REGULAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL : UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA E IMPACTOS SOCIAIS DA AVALIAÇÃO DAS AGÊNCIAS

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Amaury de Souza Amaral

  

REGULAđấO FINANCEIRA INTERNACIONAL: UMA ANÁLISE

EXPLORATốRIA E IMPACTOS SOCIAIS DA AVALIAđấO DAS

AGÊNCIAS

  Orientador: Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho

  

SÃO PAULO

2015

  Amaury de Souza Amaral REGULAđấO FINANCEIRA INTERNACIONAL UMA ANÁLISE EXPLORATốRIA E IMPACTOS SOCIAIS DA AVALIAđấO DAS AGÊNCIAS Trabalho apresentado à Banca de Exame de Qualificação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais sob a orientação do Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho.

  SÃO PAULO 2015

  BANCA EXAMINADORA ____________________________________ ____________________________________

  ___________________________________ ____________________________________ ____________________________________

  Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos de fotocopiadora ou eletrônicos.

  

__________________________, _________, ____/____/____

  Dedicatória A minha família e ao Plano Superior.

  Agradecimentos

  A minha esposa Eloisa pela paciência e dedicação; Aos meus filhos Paulo e Márcia; Ao Prof. Dr. Fernando Fagundes Ferreira, que teve papel preponderante na consecução desse trabalho por meses nas várias tarde na Fundação Instituto de Física Teórica; A Profa. Dra. Regina Maria D'Aquino Fonseca Gadelha pelo apoio e co-orientação, sem a qual não seria possível concluir este trabalho; Aos membros da banca; Ao coordenador do Curso Prof. Dr. Edison Nunes; À Fundação Instituto de Física Teórica pelo apoio oferecendo a estrutura para os estudos, em especial ao Prof. Dr. Gerson Francisco; Em especial ao Omar Latorre Vilca pelo valioso auxílio na área de computação; Em especial ao Pedro Luiz Barbosa pelos debates do tema, pelas ideias e opiniões, disponibilizando muitas horas de seu valioso tempo; Ao Terry Macedo Ivanauskas pelos debates e pelas ideias; Ao amigo Marcos Aurélio de Oliveira pela ajuda nos entraves burocráticos e opiniões.

  

“Não devemos nos perguntar o que o ser humano

precisa saber ou dominar para viver dentro da

estrutura social que aí está; mas devemos

perguntar-nos o que está disposto neste ser e o

que pode ainda ser desenvolvido. Assim será

possível, sempre, acrescentar à estrutura social

novas forças da geração que vem crescendo.

Viverá então nessa estrutura atual, o que fazem

dela os seres integrais que nela ingressam e não

se fará da geração que vem crescendo, o que a

estrutura social vigente quer fazer dela.” Rudolf Steiner

  

RESUMO

  Os efeitos da globalização se fazem sentir em todos os países. Muitos estão com cenários socioeconômicos marcados pela desigualdade e pelo endividamento. Para saldarem suas dívidas captam recursos no exterior com a emissão dos chamados títulos soberanos.

  As agências de rating são empresas que avaliam riscos diante do eventual inadimplemento destes títulos e emitem opiniões. Ainda que divulguem sua metodologia de avaliação, a bem da verdade, existe nela um enorme campo subjetivo, que acaba por influenciar e, não raras vezes, majorar as taxas de juros domésticos. Muito embora nem todos percebam o tamanho do impacto social deste componente, eles efetivamente alteram a realidade vivenciada pelo cidadão em seu dia-a-dia.

  Assim, interessou-nos estudar os efeitos dos impactos causados pelos fatores de risco que adentram à economia. Para isso, foi utilizado como base um modelo simplificado que simula uma economia artificial, concebido para se estudar uma rede de crédito e os efeitos das flutuações dos juros. Esse modelo foi o escolhido também por permitir capturar as amplitudes das flutuações econômicas em respostas a choques promovidos através da inserção dos juros em um processo evolutivo.

  Mas foi necessário ir além. Neste trabalho propomos uma versão estendida do modelo econômico simplificado por meio da inserção de uma rede de consumidores com toda a sua amplitude; isto porque o modelo anterior estava baseado na lei de Say, que parte da premissa que toda oferta gera sua demanda. Assim, ele não permite investigar os impactos dos juros sobre as escolhas dos consumidores em seu processo de compra.

  A teoria dos sistemas complexos e todo o ferramental que atualmente é disponível pela computação, dentre eles os modernos algoritmos com sua precisão e rapidez, foram fundamentais para a consecução do trabalho.

  Conseguimos, igualmente, avançar na ruptura das análises econômicas tradicionais caracterizadas pela abordagem top down e, por meio de modelos baseados em agentes, pode-se adotar uma abordagem bottom-up. Isto foi possível com as inserções dos macro-parâmetros associados ao processamento a nível micro.

  A conclusão principal do trabalho é que a formação de aglomerados (clusters) entre empresas, bancos e famílias favorecem os agentes econômicos. Os agentes conectados por laços fortes são beneficiados na medida em que diminui a assimetria na distribuição de riquezas entre firmas e famílias. Por outro lado, o aumento da taxa de juros leva a uma quebra nas conexões entre os agentes, causando a diluição da rede e aumento na assimetria da partilha da riqueza.

  Palavras chave: modelo de Delli Gatti, capital social, avaliação de risco, rating, laços fortes e laços fracos.

  

ABSTRACT

  The effects of globalization are felt in all countries. Many have socioeconomic scenarios marked by inequality and by indebtedness. In order to liquidate its debts, they capture resources abroad with the issue of the so-called sovereign bonds.

  The rating agencies are companies that assess risks before the eventual entitling of these titles and issue opinions. Even that they disclose their methodology of evaluation, in fact there is a huge subjective field, which ultimately influence and, often, increasing the domestic interest rate. Although not everyone realizes the size of the social impact of this component, they effectively change the daily reality experienced by citizens.

  Because of it, we became interested in studying the effects of the impacts caused by risk factors that enter in the economy. For this reason, it was used as a basis a simplified model that simulates an artificial economy, designed to study a network of credit and the effects of fluctuations in interest rates. This model was chosen also for allowing us to capture amplitudes of economic fluctuations in responses to shocks promoted by the insertion of the interest in an evolutionary process.

  But it was necessary to go beyond. In this study, we propose an extended version of the simplified economic model by inserting a network of consumers with all its amplitude; this is because the previous model was based on the Say law, that starts from the assumptions that all offer generates its own demand. Thus, it does not permit us to investigate the impacts of the interest on the choices made by consumers in their buying process.

  The Complex System Theory, and all the development that is currently available for computing, among them the modern algorithms with their accuracy and speed, were fundamental to the achievement of the work.

  We have, also, progressed in the rupture of the traditional economic analyzes characterized by a top-down approach and, through agents models based, we could adopt a bottom-up approach. This was possible with the integration of macro- parameters associated with a micro level of processing.

  The main conclusion of this work is that the formation of agglomerates (clusters) between businesses, banks and families encourage economic agents. The agents connected by strong ties are benefited to the extent that the asymmetry in the distribution of wealth between firms and households is reduced. On the other hand, the increase in the interest rate leads to a fall in the connections between the agents, causing a dilution of the network and an increase in the asymmetry of the sharing of wealth.

  

Key words: Delli Gatti model, social capital, risk assessment, rating, strong and

weak ties.

  SIGLAS AIS - Avaliação de Impacto Social BACEN

  • – Banco Central Mundial

  BP - Balança de Pagamentos BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e à África do Sul CDB - Certificado de Deposito Bancário CDI - Certificado de Depósito Interbancário CEPAL -Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe Citicorp

  • – Citibank Corporation

  D

  • – empresasDownstream

  DC

  • Developing countries (países emergentes) ECO RIO
  • – Conferência no Rio de Janeiro em 1992

  EMBI - Índice de Títulos da Dívida de Mercados Emergentes (Emerging Markets Bond Index) Fitch - Fitch Ratings FMI - Fundo Monetário Internacional

  IFIs

  • – Instituições Financeiras Internacionais

  LC - Letra de Câmbio OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OIT - Organização Internacional do Trabalho OMC - Organização Mundial do Comércio P & D

  • – Pesquisa e Desenvolvimento

  PIB

  • – Produto Interno Bruto

  RDB - Recibo de Depósito Bancário RFP - Request for Proposal SCA - Sistemas Complexos Adaptativos

  SEC

  • – Security Exchange Commission

  S & P

  • – Standard & Poor´s

  U

  • – Empresas Upstream

  URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas USA

  • – Estados Unidos da América

  Z - Bancos

  LISTA DE TABELAS

  

  LISTA DE ESQUEMAS

  ESQUEMA 1: Sistema adaptativo complexo ............................................................. 13 ESQUEMA 2: Exemplo de rede em sistema complexo ............................................. 14 ESQUEMA 3: Interação dos agentes do modelo Delli Gatti. ..................................... 24 ESQUEMA 4: As camadas globalizantes e o globalismo .......................................... 45 ESQUEMA 5: As camadas globalizantes e o globalismo .......................................... 45 ESQUEMA 6: Fluxo da dinâmica do mercado......................................................... 119 ESQUEMA 7: Estoque de dívida no mundo. ........................................................... 143

  LISTA DE FOTOGRAFIAS

  

  LISTA DE FIGURAS

  

  

  

  LISTA DE GRAFICOS

  

  

  LISTA DE MAPA

  

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ........................................................................................................................................ 1

CAPÍTULO 1º .......................................................................................................................................... 6

  1.1. A TEORIA DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN E SUA IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA CIÊNCIA MODERNA ...................................................................................... 7

  1.2. OS ESTUDOS DE SISTEMAS COMPLEXOS .......................................................................... 16

  1.3. O MODELO DELLI GATTI E A REVOLUđấO COMPUTACIONAL NA ECONOMIA ........... 19

  1.3.1. INTERVIR NO FUTURO, ANTECIPANDO CRISES? ........................................................... 20

  1.3.2. A IMPLEMENTAđấO COMPUTACIONAL NO MODELO DE DELLI GATTI ...................... 24

  1.3.3. A REALIDADE CONCRETA DE UM FATO SOCIAL E SUA MENSURAđấO ................... 25

  1.3.4. OS IMPACTOS SOCIAIS ...................................................................................................... 29

  

1.3.5. AMBIENTES E IMPACTOS SOCIAIS ATRAVÉS DE JOGOS REPRESENTATIVOS POR

SISTEMAS DE AGENTES ....................................................................................................... 30

CAPÍTULO 2º ........................................................................................................................................ 41

  2.1. AS EMPRESAS TRANSNACIONAIS E OS ESTADOS ......................................................... 41

  2.1.1. PRIMEIRA CAMADA - A IDEIA DO RELATIVISMO CLASSIFICATÓRIO .......................... 42

  2.1.2. O CONTRAPONTO NEOLIBERAL ....................................................................................... 46

  2.2. A DINÂMICA DA MATRIZ DE GLOBALIZAđấO .................................................................... 50

  2.3. A EVOLUđấO TECNOLốGICA E A PROPRIEDADE INTELECTUAL .................................. 64

  2.4. O NOVO ESPAÇO GLOBAL ................................................................................................... 71

  2.4.1. AS FONTES DE MATÉRIA PRIMA....................................................................................... 75

  2.4.2. FLUXOS MIGRATÓRIOS DE MÃO-DE-OBRA E CAPITAIS ............................................... 77

  2.5. ENFOQUE NO CRESCIMENTO DO CONSUMO .................................................................... 80

CAPÍTULO 3° ........................................................................................................................................ 83

  3.1. O PRISMA ECONÔMICO ......................................................................................................... 83

  3.2. DAS SOCIEDADES DE RISCO AO CAPITAL SOCIAL ......................................................... 87

  3.3. A GLOBALIZAÇAO DO RISCO NA SOCIEDADE MODERNA E O PERITO........................ 93

  3.4. OS FLUXOS FINANCEIROS - CICLO HISTÓRICO DO EFEITO MOEDA ............................ 96

CAPÍTULO 4° ...................................................................................................................................... 108

  4.1. BREVE ESTUDO SOBRE OS EFEITOS DAS AVALIAđỏES RATING ............................... 110

  4.1.1. CONCEITOS FUNDAMENTAIS .......................................................................................... 110

  4.1.2. A METODOLOGIA DAS AGÊNCIAS DE RATING ............................................................. 112

  4.2. O MERCADO DE TÍTULOS SOBERANOS ........................................................................... 118

  4.2.1. A GERAđấO DA DễVIDA .................................................................................................... 118

  4.2.2. A NEGOCIAđấO DOS TễTULOS SOBERANOS E AS ESTRATÉGIAS DOS

  INVESTIDORES .................................................................................................................. 120

  4.2.3. OS TÍTULOS EMBI: METODOLOGIA DE CÁLCULO CRIADA PELO J.P. MORGAN .... 124 4.3.- AS COMPONENTES DOS JUROS – BREVE ARCABOUÇO TEÓRICO ............................ 132

  4.3.1. A COMPONENTE DE JUROS NA SIMULAđấO DO MODELO DE GATTI ..................... 134

CAPÍTULO 5° ...................................................................................................................................... 137

  

5.1. COMO OS EFEITOS DOS FATORES DE RISCO ACOPLADOS AOS JUROS ADENTRAM

NA SOCIEDADE. ................................................................................................................ 138

  

5.2. O PESO DA DÍVIDA CONTRAÍDA E O SEU CRESCIMENTO PELO FATOR DOS JUROS

............................................................................................................................................. 141

  5.3. DE ONDE VEM O CAPITAL SOCIAL .................................................................................... 146

  5.3.1. A VISÂO CULTURALISTA EM CONTRAPONTO .............................................................. 155

  5.4. FÓRMULA DE CÁLCULO DE CAPITAL SOCIAL ................................................................ 157

  5.4.1. O CÁLCULO DE FUKUYAMA ............................................................................................ 157

  

5.4.2. AS CONEXỏES E DESCONEXỏES, UMA PROPOSTA DE MODELO DE MENSURAđấO

DE CAPITAL SOCIAL ......................................................................................................... 158

  5.4.3. O CÁLCULO DA DENSIDADE DA REDE (USO DO PACOTE MCLUST NO R) ............. 161

CAPÍTULO 6° ...................................................................................................................................... 163

  6.1. OS GRÁFICOS DAS SIMULAđỏES ..................................................................................... 165

  6.1.1 PROCESSOS DE INADIMPLÊNCIA (QUE LEVAM ÀOCORRÊNCIA DE PREJUÍZO) ..... 165

  6.1.2 PROCESSOS DE LUCROS ................................................................................................. 167

  6.1.3. PROCESSOS DE PATRIMÔNIO LÍQUIDO ........................................................................ 170

  6.1.4. PROCESSOS DE PREđOS E PRODUđấO ....................................................................... 173

  6.1.5. PROCESSOS DE DEMANDA E RENDA DOS CONSUMIDORES .................................... 174

  6.1.6. PROCESSOS DE DEMANDA DE TRABALHO .................................................................. 175

  6.2. CHOQUES NA ECONOMIA ................................................................................................... 176

  6.3. AS DESCONEXÕES DA ECONOMIA E SEU SIGNIFICADO ............................................... 179

CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 184

  I

  • – DOCUMENTOS ............................................................................................................................. 189

  1. DOCUMENTOS EM INTERNET ................................................................................................ 189

  II Ố DISSERTAđỏES E TESES ..................................................................................................... 189

  III – LIVROS E ARTIGOS EM COLETÂNEAS .............................................................................. 190

  IV – ARTIGOS EM ANAIS E PERIÓDICOS .................................................................................. 194

  V – TEXTOS DE ESTUDO E DISCUSSÃO................................................................................... 199

ANEXOS ............................................................................................................................................. 201

ANEXO 1ử - FUNCIONAMENTO DO MODELO DELLI GATTI E SUAS CONTRIBUIđỏES ...... 201

  ANEXO 2ử - A METODOLOGIA DE AVALIAđấO DAS AGÊNCIAS DE RATING ...................... 217

  

ANEXO 3º - O PSEUDOCÓDIGO DO MODELO COMPUTACIONAL ......................................... 244

ANEXO 4ử - DADOS UTILIZADOS PARA CLUSTERIZAđấO .................................................... 252

  

INTRODUđấO

  Os fenômenos naturais e sociais são compostos por relações não lineares que acabam por tecer um sistema complexo. Dada essa característica (a não linearidade), é preciso perceber que esse conjunto pode ser maior do que a simples soma das partes e, com certeza, qualitativamente diferente.

  O estudo de tais fenômenos ganhou corpo nas últimas décadas, principalmente devido à revolução computacional, por ser construído sobre atemática não linear. Este avanço tecnológico possibilitou que pudessem ser feitas simulações que permitiram modelar uma ampla variedade de fenômenos.

  Conquanto a economia também seja um sistema complexo, percebe-se que sua análise ainda é restrita à junção da teoria econômica tradicional (top down, isto é, as decisões são tomadas dos primeiros princípios e depois orientadas para baixo) com os dados obtidos pela econometria. O equilíbrio é buscado, mas nem sempre ele representa um testemunho da realidade, como bem sinalizou John Doyne Farmer (2012, p.1).

  Entretanto, ainda que haja muito a se avançar, a abordagem feita pelos sistemas complexos, em que se utilizam, dentre outras, a teoria das redes e a modelagem baseada em agentes, acaba por apresentar conformações de uma realidade econômica que antes não poderia ser construída.

  Será com esse escopo que procuraremos demonstrar os impactos sociais provocados pelas avaliações das agências de rating, quando os riscos incorporados aos juros acionam choques em uma economia artificialmente construída segundo o modelo de Gatti et al.(2009), a respeito de uma economia em rede.

  Os princípios de economia em rede foram teorizados por Stiglitz & Greenwald (2003) e consistem em atribuir ao dinheiro um efeito real e determinante no ciclo da atividade econômica, conduta que não era considerada pelos economistas monetaristas nos estudos das variáveis. Para esses autores, os bancos têm papel central mediante a confiança e a concessão de crédito, cujo papel interdependente proporciona um equilíbrio geral no mercado de serviços e produtos.

  Outros autores, como Kambhuet al.(2001), discutirão modelos dinâmicos preventivos utilizados no estudo dos riscos sistêmicos de uma rede estabelecida por ligações entre bancos, por meio de empréstimos interbancários, cuja propagação decorre por ondas de choques de liquidez e causa impactos sob o “efeito dominó”, quando um banco da rede é levado à falência.

  Um país contempla um sistema bancário forte quando a sua economia tende a uma estabilidade em condição de equilíbrio. A seu turno, os investidores procuram aplicar seus recursos, adquirindo títulos soberanos de determinado país, baseando os investimentos em “opiniões” fornecidas por agências avaliadoras, as quais aconselham ou desaconselham tais aplicações.

  Assim, um fator de risco adentra-se à taxa de juros, propagada na mesma rede de crédito do mercado interno daquele país, impactando, desse modo, efeitos que se desdobram naquela economia.

  As agências internacionais de classificação de risco ou “rating” são empresas privadas que emitem opiniões acerca do grau de incerteza financeira de países, principalmente quanto à capacidade de honrar ou não seus compromissos externos, o chamado “risco soberano”. As principais são a Moody’s, a Standard&Poor’s, a Fitch IBCA e a Duff&Phelps, seguindo cada uma delas, determinadas metodologias de cálculo baseadas em critérios independentes, específicos e que, a bem da verdade, não são plenamente identificáveis.

  Dada a atual conformação do sistema financeiro internacional, a repercussão dessas opiniões ultrapassa uma simples análise estática. A classificação “grau de investimento”, atribuída a determinado país, terá na realidade o poder de aquecer, ou pior, desaquecer certa economia, uma vez que os detentores daquela informação (investidores de considerável poder econômico, como bolsas de valores, bancos de investimento, fundos, dentre outros) incrementarão ou mitigarão os investimentos naquele mercado.

  Dentre suas reverberações mais negativas, podemos citar o aumento na taxa de juros doméstico junto aos mercados emergentes (a cada acréscimo de 100 pontos avaliados das agências de rating, aumenta 1% na taxa doméstica), implicando em danosas consequências sociais, políticas, econômicas e ambientais.

  Caso os gastos superem suas rendas, tanto as unidades familiares quanto as empresas buscarão empréstimos para financiamento de suas necessidades junto a intermediários financeiros (STIGLITZ & GREENWALD, 2003).

  Conforme mencionado, a taxa doméstica de juros tem em sua composição determinado ponto percentual derivado da avaliação das agências de rating, o que significa influência direta no mercado de crédito. No entanto, não se sabe quais seriam os reais limites entre o campo objetivo e o subjetivo, tanto nos critérios de avaliação quanto na mensuração feita pelas agências. Questiona-se se existiria, então, um fator comportamental regional a influenciar esta dosimetria e, por conseguinte, a taxa de juros real. Mas a discussão é ainda mais ampla: um modelo de mensuração externa poderia captar este fator? E, como medi-lo, sabendo-se que crenças e expectativas individuais normalmente não são captáveis por critérios e processos econométricos fundamentalistas.

  De fato, agências reguladoras de risco não conseguem captar particularidades comportamentais dos indivíduos de um país. No entanto, o grupo desses indivíduos possuí certos comportamentos coletivos que poderiam representar uma espécie de inteligência agregada e, por si só, trazer riscos endêmicos interdependentes que interagem entre os agentes.

  Interessa-nos avaliar tais comportamentos, os quais simularemos em uma economia artificial, baseada em um modelo no qual as variáveis estariam todas interligadas com reflexos e reverberações.

  O tema é ainda embrionário, sobretudo no Brasil, e tem uma enorme e inegável repercussão no cotidiano das unidades familiares e até na sobrevivência dos módulos unitários econômicos. Nesse sentido, o modelo de Delli Gatti (2009) é o estudo teórico-referência que utilizaremos para representação de uma economia artificial. A proposta baseia-se em uma metodologia inspirada nas interconexões das variáveis que caracterizam o modelo. Nossa primeira motivação foi entender as flutuações macroeconômicas observadas no modelo de Delli Gatti et al. (2009).

  Baseando-nos nesse modelo, e dada às incertezas relativas a analise e mensuração dos dados comportamentais feitos pelas agências de rating, pretendemos analisar os fatores que poderiam compor esse processo avaliativo e que repercutem nas estimativas das taxas de juros domésticas dos países.

  O modelo de Delli Gatti et al. (2009) apresenta uma rede de firmas, bancos e consumidores que se interligam em uma relação de consumo, produção, salários e, principalmente crédito, cujas variáveis, sob certas condições econômicas e de risco específico, não podem ser avaliadas isoladamente, sem levar em conta os potenciais efeitos do risco das outras variáveis do conjunto. Não é apenas o seu tamanho e o risco idiossincrático, mas também sua interconectividade com outras variáveis que determina a relevância sistêmica da economia artificial, isto é, seu potencial para aumentar o risco de falha de todo o sistema

  • – que denotamos por risco sistêmico.

  Para efeito dessa análise, utilizamos a teoria da complexidade desenvolvida pelo cientista social Edgard Morin, que analisa de maneira interdisciplinar os fenômenos sociais estudados pela Sociologia, Cultura e Antropologia. Suas análises servirão para dar suporte teórico a nossa tese (A Religação do saberes; A via para o futuro da humanidade; Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios; Inteligência da Complexidade Epistemologia e Pragmática; Inteligência da Complexidade).

  Uma avaliação empírica geral da relevância sistêmica não pode ser construída apenas sobre a vasta literatura teórica de modelos econômicos, em particular o da rede financeira e de contágio financeiro, pois os resultados exigem informação detalhada sobre os ativos e passivos das empresas e do sistema intrabancário. Estes dados, em geral, não são divulgados publicamente e até mesmo os reguladores só podem coletar parcialmente a informação de algumas fontes de vínculos intrabancários. Os estudos empíricos disponíveis, relacionados com essa literatura, contribuem apenas parcialmente para o quadro completo da relevância sistêmica das empresas, na medida em que se concentram em áreas particulares de mercados específicos em um tempo particular e sob condições financeiras particulares. Além disso, avaliar as interconexões de risco com base em distribuições de probabilidade de falha multivariada provou ser estatisticamente complicado sem o uso de hipóteses restritivas que orientem os resultados.

  As crises sistêmicas baseadas no mercado são caracterizadas por uma coordenação falha: uma grande parte dos participantes do mercado decide simultaneamente reduzir o risco e desacelera as atividades financeiras. Essas crises tendem a se iniciar com um grande declínio no preço de um ativo, que se torna autossustentável. Normalmente, quando os preços dos ativos têm queda acentuada, os investidores intensificam a compra dos ativos que declinaram suficientemente, o que previne o agravamento da tensão no mercado. Nas crises sistêmicas, contudo, os investidores, consumidores e os negociadores são incapazes ou relutantes em intervir. Por exemplo, no modelo de corrida aos bancos, as ações e crenças dos participantes individuais no sistema financeiro podem se combinar para romper todo o sistema, mesmo quando a grande maioria das instituições não está em risco de colapso, com cujo advento, emergem os impactos sociais decorrentes das falências das empresas e dos bancos e, por conseguinte, desencadeiam o desemprego.

  A contribuição do presente estudo será a inserção da rede de consumidores decidindo no processo de compra de mercadorias, escolhendo os menores preços e os menores juros de seus financiamentos nessa economia. A inclusão da renda desses consumidores possibilitou também avaliar os seus desdobramentos, sobretudo quando se provocaram variações nas taxas de juros. Nessa simulação, foi possível também avaliar como tais taxas determinadas pelas avaliações das agências de rating, construídas sob a hipótese de uma variável exógena ao modelo, infiltraram-se nessa economia e geraram a condição de choque.

  CAPÍTULO 1º

A TEORIA DA COMPLEXIDADE: EDGAR MORIN E O MODELO

DELLI GATTI

  Analisar o comportamento e o potencial de eventos sistêmicos tem sido utilizado largamente nas modelagens de sistemas complexos. Busca-se na sua implementação e nesta análise a possibilidade de prever certos momentos de criticidades e de choques, com vistas a tentar antecipar a ocorrência desses eventos. Desta forma, áreas como a financeira e a econômica interessam-se por tais modelagens, dado que possuem em seus comportamentos reais situações de choque e de áreas criticas não previstas, as quais nem sempre são captadas por modelos matemáticos lineares.

  Tal fato é observado por Kambhuetet al. (2007), em relatório final da conferência no Federal Reserve Bank,

  De acordo com Lucas, o entendimento teórico dos economistas sobre o risco sistêmico originou-se da experiência da Grande Depressão e, especificamente, da interpretação de John Maynard Keynes daquela experiência em General Theoryof Employment, Interest and Money. Keynes teve como objetivo de sua “teoria geral” capturar a dinâmica que possibilitou à economia a transição de um equilíbrio inferior mas estável, no processo de queda do equilíbrio do pleno emprego, definido pelos modelos clássicos. (p.3-4).

  Segundo o autor, durante a Grande Depressão dos anos 30, a economia foi submetida a um choque sustentado, que se alastrou por todo o sistema financeiro, “em uma sequência de eventos, chamados de ‘contágio’”. De acordo com Kambhuetet al. (2007)

  , “Devido a erros de política e aos ciclos de feedback com o sistema financeiro, a economia real permaneceu em um estado persistente de recursos subutilizados e desemprego” (Ibidem).

  Kambhuet et al. (2007) afirmam que apesar das mudanças estruturais, “desde aquela época a ideia de um ciclo (loop) de feedback

  ”(Ibidem) entre os setores real e financeiro que gere um equilíbrio inferior negativo para a economia real, permanece pertinente à análise atual da estabilidade financeira.

  Tais choques propagam “ondas de contágios” localizadas em determinadas

  áreas criticas comportamentais. Estas ondas são derivadas de certo risco sistêmico, cujo comportamento surge em função das interações entre as variáveis que os agentes desse sistema provocam de forma endógena. Desta forma, analisar esses riscos sistêmicos e a sua ocorrência pode proporcionar uma tentativa de previsibilidade de eventos futuros e inesperados. De onde a importância das teorias desenvolvidas pelo antropólogo e sociólogo Edgar Morin.

1.1. A TEORIA DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN E SUA

  IMPORTÂNCIA NO CONTEXTO DA CIÊNCIA MODERNA

  Na concepção de Edgar Morin, o pensamento complexo apresenta-se como um edifício de muitos andares, cuja base é formada a partir de três elementos: informação, cibernética e sistema (MORIN & LE MOIGNE. 2000. p.205).

  Morin ressalta a importância em sua teoria dos estudos do físico belga Ilya Prigogine e sua

  “Teoria da Bifurcação”, em que descobre que a ordem pode nascer da desordem, compartilhando com ele a tarefa de uma reorganização fundamental do conhecimento rumo às ciências da complexidade. De mesmo, as contribuições de John Von Newman, cuja extensão inclui da matemática e física à economia e à computação. De acordo com J. Doyne Farmer,

  “A ciência e a tecnologia mudarão a partir de uma ênfase passada sobre movimento, força e energia para a comunicação, organização , programação e controle” (FARMER, 2012. p.4).

  Na realidade, os sistemas complexos trabalham conceitos não lineares para localizar sistemas cujos fenômenos são coletivos e cujas causas emergentes possuem características não lineares em seus blocos de construção. Para Morin, os três elementos mencionados (informação cibernética e sistema) representam o primeiro andar do edifício (estrutura) que comporta as ferramentas necessárias para uma teoria da organização. Em seguida, indica que

  “vem o segundo andar, com as ideias de Von Newman, Von Foerster e Prigogine, sobre a auto-organização. A esse edifício se pretende trazer os elementos suplementares, notadamente princípios de recurso e o princípio hologramático.” (MORIN&LE MOIGNE, Idem. p.204).

  O processo envolve, portanto, três princípios: o princípio dialógico, o princípio de recursão organizacional e o princípio hologramático. Na definição de Morin, “O princípio dialógico [permite] unir as noções antagônicas para pensar os processos organizadores, produtivos e criadores no mundo complexo da vida e da história humana.”(Ibidem).

  Os autores continuam:

  O princípio da recursão organizacional vai além do princípio da retroação (feedback); ele ultrapassa a noção de regulação para aquele de autoprodução e auto-organização. É um círculo gerador no qual os produtos e os efeitos são eles próprios produtores e causadores daquilo que os produz. (p. 204). O terceiro princípio, o “hologramático”, coloca em evidência esse aparente paradoxo de certos sistemas nos quais não somente a parte está no todo, mas o todo está na parte.” (p.205).

  E ainda: “Tal como a totalidade do patrimônio genético se encontra em cada célula do nosso organismo, também a sociedade como um todo com a sua cultura está no interior do espírito de um indivídu o” (MORIN&LE MOIGNE, 2007. p.52).

  O princípio de recursão inclui todos os indivíduos (a humanidade), produtos de um sistema de reprodução oriundo de muitas eras. No entanto, afirma o autor, esse sistema só pode se reproduzir se nós próprios nos tornarmos produtores nos acoplando ao sistema.

  “Os indivíduos humanos produzem a sociedade em e mediante as suas interações, mas a sociedade, enquanto um todo emergente, produz a humanidade desses indivíduos trazendo- lhes a linguagem e a cultura.” (Ibidem. p.204). Desse modo, cada célula é parte de um todo

  • – o organismo global – mas o todo está na parte: a totalidade do patrimônio genético está presente em cada célula individual. Da mesma maneira, embora o indivíduo seja uma parte da sociedade (princípio hologramático), a sociedade está presente em cada indivíduo enquanto todo, através da sua linguagem, sua cultura, suas normas.

  A interação entre os agentes que pertencem às estruturas (ação e reação) atuam simultaneamente, provocando resultados diferentes de acordo com a carga de energia aplicada, e ainda em função de diferentes acessos na topologia do problema construído. Morin define a complexidade como:

  “A Complexidade é um problema, um desafio, não é uma resposta [...] num primeiro sentido, a palavra

  

complexus significa aquilo que está ligado em conjunto, aquilo que é tecido em

conjunto”. (MORIN, 2001. p.11).

  Mais adiante, o autor afirma: a complexidade “É o fim do saber absoluto e total”. Portanto, “a Complexidade tem a ver, ao mesmo tempo, com tecido comum e com a incerteza ” (Ibidem).

  Os princípios da complexidade refutam os da ciência clássica. Segundo Morin (2001), a ciência clássica baseia-se em algumas primícias:

  1. Não há ciência senão no geral

  • – o que comporta a expulsão do local e do singular. Por esse pensamento, a lei da interação não é lei em si, mas lei que só se manifesta, só se atualiza, a partir do momento em que existam elementos em interação. (MORIN & LE MOIGNE, Idem, p.48);

  2. A Ciência deve levar em consideração que o tempo é um processo irreversível. Segundo o autor, tudo aquilo que é material deve ser concebido a partir da sua gênese, da sua história. Desta maneira, também o átomo deve procurar ser visto historicamente. A visão que reinou durante algum período é a de que a dimensão temporal é eliminada por uma estrutura atemporal. Morin afirma que o tempo é simultaneamente irreversível e reiterativo. O tempo é um ente ligado à ideia de reversibilidade e irreversibilidade em um conceito de temporabilidade complementar.(Ibidem,p.49-51).

  3. O princípio da redução ou da elementaridade. Acreditava-se na existência do elemento simples, puro e incontestável. A Ciência deve partir dessa ideia atomizada para reconstituir o todo. O

  “principio de redução” consiste em conhecer as partes que compõe um todo e, por si, esse mesmo todo.

  4. Surge agora a contradição, a incerteza, o compósito com sinergia entre os dois compostos. O autor cita que nós não somos constituídos de células simplesmente, mas também por interações entre elas. Não são tijolos ligados entre si, mas interações. (Ibidem, p.51). O Universo obedece a leis determinísticas. O

  “principio do determinismo universal” consiste e se limita em conhecer todo o conhecimento do passado e prever seu futuro, graças a uma inteligência e a seus sentidos. (Ibidem,p.36). Para o autor, o conhecimento deve buscar detectar a ordem e a desordem, pois essa última apresenta-se em complementariedade à ordem. O seu sentido possui agora esses dois entes interagindo simultaneamente entre si. (Ibidem, p.51).

  5. A visão simplificadora pela qual a causalidade é exterior aos objetos. Existe uma nova causalidade na qual o efeito retroage à causa. Existe uma espiral causa-efeito agindo simultaneamente entre o binômio ordem/desordem (MORIN & LE MOIGNE, 2000,p.54-5).Para a Ciência Clássica o

  “principio da disjunção ” consistia em isolar e separar as dificuldades cognitivas umas das outras, tornando-as herméticas.(Idem, 2007, p.36). A organização é um sistema fechado da qual não se emerge algum efeito da própria organização. O autor cita:

  “Conhecemos as partes que permite conhecer melhor o todo, mas o todo permite conhecer melhor as partes ”. (Idem, 2000, p.58). Nos campos da Ciência Clássica, a complexidade passa a ser rejeitada, pois seus princípios chocam-se frontalmente. Daí a necessidade de a Ciência moderna apoiar-se nos princípios norteadores dos teóricos da complexidade. A “irreversibilidade”, segundo o princípio da termodinâmica, indica que toda energia se degrada sob forma

  “calórica”. O “tempo”, que é irreversível, mostra-nos que o movimento das moléculas ocorre de forma desordenada e de forma imprevisível. E a interação

  “ordem”, “desordem” e “organização” permite uma interação entre os elementos antagônicos. (Ibidem, p.37-8). O elemento “tempo” traz uma elucidação contrária aos conceitos de visão perfeita, ordenada e determinística. Na Física, as marcas dessa manifestação estão nos núcleos de átomos, moléculas e vida. Porém, nota Morin, a interação da “ordem”, “desordem” e “organização” é compatível entre si, ao mesmo tempo em que apresenta elementos antagônicos. Tais ocorrências, porém, não se manifestam apenas na física, mas são perceptíveis nas atividades que envolvem a vida, os seres animados e o próprio homem e suas atividades.

  Portanto, não existe uma definição fechada sobre sistemas complexos. Contudo, há um consenso sobre seu significado que, embora vago, é o de

  “sistema” formado por várias partes que interagem de maneira não linear, de tal forma a que o método analítico não é suficiente para descrever o sistema separado em elementos independentes. Nesse sentido, algumas propriedades genéricas lhe são características, como auto-organização e propriedades emergentes.

  Seguindo os passos de Morin, J. Doyne Farmer, no artigo

  “Economics need stotreatthe Economy as Complex System” (2012), afirma que os sistemas complexos

  procuram desenvolver conceitos, métodos e ferramentas que transcendem aplicações e disciplinas específicas. Procura aplicar tais conceitos a escopos que ultrapassam determinadas ciências. Entre estes, destacam-se os sistemas adaptativos, existentes na biologia e nas ciências sociais. (Ibidem, p.3).

  Em relação às manifestações de sistemas complexos, nota-se que são diferenciados de acordo com o campo e os pontos comuns que podem ser assinalados. Segundo Farmer (2012), é possível mapear em um sistema matemático comum tais modelos e exemplificar, como as redes neurais, a teoria de jogos evolutivos, os agentes etc. Nas ciências humanas, afirma, pode-se descrever um Sistema Complexo na forma simples da sua concepção, se determinarmos nele poucos graus de liberdade (escolhas) presentes em sua composição ou em suas variações. Ele é dito

  “simples” ou “com poucos graus de liberdade” (componentes ou variáveis) e com “comportamento produtível” a partir das regras que regem o comportamento dos seus elementos constituintes. Por seu turno, um sistema é classificado como

  “complicado” se possuir muitos graus de liberdade em seu comportamento, resultado do funcionamento das suas partes. Esses sistemas não possuem flexibilidade para se adaptarem a eventuais mudanças do meio ou a imprevistos.

  Alguns autores classificam como sistemas “caóticos” um subconjunto dotado de sistemas complexos. Os

  “sistemas caóticos” são aqueles que, sensíveis às condições iniciais, seguem regras determinísticas. Assim, a evolução é dada por regras que, em princípio, deveriam ser redutíveis. Mas não são, pois não temos precisão suficiente para determinarmos suas condições iniciais.

  De acordo com Farmer, podemos imaginar um sistema complexo como um agregado de “saberes” interligados a uma estrutura única, similarmente a uma

  árvore com imensos trocos e ramificações. Ocorre que tais ramificações interagem entre si e de forma evolucionária no tempo e no espaço, fato que faz com que possa emergir na linha do tempo fenômenos que caracterizam o próprio sistema.

  Neil F. Johnson, no livro Simply Complexity a Clear Guide to Complexity

  

Theory (2007), o sistema complexo é similar a um ser vivo que evolui de forma

  altamente não trivial e complexa, impulsionado por ecologia de agentes que interagem entre si e se adaptam sob a influência de uma retroalimentação. (p.6). Para ele, o sistema exibe fenômenos emergentes, que surpreendem e podem caminhar para uma posição extrema. Além disso, possui uma fase de equilíbrio, com fases de ordem, conhecimento de propriedades, objetos de estudos individuais e contém aspectos que resultam em previsibilidade. Finalmente, afirma, evolui de forma complicada por si só. Daí, a necessidade do estudioso considerar a complexidade sistêmica um fenômeno contendo mais do que a soma de suas partes.

  Essa capacidade de auto-organização do sistema complexo refere-se ao processo em que a organização interna de cada sistema aumenta sem ser guiada ou gerenciada por uma fonte externa. Já as propriedades emergentes referem-se às novas características que o sistema apresenta e são impossíveis de predizer como um resultado geral de interações individuais. (JOHNSON, 2003; BERTUGLIA&VAIO, 2005).

  Exemplo desses comportamentos pode ser o cérebro ou o mercado financeiro, em que a compreensão de um elemento constituinte do sistema (um neurônio ou um investidor) não permite explicar os padrões observados, os quais são emergentes e resultam da interação entre as partes e uma progressiva adaptação dos agentes, cuja capacidade adaptativa leva ao conceito de sistemas complexos adaptativos (SCA). Nesses sistemas imperam duas ideias centrais: a ausência de um comando central e a emergência de ordem ou de coordenação.

  John H. Miller&Scott E. Page, ao analisarem sistemas complexos aplicáveis à informática, em “Complex Adaptive Systems” (2007), sob o crivo da abordagem reducionista que permite decompor os sistemas em componentes menores, afirmam não ser possível analisar suas partes separadamente, pois a interação e evolução dessas partes fazem emergir, ao longo do tempo, fenômenos que caracterizam o próprio sistema. (p.27).

  Em contrapartida a esses autores, a abordagem holística prega que o sistema deve ser analisado como um todo e não pode ser interpretado somente analisando suas partes constituintes. Ao invés de incorporar padrões em seus modelos e diversos pressupostos no âmbito macro, a abordagem da complexidade realiza uma análise de baixo para cima (bottom-up), em que os efeitos e padrões macro emergem do âmbito micro. Em contrapartida, as variáveis macro também condicionam o comportamento e decisões do âmbito micro, criando um efeito de feedback, conforme ilustrado no Esquema 1.

  ESQUEMA 1: Sistema adaptativo complexo

Fonte: Sistema Adaptativo Complexo, conforme Fryer & Ruis, 2004.

  Oesquema1 permite-nos observar, no sistema, a interação entre os agentes decorrentes dos fenômenos que emergem. O esquema 2, a seguir, permite comprovar o ocorrido com as partes do sistema anterior ilustrado, de uma rede em sistema complexo retroalimentação pela ação dos próprios agentes que estabelecem certos padrões.

  ESQUEMA 2: Exemplo de rede em sistema complexo

Fonte: XIE, Huafeng. “Complex Networks”. New Media Lab. 2006. p. 2.

  A pesquisadora Melanie Mitchell, do grupo de complexidade de Santa Fé Institute (USA), apresenta em seu livro

  “Complexity: A Guided Tour” (2009) a foto de uma colônia de insetos para demonstrar a interligação em rede existente na biologia. A Fotografia1, a seguir, completa a ilustração do processo de interligação por padrões de comportamento.

  

FOTOGRAFIA 1: Colônia de Insetos: Exemplo de sistema complexo

Fonte: Melanie Mitchell. Complexity: A Guided Tour. 2009,p.22.

  Entretanto toda essa flexibilidade vem com um custo: o da formalização e rigor científico. De acordo com Page & Miller, a ciência da complexidade realiza um trade-off entre flexibilidade e precisão. Ao mesmo tempo em que permite a inclusão de uma maior gama de processos, abre mão do formalismo encontrado em modelos matemáticos. (PAGE & MULLER, 2009, p.78-9).

  A modelagem de sistemas complexos permite implementar uma série de processos que não seriam possíveis de realizar em modelos tradicionais, pois exigem maior rigor matemático e perdem em flexibilidade. Esses processos são basicamente simples e podem modelar comportamentos dos agentes, por exemplo, o processo decisório, levando em consideração suas preferências e as interações com outros agentes ao longo do tempo. Por meio das regras simples de interação, podem emergir fenômenos complexos no sistema. De fato, o alicerce de sistemas complexos não trata somente de agentes e processos complexos, mas do fato de como a simplicidade pode gerar fenômenos complexos.

1.2. OS ESTUDOS DE SISTEMAS COMPLEXOS

  Analisar o comportamento e o potencial de eventos sistêmicos tem sido usual entre os estudiosos nas modelagens de sistemas complexos. Busca-se na sua implementação demonstrar a possibilidade de prever certos momentos de criticidade e de choques, com vistas a tentar antecipar a ocorrência de eventos. Desta forma, áreas como a financeira e a econômica, bem como estudos sociológicos que mapeiam o comportamento de indivíduos que interagem em movimentos sociais, se interessam por tais modelagens, dado que elas reproduzem em seus comportamentos reais em situações de choques e áreas de criticidade não previstas e nem sempre captadas por modelos matemáticos lineares. Tais fatos também são observados por Kambhuetet al. em seus relatórios no Federal Reserve Bank, em 2007.

  Segundo os autores, os fenômenos possuem, de forma ampla, certas características originárias de determinadas regularidades não triviais, de causas múltiplas com efeitos não-lineares, por invariância de escala dentre outros. De

  1

  acordo com o físico Fernando Fagundes Ferreira , essas qualidades revelam as seguintes características:

1. Emergência: Um fenômeno é emergente quando apenas aparece como

  resultado da interação dos constituintes do sistema. Mais ainda, a propriedade que emerge não é o resultado da soma das propriedades individuais e nem é previsível a partir destas. Ou seja, o fenômeno emerge 1 como produto da interação coletiva. (Ferreira, 2014).

  

Apresentamos, neste texto, resumo de conclusões preambulares da pesquisa do físico Fernando

Fagundes Ferreira, do Programa de Pós-Graduação de Modelagem do Sistema Complexo, da

  Em outras palavras, é uma propriedade de sistemas adaptativos complexos em que fenômenos e padrões surgem no âmbito macro, como resultado das interações entre os agentes do sistema ao longo do tempo e, no âmbito micro (visão de baixo para cima ou bottom-up), conforme ilustrado na Figura 1.

  Em uma rede de agentes conectados por relacionamentos de crédito, por exemplo, ciclos econômicos podem emergir a partir da deterioração e falência de alguns agentes que deixam de cumprir suas obrigações, propagando o efeito para outros agentes do sistema e causando uma avalanche de quebras. Ao longo do tempo, o efeito pode tomar proporções maiores por meio de um efeito cascata, tal como o ocorrido com a crise de 2008 e seus efeitos sobre todas as sociedades do planeta.

  2. Transições de fase: Refere-se às mudanças nas estatísticas de um sistema,

  que mudam conforme os parâmetros de controle, denominadas transições de fase. Essas mudanças podem ser contínuas ou descontínuas (Ibidem). Assim, as propriedades coletivas (estatísticas) da água mudam abruptamente de acordo com a temperatura e pressão. De mesmo, as estatísticas de violência mudam de acordo com os parâmetros controláveis via políticas públicas.

  3. Universalidade: Detalhes do comportamento dos constituintes de um sistema

  complexo, frequentemente não são importantes para o aspecto geral do comportamento agregado. No entanto, as propriedades macroscópicas escalam com o tamanho dos sistemas, de forma a não depender dos detalhes encontrados em diferentes sistemas, países ou mercados. (Ibidem). Da mesma maneira, a distribuição de tamanhos de firmas ou a distribuição de flutuações no mercado financeiro são universais e se verificam em todos os países. Estas flutuações dão origem aos chamados

  “fatos estilizados” ou “regularidades estatísticas ”.

4. Adaptabilidade: Trata-se da capacidade de modificar o próprio

  comportamento, de acordo com mudanças no ambiente. Característica comum em sistemas biológicos e socioeconômicos. (Ibidem). Assim as firmas respondem a mudanças no mercado, regulando seus estoques e preços de forma adaptativa, visando sua sobrevivência ou competitividade.

5. Autorreferência e retroalimentação: Sistemas complexos, em particular

  sistemas socioeconômicos respondem aos resultados de suas próprias ações. Assim, previsões econômicas podem produzir comportamentos que têm, por consequência, justamente a ocorrência destas previsões. (Ibidem).

  No caso da Retroalimentação ou Feedback, a informação gerada pelo sistema (agentes, interações entre agentes e ambiente) influencia sua própria evolução ao longo do tempo, ou seja, o sistema retroalimenta-se, conforme ilustramos na Figura 2. Os padrões e fenômenos que emergem no âmbito macro também afetam o âmbito micro, em que as decisões dos agentes podem ser influenciadas pelas variáveis observadas no macro.

  6. Auto-organização: Interações locais produzem ordem em escala global.

  “Ordem” são padrões identificados na estrutura do sistema, que se forma independentemente de um comando central. Bandos contendo milhares de pássaros ou cardumes de peixes são os exemplos mais notáveis de auto- organização. (Ibidem). Na biologia, há o fenômeno de migrações massivas durante o outono das borboletas monarca do Canadá ao México, de onde retornam na primavera; o movimento é denominado

  “pananas”. De mesmo, a “mão invisível” de Adam Smith refere-se à metáfora de auto-organização ou auto funcionamento da economia de mercado.

  7. Imprevisibilidade: Mesmo quando regido por equações inteiramente

  determinísticas, o comportamento de um sistema complexo pode ser imprevisível. Exemplos clássicos são o clima e a dinâmica de populações. Claramente, afirma Ferreira, o mesmo tipo de fenômeno surge em sistemas socioeconômicos, com as bolhas e os crashes nos mercados.

  8. Redes complexas: Sistemas complexos apresentam padrões de interação

  que não são nem inteiramente regulares (como as casas de um tabuleiro de xadrez) nem inteiramente irregulares (como seriam traços aleatórios). Em geral, auto-organizam-se em redes de relações, que parecem aleatórias localmente, mas são ordenadas globalmente, com alguns poucos nós muito conectados e a maioria com poucas conexões, com distâncias médias reduzidas e, portanto, capacidade de influência maior do que o aparente (Ibidem). Exemplos de redes complexas são as relações sociais, os interesses acadêmicos, as cadeias alimentares, as rotas aéreas, cidades conectadas por estradas, links em web pages, entre outros.

  9. Causas múltiplas e efeitos não-lineares: Em fenômenos socioeconômicos

  e biológicos, as causas são em geral múltiplas e com interação entre si. Uma pequena variação em uma ou mais dentre as causas pode ocasionar uma grande mudança no efeito. As técnicas estatísticas usuais não são capazes de lidar corretamente com alguma destas características (frequentemente com ambas) (Ibidem).

  10. Invariância em escala: Padrões complexos podem ser obtidos pela

  aplicação repetida de regras simples em escalas diferentes (de tempo ou espaço). O exemplo clássico de invariância em escala são os galhos de árvores, os padrões de flocos de neve e os alvéolos pulmonares. Elas são comumente descritas por leis de potência ou processos fractais (Ibidem).

  11. Sensibilidade às condições iniciais: Variações pequenas nas condições

  iniciais de um sistema, por exemplo, a taxa básica de juros de uma economia, pode levar a grandes diferenças de comportamento no sistema. Assim como o nível de confiança de investidores externos com relação à conjuntura econômica, que pode gerar um efeito de desconfiança e fuga de investimentos, caso essa confiança se altere minimamente (Ibidem). De forma mais contundente, é necessário considerar a interação social como elemento central de qualquer sistema social. Aqui reside o maior desafio em se obter modelos capazes de capturar o mecanismo que governa o fenômeno. Além disso, a não linearidade, a heterogeneidade, a racionalidade limitada e a assimetria informacional devem ser incorporadas nos modelos. A abordagem aqui adotada possui a capacidade de propor modelos com pressupostos mais realísticos

  

1.3. O MODELO DELLI GATTI E A REVOLUđấO COMPUTACIONAL

NA ECONOMIA

  Desde seu surgimento no pós II Guerra Mundial, o computador causou verdadeira revolução nas ciências físicas, naturais, humanas e sociais. Os computadores afetaram a Ciência de muitas maneiras, incluindo a coleta de dados, o processamento e a habilidade para fazer regressões, para não mencionar o processamento de texto e correio eletrônico. Mas, talvez o impacto mais profundo, foi a habilidade para simular sistemas econômicos e matemáticos complexos.

  Anterior aos primeiros computadores, as ciências matemáticas tinham de ser baseadas em equações linearizadas e que as restringiam aos estudos de problemas simplificados, não complexos, em um modelo reducionista. Somente quando os computadores tornaram-se amplamente disponíveis, as simulações computacionais tornaram possível modelar uma ampla variedade de fenômenos, incluindo relatividade geral, tempo, tráfego, epidemias, turbulências de fluidos, terremotos e sistemas neurais. A simulação torna-se, então, essencial, porque ela possibilita usar o método reducionista para estudar a complexidade.

  De acordo com Farmer (idem), o reducionismo é um programa em ciência que procura entender as interações básicas a um baixo nível, possibilitando o estudo das partes de um sistema isolado. A complexidade, por sua vez, é o estudo de fenômenos que surgem da interação dos blocos de construção de baixo nível. Usando as ferramentas de simulação, a complexidade anda de mãos dadas com o reducionismo (p.3).

  Os economistas usam os computadores de muitas formas, mas existe pouco esforço de simulação fora do pequeno campo da modelagem baseada em agentes. Segundo Farmer, desde a crítica feita por Robert Lucas, os economistas sentiram que qualquer modelo econômico precisa incorporar a habilidade dos agentes para raciocinar sobre seu mundo. (Ibidem). Desta forma, a abordagem de sistemas complexos em economia deveria ser a preocupação central do Novo Pensamento Econômico.

1.3.1. INTERVIR NO FUTURO, ANTECIPANDO CRISES?

  Tem sido uma aquisição da economia e das ciências sociais que o observador possa interferir no objeto observado. A Física já assim o faz, em nível

  2

  micro e macro cosmo. Desta forma, a construção de uma economia artificial permitirá ao observador enfrentar o problema dual que se apresenta diante de si, ou seja, poderá determinar os fatores que poderão iniciar o contágio em uma propagação de choque, a perspectiva de mudanças súbitas de regime e o equilíbrio 2 desse sistema estudado. Isso permitirá antecipar ocorrências e certas políticas que

  3

  mitigam os riscos sistêmicos, fortalecendo assim a resiliência às ameaças desses eventos sistêmicos, de tal maneira que não predisponha o sistema (economia) a colapsos que decorrem de tais riscos, inferindo-se cenários comportamentais que melhor se adequem ao equilíbrio desejado.

  Decerto, olhar para o cenário passado e tentar prever o desempenho futuro é uma práxis metodológica que não se descarta. Aliás, é o mais usual e fácil de se obter, bem utilizado pelos economistas nos últimos tempos. Contudo, tal possibilidade torna o cenário bastante vulnerável, uma vez que trata o mesmo desempenho passado como evento futuro, obtendo-se várias surpresas inesperadas. Outra possibilidade é gerar certas inferências sobre possíveis hipóteses de ocorrência, traçando-se cenários possibilistas ou probabilísticos, sujeito às intempéries dos acidentes que não ocorreram no passado e que agora podem ressurgir, tornando o evento surpreendente. Nessa hipótese, não há certeza de que todas as variáveis se comportarão conforme se espera que dela resulte. É claro, também, que certos contextos, em que tais variáveis foram submetidas, podem influenciar no desempenho dessa tentativa de previsão.

  Nas últimas décadas, alguns pesquisadores e executores de políticas econômicas e sociais propuseram uma terceira vertente de sistemas, em que fosse possível construir um modelo de variáveis que pudessem se propagar em conexões umas com as outras, de tal sorte que fosse possível fazer aproximações de comportamentos dos agentes. Assim, a interação entre eles poderiam, quando simulados, captar as reações dos riscos que se emanariam. Tais variáveis foram estabelecidas em sistema computacional que pudesse rodar

  “n” vezes até emanar

  4

  os riscos sistêmicos. O trabalho realizado por Delli Gatti et al. (2009) propõe inicialmente a formação de uma economia artificial, composta por uma multidão de agentes heterogêneos interagindo entre si, em padrões complexos nos quais se analisa essencialmente os padrões de crédito. A evolução dessa rede depende da regra de escolha do parceiro preferido, em que uma escolha ocorre em detrimento de outras, dentre um conjunto limitado de parceiros. (p. 196).

  Os novos componentes introduzidos no modelo de Gatti et al. objetivaram 3 inicialmente a substituição dos preços que antes ocorriam de forma aleatória e agora

  

A palavra “resiliência” (da física, capacidade de um corpo voltar ao seu estado natural) possui diversos significados para a área da antropologia, psicologia, administração, ecologia e outras. decorrem de um processo de escolha entre a oferta e a demanda. O objetivo desse trabalho foi explorar os possíveis tipos de fenômenos que o modelo, baseado em agentes, consegue reproduzir. O autor conectou na rede principal uma subrede de consumidores que escolhem os seus produtos mediante o melhor preço para eles,

  5

  utilizando-se da técnica do partner prefered . Significa que eles compram os seus produtos mediante um mecanismo de escolha de preço afetado por essas mesmas escolhas. No sentido oposto, o preço afeta a loja com o acréscimo de estoques.

  Nesse modelo o emprestador dos recursos avalia o risco envolvido na extensão do crédito, porém a informação é incompleta (assimétrica), já que a análise completa passa por uma projeção de rede em que as variáveis distribuem-se de forma desigual (produção, patrimônio etc.). Ocorre que o tomador do crédito pode não honrar os seus compromissos, seja por um problema de gestão ou por um problema da economia em que esse agente está (quebra da corrente em rede). A sua modelagem pressupõe que a falência ocorrida desencadeia uma emergência de ciclos econômicos através da propagação de quebras, dentro de um processo endógeno de interações entre agentes de diferentes setores de uma economia, que estão conectados por ligações em que o crédito é o elo entre eles. (Ibidem, p.197).

  O sistema propõe consumidores que buscam, por menor preço, a aquisição de produtos, e fornecedores também selecionados pela mesma lógica. Os preços no modelo são aleatórios. As famílias fazem o papel dos consumidores finais, que gastam toda a sua renda comprando os bens de consumo propostos. O sistema possui duas camadas de empresas. Uma

  • – as Upstream (U) – produzem bens de consumo que serão insumos exclusivos para as empresas
  • Downstream (D) –, que, por sua vez, vende os produtos a consumidores finais.

  As firmas (D) são emprestadoras puras que captam recursos das empresas (U) e dos bancos, através de um sistema bancário constituído. Por seu turno, os bancos (Z) são emprestadores para as firmas (D) e para as firmas (U) mediante uma taxa de juros gerada no sistema.

  Os emprestadores avaliam a concessão de empréstimos através do status dos patrimônios líquidos. Pela lógica, são ativos dessas empresas reduzidos das dívidas a pagar (passivos). O patrimônio representa, na verdade, a garantia que 5 essas dívidas contraídas possuem. Esses patrimônios crescem ou decrescem de acordo com o comportamento dos lucros ou prejuízos auferidos, ou seja, incrementam ou não de acordo com o desempenho decorrente das aquisições dos produtos.

  O patrimônio é, assim, o principal mecanismo de flutuação dessa economia, dado que o choque nas receitas em (D) propaga-se em (U) e os bancos (Z). As taxas de juros são também afetadas pelo desempenho do patrimônio, uma vez que flutuam em função de receitas (vendas), menos os custos incorridos. Nessa economia, os custos são derivados dos salários dos trabalhadores e das matérias- primas adquiridas, que são financiadas pelo sistema bancário e pelas empresas

  upstream, diante de taxas de juros.

  Por sua vez, a marcha de taxa de juros direciona a condição de falência ou crescimento realizado pelas empresas e bancos em seus balanços

  • – ativos (-) passivos. Se as dívidas suplantarem os ativos, significa que o patrimônio líquido das empresas ou dos bancos ficou negativo. Toda a evolução endógena das interligações de crédito afeta de forma extensiva a difusão da falência em uma relação de interdependência entre as variáveis componentes, dependendo também da iteração dos agentes. Tal propagação é mais extensiva e oposta aos efeitos negativos do caso anterior (balanço do patrimônio em negativo). A interação é dada pelos vínculos existentes entre os agentes (U), (D), (Z) e consumidores.

  No modelo descrito, o trabalho e o consumo não serão afetados pelo preço da economia, dependendo somente das condições financeiras dos agentes. Desta forma, no nível macroeconômico ocorre um ciclo, surgindo assim um processo auto- organizado, tal como expresso no esquema 3.

  

ESQUEMA 3: Interação dos agentes do modelo Delli Gatti.

  

Fonte: Coordenadas do Modelo Delli Gatti. Construção nossa.

  

1.3.2. A IMPLEMENTAđấO COMPUTACIONAL NO MODELO DE

DELLI GATTI

  O trabalho de Gatti et al. permite observar o que se passa “por dentro” de uma economia criada de forma artificial, em que um multidão de agentes intrinsecamente heterogêneos, submetidos a certas características tecnológicas, informacionais e com dotações financeiras realizam preferências por consumo de empresas através do melhor preço ofertado.

  A solidez do tomador do empréstimo é medida pela robustez do seu patrimônio líquido (riqueza) e no relacionamento de crédito esse tomador pode não ser capaz de preencher os compromissos de débitos por infortúnios ou por má administração, caminhando assim à falência. Inicialmente, a contribuição principal do modelo é a introdução de um mecanismo para a evolução endógena de uma estrutura de rede de negócios estabelecida pelas escolhas do melhor parceiro de negócios. Ocorre então, financiamentos para pagamentos de mão-de-obra e de compra de insumos para o processo produtivo. As empresas utilizam recursos de terceiros quando possuírem robustez patrimonial.

  As famílias tem o papel de consumidores finais dessa economia e elas gastam as suas rendas comprando bens de consumo. Portanto, a desconexão de uma empresa por um processo de falência leva essas famílias ao desemprego e à falta de renda. Nesse diapasão, é necessário discutir como uma realidade social concreta pode ser capturada por um modelo artificial, similarmente a um holograma dessa representação social.

  

1.3.3. A REALIDADE CONCRETA DE UM FATO SOCIAL E SUA

MENSURAđấO

  A realidade concreta de um fato social possui uma inter-relação entre observador e observado, em que o objeto da observação poderia ser captado e mensurado. A realidade percebida pelo avaliador é impregnada com conceitos aprendidos e elaborados pelo seu ser, pelo pensamento corrente e pelo ideário estabelecido. Quando se trata de sua representação, lida-se com o espírito humano individual e coletivo, com convicções e com criações, ambas as faces não captadas pelas ciências naturais.

  Para discutir o ponto de contato entre o objeto observável (fatos econômicos, fatos sociais e fatos políticos) e o observador (aqui subtendido pelo binômio homem- código), bem como no caminho inverso, é necessário repensar paradigmas e conceitos, percorrendo os diferentes métodos de conceber as realidades e os limites em que o objeto e o observador inserem-se.

  Nesse passo, preliminarmente nos remetemos aos estudos de Steiner (2004) sobre as afirmações de Goethe. Segundo Steiner (2004), a concepção de mundo de Goethe ou a sua cosmo visão baseia-se em princípios de uma ciência pretensamente livre de premissas, porém com as mesmas exigências das ciências naturais. Segundo o seu método, uma opinião científica não deveria, em nenhuma hipótese, ser expressa numa autoridade, mas em princípios estabelecidos. Por suas palavras

  • – “a teoria em si e por si de nada serve senão para fazer crer na conexão dos fenômenos” (p.30).

  De forma clara, Steiner (2004) elabora seus conceitos a partir das próprias coisas, de maneira objetiva. Seguindo por esse caminho, afirma que Goethe chega, em suas investigações cientificas, ao conceito do “fenômeno primordial” (ligado ao mundo inorgânico) e ao conceito de “tipo” (ligado ao mundo orgânico), ambos pertencentes a ideários cósmicos, que transcendem a materialidade. Esses conceitos permitiram a Goethe realizar todas as variações de sua cosmo visão (p.82).

  Por natureza inorgânica, Steiner (2004) indica que se trata de um processo com diferentes sucedâneos de acontecimentos, ou seja, resulta de fatores que se confrontam exteriormente ao objeto. Nesse caso, um acontecimento ou uma relação entre dois objetos distintos, pelos quais um fenômeno manifesta-se e transfere seu próprio estado a outro. Ou ainda, trata-se de um sistema de atuações, em que um fato é a consequência de outros do mesmo tipo (p. 92). Assim, todo fenômeno cujo efeito resultar de um causador denomina-se fenômeno primordial ou fundamental.

  Steiner (2004) infere existir uma lei geral, segundo a qual esses acontecimentos têm de se suceder e se enunciar como tal. Desta forma, a ciência em sua concepção apresenta a análise de acontecimentos objetivos, combinados em seus fatos pela sua natureza, em linha com o pensamento Newtoniano. Para Steiner, o experimento deve nos garantir que nada mais influencie um processo determinado além daquilo que temos em conta. Conjugam-se certas condições cuja natureza conhecemos e esperamos o que virá resultar disso. Aí temos o fenômeno objetivo como fundamento da criação subjetiva (p.37).

  Por natureza orgânica, Steiner (2004) pressupõe que cada objeto tem uma natureza própria e específica, ou seja, um princípio-fundamento. Possui um conteúdo estruturado em si, que nos fornece o meio necessário para deduzirmos aquelas propriedades (p. 96).

  No mundo inorgânico, percebe-se um fato e as suas relações entre um segundo, um terceiro e assim por diante, de outros fatos que se relacionam entre eles. Nessa natureza, é necessário um fator adicional externo, o qual vai fundamentar as influências das condições externas em algo que não se deixa determinar passivamente por elas, mas que se autodetermina ativamente sob suas influências. Quando se forma uma imagem genérica de um objeto, afirma, essa imagem manifesta-se de todas as formas particulares deste, o que permite a Goethe determinar essa forma generalizada como “tipo”. Um exemplo de pressuposto de

  “tipo” é a teoria darwinista, a qual explica toda a manifestação dos seres em evolução. Analisando Goethe, Steiner (2004) afirma que cada ser humano é um ser com natureza de percepção sensorial, com espírito humano individual, com convicções próprias, com princípios de natureza mental reveladas pela captação do mundo exterior e no pensar próprio. Para ele, o homem não deve atuar segundo o princípio inorgânico, visto que seus atos são realizações de leis que ele outorga para si mesmo, na busca do ponto que lhe permite participar do mecanismo do mundo. Segundo o autor, o indivíduo tem como algo ideal a conquista de uma existência baseada em si mesma, guardando consigo este “ideal” (p. 45).

  A concepção hologramática de representação de uma sociedade nunca vai representar a natureza orgânica dos indivíduos dessa sociedade, por não conceber esse espírito humano individual e as percepções sensoriais com o mundo inorgânico. A inteligência artificial e a neurociência ainda, em marcha, estão distante da reprodução de tais mundos. Contudo, no atual estágio de avanço computacional, é possível modelar certos comportamentos que podem ser captados e estabelecidos como uma boa representação da realidade concreta. Exemplo disso é o processo de escolha de preços por consumidores em determinadas situações de renda disponível, de oferta, de processos produtivos, de emprego, de menor preço e outros, pela técnica do “partner prefered”.

  Um desafio ainda pendente diz respeito à modelagem do comportamento de indivíduos em uma sociedade, convivendo com os mundos orgânicos e inorgânicos, pelos quais as percepções sensoriais do ser com o seu mundo externo e as suas vontades sejam captadas e representadas por sinais, com alguma significância na computação, e que ainda sejam passíveis de uma modelagem.

  O desafio torna-se maior ainda quando percebemos que certos comportamentos coletivos possuem, segundo as ideias dos estudos da complexidade, padrões não previsíveis que emergem de ações coletivas (fenômenos emergentes). Alguns estudos atuais já procuram representar certas economias através de uma modelagem computacional, capturando certos fenômenos que se transcendem, assumindo-se assim algumas hipóteses pelas quais se impõem certas condições de existências, em uma tentativa de representar o mundo real.

  Resta-nos então saber como os fenômenos (impactos sociais) relacionam-se com o objeto (economia em estudo), e como se processam na inter-relação. Para tal estudo, valemo-nos da visão dialética de autores de corrente marxista. Nessa abordagem, Gadotti (1983) estuda a dialética utilizada por Marx, desde suas origens gregas. Segundo o autor, a dialética utilizada por Platão era um método de ascensão ao inteligível e ao mesmo tempo um método de dedução racional das ideias, em um duplo movimento que se permite passar da multiplicidade (coletividade) ao unitário (indivíduo) (p.16).

  Ainda, segundo Gadotti (1983, p.17), a dialética utilizada amplamente por Aristóteles vai ser resgatada por Descartes em seu

  “Discurso do Método”, pelo qual

  propõe regras para análise (o Método), a fim de atingir cada elemento do objeto ou fenômeno estudado e a sua síntese ou reconstituição do conjunto. Marx propõe, por sua vez, por meio de análise e síntese, um “método de pesquisa” e um “método de exposição”, mas fundamenta em Hegel e nas escolas alemãs sua base de análise e síntese. Hegel retoma a dialética

  “como tema central da filosofia e como filosofia”, o mundo dos pensamentos seria uma totalidade coesa e perfeita. (p.18). O

  “pensar” para Hegel era a única maneira de ver o concreto e o único fator da realidade. Assim, com Hegel, o “pensar” passou a equivaler ao próprio objeto. A realidade concreta é a resultante final entre a tese e a antítese. Esse movimento é dinâmico, já que o conflito entre os dois entes apresenta uma transitoriedade contínua, sempre havendo a possibilidade de uma nova tese.

  Segundo Gadotti (1983), a dialética de Marx consiste na formação de uma base empírica e interpretativa histórica da realidade. Seu método de análise o leva a partir do particular para o geral para depois retornar ao fenômeno particular da realidade concreta, como apresenta em sua

  “Crítica à Economia Política”(p. 22). Nesse concreto, Marx (1994) afirma que:

  O indivíduo é o ser social. Sua manifestação da vida

  • – ainda que não apareça na forma imediata de uma manifestação comum executada em companhia de outros - é, por conseguinte, uma manifestação e uma afirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do

    homem não são diferentes. (p.95.Grifo nosso).

1.3.4. OS IMPACTOS SOCIAIS

  Segundo Frank Vanclay (2006), entender os impactos sociais é compreender como as consequências para as populações humanas impulsionam-se, seja através de ações públicas ou privadas, isto é, como esses agentes interagementre si no dia- a-dia do ambiente proporcionado.

  Por esse ambiente, o autor cita as condições proporcionadas, por exemplo, a criação do estado de bem-estar-físico e social, receios e aspirações futuras, empregos, condições de saúde e outros aspectos ligados ao desenvolvimento regional (Ibidem, p. 4-5).

  O autor enumera princípios tidos como fundamentais para se estudar e definir “impactos sociais”. São eles:

  1- Ambiente social: A criação de um ambiente social mais equânime em ambiente sustentável deve ser um dos aspectos mais fundamentais da avaliação dos impactos e do planejamento do desenvolvimento. 2- Intervenções planejadas: É possível prever grande parte dos impactos sociais das intervenções planejadas, as quais podem ser modificadas, de forma a reduzirem os seus impactos sociais negativos e potenciarem os impactos positivos. 3-Aspectos Sociais: A Avaliação de Impacto Social (AIS) deve ser uma parte integrante do processo de desenvolvimento e incluída em todas as suas etapas, desde a concessão à sua implementação. 4- O desenvolvimento social sustentável deve estar no centro das atenções, e a AIS deve contribuir para a definição da(s) melhor(es) alternativa(s) de desenvolvimento. 5- Capital Humano: Em todas as intervenções planejadas e respectivas avaliações, devem ser abertas vias para o desenvolvimento do capital social e humano das comunidades locais e o reforço dos processos democráticos. 6- Em todas as intervenções planejadas, especialmente naquelas em que há impactos inevitáveis, devem ser procuradas soluções para tornarem beneficiárias as pessoas que sofrem os impactos.

  7- A AIS deve conferir a devida consideração às alternativas de qualquer intervenção planejada, especialmente nos casos em que é provável a ocorrência de impactos inevitáveis. Deve ser dada a máxima atenção às potenciais medidas de mitigação de impactos sociais e ambientais, mesmo nos casos em que as comunidades sujeitas a impacto podem ser consideradas beneficiárias e aprovam a intervenção planejada. 8-Cultura: O conhecimento e a experiência locais e o reconhecimento dos diferentes valores culturais locais devem ser incorporados em qualquer avaliação. 9- Não deve haver recurso à violência, assédio, intimidação ou força indevida, em relação com a avaliação ou implementações de intervenções planejadas. 10- Os processos de desenvolvimento que infringem os direitos humanos de qualquer parte da sociedade não devem ser aceitos. (Ibidem,p.10)

  Vale observar que esses princípios estão em linha com a Declaração do Rio (ECO RIO), de 1992.

  

1.3.5. AMBIENTES E IMPACTOS SOCIAIS ATRAVÉS DE JOGOS

REPRESENTATIVOS POR SISTEMAS DE AGENTES

  Após os conceitos iniciais de como são atribuídos os impactos sociais, analisaremos como a economia pode atuar no desenvolvimento desse ambiente social. Os jogos computacionais desenvolvidos para esse fim têm sua importância na antevisão de uma realidade construída. Para isso, parte-se da hipótese de que a economia contribui na redução ou no incremento do potencial dos impactos sociais produzidos, bem como também para mitigar determinadas situações adversas de forma antecipada.

  Para Stuart Russel e Peter Norvig (2004) a ciência econômica é consistida em agentes individuais que maximizam o seu próprio bem-estar econômico.

  “A maioria das pessoas pensa que a economia trata de dinheiro, mas economistas dirão que na realidade a economia estuda como as pessoas fazem escolhas que levam a resultados preferenciais” (p.11). Segundo os autores, os resultados preferenciais ou utilidade foi formalizado por Léon Walras (1834-1910), aperfeiçoado por Frank Ramsey (1931) e mais tarde por John Von Neumann e Oskar Morgenstern, em seu livro

  “The Theory of Games

  and Economic Behavior

  ” (1944). A partir daí, outros estudos sucederam-se. A teoria da decisão, que combina a teoria da probabilidade com a teoria da utilidade, fornece uma estrutura formal completa para decisões sob as condições de incertezas. Para Stuart Russel e Peter Norvig (2004):

  [...] isto é adequado para “grandes” economias em que cada agente não precisa levar em conta as ações de outros agentes como indivíduos. No caso das

  “pequenas” economias, a situação é muito parecida com um jogo: as ações de um jogador podem afetar de forma significativa a utilidade de outro (positiva ou negativamente) (p. 11).

  Sucederam-se outros trabalhos, como a pesquisa operacional de Bellman (1957), formulando um conjunto de problemas decididos de forma racional. Posteriormente, surgiram problemas decisórios sequenciais, chamados pelo

  6 matemático russo Andrei Markov de .

  “processos de decisão” Tais trabalhos contribuíram para a formação de problemas com agentes providos de decisões racionais, porém ainda dissociados dos estudos de inteligência artificial. A razão para isso foi a aparente solução que tais problemas ofertavam no campo da complexidade. Em 1978, Herbert Simon, pesquisador pioneiro em inteligência artificial, desenvolveu modelos baseados em satisfação, em que as tomadas de decisões

  “boas o suficiente” eram preferidas em vez de cálculos portentosos e laboriosamente realizados que conduziam a uma decisão ótima.(Ibidem, p.12).

  Posteriormente, na década de 1990, os problemas de decisão baseados em sistema de agentes foram retomados por Wellman (1995). Retorna-se também aos estudos no campo de redes neurais artificiais, baseados em estudos do sistema

  7 6 nervoso, particularmente do cérebro, desenvolvido pela neurociência . No estágio

Markov estudou o limite de integrais e a teoria da aproximação e, depois de 1900, aplicou métodos

de frações contínuas comprovando o teorema do limite central. É conhecido pela equação conhecida

por “cadeia de Markov”, segundo a qual os estados anteriores são irrelevantes para a predição dos

estados seguintes, desde que o estado atual seja conhecido. Influenciou o planejamento econômico

7 de países como a URSS e Índia.

  

Basicamente projetam-se as funções de um neurônio em um algoritmo e captam-se os seus sinais gerados artificialmente por um processo computacional. atual, os problemas e subproblemas gerados levaram os pesquisadores a examinarem e desenvolverem problemas com os chamados “agentes inteligentes”.

  Em consequência disso, os sistemas de raciocínio e planejamento devem ser capazes de lidar com a incerteza. A segunda consequência importante da perspectiva do agente é que a inteligência artificial foi levada a um contato muito mais estreito com outros campos, como a teoria de controle e a economia, que também lidam com agentes”. (Ibidem,p.27-8).

  O interesse desses estudos, como veremos, é a construção de uma economia artificial que pode refletir processos em ciclos ou em rede, de forma a demonstrar um processo de difusão e propagação de efeitos tais como renda dos consumidores, processos de consumo, falências de firmas, e outros, por mecanismos de interação de modelos de agentes. Alguns desses agentes podem nessa economia ter comportamento melhor do que outros, o que nos remete a ideia da existência de um agente racional. O que, no conceito de Stuart Russel e Peter Norvig, demonstra

  “um agente que se comporta tão bem quanto possível” (p.33). Stuart Russel e Peter Norvig (2004) definem um agente racional pelo conjunto de suas ações:

  [...]é aquele que faz tudo certo

  • – em termos conceituais, toda entrada na tabela que corresponde à função de agente é preenchida de forma correta. É óbvio que fazer tudo certo é melhor do que fazer tudo errado; porém, o que significa fazer tudo certo? Como uma primeira abordagem, diremos que a ação certa é aquela que fará o agente obter maior sucesso. Então precisaremos de algum método para medir o sucesso. (p. 35).

  Um medidor de desempenho é um processo na computação que visa captar os seus sinais gerados (positivo ou negativo). É o que vemos na explicação de Stuart Russel e Peter Norvig (2004):

  Quando um agente é inserido em um ambiente, ele gera uma sequência de ações, de acordo as percepções que recebe. Essa sequência de ações faz o ambiente passar por uma sequência de estados. Se a sequência é desejável, isso quer dizer que o agente funcionou bem. Evidentemente, não existe uma medida fixa apropriada a todos os agentes. (p.36).

  Na economia artificial construída, os medidores são as realizações que tais agentes executam: verificam a sua renda, definem compra ou não, o banco empresta ou não dinheiro às firmas, de acordo com a robustez financeira (patrimônio) e outras sequências similares. Assim, o conceito

  “racionalidade”, para Stuart Russel e Peter Norvig (2004), depende de quatro fatores: a medida de desempenho que define o critério do sucesso; o conhecimento anterior que o agente tem do ambiente; as ações que o agente pode executar; e a sequência de percepções do agente até o momento (Ibidem).

  A simulação por computador permite, ainda, o controle do comportamento dos agentes. Adicionalmente, verifica-se que as informações entre os agentes operam de tal sorte que surgem na simulação conceitos dos estudos de complexidade como emergência, auto-organização, retro-alimentação, imprevisibilidade, efeitos de causas múltiplas nos modelos não lineares e outros.

  Para estudarmos um crescimento econômico por ação de multi-agentes,

  8

  9

  consideramos que eles não são oniscientes e nem possuem perfeição . Para Ben Coppin (2010), agente é uma ferramenta capaz de realizar alguma tarefa em nome de um humano e nesse diapasão possuem algumas características adicionais, que mesmo que os parâmetros mudem, estão imbuídos de conhecimentos adicionais de domínio que os torna hábeis a realizar as suas tarefas, ainda que surjam situações inesperadas. (p.471).

  Segundo Coppin (2010), as características adicionais dos agentes relacionam-se à autonomia

  • – que é a capacidade de agir e tomar decisões; a capacidade de aprender, de armazenar novas informações de forma útil; a cooperação –, capacidade de cooperar uns com os outros.

  Os agentes estão inseridos em um ambiente nem sempre propício às suas realizações de suas tarefas. O resultado entre o acoplamento entre eles pode levar aos agentes mudanças em seus comportamentos. Os agentes, ao se adequarem ao novo ambiente, comportam-se em meio a mecanismos de adaptabilidades. Dentre o universo de ambientes adversos, Stuart Russel e Peter Norvig (2004) definem alguns tipos e suas particularidades, que farão diferenças quando da modelagem. As características destas particularidades são: completamente observável versus 8 parcialmente observável, quando os sensores são capazes de detectar todos os

  

Para Stuart Russel e Peter Norvig (2004, p.37) um agente onisciente é aquele que sabe o resultado

real de suas ações e pode agir de acordo com ele. Para os autores, a onisciência possui uma

9 realidade incomum.

  

Existe uma diferença entre racionalidade e perfeição. A racionalidade maximiza o desempenho e, aspectos relevantes para as escolhas das ações dos agentes; determinísticos

  

versus estocásticos, quando é completamente determinado pelo estado atual pela

  ação executada, caso contrário ele é estocástico; estático versus dinâmico, quando se puder alterar o seu estado atual; discreto versus contínuo, quando o tempo é tratado com variabilidade nas ações

  • – quando finito, diz-se que é discreto; episódico

  versus sequencial, quando a experiência do agente é dividida em fases

  • – no primeiro caso, diz-se episódico, no sentido inverso, o caso é sequencial; finalmente, o sistema de único agente versus multi-agentes. Neste último, com maior grau de dificuldade, surgem os efeitos da competitividade e da cooperação alicerçadas na comunicação entre eles. (p.41-3).

  De acordo com as modelagens pretendidas, tanto os agentes como o universo dos seus ambientes permite observar diferentes resultados, de acordo com as diferentes combinações, em um cruzamento de agentes e suas ações versus ambientes possíveis. Obteremos respostas não mono-causais decorrentes dos efeitos das interações desses entes, em que um poderá refletir ações no outro, de forma reflexiva. Por isso, garantir que as características serão captadas adequadamente é crucial na obtenção dos resultados planejados.

  Nessa esteira, Paul Ormerod (2001), afirmando sobre sistemas econômicos modelados, afirma que “uma economia só pode crescer a nível global, se as empresas individuais pertencente puderem crescer

  ” (p.160). Assim, qualquer teoria de crescimento deve ser baseada na atividade e no comportamento dos indivíduos. Para demonstrar tal efeito, o autor vale-se de uma analogia comportamental de uma determinada comunidade (no caso, a das formigas), da qual se extrairá certos estudos que serão utilizados para inferir determinadas ações (Ibidem).

  Utilizando-se dos estudos comportamentais das formigas, o autor encontrou uma possível explicação do comportamento da colônia como um todo, o que só pode ser dado por uma teoria baseada no comportamento daqueles indivíduos que compõem essa mesma sociedade. Em contraste, a economia ortodoxa depende de certas regularidades hipotéticas e coletivas, como a quantidade total de insumos utilizados no processo de produção, em nível agregado, resultando daí a própria produção individual (Ibidem, p.160). De acordo com Ormerod (2001),

  [...] todas as teorias e modelos são simplificações da realidade. Mas a visão convencional de crescimento perde-se muito. Empresas não crescem simplesmente investindo em novos equipamentos,

  assumindo mais trabalhadores e aplicação de novas tecnologias. Estes podem ser importantes, mas muito mais está envolvido (p. 160).

  Para fazer uma demonstração desse processo coletivo, influindo no individual e no sentido inverso, Paul Ormerod (2001) apresenta-nos como exemplo um jogo criado por Peter Allen, um físico teórico da Universidade de Cranfield, do Reino Unido, o qual descreve esse jogo da seguinte forma:

  Imagine um diagrama tridimensional, o chão que é atravessado por linhas que dividem em quadrados individuais, ou células como poderíamos chamá-los, como em um tabuleiro de xadrez ou damas. Na representação de uma cidade ou uma região, cada célula individual pode ser facilmente interpretada como correspondendo a

uma localização geográfica específica. (p.165).

  O jogo simula a atuação das empresas e sua evolução. Similarmente ao jogo do xadrez ou damas, uma série de movimentos será interpretada por branco ou preto alternadamente, mas na sequência. No jogo proposto, a sequência será um período de tempo, por exemplo, um ano. No transcorrer de um período a outro, as regras do jogo vão alterar tanto as células que estão ocupadas, quanto as suas alturas.

  O jogo é iniciado pela escolha de uma célula, de forma aleatória. Coloca-se naquela célula alguma atividade econômica, de tamanho pequeno. No início, todas as células estão em branco, para começar, mas poderá ser preenchida conforme o jogo progride (Ibidem, p.164).

  O jogo tem muita similaridade com o sistema de formigas, visto ser baseado no nível micro para as suas regras nos dizer como cada célula individual evolui através da interação com os seus vizinhos imediatos. Em princípio, todas as outras células estão na placa. Os resultados que emergem no nível agregado são muito difíceis deprever-se no curto prazo, enquanto, ao mesmo tempo, obtém-se certo grau de estrutura de longo prazo (Ibidem).

  Esse jogo pode foi adaptado para se estudar o crescimento econômico de empresas e, similarmente, ao comportamento das formigas individuais ou empresas que geram crescimento. Nesta hipótese, cada célula sendo ocupada por uma empresa, que oferece um conjunto particular de produtos, situa-se em uma posição particular no seu mercado.

  A altura relativa às empresas, em todas as células na placa, equivale a sua dimensão econômica relativa ao conjunto da economia. Objetiva-se, no início do preenchimento, de forma idêntica, a representação das empresas capitalistas no início do século XIX, em que cada uma produz um nível bastante baixo de saída.

  O valor da saída de cada empresa é medido no eixo vertical e de forma arbitrária. Assim que cada uma dessas empresas iniciarem o processo de produção, o valor é fixado em 5. O tamanho total da economia em qualquer ponto no tempo pode ser medido de uma maneira muito simples, somando os tamanhos

  • –as alturas
  • –das células individuais, 225 x 5 = 1125¸conforme demonstra a figura a seguir:

  FIGURA 1: Platô ou tabuleiro em que serão inseridas em cada célula

  10 “empresas” em um processo de evolução.

  

Fonte: Paul Ormerod. A new general theory of social and economic behavior, 2001, p. 168-71.

  O modelo prevê um processo de feedback positivo e um processo de intensidade dos impactos representado pela velocidade com que a altura na plataforma muda de posição. Essa mudança de altura depende de dois fatores. Em primeiro lugar, de um conjunto de regras, especificadas adiante, que diz respeito de como essa firma reage às mudanças que surgem no modelo. Em segundo lugar, o seu tamanho existente pode influir sobre os seus vizinhos. Mas as duas regras estão conectadas de forma lógica: o impacto de qualquer mudança será maior, quanto maior for a empresa. Assim, as mudanças positivas irão alimentar a si próprias e levar as empresas a tornarem-se ainda maiores, e as negativas irão dirigi-las ainda 10 mais na direção oposta.

  

Segundo Paul Ormerod (2001), os tamanhos das empresas que ocupam cada célula individual

  A mais importante das regras é a de que cada célula individual conecta-se com todas as outras células na placa. Para decidir a influência de mudanças no tamanho de uma empresa sobre todas as outras empresas, será necessário medir a força dessas conexões.

  Várias dessas conexões são muito fracas. Para as ações de qualquer empresa individual, não haverá impacto perceptível sobre muitas outras empresas nas suas ações. No entanto, outras conexões muito mais fortes podem ter as suas ações mais perceptíveis. As ligações representam a complementaridade dos seus produtos, por exemplo, um fabricante de pneus ou óleo. Essa empresa vai se beneficiar caso a indústria de automóvel prospere. Ou, ainda, empresas que estão sendo vinculadas em alianças estratégicas, semelhante às indústrias da aviação e combustível, de modo que o crescimento de uma empresa pode beneficiar a outra. Mas algumas conexões entre empresas são negativas, o que significaria o fato dessas empresas concorrerem diretamente umas com as outras, em que os ganhos de umas são muitas vezes gerados pelos custos das outras (Ibidem, p.166).

  Uma extensão dessa regra pode implicar em ligação de cada empresa umas com as outras, ou ainda poderá ocorrer, em particular, a si própria. Isso melhora o princípio dos retornos crescentes dos processos introduzidos anteriormente. Uma ligação positiva, a partir de uma célula sobre a própria, significa que o crescimento tem lugar nesta célula particular oriunda de outras partes da rede, surtindo um efeito que será melhorado ainda mais sobre aquela célula (Ibidem).

  Finalmente, outra regra é introduzida para refletir as atividades de fusões e aquisições. Uma maneira como isso pode ocorrer é permitindo que as atividades de uma empresa espalhem-se, por assim dizer, em atividades muito próximas as já existentes. Assim, o crescimento de algumas células, imediatamente, em torno de uma única célula está positivamente relacionado ao tamanho da referida célula em particular. Uma empresa que realizou um processo de aquisição de outras cresce também com o seu entorno como em um conglomerado de firmas (Ibidem).

  Ormerod (2001) conclui que:

  Não há dúvida de que essas regras podem ser refinadas, se adicionado a elas outras regras, tornando o jogo mais complicado. Mas a finalidade do exercício é mostrar como facilmente um modelo baseado em colônias de formigas individuais (empresas) evolui, neste caso, agindo de acordo com um pequeno número de regras simples e que pode ser facilmente construído. E isso dá uma boa e

  razoável representação das principais características do processo de crescimento econômico ao longo dos últimos cem anos ou mais (p.167).

  E afirma: “Esta diversidade dos agentes é um princípio importante do mundo real. As empresas são diferentes por sua natureza própria, e é muito difícil transferir, diretamente, as qualidades que tornaram qualquer empresa particular de sucesso para outra empresa” (Ibidem,p.168). Como exemplo, cita a empresa Coca-Cola, que, segundo o autor, é apenas uma empresa que faz um refrigerante com gás doce.

  Mas, afirma, se isso fosse uma descrição completa de suas qualidades, os concorrentes poderiam facilmente replicar toda a operação.

  “Em vez disso, a empresa tem mantido uma posição dominante no seu mercado de refrigerantes por muitas décadas” (Ibidem).

  Mesmo com as dificuldades de transferência de qualidades de empresas para outras das características que lhe são peculiares, esse modelo indicou a evolução do crescimento das empresas capitalistas nos Estados Unidos entre 1870 e 1910, conforme figura a seguir:

  FIGURA 2: Platô ou tabuleiro em que serão inseridas em cada célula

“empresas” em um processo de evolução.

  

Fonte: Paul Ormerod. A new general theory of social and economic behavior, 2001, p. 168-71. De mesmo, a figura seguinte demonstra o conjunto de empresas nos Estados Unidos no período de 1960:

  FIGURA 3: Platô ou tabuleiro em que serão inseridas em cada células

“empresas” em um processo de evolução.

  

Fonte: Paul Ormerod. A new general theory of social and economic behavior, 2001, p. 168-71.

  Ainda, de acordo com o autor, há as empresas da mesma economia nos anos 1990:

  FIGURA 4: Platô ou tabuleiro em que serão inseridas em cada células

“empresas” em um processo de evolução.

  

Fonte: Paulo Ormerod. A new general theory of social and economic behavior, 2001, p. 168-71.

  As figuras demonstram a enorme capacidade de concentração e crescimento das indústrias em um longo período de duração secular. Ormerod (2001) afirma que a representação de modelos simples pode ilustrar a evolução do tempo de uma única economia artificial, operando segundo um conjunto de regras estabelecidas. Contudo, lembra que qualitativamente os resultados que emergiram do jogo representaram a realidade da evolução empresarial de 1870 a 1990. Os dados resultantes foram comparados aos registros da Revista Fortune e guardam bastante similaridade com a evolução pesquisada nas 500 maiores empresas que operaram na economia dos Estados Unidos naquele período (Ibidem, p.172).

  CAPÍTULO 2º O RELATIVISMO PERCEPTIVO: A GLOBALIZAđấO EM REDE

2.1. AS EMPRESAS TRANSNACIONAIS E OS ESTADOS A coexistência de seres em uma única sociedade global não é nova.

  Conhecem-se registros históricos de seres habitando uma mesma concepção de um único mundo ou compartilhando os mesmos princípios universais estabelecidos por aquela sociedade. Os grandes impérios já demonstraram esses fatos.

  A análise desses registros não é clara quando da separação entre os indivíduos do ente sociedade.

  A sociedade, como sabemos, somos todos nós; é uma porção de pessoas juntas. Mas uma porção de pessoas juntas na Índia e na China forma um tipo de sociedade diferentes da encontrada na América ou na Grã-Bretanha; a sociedade composta por muitas pessoas individuais na Europa do século XII era diferente da encontrada nos séculos XVI ou XX. E, embora todas essas sociedades certamente tenham consistido e consistam em nada além de muitos indivíduos, é claro que a mudança de uma forma de vida em comum para outra não foi planejada por nenhum desses indivíduos. (ELIAS, 1994. p. 13).

  No entanto, sabemos que não existe um abismo entre sociedade e indivíduos, mas uma relação entre um e o outro, transpondo-se em uma relação vis-à-vis. Com o processo da globalização, essa mesma relação ocorrerá com indivíduos diferentes em mundos distintos. No debate do tema, possibilitará a nós examinarmos as diferentes ideias, a fim de demonstrarmos a existência de uma grande rede interligada por agentes que produzem ações intraespecíficas.

  

2.1.1. PRIMEIRA CAMADA - A IDEIA DO RELATIVISMO

CLASSIFICATÓRIO

  Quando Immanuel Wallerstein, em 1974, publicou em seu trabalho fundamental o moderno sistema mundo, esclareceu a polêmica do termo économie-

  

monde, atribuído ao historiador francês Fernand Braudel, e nos trouxe a ideia de

  uma economia-mundial, tal qual a palavra foi concebida, com o hífen, para representar uma internacionalização da Nação não contida nos recortes das fronteiras dos Estados-nação. A obra, em quatro volumes, cobre o largo período de formação da moderna economia mundial, desde 1450 até a atualidade.

  O primeiro volume, publicado sob o título “The Modern world-system –

  

capitalist agriculture and the origins of European world-economy in the sixteenth

century

  ”, foi publicado em 1974 e recebeu tradução em vários idiomas. O quarto volume explora a natureza das políticas mundiais sob a perspectiva do sistema- mundo e das economias capitalistas mundializadas.

  A ideia é a de que a economia-mundo surgiu no século XVI com a descoberta das Américas, já com dimensão de um império maior do que qualquer unidade política juridicamente definida. (ARRUDA, 1983, p. 168).

  Em 1984, Wallerstein publica “The Politics of The world-economy.The States,

  The Moviments and the Civilisation

  ” em que procura demonstrar o papel dos EUA e da então URSS no sistema mundial, bem como as relações com os Estados do terceiro mundo, no centro do capital e no potencial de uma mudança revolucionária socialista.

  Para Wallerstein (1984), os limites de soberania são tão importantes quanto os poderes. Estes limites derivam da obrigatoriedade de uma localização para o Estado-nação inserido no interior do sistema das relações inter-Estados. Neste sentido, os movimentos sociais são uma força anti-sistêmica, trazendo dilemas ao poder do Estado. Ao comparar o poder hegemônico dos EUA, cita os exemplos dos impérios romano e chinês, cujos recortes de fronteiras não se sustentaram e sucumbiram fragmentados em novos Estados.

  De acordo com Albrow & King (1990), o reaparecimento do processo de globalização teria se passado pelo surgimento e pela dinâmica da comunicação em larga escala em mecanismos de difusão, trazendo vozes e imagens de outras culturas, até se enlaçar com a economia. Os autores identificam uma nova constituição do Estado-nação que tem poder na participação dos cidadãos com direitos e responsabilidades (apud OUTHWAITE & BOUTTOMORE, 1996, p. 340).

  Para David Held (2007), teria surgido uma nova época em que os Estados- nação tenderiam a desaparecer, pois a lógica da globalização econômica constrói-se em novas formas de Estados-nação, definidos por uma jurisdição soberana em detrimento de uma área territorial demarcada (p. 327).

  Para Iriarte (2010), conceituando globalização pelos efeitos trazidos, trata-se de um conceito ambíguo que traz consigo aspectos, além de econômicos e culturais, financeiros, informáticos, comerciais etc., ambos indicando aparentemente a ideia de benefícios com as tecnologias disseminadas. Porém, para ele o que ocorre de fato é uma fenomenologia de consequências graves e negativas (p.145).

  De fato, o lucro das empresas transnacionais buscaram crescimento e expansão por detrás do modelo neoliberal, encadeando-se em um deslocamento de capitais pelo planeta. Nota-se, então, grupos de entidades transnacionais que espalharam conglomerados de empresas interligadas a um ente central econômico denominadas

  “cash co”, cuja função primordial é o gerenciamento e a coordenação

  de grandes fluxos de recursos e de investimento pelas suas filiais e subsidiárias, promovendo assim os grandes encaixes e desencaixes desses capitais na busca de melhor retorno ao investimento proposto.

  A otimização buscada desses retornos sobre os investimentos realizados reforçam a tese de que o capital não tem pátria. Nesta linha, Manuel Castells (1999, p.412-3) defende a ideia de que a crise dos modelos de desenvolvimento econômico, tanto do capitalismo como do estatismo, foi o fator que motivou a reestruturação do capital a partir da década de

  70. Nos países capitalistas, as empresas e determina dos governos estabeleceram medidas que culminaram com o que o autor atribuiu de “novo” capitalismo. O fator motivador para tal, segundo o próprio Castells (1999), foram as normas de eficiência desses lucros, que impulsionaram os processos produtivos para países cujos custos diretos como mão-de-obra e matéria prima fossem minimizados. Em adição a isso, surgiram os processos de desenvolvimento de modernos equipamentos, e podemos acrescentar os softwares, que se alinhando aos processos fabris, seja pela sua eficiência da robotização, seja pelo menor custo, diminuíram os postos de empregos, aprofundando-se em uma falta de equidade de renda na sociedade daquele país (p.431).

  Em consequência disso tudo, na linha de Castells, mercados pressionados por entes competitivos deslocaram posições de empregos. Por seu turno, quase de forma concomitante, fragilizaram-se os movimentos sindicais promovendo desta forma flexibilizações de trabalho, principalmente no quesito valor de mão-de-obra, conduzindo assim tal política a uma redução do estado do “bem estar social”, alicerce do contrato social daquele mesmo Estado-nação globalizado.

  O processo, assim definido como predatório por Iriarte (2010, p.144), levou até mesmo o papa João Paulo II, frente às injustiças sociais e as desigualdades sociais, a se pronunciar em relação aos fatos gerados, clamando tais acontecimentos de necessidade de “globalização da solidariedade”.

  No asegura por si misma una distribución equitativa de los recursos entre todas las personas, sino que, muchas veces, la riqueza queda concentrada en muy pocas manos. (JOÃO PAULO II, apud IRIARTE, 2010, p. 144).

  Conforme Iriarte (2010), o fenômeno da globalização processa-se por camadas, nas quais inicialmente surge o que ele denominou camada de mundialização. Nesta ocorrem, além do rompimento das fronteiras, os avanços tecnológicos, principalmente telecomunicações e informática, desencadeando uma nova escala de valores em que prosperaram, além da cultura consumista, a cultura de massa e a alienação, entre outros efeitos nocivos (p. 145).

  ESQUEMA 4: As camadas globalizantes e o globalismo Fonte: Iriarte, 2010, p.145.

  O esquema 4 permite observar as camadas em que se processam a globalização. Verifica-se a mundialização, o processo neoliberal, o globalismo e matriz da globalização.

  ESQUEMA 5: As camadas globalizantes e o globalismo Fonte: Iriarte, 2010, p. 145.

  • – O esquema5, acima, permite observar a triangulação entre os três conceitos o globalismo, a mundialização e a globalização.

2.1.2. O CONTRAPONTO NEOLIBERAL

  Dentro do contexto das principais leituras teóricas esboçadas, estão em oposição histórico s do chamado “modelo neoliberal”, os quais apregoam as ideias do livre comércio, aparecendo o cenário das privatizações em linha com o estado mínimo, o surgimento da flexibilização da mão-de-obra e, por conseguinte, a concentração de riqueza nas mãos de poucos.

  Para Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014) o neoliberalismo é um fenômeno multifacetado, resultado de um conjunto de determinantes históricos que convergiram. Dentre esses fatores, estariam os eventos da crise do dólar de 1970, as flutuações das taxas de câmbio, o aumento das taxas de juros, ocorrida nos Estados Unidos, instituída pelo Federal Reserve Bank em 1979 para conter a inflação que se estabelecia naquele país. Para os autores, o neoliberalismo foi uma dinâmica propulsora do capitalismo tanto nacional como internacional, cujos objetivos visavam a atender a classe mais alta de renda, sendo assim uma realização crucial da nova ordem social. Ainda segundo os autores:

  Sob esse aspecto, uma ordem social é também uma configuração de poder, e implíc ita nesta última noção está o poder de ‘classe’. A essa observação, as estruturas de contabilidade nacional acrescentam que uma fração grande e crescente da renda do capital norte- americano vem de fora dos Estados Unidos. Isso evolve não apenas relações de classe, mas também hierarquias imperiais, uma característica permanente do capitalismo (p. 17-8).

  Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014) afirmam que houve uma nova configuração de distribuição renda, resultado de várias tendências convergentes, com o intuito de interromper a tendência de quedas dos lucros das empresas e dos investidores,em baixos níveis nos 70. Essa nova ordem procurou, com a abertura das fronteiras, melhores taxas de retornos em novos investimentos, principalmente em países onde o custo da mão obra era mais baixo, aumentando a pressão sobre os trabalhadores (p.18).

  Similarmente ao bem estar sob placas tectônicas, crises endógenas estabeleceram-se no curso histórico da dinâmica geral do capitalismo, marcadas por progressão de tendências ocultas, estabelecida dentro dessa dinâmica. Para Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014), ambições e contradições da estratégia neoliberal interna e externa dos Estados Unidos foram solapadas de forma periódica. Os autores apresentam como principais componentes dessas contradições os seguintes aspectos: a perversa dinâmica da busca por altos rendimentos, a capacidade reduzida de governar a macroeconomia e o avanço às custas de uma trajetória de acumulação decrescente e com perigosos desequilíbrios acumulativos(p. 30-3).

  Nesse contexto, formou-se um background teórico de estudos sociológicos e sóciopsicológicos de sistemas de valores, cujo enfoque era cabível para explicar as crises e os sistemas de valores oriundos desse cenário.

  Dentre esses autores está Samuel Phillip Huntington, em sua obra “O

  Choque das Civilizações ” (2009), cujo argumento central é de que os conflitos mundiais não ocorrerão em uma luta de classes ou entre grupos economicamente definidos, mas entre povos pertencentes a entidade culturais diferentes. Para ele, o eixo central da política mundial pós-guerra fria ocorrerá no embate entre o poder e a cultura ocidental e poder da cultura de civilizações não ocidentais, como a chinesa e a islâmica, sendo essas últimas as que estariam em franca expansão (p. 29-30).

  Na linha culturalista, Inglehartapud Outhwaite(1996), através de estudos empíricos, desenvolveu a tese em que a estrutura social e a cultura política guardam entre si uma estreita relação de ligação.

  As modernas sociedades avançadas, em especial entre os jovens membros dessas sociedades, estão ficando mais atraídas para os valores pós-materialistas, como a livre expressão e a qualidade de vida à custa de questões mais tradicionais e prosaicas como crescimento econômico, pleno emprego e progresso material (p. 792).

  Em outro de seus estudos, Inglehart e Wezel (2004) procuram explicar que essa relação afeta os indivíduos em seus valores e estes, por seu turno, geram consequências sobre os processos democráticos e de forma circular. Podemos ver tal afirmação em:

  Em sociedades que foram tabuladas por um alto nível de critérios de segurança no estado de bem-estar social (existentialsecurity) por um longo período de tempo, seria esperado encontrarmos diferenças

  substanciais entre os valores das mais velhas e das mais novas gerações. Nestas sociedades, os mais jovens tendem a ser atraídos por valores individualistas, enquanto os mais velhos continuam

atraídos por valores de sobrevivência (p. 2388).

  O gráfico a seguir demonstra-nos parte das suposições teóricas dos autores citados:

  GRÁFICO 1: Inglehart e Wezel tabularam níveis de valores de aspiração de liberdade e democracia.

  

Fonte: Inglehart e Wezel, 2004.

  Sintetizando esse argumento, Inglehart e Wezel (2005) escrevem que

  [...] pela redução da incerteza econômica, da mobilização cognitiva e pela diversificação dos intercâmbios humanos, o desenvolvimento socioeconômico diminui as restrições objetivas das escolhas humanas. As pessoas se tornam materialmente mais seguras, intelectualmente mais autônomas e socialmente mais independentes. Assim, experimenta-se uma maior autonomia da experiência 11 11 humana (p. 2388. Tradução nossa).

  “[…] by reducing economic insecurity, by cognitive mobilization, and by diversifying human

exchanges, socioeconomic development diminishes objective constraints on human choice. People

become materially more secure, intellectually more autonomous and socially more independent. Thus,

  Aos olhos de seus críticos, entre eles D. Davis e C. Davenport (1999, p. 650), a correlação existente no uso da estatística não poderia ser tratada através de análise fatorial que trata os elementos da série de forma igualitária.

  De outra forma, Elias (1994, p. 64-65) critica a corrente de pensamento do ser biológico supra individual, estabelecido com modelos científicos que tendem a assumir a evolução da sociedade como um ser orgânico, com estágios de evolução automatizados, como as teorias extraídas da biologia e aplicadas às diversas sociedades. Nessa linha, o ser individual tem pouca ou quase nenhuma importância para o desenvolvimento do seu entorno societário. Critica também a corrente que retira da metafísica a ideia do processo social em que o ser se move inexoravelmente em determinada direção (determinista).

  Outro autor, de uma linha neoliberal, é Jeffrey Sachs (2005) que explica o desenvolvimento de alguns países em detrimento de outros, através de uma confluência de condições favoráveis, que privilegiou basicamente a Inglaterra, e que na feliz combinação de desenvolvimento tecnológico com a organização social permitiu a migração desse progresso para outros países. Para ele:

  O aspecto mais importante é que o crescimento econômico moderno não foi somente uma questão de “mais” (produção por pessoa), mas também de

  “mudança”. A transição para esse crescimento envolveu urbanização, mudança de papéis dos gêneros, aumento da mobilidade social, mudança da estrutura familiar e crescente especialização. Foram transições difíceis, que implicavam múltiplas convulsões na organização social e nas crenças cult urais”. (p. 926).

  O autor afirma ainda que o processo de disseminação desse crescimento foi marcado por conflitos sistêmicos entre povos de países ricos e de países pobres, uma vez que determinados países cresceram em ritmos diferentes de outros, com diferentes graus de riqueza e poder global, ocasionando conflitos de ordem econômica (Ibidem, p. 926).

2.2. A DINÂMICA DA MATRIZ DE GLOBALIZAđấO

  Sob sua égide, ocorre a chamada matriz da globalização, em que predomina o imenso poder do capital transnacional, que por sua natureza tem o viés de gerar lucro pelo lucro, não criando emprego, mas investindo em tecnologia e processos de robotização. Os lucros auferidos pelo estratagema implementado deslocou o capital para que se refugiassem em locais em que a tributação fosse eivada de privilégios, os chamados

  “paraísos fiscais-financeiros”, o que Iriarte (2010, p.115) denominou

  12 , levando essencialmente a perda de soberania dos “La corrupción financeira”

  países e, por conseguinte, tornando-se uma das matrizes do domínio do mercado econômico-financeiro internacional.

  Na esteira, Castell (2008) aduz que as novas tecnologias da informação desempenharam papel decisivo ao facilitarem o surgimento desse novo capitalismo, agora rejuvenescido e mais predatório, proporcionando no campo da informática mecanismos que evoluem exponencialmente em termos de progresso tecnológico. (p. 118 e 120).

  Por esses mecanismos, terceirizam mão-de-obra, inclusive administrativa dos escritórios das sedes, pois seus custos tornaram bastante favoráveis para as empresas deslocarem setores para outros países ao redor do chamado “mundo globalizante”. Surgem, com isso, as estratégias de mercados e as oportunidades ofertadas que atravessaram fronteiras, abastecendo não só o consumo como também as rendas de outras nações.

  O que assistimos foram novas redes de conexões de mão-de-obra e desconexões de outras movidas pelo interesse ou desinteresse que determinadas economias manifestaram. Em seu texto, Castells (1999) aprofunda a sua análise no dinamismo social gerado e afirma:

  Por essa razão, faz-se necessário, na avaliação da dinâmica social do informacionalismo, estabelecer uma distinção entre vários 12 processos de diferenciação social: de um lado, os termos

Termo cunhado por Iriarte (2010) para designar que uma gama de investimento e de serviços

financeiros é realizada por organizações que cometem delitos em empresas legais mediante um

processo de lavagem de dinheiro sujo e que hoje se vê facilitado pelas tecnologias e operações

bancárias eletrônicas. Entre esses países, segundo Iriarte, nas Ilhas Cayman operam cerca de

34.400 bancos. Nesses locais (denominados “offshore”) o dinheiro pode movimentar-se até 70 vezes

  desigualdade, polarização, pobreza e miséria se enquadram no domínio das relações de distribuição/consumo ou apropriação diferencial da riqueza gerada pelo esforço denominado de “O Quarto Mundo ”. De outro lado, individualização do trabalho, super exploração dos trabalhadores, exclusão social e integração perversa são características de quatro processos específicos vis-à-vis as relações de produção. (p. 96).

  Castells (1999) traz alguns dados alarmantes e transformadores nas vidas dos indivíduos.

  A diferença de renda per capita no país mais rico versus o mais pobre, entre 1870 e 1989, multiplicou-se pelo fator 6; e o desvio- padrão do PIB per capita cresceu entre 60% e 100%. [...] Nos últimos 30 anos, US$ 5 trilhões dos US$ 23 trilhões do PIB Global originaram-se dos países em desenvolvimentos. [...] Os bens dos 358 maiores bilionários do mundo (em US$) superaram a soma das rendas de países com 45% da população mundial (p. 100).

  Em relação ao empobrecimento, define: “Em 1990, considerando a linha de pobreza extrema o nível de consumo equivalente a um dólar por dia, 1,3 bilhões de pessoas, ou seja, 33% da população do planeta”. (Ibidem, p.106).

  No ápice da euforia da globalização, os fluxos de capital para os países em desenvolvimento aumentaram seis vezes em seis anos

  • – período de 1990 a 1996 – e a propaganda neoliberal indicava que o processo traria aos países ganhos estrondosos, tanto aos desenvolvidos como aos em desenvolvimento.

  Surgiu assim, em paralelo à revolução da informação espalhada pelo planeta, novas oportunidades e ofertas de um processo de globalização dos mercados de bens e serviços, e o aparecimento no cenário de novos atores no mercado representados por grupos empresariais transnacionais, operando muitas vezes através de mega-redes internacionais. É o novo ideário das fronteiras livres, afirma Castells (1999), que promoveria o estado de bem estar social de poucos.

  De acordo com Joseph Stiglitz (2007), o ideário neoliberal reavivado no Consenso de Washington, em 1988, limita a atacar o estado de bem-estar de muitos, aceitando a premissa de que a desigualdade existente é menos importante que o processo de liberalização do comércio e de liberalização de capitais, o que, por sua vez, era fundamento dessa política econômica forjada, difundida e regulada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Tesouro americano (p. 79). O autor chama atenção ao fato de que, já a princípios do século XXI, o Consenso de Washington estava desgastado e surge então um pós-Consenso de Washington, fundamentado quase exclusivamente no aumento do PIB de cada país, sem nenhuma atenção à sustentabilidade econômica, social, política ou ambiental do modelo de crescimento adotado. É sob esse paradigma que hoje os principais dirigentes das políticas econômicas conduzem seus planos macro e microeconômicos (Ibidem). Os defensores deste ideário, afirma, acreditam que a abertura do comércio e liberalização deste trará uma prosperidade sem precedentes. Eles pleiteiam que os países desenvolvidos abram-se para as exportações dos países em desenvolvimento, retirando as barreiras instituídas e permitindo o livre trânsito dos fluxos de bens e serviços. Entretanto, tal liberalização do comércio representa um dos aspectos controvertidos com reflexos sociais, perda de soberania, entre outros pressupostos.

  A competitividade e a produtividade são as capas ideológicas de discursos de ordem, que tomaram corpo no conhecimento tecnológico e no avanço do processamento de dados (informática), levando a uma busca transformadora de conhecimento e capacitação tecnológica dos detentores de capital aos demais

  

players carentes e atrasados nesse plano. Tal conhecimento e capacidade fez com

  que os fluxos produtivos tornassem-se mais competitivos, acentuando-se de forma voraz o clássico conflito entre capital e trabalho, movido pela busca predatória do lucro que acabava por estimular a exploração da mais valia dos trabalhadores.

  Notamos, pesquisando em Marx, a clara divisão entre capital e trabalho, que nesse momento fica bem latente. Tal divisão não possui contornos de fronteiras de um conceito ao outro, ela não é muito bem recortada e os elementos de fronteira mostram-se difusos mediante o esfacelamento da classe burguesa, restando claramente duas categorias: as dos grandes capitalistas e as dos trabalhadores, massacrados pela ameaça de seus empregos, constituindo-se em uma massa incoerente, espalhada pelo país todo e fracionada por essa concorrência.

  Ainda, no âmbito de Marx, a competição estimulada e crescente entre os membros da burguesia e a crise comercial resultante fez com que os salários dos trabalhadores flutuassem cada vez mais baixo, levando a colisões entre esses trabalhadores e os indivíduos burgueses. Assim, colisões previstas por Marx parecem surgir de forma tão intensa que aparentemente forma-se um novo ente comum, o mercado concorrencial, na lacuna criada entre capital e trabalho, criando- se, ao que parece, agora, um trinômio: capital, trabalho e mercado concorrencial. Como informa Stiglitz (2007), essas colisões estão visualizadas nos relatórios da Comissão Mundial sobre as Dimensões Sociais da Globalização, órgão criado em 2001 pela Organização Mundial do Trabalho. Stiglitz nos traz tal texto:

  O atual processo de globalização está gerando resultados desequilibrados, tanto entre países como dentre deles. Criam-se riquezas, mas um número muito grande de países e de pessoas não está se beneficiando dela. Eles têm pouca ou nenhuma voz na moldagem do processo. Vista através dos olhos da vasta maioria das mulheres e dos homens, a globalização não atendeu a suas aspirações simples e legítimas de seus empregos decentes e um futuro melhor para os seus filhos. Muito deles vivem no limbo da economia informal, sem direitos formais e numa faixa de países pobres que subsistem precariamente às margens da economia global. Até mesmo nos países economicamente bem-sucedidos, alguns trabalhadores e algumas comunidades foram afetados de forma negativa pela globalização. Enquanto a revolução nas comunicações globais aumenta a consciência dessas disparidades[...] esses desequilíbrios globais são moralmente inaceitáveis e politicamente insustentáveis (p. 67-8. Grifo nosso).

  Segundo o levantamento dessa Comissão, entre 1990 e 2002, cerca de 185,9 milhões de pessoas tornaram-se desempregadas e 59% da população mundial vivia em países com desigualdade crescente, com apenas 5% em países com desigualdade em declínio. (Ibidem, p. 67). De forma constante e não uniforme ocorreu uma forte concentração de mercados, quer seja pelos anteriores existentes, quer seja pelos novos emergentes, os quais reestruturaram as sociedades locais. Criaram-se assim condições para que rendas per capita de determinadas regiões fossem incrementadas em detrimento de outras, gerando-se uma gleba de novas necessidades localizadas, até então não existentes, promovendo-se novos ciclos econômicos regionalizados impulsionados pelo surgimento dos novos consumidores daquela região.

  Entrementes, a desindustrialização, efeito causado justamente quando a concorrência destes novos mercados, decorrente do deslocamento geográfico da produção, levou a mão-de-obra regional para outras regiões do planeta, eliminando empregos locais e promovendo situações de misérias. Em consequência, criou-se na região originária do processo produtivo uma estagnação de renda e consumo, ocasionando um acréscimo de desigualdade social.

  “Para aqueles que têm emprego, grande parte dessa insegurança advém do risco de ser despedido ou de queda abrupta dos salários

  ” (STIGLITZ, 2007, p.72). Uma das conclusões do relatório encomendado por Stiglitiz quando estava a frente do banco Mundial. Uma vez que a economia atual processa-se em rede, de acordo com Castells (1999), tal efeito provocou uma espécie de avalanches, ocasionando uma redução da qualidade de mão-de-obra, conhecimento, educação das pessoas que ali habitam, tornando-se precária a relações de trabalho de modo geral. Castells (1999) definiu esse processo como o surgimento de um

  “buraco negro”, em alusão ao conceito da Física que explica o desaparecimento da luz no espaço, quando esta ingressa em determinada região. Nessa alusão, prediz que os buracos negros são campos gravitacionais no espaço pelo qual matérias e energias são tragadas quando ingressam nesses campos. Em paralelo, capitais em investimentos vão desaparecer quando adentrarem nessa região, afirma, criando aversão Capitalista à região, pois os donos do capital tendem a rejeitar riscos altos, o que torna seletivo o mecanismo de empregabilidade do investimento e, deste modo, desencadeia o analfabetismo funcional a milhões de trabalhadores, trazendo energia destrutiva da pobreza e levando famílias e jovens, outros elementos da sociedade, a um ciclo vicioso. Surgem assim bolsões de exclusões sociais que convivem lado a lado, tanto na América, na Ásia e na África, com enorme concentração de renda e riqueza.

  Do lado oposto, a concentração de riqueza proveniente dos mercados emergentes espalhou-se por outros pontos dos continentes, surgindo novos “players” no jogo, os novos ricos, que também passaram a se concentrar em grandes bolsões de recursos financeiros. Estes, por sua vez, cada vez menos deixaram de ser absorvidos no processo produtivo, com os lucros das indústrias começando a declinar a partir de 1980. Ao procurar se recolocar em atividades mais lucrativas, o capital buscou o mundo financeiro, e este excedente, na busca incessante de retornos financeiros, migrou em parte para outros mercados mundiais.

  Conforme David Harvey (2011), na década de 80, houve um deslocamento do capital excedente na produção, particularmente na China. Isto aconteceu em razão de os produtores pressionarem por preços menores, exigindo uma maior produtividade com investimentos em máquinas e equipamentos mais eficientes.

  “Os lucros começaram a cair depois de mais ou menos 1990, apesar da abundância de trabalhadores com baixos salários. Salários e lucros baixos são uma combinação peculiar” (p. 32).

  Resultou disso a migração maior de dinheiro em especulação de ativos, em que os lucros poderiam ser realizados mais rapidamente.

  Porque investir em produção de baixo lucro, quando você pode tomar emprestado no Japão sem taxa de juros e investir em Londres a 7% com cobertura para seus investimentos em caso de uma possível e deletéria mudança na taxa de cambio iene-libra?(Ibidem).

  Foi nesse período que surgiu com mais intensidade o sinistro mercado de derivativos, com as explosões de dívidas das empresas e dos países: “Quem precisava se preocupar com o investimento na produção quanto tudo isso estava acontecendo? Esse foi o momento em que a financeirização da tendência da crise do capitalismo começou de fato” (Ibidem).

  Tal capital formado, deslocando-se de um lado para outro no planeta em especulações financeiras, transita pelas bolsas de valores dos diversos continentes, gerando também um capital portador de juros (parasitário) que especula capital produtivo, e o processo ocorre de modo circular.

  Surgem então países que proporcionarão guarida e segurança a essa nova economia de capital parasitário, quer seja flexibilizando os procedimentos regulatórios através de seus respectivos Banco Centrais, não importando mais a verdadeira origem e os fins a que se destinam esses capitais que ingressam naqueles países, deixando somente os tributos gerados pelos lucros realizados, ou ainda o próprio recurso disponibilizado ser aplicado pelas instituições financeiras locais.

  Tais movimentações financeiras, cujas sedes desse capital são em paraísos fiscais, escondem os verdadeiros proprietários. Esses são locais representados por pequenos países ou protetorados, na maioria ilhas inglesas, que permitem a constituição de empresa em forma de sociedade anônima, isentando os seus proprietários de qualquer tributação.

  Outras movimentações de capitais espalhadas pelo globo constituem-se em forças tão intensas que a dinâmica capitalista é capaz de criar novos valores baseados em “papéis sem lastros físicos” para sustentar o investimento aplicado, ou seja, simplesmente papéis sem o anteparo de uma riqueza tangível, o que acaba por gerar crises econômicas (capital fictício).

  De forma ilustrativa, tecnicamente, ocorreu que recursos escusos, proveniente de países principalmente do leste europeu, encontraram asilo na Grécia, com benefícios de redução de impostos. Tais recursos utilizaram-se do país como base para operarem em outros países, também na linha especulativa, e os lucros auferidos naquela base possuíam certos benefícios fiscais. Ocorreu que, com base no ingresso desses recursos, originário do capital parasitário, a Grécia pode também especular em títulos de longo prazo, sob a forma de papel sem anteparo de lastro real, aplicados no chamado ativo derivativo, operados essencialmente por bancos norte-americanos. Assim, o título primário não tinha sustentação econômica.

  Como todos os papéis são títulos baseados em realizações futuras, promovidas por apostas em certos índices distantes da realidade presente, quando esse futuro não materializa como esperado, os países não podem promover o pagamento de suas dívidas, e então sucumbem diante do processo, tornando-se inadimplente, como demonstrado recente de Creta, quando o capital transitório evadiu-se daquele País, salvando-se e deixando Creta (e seus habitantes) em estágio de falência.

  Os mecanismos da nova estruturação dos Estados-nação posicionam-nos diante de poderosas empresas-impérios transnacionais.

  Stiglitz (2007) aduz que “entre as escolhas centrais com que todas as sociedades se defrontam, está o papel do governo” (p. 47). Nenhuma economia existiria se não fosse a sua sociedade e o papel que ela representa. Quanto ao

  Governo, tem o papel importante de estabelecer o equilíbrio entre o mercado e a sociedade, fato que parece ter ficado de lado pela avalanche da globalização.

  No processo de industrialização, as redes de empresas geradas e a interpenetração de mercados oferecem oportunidades para o surgimento de empresas transnacionais. Tais empresas, ao buscarem expandir-se pelo planeta enfrentando seus competidores no mercado global, criaram mecanismos contínuos de desinvestimento e reinvestimento de capitais. Sendo assim, esses mecanismos foram precursores dos fatores geradores de emprego e desemprego naqueles países.

  As empresas, estabelecidas em rede, vão buscar custos menores objetivando aumentarem de forma selvagem os seus lucros, em regiões onde o custo social é mais baixo ou fortemente precário, forçando assim, nos países em que se instalam, uma espécie de flexibilização dos mercados de trabalhos. O processo produtivo possui agora uma matriz de fabricação fragmentada em partes, cujo produto final é montado em país distinto daqueles em que ocorrem a produção dessas peças.

  Neste sentido, Castells (1999) assevera que a desindustrialização, em consequência da globalização da produção, da mão-de-obra e dos mercados internacionais, fizeram com que houvesse um deslocamento geográfico das indústrias e serviços de empresas, bancos, etc. dos países centrais para outras regiões do planeta, eliminando empregos locais (p. 190).

  O processo de globalização colocou assim em xeque não apenas a capacidade do Estado-nação em controlar a sua economia e fazer frente às questões sociais. O poder de transferir investimento de um Estado a outro pelas empresas transnacionais fez com que tais países tornassem-se submissos ao poder dessas organizações. Isto significa que o poder político constituído ficou ofuscado por essas organizações que, guardadas as devidas proporções, não têm superveniência alguma.

  O agravamento da crise social tem raízes neste poder, quando as empresas transnacionais, em uma busca selvagem de maior lucro, difundem e semeiam o caos social na busca de certas relações sociais proveitosas, beneficiando-se para poderem se instalar nas regiões com menor custo social. A esse processo denomina-se “estratégias” ou oportunidades”.

  Em outro sentido, Jacques Fontanel, em “A Globalização em Análise

  Geoeconomia e Estratégia dos Actores ” (2005), afirma que globalização pressupõe a abertura e a liberdade dos mercados financeiros. De acordo com o autor, a transnacionalização das estratégias das empresas oligopolistas, a difusão da tecnologia e dos conhecimentos levaram mudanças nos comportamentos de consumos, das populações, possibilitando maior escolha nas necessidades desses consumidores, trazidas pelo poder das comunicações se introduzidas nesses países sede, ocasionando-lhes uma forte influencia de pseudonecessidades voltadas aos novos produtos.

  Essas pseudonecessidades encontraram barreiras nos Estados-nação quando estes procuraram regular e restringir o ingresso de mercadorias produzidas por outros países (Ibidem, p. 8). No entanto, o acesso de consumidores a meios de comunicação em rede global faria com que cultura e mercado se associassem desde os anos 70, estreitando tais laços nos anos 90 em diante, difundido principalmente pelos recursos de publicidade global, trazidos pelas empresas transnacionais. Objetivavam essencialmente divulgar e vender produtos.

  Alguns críticos entendem que a globalização homogeneizou as culturas locais, ao imporem uma cultura de massa avançada em um multiculturalismo que culminou em uma demanda cultural pluralista. Dessa forma disseminaram-se novos conceitos contra os Estados-nação, desqualificando-o, contestando-o e questionando fortemente a ideia da sua existência.

  Fontanel (2005) ilustra tal ideia com uma máxima de Santo Agostinho, “os reinos são como bando de malfeitores”, na concepção depreciativa do estado vadio e usurpador(p.8)

  Tais contestações na busca de um Estado menos intervencionista na economia vão se cruzar com os conceitos estabelecidos por Fernand Braudel, em “Civilisation matérielle, économie et capitalisme” (1979), que trouxe o uso da expressão mundialização dos Estados-Nação. Por esta expressão, afirma Fontanel, pode-se subdividir em conceitos menores distintos: a da economia mundial contrapondo-se de economia-mundo (Ibidem).

  A primeira expressão trata da economia como um todo e, por seu turno, a segunda traz a ideia de um todo único e coerente, independente e que se basta por si mesmo. Ou seja, um conceito é o da existência uma unidade autônoma, o outro prediz uma interdependência de várias nações unidades ligadas em grande e único todo. É

  “um pedaço do planeta economicamente autônomo, capaz, no essencial de bastar-se a si mesmo, e ao qual as respectivas ligações e trocas internas conferem uma certa unidade orgânica”. (BRAUDEL, 1996, p.12).

  Para Fontanel (2005), a globalização constitui-se em um processo geoeconômico de duplo significado antagônico: para uns, os estados curvam-se às tecnoestruturas internacionais, submissos ao consumismo; para outros, trata-se de um processo irreversível, inevitável e beneficiário do desenvolvimento econômico mundial (p.9).

  Tal antagonismo, presente na vida social das nações, vai se constituir em dois princípios: a internacionalização e a multinacionalização. Para o primeiro, verteu-se nas trocas comerciais entre agentes internos e externos, expresso em um quadro concorrencial em detrimento da complementaridade. O princípio de multinacionalização trata dos mecanismos de transferências de recursos, no qual o capital transita de uma economia para a outra, promovendo o investimento e as aquisições locais naquelas nações, fazendo com que estas percam a sua identidade, e, por conseguinte, transcorra-se em uma subordinação do Estado- nação a outro, provocando naqueles subordinados fortes reações nacionalistas locais (Ibidem, p.9).

  Podemos observar que as trocas propostas por Fontanel nem sempre ocorrem por simples troca, mas muitas vezes o país produz algo dentro de um planejamento e de uma estratégia proposta pelas empresas transacionais, cujo interesse dá-se pelo baixo custo social daquele Estado-nação. Em relação ao trânsito livre de capital, vemos que se trata de processos com finalidades específicas:

  O capital especulativo parasitário resultaria da conversão da forma autonomizada do capital a juros ou capital portador de juros, quando este ultrapassa os limites do que é necessário para o funcionamento normal do capital industrial. Sua lógica especulativa própria chega a contaminar até mesmo as funções produtivas, autonomizadas ou não, e, assim, o que constituía capital industrial se converte em capital especulativo. Este, como síntese dialética do movimento de suas formas funcionais, tem o capital especulativo parasitário como pólo dominante (CARCANTIOIO&NAKATANI, 1999, p. 4).

  No debate, David Held (2007) pressupõe que o Estado pode ser entendido como um agrupamento que se legitima através de violência e coerção e possuí o monopólio pelo uso de leis estabelecidas sobre o seu território. Ele representa o significado de fronteiras que está mudando em função do crescimento das transações intra-fronteiras e que não aceita os novos arranjos e novos controles contra os anteriormente já estabelecidos (p.344).

  Fontanel (2005) destaca, neste processo de reação dos Estados, algumas características do processo de mundialização: a) A integração dos mercados: A buscada mundialização conduz o Estado, em um primeiro momento, a uma limitação de desenvolvimento econômico.

  Posteriormente, em nova fase, vai ocorrer um desenvolvimento econômico com a integração dos mercados, trazido principalmente com a contribuição decisiva das novas tecnologias ali estabelecidas, mesmo com os ajustes das qualidades inerentes a cada País. A abordagem das empresas em rede surge quando estas buscam na sociedade global baixos preços oferecidos. Segundo Fontanel (2005), isto explicaria o surgimento de países com desenvolvimento tecnológicos avançados em alguns locais diferentemente de outros cujas obsolescências tecnológicas tornam-se presentes (p. 23).

  b) Novos investimentos: com a necessidade concorrencial, as empresas buscam realizar investimentos e desenvolvimento local, através de acordos com os

  Estados. Inicialmente, começa-se a fabricar seus produtos naqueles países em que se acordou o ingresso do investimento. Posteriormente, ocorrerá a exportação a partir daqueles países para outras nações, criando assim uma estrutura de investimentos regionais, culminando com a abertura das economias destes estados, visando possibilitar o ingresso de novos capitais (p.31). Como consequência, Ohmae, citado por Fontanel em

  “The end of Nation-

  State

  ” (1995), afirma que os Estados-Nação tornaram-se não naturais, desencadeando disfunções na organização das atividades humanas (OHMAE, apud FONTANEL, 2005, p.10). Segundo o autor, é possível produzir com cada vez menos mão-de-obra, mas paradoxalmente é necessário diminuir o desemprego, tido como principal problema social da nossa época.

  c) A troca de fluxos financeiros: Com a mundialização, inicia-se um processo de acumulação e concentração de capitais. Porém, na visão do FMI, está ocorrendo uma simples integração crescente das economias nacionais. Nessa vertente, há um fluxo de mão-de-obra e de conhecimento, levando a uma aceleração da integração do processo técnico deixado em cada país.

  13 Para o FMI, segundo Fontanel, a mercadização e a concorrência levam

  ocasionalmente a um aumento de desigualdade e ao acréscimo de crises econômicas nacionais e internacionais. Segundo aquele órgão, as crises decorrentes do desenvolvimento, na mundialização, são derivadas de dois fatores: a equidade e a transparência, entendendo a equidade a ausência de consistência em suas taxas de câmbio, na minimização de dívida pública e na falta de transparência de contas públicas (Ibidem, p. 34).

  d) Capital sem pátria: - As empresas multinacionais ajustam-se em suas políticas em função dos graus evolutivos de mobilidade de capitais disponíveis. O capital vai buscar países em seu proveito, definidos por acordos internacionais de comércio. Como exemplo, Fontanel cita os casos da IBM, a maior exportadora de computadores no Japão, e da Sony, a maior exportadora de televisores para os Estados Unidos, utilizando o jogo de interesses de cada Estado(Ibidem, p. 45).

  13 e) O desbalanceamento comercial: Com a concentração de exportação, surge uma forte homogeneização de produtos derivada de uma rearticulação internacional, proveniente de fatores de produção e de cultura. Isto leva a uma intensa discussão na Organização Mundial de Comércio (OMC), em relação à reciprocidade de regras para exportação e importação de produtos similares pelos países membros. As proteções comerciais estabelecidas através de taxação de determinados produtos quando das importações conduz à condenação, levando o país prejudicado a explorar nas condições favoráveis, de acordo com as regras estabelecidas pela OMC (Ibidem, p. 48- 9).

  f) O multipluralismo cultural e de leis: A evolução da sociedade de informação e da mercantilização dos serviços do ensino e da cultura leva determinados países a introduzirem ingerências em outro país. Os direitos nacionais muitas vezes contrariam os direitos e os interesses de países ditos liberais, pelos quais o interesse no consumo de certo produto tenha determinada concessão obtida no país originário, contrariando os obstáculos pelos valores protecionistas e monopolistas (Ibidem, p.44-7). Esses processos sintetizam as linhas características dos processos globalizantes, mas nessa matriz é necessário firmamos as colunas dos diferentes pontos de vistas daqueles que têm visões diferentes do que seja globalização: os “players” do jogo.

  De acordo com David Held (2007), essas características restringiram-se em três outras dimensões: a) cultura e informação, b) os modelos econômicos e c) governança.

  As três dimensões proposta por Held (2007,p.720) são marcadas por três matrizes de posicionamento que expressam diferentes vertentes: os globalistas, os internacionalistas e os transformacionalistas.

  Held (2007) aduz que, na visão desse primeiro grupo, há o pressuposto da existência de uma nova estrutura global com regras próprias para os macro- operadores do sistema como os países, corporações e pessoas. Afirma, ainda, que o processo é um fenômeno real e tangível que ocorre em escala global. Seguindo o autor, os impactos têm ocorrido em vários locais, com aumento das interconexões transpassando as fronteiras e diminuindo as autonomias locais, bem como as soberanias dos países. Trata-se de um processo irreversível, cuja resistência levaria ao fracasso. Para estes países, o processo histórico já vem ocorrendo e as economias locais, bem como as culturas, já estão submetidas (p.732).

  Para os demais países, o processo de globalização é um instrumento de desenvolvimento inevitável, e tal processo não poderia ser impedido pelos Estados. Afirma a existência de uma nova geografia das relações sociais e que esses processos transcorrem em uma escala global. (Ibidem, p. 726). A partir dessa escala global, as soberanias nacionais e as corporações tendem a diminuir, dobrando-se ao fluxo global.

  Os globalistas, segundo Held (2007), subdividem-se em dois subgrupos: os positivos e os pessimistas. Para o grupo dos positivos, os benefícios da globalização estão focados nas relações estabelecidas pelos meios de comunicação e na condição de cidadãos. As pessoas são responsáveis pelo nivelamento dos níveis de consumo. Apregoam que essas relações sociais redundariam em uma melhor qualidade de vida ao usufruírem dos padrões de consumo externo.

  Em contraste, os pessimistas veem o mundo perdendo a sua diversidade e ficando cada vez mais homogêneo, submerso a interesses igualmente globalizantes. Veem as soberanias nacionais diminuindo as suas identidades e apontam as desigualdades como consequência da globalização (Ibidem, p. 737-42).

  Para os internacionalistas, afirma a globalização não é nenhum processo novo e sim uma continuidade entre o passado e o futuro. Para eles, os acréscimos dos fluxos financeiros são, na verdade, uma evolução que remete às mesmas condições do século XIX, em que o comércio aberto e as relações econômicas liberais eram normas que atendiam a interesses econômicos de grupos internacionais. O que estaria ocorrendo seria simplesmente um progresso das relações do passado.

  Na visão desse grupo, fortalece-se a existência dos Estados-Nação, podendo estes obterem mais espaços para a manobra na busca de oportunidades para priorizarem as suas políticas e relações econômicas, através de organismo (agências autônomas). O enfraquecimento dos Estados-Nação, apregoado pelos globalistas, nada mais é do que uma forma de burlar impostos e diminuir condições de salários adequados (Ibidem, p. 751).

  O terceiro grupo possui um enfoque independente e é representado pelos transformacionalistas, os quais promovem uma intermediação entre os dois grupos anteriores, posicionando-se em um papel conciliador entre os dois outros.

  Para este, o formato das nações-estado não é submetido aos grupos com poderes transnacionais. Elas se posicionam de forma independente a estes grupos, fazendo uso dos interesses comerciais e políticos refletidos nas corporações que buscam suprir os seus objetivos concorrenciais e necessidades primordiais.

  Esse grupo acredita que a globalização representaria mudanças representativas, porém, atenuam os impactos decorrentes. Argumenta que os pressupostos dos globalistas não são inevitáveis, admite que as forças que governam a mundialização podem ser controladas por sistema de governança mundial, dosando-se esse complexo de relações de interconexões. Na sua concepção, o poder é exercício indiretamente através de um processo regulatório estabelecido através de agências nacionais.

  Acredita também em uma nova forma de estrutura em que predominaria uma democracia responsável. Por essa estrutura, as nações-estado manteriam a geografia territorial com autonomia. Essa estrutura e as agências seriam a chave interativa para a manutenção das relações sociais e econômicas (Ibidem, p.762).

  Nessa linha, Eli Diniz (2006) aduz que cada vez mais, dada a rigidez das relações da contraposição dos fatores externos e internos, se exigirá das elites que administram a maior ou menor autonomia uma capacitação técnica de alta qualificação e também dependerá das opções políticas comprometidas ou não com os marcos territorialistas e nacionalistas (p. 19).

  Ainda, nessa linha, Stiglitz (2007) afirma que caberia uma mudança de mentalidade, se quisermos mudar o modo de administração da globalização. Entende que o debate não seria mais “pró” ou “anti”, mas perceptível quando mais da metade da humanidade estiver integrada à economia global

  • – cerca de 2,4 bilhões de pessoas
  • – incluindo-se a China e Índia (p. 87).No entanto, ressalta que embora a globalização seja inevitável, não se deve aceitá-la com seus defeitos, mas na medida em que as democracias avançam pelo planeta elas podem ou beneficiar tais pessoas ou provocar reação dessas pessoas, por não atingir a todos(Ibidem, p. 87).

  Tal processo de integração em forma de reação já teria ocorrido anteriormente e poderia acontecer novamente. Há discursos de que a globalização poderia se insurgir contra o próprio criador (países desenvolvidos), uma vez que os salários dos trabalhadores desses países sejam comprimidos para baixo, pois tem- se em conta que 80% da população mundial vivem em países em desenvolvimento.

  No debate, nota-se, na visão de Held, que os Estados-Nação não seriam tragados pelo redemoinho da globalização, como se esperaria das consequências trazidas, visão que prevalecera nas décadas de 1980 e de 1990. Nessa vertente, vê- se no desempenho estratégico adotado pelos Estados-Nação o sucesso ou o fracasso desses estados, fato que parece ir ao encontro da terceira linha (dos transformalistas), definida por Held.

  A presença de um estado ativo construído por um esforço bem sucedido de uma economia de mercado, com a busca de soluções próprias atraindo o capital transnacional, tem sido a tônica dos últimos anos. Países em desenvolvimento, principalmente aqueles integrantes do chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e à África do Sul), tem tido procura das empresas transnacionais em linha com as suas estratégias de retornos de seus investimentos. Junta-se a isso o abalo na economia estadunidense drenando capital para outros lugares do planeta fora daquele Estado-nação. E, para a surpresa geral, tal economia continua sendo avaliada por um triplo A (na escala desde AAA máximo até E mínimo).

2.3. A EVOLUđấO TECNOLốGICA E A PROPRIEDADE

  INTELECTUAL

  Um fato marcante na evolução tecnológica foi a Feira Mundial de Nova Iorque, em 22 de abril de 1964. O evento comprovou que os Estados Unidos eram os líderes mundiais do chamado milênio do progresso (BARBROOK, 2009,p.43). A Feira representou uma espécie de propaganda do desenvolvimento em bens de consumo, política democrática, showbusiness, arquitetura, modernista, belas artes, tolerância religiosa, vida doméstica e acima de tudo, a nova tecnologia (Ibidem,p.43).

  Em plena guerra fria, os Estados Unidos apresentavam-se ao mundo de forma contumaz na captura de novos consumidores de seus produtos, tais como carros, reatores nucleares, computadores, e tantos outros, colocados ao mercado naquele momento e que se projetariam em um processo evolutivo nas próximas décadas, início do auge da globalização. Foi o que Richard Barbrook (2009) chamou de “futuros imaginários”; seria, a partir daquela data, uma espécie de profecia que estava por vir.

  A indústria até então vinculada às tecnologia do recente pós-guerra, por vezes sucateadas, seria impulsionada ao seu salto de progresso, com novas pesquisas e desenvolvimentos de produtos a serem implementados no determinismo tecnológico. Ao mesmo tempo, surgia o livro do professor canadense Marshall Macluhan

  • – “Os meios de comunicação como extensões do homem” (1964). Da mesma forma que a feira de Nova Iorque, tal livro revolucionou o fetichismo por máquinas, com a sua explicação de que toda a tecnologia era uma “extensão do homem” (Ibidem,p.111).

  De acordo com Macluhan, toda a tecnologia era uma “extensão do homem” que formava a percepção humana do ambiente em seu entorno. A cada nova forma de mídia introduzida, essa relação sensória sempre se reconfigurava. E por esse processo cibernético mudando o comportamento das pessoas, um novo sistema social seria inevitavelmente criado. A inovação tecnológica era a força motriz da história (Ibidem).

  Para Macluhan, os efeitos da tecnologia (midiática) não se dão no nível das opiniões ou conceitos, mas alteram razões de sentido ou padrões de percepção calmamente e sem resistência (MACLUHAN, apud BARBROOK, 2009, p.111). O importante era o maquinário com que a mensagem era dita. E resumiu a sua posição teórica com a sua fr ase conhecida “O meio é a mensagem”.

  Segundo Richard Barbrook (2009, p. 122), sobre a tese de Macluhan, todas as explicações políticas, econômicas e culturais não eram as razões para o surgimento da modernidade, e sim que a criação da imprensa em processo evolutivo e tecnológico foi capaz de criar um ambiente em que as pessoas eram forçadas a adotar atitudes psicológicas da modernidade, de forma individual, com racionalidade e autodisiciplina. Ele estava convencido que o surgimento da mídia eletrônica marcaria a próxima quebra de fronteira na história humana.

  Os processos cibernéticos (Internet) corroboraram em parte com isso, principalmente com os mecanismos de “contágio” da comunicação, contudo os processos políticos, culturais e econômicos não podem ser deixados de lado.

  Depois de 24 anos da Feira de Nova Iorque, surge a agenda neoliberal promovida pelo consenso de Washington que trouxe, inicialmente, uma expectativa bastante consolidada, na visão dos globalistas, de David Held, com o acréscimo de fusões e incorporações das empresas transacionais, formando os conglomerados econômicos. O que levaria inicialmente, para estes autores, o fim do Estado-Nação, pelo redemoinho existente na década de 1990. As evidências também apontavam para um jogo econômico em que os desafios seriam mais intensos, cabendo aos Estados-Nação uma profissionalização mais adequada e bem menos nacionalista, principalmente com a necessidade criada pelo consumo que se impõe e com a evolução em larga escala da Internet.

  Stiglitz (2007) aduz que:

  Os países que querem participar do novo mundo globalizado high- tech precisam de tecnologias novas, computadores e outros equipamentos para se conectar com o resto do mundo. Os indivíduos que querem competir nessa economia global precisam ter as

capacidades e os recursos para tanto (p. 133).

  Ainda, segundo Stiglitz (2007), um fato marcante que teria sido o precursor da globalização foi a diminuição dos custos das comunicações e dos transportes, ocorrida há 150 anos. Antes deste marco, o comércio era estritamente local. Acrescenta esse autor que foram as mudanças sociais, políticas e econômicas do século XIX que conduziram à formação das economias locais formando os Estados- nação. Entre estes últimos, transcorreram influxos de pessoas, ideias e tecnologia por meio da comunicação (p. 83)

  Nessa linha, Held (2007) nos traz alguns influxos que marcam o fato de que essas novas relações intra-países possibilitaram o acesso a processos tecnológicos diferenciados. A globalização, segundo o autor, é um fenômeno com impactos nas relações sociais e econômicas. Um dos aspectos são os fluxos migratórios entre fronteiras, das relações entre pessoas em rede em diferentes países. Cita, como exemplo, as ligações entre as comunidades chinesas fora da China (p.805).

  Outro fato são os fluxos-modelos comerciais e de investimentos que se espalharam pelo planeta, admitindo-se que tais modelos mudaram as relações de comércios entre nações, principalmente depois do século XIX.

  A propagação das tecnologias através dos meios de comunicação entre os países é um fato observável nas batalhas das empresas transnacionais disputando os seus mercados consumidores. É possível medir o crescimento dos aparelhos televisores e de celulares, televisões à cabo, programas internacionais etc. disseminando-se pelo mundo. Similarmente, observa-se o crescimento da indústria de entretenimento que, por si só, é um instrumento de propaganda de tecnologia, tais como celulares, carros etc.

  É visível o fator de crescimento globalizado com o crescimento da informação na Internet, e principalmente como tais dados são tratados. Com a expansão vertiginosa de dados inseridos na Internet, foi necessária à criação do conceito do

  

Big Data, em que as informações levadas para a Internet muito rapidamente

  (exponencialmente 12 vezes em 20 anos) provocam um acréscimo de memória na ordem de petabytes, descritos em uma escala a seguir:

  TABELA 1: Ciclo evolutivo das capacidades computacionais

Fonte: Elaboração própria

  Pesquisas recentes efetuadas pela IBM apontam que, em média, empresas norte-americanas com 1000 funcionários geram em um ano 200 terabytes de dados. Em alguns segmentos, chega a 1petabyte de informação. O crescimento é tão acentuado que a empresa de consultoria internacional Mackinsey afirma que empresas que conseguirem manipular dados em tempo terão vantagens competitivas uma sobre as outras.

  Com a velocidade das informações, o crescente volume dos dados e ainda variedade das informações crescendo exponencialmente, outros recursos necessários também estão presentes: computadores, televisores, celulares, placas de computadores etc.

  GRÁFICO 2: Ciclo evolutivo de registro de dados na Internet

Fonte: “Internet livestats”, disponível em < http://www.internetlivestats.com/internet-users/ >

  Por sua vez, a demanda de acessos leva a uma necessidade de máquinas mais rápidas (mais memória e processamento), alavancando-se a indústria de peças e software, movendo-se ambas em direção ao consumo gerado.

  FIGURA 5: Principais sites acessados no mundo.

  

Fonte: Domo, disponível em

  No entanto em contraste com esse desenvolvimento, certas tecnologias surgem e exponencialmente decrescem, como se nota no gráfico a seguir:

  GRÁFICO 3: Ciclo de vida de um produto tecnológico

Fonte: Hype Cycle em Gartner Information Tecnology Research Advisory

  O interessante neste gráfico é a curva que denomina- se “vale da desilusão”, cujos produtos não conseguiram um ciclo virtuoso se sucesso, como é o caso dos e- books.

  Com o acesso à rede mundial, o consumidor interno do Estado-nação, as empresas transnacionais ou ainda um simples cidadão vão se juntar em feixes de forças de pressão para que o Estado permita o ingresso de produtos, tecnologias, com preços acessíveis praticados nos Estados-nação de origem do produto, promovendo uma concorrência acirrada pelo produto.

  Algumas economias instáveis tornaram-se vulneráveis nessa situação, movidas por planejamentos equivocados, com estratégias em assimetria aos interesses nacionais de industrialização, e permitiram o ingresso especulativo dos produtos sem certo protecionismo alfandegário em simetria com as suas políticas de produção.

  Surge daí a necessidade de mão-de-obra cada vez mais especializada, provocando movimentos de capital e trabalhadores, acentuando-se que os países em desenvolvimento possuem maior abundância de mão-de-obra não especializada. Para Stiglitz (2007),

  Um país com mão-de-obra especializada produz bens e serviços qualificados. A rodada Uruguai expandiu as negociações comerciais para a área de serviços. Mas não surpreende que tenha abrangido a

  liberação de serviços como bancos, seguros e tecnologia da informação

  • – todos os setores em que os Estados Unidos têm uma vantagem
  • – e deixado totalmente forma de pauta os serviços não especializados, como transporte marítimo e construção civil (p. 174).

  Conforme Stiglitz (2007), a propriedade intelectual não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio pelo qual se permeia o estado de bem-estar-social. A inovação deve ter uma forma de comércio justo. Este seria um regime comercial que surgiria se todos os subsídios e restrições ao comércio fossem eliminados. Cita não só a tecnologia em si, mas os avanços em remédios e vacinas, cuja inovação deveria adequar-se às necessidades dos países em desenvolvimento (p. 212).

  Segundo Held (2007), mesmo na perspectiva dos internacionalistas existe a possibilidade do aparecimento de agências reguladoras capazes de dirimir os conflitos com um aspecto relativamente autônomo, quando da regulação do comércio internacional. Um bom exemplo cita-se a OMC, na qual os embates por mais ou por menos ingresso de determinados produtos nos países são travados por compensações visando a um equilíbrio (p.3593).

  Diferentemente, na visão nacionalista

  • – os globalistas – há o viés de uma cruzada fortemente ideológica, cujo primeiro plano é o melhor pagamento de salários e impostos adequados aos cidadãos, independentemente onde se produzam tais produtos.

  Stiglitz (2007) defende a criação de um fundo voltado para a inovação que entende ser mais eficaz e que poderia estimular diretamente as inovações que beneficiasse os países em desenvolvimentos. Essa posição está muito em linha com os globalistas de Held(2007, p. 220).

  Os internacionalistas, na defesa de estados mais poderosos frente a outros, visam à defesa dos interesses próprios, alegando que cada país deve defender as suas posições estratégicas e governabilidade dos seus interesses internos.

2.4. O NOVO ESPAÇO GLOBAL

  O novo espaço global surge a partir da não confluência de forças provocadas pela matriz da globalização que desequilibra a oferta e a demanda, provocando um conflito entre capital e salário. David Harvey (2013, p. 102) citando Marx através de Rowthorn, define que o valor da força de trabalho processa-se de três maneiras diferentes, baseando-se sucessivamente em: (1) o custo da produção da força de trabalho sob determinadas condições históricas, (2) o padrão de vida tradicional a que os trabalhadores estão acostumados e (3) o padrão de vida que prevalece nos modos ou formas de produção não capitalistas.

  David Harvey (2013) aduz sobre esse conflito de forças entre capital e salário, ideia de Marx: “a ideia de que a taxa salarial varia em resposta às condições de oferta e de demanda não é de modo algum difícil de ser aceita” (p. 102). Contudo, o autor pesquisando em Marx, notou que é exatamente no equilíbrio entre oferta e demanda que essas forças cessam e nada se explicaria a partir dessa convergência.

  Para o autor, Marx abjeta a identificação equivocada dos mecanismos de oferta e demanda. As forças só surgem quando os valores em geral intercambiam- se no mercado, e mediante esse desequilíbrio de forças subjacentes é que existirá a relação prevalente de uma sobre as outras (Ibidem, p. 103). Afirma ainda que a acumulação de capital

  “tem certo poder em relação a ambas” (oferta e demanda) (p.103). Segundo ele,

  “As exigências gerais da acumulação do capital têm a capacidade de exercer uma influência controladora hegemônica com relação tanto a demanda quanto à oferta da força de trabalho” (p.104). E, mas adiante, aponta que “a escassez pode surgir por razões e estão totalmente fora da influência do capital” (p. 104).

  Ao lado dessas forças, outras floresceram, tais como os recursos tecnológicos automatizando os processos industriais, crise nos sistemas bancários e, ainda, crises geradas nas empresas, tudo ocorrendo nas matrizes dos países capitalistas, fatos que também vão proporcionar a série de desempregos.

  As políticas de ajustes das macroeconomias ocorridas no inicio dos anos 90, em consonância com a ideologia neoliberal, acentuaram o desequilíbrio dessas forças nas condições da globalização neoliberal, como aduz Edgar Morin (2013). Para ele “a privatização dos serviços públicos e das empresas do Estado, recuo das atividades publicas em prol das atividades privadas, primazia dos investimentos especulativos internacionais, desregulamentações generalizadas” ocorridas nos anos 90 “amplificou todos os aspectos negativos do desenvolvimento”. Cita ainda que “o crescimento permanente dos rendimentos do capital em detrimento do trabalho aprofunda continuamente as desigualdades

  ” (p. 29). Como consequência, para o autor, o desenvolvimento predatório aumentou o número de trabalhadores escravizados na China, na Índia e em regiões da América Latina. Afirma ainda que o abandono das culturas alimentares em prol das monoculturas industrializadas de exportação expulsou os pequenos agricultores ou artesões que desfrutavam de relativa autonomia, deslocando-os para periferias empobrecidas das megalópoles, tornando-os subconsumidores de regiões sob a

  14

  forma de clusters , crescendo, assim, o numero de oferta de mão-de-obra barata e forçando a redução dos salários (p. 29).

  Outras crises sucederam-se, como a financeira de 2008 e provocou, em processos de difusão, o aumento do desemprego em vários países. Em 2009, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) estimava que 239 milhões de pessoas ficariam sem empregos formais. O desemprego na Eurozona alcançou 8%,em média, e no ano de 2009, com saltos de até 14%,atingindo países nesse patamar como o que aconteceu com a Espanha.

  Esse conjunto de fatores provocou choques desequilibrantes em outras áreas

  15

  da topologia globalizante , tais como crise nas fontes de matéria prima, no fluxo de mão-de-obra e de capital, na criação de novos polos de consumo e do desenvolvimento de sociedades baseadas no mesmo.

  Como podemos observar em Boaventura dos Santos (2011):

  Falar de características dominantes da globalização pode transmitir a ideia de que a globalização é não só um processo linear, mas também um processo consensual. Trata-se obviamente de uma ideia falsa, como se mostrará adiante. Mas, apesar de falsa é, ela própria, também dominante. E sendo falsa não deixa de ter uma ponta de verdade (p. 27).

  Aduz ainda o autor:

  A globalização, longe de ser consensual, é, como veremos, um vasto e imenso campo de conflitos entre grupos sociais, Estados e interesses hegemônicos, por um lado, e grupos sociais, Estados e 14 interesses subalternos, por outro; e mesmo no interior do campo

  

Termo cunhado na Ciência da Computação para designar um agrupamento de elementos. Aqui

15 utilizado como um agregação de indivíduos.

  

Por topologia globalizante, definimos uma imensa rede de forças interligadas num grande espectro

geométrico hamiltoniano, consensuais ou não, que se ligam mediante o menor caminho nos fluxos de

menor custo. A imagem abaixo representa um grafo hamiltoniano.

  hegemônico, há divisões mais ou menos significativas. No entanto, sob todas suas divisões internas, o campo hegemônico atua na base de um consenso entre os seus mais influentes membros (p. 27).

  Nota-se que nesse consenso antagônico é onde se legitima as características hegemônicas. A seguir, uma ilustração do artista francês Philipe Hérard (2013) pode representar o fenômeno descrito:

  FOTOGRAFIA 2

Fonte: Philipe Hérard, Collages, 2013, p. 55.

2.4.1. AS FONTES DE MATÉRIA PRIMA

  O processo da presença de empresas e Estado-nações transnacionais em outros países não é um fato novo; podemos citar os impérios persas, romanos e tantos outros. Particularmente, a partir do século XVI, com a era dos descobrimentos dos continentes, houve a prevalência dos impérios espanhol e português. Em uma síntese apertada, pode-se citar a Companhia das Índias Ocidentais cruzando os mares em busca das tão conhecidas especiarias financiadas por investidores, principalmente holandeses.

  Com a Revolução Industrial, as empresas transacionais, na busca de matérias primas para suprirem a demanda incipiente, orientaram-se na aquisição de recursos naturais, principalmente minerais. Cabe destacar que, àquela época, os processos fabris dos produtos vertiam para composições homogêneas, fracamente horizontalizadas e fortemente verticalizadas. As produções locais supriam na essência os processos fabris daquelas indústrias regionais.

  Segundo estudo da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe)os termos de trocas entre produtos básicos e manufaturados representam importante papel no crescimento e desenvolvimento dos países em função da importância das exportações e do comércio entre aqueles países. Ainda segundo esse estudo, na década de 1950,Prebisch e Singer asseveraram a hipótese de que esse intercâmbio tenderia a um processo secular de deterioração (CEPAL, 2002, p. 38).

  A hipótese vem sendo pesquisada embasada em uma amostra de 24 produtos desde 1900 até 2000, verificando-se uma queda anualizada de 1,5%.

  GRÁFICO 4: Evolução dos preços reais de commodities

Fonte: CEPAL, 2002, p. 38.

  Os pontos de inflexões denotam as crises mundiais, indicando que de 1980 a 2000 ocorreu uma queda de cerca de 30%. A crise de 1929 e as guerras mundiais acentuaram o declínio; em assimetria, os pontos de máxima intensidade tiveram representatividade no pós-guerra com os processos industriais acelerando-se e com a retomada do consumo, levando a declínio, em 1973, com a crise do petróleo e em 1979, quando o governo dos Estados Unidos, visando defender o dólar, aumentou as taxa de juros.

  Na sequência, após esses fatos relevantes, volta-se ao processo de queda e, ao que tudo indica, não haveria mais recuperação, confirmando a tese de Prebisch e Singer.

  Uma possível explicação ocorreria com o dinamismo do comércio internacional, em que os Estados mais ricos, em aprimoramento e melhorias dos processos produtivos, visando essencialmente a uma diminuição de custos promovida por fatores de competitividade, principalmente a partir da década de 70 e 80, desenvolveram os seus parques fabris.

2.4.2. FLUXOS MIGRATÓRIOS DE MÃO-DE-OBRA E CAPITAIS

  Os preços pressionaram os custos e estes, por sua vez, através de necessidades de processos produtivos, buscaram investimentos nesses setores para garantir os ganhos de escalas que o comércio internacional que demandou. Os investidores estrangeiros passaram a ter a opção de buscarem novas fontes de lucros com aplicações diretas nas indústrias em processo de crescimento.

  Em decorrência disso, formaram-se grandes polos industriais, com concentração de pessoas em torno de fábricas, gerando também investimentos em infraestruturas locais. Somado a isso, surgiram nesses polos novos mercados de produtos para atenderem a esses consumidores locais e que também foram fortemente disputados pelas empresas transnacionais. Com a concentração no entorno do processo produtivo, muitos polos tradicionais e antigos foram desativados, deslocando-se para uma nova geografia formada por busca de custos menores. Cita-se como exemplo as indústrias transnacionais na Ásia, particularmente na China e Indonésia.

  Desta forma, a lógica da busca dessa mais valia moveu empresas a um processo de escolha da melhor estratégia de localização e logística, migrando para esses polos recém-formados, na tentativa de capturar novos mercados consumidores para seus produtos. Surgem então os processos de reengenharia de produtos através de estudos e esforços no seu aprimoramento por custos menores, os quais foram direcionados visando a uma máxima eficácia e eficiência dos setores fabris. Por seu turno, a mão-de-obra, que agora passou a operar novas máquinas e equipamentos, teve que sofrer especializações e reciclagens, em um processo de desemprego, além das robotizações nas quais tais máquinas são operadas por menor nível dessa mão-de-obra; como exemplo disso é patente à industrialização de veículos, somando-se assim aos objetivos desejados. Notou-se que os produtos passaram a ser heterogêneos, com composições diferentes, atendendo aos novos consumidores com massificações de padrões e matérias primas menos onerosas.

  Segundo estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) (apud CEPAL, 2002), foi possível concluir que em setores mais especializados, em que estudos mais científicos predominam, caso da indústria farmacêutica, o comércio passou a firmar-se intrafirma, surgindo empresas especializadas, particionando-se em processos verticalizados e horizontalizados (p. 41).

  Em oposição a isso, no caso das empresas automobilísticas, houve um intenso comércio intrarregional, na qual a expansão horizontalizou-se, formando subsistemas de partes e peças, que passaram a ser produzidos em diferentes partes do mundo. Assim, firmou-se em diversos segmentos uma especialização vertical, noutros segmentos uma especialização horizontal, fechando-se em uma matriz de sistemas de processos produtivos, atendendo a diferentes mercados consumidores, movendo-se uma intensa circulação de capital entre regiões. São as commodities circulando entre os Estados-nação.

  Com os investimentos e a evolução concentrada de recursos tecnológicos, foi possível reorganizar as empresas, outrora dispersas, em organizações centradas, em redes cujos processos de produção integraram-se matricialmente ocupando-se novos espaços regionais e globais.

  Os processos de integração exigiram processamentos em tempo real, ou seja, com velocidade de circulação dos dados, impulsionando a indústria de telecomunicações e informática.

  Liberações facilitadas de comércio exterior dos Estados-Nação passaram a impulsionar e fortalecer redes de empresas, diminuindo-se as distâncias entre suas matrizes e filiais, reorganizando-se a administração do capital, a gestão dos seus projetos e o desenvolvimento em pesquisas tecnológicas. Tudo isso também impulsionou ao acirramento da concorrência e à captura dos novos mercados, fazendo-se circular grandes bolsões de recursos em torno nos novos polos incentivados regionais, transpassando-se as fronteiras estabelecidas.

  Isto posto, tornou-se possível a obtenção de matérias primas produzidas em determinadas regiões com benefícios fiscais e outras concessões oportunistas com facilitações de distribuição para mercados e consumidores em distintos locais, por exemplo as zonas francas exportadoras e importadoras globais. Com isso, surge a regionalização e a otimização financeira dessas matrizes globais de empresas transnacionais, impondo aos Estados-Nação condições para a sua instalação naqueles locais, em detrimento de outros, na ordem de preferência.

  Decorre daí o enfraquecimento de alguns Estados-Nação fortemente influenciados a promoverem a regulação jurídica e econômica, culminando coma ascendência de determinados polos na troca de outros, fortalecendo-se, na verdade, as empresas transnacionais que podem agora potencializar os seus lucros com a diminuição dos impostos.

  Em linha com essas estratégias empresariais, verificou-se um grande número de empresas em processo de fusões e aquisições por empresas transnacionais ao se instalarem naqueles Estados-nação, mobilizando-se assim grande monta de recursos financeiros, orientando-se exclusivamente pela lucratividade, promovendo também reestruturações organizacionais nas empresas transnacionais, gerando deslocamentos de empregos na busca de uma força de trabalho a custos menores. Tais estratégias em ação transformaram-se em operações, permitindo que certas estruturas locais, já constituídas, fossem adquiridas rapidamente por outras transnacionais, sem a necessidade de um desenvolvimento regional; em outros casos, ocorreu uma absorção de concorrentes, sejam regionais ou inter-regionais, formando-se de forma velada processos de cartéis e dumping, favorecendo tais empresas com o incremento das margens dos seus produtos.

  O processo de industrialização teve seu auge no redesenho do mapa mundial do pós-guerra e declínio acentuado no final dos anos 70 e, progressivamente, até os dias atuais. Se por um lado a desindustrialização é vista como consequência natural do processo de deslocamento geográfico, em que o novo eixo principal é a Ásia, um novo setor passa a surgir: o setor terciário, cuja orientação é voltada para bens de alta tecnologia. Contudo, a relação desse deslocamento não é diretamente proporcional, pois o domínio da tecnologia implica em desenvolvimento de pesquisas, privilégio dos países considerados desenvolvidos. É fato notório que alguns Estados-nação estão se saindo piores em suas economias do que poderiam em detrimentos de outros, por causas estruturais variadas; como exemplos citamos a Grã-Bretanha e o contraponto na Coréia do Sul.

  O desenvolvimento de tecnologia tem por matriz a formação do capital intelectual, que decorreu de muito investimento e grandes esforços no processo de educação e tem nos países em ascensão ao desenvolvimento o seu bem mais valioso. No entanto, de forma predatória, os países desenvolvidos retiraram a escassa mão-de-obra formada, migrando-a para si o capital formado, impondo um prejuízo não dimensionado nos países cedentes desses capitais.

2.5. ENFOQUE NO CRESCIMENTO DO CONSUMO

  Vendo por outro ângulo, com foco no consumo, para tal será necessário caracterizar tal sociedade de consumo. Campbell, em Bottomore e Outhwaite (1996) define tal sociedade como aquela cuja característica é a sua organização em prevalência no consumo mais do que a da produção de bens e serviços. Designa um conjunto interligado de tendências socioeconômicas e culturais, tipicamente das sociedades industriais da América do Norte, Europa Ocidental e Orla do Pacífico.

  Em tais países, ocorrem um alto consumo de produtos advindo do sucesso social e do estado de felicidade pessoal que escolhem o consumo como seu objetivo de vida

  A partir, sobretudo, da década de 90, o termo sociedade de consumo tornou- se mais e mais frequente para caracterizar a maior parte de nossas sociedades contemporâneas e distingui-las das sociedades producionistas do século XIX. É designado para identificar um conjunto de tendências socioeconômicas e culturais das sociedades industriais avançadas da América do Norte, Europa Ocidental e Orla do Pacífico, em que se infere que os membros de tais sociedades identificam altos de níveis de consumo com sucesso social e felicidade e, desta maneira, escolhem o consumo como objetivo de vida preponderante.

  Segundo Colin Campbell (1996),as origens de tal conceito nos remontam a década de 50, quando David Riesman, Nathan Glazer e Reuel Denny em “The

  LonelyCrowd

  ” (1950) o utilizam pela primeira vez na literatura, sendo mais tarde desenvolvido especificamente por outros autores. Em todas as obras, entende-se que o surgimento de tal sociedade não é um simples derivado da criação de um mercado de massa para artigos de luxo, mas, antes disso, uma mudança radical nos valores e crenças das sociedades ocidentais. Uma possível explicação, seguindo a lógica weberiana para a consolidação do capitalismo, seria o abandono da ética do trabalho protestante e seu câmbio para um ethos expressivo, hedonístico e romântico, de tal maneira que o debate ocorre então, não só pelas explicações economicistas de vasto crédito, aumento da produção e industrialização, e facilidade de trocas em âmbito mundial, mas também através de uma revalorização da natureza da sociedade contemporânea. Bauman (1999) acrescenta, ainda, que o fato de possuir membros consumidores não diferencia nenhuma sociedade pré-moderna, moderna da contemporânea, pois

  “todos os seres humanos, todas as criaturas vivas consomem desde tempos imemoriais” (p. 75). A diferença é que nossos predecessores, em suas sociedades industriais, engajavam seus membros como produtores ou soldados, enquanto as sociedades de consumo tinham pouca necessidade de mão- de-obra industrial em massa e menos ainda, de exércitos recrutados; mas, em vez disso, necessita de membros engajados na condição de consumo, de maneira que a norma primeira e superior de como a sociedade molda seus indivíduos é o dever de desempenhar o papel de consumidor. Obviamente, não há nenhum grande salto diferencial de uma sociedade para outra, mas apenas uma diferença na ênfase das prioridades. Entretanto, tal ênfase produz uma enorme diferença em todos os aspectos da vida da sociedade, da cultura e do indivíduo (p. 87-8).

  Devemos ainda ter em conta, quando nos referimos à mudança de uma sociedade producionista para uma sociedade de consumidores, o papel da tecnologia e de comunicação de massa. Há uma grande correlação do “agora”, possibilitado pelas dinâmicas tecnologias compressoras do tempo e a lógica orientadora do consumo, de modo que a satisfação do consumidor ao consumir deveria ser instantânea, sem exigir qualquer aprendizado de habilidade ou fundamentos para com o que se é consumido, mas também ocorre a compreensão do tempo de satisfação e este é reduzido ao mínimo. Ainda de acordo com Bauman (1999),

  “a cultura da sociedade de consumo envolve, sobretudo, o esquecimento, não o aprendizado”(p. 90). Segundo Gilberto Dupas (2005), com a pobreza e a concentração progressiva de riqueza, houve uma acumulação nas grandes metrópoles globais, formando-se uma imensa teia de multidões de cidades e de pessoas aglutinadas em alta densidade demográfica (p.56). Criou-se perfis cruzados de uma população com contrastes socioeconômicos, levando a graves concentrações de problemas demográficos, como abastecimento, infraestrutura, acessos a transporte, educação etc. Os Estados-nação vão elevar suas dívidas públicas com o acréscimo de custos de manutenção e de novos investimentos aplicados nessas novas estruturas emergentes.

  Para ilustrarmos essa dinâmica socioeconômica do enfoque consumista das sociedades, utilizamo-nos da visão do artista Philipe Hérard:

  FOTOGRAFIA 3 Fonte: Philipe Hérard, Collages, 2013, p. 34.

  CAPÍTULO 3°

O RELATIVISMO EPISTÊMICO DAS SOCIEDADES DE RISCO À

TEORIA NEO-INSTITUCIONAL PARA O CAPITAL SOCIAL

  A globalização está inserida não só nas perspectivas econômicas e financeiras, mas também atinge as vertentes culturais e políticas, existindo assim um entrelaçamento complexo de causas e efeitos que formam uma imensa topologia. Nos debates, verifica-se que não se pode ter a visão no prisma monolítico das problematizações, pois depende do referencial teórico assumido e principalmente do

  16 choque que se queira dar nessa topologia globalizante .

  Exploraremos alguns aspectos dessa topologia que, como podemos ver, de acordo com os ângulos em que desejamos visualizar, encontraremos diferentes binômios causa-efeitos.

3.1. O PRISMA ECONÔMICO

  O caminho para melhor compreender a economia exige tratá-la como o sistema complexo que ela realmente representa. Embora não exista uma definição fechada sobre sistemas complexos, um consenso sobre seu significado, embora vago, é o de sistema formado por várias partes que interagem de maneira não- linear, de tal forma que o método analítico não é suficiente para descrever o sistema, já que não podemos separá-lo em elementos independentes.

  Precisamos de modelos comportamentais mais realistas que representem propriedades pelas quais poderemos analisar os seus sinais, verificarmos sua previsibilidade e a existência de algum padrão que deles emanam.

  A teoria econômica tradicional é top down, de cima para baixo: as decisões são tomadas dos primeiros princípios e depois orientadas para baixo. Em

  16 contrapartida, a econometria toma uma abordagem ad hoc, de baixo para cima, orientada pelos dados.

  A abordagem dos sistemas complexos fica no meio, tomando uma aproximação de baixo para cima, que difere da econometria tradicional por representar explicitamente os agentes e instituições e modelar suas interações sem a necessidade de que tudo seja derivado dos princípios fundamentais. Ela tem o potencial para se libertar do colete dos modelos de equilíbrio e trazer toda a revolução da computação para a economia. Este caminho algumas vezes envolverá

  17

  18 o abandono de conteúdos econômicos em favor do realismo econômico .

  Esse realismo econômico aponta, segundo Farmer (2012),que toda a matemática de interesse e quase todos os fenômenos físicos de interesse são inerentemente não lineares. Esta não é uma distinção técnica: na maioria dos casos, a essência do fenômeno físico natural e social depende da não linearidade. A importância das interações não lineares é talvez mais relevante na biologia e nas ciências sociais do que na física, mesmo quando os modelos subjacentes sejam menos desenvolvidos. Isto decorre porque, na física, os estudos já estão sedimentados ao longo do tempo, ao passo que nas outras duas ciências (biologia e ciências sociais) ainda são incipientes (p. 5) O estudo de sistemas complexos é construído sobre a matemática não linear. Os sistemas complexos são o estudo de como surgem os fenômenos de interesse a partir das interações dos blocos de construção de nível baixo. Por definição, se a interação for linear, o conjunto é a soma das partes, mas se as interações das partes não forem lineares, o conjunto pode ser maior do que a soma de suas partes. Na maioria dos casos, o todo é qualitativamente diferente da soma de suas partes, e então dizemos que é um fenômeno emergente.

  Os sistemas complexos estendem-se ao estudo de sistemas não lineares para focar fenômenos coletivos entre os blocos de construção simples ou não simples. O estudo de sistemas complexos foca nas propriedades sintéticas de tais

17 Por conteúdos econômicos definimos as variáveis das equações que propõe o equilibro geral

  

simultâneo como moro de teorizar a respeito da economia, em que o consumidor é o ponto de partida

18 e que busca otimizar uma função objetiva.

  

Por realismo econômico, entendemos processos evolucionários em que os meios são prevalentes

e deles emergem uma multiplicidade de fatos de natureza endógena e exógena interagindo-se interações. O objetivo é caracterizar os fenômenos emergentes e entender quais tipos de interações de baixo nível levam as quais tipos de fenômenos.

  Dependendo do referencial teórico, nota-se que a falha ao abraçar sistemas complexos de pensamento é provavelmente a principal razão pela qual a economia não experimentou o progresso rápido visto em muitas outras ciências durante os últimos cinquenta anos.

  Farmer (2012), ao relatar a ligação entre economia e a complexidade, define que a abordagem de sistema complexo é um movimento na ciência que floresceu e começou a dar frutos durante os últimos trintas anos. Afirma que tais movimentos estão focados na questão de como os fenômenos emergentes surgem da interação dos blocos de construção de baixo nível. Os sistemas complexos procuram desenvolver conceitos, métodos e ferramentas que transcendem aplicações e disciplinas especificas (p. 7). O autor afirma que enquanto manifestações de sistemas complexos são naturalmente diferentes em cada campo, os pontos comuns podem ser assinalados. É possível, por exemplo, mostrar que modelos de sistemas adaptativos incluindo redes neurais, sistemas classificadores, redes autocíclicas, redes imunes e teoria dos jogos evolucionária podem ser mapeados em um sistema matemático comum.

  John Von Neumann previu corretamente o futuro quando, em 1950, disse: “A ciência e a tecnologia mudarão a partir de uma ênfase passada sobre movimento, força e energia para a construção, organização, programação e controle” (p. 4.

19 Tradução nossa) . Prediz que, para isso, podemos incluir a forma, a função, a

  estrutura, a computação, a emergência e a evolução. Os sistemas complexos estão em um campo interdisciplinar que incorporou ideias e métodos da mecânica estatística, dos sistemas dinâmicos, das teorias dos jogos, da biologia evolucionária, da ecologia, do aprendizado de maquinas, da informação, da computação e dos grafos (p. 4).

  Neumann aduz que, naturalmente, é muito ambicioso tentar encontrar princípios gerais que abranjam tantos campos. Esse programa está longe de ser realizado e se questiona se pode ser totalmente realizado, embora existam alguns sucessos modestos, os quais incluem a teoria das redes e a modelagem baseada 19 em agentes, altamente relevantes para a economia, e que serão discutidos aqui.

  “Science and technology will shift from a past emphasis on motion, force, and energy to

  Farmer (2012) indica que a abordagem de sistemas complexos é fortemente orientada a dados. Começa-se estudando um sistema para identificar seus componentes e suas interações. Depois, faz-se uma simulação e um modelo teórico que leva essas interações em conta e, em particular, fora sobre o entendimento do comportamento coletivo que elas geram (p. 11).

  Para que os métodos de sistemas complexos sejam largamente utilizados em economia, deve-se avaliar a falha que está associada à evolução que existe na vocação econômica, ou seja, a de que as teorias devem ter conteúdo econômico para serem consideradas válidas. A principal agenda da ciência econômica não é obter a partir dos primeiros princípios, mas relacionar diversos fenômenos uns com os outros e simplificar nossa descrição do mundo (Ibidem, p. 11-2).

  Para John Doyne Farmer (2012),a diferença fundamental é perceber onde o esforço está localizado, como os componentes são identificados, que tipos de interações são consideradas, que método é usado para entender seus efeitos e o que é tido como um resultado interessante. Como atualmente praticada, a economia é um campo polarizado entre dois extremos: a economia está em uma das mãos, e a econometria na outra. A estrutura básica da teoria econômica é sempre a mesma: postulam-se as preferências e acredita-se que se obtém um equilíbrio (abordagem de cima para baixo) (p. 12).

  A econometria, em contraste, é uma abordagem de baixo para cima, fortemente orientada pelos dados. Os econometristas usam formas funcionais que são bastante arbitrárias e usam métodos estatísticos para estimar seus parâmetros a partir de dados.

  Pelo menos em certo sentido, um modelo de sistemas complexos típico pode estar entre estes dois polos. Os modelos de sistemas complexos não são restritos a terem um conteúdo econômico; a diferença é que o foco de um modelo de sistemas complexos está na representação das interações entre os elementos, que, em um

  

20

  modelo econômico, envolve os agentes (indivíduos) e as instituições (firmas, agências reguladoras, etc.).

  John Doyne Farmer (2012) conclui que um bom modelo de sistemas 20 complexos começa e termina com dados. Assim, dados de baixo nível são usados

  

Os agentes são processos implementados no computador que tem autonomia (eles controlam suas

próprias ações), possuem habilidade social (interagem uns com os outros por meio de algum tipo de para formular as suposições sobre os blocos de construção do modelo e, tanto os dados de baixo nível como os de alto nível também são usados para testar se o fenômeno emergente resultante corresponde apropriadamente àqueles observados no mundo real. O conteúdo econômico, frequentemente, é sacrificado em favor do realismo econômico (p. 11-2).

  A teoria econômica corrente é quase inteiramente baseada na noção de equilíbrio. Os ciclos econômicos podem ser observados através de dados descritos estatisticamente de forma histórica, relatando um certo desempenho geral. Esse desempenho é um padrão finalizado, o qual é capturado por alternâncias de expansão de contração no longo prazo, também definido pelos economistas como flutuações econômicas. O interesse corrente é buscar um equilíbrio nesses ciclos, buscando as causas e os efeitos que o geraram. Contudo, em muitas situações, não existe um único equilíbrio, dependendo dos agentes e dos meios em que eles se inserem.

3.2. DAS SOCIEDADES DE RISCO AO CAPITAL SOCIAL

  Com o surgimento e difusão de processos tecnológicos a partir da década de 70 do século passado, ocorreu a criação de economias não equânimes, ou seja, nem todas convergiram para um mesmo sentido e direção do progresso previsto. Aconteceu exatamente como descrito por Maria da Conceição Tavares (1993):

  “as economias centrais guardaram os avanços científicos e tecnológicos para si” (p. 63), e o processo de desenvolvimento ficou concêntrico nesse grupo de circularidade virtuosa, em detrimento de economias periféricas. Além disso, a expansão do comércio em direção a essas economias (parte periférica) proporcionou o financiamento dos custos dos investimentos tecnológicos das economias centrais, favorecendo um grupo minoritário, virtuoso e progressista.

  O surgimento da também conhecida terceira revolução industrial levou à criação das sociedades modernas. A tese central de Ulrich Beck (1993) preconiza que as sociedades modernas se tornaram produtoras e, ao mesmo, tempo consumidoras de múltiplas formas e fontes de riscos, e que tal evento não conseguem controlar. O fim das certezas proveio com o término da saturação da sociedade industrial (p. 22-4).

  O autor ainda preconiza a possibilidade de uma (auto) destruição criativa para toda uma era: aquela da sociedade industrial. O “sujeito” dessa destruição criativa não é a revolução, não é a crise, mas a vitória da modernização ocidental. Para ele, essa sociedade moderna está acabando com as formações de classe, camadas sociais, ocupação, papéis dos sexos, família nuclear, agricultura, setores empresariais e formas continuas do progresso técnico-econômico. Define que, nesse estágio, o progresso pode se transformar em autodestruição, o que definiu como modernização reflexiva (BECK et al.,2012, p. 12-3). Os riscos aqui tomados estariam legitimados pelas ameaças produzidas por essa sociedade industrial, produzindo efeitos ao núcleo central da economia.

  Dentro dessa nova concepção produtiva, os riscos seriam mais democráticos, tornando a repartição mais globalizada e equalizada. Sendo assim, ninguém, nem pobres nem ricos, estaria totalmente imune às ameaças produzidas e agravadas pelo progresso. Embora admita que muitos riscos possam ainda ser distribuídos conforme a classe social, Ulrich Beck não concebe mais as ameaças como situações de classe, a exemplo do que acontecia na sociedade industrial clássica. Segundo ele, os riscos são produtos, ao mesmo tempo, reais e irreais, por aliarem danos e perigos já ocorridos àqueles calculados. Na avaliação comparativa do tempo, o futuro tem primazia em relação ao passado, pela potencialidade da projeção dos fatores que conjugam a compreensão dos riscos no presente. “Isso pressupõe [...] que os riscos tenham sido bem-sucedidos num processo de reconhecimento social

  ”. (ROBALINHO, 2014. Grifo nosso). O processo de modernização teria advindo com processo da saturação da sociedade produtiva e, de forma circular, traria também o desenvolvimento do processo fabril. Beck (1993) diz que esse processo de modernidade gerou novos mecanismos de riscos, radicalmente distintos dos anteriores, tornando alguns mais globais. Os parâmetros da nova sociedade industrial não caberiam mais nos condicionantes das sociedades industriais de outrora. Nessa nova vertente, a produção de riqueza é sistematicamente distribuída com a produção de riscos:

  Riscos bem como a riqueza são objeto de distribuição, e ambos constituem posições

  • – posições de risco e posições de classe, respectivamente. Em cada caso, no entanto, é em causa com um

  bom bastante diferente e muito diferente uma controvérsia sobre a sua distribuição. No caso da riqueza social, lidamos com bens de consumo, renda, oportunidades educacionais, propriedade etc.,como itens desejáveis e em escassez. Por outro lado, os riscos são um problema primaz de modernização e, em abundância indesejável. Estes devem ser eliminados, negados ou reinterpretados. A lógica positiva de aquisição contrasta com a lógica negativa de disposição, 21 de evasão, de negação e de reinterpretação (p. 26. Tradução nossa).

  O desenvolvimento dessa sociedade industrial moderna foi conduzido por um processo de dependência do conhecimento da tecnologia, que surgiu de forma invisível (Ibidem, p.27). Não é difícil reconhecer que a ampla variação nas preferências dos consumidores em processo de difusão impulsionaram os processos produtivos baseados em economia de escala e no marketing de produtos tornados familiares por massivas publicidades. Confluiu-se a isso as estratégias de Estados- nação e de empresas transacionais que investiram em tecnologias e pesquisas de desenvolvimento de novos produtos e que, no tempo devido, puderam praticar políticas nacionais e internacionais, fazendo com que proveitos vantajosos fossem tirados de outros concorrentes, em uma ideologia da chamada

  “vantagem competitiva ”. Ansoff (1988) prediz que a maioria das grandes mudanças no ambiente partiu das principais empresas agressivas que ditaram o ritmo e o estilo do progresso (p.

  34).

  As empresas tiveram deslocamentos de orientações divergentes nas trajetórias de suas estratégias, ora voltadas ao marketinge vendas, ora na perspectiva da produção. Esta relação conflituosa vai ter significância no impulso do desenvolvimento tecnológico e consequentemente na geração das sociedades modernas.

  Algumas empresas, com a orientação do marketing, projetarão seus recursos no processo do preço e das vendas, cuja absorção de seus produtos pelo mercado ocorrerá por um consumismo ainda em formação. No lado oposto, as empresas 21 orientadas à produção terão os seus investimentos voltados aos custos de

  

“Risks like wealth are the object of distributions, and both constitute positions – risk positions and

class positions respectively. In each case, however, on is concerned with a quite different good and a

quite different controversy on its distribution. In the case of social wealth, one is dealing with consumer

goods, incomes, educational opportunities, property etc. as desirable items in scarcity. By contrast,

risks are an incidental problem of modernization in undesirable abundance. These must be either

eliminated or denied and reinterpreted. The positive logic of acquisition contrasts with negative logic of produção. Seus limites ficarão adstritos aos processos produtivos, maximizando as capacidades fabris. Ambas orientações empresariais vão requerer novas habilidades nos imperativos de seus ambientes.(Ibidem, p.34).

  Ansoff (1988) prediz:

  Mas, na verdade, não é La même chose. A causa fundamental da nova turbulência é a chegada da afluência econômica. A era da produção em massa representa um impulso no sentido de atender o conforto físico básico e as necessidades de segurança da população. A era de marketing de massa levantou as aspirações, deslocando-as do conforto e da segurança para um anseio por afluência (p. 34-5).

  Mais adiante, ele afirma: “A tecnologia afeta, fundamentalmente, tanto a oferta quanto a demanda” (Ibidem). Ele define um “monstro P & D”, que alimentado pelo progresso tecnológico adquire uma dinâmica própria, gerando produtos não solicitados, direcionando os impulsos de crescimento da firma de maneira independente.

  22 Em decorrência de essa ciência ser a geratriz dos diversos riscos

  contemporâneos, o ponto de origem e o de materialização desses riscos deixou de ser evidente. As pessoas, ao viverem essa sociedade concebida, deixaram de interpretar alguns riscos globais, que ela impõe atingindo toda uma população, não somente em um curto espaço de tempo, mas também por longo período. Tal risco é, segundo Beck (1993), manipulado por interesses de grupos que se postam no controle dessa sociedade. No entanto, para ele, o risco provocado pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia define a sociedade moderna (p. 27).

  Beck (1993) observou a derrocada do desemprego acarretada no processo de globalização, porém pouco aduziu em relação à transmutação entre as classes sociais: a nova sociedade (de risco) na sua concepção agora se transformou. No processo de globalização, de fato, surgiu essa sociedade, silente pelo medo, predita pelo autor, mas não de forma totalitária. Ainda continuava prevalecendo uma sociedade originária da sociedade anterior à citada por Beck, a dos pobres, que não se transformou como previsto.

  Tal contraponto pode ser visto em Guivant (2001), onde a autora afirma que:

  Os processos (da globalização) que passam a delinear-se a partir 22 dessas transformações são ambíguos, coexistindo maior pobreza em

Ciência aqui pode ser entendida como todo a busca de pesquisa e desenvolvimento realizados

  massa, crescimento de nacionalismo, fundamentalismos religiosos, crises econômicas, possíveis guerras e catástrofes ecológicas e tecnológicas. (p. 96).

  Mas, se existe a iminência do risco, tal como previra Beck, o empirismo aponta para a coexistência das sociedades

  • – a que se transformou e a que ainda não teve acesso à transformação tecnológica resultante dessa sociedade moderna.

  Hoje convivemos com esse risco endêmico em nossa sociedade, mas as pessoas são crentes em uma instituição, o que nos remete à teoria neo-institucional de Douglass North. O desenvolvimento proporcionado por essa sociedade moderna é um fenômeno plural e inter-relacionado, e que cruza com a globalização. A teoria neo-instituticional ou nova teoria institucional explica o papel das instituições no desenvolvimento das sociedades.

  Para North (1990), instituições são entes cujas regras de interação entre os seus agentes, num jogo de convívio organizado, ou ainda mais formalmente, estão sujeitas a certas restrições (leis) criadas, delimitando e moldando esses processos de interação. Dessa forma, as ligações existentes estruturam-se por meio desses agentes, em ações de natureza política, social ou econômica (p. 3).

  As instituições podem ser formais (a Constituição, as leis e os regulamentos; regras criadas pelos governos) e, informais (convenções e códigos de conduta estabelecidos pelos indivíduos). O desenvolvimento das organizações (políticas, econômicas, sociais e educacionais) decorre das instituições.

  As instituições abrangem as crenças da sociedade (os resultados são em grande parte o produto de nossas crenças) e a mídia (veículo para manifestação de opiniões sobre o governo e as reformas; canal de pressão em favor de mudanças nas instituições). A história está repleta de desastres derivados de crenças equivocadas (Ibidem, p.1771).

  Adentrando na história, para North (1990) o grande marco do sistema capitalista, de acordo com a teoria neo-institucional, foram as mudanças institucionais ocorridas na Inglaterra na esteira da Revolução Gloriosa de 1688. A “BillofRights” (Carta de direitos), assinada em 1689, pelo rei William III, aboliu prerrogativas do soberano, como a de aprovar leis, suspender a sua vigência, exorbitar na cobrança de tributos, confiscar bens (direitos de propriedade) e desrespeitar contratos. As reformas asseguraram ao Parlamento a decisão sobre a despesa pública e o endividamento do governo. Segundo o autor, houve uma “revolução fiscal” (p. 2056-87).

  A criação de barreiras institucionais ao arbítrio estimulou a livre iniciativa, e os empresários ingleses lançaram-se à exploração de novos negócios. Em pouco mais de um século, o novo ambiente conduziu a Inglaterra à Revolução Industrial. A credibilidade do Tesouro britânico aumentou substancialmente. Às vésperas da Revolução Gloriosa, a dívida pública correspondia a apenas 2% do PIB e garantia juros de 14% ao ano. Menos de dez anos depois, a dívida pública aumentou para 40% do PIB e garantia juros de 3% ao ano (Ibidem, p.2738-72).

  A teoria institucional vai predizer que esse sucesso britânico, e também o holandês, tem por causa as instituições vigentes nesses países. Eles souberam explorar as oportunidades surgidas pelo comércio no Atlântico, depois dos “Grandes Descobrimentos”. As fortes monarquias da Espanha e de Portugal, no entanto, inibiram a construção de instituições capazes de incentivar o investimento e, principalmente, os direitos de propriedade de forma bem definida. O sistema político tornou bem restritiva a influência das instituições e da cultura aos colonizadores (Ibidem, p.2297-307).

  A produtividade, para North (1990), um dos pontos cruciais para explicar o

  23

  crescimento econômico, relaciona-se aos custos de transação na economia (custos de troca dos bens e serviços), os quais dependem das instituições de um país, no âmbito econômico e jurídico (p. 164).

  Nas sociedades contemporâneas, as trocas são impessoais, ou seja, as transações independem de pessoas, observou Douglass North(1990), uma vez que não estão baseadas no conhecimento entre as partes, mas na crença do cumprimento dos compromissos pelos envolvidos. A transação somente seria viável em ambientes institucionais nos quais há respeito aos direitos de propriedade e aos contratos (p. 2113-130).

  E mais: instituições bem estruturadas pelo Estado garantem e estimulam a transação impessoal, reduzem custos e viabilizam as complexas transações do mundo moderno. O sistema de mercado inexistiria, na concepção da teoria neo- 23 institucional:

  

Custos de Transações para Douglass North em um conceito abrangente representa todos aqueles

vinculados a operações de um sistema econômico

  Ambos os custos de transação da política e da economia e as percepções subjetivas dos atores resultou em escolhas que eram, sem dúvida, nem sempre ótimas ou direcionadas ao aumento da produtividade ou melhor bem-estar econômico (termo aqui utilizado no seu sentido mais amplo). As oportunidades lucrativas de criação de tarifas, exploração de escravos ou formação de trusts. Às vezes, na verdade frequentemente, as políticas têm consequências não intencionais. Em consequência, instituições eram

  • – e são – sempre uma mescla de políticas que induzem ao aumento da produtividade e de políticas que a reduzem. A mudança institucional, da mesma forma, quase sempre cria oportunidades para ambos os tipos de
  • 24 atividades. (Ibidem, p. 8. Tradução nossa).

      Para North (1990), a educação, o investimento, a acumulação de capital e mão-de-obra, e a tecnologia são os fatores mais comumente associados ao crescimento, mas reuni-los numa combinação propícia à geração de riqueza depende do ambiente criado pelas instituições (p. 9)

      Apesar da visão neoliberal de North, o que o une a Beck é o tipo de incerteza presente em ambas as teorias. De forma assimétrica, na teoria das organizações, ela promoverá a repulsa, e, ao mesmo tempo, na teoria do risco de Beck, incentivará a propagação desse risco.

      O elo entre os dois entes divergentes é a confiança, elemento central do capital social a ser visto em capítulo posterior.

    3.3. A GLOBALIZAÇAO DO RISCO NA SOCIEDADE MODERNA E O

    25 PERITO

      Modernidade, na concepção de Giddens (1991), em uma estreita síntese refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII, tornando-se mundial em sua influência (p. 11).

      Num sentido mais amplo, Giddens (1991) elenca algumas das diferenças fundamentais da modernidade para o que ele chama de pré-modernidade. Entre 24

      

    “Both the political and the economic transaction costs and the subjective perceptions of the actors

    resulted in choices that were certainly no always optimal or unidirectional toward increased

    productivity or improved economic welfare (however defined). The profitable opportunities from tariff

    creation, the exploitation of slaves, or the formation of a trust. Sometimes, indeed frequently, policies

    had unintended consequences. In consequence institutions were

    • – and are – always a mixed bag of

      those that induce productivity increase and those that reduce productivity. Institutional change,

    • 25 likewise, almost always creates opportunities for both types of activities”.
    algumas delas, destacamos a confiança e o risco. Para o autor, na modernidade, o

      26

      conceito de risco substitui o de

      . Não que não existisse em um tempo pré-

      “fortuna” moderno o fator risco e com ele o sentido derivado de perigo, mas as causas e explicações, que antes se baseavam, sobretudo, em uma cosmologia rotineira e socialmente distribuída nos afazeres da vida humana, na era moderna são substituídas pelo conhecimento reflexivo organizado (p. 45).

      Neste sentido, segue o autor, a ideia de acaso surgiu ao mesmo tempo que a de risco. Ora, a moderna noção de reflexividade social permeia agora todos os aspectos da vida humana, deixando a

      “fortuna” como um conceito majoritariamente ligado à fé e à superstição. Neste sentido, a reflexão para as ações futuras baseiam- se, em grande parte, na confiança que depositamos em sistemas abertos, ou seja, sistemas com os quais não nos relacionamos diretamente e com que temos acesso, somente através de um

      “ponto de acesso”, por sua vez representado por um perito ou especialista institucional e que nos transmite, através de seu conhecimento sobre determinada instituição ou ambiente de risco, a segurança que nos permite mover ou retroceder, dependendo do caso. (Ibidem, p. 95-145).

      Delegamos, então, o risco a um perito, conhecedor do tema, que se supõe prever com a maior acurácia possível todos os aspectos positivos ou negativos de uma determinada ação a ser tomada. Aliado a tudo isso, e também por conta disso, a modernidade, segundo Giddens, oferece o distanciamento tempo-espaço como condição secular de tal período. Tanto tempo, como espaço são cada vez mais relativos e indeterminados e claramente conceitos como “perto”, “longe”, “aqui”, “ali”, “agora” e “depois” são cada vez menos entendíveis e percebidos pela humanidade como algo relacionado ao nosso próximo material e ao nosso tempo cronológico.

      Se assim o é, podemos concluir que a confiança em sistemas abstratos, hoje parte integrante da sociedade globalizada, é condição de distanciamento do tempo- espaço e das grandes áreas de vida cotidiana em que nos inserimos na era moderna, quando comparadas ao mundo tradicional.

      Nesta lógica exemplificadora, Bauman (1999) remete-nos ao conceito de atuações globais e consequências locais do capital financeiro mundial, uma vez que as empresas transnacionais hoje são determinadas e comandadas pelos acionistas

      26 dispersos pelo mundo, porém sua atuação, geração de emprego, renda e desenvolvimento são locais(p. 21).

      Para Zygmunt Bauman (1999):

      Com efeito, longe de ser um ‘dado’ objetivo, impessoal, físico, a ‘distância’ é um produto social; sua extensão varia dependendo da velocidade com a qual pode ser vencida (e, numa economia monetária, do custo envolvido na produção dessa velocidade). Todos os outros fatores socialmente produzidos de constituição, separação e manutenção de identidades coletivas

    • – como fronteiras estatais ou barreiras culturais
    • – parecem, em retrospectiva, meros efeitos secundários dessa velocidade (p.19).

      Desta maneira, a simples compra de ações remete-nos a um ambiente de desconhecimento em um sistema abstrato com implicações amplas em situações de tempo-espaço dos mais diversos e, por isso, a confiança produz-se em um certo distanciamento do “aqui” e “agora”, do conhecido, e, sobretudo através de um “ponto de acesso

      ” que, no nosso caso, poderia ser um corretor de valores ou uma agência de rating designada para dar uma nota (de confiança) a uma empresa, instituição ou país.

      O perito ou especialista torna-se indispensável quando se tem em conta a globalização do risco na modernidade, tanto de sua intensidade, como da quantidade de eventos que poderiam afetar a todos. A possibilidade de uma guerra nuclear, a destruição mundial do meio-ambiente com efeitos generalizados e também globais, o colapso do câmbio econômico global foram e são alguns dos riscos iminentes a que todos estão sujeitos na modernidade.

      Seguindo a linha de Bauman (1999), o desinvestimento e a mudança de uma empresa de um país a outro como maneira de maximização dos lucros e diminuição dos custos gera impactos locais de alta gravidade para a comunidade em que ela estava instalada, apesar de que, provavelmente, suas ações irão subir como uma demonstração de que a decisão tomada foi correta (p.18-27)

      De certa maneira, os mercados produzem um risco global de grande impacto em todo mundo, uma vez que o capital financeiro a ele atrelado é passível de deslocamento quase instantâneo e sem restrições. Se o risco é global e se na modernidade a condição de confiança nos sistemas abstratos ocorre através de um perito (ponto de acesso) que assume os riscos a serviço dos clientes leigos, não nos cabe afirmar que o risco seja minimizado globalmente, pois mesmo o perito esconde ou solapa as verdadeiras condições desse risco, ou até o fato de que pudesse existir determinado risco.

      Também sabemos de situações em que a lógica ética do perito confronta-se com os interesses mais amplos dos beneficiados ligados a ele, afetando a avaliação do risco e a assimetria de informações.

      Ora, as agências de rating dão notas a instituições públicas ou privadas de modo a informarem investidores e outros interessados sobre o risco que determinada instituição apresenta em relação a outras. Isto quer dizer que ditas agências possuem um papel de perito no que se refere ao mercado de investidores por determinarem certos riscos com base no conhecimento que possuem. Porém tal nota, conforme os próprios estudos demonstram, não é totalmente objetiva, mas também subjetiva e determinada pelo avaliador de tal agência.

      Nesse caso, os riscos podem ser aumentados ou diminuídos conforme a subjetividade do avaliador, afetando uma série de outras instituições e sociedade com tal avaliação, no exemplo claro do que seria o risco global.

      

    3.4. OS FLUXOS FINANCEIROS - CICLO HISTÓRICO DO EFEITO

    MOEDA

      Neste aspecto, é interessante buscar o grande cimento que se ligou ao sistema monetário internacional: as instabilidades cambiais e as balanças de pagamentos dos países, e verificar como o acesso a créditos afetou as estruturas econômicas desses países. Para tanto, será necessária uma introspecção no padrão ouro, seu trânsito no mercado mundial e nos aspectos das taxas de câmbios.

      Segundo Eichengreen (2007), o padrão em forma de U da mobilidade de capitais não teria como causa a adoção da migração das taxas de câmbios fixas para as taxas de câmbios flexíveis, a partir de 1971, mas pelas razões de que as taxas de câmbio fixas foram viáveis no pós-guerra até aquele período (1971) (p. 23).

      A expansão dos mercados, derivados das reconstruções econômicas, aliados ao crescimento do mercado financeiro, decorrente da liquidez excessiva advinda dessa expansão, proporcionou operações superiores às reservas internacionais, tornando o seu controle inviável e ocasionando a adoção do câmbio flutuante.

      Além disso, com o advento da Revolução Industrial, a Grã-Bretanha tornou-se o centro comercial do planeta, inclusive para a concessão de empréstimos para os demais países.

      Teria nascido, portanto, o sistema internacional de taxas de câmbio fixas e, muito involuntariamente, a Grã-Bretanha tornou a emissão de todo o seu dinheiro de metais preciosos do padrão ouro para o papel, convolando, dessa maneira, todo o seu dinheiro de papel por reservas de ouro. A libra esterlina teria sido o equivalente a certa massa especificada de ouro, provocando uma escassez desse metal. Por sua vez, a prata, que era a moeda prevalente durante toda a Idade Média até a Era Moderna, continuou, e surgiu nesse diapasão a outra em padrão cobre, formando-se assim um trinômio em que se estabelecia a relação de troca, através de um padrão de equivalência nas compensações internacionais.

      Para ser ter ideia de como funcionava, exemplificamos: quando um país exportava a outro, recebia a moeda pelo pagamento da mercadoria e, imediatamente, cunhava-a na sua “Casa da Moeda”. O metal era logo derretido e efetuava-se a troca do metal.

      No entanto, surgiu um mercado (paralelo) de arbitragem com o aparecimento de especulação de atravessadores que eram procurados por negociantes na busca de uma troca mais eficiente do seu metal. Funcionava da seguinte forma: ao se importar um bem através de uma moeda, esta era trocada pelos especuladores, os quais, por sua vez, a exportavam até o desaparecimento, provocando uma procura desse metal. Assim, os preços subiam ou desciam de acordo com conveniência deles.

      O mercado, consciente dessa característica do bimetalismo, levava-a em conta em suas expectativas. Quando o preço da prata caía até a arbitragem estar a ponto de se tornar lucrativa, os negociantes, percebendo que o sistema bimetálico estava a ponto de absorver prata e liberar ouro, compravam prata em antecipação. Assim, o patamar inferior da banda em torno da proporção bimetálica constituía um piso no qual se dava o suporte ao preço relativo do metal abundante (Ibidem, p. 35).

      Os laços comerciais dos Ingleses com Portugal fizeram com que houvesse uma drenagem de ouro do Brasil para aquele país. Mas, mesmo assim, a produção mundial era ainda insuficiente para a demanda que se apresentava.

      Na França, Napoleão elevou a produção do bimetalismo para incentivar a produção e circulação das duas moedas. Grande parte da produção mundial foi ressarcida com a descoberta de grandes reservas nos Estados Unidos e na Austrália, em 1848, proporcionando um aumento de até dez vezes na produção mundial outrora existente. Por ser o país mais industrializado naquela época, a Inglaterra puxou o bloco dos países a adotarem o padrão ouro no ano 1854.

      Contudo, surgiu também o mecanismo de crédito, elevando-se, assim, a busca de recursos aos Bancos, não só Ingleses, mas também estadunidenses, por intermédio de países tomadores de crédito, o que tornou o sistema bancário vulnerável a uma quebra por causa da falta de confiança em relação aos depositantes de tais recursos na outra ponta. Tal fato fez com que os bancos centrais recrudescessem o crédito em relação ao ouro, suprimindo a liquidez.

      Já no final do século XIX, foi crescente a preocupação com a escassez do nível de estoque do metal para atender ao crescimento da economia mundial. Com a relação de equivalência do metal atrelada à posição da economia, tornou-se esse rapidamente desproporcional, pois uma variável(população) cresceu e a outra (ouro) não pode acompanhar essa expansão, surgindo uma assimetria entre os dados.

      Os Estados Unidos, país acentuadamente agrícola anteriormente, mudaram o seu perfil, e já possuíam a maior economia mundial no início do século XX. Porém, os banqueiros norte-americanos depositavam as suas reservas auferidas naquela economia ascendente no mercado londrino, provocando assim uma escassez de crédito na economia local, o que fez com que as taxas de juros elevassem-se a patamares mais altos, restringindo-se o crédito do financiamento das atividades econômicas locais.

      [...] os acontecimentos políticos também não se mostravam propícios. A ampliação dos direitos de cidadania e o surgimento de partidos políticos operários acenaram com a possibilidade de contestação à política das autoridades monetária, que atribuíam prioridade exclusiva à conversibilidade. A crescente percepção do desemprego e das contradições entre o equilíbrio interno e externo emprestou cunho político às diretrizes monetárias. O crescimento das tensões militares e políticas entre Alemanha, França e Grã- Bretanha depois da partilha da África minaram a solidariedade na qual a cooperação financeira se baseara até então (Ibidem, p. 73-4).

      Os acontecimentos políticos da época, adicionados ao fato da centralização dos investimentos dos banqueiros norte-americanos, agravou a situação, surgindo assim a escassez do metal. Em medidas extremadas, países deliberaram normas proibindo a exportação de ouro, e, com tal procedimento, as taxas cambiais flutuaram livremente. Emergiram novos impostos com a elevação das dívidas públicas, e alguns governos, na tentativa de estancar a crise estabelecida, passaram a emitir a chamada moeda fiat, moeda sem lastro, provocando ainda mais elevações nas taxas de câmbio. Em consequência, houve hiperinflações nos países Áustria, Alemanha, Hungria e Polônia. Destacamos que outros países da Europa sofreram processos inflacionários moderados, principalmente aqueles que utilizavam o papel moeda na convolação do metal.

      Os Estados Unidos, detentores de grandes reservas mundiais de ouro, passaram a financiar seus aliados de guerra com empréstimos, objetivando estabilizar economias com moedas enfraquecidas. O excesso de demanda da moeda era insuficiente para ser suprido pela oferta existente.

      Um novo choque ocorreu com a grande depressão de 1929: houve um alastramento da instabilidade dos Estados Unidos para a periferia do sistema. Os governos, ao socorrerem seus sistemas bancários e vivenciando a crise de escassez, determinaram o que Eichengreen chamou de

      “hemorragia de ouro”. Em 1932, um ano depois de o governo britânico suspender a conversibilidade do padrão ouro, o sistema monetário dividiu-se em três blocos: os países liderados pelos Estados Unidos, que adotaram o padrão ouro tradicional; o bloco formado pela Grã-Bretanha, que havia estabelecido a libra esterlina como padrão; e os países liderados pela Alemanha, que realizaram o controle do câmbio.

      Esse sistema monetário também se apresentava desestabilizado. Os países alinhados ao padrão ouro, em face da defesa de suas reservas, impuseram medidas fortemente restritivas com o fito de reequilibrar-se, impondo-se, assim, declínios econômicos em seus domínios. Por sua vez, a desvalorização da moeda libra esterlina e o controle excessivo do câmbio praticado pela Alemanha trouxeram incertezas aos países alinhados ao padrão ouro, fato que se agravou com deflagração da segunda guerra, gerando uma crise nos países detentores do padrão ouro.

      Nesse diapasão, os países industrializados prevalecer-se-iam sobre os demais, porque as suas necessidades de consumo teriam a suas demandas atendidas internamente, controlando a sua balança de pagamento. Porém, a limitação das reservas mundiais do ouro possibilitará um endividamento dos países menos desenvolvidos, fazendo-se com que o seu restrito capital seja drenado a outro país superavitário.

      O mecanismo de transferência de recursos é descrito por Millet&Toussaint (2004) e teria ocorrido da seguinte forma: com o término da segunda-guerra mundial e com o Plano Marshall, que objetivava a reconstrução dos aliados europeus, deslocaram-se vultosas soma de dólares, na verdade equivalentes ouro. No entanto, ocorreu sem perder de vista a conversão dos dólares em ouro, o que representou o consumo das reservas norte-americanas. Por sua vez, os dólares retornando ao país de origem fez com houvesse um excesso de liquidez na economia dos países que emprestaram tais somas, fato que resultaria em uma inflação galopante (p.556- 7).

      Com isso, segundo Millet&Toussaint (2004), o planeta ficou dividido em dois grandes grupos distintos de países, aqueles do norte, mais desenvolvidos, e, aqueles países do sul, menos desenvolvidos em relação aos primeiros (p.564).

      Outros fatos relevantes também foram determinantes ao processo, como o que ocorreu com o aumento do barril de petróleo. Teria sido outro divisor de águas, a partir de 1973, quando houve um montante considerável de recursos excedentes provenientes dos países árabes, cujas somas de riquezas acumuladas terminaram em investimentos em bancos norte-americanos; esses recursos, buscando retornos, foram financiar países do terceiro mundo, promovendo também investimentos em empresas fora do território norte-americano.

      Desta forma, os capitais ofertados precisariam de juros atrativos, fazendo com que países endividassem-se cada vez mais, aumentando-se assim o capital principal emprestado, impondo-se aos países do sul financiamentos irresponsáveis, alicerçados em governos beligerantes, apoiados na ideologia da tensão da guerra fria, muitas vezes conduzidos por governantes corruptos que tomavam soma de empréstimos reproduzindo obras que terminariam nas mãos de empresários. Em 1987, Fernando Henrique Cardoso, à época senador, pronunciou-se:

      O possível confronto entre os países produtores-exportadores e os países consumidores de petróleo foi evitado, assim, pelo endividamento dos países em desenvolvimento, através da reciclagem dos petrodólares. O engajamento dos países em desenvolvimento nesse processo foi possibilitado, obviamente, pelos bancos internacionais, que concediam os empréstimos; endossado pelo FMI, que acompanhava e avaliava, anualmente, as economias dos seus membros; e encorajado pelos governos dos países credores, que deram apoio político à estratégia de crescimento econômico com financiamento externo. Torna-se evidente, desta

      perspectiva, que a crise da dívida externa do Terceiro Mundo envolve a co-responsabilidade dos devedores e dos credores (6).

      

    MAPA 1: Distribuições dos investimentos realizados

      Notamos que, no mapa 1, as regiões mais claras são aqueles países tomadores de recursos. Assim, com os investimentos irresponsáveis, surge nesse cenário o componente risco, nessas taxas de juros que entrarão na formação dos serviços dos montantes aplicados aos investimentos estabelecidos. Os juros passam dos patamares fixos para variáveis.

      Com isso, iniciou-se um ciclo das especulações e dos possíveis cenários projetados nos Estados-nação, que será estabelecido ao longo do tempo. Harvey (2011) diz que:

      [...] a relação entre representação e realidade no capitalismo sempre foi problemática. Dívida refere-se ao valor futuro de bens e serviços. Isso envolve um palpite, que é definido pela taxa de juros, descontando no futuro (p. 30).

      O capital começa a se multiplicar derivado das taxas variáveis crescentes negociadas por meio do sistema bancário dos países mais ricos, promovendo uma expansão do capital formado. Assim, Harvey (2011) afirmou:

      [...] que com a expansão do capital pelo globo, gerou-se um valor excedente que vai buscar uma remuneração com um lucro razoável. Uma expansão consensata é o crescimento de 3% ao ano, sendo que o que um patamar baixo disso indicava uma economia lenta. Um crescimento nesse patamar representaria cerca de 100 trilhões de dólares (p. 30).

      A figura a seguir aponta o crescimento do capital excedente.

      FIGURA 6: Crescimento do PIB no mundo – 1950 a 2030

    Fonte:David Harvey. O enigma do Capital e ascrises do capitalismo, 2011, p.31.

      Os novos recursos disponíveis na economia mundial, circulando em busca de uma rentabilidade cada vez maior, possibilitaram o aumento do excesso de liquidez das moedas que passaram a circular pelas mãos especulativas dos bancos e por empresas transnacionais, no globo, e, teria sido dessa forma que esse capital perseguiu um risco maior ou menor, de acordo com as apostas e buscas de certas rentabilidades maiores ou menores.

      Um dos jargões da teoria de finanças é que quanto maior o risco, maior será a rentabilidade do investimento. Esse capital vai então refinanciar os países e suas dívidas externas já inadimplentes. Surge então a necessidade de se implementar nesses países devedores uma política que pudesse garantir o pagamento do capital aplicado. Processo este que ocorrerá pelas mãos do FMI e do Banco Mundial. Segue explicação de Millet & Toussaint (2004) sobre este fato:

      O terceiro ator no processo de endividamento é o Banco Mundial. Esta instituição, fundada em 1944, em Bretton Woods (juntamente com o FMI), aumentou consideravelmente seus empréstimos ao Terceiro Mundo, a partir de 1968, sob a presidência de Robert MacNamara, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos. Durante a Guerra do Vietnã de 1968 a 1973, o Banco Mundial. concedeu mais empréstimos do que durante todo o período de 1945 a 1968. Ele incitou os países do Sul a pedirem maciçamente financiamentos para a modernização de seu aparato de exportação e para atraí-los com mais força no mercado mundial. Estes empréstimos constituíram a

    parte multilateral da dívida pública externa

    27 (p. 568. Tradução nossa).

      Ainda de acordo com os autores:

      Até o final da década de 1970, o endividamento permaneceu sustentável para os países do Sul, porque as taxas de juros eram baixas e os empréstimos lhes permitiu produzir mais, exportar mais

      e, assim, valorizar suas moedas para pagar a dívida e realizar investimentos 28 (p. 577. Tradução nossa).

      Ocorre que nem todos os investimentos foram direcionados aos financiamentos dos países demandantes desses recursos, mas canalizados aos processos de modernização das indústrias dos países do norte, tais como máquinas, tecnologia e equipamentos.

      Isto decorreu porque os países desenvolvidos tinham o seu parque de máquinas originários dos processos fordianos

      29

      , derivados do primeiro quarto do século XX, e com o crescimento do consumo mundial não atendiam as expectativas, 27

      

    The third actor in the process of indebtedness is the World Bank. This institution, founded in 1944

    at Bretton Woods (along with the IMF; considerably increased its loans to the Third World from 1968,

    under the presidency of Robert MacNamara, former US Defense Secretary during the Vietnam War.

      

    From 1968 to 1973,the World Bank granted more loans than during the entire period from 1945 to

    1968. It incited the countries of the South to borrow massively to finance the modernization of their

    export apparatus and to draw them more tightly into the world market. These loans constituted the

    multilateral part of the external public debt ”. 28

      “Until the end of the 1970s, indebtedness remained sustainable for countries of the South because

    interest rates were low and the loans enabled them to produce more, to export more, and thus to earn hard currency to repay the debt and to invest”. 29 chegando a um esgotamento de tal processo de produção: as fábricas, tendo uma baixa produtividade, forçavam os pre ços, agora demandados, para “cima”; por sua vez, com o crescimento populacional mundial, novas necessidades surgiram pressionando-se a demanda por surgimento de novos produtos com preços melhores e tecnologias com sofisticação superior, como o caso de produtos eletrônicos, eletrodomésticos, veículos etc.

      Com os parques agora remodelados, a produtividade aumenta e os preços começam a cair, verificando-se que essas tecnologias proporcionariam o chamado ganho de escala.

      Conforme as teorias econômicas, em concorrência perfeita os lucros tendem a zero; isto significa que com os preços das commodities em queda livre, surge um fato expresso na máxima muito conhecida pela ciência econômica: a de que os recursos são escassos e as necessidades são ilimitadas.

      Assim, os lucros das empresas inicialmente se elevam, principalmente de bens de consumo, e de imediato tais lucros rapidamente se transformam em recursos monetários, formando-se assim uma nova fonte de capital excedente.

      Nessa linha afirma Harvey (2011): grande parte deste capital teria sido absorvido na produção, novamente, utilizado principalmente na expansão das fábricas e nos processo de modernização, fatos verificados nas produções japonesas e mais recentemente na chinesa (p. 32-3).

      Com a industrialização expandida anteriormente, os países do norte passaram a exportar massivamente para os países do sul, cujas indústrias não acompanharam o desenvolvimento daqueles países, desindustrializando-os ainda mais com o cunho em uma política neoliberal.

      Verificamos que os excedentes de capital norte-americano, na década de 60 e 70, começaram a migrar para outros países, começando-se uma evolução de seu capital por conta dessa industrialização e dos investimentos daquele país nos seus aliados do pós-guerra.

      Um fenômeno novo surge: na década de 80, as economias do Japão e da Alemanha Ocidental já cresciam à taxas superiores a norte-americana, fato que culminou com o processo de migração industrial para aqueles países, aumentando o desemprego e promovendo assim uma crise naquele país. A produtividade nesses países e na Ásia já eram maiores e se apresentavam em patamares de custos menores. Nessa linha, Tavares e Fiori (1993) afirmam que:

      [...] a política industrial japonesa não se limitou apenas à redução e reestruturação das indústrias siderúrgica, naval e petroquímica, as mais afetadas pela superprodução mundial. Dedicou-se, acima de tudo, à implementação de uma estratégia de transformação tecnológica centrada na eletroeletrônica de ponta e na difusão acelerada das novas técnicas de informação e controle no interior de todo o aparelho produtivo. O extraordinário aumento da produtividade e qualidade permitiu ao Japão um novo drive exportador, que sustentou a demanda industrial no período de transição. O domínio do mercado mundial de novos produtos de consumo de massa e, sobretudo, de novos equipamentos serviu de ponte para uma nova rota de industrialização capaz de resistir à instabilidade do dólar e do mercado internacional (p. 28).

      Por outro lado, a conversão do padrão ouro pelo dólar, na década de 70, fez com que os norte-americanos imprimissem mais moeda para atenderem a demanda mundial, o que provocou um forte endividamento, principalmente nos Estados Unidos, pois os lastros deveriam garantir essas emissões.

      Aduzem Tavares e Fiori (1993) que:

      [...] a nova alta do petróleo e forte elevação da taxa de juros

    • – iniciou- se uma reversão dramática da política cambial norte-americana. A “diplomacia do dólar forte” foi uma decisão unilateral dos EUA que, com sua política de juros altos, promoveu valorizações da ordem de 50%, entre 1980 e 1985, destinadas não apenas a fechar o balanço de pagamentos, mas também a reverter à decadência da moeda americana no cenário mundial (p. 29).

      Com o excesso de liquidez e com o consumo aumentando cada vez, começa a aparecer um cenário em que se apresentam um ciclo com altas taxas de inflação, que irão corroer economias de países, principalmente aqueles considerados como emergentes.

      Países com baixo desenvolvimento tecnológico passaram a importar em demasia produtos, principalmente bens de consumo, desnivelando suas balanças comerciais, remetendo-os a um endividamento ainda maior.

      Os impactos sobre os balanços de pagamentos sofreram consequências, desencadeando uma avalanche de maxidesvalorizações promovendo-se aos ajustes monetários pelos demais países. A reação foi que, segundo Tavares e Fiori (1993), países europeus com moedas frágeis alinharam-se ao marco alemão, enquanto outros países asiáticos ficaram entre o iene e o dólar, de acordo com a composição de equilíbrio entre seus recebíveis ou dívidas pré-existentes.

      Por seu turno, os chamados países desenvolvidos, com suas fábricas em plena capacidade produtiva, precisam agora escoar sua produção, introduzindo-se então uma avalanche consumista através de uma massiva propaganda.

      Os avanços tecnológicos também se inseriram nos meios de comunicação, possibilitando ainda mais a expansão consumista com os acessos facilitados aos meios de comunicação e mídia.

      Com o desequilíbrio forçado da balança comercial, grandes países dominantes foram também afetados por essa política; os EUA, em 1985, promovem uma súbita desvalorização do dólar, impondo aos demais países da OCDE um cerceamento de possíveis flutuações em suas moedas.

      Os recursos excedentes foram ao encontro do financiamento desses países endividados, principalmente os desindustrializados, financiando suas contas externas, resultado de balanças comercias desequilibradas.

      Para Tavares e Fiori (1993),

      As políticas de coordenação macroeconômica, ao não resolverem, senão confirmarem, desequilíbrios fundamentais da economia mundial, de fato acentuaram a competição intercapitalista. A necessidade de ganhar espaço no mercado internacional continuou movendo a reestruturação industrial com aumentos do investimento fixo e a internacionalização dos bancos dos principais países centrais (p. 40).

      Uma das consequências sociais desse ciclo provocado pelos desequilíbrios impostos pelos países do norte aos do sul transcorre quando esses não conseguem financiar suas dívidas. Nesse passo, recorrem ao FMI e ao Banco Mundial, entes criados em Bretton Woods, que tinham a missão de intervir em socorro desses.

      Com a gestão interventora, esses órgãos vão impor a tais países metas que visariam obter o chamado superávit primário. Com isso, ocorrerá a elevação dos impostos e os desinvestimentos, estabelecendo-se um processo recessivo com consequências danosas a população, conforme explanado por Damien & Toussaint (2004):

      Se os governos seguem as orientações do FMI, do Banco Mundial e de outros credores, eles não têm escolha senão a cumprir as medidas de austeridade fiscal rigorosa. Isso significa reduzir a despesa pública a um mínimo em áreas como a educação, a saúde, a manutenção da infraestrutura, e reduzir também, o investimento público em projetos que gerem empregos, na habitação, para não falar em pesquisa e cultura. As únicas áreas onde os gastos

      30 continuam são as militares, a policial e a da lei (p. 483. Tradução nossa).

      Com todos esses recursos circulando pelos países em busca do lucro, explodiram desigualdades sociais, desempregos, parcos investimentos nos países emergentes, as cargas tributárias elevaram-se e se eclodiram; além disso, as privatizações de empresas estatais ocorreram e jazidas de petróleos e outros minerais passaram às mãos de investidores por meio de privatizações.

      30

    “If governments follow the directives of the IMF, the World Bank and the other creditors, they have

    no choice but to instigate strict budgetary austerity measures. That means reducing public spending to

    a minimum in areas such as education, health, maintenance of infrastructures, and reducing public

    investment in projects that generate employment, in housing, not to mention in research and culture.

      CAPÍTULO 4°

    O QUE OS ÍNDICES MEDEM DE FATO?

      Conforme a metodologia de avaliação das agências de rating, aspectos econômicos recebem pontuação em uma determinada escala que, ao final, terminam por determinar a nota de um país. Tal nota será captada por investidores dos títulos de dívida soberanos, colocados no mercado desses papéis. Os juros pagos por esses títulos traduzem as expectativas influenciadas por essas notas de avaliação das agências. Nesse passo, incerteza e risco aparentemente se misturam.

      Richard Cantor e Frank Packer (1996) afirmam que:

      Em anos recentes a demanda por classificação de crédito soberano

    • – as avaliações de risco atribuídas pelas agências de avaliação de crédito às obrigações dos governos centrais
    • – aumentou dramaticamente. Mais governos com maior risco de inadimplência e mais companhias domiciliadas em países de risco estão pedindo empréstimos nos mercados internacionais. Embora os governos estrangeiros oficiais geralmente cooperem com as agências, as classificações atribuídas, que são mais baixas do que as esperadas pelos emissores, questionam a coerência e a lógica das avaliações
    • 31 soberanas (p. 1. Tradução nossa) .

        As classificações de crédito soberano na realidade são avaliações probabilísticas relativas em que o tomador do empréstimo se tornará inadimplente com suas obrigações (Ibidem, p. 2).

        É comum que as pessoas atribuam aos termos incerteza e risco o mesmo significado, ainda mais quando acrescentamos ao trinômio a palavra confiança. Entretanto, é preciso perceber, conforme bem preceitua Penrose (2006), que

        “a incerteza está ligada à confiança do empresário em suas estimativas e expectativas, e os riscos se relacionam com o resultado de uma ação e as possíveis perdas derivadas desta ação

        ” (p. 105).

      31 In recent years, the demand for sovereign credit ratings the risk assessments assigned by the

        

      creditrating agencies to the obligations of central governments has increased dramatically. More

      governments with greater default risk and more companies domiciled in riskier host countries are

      borrowing in international bond markets. Although foreign government officials generally cooperate

      with the agencies, rating assignments that are lower than anticipated often prompt issuers to question

        Isso significa dizer que existem marcantes diferenças entre elas, inclusive no campo temporal. Assim, em um primeiro momento, existe a incerteza e somente quando e se houver um movimento, uma ação, cuja mola propulsora será uma decisão, incidimos no campo do risco; é quando a incerteza se transmuta em risco.

        Os países possuem diversas fontes de incertezas, tais como risco políticos derivados de uma determinada ação governamental, desestabilidade e comoção social, ambientes regulatórios, limitações de ingresso e saídas de capital externo, crises internas e políticas, falta de planejamento do país, desequilíbrios de contas, adesões internacionais, sem contar as crises sociais geradas por desempregos, guerras, revoluções, crimes organizados e outros inúmeros.

        Nesse esteio, fica fácil percebermos , então, que ao ser “promulgada” a nota de avaliação, definida pelas agências de rating, passa a ser risco. Percebamos: a agência avalia o país em função das incertezas, mas ao proferir a nota, ela materializa essas incertezas, transformando-as em risco.

        Richard Cantor e Frank Packer (1996) afirmam que as classificações soberanas são importantes não apenas por serem os governos considerados os maiores emissores desses títulos no mercado, mas também porque estas avaliações afetam os tomadores de empréstimos da mesma nacionalidade. ”Por exemplo, as agências raramente, ou nunca, atribuem uma classificação de crédito a uma municipalidade local, a um governo provincial ou a uma empresa privada que seja

        32

        mais alta do que aquela do país emitente” (Ibidem, p. 02. Tradução nossa).

        Nota-se, também, por um outro estudo de Garcia & Didier (2003) que um país, quando realiza operações financeiras internacionais , ele perde a liberdade de fixar sua taxa de juros como preceituam os autores, “isso ocorre devido aos fluxos

        33

        de capitais. Sob um regime de cambio fixo (ou controlado), uma taxa de juros muito baixa ocasionaria uma fuga de capitais que provocaria uma contração monetária com a consequente elevação dos juro s” (Ibidem, p. 254). Por sua vez, sob

        34

        o regime do cambio flutuante , a taxa de juros de muito baixa provoca fuga de capitais deteriorando a taxa de cambio daquele país (Ibidem).

      32 For example, agencies seldom, if ever, assign a credit rating to a local municipality, provincial .

        33 government, or private company that is higher than that of the issuer’s home country

      Por cambio fixo entende-se o instrumento de política monetária em que o governo define a cotação

      34 da moeda local em relação a estrangeira.

        

      Entende-se como cambio flutuante o sistema em que a compra e venda de moedas funciona sem a

        35 Se tomarmos o significado da palavra colonialismo , notamos que o modelo

        internacional de crédito acaba por impor um domínio direto por forças de mercado de investidores àquele país, restringindo a sua soberania.

      4.1. BREVE ESTUDO SOBRE OS EFEITOS DAS AVALIAđỏES

        RATING

      4.1.1. CONCEITOS FUNDAMENTAIS

        Existem dois conceitos que verdadeiramente precisam ser observados para que possamos compreender a dinâmica e consequentemente o seu produto (avaliações das agências). Referimo-nos à assimetria de informação entre aplicadores e tomadores de recursos, e ao princípio do direito internacional da imunidade dos estados soberanos.

        Com relação ao primeiro, é preciso perceber que o devedor tem um maior conhecimento sobre sua capacidade e vontade de quitar sua dívida em relação ao credor. Assim, o tamanho dessa assimetria vai influenciar diretamente no montante do prêmio pelos riscos do crédito concedido em operações financeiras.

        Podemos dizer mais: na realidade, as transações financeiras só se desenvolvem quando se fazem possíveis, ainda que minimamente, os meios para atenuar o peso negativo das assimetrias daquelas informações. Otaviano Canuto & Pablo Fonseca P. dos Santos (2003) enumeram várias: coleta e processamento de informações antes das operações, firmação de contratos e monitoramento de sua execução de modo a controlar o uso dos recursos após o repasse, estabelecimento de garantias de modo a minimizar as perdas em caso de inadimplência ou falência do devedor, dentre várias outras que poderiam ser citadas (p. 8).

        Porém, percebamos que além de custosas, nenhuma dessas medidas é totalmente eficaz para garantir que o crédito concedido venha a ser efetivamente 35 pago. Assim, se não houver garantias e instrumentos legais-judiciários ou

        “Esta palavra veio a designar a ocupação, pela força e a longo prazo, por parte de um país institucionais que sustentem o cumprimento dos contratos, há um encarecimento dos riscos do crédito, ou até mesmo a inviabilidade das transações financeiras.

        Aqui entra o papel das agências ou instituições privadas e públicas de classificação (rating) de riscos de crédito. Elas se antecipam em relação à coleta e ao processamento de informações, fazendo-o antes e independentemente da celebração de operações de crédito. Esse produto, esse dado, a mensuração desse risco passa a existir, quer se celebrem ou não contratos. E mais: a presença de agências supridoras de rating, como mercadoria, constitui elemento necessário para que a oferta de recursos financeiros, em qualquer economia, não fique restrita a bancos.

        Isso (aliado ao uso de bônus e títulos como principais instrumentos de captação) possibilitou que o conjunto de credores tornasse-se maior, mais difuso e heterogêneo, ao contrário do cenário existente até os anos 80, em que o crédito externo era substancialmente fornecido aos governos por um grupo restrito de bancos internacionais. Inegavelmente, a dinâmica do mercado financeiro internacional atualmente é outra.

        Podemos começar a tratar, então, do segundo conceito fundamental para se entender a dinâmica das agências e do mercado de crédito internacional: o princípio do direito internacional da imunidade dos estados soberanos. Existe um dado de que muitos se esquecem: a avaliação de risco soberano deve julgar não somente a capacidade, mas também (quiçá principalmente)a vontade de os governos pagarem seus compromissos em dia. Note-se que essa decisão governamental não está adstrita apenas a fatores econômicos e financeiros, mas igualmente a realidades sociais e políticas vividas por cada um dos países, em determinado momento histórico (Ibidem, p. 21).

        E, conforme prelecionam os autores, diferentemente de uma relação privada, não existe, em última análise, uma entidade supranacional capaz de resolver, em tempo razoável, os contenciosos entre governos inadimplentes e os credores. Isto porque, no campo do direito internacional, vige o princípio da imunidade dos estados soberanos, segundo o qual as propriedades, tanto físicas quanto financeiras dos governos, não estão sujeitas a jurisdição de um segundo governo estrangeiro (Ibidem).

        A esses credores insatisfeitos restará impor como sanção aos governos inadimplentes o fechamento do mercado internacional de crédito e a exigência de um maior prêmio (maior taxa de juros) quando voltarem a captar no exterior. Ou seja, um desgaste e uma incerteza que os credores não pretendem correr, a menos que a remuneração valha realmente a pena (Ibidem).

      4.1.2. A METODOLOGIA DAS AGÊNCIAS DE RATING

        Em suas exposições sobre os critérios usados em seus ratings, as agências listam inúmeros fatores políticos, sociais e econômicos que dariam origem às suas classificações. Segundo Renata Soares de Souza (1998), as agências de classificação de risco utilizam oito categorias para avaliar o risco soberano, cada qual, contendo pelo menos três subcategorias (p. 35-7). Seriam elas:

        1. Risco Político;

        2. Renda e Estrutura Econômica;

        3. Perspectiva de Crescimento Econômico;

        4. Flexibilidade Fiscal; 5. Ônus da Dívida Pública;

        6. Estabilidade de Preços;

        7. Flexibilidade do Balanço de Pagamentos; 8. Dívida Externa e Liquidez.

        Richard Cantor e Frank Packer (1996, p. 39-40) definem essas mesmas oito variáveis e as relacionam com uma explicação de seus significados frente a capacidade e disponibilidade de recursos face à dívida:

        Renda per capita. Uma base tributária elevada deum país indica uma maior robustez em sua capacidade de pagamento de sua dívida. Esta variável indica, também, o nível de estabilidade política e outros fatores importantes. Crescimento do PIB. Quando essa taxa elevar-se, indica-se que o peso da dívida se tornará, relativamente ao crescimento econômico, mais diluído entre os agentes desse crescimento e, portanto, mais fácil o seu pagamento. Inflação.

        “Uma taxa alta de inflação aponta para problemas estruturais nas finanças do governo” (Ibidem, p. 39. Tradução nossa).E ainda, “quando um governo parece incapaz de pagar suas despesas orçamentárias correntes através de impostos ou emissão de dívida, deve recorrer a financiamento inflacionário ” (Ibidem). Essa definição de inflação depende muito do referencial teórico que se adote, mas é certo que o aumento persistente generalizado no índice de preços erode a base monetária desse país. Balanço fiscal.

        Para o autor “um déficit federal grande absorve a poupança doméstica e sugere que um governo não tem a capacidade ou vontade para tributar seus cidadãos para cobrir as despesas correntes ou o serviço da dívida” (Ibidem, Tradução nossa). Balanço externo. Quanto maior a dependência, tanto do setor público como do privado, dos recursos externos para financiamento de suas atividades, maior a indicação de insustentabilidade do pagamento de suas dívidas. Assim,

        “Um grande déficit em conta corrente indica que os setores público e privado dependem fortemente de recursos do exterior. Um déficit em conta corrente que persiste resulta em crescimento do endividamento externo

        ” (ibidem). Dívida externa. O desiquilíbrio nas transações públicas e privadas aumenta o débito no conta corrente do país. Consequentemente, o peso da dívida cresce aumentando o risco de inadimplência.

        “O peso da dívida aumenta conforme o débito em conta corrente de um país aumenta relativamente a seus ganhos de divisas (exportações) ” (ibidem. Tradução nossa). Desenvolvimento econômico. Para Cantor e Packer, as agencias atribuem o efeito limiar no relacionamento entre o crescimento econômico e risco. Para elas, ao atingir certo nível de desenvolvimento, o país estaria menos vulnerável a inadimplência e propenso a esse crescimento, se aproximando da classificação de países industrializados, definido pelo FMI. Não se tem ao certo quais são os fatores estabilizadores embutidos nas políticas macroeconômicas dos países e quais seriam as alteração necessárias para se atingir tal estágio. Nota-se o estreito vínculo com as agências e o FMI nesse aspecto. Histórico de inadimplência. A reputação da dívida soberana e dos novos empréstimos se vincula estritamente com os históricos de débitos contraídos no mercado. Tais evidências são possíveis de se verificar na própria metodologia de cálculo do risco-soberano estabelecido pelo J.P. Morgan, similarmente em risco de crédito em que um tomador privado se relaciona com um banco. Ocorre, entretanto, e esse é um nó górdio da questão, que não se sabe exatamente quantas e quais são as variáveis usadas efetivamente pelas chamadas agências internacionais de risco. Nas variáveis de risco político, por exemplo, o peso é um fator escolhido de forma indicativa dentre uma escala, o que suscita muitas dúvidas ao observador da avaliação.

        Não são poucos os autores a contestar tal mensuração. Confiram as palavras de Gudynas (2005):

        As metodologias nem sempre são explicadas; em muitos casos, os procedimentos de cálculo não são divulgados e ficam de fora muitos componentes críticos. Até mesmo o FMI já reconheceu que as avaliações de risco estão limitadas por

        “informações insuficientes e uma visão incompleta sobre a dinâmica do mercado ”. Essas questões não passam de opiniões de técnicos que estão localizados em um espaço transnacionalizado, fora de qualquer controle social ou político local (p.82-7).

        Já Fattorelli Carneiro (2007) chega a ser mais incisiva, afirmando que existe uma manipulação dos índices. Confira-se:

        A despeito de qualquer explicação técnica, esse “risco-país” transformou-se em indicador de solvência do país e da qualidade de determinadas políticas econômicas medidas pela lógica dos credores da dívida externa. Seu elevado grau de subjetividade torna esse indicador extremamente manipulável, servindo de instrumento de controle político; ou seja, se um país se dispõe a aceitar políticas

      ortodoxas e realiza reformas neoliberais, seu

        “risco” tende a cair, mesmo que tais medidas se mostrem recessivas e venham a comprometer seriamente a economia do país e gerem necessidade de contratar mais dívida (p. 149).

        Nessa linha, causa-nos estranheza a afirmação de Walter Wriston, presidente

        36 da Citicorp, pronunciada em fins dos anos 70: .

        “the countries never go bankrupts

        (TAVARES&FIORI, 1993, p.131. Grifo nosso). Naquela oportunidade, os bancos apresentaram-se com um excesso de liquidez em dólar, disponíveis em seus ativos, provenientes dos recursos ou das riquezas auferidas pelos dólares árabes derivados do petróleo.

        Para Tavares&Fiori (1993), no decêndio de 80, os bancos tinham uma visão otimista com relação a superação da crise internacional 36 e “não compartilhavam do pessimismo estrutural sobre a competência dos países latino-americanos da gestão de seus empréstimos” (p.131). E aduz: “acreditavam na redinamização do comércio e na elevação dos preços das commodities

        ” (p.131). Acreditavam na reestruturação estabilizante do FMI para atenuarem os efeitos dos desequilíbrios das contas correntes, fato que não aconteceu.

        Ainda acerca das dúvidas metodológicas da classificação de risco país

        37

        realizado pelas agencias de rating, presente no anexo desse estudo , nota-se que, normalmente, o processo de classificação é composto por três etapas: i) avaliação de conjuntura econômica, ii) quantificação dos fatores avaliados, mesmo que qualitativos, por meio de um “modelo de pontuação” e iii) decisão da classificação por votação em um comitê com base na análise das informações levantadas em (i) e (ii).

        Assim, a análise de conjuntura geralmente é iniciada com uma visita de pelo menos dois integrantes da agência ao país em avaliação. Após encontro com funcionários do governo, também são feitas reuniões com jornalistas, pesquisadores, membros da oposição política, dentre outros, de forma a serem obtidas igualmente informações que sirvam de contraponto àquelas oficiais.

        Após esta visita, um relatório é elaborado e distribuído aos membros do comitê que compõe a avaliação de rating. Nele constam tabelas de dados macroeconômicos, projeções e a recomendação de classificação.

        Vale citarmos que esse comitê é a principal instância do processo de classificação e, por isso, se compõe de forma heterogênea, uma vez que fazem parte dele, além dos analistas especializados no país avaliado, analistas dos setores privados relevantes e especialistas em soberanos de diversas regiões e de classificação. Cada parâmetro é discutido e avaliado abertamente por seus membros, sendo, posteriormente, pontuado por votação daquele grupo.

        Não podemos perder de vista que as agências estão emitindo, em última análise, uma opinião sobre a probabilidade de eventual ou futura inadimplência, e, portanto, as projeções de indicadores macroeconômicos têm um importante peso no modelo de pontuação. No caso da S & P, as principais projeções consideradas são: PIB nominal per capita (em dólares), crescimento real do PIB per capita, resultado 37 nominal do governo geral/PIB, dívida liquida geral ou consolidada do governo/PIB, despesas brutas com juros/receitas brutas, inflação medida pelo índice de preços ao consumidor, necessidade bruta de financiamento externo/reservas internacionais, dívida externa líquida do setor público/receitas de conta corrente do balanço de pagamentos e dívida externa líquida do setor privado não financeiro/receitas de conta corrente do balanço de pagamentos.

        Canuto e dos Santos (2003) ainda ressaltam que para construir as projeções do setor real e monetário, as agências utilizam extensivamente os cenários de médio-prazo do FMI e do Consensus Forecast, da Consensus Economics. De toda forma, não podemos negar que sempre existirá certo subjetivismo por parte dos integrantes destes comitês em suas análises (p. 22).

        Tendo sido feitas todas as considerações, a classificação é votada e na sequência é elaborado e divulgado um relatório que representa a visão majoritária do comitê. Ele vem acompanhado de uma seleção de indicadores macroeconômicos e projeções para no máximo dois anos seguintes. Uma vez estabelecida essa classificação, ela é revisada periodicamente.

        Ainda com relação a estas alterações, ressalta-se que as revisões são feitas diante de fatos ou mudanças relevantes de cenários que possam afetar as perspectivas de crédito do devedor ou do emitente. Isto inclusive permite que compreendamos porque as classificações das agências de rating com a S & P, Fitch Rating e Moody’s não sejam alteradas em tempo real.

        As agências de rating manifestam, portanto, os riscos inerentes a diversos papéis e países e têm como focos dois pontos: (1) a capacidade de o devedor honrar pontualmente os compromissos assumidos (juros e principal) durante o período de maturação do título e (2) a quantidade creditícia do devedor ou emitente.

        Ou seja, o foco será o risco de perda decorrente do inadimplemento do devedor. Por isso frisamos tanto os dois conceitos que abriram o presente capítulo. A mensuração do risco deverá levar em consideração também

        “a real intenção do país em honrar seus compromissos ”, o que convenhamos é um elemento bastante subjetivo da avaliação e de difícil contorno, já que versa no campo de opinião do analista (observador).

        No artigo citado, o “Risco-Soberano e Prêmio de Risco em Economias

        Emergentes ”, de autoria de Otaviano Canuto e Pablo Fonseca P. dos Santos (2003), existe um bem delineada descrição sobre a classificação das agências de rating.

        38 Segundo os autores, cada uma delas possui uma taxonomia própria, o que de fato

        vai dificultar a interpretação e comparação (mas não torna impossível, note que os autores recomendam o uso de uma tabela comparativa).

        Segundo se depreende daquele texto, percebemos que, grosso modo, as classificações são variações da escala A, B, C, D. Na escala da S & P e da Fitch, a melhor classificação é AAA e a pior, D. Já na escala da Moody’s, a melhor classificação é Aaa e a pior, C. Quanto pior a classificação, maior é a probabilidade de moratória e vice-versa. Os governos classificados acima de BBB ou Baa3 são chamados de “grau de investimento” enquanto os classificados abaixo são chamados de “grau de especulação” (Ibidem, p. 9-10).

        Para diferenciar governos em uma mesma categoria, a S & P e a Fitch adotam sinais aritméticos (+ e - ) e a Moody’s números (1, 2 e 3). As categorias mais elevadas (AAA e Aaa) e as mais baixas (CC, Ca, ou abaixo), não possuem tais símbolos de diferenciação. (Idem, idem, p. 10).

        Assim, para cada governo avaliado, as agências divulgam sua opinião sobre a direção provável da classificação do risco no médio prazo (um a três anos). Esse indicador é chamado de perspectiva (outlook), que pode ser positiva, negativa, estável e em desenvolvimento. Havendo uma perspectiva de alteração nas ditas classificações relativamente a um país, as agências podem colocá-lo em uma listagem à parte. A Moody’s chama de “lista de aviso” (watchlist) e fornece a possível direção da classificação nos próximos 90 dias: em revisão para elevação (up grade), em revisão para rebaixamento (down grade) ou indefinido. A listagem da Fitch é chamada de “alerta de classificação” (rating alert) e a do S & P de “aviso de crédito” (CreditWatch), de caráter positivo, negativo ou indefinido.

        A metodologia completa de avaliação e mensuração das agencias Standard& Poor´s e Moody´s encontram-se no anexo 2º.

        38

      4.2. O MERCADO DE TÍTULOS SOBERANOS

      4.2.1. A GERAđấO DA DễVIDA

        Do ponto de vista do país, a necessidade de se tomar empréstimo ocorre por uma dinâmica. A fim de tornar mais visível a dinâmica e fluxo de formação de dividas de um país, apresentamos a seguir o modelo modificado de Eduardo Fortuna (2009), que representa uma descrição de um sistema financeiro, tendo por exemplo o caso brasileiro. Salvo a discussão de que a economia de um determinado país é regulamentada ou não, tal modelo apresenta similaridade com outros países já que

        

      39

      o Brasil é signatário do acordo da Basiléia .

      39 Realizado em 1988, na cidade de mesmo nome, na Suíça. Conforme esse acordo, os bancos dos

        

      países signatários (mais de 100 países), face à preocupação com a estabilidade do sistema bancário,

      a igualdade nas condições de competição entre bancos de atuação internacional no que se refere a

      custos regulatórios, resolveram propor uma “regulamentação” de regras e padrões, preservando o

      capital próprio constituído em volume proporcional aos seus ativos (CARVALHO, 2007, p. 160).

      Alguns países desenvolvidos e industrializados impuseram à sua rede interbancária critérios de

      constituição dos seus capitais para fazer frente a custos de crises e quebras do sistema financeiro,

      preservando assim os interesses dos depositantes. Ainda segundo o autor, “o acordo de 1988 previa

      que os bancos de atuação internacional constituíssem capital proporcional ao risco de credito

      assumido em suas aplicações”. Já, no novo acordo de 1994 “a estratégia de Basiléia não se resume

      mais à constituição de capital próprio do banco em proporção a seus ativos ponderados pelo risco de

      crédito. Agora, a estratégia se apoia em 3 pilares: determinação de coeficiente de capital, intervenção

      do supervisor e disciplina de mercado” (p. 161). Ainda em 2010, houve a revisão da Basiléia II,

        ESQUEMA 6: Fluxo da dinâmica do mercado

        Hemisfério interno Hemisfério externo

      Fonte: adaptado de Eduardo Fortuna, 2009, p. 69.

        Segundo análise de Eduardo Fortuna (2009), o governo emite títulos através de seu caixa (Tesouro Nacional) para cobrir seus déficits orçamentários. Os dólares provenientes da Balança de Pagamentos são registrados no Banco Central como reservas e aplicados no exterior. Esses mesmo dólares são transformados em reais pelo Banco Central para serem entregues no Brasil a quem de direito, e imediatamente emitidos títulos, pelo Tesouro, de forma a evitar o aumento de liquidez na economia (p. 69).

        Os bancos captam recursos entre si através da emissão de certificados interbancários (rede interbancária) e, com esses recursos, compram ativos. Por sua vez, os bancos compram recursos junto ao público, dando em troca títulos privados, como o CDB (Certificado de Deposito Bancário), LC (Letra de Câmbio) ou RDB (Recibo de Depósito Bancário) para a compra de CDI (Certificado de Depósito Interbancário) ou Títulos do Governo, de acordo com a oportunidade das taxas ofertada, ou devolvendo ao público na forma de empréstimos (Ibidem).

        Os bancos trocam recursos com o público através das contas correntes, utilizando-os em oportunidades de negócios com títulos ou devolvendo-os ao público na forma de empréstimos. Os bancos recebem recursos do público através de compras de cotas de fundos, direcionando esses recursos para a aquisição de títulos públicos e privados (Ibidem).

        Os Governos, sem caixa para os seus compromissos, podem emitir títulos externos para captarem recursos externos financiando seus déficits orçamentários. Esses títulos estão submetidos à subserviência internacional de juros variáveis que investidores querem pagar, em um mercado internacional. Alguns desses títulos são conhecidos como notes, adr e bonds.

        O risco imposto pelos investidores internacionais fará parte da componente dos juros do crédito concedido ao país que, como apresentado, possui duas componentes (o risco endógeno e exógeno). Ocorre que a componente exógena transcorre no ciclo contínuo, ou seja, propaga-se de forma dinâmica.

        O cidadão não percebe que esses efeitos rapidamente passam a fazer parte de seu dia-a-dia, seja em seus investimentos bancários, ou pior, nas aquisições de consumo que se realizam através dos seus crediários nas lojas de varejo, muito comum nesse momento de nossa economia. Isso porque as taxas de juros domésticos perfazem-se substancialmente em função das taxas externas.

        Dado que a economia é um sistema complexo, interligado e em rede, aquela avaliação acaba por repercutir junto às unidades familiares e módulos produtivos e, ressalta-se, o fazendo em efeito cascata, que pode tomar a proporção de avalanche, nem sempre mensurado em toda sua extensão.

        

      4.2.2. A NEGOCIAđấO DOS TễTULOS SOBERANOS E AS

      ESTRATÉGIAS DOS INVESTIDORES

        As maiorias dos países têm as suas economias observadas, avaliadas e mensuradas seguindo padrões de risco estabelecido pelas agências internacionais de avaliação que, em tese, indicaria o quanto o país estaria perto ou distante de honrar seus compromissos. Tendo em vista que o capital circula livremente pelo globo, dada sua frenética busca por auto reprodução, seus grandes detentores consideram aquelas avaliações para investir ou não em determinadas economias, o que significa maior ou menor fluxo de investimento externo e, em última análise, maior ou menor oferta de crédito.

        Notemos que esse índice-risco país vai compor os preços dos papéis financeiros, utilizados por aqueles países ao captarem recursos de investidores internacionais, ligados a bolsas de valores onde comercializam esses títulos, chamados soberanos.

        Ocorre que uma avaliação inadequada ou induzida culmina por influenciar os preços dos títulos. Como os juros desses papéis são variáveis, forças de mercado atuarão na precificação dos retornos de investimentos, movidos pelos seus interesses, o que pode ser constatado na própria metodologia estabelecida para esse fim. Os investidores, ao captarem os riscos envolvidos e determinados pelas agencias de rating, atuarão com estratégias na oferta ou na diminuição do crédito.

        Assim, por decorrência, afetam as balanças de pagamentos dos países bem como a sociedade como um todo, quando cada cidadão for apenado por tarifas e impostos no momento do pagamento dos empréstimos e dos juros aos investidores.

        Podemos notar que há uma consulta preliminar em relação aos valores e aos rendimentos a serem pagos aos investidores. O mercado de oferta dos títulos soberanos opera sobre três etapas. A primeira refere-se a consulta realizada pelo governo aos investidores possíveis e

        40

        suas expectativas em um processo conhecido como bookbuilding. Após esta etapa, com o aval dos investidores, a operação é executada com a escolha dos Dealer

        

      Managers, que são os responsáveis pela assessoria de intermediação entre o

        emissor e o investidor. Eles atuam como subscritores responsáveis pela distribuição do título a ser emitido, intermediando a negociação e recebem por isso um pagamento através de uma comissão. Na opinião de Carvalho & Morais (2009):

        Dada a natureza dinâmica do mercado financeiro e a necessidade de haver compatibilidade entre as habilidades do DM e as características de cada operação, a escolha dos underwriters deve ser pautada não apenas por critérios relacionados aos custos da operação, mas também por critérios relacionados à qualidade 40 (expertise) da instituição financeira. Dentre os aspectos a serem

        

      Bookbuilding é o processo no qual o coordenador da oferta avalia, junto aos investidores, a

      demanda pela operação. A palavra vem do inglês e representa justamente o processo de montar o

        considerados, incluem-se a capacidade de distribuição, o comprometimento em assegurar liquidez ao título após a emissão, a participação no mercado (market share) e o histórico de desempenho em operações anteriores (Ibidem, p.368).

        Formalmente, tais regras seguem as orientações da SEC (Security Exchange

        

      Commission), que inclusive obriga os países a contratarem um escritório de

        advocacia nos Estados Unidos. As consultas aos Dealer Managementsão realizadas formalmente através de proposta denominadas RFP (Request for Proposal). Toda essa formalidade ocorre, pois os países possuem a soberana jurídica e no caso de não pagamento, a corte definida passa a ser a dos Estados Unidos.

        Sabe-se, entretanto, que o contato com os investidores pode ocorrer de maneira mais informal, como visualizado na afirmação dos mesmos autores:

        Nos últimos anos, o Tesouro Nacional tem acessado o mercado internacional com certa frequência, tendo assim estabelecido relacionamento de negócios com cerca de 15 bancos de investimento que mantêm contatos semanais com a Mesa de Operações Externas do Tesouro Nacional e são potenciais candidatos para atuar como DM. O contato frequente elimina a necessidade de o Tesouro Nacional solicitar formalmente aos bancos que lhe enviem propostas para operações (RFP

      • – Request for Proposal) (Ibidem).

        A segunda etapa se inicia com a definição do book building previamente anunciado, a oferta do título é submetida aos investidores e estes têm liberdade de alterar ou cancelar as ordens de compra. A oferta é totalmente submetida a apreciação da demanda, que de fato comanda os valores e as taxas dos juros.

        Os DMs então comunicam aos investidores as intenções do emissor em relação à taxa e estes ainda têm total liberdade para alterar ou até mesmo cancelar suas ordens de compra inicialmente colocadas. Definida a taxa, os investidores confirmam a demanda final, e o emissor decide o volume a ser emitido. Uma vez conhecidos a taxa e o volume, ocorre o lançamento do título (launching), quando as condições finais da operação são divulgadas ao mercado.(Ibidem, p. 369).

        A terceira etapa se processa com a alocação por parte do emissor e dos

      Dealers Managers buscando a otimização entre a liquidez e o longo prazo.

      Obviamente, com a anuência dos investidores.

        A terceira etapa do processo é a alocação das ordens. Ao contrário do leilão, em que a alocação é dada implicitamente após a definição da taxa de corte, em um processo de book building o emissor e os DMs têm flexibilidade para alocar as ordens buscando uma combinação ótima entre investidores de longo prazo e provedores de liquidez.(Ibidem, p. 369). Em relação as estratégias dos investidores, quando analisam os índices de rating,

      verifica-sedos estudos de Richard Cantor e Frank Packer (1996) que a transmissão do

      índice de ratingpara o risco país ocorre de forma especulativa pelo mercado, como se

      depreende dos gráficos a seguir.

        

      GRÁFICO 5: Comportamento dos juros soberanos

      Fonte: CANTOR & PACKER, 1996, p. 45

        Segundo os autores, os anúncios de mudança na avaliação de risco soberano seguem uma tendência nos spreads e que se nivela gradativamente.

        Os anúncios de mudança na avaliação de risco soberano parecem preceder uma mudança similar na avaliação do mercado do risco soberano. Durante os vinte e nove dias que antecederam os anúncios de classificação negativa, os spreads relativos subiram 3.3 pontos percentuais sobre uma média cumulativa básica. Similarmente, os spreads relativos caíram em torno de 2.0 pontos percentuais durante os vinte e nove dias que antecederam anúncios de classificação positiva. O movimento de tendência nos spreads desaparece aproximadamente seis dias antes dos anúncios negativos e se nivela brevemente antes dos anúncios positivos. Seguindo os anúncios, um pequeno desvio nos spreads ainda é observado, tanto para os upgrades quanto para os downgrades. (p.

      41

      45. Tradução nossa).

        

      4.2.3. OS TÍTULOS EMBI: METODOLOGIA DE CÁLCULO CRIADA

      PELO J.P. MORGAN

        Em 1992 o JP Morgan Chase criou um índice para medir o desempenho diário dos títulos das dívidas dos países emergentes, também chamado EMBI, sigla para Emerging Markets Bond Index (Índice de Títulos da Dívida de Mercados Emergentes).

        O EMBI+ representa os retornos totais dos títulos da dívida em mercados emergentes. Esses títulos possuem junto a eles, outros títulos: o Brady Bondies (títulos decorrentes da renegociação de dívida externa do plano Brady), os

        “Bonds”e os Eurobonds.

        Em sua criação, o EMBI+ visava a reestruturação dos débitos dos países emergentes e a renegociação dos títulos de menor prazo para os de longo prazo. A reestruturação das dívidas na década de 1990 foi chamada de Plano Brady, sendo implementado no Brasil em 1992, quando da troca da dívida pública por sete novos bônus, cada um com sua peculiaridade. Quando esse índice passou a ser medido

        42 no Brasil, a partir de 1994, o mesmo era composto somente de bradies .

      41 Agency announcements of a change in sovereignrisk assessments appear to be preceded by a

        

      similar changein the market’s assessment of sovereign risk. During thetwenty-nine days preceding

      negative rating announcements,relative spreads rise 3.3 percentage points on anaverage cumulative

      basis. Similarly, relative spreads fall about 2.0 percentage points during the twenty-nine

      dayspreceding positive rating announcements. The trend movementin spreads disappears

      approximately six days beforenegative announcements and flattens shortly before

      positiveannouncements. Following the announcements, asmall drift in spread is still discernible for

      42 both upgradesand downgrades.

        Segundo o Banco Central do Brasil: “os bradies são os títulos criados por ocasião da reestruturação

      das dívidas externas de países que aderiram ao Plano Brady na década de 1990. No caso brasileiro,

      a reestruturação da dívida externa ocorreu em 1992, envolvendo a troca da dívida de

      responsabilidade do setor público por sete novos bônus de emissão da República, cada um com suas

      peculiaridades. Dentre os bradies, o Cbond (ou Front-Loaded InterestReduction Bond with

      Capitalization) foi o título brasileiro mais líquido no mercado internacional. O Tesouro Nacional

        Segundo Millet & Toussaint (2005), os países emergentes são aqueles em processo de desenvolvimento econômico e apresentam algumas características comuns, tais como: (1) baixa renda per capita; (2) países em processo de abertura econômica e/ou programas de reformas econômica estruturais em andamento; (3) países em processo de implantação ou consolidação de um mercado de capitais eficiente e transparente; (4) inflação em patamares elevados; (5) dívida externa elevada em relação ao PIB; (6) dívida total elevada em relação à receita fiscal; (7) países com um histórico de inadimplência ou moratória com os compromissos externos (p. 272-454).

        43 Tal índice (EMBI) funciona como um benchmark para investidores

        44

        compararem os desempenhos dos títulos das dívidas de países emergentes e decidirem sobre seus investimentos. Ele mostra a diferença do retorno médio diário dos preços desses papéis em comparação ao retorno de títulos do Tesouro dos Estados Unidos (considerado pelo mercado como títulos de baixíssimo risco).

        No caso brasileiro trata-se do EMBI+ Brasil, também conhecido como Risco Brasil e o mercado financeiro o utiliza como medida de confiança ou desconfiança para os rumos da economia nacional. Vale lembrar que o EMBI+ concentra basicamente títulos da Argentina, do Brasil e do México, refletindo a liquidez e dívida externa desses países. Ao todo

        A unidade de medida utilizada para calcular o EMBI+ é o ponto-base e, nesse caso, cem pontos-base equivalem a 1%. Eles mostram a diferença entre a taxa de retorno oferecida pelos títulos dos países emergentes e a oferecida pelos títulos do Tesouro Americano. Essa diferença também é chamada de spread, ou spread soberano, pois os devedores são, neste caso, os governos nacionais. Quando, por exemplo, se diz que o EMBI de um país está na casa dos 600 pontos, significa que os papéis oferecem

      • – levando em conta o total dos pagamentos periódicos de juros,
      • 43 o preço de compra, o valor de resgate e tempo que falta até o prazo de vencimento

          

        Trata-se de uma comparação de desempenho entre dois sistemas, tomando-se um como

        44 referência.

          

        De acordo com a metodologia criada pelo banco JP Morgan, no cálculo do risco-soberano, dois

        critérios são determinantes para definir-se se um país é emergente, para inclusão no grupo dos

        países EMBI Global, primeiro o país deve ser classificado como tendo uma renda per capita baixa ou

        média classificada pelo Banco Mundial nos últimos três anos (US$9, 635), valor publicado

        anualmente pelo Banco Mundial, Financiamento do Desenvolvimento Mundial. Também serão

        inseridos os países que reestruturaram sua dívida externa ou interna nos últimos dez anos, e que

        atualmente estejam reestruturando a sua dívida.

        • – taxas de retorno 6% ao ano acima das pagas pelos títulos do tesouro americano. Desta forma, teoricamente, os títulos refletem apenas os preços de mercado e a probabilidade de pagamento, não considerando os aspectos sociais de um país.

          Para melhor entendimento, o Banco Central assim define a metodologia utilizada para o cálculo do EMBI+:

          O EMBI+ é construído como uma composição de três tipos de instrumentos da dívida dos países emergentes: bradies, eurobônus, e empréstimos externos de entidades soberanas. Calcula-se inicialmente o retorno diário para cada instrumento individual, e a partir daí calcula-se a média aritmética dos retornos diários ponderada pelo valor de mercado para cada tipo de dívida. Finalmente, estima-se a média aritmética dos retornos diários médios dos quatro tipos de instrumentos ponderados pelos respectivos valores de mercado. O resultado é uma taxa de retorno para o EMBI+ como um todo, que é aplicada ao índice do dia anterior para se chegar ao índice do dia corrente. O cálculo do spread é simplesmente a diferença entre o rendimento de cada papel até o vencimento (o yield-to-maturity) e o rendimento de ponto correspondente na curva de papéis do tesouro norte-americano, e é expresso em pontos-base. Considerando-se o spread para o índice como um todo, utiliza-se o mesmo procedimento de cálculo, mas adicionando-se os fluxos de caixa dos papéis que compõem a carteira do índice (BACEN. Risco-país, 2014, p. 3).

          Na opinião do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) (2012), houve a demanda por parte do mercado de novos indicadores correlatos expurgando certos ruídos que esses índices originalmente indicavam:

          A composição de países mudou para atender as necessidades dos investidores,que vinham comprando títulos de um conjunto maior de países emergentes, todoscom um perfil semelhante, e precisavam de uma ferramenta de avaliação maisampla. As demandas também fizeram com que o Embi desse origem a outrosíndices. Um exemplo é o Embi Global, criado em 1993. O tipo de cálculo é omesmo do Embi+, mas ele é composto por um grupo ainda maior de países. Esseindicador incorporou países com renda per capita média ou baixa, que participamdo mercado de títulos, ainda que de forma menos expressiva. A intenção é daruma idéia mais completa das oscilações do mercado dos emergentes. O EmbiGlobal gerou um índice correlato, o Embi Global Diversified. Os mesmos paísesparticipam e com os mesmos pesos. Com isso, enxergam-se asoscilações do mercadosem o ruído causado por um ou outro país isoladamente (p. 12).

          O EMBI Global é calculado da mesma maneira que o EMBI+, porém com um critério de inclusão de países diferente do EMBI+. Ele inclui países com renda média ou baixa definida pelo Banco Mundial e o critério de inclusão no mesmo, não é tão rígido quanto no EMBI+, pois os títulos registrados se associam como de pouca liquidez. Assim, a principal diferença entre os dois títulos tratados é a liquidez que se apresenta.

          Os índices são calculados levando-se em consideração o volume de empréstimos lançados no mercado (estoque de dívida) e uma classificação dos

          45 instrumentos de dívidas dos países.

          Na metodologia do EMBI, o índice é calculado sob duas perspectivas: o EMBI Global principal está atrelado a um modelo de mercado de capitalização tradicional para se determinar o peso de cada emissão individual, bem como as alocações de índice do país. Alternativamente, há o EMBI Global Diversified, que limita os pesos daqueles países de índice com maior estoque de dívida, incluindo apenas uma porção específica destes com valor atual do montante de dívida pendente.

          Assim, para cálculo do EMBI, calcula-se o retorno diário total de cada título de dívida individualmente, na sequencia, para cada título de dívida (Brady, Eurobonds e Empréstimos), realiza-se o calculo da média ponderada dos retornos diários de cada título. Tal ponderação ocorre de acordo com a participação do título no mercado. E por fim, realiza-se da média ponderada dos retornos do conjunto dos três tipos de títulos. Já o cálculo possuí uma restrição atrelada ao limite de dívida já contraída, ou seja, há um fator limitador para se tomar um novo empréstimo.

          Como exemplo de restrição do EMBI Global Diversified, demonstramos a seguir o cálculo considerando os pesos de dívidas: Seja um país com as seguintes características de dívida:

        • 100% dos primeiros US$5 bilhões do estoque de dívida;
        • 75% do estoque de dívida que excede US$5 bilhões, mas não excede US$10 bilhões;
        • 50% do estoque de dívida que excede US$10 bilhões, mas não excede US$15 bilhões;
        • 25% do estoque de dívida que excede US$15 bilhões, mas não excede US$25 bilhões;

        45 Definido os países emergentes e dos países elegíveis ao serem selecionados, os instrumentos de

          

        dívida devem ser selecionados segundo os critérios: classificação do tipo de emissor; denominação

        da moeda; valor corrente do montante da dívida pendente; tempo restante até a maturidade; método

        de liquidação; retorno do fluxo de caixa; e disponibilidade de preço cotado.

        • 10% do estoque de dívida que excede US$ 25 bilhões, mas não excede US$35 bilhões; e - 0% do estoque de dívida que excede US$35 bilhões. Por exemplo, o país A no EMBI Global tem US$50 bilhões de dívida, dividida em cinco emissões separadas de títulos. Aplicando os passos de cálculo e das restrições descritas acima para o estoque de divida, resulta o seguinte:

          TABELA 2: Exemplo 1 - Embi Global Diversified Valor Percentual nominal da Resultado permitido dívida

          Montante de dívida é $5.00 x 100% = $5.00 ≤ US$ 5 K

          Montante de dívida> US$ 5 K $5.00 x 75% = $3.75 ≤ US$ 10 K

          Montante de dívida > US$ 10 K $5.00 x 50% = $2.50 ≤ US$ 15 K

          Montante de dívida > US$ 15 K ≤ US$ 25 K $10.00 x 25% = $2.50 Montante de dívida > US$ 25 K $10.00 x 10% = $1.00

          ≤ US$ 35 K Montante de dívida > US$ 35 K $15.00 x 0% =

          0.00 Estoque da dívida: $ 50.00 Montante: $14.75

          Percentual do estoque da dívida a ser negociada no mercado: 29,50% Fonte: Relatório JP Morgan, Methodology of EMBI Global, 2005, p.6

          Como mostrado na tabela anterior, o EMBI Global Diversified incluiria apenas US$14.75 bilhões da alocação dos US$50 bilhões do EMBI Global do país A. De fato, apenas 29.5% (US$14.75 bilhões dividido por US$50 bilhões) da alocação do EMBI Global do país A é negociável para inclusão no EMBI Global Diversified.

          Na próxima tabela, esse mesmo processo é aplicado para o país B, que tem apenas US$3 bilhões de estoque de dívida negociável, separado em cinco emissões de títulos, no EMBI Global. Os resultados são os seguintes:

          TABELA 3: Exemplo 2 - Embi Global Diversified Valor Percentual nominal da Resultado permitido dívida

          $3.00 x 100% = $3.00 Montante de dívida é ≤ US$ 5 K Montante de dívida> US$ 5 K ≤ US$ 10 K $0.00 x 75% = Montante de dívida > US$ 10 K $0.00 x 50% =

          ≤ US$ 15 K $0.00 x 25% =

          Montante de dívida > US$ 15 K ≤ US$ 25 K $0.00 x 10% =

          Montante de dívida > US$ 25 K ≤ US$ 35 K Montante de dívida > US$ 35 K $0.00 x 0% =

          Estoque da dívida: $ 3.00 Montante: $3.00 Percentual do estoque da dívida a ser negociada no mercado: 100,00% Fonte: Relatório JP Morgan, Methodology of EMBI Global, 2005, p.6

          Como mostrado na tabela anterior, o EMBI Global Diversified incluiria todos os US$3 bilhões do país B de dívida elegível. Como B tem um pequeno montante de dívida negociável, 100% das alocações de instrumento do EMBI Global total do país B também seria elegível para inclusão no EMBI Global Diversified.

          O J.P. Morgan publica periodicamente o spread soberano e o retorno ajustado pelo prazo. No primeiro caso representa o quanto de retorno o título superou o título do tesouro americano. E no segundo caso, o retorno ajustado refere-se ao fator que considera a probabilidade de os países não pagarem suas dívidas, na visão dos investidores do próprio mercado, que de acordo com suas opiniões ajustam o índice. Em 2002, no EMBI+ esse ajuste chegou a 6,92%, representando 650 pontos-base.

          Lembramos, também, que o EMBI+, EMBI ou Embi Global Diversified não devem ser confundido com as notas dadas aos países pelas empresas de classificação de risco, também chamadas de rating, pois enquanto as notas são baseadas em opiniões de especialistas, o EMBI+ ou o EMBI é calculado objetivamente através dos preços dos títulos colocados no mercado, conforme exposto. Desta maneira, poderíamos dizer que se as notas de rating implicam em expectativas e mudanças estruturais de longo prazo, o índice EMBI+ ou o EMBI sofre maior influência dos fatores de curto prazo e conjunturais.

          Entretanto, ressaltamos que não devemos nos iludir com tal independência, uma vez que influenciados pelas notas das agências, os preços dos títulos no mercado podem variar positiva ou negativamente, da mesma maneira que fatores políticos, atrelados à confiança no pagamento das dívidas, influenciam o valor dos títulos no mercado mundial. Um exemplo foi a oscilação positiva (aumentou o risco) de tal índice no segundo semestre de 2002, quando da provável eleição do presidente Lula e, apesar de os compromissos de pagamento da dívida externa, os seus discursos no passado de não pagamento ainda atemorizavam os investidores brasileiros e estrangeiros, elevando o EMBI+ Brasil para patamares recordes, mas logo em seguida estabilizados com o respeito aos contratos.

          Muito embora, como dito, esses títulos soberanos da dívida do país não apresentem diretamente a pontuação do risco país (agencias de rating), em sua metodologia de cálculo, nota-se a forte correlação da influência das classificações daqueles riscos país. Alguns trabalhos como o de Canuto & Dos Santos (2003) validam essa assertiva:

          No que se refere a classes de risco-soberano e prêmios de risco cobrados sobre títulos dos países, em particular dos títulos públicos de governos centrais, observa-se sua tendência de convergência ao longo de horizontes de tempos mais longos. O movimento dos ratings soberanos é mais estável, mudando com menor intensidade, até por causa de sua perspectiva de longo prazo, ao contrário dos spreads flutuantes de mercado (p. 39).

          Nessa linha, Cantor e Packer (1996) realizaram um trabalho através de regressões múltiplas em que detectaram um relacionamento transversal entre as classificações dadas pelas agências e os rendimentos auferidos (spread do título soberano), concluindo que:

          Os rendimentos soberanos tendem a subir conforme as classificações declinam. Este padrão é evidente no Gráfico 1, que traça os spreads do título soberano observado bem como os valores previstos da especificação da classificação média. Um traço adicional dos spreads corporativos médios em cada classificação mostra que os títulos soberanos classificados abaixo de A tendem a ser associados a spreads mais altos do que os títulos corporativos dos Estados Unidos. Uma interpretação disto é que embora os mercados financeiros geralmente concordem com as classificações relativas das agências sobre os créditos soberanos, eles são mais pessimistas do que Moody’s e Standard and Poor’s sobre os riscos de crédito soberanos abaixo do nível A (p. 44. Grifo nosso. Tradução nossa) 46 .

          46

        “Sovereign yields tend to rise as ratings decline. This pattern is evident in Chart 1, which plots the

        observed sovereign bond spreads as well as the predicted values from the average rating specification. An additional plot of average corporate spreads at each rating shows thatsovereign

        bonds rated below A tend to be associated with higher spreads than comparably rated U.S. corporate

        securities. One interpretation of this finding is that although financial markets generally agree with the

        agencies’ relative ranking of sovereign credits, they are more pessimistic than Moody’s and Standard

          GRÁFICO 6: Spreads do título soberano pela classificação de crédito Fonte: CANTOR & PACKER, 1996, p. 44

          Cantor e Packer (1996) levantaram em 35 países o desempenho das 8 variáveis econômicas (descritas acima), e por meio de uma regressão estabeleceram a curva pontilhada. Por sua vez, levantaram todas as pontuações de risco-soberano desses países e ajustaram por uma curva logarítmica e compararam com a curva anterior por eles estabelecida. Descobriram que elas possuem 86% de correlação. O que significa que as notas atribuídas pelas agências de rating são captadas pelo risco-soberano, cujos títulos e taxa de juro são definidos pelo mercado.

          4.3.- AS COMPONENTES DOS JUROS – BREVE ARCABOUÇO TEÓRICO

          Para Stiglitz (2003, p.77-8) os juros possuem papel central no impacto das dívidas, pois estão diretamente correlacionados, ao flutuarem, com os riscos existentes. Afirma que tais juros estão distribuídos por componentes de riscos, em rede.

          Segundo seus preceitos, aduz a seguinte proposição:

          Um aumento significativo no risco reduz as atividades de empréstimos e conduz a uma redução da certeza de equivalência de taxa de juros para um credor de risco neutro, embora a taxa de juros real provavelmente aumente (Ibidem).

          Aspectos informacionais estão associados a concessões de créditos. As informações estão associadas de forma assimétrica entre o concessionário do crédito (empréstimo) e o tomador. Assume-se por hipótese que o credor será um banco, analisando-se aspectos do seu ponto de vista na busca de certos padrões da componente risco.

          O risco aumenta de acordo com a concessão do volume de empréstimos realizados. Assevera que se o banco mantiver fixa a sua taxa de juro cobrada significará uma forma de sua redução, pois, para o tomador, não havendo o crescimento de tal taxa, tornará esse empréstimo mais interessante. Por sua vez, nessas condições, consideraria o risco neutro e tornaria o empréstimo mais atraente. Para ele, quando ocorrer um acréscimo na taxa de juro cobrada, haverá um aumento no risco, denotando que as condições de crédito não estarão mais estáveis. No lado oposto, o do investidor, o caso é contrário, pois interessa-lhe o maior acréscimo nesta taxa.

          Stiglitz (2003), continuando, afirma que

          [...] o que importa é se o aumento na taxa de juros cobrada é mais que o necessário para compensar a maior probabilidade de calote. Focamos no retorno esperado e chamamos isto de certeza de equivalência de taxa de juros para um credor de risco neutro. Questionamos, em outras palavras, o que acontece com as taxas de juros ajustada ao risco neutro. [...] Esta é uma questão complicada, simplesmente porque a probabilidade de calote é subjetiva, e pode diferir marcadamente entre o tomador e o credor. [...] o tomador pode acreditar que a taxa de juro cobrada é mais que suficiente para cobrir

          as chances de calote (e especialmente na margem, se o credor cobrar taxas de juros cada vez mais altas a cada momento que o tomador tomar mais empréstimos), enquanto o credor acredita que não está nem cobrindo o prêmio de seu risco (p.77).

          A seguir, o autor apresenta uma formulação demonstrando que o juro possui uma dinâmica de movimento projetiva. Este juro depende de duas componentes, a do ciclo de negócios do tomador e, intrinsecamente, de suas próprias margens. Significa que uma descontinuidade do capital no ciclo de negócios desse tomador torná-lo-á inadimplente, impactando o concessionário primário do capital.

          Desta forma, a modelagem transcorrerá como apresentado. Se a taxa de juro segura fosse e o risco dos bancos fosse neutro, então a taxa de juro ajustada ao risco é encontrada resolvendo-se o seguinte sistema de duas equações:

          (recebimentos no caso de não falência+ recebimentos no caso de falência)

          Aqui representaa quantia que o banco empresta a um tomador, por exemplo, uma firma. Tem-se que é o custo de falência da firma, e ) é o retorno no projeto implementado pela firma tomadora do empréstimo, o qual depende do estado do ciclo de negócios realizado com os seus parceiros , e em que é o valor no qual a firma entra em processo falência. O fator é a probabilidade de falência desta firma:

          O prêmio de risco cobrado por um banco avesso ao risco (ou pelo mercado) é então o excesso da taxa de juros cobrada sobre . Note-se que, para essa firma, a taxa de juro cobrada parece muito maior que a recebida pelo banco, já que perde todas suas saídas no caso de falência, enquanto o banco pode extrair apenas a quantia ) dos ativos falidos (Ibidem, p.77).

          O banco pode cobrir exatamente a equivalência de taxa de juro para um credor de risco neutro, (como definido abaixo). Então a taxa de juros subjetiva para a firma (custo liquido esperado do empréstimo), , é claramente maior que (retorno líquido esperado pelo banco):

          Assim, para o banco com portfólio diversificado, o que importa não é a probabilidade de calote desse empréstimo em particular, mas se haverá avalanches de calotes de tal forma que essa própria probabilidade aumente.

          Se o banco cobrasse apenas a taxa de juros que cobrisse o risco aumentado, então significa que o retorno manter-se-ia inalterado, mas a variabilidade do seu retorno aumentaria

        • – há uma chance maior, no momento em que uma grande fração de seus empréstimos seja impactada por esse conjunto de calote.

          A fim de verificarmos o comportamento dos juros e suas componentes, realizaremos as simulações no modelo de Gatti. Porém, será necessário entender se o modelo teórico presente na modelagem está em linha com esse arcabouço teórico.

          

        4.3.1. A COMPONENTE DE JUROS NA SIMULAđấO DO MODELO

        DE GATTI

          Por outro referencial teórico, dentre as variáveis macroeconômicas para o perfeito funcionamento da economia, há as taxas de juros. A economia é calibrada até o equilíbrio, regulando-se a parametrização do nível de emprego através da concessão de créditos e, por decorrência, afetando a produção, as receitas das empresas, as rendas familiares, patrimônio das firmas e dos bancos, dentre outros fatores.

          Quando uma economia busca financiamento no exterior, esta se submete não só as taxas de câmbios, mas também aos efeitos dos riscos que seus papéis (títulos) captam recursos naquele mercado.

          Segundo Garcia& Didier (2003), a taxa de juros para países emergentes, como o Brasil, por exemplo, é assim representada:

          

        i = i* + (f-s) + rp

          Em que, seguindo a notação anteriormente utilizada, i é a taxa de juros doméstica; i*, a taxa de juros externa; f, o (logaritmo de) valor futuro do dólar; s, o (logaritmo de) valor do dólar hoje; e rp, o risco país.

          Nessa abordagem, o risco país vai ser composto de uma a taxa de flutuação (f-s) de dólar futuro, mais uma variação da taxa de risco interna do país.

          Dado esse arcabouço teórico em que as taxas são compostas basicamente por duas variáveis

        • – uma endógena e outra exógena – então nos atemos ao modelo de Gatti.

          (recebimentos no caso de não falência + recebimentos no caso de falência)

          No modelo de Gatti et al.(2009), flutuamos a variável e notaremos o conjunto de falências ocasionado pelo acréscimo das taxas de juros externas, bem como as possíveis consequências levadas a essa economia artificial. Outros fatores serão analisados, como o capital social, os processos produtivos, os empréstimos etc, objetos de outro capítulo.

          A fotografia a seguir, na visão do artista, representa “o que nos oprime é o que nos salva”.

          FOTOGRAFIA 4 Fonte: Philipe Hérard, Collages, 2013, p. 09.

          CAPÍTULO 5° O ENDIVIDAMENTO DAS NAđỏES E SEU IMPACTO SOBRE O

        CAPITAL SOCIAL

          Para capturarmos aspectos de influência social provocado pela variação dos índices de avaliação, valemo-nos da topologia criada por Delli Gatti e seus colaboradores, cuja base provem das ideias de Stiglitz.

          Como veremos a seguir, no capítulo 6, trata-se do modelo que pressupõe uma economia artificial, em rede com cadeias cíclicas de crédito interno (crédito comercial) entre as empresas de setores produtivos, um crédito externo (crédito bancário), que empresta crédito para setores industriais (STIGLITZ& GREENWALD, 2003) e crédito a consumidor. Os compromissos da dívida não cumpridos levam a cadeias de falências denominadas bancarrota. Se tais compromissos de dívidas não são saldados, aumentam as inadimplências e refletem nas taxas de juros de forma circular, levando a um ciclo de falências. Aumento de taxa de juros eleva o ciclo de falências: "a alta taxa de falência é uma consequência da alta taxa de juros, tanto quanto é um resultado disso" (STIGLITZ, 2003, p. 145).

          O artigo que deu base à topologia forma um ciclo de negócios que estão interligados também aos processos de falências empresariais como um efeito em avalanche que surge (ou pode ser evitado). Simultaneamente, fatores como: demografia da empresa (como distribuição de tamanho e as taxas de crescimento) surgem endogenamente (e são mais resistentes a efeitos externos).

          No modelo, verificamos que um conjunto de empresas falidas ou bancos levam a um conjunto de desempregos, ocasionando uma diminuição de rendas das famílias. Sem rendas disponíveis, o consumo diminui e as empresas, ao deixarem de vender seus produtos, materializam prejuízos que são realizados e medidos em seus patrimônios. As dívidas não sendo pagas provocam falência dos setores e a economia toda entra em um processo de colapso.

          Nessa economia artificial, não foi possível inserirmos todas as variáveis possíveis de uma economia em um curso normal de atividades, mas pode-se notar o impacto dos juros sobre o processo em rede. Assim, juros compostos com fatores de “risco” faz com que essas taxas cresçam, ainda mais quando tal mecanismo é provocado por um artificialismo para atender interesses de certo grupo de investidores.

          No decorrer deste capítulo, propusemos demonstrar como tal artificialismo pode desequilibrar um ciclo econômico.

        5.1. COMO OS EFEITOS DOS FATORES DE RISCO ACOPLADOS AOS JUROS ADENTRAM NA SOCIEDADE.

          A fim de demonstrarmos como o “acréscimo” de dívida impacta uma economia, utilizaremos os estudos de Patrício Meller para a Revista Cepal, de 1987.

          O foco central desse estudo é a balança de pagamentos (BP), em sua totalidade, para analisar como um problema de desequilíbrio externo guarda interesse com acontece com a evolução do estoque de dinheiro, de tal maneira que se analisa um todo, ou seja, não só as partes

        • – balança comercial ou a conta corrente.

          Nesse modelo, o estoque de dinheiro é analisado sob duas maneiras distintas: a) através da contração ou criação do crédito interno; b) através dos fluxos de reservas internacionais. Ou seja, o papel crucial destas duas componentes vincula-se diretamente a base de expansão monetária. Nessa linha, Antonio M. de Almeida Serra (2014) aduz: Comecemos por explicar três dos principais pressupostos deste enfoque

          (expansão monetária): todos os bens são suscetíveis de serem objeto de troca internacional, sendo o seu preço, portanto, fixado no mercado internacional; existe tendencialmente um preço único para produtos semelhantes pelo que estes são Inter-substituíveis, não interessando se são produzidos internamente ou importados; as funções procura e oferta da moeda são estáveis, sendo, também, por isso, o multiplicador do crédito. Repare-se na forte influência da teoria quantitativa da moeda (MV=PQ) que este pressuposto manifesta (p.42). Antonio M. de Almeida Serra (2014), utilizando-se dos estudos de Patrício

          Meller, elaborou um balanço de um Banco Central com o objetivo de tornar mais evidente a distribuição das contas e as inter-relações das suas componentes:

          FIGURA 7: Balanço do Banco Central

          Balanço do Banco Central ATIVO PASSIVO R - Reservas internacionais

          H - Base monetária

        • divisas
        • ouro
        • depósitos em bancos estrangeiros
        • Direitos de Saque Especiais - quota no FMI C - Ativos Financeiros Nacionais C1 - Crédito ao Setor Público (Títulos da dívida pública) C2 - Créditos ao Setor Privado ( e a Bancos Comerciais) Fonte: Manuel de Almeira, Curso sobre Políticas Econômicas de Desenvolvimento.

          Existe uma relação fundamental dada por R + C = H; segundo Meller (1987):

          a) Se o Banco central intervém no mercado de câmbio vendendo ou comprando dividas externas, impulsiona uma modificação nos ativos de reservas internacionais desse Banco Central, portanto ocorre um efeito em H.

          Se, por sua vez, o Banco Central compra divisas internacionais, representado por R, o pagamento na moeda local aumenta o chamado dinheiro primário H.

          b) Se o Banco Central apresentar um superávit na balança de pagamento, sem haver uma compensação (fuga) de fluxo financeiro produz-se um aumento líquido nas reservas R. Esse aumento em R significa que o Banco Central paga aos exportadores em moeda local. Consequentemente um superávit na balança comercial produz um incremento na base monetária H.(p.196)

          Para Meller (1987):

          Em geral, os países que tem um déficit em sua balança comercial, quando não aplicam políticas de esterilização, experimentam uma contração de sua Base monetária H. Já os países com superávit em sua balança comercial experimentam uma expansão de H (p.196).

          Uma outra relação importante é definida por: eR + C = H, em que e representa a taxa de câmbio. Antonio M. de Almeida Serra (2014) faz a seguinte análise em seu curso:

          Repare-se que a partir dela é possível concluir que, tomando como ponto de partida uma situação de equilíbrio externo, eR + C = H ou, o que é o mesmo mas explicitando o nível das reservas, eR = H - C, o que significa que, uma vez que eR é equivalente ao saldo da Balança de Pagamentos contabilizado em moeda nacional, este saldo é igual ao diferencial entre as variações da base monetária e do crédito interno (público e privado).

          Outras análises poderão decorrer de eR + C = H, em particular em relação a balança de pagamentos: Supondo um desequilíbrio na balança comercial, como o Banco Central irá financiar essa situação? O mesmo autor responde da seguinte forma:

          Os importadores, ao requerem recursos (moeda estrangeira) ao banco Central, impactarão a economia em dois efeitos simultaneamente distintos:

          a) Diminuição no nível de reservas internacionais, cujos recursos são finitos; b) Uma redução da oferta monetária produzirá uma contração da demanda agregada e por decorrência uma queda no nível de atividade.

          Esse efeito de queda no nível de atividade propaga-se em contágio nessa economia, já que impacta aos agentes com a redução de empregos, oferta etc., ao reduzir a quantidade de dinheiro. O Banco Central deverá mitigar a contração econômica, aumentando o crédito e a liquidez.

          Meller (1987) conclui em seu trabalho os efeitos dos juros na economia:

          Em sua versão extrema, o modelo estudado considera que os desequilíbrios de balança de pagamentos são sintomas de desequilíbrios monetários que se resolvem só graças ao funcionamento automático de “variação de reservas internacionais- câmbios no estoque de dinheiro ” que se operará mediante taxa de juros, saldos reais das reservas ou ambos; em consequência não se requer políticas específicas para enfrentar um desequilíbrio externo, mas apenas deixar de fazer certas coisas como limitar a taxa de juros (p.200).

          

        5.2. O PESO DA DÍVIDA CONTRAÍDA E O SEU CRESCIMENTO

        PELO FATOR DOS JUROS

          Segundo Stiglitz (2007), o mundo está em uma corrida entre a pobreza e o crescimento populacional e, entre os dois, o crescimento populacional está ganhando, até agora. Segundo o Banco Mundial, a linha da pobreza extrema inclui pessoas que ganham até dois dólares norte-americanos por dia. Pessoas nessa situação estão expostas a diversas situações, como desnutrição infantil, baixa expectativa de vida abaixo do cinquenta anos, entre outras. Percorrem longos caminhos em busca de água potável, vivendo em uma situação de miserabilidade extrema.

          Ainda para Stiglitz (1987), as privações da pobreza vão além da falta de dinheiro:

          Uma equipe de economistas e pesquisadores entrevistou cerca de sessenta mil homens e mulheres pobres de setenta países a fim de descobrir como eles se sentiam em relação a sua situação. Não surpreende que tenham enfatizado em relação a sua renda inadequada, mas seus sentimentos de insegurança e impotência. Os desempregados, em especial, sentiam-se marginalizados, deixados de lado pela sociedade (p. 72).

          Os demais indivíduos, que estão empregados, vivem inseridos naquela sociedade de risco que Beck (1990) preconizou, com uma imensa insegurança com o medo de verem suas rendas serem interrompidas de um momento ao outro.

          Os pobres têm poucas oportunidades de se manifestarem. Quando falam, ninguém escuta; quando alguém escuta, a resposta é que nada pode ser feito; quando lhes dizem que algo pode ser feito, isso nunca acontece (STIGLITZ, 2007, p. 73).

          Para o mesmo autor, o fato de existir a abertura dos mercados (a flexibilização das barreiras alfandegárias e restrições relaxadas), por si só, não caminha na direção de resolver o problema da pobreza, principalmente quando tais produtos ingressando nos países venham a conduzir políticas de governantes que desempreguem pessoas. Ele assevera que seria necessário certa ajuda dos países mais ricos e um regime de comércio mais justo.

          Dentre essas medidas, estaria o alívio da dívida externa com ajuda estrangeira.

          FIGURA 8: Desigualdade Social entre países do Terceiro Mundo e Países

        Avançados

        Fonte Damienet al. (2012) e Banco Mundial.

          No terceiro mundo, além do ônus das desigualdades de rendas, ocorreram o peso das dívidas externas imposta sobre os ombros de seus habitantes, muitas vezes contraídas por governantes corruptos, as quais não se materializaram ou não trouxeram benefícios efetivos à sua população.

          Segundo estimativa de Millet et al.(2012), a crise de 2008 propagou-se, de tal forma, com as falências dos bancos e empresas, ocasionando o desemprego de 34 milhões de pessoas, que se somaram a outras 64 milhões que passaram a receber US$ 1,25 por dia. Cerca de 160 a 200 milhões de pessoas foram lançadas à pobreza por um súbito aumento de alimentos e gêneros de primeira necessidade. Ainda segundo esses autores, seriam necessários US$ 80 bilhões por ano, durante dez anos, para que a totalidade da população mundial fosse atendida em suas necessidades básicas, tais como saúde, educação primária, água, saneamento básico (p. 5-6).

          As dívidas contraídas pelos países, conforme quadro anterior, teve sua expansão nas crises planetárias que se propagaram pelos países, principalmente aqueles do terceiro mundo.

          Os contratos preveem que os países paguem certa quantia como valor principal, mais um componente a título de taxa de juros que, como vimos no capítulo anterior, são ajustados ao mercado e ao montante. Os juros variáveis sofrem a influência desses dois componentes, alterando para cada título de dívida.

          O FMI e o Banco Mundial estimulam os países a contraírem empréstimos para investir em infraestrutura daquele país, com isso todo o risco passa ao próprio país.

          O seguinte esquema aponta os estoques de dívida pública ou privada no mundo e que tipo de dívida que possui maior peso no total estocado até o ano de 2010.

          ESQUEMA 7: Estoque de dívida no mundo.

          

        Fonte: Damienet al. (2012).

          

        Fonte: Damienet al. (2012).

          Atentemo-nos à segunda parte do esquema, em que se demonstra que grande parte da dívida pública do mundo é devida a IFIs e instituições privadas, como bancos por exemplo.

          Entretanto, salientamos que não se verifica se o país está estruturado internamente para pagar esses empréstimos. Por exemplo, a concessão de determinado valor para construção de usina nuclear, consequentemente esse governo compra toda a energia produzida por essa usina. Ocorre que fatores subjacentes como distribuição, demanda para consumo, segurança, matéria prima entre outros geram riscos que são absorvidos pelo país emprestador do recurso. O retorno não advém, então a dívida será fatalmente absorvida pelos seus habitantes sob a forma de tributos.

          Stiglitz (2007) nos dá um exemplo ilustrativo:

          Se um país deve, digamos, quase 2 bilhões denominados em dólares, e sua taxa cambial despenca, digamos, para a metade de seu valor, então o valor da dívida na própria moeda duplica. Uma proporção da dívida para o PIB, digamos 75%

        • –alta, mas

          administrável, por padrões internacionais

        • – transforma-se subitamente em 150%, acima da capacidade de pagar do país (p. 344).

          De outra forma, se a taxa de juros é acrescida de um determinado percentual, da mesma forma os juros da dívida crescem diretamente na mesma proporção. Se o país não consegue pagar esses juros, ele é incorporado ao capital, pelo mecanismo “cash in-cash out”.

          Para Stiglitz (2007), o principal motivo de certas dívidas tornarem-se impagáveis veio de fora das suas fronteiras daquele país, ao assumirem risco demasiados, como no exemplo citado, a do financiamento da usina nuclear, e os mercados internacionais negociarem tais títulos em bolsa, tornando-os extremamente voláteis, ao sabor dos mercados e dos investidores.

          Os países ricos, estimulados pelos seus excessos de liquidez, ao invés de estacarem os empréstimos, ao contrário, emprestaram ainda mais, alongando a agonia desses países, que agora tornaram subservientes ao emprestador.

          No caso brasileiro, sabemos que a dívida consome grande parte de nosso orçamento e é considerada por alguns economistas como o grande entrave para o real desenvolvimento do país. Movimentos que pedem a auditoria dessa dívida pública, a fim de discutir os contratos de empréstimos realizados, fornecem alguns números para ilustramos o caso nacional.

          FIGURA 9: Participação de juros e amortização de dívidas no

        Orçamento

        Fonte: Fattorelli (2013).

          Nota- se o grande “peso” da dívida pública no orçamento de gastos do governo no ano de 2013, chegando aquela a ocupar 40,30% do total. O Banco Mundial e o FMI, quando intervêm para socorrer tais países, impõe condições restritivas as políticas sociais, aumentando os impostos e gerando processos recessivos.

        5.3. DE ONDE VEM O CAPITAL SOCIAL

          Ao lado do capital físico e do capital humano, existe nos tempos hodiernos um capital com outra especificidade e muito mais poderoso para gerar lucro: o capital social, que é visto como

          “um ativo social em virtude das conexões dos atores e acesso a recursos na rede ou grupos dos quais eles são membros ” (Kaufman, 2012. p.211). Percebe-se que aqui não se fala de acesso a um universo singular, pessoal, mas, ao contrário, existe uma pluralidade de recursos, reais ou potenciais, que estão embutidos nas redes de relacionamento que podem ser acessadas para gerar ganhos pessoais.

          Apesar de nem sempre tão propalado, este tipo de capital assume vital relevância nos tempos contemporâneos, chegando mesmo Fukuyama (2000) a defini-lo como um componente cultural das sociedades modernas, importante para o funcionamento de sua economia, sine qua non de uma democracia liberal estável (p.6).

          Não há que se confundirem, contudo, as manifestações do capital social com o próprio. Notemos, assim, que uma rede social ou, por exemplo, uma sociedade civil ou uma associação, não é o capital social em si, mas sim seu provável resultado. Mas, atenção: essa não é qualquer rede de relacionamento. Como o próprio nome diz, esse relacionamento pressupõe durabilidade, conhecimento mútuo, dentre outras características e componentes. E essa rede de relacionamento fornece alguns elementos que fatalmente colaboram nas ações em busca de lucro. Dentre eles, podemos relacionar à informação privilegiada, a influência, as credenciais sociais e os reforços em relação às solicitações de alguém.

          Não é difícil percebermos que a posse de informações privilegiadas em relação às estratégias e realidades ocultas do mercado cria um campo de oportunidade que não está acessível a todos. Vejamos, também, por exemplo, que as relações sociais com algum tomador de decisão, seguramente podem influir no favorecimento de alguém. É mesmo a “referência”, a “chancela”, o “amigo de quem”, o “fale em meu nome”, o que pressupõe que o interlocutor carregue os valores do grupo e permita seu acesso aos seus demais membros.

          Nesse diapasão, existe um conceito importantíssimo para atentarmos: o raio de confiança, o círculo de pessoas entre as quais as normas operam-se. Em uma sociedade moderna, esses círculos são concêntricos e sobrepostos, permitindo inclusive múltiplas associações e identidades. Mas não nos esqueçamos, contudo, de que em uma mesma sociedade, em um mesmo grupo existem diferentes círculos de confiança, existindo aqueles circunscritos a apenas poucos integrantes, por exemplo, aquele restrito a time de líderes.

          Por isso, ao analisarmos a essência de capital social, percebemos que ele, na realidade, deve estar fundamentado em um relacionamento humano real em que a questão da reciprocidade assume vital importância. Notemos que, para Fukuyama (2000, p. 1), o capital social é

          “uma norma informal fundamentada que promove a cooperação entre dois ou mais indivíduos”, quer seja ela complexa ou mais simples. Ele vai além ao lembrar que a norma da reciprocidade existe

          “in potentia” nas

          relações com as pessoas, mas ela se realiza apenas com os amigos, destacando a questão da cooperação em grupo.

          Se percebermos que não raramente a solidariedade humana em grupos funciona baseada na hostilidade em relação aos membros de fora do grupo, notemos a importância das externalidades do capital social. É preciso relembrarmos que o fato de haver cooperação para a obtenção de um objetivo comum do grupo não necessariamente significa que esse objetivo seja realizar uma ação benéfica para a sociedade como um todo.

          Como bem salienta Partha Dasgupta (2001), o capital social é um bem privado, mas que, no entanto, é permeado tanto de externalidades positivas, quanto de negativas (p.51-2). Uma prática caridosa, voluntária, de integrantes de alguma instituição religiosa serve para ilustrar o primeiro caso. Quanto ao segundo, exemplos não faltam: atividades de atuação da Máfia, do PCC (Primeiro Comando da Capital), KuKluxKlan, dentre várias outras, sobejamente, servem como referências.

          Essas redes sociais são estruturas informais no quesito regras e posições, em relação à autoridade dos participantes. Também o são nos quesitos ocupantes, procedimentos. O amálgama que os une está mais para o campo dos acordos mútuos e persuasivos, do que para coerção ou intimidamento. Esses relacionamentos tenderão a ser recíprocos e positivos, de modo que quanto mais os indivíduos interajam, mais provável que compartilhem sentimentos e mais se engajem na atividade coletiva. Porém, o mais normal é que ocorra uma relação homofílica, ou conforme depreendemos de Lin (2002) que, apoiado nas pesquisas de padrões de amizade de Lazarsfels e Merton (apud LIN, 2002) e associações, (LAUMANNapudLIN 2002), também conhecido como a hipótese do

          “como eu”.Assim,“as interações sociais tendem a tomar parte entre indivíduos com estilos de vida e características socioeconômicas similares

          ” (p. 47). E isto significa recursos similares. Com o que na relação sentimento-interação acima citada, some-se o derradeiro elemento: o recurso. Existe, portanto, uma relação recíproca triangular entre sentimento, recursos e interação. Essas interações não somente propiciam o compartilhamento de sentimentos, mas também de recursos. As pessoas se relacionam, também, para acessar recursos. Ademais, não podemos esquecer que quanto mais homofílica é a interação dos parceiros em termos de recursos, mais socialmente iguais eles são. Isto significa que existe menos interesse ou intenção de um se apropriar dos recursos um do outro, pois o custo de guardar e defender os recursos é reduzido (Ibidem, p. 48).

          Os recursos pessoais são de inteiro domínio e gozo de seu titular, que deles pode dispor ao seu inteiro talante. Sua aquisição geralmente ocorre pela herança, educação ou mesmo intercâmbio. Em contrapartida, os recursos posicionais são possuídos, ou melhor, são controlados por algumas pessoas durante certo período de tempo, geralmente enquanto durar algum contrato social que esteja em vigor, como um cargo hierárquico em determinada empresa. (Ibidem, p.49)

          Ainda que a primeira vista possa nos parecer que os recursos pessoais sejam muito mais uteis que os posicionais, a realidade tem demonstrado que os recursos posicionais são muito mais poderosos. Percebemos que se seu detentor estiver bem posicionado dentro de uma estrutura hierárquica, ele não somente terá acesso ao seu recurso, como também ao dos demais, ganhando sobre eles controle e uso. Estando mais ao topo, ele terá melhor visão de toda a estrutura e poderá localizar recursos em qualquer ponto dela. E, através dos laços diretos e mesmo os indiretos, o capital social tende a se estender tão longe quanto suas redes sociais (Ibidem, p.49-52).

          Mas não é só: o ocupante do cargo terá a sua disposição e certamente fará uso do poder, reputação e riqueza da organização em que estiver trabalhando. Seguramente, quem estiver no comando, ou bem posicionado em uma multinacional líder no setor, e reconhecido no mercado, terá mais poder de influência que alguém que estiver no comando de alguma outra empresa sem essas características.

          Contudo, além das relações hemofílicas mais comuns, existem também as heterofílicas, que ocorrem com sujeitos de recursos desiguais. Para aqueles com recursos menores, isto gera o benefício do status ou a “hipótese do prestígio” a que se refere Laumann (apud LIN, idem, p.80). Nesse caso, os parceiros preferidos para estas interações são aqueles que ocupam status social levemente melhor. E essa interação propiciaria o efeito halo: o prestigio de um acabaria por abarcar o outro sujeito. Mas percebamos que isso não é garantia de segurança ou permanência, já que duraria enquanto durar a relação (Ibidem).

          Percebemos que nas atividades de seu dia-a-dia, os sujeitos fundamentalmente estão preocupados em duas ações: manter os recursos e obter os recursos. Quanto as primeiras, a literatura convencionou chamá-las de ações expressivas e as segundas, de instrumentais. Tem-se, ainda, que as ações expressivas estejam ligadas a interações homofílicas e, em contrapartida, as instrumentais entre aqueles agentes de posições sociais distintas.

          Para a obtenção de recursos adicionais ou novos, é mister que se acessem outras posições sociais. E esse acesso, e mesmo o uso do capital social, leva às ações de sucesso. Percebamos que acessando a um indivíduo melhor posicionado, poderemos utilizar sua influência, suas informações privilegiadas, suas credencias sociais e mesmo sua colaboração no acesso a intermediários melhor posicionados. Os laços sociais acessam poder e riqueza, dentre outros ativos sociais (Ibidem, p.64).

          Mas não há que se permitir ilusões. O compartilhamento dos recursos está ligado à força dos laços que une os atores. Quanto maior a intimidade, convívio, frequência e reciprocidade, mais forte o relacionamento, e consequentemente mais colaborativo. É uma via de mão dupla, baseado no apoio mútuo. Entretanto, se um indivíduo desse grupo precisar de informações distintas, é muito provável que precisará buscá-la em outro grupo e, provavelmente, isso se dará em uma relação

          47

          heterofílica. Para acessar ess , isto é, e outro grupo, será através de uma “ponte” um vínculo entre dois grupos de indivíduos. Quanto mais perto os indivíduos estiverem dessa ponte, melhor capital social eles acessarão por ação instrumental.

          (Ibidem, p.78).

          Seria de se questionar, portanto, como o capital social aumenta a probabilidade de obter melhores empregos, realização de status e retornos em sua posição socioeconômica. A principal proposição é que o capital social exerce um efeito importante e significativo, além daquele considerado pelos recursos pessoais. Notemos que para certos empregos que exigem especificidades técnicas como manuseio de softwares, por exemplo, esse conhecimento pode ser suficiente para obtenção do cargo. Entretanto, nessa mesma empresa, os cargos de altíssimo nível, em termos de gerência, provavelmente serão ocupados por aqueles com habilidades e recursos sociais ricos, já que eles precisam lidar e gerenciar pessoas dentro e mesmo fora da organização. Resta claro, portanto, que em níveis mais altos de gerência, o capital social supere em muito o capital humano dos ocupantes.

          Para Nan Lin (2002),

          Portanto podemos supor que firmas como a IBM e a Microsoft recrutam gerentes mais experientes com as habilidades sociais do que peritos em computação para o seus CEOS e que as universidades de topo precisam de presidentes que tenham mais habilidades sociais para negociar com as faculdades, os estudantes, pais e alunos e para conseguir fundos do que produzir estudiosos notáveis (p. 115).

          Certo é que o capital humano ajuda a produzir o capital social, já que indivíduos melhores educados e capacitados tendem a transitar em círculos sociais com mais recursos, mas sobram exemplos de que o inverso é verdadeiro, e por vezes é, na realidade, o capital social que realmente contribui para a realização do

          

        status. Mas essa busca de um novo status vai ao encontro, por uma via, de uma

        necessidade do capitalismo global.

          Segundo Gilberto Dupas (2005), a partir das últimas duas décadas do século

          XX, surgiu uma nova lógica imperando na ordem global: a manutenção da liderança 47 tecnológica (p.32). Para o autor, a intensa aceleração da globalização dos mercados

          

        Nan Lin define: “uma ponte social pode ser definida como um vínculo entre dois indivíduos em uma

        razão social, a ausência da qual causaria a ruptura de grupo em dois grupos separados, cada um dos

        quais com dois ou mais indivíduos. Em outras palavras, uma ponte é o vínculo entre dois grupos de e a abertura dos grandes países da periferia a produtos de capitais internacionais coincidiram com a necessidade das grandes corporações transacionais ampliarem seus mercados. (Ibidem).

          Essa orientação para a criação de valor econômico impôs lideranças tecnológicas que, basicamente, passou a gerar padrões de acumulação. Surgiu também dentro da fragmentação geográfica das cadeias produtivas a possibilidade de se utilizar grandes reservas de mão-de-obra barata.

          “Sem ter de arcar com suas infinitas demandas de welfare e sua capacidade de gerar tensões sociais nos países de origem, incorporando seu baixo valor adicionado àquela etapa de produção recebendo os demais fatores (capital, tecno logia, materiais)” (Ibidem, p.34). Com essa nova concepção, a demanda por mão-de-obra especializada cresceu e o indivíduo tem agora a necessidade de se “especializar” diante dessa nova tecnologia crescente, de forma exponencial. Isso fará com que também passe a se engajar em uma rede, conectando-se em redes cujas teias de relações políticas e institucionais, governadas por lideranças em redes superiores, definem uma nova ordem global (Ibidem, p.73).

          De imediato, ressaltamos que não existe um consenso sobre a possibilidade de mensuração do capital social. Entretanto, foram propostas algumas abordagens. A primeira é censitária, a segunda procura estabelecer parâmetros baseados em níveis de confiança e engajamento cívico, e a derradeira

        • – apresentada por Fukuyama – é obtida através da observação da mudança nas avaliações de mercado de uma empresa antes e depois por ofertas de aquisição. Vamos a elas.

          Na primeira medida, o capital social total em uma sociedade é mensurado pela soma dos membros de todos os grupos. Entretanto, segundo Fukuyama (2000), essa forma de mensuração apresenta falhas, já que, ao mudar a tecnologia, alteram- se as formas de associação. Notemos, por exemplo, os grupos de discussão online, salas de discussão e conversação por correio eletrônico, que tomaram proporções gigantescas com a popularização dos computadores pessoais nos anos de 1990.Seria, portanto, impossível produzir um censo completo que catalogue todas as informações das redes em uma sociedade moderna.

          Outro ponto a salientarmos é que, em um mesmo grupo, podem existir diferentes níveis de coesão interna e, portanto, diferentes ações coletivas. E inexiste um parâmetro para se medir a coesão interna de grupos.

          Já quanto à segunda tentativa de mensuração

        • – dados de pesquisas sobre confiança e engajamento cívico
        • – Fukuyama (2000) é enfático ao afirmar que são inúmeros os problemas com a coleta destes dados, a começar pela forma como as pesquisas são feitas, como a questão é colocada; enfim, existe uma enorme possibilidade de distintos resultados para uma mesma pergunta, se forem adotados diversos procedimentos.

          Fukuyama (2000) apresenta uma terceira via possível para se medir o capital social, mas em relação às organizações específicas. Segundo ele, isso pode ser obtido se compararmos as alterações nas avaliações de mercado de uma empresa antes e depois das ofertas de aquisição. Sustenta que a capitalização de mercado de qualquer companhia representa a soma dos bens tangíveis e intangíveis, e o capital social é integrante deste ultimo conjunto de bens. Ressalva

          ”todavia, que ainda não há uma metodologia aceita” (p.14), detalhada, e precisa para separar especificamente o componente de capital social da totalidade dos bens intangíveis, que inclui outras coisas como nomes de marca, boa vontade, expectativas de condições futuras de mercado, dentre outros. (p. 9-14). Prossegue afirmando que as empresas, ao serem adquiridas, são usualmente compradas a preço anterior de oferta. Isso pressuporia que parte do prêmio oferecido seria uma medida do grau pelo qual os novos proprietários acreditam que podem gerenciar de forma mais eficiente que a anterior administração.

          Essa parte do prêmio oferecido representaria a poupança que os novos proprietários esperam alcançar através da realização de economias de escala e escopo, com o que se deve deduzir do prêmio atual para obter uma medida do valor líquido da nova gestão. Esse prêmio de gestão não é uma medida pura do capital social; ele pode consistir em uma parte expressiva do capital humano. Porém, em contrapartida, o capital social pode constituir uma parte significativa do resíduo, já que quando apontamos a gestão efetiva estamos nos referindo à coordenação eficiente das atividades da empresa (Ibidem).

          Portanto, de onde vem o Capital Social? Se recorrermos unicamente aos economistas liberais, a explicação é direta: “surge espontaneamente como um produto dos jogos do Dilema dos Prisioneiros (PD) (Ibidem, p.14). Assim, a palavra chave seria a interação, porque ainda que um tiro do jogo do PD não levasse à cooperação

        • – já que a deserção constitui um equilíbrio de Nash para ambos os jogadores
        • – uma estratégia simples como tit-for-tat (jogando cooperação por
        cooperação e deserção por deserção) levaria ambos os jogadores a um resultado cooperativo (Ibidem, p.14-6).

          Dessa feita, em curvas teóricas de não jogo, se os indivíduos interagem uns com os outros repetidamente no tempo, eles desenvolvem uma participação em uma reputação para a honestidade e confiança. Servindo-se das lições de Adam Smith, as interações de mercado em uma sociedade comercial levariam ao desenvolvimento de virtudes sociais burguesas, como honestidade, industriosidade e prudência (Ibidem, p.15). Portanto, o capital social surgiria espontaneamente todo o tempo através do jogo de PD jogos iterados, resultado de interações comunitárias repetidas(Ibidem).

          Entretanto, Francis Fukuyama (2000) entende que essa abordagem apresenta limitações, porque o capital social seria com mais frequência produzido por fontes hierárquicas de autoridade que baixam normas e esperam obediência por razões totalmente não racionais. Vejamos, por exemplo, o caso de religiões. Existem nelas certos dogmas (ou seja, não existe um processo de negociação para sua aceitação) que são transmitidos de geração para geração, via um processo muito mais de hábito do que por um crivo de razão.

          Não afirmamos, contudo, que é preciso impingir a racionalidade a tudo, como bem salientou Fukuyama (2000). Descreve ele, a “falência” do método exclusivamente racionalista de certa escola de sociologia e antropologia

          “fundamentalista” que teria tentado encontrar razões utilitárias racionais para a maioria das regras sociais bizarras. Ademais, afirma, “todo desenvolvimento histórico usualmente incorpora uma medida substancial de chance, gênio, acidente ou criatividade que não pode ser explicado em termos de condições prévias (p.16).

          Isso, contudo, não quer dizer que ele não reconheça a religião como um fator do desenvolvimento econômico. A esse respeito, Fukuyama (2000) cita a conversão dos católicos ao protestantismo (o que pressupõe uma nova visão econômica por parte de seus seguidores) e os efeitos sociais que daí decorreram. Sendo o autor, ela teria feito com que se elevassem os níveis de renda, educação e redes sociais (p.16).

          A experiência histórica compartilhada, ao moldar as normas informais, também é outro elemento que gera o capital social. Nesse caso, os exemplos citados são em relação aos trabalhadores alemães e japoneses. Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, os regimes democráticos sucessores optaram por uma abordagem muito mais consensual nas relações gerência-trabalhador que produziu o Sozialmarktwirtshaft (economia social de mercado) alemão do pós-guerra e o sistema e emprego vitalício japonês. E não se negue que essas duas sociedades efetivamente tiveram expressivas recuperações econômicas (Ibidem, p.16).

          Segundo Fukuyama (2000) existem quatro observações a serem ditas sobre a possibilidade de aumentar o estoque de capital social. A primeira é reconhecer que os estados não têm muitas alavancas para criá-lo, porque é preciso perceber que ele é um subproduto da religião, tradição, experiências históricas compartilhadas e outros fatores que efetivamente estão fora de controle de qualquer governante. Porém, não quer dizer que ele não possa ter alguma propensão para isso. O caso da educação é relacionado, porque é preciso perceber que as instituições educacionais não transmitem apenas capital humano: elas também passam pelo capital social na forma de regras e normas sociais (p. 17).

          Outra possibilidade de fomento do capital social por parte do Estado é a eficiência na prestação dos serviços públicos. A questão da segurança é emblemática: as pessoas não podem se associar se nem mesmo podem circular nas ruas de forma segura. Já quanto ao aspecto de diminuição da geração de capital social, Fukuyama (2000) cita a intromissão do Estado em atividades que seriam melhor realizadas pelo setor privado ou pela sociedade civil, porque a habilidade em cooperar é baseada no hábito e na prática, e se o estado se propuser a organizar tudo, as pessoas tornar-se-ão dependentes e perderão a sua habilidade espontânea para trabalhar uns com os outros(p.17-8).

          Para além do Estado, existem duas fontes adicionais de capital social. A primeira é a religião. Notemos que de inspiração religiosa as mudanças culturais permanecem uma opção viva em todas as partes do mundo. Pontuemos, entretanto, que nem todas as formas de religião são positivas do ponto de vista do capital social, já que o sectarismo pode gerar intolerância e ódio. Mas a religião tem sido historicamente uma das mais importantes fontes de cultura e é provável que continue sendo (Ibidem, 19).

        5.3.1. A VISÂO CULTURALISTA EM CONTRAPONTO

          A globalização, com a circulação livre de capitais, ideias e culturas igualmente seria, para Fukuyama (2000), uma fonte de capital social para desenvolver os países. A comunicação global e a revolução da informação podem não somente facilitar a circulação dos investimentos bancários, mas ajudar, por exemplo, ativistas a trabalharem transnacionalmente.

          Contrapondo-se a essas correntes, os autores marxistas apresentam outra posição em resposta à questão. Além de cunhar o conceito de “mais valia” – a injusta apropriação praticada pelos capitalistas em relação aos trabalhadores, decorrente do excedente de horas trabalhadas e não remuneradas pelos salários

        • –, Marx chamou atenção também para o conceito de “classes”, que adviriam da imobilidade social perpetrada pela lógica do sistema, visto que os trabalhadores, ao trocarem a integralidade do salário para custear a sua sobrevivência, não teriam qualquer possibilidade de adquirir os meios de produção, o que lhes perpetuaria a permanência naquela condição. Somemos ainda ao fato de que o valor excedido pelos capitalistas continuaria a ser investido, o que somente aumentaria sua quantidade e, consequentemente, seu poder(LIN, 2002, p.2-5).

          É inclusive essa mobilização na busca de lucro que vai diferenciar um simples recurso, de um verdadeiro capital, conforme preceitua Nan Lin (2002). Prossegue ele afirmando também que, para ser considerado um capital social, é preciso que o capital investido tenha o retorno esperado pelo mercado, mobilizado na busca de lucro (p.1).Entretanto, é preciso fazer uma releitura das teorias clássicas do capital e da relação capital versus trabalho, em face da atual realidade. É inegável que houve uma ruptura com a unicidade e homogeneidade, tanto em relação às tecnologias, quanto em relação à qualificação dos trabalhadores (algo pétreo, no passado). Diferentemente do início da Revolução Industrial, atualmente existe, efetivamente, uma nova realidade nos parques industriais, meios tecnológicos e, principalmente, qualificação dos trabalhadores, fazendo com que esses trabalhadores diferenciem- se uns dos outros, em função de suas capacidades e saberes díspares(p.8-16).

          Explicamos: o trabalhador, ao ser detentor de um “plus” de conhecimento e habilidades em relação a outro trabalhador, pode exigir e obter um salário maior por suas horas trabalhadas. Esse valor, além de garantir sua subsistência e de sua família, pode, em tese, ser utilizado em diversos outros cenários e oportunidades, desde lazer, educação, ou até mesmo um capital, um recurso a ser investido na busca do lucro. A realidade não é mais composta por poucas unidades fabris primárias, associadas a uma malta de trabalhadores de baixa qualificação e de fácil dispensa e intercâmbio. Os níveis de produtividade e eficiência requeridos atualmente demandam funcionários qualificados. Agora, ao invés de se priorizar unicamente o capital físico, é mister se preservar o capital humano. O cálculo da remuneração do capital não mais se circunscreve a “trabalho”, mas se expandiu para abarcar toda a completude do conceito de “trabalhador”, que passou por uma ressignificação (ou colaborador, conforme preceituam os departamentos de recursos humanos)(Ibidem).

          Salientemos, contudo, que isso não implica dizer que as anotações de Marx tenham caído por terra. Basta verificarmos que se o aumento do salário, em função dessas novas qualificações e habilidades, ocorrer em patamar muito inferior ou em montante irrisório (se comparado com a alteração da capacidade gerada), o lucro aumentará e, por conseguinte, aumentará desproporcionalmente o capital de que dispõe o empresário capitalista.

          Mas outro alerta também deve ser lançado. Existe um contraponto a essa ideia, quando Bourdieu (apudLin, 2002,p.16) e Miceli (1974) chamam atenção para a questão da reprodução social, que seria a imposição da “violência simbólica” da classe dominante sobre a classe dominada. Com muita argúcia, eles descrevem que a classe dominante consegue impor sua cultura à classe dominada, e o faz nela introjetando seus símbolos e significados, através de ações pedagógicas, por exemplo, a própria educação. (Lin, 2002, p.16).

          Mesmo sem perceber, os próprios trabalhadores, em seu processo de educação, estariam investindo no processo de internalização daqueles valores; seria seu “passaporte”, seu “licenciamento” para adentrarem ao mercado de trabalho e receberem seus salários. Portanto, o sistema se revelaria ainda mais perverso, já que além de estar sendo reproduzido, o trabalhador também estaria perpetuando sua própria exploração e, ao lado da “massa educada”, a classe dominante ainda teria em suas mãos igualmente

          “as instituições educacionais” (Ibidem, p.17-8).

        5.4. FÓRMULA DE CÁLCULO DE CAPITAL SOCIAL

        5.4.1. O CÁLCULO DE FUKUYAMA

          Já conscientes das críticas referentes às tentativas de calcular o Capital Social (KS) enquanto medida utilitária, devemos, agora, nos ater às críticas no que se refere ao seu aspecto quantitativo.

          Fukuyama (2000) apresenta a fórmula em seu estudo: KS = Σ [ (1/rn) * rp * c * n ] 1...t

          Em que: n = nº elementos de um grupo 1...t = nº de grupos c = coeficiente de coesão interna dos grupos Isabel de Castro (2006), em seu artigo sobre os aspectos qualitativos e quantitativos do capital social, explica-nos os significados da fórmula apresentada. Segundo ela,

          [...] cada coeficiente teria de ser determinado subjetivamente por um observador externo, observador que tomaria como critérios de avaliação os tipos de atividades dos grupos, a sua maior ou menor dificuldade de superação de conflitos, a realização de atividades sob pressão e outros fatores; =

          “raio de confiança”, que pode ser pensado como uma externalidade positiva, e, nesse caso, seria designado por , porque é um benefício que acresce ao grupo, independentemente da ação coletiva que o grupo formalmente prossiga. Afirma Fukuyama que no caso da maioria das famílias poderá ser igual a 1 e que, noutros casos, é muito pequeno, quando, por exemplo, os grupos são muito grandes mas a participação é muito pequena; = raio de desconfiança, porque há grupos que produzem externalidades negativas (p. 21).

          A principal crítica que se pode fazer com relação à fórmula proposta por Fukuyama (apud Castro, 2006) é o alto grau de subjetividade que o mecanismo de cálculo conté m. O “raio de confiança” é um fator estranho, pois não estão definidos critérios que determinem esse fator. Também notamos que existe um grupo t que parece ser um conjunto maior de elementos, que aparentemente conteria um outro grupo n. Não se sabe qual deles é o maior.

          Não temos claro se o cálculo do capital social de Fukuyama é um estoque estático ou é um fluxo dinâmico. Sendo dinâmico, temos visto nesse trabalho a questão do sistema complexo e como emergem elementos que podem interferir de forma circular nesse próprio sistema. Outras críticas sucedem-se, e nisso há uma vasta literatura a respeito do cálculo, mesmo porque há uma forte ideologia neoliberal.

          

        5.4.2. AS CONEXÕES E DESCONEXÕES, UMA PROPOSTA DE

        MODELO DE MENSURAđấO DE CAPITAL SOCIAL

          As análises quantitativas das redes sociais são objetos de estudo da sociologia desde o início do século XX por meio dos chamados sociogramas (MORENO, 1946). Em seus trabalhos pioneiros, Jacob Moreno Moreno utilizou a teoria de grafos para representar as estruturas sociais, e sugeriu que elas poderiam ser usadas para descobrir novas propriedades da dinâmica da sociedade (MORENO, 1937; MORENO, 1951).

          As redes sociais diferem muito entre si quando se consideram diferentes sistemas, grupos ou fenômenos sociais a serem estudados ( KNOKE AND SONG,

          

        2008 ). A melhor estratégia para estudar tais redes é lançar mão de medidas que

          eventualmente capturam padrões relevantes relacionados aos processos microscópicos que determinam as propriedades macroscópicas observadas (SCOTT, 1988).

          Existem muitas métricas conhecidas na literatura. Na verdade, são dezenas delas (MISLOVE et al. 2007). Nesta seção pretende-se definir uma métrica de rede social que será utilizada como uma medida que, de certa forma, está relacionada ao capital social. Esta medida pode ser vista como um indicador ou uma proxy para medir capital social e não uma forma absoluta e única de expressar tal conceito.

          Sabe-se que capital social é um conceito multidimensional, ou seja, não existe um único fator ou variável que o descreve, mas muitas variáveis. Dentre elas estão o grau de confiança, normas, valores, solidariedade, reciprocidade e colaboração apenas para citar os elementos mais comuns.

          Alguns autores encontraram correlação entre confiança e a presença de grandes organizações (LA PORTA et al. 1997). Outros encontram correlação entre o grau de confiança e a taxa de crescimento (KNACK & ZAK, 1999). A hipótese fundamental que se deve assumir é a conexão entre capital social e a prosperidade econômica (GUISO ET AL., 2000). A prosperidade econômica resulta do desenvolvimento financeiro. Assim, emergem na economia grandes empresas e bancos, altamente conectados com outros agentes da economia. Para além das distribuições de riquezas das firmas e famílias, faz necessário mostrar a estrutura de conexão entre os parceiros econômicos que podem ser medidos por métricas de redes.

          Assume-se aqui que conjuntos densos de laços têm uma influência significativa sobre a coesão global da rede, e por conseguinte, o aumentodofornecimento de recursos da rede como o volume de empréstimos e pagamentos. A inadimplência pode gerar quebra de links entre os nós, diluindo a densidade do aglomerado.

          O coeficiente de agrupamento local mede o quão densamente interligados os parceiros de um dado individuo ou agente estão uns com os outros. Em outras palavras, este coeficiente mede a probabilidade de dois parceiros ou amigos terem um amigo em comum.

          Matematicamente, o coeficiente de agrupamento é simplesmente a razão entre o número de laços ou conexões que existem entre os nós mais próximos (distância um ou primeiros vizinhos) pelo número máximo de laços que poderiam existir entre eles ( NEWMAN et al. 2002 ). Pode-se expressar essa razão como:

          Onde n jk é igual a um se os nósj e kestiverem ligados e forem vizinho do nó i enquanto k mede o número de vizinhos do i-ésimo nó. O denominador leva ao

          i número máximo de conexões entre os vizinhos.

          Por conseguinte, este coeficiente varia entre zero e um. Quanto maior for o coeficiente de agrupamento, maior é o número de interconexões de nós próximos ou primeiros vizinhos em uma rede social. Assim, se o coeficiente de agrupamento local de um determinado nó for relativamente alto significa que os nós aos quais ele se conecta são susceptíveis de estarem conectados uns com os outros.

          Assim como o coeficiente de aglomeração,o grau médio da rede poderia ser uma medida global capaz de mensurar uma das dimensões do chamado capital social.

          O grau médio nada mais é do queo número médio de conexões ou laços de um nó qualquer da rede ( NEWMAN et al. 2002) . Quanto maior for o grau médio, mais densa tende ser a rede. O aumento da densidade da rede está correlacionado ao aumento da densidade das comunidades. O uso desta medida para descrever o capital social exige menos suposições. Contudo, optou-se neste trabalho pelo coeficiente de aglomeração justamente pelo fato de que aglomerado é uma medida de comunidade e ao mesmo tempo ser uma medida de coesão da rede.

          

        GRÁFICO 7- Evolução do Parâmetro Tetra com o Coeficiente de Agrupamento

        de Conexões

        Fonte: elaboração própria

          Gráfico que determina a evolução do parâmetro teta e o grau de agrupamento de conexões. Nota-se que ao aumentar o parâmetro tetra as conexões aumentam e reduzem drasticamente demonstrando uma desestabilização na rede.

          

        5.4.3. O CÁLCULO DA DENSIDADE DA REDE (USO DO PACOTE

        MCLUST NO R)

          Utilizamos técnicas de agrupamento para realizar as clusterizações dos agentes da economia em processo de conexão. Todos aqueles que tiveram “ligações” por “negócios” foram computados, realizando-se a estatística de todo esse conjunto.

          O uso de técnicas de agrupamento permite-nos obter grupos de tal forma que haja similaridades nas observações contidas dentro desse mesmo grupo. Implementamos a técnica de agrupamento que contemplam as diversas distribuições normais dos grupos estudados, assumindo-se, que cada grupo está associado a uma distribuição majoritariamente normal com diferentes parâmetros. Assim, a função densidade de probabilidade que modela os dados é obtida por,

          Onde são as funções de densidade de probabilidade de cada grupo que se misturam em um contexto. Utilizando-se da decomposição espectral foi possível percorrer diferentes estruturas para as possíveis matrizes de covariância. A decomposição espectral de uma matriz é obtida por: com Onde, é a matriz de autovetores de e é uma matriz diagonal tal que com os autovetores normalizados de na diagonal em ordem decrescente.

          Através desta decomposição e foi possível determinar o volume, a orientação e o formato do k-ésimo cluster respectivamente. Para a escolha da seleção do modelo da melhor distribuição, foi utilizado o mecanismo de mineração de dados denominado PCA - análise de componentes principais, objetivando a redução da dimensão dos dados, mantendo-se, assim, um número de componentes equivalentes a 70% da explicação da variância total. Para estudar a qualidade do agrupamento obtido com os diferentes modelos, uma métrica é utilizada chamada de BIC (Bayesian Information Criterion) e é calculada por:

          Onde, L é o valor maximizado da função de verossimilhança, k é o número de parâmetros do modelo em estudo e n é o número de elementos a serem agrupados. Dentro do pacote estatístico R, existe um algoritmo denominado EM. Utilizado para a estimativa de parâmetros que vão auxiliar a decomposição de dados.

          O algoritmo EM trabalha interativamente em duas etapas, Esperança (E) e Maximização (M). A etapa E é a responsável por lidar com os dados não observados, realizada através da esperança condicional do log da verossimilhança dos dados completos. A etapa M é a responsável por maximizar a esperança obtida sobre o espaço paramétrico, desta forma obtendo-se as atualizações para as estimativas dos parâmetros.

          No anexo 4º existe um script preparado para a realização desta ferramenta no pacote R.

          CAPÍTULO 6°

          48 AS SIMULAđỏES E CHOQUES

          Os novos componentes introduzidos no modelo de Gatti (2009) objetivaram inicialmente a substituição dos preços que antes ocorriam de forma aleatória e agora decorrem de um processo de escolha entre a oferta e a demanda. O objetivo desse trabalho foi explorar os possíveis tipos de fenômenos que o modelo, baseado em agentes, consegue reproduzir. Foi possível conectar na rede principal, inicialmente estabelecida por Gatti, uma rede de consumidores que escolhem os seus produtos mediante o melhor preço para eles, utilizando-se da técnica do partner prefered. Significa que eles compram os seus produtos mediante um mecanismo de escolha de menor preço que, de forma recursiva, é afetado por essas mesmas escolhas.

          A nova variável, a do estoque, implementada, impacta os preços de acordo com as flutuações destes, ou seja, quanto maior o estoque, menor será o preço ofertado pelas empresas. Os créditos também são concedidos pelos bancos, não só para as empresas, mas também a esses novos consumidores, de forma que eles também pedem empréstimos aos bancos para comprarem os seus produtos (crediário). Dessa forma, foi possível também criar uma renda para os consumidores

          e, por decorrência, deduzir a poupança que realizam, em conformidade com os preceitos econômicos, em que a renda é igual ao consumo mais a poupança.

          Exploramos as propriedades dinâmicas da simulação do modelo que busca modelar uma economia em rede. A economia tratada usou como recurso computacional os seguintes parâmetros: I = 501 D empresas; J = 251 U empresas; Z = 101 bancos; K = 1501; e

        49 T= 2000.

          Os processos de falência, previsto no modelo original de Gatti, preveem saídas e reingressos de novas empresas que se reconectam à rede estabelecida. 48 Uma versão básica foi simulada com os parâmetros de tecnologia, capital ótimo, e

          

        Podemos definir choque como uma situação provocada por uma mudança de parâmetro e que tal

        49 simulação devolve um cenário que queremos estudar.

          

        I representa as empresas downstream (empresas de venda ao consumidor); J representa as

        empesas upstream (empresas de bens intermediários); Z representa a quantidade de bancos; K

        representa a quantidade de consumidores; por fim, T é o tempo computacional de processamento outros fatores estabelecidos, de acordo com o modelo original de Delli Gatti et al.

          (2009), tornando essa economia mais próxima da real.

          Todos os negócios são realizados por meio de financiamento similarmente aos créditos bancários em que as economias operam. O ônus do financiamento é repassado ao produto e impacta diretamente os seus consumidores.

          As avalanches de falências abalam recursivamente toda a economia, atingindo os agentes (players do mercado) como os bancos e seus parceiros comerciais, além dos consumidores. A taxa de juros é o elemento central objeto desse estudo que se propaga entre os negócios realizados pelos agentes (empresas, consumidores e bancos). Os juros possuem duas componentes de risco, conforme o modelo de Stiglitz, capítulo 4 desta série. Foi possível eleger um parâmetro de variabilidade que nesta simulação representa o efeito na componente de juros mediante um fator .

          x possui valores i e j, em que i representam as empresas dowstream e j as

          empresas upstream. Os juros dependem do fator de risco endógeno do banco ligado a seu patrimônio ( ), e do fator de risco exógeno representado por salários e tecnologia relacionados ao patrimônio dessas empresas.

          O ciclo de negócios da rede faz com que haja propagações e reverberações recursivas afetando as taxas de juros do modelo. No caso de consumidores, a taxa de juros depende do fator endógeno representado pelo patrimônio (A) de quem empresta o recurso e do fator exógeno ligado ao crédito (B)

          A variação no fator impacta diretamente o juro dessa economia, definido

          50 como o fator exógeno de natureza comportamental que motivou este trabalho.

        50 O acréscimo de juro definido pelas agencias de rating representa o fator exógeno de natureza

          

        comportamental. Lembrando que uma nota definida para um país vai compor um risco que será

        6.1. OS GRÁFICOS DAS SIMULAđỏES

          Neste trabalho, reproduzimos o modelo de Gatti, na sua concepção inicial, e adicionalmente propusemos a interligação de uma nova rede nessa modelagem original, objetivando captar o comportamento dos consumidores. Dessa forma, apresentamos a seguir os cenários dos dois modelos, para efeito de comparação.

          O que particularmente nos interessou foi capturar as diversas situações descritas na evolução do tempo computacional, que prescreveu uma única economia artificial, estribadas no modelo original de Gatti et al. (2009), e acrescidas com as nossas contribuições.

          A topologia é constituída por agentes econômicos que influenciam o seu ambiente, que de maneira reverberada e evolutiva sofrem os impactos que o coletivo proporciona.

          Os experimentos a seguir, demonstrados pelos gráficos, refletem a simulação

          51

          52

          de 50 realizações , sendo que cada uma delas foi testada em 1.000 rodadas totalizando 50.000 testes.

        6.1.1 PROCESSOS DE

          INADIMPLÊNCIA (QUE LEVAM ÀOCORRÊNCIA DE PREJUÍZO)

          O Modelo original de Gatti é constituído por uma rede de crédito, cujas flutuações econômicas dependem do comportamento de juros dos financiamentos realizados e também dos negócios que ocorreram em uma escala evolutiva.

        51 Cada realização representa o desempenho da economia na qual valores são simulados e deles

          52 saem resultados diferentes.

          

        Gráficos do modelo de Gatti estendido (a proposta desta tese) versus Gatti

        original

        Modelo A

          

        Fonte: elaboração própria

        Modelo B

          

        Fonte: elaboração própria

          Os prejuízos dos bancos no modelo original de Gatti (B) apresentam fases menos intermitentes em contraposição do modelo estendido (A), decorrente do fato do que os preços modelados em (B) são aleatórios, e por sua vez, em (A) estão condicionados ao processo de escolha dos consumidores e dos estoques que as empresas armazenam. Os bancos são os financiadores dessas duas economias, portanto seus riscos tornam-se mais frequentes quando as empresas têm maiores dificuldades em vender seus produtos. Na hipótese (A), ocorre a rede de consumidores e realizam-se as escolha dos produtos, portanto a competitividade entre as empresas aumentam e os juros dos empréstimos diminuem.

          Os prejuízos das empresas Upstream são menores em (A) do que em (B). Tais empresas são fornecedoras de bens intermediários para as Downstream, que vendem diretamente aos consumidores. Nessa situação, ocorre uma maior proteção de exposição ao risco.

          As empresas multinacionais podem ser localizadas em nosso modelo nos grupos de empresas Upstream, pois são elas que possuem o maior domínio de tecnologia na nossa modelagem.

          A matriz de globalização fez com que houvesse uma ampliação dos mercados e dos processos produtivos através de empresas transnacionais, e estas com as suas lideranças de tecnologias determinaram padrões de atomização dos processos produtivos, mudando a lógica competitiva, buscando esse dinamismo e tornando as empresas Upstream mais robustas, economicamente representadas pelo seu patrimônio crescente. Gilberto Dupas (2005) dimensiona esse fato:

          O faturamento total das empresas transnacionais dobrou de valor, por exemplo, de 1982 a 1992, crescendo muito mais do que o PIB dos países. Esse processo continuou em projeção geométrica; se tomarmos as 500 empresas globais, o total de suas vendas, no período de 1998 a 2001, elevou-se em 22 %, enquanto o PBI global dos países cresceu 2% (p. 33).

        6.1.2 PROCESSOS DE LUCROS

          A seguir, apresentamos os desempenhos de lucratividades dos bancos, das empresas Upstream e Downstream. O modelo estendido (A) representa a nossa proposta, e o modelo de Gatti (B) está na formulação original.

          Modelo A

        Fonte: elaboração própria

          Modelo B

        Fonte: elaboração própria

          Na modelagem proposta por Gatti et al., o tema central era analisar o comportamento de uma rede de crédito e o conjunto de falência que se desencadeava; interessava-lhes o desempenho de uma economia simulada, mas somente focada naquele desempenho. Em razão disso, os preços foram concebidos de forma aleatória.

          Já em nossa proposta, interessa-nos também o desempenho das empresas,

          e, portanto, a modelagem do preço está vinculada à formação de estoque de produtos que essas empresas realizam. Assim, se elas não conseguirem vender seus produtos, seus estoques aumentarão e, por conseguinte, os seus financiamentos terão juros mais caros, seus custos tornar-se-ão majorados e elas caminharão para o processo de falência, desconectando-se dessa economia.

          No lado oposto das empresas, os consumidores realizam o processo de escolha dos produtos pelo menor preço, buscando também a melhor taxa de financiamento, o que significa uma busca mais competitiva na aquisição de seus produtos. Tais processos, de demanda e de oferta de produtos, implicam um melhor gerenciamento por parte das empresas, o que possibilita aumento da competitividade.

        6.1.3. PROCESSOS DE PATRIMÔNIO LÍQUIDO Modelo A

          

        Fonte: elaboração própria

          Modelo B

        Fonte: elaboração própria

          No modelo de Gatti original, como apontado, há um viés produzido pelo preço aleatório e pela inexistência da rede de consumidores e, como visto, afetam os lucros dos bancos e das firmas. Já em nosso modelo (B), interessa-nos aprofundar como foi o desempenho patrimonial, considerando-se que patrimônio é a soma de lucro mais prejuízo, ou seja, uma visão mais abrangente.

          Preliminarmente, analisaremos o crescimento linear das empresas Upstream, fato que não representa a realidade dos acontecimentos, porque notamos a

          53

          presença de avalanches nesse cenário econômico. Do conjunto das 250 empresas, notamos que 5 delas tiveram crescimentos vertiginosos, ou seja, unicamente um pequeno grupo de empresas foi capaz de obter riquezas patrimoniais: a maioria estava com os patrimônios medidos na faixa de 1.000 unidades referenciais. Outro grupo de 20 empresas estava na faixa de 50.000 e 5 empresas, na faixa acima 150.000, como se observa no gráfico a seguir.

          As empresas Downstream (A) apresentaram também crescimentos por avalanches, porém em dimensão menor. Somente 4 empresas tiveram desempenho 53 5 vezes maior que as demais.

          

        Podemos entender avalanche como um desempenho em um elemento ou em um conjunto, fora do

          Os bancos (A) sofreram um maior impacto na economia, pois tiveram que suportar as diversas falências ocorridas, realizando, assim, perdas patrimoniais. Imediatamente após a crise, notamos que ocorre uma auto-organização dos agentes e o cenário volta a convergir para a estabilidade. Nesse procedimento, não alteramos os parâmetros dessa economia artificial. As fragilidades de algumas empresas, ao realizarem os seus negócios, ocorreu em função do processo de competitividade entre elas, nas condições de oferta e produção disponibilizadas aos consumidores. A demanda falha por processos endêmicos, similarmente representa o que ocorre na economia real.

        6.1.4. PROCESSOS DE PREđOS E PRODUđấO Modelo A

          

        Fonte: elaboração própria

        Modelo B

          

        Fonte: elaboração própria

          Os preços no modelo de Gatti, como sabemos, são formados aleatoriamente, diferentemente de nossa modelagem, uma vez que consideramos a influência das escolhas dos consumidores. Observamos também que ocorrem episódios de avalanches nas empresas Downstream, que provocam uma pequena crise em nosso cenário econômico.

          Vale dizer também que nosso modelo está orientado para influenciar e ser influenciado pela dosimetria do volume dos estoques que as empresas realizam ao não conseguirem vender seus produtos. Ou seja, se elas quiserem sobreviver, deverão baixar seus preços, porém ao fazê-lo poderão realizar prejuízos, já que seus custos deverão ser pagos e o processo de liquidação dos estoques poderá gerar falências em nossa modelagem.

          Notamos, porém, que o processo produtivo possui também avalanches de ofertas, que certamente incrementaram os estoques das empresas. Tal impacto efetivamente repercutiu nos preços dos produtos.

          Processos semelhantes ocorrem em nossa economia real, o que demonstra que o modelo é capaz de captar mecanismos de excesso de oferta e demanda.

        6.1.5. PROCESSOS DE DEMANDA E RENDA DOS CONSUMIDORES

          Modelo A

        Fonte: elaboração própria

          Em nosso modelo, foi possível medir o excesso de demanda acumulada, que representa a venda efetiva aos consumidores. Notamos que não há convergência para o equilíbrio, o que significa que a todo o momento a demanda confronta-se com a oferta.

          Foi possível também medir a renda dos consumidores, notando-se que elas igualmente não convergem ao equilíbrio.

          Os gráficos comprovam que a realidade do cenário econômico não tende ao equilíbrio, sendo incorreto representá-lo por linearidade, o que mascararia suas flutuações.

        6.1.6. PROCESSOS DE DEMANDA DE TRABALHO

          

        Fonte: elaboração própria

          Com a inserção da rede de consumidores, foi possível introduzir a demanda de trabalho realizado pelas empresas Dowstream e Upstream. Como era esperado, algumas empresas possuem maior oferta de empregos em relação a outras, o que pode ser conferido através das avalanches nos gráficos anteriores.

          Na modelagem, a oferta de emprego está relacionada à robustez patrimonial e ao processo produtivo. Quanto maior seu processo produtivo e seu patrimônio, maior será a sua demanda por mão-de-obra.

          

        Fonte: elaboração própria Do outro lado, foi possível captar o comportamento dos salários dos indivíduos na simulação. Em nossa economia, não há inflação, portanto os valores são fixos; desta forma, subordinam-se aos impactos causados pelas oscilações da economia, como consumo e empresas que vão à falência. Essas oscilações ocorrem de forma quantitativa, captadas pelos efeitos da organização.

        6.2. CHOQUES NA ECONOMIA

          Para aplicarmos choques na economia artificial, teremos que escolher o parâmetro ou conjunto de parâmetros que vamos eleger. 54 A variação do risco impacta diretamente o número de falências dos bancos que emprestaram os seus recursos. Notamos que o choque dado de forma exógena implica em trazer “para dentro” da economia consequências de propagação

          55 de crises endêmicas .

          Em uma economia em rede, todas as variáveis comunicam-se entre si de forma recursiva, já que são provocadas por interação dos agentes. O processo de falência dos bancos é um bom exemplo de crise endêmica: imagine consumidores não realizando compras, por conseguinte as empresas que realizaram aquisições anteriormente, veem-se na situação de não poderem pagar suas dividas, já que não puderam realizar suas vendas. Há, assim, uma relação entre as variáveis como compra, venda, produção, dentre outras, que cresce exponencialmente ao longo da medida de tempo.

          Ao provocarmos um determinado choque na variável consumo, por exemplo, 54 vemos que grande número de falências deverá ocorrer decorrente das crises

          

        Teta ( ) é um parâmetro da componente de juros e que tem um comportamento exógeno. Para

        maiores detalhes, ver anexo p. 197

        55 Por crise endêmica, definimos situações de desequilíbrios que ocorrem por ação de agentes do

          endêmicas. É por isso que estamos interessados em aumentar o parâmetro teta: porque inferimos que variações de rating externas inexoravelmente adentrarão nessa economia.

          No gráfico de variação ( ) x lucros, percebe-se que os lucros dos bancos, de forma assimétrica, crescem à medida que aumenta. Sinaliza, portanto, que um aumento de risco leva os bancos a adotarem uma postura de proteção do risco. A explicação possível é que o risco neutral cresce com a própria taxa.

          Podemos notar que os bancos são os mais favorecidos quando um risco é imposto a uma taxa de juros dos empréstimos, e se o risco não se materializa, o preço desse dinheiro é aumentado, favorecendo os seus lucros. Lembremos que os bancos realizam proteção de riscos em suas taxas.

          Por seu turno, o choque de causa diretamente impacto na empresa fornecedora de bens intermediários Upstream. Logicamente, todo o seu processo produtivo é direcionado às empresas Downstream, que por sua vez vendem ainda os seus estoques aos consumidores finais.

          Salientemos, contudo, que mesmo havendo uma majoração de seu lucro, esse cenário a longo prazo não interessa aos bancos, porque, na realidade, o número de falências crescentes serão absorvidos pelos seus patrimônios líquidos.

          

        Fonte: elaboração própria

          Nas oscilações de teta, os salários sofrem repetidos choques sistêmicos, tornando-os instáveis, expostos a rupturas das condutas econômicas das empresas.

          56 Os ciclos de pico ocorrem pelas explicações do lead time do processo. O ciclo 56 operacional das empresas possui uma ordem cronológica de tempo, primeiro ocorre

        Considera-se lead time o inicio de uma atividade produtiva onde, primeiro ocorre a formação dos

        estoques com as compras das mercadorias, a transformação das matérias-primas em produtos e a o processo produtivo e a compra das mercadorias, fatores ligados à produção. Nesse momento os salários estão sendo pagos, pois o processo produtivo ainda está ativado. No próximo momento, a oferta das mercadorias não foi atendida e as empresas não vendem seus produtos, desencadeando-se um processo de retração de seus patrimônios e a situação financeira piora quando elas vão à falência.

          Conforme o modelo proposto, esse ciclo operacional da empresa é totalmente financiado por recursos externos, portanto, sujeito as oscilações perturbadoras causadas pelos riscos ocorridos em .

          Certamente, a perturbação no salário desencadeará uma crise nessa economia, já que provocará uma retração no consumo, na produção e mais falências serão desencadeadas, levando a desconexões de empresas ao longo da unidade de tempo na simulação.

        6.3. AS DESCONEXÕES DA ECONOMIA E SEU SIGNIFICADO

          As assimetrias de mercados, previstas por Stiglitz, com as respectivas aversões aos riscos pelos agentes, integrantes da economia, materializam flutuações no mercado quando das suas percepções de riscos, quer seja na obtenção dos recursos, quer seja nos empréstimos, ou ainda no consumo de produtos. Tal percepção reverbera nos processos produtivos, afetando o patrimônio das empresas e bancos.

          Essa percepção de risco, aqui representada por , faz com que as empresas avaliem se devem ou não produzir; por sua vez, os consumidores, se compram ou não novos produtos (dado o preço maior ofertado pelas empresas são inviabilizados)

          e, por seu turno, os bancos colhem os efeitos com a oferta desses recursos no mecanismo de crédito.

          No trinômio: informações assimétricas, crédito e atividade, há um substrato comum: a confiança. As conexões entre os indivíduos, entre os indivíduos e as instituições e mesmo aquelas entre si, foram modeladas e apresentadas nos gráficos de sequência a seguir. Para tal, dois cenários foram montados; um em que o parâmetro teta ficou fixo, e o outro, no qual teta variou. Concluímos que, no primeiro caso, as conexões obedecem a uma distribuição normal, ou seja, o comportamento das ligações entre os agentes (consumidores, empresas, bancos) na forma gaussiana é previsível. No outro cenário, observou comportamento de uma distribuição beta, que implica em uma concentração e limitação das conexões.

          

        Fonte: elaboração própria Vale ressaltarmos que também realizamos diversas outras modelagens, auferindo diversas conexões nas quais houve a variação do parâmetro teta, a fim de que nosso estudo não se circunscrevesse a apenas dois ensaios nesse tópico.

          Todavia, mais importante foi que pudemos identificar com clareza que existe um momento de criticidade, aquele em que se iniciam os momentos das desconexões. Se nos atentarmos para o fato de que, na realidade, a economia é um conjunto de dinâmicas interligadas por conexões, isso é fundamental para nosso trabalho. Conforme mencionamos quando de nossa abordagem sobre os sistemas complexos, o início de descontinuidade das cooperações entre os agentes é o início da desconstrução da economia, ou pelo menos de um modelo econômico que reputamos mais justo socialmente.

          A seguir, apresentamos uma sequência de gráficos que demonstram a evolução das conexões dos agentes do nosso modelo evoluídos pelo crescimento do fator .

          Frequência de conexões

          

        Fonte: elaboração própria

          Observamos nos gráficos anteriores que o número de frequência de conexões representada no eixo (y) diminui quando teta aumenta. Nessa analise, é necessário também verificar o número de clusters representados no eixo (x), ou seja, o agrupamento dos agentes conectados estão cruzados com a frequência, formando uma

          “área” que podemos definir como uma região de conexões. Resta saber qual seria a área “ideal” e a resposta está no gráfico plotado com teta fixo, ou seja, uma área gaussiana.

          CONCLUSÃO

          Em seu trabalho de entendimento das crises do capitalismo, Schumpeter (1997) desmistifica a visão tradicionalista do desenvolvimento econômico linear e sugere, em substituição, um fluxo circular da vida econômica. Para ele, em sua obra, “Teoria do Desenvolvimento Econômico”, a concepção desse desenvolvimento ocorre por processos de fluxos descontínuos, em perturbações do equilíbrio. Surge o novo cenário constituído, que se auto confronta com o seu estado anterior, promovendo o seu deslocamento para um novo padrão econômico.

          Nesse sentido, o autor entende o fenômeno do desenvolvimento como novas combinações de insumos ou novas formas de criação de produtos, de maneira a desequilibrar a hegemonia existente, levando ao rompimento do fluxo circular tradicional. As combinações desses produtos ou insumos inovadores seriam, segundo Schumpeter (1997), a introdução de um novo bem, a concepção de um novo método de produção, a abertura de um novo mercado, a conquista de uma nova fonte de matéria-prima ou um novo modo de organização de uma indústria.

          Ora, esses fatores, combinados ou não, permitem o surgimento da inovação do mercado, que possibilita, por sua vez, o boom da economia; por conseguinte, há fatores decorrentes, como a baixa taxa de desemprego, o aumento dos salários e a elevação dos preços de venda das mercadorias. Esse boom solidifica-se até o ingresso de novos agentes no mercado, também chamados pelo autor de “imitadores”, levando a economia a uma depressão, até que um novo equilíbrio seja gerado.

          De acordo com Schumpeter (1997), nem toda depressão de mercado constitui-se em um fator negativo, pois as inovações de sucesso emergentes que se mantêm expurgam do sistema aquelas obsoletas. Nessa visão, é razoável entender que o desenvolvimento da economia estabeleça-se através de inovações, booms, depressões e novo equilíbrio, em um círculo inerente ao sistema capitalista. Acrescentamos que os produtos inovadores podem ser também caracterizados como os produtos de caráter financeiro, e, porque não dizer, da própria mão-de-obra no processo de mundialização.

          Ulrich Beck (2012) acrescenta ao desenvolvimento do ciclo econômico, na modernidade, o esteticismo delimitado entre a arte e a artificialidade, que atingiu a vida social através da força da propaganda, o que ele definiu como o transitar entre o “evangelho acrobático da arte como a última metafísica europeia” (Benn, apud

        57 BECK, p. 56)

          e o preceito de Nietzsche de que “o niilismo é um sentimento de felicidade”. Esse novo equilíbrio, na realidade, não é um estado permanente ou um todo indivisível. Segundo os preceitos de Edgar Morin (1977), em

          “O método 1: a natureza da natureza”, a organização é um estado em permanentes crises: de ordem, de unidade e de identidade, em que o conjunto das interações dos agentes é o que produz a unidade ou o sistema. Este último possui uma formulação paradoxal, em que

          “um sistema é um todo que toma forma ao mesmo tempo que seus elementos se transformam” (MORIN, 2013, p. 147). Assim, a organização não é o resultado da soma de suas propriedades individuais e nem é previsível a partir delas, ou seja, o fenômeno emerge como produto de sua interação coletiva.

          Ao lado do fenômeno da emergência, outros foram concebidos no universo da complexidade. Dentre eles, a transição de fase, cujas mudanças nas estatísticas de um fenômeno surgem a partir de um valor crítico dos parâmetros de controle. A universalidade que os sistemas complexos exibem é uma evidência em que detalhes microscópicos não são muito relevantes, mas sim, a natureza das interações dos seus agentes constituintes. Vale ainda mencionar que os sistemas complexos podem ser adaptativos; em outras palavras, eles são reativos às mudanças do meio ou as perturbações das regras internas que permeiam tais interações.

          O sistema socioeconômico, caso particular dos sistemas complexos, autorreferenciam-se em suas previsões, retroalimentando-se com o resultado de suas próprias ações e, por isso, possuem uma estrutura auto-organizável. Em decorrência, o seu comportamento torna-se imprevisível na escala esperada.

          Verificamos que causas múltiplas e efeitos não-lineares são características próprias dos fenômenos socioeconômicos. Variações microscópicas entre as interações dos elementos constituintes podem levar a uma grande mudança no comportamento esperado e previsto do fenômeno. Em razão disso, normalmente suas estatísticas não são captadas adequadamente pelas equações lineares.

          Com a evolução dos recursos da computação, avançamos na modelagem de 57 equações não lineares e também na de sistemas complexos. A iteração tornou-se mais rápida e, com isso, foi possível obter resultados que outrora demandariam grande dispêndio de tempo. Surgiram modelos evolucionários que, de forma cognitiva, deram ensejo a simular estratégias e planejamentos, permitindo uma boa representação das decisões dos agentes. Funções simplificadas nos algoritmos possibilitaram, além da cognição, que pesquisas em bancos de dados fossem realizadas de maneira muito eficaz e rápida.

          Por seu turno, os estudos de Stiglitz (2003) concluíram que os juros possuem uma componente endógena e outra exógena. No primeiro caso, o fator de risco é intrínseco ao próprio agente e, no outro, o risco está pulverizado nos ciclos de negócios do tomador de recursos. Dessa forma, é necessário olhar a economia não só a partir do próprio agente emprestador dos recursos, mas também a partir da rede de negócios que tanto o emprestador quanto o tomador de recursos inserem- se.

          Em razão disso, dentre os modelos existentes e pesquisados, o de Delli Gatti e seus colaboradores (2003) apresentou-se mais adequado. Notemos, entretanto, que foi necessária a inserção de outras variáveis, uma vez que aquele modelo foi originalmente desenvolvido para avaliar as redes de crédito e seu relacionamento entre empresas e bancos. E, ainda, verificamos que os preços dos produtos ocorriam de forma aleatória.

          A inserção dessas variáveis ocorreu através da implantação de uma rede de consumidores e toda sua dinâmica, o que significa dizer: as empresas ofertam seus produtos analisando o volume de seus estoques, adequando-os à venda com seu melhor preço flutuante. Por sua vez, o consumidor analisa sua renda e verifica se aquele preço ofertado é o melhor escolhido dentro do conjunto de lojas a sua disposição. Caso ele não tenha recursos suficientes para realizar sua compra, recorre a bancos que realizam empréstimos mediante a menor taxa de juros.

          Tais aspectos introduzidos caracterizam uma inovação no modelo de Delli Gatti et al. (2009) e, por conseguinte, tornaram possível a construção de uma microeconomia artificial em que não só a propagação dos juros pela rede foi possível ser analisada e mensurada, mas também as consequências sociais, como fatores de emprego, conjunto de falências das empresas, desempenho das rendas e, principalmente, as modificações nos padrões de conexões na rede, ocorridas nessa economia. Notamos que os juros representam a remuneração dos investidores.

          Entretanto, com o surgimento da matriz de globalização, os recursos derivados do crescimento dos PIBs passaram a ser disponibilizados de forma global. Esse dinheiro excedente precisou, de forma contínua, ser remunerado, tomando-se por base o custo de oportunidade do capital.

          É importante ressaltar que a matriz de globalização tem por ideologia o modelo neoliberal, que a princípio antepõe o capital ao trabalho e aos meios de produção. Preocupa-se mais com os direitos individuais do que com os sociais. Defende as leis de mercado reguladas, principalmente pela oferta e pela demanda, criando necessidades de consumo fictícias.

          Os referenciais teóricos da globalização têm por norte o Consenso de Washington, de 1988. No entanto, entendemos que a Feira Mundial de Nova Iorque, realizada em 1964, e o livro “Os meios de comunicação como extensões do homem

          ”(2002),de Marshall Macluhan, foram os elementos precursores da globalização. A cibernética representava a tecnologia, com a ideia de que ela se transmutava na extensão do próprio homem.

          Essa matriz de globalização procurou proteger os investidores e as empresas transnacionais por meio de uma hegemonia financeira nas aberturas das fronteiras com macropolíticas impostas aos Estados-nação, tornando-os subservientes a essa matriz.

          No entanto, interesses conflitantes que emergiram ao longo desse processo levaram a um ambiente de incertezas quanto ao retorno dos investimentos realizados. Com isso, o papel do especialista avaliador do risco passou a ganhar força no jogo investimento-retorno.

          O risco aumenta, de acordo com a concessão do volume de empréstimos realizados; esse risco é incorporado à taxa de juros. Contudo, o aumento dessas taxas eleva o retorno do investimento, e se tal aumento não representar a neutralidade do risco, então haverá um acréscimo de valor real.

          Os países em débito emitem títulos para saldarem suas dívidas, que são conhecidos como títulos-soberanos. O risco-país representa a remuneração do retorno do investimento desses títulos.

          O aumento do risco de rating estabelecido pelos agentes avaliadores é capturado, imediatamente, pela avaliação de risco-país. São dois os elementos que compõe o risco-soberano: a assimetria de informações econômicas e o princípio de imunidade dos estados-soberanos, conforme discorremos no corpo deste trabalho. As agências avaliadoras divulgam seus critérios de rating. No entanto, não se sabe, a bem da verdade, quais seriam os reais limites entre o campo objetivo e o subjetivo, tanto nos critérios de avaliação quanto na mensuração feita pelas agências.

          Critérios como eficácia institucional, riscos políticos, estrutura econômica e perspectivas de crescimento, refletidos em formas de pontuação são exemplos bastante claros de que existe campo para a subjetividade. Tal subjetividade trazida para a avaliação de rating e, por conseguinte, para a avaliação de risco-país, termina por se incorporar nas taxas domésticas. Consequentemente, causa impactos na realidade vivenciada pelo cidadão no seu dia-a-dia.

          Nas simulações realizadas em nossa modelagem, pudemos identificar o exato momento da criticidade, ou seja, o momento em que a economia começa a sofrer rupturas pelos efeitos da evolução da componente exógena inserida nataxa de juros.

          Em nosso trabalho, pudemos também propor um modelo de avaliação do capital social para contrapor ao modelo de Fukuyama (2000), cujos conceitos são marcados nitidamente por critérios subjetivos, tais como raio de confiança, força de coesão e outros.

          Isso é de fundamental importância, porque aponta o inicio de descontinuidade das cooperações entre os agentes (desconexão da rede), o que significa o início da crise da economia, ou pelo menos de um modelo econômico que reputamos mais justo socialmente.

          Como indicação de trabalhos futuros, propomos modelos que tenham por inserção a rede bancária com o Banco Central, com o Tesouro Nacional, com o Governo, e ainda com o comércio internacional. Sabemos que todo modelo é limitado e se inicia de forma simplificada, podendo evoluir com o advento de novas ideias. Do ponto de vista do trabalho, um grande desafio é a busca de uma correlação de dados empíricos que contenham os diferentes produtos internos brutos, as taxas básicas de juros da economia e o capital social dos países.

          Acreditamos que essa tese é uma contribuição singela na tentativa de desvendar uma intricada rede de relações que envolve dimensões financeiras, econômicas e sociais. Representa uma interface com vistas a contribuir para um campo multidimensional da sociologia econômica.

          BIBLIOGRAFIA

          I – DOCUMENTOS

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          ANEXOS

        ANEXO 1º - FUNCIONAMENTO DO MODELO DELLI GATTI E SUAS

        CONTRIBUIđỏES

          O modelo de Delli Gattiet al.(2009) possibilitou o processo de simulação da economia artificial construída. Com o modelo, foi possível introduzir novas variáveis componentes das quais construiu-seuma nova sub-rede.Assim, os dados computacionais obtidos foram traduzidos em gráficos, em que se verificou o comportamento dessa economia quando acrescentados os juros, decorrente do risco externo que introduzimos por mecanismos de choques na topologia.

          O sistema financeiro e muitos outros sistemas complexos são, de fato, sistemas adaptativos nos quais o comportamento coletivo surge de ações individuais. Os sistemas adaptativos complexos consistem de coleções heterogêneas de unidades individuais que interagem umas com as outras e influenciam a evolu

          ção de todo o sistema. Em um “sistema adaptativo complexo” alguns componentes do sistema como um todo mudam de forma coordenada. O cerne do sistema capitalista consiste na formação de um sistema financeiro coordenadoe sujeito a rápidas mudanças, e tem o seu controle completamente centralizado, exigindo assim vínculos de comunicação múltiplos, de alta taxa de transferência de dados e de duas vias, uma central de processamento potente e um centro de controle sofisticado. Mas todos esses aspectos são vulneráveis à falha, precisamente quando são mais necessários. Os riscos dessa exposição devem ser repassados rapidamente para as taxas de juros cobradas.

          Muitos dos fatores que contribuem para o risco são problemas organizacionais e humanos. A análise de risco deve considerar as questões de como as linhas de comunicação funcionam e da confiança existente dentro do sistema.

          O modelo esboça um esforço para modelar um sistema econômico, não inteiro no que tange a todas as variáveis da economia, o que se apresenta com bastante dificuldade; mas na sua forma simplificada, apresenta-se como um bom modelo que objetiva aprender como controlá-la melhor essas variáveis, já que o projeto é de grande escala. Não sabemos como antecipar o colapso de um sistema apenas olhando para ele e reconhecendo que algo não está certo.

          Existem algumas formas de olhar as tendências do mercado e uma delas é a simulação computacional para se saber quando um colapso está próximo.

          1.Os players da economia artificial

          Conforme artigo de Delli Gatti (2009), a economia artificial criada consiste de três setores básicos:

        • um setor inferior (1) de I empresas nas quais se inserem (?)os índices i (i=1,

          2, 3....I), as Dowstream (D),

        • um setor superior(2), a Jfirmas, com os índices j (j= 1, 2, 3....J), as Upstream

          (U),

        • um setor deZ bancos (3), indexados com z(z=1, 2, 3...Z) Inserimos neste trabalho, em contribuição, um quarto setor, composto pelos C - consumidores.

          Osíndicesi, jezsignificam a ligação existente entre os C consumidores e as empresas Dowstreams e Upstreams, e os bancos.

          2. Sobre as empresas

          As empresas (D) produzem produtos para consumidores, equivalente a uma fábrica que vende seus produtos no varejo. As firmas (I) produzem para suprir a (D) empresas com bens intermediários, fabricação e venda no atacado, nada vendendo aos consumidores diretamente.

          No modelo de Delli Gatti, as D empresas não contêm estoques, vendendo tudo que produzem, Igualmente, asU firmas que também não têm estoques, fabricando o necessário de seus produtos mediante encomenda das D empresas.

          O arcabouço teórico para a inexistência de estoque está baseado na Lei de Says(que determina a condição de inexistência de estoque).

          No entanto, a fim de tornarmos a nossa economia artificial mais dinâmica, introduzimos na modelagem do sistema o componente estoque para influir na formação do preço de venda dos produtos. Sabemos, da economia real, que as empresas realizam liquidação de seus produtos, de acordo com a procura por seus produtos; essa demanda tornam os preços flexíveis, oscilando pelas escolhas dos consumidores. Assim, notamos que haverá uma flutuação positiva ou negativa nos preços, de acordo com as realizações das vendas desses produtos aos seus consumidores.

          Poroutro lado, a oferta e a demanda também sofrem os reflexos daqueles preços praticados, quando os consumidores buscam o menor preço pelas suas escolhas que realizam na simulação.

        3. Os mecanismos financeiros da simulação

          A vertente financeira caracteriza-se por relações de empréstimos e crédito concedidos na economia:

        • as duas empresas (D) e (U) obtém seus recursos por meio de financiamentos com os Z bancos, através de mecanismos de crédito. Verifica-se ainda que as firmas (U) também realizam resultados, emprestando valores para os grupos das (D) entidades.

          Com o intuito de aumentarmos o dinamismo econômico, introduzimos na modelagem o financiamento dos(C) consumidores junto aos Z Bancos emprestadores dos recursos.

          Assim, conforme a formulação, a rede financeira formada possui relação direta com a produção das empresas, ou seja, para produzirem os seus produtos necessitarão de crédito financeiro evoluindo endogenamente por meio de uma iteração de agentes.

          O crédito assim incentivado denominou-se de escolha de parceiros preferidos; cada componente procura os seus “pares” ideais, de acordo com o menor preço ofertado. O mecanismo de escolha ocorre tanto nas mercadorias adquiridas como também nas taxas de juros aplicadas ofertadas.

          O mecanismo transcende por uma escala da i-ésima firma D até o tempo t. Em relação a produção , notamos que se trata de uma função côncava crescente, e a sua robustez financeira consiste na captura patrimônio líquido das empresa , ou seja quanto melhor o desempenho e o porte econômico dessa empresa, melhor será a sua produção. Notamos que é influenciada por uma componente de evolução tecnológica β.

          (1) Em que φ> 1, 0 <β< 1 são parâmetros, uniformes entre as firmas D. Delli Gatti etal.(2009) chamaram essa função de resultado financeiro restrito. Em sua justificativa, aduziu que no mundo de uma economia real existe uma espécie de racionalidade limitada, e que seria um fator limitante nas tomadas de decisões ótimas pelos players em seus processos decisórios. Esse fato conduz a uma qualidade do sistema ao capturar efeitos restritivos, demonstrando que essa economia faz parte de um processo no campo da complexidade. Os agentes nessa economia artificial, bem como na economia real, têm racionalidade limitada, pois no caso contrário, bastaria um simples equacionamento das variáveis, e os resultados decorreriam deuma aplicação trivial.

          O modelo pressupõe também a existência de uma assimetria de informação entre aqueles que emprestam recursos e os que realizam os empréstimos. Tal assimetria seria representada na equação a seguir:

          (2) Esta fórmula foi proposta por Stiglitz e Greenwald (1993) e, similarmente, encontramos também em Stiglitz e Greenwald (2003, p. 54). Ela, basicamente, consiste na afirmação de que os lucros líquidos esperados são maximizados dos custos da falência , ponderados pela probabilidade de falência .

          Os lucros estão representados em umafunção crescente da saída . Àmedida que crescem, os tamanhos das firmas aumentam, de igual modo, em escala, as suas atividades aumentam gradativamente o patrimônio líquido das firmas, demonstrando a evolução de suas riquezas.

          A seu turno existindo uma fragilidade financeira haverá um reflexo no aumento de probabilidade de falência. A solução De (2) será dado por: (3) Derivando,com tem-se uma representação linear da função (3). Delli Gatti et al. (2009) pressupõem a existência de informações assimétricas entre os emprestadores e os tomadores dos recursos e esse fato levaria a uma hierarquia na concessão dos financiamentos. A concavidade limitada representada pela função (3) captura a ideia de que um aumento na variância das condições desses financiamentos traria concomitantemente uma redução, na média e de forma agregada, do resultado obtido.

          Sobre a Função de Produção

          Um das soluções da equação (3) é a equação de produção , que pode ser obtida pelo desenvolvimento de (3). DelliGattietal.(2009) afirmam que tal função é do tipo Leontief, ou seja definida pela expressão:

          

        Yi = min( , )

          Onde

           e

          De onde se extrai: e = Ou seja, significa quea demanda e o trabalho são funções da produção.

          Por transformação, e de forma não linear, a demanda e o trabalho, dependerá das condições financeiras representada pelo patrimônio líquido: (4)

          (5) A demanda e o trabalho crescem à medida que o patrimônio evolui e este está condicionado a uma taxa de tecnologia que influencia tal crescimento. Os desenvolvimentos tecnológicos afetam substancialmente as empresas em seus maquinários e, por decorrência, suas produtividades.

        4. O preço agregado na economia No modelo objeto, os produtos são vendidos a um preço estocástico.

          O comércio existente é “perturbado” por uma variável δ,provocando um distúrbio estocástico na demanda. Tem-se que: ( +1 ), em que é o preço da i-ésima mercadoria Seja o fornecimento de produtos por um grande número de produtores, então o equilíbrio do preço é definido por:

           = f( , )

          Delli Gatti et al. (2009) afirmam que se a demanda for suficiente elástica, mudanças no suprimento não afetarão os preços de forma significativa, considerando o preço como uma demanda definida de forma aleatória.

          Em regime de alta demanda, o preço tende a convergir para o preço relativo da mercadoria no mercado, porém se ocorrer uma baixa na demanda, as empresas serão deslocadas para fora do mercado, pois seus patrimônios líquidos ficam negativos.

          Adaptamos o nosso modelo para introduzir o preço de acordo com os estoques existentes no mercado. O preço atual depende do preço anterior, ajustado a um fator do estoque pela demanda.

          Os estoques será a diferença entre a oferta menos a demanda efetiva.

          (6)

        5. Os Fornecedores de Insumos

          Pelo modelo, as empresas Upstream(U) produzem os bens intermediários por meio de uma tecnologia definida em uma função Leontief, que emprega apenas trabalho, definida por:

          Em que . (7) Cada firma(D)tem apenas uma conexão com uma firma(U), mas muitas firmas (D) podem estar vinculadas a mais de uma empresa (U). O processo de compra por meio(D)transcorre com a emissão das ordens de compras, definidas pelas ofertas dos conjuntos de fornecedores . Como cada empresa (D) busca por preços mais baixos do conjunto de (U), então por construção o parâmetro influencia o preço que as firmas Upstreams vendem.

          O preço contém uma taxa de juros “embutida” em sua composição, e é definida por: (8) Em que é a taxa de juro cobrada e que depende da condição financeira das Upstreams. Assim essa taxa é definida por:

          ,

          Em que . (9) Ou seja, a taxa de juros cobrada depende da solidez financeira das empresas fornecedoras de insumos Upstreams.

          Delli Gattiet al.(2009) debatem que, em princípio, a taxa de juro, nesse crédito comercial, deveria ser influenciado também pelas condições financeiras do tomado do empréstimo (empresa Downstream). Porém, entendem que a correta avaliação das condições financeirasdos tomadores dos empréstimos pelos credores é assimétrica, e em função disso a taxa não incorpora outros fatores de riscos. Entendem aqueles que as empresas emprestadoras, usando a estratégia de mercado, afetada por fatores, como a publicidade, tendem a se estabilizar com uma t axa “padrão”, ao longo do tempo, ou seja, as taxas ajustam-se ao longo do tempo.

          No cenário da modelagem, as empresas estendem os créditos comerciais em termos mais favoráveis, aumentando assim a probabilidade de obterem maiores consumidores no decorrer do tempo, ocasião em que surgirão condições mais favoráveis em seus patrimônios líquidos, solidificando-se cada vez mais os seus

          

        status financeiros. Portanto, o modelo faz uso do longo prazo como direcionamento

          dos créditos comerciais mais favoráveis, queno início eram favorecidos, e se estabilizam ao longo do tempo.

          Observamos também que as condições financeiras de seus clientes, empresas (D) são forças orientadoras que conduzem a uma produção mais elevada, também decorrente dos efeitos destas nos patrimônios das firmas (U). Assim os impactos podem ser observados na demanda de produto, na produção e na demanda de trabalho, respectivamente:

           , em que (9) Fórmula da produção (10)

        6. Os Mecanismos de Crédito

          As empresas são movidas por uma ordem financeira superveniente a elas, de tal ordem que o financiamento está em primeiro lugar, e os empréstimos bancários em segundo plano. Esse intervalo entre o financiamento interno, as despesas e os insumos são preenchidas pelo crédito. Para as empresas (U), a lacuna financeira é a diferença entre a massa salarial e o patrimônio líquido; já para as firmas (D), tal lacuna é representada pela diferença entre os custos dos insumos e o patrimônio líquido. Significa que a aquisição dos bens intermediários sãofinanciadas não pela pelos empréstimos bancários, e sim pelos créditos obtidos. Assim, a demanda de crédito é definida por:

           (11)

          Em que possui os índices x=i para as empresa (D) e x = j para as empresas (U), sendo descrito por:

           (12)

          O salário real é definido por Por hipótese, o salário é abundante, de forma que as empresas não enfrentam qualquer escassez de mão-de-obra.

          Pelo modelo proposto por DelliGattietal. (2009), a firmas autofinanciadas, que possuam um nível de patrimônio líquido suficiente para financiar pelo menos a sua massa salarial, não demandam crédito.

          Assim a demanda por crédito da i-ésima empresa (D)é definida por: De forma que o reflexo no patrimônio de (D)será maior quanto maior for o patrimônio de (U). Em relação à rede bancos-firmas, o modelo prevê a existência de um conjunto de consumidores do z-ésimobanco, denotado por:

          Esse parâmetro dependerá da taxa de juros, e, que por construção, significa que quanto mais alto este parâmetro, mais empresas solicitarão empréstimos à rede de bancos.

          O z-ésimobanco adota a seguinte regra para estabelecer a taxa de juros sobre os empréstimos ao x-ésimo tomador do empréstimo (x= j ou x = i): em que é o patrimônio líquido do z-ésimobancoe é um índice que mede a alavancagem da x-ésimaempresa, são parâmetros positivos. A alavancagem é um medidor que representa a divisão entre as dívidas dessa empresa por seu patrimônio líquido. Mede o quanto tal empresa está

          “endividada”. A taxa de juros está intrinsecamente ligada à solidez dessa empresa, cujo parâmetro de aferição relaciona-se com o patrimônio líquido dessa firma, porque se o banco está em boa forma financeira, ele tenderá a estender o crédito em termos de condições mais favoráveis. Quando o patrimônio líquido está muito baixo, o banco determinará a taxa de juros para cima, objetivando reduzir o número de empréstimos.

          ,

          Por construção, o crédito concedido peloz-ésimobanco é definido por: Ainda por construção:

          , e ,

          a taxa de juros do banco z-ésimo será definida pela forma: Isso indica que essa taxa será uma função decrescente do patrimônio líquido do banco e da j-ésima firma, e simultaneamente uma função crescente das empresas downstreams(D).

          Cada empresa (D) tem uma vinculação por crédito e por produção com uma empresa (U), e tais vínculos são estabelecidos aleatoriamente, no tempo t. Tais empresas obtêm empréstimos juntos aos bancos, com exceção da empresa (D) que também empresta recursos de (U). A rede muda endogenamente, de acordo com a escolha dos parceiros preferidos, gerando-se assim um ruído definido da seguinte forma: A firma(D) escolhe um parceiro com probabilidade pequena

          ɛ um fornecedor(U). Ela procura os melhores preços de um certo conjunto de empresas, selecionado de (E), com probabilidade1- ɛ.

          Assim, se o preço da é mais baixo do que a , então ela mudará para esta última, e caso contrário ficará com . A rede está em constante mudança estabelecida provocada pelos processos de escolha dos parceiros preferidos e que dependem dos nós de conexões estabelecidos, os quais serão constantes ao longo de toda a simulação.

          Esse mecanismo de escolha também vale para os bancos que processam a sua seleção de escolha, de acordo com os melhores juros praticados em seus negócios.

          Se uma empresa (D) vai a falência, a sua demanda por bens intermediários produzidos por (U)também vai diminuir. Pode ocorrer também uma propagação negativa em outras empresas (D), quando estas não poderão produzir o que desejam, devido às falências de U . O modelo também se propaga por meio de avalanches de falências devido a repercussão negativas de crédito concedidos aos fornecedores, contaminando assim todo o sistema.

          Verificamos também que quanto menor o índice de alavancagem, em uma análise dos bancos, maior será a propagação dessa concessão de crédito, que representa um baixo endividamento em relação ao seu patrimônio.

          Assim, percebemos que quanto menores as taxas de juros, concedidos nos empréstimos, se a alavancagem estiver em um grau menor, maior será a concessão do crédito.

        OS LUCROS

          a) Os lucros das empresas (D)são definidos por: Em que é o preço cobrado na economia;

          é a produção (oferta); é a taxa de juros;

          é o crédito concedidoe é a quantidade de produtos (insumo de produção).

          Com a introdução da rede de consumidores, o novo lucro que se define para bancos é:

          ,

          Em que passa a ser a demanda efetiva em que os consumidores realmente adquirem tais produtos.

          b) Os lucros das empresas4(U)é definido por:

          é o crédito concedidoe é a quantidade de produtos (insumo de produção), e a taxa de juros cobradas.

          c) Os lucros dos bancos Os lucros são definidos por:

          Em que

           e são os créditos concedidos as empresas(U) e (D).

          Com o acréscimo na simulação de créditos concedidos para os consumidores, temos: Em que representa o crédito concedido aos consumidores mediante a taxa de juros

          A influência das Más Dívidas nos Patrimônios das Entidades

          A fórmula geral do patrimônio é definida por: Em que indicamos que o patrimônio cresce com o lucro e decresce com o crédito concedido , em quex = j ou x = i, de acordo com as empresas.

          A má dívida dos bancos é definida por: no modelo original.

          Como introduzimosa rede ao consumidor, então a má dívida dos bancos é definida por:

          i, j e k

          Em queo créditopassou a se representado pelos índices , definido pelas empresasDownstreams, Upstreamse ainda por k consumidores.

          A rede pela lista de fórmulas: as cores iguais representam as iterações possíveis, ou seja, alterando-se uma equação surtirá efeitos concomitantemente em outras

          Derivados

          Significado das variáveis tempo discreto t = 1, 2, ..., T para as firmas Ddownstream para as firmas Uupstream patrimônio líquido nível de produção parâmetro parâmetro parâmetro lucros líquidos esperados custos da falência probabilidade de falência o preço do fornecedor taxa de juros no crédito comercial demanda de crédito massa salarial da firma w o salário real é constante e uniforme entre as firmas conjunto de consumidores D demanda por trabalho parâmetro demanda por bens intermediários parâmetro os bens finais são vendidos a um preço esticástico

        demanda da i-ésima mercadoria (commodity) no período t

        distúrbio estocástico na demanda específico para o mercado parâmetro , em que z o z-ésimo banco o patrimônio líquido do z-ésimo banco índice de alavancagem da x-ésima firma são parâmetros positivos patrimônio líquido do banco representa uma “má dívida”

          Representação gráfica da rede

        Topologia de rede de um sistema interconectado pelas relações de crédito.

          Firmas Downstreams são representadas por Di, em que i ∈ I, firmas Upstreams por Uj, em que j ∈ J e Bancos por Bz, em que z ∈ Z. Adaptado de Delli Gattiet al. (2009).

          

        ANEXO 2ử - A METODOLOGIA DE AVALIAđấO DAS AGÊNCIAS DE

        RATING A MOEDA AFETANDO A CLASSIFICAđấO DE RISCO DA S & P

          Os riscos de créditos (avaliação de rating) levam à classificação em duas vertentes

        • – uma local e uma externa. Em realidade, são elaboradas duas classificações.

          A dívida do país é analisada sob dois aspectos, em moeda local e em moeda estrangeira. A divergência entre essas avaliações pode refletir num risco de crédito distinto em cada tipo de dívida.

          A S & P em relação a esse fato informa:

          Pode-se perguntar por que as classificações em moeda local não são todas avaliadas como “AAA”, dados os poderes extensivos dos soberanos dentro de suas fronteiras, incluindo a habilidade de imprimir dinheiro. Enquanto a habilidade para imprimir moeda local dá ao soberano uma tremenda flexibilidade, a forte confiança em tal expansão monetária pode abastecer o risco de inflação muito alta ou mesmo hiperinflação, que pode causar danos econômicos e políticos mais sérios do que o reescalonamento da dívida em moeda local. Em tais casos, os soberanos podem optar pela inadimplência de suas obrigações em moeda local (S &P,2011).

          A classificação soberana em moeda local localiza-se entre zero e dois graus acima da classificação em moeda estrangeira, baseada nos seguintes fatores:

        • Política monetária independente: um governo tem capacidade maior para pagar sua dívida em moeda local do que sua dívida em moeda estrangeira apenas se puder gerenciar sua moeda local independentemente. Sem o controle cambial, ele pode estabelecer taxas de juros sem se importar com o valor externo da moeda.
        • Profundidade dos mercados de capital em moeda local. Um país tem habilidade maior para conduzir a política monetária quanto mais intensos seus mercados de capital e quanto mais amplos os mercados auxiliares, incluindo mercados secundários ativos.

          Um incentivo valioso na continuidade do serviço da dívida em moeda local, quando não existir tal serviço em moeda estrangeira, é que essa dívida pode representar uma porção significativa dos ativos dos fundos de pensão locais, bancos e outras entidades do setor privado, que representam não apenas os eleitores, mas também elementos essenciais da economia local.

          Flexibilidade política e fiscal. Se os interesses políticos ou fiscais são a

        • restrição dominante na classificação, o soberano tem menos flexibilidade para dar uma prioridade mais alta às obrigações em moeda local. Elevação da classificação soberana em moeda estrangeira para determinar a classificação em moeda local

          Número de graus Todas as características abaixo se aplicam Soberanos com:

        • Uma política monetária independente com história de livre flutuação ou taxas de câmbio flutuantes(*) (excluindo países comprometidos com uma união monetária e cuja moeda é largamente comercializada(π).

          2 graus

        • Renda fixa em moeda local e mercado monetário com capitalização acima de 20% do PIB e um mercado secundário ativo.
        • Nem a pontuação fiscal nem a política estão mais do que um ponto mais fraco do que a média das outras quatro pontuações. Países com:
        • Uma política monetária independente, com história de livre flutuação ou taxas de câmbio flutuantes(*) (incluindo soberanos comprometidos com uma união monetária com uma livre flutuação ou moeda flutuante) ou com regime de taxa cambial controlado em transição para um regime

          1 grau mais flexível.

        • Renda fixa em moeda local e mercado monetário com capitalização acima de 10% do PIB e algum mercado secundário.
        • A pontuação fiscal não é mais do que um ponto mais fraca do que a média das outras quatro pontuações.

          Zero grau Outros Países Notas:

        (*) Exceto em países em que a dolarização dos depósitos excede 50%, para soberanos que

        impõem restrições ao câmbio sobre pagamentos e transferências para transações em moeda

        internacional ou comprometidos em acordos cambiais discriminatórios, ou para soberanos com

        história de inadimplência em sua dívida em moeda local.

        (π) Conforme refletido por uma moeda que está listada no volume de negócios do mercado de

        câmbio global no relatório do Banco para a Liquidação Internacional (BIS), “Triennial Central Bank

        Survey”. (&) Quando uma classificação em moeda estrangeira se move para o “CCC” indicando risco

        próximo de inadimplência, existe uma maior visibilidade das diferenças potenciais em cenários de

        inadimplência entre um soberano com obrigações em moeda estrangeira e outro com obrigações

        em moeda local. Nesse caso, se as expectativas de Standard &Poor são de não inadimplência do

        soberano com obrigações em moeda local, a classificação em moeda local permanece na

        categoria “B”, aumentando assim o grau diferencial.

          

        Fonte:S & P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011.

          

        A METODOLOGIA DE AVALIAđấO DE RISCO DA AGÊNCIA STANDARD

        &POORS (S & P)

          Começamos por definir a metodologia da classificação do risco país por uma das agências de classificação (rating), a Standard&Poor´s. Tal estudo pode ser encontrado em

          “Sovereig inGovernment Ratings

          MethodologyAddendum For SoverereignsWithLimitedExternal Data

          ”, publicado em 7 de Novembro de 2011. A S & P afirma que a principal fonte de inadimplência dos países, principalmente no século 19, teria como causa a falta de preparação dos governos em deixar preparado um país para possíveis choques; dessa forma, diante do choque, o país não teve condição de enfrentar o rumo inesperado ocasionado por acontecimentos como: guerras, trocas de governos, instabilidade políticas, econômicas, deterioração de comércio entre outras. Afirma também que algumas inadimplências teriam ocorrido em função de o país abandonar o padrão ouro sob o qual eles apoiaram suas moedas de papel com aquele metal em taxas de conversão fixas.

          Diante do choque, os investidores, em busca da neutralização do seu risco, abandonam e/ou repelem os investimentos naquele país, tornando seucusto financeiro nos títulos mais elevados como resposta aos seus posicionamentos.

          Essa seria a justificativa para que as classificações tenham critérios políticos e econômicos em sua metodologia. No entanto, em relação a crise de 2008-2009, assim se pronunciou:

          A recessão global recente não desencadeou uma onda de inadimplência soberana, embora este capítulo sobre história econômica ainda não tenha terminado. Contudo, o número de rebaixamentos avaliados por Standard &Poor, especialmente aqueles da Europa, tenha aumentado acentuadamente nos últimos dois anos. A recessão global de 2008-2009 foi a primeira recessão sincronizada desde o estabelecimento da União Monetária Europeia (EMU). Nossa calibração de pontuação reflete a importância de um desempenho externo e fiscal de um soberano dentro de uma união monetária relativamente ao resto da região. Aqueles países soberanos mais dependentes de financiamento fora das fronteiras nacionais, e aqueles que experimentaram deterioração inesperada em seus empréstimos ou seus perspectivas de crescimento, testemunharam um crescimento acentuado em seus custos de financiamento relativamente aos outros membros da EMU (S&P, 2011, p. 6).

          Nada foi comentado sobre a pontuação anterior dada àqueles países, e sim no pós-choque, quando tais notas foram rebaixadas. A S & P define então que cinco são os fatores chave determinantes na base de análise de crédito:

          Eficácia institucional e riscos políticos, refletidos na pontuação política. Estrutura econômica e perspectivas de crescimento, refletidas na pontuação econômica.

          Liquidez externa e posição no investimento internacional, refletida na pontuação externa.

          Desempenho fiscal e flexibilidade, bem como a carga de dívida, refletida na pontuação fiscal.

          Flexibilidade monetária, refletida na pontuação monetária.

          

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011. A tabela a seguir define a metodologia de classificação. Notamos uma possível flexibilização nos parâmetros e a influência de determinados fatores de ajustes, afetando o critério de atribuição da nota classificatória.

          

        Fonte:S & P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011, p 4.

          Para a classificação,éatribuída uma pontuação para cada um dos cinco fatores, em uma escala na qual se consideramseis pontos: de ‘1’ (mais forte) até ‘6’

          (mais fraca). Essas pontuações são baseadas em critérios e considerações qualitativas e quantitativas.

          Forma-se assim um “perfil econômico e político”, com base em combinações desses fatores, formando o que se chama “perfil de flexibilidade de desempenho”.

          A classificação possui ainda uma composição em dois níveis: em moeda local e externa:

          As classificações soberanas em moeda local podem ser mais altas do que as classificações soberanas em moda estrangeira porque a credibilidade da moeda local é apoiada pelos poderes únicos que os soberanos possuem dentro de suas próprias fronteiras, incluindo a emissão de moeda local e o controle regulatório do sistema financeiro doméstico. Quando um país soberano é membro de uma união monetária, e, portanto passa a política monetária e cambial para um banco central comum, ou quando ele usa a moeda de outro soberano, a classificação da moeda local é igual à da moeda estrangeira (Ibidem, p. 8 ).

          Os critérios e as considerações adotadas levarama uma certa desconfiança, em clima de suspeição, e em 26 de novembro de 2010, a Standard &Poor publicou uma nota intitulad a “Request for Comment: SovereignGovernment Rating

          MethodologyandAssumptions

          ”. Tal nota trouxe certos esclarecimentos, levando a uma mudança nos critérios adotados. Esses comentários levaram as propostas a algumas posturas nas mudanças de critérios: a) A pontuação política enfatiza mais certos fatores, tais com:, os riscos de instabilidade política, o efeito de fatores econômicos e sociais e o efeito potencial de organizações internacionais sobre o cenário político nacional.As pontuações econômicas, externa e fiscal são melhoresexplicadas por mudanças na apresentação e uma melhorespecificação dos fatores de ajustamento.

          b) A avaliação de passivos contingentes relacionados ao setor financeiro dá uma medida mais compreensível dos riscos do crédito, dos riscos do mercado e d os riscos operacionais pelo uso do “Bandk

          Capital MethodologyandAssumptions

          ”, publicado em 6 de dezembro de 2010. O excesso de critérios atribuídos por um observador revela um excesso de subjetividade, principalmente que esse não consegue captar certos parâmetros de riscos endêmicos, apontando a uma determinada situação que pode ocorrer de forma sistêmica e pontual. Isso leva à distorção nos apontamentos da classificação de riscos dado àquele país.

          A seguir apresentamos uma tabela com as pontuações atribuídas: Fatores chave de classificação

          Pontuação atribuída, em escala de 1-6, com ‘1’ a mais forte e ‘6’ a mais fraca Efetividade institucional e riscos Pontuação política políticos

          Estrutura econômica e perspectivas de Pontuação econômica crescimento

          Liquidez externa e posição do Pontuação externa investimento internacional

          Flexibilidade física e desempenho fiscal Pontuação fiscal combinados com o peso da dívida

          Flexibilidade monetária Pontuação monetária

          

        Pontuação dos cinco principais fatores de classificação soberana,

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011, p. 7

          Cada fator recebe uma pontuação, usando uma escala numérica de 1 (a mais forte) até 6 (a mais fraca). O perfil de flexibilidade e desempenho determina uma certa visão de sustentabilidade do balanço fiscal de um governo e o peso da dívida, frente à posição externa do país, bem como a da flexibilidade fiscal e monetária. correlacionada com o perfil da flexibilidade e desempenho desse governo.

          g y te y W r n ry ia ak o g g tel g tel r ro

        n n n

          Flexibilityandperformance ak ak o eri St ego ro ro era ro era p eak profile

          Po tremely d d ryWe We We at St ry St St tremely o o Su termed C Ex Ve M M Ve

          Ex In Category Score 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 5 5,5

          6 Extremely Strong 1to 1,7 aaa aaa aaa aa+ aa a+ a

          a- bbb+ N/A N/A 1,8 to Very Strong aaa aaa aa+ aa aa- a

          a- bbb+ bbb bb+ bb- 2,2 2,3 to Strong aaa aa+ aa aa- a

          a- bbb+ bbb bb+ Bb b+ 2,7 2,8 to

        Moderately Strong aa+ aa aa- a+ a bbb bbb- bb+ Bb bb- b+

        3,2

          3,3 to

        Intermediate aa aa- a+ a bbb+ bbb- bb+ bb bb- b+ b

        3,7

          3,8 to

        ModeratelyWeak aa- a+ a bbb+ Bbb bb+ bb bb- b+ b b

        4,2

          4,3 to Weak a

          a- bbb+ bbb bb+ bb bb- b+ b

          b-

          b- 4,7 4,8 to VeryWeak N/A bbb+ bbb- bb+ bb bb- b+ b

          b-

          b-

          b- 5,2 ExtremelyWeak 5,3 to6 N/A bb+ bb bb- b+ b b

          b-

          b- ccc/cc ccc/cc

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011, p 8. Por exemplo, para um soberano tendo um perfil econômico e político “moderadamente forte” e um perfil de flexibilidade e desempenho “muito forte”, provavelmente, segundo a S & P, será atribuídauma classificação dentro de um grau de “AA-”.

          De forma sucinta, apresentamos a seguir as subclassificações, bem como os critérios de atribuições nas componentes avaliatóriasrealizadas pela S & P.

          1º) Pontuação política

          Objetiva avaliar as instituições dos governos e os políticos, e como estes afetam os fundamentos de um crédito através da implementação de políticas públicas sustentáveis, o crescimento econômico balanceado e a resposta a choques econômicos ou políticos.

          Tal pontuação captura os fatores listados a seguir, independente do sistema político.

          a) A efetividade, estabilidade e previsibilidade dos políticos e das instituições políticas (fator primário).

          b) A transparência e responsabilidade das instituições, dados e processos, bem como a cobertura e confiabilidade da informação estatística (fator secundário).

          c) A cultura de pagamento do governo (fator de ajustamento potencial).

          d) Riscos à segurança externa (fator de ajustamento potencial).

          e) O efeito potencial das organizações externas sobre a definição política (fator de ajustamento potencial).

          P on tu açã o

          Fator primário: efetividade, estabilidade e previsibilidade dos políticos e das instituições políticas (veja a subseção

          VI.C.1.a) Fator secundário: transparência e responsabilidade das instituições, dados e processos (veja a subseção VI.C.1.b)

          1 Uma das seguintes:

          Escolhas políticas podem enfraquecer as finanças públicas sustentáveis e o crescimento econômico balanceado. Previsibilidade reduzida das respostas políticas futuras, devido a um processo de sucessão inesperado e não testado ou ao risco moderado de desafios às instituições políticas resultantes de decisões altamente centralizadas e partes da população desejando mais participação política ou econômica.

          Mais fiscalizações incertas e balanços entre as instituições, aplicação de contratos e respeito às leis do que nas categorias anteriores.

          Transparência relativamente fraca devido à interferência das instituições políticas na livre disseminação da informação, lacunas matérias nos dados e atraso de relatórios.

          2 Uma das seguintes:

          Escolhas políticas provavelmente enfraquecem a capacidade e boa vontade para manter as finanças públicas sustentáveis e, portanto, o serviço de dívidas oportuno (a tempo). Alto risco dos desafios às instituições políticas, possivelmente envolvendo conflito doméstico, devido à demanda por mais participação política ou econômica por partes da população, ou devido a desafios étnicos ou religiosos para a legitimação das instituições políticas.

          Respostas políticas futuras são difíceis de prever, devido à política altamente polarizada, decisão altamente centralizada ou um processo de sucessão incerto e não testado.

          Aplicação não garantida de contratos e respeito à lei. Debilidade da transparência, com pelo menos um dos seguintes fatores: nível moderado a altos de corrupção, lacunas nos dados materiais ou interferência significativa das instituições políticas na livre disseminação da informação.

          3 Uma das seguintes:

          Instituições políticas fracas, resultando um ambiente político incerto em períodos de stress, incluindo a diminuição da capacidade e da boa vontade para o serviço oportuno da dívida. Risco considerável de quebra de instituições

          Aplicação não garantida de contratos e respeito à lei. Debilidade da transparência, com pelo menos um dos seguintes fatores: lacunas nos dados materiais são frequentes, altos níveis de corrupção das instituições políticas e fluxo de informação suprimido. políticas, incluindo conflitos domésticos significativos. A pontuação política é igual à pontuação inicial, ajustada para os fatores descritos abaixo: Cultura de pagamento de dívida do governo. Um governo com cultura de pagamento de dívida fraca, recebe uma nota

          “6”. Riscos à segurança externa. A pontuação política é uma das duas categorias piores do que a pontuação inicial, quando existe risco de guerra dentro do território do país, mas não se espera que o risco materialize-se dentro de 3 ou 5 anos. Impacto de organizações externas sobre os políticos. A pontuação política é uma das categorias melhor do que a pontuação inicial. Se ela se apoiar em uma organização externa, melhora sua política. Inversamente, é uma categoria pior se restrições impostas por uma organização externa enfraquecer sua política .

          

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011, p 11.

          2º)Pontuação econômica

          A avaliação neste aspecto pela S & P remete à história da inadimplência soberana e sugere seruma estrutura econômica rica, diversificada, resiliente, de mercado e adaptável, acoplada a um caminho de crescimento econômico sustentável. Segundo a S & P, indica que um governo soberano com uma receita forte (arrecadação) melhore a sua flexibilidade de política fiscal e monetária, além de melhorar também sua capacidade de rolamento da dívida.

          Os três fatores seguintes são orientadores chave para uma pontuação econômica de um soberano: Níveis de renda; Perspectivas de crescimento; Diversidade econômica e volatilidade.

          Novamente, esses fatores são combinados entre si, em que são recalibrados, após uma pontuação inicial baseada no nível de renda de um país, medido pela renda per capita. Após isso, a pontuação inicial recebe um ajustamento positivo ou negativo, em duas categorias, baseado nas perspectivas de crescimento econômico, e na concentração potencial ou de volatilidade. GDP per Acima de $25.000- $15.000 - $5.000 - $1.000 - Abaixo de capita em

        US$35.000 US$35.000 US$25.000 US$15.000 US$5.000 US$1.000

          Us$(π) Pontuação

          1

          2

          3

          4

          5

          6 inicial

          Fatores de ajustamento Fatores de ajustamento positivo negativo

          Os seguintes fatores impactam a pontuação Os seguintes fatores impactam a econômica inicial de uma categoria: pontuação inicial de uma categoria: Moeda subvalorizada sugere que o PIB per Moeda sobrevalorizada sugere que o

        capita subestima a prosperidade. Esse seria o caso, por PIB per capita superestima a prosperidade. Esse

        exemplo, se um país com uma taxa de câmbio não seria o caso, por exemplo, se um país com um

        determinada pelo mercado mantenha superávit em conta taxa de câmbio não determinada pelo mercado

        corrente e reservas consideráveis (cobrindo mantiver déficits em conta corrente. consistentemente mais de 12 meses pagamento em conta corrente).

          Crescimento econômico abaixo da média comparado com seus pares, conforme Crescimento econômico acima da média medido por um PIB per capita de crescimento

        comparado com seus pares, conforme medido por um PIB tendencial(*), que está consistentemente abaixo

        real per capita de crescimento tendencial(*), que é da tendência média de crescimento de seus

        consistentemente acima da tendência média de pares na mesma categoria de GDP (tipicamente

        crescimento para os seus pares na mesma categoria de abaixo de 0, 5 para uma pontuação inicial de 1 e

        PIB per capita (tipicamente acima de 1, 5% para a 2, abaixo de 1% para pontuação inicial de 3 e 4 e

        pontuação inicial de 2, de 4% para pontuação inicial de 3 abaixo de 1, 5% para pontuação inicial de 5 ). e 4 e de 8% para pontuação inicial de 5 e 6).

          Crescimento econômico primeiramente guiado por uma combinação de rápido crescimento no crédito doméstico para o setor privado e inflação ajustada nos preços dos ativos, indicando uma bolha potencial no crédito dos ativos.

          Economia muito volátil ou concentrada, resultante, por exemplo, da exposição dos países a uma indústria cíclica única (representando tipicamente mais do que 30% do PIB). Esse ajustamento não se aplica se a pontuação inicial for 5 ou 6, ou para soberanos que tenham ativos líquidos grandes para absorver aqueles choques (ativos líquidos do governo excedendo 50% do PIB).

          A pontuação econômica é igual à pontuação inicial ajustada por um máximo de duas

        categorias para cima ou para baixo, baseada no efeito líquido dos fatores de ajustamento descritos

        acima.

          

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011.

          3º)Pontuação externa

          Tal pontuação tende a refletir a capacidade de um país gerar recebimentos do exterior, que visa essencialmente a atender as obrigações do setor público e privado. No dizer da S & P (2011):

          “Ela se refere às transações e posições de todos os residentes (entidades dos setores público e privado) versusos não residentes, porque é a totalidade dessas transações que afeta a taxa de câmbio da moeda de um país” (p. 18).

          Os três fatores, segundo a S & P (2011), orientam a pontuação externa: O status da moeda de um soberano nas transações internacionais.

          A liquidez externa do país, que dá uma indicação da habilidade da economia em gerar o câmbio estrangeiro necessário para atender às obrigações dos setores público e privado com os não residentes. A dívida externa do país, que mostra os ativos residentes e as deficiências

          (tanto em moeda estrangeira quanto em moeda local) relativamente ao resto do mundo.

          Em uma escala de 1 a 6, mais forte para mais fraco.

          Outros soberanos: medida da liquidez externa de um país rva com com ciada ese

          Necessidade de financiamento externo bruto (CAR r go

        • – Reservas

          os os de ne Utilizáveis)(π) an an da da er er oe oe ob ob

          

        Abaixo 50%

        50 100 Acima de 150%

        • – 100% – 150%

          S m S m Abaixo (50%)

          1

          1

          

        1

          1

          1

          2 Medida da dívida externa 0-(50)%

          1

          1

          

        1

          1

          2

          3 de um país: 0-50%

          1

          2

          

        1

          2

          3

          4 Dívida Externa 50-100%

          2

          2

          

        2

          3

          4

          5 Líquida 100-150%

          2

          3

          

        3

          4

          5

          6 Limitada 150-200%

          3

          4

          

        4

          5

          5

          6 (ativos)/CAR (%)(*) Acima de 200%

          3

          4

          

        5

          6

          6

          6 Fatores de ajustamento positivo Fatores de ajustamento negativo Os fatores a seguir impactam a pontuação externa por uma categoria (veja o parágrafo 76): Países expostos ao risco de deterioração no financiamento externo de (i) súbita redução da disponibilidade de financiamento oficial, (ii) súbita redução das linhas interbancárias, (iii) súbita perda de depósitos de não residentes, (iv) súbita mudança nos investimentos estrangeiros diretos ou dos investimentos em

          Os fatores a seguir impactam a pontuação externa carteiras de ações. por uma categoria (veja o parágrafo 76): Países expostos àvolatilidade significativa em termos de Soberanos mostrando uma posição externa comércio, como medido por um desvio padrão da troca em termos líquida significativamente mais forte. Um do comércio que excede consistentemente 10% (&) (a menos que ajustamento é feito quando a posição de o país tenha um ativo externo líquido que responda por mais de investimento internacional líquido é 50% do CAR para compensar essa volatilidade). consistentemente superior à dívida externa líquida de 100% do CAR, graças aos ativos líquidos no

          Países em quea baixa dívida externa reflete restrições de débito. setor privado não financeiro.

          Países com dados materiais inconsistentes. Soberanos com moeda negociada com superávit Soberanos com moeda negociada com déficits altos em conta em conta corrente consistente. corrente (consistentemente acima de 10% do CAR) ou com dívidas de curto prazo grandes (excedendo 100% do CAR).

          O seguinte fator impacta a pontuação externa inicial por duas

        categorias:

        Soberanos com moeda negociada com déficits em conta corrente muito altos (acima de 20% do CAR).

        A pontuação externa é igual à pontuação inicial, ajustada para um máximo de duas categorias para cima ou para baixo,

        baseada no efeito líquido dos fatores de ajustamento descritos acima.

          Notas: (*) Baseada na estimativa do ano corrente e na tendência esperada para os próximos dois a três anos. (π) Baseada na média estimada do ano corrente e nas previsões de três anos. (&) O desvio padrão é calculado baseado nos dados dos últimos 10 anos, ajustado para itens fora do padrão.

          Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011, p 21.

          4º) Pontuação fiscal

          A pontuação fiscal está correlacionada com a sustentabilidade dos déficits de um país, ou seja, o desempenho dessa dívida e o peso de sua dívida. Essa pontuação considera, segundo a S & P, a flexibilidade fiscal, as tendências e vulnerabilidades fiscais no longo prazo, a estrutura da dívida, o acesso ao financiamento e os riscos potenciais inerentes às obrigações contingentes.

          a) desempenho da dívida Em uma escala de 1 a 6, do mais forte para o mais fraco:

          Mudança na dívida geral do governo como

          < 0% 0% - 3% 2% - 4% 3% - 5% 4% - 7% >6%

          uma porcentagem do PIB(*) Pontuação inicial

          1

          2

          3

          4

          5

          6 Fatores de ajustamento positivo Fatores de ajustamento negativo Os fatores seguintes impactam a pontuação fiscal inicial por uma categoria: Base de receita insustentável ou volátil, que pode impulsionar o desempenho fiscal no período médio, como medido, por exemplo

          Os fatores seguintes impactam a pontuação fiscal por uma grande parcela (geralmente acima inicial por uma categoria: de 25% da receita) da receita fiscal relacionada ao setor potencialmente volátil,

          Governos com ativos líquido grandes, que tal como bens imóveis reais ou commodities. correspondem a mais do que 25% do PIB.

          Habilidade limitada do governo para Habilidade do governo em aumentar as receitas e/ou aumentar as receitas no curto prazo, devido à despesas no curto prazo, tipicamente por mais de dificuldade de arrecadação resultante de uma 3% do PIB. Esse fator é baseado em uma avaliação economia informal grande ou baixa qualitativa da política do governo e da história, e concordância. leva em conta vários impedimentos constitucionais administrativos e políticos, bem como as

          Deficiência em serviços básicos e consequências econômicas ou sociais de tais infraestrutura (educação, saúde, padrão de medidas. vida), que pode criar pressão de gastos de médio a longo prazo como refletido, por exemplo, por um “médio” ou “baixo” índice de desenvolvimento humano. Pressão sem solução no médio prazo ou despesas relacionadas à idade.

          A pontuação do desempenho fiscal e flexibilidade é igual à pontuação inicial, ajustada para um máximo de duas categorias, acima ou abaixo, baseada no efeito líquido dos fatores de ajustamento descritos acima.

          Notas: (*) Baseada na média da estimativa do ano corrente de Standard &Poor e na previsão de três anos. Quando um aumento da dívida do governo, em geral, como uma porcentagem do PIB poderia corresponder a duas possíveis categorias, então a pontuação inicial é decidida baseada na tendência do desempenho fiscal do governo. Por exemplo, um soberano com uma variação média da dívida geral para 2, 9% do PIB sobre um período de quatro anos poderia receber uma pontuação inicial de

          “2” ou “3”. Se a tendência ao déficit no período estiver diminuindo, então o soberano poderia receber uma pontuação inicial de “2”. Se a tendência estiver aumentando, a pontuação inicial seria de “3”.

          Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011. b) o peso da dívida A pontuação do peso da dívida representa a sustentabilidade da perspectiva do nível de dívida de um país.

          Os fatores subjacentes à pontuação do peso da dívida de um soberano são: o seu nível endividamento; o custo da dívida relativamente ao crescimento da receita; a estrutura da dívida e o acesso ao financiamento.

          Essa pontuação também reflete os riscos que surgem das obrigações contingenteem queo risco pode se tornar dívida do governo se ele se materializar.

          Nível da dívida

          Dívida líquida do governo como porcentagem do GDP(π) Despesas com juros como

          Abaixo 30% 30% - 60% 60% - 80% 80% - 100% >100%

          porcentagem das receitas do

          a

          governo(*)

          vid

          Abaixo de 5%

          1

          2

          3

          4

          5

          s da

          5% - 10%

          2

          3

          4

          5

          6

          sto

          10% - 15%

          3

          4

          5

          6

          6 Cu Acima de 15%

          4

          5

          6

          6

          6 Fatores de ajustamento positivo Fatores de ajustamento negativo Para soberanos em uma posição de dívida líquida, a pontuação da dívida é uma categoria pior do que a pontuação inicial, se pelo menos duas das quatro condições abaixo se aplicarem:

          Para soberanos em uma posição de dívida líquida, a pontuação da dívida Mais de 40% da dívida bruta está em moeda estrangeira ou está em uma categoria melhor do que a maturidade média étipicamente menor do que três anos. a pontuação inicial, se avaliada a

          Os não residentes não possuem mais do que 60% da necessidade de refinanciamento de um dívida comercial do governo central. governo ser coberta por financiamento

          O perfil do serviço da dívida está sujeito a variações oficial durante os próximos três anos. significativas.

          Uma grande parcela do balanço do setor bancário residente é dívida do governo central (acima de 20%).

          Ajustamento negativo para a obrigação contingente

          A pontuação da dívida está a uma categoria pior do que a pontuação ajustada quando a obrigação contingente é moderada, duas categorias pior quando elas são altas e três ,quando são muito altas. A pontuação do peso da dívida é igual à pontuação inicial, com um ajustamento positivo a até uma categoria, ou negativo a até três categorias, baseada no efeito líquido dos fatores de ajustamento descritos acima. Notas (*) Baseadas na média da estimativa do ano corrente e previsões de três anos. (

          π) Baseada na estimativa do ano corrente e na tendência esperada para os próximos dois a três anos.

          

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011. c)Obrigações contingentes As obrigações contingentesocorrem se tais casos puderemse materializar em dívida do governo ou afetar mais amplamente o crédito desse governo.

          Algumas dessas obrigações podem ser difíceis de identificar e medir, mas podem ser agrupadas em três categorias amplas: Obrigações contingentes relacionadas ao setor financeiro (bancos públicos e privados e instituições não bancárias); Obrigações contingentes relacionadas a empresas do setor público não financeiro; e Garantias e outras obrigações fora do orçamento.

          Avaliação das obrigações contingentes de um governo:

        • Custo de recapitalização da dívida estimado de uma crise sistêmica do setor financeiro em um cenário de estresse(*).

          Categorias de Obrigações Contingentes A avaliação de obrigações contingentes é baseada na soma de:

        • Apoio soberano ao NFPEs(π).
        • Riscos de outras garantias, obrigações contingentes fora do orçamento.

          Limitadas Menos de 30% do PIB. Moderadas Entre 30% e 60% do PIB. Altas Entre 60% e 80% do PIB. Muito altas Mais de 80% do PIB.

          Notas: (*) Cálculo relacionado a um ponto de ruptura. (π) Cálculo explicado no parágrafo 104 e depois. NFPE – Empresas públicas do setor não financeiro. PIB – Produto Interno Bruto.

          

        Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011.

          Pontuação monetária

          A pontuação monetária de um soberano diz respeito a extensão pela qual sua autoridade monetária pode apoiar o crescimento econômico sustentável e quão capaz pode atenuar choques financeiros ou econômicos, apoiando assim sua credibilidade.

          A política monetária é tratada como uma ferramenta de estabilização importante para os países que enfrentam choques financeiros e econômicos. Se vinculaàprevenção de uma deterioração da credibilidade soberana em tempos de crise.

          Uma pontuação monetária resulta da análise dos seguintes elementos: A habilidade do soberano para usar a política monetária, visando a crise econômica doméstica, particularmente através de seu controle do suprimento de dinheiro e das condições de liquidez doméstica. A credibilidade da política monetária, como medida pelas tendências inflacionárias.

          A efetividade dos mecanismos para transmitir o efeito das decisões de política monetária para a economia real, uma função da profundidade e diversificação do sistema financeiro doméstico e dos mercados de capital.

          Pontuaçã o inicial

          (π) (manutenção

        em um nível definido

        através de lei).

          Independência operacional mas menos segura do que em níveis de pontuação melhor. Instrumentos monetários baseados no mercado, mas a efetividade pode não ser testada em um cenário de desvantagem.

          Independência

        operacional ampla,

        embora com curta

        história ou menos

        segura. Instrumentos

        monetários baseados no

        mercado, mas

        dependência mais forte

        nas necessidades de

        reserva.

          História de total independ ência operacion al. Instrumen tos monetário s baseados no mercado.

          Independ ência operacion al do banco central e objetivos Forte e longa história (> 10 anos) de total independ ência operacion al, objetivos claros de política monetária . Ampla variedade de instrumen tos monetário s.

          b) Credibilidade da política monetária

          Hard peg (conselho monetário ) (π)

          Conventionalpeggedarr angement (π) (manutenção em um nível definido através de lei) consistente com a política monetária do país anfitrião.

          

        Flutuação livre (π) de

        história curta ou

        provocada pelo efeito

        das taxas de juros sobre

        o fluxo de capital, or soft

        pegsotherthanconventio

        nalpegs

          1

          Flutuação livre(π) Flutuante( π)

          Regime nacional de taxa de câmbio

          a) Regime da taxa de câmbio

          5

          4

          

        3

          2

          A independ ência operacion al é limitada pela falta de um mecanism o efetivo de transmiss ão ou por interferên cia política.

          236

          50 a

          40 a

          80 % do

          P

          IB <

          40 % do

          P

          IB Cap ita liz açã o de m erca do (*)

          >

          75 % do

          P

          IB

          75 % do p ib

          P

          50 a

          25 % do

          P

          IB

          25 a

          10 % do

          P

          IB <

          10 % do

          P

          IB

          IB

          80 % do

          P ont uaç ão inic ia l

          Maturidade original entre 5 e 10 anos ou > 10 anos, mas mais da metade da dívida é dos bancos residentes ou de entidades do setor público. As maturidades devem se reduzir em uma crise.

          1

          2

          3

          4

          5

          c)

          E fe tiv ida de d o mec an ism o d e tran siçã o v ia siste m a f ina nce iro e m ercad os de ca pita l

          E sta su

          b- po ntu açã o é a méd ia do s três fa to re s a ba ix o

          Emissões do governo central de montantes significativos de moeda local com taxa fixada de bônus com: Maturidade original > 20 anos com taxas determinadas pelo mercado e um mercado secundário ativo.

          Maturidade original > 10 anos com taxas determinadas pelo mercado e um mercado secundário ativo.

          Maturidade original <5 anos ou entre 5 e 10 anos, mas mais da metade da dívida é dos bancos residentes ou de entidades do setor público. As maturidades devem se reduzir em uma crise.

          60 a

          Maturidade original < 5 anos, possuída principalmente pelo sistema bancário residente, incluindo o banco central ou emissão limitada a taxa fixada.

          Reiv ind icaçõ es do m éstica s e m m oe da lo ca l

          >

          10 0% do

          P

          IB

          80 a

          1

          00 % do

          P

          IB

          F on te :S & P . S ov erei gn G ov ernmen t Rat ing M etho do log y A nd A ss um pt ion s, 20 11.

          Fatores de ajustes Fatores de ajustamento negativo para as pontuações de “1 a 5”: Os seguintes fatores enfraquecem a pontuação monetária por uma categoria:

        • A média de cinco anos da inflação de preços ao consumidor (t-1 até t+3) é negativa (deflação);
        • - Uma parcela significativa dos depósitos ou empréstimos está em moeda estrangeira, em paralelo à

          moeda nacional (dolarização);
        • O soberano faz parte de uma união monetária;
        • - O soberano impôs restrições ao câmbio sobre o pagamento e transferências em transações

          internacionais ou está envolvido em acordos cambiais discriminatórios. Os seguintes fatores enfraquecem a pontuação monetária por duas categorias:
        • - O soberano faz parte de uma união monetária e mostra tendências de preços e evolução de salários

          que divergem da média da união monetária. Além disso, a pontuação monetária é limitada a “4” se a média de cinco anos da inflação de preços ao consumidor (t-1 até t+3) estiver entre 10% e 15% e limitada em “5” se estiver entre 15% e 20%.

          Pontuação monetária “6” Um soberano recebe uma pontuação monetária “6” se suas condições monetárias forem determinadas em sua maioria por fatores externos. Esse seria o caso se alguns dos fatores seguintes se aplicarem:

        • - O soberano usa unilateralmente a moeda de outro país como moeda local, isto é, acordo cambial sem

          curso legal independente e sem acordo com o país anfitrião da moeda;
        • A dolarização dos depósitos excede 75%; - A média de cinco anos da inflação de preços ao consumidor (t-1 até t+3) excede 20%. Notas para as Tabelas A, B e C: (*) Fonte: BIS – Instrumentos de renda fixa domésticos (setor público e privado).

          

        (π) Definições do Sistema de Classificação de Acordos Cambiais do FMI. Enquanto usamos aquelas

        definições, nossa classificação dos países pode diferir daquela do FMI devido à periodicidade das

        atualizações do FMI.

          Fonte :S& P. Sovereign Government Rating Methodology And Assumptions, 2011.

          A METODOLOGIA DE AVALIAđấO DE RISCO DA AGÊNCIA MOODY ’S

          A Moody ’s começa, em sua exposição da metodologia, afirmando em seu site que não existe modelo quantitativo adequado que possa capturar a complexa gama de fatores que levam um país a um estado de default (estado em que o país não consegue pagar a sua dívida). Afirma que o país pode não pagar a sua dívida pela existência de sua soberania, ainda que tenha condições de fazê-lo. Diante disso, a abordagem mecanicista não consegue captar a interação entre componentes políticos, econômicos e sociais que possa definir um certo grau de perigo para os credores dos títulos soberanos.

          Dessa forma, apresenta uma metodologia que atribui pesos em uma escala de fatores de riscos e pontua cada um dos critérios de avaliação escolhidos. Basicamente, há três etapas de avaliação de título soberano que conduzem à uma avaliação pelo Comitê de Rating. A primeira etapa diz respeito à resiliência economia do país, ou seja, diz respeito à força econômica do país, capturado pelo PIB per capita e a força institucional do país, no que se refere à previsibilidade, transparência e eficiência das ações do governo. A segunda etapa diz respeito à força financeira do governo e a sua suscetibilidade a riscos de eventos afetarem a capacidade do pagamento da dívida. Por fim, a terceira etapa refere-se ao ajuste do grau de resiliência ao grau de robustez, resultando no intervalo de rating. Ainda temos uma comparação desse grau em relação a outros países e a ponderação de fatores adicionais não capitados anteriormente. O resultado final das notas de rating é exposto no seguinte quadro:

          Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009

          O detalhe passo a passo de avaliação de cada fator para a definição da nota: No que se refere ao primeiro fator

        • – de resiliência econômica do país – considera-se a força economia do país e a segurança de suas instituições.

          A força economia da agência leva em consideração principalmente o PIB per capita, ou seja, a produção total nacional dividida pela quantidade populacional. A força institucional leva em conta os direitos de propriedade, a eficiência e a previsibilidade da ação do governo, a transparência e o grau de consenso sobre os principais objetivos políticos, criando condições para que os contratos sejam respeitados.

          Combinando os dois fatores, tem-se o seguinte quadro:

          Fonte: Moody´s

        • – Rating Methodology, 2009

          Ainda de acordo com o relatório da Moody´s (2009):

          Combinando a qualidade das instituições e a força econômica, temos uma ideia da capacidade de absorção de choque de um país. Nota- se que esses dois parâmetros estão inter-relacionados. Muitas pesquisas econômicas apontaram para o fato de que as disparidades de renda entre países ocorrem devido à qualidade das instituições

        • – especialmente através de seu impacto na produtividade total. Porém, a combinação desses fatores adiciona uma informação: um país rico com instituições fracas pode ser um devedor imprevisível, enquanto um país pobre com fortes instituições pode acoplar uma importância relativa ao cumprimento dos contratos (Moody´s, 2009).

          O segundo fator é a robustez financeira do governo e refere-se à força financeira do governo e a suscetibilidade do país ao risco de evento. Essa força é uma avaliação do que deve ser pago em relação à quantia de dinheiro disponível, implicando uma comparação das exigências do serviço da dívida e da flexibilidade do balanço patrimonial. Isso requer uma avaliação qualitativa e quantitativa; por exemplo, a capacidade estimada de o governo reduzir custos e/ou elevar impostos. Uma complexidade adicional surge do fato de os países não serem vulneráveis aos mesmos tipos de pressões: aqueles que estão nas primeiras etapas da liberação e abertura financeira não podem ser classificados precisamente com a mesma ferramenta dos países altamente desenvolvidos e financeiramente sofisticados

        • – sendo assim, há a necessidade de escolher uma abordagem analítica correta.

          As seguintes perguntas dev em ser analisadas: “quão ‘possível’ é o pagamento da dívida?”, “quão adversas (ou potencialmente adversas) são as dinâmicas de débito?”, “há fontes de financiamento em grande quantidade e/ou flexíveis?”, “o governo pode vender os ativos?” e “o que é a capacidade de ajuste do governo?”.

          Deve-se também ponderar tais fatores com alguns índices obtidos a partir do balanço de pagamentos. Os indicadores obtidos para medir as tensões financeiras extremas são: déficit em conta corrente, índices de dívida/exportação, natureza do financiamento da balança de pagamentos e, o mais importante, indicadores de liquidez externa baseados nas reservas de moedas estrangeiras.

          A avaliação da força financeira do governo (o que deve ser pago em relação à quantidade de dinheiro disponível) baseada nessas duas esferas analíticas é escalonada em cinco categorias, de “muito alta” a “muito baixa”. Os analistas têm deresponder a questão:

          “dado o nível de restrições impostas pela dívida, qual é a flexibilidade do balanço patrimonial que o governo tem? ” Por exemplo, um país com baixa pressão de dívida e amplos recursos em termos de profundidade financeira, flexibilidade tributária e/ou capacidade em comprimir suas despesas ficará na categoria “mais alta”, conforme os seguintes quadros:

          Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009.

          

        Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009.

          Quanto à suscetibilidade do governo ao risco de evento, ou seja, junto com a análise da força financeira do governo, ele fornece uma indicação do peso do possível stress no pagamento de dívidas do governo. Na verdade, enquanto os Fatores 1 e 2 focam a avaliação da capacidade do governo em suportar choques em uma perspectiva de médio prazo, esse último fator indica a intensidade do risco que acontecimentos externos podem causar às finanças do setor público e privado.

          Basicamente, devemos responder a pergunta: “há um risco de ameaça direta e imediata que conduziria a um default real, ou aumentaria materialmente o risco de

          

        default de uma forma que justificasse a queda de mais de um grau na escala de

        ratings

          ?”. Ponderando-se os dois fatores, chegamos ao seguinte quadro:

          

        Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009

          T al quadro deve ser lido como: “finanças públicas enfraquecidas (ou finanças externas, caso as ferramentas do balanço de pagamentos sejamutilizadas) e a baixa suscetibilidade ao risco de evento indicarão um nível “moderado” de “vulnerabilidade financeira”.

          Por último, temos a determinação do rating de um determinado país. Na verdade, o processo analítico baseado na interação entre os quatro fatores-chave produz, até este momento, mais um intervalo de rating (A, por exemplo) do que um

          

        rating exato (A2). A razão é que calibrando a abordagem através de algumas

          categorias como muito fraco, fraco, moderado, alto ou muito alto pode ser insuficientemente preciso e pode acarretar perdas de informações. Além disso, o processo de rating é deliberativo e não mecânico: depende da comparação com outros países e deve deixar espaço para fatores de risco excepcionais que devam ser considerados.

          

        Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009.

          Dessa maneira, o relatório da Moody´s termina analisando o quadro anteriorda seguinte maneira:

          O roteiro acima mostra como a combinação dos quatro fatores-chave é refletida no intervalo de rating. A inclinação da curva (como os intervalos ou barras de rating sobrepõem-se) é baseada no processo dedutivo e também, normativo. A dedução vem das décadas de experiência da Moody's nos ratings de risco; o processo normativo vem da comparação da análise econômica e financeira (o que faz um governo ser um bom "crédito"), o que é útil principalmente quando há poucos registros empíricos de default. As barras de rating se sobrepõem mais na parte baixa da escala de rating do que acima. Isso reflete uma tolerância mais baixa para a volatilidade do rating de países com classificações mais altas (MOODY’S, 2009).

          Daí tem-se que a pura objetividade economia de determinação das notas de

          

        rating para os títulos de um país não se concretiza, sendo necessários fatores

          relacionados à subjetividade dos especialistas, histórico do país e conjuntura internacional da região e mundial.

          Todo o exposto pode ser resumido no seguinte quadro:

        Fonte: Moody´s – Rating Methodology, 2009.

          ANEXO 3º - O PSEUDOCÓDIGO DO MODELO COMPUTACIONAL

          A seguir apresentamos o código que serviu de base para a elaboração do programa de nossa economia artificial. A modelagem de Gatti etal. foi o arcabouço teórico que geraram as novas implementações utilizadas por nós neste trabalho. Vale lembrar que acrescentamos uma nova rede de consumidores que conectamos a rede de Gatti.

          A nossa implementação a linguagem C++, e o programa rodou no sistema operacional Ubuntu 14.04 LTS, memória de 7.8 GB, processador Intel Corei7-4770, CPU @3.40 GHZ x 8 núcleos, tipo de sistema 64 bits, disco 145,3 GB. Os scripts dos gráficos foram elaborados em linguagem R.

          Fonte: elaboração própria ANEXO 4ử - DADOS UTILIZADOS PARA CLUSTERIZAđấO

          Apresentamos o conjunto de dados obtidosapósa simulação do nosso modelo.Foram 50 realizações, e por cada realização coletou-se 10 dados unitariamente totalizando 500 dados: 36 108 160 138 230 130 52 140 50 126 138 211 228 148 58 103 113 95 36 66 138 148 138 135 36 164 12 130 233 152 239 113 96 146 113 102 138 126 96 76 148 76 138 115 66 73 140 134 148 75 50 81 125 130 66 94 162 211 36 216 128 50 148 76 44 152 130 138 144 191 36 227 61 152 168 50 140 138 108 58 125 150 148 58 134 128 217 113 108 50 130 80 52 86 62 113 58 226 58 126 118 113 36 44 113 138 138 250 113 94 236 96 138 211 140 138 138 66 130 103 130 126 96 113 138 76 103 103 236 190 144 58 157 201 54 138 152 130 225 164 118 103 42 146 11 115 75 113 76 233 140 138 148 85 135 76 189 138 36 108 130 66 126 96 157 113 138 103 130 146 58 94 140 205 230 183 85 58 209 36 96 146 113 199 50 113 148 59 211 152 138 150 148 58 138 133 96 50 108 81 127 113 148 206 103 148 138 59 118 138 236 130 36 113 217 163 127 126 138 76 148 116 36 128 211 75 135 81 52 146 75 152 149 96 162 138 211 138 61 148 125 152 146 128 130 76 72 144 58 226 12 138 146 58 58 75 85 230 36 138 138 80 150 138 85 191 130 201 190 135 140 73 138 138 128 164 138 181 130 225 162 144 25 189 128 20 113 96 113 140 164 113 146 138 113 80 36 150 74 162 138 138 138 61 75 162 50 103 108 138 191 95 44 138 118 135 138 36 93 61 54 66 128 207 239 87 162 113 164 96 178 95 135 52 50 138 162 36 191 44 23 96 151 117 121 113 96 230 5 138 58 211 58 211 96 230 75 103 150 36 138 61 138 130 58 20 113 113 138 130 20 113 250 228 66 128 62 113 86 138 103 73 115 138 137 117 58 44 128 138 211 217 128 227 96 138 233 126 36 96 67 138 85 162 234 20 138 138 140 96 133 138 148 113 62 138 96 115 211 137

          85 96 157 115 171 50 150 42 113 96 103 236 138 16 150 218 96 181 3 138 120 130 36 96 44 52 206 183 36 60 80 211 66 75 76 66 130 211 96 128 103 211 12 128 52 22 44 36 138 96 91 59 152 76 94 138 89 199 211 191 95 233 162 61 94 233 58 96 113 113 80 108 113 61 94 233 133 103 58 102

          A seguir o scriptem R do pacote Mclust: number<- function(string){ cnx<- read.table(string) x <- cnx[1:250] y <- cnx[251:500] z <- rbind(matrix(x, ncol = 2), matrix(y, ncol = 2)) colnames(z) <- c("x", "y") (cl<- kmeans(z, 2)) plot(z, col = cl$cluster) points(cl$centers, col = 1:2, pch = 8, cex = 2) }

          Fonte: desenvolvimento próprio

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