HABITUS, CAMPO E MERCADO EDITORIAL: A CONSTRUÇÃO DO PRESTÍGIO DA OBRA DE GRACILIANO RAMOS

0
0
126
2 months ago
Preview
Full text

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

  Elder Patrick Maia AlvesMaceió Catalogação na fonte Universidade Federal de AlagoasBiblioteca Central Divisão de Tratamento : Valter dos Santos Andrade Técnico Bibliotecário responsável F383c Ferreira, Cosme Rogério. Habitus, campo e mercado editorial: a construção do prestígio da obra de Graciliano Ramos / Cosme Rogério Ferreira, 2014.124 f.

DA OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  Dissertação de Mestrado apresentada aoPrograma de Pós-Graduação em Sociologia daUniversidade Federal de Alagoas, como requisito parcial para obtenção do grau deMestre em Sociologia. Habitus, campo e mercado editorial: a construção do prestígio da obra de Graciliano Ramos / Cosme Rogério Ferreira, 2014.124 f.

HABITUS, CAMPO E MERCADO EDITORIAL: A CONSTRUđấO DO PRESTễGIO DA

  OBRA DE GRACILIANO RAMOSDissertação apresentada ao corpo docente doPrograma de Pós-Graduação em Sociologia daUniversidade Federal de Alagoas e aprovada em 3 de abril de 2014. Dr.

Banca Examinadora:

  Elder Patrick Maia Alves – UFAL (Examinador Interno) Prof. Emerson Oliveira do Nascimento – UFAL (Examinador Interno) Para Nenzi, que é o vento sob minhas asas...

AGRADECIMENTOS

  Aos escritores Ariano Suassuna, Audálio Dantas, Elizabeth Ramos, Ivan Barros, Janaina Amado, José Inácio Vieira de Melo, Luiz Byron Passos Torres ( in memoriam) e Ricardo Ramos Filho; ao professorLuciano Barbosa, prefeito emérito de Arapiraca; ao cineasta Nelson Pereira dos Santos; ao senhor David Muniz (in memoriam); e ao teatrólogo Lael Correa, que forneceram valiosas informações enriquecedoras do nosso trabalho... Ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, por toda a atenção que nos foi dispensada por ocasião de nossa pesquisa em seus arquivos (a emoção de ler os originais deVidas secas é para mim indescritível)...

Assim falou Zaratustra, 1883

  As nossas personagens são pedaçosde nós mesmos, só podemos exporo que somos. GRACILIANO RAMOS, carta à irmã Marili, 1949 A vida é feita de acasos,circunstâncias, contingência.

RESUMO

  O objetivo deste trabalho é analisar sociologicamente o processo de legitimação e consagração no campo literário brasileiro a partir do estudo da trajetória do escritor GracilianoRamos no período que compreende a publicação de seu primeiro romance, Caetés, e o seu falecimento, enquanto escrevia Memórias do cárcere. Partimos da hipótese de que taltrajetória só pode ser compreendida se também for compreendido o acervo de questões políticas e culturais (portanto sociológicas) vigentes no período em que sua obra foiproduzida, isto é, entre as décadas de 1930 e 1950.

LISTA DE FIGURAS

Criança Morta, 1944. Óleo sobre tela, 176 x 190 cm.............................................92

  Figura 1 – Facsimile da capa da 1.ª edição da revista O Malho, datada de 29 de setembro de 1902 .......................................................................................................................................... Rio de Janeiro, 27 de outubro de 1942 ......................................................................

LISTA DE GRÁFICOS

LISTA DE TABELAS

  79Tabela 5 – Amostras de comentários críticos acerca de Angústia, à época de sua publicação 81Tabela 6 – Obras incineradas publicamente em Salvador durante a repressão do Estado Novo.................................................................................................................................................. 96 3.1 O mercado editorial brasileiro e o processo de profissionalização da carreira de escritor .

INTRODUđấO

  Para que essa forma de expressão exista, e seja dotada decerta função social, é preciso que também haja uma reciprocidade de valores entre o autor da obra e o público que a recebe – condição que é favorável à criação de um espaço interativo devalores sócio-históricos entre os sujeitos que aí estão envolvidos. Bourdieu tratou especificamente do campo literário em As regras da arte (1996), onde o definiu como o espaço social que reúne distintos grupos de literatos, romancistas e poetasque mantêm relações entre si e com o campo de poder – campo de forças que também é um campo de lutas.

Caetés, onde aponta em que momento e de que modo a obra literária pode ser encarada como

  Foi com Bourdieu, todavia, que o conceito promoveu uma profunda renovaçãosociológica, no sentido de se superar a antinomia indivíduo/sociedade, típica do senso comum, recusando, com isso, a toda uma série de alternativas nas quais se encerrara a ciência social – alternativas que reduziam o agenteao papel de suporte ou portador ( Träger) da estrutura (BOURDIEU, 1996, p. De acordo com essa obra paradigmática, um exame acurado nos permite verificar que as realizações mais notáveis, comumente definidas como o ponto alto de uma ou outra época,ocorrem em fases que poderiam ser chamadas apenas de fases de transição, já que “surgem da dinâmica do conflito entre os padrões das classes mais antigas, em decadência, e os de outras mais novas, em ascensão” (Ibid., p. 15).

O Dilúculo era uma publicação bimestral impressa em Maceió. Tinha quatro páginas

  O pasquim teve dezessete edições, deixando de circular em abril de 1905, mêsem que Graciliano partiu para a capital alagoana a fim de continuar os estudos no ColégioQuinze de Março, onde seu pai o matriculara em regime de internato, uma vez que não havia ginásio em Viçosa. Ainda em 1906, junto com seu amigo Joaquim Pinto da Mota Lima Filho, Graciliano arriscou publicar poemas em O Malho – revista carioca de circulação nacional, que mesclavahumor e política, fundada em 1902 por Crispim do Amaral em meio ao surto de revistas que surgiram entre 1880 e 1911 como alternativa aos jornais, e que começavam a funcionarempresarialmente.

A Campanha da Rússia, de Tolstoi; “uma infinidade de gramáticas e outras

  Para reforçar o orçamento, ele arranjou o emprego temporário de suplente de revisãono vespertino O Século, de Brício Filho, jornal de menor volume, publicidade escassa, mas que contava no quadro de colaboradores com nomes de grande prestígio político e intelectual,como Lauro Sodré, Estevam Lobo, Osório de Brito, Silva Marques e Germano de Oliveira. Antes de entrar em campo no dia 13 de maio de 1914, preocupado com a sua imagemdiante dos aristocráticos torcedores tricolores presentes à partida – de fraque, cartola e piteira –, o mulato Carlos Alberto cobriu o rosto de talco com o fim de imitar a cor da pele de seus companheiros de time.

O Índio circulou até o fim de 1925, quando foi empastelado pelo doutor Olival Lins

  No campo artístico, a efervescência do período foi a Semana de Arte Moderna, realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo,apresentando-se como uma proposta de renovação estética que valorizava a cultura nacional, para livrá-la dos padrões estéticos europeus. Em 1924, entregue aos tratados clássicos de sociologia criminal elaborados pelos italianos Cesare Lombroso e seu discípulo dissidente Enrico Ferri, e em meio a uma profunda No ano de 1925, nos fundos da Loja Sincera, Graciliano deu início à confecção de um terceiro conto, desta vez, influenciado pela prosa naturalista de Eça de Queirós.

Correio da Manhã desde 1907, dirigiu Graciliano em seu “estágio probatório” na imprensa

  Recém-chegado a Alagoas, onde assumira o cargo de fiscal debancos, o ex-promotor de justiça da cidade mineira de Manhuaçu – atuante na imprensa, já conhecido nas rodas literárias de Pernambuco e do Rio de Janeiro – acompanhava ogovernador Costa Rego a Palmeira dos Índios, onde foi apresentado ao “sábio sertanejo”, cuja fama de “homem que sabe mais mitologia no sertão” (MORAES, op. Sem dúvida, o momento crucial e determinante para o fim do descanso temporário de suas disposições literárias e a assunção da escrita como ponto de fuga é a depressãoexperimentada na primeira metade da década de 1920, cujo ápice foi a tendência ao suicídio, diante de uma vida sem perspectivas de futuro que lhe aparecia como um penoso fardo.

Caetés foi descoberto por Augusto Frederico Schmidt, o editor que lançou o livro-début de

  O testemunho de Jorge Amado, recolhido por Dênis de Moraes, nos informa que o circuitoliterário carioca-nacional obteve conhecimento da existência de Graciliano através do pintorSanta Rosa, que se demitiu do emprego no Banco do Brasil para investir na carreira artística no Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar com Candido Portinari: Santa Rosa contou de Graciliano, o relatório do prefeito de Palmeira dos Índios passou de mão em mão. Isso também é percebidopor Miceli, quando descreve o contexto que produziu Graciliano Ramos: Não é de se estranhar, portanto, que a “carreira” de romancista tenha se configurado em sua plenitude apenas na década de 1930, num momento em que odesenvolvimento do mercado do livro se alicerçava na literatura de ficção, então o gênero de maior aceitação e de comercialização mais segura.

Angústia, quando o escritor ainda vivia em Maceió. Entretanto, Graciliano entrou pela

  De qualquer modo, até que a doença que o levou à morte o impossibilitasse de frequentar a roda intelectual do Ouvidor, a Casa foi a “segunda casa” de Graciliano. Foisentado num banco no fundo da Livraria, com muita gente ao redor o chateando, queGraciliano escreveu à sua irmã Marili, então aprendiz de ficcionista, uma carta datada de 23 de novembro de 1949, na qual nos é exposta a sua concepção estética: Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida.

República, sob o título Alexandre e outros herois no mesmo ano de lançamento de Viventes das Alagoas e Linhas tortas

  Junto aSchmidt, José Lins do Rego, Francisco de Assis Barbosa e Otávio Tarquínio de Sousa, ele integrou a comissão organizadora de uma festa de aniversário que teve a forma de deliberadoato de desagravo pelas humilhações sofridas pelo escritor na cadeia. No ano da filiação de Graciliano no PCB, José Olympio publicou Infância e a Revista Acadêmica publicou Dois dedos – texto que seria reunido no ano seguinte ao conto Luciana, mais três capítulos de Vidas secas e quatro capítulos de Infância, dando origem ao título Histórias incompletas.

CONSIDERAđỏES FINAIS

  O estudo da trajetória biobibliográfica de Graciliano Ramos nos faz ver que o itinerário entre a feitura de um livro e a sua publicação é repleto de adversidades, e se sustentamais nas relações estabelecidas no espaço social de produção e consumo do que necessariamente na criação literária, na obra em si. Para tanto, o enfoque escolhido para a pesquisa inspirou-se nos vieses sociológicos de Pierre Bourdieu e Norbert Elias, quenos forneceram os instrumentos conceituais e metodológicos para que o corpus de nossa pesquisa levasse em conta os distintos elementos que influenciaram a trajetória graciliânica nocampo literário.

Sociologia do romance. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967

  Graciliano Ramos e a Novidade: o astrônomo do inferno e os meninos impossíveis. O futebol é fogo de palha: a profecia de Graciliano Ramos.

Novo documento

RECENT ACTIVITIES

Tags

Documento similar

REALIDADE SOCIAL E OPRESSÃO NO DISCURSO DE VIDAS SECAS, DE GRACILIANO RAMOS MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA
0
0
203
ESTUDO DO IMPACTO FINANCEIRO DA IMPLANTAÇÃO DE ATRIBUTOS DA CONSTRUÇÃO VERDE NO ORÇAMENTO DE UMA OBRA RESIDENCIAL VERTICAL
0
0
64
O DESVELAR DO SILÊNCIO NA OBRA VIDAS SECAS, DE GRACILIANO RAMOS PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA
0
0
121
PARA A CONSTRUÇÃO DE UM GLOSSÁRIO NA OBRA SOUSANDRADINA: uma contribuição
0
0
203
MEMÓRIAS RABISCADAS NAS CRÔNICAS DE VIVENTES DAS ALAGOAS DE GRACILIANO RAMOS
0
0
141
TRANSGRESSÃO DO PARADIGMA DA (MULTI)SERIAÇÃO COMO REFERÊNCIA PARA A CONSTRUÇÃO DA ESCOLA PÚBLICA DO CAMPO
0
0
18
ENTRE LITERATURA, MEMÓRIA E HISTÓRIA: A ESCRITA DE SI EM GETÚLIO VARGAS E EM GRACILIANO RAMOS
0
0
139
A SOCIOTERRITORIALIDADE DA AMAZÔNIA E AS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO DO CAMPO
0
0
18
A CONSTRUÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO NA ARGENTINA: UMA LEITURA DA OBRA "FACUNDO: CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE", DE DOMINGO FAUSTINO SARMIENTO
0
0
48
A PRÁTICA PEDAGÓGICA E A CONSTRUÇÃO DE SABERES DO BIÓLOGO NO ENSINO DE FÍSICA EM CIÊNCIAS NA 8ª SÉRIE LUIZ ARLINDO RAMOS DE MELO
0
0
113
A FACE TRANSGRESSORA DA PIADA E DO HUMOR NA VIDA E NA OBRA DE FREUD1
0
0
11
O CINEMA DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS E LEON HIRSZMAN NA (RE)LEITURA DE VIDAS SECAS E SÃO BERNARDO, DE GRACILIANO RAMOS
0
0
210
A FORMA E O CAMPO DE GRAVIDADE DA TERRA
0
0
42
APLICAÇÃO DO MÉTODO DE CUSTEIO POR ATIVIDADES EM UMA OBRA DE UMA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL
0
0
50
O MUNDO COMO PRISÃO E A PRISÃO NO MUNDO: GRACILIANO RAMOS E A FORMAÇÃO DO LEITOR EM PRESÍDIOS DO DISTRITO FEDERAL
0
0
160
Show more