UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO E SOCIOECÔNOMICAS – ESAG PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO - MESTRADO ACADÊMICO EM ADMINISTRAÇÃO

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAđấO E SOCIOECÔNOMICAS – ESAG PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM ADMINISTRAđấO - MESTRADO ACADÊMICO EM ADMINISTRAđấO

  DISSERTAđấO DE MESTRADO

AVALIAđấO DO RESULTADO DO PROGRAMA DE AQUISIđấO DE ALIMENTOS JUNTO ÀS COOPERATIVAS DE AGRICULTORES FAMILIARES DE SANTA CATARINA

  FLORIANÓPOLIS, 2013

  

AVALIAđấO DO RESULTADO DO PROGRAMA DE

AQUISIđấO DE ALIMENTOS JUNTO ầS COOPERATIVAS DE

  Dissertação apresentada ao mestrado acadêmico em Administração do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas da Universidade do Estado de Santa Catarina como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre. Orientadora: Professora Dra. Maria Carolina Martinez Andion.

  FLORIANÓPOLIS

  • – SC
X19a Xavier, Maria Letícia Barbosa. Avaliação do resultado do Programa de Aquisição de Alimentos junto cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina / Maria Letícia Barbosa Xavier ; orientadora: Maria Carolina Martinez Andion.

  • – Florianópolis, 2013. 172 f. : il ; 30 cm. Incluem referências. Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado Santa Catarina, Centro de Ciências de Administração e Socioeconômicas, Mestrado em Administração, Florianópolis, 2013.

  1. Programa de Aquisição de Alimentos. 2. Cooperativas.

  3. Agricultura Familiar. 4. Avaliação de Políticas Públicas.

  5. Economia Social e Solidária. I. Andion, Maria Carolina Martinez.

  CDD: 631- 20 ed. CDU. 631 Avaliação do resultado do Programa de Aquisição de Alimentos junto às cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina Dissertação apresentada ao mestrado acadêmico em Administração do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas da Universidade do Estado de Santa Catarina como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre. Banca Examinadora Orientadora: ____________________________________

  Prof. Dra. Maria Carolina Martinez Andion Universidade do Estado de Santa Catarina

  Membro: ____________________________________ Prof. Dra. Paula Chies Schommer Universidade do Estado de Santa Catarina

  Membro: ____________________________________ Prof. Dr. Fábio Luiz Búrigo Universidade Federal de Santa Catarina

  Esta dissertação é dedicada às cooperativas participantes do curso de gestão de cooperativas, especialmente aos agricultores familiares gestores participantes. Eles através das suas experiências me despertaram para a causa da agricultura familiar e das lutas para a ampliação de diretos no campo.

  

AGRADECIMENTOS

  Agradeço inicialmente à Universidade do Estado de Santa Catarina e ao Programa de pós-graduação em administração do Centro de Ciências de Administração e Sócio-Econômicas;

  À minha professora orientadora, Profª Drª Maria Carolina Martinez Andion;

  Aos professores que contribuíram especialmente para o desenvolvimento desta pesquisa Prof. Dr. Marcello Beckert Zapellini, Prof. Dr. Valério Alecio Turnes, Prof. Dr. Leonardo Secchi, Prof. Eduardo Jara e ao Prof. Dr. Maurício Serafim;

  Ao Jurandi Gurgel, delegado do MDA em Santa Catarina, pela disposição de atendimento e disponibilização de dados e contatos; Às cooperativas e todos os gestores participantes do curso de gestão de cooperativas; Aos facilitadores do curso de gestão de cooperativas, em especial ao Leandro Fernandez e à Larice Sttefen Peters; À felicidade de fazer novos amigos no mestrado com quem pude compartilhar todas as muitas felicidades e tantas angústias e desilusões desses dois anos dentro e fora mestrado. Muito Obrigada, Mariana, Natasha, Ariane, Keliton, Paulo e Luiz.

  Muito especialmente aos meus tios, sempre inspiradores, Celso e Claudia; Aos meus pais Paula e Xavier e à minha irmã Maria Flavia, pelo estímulo, apoio e paciência: Ao meu marido Silvio, pelo apoio e carinho; E porque não, agradecer também às minhas sempre companheiras nas horas de mais concentração: Chloè e Filó.

  

RESUMO

  XAVIER, Maria Leticia Barbosa. Programa de Aquisição de

  

Alimentos: avaliação dos seus resultados junto às cooperativas de

agricultores familiares de Santa Catarina. 2013. 172f. Dissertação

  (Mestrado em Administração)-Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2013. Esta dissertação tem por objetivo avaliar os resultados do Programa de Aquisição de Alimentos do Governo Federal junto às cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina a partir do objetivo explícito na Lei 10.696/2003 que o instituiu. A pesquisa se justifica pela importância estratégica da agricultura familiar para a produção de alimentos no Brasil e pelo momento ideal de se realizar avaliação de uma política pública, dez anos após a sua implantação. A fundamentação teórica se estrutura em torno de dois debates principais: o cooperativismo da agricultura familiar com nos preceitos da economia social e solidária e a avaliação de políticas públicas. O método utilizado para a avaliação foi quantitativo e quase-experimental, através de uma amostra de vinte cooperativas dividas em dois grupos: o grupo tratado composto por catorze cooperativas que acessam o PAA e o grupo controle composto por seis cooperativas que não acessam o PAA. Os dados foram coletados em fontes secundárias nos Planos de Desenvolvimento Institucional (PDIs) elaborados pelas cooperativas pesquisadas. A classificação dos dados foi feita com base em um quadro de análise construído a partir do objetivo do programa e composto por quatro áreas: econômica, social, de sustentabilidade (corporativa e ambiental) e de industrialização. Essas áreas foram divididas em 10 dimensões, compostas de 33 indicadores, com suas respectivas formas de medida. A análise envolveu cinco etapas complementares. Em um primeiro momento realizou-se análise comparativa entre os grupos tratado e controle. Em seguida elaborou-se uma classificação geral das cooperativas e então uma classificação para cada uma das áreas analisadas. Um quarto momento foi dedicado à análise baseada no software Weka, que demonstrou as relações implícitas entre os indicadores, e no quinto e último momento foi realizada uma análise geral, o PAA tem cumprido o seu objetivo de “incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão econômica e social, com fomento à produção com sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização e à geração de renda”. Os indicadores que se destacam positivamente são o retorno financeiro às cooperativas e cooperados e a industrialização das cooperativas. Porém, a boa performance nesses indicadores não se apresenta de maneira isolada e mantém relação com outros resultados, tais como a capacidade de articulação em redes e o grau de participação dos membros. De fato, as cooperativas atendidas pelo PAA possuem resultados melhores em todas as quatro áreas avaliadas. Contudo, as evidências apontam a necessidade de melhorias em alguns resultados, sobretudo no que se refere à dependência dos recursos advindos do programa. Das 14 cooperativas pesquisadas, apenas quatro declaram não depender destes recursos para sua sobrevivência. Esse dado revela a importância do PAA estimular a autonomia e promover o desenvolvimento institucional das cooperativas atendidas, de modo a garantir a sua sustentabilidade no longo prazo. Nesse sentido, são apresentadas algumas recomendações, para as cooperativas e para os gestores da política pública, de modo a subsidiar futuras decisões e a ampliação dos resultados do programa.

  Palavras-chave: Programa de Aquisição de Alimentos. Cooperativas. Agricultura Familiar. Avaliação de Políticas Públicas. Economia Social e Solidária.

  

RESUMEM

  XAVIER, Maria Leticia Barbosa. Programa de Adquisición de

  

Alimentos: evaluación de los resultados de las cooperativas de

agricultores familiares de Santa Catarina. 2013. 172f. Tesis-

  Disertación (Master en Administración)-Universidad del Estado de Santa Catarina. Florianópolis, 2013. Esta disertación tiene como objetivo evaluar los resultados del Programa de Adquisición de Alimentos del gobierno federal de las cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina a partir del objetivo de la Ley 10.696/2003, que establece el programa. La investigación se justifica por la importancia estratégica de la agricultura familiar para la producción de alimentos en Brasil y en el momento ideal para llevar a cabo la evaluación de una política pública, diez años después de su implantación. El marco teórico se estructura en torno a dos debates principales: cooperativas de la agricultura familiar con bases en los principios de la economía social y solidaria y la evaluación de las políticas públicas. El método utilizado para la evaluación fue el diseño cuantitativo y cuasi -experimental con una muestra de veinte cooperativas divididas en dos grupos, el grupo tratado en que consta catorce cooperativas que tienen acceso al PAA y el grupo de control formado por seis cooperativas que no tienen acceso AL PAA . Los datos fueron obtenidos de fuentes secundarias, los Planes de Desarrollo Institucional (PDI) elaborados por las cooperativas encuestadas. La clasificación de los datos se basa en un marco de análisis construido a partir del objetivo del programa que se compone de cuatro áreas: económica, social, sostenibilidad (corporativa y ambiental) y la industrialización. Estas áreas se dividieron en 10 dimensiones, compuestas de 33 indicadores con sus respectivas formas de medición. El análisis fue hecho en cinco pasos. Inicialmente, a través del análisis comparativo entre los grupos tratado y control. Luego se elaboró una clasificación general de las cooperativas y, a continuación una clasificación para cada una de las áreas analizadas. Un cuarto periodo se dedicó a un análisis basado en el software Weka, que demuestra la relación entre los indicadores implícitos y una quinta y última análisis objetivo de "fomentar la agricultura familiar, promoviendo su inclusión económica y social, para promover la producción con la sostenibilidad, el procesamiento de alimentos y la industrialización y la generación de ingresos". Los indicadores que se destacan son el retorno financiero positivo para las cooperativas y cooperativistas de las cooperativas y la industrialización. Sin embargo, un buen desempeño en estos indicadores no se presenta de forma aislada y mantiene relación con otros resultados como la capacidad conjunta de las redes y el grado de participación de los miembros. De hecho, las cooperativas atendidas por PAA tienen mejores resultados en todas las cuatro áreas evaluadas. Sin embargo, la evidencia apunta a la necesidad de mejorar algunos resultados, en particular en lo que respecta a la dependencia de los ingresos del programa. De las 14 cooperativas encuestadas sólo cuatro declaran que dependen de estos recursos para su supervivencia. Esto pone de manifiesto la importancia de fomentar la autonomía de PAA y promover el desarrollo institucional de las cooperativas con el fin de asegurar su sostenibilidad a largo plazo. En este sentido, presentamos algunas recomendaciones para las cooperativas y para los gestores de políticas públicas con el fin de apoyar las decisiones futuras y la expansión de los resultados del programa.

  Palabras clave: Programa de Adquisición de Alimentos. Cooperativas. Agricultura Familiar. Evaluación de las Políticas Públicas. Economía Social y Solidaria.

  

  

LISTA DE ILUSTRAđỏES

  

LISTA DE GRÁFICOS

  

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LISTA DE TABELAS

  ACI

  • – Aliança Cooperativa Internacional CIRIEC
  • – Centre Internacional de Recherches el d´Información sur l´Economie Puqblique, Sociale et Coopérative C>– Companhia Nacional de Abastecimento DAP
  • – Declaração de aptidão ao PRONAF EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina >– Escola Superior de Administração e Gerência ESS
  • – Economia Social e Solidária G
  • – Gerência de Acompanhamento e Controle das Ações da Agricultura Familiar

  IBGE

  • – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

  IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada MAPA

  • – Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento MDA
  • – Ministério do Desenvolvimento Agrário>– Ministério do Desenvolvimento Social MEC
  • – Ministério da Educaçã
  • – Ministério da Fazenda MPOG – Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão

  OCB

  • – Organização das Cooperativas Brasileiras OCEMG
  • – Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais OCESC – Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina OCESP – Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo>– Programa de Aquisição de Alimentos PDI
  • – Plano de Desenvolvimento Institucional PIB
  • – Produto Interno Bruto >– Programa Nacional de Alimentação Escolar PRONAF – Programa nacional de fortalecimento da agricultura familiar SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária SUPAF
  • – Superintendência de Suporte à Agricultura Familiar U>– Universidade do Estado de Santa Catarina UNICAFES
  • – União das Cooperativas de Agricultores Familiares e Economia Solidária

  SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma política pública federal instituída pela Lei nº 10.696, no ano de 2003. O PAA vem sendo aplicado em inúmeras cooperativas de agricultores familiares catarinenses desde então. Esta dissertação tem como foco o desenvolvimento e aplicação de uma metodologia de avaliação de resultado ao Programa de Aquisição de Alimentos junto a 20 cooperativas beneficiadas pelo programa em Santa Catarina. O programa é coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), financiado com recursos deste e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e gerido por um comitê de outros três Ministérios: da Fazenda (MF), do Planejamento (MPOG) e da Agricultura (MAPA) (BRASIL, 2003).

  O Programa de Aquisição de Alimentos tem dois objetivos centrais: o primeiro está focado na garantia da segurança alimentar à população, especialmente àquela mais carente; o segundo está voltado ao fortalecimento da agricultura familiar. Na vertente da segurança alimentar, o programa caracteriza-se como uma das ações do Programa Fome Zero, com intuito de promover o acesso a alimentos às populações identificadas em situação de insegurança alimentar, caracterizada pela falta completa de alimentos ou pelo acesso a comida de baixa qualidade nutricional. Já no campo da Agricultura Familiar, o PAA pretende promover a inserção social e econômica dos empreendimentos rurais familiares, estimulando e destinando a produção destes para o provimento de alimentos às referidas populações, em situação de insegurança alimentar (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL, 2012).

  É nesta segunda vertente, de promoção dos empreendimentos rurais familiares, que se concentrará a análise desta dissertação. Mais especificamente, o trabalho pretende explicitar os resultados da política pública federal “Programa de Aquisição de Alimentos” em cooperativas de agricultores familiares no Estado de Santa Catarina. A avaliação terá como foco a checagem da efetivação dos objetivos, conforme lecionam Worthen, Sanders e Fitzpatrick (2004), a partir daqueles declarados pelo governo federal através da Lei nº. 10.696. Para tanto, apresentamos neste primeiro capítulo o quadro geral da pesquisa, iniciando-se com a seguida dos objetivos e da justificativa e finalizamos com a estruturação geral do trabalho.

  1.1 APRESENTAđấO DA PROBLEMÁTICA Segundo dados do IBGE coletados em 2006 para compor o

  último censo agropecuário brasileiro, a agricultura familiar representa 84,4% dos estabelecimentos agropecuários do país e envolve 74,4% das pessoas que exercem atividades agropecuárias, as quais fornecem 70% dos itens da cesta básica brasileira. Os empreendimentos da agricultura familiar são responsáveis pela colheita de 87% da produção nacional de mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% do plantel de aves, 30% dos bovinos, e ainda 21% do trigo (IBGE, 2006).

  Contudo, segundo o mesmo censo agropecuário, apenas 24,3% das áreas destinadas à agricultura e pecuária no Brasil são ocupadas por estes empreendimentos familiares, sendo o valor da receita anual dessas propriedades em média de R$ 13,6 mil, ou seja, a renda mensal média dos agricultores familiares brasileiros não supera os R$ 1.200 (um mil e duzentos reais).

  A agricultura familiar caracteriza-se, portanto, como um modo típico de produção em pequenas propriedades rurais e com alto nível de produtividade. Deste modo, a agricultura familiar mostra-se como um modo de produção estratégico para sustentar o consumo interno de alimentos, além de garantir segurança alimentar (BROWN, 2013). Além de estratégico para o abastecimento e fornecimento de alimentos, também se pode concluir que o modo de produção familiar é um forte aliado no controle do êxodo rural, já que conta com um alto índice de ocupação de mão de obra, garantindo a fixação da população no campo (ANDRADE JÚNIOR, 2009).

  A importância estratégica de abastecimento e da produção de alimentos por meio da agricultura familiar (70% do consumo interno), aliada à necessidade de fixação da população no meio rural, fundamental a importância do Estado fomentar e estimular este modo de produção. De fato, o Estado tem um papel de suma importância na melhoria das condições de vida e renda dos agricultores familiares, seja por meio das políticas sociais de caráter mais amplo, seja com a criação de incentivos e benefícios para produção, beneficiamento e

  Cientes da importância do setor, muitas políticas públicas vêm sendo desenvolvidas nesse campo, demonstrando o comprometimento e o reconhecimento governamental da importância da agricultura familiar, que passa a ser vista não apenas como uma categoria social, mas também produtiva (MULLER, 2007). São exemplos desses esforços nos últimos dez anos: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF); o Seguro da Agricultura Familiar; o Programa de Garantia de Preços; o Programa de Agroindustrialização da Produção; o Programa de Turismo e Agricultura Familiar; o Programa do Biodisel; a Política de Plantas Medicinais e Fitoterápicas; o Programa Nacional de Alimentação Escolar, além do programa objeto do estudo em tela, o Programa de Aquisição de Alimentos (CORRÊA, 2008).

Presidente do Earth Policy Institute, Brown (2013) autor do livro “Planeta Cheio, Pratos Vazios” afirmou que os alimentos são o

  novo petróleo, e a terra, o novo ouro. Brown (2013) afirma ainda que o mundo será regido por uma nova geopolítica, a da capacidade de produção de alimentos, haja vista o aumento em mais de 100% do preço dos alimentos na última década. O mundo, segundo ele, transita de uma era de abundância para uma de escassez de comida, esta última caracterizada pela falta de alimentos e pela propagação da fome pelo planeta.

  Para Brown (2013) além do aumento significativo da população, também a conversão de alimentos em combustível aumentam a demanda pela produção de alimentos. Por outro lado, salienta o autor, a extrema erosão do solo, a escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas, fazem com que seja cada vez mais difícil expandir a produção, havendo assim uma diminuição significativa e constante da oferta. Assim, torna-se se torna necessária e pública a preocupação com a segurança alimentar e com a produção de alimentos no mundo.

  Sachs (2007), por sua vez expõe que a questão alimentar é indissociável da questão social. Portanto, para que se resolva uma crise alimentar, precisa-se redefinir o modelo de produção e de desenvolvimento pretendido para este século. Este novo modelo deveria combinar a produção de biocombustíveis com a de mais alimentos, e para isso é preciso rechaçar a tese de desenvolvimento associado à urbanização e industrialização. Para Sachs a saída não está na A agricultura familiar gera oportunidade de emprego, renda e melhores condições de vida no meio rural, e por isso pode ter um papel central no fomento a estilos de desenvolvimento mais sustentáveis. Contudo, para que isso se realize é preciso que a agricultura familiar possa se manter e desenvolver através de um feixe de políticas públicas que possibilite o acesso aos créditos, à tecnologia, à educação e aos mercados. Ou seja, que se aplique o tratamento desigual aos desiguais, para que o pequeno não fique exposto aos apetites do mercado (SACHS, 2007).

  Nesse cenário, torna-se fundamental, portanto, que as nações considerem a produção de alimentos de maneira estratégica. A situação do Estado brasileiro não é diferente, sendo imprescindível o desenvolvimento de ações para fortalecimento do setor agrícola, com subsídios, financiamento da produção, comercialização, entre outros. Particularmente, no caso do Brasil torna-se estratégico o papel da agricultura familiar, pois como citado anteriormente, é ela a responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no país e pela ocupação e sustento de aproximadamente 75% de sua mão de obra agrícola (IBGE, 2006).

  Andrade Júnior (2009) revela que os maiores desafios dos agricultores familiares são a dificuldade na comercialização dos produtos, a distância entre os produtores e as famílias agricultoras do meio rural, e o mercado consumidor composto, sobretudo, pelas famílias urbanas. O produto do campo tradicionalmente chega às famílias urbanas depois de passar por muitos intermediários, como atravessadores, atacadistas e varejistas, criando uma distância enorme entre quem produz e quem consome os produtos. Com o intuito de diminuir essa distância entre produtores e consumidores e de eliminar os intermediários entre a terra e a mesa do consumidor, os agricultores familiares têm optado por se organizar em cooperativas e associações (ANDRADE JÚNIOR, 2009). Com as cooperativas, pretende-se que o produtor rural consiga diminuir as etapas entre a produção e o consumo, proporcionando maior retorno da propriedade às famílias que vivem delas (ANDRADE JÚNIOR, 2009).

  Estas cooperativas que congregam os agricultores familiares são as que se filiam ao que se convenciona chamar de “Novo

  Cooperativismo”. O novo cooperativismo, segundo Jesus e Tiriba (2009) e Namorado (2009) pode ser definido como um braço do de alternativas de renda e a melhoria das condições de vida no meio rural. Este conceito será mais detalhadamente explorado na fundamentação teórica deste trabalho.

  O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) emerge neste contexto. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), o PAA, além de outros objetivos, tem o intuito de promover a superação dos desafios de comercialização e logística dos pequenos agricultores e cooperativas. O PAA pretende que os próprios agricultores, por meio de suas cooperativas e associações, sejam os fornecedores dos alimentos que serão consumidos pelos habitantes de sua região. Desta forma eles poderiam ser os responsáveis pela entrega periódica de alimentos nos equipamentos públicos como hospitais, asilos, instituições de acolhida e restaurantes comunitários. O PAA, de fato, pretende incentivar a compra pública direta, sem licitação, dos alimentos produzidos pelos agricultores familiares através das prefeituras municipais (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL, 2012).

  O PAA é uma política pública federal implantada a partir de 2003 em todo o território nacional para fortalecimento de agricultores familiares, acampados e assentados da reforma agrária, assim como dos pescadores artesanais, quilombolas, indígenas, agroextrativistas e também os produtores rurais atingidos por barragens.

  Ao longo dos dez primeiro anos de operação do PAA alguns estudos foram realizados com intuito de analisar distintos aspectos do Programa. Exemplos deles são a dissertação de Corrêa (2008), que comparou a percepção e recepção do PAA dos produtores rurais do Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte; a dissertação de Andrade Júnior (2009) que avalia a criação do PAA na COARPA em Mafra; também se pode citar Guerra (2010), que de forma mais crítica questiona o caráter emancipatório ou apenas assistencialista da política; além de Muller (2007) que analisa a própria concepção e construção do Programa. Esses estudos serão de grande valia para a construção desta dissertação, porém nenhum deles concentra-se na análise dos resultados do programa como faz esse trabalho, especialmente focando nas cooperativas de agricultores familiares.

  No que se refere a este tema, o PAA pretende possibilitar, ou pelo menos facilitar, a reversão das tendências apontadas por Sachs (2007) e Brown (2013). Atuando tanto no combate à escassez de comercialização, o programa, segundo o governo federal (BRASIL, 2012), pretende promover a segurança alimentar da população mais carente, incentivando a produção e criando novos canais para que o alimento chegue às populações mais vulneráveis.

  Todavia, para afirmar que o PAA tem de fato atingido os objetivos visados, faz-se necessário avaliar seus resultados. Como salientado, são muitas as políticas e programas públicos que preveem atenção especial ao fomento e ao desenvolvimento da agricultura familiar de diferentes formas: com incentivos à produção, industrialização, crédito e capacitação. Todavia diante desses muitos esforços governamentais, é importante verificar sua efetividade e capacidade de auferir os resultados pretendidos As mudanças necessárias e pretendidas estão ocorrendo? Os recursos públicos estão sendo bem empregados?

  A infinidade de demandas sociais e a tradicional escassez de recursos e orçamentárias impõem um desafio aos administradores públicos: manter em funcionamento os seus programas sociais mais promissores. Como afirmam Worthen, Sanders e Fitzpatrick, (2004, p. 34):

  Cada vez mais, os legisladores e os administradores dos programas têm de fazer opções difíceis, sendo obrigados a cancelar alguns programas ou parte deles para dispor de fundos suficientes para lançar ou dar continuidade a outros.

  Para fazer essas escolhas, os tomadores de decisão dos programas e políticas públicos necessitam dispor de informações pertinentes em relação à sua eficácia. É importante saber quais programas dão certo, quais não dão e quais os seus custos. Da mesma forma, o gestor de cada programa precisa conhecer e demonstrar quais os seus resultados, assim como identificar a parte do programa dá mais resultado. É também importante compreender qual a contribuição de cada uma das partes do programa para seu sucesso ou insucesso e, deste modo, diferenciar os modos de implementação ou planejamento que teriam mais funcionalidade, eficiência e eficácia (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004). Desse modo, torna-se essencial, portanto, produzir informações fidedignas e com qualidade científica

  É no sentido de responder a essa problemática que essa dissertação será desenvolvida, focalizando o PAA, sobretudo, nos seus resultados junto às cooperativas catarinenses que aderiram ao programa. Por meio da análise da implantação do PAA junto às cooperativas catarinenses de agricultores durante os anos de 2003 a 2013, pretende-se conhecer, analisar e avaliar os resultados obtidos, cotejando com as metas previstas para o PAA, de forma a fornecer subsídios para seu desenvolvimento, ampliação e continuidade. Por meio do desvelamento dos resultados obtidos, busca-se também avaliar se a participação no PAA produz os resultados previstos na lei que o instituiu. Desta forma tem-se como pergunta de pesquisa quais os resultados do Programa de Aquisição de Alimentos junto às cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina? Mais especificamente busca-se avaliar se a participação no PAA possibilita o desenvolvimento de indicadores econômicos, sociais e ambientais nas cooperativas que aderiram ao programa.

  A partir dessas respostas almejam-se melhorias incrementais no PAA com intuito de que seus objetivos, explícitos na lei fundadora sejam alcançados e públicos recursos públicos investidos tenham o retorno esperado.

  1.2 OBJETIVOS

  1.2.1 Objetivo geral

  Avaliar o resultado do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal junto às cooperativas de agricultores familiares em Santa Catarina.

  1.2.2 Objetivos específicos

   Caracterizar o fenômeno do cooperativismo de base na agricultura familiar, no quadro do “Novo Cooperativismo” e da Economia Social e Solidária e explorar a questão da avaliação de programas e políticas públicas, e especialmente o PAA e sua trajetória, gerando subsídios para avaliar os resultados desse programa.

   Efetuar levantamento do programa de aquisição de alimentos (PAA), buscando caracterizá-lo, nas diferentes etapas do ciclo

   Construir um modelo de avaliação de resultados do programa, tendo por base os objetivos explicitados no inciso I, do art. 19 da Lei nº. 10.696/2003, que instituiu o PAA e dá providências.  Identificar uma amostra de cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina que aderiram ao programa e construir um perfil geral desse grupo;  Avaliar os resultados do PAA junto a este grupo de cooperativas de agricultores familiares, tendo por base o modelo de avaliação desenvolvido;  Elaborar considerações e recomendações indicando os avanços e limites do PAA, que possam contribuir para a tomada de decisão dos gestores do programa e das cooperativas em relação ao programa, visando a ampliação da sua eficácia.

  1.3 JUSTIFICATIVA DA PESQUISA No estado de bem estar social, por meio do qual pretende-se construir uma sociedade justa e solidária, conforme afirmado na

  Constituição Brasileira, existe uma infinidade de demandas sociais latentes que não são atendidas, seja por restrições orçamentárias, falta de vontade política ou carência de projetos eficazes que possam constituir-se em políticas públicas voltadas a assegurar melhores condições de vida à população. Conforme advertem Worthen, Sandrs e Fitzpatrick (2004, p. 34):

  Cada vez mais, os legisladores e os administradores dos programas têm de fazer opções difíceis, sendo obrigados a cancelar alguns programas ou parte deles para dispor de fundos suficientes para lançar ou dar continuidade a outros.

  Nesse contexto, compete aos administradores públicos municiarem os agentes políticos com informações e propostas que identifiquem políticas públicas e projetos mais promissores, de forma a atingir os objetivos de governo definidos pelos eleitos. Desta forma apresenta-se uma primeira justificativa para o presente estudo. Por meio de uma avaliação de resultados com base nos objetivos declarados da política pública, busca-se gerar informações pertinentes, qualificadas e

  A escolha do PAA se justifica, pois consiste em uma das principais políticas públicas desenvolvidas com foco na comercialização e distribuição facilitada dos produtos dos agricultores familiares. O programa está em funcionamento desde o ano de 2003, tendo completado dez anos, e neste período beneficiou mais de meio milhão de famílias agricultoras com a compra de seus produtos, especialmente por meio das prefeituras municipais. Em termos de investimentos o programa investiu mais de um bilhão de reais nos municípios atingidos, segundo dados do MDA do ano de 2013. O tempo de implantação, o montante de recursos investidos e grande número de beneficiários demonstram a relevância do programa e de sua avaliação.

  Neste sentido, torna-se premente questionar a viabilidade do programa e apontar os avanços e limites nesses dez anos de atuação. Porém, para que sejam produzidas respostas efetivas à sociedade sobre os benefícios diretos e difusos desta política, faz-se necessário uma avaliação criteriosa. A avaliação, além de servir de base para a tomada de decisão tanto dos governos como dos beneficiários, é um meio de promover uma prestação de contas à sociedade (SECCHI, 2010).

  O período decorrido entre a implantação do projeto e a avaliação proposta neste trabalho é um fator relevante a justificar o presente estudo, uma vez que, como afirmam Pressman e Widalsky (1973), as políticas públicas não devem ser avaliadas prematuramente, ou seja, antes que completem dez anos de funcionamento. Só depois de transcorrido todo esse período, defendem os mesmos autores, é que os programas governamentais superaram seus entraves iniciais e os efeitos que permanecem no longo prazo começam a se revelar.

  Por outro lado, os resultados do estudo pretendem responder não apenas a uma demanda do poder público. Com as conclusões da pesquisa busca-se também gerar e disponibilizar informações úteis às próprias cooperativas que aderiram ao PAA. Tais informações podem ajudá-las a conhecer mais o programa, seus alcances e limites e embasar suas decisões a respeito de continuar, modificar ou desistir da participação no Programa.

  A motivação para realização também se justifica pelo próprio percurso da pesquisadora. Foi o contato direto com os agricultores familiares cooperados, através de um curso de extensão em formação de gestores de cooperativas, realizado entre outubro de 2011 e novembro de 2012, em uma parceria do Ministério do Desenvolvimento Agrário Programa. Neste curso, a pesquisadora atuou como consultora, acompanhando e apoiando algumas das cooperativas participantes na criação e implantação de seus planos de desenvolvimento institucionais.

  Entre as cooperativas que participaram do curso de formação a maioria (15 das 26 participantes do curso), operava o PAA. Constatou- se, contudo, que a busca pelo acesso à política não era pautada por avaliações formais, como aquelas previstas por Worthen, Sanders e Fitzpatrick (2004), mas apenas por análises informais de sucesso, sem preocupação com requisitos e contrapartidas que esta política exige. Tampouco haviam sido levantados pelos gestores quaisquer malefícios em relação à adesão ao PAA.

  Desse modo, em termos práticos essa pesquisa se justifica por motivos estratégicos em termos de gestão pública de um programa governamental relevante, mas também pela possibilidade de instrumentalizar e melhorar as decisões das cooperativas que aderem ao o programa. Cooperativas e órgãos governamentais terão à sua disposição, a partir da pesquisa, dados quantitativos e qualitativos sobre o PAA no estado de Santa Catarina, o que implica uma ampliação da

  

accountability e das possibilidades de diálogo entre os tomadores de

decisão e os diferentes interessados no programa.

  No âmbito científico e acadêmico, o presente trabalho, se justifica no tratamento de temas ainda pouco explorados no Brasil, como é o caso dos conceitos de Economia Social, Economia Solidária e do Novo Cooperativismo. Além disso, o trabalho vem somar-se ao leque de estudos que permitem a construção e o teste de metodologias de avaliação das políticas públicas, relacionando o debate entre autores estrangeiros e nacionais sobre o tema e criando modelos e métodos capazes de serem replicados em futuros estudos e análises.

  O quadro abaixo sintetiza a pesquisa bibliométrica realizada pela autora nas bases de dados de publicação de trabalhos científicos (EBSCO, CAPES, Scielo e banco de Teses e Dissertações). Como se observará abaixo, alguns trabalhos já foram elaborados descrevendo o PAA e buscando avaliá-lo. Contudo, à exceção do trabalho de Andrade Júnior (2009) e de Guerra (2010) que analisam respectivamente o caso de uma cooperativa atendida pelo PAA e o programa no contexto do Programa Fome Zero, os demais tem seu foco deslocado do eixo da economia social e solidária e, portanto, não abordam os resultados junto às cooperativas.

  • – Produções científicas sobre o Programa de Aquisição de Alimentos Identificação da publicação Temas abordados

  Guilherme Delgado;

  Silva Guerra

  âmbito do Janaína da

  O programa de aquisição de alimentos no

  Artigo institucional x x

  Oliveira 2005

  Junia Conceição e Jader

  Avaliação do programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar

  CORRÊA, 2008; ANDRADE JÚNIOR, 2009) não permitindo generalizações mais amplas, ou uma análise de conjunto. Outro ponto importante é que os estudos foram realizados antes do programa completar dez anos, o que também influencia em termos de resultado de avaliação. Quadro 1

  2007 Dissertação x x x

  Ana Luíza Muller

  A construção de políticas públicas para a agricultura familiar: o caso do PAA

  D ados Q ua nt ita tivos

  Tipo Ec onom ia S oc ia l e S ol idá ri a C oope ra tivi sm o A gr ic ul tur a Fa m ili ar P ol íti ca s P úbl icas A va lia çã o

  Tít ul o A ut or /A no

  2010 Dissertação x x x emancipação ou compensação?

  O acesso da agricultura familiar brasileiras às políticas públicas: a evolução do

  Dissertação x x O PAA da agricultura familiar: o caso da cooperativa regional de pequenos produtores de

  Silvana Bragatto

  PAA: segurança alimentar e inclusão social no campo?

  2009 Dissertação x x x x

  Andrade Júnior

  Remy Corrêa de

  Mafra (COARPA)

  Corrêa 2008

  PAA Gustavo

  Cyntrão Medeiros

  Brasil Felipe

  PAA: uma comparação entre dois estados do

  2010 Artigo x x

  Lauro Mattei

  Artigo x x O PAA da agricultura familiar: antecedentes, concepção e composição geral do programa

  Viegas 2011

  2010 Tese x x x Diante disso, o método eleito para ser utilizado neste estudo é o quantitativo, com intuito de produzir dados relevantes e fidedignos, capazes de embasar e justificar decisões de governos e cooperativas em manter, reestruturar ou abandonar a política. Ademais da análise quantitativa, a partir dos resultados do ranking elaborado, naquelas cooperativas que obtiveram o melhor e o pior desempenho as análises serão complementadas com informações adicionais, contidas nos Planos de Desenvolvimento Institucionais (PDI), de modo a levantar alguns dos fatores mais subjetivos, como os históricos, políticos e culturais, as interações territoriais das cooperativas que corroboram para o desenvolvimento da cooperativa atendida pelo programa.

  1.4 ESTRUTURA DO TRABALHO Esta dissertação está estruturada em seis capítulos. O primeiro capítulo introdutório com a apresentação da problemática, dos objetivos e da justificativa da pesquisa.

  Os capítulos 2 e 3 apresentam a fundamentação teórica que embasou a construção do modelo de avaliação proposto neste trabalho. Essa fundamentação teórica se estrutura em torno de dois debates centrais: o primeiro refere-se à caracterização e delimitação do Novo Cooperativismo, no contexto da Economia Social e Solidária e busca em particular caracterizar os empreendimentos cooperativos ligados à agricultura familiar e os desafios para o seu desenvolvimento institucional. O segundo debate refere-se ao campo das políticas públicas e, mais especificamente, ao tema da avaliação de políticas e programas sociais e aos diferentes modelos e métodos para efetivar essa avaliação.

  No capítulo quatro são apresentados os procedimentos metodológicos, a definição das estratégias de pesquisa utilizadas, assim como o desenho da pesquisa e suas etapas; a descrição do contexto da pesquisa; a apresentação do modelo de avaliação; suas variáveis e indicadores.

  No capítulo cinco são apresentadas as análises obtidas pela autora baseada nos dados coletados. Estas análises estão subdividas entre uma apresentação geral dos dados em que são enfatizadas as distinções entre as cooperativas participantes do PAA e aquelas que ainda não participam, seguidas de considerações baseadas na análise dos Por fim, no capítulo seis são apresentadas recomendações e considerações finais às cooperativas e órgãos gestores com intuito de embasar as tomadas de decisão nas renovações dos contratos do PAA.

  Cooperar significa trabalhar em conjunto. Indica a atuação coletiva de indivíduos a fim de partilhar o trabalho necessário para a produção da vida social, sendo a cooperação o fundamento das relações econômico-sociais (JESUS; TIRIBA, 2009). A cooperação entre os seres humanos pode ser observada desde o período neolítico como uma forma de garantia da sobrevivência, por meio de ações intencionais orientadas para um objetivo. Objetivo comum este que inicialmente se traduzia na obtenção de alimentos (BÚRIGO, 2007; JESUS; TIRIBA, 2009).

  A cooperação coloca-se como o outro lado da competição:

  Ao contrário da competição em que um trabalhador ou um grupo de trabalhadores tenta maximizar suas vantagens em detrimento dos demais, a cooperação pressupõe coordenação dos objetivos coletivos para se atingirem objetivos comuns (JESUS; TIRIBA, 2009, p. 81).

  Segundo Namorado (2009), Jesus e Tiriba (2009) e Búrigo (2007), as ações humanas de forma cooperativa baseiam-se no princípio de que o aumento da capacidade de produção não é apenas a soma dos esforços individuais de cada um, mas sim decorre do efeito de uma força produtiva nova, construída da força social coletiva. Uma das formas na qual essa nova força social coletiva se expressa é o cooperativismo.

  O cooperativismo é uma realidade global e pode ser caracterizado como um movimento ou um setor. Como movimento o cooperativismo vem carregado de ideologias e com valores éticos e políticos imbricados em seu conceito (JESUS; TIRIBA, 2009; NAMORADO, 2009). Nesse sentido de movimento, o cooperativismo é, portanto, o conjunto de cooperativas existentes ligadas entre si por uma doutrina cooperativista, que compartilham uma mesma história e ainda comungam de uma mesma reflexão teórica sobre a realidade.

  Contudo, como pontua Namorado (2009), as cooperativas atualmente estão presentes e cada vez mais expandem-se em vários setores de atividades, com características e dimensões muito distintas, distribuídas em pequenos grupos artesanais de pescadores, agricultores, Aliança Cooperativa Internacional (ACI), no mundo são mais de 800 milhões de cooperados, responsáveis por 100 milhões de postos de trabalho.

  Para entender a composição do cooperativismo hoje, como afirma Cançado (2007) é importante resgatar a sua trajetória, analisando as diferentes transformações que o movimento e o setor cooperativista sofre ao longo do tempo e que influencia na sua configuração atual. É isso que buscamos fazer nesse capítulo, estabelecendo os contornos do conceito para entender melhor o fenômeno analisado nesta dissertação: o cooperativismo com base na agricultura familiar.

  2.1 BREVE HISTÓRICO DO COOPERATIVISMO Segundo Cançado (2007) o cooperativismo tem suas origens no século XIX, no contexto da Revolução Industrial. Nesse momento, o fenômeno é marcado pela luta contra a exclusão social e pela melhora das condições de vida e de trabalho (CANÇADO, 2007; CIRIEC, 2012; SANTOS 2012). Desde a constituição do movimento cooperativista, segundo os autores, ele se fundamenta na busca da superação das precárias condições de vida. Surge como uma forma alternativa de organização das relações capital e trabalho, tendo por foco a propriedade coletiva e a democratização das relações de trabalho.

  A primeira forma cooperativa experimentada teve origem nos esforços da comunidade de Rochdale, um bairro periférico de Manchester, na Inglaterra, no ano de 1844, com a criação de uma cooperativa de consumo. Nesta primeira experiência o contexto de exploração do trabalho e a luta por melhores condições são elementos de resposta para reação daquela população (CIRIEC, 2012; SANTOS, 2012). Como relatam os autores, os membros da cooperativa de consumo de Rochdale não desejavam apenas preços mais acessíveis aos alimentos, mas também lutavam por melhores condições de educação, moradia e o trabalho, ou seja, não queriam apenas uma cooperativa, uma instituição que os resguardassem apenas economicamente, mas sim, pretendiam uma comunidade fortalecida, instruída e capaz de gerar sua autossuficiência (MAURER JÚNIOR, 1966; BOCAYUVA, 2003; SCHNEIDER, 1999; CANÇADO, 2007).

  Logo em seguida da experiência inglesa, outros países europeus também deram início às suas experiências cooperativistas. Na França também cooperativas de crédito na Alemanha, ainda que estas tivessem origens menos populares. Elas eram empreendimentos de pessoas já estabelecidas socialmente e que pretendiam ampliar benefícios aos seus familiares e companheiros de trabalho (CANÇADO, 2007; SCHNEIDER, 1999).

  Em termos ideológicos, as primeiras experiências cooperativistas, segundo o relatório do CIRIEC (2012) e os estudos de Santos (2012) tiveram fortes influências socialistas, dentre as quais, se destacam as ideias de Robert Owen (afirma-se que 6 dos 28 trabalhadores fundadores da cooperativa de Rochdale tinham sido seguidores de Owen). Também houve influência dos ideais do socialismo utópico, do socialismo cristão e do liberalismo. Mais adiante Marx também se dedicou a estudar o fenômeno e após a expansão das atividades cooperativistas também os pensadores liberais neoclássicos como Stuart Mill e Walras passaram a analisar e influenciar o setor.

  Percebe-se que o cooperativismo se desenvolve em termos teóricos e práticos e ganha relevância na produção de resultados econômicos na Europa. Quando saltava aos olhos a pujança econômica do setor, seus ideais e práticas chegam ao Brasil, com a primeira experiência sendo baseada em uma cooperativa de crédito alemã. A tradição cooperativista aportou no Brasil junto com os imigrantes europeus aqui estabelecidos a partir do século XX (SINGER, 2003; CANÇADO, 2007). Desta forma Namorado (2009) afirma que não se pode entender o cooperativismo como um movimento exclusivamente operário, em todos os casos e desde seu início, muito menos, poder-se-ia afirmar que ele assim foi mantido.

  As cooperativas ganham espaço, ao passo em que crescem seus resultados e o que antes eram organizações completamente autônomas e independentes ganham o reconhecimento estatal e internacional como se comprova com a fundação da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), em 1895, e, posteriormente, com o avanço das legislações nacionais regulamentadoras do tema (Quadro 03), assim como com o surgimento de organizações intermediárias e representativas do setor em vários países.

  Com a expansão de seus ideais surgem novas necessidades, entre elas, a de abandonar a autogestão plena e de realizar investimentos em competitividade na disputa dos mercados (CANÇADO, 2007). As cooperativas que surgem em âmbito local, como é o caso emblemático competir em âmbito internacional. Grandes conglomerados cooperativos se formam no contexto global.

  Este cenário vai levando a um distanciamento entre as grandes e pequenas cooperativas. Tratando deste aspecto, Búrigo (2007, p. 29) destaca, “[...] de um lado ficam os grupos que veem as cooperativas como um espaço de desenvolvimento de empreendimentos comerciais dentro dos pressupostos da s ociedade capitalista”. De outro lado, segundo o autor, destaca- se “outro grupo que luta que luta pelo resgate dos princípios cooperativistas, capaz e promover as mudanças necessárias nas comunidades, com real potencial transformador da sociedade”.

  Para Namorado (2009) no cooperativismo existe uma marca genética do movimento operário, de luta contra a exclusão social e melhores condições de trabalho, porém a afirmativa de que as cooperativas foram utilizadas apenas ou predominantemente para este fim ou por esta classe social é um erro.

  Da mesma forma Cançado (2007) colabora com este entendimento. Para ele, com o crescimento e expansão das atividades cooperativas ocorre o abando da prática de autogestão, pois se antes exclusivamente os cooperados assumiam todas as atividades do empreendimento, desde a produção até a gestão, o que era uma característica marcante nas primeiras cooperativas, passa-se nas cooperativas maiores a precisar da contratação de funcionários. Além disso, este crescimento, como apontam Singer (2003) e França Filho (2002), começa a exigir contornos e estratégias competitivas com intuito de sobreviver e concorrer com o mercado capitalista tradicional.

  Laville (2009) contesta veementemente, que a ausência de autogestão seja vista como característica que desabone algumas das experiências cooperativistas. Segundo o autor, as experiências cooperativistas são variadas, e o emprego de mão de obra assalariada, não implica, por si só em não cumprimento do princípio de democracia na gestão destes empreendimentos. Esta utilização de mão de obra pode, pelo contrário, indicar uma maior profissionalização da gestão e maior independência dos empreendimentos, pois através desse emprego a cooperativa pode conquistar ainda com mais vigor os seus objetivos, sociais, políticos e econômicos, através do fomento à educação, da participação comunitária e ainda aumentando o retorno financeiro aos cooperados. capitalista. O que caracteriza as experiências associativas e cooperativas é a mudança incremental, complementar ao modelo capitalista. Isso significa, primordialmente, mudanças nas condições de vida dos atores envolvidos, além de difusão de valores e formas de organizações bem sucedidas que operam com princípios e formas organizativas não capitalistas.

  Em meio a este debate entre autogestão e profissionalização das cooperativas e entre revolução e ações incrementais de mudança em relação ao capitalismo surge a ACI:

  A constituição da ACI foi realizada em meio a um intenso debate entre duas correntes. Ambas acreditavam na transformação da sociedade através do cooperativismo, porém com diferenças de percepção de como se daria essa mudança. A primeira corrente, representando o cooperativismo de produção industrial e o cooperativismo agrícola defendia a transformação da sociedade se daria através das cooperativas e da abolição do trabalho assalariado, com os trabalhadores participando dos excedentes. A outra corrente liderada pelas cooperativas de consumo acreditava que as cooperativas de consumo iriam expandir-se e assumir progressivamente os setores produtivos industriais e agrícolas, com empresas sob seu controle, porém esta corrente defende a utilização do trabalho assalariado e a não participação dos trabalhadores nos excedentes (CANÇADO, 2007, p. 43).

  A diferença entre as duas visões é significativa, sobretudo no que concerne os conceitos e práticas de auto ou heterogestão

  1

  resume, Cançado (2007). Entretanto, anos mais tarde as cooperativas industriais e agrícolas - que resistiam ao crescimento, às mudanças incrementais e à heterogestão - acabaram por aderir à ACI.

  Esta adesão das cooperativas de certa forma respondeu ao impasse e deu origem a uma visão mais ampla do cooperativismo. Tal visão se expressa no conceito europeu mais abrangente de Economia 1 Social em que figuram as cooperativas: “organizations of people who

  

conduct an activity with the main purpose of meeting the needs of

people rather than remunerating capitalist insvestor s.” (CIRIEC, 2012,

  p.17) Essa breve análise da trajetória do cooperativismo no mundo permite constatar que os princípios e o próprio conceito de cooperativismo vai sofrendo alterações ao longo do tempo (CANÇADO, 2007). Essas alterações são sintetizadas no Quadro 2.

  Quadro 2

  • – Principais Modificações nos princípios cooperativistas desde o estatuto pioneiro de Rochdale Princípios Cooperativistas Estatuto de 1844 Congressos da Aliança Cooperativa (Rochdale) Internacional 1937 1966 1995 Paris Viena Manches- ter

  1. Adesão livre

  a) Princípios

  1. Adesão livre

  1. Adesão essenciais de (inclusive livre e fidelidade aos neutralidade voluntária pioneiros: política, religiosa,

  1. Adesão racial e social) Aberta

  2. Gestão

  2. Controle ou

  2. Gestão

  2. Gestão Democrática gestão Democrática Democrá- democrática tica

  3. Retorno Pro-

  3. Retorno

  3. Distribuição 3. rata das operações Pro-rata das das sobras: Participa- obrigações a) ao ção desenvolvimento Econômi- da cooperativa ca dos

  b) aos serviços Sócios comuns c) aos associados pro-rata das operações Investido Capital capital social mia e

  b) Métodos Indepen- essenciais de dência ação e organização:

  5. Vendas a

  5.Compras e

  5. Constituição 5. dinheiro vendas à vista de um fundo para Educação, a educação dos Formação associados e do e público em geral Informa-

  ção

  6. Educação dos

  6. Promoção

  6. Ativa

  6. Interco- membros da educação cooperação entre operação as cooperativas em âmbito local, nacional e internacional

  7.Cooperativiza-

  7. Neutralidade 7. ção Global política e Preocupa- religiosa ção com a comunida de

  Fonte: Cançado (2007, p. 45).

  Para Cançado (2007) e Schneider (1999) a partir das alterações feitas nos princípios cooperativistas no Congresso da ACI de 1995 as cooperativas passam a ser autônomas, independentes e responsáveis solidárias no desenvolvimento da comunidade em que estão inseridas. Desse modo, às dimensões econômicas e social acrescentou-se a dimensão política como uma preocupação no discurso cooperativista. Esta responsabilidade pelo desenvolvimento comunitário torna as cooperativas agentes ativas na mudança da realidade social em que estão inseridas, gerando assim um fortalecimento político dos empreendimentos (CANÇADO, 2007).

  O relatório CIRIEC (2012) também aponta para as mudanças advindas após a década de 1970 (época do “milagre econômico”) ao cooperativismo. Segundo o relatório, entre os anos de 1945 e 1975, as econômico esteve em perfeita harmonia com o Estado de bem estar social em que o próprio Estado dominou as cenas econômicas e sociais.

  Contudo, segundo os especialistas que elaboraram o relatório,

  2

  após esse período e com a crise Fordista , as associações, fundações, mútuas e cooperativas reapareceram com o objetivo também de dar respostas aos graves problemas causados pela crise. A preocupação com a comunidade, explícita na última reforma dos princípios cooperativos traz, segundo Cançado (2007) e CIRIEC (2012), o conceito de desenvolvimento sustentável da comunidade como inerente às práticas cooperativistas. Esta relação com a comunidade se faz central, pois por ser uma cooperativa de pessoas e não de capital, pode-se definir com clareza qual o território, o espaço geográfico que ocupam estas pessoas. Deste modo, a relação entre o funcionamento interno do empreendimento e a relação com o seu entorno passam a ser elementos considerados impactantes no desenvolvimento da cooperativa.

  Portanto, considera-se na definição de cooperativa adotado neste trabalho essas transformações ocorridas ao longo do tempo no conceito e nos princípios do cooperativismo, entendendo o fenômeno nas suas múltiplas dimensões econômica, social e política. Mais especificamente, adotamos neste trabalho a definição de cooperativa da ACI descrita como:

  Uma cooperativa é uma associação autônoma de pessoas unidas voluntariamente para prosseguirem as suas necessidades e aspirações comuns, quer econômicas, quer sociais, quer culturais, através de uma empresa comum e democraticamente controlada (ALIANÇA COOPERATIVA

  INTERNACIONAL, 2012, p. 1).

  Diante desse breve histórico, conceituação e delimitação do conceito, apresentamos a seguir um panorama do cooperativismo no 2 Brasil, para finalizar o capítulo explorando mais detalhadamente o grupo

  

Lipietz (1989) define o fordismo como um regime de acumulação intensiva de capital, baseado no consumo em massa que prevalece após a 2ª Guerra Mundial através de um sistema regulador monopostra, mormente, pelas de cooperativas aqui analisadas que compõe o que chamamos de “Novo Cooperativismo”.

  2.2 PANORAMA DO COOPERATIVISMO NO BRASIL No Brasil as cooperativas agropecuárias vinculadas à

  Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) compõem o grupo mais expressivo do setor, voltado, grande parte, para a produção em larga escala com foco, sobretudo, no mercado internacional. Segundo Cançado (2007) muitas destas cooperativas alcançaram grandes dimensões e utilizam amplamente a mão de obra assalariada. As grandes cooperativas agropecuárias brasileiras são responsáveis atualmente pela exportação de commodities como a soja, o café, o trigo e o leite, que possuem os preços avalizados e fixados pelo mercado internacional e ainda são responsáveis pelo superávit na balança comercial do Brasil e por uma parte expressiva do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

  Segundo dados da OCB no Brasil existem 6.643 cooperativas legalmente registradas e vinculadas a esta organização. Estas cooperativas são responsáveis por mais de 6% do PIB oriundo das diversas atividades por elas desenvolvidas: fabricação, comercialização e prestação de serviços. As cooperativas filiadas à OCB estão distribuídas por todos os estados da federação, com destaque para São Paulo, onde se encontram 911 cooperativas em funcionamento, o que corresponde a 13,7%, do total e Minas Gerais onde funcionam 772 cooperativas, 11,6% do total brasileiro. Santa Catarina aparece na 6ª colocação no ranking nacional quanto ao número de cooperativas instaladas em seu território. O estado possui 262 cooperativas, vindo após os estados de São Paulo, Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, da Bahia e do Rio de Janeiro (ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS, 2011).

  Segundo o relatório anual da Organização de Cooperativas de Minas Gerais (OCEMG) de 2011, o ramo de atividade que possuía, em 2010, o maior número de cooperativas no Brasil era o agropecuário.

  Somado às cooperativas de crédito, trabalho e transporte, representavam 70% do total de cooperativas brasileiras filiadas, uma soma de mais de 4.500 cooperativas.

  Em relação à geração de empregos e aos números de empregados, são ao todo mais de 300 mil postos de trabalho gerados em

  2011). Em Santa Catarina, os principais ramos são também os de crédito, agropecuário, saúde, seguido pelo de infraestrutura (ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE SASNTA CATARINA, 2012). Conforme atestam os dados apresentados pela OCEMG em 2011 e concluem os estudos de Cançado (2007) e Singer (2003) as cooperativas agropecuárias, de crédito e saúde são que mais empregam mão de obra assalariada no país, atuando sob um modelo de heterogestão.

  Contudo os dados revelam também que o número de associados nas cooperativas vinculadas à OCB ultrapassa a soma dos nove milhões de pessoas (ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS, 2011). Entre aquelas cooperativas que no último relatório mais possuíam associados estavam também as cooperativas de crédito, de consumo, as agropecuárias e as de infraestrutura, compondo desta maneira 90% do total de associados em cooperativas instaladas vinculadas à OCB.

  Comparando o relatório mineiro a outros menos recentes produzidos pela Organização das Cooperativas Brasileiras (2009), o cooperativismo brasileiro registrou uma queda de 8,4% no número de cooperativas, porém houve crescimento de 9,3% no número de associados e 8,8% no número de empregados em relação a 2008. Esses números resultam dos processos de aglutinação e incorporação de cooperativas umas pelas outras e da crescente profissionalização, com o consequente abandono da autogestão defendida por Cançado, (2007) e reforçado pelos estudos de Singer (2003).

  Quanto à legislação cooperativista brasileira (Quadro 3), percebe-se que esta tem como principal marco a Lei nº 5.764 de 1971, a qual ainda hoje é a principal legislação no campo. Esta legislação vincula o cooperativismo ao Estado, compreendido como principal responsável pela assistência técnica, incentivos financeiros e integração das atividades cooperativas. Essa legislação e a própria ação do Estado favoreceu o modelo cooperativista dominante no país e reflete-se na própria criação da OCB, enquanto órgão representativo. De fato a legislação atual é fortemente vinculada à OCB, exigindo, inclusive a filiação obrigatória das cooperativas ao órgão representativo.

  Porém, como ressalta Búrigo (2007), o setor cooperativista brasileiro não se resume às cooperativas filiadas à OCB. Tem-se ampliado muito as atividades cooperativistas fora do alcance da OCB, que o apresentado acima. Nesse sentido, destaca Pires (2004) que, em 2001, já indicava a existência de mais de vinte mil cooperativas registradas nas juntas comerciais do país.

  Quadro 3

  • – A trajetória da legislação cooperativista no Brasil A Trajetória da legislação cooperativista no Brasil 1844- Fundação da cooperativa de Rochdale, a primeira cooperativa do mundo, em Rochdale, um bairro da cidade de Manchester na Inglaterra. 1887- Fundação da primeira cooperativa no Brasil, a cooperativa de consumo dos empregados da Companhia Paulista das Estradas de Ferro. 1889- Foi promulgado o primeiro decreto brasileiro que regulamentava o funcionamento das “companhias cooperativas”. 1890-

  Um decreto autoriza a criação e funcionamento da “Sociedade

Cooperativa Militar do Brasil” e pela primeira vez se utiliza a terminologia “sociedade cooperativa” na legislação brasileira que

  assim a trata até hoje, 2013. 1891- A constituição republicana garante o direito à liberdade de associação, ensejando a formação de outras cooperativas, sobretudo cooperativas de consumo em área urbana. 1902- Fundação da primeira cooperativa de crédito no Brasil. Fundada no Rio Grande do Sul, na zona rural, incentivada pelo padre alemão Theodore Amstaldt.

  1907- Promulgação da Lei nº 1.637, que proporciona a primeira disciplina jurídica às cooperativas, caracterizando-as como sociedades de capital variável, de número não limitado de sócios, cujas ações, quotas ou partes não podiam ser cedidas a terceiros. Podendo ser revestida como sociedade anônima, em nome coletivo ou comandita simples. Não figurava, todavia a regra da obrigatoriedade do retorno à sociedade dos “lucros” obtidos das atividades por ela realizadas. 1938- O Decreto Lei nº 581 deixa nítida a filiação aos princípios de Rochdale. Estabelece “a distribuição de lucros ou sobras proporcionalmente ao valor das operações efetuadas pelo associado com a sociedade”

  1960- Nesta década as condições econômicas desfavoráveis causaram a liquidação de diversas sociedades cooperativas. 1966- O Decreto Lei nº59 estabeleceu a modalidade “cooperativa arrasada” como modo de sua liquidação e ainda proibiu, de modo expresso, que as cooperativas agropecuárias ou mistas recebessem ou adquirissem produtos para venda a terceiros e que participassem de sociedades empresariais tradicionais. O Conselho Nacional de Cooperativismo, presidido pelo ministro da agricultura e um fundo de natureza contábil denominado “Fundo Nacional de Cooperativismo”, destinado a prover recursos para apoio ao movimento cooperativista nacional, também foram regulados por este Decreto. 1969 - Fundação da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). 1971- É o ano de marco da consolidação do modelo cooperativista brasileiro, através da Lei nº 5.764o qual, ainda hoje em 2013, regula as sociedades cooperativas.

  

Fonte: Elaborado pela autora, 2013. Com base nos estudos de Bulgarelli, 2002,

Cançado, 2007, Schneider, 1999, Pinho, 1982.

  Pela magnitude do campo do cooperativismo no Brasil pode-se perceber que os empreendimentos cooperativos compõem um mesmo universo, o cooperativista, mas com características de porte e de funcionamento bem distintas. Isto significa dizer que sob o guarda- chuva do cooperativismo abrigam-se grupos distintos em termos de tamanho, princípios e estratégias e governança. Neste trabalho nos concentraremos num subgrupo específico caracterizado como “Novo Cooperativismo”, cujas características serão exploradas a seguir.

  2.3 DO COOPERATIVISMO TRADICIONAL AO NOVO COOPERATIVISMO

  O campo do cooperativismo no Brasil não é uno ou incontroverso. Pelos menos duas subdivisões devem ser pontuadas no cooperativismo brasileiro, o “Cooperativismo Tradicional” e o “Novo

Coope rativismo”. De uma forma geral pode-se afirmar que o caracteriza

  o primeiro grupo é o fato de ele atuar em ramos de atividade típicos de mercado, com níveis elevados de profissionalização, heterogestão, e com maior foco na viabilização econômica dos empreendimentos econômica, focalizam a melhoria das condições de vida dos indivíduos e a promoção do desenvolvimento local. Búrigo (2007) aborda essa diferenciação:

  De um lado, estão os grupos que veem as cooperativas como um espaço de desenvolvimento de empreendimentos comerciais dentro dos pressupostos da sociedade capitalista; por isso esses grupos desejam alterar os princípios do estatuto cooperativista, permitindo uma ampliação da base econômica das empresas cooperativas. De outro lado, estão grupos que consideram que o mais importante é resgatar os verdadeiros valores do cooperativismo, que estão se perdendo no mundo atual; estes acreditam no potencial transformador da cooperação cooperativista, sob o ponto de vista social; por isso lutam para que o cooperativismo não vire uma figura jurídica, destinada apenas a facilitar a acumulação capitalista. (BÚRIGO, 2007, p. 29).

  No que se refere à interlocução com o governo federal, cada um das subdivisões relaciona-se com o governo por meio de diferentes ministérios: o cooperativismo tradicional tem como seu principal interlocutor Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), e o novo cooperativismo dialoga mais com os Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e com o mais recente Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES).

  O cooperativismo tradicional, formado pelas cooperativas mais antigas e consolidadas, e na sua maioria vinculadas à OCB, tem o maior número de empreendimentos em atividade e também é responsável pela maior parte da divulgação de dados, artigos sobre o tema. É inegável a contribuição desse grupo para o cooperativismo brasileiro.

  Porém, principalmente nas últimas duas décadas um movimento de renovação do cooperativismo emerge no Brasil, dando origem a um novo grupo. Nesse cenário, cooperativas compostas, principalmente, por agricultores familiares, mas também por outras categorias como artesões, pescadores, pequenos comerciantes, etc., começam paulatinamente a questionar o modelo cooperativista predominante no caracteriza por focar a inscrição territorial dos empreendimentos e o fortalecimento da sua dimensão social e política, além de promover os princípios de autogestão, democracia e participação, fortemente inspirado nos princípios dos movimentos de Economia Social e

  Neste contexto de ampliação da representatividade do movimento cooperativista surge a União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES), a fim de garantir a representatividade destas cooperativas de menor vulto comercial, compostas de pequenos produtores e com rendimentos ainda pequenos. A UNICAFES nasce com o objetivo de fortalecer esse “Novo

Cooperativismo”. Enquanto organização representativa, pretende ser um instrumento para os agricultores e agricultoras familiares

  promoverem o desenvolvimento sustentável das cooperativas e para o fomento de ações de apoio técnico para os associados, com intuito de aumentar-lhes a renda e possibilitar-lhes uma vida mais confortável no meio rural (UNIÃO DAS COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2012).

  A UNICAFES se propõe a trabalhar com as cooperativas que estiveram mais marginalizadas em termos de acesso aos mercados, que administrem menores vultos econômicos e, principalmente, que trabalhem com a participação do pequeno produtor rural ou urbano. Desta forma, pretende não apenas a representação de seus filiados, mas também a inclusão social dos cooperados, articulando iniciativas econômicas que ampliem as oportunidades de trabalho, distribuição de renda, produção de alimentos, melhorias de qualidade de vida, preservação da biodiversidade e diminuição das desigualdades (UNIÃO DAS COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2012).

  A representatividade da UNICAFES, todavia, ainda é menos expressiva no cooperativismo nacional que a OCB. Ela ainda não se faz presente em todas as unidades da federação, possuindo apenas dezessete sedes nos estados. Segundo os dados divulgados pela própria 3 organização, existem aproximadamente 1.100 cooperativas filiadas à

  A Economia Social e Solidária pode ser definida como um componente específico da economia, ao lado das economias de mercado e pública, que

  UNICAFES e estas estão divididas em cinco atividades: crédito, produção, trabalho, comercialização e infraestrutura da agricultura familiar e economia solidária.

  Como citado, a interface com o governo federal deste novo

  4

  grupo é principalmente o MDA , criado em 2003. Este ministério é encarregado pela grande maioria das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. O MDA surgiu com o foco na reforma agrária, portanto com o dever de dialogar e aproximar os pleitos dos movimentos sociais e do governo federal (BRASIL, 2012).

  O grupo de cooperativas que se inserem no “Novo

Cooperativismo” também tem se aproximado do movimento da

  Economia Social Solidária (ESS) no Brasil. A ESS é amplamente difundida e discutida na Europa, por enfatizar a interface das dimensões econômica, social e política de empreendimentos cooperativos, promovendo transformação e inovação social. Porém, no Brasil o debate da ESS traz particularidades ao privilegiar os princípios marxistas e a autogestão, adquirindo assim um componente ideológico muito acentuado.

  No Brasil Singer (2003) é a figura central desse debate. Além de teórico da Economia Solidária ele atou como Secretário da SENAES, impulsionando a política e os programas de incentivo a expansão da ESS no Brasil. Contudo, o viés claramente marxista dos seus argumentos, apresentando a ESS como um modo de produção alternativo ao capitalismo, contrapõe-se às discussões e debates de autores europeus como Barea Tejero e Monzón (2002), Chaves (2006), Laville (2009), e também brasileiros como Andion e Serva (2006) e Santos (2012).

  Para além do debate no campo teórico, o movimento de ESS ganha força e visibilidade no Brasil com a criação, no ano de 2003, da 4 SENAES, junto ao MTE e cujo primeiro secretário foi Paul Singer.

  

O MDA desenvolve uma série de programas de governo, sobretudo, aqueles

com intuito de reduzir a pobreza e outros focados no meio rural,

proporcionando através destes programas a melhoria das condições de produção

e da qualidade de vida do agricultor familiar. Dentre os seus objetivos

destacam-se o fomento à ocupação produtiva das terras, a melhoria ou ainda a

geração de renda dos pequenos produtores, por meio do apoio e fomento às

atividades cooperativistas de pequeno porte (BRASIL, 2012). É de

  Segundo o movimento da ESS brasileiro, os empreendimentos estruturam-se para que os trabalhadores possam gerir seu trabalho e lutar pela sua emancipação. São, entre outras, iniciativas de projetos produtivos coletivos, cooperativas populares, redes de produção, comercialização e consumo, instituições financeiras voltadas para empreendimentos populares solidários, empresas autogeridas, cooperativas de agricultura familiar e cooperativas de prestação de serviços (BRASIL, 2012).

  Segundo Singer (2003) e Santos (2012), o movimento da ESS já vinha ocorrendo desde a década de 1980, quando algumas experiências de empresas autogeridas começaram a surgir. Estes novos modelos emergem nas últimas décadas como uma resposta popular bem sucedida à fragilização do modelo tradicional de relação capitalista de trabalho, como o aumento da informalidade dos contratos de trabalho e até uma conjuntura de desemprego em massa.

  Segundo o MTE, em 2007 existiam 21.859 mil empreendimentos de ESS no Brasil, sendo que quase a metade deles, 9.498 mil, está localizada na região Nordeste do país. A região Sul ocupa a terceira posição, com 3.583 mil empreendimentos solidários. Este mesmo levantamento aponta ainda, que em Santa Catarina existem 45 empreendimento cooperativos que se inserem na ESS, atuantes em diversos setores, mas principalmente os de crédito e da produção agropecuária.

  Um dado preocupante é o retorno financeiro destes empreendimentos aos seus associados. Dos empreendimentos localizados na região Sul, 60% rendem apenas até um salário mínimo mensal aos seus associados, sendo que destes 60%(mais da metade) não atinge meio salário mínimo, ou seja, menos de R$ 300,00 (trezentos reais) por mês por cooperado (BRASIL, 2012).

  Essa breve descrição permite evidenciar as subdivisões no campo cooperativismo nacional. Um primeiro grupo formado pelo cooperativismo tradicional se aproxima mais do modelo de empresa, voltado à eficiência e à lógica de mercado. Já no segundo, do “Novo cooperativismo”, que engloba as formas de produção mais próximas da idéia de ESS, encontram-se empreendimentos menores e mais imersos no território, que focalizam a sustentabilidade dos empreendimentos, a melhoria da qualidade de vida das famílias que participam destes e a promoção do desenvolvimento local (CANÇADO, 2007; OLIVEIRA,

  Entretanto é importante ressaltar que na prática a realidade não é tão dicotômica assim. Do mesmo modo que existem diferenças entre subgrupos, os mesmos se relacionam e interagem, compondo a dinâmica econômica, social e política dos territórios onde atuam. Além disso, as características elencadas não são tão demarcadas em alguns casos, podendo-se observar cooperativas que possuem características de ambos os grupos.

  Como destaca Sales (1998) as disparidades e disputas entre os grupos distintos de cooperativas não é novidade. Pelo contrário, já esteve presente na discussão da ACI, que ocorreu em Manchester no ano de 1995. Segundo ele, nesse congresso foram discutidos os princípios cooperativistas e dada principal ênfase ao controle democrático das cooperativas, que se traduz pela máxima “um homem, um voto”, pois alguns dos presentes pretendiam dar mais peso às opiniões daqueles sócios que detinham maiores investimentos econômicos nas cooperativas. Contudo a tese não venceu.

  Laville (2009) e França Filho (2002) acrescentam e pontuam a diferenciação entre os dois grupos de cooperativas no que se refere à dimensão política do empreendimento, ultrapassando então as dimensões exclusivamente econômicas ou sociais pretendidas pelo grupo do cooperativismo mais tradicional. Segundo os autores, a ênfase no agir democrático enfatiza um processo emancipatório, em que o cooperado passa a ser protagonista, modificando sua história pessoal e promovendo o desenvolvimento comunitário. Assim, enquanto o cooperativismo tradicional focaliza as dimensões econômicas e sociais dos empreendimentos, o “Novo cooperativismo” acrescenta a elas uma dimensão política que visa a promoção de transformação social, seja ela mais ou menos radical, e aqui está a maior diferença entre os argumentos de alguns dos pesquisadores brasileiros e europeus que tratam do tema.

  Cabe ressaltar ainda a afirmação de Carvalho (2010) de que o “Novo cooperativismo” ainda é uma experiência em aberto, guardando características próprias em cada país ou ramo de atuação, apresentando inclusive dificuldade e contradições. Porém, pode-se considerar, com base no breve histórico e na descrição feita do campo no Brasil, que mais do que o que caracteriza o campo do “Novo cooperativismo” é menos a sua forma jurídica ou ainda seus princípios ideológicos, e mais a sua tripla inscrição na dimensão social, econômica e política. Neste Europa, se inserem novos princípios ligados à dimensão política dessas iniciativas, dando sentido ao adjetivo “Solidária”. A seguir, exploramos mais detalhadamente o conceito de ESS enquanto abordagem teórica para compreensão do fenômeno do “Novo cooperativismo”.

  2.4 A ECONOMIA SOCIAL E SOLIDÁRIA COMO ABORDAGEM TEÓRICA P

  ARA COMPREENDER O “NOVO COOPERATIVISMO”

  Andion e Serva (2006) ao analisarem o campo da ESS no Brasil afirmam que o termo “economia social” não é tradicionalmente utilizado no país. Segundo os autores, não há atualmente uma visão dominante sobre as organizações que compõe o campo ou ainda sobre o seu papel social. Os mesmos autores, entretanto, enfatizam que as organizações que atuam na interface entre mercado e sociedade compõem um fenômeno crescente e já expressivo, tanto no meio acadêmico, como na prática. Embora já possamos afirmar que exista um campo científico que se interessa pelo estudo dessas organizações no país, os autores afirmam que essas ainda são “emoldurados sob vários rótulos e conceitos, como, por exemplo, economia social e terceiro setor” (ANDION; SERVA, 2006, p. 7).

  Porém, no âmbito internacional e especialmente na Europa, a literatura sobre ESS é bastante vasta. Defourny (2009, p. 156), um dos principais autores representativos do campo, define sumariamente os empreendimentos da ESS como uma “sociedade de pessoas que busquem democracia econômica associada à utilidade social”.

  Defourny (2009) descreve as atividades de ESS como aquelas em que são dadas importância à combinação do modo de produção privado, coletivo, com finalidades públicas e não centradas no lucro. O autor afirma ainda, que o conceito de solidariedade pode ser facilmente agregado à definição da Economia Social, podendo ser equivalente chamar a Economia Solidária de Nova Economia Social ou de ESS.

  Seguindo os mesmos argumentos, Laville (2009) aponta para a 5 relação entre os conceitos e práticas de Economia Social e Solidária

  Segundo Defourny (2009) a Economia Social tem como principais

princípios: (1) A finalidade de serviços aos membros, mais do que o lucro; (2) afirmando, que a Economia Solidária, e suas recentes manifestações, prolongam e renovam a Economia Social tradicional, oferecendo propostas concretas para uma outra economia em um período de crise capitalista por meio de iniciativas simultaneamente políticas e econômicas.

  O relatório CIRIEC (2012) colabora no esclarecimento das relações entre Economia Social e Economia Solidária. Segundo o relatório, o termo Economia Solidária é utilizado principalmente na França e na América Latina, trazendo em seu bojo a necessidade de suprir carências sociais e de promover transformações sociais. Considera, portanto, que a expressão Economia Social engloba o conceito e as experiências de Economia Solidária, não sem antes atentar para o que já explicitado neste trabalho: que na perspectiva latino- americana estes empreendimentos são tidos como alternativas ao capitalismo e com tendências marxistas, enquanto na perspectiva europeia as experiências dela derivadas são compatíveis com a ideia de mercado capitalista.

  Nesta perspectiva Laville (2005) pontua que as organizações do campo da ESS são iniciativas simultaneamente econômicas, sociais e políticas, apresentando especificidades em cada uma delas. Na dimensão econômica, o autor destaca no predomínio dos princípios de reciprocidade e do engajamento mútuo:

  Esse laço social constitui um impulso reciprocitário para emergência das práticas econômicas. Assim, não é acordo contratual fundado sobre o interesse que anima, mas a visão de uma produção e distribuição de bens ou serviços submetidos à arbitragem democrática (LAVILLE, 2005, p. 253).

  O autor ressalta também a hibridação de diferentes tipos de recursos nos empreendimentos de ESS. Além dos recursos reciprocitários iniciais (como o engajamento voluntário, por exemplo), são mobilizados também recursos públicos e de mercado por essas iniciativas, pois elas recebem financiamentos e também desempenham atividades produtivas que se inserem numa economia mercantil. Desse modo, segundo o autor a ESS “ativa os recursos de uma economia plural, mantendo os três componentes e os misturando de forma variável Por outro lado, a dimensão social se expressa, segundo o autor, pela busca de uma integração social, por meio de uma ação democrática. Os empreendimentos solidários são, em geral, formados por um conjunto de atores que se unem para promover um projeto político em comum. Neste sentido, as dimensões social e política se inter- relacionam, numa perspectiva não apenas filantrópica, que visa combater os problemas de “desafiliação”, mas também às injustiças sociais, como a falta de reconhecimento e a pobreza. Desse modo, as iniciativas de ESS se constituem como espaços públicos, nos quais projetos comuns de transformação da realidade social são construídos e colocados em prática.

  Assim, numa concepção mais ampla de ESS pode-se definir o campo não apenas pelas características internas dos empreendimentos (democracia, autonomia de gestão e primazia das pessoas e dos objetivos sociais sobre o lucro), mas também a partir das suas finalidades: “sua vocação consiste em dar repostas reais às necessidades básicas da população e resolver os problemas substantivos destas” (CHAVES; MONZÓN, 2001, p. 14).

  Em síntese, as características da ESS podem ser resumidas como:

  (1) Primazia das pessoas e da função social do trabalho em detrimento do pensamento de capital, (2) as pessoas que trabalham são as donas dos empreendimentos; (3) a adesão é voluntária e aberta com controle democrático de todos os seus membros, desde a base; (4) há uma confluência dos interesses dos membros, dos usuários e da população em geral; (5) defesa e aplicação dos princípios de solidariedade e de responsabilidade; (6) autonomia da gestão e independência dos poderes públicos; (7) aplicação dos excedentes ao fim social mediante redistribuição segundo o desejo dos membros para a criação de novos empregos, novas atividades, ou de novas empresas, redistribuição do capital investido, serviços aos membros, atividades culturais etc. (BAREA TEJEIRO; MONZÓN, 2002, p. 20).

  Neste sentido, conclui-se que a ESS é aquela que agrupa famílias e da comunidade. Os excedentes (lucros) não são apropriados pelos donos, ou pelos poucos que dominam ou financiam a produção. As organizações são criadas para atender demandas sociais e também satisfazer as necessidades de seus associados, assegurando a distribuição de benefícios e a descentralização na tomada de decisão (BAREA TEJEIRO; MONZÓN, 2002).

  As cooperativas, como conceituam Barea Tejeiro e Monzón (2002) e Defourny (2009) são as formas jurídicas mais tradicionais e mais fáceis de distinguir no campo da ESS. Segundo esses autores, elas de fato promovem na sua atuação uma interface entre as dimensões econômica, social e política. Econômica pela geração de renda aos membros e resultados, materializados pelos lucros das atividades que são distribuídos aos membros, de acordo com os princípios cooperativistas, como também reinvestidos no negócio. Social, pois promovem a inclusão dos membros na sociedade; política, pela própria interação entre os membros, além da capacidade de inovação e transformação das comunidades e territórios nos quais atuam, como descrito por Laville (2009).

  Porém o campo da ESS vai mais além das cooperativas e inclui outros formatos jurídicos e organizacionais. Como afirma Defourny (2009), a ESS tornou-se ao longo do tempo uma árvore com muitas ramificações. Buscando dar conta dessa diversidade, Chaves (2006) e o relatório da CIRIEC do ano de 2012 expõem que o campo da ESS está divido em dois subsetores: o de mercado e o de não mercado, fato que contribui para a multiplicidade de denominações, como salientado por Andion e Serva (2006).

  O subsetor de mercado integra as organizações que tem como objetivo principal a solução dos problemas e a satisfação das necessidades de seus sócios, não sendo fundamental que o benefício produzido transcenda aos seus membros (CIRIEC, 2012), como no caso das cooperativas tradicionais. Contudo, reforça Chaves (2006), é primordial que as organizações de ESS participantes do setor de mercado respeitem os princípios de “uma pessoa, um voto” e da distribuição de resultados não relacionadas ao capital investido pelos sócios, mas correspondente aos trabalhos desenvolvido pelos sócios. O setor de não mercado da ESS, por outro lado é composto pelas instituições privadas, sem fins lucrativos (CHAVES, 2006; CIRIEC, 2012), como é o caso das fundações e das associações. Tradicionalmente empreendimentos são fundados para assistência para aos excluídos, pelo trabalho voluntário ou ainda para prestação de serviços ou a defesa de direitos. Os beneficiários delas são em geral terceiros, externos às atividades, (ANDION; SERVA, 2006; CIRIEC, 2012).

  Este trabalho concentra-se na análise das cooperativas que compõem o subsetor de mercado, definidas acima, e que se inserem no que denominamos de “Novo cooperativismo” no quadro da ESS. Neste sentido, em seus princípios elas incluem não apenas os critérios tradicionais do cooperativismo, mas também agregam valores de não mercado, como a solidariedade entre os membros, buscando desenvolver a dimensão política dos empreendimentos.

  Mais especificamente, quando considera-se as cooperativas de pequeno porte ligadas à agricultura familiar estudadas neste trabalho, tem-se em vista as particularidades da ESS na América Latina, como levantadas por Laville (2009, p. 167). Neste caso, uma das questões questão primordiais da dimensão política da ESS é “assegurar as condições materiais indispensáveis à sobrevivência daqueles que jamais foram efetivamente integrados à economia de mercado”, incluindo, deste modo, as populações por meio da geração de emprego e renda e garantindo a elas o gozo mínimo aos direitos sociais.

  O modelo de superação da exclusão social e de busca da dignidade dos cidadãos marginalizados é de fato um viés bastante adotado na perspectiva de ESS no Brasil. Essa perspectiva está bem evidenciada nas elaborações teóricas mais difundidas como as de Singer (2003) e também embasa grande parte das políticas e dos programas voltados para o incentivo da ESS no Brasil

  Esses novos espaços da esfera pública, criados e atuantes por meio das iniciativas de ESS, afirmam Laville (2009) passam a ser novos atores da solidariedade, pois criam espaços nos quais vai se legislar e criar condições públicas a favor da maior igualdade social. É nesse empenho que se verifica hoje o empenho do governo federal por meio do PAA e de outras políticas. Entretanto, o PAA está focado num tipo especifico de “Novo Cooperativismo”, aquele de base na agricultura familiar, que além das características ressaltadas acima tem também outras particularidades que devem ser consideradas. Isso será discutido no próximo tópico.

  2.5 O COOPERATIVISMO DE BASE NA AGRICULTURA FAMILIAR

  Produzir e ser autossuficiente na produção de alimentos é fundamental para garantir a soberania de qualquer país, pois a falta deste pode acarretar na dependência de outras nações para a mais básica das necessidades, o fornecimento de comida para o povo (BROWN, 2013). Apesar de alarmante o autor não descarta a possibilidade de faltar comida nas próximas décadas em todo o mundo. Em face disso, conforme induz o autor, garantir a produção de alimentos é uma questão estratégica para o país.

  Os dados brasileiros oficiais do último censo agropecuário, do ano de 2006 são cabais em afirmar: é a agricultura familiar que garante comida na mesa dos brasileiros. Os produtos vegetais mais tradicionais como feijão e mandioca, têm mais de 70% da sua produção advinda da agricultura familiar, já outros produtos como, milho, trigo e arroz, superam os 30% da produção oriunda de produtores rurais familiares. Além disso, o consumo de aves, suínos e bovinos também dependem dos mesmos produtores, consumando assim a origem de 70% dos produtos disponíveis na mesa dos brasileiros diariamente (IBGE, 2006).

  A agricultura familiar é um modo específico de produção rural. Segundo Abramovay, (1998) e Andrade Júnior (2009) este modo se caracteriza pelas pequenas propriedades rurais, pela utilização de mão de obra exclusivamente da família (família por consangüinidade ou constituída através do casamento) e ainda pela variedade ou rotatividade de culturas, vendidas in natura, na maior parte das vezes. Os mesmos autores ainda discorrem sobre os desafios deste modelo de produção, que residem principalmente na dificuldade de sucessão das propriedades e nos entraves à comercialização e escoamento da produção, conclusões estas, que são endossadas por Búrigo (2007).

  Desta forma, alertam que a produção através da agricultura familiar, a grande responsável pela produção de alimentos, pode estar ameaçada, conforme os estudos de Friedmann (1978) e Muller (2007). Se de um lado há uma grande responsabilidade da agricultura familiar na produção de alimentos no país de outro lado, é evidente a dificuldade de manutenção da atividade familiar no campo.

  Não é de hoje que se tem notícia de que o meio rural está envelhecendo. É comum escutar que apenas os mais velhos permanecem IBGE relativos ao ano de 2003 conforme a tabela abaixo que divide o total da população rural por faixas etárias: Tabela 1

  • – Faixa etária da população residente no campo em 2004

  Faixa etaria Percentual Menor de 25 anos 3% 25 a 35 anos 14%

  35 a 45 anos 22% 45 a 55 anos 23% 55 a 65 anos 20%

  Maior de 65 anos 18% Fonte: IBGE (2004). Desta situação decorre a citada dificuldade de sucessão. Tradicionalmente, as propriedades rurais familiares eram transmitidas por hereditariedade, passadas de pais para filhos. Os filhos ajudavam os pais no campo e depois herdavam aquelas terras para continuar produzindo. Essa lógica pautada na família, por muito tempo funcionou, contudo com as novas informações e os atrativos das cidades aos jovens, esses tendem a não permanecer no campo (BÚRIGO, 2007; MULLER, 2007). Concentram-se fora do meio rural as melhores oportunidades de trabalho e de remuneração, além do estudo e de do lazer, o que acaba atraindo os jovens para as cidades, produzindo o esvaziamento do campo (BÚRIGO, 2007; FRIEDMANN, 1978; MULLER, 2007).

  Frente a esse cenário faz-se necessário observar alguns dos condicionantes da dificuldade de sucessão dos empreendimentos familiares e de abandono do campo, para atuar na mitigação desses fatores, evitando as suas consequências. Entre esses se destacam: a baixa remuneração das propriedades, consequentemente do trabalho rural citado por Abramovay (1998), Friedmann (1978) e Muller (2007); as poucas oportunidades e opções de lazer; a dificuldade no acesso à educação profissional; e o baixo reconhecimento social (status social) da atividade (ANDRADE JÚNIOR, 2009; CORRÊA, 2008; MULLER, 2007).

  O gargalo desta situação de êxodo rural concentra-se na baixa remuneração das atividades, dificuldade esta que pode ser originada pelo segundo problema principal elencado por Abramovay (1998) e Andrade retorno econômico das propriedades ocorre, sobretudo, porque entre a colheita, feita pelo produtor, e o efetivo consumo dos alimentos, existem pelo menos três instâncias comerciais: o atravessador, o comerciante atacadista e o comerciante varejista. Além disso, ocorre também a venda

  

a priori para as agroindústrias que transformam os produtos e

  consequentemente agregam valor ao mesmo. Este acréscimo, contudo é algo distante do produtor rural, pois não é a ele revertido, mas sim acumulado pela agroindústria.

  Vale ressaltar ainda, que a cada ponto deste trajeto (atravessador, varejista e atacadista) o alimento ganha um novo preço criando assim a disparidade entre o valor recebido pelo produtor e o pago pelo consumidor. Uma das formas eleitas para superar estas várias etapas comerciais do produto é a criação de cooperativas. Através das cooperativas, os agricultores familiares têm conseguido maior facilidade de escoamento de sua produção, superando, em regra, pelo menos um dos estágios da comercialização de seus produtos, o atravessador. A opção por cooperativas tem estimulado também a criação de agroindústrias ligadas as próprias cooperativas, as quais agregam mais valor ao produto possibilitando a prática de preços mais competitivos e aumentando a renda das famílias agricultoras por consequência, já que são também as proprietárias daquela agroindústria (ANDRADE JÚNIOR, 2009).

  As cooperativas de produção familiar, de modo geral, inserem- se no “Novo cooperativismo” brasileiro explorado acima. Conforme explorado anteriormente, o “Novo Cooperativismo”, no quadro da ESS, compreende empreendimentos que além da dimensão econômica, levam em consideração no seu funcionamento as dimensões sociais e políticas, pretendendo promover transformações sociais no território e na região em que atuam.

  Estas duas dimensões política e social, para além da econômica, surgem, principalmente, pela necessidade de combater ou mitigar alguns dos problemas diagnosticados no meio rural por Abramovay (1998), Friedmann (1978) e Muller (2007). Dentre eles destacam-se o acesso ao lazer, à cultura, à educação, ou seja, expandir ao meio rural os confortos possíveis da vida moderna e permitir que o campo seja uma possibilidade atraente para os jovens, possibilitando a sucessão das atividades e a garantia do alimento nas cidades.

  Vale ressaltar que ademais de melhorias nas condições de vida para que muitas nações reduzam os custos globais da atividade agrícola, viabilizando economicamente as unidades produtivas, especialmente as de tipo familiar.” (BÚRIGO, 2007, p. 24). Desta forma, concluiu o autor que as cooperativas são peças importantes nas estratégias governamentais para a promoção do desenvolvimento rural.

  É exatamente para este subgrupo, do “Novo Cooperativismo baseado na agricultura familiar que surge o PAA, uma política pública do governo federal. Demonstra assim, o reconhecimento por parte dos governantes da posição ocupada pela agricultura familiar, reconhecendo o tema como estratégico para o país. O PAA atua na promoção da comercialização dos produtos dos agricultores familiares em duas frentes: (1) através da garantia de compra institucional, diretamente das cooperativas sem qualquer atravessador, garantindo melhores preços aos produtores familiares rurais; (2) por meio da distribuição dos alimentos diretamente na região, tornando a região produtora também uma região consumidora, aproximando os dois polos (produtor e consumidor) e diminuindo com isso a estrutura necessária para a comercialização e os custos, sobretudo com o transporte do produto.

  Resta agora perguntar: será que esses objetivos estão sendo atingidos? Em que medida o PAA vem fortalecendo o cooperativismo de agricultura familiar e, com isso, promovendo mudanças na dinâmica no meio rural? Para responder essas perguntas desenvolveu-se um modelo e uma metodologia de avaliação de resultados do programa. Trata-se então do tema da avaliação de políticas e programas públicos, bem como da construção do modelo para isso nos próximos capítulos.

  Como afirmam Worthen, Sanders e Fitzpatrick (2004), não há entre os estudiosos do tema uma única definição de avaliação que seja unanimidade. Avaliação, segundo eles, é uma palavra que tem sido empregada em vários sentidos. Uma definição que é bastante utilizada e referenciada é aquela estabelecida por Scriven (1967) que define avaliação como o ato de julgar o valor ou mérito de alguma coisa. Nesse sentido, como exploram os autores, é preciso estabelecer critérios defensáveis e considerados válidos e legítimos para expressar esse valor ou mérito, seja em termos de qualidade, utilidade, eficácia ou importância do objeto avaliado.

  Com esse objetivo elabora-se esse capítulo, de modo a obter os subsídios para construção do modelo e da metodologia de avaliação do PAA, objeto desse estudo. Desse modo, inicia-se explorando o conceito de política pública utilizada nesse trabalho, para em seguida discutir mais detalhadamente os ciclos do PAA, para finalizar com a temática da avaliação de políticas e programas públicos: seus princípios, estratégias e metodologias disponíveis. Desse modo, espera-se evidenciar, juntamente com as considerações feitas no capítulo precedente, quais os parâmetros que utilizamos para construir o modelo e a metodologia de avaliação apresentada neste trabalho e detalhada no capítulo seguinte.

  3.1 CONCEITUANDO POLÍTICA PÚBLICA Para efeito desta dissertação, o conceito de política pública adotado será aquele definido por Howlet, Ramesh e Perl (2009, p. 9) que a definem como: “decisões tomadas por governos que definem um

  objetivo e determinam os meios para alcançá-las

  ”. A opção por este conceito, entretanto não pretende desprestigiar a análise destes mesmos autores, que também propõem e citam outros conceitos, alguns mais funcionais, outros mais aplicados ou mais técnicos.

  Na concepção mais clássica, por exemplo, defendida por Dye (1972), as políticas públicas existem para a resolução de problemas trazidos a público e que são manifestações das decisões, das vontades governamentais consistentes e deliberadas. Tal concepção também será considerada na presente análise, embora se tenha claro que estas decisões manifestadas não sejam compostas apenas por uma decisão, cumulativamente para os efeitos, ou seja, para a solução do problema pretendido.

  Além de conceituar política pública, faz-se necessário descrever suas características. Deste modo Lowi (1964) expõe três tipologias às quais se enquadram as políticas públicas, as políticas distributivas, as redistributivas e as regulatórias.

  A política pública definida como distributiva é o modelo mais tradicional, segundo o autor. Nela, o grupo beneficiário dos programas ou projetos é bem especifico em contraponto com seu patrocínio, que é difuso, ou seja, os tributos pagos por todos. As políticas distributivas são definidas da mesma forma por Guerra (2010) como aquelas que apenas um grupo é beneficiário, mas os tributos são pagos por todos. Essas políticas se justificam, pois com elas se buscam, além de um benefício para aquele grupo, um ganho mais amplo, para todo o coletivo, ainda que pouco palpável, como: a diminuição das desigualdades sociais, a redução de êxodo rural, da violência, entre outras melhorias coletivas. Um dos limites de se editar indiscriminadamente este tipo de política, apresentados por Lowi (1964), é que ela pode servir para cooptar, manipular o grupo que é atendido ou ainda lhe causar dependência.

  Já as políticas públicas de caráter redistributiva ocorrem de outra maneira: o grupo que patrocina e os beneficiários são determinados (SECCHI, 2010). Retira-se de alguns para redistribuição aos mais carentes. Destaca-se que na política distributiva existem muitos interesses em questão, muitos grupos disputando os recursos e as atenções públicas, fato que não ocorre nas redistributivas em que se diferencia a população entre ricos e pobres, havendo, portanto mais claras coalizões (LOWI, 1964).

  Já a política pública de tipo regulatória é aquela que fixa leis, normas e procedimentos para o funcionamento de órgãos e serviços públicos, o público alvo deste tipo de política são setores específicos internos do serviço público e não grandes grupos sociais como acontece nas demais políticas. É este tipo de política que inclusive regula o funcionamento das demais políticas. Ela está relacionada à criação de legislação (SECCHI, 2010).

  Contudo, a grande contribuição de Lowi (1964) para a análise das políticas públicas não é a subdivisão em tipologias, mas a explanação de que estas tipologias de políticas públicas podem ser cumulativas, e não contraditórias como era anteriormente feita este tipo uma combinação delas pode estar presente em uma mesma política ou programa.

  O PAA, programa em análise nesta dissertação é exemplo desta combinação de tipologias. Ele é um programa muito abrangente de caráter nacional e que apresenta tanto características regulatórias, haja vista sua edição através de Medida Provisória transformada em lei, como também possui caráter distributivo e redistributivo.

  O caratê distributivo do PAA fica claro no grupo de beneficiários. O grupo é bastante específico: as entidades de assistência social e os pequenos produtores rurais, pescadores artesanais, quilombolas, assentados, entre outros já citados. Todavia, o patrocinador é difuso, são todos os contribuintes brasileiros, por meio dos recursos que provém de dois Ministérios (do Desenvolvimento Agrário e do Social). De outro modo, pode-se afirmar que os grandes produtores rurais, que antes vendiam para o governo com intuito de abastecer as instituições públicas e fazer estoques públicos foram diretamente prejudicados, portanto “pagam a conta” da política, de modo que ela se torna redistributiva, acirrando desta forma disputa de interesses e formando coalizões bastante claras na discussão da política.

  3.2 POLÍTICA PÚBLICA NA PRÁTICA: OS CICLOS DA POLÍTICA

  No âmbito da aplicação, as políticas públicas tem sua constituição e existência explicada por um ciclo composto de cinco estágios: montagem da agenda, formulação da política, tomada de decisão, implementação e, por fim, a avaliação (HOWLET; RAMESH; PERL, 2009).

  É importante salientar, como faz Secchi (2010), que os limites entre os estágios não são claros. Eles, por vezes, não ocorrem em sequencia, são realizados em outra ordem, ou ainda alguns estágios são omitidos. Considerando estes estágios, conforme definido como objetivo específico desse trabalho, apresenta-se a seguir uma descrição da trajetória do ciclo do PAA.

  Essa trajetória será considerada como um pano de fundo, permitindo que algumas considerações relevantes para este estudo sejam feitas. A formação da agenda refere-se à maneira como o problema público chega e passa a ser identificado pelo governo. Esta identificação não é algo mecânico, de modo que um problema apareça e imediatamente seja formulada uma solução. De fato, o problema existe e persiste, muitas vezes por anos e séculos, e só depois alguma atenção especial é dada a ele.

  No caso do PAA, pode-se dizer que alguns problemas que o programa pretende responder, como a questão fundiária e de distribuição das terras para produção agrícola no Brasil, são problemas que persistem desde o século XIX. Já em 1850 eram discutidas as leis de terras no Brasil (CORRÊA, 2008). A própria existência do Movimento Sem Terra há mais de três décadas demonstra que o problema não é atual. A agricultura familiar também é reconhecida como grupo social e produtivo fundamental na produção de alimentos no Brasil já no final da década de 1990, como bem ressalta Andion (2007).

  A formação da agenda, contudo, ocorre justamente, quando esse problema latente na sociedade desperta a atenção dos governos e passa a ser uma prioridade na atuação deles. Nesse sentido, o PAA passa a ser prioridade na agenda do governo Lula pela via do combate à miséria e à insegurança alimentar, conforme indícios neste discurso do presidente e comprovados pelos dados dos montantes de investimentos feitos no PAA entre os anos de 2003 e 2011 (Tabela 2), os quais seguem abaixo:

  Dizia-se, entre outras coisas, que a insegurança alimentar era uma questão menor do desenvolvimento. Que não era preciso transformá- la em agenda de Estado. Tampouco seria certo ampliar recursos orçamentários para esse fim. Bastaria seguir a mecânica de mercado e as coisas se ajustariam espontaneamente na vida dos brasileiros mais pobres. [...] Nós entendemos que o processo de desenvolvimento não se faz assim. Não se terceiriza assim o destino de um povo. A desigualdade não pode ser tratada como uma opção consciente dos excluídos. Nem a fome, como atributo voluntário dos famintos (BRASIL, 2006, p. 3). Tabela 2 – Recursos investidos pelo governo federal no PAA de 2003 a 2011

  Ano Total de investimentos federais no programa em R$ 2003 81.541.207 2004 107.185.826 2005 112.791.660 2006 200.954.580 2007 228.352.967 2008 272.490.388 2009 363.381.941 2010 379.735.466 2011 451.036.204 Fonte: CONAB, 2012.

  Incluído na agenda estatal, a questão passa para a formulação da política ou, como afirma Secchi (2010), para a análise das alternativas. Face à questão deve-se refletir sobre quais as alternativas e meios existentes para enfrentá-la (HOWLET; RAMESH; PERL, 2009).

  A preocupação do governo Lula era a extinção da fome e da insegurança alimentar. Várias alternativas foram implantadas para resolver este problema, tais como a ampliação do programa bolsa família, a distribuição de cestas básicas, a criação de restaurantes públicos, entre outras.

  A partir da análise das alternativas disponíveis, a decisão política foi tomada, concluindo com isso o terceiro estágio do ciclo de políticas públicas previsto por Howlet, Ramesh e Perl (2009). O governo decide, então, aliar a solução do combate à fome à questão fundiária, já histórica. Pretende-se então atuar em duas frentes: (1) promover soluções à insegurança alimentar e à existência de pequenas propriedades fundiárias, com pequena produção, que por vezes é irregular ou sazonal; e (2) resolver também a permanência do pequeno agricultor no campo, ampliando os mercados aos produtos da agricultura Conclui-se, portanto, que apenas no terceiro estágio do ciclo de políticas públicas, quando os agricultores familiares foram pensados como os fornecedores dos alimentos, o PAA passou a incluir os atores principais desta pesquisa, quais sejam, os agricultores familiares organizados.

  O momento seguinte é o de implementação da política pública que está decidida, baseada nas alternativas disponíveis. É hora de colocar a decisão em prática. Um momento crucial, pois é quando são necessários fundos, editar regras, leis, orientações, e designar funcionários e servidores. Como observam Howlet, Ramesh e Perl (2009), é uma etapa que depende muito das pessoas capazes de gerenciar as ações.

  Para a implementação do PAA se definiu um grupo gestor, capaz de decidir sobre as diretrizes do programa. Este grupo gestor foi composto por representantes de seis ministérios: do Desenvolvimento Social (MDS), do Desenvolvimento Agrário (MDA), da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), da Fazenda (MF) e da Educação (MEC).

  Percebe-se então que a implementação da política foi feita a partir de uma concepção intersetorial que não estava prevista na sua formulação. Além do grupo gestor, as entidades de assistência técnica dos estados da federação (como a EPAGRI, em Santa Catarina) e dos municípios, (como as cooperativas e associações de produtores), além das entidades de assistência social beneficiárias do Programa, foram desenvolvidas com o processo de implementação do PAA em cada região. Observa-se na implementação uma tentativa de aliar integração horizontal (entre os Ministérios) e vertical (entre os níveis de governo e suas instituições).

  A última etapa do ciclo da política pública é a avaliação. Ela determina o sucesso ou insucesso da política e pode levá-la por três caminhos: manutenção, extinção ou melhorias, segundo Howlet, Ramesh e Perl (2009) e Secchi (2010). Advertem os mesmo autores, entretanto, que é sempre muito difícil definir o sucesso, e a avaliação das políticas é sempre desafiadora por essa dificuldade de determinação clara. Portanto a política deve ser minuciosamente avaliada, sempre focada e contextualizada, com indicadores bem elaborados e com a participação bastante ampla dos beneficiários e dos responsáveis pela

  Outro ponto bastante relevante na avaliação das políticas públicas é levantado por Pressmann e Wildalsky (1973). Segundo os autores, as políticas públicas não podem ser prematuramente avaliadas, sob o risco de serem mal avaliadas e extintas sem que tenham a possibilidade de surtir os efeitos desejados. Para esses pesquisadores, a só deve ser avaliada após dez anos de funcionamento. O PAA teve seu início em 2003. E 2013 completa seu primeiro decênio, sendo portanto um programa suficientemente maduro para uma avaliação.

  É justamente neste último estágio, a avaliação da política pública, implementada inicialmente há dez anos, que esta dissertação se insere. O estudo realizado avalia o PAA em aspectos que diretamente afetam os produtores, sobretudo os agricultores familiares, organizados em forma de empreendimentos cooperativos no estado de Santa Catarina. Com esse intuito aborda-se mais detalhadamente a questão da avaliação de políticas e programas públicos.

  Em 2005 pesquisadores do IPEA efetuaram uma avaliação do PAA em sua fase de implantação, com o intuito de confrontar os objetivos do programa com as ações efetivamente implementadas. O estudo à época concluiu que deveriam ser feitos ajustes para que as estratégias de fomento produtivo da agricultura familiar fossem conjugadas com a assistência alimentar às populações em situação de risco (DELGADO; CONCEIđấO; OLIVEIRA, 2005). Ou seja, procedeu-se a avaliação da implementação do Programa, com foco exclusivo na política pública e nos seus gestores, desconsiderando a situação das cooperativas atendidas.

  A avaliação apresentada por esta dissertação possui outro objetivo: ela pretende avaliar os resultados obtidos pelo PAA após seus primeiro decênio, e tem como unidade fundamental de análise as cooperativas beneficiadas pelo programa, buscando revelar os resultados práticos do PAA.

  3.3 AVALIAđấO DE PROGRAMAS E POLễTICAS PÚBLICOS Conforme explorado na introdução, a avaliação de um programa ou política social consiste na determinação de valor ou mérito do mesmo, com referência a um objetivo ou foco. “Avaliação é identificação, esclarecimento e aplicação de critérios defensáveis para determinar o valor (valor ou mérito), a qualidade, a utilidade, a eficácia

  Hogwood e Gunn (2012) afirmam que avaliar políticas públicas é fundamental porque embora os problemas sociais venham há muito temp sendo respondidos, a capacidade de responder e compreendê-los é em geral incompleta ou confusa. Além disso, dado o conjunto complexo de implicações, sempre há possibilidades de novas intervenções. A intervenção proposta pelo governo, portanto, deve ser compreendida apenas como uma (entre outras) das formas de se atingir o alvo, no caso o fomento da agricultura familiar. De fato, existem diferentes formas para solucionar um determinado problema e por isso as políticas devem ser sistematicamente avaliadas.

  Além de uma avaliação proporcionar a visão de formas alternativas de se resolver um mesmo problema, ela deve isolar a política pública que pretende avaliar, de maneira a conseguir garantir que os resultados obtidos sejam efetivamente causados especicamente pela política estudada, sendo esta a maior dificuldade da avaliação das políticas públicas (HOGWOOD; GUNN, 2012).

  Vale pontuar que especificamente no que tange à avaliação de políticas públicas, esta não se constitui em um exercício meramente formal ou desinteressado. É uma atividade ancorada em um conjunto de valores e visões compartilhadas entre cidadãos interessados e membros dos governos, sobre a realidade e resultados desejados pela ação pública (SOUZA; DANTAS NETO, 2006). Arretche e Rodriguez (1999), por outro lado conceituam a avaliação de políticas públicas como um exame da engenharia institucional e de traços constitutivos dos programas.

  Contudo, o método de avaliação é um reconhecido método de pesquisa no qual se realiza um julgamento, o qual exige padrões, modelos ideais para sucesso ou insucesso. Portanto, antes de se iniciar a avaliação deve-se estabelecer o padrão ótimo. No caso desta pesquisa, o padrão, o alvo máximo é o alcance dos objetivos formais do PAA detalhados no próximo capítulo.

  Segundo Worthen, Sanders e Fitzpatrick (2004) a avaliação ocorre em qualquer ato de escolha cotidiano, sejam esses atos referentes a escolhas entre alternativas pessoais ou organizacionais. Contudo, pontuam os autores, que esta é uma avaliação informal, baseada em critérios intuitivos e subjetivos, antes da coleta de qualquer evidência formal. Para fins de pesquisa e generalização de resultados, são necessário critérios formais, indicadores científicos daquilo que se pretende concluir. Se este quesito não for cumprido, decisões erradas

  Além de superar a informalidade das avaliações cotidianas, os autores alertam para que o objetivo da avaliação seja bem definido de antemão. Segundo eles, os objetivos mais recorrentes são: (1) fazer julgamento de valor do programa; (2) ajudar os responsáveis nas tomadas de decisões quanto aos rumos dos programas; (3) ter uma função política e (4) empoderar ou esclarecer os usuários dos programas avaliados, (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004).

  A avaliação proposta neste trabalho busca dois destes objetivos: i. empoderar e esclarecer os usuários do PAA, que neste caso são as cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina, sobre os avanços e limites da adesão ao Programa; ii. subsidiariamente, auxiliar na tomada de decisão dos responsáveis pelo PAA, quanto à sua manutenção, melhoria ou extinção.

  Trata-se de uma avaliação externa, realizada por membros que não integram as organizações afetadas; e de caráter tanto formativo quanto somativo. O papel formativo consiste em gerar informações úteis à melhoria do programa destinada aos órgãos responsáveis pela formulação, gestão e implementação do PAA. Já o caráter somativo, se concentra no público alvo, nos usuários do PAA, os gestores das cooperativas para que estes, munidos de informações, possam tomar decisões embasadas e persistir ou desistir de sua adesão ao programa:

  A avaliação formativa leva (ou deveria levar) a decisões sobre o desenvolvimento do Programa (inclusive modificações, revisões e coisas do gênero). A avaliação somativa leva a decisões relativas à continuidade do Programa, a seu encerramento, ampliação, adoção etc. (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004, p. 48).

  Apesar das distinções entre uma e outra modalidade de avaliação, os próprios autores afirmam que os dois modelos estão entrelaçados e, na prática, são difíceis de serem distinguidos. Isso ocorre porque ambos possuem diversos itens e componentes na avaliação, e os trabalhos de avaliação pretendem sempre a melhoria de um programa como um todo, não apenas partes deles.

  Avaliar um programa ou um projeto é essencial para elevar e perseguir a qualidade e a eficiência dos empenhos públicos. É latente a como pretendem. A avaliação endossa a necessidade da adoção de novas formas, de novos rumos na gestão das políticas e programas públicos.

  Contudo, os autores afirmam que a avaliação por si só não resolve os problemas. Ela é responsável pela identificação de pontos fortes e fracos, destacar o que há de bom, mas também os erros. Ela não é o instrumento mais indicado para corrigir os problemas identificados. Esta decisão cabe aos gestores responsáveis pelo programa. A avaliação é apenas um instrumento, que pode, sim, aventar algumas hipóteses capazes de suplantar o problema, mas não solucioná-lo de pronto (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004).

Especificamente no caso deste trabalho, na avaliação do PAA o que se busca é o “exame sistemático e empírico objetivo dos efeitos que

  as políticas e programas públicos em funcionamento têm sobre seu público- alvo em termos dos objetivos que pretendem alcançar” (HOWLET; RAMESH; PEARL, 2009, p.199).

  Esses mesmos autores destacam que a política pública, depois de ser submetida à avaliação, pode fazer com que os problemas para os quais foram formuladas sejam totalmente repensados. Os problemas identificados em uma avaliação são encontrados nos mais diversos estágios do ciclo de políticas públicas. Suas causas ou soluções, contudo, podem por vezes, ser encontradas em outros estágios. Assim, um problema de implementação pode ter suas causas no início ou na formação da agenda, ou ainda em uma avaliação anteriormente realizada. Sinalizam ainda que com a identificação dos limites e alcances da política ou programa, podem ser feitas mudanças incrementais, simples ou até mesmo a extinção, a descontinuidade completa do programa.

  Os objetivos das avaliações, contudo, são, na maioria das vezes, a identificação de acertos e erros para facilitar o processo de aprendizagem. O propósito principal é aprimorar a política. Muitas vezes, os erros podem ser corrigidos com a sugestão de simplesmente alterar ou redigir de outra maneira, mais clara, os objetivos da política (HOWLET; RAMESH; PEARL, 2009).

  Os mesmos autores dão bastante ênfase no processo de aprendizagem oportunizado por uma avaliação de programa. Como mecanismo desta avaliação, eles sugerem a avaliação de eficácia, que nesta dissertação apresenta-se como avaliação de resultados. Este tipo de avaliação apresenta um nível alto de complexidade, já que, como objetivos e por isso é denominada de avaliação centrada nos objetivos (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004).

  Para tanto, os resultados obtidos do programa são confrontados com seus objetivos explícitos ou implícitos. Deve ainda ser considerado que os objetivos podem ser ajustados a partir das conquistas dos programas. É interessante ao programa que sejam agregados objetivos a partir dos resultados atingidos. Eles refletem também um aprendizado dos participantes e possibilidades de replicação da política ainda mais consolidada.

  Howlet, Ramesh e Pearl, (2009) destacam a necessidade de se explicitar com quais bases e intuitos preliminares estão sendo realizadas as pesquisa de avaliação. Deve-se declarar o ponto de vista pelo qual se vai iniciar a análise e evidenciar que os resultados e conclusões também são reflexos disso. Advertem para o fato de que atualmente não é mais possível imaginar-se que uma avaliação é algo racional e isento de interferências políticas, tanto do avaliador como dos avaliados. Por isso, a perspectiva de quem propõe a avaliação é muito importante e deve ser descrita.

  A avaliação centrada nos objetivos da política ou programa, que será realizada neste trabalho concentra-se em responder em que medida os propósitos do PAA foram alcançados. “As discrepâncias entre o desempenho e os objetivos levam a modificações cuja intenção é cor rigir a deficiência” (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004, p. 130). Então se segue novo ciclo de implementação e avaliação.

  Realizar uma avaliação baseada nos objetivos da política é bastante legítimo, pois é uma forma de prestar contas à sociedade, aos parceiros, aos usuários da política. Esta avaliação permite que os gestores se assegurem de que a política fez aquilo que prometia. Além disso, ela é bastante fácil de compreender e de implementar, pois os responsáveis pelo programa de antemão concordam que os quesitos levantados pela avaliação são relevantes, já que são os próprios objetivos (WORTHEN; SANDERS; FITZPATRICK, 2004).

  Entretanto também existem limites a este modo de avaliação. Alguns deles são levantados pelos estudiosos, tais como: o possível descolamento da avaliação do contexto da pesquisa, e a ausência de padrões para julgar o bom desempenho. A principal fragilidade da avaliação centrada em resultados, contudo, está centrada no fato de que ela pode ignorar resultados importantes porque não abarcados pelos Atentos a estas fragilidades, algumas precauções são tomadas nesta pesquisa. Primeiro, com a descrição do contexto em que a pesquisa será realizada e a consideração desse contexto na avaliação. Em seguida, para enfrentar o problema principal de resultados para além dos objetivos fixados, a pesquisa, além de propor a metodologia quantitativa, fará também uma análise qualitativa, baseada na análise documental, buscando definir melhor o contexto, as motivações e quesitos mais intrínsecos que justifiquem ou colaborem com os resultados alcançados.

  4.1 DELINEAMENTO DA PESQUISA A presente pesquisa realiza uma avaliação da política pública do governo federal brasileiro: “Programa de Aquisição de Alimentos

  (PAA)”. Como abordado anteriormente, as avaliações pretendem determinar o mérito, a qualidade, a utilidade e a eficácia do objeto, no caso a política pública, em relação aos critérios previamente identificados, neste caso os objetivos declarados da política.

  Esta avaliação será realizada a partir da análise documental de 20 cooperativas que participaram do curso de gestores de cooperativas promovido pelo Centro de Ciências de Administração e Socioeconômicas (ESAG) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), iniciado em outubro de 2011 e finalizado em outubro de 2012. Os documentos utilizados pela presente pesquisa são os Planos de Desenvolvimento Institucional (PDIs) das cooperativas analisadas, os quais foram elaborados pelas próprias cooperativas, com o apoio dos consultores do curso (ver modelo de estrutura do PDI no Anexo B). A partir destes Planos obteve-se acesso às informações atualizadas das cooperativas analisadas, o que permitiu o acesso aos dados.

  A pesquisa utiliza, portanto, dados secundários, ou seja, materiais e documentos produzidos, mas ainda sem tratamento analítico. Os documentos são materiais brutos disponíveis ao pesquisador e sua análise implica em uma transformação que lhes dá significado em relação ao problema investigado (GIL, 1999). Estes documentos são tratados de acordo com o objetivo da pesquisa: avaliar a política pública.

  Ademais de documental, podemos classificar esta pesquisa como bibliográfica, pois invariavelmente ela é desenvolvida a partir de livros e artigos de estudos prévios sobre o tema do cooperativismo e da avaliação das políticas públicas, constituindo, portanto, os fundamentos para elaboração da metodologia e do modelo de avaliação, e também uma base exploratória do campo em análise (GIL, 1999).

  A pesquisa se classifica, por outro lado, como descritiva e exploratória, segundo a abordagem de Gil (1999). Ela é descritiva, uma vez que apresenta as características das populações pesquisadas e estabelece relações entre variáveis encontradas. Desvenda, portanto as características gerais do fenômeno tendo como principal foco de análise, O caráter exploratório da pesquisa se concentra na etapa inicial da mesma, na qual se realiza a classificação, caracterização e definição de um problema a partir do levantamento de pressupostos teóricos, que possibilita o desenvolvimento da retroalimentação o processo, servindo assim de ponto de partida para estudos futuros.

  O estudo se caracteriza ainda como “quase-experimental”. Esta terminologia é utilizada por Cano (2006) e Gil (1999) para determinar estudos que embora não apresentem distribuição aleatória como nos experimentos típicos, são desenvolvidos com bastante rigor metodológico, a partir da análise de grupos experimentais e de controle.

  Ou seja, estudos que comparam a situação dos sujeitos divididos em dois grupos: um que recebe o tratamento, no caso, cooperativas participantes do PAA; e outro que não participa do Programa. A comparação entre estes grupos pretende estabelecer uma relação entre o tratamento (participação no PAA) e o desempenho dos sujeitos (as cooperativas), construindo assim uma avaliação dos resultados da política pública com base em indicadores sociais, econômicos, políticos e ambientais das cooperativas. Essa avaliação permitirá fazer algumas considerações analíticas e explicativas, fazendo com que o estudo não seja apenas de caráter descritivo.

  4.2 CONTEXTO DA PESQUISA: AS COOPERATIVAS DE AGRICULTORES FAMILIARES NO ESTADO DE SANTA CATARINA E O PAA

  Esta pesquisa foi realizada com as cooperativas catarinenses de agricultura familiar. São pesquisadas, portanto as organizações em forma de sociedades cooperativas, cujos sócios são empreendedores rurais familiares, não possuem grandes propriedades de terra, tampouco funcionários contratados, apenas membros da família trabalhando nas terras, a exceção de época de safra, ou de adoecimento de um dos membros da família, conforme o descrito por Abramovay (1998).

  Acreditava-se no final do séc. XIX e início do séc. XX que o modo familiar de produção rural poderia se extinguir com o advento da revolução industrial e do capitalismo do consumo de massas. Por muitos anos o rural foi relacionado com o atrasado, o ultrapassado, aquilo que seria superado, em momentos de melhor desenvolvimento (ABRAMOVAY, 1998). Acreditou-se inclusive que toda a população era tal previsão, pois não haveria quem produzisse o alimento para toda aquela população urbana (FRIEDMANN, 1978).

  O modo de produção familiar possui algumas vantagens econômicas que se adequam as exigências de mercado e as regras capitalistas, das quais se elenca: a inexistência da busca pelo lucro exacerbado, a flexibilidade da da produção e capacidade de adequação à demanda e por último a facilidade de ajustamento de renda da família à situação econômica favorável ou não àquela produção naquela época (MULLER, 2007). “É justamente nesse ambiente que se verifica a capacidade das unidades familiares produzirem alimentos a baixo custo, sem remuneração da força de trabalho empreendida na atividade” (ANDRADE JÚNIOR, 2009, p. 57).

  Além destes atributos mais econômicos citados, também há aspectos sociais que caracterizam a produção com base na agricultura familiar como: a ênfase na diversificação produtiva, na qualidade de vida, do trabalho, o fortalecimento dos laços familiares e comunitários, do sentimento de pertença ao local. Afirma-se ainda, que este modo produtivo promove benefícios como o respeito ao meio ambiente, pois nestes casos é o agricultor que se adéqua ao clima, ao relevo para realizar o plantio e não o contrário, como nas grandes produções monocultoras (ANDRADE JÚNIOR, 2009; FRIEDMANN, 1978; MULLER, 2007).

  Uma última, mas não menos importante característica desse modo de produção está no recorrente incentivo dos Estados, principalmente após a década de 1970, através de políticas públicas, apoio que é fundamental para que o modelo de agricultura familiar não apenas se sustente, mas prospere ao longo do último século (MULLER, 2007). A alimentação da população urbana, com preços razoáveis, advém, em grande medida, do modo familiar de produção (FRIEDMANN, 1978). Andrade Júnior (2009) ainda alerta, que este modo de produção é especificamente relevante na região Sul do Brasil, que é marcado pela produção nas pequenas propriedades, especialmente no estado de Santa Catarina, local em que a pesquisa se realiza.

  Recentes as cooperativas compostas por agricultores familiares começam a modificar paulatinamente o modelo cooperativista no Brasil, criando assim, um movimento para um “Novo Cooperativismo” fortemente inspirado nos princípios dos movimentos de Economia Social e Solidária (UNIÃO DAS COOPERATIVAS DA cooperativista surge não apenas o PAA, a política pública em análise por esta dissertação, mas também os Ministérios por ele responsáveis, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), respectivamente criados em 2003 e 2004. É neste contexto que se inserem os entes pesquisados neste estudo: as cooperativas e o PAA, cujas características serão abordadas mais detalhadamente nos próximos itens.

  O cooperativismo da agricultura familiar em Santa Catarina emerge com o objetivo de superar as dificuldades enfrentadas pelos agricultores, sobretudo no que tange a comercialização e industrialização de seus produtos. Como já discutido neste trabalho, a distância entre o campo e as cidades e, principalmente, os intermediários que fazem esta ligação entre os produtores e os consumidores, gera o paradoxo da produção de alimentos, ou seja, os agricultores atingem pouco lucro com a atividade e os consumidores arcam com altos preços dos alimentos, o que acaba por vezes gerando fome ou insegurança alimentar (ABRAMOVAY, 1998; ANDRADE JÚNIOR, 2009; FRIEDMANN, 1978).

  Neste sentido, as cooperativas surgem com o intuito de organizar os produtores e aproximá-los dos consumidores, de modo a ampliar a rentabilidade do modo de produção baseado na agricultura. As cooperativas passam a encurtar as distâncias entre produtores e consumidores (ANDRADE JÚNIOR, 2009).

  A amostra pesquisada é definida como uma amostra por acesso composta por 20 cooperativas de pequeno porte que participaram do curso de gestão de cooperativas desenvolvido pela UDESC (citado anteriormente). Entre elas 14 cooperativas acessam o PAA e 06 não acessam.

  A produção destas cooperativas é composta basicamente por legumes, frutas e hortaliças e seus derivados, além de incipiente produção de leite de vaca nas cooperativas da região Oeste. Dentre os produtos das cooperativas se destacam a produção de bananas, maças, pepinos, cebolas, cenouras e batatas. Todas elas são compostas e geridas por agricultores familiares que em regra completaram apenas o ensino

  Gráfico 1 – Escolaridade do Presidente nível superior 35%

  45% nível médio Nível fundamental

  20% Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  As cooperativas da amostra podem ser consideradas como cooperativas de pequeno porte. Possuem em média 185 cooperados e 03 funcionários, distribuídos conforme os gráficos 2 e 3.

  Gráfico 2

  • – Número de cooperados

  Até 100 membros 10%

  Até 200 10%

  35% membros Até 300

  20% 25%

  Até 400 Fonte: Elaborado pela autora, 2013. Gráfico 3 – Número de funcionários por cooperativa Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Outro indicador que evidencia o pequeno porte das cooperativas pesquisadas é o tamanho de seu patrimônio. Entre elas, 55% possuem patrimônio líquido inferior a R$500 mil, conforme demonstra o gráfico 4.

  Gráfico 4 – Patrimônio Líquido Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  25% 50%

  20% 5%

  Nenhum Até 3 Até 10 Mais de 10

  16% 16%

  17% 17% 17%

  17% Até 50 mil Até 100 Mil Até 500 mil Até 1 milhão Até 2 milhões Mais de 2 milhões apenas 17 anos. Onze entre as vinte cooperativas foram fundadas nos últimos dez anos, ou seja, após a criação do MDA e do PAA. Outras seis foram criadas entre os anos 2000 e 2002.

  Correspondente ao tempo de fundação está o tempo de atuação das cooperativas no PAA. Conforme ilustra os gráficos 5 e 6, o mais longo vínculo existe há 08 anos.

  Gráfico 5

  • – Ano de Fundação 9%

  14% Antes de 2000 Entre 2000 e 2002 Entre 2003 e 2006

  29% 48%

  Depois de 2006 Elaborado pela autora, 2013.

  Gráfico 6

  • – Tempo de atuação no PAA

  7% 29% NC

  Até 3 anos 36%

  Até 6 anos 8 anos 28% Apesar das similaridades, estas cooperativas estão espalhadas por diferentes regiões de Santa Catarina, mas concentram-se principalmente na região Oeste, seguida pelo Planalto e Norte de Santa Catarina, conforme demonstra o mapa abaixo através das marcações em vermelho:

  Figura 1

  • – Mapa das localizações das cooperativas da amostra

  

Fonte: Elaborado pela autora, 2013. Adaptado de Governo do Estado de Santa

Catarina.

  Como descrito anteriormente, o PAA é uma política pública do governo federal, pelo qual se oportuniza às cooperativas de agricultores familiares a venda direta, sem que haja processo de licitação para as entidades governamentais em todos os níveis.

  Através do PAA são adquiridos pelos órgãos públicos, com destaque para as prefeituras municipais, alimentos produzidos por agricultores familiares de determinada região. Os preços de compra e venda são a média daqueles praticados no mercado regional. acolhida, como também aos restaurantes públicos, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos ou, então, diretamente para famílias em situação de vulnerabilidade social (BRASIL, 2012).

  Além da compra institucional o programa ainda prevê o abastecimento dos estoques públicos de grãos, alimentos estratégicos para o desenvolvimento nacional. O agricultor está apto a participar do PAA através de associações, cooperativas ou grupos informais, desde que esteja inscrito no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) com a respectiva Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP) (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO, 2012).

  O PAA teve seu início no ano de 2003 e desde então vem crescendo. A cada ano de funcionamento, cresce o montante de recursos financeiros aplicados (conforme mostrado na Tabela 2 acima) e mais produtores rurais familiares vem sendo contemplados, conforme gráfico 7, relativo à participação no Programa.

  Gráfico 7

  • – Famílias agricultoras beneficiadas pelo PAA entre 2003 e 2011 nas 05 regiões do Brasil Fonte: CONAB, 2012.

  Os objetivos do PAA estão declarados nos incisos de I a VII do art. 19 da Lei Federal Ordinária nº10. 696 de 2003, que instituiu o PAA e deu providências, os quais se apresentam abaixo. Vale ressaltar, todavia, que para efeitos desta pesquisa, tendo em vista suas limitações no sentido de oferta de dados e tempo de realização, a avaliação do PAA

  Art. 19. Fica instituído o Programa de Aquisição de Alimentos, compreendendo as seguintes finalidades: I - incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão econômica e social, com fomento à produção com sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização e à geração de renda; II - incentivar o consumo e a valorização dos alimentos produzidos pela agricultura familiar; III - promover o acesso à alimentação, em quantidade, qualidade e regularidade necessárias, das pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, sob a perspectiva do direito humano à alimentação adequada e saudável; IV - promover o abastecimento alimentar, que compreende as compras governamentais de alimentos, incluída a alimentação escolar; V - constituir estoques públicos de alimentos produzidos por agricultores familiares; VI - apoiar a formação de estoques pelas cooperativas e demais organizações formais da agricultura familiar; e VII - fortalecer circuitos locais e regionais e redes de comercialização. (BRASIL, 2012, grifo nosso).

  4.3 DESENHO DA METODOLOGIA O desenho metodológico desta pesquisa é estruturado de forma que seja realizada uma avaliação de resultados centrada nos objetivos do

  Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Trata-se de identificar se os objetivos do PAA relacionados com a agricultura familiar estão sendo alcançados e, consequentemente, vem gerando as mudanças pretendidas nas cooperativas e nas famílias agricultoras catarinenses.

  Para Worthen, Sanders e Fitzpatrick, (2004) o modelo de avaliação com base nos objetivos determina o êxito ou fracasso do programa, pois é o cumprimento dos objetivos que justifica a manutenção ou extinção dele, e que, principalmente, auxilia nas decisões por melhorias incrementais no programa avaliado.

  Da mesma forma Schor e Afonso (2005) acrescentam que a avaliação baseada nos objetivos institucionais dos programas, pode ser utilizada para dar continuidade ou não a um programa, e ainda permite devidas precauções na implementação de projetos futuros ou mesmo na formulação de uma nova política social.

  O desenho metodológico já explicitado é o quase-experimental, conforme a recomendação de Hogwood; Gunn (2012). De fato, em conformidade com o que estabelece Cano (2009), é uma pesquisa concebida segundo a ótica da pesquisa experimental de causalidade, mas que descumpre alguma das condições básicas para serem considerados experimentos.

  Neste caso, a análise é posterior aos efeitos do Programa. Além disso os grupos, o tratado e o controle não são equivalentes entre si, em função dos dados disponíveis a partir da amostra definida por acesso. O grupo tratado (beneficiárias do PAA) compõe-se de 14 cooperativas pesquisadas, enquanto o grupo controle é formado por apenas 06 cooperativas pesquisadas. Embora os grupos não sejam numericamente iguais, as cooperativas apresentam similaridades necessárias que possibilitam a realização de análises comparativas (conforme descrito no item precedente: contexto da pesquisa).

  O padrão experimental de tratamento de dados é muito utilizado na medicina entre pacientes tratados com um remédio e outros que recebem placebos. Estes são os estudos experimentais por excelência. Contudo, nestes casos os indivíduos participantes devem ter condições muitíssimo similares, que possam inclusive ser considerados como espelhos uns dos outros, e ainda escolhidos como grupo amostral aleatoriamente na população (CANO, 2006; SCHOR; AFONSO, 2005). Esse fato não se verifica no trabalho, já que a escolha das cooperativas pesquisadas foi intencional e considerou o acesso aos dados do curso de formação de gestores de cooperativas promovido pela UDESC/ESAG, conforme mencionado.

  Contudo, como Cano (2006, p. 69) p ontua: “se por um lado os quase experimentos não têm todo o rigor dos experimentos com vistas à inferência causal, por outro lado são muito mais flexíveis e permitem adaptação da pesquisa em situações m ais diversas.” Pontua ainda o autor que este modelo de quase experimento pode alcançar bastante validade interna. Gil (1999) afirma que neste modelo de pesquisa perde-se a capacidade de controlar rigorosamente o que ocorre a quem, no entanto, observa-se o que ocorre, quando e a quem ocorre, tornando possível a análise de algumas relações de causa-efeito.

  Desse modo, a existência do grupo de controle e do grupo isso porque indica “se foi de fato a participação no programa que fez com que os indicadores de resultados melhorassem” (SCHOR; AFONSO, 2005, p. 18). Assim, o indicador de avaliação fica mais isolado, menos suscetível a interferências diversas e externas ao programa, situações benéficas ou maléficas que poderiam interferir nos resultados dos indicadores das cooperativas.

  Desse modo, se algo externo favorável ocorresse, ainda que o programa não tivesse sido implantado ou tivesse sido um fracasso as melhorias teriam ocorrido. Exemplo de fatores externos, alheios ao programa, que podem influenciar e macular os resultados são: bom momento econômico, uma supersafra ou então alguma praga na produção ou desastres climáticos.

  Para a realização desta avaliação foram utilizadas técnicas quantitativas na coleta e sistematização dos dados secundários e técnicas qualitativas, principalmente de análise de conteúdo desses dados, para suprir as lacunas mais subjetivas da pesquisa, como a predisposição dos sujeitos para alcançarem com mais facilidade os resultados mensurados (CANO, 2006; SCHOR; AFONSO, 2005). Em particular, como dito, foram utilizados outros dados mais qualitativos apresentados nos PDIs, os quais contribuam para completar a análise.

  A análise foi realizada exclusivamente a partir de dados coletados em fontes secundárias, no caso, as informações contidas nos Planos de Desenvolvimento Institucional (Anexo B), documentos elaborados pelas próprias cooperativas pesquisadas, entre os meses de setembro de 2011 e novembro de 2012, durante a realização de curso destinado à capacitação de gestores de cooperativas de agricultores familiares. As informações dos PDIs foram transformadas em dados por meio de um quadro de análise que teve por base o objetivo da política pública, o qual é detalhado e apresentado mais abaixo.

  A análise destes dados foi realizada em três fases duas quantitativas e uma qualitativa. Segundo Richardson (2000) as pesquisas quantitativas devem utilizar instrumentos padronizados e estruturados para entrevistas, questionários e coleta de dados em fontes primárias e secundárias. O mesmo autor ainda afirma que este tipo de pesquisa torna possível a realização de projeções para toda a população pesquisada. forma bastante precisa e de fornecer índices de comparação, o que permite fazer uma avaliação comparativa entre os grupos.

  Já a opção pela complementação da pesquisa com uma etapa qualitativa se deve ás recomendações de Schor e Afonso (2005) e Hogwood e Gunn (2012) que recomendam que a avaliação de políticas e programas públicos deve possibilitar que o método quantitativo estatístico seja aliado à análise qualitativa dos dados, buscando demonstrar algo mais intrínseco das instituições, as condições favoráveis pré-existentes, como as motivações e os desafios dos gestores nos empreendimentos.

  Esta particularidade de aliar a coleta de dados quantitativos e qualitativos acaba por conferir à pesquisa a situação de metodologia mista, composta por diferentes etapas descritas a seguir.

  A primeira fase da pesquisa foi a quantitativa de observação direta e esta constituída de três etapas. Na primeira etapa os vinte PDIs escritos pelas cooperativas foram lidos e analisados pela autora em busca de medição dos indicadores que estão explícitos a seguir no quadro de análise e que indicam o alcance ou não dos resultados do PAA. As respostas, via de regra, são binárias: verifica-se ou não o acontecimento, a realização, ou o fato na cooperativa. Desse modo, obtive-se um quadro geral com os indicadores obtidos em cada uma das cooperativas. A partir desse quadro, fez-se uma primeira análise geral do conjunto das cooperativas, comparando o grupo tratado e o grupo controle.

  Na segunda etapa, foi construído um ranking geral que classificou as cooperativas a partir das notas obtidas em todos os indicadores avaliados, o qual explicita as 05 cooperativas com melhores e piores indicadores. A situação dessas melhores e piores cooperativas foi analisada e comparada, visando compreender principalmente a influência do PAA nessas situações.

  Já na terceira etapa, além da análise do ranking geral, foi feito um estudo dos rankings por área, de modo a verificar as tendências em cada uma das dimensões do modelo de análise. Foram construídos quatro rankings específicos: econômico, social, sustentabilidade e industrialização, um para cada área do objetivo analisado. Nesses foram tratados casos específicos de indicadores que se destacaram durante as análises.

  Esta análise quantitativa foi realizada exclusivamente através da relações entre os resultados obtidos pelas cooperativas em cada um dos indicadores pesquisados.

  Contudo, as relações diretas poderiam ser frágeis. Por essa razão, buscou-se a comprovação destas análises iniciais a partir de outro processo quantitativo feito com auxílio de um software específico de mineração de dados, que busca as relações implícitas entre os indicadores.

  O modelo de mineração de dados é congruente com o modelo quantitativo, para avaliação e comparação de dados coletados nas cooperativas. Deste modo, com auxílio do software buscou-se as relações implícitas entre os dados coletados. Ambas as interpretações pretenderam encontrar e demonstrar as situações de causa e efeito entre o acesso ao PAA e os resultados obtidos pelas cooperativas no mesmo período.

  Com o software Weka foram utilizados métodos estatísticos de mineração de dados que permitiram a associação dos resultados e a construção de hipóteses a partir da árvore de decisão, de modo a compreender os fatores que mais influenciam nas melhores posições das cooperativas analisadas e sua relação ou não com o PAA.

  Entende-se por Mineração de Dados (Data mining) extração de padrões de informação implícitos e de interesse do pesquisador. Estas são informações são invisíveis pelo pesquisador, mas estão embutidas, escondidas nos dados coletados. As informações obtidas pelo processo são previamente desconhecidas e úteis, sobretudo nas análises de grandes bases de dados. Este procedimento tem tido grande avanço recentemente devido ao aumento dos dados disponíveis em meio eletrônico e ao aumento da capacidade de cálculo dos dispositivos computacionais (GOLDSCHMIDT; PASSOS, 2005; HAN, 2000; WITTEN; FRANK, 2000).

  O Weka é um software livre e gratuito disponibilizado pelo site Este programa computacional foi desenvolvido pela Universidade de Waikato na Nova Zelândia com a contribuição de pesquisadores do mundo todo, haja vista ser um software de fonte aberta (HALL et al., 2009). O Weka utiliza uma coleção de algoritmos para tarefas de mineração de dados, que podem ser aplicados diretamente a um conjunto de dados.

  No programa são disponibilizadas várias ferramentas para análise de base de dados, tais como ferramentas para pré-processamento, além da árvore de decisão J48, modelo utilizado nesta pesquisa, (HALL et al., 2009).

  Embora se destine inicialmente a grandes bases de dados, há áreas onde se aplicam as técnicas de mineração de dados mesmo quando a quantidade de dados é reduzida, pois a mesma serve para auxiliar a análise dos dados, revelando relações que não são evidentes a uma primeira vista ou auxiliando a comprovação de hipóteses do pesquisador (GOLDSCHMIDT; PASSOS, 2005).

  Uma área típica de aplicação desta técnica, mineração de dados, em bases de dados menores é a do diagnóstico médico, pois neste caso a obtenção de dados está condicionada a disponibilidade de pacientes e a limitações no uso de medicamentos (GOLDSCHMIDT; PASSOS, 2005). O teste de medicamentos é também a área em que são aplicados recorrentemente os grupos de testes e controle com placebos, na qual esta pesquisa metodologicamente se inspira por isso a opção em utilizar as mesmas ferramentas para a análise de dados.

  O software utilizado realiza a tarefa de classificação, em que são definidos algoritmos, ou seja, padrões para que sejam estabelecidas relações entre os dados fornecidos. Assim, os algoritmos se destinam a determinar quais os relacionamentos entre um conjunto de atributos previsores, que neste caso são todas as variáveis de análise apresentadas no quadro 04, que determinam um atributo eleito pelo pesquisador, que são chamados de atributo alvo ou classe.

No problema em tela optou-se por buscar um o algoritmo, um padrão de combinação entre os dados baseado em “árvore de decisão

  J48, pois o mesmo apresenta o procedimento de decisão (relacionamento entre os atributos previsores, que encaminham a um determinado valor do atributo alvo ou classe). Os padrões obtidos pela árvore de decisão são apresentados na forma de regras facilmente compreensíveis ao especialista humano, facilitando o entendimento do processo decisório (GOLDSCHMIDT; PASSOS, 2005).

  Assim, realizaram-se previsões distintas entre o grupo teste e controle para além das informações visíveis. Foram assim associadas variáveis de modo que explicitem as combinações mais recorrentes, conquanto não triviais da participação ou não da cooperativa na política pública. Também outras associações e previsões entre as cooperativas pesquisadas foram realizadas com o intuito de fazer recomendações às cooperativas, de modo que elas obtenham melhores resultados, sejam as conclusões ganham maior embasamento, o que acarreta em uma maior validade interna da pesquisa.

  A terceira fase da pesquisa foi dedicada ao método qualitativo, também com o intuito de comprovação das análises anteriormente feitas. Nesta fase foi realizada uma fase qualitativa com avaliação aprofundada dos PDIs das cooperativas com melhor e pior desempenho nos rankings elaborados na primeira fase.

  A análise qualitativa deve existir, ainda que de forma subjacente, conforme ensinam Schor e Afonso (2005). Ela permite que após a coleta e análise de dados, os mesmos sejam sejam estudados em profundidade, como sugere Gil (1999), de forma a que possam explicar ou dar indícios de outros fatores que possam ter interferido nos resultados. Assim, os Planos de Desenvolvimento Institucional (PDIs) de duas cooperativas, as de 1ª e 20ª posições são relidos e avaliados, neste momento com mais profundidade, com intuito de encontrar outros dados e informações capazes de explicitar fatores históricos, sociais, políticos, culturais e econômicos que ajudem a explicar ou justificar os resultados obtidos.

  Assim explicitado o modelo, a forma de coleta e análise dos dados, apresenta-se também as limitações sofridas nesta pesquisa e em seguida o quadro que possibilitou a construção desta avaliação.

  As pesquisas sempre possuem limitações de tempo, espaço, acesso. Sempre podem ser ampliadas ou mais detalhadas. Com as análises surgem novas hipóteses, e com elas mais perguntas. Portanto, ao invés de mais certezas, é comum que após uma pesquisa haja mais dúvidas e incertezas, verifiquem-se dados adicionais que poderiam ter sido coletados, etc. Existem ainda os questionamentos que não puderam ser completamente respondidos e as hipóteses que não foram exaustivamente testadas. Esta pesquisa não é diferente e, nesse sentido, possui limitações. Limites, sobretudo, de ordem metodológica serão expostos a seguir (QUIVY; CAMPENHOUT, 2008).

  Inicialmente deve-se esclarecer que os dados coletados foram exclusivamente secundários, a partir de documentação elaborada pelas cooperativas pesquisadas. Como todo documento elaborado, ele está sujeito a interpretação e às limitações de conhecimento tanto daquele

  Os dados foram descritos em um momento específico e pelo gestor que participou do curso de gestão de cooperativas. Aparentemente não há motivos para que quem o elaborou prestasse informações falsas. Contudo, são informações daquele momento, que podem ter sofrido algum filtro intencional.

  Não houve entrevista ou questionário, para validação dos dados Os documentos analisados prestam as informações em forma de texto, que precisou ser organizado em forma de dados. Assim, os dados de modo organizados e padronizados em tabela dependeram da interpretação da pesquisadora.

  Outra limitação se dá quanto ao modo de experimento. Experimentos controlados, com grupos tratados e controles, é um método positivista advindo, principalmente, de experiências nas ciências naturais. É um método que visa proporcionar maior credibilidade e confiabilidade à relação de causalidade estabelecida pelo avaliador (GIL, 1999), que neste caso são adesão ao PAA e os resultados sociais, econômicos e ambientais obtidos pela cooperativa no período determinado.

  Os fenômenos sociais, contudo, não têm as mesmas características dos fenômenos naturais, e um método como este pode então deixar de fora muitas dimensões do fenômeno, especialmente aquelas mais qualitativas, tais como história, a cultura, os conflitos e as relações de poder, por exemplo (RICHARDSON; PASSOS, 2000).

  A maior ameaça neste tipo de experimento é a diferença inicial entre os grupos e a diferente interação dos mesmos com outros fatores que melhorem ou piorem as chances de alcançar os resultados esperados.

  Assim, quanto mais similares entre si o problema diminui (CANO, 2006). Contudo,

  é difícil encontrar “bons grupos de controle”

  e, segundo Schor e Afonso (2005), este é o maior desafio do método experimental, pois algumas distinções entre os grupos ocorrem e isso causa distorções na comparação entre os grupos. Os autores apontam principalmente causas intrínsecas das pessoas e das organizações para que estas distorções apareçam. Afirma-se que dentro das organizações existem motivações diversas para produção, promoção de mudanças, quesitos estes que são dificilmente mensuráveis e às vezes imperceptíveis ao avaliador. Apontam ainda que o próprio fato do grupo controle ser um grupo que ainda não tenha conseguido participar do

  Para reduzir as interferências Schor e Afonso (2005) fazem recomendações, as quais foram levadas em conta pela presente pesquisa: (1) eleger para o grupo controle cooperativas que também pretendam participar do PAA, ainda que não participem; e (2) aliar a análise quantitativa dos indicadores a uma pesquisa qualitativa, com intuito de identificar os fatores motivacionais intrínsecos que distinguem a cooperativa tratada daquela no grupo de controle, e descrevê-la como um dos quesitos que possibilitam a conclusão da avaliação.

  Esta avaliação será foi feita considerando outros aspectos retratados no PDI para além dos indicadores que possam contribuir para compreender melhor as características das cooperativas pesquisadas.

  O fator tempo e distribuição das cooperativas pelo estado de Santa Catarina também limitou a pesquisa no sentido de conferir as informações que constavam nos documentos in loco, ou ainda impossibilitou ampliar o estudo através de observação direta, o que permitiria considerar outros fatores subjetivos, como os citados acima.

  A avaliação da política pública: “Programa de Aquisição de

Alimentos” foi realizada tendo por base os objetivos declarados pelo próprio programa. Conforme explicitado anteriormente, são cinco os

  objetivos do Programa de Aquisição de Alimentos, estabelecidos pelo art.19 da Lei nº 10. 696 de 02 de julho de 2003, dos quais apenas um deles refere-se mais particularmente à agricultura familiar e aos empreendimentos cooperativos, objeto dessa pesquisa:

  I - incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão econômica e social, com fomento à produção com sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização e à geração de renda;

  Para que o objetivo do art. 19, inciso I, da Lei 10.696/2003 pudesse ser avaliado, a partir dos PDIs das cooperativas foi construído um quadro de análise composto de indicadores mensuráveis, como preleciona Quivy e Campenhout (2008). São estas classificações que permitem o registro e posterior análise dos dados, confrontando assim o modelo com a realidade. Desse modo, o alcance do objetivo do programa torna-se passível de ser medido.

  Os indicadores foram separados em quatro áreas, levando em conta os objetivos do PAA e também as diferentes dimensões do um dos indicadores foi atribuído um valor de medida entre zero e um, possibilitando que cada cooperativa obtivesse uma nota em cada um deles, bem como nas quatro áreas analisadas. Posteriormente foi construída média simples final de cada cooperativa, permitindo a comparação entre elas.

  O quadro de análise construído é composto pelas quatro grandes áreas propostas pelo objetivo do PAA, as quais são subdivididas em 10 dimensões que compõem 33 indicadores de resultado, seguindo as recomendações de Cohen e Franco (2007), além de Cano (2006) e Worthen, Sanders, Fitzpatrick (2004), os quais serão detalhados a seguir.

  A área econômica foi divida em duas dimensões de análise: viabilidade financeira do empreendimento e a comercialização dos produtos. Na viabilidade financeira foram analisados os indicadores: patrimônio líquido, patrimônio líquido per capita, adimplência das obrigações e acesso ao crédito, além da realização de investimentos na cooperativa. No tocante à comercialização foram analisados: a diversificação dos canais de produção, a dependência do PAA na comercialização e a existência de relação com o consumidor final.

  A área social está dividida em três dimensões: articulação, educação formal e participação em capacitações e treinamentos. A articulação se divide em dois indicadores: de articulação em redes e acesso às políticas públicas. O grau de educação formal foi verificado por meio da medição do grau de escolaridade do presidente, da diretoria, dos conselheiros, dos funcionários e dos membros. Já a capacitação e treinamento analisou quem participa, quais temas tratados e quem financia essas capacitações.

  Quanto à área da sustentabilidade essa é composta por duas grandes dimensões: (i) a ambiental medida pela produção orgânica e por treinamentos oferecidos na área ambiental e (ii) a sustentabilidade corporativa composta pelas dimensões de participação e estrutura de gestão. A dimensão de participação é medida pelos indicadores de participação de jovens e mulheres em geral e nas diretorias e a participação dos membros em assembleias. Já a dimensão de estrutura de gestão conta com os indicadores utilização de ferramentas de gestão e o número de funcionários contratados.

  A área da industrialização, focalizamos a estrutura produtiva das cooperativas, com intuito de refletir o objetivo de fomento às forma a construção, reforma ou aquisição de armazéns, além de compra de maquinários e veículos para distribuição e comercialização da produção. O modelo contendo as áreas, as dimensões, os indicadores e as formas de medida são sintetizados nos Quadro 4 e 5 a seguir: Quadro 4

  • – Objetivos, dimensões e indicadores Objetivo Dimensão Indicadores Patrimônio Líquido Patrimônio Líquido/ nº de cooperados

  Viabilidade Facilidade de acesso ao crédito

  Financeira Adimplência das obrigações financeiras, com fornecedores

  Inclusão e consumidores. Econômica da

  Realizou investimentos Agricultura

  Diversificação dos canais de Familiar comercialização

  Comercialização Declara dependência da comercialização com o PAA Existência de relação com o consumidor final Existência de estrutura própria de comercialização Grau de articulação em redes Acesso à políticas públicas

  Articulação Escolaridade do presidente Escolaridade da diretoria Escolaridade do conselho

  Inclusão Social Escolaridade dos funcionários da Agricultura Educação Formal Escolaridade dos Membros

  Familiar Capacitação Temas de capacitação

  Pessoas Capacitadas Financiamento das meio ambiente Promover a produção com sustentabilidade Participação

  Participação de jovens Participação de jovens na diretoria.

  Participação de mulheres Participação de mulheres na diretoria.

  Participação nas assembleias Número de cooperados

  Estruturas de Gestão

  Número de funcionários Utiliza ferramentas de gestão

  Promover a industrialização e o processamento de alimentos

  Agroindústrias Possui agroindústria Equipamentos Existência de maquinário

  Existência de veículo para distribuição Existência de armazém Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Quadro 5 – Indicadores, formas de medida e interpretação dos dados Indicadores Forma de medida Interpretação Patrimônio Líquido 1- 25% melhores colocadas;

  0 - demais O patrimônio líquido acumulado pela cooperativa indica sua capacidade negocial, seu tamanho e importância regional.

  Patrimônio Líquido/ nº de cooperados 1- 25% melhores colocadas; 0 - demais

  Um maior patrimônio per capita indica a capacidade de retorno da cooperativa aos seus membros. Facilidade de acesso ao crédito

  1- sim 0- não

  O acesso ao crédito para a agricultura familiar facilita investimentos na estrutura e nos negócios obrigações financeiras, com fornecedores e consumidores.

  0- não das cooperativas, se elas têm ou não conseguido cumprir com suas obrigações. Realizou investimentos

  1- sim 0- não

  A realização de investimentos na cooperativa indica sua saúde financeira. Diversificação dos canais de comercialização

  0- um único canal; 0,2- dois canais; 0,4 - três canais; 0,6- quatro canais; 0,8- cinco canais 1,0-mais de 5 canais

  A comercialização para diversos canais indica uma maior autonomia comercial da cooperativa.

  Declara dependência da comercialização com o PAA

  1- não 0-sim

  Indica a dependência comercial da cooperativa. Existência de relação com o consumidor final

  1- sim 0- não

  Se a cooperativa possui contato com o consumidor final indica que existe maior laço comunitário e maior possibilidade de vendas externas se eventualmente sair do PAA. Existência de estrutura própria de comercialização

  1- sim 0- não

  Existência de estrutura própria, indica uma maior profissionalização na comercialização

  Grau de articulação em redes 0,0- não articulado; 0,2- uma rede; 0,4- duas redes; 0,6- três redes; 0,8- quatro redes

  Grau de articulação em redes e participação em espaços de troca de experiências entre cooperativas. Acesso à políticas públicas 0 - não acessa políticas públicas; 0,25 - acessa uma política pública; 0,50 - acessa duas políticas públicas; 1,0- acessa mais de duas políticas públicas

  Indica o grau de atendimento por políticas públicas, assim como, um maior grau de profissionalização para a elaboração de projetos e gestão dos contratos institucionais.

  Escolaridade do presidente 0,25- fundamental; 0,50- médio; 0,75- técnico; 1,0- superior

  Grau de profissionalização.

  Escolaridade da diretoria 0,25- fundamental; 0,50- médio; 0,75- técnico; 1,0- superior

  Grau de profissionalização.

  Escolaridade do conselho 0,25- fundamental; 0,50- médio; 0,75- técnico; 1,0- superior

  Grau de profissionalização.

  Escolaridade dos funcionários 0,25- fundamental; 0,50- médio; 0,75- técnico; 1,0- superior

  Grau de profissionalização.

  Escolaridade dos Membros

  0,25- fundamental; 0,50- médio; 0,75- técnico; 1,0- superior

  Grau de profissionalização.

  Temas de capacitação 0,25- apenas na produção 0,50 - produção e gestão;

  Os temas para a capacitação indica a influência das cooperativas na formação Pessoas Capacitadas 0,25 apenas gestores capacitados; 0,50- gestores e membros ou funcionários capacitados; 1,0- todos recebem capacitação

  O investimento em capacitação indica a influência das cooperativas na formação de seus membros.

  Financiamento das capacitações 0,25 - apenas externo 0,50- externo e na rede; 1,0 - externo, na rede e próprio

  O investimento em capacitação indica a influência das cooperativas na formação de seus membros. Produção Orgânica 1- sim

  0- não Quanto mais cooperados/propriedades se dedicarem à produção orgânica, maior a proteção ambiental da cooperativa. Assim como pode indicar uma maior efetividade das campanhas de conscientização.

  Capacitação e treinamento em meio ambiente

  1- sim 0- não

  Quanto mais cooperados capacitados quanto à produção orgânica, ao manejo correto de resíduos, indica uma maior conscientização ambiental na cooperativa. Assim como pode indicar uma maior efetividade das campanhas de conscientização. cooperativas indica que ela propicia a permanência dos jovens no meio rural e a continuidade das atividades. Participação de 1- sim Uma participação maior jovens na diretoria. 0- não de jovens até 30 anos nas cooperativas indica que ela propicia a permanência dos jovens no meio rural e a continuidade das atividades. Participação de 0 - abaixo de 5%; A participação de mulheres 0,25- entre 5 e mulheres também indica

  15%; maior diversidade na 0,5- entre 15 e governaça da 33%; cooperativa.

  1- mais de 33%; Participação de 0 - abaixo de 5%; A participação de mulheres na 0,25- entre 5 e mulheres também indica diretoria. 15%; maior diversidade na

  0,5- entre 15 e governaça da 33%; cooperativa. 1- mais de 33%;

  Participação nas 1- sim Quanto maior a assembleias 0- não participação dos membros nas cooperativas indica maior vontade desses em permanecer na cooperativa, assim como fomenta um ambiente de troca de experiências. Número de 1- 25% melhores Quanto mais pessoas cooperados colocadas; estiverem envolvidas com

  0- demais a cooperativa mais comuniddades que são envolvidas. Possui funcionários 1- sim O número de contratados legalmente 0- não indica maior registrados profissionalização da cooperativa. Utiliza ferramentas Graduação de 0,2 A existência de estrutura de gestão para cada um e ferramentas utilizado administrativas indicam maior profissionalização da cooperativa. Possui agroindústria 1- sim A existência de

  0- não agroindústria indica uma maior autonomia da cooperativa no beneficiamento dos produtos e agregação de valor aos mesmos. Existência de 1- sim A existência de maquinário 0- não maquinário indica uma maior autonomia da cooperativa no beneficiamento dos produtos e agregação de valor aos mesmos. Existência de veículo 1- sim A existência de veículo para distribuição 0- não para a distribuição indica uma maior autonomia da cooperativa na distribuição dos produtos e agregação de valor aos mesmos. Existência de 1- sim A existência de armazém armazém 0- não indica uma maior autonomia da cooperativa no beneficiamento dos produtos e agregação de valor aos mesmos. A avaliação do PAA nas cooperativas catarinenses passou por cinco fases distintas e complementares entre si, como explicitado no capítulo de coleta e análise dos dados, com o intuito de reforçarem as conclusões obtidas a partir dos dados coletados nos PDIs e demonstrarem com clareza os resultados obtidos pelas cooperativas. A partir destas cinco análises foram feitas as considerações finais e sugestões às cooperativas e aos gestores da política pública.

  Inicialmente é feita análise do conjunto que permite definir as diferenças entre o grupo tratado e o grupo controle. Para tanto foram analisadas cada uma das dimensões do modelo de análise, com intuito de esclarecer as diferenças e semelhanças entre o grupo controle, que não acessa o PAA e o grupo tratado, que acessa o PAA.

  Depois a análise passa por um processo de atribuição de notas e classificação para as cooperativas. A análise baseada nos rankings de classificação de cada uma das áreas tratadas nos objetivos do PAA (econômica, social, sustentabilidade e industrialização). Para cada uma destas áreas foi elaborado um ranking com as notas obtidas nos indicadores e em seguida elaboradas comparações entre as cooperativas pesquisadas. A partir destes mesmos rankings observaram-se alguns indicadores de destaque, assim eles foram devidamente isolados e avaliados.

  A terceira análise foi realizada com o auxílio do software Weka, que elabora árvores de decisão baseado nas relações encontradas entre os dados coletados.

  A última e quarta análise é de caráter qualitativa, que implicou no aprofundamento da leitura dos PDIs da melhor e da pior colocada no ranking geral, com intuito de encontrar as características subjetivas que levam à classificação. Os itens a seguir apresentam os resultados obtidos nestes cinco momentos.

  5.1 ANÁLISE DE CONJUNTO: GRUPO TRATADO VERSUS GRUPO CONTROLE

  De modo geral, percebe-se que as cooperativas que participam desempenho médio das cooperativas que não participam do PAA. Ao realizar as médias entre as cooperativas dos dois grupos em 29 dos 33 indicadores analisados houve destaque às cooperativas pertencentes ao grupo tratado e apenas 04 de destaque no grupo controle. Apresentamos a seguir os resultados obtidos em cada uma das áreas analisadas.

  Quanto à área de inclusão econômica, que está subdivida entre as dimensões viabilidade financeira e comercialização, percebe-se que as cooperativas tratadas se destacam na maioria dos indicadores, com exceção da realização de investimentos, já que todas as cooperativas do grupo controle declaram ter feito investimentos nos últimos três anos, enquanto três cooperativas do grupo tratado, atendido pelo PAA não conseguiram realizá-los.

  As tratadas possuem valores mais altos em termos de patrimônio líquido, maiores patrimônio per capita, mais acesso ao crédito e menores índices de inadimplência.

  Também se destacam as cooperativas tratadas na dimensão da comercialização com mais diversidade de canais de comercialização, estrutura própria de vendas e, inclusive, mais relação com o consumidor final de seus produtos.

  Quanto ao montante de patrimônio líquido das cooperativas, avalia-se que as diferenças entre o grupo tratado e o grupo controle são bastante significativas. As cinco cooperativas com valores mais altos em termos de patrimônio líquido pertencem ao grupo tratado. A média de patrimônio do grupo controle é de R$331.855,04, enquanto a média das cooperativas do grupo tratado é de R$1.188.900,83, ou seja, as cooperativas participantes do PAA possuem patrimônio líquido absoluto mais de três vezes superior àquelas cooperativas que não participam do PAA.

  Quanto ao indicador de patrimônio per capita, que é o patrimônio líquido total dividido pelo número de cooperados, uma entre as cooperativas do grupo controle se destaca entre as cinco melhores, com um patrimônio per capita superior aos R$17.000,00. Contudo a diferença entre as médias dos patrimônios per capita das cooperativas dos grupos controle e tratado continua significativa, quase o dobro. Na média as cooperativas participantes do PAA possuem patrimônio per

  Quanto ao acesso ao crédito, 50% das cooperativas do grupo controle afirmam ter dificuldade de acesso ao crédito, enquanto essa mesma dificuldade é citada por apenas 14,6% das cooperativas do grupo tratado.

  Quanto à adimplência das obrigações, 66% das cooperativas do grupo controle afirmam estar inadimplentes. O índice de inadimplência entre as cooperativas do grupo tratado é mais de três vezes menor, de 21,4%.

  Todavia, quanto à realização de investimentos 100% das 06 cooperativas do grupo controle realizaram investimentos no último ano, contra o índice aproximadamente 80% das cooperativas do grupo tratado no mesmo período.

  Quanto à dimensão de comercialização, o indicador de diversificação dos canais de comercialização revela que 16% das cooperativas do grupo controle vendem apenas para um consumidor, o que significa ampla dependência deste consumidor, assim como sérios riscos de comercialização dos produtos e formação de preços. Este índice de exclusividade de venda nas cooperativas tratadas cai para menos da metade, apenas 7%.

  Quanto à relação com o consumidor final, 66% das cooperativas do grupo controle têm essa relação, enquanto ela é mantida por 85% das cooperativas tratadas.

  Quanto ao indicador de estrutura própria de comercialização, 66% das cooperativas do grupo controle possui estrutura completa, enquanto a mesma estrutura é mantida por 100% das cooperativas tratadas.

  A análise dos indicadores da área econômica demonstra que as cooperativas participantes do PAA têm obtido melhores resultados econômicos e financeiros, e vem dando um maior retorno em termos de remuneração da atividade para seus membros, se comparado àquelas cooperativas não participantes. O PAA, portanto tem possibilitado uma ampliação da receita das cooperativas e da renda dos cooperados e por, consequência, das famílias agricultoras.

  Da mesma forma, as cooperativas tratadas, possuem melhores indicadores de comercialização, que significa maior autonomia comercial e profissionalização, obtendo, com isso melhores preços de produtos, menor dependência de atravessadores e um maior contato direto com consumidores. Isso pode indicar que se porventura o Todos esses dados permitem então afirmar que o PAA tem sido bem sucedido no que se refere à inserção econômica dos agricultores familiares e das próprias cooperativas, criando condições essenciais para garantir uma maior remuneração da atividade, fator fundamental para a sustentabilidade da agricultura familiar, como apontado por Abramovay (1998) e Andrade Júnior (2009).

  Entretanto, cabe aqui já fazer uma ressalva, pois apesar da diversidade de canais de comercialização e da manutenção de uma relação direta com os consumidores na maioria dos casos, mais de 70% das cooperativas que participam do PAA declaram ser dependentes do programa. Isso porque, apesar de disporem de outros canais de comercialização, nenhum deles concentra o montante de produção demandada pelo PAA. Portanto embora haja diversificação e relação com consumidores, o PAA continua sendo o consumidor mais importante das cooperativas pesquisadas. Esta relação de dependência e suas consequências serão exploradas mais detalhadamente a seguir.

  Na área de inclusão social os indicadores revelam também melhores resultados entre as cooperativas do grupo tratado. Esta área tem por dimensões a articulação das cooperativas com outras instituições, redes e políticas, bem como o grau de educação formal, a capacitações e treinamentos, tanto dos gestores quanto dos membros cooperados.

  Com exceção da educação formal dos presidentes das cooperativas, em que se destacam as cooperativas do grupo controle, em todas as demais dimensões as cooperativas do grupo tratado pelo PAA se destacam.

  Quanto ao indicador de articulação, 33% das cooperativas do grupo controle não possuem qualquer articulação em rede, enquanto no grupo tratado 100% das cooperativas possuem articulações. A articulação em rede aparece como um dos fatores mais relevantes em termos de distinção entre a melhor e a pior cooperativa classificadas, de acordo com o ranking geral, como será demonstrado a seguir.

  Na dimensão de educação formal, através do indicador de escolaridade do presidente conclui-se que a escolaridade dos presidentes nas cooperativas do grupo controle é superior às do grupo tratado. Nas nível fundamental. Entretanto nas cooperativas participantes do PAA os percentuais passam para 28% dos presidentes concluíram o nível superior, 7% o nível técnico, 14% nível médio e 50% deles concluíram apenas o nível fundamental. Esses dados estão demonstrados nos gráficos 8 e 9.

  Gráfico 8

  • – Escolaridade dos presidentes do grupo tratado

  Nível Superior 29%

  Nível médio 50%

  Nível 21%

  Fundamental Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Gráfico 9

  • – Escolaridade dos presidentes do grupo controle

  Nível Superior 33%

  Nível médio 50%

  Nível 17%

  Fundamental Se olharmos em termos de educação formal esse pode ser um fator que desabona as cooperativas do grupo tratado pelo PAA. Entretanto, tendo em vista o seu perfil, esse dado pode indicar que há uma real participação de agricultores familiares na gestão, assumindo o mais alto posto na direção estratégica da cooperativa (a presidência). Isso então pode indicar uma governança mais democrática que permite que os agricultores familiares gerenciem efetivamente a cooperativa, aspecto essencial nos empreendimentos ligados a ESS, como ressaltado pelos autores tratados na fundamentação teórica tais como Andion e Serva (2006), Cançado (2007), Chaves (2006), Laville, (2009), Monzón (2002).

  Quanto à educação formal dos diretores, conselheiros, funcionário e cooperados, em geral observa-se índices bastante aproximados entre as cooperativas dos grupos tratado e controle. Ou seja, raramente a escolaridade dos membros e dos conselheiros supera o nível fundamental e a escolaridade dos diretores e funcionários o nível médio. Mais uma vez, aqui se percebe que essas cooperativas são geridas pelos próprios agricultores familiares, denotando uma maior aproximação do princípio de autogestão, conforme discutido anteriormente (CANÇADO, 2007; CHAVES 2006).

  Quanto à dimensão de capacitação e treinamento, o indicador que demonstra as pessoas treinadas nas cooperativas revela que nas cooperativas do grupo controle apenas 16% treinam pessoal além de sua diretoria, e nas cooperativas do grupo tratado o percentual de capacitação ampliada a membros e funcionários chega aos 42%. Essa capacitação demonstra que as cooperativas que participam do PAA estão preocupadas com a sua profissionalização e qualificação.

  Aqui pode-se perceber que, como afirma Laville (2009), a profissionalização não necessariamente colide com uma gestão mais democrática e as cooperativas analisadas, embora sejam geridas pelos agricultores familiares, são também espaços onde se busca maior qualificação profissional. Essa qualificação, além de ser um importante fator de inclusão social e de valorização da profissão de agricultor familiar (aspecto essencial para quebrar o ciclo vicioso de êxodo rural e desvalorização das atividades no campo, como abordado Muller (2007) e Abramovay (1998) é também um importante elemento de promoção do desenvolvimento institucional das cooperativas.

  Como aborda-se, mais adiante o investimento em capacitação cooperativas no ranking geral, como demonstra a árvore de decisão descrita mais abaixo.

  Conclui-se, quanto à área de inclusão social, que as cooperativas do grupo tratado se destacam no grau de articulação e na promoção de capacitação e treinamento aos membros. Estas duas dimensões estão bastante correlacionadas, já que os treinamentos são geralmente realizados pelos órgãos governamentais ou pelas redes às quais as cooperativas estão vinculadas. Portanto, significa dizer que sem articulação há pouco treinamento, o que impacta diretamente no resultado e na produtividade das cooperativas e então se percebe o vínculo entre articulação, participação no PAA, capacitação e resultados econômicos.

  Quanto ao indicador de educação formal, percebe-se que as cooperativas que não participam do PAA possuem uma situação mais favorável do que aquelas que participam. Se por um lado isso pode indicar um não estímulo do programa a uma melhoria dos seus beneficiários em relação ao seu grau de escolarização, por outro, como mencionado, esse resultado também indica que o perfil dos dirigentes e também dos cooperados no caso do grupo tratado se aproxima mais do perfil dos agricultores familiares, demonstrando que as cooperativas do grupo tratado possuem sistemas de governança nos quais os agricultores são protagonistas.

  Quanto à área de sustentabilidade essa é composta por três dimensões: uma relacionada ao meio ambiente e outras duas à sustentabilidade corporativa (dimensões mais institucionais e políticas), envolvendo o grau de participação e as estruturas de gestão. Na dimensão de meio ambiente as cooperativas tratadas se distanciam visivelmente das demais, todas com melhores índices. Já na dimensão de participação e na profissionalização das estruturas de gestão a tendência é inversa, destacando-se as cooperativas do grupo controle.

  Na dimensão de meio ambiente, verifica-se através dos indicadores de produção orgânica e capacitações neste modelo de produção, que entre as cooperativas do grupo controle 16% adotam a produção orgânica e capacitam seus produtores para tanto. Já entre as cooperativas do grupo tratado este índice chega a 42% das cooperativas Esses dados são relevantes para o programa, pois mostram que as cooperativas do grupo tratado estão fazendo ou já fizeram a conversão do seu sistema para a produção orgânica. Isso além de ter um valor em termos de preservação e conservação dos recursos ambientais, possui um valor social (pois significa uma melhoria em termos da saúde, qualidade de vida e da segurança alimentar para as famílias) e também econômico (tendo em vista que os produtos orgânicos têm um maior valor agregado). Esta é então uma característica importante que o programa poderia valorizar mais, oferecendo incentivos seletivos a estas cooperativas, de forma a estimular ainda mais esta prática. Ressalta-se que atualmente o PAA não diferencia o preço e as outras condições comerciais de produtos orgânicos e convencionais.

  Na dimensão de participação, no indicador que verifica a participação de jovens nas diretorias das cooperativas, observa-se que 33% das cooperativas do grupo controle contam com a significativa participação de jovens na diretoria, enquanto nas cooperativas tratadas esse índice é bastante menor, apenas 7%. Esses dados podem sinalizar que nas cooperativas atendidas pelo PAA há um maior risco em termos de sucessão das propriedades e de sustentabilidade das atividades no longo prazo, conforme alertam Andrade (2009), Muller (2007) e Abramovay (1998), entre outros.

  Desse modo, constata-se a necessidade do PAA buscar estimular as cooperativas participantes a promoverem um maior envolvimento dos jovens. Como colocado por Abromovay (1998), a perda de interesse dos jovens pelas atividades rurais e a busca por novas oportunidades nas cidades é um dos principais fatores de desertificação populacional nas zonas rurais,

  Já no indicador referente à participação de mulheres nas cooperativas, percebe-se que entre as cooperativas do grupo controle a média de participação é de 50% de mulheres, já entre as cooperativas do grupo tratado a participação feminina é de 71%. Esse dado mostra que as cooperativas que participam do PAA possuem um maior envolvimento de mulheres, apresentando uma maior inclusão em termos de gênero, do que aquelas que não participam.

  Quanto à média do número cooperados, as cooperativas do grupo tratado apresenta um número maior, com uma média de aproximadamente 204 cooperados, sendo que a menor cooperativa possui 22 cooperados e a maior 532, enquanto as cooperativas do grupo com a menor de 07 pessoas e a maior com 148 pessoas. Conforme demonstram os gráficos 10 e 11.

  Gráfico 10

  • – Número de cooperados grupo tratado Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Gráfico 11

  • – Número de cooperados grupo controle Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Percebe-se, portanto, que o que prevalece no grupo controle são as cooperativas com até 49 cooperados. Metade de suas cooperativas 7%

  14% 22%

  43% 14%

  Até 49 Entre 49 e 100 Entre 100 e 200 Entre 200 e 400 Mais de 400

  50% 17%

  33% 0% 0%

  Até 49 Entre 50 e 100 Entre 100 e 200 Entre 200 e 400 Mais de 400 sendo a faixa mais populosa a composta pelo intervalo ente 200 e 400 cooperados.

  Outro fator medido quanto à sustentabilidade das cooperativas é a satisfação dos gestores quanto à participação dos membros em assembleias. A participação no grupo controle atinge o grau de 66% de satisfação, enquanto no grupo tratado o índice é de apenas 28%. Estes dados podem ser reflexos do próprio tamanho das cooperativas apresentados acima, já que as cooperativas que apresentam bons índices de satisfação possuem no máximo 152 cooperados.

  Quanto ao número de funcionários registrados, que indica uma maior profissionalização das cooperativas, verifica-se que 84% das cooperativas do grupo controle possuem funcionários, contudo entre as do grupo tratado chega-se a aproximadamente 71%. Esse resultado vai ao encontro com aquele referente a educação formal, demonstrando que as cooperativas participantes do PAA tem buscado ampliar a sua profissionalização baseada nos próprios cooperados e na contratação de funcionários, ampliando seus canais democráticos.

  Essa tendência se comprova quando analisamos a utilização das ferramentas de gestão pelos dois grupos. Enquanto no grupo controle 50% das cooperativas utilizam apenas uma ferramenta de gestão, no grupo tratado as ferramentas são mais difundidas, apenas 7% utilizam apenas uma ferramenta. Entre as ferramentas utilizadas, destacam-se o organograma, o planejamento estratégico, o controle de qualidade dos produtos, o acesso a internet e softwares de contabilidade.

  Esse dado permite constatar que a participação no PAA pode ter uma influência na ampliação do grau de profissionalização e desenvolvimento institucional das cooperativas. Isso pode também ser constatado no fato de todas as cooperativas pesquisadas terem participado do curso de gestão de cooperativas oferecido em parceria pela UDESC e o MDA e elaborado seus PDIs, e que visivelmente o grupo tratado coloca fazer mais uso desses princípios e ferramentas de gestão.

  Mais uma vez pode-se concluir que o PAA tem revelado bons resultados às cooperativas, ele aponta para o bom desenvolvimento de práticas ecológicas nas cooperativas atendidas e uma gestão mais estruturada e com maior diversidade de gênero. Contudo é na área da sustentabilidade que surgem também os maiores gargalos do PAA, a baixa participação de jovens e a pouca participação em assembleias. A Vale ressaltar que o desafio de fazer com que os jovens permaneçam no campo e que exista a sucessão das propriedades é central na discussão de desenvolvimento rural, como debatem Andrade Júnior (2009), Muller (2007) e Friedmann (1978).

  Outra dificuldade que surge quanto à sustentabilidade nas cooperativas tratadas se refere à participação dos membros nas assembleias. Essa participação é muito pequena e verificou-se apenas em quatro cooperativas. Importante ressaltar que todas aquelas que possuem participação contam com número mais reduzido de membros, inferior a 152 cooperados.

  Um último item que deve ser ressalvado quanto à sustentabilidade corporativa das cooperativas é o fato de haver menos funcionários contratados nas cooperativas tratadas que nas cooperativas do grupo controle, o que poderia ser um indício de pouca profissionalização ou busca por melhorias nos processos. Todavia, aliado aos demais indicadores, como a de utilização de ferramentas de gestão e também de pressupostos da Economia Social e Solidária, ela pode indicar também uma busca pela profissionalização dos próprios cooperados em busca da maior democracia e autogestão, defendidos por Cançado (2007), Laville (2009) e Barea Tejero e Monzón (2002).

  Sobre a análise da área de fomento à industrialização observa-se que entre as cooperativas do grupo controle os indicadores de existência de agroindústria, maquinário, veículo de distribuição e armazém são bastante menores que no grupo tratado. Portanto, nesta área que diz respeito à infraestrutura das cooperativas e na sua capacidade de agregar valor aos produtos o destaque do grupo tratado é mais evidente.

  Entre as cooperativas do grupo controle nenhuma delas possui os quatro equipamentos pesquisados e necessários para a manutenção e ampliação produção das cooperativas: maquinário, agroindústria, armazém e veículo para distribuição da produção. Em 50% das cooperativas do grupo controle existem três dos quatro elementos produtivos analisados; 33% possuem apenas dois desses equipamentos e 16% não possui nenhum deles. Já nas cooperativas tratadas, 71% possuem a estrutura completa de produção, composta pelos quatro itens, seguido por 21% que possuem três dessas estruturas e 7% que possui Esses dados indicam que o PAA, além de proporcionar uma maior sustentabilidade econômica no curto e médio prazos para as cooperativas, como visto no item 5.1.1, pode estar viabilizando o reinvestimento no empreendimento, reforçando a sua capacidade produtiva e ampliando a sua competitividade. Cumpre destacar que as 14 cooperativas do grupo tratado estão em média há 05 anos no programa, o que justifica essa constatação.

  No tópico a seguir as vinte cooperativas da amostra, sem distinções entre o grupo tratado e o grupo controle, foram submetidas à avaliação para obtenção de notas e composição de um ranking de cinco melhores e piores classificadas em relação aos indicadores. Esses dados foram avaliados comparativamente, mas sem perder o foco da pesquisa de identificar os resultados do PAA.

  5.2 ANÁLISE COMPARATIVA; MELHORES E PIORES COOPERATIVAS SEGUNDO OS INDICADORES

  A análise comparativa é aquela realizada sem auxílio de nenhum software ou programa estatístico, mas baseada apenas na observação e no relacionamento dos dados coletados pelo próprio pesquisador (GIL, 1999). Neste tópico cada um dos indicadores avaliados ganhou um valor e a partir das pontuações obtidas pelas cooperativas em cada um dos indicadores através de médias simples foram construídos cinco rankings, um geral e um para cada uma das áreas dos objetivos.

  As análises dos dados partem das observações feitas a partir da posição ocupada por cada uma das cooperativas pesquisadas em cada um dos rankings elaborados, tendo o foco na observação das características que individualizam as cinco primeiras colocadas.

  O ranking geral que posiciona as cooperativas pesquisadas, a partir das médias obtidas por elas nas quatro áreas de impacto dos objetivos do PAA, é apresentado abaixo seguido de sua análise:

  Tabela 3 – Ranking geral Ranking Geral

  Posição Cooperativa

  Nota 1º

  J 80,75%

  2º 76,35% T

  3º 71,90% S

  4º 70,19% H

  5º 69,22% M

  6º 65,36% O

  7º 64,64% P

  8º 63,75% G

  9º 61,56%

  I 10º

  59,31% U 11º

  59,01% Q 12º

  55,96% R 13º

  54,25% B 14º

  53,53% L 15º

  53,50% F 16º

  49,38% C 17º

  44,88% A 18º

  43,25% D 19º

  25,64% N 20º

  24,88% E Fonte: Elaboração da autora, 2013. Entre as cooperativas que figuram entre as cinco melhores posicionadas no ranking destacam-se as seguintes características comuns:

   Todas têm acesso ao PAA há pelo menos cinco anos;

   Possuem vínculo com o consumidor final de seus produtos;  Realizam suas operações financeiras através da rede CRESOL;  Declaram ter facilidade na obtenção de crédito;  Declaram ter realizado investimentos após a atuação no PAA;  Contam com pelo menos, uma mulher ocupando posições de gestão;  Promovem treinamentos e capacitações para gestores, funcionários e membros da cooperativa;  Possuem produção orgânica;  Possuem agroindústrias e equipamentos para o processamento de todos os seus produtos, além de manter controle de qualidade dos produtos, armazéns, sedes próprias e veículo para distribuição.

  O fato das cinco melhores posicionadas em relação aos indicadores de resultado acessarem o PAA há pelo menos 05 anos, indica que as cooperativas que há mais tempo participam do programa possuem melhores resultados que as demais. Isso confirma que o programa tem produzido resultados positivos junto às cooperativas, especialmente àquelas que continuam no médio prazo, vinculadas ao programa.

  Quanto à inclusão econômica, as cooperativas que acessam o PAA há pelos menos 05 anos possuem uma maior diversificações dos canais de distribuição de produtos, mantendo, em regra, relação direta com os consumidores (por meio das feiras) e com as redes varejistas (quatro dentre as cinco comercializam para essas redes). Isso indica que elas possuem uma maior retorno econômico em relação a sua produção, pois diminuem a distância entre a produção e o consumo na cadeia de valor (ANDRADE, 2009). Desse modo, confirma-se que a participação no PAA parece contribuir para a inserção econômica dos agricultores familiares beneficiados.

  Entretanto, ressalta-se que isso ainda não significa uma ampliação em termos de autonomia comercial das cooperativas, fazendo com que se questione o caráter emancipatório do PAA, na mesma direção do que apontou Guerra (2010). Apenas duas das cinco melhores posicionadas no ranking declaram não depender dos recursos advindos sobre o risco das políticas distributivas - que têm um caráter compensatório sobre grupos específicos - de gerar dependência desses grupos em relação a essas políticas.

  Destaca-se que todas estas cooperativas melhores posicionadas acessam também outras políticas e programas públicos, tais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), o Programa de Desenvolvimento de Territórios Rurais (PDTR), além de outros projetos e programas dos governos federais, estaduais e municipais não especificados nos PDIs. Esse fato impede que se afirme que os resultados obtidos sejam apenas consequência da participação no PAA e, por outro lado, permite inferir-se que a complementação das políticas (e suas interfaces) poderiam ser um fator de explicação para os resultados obtidos por essas cooperativas beneficiadas.

  No que se refere à inclusão social, corroborando com os resultados apresentados anteriormente, as cooperativas melhor posicionadas têm em comum um maior grau de profissionalização, uma maior participação de mulheres na gestão (todas possuem pelo menos uma mulher ocupando posições executivas (presidência, diretoria ou conselhos) e também são mais articuladas (possuem mais parcerias e estão inseridas em redes de cooperação técnica, crédito e comercialização). Contudo, ainda que apresentem os melhores indicadores entre as vinte analisadas, elas têm em comum uma frágil participação de seus membros nas assembleias e demais atividades desenvolvidas pelas cooperativas. Apenas duas das melhores posicionadas consideram essa participação satisfatória.

  Já no que se refere à sustentabilidade corporativa, destaca-se como similaridade o fato de investirem mais em seu pessoal (gestores, funcionários e cooperados), por meio de formação continuada. Quatro delas, inclusive, além de receberem cursos de treinamento e capacitação de órgãos públicos, sindicatos ou redes também investem recursos próprios nestas atividades. Portanto, pode-se inferir que as cooperativas que estão há mais tempo no PAA parecem ter um maior grau de desenvolvimento institucional, apresentando-se como mais sustentáveis do ponto de vista organizacional que aquelas que não participam.

  Quanto à dimensão ambiental da Sustentabilidade, as cinco melhores colocadas possuem produção orgânica, ainda que apenas

  6 6 quatro estejam formalmente vinculadas à Rede Ecovida , que atua na organização, apoio técnico e certificação da produção agroecológica. Somente três delas possuírem produção focada na modalidade de orgânicos. Esse dado corrobora com as considerações feitas anteriormente sobre a importância do PAA considerar esse aspecto como distintivo, incentivando esse tipo de produção.

  Quanto à área de Industrialização as cinco melhores colocadas compartilham das seguintes características: todas possuem agroindústrias e todos os equipamentos e maquinários necessários para o processamento dos seus produtos, além de manterem um rígido controle de qualidade dos produtos, manter armazém para a estocagem, sedes próprias e veículo para distribuição.

  Vale ainda pontuar que nestas cooperativas houve investimentos durante os anos em que participou do PAA em melhorias e ampliação de agroindústria, ou armazém ou sede ou veículos de distribuição.

  Esse dado corrobora com a consideração qu se fez anteriormente de que além de promover uma melhoria financeira para as cooperativas, a participação no PAA pode estar melhorando a sua capacidade de investimento.

  Em relação ao ranking geral, também é importante ressaltar as características comuns às cinco cooperativas piores posicionadas no ranking, o que confirma algumas evidências já exploradas e trazem à tona outras. Dentre essas características destacam-se:

   Apenas uma entre as cinco piores posicionadas é beneficiária do PAA, e, nesse caso, o acesso ao programa ocorreu há menos de dois anos (reforçando a correlação entre estar há mais tempo no programa e os resultados obtidos). Contudo, três entre estas cinco piores acessam o PNAE, o ajuda a delimitar ainda mais os efeitos do PAA nas 05 primeiras colocadas que também acessam o PNAE.

   Quanto à área de inclusão econômica, as cinco últimas colocadas possuem características opostas àquelas melhores colocadas e que participam há mais tempo do PAA: não possuem agroindústria e

  

comprometidas com o desenvolvimento da agroecologia, tem entre outros o

objetivo de desenvolver e multiplicar as iniciativas em agroecologia; Estimular

o trabalho associativo na produção e no consumo de produtos ecológicos;

aproximar, de forma solidária, agricultores e consumidores; ter uma marca e um

selo que expressam o processo, o compromisso e a qualidade. (ECOVIDA, vendem seus produtos para atravessadores, sem que seja feito nenhum controle de qualidade ou classificação dos produtos vendidos. Isso significa dizer, que elas vendem seus produtos exclusivamente in

  

natura, e não possuem contato com o consumidor final. Apenas uma

  entre elas vende por meio de feiras livres e outra para o comércio varejista.

   Quanto à área de Inclusão Social, nas cinco piores colocadas evidencia-se que os treinamentos e capacitações ainda são restritos aos gestores e financiados exclusivamente com recursos externos. Apenas uma cooperativa dentre estas promove capacitação e treinamento para todos os cooperados ou com recursos próprios. Essa centralização se reflete também na participação dos cooperados, pois em nenhuma destas cooperativas a participação é satisfatória.

   Na dimensão corporativa da sustentabilidade nenhuma das piores cooperativas possui participação satisfatória nas assembleias, tampouco a participação expressiva de jovens. Contudo, três delas possuem funcionários contratados e devidamente registrados e duas delas contam com mulheres na diretoria.

   Na dimensão ambiental da sustentabilidade ambiental chama atenção o fato de que quatro entre estas cooperativas são baseadas no modelo tradicional de cultivo, com o uso de pesticidas e agrotóxicos.  Finalmente, na área de Industrialização quatro entre as cinco cooperativas piores colocadas realizaram investimentos na sua infraestrutura, inclusive aquela que recentemente foi incluída no PAA. Isso pode indicar que a ampliação do investimento não seja um fator exclusivamente devido à participação no PAA, mas a outras políticas e fatores que melhoram o acesso ao crédito.

  A análise baseada em um ranking geral é complementada com o conhecimento em profundidade dos PDIs das cooperativas de melhor e pior posicionamento no ranking, no intuito encontrar informações subjetivas e complementares que colaborem com a busca de uma justificativa das posições ocupadas por elas, o qual é apresentado no item 5.3. Neste momento passa-se a analisar os rankings específicos, assim como os indicadores que mais se destacaram em cada uma das áreas. Assim como foi elaborado um ranking geral das médias obtidas nas cooperativas, em cada uma das áreas avaliadas (econômica, social, sustentabilidade e industrialização), também foi elaborado um ranking para que se pudessem observar as relações entre áreas, dimensões e indicadores. Por meio desta análise demonstra-se que para que uma cooperativa esteja entre as melhores posicionadas em uma das áreas medidas, ela também guarda características comuns e relevantes das outras três áreas.

  A partir das análises dos conjuntos de grupo tratado e grupo controle e das análises baseadas nas melhores posições dos rankings, alguns indicadores chamam atenção, pois estão sempre ligados ao melhor ou pior desempenho das cooperativas. Esta relação frequente fez surgir novas hipóteses indicativas que de quais seriam estes indicadores decisivos na posição ocupada por uma cooperativa.

  Com o intuito de dirimir e explorar tais hipóteses, detalhou-se os seguintes indicadores: na área de inclusão econômica, (1) as relações de dependência do PAA (1); na área de inclusão social, a formação de nível superior dos gestores (2); na área de sustentabilidade, a participação de mulheres na gestão da cooperativa (3) e a produção orgânica (4).

  5.2.2.1 Inclusão econômica Tabela 4

  • – Ranking inclusão econômica

  (continua) Ranking Inclusão Econômica

  Posição Cooperativa

  Nota 1º

  J 100%

  2º M

  88% 3º

  84,44% O 4º

  82,22% Q 5º

  75,56% P 6º

  71,11% S 7º

  67,50% C

  (conclusão) Ranking Inclusão Econômica

  Posição Cooperativa

  Nota 10º

  62,22%

  I 11º

  60,00% G 12º

  55,00% B 13º

  50,00% F 14º

  42,22% L 15º

  40,00% D 16º

  37,70% H 17º

  35,56% N 18º

  33,33% R 19º

  30,00% E 20º

  17,50% A Fonte: Elaborada pela autora, 2013. Confirmando as evidências do ranking geral, todas as cinco cooperativas melhores posicionadas economicamente são beneficiárias do PAA, possuem pelo menos três distintos canais de comercialização, e possuem relação direta com o consumidor, contando com estrutura própria de comercialização. Contudo, duas dentre elas declaram dependência dos recursos do PAA, fato este que ensejou uma análise mais detalhada.

  O indicador que se destaca na área de inclusão econômica é a dependência do PAA, pois é um indicador que sugere que o empreendimento é pouco sustentável economicamente e com possibilidade de extinção com o término do PAA. Todavia, tanto entre as melhores colocadas no ranking geral, como as melhores colocadas no ranking econômico, figuram cooperativas que declaram esta dependência que ameaça a continuidade de suas atividades. Diante da importância e da frequência com que se remete a este indicador, separou-se aquelas cooperativas que declaram que não são dependentes do PAA e analisou-se os demais indicadores, para buscar alguns elementos de resposta na caracterização dessas cooperativas. Conclui-se, que apenas quatro, entre as catorze cooperativas que compõem a amostra e que participam do PAA declaram ser independentes dos recursos do Programa.

  As quatro cooperativas independentes se destacam entre as dez melhores colocadas no ranking geral e são também destaque entre as cinco melhores colocadas em pelo menos um dos rankings setoriais (social, econômico, sustentabilidade e industrialização).

  Quanto aos indicadores econômicos, as cooperativas independentes do PAA são beneficiadas das compras institucionais, tanto do PAA como do PNAE, além de promoverem vendas diretamente em feiras e para redes varejistas. Como Andrade Júnior (2009) afirma, este modelo de venda nas proximidades reduz etapas entre produtor e consumidor, assim a cooperativa além de conseguir melhores preços, promove a fidelização do cliente, através do fortalecimento dos laços comunitários locais, promovendo diferenciais, como alimentos mais frescos e saborosos (SANTOS, 2012).

  Já quanto à industrialização, embora essas cooperativas ainda vendam alguns dos seus produtos in natura, a maioria possui infraestrutura de processamento e beneficiamento e todas contam com equipamentos de comercialização tais como armazém ou veículo para distribuição. Quanto à industrialização, vale ressaltar, que a única cooperativa que não possui agroindústria fez investimentos para a construção da mesma depois do ingresso no PAA, apesar de ainda vender seu produto exclusivamente in natura.

  Medina (2012) esclarece que a possibilidade de armazenagem permite que o produtor não precise fazer a colheita e a venda imediatamente, podendo, portanto, esperar por um melhor momento de safra, ou ainda, negociar melhores preços com mais tempo, sem que o produto estrague. O mesmo ocorre, segundo o autor, quando existe um veículo para distribuição, que facilita a logística de entrega de produtos e ainda possibilita barganhas e ganhos com o frete.

  Entre os indicadores de sustentabilidade importa ressaltar que entre as quatro cooperativas independentes, três delas trabalham diretamente com a produção agroecológica e fazem parte da rede Ecovida, e duas delas, além de vinculada à Ecovida, fazem parte da rede Terra Viva. Essa articulação em rede permite também o acesso a outros canais de distribuição e também favorece a formação dos cooperados através das capacitações promovidas pelas redes.

  • – Ranking inclusão social (continua)

  4º 68,00% H

  58,00% B 11º

  58,89% L 10º

  64,00% M 9º

  I 8º

  7º 65,00%

  6º 65,00% A

  5º 65,50% S

  3º 68,50% G

  quatro cooperativas que declaram independência em relação aos recursos oriundos do PAA também possuem uma participação mais satisfatória de seus membros na sua governança. Isso pode indicar que a participação direta e ativa dos cooperados na gestão do empreendimento, defendida pelos princípios cooperativistas e também por Chaves (2006), Baera Tejero e Monzón (2002), Cançado (2007) e Singer (2003) influencia positivamente o desempenho da cooperativa.

  70,00% J

  T 2º

  1º 83,00%

  Nota Cooperativa

  Ranking Inclusão Social Posição

  5.2.2.2 Inclusão social Tabela 5

  Desse modo, pode-se concluir que uma boa classificação nos indicadores econômicos não está isolada do ranking obtido nas demais dimensões, especialmente no que se refere à dimensão social e política das cooperativas. Pode-se perceber então que as cooperativas que dispõem de uma maior autonomia em relação ao programa e, portanto, uma maior inserção econômica, também apresentam boas notas nos indicadores sociais (no que se refere à articulação em rede e participação dos membros) e de sustentabilidade (tanto ambiental quanto corporativa).

  55,50% C

  (conclusão) Ranking Inclusão Social

  Posição Cooperativa

  Nota 14º

  49,00% U 15º

  49,00% D 16º

  47,50% E 17º

  41,00% O 18º

  40,00% Q 19º

  35,00% F 20º

  30,00% N

Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

As cinco melhores cooperativas no quesito de inclusão social se assemelham em alguns aspectos: possuem acesso a várias políticas públicas, sendo beneficiadas por pelo menos duas políticas públicas; possuem gestores, funcionários e cooperados capacitados e treinados. Com exceção de uma, todas as demais recebem capacitações e treinamentos de órgãos governamentais, das redes e dos sindicatos as quais estão vinculadas e ainda as promovem por meio de recursos próprios. As capacitações e os treinamentos, nestas cooperativas são ofertados para todos os cooperados e funcionários, independentemente da função que desempenhem na cooperativa.

  Vale ressaltar também que nas cooperativas que tiveram melhor desempenho no quesito de inclusão social, o presidente possui nível superior e destaca-se também a participação de pelo menos uma mulher na diretoria e outra como funcionária contratada.

  A escolaridade do presidente é destaque também em outras áreas, como na econômica e na sustentabilidade. Contudo, apesar de ter se destacado quando tratado no ranking da área econômica, a hipótese de que a escolaridade do presidente poderia influenciar a melhoria daqueles indicadores não se confirmou, pois no total da amostra apresentam-se sete presidentes e presidentas que concluíram o nível superior, três deles encontram-se nas melhores posições e três deles nas piores e um nas de posição intermediária.

  Entretanto algumas relações baseados no indicador do grau de escolaridade formal também se encontra entre os nos diretores e conselheiros. Porém, esta mesma influência não chega aos funcionários, que em geral possuem nível médio, tampouco nos membros cooperados, que em sua maioria possuem apenas nível fundamental.

  5.2.2.3 Sustentabilidade Tabela 6

  • – Ranking sustentabilidade Ranking de Sustentabilidade Posição

  Cooperativa Nota

  1º H

  75,00% 2º

  T 58,00%

  3º 54,00% F

  4º 53,00% J

  5º 51,50% G

  6º 51,00% S

  7º 44,00%

  I 8º

  38,00% L 9º

  37,50% R 10º

  36,00% O 11º

  34,00% D 12º

  31,00% P 13º

  29,00% B 14º

  26,00% U 15º

  24,50% C 16º

  24,00% M 17º

  22,00% E 18º

  22,00% A 19º 14,00% Q 20º

  12,00% N Fonte: Elaborado pela autora, 2013. Entre as cooperativas que se destacam quanto à sustentabilidade, pela primeira e única vez aparece uma das cooperativas analisadas pela pesquisa que não acessa o PAA. As outras quatro cooperativas em destaque, entretanto são do grupo de participantes do PAA. Contudo a área de sustentabilidade, como já mencionado anteriormente é o grande gargalo das cooperativas que PAA.

  As similaridades entre as cooperativas melhores posicionadas neste quesito estão no uso de ferramentas de gestão como: organograma, planejamento estratégico, o acesso a softwares de gestão e de controle da produção como o controle de qualidade, o de estoques, o de produtividade por cooperado, entre outros.

  Outra característica em comum é quanto aos indicadores sociais que sinalizam para a participação de mulheres na diretoria e a maior escolaridade do presidente.

  Além destas características elas guardam similaridade também em outros setores como a profissionalização, pois todas elas contam com funcionários contratados e todos eles recebem treinamento, assim como seus gestores. Todavia, não há em todas elas o mesmo investimento no treinamento dos cooperados que estão alheios à gestão.

  Em virtude da sustentabilidade ter sido identificada com a área de menor desempenho das cooperativas do grupo tratado, buscou-se delinear o perfil das cooperativas que possuem destaque nas dimensões que compõem a sustentabilidade, de forma a contribuir com a melhoria da política pública, entre elas a participação expressiva de mulheres, a participação geral nas assembleias e a produção de orgânicos.

  A participação expressiva de mulheres na cooperativa indica uma maior diversidade na governança da cooperativa. Esta participação ocorre em quinze das vinte cooperativas analisadas, porém apenas em dez entre as cooperativas analisadas as mulheres ocupam alguma posição na gestão da cooperativa, ou seja, em conselhos, diretorias ou presidência.

  No entanto, a participação das mulheres na gestão confere às cooperativas algumas características próprias como o investimento massivo no controle de qualidade, o acesso, em 90% dos casos, de alguma política pública e também em 90% dos casos a relação direta com o consumidor final.

  Vale ressaltar ainda outro ponto: em todos os casos em que há uma mulher atuando na presidência da cooperativa ela possui formação feminina nestes empreendimentos rurais, já que é preciso demonstrar formalmente uma capacitação para alcançar cargos na gestão.

  A participação em assembleias e atividades é um grande desafio às cooperativas, sobretudo para aquelas com maior número de associados e com mais tempo de fundação. Apenas nove entre as vinte cooperativas analisadas, ou seja, 45% das cooperativas declaram uma participação satisfatória em suas atividades.

  A cooperativa mais antiga de apresenta participação satisfatória foi fundada no ano 2000 e a que tem mais pessoas associadas possui apenas 152 cooperados, quando a média supera os 180 cooperados e a maior cooperativa possui 532 cooperados.

  Interessante notar que aquelas cooperativas vinculadas à rede Terra Viva, assim como aquelas que declaram não depender dos recursos do PAA, sempre apontam para participação satisfatória.

  Outra hipótese que se levanta a partir da análise dos dados, é que sendo o foco da cooperativa a produção de alimentos orgânicos, ela se destacaria entre as demais, fato que não se confirmou. Sete cooperativas entre as vinte pesquisadas possuem foco na produção orgânica, mas apenas uma é destaque nas quatro áreas. Contudo, três entre elas se destacam no ranking geral e quatro no ranking social, mas apenas uma no ranking financeiro.

  Pode-se destacar, entretanto que todas as cooperativas que possuem foco na produção de alimentos orgânicos realizam vendas através de feiras, obtendo com isso o contato direto com o consumidor final. Ainda pontua-se que entre as sete produtoras orgânicas seis atuam no PAA e cinco entre elas contam com a participação de mulheres na gestão.

  5.2.2.4 Processamento e industrialização Tabela 7

  • – Ranking processamento e industrialização

  (continua) Ranking Agroindustria

  Posição Cooperativa

  Nota 1º

  H 100%

  2º J

  100% 3º

  100% M

  

Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  12º 75% B

  25% N 20º

  50% D 19º

  50% C 18º

  75% L 17º

  I 16º

  15º 75%

  14º 75% G

  13º 75% F

  11º 75% A

  Quanto ao ranking da área de industrialização e processamento de alimentos, pode-se observar que as cooperativas que não acessam o PAA estão classificadas entre as 50% piores. Ou seja, as seis cooperativas que não participam do PAA são também aquelas em que há carência de algum item de infraestrutura para o processamento, industrialização ou distribuição dos produtos. Os demais dados inseridos no PDIs demonstram que aquelas cooperativas que não possuem a estrutura completa de industrialização, ainda que participem do PAA, são as que vendem seus produtos exclusivamente in natura.

  10º 100% U

  9º 100% T

  8º 100% S

  7º 100% R

  6º 100% Q

  5º 100% P

  Nota Cooperativa

  Ranking Agroindustria Posição

  São quatro entre dezesseis cooperativas participantes do PAA que ainda carecem de alguma estrutura produtiva, em duas delas não há (conclusão)

  00% E quatro cooperativas são aquelas que há menos tempo estão vinculadas ao Programa, o que pode indicar que ao longo do tempo possam melhorar seus indicadores, caso continuem sendo beneficiadas.

  Finalizadas as análises com base na observação e associação de dados buscou-se software capaz de fazer associações ainda mais profundas, com informações implícitas nos dados o qual será apresentado abaixo com intuito de incrementar e validar as análises quantitativas já realizadas.

  5.3 ANÁLISE BASEADA NAS ÁRVORES DE DECISÃO A análise fornecida pelo software WEKA foi utilizada com intuito de complementar e ampliar o estudo feito pela associação de dados visíveis apresentados nos tópicos anteriores, já que com o auxílio deste pode-se realizar as associação não explícitas entre os dados coletados.

  Em um segundo momento pode-se afirmar que a análise oferecida pelo software acabou também por confirmar as análises prévias baseadas nas relações visíveis. Antes de demonstrar as conclusões obtidas a partir da entrada dos dados no software, esclarecem-se as nomenclaturas utilizadas no programa e seus significados:

  Instâncias: são as 20 cooperativas pesquisadas, as linhas da tabela; Atributos: são os dados coletados e demonstrados nos valores entre zero e um, as colunas da tabela; Classe: é o atributo, a coluna selecionada como parâmetro, como elemento central da hipótese que se pretende analisar; Níveis da árvore: demonstra quantos atributos (colunas) estão envolvidos nesta decisão, neste resultado; Tamanho: São os entroncamentos desta árvore, os pontos de convergência das respostas possíveis ao questionamento. Após a demonstração da árvore de decisão, o programa ainda fornece o grau de confiança e de erro da previsão por ela feita, que se apresenta de duas formas: primeiro, como um resumo e, em seguida, com a matriz de confusão. No resumo é apresentado o número de instâncias (cooperativas) classificadas corretamente inicialmente em número absoluto, seguido do número percentual, e do erro médio A Matriz de Confusão por outro lado pretende detalhar onde ocorreram os erros da previsão feita pelo programa. Desta forma, a matriz de confusão é construída de modo que em linhas estão descritas as previsões realizadas pelo Weka e nas colunas a realidade dos dados. Apresenta-se abaixo a leitura da matriz da confusão: Figura 2

  • – Matriz de confusão Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  O acesso ao PAA é importante elemento existente entre as cooperativas que ocupam as melhores posições no ranking, como se pode verificar nas análises acima. Portanto, elegeu-se a participação no Programa como principal hipótese de construção da árvore de decisão. Pretende-se, deste modo, demonstrar quais as características são comuns entre todas as cooperativas que acessam o PAA.

  Para responder a esta questão foram consideradas todas as 20 cooperativas, ou seja, as 20 instâncias. Quanto aos dados, foram eliminados os atributos de nome e de posição no ranking e considerados os demais atributos. Escolheu-se a participação no PAA como a classe para descobrir quais as combinações mais recorrentes entre as cooperativas que o acessam: Instâncias: 20 Atributos: 33

  • – 2 = 31 (eliminados nome e ranking) Classe = atua no PAA
estrutura_maquinário = 1 estrutura_veículo = 0: 0 (3.84/0.84) estrutura_veículo = 1: 1 (13.0) Níveis da árvore: 3 Tamanho da árvore: 5 Instâncias classificadas Corretamente: 19 = 95% Instâncias classificadas Incorretamente: 1 = 5% Erro absoluto = 0, 0808 Figura 3

  • – Árvore de decisão: participação no PAA Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Matriz de confusão Previsão

  A b

  li de dos

  6 0 a=0

  ea de da R da

  1 13 b=1 A árvore de decisão apresentada aponta para conclusões, que reforçam as análises feitas acima sobre a relação da participação no

  PAA e a boa estrutura produtiva. Assim, concluiu-se que aquelas cooperativas que acessam o PAA possuem agroindústrias e essas dispõem tanto de maquinário (estrutura_maquinário=1), quanto de veículo para a distribuição (estrutura_veículo=1). Assim, delimitam-se, de possuírem maquinário não possuem veículo de distribuição do produtos.

  A matriz de confusão, todavia indica que há uma cooperativa em desconformidade com a regra, pois atua no PAA e não apresenta maquinário, tampouco veículo próprio para a distribuição de seus produtos. Este desvio de regra afeta a confiança de regra, que é de 95%, um índice bastante elevado e que possibilita concluir o que o objetivo do PAA de fomento às agroindústrias vem sendo atingindo.

  A partir da interpretação desta árvore de decisão pode-se concluir então, que as cooperativas que acessam o PAA apresentam melhores índices quanto à infraestrutura de suas agroindústrias, o que, portanto, leva à afirmação de que o PAA vem cumprindo com seu objetivo de promoção da industrialização, fomentando a estrutura produtiva dos empreendimentos cooperativos da agricultura familiar e facilitando a aquisição de equipamentos de produção e veículos para as cooperativas. O que, ademais, pode foi comprovado pela observação comparativa dos dados apresentado anteriormente.

  A segunda hipótese a ser testada foi a de encontrar os principais fatores que levam uma cooperativa (instância) a ocupar as cinco primeiras posições no ranking, com intuito de confirmar a análise previamente realizada com base nas relações implícitas. Ou seja, pretendiam-se encontrar a combinação de dados recorrentes as cinco cooperativas com melhores posições no ranking.

  Para responder a esta questão foram consideradas todas as 20 cooperativas, ou seja, as 20 instâncias. Quanto aos dados, foram eliminados os atributos de nome e de posição no ranking e considerados os demais atributos, que são os dados (as colunas na tabela). O dado destacado, aquele que era o foco da análise, é descrito no programa por “classe”. Assim escolheu-se a posição no ranking como a classe para descobrir quais as combinações mais recorrentes para atingir uma posição no ranking: Instâncias: 20 Atributos: 33

  • – 2 = 31 (eliminados nome e ranking) Classe = posição

  Antes de rodar o programa, descreveram-se as 05 primeiras valor 03 e desta forma resta demonstrado graficamente o resultado através da árvore de decisão: Figura 4

  • – Árvore de decisão: classificação no ranking Fonte: Elaborado pela autora, 2013. J48 pruned tree capac_membros = 0 canais_comercializacao<= 0.4: 3 (7.0/1.0) canais_comercializacao> 0.4: 2 (4.0) capac_membros = 1 identifica_atua = 0: 2 (2.0/1.0) identifica_atua = 1: 1 (7.0/2.0) Níveis da árvore: 4 Tamanho da árvores: 7 Instâncias classificadas Corretamente: 16 = 80% Instâncias classificadas Incorretamente: 4 = 20%

  Erro absoluto = 0,1857

  Matriz de Confusão Previsto pelo programa P=1 P=2 P=3

  de

  5 P =1 dos

  lida

  2

  5

  1 P =2

  ea

  1

  6 P=3 R dos da Conclui-se, a partir do apresentado, que o ponto central, no qual convergem as cooperativas que participam da pesquisa e possuem melhores indicadores, é existir capacitação de todos os membros da cooperativa, que significa a efetiva participação de todos os cooperados em cursos de capacitação e treinamento independente do cargo em que ocupem nas cooperativas (capac_membros =1). Contudo esta capacitação deve estar associada à participação no PAA (identifica_atua =1), pois aquelas cooperativas que apesar de capacitarem seus membros (capac_membros = 1) ainda não participam do PAA (identifica_atua = 0) ocupam entre a 6ª e a 13ª posição no ranking.

  De outro modo, quando é inexistente a capacitação dos membros (capac_membros =0), as posições ocupadas pelas cooperativas variam entre a 6ª e a 20ª posição. Entre a 6ª e a 13ª posição são aquelas cooperativas que possuem mais de três canais de comercialização (canais_comercializacao >0.4) o que significa uma ampla diversificação de destino da produção e, sobretudo, a não dependência de um único comprador.

  Já aquelas cooperativas que se encontram nas piores posições do ranking, entre a 14ª e 20ª posição estão aquelas que além de não propiciar capacitação para seus cooperados (capac_membros =0), não participam do PAA (identifica_atua=0), e ainda possuem menor diversidade entre seus consumidores (canais_comercializacao<= 0.4), contando com no máximo três canais de comercialização habituais, demonstrando uma maior dependência comercial e dificuldades com a conquista de novas parcerias, indica também que o PAA pode ser um fator importante no desenvolvimento institucional das cooperativas. suas vias de comercialização, busquem variadas formas de venda de seu produto, diversifiquem, vendam parte de sua produção para programas institucionais, parte para atacadistas, outra parte para varejistas e principalmente intensifiquem a venda através de parcerias com outras cooperativas e através das redes, sobretudo aquelas que possibilitem o contato mais direto com os consumidores. Este fato, segundo estudos já apresentados, gera maior retorno financeiro das vendas realizadas às cooperativas.

  Superado isso, para todas as demais cooperativas a indicação é investir na capacitação de todos os membros das cooperativas. Deve-se investir na ampliação das oportunidades de capacitação e treinamento e ela deve ser possível a todos os membros cooperados, superar a figura dos gestores ou funcionários.

  E por fim, conclui-se que o acesso ao PAA melhora o desempenho global e é condição primária para o desempenho das cooperativas pesquisadas, portanto, a adesão ao programa é um bom negócio para as cooperativas.

  As demais informações geradas pela árvore de decisão dizem respeito à margem de erro destas previsões. Neste caso 80%, ou seja, 16 das 20 cooperativas foram corretamente classificadas, enquanto 04 destoaram das previsões.

  Todavia, com base na matriz de confusão, pode-se observar que os erros encontrados não se referem às cinco primeiras posições, mas sim entre àquelas últimas, entre a 6º e a 20º. Principalmente ao que se refere ao grupo intermediário, classificada no valor 02. Neste grupo três cooperativas foram classificadas com erro, duas delas com melhorias na posição 01, e uma com piora, na posição 03. Já as do grupo de últimas colocadas uma foi classificada como em posição 02.

  Outra característica recorrente e difícil de ser encontrada nas cooperativas analisadas é a participação satisfatória. Observa-se que contar com a participação e manter os membros ativos nas atividades promovidas pelas cooperativas é um de seus grandes desafios, principalmente com o passar do tempo de sua fundação e com o crescimento do empreendimento, como já apontado anteriormente. Com intuito de demonstrar os fatores que colaboram com a manutenção e possibilitar que sejam feitas recomendações a elas, foi elaborada a seguinte árvore de decisão: Instâncias: 20 Atributos: 36

  • – 2 = 34 (eliminados nome e ranking) Classe = participação J48 pruned tree declara_dependência = 0 capac_funcionários = 0 num_cooperados = <=49: 0 (2.0) num_cooperados = >49: 1 (2.0) capac_funcionários = 1: 1 (6.0) declara_dependência = 1: 0 (10.0/1.0) Níveis da árvore: 4 Tamanho da árvore: 7 Instâncias classificadas Corretamente: 19 = 95%

  Instâncias classificadas Incorretamente: 1 = 5% Erro absoluto = 0, 009 Figura 5

  • – Árvore de decisão: participação satisfatória Fonte: Elaborado pela autora, 2013.

  Matriz de confusão Previsão a b

  li de dos

  11 0 a=0

  ea de da R da

  1 8 b=1 A partir das representações acima apresentadas se pode concluir que existem três possibilidades para que cooperativas distintas apresentem participação satisfatória, quais sejam: as cooperativas que possuem uma participação satisfatória são (1) aquelas independentes dos recursos do programa (declara_dependência=0); (2) aquelas que não participam do PAA (declara_dependência=0), mas capacitam seus funcionários (capac_funcionários=1); (3) aquelas que não acessam o PAA, não capacitam seus funcionários (capac_funcionários=0), mas possuem mais de 49 cooperados (num_cooperados > 49).

  Baseado nesta análise pode-se concluir que aquelas cooperativas que possuem bons resultados de sustentabilidade, como participação satisfatória, possuem maior engajamento e também uma governança mais sólida, e por isso são menos dependentes dos recursos do PAA. Da mesma forma, a promoção de capacitações gera um sentimento de pertença e de responsabilidade com a cooperativa, o que opera como um diferencial entre a participação satisfatória ou não de todos os membros nas atividades das cooperativas.

  Mais uma vez, portanto, conclui-se que a capacitação é um fator de importante diferencial para as cooperativas, pois como explicitado na descrição das melhores posicionadas no ranking a capacitação de membros era o fator chave e neste momento a capacitação dos funcionários se destaca.

  Ademais, como já comentado no a participação, que propicia a valorização da cultura democrática e o respeito aos princípios cooperativistas possibilita que as cooperativas tenham mais parceiros, ampliem seus negócios e canais de comercialização, garantindo desta forma a independência dos programas e das políticas públicas para a sobrevivência do negócio.

  5.4 UM OLHAR PARA A MELHOR E A PIOR COLOCADA NO RANKING das cooperativas nos rankings foi feita a partir da análise em profundidade dos PDIs produzidos pelas cooperativas.

  Os PDIs das cooperativas (vide Anexo B) são divididos em dez capítulos: o primeiro capítulo é introdutório para a apresentação da cooperativa e dos trabalhos que serão realizados; o segundo capítulo faz- se o a identificação e se constrói o histórico da cooperativa. No terceiro capítulo foi feito um planejamento estratégico inicialmente foi feito um diagnóstico da suas realidades interna e externa baseada no modelo SWOT, que identifica pontos fortes, pontos fracos, oportunidades e ameaças às cooperativas. Em seguida se elaborou a missão, visão, valores e objetivos da cooperativa seguido. O quarto capítulo é dedicado ao inventário de recursos humanos da cooperativa, ou seja, identificação e descrição de atividade e responsabilidades dos gestores, funcionários e cooperados, assim como reflexão sobre os modelos de recrutamento, seleção, capacitação e treinamento nestas organizações. No quinto capítulo apresenta-se uma cadeia de valores, o fluxo dos processos das cooperativas. O sexto capítulo é dedicado às demonstrações contábeis e financeiras, seguidas pela exposição dos canais de comercialização, clientes e fornecedores. No sétimo capítulo foi elaborado de um modelo para avaliação dos resultados das cooperativas. O oitavo capítulo versa sobre a logística e a estrutura de armazenagem e estocagem dos produtos. O nono prevê as ações de marketing e explora os valores de cada um dos produtos. Já o décimo capítulo foi dedicado a redação de um projeto a ser entregue ás fontes de financiamento.

  Após análise desse documento, elaborados pelas cooperativas, pode-se tecer conclusões adicionais sobre o posicionamento das cooperativas nos rankings elaborados por este estudo, por isso serão explorados os conteúdos dos PDIs da melhor e da pior cooperativa posicionada neste ranking, a cooperativa J e a cooperativa E respectivamente, com intuito de encontrar indícios que justifiquem seus resultados, como veremos abaixo:

  A cooperativa J é beneficiária do PAA desde 2006, mesmo ano em que foi fundada. Situa-se na região do Planalto Norte do Estado de Santa Catarina e tem abrangência de 14 municípios. Iniciou suas atividades com 33 cooperados e atualmente conta com 137 cooperados,

  A receita desta cooperativa provêm, sobretudo, da venda de hortaliças orgânicas in natura em feiras, mercados varejistas e atacadistas, por meio da rede Terra Viva. Contudo há grande diversificação da produção, pois eles produzem conservas, especialmente de pepinos, criam gados e suínos e possuem também uma fábrica de pó de basalto recém inaugurada, no ano de 2012. Seus principais clientes são as prefeituras municipais da região, através dos programas institucionais, além de comercialização direta em feiras livres e através das redes de comercialização Terra Viva.

  A cooperativa J atua em variados municípios e destaca- pela forte articulação tanto territorial como em redes entre as cooperativas. Ela participa dos projetos de desenvolvimento territorial, tem participação ativa nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de abrangência, além disso, é filiada a centrais de cooperativas, possui relações estreitas com prefeituras, participa de conselhos municipais de desenvolvimento rural e nos conselhos de habitação, também conta com vínculo à rede Terra Viva que comercializa produtos dos assentados da reforma agrária e à rede Ecovida de produção orgânica, além de realizar todas as suas operações financeiras através da CRESOL, a cooperativa de crédito solidário.

  Ademais de relações com os assentados da região, o que significa 90% das suas relações comerciais, a cooperativa J também comercializa e auxilia a produção de agricultores familiares do entorno dos assentamentos o que representa o 10% de sua produção.

  Entre seus objetivos se destacam a valorização do intercâmbio entre agricultores e cooperativas; a oferta de capacitação de cooperados nas distintas áreas de atuação; a promoção de emancipação social e o respeito e proteção ao meio ambiente, sobretudo incentivando a agricultura ecológica.

  Percebe-se também através do PDI, que a cooperativa J, todos os anos, realiza grandes investimentos, como a construção de novas sedes em municípios que passam a ser atendidos e novas agroindústrias para o beneficiamento de mais produtos e atendimento de mais cooperados em diversos municípios. Além dos investimentos nas propriedades da cooperativa, os gestores da cooperativa J afirmam investir nas propriedades dos cooperados, auxiliando com máquinas e equipamentos desde o plantio até a colheita, um exemplo citado de grande sucesso foi a instalação nas propriedades de piscinas de captação A cooperativa E, por outro lado, não atua no PAA e apresenta- se mais isolada no que se refere à articulação territorial. Ela foi criada no ano de 2005, situa-se também no Planalto Norte de Santa Catarina, inicialmente continha em seus quadros 36 cooperados e atualmente conta com aproximadamente 76 cooperados, todos eles agricultores familiares, nenhum deles assentado da reforma agrária.

  A produção desta cooperativa é baseada exclusivamente na produção de maça e sua venda ocorre somente in natura. Após a colheita todos os serviços são terceirizados, como o transporte, a seleção da fruta, embalagem, estocagem e venda. A comercialização é majoritariamente feita através de atravessadores, com pequena participação em venda direta às redes atacadistas e varejistas locais.

  A cooperativa E atua exclusivamente em seu município e apesar de participar da discussão do projeto de desenvolvimento territorial da região, não possui articulação local, tampouco participa de redes ou promove o intercâmbio com outras cooperativas. Há relação de proximidade com o sindicato dos trabalhadores rurais do município, mas recentemente perdeu o apoio que tinha da Prefeitura Municipal em virtude das mudanças políticas. Suas operações financeiras são feitas através do Banco do Brasil.

  Atualmente seus objetivos se concentram no desenvolvimento econômico dos agricultores e na promoção das vendas com maior valor agregado, com planos de construir espaço de armazenagem e mais futuramente uma agroindústria.

  Percebe-se também através do PDI que a cooperativa E tem dificuldades em realizar investimentos, apesar de tê-lo feito, em caráter de emergência, eles acabaram por contrair muitas dívidas, saldadas inclusive com novos empréstimos realizados no nome dos cooperados, já que a cooperativa não possuía mais crédito na praça. O grande fator de endividamento desta cooperativa ocorreu em virtude de tragédias climáticas que afetaram a estrutura de armazenagem que a cooperativa possuía. Em 2008, um vendaval derrubou o armazém de estocagem o que gerou, além dos prejuízos patrimoniais a necessidade de investimento para a reconstrução e de locação de infraestrutura em outras cidades.

  Um fator importante para o baixo desempenho da cooperativa é produtores assentados da reforma agrária vinculados aos movimentos sociais de esquerda. Segundo ele a formação de cooperativas está vinculada a este último fazendo com que os primeiros rejeitem as propostas cooperativas e prefiram buscar mercado através de empresas ou venda direta à atravessadores. Aliado a esta desavença ideológica, existe uma descrença no município quanto ao empreendimento cooperativo em virtude da liquidação recente de dois empreendimentos deste tipo.

  • Conclui-se, portanto, que as cooperativas E e J situam-se na mesma região: o Planalto Norte e o mesmo tempo de atuação. Além disso, ambas declaram contar com funcionários registrados, ter participação satisfatória nas atividades da cooperativa e ainda facilidade de acesso ao crédito e ter realizado investimento em suas estruturas, apesar de a cooperativa E declarar inadimplência contratual.

  No entanto, os fatores que as distanciam são muitos, entre eles se destacam a participação em políticas públicas, a estrutura produtiva das cooperativas e a inserção destas cooperativas em seus territórios. A cooperativa J, melhor posicionada no ranking, atua no PAA, enquanto a cooperativa E, a pior colocada no ranking, não acessa o PAA. Além de atuar no PAA a cooperativa J participa de outros programas e políticas públicas como o PNAE, enquanto a cooperativa E está à margem destes.

  Quanto à estrutura produtiva, explicita-se a inexistência de qualquer estrutura produtiva na cooperativa E, quer seja de armazém, agroindústria, veículo para distribuição, sequer instrumentos de gestão, enquanto a cooperativa J possui toda estrutura produtiva, utiliza softwares para gestão da produção e demais ferramentas de gestão e sistematicamente tem ampliado e diversificado sua capacidade produtiva. Essa diversificação de produção também faz com que a cooperativa J possua um maior diversidade nos canais de comercialização, assim como a relação direta com o consumidor final, que inexistem na cooperativa E, que vende seus produtos quase que exclusivamente a intermediários.

  Ainda em relação à produção, pode-se destacar a agricultura orgânica como base da produção da cooperativa J e ser um tema ainda alheio à cooperativa E, assim como a capacitação que na melhor cooperativa chega para todos os cooperados e na pior é ainda restrita aos gestores e funcionários. presidente bacharel em nível superior, enquanto na cooperativa J o presidente concluiu apenas o nível médio, o mesmo ocorre quanto aos funcionários, que na cooperativa E concluiu o nível superior em Administração enquanto na cooperativa J houve a conclusão do ensino médio. Nenhumas das duas cooperativas contam com a participação expressiva de jovens, e apenas na cooperativa J há participação de mulheres na gestão, ainda que esta não seja numericamente expressiva: há apenas uma mulher participante do conselho de gestão.

  Mais significativo que a própria estrutura física e de produção entre essas cooperativas se destaca a questão da articulação. Percebe-se com a exploração detalhada do PDI das cooperativas, que a cooperativa J, a com melhor resultado no ranking, possui um grau de articulação e inserção territorial muito alto. Ela participa de políticas públicas, de conselhos municipais, tem relação com movimentos sociais, pleitos políticos e partidários, além de parcerias com outras cooperativas, seja para a comercialização, produção, capacitação e até mesmo com o crédito para investimentos. Isso significa que para o excelente desempenho tanto da cooperativa como da política pública é necessário um aparato de apoio aos beneficiários dos programas, pois eles fazem a diferença, o peso de levar a cabo a política.

  Percebe-se portanto que a cooperativa E possui menos vínculos sociais, políticos e sociais, está mais envolvida com a questão financeira, uma urgência para que seja agregado valor no produto e conquistado melhores mercados. Tais fatores reforçam as conclusões anteriores de que as cooperativas com melhores desempenhos são aquelas que possuem bons resultados em todas as áreas e dimensões, pois um bom resultado reforça o outro, como bem explicitada no relação entre dependência do PAA e participação nas assembleias .

  Concluídas as etapas de análise e baseada nas informações obtidas através delas são delineadas as conclusões com consequentes recomendações às cooperativas e gestores da política pública em questão no intuito de cumprir com o objetivo deste trabalho. Para alcançar este objetivo o capítulo seguinte será dividido em três partes, primeiro dedicado às conclusões da pesquisadora, no sentido de identificar as relações da teoria com a prática avaliada e em seguida recomendações divididas em recomendações às cooperativas e aos gestores do PAA.

  As cooperativas especificam um determinado modo de organização social e produção que podem ser complementares ao modo de produção capitalista ou contrários a ele, a depender, respectivamente, de sua vertente mais europeia ou latino-americana. A magnitude do campo cooperativista no Brasil é muito grande e sob seu guarda-chuva abriga grupos distintos em termos de tamanho, princípios e estratégias e governança.

  Nas últimas décadas, o Novo-cooperativismo, que se caracteriza por focar a inscrição territorial dos empreendimentos e o fortalecimento da sua dimensão social e política, além de promover os princípios de autogestão, democracia e participação, fortemente inspirado nos princípios do movimento da Economia Social e Solidária, tem se expandido e ganhado força. É um movimento que no Brasil, está fortemente associado à melhoria das condições do homem no campo e a promoção da segurança alimentar, uma preocupação central dos governos de todo mundo.

  A construção do Estado social exige do Estado atenção a inúmeras demandas cujo atendimento esbarra nas condições fáticas e, muito especialmente, em limitações financeiras. Em razão dessas limitações impõem-se escolhas que devem ser feitas sobre políticas públicas distintas, cada uma efetivada por diferentes programas governamentais, cuja avaliação é imprescindível para que se possam analisar as condições, o alcance e os objetivos dos programas implantados, bem como das políticas públicas que os consubstanciam, de maneira a tornar os recursos públicos melhor aproveitados e os programas de governo implantados de forma mais efetiva.

  No cenário deste Novo-cooperativismo desenvolvem-se as cooperativas de agricultura familiar, que tem no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal um de seus programas mais importantes.

  As conclusões apontadas neste capítulo são construídas com o intuito de possibilitar a utilização prática da avaliação desta pesquisa, para fazer com que o trabalho acadêmico dialogue diretamente com as atividades cotidianas das cooperativas e dos gestores públicos e consiga mostrar os êxitos e também os pontos que ainda podem ser melhorados do PAA. Propicia que o pesquisador, baseado em sua análise e sua melhorias em seus objetos de estudos Richardson (2000), neste caso o PAA e as cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina.

  Com a finalidade de alcançar este objetivo o capítulo está dividido em três partes. Na primeira apresentam-se as conclusões da pesquisadora no sentido de identificar as relações da teoria com a prática avaliada; nos segundo faz-se recomendações às cooperativas e finalmente aos gestores do PAA, visando a melhoria do programa e a realização dos objetivos definidos pelo mesmo.

  6.1 CONCLUSÕES Por meio da avaliação do Programa de Aquisição de Alimentos realizado por esta pesquisa um braço do cooperativismo focado em pequenos empreendimentos familiarres, conclui-se que o PAA tem atingido seus objetivos e gerado os resultados pretendidos nas cooperativas de agricultores familiares de Santa Catarina. As cooperativas participantes do Programa têm dado respostas positivas face aos estímulos do programa.

  Averiguou-se que o objetivo descrito no inciso I do art. 19 da Lei 10.696/2003: “incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão econômica e social, com fomento à produção com sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização e à geração de renda” tem sito atingido nas cooperativas catarinenses beneficiadas, embora a nota obtida não tenha sido a máxima. Assim, melhorias devem ser propostas e realizadas no sentido de aproximar os resultados obtidos da nota máxima possível em cada um dos indicadores.

  A Lei identifica objetivos em quatro grandes áreas, quais sejam: econômica, social, sustentabilidade e industrialização. Em todas as cooperativas participantes do PAA obtiveram resultados melhores do que as não participantes, traduzindo-se em mais renda, crédito, menos dívidas, mais viabilidade de comercialização dos produtos, mais estrutura produtiva, mais cuidados com os recursos naturais, maior articulação territorial, maior e mais diversificada participação e maior capacitação de cooperados.

  A área da política pública do PAA cujos resultados nas cooperativas mais se destacam foi quanto ao fomento da industrialização e beneficiamento de produtos. As cooperativas tratadas (aquelas que mais inspira cuidados é a de sustentabilidade, pois nela está o maior número de indicadores com destaque das cooperativas do grupo controle (grupo de cooperativas não atendidas pelo PAA), quais sejam: a participação de jovens e a participação geral nas atividades das cooperativas. Por fim, há um indicador econômico que muito preocupa e que está intimamente relacionado à sustentabilidade, que também deve ser motivo de alerta ao PAA e as cooperativas: a dependência econômica dos recursos do programa.

  A análise dos indicadores da área econômica demonstra que as cooperativas participantes do PAA têm obtido melhores resultados financeiros e com isso maior taxa de retorno para seus membros que aquelas cooperativas não participantes. O PAA, portanto tem possibilitado uma ampliação da renda das cooperativas e por consequência das famílias agricultoras. Da mesma forma, as cooperativas tratadas, possuem melhores indicadores de comercialização, que implica maior autonomia comercial e profissionalização, obtendo, com isso melhores preços de produtos, menor dependência de atravessadores, com contato direto com consumidores. Nesses casos, se o programa acabar ou um consumidores desistir da compra, a cooperativa tem por onde garantir o retorno financeiro aos cooperados.

  Estes indicadores permitem afirmar que o PAA tem sido bem sucedido no que se refere à inserção econômica dos agricultores familiares e das próprias cooperativas, criando condições essenciais para garantir uma maior remuneração da atividade, fator fundamental para a sustentabilidade da agricultura familiar, como apontado por Abramovay (1998) e Andrade Júnior (2009).

  Entre os indicadores que medem a inclusão econômica da agricultura familiar, um deles é bastante crítico: a dependência dos recursos do PAA. Um alto índice, mais de 70% das cooperativas pesquisadas que atuam no programa declaram depender do PAA para sobreviver, apesar da diversidade de canais comercialização. Demonstra-se, portanto que embora as condições de comercialização e a rendas das cooperativas tenham sido ampliadas, verifica-se extrema dependência dos recursos do PAA, pois nenhum dos canais de comercialização concentra o montante destinado PAA, o que significa que ainda que tenham outros parceiros comerciais as parcelas negociadas são muito pequenas, pois grande parte da produção é Esta é uma questão de central importância o PAA. Ainda que seja uma política pública distributiva, como leciona Lowi (1964) deve ser um programa que tenha vistas à independência das populações, que possa emancipá-las e um dia não mais atendê-las porque seriam autossuficientes como o proposto por Guerra (2010) e Corrêa (2008).

  Com respeito à área de inclusão social, o estudo demonstrou que as cooperativas do grupo tratado se destacam no grau de articulação e na promoção de capacitação e treinamento aos membros. Estas duas dimensões estão bastante correlacionadas, já que os treinamentos são geralmente realizados pelos órgãos governamentais ou pelas redes às quais as cooperativas estão vinculadas. Portanto, significa dizer que sem articulação há pouco treinamento, o que impacta diretamente no resultado e na produtividade das cooperativas. Evidencia-se nesse ponto o estreito vínculo entre articulação, participação no PAA, capacitação e resultados econômicos.

  Resultados semelhantes foram obtidos pelo modelo da árvore de decisão, com o qual também pode ser comprovada a hipótese de que o investimento em capacitação e treinamento é ponto essencial para o desenvolvimento das cooperativas. Observou-se que onde há capacitação há participação, ou seja, capacitar, propiciar espaços de formação dentro das cooperativas gera maior sensação de pertença à cooperativa e com isso aumentar a participação e a democracia interna, o que vai ao encontro do lecionado por Laville (2009), Baera Tejero e Monzón (2002) e Chaves (2006).

  Contudo, o indicador mais frágil na área social é proveniente da educação formal. No que se refere aos indicadores de educação formal, percebe-se que as cooperativas que não participam do PAA possuem uma situação mais favorável do que aquelas que participam. Entretanto, se por um lado isso pode indicar um não estímulo do programa a uma melhoria dos seus beneficiários em relação ao seu grau de escolarização, por outro, como mencionado, esse resultado também indica que o perfil dos dirigentes e também dos cooperados, no caso do grupo tratado, se aproxima mais do perfil dos agricultores familiares, demonstrando que as cooperativas do grupo tratado possuem sistemas de governança nos quais os agricultores são protagonistas.

  Na avaliação da área de sustentabilidade, mais uma vez, pode- se concluir que o PAA tem revelado bons resultados às cooperativas. Ele aponta para o bom desenvolvimento de práticas ecológicas nas

  Contudo, é na área da sustentabilidade que surgem também os maiores gargalos do PAA: a baixa participação de jovens e a pouca participação dos cooperados nas assembleias. Vale ressaltar que o desafio de fazer com que os jovens permaneçam no campo e que exista a sucessão das propriedades é central na discussão de desenvolvimento rural. Parte deste trabalho foi dedicada a descrever o envelhecimento do campo e a situação alarmante causada por este fato. Os jovens, conforme descrição da Tabela I, não representam mais do que 3% da população rural brasileira. Eles não permanecem nas propriedades rurais e não se envolvem nas cooperativas. Com a saída dos jovens do meio rural, a produção não tem sucessores, e sem sucessores a atividade entra em vias de extinção. Contudo, a atividade de produção de alimentos não pode ser extinta, pelo contrário, ela é estratégica para os países, conforme discussão proposta por Sachs (2007), Brown (2013), Muller (2007), Abramovay (1998), Friedmann (1978) e Andrade Júnior (2009).

  Outra dificuldade que surge quanto à sustentabilidade nas cooperativas atendidas pelo PAA se refere à participação nas assembleias, que é baixíssimo ocorre em apenas quatro cooperativas de toda a amostra, não representam nem 30% das cooperativas pesquisadas. É importante ressaltar também que todas aquelas cooperativas que contam com um nível de participação satisfatória possuem um número reduzido de membros.

  Um último item que deve ser ressalvado quanto à sustentabilidade corporativa das cooperativas tratadas é o fato de haver menos funcionários contratados nas cooperativas tratadas que nas cooperativas do grupo controle. Este indicador, inicialmente foi tratado como um indício de baixa profissionalização pode ser interpretado de outra forma, se aliado aos demais indicadores e pressupostos da Economia Social e Solidária. De fato, ele pode indicar uma busca pela profissionalização interna, dos próprios cooperados em busca da maior democracia e autogestão, como defendido por Cançado (2007), Laville (2009) e Baera Tejero e Monzón (2002).

  O grande destaque da política ocorre quanto à melhoria da produção feita pelas cooperativas, que depois da adesão ao PAA adquiram mais equipamentos, mais maquinários e construíram ou reformaram significativamente suas agroindústrias. Quanto ao fomento da industrialização, os indicadores de avaliação foram claros. Houve aumento da industrialização de produtos depois da adesão das isso as não atendidas, inclusive aquelas que possuem excelentes índices econômicos e sociais, encontram dificuldades nesta área.

  A ampliação das agroindústrias em geral, englobando todos os equipamentos produtivos, armazéns e veículos de distribuição, permite que as cooperativas e o produtor tenham melhores retornos financeiros, melhorias de preço e inclusive aproximação com os consumidores, o que implica em ganhos bastante significativos para a cooperativa conforme descrevem Andrade Júnior (2009), Santos (2012) e Medina (2012).

  Esses dados indicam que o PAA, além de proporcionar uma maior sustentabilidade econômica no curto e médio prazos para as cooperativas, como visto no item 5.1.1, pode estar dando a possibilidade dessas cooperativas reinvestirem no empreendimento, reforçando a sua capacidade produtiva e ampliando a sua competitividade. Cumpre destacar que as 14 cooperativas do grupo tratado estão em média há 05 anos no programa, o que justifica essa constatação.

  O modelo de árvore de decisão também reforça esta conclusão. As cooperativas que acessam o PAA apresentam melhores índices quanto à infraestrutura de suas agroindústrias, o que, portanto, leva à afirmação de que o PAA vem cumprindo com seu objetivo de promoção da industrialização, fomentando a estrutura produtiva dos empreendimentos cooperativos da agricultura familiar e facilitando a aquisição de equipamentos de produção e veículos para as cooperativas.

  De modo geral, pode-se concluir que um bom resultado e uma boa classificação no ranking não são consequência de um bom desempenho em apenas uma dimensão isolada ou de um indicador analisado. Ao contrário, as áreas, dimensões e indicadores analisados possuem forte correlação, e o bom desempenho em um indica geralmente melhor desempenho nos demais, especialmente consideradas as dimensões social e política das cooperativas. Note-se que uma cooperativa que dispõe de uma maior autonomia em relação ao programa, possuiu também uma maior inserção econômica, e consequentemente apresenta boas notas em indicadores sociais (no que se refere à articulação em rede e participação dos membros) e de sustentabilidade (tanto ambiental quanto corporativa).

  Comprova esta decisão análise em profundidade dos PDIs buscando encontrar dados subjetivos que explicassem melhores desempenhos. Revelou-se que os melhores resultados são encontrados desenvolvidos em seus territórios, como já descreveram Andion (2007); Gonh (1995) e Landim e Carvalho (2011), deixando clara a relação entre as diversas dimensões por este trabalho analisadas entornando os bons resultados mais perenes.

  6.2 RECOMENDAđỏES ầS COOPERATIVAS A principal conclusão deste trabalho é a de que o PAA tem trazido bons resultados às cooperativas de agricultores familiares de

  Santa Catarina, portanto recomenda-se às cooperativas o acesso ao PAA. Sugere-se que as cooperativas que não acessam o PAA busquem cumprir as exigências formais e legais para que estejam habilitadas para operarem o PAA, já que ele tem proporcionado principalmente a ampliação do retorno financeiro e melhoria das agroindústrias.

  Recomenda-se também a busca pela diversificação dos canais de comercialização e a relação direta com o consumidor. Estas duas ações implicam na atuação do PAA de forma financeiramente mais saudável, ou seja, atuar no programa sem que haja dependência dele. Assim, quando o programa acabar as cooperativas poderão condições de garantir o funcionamento e seus resultados.

  Uma ação importante na conquista de novos mercados consumidores, além do investimento na diversificação da produção, com a busca constante de novos cultivos e novos produtos industrializados, é a produção orgânica dos alimentos, que é também traço comum das cooperativas independentes do PAA. Informações, certificações e capacitações para este modelo de produção podem ser buscadas nas redes de promoção da produção agroecológica, como a Rede Ecovida.

  A articulação em redes e nos territórios, aliás, é outro ponto comum das cooperativas com melhores posições nos rankings e das cooperativas independentes do PAA. A articulação, segundo a pesquisa, tem relação direta com a participação nas atividades e principalmente com a oferta de capacitações e treinamentos aos cooperados, uma vez que as redes promovem novos cultivos e debates sobre inovações e práticas no campo. Desta forma, mais uma vez sugere-se às cooperativas que busquem ampliar sua articulação.

  Outra ação útil às cooperativas para que elas não dependam dos recursos do PAA e que tem relação direta com a sua articulação em redes e no território, conforme tratado na análise das cooperativas função que exerça na cooperativa. A capacitação e o treinamento de cooperados se mostraram relevantes para a ampliação dos retornos das cooperativas e principalmente no incremento da participação dos membros nas atividades das cooperativas.

  Quanto à gestão das cooperativas, recomenda-se fomentar a diversificação das pessoas que compõem a diretoria e os conselhos. Observou-se que as cooperativas com melhores resultados contam com mulheres em seus quadros diretivos. Isso pode indicar que a variação de gênero constitui em um fator de diversificação e consequente melhoria na gestão das cooperativas.

  Outro fator de gestão importante para aumento dos retornos econômicos é a realização do controle de qualidade e classificação dos produtos. Esta ação proporciona que os produtos ainda que in natura sejam vendidos por preços diferentes conforme sua qualidade e seu destino.

  O investimento constante nas agroindústrias e em novos processos produtivos, assim como o investimento direto em melhorias nas propriedades dos cooperados,também devem ser considerados, a espelho da cooperativa melhor posicionada no ranking. Estes investimentos têm proporcionado não só retorno financeiro às cooperativas, mas também implicado na maior participação dos membros das assembleias, reforçando com isso o princípio de autogestão e democracia propostos por Cançado (2007), Singer (2003) Chaves (2006) e Baera Tejero e Monzón (2002). Assim, com melhores retornos econômicos, mais investimentos e mais capacitações também se têm superado um dos maiores gargalos das cooperativas, qual seja, a participação efetiva e satisfatória de seus membros.

  Como outro meio de fomentar a participação, sugere-se a realização dos investimentos e das demais operações financeiras através das cooperativas de crédito que ademais de serem redes com vistas ao desenvolvimento da agricultura familiar e contar com pessoal especializado no ramo, elas reforçam e valorizam os princípios cooperativistas. Este é o exemplo das cooperativas independentes e melhores posicionadas no ranking

  Pontos críticos e que exigem uma gestão mais atenta das cooperativas são o fomento à participação e o engajamento de jovens. A participação dos membros nas cooperativas é a manifestação do próprio princípio democrático do cooperativismo e ela vem se perdendo, expansão da cooperativa, pois aquelas cooperativas que contam com um nível de participação satisfatória possuem um número reduzido de membros, o que gera uma alerta às cooperativas que pretendem crescer e se expandir. Elas devem ter muito bem planejado novos mecanismos de participação para que não sejam esvaziadas e não se descumpra os princípios democráticos.

  É importante ressaltar também que as cooperativas devem abrir espaços aos seus jovens, proporcionar um ambiente adequado para a exposição de novas ideias e adoção de novas práticas, partindo dos estudos e das observações feitas por estes jovens, pois o que se tem visto é a pouca participação e o abandono do campo por eles, o que implica diretamente na não sucessão das propriedades e dos empreendimentos e na quase extinção da produção. Devido ao fato de que a produção de alimentos é um fator estratégico aos países, esta é uma ação que precisa ser realizada em parceria com os próprios gestores das políticas públicas.

  Ademais da sucessão e da participação de jovens outras recomendações, podem e devem ser feitas aos gestores das políticas públicas voltadas para o campo tendo por base o PAA e os resultados da avaliação dele, como veremos a seguir.

  6.3 RECOMENDAđỏES AOS GESTORES DO PAA A partir da avaliação realizada por este trabalho pode-se concluir que o PAA atende aos objetivos prioritários do PAA e ajudado as cooperativas a terem melhorias em seus retornos econômicos e ampliado sua capacidade produtiva, principalmente com a construção de agroindústrias, e por essa razão tem alcançado seus objetivos. Há muito a que ser comemorado pelo êxito do programa, como explicitado nas conclusões da pesquisa. Algumas carências, contudo, foram identificadas e podem ser sanadas pelos gestores da política pública.

  O primeiro e mais importante gargalo é identificado na excessiva dependência das cooperativas em relação aos recursos do PAA. Nesse sentido, é preciso que ele preveja mecanismo e ações voltadas à maior autonomia financeira das cooperativas. Embora concebido para ser um programa perene, seu objetivo é ampliar a cada dia o número de cooperativas atendidas, de maneira a que estas possam alcançar autonomia para, a médio ou longo prazo, ser autossustentável capaz de atingir seus objetivos de longo prazo, garantindo segurança alimentar, a fixação do homem no campo e a sustentabilidade das populações rurais.

  Para que o PAA seja efetivo no alcance de tais objetivos, é necessário que preveja desde o processo de adesão, mecanismos e oportunidades de desligamento das cooperativas, de maneira a que estas possam deixar ao programa ao atingirem determinadas metas ou indicadores e outras cooperativas possam ser atendidas. Para que isso aconteça algumas sugestões podem ser relevantes. Em primeiro lugar, o próprio PAA deveria limitar as suas compras a um percentual daquilo que é produzido pela cooperativa, percentual este que não superasse a metade da produção, pois assim a outra metade seria de responsabilidade da cooperativa promover a venda por outros meios, forçando desta forma a geração de conhecimentos sobre estratégias de vendas, nichos de mercado, ou seja, estimulando um potencial competitivo das cooperativas.

  Este conhecimento e descobrimento do potencial competitivo dentro das cooperativas não devem ser uma punição ou algo autodidata por parte dos agricultores familiares, devendo ser estimulado pelo próprio PAA enquanto atua junto a uma cooperativa. Um dos meios de incentivar este potencial competitivo e o futuro desligamento do programa está no estímulo à educação formal.

  A avaliação aqui feita demonstrou que os cooperados ainda possuem um nível muito baixo de educação formal, ainda que isso possa revelar maior autogestão e genuinidade às cooperativas, sendo elas, portanto de fato geridas por agricultores familiares. A pesquisa demonstrou que poucos cooperados concluíram o ensino médio. Nesse sentido, no caminha da autossustentabilidade, o PAA deveria prever mecanismos e estímulos para que a educação formal seja ofertada de maneira adequada à realidade do campo e para que, especialmente os cooperados das cooperativas atuantes no PAA, tenham acesso a ela.

  Simultaneamente com a educação formal, é fundamental a criação e oferta de cursos de capacitação e treinamento para os beneficiados da política pública. A pesquisa evidenciou que as cooperativas que investem na capacitação possuem melhores resultados econômicos e sociais. Contudo, algumas cooperativas não têm acesso a cursos, estão à margem das capacitações ou apenas a oferecem aos seus gestores, mesmo após provado que a emancipação e a independência da

  As cooperativas com melhores índices de capacitação e treinamento possuem melhores resultados em todas as áreas analisadas. Desta forma recomenda-se que PAA ao mesmo tempo em que realiza a compra dos produtos, deva fornecer e incentivar a capacitação e treinamento dos cooperados, como forma de maximizar os efeitos da própria política. Um possível fomento pode ser realizado com a vinculação de algum dos recursos recebidos pelo PAA ser destinado diretamente à capacitação e treinamento dos cooperados.

  Outra ação que pode proporcionar a independência das cooperativas é o incentivo à contratação de pessoal, profissionais especializados, capazes de prestar assistência técnica e gerencial às cooperativas mesmo após seu desligamento do PAA. Um modo atual de contar com assistências e profissionais competentes e especializados é através das articulações territoriais e em redes pelas cooperativas. Através das redes as cooperativas promovem capacitações, debates sobre melhorias nas cooperativas e nas produções e por isso as mais articuladas possuem melhores resultados.

  A partir desta avaliação comprovou-se que o PAA tem mais impacto nas cooperativas que possuem maiores articulações locais. O PAA tem mais efeito quando aplicado em ambientes favoráveis, portanto recomenda-se a atuação do PAA articulado com demais políticas públicas, como as de apoio técnico, formação continuada e também com parcerias e interlocutores locais sejam eles sindicatos, cooperativas de crédito ou prefeituras.

  Outra medida efetiva seria propiciar através do PAA meios de incentivo à criação e fortalecimento de redes entre as cooperativas, que propiciam trocas de experiências e ampliação da comercialização. A comprovação destes melhores resultados pode ser verificada analisando o caso da cooperativa N que apesar de ser beneficiada pelo PAA está classificada em penúltima colocação em relação ao ranking geral, pois não promove capacitação de seus membros, tem dificuldades em realizar investimentos e depende do programa para sobreviver.

  Perpassando todas estas recomendações de educação formal, capacitação e treinamento e profissionalização, encontra-se a preocupante questão do abandono do campo pelos jovens. As ações educativas fornecem instrumentos, conhecimentos, facilitam entendimento e garantem maior autoestima no campo. A questão da educação formal está muitas vezes atrelada ao abandono do campo pelo capacitados profissionalmente ademais do retorno financeiro querem acesso ao lazer, a cultura e diversão que não encontram no meio rural.

  Desta feita, assim como as cooperativas devem promover ações de inclusão e conquista desses jovens, a política pública deve ser voltada à promoção do bem estar e de possibilidade de crescimento pessoal e profissional dos jovens que ali estão envolvidos. Necessita-se de um programa que atue em conjunto com outras políticas públicas e complemente assim suas ações para que se atinja o objetivo esperado.

  Fica claro que os objetivos do PAA são bastante mais amplos do que é possível alcançar através de um único programa. A recomendação final, portanto, é de que junto ao PAA sejam desenvolvidos outros programas e políticas públicas capazes de complementar as carências dele, sobretudo na área social de formação profissional.

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  OLIVEIRA, B. Economia solidária e sooperativismo popular: da gênese aos desafios atuais. Revista Proposta:economia solidária e autogestão, ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS - OCB.

  Apresentação. Disponível em: <http://www.OCB.org.br/site/ cooperativismo/index.asp>. Acesso em: 26 abr. 2012.

  ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS - OCEMG. Anuário 2011. Disponível em:

  

<http://www.minasgerais.coop.br/Repositorio/Publicacoes/anuario_201

1/index.html>. Acesso em: 03 maio 2012.

  ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE SANTA CATARINA.Cooperativismo. Disponível em:. Acesso em: 26 jun. 2012 ORGANIZAđấO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE SấO PAULO - OCESP.Cooperativismo. Disponível em:. Acesso em: 26 jun. 2012.

  PINHO, D. Economia política e a história das doutrinas econômicas. São Paulo: FEA-USP, 1982.

  PIRES, M. L (Org.). Cenários e tendências do cooperativismo brasileiro. Recife: Bagaço, 2004.

PRESSMAN, J. L.; WILDAVSKY, A. B. Implementation: how great expectations in Washington are dashed in Oakland or, why it’s amazing

  that federal programs work at all, this being a saga of the Economic development Administration as told by two sympathetic observers who seek to build morals on a foundation of ruined hopes, Berkeley: University of California Press, 1973.que institui o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN).

  QUIVY, R.; CAMPENHOUT, L. V. Manual de investigação em ciências Sociais. 5. ed. Lisboa: Gradiva, 2008. RICHARDSON, R. J. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo: Melhoramentos, 2000. SACHS, I. Rumo à ecossocioeconomia: teoria e prática do

  SCRIVEN, M. The methodology of evaluation. In:______. TYLER, R. W; GAGNE, R. M; SCRIVEN, M. (Eds.). Perspectives of curriculum evaluation. Chicago: Rand-McNally, 1967. p. 39-83.

  SALES, C. O cooperativismo de crédito e o desenvolvimento

  econômico e social do Brasil. Brasília: Centro de Documentação e Informação- Coordenação de Publicações. Câmara dos Deputados.

  Separatas de Discursos, Pareceres e Projetos n.115/97, 1998. SANTOS, A. R. Marketing: manual do curso de capacitação de gestores de cooperativas. Florianópolis: Atlas, 2012.

  SCHNEIDER, J. O. Democracia, participação e autonomia cooperativa. 2. ed. São Leopoldo: UNISINOS, 1999. SCHOR, A.; AFONSO, L. E. Avaliação econômica de projetos sociais. São Paulo: Fundação Itaú Social, 2005. SECCHI, L. Políticas públicas: conceitos, esquemas de análises e casos práticos. São Paulo: Cengage Learning, 2010. SINGER, P. O capitalismo: sua evolução, sua lógica e sua dinâmica. São Paulo: Moderna, 2003. SOUZA, C.; DANTAS NETO, P. F. (Orgs.). Governo, políticas

  públicas e elites políticas nos estados brasileiros. Rio de Janeiro: Revan, 2006.

  UNIÃO DAS COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA- UNICAFES. Disponível em: <http://www.UNICAFES.org.br/>. Acesso em: 23 abr. 2012.

  WITTEN, I; FRANK, E. Data Mining: practical machine learning toolsand techniques with java implementations. Morgan Kaufmann: [s.n.], 2000. WORTHEN, B.; SANDERS, J.; FITZPATRICK, J. Avaliação de programas: concepções e práticas. São Paulo: Gente, 2004.

ANEXO A – Lista de cooperativas analisadas em ordem alfabética

  COAFER COARPA COMSOL COOPAFAC COOPAFAS COOPEAL COOPER CONTESTADO COOPERDOTCHI COOPERFAMÍLIA COOPERFAMILIAR COOPERFAVI COOPERGUATAMBU COOPERMOC COOPERPOMARES COOPERTEL COOPERRIONOVO COOPERVIDA COOPLEFORSUL COOTRAF ECONEVE

ANEXO B – Estrutura do Plano de Desenvolvimento Institucional

  

(PDI)

  1. APRESENTAđấO DA COOPERATIVA E DOS TRABALHOS Este documento é fruto do trabalho coletivo da Cooperativa X com o acompanhamento do facilitador do Curso Gestão de Cooperativas durante o período de 07/10/2011 até 24/10/2012.

  Neste período foram muitos os encontros e as reuniões de construção de diversos produtos (listados a seguir) que diagnosticaram pontos fortes e oportunidades de melhorias nos negócios da entidade cooperativa no sentido de construir um futuro promissor comercial, mas acima de tudo, uma organização mais humanizada e inserida no contexto da economia solidária.

  Alguns dos temas abordados ainda são insipientes no âmbito organizacional da cooperativa, mas o conteúdo geral do curso propiciou uma capacitação esperada pelos membros da cooperativa participantes com grande contribuição à formação pessoal e profissional de cada integrante.

  Este plano não pretende ser um documento estanque no processo de evolução da cooperativa, mas uma ferramenta de orientação itinerante na condução dos negócios de forma organizada e profissional.

  Espera-se que o mesmo sirva de guia para o desenvolvimento sustentável da cooperativa junto aos seus associados e perante a sociedade.

  2. DIAGNÓSTICO DA COOPERATIVA

  2.1 HISTÓRICO

  2.2 IDENTIFICAđấO  Município de atuação  Nº de cooperados  Nº de funcionários (com nome, idade, formação e atribuições)  Organograma (com nome, idade e formação de quem ocupa os cargos)  Estrutura física da sede, das agroindústrias e armazéns  Produção  Mercados  Participação em redes

   Assistência Técnica  Registro em junta comercial  Certificados e inspeções sanitárias para a produção

  3. PLANEJAMENTO ESTRÁTEGICO A metodologia utilizada para a construção da base estratégica das Cooperativas foi a análise SWOT com a posterior construção da

  Missão, Visão Valores e Negócio da cooperativa. Esta atividade possibilitou uma ampla participação dos cooperados, funcionários e colaboradores presentes.

  3.1 Análise de Ambiente das Cooperativas

  Pontos Fracos Oportunidades Ameaças

Pontos Fortes

  4. GESTÃO DE PESSOAS

  1. Que tipos de vínculos de trabalhos temos em nossa cooperativa?

  3.3 Metas necessárias para o alcance dos objetivos

  selecionadas? Quais critérios?

  4. Como ocorre o desligamento das pessoas da cooperativa?

  5. Como se apresenta a estrutura da cooperativa e como se distribuem as pessoas em cada função/setor? (p.ex.: em diretorias, coordenações, equipe técnica, atividades administrativas, atividades de suporte)

  6. Quais as responsabilidades e tarefas designadas às pessoas em suas funções/setores?

  7. Qual o perfil das pessoas que ocupam cargos diretivos na

  3.2 Sistematização dos objetivos estratégicos e prioritários das cooperativas

  2. Quem são as pessoas que participam de nossa organização? (perfil das pessoas nos diversos 3.

Que ações desenvolvemos para “captar” as pessoas para participarem de nossa cooperativa? Como elas são

  8. Qual o padrão de remuneração oferecido aos empregados contratados (média salarial)?

  9. Existem ações ou políticas de gratificação, premiação ou recompensa? Quais são elas e como ocorrem?

  10. Existem práticas de promoção da saúde e da qualidade de vida aos empregados/cooperados? Que tipo de ações e como ocorrem?

  11. A cooperativa estimula e oportuniza o desenvolvimento pessoal e profissional dos seus colaboradores/cooperados? (promoção de atividades de capacitação, treinamento, estágio, etc.)?

  12. Como se caracterizam e são implementadas as ações para o desenvolvimento das pessoas? (treinamentos sistemáticos, por área, a partir da identificação ou levantamento de necessidades, etc.; treinamento por demanda ou por oportunidade; programas de parcerias com outras instituições, etc.)

  13. As atividades de capacitação e desenvolvimento das pessoas são oferecidas para todos os empregados/cooperados ou são segmentadas?

  14. Que áreas ou temáticas são usualmente trabalhadas nas ações ou programas voltados ao desenvolvimento das pessoas? (comportamental, técnica, administrativa).

  15. Em nossa cooperativa, estamos estimulando a criação de espaços de aprendizagem e participação? (momentos de diálogo, debates sobre questões institucionais/legais, desenvolvimento de equipes e aprendizagem grupal)

  16. A cooperativa desenvolve práticas de avaliação do desempenho dos seus cooperados/colaboradores (formal ou informalmente)? Como ocorrem os processos? Quem participa?

  17. A avaliação de desempenho compreende a etapa de feedback ao cooperado/empregado, dialogando com ele sobre aspectos positivos e pontos a melhorar?

  18. A avaliação de desempenho serve para analisar a adequação do cooperado/empregado à tarefa e eventuais possibilidades de remanejamento/desligamento ou mudança de atividades?

  5. GESTấO DE PROCESSOS E INOVAđấO TECNOLốGICA Realizar um fluxo dos processos que ocorrem nas cooperativas, desde a

  • – ANÁLISE DOS CLIENTES

  2. Quais são as necessidades dos clientes da cooperativa? O que

  3. Mostre a logomarca da empresa para outras pessoas (clientes,

  imagem que a marca transmite.

  as letras, a cor, as formas, se acompanha ou não slogan (e neste caso, analise o slogan). Anote suas percepções e informe qual a

  2. Com a logomarca de sua cooperativa em mãos, analise o nome,

  1. A cooperativa tem um posicionamento definido?Qual?(informe que imagem a cooperativa deseja que os clientes tenham dela).

  PARTE II

  eles buscam nos produtos e serviços da cooperativa (benefícios)?(O que os clientes querem/necessitam/desejam

quando compram os produtos e/ou serviços ofertados?).

  1. Quem são os clientes da cooperativa?Há agrupamento de clientes por segmentos específicos?(liste por tipo, indicando se pessoa física ou jurídica, inclua informações demográficas, psicográficas, geográficas, se possível).

  9. MARKETING E ESTRATÉGIAS DE COMERCIALIZAđấO PARTE I

  8. ADMINISTRAđấO DE MATERIAIS, GESTấO DE ESTOQUES E ESTRATÉGIAS DE DISTRIBUIđấO

  7.2. Indicadores de Desempenho

  7.1. Forma de Gestão da Cooperativa X

  7. AVALIAđấO DE INDICADORES E RESULTADOS A Cooperativa neste tópico deve construir indicadores de resultados condizentes com os objetivos e metas anteriormente construídos, assim como vinculado aos valores descritos pelas cooperativas. Esta atividade se divide em duas etapas, primeiro descrevendo a forma de gestão adotada pela cooperativa e em seguida a elaboração dos indicadores

  Cooperativa  Balanço Patrimonial da Cooperativa

  6. GESTÃO CONTÁBIL, DE CUSTOS E ORÇAMENTÁRIA  Fluxo de Caixa da Cooperativa  Demonstrativo de Resultado do Exercício da

  • – POSICIONAMENTO & MARCA

  cooperados, conhecidos) e faça a seguinte pergunta: “O que esta marca te lembra?” “Quando você olha para esta marca, que

  4. Analise as respostas da questão anterior e verifique se a mensagem percebida pelas pessoas é a mesma mensagem que pretende transmitir (posicionamento)? Compare também com a sua percepção pessoal. PARTE III

  • – MARKETING MIX – PRODUTO 1.

   Quais são os principais produtos e serviços que a cooperativa

  oferece?(diferencie produtos e serviços, inclua no campo tudo

  que a cooperativa oferece aos clientes, mediante remuneração)

  2. Que diferenciais os produtos e serviços da cooperativa apresentam, se comparados com os produtos/serviços da concorrência?Veja o conteúdo de Produto/Serviço ampliado, na apostila de Marketing.

  3. Que diferenciais os produtos e serviços da concorrência apresentam, se comparados com os produtos/serviços da cooperativa?Faça uma pesquisa no site ou diretamente com os

  clientes da cooperativa para descobrir os pontos fortes nos produtos e serviços das empresas concorrentes.

  PARTE IV

  • – MARKETING MIX – PRAÇA 1.

   Quais os canais de entrega a cooperativa utiliza para fornecer

  produtos e serviços? Procure listar os canais de entrega de

  acordo com os tipos vistos na apostila. Ao listar, faça uma pequena descrição.

  conveniência ao cliente? Se possível, verifique com os clientes se os canais utilizados proporcionam conveniência.

  3. Quais os canais de entrega utilizados pela concorrência? Eles proporcionam mais conveniência aos clientes do que os utilizados pela cooperativa?Procure fazer um levantamento,

  junto aos principais concorrentes, dos canais de entrega utilizados. Você pode pesquisar em website, ligar ou mesmo fazer uma visita.

  PARTE V

  • – MARKETING MIX – PREÇO Como a cooperativa estabelece o preço de seus produtos e serviços?

  

Indique aqui o que se leva em consideração ao estabelecer o preço dos

produtos e serviços.

  1. O cliente da cooperativa é sensível a preço? O cliente opta pelo fornecedor que oferece o preço mais baixo ou o cliente prefere pagar mais em troca de qualidade, atendimento, rapidez ou

  2. Qual o preço praticado pela concorrência, de produtos e

  serviços similares aos da cooperativa? Analise se o preço é

  superior, igual ou inferior. Relacione o preço com os diferenciais que a concorrência oferece.

  PARTE VI Ố MARKETING MIX - PROMOđấO 1.

   Como e quando a cooperativa se comunica com seus clientes/

  público-alvo? Relate todas as ações de comunicação desenvolvidas pela cooperativa.

  2. Que elementos do composto de comunicação são normalmente

  usados? Veja na apostila os elementos de comunicação mais comuns e procure identificar se são utilizados.

  3. Como os clientes preferem se comunicar com a cooperativa? Questione os clientes sobre as formas de comunicação preferidas, como eles gostam de entrar em contato ou serem abordados pela cooperativa (considere as etapas de pré-venda, venda e pós- venda) 4. Com que frequencia a cooperativa desenvolve campanhas/

  ações de comunicação institucional? Campanha institucional

  são ações de comunicação cujo objetivo é criar uma imagem sobre a cooperativa. Traz uma mensagem clara, sempre apresentando a marca. Seu foco não é vender, mas sim fortalecer a marca da cooperativa.

  PARTE VII Ố MONITORAMENTO DA SATISFAđấO 1.

   Como a cooperativa avalia a satisfação dos clientes? Verifique se a cooperativa realiza pesquisas de satisfação. Se realiza, indique em qual formato (formal ou informal). O que é feito com os dados?

  2. Como a cooperativa recebe e gerencia as reclamações?Analise o processo de reclamação, se existe um canal formalizado para receber as reclamações; o que é feito com informações obtidas; e se é dado um retorno ao cliente.

  AđỏES DE MARKETING PROPOSTAS PLANO DE AđấO - MARKETING O QUÊ? POR QUÊ? COMO? Quando? Início: Fim: Quem? Onde? Quanto custa?

  10. ELABORAđấO DE PROJETO A cooperativa deve elaborar um projeto completo para encaminhar a um financiador governamental

ANEXO C – Quadro de respostas das cooperativas por indicador

  A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U

  Patrimô- nio Líquido

  0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 0 1 1 1 0 0 0 0

  Patrimô- nio Líquido/ nº de coopera- dos

  0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 1 0 1 1 1 0 0 0 0

  Facilida- de de acesso ao

crédito 0 1 1 0 1 0 1 0 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1 1 1

Adimplê ncia das obriga-

  0 0 1 0 0 1 1 0 1 1 0 1 1 0 1 1 1 1 1 1

  ções Realizou investi- mento

  1 1 1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1

  Canais de

  , , , , , , , , , , , , , , , ,

  comercia lização

  4

  4

  4 2 4 0

  4 4 6 1 8 1

  2

  6 8 4 0

  4

  8

  6 Declara

  dependê

  1 0 N N N N N N

  ncia do PAA

  A A A A A A 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0

  Relação com o consumi dor final

  0 1 1 1 0 0 1 1 1 1 1 1 0 1 1 1 0 1 1 1

  Estrutura própria de comercia lização

  0 1 1 1 0 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

  Articula- ção em

  , , , , , , , , , , , , , , , , ,

  redes

  6

  8 8 4 0 0 6 8 1

  8

  8

  4

  2

  6

  6

  6

  8

  8

  8

  4 Acesso à ,

  políticas públicas , ,

  2 , Escolari

dade do , , , , , , , , , ,

presiden-

  2 2 , 2 ,

  7

  2 2 ,

  2

  2

  2

  2

  te

  1 5 5 1 1 5 1 1

  5 5 5 1

  5

  5

  5

  5 5 5 1

  5 Escolari , , , , , , , , , , , ,

  dade da

  2 7 , ,

  2

  7

  7

  2 2 ,

  2 2 ,

  2 2 ,

  7

  diretoria

  1 5 1

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5 5 5 1

  5 Escolari , , , , , , , , , , ,

  dade do conselho

  7

  2 2 , , ,

  2 2 , ,

  2

  2

  2 2 , , , 2 ,

  2

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5 Escolari

  dade

  , , , ,

  dos funcioná

  N , , , , , ,

  7 N N , N

  2

  3 N 2 , , ,

  rios

  A

  5 5 5 1

  5

  5

  5

  5 A A

  5 A

  5

  5 A

  5

  5

  5

  5 Escolari

  dade

  , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

  dos membro ,

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2

  2 2 ,

  2

  s

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5

  5 , , ,

  Temas

  , , 2 , 2 , , , , , 2 , ,

  1

  5

  5

  5 5 5 1 1 5 1 1

  5

  5

  5

  5 5 5 1 1

  5 , , , , ,

  Pessoas

  2 , 2 , , , ,

  2 2 , 2 , , 5 1

  5

  5 5 5 1 1 5 1 5 1

  5

  5

  5 5 5 1 1

  5 Financia , , , , ,

  mento

  2 , , 2 , 2 , 2 , , 2 , 5 1

  5

  5 5 5 1 5 1 1 5 1

  5

  5 5 5 1 1 1

  5 Produ-

  ção orgânica

  1 0 0 0 0 0 1 0 1 1 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0

  Capacita ção e treiname nto na área

  1 0 0 0 0 0 1 1 0 1 1 0 0 0 0 0 0 1 1 0 Participa ção expressi va de jovens

  0 0 0 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

  Participa ção de jovens na diretoria

  0 0 0 1 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0

  Participa ção

  , , ,

  expressi va de ,

  2 , , 2 , , , , 2 ,

  mulheres

  5 5 5 0

  5

  5 5 5 0 1 5 1 0 5 1 5 1 5 1

  Participa ção de mulheres na , , , , , , , , , diretoria

  0 0 0 5 0 5 5 1 5 5 0 5 0 0 0 0

  5 5 5 0

  Satisfato riedade da participa ção em assem- bleias

  0 1 1 0 1 1 1 0 0 1 0 0 0 1 0 0 1 1 0 0

  nº de coopera- dos

  0 0 0 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0 1 1 0 0 0 1 0

  Conta com corpo de funcioná rios registra- dos

  0 1 1 1 1 1 1 1 1 1 0 1 0 1 1 0 1 0 1 1

  Utiliza ferramen

  , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

  tas de gestão

  2

  4

  2

  4

  2 4 4 1

  4

  8

  8

  4

  2

  6 6 4 1

  6

  8

  6 Existênci

  a de agroindú stria na cooperati va

  1 1 0 0 0 1 0 1 0 1 1 1 0 1 1 1 1 1 1 1

  Existênci a de maquiná rio Existênci a de veículo para distribui ção

  0 0 1 1 0 0 1 1 1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 1 1

  Existên- cia de armazem

  1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 1 1 1 1

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