Os quatro espaços antropológicos (do saber) A Terra

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  Os quatro espaços antropológicos (do saber) A Terra A Terra, a grande Terra nômade foi o primeiro espaço ocupado pela humanidade.

  Nossa espécie produziu a Terra, elaborando o mundo humano como tal. A Terra é justamente o mundo de significações, que irrompe no paleolítico, na linguagem, nos processos técnicos e nas instituições sociais. A humanidade inventou a si própria, desenvolvendo a Terra sob seus passos e em torno dela, a Terra que lhe alimenta e que lhe fala, a Terra que perpetuamente ele recria por meio de seus cantos, seus atos rituais.

  A Terra não é o solo originário, nem o tempo das origens, mas o espaço-tempo imemorial ao qual não se pode atribuir origem, o “espaço desde sempre presente” da espécie, que contém e supera o começo, o desdobramento e o futuro do mundo humano. A Terra não é um planeta, nem mesmo a biosfera, mas um cosmo em que os seres humanos estão em comunicação com os animais, plantas, paisagens, lugares e espíritos. A Terra é esse espaço em que os homens, as pedras, os vegetais, os animais e os deuses se encontram, falam-se, fundem-se e separam-se, para se reconstruir perpetuamente. A Terra é o lugar das metamorfoses, as de Ovídio, as de Empédocles ou as de Lucrécio, as que povoam os sonhos dos aborígenes da Austrália, as de todos os grandes relatos míticos.

  Sobre a Terra, tudo é real, e a visão obtida em transe, a fala inspirada pelos deuses não contradizem necessariamente o juízo prudente. Sobre a Terra nômade, o sonho e o despertar não são confundidos, mas sustentam-se, interpretam-se e alimentam-se reciprocamente. O animais vivem em um nicho ecológico. O homem excede imediatamente todo o nicho, vive sobre uma Terra que ele elabora e reelabora constantemente por meio de suas linguagens, ferramentas e edifícios sociais complicados e sutis, nos quais se mescla constantemente ao cosmo. O homem não vive em um nicho, como um cão, pois ele contempla as estrelas, inventa deuses que o inventam, dá a si mesmo a águia ou o leopardo como ancestrais, vive entre os signos, os relatos e os mortos. É o único animal que vive no voltada à Terra, ao cosmo dos animais e das plantas que falam, a espécie voltada ao “caosmos” das metamorfoses.

  A revolução neolítica não suprimiu, evidentemente, a grande Terra nômade e selvagem, o jardim “imemorial”. O inconsciente é uma palavra muito pouco adequada para expressar essa permanência da Terra, pois nos remete a uma esfera minúscula, pobre, individual, familiar, da qual o cosmo foi excluído. A grande Terra caósmica está sempre presente, ressoando bem longe sob nossos passos, sob o concreto dos territórios, sob os signos derrisórios do espetáculo. Atravessando as fronteiras das identidades, o coração da Terra ainda canta sua louca canção de sonho e de vida, que mantém a existência de mundo.

  O Território

  De doze mil anos para cá, difunde-se sobre a Terra, por meio de placas cada vez mais amplas, manchas dispersas que se unem ao longo dos séculos, um segundo espaço antropológico, o de Território. A domesticação e a criação de animais, a agricultura, a cidade, o estado, a escrita, uma estrita divisão social do trabalho...inovações que não ocorrem sempre na mesma ordem, dependendo do lugar. Mas, quando se conectam e reforçam-se reciprocamente, adquirem uma força irreversível, uma potência de expansão, uma tal permanência que um novo mundo humano se estabelece efetivamente, o mundo sedentário da “civilização”.

  Sem dúvida, o espaço do Território abriu-se pela primeira vez no Oriente Próximo, no Crescente Fértil, Irã e Anatólia. Mas há também um neolítico chinês, mais tardio, um neolítico mexicano ou inca mais tardio ainda. O neolítico não é considerado aqui como um período da história, mas como um espaço antropológico atemporal que, uma vez surgido, repercute imediatamente sobre todo o passado, todo o futuro da espécie. A agricultura, a cidade, o Estado ou a escrita são daí por diante virtualidades inerentes à humanidade, que remetam umas às outras e contribuem, cada uma à sua maneira, para quadricular o território.

  As figuras emblemáticas do primeiro espaço, o da Terra, poderiam ser um caçador do paleolítico superior pintando um grande cervídeo na parede de uma gruta, ou um aborígene da Austrália, nu, lança na mão, cantando o sonho de seu clã ao longo de um trajeto imemorial. Na lápide que limita o Território estão gravados talvez os grandes feitos de Sargon de Agadés, rei dos Quatro Países, o primeiro imperador da história que unificou por meio de suas conquistas todas as cidades-estados da Mesopotâmia. No ponto focal do Território, talvez haja uma pirâmide, cobrindo com sua sombra todo um povo de felás, de artesãos, de escribas e também de soldados, todos ali, nas fronteiras; uma pirâmide dominando campos de cevada e trigo, todo um labirinto de canais de irrigação, e de cidades, com seus lugares, suas ruas, seus córregos, seus templos, suas estátuas e seus muros; uma pirâmide conduzindo aos séculos futuros a múmia do faraó.

  O Território trabalha para recobrir a Terra nômade, diminuir as margens. Canaliza os rios, seca os mangues, desbasta as florestas inextrincáveis – florestas que queimam continuamente desde o primeiro neolítico -, lança pontes sobre os rios, as ravinas; e as calçadas com pedras, nas linhas demarcatórias, ressoam ao passo das legiões. Exércitos, polícias, administrações, coletores de impostos e arrecadadores de tributos também civilizam os homens, constroem o Território a partir de dentro, edificam nos costumes e na alma coletiva dos povos uma pirâmide social. Toda hierarquia traz em si, como uma criança nascida morta, a múmia do faraó.

  O Território instaura com a Terra uma relação de depredação e destruição, ele a domina, fixa, encerra, inscreve e mede. Mas os rios transbordam, a floresta avança, os saqueadores do deserto vêm pilhar os tesouros acumulados, mulheres e homens abandonam seus campos, suas casa e partem. A Terra volta sempre, irrompe do meio do Território. Ibn Khaldoun via na luta entre os princípios nômade e sedentário, no conflito dos espaços, a dialética da história.

  O trigo e as lentilhas, o arroz e a soja, o feijão e o milho, o boi e o carneiro povoam as paisagens construídas, dominadas. O homem do alto neolítico habita um cosmo renovado, na cidade um anonimato, uma nova liberdade. A escrita lhe abre outro tempo. Uma potência aumentada cabe não ao indivíduo, mas à grande máquina social, ao Estado. Os seres humanos multiplicam-se então na beira dos rios, nos deltas e nas planícies férteis.

  O Espaço das mercadorias

  Terá sido na aurora do milagre grego, com a criação da moeda e do alfabeto, quando os signos começaram a circular mais rápido, lateralmente, escapando à pesada hierarquia das castas? Devemos datá-lo da Renascença, que vê o triunfo da impressão, essa primeira indústria, esse primeiro meio de comunicação de massa, enquanto na mesma época os navegadores europeus alcançam todos os continentes, construindo o primeiro mercado mundial? Não seria antes em meio às fumaças da Revolução Industrial, no século XVII, que se abre o Espaço das mercadorias? Não o espaço usual de trocas ou de comércio, mas uma espécie de novo mundo tecido pela circulação contínua, cada vez mais intensa, cada vez mais rápida, do dinheiro. Letras de câmbio, cheques, pagamentos a prazo, títulos, divisas, taxas de lucro, finanças, especulação, cálculo.

  Esse mundo primeiramente flutuante, disperso e inconsistente só atinge, para começar, a superfície e as margens da vida social. Mas consegue, como resultado de uma extraordinária conjunção histórica, reunir os membros dispersos: moeda, banco e crédito, populações policiadas, apesar da ausência de um grande império despótico, capitais e técnicas, mercados externos, trabalhadores subtraídos aos campos, imaginário ou desejo coletivo já escapando ao Território, buscando outro espaço, outras velocidades... Esse novo mundo acaba crescendo sozinho, vivendo sua própria vida. Atravessando as fronteiras, abalando as hierarquias do Território, a dança do dinheiro traz consigo, em uma evolução acelerada, uma maré ascendente de objetos, signos e homens. Barcos a vapor, estradas de ferro, automóveis, estradas, acidentes, auto-estradas, cemitérios de carros, caminhões, cargueiros, petroleiros, aviões, metrôs, TGV (trens de grande velocidade), transportes, circuitos, circulação, distribuição, saturação, rapidez imóvel.

  O espaço das mercadorias é aplainado, mantido, aumentado por uma máquina desterritorializante, que se auto-organizou de uma só vez e a partir daí se alimenta de tudo o que encontra pela frente. Como o rei Midas transformava inevitavelmente em ouro tudo o que tocava, o capitalismo transforma inelutavelmente em mercadoria tudo o que consegue incluir em seus circuitos. Trigo, peles, algodão, tecidos, panos, roupas, máquinas de costura, produtos químicos, adubos, medicamentos, conservas, congelados, geladeiras, máquinas de lavar, tabaco, lixívia, fraldas, sabões, objetos inúmeros, acumulação de coisas, lojas, estoques, entrepostos, catálogos, grandes superfícies, embalagens, caixas, vitrinas, consumo, dejetos, descarga.

  O capitalismo só funciona graças ao Estado territorial, arrastando para suas torres, graças à ciência e à técnica, os fluxos e signos do cosmo terreno, de um cosmo redefinido, reinterpretado como recurso, reconstruído, reconstituído, novamente desdobrado pela ciência e pela técnica, televisado, simulado: elétrons e proteínas, barragens sobre o Amor ou sobre o Yang Tse – o tecnocosmo. Minas de ferro e de carvão, emissões de grisu, máquinas a vapor, trabalho, indústrias têxteis, tratores, colheitadeiras, pesticidas, fornos de alta temperatura, poços de petróleo, refinarias, trabalho, usinas a gás, asma, bronquites, centrais térmicas, centrais hidráulicas, centrais atômicas, eletricidade, trabalho, cabos, redes, luzes, néons, máquinas automáticas, robôs, trabalho, greves, concreto, vidro, aço, plástico, escritórios, centros de negócios, reuniões, trabalho, trabalho, trabalho, desemprego.

  Quando o Espaço das mercadorias adquire autonomia em relação ao Território, ele não abole pura e simplesmente os espaços anteriores, mas sujeita-os, organiza-os segundo seus próprios objetivos. O velho Território neolítico é estendido, mesclado, atravessado, furado, descosido, recoberto pelo tecnocosmo mercantil. O capitalismo é “desterritorializante”, e o movimento da indústria e do comércio foi durante três séculos o motor principal da evolução das sociedades humanas. A humanidade contava cerca de 750 milhões de homens em meados do século XVIII, seis bilhões no ano 2000. Seis bilhões que habitam doravante entre as ruínas da Terra e os monumentos erodidos do Território, o tecnocosmo, sua velocidade, sua flotilha de imagens sem memória. Canhões, obuses, blindagens, explosivos, bombardeiros, Zyclon B, cruzadores, porta-aviões, bombas atômicas, bombas de fósforo, de fragmentação, de efeito, helicópteros, mísseis, radares, guerras e destruições.

  Se Marx fez da economia a “infra-estrutura” das sociedades humanas, e do exame dos “modos de produção” a chave da análise histórica, foi porque, no século XIX, o espaço dominante era efetivamente o das mercadorias. Mas só existe “base econômica” com o capitalismo, nas antes, e talvez não para sempre... Contudo, a grande máquina cibernética do capital, sua extraordinária potência de contração, de expansão, sua flexibilidade, sua capacidade de insinuar por toda parte, de reproduzir continuamente uma relação mercantil, sua virulência epidêmica parecem invencíveis, inesgotáveis. O capitalismo é irreversível. É daqui por diante a economia, e a institui como dimensão impossível de ser eliminada da existência humana. Sempre haverá o Espaço das mercadorias, como sempre haverá a Terra e o Território. Máquinas de escrever, gráficas, jornais, revistas, fotos, anúncios, publicidade, cinema, astros, telefone, rádio, músicas variadas, televisão, discos, música clássica, gravadoras, cassetes, cadeias hi-fi, rock, música barroca, walkman, videogames, multimídia interativa, músicas mundiais, museus, foguetes, satélites, computadores, telemática, informação, comunicação, bancos de dados, viagens organizadas, “imóveis inteligentes”, água e gás em todos os andares, pesquisa e desenvolvimento, manipulações genéticas, “arte”, “cultura”, espetáculo.

  Que nova dimensão antropológica permitiria escapar ao redemoinho do capital? Que movimentos ainda mais rápidos, mais envolventes que os da economia desterritorializarão a desterritorialização? Eis que a camada mercantil, céu da humanidade contemporânea, ondulando em sua ascensão vertiginosa, sofre um furo, abrindo para outro espaço.

  O Espaço do saber

  Sejamos francos: o Espaço do saber não existe. É, no sentido etimológico, uma u- topia, um não-lugar. Não se realiza em parte alguma. Mas se não se realiza já é virtual, na mesclado, produzindo rizomas aqui e ali. Emerge por meio de manchas, em pontilhado, em filigrama, cintila sem ter ainda constituído sua autonomia, sua irreversibilidade. Essa cristalização de um livre Espaço do saber ainda se encontra submetido às exigências da competitividade e aos cálculos do capital. No Território, ele se subordina aos objetivos de potência e de gestão burocrática dos Estados. Na Terra, enfim, ele é sempre absorvido nos mundos cerrados e nas mitologias arcaicas da new age ou da deep ecology, como se a diversidade da vida, os astros, as energias cósmicas, as grandes imagens do inconsciente coletivo não fossem continuamente produzidos pelos sonhos, signos e maquinações dos homens, como se houvesse uma natureza, como se a grande terra não fosse delirante, plural, nômade.

  Mas o que é o saber? Não se trata apenas, é claro, do conhecimento científico – recente, raro e limitado -, mas daquele que qualifica a espécie: homo sapiens. Cada vez que um ser humano organiza ou reorganiza sua relação consigo mesmo, com seus semelhantes, com as coisas, com os signos, com o cosmo, ele se envolve em uma atividade de conhecimento, de aprendizado. O saber, no sentido em que o entendemos aqui, é um savoir- vivre ou um vivre-savoir, um saber co-extensivo à vida. Tem a ver com um espaço cosmopolita e sem fronteiras de relações e de qualidades; um espaço da metamorfose das relações e do surgimento das maneiras de ser; um espaço em que se unem os processos de subjetivação individuais e coletivos.

  O pensamento não se reduz aos chamados discursos racionais. Existem pensamentos-corpo, pensamentos-afeto, pensamentos-percepção, pensamentos-signo, pensamentos-conceito, pensamentos-gesto, pensamentos-máquina e pensamentos-mundo. O Espaço do saber é habitado, animado, por intelectuais coletivos – imaginantes coletivos – em permanente reconfiguração dinâmica.

  Os intelectuais coletivos inventam línguas mutantes, constroem universos virtuais,

  

ciberespaços em que buscam formas inéditas de comunicação. Repitamos: o quarto espaço

  não existe, no sentido de que ainda não adquiriu autonomia. Mas em outro sentido, desde o advento de sua virtualidade, sua qualidade de ser é tal que seu grito ecoa na eternidade: o Espaço do saber sempre existiu.

  O Espaço do saber associa-se à Terra. É outra Terra, mão mais imemorial, centrada, fechada: uma esfera de artifícios atravessada por clarões, signos mutantes, um planeta cognitivo de velocidades fulminantes, uma tempestade eletrônica que duplica, pluraliza e desregula a velha Terra nômade dos animais, das plantas e dos deuses. O espaço do saber não é um retorno à Terra, mas um retorno da Terra sobre si mesma, um sobrevôo da Terra por si mesma na velocidade da luz, uma diversificação cósmica incontrolada.

  Ao lado de índices bastante inquietantes que voltam nosso olhar aos aspectos sombrios da Terá, do Território e do universo mercantil, a passagem ao terceiro milênio contém os germes, a figura virtual de um Espaço de saber autônomo. Não se trata de autonomia do conhecimento científico em si mesmo, que tem seu direito reconhecido há pelo menos vinte e cinco séculos, mas de um espaço do vivre-savoir e do pensamento coletivo que poderia organizar a existência e a sociabilidade das comunidades humanas. Esse quarto espaço antropológico, caso venha a se desenvolver, acolherá formas de auto-organização e de sociabilidade voltadas para a produção de subjetividades. Intelectuais coletivos caminharão nômades em busca de qualidades, modalidades de ser inéditas. Não será exatamente o paraíso na Terra, uma vez que os outros espaços, com suas coerções, continuarão a existir. O programa dos intelectuais coletivos com certeza não é destruir a Terra, nem o território, nem a economia de mercado. Pelo contrário, a vida a longo prazo dos três primeiros espaços – além de uma sobrevivência longa e precária – é, sem dúvida, condicionada pelo aparecimento de um novo plano de existência para a humanidade.

  Nenhum grande entardecer fará surgir o espaço do saber, mas muitas pequenas manhãs.

  LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva. Edições Loyola: São Paulo, 2000

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