UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  MICHELLE MARIA LOUZEIRO NAZAR SAFADY ONGs EM SÃO LUÍS/MA: alguns aspectos permeadores de sua atuação no campo educacional

  São Luís

MICHELLE MARIA LOUZEIRO NAZAR SAFADY ONGs EM SÃO LUÍS/MA: alguns aspectos permeadores de sua atuação no campo educacional

  Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em defesa pública.

  Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller São Luís

  2013 SAFADY, Michelle Maria Louzeiro Nazar ONGs em São Luís/MA: alguns aspectos permeadores de sua atuação no campo educacional / Michelle Maria Louzeiro Nazar

  Safady.

  • – 2013. 117 f. Impresso por computador (Fotocópia). Orientador: Paulo Fernandes Keller. Co-orientadora: Joana Aparecida Coutinho. Dissertação (Mestrado)
  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2013.

  1. Organizações Não Governamentais

  • – Atuação – Educação – São Luis – Ma 2. Sociedade Civil 3. Engajamentos I. Título.

  CDU 37:061.2(812.1) MICHELLE MARIA LOUZEIRO NAZAR SAFADY

  

ONGs EM SÃO LUÍS/MA: alguns aspectos permeadores de sua atuação no campo

educacional

  Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em defesa pública.

  Aprovada em: ____ / ____ / _______

BANCA EXAMINADORA

  Profº. Dr. Paulo Fernandes Keller (Orientador) Doutor em Sociologia

  Doutora em Ciências Sociais Universidade Federal do Maranhão

  Profª. Drª Arleth dos Santos Borges Doutora em Ciência Política

  Universidade Federal do Maranhão

  

A Deus e ao meu filho por me darem forças

para chegar até o fim...

AGRADECIMENTOS

  A Deus, pela inspiração primeira; pelo sopro de vida; pela coragem mesmo em meio a tantas desesperanças; pela fortaleza que me concede para continuar sonhando e realizando a cada ocasião.

  Ao meu amado pai Michel Nazar (in memorian) pelo investimento não só em educação, mas em mim como ser humano; pela infinita sabedoria comigo compartilhada; pelo modelo de ser humano que se eternizou em minhas frequentes lembranças e em minha alma.

  A minha mãe Conceição Louzeiro pela dedicação para comigo em quase todas as cenas do roteiro da minha vida; pela simplicidade com que compartilha seus sentimentos; pela amizade que é atuante na minha construção como pessoa.

  Ao meu amado Júlio não só pelo amor

  • – que não comporta definições e barreiras – mas, sobretudo, pela presença que a todo o momento enche mais minha vida de luz e de sentido; coexistência é o que nos define.

  À Gabriela Interlenghi, grande amiga e irmã que escolhi para possuir; por me mostrar o que é de fato ter alguém para se chamar de extensão da consciência e por me ajudar a perceber todos os lados de uma questão.

  À Nina, por ter a maior doçura que um ser vivo pode agregar. E à Paloma por sempre me fazer sorrir. Aos Amigos: Alexandre Fraga, Cíntia Paraíso, Filippo Pitanga, Marcelle Carvalho, Andréa Gonçalves, Sariza Caetano, Cristiana Cerqueira e a todos os colegas de caminhada. À UFRJ, pelo fato de reconhecer meu potencial como socióloga desde o primeiro dia da graduação em Ciências Sociais até me agraciar com o titulo de dignidade acadêmica. Aos professores

  • – e inspirações – Elisa Reis, Yvonne Maggie, Peter Fry, Paulo Baía e Mirian Goldemberg.

  À CAPES, por financiar e acreditar no meu projeto de pesquisa e na minha capacidade de formação profissional. Ao orientador no mestrado, professor Paulo Keller, pelos conselhos e pelo apoio profissional; a toda banca examinadora pelo auxilio na construção e reconstruções do meu estudo.

  Ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFMA, por acreditar no projeto de uma “outsider” em meio a tantos “estabelecidos”. E ao meu amado filho Nicholas que surge como bálsamo na minha existência, assim

  

“Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, soltei os

panos sobre os mastros no ar, soltei os tigres e os leões nos

quintais, mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em

RESUMO

  O chamado Terceiro Setor vem atuando cada vez mais como um dos protagonistas da formulação de políticas públicas no Brasil. No que tange ao mesmo, as Organizações Não Governamentais (ONGs) surgem, há algumas décadas, como pontos de articulação entre a sociedade civil e o governo e como porta-vozes de causas amplamente reconhecidas como problemáticas sociais. Nesses processos de interlocução, muitas vezes, as ONGs elaboram estratégias de intervenção através do nicho de atuação advindo do reconhecimento destas causas como passíveis de soluções. Desta maneira, as ONGs sublinham os seus lugares e os seus pesos no rol de agentes aptos a pensarem e a agirem no processo de tomada de decisões acerca do campo social no qual se inserem. Como as ONGs que têm como um dos seus principais pilares de atuação a questão da educação, na cidade de São Luís, refletem sobre esta causa e como articulam os perfis de seus profissionais com os seus objetivos institucionais são as perguntas norteadoras desta pesquisa acadêmica.

  Palavras-chave: Organizações Não Governamentais, Educação, Sociedade civil, Engajamentos.

ABSTRACT

  The so-called Third Sector has been acting increasingly as a major actor in the formulation of public policies in Brazil. Regarding the same, non-governmental organizations (NGOs) emerge, some decades ago, as points of articulation between civil society and government spokespersons and as widely recognized as causes of social problems. In these processes of dialogue, often NGOs prepare intervention strategies through niche activity arising from the recognition of these causes as amenable to solutions. Thus, NGOs underline their seats and their weights in the list of agents able to think and act in the process of making decisions about the social field in which they operate. As NGOs who have as one of its main pillars of action the issue of education in the city of São Luis, reflect on this question and articulate as their professional profiles with their institutional objectives are the guiding questions of this academic research. Keywords: Non-Governmental Organizations, Education, Civil society, Engagements.

  • Classificação das FASFIL no que concerne à classificação das
  • Comparação fontes de financiamento das associadas à ABONG em 2000, 2003 e 2007 (%) ........................................................................
  • Organizações Não Governamentais com premissas educacionais em São Luís ...............................................................................................
  • Comparações sobre fontes de financiamento das afiliadas à ABONG
  • Crescimento do número de ONGs, em números absolutos, no Brasil entre 1996 e 2005 ................................................................................

  • Comparação faixas de participação das fontes de financiamento no orçamento das organizações (%) .........................................................

  108

  Quadro 17 Dados para realização do perfil do representante da CUFA ................

  107

  Quadro 16 Dados para realização do perfil do representante da Formação ..........

  106

  Quadro 15 Dados para a realização do perfil do representante da LBV ...............

  105

  Quadro 14 Pessoas de 10 anos ou mais de idade por nível de instrução ...............

  104

  referência, por classes de rendimento mensal de todos os trabalhos no Maranhão ........................................................................................

  102

  Quadro 12 Informações Gerais sobre a Central Única das Favelas/CUFA ...........

  99 Quadro 11 Informações Gerais sobre a Formação ................................................ 100

  76 Quadro 10 Informações Gerais sobre a Legião da Boa Vontade/LBV .................

  76 Quadro 09

  73 Quadro 08 Evolução do salário médio nas FASFIL entre 1996 e 2005 ................

  72 Quadro 07 – Sujeitos a quem as ações das ONGs são dirigidas segundo porcentagens ........................................................................................

  37 Quadro 06

  25 Quadro 05

  20 Quadro 04

  19 Quadro 03 – Principais lutas políticas elencadas pelas associadas à ABONG (%)

  18 Quadro 02

  entidades centradas na Educação – Brasil – 2005 ...............................

  

LISTA DE QUADROS

Quadro 01

Quadro 13

  • Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de

  LISTA DE FIGURA Figura 1

Respostas Estratégicas .........................................................................

  52

  

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

  ABDL

  • – Associação Brasileira Para Desenvolvimento de Lideranças ABONG
  • – Associação Brasileira de ONGS ASC>– Associação de Catadores de Material Reciclável do Maranhão CDI
  • – Comitê de Democratização da Informática >– Centro de Defesa Padre Marcos Passerini CEBs
  • – Comunidades Eclesiais de Base CE>– Cadastro Central de Empresas CEPROMAR
  • – Centro Educacional e Profissionalizante do Maranhã>– Comissão de Serviços de Infraestrutura CNPJ
  • – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica CN>– Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento CRAS
  • – Centro de Referência de Assistência Social >– Central Única das Favelas FASFIL
  • – Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos>– Fundação Getúlio Vargas FHC
  • – Fernando Henrique Cardoso G
  • – Gerência de Estudos Setoriais GIFE
  • – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas

  IBGE

  • – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

  IMAZON

  • – Instituto do Homem e do Meio Ambiente na Amazônia

  IPAM

  • – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia

  IPEA

  • – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada LDB
  • – Lei de Diretrizes e Bases da Educação LBV
  • – Legião da Boa Vontade>– Ministério da Educação ODMs
  • – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio >– Organizações Não Governamentais ONU
  • – Organizações das Nações Unida>– Organizações Sociais OSCIPs
  • – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público>– Produto Interno Bruto PPP
  • – Parceria Público – Privada >– Partido da Social Democracia Brasileira PT
  • – Partido dos Trabalhadores UN
  • The United Nations Children's Fund

SUMÁRIO Introdução ...........................................................................................................

  13 O aspecto multidimensional do estudo de ONGs ................................................

  16 ONGs, educação e São Luís: como esta relação estrutura esta pesquisa ............

  21 Procedimentos metodológicos .............................................................................

  23

  1 Capítulo I

  • – As contribuições sociológicas para a elaboração de uma agenda de pesquisa acerca das ONGs ..............................................................................

  29

  1.1 Sociedade civil e Terceiro Setor. Como o estudo do fenômeno social das ONGs perpassa por estes conceitos .....................................................................

  29

  1.2 “Parceria”, “Cooperação” e “Solidariedade”. De que maneira estes termos fazem parte das pesquisas sobre ONGs ...............................................................

  39 1.3 Algumas contribuições da Sociologia das Organizações ....................................

  49

  1.4 Alguns estudos acadêmicos sobre a atuação das ONGs no tocante à educação

  52

  1.5 As ONGs como possíveis resultados do somatório dos trunfos de seus agentes

  58

  2 Capítulo II

  • – Estado, educação e ONGs no Brasil: como esta relação se formatou historicamente ......................................................................................

  66

  2.1 Um breve histórico da inserção das ONGs como interlocutoras da sociedade civil no processo de formulação de políticas públicas ........................................

  66

  2.2 Estado e ONGs: como o fenômeno das parcerias vem formando uma nova dinâmica na elaboração e no financiamento de projetos .....................................

  77 2.3 A educação como temática priorizada pelas ONGs ............................................

  81

  3 Capítulo III 90 – ONGs educacionais em São Luís: três estudos de caso ....

  3.1 A trajetória de criação das entidades pesquisadas ...............................................

  90 3.2 Esboços comparativos sobre as ONGs analisadas ..............................................

  97 3.2.1 A LBV em São Luís e seus pilares na assistência social ....................................

  97

  3.2.2 A Formação e a especialização na militância educativa ..................................... 100

  3.2.3 A CUFA e o vanguardismo do movimento hip-hop ........................................... 102

  3.3 Uma análise do perfil de cada representante das ONGs elencadas nesta pesquisa ............................................................................................................... 105 Conclusão ............................................................................................................ 110 Referências .......................................................................................................... 113

  

ONGs EM SÃO LUÍS/MA: alguns aspectos permeadores de sua atuação no campo

educacional

INTRODUđấO

  As Organizações Não Governamentais (ONGs) vêm sendo abordadas sistematicamente como objetos de estudos acadêmicos, sobretudo, desde os anos 2000 no que concerne à América Latina. O estudo desta temática concernente às ONGs acabou por acompanhar o processo de reconhecimento da institucionalização destas entidades no Brasil (HADDAD, 2002).

  Segundo Haddad (2002), o estudo científico sobre as ONGs teria como lugar hegemônico de produção o chamado mundo anglo-saxão e o autor defende a proposta de que os estudos realizados na América Latina tenham sua própria agenda de pesquisa acerca da temática mencionada e também maneiras peculiares de abordagem conceitual da mesma. Mais de uma década após esta proposta empreendida pelo autor é notável o crescimento de investigações acadêmicas sobre o assunto e a julgar pelo que temos acesso em nível de leituras sobre a temática, muitas outras áreas vêm dialogando com as Ciências Sociais a fim de efetivarem estudos sobre estas organizações.

  Com o processo acima citado, o qual seja o relativo ao aumento do estudo científico

  1

  sobre as organizações (inclusive as ONGs), há um crescente fortalecimento do papel destas entidades no país e tanto as mesmas como os projetos diversos articulados por elas vêm angariando cada vez mais destaque no processo de formulação de políticas públicas no cenário brasileiro. Conforme nos diz Elisa Reis (2003), seria válido levarmos em conta não só as relações do Estado com o mercado, mas também as relações do Estado com a chamada sociedade civil. Isto porque, segundo a referida autora, há um movimento pungente, em escala mundial, o qual cria, reconhece e preconiza as ONGs como agentes sociais relevantes para as formulações e práticas da chamada política pública.

  1

É válido que se ressalte a importância da conceituação da noção de organização, para isso escolhemos dois

conceitos referentes à mesma. O primeiro é definido por Cury (2000):

  “[...] a organização é um sistema

planejado de esforço cooperativo no qual cada participante tem um papel definido a desempenhar e deveres e

tarefas a executar”. (CURY, 2000, p. 116). O segundo é estabelecido por Meireles (2003): “[...] a organização é

um artefato que pode ser abordado como um conjunto articulado de pessoas, métodos e recursos materiais,

projetado para um dado fim e balizado por um conjunto de imperativos determinantes (crenças, valores, culturas A própria gramática evocada frequentemente pelas ONGs e difundida seja através de mecanismos midiáticos, seja por meio de ações em parceria com os setores empresarial e político, também tornam pontuais as pesquisas voltadas para este tipo de organização. Vale destacarmos que esta gramática é uma criação social não só realizada no âmbito das organizações, mas também por outros setores. No

  ções como “inclusão social”, “democracia participativa”, “desenvolvimento sustentável”, “governança” ou tantas outras que poderíamos aqui citar são incorporadas

  • – e também criadas - pela sociedade e (re)traduzidas e reiteradas, muitas vezes, por estas organizações aqui tratadas a fim de respaldarem suas intervenções em causas legitimadas socialmente como desafios institucionais ou como, simplesmente, problemas crônicos da sociedade brasileira.

  Uma destas causas sociais reconhecida amplamente por diversas classes sociais como “prioritária” ou como dimensão estratégica na efetivação de “melhorias sociais” em médio prazo seria a educação. A saúde, a promoção de direitos humanos e o meio ambiente são temáticas extremamente evocadas pela sociedade civil como fontes legítimas de mobilização social seja por meio de manifestações populares, seja através da implementação de ONGs em prol por projetos de melhorias nestas áreas, mas nenhuma causa social ainda é tão fortemente defendida como “essencial” e reconhecida como fonte de aquisição e manutenção da cidadania do que a educação.

  Esse tipo de argumento a favor da educação como forma de garantia da efetiva integração na sociedade e como maneira de o indivíduo garantir liberdade política, por exemplo, é difundido por diversas formas e foi em uma ocasião destas que o assunto nos chamou a atenção para que voltássemos nosso olhar como pesquisadores. Ramalho (2007) nos aponta para o fenômeno concernente à parceria entre as escolas e as ONGs. A matéria

  2

  3

  citada , publicada na revista Nova Escola , elencava fatores que justificavam o poder deste tipo de junção ao mencionar que as ONGs serviam como fontes de inspiração e de estímulo para as escolas, como formas de incremento de qualidade do ensino oferecido e também sublinhava quais seriam os programas de aprendizado oferecidos por algumas destas ONGs, como estas teriam modificado positivamente o ensino em determinadas escolas e como desenvolveriam práticas educacionais inovadoras sem estas serem impedidas pela demora 2 advinda da chamada burocracia estatal (este era o mote principal da matéria).

  

A matéria aponta a importância do papel das ONGs na contribuição para melhoria da aprendizagem dos alunos.

Pretende, assim, estabelecer as possíveis relações entre as ONGs e a educação por meio da abordagem da

3 questão das parcerias.

  

Segundo a própria publicação a Nova Escola é a maior revista de educação do Brasil e circula no país desde

  Este artigo nos chamou a atenção na época por utilizar argumentos vindos dos mais diversos tipos de agentes aptos a discorrerem sobre a educação no país, tais como discursos advindos do próprio governo, opiniões de gestores de escolas, professores, pedagogos e de presidentes de centros de estudos da área de educação. Todos estes indivíduos respaldavam a força e a necessidade da parceria entre escolas e organizações não governamentais. E todos discorriam sobre a fragilidade dos resultados no ensino advindos de ações unicamente do Estado; assim, a parceria entre governo e ONGs era apontada como

  “necessária e favorável a uma mudança estrutural da educação brasileira ”. As ONGs acharam um momento conveniente de intervenção no ensino a ser oferecido pelas escolas a partir, sobretudo, mas não unicamente, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, conseguindo respaldo para uma atuação mais frequente em formulações

  • – e auxílio para estas – de políticas públicas. O Estado passou a dar mais respaldo a estas organizações a partir dos anos 2000 e muito frequentemente encontramos as mesmas deflagradas em discursos políticos, como o do ex-ministro da educação Fernando Haddad que, em 2007, disse que reconhecia o assunto educacional

  “como um problema social que demanda a articulação entre os diferentes setores da sociedade civil para ser solucionado”. A declaração, obviamente, é apenas uma pequena ilustração de como este tipo de articulação vem sendo abordada pelos organismos estatais no país através de seus discursos oficiais.

  Outra amostra de como a relação entre educação e ONGs vem sendo priorizado pelo aparelho estatal encontra-se no próprio site oficial do Ministério da Educação. No mesmo há uma parte específica do portal em prol da mobilização social pela educação, onde existem os seguintes elementos norteadores da proposta governamental: parceiros (onde são incluídos ONGs, empresas, igrejas cristãs, organismos internacionais e sistemas de educação); comitês de mobilização; relatório de atividades das redes de instituições; agenda de eventos, dentre outras atividades estimuladas pelo chamado plano de mobilização social do Governo em nome da educação, tudo isto contido em MEC (2011).

  A nossa questão central é perceber que tipo de educação vem sendo escolhida como abordagem de projeto social destas instituições, ou seja, por que motivos a educação vem sendo trabalhada da forma que cada ONG a enxerga. Educação popular? Educação inclusiva? Alfabetização de adultos? Por que motivos esses agentes passariam a ver cada uma destas práticas educacionais como maneiras de minorarem certas disparidades sociais? Apreender como estas ONGs problematizam a educação seria primordial nesta pesquisa, juntamente com a percepção de como estas organizações articulariam seus projetos e parcerias com embasamento na questão educacional.

  Na presente pesquisa, além do objetivo geral o qual seja a procura dos mecanismos principais de correlação entre a atuação das instituições estudadas e a prática educacional percebida por cada uma delas como ênfase de abordagem, buscamos outros objetivos específicos os quais se apresentam na construção deste estudo.

  Investigar como cada ONG pesquisada concebe os mecanismos de inserção dos seus agentes em seu corpo organizacional de trabalho é um desses objetivos específicos que corroboram para a compreensão das questões centrais da pesquisa. Outro objetivo específico que do primeiro decorre é a investigação de como cada ONG organiza sua dinâmica de trabalho levando em conta que cada instituição seria um somatório de trunfos

  • – sejam trajetórias escolares, sejam participações em movimentos sociais
  • – de seus participantes. A tradição de pensamento que evoca a educação como, no mínimo, um direito libertador e tributário ao ser humano também será abordada na presente pesquisa como objetivo específico, assim como o fenômeno social concernente às parcerias entre Estado e ONGs.

  Vale destacarmos que tanto estes objetivos gerais como os específicos e igualmente as motivações da escolha da questão central desta pesquisa serão tratados de forma mais detalhada ao longo desta introdução. Para maior clareza das pontuações aqui destacadas, separamos em três tópicos distintos os eixos que são responsáveis pelas justificativas da pesquisa, do mesmo modo que assim são para a sua consecução.

O aspecto multidimensional do estudo de ONGs

  Para Oliveira (1997, apud LANDIM, 2002, p. 18 ), “[...] As ONGs surgem como um dado novo da nova complexidade da sociedade. [...]

  São um ‘lugar’ de onde fala a nova experiência, de onde não podia falar o Estado, de onde não podia falar a Academia, de onde só podia falar uma experiência militante”. A concepção acerca destas entidades, oriunda de Francisco de Oliveira (1997), nos oferece uma reflexão ampla no que tange à construção do termo “ONG” enquanto categoria sociológica. Se estas organizações são heranças – ou frutos

  • das novas complexificações da sociedade, cabe um questionamento relativo acerca das bases de formação destas entidades no país. A produção acadêmica nesse sentido é vasta e notavelmente atenta em relação ao peso do Estado, do mercado e das classes sociais no processo de formação das ONGs.

  Em relação a isso, Landim (2002, p. 27) nos diz que “[...] pode-se pensar que as

  ONGs formam-se como um campo de organizações, agentes, práticas, crenças e discursos, constituídos por três feixes de relações: para baixo, com as bases; horizontalmente, entre si; e, para cima, com as agências de cooperação”.

  4 Essa proposta de reflexão consegue abarcar muitas possibilidades de realização de

  pesquisas de cunho sociológico sobre estas entidades. Tanto as relações que as mesmas desenvolvem entre si como as que articulam com os demais agentes para, por exemplo, comporem suas possibilidades de financiamentos de manutenção de suas posições no campo e de seus projetos são alguns dos possíveis desdobramentos de estudo sobre estes organismos.

  A pesquisa sobre a gênese destas instituições no país e dos agentes relacionados ao processo de formação desse novo campo resultante da complexificação da realidade social são outros recortes de pesquisa profícuos e já empreendidos por autores como Coutinho (2011), Landim (2002), Haddad (2002) e Gonzalez (2004). Nesta dissertação recorreremos à produção acadêmica citada para situarmos como as ONGs ludovicenses escolhidas como objetos de análise para a pesquisa se inserem historicamente no âmbito de surgimento das ONGs como agentes sociais que se formaram em decorrência de mudanças profundas no espaço social brasileiro.

  A fim de sublinharmos a importância de estudos sobre as ONGs, utilizamos os dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e

  5

  (FASFIL), intitulada “As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil” realizada em 2005. A mesma foi realizada em parceria com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) juntamente com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

  Segundo a referida pesquisa IBGE (2005) existiriam, até o ano de sua realização, aproximadamente 338,2 mil organizações sem fins lucrativos no Brasil sendo as mesmas 4 distribuídas em cinco categorias organizadas pelo instituto: privadas; que não distribuem

  

Quando sublinhamos o aspecto multidimensional do estudo de ONGs nos referimos às possibilidades variadas

de abordagens de estudos sobre estas. As análises sociológicas podem se voltar para as dimensões politicas,

5 culturais e econômicas. Esta análise pode ser segmentada ou multivariada, a critério do pesquisador.

  

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística este trabalho foi realizado, pela primeira vez, para o

ano base de 2002 e teve o objetivo de analisar a distribuição espacial e o campo de atuação das entidades

associativas e fundações. Nesse estudo, o IBGE e o IPEA, órgãos de estatística e pesquisa do governo,

ampliaram as análises dos dados contidos na Pesquisa do IBGE sobre o Cadastro Central de Empresas -

CEMPRE. A ABONG e o GIFE contribuíram com a análise do ponto de vista das organizações da sociedade

civil. A análise sobre as Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos no Brasil identificou as

mudanças ocorridas neste segmento, no período 2002-2005. Os resultados ora divulgados fornecerão à sociedade

um conjunto de informações importantes para o melhor conhecimento do papel desempenhado pelas associações eventuais excedentes; que são voluntárias; que possuem capacidade de autogestão; e que são institucionalizadas. O estudo do IBGE fora realizado com base no Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) do ano de 2005 e de acordo com o cadastro destas organizações no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ).

  Ressalta- se aqui que o termo “ONG” não contempla todo o universo empírico da pesquisa mencionada (que envolve fundações, associações, ONGs), tendo em vista o fato que essa conceituação não seria aceita e/ou escolhida por cada instituição pesquisada. Para a própria ABONG, essas terminologias são políticas e não fruto de qualquer outro aspecto, só para que ressaltemos isto. Segue o quadro 1 baseado nas informações da pesquisa a qual elucida a quantificação das FASFIL com atividades centradas na educação, por exemplo.

  Quadro 1

  • Classificação das FASFIL no que concerne à classificação das entidades centradas

  na Educação – Brasil – 2005.

  

Classificação das entidades sem fins Número de Fundações Privadas e

lucrativos Associações sem Fins Lucrativos

  19.940

Educação e pesquisa

  3.154

Educação infantil

  7.910

  Ensino fundamental Ensino médio 1.448

  2.152

Educação superior

  2.441

Estudos e pesquisas

  447

Educação profissional

  2.388

Outras formas de educação / ensino

  39.880

Total Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Cadastro Central de Empresas 2005

  Outros dados relevantes apontados por este levantamento feito pelo IBGE (2005) dizem respeito ao perfil técnico-profissional do pessoal ocupado nestes tipos de organizações. A média salarial nestas entidades é de 3,8 salários mínimos e as que mais empregam seriam aquelas ligadas à saúde e à educação. No que tange à distribuição por região, a Sudeste ainda concentra a maioria delas, mas o crescimento na região Nordeste foi considerável. Vale ressaltar que a pesquisa procurou, também, empreender comparativos entre os anos de 1996, 2002 e 2005, o que justifica a análise de crescimento, por exemplo, advinda do estudo relacional na série histórica acompanhada.

  Assim, a distribuição dessas organizações tende a acompanhar a da população. No Sudeste estão 42,4% das entidades e 42,6% dos brasileiros. No Nordeste estão 23,7% das instituições e 27,7% da população. No Sul, em terceiro lugar, encontram-se 22,7% das entidades e 14,6% da população. No Centro-Oeste estão 6,4% das associações e 7,1% da população. No Norte estão 4,8% das organizações e 8% dos brasileiros. A remuneração média dos trabalhadores nas associações e fundações sem fins lucrativos, segundo a mesma pesquisa, no período de 1996 a 2005 elevou-se, em termos reais, em 1,2%, passando de R$ 1.081 para R$1.094. Em relação ao tempo de “vida” destes grupos institucionais, pouco mais de um quarto das associações e fundações sem fins lucrativos (26,3%, ou 89,2 mil) foram criadas nos cinco primeiros anos desta década. As instituições mais antigas, criadas até 1980, correspondem a apenas 13,1% do total das entidades consideradas na pesquisa.

  Outra pesquisa reveladora e proveitosa para a nossa pesquisa foi a realizada pela Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) a fim de mapear o perfil das entidades a ela associadas e está contido em ABONG (2010). Os quadros 2 e 3 trazem à tona o quão amplo pode ser o campo de pesquisas voltadas para estes tipos de organizações.

  Quadro 2 - Comparação das associadas à ABONG segundo o valor do orçamento por faixa e anos (%).

Mais de 50 mil a 100 mil

Mais de 200 mil a 500 mil

Mais de 2 a 3 milhões

  No que seria relativo à nossa pesquisa, reiteramos o aspecto concernente às temáticas priorizadas por estes tipos de entidades e, segundo os dados das pesquisas citadas, a área mais evocada por estas ONGs continua sendo a educacional. Vale à pena destacarmos que a

  2,10 2,00 1,90 Fonte: ABONG, Panorama das Associadas, 2010.

  3,10 3,00 0,90

  1,00 2,00 2,80

  

Mais de 4 a 6 milhões 5,20 5,00 1,90

Mais de 6 a 9 milhões

  4,10 3,00 6,50

  9,30 6,90 6,50

  18,60 24,80 17,60

  

Mais de 500 mil a 1 milhão 23,70 18,80 23,10

Mais de 1 a 2 milhões

  11,30 17,80 18,50

  1,00 2,00 3,70

  

Mais de 100 mil a 150 mil 2,10 3,00 1,90

Mais de 150 mil a 200 mil

  9,30 4,00 6,50

  6,20 5,00 3,70

  2004 2006 2008

Até 10 mil reais 2,10 2,00 2,80

Mais de 10 mil a 50 mil

Mais de 3 a 4 milhões

Mais de 9 a 15 milhões

Mais de 15 milhões 1,00 1,00 1,90 Sem orçamento (0,00)

  pesquisa da ABONG (2010) com intuito de mostrar as lutas políticas realizadas por suas associações levou em conta quais destas lutas foram assinaladas pelas entidades a ela afiliadas. Então, cada associada poderia marcar mais de uma opção dentre as que podemos visualizar no quadro três. Quase metade das associadas viu na educação uma causa legítima para justificar sua intervenção na sociedade, seguida de causas como organização popular e as chamas relações de gênero.

  Quadro 3 – Principais lutas políticas elencadas pelas associadas à ABONG (%).

  48,9%

Educação

  33,8%

Organização popular

  27,1%

Relações de gênero

  23,8%

Justiça e promoção de direitos

  21,8%

Meio ambiente

  20,3%

  Saúde

Fortalecimento de outras ONGs 20,03%

  18,0%

Trabalho e renda

  15,0%

Agricultura

  12,8%

Economia solidária

  11,3%

Arte e cultura

  8,3%

Questões agrárias Fonte: ABONG, Panorama das Associadas, 2010

  No que tange ao quadro 2, podemos perceber que a faixa de orçamento mais acessada pelas ONGs da associação encontra-se na variação de recursos financeiros entre quinhentos mil a um milhão de reais o que foi um fator de observação interessante para nós, visto que estes tipos de entidades encontram-se sim cada vez mais organizadas como empresas privadas e apresentando logísticas altamente elaboradas para a realização de seus fins e projetos.

  Para além do papel político instituído pelos diversos segmentos sociais, também é importante frisarmos a relevância do estudo da dinâmica institucional destas entidades, no sentido organizacional das mesmas; e isto faz parte de nossos objetivos específicos. É notável a variedade de trabalhos acadêmicos que podem advir desta pontuação acerca destas instituições, pois os mesmos podem contemplar desde temas relativos à natureza dos financiamentos dos seus projetos até a composição dos quadros de seus funcionários, passando pela possível precarização do trabalho nesse setor e por certas disparidades regionais. Isto será mais bem desenvolvido tanto no tópico de nosso estudo com enfoque nas contribuições da chamada Sociologia das Organizações, como no capítulo dedicado aos estudos de caso referente às ONGs aqui analisadas.

ONGs e educação em São Luís: como esta relação estrutura esta pesquisa

  Já faz algum tempo que a educação vem sendo sublinhada como possibilidade de promoção tanto para o indivíduo poder se valer da chamada cidadania, quanto como elemento capaz de efetivar mudanças profundas na sociedade. E esse tipo de pensamento também é fortemente acolhido no Brasil, seja por meio da mídia, seja por parte do meio acadêmico.

  No que é relativo à mídia, a matéria jornalística já mencionada em linhas gerais nesta introdução e empreendida por Ramalho (2007), acerca da relação entre ONGs e práticas educacionais, aponta a articulação entre a chamada sociedade civil organizada e o acesso à educação da seguinte maneira:

  “[...] como fruto do idealismo e do engajamento da sociedade civil, é natural que as ONGs se preocupem com a formação de jovens que possam contribuir ativamente para a melhoria de serviços essenciais, como a Educação”. “Nas escolas, elas encorajam, a mobilização social por meio de projetos que reforçam os vínculos de professores e alunos com o mundo externo (tanto do entorno como o distante) e que estimulam uma visão crítica da realidade”. (RAMALHO, 2007, p. 60)

  E no que concerne ao meio acadêmico elencaremos a seguir algumas pesquisas as quais apontam a relevância do conceito educação

  • – falamos, por enquanto, sobre a mesma no sentido amplo, sem ainda tecermos distinções e/ou acepções diferentes inseridas neste conceito
  • – tanto como objeto de estudo, como elemento de acesso a melhorias sociais diversas e igualmente como possíveis bases de mudança de posição do indivíduo nas classes sociais.

  Na pesquisa sobre os profissionais da educação nas ONGs brasileiras, Almeida (2006) destaca a mesma da seguinte forma:

  “O conceito ‘educação’ não está restrito à escola. Esta é uma concepção a priori neste trabalho. A educação não pode, por essência, ser monopolizada, quer por pessoa, quer por instituição. Educar é atitude intrínseca à vida. [...] Não há como resistir. Ainda que se caminhe ao contrário de um dito ideal, uma vez que pela diversidade de ideias o que para uns é avançar, para outros pode ser deseducar, ainda assim, todos os seres humanos estão sempre, a todo o momento, inevitavelmente educando a si e educando a outros”. (ALMEIDA, 2006, p. 394). Almeida (2006) sublinha, assim, a educação como inerente à vida de todo indivíduo, e igualmente reforça seu caráter “inevitável” na existência de todos. Gonzalez (2004), em seu trabalho acerca das ONGs e de suas relações com a chamada educação profissional, empreende uma análise crítica a respeito das diretrizes pedagógicas desenvolvidas pelas instituições estudadas por ela. Mas conclui seu artigo fazendo uma correlação entre ONGs, educação e a maior promoção de direitos humanos que, segundo a autora, adviria desta junção.

  Gonzalez (2004) ressalta, ainda, esta relação acima citada da seguinte forma:

  “[...] ressaltamos as potencialidades das ações das organizações não governamentais e alguns novos movimentos sociais a partir do reconhecimento da ‘pessoa cidadã’ como um sujeito de direitos cujo atendimento nem sempre é efetuado pelas esferas de poder tradicionais. Desta forma acreditamos que os indivíduos, ao estarem aptos a reclamar por seus direitos, contribuem para a possibilidade de construção de mais justa sociedade na qual possa haver a plena realização de direitos humanos”. (GONZALEZ, 2004, p. 12).

  Em trabalho realizado em parceria com cientistas sociais da África do Sul e de Bangladesh sobre as percepções das classes sociais mais economicamente favorecidas sobre pobreza e desigualdade, Elisa Reis (2000) demonstra o quão crucial e estratégica seria a questão educacional para os indivíduos mais ricos no Brasil.

  Segundo os resultados de sua ampla pesquisa, Reis (2000) indica que o principal objetivo nacional em médio prazo, segundo as elites (termo utilizado pela autora), era melhorar os níveis educacionais

  . Nas palavras da autora “[...] A educação foi indicada como a dimensão estratégica para policy intervention ”. (REIS, 2000, p. 146). O estudo também mostra que, segundo as elites, os principais obstáculos à democracia no Brasil eram o baixo nível educacional da população, assim como a educação

  • – juntamente com a saúde e representando 15,9 % das opiniões coletadas
  • – estaria em segundo lugar no que consiste aos principais problemas nacionais apontados pelos entrevistados.

  Para Reis (2000),

  “[...] nos diferentes setores da elite um peso muito grande é atribuído aos investimentos em educação, que aparecem como a grande panaceia. A educação é vista como um recurso a ser explorado pelo poder público tendo em vista dotar os setores mais pobres da população de condições para competir por um lugar melhor na estrutura social sem envolver uma ativa redistribuição de renda e riqueza”. “[...] A prioridade conferida à educação expressa à crença amplamente difundida segundo a qual a escola cria possibilidade de melhoria para os pobres sem custos diretos para os nãos pobres”. (REIS, 2000, p. 146-147).

  A prioridade conferida à questão educacional

  • – em relação a outras ditas demandas sociais
  • – vem sendo abordada tanto pelo setor midiático, como por algumas produções acadêmicas. Esse conjunto de opiniões de diferentes agentes sociais nos fez refletir sobre como a educação vem sendo problematizada e articulada. Ressalta-se que no capítulo segundo desta dissertação abordaremos de forma mais intensiva como a questão educacional vem sendo abordada pela mídia, pela universidade e pelas diferentes classes sociais.

  No caso da nossa pesquisa, a reflexão se debruça sobre as formas de compreensão e/ou de reflexão das ONGs acerca da questão educacional e por que motivo cada uma das instituições analisadas enfatiza uma determinada prática educacional como prerrogativa de suas intervenções na sociedade.

  Na cidade de São Luís a questão acadêmica se faz legítima por uma série de motivos. O primeiro deles reside no fato de buscarmos situar a presente cidade na discussão acadêmica sobre ONGs. O segundo motivo se deve ao nosso anseio por pontuarmos algumas reflexões sobre a educação na cidade, visto que inúmeras pesquisas apontam o nível educacional no estado do Maranhão como deficitário. O terceiro e último motivo para discorrermos sobre ONGs educacionais em São Luís encontra ensejo no fato de buscarmos empreender uma investigação social sobre como algumas ações da chamada sociedade civil organizada vêm sendo articuladas aqui e como se articularam com a questão educacional.

Procedimentos metodológicos

  Primeiramente realizamos duas atividades de pesquisa: realizamos uma revisão da literatura a qual serviu de base para este estudo e empreendermos uma pesquisa exploratória sobre as ONGs as quais possuíam projetos apoiados na questão educacional na cidade de São Luís.

  No que tange à realização deste mapeamento, verificamos através de pesquisa documental e em sites que São Luís já apresenta um número significativo de entidades inseridas no chamado Terceiro Setor, sendo que a maior porcentagem deste total é de entidades com objetivos inseridos na questão educacional. Como recorte metodológico escolhemos as ONGs

  • – dentre as demais formas de organização da sociedade civil – por termos em mente a enorme gama de conhecimentos gerados sobre o assunto, da mesma
maneira que são passíveis de serem elaborados acerca desta forma institucionalizada de se pensar e intervir na sociedade. E algumas das suas inúmeras possibilidades de abordagem teórica já foram mencionadas ao longo desta introdução.

  Depois de decidirmos ter como tributário a esta pesquisa o recorte metodológico relativo às ONGs, verificamos que as entidades desta natureza as quais possuem a educação como uma de suas principais prerrogativas totalizava até o início do ano de 2012, em São Luís, o número de sete instituições.

  Acerca das sete organizações citadas, convém ressaltar que nenhuma tem como objetivo único à promoção de possíveis melhorias educacionais, pois todas trabalham com a perspectiva multivariada no que condiz à formulação de seus projetos. Assim, as sete instituições buscam a inserção no campo educacional, mas também preconizam suas atuações em outros setores, como o da saúde.

  Também se seguiu uma pesquisa documental sobre o material disponibilizado e

  6

  apresentado por estas sete organizações em seus sites oficiais a fim de termos as primeiras impressões sobre os seus objetivos e sobre as demais informações necessárias a esta pesquisa, tais como ano de fundação de cada ONG, por exemplo.

  Dentre as instituições que compõem o quadro atual de ONGs com alguma forma de atuação na educação, em São Luís, elencamos como amostra de nossa análise três organizações as quais poderiam nos oferecer possibilidades de tecermos comparativos mais ricos no que concerne a esta reflexão sociológica. Para ilustramos essa verificação, cabe a nós mostrarmos o quadro 4, a seguir, concernente a estas organizações situadas na cidade.

  Gostaríamos de ter mais meios e qualidade de tempo para abarcarmos, em nível de pesquisa, todas as ONGs educacionais da cidade, mas não foi possível. Sendo assim, segue a explanação breve sobre as peculiaridades das organizações que foram escolhidas para fins de pesquisa.

  A primeira delas é a Formação (apontada pela Revista Nova Escola, número 203, como uma ONG, em São Luís, de ampla área de atuação, inclusive na temática “educação integral” e reconhecida nacionalmente pelo meio das ONGs “educacionais”). Ela foi formada por maranhenses desde seu início e fundada por educadores que se autodenominam, logo na

  6

À luz das novas ferramentas metodológicas, utilizamos de forma intensiva a pesquisa online a fim de

efetivarmos comparações entre os lugares de fala das organizações pesquisadas, bem como do material midiático

referente a estas.

  De Acordo com Denzin e Lincoln (2006): “[...] uma atividade situada que localiza o observador

no mundo. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo. Essas Quadro 4 Organizações Não Governamentais com premissas educacionais em São Luís.

Instituições Natureza Nacionalidade Ano de Contatos Jurídica Fundação

  • 32226799

CDI

  • ONG Brasileira -
  • www.cdi.org.br
  • 32318205

Centro de Defesa Padre

  ONG Brasileira 1991 - R. 7 de setembro, Centro

Marcos Passerini

  • www.cdmp.org.br
  • 32438057

CEPROMAR

  ONG Francesa 1982 - R. Ipixuna, nº 100, Parque Pindorama

  • www.cepromar.com.br
  • 81190417

CUFA

  ONG Brasileira 1999 - R. Laerte Santos, s/n, Vila Fialho

  • http://cufamaranhao.blogspot.com
  • 32277203

Formação

  ONG Brasileira 2003 - Rua das Limeiras, nº 14, Qd D, Renascença

  • www.formacao.org.br

LBV

  • 32141428 ONG Brasileira 1982 - R. Ribamar Pinheiro, nº 9, Madre Deus - www.lbv.org.br

Plan

  • 32358490 ONG Inglesa 1997 - Av. Colares Moreira, nº 02, sl. 1102, Ed.

  Planta Tower

  • www.plan.org.br

  26

  apresentação da mesma em seu site, como “militantes” da fomentação de bases para a elaboração de políticas públicas educacionais.

  A mesma, em linhas gerais, tem sua atenção voltada para projetos educacionais tanto na presente cidade como na região da Baixada Maranhense. Seus financiadores são agentes nacionais e internacionais, mas, em sua maioria, seus recursos são provenientes de parcerias com o Estado e busca, segundo ela, trabalhar em redes de organizações educacionais.

  Já a segunda ONG é a Legião da Boa Vontade (LBV), uma das ONGs mais antigas da cidade, com atuação no campo educacional local desde 1982. Esta entidade teria a visão mais centrada numa base religiosa das quatro aqui elencadas. Também possui uma sede onde funciona o seu centro comunitário onde busca, segundo ela, colaborar para que os valores éticos não desapareçam do processo educativo. Das instituições aqui escolhidas, ao menos num primeiro momento, é a que mais enumera fatores filantrópicos para justificar suas intervenções nas comunidades contempladas por seus projetos.

  E, por fim, a terceira ONG é a Central Única das Favelas (CUFA), instituição aqui elencada com atuação mais recente na presente capital. Tem suas raízes no movimento negro carioca e encontra respaldo para as suas ações na chamada cultura hip hop. Em nível local, a CUFA pretende, segundo seu site, promover oportunidades para jovens saírem da chamada “exclusão social”, por meio de cursos de break ou graffiti, por exemplo. Dentre as instituições contempladas por este estudo é a única até o momento que possui atuação marcante nas chamadas redes sociais, como o Twitter, assim como é a única a possuir um blog como ferramenta de divulgação de suas intervenções na cidade.

  Depois de elencarmos os critérios da escolha das três instituições se seguiu a fase relativa às entrevistas informativas (ou entrevistas exploratórias) com as lideranças consideradas como interlocutoras destas entidades. Nossa concepção metodológica foi pautada tanto na pesquisa qualitativa, quanto no método do estudo de caso, e também na análise documental oriunda dos materiais das ONGs elencadas aqui.

  À mesma época, a exploração bibliográfica fora continuada e buscou-se a análise da conjuntura histórica que teria proporcionado a formação das ONGs como instituições capazes de ocuparem posições de porta-vozes aptos a discorrerem e atuarem na sociedade brasileira. Esse esforço deu origem ao “Capítulo I” deste estudo o qual procurou ter como enfoque a reflexão sobre as contribuições das pesquisas sociológicas voltadas para as ONGs, para a educação e para a relação entre estas duas vertentes. Também se procurou, obviamente em linhas gerais, discorrer sobre conceitos os quais perpassam pelo debate sobre a problemática abordada, como os de cidadania ou o de sociedade civil, por exemplo.

  Ainda na construção do primeiro capítulo, apresentamos o debate acadêmico em torno dos pilares aqui tratados, e também as críticas que são empreendidas acerca das duas abordagens elencadas no presente estudo. Também se levou em conta a trajetória da questão educacional até a mesma ser vista com toda esta preponderância a algum tempo, da mesma forma que fora realizado um levantamento sobre as estatísticas concernentes à relação sugerida nesta dissertação. Também trazemos como enfoque neste capítulo as contribuições de noções e categorias sociais que perpassam de uma maneira ou de outra, pelo estudo de ONGs, tais como “parceria”, “cooperação” e “solidariedade”.

  Já no segundo capítulo, a nossa proposta foi a de discorrermos sobre como a relação entre o Estado, as ONGs e a questão da educação se formataram historicamente no Brasil, ressalvando a questão das parcerias entre o Estado e as ONGs e como a educação passou a ser a temática priorizada por estas instituições. Analisar como a Lei 9.637/99 teve impacto sobre o aumento das parcerias entre o Estado e as ONGs também foi um elemento buscado por nós, da mesma forma que verificar de que maneira estas entidades realizaram um percurso histórico que lhes permitiu terem voz suficiente para serem consideradas interlocutoras da chamada

  “sociedade civil brasileira” igualmente foram aspectos que entraram no debate promovido por nós no Capítulo II. E no terceiro capítulo, de cunho preponderantemente comparativo já que este método fora escolhido por nós, empreendemos o estudo de caso das três ONGs aqui abordadas, procurando investigar sociologicamente as seguintes questões: as peculiaridades de cada uma das instituições; discorrer sobre seus principais projetos sociais em execução, no momento desta pesquisa, e verificar como cada ONG percebe tanto a educação como o papel da instituição nas Políticas Públicas locais; pontuar as diferentes formas de organização do trabalho de cada instituição. Buscamos apreender de onde surgiram as demandas sociais que propiciaram a criação de ONGs educacionais em São Luís. Pontuamos, também, como cada uma das ONGs escolhidas surgiu, elencando o momento histórico que perpassou pela sua criação, assim como discorremos sobre a proposta educacional de cada uma das instituições.

  Assim, concluímos sublinhando que os objetivos de nossa pesquisa para fins de dissertação são: relacionarmos as inserções das ONGs como agentes sociais institucionalizados com outros fenômenos sociais clássicos tratados pela Sociologia como, por exemplo, a formação da sociedade civil; a busca pelo ponto de congruência entre os e, posteriormente, de parceria e cooperação entre os mesmos; análise da formação de ONGs educacionais específicas na cidade de São Luís; comparação entre os perfis das entidades abarcadas por nosso estudo; comparação dos perfis acadêmicos e militantes dos principais agentes destas instituições; análise da questão educacional segundo a visão destes agentes e em relação destes com a perspectiva preponderante da entidade da qual fazem parte.

  Vale também ressaltar que o método de estudo de caso foi elencado por nós visto que procuramos entender um fenômeno mais geral

  • – o qual seja a inserção e a importância das
  • – a partir da análise de situações (leia-se ONGs em São Luís) mais específicas. Isto é sublinhado, igualmente, por Ponte (2006) o qual nos diz que

  “[...] é uma investigação que se assume como particularista, isto é, que se debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser única ou especial, pelo menos em certos aspectos, procurando descobrir a que há nela de mais essencial e característico e, desse modo, contribuir para a compreensão global de certo fenómeno de interesse” (PONTE, 2006, p. 2).

  

práticas que visem à melhoria da qualidade educacional ou, simplesmente, de aspectos referentes à dinâmica

educacional. Seus projetos, geralmente, vêm acompanhados da interdisciplinaridade visto que estas ONGs

Capítulo I – As contribuições sociológicas para a elaboração de uma agenda de pesquisa acerca das ONGs

  Quando se inicia um estudo sobre Organizações Não Governamentais percebe-se que inúmeros são os fenômenos sociais

  • – da mesma forma que as diferentes terminologias – que perpassam pela formação de uma agenda de pesquisa referente às ONGs. Sociedade civil, Terceiro Setor, mercado da solidariedade e inclusão social são apenas algumas das muitas noções as quais aparecem com frequência em pesquisas acadêmicas voltadas para a análise do fenômeno social referente à institucionalização das ONGs.

  Não é nosso objetivo nos aprofundarmos nas noções acima citadas, porém, é plausível a reflexão sobre as mesmas para que possamos situar melhor boa parte da discussão em torno desses agentes sociais denominadas comumente como ONGs.

  A definição que escolhemos como respaldo teórico para falarmos sobre ONGs advém da análise do seu primeiro uso, realizado pela Organização das Nações Unidas em 1950. A mesma nos diz, resumidamente, que são todas as organizações da sociedade civil que não estivessem vinculadas a um governo. Porém, é relevante observamos o debate suscitado

  8 pela declaração apresentada pela ONU .

  Segundo Campos (1999), é quase um consenso dizer que a definição apresentada é muito limitada. Para o autor, não basta dizermos aquilo que cada ONG é como, por exemplo, uma instituição privada e que não foi criada pelo governo e que não busca lucros, pois isto é uma conceituação demasiadamente elástica. Também é fácil dizer o que uma ONG não é; 8 porém, se faz complexa a aceitação de uma única definição universal e definitiva para o

  

Sobre a relação da ONU com as ONGs o histórico, em linhas gerais é o seguinte: “[...] Vislumbrando a força

das ONGs, o ECOSOC (Conselho Econômico e Social da ONU) estabelece, pela Resolução 3 (II), de 21 de

junho de 1946, a criação do Comitê das Organizações Não-governamentais (The Committee on Non-

Governamental Organizations ). Os termos originais do Comitê foram estabelecidos na Resolução 288 B (X), de

27 de fevereiro de 1950, substituída, a 25 de Maio de 1968, pela Resolução 1296 (XLIV). Os termos atuais do

relacionamento das ONGs com a ONU, no entanto, estão dispostos na Resolução 1996/31, de 25 de julho de

199610. A Resolução 1296 (XLIV), assim como a 288 B (X), apresenta as ONGs como organizações

  • internacionais que não tenham sido estabelecidas por acordo intergovernamental (parágrafo 7º, Resolução 1296

  

XLIV). A Resolução 1996/31, por sua vez, amplia a definição anterior, enfatizando o caráter não-governamental

das organizações que pretendam obter status consultivo no sistema ONU, sejam elas nacionais, sub-regionais, termo, visto que devemos atentar para os momentos de criação de cada entidade e para os objetivos específicos de cada uma destas instituições.

  Conseguimos notar que a pluralidade talvez seja a marca destes tipos de organizações e, sendo assim, é impossível limitarmos as mesmas numa única conceituação. A heterogeneidade destas entidades se faz presente nas suas diferentes estruturas organizacionais, nos seus diferentes objetivos, na composição dos indivíduos que delas fazem parte e na evolução histórica de cada uma. Ainda que certas ONGs se definam como atuantes, marcadamente, na área educacional, ainda sim cabem diferenças estruturais pungentes entre elas.

  Por estes motivos, preferimos sublinhar neste estudo que as ONGs são organizações oriundas de iniciativas da sociedade civil que buscam realizar intervenções as mais diversas possíveis em diferentes segmentos de públicos-alvo para atingirem objetivos peculiares a cada entidade.

  É válido que se ressalte que a discussão teórica em torno do conceito de sociedade civil é vasta e já pensada como questão clássica. Para além de tomadas de decisões, buscamos salientar através dos enfoques a serem abordados que fenômenos sociais como os movimentos sociais em busca de igualdade

  • – em sentido amplo – e de efetiva participação na chamada comunidade política transcendem diversos fatores na constituição da sociedade civil.

  De antemão podemos mencionar dois marcos históricos acerca do estudo da noção de sociedade civil. Estes seriam os rearranjos societários congregados pelo capitalismo, igualmente como os movimentos sociais que buscavam uma inserção mais holística, digamos assim, no âmbito da participação política. Estas pontuações históricas sublinharam a relevância do conceito abordado, em como geraram reflexões difusas sobre o mesmo.

  Koslinski (2007) empreende em seu trabalho um vasto resgate histórico acerca do debate em torno do conceito de sociedade civil e sugere alguns pontos de diferenciação no que tange às mudanças ocorridas nas atribuições a este conceito. Segundo esta autora, até meados do século XVIII o conceito de sociedade civil não era distinguido do conceito de sociedade política.

  “Sociedade civil se referia à situação em que os homens regulavam suas relações e resolviam suas disputas de acordo com um sistema legal”, observa Koslinski (2007, p. 38). A autora sublinha que: “[...] a sociedade é ‘civil’ porque é composta por agentes autônomos que são cidadãos e não estão sujeitos a um governante despótico e constituem uma sociedade civilizada, em oposição a uma sociedade bárbara”. (KOSLINSKI, 2007, p. 37-38). Também segundo a referida autora, é somente a partir de meados do século XVIII que passa a existir, por parte das reflexões teóricas, uma diferenciação entre o que é sociedade civil e o que é esfera do Estado. A autora ressalta que essa mudança no pensamento social passa a notar a sociedade civil da seguinte forma:

  “[...] em geral, é caracterizada como a esfera regulada pelo mercado, sob o controle privado ou voluntariamente organizada ou como a esfera que compreende instituições de mercado, associações voluntárias e a esfera pública. Não havia uma separação entre a esfera de mercado e a da sociedade”. (KOSLINSKI, 2007, p. 39).

  Já Keane (1998) elenca o pensamento de Tocqueville no resgate histórico sobre o tratamento do conceito de sociedade civil que, igualmente, empreende. Para Keane (1998), a reflexão de Tocqueville difere da dos demais pensadores do século XVIII e XIX devido ao fato do referido autor fazer alusão a três diferentes esferas de ação e não a penas duas esferas como os demais autores.

  Segundo Keane (1998), Alexis de Tocqueville avalia que as três esferas de ação seriam: o Estado

  • – que seria congregado pelas instituições políticas formais e pelo exército –; a sociedade civil a qual seria formada pelas atividades e pelos interesses econômicos; e a sociedade política a qual compreenderia os partidos políticos, a opinião pública, associações civis (como, por exemplo, igrejas e sociedades literárias), organizações profissionais, comerciais e recreativas.

  Se evocarmos o pensamento de Karl Marx para pontuarmos o conceito de sociedade civil, encontraremos a seguinte ponde ração em “A Ideologia Alemã”:

  “[...] a sociedade civil compreende o conjunto das relações materiais dos indivíduos dentro de um estágio determinado de desenvolvimento das forças produtivas; [...] compreende o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa, por isso mesmo, o Estado e a nação, embora deva, por outro lado, afirmar-se no exterior como nacionalidade e organizar-se no interior como Estado”. (MARX, 2002, p. 33).

  Notamos, assim, que o referido autor já traz à tona a dicotomia inerente ao conceito abordado quando nos diz que a sociedade civil ao mesmo tempo em que atravessa os limites do Estado também se organiza como Estado para se afirmar como nacionalidade perante as demais nações. Igualmente vale ressaltarmos que Marx além de sublinhar essa ambivalência de forças e papéis que advém da chamada sociedade civil, ainda ressalva que esta seria o espaço concreto

  • – o “palco” – onde a história se desenvolveria não se fechando somente aos grandes acontecimentos políticos, por exemplo.

  Outra importante pontuação feita por Marx (2002, p. 34) é a de que a sociedade civil só se desenvolve como tal a partir da burguesia, mas adverte que “[...] a organização social resultante diretamente da produção e do comércio, e que constitui em qualquer tempo a base do Estado e do restante da superestrutura idealista, tem sido constantemente designada por esse mesmo nome”.

  Segundo Johnson (1997), já no tocante ao pensamento de Gramsci, nos diz que este argumentou que o centro da chamada sociedade civil não era tão somente o indivíduo, mas também as organizações privadas, tais como as empresas. O autor ainda recorda que Gramsci afirmou que a sociedade civil e o Estado se fundem de tal forma que os limites entre ambos teriam difíceis demarcações. Existiria, assim, a necessidade de compreensão da relação mutuamente reforçadora entre os dois.

  Coutinho (2011), da mesma forma, faz em seu trabalho alusão às concepções teóricas tanto de Karl Marx como de Gramsci no que é relativo à reflexão sobre a sociedade civil. A autora faz a seguinte ressalva: “Em ambos, sobressai à reflexão sobre a possibilidade (e a necessidade) de práticas anti-hegemônicas, destruidoras dos aparatos de pressão e dominação de classes”. (Coutinho, 2011, p. 78-79).

  A mesma autora ainda nos chama a atenção no que condiz a algumas críticas acadêmicas feitas em relação à dicotomia entre a sociedade civil e o Estado, a qual seria tida como uma falsa contraposição entre ambos. Coutinho (2011) elenca a crítica trazida por Petras (1999) o qual pensa a sociedade civil como resultante das divisões sociais acarretadas pelo Capitalismo e que afirma a existência de conflitos no próprio cerne da sociedade civil, do mesmo modo que entre esta e o Estado.

  Porém, é importante que se ressalve que Coutinho (2011) ao trazer a crítica citada de Petras (1999)

  • – considerado como um autor com fortes críticas à ação das ONGs – também sublinha autores que creditam às ONGs e à sociedade civil a importância para que sejam mecanismos e/ou atuações cruciais para a manutenção da ordem democrática (Alvarez; Dagnino; Escobar, 2000).

  Outra colaboração clássica à reflexão acerca do conceito de sociedade civil seria a que fora elencada por Reinhard Bendix (1996). O mesmo sublinha que a sociedade civil seria formada pelo conjunto das instituições onde os indivíduos não estão sob a interferência governamental para seguirem seus interesses.

  Farias (2011) em seu trabalho aborda Bendix (1996) e ressalta a principal ênfase do autor a qual seria a questão da reciprocidade de direitos e deveres no âmbito da comunidade política. Bendix (1996) se vale do conceito de cidadania para fundamentar a sua tese de que a mesma só teria valor mediante o aumento da participação dos indivíduos na comunidade política. Desta forma, somente de posse dos chamados direitos civis, políticos e dos sociais é que os cidadãos equacionariam o necessário para garantirem a igualdade e, assim, efetivarem a consecução da cidadania.

  Farias (2011) também pontua outro fator relevante na obra de Bendix (1996). O referido autor salienta que, a partir do século XIX, a igualdade almejada não seria tão somente a civil, mas também aquela referente aos âmbitos político e social. A questão da chamada desigualdade passa a ser factual e debates em torno do acesso à educação, por exemplo, passam a fazer parte da política nacional devido à inserção das classes menos favorecidas nesse rol de discussões e de participação política.

  Para Vieira (2001), existiria um contraponto entre as teorias de Reinhard Bendix (1996) e de Karl Marx (2002), já que para este a noção de sociedade civil abarcaria o rol de atividades

  • – tal como de organizações e de empresas – fora do Estado. Já para Bendix (1996) a ênfase seria na cidadania (não restrita à circunscrição da lei), como outrora mencionado, o que segundo Vieira (2001, p. 34

  ) gera os seguintes resultados: “[...] abre-se espaço para que, na esfera pública, grupos voluntários, privados e sem fins lucrativos, formem assim a denominada sociedade civil”.

  Koslinski (2007) também nos alerta que o conceito de sociedade civil teria passado por um período de obscuridade (leia-se certo desuso) e somente com a discussão em torno do princípio de autoridade é que o conceito de sociedade civil teria, segundo a autora, voltado à agenda de pesquisa das Ciências Sociais.

  Para Koslinski (2007), a seguinte pontuação é válida:

  “[...] se a distinção defendida no século XVIII estava relacionada a uma visão da sociedade civil contra governos despóticos, o reavivar do conceito nas últimas décadas tem um paralelo: a sociedade civil é, ao menos inicialmente, usada para a compreensão de fenômenos tais como a resistência ao totalitarismo, à transição de governos burocráticos-autoritários para democracias e frente às tendências de corporativização em democracias

  KOSLINSKI, 2007, p. 42).

  estabelecidas”. (

  Os autores contemporâneos vêem de formas distintas tanto a questão referente à relação entre a sociedade civil e o Estado, assim como os contornos desse conceito em tempos mais recentes, assim como no que tange ao papel que essa sociedade civil deveria desempenhar no tocante à democracia.

  Há quem designe a sociedade civil como uma promessa advinda do Iluminismo e até hoje não realizada de maneira completa “[...] civil society remains a utopia, a promise that

  

has yet to be entirely fulfilled, even if European reality today corresponds much more closely

to this plan, this utopia, than it did in the past

  ”. (Kocka, 2004, p. 69).

  • – Para Cohen e Arato (1994), o conceito de sociedade civil volta a estar em voga tanto para as Ciências Sociais como para a mídia em geral
  • – a partir dos acontecimentos no Leste Europeu. Segundo os autores, a sociedade civil fora extinta dos sistemas políticos totalitários, “nos moldes do soviético”, o que teria gerado o movimento Solidariedade o qual tinha como marco “a sociedade civil contra o Estado”.

  Em relação à América Latina, o conceito de sociedade civil passa a ser evocado pelo meio acadêmico no sentido de uma necessidade de que se desenvolvesse uma sociedade civil forte e lúcida como uma forma de resposta aos regimes autoritários que limitariam essa força. A sociedade civil, na América Latina, assim, aparece como um conceito que preconizava a luta dessa sociedade tanto no que tange à chamada repressão política, quanto à exclusão socioeconômica pelas quais suas populações passavam.

  Portanto, o conceito de sociedade civil vem à tona na América Latina, congregando a chamada “mobilização popular” a fim de que “novos atores sociais” ressurjam no cenário político para promoverem novas formas de intermediação da sociedade. Surge uma nova adjetivação para a sociedade civil; é a chamada sociedade civil organizada.

  Para Lisboa (2003), no que concerne à América Latina, o termo sociedade civil tem seu uso difundido no que se refere às entidades as quais se diferenciam do mercado e do Estado e que atuam no sentido de oferecerem novos rumos aos modelos de desenvolvimento e às maneiras de se gerir as políticas societárias, por exemplo.

  Nesse contexto de discussão sobre quais seriam “os novos papéis da sociedade civil”, surgem também as Organizações Não-Governamentais. Muito embora esse breve histórico das ONGs passe a ser tratado de forma mais aprofundada por nós no Capítulo II do presente estudo, vale à pena desde já realizarmos algumas pontuações.

  Coutinho (2011) nos traz uma importante reflexão sobre o conceito de sociedade civil e acerca do seu tratamento e igualmente de seus condicionantes. Em seu trabalho sobre a relação das ONGs e das políticas neoliberais no Brasil, a autora nos diz o seguinte: “é necessário, portanto, considerar rigorosamente a heterogeneidade e as contradições

  ‘sociedade civil’, pois implicam interesses (geralmente opostos) de classes sociais, frações ou camadas de classes antagônicas”. (COUTINHO, 2011, p. 81).

  E a mesma autora ainda acrescenta “[...] somente o rigor teórico pode impedir que o uso acrítico de uma noção que comp orta sentidos bastante heterogêneos (‘sociedade civil’) produza resultados lamentáveis, como a reafirmação da autonomia da ‘sociedade civil’[...]”. (COUTINHO, 2011, p. 81).

  Para além de uma promessa do Iluminismo ou do fato de se contrapor ou não à esfera estatal, faz-se plausível salientar que o conceito de sociedade civil tem seus usos e (re) usos baseados em interesses totalmente distintos tanto por parte de quem se vale do conceito num dado arcabouço teórico, quanto por parte daqueles que clamam para si uma fração na participação dessa sociedade civil, seja como porta-voz de um determinado movimento e/ou instituição, seja como crítico da validade e/ou extensão de seu uso.

  Desta forma, ao fazermos este breve resgate teórico e reflexivo do conceito de sociedade civil, notamos que seria uma tarefa impossível suscitar quaisquer problemáticas acadêmicas sobre ONGs no Brasil sem perpassarmos pela noção de sociedade civil e, consequentemente, pelos movimentos sociais e eventos políticos responsáveis por sua configuração no país. Da mesma maneira, o conceito de Terceiro Setor apresenta grande peso em estudos sobre as instituições aqui tratadas e é sobre o que discorreremos a seguir.

  Antes de qualquer coisa, ressalta-se aqui que o conceito abordado em seguida o qual seja o de Terceiro Setor suscita debates teóricos dos mais diversos; sendo assim, mostraremos a seguir algumas das diferentes formas de argumentações acerca do conceito citado.

  Em entrevista à ABDL - Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças, em julho de 2003, Lester Salamon apresentou sua visão sobre o chamado Terceiro Setor:

  “[...] é um conjunto muito amplo de organizações autônomas de caráter privado que não distribuem lucros para seus membros. Nessas organizações as pessoas são livres para escolher se participarão ou não, ou seja, são organizações voluntárias. Elas também não são ligadas aos governos. Isso inclui hospitais, educação, organizações não governamentais voltadas para o desenvolv

imento e os direitos humanos.” “[...] o Terceiro Setor está caminhando rumo a uma revolução da associação de massas em nível global, que vem se espalhando por diversas áreas distintas. Há mudanças comunicacionais em curso, a abertura de oportunidades das quais as pessoas sequer sabiam que existiam, mudanças na forma como pensamos o papel dos governos locais. Por outro lado existem grandes insatisfações com a capacidade do Estado em prover serviços sociais e do mercado produzir os tipos de proteções socioambientais que as pessoas desejam. Isso tudo tem feito crescer a ideia que as pessoas têm que tomar a iniciativa em suas próprias mãos e começar a agir por conta própria” ( ABDL, 2003) .

  Já Lisboa (2003) possui uma visão distinta do autor anterior o que fica claro quando ressalta que

  “[...] o Terceiro Setor compreende qualquer forma de atuação de organizações privadas sem fins lucrativos dirigidas a finalidades públicas. [...] assim, somam-se dentro dele atividades extremamente heterogêneas e até contraditórias: voluntariado, formas tradicionais de ajuda mútua, cooperativas, associações civis, ONGs, ações de filantropia empresarial e movimentos sociais. [...] a grande diversidade do que se descreve traz divergências, confusões e debilidades conceituais, metodológicas e operacionais” (LISBOA, 2003, p. 253).

  Por comportar tantas formas dos cidadãos buscarem algum tipo de intervenção na sociedade, o termo Terceiro Setor vem sendo chamado para embasar e delimitar os mais diversos tipos de atividades congregadas pelos mais diferentes tipos de agentes sociais. Há quem sugira que seja tanto uma terceira forma de sistema

  • – o que o diferenciaria do Estado e do mercado
  • – como quem diga que o Terceiro Setor é um “trajeto novo” que vem sendo aberto e formatado tão somente pelos cidadãos.

  Ainda que o nosso objetivo neste estudo seja o de salientarmos como uma variedade de conceitos está fortemente imbrincada com os estudos referentes às ONGs, há o desejo de discorrermos brevemente sobre o assunto abordado.

  Quando recorremos ao material midiático, constantemente o mesmo faz alusão à tese que o Terceiro Setor é o “caminho” para que dois objetivos sejam conquistados: o que preconiza e que só com uma forte organização da chamada sociedade civil é que a mesma passaria ter voz nos debates acerca dos problemas sociais e das politicas públicas as quais os solucionariam; e que através das iniciativas oriundas do Terceiro Setor

  • – pensado como formado por aqueles que vivenciam ou conhecem os problemas
  • – os cidadãos conseguiriam de forma independente de outros setores se organizarem em prol de questões públicas (leia-se “questões que são responsabilidades de todos”).

  Este tipo de abordagem, a nosso modo de ver, negligenciaria alguns fatores. O primeiro deles seria o referente ao próprio peso do conceito de associação civil e de toda

  9

  tradição Rousseauniana 9 – só para citarmos um pensador – a qual sublinhava que o espaço

  

Em o Contrato Social Rousseau é bem claro quanto a este tipo de reflexão sobre a associação civil: “As leis

não são, propriamente, mais do que as condições da associação civil. O povo, submetido às leis, deve ser o seu público teria limites que transcenderiam o aparelho estatal. Também por esse motivo existem autores que nos dizem que as associações civis seriam formas originais de sociabilidade sendo, assim, o Primeiro Setor não o Terceiro Setor.

  Outro fator deixado de lado por parte desse pensamento é o fenômeno relativo às parcerias e aos mecanismos de cooperação. Este assunto será abordado mais profundamente no próximo tópico deste capítulo, porém, se faz relevante desde já mencionarmos alguns aspectos. Tanto empresas privadas como o Estado cada vez mais participam tanto do processo de constituição, como do auxílio de financiamento de projetos de organismos pertencentes ao Terceiro Setor. Isto já era uma tradição no que tange os Estados Unidos e hoje, marcadamente, também no Brasil. Só para ilustrarmos este argumento, vale a pena ressaltarmos com o quadro 5, o que a ABONG nos mostra sobre as parcerias efetivadas por suas afiliadas.

  Quadro 5 - Comparações sobre fontes de financiamento das afiliadas à ABONG.

  

Comparação fontes de financiamento acessadas 2001 a 2004 2004 a 2008

entre 2001 e 2008 (%)

  50,50 50,00

Cooperação e solidariedade internacional

  37,13 17,50

Recursos públicos federais

  26,24 29,60

Doações de indivíduos

  37,13 43,00

Empresas, institutos e fundações empresariais

  27,72 25,90

Comercialização de produtos e serviços

  25,74 32,40

Recursos públicos municipais

  11,39 30,50

Contribuições associativas

  10,89 1,80

Agências multilaterais e bilaterais

  26,73 41,70

Recursos públicos estaduais Fonte: ABONG, Panorama das Afiliadas, 2010

  No que é condizente ao quadro mostrado, devemos enfatizar que as fontes de financiamento das afiliadas da ABONG podem ser de mais de um tipo e, senso assim, cada associada pode marcar que tipos diversos de recursos utilizavam para suas iniciativas. Muito embora a cooperação e a solidariedade internacionais sejam as fontes mais acessadas, há um notável incremento na utilização de recursos públicos estaduais e municipais na comparação entre as faixas temporais apresentadas, bem como no que se referem às chamadas contribuições associativas. Notamos, assim, tanto uma acentuada diversificação das fontes de financiamento acessadas pelas ONGs quanto um aumento da participação da esfera governamental em parcerias com estas organizações.

  É valido mencionarmos a reflexão proposta por Lisboa (2003) acerca do fato de devermos estar atentos à dimensão politica por tantas vezes deixada de lado pela discussão sobre o Terceiro Setor. O referido autor nos diz que:

  “[...] é preocupante a pseudodespolitização que impera no discurso das entidades civis surgidas ao longo dos anos noventa, encobrindo sua integração ideológica às politicas neoliberais; de positivo, constatamos que estamos superando as visões Maniqueístas: não cabe mais pensar o social apenas a partir do mercado ou do Estado, não ficamos mais aprisionados ao falso dilema de revolução ou reforma; o fracasso do socialismo real indica isso com toda clareza bem como o fracasso social do capitalismo e a insuficiê ncia da regulação pelo mercado” (LISBOA, 2003, p. 257).

  Outra critica ao uso desenfreado da terminologia Terceiro Setor e da dimensão politico-ideológico que, por vezes, é diminuída por quem faz uso da mesma é apontada por Coutinho (2011). A referida autora nos diz

  “[...] a função social da ideologia do Terceiro Setor não consiste em oferecer aos sujeitos um conhecimento cientificamente adequado das estruturas do capitalismo e muito menos das particularidades das relações sociais em tempos de neoliberalismo, mas possui grande eficácia ao reforçar o processo de constituição dos dominados como ‘carentes’ e ‘excluídos’ [...]” (COUTINHO, 2001, p. 40).

  Landim (2002) também nos oferecem importantes pontuações sobre o chamado Terceiro Setor, já que esta autora propõe uma reflexão acerca da função deste termo dentro da discus são sobre ONGs. A mesma nos diz que o termo “Terceiro Setor” não só nasceu nos

  Estados Unidos como acabou sendo disseminado para os outros países trazendo consigo as nuances e os matizes da cultura cívica do seu país de origem.

  Landim (2002) ainda aponta que essa herança do chamado individualismo liberal norte-americano para com o Terceiro Setor fez com que o ideário associativo não só fosse perpetrado aos demais países, como resultou no acolhimento deste termo por um seguimento

  10

  bem especifico: o nicho da filantropia empresarial . Segundo a autora, o termo Terceiro Setor trás em sua tradição a ideia de colaboração fazendo um contraponto com a história associativista de nosso país, onde a ideia de conflito fora, sim, mais marcante e imersa em 10 situações as quais se encaixariam em lutas politicas.

  • Seria formada pela junção de estratégias e investimentos sociais oriundos do empresariado para diversos fins combinados ou não

  • – dentre os quais podemos citar: melhoria do marketing da empresa, possiblidades de

    isenções fiscais, conquistas de certificados tais como de empresa cidadã e incremento da qualidade de vida do

A autora vê no Terceiro Setor um conceito que marcha paralelamente às expansões das ONGs, mas que não se confundem. No entanto, a autora ressalva que a ideia relativa à força do Terceiro Setor passou a ter mais voz à medida que o Estado diminuiu sua atenção as chamadas politicas sociais; para sublin har sua tese a autora diz que “[...] frequentemente o

  Terceiro Setor é utilizado, implícita ou explicitamente, para produzir a ideia de que o universo das organizações sem fins lucrativos é uma espécie de panaceia que substitui o Estado no enfrentamento de questões sociais [...] ” (LANDIM, 2002, p. 43).

  Porém, ao nosso modo de ver, a reflexão mais importante trazida pela autora citada diz respeito ao cuidado quer devemos ter ao fazermos o tratamento acadêmico em relação tanto ao chamado Terceiro Setor quanto às ONGs. Não devemos rotular nem reduzir, muito menos tratarmos com conformidade ideias relativas à temática abordada.

  Sendo assim, a autora nos diz

  “[...] interessante observar que há, à esquerda, concepções e agentes que contribuem para o tão problemático processo de indiferenciação; são os estudiosos e ativistas que criticam de roldão tanto o termo ‘Terceiro Setor’ quanto ‘ONGs’, considerando-os como sinônimos e igualmente perniciosos

  • – os termos e os fenômenos por eles indicados – por indicarem desmonte do Estado e projeto de substituição de direitos por filantropia; paradoxalmente, essas concepções de um estatismo arraigado, em que se reduz o público ao estatal, contribuem para a conformação do campo de ideias dominantes que eles próprios combatem ”. (LANDIM, 2002, p. 44).

  1.2. “Parceria”, “Cooperação” e “Solidariedade”. De que maneira estes termos fazem parte das pesquisas sobre ONGs.

  Tanto na revisão crítica da literatura concernente à temática abordada, quanto no que tange a pesquisa empírica a qual realizamos para a sua consecução, nos deparamos com as terminologias as quais serão discutidas neste tópico do presente capítulo. São, assim, noções que fazem parte da agenda de pesquisa sociológica sobre ONGs e da mesma forma são utilizadas como termos técnicos a exaustão por quem faz parte do quadro de funcionários dessas entidades.

  Mais uma vez, tentaremos mostrar o que o pensamento crítico oriundo do meio acadêmico tem apontado como relevante no estudo desses fenômenos, seja como crítica a cada um deles, seja como bases de apoio válidas para as suas teorias. No que concerne ao fenômeno das parcerias entre ONGs e o aparelho estatal ou entre as primeiras e a esfera privada existem inúmeras contribuições. Abreu (2010), por exemplo, é dos autores

  empenhados na pesquisa acerca das parcerias entre o Estado e as ONGs na implementação de politicas sociais.

  O referido autor preconiza a importância desse tipo de estudo ao nos dizer que dois grandes fenômenos seriam perpassados pela questão referente às parcerias. O primeiro estaria atrelado à reconfiguração do estado brasileiro, e também do alcance das suas estratégias, dinâmicas e resoluções; e o segundo fenômeno é concernente às próprias ONGs as quais vêm intensificando as mudanças no tocante aos seus modos de atuação.

  Em relação a este segundo fenômeno social, Abreu (2010) nos diz que há uma mudança significativa nestas maneiras de atuação destas entidades. Na medida em que muitas delas, segundo referido autor, passaram de uma perspectiva de oposição ao estado para uma nova lógica: a de ver ago ra no estado um “grande parceiro” para financiar seus projetos. Assim, o tema preponderante do trabalho do autor é trazer a reflexão acerca da chamada reconfiguração do Estado

  • – nação – no que tange ao Brasil – onde teria ocorrido, segund o ele, “[...] uma resposta singular” feita “[...] através da articulação da questão da legitimidade da autoridade, dos interesses de mercado e das organizações de solidariedade” (ABREU, 2010, p. 5).

  Outro trabalho que nos chama atenção no que concerne à temática das parcerias entre ONGs e Estado seria o compreendido por Elisa Reis (2003). A autora nos diz que devemos atentar academicamente para uma nova dinâmica oriunda do chamado “engajamento da sociedade civil” que seria a possível desigualdade resultante do acúmulo de recursos. Para a autora “[...] onde os custos e as oportunidades de participação dos cidadãos são tão desiguais, os que já estão incluídos podem vir a aumentar suas vantagens relativas em relação aos excluídos” (REIS, 2003, p. 14).

  A referida autora ainda acr escenta que “[...] a lógica do capital social pode comportar tanta formação de monopólio quanto

  à do mercado” e sublinha que “[...] a agenda de pesquisa em políticas públicas deveria incluir entre suas preocupações o exame crítico da interação entre o ator público e o voluntariado na execução de policies ” (REIS, 2003, p. 14).

  Como mencionamos na introdução da presente pesquisa, um dos primeiros fatores que nos chamou atenção para o universo de pesquisa relativo às ONGs foi uma matéria jornalística que versava sobre a parceria entre ONGs e escolas do Brasil. Ao nosso modo de ver, há uma crescente “corresponsabilização” entre as três esferas de atuação as quais seriam o Estado, o mercado e as ONGs. Em muitos momentos nos parece que a percepção do fenômeno soci al denominado comumente como “parcerias entre público e privado” para com

  as organizações sem fins lucrativos deixa de levar em conta suas dinâmicas diferenciadas e, sobretudo, seus conflitos travados internamente.

  Dois fatores deveriam ser levados em conta no tocante ao estudo sobre essas parcerias das mais diversas. O primeiro diz respeito tanto à natureza dos financiamentos, tal como a finalidade dos mesmos com a articulação de uma dada parceria. Acreditamos que além do aumento da corresponsabilização entre os diferentes agentes há um movimento paralelo a este o qual seria a crescente dependência entre as entidades sem fins lucrativos e seus financiadores.

  Desde a natureza dos financiamentos, sejam os mesmos recursos públicos e privados, há um processo de adequação de prioridades exigidas pelos editais promovedores de recursos para projetos das entidades. Nesta “concorrência” de projetos, a dependência se insere por uma serie de maneiras, desde o número de laudas, passando por um memorial histórico, e até pela necessidade da explanação de como e quando cada etapa do projeto será executada, etc.

  No trabalho de Buclet (2009) já encontramos uma profunda reflexão no que concernem às chamadas parcerias, sobretudo no que tange aos graus de dependência das ONGs em relação aos seus mais diversos financiadores a partir destas parcerias entre eles estabelecidas. O mesmo faz a seguinte ressalva “a pluralidade e a diversidade dos financiadores representam a segurança da sobrevivência/ autonomia das ONGs”. (BUCLET, 2009, p. 110)

  . E o autor ainda acrescenta que “quando o número de financiador é grande, a dependência da ONG em relação a cada um é fraca [...] isto tem consequências sobre a sua postura politica, na medida em que ela pode se autorizar a entrar em conflito com um financiador sem botar em perigo o seu financiamento” (BUCLET, 2009, p. 110). Porem, Buclet (2009) também demonstra em sua pesquisa que esta dependência das

  ONGs em relação aos financiadores encontra ensejo, da mesma forma, no sentido contrário. O referi do autor nos diz que “alguns financiadores encontram-se, assim, ‘reféns’ de certas

  ONGs porque não encontram estruturas com características adequadas para o seu investimento. Algumas ONGs podem, nesse caso, aproveitar de ‘nichos’ de mercado, abusando às ve zes da sua posição” (BUCLET, 2009, p. 110).

  O que fica evidente para nós é que esta questão das parecerias entre as ONGs e os seus agentes financiadores (sejam públicos e/ou privados) merece a devida atenção por parte dos pesquisadores os quais desejam fazer alguma alusão ao mundo das ONGs. No nosso caso, o tema “parcerias” terá seu devido enfoque nesta pesquisa não só neste tópico, mas também nos estudos de caso elencados por nós na presente dissertação já que é um de nossos objetivos

  No que tange a este tópico, do capítulo primeiro, além de termos pontuado as relações existentes entre o fenômeno social das parecerias e a chamada reconfiguração do Estado Brasileiro no tocante suas novas formas de alocação de recursos, por exemplo, também mostr amos outros “nichos” acadêmicos profícuos concernentes às parcerias. Um deles foi ao que diz respeito aos modos de atuação das ONGs as quais, em sua maioria, teriam passado de uma lógica de oposição ao governo para uma nova logica de ação remodelada pela chamada parceria.

  Também chamamos a atenção tanto para estudos sobre a desigualdade que poderia advir do acúmulo de recursos para os poucos contemplados por projetos, igualmente como mencionamos estudos sobre a natureza dos financiamentos de ONGs e a relação de dependência simétrica que daí poderia vir a emergir entre as entidades e seus financiadores.

  Mencionamos anteriormente que dois fatores deveriam ser debatidos no que concerne ao estudo das parcerias entre ONGs e seus financiadores (sejam estes públicos ou privados). O primeiro fator, já abordado aqui, foi referente à natureza destes financiamentos correlacionados às suas diferentes formas de articulações. O segundo fator que, ao nosso modo de ver, deveria ser cada vez mais discutido academicamente diz respeito à pesquisa acerca de quem são os responsáveis pelo gerenciamento dos projetos nas ONGs. Quem seriam os responsáveis pela busca de parcerias para que estes projetos tomem corpo é o assunto o qual elencaremos a seguir.

  No capítulo três, abordaremos os perfis acadêmicos e profissionais dos indivíduos que ocupam posições centrais nas ONGs que analisamos, sejam como dirigentes das mesmas sejam como gestores de seus projetos; elencaremos, então, mais a frente à chamada

  11

  “expertise ”. Por enquanto, no presente capítulo, discorreremos sobre este assunto – “gestores de projetos e a busca por captação de recursos e/ou parcerias” – apenas em linhas gerais para pontuarmos como o mesmo pode ser abordado sociologicamente.

  O fenômeno social concernente à crescente especialização exigida aos profissionais pelo mercado de trabalho notadamente atingiu todos os setores da economia e também não 11 poderia ser divergente no tocante às ONGs. Os profissionais considerados habilitados para se

  Conjunto de recursos, experiências e repertórios que particularizam um agente, bem como são responsáveis

pelo acréscimo de especialização dos indivíduos; isto os torna conhecidos e reconhecidos como detentores de

aspectos cruciais em seus campos de atuação. Definições relevantes sobre esta temática são sublinhadas por

Almeida (2010) que nos diz que:

  “[...] a ‘expertise’ corresponde ao domínio de um campo específico do

conhecimento e das técnicas da sua aplicação a qual tende a ser reconhecida através da existência de um

monopólio. A autonomia remete para a capacidade em determinar o conteúdo do trabalho. O credencialismo, por

sua vez, corresponde ao controlo institucionalizado do acesso ao domínio dos meios científicos e técnicos inserirem numa ONG

  • – na grande maioria dos casos – devem possuir uma série de características específicas na sua bagagem acadêmica.

  Se o cargo desejado numa ONG for considerado central como, por exemplo, “gestor de projetos sociais”, as exigências profissionais e acadêmicas só tendem a aumentar. Para ilustrarmos o que estamos discorrendo aqui, notem a seguir anúncio para preenchimento de vagas de trabalho em ONG:

  [...] A Plan International Brasil (www.plan.org.br), organização não governamental que trabalha com desenvolvimento social com o foco em crianças e adolescentes no Nordeste, e seguindo o princípio de iguais oportunidades, buscamos um/uma profissional para a vaga de Facilitador (a) Projeto Adolescente Saudável, para trabalho lotado na cidade de São Luís - Maranhão. [...] O/A profissional contratado (a) se reportará ao Gerente de Unidade de Programas, Coordenador do Projeto e a Assistente de Programas, em São Luís - MA e será requerido dele/dela experiência demonstrada no desempenho de responsabilidades similares, de preferência em ONGs, tais como Criatividade, Cordialidade, Confiabilidade, Capacidade de adaptação a novos ambientes de trabalho, Capacidade de estabelecer bons relacionamentos interpessoais, Colaboração, Responsabilidade, Identificação com trabalho comunitário e com público juvenil, Conhecimentos específicos saúde do adolescente e gênero, Organização da Informação, Capacidade de Planejamento, Cumprimento de prazos, Tomada de decisões assertivas, Negociação e persuasão, Trabalho em equipe, Liderança, Comunicação, Aberto a aprendizagem, Gestão responsável, Integridade Ética. Formação Acadêmica e requisitos técnicos: 3º Grau completo nas áreas da Saúde, Serviço Social ou Sociologia; Conhecimentos específicos e experiência comprovada em atuação nos temas do projeto; Inglês Básico; Espanhol Básico; Domínio de pacotes informáticos, MS Word, MS Excel; Prática em facilitação de oficinas educativas, elaboração de relatórios, materiais educativos, comunicação oral. (PLAN INTERNATIONAL BRASIL, 2012).

  E todo esse rol de exigências geralmente vem acompanhado de dois outros elementos. O primeiro seria relativo à experiência com os chamados projetos sociais (até no que tange ao trabalho voluntário nos mesmos). Já o segundo elemento primordial levado em conta para a inserção em uma ONG seria tanto o domínio da gramática especifica e em voga para elaboração de projetos, como o conhecimento acerca do que é exigido nos editais de chamamento para o financiamento de projeto.

  O estudo do perfil profissional e dos capitais econômicos e escolares dos gestores de projetos nas chamadas ONGs nos oferece materiais relevantes acerca do que é buscado por estas entidades, da mesma forma que nos permite analisar sociologicamente o que e levado em conta para que esses profissionais tanto deem resultados em intervenções na área de atuação de cada ONG, como sejam úteis para o estabelecimento de parcerias as mais diversas.

  Outro elemento que frequentemente vem à tona quando analisamos os mais diferentes mecanismos de relações em ONGs e entre as mesmas com outros tipos de agentes é chamada cooperação.

  Quando sublinhamos a importância de discorrermos sobre este assunto vale também lembrarmos que a “cooperação” a qual faremos menção é a chamada “cooperação internacional”. Segundo Donida (2003) podemos depreender que a “cooperação internacional concessional é um complemento a outras fontes de financiamento para o desenvolvimento, especialmente nos países com menos capacidades de atrair investimentos privados”. (DONIDA, 2003, p. 55).

  Donida (2003) ainda acrescenta que as transferências de recursos internacionais podem ser executadas através de três vias as quais seriam as instituições multilaterais; as agências bilaterais oficiais; e as organizações não governamentais e outras associações da sociedade civil.

  O último assunto deste tópico a ser abordado é referente à chamada solidariedade. Nas entrevistas compreendidas por nós nas entidades pesquisadas de São Luís, notamos que a dimensão da solidariedade é evocada em vários momentos.

  Se ao analisarmos o histórico referente às ONGs pioneiras no Brasil na área de educação verificamos que havia componentes de conflito e de contestação muito fortes, há algum tempo a noção de solidariedade vem substituindo os mesmos em diversas destas entidades. Scherer-Warren (2002) reifica isso em seu trabalho ao nos dizer que “[...] hoje o apelo à solidariedade passa a ser crescentemente em recurso legítimo para mobilizações sociais e, especialmente, para a criação de novas formas de associativismo e amplificação da participação do voluntaria do” (Scherer-Warren, 2002, p. 64). A mesma autora aborda uma reflexão que não deveria passar despercebida no que tange à ação solidaria:

  “[...] a solidariedade em si mesma não se salvaguarda da alteridade, do mútuo respeito às diversidades. A ação solidária será emancipatória, em direção à realização de uma cidadania plena, à medida que for acompanhada por um pensamento crítico e auto reflexivo em relação a suas práticas e

experiências” (SCHERER-WARREN, 2002, p. 65).

  A solidariedade, por vezes, acaba sendo evocada para algum grupo considerado “excluído” (outra noção elencada em diferentes tipos de discursos) e pode vir a reiterar uma situação de “vitimização” pela qual algum tipo de agente pode passar. Por exemplo, se você sociedade, acreditamos que dois caminhos podem se abrir (simultaneamente ou não); pode haver tanto o diálogo entre identidades diferentes se afirmando as diferenças de modo positivo e/ou enriquecedor; como po de se reforçar uma separação e o grupo “excluído” nada mais será do que isso, acentuando-se divergências sociais a ponto incalculáveis.

  Nossa pontuação é reforçada por Lisboa (2003, p. 247) que diz: “[...] a solidariedade como projeto politico, como valor social conscientemente assumido, não emerge automaticamente [...] nossa sociabilidade não é naturalmente solidária”. Dizermos que somos solidários a certas causas e/ou pessoas ou situações pelas quais estas passem não nos obriga a, de fato, sairmos da nossa vida privada para efetivarmos alguma ação em prol deles. Igualmente não obriga a parte com quem somos “solidários” a aceitar e a gostar de qualquer ação vinda de nossa parte. E será que ser solidário a algo ou alguém nos habilita a entendermos plenamente a situação pela qual o “excluído” passa?

  Um bom exemplo de como a reflexão que propomos aqui é válida seria a análise de de busca profissional. Hoje quase todos exigem

  sites

  • – quando do preenchimento do currículo no site
  • – que escolhamos as “causas sociais” e/as quais nos identificamos, assim como nos indaga se já tivemos alguma ação voluntária relativa a ela. Às vezes nos sentimos impelidos a cadastrarmos uma opção ou outra, pois a chamada

  “responsabilidade social”, tão em voga nas empresas, preconiza algumas qualidades morais e qualificações profissionais para o preenchimento de suas vagas.

  Quando atentamos, assim, para este prisma da solidariedade e da ação solidária, notamos fortemente a dimensão moral que o conceito carrega consigo e também verificamos que o mesmo já não se limita à esfera subjetiva, pois cada vez mais toma conta das discussões morais e objetivas no espaço público.

  Quanto a isto, Lisboa (2003) faz uma lúcida análise:

  “[...] a solidariedade no momento é campo de disputa entre os diversos atores, e a resultante pode ficar cativa apenas no discurso e nas boas intenções, levando a uma sociedade de liberdade (para poucos), desigualdade (cada vez maior) e a um grande simulacro de solidariedade ” (LISBOA, 2003, p. 249).

  . Saindo um pouco da dimensão ontológica do conceito, discorreremos a seguir acerca das chamadas redes de solidariedade. Para pontuar o a ssunto, vale sublinharmos que “[...] a rede pode ser definida com base em seus sentidos morfológico, simbólico ou de empoderamento ou, ainda, da relação entre ambos” (SCHERER-WARREN, 2002, p. 67-68). solidarístico e estratégias das redes associativas é que se recomenda acrescentar a dimensão do pensamento cr ítico” (SCHERER-WARREN, 2002, p. 67-68). À luz destas reflexões cabe a nós ressaltarmos que o conceito de redes, sobretudo somado à dimensão da solidariedade, nos oferece importantes recursos sociológicos para efetivarmos estudos sobre associativismo, assim como para análises sobre ONGs e outros tipos de relações entre as demais organizações.

  Quando trazemos estas contribuições para a nossa pesquisa pode-se verificar a aplicação das mesmas no que tange a ela. Todas as entidades pesquisadas mencionaram tanto a participação nas chamadas redes de solidariedade e também sublinharam a importância, segundo elas, da existência das mesmas para uma maior representatividade das entidades em debates como, por exemplo, os chamados fóruns de políticas sociais locais.

  O possível aumento desse raio de influência a partir da organização em redes também é mencionado por Scherer-Warren (2002, p. 69 ): “as redes de movimentos praticam atos de solidariedade civil, fazem manifestações públicas pacíficas, buscam criar legitimidade na esfera pública para suas causas ou pleitos e ampliar o empoderamento da sociedade civil”.

  Essa articulação em redes engendrada pelas organizações, não somente pelas ONGs, também possui sua verificação com base na abordagem da Teoria Sociológica denominada “análise de redes sociais”. Desta forma, a análise de redes sociais seria uma ferramenta metodológica a qual poderia demonstrar, de forma quantitativa, fatores oriundos da interação entre as unidades independentes. Para elaborar estas redes, seria tarefa primordial do pesquisador verificar seus elementos primários, ou seja, os possíveis “nós” da rede, tal como analisar os chamados elementos secundários; estes seriam as características dos atores, tais como a raça e o sexo dos mesmos, por exemplo, Souza e Quandt (2008).

  Para quem a utiliza para tal, a análise de redes sociais seria uma forma de apreendermos alguns mecanismos da estrutura social através do olhar acerca da rede de relações (e de limitações) que perpassam pelas opiniões, escolhas e comportamentos dos atores. Vale sublinharmos aqui que os autores que as utilizam têm a noção de que as mesmas são redes complexas, mas onde procuram achar afinidades

  • – ou elos – entre os indivíduos de forma que possibilitem o encadeamento na chamada rede social. Bons exemplos de redes, segundo os autores citados, seriam as associações de classes e também as redes de especialistas e acadêmicos.

  Também segundo os autores, há um interesse crescente pelo estudo das redes sociais graças aos movimentos da sociedade civil em prol de soluções por problemas recorrentes no relação ao nosso objeto de pesquisa para fins de dissertação. Pesquisando artigos sobre esta relação entre o uso da análise das redes sociais e os movimentos sociais, a fim de apreendermos como seria possível operacionalizar sua utilização, encontramos uma pesquisa – organizada pelo Instituto de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

  A pesquisa de Marteleto (2001) analisou movimentos sociais na região da Leopoldina, no Rio de Janeiro, e para entender o fluxo de informações entre os grupos a serem pesquisados, a fim de apreender como a comunicação e a informação seriam meios de mobilizações sociais, valeu-se da análise de redes sociais (combinadas com metodologia de ordem qualitativa). Segundo a autora desta pesquisa, Regina Marteleto (2001), seria necessária a utilização tanto do conceito de rede estática, como do conceito de rede dinâmica. A primeira, segundo a autora, seria uma forma de entender a sociedade e/ou grupo social como uma estrutura com elos. E o conceito de rede dinâmica serviria para embasar a teoria de que as redes poderiam ser trabalhadas como estratégias de ação

  • – no nível geral ou pessoal – a fim de gerar instrumentos de mobilização social.

  Na conclusão de seu trabalho, a autora nos informa que conseguiu verificar quem seriam os atores com maior grau de centralidade na formação de redes sociais da Leopoldina e os mesmos seriam aqueles responsáveis pela maior mobilização e dinamização das redes e dos movimentos. Também conclui seu artigo nos dizendo que a formação das redes de movimentos sociais corresponde à criação de redes de conhecimento que dão sentido às estratégias de ação dos indivíduos.

  O que buscamos como possível ponto de apoio em nossa pesquisa é percebermos como a sociedade civil em São Luís, no que tange ao recorte de Organizações Não Governamentais com iniciativas educacionais, possivelmente estabelece redes sociais no que tange à configuração dos indivíduos que a fomentam. Isto será explicitado no capítulo dedicado inteiramente aos resultados de nossa pesquisa, mas desde já creditamos à análise de redes um apoio profícuo para os mais distintos estudos em Ciências Sociais.

  Outro termo que merece ao menos uma breve pontuação neste trabalho é o “empoderamento”. Discorreremos sobre ele por dois motivos: primeiro porque todos os entrevistados contemplados por nosso estudo, em algum momento, fizeram uso deste conceito; segundo, porque este termo vem cada vez mais sendo utilizado pelos mais diversos ramos do conhecimento e a Sociologia também já apresenta suas reflexões sobre o mesmo.

  Para Horochovisk e Meirelles (2007), a reflexão sociológica sobre o empoderamento da sociedade civil merece uma maior atenção e prescinde de algumas verificações que que advém de seu uso como atributo; os raios de ações nas mais diversas esferas sociais. Para os autores, se atentarmos para o olhar das organizações, empoderamento será sinônimo de conseguir recursos para que as mesmas possam ter influência e, assim, capacidade de tomarem decisões de forma mais emancipatória.

  Quando relacionamos o quesito emancipação com a questão das parcerias, num primeiro momento nossa abordagem poderá parecer contraditória. Mas, o que queremos mostrar aqui é justamente uma perspectiva de complementariedade entre os dois fatores no que tange às organizações não governamentais. Ao mesmo tempo em que estas necessitam de parcerias cada vez mais para se fortalecerem como entidades e para que haja o respaldo de suas intervenções, também precisam de um processo cada vez mais pungente de empoderamento, onde possam multiplicar os usos de suas ações e projetos e angariarem mais liberdade para realizarem os mesmos sem intervenções de agentes externos.

  Notamos aqui que esta liberdade vem carregada de muitos sentidos. Ao nosso modo de ver, o principal embasamento para esta, nessa perspectiva de análise sociológica, seria o recurso financeiro; somente através deste o empoderamento poderia se efetivar e, assim, não existiriam resistências externas para a realização dos objetivos das ONGs. Por mais que uma dependência em relação aos parceiros e/ou financiadores exista, ainda assim a relação com os mesmos possibilita o aumento do poder, em sentido bastante amplo, destas organizações. E isto pode ser medido por inúmeros motivos dentre os quais podemos citar a participação em redes de solidariedade; a posse de uma sede bem alocada de recursos para a efetivação dos projetos da instituição; a utilização de ferramentas sofisticadas de Internet para divulgação de ações, dentre outros.

  Para Horochovisk e Meirelles (2007, p. 2), “empoderar é o processo pelo qual indivíduos, organizações e comunidades angariam recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência e capacidade de ação e decisão

  ”. Por fim, verificamos desta forma que o empoderamento no tocante às ONGs se aplica à maneira como estas conseguem gerir seus contatos e recursos de modo que eles lhes garantam a consecução de seus mais variados objetivos. Gostaríamos de discorrer, brevemente, sobre as possíveis contribuições da

  análise dos aspectos sociológicos das organizações, sejam elas do tipo que forem tais como fundações, empresas, ONGs e tantas outras tipificações. Alguns dos maiores objetivos da referida Sociologia das Organizações são tanto a compreensão de como os fenômenos da sociedade interferem e influenciam as organizações, tal como busca apreender de que forma estes mesmos fenômenos sociais são percebidos e executados no interior das organizações e no desenvolvimento das mesmas.

  Ao nosso modo de ver, estes dois grandes objetivos do ramo citado da Sociologia já são extremamente válidos para a análise sociológica dos resultados da nossa pesquisa sobre ONGs educacionais em São Luís. Correlacionar fenômenos sociais como, por exemplo, a crescente especialização exigida pelo mercado de trabalho, com os percursos acadêmicos e profissionais dos quadros de funcionários das entidades que analisamos já nos confere uma maior articulação entre a chamada pesquisa empírica e a teoria sociológica, o que nos proporciona mais embasamento ao demonstramos, nos resultados de nosso estudo, que as ONGs educacionais na cidade buscam perfis de seus profissionais correlacionados à corrente educacional que defendem; porém, isto será mais bem desenvolvido no último capítulo desta dissertação.

  Para Friedberg (1995), com estudo contido na pesquisa de Boudon (1995), a contribuição da análise das organizações pode ser útil, caso:

  “[...] partindo de uma visão puramente instrumental das organizações como objeto social, foram chegando aos poucos à problematização do fato organizacional que transcende todas as tipologias para se situar num nível de pertinência mais geral, o das condições de emergência e de manutenção dos mecanismos que asseguram a cooperação e a ação coletiva dos homens; a análise das organizações vai ao encontro de uma reflexão mais geral sobre a ação e sobre a ordem social a que traz, de resto, uma contribuição imp ortante” (FRIEDBERG, 1995, p. 376 apud BOUDON, 1995).

  Notamos, assim, que a preocupação do autor citado encontra seu cerne no que tange 12 a uma reflexão mais profunda acerca das organizações, a qual perpassaria pela verificação de

  Segundo o Dicionário de Sociologia, para Max Weber “uma organização formal é um sistema social

estruturado em torno de metas específicas e que, em geral, consiste de vários grupos ou subsistemas inter-

relacionados. É dirigida de acordo com normas estabelecidas de forma clara e rigidamente impostas” questões relativas à chamada “ação social” que proporcionaria os componentes para o estudo das formas de relações e cooperações estabelecidas entre os homens nas chamadas organizações.

  Esta profundidade buscada com o apoio deste ramo da Sociologia tenta, igualmente, abarcar conceitos psicológicos para o entendimento dos comportamentos sociais empreendidos pelos membros de uma determinada organização. Esta contribuição, porém, não será levada em conta inteiramente em nosso estudo, visto que demandaria um maior tempo de convivência, numa eventual e mais longa observação participante da nossa parte com os indivíduos que pretenderíamos analisar. Assim, abarcaremos apenas as contribuições às quais procuram relacionar os fenômenos sociais de ordem mais geral que podem ser verificados no interior das organizações que contemplamos em nossa pesquisa.

  Para Boudon (1990), o estudo das organizações é altamente relevante, pois consegue aprofundar a análise tanto de um objeto social quanto de um problema social fundamental para a chamada sociologia da ação a qual seja a chamada organização. Segundo o autor, ao mesmo tempo em que esta congrega indivíduos os quais cooperam entre si, ela necessita de um olhar atento para com a coordenação de seus membros a fim de que possam colaborar para a realização dos objetivos da instituição. Assim, o autor sublinha a importância dos membros de uma organização para a manutenção e sobrevivência da mesma.

  Ele frisa que “tendo partido de uma visão puramente descritiva e instrumental das organizações, é numa tal "problematização" do facto organizacional que desembocam os estudos psicossociológicos e sociológicos das organizações” Boudon (1990, p. 182). E ainda acrescenta que “uma organização e o seu modo de funcionamento aparecem nesta perspectiva não como o produto mecânico de um conjunto de engrenagens perfeitamente ajustadas umas às outras e movidas por uma racionalidade única, mas como o resultado de uma estruturação contingente de um campo de ação”.

  O autor finaliza sua contribuição para nossa pesquisa salientando que o maior desafio de uma organização é o de manter seus membros com a cooperação sempre presente entre eles, mesmo sabendo que são indivíduos autônomos e que mantém seus interesses particulares. Os efeitos destas relações entre seus membros é que ditarão como será o funcionamento da organização da qual fazem parte.

  Desta maneira, acreditamos que as maiores contribuições teóricas da Sociologia das Organizações para com nosso estudo terão enfoque nos seguintes elementos: verificação de fenômenos relativos ao mundo do trabalho no cerne de cada instituição pesquisada; percepção que visam objetivos comuns em seu interior; percepção da existência

  • – ou não – dos quatro estágios que seriam responsáveis pela formação dessa unidade social os quais seriam o poder, o papel, a tarefa e a pessoa; e análise dos impactos da cultura organizacional nas práticas educacionais buscadas e/ou realizadas pelas três ONGs estudadas nesta pesquisa.

  Buscar como a dinâmica desses indivíduos que fomentam cada instituição pesquisada interfere nos trâmites de seus projetos e saber como seus recursos das naturezas mais distintas possíveis (como os educacionais, por exemplo) entram em jogo para o funcionamento da organização da qual fazem parte são metas relevantes para trabalhos acadêmicos sobre ONGs e terão sua devida apresentação de resultados ainda neste estudo, mesmo que de forma breve.

  Nos termos explicitados por Boudon (1990), devemos analisar sociologicamente uma organização atentando para os seguintes fatores de limitações:

  a interdependência limitada dos membros de uma organização: estes

  “[...]

  nunca são totalmente dependentes uns dos outros, mas têm sempre uma margem de liberdade, que procuram defender, e até aumentar, na medida em que ela constitui sempre a própria base da sua capacidade de ação na organização; a racionalidade limitada dos comportamentos de todos os atores envolvidos que escolhem os seus comportamentos segundo as visões locais e parciais que são as únicas de que são capazes e que nenhuma racionalidade superior e englobante faz coincidir espontaneamente; a legitimidade limitada dos fins da organização: estes têm apenas uma limitada capacidade de integração na medida em que não existem sozinhos, mas entram em concorrência com os objetivos que os membros da organização desenvolvem no prosseguimento dos seus interesses próprios (BOUDON, 1990, p. 181)”.

  No que concerne às contribuições da Administração para com os estudos referentes às organizações, encontramos poucas possibilidades de análises verificáveis em nossa pesquisa

  • – no que tange ao capítulo dedicado aos estudos de caso – que nos dizem que “[...] duas perspectivas vieram a sobressair, uma defendendo que as pressões ambientais controlam as ações organizacionais e a outra, ao invés, que são as organizações que controlam o ambiente. Enquanto a aquiescência corresponde à primeira perspectiva, pois constitui uma pressão unilateral exógena, a criação é afim à segunda, pois pressupõe uma ação unilateral direcionada da organização para o ambiente. No entanto, se não tomamos essas estratégias como eventos excludentes, mas como ações que se alternam ou complementam, observamos que a estratégia de criação provê a explicação que falta, em DiMaggio e Powell (1991), para a misteriosa origem dos valores preexistentes no ambiente. Com a estratégia da criação, o ciclo se fecha, pois são organizações que moldam valores no "ambiente" que, afinal, é por elas constituído ” (MARIZ, 2007, p. 12).
Para o autor citado, com enfoque de estudo na Administração, o esquema pode ser verificado através da figura 1 a seguir.

  Figura 1

  • – Respostas Estratégicas Fonte: Criada com base em Oliver (1991).

  Assim, encerramos este tópico concluindo que a Sociologia das Organizações nos oferece contribuições clássicas importantes

  • – como a referente à chamada ação social empreendida pelos indivíduos
  • – passando pela comparação e a verificação de fenômenos sociais mais amplos que são observáveis num ambiente organizacional, do mesmo modo que nos oferta contribuições mais mode
  • – com embasamento no ramo da Administração de Empresas – as quais nos dizem que as estratégias de criação de uma organização atuam nos valores e nos ambientes congregados por ela.

  Antes de tudo, gostaríamos de fazer duas ponderações sobre este tópico. A primeira refere-se ao desafio que encontramos ao escolhermos empreender um estudo que versasse sobre ONGs e as relações destas com a esfera educacional. Isto foi notado por nós logo de início e de muitas formas.

  Ao que nos parece, ainda há muita resistência em relação a quem se aventura em partido”: ou você é do tipo que amaria trabalhar numa ONG ou você é daquelas que acham que todas as ONGs são corrompidas e “estão a serviço do mal”. Mas, felizmente, nossa posição não é maniqueísta.

  O que nos move a pesquisar a temática abordada é o reconhecimento da riqueza de relações sociais, de trabalho, políticas e econômicas

  • – só para citarmos algumas – que podem vir à tona a partir da análise sociológica de organizações em geral. E isso não é diferente no que concerne às ONGs; e quando utilizamos o termo “riqueza” que fique claro que o mesmo faz alusão à riqueza de diversidade de relações que podem ser verificadas academicamente.

  E a segunda ponderação que faremos sobre este tópico é um breve esclarecimento. Buscamos, com este tópico, mostrar como a relação entre ONGs e o campo educacional pode ser um estudo vantajoso para estudos acadêmicos, seja no enfoque institucional, seja na análise do capital escolar de seus principais agentes, por exemplo. Desta forma, tanto ratificamos a escolha de nossa temática, e, principalmente, mostramos as diferentes formas de abordagens acadêmicas que podem advir da análise das complexificações desta relação e suas possíveis contribuições à nossa pesquisa.

  O primeiro estudo a sublinharmos aqui é o de Almeida (2006). A autora se propôs a perceber, dentre outros fatores, qual é o perfil dos profissionais da educação que trabalhavam em ONGs e se estes formariam uma nova categoria docente. Para tal, a autora citada buscou efetivar comparações entre duas ONGs em São Paulo com trabalho predominante na área educacional as quais seriam o Projeto EmCantar e a Ação Educativa.

  Contribuições interessantes no tocante ao trabalho de Almeida (2006) dizem respeito a três diferentes dimensões bastante interligadas. A primeira seria relativo ao detalhado mapeamento que a autora empreende no que concerne aos perfis acadêmicos dos profissionais das ONGs contempladas por sua pesquisa. O capital escolar elevado foi verificado em ambas as instituições. E quão mais importante o cargo em cada uma das duas ONGs, maior a bagagem acadêmica e cultural para se ocupar o mesmo.

  A segunda dimensão relevante, a nosso ver, no trabalho da referida autora refere-se ao fato de que sua pesquisa evidenciou que estar numa ONG, para os seus entrevistados, não é o mesmo que estar num mero emprego. Para os agentes contemplados por sua pesquisa, estar envolvido num trabalho em uma ONG é ocupar uma posição central de articulação entre o meio acadêmico, os movimentos populares, os gestores políticos e as próprias ONGs. Assim, seus entrevistados se enxergam como articuladores destas diferentes ações.

  E, finalmente, a terceira dimensão percebida por nós no trabalho de Almeida (2006) diz respeito à afirmação das ONGs como agentes educacionais já reconhecidos no campo educacional brasileiro. Para embasar esta colocação, a autora noz diz que:

  “[...] apenas para reforçar essa hipótese ‘ONGs como agentes educacionais’, alarga-se a análise para um espectro maior dessas organizações que, apesar de lidarem com outras temáticas ‘linhas de frente’, de maneira indireta, acabam comprometendo- se com o ato educativo” (ALMEIDA, 2006, p. 399).

  A interligação das três dimensões é evidente para nós na medida em que o perfil acadêmico notável desejado pelas ONGs (primeira dimensão) é condição sine qua non para que estes agentes recrutados por elas possam desempenhar bem a função de articuladores

  • – (segunda dimensão) com os demais diferentes agentes. E ter uma boa bagagem acadêmica de preferência, no caso das ONGs educacionais, na área de Educação
  • – credencia esses agentes tanto para a função de articulação, como para desempenharem funções de intervenção na área educativa respaldando profissionalmente as ONGs em que se inserem como agentes educacionais (terceira dimensão).

  Essas três dimensões congregadas foram de grande valia para a nossa pesquisa, visto que mostraremos no capítulo dedicado aos estudos de caso que as entidades analisadas buscam perfis profissionais específicos para melhor atenderem seus objetivos no nível de projetos. Também se percebe que a expertise para os que atuam nas áreas de elaboração e gestão de projetos é almejada em relação aos cargos responsáveis pelos mesmos para que cada ONG se insira tanto em “redes de solidariedade” mais amplas, como para que possam ter espaço e voz nos chamados fóruns de políticas públicas.

  Outra pesquisa profícua em nível de possíveis contribuições sociológicas a nossa pesquisa fora empreendida por Benjamin Buclet (2009). O autor busca salientar as relações entre determinadas ONGs na Amazônia e os financiadores internacionais das mesmas. O referido autor refina e aprofunda a análise dos perfis dos indivíduos que fomentam as ONGs elencadas no seu estudo.

  Buclet (2009) escolhe duas grandes organizações

  • – IMAZON e IPAM – na Região Amazônica para demonstrar sua hipótese de que as ONGs por ele citadas ocupam posições de destaque no que tange à temática “biodiversidade na Amazônia” devido à expertise dos profissionais destas instituições.

  Segundo o autor “[...] as histórias dessas duas ONGs ilustram as ligações ainda sublinha que “[...] isto não significa que elas tenham o monopólio da expertise, mas simplesmente que elas ocupam uma posição dominante neste campo” (BUCLET, 2009, p.97).

  O autor mencionado faz um esforço duplo ao empreender a análise sociológica tanto das trajetórias individuais dos agentes que formatam profissionalmente essas ONGs, tal como do próprio percurso institucional dessas ONGs. Para nós, o cruzamento destas duas análises gera uma maior capacidade de compreensão de uma série de fatores os quais podemos destacar: estudo da natureza das relações entre perfis acadêmicos e profissionais de pessoal ocupado em ONGs correlacionado aos objetivos institucionais das mesmas; comparações entre trajetórias de diferentes ONGs; análise da participação destas entidades em redes, fóruns, publicações; estudo da capacidade de captação de recursos para projetos tanto no que tange a estas ONGs, como no que concerne às pessoas responsáveis por esta captação.

  Assim, depreende-se que muitos objetos de estudo no nível de pesquisas sociológicas podem encontrar respaldo através da análise tanto dos indivíduos que congregam as ONGs (fundadores, equipe técnica, voluntários), como da trajetória institucional das mesmas. O próprio Buclet (2009) enseja estas possibilidades com a seguinte passagem do seu texto:

  “[...] os percursos individuais e a análise institucional das ONGs mostram a sua estreita ligação uma com a outra; circulação interna de pessoas, financiamentos compartilhados, publicações conjuntas, são elementos que revelam a consolidação desta área profissional como um campo sociológico, campo de concorrência onde existem lutas pelo controle de recursos e dos processos de definição das regras do jogo, local e internacional” (BUCLET, 2009, p. 97).

  O que há de mais profícuo como contribuição para o nosso estudo a partir da pesquisa de Buclet (2009) é o chamado “pensar relacionalmente” proposto por ele. Por isso, em nossa pesquisa não só mostramos o percurso histórico feito por cada ONG, como também verificamos os perfis de seus mais importantes membros dos corpos organizacionais, sempre buscando paralelos e contrapontos tanto em cada ONG, tal como de cada uma delas em relação às demais entidades.

  Outra contribuição acadêmica levada em conta para a consecução de nossa pesquisa advém do estudo de Gonzalez (2004). A autora possui uma proposta metodológica válida para o nosso estudo, pois se baseia no sentido de correlacionar a s ações da chamada “educação profissional” no tocante às ONGs com reflexões sobre as diretrizes pedagógicas escolhidas pelas instituições.

  Gonzalez (2004) procura entender como a questão das competências, à luz da Lei de

  A autora finaliza seu trabalho pontuando que a qualidade dos serviços educacionais prestados por cada ONG independe do tempo de existência de cada instituição, mas sim de uma fiscalização mais efetiva, ao seu modo de ver, por parte do Estado em relação aos seus parceiros que utilizam verbas públicas para financiamento de projetos.

  O método comparativo de estudos de caso empreendido pela autora citada nos parece adequado ao nosso mote de pesquisa, assim como a proposta de pensar a educação a partir das ações de cada uma das três instituições. Porém, ressalta-se aqui que não é nosso objetivo tecer avaliações de como a educação sofreu ou não melhorias a partir de ações de ONGs.

  Nossos objetivos são tanto a busca de condicionantes históricos e sociais os quais teriam levado cada entidade pesquisada por nós a priorizar o campo educacional como área de atuação, como percebermos o que os principais agentes destas ONGs levam em consideração ao refletirem sobre o que é educação e onde e como ela pode sofrer intervenções. Não tecemos avaliações sobre as diretrizes pedagógicas de cada instituição por acreditarmos, dentre outros fatores, que tal empreendimento necessitaria tanto de um maior conhecimento de aspectos pedagógicos específicos, assim como demandaria mais tempo do que habitualmente dispomos para a consecução de uma dissertação de mestrado.

  Também não escolhemos apenas uma ou outra tipificação no que concerne à educação como, por exemplo, elencar só ONGs que trabalhem com a chamada “educação profissional” ou só com as envolvidas com a alfabetização de adultos. Procuramos nesta pesquisa, sim, escolhermos as entidades as mais distintas possíveis uma da outra no que tange à escolha da educação priorizada por elas para que mais nuances e possíveis disparidades ensejem comparações mais interessantes ao nível sociológico.

  E o outro trabalho que auxiliou a consecução de nossa pesquisa, no sentido de trazer as mais variadas contribuições para o mesmo, fora realizado por Coutinho (2011). O esforço da referida autora se fez presente em várias vertentes as quais podemos destacar suas 13 reflexões acerca das trajetórias das ONGs nos anos 90 do século XX; o fato de levantar a

  Segundo Oliveira (2005) “A LDB prescreve que o dever do Estado para a efetivação do direito à educação

será concretizado mediante a garantia de "padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade

e a quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-

aprendizagem" (inciso IX, art. 4º). Além disso, prevê que a União, em regime de colaboração com os entes

federados, estabelecerá padrão mínimo de oportunidades educacionais para o ensino fundamental, com base em discussão teórica em torno de noções como, por exemplo, o Terceiro Setor; ou, ainda, a proposta de aprofundarmos nossas reflexões acerca da relação entre Estado e ONGs.

  Coutinho (2011) observa, por exemplo, que:

  “[...] elas podem ser ‘não estatais’, já que não fazem parte diretamente da ‘ossatura institucional’ do Estado; mas fazem parte das ‘políticas estatais’ e, portanto, da política de governo: aumentando a atuação de ONGs, diminui a atuação direta do Estado nas políticas sociais” (COUTINHO, 2011, p. 73).

  Os esforços teóricos e críticos da autora nos serviram de grande respaldo para a presente pesquisa, pois procuramos a todo o momento trazer à luz de nosso estudo a bibliografia especializada para nos auxiliar no que concerne a cada tópico do mesmo. Acreditamos que o apoio bibliográfico mesclado à pesquisa empírica propriamente dita nos oferece mais ferramentas de análise do fenômeno social; da mesma maneira que trazer questões que perpassem pelo nosso objeto de pesquisa, oferece, igualmente, mais desdobramentos profícuos para nossos estudos.

  Vale à pena também ressaltarmos a reflexão de Coutinho (2011, p. 75) no tocante à sustentabilidade financeira das ONGs “[...] ao reforçar a importância de uma equipe competente na busca de recursos, a linguagem e o discurso são os mesmos utilizados pela

  ‘empresa privada’ [...] a ONG deve estar atenta à necessidade de mudanças, para atender às exigências de novos clientes [...] ”. A análise das ONGs no que concerne às suas estruturas como organizações é, assim, uma contribuição advinda da autora citada, dentre outros recursos teóricos e propostas de discussões acadêmicas levantadas pela mesma.

  Encerramos este tópico enfatizando que os quatro autores elencados no mesmo não esgotam com seus trabalhos os objetos de estudo acadêmicos referentes à temática das ONGs e nem era este o nosso objetivo com este tópico. O ponto era justamente mostrarmos como quatro pesquisas totalmente distintas umas das outras, mas inseridas na temática abordada por nós, podem tanto a vir a corroborarem com outras pesquisas acadêmicas, assim como ilustram os enfoques distintos que podem advir do estudo da relação entre ONGs e educação ou entre estas entidades e perfis acadêmicos de seus agentes formadores e/ou financiadores, por exemplo.

  Quando da escrita desta dissertação, tivemos certa hesitação se o presente tópico da mesma abriria o estudo ou se ficaria em outro posicionamento. Avaliamos que concluir o primeiro capítulo da dissertação com este assunto seria mais esclarecedor devido aos fatores que discorreremos a seguir.

  O primeiro fator que levamos em conta foi o quesito organização metodológica, puramente simples; resolvemos elencar, primeiramente, as discussões teóricas as quais são suscitadas pela temática referente às ONGs: sociedade civil, Terceiro Setor, cooperação, solidariedade, dentre outros. Para o encerramento deste capítulo escolhemos, então, o que havia de mais específico para levantarmos como questionamento. Saímos, assim, das discussões mais gerais para podermos, deste tópico em diante, elencarmos o que há de mais particular para a realização de nosso estudo.

  E o segundo fator que consideramos para a escrita deste último tópico só a partir desse momento é relativo aos próprios desdobramentos da pesquisa a partir da análise das entrevistas feitas nas ONGs e também do estudo tanto dos históricos das mesmas como de materiais informativos (em Internet ou não) disponibilizados por elas.

  O que ficou claro para nós a partir destes desdobramentos é que muitos são os fatores que entram em jogo no momento em que um ou mais agentes prioriza uma causa para se envolver e/ou trabalhar com ou a partir dela. Isso ficará ainda mais evidente no Capítulo III, mas, de antemão, discorreremos sobre as conexões sociais as quais podem ser levantadas a partir das relações estabelecidas por estes agentes.

  Primeiramente, gostaríamos de discorrer sobre o uso do termo “trunfo” nesta nossa via de análise. Para nós, o termo citado tem seu uso aplicável em qualquer pesquisa que possua, dentre seus objetivos, realizar a verificação e/ou comparação de perfis de agentes por ela contemplados.

  Desta maneira, entendemos por “trunfos” o conjunto de características pessoais e profissionais as quais um agente pode e/ou deve possuir para que obtenha a consecução de seus objetivos. Ressaltamos que quando falamos em “características pessoais” entendemos as mesmas como as experiências na trajetória de vida de cada indivíduo que o diferencia dos demais na concorrência por uma vaga de trabalho, por exemplo.

  No caso específico da nossa pesquisa, elencamos alguns elementos para serem considerados trunfos de um agente para que este faça parte de uma ONG e para que ocupe dedicado à pesquisa que especificaremos como estes trunfos foram levados em conta por cada instituição estudada. A seguir, discorreremos sobre os elementos que nortearam o uso da noção de “trunfo” neste trabalho.

  O primeiro elemento levado em consideração por nós é relativo ao chamado “capital militante”. Verificamos que todas as ONGs envolvidas em nossa pesquisa agregam para si pessoas com reconhecida experiência na participação de movimentos sociais ou na inserção como voluntários em projetos sociais. Deve-se levar em conta que certos tipos de engajamentos não perpassariam, necessariamente, pela esfera política ou por questões sindicais (perspectivas de engajamento mais tradicionais), mas sim, atualmente, pelas chamadas redes de movimentos.

  Um exemplo disso são os movimentos sociais promovidos

  • – e muitas vezes executados
  • – pelo uso da Internet, hipótese sugerida por Fraga e Safady (2009). Os autores nos dizem que

  “[...] o fato de alguém estar envolvido com um determinado movimento social não o faz eternamente preso e relacionado a este, uma vez que é possível estar, ao mesmo tempo, ligado, de alguma maneira, a vários destes tipos de mobilização; isso ocorre porque as insatisfações são muitas [...]

  ”. “[...] ao procurarmos pontuar um determinado movimento, não devemos ter somente a preocupação de nos ater à origem do mesmo e às finalidades inclusas nele, mas devemos estar atentos à maneira como os agentes promovem a realização de um vínculo na busca de seus interesses, mesmo que esses sejam voláteis; cada movimento, de caráter social, possui alguma particularidade, algum aspecto em especial, buscá-lo sublinhar não é das tarefas mais fáceis, mesmo que sob um rápido olhar pareça o contrário” (FRAGA E SAFADY, 2009, p. 1).

  Desta forma, notamos que os autores citados levam em consideração as novas formas de mobilização engendradas pelos agentes, não mais restritos, somente, às formas tradicionais de engajamento. Outra contribuição do trabalho dos referidos autores é concernente à tipificação dos movimentos sociais em três tipos que seriam os movimentos reais (como, por exemplo, os movimentos civis que muitas das vezes dão origem a organizações formais tais como os sindicatos); os movimentos reais, mas ligados ao virtual (os quais se valeriam das vias virtuais para garantirem seus objetivos); e os movimentos apenas virtuais (ou apenas restritos ao âmbito virtual) onde um bom exemplo seria o relativo aos abaixo-assinados que proporiam o boicote a algum tipo de produto, conforme Fraga e Safady (2009).

  Uma pontuação que gostaríamos de fazer sobre a discussão citada a qual seja sobre a participação de agentes em movimentos sociais e/ou nas mais diversas formas de engajamento

  é sobre a existência de sites nacionais e internacionais acerca do chamado voluntariado, por exemplo. Um exemplo brasileiro é o site “Portal do Voluntário” o qual elenca projetos e instituições da chamada sociedade civil organizada e distribui os voluntários cadastrados em seu portal de acordo com os interesses das instituições.

  A respeito do voluntariado, faremos algumas pontuações ainda neste estudo, sobretudo em relação à precarização que vem circundando este tipo de modalidade de engajamento por acreditarmos que a mesma merece ser abordada de forma relacional na elaboração dos perfis dos agentes que formam cada ONG a qual estudamos.

  Retornando à reflexão sobre os trunfos, vale ressaltarmos que a noção de capital militante foi utilizada e explicitada por Matonti e Poupeau (2006). Os autores citados evocam a questão do militantismo em seu artigo e sublinham como a configuração histórica teria mudado o perfil do agente considerado como militante. Este não teria mais aquela característica clássica de vocação para esta tomada de atitude. Essa mudança de perfil seria, e muito, ocasionada pela dissociação entre os campos partidários e militantes, acarretando novas formas de militantismo por parte dos agentes.

  Os autores elucidam que novas aprendizagens seriam agregadas às novas maneiras de engajamento, sobretudo novas competências seriam exigidas destes militantes. Até os lugares de transmissão de alguns desses saberes mudaria de cara, deixando como nova base de apreensão de conhecimentos o ambiente literalmente escolar.

  Estar bem alocado com suas propriedades militantes é hoje, dizem os autores, levar em conta que as competências escolares se fazem mais úteis do que o capital político incorporado em uma trajetória, por exemplo. Mas vale também sublinharmos que esta modalidade de capital, a qual seja a militante, ajuda a reiterar posicionamentos dos agentes no espaço social, mas só faz sentido se pensada na lógica de distribuição dos mais diversos capitais.

  Para os autores,

  o capital militante adquirido e a posição conquistada constituem uma

  “[...]

  oportunidade de reconhecimento para indivíduos que vivem um processo de desclassificação social, produto do descompasso entre as aspirações ligadas a uma escolarização prolongada e a realidade da posição (social e profissional) ocupada

  ” (MATONTI E POUPEAU,2006, p.5).

  Outro autor que preconiza a importância da análise do capital militante é Seidl (2009). O autor centra seu enfoque a respeito desta temática nas condições de aquisição de disposições para diferentes engajamentos e na forma como tais disposições se realizam e se atualizam ao longo dos itinerários individuais dos agentes.

  Para o autor, seria interessante tentarmos articular como a posse de recursos variados, os quais sejam as experiências acumuladas, as heranças culturais e sociais e outros tipos de investimentos dos agentes e/ou advindos dos seus pais entram na equação responsável pelo engajamento e conseguinte militância em causas as mais distintas possíveis. Que elementos seriam responsáveis pela inserção de agentes nos mais diversos movimentos? E no que tange às ONGs, como essa articulação é feita pelas entidades e pelos próprios agentes? Esse mote levantado por Seidl (2009) é considerado, igualmente, em nosso trabalho.

  O segundo elemento que levamos em conta nesta pesquisa para fomentarmos a via de análise sobre os trunfos dos agentes é o chamado capital social. A noção escolhida fora discutida por Bourdieu (2004) o qual nos sublinha que

  “[...] o capital social é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjuntos de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns, mas também são unidos por ligações permanentes e úteis. [...] o volume do capital social que um agente individual possui depende então da extensão da rede de relações que ele pode efetivamente mobilizar e do volume do capital (econômico, cultural ou simbólico) que é posse exclusiva de cada um daqueles a quem está ligado” (BOURDIEU, 2004, p. 67).

  Assim, para o autor, quantificar e/ou qualificar esse capital social dependeria da extensão da rede de relações sociais desse agente (e como a mesma poderia ser mobilizada quando necessária) e do volume dos capitais acumulados por cada participante da rede. Só que essa mobilização de rede de relações pode ser verificada de forma desigual por quem delega esse capital social a nós, ou seja, o grupo ao qual nós pertencemos. E, sim, pode haver concentração desse capital

  • – e em certa medida de recursos de poder – nas mãos de um só agente.

  Destas pontuações feitas por Bourdieu (2004), depreendemos que a noção de capital social é válida para o nosso estudo, pois reúne em si tanto a posse, por parte de um determinado agente, de relações sociais as quais podem vir a lhe assegurar uma dada posição numa instituição, por exemplo, como também reúne a reflexão que este tipo de capital só pode ser movimentado de acordo com a junção entre as redes de relações de um agente e o volume de capitais que o mesmo possui.

  Para exemplificarmos a aplicação da noção de capital social, utilizaremos a trajetória de uma agente inserida na ONG Formação. Uma garota chamada aqui apenas de D., hoje com 18 anos, fora apresentada a mim pela fundadora da ONG citada como prova viva da existência dos chamados “agentes multiplicadores”. D., segundo as entrevistas, veio da cidade do interior do Maranhão chamada São Bento e, após ser atendida pelos projetos socioeducativos da Formação, adquiriu capital escolar suficiente para alçar novos voos dentro da organização. D. passou quatro meses na Alemanha e, em 2008, foi para o Chile para divulgar projetos da instituição e aprender novos idiomas.

  Ainda em 2012, D. irá para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para trabalhar

  • – como agente multiplicadora das ações da ONG da qual faz parte - com jovens de sete a dezessete anos. A fundadora da ONG citada pediu para que a menina falasse comigo em espanhol para que ficasse demonstrada sua aptidão não só em outros idiomas, mas no modo de falar. Assim, resumidamente, notamos que o capital social conquistado pela rede de relações sociais estabelecidas e tornadas possíveis pela ONG Formação foram responsáveis, também, pela posição conquistada por D., seja na própria instituição, seja em outros locais através da posição em redes mais abrangentes de ONGs das quais a entidade faz parte.

  Outro elemento formador de possíveis e reconhecidos trunfos dos agentes

  • – tema abordado neste tópico do presente capítulo
  • – é o chamado capital escolar. Bourdieu (2008) nos traz a questão do investimento dos pais na educação dos filhos. As frações de classe mais ricas em capital cultural tenderiam a investir mais tanto na educação dos filhos, quanto nas práticas culturais responsáveis por manter a chamada “raridade específica”. Já as frações mais ricas em relação ao capital econômico tenderiam a investir mais em benefícios econômicos, no que tange aos empresários da indústria e do comércio, pois a mesma lógica não foi verificada em quadros do setor privado, tão preocupados com a educação quanto com a economia.

  Assim, o capital escolar estaria congregado a outros tipos de capitais

  • – nos termos do autor
  • – como o econômico, o cultural e o social, cada momento um demandando o outro e a rede de relações movimentada por cada um destes capitais possuídos pelos diversos agentes. No item “Classificação, desclassificação, reclassificação” de Bourdieu (2008), há um enfoque importante no sistema de ensino. Para o autor, a concorrência intensificada por diplomas ocasionou a rápida propagação da escolaridade.

  Um efeito disso foi que as frações de classe dominantes, da mesma forma que a classe média, tiveram que reforçar a utilização do sistema de ensino, para garantirem sua teve em vista a manutenção da posição na estrutura de classes. O outro destaque vai para a menção de que a reconversão do capital econômico em capital escolar, por parte da chamada classe de negócios, seria uma forma de manutenção da posição de parte dos herdeiros da respectiva classe.

  Durante a consecução tanto das entrevistas quanto da análise das publicações de cada ONG escolhida para o nosso estudo, a suma importância do capital escolar

  • – assim como, se possível, de outros capitais citados anteriormente
  • – ficou muito evidente para nós, sobretudo quando questionávamos que fatores seriam levados em conta quando do momento de recrutamento de profissionais e voluntários para cada instituição. Todas buscam um capital escolar elevado dos mesmos ou que eles, minimamente, estejam já em vias de se aperfeiçoarem nas suas áreas de origem.

  Porém, ressalta-se a nossa percepção de que cada ONG analisada busca a alocação de agentes com certas especificidades nas suas trajetórias escolares para formatarem seus quadros de profissionais. Assim, cada entidade analisada busca indivíduos que corroborem com as suas finalidades específicas, reiterando o perfil peculiar de cada uma das instituições.

  Isso será mais bem explicitado no Capítulo III, onde existe um tópico dedicado exclusivamente à análise dos perfis das ONGs contempladas por esta pesquisa, pois somente aí mostraremos como cada ONG tem uma maneira bem peculiar de desenvolver seus projetos e objetivos e de enxergar qual deva ser a proposta educacional mais supostamente adequada para seus públicos-alvo.

  E o último elemento formador da noção de trunfos aqui trabalhada diz respeito à posse de uma gramática apropriada a cada ONG em particular e que é mobilizada pelos agentes que ocupam posições estratégicas nas mesmas. Ao nosso modo de ver, a posse desse tipo de linguagem diferencia cada agente à medida que o mesmo passa a ter o know how necessário para uma série de fatores dentro da instituição.

  Assim, podemos destacar como elementos potencializados a partir da posse de uma linguagem específica de ONGs: conhecimentos específicos de abordagens relevantes tanto para a elaboração de projetos como para a inscrição dos mesmos na concorrência de editais para financiamento deles; linguagem específica para a divulgação de ações das ONGs em

  

sites ou nas chamadas redes sociais da Internet; utilização de conceitos centrais, trabalhados

  por cada instituição em particular, para a inserção destas entidades em fóruns e demais eventos nas chamadas redes de solidariedade.

  Só em nível de explanação para este tópico, se um determinado agente possui os benefícios dessa prática para a socialização de uma criança, por exemplo. Saí decorre que tal prática pode ser elencada como ação de certa ONG a qual passa a, por exemplo, poder concorrer com outras ONGs em editais de financiamentos de projetos que preconizem esse tipo de prática a qual seja a do futebol de rua aqui citado.

  Uma reflexão sobre a gramática utilizada pelos “ongueiros” é abordada por Gohn (2005) que nos diz que

  “[...] Há uma gramática própria entre os "ongueiros", a linguagem utilizada incorpora rapidamente os novos termos referenciais do discurso de analistas, críticos, filósofos, intelectuais de um modo geral, de forma que categorias analíticas são incorporadas ao discurso cotidiano dando um ar de modernidade ao grupo, e à ação social desenvolvida. Mas essas categorias não se firmam como conceitos porque não há um pensamento crítico analítico respaldando-as. Quando muito, nas ONGs mais politizadas, há um discurso carregado de ideologias” (GOHN, 2005, p. 11).

  A autora acredita que há uma correlação entre a conjuntura política e os discursos e práticas realizados pelas ONGs. A linguagem de seus membros, assim, mudaria de acordo com as novas formas de se problematizarem certas questões. Uma palavra que se encontra em voga, segundo ela, seria a exclusão social, oriunda de discursos notadamente políticos. Para Gohn (2005), essa apropriação vocabular deve ser mais bem abordada pelos sociólogos, assim como as ONGs deveriam ser analisadas por intelectuais não militantes e por pessoas as quais não sejam profissionais destas organizações. Talvez com esta dita isenção fosse mais fácil o estudo dos usos gramaticais dos membros destas entidades e da possível relação deles com outros tipos de discursos.

  Desta forma, ressaltamos que

  • – ao menos na nossa visão – os quatro principais elementos fomentadores dos trunfos que os agentes se valem para as suas inserções no campo das ONGs são: o capital militante; o capital social; o capital escolar; e a posse de gramática especializada e voltada para o universo das ONGs.

  Vale à pena também sublinharmos que a posse desses quatro elementos está correlacionada uma com a outra, muito embora não sejam necessariamente dependentes umas das outras. Para que se explicite a conclusão citada, basta pensarmos num certo agente que ocupa um cargo de liderança em certa ONG. Esse agente pode possuir os quatro elementos formadores de trunfos, porém, a posse de uma gramática especializada por parte dele pode advir tanto de sua experiência como militante em uma determinada causa e/ou movimento, como pode ser resultado de uma especialização voltada para a gestão de projetos, por exemplo.

  E os trunfos dos agentes podem fomentar as ONGs, como sugerido pelo título deste tópico, porque o funcionamento destas instituições está diretamente atrelado aos perfis e aos recursos específicos de seus agentes. Desta forma, afirmamos que as ONGs por nós analisadas são resultados do somatório dos trunfos de seus agentes, pois as mesmas só conseguem mobilizar recursos, divulgações, ações próprias e realização de seus objetivos devido aos trunfos específicos de seus agentes que os mobilizam tanto para se inserirem em ONGs com propostas com as quais se identifiquem, assim como para auxiliarem na conquista de objetivos comuns a eles e às instituições.

  Finalizamos o primeiro capítulo deste estudo com as conclusões sobre as quais discorreremos a seguir. A primeira é que se faz pungente trazer à tona temas clássicos que perpassem pelo estudo do campo das ONGs

  • – como o conceito de sociedade civil – para situarmos como o debate sobre estas instituições vem se formatando e se interligando às demais reflexões sobre as formas de intervenções advindas da chamada “sociedade civil organizada”.

  Em segundo lugar, percebemos que trazermos à tona outros conceitos, como os de Terceiro Setor, por exemplo, se torna profícuo a partir do momento que nos propusemos a desmistificarmos as confusões e/ou errôneas comparações forçadas entre ONGs e sociedade civil ou entre ONGs e Terceiro Setor. Estabelecemos, assim, como os referenciais metodológicos, primeiramente, situarmos os debates acadêmicos visando elucidarmos as distinções entre as abordagens e discorremos, brevemente, sobre as críticas feitas a elas e sobre alguns trabalhos e reflexões de autores acerca das mesmas.

  Também mencionamos estudos e autores que influenciaram a realização desta pesquisa e, por último, concluímos que as relações entre os perfis dos agentes e os das ONGs nas quais se inserem se assemelham bastante; podem suscitar contribuições sociológicas das mais diversas e que procurem acentuar desde mecanismos de recrutamento para vagas de trabalho nestas entidades até mesmo estudos que se perguntem como o volume de capitais de cada indivíduo pode influenciar na concorrência por recursos para projetos, dentre outras possibilidades de indagações acadêmicas.

Capítulo II – “Estado, educação e ONGs no Brasil: como esta relação se formatou historicamente”

  Primeiramente gostaríamos de discorrer em linhas gerais acerca dos objetivos deste Capítulo II. Como as ONGs passaram a ser reconhecidas como portadoras de soluções legítimas para causas e demandas antes somente contempladas pela esfera governamental é um dos grandes objetivos do capítulo.

  Da indagação citada decorre outra referente à mudança de perspectiva por parte das ONGs as quais superaram

  • – em sua grande maioria – a postura de contestação ou de oposição ao Estado e passaram a preconizar as chamadas parcerias entre o mesmo e elas como as melhores respostas às tantas demandas sociais. Como esta mudança de perspectiva de atuação se amalgamou no Brasil?

  E o terceiro objetivo deste capítulo diz respeito ao fato de como a educação passou a ser vista como uma causa não só passível de intervenção por parte de outros setores distintos do governamental, mas também por que motivos tornou-se temática priorizada pelas ONGs no país são algumas das indagações que nortearão este capítulo.

  No que concerne ao primeiro tópico do presente capítulo, vale à pena ressaltarmos o nosso entendimento no que tange ao processo de interlocução mencionado no título deste tópico. Entendemos como interlocução o processo em que uma pessoa ou uma instituição fala com outra pessoa e/ou instituição ou fala em nome de outrem se assumindo como representantes dos mesmos.

  Para que fique mais bem explicitada a abordagem citada, percebemos as ONGs como interlocutoras

  • – ou, simplesmente, como mediadoras – de alguns grupos da chamada sociedade civil em nome de causas inseridas no rol de problemáticas nacionais. Desta forma, as ONGs na atualidade são percebidas como agentes aptos a intermediarem debates entre grupos da sociedade civil e o poder público estabelecendo uma função de representação e de mediação entre os setores citados. Porém, como elas alçaram estas posições estratégicas será o enfoque tratado por nós a seguir.

  Para esmiuçarmos esse processo escolhemos a definição de Leilah Landim (2002)

  “[...] o termo internacionalizado ‘ONG’ ganhou reconhecimento por aqui, enquanto categoria social, ao distinguir um conjunto de organizações sui generis que guardavam certas características, posições e papéis análogos no Brasil e em diversas sociedades latino-americanas (e não só). [...] sendo, como se sabe, termo forjado em canais internacionalizados, no entanto, é importação que se adapta e (re)traduz em virtude de relações e dinâmicas sociais internas a diferentes socie dades” (LANDIM, 2002, p. 18-19).

  Quando escolhemos a definição (e decorrente reflexão citada) da referida autora, buscamos deixar claro aqui que nosso enfoque não é o de adentrarmos na discussão sobre terminologias, usos e apropriações linguísticas do termo ONG. Apenas simplificamos o entendimento deste estudo ao limitarmos a discussão ao termo citado, deixando de lado outras acepções e/ou atribuições mais novas, como OSCIPs ou FASFIL.

  A própria Associação Brasileira de ONGs ressalva a questão da diversidade de terminologias esclarecendo, em seu site, que “Todas estas denominações referem-se a entidades de natureza privada sem fins lucrativos, que juridicamente serão associações ou fundações. Estas associações ou fundações, conforme o caso, podem pleitear a obtenção de determinados títulos ou qualificações junto ao Poder Público, visando a alguns benefícios; no entanto, sob o aspecto jurídico, a entidade será sempre uma associação ou fundação

  ”. Essa ressalva encontra-se no Manual do Terceiro Setor, disponibilizado pela entidade em seu sítio eletrônico.

  Reiteramos, assim, que o nosso objetivo é discorrermos sobre as organizações que se reconhecem e são reconhecidas como ONGs no espaço social brasileiro a fim de percebermos como se formatou seu protagonismo como agentes aptos a debaterem e a influenciarem as políticas públicas.

  A sociedade civil brasileira (não necessariamente ainda organizada em tempos anteriores) por muitos anos esteve associada às iniciativas da Igreja Católica e “assistência social” talvez seja o termo mais adequado para definir o quadro de atuação dessa mistura entre ambos ao longo do século XIX e no início do século XX.

  As iniciativas da época citada, em sua grande maioria, se apresentavam de forma pontual e não preconizavam grandes projetos sociais, mas sim contribuições/ auxílios nas áreas de saúde, educação e assistência social; e as iniciativas citadas provinham do forte ideário e/ou do raio de influência da Igreja Católica. O termo caridade definiria bem estas relações e iniciativas.

  14 Segundo o Relatório da Gerência de Estudos Setoriais (2001), “[...] pode-se até mesmo citar o exemplo das Santas Casas que remontam mais atrás, na segunda metade do século XVI, e trás consigo uma tradição da presença das igrejas cristãs que direta ou indiretamente atuavam prestando assistência à comunidade. Toma-se como destaque a Igreja Católica, que com suporte do Estado, era responsável pela maior parte das entidades que prestavam algum tipo de assistência às comunidades mais necessitadas, que ficavam às margens das políticas sociais básicas de saúde e educação. A atuação das Igrejas, concomitante com o Estado, durou todo o período colonial, até início do século XIX”. “[...] a partir do século XX, outras religiões, que entendiam a caridade como ‘uma atividade indissociável da prática religiosa’, passaram a promover a formação de organizações nos moldes já praticados pelos católicos, dividindo, assim, com a Igreja Católica, a parceria com fins filantrópicos entre esta e o Estado. No período republicano, muitas mudanças ocorreram no relacionamento entre Estado e igreja. Não somente novas instituições passaram a executar funções até então limitadas ao raio de atuação destes atores mais tradicionais, como também a modernização da sociedade, fruto da industrialização e da urbanização, suscitava o aparecimento de novas e mais complexas necessidades sociais na população. Na década de 30, então, várias entidades da sociedade civil passaram a se formar, muitas das quais atreladas ao Estado” (RELATÓRIO GESET, 2001, p. 6-7).

  No que tange ao período a partir dos anos 1930, Landim (2002) observa uma crescente associação do Estado com as organizações sem fins lucrativos que, antes, viviam sob o pleno e único respaldo advindo das religiões e de suas consequentes práticas voltadas à chamada filantropia. Sobre isso, a autora nos diz que “[...] não só continuaram a proliferar organizações privadas e sem fins lucrativos nas áreas da saúde, educação, assistência e lazer, como foram correntes as relações de colaboração entre essas organizações e o Estado”. (LANDIM, 2002, p. 24).

  A autora ainda sublinha que “isso teve como pressuposto a aliança entre o Estado getulista e a Igreja Católica, favorecendo então o enorme campo de organizações de ação social a ela ligadas (e, secundariamente, também as relacionadas a outras religiões, como a espírita e a evangélica, além da s leigas que se foram criando)” (LANDIM, 2002, p. 24). E essa relação entre as organizações sem fins lucrativos e o Estado no Brasil passou, então, a ser marcada por momentos de nítidas aproximações e influências do governo sobre 14 elas em algumas épocas e, em outras fases, pela presença de animosidades entre ambos os

  O Relatório da Gerência de Estudos Setoriais (GESET) foi elaborado pelo BNDS e em seu documento se

define como: “Neste Relato, reunimos as informações disponíveis quanto ao subconjunto formado pelas

organizações não governamentais, conhecidas como ONGs, e pelas fundações e institutos com atuação pública vinculados às empresas, que se apresentam como a inserção empres arial no terceiro setor” (RELATÓRIO lados. Ou seja, foram muitos os períodos de oposição/contestação e os de aproximação/intervenção entre os setores citados.

  Em relação aos anos 1940, Coutinho (2004) nos diz que embora o termo “ONG” tenha sido utilizado na década de 1940, pela ONU, para designar diferentes entidades executoras de projetos humanitários ou de interesse público (Landim, 1993; 1998; Vieira, 2001) no Brasil, a expressão se referia, principalmente, às organizações de

  “Cooperação Internacional”, formadas por Igrejas (católica e protestante), organizações de solidariedade, ou governos de vários países. Essas organizações priorizavam a ajuda às organizações e aos movimentos sociais nos países do sul, com o intuito de “consolidar a democracia”.

  No que concerne às iniciativas da Igreja Católica, devemos ressaltar a passagem das CEB’S.

  “[...] Inspiradas na reflexão proposta pela chamada ‘Teologia da Libertação’, e motivadas pela experiência eclesial latino-americana nas décadas que antecederam o Concílio Vaticano II, as CEB’S representaram um referencial no entendimento da dinâmica religiosa a partir de sua esfera mais visível, a esfera social, e do engajamento leigo nas estruturas eclesiais. Oriunda das camadas mais pobres da população, a expansão das comunidades amparou- se na sedimentação de um discurso de classe e uma plataforma social e política extremamente transformadora

  ” (BOFF, 2004).

  O autor procura sublinhar a importância da Igreja como entidade propulsora de transformações na realidade social do Brasil, bem como procura demarcar o protagonismo da esfera religiosa no que tange às reflexões sobre as mudanças necessárias à população, por creditar, ao nosso modo de ver, um aspecto de mediação da Igreja Católica entre os mais carentes e as demandas dos mesmos em relação ao cotidiano.

  Nas décadas de 1960/1970, segundo nos informa Coutinho (DOIMO apud COUTINHO, 2004, p. 57),

  “surgiram vários centros de ‘educação popular’ e de assessorias a movimentos sociais, com ênfase na ‘conscientização’ e ‘transformação social’. A ‘educação popular’, fundamentada no método de Paulo Freire, era utilizada no sentido organizativo- conscientizador, e pal avras de ordem como ‘democracia de base’ e ‘autonomia’ constituíam o eixo de seu repertório ”.

  Num esforço de moldar certa trajetória histórica das assim chamadas ONGs, Landim (2002) observa que:

  “[...] as atuais ONGs, portanto, começam a existir em anos de regime militar; acompanham um padrão característico da sociedade brasileira, em que o país e com a gestação de uma nova sociedade organizada; num contexto em que sociedade civil tende a se confundir, po r si só, com oposição política” (LANDIM, 2002, p. 25).

  Para a mesma autora, a partir dos anos 1970 podemos falar, seguramente, nas chamadas redes de organizações que passam a ser moldadas com agentes em inúmeras localidades do país e que se interligam com grupos populares os mais diversos possíveis. Há, segundo ela, também, uma crescente politização graças a esse tipo de movimento citado.

  Já a partir dos anos oitenta, assistimos ao crescimento destas organizações da sociedade civil de forma mais bifurcada, sendo que as mesmas, naquela década, eram voltadas para questões concernentes à defesa dos direitos humanos, como a anistia política e o fim da tortura, e à sindicalização, mas ainda com enfoques bastante politizados, se quisermos colocar nestes termos.

  Com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) ou simplesmente

  “ECO-92”, teríamos uma maior utilização, no Brasil, do termo ONG e seria a partir dos anos noventa que o mosaico de temáticas em debate, reivindicações e “projetos com fins sociais” teriam aumentado e se estendido desde temas clássicos - como a educação, ou o combate à corrupção - até temas mais voláteis, digamos assim.

  Muito além da pluralidade de causas a serem levantadas como bandeiras e da forte institucionalização pela qual o campo das ONGs passou e agregou, gostaríamos de discorrer

  • – brevemente sobre o posicionamento do meio acadêmico sobre as ONGs e sobre a relevância ou não – do estudo das mesmas para o meio citado.

  O estudo sobre ONGs foi de certa forma, um campo de disputas por definições acerca destas entidades e, por outro lado, foco de contradições (e porque não de criticas) no que tange às relações dos seus pesquisadores e seus objetos de estudo inseridos nesta temática. Para que exemplifiquemos o assunto levantado por nós usaremos o nosso próprio caso como pontuação a seguir.

Que se perdoe o “tom de diário”, mas acreditamos na troca de experiências entre os pesquisadores como forma de se levantar o debate em torno de metodologias e, sobretudo, no

  que concerne aos pré-conceitos dos próprios pesquisadores. Quando da escolha da temática de nossa pesquisa, enfrentamos algumas críticas às quais se concentraram em três vertentes. A primeira corrente afirmara que quem pesquisa sobre ONGs busca utilizar a mesma como artificio para se conseguir uma vaga de trabalho como esta. Esta afirmação é muito rasa ao nosso modo de ver.

  Já a segunda corrente de críticos afirma que o trabalho com enfoques em ONGs se pretendem “tábuas de salvação” da sociedade e buscariam, apenas, serem considerados “socialmente relevantes”. E, finalmente, a terceira corrente que identificamos a partir de nossa experiência diz respeito aos que preconizam que estudos sobre ONGs são negativos por trazerem para o foco entidades que estão a “serviço do neoliberalismo”.

  Criticas são bem vindas para que possamos tanto desconstruir pré-noções advindas de nossas próprias experiências acadêmicas como para que tenhamos a oportunidade de trazer certas reflexões sobre um tema e mostrar o panorama sobre ele. Felizmente, há quem pense de modo distinto das três correntes de criticas citadas e perceba em estudo sobre ONGs elementos relevantes.

  O fato é que a neutralidade da ciência é almejada por muitos pesquisadores, porém, tomadas de decisões são inevitáveis não somente para quem produz pesquisa

  • – em quaisquer áreas
  • – mas também para os leitores das mesmas que, muitas vezes, irão produzir trabalhos em decorrência daquela leitura, como critica ou como ponto de apoio.

  Retornado ao posicionamento da academia sobre ONGs

  • – no que tange à produção de trabalho sobre a mesma
  • – Landim (2002, p. 30) observa que “[...] a produção nas universidades não representou papel de peso, ou papel algum, até talvez início dos anos 90 [...]” e ainda sublinha que “[...] a produção, digamos, teórico-ideológica sobre essas formas organizativas específicas, sua identidade e seu papel, foi antes feita através das centenas de documentos que, desde os anos 80, circulam em grande parte informalmente [...] ”.

  Só a partir dos anos 1990 é que podemos falar de uma maior profusão de conhecimentos sobre ONGs advindas da produção acadêmica. Mas que, ainda na década citada, existia um movimento paralelo de alguns desses autores do meio acadêmico, pois muitos deles ocuparam espaços tanto no meio citado como também em ONGs, exercendo, por exemplo, funções de assessoria. Daí decorre que esses agentes transitavam entre os dois espaços mencionados gerando, em muitos casos, obras conjuntas entre ONGS e dados centros acadêmicos.

  Do final dos anos 1990 até tempos mais recentes as atribuições do meio acadêmico como um todo (para que não nos limitemos ao posicionamento das ciências sociais) sofreram mudanças de duas ordens distintas. A primeira refere-se à postura critica destes trabalhos que, em sua grande maioria, procuraram deixar de lado posições maniqueístas para assumirem, como objetos de estudo, as mais diversas relações

  • – sejam elas de trabalho, de política ou acerca do mapeamento dos perfis desses agentes, reconhecendo a herança teórico-
A segunda ordem de mudanças pelas quais as contribuições do meio acadêmico sobre as ONGs passaram diz respeito ao distanciamento maior entre os pesquisadores e estas instituições no que concerne ao fato dos primeiros, em sua grande parte, não transitarem mais tanto entre os dois espaços (o acadêmico e o das ONGs) o que, ao nosso modo de ver, pode vir a agregar mais autonomia aos que desejam se inserir nestes estudos sobre estes tipos de organizações.

  Após os enormes parênteses que abrimos a respeito da produção acadêmica sobre as ONGs, voltaremos a discorrer sobre o processo de institucionalização e afirmação das ONGs o qual propiciou que as mesmas tivessem cada vez mais voz na articulação e na elaboração de políticas públicas.

  De meados dos anos 1990 para cá, identificamos algumas características marcantes no rearranjo do espaço social das ONGs. O primeiro deles refere-se à multiplicação de entidades com esta natureza no país. Para ilustramos esse avanço, segue o quadro 6 com dados comparativos entre os anos de 1996 e 2005 e organizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quadro 6

  • Crescimento do número de ONGs, em números absolutos, no Brasil entre 1996 e 2005.

Entidades constantes no CEMPRE 1996 2002 2005

  3.476.826 5.339.694 6.076.940

  Total

Entidades privadas e associações sem fins 211.787 500.155 601.611

lucrativos

  107.332 275.895 338.162

Fundações privadas e associações sem fins lucrativos - FASFIL

  104.455 224.260 263.449

Outras entidades privadas sem fins lucrativos

  3.265.039 4.839.539 5.475.329

Empresas e outras organizações Fonte: IBGE, Cadastro Central de Empresas, 1996, 2002, 2005

  O IBGE preferiu uma abordagem mais macroeconômica e, desta forma, utilizou a definição mais abrangente de Fundações e Associações sem Fins Lucrativos (FASFIL) para fazer o apanhado dos dados destes tipos de entidades. Assim, as FASFIL englobam as ONGs, mas estas últimas não limitam o universo de diferentes organizações que as primeiras comportam. A pesquisa citada fora empreendida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, em parceria com a Associação Brasileira de ONGs, ABONG, juntamente ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, e com o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, GIFE. A própria ABONG discorre sobre o nome FASFIL e nos diz que terminologias e/ou conceitos são políticos, sem rebatimentos jurídicos.

  Sobre o crescimento do número de ONGs, Fucs (2008) nos diz

  “[...] São tantas as ONGs no Brasil que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) decidiu criar um mecanismo semelhante ao de ações para ajudá- las a captar recursos; e para ajudar os investidores a escolher as ONGs em que querem aplicar seu dinheiro. Batizada como Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&A), a iniciativa já permitiu a doação de R$ 9,6 milhões a 73 projetos em todo o Brasil desde sua criação, em 2003. O pioneirismo já rendeu à Bovespa a chancela da ONU e está inspirando iniciativas semelhantes em outros paíse s” (FUCS, 2008).

Crianças e adolescentes

Jovens

Trabalhadores rurais / Sindicatos rurais

População em geral

Comunidades tradicionais

Negros

Estudantes

Povos indígenas

Gays lésbicas transexuais travestis

Portadores HIV

  0,7% Fonte: ABONG, Panorama das afiliadas, 2010.

  Terceira idade

  1,4%

  

Trabalhadores urbanos / Sindicatos urbanos 1,4%

População carcerária

  2,1%

  2,1%

  2,7%

  3,4%

  O segundo fator característico dessa maior visibilidade das ONGs como agentes com papéis importantes para a sociedade brasileira é o aumento da pluralidade de causas às quais estimularam a criação destas instituições com os mais diversos eixos de atuação, bem como de sujeitos a quem as ações destas ONGs são dirigidas. Segue o quadro 7 acerca desse processo de diversificação do público alvo que estas entidades pretendem atingir com suas intervenções na sociedade.

  Quadro 7 - Sujeitos a quem as ações das ONGs são dirigidas segundo porcentagens.

  

Organizações populares / Movimentos sociais 54,8%

Mulheres

  36,3%

  32,9%

  28,8%

  21,9%

  21,2%

  

Professores 13,7%

Outras ONGs

  11,0%

  6,8%

  4,8%

  4,8%

  4,1%

Portadores de necessidades especiais

Moradores de áreas de ocupação

  Segundo este panorama divulgado pela Associação Brasileira de ONGs, ABONG, em 2010, podemos verificar que muitos são os sujeitos a quem as ações de suas afiliadas são dirigidas, bem como a diversificação do público-alvo a ser afetado pelos projetos das ONGs também é notável. Se, tradicionalmente, e em tempos remotos do século XX predominavam inciativas das organizações sem fins lucrativos em prol de crianças e idosos, no século XXI os segmentos sociais a serem escolhidos por estas entidades se diversificou enormemente.

  Os primeiros dois fatores mencionados aqui geraram não somente efeitos positivos os quais podemos sublinhar, sobretudo, o fortalecimento das ONGs (e de seus principais agentes formadores) como instituições com respaldo para terem voz nas chamadas políticas públicas.

  Um efeito nocivo dessa proliferação de ONGs fora apontado por Landim (2002, p.

  31 ) a qual nos diz que “[...] ONG tornou-se não apenas termo de uso corrente e generalizado, como também de emprego mais neutro e indiscriminado, como sinônimo de qualquer tipo de organização privada voltada para a ação social”.

  Houve, assim, uma “diluição da identidade”, segundo a autora citada, destas instituições por um lado. Por outro lado, acreditamos que por mais que o termo ONG tenha se generalizado e misturado com uma enorme quantidade de diferentes tipos de ações sociais, isso não deveria ser enc arado como um esvaziamento nem do termo “ONG” muito menos do significado sócio-político que o espaço social formado por estas entidades angariou. Ao nosso modo de ver, por mais críticas que estes organismos recebam

  • – por exemplo, no tocante aos usos irregulares de dinheiro público e o aparecimento de denúncias sobre fraudes das mais diversas
  • – cada vez mais se percebe o reconhecimento mútuo desses agentes (para além dos limites da escolha da sigla e/ou terminologia) como tendo características comuns às quais lhe conferem uma identidade como organizações social e politicamente reconhecidas. Desta forma, não iremos mensurar aqui, em nenhum momento, se as ONGs como agentes são “socialmente relevantes” ou não; o que é válido para nós é a verificação do fortalecimento e do crescimento destas entidades como instituições cada vez mais responsáveis por articulações de fenômenos sociais no país.

  A terceira característica, sob o nosso olhar, referente ao atual espaço social concernente às ONGs diz respeito à chamada profissionalização do mercado de trabalho que fomenta o quadro de funcionários dessas entidades. Segundo Ramiro (2008), as organizações que se voltam para as questões educacionais são as maiores empregadoras do ramo das ONGs, sendo que somente estas empregam 29% do total de funcionários do setor.

  Sobre o perfil dos profissionais de ONGs, a autora aponta que “a remuneração nas

  ONGs é menor, mas é compensada pelos valores”, diz o professor Mario Aquino, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Fernando Rossetti, secretário-geral da Gife, grupo que faz a capacitação de fundações e associações sem fins lucrativos, acredita que vão se abrir ainda mais oportunidades de emprego. “Os profissionais mais requisitados são os que têm um repertório variado”, afirma. “Sociólogos, antropólogos, psicólogos e administradores com experiência em liderança são muito bem- vindos.”

  Segundo Marcus Góes, 31 anos, psicólogo e coordenador do Instituto São da Paz, entrevistado da Revista época, num especial sobre ONGs e organizado pela mesma em 2008, a inserção no mercado de trabalho concernente às ONGs foi válida, pois

  “[...] foi na faculdade de Psicologia que Marcus Góes teve contato com o universo que definiria os rumos de sua vida profissional; envolveu-se tanto com o sistema carcerário na época do estágio que acabou fundando uma ONG, a União de Vila Nova, em São Miguel Paulista, na periferia de São Paulo, com um ex-presidiário. A associação oferecia cursos de artesanato, capoeira e teatro à comunidade local. Em 2002, Marcus deixou a Vila Nova nas mãos do amigo e migrou para o Instituto Sou da Paz, como contratado. Lá, coordenou um projeto de revitalização de praças, envolvendo as comunidades locais. Após quatro anos, foi promovido a coordenador de área para supervisionar os projetos ligados à juventude. Além da ONG, Marcus é psicólogo clínico. Os planos para o futuro? Dar consultoria a ONGs na área de planejamento e avaliação. Quero conhecer e ajudar a fortalecer as instituições sociais que estão aí ” (REVISTA ÉPOCA, 2008).

  No que se referem aos salários destes profissionais, os maiores valores de salário médio encontram-se nas ONGs com eixo temático voltado para a educação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o salário médio mensal nas Fundações e Associações sem Fins Lucrativos, FASFIL, se elevou entre os anos de 1996 a 2005, o que se verifica ao observarmos o quadro 8 deste nosso estudo.

  E a quarta mais marcante característica das ONGs a partir dos anos 1990 até então se refere à grande diversificação no processo de estabelecimento de parcerias para a consecução de projetos destas organizações. E, cada vez mais, há um incremento nas parcerias das ONGs com o Estado o que será esmiuçado no próximo tópico deste capítulo. Somente para efeito de demonstração, segue o quadro 9 o qual nos mostra o incremento das parcerias entre os setores citados na participação do orçamento das afiliadas à ABONG. Quadro 8 – Evolução do salário médio nas FASFIL entre 1996 e 2005.

  

Grupo de classificação das entidades Média Salarial Média Salarial Média Salarial

sem fins lucrativos em 1996 em 2002 em 2005 378 499 796

  Habitação 995 1.021 1.023

  Saúde 992 1.075 1.081

  Cultura e recreação 1.374 1.452 1.474

  Educação e pesquisa Assistência Social 767 682 731

  770 693 718 Religião

  998 1.252 1.218 Meio ambiente e proteção animal

  1.034 993 989 Desenvolvimento e defesa de direitos Fonte: IBGE, Cadastro Central de Empresas, 1996, 2002, 2005.

  Quadro 9 - Comparação faixas de participação das fontes de financiamento no orçamento das organizações (%).

Até 21% a 41% a 61% a 81% a Tipos de fontes de financiamentos 20% 40% 60% 80% 100%

  20,60 20,60 18,50 21,70 18,50

Cooperação e solidariedade internacional

  80,0 5,70 8,60 2,90 9,80

Recursos públicos federais

  90,90 0,0 2,30 2,30 4,50

Doações de indivíduos

  57,40 21,30 12,80 4,30 4,30

Empresas, institutos e fundações empresariais

  79,20 14,60 2,10 4,20 0,00

Comercialização de produtos e serviços

  71,40 14,30 11,40 0,00 2,80

Recursos públicos municipais

  94,10 5,90 0,00 0,00 0,00

Contribuições associativas

  80,0 5,70 8,60 2,90 2,90

Recursos públicos estaduais

  83,40 16,60 0,00 0,00 0,00

Agências multilaterais e bilaterais Fonte: ABONG, Panorama das Afiliadas, 2010

  Podemos observar que a média salarial dos profissionais das ONGs se elevou, no país, em quase todas as categorias em que as entidades se dirigiam. O único grupo de classificação das ONGs que apresentou diminuição salarial foi o relativo ao desenvolvimento e à defesa de direitos. O setor de educação e pesquisa concentra maior aumento salarial de seus funcionários entres os anos de 1996 a 2005, seguido de perto pelas áreas de atuação relativas ao meio ambiente e à proteção animal, assim como à cultura e recreação.

  Encerramos este tópico com algumas considerações sobre o processo de inserção das ONGs como interlocutoras da sociedade civil no Brasil. No que concerne às estatísticas das mesmas, a participação delas na economia nacional só tende a crescer. Só para sublinharmos este avanço, no que tange ao chamado Terceiro Setor, o mesmo já movimenta 5% do Produto Interno Bruto

  • – PIB – no país, segundo dados do IBGE, e segundo o Grupo de Institutos,
Fundações e Empresas

  • – GIFE – o volume de recursos destinados por empresas para “investimentos sociais” mais que duplicou desde 2001, passando de 478,7 milhões de reais para, em 2007, chegar à cifra de 1.150 bilhões de reais.

  No segundo tópico do primeiro capítulo deste estudo discorremos sobre a importância da compreensão do fenômeno das parcerias para um maior embasamento de quaisquer análises sobre ONGs, bem como sobre o estudo de outros tantos fenômenos sociais.

  No que concerne ao presente tópico deste capítulo, nossa preocupação se detém na relação estabelecida entre o Estado e as ONGs a partir do olhar relativo às parcerias. Cada vez mais um setor elenca o outro como responsável por possíveis melhorias no atendimento das políticas públicas; melhorias estas que são apontadas por ambos os setores como resultantes das parcerias estabelecidas entre eles.

  Além da predominância deste discurso

  • – o qual seja relativo ao enfoque na pungência do tipo de parceria citada
  • – também verificamos na análise das entrevistas que realizamos para esta dissertação que as críticas em relação ao Estado são escassas e que predomina o discurso advindo destas organizações sobre os supostos frutos que podem advir da boa relação entre ONGs e o Poder Público.

  Sendo assim, buscamos com este tópico os seguintes objetivos: pontuarmos como a Lei 9.637/99 ou

  “Lei das Organizações Sociais de Interesse Público” (OSCIPS) teve algum impacto sobre a fomentação desse tipo de parceria; análise do discurso atual do Estado sobre estas parcerias; análise acerca do que os entrevistados desta pesquisa discorreram sobre o tema abordado neste tópico; e a análise sobre a atual opinião da Associação Brasileira de ONGs, ABONG, sobre o fenômeno social concernente à parceria entre as ONGs e o Estado.

  Para inaugurarmos neste estudo a discussão sobre o assunto mencionado, o qual seja o das parcerias, faz-se interessante trazermos a reflexão de Landim (2002) sobre o mesmo. A autora sublinha que

  “[...] podemos pensar esquematicamente que as pressões de entidades dos mais diversos setores para terem reconhecimento oficial e acesso a fundos públicos através de mecanismos transparentes, e o interesse governamental em construir parcerias como uma visão estratégica e mesmo como uma ideologia acabaram por convergir para a emergência de um espaço de A autora ainda acrescenta que “esse processo de discussão – inaugurado por volta de 1995/1996

  • – não só levou a um novo momento classificatório das organizações da sociedade civil como também à particular afirmação e visibilidade da ideia do Terceiro Setor (tratava-se, na versão oficial, da elaboração de um ‘marco legal para o Terceiro Setor’)” (LANDIM, 2002, p. 37). Se for fato que os interesses de ONGs e do Estado entraram em consonância, a Lei 9.637/99 acabou por embasar, ainda mais, essa fase de maior confluência de objetivos dos agentes sociais citados.

  Sobre a Lei mencionada

  • – amplamente chamada de “Lei das Organizações Sociais de Interesse Público” ou definidas por sigla como OSCIPS – Coutinho (2011) nos traz a seguinte reflexão:

  “[...] agregada à formação de novos valores, surge a ideia de um espaço público que se amplia com a consciência de que a produção de bens públicos

não pode ser monopólio do Estado ou do mercado

  • – o que romperia os próprios limites de ambos
  • – e, ao mesmo tempo, atender às crescentes exigências de auto-organização social. Através de isenções tributárias e de outros benefícios, essas organizações poderão demonstrar o seu caráter de ‘utilidade pública’” (COUTINHO, 2011, p. 59).

  A lei 9.637/99, ao nosso modo de ver, é resultante de fatores que vão desde as lutas travadas pelas comumente chamadas de ONGs para se firmarem como agentes aptos a trazerem à tona discussões acerca do espaço público e também para saírem do campo da contestação

  • – ao mesmo tempo no que tange ao Estado – para que possam dar prosseguimento aos seus objetivos.

  O nosso segundo objetivo com este tópico era mostrar como o discurso do atual governo fundamenta a importância

  • – que ele acredita possuir – da parceria entre os órgãos estatais e as ONGs. Segundo matéria no site da Prefeitura de São Luís, podemos visualizar como a questão das parcerias entre ONGs e organismos estatais vêm crescendo;

  “[...] até o momento, mais 68 entidades da rede aprovada pelo Conselho Municipal de Assistência Social passam a compor a Rede Sócio assistencial conveniada com a Prefeitura de São Luís por meio da Semcas; todo este processo, realizado em etapas, busca alcançar uma meta superior a 150 organizações não-governamentais (ONGs), que atuam nos diversos programas e serviços da secretaria, como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), Projovem Adolescente, Inclusão Produtiva e Atenção à Criança e Atendimento à Pessoa Idosa

  ”.

  Mas, vale ressaltarmos que o próprio Governo Federal vem se precavendo no que concerne a possíveis irregularidades entre ele e as ONGs. Lima (2012) salienta que

  “[...] a Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) aprovou nesta quinta- feira (31) um novo marco regulatório do relacionamento entre o governo e as entidades do terceiro setor, como organizações não governamentais (ONGs) e organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs); de autoria do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), o projeto de lei do Senado (PLS 649/2011) obriga as entidades interessadas em parceria com o poder público a observar princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade e eficiência; os estatutos dessas organizações devem coibir a obtenção de vantagens indevidas por seus dirigentes e prever a divulgação anual de relatório de suas atividades e de suas demonstrações finance iras”.

  Mas, há quem avalie a relação entre o Estado e as ONGs de forma mais tácita no que tange às legitimações que o Estado tem conferido a estas instituições. Para Janine Ribeiro (2002)

  “[...] mas o mais importante a notar é a convergência entre Ministério Público e ONGs; as organizações não governamentais, hoje se difundindo pelo mundo inteiro, marcam uma intervenção sistemática de vontades privadas na esfera pública. Sua novidade consiste em agirem sem precisarem, mais, ser legitimadas pelo Estado; ao contrário, elas legitimam a si próprias; no Brasil como em outros países, há uma espécie de simpatia por

  5 princípio com o termo ONG, como se fossem todas elas benfazejas”.

  Com uma visão histórica sobre o tema das parcerias, Coutinho (2011) faz importantes pontuações sobre o marco político-ideológico nesse sentido. A autora afirma que

  “[...] trata-se da chamada Parceria Público-Privada (PPP), concebida durante o Governo de Margareth Thatcher (final da década de 1970); a Inglaterra firmou contratos de longo prazo, nas áreas de saúde, educação, administração de prisões, ferrovias e coleta de lixo, mas em nenhuma houve melhoria da qualidade do serviço prestado” (COUTINHO, 2011, p. 59).

  Sobre o Brasil

  • – no que tange à abordagem citada – Coutinho (2011, p.59) sublinha que “[...] a discussão que estabelece esse tipo de parceria iniciou-se com a proposta de Reforma do Estado, do Governo FHC, e perm anece no Governo do PT”.

  Para Ckagnazaroff e Souza (2003),

  “[...] mudanças legais e políticas têm levado o Estado a abrir espaço para organizações provenientes de a sociedade participar em diferentes fases do

  trabalho de políticas públicas; como consequência, tem ocorrido uma maior interação entre sociedade e Estado. Uma das maneiras pelas quais esta interação se dá, é por intermédio das relações entre ONG e Estado; a parceria ONG/Estado pode ser entendida de diferentes maneiras. Do ponto de vista neoliberal, ela é considerada como uma alternativa para a prestação de serviços públicos sob a responsabilidade do Estado; há também autores que veem a parceria como uma oportunidade da ONG ampliar a sua área de atuação e, ao mesmo tempo, de influenciar o processo de elaboração de políticas públicas” (CKAGNAZAROFF E SOUZA, 2003, p. 2).

  Para a reflexão de Abreu (2010, p. 21) sobre as parcerias aqui elencadas entre Estado e ONGs o mesmo nos diz que “são as ONGs, em sua maioria, que vem desempenhando funções antes exclusivas do Estado, que passaram a receber recursos do Estado, que vem enfatizando a possibilidade de estabelecimento de parcerias; são elas a face mais visível da representação da sociedade civil no âmbito das instituições participativas

  ”. E o autor ainda acrescenta sobre as ONGs que “Podem estar mais vinculadas às bases ou se estruturarem como “think tanks”, ter um incipiente princípio de filiação ou se colocarem como representantes de um discurso geral podem enfatizar as ações de “advocacy” ou a prestação de serviços sociais”.

  No que é relativo à opinião da Associação Brasileira de ONGs, ou ABONG, a entidade busca tecer diferenciações e esclarecimentos jurídicos, em seu sítio eletrônico, no que diz respeito aos convênios e às parcerias com o Poder Público. A ABONG, então, ressalva que

  “[...] os contratos celebrados com o Poder Público são estritamente regulados pela legislação e, para que o Poder Público celebre contratos com entidades sem fins lucrativos, via de regra, é necessário que seja realizada licitação. O convênio em geral refere-se a um acordo entre pessoas jurídicas de direito público ou acordo entre o poder público e entidades sem fins lucrativos. O termo de parceria refere-se especificamente a acordos celebrados entre o Poder Público e entidades sem fins lucrativos, qualificadas como OSCIPs ” (ABONG, 2010).

  Ainda sobre as parcerias entre ONGs e o Poder Público, a contribuição de Campos (1999) é extremamente relevante no tocante aos aspectos legais que envolvem esta relação. O autor nos diz que

  “[,,,] No que se refere às Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, a Lei parece mais voltada para a institucionalização das ONGs que se interessem por esse caminho. As ONGs que obtiverem a qualificação de OSCIP poderão firmar termo de parceria com o poder público. O acesso a essa qualificação é vedado a sociedades comerciais, sindicatos, associações de classe, instituições religiosas, partidos, entidades de benefício mútuo e que comercializam planos de saúde, escolas e instituições hospitalares privadas, organizações sociais, cooperativas, organizações creditícias e fundações, sociedades civis ou associações de direito privado instituídas pelo poder público. Na verdade, essa lista, pela própria exclusão que promove, auxilia indiretamente a definição de ONG

  ” (CAMPOS, 1999).

  Para Adelaide Coutinho (2005), a questão das parcerias entre o Estado e as ONGs, tendo como base os investimentos no setor educacional, é uma via de interesses para os dois agentes sociais, pois ela nos diz que

  “[...] Nas últimas décadas, as ONGs passaram a ser vistas pelo Estado como parceiros estratégicos na implementação de suas ações, tantos nos setores considerados exclusivos quanto naqueles classificados como não exclusivos, entre estes a educação básica. As ONGs, por sua vez, veem no Estado um espaço capaz de atuar e de disciplinar as suas próprias ações, uma vez que a maioria delas atua no âmbito do pretendido desenvolvimento humano e acreditam na possibilidade de humanização do capitalismo ” (COUTINHO, 2005, p.21).

  Os objetivos do tópico deste capítulo confluíram para traçarmos um breve panorama sobre a discussão

  • – e não só do ponto de vista acadêmico – sobre o atual fenômeno social das parcerias. Gostaríamos imensamente de realizarmos um estudo mais detalhado sobre o tema, sobretudo no que concerne aos resultados no Brasil em relação aos impactos destas parcerias entre as ONGs e o Estado; foram os mesmos positivos ou negativos?

  Mas deixaremos essa discussão como sugestão de abordagem para trabalhos e/ou artigos futuros sejam eles nossos ou empreendidos por outros profissionais, não necessariamente imersos no nosso campo de estudo.

  Para fecharmos este tópico, trazemos uma lúcida reflexão de Lisboa (2003, p. 215) o qual reitera que “[...] ao estarem habilitadas para gerir programas sociais, as ONGs passam a fazer parte da paisagem das políticas sociais, gerando uma profunda crise quanto ao papel e identidade dessas entidades”. Será se a crise citada existe? Quem passa por ela?

  Como mencionamos em várias passagens desta dissertação, há cada vez mais um incremento não só no número de entidades (chamadas aqui de forma simplificada como ONGs), mas também da diversificação de causas e objetivos os quais perpassariam pela formação das mesmas.

Porém, “causas sociais” as quais já consideramos clássicas, tais como educação, saúde e moradia estão sempre em voga como prioritárias na escolha como objetos de luta das

  organizações citadas. E, segundo a ABONG, na pesquisa sobre o perfil de suas associadas, a educação é a temática priorizada por estas instituições, o que já fora mencionado e ilustrado na presente pesquisa.

  Mas, o que contribuiu, então, para essa predominância da educação? Nosso objetivo neste tópico é a análise dos motivos dessa priorização da educação como embasamento de criação de inúmeras ONGs, levando em conta, sobretudo, como a mesma vem sendo trabalhada e articulada sob a perspectiva destas entidades.

  A educação, quando não vista como um sinônimo desses termos, é apontada há tempos como mola propulsora dos indivíduos em relação à liberdade, ao exercício da cidadania e, sobretudo, no que tange à possibilidade e um maior poder aquisitivo dos mesmos. E esse tipo de argumento é largamente defendido pela mídia, pelo meio acadêmico, pelo Estado e, para não perderem esse mote, pelas ONGs.

  Segundo Curi (2011),

  “[...] proliferaram e popularizaram-se as Organizações Não Governamentais (ONGs), que deixaram de lado o caráter puramente assistencialista das ações de suas predecessoras para assumir posturas mais ativas na elaboração de projetos de intervenção social e na pressão por definições de políticas públicas junto às esferas governamentais; um dos setores que mais absorveram as ONGs foi o de educação. A evidente e ampla carência estrutural (física e humana) que caracteriza a educação brasileira, aliada à cada vez mais arraigada visão de que se trata de setor estratégico tanto para a melhoria de vida dos cidadãos como para o crescimento do país, acabou fazendo com que esse fosse um dos principais focos de atuação do 3º setor, para o qual se volta com arco bastante amplo e heterogêneo de trabalhos em escolas e comunidades” (CURI, Revista Educação, 2011).

  O trecho citado acima faz parte de um dossiê de uma revista sobre a relação entre a sociedade e a educação, onde o mesmo procura salientar de que forma as intervenções da chamada sociedade civil fomentariam o campo educacional “tendo em vista as insuficiências de políticas governamentais no setor”.

  Quando analisamos o material dos sites das entidades que escolhemos para esta pesquisa, fica evidente que a educação é apontada como base para aquisição de direitos, recursos e de garantias para o pleno exercício cívico do cidadão. A seguir, alguns trechos retirados do site de uma das entidades por nós analisadas a qual seja a Legião da Boa Vontade (LBV):

  “[...] Contribuindo para o protagonismo infantil, a Instituição desenvolve os programas LBV — Criança: Futuro no Presente!, que beneficia meninos e meninas de 6 a 12 anos, e também suas famílias; e Espaço de Convivência, no qual idosos dispõem de um espaço de lazer e convívio social visando melhorar a qualidade de vida dos atendidos, de resgate da autonomia deles, a dignidade e à luz dos valores da cidadania ecumênica; todas essas ações são feitas em conformidade com a missão da LBV: ‘Promover Educação e Cultura com Espiritualidade Ecumênica, para que haja Consciência Socioambiental, Alimentação, Segurança, Saúde e Trabalho para todos, no de spertar do Cidadão Planetário’” (LBV, 2012).

  Quando analisamos os discursos dessas ONGs nos sites das mesmas, percebemos que há correlações entre a proposta metodológica de cada instituição com os dados de como a questão educacional estaria renegada pelo Estado (mais ainda no que tange ao Maranhão), bem como estes dois fatores são expostos como justificativas da intervenção de cada entidade no tocante à educação.

  Mas há alguma justificativa legal para a educação ser apontada como luta priorizada pelas ONGs? Ou só o discurso majoritário que a aponta como causa legítima já a credencia como objetivo primordial de inúmeras organizações?

  Segundo Almeida (2006, p. 399 ), “a educação é um setor privilegiado e por isso é considerada, nessa década de multiplicação de ONGs brasileiras, a área de maior crescimento numérico”. A afirmação é factual; mas o que justifica a escolha dessa causa é o ponto de partida deste tópico.

  Cabe, apenas, ressaltarmos que o modo como cada ONG pesquisada avalia a educação no país, bem como cada uma delas se situa e se enxerga em relação a esta questão será algo tratado no último capítulo deste estudo. Neste tópico, a perspectiva é mais ampliada, pois procuramos as causas da prioridade da educação como objetivo da maioria das ONGs no espaço social do qual fazem parte.

  A educação, historicamente, é tratada como condição sine qua non de aquisição de direitos e, ainda, é refletida como um direito de todo e qualquer cidadão, participante inclusive da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Juntamente com este argumento, somam-se outros dois que veem na educação como um fator diferencial para a participação ativa na chamada vida democrática, assim como mola propulsora para aquisição de trabalhos bem remunerados e/ou qualificados. Em suma, a educação é pensada como fundamental e marcante na trajetória de um indivíduo.

  Sobre este enfoque da educação como um direito social, Fonseca (2010) vê no

  “[...] A legislação industrial se firmou como base para os direitos sociais. A educação, na perspectiva dos direitos sociais, é reconhecida como um serviço peculiar por parte do Estado. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a educação das crianças estaria diretamente relacionada com a cidadania, visto que ao garantir que todas elas tenham acesso, o governo não perde o foco nas exigências da cidadania; os pequenos cidadãos aprendem desde cedo sua natureza (da cidadania). Os futuros adultos são moldados com a educação (FONSECA, 2010, p. 4).

  A autora ainda acrescenta que

  “[...] Mas não é esse o objetivo da educação; ela, atualmente, está ligada diretamente a uma ocupação. O indivíduo não pretende com ela, engrandecer seu universo de conhecimento

  • – cujo valor é inestimável –, ele procura, sim, se qualificar para o mercado ocupacional. Escolas primárias, técnicas e secundárias estão dispostas na proporção dos empregos que lhes são correspondentes (FONSECA, 2010, p. 5).

  Para o autor mencionado por ela, o conceito de cidadania seria composto e referendado por três grandes pilares: o elemento civil (o qual seria contemplado por todos os direitos que garantissem a chamada liberdade individual); o elemento político (leia-se “participação política efetiva”); e o elemento social (que se estende até todos os fatores que garantissem o mínimo, ao menos, de respaldo para o bem-estar e a segurança).

  O autor ainda acrescenta que cada ordem de elementos foi conferindo prosseguimento à outra ordem e, sendo assim, os direitos civis deram embasamento para a garantia de direitos políticos e, consequentemente, estes últimos geraram terreno para a aquisição dos direitos sociais. Este conjunto de acontecimentos ocasionaria o chamado status

  geral da cidadania .

  

15

Para os estudos de Teoria Democrata , estes tipos de correlações entre aquisição de

  educação para consequentes conquistas de itens como cidadania, liberdades nos mais amplos sentidos e de igualdade de direitos seriam frequentemente realizadas pelos mais diversos autores inseridos neste debate.

  Para Dahl (1997), por exemplo, a manutenção da democracia depende de 15 considerações estratégicas, ou seja, ele enfatiza a importância dos atores políticos e de suas

  

Se no século XVIII o seu enfoque se centrava na busca pelo bem comum, em tempos mais recentes esse bem

comum perpassa pela consideração das preferências dos cidadãos e pelo pluralismo que fomenta as sociedades

contemporâneas. Segundo Johnson (1997) “da forma aplicada a política, uma democracia é um sistema social no

qual todos dispõem de parcela igual de poder. [...] quase todas as sociedades que descrevem a si mesmas como

democracias políticas são na verdade democracias representativas, nas quais cidadãos elegem representantes que escolhas. Para ele, uma característica essencial para a democracia seria a garantia do governo das preferências dos cidadãos (politicamente iguais). Assim, os cidadãos devem ter oportunidades plenas: de formular suas preferências; de expressar suas preferências aos demais, inclusive ao governo, pela ação individual e coletiva; e de ter suas preferências igualmente consideradas pelo governo.

  Mas, para que essas oportunidades plenas se efetivem, elas devem ser permeadas por requisitos como: a liberdade de formar e aderir a organizações; liberdade de expressão; direito de voto; direito de líderes políticos disputarem apoio; fontes alternativas de informação; direito de líderes políticos disputarem votos; eleições livres e idôneas; instituições para garantirem que as políticas do governo dependam de eleições e de outras manifestações de preferências.

  Para o autor, as democracias podem não corresponder ao ideal, mas podem ser realizadas. A participação é benéfica para se produzir a educação política. A competição e a participação seriam aspectos da democracia, mas um não vive sem o outro; mas você tem que ter seus direitos garantidos, como o direito de voto, para expressar suas preferências.

  Já segundo a visão de John Rawls (2000), a cultura política de uma sociedade democrática é formada por toda a sorte de doutrinas e estas são conflitantes. O autor questiona quais seriam os fundamentos da tolerância, tendo em vista o pluralismo razoável como efeito de instituições livres.

  Para que se realize o valor de liberdade e de igualdade, efetivamente, a justiça seria uma espécie de árbitro e dois seriam seus princípios que serviriam de base para que as instituições básicas realizem aqueles valores: todas as pessoas têm direito a um projeto de direitos e liberdades básicas iguais para todos; e as desigualdades socioeconômicas devem estar vinculadas as posições e cargos abertos a todos (numa igualdade de oportunidades) e devem expressar o maior benefício possível para os membros menos privilegiados da sociedade.

  Os dois princípios citados expressariam uma forma igualitária de liberalismo, permeados por três elementos: garantia de valor equitativo das liberdades políticas; igualdade equitativa; e o princípio da diferença (as desigualdades socioeconômicas devem ser ajustadas). Para que a justiça, como equidade, funcione como este árbitro, ela deve utilizar uma ideia organizadora a qual seria que a sociedade é concebida como um sistema equitativo de cooperação social entre pessoas livres e iguais.

  As garantias para as liberdades políticas (os bens primários) seriam: a liberdade de prisão arbitrária; e a garantia de fatores, como a educação. Porém, para que se garanta a liberdade e a igualdade democrática, as instituições devem buscar uma base de concordância pública, fruto de uma interação social. Estas instituições devem ser justas e os participantes da democracia devem ter um senso de justiça que esteja de acordo com estas instituições.

  Para o autor Michael Walzer (2004), existiriam dois tipos distintos de argumentos morais: o denso, relativo aos valores das pessoas que tem em comum uma história; e o delgado, que se refere aos valores compartilhados por toda a humanidade (“toda sociedade é universal, porque é humana, e é particular, porque é uma sociedade”).

  Para ele, a justiça seria um conjunto de valores compreendidos por uma comunidade política, e seria também uma criação cultural. Ele é particularista ao mencionar que os bens sociais não são naturais, e sim que possuem um caráter social, onde adquiriram significações.

  Ainda segundo o referido autor, é o predomínio, e não o monopólio, que deve ser restringido quando se menciona o termo justiça, assim, não deve existir dominação entre os grupos sociais. Outra questão importante para ele é que as instituições não são formuladas por um sistema de valores coerentes, e sim por um processo conflituoso que tem como efeito à deliberação democrática de indivíduos, e grupos.

  A igualdade complexa, mencionada por Walzer (2004), em uma sociedade democrática, pressupõe a presença de cidadãos ativos, capazes de deliberar, num pluralismo, sobre os bens sociais, as esferas de justiça e de impedir que se estabeleça uma dominação entre os grupos sociais a partir de um anterior predomínio sobre certos bens. E um detalhe é que esses bens, como são configurados pelos membros da comunidade política, são parciais, ou seja, não há uma imparcialidade nas suas definições.

  Assim, podemos perceber que o apoio teórico, e também o ideológico, das ONGs está inserido numa discussão muito mais ampla e profunda, abarcada pela Teoria Democrata e debati da por uma série de autores os quais referendam que a equação “justiça social + educação (sobretudo a de ordem política) + distribuição/equiparação de oportunidades = participação num sentido holístico”. Que fique claro que essa participação rima muito bem com a chamada “inclusão”.

  Para a nossa avaliação, a educação é, então, vista como: direito tributário a todo ser humano; intermédio de expansão e apreensão de diversos conhecimentos; possibilidade de expressão do indivíduo; maneira de aquisição da chamada cidadania; meio de inserção do indivíduo na esfera democrática; e forma de obtenção de posições no mercado de trabalho. Com tantas possibilidades, não é difícil verificarmos como a educação chegou a ser a pauta do

  Em pesquisa sobre essa relação de necessidade e urgência da educação como variável de “salvação” dos indivíduos menos favorecidos, encontramos um manual do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) que apresenta uma série de justificativas para que empresas invistam em projetos sociais na área educacional. Para o seu manual

  “[...] Aliada vital para promover a mobilidade social, a educação desempenha papel determinante no desenvolvimento do capital humano e na geração de riquezas e tem impactos diretos em outros campos além do econômico – no crescimento populacional, nas taxas de mortalidade e na longevidade, na participação política e nas dinâmicas familiares, para ficarmos em poucos exemplos. No plano do desenvolvimento econômico, estudos realizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) confirmam que discrepâncias no grau de escolaridade da força de trabalho são o principal determinante do elevado nível de desigualdade salarial observado no Brasil. Demonstram ainda que essas diferenças no nível educacional aparentam estar associadas ao excesso de desigualdade de renda do país em relação ao mundo desenvolvido ” (GIFE, 2003, p.9).

  No que é relativo à preocupação do Estado em relação aos direitos sociais, sobretudo no que diz respeito à educação, Coutinho (2005) nos informa que o mesmo apresentou ao longo dos anos diferentes posturas em relação ao trato para com as questões sociais. As alternativas a estes “problemas” sociais variaram em torno de repressões a quem lutava por soluções a eles; tratamento dos cidadãos como indigentes; e, mais recentemente, como passíveis de enfrentamento a partir das parcerias entre o Estado, a sociedade, o mercado e os organismos internacionais.

  Para a autora, com a Reforma do Estado, passou a existir uma nova configuração para a administração do Estado, o que trouxe à tona o chamado Estado mínimo, onde as políticas sociais passaram a ser mais geridas pelo mercado do que pelo próprio aparelho estatal. Segundo ela, essa mudança de pensamento por parte do Estado

  • – defendida pelo então Ministro Bresser Pereira no ano de 1995
  • – foi vista como uma melhor forma do país competir no chamado mercado internacional e como única solução para recuperação de infraestrutura nacional.

  Coutinho (2005) ainda acrescenta que

  “[...] As necessidades sociais são filtradas em direção a quem pode (e tem interesse em) atende-las, não pela lógica do direito social e político, mas pela lógica do custo-benefício, ou seja, a quem se atende, com quanto se atende e quem atenderá: se a filantropia das ONGs, o mercado ou o Estado, ou ainda,

a parceria entre eles ” (COUTINHO, 2005, p. 59). Esse processo de transformação de atribuições pelo qual passou o Estado, segundo a autora, propiciou um movimento de maior relevância e decorrente institucionalização de organizações da sociedade civil as quais tinham em suas agendas a promoção por desenvolvimento também buscada pelo aparelho estatal. Para ela, tanto o Estado quanto as ONGs, pelo menos no que tange ao discurso, teriam como preocupações

  “(...) a desigualdade, a pobreza, a participação política do cidadão, a garantia dos direitos sociais e a oportunidade de renda, entre outros” Coutinho (2005).

  Segundo a autora supracitada, neste momento em que o Estado e as ONGs passaram a se enxergar como parceiros surge a chamada “administração pública não estatal”. É quando se multiplicam as escolas, centros de pesquisas, fundações, oficinas de artes, dentre outras iniciativas. É quando os recursos e as responsabilidades estatais são transferidos e/ou compartilhadas com outros agentes, sobretudo com as organizações da sociedade civil.

  Para o Ministério da Educação (2012), MEC, a educação pode apresentar melhorias a partir de sua proposta de mobilização social a qual, segundo seu site oficial, preconiza a junção dos diferentes setores da sociedade para minorar as disparidades da questão educacional. O referido site até propõe algumas ações por parte das ONGs, por exemplo,

  “[...] as ONGs e voluntários sociais podem realizar diversas ações, tais como: entregar a cartilha ‘Acompanhem a vida escolar de seus filhos’ para as famílias que tem crianças e jovens estudando em escolas públicas, falando sobre a importância da família no desempenho escolar dos estudantes. Caso queira exemplares da cartilha, fale conosco; aproveitar os momentos de interação com as famílias atendidas pela entidade ou pelos voluntários para falar sobre a responsabilidade da família na educação dos filhos; entregar para os públicos com os quais interagem folhetos com mensagens e dicas curtas para as famílias, falando sobre a importância de participar da educação dos filhos; e divulgar as dicas dos folhetos e outras mensagens nos murais e quadros de aviso das ONGs e de instituições com as quais trabalha” MEC (2012).

  O que fica evidente para nós é a corresponsabilização pela qual perpassa a relação entre ONGs e o Estado na questão das parcerias, pois através delas

  • – e utilizando-se como prerrogativa a questão da solidariedade
  • – que a Administração Pública se esquiva, em grande parte, das iniciativas em relação às demandas sociais, deixando as ações em grande parte para as ONGs, cada dia mais protagonistas nas formulações de políticas sociais. Isto é o que podemos notar num primeiro momento. Com um olhar mais atento e, num segundo momento, percebemos que as organizações da sociedade civil cada vez mais, igualmente, se tornam
dependentes dos financiamentos estatais e buscam, para ter mais reconhecimento na sociedade, os títulos de organizações sociais.

  Assim, verificamos um movimento duplo na relação entre Estado e ONGs. E a educação perpassa por esta relação como moeda de troca de recursos de um agente para o outro e como enfoque de atuação de ambos em projetos evocados como parcerias. Há de se saber diferenciar, mesmo com um limite tão tênue, onde um agente de fato precisa do outro e onde cada um almeja transferir responsabilidades para o outro.

Acreditamos que saber separar onde começa e onde termina a responsabilidade de cada esfera no tocante aos “desafios” sociais é a tarefa mais escorregadia para quem analisa

  qualquer tipo de política social academicamente, pois deixamos qualquer neutralidade de fora do trabalho. Porém, se faz relevante a ponderação sobre, em nível de Brasil, a separação de poderes no que se referem às políticas públicas; assim como se faz preponderante a reflexão acerca dos recursos financeiros em relação à questão educacional. Quem prescinde desses investimentos? E quem precisa destas parcerias? Há melhoria educacional (ao menos quantitativamente, para que não se discuta aqui qualidade) no país a partir dessa corresponsabilização?

Capítulo III – ONGS educacionais em São Luís: três estudos de caso

  Antes de tudo, gostaríamos de tecer alguns comentários sobre os objetivos específicos do presente capítulo. Se nos Capítulos I e II as nossas preocupações se voltaram, sobretudo, para a articulação dos pilares formadores da temática escolhida por nós, ou seja, discorrermos sobre as ONGs e os percursos feitos por elas para se engendrarem ao Estado e a questões como a educação, neste Capítulo III os enfoques são outros.

  Nossos principais objetivos com a realização deste capítulo são: relacionarmos os momentos de surgimento das entidades elencadas por nós com os percursos históricos feitos pelas ONGs brasileiras (e já apontadas no Capítulo II); análise dos perfis dos representantes das instituições contempladas por este estudo, visando o entendimento da coleção de fatores responsáveis pela inserção desses agentes em cada entidade; comparação dos respectivos perfis desses representantes com as propostas educacionais de cada instituição; mapeamento das semelhanças e disparidades entre as entidades pesquisadas; apreender a proposta educacional de cada uma das três ONGs.

  Sublinhamos que, sim, os objetivos específicos deste Capítulo III são mais numerosos do que os fatores os quais buscamos apreender com os capítulos anteriores. Porém, esse era um dos nossos objetivos, ou seja, situarmos o terreno teórico-metodológico da temática abordada

  • – ONGs educacionais – nos capítulos precedentes para, então, trazermos o enfoque para os estudos de caso das ONGs escolhidas.

  Buscando o atendimento de nossos objetivos, começaremos a seguir a discorrer sobre os memoriais históricos de cada instituição para compararmos suas trajetórias de criação com os momentos de maior destaque das ONGs brasileiras. Vale destacarmos que neste primeiro tópico do Capítulo III o objetivo é mostrarmos como as entidades estudadas se enxergam no que concerne ao percurso histórico que percorreram e, assim, na parte citada ainda não esboçaremos os perfis que empreendemos das ONGs pesquisadas com o devido apoio sociológico; são apenas as visões das mesmas ou, simplificando, como as organizações citadas divulgam seu trabalho.

  Iniciamos, então, com a ONG mais antiga dentre as três que escolhemos pesquisar, a qual seja a Legião da Boa Vontade ou, simplesmente, LBV. A entidade citada foi fundada em São Luís em vinte e oito de fevereiro de 1982, então, a mesma possui um pouco mais de trinta anos de atuação na presente cidade.

  No que tange ao país, a LBV fora fundada em 1950, na cidade do Rio de Janeiro, pelo jornalista e escritor Alziro Zarur (194-1979) e possui como principal premissa, segundo seu próprio histórico, o ideal do ecumenismo. As raízes religiosas da entidade citada são profundas e encontram suas bases no chamado Kardecismo. Nos seus primórdios, a LBV atuava em situações emergenciais “voltadas para os mais carentes”, mas sempre usou a educação como pano de fundo de suas iniciativas. Devido a isso, recebeu o título de instituição de utilidade pública e federal, em 1956, concedido pelo então presidente da República, Juscelino Kubitscheck (1902-1976).

  A educação perpassa pela LBV, segundo seus representantes, pela questão da tolerância religiosa e, assim, educar torna- se uma “missão social e religiosa” para quem integra seus quadros de funcionários no país. Em 1961, surge a chamada “Juventude

  Ecumênica Militante da Boa Vonta de de Deus”, criada pelo hoje presidente da instituição, José de Paiva Netto. Essa “juventude” buscava intervir de forma militante na sociedade e empreendia ações que eram consideradas por seus integrantes missões maiores. Uma delas era a ronda que faziam para a distribuição de alimentos a bordo de um jipe do exército e visava não só minorar o problema emblemático da fome no Brasil, mas integrar a sociedade através do senso de “solidariedade”.

  Nos anos de 1970 e 1980, segundo dados históricos da própria LBV, a instituição deu prosseguimento a seus projetos anteriores, mas buscou incluir o esporte como outro pilar importante da aquisição da chamada cidadania, juntamente à educação. Também começou o processo de expansão dos projetos da entidade pelo país. Em 1984, houve a mudança de sua sede central do Rio de Janeiro para São Paulo.

  Já em São Paulo, houve a mudança mais significante no que tange ao desejo de intervenção da LBV na educação, pois na cidade citada a instituição criou seu primeiro centro educaciona l. Nas palavras do histórico da instituição “para o educador Paiva Netto, o local deveria unir eficiência no ensino e o ambiente mais propício ao aprendizado, contando com

  área verde, à época uma preocupação pouco existente na acinzentada paisagem paulista na”. O local de oferta de educação, promovido pela LBV, busca empreender atos educativos desde a chamada educação infantil e as crianças atendidas pelo seu projeto educacional são chamadas de “soldadinhos de Deus”.

  A partir da década de 1980, a LBV passa a ofertar seu modelo de educação em todo e adultos e cursos profissionalizantes. A demanda da instituição é atendida nos seus chamados “centros comunitários de assistência social”.

  De lá para cá a LBV disseminou sua atuação através dos mais diversificados meios. Hoje a instituição conta com gravadora, gráfica, rádio, portal na Internet e emissoras de televisão como formas de divulgação de seus projetos, trabalhos e como forma, igualmente, de angariar recursos e doações para dar consecução aos seus objetivos. Segundo o site da entidade

  “[...] todos esses importantes veículos de comunicação prestam contas das realizações da LBV e levam ao público a mensagem de Fé Realizante e Esperança, sob o lema: Educação e Cultura com Espiritualidade, para que haja Consciência Socioambiental, Alimentação, Segurança, Saúde e Trabalho para todos, na formação do Cidadão Ecumênico” (LBV, 2012).

  Na cidade de São Luís, a Legião da Boa Vontade mantém uma sede a qual chama de “Centro Comunitário de Assistência Social da LBV”, onde mantém atividades e de onde articula iniciativas as quais são congregadas a comunidades distintas. Apesar de sua sede

  • – e centro comunitário
  • – estar localizado no bairro da Madre Deus, em São Luís, segundo a instituição a mesma promove e/ou articula ações sociais tanto no bairro citado como nos bairros do Coroadinho, Sá Viana, Goiabal, Areinha e adjacências.

  A LBV escolhendo o bairro da Madre Deus para empreender a sua sede na presente cidade pode elencar alguns fatores para a consecução de seus objetivos como, por exemplo, fortalecimento da instituição. O bairro citado é considerado, historicamente, como “o bairro da cultura maranhense”, visto que reúne inúmeras manifestações culturais ao longo do ano. O folclore encontra algumas de suas bases na Madre Deus, pois o carnaval e as festas juninas são costumeiros na região citada. No passado, agregou fábricas voltadas para a produção têxtil no Maranhão e uma das antigas sedes dessas fábricas hoje abriga projetos da Prefeitura de São Luís, bem como a Associação de Catadores de Material Reciclável do Maranhão, ou simplesmente ASCAMAR. A região faz parte do Centro antigo de São Luís e encontra-se a mercê da ação do tempo e do descaso.

  Assim, com esse breve material histórico sobre o bairro da Madre Deus fica evidente a visão estratégica da organização aqui estudada

  • – a qual seja a Legião da Boa Vontade – já que o bairro citado congrega fatores como herança cultural, manifestações populares e folclóricas e está situado na região central da capital do Maranhão, próximo a comunidades consideradas “carentes” que rodeiam a região citada. Então, público-alvo para a instituição,
bem como demanda dos moradores por algum tipo de melhoria entram no jogo da escolha do bairro sede da entidade.

  Em outubro de 2005, a LBV foi eleita a “representante da sociedade civil” no Conselho Gestor de Saúde da Madre Deus. Já realizou mutirões de saúde no bairro citado e, assim, consegue se institucionalizar na cidade de São Luís, preconizando que auxilia na situação de “vulnerabilidade” em que se encontra a cidade mencionada.

  A LBV conta hoje com mais de quarenta parcerias dentre elas grandes empresas, rádios, governos estaduais, Governo Federal, jornais e etc. Também conta com o reconhecimento da Organização das ações Unidas

  • – ONU- “[...] tornou-se, em 1994, a primeira organização civil brasileira a associar-se ao Departamento de Informação Pública das Nações Unidas (DPI/UN)”. A entidade também já procurou se aproximar mais de canais de mídia mais modernos, como as chamadas redes sociais, da mesma forma como possui um canal para postagens de vídeos sobre a instituição no site Youtube. A entidade também possui em seu site um link para a suas prestações de contas sobre suas ações chamadas de socioeducativas.

  A Legião da Boa Vontade também menciona inúmeras vezes em seu histórico o reconhecimento da ONU no que tange à sua chamada “pedagogia inovadora”. Sobre o assunto discorrem o seguinte:

  “[...] em 2000, a Instituição passou a integrar a Conferência das ONGs com Relações Consultivas para as Nações Unidas (Congo), em Viena, na Áustria; nesta última década, cresceu a participação de instituições da sociedade civil nas principais conferências promovidas e apoiadas pela ONU, principalmente tendo em vista o cumprimento dos desafios globais, atualmente resumidos na descrição dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs)”.

  “[...] a Pedagogia do Afeto (direcionada às crianças de até os 10 anos de idade) e Pedagogia do Cidadão Ecumênico (que contempla a aprendizagem para a faixa etária a partir dos 11 anos), inovadora linha ensino criada pelo educador Paiva Netto, chamou a atenção pelos resultados alcançados nas escolas e nas unidades socioassistenciais da Obra, que propiciam ambiente favorável à Cultura de Paz e

  índice de evasão escolar zero” (LBV, 2012).

  A LBV ainda conta com congressos de educação que a própria instituição promove e onde busca a chamada capacitação de educadores, nos moldes do que a instituição preconiza, bem como a disseminação dos valores pedagógicos nos quais acredita.

  Passando para outra instituição, elencaremos a seguir os percursos históricos feitos pela Formação. A entidade citada é, hoje, uma organização social

  • – OS – e se chama

  “Formação Centro de Apoio à Educação Básica” e fora fundada no ano de 1999, na cidade de São Luís, pela assistente social com especializações na área de educação, Regina Cabral.

  A instituição foi criada por um grupo de educadores os quais se consideravam militantes da “causa educacional” e buscavam de início elaborar propostas de políticas públicas, produzir materiais didáticos, desenvolver projetos educativos, qualificar jovens e capacitar professores. Todos já participaram de ONGs e fóruns sobre educação, segundo dados da própria organização.

  No que concerne aos aspectos organizacionais da Formação, o site da própria entidade informa que

  “[...] o Formação tem uma administração colegiada constituída por: Coordenação Geral, Coordenação Financeira, Secretaria Executiva; o trabalho de coordenação não é remunerado; as linhas de ação, projetos e propostas pedagógicas e de gestão são deliberados em assembleias dos associados, realizadas, ordinariamente, duas vezes por ano; o trabalho dos projetos é desenvolvido por especialistas contratados para fins específicos, que realizam o planejamento de suas ações no âmbito do coletivo de profissionaisỂ (FORMAđấO, 2012).

  A Formação tem sua sede no bairro do Renascença I, em São Luís, em uma casa localizada em rua residencial. A ONG citada produz e disponibiliza artigos sobre educação e sobre a chamada inclusão social; promove encontros e fóruns para discussões no que tange às políticas públicas; desenvolve relatórios e projetos de pesquisa sobre perfis dos profissionais mais diversos; a entidade também disponibiliza, inclusive em seu site, as suas publicações, revistas e boletins.

  No que se refere às parcerias que estabelece, a Formação divide as mesmas em “apoiadores/financiadores” e “aliados”. Dentre os dois segmentos, encontramos desde a CAIXA, passando pela FIFA e chegando até a UNICEF e ao Governo Federal. A entidade citada também conta, como meios de divulgação de projetos e articulações, com blogs e links sobre ambos.

  Não encontramos críticas na esfera midiática acerca dos trabalhos desenvolvidos pela ONG Formação, na verdade, conseguimos localizar alguns eixos de suas parcerias e matérias com enfoques nos projetos realizados pela entidade citada. Segundo Camilo (2008), a iniciativa da ONG mencionada em relação à chamada inclusão digital é fundamental

  “[...] apontado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) como o 2º estado no país com menor índice de inclusão digital (7,7%), o Maranhão depende de parte ainda tímida do poder público para tentar mudar essa realidade; as ONGs Formação e Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e a Prefeitura de São Luís (que procura ampliar sua rede de telecentros) são raros oásis num deserto de falta de iniciativas visando à inclusão digital

  ”.

  Também mapeamos por meio de pesquisa on line uma notícia referente a uma parceria entre a Formação e a UNICEF a qua l nos diz, resumidamente, que “[...] o UNICEF e a ONG Formação promovem o I Encontro dos Centros de Ensino Médio Profissionalizante

  (Cemps) para aprofundar a discussão sobre essa inovadora experiência que hoje contribui com o desenvolvimento da Baixada Maranhense

  • – Campos e Lagos”. Desta forma, apesar de não ter um memorial histórico muito detalhado e abrangente, a Formação disponibiliza bastantes materiais informativos sobre suas ações e é uma das maiores ONGs em voga na cidade, já que a mesma possui repercussão de projetos em outras cidades fora do Maranhão, tal como ensejou, com isto, o estabelecimento de parcerias com importantes órgãos nacionais e internacionais. E o diferencial dela em relação às outras duas ONGs que analisamos é que a Formação é a única com sede de fundação primordialmente estabelecida na cidade.

  Já a terceira, e mais recente instituição, que analisamos foi a Central Única das Favelas, ou simplesmente CUFA. A mesma foi fundada, na cidade de São Luís, em 2008, ou seja, o tempo de vida da instituição até o momento é de apenas quatro anos. Desta forma, acho que fica evidente o critério que escolhemos para dividirmos as trajetórias de criação de cada entidade, o qual seja o tempo de vida da instituição até o momento na presente cidade.

  Em São Luís, a CUFA é coordenada pelo seu fundador local, o produtor de eventos Billy Wesley Freire. Billy também é o coordenador estadual da entidade, já que a mesma estende seus projetos para diversos interiores do Maranhão. A missão preconizada pela CUFA em São Luís é a de ser um

  “[...] pólo de produção cultural e de distribuição de oportunidades para os jovens, particularmente, negros e residentes em favelas através de projetos e ações promovidos nos campos da educação, esporte, cultura, cidadania e desenvolvimento humano” (CUFA, 2012).

  A CUFA possui ações, no Maranhão, que se estendem de São Luís e passam pelas cidades de Balsas, Coroatá, Governador Nunes Freire, Imperatriz, Miranda do Norte, Raposa, Riachão e Vargem Grande. A organização mencionada centra suas ações em atividades ligadas à chamada cultura de rua entre as quais podemos sublinhar o grafitti, a escolinha de futebol de rua, o break, o basquete de rua, igualmente como outras ações nas áreas cultural e educacional.

  A Central Única das Favelas possui como seus principais fundadores e divulgadores o rapper MV Bill e a Nega Gizza e tem seu marco de fundação no ano de 1999 no que tange ao Brasil. A entidade foi criada a partir da união entre jovens moradores de várias favelas no Rio de Janeiro e hoje já atua em dezenove estados do país.

  A CUFA em São Luís conta com parcerias da esfera privada, mas, pontualmente, estabelece parcerias com o Poder Público, igualmente. Segundo o seu coordenador local, a “marca” CUFA foi liberada pela entidade de mesmo nome no Rio de Janeiro, mas os projetos sociais são elaborados na presente cidade visando os interesses e objetivos preconizados pela CUFA nacional, mas adequados à realidade local.

  Como mencionamos no inicio do Capítulo III, o histórico das ONGs fora realizado com base nos discursos empreendidos pelas mesmas, seja em publicações desenvolvidas pelas entidades, seja através de materiais disponibilizados nos sítios eletrônicos. No tópico dedicado à formação dos perfis das instituições, elencaremos, então, os materiais oriundos das entrevistas que realizamos, da mesma maneira que elementos sociológicos para a consecução do comparativo dos referidos perfis.

  Segundo nos orienta Coutinho (2011), as ONGs podem ser alocadas em esboços de classificações. Segundo a autora, as entidades podem ser classificadas

  • – de acordo com nomeações estabelecidas por alguns autores
  • – como: “neoliberais” as quais seriam as que possuem uma perspectiva assistencialista e recebem colaborações de ordem imperial, sejam estas ultimas vindas de agencias e/ou organismos nacionais e internacionais; “reformistas” seriam as ONGs as quais visam reformar e corrigir excessos advindos do chamado mercado livre, do mesmo modo que tentariam mediar reformas para que estas sejam compatíveis com os lucros mercadológicos e com os interesses sociais e ambientais; e “radicais” que seriam aquelas voltadas para movimentos contra a globalização e tem a autogestão como enfoque.

  Além dessa classificação empreendida por Petras (2002), Coutinho (2011) também nos aponta outras classificações de ONGs empreendidas por outros autores. Assim, as entidades citad as podem ser “históricas” as quais seriam as instituições surgidas nas décadas de 1970 e 1980 e que buscavam a autonomia em relação às chamadas Organizações Internacionais, embora reconheçam a dependência em relação a elas segundo Coraggio (1996); “militantes cidadãs” as quais possuíam como objetivos a participação popular para a efetivação da democracia e de disseminação da chamada cultura da cidadania no que tange ao pensamento de Gohn (1997); e as ONGs “cívico republicanas” as quais preconizariam as lutas pela defesa de direitos, que é o que nos afirma Oliveira (2001).

  16 De posse do conhecimento destas possíveis classificações em relação às ONGs, dos

  materiais disponibilizados pelas mesmas e do que fora apreendido nas entrevistas da presente pesquisa, podemos dar prosseguimento à formação dos perfis das entidades analisadas e das correlações teóricas possíveis a partir deles a partir de nossas próprias classificações sociológicas.

  A partir deste tópico a analise da pesquisa ira se centrar em três grandes eixos. O primeiro tem como enfoque as comparações e as consecuções de perfis sobre as três ONGs abarcadas pelo nosso estudo; o segundo grande eixo desta pesquisa tem como base o entendimento dos componentes, dos recursos e das trajetórias dos principais agentes destas instituições na cidade de São Luís para que possamos avaliar que fatores entraram em jogo para a inserção dos mesmos nessas entidades; e o terceiro e último eixo de análise do nosso estudo centra-se na análise da percepção da educação para as entidades escolhidas e dos agentes concernentes às mesmas.

  Para que o entendimento das correlações teóricas que fizemos tenha seu entendimento mais claro, resolvemos fazer quadros a respeito das informações de cada uma das três instituições. Nosso intuito é o de sistematizarmos algumas informações mais gerais, primeiramente, para que somente a partir disto possamos estabelecer articulações entre nossas abordagens no presente estudo e os nossos referenciais teóricos. Sobre a Legião da Boa Vontade em São Luís, vejamos o quadro 10.

  Sobre os pressupostos da instituição aqui abordada, vale à pena sublinharmos o que a própria entidade preconiza como objetivos em seu site:

  

que executaremos sobre as ONGs pesquisadas. Elas servem apenas para mostrarmos que outros tipos de

classificações já foram empreendidas pelo meio acadêmico servindo, assim, como fontes de revisão de literatura

  “[...] A LBV atua em dezenas de cidades brasileiras, prestando atendimento de qualidade que abrange de crianças a idosos e se estende suas famílias. São mais de 70 unidades socioeducacionais entre escolas, abrigos para idosos e centros comunitários de assistência social, que resgatam em cada atendido a sua autoestima e transformam para melhor a sua realidade. Além disso, a Instituição garante que o local seja seguro e o trabalho de qualidade, com a atuação de profissionais e voluntários capacitados. Todo o atendimento se soma ao despertar de valores éticos, ecumênicos e espirituais, norteado pela Pedagogia do Afeto e pela Pedagogia do Cidadão Ecumênico. [...] As ações sociais da LBV atendem à legislação e Política Nacional de Assistência Social e enquadram-se, segundo a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, em serviços de proteção social básica (convivência e fortalecimento de vínculos) e proteção social especial de alta complexidade (abrigagem)” (LBV, 2012).

  Quadro 10 – Informações Gerais sobre a Legião da Boa Vontade/LBV.

  Legião da Boa Vontade/LBV

Nome da Instituição

  30 anos

Tempo da Entidade em São Luís

Número de Projetos em Voga

  03 Número de Parcerias com Empresas privadas

  17 Número de Parcerias com o Poder Público

  02 Número de Voluntários

  05 Número de Funcionários

  22 Participa de Redes de Instituições? Não

  Sim A LBV busca a todo o momento enfatizar como é independente e tem suas próprias diretrizes tanto em relação aos seus projetos sociais, como no que diz respeito às suas propostas educacionais. Porém, verificamos que esta independência em relação tanto ao Estado quanto a outras organizações é altamente questionável, já que a instituição conta com mecanismos que a relacionam com o aparelho estatal como, por exemplo, o título de Organização Social que garante que, assim, possa vir a receber recursos públicos para efetivar seus projetos.

Participa de fóruns de Políticas Públicas?

  Nós verificamos que a principal marca da instituição é o assistencialismo porque a mesma ainda reúne características antigas de alocação e arrecadação de recursos e de formulação de projetos. Exemplos disto são as frequentes ligações, em busca de doações, que a organização realiza para os indivíduos, sempre ressaltando que a pobreza e o estado de vulnerabilidade das crianças atendidas por suas iniciativas justificam seus contatos com os possíveis doadores. Outro exemplo são as campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos em épocas como o Natal e a utilização da questão da insegurança alimentar como moeda de troca para com os financiadores de seus projetos.

  A chamada “abrigagem” é vista como objetivo primordial da LBV e para a mesma justifica a necessidade de sua existência em prol dos excluídos e/ou necessitados de intervenção assistencial. A utilização da noção de proteção social por parte da instituição nos revela que há um desejo de se firmar como entidade sine qua non para o processo de inclusão social do qual prescindem inúme ros cidadãos, “desprotegidos socialmente” pelo Estado. Ainda no que tange sobre sua relação com o aparelho estatal, verificamos uma relação de via de mão dupla, por vezes sublinhada neste trabalho, de contestação misturada aos ideários de parceria e solidariedade. Assim, ao mesmo tempo em que a instituição se apresenta como necessária para a solução da vulnerabilidade social dos cidadãos devido à passividade do Estado e da inexistência de um modelo educacional tal como ela propõe, a ONG percebe nesse mesmo agente tanto um financiador relevante para seus projetos, bem como um possuidor de modelo preponderante para a assistência social. Não se pretende aqui discutir assistência social nem finalidade filantrópica, mas que as devidas nuances de cada instituição sejam desveladas a partir dos dados colhidos em cada uma. No que se referem às chamadas políticas assistenciais, encontramos uma passagem primordial para o presente estudo (...)

  “A política assistencial constitui a forma ancestral da política social. Na qualidade de ação pública no campo social, a política de Assistência Social precedeu no tempo as outras formas de intervenção social do Estado ” (Carvalho, 2009, p. 2). Outra abordagem que é realizada pela LBV e que diverge das demais instituições estudadas é a que centraliza a família como eixo primordial para seus projetos. Não é a comunidade nem outros segmentos que são abordados por esta entidade como base para o sucesso de suas iniciativas, mas sim o apoio familiar, assim como o efeito multiplicador que, supostamente, suas ações trariam a essas mesmas famílias através de seus beneficiados. Sobre esta perspectiva de centralização da família nas ações de organizações e da tentativa de humanização dos serviços públicos, Carvalho nos diz

  “[...] A perspectiva contemporânea é de reconhecimento da indispensabilidade da família no cerne das políticas públicas destinadas à proteção e ao desenvolvimento dos cidadãos, seja como porta de entrada e adesão aos propósitos dos serviços públicos básicos (saúde, educação, habitação, emprego...), seja como corresponsável e parceira na condução destes mesmos serviços ” (CARVALHO, 2009, p. 19).

  E o último fator que nos levou a refletir a LBV como uma ONG preponderantemente voltado à assistência social é o olhar religioso com que a mesma envolve seus empreendimentos. A instituição procura, a todo o momento, ressalvar que o modelo de educação por ela proposto tem mais chance de sucesso e poder de transformação social devido ao cunho ecumênico que a mesma utiliza em seus projetos. O cidadão que a ONG supracitada formaria seria, assim, ecumênico e graças a isto teria valores mais arraigados, bem estruturados e onde a ética, segundo eles, estaria sempre presente. A educação, então, teria duas grandes funções para esta instituição: acabar com a vulnerabilidade social de seus beneficiários, bem como garantir que os mesmos fossem agentes multiplicadores da correta moral. Assim, concluímos que a LBV ainda tem suas raízes fundamentadas na chamada assistência social e abordagens antigas de alocação de recursos de seus projetos em comparação com as ONGs com algum enfoque educacional em São Luís; isto a torna a instituição estudada com perfil mais tradicional e a única com bases religiosas em suas iniciativas.

  Para que iniciemos a realização do perfil da ONG Formação, é válido que, inicialmente, atentemos para as informações contidas no quadro 11.

  Quadro 11 – Informações Gerais sobre a Formação.

  Formação Centro de Apoio à Educação

Nome da Instituição:

  Básica 13 anos

Tempo da Entidade em São Luís

  22 Número de Projetos em Voga

Número de Parcerias com Empresas Privadas

  27

  04 Número de Parcerias com o Poder Público

  • Número de Voluntários Número de Funcionários
  • Sim

Participa de Redes de Instituições?

  Sim

Participa de Fóruns de Políticas Públicas?

  • * Segunda a fundadora, Sra. Regina Cabral o número de profissionais chega a 30 entre funcionários e voluntários

    só que não houve especificação dos mesmos.

  A Formação acredita que pode intervir na sociedade de forma sistemática e multidisciplinar. Desde os primórdios desta instituição a mesma buscou nas experiências militantes e profissionais de seus participantes originários a bagagem necessária para, segundo sua visão, propor novos rumos educativos para o maranhão.

  A fundação da ONG Formação, no que tange ao nosso posicionamento, apresenta elementos oriundos da contradição de suas relações e pensamentos acerca da questão educacional, sobretudo no que se refere à causa da “escola pública de qualidade”.

  Quando da realização das entrevistas com participantes dessa entidade percebemos o tom de critica no que tange às experiências dos mesmos no meio educativo, assim como quando cruzamos estas informações com as contidas nos materiais de divulgação da mesma. A Formação sublinha veemente que nasceu da insatisfação de profissionais da educação em relação à escola pública do maranhão.

  E quando questionamos os principais fatores responsáveis pela entrada de seus participantes no espaço social referente às ONGs o que é levado mais em conta são a experiência em sala de aula e a decorrente insatisfação em relação às condições ofertadas pelo Estado para o ensino.

  A consequente militância pela educação surgiu, segundo a ONG, da “necessidade” de melhoria no ensino onde a educação passasse a ser vista como um projeto de vida o qual pudesse oferecer elementos para credenciar cada individuo para a aquisição da cidadania. Na visão da entidade (leia- se “visão de seus agentes formadores”), através da educação se adquire cidadania e, consequentemente, o individuo passaria a voltar o seu olhar para o seu território tendo meios de, segundo essa opinião, modifica o mesmo por meio de proposta e soluções as quais só seriam possíveis por meio da educação.

Definimos a Formação como “militante”, pois, para a sua constituição, como entidade, a questão educacional é observada como uma causa legitima, pois acreditam que o

  ensino no maranhão não oferece referencias metodológicas. Essa concepção da ONG se verifica, pois, a mesma aponta que o estado mencionado deveria investir no jovem para a promoção do desenvolvimento local o que somente seria proporcionado se esse jovem não fosse preparado unicamente para o mercado, mas também para oferecer solução para impasses em sua região.

  No que tange os elementos que são levados em conta pela Formação quando da inserção de um individuo em seu corpo organizacional, alguns recursos são primordiais para a entidade, tais como: conhecimento técnico (o que, para eles, é sinônimo de especialização numa área de formação ao menos); e o fato de valorizarem pessoas as quais tenham participado de seus projetos, sejam como públicos-alvo, sejam como voluntários dos mesmos.

  A militância evocada pela instituição aparece em uma série de momentos. O primeiro deles seria congregado à insatisfação com as políticas educacionais (para eles insuficientes), seria o desejo de formar agentes multiplicadores que sejam militantes de suas próprias ações e que, de fato, possam intervir na sociedade com propostas herdadas das discussões no interior desta ONG; e, por último, o desejo maior desta entidade: transformar a sociedade através destas intervenções.

  Assim, traçamos o perfil da Formação como “especializada em militância educativa”, pois, o pessoal ocupado na mesma possui, de forma congregada, elevado capital escolar especializado na área educacional e capital militante especifico em prol de “causas- educativas”. E, para eles, educação é o meio mais certo de profundas transformações sociais o que nos fez pensá-la como, fundamentalmente, militante educacional.

  No que é relativo à ultima ONG

  • – e com menor tempo de atuação na cidade de São Luís
  • – a qual seja a Central Única das Favelas, igualmente se faz relevante à apresentação, principalmente, de um quadro de informações sobre ela. Vejamos, assim, o quadro 12. Quadro 12 – Informações Gerais sobre a Central Única das Favelas/CUFA.

  Central Única das Favelas/CUFA

  Nome da Instituição Tempo da Entidade em São Luís 04 anos

  06 Número de Projetos em Voga

  02 Número de Parcerias com Empresas Privadas

Número de Parcerias com o Poder Público

  01

  13 Número de Voluntários

  05 Número de Funcionários

  Participa de Redes de Instituições? Não

  Não

Participa de Fóruns de Políticas Públicas?

  A Central Única das Favelas em São Luís tem uma proposta de se manter inovadora no que tange aos seus modos de atuação na sociedade. Fazemos esta afirmação com base nos fatores que são escolhidos por esta ONG como objetivos a serem perseguidos através de suas ações.

  Desta forma, há um grande destaque para a chamada “potencialização do jovem”, o qual é percebido pela instituição como protagonista em processos de mudanças maiores na sociedade. Mas vale à pena ressaltarmos que o público-alvo da CUFA é voltado para a juventude, só que o olhar da instituição é voltado para um segmento particular de jovens os quais sejam negros e residentes em comunidades consideradas à margem da sociedade ou, simplesmente, periferias.

  Muito embora a referida entidade também se valha de repertórios compartilhados pela maioria das ONGs, tais como “inclusão social” e “cidadania”, nos chamou a atenção que tanto nas entrevistas como nas publicações da CUFA há uma enorme utilização de dois elementos para que a referida cidadania se efetivasse: o denominado reconhecimento de direitos e a chamada distribuição de oportunidades.

  Para a ONG CUFA, a referida cidadania somente pode ser conquistada quando do reconhecimento da igualdade de direitos civis entre todos os indivíduos

  • – e da efetivação dessas leis e do alcance delas para todos os agentes sociais
  • – para que, então, se possa garantir o acesso aos direitos políticos e sociais vistos, pela instituição, como exercidos plenamente apenas pelos setores mais favorecidos da população.

  Os fatores os quais são mais levados em conta para a entrada no quadro profissional da CUFA são a participação de um indivíduo como contemplado por projetos sociais da entidade; o fato do agente estar imerso na realidade das chamadas periferias; e, de preferência, que esse agente saiba discorrer sobre a importância do chamado protagonismo juvenil.

Inserimos a instituição citada no perfil “vanguardista”, pois a mesma, dentre as três entidades pesquisadas, é a que mais se vale das ferramentas das redes sociais para disseminar

  seus projetos e ações, assim como leva em conta a expressividade de seus agentes formadores através do uso de blogs com posts sobre as indignações em relação à desigualdade de oportunidades pelas quais os jovens das comunidades passam.

  A instituição é, igualmente, a mais próxima de novos movimentos sociais como, por exemplo, o chamado movimento hip-hop, da mesma maneira que a mesma se vale de novas formas, segundo eles, de se adquirir educação, como a expressão da conscientização da criança e do jovem através de movimentos artísticos como o graffitti ou a dança de rua.

  Por mais que a CUFA aborde demasiadamente que seus beneficiados têm o poder de transformação social em suas mãos depois de serem por ela assistidos, ainda assim não conferimos o atributo primordialmente militante a esta instituição. Ela se assemelha muito mais ao componente vanguardista por assim se enxergar: como uma entidade capaz de ser inovadora em suas iniciativas e de não precisar do apoio do Poder Público nem dos fóruns de políticas públicas.

  Ironicamente, das três instituições aqui abordadas é a única que divide espaço com uma sede de um setor da administração municipal (o CRAS) a qual fornece materiais de apoio relevante toda a reflexão sobre a relação de ambivalência entre Estado e ONGs que, exaustivamente, abordamos neste estudo. Ora contestações; ora, aproximações.

  No que se refere às comparações às quais podemos tecer sobre as três ONGs pesquisadas, alguns elementos de semelhanças entre elas foram encontrados. O primeiro ponto em comum diz respeito ao fato das três instituições citarem (e reafirmarem) a situação de

  “vulnerabilidade” das condições educacionais em São Luís (e no estado como um todo).

  Acerca disto, a LBV sublinha a carência, a pobreza em vários setores no Maranhão e a falta de ensino de qualidade; já para a Formação o chamado sucateamento da escola pública no Estado seria alarmante; e, finalmente, para a CUFA a vulnerabilidade do jovem da periferia o qual seria deixado de lado pelo Estado seria o principal entrave para o acesso da juventude à educação.

  Essa dita vulnerabilidade é posta como justificativa plausível, por parte das três instituições, para que as mesmas pudessem ser antes de qualquer coisa, criadas na presente cidade para, assim, marcarem suas inserções no espaço social das ONGs brasileiras. Dados sobre a configuração socioeconômica do Maranhão talvez entrem em jogo no momento de se elencar o fator “vulnerabilidade” para uma possível intervenção. Isto pode ser verificado no quadro 13, acerca da questão da renda no Maranhão.

  Quadro 13

  • – Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por classes de rendimento mensal de todos os trabalhos no Maranhão.

Total

  2.361.389 1.177.266

Pessoas com rendimento de até um salário mínimo

  437.779

Pessoas com rendimento de mais de 1 a 2 salários mínimos

  111.032

Pessoas com rendimento de mais de 2 a 3 salários mínimos

  90.936

Pessoas com rendimento de mais de 3 a 5 salários mínimos

  67.920

Pessoas com rendimento de mais de 5 a 10 salários mínimos

  21.136

Pessoas com rendimento de mais de 10 a 20 salários mínimos

  9.036

Pessoas com mais de 20 salários mínimos

  446.283

Pessoas sem rendimento Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010: Resultados Gerais da Amostra

  Os dados educacionais do Maranhão oriundos da pesquisa do IBGE (2010), deficitários na comparação com outras unidades da federação, foram levados em conta nas entrevistas com os representantes das três ONGs e elencados como respaldo para as intervenções das mesmas no campo educacional. Muitas vezes, as entidades utilizam o termo trazendo, assim, a marca do “imprescindível” para estes últimos. Sobre os dados citados, talvez seja válido para a verificação dessa possível correlação abordada pelas instituições atentarmos – e refletirmos – sobre o quadro 14. Quadro 14 – Pessoas de 10 anos ou mais de idade por nível de instrução.

  5.264.736

Total

  3.213.208

  Pessoas sem instrução e com ensino fundamental incompleto

Pessoas com ensino fundamental completo e ensino médio incompleto 842.384

  994.385

Pessoas com ensino médio completo e ensino superior incompleto

  189.918

Pessoas com superior completo

  24.842

  Não determinado Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010: Resultados Gerais da Amostra.

  Ainda no capítulo I desta dissertação, discorremos no último tópico sobre como os trunfos dos agentes que compõem as ONGs são decisivos a ponto de considerarmos os mesmos, nesta pesquisa, como formadores das instituições. Assim, percebemos as ONGs como somatórios dos trunfos de seus agentes.

  Para relembrarmos a referida questão dos trunfos ressaltamos que estes, na nossa visão, são os conjuntos de recursos mobilizados pelos agentes para tornarem possíveis os seus objetivos. E, para nós, os quatro trunfos mais levados em conta para a inserção dos agentes nas ONGs, ao menos, seriam o capital militante, o capital social, o capital escolar e, finalmente, a posse de gramática e de noções especializadas e imersas no espaço social das ONGs. Um ou dois trunfos ao menos, dentre os aqui citados, sempre se combinam e se sobressaem em um agente.

  Nossa hipótese referente à posse dos quatro trunfos fora verificada por nós nas três ONGs. E é sobre esta abordagem que versaremos a partir de agora, buscando uma correlação lógica entre os agentes, as entidades das quais os mesmos fazem parte e as premissas destas últimas.

  Em relação à Legião da Boa Vontade, escolhemos como representante para consecução de perfil uma assistente social da referida instituição. Utilizaremos, novamente, a visualização de quadros para que se possa empreender, com mais facilidade, a articulação dos dados gerais do entrevistado com os nossos argumentos. Vale mencionarmos que para mantermos a privacidade dos e ntrevistados os mesmos serão denominados como “agentes”. Assim, recomendamos a atenção para o quadro 15.

  A entrevistada da LBV possui perfil altamente complementar em relação à instituição da qual faz parte, pois tanto seu capital escolar como a gramática especializada (e técnica) que possui fazem parte fazem da representante da LBV um indivíduo que reúne as características mais marcantes para potencializar os pressupostos da entidade.

  Quadro 15 – Dados para a realização do perfil do representante da LBV.

  Agente um

Nome

  33 anos

Idade

  Assistente social

  Cargo na Instituição Tempo de Trabalho na Instituição 09 anos

  Ensino superior completo em Serviço

Escolaridade

  Social com Especialização em Terapia Familiar e Terapia de Casais Ensino superior completo (mãe);

Escolaridade dos Pais

  Ensino médio completo (pai) Entendemos como objetivos da LBV a preconização da assistência social e o desenvolvimento de medidas socioeducativas para a diminuição do que a ONG citada chama de “vulnerabilidade social”. E os objetivos mencionados, para a entidade, sempre perpassam pela junção entre educação e religião, já que a mesma sublinha como objetivo formar uma educação ecumênica em seus centros de assistência social.

  A agente um, desta forma, tem seus objetivos em consonância com os da instituição, pois acredita piamente na junção de fatores assistenciais e de fatores emocionais dentre os quais podemos destacar a chamada “educação dos sentimentos”, isso no que é relativo à posse de gramática especializada consoante com os pilares da instituição que fomenta.

  O capital escolar desta representante é todo voltado para a área de Assistência Social com especialização na mesma o que a credencia para ocupar o cargo de assistente social da entidade, do mesmo modo que a agente também ocupa posições no Conselho Gestor Distrital na área de saúde, na comunidade da Madre Deus, igualmente como a mesma participa do Fórum da Criança e do Adolescente de São Luís.

  O capital militante, no caso da agente citada, foi agregado após a entrada da mesma na instituição, por meio da participação dela no conselho e no fórum citado, assim como a mesma participa de seminários educativos. No que tange ao capital social, o mesmo não fora verificado como posse da agente citada nesta análise.

  Já no que é relativo à ONG Formação, escolhemos como agente representante da mesma a fundadora da instituição porque ela agrega todos os requisitos para a inserção de um agente da ONG citada. Isso ficará claro a partir da visualização do quadro 16 e das nossas exposições.

  Quadro 16 – Dados para realização do perfil do representante da Formação.

  Agente dois

Nome

  44 anos

Idade

  Consultora voluntária em projetos

  Cargo na Instituição Tempo de Trabalho na Instituição 13 anos

  Doutoranda em Educação

Escolaridade

  Ensino superior (mãe)

Escolaridade dos Pais

  Ensino fundamental (pai) A agente dois teve uma trajetória escolar e profissional ascendente e que corroboram para as realizações da instituição da qual faz parte. A fundadora da Formação possui graduação em Serviço Social, mestrado em Educação, especialização em desenvolvimento local e, hoje, está prestes a concluir o doutorado em Educação, sendo que este último vem sendo realizado em São Paulo. Assim, percebemos que o capital escolar da agente citada vai ao encontro do perfil que traçamos da instituição da qual ela faz parte, ou seja, percebemos ambos como “militantes especializados em Educação”.

  O capital militante da representante da Formação também é elevado, já que a mesma participou desde a época de sua graduação, ainda em 1986, de movimentos sociais. Depois de uma estada no México, a agente citada regressou ao Brasil e foi trabalhar em uma ONG para educação de jovens e adultos. A agente dois se autodenomina militante da área de educação e ainda conta com experiência como secretária adjunta de educação.

  No que é relativo ao seu capital social, o mesmo também é verificado, já que a mesma contou com a colaboração de outros militantes em educação para fundar a ONG Formação, e a experiência em movimentos sociais dos mesmos e a junção de seus capitais escolares especializados na área citada foram fundamentais para a ONG ser considerada, hoje, a com maior expressividade na questão educacional concernente ao espaço social das ONGs no Maranhão.

  A gramática especializada na área também é encontrada na análise do perfil da agente aqui mencionada, já que insere vários elementos da Pedagogia e da literatura da chamada sociedade civil, o que podemos verificar tanto nas respostas de suas entrevistas, e também, sobretudo, nas publicações organizadas pela mesma para a divulgação de projetos da entidade da qual faz parte.

  E no que é relativo ao representante da CUFA, escolhemos o coordenador estadual da instituição e, antes de tudo, recomendamos que se verifiquem os dados deste agente no quadro 17. Quadro 17 – Dados para realização do perfil do representante da CUFA.

  Agente três

Nome

  30 anos

Idade

  Coordenador estadual

  Cargo na Instituição Tempo de Trabalho na Instituição 04 anos Escolaridade Ensino médio completo

  Ensino médio completo (pai)

Escolaridade dos Pais

  Ensino médio completo (mãe) O agente três foi escolhido para o mesmo mapeamento do perfil de representante da

  CUFA, pois em São Luís ele acumula funções na entidade, assim como é o coordenador estadual da CUFA e, também, reúne a maioria dos fatores levados em conta pela instituição para a inserção como agente na mesma.

  O representante da CUFA possui, no nosso entendimento, os quatro atributos os quais representam os trunfos que mencionamos anteriormente. O agente três possui um capital escolar que vai ao encontro do que é preconizado pela ONG, ou seja, o misto da “educação da vivência” – nas palavras do entrevistado - com alguns atributos acadêmicos e/ou profissional que possa ser oferecido como forma de se adquirir a chamada cidadania e o protagonismo na sociedade. O agente mencionado, por exemplo, ministrava aulas de dança na instituição da qual faz parte.

  Ele também tem como trunfo o capital militante, pois foi voluntário e militante, desde a idade de quinze anos, em movimentos sociais baseados na promoção por igualdade de oportunidades de jovens de regiões periféricas. Ele também possui o capital social como trunfo, visto que ele se considera resultado de um projeto social que congregava projetos de dança, do mesmo modo que a chamada inclusão social para aquisição da cidadania.

  E, finalmente, o agente três possui a chamada gramática especializada do espaço social das ONGs, pois frequentemente faz alusão a termos como “protagonismo juvenil”, “direito de reivindicações sociais”, “luta pela atuação das comunidades excluídas”.

  Assim, no que é relativo à consecução dos perfis dos representantes das ONGs, percebemos uma enorme aproximação de seus recursos

  • – os quais consideramos aqui como trunfos
  • – assim como de seus repertórios linguísticos em consonância com os pressupostos de cada instituição. Desta forma, a representante da LBV tem características marcadamente assistencialistas e religiosas em seus objetivos e em seu histórico; já a representante da Formação reúne as prerrogativas da militância educacional tal como a entidade da qual faz parte; e, finalmente, o agente escolhido da CUFA tem como seus objetivos os mesmos desta instituição, ou seja, um forte envolvimento com a cultura de rua onde há a preconização pela igualdade de oportunidades entre os jovens.

CONCLUSÃO

  O esforço teórico-metodológico que trouxemos para esta pesquisa estava ligado, primordialmente, com o desejo de contribuirmos para a produção acadêmica acerca do espaço social das ONGs. Mas os desdobramentos deste estudo acabaram por nos apresentar outros possíveis eixos de análise a partir da complexificação do espaço citado.

  Se antes buscávamos analisar as ONGs educacionais, posteriormente concluímos que as bandeiras de cada ONG, hoje, são muitas. Então, nenhuma organização desta natureza é puramente educacional ou ligada somente à promoção de direitos, por exemplos. A perspectiva é multivariada e apesar da educação ser, sim, a temática mais assinalada como primordial por estas instituições, ela perpassa por outras áreas de atuação destas ONGs que não se limitam a uma única causa.

  Igualmente, se no passado as ONGs eram instrumentos da sociedade civil para a contestação do status quo, hoje a perspectiva de parceria e consonância com o Estado

  • – e com toda a gramática compartilhada pelos dois agentes
  • – é a realidade mais em voga, visto que a grande maioria destas organizações almeja se tornar uma organização social, ou OS, para poder angariar recursos públicos para seus projetos e ter uma maior visibilidade no espaço social das ONGs, cada vez mais especializado e fortemente relacionado com as exigências do mercado de trabalho.

  Fazer parte de uma ONG não difere em muitos fatores de se fazer parte de uma empresa, não somente pelos fatores de ordem salarial, mas porque os requisitos para que um indivíduo adentre numa instituição destas são inúmeros e altamente assemelhados com os elementos exigidos pelo mercado. Domínio de idiomas, formação superior, desejável especialização são apenas algumas destas semelhanças. Porém, estar numa ONG, hoje, inclui, também, a posse não só de um capital escolar elevado, mas de trunfos específicos como uma gramática especializada no setor de ONGs; um capital social notável; e, mais ainda, um capital militante que credencie seus membros como agentes aptos a disseminarem os objetivos da instituição.

Estes trunfos permitem nos dizer que, hoje, existe uma “filantropia especializada”, onde eles são decisivos para uma ONG fazer parte de uma grande concorrência por

  financiamento de projetos, onde os editais para os mesmos são cada vez mais complexos e sua decorrente disputa cada vez mais acirrada. Cada organização destas, então, de fato é um somatório dos trunfos de cada um de seus agentes.

  Se a especialidade de um indivíduo encontra-se no campo educacional e se a ONG da qual faz parte tem suas bases neste tipo de causa, tanto mais valioso o mesmo será para a instituição; e ele proporcionará mais conquistas no que tange a recursos para projetos e a divulgação do trabalho empreendido pela organização. A contrapartida da instituição para com os agentes cada vez mais especializados são salários mais altos e uma maior valorização destes em outros tantos quesitos.

  Estes agentes especializados, muitas vezes, tornam-se os próprios emblemas de suas instituições. Por exemplo, se uma instituição tem um viés mais ligado à área da assistência social, seus agentes mais bem posicionados dentro da organização são não só os mais especializados na mesma área, mas os que, igualmente, possuem mais repertório que vai ao encontro da instituição. Então, não só as ONGs são somatórios dos trunfos de seus agentes, mas estes também acabam se tornando as personificações das causas pelas quais lutam. Isto faz com que verifiquemos, ainda, aspectos da chamada militância clássica mesclados a aspectos mais modernos, como o aumento do aparelho burocrático dentro das instituições e da acirrada disputa por posições de trabalho nelas.

  Escolhemos três ONGs que, apesar de fazerem parte de um mesmo espaço social, acabam tendo disparidades que nos proporcionaram comparações interessantes. Uma era o típico exemplo de ONG clássica, com métodos antigos e largamente apoiados na maneira antiga de se fazer filantropia; outra era altamente especializada numa determinada militância por uma causa, com aspectos novíssimos sobre o aperfeiçoamento de seus membros; e, a última, mais jovem tanto no quesito tempo de vida da instituição, quanto no que se referem às formas de mobilização de suas atuações em projetos.

  Outro aspecto que não podemos deixar de falar é sobre a diferenciação entre o indivíduo que ocupa uma posição estratégica

  • – e bem remunerada – na instituição e o que é apenas voluntário dela. Ao nosso modo de ver, todas as ONGs pesquisadas prescindem da militância e da divulgação proporcionadas por seus voluntários, mas ficou clara para nós a questão da precarização do trabalho do voluntário. Ao conversarmos com alguns destes indivíduos, notamos que a maioria não exercia tal função apenas por ser fiel a uma luta política, por exemplo, mas porque almejavam, através desta experiência, galgarem uma posição remunerada dentro da própria instituição ou, ao menos, conseguir credibilidade no mercado de trabalho. Todos os entrevistados lembraram o quanto a noção de responsabilidade social está em voga, bem como a riqueza das experiências advindas do aprofundamento das relações interpessoais.
Desta maneira, ser voluntário em alguma época da vida já é quase uma obrigação para quem concorre a uma vaga de trabalho no país, fato comprovado em pesquisas de sites de colocação de empregos; se voluntariar a uma causa é ser ético, ser proativo e lúcido com as chamadas questões sociais. Não discutimos, aqui, valores religiosos, éticos e morais, que isto fique claro, mas a tendência à precarização do trabalho do voluntário é notável para nós, visto que as ONGs tem ciência do retorno buscado por este tipo de modalidade de profissionais citados.

  Vale ressaltarmos que esta precarização do trabalho do voluntário é uma perspectiva de análise nova dentro da sociologia, visto que ainda é válida a discussão sobre os direitos trabalhistas deste tipo de modalidade de engajamento. Podemos afirmar que a noção de precarização do trabalho do funcionário de uma ONG já é uma realidade, porém, no que tange ao trabalho do voluntário notamos que o terreno de estudo é ainda pantanoso, pois carece de análises mais profundas sobre as biografias e recursos desses voluntários.

  Concluímos este estudo verificando que as propostas educacionais das ONGs pesquisadas por mais que, inicialmente, vão de encontro com as que estão em voga pelo Estado, acabam todas por se mostrarem saídas complementares às iniciativas clássicas educacionais; independentemente de seus valores os mais variados, as ONGs são, de fato, pretensões de a sociedade civil mexer em questões emblemáticas da esfera do Poder Público. Agora, se as respostas angariadas por estas iniciativas são positivas à educação, ou a qualquer outra área que enfrente problemas, e se as ONGs não buscam somente nichos de mercado para se firmarem em seu espaço social, já seriam temas para outras pesquisas.

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