Fernanda Daroda Dellaméa O CÓDICE ZOUCHE-NUTTALL E A MEMÓRIA HISTÓRICA MIXTECA: A HISTÓRIA DE UM REI

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Fernanda Daroda Dellaméa

O CÓDICE ZOUCHE-NUTTALL E A MEMÓRIA HISTÓRICA MIXTECA: A

HISTÓRIA DE UM REI

Santa Maria, RS

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Fernanda Daroda Dellaméa

O CÓDICE ZOUCHE-NUTTALL E A MEMÓRIA HISTÓRICA MIXTECA: A

HISTÓRIA DE UM REI

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientadora: Profª Elisabeth Weber Medeiros

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Fernanda Daroda Dellaméa

O CÓDICE ZOUCHE-NUTTALL E A MEMÓRIA HISTÓRICA MIXTECA: A

HISTÓRIA DE UM REI

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

_____________________________________

Profª. Ms. Elisabeth Weber Medeiros – Orientadora (Unifra)

_________________________________________ Profª. Ms. Janaina Souza Teixeira

____________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel

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RESUMO

Este estudo tem por objetivo analisar o discurso e a construção da memória histórica contida na narrativa sobre o governo do rei mixteco Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, presente no Códice Zouche-Nuttall, manuscrito da Mixteca Alta, que aborda o período da história mixteca que vai do Século IX a XV d.C. Destacando-se, como os próprios mixtecos perceberam e registraram a vida desse rei, quais elementos do discurso histórico foram privilegiados e como esses elementos contribuíram para a memória histórica mixteca nesse manuscrito histórico-genealógico. Dessa forma abordamos o desenvolvimento e a estrutura da escrita, presente nos Códices, sua confecção em pele de veado, panos de algodão ou fibra de agave, sua apropriação por esse povo evocando a memória histórica mixteca, sua participação na transmissão do saber e como arma política em prol da legitimidade de certos direitos e territórios. O povo mixteco, localizado na Mesoamérica, era bastante heterogêneo, internamente organizado em senhorios independentes, de sociedades essencialmente agrárias e estratificadas além de sólida política sucessória. O sistema calendárico organizava todos os aspectos da vida mixteca e era elemento fundamental para compreensão da narrativa dos Códices mixtecos. Para tanto utilizamos como fonte primária o referido manuscrito e fontes bibliográficas referentes à historiografia dos povos mesoamericanos e do povo mixteco, a literatura e escrita mixteca, e estudamos leituras do documento feito por outros autores. Como suporte teórico dentro da Nova História Cultural consta de teóricos da memória social e do estudo da imagem e da representatividade.O estudo do manuscrito possibilitou o conhecimento da história da mixteca pré-hispânica e das relações de poder existentes no período de governo do Señor Ocho Venado Garra de Jaguar.

Palavras-chaves: Códice Zouche-Nuttall, escrita pictoglífica, memória histórica, Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, Mixteca.

ABSTRACT

This abstract aims to analyze the speech and the construction of historical memory in the narrative on the government of the Mixtec king Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, present in the Zouche-Nuttall Codice, a manuscript from High Mixteca, which approaches the Mixtec historical period going on from the IX to the XV Century A.D. It is highlighted, as the own Mixtecs realized and registered the life of this king, the elements of the historical speech that were privileged and how these elements contributed for the Mixtec historical memory in this historical-genealogical manuscript. In this way we approach the development and the writing structure, present in the Codices, its making with deer skin, its participation in the transmission of knowledge and as a political weapon in favor of the legitimation of certain rights and territories. The Mixtec people, located in Mesoamerica, was very heterogeneous, internally organized in independent lordships in essentially agrarian and stratified societies besides the solid succession politics. The calendar system organized all aspects of their life and was a fundamental element for the comprehension of the narratives in the Mixtec Codices. For such, we used as a primary source the referred manuscript and the bibliographic sources related to the Mesoamerican and Mixtecan peoples' historiography, the Mixtecan literature and writing, and we studied some readings of the document made by other authors. As for the theoretical support within the New Cultural History, we used authors on social memory and of the study of image and representation. The study of the manuscript allowed the contact with the history of the Pre-Hispanic Mixtec and the power relations existent in the government period of Señor Ocho Venado Garra de Jaguar.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 6

1 A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E A ESTRUTURA DA ESCRITA NA MESOAMÉRICA ... 8

2 A HISTÓRIA DO POVO MIXTECO NA DIVERSIDADE MESOAMERICANA.... 17

3 A TRAJETÓRIA DO SEÑOR OCHO VENADO NO CÓDICE NUTTALL... 31

CONCLUSÃO...51

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 53

ANEXO A – Mapa da Mixteca... 57

ANEXO B – Página 42 do Códice Zouche-Nuttall... 58

ANEXO C – Página 44 do Códice Zouche-Nuttall ... 59

ANEXO D – Página 52 do Códice Zouche-Nuttall ... 60

ANEXO E – Página 53 do Códice Zouche-Nuttall ... 61

ANEXO F – Página 78 do Códice Zouche-Nuttall ... 62

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INTRODUÇÃO

As pesquisas a respeito das sociedades indígenas pré-colombianas, por muito tempo, embasaram-se exclusivamente nas crônicas e documentos coloniais, ignorando-se a vasta produção literária indígena, como os Códices pré-hispânicos mixtecas. Por não se usar um método científico moderno, toda produção intelectual de explicações e reflexões sobre o mundo elaborado por eles e seu caráter histórico foi invalidado, negando-se a esses povos sua própria voz na história. Muitos elementos que permitiram o entendimento desses manuscritos precisam ser recuperados e entendidos a partir de novas pesquisas, embora alguns desses elementos, ainda estejam fora do alcance do historiador.

Estas inquietações, surgidas dos estudos e reflexões do GEAI – Grupo de Estudos da América Indígena, ligado a linhas de pesquisas existentes na Unifra, levaram à proposta desta pesquisa. Ela consiste em analisar e estudar o discurso e a construção da memória histórica na narrativa do governo do rei mixteco Ocho Venado Garra de Jaguar, que viveu de 1011 d.C. a 1063 d.C. Sua vida está registrada no Códice Zouche-Nuttall,mas que interrompe o registro referente a esse rei em 1050 d.C. Esse livro é proveniente da Mixteca Alta e aborda a história mixteca do século IX a XV d.C.,

Os povos pré-hispânicos que ocuparam geograficamente do centro do México até o atual Estado de El Salvador, são geralmente entendidos pelo conceito de Mesoamérica, utilizado para se referir aos povos que compartilhavam um conjunto de características, as quais, apesar das particularidades, ligava-os a uma grande família cultural e histórica. Após o desenvolvimento da agricultura, a sedentarização e a diferenciação das sociedades aldeãs, percebe-se a consolidação do horizonte cultural olmeca e sua influência durante o Pré-Clássico (1500 a.C. – 500 a.C.). O período Pré-Clássico (500 a.C. – 950 d.C.) seria marcado pelos Teotihuacanos no Altiplano Central Mexicano, pelos Zapotecas nos Vales Centrais de Oaxaca e parte dos atuais estados mexicanos de Puebla, Guerrero e Veracruz, e pelos maias, organizados em terras altas, terras baixas e de Yucatãn. Nessa época, vários elementos e características culturais da Mesoamérica se consolidaram.

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deve-se considerar os mixtecos, povos internamente heterogêneos, que se organizavam em senhorios independentes de relações instáveis. Essencialmente agrários, eles possuíam uma sociedade altamente estratificada e uma bem definida sucessão dinástica. Destacaram-se na cerâmica, na ourivesaria e na transmissão do saber, na qual os Códices eram fundamentais.

Neste trabalho, buscou-se evidenciar como os mixtecos das gerações seguintes perceberam e registraram a vida do Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, quais elementos contribuíram para a memória histórica a qual se encontra no manuscrito específico e quais elementos permitem perceber a relevância desse senhor na política e nas relações dinásticas mixtecas. Essas problemáticas permitirão um conhecimento mais amplo sobre sociedades fora da perspectiva eurocêntrica da história, partindo da escrita desenvolvida pelos mixtecos.

Para tanto, utilizou-se o referido manuscrito como fonte primária e outras fontes bibliográficas referentes à historiografia dos povos mesoamericanos e do povo mixteco, bem como a literatura, a escrita e a cultura mixteca. Também foram estudadas algumas leituras do documento, realizadas por outros autores. Como suporte dentro da Nova História cultural, teóricos da memória social e do estudo da imagem e da representatividade embasaram o trabalho.

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1 A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E A ESTRUTURA DA ESCRITA NA MESOAMÉRICA

As culturas mesoamericanas, ao longo do tempo, desenvolveram diversas formas de expressão, como é possível perceber nas inscrições em palácios, monumentos e cerâmicas. As variações temáticas, de estilo e a evolução das expressões iconográficas e glíficas possibilitam entrever a dinamicidade e o avanço cultural desses povos. Essas foram as suas formas primitivas de expressão da identidade e são hoje fontes de informação preciosas.

Não é de admirar, então, que muitas culturas mesoamericanas, iniciando com as antigas inscrições zapotecas, a partir de 600 a.C. tenham desenvolvido formas mais complexas de expressão, como a escrita pictoglífica, que é em parte fonética e em parte ideográfica, calcada na oralidade e que seguiu aperfeiçoando-se ao longo do tempo.

O grande conjunto de expressões glíficas tem os manuscritos pictoglíficos como a expressão mais direta do pensamento e da palavra indígena. Sem sombra de dúvida, deve-se concordar com León-Portilla (1992), o qual lembra que o sistema de escrita desenvolvido por esses povos tem fundo na história e no tempo e acompanhou o desenvolvimento cultural e material mesoamericano.

No Período Clássico, vê-se um significativo avanço na expressão escrita aperfeiçoando-se os signos glíficos, em especial os referentes aos sistemas calendáricos, processo de desenvolvimento da escrita, o qual alcança seu auge no Pós-clássico, conhecido pela abundância dos registros escritos que produziu.

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A oralidade era o fundamento do sistema educacional indígena desenvolvido nos templos/escolas, nos quais os sábios ensinavam à elite os cantos e hinos e o conteúdo dos manuscritos elaborados pelos escribas, tlacuilos conhecidos de acordo com Gruzinski (2003) como “o que possuía os livros de pintura”, “o que possuía a tinta preta e vermelha”. Os membros das famílias dominantes, que tinham acesso ao conhecimento maior sobre seu passado e sua linhagem, tinham o privilégio de receber uma educação esmerada, diferenciada do povo em geral, que aprendia os hinos e cantos de abrangência mais gerais, o essencial para que os ritos e a religião fossem inteligíveis e para assegurar o sentimento de orientação do grupo pertencente a um passado comum. Era a elite que podia observar diariamente e ler os conteúdos dos manuscritos.

Era atribuído a essa elite o requisito de ser eloqüente, definir o que é reto e conveniente; ela era predestinada a ocupar os cargos de juízes, sacerdotes, capitães. Bourdieu (1989) afirma que, para se compreender os discursos elaborados em determinados períodos históricos e cujo conjunto define o que pode ser dito e pensado politicamente, é essencial analisar essa elite produtora de ideologias.

Os sacerdotes, encarregados de transmitir a tradição oral e o conteúdo dos manuscritos, cuidavam para que fossem reproduzidos com exatidão. Eram os tlapiczat, “o que questionava” que cuidavam da exatidão, e os únicos responsáveis por elaborar novos cantos eram os cuicapicque, “os forjadores de canto”. Conforme Gruzinski (2003), esse controle e censura submetia a oralidade a instituições e regras sutis.

Marcus (2003) chama a atenção para o fato de que os que sabiam ler e escrever compartilhavam uma experiência educativa similar, assistiam às mesmas aulas que ensinavam, as mesmas convenções e tornavam a mensagem recitada semelhante, embora sempre houvesse brecha para criação e inovação.

Podem-se perceber, de acordo com León-Portilla (1997), dois gêneros principais das composições indígenas: os cuicatl que se referiam mais a cantos guerreiros, hinos aos deuses e cantos de amizade, e os tlahtollis que remetem ao âmbito da narração e do discurso, incluindo tanto as palavras divinas (teohtlatolli), as de tom histórico (zanilli) e as expressões de Antiga Palavra (huehuetlahtolli). Chartier (2002) considera importante a análise dos dispositivos do discurso, pois estes dispositivos têm sua lógica, e cada discurso deve ser entendido em sua especificidade.

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adequado. Nas diferentes combinações entre dança e dramatização ritual, a composição do cuicatl se atualizava e envolvia tanto os artistas que representavam como a comunidade. O uso de recursos como difrasismo1, paralelismo2 e a acumulação de predicados concediam um ar repetitivo que facilitava a memorização. A acentuação e o tom ascendente e descendente de cada sílaba, a disposição de unidades de expressão e o espaço entre eles orientavam os ritmos instrumentais, evitavam erros de interpretação e indicavam como deviam soar. León-Portilla (1997) também considera que os tlahtolli eram mais reservados aos nobres e que, apesar de ser um gênero diferente do cuicatl, possuíam algumas semelhanças e elementos comuns. Alguns tlahtollis também lançaram mão da métrica e do ritmo. Mas o tom mais narrativo e até informativo, e o recurso de jogar com as lembranças e com o tempo para introduzir seqüências, a temática e a dificuldade de distinguir as unidades de expressão ajudam a diferenciá-los.

Os huehuetlahtollis, um dos subgêneros do tlahtolli, geralmente são definidos como admoestações práticas e conselhos morais para educação. León-Portilla (1992), porém, define-os como testemunhos da Antiga Palavra, sabedoria ancestral que concerne à ordem social, política e religiosa.Para o autor, os huehuetlahtollis enunciavam normas que regiam a vida, dirigiam as divergências públicas, enriquecidas a cada geração conforme as mudanças e necessidades da vida. León-Portilla (1997) acredita que, apesar de muitos forjadores de canto do período pré-hispânico permanecerem anônimos, seria possível conhecer a identidade de alguns forjadores coloniais comparando-se seus cantos com informações obtidas de testemunhos de época colonial.

No entanto, tendo em vista que os cantos deveriam ser compostos para a comunidade e que, por isso, a intenção era que a autoria se perdesse no tempo e se tornasse imemorial, entende-se que tentar atribuir autoria levaria a falsas premissas e contrariaria o objetivo a que se propunham. León-Portilla (1997) também aponta uma das características do comentário oral que era ser o decodificador dos manuscritos pictoglíficos. Neste contexto, o intérprete adquiria grande importância, pois era a ele que, segundo Marcus (2003), cabia a função de embelezar as linhas da história, expandir seu tema, revelando nos gestos, nas danças e na interpretação aquilo que não era revelado por meio da escrita. Por esta característica dos manuscritos mesoamericanos, muitos estudiosos os compararam a guias de peça de teatro.

1 São combinações das terminações de palavras que juntos expressam outro conceito. O significado que se

obtém é distinto do significado de cada palavra isolada (ROSSEL, Cecília. Escritura Mixteca. Arqueologia Mexicana. México: Editorial Raices, mar-abr, 2001, p. 64-69).

2 Consiste em atribuições a um mesmo sujeito ou objeto gramatical de vários predicados sucessivos. Existente

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Para Chartier (2002), a leitura tem o dever de resgatar os gestos esquecidos, os hábitos desaparecidos. Para ele, não há texto sem o suporte que o concede ouvir ou ler e não há compreensão de um discurso que possa ignorar a forma pela qual o escrito chega ao seu leitor.

Os Códices e o seu conteúdo têm sua origem na tradição oral sistemática, comunicada e memorizada. A sua leitura podia se adaptar às pessoas e às circunstâncias. Chartier (2002) reforça tal afirmativa ao escrever que os dispositivos do texto se inseriam na expectativa e competência do público a que visava. Desse modo, tendo em vista que as obras produzem sua área social de recepção, conseqüentemente, a transformação nesses dispositivos pode levar tanto à ampliação do público-alvo quanto a novos usos para este mesmo escrito.

Os Códices eram manuscritos que podiam ser confeccionados em papel amate, feito da fibra da figueira, de pele de cervo e tecido de algodão, podendo se organizar em forma de folhas alongadas enroladas ou dobradas em forma de sanfona, pintadas de ambos os lados. A escrita pictoglífica articulava três gamas diferentes de glifos: pictogramas que se referem à representação estilizada de objetos e ações; os ideogramas que evocavam qualidades e conceitos associados a objetos e seres; e os signos fonéticos que se aproximam da escrita alfabética semelhante ao sistema Rebus. León-Portilla (1977) esclarece que o sistema Rebus tem como característica combinar a representação do objeto cuja sílaba integra foneticamente outra palavra, no caso dos manuscritos mesoamericanos, ainda se deve considerar o valor semântico das representações pictóricas. Dentre os elementos da escrita mesoamericana, pode-se identificar os glifos toponímicos (referente à geografia, nome de lugares e acidentes geográficos), antroponímicos (referente a nomes próprios e nome de seres) e por fim os glifos calendáricos.

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compartilhados pela escrita adotada por mais de um povo, não necessariamente possuíam o mesmo significado de povo para povo, aceitando-se a adaptação ativa dos elementos culturais e sua apropriação. A respeito dessa dinamicidade dos símbolos glíficos, Caso (1977) afirma que “Hay que considerar la gran libertad de expresión que tenían los escribas mixtecos que les permitió usar un mismo símbolo con múltiple variaciones” (p 37).

A escrita mesoamericana se via influenciada pela situação sociopolítica, pela posição ideológica e pela compreensão dos fatos de quem escreve. Para Marcus (2003), a escrita surge num contexto de contenda pelo poder e acaba por transformar-se em arma política que possibilitava exagerar conquistas, ocultar lacunas genealógicas que pudessem ser obstáculos ao poder, como prova da legitimidade de um direito ou garantia na delimitação de território. A elite não só dominava a manipulação dessas informações como era plenamente consciente do valor desse instrumento. Somente o ato de representar o governante ou o senhorio já o situava em relação à ordem vigente e na hierarquia. Compreende-se então o porquê do controle do conhecimento por poucos e a continuidade da oralidade para a maioria analfabeta. Bourdieu (1989) entende que quanto mais instrumentos de discursos ou atos políticos determinado grupo possuir mais autonomia ele terá. As considerações do autor permitem pensar se tais sociedades podem ser consideradas letradas.

Marcus (2003), ao debater sobre o impacto da escrita, explica que, em sociedades totalmente alfabetizadas, ela tem efeitos profundos na vida dos cidadãos podendo ser considerada uma tecnologia capaz de reestruturar o pensamento. Nas sociedades mesoamericanas, ela era fator de exclusão ou inclusão social, sendo ao mesmo tempo propaganda, mito e história. Chartier (2002) compreende a importância de se estudar a área social na qual circulavam os escritos compostos para usos diversos do atual e de não ignorar o processo pela qual o código, a forma faz sentido para aqueles que dele se apropriam. Para Frizzi (2003), o vínculo nessas sociedades entre a escrita e o poder das famílias dominantes é inegável. É necessário lembrar, como afirma Chartier (2002), que os textos são diversamente apreendidos, manipulados. E que os discursos e as imagens por si só não controlam a sua leitura e interpretação, já que o leitor pode sempre se rebelar.

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em expressar substantivos e verbos, ao contrário, eram, inclusive, capazes de expressar adjetivos e advérbios mesmo para expressões de tempo, que poderiam facilmente ser expressas somente pelos glifos calendáricos. O autor admite que os Códices poderiam ser efetivamente lidos, seguindo-se as seqüências pictoglíficas. Vê-se, então, que ambos os autores atestam a evolução e a eficiência da escrita mixteca, embora Gruzinski (2003) lembre que os mecanismos de leitura ainda não são totalmente conhecidos e o que se pode escrever a respeito é que os Códices eram lidos apontando-se com varetas como um recurso mnemotécnico3 para recordar a tradição oral que trazia esclarecimento e completava as informações.

Os sábios, considerados mestres das palavras, ensinavam seguindo o amoxohtoc (o caminho do livro). Para melhor esclarecer, este termo se refere ao ato de seguir com o olhar as seqüências pictoglíficas, seu conteúdo presente nos manuscritos. Gruzinski (2003), ao procurar elucidar o termo que os indígenas utilizavam para se referir à leitura do livro, o fato de os indígenas “fazerem falar os livros”, afirma que consistia em buscar na memorização os elementos de uma verbalização, que era a interpretação e a explicação sob forma de discurso paralelo. Nas escritas mesoamericanas, imagem e verbo se interligavam na produção do sentido. Contrariando um pouco a opinião de Gruzinski (2003), a respeito da função mnemotécnica do Códice, León-Portilla (1997) afirma que a capacidade do códice ia além. Para o autor, ele era usado para se adquirir informação sobre os antepassados, para se reclamar direitos, para se organizarem rituais e cerimônias e para se ensinar a lei, o que permite perceber a distância que existe entre a concepção de leitura atual e a que envolvia a escrita mesoamericana. Marcus (2003, p. 82) afirma: “Sin embargo, la lectura en silencio es una conducta relativamente reciente en términos de la historia del mundo”. Darnton (1992) reforça tal afirmativa ao escrever que a relação dos leitores atuais com texto de outras épocas não é a mesma dos leitores do passado. Os textos eram confeccionados para serem cantados e dramatizados por intérpretes em uma audiência, pois somente assim o povo poderia aprender seu conteúdo.

Na escrita mixteca, esta relação verbo-imagem se faz mais evidente quando se pensa na afirmativa de Anders; García; Jansen (1992). Os autores lembram o caráter tonal da língua mixteca, e o fato de não se ter acesso a essa oralidade, tem por conseqüência que a leitura do

3 Arte e técnica de desenvolver e fortalecer a memória mediante processos artificiais e auxiliares como a

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Códice perde a musicalidade original e as informações complementares originárias da declamação e encenação.

Darnton (1992) percebe a leitura como um fenômeno social. Para ele, a leitura envolve leitor e texto e os esquemas interpretativos de um texto pertencem à configuração cultural que sofre variações com tempo. Percebe-se nos conteúdos dos Códices pré-hispânicos que não houve preocupação em registrar o cotidiano ou pessoas não pertencentes às principais linhagens, pois não era a elas que se destinavam esses manuscritos. A escrita mesoamericana desafia a percepção ocidental moderna também por seu elemento iconográfico. Tal aspecto dos livros pré-hispânicos leva à procura da diferença entre escrita e iconografia complexa. Marcus (2003) mostra que os estudiosos, muitas vezes, tentaram definir a escrita, que seria o discurso visível, as representações gráficas da linguagem através das quais se registram permanentemente formas de um idioma; já a iconografia complexa seria a representação simbólica de uma idéia não relacionada à linguagem. O autor ainda lembra que, para os especialistas que elaboravam os Códices, pintar e escrever podiam ser formas de expressar a mesma mensagem e que tal distinção entre escrita e iconografia neste caso, não devia ser tão rígida por que, para essas culturas, tal distinção não existia. Ele propõe uma definição mais inclusiva de escrita.

Tal limite estaria confuso em sistemas de escrita que, desde o início, usam símbolos iconográficos. Os manuscritos mixtecos são conceituais em suas formas de expressão visual e este modo simbólico de apresentar a imagem é apropriado para o tema que representa: um inalterado e indiscutível passado histórico e mítico (MILLER; NUTTALL, 1975, tradução nossa)4. Uma melhor compreensão da mensagem contida nos Códices leva a reconhecer elementos como paginação, escala, o signo em si, o cromatismo, modos de associação e agrupamento desses diversos elementos como parte da interpretação. O elemento iconográfico permite a expressão de conceitos mais complexos e construções imaginárias difíceis de serem expressas em palavras. Entre as várias implicações do elemento iconográfico na escrita mesoamericana, Frizzi (2003) aponta o fato de que ela permitia as pessoas de diferentes idiomas entenderem mesmo que parcialmente, a mensagem escrita em outro idioma e conferia certa unidade de comunicação, pois, não existindo um centro político unificador, somente pequenos reinos e senhorios permitiam certa comunicação, apesar da diversidade cultural e lingüística. O aspecto iconográfico da escrita mesoamericana era extremamente estilizado abusando-se do geometrismo. Técnicas típicas da arte européia como perspectiva e

4 Os textos em inglês utilizados nesta pesquisa foram traduzidos pelo Prof. Rodrigo Jappe, professor do Curso de

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sombreamento não eram conhecidos. Os Códices utilizavam um sistema de linhas e cenas. As linhas de traços grossos e precisos davam contorno às formas isolando a imagem do espaço. A cena que se formava, entretanto era contextualizada refletindo o olhar indígena sobre si mesmo. Amount (2005) lembra que a imagem está situada no espaço e no tempo sendo uma imagem narrativa e que toda imagem é marcada por “códigos de narratividade”. A iconografia indígena não privilegia somente elementos informativos, mas também elementos considerados periféricos ao olhar ocidental como aspecto religioso e mítico que era sugerido em suas imagens. Gruzisnki (2003) admite que ainda que seja possível apreciar seu conteúdo recorrendo a esquemas modernos, acaba-sepor negligenciar uma percepção indígena do real. A dimensão iconográfica servia de apoio à oralidade, mas não era por ela limitada, pois era um recurso simultâneo não redundante. Esta tentativa de uso de esquemas e percepções modernas no entendimento de Eshelman (2001), é uma das limitações do estudo da iconografia mesoamericana, por tomar como universal uma construção cultural, historicamente particular de arte e da imagem. Mesmo a nossa percepção de artista como um indivíduo único motivado por uma inspiração criativa, não corresponde ao artista mesoamericano, ao tlacuilo, escriba dos Códices.

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imagem tem por função primeira reforçar nossa relação com o mundo visual, além de trazer informações (visuais) sobre o mundo que pode ser assim conhecido. Além dos inúmeros idiomas existentes entre os povos mesoamericanos, dentre os quais alguns chegaram a se impor como o zapoteco, o mixteco e o tarasco, a língua nahuatl era considerada o idioma franco na Mesoamérica e possui uma rica herança literária.

Gruzinski (2003) encontra duas possibilidades para expansão da escrita pictoglífica, que se devia ao contato entre os povos mesoamericanos, ou à própria característica do idioma nahuatl que seria propício à evolução e expansão, visto que pode ser aglutinado e facilmente decomposto. O que fica inegável ao se analisar a escrita pictoglífica é o fato de que ela era perfeitamente capaz de se adequar a novas exigências com auxílio de algumas adaptações e apropriações. Desde tempos remotos, os mixtecos já registravam fatos de destaque para o caso de precisarem determinar a origem de algum direito ou alguma conquista, bem como delimitações de territórios. Destacaram-se na escrita e elaboração desses manuscritos, e também em pinturas, murais e ossos com inscrições à semelhança de micro-livros.

Estas outras formas de expressão predominavam nas áreas mixtecas nas quais a escrita não era tão desenvolvida. Elas foram sendo gradualmente minimizadas em sua importância. O estilo Mixteca - Puebla5, segundo Rossel (2001), tinha seu centro na área da Mixteca Alta até Cholula e surgiu da aliança entre as elites mixtecas e os grupos toltequizados da região Puebla-Tlaxcala, sofrendo influências de grupos do Centro do México.O estilo mixteco não se restringiu apenas a sua área de origem, mas podem ser encontrados exemplos de glifos mixtecos em outras culturas e estilos de escrita. Do período Pós-Clássico, foram preservados e chegaram até os dias atuais cinco Códices, feitos em tiras de pele de veado unidos entre si. São denominados com o nome do local onde foram encontrados ou do local onde se encontram atualmente, dos seus antigos donos ou pesquisadores.

Os mixtecos utilizavam o termo naandeye para designar os Códices. Caso (1977) critica o senso comum que insiste em declarar que a história mexicana se inicia com os relatos feitos pelos conquistadores e cronistas e que, no período pré-hispânico, só se pode falar em tradição oral, não de história. Os mixtecos podiam conservar sua história através do registro esquemático dos principais acontecimentos. O fato de se poder relacionar eventos registrados nos Códices à época em que ocorreram, através dos cômputos de tempo e ser capaz de indicar o local através dos topônimos, só reforça seu valor histórico.

5 Rossel (2001) explica que estes estilos, ao contrário de outros que se identificam com uma região, eram um

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2 A HISTÓRIA DO POVO MIXTECO NA DIVERSIDADE MESOAMERICANA

O México, no período anterior à conquista, apresentava uma complexa diversidade cultural e uma densa concentração demográfica. Gruzinski (2003), ao apontar a dificuldade de se estudar com profundidade cada uma das culturas que floresceram na Mesoamérica, adverte que elas se inter-relacionavam de variadas e diferentes formas e que, ao se atentar aos registros econômicos, étnicos e históricos e as diversidades dos grupos sociais, fica claro que compreender o mundo indígena como unidade estável, sociedades imóveis e totalitárias, já não é possível. Tal posição vem ao encontro da discussão que ocorre a respeito da idéia de unidade da Meosamérica.

Atualmente, segundo Miller (1994), predominam visões menos uniformes de Mesoamérica. Ao analisar as diversas posições adotadas, o autor reconhece os que se posicionam a favor da percepção da unidade geográfica, e da melhor compreensão resultante da observação a partir de diversas disciplinas, e os que se posicionam a favor da percepção regionalista, a qual tende a dividir a Mesoamérica em áreas de estudo ilhadas, não aceitando que uma região mesoamericana explique a outra e que rechaça interpretações prévias em favor de novas interpretações e resulta numa compreensão fragmentada do passado. Para Miller (1994) o desenvolvimento ilhado é minimizado pelas conexões internas graças à proximidade física. O autor ainda aponta que os futuros estudos mesoamericanos tendem a perceber que diversidade e regionalismo só têm sentido no contato da unidade.

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Três critérios independentes, porém relacionados, aparecem ao se procurar definir a fronteira mixteca. Esses são esclarecidos por Caso (1977). O autor apresenta como primeiro critério o elemento geográfico cujo relevo de vales férteis se encontra cortado por montanhas, fator que favorecia a fragmentação política. A Mixteca raras vezes esteve unificada, feito que não superava a morte do governante responsável, retornando à fragmentação política. Essa – a fragmentação política – constitui o segundo critério que permite definir a fronteira mixteca. Além da fragmentação política e o relevo, a diversidade lingüística era agravada por este cenário, pois além do mixteco, existiam na Mixteca idiomas como o chocho, triqui, entre outros. Com base nestes aspectos, temos a Mixteca Baixa, que abarca desde o limite chocho-mixteca6 do Estado de Puebla e Oaxaca até Silacayopan7; a Mixteca Alta, que engloba a maior parte do atual estado de Oaxaca até o senhorio de Putla8, ao sul, reconhecendo-se nessa região uma continuação da choco-mixteca. E por fim, a Mixteca da Costa, que se estende desde Putla até o mar.

Os mixtecos denominavam a totalidade da Mixteca de Nuñu ma ou “Tierra del Humo”. Entre 3500 a.C. e 1500 a.C., ocorre a sedentarização e o aparecimento de pueblos na Mixteca devido ao desenvolvimento da agricultura. Posteriormente, surgem os primeiros edifícios públicos, diferenciados das residências do povo. O Período Clássico (500 a.C. a 950 d.C.) para Austin; Lujan (2001) foi de urbanismo lento na região de Oaxaca, mas visível na progressiva propagação de capitais zapotecas estratificadas que concentravam poder político e religioso ao contrário da Mixteca que não desenvolveu uma capital hegemônica. Este é o período, de acordo com Spores (2008), das cidades mixtecas de tamanho médio com uma população limitada a não mais que 12.000 habitantes. Porém, segundo ele, a vida nos povoados e pequenas aldeias pode continuar, sua arte e comércio inter-regional despontam. A Mixteca Alta viu um impressionante avanço de seus assentamentos em número e tamanho. Frizzi (2003) aponta que, a partir do século X d.C., a organização social e política predominante se transformou e, ao invés de grandes cidades, os pequenos centros de poder local e reduzido são majoritários.

Salmoral (1992) afirma que os centros que haviam ordenado a vida mesoamericana até então sofrem abandono e deterioração, possibilitando que surgissem novos centros no Pós-Clássico (950 a 1520 d.C.). Esses centros antigos tinham um simbolismo religioso, histórico e

6 Região ao norte de Oxaca e ao sul de Puebla que era habitat dos Chochos ou popolocas. (CASO, Afonso.

Reyes y Reinos de la Mixteca. 2.ed. México : Fondo de Cultura Económica, 1977).

7 Senhorio situado na Mixteca Baixa, a leste do atual estado de Guerrero e ao sul do atual Estado de Puebla.

Conforme mapa anexo A.

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comunitário. Logo, a organização que seria predominante no Pós-Clássico desponta timidamente: os senhorios.

Os senhorios eram formados por um centro político, administrativo e urbano e por uma série de aldeias e vilarejos. Austin; Luján (2001), a respeito dos senhorios, afirmam que eram praticamente auto-suficientes e que seus territórios eram descontínuos e distribuídos pelos ecossistemas. Através de alianças formavam-se confederações entre os senhorios, que conferiam uma unidade política instável na sua duração e centralização. Tais confederações incluíam acordos nos quais senhores poderosos se comprometiam a defender um senhorio mais vulnerável em troca de tributos e de auxílio militar. Os senhorios submetidos parecem ter conservado uma relativa autonomia, desligando-se desses acordos e efetuando outros com novos senhorios com certa facilidade.

Os senhorios mixtecos se estendiam ao longo dos vales férteis e próximos a rios que possibilitasse acesso a recursos naturais. Sobre a escolha dos vales para os assentamentos, Austin; Lujan (2001) afirmam que era estratégica como forma de defesa, contra o ataque de cidades vizinhas, pois não havia fator centralizador e as cidades encontravam-se em níveis aproximados. Austin; Lujan (2001) alertam que o Pós-Clássico não foi marcado somente por guerras, fragmentação do território e ampliação do sistema de aliança na Mixteca. A explosão demográfica e diversificação cultural resultante das migrações e das agitações políticas também caracterizam este período.

Tal cenário não teria sido prejudicial ao intercâmbio cultural, tendo efeito contrário enriquecendo tal contato. É no Pós–clássico, segundo Spores (2008), que a estratificação social se acelera e podemos distinguir três grandes classes sociais: yya tnuhu (os reis), tay toho (os nobres) e os tay ñuu (os comuns). A Mixteca, sendo uma região predominantemente agrícola, dava à questão da propriedade grande importância. Cada senhorio possuía sua própria terra hereditária e, apesar do conhecimento limitado quanto à distribuição interna das terras, pode-se postular que o senhor possuía terras pessoais que eram cultivadas pelos comuns. Uma extensão se destinava ao templo e aos gastos com os sacerdotes e uma parcela da terra podia ser arrendada. Austin; Luján (2001) apontam que os homens livres viviam agrupados em siqui, unidade de parentesco que reconheciam um antepassado divino comum. Essa unidade era composta por famílias e por um chefe e seus membros possuíam direitos comuns sobre a terra, e além de cultivá-las, produziam artesanato e cerâmica.

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diversidade das culturas e há exemplos da importância do cultivo do cacau na Mixteca da Costa.

A preferência dos cultivos era pelos vales banhados por rios, ao contrário da região montanhosa, cuja aridez e o perigo de se produzir nesse terreno, desfavoreciam o cultivo. Nesses locais, os povos sofriam com escassez de suprimentos. Por isso, as áreas férteis ficavam a cargo dos oficiais que zelavam pelo rendimento, castigando-se os improdutivos. A seca e casos de má colheita obrigavam a recorrer à coleta de ervas, verduras e frutos silvestres. A caça nunca atingiu relevância significativa, pois o consumo de carne era privilégio dos senhores e nobres, e a pesca se fazia quase nula, exceto na Mixteca da Costa. Os senhorios de maior destaque com a diminuição das áreas de cultura devido à expansão urbana monopolizavam a produção e levava a migração da sua população rural.

Caso (1977) chama a atenção para o fato de que as genealogias da nobreza mixteca e dos governantes dos senhorios, têm sua origem divina, o que constituía um bom argumento para consolidar o poder e fundamentar os direitos dinásticos. “Ou, se quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua e se renova [...]” (HALLBWACHS apud TEDESCO, 2002, p.47). A origem do povo mixteco é controversa, e a opinião dos especialistas se divide. A tradição contida nos Códices da Mixteca Alta explica que os senhores mixtecos nasceram da árvore que brotava do rio de Apoala, conhecido como Rio das Linhagens. Tais senhores teriam se dividido pelas quatro regiões da Mixteca, ocupando-a, habitando-a e formando as casas reinantes. Tal tradição se refere a um povo saído do centro da Terra que já habitava a Mixteca, sendo esses os primeiros habitantes, ou seja, referindo-se a um povo sem linhagem. Os novos habitantes vindos de Apoala teriam trazido a lei e as normas.

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Os Códices referem-se a uma luta entre esses senhores e os Homens de Pedra, saídos do centro da Terra, seguida pelo conflito com os Homens Raiados9. Caso (1977) localiza o primeiro conflito entre 835 e 865 d.C., e o segundo que, segundo ele, estende-se até 875 d.C10. Esses conflitos, para o autor, seriam possivelmente duas fases de uma mesma guerra que teria destruído a nobreza de muitos senhorios e sido responsável pela queda da metrópole mixteca, da época, século VIII ao século IX, “Monte que se abre abeja Luna11” formada pela

aliança de duas cidades “Monte que se abre” e “Monte de la Luna”.

O senhorio de Apoala, uma das mais antigas dinastias, com a queda de “Monte que se abre abeja Luna”, ganha destaque graças à ligação das suas casas reinantes e vê seu poderio ser disputado por Montaña que Escupe12 e Bulto de Xipe por um lado e Tilantongo e Teozacualco por outro. Ao fim do século IX, surgem as dinastias propriamente históricas. Salmoral (1992) considera essa primeira dinastia de Tilantongo, a primeira dinastia mixteca. Sobre esta reflexão a respeito da memória coletiva contida nos Códices sobre a origem mixteca cabe rever Félix (2002). O autor afirma que a memória coletiva consiste em sistemas organizados de lembranças, como o sistema mixteco, o qual une o registro, a oralização, a sistematização e a transmissão desta memória, tendo por base grupos sociais situados espacial e temporalmente no mundo. Jansen; Garcia; Anders (1992) sugerem que tal conflito seria um simbolismo para a disputa de poder entre os habitantes primordiais e os senhores de Apoala, representantes da nova elite mixteca do Pós-Clássico.

Muito já se escreveu a respeito da inter-relação entre as elites zapotecas e mixtecas e, dessa inter-relação, resultaram posições extremas e acaloradas discussões, como a defendida por Caso (1977) e compartilhada por Ignácio Bernal e John Paddock citados por Austin; Lujan (2001). Caso (1977) em especial, que pesquisou vários Códices e no Archivo General de la Nación13 e de achados arqueológicos como inscrições na Tumba I de Monte Albán, afirma que os zapotecos, em seu auge, tinham um governo unificado em Monte Albán com um grande poderio e forçavam a cooptação da população mixteca como guerreiros, como forma de aumentar o poderio de seu exército e enfraquecer os vizinhos mixtecos.

9 Seres que descem do céu trazendo calamidades, conforme Códice Zouche-Nuttall, página 4.

10 Nesta pesquisa, foi padronizada a datação de acordo com Alfonso Caso para abordar a história mixteca. O

atual avanço dos estudos mesoamericanos impossibilita haver consenso entre os pesquisadores a este respeito. Por isso, optamos pela datação segundo Caso (1977) por este considerar um período mítico e outro histórico na narração dos códices mixtecos e a divergência de datação entre eles e por considerar as reformas calendáricas ocorridas. Também foi utilizada a nomenclatura de acordo com Caso (1977) para os senhorios mencionados quando os mesmos eram identificados com nomes diversos por diferentes autores.

11 Anders; García; Jansen (1992) utilizam diferente denominação para este senhorio. Com base na leitura literal

do glifo nomeiam Cerro del Mono y las flores, que identificaram como Suchixtlan.

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Os mixtecos, após avançarem sobre o Vale de Oaxaca e serem expulsos, teriam conseguido retomar parte do território conquistado e fundado um senhorio mixteco em terras zapotecas como enclave, posteriormente ampliado. Caso (1977), ao estudar os dados como as seqüências genealógicas presentes no Códice Zouche-Nuttall p.33 e Bodley14 17-N vê confirmado o fato de que a Dinastia de Xipe, do senhorio mixteco de Cuilapan, estava relacionada aos reis de Zaachila, principal capital zapoteca após o declínio de Monte Albán. Este nexo, segundo Zeitlin (2003), já havia sido percebido por Seler e demonstrado pelos pesquisadores Maarten Jansen e Ferdinand Anders.

Caso (1977) apontou a possibilidade de que os mixtecos de Cuilapan residentes em Zaachila viessem de Yahuitlan ou Almoloyas, região pobre que se abastecia com os cuicatecos. Esses, segundo o autor, ao negarem auxílio, desencadearam um conflito que tornou os cuicatecos tributários de Almoloyas. Esta discussão, longe de ver seu encerramento, encontra apoio em pesquisadores como Whittecon (2003). O autor considera o cenário do Pós-Clássico como era de senhorios com antagonismos entre si. Além disso, postula que as conquistas e alianças operavam como forma de controle das elites sobre a ordem social e sobre as ambições das mesmas. Ele ainda reconhece que as elites zapotecas e mixtecas estavam ligadas por alianças matrimoniais e que os mixtecos teriam tirado proveito desse fato para avançar pelo Vale de Oaxaca.

Mesmo que não possamos perceber com clareza a natureza desse movimento, seus efeitos na cultura do vale de Oaxaca ainda permanecem em debate. No entanto, Whittecon (2003) não esquece que as genealogias zapotecas de Oaxaca coloniais e as genealogias mixtecas foram elaboradas para terem relação entre si. E que fontes mixtecas eram também utilizadas para fundamentar tais genealogias, em especial devido ao contexto colonial de reivindicação de terras e títulos que certamente influenciou essas genealogias. Sobre a confiabilidade das genealogias no estudo das relações mixteca-zapoteca “(...) los textos históricos, particularmente las genealogias, son invenciones sociales construídas e inventadas en contexto específicos (...)” (WHITTECON 2003 p. 333).

Austin; Luján (2001) percebem, embora já não haja dúvida sobre a presença mixteca em área zapoteca e as alianças matrimoniais entre as elites de ambos os povos, que os habitantes indígenas registravam uma visão própria e segmentada da história local que dificulta as atuais investigações. Eles registram que pesquisadores como Kent Flannery e

14 Códice conservado na biblioteca da universidade de Oxford que oferece informações históricas e genealógicas

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Joyce Marcus questionam a suposta hegemonia do povo mixteco sobre os zapotecos e a contribuição desse povo no desenvolvimento cultural dos zapotecas de Oaxaca. Esta discussão a respeito da relação zapoteca-mixteca, a memória como escreve Tedesco (2004) enseja, na disputa por significado, por legitimação e hegemonia numa luta material e simbólica, a tentativa de se institucionalizar a memória de um determinado grupo. Félix (2002) afirma que a memória procura evitar o esquecimento, do excluir como fruto de opções políticas e que envolve estágios de consciência e de valor atribuído pelo próprio grupo social. Nas outras regiões de fronteira, a relação com outros povos, mesmo sendo litigiosos, não alcançou tal repercussão. Nada se sabe sobre sua fronteira oeste e as fontes a este respeito são escassas.

Tedesco (2004) afirma que a consciência histórica é reconstruída sob um fundo de esquecimento. Para ele, esse esquecimento tem relação com o poder que regula o que se pode lembrar e o que se deve esconder ou esquecer. Ao sul, na Mixteca da Costa, Tututepec guerreava fosse contra zapotecos ou senhorios mixtecos próximos. Caso (1977) analisa que é corriqueiro perceber a mixteca como dividida em dois reinos, um ao norte com capital em Tilantongo e um reino ao Sul com capital em Tututepec, quando o que caracterizou a Mixteca foi a fragmentação política. Acredita que dificilmente Tututepec pudesse ser vista como rival ou um vizinho poderoso de Tilantongo. E que tais guerras desenfreadas, por ela incitadas, devem-se ao fato de que seu poder baseava-se na expansão à custa da submissão, tributos, botins e conquista a seus vizinhos amuzgos, chatinos15, ultrapassando sua fronteira natural, e que o responsável, o Señor Ocho Venado Garra de Jaguar, utilizou-se de expedições marítimas.

Porém, essa tentativa de Tututepec, de aumentar seu poderio e de fazer frente às poderosas cidades mixtecas, encontrava resistência como Zacatepec, outro senhorio da mixteca da Costa que se aliava a Tilantongo para sua defesa.

A queda de Tula16 provocou a migração de povos como nonoalcas, chichimecas e toltecas até a fronteira mixteca. Esses últimos estabeleceram-se nas cidades de Coixtlohuaca e Tamazola. Austin; Lujan (2001) afirmam que longe de inibir os contatos sociais, incrementou o intercâmbio de bens e idéias. Para Gruzinski (2003), as diversas migrações e

15 Até a chegada dos espanhóis havia nove idiomas da família oaxaquenha. Dentre eles, estão o amuzgo, chatino,

cuicatecos. (AUSTIN, Alfredo López; LUJÁN, Leonardo López. El pasado indígena. 2..ed. México. Fondo de Cultura Económica. 2001).

16 O conceito mais conhecido refere-se à capital tolteca no atual estado de Hidalgo que representaria um

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sedentarizações pelas quais esses povos passavam, levava a incessantes processos de aculturação, nos quais populações antigas conviviam com recém-chegados, que certamente influenciaram a memória indígena.

As fronteiras mixtecas são melhor fixadas em 1174 d.C, quando passam a controlar algumas áreas do território tolteca chichimeca de Cholula. A relação mixteca com o povo asteca, segundo Salmoral (1992), desenvolveu-se em boas relações comerciais e políticas, até os astecas, vendo a fragmentação e lutas mixtecas, cobiçarem as zonas da Mixteca Alta e do Vale de Oaxaca. Austin; Luján (2001) observam que os objetivos astecas eram subjugar os senhorios ao longo da rota comercial Tenochtitlán e Tochtepec e controlar esse comércio, além de ter acesso às riquezas oaxaquenhas por tributos em ouro, turquesa, mantas de algodão, entre outras. Esses territórios foram anexados ao império asteca, o que provocou reações como rebeliões armadas, assassinato de mercadores que utilizavam a rota e de embaixadores, o que geralmente era seguido de represália que resultava em aumento do número de cativos e dos tributos.

Esse cenário, segundo Hassig (2007), apresenta uma mixteca convulsionada por conflitos com povos vizinhos. E diferencia as guerras incitadas por impérios e por Cidades-Estados mesoamericanos. As Cidades-Cidades-Estados lutavam por motivos domésticos, por razões locais como legitimar o dirigente e sua linhagem, proteger de invasões e celebravam a vitória em seu lugar de origem. Dentre os conflitos desenvolvidos na mixteca, pode-se perceber os que se destacavam por suas motivações políticas para conservar sua independência econômica, além de guerras entre os reinos e províncias mixtecas pela hegemonia interna.

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Tula era o local onde eram consagrados os reis e Lugar Crâneo influía em toda a Mixteca, cuja rainha, possivelmente uma sacerdotisa, personifica a deusa Hierba, a Nueve Hierba que assiste à conferência entre os deuses e à conferência do surgimento do pulque17, e é homenageada na quinta cerimônia do Fogo Novo18. Porém, nesse período do século XI, o rei mais poderoso do México foi Un Muerte de Cerro del Sol, que recebeu em conferência inúmeros senhores em busca de apoio político. Aliás, a Mixteca constantemente buscava aliança com tais cidades. Os senhorios, com a morte de Ocho Venado, lutavam contra a política unificadora que Tilantongo adotou em sua segunda dinastia buscando a antiga autonomia e retornando à descentralização e à fragmentação.

Apesar disso, Tilantongo segue sendo uma cidade de grande prestígio, bem como Tula19 e Cerro del Sol. Mesmo que, no século XII, os reis de Tilantongo já não alcançassem projeção, Tilantongo é a cidade a que se recorria para compor a realeza quando havia problemas sucessórios em outros senhorios. Teozacualco, cuja primeira dinastia é fundada por originários de Tilantongo, vê sua importância diminuída, sustentada apenas pela aliança com Tilantongo, até que, em sua terceira dinastia, as alianças matrimoniais têm como conseqüência que os reis de Tilantongo também reinavam em Teozacualco. Essa se torna meramente uma cidade-satélite de Tilantongo.

Outro senhorio que não pode ser ignorado é Cerro de la Mascara que se situa, pelo que se sabe pelos registros dos Códices, próximo a dezessete sítios arqueológicos, muitos deles aliados, como os senhorios de Flecos e Contas de Oro, senhorio de Observatório. Caso (1977) aponta que suas relações oscilavam entre próxima e conflituosa com Teozacualco. As alianças matrimoniais de Teozacualco e Tilantongo, que casam com princesas de Observatório, situado perto de Teozacualco, colocam em destaque no cenário político esse senhorio e os senhorios que ficavam sob a influência de Cerro de la Mascara.

Além de se identificar o ativo papel desse senhorio na política mixteca, tem-se uma pista de sua localização. Caso (1977) conseguiu identificar a localização do senhorio cujo glifo toponímico é Cerro de la Mascara como Chacaltongo, em mixteco Nuu Ndaya

17Bebida popular do México, extraída do Maguey, planta da família das amarilidáceas. (TOVAR, Juan de.

História y creencias de los índios de México. Madri: Miruguano, 2001). Bebida de significado mítico usado quando se está para morrer ou como oferenda (LONGEGA, Patrícia Sierra. La Codorniz – Animal Mítico. Arqueologia Mexicana. México: Editorial Raices, set-out, 2006, p. 18-23).

18

Quando os primeiros dias dos dois ciclos calendáricos mixtecos coincidiam, celebrava-se a festa de Fogo Novo, marcando o início de uma nova era. (SANTOS, Eduardo N. dos. Deuses do México Indígena. São Paulo: Palas Athena, 2002).Nos Códices mixtecos, ao se referir ao povoa mento da Mixteca, refere-se à fundação dos senhorios e das dinastias. No códice Nuttall, em especial, aparecia como legitimação de uma nova dinastia e declínio da anterior.

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(Mascara). Sabemos que, com Cinco Hierba Sol, segundo senhor da segunda dinastia de Cerro de la Mascara e Fleco Multicolores, surgirão dois ramos distintos. Cerro de la Mascara passa um curto período em mão de outra dinastia, só sendo recuperada posteriormente.

Ao se observar a genealogia de Cerro de la Mascara, pode-se perceber que este senhorio e os senhorios de Fleco e Contas de Oro, Observatório e o Senhorio de Chamas, estavam relacionados fortemente pelas alianças matrimoniais, a partir das quais os reis de Cerro de la Mascara geralmente reinavam ou, ao menos, influenciavam no governo dessas cidades, conectando as cidades entre si. Eles também reinavam por alianças matrimoniais com as primeiras dinastias de Tilantongo, Teozacualco e Montanha que Escupe.

Ao norte de Oaxaca e ao sul de Puebla habitavam os chochos ou popolocas de Puebla, e o idioma era o chocho e os dialetos que uniam o chocho ao mixteco e ainda ao nahuatl. Nessa área, localizavam-se senhorios como Coixtlahuaca, Tejupan e Nativitas. Sobre os Códices e Lenços20 elaborados nessa área, Caso afirma:

La importancia de todos estos lienzos para la historia de la Mixteca Baja y de la región Chocho-popoloca es que no se limitan a proporcionarnos notícas historicas locales, sino que hacen remontar a proporcionarnos hasta unirlas con el principio de las dinastías y la salida de los fundadores del mítico chicomoztoc […] la cultura que floreció en Coixtlahuaca es la que designamos con el nombre mixteca […] (1977, p. 118).

Este novo olhar sobre a região chocho-mixteca confirma a afirmação de Tedesco (2004). Para o autor, a história une a memória, evitando a fragmentação e evidenciando a sua totalidade, isto é, deixando claro que, por meio da história, reconstrói-se a memória coletiva cientificamente. É necessário se perceber que, além das semelhanças entre os Códices da zona Chocho - mixteca e os da Mixteca da Costa e Mixteca Alta que concordam em sua essência, mas divergem, ao relatar a origem divina ou semidivina do povo mixteco. Os Códices mixtecos afirmam que Quetzalcoatl21 vem a Apoala; já os Códices chocho-popoloca afirmam que esse apareceu em Chicomoztoc22, ordenando a fundação das casas reinantes e dos

20

Documento elaborado no período colonial. Confeccionado em pano de algodão. (GRUZINSKI, Serge. A Colonização do Imaginário. Sociedades Indígenas e Ocidentalização no México Espanhol – Séculos XVI-XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.)

21 Os historiadores diferenciam o Quetzalcoatl mítico e histórico. Esse nome era utilizado pelos soberanos de

Tula, porém nos manuscritos pré-hispânicos e coloniais, sua história sofreu inúmeras modificações e atributos foram acrescentados ou retirados (SANTOS, Eduardo N. dos. Deuses do México Indígena. São Paulo: Palas Athena, 2002).

22 Conceito que sofreu alterações com o tempo e de acordo com os escribas mesoamericanos e cronistas

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senhorios. Segundo Caso (1977), essa referência ao Chicomoztoc nos Códices chocho-popolocas não aparece em outros códices mixtecos embora o conceito do Chicomoztoc, o lugar de origem das tradições mexicanas e maia-toltecas, não fosse desconhecido pelos mixtecos. E que a teoria de que Chicomoztoc sería o local aonde vem Quetzacoatl e de origem das tribos, seria um conceito nahuatl ou originário dos chocho- mixtecos . O autor enfatiza que inúmeras são as notícias de luta que ocorreram nessa região por volta do século IX e que Cerro de Las Serpentes Entrelazadas, dos trigres y el escudo, tinha grande importância na região chocho-mixteca como centro cerimonial, religioso e político. Pelos dados fornecidos nos Códices, em especial os Códices Seler II23 e Baranda, identifica-se com Huayuapan, próximo a Tilantongo.

Na trajetória de Coixtlahuaca, que é dividida em dois pueblos: Piedra con ojo-corazón e Sangre-Remolino, o mais impressionante é que Caso (1977), seguindo a seqüência genealógica de Coixtlahuaca, identifica um Senhor Once Serpiente, cuja ascendência seria de Coixtlahuaca e que governaria um senhorio representado pelo glifo da pedra, do qual brota a planta nopal (tenochtli) e pelo templo caído com a planta de Tule, que corresponde a Tenochtitlán, também conhecido como Tula-Tenochititlán. Em mixteco Ñucoyo saatmudzia quer dizer, “onde brotam os espinhos”, em uma referência ao Tenochtli, ao nopal ou à tuna de pedra.

Porém, no século XI, ainda não havia sido fundado Tenochtitlán. Caso (1977) interpreta o indício de que os antepassados dos reis de Tenochtitlán se originariam dessa genealogia, o que atestaria a relação entre esses dois povos. Segundo ele, a informação contida nos Códices chocho-popolocas ultrapassa o regional. Além do mais, a nobreza do México Antigo estava emparentada, pois a memória coletiva destes dois povos admitia um antepassado comum. As dinastias desses lugares e a informação desses documentos, ampliaria a quantidade dos senhorios mixtecos e o interesse em, por meio da genealogia, confirmar tal relação entre esses povos. Conforme Tedesco (2002), a memória além de definir pertencimentos e identidades faz a releitura e a reatualização do passado.

Para Austin; Luján (2001), graças ao trabalho de pioneiros como Alfonso Caso e seus continuadores, pode-se entender com bastante confiabilidade passagens completas da história mixteca, embora a história pós-clássica ainda deixe muitas incógnitas. O domínio da linguagem e da escrita, como afirma Tedesco (2004), pelos mixtecos, atesta a eficácia da

23 Lienzo Seller II, manuscrito da região chocho-mixteca. Desconhece-se seu local específico de origem. Do

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transmissão da memória alcançada por esse povo com os manuscritos, parte de um sistema capaz de armazenar informações e modificá-las. Através dessa escrita, do estudo do conteúdo desses manuscritos e da memória coletiva ali preservada ao ser captada e reconstruída, podem-se recuperar contextos, perceber macrointeresses em jogo e contradições, o que significa o período e a experiência relatada. Mais do que simples história dinástica, os Códices permitem entender a visão de mundo, a memória dos senhorios mixtecos que são tão entrelaçados e que permitem relacioná-los à memória e ao contexto histórico desse povo. Dosse (2003) afirma que a memória traz a dimensão humana da história e que a lembrança só pode ser conservada quando absorvida pela consciência coletiva. Por isso, a pesquisa histórica não pode estar dissociada de um exame da mentalidade coletiva.

O calendário, enquanto elemento de leitura dos Códices e do discurso histórico mixteco, surge como qualquer outro elemento de civilização no segundo milênio a.C. Apesar de terem estruturas similares, os calendários mesoamericanos diferiam em conteúdo, como os glifos portadores do ano e o dia que inicia o ciclo anual, o que evidencia que não se pode conceber um único calendário mesoamericano. Tena (2000) afirma que cada um por ocasião da conquista possuía uma história que o caracteriza frente ao outro. Tena (2000) considera também que a tendência é relacionar o calendário à noção de exatidão absoluta, pois os povos mesoamericanos manipulavam a data porque, mais importante que o registro cronológico fiel, eram os aspectos políticos e religiosos.

Gruzinski (2003), a este respeito, destaca que o calendário ocidental e os calendários mesoamericanos têm interesses diferentes: o primeiro, enfatizando a medida, pretende ser universal e o mesoamericano privilegiava a qualidade do tempo, sendo múltiplo, variante. Assim, as dinastias podiam recortar períodos de tempo segundo seu interesse, cada qual com sua lógica interna.

Em geral, feita a ressalva às diferenças entre os calendários, elementos semelhantes podem ser observados. A existência de dois ciclos um de 365 dias Xiuhpohualli (conta dos anos) e o ciclo de 260 Tonalpohualli (conta dos dias), provavelmente relacionado com os ciclos da lua, sol e o planeta Vênus. O Xiuhpohualli era composto de 18 meses e 20 dias cada e cinco dias complementares, num total de 365 dias que formavam o ano mixteco. Quatro glifos: Caña, Conejo, Pedernal e Casa nomeavam cada ano mixteco.

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que se sucediam ciclicamente, viam esgotadas as posições de um dia do tonalpohualli no ciclo xiuhpohualli.

A respeito da existência dentro do sistema vigesimal de elementos como pontos e barras, têm-se que os mixtecos utilizavam pontos cuja posição também tinham valor. E vinte unidades do primeiro grupo formavam uma unidade do grupo seguinte.

A dificuldade em se estabelecer a correspondência entre o calendário ocidental e o mesoamericano é que cada ano possuía 105 pares de dias com nomes idênticos, fato que só foi solucionado pelos maias, evitando a confusão. Outro fator é que somente os povos da Costa do Golfo e os Maias possuíam uma data base.

Segundo Gruzinski (2003) o calendário regia todas as atividades, como dias propícios para a guerra, os anos de abundância ou prejuízo na agricultura, dias propícios para a colheita, qual deidade deveria receber oferenda e rituais e como esses deveriam ser efetuados, pois cada dia possuía um deus patrono assim como cada ano estava regido por uma deidade. O dia do nascimento poderia influenciar qual seria sua personalidade e que tipo de sorte o futuro reservava para o recém–nascido. Assim, se a criança nascia em um dia considerado nefasto, já que geralmente a criança recebia um nome calendárico, ou seja, de acordo com o dia em que nascia, podia-se esperar e escolher um dia mais propício para nomear a criança, anulando a carga negativa que a data do nascimento agregava ao futuro do recém-nascido, ou seja, tentava-se manipular as forças cósmicas e o destino.

Gruzinski (2003) afirma, este respeito, que esse ciclo regia a prevalência entre forças que agiam sobre o indivíduo sem aniquilá-lo, pois, por meio do conhecimento dos ciclos e cálculos necessários criavam a possibilidade de operar sobre elas, controlando forças divinas,

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tirando partido ou fazendo frente a ela. Tonalpohuque era a pessoa que compreendia o calendário e conhecia um arsenal de prática que ajudava a modificar os destinos. “Segundo esta idéia [...] cada ato do homem no tempo os relacionava com o equilíbrio cósmico” (Florescano, 2006, p. 71). E mais, Florescano (2006) ressalta que tal sistema unificava passado e presente, colocando em movimento a memória histórica que, através de rituais e celebrações de fatos, conferia coesão, identidade, vitalidade de força que incorpora passado e presente e projeta um futuro. Portanto, ordenava o passado e o atualizava numa tradição viva e atuante.

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3 A TRAJETÓRIA DO SEÑOR OCHO VENADO NO CÓDICE NUTTALL

O Códice Zouche-Nuttall se encontra no Museu da Humanidade, ramo do Museu Britânico de Londres. É formado por 16 tiras de pele de veado unidas em seus extremos com uma extensão de 11.41m. As folhas ou lâminas que o constituem resultam em dobras feitas na pele.

O número total de lâminas em ambos os lados são 47, embora nem todas tenham sido pintadas. As páginas pintadas de ambos os lados eram preparadas com uma camada de estuco24 o que permitia também efetuar correções posteriores.

O que se pode afirmar atualmente a respeito de como esse documento chegou à Europa é que algum frei dominicano pode tê-lo levado para a biblioteca do convento de sua ordem, no Monastério de San Marco, em Florença na Itália e posteriormente para Roma para ser estudado. De acordo com Anders; Garcia; Jansen (1992), as glosas em latim, presentes em algumas páginas do manuscrito e os equívocos conceituais nelas expressas, atestam o estudo e a posse do Códice Zouche-Nuttal por essa ordem religiosa.

O rico político inglês Jonh Temple Leader adquiriu o documento como presente para Robert Curzon, 14º Barão Zouche, colecionador de livros e antiguidades, através de um pacote enviado pela Missão Britânica em Florença. O filho do Barão Zouche herdou o manuscrito e, estando em dificuldades financeiras, doou o Códice ao Museu Britânico em 1876 onde ele ficou sob custódia de Sir Edward Thompson. Em 1890, a pesquisadora americana Zélia Nuttall, sabendo da existência do manuscrito e de sua saída da Itália, rastreou

24 Massa com gesso branco e água. (MOLINER, Maria. Dicionário de uso del español. 2.ed. Madri: Gredo,

1998).

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seu paradeiro e, em 1902, obteve permissão para estudar e publicar a primeira edição fac-símile com apoio do Museu Peabody de Harvard. Um artista anônimo foi contratado e copiou o manuscrito imitando as cores originais, publicando-o em seu formato original (MILLER; NUTTALL, 1975 – Tradução nossa). Em homenagem à família do Lorde Zouche, que doou o Códice e à pioneira Zélia Nuttall, o Códice recebeu o nome Zouche-Nuttall.

Caso (1977) foi quem primeiro indicou a origem do manuscrito na Mixteca Alta, porém, não se tem certeza de que área da Mixteca Alta. O fato de o lado reverso que relata a biografia do Ocho Venado ter sido pintado primeiramente, o destaque dado a Tilantongo na carreira de Ocho Venado, o descaso com a entronização em Tututepec e o fato de a narrativa desse rei ter sido escrita antes das genealogias de Teozacualco e Zaachila no anverso, fazem crer que, ao contrário do que se acreditava, o Códice Zouche-Nuttall seja originário de Tilantongo e não de Teozacualco e responda à necessidade de legitimação dos descendentes de Ocho Venado, em especial o ramo de Tilantongo em decadência. Bourdieu (1989) afirma que os sistemas simbólicos distinguem-se conforme produzidos ou apropriados pelo grupo ou produzidos por especialistas. Assim, pensamos a apropriação do Códice na sociedade mixteca conforme Chartier (2002), isto é, como uma história social dos usos e interpretações, relacionados a determinações inscritas nas práticas que o produziram, considerando-se também os processos que sustentam operações de construção do sentido. Desconhece-se a data exata da confecção desse escrito, porém se sabe que as genealogias ali registradas, de acordo com Caso (1977) se estendem do século IX ao século XV. Zélia Nuttall, a primeira a reconhecer o caráter histórico do manuscrito, propôs uma numeração de páginas que considerava as cenas que ocupavam duas páginas no fac-símile de 1902 e denominou as páginas 1-42 de lado anverso e 43 a 84 de reverso.

O Museu Britânico, ao examinar e inventariar o documento enumerou sem considerar a primeira edição, seguindo a seqüência de páginas. Assim, o Códice ficou com dupla numeração que diverge em certas páginas.

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