REPRESENTAÇÃO DAS ATIVIDADES CIRCENSES NA ESCOLA

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REPRESENTAÇÃO DAS ATIVIDADES CIRCENSES NA ESCOLA

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LUIZ HENRIQUE RODRIGUES

REPRESENTAÇÃO DAS ATIVIDADES CIRCENSES NA ESCOLA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Ciências do Movimento Humano do Centro de Educação Física, Fisioterapia e Desportos da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre.

Orientador: Prof. Dr. João Batista Freire

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LUIZ HENRIQUE RODRIGUES

REPRESENTAÇÃO DAS ATIVIDADES CIRCENSES NA ESCOLA

Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação Física – Ciências do Movimento Humano.

Banca Examinadora:

___________________________________

Orientador: Prof. Dr. João Batista Freire

___________________________________

Profa. Dra. Giovana Zarpellon Mazo

___________________________________

Prof. Dr. Ruy Krebs

__________________________________

Profa. Dra. Lúcia Schneider Hardt

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AGRADECIMENTOS

Passo a agradecer pela colaboração de numerosas pessoas, as quais direta

ou indiretamente contribuíram para a conclusão deste trabalho:

Aos meus Pais, Alcyone e Marinho (in memorian), os grandes incentivadores

dos meus estudos; aos meus irmãos e sobrinhos queridos, pelos momentos de

apoio.

Aos amigos, Marcio de Borba, Valnei Luis do Rosário, Marizeti Herbst, Tadeu

Luis da Silva, Iara Neitsch, pela força e energia transmitida durante todos esses

anos em que estivemos juntos. Aos amigos do programa de Mestrado, Ciro Goda,

Cláudio Almeida, Mauren Salim, Lélia Regina Kremer, Geisa Santana pelo incentivo

e pelas sinceras contribuições em meu trabalho. Às incansáveis amigas Atagy Feijó

e Denize Rodrigues Leite, pelo carinho fraterno e solidariedade que muito

contribuíram para o desenvolvimento desta pesquisa.

Aos professores Doutores Ruy Krebs, Giovana Z. Mazo e Thais Beltrame,

pelos ensinamentos.

Ao professor Edson Stahl, por dispor os alunos à pesquisa, um amigo

incansável.

Ao orientador professor Dr. João Batista Freire, pela sua experiência e

compreensão nos momentos decisivos deste trabalho, enfim, pela sua amizade.

Aos corajosos e versáteis artistas: trapezistas, malabaristas e palhaços, pelo

carinho e aos ensinamentos da arte e do ofício de fazer rir.

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À secretária da Pós-Graduação, Solange, o meu muito obrigado pelo seu

sorriso, afeto e dedicação.

Às crianças protagonistas deste trabalho, o meu carinho e a alegria pela

motivação e participação nesta pesquisa.

A todos os profissionais da instituição escolar pesquisada por facilitar o meu

trabalho, em especial a Ana Lúcia e a Cláudia.

A todos que porventura deixei de mencionar, agradeço por me

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“Para que uma arte sobreviva ela necessita fazer escola”.

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RESUMO

As atividades circenses na escola são práticas corporais que se transformam num enredo de ações culturais e motrizes. Um riquíssimo celeiro de movimentos corporais, gestos e sentimentos que a Educação Física precisa descobrir como proposta curricular. Por isso, o objetivo deste estudo foi analisar a prática de atividades circenses na escola, como instrumento pedagógico nos conteúdos de planejamento das aulas de Educação Física escolar. A pesquisa caracterizou-se por uma abordagem qualitativa, em função de sua temática estar enfocada no comportamento humano. Como instrumentos de pesquisa foram utilizados a observação participante, visitas em circos, utilização de filmes temáticos sobre a história e vida dos povos da lona, troca de experiências com artista de circo na escola, fotografias, diários de campo, desenhos, relatos orais e escritos. Os sujeitos deste estudo constituem-se por dezesseis crianças, na faixa etária entre oito e nove anos, estudantes da 3ª série do Ensino Fundamental da Rede de Ensino Particular, no Município de Joinville, na região Norte do Estado de Santa Catarina. As atividades circenses foram desenvolvidas uma vez por semana, com duração de uma hora, conforme o combinado com a coordenadora pedagógica da escola, sendo depois descritas num diário de campo conforme a observação direta do pesquisador. O autor também aplicou entrevistas semidirigidas aos pais das crianças e com o professor de Educação Física da turma a fim de verificar a percepção dos mesmos no tocante ao desenvolvimento das atividades circenses durante a aplicação do estudo. Considerando-se que a receptividade das atividades circenses foi unânime, cativando igualmente os alunos, pais e professores; as práticas desenvolvidas atraíram e instigaram fortemente as crianças, motivando-as e desafiando-as a práticas criativas; incontestavelmente, a pesquisa fomentou a imaginação, respeitando a inteligência, valorizando o ser humano e promovendo o exercício da cidadania.

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ABSTRACT

Circuses activities at school is a body practice that summarises cultural and driving power actions. It is considered an enriching situation of body movements, gestures and feelings that PE practice needs to assume as a curriculum achievement. It is actually the aim of this study which analyses the circuses activities at school as a pedagogical planning in PE classes.

The research enhances a qualitative basis considering its focus on human behaviour. Many procedures were used on the data collecting such as participants observation, some visits to circuses,exibition of thematic films with the content of circuses people´s background, sharing experiences with the artist at school, photographies, drawings, interviews besides oral and written reports. There were on the whole sixteen participants that contributed for the building of this issue ranging from kids at the age of eight and nine years old, attending the third year of primary basis from a regular school in the town of Joinville, located in the northeast state of Santa Catarina.

The circuses activities were developed once a week with the duration of one hour, in accordance with the deal previously set with the pedagogical coordinator of the school. The collected information was kept as a record on a diary, according to the researcher observation. The author of this document also carried out some interviews with the pupils' parents as well as with the PE teacher of a selected group with the purpose of checking their perception about the development of the circuses activities during the study process.

It is considerably relevant to highlight not only the pupils positive acceptance but also the teacher´s and parents´on the whole, that surely by the mentioned exposure and practice, pupils were deeply motivated and prepared to develop challenging situations, involving their imagination, taking under consideration, individual´s intelligence limitations,admiring the human being as well as promoting citizenship.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 01 – Escala gradual de conseqüências lógicas ...30

Figura 02 – Desenho e texto de criança ...36

Figura 03 – Visita ao circo instalado na cidade de Joinville - SC ...37

Figura 04 – Materiais das atividades circenses ...38

Figura 05 – Luz, Câmera e Ação – a sétima arte vai à escola ...48

Figura 06 – Personagem do circo elaborado pelas crianças, a partir do material reciclável distribuído durante a aula...52

Figura 07 – Texto e desenho elaborado por uma criança. (Ato IV)...54

Figura 08 – Chegada do Circo na Cidade de Joinville-SC ...56

Figura 09 – Texto e desenho elaborado por uma criança em sala de aula...60

Figura 10 – Crianças em atividades circenses com a técnica do véu ...62

Figura 11 – Texto elaborado em sala de aula, após atividade prática ...64

Figura 12 – Criança caracterizada de palhaço...68

Figura 13 - Crianças e o seu palhaço Mundo Verde...75

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SUMÁRIO

RESUMO...07

ABSTRACT...08

1 - INTRODUÇÃO...12

1.1 - OS CAMINHOS QUE JUSTIFICAM ESTE ESTUDO...12

2 - CONCEITO HISTÓRICO DO CIRCO: “O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO”! ...16

2.1 - O CIRCO NASCEU NA CHINA?...17

2.2 - O CIRCO TERIA SURGIDO NA GRÉCIA? ...17

2.3 - O CIRCO ORIGINOU-SE EM ROMA?...18

2.4 - UMA NOVA ERA...19

2.5 - O CIRCO NO BRASIL...21

2.6 - O CIRCO E SUA EXPRESSÃO CORPORAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA ...22

2.6.1 - A Educação Física e a sua prática na escola: O espetáculo não pode parar!...25

2.6.2 - As Atividades Circenses na Escola – um Sonho Possível...27

2.6.3 - Os Elementos Circenses: um celeiro criativo na escola...30

3 - METODOLOGIA...33

3.1 - A ESCOLHA DO MÉTODO...33

3.2 - SUJEITOS DO ESTUDO ...38

3.3 - OS PROCEDIMENTOS DE COLETA ...39

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4 - ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS...42

4.1 – O NOSSO CAMINHAR ...43

Ato I – O encontro com as crianças ...43

Ato II – Era uma vez... Contação de histórias ...45

Ato III – Luz, câmera, ação: A sétima arte vai à escola ...47

Ato IV – A arte de criar ...49

Ato V – A quadra, um espaço de aventuras ...53

Ato VI – Senhoras e senhores “equilíbrio com objetos” ...57

Ato VII – A diversidade das técnicas circenses ...60

Ato VIII – Diversão na natureza ...63

Ato IX – Pé de lata a pé de pau ...65

Ato X – Risos e alegrias de brincalhão, o palhaço ...67

4.1.1 – Os elementos circenses: um cenário de aventura ...87

4.1.1.1 – Desafios, sensações e significados dos movimentos na cama elástica...87

4.1.1.2 – Percepções das crianças na arte do malabarismo ...89

5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ...95

REFERÊNCIAS...97

APÊNDICES ...102

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1 - INTRODUÇÃO

1.1 - OS CAMINHOS QUE JUSTIFICAM ESTE ESTUDO

Hoje tem espetáculo? Tem sim senhor. Hoje tem marmelada? Tem sim senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim senhor. Essas perguntas cantadas imortalizaram as nossas brincadeiras em tempo de infância. A linguagem, a magia, a liberdade, as cores e as formas continuam vivas em nossa memória, incorporando-se à nossa história como uma paixão, um impulso criativo pelo circo e incorporando-seu universo fantástico.

As imagens circenses são lembranças do mais antigo espetáculo do mundo o qual tem sido alvo de várias definições: arte ancestral e única; o útil elevado ao sublime; o último vestígio de um saber antigo ligado a diversos povos e a diversas culturas. O maior espetáculo da terra; imagens, cenários e memórias da infância do ser humano desde o seu despertar para a diversão. O risco ao fundo e do fundo do tempo, uma marchinha, ou melhor, uma trilha sonora da nossa própria infância (TORRES, 1998).

O circo, uma arte viva de emoções com rico conteúdo cultural e motriz, contagia as nossas lembranças, levando-nos ao passado, haja vista a euforia das crianças ao vê-lo chegando às cidades com seus carros alegóricos, bandas, artistas, desfile de várias atrações em ruas estreitas e descalças.

A curiosidade foi e sempre será tentar espionar por baixo da grande tenda armada em terreno baldio os ensaios para o espetáculo de estréia. Durante essa descoberta os olhos estão sempre atentos a qualquer movimento, querendo encontrar seus personagens e suas histórias de viajantes.

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onde os artistas, malabaristas, contorcionistas, ilusionistas e equilibristas são ansiosamente aguardados.

Nessa fábrica de sonhos da infância é natural que toda criança curiosa busque um encontro com os artistas, principalmente com aqueles que vestem roupas coloridas e largas, sapatos grandes, gravata imensa, o rosto pintado com cores vivas, além de usarem uma indiscreta bola vermelha na ponta do nariz. O palhaço é para as crianças um dos principais personagens do mundo encantado do circo. Mistura ficção e realidade. Diverte platéias pelos quatro cantos do mundo.

As atrações circenses contaminam pela emoção. É um ambiente onde tudo é possível. Nesse espaço há um despertar do corpo para as manifestações de alegria, riso e fantasia; transformando a condição humana em fascínio pelas práticas corporais.

O que gerou em mim esse verdadeiro encanto pela simulação de novas experiências nas aulas de Educação Física foi a magia de poder transferir momentos de fantasia para o brincar inocente da criança, aliada à necessidade de conhecer e de reinventar novas práticas pedagógicas.

O circo é assim, uma prática corporal que se transforma num enredo de ações espetaculares que há séculos nos contagia e que deve continuar despertando o interesse de nossas crianças, jovens e adultos. Ele provoca no ser humano uma sensação de euforia e felicidade. É um mundo repleto de expressão e mágica escondido sob uma tenda colorida, onde estão guardadas as melhores gargalhadas e aventuras.

A inspiração para a execução deste trabalho veio-me pelas recordações de minha própria história de vida: das lembranças da infância, das experiências como professor de Educação Física no Ensino Fundamental e também daquelas que participei como ator cômico na arte do palhaço gestual.

Além disso, percebi que algumas questões como as atividades expressivas nas instituições escolares, tais como a dança, o teatro e as atividades circenses ocupam pouco ou quase nenhum espaço durante as aulas de Educação Física escolar.

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Para tanto, busco fundamentação nas palavras de Bortoleto e Machado (2003, p.57):

Ao considerar o circo como parte da cultura humana, particularmente da cultura artística corporal, podemos justificar sua presença no universo educativo como pertinente considerando-se que um dos deveres da “escola” é o de transmitir o legado cultural existente.

Para os mesmos autores, a escola é um espaço necessário para incentivar a criatividade, a espontaneidade, a imaginação e os demais aspectos relacionados ao desenvolvimento da capacidade de expressão corporal, sendo também uma agente de mudanças sociais. Nesse sentido, deve oportunizar momentos marcantes, plenos de experiências significativas que envolvam sentimentos e fatos da história de vida.

É função da Educação Física, proporcionar alternativas de incentivo criativo e de expressão corporal, garantindo na escola um espaço de resgate histórico da cultura popular, a qual é composta por instrumentos poderosos de construção para uma educação inclusiva.

Faz-se necessário lembrar que na cultura infantil existe um rico e vasto mundo de movimentos e fantasias a serem explorados, quase sempre ignorados pelas instituições de ensino. Freire, J. B. (2001).

Com isso, percebe-se a necessidade do desenvolvimento de uma proposta pedagógica nas aulas de Educação Física, as quais incluam as atividades circenses. Estas oportunizarão vivências corporais às crianças que utilizem as linguagens expressivas, das relações, da beleza, integrando-se ao seu acervo cultural como princípio norteador de sua aprendizagem.

Conforme Souza (2000), as aulas de Educação Física por meio de movimentos circenses favorecem também o desenvolvimento da sensibilidade, da expressividade, da criatividade e da espontaneidade das crianças e de seus movimentos.

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A realização deste estudo tem por finalidade demonstrar que as atividades circenses podem fazer parte dos conteúdos das aulas de Educação Física. Outrossim, pode vir a despertar o interesse entre os profissionais dessa área sobre esse tipo de cultura e levá-los a compreender que o fazer pedagógico pode superar os muros da escola, visto que a expressão dos gestos humanos da cultura circense pode ser compreendida e associada à prática. As atividades circenses podem ser praticadas em vários espaços, sem que o aluno tenha que necessariamente freqüentar uma escola de circo e, além disso, entende-se que será levada a arte para a escola, que é marginalizada e abandonada pelos profissionais da Educação Física.

Notadamente, é inerente à infância a fantasia, e deixá-la de cultivá-la na escola durante as aulas de Educação Física é um contra-senso. Então, por que lançar mão dos sonhos, das aventuras de “subir ao céu”, das brincadeiras de herói, de ser palhaço, bailarina, trapezista, malabarista; na simplicidade e diversidade do cenário, do palco, do picadeiro; enfim, desobrigar-se dessa rica pluralidade cultural que o circo nos oferece?

Por conseguinte, fixou-se como objetivo principal deste estudo analisar as atividades circenses como cultura corporal e sua inserção no contexto pedagógico da disciplina de Educação Física Escolar.

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2 - CONCEITO HISTÓRICO DO CIRCO: “O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO!”

Para resgatar a história do circo desde a sua origem como conhecimento cultural, bem como a sua representação na sociedade, é importante tentar localizá-lo no tempo e no desenvolvimento da humanidade.

O circo é o último vestígio de um saber antigo, existencial e iniciático. Esse saber, essa arte ancestral e única que é o circo só se perpetua graças a dois mecanismos: a transmissão do saber de pai para filho e o ensino proporcionado por uma escola. (ZIELGLER apud BORTOLETO M. A. e MACHADO G. A., 2003, p.64 ).

O circo nasce com suas luzes, a música, a magia, o rufar dos tambores no salto mortal dos homens pássaros do trapézio e com a beleza e o brilho do grande espetáculo. É uma fábrica de emoções, de arte e cultura e, para compreender os seus personagens, o seu enredo de sonhos e fantasias, faz-se necessário um breve passeio pela história buscando as raízes dessa arte milenar.

É muito difícil precisar a origem dos espetáculos, bem como as práticas corporais circenses, uma vez que foram sendo constituídos ao longo dos séculos sob a influência dos povos da Grécia, Roma, Egito e China, em recintos fechados ou abertos, os quais marcaram o surgimento do gênero dessa arte, muitas vezes considerada como o espetáculo mais antigo do mundo (RUIZ, 1987).

Artigo publicado pelo Jornal a Página da Educação (2000), em seu editorial, relata a origem do circo como um acontecimento dos antigos povos da pré-história:

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2.1 - O CIRCO NASCEU NA CHINA?

Na sua trajetória histórica, referências sobre o circo foram encontradas em manuscritos antigos há mais de cinco mil anos na China. Com o único objetivo de aumentar a agilidade, a flexibilidade e a força física de seus guerreiros, treinavam acrobacias e equilibrismo. Era uma forma de treinamento de guerra. (BORTOLETO e MACHADO, 2003).

Os mesmos autores, em seus estudos e reflexões sobre o circo, descrevem as habilidades dos guerreiros chineses, que utilizavam objetos em seus treinamentos de guerra, manipulando por meio das acrobacias, as suas armas, utensílios domésticos, jarras e porcelanas que lançavam e pegavam com diferentes partes do corpo. Era uma forma de diversão e entretenimento e de apresentar as suas agilidades corporais como arte marcial.

Com o passar do tempo, a essas qualidades somaram-se graça e leveza aos movimentos que foram sendo aperfeiçoados para apresentação a visitantes do império chinês.

2.2 - O CIRCO TERIA SURGIDO NA GRÉCIA?

Na Grécia, os conquistadores gregos, em sua busca particular de manifestação de força, participavam de exibições de malabarismos com objetos de grande porte e relativamente pesados, como por exemplo: rodas de carroças. Os gregos também demonstravam as suas proezas em desfiles pelas vilas e expunham seus adversários vencidos e escravizados em suas batalhas como forma de méritos.

Segundo Bolognesi (2003, p. 24):

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Esse conceito de exibição com animais persiste ainda na atualidade atraindo alguns olhares críticos com relação à crueldade sofrida pelos mesmos. As raízes gregas do circo estariam escritas nas Olimpíadas da Grécia Antiga.

Havia um lugar designado para apresentações destinadas à contemplação da estética e valores nobres como a beleza, a verdade e a evolução e aventura de corpos no ar, em barras e argolas.

2.3 - O CIRCO ORIGINOU-SE EM ROMA?

Para Melo e Alves Júnior (2003, p. 03):

Em Roma observa-se uma preocupação dos políticos romanos em oferecer ao povo diversão popular, como práticas de distração e alienação, uma forma de dominação e controle da massa. Inaugurava-se o que chamamos de política do “pão e circo” em período de festas religiosas.

Os espetáculos de circo romano aconteciam em uma arena para milhares de pessoas, em festas públicas e apresentavam corridas de cavalos e de carros ou charretes.

De acordo com Bolognesi (2003, p.27), “a aceitação popular dos espetáculos despertou a atenção dos políticos em Roma, os quais pretendiam aumentar sua popularidade perante o povo. A decisão foi assumida e incentivada pelo imperador César como marketing pessoal”.

Na época também aconteciam duelos de vida e de morte em uma arena. Os gladiadores lutavam aos olhares do público presente, tendo como adversários animais capturados em batalhas que eram expostos em combate com os homens. Foram os romanos com seus espetáculos públicos que deram origem ao nome circo.

A raiz desse termo é mantida até hoje.

Os divertimentos e jogos públicos era a grande política do estado romano, assim como os ideais militares eram os de conquistar terras e subjugar o povo, fazendo-os escravos. (BOLOGNESI, 2003).

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divertimento do povo daria lugar ao grande Coliseu de Roma, cujas ruínas se encontram hoje para visitação pública.

Para Torres (1998), as apresentações foram marcadas pelas excentricidades de homens nórdicos, animais exóticos, engolidores de fogo, e gladiadores (lutadores profissionais que participavam de espetáculos de combates armados nos antigos circos e anfiteatros romanos).

2.4 - UMA NOVA ERA

Dando um salto à Idade Média, surgiram os espetáculos aos quais hoje chamamos de “circenses”. A proeza do circo, nesta fase, está na união das famílias circenses nos festejos em praças públicas, onde trocam momentos de alegria por comida, bebida, moedas, roupas, inclusive um lugar para dormir (GUZZO, 2004, p.19).

Porém, é preciso ressaltar a importância de artistas nômades chamados de saltimbancos que também se apresentavam em praças, festas públicas e carnavais. Esses artistas, viajantes ambulantes da Idade Média, eram homens com habilidades diversas e extrema força física, que se arriscavam em movimentos ginásticos acrobáticos.

Para Guzzo (2004), a imagem desses artistas de rua, para o povo da época, era a idéia de um corpo livre, forte e ao mesmo tempo grotesco, uma mistura de fascínio pelas suas apresentações públicas e ao mesmo tempo de repúdio por serem ambulantes sem destino.

A relação entre os saltimbancos e as famílias de artistas circenses motivou novos espetáculos e possibilitou a instalação de novas companhias, bem como o aprimoramento de outras artes com o corpo e aquisição de novos elementos acrobáticos. Nos números circenses, não há disputa e nem vencedores, mas uma proeza na introdução de outros elementos nos espetáculos circenses com caráter de diversidade e espontaneidade.

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executando evoluções com e sem obstáculos e no dorso do animal eram realizados exercícios acrobáticos.

Vale ressaltar que o próprio Astley dirigia e apresentava seus espetáculos, criando assim, a figura do mestre de cerimônias.

Para Carvalho e Mota (2000), o espetáculo de circo moderno foi concebido a partir do momento da introdução de cavalos. Símbolos de nobreza naquele tempo eram tão importantes que não se podia imaginar um circo sem eles, o que motivou o poético nome “Circo de Cavalinhos”. Mais tarde essa prática circense tão apreciada com cavalos passou a entediar o público e exigiu novas atrações, como a introdução de números acrobáticos.

Os elementos artísticos exigiram a busca de adereços e novos figurinos. Ocorreu a inserção da música e a iluminação com tochas de fogo nas performances circenses, as habilidades no domínio de objetos acrobáticos, trapézio e equilibrismo, os truques de magia e o controle sobre feras.

Nesse período as artes corporais começaram a recobrar seu espaço, voltando pouco a pouco à realidade cidadã. Os primeiros circos clássicos foram construídos em anfiteatros permanentes, nos grandes centros urbanos.

Para Bolognesi (2003), as apresentações marcadas na França para o Rei Luiz XV (1774) e a Rainha Maria Antonieta (1783) levaram o circo à aristocracia. O circo, nessa época, com suas grandes apresentações e desempenho de artistas teve seu ápice.

O sucesso e as proporções dos espetáculos fizeram com que Astley, suboficial da Cavalaria Britânica, instalasse seu circo em plena Revolução Francesa. O espetáculo circense, nesse tempo, era destinado aos aristocratas e à burguesia. Dessa forma, o circo não tinha nada de popular.

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2.5 - O CIRCO NO BRASIL

No Brasil, as atividades circenses vindas da Europa começam a se organizar com grande influência de famílias francesas, espanholas, portuguesas e italianas. O aparecimento dessa arte entre as tradicionais famílias proporcionou um intercâmbio de conhecimentos e diversificaram-se as modalidades e estilos.

Bolognesi (2003) refere-se aos primeiros circos no Brasil a partir do século XVIII. Eram artistas ambulantes que freqüentavam as festas religiosas. Faz também alusão aos ciganos instalados nos arredores das cidades brasileiras. Com isso, a preservação da cultura circense no Brasil somente aconteceu com a persistência de grupos familiares, sobreviventes ao preconceito contra as grandes armações de lona.

As famílias que se dedicaram às atividades circenses no Brasil envolveram seus descendentes na realização da montagem dos espetáculos. As crianças eram iniciadas na prática das atividades circenses com pequenos números, sendo preservada assim a transmissão do saber circense e seus ensinamentos, garantindo dessa forma a sobrevivência da arte e da tradição do circo.

Para Torres (1998), a tradição circense no Brasil, segundo seus registros, organizou-se com a permanência de artistas estrangeiros em suas apresentações nas terras brasileiras. Espalharam-se pelo país e começaram a montar grupos e a vender espetáculos para o entretenimento do público em geral. Destaca-se a influência de um convívio festivo nas apresentações do circo no Brasil valorizando a presença marcante do palhaço em suas peças teatrais cômicas e com vistas a ridicularizar os personagens do dia-a-dia.

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De acordo com Bolognesi (2003, p.53):

O palhaço é figura central dos espetáculos, ele é o personagem responsável pela insolência e irreverência que é capaz de satirizar a todos e a tudo, especialmente às instituições. Ele tanto participa das entradas, ou mesmo de outros números, da primeira parte, como também está presente nas peças e nos shows que compõem a segunda parte do espetáculo, com as mais diversas funções.

A arte da pantomima sobrevive por meio da história, ao deixar uma cultura de vida circense para as próximas gerações. A graça e o riso deixam personagens que

ilustram o cenário, conforme os estudos de Carvalho e Mota (2000). Para esses autores, os palhaços são personagens ilustres que utilizam o rosto

coberto de cores vibrantes, do vermelho ao branco e preto, de riso solto e alegre, que em tardes de domingo desfilavam suas interpretações no cenário da animação, tais como, Abelardo Pinto (PIOLIN); Waldemar Geyssel (ARRELIA) e George Savala Gomes, o nosso saudoso CAREQUINHA.

Esses artistas, por intermédio de um repertório cômico, interagiam com o público, fazendo com que participassem do número que estava sendo apresentado, dando especial leveza ao espetáculo.

2.6 - O CIRCO E SUA EXPRESSÃO CORPORAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA

O que encantou multidões no passado, de acordo com Souza (2004), permanece atual: a chegada desse espetáculo continua sendo entusiasmada e barulhenta, as crianças acompanham o palhaço cantando versos e o repentino aparecimento de um imenso toldo de lona em algum terreno desocupado. A chegada do circo não deixa de chamar a atenção e de alterar momentaneamente a paisagem e a rotina do bairro, trazendo diversão, música e espetáculos no velho estilo da tradição circense.

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De acordo com Bortoleto e Machado (2003), a arte das atividades circenses constitui-se a partir de movimentos que são os mesmos utilizados na aprendizagem do esporte, os quais podem ser praticados em níveis de estágios diferentes, do inicial ao elementar, do simples para o complexo.

As atividades circenses inseridas na Educação Física escolar podem despertar os aspectos relacionados à capacidade de expressão corporal e resgatar os reais valores do ser humano, mediante o desenvolvimento da sensibilidade, estética e criatividade, sendo possível a promoção e a interação sócio-cultural.

Ao introduzir as atividades circenses nas aulas de Educação Física, as crianças participam e cultivam a imaginação e a criatividade de forma natural. A aprendizagem ocorre de forma prazerosa, as emoções são despertadas e a plasticidade corporal torna-se o elemento lúdico principal da aula.

Para Santos (2006, p.36), “a prática lúdica na escola é entendida como ato de brincar das crianças, permite um mergulho na cultura e na sua trajetória, ao longo dos tempos acumulando informações”.

Souza (2000, p.02) assegura que:

Através das atividades circenses podemos trabalhar uma concepção de Educação Física mais transformadora, crítica, possibilitando que as crianças criem seus próprios movimentos de maneira espontânea.

Para a autora, a Educação Física precisa oportunizar as crianças momentos de liberdade em que seja facilitado o desenvolvimento social, com movimentos corporais, gestos e sentimentos que lhe dêem prazer e espontaneidade.

Romera (1999, p.79), afirma que:

[...] o rico espaço da Educação Física, como encontro humano de estar abordando a cultura corporal da expressividade na escola. Para tanto se faz necessária uma compreensão diferente da que podemos observar hoje no universo escolar. Uma educação que contemple o corpo de um modo mais leve, mais espontâneo, mais criativo.

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Segundo Silvia e Betti (2005), conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física (PCNS), a Educação Física trata a expressão corporal somente vinculada às danças, ou seja, o samba, o xaxado, o bumba-meu-boi ou boi-de-mamão, o frevo, danças européias e americanas e as brincadeiras cantadas, entendendo que essas manifestações artísticas de expressão corporal existam unicamente em tal âmbito.

A expressão corporal é uma linguagem com identidade e com conteúdos próprios, mas os Parâmetros Curriculares Nacionais que documentam a Educação Física não abordam as atividades circenses como prática pedagógica do movimento humano.

Nesse sentido, de acordo com Freire, J.B. (2006, p.130):

Na escola tradicional não se pode ser feliz. Nela, a felicidade está por vir, não está aqui. Não faz sentido organizar aulas pretendendo que os alunos sejam felizes, pois elas são apenas preparação para a felicidade que está no futuro [...]. A escola deveria ser uma das instâncias de vida, um lugar, não para preparar para a vida, mas para ensinar a viver vivendo.

Portanto, pode-se dizer que a escola tem como objetivo retirar a alegria, impondo o obrigatório. Os alunos têm de sentar num espaço limitado para se expressar em que o controle do corpo é feito com regras e normas. A alegria, porém, deve estar presente na beleza e na ludicidade, baseados numa espontaneidade seguida pelo íntimo e indivisível ser, a criança.

Apesar de todas as mudanças, a escola atual ainda continua anestesiada diante das propostas inovadoras. De acordo com Bortoleto e Machado, (2003, p. 58):

A pertinência das atividades circenses e a sua localização nos diferentes conteúdos da Educação Física, parece que esse tipo de prática continua sendo abandonada e esquecida, ou seja, o circo e os demais conteúdos expressivos (dança, teatro gestual, etc.) ocupam pouco espaço nas aulas de Educação Física, estando restrito às atividades extra-escolares.

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2.6.1 - A Educação Física e a sua prática na Escola: O espetáculo não pode parar!

Na vida escolar, a Educação Física congrega, reúne e socializa todo indivíduo, estando comprometida com a aprendizagem do movimento e com a aprendizagem por meio do movimento. É nesse espaço de brincadeiras inseridas num mundo imaginário e de fantasia que a criança estabelece relações com conhecimentos culturais no contexto educativo.

Conforme Bortoleto e Machado (2003), as atividades circenses fazem parte da cultura humana, particularmente da cultura artística corporal, justificando assim sua presença no universo educativo. Dessa forma, o universo cultural da criança amplia-se com a leitura, a escrita e a interpretação do mundo em que vive, com sensibilidade e afetividade, utilizando-se diversas linguagens numa busca incessante de novas aprendizagens e conhecimentos.

Para Freire J. B. (2006), a Educação Física ensina a viver a partir do maior instrumento pedagógico colocado à disposição dos alunos na escola, as expressões corporais, tornando-as criativas e ativas no seu processo de desenvolvimento.

Cabe aqui neste trabalho, promover uma reflexão com os educadores, profissionais de Educação Física, a respeito das atividades circenses como uma ação pedagógica na escola, uma ferramenta capaz de otimizar ações pluralistas, transformando a escola num ambiente motivador e aprazível.

Algumas vezes os educadores pensam que estão certos e comprometidos com a educação, mas ainda estão ligados ao ranço do autoritarismo, alienados do processo de educação para a autonomia, presos a antigos métodos.

Nas palavras de Freire. P. (2005, p. 61): “A boniteza de ser gente se acha, entre outras coisas, nessa possibilidade e nesse dever de brigar. Saber que o respeito à autonomia e à identidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber”.

A Educação Física escolar precisa abrir as janelas da alma para invadir os territórios desconhecidos e aventurar-se nas terras distantes da beleza e dos sonhos da criança: do brincar brincante de heróis, fadas, mosqueteiros, reis e rainhas.

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nossos pensamentos e ações do dia-a-dia. Portanto, os muros escolares precisam ser abertos a novas propostas e idéias educativas, de realizar sonhos possíveis, sem medo de ir além dos limites da quadra, compartilhando histórias, construindo novos horizontes e significados mediante a partilha de múltiplas experiências culturais.

Freire, J.B. (2005, p. 07) nos questiona quando diz:

(...) como fazer para ultrapassar os muros da escola? Não basta nossa boa vontade, não somos mágicos. Precisamos ter à mão metodologias poderosas, capazes de levar para a distância os ensinamentos da escola, não somente os conteúdos claros, específicos, mas também, e principalmente, aquilo que está por trás dos conteúdos explícitos.

A escola precisa respeitar a bagagem de conhecimento que o aluno possui em seu universo, casa, família, rua. A sua presença na escola deve ser marcada por felicidade, aumentando o seu potencial criativo e humano.

Segundo Goda (2005), as crianças na escola precisam de um espaço físico onde elas aprendam com as suas próprias ações e atitudes e onde possam movimentar-se livremente, criar, construir, edificar experiências educativas. É por intermédio do ensino-aprendizagem que a criança constrói seus próprios conhecimentos. Concordamos com o autor: o abismo entre a escola e o ambiente da criança precisa ser preenchido com novas práticas e com a valorização de novas linguagens.

Afirma o educador Ruben Alves In: Conversas Com Quem Gosta de Ensinar (1998, p.37):

Não serão fúteis todas as questões que não dizem respeito ao corpo? E se o homem se entrega a questões, as mais distantes, as mais abstratas, não será por causa – o seu amor ao seu corpo, a sede de sua dor, o lugar do seu amor, a possibilidade do prazer? Weber estava correto ao afirmar que mesmo as pessoas religiosas em busca de um céu no futuro estão, em última análise, pensando e agindo a partir de necessidades do qual e agora. Quem acredita no céu pode dormir melhor e quem confia na providência divina tem menos enfartes do miocárdio.

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O educador realiza os movimentos comandando os alunos, os quais são repetidos fielmente e, nesse momento, há o desconhecimento do processo da prática educativa e da própria educação. É comum encontrarmos em determinados momentos dessa prática alunos que não entendem as ordens, sendo punidos pela instituição com o próprio corpo.

Para uma educação aprimorada, devemos buscar a construção de uma metodologia com atividades contínuas, com articulação, unidade, pesquisa e consistência no ensino, pois a vida é processual, a consciência é determinada pela vida e não ao contrário.

Feliz será o dia em que se puder chegar à escola e presenciar as suas telhas todas coloridas atraindo crianças como ímãs. Lá dentro música e um palco onde acontecem os sonhos e as fantasias das crianças, pois o corpo infantil não pode ser limitado, ao contrário, ele lhes possibilita subir às estrelas e construir arranha-céus.

2.6.2 - As Atividades Circenses na Escola – um sonho possível

A criança que sonha é uma criadora de mundos, é uma inventora de ousadias e utopias. As viagens oníricas que se seguem evocam silêncios e vozes, saberes e poderes, dores e prazeres, sorrisos e lágrimas, dúvidas e certezas, fraquezas e fortalezas, conformismos e resistências (SILVA, 1999, p. 64).

Ao estudarmos as atividades circenses na escola, torna-se necessário remetermos-nos primeiramente à etimologia da palavra circo. Em seu dicionário da língua portuguesa, Silveira Bueno (2000, p. 169) registra a palavra como um anfiteatro circular para espetáculos e o senso comum insinua que “circo” vem de circular, numa alusão à forma circular mais freqüente dos picadeiros, desde o tempo do Coliseu Romano até os tempos atuais.

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Para Bortoleto e Machado (2003), as atividades circenses são de caráter motriz e de conteúdo pertinente à Educação Física. Consideram que um dos deveres da escola seja transmitir o legado cultural existente.

A escola é um espaço onde as atividades circenses podem ser ilustradas por intermédio de seus elementos: o palhaço, malabares, trapézio, perna de pau, corda cigana, expressões gestuais dos povos da lona. Uma história de humildes sobreviventes, de uma cultura milenar abandonada em álbuns de fotografias, em enciclopédias e livros em estantes empoeiradas, em bibliotecas da escola.

Essa riqueza de conteúdo das atividades circenses precisa ser redescoberta e contemplada pela Educação Física. Trata-se de um tesouro que o respeitável público infantil precisa aplaudir e vivenciar por meio das cores repletas de gestos e sons que inter-relacionam movimento, criatividade e fantasia.

Para AMES (1999), a escola é um espaço onde novas linguagens precisam ser revisitadas em seus conteúdos escolares, articulados à realidade e ao interesse do aluno, num exercício de pleno incentivo à criatividade.

Dessa forma, a proposta da inserção de atividades circenses na escola, em especial, na disciplina de Educação Física, pode contribuir de forma inovadora, para que os alunos obtenham novas oportunidades de trabalhar o corpo, tanto na condição física quanto na afetiva.

Nessa perspectiva, as atividades circenses abrem novos caminhos, encontram raízes na pedagogia do movimento e começam a transcender o espetáculo que aplaudimos no circo para uma forma educativa e recreativa na escola.

Segundo Bortoleto e Machado (2003), a prática das atividades circenses é constituída por três eixos distintos em seus conteúdos: o recreativo, o educativo e o profissional. Para ilustrá-los sucintamente será mencionada a denominação proposta pelos autores acima citados.

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dos profissionais envolvidos, recursos motores dos alunos e os cuidados com a segurança são mínimos nesse âmbito, o que permite a qualquer pessoa se envolver. Educativo: Nesse campo, as atividades circenses são ferramentas relacionadas à vertente educativa, realizadas dentro das escolas como conteúdos curriculares e possibilitam o conhecimento da cultura do circo como enfoque lúdico. O envolvimento do professor com o aluno é fundamental durante a execução dos movimentos.

Esse processo da aprendizagem ocorre na escola como uma fase inicial das atividades circenses, desenvolvendo a criatividade, a comunicação, a interpretação gestual de personagens e a beleza do movimento. Nessa fase, a criança constrói na escola uma estrutura de conhecimento da cultura corporal e envolve-se na história do mundo do circo.

As atividades circenses na escola, envolvendo o material específico do circo, são apresentadas com baixo custo. Equipamentos podem ser construídos por meio de materiais recicláveis. É importante salientar que o aspecto de segurança no manuseio dos equipamentos deve ser evidenciado para que se evitem possíveis acidentes. Diante disso, todos os alunos serão envolvidos durante a execução das atividades como proposta nas aulas de Educação Física escolar.

Profissional: Nessa categoria, as atividades circenses são envolvidas em um repertório amplamente técnico de aperfeiçoamento e preparação física, amplia-se a cultura corporal mediante um treinamento de alto nível de seus praticantes. A estrutura e material específico para a prática de atividades circenses profissionais são de alto custo. É necessário, portanto, um estudo especializado em escolas de circo para a profissionalização e conhecimento da utilização de equipamentos de segurança para as práticas específicas do circo.

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Ludicidade

Educativo

Recreativo

Profissional

Desenvolvimento Técnico

Imersão na Cultura Circense

Necessidades Materiais

Especialização do Professor

Experiência Prévia dos Praticantes

Figura 1 – Escala gradual de conseqüências lógicas Fonte: Bortoleto e Machado (2003).

2.6.3 - Os elementos circenses: um celeiro criativo na escola

Com a aproximação dos elementos circenses na escola, possibilita-se um enredo de arte e expressão humana. Nesse sentido buscou-se inserir os alunos no universo da cultura corporal circense a fim de lhes transmitir o conhecimento de forma lúdica e harmoniosa, contendo rico conteúdo motor.

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a) Classificação dos Elementos Circenses

MODALIDADES

COM MATERIAL

ELEMENTOS DO CIRCO

TAMANHO GRANDE

TRAPÉZIO

BÁSCULA RUSSA

MASTRO CHINÊS

TAMANHO MÉDIO

MONOCICLO

PERNA DE PAU

BOLAS DE EQUILÍBRIO

TECIDO

TRAMPOLIM ACROBÁTICO

TAMANHO PEQUENO

MALABARES

ROLO AMERICANO

MOEDAS E BARALHO

FANTOCHES E MARIONETES

ACROBACIAS NO CHÃO

MODALIDADES SEM MATERIAL

CONTORCIONISMO

EQUILIBRISMO

CLOWN (PALHAÇO)

MÍMICA

Fonte: Bortoleto e Machado (2003)

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de se relacionarem eticamente com os outros. Foram condições essenciais no ensino escolar para que as crianças apreciem e desfrutem as representações circenses.

Com relação aos elementos circenses de tamanhos médio e pequeno, bem como à modalidade sem material, num nível elementar de iniciação, representaram o conjunto ideal das atividades circenses que foram aplicados na escola a partir do nosso projeto de estudo. As exigências técnicas, isto é, aquelas que se referem aos gestos do circo, potencializaram-se neste trabalho de representação das atividades circenses, em que o fator lúdico, a expressividade e a criatividade, hoje em dia, são excluídos do universo infantil nas nossas escolas.

Para Bortoleto e Machado (2003), aplicar as atividades circenses no âmbito educativo da escola, em especial como conteúdo da Educação Física, é criar as bases do futuro público da apreciação de espetáculos artísticos para o aprimoramento do educando como pessoa-cidadã do mundo.

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3- METODOLOGIA

3.1 - A ESCOLHA DO MÉTODO

Esta pesquisa foi fundamentada em procedimentos de pesquisa qualitativa, mais particularmente aqueles vinculados à pesquisa participante, a qual prioriza o envolvimento direto do pesquisador com a pesquisa. Nesse tipo de abordagem a intenção assumida não foi a de generalizar resultados com o estudo de numerosos casos, mas a de construir possibilidades de generalizar novos conceitos e pressupostos levantados por meio da análise aprofundada de um pequeno número de casos.

Nesse sentido, em consonância com Libânio apud Antunes (2002, p.13), a respeito da importância do método temos:

Dizer que o professor tem método, é mais que dizer que ele domina procedimentos e técnica de ensino, pois o método deve expressar também uma compreensão global do processo educativo na sociedade: quanto ao fim social e pedagógico de ensino, às exigências e desafios que a realidade social coloca, às expectativas de formação dos alunos para que possam atuar na sociedade de forma crítica e criadora, às implicações da origem de classe dos alunos no processo de aprendizagem e a relevância social dos conteúdos de ensino.”

Para contemplar a metodologia, foram adotados alguns procedimentos necessários no decorrer da investigação, possibilitando a análise do estudo proposto a partir das atividades desenvolvidas neste trabalho. Foram ações de ordem prática e que exigiram critérios bem definidos, buscando respeitar o rigor que o método de uma pesquisa científica exige.

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O emprego dos aspectos metodológicos demonstra a sua utilidade no campo da pesquisa, na tentativa de elaborar e organizar situações positivas em programas que influenciem, positivamente, indivíduos e grupos populacionais que se deseja atingir (IERVOLINO, 2005).

De acordo com Minayo (2003, p. 207), “A pesquisa qualitativa responde questões particulares, preocupa-se com as ciências sociais, um nível de realidade que não pode ser quantificado (...)”.

Para a autora, o pesquisador que opta pela metodologia qualitativa, usa a

interpretação em todas as etapas do trabalho, preocupando-se com o universo da pesquisa com motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes.

Julgou-se mais pertinente a utilização da observação participante, uma das abordagens que encontramos dentro da pesquisa qualitativa. Para tanto, as anotações de campo registraram o maior número possível de impressões sobre as representações da cultura circense na escola.

A utilização da técnica da observação contribuiu para uma análise real do seu contexto, partindo-se do princípio de que o pesquisador teve um grau de aproximação e interação com os sujeitos da pesquisa e o fenômeno estudado.

Segundo Silva (2000), a observação deve ser realizada de forma minuciosa, pois, do contrário, corre-se o risco de ver muito e identificar pouco, enquanto um pesquisador social com idéias pré-estabelecidas acaba vendo apenas os fatos que confirmam as suas concepções forjadas a priori. Destaca completando que a observação realizada no trabalho de campo deve ser apurada com rigor, sensibilidade e amiúde, sendo um treino para os olhos do pesquisador.

Nesse sentido, Triviños (1992) revela o envolvimento do pesquisador com a pessoa ou grupo estudado, criando condições privilegiadas para o processo de observação. São medidas valiosas, frente aos problemas da pesquisa qualitativa e na busca de alternativas metodológicas para a investigação.

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Sobre a adoção de entrevista semi-estruturada, Triviños (1987, p. 74) revela que:

É um instrumento de coleta utilizado para obter informações a respeito de questões concretas previamente definidas pelo pesquisador. Ao mesmo tempo, permite que se realizem exploração não prevista oferecendo liberdade ao entrevistado para dissertar sobre o tema ou abordar aspectos que sejam relevantes.

A entrevista semi-estruturada contribuiu na coleta de dados, permitindo ao pesquisador uma relação efetiva e comunicativa. É importante ressaltar que esse procedimento metodológico forneceu informações detalhadas para a pesquisa qualitativa.

É interessante salientar também que os depoimentos e relatos da pesquisa de campo foram armazenados em um diário de campo denominado “apontamentos circenses” e, durante todas as aulas programadas com as atividades circenses, foram executados depoimentos orais, bem como o registro de comportamentos e expressões dos alunos e alunas, descritos neste trabalho.

É importante considerar que na investigação, ao registrar as observações de campo, foram coletados desenhos ilustrativos e textos narrativos das crianças da 3ª série do Ensino Fundamental, sobre a percepção das atividades circenses na escola.

Segundo GUSMÃO apud SILVA (2000, p. 76):

O desenho é uma forma mais significativa de expressão da vivência da ludicidade, pois revela sentimentos e representações em relação às experiências do mundo simbólico-real que se manifestam no cotidiano infantil.

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Figura 2 – Desenho e texto de criança Fonte: Autor (2007).

Os desenhos das crianças durante a pesquisa constituíram-se em instrumentos valiosos para a busca das informações necessárias ao estudo das atividades circenses. Foram registros fundamentais cuja linguagem, em diferentes momentos, enriqueceu o trabalho.

Além dos procedimentos metodológicos descritos anteriormente, algumas etapas foram percorridas e organizadas do seguinte modo:

Visitas em circos instalados nas cidades de Joinville, Jaraguá do Sul, Balneário Camboriú, Blumenau e Guaramirim, no Estado de Santa Catarina. Tiveram um significado especial nesta pesquisa, pois a partir delas pode-se observar a beleza do espetáculo mais simples ao mais sofisticado.

Foi possível também a convivência com muitas famílias dos circos, possibilitando o conhecimento da história de vida de cada componente e dos povos da lona. Descortinou-se um lado da cultura popular que precisa ser resgatada, apreciada e, por fim, valorizada.

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Para Fantin (2000, p.69):

O homem experiência, acumula e transmite a experiência, enfim transcende no tempo, e nesse processo a questão da cultura e do grupo social vai ser determinante nas concepções e expectativas de interações que vão se estabelecendo de geração a geração. Dessa forma cada geração vai tomando contato com os objetos e fenômenos criados pelas gerações anteriores e as pessoas vão-se colocando diante de uma imensidão de bens acumulados ao longo dos séculos.

Sendo assim, a proposta em resgatar as atividades circenses na disciplina de Educação Física vem justamente, entre outras pretensões, transmitir a cultura circense por meio de atividades motrizes no diversificado mundo da arte e sua beleza.

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Figura 4 – Materiais das atividades circenses Fonte: Autor (2007).

Durante as visitas, realizaram-se momentos de espetáculos na escola com famílias circenses. Foram repassados às crianças os saberes e as práticas presentes na memória do circo no Brasil. Houve sessões de filmes relacionados ao circo num encontro de artes do corpo. Confeccionaram-se materiais para a prática de atividades circenses, bem como elaborados conteúdos para a inclusão das atividades circenses nas aulas de Educação Física.

3.2 - SUJEITOS DO ESTUDO

Os sujeitos desta pesquisa foram dezesseis alunos, na faixa etária entre oito a nove anos, estudantes da 3ª série do Ensino Fundamental da Rede de Ensino Particular no Município de Joinville na região Norte do Estado de Santa Catarina, sendo a maioria oriunda de famílias de nível sócio-econômico médio a alto.

A pesquisa numa escola particular partiu do interesse do pesquisador, que trabalha há vinte anos como professor de Educação Física nas séries iniciais do Ensino Fundamental nessa instituição.

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nessa fase, do período entre os oito a nove anos, que a criança se encontra sensível e propícia a novas experiências, quando prevalecem as preferências de gênero na sua relação com o conhecimento.

Após adquirir uma bagagem de vivências culturais, sociais e motoras no dia-a-dia, é o momento de organização do seu “eu”, tendo como pano de fundo, referenciais de identificação das semelhanças e das diferenças no contexto escolar, na construção da cidadania. É a fase onde a criança dá um salto qualitativo nesse ciclo escolar de aprendizagem, quando começa a categorizar os objetos, classificá-los e associá-los (SOARES et al.,1992, p.35).

Para Freire e Scaglia (2003), após dois anos na escola, percebe-se com nitidez mudanças na criança. No entanto, são ainda crianças. As maiores mudanças decorrem do fato de que, após dois anos exercitando suas mudanças motoras, morais e sociais, é nesse período que promovemos às crianças experiências de aceitação do mundo, fazendo que compreendam a natureza e a complexidade humana, estimulando-as às relações interpessoais, além de prepará-la para ser feliz. As suas atividades no espaço escolar dirigem-se tanto à solidariedade da coletividade quanto ao individual.

3.3 - OS PROCEDIMENTOS DE COLETA

Antes da coleta de dados, a direção da escola foi contatada para explanação do estudo e obtenção de autorização. Também foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos, UDESC. Somente com os documentos de autorização em mãos o estudo foi efetivamente iniciado. A coleta de dados recorreu a um diário de campo intitulado “Apontamentos Circenses”.

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As crianças participaram, em vários momentos, de diferentes atividades do mundo do circo na escola. Foram orientadas para observarem dados relevantes em suas atitudes durante sua participação com os elementos circenses.

Também foram aplicadas pelo autor entrevistas semidirigidas com os pais das crianças e com o professor de Educação Física da turma a fim e verificar a percepção deles sobre o desenvolvimento das atividades circenses durante a aplicação do estudo.

Para a obtenção de informações sobre o desenvolvimento das crianças, foram utilizados como instrumentos, além do diário de campo e o roteiro de entrevistas semidirigidas, uma matriz observacional para guiar os relatos do diário de campo e uma câmera fotográfica para registrar as atividades. No decorrer das mesmas usaram-se materiais específicos da técnica circense e materiais construídos pelo próprio pesquisador.

Para Turato (2003, p.308):

A entrevista é um instrumento precioso de conhecimento interpessoal, facilitando, no encontro face a face, a apreensão de uma série de fenômenos, de elementos de identificação e construção potencial do todo da pessoa do entrevistado e, de certo modo, também do entrevistador”. A entrevista foi ser realizada em uma sala reservada ou nas dependências da escola, escolhidas pelo próprio entrevistado.

As entrevistas semidirigidas devem iniciar com o estabelecimento do rapport, o qual pode ser definido como um sentimento consciente de acordo, simpatia, confiança e responsabilidade mútua entre uma pessoa e outra. CAMPBELL apud

TURATO (2003, p. 83), ou seja, trata-se de “quebrar o gelo”, firmando um canal aberto e amigável em que transcorrerá uma interlocução mais espontânea.

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É importante salientar que as falas foram transcritas literalmente, gravadas a partir dos depoimentos dos atores. Na transcrição, fizemos o uso do itálico para situar os depoimentos no tocante às vivências dos nossos atores durante a pesquisa. As expressões figurativas ou confusas são apresentadas, quando dentro da fala, entre parênteses, nas falas incompletas usaram-se as reticências.

Sobre a Matriz Observacional das práticas circenses, percebeu-se a necessidade de elaborar uma matriz de observação direta, contendo categorias que facilitassem a descrição das atividades, não permitindo que se perdessem detalhes significativos sobre os aspectos do desenvolvimento das crianças.

Segundo Turato (2003), as técnicas da observação ocorrem voltadas para o registro em papel dos aspectos relevantes do comportamento global e das reações promovidas pela atividade proposta. Esse tipo de registro foi executado pelo pesquisador ao término de cada atividade para que não corresse o risco de ser traído pela própria memória. As Fotografias foram tiradas durante as atividades por meio de uma Câmera Digital, permitindo assim um retrato fidedigno da realidade observada pelo autor durante as aulas.

3.4 - TRATAMENTO DOS RESULTADOS

A análise dos resultados destacou os pontos constantes nos discursos dos entrevistados, distinguindo os assuntos por relevância e por repetição, e organizando os dados em categorias para posterior análise e discussão, conforme sugere Bardin (1979). Os nomes dos entrevistados foram retirados, com o objetivo de preservar a identidade das crianças. Foram utilizados cognomes de palhaços criados em uma das atividades circenses pelas crianças no decorrer do nosso trabalho.

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4 - ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Neste capítulo serão discutidos e comentados os resultados da pesquisa desenvolvida na escola com as crianças da 3ª série do Ensino Fundamental. As análises foram direcionadas a partir da organização do material coletado, como o diário de campo, os depoimentos das crianças, do professor e dos pais. Foi realizada uma pré-análise em busca de uma construção de categorias. Relativamente ao conteúdo, foram classificadas as respostas, codificados e elaborados os indicadores para a interpretação final.

Serviram de referência para as análises: o diário de campo; os desenhos ilustrativos das crianças sobre as atividades circenses, desenvolvidas no período da pesquisa; as narrativas escritas e orais e os desenhos e fotografias, apresentados como ilustrações do estudo de campo.

De acordo com Viana (2003), o uso de imagens com a câmera fotográfica no ambiente escolar costuma causar certa inquietação, fato que pode interferir no próprio comportamento e atitudes dos sujeitos. As imagens foram devidamente autorizadas e captadas no desenvolvimento do trabalho. Fato curioso foi a eventual inquietação das crianças durante o contato com a câmera; muitas vezes eufóricas, perdiam sua naturalidade.

A pesquisa teve o seguinte percurso durante a apresentação e discussão dos resultados:

1ª. Etapa – Apresentação e discussão dos dados obtidos por meio do diário de campo das crianças, atores da pesquisa.

2a. Etapa – Apresentação e discussão dos dados obtidos por intermédio das falas das crianças durante a execução dos elementos circenses.

3a.. Etapa – Apresentação e discussão dos dados obtidos na entrevista com os pais por meio de pergunta norteadora.

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acompanhou o trabalho e esteve presente em todo o processo de abordagem pedagógica das atividades circenses desenvolvidas.

4.1 – O NOSSO CAMINHAR

Para falar sobre as atividades desenvolvidas no espaço destinado à prática das atividades circenses, buscou-se um novo olhar ao refletir sobre a prática da Educação Física no contexto pedagógico-educacional. Durante os encontros realizados com as crianças da 3ª série do Ensino Fundamental, estas demonstraram grande motivação diante da utilização de materiais coloridos relacionados à magia do circo. Elas puderam vivenciar experiências criativas e apreciar a cultura circense, essa prática tão distante do universo escolar, principalmente do universo da Educação Física.

Uma boa proposta pedagógica nas palavras de Freire, J. B. (2001, p.114), “(...) é aquela em que a criança vacila diante das dificuldades, mas se sente motivada a superá-las, com seus recursos atuais, garantindo as estruturas necessárias para níveis mais elevados de conhecimento.” A proposta foi aplicada com as crianças por meio de representações das atividades circenses, registradas no diário de campo dividido em vários atos, os quais se relatam a seguir:

Ato I – O encontro com as crianças Diário do campo – 18/08/2006

O espetáculo estava prestes a começar. Foi o primeiro encontro com as crianças da 3ª série do Ensino Fundamental. Era grande a expectativa para a realização de um sonho magnífico que nasceu de uma paixão pela arte circense.

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personagens, revivendo o encontro de gestos e expressões na Educação Física escolar.

Nesse sentido, Souza (2004, p.103), destaca: “Quando a criança brinca, ela se apropria de um mundo onde pode intervir de modo a criar e recriar situações de seu cotidiano”.

Naquele dia, desci pela rampa de acesso às salas de aula na instituição onde leciono há vinte anos como professor de Educação Física. As crianças, os atores desta pesquisa, a professora tutora da turma e o professor de Educação Física, aguardavam-me.

Conforme havia sido combinado com a coordenadora, as atividades seriam desenvolvidas numa turma do período vespertino. O picadeiro, que seria o palco das atrações circenses, foi redimensionado para a quadra, um espaço onde a expressão humana poderia ser vivenciada de corpo inteiro.

A cada passo que dava estava mais próximo da fusão entre arte e movimentos, como saltar, girar, agarrar, alcançar e ultrapassar os desafios dos limites do corpo. Ao abrir a porta da sala como se fossem as cortinas de estréia de um grande espetáculo teatral, vivenciei momentos de aplausos vindos de uma platéia encantadora e entusiasmada. Estavam todas as crianças concentradas para ouvir como seria a participação delas nas atividades circenses e conhecer o imenso tesouro de atrações motrizes do mundo do circo.

Nesse dia, sentei-me numa das cadeiras no centro da sala e as crianças ao redor em forma circular. A conversa foi longa para que não se perdesse nenhum detalhe. Algumas crianças anotaram em seus cadernos as orientações para o nosso trabalho. Então, surgiu a primeira pergunta de um garoto com olhar de curiosidade:

– Olá professor! - cumprimentou o garoto. - posso fazer uma pergunta?

Respondi sorridente:

- Claro! Tire as suas dúvidas antes de iniciarmos o nosso trabalho. - Quando vamos começar as atividades circenses?

Respondi que as atividades seriam iniciadas após um estudo sobre o circo e sua história.

Uma garota levantou a mão ansiosa:

- Professor as atividades são difíceis de aprender?

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Num segundo momento uma criança curiosa me questionou: - Professor, você mora dentro de um circo?

Surpreso com a pergunta disse-lhe que não era de família circense, mas sim um estudioso na área.

Esses questionamentos aconteceram durante o período em que permaneci em sala. Incluíram curiosidades sobre o circo e a sua fábrica de ilusões, seu modo de envolver as pessoas em sonhos fantásticos de entretenimento ao desdobrar a lona, ao fincar as estacas, abrirem o palco e descobrirem o universo maravilhoso de gestos e movimentos.

As informações foram importantes para iniciarmos a pesquisa de campo, contribuindo também para o desenvolvimento interpessoal. Criou-se um laço de companheirismo e afetividade que colaborou com o processo de educação das crianças.

Ato II – Era uma vez... Contação de histórias. Diário de campo – 25/08/2006

Contar histórias para crianças é alimentá-las de aventuras a cada palavra, rima ou poesia. Folhear as páginas de um livro é entrar no mundo da imaginação, é abrir as portas para novas descobertas. Naquele dia, em tempos de outono, a chuva lavava as calçadas, ruas e jardins floridos de ipês amarelos e rosas típicas da nossa região, dando um tom todo especial àquela estação.

As crianças então não puderam brincar no pátio e foram conduzidas ao ginásio pelo professor de Educação Física da turma. Sentadas em círculo e com os olhos brilhantes de curiosidade, perguntaram:

– Que surpresa é esta? Um presente para nós?

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pouco diferente dos outros dias. Com ar de suspense, passei a caixa de surpresas para cada criança.

Na roda, algumas crianças sacudiram-na, olharam-na por todos os lados, levaram-na até os seus ouvidos. A vontade era de poder abri-la rapidamente, mas como toda brincadeira possui regras, não puderam fazê-lo.

Perguntaram:

– O que tem lá dentro professor? – Coisa de comer?

– Faz barulho?

– Acho que é um brinquedo! - disse uma menina.

– E então? - perguntou um aluno. - Professor abra a caixa!

As crianças não estavam entendendo nada. A luz da lanterna que deixei ligada refletia o seu brilho em clarão e a grande surpresa. Devagar, bem devagar abri a caixa e um livro de aventuras apareceu - um livro que permite à criança criar um mundo de fantasias, construindo uma ponte entre o real e o imaginário.

É interessante ressaltar aqui a importância do livro também nas aulas de Educação Física. A contação de histórias, a leitura de poemas, de lendas ou contos servem de ilustração para os momentos de encantamento e emoção. A cada página do livro, por meio de suas histórias, personagens e ilustrações era revelada às crianças a alma do circo. Como a idéia básica desta pesquisa é verificar as possibilidades de inserir no currículo escolar, mais especificamente nas aulas de Educação Física, os elementos da cultura circense, começou-se a fazer isso sutilmente, por intermédio das histórias de um livro, introduzindo lentamente na imaginação das crianças essa cultura da lona.

Gallardo, (2007, p.7), comenta que:

Figure

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