LUCAS DALFOLO CASSANTA O CENÁRIO POLÍTICO SUL-RIO-GRANDENSE NO GOVERNO: Sinval Guazzelli 1975-1979

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LUCAS DALFOLO CASSANTA

O CENÁRIO POLÍTICO SUL-RIO-GRANDENSE NO GOVERNO: Sinval Guazzelli 1975-1979

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O CENÁRIO POLÍTICO SUL-RIO-GRANDENSE NO GOVERNO: Sinval Guazzelli 1975-1979

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas – do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientadora: Prof.ª Ms.ª Lenir Cassel Agostini

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O CENÁRIO POLÍTICO SUL-RIOGRANDENSE NO GOVERNO: Sinval Guazzelli 1975-1979

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas – do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

_________________________________________________ Lenir Cassel Agostini – Orientadora (UNIFRA)

__________________________________________________ Elisabeth Weber Medeiros (UNIFRA)

_________________________________________________ Luis Augusto Ebling Farinatti (UNIFRA)

Aprovado em_____de________________de 2008.

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cenário político sul-rio-grandense no governo Sinval Guazzelli 1975-1979” e as ações do governo civil-militar brasileiro. Fundamenta-se em fontes bibliográficas e documentais, nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo, localizados no Museu da Comunicação Hipólito da Costa em Porto Alegre. Buscou-se, na história política, os pressupostos teóricos para a estruturação do cenário político brasileiro e suas influências no Estado do Rio Grande do Sul. Nesse universo percebe-se a instituição do governo civil-militar e a constatação de suas imposições políticas tanto no desenvolvimento do país, como em suas ações repressivas. Dessa forma, sugere-se que, a partir das intervenções do Estado brasileiro nas políticas nacionais, as ações refletidas no Estado do Rio Grande do Sul são atribuídas ao aparato doutrinário e legitimador do regime civil-militar, principalmente no que diz respeito às políticas repressivas, como é o caso da atuação da Operação Condor em 1978 no Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: Política, Governo civil-militar, Rio Grande do Sul.

ABSTRACT

This research work aims to identify and investigate the symmetries between "the south-rio-grandense political landscape in government Sinval Guazzelli 1975-1979" and the actions of the civilian-military Brazilian government. It is based on bibliographic and documentary sources, the newspapers Correio do Povo, Zero Hora, Jornal do Brasil and O Estado de São Paulo, located in the Museum of Communications Hipólito da Costa in Porto Alegre. The objective was, in political history, the theoretical assumptions for the structuring of the Brazilian political landscape and its influence on the state of Rio Grande do Sul. In this universe, it can be found the institution of civil-military government and the establishment of its political impositions in the development of the country and in its repressive actions. Thus, it is suggested that, from the Brazilian state interventions in national policies, actions reflected in the state of Rio Grande do Sul are attributed to the doctrinal and legitimator apparatus of civil-military regime, especially with regard to repressive policies, such as the role of the Operação Condor in 1978 in Rio Grande do Sul.

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1 INTRODUÇÃO...

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2 REFERENCIAIS TEÓRICOS...

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3 METODOLOGIA...

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4 RESULTADOS E DISCUSSÕES...

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4.1 O Cenário Político Brasileiro (1975 A 1979)... 15

4.2 Reflexos políticos do governo civil-militar no Rio Grande do Sul (1975-1979)... 30

CONSIDERAÇÕES FINAIS...

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1 INTRODUÇÃO

Através desta pesquisa busca-se examinar de que forma se consolidaram as políticas públicas do governo civil-militar brasileiro, tendo como objetivo os reflexos políticos no Estado no Rio Grande do Sul entre os anos de 1975 e 1979.

Para tanto, em um primeiro momento, foi necessário um estudo do processo de construção do cenário político brasileiro a partir do ano de 1964, momento em que é instituído o governo civil-militar no Brasil, abordando-se aspectos fundamentais para a instalação e a consolidação de tal aparato governamental, tais como: a Doutrina de Segurança Nacional, os Atos Institucionais, o complexo formado pelo IPES/IBAD, o SNI e a formação do bipartidarismo refletidos na criação da ARENA e do MDB, além de determinadas políticas econômicas.

No segundo momento, foram identificados os reflexos da política nacional no cenário político do Rio Grande do Sul entre os anos de 1975 e 1979, período em que o Estado era governado pelo governador Sinval Guazzelli, destacando-se tanto as políticas de desenvolvimento, como a omissão no setor da Segurança Pública, evidenciada no caso do seqüestro dos uruguaios na cidade de Porto Alegre no ano de 1978.

A importância dessa temática evidencia-se em identificar os investimentos em setores importantes para o desenvolvimento econômico do país, além de demonstrar que as lideranças políticas, principalmente da ARENA, em concordância com o governo civil-militar, embasaram a suspensão dos direitos humanos e a perseguição de opositores do sistema.

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2 REFERENCIAL TEÓRICO

Para construir este trabalho, foi necessário buscar um embasamento teórico, com o objetivo de esclarecer os conceitos básicos de Estado, política, governo, sociedade, para um maior entendimento da conjuntura política do período da temática proposta.

Nessa perspectiva, basicamente o Estado é uma instituição organizada de forma política, social e jurídica, constituindo-se na autoridade governamental de uma unidade política, que ocupa um território previamente definido. Para entender melhor esse conceito, o Estado, derivado do “sistema social”, seria uma espécie de subsistema, pois, com base em Aristóteles, por exemplo, a família representa a primeira forma da Pólis, sendo o ponto de partida da política. Além da família, ainda existem para Aristóteles outras formas sociais, ou seja, associações “formadas para o alcance de fins particulares”, estando submissas à sociedade política, que propõe uma serventia geral, contemplando dessa forma todo o Estado (BOBBIO, 1987).

Assim, o Estado nasce de uma relação entre “sociedade política” e “sociedades menores ou parciais”, estabelecendo um modelo dialético, no qual o Estado seria a representação total de várias formas da prática social. Já na modernidade, esses papéis são invertidos, ou passam a ir “do estado opressivo à sociedade libertaria” (BOBBIO, 1987).

Deste modo, o político pode ser caracterizado como um processo de formação do Estado, confundindo-se com ele ao mesmo tempo.

Só é política a relação com o poder na sociedade global: aquela que constitui a totalidade dos indivíduos que habitam um espaço delimitado por fronteiras que chamamos precisamente de políticas. Na experiência histórica ocidental, ela se confunde com a nação e tem como instrumento e símbolo o Estado (RÉMOND, 2003, p. 444).

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Entende-se que a questão conceitual de sociedade estaria implícita neste contexto, pois a sociedade, enquanto ser integrado, acaba dando o suporte básico para que o político e conseqüentemente o Estado possam existir.

[...] a dependência do Estado em relação à sociedade civil, manifesta-se no fato de que a sociedade civil é o lugar onde se formam as classes sociais e se revelam seus antagonismos, e o Estado é o aparelho ou o conjunto de aparelhos dos quais o determinante é o repressivo [...] cuja função principal é, pelo menos em geral e exceção feita a alguns casos excepcionais, a de impedir que o antagonismo degenere em luta perpétua [...] não mediando os interesses das classes opostas mas reforçando e contribuindo para manter o domínio da classe dominante sobre a classe dominada (BOBBIO, 2006, p. 157).

Dessa forma, o Estado, consecutivamente, é um “aparato coativo”, através do qual um setor, ou classe social, desempenha poder sobre outro, sempre privilegiando seus próprios interesses (BOBBIO, 1987), ou seja:

Uma importante função do Estado em sua associação com a classe economicamente dominante é regular a LUTA DE CLASSES e assegurar a estabilidade da ordem social. O domínio de classe sancionado pelo Estado e por ele defendido assume muitas formas políticas diferentes, desde a “república democrática” até a ditadura; (BOTTOMORE, 2001, p. 135).

Assim percebe-se que a atividade política é a evidente união entre política e poder. Na Política de Aristóteles, definem-se três formas de poder “com base no critério da esfera em que é exercido”. O “poder patriarcal”, ou “poder do pai sobre o filho”, sendo “exercido no interesse dos filhos”; “o poder senhorial”, “despótico” ou “poder do senhor sobre os escravos” ou servos, sendo exercido no “interesse do senhor”; e, por último, o poder “político”, exercido no “interesse de quem governa e de quem é governado”. Expressam-se assim os três patamares fundamentais que vão reger as formas de um governante comandar seu Estado (BOBBIO, 1987, p. 78).

É possível entender, então, a constituição do governo propriamente dito, na qual as formas de governo são um conceito que se referem à maneira como acontece a instituição do poder na sociedade e como ocorre a relação entre governantes e governados, definindo a sociedade política organizada, implicando na existência de uma autoridade própria e de regras definidas para a convivência dos membros do Estado (BOBBIO, 1987).

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[...] agremiação de cidadãos, unidos por interesses e ideais comuns, que procuram concretizar através de um programa, buscando para tanto a conquista do poder e o exercício do governo. É o instrumento por excelência de mediação entre a Nação e o Estado – ponte entre o povo e o poder – canal de expressão da vontade das diferentes parcelas da população [...] Os partidos políticos constituem (ou devem constituir) organizações de pessoas livres em torno de ideais comuns (BRUM, 1981, p. 19).

Os partidos políticos tornam-se indispensáveis à medida que através deles a população pode exercer um papel político de maior significância perante a própria sociedade. Cabe ressaltar ainda que os partidos, classificados por questões estruturais ideológicas, acabam sempre definindo a parcela da sociedade a qual estão representando, exaltando as reivindicações pertinentes a essa. Um exemplo claro disso seriam as diferenças entre os “partidos de quadros e partidos de massas”, que seriam nada mais do que, conseqüentemente, representantes da “direita” e da “esquerda” ou da “burguesia” e do “proletariado” (CHACON, 1985, p. 14).

Portanto, é significativo fundamentar o caso específico do Brasil, no período compreendido entre 1964 e 1985, quando, através de um golpe militar, adotou-se um estado de exceção, baseado na Doutrina de Segurança Nacional.

O golpe e a manutenção do regime militar de 1964 estão inscritos na Doutrina de Segurança Nacional, originária dos Estados Unidos. Criada na época da guerra fria, nascida do antagonismo leste-oeste, a Doutrina de Segurança Nacional fornece intrinsecamente a estrutura necessária à instalação e à manutenção de Estado forte ou de uma determinada ordem social (BORGES, 2007, p. 24).

A Doutrina de Segurança Nacional justifica-se na ameaça comunista ou subversiva imposta pelo bloco soviético ao ocidente, criando uma situação de guerra constante. Essa guerra constante tende a combater tanto a ameaça exterior, ou comunismo internacional, como a interior, ou inimigo interno, através da inserção da sociedade em uma guerra física e psicológica, que transforma o aparato social em aparato de guerra, pois, conforme o ideal da Segurança Nacional, o inimigo a ser combatido é originário do povo.

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Além disso, a doutrina busca apoio na questão da geopolítica, tendo em vista que essa esclarece questões como “o espaço político, a posição física, a segurança interna e externa, e as vantagens positivas da terra” (COUTO E SILVA apud BORGES, 2007, p. 25), sendo necessário ainda, para que se possa ter sua completa aplicação, fazer o uso de “dois tipos de estruturas defensivas”; a primeira é o “aparato repressivo, responsável pela coerção”; a segunda, “a rede de informações (formal e informal), cuja principal atribuição responde pela identificação do inimigo interno” (BORGES, 2007, p. 31).

Cabe destacar ainda o aparelhamento burocrático do governo civil-militar, espelhado na tecnocracia.

No Brasil, em rigor somente se pode falar a respeito de uma direta responsabilidade militar do poder, em bases totais, a partir do movimento de 1964 e dos seus Atos Institucionais. As cinco presidências militares, desde Castello Branco a Figueiredo, definem com efeito a institucionalização de uma república fardada e tecnocrática [...] (BONAVIDES, 1995, p. 239).

A tecnocracia, que teve origem no Brasil na década de 1930, passa a ter um papel fundamental a partir de 1964, devido à necessidade, por parte do governo civil-militar, de “neutralizar a classe política”, enrijecendo dessa forma o aparato estatal do país.

O tecnocrata é o burocrata falsamente politizado, à testa do poder. Não combate com a palavra, mas com o cálculo ou a estatística. Tendo a frieza lógica do matemático, não lhe apraz a crítica, o debate, o tumulto da tribuna, mas a submissão, o silêncio, a anuência (BONAVIDES, 1995, p. 233).

Assim, entende-se o tecnocrata como um ser “de natureza autoritária”, que tem um fascínio pelo “poder e sempre prospera no silêncio das ditaduras”, não demonstrando nenhum tipo de preocupação com as questões sociais e humanas (BONAVIDES, 1995, p. 234).

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[...] a história regional, [...] seria aquela que buscaria resgatar a dinâmica da prática social dos homens, a partir da análise das condições históricas objetivas num espaço delimitado. Ou ainda, a história regional implicaria a realização de um recorte espacial inserido numa determinada temporalidade.

Portanto, [...] o entendimento da história regional deveria se situar no meio caminho entre a totalidade mais ampla na qual se insere (o sistema capitalista) e as variáveis regionais específicas, definidas pelas condições objetivas locais (PESAVENTO, 1990, p. 69).

Por isso, a região entendida como um território ininterrupto passa a fornecer informações valiosas no que diz respeito à historiografia, tendo em vista que, através de uma divisão política social, pode-se compreender, por exemplo, a formação de uma nação a partir do estudo de suas regiões (SILVA, 1990). Pode-se dizer então que, a partir da união de vários pedacinhos, constrói-se o todo.

Utilizar-se-á a imprensa escrita na construção deste trabalho. Para tanto, necessita-se entender de que modo podem ser aproveitadas essas informações e ainda de que maneira interpretá-las.

Para a reflexão atenta sobre o texto jornalístico informativo [...] impõe-se simultaneamente observar e acompanhar o fazer dos profissionais da mídia, suas práticas e técnicas, isto é, a prática diária e habitual do texto jornalístico e discurso da mídia; e o contexto (histórico, político, econômico e social, principalmente) que influi diretamente neste fazer jornalismo, interferindo na produção e na própria cultura da informação e de comunicação (COTTA, 2005, p. xi).

Portanto, não basta somente reproduzir as informações colhidas nos periódicos, mas sim interpretá-las, de modo que venham ajudar a esclarecer lacunas de tempo perdidas.

O jornalista pode ser entendido como um escritor em tempo real da história, pois, estando presente aos acontecimentos, ele, ao mesmo tempo em que registra fatos relevantes, com o intuito de comunicar em um primeiro momento, acaba, ainda que inconscientemente, armazenando aquele momento. À medida que o tempo avança, essas informações sobrevivem e acabam transformando-se em pequenas janelas para o passado (COTTA, 2005).

Apesar destas colocações favoráveis ao uso dos periódicos como fontes históricas, não se pode omitir que a mídia, por mais imparcial que pareça, sempre vai sofrer algum tipo de imposição, seja ideológica ou mesmo social. O

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específicos da sociedade – políticos, culturais, econômicos, religiosos, ideológicos – os veículos de comunicação cuidam, apenas, da defesa dêsses grupos, embora se refiram constantemente à sociedade como um todo, ao povo, às massas (AMARAL, 2001, p. 25).

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3 METOLOGIA

A metodologia desenvolvida para a realização deste trabalho buscou, em um primeiro momento, as fontes bibliográficas que dessem embasamento teórico ao assunto proposto, permitindo a construção do conhecimento e a identificação dos principais acontecimentos que permeavam o contexto político do período abordado.

Dentre os autores utilizados, destacam-se Bobbio (1987), Bonavides (1995), Rémond (2003), Borges (2007), Chacon (1985), Brum (1981), Pesavento (1990), Dreifuss (2006), Alves (2005), Arns (1985), Skidmore (1988), Dinges (2005), Rodeghero (2007), Magnoli (2001), entre outros.

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4 RESULTADOS E DISCUSÕES

4.1 O Cenário Político Brasileiro (1975 A 1979)

Por meio de um golpe civil-militar1, instituiu-se no Brasil um novo modelo político, baseado na Doutrina de Segurança Nacional, fixando como maior objetivo a repressão ao legítimo estado de direito.

Primeiro de abril de 1964. Foi concretizado o golpe de estado que terminou com o governo do presidente João Goulart, e instituiu no Brasil o regime militar baseado na doutrina de guerra – ensinada pelos americanos para combater o chamado ‘inimigo interno’ que poderia ser comunista. Ou seja, a Doutrina de Segurança Nacional [...] (ALVES, 2005, p. 9).

A Doutrina de Segurança Nacional, de acordo com Borges (2007), teve seu principal argumento na ameaça comunista e fixou como maior objetivo a repressão ao legítimo estado de direito, não só restringindo os direitos da população brasileira, mas também acabando por beneficiar o novo regime e seus aliados.

O processo de formação deste novo modelo político foi o reflexo de um movimento político-social, sugerindo a participação de setores da burguesia e do exército, que vinham refletindo para a instituição de um novo paradigma para a nação brasileira.

O que ocorreu em abril de 1964 não foi um golpe militar conspirativo, mas sim o resultado de uma campanha política, ideológica e militar travada pela elite orgânica centrada no complexo IPES/IBAD. Tal campanha culminou em abril de 1964 com a ação militar, que se fez necessária para derrubar o Executivo e conter daí para frente a participação da massa (DREIFUSS, 2006, p. 247).

Reveste-se de importância identificar o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em 29 de novembro de 1961, que, organizado a partir de interesses comuns

1 Pode-se entender por golpe civil-militar o regime instalado no Brasil a partir do ano de 1964, caracterizado por

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do empresariado nacional, visava à readequação ou à reformulação do Estado brasileiro, não deixando o poder somente nas mãos dos políticos, mas garantindo sua participação no controle estatal, tendo em vista a superioridade econômica e a predominância tecnoburocrática de que dispunham. Para que pudesse alcançar seus objetivos, o IPES assumiu, desde sua fundação, um caráter duplo, ou seja, mostrava-se publicamente como uma “organização de respeitáveis homens de negócios e intelectuais”, enquanto que secretamente “coordenava uma sofisticada e multifacetada campanha política, ideológica e militar”, com o objetivo de influenciar a opinião pública (DREIFUSS, 2006, p. 175-6).

Para idealizar uma forma de governo que viesse a favorecer os interesses da elite nacional, Dreifuss acredita que o IPES não utilizava somente intelectuais brasileiros, mas trazia intelectuais norte-americanos e europeus para melhor embasar e disseminar suas opiniões. Além disso, o complexo IPES/IBAD buscava, no seu exclusivo relacionamento com os meios de comunicação da época e no apoio da igreja católica, evidenciado principalmente pela organização Opus Dei2, uma forma de influenciar não somente a burguesia, mas também as camadas mais populares, com seus ideais anticomunistas, baseados no liberalismo econômico e no sistema político tecnocrático. Cabe destacar aqui a utilização do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) como uma unidade tática, que, partindo para a ação, concretizava, junto à sociedade, as políticas elaboradas pelo IPES. Essas ações jogavam o papel público, que seria do IPES, para o IBAD (DREIFUSS, 2006).

Dessa forma, entende-se que, apesar da forte atuação dos militares, o aparelho governista não era exclusivamente militar, ou seja, constata-se a grande participação de setores influentes da sociedade civil no que diz respeito ao aparato burocrático-administrativo do Brasil, no período denominado de estado de exceção, podendo-se compreender ainda a manipulação de informações por parte do complexo IPES\IBAD, no que diz respeito ao apoio que o governo civil-militar recebeu de grande parte da sociedade da época. Ou seja:

Na encruzilhada histórica de 1963, a elite orgânica centrada no complexo IPES\IBAD constituía a única força social entre as classes dominantes que possuía um projeto e um modelo coerentes e coesos para o país. Em abril de 1964, tinha também o meio político, técnico e militar de realizá-lo. Depois de 1964, o cerne das propostas do Congresso para as Reformas de Base preparadas nos grupos de estudo

2 Opus Dei significa Obra de Deus em latim. Fundada em 1928 na Espanha pelo Monsenhor Josemaria Escrivá

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do complexo IPES\IBAD, foi adotado como as diretrizes para inúmeras reformas administrativas, constitucionais e socioeconômicas, implementadas pelo novo governo militar (DREIFUSS, 2006, p. 262).

Percebe-se que outro órgão de fundamental importância nesse contexto é a Escola Superior de Guerra (ESG), “que em colaboração com o IPES e o IBAD” formulou a “Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento”, aplicada no Brasil a partir de 1964. Dessa forma a ESG acaba funcionando “como pólo teorizador da Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento”, formando militares e também civis, todos enquadrados nos moldes definidos pelo exército brasileiro (ALVES, 2005, p. 42).

Para a legitimação deste novo modelo estatal, idealizado pelo complexo IPES/IBAD, bem como pela ESG, foram adotados mecanismos de legalização de ações políticas não previstas e/ou contrárias à própria Constituição então vigente, denominados de atos institucionais3.

O primeiro deles, editado em nove de abril de 1964 pela imposição de uma Junta Militar que havia assumido o governo provisoriamente, formada pelos seguintes ministros General Arthur da Costa e Silva, Almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald e Brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo, teve por finalidade maior conceder aos militares o comando total do Estado, reservando poderes como a suspensão de direitos políticos por dez anos, cassação de mandatos legislativos, colocação em disponibilidade ou aposentadoria compulsória de qualquer funcionário público que tivesse atentado contra a segurança do país, entre outros (SKIDMORE, 1988).

No dia 15 de abril de 1964, o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco assume o governo do Brasil, sendo eleito indiretamente pelo “primeiro Colégio Eleitoral encarregado de escolher” o presidente da República. Este Colégio “era composto por 326 deputados e 62 senadores de um Congresso cuidadosamente depurado”. Recebendo um total de 361 votos, Castello Branco governaria o país até o início de 1967 (ALVES, 2005, p. 67).

Destaca-se a importância fundamental da criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) como uma das primeiras formas de institucionalizar o novo modelo estatal que se instalou após 1964.

3 Atos Institucionais são normas jurídicas emanadas do poder “revolucionário”, que se sobrepõem à

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O SNI foi formalmente criado pelo Decreto-Lei nº 4.341, de 13 de junho de 1964. Seria um órgão de assessoramento do Executivo, responsável não perante o Congresso Nacional, mas perante o Conselho de Segurança Nacional e o Presidente da República. A lei determinava explicitamente que o SNI deveria colaborar com o Conselho de Segurança Nacional em “todas as questões afetas à Segurança Nacional” (ALVES, 2005, p. 87-8).

Percebe-se que o SNI serviu ao governo como um controlador das atividades subversivas no Brasil, investigando e repassando toda e qualquer informação aos órgãos encarregados da segurança nacional, ou seja, o SNI foi nada mais do que os olhos da ditadura infiltrados em quase todas as localidades do país.

Deve-se, portanto, ao General Golbery do Couto e Silva, “um dos mais poderosos homens dos bastidores do regime”, a criação do SNI, instituição que se apresentou, ao longo do período ditatorial, como sendo tão poderosa quanto o próprio Executivo. Esse poder estava embasado no fato de que o SNI fortalecia o Executivo “às custas do Judiciário e do Legislativo” que não tinham autorização para supervisionar sua atuação (ALVES, 2005, p. 88-9).

Antes de terminar seu governo, o Presidente Castello Branco editou ainda três atos institucionais. O Ato Institucional nº 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, estabelecendo, como diz seu próprio artigo 18, o seguinte: “Ficam extintos os atuais Partidos Políticos e cancelados os respectivos registros”, ou seja, todos os partidos foram colocados na ilegalidade, iniciando um período de modelo político bipartidário, passando a existir somente duas legendas: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido situacionista, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição consentida.

Sugere-se que a participação da ARENA e do MDB, apesar de ter sido cautelosa e na maior parte das vezes subordinada às imposições do governo federal, teve importância evidente, pois, como ressalta Brum (1981), os partidos, sendo uma espécie de elo entre o povo e o governo, acabavam representando algumas das ambições da sociedade. Assim cabe destacar as políticas seguidas por cada um dos partidos existentes neste período.

A ARENA, como afirma no Capitulo I de seu Estatuto, considerava

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Criada a partir da fusão de partidos conservadores, como o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN), a ARENA foi o partido aliado ao governo. Segundo Chacon (1985), a ARENA assegurou em seu próprio estatuto menções de legitimação ao governo então vigente, aplicando em âmbito social propostas do Partido Democrata Cristão, inspirado pela “Mitbestimmung”, idealizada pela Democracia Cristã alemã, que pregava a integração do trabalhador na participação dos lucros e excepcionalmente na gestão das empresas brasileiras.

Se por um lado a ARENA tinha um discurso moderado, conforme esclarece Brum, observa-se que “não conseguiu ser o partido da Revolução de 31 de março”, pois lutou sempre com contradições e divisões dentro de sua própria estrutura, mostrando-se como “um conglomerado dividido e fragmentado”, agindo como mera servidora do regime e praticando apenas a legitimação democrática dos “atos do poder físico” (BRUM, 1981, p. 115).

Ao MDB, coube o papel de opositor ao governo, estabelecendo, em um primeiro momento, suas diretrizes em favor da transformação social, estrutural e da ação política no Brasil, bem como contra o regime instalado em 1964. Conforme afirma em seu programa de 1966, o MDB denuncia a ditadura civil militar e anuncia suas intenções, ou seja:

O MDB denuncia o retrocesso de que foi vítima o país, de 1º de abril de 1964 [...]. O MDB não é um partido de reação [...]. O MDB lutará pela transformação social profunda das estruturas brasileiras [...] no campo econômico, através da reforma agrária e do estímulo ao desenvolvimento industrial [...] no campo político, através de uma defesa intransigente da liberdade, sob todas as suas formas (CHACON, 1985, p. 517).

Apesar de apresentar um programa que se opunha às políticas adotadas pelo governo, nota-se que, durante os primeiros anos do regime civil militar, o MDB foi um partido inexpressivo e bastante prudente, “não conseguindo refletir os anseios da oposição”, tendo em vista a repressão imposta pelo governo, explicitada nos Atos Institucionais 1 e 2 (BRUM, 1981, p. 115).

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FGTS ou pelo sistema trabalhista (antigo sistema), o FGTS acabava sendo imposto, pois na prática não seriam contratados os que se recusassem a aceitar o sistema (ALVES, 2005, p. 119).

Um dos maiores benefícios para os trabalhadores brasileiros, anterior à deposição de João Goulart, havia sido a estabilidade por tempo de serviço, isto é, garantia contra demissão [...]. A Lei que criou o FGTS exigia que os empregadores abrissem uma conta bancária em nome de cada empregado e que nela depositassem todo o mês o equivalente a 8% do salário do empregado [...]. Os empregados poderiam tirar o seu saldo apenas em caso de demissão, aposentadoria ou sob outras condições especificadas (DREIFUSS, 2006, p. 461).

Dessa forma, a legislação pela qual o FGTS estava envolto acabou extinguindo vários programas de assistência, que davam melhores condições de vida aos trabalhadores, atingindo de forma direta e inegável toda a classe, que passou a conviver com certa insegurança econômica, devido à alta rotatividade que o FGTS proporcionava (DREIFUSS, 2006). Reflete-se, deste modo, que, além de restringir direitos básicos dos trabalhadores brasileiros, como o direito de reivindicar melhores condições de trabalho, o FGTS embasava os empregadores para que pudessem diminuir os salários, fazendo com que a maior parte dos trabalhadores tivesse seus recursos econômicos reduzidos e assim havendo maior mobilidade empregatícia.

Em cinco de fevereiro de 1966, é instituído o Ato Institucional nº 3 (BRASIL, Ato Institucional nº 3, de 5 de fevereiro de 1966), estabelecendo a eleição indireta para a escolha dos governadores e vice-governadores estaduais, sendo que os prefeitos dos grandes centros urbanos só poderiam obter o poder através da nomeação desses governadores. No último ano de seu governo, Castello Branco promulgou ainda o Ato Institucional nº 4 (BRASIL, Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966), que convocava o Congresso Nacional para se reunir extraordinariamente de 12 de dezembro de 1966 a 24 de janeiro de 1967, com o intuito de votar uma nova constituição, que seria promulgada em 24 de janeiro de 1967.

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A LSN apontava para a defesa da nação brasileira sob quaisquer preceitos, permitindo inclusive que o SNI atuasse “em todos os Ministérios e que seus funcionários tivessem acesso a todos os gabinetes do governo”, podendo dessa forma fiscalizar as políticas oficiais, sendo, portanto, tolhidos direitos básicos do exercício da cidadania, tendo em vista que os governantes “estavam obrigando todos os brasileiros a seguirem as doutrinas que, segundo eles, salvaram o Brasil em 1964” (SKIDMORE, 1988, p. 120). Já a Lei de Imprensa

[...] procurava enquadrar particularmente a mídia, que fora um espinho na garganta de Castelo. Os [...] motivos que justificavam a intervenção governamental, a censura, ou a instauração de processos eram muito amplos indo desde a divulgação de segredos de Estado até notícias induzindo ao descrédito o sistema bancário (SKIDMORE, 1988, p. 120).

Estas duas leis evidenciaram exatamente a forma como o poder estava sendo tratado, pois impediam a população de refletir e obter informações da realidade do país, além de delegarem ao governo todo o tipo de intervenções na sociedade que julgassem oportunas para manter a segurança nacional.

Outro fator importante desse primeiro momento do governo ditatorial foi a questão econômica, na qual o governo, preocupado em combater a inflação que vinha se abatendo sobre o país, acabou implementando o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), com o objetivo de conter a inflação, retomar o crescimento econômico e normalizar o crédito. O PAEG acabou abrindo a economia nacional ao capital estrangeiro, instituindo a correção monetária4 e estabelecendo o arrocho salarial para as classes menos favorecidas.

Foi a equipe IPES/CONSULTEC de Roberto Campos que elaborou o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), um programa que coordenava a atividade do governo na esfera econômica e que se transformou no plano geral para as reformas econômicas e sociais implantadas de 1964 a 1967 [...] a implantação do PAEG teve um efeito particularmente importante. Permitiu que as companhias multinacionais, utilizando suas subsidiárias no Brasil, comprassem a preços baixíssimos as empresas brasileiras estranguladas pelas restrições de crédito impostas, provocando o fenômeno conhecido como desnacionalização (DREIFUSS, 2006, p. 446).

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Apesar de o PAEG, em parte, ter combatido a inflação no período de 1963 a 1967, o crescimento econômico do Brasil caiu pela metade, baseando-se no desenvolvimento econômico alcançado nos anos anteriores. Estes fatores iriam refletir posteriormente na questão do milagre econômico (EARP e PRADO, 2007).

A partir do ano de 1967, assume o governo brasileiro o general Arthur da Costa e Silva, que havia ocupado o cargo de ministro da guerra durante o governo de Castelo Branco. É nessa fase que o governo recrudesce o autoritarismo, aumentando a repressão. Esse momento é caracterizado por uma série de protestos que se espalharam por todo o país, tendo, como expoente, fatos como o assassinato do estudante secundarista Édson Luís na cidade do Rio de Janeiro, que acabou levando o movimento estudantil, setores da Igreja e da sociedade civis a promoverem em conjunto a Passeata dos Cem Mil, uma das maiores mobilizações ocorridas na época contra o regime.

A Igreja Católica uniu-se à oposição para protestar publicamente contra a invasão do templo e o ataque premeditado a padres e fiéis desarmados durante serviços religiosos. A firme posição adotada pela hierarquia religiosa propiciou uma aliança informal: os estudantes eram agora abertamente apoiados pela Igreja, a imprensa e, de modo geral, as classes médias do Rio de Janeiro, que poucos anos antes haviam apoiado o golpe militar por medo de uma ditadura comunista [...]. No dia 25 de junho uma grande passeata [...] realizou-se no centro do Rio de Janeiro (ALVES, 2005, p 145).

Paralelamente, o discurso do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, na Câmara Federal, estimulando o povo a não comparecer às festividades do dia sete de setembro, considerado pelos militares como ofensivo, serve de estopim para a implementação do mais autoritário de todos os Atos Institucionais, o Ato Institucional nº 5 (BRASIL, Ato Institucional nº 5, de 13 de 13 de dezembro de 1968). Com a implementação desse ato, o governo colocou o Congresso em recesso, assim como algumas assembléias estaduais e câmaras municipais (ARNS, 1985).

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Nesse cenário político, Costa e Silva confiou ao seu vice-presidente, Pedro Aleixo, que havia se oposto ao AI-5, a elaboração de um esboço para uma nova Constituição, que visasse reabrir o Congresso. A nova Constituição (Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969) estava praticamente concluída, quando “a 28 de agosto Costa e Silva sofreu um ataque que deixou seu lado direito paralisado, inclusive sua face direita” (SKIDMORE, 1988, p. 192). Assim, entende-se que, com o presidente inabilitado para exercer suas funções, reuniu-se uma junta militar, formada pelos ministros Augusto Hamann Rademaker Grünewald, da Marinha, Aurélio de Lyra Tavares, do exército, e Márcio de Souza e Mello, da Aeronáutica, que tomou como primeira medida a rejeição do Art. 79 da Constituição de 1967, que determinava:

Art. 79 - Substitui o Presidente, em caso de impedimento, e sucede-lhe, no de vaga, o Vice-Presidente.

§ 1º - O Vice-Presidente, considerar-se-á eleito com o Presidente registrado conjuntamente e para igual mandato, observadas as mesmas normas para a eleição e a posse, no que couber.

§ 2º - O Vice-Presidente exercerá as funções de Presidente do Congresso Nacional, tendo somente voto de qualidade, além de outras atribuições que lhe forem conferidas em lei complementar (BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, de 24 de Janeiro de 1967).

Dessa forma, reconhecendo a impossibilidade de recuperação do presidente, a junta militar declara extinto o mandato de Costa e Silva e, impossibilitando o vice-presidente civil Pedro Aleixo de assumir o governo, passa a governar o país, em uma espécie de “Regência Trina”. Sugerida pelo general Jayme Portella de Mello (chefe da Casa Militar), influenciado pela Regência Trina de 1830, quando da menoridade do imperador D. Pedro II, essa “Regência Trina” governou o Brasil durante um curto período de dois meses, entre 31 de agosto de 1969 e 30 de outubro de 1969. Ao final deste breve período, a junta militar indicou como sucessor presidencial o general Emílio Garrastazu Médici (SKIDMORE, 1988).

Médici assume o governo do Brasil em outubro de 1969 com um cenário autoritário já em andamento, tendo em vista o aparato criado durante o governo Costa e Silva, podendo-se classificar este governo como sendo o mais autoritário do período, pois é nesse momento que ocorre o auge da ação dos aparelhos de repressão e tortura do Estado contra o chamado inimigo interno.

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Exército Orlando Geisel; a segunda, o setor econômico, representado pelo ministro da Fazenda Delfim Neto, tecnocrata responsável pelo “boom econômico” revelado durante o governo Costa e Silva; e por último restou ao chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu, o comando sobre todas as atividades políticas (SKIDMORE, 1988, p. 216).

Todavia essa divisão propiciou ao líder do governo uma forma mais tranqüila de governar, pois não necessitava tomar decisões impostas pelo dia-a-dia, ou seja, poderia ficar afastado sem ter que aparecer e nem responder diretamente questionamentos da mídia, tendo em vista que o papel governamental direto estaria ligado aos setores militar, econômico e à casa civil, principais seções do governo.

Nessa conjuntura, o chamado milagre econômico, marcado por realizações de grandes obras da iniciativa pública, como a rodovia Transamazônica e a ponte Rio – Niterói, passava a impressão de um país que se modernizava rapidamente.

O milagre econômico foi produto de uma confluência histórica, em que condições externas favoráveis reforçaram espaços de crescimento abertos pelas reformas conservadoras no governo Castelo Branco. Mas foram a idéia da legitimação pela eficácia, concepção positivista que permeava o imaginário dos militares e seus aliados, e, ainda, o nacionalismo das Forças Armadas brasileiras que fizeram inevitável a opção pelo crescimento, em lugar da construção de uma ordem liberal [...] (EARP e PRADO, 2007, p. 234).

Na realidade, Alves enfatiza que o milagre econômico começou ainda no governo Costa e Silva, que, aproveitando o contexto internacional favorável, definiu o modelo econômico como “produtivista”, acreditando que “um país subdesenvolvido”, caso do Brasil, precisaria "criar as melhores condições possíveis para o investimento, especialmente o estrangeiro”, podendo acumular uma quantia suficiente de capital e possibilitando o início do desenvolvimento econômico de fato (ALVES, 2005, p. 177).

Entende-se, desse modo, que o milagre econômico foi uma maneira de o governo demonstrar à sociedade que não havia motivos para qualquer oposição ou descrédito, pois, através da política econômica utilizada, o país estaria evidenciando forte desenvolvimento, não só na economia, mas também paralelamente em outros setores.

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elétrica (inclusive nuclear), comunicações e mineração”, estimando elevar a taxa de investimento com vistas a transformar o Brasil em um país desenvolvido no período de uma geração (EARP e PRADO, 2007, p. 221).

Dessa forma, com a crescente economia, percebe-se com clareza a ascensão da classe média, tendo em vista as facilidades oferecidas pelo governo em relação ao financiamento da casa própria pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), ou até mesmo na aquisição de veículos para o transporte pessoal, por exemplo, cristalizando o consumismo tão inerente a essa classe.

Entretanto, devem ser ressaltadas as dificuldades encontradas ao final do governo Médici, pois esse, tendo que lidar com uma situação difícil no cenário econômico internacional no que diz respeito ao “súbito aumento do petróleo” no fim de “1973” (EARP e PRADO, 2007, p. 234), não conseguiu amenizar problemas sociais, como a crescente desigualdade social que se abatia sobre o país. Portanto, apesar do aspecto modernizador, o milagre econômico, sempre influenciado pelo fator externo (cenário econômico internacional), acabou legando ao Brasil uma considerável dívida externa, além de acentuados problemas sociais.

O “milagre econômico” brasileiro não só aliviou os sérios problemas de pobreza e sofrimento extremos, de privação dos mais elementares recursos na maioria da população, como, sob muitos aspectos, os agravou. E este enorme sacrifício não foi seguido de qualquer compensação após o “milagre”; o processo de empobrecimento e concentração de renda prosseguiu nos anos posteriores. Os custos humanos aí implicados [...] não devem ser entendidos como sacrifícios da atual geração em benefício de seus descendentes, mas como sacrifícios impiedosamente impostos à maioria dos brasileiros em beneficio atual da pequena elite que os mantém em servidão (ALVES, 2005, p. 188).

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Assim, um dos primeiros atos de mudança no perfil do regime instalado por Geisel e seus colaboradores foi o novo gabinete ministerial, nomeado pelo presidente. Delfim Neto, ministro da Fazenda desde 1967, foi substituído pelo professor de economia Mário Henrique Simonsen, cujas políticas pareciam ser mais ortodoxas. Foram nomeados ainda o general Golbery do Couto e Silva para a chefia do gabinete civil da presidência, cargo esse que refletia o maior poder político de todo o Ministério, o general João Batista de Oliveira Figueiredo para a chefia do SNI e o general Hugo de Andrade Abreu para a chefia do gabinete militar. Apesar das mudanças, o economista João Paulo do Reis Velloso continuou à frente do Ministério do Planejamento, transformando-se em uma espécie de elo, no setor da política econômica, entre o governo Médici e o governo Geisel (SKIDMORE, 1988).

Para dar continuidade ao processo de abertura “lenta, segura e gradual”, o governo Geisel objetivou quatro alvos principais:

O primeiro era manter o apoio majoritário dos militares reduzindo ao mesmo tempo o poder da linha dura e restabelecendo o caráter mais puramente profissional dos membros das forças armadas [...]. A segunda meta [...] era controlar os “subversivos” [...] a terceira meta era o retorno à democracia [...]. A quarta meta era manter altas taxas de crescimento, de cuja importância os castelistas estavam bem conscientes (SKIDMORE, 1988, p. 319-321).

Neste contexto, ocorreu o que se pode considerar uma vitória do MDB sobre a ARENA, ou uma vitória da oposição sobre a situação. Em novembro de 1974, o MDB conquistou um aumento quantitativo de votos nas eleições para o Senado Federal, Câmara dos Deputados e Assembléias Legislativas, demonstrando a mudança que vinha ocorrendo no posicionamento e articulação da oposição ao regime civil-militar. Apesar de ter conseguido um maior número de votos que a ARENA somente nas eleições para o Senado, a eleição para os outros órgãos foi semelhante entre os dois partidos.

A representação do MDB no Congresso Nacional foi sobremaneira aumentada: em 1970 obtivera 87 cadeiras na Câmara dos Deputados, contra 233 da ARENA. Em 1974 conquistou 161 cadeiras, e a maioria da ARENA caiu para 203 cadeiras. Nas assembléias estaduais, a oposição ganhou 45 das 70 cadeiras no Estado de São Paulo, 65 das 94 no Rio de Janeiro, e completo controle das importantes assembléias do Paraná e do Rio Grande do Sul [...]. As eleições foram em geral consideradas equivalentes a um plebiscito em que os eleitores votaram antes contra o governo do que na oposição (ALVES, 2005, p. 228).

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crescimento econômico com a contenção da inflação, que deveria dar bases econômicas ao Estado brasileiro até o ano de 1979. A ênfase dada pelo II PND consistia no incentivo ao Programa Nacional do Álcool (Proálcool) e à construção das usinas hidrelétricas de Itaipu, no município de Foz do Iguaçu no Estado do Paraná, e Tucurui, no próprio município de Tucurui no Estado do Pará, como alternativas de fonte de energia para o país (SILVA, 2007). Observa-se então a importância de tais investimentos na medida em que acabaram assegurando ao Brasil certa autonomia energética, frente à crise do petróleo que se enfrentava no cenário econômico internacional.

Com receio de que a oposição pudesse estabelecer novas vitórias, coube ao Ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão, elaborar uma nova lei eleitoral (BRASIL, Lei nº 6.339, de 1º de julho de 1976 – “Lei Falcão”), dando nova redação ao art. 250 do Código Eleitoral Brasileiro. Esta nova lei determinava que, na propaganda eleitoral por meio do rádio ou da televisão, os partidos se limitassem a mencionar a legenda, o currículo e o número do registro do candidato na Justiça Eleitoral, podendo divulgar apenas sua fotografia (caso da televisão), e mencionar o horário e o local dos comícios. Assim, a Lei Falcão minimizava o poder dos partidos políticos, principalmente do MDB, frente ao eleitorado brasileiro.

No ano de 1977, o Brasil enfrentava uma forte crise política, em decorrência das medidas tomadas pelo regime civil-militar, intensificando o atrito entre governo e oposição, levando o presidente Ernesto Geisel, embasado pelo AI-5, a fechar o Congresso Nacional pela terceira vez desde o golpe de Estado de 1964, outorgando na seqüência um conjunto de leis (Pacote de Abril).

[...] No dia 13 de abril, Geisel assinou a Emenda Constitucional nº 7, nada menos que a versão original do pacote de reforma judiciária há dias rejeitada pelo Congresso. No dia seguinte assinou a Emenda Constitucional nº 8, que estabelecia alterações fiscais e uma série de importantes modificações na Constituição de 1969 a respeito das eleições. Estas medidas, que ficariam conhecidas como “Pacote de Abril”, fixaram os limites da distensão e as bases para a continuação do processo de institucionalização do Estado (ALVES, 2005, p. 233-234).

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parte. Já a Emenda Constitucional nº 8 (BRASIL, Emenda Constitucional nº 8, de 14 de abril de 1977)

[...] tornava permanente as eleições indiretas dos governadores de estados [...]. O Artigo 39 da Constituição de 1969 foi alterado, de modo a determinar o número de cadeiras de cada estado na Câmara dos Deputados, não (como anteriormente) em proporção ao número de eleitores registrados no estado, mas em proporção à sua população total (ALVES, 2005, p. 234).

Além dessas mudanças, a Emenda Constitucional nº 8 ainda modificava as eleições para o Senado Federal, criando os chamados “senadores biônicos”:

[...] as eleições para a substituição de um terço do Senado não sofreriam alteração. Nas eleições para a substituição de dois terços dos membros, no entanto, somente uma de cada duas cadeiras disponíveis seria preenchida por voto popular direto; a outra seria ocupada por senador eleito indiretamente, segundo os mesmos procedimentos e pelo mesmo colégio eleitoral encarregado de escolher os governadores de estados. (ALVES, 2005, p. 235).

Entende-se, dessa forma, que esse pacote de leis refletiu diretamente no maior controle do processo de abertura instituído pelo governo Geisel. Restringindo os direitos políticos do MDB, que vinha crescendo diante da preferência do eleitorado brasileiro, as leis beneficiavam a ARENA, com a criação dos “senadores biônicos”, já que esses, eleitos indiretamente pelas assembléias legislativas dos estados, apoiavam as medidas governamentais.

Entretanto, anteriormente houve uma forte atuação do aparelho repressivo, destacada no caso da morte do jornalista Vladimir Herzog, em 26 de outubro de 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em 17 de janeiro de 1976, nas dependências do Doi-Codi do 2º exército em São Paulo. Estes atos refletiram em indignação por parte da população, manifestada publicamente, forçando o presidente Geisel a demitir o comandante do 2º exército, general Ednardo D’avila Melo, como uma maneira de reafirmar sua autoridade e de frear o aparato repressivo, acalmando as camadas populares (SILVA, 2007).

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Em 1978, depois de muitas pressões exercidas por parte da sociedade civil, principalmente por órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e algumas lideranças da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do MDB, contra a ditadura e em defesa do processo democrático, o governo Geisel resolve reunir-se com esses órgãos e, em decorrência direta de tal reunião, lança um pacote de reformas que

[...] preparado pelo governo e introduzido sob a forma da Emenda Constitucional nº 11, continha aperfeiçoamentos significativos.

Revogou-se o Artigo 182 da Constituição de 1969, o que significava a eliminação do Ato Institucional nº 5 e de todos os atos complementares e leis a ele apensos. Ficavam assim restaurados os direitos legais mais fundamentais: direito de habeas corpus para os crimes políticos e direito de não ser preso sem acusação ou mandato. Restabeleciam-se também as três garantias essenciais da independência judiciária: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade (ALVES, 2005, p. 263).

Com o AI-5 revogado, restava ao governo Geisel fazer seu sucessor presidencial. Para isso, Geisel e Golbery já reservavam o nome do general João Batista de Oliveira Figueiredo, chefe do SNI, que, tomando posse em 15 de março de 1979, tinha por meta principal a questão da anistia, dando prosseguimento ao processo de abertura iniciado por Geisel.

Decretada pelo governo, sem negociação com a oposição, em 28 de agosto de 1979, a anistia assegurou que não haveria revanchismos – uma das principais preocupações das Forças Armadas –, pois o perdão não consentiria que os militares envolvidos com a repressão fossem julgados ou condenados por atos praticados em nome do governo ou das Forças Armadas (SILVA, 2007, p. 270).

A partir do governo Figueiredo, fica evidente que o governo civil-militar, instalado desde 1964, começa a perder a força mantida até então, a partir da repercussão das pressões da sociedade, tendo em vista a forte crise econômica que se abatia sobre o Brasil, e da revitalização dos movimentos sindicais que manifestavam suas insatisfações através de greves e mobilizações sociais (SILVA, 2007), encerrando-se assim anos de uma política de caráter autoritário e dando lugar a um processo de redemocratização.

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Grande do Sul durante o período proposto, tendo em vista as influências do contexto nacional no cenário regional.

4.2 Reflexos políticos do governo civil-militar no Rio Grande do Sul (1975-1979)

Quando o governo civil-militar é instituído no Brasil, o Estado do Rio Grande do Sul tem à frente de seu poder Executivo o governador Ildo Meneghetti, que, cumprindo seu segundo mandato, havia sido eleito nas eleições diretas de 1962 pela Ação Democrática Popular (ADP)5, obtendo 37,10% dos votos. Este governo mostrara-se contrário às políticas defendidas pelo presidente João Goulart e pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, ambos pertencentes ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O governo Meneghetti combateu veementemente questões fundamentais para o governo brasileiro, como as reformas de base6 propostas por João Goulart, tentando de certa forma coagir a população de que elas apresentavam um perigo eminente à sociedade e à manutenção da democracia, sem contar com a disseminação da crença da ameaça comunista, que estaria se infiltrando no país e nas bases do próprio governo federal (CARDOSO; FLACH, 2007).

Observa-se assim que o governo do Rio Grande do Sul apoiou o golpe civil-militar de 1964, passando, a partir deste momento, a efetivar as políticas propostas pelo regime repressivo, tais como a erradicação da subversão no país, a partir de denúncias de funcionários públicos (subversivos) no Estado e da cassação de mandatos de políticos que se posicionavam contra o governo. Dessa forma, os debates políticos acabaram perdendo força:

[...] os debates partidários foram aos poucos se tornando mais vazios, pois a política repressiva baniu da vida política as lideranças contrárias ao regime militar. Com a

5 Coligação formada para concorrer nas eleições ao governo do Estado do Rio Grande do Sul em abril de 1962.

Faziam parte os seguintes partidos: Partido Social Democrático (PSD), Partido Libertador (PL), União Democrática Nacional (UDN), Partido de Representação Popular (PRP), Partido Democrata Cristão (PDC). CARDOSO, Claudira do S. C.; FLACH, Ângela. In: BOEIRA, Nelson; GOLIN, Tau; (orgs.). República: da revolução de 1930 à Ditadura Militar. Vol. 4. Passo Fundo: Méritos, 2007.

6 Programa do governo João Goulart, que previa a efetivação das reformas agrária, tributária, administrativa,

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extinção dos partidos políticos em 1965, e a conseqüente criação da ARENA e do MDB [...]. No Rio Grande do Sul, a reorganização partidária reuniu no partido da oposição um número maior de deputados do que os que aderiram à ARENA. Por essa razão, as cassações de mandatos de deputados acabaram acontecendo em número suficiente para garantir a vitória do candidato da situação na escolha do próximo governador (CARDOSO; FLACH, 2007, p. 80).

Dessa maneira, em 1966, ocorre a primeira eleição após 1964 no Estado, surgindo o nome do cel. Walter Peracchi Barcellos, da ARENA, indicado pelo governo federal, como forte candidato para a substituição de Meneghetti. Além de Barcellos, ainda existiam mais duas opções, os nomes de Tarso Dutra e do professor Ruy Cirne Lima. Confirmado através de eleições indiretas, Peracchi Barcellos acabou assumindo o Executivo do Rio Grande do Sul em 1967 (RODEGHERO, 2007). Barcellos comandou o Executivo gaúcho até o ano de 1971, quando assumiu Euclides Triches, também da ARENA, eleito indiretamente pela Assembléia Legislativa.

Por meio da leitura do Jornal Correio do Povo, são apresentadas as notícias vinculadas aos projetos e realizações dos governos do Rio Grande do Sul na década de 1970.

Nesse sentido, em 15 de março de 1971, o governo Triches implementou o projeto “Grande Rio Grande”, visando acelerar o desenvolvimento do Estado. Nesse período, acontecem algumas reformas importantes no setor da educação pública, como a criação de coordenadorias regionais, abrangendo as delegacias de educação do interior do Estado, com o intuito de descentralizar as questões administrativas e dar maior agilidade à burocracia enfrentada pelas instituições de ensino, implantando ainda escolas do então segundo grau (atual ensino médio), através de uma reforma no ensino que beneficiou em muito a população mais carente, além da criação do plano de carreira do magistério público do RS (Correio do Povo, 02 mar. 1975).

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Neste contexto, ainda pode-se destacar o investimento no turismo e conseqüentemente o melhoramento da malha viária, principalmente no ponto de ligação entre a região da serra (Gramado, Canela, São Francisco de Paula) e a região do litoral norte do Estado, bem como o investimento na questão agropecuária principalmente no que diz respeito ao aumento do armazenamento de grãos e à questão das comunicações, evidenciada pela Companhia Rio-grandense de Telecomunicações (CRT), que promoveu um investimento significativo entre os anos de 1971 e 1974, além de aumentar o número de centrais telefônicas no Estado de 96.000 em 1971 para 157.000 em fins de 1974 (Correio do Povo, 02 mar. 1975).

Com o fim do mandato de Euclides Triches, é eleito, pela Assembléia Legislativa para assumir o governo do Rio Grande do Sul, em março de 1975, o então deputado da ARENA Sinval Sebastião Duarte Guazzelli, eleito indiretamente, tendo como seu vice-governador o também deputado pela ARENA Amaral de Souza (Correio do Povo, 15 mar. 1975). Antes de tomar posse, Sinval Guazzelli definiu a composição de seu governo, nomeando os novos secretários e definindo sua plataforma de governo, com a intenção de revitalizar as políticas que vinham sendo aplicadas até então e ainda introduzir novas questões elaboradas em conjunto com sua equipe.

FIGURA I: Posse do novo governo. Ao centro governador Synval Guazzelli, à esquerda o vice-governador Amaral de Souza

Fonte: Correio do Povo, 16 mar. 1975, capa.

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que estivessem ligadas ao desenvolvimento econômico e social do Estado, sendo ambos os conselhos presididos pelo chefe do executivo (Correio do Povo, 20 mar. 1975).

Entende-se necessário destacar, nesse momento, o cenário econômico do Rio Grande do Sul durante a década de 1970, com o objetivo de melhor entender as ações efetivadas pelo governo do Estado, devendo-se destacar tanto a produção agropecuária, quanto a industrialização alcançada durante o período.

Assim verifica-se que, no setor agropecuário, a pecuária apresentava, no momento da criação do estatuto da terra7, em 1964, um atraso técnico, sendo incapaz de estabelecer uma conexão com o complexo agro-industrial, devido à falta de investimentos por parte dos produtores, que, não dominando técnicas de melhoramento de seus rebanhos, acabaram excluindo sua produção do processo de modernização que vinha ocorrendo, percebendo-se assim que, devido ao tempo destinado à produção, o abate dos animais acabava demorando mais do que o esperado, dificultando a ligação entre o setor e a indústria (MAGNOLI; MENEGOTO; OLIVEIRA, 2001).

Por outro lado, a agricultura acabou recebendo maiores investimentos, pois o governo federal, através do Estatuto da Terra, priorizava os investimentos neste setor, sendo por conseqüência prioridade do governo do Rio Grande do Sul. Como faltavam investimentos por parte dos pecuaristas, esses acabaram adotando a política de arrendamento como meio de não perder capital, concedendo maior espaço à cultura do arroz, que vinha aumentando nos últimos anos. Além do arroz, o Estado ainda tornou-se forte produtor de trigo e soja, tendo em vista a aceitabilidade de tais produtos pelo setor industrial, devido ao consumo e mesmo à exportação (FONTOURA, 2007).

Nesse contexto, o jornal Correio do Povo noticia que o setor agrícola ganhou um olhar amplo no período em questão, tanto a nível estadual, como federal, tendo como fato bastante relevante a visita feita pelo Ministro da Agricultura Alyson Paulinelli ao Estado, em 1975, com o intuito de esclarecer as políticas do governo federal no que dizia respeito a investimentos no melhoramento de condições aos produtores, para que, além de produzir, pudessem comercializar seus produtos acima dos preços mínimos de mercado. Esses recursos

7 Instrumento institucional que tornou possível a efetivação de um modelo agropecuário modernizante e também

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seriam, segundo o próprio Ministro, os reflexos dos esforços do governo federal para sustentar os preços aos produtores (Correio do Povo, 18 mar. 1975).

Posteriormente o referido jornal enfatiza que um ponto específico posto em prática pela Secretaria da Agricultura foi a implementação do programa do feno, visando preparar alimentação para o rebanho bovino do Estado, a ser utilizada durante o inverno, tendo em vista a agressão do clima do Rio Grande do Sul durante a estação sobre os animais, prejudicando a criação de gado (Correio do Povo, 08 ago. 1975).

Portanto, nota-se que, no campo agropecuário, apesar de ter tido um leve declínio na questão da pecuária, o Estado atingiu índices bastante positivos na agricultura, que acabou se tornando forte representante da economia do Rio Grande do Sul.

Verifica-se que outro fator importante na economia do Rio Grande do Sul durante a década de 1970 foi o aumento considerável no setor industrial, alavancado pelos investimentos do governo federal. Um exemplo claro dessa crescente industrialização é a constatação de um êxodo rural expressivo, no qual a população urbana acabou ultrapassando a rural, apresentando um inchaço principalmente na região metropolitana de Porto Alegre (MAGNOLI; MENEGOTO; OLIVEIRA, 2001). São destacadas, conseqüentemente, as dificuldades encontradas para administrar o aumento populacional, tendo em vista as necessidades inerentes ao ser humano.

O governo Guazzelli, antes de tomar posse, buscou angariar para o Estado o terceiro pólo petroquímico (ramo da indústria que trabalha com o petróleo e seus derivados) do país, que, por tratar-se de um forte potencial para o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul, refletiu no fundamental quesito da industrialização no Estado. Transcreve-se notícia do jornal Correio do Povo sobre esse evento:

Para os jornalistas, Synval Guazzelli confirmou que tem como interesse fundamental nessa viagem a Brasília o encontro com o Ministro de Minas e Energia. E nesse encontro, a vinda para o Rio Grande do Sul do pólo petroquímico estará em pauta. O futuro governador disse que o governo federal já decidiu que esse pólo será constituído, agora cabe ao Rio Grande do Sul reivindicar a sua instalação aqui, já que o nosso estado tem todas as condições para o seu funcionamento (FUTURO governador quer pólo petroquímico para o Estado.Correio do Povo, Porto Alegre, 23 jan. 1975, p. 26).

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empregos destinado aos profissionais da área. Além do pólo petroquímico, ainda foram instaladas no Estado duas indústrias alemãs.

A primeira foi a Ferrostaal, que, congregando diversas outras empresas menores, era uma das principais indústrias de máquinas pesadas da Europa, fornecendo máquinas e tornos para equipamentos industriais até mesmo à União Soviética. A segunda foi a Woton, produtora de máquinas perfuradoras, ambas instaladas no então distrito de Gravataí, tendo seu funcionamento iniciado a partir do ano de 1976. Além dessas, o governo ainda dialogou com outras indústrias alemãs e italianas, no intuito de aumentar o potencial industrial do Rio Grande do Sul (Correio do Povo, 06 mar. 1975). Cabe destacar ainda a participação e o apoio da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (FIERGS), para que os planejamentos industriais pudessem ser consolidados no Estado.

Compreende-se, assim, que a industrialização do Estado nesse momento, além de impulsionar a economia, teve um compromisso social bastante evidente, acreditando-se assim que esse fomento na capacidade industrial contribuiu para um progresso urbano.

Outra questão bastante relevante neste período é a ênfase que tanto o governo federal, como o estadual, deram à rede rodoviária. O sistema ferroviário, que apresentou grande importância na questão dos transportes de passageiros, acabou perdendo força, tendo em vista a falta de investimentos públicos e privados no setor. Apesar de não investir no transporte de passageiros, o governo federal, entre os anos 1970 e 1980, apostou no transporte de cargas, deixando o caminho aberto às rodovias para que fossem a rede de ligação entre todos os estados do Brasil e desse com os países vizinhos (UEDA, 2007).

Percebe-se que o aumento dos investimentos na questão das rodovias foi um reflexo do aumento da população nos centros urbanos e o conseqüente aumento da frota, bem como da industrialização, e de outros setores, como o turismo, que necessitavam de uma maneira mais rápida e cômoda de transporte do que a que vinha se apresentando até o momento.

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que, além de impulsionar o turismo e demonstrar a força da indústria vinícola no Estado, servia como uma espécie de palanque político, sempre contando com presenças ilustres.

FIGURA II: O Governador Synval Guazzelli, ao centro, e o vice-presidente da República, Gen. Adalberto Pereira dos Santos, a direita – desfile de encerramento da Festa da Uva em Caxias do Sul

Fonte: Correio do Povo, 18 mar. 1975, p. 32.

Como se observa na Figura II, fica evidente a relação política entre o governo estadual e o governo federal, representado pelo vice-presidente da república gen. Adalberto Pereira dos Santos.

O governo federal sancionou, no ano de 1972, a Lei nº 5.792 (BRASIL, Lei nº 5.792, de 11 de julho de 1972), instituindo “o sistema Telebrás”, que unificou os serviços de telefonia no Brasil. No mesmo ano o ministério das comunicações determinou que cada estado do país teria uma empresa de telefonia. No Rio Grande do Sul, funcionando como “empresa-pólo”, quem passou a comandar a telefonia exclusivamente foi a CRT, que havia sido criada em 1962. Note-se que no ano de 1977 o Estado contava com “147.070 linhas telefônicas” (UEDA, 2007, p. 190).

A imprensa noticiava esses avanços governamentais demonstrando um apoio a esses empreendimentos. Assim, o jornal Correio do Povo mostrava, como reflexo das medidas tomadas em conjunto pela Telebrás e pela CRT, um aumento significativo dos serviços prestados à sociedade em uma área tão importante como as telecomunicações no Rio Grande do Sul. A exemplo desses investimentos, pode-se destacar a criação da segunda central telefônica automática na cidade de Vacaria já em 1975 (Correio do Povo, 05 ago. 1975).

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ao setor, o Estado sediou eventos como o I Seminário de Habitação Popular em março de 1976, elaborado em conjunto pela Secretaria do Trabalho e Ação Social e pela Companhia de Habitação do Rio Grande do Sul (COHAB/RS), no sentido de debater e consolidar políticas de desenvolvimento na área da construção civil, visando atender às camadas mais populares (Correio do Povo, 11 mar. 1976). Outro fator de destaque foi o III Encontro Nacional de Engenharia (III ENCO), que já havia sido realizado duas outras vezes nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro e que aconteceu no Rio Grande do Sul no mês de abril de 1976 (Correio do Povo, 06 ago. 1975).

Além destes encontros para definir as políticas tanto estaduais, como nacionais de investimento, ressalta-se o recebimento de verbas significativas pelo Rio Grande do Sul, para investimento na construção civil. Exemplo disso foram os 500 milhões de cruzeiros liberados pela Caixa Econômica Federal ainda em 1975, para os investimentos iniciais em obras no Estado (Correio do Povo, 16 ago. 1975). Sugere-se dessa forma que tais investimentos serviram para melhorar a qualidade de vida, além de atender à crescente população das cidades gaúchas.

Ainda em decorrência desses fatores, foram criados no Estado alguns poucos Centros de Recreação Comunitária (Correio do Povo, 16 ago 1975) e vários Centros Sociais Urbanos (Correio do povo, 15 ago. 1975), ambos com vistas a atender os interesses das camadas mais populares.

No campo da saúde, foram priorizadas questões fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas no sentido de melhorar a qualidade de vida da população gaúcha. O governo Guazzelli traçou um planejamento de acordo com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), visando consolidar no Estado programas para tratar do saneamento básico nos centros urbanos e da construção de postos de saúde, priorizando um melhor atendimento à população (Correio do Povo, 20 mar. 1975). Ainda foram ampliados os setores de cardiologia e de vigilância epidemiológica, com o intuito de sanar problemas básicos apresentados pela população.

Reflete-se, dessa forma, que a saúde no Estado contou com um tímido investimento, mas que representou para a época uma melhoria considerável, devido à precariedade no campo da saúde.

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