PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA REGINALDO DONIZETTI DOS SANTOS

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP

MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA

  

MEU TIO O IAUARETÊ: PECULIARIDADES LINGUễSTICAS E INOVAđỏES

LINGUAGEIRAS

SÃO PAULO

2014

REGINALDO DONIZETTI DOS SANTOS MEU TIO O IAUARETÊ: PECULIARIDADES LINGUễSTICAS E INOVAđỏES LINGUAGEIRAS

  Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Língua Portuguesa à Comissão Julgadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

  Orientador: Prof.-Dr. João Hilton Sayeg de Siqueira

  SÃO PAULO

  Banca Examinadora

________________________________________

________________________________________

________________________________________

  “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais,

é só a fazer outras maiores perguntas.”

  João Guimarães Rosa

  veredas

  Grande sertão:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”

Paulo Freire

AGRADECIMENTOS

  A realização do presente trabalho não teria sido possível sem a contribuição daqueles que, de toda maneira, acreditaram e inspiraram a materialização de um sonho antes impossível: o da conquista para o presente trabalho. Por tal motivo, gostaria de prestar meus sinceros agradecimentos.

  Primeiramente a Deus, por iluminar-me nos momentos em que dele tanto precisei e que em infinita sabedoria, a seu tempo, me amparou. Ao Professor-Doutor João Hilton Sayeg, por acreditar na execução deste trabalho, no qual me orientou com paciência, dedicação e sabedoria. Agradeço-lhe por me ter despertado a vontade de querer transformar a atual realidade educacional de nossas escolas. Obrigado, professor, por suas intervenções, conselhos, saber e acima de tudo: sua amizade.

  Aos Professores-Doutores Rodrigo M.T. Santos e Sueli C. Marquesi, por prestigiar-me com preciosas observações e ensinamentos contribuídos em meu exame de qualificação. A meus pais e a minha irmã, que mesmo longe, a sua maneira, incentivavam-me nos estudos. Obrigado, Dª. Cida, Seu João e Rosimeire, pelo exemplo de simplicidade, garra e superação, pois de vocês veio minha vontade. Lembrem-se: vocês são únicos.

  A minha esposa, Eliane, pela paciência e compreensão que teve nas horas em que a dedicação dadas as constantes leituras e escritas eram inevitáveis. Obrigado, Nani. A todos meus familiares (Gamaliel, Santos e Cardozo) e amigos, próximos ou não, que tanto me encorajaram com palavras compartilhadas em vários momentos de minha vida. Um sincero abraço aos amigos Carlos, Fernando, Jardel, Reginaldo, Lucas, Júlio, Edson, Adriano e a todos aqueles que, mesmo não citados, estiveram juntos neste caminhar.

  Aos colegas de trabalho, que me incentivaram e contribuíram com a experiência educacional – a árdua e satisfatória maneira de conviver com a diversidade social de nossas escolas. Obrigado, Elias, Sandra, Roseli e Crislene.

  À Secretaria do Estado da Educação, pelo incentivo financeiro proporcionado pela bolsa de estudo, sem o que não seria possível a realização deste fabuloso curso. Em especial, meus sinceros abraços aos supervisores Nilton Pereira, Magali e Maria (financeiro).

  A todos os colegas do curso, desde que juntos construímos suposições e questionamentos que serviram para nortear os trabalhos. Aos demais colegas, amigos e familiares, que se sintam elogiados e agradecidos por fazer parte de minha vida.

RESUMO

  A oralidade reinou absoluta desde os primórdios da civilização, até que, com o desenvolvimento das culturas, o surgimento da escrita revolucionou a forma como o conhecimento passou a ser registrado e preservado. Na busca de melhor compreender a aparente dicotomia entre a modalidade oral e a escrita, este trabalho discute as peculariedades linguísticas orais presentes na linguagem espontânea sertaneja. Assim, decidiu-se utilizar como corpus de análise desta dissertação o conto Meu tio o Iauaretê, do mineiro João Guimarães Rosa (JGR), cujo protagonista Tonho Tigreiro supostamente se metamorfoseia em onça mesclando vingança, ódio e arrependimento, valendo-se de uma oralidade que mistura fenômenos linguageiros caracterizados por neologismos e onomatopeias. A partir da revisão da produção de estudiosos do tema como Preti, Bakhtin, Marcuschi, Ullmann entre outros, o objetivo do estudo pôde ser sintetizado na seguinte indagação: Quais marcas de oralidade presentes no texto analisado caracterizam a fala cotidiana e corriqueira do sertanejo e quais são as peculiaridades linguageiras mais frequentes? Entre os achados, verifica-se que JGR exalta a diversidade cultural e combate, mediante o tratamento linguístico utilizado no texto, possíveis preconceitos à fala corriqueira tão frequente nos usos livres da oralidade e da escrita na prática cotidiana da língua, o que faz rever posicionamentos acerca de conceitos como “certo”, “errado”, “apropriado” quanto ao uso da língua em determinados momentos comunicativos.

  Palavras-chave: Meu tio o iauretê; João Guimarães Rosa; oralidade; onomatopeia; neologismo.

  

ABSTRACT

  Oral communication reigned absolute since the dawn of civilization until, with the cultures development, the emergence of writing revolutionized the way knowledge was recorded and preserved. In the quest to better understand the dichotomy between oral communication and writing, this paper discusses the linguistic peculiarities present in hinterland spontaneous language. Thus, it was decided to use as the corpus of the analysis in this thesis the tale Meu tio from the author João Guimarães Rosa (JGR), a natural of Minas Gerais, whose

  o Iauaretê,

  protagonist Tonho Tigreiro supposed metamorphoses into a jaguar that kills enemies merging revenge, hatred and regret, making use of an oral blending linguistic phenomena characterized by neologisms and onomatopoeia. From the review of the production of scholars on the subject as Preti, Bakhtin, Marcuschi, Ullmann among others, the objective of this study could be summarized in the following question: Which signs of orality present in the analyzed text feature the ordinary and everyday speech of the countryman and what are the most frequent linguistic peculiarities in there? Among the findings, it is observed that JGR celebrates cultural diversity and combat, by the language used in the text treatment, the possible biases in ordinary speech so common in the free use of orality and writing in everyday language practice, which also proposes a review of concepts like “right”, “wrong”, “appropriate” for the use of the language in certain communicative moments.

  Keywords: Meu tio o Iauaretê; João Guimarães Rosa; orality; onomatopoeia; neologism.

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO .................................................................................................................... 7

  

1 JOÃO GUIMARÃES ROSA: O HOMEM, O SERTÃO E A LINGUAGEM... 11

  1.1 A VIDA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA ............................................................. 11

  1.2 AS VIAGENS DE JOÃO GUIMARÃES ROSA E OS PRIMEIROS CONTATOS COM A LINGUAGEM SERTANEJA ................................................................................. 19

  

2 A MODALIDADE ORAL NA LINGUAGEM ................................................... 34

  2.1 A LÍNGUA(GEM) COMO PRÁTICA SOCIAL .................................................... 34

  2.2 O PROCESSO DE ENUNCIAđấO E O GÊNERO PRIMÁRIO ........................... 35

  2.3 AS PECULIARIDADES DA MODALIDADE ORAL .......................................... 41

  2.4 NEOLOGISMO E ONOMATOPEIA .................................................................... 46

  

3 MEU TIO O IAUARETÊ: INOVAđỏES LINGUAGEIRAS ........................... 49

  

4 MEU TIO O IAUARETÊ: PECULIARIDADES LINGUÍSTICAS .................. 62

  4.1 ORALIDADE ........................................................................................................ 62

  4.2 NEOLOGISMOS ................................................................................................... 65

  4.3 ONOMATOPEIAS ................................................................................................ 70

  

CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................................. 73

REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 77

INTRODUđấO

  Desde há muito, o registro dos acontecimentos da sociedade se dá com maior intensidade na modalidade escrita, porém, é por meio da oralidade que a interação e o conhecimento humano se expandem com maior intensidade. As particularidades de uma ou outra, há muito tempo, vêm sendo alvo de estudos, por vezes privilegiando a escrita, por vezes a oralidade. O que se destaca nesses trabalhos é que a comunicação humana desde os primórdios da civilização se desenvolveu com maior força na oralidade. Em outras palavras, a fala poderia ser representada na forma escrita sem prejuízo mínimo das peculiaridades não fosse, segundo Preti (2006), uma tentativa de representação ilusória – ou ao menos incompleta –, já que outros elementos tais como os gestos corporais não seriam observados.

  A necessidade de escrever está relacionada ao grau de complexidade das culturas humanas; e, em algumas delas, mesmo que fundamentalmente “fechadas”, o conhecimento empírico é transmitindo oralmente, de geração a geração, com toda a substância essencial da memória sem necessidade, aqui, da escrita. No entanto, em nossa cultura, heterogênea e “aberta”, registrar por escrito os fatos é valor fundamental para a preservação e a manutenção (futura) da língua.

  Para melhor compreender esse universo aparentemente dicotômico entre modalidade oral e escrita, este trabalho tem por objetivo geral tecer reflexões sobre peculariedades linguísticas orais presentes na linguagem espontânea sertaneja, em busca dos fenômenos linguageiros presentes, caracterizados por neologismos e onomatopeias.

  Concorrem para a formação dessas peculiaridades diversos fatores culturais, sociais, históricos e, até, emocionais, marcadamente presentes na constituição do processo de comunicação. São inúmeras implicações que podem afetar a manutenção e a transmissão das tradições linguageiras nas gerações subsequentes, tais como traços linguísticos remanescentes pelo uso que a prática social faz da linguagem, a relevância do processo de enunciação na interação verbal e algumas idiossincrasias da modalidade oral manifestadas.

  Para tanto, utilizou-se como corpus de análise o conto Meu tio o Iauaretê, do autor mineiro João Guimarães Rosa (JGR). O referido conto traz no papel de narrador-personagem Tonho Tigreiro (sendo este um de seus vários nomes), que supostamente se transforma em onça para se vingar dos que o humilharam em um passado não remoto. No texto, a ira e o ódio se misturam ao arrependimento do protagonista, tornando-o a imagem do herói que representa a brasilidade escondida na modalidade oral, simples e espontânea do sertanejo, registrada por escrito com todas as diversidades linguísticas apresentadas.

  Optar por Guimarães Rosa é ir além de sua importância como autor que inovou a maneira de olhar as palavras, em tempos em que o tratamento linguístico se deveria dar nos cânones tradicionais da língua. A simplicidade com que o sertanejo se manifestava em espontaneidade e riqueza linguística não recebia atenção digna dos falantes da época de ser contemplada como parte formadora da língua mater.

  JGR, estrategicamente no conto, por meio da fala do protagonista, promove exaltar a diversidade cultural e combater, mediante o tratamento linguístico utilizado no texto, possíveis preconceitos à fala corriqueira tão frequente nos usos livres da oralidade e da escrita no uso cotidiano da língua.

  Escolher o conto de JGR e estudar a biografia do autor é contemplar como sua aparente ousadia linguística promoveu mudanças em torno dos tradicionais paradigmas linguísticos que tanto se propagaram ao longo dos tempos. As observações em torno do conto analisado e os citados relatos das experiências adquiridas pelo autor ao longo da vida, enriquecendo-se das falas populacionais que colecionava por onde passava, justificam a escolha da temática que envolve o presente trabalho.

  Soma-se ligeiramente a esse comentário que a motivação maior como incansável estudante e apreciador das curiosidades sobre o conhecimento possibilitou identificar-me com o autor mineiro, não apenas por ser conterrâneo regional, como também por conviver, tal como ele, com a natureza linguística sertaneja. Os boiadeiros, as festas tradicionais, os costumes, as paisagens e o sofrimento vivenciado pelos “heróis por ele exaltados” foram também cenários de minha formação pessoal. Os acontecidos com o autor, devidamente apresentados na biografia, seus contatos e observações para com o tratamento linguístico vão ao encontro de minhas lembranças como pessoa e profissional da educação. Logo, a valorização do falar cotidiano aparentemente descuidado tão presente nas salas de aula ou das comunidades carentes com a qual possuo contato teve na leitura rosiana a ponte que uniu minhas expectativas de pesquisa, tão frequentes em bibliotecas, na aquisição de livros em outros Estados ou no levantamento de reportagens e filmagens acerca de João Guimarães Rosa, às apreciações sobre o estudo linguístico.

  Faz-se necessário também lembrar que, mesmo tendo optado por este autor, várias eram as obras ou os textos que poderiam nortear a pesquisa, mas foi na escolha do conto Meu tio o

  

Iauaretê que encontrei a essência que motivou a pergunta: Quais marcas de oralidade presentes no texto analisado caracterizam a fala cotidiana e corriqueira do sertanejo e quais são as peculiaridades linguageiras mais frequentes ali encontradas? Sobre as formas investigativas em torno da questão levantada, a mais eficiente foi o método indutivo, que possibilitou comparar a bibliografia consultada às contribuições teóricas apresentadas, para criar hipóteses compreensivas sobre a forma como o protagonista do conto se utilizou de elementos neológicos e onomatopaicos para representar a essência linguística sertaneja. O neologismo é utilizado no texto ora por mesclar elementos do tupi, ora por adotar formas onomatopaicas da animalidade decorrentes da metamorfose de homem em onça (iauare

  = onça verdadeira).

  • + etê

  Na tentativa de contemplar satisfatoriamente as investigações que embasam as discussões acerca da modalidade oral e algumas de suas particularidades linguísticas que compõem este trabalho, fez-se necessário estruturá-lo como segue.

  1) O capítulo 1, “O homem, o sertão e a linguagem”, constitui uma biografia de JGR com informes e relatos em bibliografias da filha Vilma Guimarães, do amigo Alaor Barbosa dos Santos e de tio Vicente Guimarães sobre sua infância, costumes, os primeiros contatos linguísticos e as viagens que lhe permitiram encontrar inspiração para as criações literárias que o levaram à consagração como célebre escritor. Neste caso, o capítulo foi subdivido em três tópicos: 1.1, “A vida de JGR”, que foca a infância, a adolescência, os serviços como médico no interior mineiro e o cargo exercido como diplomata na Europa; fatores de grande relevância, pois dão as pistas necessárias para entender o imaginário das criações rosianas e as experiências vivenciadas transcritas em formas de histórias/estórias e nas personagens literárias. No 1.2, “As viagens de JGR e os primeiros contatos com a linguagem sertaneja”, foca-se com mais exatidão a viagem feita pelo interior mineiro e Goiás junto com vaqueiros que lhe confidenciaram causos e historietas que ao longo das terras visitadas ia colecionando e anotando nas “surradas cadernetas”. Acredita-se que as obras que o consagram como reconhecido escritor tiveram nessas viagens a bagagem informativa necessária para que fossem relatadas mescladas a suas imaginativas criações. No 1.3, “Os interesses de JGR pela linguagem”, as curiosidades do autor sobre a simplicidade do falar sertanejo ganham tamanha importância, pois é nesse momento que os neologismos são manuseados como “brinquedos nas mãos de criança”. As palavras fogem de suas limitações gramaticais e ganham asas para novas significações. É no encanto desse “brincar” com as palavras que o autor busca promover a exaltação do falar sertanejo a um patamar de reconhecimento e valorização.

  No Capítulo 2, “A modalidade oral na linguagem”, ressalta-se o conceito de língua, referido contexto. É então que o tratamento inovador linguístico de JGR pode ser compreendido à luz das contribuições teóricas. Para isso, o capítulo foi dividido em três momentos essenciais: o 2.1, “A linguagem como prática social”, traz nos conceitos de Bakhtin sobre língua – além de outras contribuições teóricas complementares – a proposta de que o manifesto linguístico se dá por meio da interação verbal. No 2.2, “O processo de enunciação e o gênero primário”, estão as concepções do filósofo de que a interação verbal ocorre por meio de gêneros. Precisamente, é na modalidade oral que ocorre a manutenção da língua, sendo que, segundo o autor, para cada situação discursiva, há um gênero apropriado conforme a escolha dos interlocutores. No 2.3, “As peculiaridades da modalidade oral”, há observações pertinentes acerca do neologismo e da onomatopeia tão presentes no conto Meu tio o Iauaretê, representantes natos do tratamento mais informal da língua(gem).

  O Capítulo 3, “Meu tio o Iauaretê: inovações linguageiras”, apresenta um olhar mais investigativo sobre o conto com tom ensaístico. Trata-se, pois, de uma narrativa interpretativa mais detalhada com observações acerca das escolhas linguísticas rosianas apropriadas para cada situação decorrente da estória.

  No Capítulo 4, “Meu tio o Iauaretê: peculiaridades linguísticas”, tem-se uma perspectiva detalhada da análise do conto nas particularidades linguísticas. Em alguns pontos do texto, as contribuições teóricas sobre tais peculiaridades citadas nos capítulos anteriores – principalmente no caso do neologismo e da onomatopeia – se tornam mais claras à medida que o texto se desenvolve. Elementos do tupi e até mesmo expressões mineiras ou baianas surgem na arquitetura do autor para novas palavras.

  O encantador das palavras, o mago inovador da prosa poética e verdadeiro condutor dos atos e do falar sertanejo, essas seriam, dentre muitas, denominações de uma das maiores referências da literatura brasileira: João Guimarães Rosa (JGR).

  Certamente, o autor foi um revolucionário da literatura brasileira, tendo em vista o espírito criativo e sensível a ponto de captar a realidade sertaneja e reescrevê-la a partir de um novo paradigma, destoante do estereotipado por uma sociedade cujos falares valorizavam o culto a uma única norma privilegiada. Nesse contexto, a linguagem experimental de JGR permite que suas criações literárias transmitam um novo olhar detentor de admiração e reconhecimento pelos leitores e estudiosos acerca do falar simples, que ao longo do tempo foi conquistando.

  A respeito, para entender mais sobre como o universo rosiano fora inspirado para tamanha inovação linguística, há necessidade de relatar um pouco da vida do autor a fim de perceber que a imaginação para “brincar” com a criação de novas palavras não se desenvolveu por acaso. Eis pois a importância de estudar JGR para o presente trabalho, ou, precisamente, os neologismos tão valorizados pela oralidade presentes em seus textos, que fluíam de uma alma artística como nato observador da cultura e da expressão oral regional.

  1.1 A VIDA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA “Joãozito”, como era chamado entre familiares e amigos, nasceu em Cordisburgo (cidade do interior mineiro próxima a Sete Lagoas e Paraopeba) no dia 27 de junho de 1908. Ano de grande significado para o universo literário, pela lamentável perda de Machado de Assis uma lenda da literatura se eternizava enquanto outra nascia.

  • – JGR era o primogênito dos cinco filhos de Dª. Francisca Guimarães Rosa (“Dª

  Chiquitinha”) e de Florduardo Pinto Rosa. “Seu Fulô”, como era tratado, comerciante, juiz de paz, caçador de onças, contador de estórias, também era detentor de extraordinária vocação de escritor não cultivada ou desenvolvida, mas tão apreciada pelo filho Joãozito.

  Em uma das cartas enviadas aos pais em 13 de setembro de 1962, JGR relata a devoção paternal:

  Sempre com a maior alegria é que recebo os simpáticos cartões do Papai, ou as cartas. Gosto muito do jeito dele escrever, de dar notícias de todos. Fico pensando que a minha “bossa” (grifo dele) de escritor eu herdei dele, que maneja a pena com tanta 1 facilidade, personalidade, vivacidade e graça (ROSA, Vilma G., p. 195).

  Segundo Rosa, Vilma G. (1983), os primeiros estímulos de JGR, que o introduziram à literatura criativa que mais tarde viria a reformular a estética e a visão linguística regionalista, surgiram da convivência paterna, a qual o inspirou à eterna curiosidade investigativa de como surgem e se manifestam as mais diversas palavras e seus significados.

  Do balcão no estabelecimento comercial de Seu Fulô, o pequeno Joãozito não só ouvia diversos causos e contos como também convivia com personalidades únicas do cotidiano juvenil, que contribuíram para a construção das instigantes criações escritas. Vale ressaltar que tais personalidades seriam mais tarde, de alguma forma, homenageadas não por simplesmente servir de fonte para as personagens que estavam por vir nas futuras obras, mas, por meio delas, seus costumes, dialetos, experiências e relatos, a voz e os feitos do sertanejo seriam exaltados e representados.

  2 Em entrevista concedida a Thiago Goulart, JGR deixa transparecer, embora com certa

  antipatia pelo contato pessoal, a afeição e o gosto imaginário pelos personagens que criava baseados nos tipos populares com que convivia:

  Não gosto de falar da minha infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, comentando, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos. [...] Tempo bom de verdade só começou com a conquista de alguns isolamentos. Da segurança de poder me fechar no meu quarto, trancar a porta, deitar no chão e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo o mundo conhecido como personagem.

  O menino Guimarães aprendeu a ler sozinho aos 6 anos de idade e, aproximadamente, aos 7, tomaria algumas aulas com Mestre Candinho, o qual elogia muito aos pais. Nesse período, tem contato com uma ou outra leitura, mas a que mais lhe agrada é o primeiro livro

  3

  em francês intitulado Les femmes qui aimment. Dessa língua, a curiosidade de Joãozito aumentava demasiadamente. 1 Vilma Guimarães Rosa Reeves é escritora e a filha mais velha de JGR. Escreveu a obra Relembramentos: João 2 Guimarães Rosa, meu pai (2008), uma das referências utilizadas para a produção deste trabalho.

  

Thiago Goulart, contador de estórias de Cordisburgo e jornalista que conseguiu entrevistar JGR. A transcrição

da entrevista está disponível em <http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/Roteiro%20-

3 %20GuimaresRosa.pdf>. Acesso em 12 jan. 2014.

  

“As mulheres que amam”, conforme o dicionário Michaelis (http://michaelis.uol.com.br/escolar/frances/) e o site

Linguee (http://www.linguee.com.br/frances-portugues/traducao/aiment.html). Acesso em 12 jan. 2014, em que é

encontrado com apenas um “m” (aiment), apesar de aparecer grafado como aimment em biografias e documentos

  De acordo com os estudos biográficos e lembranças da convivência fraternal para com

  autor, relata um fato curioso de infância rosiana que lhe foi compartilhado em entrevista com o

  5 tio de Joãozito Vicente Guimarães Rosa .

  Conta Vicente Guimarães acerca de Joãozito:

  Menino diferente foi: sossegado, caladão, calmo, observador, singelo. Lia muito, estudava... Brincar, raramente, depois que descobriu a leitura. Separá-lo de um livro era difícil, até para as refeições. Nem nunca precisava lhe mandassem estudar. Contrariamente: ralhavam-lhe para deixar o livro (SANTOS, 2007, p. 99).

  Conforme era costume do menino Joãozito, segundo Santos (2007), ele se levantava de madrugada da cama para ler com luz de vela até o sol nascer, escondido no depósito do armazém do pai. Fato esse que até rendeu algumas preocupações para a família, de acordo com Santos (2007), já que não se sabia o paradeiro do menino até descobrirem tal hábito, quando um funcionário do armazém o encontrou dormindo com o livro aberto sobre uma pilha de sacos.

  Sua sede pelo conhecimento linguístico aumenta quando a pequena Cordisburgo recebe um frade franciscano holandês, frei Canísio Zoetmulder, que dele se fez amigo. Somava-se, assim, à curiosidade rosiana, o estudo pelo holandês e a continuidade com o francês graças ao frade. Ambos, segundo Santos (2007), acompanhavam os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial, que ocorriam na época na Europa, e marcavam atentos sobre um mapa o desenrolar da guerra enquanto torciam pelos aliados.

  Desse convívio, o latim tornava-se mais uma das línguas que Joãozito teria por afeto. Das brincadeiras em fingir de sacerdote e celebrar missas, utilizando-se do missal que pegava da avó, e, mais tarde, das atividades paroquiais como coroinha, era inevitável o contato para com os dizeres e a escrita da língua mater.

  Próximo aos 10 anos de idade, a convite do avô materno, o qual chamava de “Padrinho Luís” (de Luis Guimarães), e da avó “Dindinha” (Maria Lima Guimarães) – tratamento dado conforme as tradições mineiras –, Joãozito vai para Belo Horizonte dar continuidade oficialmente aos estudos.

  

da Academia Goiana de Letras desde 1979, escreveu a homenagem biográfica Sinfonia de minas: a vida e a

5 literatura de João Guimarães Rosa – Tomo I (2007), outra referência biografia deste trabalho.

  

Vicente de Paulo Guimarães, escritor, jornalista, educador e tio de João Guimarães Rosa (apenas dois anos de

  Matriculou-se no curso primário do Grupo Escolar Afonso Pena em Belo Horizonte e, aos 11 anos, após concluí-lo, vai para São João del-Rei, também em Minas Gerais, para estudar no nível secundário.

  Ao chegar à cidade, inicia o curso no internato do Ginásio Santo Antônio de frades franciscanos, mas não fica muito tempo ali por não se adaptar à comida do colégio. Sobre esse episódio, Vicente Guimarães relata que um amigo da família de JGR foi visitar o filho que lá estudava e avistou o jovem Joãozito pálido e franzino. Vendo-o assim, o tal amigo tratou logo de avisar à família do menino, a qual prontamente o transferiu novamente para Belo Horizonte.

  Em retorno à capital mineira, JGR dá continuidade ao secundário no Colégio Arnaldo, de padres alemães. Então, passa interessar-se pela língua alemã e intensifica as leituras e o estudo do novo idioma. Por essa escola, também grandes homens de Minas passaram, dentre eles, ressalta-se o poeta Carlos Drummond de Andrade e o político Gustavo Capanema.

  Relembra Santos (2007, p. 117) a ocasião do retorno de Joãozito, evidenciada inicialmente ao autor pelo tio e escritor Vicente Guimarães (GUIMARÃES, 2006, p. 39) a partir de outros dois episódios envolvendo JGR.

  Um trata da forma como o autor adquire o gosto pelo idioma japonês e, em seguida, umas das curiosidades de menino prodígio e autodidata ocorrida na biblioteca mineira, causo ainda multiplicado pelos antigos funcionários e contadores de história da época.

  Certa vez, nas apreciadas leituras na varanda da casa dos avós, JGR observa um funcionário da Companhia de Força e Luz trocar uma lâmpada do poste equilibrando-se em uma escada. O que lhe chamou a atenção fora o fato de esse funcionário ser japonês. Incentivado pela curiosidade, fecha o livro e aguarda o funcionário descer da escada. Então, puxa assunto, perguntando ao homem como se dizia “bom dia” e “como vai” em japonês, além de outras frases corriqueiras. Atendendo ao garoto, os questionamentos foram um a um sanados. Curiosamente, retornando à atividade de manutenção dos postes de luz no dia seguinte, o funcionário é surpreendido com um cumprimento em japonês fluente advindo do garoto Joãozito. Admirado com tão boa memória e correção das frases anteriormente aprendidas, o moço passa a visitá-lo para ensinar-lhe mais um pouco da língua oriental, idioma em que JGR se aprofundaria anos depois.

  Outro fato revelador do mais importante escritor da pequena Cordisburgo tão recontado e multiplicado refere-se à adolescência do menino. O avô dava ao filho Vicente Guimarães e a Joãozito a chamada “domingueira” – termo que segundo os costumes mineiros se refere a um valor (no caso, 2.000 réis) que os jovens poderiam gastar no fim de semana com o que Municipal todas as tardes de domingo e se punha a ler. Certa vez, o garoto chama a atenção de um frequentador, que reclama com o bibliotecário que havia um menino “fazendo piquenique” junto a alguns livros abertos, os quais poderiam ser danificados. O funcionário tranquiliza-o e diz que o menino, frequentador assíduo aos domingos da biblioteca, onde fazia o lanche e se sentava sempre no mesmo lugar, era zeloso com os livros. Por via das dúvidas, o frequentador decidiu ir cautelosamente ao encontro de Joãozito – surpreso, verificou que o menino lia um clássico francês.

  JGR fora privilegiado nessa época juvenil, não só por estar rodeado de um ambiente familiar acolhedor mas incentivador, isso porque os familiares se dedicavam também aos estudos, sendo que alguns gozavam de graduação adquirida ou prestes a adquirir.

  Consequentemente, pela inevitável soma do estímulo da convivência estudantil familiar com a vontade e entusiasmo de se aperfeiçoar educacionalmente, em 1925, matricula-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos.

  Em entrevista exibida em 2010, no programa Guimarães Rosa: o mágico do reino das

  6

  palavras, pelo canal TV Escola (GRACILIANO..., 2013), José Luiz Guimarães, irmão do autor, conta que João Rosa – tratado assim na Faculdade – era chamado para estudar com colegas que importavam livros e obras da Alemanha, da França e da Inglaterra, e a ele recorriam para traduzi-las. Assim, JGR não só aprimorava o vasto conhecimento pelas línguas estrangeiras, como também a fama de poliglota se estendia a ponto de os próprios professores, em algumas ocasiões, procurarem-no por ajuda.

  Em 07 de dezembro de 1929, ganha o concurso literário oferecido pela revista O , do Rio de Janeiro, e estreia como escritor com o primeiro conto que escreve: O

  cruzeiro

mistério de Highmore Hall. Mais tarde, em 21 de junho de 1930, publica na mesma revista o

  segundo conto, Kronos kai anagke (que traduzido do grego tem o título de “Tempo e destino”), e um terceiro, Caçadores de camurça, na edição de 12 de julho de 1930. Em 09 de fevereiro de 1930, publicara o conto Makiné no jornal O jornal (suplemento dominical). Essas obras foram premiadas e renderam ao recém-escritor a quantia de 100.000 réis, que lhe foram muito úteis, pois ainda era estudante. De certa forma, tais contos foram renegados pelo autor, que confessou, 6 em cartas posteriores, escrevê-los friamente, sem a devida paixão, além de usar formas e estilos

GRACILIANO Ramos: literatura sem bijouterias – Mestres da Literatura. TV Escola. Videoteca Do Estudante.

  Disponível em influenciado por outros autores. São textos que pouco se aproximavam das invenções linguísticas e da geniosa criatividade presentes, por exemplo, em Sagarana (1946) e Grande veredas (1956).

  sertão:

  A década de 1930 foi marcante para o “estreante literário” no que se refere tanto à questão profissional quanto sentimental. Aos 22 anos de idade, em 27 de junho de 1930, casa- se com uma jovem de apenas 16 anos, Lygia Cabral Penna. Desse relacionamento, nascem as filhas Vilma (em 1931) e Agnes (em 1934).

  No mesmo ano, JGR se forma no curso de Medicina e, por aclamação da turma de 35 formandos, foi o orador do grupo. O discurso, cujo trecho publicado no principal jornal mineiro da época, Minas Geraes, já revelava, dentre outras características, o grande interesse linguístico clássico de JGR, inicia a oratória ao argumentar a citada “apreciação pela natureza”:

  Quando o excesso de seiva levanta a planta jovem a escalar o espaço, só à custa de troncos alheios logra ella chegar à altura – faltando-lhe as raízes, que sómente os annos soem improvisar, restar-lhe-á apenas o epiphytismo das orchideas. Tal a licção da natureza que faz com que a nossa turma não vos traga pela minha bocca a discussão de um themas científico, nem ponha nesta despedida these alguma de medicina applicada, que oscillaria, aliás, inevitavelmente, entre a parolagem incolor dos semidoutos e o plagio ingênuo dos compiladores.

  O recém-formado doutor recusou-se a exercer a profissão com renomados médicos da capital mineira para abrir a própria clínica na pequenina Itaguara (antes chamada Dores da Conquista), município de Itaúna, região centro-norte de Minas Gerais, à margem da estrada que hoje liga Belo Horizonte a São Paulo, a Rodovia Fernão Dias (BR-381). Nessa pequena cidade, o Dr. Rosa, como era tratado, dotado de sensibilidade fora do comum, preocupava-se com a carente realidade das pessoas que atendia. Auxiliado pela esposa – que, segundo a filha, era uma pessoa de forte gênio –, JGR compadecia-se das vidas que lhe serviriam futuramente de inspiração literária, a tal ponto de, na maioria das vezes, não querer receber pelas consultas.

  O jovem médico, entretanto, não excluía o lado escritor. Aproveitava a vida simples para registrar os diversos aspectos dos costumes da pacata cidade. Tomava nota de tudo que ouvia e via. As amizades, conquistadas por meio do carisma incomum e de férteis conversas, além de proporcionar-lhe significativas inspirações, também revelavam nele um espírito diplomático.

  Cavalgava para atender os doentes nas fazendas e casebres das redondezas, fato comprovado, por exemplo, em seu primeiro livro, Sagarana (1946), no conto Corpo fechado. O autor dá o nome fictício à cidade de Laginha, onde é também um médico que narra os

  Sobre esse fato, acrescenta-se de passagem outro informe. Trata-se de uma carta enviada ao amigo Manoel de Carvalho, em 14 de julho de 1932 e transcrita em 26 de junho de 1933, segundo Vicente Guimarães (apud SANTOS, 2007, p. 150), em que se ressalta a afetiva consideração com que JGR se refere ao estimado amigo: “Podem vocês estar certos, digo-o com toda sinceridade: o único lugar onde já me pareceu ver felicidade mais ou menos perfeita foi nessa boa casa. Felicidade e paz de espírito merecidas, aliás, e que Deus conserve longamente” (ROSA, Vilma G., 1983, p. 299-301).

  Para a filha Vilma, o citado amigo muito se parecia com o “Compadre meu Quelemém de Góis”, de Grande sertão: veredas, o qual era espírita, assim como Manoel de Carvalho. Nesse contexto, poder-se-ia especular que JGR já idealizava possíveis personagens ou acontecimentos que viriam a surgir em suas obras de características regionalistas.

  Da juventude vivida em torno de fazendas de gado, dos criadores, dos vaqueiros, da paisagem mineira em toda a instigante diversidade, tudo seria relembrado, nos meados da década de 1930, sob o pseudônimo de Viator, com o volume Contos, o qual mais tarde (em 1946), após revisão do autor, se transformaria na obra Sagarana, uma das mais importantes já surgidas no Brasil contemporâneo. Cabe lembrar que, um ano antes da publicação, JGR receberia um prêmio da Academia Brasileira de Letras com a coletânea de poemas Magma.

  Logo no início dos anos 1930, participa da Revolução Constitucionalista, vindo a atuar como médico voluntário da Força Pública de Minas Gerais. Tempos mais tarde, promovido a capitão-médico, a família rosiana foi morar na mineira Barbacena.

  Como médico, convivia de perto com a enfermidade e a morte, o que lhe causava revoltosa angústia. A cidade do interior mineiro carecia, então, de muitos recursos, inclusive de eletricidade, fator que comprometia o tratamento de males advindos da precária realidade do interior mineiro. Consequentemente, era questão de tempo até que JGR se desiludisse do ofício da Medicina.

  Precisamente em 06 de julho de 1934, um amigo impressionado com a erudição do escritor, acentuado conhecimento de línguas e tal dedicação estudiosa, lembrou-lhe de um concurso para o consulado. Entusiasmado com os dizeres do amigo, JGR se inscreve para o concurso de diplomata no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, sendo aprovado em 2º lugar e imediatamente nomeado para tão prestigiado cargo.

  Não tardaria o reconhecimento ao êxito do recém-adquirido ofício, pois, em 1938, obtém o primeiro posto diplomático. O presidente Getúlio Vargas e o ministro Oswaldo Aranha assinam o diploma de nomeação para cônsul adjunto em Hamburgo, na Alemanha, local em ela ficara no Brasil –, o diplomado funcionário embarca no navio alemão General Urtigas e desembarca em Bremerhaven, seguindo de trem até a cidade na qual assumiria o esperado posto.

  Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o cônsul por diversas vezes escapou da morte. Conforme citado, JGR era supersticioso e respeitador das concepções religiosas. Católico por formação e opção, também era admirador convicto de assuntos relacionados ao sobrenatural, o que, segundo informes do próprio escritor, salvou-o em inúmeras situações. Uma delas, conforme relatos da filha Vilma, fato marcante na vida de JGR, remete à vez em que acordou no meio da noite com uma vontade intensa de fumar e saiu para comprar cigarros em um café da esquina, que ficava aberto 24 horas. Ao chegar, ouviu a sirene de um bombardeio e refugiou-se no abrigo local. Horas depois, dirigiu-se ao local onde morava, mas ficou perplexo ao deparar com o pequeno prédio em escombros. Com espantoso espírito otimista que mantinha para amenizar tantos malfadados acontecimentos, descreve para a filha Vilma que “o cigarro pode matar, mas aquele havia-lhe salvo a vida” (sic).

  Outro episódio ocorreu quando o consulado onde trabalhava fora semidestruído durante um bombardeio, e junto do então cônsul-geral Joaquim Antônio Souza Ribeiro, negando as orientações de segurança dos bombeiros e policiais, adentraram o local em busca de documentos oficiais importantes soterrados nos escombros. Mal saíram, ouviram um estrondo e o resto do prédio vindo abaixo.

  As duas ocorrências de quase morte no passado de JGR contribuiriam para fazer emergir do espírito rosiano um sentimento místico, que tanto o influenciou na literatura. Espiritualista, acreditava que fora várias vezes poupado para contribuir com algo mais importante que estava por vir.

  Ousado não apenas por renovar – e por que não inovar – a forma literária brasileira, ao conciliar e exaltar o espaço regionalista e os exemplos populares de toda uma nação, JGR teria por uma das alimentações inspiradoras a aversão aos acontecimentos experienciados pelo grande holocausto.

  Como diplomata na Europa, ficaria marcado por um feito que lhe renderia homenagens futuras, uma delas póstuma, pelo governo israelense. Em 1938, entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta nº 1.127, de 7 de junho de 1937, que restringia a entrada de judeus no país. O informe revoltaria a paranaense Aracy Moebius de Carvalho, figura que seria importante na vida de JGR. Por ser poliglota e conhecer francês, inglês e alemão, Aracy conseguiu um cargo de chefia na sessão de vistos de passaportes no consulado brasileiro em Hamburgo. Indignada com o ato do então governo brasileiro, ela horrores da guerra. Para conseguir a assinatura do cônsul-geral ou do adjunto JGR, a paranaense preparava toda a documentação necessária e misturava-a às papeladas do expediente. JGR descobre os estratagemas de Aracy, mas, muito além de contrariá-la, vê em seus atos uma autêntica ação diplomática e passa então a ajudá-la. Mais tarde, enamorados pelo constante convívio, casariam no México; e Aracy tornar-se-ia a segunda esposa do escritor mineiro.

  Ambos passariam a ser investigados pelo serviço secreto alemão e pela própria embaixada brasileira. Amparado pela relação diplomática ainda existente entre Alemanha e Brasil, JGR é denunciado como simpatizante dos judeus e fichado na polícia alemã.

  O escritor cordisburguense possuía imunidade diplomática, entretanto, com o rompimento entre os dois países em 1942, JGR, Aracy e outros compatriotas foram presos e enviados para Bandem-Bandem. Lá ficaram por alguns meses, até ser trocados por presos políticos alemães no Brasil. Ao retornar, é enviado em 1948 a Bogotá, na Colômbia, onde atuaria como secretário-geral da delegação brasileira da IX Conferência Interamericana, e depois a Paris, como membro especial da Conferência da Paz. Na cidade luz, é nomeado conselheiro da embaixada brasileira, onde residiria com a família por algum tempo.

  Em continuidade à vida política de JGR, os anos de 1951 a 1958 merecem o devido destaque. Sobre a primeira data, ele é novamente nomeado chefe de gabinete de João Neves da Fontoura e, em 1953, torna-se chefe da Divisão de Orçamento. Cinco anos mais tarde, é promovido a ministro de primeira classe.

  Com o mesmo empenho com que se entregava ao trabalho, o escritor JGR se dedicava à literatura. Os dois mundos que lhe faziam parte não se relacionavam de forma dicotômica. Os cargos adquiridos como político renderam-lhe experiências únicas, tais como quando ainda era médico ou soldado. Das tensas ocasiões e experiências que o autor vivenciou como político, às personalidades que ao longo desse tempo foi conhecendo, renderam-lhe memoriáveis inspirações, as quais o autor mais tarde representaria ao criar determinadas personagens.

  1.2 AS VIAGENS DE JOÃO GUIMARÃES ROSA E OS PRIMEIROS CONTATOS COM A LINGUAGEM SERTANEJA

  Precisamente sobre as aparentes maneiras citadas que lhe inspiraram as moldagens das produções literárias, fazem-se necessário ressaltar dois relatos consideravelmente importantes para complementar o imaginário de JGR. Trata-se pois de duas viagens que o autor fez como

  Era 1952, com a primeira marcha pelo interior do sertão de Minas Gerais, enriquecia-se com importantes sondagens acerca da paisagem, costumes e dialetos regionais. Todavia, apesar do grande desejo de vivenciar novas oportunidades, o projeto inicial das viagens teve de ser adiado por quase sete anos. Oportunamente, porém, a vida lhe proporciona – por meio da família – a possibilidade de concretizar o momento antes adiado.

  Um primo, Francisco Moreira, vulgo “Chico” Moreira, possuía uma fazenda, a Sirga, situada à beira do Rio São Francisco, próxima à atual cidade de Três Marias e ao vilarejo Andrequicé. Na cidade do Rio de Janeiro, o primo oferece a tal fazenda para que o autor fizesse a almejada e adiada pesquisa. Em auxílio do escritor, Chico envia o capataz, Manuel Narde, após lhe ter dado ordens de recepcionar decentemente e tratar muito bem o parente, facilitando- lhe ao máximo as respostas às curiosidades surgidas. O capataz e vaqueiro Manuel, vulgo “Manuelzão” – pessoa tão homenageada, querida e imortalizada pelo autor –, assim o fez. Anos depois, o próprio Manuelzão em entrevista diria que JGR, em cartas ao amigo vaqueiro, “perguntava mais do que padre” e que, para dar conta dos detalhados informes sobre os acontecimentos sertanejos, consumiu “mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes”.

  Para chegar à referida fazenda, JGR, montado em uma mula – batizada de “Balalaica”

  • –, participa de comitiva que conduziria uma boiada até a pequena cidade de Araçaí – local não muito distante de Cordisburgo – e de lá embarca de trem para o Rio de Janeiro. Nos dias que passou em viagem, de posse de sete cadernetinhas e de lápis dependurado no pescoço, João Rosa – como preferia ser chamado – não só constantemente perguntava aos vaqueiros “de tudo um pouco”, como também anotava incansavelmente os acontecimentos e as paisagens que a seus olhos passavam. Os detalhes sobre a paisagem, as cantorias de viola, a fauna e a flora mineira, os ricos costumes, hábitos, expressões e modo de falar dos sertanejos, nada passava desapercebido às atentas observações e anotações do escritor. Anos depois, após retornar ao Rio de Janeiro, viria a datilografar todo esse material; e, ao separá-lo por temas, o escritor o batizaria de “A Boiada 1” e “A Boiada 2”.

  A instigante jornada a Minas Gerais, segundo Santos (2007, p. 237), era composta por

  7

  oito vaqueiros : entre eles um tocador de berrante, João Henrique da Silva Silveiro, vulgo “Zito”; o vaqueiro e um dos guias Raimundo Bindóia; e o próprio Manuelzão.

  Conforme descrito por JGR (apud SANTOS, 2007, p. 237), Zito, além de ser o melhor 7 cozinheiro da comitiva e ótimo contador de causos, era poeta secretamente.

  

Além dos citados nomes, tem-se ainda Chico Moreira (dono da boiada), Tião Leite, Santana, Gregório e Sebastião

  21

  Para JGR, Zito era “escuro e franzino” com “arqueadas pernas, pequeninotezinho debaixo de extensas abas de chapéu couruno – de ordinário levaria a nele fazerem pouco”. A viagem de JGR com os vaqueiros foi documentada, antes de chegar à cidade em

  Araçaí, por uma revista carioca de prestígio na época denominada O cruzeiro, com divulgação de dezenove fotos de autoria de Eugênio Silva, em 21 de junho de 1952, sob o título “Um

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  escritor entre seus personagens”. A seguir, as imagens registradas por Eugênio próximo ao fim da viagem.

  Figura 1 – Hora do cafezinho durante a viagem pelo interior mineiro Figura 2 – JGR Fonte: GGN (2013) Fonte: SILVA (1952)

Figura 3 – Santana Figura 4 – Manuelzão Figura 5 – Zito

  Fonte: SILVA (1952) Fonte: SILVA (1952) Fonte: SILVA (1952)

  

Manuelzão; Fig. 05, Zito; Fig. 06, mapa em que JGR traça as viagens JGR e absorve possíveis inspirações para as

  

Figura 6 – Mapa usado por JGR para traçar as viagens em que absorve inspirações para as construções literárias

Fonte: GGN (2013)

  Valorizava o conhecimento empírico dos viajantes, e de todos, João Henrique, o Zito, era o interlocutor mais fluente. As veredas, os buritis, os remédios naturais e todo o conhecimento do sertanejo sobre as belezas dessa peregrinação aos poucos se tornavam, para JGR, uma bela descrição que fluíam harmoniosamente da fala simples do humilde vaqueiro.

  Para Santos (2007, p. 238-9), a obra Grande sertão: veredas já estava planizada na mente rosiana e, aos poucos, era enriquecida com relatos e anotações que minuciosamente o escritor registrava. Santos (2007, p. 239) transcreveu um episódio em que JGR, certa vez, durante a viagem da comitiva, estava cavalgando ao lado de Zito e prenarrou ao berranteiro de

  “um romance que estava a escrever – uma estória com grátis gente e malapropósitos vícios e fatos”. Zito, ao baixar o berrante, teria dito que Rosa deveria, pois, reger as nações.

  Aparentemente, dessa conversa, teriam surgido contribuições para o imaginário rosiano, que, somadas a lembranças e experiências anteriores, estariam por eclodir na obra que enfim o eternizaria como genial escritor e um dos maiores expoentes do século XX. Acredita-se que, para JGR, a viagem ao interior mineiro não se limitava apenas a conhecer e descrever tanto o espaço físico ou as pessoas que ali viviam, como também vivenciar de perto todas as experiências, além obviamente do medo, expectativas e dificuldades que no caminho encontrava. Percorrer 240 quilômetros sobre o lombo de uma mula, conduzindo uma boiada de aproximadamente 300 cabeças de uma fazenda a outra, permitiu ao escritor experimentar muitas e variadas situações.

  Além do vaqueiro Zito, outra inspiração que veio do grupo era Manuel Narde, o Manuelzão. Visto pelo escritor como uma espécie de cowboy dos antigos filmes de faroeste, Manuelzão tinha fama por ser destemido e bom atirador. Fama acentuada pelo espiritualismo que JGR apreciava e respeitava, pois, conforme os boatos locais, era exímio “amansador de cavalos” por causa da “reza brava” que fazia antes de preparar a montaria. Fato esse que pôde ser confirmado mais tarde quando Osmam Nascimento, filho do guia da comitiva de JGR Raimundo Bindóia, concedeu entrevista ao jornalista e escritor Pedro Fonseca sobre o hábito do pai de “abençoar a montaria”. Tal costume era algo compartilhado não só entre os vaqueiros como também com sertanejos que possuíam tal conhecimento. Entretanto, dos presentes vaqueiros na romaria, era Manuelzão quem mais detinha a fama de amansar “montaria braba”.

  Para isso, enquanto estivesse prestes a arriar o animal a ser amansado, o cavaleiro pronunciava a seguinte oração: “Com dois eu te vejo. Com quatro eu te amarro. No sangue eu te bebo. No coração eu te parto. Quando Deus quer Deus pode. Quando Deus pode Deus quer. Fica manso

  9 cordeiro. Debaixo do meu pesqueiro. Pra tudo que eu quiser” (FONSECA, 2012).

  Maravilhado com os costumes regionalistas, o escritor homenagearia o amigo Manuel Narde quatro anos mais tarde ao dar vida ao personagem Manuelzão, da novela “Uma estória de amor”, presente no livro Corpo de baile. A obra, atualmente, é composta de três volumes independentes: Manuelzão e Miguilim (com as novelas “Campo Geral” e “Uma história de amor”), No Urubuquaquá, no Pinhém (com as novelas “O recado do morro”, “Cara-de-bronze” e “A história de Lélio e Lina”) e Noites do Sertão (com as novelas “Dão-Lalalão” e “Buriti”). 9 Com leitura desafiadora, Corpo de baile é tido como uma espécie de relato poético e, segundo o professor Ivan Teixeira, é quase um “experimento metafísico”. Ousa-se dizer que é uma obra que transcende as estruturas impostas pelo estilo literário modernista vigente, e, por que não, uma ponte entre a segunda e a terceira fase modernista. Mais que mera e superficial representação provincial, transcendeu as expectativas das particularidades do tratamento regionalista presente no terceiro período literário modernista do século XX. As personagens do livro tinham características únicas. Do autoconhecimento aos enfoques universais e multiculturais, o autor pôde unir questões populares, linguísticas e hábitos do sertanejo, e estendeu esses elementos a toda uma nação. Exalta, pois, a realidade social, em personagens como de quase identidade e envolvimento, sem, necessariamente, posicionar-se criticamente ante a realidade em questão, tal como percebida, por exemplo, na literatura regionalista de Graciliano Ramos, cujos personagens possuem consciência crítica e reflexiva sobre a própria realidade precária em que vivem.

  Todavia, meses depois com a obra Grande sertão: veredas é que JGR chegaria ao ápice da carreira literária, consagrando-se como um dos maiores escritores brasileiros por meio de um estilo extremamente diferenciado. Neste livro, a ficção e a realidade se mesclam ao enfocar os ambientes e o povo rude do sertão mineiro. A própria visão de mundo do escritor enfatizada por uma imaginação incomum ganha asas na linguagem erudita. Sem descaracterizar a linguagem culta, propõe inovar a oralidade espontânea da comunicação humana. Por meio da extensa e perturbadora narração de uma personagem, o ex-jagunço e fazendeiro Riobaldo, em forma de quase monólogo – uma vez que a fala do interlocutor é apenas sugerida –, conta histórias de contendas, vinganças, amores e mortes com linguajar típico do sertão.

  Tamanha repercussão no ambiente literário, consequentemente, críticos e leitores apaixonados entrelaçam interesses sobre o recém-lançado livro. Em outras palavras, dois anos de dedicação e pesquisas fizeram com que uma obra de arte, antes hibernada, eclodisse e enriquecesse nossa literatura.

  O reconhecimento por tão brilhante trabalho veio com o Prêmio Machado de Assis concedido pelo Instituto Nacional do Livro, com o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, em 1956, em São Paulo, e, em 1957, com o Prêmio Paula Brito, no Rio de Janeiro.

  Menos de dois meses após desbravar o sertão mineiro, o escritor ainda faria outra viagem, também com o mesmo intuito investigativo, à Bahia, ao lugar denominado Caldas-do- Cipó, em companhia do jornalista Assis Chateaubriand.

  Tais viagens foram importantes fonte de inspiração para as obras, que, como dito, o consagraram como figura singular no panorama literário da terceira geração modernista – período encabeçado também por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto –, porém, ressalta-se que não foram os únicos.

  Mesmo após as viagens e os períodos que antecediam os lançamentos de Corpo de baile e Grande sertão: veredas, JGR, com iterativa frequência e insistência em cartas, pedia, ao amigo Manuelzão e ao pai informações precisas sobre acontecimentos diversos da pacata cidade de Minas Gerais que um dia o lançou para o mundo.

  Segundo a filha Rosa, Vilma G. (2008, p. 174 apud SANTOS, 2007, p. 240), em 27 de outubro de 1953, JGR responde e agradece ao pai por alguns informes sobre ciganos e o entrudo em Caeté enviados por carta:

  Vão ser muito bem aproveitas. Sempre que o Sr. tiver disposição, pode mandar. Na carta, falei no interesse que tenho pelo assunto das caçadas na Serra do Cabral – principalmente quanto aos detalhes pitorescos. O detalhe é muitas vezes de grande

proveito, pois metido num texto dá impressão de realidade.

  Apesar das constantes notícias que circundavam o recanto mineiro, JGR deixa claro para o pai que complementasse, em futuras cartas, informações referentes a descrições das pessoas da “roça”, das pescarias, dos jogos de baralho, dos curiosos caixeiros-viajantes frequentadores da venda da família, dos desentendimentos e discussões que, por motivos simplórios, vinham a acontecer em tão pequena cidade, além dos recados que os familiares esporadicamente davam.

  A seguir, uma imagem do que foi o armazém do pai de JGR situado na cidade de Cordisburgo, no interior mineiro – atualmente Museu Casa Guimarães Rosa (MCGR).

  

Figura 7 – Armazém de Seu Fulô, pai de JGR, em Figura 8 – Visão exterior do Museu Casa Guimarães

Cordesburgo (MG), atual Museu Casa Guimarães Rosa Rosa

  Mesmo com a publicação das relacionadas obras, os pedidos ao amigo e ao pai sobre informes da pacata vida cordisburguense ainda eram rotineiros. Em resposta, JGR detalhava os acontecimentos e momentos que vivenciava – e que às vezes vinham mais como em forma de desabafo do que de notícias.

  O ano de 1958 melhor exemplificaria os mencionados acontecimentos já que se tratava de um ano deveras marcante na vida de JGR. Em 24 de janeiro, segundo Santos (2007, p. 258), ocorre a eleição na Academia Brasileira de Letras (ABL), porém, com apenas dez votos, JGR não obteve sucesso. O concorrente e conterrâneo mineiro, o crítico literário Afonso Arinos de Melo Franco, para suceder a José Lins do Rego, é eleito com 27 votos.

  A reação à derrota na ABL obviamente não foi das melhores, tanto que, ao sair abruptamente, não deu a devida atenção ao amigo Paulo Dantas (Sagarana emotiva, p. 83-4 apud SANTOS, 2007, p. 259), que assistia ao pleito. Após o episódio, em carta datada de 04 de fevereiro do mesmo ano, JGR explica porque havia deixado o amigo “no ermo e fogo de sol da Praia do Flamengo e sem mais, sem um final abraço!”:

  O que houve, agora eu conto [...] Você se lembra que, no grande dia, eu lhe dissera não estar me sentindo bem [...] Pois bem, logo depois da lauta, violenta empresa, vi, com alarme, que as coisas biologicamente se complicavam [...] Daí, a brusca arrancada salvadora, quase uma fuga.

  Ao dar continuidade à carta, JGR, após justificar-se sobre a forma inconveniente de partir sem se despedir do amigo, ainda incluiria o episódio da eleição, cujo resultado, segundo ele, dera “água de barrela”, em que do “estouro” o escritor havia salvo “dez garrotes – isto é, os 10 votos bons”.

  Poucos meses depois, em maio de 1958, Juscelino Kubitschek de Oliveira, amigo de faculdade que servira juntamente com o autor como oficial-médico da Força Pública de Minas Gerais e então, na época, presidente da República, telefona para JGR e o promove ao posto de ministro de primeira classe. Tempos depois, a convite do próprio presidente, JGR, acompanhado da filha Vilma, vai ao palácio e, durante um almoço com o político e assistindo ao filme sobre a construção de Brasília, gentilmente recusa ofertas de postos no exterior, já que o interesse do escritor era continuar no Brasil.

  Sobre o mal-estar criado, citado em carta ao amigo Paulo Dantas, vale ressaltar que o escritor se preocupava com enfermidades que o assolavam e seriam o prenúncio de um fim não tardio. A hipertensão arterial juntamente com outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso e tabagismo seriam as causas desse fim. Em carta enviada ao pai, em dezembro o preocupava. De acordo com as orientações médicas, ele poderia “alcançar 90 anos de vida”, caso evitasse as “emoções, surpresas, contrariedades e sustos”.

  Coincidência ou não, nesse contexto, as obras de JGR ganhariam – mais do que a magia já existente – uma espiritualidade e sensibilidade incomum, tal como se forças místicas tivessem um espaço especial na tonalidade da escrita quase comparada a uma parábola, em que a verdadeira e relevante essência era transcendental à leitura. O cuidado preciso com que o escritor se dedicava à forma quase intuitiva de escrever fez com que se lançasse tardiamente ao universo literário.

  Segundo Rosa, Vilma G. (ano, p. 322 apud SANTOS, 2007, p. 246), em carta ao amigo Antônio F. Azevedo da Silveira em 09 de fevereiro de 1956, JGR, prestes a lançar oficialmente

  

Grande sertão: veredas, escreve em forma de desabafo o aparente transe em que se punha ao

  escrever:

  [...] Conto a você que, na última semana, antes de entregar a José Olympio o “Grande Sertão”, passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia.

  Mais adiante, na mesma carta, haveria fazia um desabafo sobre entregar os rascunhos originais ao editor descrevendo a sensação “de renascimento, de completa e incômoda liberação, de rejuvenescimento” e que estaria prestes a “voar como uma folha seca”.

  Por causa da genialidade e estilo de escrita inovador, apesar de visto por alguns críticos como “rebelde” ou pelo admirador Graciliano Ramos como “antimodernista”, JGR recebe em 1961 o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

  Na mesma época, presta colaborações regulares a alguns periódicos, precisamente à revista Senhor e ao jornal O globo. A convite do então editor da Senhor, Paulo Francis, JGR publica textos na denominada Seção de Literatura. Além dele, a revista teria outros colaboradores consagrados, como Jorge Amado, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, Fernando Sabino, Vinicius de Morais e Paulo Mendes Campos. Em

   10

  março de 1961, na edição de nº 25 da revista, publica o conto Meu tio o Iauaretê que seria

  ,

  incluído na obra e publicação póstuma Estas estórias. No jornal, a postagem ocorria na seção Porta de Livraria, de Antônio Olinto, intitulado “João Guimarães Rosa conta”.

  Nesse mesmo período de curtas publicações, o escritor elogiaria a produção Serras azuis do então amigo e conterrâneo mineiro Geraldo França de Lima. Ainda em 1961, publica em Portugal, pela editora Livros do Brasil, e na França parte do Corpo de baile é

  Sagarana traduzida, sob o título Buriti, pela Éditions du Seuil com tradução de J.J. Villard.

  Um ano depois, em 1962, assumia a Chefia de Serviço de Demarcação de Fronteiras e, no campo literário, publica a obra Primeiras estórias, quando vê no mais novo livro de 21 contos florescer outra celebridade: A terceira margem do rio.

  No mesmo ano, é convidado a participar, na Alemanha, em Berlim, de 16 a 23 de setembro, do Primeiro Colóquio de Escritores Latino-Americanos e Alemães, onde também conheceria o tradutor Curt Meyer-Clason. Já no mês seguinte, comunica a Curt ter recebido, em Frankfurt, carta do diretor e editor Joseph Caspar Witsch, da editora Kiepenheur&Witsch, um contrato para a tradução de Grande sertão: veredas para o alemão.

  Também em 1962, a segunda parte de Corpo de baile é traduzida na França com o título , de mesma autoria para tradução e edição.

  Les nuits du sertão

  Em 1963, o ano de fecunda felicidade para o autor viria de bons acontecimentos. Na Itália, parte de Sagarana é traduzida sob o título Il duello, pela Nuova Accademia Editrice, com tradução de Edoardo Bizzarri e apresentação de P.A. Jannini. Enquanto nos Estados Unidos, veredas ganharia tradução com o título The devil to pay in the backlands, por

  Grande sertão: Alfred A. Knopf, tradução de James L. Taylor e Harriet de Onis.

  Em 8 de agosto de 1963, JGR finalmente seria eleito por unanimidade pela Academia Brasileira de Letras para ocupar a vaga do embaixador João Neves de Fontoura. Entretanto, a posse é adiada – sine die – por quatro anos, pois receava que algo lhe poderia acontecer justificado pela forte emoção a ser produzida no momento.

  Os três anos que se seguiam permitiriam que JGR fosse lido em outros países, uma vez que na Alemanha, em 1964, finalmente Grande sertão: veredas é traduzido por Curt Meyer- Clason e, em Portugal, parte de Corpo de baile, sob o título Miguilim e Manuelzão, é editada. Em 1965, a França é o país para recepcionar a tradução do mesmo Grande sertão: veredas sob o título Diadorim – le diable dans la rue, au milieu du tourbillon, assinada por J.J. Villard.

  No ano seguinte, em 1966, o diplomata faz importante contribuição para pacificar e estreitar as relações entre o Brasil e o Paraguai. Uma vez solucionadas as dúvidas do governo paraguaio sobre questões quanto a demarcações de fronteira entre os dois países, a utilização do Rio Paraná estaria em comum acordo, e logo se inicia a construção da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu.

  No mesmo ano, para o escritor cordisburguense tantas vezes agraciado por homenagens e com a mesma humildade com que as recebia, Israel Pinheiro seria o prestigiador de mais uma concedida somente a mineiros ilustres. Ainda em 1966, precisamente no dia 2 de dezembro, foi condecorado, no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, por Juracy Magalhães, então ministro das Relações Exteriores, com a Ordem do Rio Branco em virtude dos feitos de honrosa menção e de valorosos atos cívicos.

  Em janeiro de 1967, JGR, em Manaus, participa de reunião dos embaixadores brasileiros

  11

  nos países amazônicos,

  e, segundo Santos (2007, p. 328), momento considerado importante, pois se tratava de “um dos primeiros passos que levaram à assinatura do Tratado de Cooperação Amazônica” no ano de 1978. Três meses mais tarde, em abril, o escritor é convidado a fazer parte no II Congresso Latino-Americano de Escritores, no México, como representante brasileiro, em que atuaria como vice-presidente. Entretanto, renuncia ao cargo em razão de delegados de Cuba e do Panamá tecer críticas de caráter político ao governo dos Estados Unidos. Seu manifesto a respeito foi pronunciado em castelhano.

  Três meses também seriam o tempo que separariam os admiradores de JGR da publicação “derradeira” do escritor em vida: Tutaméia – terceiras estórias. Críticas se dividiram sobre a obra: de um lado, havia os que a considerassem uma espécie de “impacto literário” e, de outro, os que a viam como um “espelho estilístico rosiano”. A última crítica se justifica pela criação de um estilo forte, oral e direto. Uma aparente relação dicotômica entre a simplicidade e a humildade das personagens com a retórica utilizada por eles, típica temática tão explorada pelo autor. Para Santos (2007, p. 333), o escritor provoca uma radicalização da própria originalidade “inimitável”, em que o dialeto sertanejo é “elevado à categoria de língua literária”.

  Os 44 contos que compõem o livro Tutaméia aos poucos foram publicados no decorrer de um período de dois anos – desde 1965 – em colaboração quinzenal para a revista médica pois, apesar de ser um periódico semanal, JGR fazia revezamento com o amigo Carlos

  Pulso, Drummond de Andrade.

  Em 13 de novembro de 1967, a três dias da adiada posse na ABL, Rosa experienciou a primeira publicação do livro da filha Vilma, Acontecências, ocorrida no Iate Clube da cidade do Rio de Janeiro. Chamada por alguns jornais da época como Semana dos Rosa, pois pai e filha seriam prestigiados na mesma semana –, a posse do escritor era o assunto nos noticiários

  • – o prestígio do pai no lançamento da obra da filha foi sucinto, já que as emoções eram controladas, pois premeditava para si algum possível mal ocasionado, talvez, por tão alegre e orgulhoso momento. Anos depois, de acordo com o próprio noticiamento de Vilma sobre aquele
  • 11 momento, JGR permaneceu sentado durante a sessão de autógrafos da filha, escondido atrás de
um vaso de uma planta que ornamentava o salão e vindo a aparecer momentos depois, com receio de que a visão da filha em reconhecê-lo fosse causadora de um ataque e, receoso de que ela se culpasse, poupou-lhe desse possível acontecimento ficando à espreita.

  Três dias depois da festa de lançamento, JGR finalmente estaria pronto para se eternizar ao tomar posse da cadeira de nº 02 – como o terceiro ocupante – da Academia Brasileira de Letras, na sucessão do amigo e um dia chefe João Neves da Fontoura. No dia 16 de novembro de 1967, data escolhida pelo escritor por ser também o aniversário do amigo sucedia, JGR é recebido pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco, o mesmo que um dia fora seu concorrente, eleito na primeira candidatura.

  Todavia, segundo Santos (2007, p. 347), Afonso Arinos, por ser conterrâneo das “terras largas do sertão mineiro”, sentiu-se convidado – não por JGR – para receber tão ilustre escritor, que promove em um monumental discurso, do qual cabe destacar uma passagem que resume e justifica a merecida homenagem a JGR:

  Sem dúvida exprimis o social – isto é, o local – nos vossos livros e neste ponto fostes, como nos demais, um descobridor. Manifestastes um aspecto de Minas Gerais que o Brasil não conhecia: a vida heroica; o heroísmo como lei primeira da existência, na guerra e na paz, no ódio ou no amor.

  O prestígio oferecido pelas palavras pronunciadas pelo acadêmico seriam maravilhadas também ao ser somadas ao discurso do recém-empossado acadêmico. No discurso de posse, JGR revela o tom evolutivo de seu estilo, em que beleza e neologismos se mesclam nas evocações da terra natal. Com tom discursivo municipalista, questões psicológicas, filosóficas e universalistas, revela sua visão de mundo como uma espécie de espelho da própria e humilde alma “prosa poética”. Acerca da querida cidade de Cordisburgo, exaltando o ato de que um dia o padre missionário João de Santo Antônio ajudou a formar, pronuncia:

  Fê-lo e fez-se o arraial, a que o fundador chamou “O Burgo do Coração”. Só quase coração – pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espaço do mundo primeiro que tudo aberto ao supro-ordenado: influem, quando menos, uma noção mágica do universo.

  As pronunciadas palavras se limitavam à cuidadosa emoção que JGR tentava controlar, com medo de que algo lhe ocorresse durante a posse. Momentâneos seriam os cuidadosos sentimentos que inevitavelmente lhe premeditavam as derradeiras palavras. Três dias depois da posse na Academia, em 19 de novembro de 1967, o terrível momento que tanto acossava o escritor o alcançou enquanto trabalhava no gabinete do apartamento em Copacabana, na Avenida Francisco Otaviano, no Rio de Janeiro. Morre aos e mineiro João Guimarães Rosa, que de herança deixou obras que há tempos revolucionavam e renovavam o tratamento literário. Com suas técnicas, amplo mundo ficcional, crença mística e experimentações linguísticas, o escritor impôs-se ao Brasil e ao mundo e, consequentemente, fez com que o país se dividisse em dois: um antes e outro depois de João Guimarães Rosa.

  Com a real sensibilidade que só escritores e poetas possuem, Carlos Drummond de Andrade, três dias após o triste acontecimento, em publicação no Correio da manhã, retrata em uma homenagem poética a sensação de perda que tão repentinamente assolou a nação brasileira:

  João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem incomum? [...] Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar .

  O Brasil se despedia de uma das referências máximas de sua literatura que finalmente veio a eternizar-se pelo legado estilístico e inovador como escritor. A genialidade rosiana ultrapassou a forma padronizada e preconceituosa de ver o sertanejo, e o regionalismo ganhou novas interpretações.

  A tendência regionalista vigorada no segundo momento modernista era configurada principalmente com olhares voltados para a miséria e a seca sertaneja; e nos moradores que partilhavam de tais realidades presentes nas regiões mais escassas cabia a função de ser lembrados pelo sofrimento na busca da sobrevivência.

  Essa representação regional focada superficialmente no povo apresentava uma realidade desprendida dos costumes, do folclórico e do pitoresco. Logo, era predominante, até então, a abordagem crítica da vivência social com ênfase dada às regiões focalizadas.

  JGR não se desprende de tal tendência regionalista, entretanto, inova-a ao assumir uma característica de experiência estética universalizada. O pitoresco e o documental representativo dão lugar a uma forma diferente de repensar as dimensões da cultura. Radicalmente, o real e o mágico se fundem aos diferentes processos mentais que aos poucos são proporcionados na imensidão advinda na viagem de uma leitura de suas obras. O sertão não mais se limita a meros espaços geográficos, apesar de fornecer a matéria-prima para as inovadoras construções, mas surge, sim, como forma de aprendizagem sobre a vida, a existência, o misticismo e o próprio homem.

  O referido regionalismo foi então lapidado por uma mente visionária, cuja fonte se refere a dois elementos essenciais que compõem o tratamento do escritor: o estilo da escrita e as observações em torno dos próprios sertanejos.

  A capacidade extraordinária de expor conflitos entre valores vitais aos contextos específicos permite notar os traços característicos do estilo da escritura rosiana. Por meio do sertão mineiro, as questões humanas mais profundas e o sertanejo, com seus sentimentos, vontades e questionamentos, independentemente a que posição ou situação venha a pertencer, ganham atenção e engrandecimento então merecidos.

  A população sertaneja até então era desvalorizada e deixada às margens de uma sociedade favorável e em plena expansão. Assim, em torno dessa realidade inconsonante, o escritor se utiliza da linguagem e a explora para fazer jus ao tratamento sertanejo.

  Poder-se-ia supor então que, se já era necessária mudança na forma como a precariedade social deveria ser vista, uma inovação no tratamento linguístico, no estilo de JGR, daria à voz sertaneja a oportunidade de ser reconhecida e valorizada. A padronização de uma linguagem requintada tão divulgada entre os escritores da época, vista até então como digna de ser considerada “correta” e a que não correspondesse a seu universo tida como “banal”, não mais seria a única.

  Aparentemente, nas andanças do autor pelo sertão mineiro e de seu convívio com pessoas de classes desfavorecidas conhecidas ao longo das viagens, fez com que a oralidade e a espontaneidade comunicativa do sertanejo ganhassem novos ares. Em outras palavras, essa particularidade linguística oralizada da população carente e os costumes regionais (passados de geração em geração) proporcionaram inevitavelmente o desenvolvimento da própria identidade cultural.

  JGR torna possível aos leitores o reconhecimento de tal identidade por meio da sondagem em torno da oralidade. Possivelmente, assim, entendem-se as marcas de oralidade tão presentes em sua obra.

  Outro recurso que corresponde a seu estilo ocorre graças ao tratamento para com o uso da língua materna. A palavra é tida pelo autor como fosse um ser vivo, e por isso mutável conforme a necessidade. Era consciente da formalidade com que as palavras deveriam ser construídas, mas num aparente desprendimento da formação desses vocábulos, léxicos e terminologias aos poucos sofrem modificações, talvez no intuito de representar o meio e as agrupamentos regionais e científicos, arcaísmos e expressões estrangeiras, a obra rosiana ganha vida com tons de musicalidade.

  Para a professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) Walnice Nogueira Galvão (apud GOMES, 2011, p. 57), JGR adapta a linguagem a “cada tipo de evento narrado” de maneira inovadora evitando fórmulas prontas de escrever.

  Segundo ela, em vez de dizer “lua de prata”, o escritor diz “luz com que se cunha moeda”; ou, “a um palmo do nariz”, prefere “altinasal de mim a um palmo”.

  Esses traços característicos na constituição do estilo de JGR dão pistas nas formas que as histórias do escritor assumiam com o uso de algumas particularidades da oralidade como a principal matéria-prima de suas obras. O escritor depara relações deveras dicotômicas entre a linguagem coloquial – tão presente na modalidade oral – e a linguagem culta – correspondente ao universo da escrita, transmitidas em um nível de linguagem com expressões originais.

  O enfrentamento do escritor das realidades linguísticas tidas na época como tabu por uma sociedade tradicional fez dele uma das referências máximas de estilo na literatura brasileira. Com características de ousar no tratamento da língua materna, indiretamente, nas obras, o autor propõe um convite para reavaliar a maneira como o manifesto oral era tratado e ainda o é em nos dias atuais.

  Ao perceber as inovações na língua com recursos que parafraseiam ou recriam certos léxicos, também se observa a tamanha sensibilidade com que faz essas “transformações”, a tal ponto de não descaracterizar a essência da palavra. A genialidade de captar as possibilidades de observar a língua é que lhe permitiu ver na fala do sertanejo a riqueza linguística com que o autor confrontaria elementos comuns da modalidade oral aos cânones dos registros escritos.

  Portanto, nesse contexto, conhecer um pouco da vida e dos acontecimentos de JGR é reconhecer também em suas obras um espelho que reflete os valores dados por ele à espontaneidade e à simplicidade da oralidade do sertão mineiro, facilmente reconhecidos no texto por meio de particularidades tão comuns da modalidade oral. Observar um pouco das experiências vivenciadas como pessoa permite entender que sua sensibilidade e originalidade se deram do contato vivo com a realidade da população carente, assim, suas obras ganham vida, porque nelas, meio que indiretamente, não só está inserido o imaginário rosiano como também a exaltação de um povo antes esquecido.

  A língua, tão rica na composição e complexa na representação, há tempos é objeto de investigação e estudos para diversos pesquisadores e linguistas. A concepção apropriada do conceito é ponto de discussão em inúmeras áreas do conhecimento.

  Nesse contexto, mesmo com a aparição das contribuições teóricas complementares aqui apresentadas, como a teoria bakhtiniana e a concepção de língua(gem) apropriada como viés colaborativo para este embasamento teórico, busca-se como escopo a reflexão sobre a concepção de língua(gem) e algumas observações da modalidade oral à luz da perspectiva sociointeracionista.

  2.1 A LÍNGUA(GEM) COMO PRÁTICA SOCIAL Na supracitada vertente, o filósofo Bakhtin (2011) delega que a língua deve ser observada como fato social em que os usuários a utilizam para manifestar a concretização comunicativa. Segundo o autor, todas as esferas da comunicação humana se utilizam da língua para interagir. Por sua vez, ela não deve ser observada estaticamente, apenas como sistema de regras e, sim, no processo evolutivo, que está sempre em movimento, viva, conforme as sociedades surgem e se expandem.

  Nesse caso, a língua está em plena evolução por meio da interação verbal, e é na atividade social – mediante as escolhas e necessidades dos falantes – que se percebe a essência da natureza da língua defendida pelo autor: a vertente dialógica. É na necessidade comunicativa do outro – além de fatores como o contexto de produção – que a palavra, produto da interação, pode retratar de diversas maneiras a realidade que lhe corresponde. Nessa concepção, o usuário linguístico se utiliza da própria linguagem não só para expressar ou transmitir uma ideia ao outro, como também se propõe a agir sobre o interlocutor, seja ele ouvinte, seja leitor. Por meio da linguagem, a interação humana acontece com a apropriação linguística pelos interlocutores para determinado efeito de sentido contextualizado social e historicamente.

  Por sinal, não se pode negar que a comunicação humana, em extensa e diferenciada (historicamente e socialmente) definição, corresponde a um conjunto de elementos de composição que, combinados a outros fatores extralinguísticos, provocam a manutenção, a faz-se necessário que, tal como o homem é concebido, ela seja considerada um elemento essencial para a transformação do mundo ao redor.

  No Brasil, contemporâneo a Bakhtin, mas ao encontro de suas contribuições, o professor Marcuschi (2010) delega que a língua deve ser observada como “fenômeno interativo e dinâmico” vista em plena construção, cuja essência se submete a modificações situacionais, históricas e socioculturais. Segundo este autor, a língua não deve ser somente analisada como mero sistema de regras para fins apropriados, pois ela excede o próprio código, já que é na forma como o homem se relaciona com o meio que possui maior valor comunicativo. Para Marcuschi (2010), a língua(gem) compartilhada carrega em si elementos essenciais para a ampliação do conhecimento humano.

  A esse olhar colaborativo, soma-se a ideia de Travaglia (2001, p. 62) de que “a língua não é algo rígido, mas algo que se modifica com o passar do tempo, em função das alterações socioculturais de cada comunidade linguística e da consciência de forças que entram em jogo nessa alteração”. Para este autor, por meio dela o mundo torna-se conhecido, quando um elemento/objeto passa da não-existência ao surgimento de algo novo e, dessa descoberta, ela é reproduzida e multiplicada no meio ao redor. Fato já constatado por Bakhtin (2011), em que os diversos campos da atividade humana, de uma forma ou outra, estão interligados à multiformidade no uso da linguagem. Tal linguagem está situada no contexto social determinando-o ou sendo determinada por ele; os significados nele contidos são infinitos como infinitos são as possibilidades conversacionais.

  Ao perceber assim o diálogo existente entre os referidos autores, observa-se que a língua está intrinsecamente relacionada à interação social dados os contextos discursivamente compartilhados. Ela é dinâmica, heterogênea e sempre está em processo evolutivo. Nela a sociedade se constrói e é construída, pois no discurso presente na interação, tradições, representação de mundo e identidades sociais são construídas ou reconstruídas.

  2.2 O PROCESSO DE ENUNCIAđấO E O GÊNERO PRIMÁRIO Reconhecendo então que a língua se manifesta por meio do envolvimento social,

  Bakhtin (2011) propõe algumas discussões de como ocorre essa interação ou os modos utilizados pelos sujeitos que interagem. Para o autor, o enunciado nasce na inter-relação discursiva, como um produto das partilhas vindas da interação social, e está vinculado a condições situacionais de determinada comunidade linguística. É o manifesto advindo de um sujeito, uma voz, seja escrito, seja oral, a outro, inserindo-se na ideia do diálogo existente nesse envolvimento discursivo.

  Em outras palavras, segundo Bakhtin (2011, p. 264):

  O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem [...], mas, acima de tudo, por sua construção composicional.

  Nessa afirmação, nota-se uma relação do autor acerca do uso da língua vinculada à interação das atividades humanas em que, para isso, os enunciados exercem papel fundamental. Entendem-se aqui por atividades as variadas representações que o homem desempenha em certas esferas nas quais está inserido, sejam elas as da escola, igreja, suas relações de amizade, sejam de trabalho; e para cada uma dessas esferas há necessidade diferenciada da linguagem.

  Nesses referidos campos, a linguagem se manifesta em forma de enunciados devidamente determinados pelas condições e finalidades específicas dessas esferas, e elas, por sua vez, motivam o aparecimento dos enunciados para cada situação de utilização da língua, tornando-os, segundo Bakhtin, “relativamente estáveis”.

  Ao apropriar um discurso tendo em vista as várias situações (ou esferas, propriamente ditas) comunicativas, as habilidades discursivas pelos sujeitos, requer-se atenção apropriada aos eventos nos quais estão inseridos. Neste caso, os sujeitos apropriam-se, segundo o que o autor define de diferentes gêneros discursivos, de tantos quanto forem necessários os cuidados com o uso da língua. Entendem-se aqui por gêneros do discurso as diferentes formas de uso da linguagem que podem ou não se flexionar tendo em vista as infinitas situações de interação verbal. Entretanto, Bakhtin não busca teorizar o gênero enquanto produto, mas sim seu processo de produção.

  Ao encontro dessa ideia processual, Fiorin (2006, p. 61) acredita que a comunicação é feita por meio dos gêneros, com a apropriação deles conforme a esfera de atividade vivenciada por cada pessoa. Assim, para o autor, o gênero proporciona uma interconexão da linguagem com o cotidiano social.

  Fiorin (2006, p. 61-2) complementa que:

  [...] a linguagem penetra na vida por meio dos enunciados concretos e, ao mesmo tempo, pelos enunciados a vida se introduz na linguagem. Os gêneros estão sempre e suas finalidades. Conteúdo temático (sentido do gênero), estilo e organização composicional constroem o todo que constitui o enunciado, que é marcado pela especificidade de uma esfera de ação (grifo nosso).

  Entretanto, o autor ainda alerta que, em se tratando de gênero, este só terá sentido quando observado na correlação entre forma e atividades. Nesse intuito, não se deve tratá-lo isolado apenas nas particularidades e composições formais, mas sim na realização espaço- temporal na interação dos ocupantes linguísticos.

  O homem se apropria dos gêneros para apreender a realidade e conceitualizá-la, permitindo que outros surjam, modificando ou substituindo os já existentes. Dir-se-ia, pois que, antes de aprender a ler ou escrever, o indivíduo deve saber como se apropriar do gênero para determinados fins. Para cada situação discursiva ou intencionalidade comunicativa do sujeito, há necessidade do uso de gêneros apropriados ou que contemplem sua escolha conforme as ocasiões. Em outras palavras, ter domínio de como se utilizar da língua implica o modo de usar o gênero em determinado contexto de produção, do contrário, o usuário que não tem o devido conhecimento de como aplicá-lo a determinadas esferas comunicativas se sentirá deslocado e até mesmo excluído do convívio social.

  Vale ressaltar que os gêneros não se manifestam apenas na modalidade oral ou somente na escrita, mas são tipos de enunciado que abrangem a totalidade linguística. Com essa perspectiva, Bakhtin não busca descrever o estilo recorrente de cada gênero, composição ou conteúdo temático, pois reconhece que as ações discursivas do homem são infinitas, e inesgotáveis seriam os gêneros que tentassem representar cada escolha dessas atividades discursivas. No entanto, o autor propõe uma definição ao dividi-los em gêneros primários e secundários.

  De um lado, os gêneros primários referem-se aos episódios da vida cotidiana e se manifestam, quase exclusivamente, no universo oral. Surgem na comunicação verbal espontânea caracterizando-se dentro da situação mais direta e informal da comunicação humana. São exemplos típicos o bilhete manuscrito, a conversa telefônica, o bate-papo, o chat, entre outras atividades conversacionais do dia a dia dos interlocutores.

  Por outro lado, os gêneros secundários estão relacionados a uma esfera da comunicação cultural mais complexa e elaborada mediados geralmente pela escrita. Correspondem mais frequentemente (mas não unicamente) ao uso na área jornalística, jurídica, científica e artística, manifestando-se textualmente, por exemplo, em discursos parlamentares, artigos científicos, ensaios filosóficos e autobiográficos, poesia lírica e sermão (FIORIN, 2006, p. 70).

  Segundo Bakhtin, é preciso atentar para as particularidades desses gêneros, pois delas advém a natureza dos enunciados. Contudo, vale ressaltar que essa “classificação” para o autor do gênero do discurso não

  é tratada diferenciadamente entre si. Para ele, os gêneros secundários podem absorver os primários, e, durante esse processo de transmutação, aos poucos esses gêneros podem perder antigas particularidades. Em outras palavras, segundo o teórico:

  Os gêneros discursivos secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicísticos, etc.) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico, etc. No processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples) que se formaram nas condições da comunicação discursiva imediata. Esses gêneros primários, que integram os complexos, aí se transformam e adquirem uma caráter especial: perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais (BAKHTIN, 2011, p. 263).

  Nessa perspectiva, entende-se que um texto pode passar de um gênero a outro quando deparado com uma esfera de atividade diferente. É comum os produtores se valer da escrita ou do oral conforme as necessidades e intenções linguísticas. Assim, observa-se como ocorre a escolha por alguns autores de nossa literatura quanto ao tratamento da língua.

  Torna-se relevante ressaltar ainda que, como partes constitutivas da língua, a modalidade oral e a escrita – conceituadas por Bakhtin como gêneros discursivos primários e secundários – devem ser observadas conforme sejam os contextos das práticas comunicativas.

  Para Elias (2011, p. 11), o uso de uma ou outra modalidade deve levar em conta as situações de comunicação em que os sujeitos estão envolvidos assim como o comportamento linguístico por eles utilizados, tornando-os consequentemente competentes comunicativamente ou não.

  Nessa linha de pensamento, as referentes modalidades são duas variedades quanto ao uso linguístico, segundo Marcuschi (2010, p. 43), e portanto não são estanques. O autor adota os termos oralidade e letramento e refere-se a eles como elementos essenciais e complementares para a interação e a manutenção linguística e cultural das práticas sociais. As escolhas linguísticas pelos usuários – com tratamento mais ponderado ou não da língua – têm por base os mais diferentes contextos de produção e, consequentemente, de acordo com o referido autor, “a suposição de que as diferenças entre fala e escrita podem ser frutiferamente vistas e analisadas na perspectiva do uso e não do sistema(grifo do autor).

  Nesse sentido, conforme Marcuschi (2010, p. 43):

  O contínuo dos gêneros textuais distingue e correlaciona os textos de cada modalidade (fala e escrita) quanto às estratégias de formulação que determinam o contínuo das características que produzem as variações das estruturas textuais-discursivas, seleções lexicais, estilo, grau de formalidade etc., que se dão num contínuo de variações, surgindo daí semelhanças e diferenças ao longo de contínuos sobrepostos.

  Logo, considerando as observações deste autor, o oral e o escrito podem aparentemente se diferenciar na estrutura, mas se fundem quanto ao uso, e ambos permitem a construção, sim, de textos coesos e coerentes propondo a expressividade e os sentimentos particulares. Marcuschi ainda discute sobre a impressão que tem acerca da escrita, vendo-a como um fenômeno homogêneo e com variações limitadas. Porém, ao referir a fala também como fenômeno, a vê como aparentemente conturbada, multifacetada.

  Marcuschi (2010) completa as observações ao discutir que a relação entre as duas modalidades não pode ser observada entre dois polos opostos entre si e que a preocupação maior nessa comparação está, na verdade, na correlação em vários planos. Segundo ele, são as situações comunicativas que determinam de onde pode surgir um conjunto de variações ao tratar a língua em vez de vê-las separadamente nas modalidades caracterizadas.

  Segundo Fávero (2009a, p. 75), para que o evento comunicativo efetivamente ocorra distintivamente em cada modalidade, devem-se observar alguns fatores que podem ir desde o contexto de produção aos elementos de variações, sejam históricas, sociais, etárias, sejam de gênero. A autora também advoga que, em se tratando da comparação de um texto a outro, serviria para revelar alguns aspectos específicos a outro e “não propriamente diferenças entre as modalidades (fala e escrita)”.

  Segundo a autora, significa dizer que:

  [...] essas diferenças se acentuam dentro de um continuum tipológico. Na verdade, tanto a fala como a escrita abarcam um continuum que vai do nível mais informal aos mais formal, passando por graus intermediários. Assim, a informalidade consiste em apenas uma das possibilidades de realização não só da fala, como também da escrita (FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2009b, p. 75).

  Tanto um autor como outro asseveram então, a sua maneira, que a língua, observada em suas modalidades, é norteada pelo uso vinculado a determinados contextos de produção e à relação sócio-histórica dos usuários.

  Convergente à autora, Marcuschi (2008) informa que essas modalidades podem sofrer modificações quando determinadas pelas escolhas do uso que se fazem da língua, e nesse aspecto se dirá que a forma (linguística), decorrente do uso entre a interação verbal dos tendo em vista a situacionalidade comunicativa, o referido autor não deixa de admitir nem ignora o fato de que a língua seja um sistema simbólico, sistemático e constituído de um conjunto de símbolos ordenados (MARCUSCHI, 2008, p. 61). Todavia, para o autor, ela deve ser tomada como uma atividade sócio-histórica, cognitiva e sociointerativa, contemplada em contextos comunicativos historicamente situados.

  A essa ideia, este autor não ignora a forma sistemática linguística nem deixa de atentar a sua regularidade. Refere-se a ela como “um sistema de práticas cognitivas abertas, flexíveis, criativas e indeterminadas quanto à informação ou estrutura” (MARCUSCHI, 2008, p. 61).

  A teoria adotada e defendida pode ser caracterizada então, segundo o autor, como textual discursiva na perspectiva sociointerativa, em que o tratamento para com o texto releva elementos organizacionais internos como seu funcionamento do ponto de vista enunciativo. Assim, a interatividade verbal não pode estar desvinculada das práticas sociais e históricas e sensíveis à realidade à qual se situam ou em que atuam.

  Conforme informa o autor: “[...] a língua é um sistema de práticas com o qual os falantes/ouvintes (escritores/leitores) agem e expressam suas intenções com ações adequadas aos objetivos em cada circunstância, mas não construindo tudo como se fosse uma pressão externa pura e simples” (MARCUSCHI, 2008, p. 61).

  Para o autor, tanto uma quanto outra modalidade da língua refletem a organização da sociedade, já que mantêm envolvimento em torno das representações e das formações sociais. Isso não equivale a dizer que constituam um reflexo da realidade, mas sim traços característicos de identidade presente na funcionalidade, em geral, mais comum do universo da fala.

  Duranti (1997 apud MARCUSCHI, 2010, p. 35) faz referência à língua como parte da cultura humana a ponto de ser esta moldada às variações quanto ao uso. Isso equivale a dizer, segundo tal perspectiva, que a cultura é um elemento importante na vida do homem, pois ela dispõe de uma linguagem simbólica articulada superior que a eleva a quaisquer critérios de classificação. Trata-se, então, de uma prática social que permite estabelecer crenças e costumes de uma sociedade e em que os recursos da linguagem se tornam relevantes para a manutenção das tradições culturais de dada comunidade. Isso permite refletir que é na linguagem – e por que não da linguagem – que o conhecimento e a identidade são construídos na interação entre as pessoas.

  Portanto, como produto constitutivo do tratamento da língua, os gêneros primários (chamados por alguns autores como oral) e os gêneros secundários (pertencentes ao universo da escrita), conforme os excertos apresentados, manifestam-se nas mais variadas situações, e dizer que, por meio dos gêneros discursivos, a atividade verbal irá concretizar-se e, consequentemente, propor-se a manutenção e a compreensão ao tratamento da modalidade oral e escrita, transformando-as em uma ferramenta essencial, mediadora para a interação entre os interlocutores. Logo, não se pode falar em interação verbal caso não se faça uso dos gêneros, pois sem a criação deles ou o domínio deles nos enunciados a comunicação estaria comprometida ou nem sequer existiria.

  2.3 AS PECULIARIDADES DA MODALIDADE ORAL Das observações de Bakhtin sobre gêneros primários, em que a interação verbal se efetiva primeiramente por meio do oral, faz-se necessário uma ressalva, pois, ao referir particularidades da modalidade oral (tratada por Marcuschi e outros autores como oralidade), torna-se inevitável não observá-la sem o universo escrito. Para isso, informes distintos se fazem necessários.

  Nessa perspectiva, tendo em vista os acertos teóricos antes apresentados, considera-se relevante entender a relação do tratamento da língua (falada ou escrita) segundo Marcuschi (2008), que sugere a aparente distinção entre (1) oralidade e letramento e (2) fala e escrita, em que uma (1) está interligada com as práticas sociais, enquanto a outra (2) às modalidades de uso da língua.

  Para Marcuschi (2008, p. 25), oralidade é “[...] uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso”.

  A essa teoria se somam as ideias de Ong (1982 apud MARCUSCHI, 2008; e URBANO, 2011), quando se refere à oralidade como um grande meio de expressão comunicativa e responsável pela racionalidade, sendo de extrema necessidade para a identidade social, regional ou grupal. Como padre jesuíta, Ong teve o privilégio de reconhecer as particularidades constitutivas da língua falada no percurso como religioso e não só se utilizou da oratória para evangelizar como também viu nos outros as diferentes maneiras com que as identidades sociais se construíam.

  Padre Ong estabelece uma distinção ao se referir aos estudos da língua falada e escrita em dois níveis de prática da oralidade: a oralidade primária e a secundária. A primeira refere- se às pessoas que convivem em sociedade sem conhecimentos da escrita, ou não familiarizadas com ela, ou intocadas pelo letramento, realidade comum ainda a certos povos indígenas ou isolados – neste caso, costumes artísticos, epopeias, danças, exibições ou crenças são preservados e retransmitidos oralmente às gerações futuras das sociedades tribais ou interioranas.

  Para o padre, as palavras, que são sons, não possuem suporte visual, logo, estão vinculadas diretamente a eventos, acontecimentos e ocorrências do meio. Por ser efêmero, o som, segundo Ong, tem íntima relação com o tempo, diferentemente de outras sensações humanas. Nesse caso, a palavra se torna mais um modo de ação do que de referenciar o pensamento, tática comum às comunidades orais. Por sua vez, além da prática comunicativa, (a palavra se torna responsável em manter viva a memória social; e tal manutenção ocorre, então, por meio do uso oral da língua.

  Ainda nessa primeira perspectiva acerca da oralidade, observam-se algumas características peculiares comuns ao universo sonoro e relevantes para o presente trabalho. Como exemplo, cita-se a espontaneidade discursiva, de certa forma descompromissada ou com tom emocional predominante conforme o grau de intimidade dos usuários linguistas. Do ponto de vista dialogal, a redundância do “já dito” também é aspecto constitutivo desse universo, pois infere a ideia da situação interacional face a face e de suas relações participativas e empáticas de comunicação. O falante adiciona informações e promove alterações à fala de acordo com as reações apresentadas pelos ouvintes.

  Nesse caso, percebe-se que a oralidade primária se faz dependente não só desses elementos, mas daqueles ligados ao universo físico da pessoa, e dele se faz também dependente. Em outras palavras, os gestos, a imitação e a repetição se tornam complementares ao oral para que as intencionalidades dos usuários tenham a efetiva exposição do pensamento e a devida resposta compreendida pelos interlocutores.

  Já a oralidade secundária é aquela que, segundo o padre Ong, de certa forma depende da escrita para existir e funcionar. Refere-se a pessoas com grau de alfabetização baixo ou realmente semialfabetizadas, mas que possuem, mesmo que diminuído, um considerável contato com as práticas do universo escrito. Convivem em sociedades relativamente letradas, pois têm a oportunidade de estar vinculadas a simples particularidades do cotidiano, como, por exemplo, ler uma placa e tomar um ônibus, assistir a TV ou trabalhar como empregados em casa de patrão com formação e linguagem culta. Isso não impede que analfabetos possam participar de atividades comuns diárias, como as citadas, mas são vistas como parcialmente letradas, cujo conhecimento, nessa perspectiva, ocorre naturalmente, longe da sala de aula, não aprofundada ou limitada aos padrões ideais convencionais de letramento.

  Segundo Marcuschi (2010, p. 25), letrado é o indivíduo “que participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele que faz um uso formal da escrita”. O letramento, segundo o autor, é como uma espécie de condição em que determinado grupo se apropria da escrita e o faz com competência e desenvoltura. É tido, segundo Marcuschi (2010, p. 16), como prática social “formalmente ligada ao uso da escrita”.

  Para Urbano (2011, p. 33), ainda há uma terceira classificação denominada oralidade , a qual se refere à competência com que o usuário tem em tratar o oral e o escrito

  letrada

  adaptando-os ao tratamento culto ou ao popular conforme a necessidade comunicativa ou os devidos contextos de produção.

  Diga-se de passagem sobre essa adaptação da fala às necessidades comunicativas que ela requer um domínio linguístico do sujeito para com seu uso, já que se devem observar os fatores externos que podem influenciar na escolha mais ponderada ou descuidada da língua. A respeito, Preti (2005, p. 22) advoga que muitos são os casos de pessoas que se apropriam do “bom uso” do que denomina de variação de linguagem para certos fins argumentativos.

  Para o autor:

  [...] problemas de variação de linguagem provocados por variação de situações interacionais já tinham demonstrado que falantes cultos podem utilizar uma variedade de registros que vai do formal ao coloquial, em função de suas necessidades de comunicação. E, mais: é a possibilidade dessa variação de registros que nos permite identificar o falante culto real e não seu conhecimento maior ou menor das regras da gramática tradicional, conhecimento de que se utilizaria muito mais na língua escrita (PRETI, 2005, p. 22).

  Apesar de não se discutir a questão da variação, ressalta-se que ao falar sobre adaptação da língua às situações comunicativas, segundo Preti (2005), o descuido das escolhas linguísticas pode afetar a forma de como o outro avalia o sujeito quanto à competência comunicativa. Os estereótipos criados ao elevar uma modalidade em detrimento da outra é objeto de investigação por muitos pesquisadores.

  A citação sobre variação é relevante ao referir Tonho Tigreiro, protagonista do conto quando inevitavelmente o leitor se deixa levar pelas armadilhas de JGR em

  Meu tio o Iauaretê, que o descuido cria o estereótipo de um caboclo dotado de pouca inteligência.

  Outra recorrência que corresponde a uma das marcas características do universo da modalidade oral é a repetição de palavras, que se torna constante na fala dos sujeitos como estratégia discursiva no sentido de reforçar uma afirmação, captar a atenção do ouvinte ou

  A respeito, Marcuschi (1996 apud FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2009b, p. 61) delega que:

  A repetição é uma das atividades de formulação mais presentes na oralidade, podendo assumir um variado conjunto de funções. Dentre elas, podemos destacar a sua contribuição para a organização do discurso e a manutenção da coerência textual, bem como a organização tópica e a geração de sequências mais compreensíveis.

  Cabe citar uma observação teórica mais recente mas não diferente na continuidade do assunto sobre repetição de palavras. Trata-se de Piaget (1983), que firma que expressões repetidas ocorrem mais comumente no homem na fase infantil, precisamente na infância, que se estende do nascimento aos 2 primeiros anos de vida, fase denominada por ele de período sensório-motor, cuja repetição balbuciada de uma ou outra palavra recebe, segundo o autor, o nome de ecolalia.

  Para Fávero, Andrade e Aquino (2009b, p. 61), as repetições “enquanto atividade de formulação textual conduzem à produção de segmentos inteiros duas ou mais vezes, motivados por fatores de ordem interacional, cognitiva, textual”.

  Nos textos escritos, a repetição, segundo Marcuschi (2008), é uma tentativa de aproximar da oralidade por meio de particularidades linguísticas comuns da fala. Para Preti (2006, p. 128), a repetição pode desencadear uma espontaneidade que promove certo ritmo que os interlocutores “imprimem à sua participação conversacional”, o que, no caso, faz com que o texto se aproxime mais da realidade de uma interatividade entre dois falantes. Segundo o autor:

  A repetição também contribui para o envolvimento entre os interlocutores numa conversação, que se desenvolve num processo de colaboração entre os interlocutores (um discurso a dois). A ratificação das ideias e até mesmo a discordância são índices de que os falantes estão envolvidos no desenrolar do tema conversacional (PRETI, 2006, p. 128).

  Outro fator característico da modalidade oral é a predominância de frases curtas, inacabadas, divididas frequentemente para auxiliar na memorização das informações compartilhadas na interação dos falantes. Na escrita, percebe-se que esse recurso é pouco utilizado, já que a tendência das frases é ser mais elaboradas e revisadas. Alguns autores – tal como em JGR – se utilizam dessas divisões de frases como estratégia discursiva para dar – dentre outras opções possíveis – a sensação ou a concepção de aproximação ao universo do oral.

  A respeito da divisão das frases, principalmente por pequenas pausas, Preti (2006, p. 133) diz que:

  A divisão nos mostra comportamentos comuns em fala espontânea: frases curtas, períodos simples, justapostos, um “mas” introduzindo uma adversativa, só identificável pelo contexto, uma estrutura double bind, em que um elemento central pode ligar-se à direita ou à esquerda da frase; frases mínimas interrompidas,

abandonadas e retomadas posteriormente pela repetição.

  Característica comum da expressividade oral são os sufixos ora representados pelo grau aumentativo, ora pelos diminutivos. Segundo Preti (2006), o grau diminutivo pode indicar tanto valor de apreciação, elogio, ternura ou humildade, quanto pode conotar ironia, desdém ou irritação. Trata-se de uma particularidade mais comum (mas não única) da modalidade oral, por estar vinculada à espontaneidade, já que na escrita se pode ter com mais frequência por meta a objetividade. Acrescido à palavra, o sufixo tem um tom neológico, por agregar possíveis novos significados.

  Corresponde ao tratamento mais frequente do uso coloquial da língua tanto sejam os sujeitos que usam dessa forma (sufixos) de expressão linguística. Pode-se especular, por exemplo, que tanto o aumentativo quanto o diminutivo são recursos mais comuns do universo juvenil, no sentido de afetividade ou ternura, pois nos adultos o uso desses elementos tende mais frequentemente – salvo exceções – a representar desdém ou ironia.

  Quanto aos níveis de tratamento da língua, por muito tempo houve diferença dicotômica entre oral e escrito, em que a fala era considerada o lugar da recorrência coloquial e a escrita o do culto.

  Segundo Koch (1992, p. 68), a relação entre fala e escrita é mais acentuada por diferenciações do tipo que se observa no Quadro 1, a seguir.

  

Quadro 1 – Diferenciações entre fala e escrita

Fala Escrita

  Não-planejada Planejada

Menor densidade lexical Maior densidade lexical

Pouco elaborada Elaborada Predominância de frases curtas, simples ou coordenadas Completa

  

Fonte: KOCH (1992)

  Quanto a questão da modalidade oral (ou oralidade – termo usado, como vimos, por alguns autores), portanto, vários fatores devem ser observados em sua execução. Se de um lado o oral está vinculado às situações comunicativas, do outro os sujeitos se utilizam de elementos que enriquecem a qualidade comunicativa ao escolher essa modalidade linguística. É o caso, por exemplo, do uso de gestos corporais ou de tonalidades vocais de que se vale o interlocutor na modalidade escrita. Obviamente, há características da escrita que também não seriam possíveis na fala. Nesse intuito, o que se torna notável é que as características peculiares da modalidade oral aqui propriamente discutidas estão intrinsecamente interligadas à interação e aos sujeitos e à escolha linguística apropriada para que a interação ocorra efetivamente. A manutenção do conhecimento humano veiculado pelo uso da língua permite que a sociedade se desenvolva ao longo do tempo.

  2.4 NEOLOGISMO E ONOMATOPEIA Em outros momentos, discutiu-se sobre a língua – conforme as contribuições de Bakhtin

  (dentre outros teóricos aqui apresentados) – e de que ela está em constante evolução, por isso passível de mutação. Enquanto as sociedades evoluem, a língua aos poucos sofre modificações conforme as influências externas às interações verbais vão surgindo. O conhecimento humano se desenvolve, identidades culturais se expandem e novas palavras vão sendo incorporadas à língua, tão grande seja o compartilhamento de novos léxicos pelos sujeitos que os utilizam. A língua se transforma e se renova ao longo dos tempos e nos mais diferentes contextos, independente da modalidade utilizada. Porém, é inegável que a oralidade preceda a escrita, e nessa perspectiva os surgimentos lexicais são mais frequentemente observados por meio dos neologismos. Obviamente, não cabe afirmar que os neologismos correspondem unicamente a um recurso linguístico comum da oralidade, mas, sim, que seu aparecimento é mais comum. Assim como comum é outro recurso linguístico, a onomatopeia, utilizada na modalidade escrita como espécie de artifício que busca aparentemente representar os sons da natureza ou de ocorrências sonoras ao redor.

  Observar as ocorrências desses recursos em uma ou outra modalidade é compreender as particularidades que acentuam (mas não diferem) o oral e o escrito nas mais diversas práticas comunicativas.

  JGR compreende isso e percebe que a língua deve ser tratada desde a particularidade – de como se manifesta para cada falante – à generalização, em que muitos personagens compartilham dado conhecimento mediado pelo idioma regional.

  Para o escritor, as palavras possuem sentidos conforme o contexto de produção; e pela voz das personagens literárias tais sentidos podem tanto ampliar-se como até mesmo diferenciar-se daqueles presentes nos dicionários, tal como ocorre com os neologismos, recurso tão utilizado pelo autor.

  Subentende-se como neologismo, segundo Heckler et al (1984), um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente. Pode ser fruto de um comportamento espontâneo, próprio do ser humano e da linguagem, ou artificial, para fins pejorativos (palavrões, gírias, ironias etc.), ou para fins comunicativos simplesmente. É uma nova palavra criada na língua, e geralmente surge quando o indivíduo quer expressar-se mas não encontra a forma ideal. Como o falante nativo tem total domínio dos processos de formação de palavras, pois tem a língua internalizada, para ele é fácil criar uma nova palavra sem nem mesmo se dar conta de que está utilizando um dos intrincados processos próprios da língua, como a justaposição, a prefixação, a aglutinação, a verbalização, a sufixação, a abreviação, a importação de vocábulos existentes em outra língua ou, ainda, por novo sentido dado a uma palavra já existente.

  Existem várias formas de classificar os neologismos de acordo com diferentes estudiosos da área: neologismo semântico, a palavra já existe, mas ganha nova conotação, novo significado (“bicho” = amigo); neologismo lexical, é criada uma palavra com novo conceito (“internetês” = língua da internet); neologismo sintático, resultado da organização de um novo vocábulo a partir de combinatória de elementos já existentes na língua, como a derivação ou a composição (“papamóvel” = meio de transporte usado pelo papa); neologismo popular, criado pelos próprios falantes, seja nas conversas espontâneas do dia a dia, com o uso frequente de gírias, seja na internet, nas comunicações eletrônicas; neologismo científico ou técnico, responsável pela atribuição de nomes a novos aparelhos e máquinas inventados e pela introdução de novos termos técnicos na linguagem; neologismo literário, criação de novas palavras por escritores, compositores de música e poetas; neologismo estrangeiro ou estrangeirismo, palavras de outro idioma incorporadas à língua (HECKLER et al, 1984).

  O neologismo está presente, também, na representação de sons por meio de ruídos, gritos, canto de animais, sons da natureza, barulho de máquinas etc., e neste caso recebe o nome específico de onomatopeia, que é uma figura de linguagem que reproduz um som por meio de fonema ou de palavra. A onomatopeia é muito comum na linguagem infantil e no uso espontâneo da fala cotidiana.

  A construção onomatopaica tem grande importância estilística e poética, pois nela se concentra a melodia, a harmonia e o ritmo da frase. Por isso, a literatura é tão sensível a esse recurso de linguagem. No uso da onomatopeia como artifício estilístico, o efeito baseia-se não reforçados pela aliteração e ritmo. A onomatopeia é, pois, um dos recursos expressivos mais comuns usados na literatura para produzir um efeito especial: reforçar a capacidade comunicativa de um texto, produzindo mensagens vivas e autônomas. Do ponto de vista semântico, há que distinguir a onomatopeia primária, que consiste na imitação do som pelo som, e a onomatopeia secundária, que evoca não uma experiência acústica, mas um movimento (ULLMANN, 1964)

  Lopes (1961, p. 20) destaca que a onomatopeia é uma “palavra motivada que se mantém em relação com a realidade que exprime – ou por imitação de um som, ou por sugestão de um movimento, ou ainda por simultaneidade dos dois”.

  Nesses acertos, pode-se então verificar que onomatopeia e neologismo são recursos linguísticos em que este se manifesta mais comumente na modalidade oral e tende a incorporar novos léxicos à língua, “aceitos” pela interação de dados sujeitos de uma comunidade linguística; e aquela uma forma de tentar representar – mais comumente na escrita – a realidade de dada situação discursiva. Obviamente, tanto uma como outro são relevantes para o desenvolvimento da língua. Trata-se, pois, de mecanismos mantenedores que se manifestam mais em outra modalidade de uso comunicativo, logo, são complementares para que a efetividade discursiva ocorra naturalmente.

  Conforme averiguado anteriormente, a língua se concretiza nos modos como se a utiliza, seja na forma oral, seja escrita. Ela evolui, modifica-se e transforma-se tanto quanto novos conhecimentos lhe vão sendo incorporados. A modalidade oral tem papel importante nesse processo de manutenção da língua, pois algumas particularidades se fazem presentes na prática discursiva.

  Para a continuidade e a ampliação da discussão sobre uma das modalidades de uso da língua, precisamente a oral, busca-se amparo em um conto de JGR intitulado Meu tio o Iauaretê. A justificativa e a relevância para a escolha do citado texto encontram-se na forma de como o autor busca tratar a língua ao incorporar nela remodelagens lexicais advindas da simplicidade de um falar sertanejo. Por meio dos causos narrados pelo protagonista Tonho Tigreiro, o neologismo e a onomatopeia, recursos linguísticos, se fazem especialmente presentes.

  No decorrer da apresentação do referido conto, uma retomada a alguns acontecimentos históricos de como o tupi se incorporou à língua pátria se fez necessária a fim de que os neologismos utilizados pelo autor e os sentidos por detrás de alguns personagens fossem contextualizados à narrativa. Consequentemente, uma comparação da teoria sobre a modalidade oral aos poucos é feita na recorrência de alguns trechos do texto. A genialidade criativa de JGR facilmente é perceptível ao fazer referência a diversas culturas por meio do falar simples do sertão tão presentes nas frases do protagonista do conto. O referido texto reflete aparentemente a ousada e a maior ruptura do escritor com a língua padrão e com o tradicional tratamento narrativo linear.

  Publicado inicialmente no nº 25 da revista Senhor, em março de 1961, e mais tarde republicado em 1969 no volume póstumo Estas estórias, pela Livraria José Olympio Editora, com organização do próprio autor, o referido conto se inicia com a fala do narrador-personagem Antonho de Eiesús, vulgo “Tonho”.

  Não necessariamente se tratará o texto como um monólogo, pois se nota, conforme a narrativa se estende, a presença de um interlocutor, cujas falas são percebidas e inseridas pelas próprias respostas do narrador, estruturando-se de tal maneira que dá a impressão de que a ação ocorre na frente do leitor: “Assopro o fogo. Nhem? Se essa é minha, nhem? Minha é a rêde” (ROSA, J.G. 1969, p. 126).

  O referido protagonista é um onceiro, mestiço de índia com branco, que fora contratado pelo fazendeiro Nhôs Nhuão Guedes para eliminar as onças que assolavam a região matando os animais da fazenda e amedrontando a população do sertão mineiro:

  Eu cacei onça, demais. Sou muito caçador de onça. Vim pra aqui pra caçar onça, só pra mor de caçar onça. Nhô Nhuão Guede me trouce pra cá. Me pagava. Eu ganhava o couro, ganhava dinheiro por onça que eu matava. [...] Por isso Nhô Nhuão Guede me mandou ficar aqui, mor de desonçar este mundo todo (ROSA, J.G., 1969, p. 128- 9).

  Certa noite, bate-lhe à porta um visitante que se havia perdido dos demais companheiros

  e, ao avistar ao longe a luz vinda da fogueira projetada de dentro da tapera do mameluco, pediu- lhe para ali passar a noite, no intuito de no dia seguinte seguir viagem: “Mecê enxergou este foguinho meu, de longe? É. A’ pois. Mecê entra, cê pode ficar aqui. [...] Hã, pode trazer tudo para dentro. Erê! Mecê desarreia cavalo, eu ajudo. [...] Mecê cipriuara, homem que veio pra mim, visita minha; iá-nhã? Bom. Bonito” (ROSA, J.G., 1969, p. 126-7).

  O bugre tenta entreter o viajante contando-lhe vários causos de quando ainda era caçador enquanto degusta de uma cachaça trazida pelo visitante. Apesar do aparente abuso do anfitrião em querer se servir dos mantimentos do interlocutor ou de querer se empossar de seus pertences, há registros do texto em que momentaneamente Tonho oferece comida ao visitante:

  Eh, mais nhor sim. Eu gosto. Cachaça de primeira. Mecê tem fumo também? É, fumo pra mascar, pra pitar. Mecê tem mais, tem muito? Há-hã. [...] Mecê quer de-comer? Tem carne, tem mandioca. Eh, oh, paçoca. Muita pimenta. Sal, tenho não. Tem mais não. Que cheira bom, bonito é carne (ROSA, J.G., 1969, p. 127).

  O protagonista diz morar sozinho no lar que um dia já foi do preto Tiodoro, mas se revela também um nômade a perambular pelas matas da região e a reconhecer a presença dos animais da floresta, em especial, as onças, pois a região de sua residência era conhecida como

  

Jaguaretama , do tupi, “terras de onça”: “Hã-hã. Isto não é casa... É. Havéra. Acho. Sou

  fazendeiro não, sou morador... Eh, também sou morador não. Eu – toda parte. Tou aqui, quando eu quero eu mudo” (ROSA, J.G., 1969, p. 126).

  Além de reconhecer os odores e os barulhos emitidos pelos diversos bichos tão logo, segundo o personagem, lhe são presentes: “Nhã-hem, é barulho de onça não. Barulho de anta, ensinando filhote a nadar. Muita anta, por aqui” (ROSA, J.G., 1969, p. 144). Frequentes são as provas desse reconhecimento: “Hum, hum. Êsse é barulho de onça não. Urucuéra piou, e um bichinho correu, destabocado. [...] Pode ser veado, caititu, capivara. Como é? Aqui tem é tudo

  Tonho Tigreiro (chamado assim pelo contratante Nhôs Nhuão Guedes) também tem pleno conhecimento sobre plantas medicinais, ensinamento adquirido da mãe, que era índia: “Bebo chá do mato. Raiz de planta. Sei achar, minha mãe me ensinou, eu mesmo conheço. Nunca tou doente” (ROSA, J.G., 1969, p. 127).

  Conforme a conversa se prolongava e notoriamente com certa dificuldade para se expressar – tendo em vista a quantidade de cachaça que estava ingerindo –, aos poucos, Tonho vai confessando certos segredos, que deixam o forasteiro perplexo e atento.

  Depois de informar que não mais caçava, o onceiro dizia que inicialmente se sustentava com o dinheiro que ganhava da venda do couro das onças que juntara na residência, mas depois de se isolar no meio do mato tornara-se “amigo” das onças, tratando-as pelo nome tal como fossem pessoas, a ponto de não mais lhes fazer mal: “[...] Antes, de primeiro, eu gostava de gente. Agora eu gosto é só de onça. Eu aprecêio o bafo delas... Maria-Maria – onça bonita, cangussú, boa-bonita. Ela é nova. Cê olha, olha – ela acaba de comer, tosse, mexe com os bigodes, eh, bigode duro, branco, bigode pra baixo [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 134).

  Esse relato permite inferir a ideia de que aos poucos a história vai ganhando um ar de estranhamento conforme a “conversa” dos dois personagens se desenvolve. Prova disso é quando o locutor confessa friamente ao viajante que havia matado várias pessoas entregando- as às onças, cada qual a sua maneira.

  Entretanto, torna-se perceptível aos ouvidos atentos do interlocutor as sinistras informações que surgiam meio que impostas por Tigreiro, permitindo ao viajante criar a suposição do prenúncio de um iminente perigo que não tardaria. Essa “premunição” ocorre por não somente o fato de o interlocutor se identificar com as onças, como também pelo fato de ele dizer que elas são suas parentes: “Tinham dúvida em mim não, farejam que eu sou parente delas... Eh, onça é meu tio, o jaguaretê todas. Fugiam de mim não, então eu matava...” (ROSA, J.G., 1969, p. 137).

  Conforme a noite avançava, a conversa continuava e as afirmações de parecer muito com os felinos também. O ex-caçador insistentemente relatava com muita precisão ao ouvinte as características dos referidos “parentes”, quando saíam para caçar à noite outros animais, espreitando-os sorrateiramente em cima das árvores ou atrás da vegetação: “[...] onça tava de tocaia: onça vinha, sacaquera, toda noite eu sabia que ela tava rodeando” (ROSA, J.G., 1969, p. 151).

  Com ênfase, não só falava em detalhes dos ataques das onças, valorizando-os com certa frequência no decorrer da narrativa, como também o fazia nas formas de como elas abatiam

  Quando pinima vai saltar pra comer mecê, o rabo dela encurvêia com a ponta pra riba, despois concerta firme. [...] Poder de onça é que não tem pressa: aquilo deita no chão, aproveita o fundo bom de qualquer buraco, aproveita o capim, percura o escondido de detrás de toda árvore [...] Dá um bote, às vez dá dois [...] Aí, vai pular: olha demais de forte, olha pra fazer medo, tem pena de ninguém... [...] arruma as pernas, toma o açôite, e pula pulão! – é bonito... (ROSA, J.G., 1969, p. 132-3).

  Tonho dizia ser tão destemido e intimidador tal como eram seus semelhantes: “Aí, eu aprendi. Eu sei fazer igual onça” (ROSA, J.G., 1969, p. 133). Aparentemente, nota-se que esse detalhamento das ações das citadas caças que se espalham por quase todo o conto ocorre com o intuito de amedrontar o forasteiro, para intimidá- lo tal como faziam os urros das onças que circulavam a moradia ou assemelhando-se aos de suas estórias: “Eh, urrou e mecê não ouviu, não. Urrou cochichado... Mecê tem medo? Tem medo não? Mecê tem medo não, é mesmo, tou vendo. Hum-hum. [...] Quando onça urra, homem estremece todo...” (ROSA, J.G., 1969, p. 150).

  Tonho também aproveitava – entre um relato intimidador e outro – para revelar os fins trágicos que levaram as pessoas que moravam na região, acentuando a ideia de que preferia a solidão a outros moradores nas redondezas de sua morada: “Eh, aqui ninguém não pode morar, gente que não é eu” (ROSA, J.G., 1969, p. 131). Obviamente, esse episódio não é diferente das aparentes intenções anteriores: causar temor ao ouvinte.

  Não se deixando inibir com os dizeres do narrador, o transeunte oferecia-lhe bebida na intenção de incentivá-lo a “prosear” cada vez mais, a fim de que mais detalhes de sua estada na região lhe fossem revelados: “Careço de beber, pra ficar alegre. Careço, pra poder prosear. Se eu não beber muito, então não falo [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 130). À medida que ia ficando embriagado, mais segredos iam sendo revelados.

  Dentre tantos episódios que causam certa perspectiva, o que chama mais a atenção e talvez uma das partes que encaminhe a narrativa para um já aguardado desfecho – já que a leitura do texto permite construir um clímax por meio das pistas que vão sendo deixadas na qualidade enfatizada dos relatos – é o fato de o narrador-personagem permitir o entendimento de que está ligeiramente apaixonado por uma fêmea felina, a qual era tratada por ele de “Maria- Maria”: “Eh, eh, eu fiquei sabendo... Onça que era onça – que ela gostava de mim, fiquei sabendo... Abri os olhos, encarei. Falei baixinho: – ‘Ei, Maria-Maria... Carece de caçar juízo, Maria-Maria...’ Eh, ela rosneou e gostou, tornou a se esfregar em mim, mião-miã” (ROSA, J.G., 1969, p. 131).

  Adentrava a madrugada, e o hóspede insistia em querer arrancar mais informações do hospedeiro para saber de todos os causos dele emitidos. Nesse aspecto, é como se o autor desse

  ao leitor a possibilidade de viajar em suposições durante a leitura. Seriam pequenas migalhas deixadas em um caminho de hipnotismo causado pela leitura, cujo final resultaria no ápice de uma trama que se costurava conforme a narrativa prosseguia. Prova disso são certas indagações que brotam ao mesmo tempo em que a imaginação é desafiada. Questionamentos como: seria o viajante um homem enviado pelo antigo patrão do onceiro para vigiá-lo e estudá-lo já que outros morreram tentando? ou seria o viajante algum parente das vítimas que buscava maiores esclarecimentos ou algum tipo de vingança? Esses questionamentos se encasulam em torno da trama e desabrocham com o clímax em consequência das exaltações da “conversa”. Clímax esse que não tarda a acontecer, pois, conforme a conversa de Tonho se estendia, intencionalmente ele ultrapassa o limite existente da fala, no instante em que quer tocar o visitante: “Ói: deixa eu ver mecê direito, deix’eu pegar um tiquinho em mecê, tiquinho só, encostar minha mão...” (ROSA, J.G., 1969, p. 158).

  Esse gesto só reforça os discursos ameaçadores anteriores expondo o propósito maligno que a conversa assumia. Logo, o visitante não demora em responder à afronta quando as suposições se tornam verdade. A arma que mantivera engatilhada debaixo da mesa desde o momento que notara mudança no estilo da conversa do anfitrião é acionada quando à frente Tonho revela o lado animal e se transforma em onça. O viajante reage à metamorfose dando- lhe tiros com a arma antes de se tornar mais uma vítima do Iauaretê:

  [...] Ói: cê quer me matar, ui? Tira, tira revólver pra lá! Mecê tá doente, mecê tá variando... Veio me prender? Ói: tou pondo mão no chão é por nada, não é à-toa... [...] Ui, ui, mecê é bom, faz isso comigo não, me mata não... Eu Macuncôzo... [...] Hé... Aar-rrâ... Aaâh... Cê me arrhoôu... Remuaci... Rêiucàanacê... Araaaã... Uhm... Ui [...] (ROSA, J.G., 1969, p. 158-9).

  Pode-se perceber que Meu tio o Iauaretê apresenta a clara evidência da costumeira transformação e renovação da língua, notável desde a escolha de JGR pelo título do conto. O termo iauaretê é uma variação do tupi-guarani (iaguar’eté) que significa “onça verdadeira”. O sufixo etê (em tupi eté) é verdadeiro; e iaguara, onça.

  Entretanto, acerca dessa renovação linguística, segundo Campos (1970), não há apenas no presente conto a prevalência única do recurso da função estilística, como também a fabulativa. Segundo o autor, JGR consegue agrupar dois aspectos diferentes no trecho acima citado que corresponde ao término do conto. Campos (1970) delega que o autor se vale da estilística ao usar léxicos que representam o sentimento do protagonista de quase espanto ao ser atingido pelo tiro, já que se sentia confiante de que iria devorar o interlocutor. Também,

  pelo protagonista no sentido de referir-se ao interlocutor como “irmão”, “fraterno” ou de “semelhante a seus costumes”, mas se nota como última mentira do protagonista, já que, ferido, tentava livrar-se da morte buscando identificar-se com o próximo, um humano.

  Ainda em Campos (1970), a colocação de que JGR consegue mesclar recursos estilísticos a fabulativos trata-se, pois, da sobreposição (no último trecho supracitado acima) dos léxicos seguidos das reticências. Entre o uso de um léxico (Macuncôzo) como dialeto, seguido de interjeições (que representam, nesse trecho, o sentimento de espanto e dor, recursos comum da estilística), as reticências foram colocadas no intuito de dar continuidade à estória, que no caso do conto se refere à metamorfose do protagonista em onça. É por meio desses entroncamentos no trecho acima do dialeto citado e das interjeições (ambos vistos como recurso do autor) que se percebem os rastros que aparecem para preparar e anunciar o momento da metamorfose. Também é nessa metamorfose, para Campos (1970, p. 74), que a própria fábula dá a fabulação ou, segundo ele, “à estória o seu ser mesmo”.

  A narrativa rompe os conceitos lineares tradicionais de contar uma estória, pois o enfoque está em torno da linguagem do protagonista, e é nela que a trama se constrói. É a palavra que pode ser colocada em primeiro plano e não a estória, pois ela configura a personagem e seus atos, devolvendo-os à estória. Como já citado, insere-se a ideia da existência de um possível interlocutor nas próprias respostas emitidas pelo onceiro de supostas perguntas feitas ao protagonista. Nas colocações e construções da linguagem presentes no texto, possibilita-se recriar quase totalmente a cena ou a própria figura felina.

  As constantes pausas presentes nas interjeições e as sobreposições de frases intercaladas fazem lembrar o respirar ofegante de um animal, nesse caso, a onça. Os frequentes elementos onomatopaicos, o grunhir do felino e a insistência do narrador-personagem em amedrontar o ouvinte, enfastiando-o com inúmeras conversas e querer fazê-lo dormir, assemelham-se ao gesto de uma onça de querer cansar a presa antes de atacá-la.

  Campos (1970), no ensaio A linguagem do iauaretê, compara JGR ao poeta Irlandês James Joyce ao afirmar que o brasileiro rompe radicalmente com o modo de ver a palavra e procura revolucioná-la libertando-a do léxico tradicional culto. Ao aproximar o autor do conto ao poeta, Campos (1970) enfatiza a ideia de que uma realidade diferente pode ser criada e uma paisagem recriada. Vários são os efeitos possíveis que um texto pode causar, o que, segundo o crítico literário, JGR fazia com maestria ao criar um “palco móvel da realidade” por meio da experimentação da própria linguagem:

  [...] Guimarães Rosa retoma de Joyce aquilo que há de mais joyciano: sua (como disse Sartre) “contestação da linguagem comum”, sua revolução da palavra, e consegue fazer dela um problema novo, autônomo, alimentado em latências e possibilidades peculiares a nossa língua, das quais tira todo um riquíssimo manancial de efeitos

  (CAMPOS, 1970, p. 72).

  (grifo nosso)

  O molde linguístico utilizado por JGR no conto para reapresentar ao público leitor uma nova visão da realidade do sertanejo foi a língua tupi. A esse assunto (o tupi), torna-se relevante um breve comentário, pois não é somente nessa língua que o autor lapidou o texto, como também supostamente se pode ter baseado em uma lenda que provavelmente deve ter ouvido ou nos diversos causos anotados em viagens – ora a serviço como diplomata, ora como pesquisador nos confins de Minas Gerais e Goiás – ou ao ter conhecimento da existência de tal lenda, para inspirar-se a criar Meu tio o Iauaretê.

  Torna-se relevante retomar rapidamente certos episódios da história acerca dos caminhos percorridos pelo tupi e a influência exercida pela chegada do português, para que se possam entender algumas representações históricas presentes no conto que JGR sucintamente utilizou em quase tom de protesto.

  A respeito da citada língua, Segundo Sá (2009), o tupi foi um forte vetor literário desde os tempos coloniais ao período romântico, isso sem falar de que exerceu indiscutível influência, também, sobre o Modernismo dos anos de 1920 e em algumas produções literárias após os anos 1960.

  Segundo a autora, as quarenta línguas do tronco tupi se espalharam desde o norte da Amazônia até o Rio da Prata, e da costa atlântica aos Andes. As grandes distâncias percorridas pelos índios tornavam-nos nômades à procura religiosa do Ivymarãey (“a terra sem males”).

  A citada migração deu origem a duas rotas, uma para o leste e outra para o sul do continente, conhecidas como o “garfo de Brochado”. A do leste, levou-os ao litoral, e a outra, tanto para o interior do continente como também para o litoral. Os grupos nativos do litoral (principalmente os tupinambás) foram os primeiros a “enfrentar” a invasão dos portugueses no início do século XVI. Muitas perdas foram contabilizadas por causa da violência dos colonizadores. Porém, o comportamento destes para com os índios era descrito de forma positiva, sem deixar transparecer, logicamente, a vontade de querer eliminá-los. Prova disso, segundo Sá (2009), seria o próprio “descobridor da América”, o navegante genovês Cristóvão Colombo. Isso porque, acreditando ter chegado ao mundo novo, relata no diário entusiásticos comentários sobre a “generosidade” e a boa-fé indígena, mas o faz assegurando ao rei que, tendo em vista a inocência dos selvagens, seria fácil escravizá-los, pois “com cincuenta

  12 hombres los tendrán todos sojuzgados, y los harán hacer todo lo que quisieren” .

  Por muito tempo, para facilitar a comunicação entre colonizadores e colonizados, uma mescla entre o dialeto tupi com certa influência do português era amplamente usado desde os primeiros anos da colonização até quase o fim do século XIX, apesar da proibição imposta por um édito em 1757 pelo então governador do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do marquês de Pombal.

  Esse dialeto, conhecido como Nheengatu ou língua geral (também chamado tupi moderno), parecia caracterizar os distintos grupos tupis (tupinambás, tupiniquim, tapirapé, tabajara, timbira, entre outros), apesar de haver algumas rivalidades (motivadas pelo domínio de terras ou plantações). Muito além das semelhanças existentes entre os termos linguísticos, curiosamente tais grupos partilhavam coincidentemente temáticas parecidas que envolviam a cosmologia e a religião.

  Muitas foram as literaturas de interesse do folklore indígena desde a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX, porém, para Lúcia Sá (2009), a produção literária que mais se aproxima da vivência e da realidade indígena foi do autor alemão Curt Unkel (1914) intitulada As lendas da criação e destruição do mundo. Apelidado de Nimuendaju, depois de ter sido acolhido pelos apapocuvas-guaranis do interior de São Paulo, Curt Unkel estudou com afinco os costumes e a cultura desse povo. Sua obra reproduz as narrativas da criação da terra e do dilúvio na perspectiva que lhe fora relatada pelo xamã

  , por Guyrapaijú e por Tupãjú.

  Joguyrovyjú

  Segundo Sá (2009), a coletânea de Nimuendaju foi a obra mais importante – senão a primeira – a revelar, na época, a complexa escatologia dos guaranis, a qual se caracterizava pela divisão do espírito humano entre a alma-palavra celestial e a alma-bicho terrena. Além da crença apresentada, a obra do etnólogo alemão traz evidências substanciais sobre o tema das migrações guaranis em busca da “terra sem males”. Alguns autores mais recentes até enfatizam a busca dos guaranis pelo Ñandereko, o estilo de vida guarani, visto pelos indígenas como uma filosofia e necessidade mais importante para a sobrevivência. Obviamente, sem lugar para plantar milho, abóbora, feijão, plantas medicinais, sem florestas para caçar ou de rios para pescar, não teriam como manter o Ñandereko. Logo, ao se sentir ameaçados ou de carecer por necessidades advindas da manutenção do estilo de vida, os guaranis se juntam a outros grupos ou continuam a vasculhar em longas caminhadas lugares que atendam a suas expectativas.

  Assim, pode-se então perceber que no conto Meu tio o Iauaretê JGR consegue aproximar a referida obra da temática tupi em vasculhar por “terras sem males” cujo protagonista, ocasionalmente se sentindo meio indígena, busca valorizar os costumes deixados pela mãe índia.

  Não é somente nesse episódio, ainda há outros que ligam o conto à cultura tupi-guarani, além da citada linguagem e de alguns costumes estilizados. Trata-se da crença indígena, principalmente difundida nas planícies da América do Sul, de que homens se transformam em onças e vagueiam pelas matas e florestas, conforme observa Alfred Métraux (1979 apud SÁ, 2009, p. 161):

  É uma crença comum na região amazônica que feiticeiros vagueiam pela noite transformados em onça a fim de atacar seus inimigos. Não fica claro, no entanto, se é o próprio feiticeiro que se transforma em onça, ou se ele manda a sua alma para incitar onças de verdade a atacar suas vítimas. A crença em homens-onça era particularmente forte entre os antigos abipões. No Paraguai essa superstição é compartilhada igualmente por índios e mestiços.

  A presente observação instiga a especulação de que JGR, sendo coletor de estórias como era, poderia ter-se baseado nessa lenda amazônica, pois, já que também foi diplomata, as viagens eram comuns e consequentemente os contatos com outras culturas. Porém, talvez a mais convincente possibilidade que ativou sua “fabulável” inspiração para a produção de tão criativo conto possa ter vindo da coletânea de Nimuendaju, justamente por apresentar claras semelhanças com a narrativa de Meu tio o Iauaretê:

  Os kaingyns são jaguares; não só na opinião dos guaranis, mas eles próprios se denominam assim e se vangloriam de seu parentesco (literalmente entendido) com aquele animal predador. Quando pintam sua pele amarela com manchas ou listas negras para a luta, entendem que também na aparência se assemelham bastante ao jaguar, e o alarido que fazem no ataque soa quase como o grunhido surdo da onça quando está sobre a presa. Tudo isso não é absolutamente simbólico; levam tão a sério seu parentesco com o jaguar que, naquelas pessoas que eles mesmos denominam de mi-ve

  , “aquele que vê jaguares”, estas ideias degeneram em uma forma peculiar de perturbação mental (MÉTRAUX, 1979 apud SÁ, 2009, p. 162).

  Logo, podem-se perceber claramente algumas elaborações que se aproximam à temática do conto rosiano quando se referem aos costumes indígenas. Um exemplo típico se pode retirar de um trecho do conto em que Tonho Tigreiro se apaixona pela onça Maria-Maria, pois, segundo Sá (2009, p. 163), “é uma variação do nome de

  sua mãe: Mar’Iara-Maria (que combina, por sua vez, o nome cristão Maria e o indígena Iara [ou Uiara], a Mãe das Águas tupi)”.

  No conto, o protagonista não só deixa transparecer a ideia de se apaixonar por uma onça, como também o de se metamorfosear em um felino de mesma espécie. Ao fazê-lo, pode-se entender que o onceiro passa a identificar-se com a cultura indígena da mãe índia, ou, conforme observado por Nimuendaju, sente-se próximo aos costumes ancestrais totêmicos dos kaingangs ou de outros grupos que compartilham das mesmas tradições: “Mas eu sou onça. Jaguaretê tio meu, irmão de minha mãe, tutira... Meus parentes! Meus parentes!” (ROSA, J.G., 1969, p. 145).

  Quando a mãe morre, o protagonista perde os laços com a cultura ancestral. A mãe era uma índia tacunapéua, apesar de que no conto o personagem viveu por algum tempo entre os caraós. Isso faz lembrar mais uma vez dos costumes guaranis anteriormente citados, de que, ao se sentir ameaçados, ou se juntam a outros grupos ou partem sozinhos em viagens à procura de novas terras: “[...] Quando vim pra aqui, vim ficar sozinho. Sozinho é ruim, a gente fica muito judiado [...] Atié! Saudade de minha mãe, que morreu, çacyara. Arãa... Eu nhum – sozinho... Não tinha emparamento nenhum...” (ROSA, J.G., 1969, 133).

  Vale ressaltar que o personagem era mestiço de um branco com uma índia; e, por esse motivo, há indícios no conto que levam a crer na sua não aceitação pelos não índios: “[...] Àquele Pedro Pampolino disse que eu não prestava. Tiaguim falou que eu era mole, mole, membeca. [...] Ninguém não queria me ver, gostavam de mim não, todo o mundo me xingando” (ROSA, J.G., 1969, p. 149).

  Para Darcy Ribeiro (1996 apud SÁ, 2009, p. 163), os caraós (variação de carió ou de carijó, oriundo do termo tupi karai-yo, “descendentes dos anciões”) foram os primeiros índios receptivos à catequese cristã e, por ter medo dos colonos de São Vicente, foram escravizados e em maioria virtualmente extintos nos meados do século XVIII.

  Por ser índios mais adiantados de outros grupos nas questões que envolvem feitiçaria, na manutenção de remédios, em artesanatos ou em construções de casas, ficaram conhecidos pelos portugueses por ser “homens de boa-fé” e pelos semelhantes indígenas (tendo em vista o parentesco com os guaranis) de “traidores”, isso por se ter vendido aos brancos e, assim, trair outros índios, ao ajudar os colonizadores a investir nas terras desconhecidas:

  Nhenhém? Eu cá? Mecê é que tá preguntando. Mas eu sei porque é que tá preguntando. Hum. Ã-hã, por causa que eu tenho cabelo assim, olho miudinho... É. Pai meu, não. Êle era branco, homem índio não. Á pois, minha mãe era, ela muito boa. Caraó, não. Péua, minha mãe, gentio Tacunapéua, muito longe daqui. Caraó, não: caraó muito medroso, quage todos tinham medo de onça. Mãe minha chamava Mar’Iara Maria, bugra. Despois foi que morei com Caraó, morei com eles (ROSA,

  A apresentada traição das tradições indígenas ocasionada pelos caraós não difere totalmente do protagonista do conto rosiano ao negar a identidade indígena em consequência da morte da mãe. Com base na coletânea de Nimuendaju, ao ficar isolado na mata enviado por Nhô Nhuão Guedes à região onde vivia, o personagem de Meu tio o Iauaretê se torna mi-ve. Porém, o estado de mi-ve no referido conto também é visto como uma tentativa de redenção, já que o onceiro havia matado vários felinos e, ao oferecer as vítimas humanas aos citados animais, pôde libertar-se da culpa que carregava em trair sua espécie, tal como os caraós. Ao fazer isso, ou seja, a oferenda das pessoas, Tonho vinga a morte dos próprios ancestrais indígenas, não diferente das vítimas indígenas que os colonizadores europeus fizeram ao atracar nas terras brasileiras. Portanto, as vítimas humanas simbolizam a identidade indígena que o personagem tenta recuperar.

  Totalizam-se sete as vítimas mortas ou que foram entregues às onças por Tonho. Nesse sentido, o número sete também lembra os sete pecados capitais tão recitados pelos cristãos, e ao referir a temática do conto, a ideia de cristianismo se revela presente na imposição catequética dos padres jesuítas que, de certa forma, sufocaram as crendices dos índios pós- colonização, pois, caso não aceitassem um único ser supremo, em vez das figuras totêmicas defendidas pelos ancestrais e passados de geração em geração, na visão católica poderiam “perder a alma”. Essa afirmação de imposição se vê presente na fala de Tonho: “Nhem? Missa, não, de jeito nenhum! Ir pra o céu eu quero. Padre, não, missionário, não, gosto disso não, não quero conversa [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 143).

  Curiosamente, a vítima primeira a ser oferecida aos familiares felinos é um cavalo, visto como um ícone da colonização europeia ao chegar ao continente sul-americano: “[...] No outro dia, cavalo branco meu, que eu trouxe, me deram, cavalo tava estraçalhado meio comido, morto, eu ’manheci todo breado de sangue seco...” (ROSA, J.G., 1969, p. 150).

  A vítima seguinte é Seo Rauremiro e família, que representavam a soberba ao desprezar a raça indígena, elevando-se a uma condição de seres mais “sofisticados” ou “civilizados”:

  Veredeiro seo Rauremiro, bom homem, mas chamava a gente por assovio, feito cachorro. Sou cachorro, sou? Seo Rauremiro falava: – “Entra em quarto da gente não, fica pra lá, tu é bugre...” Seo Rauremiro conversava com preto Tiodoro, proseava. Me dava comida, mas não conversava comigo não (ROSA, J.G., 1969, p. 154).

  Em seguida, outra vítima foi Seo Rioporo, pois que também o depreciava, menosprezando a figura materna de Tonho, logo, ao fazer isso, ofendia sua ancestralidade indígena. Rioporo representava, conforme os pecados capitais, a ira.

  Já o preto Bijibo até que o tratava bem, mas um de seus defeitos, no total de dois – segundo o conto –, era ter medo de tudo (o que faz recordar o temor vivenciado pelos caraós durante o período da colonização). Entretanto, o segundo defeito de Bijibo, que talvez seja de maior intensidade presenciado pelo protagonista do conto, era comer demais sem repartir. Traça-se uma ponte então com a cultura tupi-guarani, pois comer demasiadamente sem dividir é ofensa para a maioria da cultura indígena. Ao defender não somente a tradição herdada da mãe, o onceiro também via em Bijibo uma ameaça para outra tradição, representada nos grupos felinos, pois, pelo fato de comer muito, não sobraria nada para ser repartido com as onças:

  Bijibo era bom, com aquêle medo dôido, êle não me largava em hora nenhuma... A gente caminhamos três dias. Prêto conversava, conversava. Eu gostava dele. [...] Prêto comia. Atié! Atié, que êle comia, comia, só queria era comer, até nunca vi assim, não... Prêto Bijibo cozinhava. Me dava do de-comer dele, eu comia de encher barriga. Mas prêto Bijibo não esbarrava de comer, não. Comia, falava em comida, eu então

ficava vendo êle comer [...] (ROSA, J.G., 1969, p. 151).

  Outra vítima de Tonho foi o preto Tiodoro, personagem enviado à região do onceiro pelo próprio ex-patrão, Nhô Nhuão Guede, com a intenção de tomar a casa de Tonho e expulsá- lo daquela localidade. Essa visão faz recordar as invasões dos colonizadores nas terras que um dia foram o lar dos antigos povos indígenas: “Nhô Nhuão Guede justou, pra ficar no despois, pra matar as onças todas [...] Falou que o rancho era dele, que Nhô Nhuão Guede tinha falado, tinha dado rancho pra prêto Tiodoro, pra toda a vida” (ROSA, J.G., 1969, p. 153).

  Já Guguê, mesmo sendo boa pessoa para o protagonista, era preguiçoso, pois não caçava, não pescava nem se dedicava a nenhuma atividade para a própria sobrevivência. Esse gesto também não é bem visto pela cultura tupi, já que para a própria razão da existência humana o trabalho é primordial: “Aquêle jababora Gugué, homem bom, mas mesmo bom, nunca me xingou, não. Eu queria passear, ele gostava de caminhar não: só ficava deitado, em rêde, no capim, dia inteiro, dia inteiro” (ROSA, J.G., 1969, 155).

  Personagem de destaque é Antunias, já que pode ser observado na característica pior de todas as falhas humanas: a avareza. Na maioria das ramificações indígenas existentes no período do descobrimento e ainda persistentes em algumas tribos, como informado, a partilha é quase que uma obrigação na cultura desses povos. Costume que já existia antes das invasões estrangeiras e ainda resiste aos modernismos e às grandes expansões das cidades e populações.

  Uma única personagem poupada pelos assassinatos foi Maria Quirineia, apesar de cometer o último dos sete pecados capitais: a luxúria. Ela tenta seduzir o protagonista, mesmo sendo casada, fato esse que se pode comparar, ainda que de maneira invertida, à sedução e

  porque não ao abuso dos brancos navegadores para com as índias ao longo dos séculos pós- colonização.

  Ao entregar ou “oferecer” as vítimas aos variados grupos felinos (onça porreteira, onça tatacica, onça papa-gente entre outras), o narrador-personagem do conto tem a oportunidade de recuperar a terra roubada dos ancestrais indígenas assim como a própria dignidade outrora perdida: “Eh, este mundo de gerais é terra minha, eh, isto aqui – tudo meu. Minha mãe haverá de gostar... Quero todo o mundo com medo de mim” (ROSA, J.G., 1969, p. 134).

  Percebe-se que o protagonista é assassinado pelo visitante e interlocutor quando este percebera que, pela última vez, Tonho deixara a humanidade de lado ao se transformar em onça e querer fazer do ouvinte outra vítima. Neste caso, uma das últimas palavras ditas antes de morrer no auge da metamorfose foi o próprio nome dado anos antes ao protagonista: Macuncôzo.

  Segundo Sá (2009, p. 166), tempos antes de ele chegar à região à qual fora mandado para matar as onças que assolavam quem ou o que passasse pelas redondezas, Tonho Tigreiro teve outros nomes. Um deles é Bacuriquirepa, o nome indígena; Beró – variação de peró, nome dado pelos indígenas (precisamente, os tupinambás) para se referir aos portugueses e que, segundo a autora, demonstra a condição de mestiço do protagonista.

  Ao longo dos acertos no conto de JGR, é possível perceber, portanto, que o texto faz referências regulares à cultura tupi por meio de criações linguísticas provenientes da criatividade rosiana. Dos neologismos às onomatopeias, o autor ousou mesclar recursos linguísticos no intuito de representar diferentes costumes e tradições brasileiras. A simplicidade sertaneja se exalta nas construções lexicais do texto enquanto diferentes vozes culturais se faziam presentes por detrás dessas criações. Observar atentamente o conto em plenitude é contemplar a genialidade rosiana quando o autor propõe refletir, por meio da fala aparentemente descuidada do protagonista, as diferentes e duras experiências que determinada população vivencia diariamente.

  Oralidade, onomatopeia e neologismos compõem o substrato da matéria-prima utilizada por JGR para enredar o leitor na conversa franca, afiada e capciosa de vocalização estranha do homem-iauretê Tonho Tigreiro. Diante da dificuldade natural de lidar com as fronteiras entre linguagem, língua e fala, o leitor crítico observa instigado o esforço de transformação em texto da oralidade recorrente na fala do protagonista do conto Meu tio o Iauaretê na recriação linguística rosiana – a imagem da metamorfose do zagaieiro-bugre em onça, via isomorfismo, com a transfiguração no momento em que a linguagem se desarranja e os resíduos sonoros ressoam como rugidos nos estertores iminentes da morte planejada e anunciada no dialeto rosiano.

  Repetições, sufixos aumentativos e diminutivos, frases curtas desorganizadas e sobrepostas; neologismos criados a partir da língua tupi, do idioma português e das raízes africanas; além de onomatopeias aproximando o homem do animal, mesclados e magnificamente orquestrados no texto inovador e revolucionário de apelo social em defesa das classes atavicamente desfavorecidas daquele Brasil estereotipado em meados do século XX, serão discutidos a seguir.

  4.1 ORALIDADE Uma das considerações mais marcantes no conto Meu tio o Iauaretê é a recorrência da oralidade, que se manifesta não na tentativa de representar mecanismos da fala por meio de personagens criados – recurso esse da ideia de oral tão comum em vários momentos da literatura brasileira –, mas, sim, na fala do protagonista Tonho Tigreiro, dando a sensação viva do acontecimento à frente do leitor.

  Vários foram os recursos aparentemente utilizados pelo autor para que se aproximasse o mais fiel possível da oralidade – fala-se em tentativa, já que, conforme Preti (2006, p. 126), a “escrita não pode ser, em momento algum, a representação absoluta e fiel da fala”.

  Todavia, ainda referindo às contribuições do citado autor, mesmo que seja complexa a originalidade da oralidade para a modalidade escrita – tendo em vista os gestos corporais, as trocas de olhares dos interlocutores ou determinadas situações ou emoções cultivadas no

  momento da conversação –, ainda é possível ter a noção, ou outrora dito, a sensação do oral na escrita, tendo em vista alguns mecanismos usados como recursos linguísticos de autoria.

  Segundo ele:

  [...] é possível fazer chegar ao leitor a ilusão de uma realidade oral, desde que tal atitude decorra de hábil processo de elaboração, privilégio do texto literário. O escritor emprega, na escrita, “marcas de oralidade” (grifo do autor), que permitem ao leitor reconhecer no texto uma realidade linguística que se habituou a ouvir ou que, pelo menos, já ouviu alguma vez e que incorporou a seus esquemas de conhecimento (Tannen & Wallat, 1993), frutos de sua experiência como falante (PRETI, 2006, p. 126).

  A presente colaboração teórica vai ao encontro do que se acredita ser a base para a genialidade da “recriação” linguística rosiana, pois, supostamente, JGR traz uma bagagem experimentada em longas viagens pelo sertão mineiro e anotadas em surradas cadernetas de bolso, e no conto Meu tio o Iauaretê ficam claras e quase vivas as marcas do oral.

  JGR possivelmente pode ter tido a experiência de registrar inúmeros dialetos regionais nas várias viagens e adaptá-las à fala do protagonista Tonho Tigreiro, a fim de que a diversidade cultural brasileira se manifestasse no sobrinho do iauaretê.

  Prova de uma das marcas de oralidade (dentre outras) contidas no conto são as constantes repetições de palavras ou expressões do protagonista ao longo do texto, ora para acentuar a fala, ora para expressar algum tipo de emoção: “[...] Maria-Maria roncou, suaçurana foi saindo-saindo” (ROSA, J.G., 1969, p. 138); “[...] Também, eu nesse tempo eu já tava triste, triste [...]”, “[...] Se algum macho vier, eu mato, mato, mato [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 139); “[...] Mas a Pé-de-Panela tinha comido, comido, comido, bebeu sangue da mula, bebeu água [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 146).

  O fato de o protagonista repetir de diversas maneiras certas palavras, segundo Piaget (1983), lembra uma criança que na fase de aprendizagem conversacional, logo, na inocência infantil, remete à ideia da simplicidade do homem sertanejo que tem carência pela aprendizagem ou pelo desenvolvimento adequado quanto à fala ou escrita. Obviamente, essa falta lhe ocorre devido ao fato de viver isoladamente ou por não ver na aquisição de quase um alfabetismo a importância para a plena necessidade e efetividade comunicativa.

  Outrora, como um dos recursos estratégicos de JGR para enriquecer o citado conto, nessa identidade simplória sertaneja antes referida também se enquadra o protagonista que se isola em sua cabana e, por não ter contato com outras pessoas, aos poucos perde a habilidade de falar – em outras palavras, a identidade humana –, a ponto de quase mesclar a própria linguagem com a linguagem de um bicho – tal como observado na metamorfose.

  Outro recurso de oralidade no conto é o uso de sufixos, tanto em grau aumentativo quanto diminutivo. Este último, segundo Preti (2006), pode ter valor afetivo ou depreciativo, dependente da relação existente entre os falantes ou da situação em que for utilizado. Na sentença “Capim mexeu redondo, balançadinho, devagarim, mansim [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 129), o diminutivo revela o aparente grau de humildade que se manifesta na simplicidade sertaneja observável como coloquialismo. Porém, essa face de ingenuidade do protagonista tão logo se percebe que ora se revela também ser astuta, sagaz, que constrói a fala, ora pelo uso do diminutivo como aparência de afetividade – na tentativa de conquistar a confiança do interlocutor –, ora por ocasiões em que o sufixo “inho” tem o sentido de ironizar, de desdenhar: “Mas então agora pode me dar canivete e dinheiro, dinheirinho [...]” ROSA, J.G., 1969, p. 129).

  Quanto à estrutura sintática do conto, encontram-se outros vestígios do manifesto da oralidade. As frases curtas são recorrência comum no texto tão utilizadas pelo protagonista Tonho Tigreiro; e, a respeito, segundo Preti (2006, p. 132), mesmo que sejam acentuadas ou não com ponto de exclamação, tais frases são outra particularidade comum na conversa face a face, pois lembram a não organização mental na construção da frase, em que novas informações são construídas e postas sobre as anteriores mediante a situação conversacional: “Eh, mais, nhor sim. Eu gosto. Cachaça de primeira” (ROSA, J.G., 1969, p. 127).

  Outra consideração acerca da oralidade presente no conto, tendo em vista a estrutura sintática apresentada, é a organização interna em que as frases mínimas compostas por pausas demonstram dada característica da conversação face a face, pois se tem a ideia, segundo Preti (2006), de um interlocutor que interrompe o protagonista, tendo em vista o reconhecimento da mensagem transmitida. A ocorrência dessas interrupções pode ser verificada, dentre muitas outros, no trecho: “Sair de onça, no escurinho da madrugada... Tava urrando calado dentro de em mim... Eu tava com as unhas... Tinha soroca sem dono [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 149). Percebe-se que a pausa, neste caso, apresenta não apenas a omissão de uma informação, completada pelo auxílio de gestos ou outros recursos na presença dos interlocutores, como também indica espontaneidade conversacional, tal como informado anteriormente.

  Portanto, ao observar as diferentes recorrências em Meu tio o Iauaretê sobre algumas particularidades da modalidade oral, pode-se, pois, perceber que JGR trouxe nas falas do protagonista a representatividade do falar sertanejo. Na espontaneidade tão marcada pelo tom coloquial e simples de se expressar de Tonho Tigreiro, o autor proporcionou uma reflexão de que outras formas simples de se expressar se tornam presentes por detrás da fala do protagonista. Assim, percebe-se que a língua está em constante evolução; e pela modalidade

  proporções de crescimento. A cultura e as tradições regionais são repassadas às futuras gerações veiculadas – segundo constatadas no conto – por meio da oralidade.

  4.2 NEOLOGISMOS Os neologismos – conforme discutido anteriormente – são mecanismos recorrentes da oralidade que permitem a manutenção da língua em constante processo evolutivo. Mas, no imaginário criativo de JGR, diversas culturas, historicidade e regionalismo se transfiguram espelhadas pelas “novas” palavras do vocabulário do autor mineiro.

  No conto Meu tio o Iauaretê, a riqueza de significados oriundos principalmente da língua tupi e do português – isso sem falar das explorações da cultura e dialetos regionais do Brasil e uma ou outra expressão com raízes africanas – é fabulosa.

  Vale ressaltar que JGR como que brinca com as palavras, transformando-as tal qual uma combinação de roupas das quais se apropria para determinados fins. Assim o fez com o tupi, com o qual muito se familiarizara, bem como com tantas outras línguas do extenso e mágico vocabulário.

  Para ter ideia de tal magia construtivista do renomado autor, empresta-se do conto como exemplo inicial a palavra Macuncôzo: “[...] Eu Macuncôzo... Faz isso não, faz não... [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 159). Buscando deter o interlocutor para que não lhe desse um tiro – apesar do relato de ter matado vários negros (Tiodoro e Bijibo) –, o protagonista tenta identificar-se com a raça africana na tentativa de compadecer o atirador.

  Segundo Campos (1970, p. 75), o próprio JGR lhe escreveu uma carta explicando o termo Macuncôzo, que a priori faz referência ao lugar (Sítio Macuncôzo), mas, em continuidade explicativa dada nessa carta, o escritor mineiro informa:

  O Macuncôzo é uma nota africana, respingada ali no fim. Uma contranota como tentativa de identificação (conscientemente, por ingênua, primitiva astúcia? Inconscientemente, por culminação de um sentimento de remorso?) com os pretos assassinados; fingindo não ser índio (onça) ou lutando para não ser onça (índio), numa contradição, perpassante apenas, na dersordem, dele final, o sobrinho-do-iauaretê emite aquele apelo negro, nigrífico, pseudonigrificante, solto, só, perdido na correnteza de estertor de suas últimas exclamações (ROSA apud CAMPOS, 1970, p. 75).

  A suposta ideia de significação do termo anterior parece confirmar-se nas palavras seguintes ditas pelo protagonista pouco antes de ser morto, pronunciadas entre pausas e grunhidos: Remuaci e Rêiucàanacê (ROSA, J.G., 1969, p. 159).

  Com origem tupi, a palavra Remuaci, segundo Masucci (1978, p. 36), é formada da junção do prefixo subordinativo tupi (“depois de”) mais a sílaba mu (“parente, raça, amigo, aliado”) e o sufixo aci, que é a abreviação de Moacyr (“sentido, doente”). Logo, ao referir o termo criado com elementos do tupi, JGR dá o sentido grosso modo de uma lamentação do protagonista ao interlocutor em querer saber por qual razão ele o está matando depois de o visitante ter sido acolhido. Novamente uma apelação para o emocional do viajante.

  Já Rêiucàanacê, segundo Boudin (1978, p. 225), é formada pelo prefixo tupi (“apesar de” também traduzido como “amigo”), yucá com variação tupi de yuká (“matar”) e o sufixo tupi anacê (“parente”). Nesse instante do conto (ROSA, J.G., 1969, p. 159), a expressão remontada por JGR reforça a palavra analisada anterior, referindo-se novamente ao protagonista quando tenta emocionar o agressor no sentido de poupá-lo, informando-lhe que o tinha mais do que como amigo, a ponto de vê-lo como parente.

  No trecho “Marido falava bobagem, em noite de lua incerta êle gritava bobagem, gritava, nheengava...” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), segundo Ferreira (2007 [1928], p. 98), tem- se o termo nheenga, variação de Nhemgatu (a língua do tupi), que significa “falar”. No trecho, JGR acrescenta ao termo tupi o sufixo do português ava (desinência verbal), a ponto de conjugar a palavra em português tal como se ela fosse um verbo qualquer, num procedimento claro de neologismo. No sentido adaptado nesse trecho, entende-se como “falar”, ou, segundo o autor, nheengar .

  Já em “[...] ela então esbraveja, mopoama, mopoca, peteca, mata cachorro de todo lado [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 132), a palavra peteca, segundo Tibiriçá (1984, p. 138), é um termo do tupi que significa “bater com a palma da mão” e mopoca, também do tupi, significa disparar.

  Porém, há mais uma vez, mais do que uma aglutinação, pois não consta na maioria dos dicionários pesquisados a palavra mopoama, mas de fácil dedução, já que JGR usou o termo tupi mopoca, omitindo o sufixo ca e somando à palavra outra também de origem tupi, ama, que significa, segundo Tibiriçá (1984, p. 56), “ficar ou estar de pé”. Assim, pode-se entender que o uso de tal palavra nesse contexto lembra o gesto da onça ao dar saltos sobre a presa, caindo quase em pé enquanto desfere patadas, semelhante ao bater com a palma da mão aberta.

  Em continuidade ao fato de como era relatado o ataque da onça em várias partes do conto, o narrador esclarece que o informado felino “[...] pula de lado, muda o repulo no ar. Pula em-cruz. É bom mecê aprender. É um pulo e um despulo” (ROSA, J.G., 1969, p. 132). Nota-se claramente no uso da palavra “repulo” o prefixo português re, que dá ideia de repetição ou retomada; somado ao substantivo “pulo”, também do português e que dá origem ao substantivo, segundo o texto, “repulo”, o que faz lembrar do gesto da onça de retroceder a ponto de melhorar a investida sobre a caça.

  Não diferente ocorre com a palavra “despulo”, no mesmo trecho, cujo prefixo português “des”, somado também ao substantivo português “pulo”, pode significar ato negativo, ou, no trecho citado, de não cumprimento do suposto investimento felino.

  Outro parágrafo em que o autor usa o prefixo português “re” ocorre em “Dormindo e redormindo, com a cara na mão, com o nariz do focinho encostado numa mão...” (ROSA, J.G., 1969, p. 138). Neste caso, pode-se supor que o autor se utilizou desse neologismo para enfatizar a simplicidade do narrador com a marca de coloquialismo. Quanto ao sentido dado ao contexto, pode-se avaliar que se trata do fato de a onça dormir em poucos sonos, ou seja, pequenos cochilos, que leva a crer que está repondo as energias, mas atenta a qualquer eventualidade.

  No trecho “Se é coelho, bichinho pequeno, ela comeu até às juntas: engolindo tudo, mucunando, que mal deixou os ossos” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), tem-se na palavra o acréscimo de um sufixo português, precisamente um gerúndio, o qual é somado

  mucunando

  possivelmente à palavra tupi mucura (mu’kura), que, segundo Ferreira (2007 [1928], p. 94), significa “mamífero marsupial da família dos dedelfídeos”, ou seja, algo semelhante ao gambá. No contexto, o uso de mucunando por JGR refere-se ao fato de a onça mastigar um bicho pequeno, já que o gerúndio usado na formação da palavra dá ideia de uma ação em continuidade, no caso, a mastigação.

  Outro uso de acréscimo de sufixo do gerúndio é percebido no excerto “Vi aqueles olhos bonitos, olho amarelo, com as pintinhas pretas bubuiando bom [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 137), na palavra bubuiando, em cuja formação está a expressão bubuia (be’bui), do tupi, que significa, segundo Ferreira (2007 [1928], p. 30), “leve” ou “capaz de boiar”; mais o gerúndio português, como sufixo, dando novamente a ideia de um ato instantâneo. Logo, neste trecho, refere-se ao fato de a onça “espionar” ou “vigiar” à espreita de uma possível presa.

  Referindo-se ainda à onça, quando o narrador conta que “Dentro das orelhas, é branquinho, algodão espuxado [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 139), nota-se uma elaboração típica do escritor mineiro em que supostamente, dado o contexto, se utilizou para a criação de “espuxado” as duas primeiras sílabas da palavra portuguesa “espuma”, para se referir à maciez da pele felina, somada às sílabas finais da palavra portuguesa “espichado”, para se referir ao fato de as orelhas da onça estar esticadas, ouvindo cada movimento ao redor; ou, para manter a grafia da palavra no conto, reutiliza talvez outra expressão: “puxado”, neste caso, para manter a continuidade da ideia de “orelhas esticadas”.

  O termo tupi canguçu (akãgu’su) em “Cangussú braba é a Tibitaba – onça com sobrancelhas [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 141), segundo Ferreira (2007 [1928], p. 37), significa “onça pintada de cabeça grande”. Contudo, em “[..] aqui mesmo pertinho, tem a onça Mopoca, cangussú fêmeo” (ROSA, J.G., 1969, p. 140), a palavra fêmeo, termo em português designado para identificar o sexo feminino, foi usado com o sufixo “o”, indicativo de masculino. Nesse caso, pode-se supor que a criação do autor é indicativo, no texto, do fato de a onça ser tão brava a tal ponto que suas atitudes e forças são mais comuns no sexo masculino, assim, incomum para a espécie.

  Outro termo que merece destaque é “barulhando” na frase “Iquente! Ói cavalo seu barulhando com medo” (ROSA, J.G., 1969, p. 145). Nela, JGR utilizou-se do substantivo em português “barulho” mais o acréscimo de sufixo do gerúndio também em português para criar o verbo “barulhar”. Aí, dá o sentido de que o cavalo está com medo e demonstra isso provocando barulhos estranhos enquanto se movimenta.

  A recorrência do gerúndio tão presente no decorrer do conto Meu tio o Iauaretê ainda vai prolongar-se com certa frequência como um recurso utilizado por JGR na construção de neologismos. Como exemplo, pode-se encontrar no trecho “Quando tem um preto numa comitiva, onça vem acompanhando, seguindo escondida, por escondidos, atrás, atrás, atrás, ropitando, tendo olho nele” (ROSA, J.G., 1969, p. 151) o termo “ropitando”, que, segundo Tibiriçá (1984, p. 168), vem do tupi ropytá e significa “ficar com” ou “deter”, é acrescido de gerúndio português, como sufixo, dando novo significado ao uso. Contextualizado, o elemento citado tem o sentido de “vigiando” ou “analisando” a futura presa.

  Não distante do trecho anterior, encontra-se a terminologia “beiradeando” com junções de palavras do português: “Foi outro prêto, prêto Bijibo, a gente vinha beiradeando o rio Urucúia, despois o Riacho Morto [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 151). Nesse enfoque, tal palavra refere-se à soma de “beira de” e (novamente) ao gerúndio “ando”, para formar “beiradeando”, tendo, pois, como sentido, andar à beira do rio ou na beirada (margem).

  Em continuidade ao tão explorado gerúndio da língua portuguesa, tem-se a expressão “munhamunhando” presente no trecho “Tou rindo de mecê não. Tou munhamunhando sozinho pra mim [...]” (ROSA, J.G., 1969, p. 128). Segundo Boundin (1978, p. 124), é formado pela junção do termo tupi munhã (variação de mu-hê’ê), que significa “dizer ou manifestar bobagens”. A duplicação tupi presente na palavra representa a pluralidade, logo, tem-se o sentido de reforçar a ideia de dizer algo repetidamente. Como sufixo, a palavra recebe o gerúndio do português dando-lhe uma possibilidade de sentido, que no caso seria “falando ou pensando bobagens” ou, seguindo a temática de neologismo proposta pelo autor, dir-se-ia que se trata também de “bobageando”.

  No segmento “Lua tá vesprando, mais logo sobe” (ROSA, J.G., 1969, p. 128), a construção “vesprando” foi dada com a soma do substantivo português “véspera” ao verbo também em português “esperar” ou “aguardar” acrescido do gerúndio “ando” como sufixo. Assim, tem-se o sentido posto na frase de que a lua estava prestes a surgir.

  Na sentença “Prêto tinha medo, sabia que onça tava de tocaia: onça vinha, sacaquera, tôda noite eu sabia que ela tava rodeando, de uauaca, perto do foguinho do arranchamento...” (ROSA, J.G., 1969, p. 151), uma palavra merece destaque, precisamente “sacaquera”. Ela é formada, segundo Tibiriçá (1984, p. 168), pelo prefixo tupi sá, que significa “olho (em composição)”, mais o substantivo tupi caquera (kaa’kera), que segundo Ferreira (2007 [1928], p. 38) significa “arbusto da família das cesalpináceas, ‘planta’ que dorme”. Ao formar a palavra “sacaquera”, JGR deu-lhe o sentido situado no contexto de uma onça que vigiava as vítimas escondida detrás das folhagens das plantas de folhas largas.

  No decorrer do trecho “[...] caçador rico, jaguariara, vêm todo ano, mês de agosto, pra caçar onça também” (ROSA, J.G., 1969, p. 131), encontra-se o léxico jaguariara, que é formado pela junção de dois elementos do tupi: ya’wara (“onça”) e yara (“senhor ou dono”). Logo, tem-se o sentido dado à nova palavra de “dominador de onças” ou, conforme apresentado no contexto do conto, “caçador de onça”.

  Já no trecho “Estremece de diante pra trás, arruma as pernas, toma o açôite, e pula pulão!

  • – é bonito...” (ROSA, J.G., 1969, p. 133), no “pulão” aqui presente, ao colocar o sufixo aumentativo “ão”, JGR agrupa dois léxicos repetidos quanto à grafia, mas não ao significado, pois o termo “pula” deriva do verbo “pular”, enquanto “pulão” deriva do substantivo “pulo” acrescido do sufixo aumentativo “ão”.

  Enfim, essas são algumas das criações de JGR que permitem ter uma ideia da facilidade com que o autor “brincava” com a língua, em que palavras eram reformuladas a ponto de adquirir não nova semântica, mas um realce, uma ênfase na raiz formativa.

  As representações de espaço, ambientes e seres presentes no conto tornam-se vivas na mente dos apreciadores da referida obra graças às infinitas ilusões criadas a partir da linguagem utilizada.

  Logo, JGR, ao dar à luz palavras que encantavam pela simples forma como foram emolduradas, traz um ar à imaginação a tal ponto em que a ficção se confunde com a realidade. É o fabular rosiano que se espelha na fundição de léxicos oriundos do tupinismo, de vários

  4.3 ONOMATOPEIAS Como fruto representativo da emoção humana, as onomatopeias presentes no conto ganham destaque maior do que aquele constatado pelas definições gramaticas que justificam o surgimento desse recurso linguístico.

  Isso é melhor compreendido ao verificar no conto Meu tio o Iauaretê que a relação entre homem e animal fica mais próxima tendo em vista a linguagem utilizada pelo protagonista. Sua fala denuncia clara proximidade com o agir e o grunhir das onças. Por meio da própria linguagem, o conto se manifesta ao leitor, que tem a oportunidade de preencher as lacunas já normalmente completadas em um conto linear qualquer, mas não neste. A captação do ambiente como também dos moradores é promovida conforme as palavras se entrelaçam numa rede de significações sem que necessariamente se descaracterizem.

  A esfera da realidade aos poucos é construída por tupinismos que também logo se vão perdendo até dar lugar aos grunhidos do animal totêmico. Assim, as onomatopeias espalhadas ao longo do texto e mescladas ora com termos surgidos da língua tupi, ora do português, permitem observar a sequência que se constrói lentamente, direcionando à metamorfose do narrador.

  A primeira observação onomatopaica é “n’t, n’t” presente em “Camarada ruim, n’t, n’t! Nhor não” (ROSA, J.G., 1969, p. 127). Trata-se de um quase resmungo onomatopaico que lembra o mastigar da onça ou a degustação próxima pela futura vítima. Há uma pequena variação dessa expressão no trecho “Se deixar, eu bebo, até no escorropicho. N’t, m’p” (ROSA, J.G., 1969, p. 136), logo, pode-se supor que essa troca da variante n’t por m’p é para reforçar a ideia da mastigação.

  Em seguida, tem-se “Nhenhem” no trecho “Nhenhem? Eu cacei onça, demais. Sou muito caçador de onça” (ROSA, J.G., 1969, p. 128), que lembra a interjeição “Hein?” Um pouco mais à frente, encontra-se “glim-glim” em “Dinheiro bom: glim-glim...” (ROSA, J.G., 1969, p. 129), que lembra o tilintar das moedas batendo umas nas outras. Na mesma página, no trecho “Esturra – urra de engrossar a goela e afundar os vazios...

  ...” JGR (1969, p. 129), esta última expressão retoma a ideia do urrar

  Urrurrú-rrrurrú amedrontador da onça.

  Não tarda e a seguir, no trecho “Nem deixei ela arrebitar as orelhas: por isso, por isso, pum! – porro de fogo...” (ROSA, J.G., 1969, p. 130), surge a palavra pum, uma típica representação sonora do disparo de uma arma.

  Outros trechos são perceptíveis no texto como representantes da “fala” dos animais. Em “Apê! Poranga, suú, suú, jucá-iucá...” (ROSA, J.G., 1969, p. 132), o “suú” é destinado ao rastejar da cobra pelo chão ou nas árvores, “tateando” com a própria língua. Pouco depois, tem- se no trecho “Mecê viu a sobra? Então mecê tá morto... Ah, ah, ah... Ã, ã-ã-ã...” (ROSA, J.G., 1969, p. 132) a representação do rosnado do temida felino.

  Esse informe em relação à onça também se completa com a frase “Mecê acha que eu pareço onça? Mas tem horas em que eu pareço mais. Mecê não viu. Mecê tem aquilo – espelhim, será? Eu queria ver minha cara...Tiss, n’t, n’t...”, cujo trecho em destaque itálico lembra o rosnar da onça, no caso do texto, quase uma interposição sobre a voz humana.

  Na oração “Quando eu parava de falar, ela miava piado – jaguanhenhém...” (ROSA, J.G., 1969, p. 138), observa-se ao mesmo tempo também um neologismo e uma onomatopeia, pois JGR junta o radical jaguar do tupi (“onça”) ao já citado nhém, também do tupi (“falar”).

  Neste caso, jaguanhenhém é a linguagem da onça namoradeira. Um pouco adiante, em “Filhote, jaguaraim, cachorrinho-onço, oncinho”, o autor usa o termo jaguaraim para se referir aos miados dos filhotes das onças.

  No decorrer do conto Meu tio o Iauaretê, é comum o uso de certas interjeições como “Hum”, “Hé”, “Ah-hã” ou “Uhm”, dando a ideia que há uma intercalação da voz humana com a do animal. Já no final do conto, esses elementos sobressaem com o auxílio do uso de aspas (apesar de nas últimas páginas já se notar o aparecimento delas), no intuito de não só identificar as mudanças comportamentais e as alterações na forma de falar, como também se justifica porque elas reforçam a ideia do momento da transformação. Note-se que há no término do conto palavras com origem tupi, o que indica a vinculação com a parte humana (presente na palavra

  Porém, há expressões onomatopaicas como araaã ou arrhoôu, cuja letra “r” Rêiucàanacê). usada repetidamente lembra o urrar da onça, confirmando a metamorfose.

  A interjeição “Ui” presente na penúltima linha vem confirmar a ideia de que o onceiro, já transformado em onça, havia tomado um tiro. Porém, se foi um tiro mortal, é uma suposição que o autor preferiu deixar indefinida, uma vaga ideia, isso porque, supostamente, pode-se imaginar que quem morreu foi o visitante, já que as últimas palavras são “êêêê...êê... ê... ê...”, que também dão a ideia de um desdém por parte do protagonista, que, mesmo ferido, consegue devorar o interlocutor. Outrora, para estimular a imaginação, a diminuição na quantidade existente dos “ês” na última linha também faz lembrar os últimos suspiros de um ser à beira da morte.

  De qualquer forma, percebe-se, pois, por meio da própria construção da linguagem, que

  magia dos acontecimentos emana da forma como as expressões e termos são expostos ao longo do texto. É o “fabular” rosiano que mescla riquezas linguísticas e tradições culturais regionais a um tom de criticidade envolvendo a forma tradicional de ver a língua e, por que não, como um protesto político em que o conhecimento dos povos de dadas regiões não deve ser menosprezado justamente por não possuir posição de destaque ou reconhecimento de qualquer sociedade. Poder-se-ia dizer que seria uma espécie de espelhamento linguístico, pois na voz de um único protagonista, no caso do conto Meu tio o Iauaretê, Tonho Tigreiro, o guarani, um pouco do baiano, do mineiro e do próprio português ecoam como motivos para que Tonho fosse a pura representatividade do herói brasileiro.

CONSIDERAđỏES FINAIS

  Após as propostas discutidas em torno das observações do conto Meu tio o Iauaretê, de JGR, tendo em vista os diálogos entre as referências teóricas apresentadas sobre o conceito de língua e sua manifestação principalmente por meio da oralidade, podem-se apresentar alguns acertos dos recursos linguísticos do autor dadas as particularidades do falar sertanejo.

  Inevitavelmente, em torno do conto citado, pressupõe-se um posicionamento de JGR perante as desigualdades sociais tão observadas nas viagens pelo sertão mineiro e transparecidas na fala do protagonista Tonho Tigreiro. Se na aparente crença de que o autor se teria inspirado nas diversas personalidades encontradas tanto ao longo da vida quanto observadas nas viagens, também se pode propor que a realidade experienciada por JGR se fez refletir supostamente na fala do protagonista. Seria uma espécie de reflexo das discórdias linguísticas e sociais tão defendidas pelo autor no universo literário recorrente de suas obras, ou no caso, precisamente, em Meu tio o Iauaretê.

  As contradições sociais existentes na época – e ainda tão claras no cotidiano – também se refletiam na linguagem emitida pela população desprivilegiada. O tratamento culto era o único aceitável por uma sociedade em expansão, tanto no universo escrito quanto, principalmente, no oral. A discórdia e o preconceito existentes fizeram com que JGR demonstrasse, por meio da enorme criatividade literária, a criticidade para com o destrato das culturas sertanejas. Sustentado pelo reconhecimento das particularidades linguísticas anotadas em cadernos e cadernetas, advindas dos depoimentos e falas das pessoas que ao longo da vida recolhera, JGR fez da fala do personagem, rica em particularidades linguísticas, a principal forma de expressar a própria indignação.

  Mais precisamente, nessa perspectiva, pode-se notoriamente observar tais peculiaridades e desproporções no conto apresentado. O protagonista se vê em uma constante busca da própria identidade, ora por dizer, inicialmente, que era filho de branco com índio, ora por não se identificar mais com o mundo dos homens e passar a se identificar com as parentes, as onças. Pelo histórico de Tonho Tigreiro, contado ao interlocutor, cabe relembrar um trecho em que Tonho fora enviado pelo antigo patrão, Nhô Nhuão Guedes para eliminar as onças presentes na propriedade do fazendeiro. Inicialmente, o protagonista cumpre seu papel, mas logo se vê arrependido; e o patrão então envia o preto Tiodoro para dar um fim ao protagonista e continuar com o trabalho antes contratado pelo patrão.

  Pode-se inferir, dentre possíveis interpretações, o fato de o protagonista ser descartável, pois não era mais importante aos interesses do patrão. Logo, sendo deixado à margem da sociedade por ter sido enviado a um lugar ermo, que não lhe era agradável, para fazer algo que não queria mais fazer.

  Essa suposição também é observável quando, ao passar por índio, o protagonista lembra as invasões portuguesas durante o descobrimento: os colonizadores fizeram-se de homens de boa-fé para a população indígena. Assim, o índio se viu descartável pelos portugueses quando não mais servia para enriquecê-los com as preciosidades exploradas em territórios de domínio da população indígena nem como mão-de-obra barata.

  No conto, a alusão de descartável fica notória pela busca constante de identidade do protagonista entre branco, índio ou onça. Assumir a condição de índio é cultivar e valorizar a cultura da mãe, apropriando-se do tupi como meio de comunicação da terra defendida e o cultivo de alimentos para a própria sobrevivência. Como branco, herança originária por parte de pai, assume os pecados tão recorrentes da condição humana. Ao se metamorfosear em onça, identifica-se com a própria animalidade, a única condição por que não seria rejeitado, pois como homem era inválido, simples, incapaz de exercer os trabalhos impostos pelos superiores; como onça, seria aceito como membro do bando. Porém, o sentimento de arrependimento por no passado ter sido um caçador de felinos não lhe permite assumir totalmente a condição animal.

  No texto, o protagonista deixa transparecer a essência de sua subsistência como o único recurso que ainda lhe resta na condição de homem: a fala. A modalidade oral é o recurso que se faz presente para transfigurar ora indícios de selvageria, ora a humanidade. Possivelmente como um dos recursos do autor para exaltar a condição marginalizada do falar simples e coloquial do sertanejo a patamares antes desvalorizados, promove na fala do protagonista a implícita criticidade.

  Na época, como escritor – e não muito diferente do tempo atual –, JGR percebia que o ser dominante, de maior poder aquisitivo, era detentor único do conhecimento e da palavra, enquanto aos subalternos, simples, cabia a condição de obedecer e de apenas ouvir as ordens impostas. No conto, como um aparente monólogo, o autor permite uma reviravolta nessa condição, ao propor que o protagonista Tonho, um caboclo simples de expressão coloquial, seja detentor da fala – apesar de se comprovar a inserção da fala de um interlocutor em respostas dadas pelo próprio protagonista mediante possíveis questionamentos.

  O escritor mineiro se utiliza da oralidade como meio para exaltar o sertanejo ao reconhecimento universal, para que este possa enfrentar a discriminação social antes imposta

  Nessa perspectiva, recordam-se as propostas de Bakhtin acerca dos gêneros, quando esses são manifestados pela interação comunicativa e pelos aspectos sócio-históricos ao tratamento da linguagem, que podem ser observadas também nas criações de JGR. Considerações que, além de averiguados fatores quanto às questões de desigualdades em torno do social, se referem também a outros, vinculados ao falar simples do sertanejo provenientes do espaço regional do interior mineiro. Essas composições foram importantes para suas obras, pois JGR enfoca a fala como algo situado no sertão de Minas Gerais e a universaliza ao propor um olhar diferente ao tratamento da língua, seja por recursos estilísticos e morfológicos, seja sintáticos.

  É sabido que a oralidade, pelo aspecto sócio-histórico, precede a escrita e, nos primórdios da civilização, o homem se valia dos gêneros orais para a efetivação da comunicação. A escrita, por sua vez, com o desenvolvimento do alfabeto por volta do século

  VII, aos poucos foi adquirindo lugar de destaque e, graças à invenção da imprensa e às grandes navegações, sua valorização e disseminação foi inevitável. Logo, a fala, que um dia foi motivo de admiração pelos antigos oradores gregos, e a escrita, vista como blasfêmia por descaracterizar essa particularidade “artística”, foi dada como desprivilegiada socialmente.

  Não diferentemente, esse tratamento é dado convencionalmente pela sociedade, pois dela ainda se veem preconceitos para com a oralidade. Vale-se dessa observação quando se presenciam nas salas de aula as imposições de professores conservadores ao valorizar unicamente a escrita como a única e “correta” forma de se manifestar socialmente. Não muito distante, outrora a modalidade oral era detentora do coloquialismo, do “erro” e do uso “incorreto” da língua. Apesar de ainda haver realidades educacionais que conceituam o falar “corretamente”, aos poucos a ideia de situação e conhecimento adquirido passa a constituir elementos que complementam o ensino da língua portuguesa.

  Segundo Bagno (2003), o aluno possui uma bagagem linguística adquirida no convívio social, por isso o autor propõe que os professores reconheçam esse conhecimento em sala de aula. Cabe à escola, sim, segundo Bagno, informar que a linguagem culta é vista como maior prestígio, obviamente, tendo em vista a situação comunicativa. Para ele, não se deve adotar o conceito de “certo” ou “errado” quanto ao uso da língua e sim o “apropriado” ou não para determinados momentos comunicativos.

  Não diferente, esse conceito pode ser observado no conto quando apresenta os neologismos, pois é no falar espontâneo, segundo JGR, que o conhecimento humano se vai expandindo; e, logo, a manutenção da língua ocorre naturalmente. Reconhecido, entre outros olhar diferente ao tratamento linguístico, ao observar que na essência composicional a palavra detém significados diferentes do léxico, pois é na interação verbal que a palavra adquire real significado. A língua, segundo JGR, é transmitida a outros tal como são os ensinamentos das salas de aula, mas, para ele, o essencial está na forma como usá-la para tornar-se únicos.

REFERÊNCIAS

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