A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES CELSO LUIZ DE ARAUJO CINTRA A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical São Paulo 2013 CELSO LUIZ DE ARAUJO CINTRA A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Doutor em Música. Área de Concentração: Musicologia. Linha de Pesquisa: História, Estilo Recepção. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Flávia Camargo Toni. São Paulo 2013 Versão Corrigida e Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Catalogação na Publicação Serviço de Biblioteca e Documentação Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Dados fornecidos pelo(a) autor(a) Cintra, Celso Luiz de Araujo A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical / Celso Luiz de Araujo Cintra. -São Paulo: C. Cintra, 2013. 207 p.: il. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Música Escola de Comunicações e Artes / Universidade de São Paulo. Orientadora: Flávia Camargo Toni Bibliografia 1. Alain Daniélou 2. Música Sagrada 3. Filosofia da Música 4. Teoria da Música 5. Cognição Musical I. Toni, Flávia Camargo II. Título. CDD 21.ed. - 780 CINTRA, Celso Luiz de Araujo. A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Doutor em Música. Versão Corrigida. Aprovado em: 10 de abril de 2013 Banca Examinadora Prof.ª Dr.ª Flávia Camargo Toni (Orientadora) Instituição: ECA – USP Julgamento: _________________________________ Assinatura: ______________________ Prof. Dr. Marcos Fernandes Pupo Nogueira Instituição: UNESP Julgamento: _______________________________ Assinatura: ______________________ Prof. Dr. Paulo José de Siqueira Tiné Instituição: UNICAMP Julgamento: _______________________________ Assinatura: ______________________ Prof. Dr Paulo de Tarso Camargo Cambraia Salles Instituição: ECA – USP Julgamento: _______________________________ Assinatura: ______________________ Prof. Dr. Mario Rodrigues Videira Junior Instituição: ECA – USP Julgamento: _______________________________ Assinatura: ______________________ Para Mari (e Luigi) AGRADECIMENTOS À Prof.ª Dr.ª Flávia Toni pela orientação precisa, carinhosa e sempre disponível; À minha esposa Marilaine, por compartilhar comigo os melhores momentos e me confortar nos difíceis, pela paciência, pela serenidade e pelo Luigi; A minha mãe Aldagisa (dona Dida), que me ensinou a amar os estudos; À minha sogra dona Olga, pela paciência e carinho; Aos amigos Eduardo e Larissa, pelas conversas sempre renovadoras; Aos amigos Edilson de Lima e Milton Castelli pela força; Ao Prof. Dr. Paulo Tiné e ao Prof. Dr. Mário Videira pelos comentários e pelas sugestões feitas na qualificação; Ao Prof. Dr. Régis Duprat, que me apoiou no início desta pesquisa; Aos companheiros do Núcleo de Música e Tecnologia – NUMUT e do Grupo Música Aberta da UFU – MAMUT da Universidade Federal de Uberlândia – UFU: André Campos, Carlos Menezes Jr., Cesar Traldi, Daniel Barreiro (e ao ex-tudo-isso Alexandre Zamith); Aos professores e especialmente aos coordenadores do Curso de Música da UFU durante o período de gestação desta tese: Peggy Louise Bruno Storti e Cesar Adriano Traldi, pela compreensão e paciência com o doutorando. Só a beleza musical é a meta do compositor. Eduard Hanslick (HANSLICK, 2011, p. 78) O real propósito da construção musical não é a beleza, mas a inteligibilidade. Arnold Schoenberg (SCHOENBERG, 1991, p. 51n) Mais gratificante do que a busca de formas prévias no moderno é a reflexão sobre os pontos de partida e os desenvolvimentos interrompidos, que foram deixados de lado pela história que até nós conduz. E descobrir no esquecido o que poderia ser útil ao presente Carl Dahlhaus (DAHLHAUS, 2003, p. 140) Kepler foi um dos últimos homens medievais. Se sua visão de ciência tivesse triunfado, é possível que não tivéssemos produzido as maravilhas e os horrores tecnológicos de hoje. Em vez disso, os cientistas seriam místicos contemplativos, andando em companhia de teólogos e músicos. Isso não aconteceu – não sei se feliz ou infelizmente Rubem Alves (ALVES, 2000, p. 81) A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. Boaventura de Souza Santos (SANTOS, 2009, p. 83) Resumo CINTRA, Celso Luiz de Araujo. A musicologia comparada de Alain Daniélou: contribuições para um diálogo musical. 2013. 207 f. Tese (Doutorado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Versão corrigida. A tese que aqui apresentamos tem como objetivo geral estender a contribuição dos estudos de Daniélou para os campos da Filosofia da Música, Teoria Musical e da Cognição Musical, indo além do campo da Etnomusicologia dentro do qual o trabalho de Daniélou é comumente classificado; e seu objetivo específico é compreender sua contribuição para o entendimento da música em nossos dias, tanto no que se refere à sua recepção quanto às possibilidades que abre aos seus aspectos criativos. Sendo coerentes com o sistema de pensamento indiano de Alain Daniélou, e com sua afirmação da incognoscibilidade da realidade última e da falsidade da verdade tomada como dogma, analisamos seus estudos e pesquisas como interpretações ou redescrições possíveis do fenômeno musical, para isso nos baseamos na aproximação feita por Gadamer entre Teoria e Filosofia e na proposta de Rorty de que novas redescrições do objeto contribuem para ampliar o seu conhecimento, além disso concordamos com o que Kuhn aponta a respeito dos paradigmas científicos, e que Vattimo atribui especialmente às artes: a persuasão e convencimento retóricos têm um papel preponderante na consolidação de um paradigma, seja ele artístico ou científico. Entendemos as acepções musicais de Daniélou como próximas à de autores como Titus Burckhardt e sua proposição de Arte Sagrada, bem como de Joscelyn Godwin e a Música Especulativa. Analisam-se também os estudos e pesquisas de Daniélou mais como uma proposição, uma contribuição para o desenvolvimento de uma nova possibilidade criativa no domínio musical, do que uma sistematização de uma música já existente. Como resultado, a aproximação do trabalho de Daniélou permite a possibilidade de delimitação e comparação dos grupos de termos Música Especulativa e Especulação Musical; Música Sagrada e Sacralização da Música; Doutrina do Ethos, Teoria dos Afetos, e Expressão dos Sentimentos; a simbologia envolvida na metafísica musical proposta por Daniélou e a abordagem de sua Escala Universal dos Sons que nos permite delimitar os termos Tônica e Fundamental. Por fim propõe-se uma interpretação teóricofilosófica dirigida à poética da criação musical, considerando possibilidades abertas por sua escala como uma espécie diferente do relativismo do sistema do Temperamento Igual, um perspectivismo, campo fértil para a criação. Palavras-chave: Alain Daniélou, Música Sagrada, Filosofia da Música, Teoria Musical, Cognição Musical. Abstract CINTRA, Celso Luiz de Araujo. The Alain Daniélou’s comparative musicology: contributions to a musical dialogue. 2013. 207 f. Tese (Doutorado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Corrected version. This thesis aims to extend the contribution of Daniélou’s studies for the fields of Philosophy of Music, Music Theory and Musical Cognition, going beyond the field of Ethnomusicology within which his work is commonly classified, and to understand its contribution to the understanding of music today, both with regard to its reception and to the possibilities that its creative aspects opens. Being consistent with the system of Indian thought of Alain Daniélou, and its affirmation of the unknowability of ultimate reality and falsehood of the truth taken as dogma, we analyze their studies and researches as possible redescriptions or interpretations of the musical phenomenon, for this we based on the approach made by Gadamer between Theory and Philosophy and Rorty’s propose that new object redescriptions contribute to broaden your knowledge, beyond this, we agree with Kuhn points about the scientific paradigms, and Vattimo attaches especially to the arts: persuasion and rhetorical conviction have a leading role in the consolidation of a paradigm, be it artistic or scientific. We understand the musical descriptions of Daniélou as close to the authors like Titus Burckhardt and his proposition of Sacred Art as well as Joscelyn Godwin and the Speculative Music. It also analyzes the studies and the surveys of Daniélou more like a proposition, a contribution to the development of a new creative possibility in the field of music, than a systematization of an existing music. As a result, the approach of the Daniélou's work allows the possibility of defining and comparing the groups and terms Speculative Music and Musical Speculation; Sacred Music and Sacralization of Music; Doctrine of Ethos, Theory of Affections, and Expression of Feelings; the symbolism involved in musical metaphysical approach proposed by Daniélou and his Universal Scale of the Sounds allows us to define the terms Tonic and Fundamental or Root. Finally we propose a theoretical-philosophical interpretation addressed to the poetics of musical creation considering the possibilities opened up by its scale as a different kind of relativism of the Equal Temperament System, perspectivism, fertile ground for the creation. Keywords: Alain Daniélou, Sacred Music, Philosophy of Music, Music Theory, Musical Cognition. SUMÁRIO INTRODUÇÃO . 10 PARTE 1 – EXPLICAÇÕES: ENTENDENDO ALAIN DANIÉLOU . 13 1. Por que? . 15 2. O quê? . 23 2.1. O Caminho para o Labirinto . 24 2.1.1. Da Europa à Índia . 25 2.1.2. Da Índia à Europa . 36 2.2. Música e o Poder do Som (Tratado de Musicologia Comparada) . 41 2.2.1. Correspondências metafísicas . 42 2.2.2. O conflito dos sistemas musicais . 45 2.2.3. A medida dos intervalos e dos sons harmônicos . 48 2.2.4. O ciclo de quintas: a teoria musical dos chineses. 51 2.2.5. Relações com uma tônica: a música modal da Índia . 54 2.2.6. Confusão dos sistemas: a música dos gregos . 57 2.2.7. A escala ocidental e o temperamento igual . 60 2.2.8. A escala dos sons . 62 2.3. Semântica Musical. 63 2.3.1. O problema musical . 64 2.3.2. Natureza e limites das percepções sonoras . 69 2.3.3. Bases numéricas das percepções sonoras . 70 2.3.4. Dados psicofisiológicos . 74 2.3.5. O vocabulário musical . 78 2.3.6. Aplicações . 80 2.4. Música e Metafísica em Alain Daniélou . 81 3. Como? . 90 PARTE 2 – IMPLICAÇÕES: ESTENDENDO ALAIN DANIÉLOU . 102 1. Filosofia da Música: Heteronomia. 104 1.1. Música Especulativa x Especulação Musical . 105 1.2. Música sagrada x sacralização da música. 118 1.3. Ethos, afetos e sentimentos. 131 2. Teoria Musical . 142 2.1. Simbolismo: correspondências . 145 2.2. Matemática: a Escala Universal dos Sons e sua relação com a série harmônica . 156 3. Cognição Musical. 170 PARTE 3 – CONCLUSÕES: APREENDENDO ALAIN DANIÉLOU . 179 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 189 10 INTRODUÇÃO A música é, assim, acima de tudo um método de realização interior em um nível onde os diferentes estados de ser não são diferenciados, onde nos tornamos conscientes de que forma e matéria, emoção e intelecto, prazer e alegria são apenas expressões dos mesmos códigos manifestadas em vários níveis, com o resultado que o mesmo padrão musical pode ser expresso por uma equação, um estado emocional, uma experiência espiritual ou uma evocação que, se intensa o bastante, pode tornar-se criação [ ]1 (DANIÉLOU, 2008a, p. 89) Embora tenha escrito sobre vários assuntos, da religião à filosofia, da sociologia à história passando pela arte e literatura, consideramos que a maior contribuição de Daniélou está no campo da música, com textos e livros não só sobre música africana, chinesa, do Laos e sobre a música clássica da Índia, mas também sobre a música clássica ocidental. Trocou correspondências com René Guénon2, editadas sob o título de La corrispondenza fra Alain Daniélou e René Guénon: 1947 – 1950 por Alessandro Grossato em 2002 sobre aspectos filosóficos e religiosos do Hinduísmo Shivaísta e esteve envolvido com o movimento de independência da Índia. Além disso conheceu e conviveu com figuras como Jean Cocteau, Serge Diaghilev, Stravinsky e posteriormente com outros como Paul Valéry, André Gide e Benedetto Croce. Artistas de diversos países como o violinista Yehudi Menuhin e o sitarista Ravi Shankar consideram seu trabalho “decisivo para o reconhecimento da música clássica da Índia, não só como música folclórica como tinha sido classificada até então, mas como uma grande e magistral arte no mesmo nível da música ocidental” (CLOAREC, 2003, p. 209). Por tais motivos, destacando também sua característica polimática, consideramos importante e necessário o estudo de sua obra não só no que tange ao estudo da música não europeia, mas também no muito que tais estudos podem contribuir para o entendimento da própria música ocidental, considerando a limitadíssima publicação de suas obras em terras brasileiras3 ou mesmo em língua portuguesa. Desta maneira, esta tese procura contribuir para 1 Music is thus above all a method of inner realization on a level where the different states of being are not differentiated, where we become aware that form and matter, emotion and intellect, pleasure and joy are but expressions of the same codes manifested on various levels, with the result that the same musical pattern can be expressed by an equation, an emotional state, a spiritual experience, or an evocation, which, if intense enough, can become creation [.] 2 René Guénon (1886-1961) foi conhecido como porta-voz, junto com Frithjof Schuon, da Filosofia Perene, que defendia a unidade transcendente de todas as religiões. 3 O único livro de Daniélou publicado no Brasil não é sobre música, trata-se de Shiva e Dioniso: a religião da natureza e do Eros (DANIÉLOU, 1989). É também sua única obra publicada em português. 11 preencher um pouco desta lacuna em nosso país. Aventuramo-nos no estudo de suas obras a fim de entendê-las não só em seu sentido etnomusicológico, de pesquisa da música de outras culturas, mas também no que elas podem propor, inspirar e lançar luzes que auxilie no entendimento da própria música ocidental, em seu sentido estético-filosófico, teórico e cognitivo, possibilitando o entendimento e interpretação daquilo que na música ocidental muitas vezes é tratado como lenda ou mito, quais sejam, seus efeitos psicológicos e fisiológicos. Buscamos capturar nos escritos de Daniélou as possibilidades de diálogo entre a música do oriente e a música ocidental, principalmente no que diz a elaboração de material didático. Os Encontros contribuíram na articulação com outros povos e troca de experiências para manter as escolas resistentes contra o regimento dos brancos. Nós vamos continuar trabalhando como sempre. (Encontro dos professores., 1990, p.10) 36 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 Nesse processo de organização, os encontros anuais representam momentos decisivos. Além de possibilitar articulações culturais e políticas, trocas de experiências e de conhecimentos, favorecem o surgimento de novas concepções de educação escolar indígena que respeitam os conhecimentos, as tradições e os costumes de cada povo. Concomitantemente à valorização e ao fortalecimento da identidade étnica, procuram introduzir conhecimentos necessários para uma melhor relação com a sociedade não índia. A seguir, traço um panorama geral da trajetória histórica do movimento, em seus já 12 anos de existência, reportando-me a cada encontro realizado. Foram produzidos relatórios de todos os 12 encontros. No 1o Encontro, realizado na cidade de Manaus, em 1988, cada grupo relatou a maneira de educar na sua comunidade, com base na questão “Como se aprende a viver?” Problematizaram-se a existência da escola e os seus objetivos, tendo em vista o fato de que a educação sempre existiu, o que se traduziu na indagação: “Se já existia educação na originalidade, para que funciona a escola atual?” As reflexões também se reportaram ao perfil da escola desejada e aos passos para obtê-la. No 2o Encontro, de 1989, foram avaliadas as realizações dos professores para atingir os objetivos em consonância com os princípios estabelecidos com a finalidade de nortear a construção de uma verdadeira escola indígena. Destacaram-se, também, as ações empreendidas para garantir o reconhecimento e a regulamentação das escolas indígenas em nível oficial, pois, como explicitam os professores de Roraima: “o não reconhecimento das escolas indígenas é uma das dificuldades mais graves, no que diz respeito aos trabalhos clandestinos”. Os esforços para se manterem articulados foram considerados importantes para o fortalecimento do movimento e a conquista de seus ideais escolares. Como problemas comuns, destacaram-se a questão das línguas indígenas e a situação complexa de diversidade lingüística presente no movimento. No 3o Encontro, de 1990, avaliaram-se as contribuições dos encontros anteriores e o papel do movimento no encaminhamento e na resolução dos desafios enfrentados pelos professores na prática diária. Foram também discutidas temáticas como: “Currículos”, “Formação dos professores” e “Articulação do movimento”. O 4o Encontro, de 1991, aprofundou a discussão de problemas relativos à elaboração de currículos, e o estudo da legislação relacionada direta ou indiretamente à educação escolar indígena. Houve também discussão sobre a articulação do movimento dos professores com as diversas organizações indígenas (de cará- Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 37 ter mais amplo, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Coiab –; e outros movimentos específicos, como o de agentes de saúde indígena e de mulheres). Realizou-se ainda um trabalho inédito com base na metodologia dos “temas geradores”, ocasião em que os professores puderam vivenciar um profundo exercício de interculturalidade, confrontando os diversos saberes dos povos indígenas presentes no encontro. Um dos momentos mais significativos foi a discussão e aprovação de uma “Declaração de Princípios” sobre a educação escolar indígena, que se tornou, desde a ocasião, o principal documento do movimento, de caráter articulador e reivindicatório. O 5o Encontro, de 1992, realizado na cidade de Boa Vista, em Roraima, centrou a atenção nos currículos, no regimento, na metodologia do tema gerador no contexto da diversidade cultural, na legislação/política governamental, nas propostas para o novo Estatuto do Índio, no Comitê Assessor do MEC e, ainda, na articulação e na continuidade do processo. Nessa ocasião o Estado do Acre passou a integrar também o movimento. No 6o Encontro, de 1993, realizado pela segunda vez na cidade de Boa Vista, discutiu-se sobre as “Culturas diversificadas”, o que demonstra a vontade de aproveitar os momentos de reunião não só para se conhecer mas também para conhecer a história e a cultura dos demais povos indígenas presentes. Esse tema, por sua vez, gerou a discussão de vários subtemas: organização social e política; origens; rituais; trabalho, economia e produção; educação tradicional. O 7o Encontro, de 1994, focalizou, além da temática “Medicina tradicional”, vários outros assuntos, tais como a avaliação da história do movimento; diagnóstico e avaliação da situação atual dos currículos e regimentos; política educacional oficial (governamental) e interna (indígena). No 8o Encontro, de 1995, discutiram-se as “Escolas indígenas e projetos de futuro” (relação entre escola e economia) com base na “Declaração de princípios”. Elaborou-se também um detalhado diagnóstico da realidade e dos problemas enfrentados pelas escolas indígenas da região, bem como procurou-se identificar as metas a serem alcançadas, dependentes do poder externo (União, estados e municípios), e as que estavam prioritariamente nas mãos do próprio movimento, ou seja, as que dependem da articulação e do trabalho interno. Foi também retomada uma questão fundamental, discutida no 1o Encontro: “Para que escola?” O 9o Encontro, de 1996, realizado pela primeira vez em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, elegeu como tema “Escolas indígenas e projetos de futuro”. Na ocasião foram aprofundadas discussões do encontro anterior, a partir da constatação de que as escolas tanto podem ajudar a construir o futuro, como 38 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 podem destruí-lo. Foi também debatida a problemática da saída dos jovens das aldeias, por falta de alternativas internas. O 10o Encontro, de 1997, realizado em clima de festa, em comemoração aos dez anos, teve como tema “Avaliando o passado é que se constrói o futuro”. Num grande esforço coletivo, os participantes efetuaram profunda avaliação dos avanços alcançados e dos problemas e dificuldades que permanecem no tocante à situação das escolas indígenas nas regiões englobadas pelo movimento. Também se discutiu a continuidade do movimento, com base na temática “Pensando as perspectivas futuras”. No 11o Encontro, de 1998, além de serem abordados inúmeros temas – “A educação indígena e suas alternativas rumo ao ano 2000”; “Amazônia: políticas de ocupação e desenvolvimento”; “Educação indígena na trilha do futuro”; “As organizações indígenas frente aos projetos de ocupação da Amazônia”; “Educação indígena e desafios atuais” –, foi desenvolvido um trabalho sobre a proposta de estruturação da COPIAR, suas ações e maneira de se organizar. Decidiu-se também que essa discussão deveria ser aprofundada nas diferentes regiões, durante o período posterior ao encontro, e retomada no 12o Encontro, de 1999. O 12o Encontro, de 1999, realizado novamente na cidade de Manaus, escolheu como tema “A educação indígena nas trilhas do futuro: o Brasil que a gente quer são outros 500”. Na ocasião, foram analisados a situação da educação escolar nas regiões e os avanços e impasses na construção de escolas indígenas. Foram também relatadas experiências indígenas na gestão da educação, atividade que contou com a contribuição do professor Gersem dos Santos Luciano, do povo Baniwa, na época secretário municipal de educação de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e do professor Bento Macuxi, coordenador da DEI, de Roraima. A opção pela “oficialização”: riscos e desafios de um novo momento A dinâmica dos encontros tem priorizado, ao longo desses 12 anos, o intercâmbio das variadas experiências de como “fazer escolas indígenas”, fortalecendo o movimento como formulador de políticas e princípios próprios para a educação escolar. Também a troca de informações acerca do debate nacional quanto ao direito dos povos indígenas a “escolas diferenciadas”, inclusive prevista na legislação oficial, tem merecido constantes reflexões, como foi o caso da discussão sobre Resolução elaborada pelo Conselho Nacional de Educação, que cria e normatiza a categoria “escolas indígenas”. No final do último encontro, em 1999, decidiu-se, com o objetivo de aprimorar o instrumental de organização do movimento – seu Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 39 poder de articulação e proposição –, transformar a Copiar em Conselho de Professores Indígenas da Amazônia – Copiam. Para tanto, as diversas regiões assumiram tarefas concretas, entre as quais a elaboração de uma proposta de estatuto, discutida no 13o Encontro Anual, em Manaus, em agosto de 2000. Esse encontro teve o formato de Assembléia Geral do Copiam, ocasião em que foi abordado o tema “A educação indígena diferenciada é a trilha do novo milênio”. Com uma pauta predominantemente ligada às de Araçatuba, São Paulo, Brasil, e relação entre elas no período de 1994 a 2004. Ano Cães Habitantes Relação habitante/ cão Relação cão/ 10 habitantes * 1994 1999 2004 26.926 34.332 31.793 159.700 169.303 177.823 * Relação seguida de letras diferentes diferem entre si (p < 0,0001). 5,93 4,93 5,59 1,69 c 2,03 a 1,79 b Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 ESTUDO DESCRITIVO DE UMA ESTRUTURA POPULACIONAL CANINA 929 Figura 1 Porcentagem de cães segundo a faixa etária na área urbana de Araçatuba, São Paulo, Brasil, nos anos de 1994 e 2004. baixa resposta imunológica frente a diversas vacinas contra importantes enfermidades, como a raiva 2,13. O número de eutanásias realizadas pelo CCZ declinou no período pós-raiva (1997 e 1998) e aumentou a partir de 1999 com a introdução da leishmaniose visceral (Figura 2). A taxa de eutanásia em 1994 foi de 8,8% (2.376/26.926); em 1999 foi de 14,9% (5.121/34.332) e em 2004 de 29,4% (9.364/31.793), diferenças estas estatisticamente significantes (p < 0,0001). Considerando-se o período de 11 anos, 49.380 cães foram submetidos à eutanásia no CCZ, sendo que deste total, 41.774 corresponderam ao período entre 1999 e 2004 (dados não apresentados). Ao contrário da raiva, cujas medidas de controle são amplamente eficazes, a enzootia de leishmaniose visceral no município não conta com meios de prevenção tão eficientes 14,15 e a alta taxa de eutanásia observada pode ter sido fator determinante para o decréscimo da população canina. Segundo Lima Júnior 2, elevadas taxas de mortalidade favorecem a renovação populacional o que pode resultar em população mais jovem e com maior tendência à prolificidade. Em Araçatuba, porém, a eliminação anual de um grande número de cães pode ter prejudicado seriamente o crescimento desta população uma vez que, mesmo havendo a reposição dos cães, muitos podem ter sido eliminados antes de atingirem a idade reprodutiva. A distribuição dos animais pela área urbana de Araçatuba revelou uma densidade de cães variável entre os diversos setores. Em 2004, por exemplo, os cães jovens com menos de dois anos de idade representaram 49,6% dos cães da área urbana (Figura 3). Os setores mais periféricos, com população de poder aquisitivo mais baixo, com mais problemas sociais e de saneamento ambiental, além de animais sem acompanhamento médico-veterinário, apresentaram alto percentual de cães menores de dois anos de idade (62% a 68%). Por outro lado, em setores economicamente mais desenvolvidos (região central), a porcentagem de cães com menos de dois anos de idade variou de 32,7% a 37,7%, sugerindo que a expectativa de vida dos cães destes setores é superior à dos periféricos. Os setores com maior porcentagem de animais jovens também apresentaram maior número de casos humanos de leishmaniose visceral e prevalência canina da doença (Centro de Controle de Zoonoses, Secretaria de Saúde e Higiene Pública. Boletins mensais das atividades de controle da leishmaniose visceral. Araçatuba, 1999-2004). Tal resultado é influenciado pela maior freqüência de ações de controle desenvolvidas nesses locais em decorrência dos casos humanos, resultando em maior taxa de eutanásia. Porém, o aumento da população canina mais jovem pode resultar em aumento da susceptibilidade destes cães à leishmaniose visceral, mantendo a doença na área. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 930 Andrade AM et al. Figura 2 Número de cães eutanasiados e existentes no período de 1994 a 2004 na área urbana de Araçatuba, São Paulo, Brasil. Figura 3 Porcentagem de animais de até dois anos de idade nos diferentes setores do Município de Araçatuba, São Paulo, Brasil, em 2004. São Paulo Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 33% a 38% 38% a 46% 46% a 54% 54% a 62% 62% a 68% ESTUDO DESCRITIVO DE UMA ESTRUTURA POPULACIONAL CANINA 931 Conclui-se que a ocorrência de raiva e leishmaniose visceral influenciou na estrutura e composição da população canina da área urbana de Araçatuba, em decorrência das ações de controle aplicadas ao reservatório canino. Resumo Colaboradores No período de 1994 a 2004, a população canina de Araçatuba, São Paulo, Brasil, registrou duas importantes zoonoses: a raiva e a leishmaniose visceral. Analisaram-se as mudanças ocorridas nessa população durante esse período, utilizando resultados de censos caninos e de coletas censitárias de sangue realizados em 1994, 1999 e 2004. A relação cão/10 habitantes variou significativamente, passando de 1,7 em 1994 para 2,0 em 1999 e para 1,8 em 2004. A porcentagem de cães com até um ano de idade passou de 20% para 32,5% e o número de eutanásias realizadas também aumentou após 1999, com a introdução da leishmaniose visceral. O número de cães e a estrutura etária variaram nos diversos setores do município e aqueles com maior porcentagem de animais com até dois anos de idade apresentaram maior ocorrência de casos de leishmaniose visceral humana e canina. Tais resultados decorrem de ações de controle adotadas nos setores com casos humanos de leishmaniose visceral, porém, o aumento da população canina mais jovem pode resultar em aumento da susceptibilidade destes cães à doença, favorecendo a manutenção da mesma na área. A. M. Andrade contribuiu na coleta de dados, análise e interpretação dos resultados e elaboração do manuscrito. S. H. V. Perri colaborou na análise estatística e correção do texto. L. H. Queiroz e C. M. Nunes contribuíram na concepção e planejamento, análise e interpretação dos dados e correção do texto. Agradecimentos À Prefeitura Municipal de Araçatuba, por meio da Secretaria de Saúde e Higiene Pública e do Centro de Controle de Zoonoses, e ao relator (anônimo) pelas correções e sugestões. Raiva; Leishmaniose Visceral; Eutanásia Animal; Cães Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 932 Andrade AM et al. Referências 1. Beran GW, Frith M. Domestic animal rabies control: an overview. Rev Infect Dis 1988; 10(4 Suppl): 672-7. 2. Lima Júnior AD. Caracterização da população canina para o controle da raiva e outros problemas de saúde pública. Ciência Veterinária Tropical 1999; 2:65-78. 3. Wandeler AI, Budde A, Capt S, Kappeler A, Matter H. Dog ecology and dog rabies control. 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Produção de anticorpos e determinação da resistência adquirida à raiva canina [Tese de Doutorado]. São Paulo: Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo; 1999. 14. Costa CHN, Vieira JBF. Mudanças no controle da leishmaniose visceral no Brasil. Rev Soc Bras Med Trop 2001; 34:223-8. 15. Palatinik-de-Souza CB, Santos VR, França-Silva JC, Costa RT, Reis AB, Palatinik M, et al. Impact of canine control on the epidemiology of canine and human visceral leishmaniasis in Brazil. Am J Trop Med Hyg 2001; 65:510-7. Recebido em 19/Set/2007 Versão final reapresentada em 08/Jan/2008 Aprovado em 15/Jan/2008 Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008
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