PSICOLOGIA AMBIENTAL NO DISTRITO FEDERAL: UMA AGENDA INTERDISCIPLINAR DE PESQUISA

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PSICOLOGIA AMBIENTAL NO

DISTRITO FEDERAL: UMA

AGENDA INTERDISCIPLINAR

DE PESQUISA

  Autores: Prof. Dr. Hartmut Günther – Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília Prof. Mestre (Doutorando no IP/UnB) Frederico Flósculo Pinheiro Barreto –

  Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília

  (Publicado como Capítulo do Livro “BRASÍLIA: CONTROVÉRSIAS AMBIENTAIS”,

coordenado pelos professores Aldo Paviani e Luis Alberto de Campos Gouvêa - Editora da

Universidade de Brasília, 2003 (Coleção Brasília, sétimo volume), pp. 125-156. Observação: a

versão original não possuía imagens. As 13 fotos que acompanham esta versão foram escolhidas e

comentadas pelo Arq. Frederico Flósculo, não cabendo responsabilidade ao outro autor).

  INTRODUđấO Brasília sempre se apresentou como um lugar de experimentos, desde seu projeto físico até as propostas de reorganização da administração pública federal. As pessoas têm enorme curiosidade acerca dos “efeitos-sobre-as-pessoas” gerados pelo projeto do Plano Piloto de Brasília, por sua organização da habitação em grupos de Superquadras, cujo chão seria amplamente acessível para todos os moradores e paras as pessoas que eventualmente a atravessassem, entre dezenas de outros aspectos movidos pela curiosidade (e pelas cidade de monumentos frios, distante do mar, da aglomeração praiana, vivendo boa parte de sua consolidação sob (e, em parte graças) ao jugo da ditadura militar de 1964-1985.

  Figura 1- Definição: “psicologia ambiental é o estudo das relações molares entre o comportamento, a

experiência humana e os ambientes natural e construído” (Bell, Greene, Fisher, Baum, 2005). A paisagem dos

sertões centrais e grandes cerrados do Brasil é cada vez mais comprometida pelas grandes monoculturas, pelo

desmatamento e pela ocupação urbana desordenada. Uma área antiga, de colinas macias que, com uma

abordagem adequada à sua recuperação, pode tornar-se uma das paisagens mais encantadoras do País. Mas

depende de seu reconhecimento, de uma atitude a ser elaborada, sobre essa paisagem. Foto de RUY FAKINI,

2001.

  Essas imagens de Brasília não são necessariamente as mesmas compartilhadas pelas diversas gerações de brasilienses, nem são necessariamente as mesmas as atitudes de compromisso com sua premissa inicial de organização e invenção urbana, de pioneirismo e de ocupação de uma nova fronteira dentro do próprio País. E não são as mesmas imagens que os urbanistas e administradores, ou os políticos e prefeitos de quadras, ou os membros do Ministério Público e os historiadores, ou os animadores culturais e os artistas de rua - entre

  Há, hoje, diferentes imagens de Brasília – tema explorado, neste livro [Controvérsias

  

Ambientais ], pela arquiteta Lúcia Cony Cidade -, e vai nos interessar aqui a discussão de

  como o projeto da cidade e a gestão da cidade se articulam em torno de abordagens que nos permitem explicar os processos de sua formação e evolução urbana. Esse tipo de explicação é enormemente abrangente e, em igual magnitude, é exigente de pesquisas que permitam acompanhar as transformações por que passa essa cidade-experimento. Mas a curiosidade do senso comum sobre o “efeito sobre as pessoas” que as cidades – sobretudo as cidades planejadas, que têm a pretensão de fazer as perguntas “certas” e de respondê-las corretamente

  • – não é destituído de fundamento, embora as pessoas não se ocupem da transação que realmente ocorre na cidade, ou dos “efeitos das pessoas sobre a cidade”, ou, de um modo mais geral, sobre seu ambiente. Quando falamos de pessoas estamos, aqui, especialmente interessados em seu comportamento (como agem, como sentem, como compreendem, como escolhem, como vivem), e a melhor ciência disponível no momento nos diz que comportamento e ambiente se relacionam complexa e reciprocamente, envolvendo várias dimensões da existência humana e sua cultura material – em especial desses grandes, múltiplos objetos do humano artifício, as cidades.

  Os estudos sobre a organização física dos assentamentos humanos, da ocupação humana dos espaços naturais, que são “transformados” em espaços urbanos, do modo pelo qual cultura, conhecimentos científicos e conjunturas políticas e econômicas contribuem para o projeto e para a forma que as cidades apresentam, têm já uma longa e respeitável história, que se confunde com a própria história e avanços de áreas do conhecimento como a arquitetura, a geografia, a sociologia, a antropologia, a economia, entre outras ciências humanas.

  Neste trabalho falaremos sobre o ingresso de mais uma outra área, a psicologia – ou, mais especificamente, a psicologia ambiental, que vem estudando a relação entre ambiente físico e comportamento há algumas décadas, apresentando contribuições nascidas de trabalhos interdisciplinares que devem ser fomentados - e apresentados. Também nos interessa a manutenção de uma “agenda” aberta de pesquisas, em que tanto os atuais crucial para que possamos compreender e agir sobre os processos de transformação urbana (que não “avisam” como ocorrem, não vêm com “bula” ou “guia do usuário”, advertindo sobre o modo de usar instrumentos e procedimentos para controlá-los, nem dizem “como” ou “quando” vão parar, ou o que estão, exatamente a transformar).

  Figura 2 – A ocupação urbana da área do Planalto Central arremata um sonho de quase 200 anos, de

transferência da Capital do Brasil para o interior do Continente. Contudo, as reais condições ambientais de

suporte de uma ocupação na escala da metrópole brasileira somente começaram a ser conhecidas no primeiro

plano diretor do Distrito Federal, elaborado em 1977. Mais de 30 anos depois desse plano (PEOT), prevalece o

total descompasso entre as decisões do planejamento urbano e o estresse ambiental imposto à área sob o

impacto de Brasília. Foto: site

  Mesmo nas universidades, muitas pessoas ainda desconhecem o que seja a psicologia ambiental e o que teria a ver com a cidade, sua arquitetura e urbanismo, e o que teria a contribuir no esforço de esclarecimento dos problemas urbanos. Ao longo de sua história, a psicologia tem definido o comportamento do indivíduo como seu principal objeto de estudos, e o contexto em que se passam os comportamentos individuais foi preocupação contemporânea dos trabalhos pioneiros de seu estabelecimento como uma ciência.

  Cabe inicialmente esclarecer o que se toma por “ambiente” neste texto e em boa parte das pesquisas da área de psicologia ambiental: o ambiente é formado pelo mundo físico que circunstancia as atividades humanas, mas também pelo mundo de conceitos e imagens que os cada autor, pesquisador e crítico pretende legitimamente dar a esse seu universo de referência. Nada há contra referir-se a “ambiente” num sentido retórico ou metafórico (o “ambiente de idéias”, etc.) mas, como todos os conceitos, este também é “operador”, é continente de variáveis que devem ser bem definidas em cada estudo, dentro das tradições de pesquisa em ciências sociais, e na psicologia, em especial.

  De um certo modo, toda psicologia é ambiental, e não se desvincula de algum grau de contextualização entre o fenômeno psicológico e o organismo e o ambiente. Por outro lado, parece não ser evidente para alguns que o comportamento humano efetivamente está na base do que se compreende como vida social, e que indivíduos e suas sociedades se comportam, num sentido amplo, ao esforçaram-se por continuar no tempo, por reproduzir, transformar e por ajustar seu ambiente a cada novo desafio imposto pelo ambiente. Essa nova direção das pesquisas em psicologia está em processo de integração com direções com maior tradição, acrescentando ainda maior dinâmica ao conjunto da psicologia contemporânea.

  Kenneth Craik (1996) coloca que “os principais programas de pesquisa da psicologia moderna são centrados em um pequeno conjunto de noções-chave, tais como as idéias de: a) evolução humana; b) o organismo biológico humano; c) os processos cognitivos, afetivos e outros processos psicológicos; d) a duração da vida e o desenvolvimento; e) a pessoa como agente auto-reflexivo de ação integrada; f) o indivíduo em interação social, finalmente, como o problema focal da psicologia ambiental, g) a pessoa situada em – e em transação com – o

   ambiente”.

  As relações entre ambiente e comportamento foram se tornando uma abordagem para a qual um crescente número de estudos contribuiu, especialmente a partir dos finais dos anos 1950, embora sem que se constituíssem em um paradigma de estudos razoavelmente definido. Não há uma abordagem metodológica única, e é caracteristicamente “orientada por problemas” – usando menos a situação do típico laboratório de psicologia, mas não o excluindo. Também é caracteristicamente interdisciplinar, mantendo interfaces com os outros profissionais que estudam o “mundo real”, dos seus respectivos pontos de vista. Arquitetos, sociólogos, geógrafos, paisagistas, planejadores urbanos, administradores, entre outros, têm trazido importantes problematizações e têm colaborado em pesquisas nas quais o ambiente físico e o comportamento apresentaram-se relacionados a seus interesses de estudos.

  DEFINIđấO DE PSICOLOGIA AMBIENTAL De um modo geral, a psicologia ambiental estuda processos que relacionam o comportamento humano e o ambiente (em diversas escalas, desde o espaço de alcance imediato pela pessoa até o espaço regional) em que ocorre esse comportamento, relativo a indivíduos e a grupos, e compreendendo diversos cortes temporais. Um exemplo tangível (e, há tempos, enormemente produtivo) de seus estudos é dado pela chamada Avaliação de Pós- Ocupação, que incide sobre edificações e espaços urbanos, e em que se examina como os espaços construídos atenderam ou não às necessidades, expectativas, ou desejos, dos usuários.

  Podemos também dizer que a psicologia ambiental é uma sub-disciplina da psicologia que estuda “o inter-relacionamento entre o comportamento e o ambiente físico, tanto construído quanto o natural” (Fisher, Bell & Baum, 1984). O reconhecimento do significado comportamental do ambiente físico em larga escala é patente desde a década de 1930, com os estudos feitos por psicólogos como Koffka (1935), Murray (1938), Brunswik (1943), Tolman (1948) e Chein (1954). Desde a década de 1950, sucessivas iniciativas de pesquisa têm confirmado o caráter interdisciplinar desse campo de preocupações que associa o ambiente físico e o comportamento humano, com interfaces com a arquitetura e urbanismo, a geografia, e ecologia, a antropologia, o direito, etc. Assim, estudos concorrentes e que fazem parte da tradição dessa área são também denominados “psicologia da arquitetura” (Canter, 1970), “geosofia” (Wright, 1947), “geografia comportamental” (Gold, 1980, Downs, 1970, Saarinen et. Al., 1984), “topofilia” (Tuan, 1961, 1974), “psicologia ecológica” (Barker, 1968), entre outras denominações possíveis. A busca de tantas outras denominações para os estudos que vinculam o ambiente físico a comportamentos, valores, atitudes, emoções, etc, correspondem, de certo modo, a compromissos disciplinares estritos, em que uma área de conhecimento busca manter continuidade com suas próprias tradições. Enquanto não se defina a nova área de estudos como uma distinta disciplina, os estudos que compartilhamos

  De um certo modo, o espaço das cidades é “construído” na cabeça das pessoas; “o modo de usar a cidade” é aprendido de forma repleta de informações e valores culturais que necessariamente surgem e se mantêm na perspectiva do indivíduo, e há importantes processos psicológicos individuais e coletivos envolvidos nos modos de construir, compreender e utilizar os espaços urbanos. Quando estudamos especialmente as questões cognitivas, afetivas e perceptuais envolvidas no comportamento espacial e no modo como o ambiente construído é pré-concebido (especialmente como o espaço dito “vernacular”, como um sistema de soluções compartilhadas e em evolução pelo no compartilhamento), torna-se notá2vel o estudo da obra do arquiteto, do designer, responsável pela concepção de espaços “eruditos”, com autoria e interpretação estética distinta dos espaços construídos “ordinários”.

  Figura 3 – A proposta vencedora do Concurso Nacional de Projetos para a Nova Capital, vencido por

Lúcio Costa, continha detalhadas antecipações da vida urbana, desde grandes padrões de lazer em Setores de

Diversão num Eixo Monumental mais aprazível que o atual, até a vida nas áreas residenciais, em sua

  OBJETOS DE ESTUDO DA PSICOLOGIA AMBIENTAL Como área de conhecimentos em formação, a psicologia ambiental tem sido vivamente discutida quanto às suas maiores preocupações – dado o ecletismo das pesquisas que têm-se articulado a partir da preocupação comum sobre as relações entre o comportamento e o ambiente. As questões incidentes sobre a pesquisa “aplicada” e a pesquisa “teórica” têm interessado arquitetos, planejadores urbanos e cientistas ambientais. Uma das mais fortes correntes de pesquisa na área é “orientada-por-problemas-de-projeto”, e tem desenvolvido enorme volume de contribuições à solução de problemas práticos e razoavelmente circunscritos, relacionados a temas enormemente abrangentes – desde os estudos dos padrões de criminalidade em bairros residenciais ao projetos de parques públicos ou de ambientes em escolas especiais. As preocupações com sua coerência teórica são fundadas na necessidade de “validar ecologicamente” os seus fenômenos e achados, de forma a permitir correlações entre eles, mesmo que ocorrendo em circunstâncias bem diferentes, no tempo e no espaço de nossas culturas urbanas.

  Kenneth Craik (1970) identifica os seguintes tópicos de estudos para a psicologia ambiental: avaliação ambiental (environmental assessment), percepção ambiental, representações cognitivas do ambiente em larga-escala, personalidade e ambiente, tomada de decisão ambiental, atitudes do público quanto ao ambiente, a qualidade do ambiente percebido pelos sensos (the quality of the sensory environment), psicologia ecológica e a análise dos cenários de comportamento, comportamento espacial humano, efeitos comportamentais da densidade, fatores comportamentais em ambientes residenciais, fatores

   comportamentais em ambientes institucionais, e recreação ao ar livre e reações à paisagem .

  Stokols (1978) examinou os desenvolvimentos dentro de oito sub-áreas do campo da psicologia ambiental, incluindo: a) a cognição ambiental, b) atitudes ambientais, c) avaliação ambiental, d) personalidade e ambiente, e) comportamento espacial, f) análise operante de comportamento ambientalmente sustentado (operant analysis of environmentally supportive

  behavior ), g) psicologia ecológica, h) estresse ambiental.

  Stokols (1995), também examina uma agenda de estudos que deve definir a psicologia psicológicas e comportamentais da poluição ambiental e das mudanças ambientais globais; b) o crescimento de “marés” de violência nos níveis regionais e internacional; c) o impacto de mudanças tecnológicas em indivíduos e grupos; d) as estratégias ambientalmente embasadas de promoção da saúde comunitária; e) as implicações do envelhecimento das populações para o projeto ambiental e para o planejamento comunitário; f) a expansão da interface entre arquitetura, psicologia ambiental e desenho urbano; g) a ecologia da criatividade e as teorias do desenvolvimento (um provocativo tópico que estudaria as relações entre fatores psicológicos e situacionais e o desenvolvimento de idéias, teorias e contribuições artísticas, etc.; bem como a influência de fatores ecológicos no desenvolvimento de diferentes regiões geográficas e culturais); h) o desenvolvimento de estratégias de solução de problemas comunitários e teorias contextualmente mais abrangentes relacionadas a essas estratégias.

  Figura 4 – Jane Jacobs (1916-2006) impactou o imperturbável mundo da crítica do urbanismo com o

livro The Death and Life of Great American Cities (1961) onde apresenta uma série de argumentos articulados

com habilidade de jornalista – sua profissão – reunindo fragmentos de abordagens disciplinares as mais

diversas: psicologia, sociologia, economia, ciência política, administração pública, história, entre outras. A

clareza com que mostrou os sérios problemas da forma de fazer projetos urbanos sem considerar os

fundamentos da vida urbana, a ecologia da vida nas cidade, criou gerações de estudos urbanos que se

estendem até os dias de hoje. Fonte: JANE JACOBS FOUNDATION.

  Vários estudos são paradigmáticos tanto de seus objetos quanto de suas amplas possibilidades metodológicas. Vamos citar, entre muitos outros: espacial / arquitetônica de um hospital psiquiátrico poderia afetar o comportamento dos

  

  pacientes ;

  • o programa MAB (Man And Biosphere) lançado pela UNESCO no início dos anos 1970, voltado para a solução de problemas ecológico-ambientais, estabelecendo uma inovadora unidade de análise chamada “sistema homem-uso”, definido por dimensões: a) espaciais; b) temporais; c) de percepção ambiental;
  • o experimento levado a cabo por Barker e Wright na Estação Psicológica de Campo do Meio-Oeste americano (na cidade de Oskaloosa, no Kansas, EUA), em que métodos de observação naturalista do comportamento das pessoas foram utilizados – fundamentado o que foi denominado “psicologia ecológica”;
  • os experimentos de Elton Mayo (1933), na análise das relações entre as propriedades físicas do meio ambiente e os níveis de produtividade – com ênfase nos fatores de iluminação;
  • as observações de Cohen, Glass & Singer (1973) em edifícios residenciais em Nova Yorque, examinando a correlação entre o ruído urbano e o aprendizado da habilidade da leitura em crianças;
  • os estudos de Oscar Newman (1972), em que os padrões de violência urbana ocorrentes em diferentes áreas de vizinhança se mostraram relacionados com a apropriação dos espaços públicos (a rua) e semi-públicos (os pátios e entradas dos edifícios, por exemplo), podendo ocorrer o que chamou espaço defensável, como “o ambiente residencial que pode ser empregado por seus habitantes para que tenham vidas mais plenas, ao mesmo tempo em que se faça muito seguro para suas famílias, vizinhos e

   amigos” .

  • Os estudos de Hall (1966) e Sommer (1969, 1983), relacionados ao conceito de “proxemia” e “espaço pessoal”, em que dimensões essenciais do comportamento espacial são descobertas e comparadas inter-culturalmente.

  É impressionante a multiplicidade de direções tomadas pelas pesquisas nos últimos 30, 40 anos – apesar de se notar um certo arrefecimento no crescimento das pesquisas, ao longo dos últimos anos (Stokols, 1995). Hoje alguns temas são especialmente conhecidos e praticados, associando psicólogos, arquitetos e outros profissionais do design e das ciências sociais e do ambiente, sendo um dos temas mais dignos de nota o da Avaliação de Pós- Ocupação (Bechtel, 1996, Ornstein, 1992). Também as metodologias de programação arquitetônica têm evoluído para enfoques mais abrangentes, que incluem a realização de “surveys” e observações dos usuários, do sítio e outras prospecções que vêm sendo reunidas numa área emergente denominada Pesquisa de Pré-Projeto (ou “PreDesign Research”, PDR. Ver, por exemplo, Bechtel, 1996; Hershberger, 1999; Cherulnik, 1993).

  De um modo geral, as maiores transformações que assistimos no estado-da-arte das disciplinas relacionadas à entre ambiente e comportamento – ou, de forma a relacionar mais estreitamente algumas das teorias recentes da arquitetura e urbanismo e a emergência de estudos que mais fortemente chamaram a atenção dos arquitetos - ocorreu por volta dos finais da década de 50.

  A APROXIMAđấO COM AS TEORIAS DA ARQUITETURA E URBANISMO Muitos arquitetos e urbanistas desenvolveram inovadoras contribuições em meio ao clima de ampliação do debate acerca dos problemas ambientais e do modo como se planejavam edifícios e cidades – de Lynch (1960) ao Archigram (1961, o grupo de designers e sua revista), de Oscar Newman (1973) a Noriaki Kurokawa (1977) e Trancik (1986) -, para o que contribuiu o conjunto de trabalhos de reconstrução européia e asiática após a guerra mundial de 1939-45. O próprio CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – reconhece (a partir dos anos 50) a necessidade de repensar os paradigmas do modernismo frente aos problemas que, em parte, a nova arquitetura nascida nas primeiras décadas do século 20 difundira doutrinariamente. O modernismo, como período de intensa experimentação e “mudanças de paradigmas” quanto ao significado e campo de ação da arquitetura (que passa a ser entendida por um enorme espectro de intervenções no ambiente natural e no ambiente construído, como atividade criadora do habitat humano), também deve ser considerado como diretamente associado aos episódios de estabelecimento da arquitetura como área de conhecimento. que chamamos “revolução industrial” e, na atualidade, também chamamos globalização (ou o compartilhamento de formas de comunicação, de administração, de operação de recursos de diversas naturezas, sobretudo econômicos e tecnológicos, e com profundo impacto cultural). A refinada auto-consciência do modernismo, mesmo se considerarmos que houve enorme variedade de direções por que seguiram as teorias e realizações de arquitetos, urbanistas e teóricos, foi engendrada pela crítica do modo de fazer arquitetura, do seu significado social e estético, abrangendo não apenas o que “precede o moderno”, mas a própria definição de moderno e do que “vem depois do moderno”. A crítica a essa ampla frente de realizações que chamamos modernismo tem continuidade na atualidade, mesmo que agora se pretenda sua superação através de outra frente “pós-moderna” de realizações - algo distinto, em ruptura, separado do que “foi moderno”.

  Figura 5 – Kevin Lynch (1918-1984; é o segundo à esquerda, no grupo à mesa, ao lado do grisalho

Frank Lloyd Wright) tem até os dias atuais enorme influência direta sobre os estudos urbanos, embora a sua

teoria sobre a “imagem da cidade” seja aplicada literalmente, mesmo quando não tem o menor embasamento

empírico – um equívoco amplamente generalizado pela fraca tradição de pesquisa científica em arquitetura e

urbanismo, e uma injustiça a seu legado teórico. Apesar do uso discutível, por apressados e despreparados

seguidores, de sua valorosa contribuição teórica, Lynch abriu caminhos para a pesquisa sobre a cognição do

espaço urbano que até hoje permanecem como um desafio para os pesquisadores, a começar por sua

taxonomia da imagem da cidade (1960). FONTE: Banerjee, T. & Southworth, M. (eds.)(1990). City sense and

city design. Writings and projects of Kevin Lynch, p. 13.

  Embora não seja prático fazer aqui o inventário dessa crítica, foi coincidente o

  “racionalismo funcionalista” da arquitetura modernista, a partir do final da década de 50. Ao par de desenvolvimentos de estudos que foram criando referências “arquiteturais” para a Psicologia Ambiental (como em Ittelson, 1960; Lynch, 1960; Goffman, 1963; Kates & Wohlwill, 1966; Lazarus, 1966; Hall, 1966; Lee, 1968;) também alguns arquitetos e estudiosos da metodologia do projeto (num sentido amplo, muitas vezes indicado pela palavra inglesa design, que atinge várias áreas da criação artística e de artefatos industriais, incorporando também uma acepção correlata a diversas tecnologias) criaram abordagens promissoras ao fortalecimento de estudos ambientais comuns (como Alexander, 1966, 1967, 1977; Broadbent, 1976; Papanek, 1971). De um modo geral, constatava-se que as pessoas (seja entendido aqui o indivíduo, seja a sua comunidade num sentido mais amplo ainda) tinham razões que o racionalismo explicitado pelos mestres modernistas da primeira metade do século 20 – e francamente adotado por amplos setores da economia e de governos nacionais envolvidos com processos de transformação ambiental – desconhecia. Começava- se a compreender que também a arquitetura e o urbanismo, bem como os projetos que alteravam a ocupação territorial, as atividades e os deslocamentos de pessoas no território, tinham impactos ambientais a serem considerados e estudados.

  O quadro dessas inovadoras incursões inter-disciplinares que se forma a partir dos anos 1960 vai mostrar que a arquitetura reconhecida por críticos de revistas especializadas e pelos curadores de museus e mostras se distancia enormemente das questões colocadas pelas abordagens críticas ao modernismo desde os estudos nascidos nas ciências sociais, que levam à “descoberta” do usuário. Entre a maior parte da produção arquitetônica contemporânea e “erudita”, e o corpo de conhecimentos que continua a se formar em torno dos problemas ambientais globais e locais, foi-se abrindo um enorme abismo. A formação dos arquitetos, na atualidade, sofre de enorme descontinuidade entre os conhecimentos necessários ao enfrentamento dos problemas da atualidade – e não somente ambientais, mas também de suas dimensões políticas, sociais, econômicas, entre outras – e parece ser necessário o reencontro com abordagens que se proponham a recuperar a unidade de certos “fatos arquitetônicos”. Desta forma, os usuários – ou as pessoas que vivenciam a arquitetura, ou os “consumidores conhecimentos que são hoje necessários à compreensão dos problemas e à geração dos ambientes contemporâneos.

  O “conhecimento do usuário” é algo altamente interativo, e não se pode conceber as pessoas que vivem nas cidades como coisas que podem ser programadas, ou como algo sobre o que simplesmente se “sabe”, como através de uma tabela de dados - ou de um diagrama esquemático de fluxos e proximidades. Há bastante tempo sabemos disso, mas é importante enfatizar que as pesquisas atuais estão formando o que poderíamos chamar uma “Teoria do Usuário no Projeto Arquitetônico”, ou uma reunião de conhecimentos acerca do modo pelo qual as pessoas (suas habilidades, suas capacidades, seus interesses, seus valores) devem ser redescobertas para que o ambiente feito pelo homem tenha êxito como parte de suas vidas.

  Fig. 6 - Robert Sommer é autor do livro Personal Space(1969), que expõe originalmente a teoria dos espaços pessoais em situações de grupo. Seus escritos (como Design Awareness, de 1972) mostram enfaticamente a importância da aplicação prática dos conhecimentos da psicologia social. Nesse sentido, para Sommer, a psicologia ambiental seria o campo de aplicação por excelência. O trabalho entre psicólogos e projetistas, entre psicólogos e construtores, gestores, políticos e tomadores de decisões em políticas públicas poderiam ser colocados entre os objetivos da área disciplinar comum. Imagem: acervo pessoal de Robert Sommer.

  Essa abordagem alimenta uma nova sensibilidade (Hill, 1998) e e a busca de novas metodologias projetuais, em que o arquiteto não se vê em isolamento e elevação, como um demiurgo, no centro do processo de projetação, mas como um participante especialmente habilitado ao desempenho de determinados modos de produção e construção de espaços para as pessoas. Os modos pelos quais há a consciente “participação da comunidade” no processo decisório que diz respeito à construção das cidades, dando-lhe alguma margem de controle sobre o processo decisório de projeto dos espaços urbanos, vêm se constituindo como uma das mais importantes vertentes tanto da pesquisa sobre as relações comportamento – ambiente, quanto uma das mais importantes frente de ação concreta sobre as transformações do ambiente que as sociedades humanas operamos.

  E a perspectiva de ação concreta sobre o ambiente, de “dar ênfase na utilização de contemporânea (Stokols, 1978). Essa preocupação tem fortalecido o trabalho conjunto entre arquitetos, geógrafos, planejadores, psicólogos, sociólogos, entre outros, aplicado à solução de problemas concretos, que vêm representando valiosa fonte de conhecimentos para o campo interdisciplinar das relações entre seres humanos e ambiente físico (Cherulnik, 1993).

  DIMENSÕES PSICOLÓGICAS DA ARQUITETURA O arquiteto, tanto quanto a arquitetura, são importantes referências para a psicologia ambiental. O arquiteto é um agente de inegável importância para o projeto das cidades (deve- se ressalvar que nem todas as cidades, e nem todos os bairros e novos loteamentos são projetados, ou sequer projetados por arquitetos). Seu papel é, eminentemente, de projetista de cidades e edifícios, ou, de modo mais geral e amplo, projetista dos espaços construídos. A mera designação dessa tarefa já é matéria para a reflexão sobre a própria “natureza” dessa ordem de espaços, feitos por seres humanos e para seu abrigo, uso e prazer. Talvez os arquitetos se surpreendam em serem tratados como uma espécie de “metáfora viva” pelos psicólogos, mas eles de certo modo são exatamente isso, ao representarem a atividade humana organizada e conscientemente transformadora do ambiente (e como se isso não bastasse, com uma visão estética, econômica, política, etc., do mundo !).

  Dessa forma, quando o “arquiteto” é citado em estudos de Psicologia Ambiental – e muitas vezes ele é citado até mesmo como um de seus “objetos de estudo” – há a possibilidade de se estar também a fazer referência a essa persistente (e moderna) metáfora que o arquiteto encarna: da transformação deliberada do ambiente, como resultado da ação humana historicamente concertada.

  A tarefa do arquiteto parece ir-se tornando cada vez mais abrangente, sobretudo na medida em que se vão descobrindo que as relações entre os seres humanos e o ambiente que os rodeia pode ser enormemente complexa, carregada de informações que ainda estamos aprendendo a interpretar, envolvendo trocas entre o modo pelo qual dispomos (i.e., modificamos e usamos) o ambiente e os nossos comportamentos. O estudo do ambiente gera conhecimentos que parecem ser de grande utilidade – ou mais que isso, de necessária consideração, em alguns aspectos – para o arquiteto e todos os demais envolvidos no projeto imediatamente acessíveis as informações relacionadas à criação de um “novo” ambiente. E, finalmente, o modo pelo qual o arquiteto trabalha o problema de projeto (o define, o explora, e busca e seleciona informações relevantes, associando-as e gerando novas informações que serão coordenadas num projeto), também pode ser estudado. Poderíamos dizer que o “problema do arquiteto” coloca três grandes conjuntos de frentes de estudos para a psicologia ambiental, envolvendo: a) processos relacionando comportamento e ambiente (como o espaço projetado e construído, em especial); b) processos psicológicos relacionados à interação entre arquitetos e usuários; c) processos psicológicos relacionados ao processo de projetação. Esses conjuntos são propostos de forma apenas ilustrativa – e provocativa -, pois implicam em objetivos e metodologias de pesquisa algo diferentes para cada campo apontado, ainda que o trabalho do arquiteto acabe por coordenar conhecimentos e atividades que se dão desde o nível ambiental mais abrangente (considerada a sua clientela de projeto) até o próprio processo de “concepção” do projeto, de forma mais ou menos individual. Mas, como veremos, não se deve investir todas as fichas do investigador no profissional-arquiteto como centro reitor do processo de projetação do ambiente construído.

  A psicologia ambiental tem pesquisado com maior ênfase o “primeiro bloco” acima, de problemas, que relacionam aspectos comportamentais e do ambiente físico. (E, no presente trabalho, enfatizamos a formação de uma agenda acerca do estudo dos problemas urbanos, e na escala do território do Distrito Federal, deixando em segundo ou terceiro plano os também interessantes aspectos do projeto em escalas próprias à edificação individual, a pequenos espaços públicos, ao espaço pessoal, etc.).

  Dentre os feixes de disciplinas que as áreas acadêmicas de Arquitetura e Urbanismo mais têm trabalhado – efetivamente, na presente teoria e prática de ensino de Arquitetura e Urbanismo - em comum com essas abordagens não está, para a decepção de muitos estudantes, aquela que se ocupa com o Projeto Arquitetônico (ou com o Projeto de Urbanismo, ou com o Projeto de Paisagismo ou de Interiores, etc.). O enfoque que se mostra como uma dimensão evidentemente qualitativa da arquitetura que vem sendo tratada através de enfoques ainda fragmentadamente quantitativos e apenas coligados por uma abrangência ambiental ainda muito limitada em seu impacto sobre a produção arquitetônica contemporânea. Disciplinarmente, o Conforto Ambiental ainda é um mosaico de contribuições de várias linhas de pesquisas originadas em laboratórios de psicologia, de física, de fisiologia, etc., que ainda não apresenta uma teoria abrangente acerca dos fatores e processos que vão constituir essa qualidade “ambiental” que se quer alcançar pela arquitetura. Mas certamente é um dos mais promissores candidatos a pôr em cheque algumas das abordagens (vigentes e amplamente praticadas) do ensino de projeto arquitetônico que não utilizam os atuais instrumentos de pesquisa e o conhecimento que já se detêm sobre o usuário e as relações entre o espaço construído e o comportamento humano.

  Essa é uma “previsão” bem provocativa: algumas das questões colocadas pela psicologia ambiental acerca da experiência que se tem do ambiente construído, tal como percebido / avaliado / valorado / manipulado pelo ser humano, podem vir a contribuir para que as pontes de empirismo abertas, em especial, pelo atual Conforto Ambiental permitam uma “revolução” no ensino de projeto arquitetônico. Também é perfeitamente possível que as disciplinas de projeto passem por uma “renovação empírica” antes que as novas configurações dos conhecimentos ambientalmente aplicados demonstrem a obsolescência dos métodos de ensino de projeto dedicados à formação do criador isolado, do genial demiurgo, que dedica-se a “inventar” mas não se interessa em controlar as próprias condições da invenção, para compreendê-la. Essa postura é denominada, genericamente de “caixa-preta” da projetação, e atinge muitas das áreas da criatividade (Jones, 1970). As abordagens proporcionadas pela pesquisa empírica acerca do usuário e os estudos sobre os processos de projeto participativo já são empregadas no ensino e na prática profissional de alguns profissionais, há pelos menos três décadas, e são alimentadas por dois conjuntos de métodos de análise que estão a merecer grande atenção de projetistas e psicólogos: a Pesquisa de Pré- Projeto e a Análise de Pós-Ocupação (Bechtel, 1996).

  Finalmente, deve-se considerar os preconceitos contra a própria psicologia por parte como uma discussão e um corpo de conhecimentos pouco confiável, pouco seguro e compreensível, que não se equipara e não pode ser usado consistentemente como se fora uma espécie de “conhecimento técnico”. A psicologia interessaria como ilustração, como cultura geral, mas não parece - nesse preconceito - claro como poderia gerar alguma diferença para as condições e situações reais, tanto no que concerne ao projeto do espaço quanto à crítica da produção do espaço construído. E, num outro extremo, temos pessoas que demandam os psicólogos – legitimamente, pois muitos não possuem ainda informações ajustadas ou atualizadas sobre essa área de conhecimento, que tem se transformado enormemente – sobre aplicações realmente fantásticas da psicologia ambiental: perguntam se as cores realmente condicionariam as emoções, se a forma dos espaços influiria nos relacionamentos pessoais, se uma dada morfologia urbana (ou arquitetônica) restringiria ou estimularia inexoravelmente a vida pública (havendo até mesmo receitas semi-quantitativas para o projeto da “boa cidade”), entre muitas outras curiosidades. De um certo modo, o senso comum busca respostas onde acha provável que se escondam, mas a ciência moderna constrói conhecimento pelo exame das afirmações do senso comum e das hipóteses e explicações tentadas por outros cientistas, e colocando-as à prova, pela observação, pelo experimento, pelo levantamento e comparação de dados. A verdade é que freqüentemente o senso comum é ludibriado por seus próprios preconceitos, prejudicando a compreensão da – e a ação sobre a - realidade. A realidade se mostra extremamente difícil de se fazer “reduzida” a algumas constatações genéricas, quando é estudada com o instrumental da ciência moderna. Mas é fundamental que as descobertas e contribuições feitas pela psicologia ambiental sejam apresentadas e aplicadas de modo a convencerem os técnicos - e de modo a introduzir mudanças em sua cultura profissional.

  AS DIFERENTES ABORDAGENS DO PROJETO DO AMBIENTE URBANO Mesmo o ambiente-construído-pelo-homem não define completamente o campo de estudos da Psicologia Ambiental: o ambiente natural e as áreas degradadas (poderíamos até dizer: “comprometidas-pelo-homem”) também são “cenas” presentes em suas linhas de pesquisa. Os processos sociais e as relações políticas que envolvem a ocupação territorial e o uso do ambiente também são dimensões que contextualizam suas linhas de pesquisa. experiência do usuário em outras edificações que, se avaliadas, formam um dos acervos mais relevantes de conhecimentos sobre o espaço produzido pelo homem) pode acarretar, em termos de dificuldades ou impropriedades quanto à possibilidade de uso do espaço. De um certo modo, a consciência (e a efetividade) do impacto de projetos arquitetônicos e urbanísticos mal fundamentados em termos das necessidades dos usuários - que deveriam ser bem compreendidas pelos projetistas -, é que tem movimentado boa parte das pesquisas em Psicologia Ambiental. Sobretudo quando se avalia o “day after” de obras que chegaram a receber premiações por sua excelência como projetos arquitetônicos magistrais (como no caso do conjunto habitacional Pruitt-Igoe, em Saint Louis, E.U.A., um dos clássicos no elenco de fiascos produzidos pela aplicação de princípios comportamentais equivocados no projeto de ambientes para a habitação coletiva – ver, por exemplo, Jenks, 1987).

  Figura 7 – O conjunto habitacional Pruitt-Igoe, projetado e construído nos anos 1950, em Saint Louis (Missouri, EUA) foi baseado em estudos sobre habitação popular, da universidade de Harvard. Seu projeto foi premiado pelo Instituto Norte-Americano de Arquitetos, mas algo correu extremamente errado com sua gestão e uso efetivo. Tornou-se local tão violento que foi demolido em 1972. Imagem: Wikipedia.

  Compreender como e por quê um ambiente projetado e construído “funciona bem”, ou tem um bom desempenho com relação aos objetivos de seus usuários, tem sido um dos grupos de questões que têm atraído a colaboração de arquitetos, psicólogos e outros profissionais das ciências ambientais nas últimas décadas.

  Contudo, tem sido preocupante o ainda pequeno impacto que os conhecimentos gerados por áreas como a da psicologia ambiental têm exercido sobre o ensino e a prática da arquitetura. Em boa parte isso se deve à resistência dos próprios arquitetos e de seu Também se aponta para a própria natureza da teoria da arquitetura, que tem evitado o debate com as novas constelações de conhecimentos técnicos e científicos, que prefere tratar de um modo instrumental e externo ao seu modo de operar. Assim, a arquitetura parece continuar a ser “a última das artes a ser afetada pelas mudanças na estrutura da sociedade e pelo ambiente cultural para o qual contribui” (Lang et allii, 1974).

  Já se tem acumulado um razoável corpo de conhecimentos acerca da relação entre ambiente e comportamento nos espaços de alguns edifícios, como no caso das escolas, creches, casas para idosos, entre outros, bem como o conhecimento sobre a qualidade ambiental desde “temas” como o da acessibilidade física, de orientabilidade, da formação de identidade associada ao ambiente físico têm sido bem explorados. Contudo, no caso das cidades e de muitos tipos de espaços urbanos ainda estamos longe de termos atingido algumas das precisões já alcançadas para a escala dos espaços de pequenos grupos ou de indivíduos.

  As cidades planejadas, por outro lado, parecem propiciar interessantes oportunidades para a compreensão do desempenho alcançado pelo projeto urbano fundamentado não apenas na experiência de um único projetista ou urbanista, mas também no conjunto mais amplo de projetistas especializados, dos administradores e políticos (em especial os que representam os interesses de segmentos da população usuária, bem como os que representam os interesses dos construtores, incorporadores e financiadores), as próprias representações comunitárias e de seus segmentos minoritários, ao longo de sua apropriação pelos seus reais moradores.

  Assim, não é fácil diferenciar entre o interesse que a psicologia ambiental tem quanto aos perfis de comportamento das pessoas e seus papéis na formação do ambiente urbano com os interesses que também articula acerca dos propósitos das instituições e das situações concretas dadas pela acumulação de informações (e os lugares, seus materiais e significados são informação, nesse sentido) no espaço contruído.

  BRASÍLIA COMO UM OBJETO PROTOTÍPICO DE ESTUDOS EM PSICOLOGIA AMBIENTAL

  Günther e Rozestraten (1994) falam do ensino da psicologia ambiental centrado num significado de “prototípico” aplicado a Brasília pode adquirir sua especificidade pelo fato de ser uma cidade especialmente projetada para sediar a capital da república brasileira. O fato de a cidade nascer de um projeto e não de um processo de ocupação territorial gradual acarreta interessantes aspectos à caracterização de Brasília como um protótipo de cidade moderna – bem como importa em problemas que apresentam poucos paralelos em outras cidades brasileiras e no resto do mundo. O projeto da cidade nasce de sua descrição pelo urbanista, que delineia importantes diretrizes de projeto urbanístico claramente voltados a aspectos comportamentais, como quando Lúcio Costa fala do caráter geral da cidade, como:

  “Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo

  

tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual,

capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num

foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país ”.

  Ou quando se refere ao bem estar das pessoas de diferentes classes sociais, numa referência à “gradação social”, que poderia “ser dosada facilmente”, sendo que no caso das Superquadras residenciais:

  “o agrupamento delas, de quatro em quatro, propicia num certo grau a

  

coexistência social, evitando-se assim uma indevida e indesejável estratificação. E

seja como for, as diferenças de padrão de uma quadra a outra serão neutralizadas

pelo próprio agenciamento urbanístico proposto, e não serão de natureza a afetar o

   conforto social a que todos têm direito ”.

  São diversas as passagens em que Lúcio Costa expressa diretrizes que se referem às qualidades que deseja, autoralmente, ver contidas no ambiente construído da cidade. Cada uma dessas declarações, bem como cada uma das soluções que foram efetivamente adotadas (e a proposta inicial de Lúcio Costa para o Plano Piloto de Brasília sofreu diversas modificações no próprio período de desenvolvimento do seu projeto urbanístico pela equipe da NOVACAP) é uma valiosa referência quanto ao extraordinário “experimento de urbanismo modernista” que é essa cidade.

  Tanto no caso do Relatório do Plano Piloto de Lúcio Costa quanto nos demais Gama, do Guará, de Ceilândia, de Samambaia, do Paranoá, de Águas Claras, de Santa Maria, do Recanto das Emas, do Riacho Fundo, dos Setores Sudoeste e Noroeste resultantes de um outro documento de Lúcio Costa, o “Brasília Revisitada”, de 1987, entre outros núcleos e expansões urbanas), há um rico conjunto de diretrizes formais e explicitadas que foram consumadas como experimentos urbanos, e que ainda estão à espera de estudos quanto a seu desempenho. Esse conjunto de diretrizes simplesmente não “sai de moda”, não podendo ser desprezado, tanto porque continuam a orientar os projetos urbanos do Distrito Federal, quanto porque não têm sido oficialmente avaliados em termos de suas conseqüências como ambientes construídos que dão suporte à vida de sua população residente e da população que freqüenta, por vários motivos, a Capital do País.

  É pouco conhecido (ou refletido e estudado) o fato de que há várias “gerações e clonagens” de projetos modernistas elaborados após o Plano Piloto, para os demais nucleamentos e expansões urbanas de Brasília, e que se mostram tão bem delineados em termos de suas diretrizes de organização total da vida das comunidades quanto o projeto de Lúcio Costa (certamente não foi possível, em todos os casos, apresentar-se relatórios descritivos dos projetos vazados em tão boa prosa quanto a do principal urbanista). São consideradas realizações derivadas de “projetos menores”, a maioria feita por equipes (ainda) anônimas do serviço público local, e não receberam o mesmo status de ambientes dignos de tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade (como ocorreu com o Plano Piloto, em 1987, em homenagem prestada com o apoio da UNESCO), mas “são Brasília” e foram projetados dentro do mesmo conjunto de princípios do urbanismo modernista, e formam uma unidade metropolitana na qual toma parte o Plano Piloto e as cidades goianas e mineiras do chamado “entorno” do Distrito Federal (Paviani, 1985, 1987, 1996).

  Nessa ótica, Brasília é uma cidade que é criada e gerida a partir de sucessivos “protocolos de intenções” projetuais (numa continuidade e com uma consistência entre episódios de controle da projetação urbanística e de gestão do território sem paralelo nos casos das demais cidades brasileiras, mesmo nos seus mais estrondosos fiascos, como nas inopinadas criações de Taguatinga e do Núcleo Bandeirante, antes mesmo da inauguração do eclosão de uma idéia fundadora e de enorme pureza de princípios, que, ao longo de sua evolução nos últimos 40 anos, ainda articula parte desses protocolos projetuais, mas num processo em que surgem cada vez mais como respostas incrementais a demandas pela incorporação de mais território urbano e mais infra-estrutura que dê suporte ao crescimento da economia metropolitana (poderíamos até falar na famigerada “acumulação capitalista avançada”, mas isso ajuda pouco na explicação). Essas demandas são ciclicamente represadas e aliviadas, sem que ocorra o planejamento a longo prazo de seu conjunto urbano - embora a maioria das “gerações de projetos urbanos” de Brasília, tal como nos referimos acima, tenham como característica o total controle do uso do solo urbano e da própria morfologia das edificações e espaços públicos.

  Tem-se assim uma curiosa associação entre uma forma largamente praticada de “projeto urbano total”, que tudo prevê, ao qual nada escapa (mesmo na mais humilde das quadras habitacionais “econômicas”, ou destinadas aos estratos sociais mais pobres, no eufemismo brasiliense) e uma espécie de “decaimento” incrementalista, que permitiu a formação de um complicado e inorgânico mosaico de loteamentos ou “cidades-satélite” projetados pelo próprio governo, até a atualidade. Passo a passo, cidade-satélite a cidade- satélite, expansão a expansão, cerca de 80% da população do Distrito Federal foi sendo acomodada fora do Plano Piloto de Brasília. Cada um desses episódios de crescimento do tecido urbano ocorre sem que se faça a avaliação das diretrizes que orientaram o próprio Plano Piloto e cada uma das expansões urbanas que se sucedem. Essas diretrizes produziram até hoje dezenas de milhares de hectares de áreas residenciais, áreas de trabalho e comércio, áreas públicas e de lazer pela aplicação dos mesmo e não-avaliados princípios projetuais. Claro, isso deve ser associado à própria e deliberada abdicação enunciada pelo próprio Lúcio Costa, de impor a previsão da forma pelas qual a cidade cresceria e seria planejada “além do Plano Piloto”. Lúcio Costa declarou no início de seu "Relatório do Plano Piloto de Brasília que o planejamento urbano seguir-se-ia à implantação da cidade, pois:

  "A liberação do acesso ao concurso reduziu de certo modo a consulta àquilo

  

que de fato importa, ou seja, à concepção urbanística da cidade propriamente dita,

  

causa dele: a sua fundação é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado

da região ". (Lúcio Costa, 1957).

  Esse foi uma decisão fundamental, que gerou enormes problemas, pois jamais ficou esclarecido pelo autor do Plano Piloto como a ocupação do território do Distrito Federal deveria ocorrer. O Plano Piloto de Lúcio Costa, além disso, se apresentava como um grande objeto irrepetitível, único, uma reconhecida obra de arte, mas um imenso equívoco do ponto de vista da evolução da ocupação territorial, pois jamais se apresentou com clareza a solução para a sua expansão urbana acelerada e em crescente escala de impacto, seja territorial, seja ambiental.

  Resultou disso que o padrão arquitetônico e urbanístico das chamadas “cidades- satélites” é claramente inferior àqueles criados para o Plano Piloto de Brasília, sem sua infra- estrutura de equipamentos culturais, sem áreas de lazer e espaços públicos dimensionados para esse contingente populacional majoritário – e sem a presença de órgãos federais e regionais, e dos empregos e prestígio da administração pública federal -, numa contundente conjunção de desigualdades ambientais básicas, criada pela intervenção do próprio Governo do Distrito Federal (Bertone, 1987; Falcão & Andrade, 1987, Oliveira, 1987).

  Essa diferença primordial entre o centro cerimonial da Capital da República, definido pelo Plano Piloto e sua periferia é uma importante dimensão qualitativa dessa estrutura ambiental urbana que é Brasília, e poderia ser indicada como uma das premissas iniciais para que se compreenda e analise várias dimensões da qualidade de vida urbana, como: a) a formação da identidade das sucessivas gerações de brasilienses, que

  “pertence” ou “não pertence” ou “também pertence”, etc., a uma quadra, a um setor, a uma das cidades do sistema “satelitizado” de Brasília; b) os processos de segregação entre pessoas, entre atividades, entre significados atribuídos à sua origem, moradia, trabalho, etc., considerando- se as relações entre os lugares dessa ainda pouco estudada geografia de estereótipos brasiliense; c) a avaliação de condições extremas de segurança pessoal e patrimonial entre setorizações bem definidas de áreas de segurança institucional e nacional, por ser este o território do Distrito Federal; d) a acessibilidade a espaços públicos, a edifícios públicos, e às diferentes localidades da cidade (acessibilidade que é função de sua existência, de suas dimensões e equipamentos, de sua distância aos locais de moradia, trabalho e pontos nodais da rede de transportes, bem como de suas condições de manutenção e uso, bem como, em escala imediata de uso, da existência ou não de barreiras arquitetônicas); e) a adequação do projeto urbanístico ao uso por diferentes populações e atendendo à diversidade de necessidades que caracterizam a sucessão de gerações e seu convívio, sua renovação e amadurecimento (sobretudo quanto aos espaços de lazer e condicionamento de seu uso por crianças, idosos e adolescentes);

  f) conservação e proteção dos recursos ambientais representados pela água potável, pela vegetação nativa, pelo solo, pelo ar, pelas espécies nativas e outros componentes e processos do ecossistema do cerrado (que sinalizam claramente a degradação ambiental, quando ela ocorre e se agrava);

  Não deveria ser espantoso que o “projeto modernista”, ou, no caso de Brasília, o conjunto de princípios de projeto que foi aplicado ao urbanismo do Plano Piloto e vem sendo aplicado até hoje nos seus setores “oficiais” de expansão, poderia promover elevado nível de qualidade de vida em todas as localidades de Brasília. Por quê isso não ocorre ? Em parte porque os mesmos princípios podem ser aplicados em diferentes composições (e até mesmo contraditoriamente, como no caso das “praças-terra-de-ninguém” em várias localidades de Brasília), e há composições que, mesmo face aos critérios mais simplistas, são de inferior qualidade de projeto, tendo um desempenho abaixo da média da família de composições que um feixe de princípios projetuais pode gerar. Em parte porque ocorre o “truncamento” burocrático nos projetos, no sentido de não haver a documentação das propostas, não haver avaliação do desempenho dos espaços com a participação (ou a observação) dos usuários, e o difusos” dos usuários dos espaços públicos urbanos sem compreender como e porque esses espaços podem ser de péssima qualidade e não atenderem às necessidades dos usuários ? O CASO DE BRASÍLIA, A METRÓPOLE POPULISTA (1985-2002) Como no caso de Brasília, as cidades planejadas têm sido objeto de muitas críticas, avassaladoramente negativas, e temos aqui a dificuldade de compreender a rápida rejeição de alguns dos produtos do planejamento modernista sem que se façam estudos abrangentes, que fundamentem e permitam a adoção de novos paradigmas. A crítica deve ter a responsabilidade de gerar soluções para os problemas que aponta. Princípios projetuais vão e vêm, são amplamente comemorados para a seguir serem amplamente difamados, e o comum neste outro “fenômeno comportamental” da elite dos planejadores é o consenso no elogio e na detratação, como se se tratasse de modismos e não, efetivamente, de princípios projetuais com enorme impacto na qualidade dos espaços construídos. E, de certo modo são mesmo modismos, na medida em que poucos dos “modos modernistas e depois dos modernos” de projetar as cidades contemporâneas têm sido examinados com rigor – ou, pelo menos com uma tolerável parcialidade ou mesmo uma compreensível impaciência da crítica por resultados concretos (como em Faludi, 1973; Byrum, 1992; Krumholz & Clavel, 1994).

  Nesse estado de coisas, as renovações que vêm ocorrendo no desenho urbano de cidades como Brasília ainda dependem em grande parte dos manifestos expressionistas de defesa da cidade (que podem revelar afeto, mas que também deveriam revelar capacidade de análise) e do carisma atribuído a alguns urbanistas – que atuam como “racionalidades externas” à administração pública, solucionando impasses para as tecnocracias paralisadas por sua própria falta de instrumentação e conhecimento crítico, ou por incompetência (num senso estrito de não lhe competir) no jogo político de interesses no reordenamento territorial, legitimando extensas transformações sem uma análise dos princípios que inexoravelmente produzirão os novos espaços urbanos em expansão.

  Mesmo o carisma dos urbanistas é alvo fácil, (como em Brasília a 40 anos de distância do grande momento de sua concepção), da manipulação de políticos habilidosos, que usam o seu prestígio para propelir suas próprias políticas de transformação territorial intransigente dos valores que presidiram o projeto inicial da cidade, seja pela promoção de interesses de grupos econômicos interessados em “quebrar a espinha” de Brasília, tornando o seu ordenamento territorial mais dócil à introdução de empreendimentos que não têm lugar no modelo oficial de organização territorial e urbano.

  

Figura 8 – Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976) foi o político que liderou a criação da nova capital

do Brasil, no interior do País. Tornou-se figura mítica, como empreendedor e visionário, como um Presidente

da República honesto, de origens humildes. Sua figura inspira uma série de decisões relacionadas ao

planejamento físico e à gestão da cidade. Uma reflexão acerca desse imenso valor existente no imaginário

de todas as classes sociais da cidade, é a de que sua representação social pode continuar a mobilizar a

população em formas ativas de organização comunitária – de forma paradoxalmente independente de

políticos. “Juscelino zela pela cidade”. Imagem: Arquivo Público do DF.

  Também o modo pelo qual contamos a história da cidade está diretamente associado a nossos preconceitos sobre ela, a imagens que teimamos querer que ela tenha – e isso pode nos Certamente a história (ou as histórias, surgindo e adquirindo maturidade de acordo com diferentes, contrastantes e mesmo contraditórios pontos de vista) da cidade é um dos aspectos menos óbvios do ambiente, mas que sintetiza enorme volume de informações sobre o modo pelo qual temos construído o nosso próprio ambiente urbano. Uma das considerações que podemos fazer a esse respeito, é que a história é extremamente adaptativa, é construída sobre fatos, mas de forma seletiva, selecionamos fatos e escolhemos seus alinhamentos.

  Há várias coisas acerca do modo pelo qual contamos hoje a história de Brasília que trai parte de nossas relações ambientais contraditórias. Um primeiro elemento é a sensível “ausência do presente”: o assunto preferido das abordagens históricas relacionadas à cidade está congelada no tempo, entre o governo JK e o golpe militar. Um segundo elemento diz respeito aos episódios da consolidação da cidade no período da ditadura militar, que não foram até hoje esclarecidos satisfatoriamente (a esse período prefere-se explicar sucintamente com o argumento da sede geopolítica do poder, mas inúmeras ações de ajuste e mesmo preservação do projeto urbanístico do Plano Piloto são totalmente ignoradas). Parece ser especialmente doloroso admitir que a consolidação da cidade deveu tanto a um regime autoritário, que essencialmente promoveu ações que a preservaram e, em parte, a valorizaram. Um terceiro elemento diz respeito ao período de democratização e autonomia política da cidade, iniciado em 1985 indo aos dias atuais, e que revela uma impressionante incapacidade de adaptação do sistema de planejamento e gestão territorial às novas demandas ambientais.

  Figura 9 – José Aparecido de Oliveira (1929-2007) foi governador do Distrito Federal no período de 1985-1988. Nesse período algumas experiências de gestão territorial baseadas na preservação de Brasília como patrimônio cultural foram feitas, culminando com o reconhecimento do Plano Piloto de Brasília (o projeto e a obra) como patrimônio cultural mundial no Brasil. Contudo, parte dessas experiências revelou-se segregacionista, acarretando enorme desgaste para seu governo. Aparecido foi discretamente removido, passando a ocupar o cargo de Ministro da Cultura do governo Sarney. Essas experiências criaram novas direções para a gestão da cidade, com base em valores patrimoniais, mas pensados de forma elitista - e francamente manipulados em diferentes contextos políticos posteriores (por diferentes atores e interesses). “Brasília Patrimônio da Humanidade”, o conceito, virou uma poderosa ferramenta de mudança do próprio objeto de preservação. Imagem: Reuters.

  Desde o final dos anos 1980, até os dias atuais (2000), é notável a gestão “populista” planos como o PEOT (Plano Estrutural de Ordenamento Territorial, de 1977). Outros planos que conservam a abordagem marcada pelo controle da ocupação territorial dada pelo PEOT são produzidos até 1985, quando surge a inesperada série de documentos de Lúcio Costa intitulada “Brasília Revisitada” (1985/1987), em que algumas “travas urbanísticas” à ocupação da Bacia do Paranoá são removidas pelo próprio urbanista do Plano Piloto. O impacto “liberalizante” dessa revisitação ainda está por ser devidamente avaliado, mas foi fundamental para que a Bacia do Paranoá se tornasse ambiguamente “área tombada” E “área modificável”, um status territorial imprevisível até 1985 – e contraditório, o que iria se refletir em medidas urbanísticas díspares ao longo dos governos democráticos a seguir.

  Podemos dizer que a partir de 1985, Brasília se expande como uma “metrópole populista”, em contraste ao período da “cidade modernista” (iniciado com a sua inauguração em 1960). A cidade populista é fruto de diversos acontecimentos, realmente inesperados, que se desdobram desde o fim do regime militar (1985), e que tem os governadores do DF, José Aparecido de Oliveira (indicado pelo Presidente Sarney para o período 1985-1987), Joaquim Roriz (indicado pelo Presidente Sarney para o período de 1987-1989, eleito governador para o período 1990-1994, novamente eleito governador para o período 1998-2002) e Cristóvam Buarque (eleito governador, opondo-se a Roriz, para o período 1994-1998) como referências a atores de fundamental importância na redefinição do processo de ocupação urbana do Distrito Federal – dado a forte centralização do poder de gestão urbana no Executivo do DF, por todo esse período.

  Embora a formação da metrópole populista esteja diretamente ligada ao jogo político encenado pelos governadores do DF, pelos deputados distritais eleitos a partir de 1990 e por vários setores da sociedade (e a diversidade e emergência no cenário político de setores populares que até então eram excluídos é extremamente significativa), é possível lançar para o debate uma série de características do que seja esse período recente da evolução urbana do Distrito Federal e dos municípios circunjacentes – seu conjunto é chamado de “Entorno do Distrito Federal”.

  Para sumarizar o enorme volume de informações relacionadas a esse período de

  • 1985- 1987: Primeiro governador do período democrático pós-regime militar, José

  Aparecido de Oliveira tenta restringir a ocupação do Bacia do Paranoá, e mesmo conter a migração para o Distrito Federal, que sempre ocorrera, sendo Brasília um pólo de atração de migrantes;

  • 1987: José Aparecido torna possível o reconhecimento do Plano Piloto de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco, mas torna-se insuportável a sua impopularidade (face a episódios como quando usou a polícia contra as invasões de terras públicas, e deportou pessoas para os seus estados de origem no programa “Retorno com Dignidade”), o que causou sua queda, sendo substituído por um político da região nomeado pelo então Presidente da República José Sarney, o goiano Joaquim Roriz, que passa adotar uma conduta política diametralmente oposta à de seu antecessor;
  • 1987-1990: Roriz inicia a construção de significativa base popular de apoio, sobretudo por sua política de doação de lotes e tolerância face à invasão de terras públicas, intensificando a pressão de migrantes e as iniciativas de especulação com as áreas passíveis de urbanização do Distrito Federal; a partir dos últimos anos da década de 80, surgem os “condomínios irregulares” de classe média, que o Governador Roriz tolera e paulatinamente faz aprovar, apesar de não terem sido planejados ou abonados pelos órgãos de planejamento urbano do Distrito Federal;
  • 1990-1994: Criada a Câmara Legislativa do DF e sancionada sua Lei Orgânica,

  Roriz é eleito governador dando continuidade à sua política de expansão urbana, seja por meio de projetos saídos das pranchetas do governo, seja pela omissão face ao conjunto de ocupações irregulares de terra pública (grilagem) e de loteamentos irregulares em terras privadas e públicas (Mallaguti, 1996).

  • 1994-1998: É eleito, através de coligação de partidos de oposição Roriz o professor Cristovam Buarque, quando aparece pela primeira vez a imagem da formação do novo conjunto urbano de Brasília (mostrada neste livro no trabalho

  

  do geógrafo Rafael Sanzio dos Anjos) , em que uma significativa constelação de invasões e condomínios de classe média – até então “invisíveis” - passam a ter sua existência oficialmente reconhecida. Também no período de Cristovam surge a inovadora experiência do “orçamento participativo”, que busca estabelecer prioridades para obras públicas segundo a manifestação dos interesses dos setores organizados da comunidade (experiência ainda a esperar avaliação, mas que não foi especialmente exitosa);

  • 1998-2002: Roriz é novamente eleito governador, e dá continuidade ao processo de regularização dos condomínios, criando ainda vários setores de expansão urbana, num período em que o impacto ambiental dessa expansão é reconhecido através de indicadores significativos de deterioração ambiental (Correio Braziliense, 31/10/2000).

  Figura 10 – Joaquim Roriz é político que sucedeu ao desgastado José Aparecido de Oliveira no GDF, indicado pelo presidente Sarney, seu vizinho de cerca em suas propriedades rurais (Luziânia, Goiás). Roriz foi governador no período 1988-1990, e buscou reverter toda a linha de ação do governo anterior – que chegou a enviar migrantes de volta a suas regiões de origem, em ônibus pagos com dinheiro público. Roriz acolhe de braços abertos essa cidadania migrante, que se tornará parte de seus futuros eleitores, assim como afrouxa toda a vigilância sobre o território do DF. O resultado é a crescente grilagem em terras públicas – e, em parte, a especulação de novos bairros ilegais em terrenos privados. Cerca de 600 condomínios irregulares se instalam no DF, ao longo da “Era Roriz” (que foi democraticamente eleito em 1990, 1998 e 2002, somente saindo do GDF em 2006, para ser senador da república, função da qual renuncia por denúncia de corrupção ligada ao banco estatal do GDF, meses depois da posse no Senado Federal). Após 18 anos no poder, Roriz deixou uma forte marca na desorganização territorial do DF, agravando seriamente o estresse ambiental do DF e tornando a grilagem uma espécie de bem sucedida política pública – pois foi a atividade transformadora dos padrões de uso do solo mais importante dessa extraordinária Era de populismo. Os custos políticos para o Estado de Direito e para a educação ambiental de Para a agenda comum que pode ser lançada a partir das preocupações da Psicologia Ambiental, certamente será importante levantar alguns pontos que – ambientalmente, mas sob o forte filtro das políticas governamentais e da imposição da escala regional, no caso deste trabalho – parecem ser provocativos e capazes de lançar os estudiosos a explicações de interesse comum:

  ⇒ A cidade populista inicia sua aparição, em parte, com data e intenções bem determinadas, pelo desempenho intencionalmente contrastante de Roriz face a seu antecessor, José Aparecido de Oliveira, em 1987. Roriz buscou imediatamente o apoio popular pela distribuição de lotes, pela fixação dos grupos populacionais que se encontravam em situação de sub-moradia ou perpetrando a “invasão” (como se diz no DF acerca da ocupação ilegal de áreas por particulares, especialmente pessoas de baixa renda) de área públicas, e pela atração de migrantes, gerando novos setores nas cidades-satélites pré-existentes bem como criando rapidamente novas cidades-satélites e criando a condições para que uma pressão “migratória” constante fosse mantida sobre o Distrito Federal;

  ⇒ A cidade populista também se deve, em parte, pela democratização do Distrito Federal, dado que a manutenção do ordenamento territorial previsto em planos como o PEOT (1977) e PDOT (1992, 1996) exigiria uma gestão urbana extremamente autoritária e capaz de impedir a invasão de áreas públicas, de conter a necessidade de incorporação de novas áreas urbanas para abrigar atividades econômicas privadas, e ainda conter a pressão migratória sobre o DF;

  ⇒ A democratização do Distrito Federal acarretou a emergência de novos “loci” de controle do ordenamento territorial, com a aparição de novas constelações de lideranças políticas em torno da máquina pública e em luta pelo controle da terra pública; são composições de poder sobre a ocupação territorial inusitadas e ainda em formação, em que o governador Roriz tem sido o grande responsável por dar permissão à abertura de uma enorme frente de ocupações de terras públicas e loteamentos privados, num longo episódio de grande liberalidade e renúncia

  ⇒ Essa liberalidade parece não implicar em autonomia política das cidades do conjunto urbano de Brasília, pois as políticas populistas ocorrem pela transação direta entre o governador do DF e os setores da população que demandam seus favores, colocando-se a Câmara Legislativa ao serviço das políticas do Executivo distrital. A negociação dos interesses em jogo no processo de ocupação territorial sob Roriz é direta, sem a intermediação de grupos antagônicos organizados como os sindicatos de trabalhadores, mas com a intermediação de grupos conservadores, como no caso das organizações religiosas e empresariais, ou segundo práticas de formação de currais eleitorais nos novos assentamentos, coordenados por administrações regionais;

  

Figura 11- O Lago Paranoá foi idealizado muito antes do Concurso Nacional de projetos de urbanismo para a Nova

Capital do Brasil, pelo engenheiro e botânico Auguste François Marie Glaziou, membro da Comissão Cruls, em 1893.

Seu olho clínico detectou de imediato a vocação dessa área para abrigar uma lago artificial. Essa sugestão foi crucial

para que mais de 60 anos depois o Edital do Concurso Nacional mostrasse em suas pranchas o perfil do Lago de

Glaziou. A banca examinadora do Concurso Nacional fez 4 críticas à proposta de Lúcio Costa, 2 delas com respeito

ao modo com que o Lago Paranoá participava de sua concepção de cidade: (1) “Demasiada quantidade

indiscriminada de terra entre o centro governamental e o Lago”; (2) “ A parte mais longínqua do Lago e as penínsulas

não são utilizadas para habitações”. Essas imprecisões, e o modo como a ocupação se efetivou – repleta de

  ⇒ Falamos de tempos tremendamente adaptativos e pragmáticos. O populismo corrente na década de 1990 no Distrito Federal reduziu drasticamente as restrições à ocupação territorial do DF, propiciando brechas na ordem territorial consolidada pela “cidade modernista” e permitindo a sua irreversível ocupação. Mas, em termos de desmonte da ordem, há ainda muito o que fazer, pois o Plano Piloto e o padrão de ocupação da Bacia do Paranoá elevaram o ordenamento territorial a uma altura rara de ser atingida nas demais cidades brasileiras. O ordenamento modernista parece ser o oposto ao vernáculo, e uma ordem territorial que exige uma gestão definitivamente autoritária. As investidas contra essa ordem são aceitas e aceleradas pelos governos populistas, instaurando-se a flexível, “libertadora” ordem da livre iniciativa de ocupação do território;

  Figura 12 – Os anos 1990 e a primeira década do século 21 assistiram a episódios de completo desrespeito à integridade da concepção urbanística da Brasília. Um dos exemplos mais infames é o Blue Tree Park Hotel, construído de forma a ocupar área lindeira ao Palácio da Alvorada. Obra de Ruy Othake, de uma medíocre qualidade arquitetônica, nada tem do bom gosto e da elegância da arquitetura predominante na cidade, além de agredir a residência presidencial com sua espalhafatosa presença. A imagem de Brasília se corrompe paulatinamente. Imagem: BTPH.

  ⇒ Os defensores do tombamento não parecem defender a “ordem urbana modernista”, paradoxalmente, mas engalfinham-se na defesa de um grande objeto chamado Plano Piloto de Brasília; impressiona que admiradores de uma máxima realização do pensamento arquitetônico modernista não tenham até hoje articulado a defesa de princípios de ordenamento maiores, que atingem a sociedade e o

  A defesa do Plano Piloto como um objeto físico, como cenário, está fadada a duros golpes (como os que tem sofrido desde os primeiros ajustes da proposta de Lúcio Costa, ainda no final da década de 1950), pois sua intocabilidade depende de um modo de gestão territorial intrinsecamente associada à sua concepção urbanística. O problema é que esse modo de gestão é autoritário e pouco adaptativo, e as formas de ordenamento territorial das cidades em regimes democráticos são tremendamente adaptativas (ver Kelly & Becker, 2000), e devem abrir a possibilidade de ajuste às novas situações, de forma razoavelmente controlada. Em parte, isso existe nas políticas populistas de Roriz, que tem se comportado de forma “libertária” e ambiguamente autoritária, sob o aspecto do controle territorial. É notável, no caso do Distrito Federal, que esse governador tornou-se o principal agente de mudanças no urbanismo da cidade, por aproximadamente uma década e meia. Comporta-se como um “libertador” e é um líder populista com traços de religiosidade: é um fenômeno de liderança que merece mais estudos por aproveitar-se politicamente da mesma estrutura de poder centralista e tecnocrática que foi criada para gerir autoritariamente o conjunto urbano de Brasília;

  Figura 13 – Outro eminente episódio de desrespeito ao projeto urbanístico da cidade é o empreendimento “Ilhas do Lago”, do grupo do atual vice-governado do DF, Paulo Octávio. Iniciado em 2004, esse empreendimento nada mais é que uma quadra residencial privada em uma área que deveria ser destinada a hotéis. Somam-se a essas mudanças os projetos dos novos setores Sudoeste e Noroeste – propostos, contraditoriamente, pelo próprio Lúcio Costa em seu escrito “Brasília Revisitada”, de 1987. A área sagrada do Plano Piloto se torna cada vez mais pressionada a receber investimentos de luxo, e o governo do DF mostra-se complacente, sem resistir ao paulatino assédio dos

  ⇒ O espaço urbano produzido ocorre em duas frentes: a oficial, em assentamentos que obedecem, na maioria dos casos, aos mesmos princípios de ocupação determinados pelo PEOT (1977) – com a exceção de cidades como São Sebastião e Paranoá -, e a frente irregular, em que loteadores ocupam áreas públicas ou dividem áreas privadas sem a autorização governamental, com projetos urbanísticos próprios e sem qualquer controle executivo de qualidade ou de observação de padrões da legislação ambiental, gerando dezenas de milhares de novos lotes urbanos à volta da Bacia do Paranoá (para a classe média) ou à volta das bacias do Rio São Bartolomeu e do Rio Descoberto (menor renda); os municípios goianos e mineiros contíguos ao Distrito Federal vêm tendo suas áreas rurais loteadas de forma acelerada, respondendo em parte pelas demandas decorrentes da pressão migratória dirigida ao DF;

  ⇒ Não está sendo feita a avaliação do efetivo impacto realizado por esse episódio de acelerada ocupação territorial do DF (que já se estende por mais de uma década), que, além disso, ocorre majoritariamente em áreas “invisíveis”, junto a faixas de nascentes e sobre solos frágeis ou de ocupação sujeita a riscos; a contaminação do lençol freático e os limites ao fornecimento de água potável são dois importantes conjuntos de fatores ambientais que devem gerar indicadores quanto à exaustão da corrida pela ocupação dos espaços de expansão urbana, formais ou informais;

  ⇒ A consolidação de condomínios e assentamentos irregulares amplia consideravelmente o perímetro urbano do conjunto de cidades de Brasília, e é provável que enseje, continuamente, novos impulsos de crescimento “pontuais”, mas que no seu somatório podem vir a implicar no crescimento informal do conjunto urbano, auxiliado pelo já evidente colapso da capacidade e efetividade da fiscalização sobre a ocupação territorial do DF; questiona-se se esse crescimento informal, deixado a seu próprio desígnio, implicará em espaços públicos e privados que ensejem uma vida pública afluente e bem equipada; questiona-se se crescimento majoritariamente informal (ao qual vimos chamando de “formação da metrópole populista”) será suportável pela economia distrital. Qual seria o caminho a tomar ? Haveria alternativa à formação da metrópole populista

  ? Acreditamos que uma das práticas adotadas pelo governo do principal opositor a Roriz, Cristovam Buarque, referente ao debate “participativo” deveria necessariamente ser aprofundado, como forma de gerar soluções de um modo não-autoritário, que implicasse na participação ativa da população não apenas na tomada de decisões mas em sua implementação e avaliação, num processo oposto ao politicamente alienante – e ambientalmente impactante – populismo que caracteriza a atual gestão democrática do território do Distrito Federal. Num sentido profundo, o que se discute é a educação ambiental.

  A QUESTÃO DO PROJETO PARTICIPATIVO A abordagem que propomos discutir toma a avaliação continuada, pública e publicada, a longo prazo, dos projetos e dos espaços gerados pelo planejamento estatal ou pela iniciativa privada como a mais importante base de orientação para o desenho urbano. A orientação pela avaliação é o paradigma, e não essa ou aquela “grande” solução de projeto. A avaliação deve estimular a formação de diversas “teorias” sobre a cidade, que exponham os nexos da constituição urbana desde os pontos de vista contraditórios que são colocados por diversos grupos sociais. Pode-se entender por “processo participativo no projeto urbanístico” os esforços de “validação” dos interesses que melhor representem as necessidades da comunidade – especialmente aqueles que são sub-representados na formação do ambiente construído, como no caso dos portadores de deficiências, dos idosos, das crianças e outros grupos ambientalmente vulneráveis -, envolvendo essencialmente o exercício do direito a um mínimo de qualidade de vida.

  Em alguns dos casos de processos que envolvem a participação comunitária, é difícil compreender que o processo “nominalmente” participativo venha a atingir consistentemente alguns dos objetivos de projeto (face às necessidades de socialização e desenvolvimento individual, de formação da identidade, de elevação da segurança individual e dos grupos mais vulneráveis, de conforto ambiental, etc.), se o projetista comporta-se de forma “isolada” legitimadora, pois não tem controle das forças de execução dos projetos feitos em seu nome e não é chamada a participar da gestão dos recursos ambientais criados “à sua imagem”, pode ter um custo ambiental (ou ambiental-comunitário) tão elevado quanto as soluções de projeto autoritário ou não-participativo. No presente enfoque, a participação da comunidade no projeto urbano – ou, mais amplamente, na gestão ambiental – também é legitimadora, mas é fundamentalmente um modo de conhecer problemas. Deve-se buscar a participação das pessoas não apenas porque elas dão um certo tipo de “representatividade” às elaboradas decisões da equipe de planejamento, mas porque a equipe de planejamento não conhece o conjunto de inter-influências em jogo nos problemas ambientais que forma a sua agenda de trabalho.

  De um certo modo, o projeto embasado na participação comunitária – como um novo paradigma de projetação – também pode se transformar num novo modismo e mostrar-se tão ineficaz quanto o planejamento autoritário que caracteriza a gestão modernista do território, caso seja feito de modo superficial e não-avaliado, seja como um modo de geração de cenários, seja como forma de tomada de decisão em projetos urbanísticos (Till, 1998).

  Há uma questão de epistemologia do projeto envolvida: de um modo simples, o ambiente é algo que se sente, que se conhece, “na pele”. As equipes de planejamento, tal como as concebemos, buscam não se envolver com essa dimensão de “imergência” congênita à compreensão da questão ambiental, devido ao fundamentado temor de serem “tragadas” pela realidade das comunidades mais ameaçadas por desequilíbrios ambientais causados pela ação humana. O formalismo existente no nível do planejamento governamental provoca essa

  

aporia ou aparente impossibilidade epistemológica, e mesmo que se tenha “informação” bem

  qualificada sobre os problemas ambientais desde o ponto de vista da comunidade, é provável que os setores de projeto simplesmente não consigam processar essas informações através de projetos que respondam a esses problemas.

  A participação comunitária pode ser assim perfunctória e obedecer a apenas outro ritual burocrático, embora mais democrático na aparência. E parece não haver muitas saídas, pois a “livre iniciativa” na gestão territorial e urbana, na ausência dos departamentos ambiental-comunitário) torna-se tão grave quanto o que resulta, a longo prazo, do planejamento governamental não-avaliado. Uma exemplificação disso é feita adiante, quando escrevemos sobre o “não-projeto” da cidade populista, no caso de Brasília.

  Bonnes e Secchiaroli (1995) estudam modelos comportamentais aplicados à gestão ambiental que podem guiar estudos acerca das relações entre determinados “atores”, como os que vimos aludindo: a) os tomadores de decisão ambiental (“institucionalmente em posição para decidir – através da aprovação, promulgação, aplicação de normas, projetos e planos – sobre o sistema ambiental em questão: são as autoridades locais [urbano, municipal, metropolitano, regional] ou nacionais”); b) os técnicos ou expertos ambientais (“que possuem competências ambientais específicas [pela preparação científico-disciplinar ou técnica]: são os planejadores, arquitetos, engenheiros, pesquisadores e técnicos de várias ciências ambientais, geralmente chamados pelos tomadores-de-decisões para proverem de know-how e de propostas apropriadas que direcionem as decisões ambientais relacionadas”); c) os usuários dos ambientes em questão (“que ocupam o ambiente no sentido físico [vivem ou trabalham nele] ou num sentido normativo [são proprietários ou titulares do direito de uso]”).

  Estudos já realizados sobre Brasília apontam, num passado recente, para a formação de abordagens da questão ambiental que enfatizam especialmente as relações entre tomadores de decisão e o estamento técnico (como Farret, 1985; Bicca, 1985) no ordenamento territorial – ou na análise da natureza da “ordem territorial” subjacente à criação da nova capital. Apesar de a participação comunitária ter entrado em cena timidamente, como diretriz de formulação de algumas políticas e instrumentos decisórios públicos ao longo do período de governo de Cristovam Buarque (1994-1998) no Governo do Distrito Federal (GDF), temos que a gestão urbana de Brasília já envolve um painel de considerável complexidade face às suas abordagens de projeto urbanístico e quanto à acumulação de impactos ambientais sobre a qualidade de vida das comunidades urbanas

  Essas experiências de participação comunitária nas políticas ambientais – num sentido amplo - devem ser objeto de discussão mais aprofundada, pois ao atender aos seus papéis: a) legitimadores das políticas urbanas, e b) fundamentadores dos conhecimentos necessários aos urbana. E isso significa partilhamento de poder por instâncias representativas a nível urbano, municipal, metropolitano, regional, face às instâncias centralizadoras das decisões acerca da ordem ambiental no território.

  CONCLUSÃO Devemos desenvolver uma nova teorização sobre Brasília, como experiência urbana modernista e democrática, pois nos parece que é crucial a contínua re-explicação da cidade, como “informação” essencial para a gestão da cidade. Brasília é como uma “tese de urbanismo” em continuada defesa, sempre exigindo mais reflexão e novas referências. Isso poderia se aplicar a muitas outras cidades, mas a questão é que a “tese inicial” desta cidade representou uma promessa de enorme avanço para o projeto das cidades, pelo menos para os estudiosos do urbanismo. Se, inicialmente, a explicação necessária deveria ser dedicada a mostrar como poderia ser construída – e mesmo como viver nela -, precisamos agora de informações sobre como torná-la ambientalmente mais ajustada, envolvendo lado a lado a consideração de processos físicos e processos políticos de ação.

  No nível da gestão territorial, as preocupações específicas da psicologia ambiental se confundem com as preocupações partilhadas pela geografia, pelo urbanismo, pela sociologia, pela economia, pela ciência política. Mas parece-nos especialmente importante a captura de explicações alternativas e complementares, aguçadas e baseadas na observação da realidade urbana, de modo a nos permitirem ponderar e avaliar a qualidade ambiental segundo mais de uma ótica – se possível pela ótica de todos os interessados. As medidas de maior importância para a cidade, neste ou a qualquer momento deveriam considerar a gestão urbana como uma extraordinária oportunidade de educação ambiental – o que garante, pelo menos, alguma “qualidade de consciência ambiental”, não garantindo muitas outras qualidade ambientais objetivas. Mas já é um (re)começo.

  

Figura 13 – Brasília é uma cidade prototípica (Günther & Rozenstraten, 1994), e apresenta oportunidades únicas

para a pesquisa em psicologia ambiental, acerca de seus espaços cerimoniais, da alta padronização das Superquadras, que efetivamente apresentam gradientes sociais em ciclos variados (etários, de origem, de

ocupação, de composição familiar, etc) de transformação. As formas de integração entre edificações e espaços

urbanos tem instâncias únicas na formação da área da Esplanada dos Ministérios, de seus Setores de Diversão

  e, claro, nas Superquadras. A grande proporção de área públicas destinadas a jardins também oferece uma agenda especialmente dedicada ao tema do paisagismo urbano, de forma única. Além disso, os inúmeros “pontos cegos” do projeto – o lazer urbano, a vida de rua, a vida noturna, o uso dos espaços por crianças e

adolescentes, por idosos e sua leitura por visitantes, deve enriquecer ainda mais essa agenda comum. Imagem:

Google (Domínio Público).

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