouvi falar que é muito

    boa [...] Eu acho que eu não tenho esse preconceito. Não sei, acho que muitas

    vezes é preconceito isso de colocar pública e particular. Até porque eu tenho

    uma massagista que o netinho dela está em uma pública e ela falou que tem

    muito carrão que para lá com gente de dinheiro que estuda em uma escola

    pública entendeu [...] Eu acho que eu não, eu não teria esse preconceito assim.

    Eu acho que é importante. Se eu conseguisse [vaga] seria ótimo, se eu não

      

    conseguir, eu preciso conhecer também, como eu nunca fui, eu sei só de

    pessoas que têm, que comentam que as filhas foram e que gostam [...] Sobre o

    que eu já ouvi falar, sobre o que as pessoas falam, é que é muito boa a creche

    em São Caetano, que vale muito à pena colocar, que nunca teve problema

    nenhum com nada...” (Manuela).

      De forma geral, nossas entrevistadas recomendam a creche para outros

    pais e bebês (quadro 15), especialmente, pelo fato de a creche liberar a mulher

    para o trabalho e oferecer à criança convívio entre pares, estímulos e

    atividades diferentes daqueles que ela receberia em casa. Algumas

    entrevistadas recomendam, ainda mais enfaticamente, a creche pública ou,

    melhor dizendo, a “escola” pública em São Caetano por conhecerem e

    confiarem no trabalho. Duas entrevistadas (Natália e Beatriz), por considerarem

    a creche somente como uma última opção, como já havíamos mencionado,

    preferiam recomendar aos pais outras modalidades de educação e cuidado

    (como contratar uma babá, deixar a criança com algum familiar ou a criança

    acompanhar a mãe ao trabalho).

      As mães que entrevistamos consideram que não há diferenças entre

    bebês que freqüentam creche pública e os que freqüentam creche particular,

    mas algumas se preocupam com a possibilidade de que atendimentos de

    qualidade desigual possam “produzir” diferenças futuras em termos do

    desenvolvimento dos bebês: “Eu acho que é isso assim, com certeza, esse

    profissional da escola é mais qualificado que uma orientadora em uma creche,

    então, assim, a orientação do bebê já vai ser diferente, não vai ser igual à da

    creche. O cuidado que ela vai ter com essa pessoa vai ser diferente. O cuidado

    que eu falo é assim, desde o jeito de você falar, tudo o que você faz, os bebês

    já conhecem, já estão aprendendo, então o aprendizado vai ser outro. Vai ser

    uma pessoa mais dedicada, vai ter menos crianças, é uma pessoa mais

    qualificada, então vai ser totalmente diferente [na particular que na pública].”

    (Natália); “... se a criança tiver mais atenção, não importa se é [creche]

    particular ou Estadual, mas se ela tiver bastante atenção e for estimulada, eu

    acho que ela se desenvolve bem, agora se, talvez, na creche que é pública não

    tiver esse estímulo... não que ela não se desenvolva, mas talvez vá mais

    devagar assim o desenvolvimento dela.” (Beatriz); “Olha, se houver diferença

    nessa questão do cuidado e do estímulo que a criança recebe, com certeza, a

      

    gente sabe que dá diferença, porque uma criança que fica o dia todo suja, com

    certeza, ela vai ser muito mais irritadiça e a criança estando irritada você

    também perde um pouco a paciência mais cedo do que se a criança é mais

    tranqüila, então assim, é uma bola de neve como a gente fala. Já, a criança

    que está bem cuidada, que está tendo estímulos, ela vai reagir de uma maneira

    diferente. Lógico que a gente sabe também que cada criança tem a sua

    personalidade, isso é independente do estímulo que ela vai receber, ela tem

    aquele traço dela e ponto final, mas em havendo uma diferença de cuidado e

    de estímulo, com certeza vai haver uma diferença no comportamento dessas

    crianças [...] Olha, se [a creche] for como eu estou te falando, uma EMEI, por

    exemplo, aqui em São Caetano que tem um ensino ótimo e um cuidado ótimo

    com as crianças [...] Então, se seguir esse mesmo parâmetro, não vai ter

    diferença. Agora, se já for diferente, senão tiver tanto investimento, enfim, se a

    instituição não for legal, aí eu acho...” (Júlia).

      Quadro 5. Licença maternidade usufruída Entrevistada/ Contou com a ajuda de alguém Licença maternidade Satisfeita com o tempo usufruído? Idade (em nos primeiros dias em casa com o (período usufruído) meses) e bebê? Por quanto tempo? sexo do bebê Natália Sim, contou com a ajuda da mãe 15 dias Joana Sim, contou com a ajuda da mãe 4 meses 9/F Ficou o 1º mês morando na casa dos pais com o marido e o bebê Mas, em termos profissionais considerou adequado o período de 4 meses Não Não Aléxia Sim, contou com a ajuda da mãe Está usufruindo a licença de 6 meses 3/F Atualmente, trabalha 5 ou 6 horas diárias voltava. Mas, com 15 dias, ela ficava 3 ou 4 horas acordada, coisa que para um neném é muito tempo. Então, trabalhava só 3 horas e não ia todos os dias dormia durante o dia e eu não fui em período integral, eu ia, ficava 3 horas e voltava, eu ficava 3, 4 horas e Nos primeiros dias após o retorno ao trabalho, “E eu acho que a criança precisa de você [enfática], você percebe que durante os primeiros dias, a neném não assim, acho que esse contato da mãe no começo é muito importante. Então [...] hoje, eu sou super a favor da licença maternidade e é duro não poder ficar em casa.” Diz ter sido muito dolorido Sim 3 e ½/M 3 e ½/M

    Beatriz Sim, contou com a ajuda da mãe 40 dias “Não foi adequado nem suficiente. Na realidade, eu tinha me planejado para ficar os 4 meses de licença, mas

    Malu Sim, contou com a ajuda da sogra Está usufruindo a licença de 6 meses 6/F “... agora parece, eu não tenho muita certeza, me falaram aí que agora já é lei, obrigatório a partir de março, não Considera que 6 meses é um período melhor tanto para a mãe quanto para o bebê e que para o acabou não sendo possível devido a um período conturbado na empresa [...] desenvolvimento do bebê quanto maior o contato físico com a mãe melhor sei.” Sim Manuela Está usufruindo a licença de 4 meses 3/M “... eu vou voltar a trabalhar agora e ele [bebê] não está pegando leite, sabe, são várias as coisas que você tem “Eu acho que [o período de 4 meses] não foi o suficiente porque agora [...] ele [bebê] está fazendo 3 meses [...] e daqui duas semanas eu tenho que voltar a trabalhar, então ele vai estar com 3 meses e meio.” Tinha uma outra funcionária que também saiu de licença [...] então eu tive que voltar antes....” “Eu acabei voltando antes e eu voltei com ela [bebê] junto. Assim, e minha mãe junto.” “E é aquela coisa, funcionário tem direito, patrão já não tem (risos).” Não

    1 e ½ /M previa ficar 3 meses em licença, mas acredita que vá assim, a licença quem está fazendo sou eu, então enquanto eu não trabalho, eu não estou recebendo, só vêm

    Milena Sim, contou com a ajuda da mãe 5 meses 11/M Júlia Sim, contou com a ajuda da mãe Está usufruindo licença maternidade e “... quanto eu sou abençoada de poder estar parando, por mais que como profissional autônoma, eu não tenho “E eu tinha que retomar [...] pela responsabilidade do meu trabalho, mas não era nada imposto, se eu quisesse Tinha uma liberdade maior por ser proprietária da escola onde trabalha que mudar e se eu não conseguir, entendeu.” ficar mais eu ficava.” Sim [bebê]. Talvez, eu fique os 4, não vou ficar os 3 que eu “Hoje, eu penso em retornar porque eu não tenho que retornar em período integral, talvez se eu tivesse que estava imaginando (risos), mas, provavelmente, eu “... por mais assim que pese o coração eu deixar ele [bebê] um pouquinho [ao retornar ao trabalho], também “Com certeza, eu não vou ficar 6 meses com ele dispondo a estar com ele, a estar cuidando dele.” fique os 4 meses para daí sim retornar.” sinto falta, quero rever os meus pacientes...” estender um pouco mais os gastos. Mas, graças a Deus, eu tenho a possibilidade de estar passando um tempo com ele, de estar me retornar para uma empresa, em período integral [...] talvez eu não retornasse, não sei.” 163

      164 Quadro 6. Licença maternidade ideal Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Licença maternidade (tempo ideal)

      Justificativa Joana 9/F

      6 meses Diz que teria prorrogado a licença se tivesse tido essa possibilidade. Gostaria de ter ficado mais 2 meses com a filha, mas como o bebê ficou com a sua mãe, considerou que não houve problema Acha que como mãe quanto mais tempo pudesse ficar com a criança seria melhor, mas como profissional considera que ficar muito mais tempo longe do trabalho não seria adequado Caso o bebê tivesse que ir para a escolinha, ela diz que preferiria ter tido mais tempo de licença para colocar a criança já maior na escola Refere que no final da licença maternidade chegou a pensar: “...’você é uma mãe má, estou deixando a minha filha na minha mãe’...” Natália 3/F 4 meses Acha que um período maior que 4 meses não é necessário. O principal seriam os 3, 4 primeiros meses de vida do bebê e considera que deixar o bebê para voltar ao trabalho, se separar do bebê será sempre difícil em qualquer idade da criança. “Eu acho que até os 3 meses é fundamental. Eu percebo [...] que agora [com 3 meses], ela já está em uma fase melhor que você já consegue deixar mais, você já consegue até conversar mais e ela já entende melhor.” “Acho que [...] os 3 primeiros meses são onde a criança realmente tem mais necessidade. Até, o pediatra sempre brincou que com 3 meses ia acabar o soluço, a criança ia dormir melhor, a rotina estaria criada [...] ela está com 3 meses e está com uma rotina ótima, já tem hábitos, já criou aquele vínculo, você já sabe o que ela quer, ela já tem a rotina dela, os horários dela, então acho [...] que se eu pudesse ficar aqui 6 meses seria ótimo, mas na hora de separar dela seria tão duro quanto aos 3 meses. Acho que ficar mais tempo não iria mudar isso.”

      Acha que o importante é se dedicar totalmente à criança no período em que ficar com ela “Eu já cheguei a ficar aqui em casa com ela aqui no carrinho, mas com um notebook no colo, um rádio e um celular. Aí eu falava assim ‘o que adianta eu ficar aqui em casa’”.

      Aléxia 3 e ½/M 1 ano “Ah (risos), é complicado. Agora, enquanto mãe assim, a gente quer ficar o máximo que pode, mas assim, vou ter que voltar a trabalhar. Se eu pudesse eu ficava com ele até 1 ano, se eu pudesse. Seria assim a minha vontade.” Malu 3 e ½/M 6 meses Considera que a licença maternidade de 4 meses não era suficiente, pois o bebê com essa idade ainda era muito novo para entrar na creche O período de 6 meses é bom “... para a mãe se organizar, ir se adaptando também, para já ir se preparando para a volta ao trabalho, então acho que é assim um tempo suficiente. Claro que para as empresas (risos) não é bom, porque terão essa funcionária mais tempo afastada do trabalho. Ah, mas são só dois meses a mais, acho que dá para conciliar.” Para o bebê “... acho que está bom também. Acho que aí ele já está maior para poder ingressar na escola, já está mais preparado, tanto o bebê quanto a mãe.” Beatriz

      6/F 4 meses Acha que 4 meses “... é um tempo para a família se adaptar [...] que o bebê já interage, reconhece mais os pais.” Acha que a prorrogação da licença de 4 para 6 meses “... é bom para as famílias, mas não é bom para as mulheres, pois algumas empresas não vão querer contratar mulheres por causa de mais 2 meses longe do trabalho. Para a empresa é um custo grande pagar alguém que não está trabalhando.” Manuela 3/M 6 meses Diz que se tivesse tido a possibilidade “... teria ficado os 6 meses. [...] antes de eu ficar grávida, eu achava que 4 meses era muito tempo [de licença] [...] quando eu estava grávida eu falava isso ‘como é que eu vou ficar 4 meses em casa, sem fazer nada, sem trabalhar, eu não vou conseguir’ [...] e agora a gente nem vê a hora passar [...] você acorda, faz as coisas correndo, a hora que você vê já acabou o dia [...] e 4 meses não é nada, não é nada para ficar com ele [bebê]. Eu acho super importante, se eu pudesse eu ficava mais mesmo.” A licença maternidade “... deveria ser até os 6 meses que agora foi liberado né. Concordo com isso porque dizem que você tem que amamentar o seu filho até os 6 meses...” Milena

      11/M 6 meses “Enquanto proprietária de escola eu acho que se essa lei dos 6 meses for rigorosamente para todos eu acho complicado. Mas, enquanto mãe é tudo de bom você poder ficar 6 meses, um pouquinho a mais com o seu filho, em tempo integral.” Eu acho assim os 4 primeiros meses são os mais críticos mesmo, talvez os 6 primeiros, até vai, até 6, mais do que isso, para mim é meio difícil assim você pensar nessa pessoa, independente de ser na escola, no caso, mas assim que trabalha, uma empresa sobreviver mais de 6 meses com uma pessoa afastada, ela vai continuar sobrevivendo sem entendeu. Então, faz falta eu acho...” “Hoje em dia, uma mãe, ela trabalha, ela tem o seu compromisso também, hoje em dia, a mãe dificilmente abre mão do profissional dela por conta até da necessidade, então mais de 6 meses eu acho complicado pensando em tudo.” Em sua escola, ainda não decidiram se concederão a licença de 6 meses às funcionárias que quiserem optar pela prorrogação da licença Júlia 1 e ½ /M 6 meses é o ideal para a mãe, mas não para a profissional autônoma “... eu acho que esse projeto [...] de licença maternidade de 6 meses, agora como mãe, eu acho que é super legal, para você ter realmente um tempo bom com a criança, tem a questão do aleitamento que a gente sabe que é importante, mas não sei se vai vingar isso, por já ter vivido o outro lado, o lado das empresas, eu não sei como vai ser. Eu acho que vai aumentar mais essa questão [...] das meninas serem mandadas embora porque quer queira quer não, a empresa está ali bancando aquela pessoa e não pode pôr ninguém no lugar [...] mas é complicado [...] pensando agora, é difícil, por mim, eu queria ficar com ele (risos) o máximo de tempo possível, mas...” “... se eu estivesse na situação anterior, que eu era funcionária de empresa e tal, a questão dos 6 meses eu acho que é muito legal. Você tendo garantias, claro que não é 100% garantido, porque [...] eu via que as meninas voltavam, tinham o período de garantia e depois elas eram postas, eram demitidas. Mas, hoje, eu vivencio uma situação diferente [...] em um trabalho autônomo, você para de trabalhar, você para de receber, então, por isso eu penso em retornar antes.” É complicado pensar nisso:

      “... mesmo [voltando a trabalhar] depois de 6 meses, [...] a Sociedade de Pediatria eles falam que o ideal era a amamentação até 2 anos de idade...”

      Quadro 7. Licença paternidade usufruída Entrevistada/ Licença paternidade Tempo usufruído pelo pai do bebê foi adequado? Idade (em (período usufruído pelo pai do bebê) meses) e sexo do bebê Joana 5 dias “Não, muito pouco (enfática) (risos). Se tivesse [um período] maior até ajudaria mais, assim, tanto ele para ajudar nos cuidados quanto para ficar 9/F com a criança também, porque acho que 5 dias o pai não consegue, acho que o pai tira esses dias só para resolver documentação, essas coisas, porque às vezes não dá nem tempo direito de ficar com a criança.” 3 e ½/M férias não tiradas), já que bebê ficou um período “... o pai poderia ter um pouco mais porque assim, às vezes, nem toda mulher tem uma mãe próxima, alguém [para ajudar] [...] Natália Não usufruiu... só pôde ficar no dia do nascimento Aléxia 10 dias (5 dias pela lei e mais 5 dias usufruindo de 3/F e no período da manhã dos dias posteriores. À tarde teve que trabalhar maior no hospital então, quer dizer, o marido é fundamental também nessa ajuda, principalmente, no pós, assim, por causa dos pontos. Principalmente quem faz cesárea, às vezes, tem um pouco mais de dificuldade, tem algum problema ou uma limitação, vamos dizer assim, e precisa da ajuda de uma Sim Não 3 e ½/M Beatriz Não usufruiu, não tirou nenhum dia. “Não, acho pouco tempo [5 dias] para ficar com a família. São muitas mudanças. Só para a mulher tirar os pontos, como eu que fiz cesárea, são Malu Não usufruiu, não tirou nenhum dia “... ele continuou trabalhando, ele não fez questão não, porque é dele o negócio.” 6/F “Não, ele também teve que trabalhar. Não deu 15 dias e a recuperação é um pouco mais demorada [...] nem todo mundo pode contar.” para se ausentar da empresa.” paternidade era de 1 semana cuidando do bebê, porque no começo você fica meio atrapalhada mesmo, muda um pouco, um pouco não, muda bastante a sua rotina (risos).” Achava que a licença pessoa. Às vezes, tem mulher que não tem uma irmã perto, não tem uma mãe perto e com isso acaba tendo uma certa dificuldade em estar Manuela Ficou 1 semana por conta própria “... não. Acho que deveria ser mais [que 5 dias].” 3/M “... não sei muita coisa [sobre licença paternidade] porque o [...] [pai do bebê] não é funcionário, ele Diz não ter informações sobre a licença não teve, ele tirou por conta própria.” paternidade 1 e ½ /M Milena 5 dias Júlia 5 dias 11/M Com o pai, é diferente [...] acho que ele precisa desse tempo para estabelecer um vínculo com a criança, que é muito importante para o pai e é “... se o pai pudesse ficar um tempo maior, porque assim, quer queira quer não, a gente como mãe está com o filho na barriga [...] existe um “Não saberia te dizer não sobre licença paternidade, não saberia (risos). Acho que é pouco divulgado, também acho que ninguém sabe...” 5 dias é bem pouco Acha pouco 5 dias vínculo já [...] muito importante para a criança [...] especialmente, no caso de um menino, porque depois vai ter toda a questão da identificação.”

      165

      Quadro 8. Licença paternidade ideal Entrevistada/ Licença Justificativa Idade (em paternidade meses) e (tempo ideal) sexo do bebê Joana 1 mês “Acho que daria até para o pai aproveitar a criança, porque recém-nascido, às vezes, é bem pequenininho, às vezes, o pai tem até receio de pegar.” 9/F Tem “... muitas vezes que ela [filha] não [...] vê [o pai], acorda ele já não está e aí ela também vai dormir e ele não está em casa. Então, acha que fica né, acho que tanto para o pai quanto porque [...] tem pai também que trabalha muito e que, às vezes, acaba [...] nem vendo [...] [o bebê] [...] acaba não tendo muito contato...” Seria adequado para a família em si e para a criança: “... para a criança, a presença.” Natália 5 dias

    3/F “Porque assim, é uma fase em que a criança dorme muito na verdade (risos). Então, quando ela acorda, o que ela quer? É a mãe para amamentar. É uma fase, principalmente o primeiro

    problema nenhum [caso o casal pudesse escolher quem ficaria com o bebê e pudesse ficar um período maior], o pai, de certa forma, estando disposto a cuidar da criança, porque, às vezes, o pai não faz muita coisa. Não tem como fazer muita coisa. Tem pessoas, tem mãe que acha que vai amamentar e que o pai tem que acordar de noite para ficar... sei lá, para mim é meio... “... eu sou muito apegada com a minha filha, não sei se meu marido ia... ele não gosta muito de cuidar. Eu acho assim tem pais que, de certa forma, se dispõem, eu acho que não teria mês, é uma fase em que a criança não fica acordada. É acordar para amamentar e dormir. Então, eu acho que é um período que, na verdade, o pai não pode... [...] acaba a criança tendo mais vínculo com a mãe pelo fato dos cuidados, às vezes, seria uma oportunidade do pai também participar mais.” Não vê necessidade da prorrogação de 5 para 15 dias

    3 e ½/M “... eu acho assim, 15 dias acho que já está... porque assim para quem faz uma cesárea, eu pelo menos, a minha recuperação, até mesmo antes de 15 dias eu estava bem já. Então, acredito

    Aléxia 15 dias que 15 dias, para uma mulher que não tenha ninguém perto, 15 dias de um apoio do pai já é, depois de 15 dias, a recuperação dela já está, a não ser que ela tenha um problema maior, mas percebe que ela já interage, ela já conversa... conversa assim do jeito dela, já conhece, mas nossa no primeiro mês, segundo mês a criança não tem essa... assim, ela interage com a mãe quem vai ter que acordar é a mãe [enfática], quem vai amamentar é a mãe. Eu acho que o pai entra em outras fases, acho que quando está maior, que nem agora com 3 meses você já se foi tudo bem, dentro da normalidade, para ela, um companheiro, marido, sei lá, ficar 15 dias acho que já está um tempo adequado sim.” É a favor da ampliação de 5 para 15 dias e considera interessante mesmo.” Manuela 1 mês 3 e ½/M Beatriz 15 dias “Acho que 15 dias já seria um período melhor para a família e para os bebês, acho que quanto mais tempo o bebê passa com os pais melhor. Mas não é bom para as empresas.” Malu 15 dias “Ah, eu acho que é mais justo para os pais. Os pais precisam se envolver mais com os filhos, para dar uma força, um apoio moral (risos) aí para as mães.” 3/M 6/F “... eu conheço gente e eu achava que era besteira esse negócio de depressão pós-parto, mas não é. Eu tive. [...] “... o primeiro mês é muito [enfática] difícil.”

      Eu chorava, só chorava, chorava, chorava. Eu fazia tudo [...] para [o bebê], mas eu sentia uma insegurança assim enorme, entendeu. E eu ficava sozinha e não queria que a minha mãe ou a “... nesse primeiro mês [...] a médica fala assim para você ‘olha, você não tem que especificar horário para ele [bebê] mamar, toda hora que ele quiser mamar, ele tem que mamar’, só que minha sogra fossem lá, eu queria que ele [marido] ficasse comigo [enfática] entendeu, eu precisava que ele [enfática] estivesse ali do meu lado. E com outras pessoas que eu conversei Relata o caso de uma amiga que foi auxiliada pelo marido que tirou 1 mês de férias para ficar junto com ela logo após o nascimento do bebê “Tudo bem que o homem, ele não sofre nada fisicamente, nem nada, mas é super importante estar ali do lado, sabe, ajudando...” “Eles ficaram esse 1 mês juntos [...]. Então, ele ajudou muito ela e ela se sentiu super segura.” também foi assim.” Milena 7 a 15 dias

    Júlia Mesmo período Marido teve férias coletivas umas duas semanas após o nascimento do bebê e “... eu vi o quanto foi importante, o quanto ele [marido] se envolveu, então eu acho sim que poderia ter [...]

    11/M assim esse ‘toda hora que ele quer mamar’ pode ser de meia hora, 40 minutos [...] e isso à noite também [...] então você fica que parece um zumbi e aí se você tem uma pessoa que, por exemplo, você dá de mamar e aí você dá o bebê para o teu marido, por exemplo, e ele faz arrotar e coloca para dormir [...] porque todo esse processo demora e aí você vai e dorme um Acha que 1 semana já seria bom para a mãe No máximo, a licença deveria ser de 15 dias pouquinho pra balancear um pouco.” 1 e ½ /M que o da licença nem que fosse 1 mês para o pai poder curtir essa criança, eu acho que seria bem legal, vale muito à pena.” maternidade ou, A ampliação da licença de 5 para 15 dias não é o que ela queria, mas é válida, considera já um avanço. Ela desconhecia o projeto de lei. ao menos, 1 “O meu marido com certeza [enfática], (risos) com certeza [gostaria de ter o mesmo tempo de licença que a mulher]! Ele brincava muito, ele queria que o neném nascesse em uma segunda- mês feira para ele poder ter os 5 dias e mais o final de semana [...] Conheço [...] alguns pais que não [gostariam], mas ele sim, com certeza.”

      166

      Quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus bebês Entrevistada/ Modalidade atual Justificativa para escolha da modalidade atual Modalidade Justificativa para escolha da modalidade prevista Idade (em de EI prevista de EI meses) e sexo do bebê Joana Bebê fica com a avó Não discorda de nada da educação que recebeu da mãe Bebê freqüentará Para a criança não ficar sozinha, interagir com outras crianças, aprender a dividir, se desenvolver, ter 9/F materna na casa dos Mãe [avó materna do bebê] dá carinho e limite, confia na mãe creche pública em estímulo, fazer atividades porque, às vezes, em casa com a avó ou com a mãe, não se sabe quais Mãe vai ver o bebê meses até ela [filha] ficar um pouco maiorzinha [para depois ir para Integrada], em sentado, em pé) na hora do almoço a creche].” período integral Liberar os avós do cuidado avós Avó materna se ofereceu para cuidar São Caetano atividades desenvolver com a criança e não se estimula suficientemente “... eu gostaria que ela [filha] ficasse pelo menos nos primeiros [Escola Municipal Na escola tem mais atividade de recreação, brinquedos do que em casa (criança aprende a ficar também Todos estavam de acordo na família Pensou em colocar somente meio-período, mas o que atrapalharia seriam as férias em janeiro e em Avó materna providenciou toda uma estrutura para receber o bebê julho, por isso optou pelo período integral tem bercinho, [...] tem carrinho, tem mamadeira, tem tudo o que custo-benefício. Foi conhecer e percebeu que os cuidados são praticamente os mesmos tanto na Considera o cuidado oferecido pela mãe como de melhor qualidade do que seria oferecido em uma escolinha “Minha mãe montou lá (risos) um berçário (risos) [...] Creche particular custaria em torno de R$ 900,00 por mês, custo elevado a está fazendo optar pelo precisa, roupinha, [...] brinquedinhos...” pública quanto na particular. Além disso, ouviu também comentários positivos sobre as creches públicas de São Caetano Natália Bebê fica com uma “... foi uma coisa que a gente sempre planejou, ‘ah, quando eu Vai manter a Bebê e babá se adaptaram muito bem 3/F babá em casa, que ficar grávida, vai ter que ter uma pessoa’. modalidade atual “Acho que não existe uma receita, se eu deixasse com a [...] [primeira] babá, eu jamais deixaria ficar “... com 4 meses, o nenezinho fica muito sensível aos cuidados de Com 4 meses a criança ainda é muito pequena para freqüentar Avó materna adora cuidar do bebê quem está com ele...” creche

    Mãe faz questão de escolinha nem pensar.” com a babá até 1 sendo você, você muda conforme... não tem receita, não é fácil.”

    integral e dorme na Queriam alguém de confiança do jeito que está, comigo para a escola, para o meu trabalho. Eu, com certeza, iria colocar ela [bebê] na escolinha antes alguns momentos: estar presente em A única obrigação da babá é se dedicar integralmente ao bebê ano, 1 ano e meio Tem condições de pagar uma pessoa para ficar período integral e acha que é o ideal trabalha período Considera que essa opção foi adequada para eles Se tudo continuar aqui sozinha, não que ela não fosse boa, mas porque eu não ia confiar, então [...] [bebê e babá] iria quando a bebê casa “... a gente achou que escolinha não era o ideal. Até os 6 meses, bebê deverá ficar do que eu acho que vou colocar ela ficando com essa babá atual. Então, [...] é tão cada caso. Mesmo a bebê com a babá Não irá mais levar mamada, na primeira acorda, na primeira troca, na hora do banho havia planejado para o trabalho anteriormente dela, como

      167

      Continuação quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus bebês Entrevistada/ Modalidade atual Justificativa para escolha da modalidade atual Modalidade Justificativa para escolha da modalidade prevista Idade (em de EI prevista de EI meses) e sexo do bebê 3 e ½/M maternidade com o Aléxia Mãe está em licença Licença maternidade de 6 meses No meio-período Irá procurar uma pessoa com certo preparo e conhecimento para ficar com o bebê Pais e bebê moram na casa da avó bebê em casa materna o bebê ficará com com o bebê, fará questão de, por exemplo, dar banho no bebê voltará a trabalhar, Quer ficar com o bebê durante o meio-período em que não trabalha, quer manter o vínculo e o contato em que a mãe Se tivesse atendimento meio-período em creche pública deixaria o bebê na creche confiança em casa Conversou com a família sobre a decisão uma pessoa de Avó materna não trabalha fora ficar com o bebê isso, mas não para ela ter o trabalho, seria mesmo só para ela estar supervisionando...” vencimentos para Então, ela ficaria mais assim só acompanhando mesmo o dia-a-dia dele, enquanto eu não estou, só de licença sem estar com essa pessoa mesmo, porque queira ou não, a gente quer ter uma pessoa de confiança perto. Ou mãe usufruirá porque ela já cuidou da gente, dos seus filhos, então, na verdade, é mais ela estar próxima, para ela da avó materna. “...eu não vou deixar nas costas dela, de eu falar ‘ah, ela vai cuidar’, primeiro porque eu não acho justo, sob a supervisão Avó materna não se ofereceu para cuidar, mas aceitará a decisão da filha “...primeiro eu vou ver se eu consigo alguém, se eu não conseguir, deixar em período integral só se eu 3 e ½/M maternidade com o qüinqüênio creche pública marido não gostaria de pagar creche particular

    Malu Mãe está em licença Licença maternidade de 6 meses acrescidos de férias e Bebê irá para a Conversou com o marido e ele está de acordo que o bebê vá para a creche pública. Relata que o

    bebê em casa Integrada] em São [Escola Municipal realmente não puder ficar um período sem receber, mas se der, se a gente perceber que dá [...] para a gente ficar um certo tempo sem o salário tudo, aí eu posso até solicitar essa licença [sem vencimentos]...” Caso não consiga com 7 meses e 20 período integral vaga, bebê irá Caetano em para creche dias Beatriz Família leva o bebê Mãe tinha planejado ficar os 4 meses em licença maternidade e Vai manter a “Acho que eu quis tanto que ela nascesse que seria muito triste se eu não pudesse ficar com a minha 6/F para o trabalho, para mais alguns meses em casa com o bebê, mas isso não foi possível modalidade atual filha.” avós maternos estou lá, o pai está lá e os avós também.” família onde pais e porque há espaço lá para ela e seria ótimo ela ficar por perto. Eu propriedade da que a melhor opção seria levar minha filha para o trabalho, até

    a empresa de Foi meio que um consenso entre eu, meu marido e meus pais Não pretende colocar o bebê em creche antes dos 2 anos

    particular avó materna precisar eu fico’.” sob os cuidados da “Todo o tempo, ela [avó materna] diz ‘pode deixar que eu fico, se trabalham. Lá, fica Avó materna adora ficar com o bebê

      168

      169 Continuação quadro 9. Sobre as escolhas atuais e previstas em termos de modalidades de educação e cuidado para seus bebês Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Modalidade atual de EI Justificativa para escolha da modalidade atual Modalidade prevista de EI Justificativa para escolha da modalidade prevista Manuela 3/M Mãe está em licença maternidade com o bebê em casa Licença maternidade de 4 meses Bebê ficará com a avó paterna na casa dos avós Mãe pensa em colocar o bebê na creche quando ele já estiver com 1 ano, mas não sabe se será na pública ou na particular Decisão de deixar o bebê com a avó paterna foi influenciada pela idade do bebê, pela opinião da pediatra “... que entende super do assunto...”, pelo fato da sogra não trabalhar e ter mais disponibilidade e pelos avós terem se oferecido para cuidar do bebê “... ela [sogra] ama [enfática], ela vai adorar, ela está super feliz que ele [bebê] vai ficar com ela.” Antes dos avós se oferecerem, pensavam em colocar o bebê na creche particular Pediatra falou que com 4 meses é muito cedo para o bebê ir para a creche Casal conversou sobre a decisão Casal acredita que vai economizar cerca de R$ 1500,00 por mês não colocando o bebê em escola particular Gostaria que tivesse creche no local de trabalho Se tivesse uma creche lá, aonde eu trabalho, se tivesse um berçário, alguma coisa assim, eu levaria ele junto [...]. Eu deixaria ele lá, aí parava, dava mamá, [...] Eu trabalho 6 horas, mas se eu pudesse fazer isso, eu trabalharia até mais, porque eu ficaria um período maior lá para compensar o horário da mamada e o horário que eu estou trabalhando. Eu acho que é importante, acho que deveria ter. Mas, não é, não são todas que têm, não sei nem se tem em alguma.” Milena 11/M Fica com a avó materna na casa dela durante parte do dia e depois fica com a mãe que reduziu sua carga horária no trabalho para poder ficar outra parte do dia com o bebê Não quis colocar o bebê na creche para evitar que o bebê ficasse doente, pois “.... as crianças têm mais probabilidade de ficar doente [na creche] sim do que ficando em casa.” Pais dos bebês usuários da escola de sua propriedade questionam porque o bebê dela não está freqüentando e ela alega que é mesmo para evitar que o bebê fique doente Avó materna trabalhava na escola particular da filha e saiu “de licença” junto para acompanhá-la Pela idade da avó materna, considera que seria mais sossegado para a avó ficar cuidando do bebê mais um tempo do que retornar ao trabalho na escola. Avó pensa em retomar o trabalho na escola quando o bebê começar a freqüentá-la Avalia positivamente o cuidado da avó materna “... eu falo ‘vou levá-lo para a escola [...]’ e ela fala ‘espera o aniversário de 1 aninho’, então ela é muito mãezona nesse sentido...” Bebê passará a freqüentar a creche/escola particular de propriedade da mãe quando estiver com 1 ano. Ele frequentará por algumas horas diárias, pois ainda ficará parte do dia com a mãe que manterá a redução em sua jornada de trabalho “... já era para eu ter trazido [o bebê para a escola] [...] fui protelando, aí ele [bebê] ficou doente [...] mas já passou da hora de vir para a escola...” “... nessa idade de 1 ano eu já acho necessário mesmo [colocar na creche]. Hoje em dia, a criança, porque assim os avós eles já começam a não ter a disponibilidade física, há um cansaço, a gente se cansa [...] quem dirá os avós. Então, acho que é o tempo certo, 1 aninho já está maiorzinho tudo, mais fortinho, eu iria realmente já procurar [uma creche, caso não fosse proprietária de uma].” Júlia 1 e ½ /M Mãe está em licença maternidade com o bebê em casa Mãe pretendia ficar em licença maternidade por 3 meses, mas está pensando em estender para 4 meses Bebê deverá ir para a creche pública ou particular aos 4 meses, quando a mãe retornar ao trabalho Conversou bastante com o marido sobre a escolha das modalidades de educação e cuidado Relata valorizar que o bebê seja estimulado e acreditar que as pessoas que atuam nas creches estejam mais atualizadas, passem por reciclagem e treinamentos, já que é o trabalho delas Expressa valorizar também que o bebê tenha contato com outras crianças, mas, apesar disso “... pesa o coração de deixar [o bebê na creche], você fala ‘poxa vida, tão novinho, será que vão cuidar direito?’, dá uma certa insegurança sim.” Avó materna mora longe Pretende encontrar uma creche que acompanhe a flexibilidade dos seus horários de trabalho, para que ela possa ficar parte do tempo com o bebê e para que ele não fique em período integral

      Quadro 10. Concepções sobre creche e escola Entrevistada/ Como se refere Concepções Idade (em às instituições meses) e de educação e sexo do bebê cuidado para bebês? (Além da utilização da Joana Escolinha “... para mim [...] é uma escola, é uma escolinha, que nem é uma escola só que para crianças que, de certa forma, vão ficar período integral [...] na cabeça, está mais escola do que creche.” 9/F Escola “... nunca liguei e perguntei ‘ai, deixa eu ver uma creche’, porque normalmente as escolas tanto que as EMIs [Escolas Municipais Integradas de São Caetano do Sul] eles não falam que são palavra creche) creches, são as escolas municipais e as escolinhas também, é uma escola que, de certa forma, o pessoal tinha para primário, jardim, prézinho e eles abriram pras crianças, para os bebês em Acha que creche seriam só os cuidados básicos com a criança, escola já desenvolveria mais atividades do que a creche período integral, acho que é essa diferença, por isso é que eu acho que é o fato de escola e não creche.”

      Natália Escola 3/F Berçário “Eu acho que a diferença não é de nome, acho que tem escolas que se você for pôr talvez sejam piores que uma creche. O que eu acho é que se você optar por colocar em uma escola ou em Escolinha uma creche você tem que conhecer as pessoas que trabalham lá, qual é assim a condição realmente do lugar e eu acho que quando eu falo escola, querendo ou não, assim tem escola que quando eu penso em uma escola eu penso assim em uma escola particular, mesmo particular, mas em uma top. Porque a gente sabe também que tem escola particular que a gente paga R$ escola, eu penso em uma escola top, então aí assim que tenha, realmente, todas aquelas condições principalmente as pessoas qualificadas, tenham um outro salário, que tenha os melhores 500,00 para ficar lá período integral e que talvez seja pior que uma creche. Então aí, não é nem o termo creche ou o termo escola, o problema não é esse. É que quando eu penso em uma você paga R$ 500,00 que vai ser pior, talvez, que uma creche [...] Chama de creche o que é público e de escola o que é particular

    3 e ½/M Escolinha “...uma escola específica para bebês, não é só uma creche, porque eu acho que não é só o cuidar, acho que também tem o educar, porque cuidar a gente acha que é só mesmo a parte de

    Aléxia Escola “[...] na verdade, a gente [em São Caetano] nem fala muito creche mais, na verdade é como se fosse uma escola mesmo, a pré-escola, mas aí a gente fala ‘de 0 a 6 anos’...” “[Creche] eu acho que é um lugar onde você... que tem cuidados com a criança. São lugares que têm, geralmente, psicólogos, orientadores que se dedicam para as crianças. Eu acho que são bons lugares, com certeza, tem bons lugares [...] A única coisa que eu acho é que lá ou em qualquer outro lugar não tem assim dedicação, é muita criança e poucos profissionais talvez. profissionais. Então assim, talvez se você comparar uma creche pública com uma escolinha que a gente fala de bairro, talvez não tenha diferença nenhuma.” Poucos que eu falo é que hoje o importante seria assim uma criança para cada [adulto]”. 3 e ½/M Beatriz Escolinha “... acho que creche é pública e escola é particular. Mas, EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil] também é escola e é pública. Não sei, acho que a diferença é mais [...] só uma questão Malu Escola “... eu não gosto de usar essa palavra creche, eu prefiro usar escola [...] Escola de educação [enfática].” 6/F Escola Usa o termo berçário somente relacionado à faixa etária de atendimento dentro da creche/escola Se refere ao fato de em São Caetano as creches públicas serem denominadas escolas higiene, alimentação e o educar não, engloba tudo também.” de nome.” Manuela Escola “... acho que é só por maneira de falar mesmo, acho que não tem [diferença] [...] nunca parei para pensar nisso [se teria diferença entre um termo e outro].” 3/M Escolinha Berçário escolinha particular, então deixam na creche. Que o certo seria a gente não ter que pagar também, eu acho que deveria ter [...] cuidados de acordo, sem ter que ficar... porque a gente já paga Creche pública: “... onde você possa deixar seu filho que seja cuidado e isso daí é pago pelo Governo, no caso, a Prefeitura. Pessoas que não têm possibilidade, às vezes, de deixar em uma tanto imposto no nosso país, então eu acho que toda mulher que pretende ter filho, não tem com quem deixar e pretende continuar trabalhando, deveria ter direito a uma creche de acordo.” “... na creche, talvez, como tem mais gente [não é só uma pessoa como no caso de uma babá], então se tivesse algum problema [no atendimento do bebê] é mais fácil de você perceber.” Chama as creches municipais de escola

    1 e ½ /M Berçário A creche serve para: “... acho que é isso, é a questão da mãe ter onde deixar para poder continuar a sua vida profissional, mas também um local de cuidados da criança, não só os cuidados

    Milena Escola “É assim, a creche, para mim remete mais ao público. Escolinha é mais o particular. Eu acho que isso está posto (risos) né.” Júlia Centros “... acho que se você fala em berçário dá aquela impressão de uma coisa mais bem cuidadinha, com os estímulos, brinquedos, enfim com mais cuidado [do que creche]”. 11/M Escolinha A creche serve para: “Uma creche é para atender a criança nos seus cuidados, nas suas necessidades, nas suas peculiaridades, enfim no atendimento, no cuidado e na educação também, tem esses dois lados, a parte da segurança emocional, física, cuidado com tudo isso e a parte mais relativa também à educação como se estabelecem as relações, a questão do currículo, Usa o termo berçário somente relacionado à faixa etária de atendimento dentro da creche/escola acho que é uma soma aí. Creche é tudo (risos).” Escola básicos [...] mas de ter um estímulo, ter algo a mais, não ficar só nos cuidados básicos. E um conforto e uma segurança para a mãe que precisa retornar ao trabalho.” 170

      171 Quadro 11. Quando o bebê deve começar a freqüentar a creche Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Qual a idade ideal para um bebê freqüentar a creche?

      Justificativa Joana 9/F

       9, 10 meses ou 1 ano “...eu acho que assim com 9, 10 meses ou 1 ano porque eu acho que a criança, eu vejo pela minha filha, não sei, porque cada criança também anda num certo período, pra mim, ainda mais que eu trabalho fora, eu acho que a partir dos 8 meses que [...] a criança já consegue entender, [...] que ela reconhece já os pais, eu acho que é uma idade boa porque [...] você já consegue perceber muito assim se ela não gosta da pessoa ela já reage, que nem vai no colo de fulano, se for na escolinha, a criança de certa forma já reage, ela vai para o colo, se ela não gosta ela já chora, não quer, então você já consegue acho que perceber na criança se ela, de certa forma, está sendo bem cuidada ou não.”

      Natália 3/F “Eu acho que a partir de uns 2 ou 3 anos.” Com 2, 3 anos o bebê já teve uma base da educação, um aprendizado em casa com a mãe ou com uma pessoa de confiança: “... ele vai começar a se virar sozinho, mas os principais passos foram dados em casa.”

      “Eu acho que até 1 ano, eu acho que uma escolinha não é o ideal.” Aléxia 3 e ½/M

      “... com 1 ano, 1 ano e meio mais ou menos [...] até com 2 anos eu acho que eu colocaria...” Antes de 1 ano não colocaria o bebê na creche

      “... se uma criança entra na escola com 1 ano, ela já vai levar para a escola uma bagagem muito maior do que um bebê que entra aos 4 meses em uma creche porque ele passou só 4 meses com a família, então a partir dos 4 meses ele já vai ser inserido em uma outra sociedade que é a escola e uma criança de 1 ano, vai 2 anos, ela já tem uma vivência daquele período...”

      Malu 3 e ½/M “... acredito que com 6 meses já seja o ideal...” Com 4 meses o bebê é muito novo e mães ficam com dó de colocar na creche Beatriz

      6/F “Com 1 ano eu acho que seria o ideal...” Mas, pensa em colocar sua filha somente lá pelos 2 anos na creche

       “... quando a mãe trabalha e não tem com quem deixar, a creche, eu não sei a partir de que idade, não sei te falar com quantos meses a criança já pode ir para a creche...” “... fica complicado porque eu acho que o bebê é muito pequenininho [com 4 ou 6 meses] para você deixar com alguém, eu... se eu fosse deixar ela na creche assim, eu ia sentir muito...”

      “Acho que daí [com 2 anos] não sacrificaria muito ela e já seria melhor, aí ela já estaria falando e poderia me contar se acontecesse alguma coisa.” Manuela 3/M

      1 ano Relata que o pediatra disse que com 4 meses o bebê é ainda muito novo para ir para a creche Pretende colocar seu bebê quando estiver com 1 ano e no verão para evitar doenças Milena 11/M

      A partir de 1 ano “... agora você [...] fez uma pergunta difícil, porque assim (risos) eu estou nesse impasse. Você vê, a escola é minha, e eu já poderia ter trazido, não trouxe, por quê? Porque assim se a gente for ver, a partir dos 4 meses da licença tá, [...] até 1 aninho [...] o sistema imunológico está sendo formado. E é onde eles ficam mais doentes, mais, então isso me assusta um pouco realmente antes de 1 ano [...] em termos de saúde, a fragilidade até 1 aninho eu acho muito grande..”

      Júlia 1 e ½ /M “Ai, que pergunta difícil! Não sei...” “Acho que no mínimo, no mínimo, com uns 6 meses, mas com ele mesmo[seu bebê] eu acho que eu não vou conseguir cumprir isso que eu estou te dizendo, acho que ele vai antes de ter 6 meses, então é complicado.”

      “... porque [...] acho que depende muito [...] mais da necessidade até da mãe de voltar a trabalhar...”

      172 Quadro 12. Creche de boa qualidade X creche de má qualidade Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê O que considera como uma creche de boa qualidade? O que considera como uma creche de má qualidade? Joana

      9/F Ambiente adequado, local para a criança dormir, número de adultos para cuidar, se a criança fica muito tempo sozinha, alimentação, se tem regras, limpeza, se não tem perigo, se tem horário flexível que se adéqüe ao horário de trabalho da mãe “... é uma preocupação geral com quem está cuidando, como é a relação com a criança e o ambiente.” Tem que ter atenção “... de certa forma, a creche tem que tentar se adaptar [à criança, aos seus costumes] [...] o profissional tem que, de certa forma, respeitar essa coisa da criança e impor uma rotina e desenvolver atividades [...] ‘olha, vamos comer, está na hora’ e também respeitar a criança, vamos supor, ah, se a criança ficou com fome um pouco antes, não vai deixar a criança passar fome, acho que é neste sentido de cuidar, respeitar a criança, mas também impor limite para a criança também já ir aprendendo os horários, os limites.” Uma creche com muitas crianças para poucos adultos cuidarem Não pode haver áreas muito separadas no ambiente para não se perder o controle do que está acontecendo com as crianças Natália 3/F “Eu acho que ela tem que ter bons orientadores [...] acho que tem que ter atendimento... tem que ter um psicólogo, um pedagogo, se possível, assim uma enfermeira de primeiros socorros, essa preocupação de educação, de levar em escola, trazer da escola, uma excelente alimentação conforme a idade da criança [...] para ser uma boa creche deveria ter limpeza, aposentos para a criança poder dormir [cantinho de cochilo], limpeza, higiene [...] orientadores [...] de ter alguém que brinque com eles nessa parte de educação [...] Eu acho que praticamente para uma criança é isso, brincar, comer e dormir [...] [ter uma] alimentação adequada com uma nutricionista porque o que uma criança de 1 ano come não é a mesma coisa que outra come. Aquela coisa de forçar a comer fruta... imagina se em uma creche eles vão né, mas deveria.” Ter profissionais especializados, capacitados “... eu acho que é importante nessa fase um por um [um educador para cada bebê] e é lógico é humanamente impossível em uma creche ter isso.” “Eu acho que é uma que não tenha nada disso (risos) [do que a creche tem que ter para ter qualidade]. Um lugar onde você simplesmente largue, um lugar em que você deixe seu filho, que vai ter alguém lá para pegar seu filho e depois para te devolver às 5 da tarde, mas que não tenha uma boa alimentação, que não tenha uma higiene, que não tenha cuidados básicos...” Aléxia 3 e ½/M Considera as creches públicas de São Caetano como de boa qualidade “... a gente que conhece, gente que trabalhou, a gente que estudou, que fez magistério, fez pedagogia você olhando, você entrando em uma escola e vendo o espaço físico, você já percebe, ‘ah, é um lugar que está preparado’...” Creche de qualidade tem transparência, mostra o trabalho que desenvolve com a criança, porque isso inspira confiança nos pais “Se você sabe o que está sendo feito com o seu filho, você confia.” Creche de qualidade tem qualidade de ensino, “... pessoas especializadas, preparadas para cuidar de um bebê tanto fisicamente quanto mesmo na parte de educação...”, pessoas com comprometimento, qualidade de alimentação (não tem restrições por falta de comida), qualidade na parte física e de higiene Que não tenha profissionais capacitados e nem alimentação de qualidade Avalia que algumas creches particulares não têm estrutura adequada: “... Para o pai que é leigo, [...] [para uma] pessoa que não entende do trabalho com a criança, às vezes, vê o bonito e acha que é uma escola de qualidade, não está preocupado com o que vai ser passado para a criança, o que vai ser ensinado. O trabalho feito tem que ter aquela transparência [...] se o pai quiser conhecer o trabalho do professor, se o pai quiser conhecer o trabalho do dia-a-dia da escola [que ele possa chegar ] em um determinado horário e falar ‘eu quero ver como é o trabalho’ [...] aquela escola que não tenha [qualidade], ela não permite esse acesso, assim essa abertura para os pais para conhecerem...” “Se você não sabe [o que está sendo feito com o seu filho], você desconfia.” “... muitos pais colocam [as crianças em algumas escolas sem qualidade] porque, às vezes, não têm conhecimento e não sabem o que precisa ter ou não para ter uma escola de qualidade [...] a gente conhece pais [...] que, às vezes, não sabem, enfim, para eles tanto faz, eles precisam de um lugar para deixar o filho e muitos, [...] não estão preocupados em saber o que é ou o que não é. Outros não [enfática], outros querem sim conhecer, querem saber...” Alguns pais colocam o bebê “... na particular porque ‘ah não, meu filho estudou na particular’, faz questão, às vezes, até de falar o nome da escola para gerar um certo status. Tem gente que ainda pensa nisso, não pensa na qualidade, pensa no status.” Malu 3 e ½/M Número de crianças não tão elevado e uma proporção adequada de educadores para cuidar das crianças, boa alimentação, limpeza, higiene, envolvimento e respeito no atendimento “... que as pessoas não estão treinadas, preparadas para cuidar dessas crianças, para educar, não tem higiene, não tem limpeza, alimentação ruim, precária, então isso daí não tem nem condições. [...] Número muito grande de crianças para poucas pessoas cuidarem...” Não ter apoio maior dos governantes, dos políticos e ter que depender de doações

      Continuação quadro 12. Creche de boa qualidade X creche de má qualidade Entrevistada/ O que considera como uma creche de boa qualidade? O que considera como uma creche de má qualidade? Idade (em meses) e sexo do

    Manuela Uma creche onde não tenha acontecido nada com os bebês, que não tenha tido acidentes Não ter pessoas capacitadas, não ter um ambiente legal, ter muitas crianças para poucos

    Beatriz Proporção adulto/criança adequada, atenção com as crianças, boa alimentação, higiene e limpeza “... ter poucas pessoas para olhar as crianças [...] não sei quantas pessoas que daria para

    bebê

    6/F Tem que ter pessoas qualificadas que gostem de cuidar de criança e que tenham paciência para dar toda a atenção e o cuidar de um bebê. Aliás, uma pessoa para quantos bebês. Acho que ficar uma pessoa

    cuidado que a criança precisa sobrecarregada, a alimentação não ser de acordo, o lugar onde a criança fica também não ser limpo, pessoas que não sejam qualificadas para cuidar, porque, às vezes, a pessoa trabalha naquilo, mas não leva nenhum jeito para cuidar de criança...”

    Milena O espaço é primordial. Onde a criança vai ficar, limpeza, umidade, luminosidade. Algumas escolas não têm isso “Uma creche de má qualidade? É o oposto de tudo isso que eu falei [de uma creche de

    11/M “Não procuraria também uma escola muito grande pra essa idade de 1 aninho, 1 ano e meio porque eu assim, a gente qualidade], mas assim que realmente não respeite a criança na sua fase de 3/M Tem que ter “Pessoas qualificadas para cuidar de bebê [...] Além disso, o lugar eu acho que tem que ser muito legal, um profissionais cuidarem “... acho que é importante ter, sabe, não só deixar o bebê no berço, por exemplo, [...] colocar assim ao ar livre...” Tem que ter uma proporção adequada de crianças para cada adulto lugar aberto sabe, o espaço com bastante brinquedo colorido...” Não pode ser um lugar escuro bem recepcionada, como vai ser o relacionamento no dia-a-dia com a creche, acolhimento. Se o ambiente for legal, se quer que a criança se perca no mundo, embora a realidade de São Caetano é muito diferente, ou seja, para quem tem necessidades, dos seus interesses, do que ela precisa, que só fique realmente nos dinheiro, a estrutura, a mega estrutura, a coisa bonita, grande, o status disso é muito valorizado pelos pais, muito mais cuidados físicos, quer dizer, de estar assim [...] com sono em ordem, bem alimentada, bem se assemelha muito à clientela que eu atendo, classe média no sentido assim e meio protetora, então, quer dizer, não desenvolvimento e que não avalie, não tenha esse olhar para a criança, das suas Prefere um lugar aconchegante, com condições físicas adequadas e o acesso às pessoas, um bom atendimento, se é ela se sentir bem acolhida, acha que seu filho também será. do que o pedagógico. “ cuidada fisicamente. Que não tem uma preocupação com o emocional, com o afetivo.” pagando você tem tudo de bom e mais um pouco assim, o critério mensalidade ele é relativo porque não é aquele custo Que tenha preocupação pedagógica, que pense em ações que proporcionem o brincar, a brincadeira simbólica, que a “... eu, de classe média, não procuraria também uma escola com uma mega mensalidade achando que também você fixo que você tem no mês, existem as despesas todas extras que você tem...” Mensalidade cara não necessariamente indica que a creche tem qualidade Valoriza isso mais do que se a creche tem psicóloga, por exemplo criança possa ser criança

    1 e ½ /M Convívio com outras crianças criança não têm orientação, não têm respeito, que acabam judiando da criança, que não

    Júlia Tem que ter estímulo, não só cuidados básicos Muitas crianças em um mesmo berço, que as pessoas responsáveis pelo cuidado da

    criança em cada ano, para se garantir a continuidade, preocupação com a forma de avaliar, troca entre as professoras. Que discuta questões específicas, os problemas, tem que ter circulação de informações sobre as turmas, sobre cada cadeirinhas super legais que a criança meio que se mexe e a cadeira balança, então ela mesmo se embala ali e com crianças ficam sozinhas e se machucam “... tem que ter toda uma infra-estrutura, então tem que ter um berçário para ele ou uma cadeirinha, hoje tem umas trocam a fralda, não tem cuidados básicos com a higiene, com a segurança, locais onde as Ela acredita que nem sempre se tem essa preocupação pessoas responsáveis ali, a criança não pode ser largada porque a gente sabe que [...] as crianças já se mexem muito brinquedinho [...] tem questões que acho que são mínimas, da questão de higiene, de segurança, então tem que ter mais cedo hoje, então assim, tem que ter toda essa questão de cuidado para a criança não se machucar, enfim, a questão da higiene que eu acho importante e da alimentação, e essa questão dos estímulos, de ter essa parte emocional, de ter um convívio bom...” 173

      Quadro 13. As rotinas de bebês em casa e na creche Entrevistada/ Rotina de um bebê em casa Rotina de um bebê na creche Idade (em meses) e sexo do bebê Joana Dorme depois do almoço Mesmo padrão que é seguido em casa e que é também o que o pediatra indica 9/F Pela manhã fica mais no carrinho, não brinca muito “... nas creches que eu vi eles respeitam o horário de dormir da criancinha...” “... nas creches, acho que é o padrão, para a idade dela, eles seguem a mesma rotina. É bom porque ela não vai sentir tanta diferença.” Dormem depois do almoço 11h almoço

    Natália “... ele acorda, tem os horários [...] de cada 3 em 3 horas a mamada, troca, tem o horário de ficar acordado um Em uma creche, em uma escolinha é mais difícil conseguirem realmente respeitar as 3 horas de

    3/F pouquinho, que ela já está ficando acordada um pouquinho, que é a hora de brincar, então assim a gente segue intervalo entre uma mamada e outra, talvez o bebê tenha que aguardar um pouco pois há outros

    muito rigorosamente esse negócio de 3 em 3 horas [...] a gente dá banho à noite, às 19 horas, aí ela dorme, já bebês sendo alimentados, então “... está dormindo até às 8 horas da manhã seguinte, então assim, essa rotina é muito certa aqui em casa.” para um bebê, esses 15, 20 minutos fazem diferença e a próxima mamada, o intervalo não vai “Na escola, eles têm mais atividade [de recreação] porque eles têm lá os brinquedinhos, que aí desenvolve até para aprender a ficar sentadinho, em pezinho...” 14h30 mamadeira

    3 e ½/M praticamente para cuidar do bebê e é só dele [...] por mais que tenha um outro filho [...] mais velho [...] mas não é atenção, o mesmo cuidado então [...] você não consegue, o bebê não vai ter atenção 100% de

    Aléxia “... em casa, a mãe só tem mesmo o seu bebê [enfática], então assim ela tem atenção, tem tempo integral “... em uma creche não, são vários bebezinhos da mesma faixa etária que exigem a mesma

    “... eu percebi que essa rotina que tem em casa é importante, foi muito importante para ela. Você consegue dar as ser de 3 horas, vai ser de 2 horas e meia, já não mama como deveria mamar...” mamadas nos horários certos, mama melhor...” “Eu acho que em uma creche, em uma escolinha, a pessoa não tem muito tempo de ficar se um outro bebê...” um profissional porque, às vezes, o profissional tem que cuidar de um, depois tem que cuidar de dedicando, enquanto ela está olhando um, a outra está dormindo e, às vezes, faltam 10 minutos para acabar de dar de mamar para uma, o que eu acho que é normal...” 3 e ½/M coisa, tem dia que faz outra (risos), então acaba virando uma bagunça, você não tem aquela rotina.”

    Beatriz “Sei que a cada 3 horas você tem que dar de mamar para o bebê, tem que dar fruta, que nem no caso dela que já “A rotina da creche eu não sei te falar porque não sei como funciona, não sei quantas pessoas

    Malu “Em casa, a gente não tem horário para nada (risos). O meu filho não tem horário para nada, tem dia que faz uma “[Na creche] tem toda aquela rotina a seguir, então não é bagunçado, é mais organizado.”

    “[Em casa] não tem muito horário fixo, não tem muita disciplina...” outro e ele não vai ter atenção, então para ele [bebê] é diferente...”

    Manuela “... a rotina dele na minha casa é isso: mama, come, dorme, toma banho e assiste TV, é isso o que ele faz. E “Agora, na creche, acho que nessa idade, não seria muito diferente, porque ele não faz mais

    3/M brinca um pouquinho...” nada que isso [...] Agora, mais pra frente, acho que ele vai brincar bastante, fazer amizades,

    6/F está comendo fruta, papinha...” bastante também na internet, então eu tento seguir, mas durante o dia a gente tenta dar banho de sol nela quando ela tem a atenção da gente todinha para ela. Uma criança na creche não vai ter atenção todinha tem sol, a gente tem lá um espaço, um quintalzinho, às vezes ela toma sol, toma suquinho de manhã, mamadeira, para ela.” “... a rotina dela assim, eu tento seguir o que o pediatra fala para mim e assim também o que eu acho, eu leio “... eu acredito que não [seria diferente se ela estivesse na creche]. É lógico que com a gente, depois na hora do almoço papinha...” para cuidar de quantos bebês...”

      “... eu não estou conseguindo dar suquinho...” bastante amiguinhos...” 174

      Continuação quadro 13. As rotinas de bebês em casa e na creche Entrevistada/ Rotina de um bebê em casa Rotina de um bebê na creche Idade (em meses) e sexo do bebê Milena “...eles acordam cedinho, por volta das 9 horas é a hora do suquinho, aí é onde eles estão também mais “... mais ou menos [a mesma rotina da casa], mas aí intercalado com as atividades de

    11/M dispostos para brincar, por volta das 11h30 mais ou menos o almoço, a papa salgada [...] Aí um soninho logo estimulação, então de manhã, tomar um solzinho, eles já chegam por volta das 8h 30 ou 9 horas

    descanso e aí vem a mamadeira e a frutinha da tarde também mais ou menos depois. A alimentação do meu filho ou senão dormem depois do almoço. [...] Aí, a gente faz atividade um pouquinho mais calma é de 2 em 2 horas. A recomendação, às vezes, é de 3 em 3, mas eu acho que é muito de criança para criança. A nesse horário enquanto alguns dormem, aí acordam, almoçam [a papa salgada] aqui também é depois do almoço por volta das 14 horas e pouquinho, fica perto da mamadeira porque depois do almoço, dá um e tem uma parte de estimulação, aí a mesma coisa, suquinho, alguns dormem depois do lanche dele é de mais ou menos 2 horas e meia ou 3 horas, aí brinca no período da tarde e por volta das 19 horas mais servido às 11h30, meio-dia. ou menos o jantar. Aí ele fica bastante ativo até mais ou menos umas 21 horas quanto toma a mamadeira do A parte de estimulação também, depois que eles acordam eles ficam mais estimuladinhos, soninho e por volta das 21h30 ou 22 horas dorme até às 7 horas do dia seguinte [...] O banho, ele é mais ou assim mais animadinhos e é por volta das 13h15 ou 13h30. Às 14 horas, começa a frutinha ou a menos assim [...] eu prefiro dar o banho em casa perto da hora dele ir dormir.” mamadeira, depende da faixa etária da criança, se ela já come pãozinho, bolachinha... Aí, a começa o horário do banho. [...] Às 17 horas, tem o jantar aqui e aí cada um sai em um horário, mas aí a gente já não faz atividade mais específica. Conforme vão saindo os bebês, a gente vai gente tem a rotina do banho também. [...] Aqui, a gente começa logo depois que eles dormem no segundo horário, das 15 horas mais ou menos, depois que eles comeram, aí a gente já “Tem alguns que entram praticamente quando a escola abre e saem a hora que a escola fecha, ficando com eles um a um, não é a parte de estimulação. Estimulação é mais ou menos assim Bebês na sua escola têm: “Estimulação assim para deslocamento no espaço, preparo para engatinhar, ficar em pezinho, a parte da estimulação oral, história, música, circuito para A maioria dos bebês atendidos em sua escola fica em período integral antes do lanche da manhã e depois do almoço, à tarde.” deslocamento.”

    1 e ½ /M têm que ser limpos [...] e claro [...] eu pelo menos tento parar um tempinho, brincar com ele, dar uma estimulada. crianças e com pessoas diferentes que não a mãe] [...] o cuidado eu acho que tem que ser o

    Júlia “... em casa [...] eles [bebês] estão sozinhos [...] com a gente [...] eles mamam, dormem, têm que tomar banho, “...acho que a diferença maior que eu vejo é esse contato com outros bebês [com outras

    das 7 às 19 horas. Mas [...] a gente atende também os horários especiais, então o semi-integral, mesmo [na creche do que em casa], essa questão da higiene [...] a alimentação [...] A questão de ser cuidado com afeto, eu acho que as moças [na creche] acabam se afeiçoando, não tem às vezes, fica período de 8 horas ou de 6 horas.” como...”

      175

      176 Quadro 14. Creche pública e creche particular Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Existe diferença entre creche pública e creche particular? Diferenças entre a creche pública e a creche particular Justificativa para a possível existência de diferenças Pública Particular Joana 9/F Não tem muita diferença, praticamente os cuidados e a rotina são os mesmos Crianças dormem em colchãozinho no chão e em carrinho, não tem berço e elas não tomam banho na pública, a não ser em casos de necessidade, já que o banho não faz parte da rotina Têm bercinho para as crianças dormirem e em algumas particulares as crianças tomam banho na escola

      Natália 3/F Sim “Partindo do pressuposto que você pôs em uma escola top [sim, teria diferença], também se você colocar em uma escolinha qualquer talvez não haja diferença nenhuma [entre a particular e a pública].” Talvez viva mais de doação e não tenha material adequado para a faixa etária Os profissionais são voluntários, talvez não tenha pessoas qualificadas para cuidar das crianças de acordo com as necessidades de cada faixa etária Na creche pública é muito maior o número de bebês e pode haver um menor número de pessoas para cuidar “... acho que [...] tem a qualificação das pessoas. [...] geralmente [...] você tem uma nutricionista, você tem uma pedagoga, as professoras que estão lá vão ser realmente pessoas instruídas, você tem uma enfermeira, então assim você tem todo um trabalho das pessoas que são instruídas para aquilo, que são... que estudaram para fazer aquilo.” “... já tem mais estrutura para aquilo, foi criada para aquilo, então tem... mesmo o material pedagógico para aquilo...” Pode ter também diferença de alimentação, de orientação, na limpeza e na quantidade de bebê por orientador. Acredita que na escola particular exista uma melhor proporção adulto/criança Condição, salário, investimento “... eu acho que os melhores profissionais não vão estar ganhando um salário mínimo em uma creche. Os bons profissionais vão procurar um lugar melhor.” Aléxia 3 e ½/M Sim “Tem escolas particulares que podem ser muito boas, eu tenho amigas que trabalham, que são professoras, então tem escolas que você percebe que realmente tem um comprometimento, tem investimento, tem tudo isso, mas a gente tem também essa qualidade também na pública.” Em São Caetano: profissionais têm capacitação constante As creches têm qualidade e quantidade na alimentação Não têm atendimento em meio-período, mas expressa o desejo que tivesse Remunera melhor os professores que a creche particular Atende todos os níveis sociais Tem mais crianças do que na particular Em São Caetano: nem sempre os profissionais têm formação adequada ou capacitação constante Profissionais, muitas vezes, não têm nem magistério Ás vezes, a quantidade de alimentação para as crianças é limitada Tem atendimento em meio-período Não remunera bem seus profissionais Não atende todos os níveis sociais Tem menos crianças do que na pública, porque é paga e custa caro Acaba gerando um certo “status” para as famílias que valorizam isso Escolas particulares teriam que privilegiar a formação dos profissionais que contratam para trabalhar com as crianças Profissionais tinham que ter conhecimento adequado para o trabalho, para que os pais pudessem confiar Algumas escolas particulares não conseguem exigir muita capacitação dos profissionais, pois pagam pouco. Ficam trabalhando, então, as pessoas com menor capacitação Malu 3 e ½/M Somente em termos de quem financia Em termos de cuidados não existe diferença

      “Para mim, é a mesma coisa porque particular também não deixa de ser escola...” “... os cuidados, no fim das contas, são os mesmos. Se tiver que acontecer alguma coisa vai acontecer em uma ou em outra, não vejo diferença.” Tem educadores, pedagogos, tanto na pública quanto na particular para cuidar da criança É sustentada, mantida pelo Governo, pelo município Não é sustentada pelo Governo, pelo município, você tem que pagar e é cara .

      Continuação quadro 14. Creche pública e creche particular

    Entrevistada/ Existe diferença entre creche pública Diferenças entre a creche pública e a creche particular Justificativa para a possível existência de

    Idade (em meses) e creche particular? diferenças e sexo do bebê Beatriz Sim Menor número de pessoas para cuidar das “Ah, acho que a quantidade das pessoas que “Ah, porque tudo que é público, a gente vê que sempre 6/F crianças, menos conforto, alimentação talvez trabalham, deve ter talvez mais conforto; a falta alguma coisa...” não tão completa alimentação, talvez, mais completa.” “No público [...] tem aquele dinheiro para suprir as Pública Particular estou falando mais assim como eu vejo assim o geral no necessidades, mas, às vezes, o dinheiro não chega [...]

    Manuela Sim Precisa conseguir a vaga Custa caro As particulares são melhor remuneradas, têm mais

    3/M “... Não sei, às vezes, eu tenho um pouco de Talvez tenha mais pessoas para cuidar, para não recursos do que as creches municipais

    Alguns eventos ruins [acidentes, por exemplo] impressão que a pública é o que eu te falei, é deixar o bebê chorando, não deixar o bebê sozinho podem acontecer tanto na pública quanto na um preconceito que eu não gostaria de ter Tem que levar a alimentação para o bebê creche é a mesma coisa, mas, de repente, eu estou nosso país como funciona, então eu acredito que a enganada.” acontecer. Isso pode acontecer na particular largado, que se ele começar a chorar, internet para ver o bebê na creche “ Não é porque é pública que isso vai uma impressão de que vão deixar seu filho meses em uma creche particular e acessa pela também.” principalmente porque ele é bebezinho, que “Eu acho muito bom [poder acompanhar pela internet particular entendeu, tipo de por ser pública a gente cria Não sabe como funciona a pública, relata não 100%, então, pelo menos no começo, se você tem um pouco de preconceito como eu te falei, Tem uma amiga que optou por deixar seu bebê de 3 ele vai ficar lá largado entendeu...” através de câmeras], porque você não confia né

    Milena Sim “... você tem muita gente boa, competente, Não tem a questão da estabilidade do funcionário, A demanda é um fator que faz com que existam

    11/M saber se teria que levar a alimentação do isso, então acho que te dá um pouco mais de “... acho que no público você tem uma mas tem muita gente que também se então pode-se demitir um profissional ruim diferenças entre a creche pública e a particular. A creche encosta... [devido à estabilidade no Algumas são muito caras, são freqüentadas por pública acaba atendendo um maior número de crianças emprego]...” pessoas mais ricas porque tem uma demanda muito grande bebê segurança.” 1 e ½ /M Júlia Sim Lugar para só largar a criança, deixar a “E na particular [as amigas viam que] [...] tem todo Falta investimento e atenção por parte do Governo na mistura maior de realidades [sociais] também “Então, assim, a creche [pública] remete à questão do número grande de crianças.” criança, onde não há estímulos um apoio, até para as pessoas que cuidam [enfática], área de educação, que seria a base e também o Tem crianças mais pobres diferenciadas...” Em São Caetano não poderia dizer, pois não “... eu posso te falar em São Paulo que eu via treinamento, estão sempre tendo uma reciclagem...” reivindicar, que é uma coisa que o brasileiro não faz, conhece as creches públicas que sim [que tinha diferença entre creche infelizmente. E eu, infelizmente, também me incluo dentro porque achavam que a criança não seria bem estatística, nem as crianças pequenas que já estão assim visitar e não conseguirem deixar as crianças “Como você falou [...] você trouxe aqueles dados de pública e particular], por amigas, enfim, irem cuidada.” as assistentes que cuidam estão sempre em brasileiro “... se mobilizar, correr atrás, em idade assim de alfabetização, não é 100% das disso.” crianças que estão na escola, e isso é uma catástrofe, porque a criança tem que estar ali, eu acho que traz dignidade para o ser humano...”

      177

      Quadro 15. A creche enquanto opção para outros pais e bebês Entrevistada/ Recomenda a creche para outros pais e bebês? Idade (em meses) e sexo do bebê

    Natália “... como eu realmente não conheço seria muito difícil eu falar. A que eu conheço... sim, a gente sabe que se a pessoa não tem condições, a creche é boa lá, é, mas a gente sabe que tem escolas, se a pessoa tiver

    Joana 9/F “... Deu para perceber que elas [profissionais] gostam do que elas estão fazendo, o ambiente é um lugar gostoso, minha filha foi lá, ela foi até comigo, ela já queria sair do meu colo e ir brincar e assim, vendo as pessoas Para a criança ter atividades que não estaria desenvolvendo em casa. Crianças que vão para a escola mais tarde têm mais dificuldade para se relacionar com os outros, saber dividir. Crianças que entram mais cedo na cuidando das crianças [...] no dia em que eu fui conhecer uma estava lá dormindo no colo da moça, outra estava dando a mamadeira, eu gostei de como o profissional estava lidando com a criança...” Sim, recomenda a creche pública em São Caetano, pois foi conhecer e gostou do que viu escola têm um desenvolvimento diferenciado em relação às que entram mais tarde 3 e ½/M consegue estimular ele de uma maneira correta e a gente pode estimular os bebês, até mesmo, para o desenvolvimento psicomotor, então é importante.”

    Aléxia “... enquanto profissional, por conhecer, por saber o quanto é importante [...] eu acho sim que seria importante para o desenvolvimento do bebê porque, às vezes, em casa, se você não tem um conhecimento, você não

    3/F condições de pagar, a gente sabe que tem escolas que são muito melhores. Acho que você tem que comparar aquilo que você tem condição de pagar. Então, se é uma pessoa que tem condição de pagar, a gente sabe que tem escolas muito melhores. Então, assim, do meu ponto de vista, assim, dependendo, a pessoa tendo condição, eu acho assim que uma pessoa em casa cuidando do seu bebê ainda é o melhor, a segunda opção seria assim uma excelente escola e aí a terceira opção seria uma creche. E que eu acho que essa opção, a terceira opção ainda é muito difícil porque eu não conheço, não sei se é por eu não conhecer, mas acho muito “... com 5 ou 6 meses para você deixar o bebê na escola se você tiver necessidade, a gente tem que deixar, não tem como, tem mãe que não tem muita opção, precisa trabalhar, tem que deixar e ponto [...] eu confio na difícil uma creche que tenha tudo isso [que se encaixe no perfil do que seria considerado uma creche boa].” 3 e ½/M “... o filho vai crescer e depois você ‘ai, eu quero voltar a trabalhar’ e aí já não consegue arrumar emprego, talvez, por causa da idade e uma mãe ela precisa trabalhar, ter o seu dinheirinho, sua independência, não ficar Malu “... eu falei para ele [sobrinho] ‘é melhor você colocar na pública, eu confio muito mais, eu acredito muito mais no ensino, principalmente aqui de São Caetano, do que em uma particular’.” Sim, recomendaria creche pública em São Caetano, inclusive já recomendou para familiares mesmo quando não era mãe, quando somente trabalhava na creche escola pública aqui [em São Caetano], já trabalhei, então quer dizer, eu confio nas pessoas que trabalham, no trabalho que é feito, então tem todo um controle.” Recomendaria pela qualidade de ensino, pela qualidade da alimentação “Recomendo e não concordo com pessoas que param de trabalhar.” “... recomendaria, recomendo, já recomendei (risos).” Manuela “Ah, se o meu [bebê] estivesse e fosse tudo bem, recomendaria sim. Pelo que eu ouço falar, eu recomendaria.” Beatriz “Para a mãe que puder levar junto [o bebê ao seu trabalho] talvez seja a melhor opção, mas se a mãe precisa voltar a trabalhar e não tem com quem deixar, se não tem mãe ou sogra para ficar, talvez tenha que colocar Milena “... a gente fala realmente como uma mãe que trabalha antes de ficar realmente com uma babá ou mesmo com uma vovó e assim, com essa possibilidade assim de você cercear um pouco a liberdade dos avós também 3/M 6/F só dependendo do marido, até porque, hoje em dia, só o marido não é suficiente, a maioria precisa trabalhar e ajudar também, colaborar e ter o seu dinheirinho...” Relata ser difícil opinar porque não conhece as creches em São Caetano na creche.”

      11/M uma avó ou de uma pessoa mais velha estar lidando com ela, então nos conflitos, nos problemas ela ter que sair lidando com crianças da mesma idade, então quer dizer, um igual, então eu acho que isso é primordial, a “Recomendaria, com certeza, especialmente por esse aspecto da socialização, a criança fica mais independente mesmo, lidar entre iguais para resolver os seus problemas eu acho melhor, é diferente de um adulto, de abrindo. Acho que uma criança que fica hoje em casa muito tempo ou fica na frente da televisão, falta o espaço para brincar, para o grupo, não se tem, a maioria mora em apartamento, quer dizer e aí, que tempo essa criança tem para ser criança também? Acho que a escola é o espaço que sobrou para ela, para ela brincar de ciranda, cirandinha, de corre cotia, de coisas que na infância de antigamente se brincava na rua. Eu acho parte de interação social. Hoje em dia, antes a gente ia com 6 ou 7 anos para a escola, hoje uma criança que vai com essa idade pela primeira vez acho que ela fica, para mim, atrasada no sentido assim ‘bobinha’ no sentido do mundo que está por aí, que está posto. As relações sociais ela mobiliza muito isso no caso de você estar aprendendo o tempo inteiro com o outro, com um amiguinho e com realidades diferentes vai te para fazer as coisas, então a escola acaba sendo uma boa opção.”

    1 e ½ /M coisas, então não só, é que aquela que trabalha, a necessidade é maior, mas mesmo aquela [mãe] que não trabalha que acha um lugar legal que deixa a criança, de novo, para ter contato com outras crianças, para ter

    Júlia “... para [...] deixar o seu filho, e mesmo aquela que não trabalha, mas que quer ter um tempinho pra ela, porque a gente sabe que faz falta, faz falta você ter umas horinhas pra você e poder cuidar da sua vida, das suas “... se a gente sabe que é um lugar legal que vai estimular a criança, a gente sabe que é importante [...] até pelo contato com outras crianças, mas se é só um lugar para largar ali a criança, deixar como a gente sabe que, alguns estímulos, eu acho legal. É que hoje assim, é o meu foco (risos) encontrar um lugar para deixar para eu poder voltar a trabalhar, então acho que por isso que vem isso primeiro à mente. Mas, mesmo a mãe que não trabalha tem o direito também de deixar seu filho. E a criança tem o direito de ter esse cuidado, de ser estimulada, enfim.” que é um espaço social, hoje em dia, é mais a escola para a criança.” Recomenda a creche pública em São Caetano também infelizmente, a maioria das creches públicas são, é difícil, você fica com dó de deixar...”

      178

      Eixo 4. Responsabilidades do Estado e da sociedade Resumidamente, podemos destacar que as mães reconhecem que o

    Estado e a sociedade devem compartilhar com as famílias a educação e o

    cuidado dos bebês, mas concordam que há pouca mobilização para que todos

    os bebês possam ter acesso a serviços de saúde e educação de qualidade.

      A escolha de outras modalidades de educação e cuidado para bebês,

    que não a creche, por parte de algumas famílias, é apontada por nossas

    entrevistadas, como possível justificativa para a quase inexistente mobilização

    social por mais vagas em creches, bem como, para a baixa freqüência a essa

    instituição por parte das crianças de 0 a 3 anos de idade.

      As entrevistadas explicitaram, em algum momento, a concepção de que

    a sociedade e o Estado também têm, além das famílias, responsabilidades

    para com os bebês e de que essa responsabilidade deveria se exercer

    especialmente nas áreas da saúde e da educação (quadro 16).

      As mães entrevistadas apontam deficiências na atuação do Estado e

    expressam a expectativa de que um efetivo retorno dos impostos pagos pela

    sociedade gere um melhor atendimento às crianças e suas mães, não só, em

    termos do oferecimento de bons hospitais, de maior número de vacinas

    gratuitas, de centros de orientação para gestantes, de grupos de aleitamento

    materno, mas também em termos de maior disponibilidade de vagas em

    creches e escolas e de maiores investimentos que proporcionem aos bebês e

    demais crianças o acesso à educação de qualidade.

      Algumas mães assinalaram que o Estado não deve somente oferecer

    educação de qualidade porque muitas pessoas sem condições financeiras

    necessitam dos serviços públicos, mas também porque toda a população,

    incluindo os bebês, tem direito à educação: “... educação é um direito de todos,

    e o bebê também, começa desde criança, desde bebê a educar. A gente não

    educa uma criança a partir dos 7 anos, muito pelo contrário, é desde a sua

    formação, desde bebê que vai se formando o cidadão [...] os professores da

    faculdade falavam muito ‘ah, a gente tem que valorizar a escola pública, tem

    que valorizar a escola pública’ e eu acredito que tem que valorizar mesmo

    [enfática] porque é um direito de todo mundo ter uma escola pública de

    qualidade...” (Aléxia); “Na área da educação tem a parcela de responsabilidade

      

    sim, afinal de contas nós dependemos dos educadores. Tudo bem que a

    educação começa em casa, que vem de berço, que a responsabilidade é dos

    pais em primeiro lugar, mas também o Estado tem grande responsabilidade

    sim.” (Malu); “Normalmente, você vai optar por uma escola porque, às vezes, a

    pessoa não tem condição de pagar ou mesmo que tenha você quer um lugar

    porque você está pagando os impostos, você quer ter um lugar para colocar o

    teu filho de qualidade...” (Joana).

      Milena, que atua na área de EI, ressaltou também a necessidade de

    maior atenção por parte do Estado para com a educação dos bebês e crianças

    que ainda não se encontram em fase de alfabetização constatando, como já

    havíamos enfatizado, que crianças maiores, já na pré-escola ou no ensino

    básico, vêm recebendo maior atenção e investimentos por parte das políticas

    educacionais: “Acho que ainda se vê muito mais a responsabilidade com

    crianças maiores, já na fase de escolarização mesmo, do que com os

    pequenos. Então, programa, currículo, atendimento acho que é pouco,

    especialmente pela minha área, acho que tinha que ter mais cuidado mesmo

    relativo à educação.”

      Uma das mães (Manuela) ressaltou não utilizar ou conhecer os serviços

    públicos, optando sempre por utilizar serviços particulares no que se referia ao

    seu próprio bebê, mas destacou, assim como Júlia, a necessidade de que as

    empresas também ofereçam creches às suas funcionárias.

      Júlia solicitou também que o Estado ofereça o que ela chama de

    “centros” (creches ou berçários) que, além de atenderem os bebês, também

    poderiam contar com equipes multiprofissionais orientando não somente as

    mães, mas também os profissionais que atuam com as crianças.

      Com relação ao município onde residem, seis entrevistadas avaliaram

    de forma positiva a qualidade de ensino e de investimento público em

    educação. Essas mães, relatando suas impressões pessoais e/ou os

    comentários de parentes, amigos ou conhecidos, consideram que os

    moradores de São Caetano são privilegiados e que o município apresenta uma

    realidade diferente da de outras cidades por oferecer quantidade e qualidade

    no ensino público e pelo fato de a creche pública ser utilizada também por

    famílias de camadas médias, que não necessitam comprovar renda para

    poderem matricular suas crianças: “... É porque é assim, é para qualquer

      

    pessoa de São Caetano, que more em São Caetano e que a mãe trabalhe mais

    que 6 horas [...], esse é o requisito para fazer a inscrição. [...] E, normalmente,

    é a mãe que tem que trabalhar, se o pai não trabalha não tem problema.”

    (Joana); “... aqui em São Caetano, a gente não tem esse problema porque a

    grande maioria das crianças [...] têm vaga nas creches, nas EMIs [Escolas

    Municipais Integradas] que a gente chama aqui [..] quem mora em São

    Caetano não pode reclamar, da realidade aqui de São Caetano, porque em

    termos da educação da escola, tanto das EMIs quanto das EMEIs e depois dos

    Fundamentais 1 e 2, até mesmo assim de cursos enfim preparatórios que a

    própria Prefeitura fornece, é tudo muito bom.” (Aléxia); “[Em] São Caetano a

    gente vê que isso realmente é feito. Tem muitas opções aí de escolas, creches

    [...] Claro que aqui em São Caetano, [...] o nível tem até classe média alta que

    freqüenta [a creche pública]. Então, é bem melhor [...] em todos os sentidos

    [das pessoas que usam e do que é oferecido]...” (Malu ) ; “...acho que aqui em

    São Caetano, a gente é privilegiado, porque todo mundo me fala que o ensino

    público é maravilhoso, depois quando ele [bebê] estiver um pouquinho maior

    que dá para colocar...” (Júlia); “São Caetano, assim o que você tem é que a

    educação é de alta qualidade, tanto é que tem pais de classe média que

    buscam a [creche] pública e o referencial de que é de qualidade acho que está

    colocado [enfática]...” (Milena).

      Entretanto, algumas mães entrevistadas e que não freqüentaram creche

    ou pré-escola em São Caetano do Sul quando crianças, como apresentaremos

    no próximo eixo, informam desconhecer a existência ou a localização de

    creches públicas no município (Natália e Júlia).

      Em conjunto com Natália e Júlia, Beatriz, que, por sua vez, freqüentou

    pré-escola no município quando criança, também acredita não poder avaliar se

    a quantidade de vagas ou a qualidade da educação oferecida, especificamente,

    pelas creches é satisfatória ou não.

      Já, Manuela foi a única entrevistada que ponderou que o critério de

    comprovação de residência não vem sendo respeitado em São Caetano e que

    muitas crianças moradoras de cidades próximas estão “ocupando” vagas que

    seriam destinadas às crianças residentes no município: “E eu acho isso uma

    sacanagem porque, afinal de contas, uma escola, um berçário, hoje em dia,

    custa R$ 1500,00 no particular.”

      Ao serem indagadas sobre a pequena oferta de creches, praticamente

    todas as entrevistadas afirmam que os adultos não se mobilizam pelos direitos

    dos bebês ou por políticas de creche porque nossa sociedade é culturalmente

    acomodada e individualista e que o povo brasileiro, muitas vezes, por não

    conhecer seus direitos acaba não exigindo que eles sejam respeitados. Essa

    postura de pouco questionamento ou mobilização ocorreria também, segundo

    elas, em outras áreas, não somente com relação aos bebês (quadro 17).

      A classe média que seria, na concepção de Natália, o segmento com

    melhores condições para reivindicar acabaria, quase sempre, optando pela

    creche particular para seus filhos, não “sentindo falta” da creche pública e

    assim, não a reivindicando para outros bebês. Joana e Malu também supõem

    que um dos motivos que levaria a não mobilização seria a opção dos pais por

    outras modalidades de EI que não a creche, como por exemplo, deixar a

    criança com os avós ou mesmo parar de trabalhar para cuidar do bebê.

      Manuela, por sua vez, acredita que as pessoas só param para pensar

    sobre questões relativas aos bebês no momento em que estão vivenciando a

    experiência da maternidade e da paternidade: “... antes, era, sei lá, um bebê,

    eu nem pensava nisso [...] Antes de eu ficar grávida, eu nem imaginava, nem

    pensava nisso [sobre escola, creche, hospital ou plano de saúde para o

    bebê]...” (Manuela).

      Da mesma forma, outras entrevistadas, também, revelaram, em

    momentos diferentes da entrevista, “não terem nunca parado para pensar”

    sobre a questão dos direitos da criança à creche, sobre o que pensam sobre

    creche, sobre a idade mínima para a criança ir para a escola, sobre por que os

    adultos não se mobilizam por questões relacionadas aos bebês, mesmo

    sabendo que há falta de vagas em creches: “... a gente sabe que tem a maior

    dificuldade, por que a gente não vai atrás né?” (Natália).

      Embora duas entrevistadas considerem difícil conseguir mobilizar as

    pessoas, as demais expressam acreditar que seria necessária uma maior

    reivindicação dos direitos, com a escolha de políticos que se interessassem por

    essas questões e que atuassem com maior boa vontade, não somente

    efetivando que mais creches fossem construídas, mas também propiciando

    maior divulgação dos serviços e direitos à população.

      Milena, especialmente por atuar em EI, apontou para a necessidade de

    se pensar mais nos bebês, revendo e divulgando o Referencial Curricular da

    Educação Infantil, para que ele pudesse ser mais utilizado pelas creches e para

    que questões sobre avaliação e contexto sócio-histórico e cultural dos bebês

    atendidos pudessem ser mais debatidas. Ela cobrou da Secretaria Municipal de

    Educação uma maior fiscalização e acompanhamento do trabalho que é

    realizado, especialmente, pelas creches particulares.

      Júlia e Manuela destacaram a necessidade de maior fiscalização e

    punição junto às empresas, para que elas ofereçam mais creches às mães

    trabalhadoras.

      Apesar de terem expresso que muito ainda precisa ser feito ou

    reivindicado na área de creches e de atendimento aos bebês, a grande maioria

    das entrevistadas reconheceu que também não vinha se mobilizando (quadro

    17). Além disso, apreendemos que, mesmo as mães que relatam se preocupar

    com essas questões, tendem a refletir mais sobre suas próprias escolhas

    futuras de atendimento para seus filhos, do que se mobilizar efetivamente pelo

    conjunto dos bebês na sociedade.

      Já, as duas entrevistadas que trabalham na área da educação (Aléxia e

    Milena) circunscreveram suas ações de mobilização aos seus espaços

    concretos de atuação, principalmente através da busca constante, ou da

    divulgação, de material de estudo específico sobre bebês, visando a melhoria

    do atendimento oferecido a essa população.

      Com relação aos possíveis motivos que estariam levando a uma tão

    baixa freqüência de crianças de 0 a 3 anos quando comparada à de crianças

    de 4 e 5 anos à pré-escola, todas as entrevistadas apontaram para as escolhas

    por parte das famílias de outras modalidades de EI como as principais razões

    para a não freqüência (quadro 18). Apenas metade delas explicou a baixa

    freqüência pela insuficiência na oferta de creches.

      Segundo as mães entrevistadas, as famílias estariam preferindo deixar

    seus bebês com avós ou outros familiares ou conhecidos, com babás ou

    mesmo parando de trabalhar para cuidar pessoalmente de seus filhos, por

    medo e desconfiança em relação à creche, mas também porque ainda

    consideram seus bebês como muito novos para essa freqüência.

      A pré-escola, na concepção das entrevistadas, estaria sendo mais

    freqüentada porque as crianças já ingressariam maiores, porque seus pais

    tenderiam a valorizar mais o papel educacional e de alfabetização da escola,

    porque a população contaria com uma maior oferta de vagas e também porque

    seu custo financeiro, na rede particular, seria menor para as crianças maiores

    do que para os bebês.

      185 Quadro 16. Responsabilidades do Estado e da sociedade Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê

      Estado/sociedade tem responsabilidade para com os bebês? Em qual área? Justificativa Joana 9/F

      Sim. Na área da saúde: vacinação Na área da educação: oferecer mais vagas para as mães que precisam trabalhar; mais vagas em escolas e creches de qualidade para deixar as crianças; remunerar melhor os professores, todos os bebês deveriam ter direito à educação como consta na Constituição; pagamos altos impostos, mas, às vezes, temos que colocar em escola particular porque não temos escolas públicas de qualidade

      Deficiência do Estado aparece em várias áreas não só com relação aos bebês ou crianças maiores Natália 3/F Sim. Na área da saúde: pré-natal, orientação para as grávidas, tratamentos ainda durante a gravidez

      Aléxia 3 e ½/M Sim. Na área da educação: pagamos impostos e quem não tem condições de pagar uma escola particular tem que ter acesso a uma escola de qualidade, de confiança e apropriada para deixar seu filho; a falta de vagas é problemática e talvez não dê conta da demanda, pois tem mãe que tem deixar na particular porque não conseguiu vaga na pública; nem sempre escolas particulares têm qualidade e por isso o Estado deve disponibilizar; deveria existir uma escola pública de meio-período para os bebês, assim como existe essa opção nas escolas particulares; os bebês têm direito à escola englobando não só o cuidar, mas também o educar

      Quem mais precisa da escola pública é quem tem menor poder aquisitivo, mas “... é um direito de todos, então todo mundo, quem tem dinheiro e quem não tem, deveria ter acesso.”

      Malu 3 e ½/M Sim. Na área da educação: alguns municípios têm deficiência na oferta de escolas, faltam vagas em creches

      “... imagino que São Paulo seja um desastre [...] eu acredito que a maioria [da população] não tem nem acesso à creche [...] por isso é que tem esse monte de criança aí, de qualquer jeito, na rua, tudo largado, porque não tem, é muita gente, para pouca escola. Eu acredito, eu imagino [que faltam vagas].” Beatriz 6/F

      Sim. Na área da saúde: “... se a criança ficar doente, ter um bom hospital que cuide direitinho. Às vezes, você leva em algum lugar e o posto, não é bem atendida, às vezes, a criança está com algum probleminha e não percebe e o negócio se agrava. Inclusive [...] parece que vão incluir algumas vacinas que não davam no posto. Eu acho que isso daí é bom porque a gente, às vezes, não consegue, tem pessoas que não conseguem pagar e as vacinas são muito caras e evita a criança pegar que nem pneumonia...”

      Na área da educação: “... o ensino básico assim, as instruções mesmo, o aprendizado mesmo, acho que é [responsabilidade] do Governo para construir um país melhor no futuro.” Manuela 3/M

      Sim. Na área da saúde: especialmente com a oferta de vacinas de boa qualidade Na área da educação: construir mais creches e escolas

      As empresas também deveriam oferecer creches Milena 11/M Sim. Na área da educação: planejamento, com cuidado, com escola, maior atenção com as crianças que não estão em fase de alfabetização

       “Acho que depende muito do incentivo público mesmo, do Governo.” Júlia 1 e ½ /M

      Sim. Na área da saúde: “... eu acho que poderiam haver mais centros para orientação das mães, grupos de apoio ao aleitamento materno.” “... a gente sabe que, infelizmente, algumas mulheres [e seus bebês] não têm acesso [ao pediatra ou saúde] [...], porque, às vezes, não têm nem direito aonde deixar a criança, não tem uma rede pública muito boa...”

      Na área da educação: deveria ter “... mais creches pra depois a gente poder voltar a trabalhar com mais tranqüilidade, berçários. Então, acho que falta muito...” Teria que “... ter mais centros mesmos, porque não adianta ter um centro longe do trabalho da pessoa ou da casa dela [enfática], tem que ser no caminho, entendeu, ou pertinho da casa dela que ela já vá e já deixa a criança ou próximo ao trabalho ou dentro das empresas que é o que a lei pede dependendo assim, depois de x número de funcionárias, ela teria que ter a creche dentro...”

      Os centros comunitários de atendimento público poderiam oferecer, além de creche ou berçário, atendimento com pediatra, assistente social, psicóloga e atender não só as mães, mas também os professores ou assistentes “... que cuidam das crianças, pra essas pessoas também terem uma orientação melhor.”

      Quadro 17. Mobilização pelos direitos dos bebês ou por políticas de creche Entrevistada/ Por que os adultos não se mobilizam ou se preocupam com Como os adultos poderiam se mobilizar ou agir mais ativamente? A entrevistada se mobiliza? Como? Idade (em os direitos dos bebês ou com as políticas de creche? meses) e sexo do bebê

    Natália As pessoas mais esclarecidas e de classe média que poderiam se Seria criando mais vagas Fica preocupada com a questão das vagas, quer

    Joana Cultura do brasileiro A sociedade em geral teria que brigar pelos seus direitos Não se mobiliza 9/F É acomodado, comodismo do povo que não luta pelos seus direitos em Muitos pais podem preferir deixar os bebês com seus avós ou mesmo todas as áreas, se adapta à realidade e não tenta mudá-la parar de trabalhar e por isso não reivindicariam creche “... a gente acaba se acomodando...” 3/F mobilizar acabam optando por escola particular e não pela creche Indo atrás dos direitos sempre que as funcionárias consigam vaga ou que A população é pacata e não se mobiliza. Povo brasileiro não corre atrás pública, acabam não sentindo falta e conseqüentemente não se É difícil mobilizar as pessoas, para que isso ocorresse teria que afetar a maioria das haja vaga na creche onde a mãe trabalha como dos seus direitos, às vezes, também por falta de conhecimento Políticos não se preocupam com isso mobilizando pessoas (incluindo a classe média) voluntária, “... Quer resolver o imediato, arranjar uma vaga para dada mas eu nunca fui atrás para sabe, ‘o que nós vamos criança em um certo momento, mas “... você nunca fazer para arrumar alguma coisa’”. 3 e ½/M Pessoas pensam só no seu, se têm condições de pagar uma boa escola Aléxia Sociedade é individualista e tem pressa, não parando para pensar. É difícil ver melhora. “... Será que vão conseguir enxergar?” Quando trabalhou em escola particular tentou mudar não se preocupam com aquele que não tem. Isso ocorre em outras áreas É difícil ter apoio proprietária da escola não investia, resolveu pedir também. Não se luta por algo melhor para todos, não se luta pelos algumas coisas, lutar pelo que acreditava, mas como a pensa assim mas, ‘o problema é muito maior, você vai resolver dessa criança, mas tem mais vinte que não têm condição’”. demissão “... Acho que em tudo se a sociedade fosse mais unida, assim não fosse Sociedade acomodada, onde “... muita gente empurra com a barriga”. tão individualista, a gente teria muito mais direitos conquistados.” direitos abertas assim. Na [creche] particular era complicado você conseguir passar porque tem uma outra visão, ajudar, mas tem pessoas que, às vezes, não estão “... por ter conhecimento você tenta até levar para trabalhando naquela escola como coordenação, depende muito daquelas pessoas que estão Considera que é difícil tentar sozinha 3 e ½/M paga impostos, mas não corre atrás dos seus direitos boa vontade no atendimento, na informação para a população e na divulgação dos

    Malu Brasileiro é acomodado, não cobra, não briga, não é revolucionário, ele Tem que ter mais boa vontade dos políticos, da sociedade em geral. Ter que ter mais “Sim, eu já pensava nisso, me mobilizava.”

    Às vezes, as pessoas se acomodam, e não reivindicam por medo ou “... políticos [deveriam] [...] pôr a mão no bolso, porque o imposto em São Paulo, importante, porque pode acontecer também da criança serviços “... tenho essa preocupação porque essa questão é direção e assim o que a gente aprende na Prefeitura era super bem adequado e até mesmo tinha muito valor...” Beatriz Povo brasileiro é acomodado, conformista, aceita as decisões do Votando nas pessoas corretas que se interessem por esses assuntos Vê muita injustiça, vê que a educação é muito ruim no 6/F Governo Campanhas na televisão para informar as mães sobre os seus direitos País porque não tem informação principalmente, é muito alto, então, de oferecer mais escolas, construir mais escolas, não se adaptar, por outro lado também, eu não posso é um direito Constitucional [...] é direito garantido por lei, é Constitucional,então acho conciliar, de ver, de insistir e espero que dê certo [do oferecer mais vagas para todas as mães terem esse direito porque, afinal de contas, parar de trabalhar, então vou ter que dar um jeito de que a população teria que se mobilizar, se conscientizar e correr atrás dos seus bebê ir para a creche] (risos).” direitos.” Muitas vezes, as pessoas não conhecem os seus direitos e por isso não “... se tem falta de vagas teria que construir mais creche mesmo. Às vezes, os “... eu vou tentar educar [o bebê] da melhor forma cobram políticos se preocupam com outras coisas [...] e teria que ajudar mais o nosso povo possível, não dependendo muito do Governo. Se eu aqui...” puder pagar uma escola, eu vou pagar.”

      186

      187 Continuação quadro 17. Mobilização pelos direitos dos bebês ou por políticas de creche Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Por que os adultos não se mobilizam ou se preocupam com os direitos dos bebês ou com as políticas de creche? Como os adultos poderiam se mobilizar ou agir mais ativamente? A entrevistada se mobiliza? Como? Manuela 3/M Pessoas só param para pensar ou se preocupar sobre as questões relativas ao bebê quando têm um bebê, quando passam pela situação,

      Milena quando vivem a experiência, a partir daquele momento, do primeiro filho Para que os bebês possam ter mais acesso são necessárias mais creches, mais escolas e escolinhas Também é importante as empresas oferecerem creche Só começou a pensar nessas questões recentemente, depois que o bebê nasceu 11/M “Eu acho que no geral, direitos assim do cidadão, mesmo da criança, eu acho que, no geral, mesmo sem ser bebê, eu já acho difícil viu. Para o bebê menos ainda. Eu acho que é falta de conhecimento ou de uma política voltada só para bebê mesmo, de alguma coisa específica voltada só para essa faixa etária.” Acha que as pessoas não conhecem as leis e os direitos também “Pensando mais neles. Estabelecendo, que nem falando em educação, a gente tem o Referencial Curricular de Educação Infantil. Ele é um bom referencial, eu acho que dá uma base, mas acho que tem que se pensar muito mais, inclusive na realidade, no contexto em que a criança vive. Cada contexto tem alguma coisa. Acho que isso tudo no Brasil não sai muito do papel não, e as mudanças, que nem o acesso da criança de 6 anos ao ensino fundamental, mudam a lei, mas não se pensa ao contrário, quer dizer, como atender, qual a melhor forma de atender, enfim, o que seria específico para essa faixa etária, que mudanças deveriam ter no ensino fundamental para captar esses alunos de 6 anos.” O Referencial precisaria ser revisto, especialmente, tanto em relação ao registro, à avaliação da criança, quanto em relação ao contexto sócio-histórico e cultural das crianças para que ele possa ser melhor aplicado É necessária também maior fiscalização das escolas Cita como exemplo que as escolas particulares para atenderem bebês devem ser Nenhum órgão acompanha o desenvolvimento do trabalho. Só é cobrado da escola regularizadas, mas são fiscalizadas só no momento de abertura, da aprovação, depois não recebem nenhum tipo de acompanhamento ou averiguação que atenda às exigências da lei, especialmente em relação ao aspecto físico, da construção da escola “Eles traçam para as particulares muito mais o plano, acho que assim de estrutura da escola, ‘precisa ter isso, precisa ter alimentação, tela de proteção na cozinha, ai não pode ter acesso, a porque a comida não pode ficar assim’. Muito mais na estrutura do que no trabalho.” Acha que deveria ter mais fiscalização e que o acompanhamento deveria ser regional e partir da Secretaria de Educação, da Delegacia de Ensino do município. “Acho, realmente, que cada cidade, cada município devia ter, de acordo com a sua realidade, a clientela particular, privada, acho que tem que ver muito o contexto social mesmo de cada grupo...” “Ah, sempre teve, é claro que a escola é que, eu acho que se eu fosse uma mãe sem [ser dona de] escola eu pensaria diferente.” Busca constante por material de apoio para o trabalho Diz que todo o planejamento e a organização para a faixa etária de 0 a 1 ano, tudo é muito precário. Diz sentir bastante falta de materiais de estudo, de pesquisas ou estudos sobre essa faixa etária “... acho que é muito ou manuais de Psicologia do Desenvolvimento ou manual de Pediatria. Você não tem focado em educação, então é uma coisa que sempre assim, a busca ela é constante. Embora, o acesso seja difícil.” Cita ter tido acesso ao material utilizado em creches públicas: “... de alguns pais que trabalham nas creches, aí eu instigava para eles trazerem o material para mim e aí eu investiguei muito, xeroquei muito material assim (risos)...” Júlia 1 e ½ /M “[No Brasil] as pessoas são muito egoístas [enfática], eu acho. A gente não tem aquela noção de comunidade, de um ajudar o outro [...] Cada um olha só para o seu próprio umbigo, então vai pensar nisso na hora em que precisa. Então, nesse momento eu vou precisar, então aí eu corro atrás, vou ver como é que é. Eu acho que a Sociedade, ela não se mobiliza, nem nessa questão e nem em tantas outras [...] eu acho que falta essa noção de comunidade da nossa Sociedade.” “... os políticos aqui no Brasil estão muito sem credibilidade. Então, o pessoal também não corre atrás, fica só falando ‘ai, é tudo ladrão mesmo’, já generaliza e meio que se conforma com essa situação. Eu não entendo muito por que, mas acho que acaba sendo isso que acontece...” “... ninguém está interessado.” Havendo maior e eficaz fiscalização das empresas que não oferecem creches, só a multa não resolve “... acho que é legal ter uma lei para apoio, mas que seja mais fiscalizado, não adianta ficar só na multa. A multa, para a empresa, é irrisória.” “Então, infelizmente, eu me incluo também na nossa população que se preocupa mais com o próprio umbigo que nunca se mobilizou. Apesar de eu trabalhar com criança, eu vivenciava também uma realidade diferente. Normalmente, as crianças [pacientes] estavam em escolas particulares, então que oferecem todo um apoio para as mães, então assim, o que eu me preocupava era mais a questão de ensino mesmo, de estímulo, do que estava sendo passado para essa criança, às vezes, a criança tinha algum probleminha e eu queria saber o que estava sendo feito para dar um suporte, era mais nesse lado, então eu também não estava super engajada.”

      Quadro 18. Possíveis motivos para a não freqüência de crianças de 0 a 3 anos à creche Entrevistada/ Por que só 18% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos freqüentam creche? Idade (em meses) e sexo do bebê Natália Famílias mais pobres sempre “dão um jeitinho” e deixam a criança com alguém, com Por falta de vagas Custo da creche Joana As famílias, às vezes, preferem deixar com avós, vizinhos ou a mãe para de trabalhar Por falta de vagas Para a pré-escola já teria maior procura porque já tem mais

    9/F para ficar com a criança do que colocar na creche/escola pelo fato da criança ser uma certa obrigação de colocar a criança com 4 anos (maioria

    3/F irmão mais velho ou a mãe cuida A partir dos 4 anos, a pré-escola já é (a pré-escola é mais accessível em termos de custo do que as

    pequena, por ter medo de colocar ou pela questão do vínculo com o bebê da população acaba colocando com 4 anos e ela também Demanda/Escolha das famílias Oferta insuficiente Outros motivos ou outras impressões Creche não é obrigatória entrou na pré-escola com 4 anos 3 e ½/M insegurança, por não confiar no lugar ou nas pessoas que irão cuidar, já que alguns professora em sala, já em um berçário não é necessário. Tem Aléxia Por uma questão de escolha da família que, às vezes, não deixa em creche por Para as crianças “... de 3 a 6 anos você tem que ter uma foram cuidados adequadamente, que morreram porque engasgaram, por exemplo

    trabalhar e cuidar de um bebê e, também, por ouvirem notícias de bebês que não ou pelo menos um magistério.”

    lugares não exigem dos profissionais especialização ou formação adequada para escolas que não pedem um professor formado, um pedagogo mais accessível com maior oferta de creches particulares para as crianças de 0 a 3 anos) vagas 3 e ½/M confiar mais nas escolas municipais, nas creches que já contam com profissionais em Malu Considera a freqüência à creche muito baixa e diz que é necessário acreditar mais, Os pais talvez se sintam mais seguros em colocar as crianças já maiores na pré-escola porque eles próprios falavam “‘...ah, eu prefiro colocar meu filho quando ele for maior Talvez também “... por comodidade [algumas famílias] acabam que deixando [seus porque meu filho ele vai poder falar caso aconteça alguma coisa.’” pedagogia e são muito boas Algumas mães não querem deixar a criança em creche com 4 meses de idade porque maternidade acha que vai aumentar o índice de mães que vão colocar em creche, a criança está muito apegada e as mães sentem muito. Com 6 meses de licença porque aí a criança já está um pouco mais independente que uma de 4 meses e bebês] com empregada, com babá, com “vó” [avó] e não é bom...” porque nem toda criança tem avó Manuela “... você tem um pouco de medo assim de deixar...” Beatriz Algumas mães que trabalham talvez deixem as crianças com as avós “... talvez não tenha o número de A freqüência talvez já seja maior na pré-escola porque a 3/M 6/F creches suficiente... [...] para atender criança já com idade maior “... já tem que começar a aprender todas as crianças...” certas coisas, então aí já vai para a escola.” realmente de insuficiência de vagas e sim de utilização por Acha que talvez em São Caetano o problema não seja pessoas de outras cidades Milena Classe média, muitas vezes, opta por avós ou babá, talvez por medo ou para “... se “... a porcentagem é só essa mesma de crianças de 0 a 3?

    11/M livrar um pouco da culpa [...] ficando com a avó ou com babá parece que a coisa fica Só? E onde ficam as outras? Nossa, eu achei pouco assim.

    assim mais velada do que, de repente, deixar em escola, parece que é como um Achava que seria mais. Achei que em se tratando de creche abandono maior [...] De repente, acho que até o custo também, o custo-benefício, trabalha e de um poder aquisitivo menor procuraria creche...” Estranhou a porcentagem, pois acha que “... a mãe que elas estariam muito mais presentes.” você põe uma empregada em casa que cuide da casa e da criança, às vezes, vale mais a pena. Ou a avó também.” 188

      Continuação quadro 18. Possíveis motivos para a não freqüência de crianças de 0 a 3 anos à creche Entrevistada/ Por que só 18% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos freqüentam creche? Idade (em meses) e sexo do bebê 1 e ½ /M que têm um mínimo de condição, acabam ficando em casa porque não têm apoio para acesso não [...] pessoal dá mais importância porque ‘na escola já tem que Júlia “...a mulher acaba que não voltando ao trabalho, aquelas que podem ficar em casa, “... eu não vejo que tenha tanto Talvez mais crianças freqüentem a pré-escola porque “... o Demanda/Escolha das famílias Oferta insuficiente Outros motivos ou outras impressões voltar.” a gente vê que não é suficiente o que começar a aprender a ler, a escrever’, então o pessoal faz “Eu trabalhei em empresa particular que é mais uma questão de necessidade mesmo, a pessoa durante muito tempo [...] e [...] por esquece que ali a criança também tem que ser estimulada, tem.” questão de colocar. Agora, no berçário, na creche, eu acho disso, vinha fiscalização, a empresa disso, mas eu não sei também a qualidade dessas davam era aquela 1 hora, para você levava multa, mas não tinha creche instituições, como que está. Agora, é que eu vou começar a sair 1 hora antes do trabalho, para virar, o máximo que as empresas [enfática], as mães tinham que se procurar é que eu vou ver realmente.” mais que tenha lei, a gente sabia o convívio com outras crianças é importante, a gente sabe As empresas “... Não tinham [creche] prática, por tudo o que eu vi, ela não poder fazer o aleitamento [...] Então assim, existe a lei, existe. Mas, na e não pagavam nada [nenhum auxílio para as funcionárias].” é cumprida.” 189

      Eixo 5. Aspectos intergeracionais As entrevistadas não vivenciaram experiências concretas em creches

    quando bebês (quadro 19), assim como os homens-pais de camadas médias

    entrevistados por Galvão (2008). Sete delas foram educadas e cuidadas

    principalmente por suas mães, enquanto uma recebeu os cuidados de sua avó

    e, posteriormente, de uma empregada. Todas, entretanto, ingressaram na pré-

    escola com idades que variaram entre 3 anos e meio, 4 anos e 6 anos. Cinco

    entrevistadas freqüentaram pré-escola pública, duas ingressaram na pré-escola

    particular e uma freqüentou pré-escola rural. Cinco delas estudaram em pré-

    escolas de São Caetano do Sul. Das mães das entrevistadas, metade não

    trabalhava fora e duas (incluindo a mãe de Joana que trabalhou como diretora

    em uma pré-escola) pararam de trabalhar fora para cuidar pessoalmente dos

    filhos (entrevistadas e seus irmãos/irmãs).

      É necessário lembrar que, das mães que entrevistamos seis viveram

    suas infâncias na década de 1970, quando as creches brasileiras ainda

    iniciavam seu processo de expansão, a partir das reivindicações dos

    movimentos de mulheres e de luta por creche, direcionando seu atendimento

    aos filhos de mães trabalhadoras. Duas entrevistadas mencionam suas

    percepções de que naquela época não havia creches: “Acho que na época não

    tinha creche...” (Joana); “... antes não tinha isso muito de creche e como minha

    mãe não trabalhava então eu fiquei com a minha mãe até 5 para 6 anos...”

    (Aléxia).

      Apreendemos, portanto, que todas as entrevistadas foram educadas e

    cuidadas principalmente por suas mães ou por outras pessoas também de

    sexo feminino, como avó ou empregada. Elas avaliam bastante positivamente

    os cuidados recebidos destacando a dedicação e atenção por parte de suas

    mães, mas também os valores familiares e a educação de qualidade que

    puderam usufruir na infância (quadro 20): “... minha mãe era dedicação 100%

    para nós, que eu acho que é o ideal.” (Natália); “Meu pai também era presente,

    mas como ele trabalhava bastante eu ficava mesmo mais com ela [mãe], [...]

    [eles] me passaram bons valores, puderam me colocar na escola particular no

    primário e 1º grau.” (Beatriz); “A gente lembra já quando é maiorzinho né, não

    de quando era bebezinho. Mas, assim, minha mãe sempre foi mãezona, [...] é

      

    mãe com M maiúsculo e a gente assim sempre foi muito unido. Na hora do

    jantar, discutindo tudo, sempre apoio na resolução dos problemas da gente,

    meu pai e minha mãe sempre teve isso de sentar e conversar, aconselhar, a

    gente tinha esse tempo...” (Milena); “... eu tive uma infância que eu falo que [...]

    eu adorei [...] Eu brinquei muito, eu tive muita dedicação da minha mãe,

    cuidado, não tenho queixas ...” (Aléxia).

      Algumas entrevistadas expressaram seu reconhecimento em relação ao

    que haviam recebido de suas famílias na infância: “Eu aprendi, na verdade, eu

    sou o que sou graças à educação que eu recebi. A responsabilidade, a

    integridade, a minha informação enquanto pessoa de forma geral, respeito

    pelos outros, porque a gente tem que respeitar os outros para poder ser

    respeitado, então sabe meu pai era uma pessoa que transmitia muita

    sabedoria, ele não chegou a fazer faculdade na época porque ele era de uma

    família de muitos irmãos e minha mãe também não fez faculdade [...] mas nem

    por isso não tinham a sabedoria da vida.” (Aléxia); “... minha mãe fez papel de

    pai, de mãe, de tudo, porque, realmente, faz falta a figura paterna.” (Malu);

    Meus pais fizeram de tudo pela gente. Tudo, tudo que eles podiam fazer, eles

    faziam. Graças a Deus, sempre deram tudo pra gente, sempre, nunca faltou

    nada, sempre se esforçando, tirando deles para dar pra gente assim, eu acho.

    E não tem o que falar assim.” (Manuela); “E assim, eu vi que os meus pais

    fizeram de tudo para me dar uma boa educação [...] eu sempre estive em

    escolas particulares, eu fiz faculdade, então isso tudo eu devo ao esforço dos

    meus pais...” (Júlia).

      Embora o que tenham recebido de seus pais tenha sido vivido de forma

    bastante positiva pelas entrevistadas, algumas delas conseguiram apontar em

    suas avaliações também pontos, digamos menos positivos, como a cobrança

    excessiva dos pais em relação à educação formal ou uma postura mais

    rigorosa na imposição de limites (palmadas e chineladas, por exemplo).

      Ao refletirem sobre o que gostariam de manter ou modificar na educação

    de seus filhos (quadro 20), com base na educação e cuidados recebidos na

    infância, algumas entrevistadas se referiram às diferenças de contextos sócio-

    históricos entre o período em que elas viveram suas infâncias e o momento

    contemporâneo em que seus bebês vivenciam suas experiências: “...a gente

    não vai comparar aqueles tempos que não eram tão evoluídos como agora que

      

    têm internet, que tem uma série de coisas que naquela época não existia.

    Aquela época era muito deficiente, então, não dá nem para comparar 40 anos

    atrás com agora, com essa modernidade toda da tecnologia [...] naquela época,

    as crianças eram criadas de qualquer jeito, não tinha esse negócio de ter o seu

    quartinho, o seu bercinho, imagina, dormia na cama junto com a mãe, ia para a

    roça com a mãe, então, quer dizer, não tinha tantos cuidados como tem hoje,

    tanta frescura (risos) como tem hoje. Quer dizer, eu não morri, estou aqui viva

    (risos).” (Malu); “... hoje é outra realidade (risos) que antigamente [...] acho que

    educar da mesma forma eu não vou conseguir, porque assim [...] não sei se eu

    agüentaria ficar 100% em casa hoje. A gente fala que é o ideal, mas eu não sei

    se hoje, nos dias em que a gente vive, se eu realmente pudesse abrir mão, ‘ah,

    não vou mais trabalhar’, não sei se eu conseguiria me dedicar 100%...”

    (Natália); “...Hoje em dia, o assunto ecologia está na moda [...] mas,

    antigamente não era e mesmo na época eu tive isso...” (Aléxia); “... eu vejo

    assim, que pra época, apesar de eu não ser super velha (risos), mas eu vejo

    que tem muita diferença [enfática]. Antigamente assim, o foco era mais a

    educação mesmo, a alfabetização, o respeito. E, hoje em dia não, hoje em dia

    não, já tem a questão do estímulo [...] as pessoas se conscientizaram de que

    não é só a parte formal da educação, mas que tem uma outra questão do

    estímulo, da interação entre as crianças [...] As crianças de hoje vivem em um

    mundo com muito mais estímulo do que na minha época [...] eu acho que eu fui

    estimulada, dentro do que havia de disponível para a época, e em tão pouco

    tempo mudou muito, nossa. É impressionante.” (Júlia).

      As diferenças mencionadas pelas entrevistadas entre os contextos

    sócio-históricos parecem sugerir uma re-interpretação não somente do que

    receberam em suas infâncias em termos de valores ou de educação formal,

    mas também do modelo de disponibilidade materna ou feminino que lhes foi

    conferido quando crianças (como abordado por BLOCH e BUISSON, 1999).

    Natália, por exemplo, considera que o ideal seria o bebê ficar com a mãe em

    tempo integral, como ela mesma foi educada e cuidada, mas pondera que hoje,

    por estar inserida profissionalmente talvez não consiga se afastar de suas

    atividades para se dedicar “100%” (como ela mesma diz) ao seu bebê. Nesse

    caso, tem deixado seu bebê com uma babá, transferindo a norma da

    disponibilidade para outra pessoa também de sexo feminino. Por sua vez,

      

    Manuela, que foi educada/cuidada por sua avó e, posteriormente, por uma

    empregada, já que sua mãe trabalhava fora, revela seu desejo de manter-se

    mais presente junto ao seu bebê.

      Além disso, alguns discursos maternos (como o de Júlia, o de Joana e o

    de Malu, por exemplo) revelam a percepção de que mudanças ocorreram

    também nas concepções de criança e de cuidados que devem ser

    proporcionados aos bebês. A preocupação em não ser rigorosa ao colocar

    limites, em propiciar estímulos, em brincar com seu bebê e possibilitar que ele

    possa interagir com outras crianças de mesma idade despontam como aquilo

    que algumas mães revelam ser importante oferecer ao bebê e que avaliam

    como tendo recebido pouco ou de modo diferente em suas infâncias.

      Malu explicita a vontade de oferecer ao seu bebê o que avalia não ter

    sido possível receber em sua infância: “Tudo o que eu não tive, eu quero dar

    para ele, o melhor. Por exemplo, um quartinho, um bercinho, todos os cuidados

    que uma criança tem hoje, todas as frescurinhas que tem hoje [...] Oferecer

    coisas boas que, graças a Deus, hoje, eu posso oferecer isso ao meu filho e

    que naquela época, minha mãe, infelizmente, não tinha como oferecer [...] eu

    falei ‘eu não vou ter um bebê aí, sem pai, de qualquer jeito’. Para mim, é muito

    importante a figura paterna porque eu também fui criada sem pai, então eu sofri

    por causa disso, fiquei meio revoltada e tal. E já com o pai presente, então falei

    ‘ele [bebê] vai ser feliz, ele vai ter vó [avó], vai ter vô [avô]’, tem duas vós [avós]

    e um vô [avô], e eu não tive porque eles já tinham morrido.”

      As mães entrevistadas expressam, então, procurar manter o que

    consideram válido da educação que receberam, mas modificar o que acreditam

    não ser adequado à realidade atual de seus bebês e de suas famílias, ao

    mesmo tempo re-interpretando o modelo de disponibilidade materna e

    procurando adequá-lo aos seus momentos pessoais e profissionais. De forma

    geral, apreendemos, em seus discursos, um legado intergeracional

    relacionado, sobretudo, com a expressão do desejo de zelar pelo bem da

    criança, de educar e cuidar com amor, atenção e limites, de transmitir os

    valores familiares recebidos, de oferecer aos seus filhos as mesmas

    oportunidades e qualidade de ensino formal que receberam quando crianças.

      194 Quadro 19. Educação e cuidados recebidos pela entrevistada em sua infância Entrevistada/ Idade (em meses) e sexo do bebê Freqüência à creche ou pré- escola pública ou privada Idade de ingresso na creche ou pré- escola (em anos) Estudou em São Caetano? Pessoa responsável por sua educação e cuidados Mãe exercia atividade profissional quando a entrevistada era criança?

      “... o prézinho, jardim de infância era da Prefeitura.”

      5 Não Mãe Avó ajudava, às vezes, mas não era uma ajuda constante

      6 Sim Mãe Não Júlia 1 e ½ /M Sim, freqüentou pré-escola particular

      Sim Milena 11/M Sim, freqüentou pré-escola pública

      Sim Avó até 1 ano de idade, na casa da avó Empregada a partir de 1 ano de idade

      “... eu era bem pequena, bem pequenininha, não lembro.”

      4 Sim Mãe Não Manuela 3/M Sim, freqüentou pré-escola particular

      Beatriz 6/F Sim, freqüentou pré-escola pública

      Joana 9/F Sim, freqüentou pré-escola pública

      6 Não Mãe Acompanhava a mãe em seu trabalho na roça Sim

      “... a gente falava ‘parquinho’, que eram escolas em fazendas.”

      De 6 para 7 Sim Mãe Não Malu 3 e ½/M Sim, freqüentou pré-escola

      “... fiz a pré-escola, que era o prézinho, o parquinho que falava antes (risos)...”

      4 Não Mãe Não Aléxia 3 e ½/M Sim, freqüentou pré-escola pública

      Sim, freqüentou pré-escola pública

      3 e ½, 4 Sim Mãe Mãe parou de trabalhar para cuidar dos filhos Natália 3/F

      Mãe parou de trabalhar para cuidar dos filhos

      Quadro 20. Do que recebeu na infância, o que gostaria de manter ou alterar na educação e cuidado do bebê Entrevistada/ Relatos sobre educação e cuidados recebidos O que gostaria de manter na educação do bebê ou transmitir para ele? O que gostaria de alterar na educação Idade (em do bebê? meses) e sexo do bebê

    Joana Tem um lado negativo e um positivo “... respeito, muito carinho, minha mãe ela tem a dose do carinho e a dose do limite que “... diferente do que eu tinha, é que ela [bebê]

    9/F Com a mãe se tem uma atenção maior eu acho que isso é importante, você ter o limite na educação, que é uma coisa que a é filha única...” Quando é filho único a criança

    Com as irmãs, tinha com quem brincar, mas ficavam “... no nosso criança precisa [enfática], mas ter o carinho também, que eu acho que isso é uma acaba ficando muito sozinha em casa, fica mundinho [...] não tem outras atividades que você acaba coisa que minha mãe passou pra gente e eu pretendo também passar para a minha com manha, avó dá tudo na mão e o bebê desenvolvendo na escola.” filha, dar as noções de convivência, mas ter o amor também, porque, às vezes, você não aprende a dividir tem uma coisa muito rígida, mas não tem o carinho, o afeto que a criança também

    Natália Mãe se dedicava integralmente aos filhos “... eu acho que tem algumas coisas que são importantes, assim a gente sempre tomou Acha que não conseguirá educar seu bebê

    3/F foram muito importantes na minha educação [e que gostaria de manter ou preservar na café junto, almoçou junto, jantávamos juntos, a lição de casa todo dia fazíamos juntos da mesma forma que foi educada, porque não precisa. Eu acho que isso minha mãe passou e eu pretendo fazer isso com a minha Então, são coisas que você vai [...] criando esse hábito e que [...] nos dias atuais filha também.” [...] sabe se conseguiria se dedicar 100% ao bebê 3 e ½/M por mais que eu caía, machucava, porque eu [...] era muito levada outros, por si mesmo, pelo meio ambiente, sabe isso sempre foi muito passado pelos não precisa mudar nada em relação à

    Aléxia “...só tenho recordações muito boas, de felicidade mesmo [enfática], “... são coisas que eu quero passar, assim, o brincar, o respeito, a consideração pelos Como nunca apanhou dos pais, avalia que

    [...] eu só tenho recordações excelentes. Eu não vejo a minha meus pais [...] então tenho que passar mais ainda para ele [bebê]. Então, em todos os educação do filho educação da filha, ao menos um pouco].” Brincar mais com a criança, sentar no chão, rolar, ser mais relax, não ficar só cobrando ou só focando a educação. O difícil é encontrar esse equilíbrio

    Malu Mãe era rigorosa, mas também conversava bastante com a filha e “Minha mãe sempre conversava muito comigo e então isso eu também quero levar de O que não teve, o que puder, vai fazer pelo

    também [...] a gente é uma família que [...] não pode se queixar.” mesma forma. Se precisar dar bronca a gente dá, chamar uma atenção a gente chama, “... meus pais souberam muito bem educar os meus irmãos e a mim aprender o que é certo e o que é errado e é o que eu quero fazer com ele [bebê] da infância como triste. Não, muita brincadeira, por isso que eu falo que aspectos, em termos de educação mais geral mesmo, em termos de respeito, de ser criança tem que brincar mesmo, a gente aprende brincando sim, [...] uma criança feliz para ser um adulto feliz.” para mim, a minha infância foi inesquecível.” a minha educação [...] tinha a repreensão, mas não pela punição e sim para você “... para ele saber tudo como fazer.”

      3 e ½/M cumpriu papel de mãe e de pai conversar muito com ele.” bebê

    fazer comida, eu já sabia fazer tudo em casa e ai se eu não fizesse.” valha à pena, tipo uma chineladinha no bumbum da criança não vai fazer mal, é lógico, viveu na infância

    conseguia me pegar [...] Mas, a minha mãe é muito guerreira, muito “... a gente quer passar o melhor para ele e, é claro, que a questão da chinelada Quis que o bebê tivesse pai e avós, que lutadora, trabalhava muito na roça. e a partir dos 7 anos eu já sabia também, às vezes, até para disciplinar, a varinha né da sabedoria, isso talvez ainda vivesse uma situação familiar diferente da que “..naquela época a gente apanhava de chinelo, isso quando ela Quer manter a disciplina Na época de sua infância não tinha tantos cuidados como as que você não vai espancar a criança, porque eu também não fui espancada (risos). crianças têm hoje

    Beatriz “Eu acredito que ter sido cuidada pela minha mãe foi o mais “Ah, mais os valores, ajudar a formar um bom caráter, formar com bons exemplos, não “Acho que não [faria nada diferente], mas

    6/F acertado, não mudaria nada na minha educação e o fato de ter discutir na frente dela.” tentaria fazer com que ela [bebê] possa ser

    freqüentado a EMEI a partir dos 4 anos também foi o mais acertado, pois acredito que para a criança é bom o convívio com outras.” que eu acabei ficando também mais agitada e calma. Minha mãe era mais agitada e eu acho mais ansiosa. E isso não foi bom, porque a ansiosa. Acho que minha mãe passou um gente acaba sofrendo também por ser pouco também de insegurança e não queria passar isso para a minha filha.” 195

      

    Continuação quadro 20. Do que recebeu na infância, o que pretende manter ou alterar na educação e cuidado do bebê

    Entrevistada/ Relatos sobre educação e cuidados recebidos O que gostaria de manter na educação do bebê ou transmitir para ele? O que gostaria de alterar na educação Idade (em do bebê? meses) e sexo do bebê

    Manuela “... eu era terrível! Eu odiava estudar, então meu pai e minha mãe me “... eu vou fazer tudo para ele. No sentido de poder dar uma boa escola pra ele, sabe, Não sei se eu faria assim [como os pais

    3/M chantageavam com isso tipo, ‘você quer alguma coisa, então só se não estou falando de mimar, de ficar dando coisinha, de ficar comprando a criança com fizeram com ela] com o João. Mas, também,

    “[A educação recebida] foi ótima [...]. Meu pai era, quando a gente quero ter condição, eu gostaria muito de ter condições de dar uma boa escola para ele, problema seu’. Não dá, tem que estar em era mais nova, ele era um pouco ignorante no sentido de que ele eu acho que viajar, fazer uma viagem de intercâmbio é super importante, eu fiz, [...] e cima, tem que ter alguma forma de, não sei se você tirar nota boa’...” brinquedo, não, isso não, isso eu não gostaria de fazer. A minha mãe fala ‘é, você fala não posso largar. Se eu largar, eu vou fazer o que não vai dar, quero ver na hora você falar não’, então, não sei como vai ser, mas eu que? ‘Ah, você não quer estudar, não estuda, tudo, tudo, não me deixava fazer nada por causa das notas [...] Não chantagem também era meio complicado, ele me chantageava com especificamente, mas o que eu tiver que fazer, eu vou fazer.” achava que bater resolvia, então ele me deu umas palmadas [...] foi a melhor experiência da minha vida! [...] e gostaria que ele tivesse [...] eu usaria esse método [chantagem] mas depois ele viu que não funcionava [...] Ele melhorou muito eu quero estimular muito o crescimento dele, tudo o que eu puder fazer para estimular especificamente, mas alguma coisa eu ia assim, por isso que eu acho que bater não resolve nada. E a a inteligência dele eu vou fazer [...] Eu não sei ainda o que que tem que fazer fazer, não sei o que.” deu muito certo porque eu não estava nem aí, entendeu...” Ela gostaria de ser mais presente. Quando era pequena, a mãe tinha que trabalhar, mas ela queria que a mãe ficasse com ela

    Milena “Minha avaliação é 10 em termos realmente de aconchego, “Eu acho que de tudo um pouco eu levaria, talvez, um pouquinho mais de liberdade “... não tem nada que eu fale ‘não, isso eu não

    (risos), aí eu largo o trabalho na mesma hora, “...eu acho que eu quero estar bem presente imagina, com a minha sogra, imagina se ele fala ‘vó’ [avó] antes de mãe, aí eu me mato! assim no crescimento dele. Já estou doida, aí eu falo ‘chega, tchau, não quero mais’.”

      11/M acolhimento, atenção, proteção, tudo de bom. Minha mãe era um mesmo porque com a minha mãe sempre teve horário para chegar em casa [...] era levaria para o meu filho’.” preconceitos, mas isso eu carreguei para a minha vida assim eu pai sempre foi rigoroso, mas assim, de colocar hora, atenção, obediência à professora pouco menos rigorosa que os pais ou dando pouco rigorosa quanto às regras tudo, enfim cheia de tabus e assim a minha mãe que, às vezes, fazia papel de pai no sentido de, se bem que meu Comenta que quer colocar limites sendo um acho que também direciona, então o cuidado, muito cuidado [enfática], sempre foi cheia de dedos. Então, isso eu levo, com menos intensidade um pouco mais de liberdade ao seu filho [enfática], ela tinha muito isso e isso me ajudou.” talvez, talvez com um pouquinho mais de liberdade. Mas, assim o fato de acolhimento, de estar junto para discutir, para aconselhar, para amparar, isso, amparo eu diria que foi tudo que a minha família deu [...] acho que o amparo é tudo.”

    1 e ½ /M não tinha ninguém pra falar pra gente, olha, converse com o seu [...] Uma coisa que eu recebi, mas acho que já mais velha e que também gostaria de com um pouco mais de equilíbrio, então, por

    Júlia “Minha mãe fala [...] ‘nossa, eu não conversava com vocês, porque “... essa questão do respeito, respeito com os mais velhos, esse carinho com os avós, “... eu acho assim que [transmitiria] as coisas

    bebê, a gente achava que dando de mamar, limpando, trocando e passar para ele é essa questão ética [...] Tem uma coisa que eu não recebi dos meus exemplo, talvez essa questão do respeito, pondo para dormir era o suficiente’ [...] Então não tinha mesmo o pais, mas que eu gostaria de passar para ele que é essa questão do ensino religioso meus pais sempre ensinaram a gente a não acesso a muita informação. [...] que hoje é uma coisa importante na minha vida, mas [...] vai depender, é uma escolha responder, independente do que vinha do muito amor que eu recebi, que é o que eu quero passar para ele também, que ele se tendencioso para um lado sabe, acho que tem muito individual, então eu não sei que escolha ele vai fazer, mas eu vou tentar. Ah, e outro, e eu acho que já ficou muito sinta amado, cuidado, valorizado, porque a gente sabe o quanto isso é importante.” que ter um equilíbrio, acho que deve haver um Também quer proporcionar ao filho uma boa educação, em boas escolas verbalmente, [...]você tem que ser ensinado, dessa forma. Eu fui ensinada independente do comigo dessa forma’ e eu não fui ensinada não digo a agredir, mas [...] a responder à altura, ou pelo menos falar ‘olha, não fale respeito sim, mas se a pessoa te agride que o outro fale você tem que ficar quieta e eu acho que isso não é legal.”

      196

      CONSIDERAđỏES FINAIS Esperamos que, ao final deste trabalho, tenhamos conseguido

    apresentar uma re-interpretação significativa e válida do campo-sujeito-objeto

    pesquisado.

      Ao abordarmos os discursos de mães de camadas médias sobre o bebê,

    sua educação e cuidado, procuramos dialogar com as re-interpretações já

    propostas por outros estudos do NEGRI, em especial os de Lima (2004) e de

    Galvão (2008), adotando os aportes teóricos proporcionados tanto pelos novos

    estudos sobre infância, quanto pela produção das pesquisadoras francesas

    Bloch e Buisson (1998, 1999) sobre o processo de escolha de casais por

    modalidades de EI, analisado, por elas, do ponto de vista das relações

    intergeracionais e de gênero.

      Pudemos apreender, nos discursos das mães que entrevistamos, quais

    as opções de educação e cuidado que consideram adequadas não somente

    para seus filhos, mas também para outros bebês, quais concepções sobre o

    bebê parecem embasar suas escolhas por modalidades de EI e como

    expressam suas avaliações sobre a creche, especialmente sobre a creche

    pública, enquanto instituição de educação e cuidado coletivos.

      Observamos que as mães entrevistadas pouco haviam se mobilizado

    por questões relacionadas aos direitos dos bebês ou às políticas de creche.

    Muitas relataram mesmo “nunca ter parado para pensar” sobre essas questões,

    embora algumas soubessem e conhecessem a dificuldade de algumas mães e

    bebês para conseguirem, por exemplo, uma vaga em creche.

      A baixa mobilização social pelos direitos dos bebês e pelas políticas de

    creche foi associada não somente a uma postura, talvez, individualista e

    acomodada da sociedade brasileira, mas também à opção por parte de

    algumas famílias de modalidades de educação e cuidado infantis em contexto

    doméstico e à oferta insuficiente de vagas em creche.

      Apreendemos que os discursos das entrevistadas evidenciam o que

    supúnhamos como hipótese inicial de nosso trabalho, ou seja, que mesmo

    entre mães com maior escolaridade e renda e inseridas profissionalmente

    prevalecem concepções sobre o bebê associadas a imagens de fragilidade,

    dependência e inocência, que os inserem, principalmente, quanto menor a

      

    idade da criança, ao contexto doméstico. Estes dados se aproximam dos

    resultados encontrados tanto por Lima (2004), ao entrevistar mulheres de

    pouca escolaridade e renda, quanto por Galvão (2008), quando entrevistou

    homens de camadas médias.

      O bebê, compreendido como imaturo, frágil e dependente, foi mais

    associado pelas entrevistadas ao espaço privado e cuidado por mães, avós e

    babá, do que a criança pequena que entre 1 e 2 anos, por já ter desenvolvido

    algumas competências como a marcha, a fala, a capacidade de compreensão

    e expressão, já seria considerada, pelas entrevistadas, como mais apta a

    freqüentar a creche.

      Não notamos diferenciação nos discursos de mães de bebês de sexo

    masculino e feminino, mas apreendemos que as mães apontam fortemente

    para a distinção interna entre as crianças na faixa de 0 a 3 anos, considerando

    que os bebês apresentam tanto capacidades diferenciadas das de crianças

    pequenas quanto necessidades específicas de atenção, educação e cuidado.

      As mães entrevistadas, talvez por não terem vivenciado experiências de

    educação e cuidado infantil em espaços coletivos quando bebês, tendo

    permanecido no espaço da casa sempre sob o cuidado de suas próprias mães,

    avós ou empregada, expostas, portanto, a um modelo de disponibilidade

    feminina ao bebê, parecem ter orientado suas buscas por alternativas de

    atendimento para seus filhos que também pudessem assegurar essa mesma

    atenção e disponibilidade, quase sempre oferecida, também, por pessoas de

    sexo feminino em casa ou na creche.

      Ao refletirem sobre como foram educadas/cuidadas quando crianças, as

    entrevistadas pouco se referem à avaliação das modalidades de cuidado e

    educação, ou, por exemplo, ao fato de terem permanecido sob os cuidados de

    suas próprias mães e não terem, por exemplo, freqüentado creche.

      Também, é necessário destacar como apreendemos, no contexto social

    paulista dessas mães, que não freqüentaram elas mesmas a creche, os

    legados intergeracionais. Observamos que elas expressam o desejo de manter

    o que consideram válido da educação que receberam, especialmente,

    procurando zelar pelo bem da criança, procurando educar e cuidar com amor,

    atenção e limites, tentando transmitir os valores familiares recebidos e

    oportunizando aos seus filhos a mesma qualidade de ensino a que tiveram

      

    acesso quando crianças, mas também de modificar o que acreditam não ser

    conveniente à realidade atual de seus bebês e de suas famílias.

      A concepção das mães entrevistadas do que seriam creches de

    qualidade parece contemplar indicadores que assegurem para, além dos

    cuidados físicos, o desenvolvimento de atividades pedagógicas garantindo, não

    somente, que as crianças possam se socializar e interagir com outras crianças,

    mas que possam receber uma atenção mais individualizada por parte de

    profissionais devidamente capacitados.

      Apesar de somente metade das entrevistadas optar pelo uso da creche

    para seus filhos quando mais velhos, a maioria das mães que entrevistamos

    visualiza a “escola” pública em São Caetano do Sul como uma opção não

    somente para seus filhos, mas também para outros bebês. Elas consideram

    que a creche pública, mantida pelo município e denominada Escola Municipal

    Integrada, oferece, não somente, bom atendimento às crianças com grande

    investimento na capacitação de seus profissionais, mas também conta com a

    adesão das camadas médias, diferentemente do que ocorreria, segundo elas

    com creches públicas de outros municípios.

      Não observamos, portanto, um sentimento de rejeição a priori frente ao

    serviço público, como Galvão (2008) havia apreendido entre os homens-pais

    de camadas médias que entrevistou, mas notamos, sim, uma rejeição explícita

    ao termo creche e às creches (públicas, mas também particulares) que possam

    não preencher os critérios de qualidade que as mães consideram adequados

    às necessidades dos bebês em termos de educação e cuidados.

      Para finalizar, gostaríamos de registrar que, diante das limitações de

    tempo que tivemos para efetuar a análise dos dados, optamos por apresentar

    informações mais gerais que dessem conta do que havia prevalecido nos

    discursos da maioria das entrevistadas. Infelizmente, não conseguimos atentar

    para todos os detalhes ou informações que, embora preciosas, dissessem

    respeito somente à realidade de uma entrevistada, de uma família ou de um

    contexto muito particular. Não foi nosso objetivo, também, abordar as possíveis

    ambigüidades internas a cada discurso.

      Apresentamos, nesta tese, uma possibilidade de interpretação dos

    dados, e esperamos que ela possa instigar outros pesquisadores a também

    investigarem o tema - tomando o cuidado de desagregarem a faixa etária de 0

      

    a 3 anos por idades e de não considerarem a EI como um bloco homogêneo,

    como se a freqüência à creche (para todas as idades de 0 a 3) e a freqüência à

    pré-escola fossem equivalentes, perdendo, com isso, a especificidade da

    creche -, e a produzirem novas interpretações, propiciando uma maior

    visibilidade social para os bebês brasileiros e suas necessidades e direitos em

    termos de educação e cuidado.

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      219

    ANEXOS

      Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Comitê de Ética em Pesquisa

      Sede Campus Monte Alegre São Paulo, 16 de novembro de 2009.

      Termo de Compromisso do(a) Pesquisador(a) Responsável

    Título da Pesquisa: O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães

    de camadas médias.

      Os(as) pesquisadores(as), abaixo assinados(as), se comprometem a:  Respeitar e cumprir a Teoria Principialista que visa salvaguardar a autonomia,

      beneficência, não maleficência e justiça (Res. 196/96 CONEP/CNS/MS);

       Atender aos deveres institucionais básicos da honestidade; sinceridade; competência; discrição; sigilo; etc.;  Pesquisar de forma adequada aos princípios éticos, além de buscar o aprimoramento e promoção do respeito e desenvolvimento à sua profissão;  Não fazer pesquisas que possam causar riscos aos sujeitos de pesquisa envolvidos;  Não violar as normas do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;  Não converter recursos públicos em benefícios pessoais;  Não prejudicar o meio ambiente, evitando erros previsíveis ou evitáveis;  Comunicar ao sujeito da pesquisa todas as informações necessárias para um adequado “consentimento livre e esclarecido”;  Propiciar ao sujeito da pesquisa plena oportunidade e encorajamento para fazer perguntas, bem como respeitá-lo em seus posicionamentos;  Excluir a possibilidade de engano, influência indevida e intimidação; Solicitar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido apenas quando o sujeito da pesquisa tenha conhecimento adequado dos fatos relevantes e das conseqüências de sua participação, e tenha tido oportunidade suficiente para considerar livremente se quer participar da pesquisa;  Obter de cada sujeito de pesquisa um documento assinado como evidência do consentimento livre e esclarecido;  Renovar o consentimento livre e esclarecido de cada sujeito se houver alterações nas condições ou procedimentos da pesquisa; Respeitar a dignidade da pessoa humana;  Cumprir na integralidade todas as resoluções da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa CONEP/CNS/MS, as quais temos pleno conhecimento.

      ____________________________ _______________________________ Assinatura do(a) Orientador(a) Assinatura do Autor(a) Nome: Fúlvia M. de B. Mott Rosemberg Nome: Elaine Cardia Laviola CPF Nº_______________________. CPF Nº_______________________.

      RG Nº________________________. RG Nº_________________________.

      220

      PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social NEGRI – Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

      O presente termo de consentimento tem por objetivo informar-lhe sobre a pesquisa, bem como, a partir de sua compreensão, obter sua autorização explícita para dela participar como entrevistada, visando assegurar o cumprimento de normas éticas na relação pesquisador-pesquisado. Objetiva-se, através deste, fornecer à entrevistada uma idéia básica sobre a pesquisa e sobre o que a sua participação envolverá.

      Se você desejar obter mais detalhes sobre algo mencionado, ou informações não incluídas, sinta-se à vontade para perguntar. Por favor, leia cuidadosamente este termo de consentimento e as informações aqui contidas.

      Tema de pesquisa O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias. Pesquisadora

      Elaine Cardia Laviola, Doutoranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Orientanda da Professora Doutora Fúlvia Maria de Barros Mott Rosemberg.

      Objetivo da pesquisa

      Descrever e interpretar as concepções de mães sobre o bebê, sua educação e cuidado.

      Recrutamento e seleção dos participantes

      Serão convidadas a participar da pesquisa: mulheres mães de bebês com 1 filho de até 1 ano de idade, residentes no município paulista de São Caetano do Sul,

      221 casadas ou com companheiro, inseridas no mercado de trabalho, pertencentes às camadas médias da população e que apresentem formação superior.

      Procedimento

      O procedimento adotado será a entrevista. Estima-se que o tempo de duração de cada entrevista seja de aproximadamente 1 hora. As entrevistas serão gravadas com consentimento para permitir um registro mais preciso e sua posterior transcrição.

      Aspectos éticos

      Em relação aos aspectos éticos, é importante ressaltar que só serão realizadas entrevistas e apresentados dados cuja autorização prévia para divulgação seja obtida. Os objetivos da pesquisa serão informados às participantes e lhes será dada a liberdade de decisão sobre participação no estudo, assim como também lhes será garantido anonimato.

      Risco ou desconforto

      Caso a participante sinta-se desconfortável em algum momento da entrevista, poderá solicitar a interrupção ou, até mesmo, o encerramento da sua participação na pesquisa.

      Sigilo

      Os nomes das participantes serão mantidos em absoluto sigilo. Todas as informações obtidas na entrevista serão utilizadas apenas para análise dos dados e em hipótese alguma os nomes das participantes constarão nas eventuais publicações escritas e/ou orais. Os nomes de pessoas citadas pelas entrevistadas também serão alterados visando garantia de anonimato.

      Consentimento

      A sua assinatura no presente termo de consentimento indica que você leu e compreendeu as informações aqui contidas, que você concorda em participar da

      222 pesquisa e ser entrevistada. Você é livre para se recusar a responder qualquer questão durante a entrevista. Sinta-se livre também para desistir de participar do estudo em qualquer momento, sem nenhuma penalidade. Esteja à vontade para pedir explicações ou esclarecimentos sobre a pesquisa sempre que achar necessário. Se você tiver outras questões relacionadas a este estudo, estou à disposição através do telefone (11) 8683-8880 ou pelo e-mail e.laviola@uol.com.br

      São Caetano do Sul, de de 2010.

      ______________________________

      Pesquisadora: Elaine Cardia Laviola

      RG: CPF: _______________________________

      Participante:

      RG: CPF:

      223

    PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

      COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA PUC-SP SEDE CAMPUS MONTE ALEGRE

      Protocolo de Pesquisa nº 008/2010 Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social Orientador(a): Prof.(a). Dr.(a). Fúlvia Maria de Barros Mott Rosemberg Autor(a): Elaine Cardia Laviola PARECER sobre o Protocolo de Pesquisa, em nível de Tese de Doutorado, intitulado O bebê, sua educação e cuidado em discursos de mães de camadas médias

      CONSIDERAđỏES APROVADAS EM COLEGIADO Em conformidade com os dispositivos da Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996 e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), em que os critérios da relevância social, da relação custo/benefício e da autonomia dos sujeitos da pesquisa pesquisados foram preenchidos.

      O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permite ao sujeito compreender o significado, o alcance e os limites de sua participação nesta pesquisa. A exposição do Projeto é clara e objetiva, feita de maneira concisa e fundamentada, permitindo concluir que o trabalho tem uma linha metodológica bem definida, na base do qual será possível retirar conclusões consistentes e, portanto, válidas. No entendimento do CEP da PUC-SP, o Projeto em questão não apresenta qualquer risco ou dano ao ser humano do ponto de vista ético.

      CONCLUSÃO Face ao parecer consubstanciado apensado ao Protocolo de Pesquisa, o Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – Sede Campus Monte Alegre, em Reunião Ordinária de 01/03/2010, APROVOU o Protocolo de Pesquisa nº 008/2010.

      Cabe ao(s) pesquisador(es) elaborar e apresentar ao CEP da PUC-SP – Sede Campus Monte Alegre, os relatórios parcial e final sobre a pesquisa, conforme disposto na Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996, inciso IX.2, alínea “c”, do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), bem como cumprir integralmente os comandos do referido texto legal e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS).

      São Paulo, 01 de Março de 2010. _____________________________________________

      Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP 224

      Transcrição primeira entrevista

    Entrevistada: Joana, 29 anos, professora e analista programadora com

    formação em Ciências da Computação, trabalha em uma universidade, mãe

    de Maria Clara, 9 meses.

    Elaine: Bom, queria agradecer você ter aceitado participar... eu não sei se você já

      tinha participado alguma vez de alguma pesquisa?

      

    Joana: Não, nunca participei. Quando você comentou, falei “ah, se puder

    ajudar...” (risos). Elaine: O que você achou do tema que eu vou pesquisar?

    Joana: É interessante, até em relação à educação, eu estou passando por um

      momento assim de... que ela [bebê] está com 9 vai fazer 10 meses e ela já está começando a andar e eu já estou procurando escolinhas para colocá-la e fica aquela dúvida porque aqui na região, em São Caetano, tem as escolinhas da Prefeitura, tem uma ao lado da minha casa, então estou visitando escola pra ver aonde colocá-la, a gente se preocupa com os cuidados, que é novinha tudo, então até foi interessante que é um... eu estou passando por este momento... em relação aonde colocá-la, cuidado, educação é uma coisa que a gente se preocupa bastante.

      

    Elaine: Ahamm... você comentou que está procurando uma escolinha. Queria que

      você falasse um pouquinho o que você está procurando nessa escolinha, se você já viu alguma?

      

    Joana: Isso. Olha, eu visitei já as escolas da Prefeitura, ao lado da minha casa e

      três escolas particulares. Minha filha ela tem assim, ela tem refluxo, então a gente sempre está... eu presto muita atenção assim nos cuidados que as pessoas vão dar para a criança. Normalmente, se tem muita gente olhando ou não, se a criança fica muito tempo sozinha, em relação assim aonde vai dormir, o que vai comer, se tem regras ou não tem, o lugar, como que é o ambiente, se é limpo, se não tem perigo, porque assim eu vi algumas escolinhas que, às vezes, assim ficam 9 crianças com uma moça e aí assim são áreas, às vezes tem o berço aqui, depois uma área onde a criança fica brincando, outra área separada onde toma banho e, às vezes, eu acho que perde um pouco o controle, às vezes, as crianças ficam um pouco sozinhas lá brincando, então a gente, eu fico preocupada neste aspecto, às vezes, também horários, se tem horário flexível para trabalhar porque eu aqui trabalho das 10h às 18h, 18h30, só que às vezes eu fico até mais tarde, embora a minha mãe está disposta, às vezes que eu fico aqui a ir buscá-la. Então é uma preocupação geral com quem está cuidando, como é a relação com a criança e o ambiente.

      225

      

    Elaine: Nós vamos voltar a falar mais sobre isso, sobre o que você está

      procurando, mas antes eu queria que você descrevesse um pouco sua família, falasse um pouco sobre você, seu marido e sua filha. O que você puder falar em termos de idade, profissão, religião, se vocês tiverem, para descrever um pouquinho sua família...

      

    Joana: Tá. Eu sou professora, eu trabalho com informática, eu fiz a minha

      formação, fiz Ciências da Computação e depois fiz Licenciatura. Eu sou programadora, analista programadora, e comecei a voltar a minha formação para educação, tanto que eu estou no setor de uma Universidade desenvolvendo conteúdos online. Meu marido é guarda municipal, ele até assim... a gente tem personalidade... embora os dois sejam tranqüilos, ele gosta de luta, é policial, eu já sou uma pessoa mais tranqüila. A gente tem um relacionamento muito bom, já faz 9 anos que eu namoro com ele e nós temos 2 anos de casados. Ele já morou um tempo na casa dos meus pais porque eu com a minha família sou muito ligada, tanto que eu já era ligada antes de ter a minha filha e agora, assim, vivo na minha mãe, que ela [bebê] também fica lá, que nem hoje meu marido está de folga e está lá na minha mãe...

      

    Elaine: Você tinha comentado antes da entrevista que vocês moram bem perto...

    Joana: É bem perto mesmo, eu até assim quando eu casei... antes de casar

      quando eu estava procurando, eu falei para o meu marido “eu quero morar perto da minha mãe” e o meu marido não tem assim uma relação com a família porque assim ele não foi criado pela mãe, foi criado pela avó, então ele valoriza muito a família tanto que o meu pai e a minha mãe para ele são os pais dele. Ele valoriza muito, então todas as festas desde que a gente começou a namorar ele passou comigo então virou uma grande família, meus pais e meu marido, de certa forma, virou um filho. A gente tem um relacionamento muito bom, eu e meu marido, a Maria Clara veio em uma surpresa assim, embora, eu não estava mais tomando remédio, mas eu não estava assim “olha, quero ter um filho agora”. E foi uma coisa muito boa que aconteceu, até aproximou eu e meu marido, esse negócio de ter uma criança, os cuidados, que nem hoje ele está lá, ele fica muito com ela, embora assim ele não cuida assim de dar mamadeira porque ele não tem muito jeito, mas ele está sempre assim, quando der ele fica, ele está com ela, ele cuida e comigo assim em casa ele ajuda muito a fazer mamadeira, às vezes janta, ele está sempre apoiando muito porque como eu trabalho também então ele sempre ajuda, que nem hoje de madrugada ela [bebê] acordou porque o dentinho está nascendo então precisa fazer mamadeira, eu vou trocando, cuidando e ele já vai, faz mamadeira, ele ajuda bastante, então ele é um bom companheiro.

      Elaine: E quais as idades de vocês?

    Joana: Ele tem 30 e eu tenho 29, vou fazer 30 agora [três meses após a data da

      entrevista], ele tem 31, então tem 1 ano e meio de diferença.

      226

      Elaine: E você é funcionária da universidade, contratada, assalariada... Joana: Isso, eu sou concursada. Elaine: E vocês têm alguma religião que vocês seguem ou não?

    Joana: Olha assim, eu sou católica não praticante. Eu acredito em Deus, eu já

      freqüentei centro espírita porque eu acredito no espiritismo, mas assim eu não sou freqüentadora de nenhuma... eu acredito em Deus, rezo, mas não tenho uma religião que eu seja praticante e ele a mesma coisa, ele acredita em Deus, a gente tem um altarzinho em casa com Jesus tudo, mas não sou praticante de ficar indo em igreja, não gosto muito.

      

    Elaine: Você tinha começado a falar um pouquinho em relação ao que seu marido

    viveu de não ter sido criado pela mãe, de ter sido criado pela avó... Joana: Isso.

    Elaine: Eu queria que você me falasse um pouquinho agora sobre os cuidados e a

      educação que você recebeu na infância, então como era, com quem você ficava, do que você se recorda...

      

    Joana: Olha, eu fui criada pela minha mãe, meu pai e minha mãe, eles são

      casados até hoje, mas meu pai assim sempre trabalhou muito, normalmente ele saía de casa a gente estava dormindo, ele chegava nós já estávamos dormindo. Minha mãe trabalhava, ela dava aula em escolinha, mas quando a minha irmã mais velha nasceu ela parou de trabalhar. Somos três irmãs, tem a mais velha, eu sou a do meio e tem a mais nova.

      

    Elaine: A escolinha, que você está dizendo que sua mãe dava aula, era para qual

      idade?

      

    Joana: Era para criancinha. Acho que na época não tinha creche, acho que era

      para 3 ou 4 anos, pré-primário. E ela foi e ficou uns 6 ou 7 anos porque ela fez o Normal e depois ela fez Letras. Ela chegou até a ser diretora de escolinha, mas a minha irmã mais velha nasceu e ela parou de trabalhar. Então eu fui criada assim praticamente pela minha mãe, meu pai deu todo o apoio, de certa forma, o sustento, nunca deixou faltar nada, mas quem criou a gente mesmo, que passou tudo foi a minha mãe. Assim até de lembrança de estar junto, com o meu pai até a gente tinha um afastamento sabe, aquela relação meio que de medo, de respeito.

      Eu comecei a ter um pouquinho mais de contato com ele aos 18 anos porque eu fui trabalhar com ele porque a formação dele é em computação também...

      Elaine: Ele é professor?

    Joana: Ele também é professor universitário. Ele trabalha com informática e, de

      certa forma, acabei me aproximando mais dele. Hoje, a gente tem uma relação de

      227

      conversar tudo, mas é uma coisa assim que foi construída já quando eu já estava mais velha porque antes era uma coisa de medo assim, tanto que quando eu comecei a trabalhar com ele, era meio aquela coisa de sentar no carro e ficar esperando “o que ele vai falar?”.

      Elaine: E você, então, não chegou a freqüentar creche ou escola?

    Joana: Não. Acho que foi com 3 anos e meio, 4 anos já que eu entrei na escola.

      Elaine: E em qual escola? Pública ou particular?

    Joana: Foi na escolinha da Prefeitura de São Caetano também, aí eu acho que eu

      fiquei até o prézinho e depois a gente foi para a escola particular, eu e a minha irmã mais nova.

      

    Elaine: Você se lembra um pouco mais dessa época que você freqüentava a

      escola? Joana: Olha, assim, eu lembro mais do pré-primário...

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Eu lembro assim de uma ou outra coisa que aconteceu na escolinha. Uma

      vez que eu perdi um negócio, teve uma festa lá que a gente levou uma boneca, que eu perdi o negócinho da boneca e aí a boneca não chorou mais. É isso que eu lembro dessa fase e mais do prézinho, que aí eu acabo lembrando um pouco mais e aí já foi na escola particular.

      Elaine: Ahamm... Joana: E que eu sempre gostei de ir para a escola (risos).

    Elaine: Sempre gostou de ir para a escola... e o que você pensa dessa educação

      que você recebeu, do jeito como você foi criada, enfim, cuidada, educada, de ter ficado até uns 3 anos com a sua mãe e depois ter ido para a escola? Que avaliação você faz disso?

      

    Joana: Olha, assim, eu acho que tem um lado positivo e um lado negativo que eu

      vejo dessa criação. Uma assim que você está com a mãe, de certa forma você tem uma atenção maior, embora assim, uma coisa boa é que como eu tinha as irmãs eu tinha com quem brincar tudo, mas uma coisa que eu vejo até pela minha filha, que eu já estou até querendo colocar na escolinha em uma fase assim de desenvolvimento dela, a escola está mais preparada até para desenvolver a criança, para ela ter um relacionamento maior com as crianças, porque uma coisa que eu vejo com a minha filha, diferente do que eu tinha, é que ela é filha única, por enquanto não tem primos, eu quero ter filhos, mas daqui um pouco pra frente, ela acaba ficando muito só ela, ela, ela, então eu acho legal essa coisa de você ir

      228 para a escola aprender a dividir sabe e desenvolver outras coisas porque a gente é muito manha, agora que ela fica com a minha avó, é muito assim, dá tudo na mão.

      Elaine: Fica com a sua mãe...

    Joana: Fica com a minha mãe, por enquanto ela vai com a minha mãe, porque é

      aquela coisa que eu confio, fica meio essa dúvida do saber com quem vai estar para cuidar, mas também ter uma possibilidade de ter o desenvolvimento da criança porque a gente não sabe ao certo que atividades você pode desenvolver pra criança, para desenvolver o aspecto... minha filha é um pouco preguiçosa, ela puxou um pouco a mim (risos) porque eu andei, eu falei bem tarde, sentei com 9 meses, eu era preguiçosa e, às vezes, assim uma coisa que eu vejo com a minha mãe é que a gente ao invés de estimular já pega e minha filha gosta de ficar lá no bercinho sentada, ela não faz muito esforço para levantar. Então acaba, não que ela esteja atrasada, mas em relação, às vezes, até às outras crianças acaba desenvolvendo um pouco mais tarde porque a gente acaba não estimulando.

      Elaine: Você acha que se colocasse na escola...

    Joana: É, de certa forma, porque hoje em dia as escolinhas até pelo que eu andei

      vendo, eles têm muita atividade para desenvolver o aspecto psicomotor, então isso eu acho interessante, diferente do que a gente teve, porque a gente ficou lá no nosso mundinho, fui para escola com 3 anos e meio, 4, a gente acaba brincando lá, mas não tem outras atividades que você acaba desenvolvendo na escola.

      

    Elaine: E dessa educação que você recebeu, do jeito como foi, o que você

      gostaria de transmitir para a sua filha ou se tem alguma coisa que você não gostaria de fazer?

      

    Joana: Olha eu acho que assim, a minha mãe, eu acho interessante tanto que a

      minha filha está lá porque ela sempre, até é uma coisa de ter muito respeito, muito carinho, minha mãe ela tem a dose do carinho e a dose do limite que eu acho que isso é importante, você ter o limite na educação, que é uma coisa que a criança precisa [enfática], mas ter o carinho também, que eu acho que isso é uma coisa que minha mãe passou pra gente e eu pretendo também passar para a minha filha, dar as noções de convivência, mas ter o amor também, porque, às vezes, você tem uma coisa muito rígida, mas não tem o carinho, o afeto que a criança também precisa. Eu acho que isso minha mãe passou e eu pretendo fazer isso com a minha filha também.

      

    Elaine: Teria alguma coisa que você não quer, digamos assim, para a educação

      da sua filha que você tenha vivido ou que você avalia como não sendo muito interessante?

      229

      

    Joana: Olha eu acho assim, da criação da minha mãe eu não tenho nada o que

      falar em relação a discordar. Não tenho o que discordar do que foi passado pela minha mãe...

      Elaine: Ahamm... Joana: Por isso até que minha filha está lá (risos).

    Elaine: Ahamm... Então, no telefone, antes da entrevista, você já havia me

      contado que a sua filha fica com a sua mãe. Ela fica desde que você voltou a trabalhar?

      

    Joana: É que é assim, quando a minha filha nasceu eu fiquei 1 mês, porque

      assim, eu estou na minha mãe já faz um tempo porque na minha gravidez eu já fazia repouso, então eu fiquei 1 mês e pouco no começo da gravidez, aí eu fui para a minha casa, eu tive que fazer repouso também no final da gravidez e aí eu já fiquei na casa da minha mãe. Aí, minha filha nasceu de 8 meses porque rompeu a minha bolsa, aí eu já fiquei o primeiro mês lá, por não ter experiência, hoje em dia eu acho engraçado até a criação, pelo menos a minha criação, nunca fui de cozinhar muito, sempre gostei de trabalhar, então a gente fica meio sem noção, sem saber como lidar com a criança, fiz cesárea, primeiro filho, então fiquei o primeiro mês na minha mãe e aí depois que eu já estava segura, já tinha me recuperado, aí eu fui para a minha casa.

      Elaine: Seu marido ficou junto na casa da sua mãe durante esse primeiro mês?

    Joana: Ele ficou junto. Aí eu fui para a minha casa depois de 1 mês e aí aos 4

      meses eu voltei a trabalhar e ela [bebê] ficou em tempo integral na minha mãe.

      

    Elaine: Tá. Então você usufruiu a licença maternidade durante os 4 meses

      regulamentares? Joana: Isso.

      

    Elaine: Ahamm... e como foi essa decisão, enfim, você chegou a pensar, como foi

      esse momento de pensar com quem o bebê ia ficar?

      

    Joana: Olha, eu pensei porque assim eu sou uma pessoa, não gosto muito de

      ficar pedindo as coisas, que nem pra minha mãe “ah, mãe fica com a minha filha”, embora assim é uma coisa que eu gostaria, principalmente por ela [filha] ser pequena, porque eu sei que é uma responsabilidade muito grande porque minha mãe já vai fazer 60 anos, não é fácil cuidar de uma criança, é que minha mãe também comentou, ela ficou disposta a cuidar da minha filha, eu tinha comentado alguma coisa que eu gostaria que ela [bebê] ficasse pelo menos nos primeiros meses até ela [bebê] ficar um pouco maiorzinha, ainda mais porque ela nasceu com 8 meses, até logo que eu voltei a trabalhar ela ficou, teve bronqueolite, várias vezes eu tive que ir para o hospital com ela, então, de início, eu não queria colocá-

      230

      la e até foi uma conversa com a minha mãe, ela se disponibilizou, conversei com ela, então eu a deixei com a minha mãe, mas assim com uns 8 meses eu já estava pretendendo colocá-la em escolinha, mais pra ela crescer um pouquinho, pra ficar um pouquinho maior para eu colocá-la na escolinha.

      

    Elaine: Ahamm... e essa escolha, enfim, essa sua decisão foi conversada com o

      seu marido? O que ele achou disso?

      

    Joana: Foi, ele concorda sim. Ele... é... meu marido concorda muito, às vezes,

      com o que eu falo, embora ele coloque a opinião dele, mas acho que em relação à filha, ele também conversa, sabe como é minha mãe e por ela [bebê] ser pequenininha ele também concordou em deixá-la com a minha mãe.

      

    Elaine: Ahamm... e vocês chegaram a conversar com mais alguma pessoa sobre

      essa decisão ou não? Joana: Não.

      

    Elaine: Ninguém também... amigos ou parentes, ninguém comentou, avaliou se

      era legal ou não?

      

    Joana: Não, não. O pessoal normalmente comenta assim que, às vezes, eu falo

      que depois ela vai para a escolinha, o pessoal “ai, mas é muito novinha para pôr na escolinha, deixa com a sua mãe, não sei o quê”. Normalmente, as pessoas, família mais comenta, fala “ai, você vai ter coragem de colocar na escolinha?”, eles sempre têm essa, porque na minha família, a maioria... tem só uma tia que trabalha, as outras ficam em casa, então elas não, de certa forma, os filhos ficaram em casa, não foram para a escolinha, tenho uma outra tia que ela contratou uma babá para ficar com a criança...o que eu já não gosto, não gosto de colocar uma pessoa dentro de casa para cuidar da minha filha, eu já não... eu nunca pensei nessa hipótese porque eu não acho legal ou ela vai estar na escolinha com um monte de gente ou vai estar com a minha mãe (risos).

      Elaine: Por que você não acha tão legal?

    Joana: Ah, porque eu não sou uma pessoa assim, colocar uma pessoa na minha

      casa, vamos supor ficar o dia inteiro na minha casa eu não estando lá, sendo que eu não confio, mesmo que eu tenha referências, eu não gosto. Eu não acho legal tanto pra minha filha porque uma coisa até de ouvir falar, de pesquisas que, às vezes, a criança cria muito vínculo com uma pessoa desconhecida, estranha que, às vezes, pode sair e dependendo não ter o contato e esse negócio de ter uma pessoa o dia inteiro na minha casa assim eu não gosto, eu sou uma pessoa muito reservada, assim já vai uma moça lá limpar uma vez por semana e está muito bom (risos). Esse negócio de ficar muito na minha casa eu não gosto não.

      Elaine: Tá, mas essa moça quando vai, a sua filha não está lá? 231

      

    Joana: Não, ela [bebê] está lá, que nem a empregada, eu estou lá, junto também,

      ela limpa a casa, às vezes, também eu não estou lá porque eu tenho que trabalhar, mas é uma vez por semana, não é todo dia, vamos supor uma empregada todo dia na minha casa.

      Elaine: Mas, a sua filha fica com a sua mãe na sua casa ou na casa dela? Joana: Na casa da minha mãe.

      Elaine: Ok. Joana: Minha mãe montou lá (risos) um berçário (risos). Elaine: Ah, é? Conta um pouquinho o que tem neste berçário?

    Joana: É que é assim, já tem bercinho, ela [bebê] dorme na casa da minha mãe

      porque assim, o sonho da minha mãe era ser avó porque minha irmã mais velha ainda não providenciou. Agora, que eu tive o filho é que ela ficou um pouquinho mais animada, mas ainda está pensando um pouco, então ela tem um perfil diferente, ela gosta muito de viajar todo final de semana, então ela, então minha mãe sempre quis, quando eu dei a notícia ela pulou, começou a ligar pra todo mundo, então assim, já tem bercinho, já tem carrinho, tem mamadeira, tem tudo o que precisa, roupinha, eu levo as coisas, mas já tem uma estrutura lá e ela fala “já fica para os próximos netos”, então ela comprou tudo, a Maria Clara vai para lá, tem lugar para ela dormir, tem o carrinho que ela fica, já tem os brinquedinhos que ficam na minha mãe, já tem uma estrutura lá que eu não tenho que ficar levando, leva e traz, leva e traz.

      Elaine: E o seu pai ainda trabalha bastante...

    Joana: Trabalha, é que assim, ele ainda, antes meu pai trabalhava fora, agora ele

      só dá aula. Então, assim ele continua estudando, um ou dois dias que ele tem compromisso de manhã ou à tarde e é mais à noite que ele fica fora, todas as noites.

      

    Elaine: Mas, de qualquer forma, a Maria Clara fica mais tempo com a sua mãe

      mesmo?

      

    Joana: Com a minha mãe. Tem a minha irmã mais nova que trabalha e tem

      horário flexível, então ela sai, dá aula, volta, então, às vezes, minha mãe está fazendo almoço, fazendo alguma coisa, então, às vezes, minha irmã fica com ela, mas quem cuida mesmo, assim dá banho, troca fralda, dá mamadeira é a minha mãe. Uma ou outra vez, a minha irmã ajuda. Meu pai não faz nada, às vezes, fica com ela no colo, mas de cuidados assim também não mexe, uma vez que ele pediu para trocar a fralda (risos).

      232

      

    Elaine: Ahamm... Em algum momento neste processo de decisão de com quem

      deixar, você pensou em parar de trabalhar para ficar com ela e cuidar pessoalmente?

      

    Joana: Ó, eu pensei pouco tempo (risos). Porque assim, eu gosto muito de

      trabalhar, até no começo, no final da licença maternidade, eu fiquei, quando eu voltei a trabalhar a gente fica aí pensando “você é uma mãe má, estou deixando minha filha na minha mãe”, embora eu já estava louca para voltar a trabalhar porque eu acho que ficar só cuidando da criança, embora é minha filha tudo, falta alguma coisa, então assim pensei pouquíssimo, mas já desisti da idéia.

      Elaine: E outras pessoas falaram com você sobre isso? Questionaram?

    Joana: Não, não, nunca ninguém falou nada. Até meu marido também, uma coisa

      que ele falou, que ele sabe que eu gosto muito de trabalhar, então ele nunca falou “ai, para de trabalhar”, que eu decidi também, mas ele achou também, uma que eu preciso pela minha condição financeira para sustentar a casa, mas é uma coisa que eu também gosto e eu acho que eu não ficaria feliz ficando em casa cuidando e não trabalhando.

      

    Elaine: Ahamm... E essa escolha de ter deixado a sua filha logo após a licença

      maternidade com a sua mãe, você acha que essa escolha é só uma escolha pessoal que vale só para o seu caso ou você recomenda também para outros pais e outros bebês?

    Joana: Ah, eu recomendo (enfática) porque 4 meses eu acho muito pequenininho.

      A criança, embora você consiga perceber pela reação da criança, às vezes, aos cuidados, mas acho que assim a criança está muito pequeninha pra freqüentar uma escola. Eu, se eu tiver outro, que eu pretendo ter outro filho e minha mãe puder cuidar, nestes primeiros meses, eu também deixaria com a minha mãe para após esse período colocar na escolinha.

      Elaine: Então, você acha que a idade da criança influenciou aí?

    Joana: Eu acho que muito, agora ela já reconhece, ela já tem reação, mas com 4

      meses, o nenezinho fica muito sensível aos cuidados de quem está com ele, que nem a minha filhinha tem refluxo, com 4 meses para dormir era um sufoco, às vezes, a gente ficava meia hora, uma hora ninando, até eu descobrir depois que ela tinha refluxo, tomar remédio, ficou ainda um período, então, às vezes, até em uma escolinha, não que eu ache que o pessoal vai deixar a criança chorando, mas o cuidado não vai ser o mesmo do que eu ou mesmo a minha mãe deu para a minha filha.

      

    Elaine: Antes você tinha falado que com uns 8 meses pensou em colocar sua filha

      na escola. Ela está com quase 10 meses. Ela continua lá com a sua mãe? O que aconteceu, você está repensando?

      233

      

    Joana: (risos). É que eu estou vendo, comecei a procurar a escola, fiz inscrição

      também na escolinha da Prefeitura porque assim, eu só consigo conhecer a escola depois que eu fizer a matrícula e sair a vaga, tanto que saiu agora a vaga dela, só semana passada é que eu pude conhecer a escola. Então, por isso é que demorou, porque eu fiz a inscrição em julho, mas por conta do recesso, da gripe suína, tudo isso, então atrasou um pouco.

      Elaine: É uma escola pública da Prefeitura...

    Joana: É da Prefeitura aqui de São Caetano. Então, por isso que eu estou

      aguardando, como saiu a vaga agora é que eu fui conhecer as escolinhas, eu já tinha conhecido algumas escolas particulares e estou visitando outras para decidir onde que eu vou deixá-la.

      

    Elaine: Tá. A gente já vai conversar mais sobre essa questão da escolinha, mas

      antes eu queria que você falasse um pouquinho... você faz uma avaliação bastante positiva desse período que a sua filha ficou com a sua mãe, como é para a sua mãe, o que ela acha de cuidar da sua filha?

      

    Joana: Ah, ela adora. Por ela, ela [bebê] ficaria com ela [avó] até uns 2 anos e

      meio, 3 anos. Ela só não fica mais por causa do meu pai, porque meu pai gosta muito de viajar, por isso também a escolha de colocá-la na escolinha, mas pela minha mãe até 2 anos e meio, 3 anos ela ficaria com a minha filha, porque a minha mãe assim, acho que pelo fato de ela ter parado de trabalhar para cuidar das filhas, normalmente eles falam que é melhor ser avó que ser pai, pela minha mãe é o que ela fala, ela fica cansada, porque cansa você cuidar de uma criança, mas ela adora, por ela, tanto que eu falei “mãe, ó, vou colocar a Maria Clara na escolinha agora”, ela até chorou (risos), porque eu acho que ela vai sentir muito mais do que eu porque ela fica hoje o dia inteiro. Para mim, foi mais difícil quando eu saí da licença e voltei a trabalhar porque você fica um período que daí dá o baque e você fica aquele período longe. Embora é bom que como minha mãe mora perto e eu trabalho perto então no almoço eu vou lá, fico no almoço com ela [bebê] e volto, eu trabalho 7 horas por dia, então dá ainda para ficar um tempinho com ela [bebê].

      

    Elaine: Ok. Agora, eu queria que você descrevesse um bebê, o que vem à cabeça

      quando pensamos em um bebê? O que é um bebê para você?

      

    Joana: Ah, é amor, é uma coisa assim, é um sentimento assim maravilhoso, é

      uma coisa que eu falo parece que hoje em dia, parece que a minha vida era sem graça sem a minha filha, parece que a vida ganha um sentido com uma criança. É engraçado que agora todo lugar, antes eu não ligava muito pra esse negócio de criança, sempre fui mais racional, depois que eu tive a minha filha fiquei muito mais sentimental porque acho, não sei, o sentimento brotou e é uma coisa assim que eu recomendo pra todo mundo ser mãe (risos). Agora eu vejo todo neném eu olho para o neném, é uma coisa diferente que eu não tinha isso antes.

      234

      

    Elaine: Mas e o que caracteriza um bebê? Tem alguma coisa que você possa

      falar ...um bebê é... tem essas características? Joana: ... Ah, não sei... acho que dependente, fofinho, não sei (risos).

      Elaine: Você já deu algumas características, tem mais alguma coisa? Joana: Acho que a inocência, ele demonstra os sentimentos...

      

    Elaine: Ahamm... você acha que tem diferença entre um bebê e uma criança

      pequena?

      

    Joana: Ah, muita, acho que pelos cuidados que você tem com o neném, porque

      acho que uma criança pequena ela já começa a racionalizar muita coisa que o neném não racionaliza. O neném acho que ele reage muito pelo que você dá para ele, embora a criança também, mas acho que a criança já começa a racionalizar muita coisa que acho que o neném não pensa, acho que ele age de instinto.

      

    Elaine: Ahamm... tem mais alguma coisa que diferencia? A partir de qual idade,

      como você faz essa separação... bebê até que idade e depois criança pequena?

      

    Joana: Ah, acho que até 1 ano e meio, 2 anos é bebê ainda porque acho que eles

      não pensam, acho que não racionalizam ainda, acho que a partir desse momento é que eles começam a entender as coisas, que aí você consegue explicar e eles entenderem o que está acontecendo.

      Elaine: E você acha que tem alguma diferença em termos de comunicação?

    Joana: É, acho que normalmente o nenêzinho, a comunicação dele é chorar. Eles

      começam, eles não sabem as palavras, então acho que eles se expressam com sons. Eu acho que quando, a partir de quando ele não é mais um bebê, ele já começa a falar, a se expressar da forma correta. O neném, acho que ele não sabe ainda, acho que assim, ele chora ou fala “mamama, dádádá”, porque ele está querendo alguma coisa ou ele está com algum desconforto. Ou ele quer comer ou ele quer carinho ou alguma coisa. Acho que a criança mais velha, ela já se expressa com o falar e acho que não é só com o desconforto, acho que se ela quer alguma coisa específica...

      

    Elaine: Mas, de qualquer forma, você está dizendo que ele também consegue se

    comunicar...

    Joana: Se comunica só que através do choro. É a forma que acho que ele tem de

      falar que ele quer alguma coisa ou choro ou as sílabas, as vogais que ele fala “a, má, dá”, de, certa forma, ele está se comunicando. A gente, às vezes, só não entende muito bem o que ele está querendo dizer (risos).

      235

      

    Elaine: Ahamm... Então você disse que o bebê seria até mais ou menos uns 2

    anos... Joana: É, 1 ano e meio, 18 meses.

    Elaine: E como é que você se instruiu, como você aprendeu sobre os cuidados

      com o bebê? Joana: Ai, comprei um monte de livros, internet...

      Elaine: Você lembra o nome de algum?

    Joana: Ah, é que eu para nome de livro sou uma coisa, mas assim, tem... é... é

      que eu não lembro... eu para nome sou muito... mas, livros para dormir Nana

      

    neném; Durma com os anjos; é tem um...que é A encantadora de bebês, vários

      livros assim relacionados, principalmente assim porque a minha filha com uns 2 meses e meio ela ficou com muito problema no sono, mas por causa do refluxo então eu fui tentar pesquisar porque ela assim, ela passou a dormir meia hora, dava meia hora acordava, então eu fui até pesquisar para entender assim como é o processo do sono, esse negócio que o pessoal comenta muito “ah, se você ninar, ele acostuma de um jeito”, então eu fui buscar literatura para entender o que acontece com o bebê, até assim em relação à rotina, porque é importante a rotina, então eu comprei os livros, assim, para compreender o mundinho deles, porque eu não tinha a menor noção.

      Elaine: Você não tinha tido nenhum contato anterior com crianças?

    Joana: Não, não, porque na minha casa assim, os meus primos já são velhos,

      quando eles cresceram, já cresceu todo mundo junto, eu nunca fui assim, eu sempre tive muito medo de pegar neném no colo que é muito molinho, então a primeira experiência já foi com a minha filha já, aprendendo na prática.

      Elaine: Você chegou a fazer algum curso?

    Joana: Não, é que assim, eu ia até fazer para gestante, mas só que aí como eu

      tive que ficar de repouso acabou, porque eu ia fazer no final, mas eu fiquei no começo um tempão de repouso e no final também, acabei não conseguindo fazer o curso. E ela nasceu também com 8 meses, aí não deu.

      

    Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados e educados?

      O que eles precisam ou o que eles necessitam? Qual a melhor maneira de educá- los?

      

    Joana: Ah, eu acho que assim, de amor, carinho e limites. Eu acho que assim, o

      bebêzinho é mais difícil você impor limites em certas coisas porque eles não entendem, mas eu acho assim, ter uma rotina que eu acho importante, horários de refeições, claro, você tem uma coisa assim deu fome antes você não vai deixar a

      236

      criança com fome, mas ter essa rotina, esse controle porque às vezes a criança, pra minha filha eu busco sempre isso, ela tem horário para almoçar, só de manhã é que, às vezes, ela acorda um pouco mais cedo para mamar, a gente dá mamadeira e vai adaptando o horário ou aí depois dá o suquinho, mas acho que é importante assim o carinho, o afeto, a atenção que você dá para a criança e também essa rotina e os limites que você tem que dar também. Não é aquela coisa assim “ah, faz o que quer”, eu acho que eu sou, às vezes, um pouco mais rígida até que a minha mãe com essa questão sabe de impor limites porque acho que a minha mãe até por ser avó tem aquela coisa mais “ai, tadinha”, eu sou mais “não, ó, tem que ensinar”.

      

    Elaine: Mas você acha que teria alguma coisa que diferenciaria para o bebê em

      termos de tipo de cuidado, por exemplo, ficar com uma avó, ficar com uma babá, ficar em casa com a mãe ou ir para uma creche, para uma escola? O que o bebê necessitaria, ou talvez, o que ele gostaria mais?

      

    Joana: Olha, uma coisa assim, eu acho que ele tendo afeto, acho que assim, a

      mãe, ele sente falta, eu acredito que ele sinta falta da mãe, mas eu acho assim, uma coisa que eu acredito é que o importante é você dar atenção com qualidade mais do que a quantidade, porque às vezes, vamos supor você fica o dia inteiro com o seu filho, mas você não dá atenção pra ele, ele fica lá, você fica lá fazendo as suas coisas mas, assim, ele não recebeu a atenção que ele precisa.

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Eu acho assim se for com babá, com quem seja, embora eu não gostaria

      de babá por outros motivos, mas acho assim você dando atenção pra criança, claro acho que ele também sente falta da mãe, porque especialmente o bebêzinho quando ele não entende, não reconhece, eu acho que ele sente muito pelo cheiro, eu acho que é uma forma de ele reconhecer quem está cuidando dele, mas eu acho que o importante é isso, você dar atenção e os cuidados que a criança precisa porque, às vezes, você pode cuidar dele, mas não dar atenção e o afeto que ele precisa, meio como um robozinho e o neném fica lá, largado.

      

    Elaine: E qual seria a idade que você consideraria ideal para um bebê começar a

      freqüentar a creche ou escola?

      

    Joana: Olha, eu acho que assim com 9, 10 meses ou 1 ano porque eu acho que a

      criança, eu vejo pela minha filha, não sei, porque cada criança também anda num certo período, pra mim, ainda mais que eu trabalho fora, eu acho que a partir dos 8 meses que eu acho que a criança já consegue entender, eu acho que ela reconhece já os pais, eu acho que é uma idade boa porque eu acho que você já consegue perceber muito assim se ela não gosta da pessoa ela já reage, que nem vai no colo de fulano, se for na escolinha, a criança de certa forma já reage, ela vai para o colo, se ela não gosta ela já chora, não quer, então você já consegue acho que perceber na criança se ela, de certa forma, está sendo bem cuidada ou não.

      237

      Elaine: Você tem uma idéia de como seria a rotina de um bebê na creche?

    Joana: Eu já perguntei lá, normalmente assim, o pessoal dá 11 horas o almoço,

      normalmente a rotina que eu estou fazendo na minha casa é o que o padrão segue. É até o que o pediatra indica, 11 horas é o almoço, aí 14h30 mais ou menos é a mamadeira, então eu sigo, de certa forma, o pediatra e eu percebi também que nas creches, acho que é o padrão, para a idade dela, eles seguem a mesma rotina. É bom porque ela não vai sentir tanta diferença. Normalmente, eu vi nas creches que os bebêzinhos costumam dormir depois do almoço, embora nas creches que eu vi eles respeitam o horário de dormir da criancinha, e a minha nenê também costuma dormir depois do almoço.

      

    Elaine: E tem mais alguma atividade que o bebê faça na rotina diária, tanto em

      casa quanto na creche ou que seja diferente?

      

    Joana: Eu acho mais assim atividade de recreação, porque de manhã quando ela

      fica na minha mãe ela fica mais no carrinho, não brinca muito. Na escola, eles têm mais atividade, porque eles têm lá os brinquedinhos, que aí desenvolve até para aprender a ficar sentadinho, em pezinho, coisas que, às vezes, em casa a gente por tempo acaba não conseguindo desenvolver que, às vezes, mudaria um pouco a rotina dela.

      

    Elaine: Voltando agora a falar um pouquinho da licença maternidade, que você

      usufruiu os 4 meses, você acha que esse tempo foi suficiente ou adequado?

      

    Joana: Olha, se tivesse 6 meses eu ia gostar para ficar um pouco mais tempo

      com a minha filha, mas eu acho que foi importante porque também ficar muito tempo fora do trabalho, que nem eu já voltei depois dos 4 meses, a gente fica meio alienada. E eu acho que assim como ela ficou na minha mãe também, eu acho que se ela fosse para a escolinha, eu acho que eu queria ter mais tempo, mas como ela ficou na minha mãe e eu pude também na hora do almoço ver a minha filha, não teve problema, mas assim se eu tivesse colocado ela na escolinha, eu gostaria de ter mais tempo para aproveitar mais e para ela estar um pouquinho maior para ir para a escolinha.

      

    Elaine: Você sabe que já foi aprovada a prorrogação da licença maternidade por

      mais 2 meses se a mulher e a empresa tiverem interesse, você teria prorrogado se você tivesse tido essa possibilidade?

      Joana: Eu sei, eu teria. Elaine: Teria ficado mais 2 meses então com a criança... Joana: Teria.

    Elaine: Você acha que esse período é adequado ou haveria um tempo

      considerado “ideal” para a licença maternidade?

      238

      

    Joana: Eu acho que 6 meses... é que acho que a gente como mãe, embora tenha

      o lado profissional, quanto mais tempo a gente puder ficar acho que com a criança, acho que mãe não gostaria de continuar recebendo, embora assim no meu serviço eu sempre estava em contato porque muita coisa depende do meu trabalho porque a gente trabalha, tem a professora XYZ que é a gestora, eu sou professora e a gente só trabalha com monitores. Então, muita coisa depende do trabalho, então acho assim também se ficar muito tempo fora eu acho que assim, às vezes, tem lugar que é 1 ano de licença, parece que você está voltando para um outro lugar de trabalho porque acho que muita coisa aconteceu, eu acho que para o lado profissional da mãe.

      

    Elaine: Na Suécia, por exemplo, podem conceder até 2 anos de licença, mas o

      casal pode escolher e a criança pode ficar um período com o pai e um período com a mãe. O que você acha?

      

    Joana: Olha, eu sou muito apegada com a minha filha, não sei se meu marido ia...

      ele não gosta muito de cuidar. Eu acho assim tem pais que, de certa forma, se dispõem, eu acho que não teria problema nenhum, o pai, de certa forma, estando disposto a cuidar da criança, porque, às vezes, acaba a criança tendo mais vínculo com a mãe pelo fato dos cuidados, às vezes, seria uma oportunidade do pai também participar mais.

      Elaine: E o seu marido tirou, usufruiu a licença paternidade? Joana: Os 5 dias.

      Elaine: Ele ficou os 5 dias com você... Joana: Ficou. Elaine: E vocês consideraram esse tempo adequado?

    Joana: Não, muito pouco (enfática) (risos). Se tivesse maior até ajudaria mais,

      assim, tanto ele para ajudar nos cuidados quanto para ficar com a criança também, porque acho que 5 dias o pai não consegue, acho que o pai tira esses dias só para resolver documentação, essas coisas, porque às vezes não dá nem tempo direito de ficar com a criança.

      

    Elaine: Existe um projeto aguardando aprovação para ampliação da licença

      paternidade de 5 para 15 dias. O que você acha desse aumento e qual o tempo que você consideraria “ideal”?

      

    Joana: Ah, às vezes 1 mês. Acho que poderia ser 1 mês (risos). Acho que daria

      até para o pai aproveitar a criança, porque recém-nascido, às vezes, é bem pequenininho, às vezes, o pai tem até receio de pegar.

      239

      Elaine: Seria adequado tanto para o pai... Joana: Para família em si e para a criança. Elaine:...para a mulher e para o bebê também?

    Joana: É porque eles acabam, tem pai também que trabalha muito e que, às

      vezes, acaba, que nem meu marido tem dias que sai às 4h30 da manhã para trabalhar e chega às 22h, 23h da noite. Ele acaba nem vendo a minha filha. Às vezes, assim, ela tem mais vínculo até, às vezes, com o meu pai, com a minha mãe e com a minha própria irmã que ficam mais, do que com o meu marido que, às vezes, acaba não tendo muito contato, embora é engraçado, tem uma foto nossa lá no mural, que aí eu pego a Maria Clara e falo “vamos dar boa noite para o papai”, aí ela fica passando a mãozinha e depois vai dormir, mas tem muitas vezes que ela não o vê, acorda ele já não está e aí ela também vai dormir e ele não está em casa. Então, acha que fica né, acho que tanto para o pai quanto para a criança, a presença.

      Elaine: Um período maior seria importante... Joana: É.

    Elaine: Ahamm... Então, quando começamos a conversar, você contou que

      estava procurando, que você se inscreveu e parece que conseguiu vaga, que pôde visitar a escola, você usou mais sempre esse termo “escola” mesmo quando você se referia à...

      Joana: Creche (risos).

    Elaine: Mesmo quando você se referia à escola pública né? O que te vem à

      cabeça quando falamos “creche”? O que esse termo “creche” evoca? Por que você preferiu ou utilizou o termo “escola”?

      

    Joana: Não, é que acho que para mim assim, porque de certa forma é uma

      escola, é uma escolinha, que nem é uma escola só que para crianças que, de certa forma, vão ficar período integral. Então é que, de certa forma, para mim, na cabeça, está mais escola do que creche.

      Elaine: Você diz... Joana: Mas não teria diferença... Elaine: ...mais em termos de atividade ou em relação a ser privada ou pública?

    Joana: Não, porque para mim não importa assim se é privada ou público porque,

      de certa forma, os dois tratam até como escolinha. É difícil, não sei, porque eu nunca liguei e perguntei “ai, deixa eu ver uma creche”, porque normalmente as

      240

      escolas tanto que as EMIs [Escolas Municipais Integradas de São Caetano do Sul] eles não falam que são creches, são as escolas municipais e as escolinhas também, é uma escola que, de certa forma, o pessoal tinha para primário, jardim, prézinho e eles abriram pras crianças, para os bebês em período integral, acho que é essa diferença, por isso é que eu acho que é o fato de escola e não creche.

      

    Elaine: Então, para você não haveria tanto essa diferenciação de usar um termo

      ou outro?

      

    Joana: Não, é que, às vezes, assim a escola, de certa forma, às vezes, eles

      desenvolvem mais atividades do que a creche que só seriam os cuidados básicos com a criança.

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Pode ser essa diferença em relação à escola. Ela [escola] vai estar

    instruindo e desenvolvendo algumas coisas que a creche não faria.

      Elaine: Você acha que mudando o nome tem essa diferenciação? Joana: É se for pensar no contexto mudaria.

      Elaine: Qual contexto, fala um pouquinho mais sobre isso...

    Joana: Não, porque eu acho que a creche em si é mais para o cuidado, ficar

      cuidando da criança e acaba não desenvolvendo e a escolinha tem outras atividades para desenvolver a criança. Acho que na creche, eles não vão ficar, não sei, tentando desenvolver o aspecto motor da criança, acho que é mais ou menos o cuidado que eu tenho na minha casa com a minha filha.

      

    Elaine: Então, para você, a creche serviria mais para dar conta desta parte dos

    cuidados... Joana: É só.

    Elaine: Não necessariamente desta parte da educação ou do desenvolvimento...

    Joana: É. Elaine: E a quem se destinaria essa creche? Para quem?

    Joana: Acho que o ideal seria que todo mundo fosse na escolinha porque já

      estaria desenvolvendo.

      Elaine: Então, você chegou a conhecer...

      241

      

    Joana: Conheci várias. Acho que hoje em dia, em relação ao que o pessoal

      comenta em creche assim, eu pelo menos, principalmente aqui em São Caetano, não se procura por creche, se procura por escola.

      Elaine: Ahamm... Joana: São escolas para o ensino infantil.

    Elaine: Não se procura... você diz porque elas se denominam ou porque na

    Secretaria de Educação...

      

    Joana: Isso ou mesmo as escolas, você não procura, vamos supor, você vai na

      lista, se você procurar não são creches que aparecem, são escolas infantis, então pode ser até uma outra denominação que as pessoas estão dando pelo fato de terem essas outras atividades.

      

    Elaine: Ahamm... então, você conheceu várias escolas/creches públicas e

      privadas e você pode comentar um pouquinho qual foi a avaliação que você fez? O que as diferencia, se você viu diferenças?

      

    Joana: Olha, assim, praticamente assim tanto a escola da Prefeitura quanto a

      escola particular, os cuidados são os mesmos, a rotina, a única diferença que eu vi é que assim nas escolas particulares têm bercinho para as crianças dormirem, nas escolas públicas elas dormem em colchãozinho no chão e em bercinho, ou carrinho, desculpe, não tem berço em nenhuma da Prefeitura. Eles dormem ou em colchãozinho no chão ou tem os carrinhos. Essa foi a única diferença. E assim, tem algumas escolas particulares que as crianças tomam banho na escola, mas tem escolinhas que não e na Prefeitura, elas não tomam banho na escolinha, elas tomam banho em casa, aí eles comentaram só no caso de, às vezes, em caso de necessitar o bebê toma banho, senão não.

      Elaine: Não faz parte da rotina? Joana: Não, não faz. Essa foi a diferença que eu vi nas escolinhas.

      Elaine: E você, está optando a princípio por uma escola/creche pública?

    Joana: Por enquanto sim. É porque assim, uma coisa que, o problema maior que

      eu vejo assim, de cuidados é a mesma coisa, eu estava até pensando em colocá- la meio-período e meio-período ela ficar, às vezes, com a minha mãe. Só que o problema é que fica de férias em julho e em janeiro, então para mim não adiantaria porque também, às vezes, minha mãe não pode e para as creches o dia inteiro assim a média que eu vi, pelo menos aqui em São Caetano perto da minha casa, é R$ 900,00 porque aí cobra almocinho, aí material, e assim eu estou optando mais por esse valor do custo, em relação ao custo-benefício porque a diferença mesmo que eu vi até nos cuidados, eu tenho primas que têm nenêzinhos na Prefeitura de São Caetano, primas da minha mãe que são diretoras

      242 das EMIs [Escolas Municipais Integradas] e a avaliação delas também elas falaram que não devem nada pras escolinhas particulares e pelo que eu vi também porque eu fui conhecer, então não tem aquela coisa de falar “olha, se a minha filha ficar aqui ela não vai ser bem tratada, então eu vou colocá-la em uma escolinha particular”.

      Elaine: E tem uma no seu bairro?

    Joana: Tem ao lado da minha casa, ao lado da minha casa, eu atravessando a

      rua já é na frente assim.

      Elaine: É nessa que você pretende colocar?

    Joana: É que é assim, eu optei por essa, mas por enquanto não tem vaga. Eles

      me deram três escolinhas para eu escolher e eu já fui conhecer uma delas, as outras duas, o local fica fora de mão pra mim, e quando eu fui conhecer essa escolinha, eles falaram que é mais fácil a criança estar em uma escolinha da Prefeitura e aí quando abre vaga, porque como ela passa para o outro nível a partir de 1 ano, ela consegue vaga na escolinha ao lado da minha casa, que aí facilitaria bastante.

      Elaine: Como foi esse processo da inscrição?

    Joana: Para a inscrição tem toda uma documentação porque eles precisam saber

      se você mora mesmo em São Caetano, então é conta de luz, IPTU, tem uma fichinha com os dados, onde fica, se você trabalha porque para a Prefeitura você tem que trabalhar mais que 6 horas porque senão eles não disponibilizam a vaga, então de certa forma assim eles vão, eles visitam a sua casa entre 8h30 e 9 horas da noite para ver se você mora lá mesmo, eles fazem uma pesquisa pra ver telefone, tudo isso, se está no nome da pessoa, para saber se a pessoa mora lá mesmo, ligam para o serviço...

      Elaine: Teve isso mesmo?

    Joana: Teve. Eles ligam para o serviço também para ver se você trabalha lá e

      para ver se o horário que você trabalha está certo. Eu aqui, de certa forma, estou com carteira assinada, mas assim não tem o horário que eu trabalho, então eu informei o horário e eles ligam no período em que você falou que você trabalha para ver se você está aí mesmo.

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Então eles fazem toda uma verificação porque eles querem que as vagas

    sejam disponibilizadas para quem mora em São Caetano.

      

    Elaine: Teve algum critério em relação à renda? Alguma pergunta ou algum

      questionamento em relação a isso?

      243

      

    Joana: Não, não perguntaram nada. É porque é assim, é para qualquer pessoa de

    São Caetano, que more em São Caetano e que a mãe trabalhe mais que 6 horas.

      Isso é o que eles, esse é o requisito para fazer a inscrição. Em relação a quanto ganha não. E, normalmente, é a mãe que tem que trabalhar, se o pai não trabalha não tem problema.

      

    Elaine: Você falou que você conhece pessoas que trabalham, que são diretoras e

      outras primas que também têm filhos nas escolas da Prefeitura... eles são bebês?

      

    Joana: Agora já assim, tem uma que já está com 2, outra está com 1 ano, até

      uma das primas da minha mãe são gêmeas e estão na escolinha que eu quero que a Maria Clara estude que é ao lado da minha casa. Elas estão desde os 4 meses na escolinha, ela comenta até que as netas dela adoram a escolinha, nunca, não tem queixa nenhuma e a outra também que é diretora e o neto dela também estuda na escola em que ela trabalha, também está desde os 4 meses assim, é o que ela fala, ela recomenda e nunca teve queixa nenhuma a respeito disso.

      

    Elaine: E se você pensar em termos de creche, em um contexto mais genérico,

      ampliando, saindo de São Caetano, que tipo de informação você tinha sobre creche, que tipo de impressão ou avaliação?

      

    Joana: Olha, o pessoal comenta que eu ouço, não fiz muita coisa fora de São

    Caetano porque como eu trabalho e moro aqui eu nunca pensei em procurar fora.

      Mas, o que eles comentam em relação vamos supor à creche de Prefeitura, o pessoal comenta muito bem daqui, lá de São Paulo, o pessoal se fosse não recomendaria uma creche pública, aí teria que optar por uma escolinha particular.

      Elaine: Por que não recomendariam?

    Joana: Acho que pelos cuidados porque falam assim que o pessoal, é uma coisa

      que eu já ouvi, que o pessoal comenta, é que normalmente aqui o pessoal já é bem preparado, capacitado, tem um número maior de pessoas pra cuidar, o número limite de crianças por adulto, coisa que, às vezes, não tem isso na Prefeitura.

      Elaine: Em outra cidade? Joana: É.

      Elaine: E quem comenta essas coisas?

    Joana: Ah, outras pessoas do convívio, que eu ouvi, às vezes, você vê uma ou

      outra coisa, principalmente falando de São Caetano, fora assim...

      Elaine: Você tem menos informação...

      244

      Joana: É.

    Elaine: E o que seria para você uma creche de boa qualidade? O que essa creche

      tem que oferecer para a criança se sentir bem?

      

    Joana: Olha, acho que assim tem que ter uma atenção, uma coisa assim que eu

      percebi e até comentei quando eu fui visitar, é que, às vezes, assim tem uma criança que vamos supor dorme sendo ninada, acho que assim, de certa forma, a creche tem que tentar se adaptar, principalmente porque a criança, ela aprende o que a gente ensina, então, de certa forma, ela vai reagir ao que a gente ensinou para ela, então, cada criança tem um costume, então acho que assim o profissional tem que, de certa forma, respeitar essa coisa da criança e impor uma rotina e desenvolver atividades, que nem tem horário, “olha, vamos comer, está na hora” e também respeitar a criança, vamos supor, ah, se a criança ficou com fome um pouco antes, não vai deixar a criança passar fome, acho que é neste sentido de cuidar, respeitar a criança, mas também impor limite para a criança também já ir aprendendo os horários, os limites.

      Elaine: E o que seria para você uma creche de má qualidade, uma creche ruim?

    Joana: Acho que onde a criança faz o que quer, não tem pessoas que, às vezes,

      pode ser que não prestariam atenção na característica da criança, deixaria chorando, que, às vezes, tem gente que não tem muita paciência, vamos supor tem criança que gosta de dormir ninando e não vai cuidar da criança como, às vezes, ela precisaria, respeitando as características que ela tem.

      

    Elaine: Você, no caso, pretende colocar sua filha em uma creche em período

      integral? Joana: Pretendo.

      

    Elaine: E essa sua opção de colocar agora a Maria Clara em uma creche pública

      em São Caetano, você recomendaria para outros pais e bebês? Joana: Recomendaria.

      Elaine: Especialmente por que?

    Joana: Porque, assim, eu fui conhecer o lugar e eu gostei. Eu vi as moças

      cuidando das crianças, claro que assim, eu não fiquei lá um período grande, mas assim deu para perceber que elas gostam do que elas estão fazendo, o ambiente é um lugar gostoso, minha filha foi lá, ela foi até comigo, ela já queria sair do meu colo e ir brincar e assim, vendo as pessoas cuidando das crianças, até no dia em que eu fui conhecer uma estava lá dormindo no colo da moça, outra estava dando a mamadeira, eu gostei de como o profissional estava lidando com a criança. Eu acho que isso vai fazer muita diferença porque eu acho que você precisa ter uma

      245 pessoa que gosta do que está fazendo e que vai tratar o seu filho com carinho, carinho e respeito.

      

    Elaine: A gente conversou um pouco em relação ao que é particular e ao que é

    público, pelo menos em São Caetano você não vê tanta diferença assim... Joana: Não.

    Elaine: Você acha que tem diferença entre os bebês que vão para uma escola,

      uma creche pública e os que vão para uma creche particular? Joana: Não, acho que não.

      

    Elaine: Ahamm... a gente está entrando agora na parte final da entrevista, acho

      que vai dar mais ou menos 1 hora... se você pensasse agora em um contexto mais geral, você acha que a sociedade ou o Estado tem algum dever para com os bebês? Têm alguma responsabilidade em relação a eles?

      

    Joana: ... acho que, de certa forma, que nem o Estado, é uma coisa que eu vejo

      até em relação à vacinação, vou colocar uma coisa que eu percebo, tem algumas vacinas que, de certa forma, eles falam que são obrigatórias, mas você tem que pagar, tem a da meningite, a da pneumonia e são preços caros, graças a Deus eu tenho condição de pagar, mas muitas pessoas que nem a da meningite tem que tomar duas doses é R$ 150,00 a dose, a da pneumonia são R$ 240,00 a dose. Para uma pessoa que não tem condição, isso é uma coisa que eu acho que o Estado deveria fornecer porque é uma necessidade para a criança, de certa forma, ficar protegida, então eu acho que isso é uma coisa que o Estado deveria olhar mais, não só para os bebês, para as crianças maiores porque, de certa forma, eles falam “tem que vacinar”, mas e quem não pode pagar esse valor? Porque não é um valor barato para as outras pessoas que não têm condição de pagar.

      

    Elaine: E em termos de educação? O Estado teria alguma responsabilidade

      também em relação aos bebês ou o bebê é uma responsabilidade mais da família?

      

    Joana: Acho que também deveria. É que, de certa forma, eu graças a Deus, se eu

      também não tivesse a opção da escola pública em São Caetano eu teria uma condição de pagar, mas eu acho que eles deveriam porque hoje em dia o mercado de trabalho, a mulher, normalmente, tem muitas mulheres que elas sustentam a família e você quer colocar o teu filho sendo cuidado ou por uma escola ou por uma pessoa. Normalmente, você vai optar por uma escola porque, às vezes, a pessoa não tem condição de pagar ou mesmo que tenha você quer um lugar porque você está pagando os impostos, você quer ter um lugar para colocar o teu filho de qualidade. Eu acho que eles deveriam pensar neste sentido e ter um desenvolvimento, até pagar melhor os professores, isso se a gente for discutir, até professor coitado, o salário do professor hoje em qualquer nível, não só para os

      246

      bebês. Então eu acho que eles deveriam olhar um pouco mais porque é importante também a formação dessa criança porque, às vezes, a mãe também não tem onde deixar, ela deixa com vizinho, não sabe como está cuidando... tem muita criança, não bebêzinho, mas às vezes, já com 5 anos, 6 anos fica sozinho em casa porque a mãe não tem onde deixar, então acho que o Estado deveria dispor mais vagas porque aqui [em São Caetano] é mais fácil, mas a gente vê pesquisas que a criança, que não tem vaga em escola, a mãe não sabe o que fazer com o filho porque ele precisa estudar, isso a gente está falando de crianças mais velhas, mas se for pensar em creche também precisa ter um número maior de vagas e uma estrutura melhor para atender esses bebês.

      

    Elaine: Aqui [em São Caetano], em termos de vagas, foi fácil você conseguir uma

    vaga... Joana: Foi. Elaine: Não na escola que você queria que era mais perto da sua casa...

    Joana: É, mas eu consegui a vaga e, de certa forma, o que ela comentou que é

    fácil conseguir a vaga inicial...

    Elaine: Depois, provavelmente, vai ser mais fácil conseguir para mudar de

    escola... Joana: Isso, para mudar de escola.

    Elaine: As crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988 com a nova

      Constituição, mas somente 18,1% das crianças desta faixa etária freqüentam creche enquanto quase 80% das crianças com 4 e 5 anos já vão para a pré- escola. O que você acha, o que você pensa sobre isso?

      

    Joana: Olha é, de certa forma, até para o desenvolvimento da criança, se uma

      criança menor pudesse freqüentar escola seria interessante até para o desenvolvimento dela porque, às vezes, uma criança, às vezes, a gente comentando, não em pesquisa, até em sala a gente fala que uma criança que vai para a escola mais tarde até uma dificuldade de se relacionar com os outros, de saber dividir, algumas atividades que normalmente na escola são desenvolvidas que em casa você não tem, então, às vezes, a criança não vai ser discriminada, mas, às vezes, ela já vai ter um desenvolvimento um pouco diferenciado do que o de uma criança que, às vezes, já está na escola mais cedo.

      Elaine: Ahamm... então você acha que seria interessante... Joana: O ideal seria colocar mais cedo. Elaine: Já na creche e depois na pré-escola?

      247

      Joana: Ahamm...

    Elaine: E o que você acha em relação a esse número de só 18,1% das crianças

      de 0 a 3 estarem na creche?

      

    Joana: Olha, eu acho assim pode ser por vagas, por não ter a opção de vagas

      para colocar o filho num lugar público e outra que acho que muitas mães deixam com avós, a gente vê muito ou a própria mãe. O que eu vejo assim no médico, que a gente vê as mães falando que muitas “ah, eu não agüentei, parei de trabalhar, vou ficar até 1 ou 2 anos e aí depois eu coloco meu filho na escola”. Então, às vezes, é uma opção da mãe parar de trabalhar e às vezes é uma opção de não ter uma escolinha para deixar e deixar o filho, às vezes, com vizinho. Eu acho que tem esses dois lados, uma opção da mãe de deixar com a família ou ela parar de trabalhar e outra de não ter, às vezes, a mãe que gostaria, mas não tem a opção de onde deixar a criança.

      

    Elaine: E você conhecia essa questão do direito das crianças pequenas à

      educação? Joana: Não, eu não sabia disso.

      Elaine: E o que você acha disso?

    Joana: Olha, é importante, mas deveria ser como várias leis, deveria ser um

      direito adquirido, coisa que assim está na Constituição, mas muitos não têm.

      Elaine: Aí, então, entra a questão da falta de vagas... Joana: É.

    Elaine: Você acha que os adultos em geral, incluindo aí os políticos, enfim, você

      mesma, os adultos na sociedade, se a gente se preocupa suficientemente com esses direitos dos bebês?

      Joana: Ah, acho que não. Elaine: Ou com a política de creche?

    Joana: Não. Acho que a gente acaba se acomodando muito e, de certa forma, se

      adapta à realidade, não tenta mudá-la.

      Elaine: Por que você acha que isso acontece?

    Joana: Acho que é muito da cultura do brasileiro em geral, que, às vezes, a gente

      acaba se acomodando demais e não luta, às vezes, pelos nossos direitos.

      248

      

    Elaine: Ahamm... você comentou “ah, eu pago impostos então eu gostaria de ter

      uma creche de qualidade, uma vaga disponível para o meu filho” e como você acha que a sociedade poderia reagir frente a isso, enfim, tem uma saída?

      Joana: (Risos). Elaine: Ou não? Tem um caminho?

    Joana: Risos. Acho que aí é uma coisa mais complexa, de você ir brigar pelos

      seus direitos, até a sociedade inteira porque muitas vezes assim você se dispõe a brigar e a maioria não quer “ah, tá bom do jeito que está e não quero mudar, não quero ir atrás, brigar por isso, porque a situação está cômoda”.

      

    Elaine: E você acha que isso é diferente em relação ao que acontece com os

      direitos das crianças pequenas ou com a política de creche?

      

    Joana: Eu acho que é geral, qualquer coisa, educação, eu acho que isso é uma

      coisa não só com a educação, mas com saúde, a gente acaba, às vezes, não tem médico... ainda que aqui em São Caetano a gente tem uma realidade diferente, embora ainda no Brasil inteiro tem um problema que as pessoas não tem educação, você fica dois meses para conseguir uma consulta no médico, às vezes, acaba morrendo na fila, não só em relação à educação, em relação geral. Mas, eu acho assim muito do que acontece na política, inclusive dinheiro, ninguém está nem aí, e de certa forma a gente é que acaba colocando esses políticos, às vezes por falta de opção. Acho que é uma questão muito política em relação à educação, saúde, entre outros aspectos, porque pagar imposto a gente paga 30% quase, 32% mas, às vezes, o retorno que você tem em estrutura, que nem a gente tem que pagar plano de saúde porque não tem, muitos têm que pagar escola porque, às vezes, não têm escola de qualidade.

      

    Elaine: E o que você acha que, especificamente, em relação às crianças de 0 a 3

      anos, o que talvez dificulte ainda mais essa falta de mobilização ou de reivindicação?

      

    Joana: Porque às vezes eu acho que os pais preferem deixar os seus filhos, às

      vezes, com um avô ou mesmo parar de trabalhar ao invés de colocá-lo na escola, por ser pequeno, frágil, aquela coisa “ai, tenho medo de deixar o meu filho”, porque a gente fica, eu agora que a vaga saiu você começa “ai, vou por a minha filhinha na escola”, parece que cai a ficha e você fala “ai, está chegando a hora”.

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Porque acho que por ser uma criança, eles ainda não falam, você tem

      aquele vínculo, ainda é muito dependente, então eu acho que a opção dos pais de deixar o filho com a avó, que tem muita gente que deixa ou parar de trabalhar acaba sendo maior do que colocar na escolinha então, de certa forma, não tem tanta procura...

      249

      Elaine: ... acaba desmobilizando um pouco as pessoas?

    Joana: É porque como, normalmente na escola, a partir dos 4 anos, de certa

      forma, já é uma exigência “ó, você tem que ir para a escola”, então acho que aí acaba tendo um questionamento maior a respeito disso do que uma vaga para uma criança de 0 a 3 anos que não é obrigatório você ir para a escola.

      Elaine: Como assim, já tem que colocar na escola quando tem 4 anos?

    Joana: É porque, de certa forma, você tem, não sei já a lei ao certo para saber a

      partir de que momento, mas pelo que eu sei, acho que é a partir não sei se é do primário ou da 1ª série, isso eu não sei.

      

    Elaine: Ah, tá, mas você acha que é obrigatório a criança entrar na escola com

      quantos anos?

      

    Joana: Olha, acho que é com 5 anos que é a partir da 1ª, que agora é a partir de

    6 anos é que é o 1º ano... Elaine: Então, a partir dessa idade, a criança já teria que... Joana: Isso eu não sei, para ser sincera (risos). Elaine: Não tem problema.

    Joana: É que normalmente, a partir dos 4 anos que a gente acaba entrando,

    normalmente a maioria da população acaba colocando.

    Elaine: Como eu tinha citado, tem quase 80% das crianças que freqüentam pré-

    escola, mas realmente obrigatório mesmo é a partir dos 6 anos atualmente. Joana: O que virou o 1º ano?

    Elaine: É... então, para a gente terminar, gostaria que você pensasse em nomes

      para você, seu marido e para sua filha para a gente poder trocar, pois eu não vou citar os nomes verdadeiros na transcrição, queria que você pensasse nomes alternativos.

      

    Joana: Joana para mim, Pedro para o meu marido e Maria Clara para a minha

    filha. Elaine: Quero te agradecer... Joana: Eu que agradeço.

      250

      

    Elaine: Quero agradecer pelo tempo e pela sua disponibilidade, enfim, por ter

      contado tanta coisa, e também perguntar o que você achou da entrevista ou se você quer fazer algum comentário, acrescentar alguma coisa?

      

    Joana: Eu achei bem interessante. Até depois se você puder assim disponibilizar

      o trabalho porque eu acho interessante até para ver assim o que outras mães acham também sobre educação porque acho que isso é uma coisa que a maioria das mães creio que têm uma preocupação, onde deixar o seu filho, quais os princípios que você quer passar, até se você tiver como disponibilizar o trabalho para ver qual foi o resultado da sua pesquisa, eu agradeceria.

      

    Elaine: Com certeza, claro que sim e também posso te passar a transcrição da

      entrevista se você quiser. Você quer fazer mais algum comentário?

      

    Joana: Não, que eu comentei é que achei muito interessante. Eu nunca tinha

      participado de uma pesquisa, é interessante a gente colocar o nosso ponto de vista...

      Elaine: Ahamm...

    Joana: Até em relação a alguns questionamentos que a gente nunca tinha

    pensado, “ó, eu nunca tinha parado para pensar nisso”.

      Elaine: Por exemplo, sobre o que você nunca tinha parado para pensar?

    Joana: Ah, tem relação até com o que você falou dos direitos da criança da

      creche, uma coisa que você perguntou “qual é a idade mínima para a criança ir para a escola”, tem coisas que você acaba, você vai, você não pára pensar “nossa, qual é o direito, o que realmente tem que ser feito ou não”, você acaba indo, os outros falam “ah, você vai colocar na escolinha” e você acaba não vendo o que realmente você tem o direito, qual que é o seu dever, isso é uma coisa importante que, às vezes, a gente acaba...

      

    Elaine: E você perguntaria alguma coisa, comentaria alguma coisa, enfim, teria

      alguma pergunta que eu não fiz que você estivesse esperando ou que você acha importante e que, de repente, não foi conversado aqui?

      

    Joana: Não, acho que não. Como você estava focando a educação, eu acho que

    o que eu penso assim até para a minha filha, eu acho que foi falado. Elaine: Então tá. Muito Obrigada! Joana: Obrigada você, espero ter ajudado.

      Elaine: Com certeza! Foi ótimo.

      251

      Transcrição segunda entrevista

    Entrevistada: Natália, 35 anos, economista, proprietária de uma escola de

    idiomas, mãe de Laura, 3 meses.

      

    Elaine: Então, eu queria, primeiramente, agradecer a sua disponibilidade e

      participação. Vamos começar, assim, pensando em um contexto mais geral, você acha que a sociedade ou o Estado tem algum dever para com os bebês, alguma responsabilidade?

      

    Natália: Deveria né, total (risos). Eu acho que desde que você sabe que você está

      grávida, o Estado deveria ser responsável pelo pré-natal, pela parte da saúde da mãe, às vezes, orientar a mãe, tem muita mãe também que não quer ter o neném e deveria ter uma orientação psicológica, não é todo mundo que está preparado, então acho assim, desde que você sabe que você está grávida o Estado deveria ser responsável e ter, te dar condição.

      Elaine: Não seria, então, uma responsabilidade só da família?

    Natália: Não, eu acho assim, é principal, mas você deveria ter o apoio de,

      especialmente nessa área da saúde, para as pessoas serem orientadas a fazer o pré-natal, às vezes, algum problema que dê durante [a gravidez] que ela [mulher] tenha condição de poder tratar.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Porque hoje em dia a gente sabe que tem tanto recurso para você fazer

      ainda dentro da barriga quando você fica sabendo que tem alguma coisa e se você não tem condição, é só depois que nasce mesmo que você fica sabendo. Já, às vezes, tem tantos casos de coisas tão simples que a pessoa só vai saber depois que nasce e a gente sabe que já tem tanto tratamento antes.

      Elaine: Você acha que o Estado, o Governo poderia oferecer esses recursos... Natália: É.

    Elaine: Então, as crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988, isso

      consta na Constituição, mas somente 18,1% das crianças brasileiras nessa faixa etária freqüentam creche. Por outro lado, 80% das crianças de 4 e 5 anos já freqüentam a pré-escola. O que você acha, o que você pensa sobre isso?

      

    Natália: Olha, eu não tenho muita informação assim do motivo, mas eu vou te

      falar da experiência que eu tenho, das minhas funcionárias, na verdade. Nessa faixa etária de 0 a 3, elas não acham creche para ficar.

      252

      Elaine: Ahamm...

    Natália: É o que elas mais querem [enfática] e assim, é impossível achar creche e

    quando acha, não acha vaga. Até os 4 anos, é impossível achar vaga na creche.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Então, eu acho que depois dos 4 anos, na verdade, a escola é mais

      accessível, então acho que a porcentagem aumenta porque ou você consegue pela Prefeitura ou até a escola particular é mais accessível, porque de 0 a 4 é caríssimo. E vaga em creche elas não acham de jeito nenhum.

      

    Elaine: E por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam ou não

      se mobilizam por essa questão dos direitos dos bebês ou mesmo das políticas de creche? Enfim, essa questão da falta de vagas que você apontou...

      

    Natália: Olha, eu nunca tinha pensado nisso (risos). E é engraçado que é uma

    necessidade que a gente vê que toda mãe tem. Elaine: Ahamm...

    Natália: Assim, é um desespero quando nasce, você não tem com quem deixar, é

      que eu acho que a classe mais pobre acaba sempre arrumando aquele jeitinho assim de deixar com alguém, sempre a mãe cuida, sempre tem alguém próximo que cuida e a classe média acaba sempre colocando em escola, tendo mais condição e em berçário. Acho assim, quem podia se mobilizar que são as pessoas mais esclarecidas, eu acho que não optam por colocar em uma creche, optam já por colocar em uma escolinha paga e então, na verdade, as pessoas que são mais esclarecidas para irem atrás disso, acabam não sentindo falta.

      Elaine: Acabam não se mobilizando pelos direitos...

    Natália: É, acho que não faz falta. A classe média não vai optar por colocar em

      uma creche, às vezes, até por falta de conhecimento, porque eu sei que tem muita creche que é até melhor que uma escola particular.

      

    Elaine: E como os adultos, em geral, tanto os políticos, a gente, a sociedade

      poderiam se mobilizar para procurar atender a esses direitos dos bebês ou agir mais ativamente em relação às políticas de creche?

      

    Natália: Era para existir mais vagas. Mas, como? Ninguém... eles... políticos não

      estão nem aí. Acho que a falta de vagas não é de hoje. Acho que já é uma coisa que vem de muito tempo. Acho que seria criando, indo atrás, acho que, na verdade, os políticos não estão nem aí, e eu acho que volta aquela questão, a população que deveria solicitar, pedir, a população eu acho que é uma população pacata que a gente nunca faz nada. Eu acho que as pessoas que vão mais atrás

      253

      das coisas não utilizam creche e as pessoas com menos condições, realmente, não tem aquela coisa de ir atrás, de brigar pelos direitos, às vezes, não tem nem conhecimento de saber como ir, para quem pedir, então eu acho que eles [políticos] não estão nem aí e quem deveria estar realmente... então é um pouco do povo brasileiro de não ir atrás dos seus direitos.

      Elaine: Acaba se conformando?

    Natália: É, é que você sempre dá um jeitinho. E com filho também. Eu vejo lá,

      sempre deixa com vizinho, sempre deixa com alguém, sempre arruma um jeitinho de deixar com alguém.

      Elaine: Ahamm... Natália: Ou um irmão mais velho cuida.

    Elaine: Você conseguiria visualizar que alternativa a gente teria ou um caminho

      para essa participação ou mobilização?

      

    Natália: Não, sinceramente não. Porque acho que é uma coisa que tinha que

      afetar realmente todo mundo. É muito difícil mobilizar as pessoas, a gente só consegue mobilizar quando é uma coisa que afeta a maioria das pessoas e isso é uma coisa que eu acho que não afeta por conta assim, a população média, média alta, não vai procurar, não sente falta disso e acaba não indo atrás.

      

    Elaine: E você, particularmente, você se preocupa com essas questões ou se

      mobiliza por essas questões de alguma forma? Por que ou como?

      

    Natália: Não, eu fico até, realmente, eu fico preocupada, eu tenho a minha mãe

      que trabalha em uma creche, então assim, a gente está sempre preocupada como arrumar vaga. Eu vejo as minhas funcionárias sempre atrás de vaga e... é aquilo ficam na fila, sempre acaba arrumando depois, mas eu nunca fui atrás para sabe, “o que nós vamos fazer para arrumar alguma coisa”. Você sempre quer resolver o imediato, você tem aquela criança, você quer resolver para aquela criança, de ajudar a pôr na creche, arrumar algum lugar e você nunca pensa assim “mas, o problema é muito maior, você vai resolver dessa criança, mas tem mais vinte que não têm condição”.

      Elaine: Você tem muitas funcionárias mulheres? Natália: Tenho vinte e uma mulheres.

      Elaine: É grande lá! Natália: Ainda bem que só tenho duas que têm filho (risos).

      254

      

    Elaine: Ahamm... E, agora, a gente vai falar um pouquinho sobre os bebês em

      geral... Você poderia descrever um bebê para mim? O que vêm à cabeça quando eu falo bebê ou o que é um bebê para você?

      

    Natália: É a coisa mais maravilhosa que tem (sorrisos), mas é um ser assim 100%

      dependente de você, que traz muita felicidade, mas assim tudo é uma coisa que ele precisa de você, tudo é novo, tudo que ele vai descobrir é através de você, então é uma pessoa 100% dependente, é um ser assim... é maravilhoso, mas é uma coisa que te dá trabalho, você tem que se dedicar, você tem que ter alguém assim tempo integral se dedicando, porque assim, bebê não é uma coisa que mama, dorme, não é um relógio. É uma criança, é uma coisa assim que precisa de 100% de dedicação de uma pessoa.

      Elaine: E existe diferença para você entre um bebê e uma criança pequena? Natália: Criança pequena que você fala de quanto tempo?

    Elaine: O que você achar... Até que idade você acha que é um bebê ou criança

      pequena você consideraria a partir de que idade? Se há uma diferença entre esses termos, entre um bebê e uma criança pequena, ou não?

      

    Natália: Eu não tenho muita experiência (risos), só tenho experiência com o meu

      bebê [enfática], o que eu acho assim, e com os meus sobrinhos, tudo... eu acho que pelo menos até uns 4 ou 5 anos ainda é um ser totalmente dependente de uma pessoa. É assim, você tem que ter dedicação, você tem que ter cuidado, você tem que ter atenção, é uma forma assim que eu acho que tudo que você ensinar, tudo o que você fizer vai refletir lá na frente. Então, por que eu falo até os 4 ou 5 anos, porque aí a criança já tem uma base, aí ela já consegue, com o que ela já aprendeu até essa idade, ela já começa a pedir, ela já tem condição de fazer algumas coisas sozinha. Agora, assim acho que o bebê não é só 1 ano, 2 anos, acho que é até uns 4, 5 anos, é o que você fizer até lá que ele vai conseguir, vai ter condição de mais para a frente, aí você vai começar a deixar mais sozinho, já descobrindo as coisas e tal. Mas, acho que até os 4, 5 anos...

      

    Elaine: Você ainda consideraria um bebê ou uma criança pequena? Tem alguma

      coisa que muda aí?

      

    Natália: Eu acho que assim, bebê acho que é até 1 ano, até que não anda, mas

      assim, quando você fala bebê assim um ser dependente aí eu acho que vai até essa idade.

      Elaine: Então, para você, mesmo os maiores também são dependentes ainda... Natália: Ainda. Elaine: Eles podem até não ser chamados de bebê...

      255

      

    Natália: Exatamente. Acho que o termo bebê, talvez, não seja mais o caso. Eu até

      brinquei, olhei para a minha que fez 3 meses ontem e falei assim “ah, você não é mais um bebê, você já é uma criancinha” (risos), eu falei, mas ainda acho que eles são muito dependentes, eu acho que tudo o que você fizer com eles, e não é você fazer para eles até 2 ou 3 anos você fazer as coisas no lugar deles, é você ensinar, você se dedicar, ter tempo de se dedicar para ensinar para ele fazer sozinho. Mas, acho que esse acompanhamento no começo é essencial.

      

    Elaine: Você começou a falar um pouquinho... Como você acha que os bebês

      gostariam de ser cuidados/educados? Qual seria a melhor maneira de educá-los? Ou do que eles necessitariam?

      

    Natália: Eu acho que eles necessitam de uma pessoa 100% com eles assim para

      tudo, alguém que cuide deles, das necessidades que eles têm, mas que oriente, que converse, que explique as coisas, que tenha... tem que ser uma pessoa muito especial que tenha paciência porque, às vezes, o fato de estar perto não significa que você está educando. Às vezes, você está segurando, chacoalhando, mas não significa que você está junto... então tem que ser uma pessoa que goste muito, que tenha muita dedicação, por isso que acho que é importante quando você decide ter um filho você realmente querer muito, porque eles são bonitinhos, mas na hora “h”, quando você acorda às 2 horas da manhã, se você realmente não quiser... então, tem que ter muita paciência. Eu acho que ele realmente precisa de uma pessoa que goste de criança, que tenha o dom. Acho que cada um tem um dom para uma coisa. E eu vejo até nessa fase assim pequena eu acho até muito difícil escola, por exemplo. Por mais que seja um, dois ou três que cuidem, mas não é aquela dedicação 100%. Conversar, eu acho que o bebê tem que ter aquela identificação com aquela pessoa. Então, acho assim, é integral, é horário integral você com a criança orientando, conversando, se dedicando.

      Elaine: Ahamm... E quem teria que ser essa pessoa? Natália: A mãe (risos) é quem teria que ser.

      Elaine: É?

    Natália: Eu acho assim, se a gente for ver, o ideal seria a mãe. Acho que toda

      mãe queria também, é que acho que hoje em dia é praticamente impossível.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: É lógico também que tem que ser a mãe se a mãe tiver essa

      disponibilidade, porque eu conheço gente que não tem essa disponibilidade também, então também não, mas assim, se você tiver, acho que seria o ideal uma mãe que goste, que tenha esse dom e que tenha disponibilidade, agora senão, se isso não for possível, acho que você encontrar uma pessoa que se encaixe melhor naquilo para você. Eu acho que até 1 ano, eu acho que uma escolinha não é o ideal.

      256

      

    Elaine: Ahamm... E essa pessoa pode ser quem, uma pessoa da família, uma

      pessoa que você contrate? Enfim, uma empregada, uma babá? Essa pessoa que ficaria na ausência da mãe...

      

    Natália: Em tempo integral né. Eu acho que quando você tem a disponibilidade da

      família e que tem essa pessoa assim, eu acho que é o mais ideal, mas que não seja aquela avó que estrague... geralmente, a avó vai... que não seja aquela pessoa também que estrague e eu não falo assim no sentido de proteção, porque proteção a gente sabe que a família vai dar. Eu acho assim aquela orientação, aquela paciência, eu acho que se você tiver alguém da família é o mais ideal, senão você tem que procurar alguém no mercado mesmo, que tenha experiência, que você confie, geralmente por indicação ou até que você conheça.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Mas, até assim, é uma coisa que você percebe, se você olhar hoje o jeito

      de pegar uma criança você já percebe se a pessoa tem jeito ou não. Coisa que antes de ser mãe você não percebia.

      

    Elaine: E qual você acha que seria a idade ideal para o bebê começar a

      freqüentar a creche? Você falou que acha que no comecinho, o bebê ainda é muito novo, 1 ano ainda não... Qual seria a idade ideal?

      Natália: Eu acho que a partir de uns 2 ou 3 anos. Elaine: Ahamm... Por quê? O que muda?

    Natália: Porque acho que ele já teve uma base assim em casa, já teve as

      primeiras instruções, o primeiro aprendizado acho que foi em casa com a mãe ou com uma pessoa de confiança, então acho assim, que ele já teve aquela coisa e aí ele vai começar a viver meio sozinho, mas com aquela base que ele teve em casa, ele não vai aprender assim, a base da educação veio de casa. Aí, assim, ele vai começar a se virar sozinho, mas os principais passos foram dados em casa.

      Elaine: Ahamm... tá. E qual seria a rotina de um bebê em casa? Natália: Ah, isso eu queria descobrir também (risos).

      Elaine: (risos) Natália: Você diz assim em que sentido?

    Elaine: Ah, assim, o que você acha que é a rotina de um bebê em casa, assim no

      dia-a-dia e um pouquinho assim, vamos supor, se teria alguma diferença se ele estivesse na creche hoje. Qual seria a rotina se ele estivesse na creche? Seria diferente ou seria parecido? O que você acha?

      257

      

    Natália: Bom, aqui em casa o que tem... ele [bebê] acorda, tem os horários assim

      de cada 3 em 3 horas a mamada, troca, tem o horário de ficar acordado um pouquinho, que ela já está ficando acordada um pouquinho, que é a hora de brincar, então assim a gente segue muito rigorosamente esse negócio de 3 em 3 horas. O horário do banho também, acho que deu muito certo, a gente dá banho à noite, às 19 horas, aí ela dorme, já está dormindo até às 8 horas da manhã seguinte, então assim, essa rotina é muito certa aqui em casa.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: O que eu acho é que, nesse ponto, em uma creche, em uma escolinha

      não acontece, porque eu acho que não dá para eles terem assim, se ela [bebê] acordar e já der as 3 horas e eles estiverem dando de mamar para mais dois bebês, ela vai ter que esperar mais 15, 20 minutos. E, para um bebê, esses 15, 20 minutos fazem diferença e a próxima mamada, o intervalo não vai ser de 3 horas, vai ser de 2 horas e meia, já não mama como deveria mamar... aqui [em casa], assim, vai dando horário, você já vai acordando, conversando até você despertar a criança, você já percebe, às vezes, pelo jeito em que ela está no berço, você já percebe se você precisa despertar ou se mais 5 minutos ela já vai acordar sozinha. Eu acho que em uma creche, em uma escolinha, a pessoa não tem muito tempo de ficar se dedicando, enquanto ela está olhando um, a outra está dormindo e, às vezes, faltam 10 minutos para acabar de dar de mamar para uma, o que eu acho que é normal, mas é que eu percebi que essa rotina que tem em casa é importante, foi muito importante para ela. Você consegue dar as mamadas nos horários certos, mama melhor, você percebe que mama melhor, eu já fiz o teste de deixá-la dormir até a hora em que ela quisesse e depois acordar e não é a mesma coisa porque aí vai atrasando as outras mamadas.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Então, se você consegue manter essa rotina assim de horários, para ela

    foi muito importante.

      Elaine: Você amamenta ainda? Natália: Não.

      

    Elaine: Ahamm... Agora, eu queria que você contasse um pouquinho se você se

      instruiu ou se você foi atrás de algum aprendizado específico, como você aprendeu sobre os cuidados para com um bebê... Se você já tinha cuidado de algum bebê antes...

      

    Natália: Não, eu não fui não, acho que é no dia-a-dia, é lógico, você sempre ouve

      uma coisa de uma [pessoa], outra coisa de outra [pessoa], mas quando nasce, parece que você já tem alguma coisa assim, você fala “é assim”. Minha mãe ficou aqui [em casa] comigo, não ficou aqui, mas vinha aqui todo dia durante uma

      258

      semana, aí você vai pegando algumas coisas, eu li assim, enquanto eu estava grávida, uns dois livros, mas por curiosidade, mas aí você vê também que algumas coisas que você lê, na prática também não é assim.

      Elaine: Você lembra o nome de algum livro?

    Natália: Não, mas depois eu posso te passar. Um é o Nana Neném e o outro eu

      não lembro o nome.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Mas acho que você vai pegando o seu jeito, o que você vai percebendo

      que por ali dá mais certo e acho que é gostar também. Eu sempre gostei de criança, assim nunca cuidei, mas eu sempre gostei. Então, aí, eu acho que fica mais fácil também. Eu nunca tive medo de pegar a criança, de trocar, então parece que quando é a sua, parece que é mais fácil, você vai vendo o que você acha que é melhor. Na verdade, assim, eu acho que a minha adaptação foi muito fácil, mas não fui atrás não.

      Elaine: Não chegou a fazer nenhum curso? Natália: Não.

      Elaine: E como foi assim a sua gravidez? Foi planejada? Vocês decidiram...

    Natália: Planejamos, foi uma gravidez muito tranqüila, eu não senti assim

    absolutamente nada, eu não tive assim um enjôo, uma pressão alta, nada, nada.

      Eu trabalho em XYZ [bairro em São Paulo e distante de São Caetano], eu trabalhei até na sexta-feira porque ela adiantou 15 dias, aí no domingo eu estava aqui em casa, achei que tinha estourado a bolsa, mas também não sabia ao certo, porque tinha sido só um pouquinho, fomos para o hospital sem saber se era ou não, achei até que não era, cheguei lá, fiquei conversando, no fim nasceu, foi cesárea, mas eu não senti nada antes, nem durante, nem depois [enfática] e olha que eu sou a pessoa mais medrosa (risos).

      Elaine: (risos) Que ótimo que você não sentiu nada!

    Natália: Nada, nada, nada, foi muito fácil. Eu falo que se fosse só fazer e ter, que

      eu teria uns dez (risos) porque foi muito fácil.

      

    Elaine: (risos). Então... Agora, a gente vai conversar um pouquinho sobre

      creche... O que vem à cabeça quando eu falo creche, quando eu uso o termo creche? O que esse termo traz para você?

      

    Natália: Ah, eu acho que é um lugar onde você... que tem cuidados com a

      criança. São lugares que têm, geralmente, psicólogos, orientadores que se

      259

      dedicam para as crianças. Eu acho que são bons lugares, com certeza, tem bons lugares.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: A única coisa que eu acho é que lá ou em qualquer outro lugar não tem

      assim dedicação, é muita criança e poucos profissionais talvez. Poucos que eu falo é que hoje o importante seria assim uma criança para cada... [pequena pausa para a entrevistada atender ao telefone]

      

    Natália: Então, quando eu falo pouca é por isso, eu acho que é importante nessa

    fase um por um e é lógico é humanamente impossível em uma creche ter isso.

    Elaine: Você acha que teria que ter uma pessoa para atender cada criança, cada

    bebê... Natália: É, exatamente.

    Elaine: Você já falou um pouquinho, mas para complementar, para que serve uma

    creche e para quem se destina uma creche...

    Natália: Então, eu acho realmente para as pessoas assim que não têm essa

      condição de ficar em casa, para as mães que não têm a condição de ficar em casa cuidando e que não têm também a opção de deixar com alguém que conheça ou pagar uma profissional.

      Elaine: Ahamm... Você conhece alguma creche? Natália: Conheço.

      Elaine: Fala um pouquinho então sobre essa que você conhece...

    Natália: Eu conheço uma, inclusive assim, ela é excelente. Ela fica em São

    Bernardo, assim...

      Elaine: É uma creche pública?

    Natália: É. Nossa, a alimentação que as crianças têm lá, então assim, tem

      psicólogo, tem dentista, tem orientadores por faixa etária, vão para a escola rigorosamente com perua [transporte escolar], já vão embora com banho tomado, com janta, fazem 5 refeições na creche. Então, assim, a creche que eu conheço realmente assim é excelente, muito boa realmente. Eu acho mesmo que é excelente a creche, mas eu acho que ainda falta isso, lógico, na minha opinião, não tem aquela dedicação, uma cuida de 5 crianças, 6 crianças, conforme vai aumentando a faixa etária ainda é maior o número de crianças.

      260

      Elaine: Você comentou que a sua mãe trabalha em uma creche? Natália: Ela é voluntária nessa creche.

      

    Elaine: Ok. É uma creche assistencial, conveniada ou totalmente municipal? Você

      sabe?

      

    Natália: Não sei, na verdade, eu acho que tem ajuda do Município, tem ajuda da

      Igreja, até minha mãe ajuda lá porque minha mãe conseguiu uma ajuda de fora, do exterior, então vem dinheiro também de um país europeu, vem gente de fora, então, enfim como cuidar do dinheiro, é uma creche que não falta dinheiro, então por isso é que eles têm de tudo lá.

      

    Elaine: Ahamm... E sua mãe faz um trabalho voluntário em qual área? Como é o

      trabalho dela lá? Natália: Na administrativa, ela cuida de compras, é ela que ajuda.

      

    Elaine: E aqui, a gente pensando um pouquinho em São Caetano, você sabe se

      tem alguma creche pública aqui no bairro? Ou conhece alguma creche aqui em São Caetano? Natália: Eu não conheço.

      

    Elaine: Ahamm... Eu ia te perguntar se você conhece alguém que utiliza ou

      trabalha em uma creche, então você tem o voluntariado da sua mãe e mais alguém que você conheça que trabalhe ou em outra creche ou que utilize, enfim, suas funcionárias?

      

    Natália: Não, as minhas funcionárias até hoje nunca conseguiram uma creche

    para elas, uma vaga em uma creche. Elaine: Em São Paulo?

    Natália: É, todas moram em São Paulo e nenhuma conseguiu. É a grande luta

      delas, aí acaba deixando com família, porque elas realmente não conseguem.

      

    Elaine: Então, os comentários que você ouve sobre essa creche que você

    conhece são nessa linha de um bom atendimento... Natália: Sim.

    Elaine: Mas, sobre outras creches, outros comentários são sempre esses que a

    pessoa não conseguiu vaga...

    Natália: De que não conseguiu, apesar assim das creches que elas vão visitar,

      também não conheço, mas elas sempre voltaram elogiando, “ah, se meu filho

      261

      ficasse lá, seria bom”. Então assim, acho que as creches, nunca ouvi alguém falar mal de uma creche.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Lá, eu não tenho muito contato, mas lá o problema que eu ouço mesmo é

    que não arrumaram vagas.

      Elaine: Ok. E sobre as creches de São Caetano, você já ouviu alguma coisa? Natália: Para falar a verdade, não sei nem se tem creche aqui em São Caetano.

      Elaine: Tá.

    Natália: Eu tenho uma cunhada minha que trabalha, ela é psicóloga e trabalha em

      um abrigo, em um orfanato e parece que existem só dois aqui em São Caetano, que é um número assim absurdo de pequeno diante da necessidade que tem. Agora, eu imagino creche então, deve ser um número muito pequeno. Mas, eu estou chutando, não faço a menor idéia.

      

    Elaine: Tá, então você não conseguiria nem comparar, não daria para falar das de

      São Caetano em comparação com as de outros lugares porque não tem esse referencial do que existe ou não aqui...

      Natália: Isso.

    Elaine: Você também já comentou algumas coisas sobre a creche que você

      conhece... O que seria para você uma boa creche, uma creche de boa qualidade? O que você realmente leva em consideração, o que uma creche tem que ter para ser boa?

      

    Natália: Eu acho que ela tem que ter bons orientadores lá dentro, acho que tem

      que ter atendimento... tem que ter um psicólogo, um pedagogo, se possível, assim uma enfermeira de primeiros socorros, essa preocupação de educação, de levar em escola, trazer da escola, uma excelente alimentação conforme a idade da criança.

      

    Elaine: O que você quer dizer com essa questão de levar para a escola, trazer da

      escola... Uma creche em que a criança já maior ficasse em um período e no outro fosse para a escola?

      

    Natália: Isso. E também para ser uma boa creche deveria ter limpeza, aposentos

    para a criança poder dormir, limpeza, higiene. Elaine: O que a creche deve oferecer também para o bebê se sentir bem?

      262

      

    Natália: Quando eu falo orientadores seria isso de ter alguém que brinque com

      eles nessa parte de educação, que tenha um cantinho assim de cochilo. Eu acho que praticamente para uma criança é isso, brincar, comer e dormir. Então eu acho que tem que ter essas três coisas sim.

      

    Elaine: Para o bebê também... se tiver um bebê na creche isso também tem que

      ser oferecido?

      

    Natália: É, também, e mesmo para uma criança de 3 ou 4 anos que ainda use

      isso, e mais para frente, levar para a escola, ter uma alimentação adequada com uma nutricionista porque o que uma criança de 1 ano come não é a mesma coisa que outra come. Aquela coisa de forçar a comer fruta... imagina se em uma creche eles vão né, mas deveria.

      Elaine: E o que seria uma creche ruim, de má qualidade?

    Natália: Eu acho que é uma que não tenha nada disso (risos). Um lugar onde

      você simplesmente largue, um lugar em que você deixe seu filho, que vai ter alguém lá para pegar seu filho e depois para te devolver às 5 da tarde, mas que não tenha uma boa alimentação, que não tenha uma higiene, que não tenha cuidados básicos.

      Elaine: Um lugar mais onde a criança só passe o dia...

    Natália: É, um lugar onde você só deixe e que não tenha pessoas que sejam

    especializadas, que seja, por exemplo, um lugar onde só tenha voluntários.

      Voluntário é bom, mas não são pessoas que estudaram para aquilo.

      Elaine: Então, a capacitação é uma coisa importante para você... Natália: É, com certeza. Elaine: Você colocaria seu bebê em uma creche? Natália: Nas atuais, hoje? Elaine: Ahamm...

    Natália: Olha, assim, eu acho que não, mas é como eu estou falando, não

      conheço nenhuma aqui em São Caetano para eu estar avaliando se realmente é bom, se é boa ou ruim.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: A que eu conheço, aquela que eu comentei, eu sei que é muito melhor

    que muitas escolas.

      263

      Elaine: Lá, você colocaria? Natália: Hã? Elaine: Lá, você colocaria seu bebê se você pudesse colocar?

    Natália: É que hoje eu tenho condições de pagar uma pessoa para cuidar. Se

      fosse para colocar em uma escola ou lá, lá eu colocaria, talvez. Agora, assim, eu tenho condições de pagar uma pessoa que fique integral, que eu acho que é o ideal.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Agora assim, avaliar alguma creche daqui, eu não posso falar nem que

    sim nem que não porque eu não conheço.

      

    Elaine: E se você não tivesse essa opção de ter uma pessoa com quem deixar,

      você colocaria o bebê para ficar o dia inteiro, em período integral?

      

    Natália: Eu colocaria ele [bebê] na escolinha. Aqui em São Caetano, eu colocaria

    ele em uma escola em período integral. Elaine: Uma escola, você diz, escola particular? Natália: Particular.

      

    Elaine: Você recomendaria a creche pública para outros pais e bebês? Essa que

      você conhece, você recomendaria?

      

    Natália: Então, como eu realmente não conheço seria muito difícil eu falar. A que

      eu conheço... sim, a gente sabe que se a pessoa não tem condições, a creche é boa lá, é, mas a gente sabe que tem escolas, se a pessoa tiver condições de pagar, a gente sabe que tem escolas que são muito melhores. Acho que você tem que comparar aquilo que você tem condição de pagar. Então, se é uma pessoa que tem condição de pagar, a gente sabe que tem escolas muito melhores. Então, assim, do meu ponto de vista, assim, dependendo, a pessoa tendo condição, eu acho assim que uma pessoa em casa cuidando do seu bebê ainda é o melhor, a segunda opção seria assim uma excelente escola e aí a terceira opção seria uma creche. E que eu acho que essa opção, a terceira opção ainda é muito difícil porque eu não conheço, não sei se é por eu não conhecer, mas acho muito difícil uma creche que tenha tudo isso.

      

    Elaine: Ahamm... Que se encaixe nesse perfil do que seria para você uma creche

    boa... Natália: É.

      264

      

    Elaine: Ainda pensando nessa questão do que você está chamando de creche

      pública e escola particular, quais seriam as diferenças que você acha que existem entre uma e outra?

      

    Natália: Eu acho que em uma escola você tem a qualificação das pessoas. Então,

      geralmente em uma escola, você tem uma nutricionista, você tem uma pedagoga, as professoras que estão lá vão ser realmente pessoas instruídas, você tem uma enfermeira, então assim você tem todo um trabalho das pessoas que são instruídas para aquilo, que são... que estudaram para fazer aquilo.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Geralmente, a escola já tem mais estrutura para aquilo, foi criada para

      aquilo, então tem... mesmo o material pedagógico para aquilo... coisas que, às vezes, em uma creche, na verdade, talvez vivam de doação, então é um material doado, às vezes, não tem materiais para aquela faixa etária, às vezes, os profissionais são voluntários, não são pessoas qualificadas.

      

    Elaine: E você acha que tem alguma diferença entre os bebês que freqüentam

      creche pública e os que freqüentam, no caso, uma escola particular?

    Natália: Eu acho que as diferenças são essas de alimentação, de orientação.

    Partindo do pressuposto que você pôs em uma escola top, também se você colocar em uma escolinha qualquer talvez não haja diferença nenhuma. Mas, eu acho que a diferença principal é você ter uma pessoa qualificada para cuidar do seu filho conforme a idade dele, e que em uma creche, talvez, às vezes, você não tem isso.

      

    Elaine: E por que você acha que existem essas diferenças entre a particular e a

      pública? Eventualmente, de repente, você ter gente mais qualificada em uma do que talvez na outra...

      

    Natália: Ah, acho que aí é condição, é salário. Uma escola boa vai atrás dos

      melhores profissionais, sabe que os pais vão procurar isso. Então assim, a questão realmente é de salário. A creche pública não vai estar preocupada com isso, vai colocar um profissional x e vai pagar por aquilo um salário mínimo ou um pouco mais. Então, aí é questão realmente de salário, das condições que vão ofertar para a pessoa trabalhar. Às vezes, o profissional que está lá na creche é até bom, mas ele não tem material, ele não tem condições de ofertar alguma coisa.

      Elaine: Ahamm... Para você, então, é mais pela questão do investimento? Natália: Sim.

      

    Elaine: Se tem menos investimento, o profissional vai ter menos condições de

      trabalho ou serão, talvez, contratadas pessoas menos qualificadas?

      265

      

    Natália: É, eu acho que os melhores profissionais não vão estar ganhando um

      salário mínimo em uma creche. Os bons profissionais vão procurar um lugar melhor.

      

    Elaine: E em termos dos bebês, você acha que tem alguma diferença entre o

      bebê que freqüenta creche pública e o bebê que freqüenta creche particular? Não em termos mais do que se oferece para eles, mas alguma diferença entre os bebês mesmo, se existe ou não?

      

    Natália: Eu acho mesmo que deve ser limpeza e quantidade de bebê por pessoa

      que oriente, porque eu acho assim, em uma creche é muito maior o número de bebês.

      Elaine: Na escola particular você acha que talvez tenha uma proporção melhor? Natália: Eu acho, com certeza.

      

    Elaine: E tem mais alguma coisa que talvez diferenciasse os bebês? As que vão

      para a particular e as que vão para a pública, elas têm alguma coisa diferente?

      Natália: O bebê que você fala... é bebê, bebê? Elaine: O bebê, uma criança que está indo para a creche.

      

    Natália: Eu acho que é isso assim, com certeza, esse profissional da escola é

      mais qualificado que uma orientadora em uma creche, então, assim, a orientação do bebê já vai ser diferente, não vai ser igual à da creche. O cuidado que ela vai ter com essa pessoa vai ser diferente. O cuidado que eu falo é assim, desde o jeito de você falar, tudo o que você faz, os bebês já conhecem, já estão aprendendo, então o aprendizado vai ser outro. Vai ser uma pessoa mais dedicada, vai ter menos crianças, é uma pessoa mais qualificada, então vai ser totalmente diferente.

      

    Elaine: Ahamm... Agora, eu gostaria que você falasse um pouquinho mais de

      você, da sua família, do seu marido, do seu bebê, em termos de idade, profissão, tipo de trabalho, religião, só para situar um pouco, uma breve apresentação...

      

    Natália: Bom, meu marido tem 40 anos, ele é Gerente na XYZ [grande empresa],

      ele tem pós-graduação, eu tenho 35 anos, tenho uma escola de idiomas, uma franquia. Quanto à religião, somos católicos praticantes. É nosso primeiro filho, planejado, depois de 5 anos de casados e nasceu a Laura, que ontem fez 3 meses e é uma coisa maravilhosa (risos).

      

    Elaine: (risos)... E qual é a sua formação, como você chegou na escola de

      idiomas?

      266

      

    Natália: Eu sou economista, tenho pós-graduação, trabalhei 17 anos na XYY

      [outra grande empresa]. Como meu marido trabalhava no mesmo ramo de negócios, na concorrência, eu falava “eu preciso mudar”. Aí com o tempo apareceu a oportunidade de eu comprar uma escola de idiomas, aí eu larguei tudo e fui, não me arrependo. Faz 5 anos que eu tenho a escola.

      Elaine: Então, a escola já existia quando você planejou ter a bebê... Natália: Já.

    Elaine: Queria que você falasse um pouquinho como você se recorda da

      educação e dos cuidados que você recebeu quando você era criança... como era, se a sua mãe trabalhava fora ou não, com quem você ficava, se você freqüentou creche pública ou particular e com qual idade?

    Natália: Não, minha mãe não trabalhava. Eu ficava em casa com a minha mãe.

      Lógico, hoje é outra realidade (risos) que antigamente. Eu fui para a escolinha quando eu tinha 4 anos, era na EMEI [Escola Municipal de Educação Infantil].

      Elaine: Aqui em São Caetano?

    Natália: Não, em XYZ [outro município do ABC paulista], mas estudava meio-

      período e depois ia para casa, então sempre tive esse negócio de chegar em casa e a minha mãe estar em casa, almoço, minha mãe sempre ajudou nas tarefas de casa.

      Elaine: E sua mãe já não trabalhava quando você nasceu? Natália: Não.

      Elaine: E você tinha irmãos? Natália: Tinha uma irmã mais velha que também recebeu o mesmo cuidado.

      

    Elaine: E, além da sua mãe, você ficava também com algum outro familiar ou

      outra pessoa? Natália: Não, não, só com a minha mãe.

      

    Elaine: E o que você pensa, o que ficou dessa educação que você recebeu? O

      que você guardou, o que é importante e que você gostaria de transmitir para a sua filha ou fazer da mesma forma, educar da mesma forma como você foi educada?

      

    Natália: É, acho que educar da mesma forma eu não vou conseguir, porque

      assim, minha mãe era dedicação 100% para nós, que eu acho que é o ideal. Não sei se eu agüentaria ficar 100% em casa hoje. A gente fala que é o ideal, mas eu não sei se hoje, nos dias em que a gente vive, se eu realmente pudesse abrir

      267

      mão, “ah, não vou mais trabalhar”, não sei se eu conseguiria me dedicar 100%. E ela sim, ela se dedicou 100%. Mas, eu acho que tem algumas coisas que são importantes, assim a gente sempre tomou café junto, almoçou junto, jantávamos juntos, a lição de casa todo dia fazíamos juntos, eu não me lembro de fazer a lição se ela não estivesse junto.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Então, são coisas que você vai acabando criando esse hábito e que

      foram importantes assim e que eu acho que foram muito importantes na minha educação.

      Elaine: E são coisas que você gostaria de manter, de preservar na educação... Natália: É, pelo menos um pouco (risos).

    Elaine: Ahamm... E tem alguma coisa que você não gostaria de fazer da mesma

      forma, que você gostaria de modificar em relação à educação que você recebeu dos seus pais? Você comentou que os contextos são um pouco diferentes, que você trabalha e que sua mãe não trabalhava...

      

    Natália: É, talvez assim brincar um pouco mais. Acho que, na época, eles se

      dedicavam muito em educação. E talvez fazer o que eles fizeram com os netos depois de rolar um pouco mais, de sentar no chão e assim ser um pouco mais relax. Não só cobrar, cobrar, era muita cobrança, cobrança. Então, talvez ser um pouco mais diferente nisso também.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Agora, o grau disso é que é difícil. Medir o quanto é isso é que é difícil

    (risos).

      

    Elaine: Ahamm... Agora, vamos conversar um pouquinho em relação à licença

      maternidade. Eu gostaria de saber o que você sabe sobre a licença maternidade e também que você falasse um pouquinho aquilo que você me contou no telefone, quando agendamos a entrevista, de que você não pôde usufruir muito da licença... gostaria que você falasse dessa sua experiência...

      

    Natália: Bom, acho que a licença maternidade é fundamental [enfática]. Nunca dei

      valor para isso, sempre achei um exagero uma pessoa ter que ficar 5 meses em casa, incluindo férias, para ficar com uma criança. Achava uma coisa absurda e eu acho que é fundamental. Eu não tive, com 15 dias eu voltei a trabalhar e é muito dolorido.

      Elaine: Ahamm...

      268

      

    Natália: E eu acho que a criança precisa de você [enfática], você percebe que

      durante os primeiros dias, a neném não dormia durante o dia e eu não fui em período integral, eu ia, ficava 3 horas e voltava, eu ficava 3, 4 horas e voltava. Mas, com 15 dias, ela ficava 3 ou 4 horas acordada, coisa que para um neném é muito tempo. Então, assim, acho que esse contato da mãe no começo é muito importante. Então acho assim, hoje, eu sou super a favor da licença maternidade e é duro não poder ficar em casa.

      Elaine: E como é hoje, você fica mais tempo?

    Natália: Assim, vai passando, você fica mais tempo trabalhando, mas assim ainda

      não estou período integral, mas já estou indo todos os dias, antigamente eu não estava indo todo dia, agora já estou, então assim pelo menos umas 5 horas longe de casa eu fico, 5 ou 6 horas eu fico longe de casa.

      Elaine: Você tem aumentado o seu tempo de trabalho... Natália: É. Elaine: Mas, você gostaria de ficar ou de ter ficado mais em casa...

    Natália: Eu acho que assim, principalmente até os 3 meses. Eu acho que até os 3

      meses é fundamental. Eu percebo assim que agora, ela já está em uma fase melhor que você já consegue deixar mais, você já consegue até conversar mais e ela já entende melhor. Mas, acho que até os 3 meses, era uma coisa que eu não dava valor, mas é fundamental [enfática].

      

    Elaine: E para você também agora já está um pouco mais fácil ou ainda é muito...

      você falou que foi sofrido no começo...

      

    Natália: Acho que tudo você vai se acostumando (risos). É fácil? Não, não é, mas

      assim eu também sou daquelas que acho que se você ficar pensando muito é pior para você e pior para o nenê. Então, eu sei que ela está bem, então eu vou para lá [trabalho] e não sou de ficar ligando por causa assim se eu deixar ela com uma pessoa é porque eu confio naquela pessoa e acho que a pessoa também, eu acho que ou você vai [trabalhar] e se desliga ou é melhor não ir.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: Então, assim acho que quando você está com ela, você tem que ter o seu

      tempo integral para ela, acho que não é legal nada que você faça, que você faça pela metade. Eu já cheguei a ficar aqui em casa com ela aqui no carrinho, mas com um notebook no colo, um rádio e o celular. Aí eu falava assim “o que adianta eu ficar aqui em casa”.

      Elaine: Ahamm...

      269

      

    Natália: Então, eu parti e disse “chega, o que eu fizer eu vou fazer integral e me

      dedicar àquilo”. Então eu prefiro ir todo dia, fazer o que eu tenho que fazer lá e aí quando voltar ficar com ela e me dedicar para isso.

      

    Elaine: Ahamm... Bom, então você acha que pelo menos um período de 3 meses

      seria o necessário, o ideal para a licença maternidade ou os 4 meses previstos na lei?

      Natália: Os 4 meses seriam mesmo o ideal.

    Elaine: E o que você achou do projeto de lei que foi aprovado e que dá a

      possibilidade de prorrogação da licença maternidade por mais 2 meses? As funcionárias que quiserem, de comum acordo com as empresas onde trabalham, poderão usufruir de licença maternidade de 6 meses... Você acha que esse período é suficiente, adequado? É bom para as famílias e para os bebês?

      

    Natália: Eu acho que não tem necessidade, acho que o principal mesmo seriam

      os 3 primeiros ou 4 primeiros meses. Eu acho que largar a criança em qualquer idade vai ser difícil. Se você vai pensar nisso, 6 meses vai ser pouco, você vai querer 7, 8 meses, quer dizer, você se separar da criança é duro. Mas, a necessidade de você ficar um mês a mais ou a menos, não é isso que vai fazer diferença. Acho que assim os 3 primeiros meses são onde a criança realmente tem mais necessidade. Até, o pediatra sempre brincou que com 3 meses ia acabar o soluço, a criança ia dormir melhor, a rotina estaria criada e eu e meu marido até brincávamos “ah, então a gente vai fazer um churrasco porque realmente acontece tudo com 3 meses”, a gente não acreditava e realmente assim, ela está com 3 meses e está com uma rotina ótima, já tem hábitos, já criou aquele vínculo, você já sabe o que ela quer, ela já tem a rotina dela, os horários dela, então acho assim que se eu pudesse ficar aqui 6 meses seria ótimo, mas na hora de separar seria tão duro quanto aos 3 meses. Acho que ficar mais tempo não iria mudar isso. Acho que não tem necessidade. Acho que realmente são os 3 primeiros meses que são a fase que ela tem mais cólica, é a fase em que você não consegue ter rotina, então que eu acho que é o principal realmente, agora não vejo necessidade de um período maior de licença.

      

    Elaine: Você comentou sobre o pediatra... Vocês chegaram a conversar com o

    pediatra sobre o seu retorno ao trabalho, sobre você ter retornado após 15 dias...

      Ele recomendava que você ficasse mais tempo ou não? Vocês conversaram sobre isso?

      

    Natália: Não. Eu comuniquei né (risos). Na verdade, eu estava conversando sobre

      o leite... a nenê lá na maternidade já tomou complemento, então aqui em casa eu continuei amamentando e dando complemento. Até os 2 meses, eu consegui fazer isso. Então, como ela já estava também na mamadeira, durante o tempo em que eu ficava fora, essa mamada ela tomava na mamadeira, então deu para conciliar. Então, também não teve problema quanto a isso.

      270

      Elaine: E o pediatra ou a pediatra não se manifestou nem a favor nem contra? Natália: Não (risos).

      

    Elaine: Agora, vamos conversar um pouco sobre a licença paternidade... O que

      você sabe sobre essa licença? Seu marido usufruiu ou não?

      

    Natália: Meu marido não usufruiu porque ela nasceu durante uma feira importante

      do ramo de atividades da empresa onde ele trabalha, que é uma feira super importante da indústria, ia começar em um domingo e dura uma semana. Foi bem no domingo em que ela nasceu, então assim, ele só não foi trabalhar lá no domingo, foi trabalhar todos os dias. Mas é aquilo também, eu acho que ficar em casa e você ficar pensando lá [no trabalho], ficar com o notebook e com o celular, acho que não... pelo menos ele ia e ficava o tempo necessário... de manhã ele não ia porque a feira só abria à tarde, de manhã ele ficava aqui e se dedicar... também não é ficar em casa e ficar olhando junto só e falar “ah, estou em casa”. O tempo que você ficar tem que ser para você se dedicar para aquilo.

      Elaine: Ahamm... Mas, você conhece a lei, sabe qual é o período? Natália: São 5 dias né.

      Elaine: Ahamm... Você acha que esse tempo previsto em lei é adequado?

    Natália: Eu acho que para o pai é o ideal. Porque eu acho assim durante os

      primeiros meses é a mãe mesmo, não tem jeito. O pai ajuda? Ajuda assim para comprar alguma coisa, para trocar uma fralda ou outra, mas o dia-a-dia é a mãe mesmo. É a mãe que conhece, é a mãe que vai amamentar, acho que o principal é a mãe mesmo.

      

    Elaine: Tem um projeto que prevê a ampliação da licença paternidade de 5 para

      15 dias. O que você acha disso? Natália: Assim, eu não via necessidade.

      Elaine: Você acha que os 5 dias estão adequados...

    Natália: Estão... Porque assim, é uma fase em que a criança dorme muito na

      verdade (risos). Então, quando ela acorda, o que ela quer? É a mãe para amamentar. É uma fase, principalmente o primeiro mês, é uma fase em que a criança não fica acordada. É acordar para amamentar e dormir. Então, eu acho que é um período que, na verdade, o pai não pode...

      

    Elaine: Você acha que acaba não sendo um período muito proveitoso para o pai

      também?

      271

      

    Natália: É, o pai não faz muita coisa. Não tem como fazer muita coisa. Tem

      pessoas, tem mãe que acha que vai amamentar e que o pai tem que acordar de noite para ficar... sei lá, para mim é meio... quem vai ter que acordar é a mãe [enfática], quem vai amamentar é a mãe. Eu acho que o pai entra em outras fases, acho que quando está maior, que nem agora com 3 meses você já percebe que ela já interage, ela já conversa... conversa assim do jeito dela, já conhece, mas nossa no primeiro mês, segundo mês a criança não tem essa... assim, ela interage com a mãe mesmo.

      

    Elaine: Ahamm... Então, falando agora sobre essa decisão que você tomou...

      você contou que voltou ao trabalho depois de 15 dias e, aos poucos, você foi aumentando a sua carga horária... Com quem o bebê fica em casa? Como você chegou nessa decisão? Como foi esse processo?

      

    Natália: Na verdade, isso já era uma coisa planejada antes de eu ficar grávida,

      porque eu sabia já que eu não poderia ter licença maternidade, até adiamos a gravidez por conta disso, mas foi uma coisa que a gente sempre planejou, “ah, quando eu ficar grávida, vai ter que ter uma pessoa”. O único plano que nós mudamos foi que eu imaginava que depois de 4 meses eu iria levar ela para a escola, eu fiz uma salinha lá para ela, então ela iria para lá junto com a babá e ficariam lá comigo. E aí, hoje, depois que nasceu, eu mudei de idéia porque acho que é muito cansativo, é distante, é muito trânsito para ir, muito trânsito para voltar, eu acho que elas se adaptaram muito bem.

      Elaine: Você contratou uma babá?

    Natália: Contratei uma babá. Então, assim não tem necessidade de ficar duas

      horas no trânsito para ir e duas para voltar, a nenê vai sofrer muito. Então, a única coisa que nós mudamos nos planos depois que nasceu foi isso dela não ir mais comigo.

      

    Elaine: Você pretende que fique esse esquema de ela ficar aqui com a babá

      durante quanto tempo? Você acha que vai mudar... você pensa em algo diferente mais para frente ou não?

      

    Natália: Eu acho assim que se continuar do jeito em que está até 1 ano, 1 ano e

    meio vai ficar desse jeito com a babá. Elaine: E ela fica em período integral?

    Natália: Ela dorme aqui, fica em período integral. Algumas coisas que eu faço

      questão assim, eu não vou trabalhar antes dela [bebê] acordar, a primeira mamada sou eu que dou, eu troco ela, a babá não dá banho se eu não chego, então até umas 17 horas eu estou aqui para eu dar banho, pra eu dar mamar, então tem algumas rotinas que eu faço questão de não pular e de fazer, até para ela também poder criar isso.

      272

      

    Elaine: Para chegar nessa decisão você conversou com seu marido ou com

      outras pessoas?

      

    Natália: Foi muito eu e meu marido. A gente pensou que quando nascesse, a

      gente achou que escolinha não era o ideal. Até os 6 meses, escolinha nem pensar. A gente achou que tinha que ficar com uma pessoa. Deixar com mãe e sogra a gente sempre foi muito contra, porque a gente acha “o filho é nosso, quem tem que...”, avó gosta, mas assim, cada um tem sua vida, e essa era uma opção que a gente nunca queria.

      Elaine: Alguém se candidatou a ficar ou não? Uma das avós? Natália: Ah, elas sempre jogam alguma coisa, sempre querem.

      Elaine: Ahamm...

    Natália: A minha mãe até que não porque ela trabalha fora. A mãe dele se

      deixasse, é lógico ela iria adorar, mas é uma pessoa que tem 70 anos, eu acho assim também que não tem condição física e nem essa disposição que acho assim, a criança tem que ficar conversando o tempo todo, mesmo que ela não está respondendo, mas você conversa o tempo todo, você fala e eu acho que uma pessoa de idade não tem essa disposição. Então, isso é uma coisa que a gente conversou já quando a gente decidiu ter neném, ter o filho, a gente já sabia como ia ser, que ia ser uma babá e que ficaria aqui. Então, foi uma coisa que já estava muito clara pra gente.

      

    Elaine: E essa decisão de você voltar a trabalhar e dela ficar com uma babá gerou

      alguma repercussão? Alguém comentou alguma coisa?

      

    Natália: Ah, a gente ouvia assim “mas já, você tem coragem?” E eu falava assim

      “ah, mas tem outro jeito?”, ou então eu falava “a criança está doente? A criança está ruim? Ela está feliz? Ela está crescendo? Ela está saudável?”. Então assim você consegue mostrar de outras formas e acho que a realidade assim mesmo “ah, tem outro jeito?”, aí a pessoa fica assim... não né.

      Elaine: Sua irmã já tinha bebê? Natália: Já, minha irmã tem duas crianças.

      Elaine: E ela optou pelo que?

    Natália: O mais velho, minha mãe ficou até os 6 anos. O segundo, já tinha uma

      pessoa que ficava na casa da minha irmã e ele já ficou com essa pessoa. Mas, o primeiro, quando ficou com a minha mãe, minha mãe não trabalhava, era uma outra realidade.

      273

      

    Elaine: E como vocês já tinham decidido que não colocariam na escolinha, nem

    chegaram a conhecer alguma como uma possibilidade, nem creche, nem escola... Natália: Ahamm...

    Elaine: Em algum momento, você pensou ou cogitou, eventualmente, em parar de

      trabalhar ou reduzir muito sua carga horária? Natália: Não.

      Elaine: E nem sofreu qualquer pressão para fazer isso? Natália: Não.

      

    Elaine: E essa sua escolha, você acha que é pessoal ou que também serve para

      outros pais e bebês? Você recomendaria também para outras famílias?

      

    Natália: Acho que para nós encaixou muito bem. Acho que, se para nós encaixou

      muito bem com ela [bebê] com 15 dias, acho que para uma mãe que tem licença e que vai deixar a criança já com 4 meses, a tendência é melhor ainda, porque a pessoa vai ter ainda mais tempo para ficar com a babá em casa, de pegar o hábito. Acho que é difícil você achar alguém de confiança, é muito difícil. Nós ficamos assim, na verdade, 1 ano atrás dessa pessoa.

      Elaine: E quais foram os critérios para você escolher essa pessoa?

    Natália: O primeiro critério foi de indicação. Ficamos 6 meses atrás de uma

      indicação, não achamos indicação, fomos atrás de uma agência, contratamos através de uma agência, a pessoa ficou comigo aqui 2 meses antes dela nascer para nós nos acostumarmos, depois que nasceu, depois de 1 semana ela pediu a conta, teve que voltar para a cidade dela. E eu tenho uma empregada que trabalha com a minha mãe e trabalhava comigo também há 14 anos e a irmã dela já trabalhava há 15 anos como babá e ela queria um lugar para dormir e a pessoa ia mudar e ela não ia mais poder dormir lá. Então, essa pessoa que a gente conhece há 14 anos, a irmã dela veio trabalhar com a gente.

      Elaine: Aí, você tem a empregada e tem a babá que é só babá o tempo todo... Natália: Tenho. E a babá é só babá o tempo todo.

    Elaine: No teu caso, como você já comentou, você acha que a idade da criança

      influenciou na escolha de ficar com a babá ao invés de ir para a escola... Você considerou que ela era ainda muito nova para ir para a escola...

      Natália: Sim.

      274

      

    Elaine: Então, agora já estamos finalizando. Eu gostaria só que você comentasse

      um pouquinho mais... embora eu tenha utilizado o termo creche durante a maior parte da entrevista, ficou claro que você usa mais o termo escola para o que é particular, mesmo que destinado aos bebês, e o termo creche para o que é público...

      

    Natália: Eu acho que a diferença não é de nome, acho que tem escolas que se

      você for pôr talvez sejam piores que uma creche. O que eu acho é que se você optar por colocar em uma escola ou em uma creche você tem que conhecer as pessoas que trabalham lá, qual é assim a condição realmente do lugar e eu acho que quando eu falo escola, querendo ou não, assim tem escola que você paga R$ 500,00 que vai ser pior, talvez, que uma creche.

      Elaine: Você acha que o nome em si não define o lugar...

    Natália: É, não define o lugar. Eu estava definindo porque quando eu penso em

      uma escola eu penso assim em uma escola particular, mesmo particular, mas em uma top. Porque a gente sabe também que tem escola particular que a gente paga R$ 500,00 para ficar lá período integral e que talvez seja pior que uma creche. Então aí, não é nem o termo creche ou o termo escola, o problema não é esse. É que quando eu penso em uma escola, eu penso em uma escola top, então aí assim que tenha, realmente, todas aquelas condições principalmente as pessoas qualificadas, tenham um outro salário, que tenha os melhores profissionais. Então assim, talvez se você comparar uma creche pública com uma escolinha que a gente fala de bairro, talvez não tenha diferença nenhuma.

      

    Elaine: E mesmo assim, você achou ideal para o seu bebê ficar com a babá ao

      invés de colocar em uma escola mesmo que fosse uma super escola com tudo isso que você acha importante?

      

    Natália: É, na verdade, eu acho assim que até 6 meses, 1 ano, eu acho que ela

      tem algumas rotinas que mesmo em uma escola top a criança não consegue ter essa rotina, porque aí entra naquilo de ter uma pessoa dedicada, de acordá-la no horário, de dar aquela mamada, de pegar manha, por exemplo, ela para mamar mama metade sentada, a outra metade ela só mama se for andando pela casa (risos), são coisas assim. A gente acostuma, não sei se a gente que acostuma ou se ela acostumou, mas acho assim que a gente sabe que se ela estiver em uma escola, mesmo que seja top, ela [profissional] não tem tempo de ficar andando para dar mamar.

      

    Elaine: Ahamm... Você até comentou que, dificilmente, mesmo em uma escola top

    vai ter uma pessoa para cada criança...

    Natália: É, então eu acho que é esse ficar perto, essa dedicação é que é

      importante. Eu falo para ela [babá] que não quero que faça nada na minha casa, a única obrigação é ficar com a criança realmente.

      275

      

    Elaine: Ahamm... E, além dos cuidados com a bebê em casa, a babá tem alguma

      coisa que ela faça fora de casa? Ela leva a criança para passear? Ela tem alguma outra atividade diferente?

      

    Natália: Ainda não. Até os 3 meses a gente não estava saindo não. Agora, a

      gente vai voltar no médico. Até os 3 meses eu não levei ela ainda em shopping, a neném ficou em casa praticamente até os 3 meses. A gente foi viajar, fomos para a praia, mas ela ficou dentro do apartamento com a nenê, por causa das vacinas... então a nenê não saiu pra nada não, por enquanto a rotina está em casa mesmo.

      

    Elaine: Ok. Eu queria te agradecer bastante e pedir que você escolhesse nomes

      para você e para sua filha para não usarmos os nomes de vocês, para garantirmos o anonimato.

      

    Natália: Ah, sei lá, é difícil escolhermos outro nome pra gente. Dá uma dica, o que

    você colocar eu vou aceitar, não tem problema (risos).

    Elaine: Um nome só para constar, para não utilizarmos os nomes verdadeiros de

    vocês. Natália: Tá, então para mim, Natália e para ela, Laura.

    Elaine: Quero te agradecer muito e se você quiser comentar o que achou da

      entrevista, se você quiser complementar algo ou fazer algum comentário, falar o que você achou do tema...

      

    Natália: É interessante, tem coisas né, você questionou sobre essa questão da

      creche, a gente sabe que tem a maior dificuldade, por que a gente não vai atrás né? Mas, é muita inexperiência, na verdade, também. É uma coisa nova pra gente também.

      Elaine: Para as mães de primeira viagem...

    Natália: É, nossa, para mim totalmente [enfática]. Você falou assim “vocês não

      foram atrás de uma escola?”, não, a gente ficou só com aquilo na cabeça de que a babá seria melhor, de que uma pessoa seria melhor, é aquilo, a gente sempre faz aquilo que a gente acha que é melhor, mas, de repente, não necessariamente seja melhor. É você dar sorte mesmo com a babá ou então dar sorte mesmo com a escola. Acho que não existe uma receita, se eu deixasse com a outra babá, eu jamais deixaria ficar aqui sozinha, não que ela não fosse boa, mas porque eu não ia confiar, então ela iria comigo para a escola, para o meu trabalho. Eu, com certeza, iria colocar ela [bebê] na escolinha antes do que eu acho que vou colocar ela ficando com essa babá atual. Então, assim, acho que é tão cada caso. Mesmo sendo você, você muda conforme... não tem receita, não é fácil.

      Elaine: Ahamm... Muito obrigada novamente! 276

      Natália: Eu espero ter ajudado.

    Elaine: Com certeza, ajudou bastante. Assim que eu fizer a transcrição da

    entrevista eu te passo.

      277

      Transcrição terceira entrevista

    Entrevistada: Aléxia, 39 anos, pedagoga, professora do ensino fundamental

    na rede pública, mãe de Juliano, 3 meses e meio.

      

    Elaine: Bom, então eu queria te agradecer pela participação e pela

    disponibilidade... Aléxia: Imagina... (risos)

    Elaine: ...pela atenção... bom, ele é um bebê participante também, olha só como

      ele está... [com referência ao bebê que também estava presente observando tudo] Aléxia: ...é, ele presta uma atenção...

      Elaine: é bem observador... Aléxia: ...é, até para de mamar...

    Elaine: Então, a primeira parte da entrevista é um pouco mais sobre questões

    mais genéricas...

      Aléxia: Tá.

    Elaine: Então, se a gente pensar em um contexto mais geral, você acha que a

      sociedade ou o Estado tem algum dever para com os bebês, alguma responsabilidade?

      

    Aléxia: Ah, eu acho que sim porque faz parte da educação e a educação é um

      direito de todos e o bebê também, começa desde criança, desde bebê a educar. A gente não educa uma criança a partir dos 7 anos, muito pelo contrário, é desde a sua formação, desde bebê que vai se formando o cidadão, então eu acredito que sim.

      Elaine: Que tem responsabilidade...

    Aléxia: É, porque nem todo mundo tem condições, sei lá, tem que ter uma escola

      específica para bebês, não é só uma creche, porque eu acho que não é só o cuidar, acho que também tem o educar, porque cuidar a gente acha que é só mesmo a parte de higiene, alimentação e o educar não, engloba tudo também, então eu acredito que sim.

      Elaine: Então não é uma responsabilidade só da família? 278

      

    Aléxia: Não, acho que, na verdade, esta parte assim, lógico a família tem a sua

      parte como o Estado também tem a sua porque é uma via de mão dupla, vamos dizer assim, porque a gente paga os impostos, então assim quem não tem condições de ter uma escola, de pagar uma escola boa porque a mãe que hoje em dia precisa trabalhar, não é mesmo, ela precisa de um lugar bom para deixar o seu filho, de confiança, apropriado, adequado, tanto o espaço físico principalmente porque tem lugares que não têm mínimas condições físicas, de espaço físico quer dizer, para abrigar um bebê. Você vê muitas escolas particulares que não têm condições assim de estar abrigando, eu acredito que o Estado ou o Município, no caso, seja qual for, tem que estar disponível, tem que disponibilizar mesmo os recursos que recebe para estar aplicando.

      Elaine: Ahamm...então... Aléxia: Não sei se respondi a sua pergunta? Elaine: Ahamm...

      

    Elaine: As crianças de 0 a 3 anos têm direito à creche desde 1988 com a

      Constituição, mas somente 18,1% das crianças brasileiras de 0 a 3 freqüentam creche enquanto que quase 80% de 4 e 5 anos de idade freqüentam pré-escola. O que você pensa sobre isso?

      

    Aléxia: Ah, eu não sei, assim, antes, eu tinha uma outra visão, antes de ter o

      bebê, porque agora assim eu acredito que para você deixar um bebê em uma creche tem que ter pessoas especializadas, preparadas para cuidar de um bebê tanto fisicamente quanto mesmo na parte de educação porque ele aprende né desde pequeno e... eu acredito assim que muita gente, às vezes, não deixa por insegurança das pessoas que vão cuidar dos bebês, dos seus filhos, ou até mesmo, acho que o principal é a insegurança, não ter confiança no lugar em que você vai estar deixando, principalmente diante de tantas notícias que a gente anda vendo de bebê que morreu por, sei lá, porque engasgou ou porque não foi cuidado adequadamente...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Então não sei, acho que é por um pouco de insegurança, falta de

      confiança no local adequado, porque a gente assim, tem lugares que eles não pedem assim especificações vai pra cuidar, para a pessoa que vai cuidar de um bebê...

      Elaine: Para quem vai trabalhar?

    Aléxia: Exatamente. Eu trabalhei em uma escola particular e assim eu tinha

      magistério, eu tinha feito pedagogia, então quer dizer eu tinha uma formação. Eu

      279

      trabalhei no berçário, mas nem todo mundo que trabalhava comigo tinha essa formação, nem mesmo magistério.

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Né, então é uma parte que você tem que saber. Você tem que ter vai

    conhecimento para cuidar...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Não só da parte...também o comprometimento lógico, porque a parte

      física, higiene e tudo mais, mas não tinham, a maioria vai não tinha sabe, não tinha sabe estudo suficiente para estar cuidando de um bebê.

      Elaine: Não tinha uma formação específica...

    Aléxia: É, porque é necessário. Eu acho que é uma coisa que é assim, o bebê é

      muito mais delicado no sentido assim do cuidar e do educar, é uma responsabilidade muito grande para você deixar na mão de pessoas que não estão qualificadas assim de uma certa forma, de uma maneira específica.

      Elaine: Você acha que na pré-escola os pais já se sentem mais seguros?

    Aléxia: É, porque na pré-escola por as crianças serem maiores, eu acredito que

      tende um pouco mais para o lado da segurança porque a criança já até mesmo fala...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Eu digo isso até mesmo pelos próprios pais porque eles falavam “ah, eu

      prefiro colocar meu filho quando ele for maior porque meu filho ele vai poder falar caso aconteça alguma coisa”, então assim ele já tem até mesmo condições de se defender um pouco mais, então eu acredito que sim.

      

    Elaine: Você acha que tem diferença também na capacitação do pessoal que

      trabalha?

      

    Aléxia: Sim, porque já de 3 a 6 anos você tem que ter uma professora em sala, já

      em um berçário não é necessário. Tem escolas que não pedem um professor formado, um pedagogo ou pelo menos um magistério. Tem escolas, não vou generalizar, mas você nunca sabe direito quais são, por isso é que é sempre falado até mesmo na televisão “você tem que pesquisar, você tem que cobrar, você tem que até perguntar, exigir documentos da própria escola para saber onde você está deixando”. Mas, por pagarem pouco, muitas vezes eles não conseguem profissionais adequados que tem assim esse estudo para cuidar de criança.

      280

      

    Elaine: Por que você acha que os adultos, em geral, não se preocupam ou não se

      mobilizam pela questão dos direitos dos bebês ou das políticas de creche?

      

    Aléxia: Ah, acho que muitas vezes tem assim... acho assim vai... acho que tem

      pessoas que pensam só no seu, não pensam em um conjunto total, dependendo vai quem tem condições de pagar uma escola excelente não está pensando naquele que não tem, de repente, condições de estar tendo um acesso a uma escola boa, então ele pensa “ah, o meu está bem, então está bom”, então não vai ter uma luta para uma coisa melhor para todos assim, eu vejo a sociedade um pouco individualista, não só nesse assunto como em outros também, por exemplo, “ah, minha casa não enche, então, por exemplo, não me preocupo vai em cuidar do meio ambiente”, muita gente é assim, “ah, eu não moro na encosta mesmo, eu não moro do lado de um rio, não é, então eu vou me preocupar para quê”, “minha casa não é no alto”, então as pessoas, às vezes, pensam dessa forma “eu vou me preocupar com o outro por quê, eu vou batalhar para uma coisa para os outros por quê?”

      

    Elaine: Você acha que falta mobilização... e quem poderia se mobilizar ou

      defender essas causas?

      

    Aléxia: Eu acho que a sociedade em geral, acho que assim como um todo. Acho

      que em tudo se a sociedade fosse mais unida, assim não fosse tão individualista, a gente teria muito mais direitos conquistados.

      

    Elaine: Ahamm... você vê um caminho para isso, como os adultos, incluindo aí os

      políticos, a sociedade de forma geral, a classe média, enfim, poderiam estar se mobilizando para atender ou exigir esses direitos, cobrar?

      

    Aléxia: Ah, foi o que eu disse, eu vejo a sociedade tão individualista como eu já

      disse e com tanta pressa que não pára para pensar, então é difícil você falar “será que vai melhorar?”, “será que vão conseguir enxergar?”, porque cada um está pensando no seu só “o meu está bom, então tá bom, se o outro aí do lado não está eu não me preocupo com ele” e eu vejo assim muita gente mesmo empurra mesmo com a barriga, não quer saber, então ninguém luta por nada, pelos direitos de nada, “ah, deixa para lá, não vou me estressar por isso”, então você vê muita gente que faz esse tipo de comentários assim neste sentido, então é difícil ver uma melhora no meu ponto de vista.

      

    Elaine: E você se preocupa com esses assuntos, com esses temas ou se mobiliza

      por essas questões? Por quê?

      

    Aléxia: É, a gente tenta assim, mas é complicado, sendo que, de repente, você

      não tem um apoio, é difícil você tentar sozinha, tentar melhorar assim nesse sentido. Quando eu trabalhei nessa escola particular que eu te disse, nossa assim, eu tentei bastante, tanto que eu acabei e pedi demissão porque eu lutava por aquilo que eu acredito só que a dona da escola não queria investir, então fica complicado, aí eu fui deixando de lado.

      281

      

    Elaine: Você já tinha parado para pensar sobre essas questões, por exemplo,

      sobre o direito dos bebês à creche?

      

    Aléxia: Sim, por exemplo, aqui em São Caetano, a gente não tem esse problema

      porque a grande maioria das crianças elas têm vaga nas creches, nas EMIs [Escolas Municipais Integradas] que a gente chama aqui...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Então, em São Caetano, na verdade, a gente não tem tanto esse

      problema. Mas, eu vejo assim como uma situação meio problemática porque vai chegar uma hora que tem muita criança e não sei se a demanda de vagas vai ser suficiente, a gente vê por aí, às vezes, criança que não tem vaga [enfática], mãe que tem que deixar em uma creche particular, em uma escola particular, porque não consegue vaga na pública. Já tem isso, porque não é todo mundo que consegue até mesmo aqui em São Caetano, por mais que eles investem, tem um investimento, mas sempre falta uma vaga ou outra, assim uma mãe que não consegue, às vezes, porque tem que comprovar que trabalha, tem tudo isso e às vezes tem toda essa situação, então...

      

    Elaine: Você já tinha ouvido falar um pouco dessa problemática mesmo antes de

      ter o bebê, essa questão das vagas?

      

    Aléxia: Sim, sim, mas assim, como eu te disse aqui em São Caetano não é tão

      gritante, não vejo mães reclamando “ai, eu não consigo”. Principalmente quem precisa mais é quem tem um poder aquisitivo mais baixo, da pública, embora é um direito de todos, então todo mundo, quem tem dinheiro e quem não tem, deveria ter acesso, mas até mesmo pessoas que têm poder aquisitivo maior, mais alto, que tem a opção de ir para uma escola particular, por status e outras coisas assim, então aqui, a nossa realidade aqui em São Caetano é um pouco diferente de uma outra realidade de São Paulo, de uma periferia, a gente consegue ter uma outra realidade, então assim, eu estou falando de algo assim mais superficial porque é uma mãe ou outra que a gente vê em São Caetano falando que não consegue vaga, mas acredito que para uma outra, na periferia de São Paulo, a situação já é mais caótica, vamos dizer mais complicada, não é assim tão fácil.

      

    Elaine: Agora pensando assim um pouquinho sobre o bebê, os bebês de forma

      geral, você poderia descrever um bebê para mim? O que te vem à cabeça quando a gente fala bebê? O que é um bebê para você?

      

    Aléxia: Ah, é um ser em constante aprendizado. Foi o que eu te falei desde o

      começo, ele aprende desde o início, com suas ações, com seus gestos, então é um ser que já nasceu e já vai aprendendo, o meio em que ele vive, que nem o primeiro meio social dele é a família e depois vai crescendo, vai para uma escola e depois vai ampliando e aí ele já vai aprendendo com a família, então todos, o que a família tem de educação, então a criança vai já absorvendo isso, então é um ser

      282 em constante aprendizado, complexo [enfática], porque a gente, ele não vem com manual de instruções (risos), a gente tem que aprender a identificar suas vontades porque ele só sabe chorar no começo (risos), mas é um ser em constante aprendizado.

      Elaine: Para você, tem diferença entre um bebê e uma criança pequena?

    Aléxia: Ah, tem. O bebê, ele está iniciando, uma criança pequena já tem algo que

      ela já foi aprendendo, então, por exemplo, se uma criança entra na escola com 1 ano, ela já vai levar para a escola uma bagagem muito maior do que um bebê que entra aos 4 meses em uma creche porque ele passou só 4 meses com a família, então a partir dos 4 meses ele já vai ser inserido em uma outra sociedade que é a escola e uma criança de 1 ano, vai 2 anos, ela já tem uma vivência daquele período, então, às vezes, para se adaptar é um pouco mais difícil em um grupo maior, porque às vezes em casa ela é sozinha, só ela, então assim, aprender a dividir já é um pouco mais assim, é diferente, eu acho [enfática].

      

    Elaine: E o bebê, por exemplo, você consideraria até que idade? Até que idade

      você falaria que ainda é um bebê? Aléxia: Ah, um bebê...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Ah, é complicado isso, assim porque a gente quando trabalha com

      criança, bebê para nós assim vai até 1 ano, depois já começa 1 ano, já é grandinho, já fala “já não é bebezinho”. Bebezinho são os que entram com 4 meses, 5 meses na escola. Então, na verdade, eu tenho um pouco isso por ter trabalhado com criança, então quando você olha uma criança de 1 ano e quando você olha um bebezinho, você fala “ai, nossa, mas já é um mocinho” o de 1 ano, mas o bebezinho não.

      Elaine: Então para você é com mais ou menos 1 ano que se faz essa... Aléxia: É, essa transição.

    Elaine: E como você acha que os bebês gostariam de ser cuidados, educados?

      Qual seria a melhor maneira de educá-los?

      

    Aléxia: Ah, acima de tudo ter muito amor. Acho que o amor é o principal. Acho

      que uma criança que é cuidada com amor, ela cresce muito mais, de uma forma muito mais sadia que uma criança que vive em um ambiente que não é assim favorecida essa sintonia, porque a gente vê casos de crianças que crescem em um ambiente de brigas, de uma família desestruturada, já vai pondo, não diria seqüelas, mas algumas marcas, uma criança que é maltratada desde criança ela tem marcas que vai levar para o resto da vida e que vai causar alguma coisa ali na frente, se você cuidar dela com amor, aí é outra coisa.

      283

      Elaine: Você acha que isso é o que ela mais necessita...

    Aléxia: Ah, o carinho, a atenção, o amor, acho que se você se dispõe a ter um

      bebê você tem que cuidar da melhor maneira possível. Não digo assim, você não precisa dar tudo do mais caro, mas você tem que acima de tudo cuidar com amor mesmo, tudo o que você faz pelo bebê com amor.

      

    Elaine: E qual a idade que você considera que seria a ideal para colocar um bebê

      na creche, para um bebê começar a freqüentar a creche?

      

    Aléxia: Olha, diante de todas as circunstâncias que a gente vê, eu acho assim, eu

      acho que eu particularmente não sei se eu colocaria ele agora, sabe acho que com 1 ano, 1 ano e meio mais ou menos.

      Elaine: Ele está com?

    Aléxia: Ele vai fazer 3 meses e meio. Porque é aquilo que eu te falei, eu não vejo,

      até com 2 anos eu acho que eu colocaria...

      Elaine: Ahamm...

    Aléxia: Porque as escolas não exigem, foi o que eu te falei, em uma creche, em

      um berçário, professores assim que tenham formação tudo, que nem, por exemplo, aqui em São Caetano não, a gente já vê que a partir do berçário maior, que agora tem outro nome que eu não lembro, que agora é por grupo, mudou, acho que é grupo 2, uma coisa assim, que mudou a terminologia, já tem professor. E