Gildo José Brandt A RELAÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER, SANTA MARIA – 1974 A 2004

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  Gildo José Brandt

A RELAđấO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATốLICA

E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER,

SANTA MARIA – 1974 A 2004

  Santa Maria, RS 2009

  

Gildo José Brandt

A RELAđấO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATốLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER, SANTA MARIA – 1974 A 2004

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

  Orientadora: Profª. Ms. Lenir Cassel Agostini Santa Maria, RS

  2009

  Gildo José Brandt

A RELAđấO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATốLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER, SANTA MARIA – 1974 A 2004

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

  ______________________________________________________ Profª. Ms. Lenir Cassel Agostini – Orientadora (Unifra)

  ______________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (Unifra)

  ______________________________________________________ Profª. Ms. Elisabeth Weber Medeiros (Unifra) Aprovado em..............de...................................de 2009.

DEDICATÓRIA

  Dedico este trabalho à Diocese de Santa Maria, neste Primeiro Centenário de sua Fundação e a Dom José Ivo Lorscheiter (in memoriam).

AGRADECIMENTO

  Agradeço à Prof.ª Lenir, que orientou com competência, sinceridade e humildade a elaboração deste trabalho. Agradeço também ao Bispo Diocesano Dom Hélio Adelar Rubert e aos colegas Presbíteros, por todo o apoio que me deram durante esta caminhada.

RESUMO

  Esta pesquisa tem como tema “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter” (Santa Maria, 1974 – 2004). Fundamenta-se em fontes bibliográficas, nas Encíclicas Sociais da Igreja e fontes documentais: Documento do DOPS/RS (Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul), presente no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, em Porto Alegre; os jornais A Razão, de 1974 a 2004, localizados no Arquivo Público Municipal, em Santa Maria; no Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, no Instituto São José, em Santa Maria e no Arquivo da Câmara Municipal de Vereadores, em Santa Maria. Na história social, buscaram-se os pressupostos básicos para averiguar e relacionar as iniciativas de cunho social na evangelização e na pastoral promovidas por Dom José Ivo Lorscheiter na Diocese de Santa Maria e na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Nesse cenário, percebe-se uma relação próxima entre os princípios da Doutrina Social da Igreja Católica e a prática episcopal de Dom Ivo. O Banco da Esperança engloba essas iniciativas sociais de Dom Ivo. Sugere-se que a dimensão social está indicada na prática de Dom Ivo acerca da inserção da Igreja na sociedade, na economia e na política. Nesse sentido, a ação social de Dom Ivo demonstra uma preocupação com a solução dos problemas sociais do Brasil em nível regional e local e a busca de parcerias com outras entidades e o poder público em vista da promoção humana e do desenvolvimento da comunidade.

  Palavras-chave: Doutrina Social da Igreja. Dom José Ivo Lorscheiter. Solidariedade.

ABSTRACT

  The theme of this research is “The relation between the Catholic Church Social Doctrine and the bishopric of Bishop José Ivo Lorscheiter” (Santa Maria, 1974 – 2004). It is based on bibliographic sources, in the Social Encyclicals of the Church and documental sources: DOPS/ RS document (Department of Political and Social Nature of Rio Grande do Sul), to be found in the Archive of Fight Against Military Dictatorship, in Porto Alegre; the newspaper A Razão, from 1974 through 2004, located at the Municipal Public Archive, in Santa Maria; in the Archive Bishop Ivo Lorscheiter, at the Institute São José, in Santa Maria and in the Archive of the City Council, in Santa Maria. In the social history, basic assumptions were sought to verify and relate the initiatives of social nature in evangelization and in pastoral promoted by Bishop José Ivo Lorscheiter in the Diocese of Santa Maria and at CNBB (Bishops National Conference of Brazil). In this scenario, a close relation between the Catholic Church Social Doctrine principles and the episcopal wont of Bishop Ivo was noticed. The Hope Bank comprises these social initiatives of Bishop Ivo. It is suggested that the social dimension is indicated in the wont of Bishop Ivo concerning the insertion of Church in society, in economics and in politics. To this end, the social practice of Bishop Ivo demonstrates a concern to find solution to the social problems of Brazil regarding local and regional levels and to search partnership with other entities and with the government seeking human promotion and community development.

  Key Words: Church Social Doctrine. Bishop Ivo Lorscheiter. Solidarity.

SUMÁRIO

  INTRODUđấO .................................................................................................................. 08

  1 REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................................. 10

  2 METODOLOGIA ............................................................................................................ 14

  3 RESULTADOS E DISCUSSÕES.................................................................................... 16 CONSIDERAđỏES GERAIS............................................................................................. 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................. 60

INTRODUđấO

  Nesta pesquisa, pretende-se abordar as iniciativas e os projetos sociais de Dom José

  1 Ivo Lorscheiter em seu episcopado, no período entre 1974 a 2004, na Diocese de Santa

  também, relacionar essas iniciativas e projetos sociais com a Doutrina Social da Igreja

  Na primeira parte da pesquisa, buscou-se a construção da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter, com destaque aos dados biográficos mais relevantes. Na segunda parte, foi pesquisada a ação episcopal e as iniciativas de Dom Ivo, a nível local, regional e nacional, com incidência no campo social, político e econômico da comunidade. Essas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo foram relacionadas com a Doutrina Social da Igreja Católica.

  Para a construção dessa pesquisa, delimitou-se a Diocese de Santa Maria como foco principal do trabalho, pois, nesse espaço, foram concretizadas as iniciativas e os projetos sociais mais significativos do episcopado de Dom Ivo. Em nível nacional e internacional, foram pesquisados os posicionamentos, parcerias e iniciativas de Dom Ivo em suas funções e

  4

  encargos exercidos na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) , no serviço à Igreja em alguns projetos e em algumas viagens de intercâmbio com várias agências e entidades internacionais. Essa parte da pesquisa foi realizada a partir da consulta bibliográfica e, sobretudo, das fontes documentais.

  Foram pesquisadas as principais iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo e seu impacto na transformação social da comunidade local e regional, com projeção no plano nacional e internacional. Nesse sentido, foi pertinente a leitura de Pesavento (1990), onde são 1 identificadas as características da “história regional”. Essa perspectiva de abordagem

  

Diocese é uma porção dos fiéis católicos de uma determinada região que, sob a condução do Bispo Diocesano e

do seu Presbitério, constituem uma Igreja Particular, onde está presente e atuante toda a Igreja Católica

2 Apostólica Romana (JOÃO PAULO II, Código de Direito Canônico, 1987).

  

A Diocese de Santa Maria foi fundada em 1910 e abrange os seguintes municípios da região central do Estado

do Rio Grande do Sul: Cacequi, Dilermando de Aguiar, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Formigueiro,

Itaara, Ivorá, Jaguari, Jarí, Júlio de Castilhos, Mata, Nova Esperança do Sul, Nova Palma, Pinhal Grande,

Quevedos, Restinga Seca, Santa Maria, São João do Polêsine, São Martinho da Serra, São Pedro do Sul, São

3 Sepé, São Vicente do Sul, Silveira Martins, Toropi, Tupanciretã e Vila Nova do Sul (RUBERT, 2009).

  

A Doutrina Social da Igreja reúne o ideário da Igreja Católica a respeito dos problemas sociais do mundo e tem

como princípios fundamentais e básicos: a dignidade da pessoa humana, o bem-comum, a subsidiariedade e a

4 solidariedade. (PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ, 2008).

  

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) foi fundada em 1952, no Rio de Janeiro. Atualmente a

sua sede se localiza em Brasília/DF e está representada em suas várias seções regionais, em todo o Brasil. As

Conferências dos Bispos, como a CNBB, reúnem e congregam os bispos de um determinado país ou território. O

objetivo principal da CNNB é exprimir e consolidar a unidade efetiva e pastoral dos Bispos do Brasil, salvaguardando a sua legítima autoridade em suas respectivas dioceses (A RAZÃO, 19/10/1977). historiográfica objetiva a transformação da sociedade, através de um conhecimento crítico e engajado do passado no processo de transformação social a que se propõe.

  A temática apresentada não objetiva o destaque aos feitos dos “grandes heróis e vultos do passado”, mas investiga as pequenas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo entre as classes menos favorecidas da sociedade e nos ambientes sociais apontados pela Doutrina Social da Igreja. Essa perspectiva historiográfica se insere também na “história social” e sugere a leitura de Sharpe (1992). O autor apresenta um enfoque social à história, vista e analisada “de baixo”, a partir das pessoas e dos grupos menos favorecidos na sociedade. Nessa pesquisa, serão abordados os projetos e as iniciativas de Dom Ivo, direcionadas a estas parcelas da sociedade.

  Na perspectiva da história social, busca-se ainda a experiência humana e a individualidade dos comportamentos a serem priorizados na pesquisa. Essa pesquisa se insere na história social ao propor na leitura Castro (1997), a averiguação da trajetória episcopal de Dom Ivo e suas iniciativas individuais e diferenciadas frente à sociedade e à Igreja, pois:

  A história social mantém [...] seu nexo básico de constituição, enquanto forma de abordagem que prioriza a experiência humana e os processos de diferenciação e individuação dos comportamentos e identidades coletivos – sociais – na explicação histórica (p.54).

  Entende-se a importância desse trabalho sobre a relação da Doutrina Social da Igreja Católica e Dom José Ivo Lorscheiter, evidenciando-se na percepção dos posicionamentos e das iniciativas originais e individuais de Dom Ivo na sociedade e a sua incidência na esfera social, política e econômica. É relevante a tomada de conhecimento destas iniciativas e projetos de Dom Ivo e sua relação com a Doutrina Social da Igreja, no sentido de se identificar melhor a pluralidade de posicionamentos e atitudes da própria Igreja frente ao mundo e à sociedade em que está inserida.

  Nessa abordagem sobre “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, Santa Maria, 1974 a 2004” foram consultadas as Encíclicas Sociais da Igreja Católica. A partir destas encíclicas, estabeleceu-se o referencial teórico dessa pesquisa. Nessa investigação, também foram interpretados os dados e informações encontradas nas fontes bibliográficas e documentais pertinentes à temática proposta.

  Na elaboração deste trabalho, a parte introdutória indica a inserção da pesquisa na história regional na consulta a Pesavento (1990), ao identificar as iniciativas sociais de Dom Ivo na região de abrangência da Diocese de Santa Maria. A história social também se insere na pesquisa, na consulta a Sharpe (1992), ao pesquisar a incidência das iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo junto aos “de baixo”, ou seja, às classes menos favorecidas da sociedade. A pesquisa insere-se na história social também na consulta a Castro (1997), ao identificar a trajetória individual de Dom Ivo e a suas diferenciações frente à pluralidade de posicionamentos e iniciativas da Igreja na sociedade. Na explicação de conceitos e notas de rodapé, foram consultados João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Pontifício Conselho de Justiça e Paz (2008), Rubert (2009) e o Jornal A Razão (19/10/1977) como fonte documental.

  Na primeira parte dessa pesquisa, traçou-se a trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter a partir da consulta aos autores Barichello; Belmonte (2004), Biasoli (2005), Mombach (2002) e Projeto Esperança/Cooesperança (2007). A pesquisa nestes autores forneceu dados biográficos essenciais sobre Dom José Ivo Lorscheiter, e conceitos pertinentes neste primeiro capítulo. Na busca em Cáritas/RS (2009), João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Mendonça; Fontes (1988), Paulo VI, no Decreto Christus Dominus (1965), Rubert (2009) e no documento do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, encontraram-se as explicações das notas de rodapé.

  Além desses autores, nessa mesma perspectiva, foram pesquisadas as fontes documentais: documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, no Instituto São José, em Santa Maria; Jornais A Razão, de 1974 a 2004, disponíveis no Arquivo Histórico Municipal, em Santa Maria e Processo político produzido na Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS), presente no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, em Porto Alegre (1967). Estas fontes documentais, a exemplo da bibliografia anteriormente citada, oferecem dados e informações fundamentais na compreensão da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter.

  Ao elaborar o segundo capítulo, que trata especificamente da relação da Doutrina Social da Igreja e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter em Santa Maria, de 1974 a 2004, foram consultadas as encíclicas sociais da Igreja Católica, escritas pelos Papas. Nessa perspectiva, Leão XIII (1891), na encíclica Rerum Novarum, Coisas Novas, apresenta a “Condição Operária” na Europa, no final do século XIX, em que se afirmava a industrialização e o consequente capitalismo liberal. Nesse cenário, Leão XIII condena os excessos da economia liberal e defende a classe operária da exploração e das injustiças cometidas pelos seus patrões capitalistas. Por outro lado, Leão XIII rejeita e condena o socialismo revolucionário, chamado de comunismo. Esta ideologia é considerada uma ameaça à estabilidade social, pois pretende usar a violência com a luta de classes entre os patrões ricos e os pobres operários. Além disso, a Igreja condena a coletivização e a estatização dos bens e o ateísmo comunista. Essa ideologia contraria o direito à propriedade privada, defendido pela Doutrina Social da Igreja. Leão XIII rejeita e condena, portanto, o capitalismo e o socialismo e sugere o cristianismo como caminho de superação dos problemas sociais enfrentados, sobretudo pela classe operária, em sua “Condição Operária”.

  A classe proletária sujeita a essa Condição Operária é exortada por Pio XI (1931) na encíclica Quadragesimo Anno, Quadragésimo Ano, a buscar os seus direitos em sindicatos e associações operárias de cunho cristão, imunes à influência do socialismo revolucionário, o comunismo. Pio XI reitera a condenação ao socialismo e ao capitalismo, como ideologias que reduzem o ser humano a sua condição histórica e material e desconsideram a sua dimensão espiritual e religiosa. Na encíclica Divini Redemptoris, Divino Redentor, Pio XI (1937) culpa o capitalismo pela infiltração do comunismo entre as classes operárias, sobretudo por submetê-las a extensas e exaustivas jornadas de trabalho e salários irrisórios. Tratados dessa forma, os operários foram afastados da convivência comunitária e religiosa e se tornaram presas fáceis das idéias comunistas. Nessa perspectiva, o Estado é convocado a regular as relações entre o trabalho e o capital, conforme os critérios da justiça social, apregoados pelo cristianismo.

  A Doutrina Social da Igreja, a partir de João XXIII (1961) na encíclica Mater et , Mãe e Mestra, sugere a aplicação da justiça social na esfera econômica, política,

  Magistra

  social e cultural da sociedade humana. Os cristãos são exortados a viver a sua fé de forma orgânica, unindo a sua realidade humana e material à dimensão espiritual da sua existência. O no sentido de regular a sociedade para que a justiça e a igualdade estejam asseguradas e os direitos dos operários sejam respeitados. O sentido universal da Doutrina Social da Igreja é apresentado por João XXIII (1963) na encíclica Pacem in Terris, Paz na Terra. A comunidade mundial é convocada a se empenhar pela justiça social, pela paz e pelo desenvolvimento de toda a sociedade humana.

  Esperança, de Paulo VI (1965), refere-se ao papel da Igreja no mundo atual. A Igreja é convocada à prática da solidariedade e à inserção na realidade social e nos problemas da família humana. A Declaração Dignitatis Humanae, Dignidade Humana, de Paulo VI (1965), acrescentou à Doutrina Social da Igreja o princípio do respeito à liberdade religiosa às pessoas. A vivência religiosa se expressa em comunidade e gera transformação a partir dos valores espirituais interiores. Na encíclica Populorum Progressio, Desenvolvimento dos Povos, PauloVI (1967) aponta a universalidade da questão social e aponta no liberalismo econômico as causas dos problemas sociais do mundo. Os países de todo mundo são convocados a se unir na busca de solução para os seus problemas sociais. Na encíclica

  

Octogesima Adveniens , Chegada da Octogésima, Paulo VI (1971) acrescenta temáticas atuais

  ao corpo da Doutrina Social da Igreja, como: a urbanização, as grandes cidades, os jovens, a questão da mulher, os meios de comunicação social e o meio ambiente e sugere a inserção dos cristãos na política. A ação política, no sentido cristão, não é ideológica e visa ao bem comum e ao desenvolvimento da sociedade humana. Paulo VI condena os regimes totalitários e as ditaduras e propõe a democracia como caminho político mais adequado ao desenvolvimento da sociedade humana.

  João Paulo II (1981), na encíclica Laboren exercens, Exercício do Trabalho, indica a importância do trabalho, como um serviço ao bem-comum de todos os seres humanos e não apenas uma fonte de lucro, como pretende o liberalismo econômico. O trabalho não é apenas uma mercadoria ou uma força, mas é o caminho da realização humana e do desenvolvimento dos povos. Na encíclica Sollicitudo rei Socialis, Solicitude da Questão Social, João Paulo II (1987) condena as dívidas externas e internas dos países pobres, as diferenças entre nações ricas e pobres e os problemas mundiais resultantes da Guerra Fria. Nesse cenário mundial, percebe-se o atraso de muitos povos. A vontade política dos governantes e a solidariedade 5 entre os povos é a solução apontada para a solução da pobreza mundial e o desenvolvimento

  

O Concílio Vaticano II foi convocado em 1963, em Roma, pelo Papa João XXIII e foi concluído pelo Papa

Paulo VI em 1965. Os concílios são realizados com a participação colegiada de bispos do mundo inteiro, sob a

presidência e aprovação do Papa, em suas deliberações e decisões, a respeito de questões internas e externas da em vista da paz no mundo. Essa encíclica recorda o princípio básico da Doutrina Social da Igreja: a destinação universal dos bens do mundo. Na encíclica Centesimus Annus, Centésimo Ano, João Paulo II (1991) incentiva o princípio da cooperação entre os povos e indivíduos, na busca de superação dos problemas sociais. A prática social da Igreja, no entanto, não deve ser ideológica. A família é considerada o ponto de partida para a construção de uma sociedade humana marcada pela justiça social.

  Além dessas encíclicas sociais, na elaboração desse capítulo sobre a relação entre a Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, foram consultados os autores: Barichello; Belmonte (2004), Projeto Esperança/Cooesperança (2007) e Rádio Vaticana (2009). Esses autores apresentam exemplos concretos da aplicação da Doutrina Social da Igreja nas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo na Diocese de Santa Maria, bem como a sua projeção em nível nacional e internacional. Os autores: Bobbio; Matteucci (1998), Bottomore (1983), Ferreira; Delgado (2003), Habert (1992), Mendonça; Fontes (1988), Netto (1986), Singer; Souza (2000), Tévoédjré (1982) e Vázquez (2003) apresentam pontos de vista, perspectivas e definições conceituais apropriadas e pertinentes neste capítulo. Seus textos oferecem uma compreensão mais acurada e diversificada dos termos e conceitos apropriados pela Igreja nas suas encíclicas sociais e favorecem a compreensão da sua Doutrina Social. As notas de rodapé foram elaboradas na consulta a Adveniat (2009), Houaiss (2001) e Misereor (2009).

  As fontes documentais: Atas da Câmara de Vereadores do Município de Santa Maria (1974 a 2004), Diário de Justiça Estado do Rio Grande do Sul (1969), Documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter e Jornal A Razão (1974 a 2004) oferecem, nessa mesma perspectiva, dados e exemplos concretos da relação entre a Doutrina Social da Igreja e o episcopado de Dom Ivo. Essas fontes documentais, no cruzamento com os dados extraídos da bibliografia pesquisada na abordagem desse capítulo, explicitam essa relação de forma mais clara e variada, sob diversos ângulos e pontos de vista.

  Nesta pesquisa, foi abordado o tema “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, Santa Maria (1974 a 2004)”. Na introdução, definiu-se a linha historiográfica dessa pesquisa pela história regional, na consulta de Pesavento (1990) e também pela história social, na leitura de Sharpe (1992) e Castro (1997). Os conceitos e notas de rodapé foram definidos a partir de João Paulo II no Código de Direito Canônico (1987), Pontifício Conselho Justiça e Paz (2008), Rubert (2009) e o Jornal A Razão (19/10/1977). Em seguida, realizou-se o levantamento bibliográfico, de acordo com a temática sugerida. Esse levantamento evidenciou a necessidade de ampliação das fontes de pesquisa. Nesse sentido, realizou-se também o levantamento das fontes documentais, referentes ao tema.

  Após a leitura e o cruzamento dos dados, procedeu-se a composição do primeiro capítulo que trata da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter. Essa composição foi realizada a partir de Barichello; Belmonte (2004), Biasoli (2005), Mombach (2002) e Projeto Esperança/Cooesperança (2007). Na definição de conceitos e notas de rodapé, recorreu-se aos autores: Cáritas/RS (2009), João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Mendonça; Fontes (1988), Paulo VI, no Decreto Christus Dominus (1965), Rubert (2009) e documento do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter (2009).

  Além desses autores, nesse primeiro capítulo, foram pesquisadas as fontes documentais: Documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, no Instituto São José, em Santa Maria; Jornais A Razão, de 1974 a 2004, disponíveis no Arquivo Histórico Municipal, em Santa Maria; Processo político produzido na Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS), presente no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, disponibilizado no sistema de arquivos do Estado, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre (1967).

  O segundo capítulo, ao abordar a relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom Ivo, em Santa Maria, no período entre 1974 e 2004, foi construído a partir da consulta às encíclicas sociais e documentos dos Papas: Leão XIII (1891), Pio XI (1931 e 1937), João XXIII (1961 e1963), Paulo VI (1965, 1967, 1971) e João Paulo II (1981, 1987 e 1991). Além dessas encílicas, nessa mesma perspectiva, foram consultados os autores: Barichello; Belmonte (2004), Projeto Esperança/Cooesperança (2007) e Rádio Vaticana (2009). Na definição e esclarecimento de termos e conceitos relacionados à temática proposta, Delgado (2003), Habert (1992), Mendonça; Fontes (1988), Netto (1986), Singer; Souza (2000), Tévoédjrè (1982) e Vázquez (2003). As notas explicativas foram elaboradas a partir da consulta em Adveniat (2009), Misereor (2009) e Houaiss (2001).

  As fontes documentais consultadas e utilizadas nessa abordagem sobre a relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom Ivo foram: Atas da Câmara de Vereadores de Santa Maria (1974 a 2004), Diário de Justiça Estado do Rio Grande do Sul (1969), Documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter (2009) e Jornais A Razão (1974 a 2004).

  José Ivo Lorscheiter, conhecido como “Dom Ivo”, nasceu no dia 7 de dezembro de 1927, em São José do Hortêncio, segundo distrito de São Sebastião do Caí, no Rio Grande do Sul. Sugere-se que Dom Ivo tenha deixado a sua terra natal nos primeiros anos da sua infância, devido aos estudos. Assim como a família de Dom Ivo, seus parentes e conterrâneos descendem de imigrantes alemães que foram alojados nessa região durante a colonização, conforme relato de Mombach (2002):

  Os pais: Francisco Lorscheiter e Maria Mohr. Avós paternos: Pedro Lorscheiter e Catharina Reichert. Avós maternos: João Mohr e Suzana Hansen, naturais da Alemanha. Tiveram sete filhos, quatro mulheres e três homens. José Ivo é irmão- gêmeo de Lúcia (p. 19).

  Nessa perspectiva, Barichello; Belmonte (2004) sugerem que esses imigrantes, em sua maioria, eram agricultores muito pobres e simples. Não obstante os dramas e a simplicidade da vida cotidiana indicam-se que algumas dessas famílias, como a de Dom Ivo, mantinham-se bem informadas sobre os acontecimentos da região e do mundo, com a leitura assídua de jornais e informativos disponíveis nessa época.

  Apesar dessa pobreza material, esses imigrantes europeus trouxeram consigo uma identidade cultural germânica, bem como uma vigorosa experiência de fé cristã. Dom Ivo nasceu e viveu a sua infância nesta região e, neste ambiente, assimilando esta cultura e religiosidade, adquirindo provavelmente, desse modo, um carinho especial pela sua terra natal, conforme seu próprio relato a Barichello; Belmonte (2004):

  Trata-se de uma região modesta, até relativamente pobre, de imigrantes alemães, que depois de imigrarem da Alemanha para o Brasil, vinham da região de São Leopoldo, para colonizarem aquelas terras do Rio Caí, através do trabalho na agricultura. Gente simples, de trabalho, de muita fé. Mas quando eu digo muita fé, tenho uma emoção muito especial em pensar que a população dessa minha terra natal não eram todos católicos. Mas todos viviam em unidade religiosa e social. Minha família toda era de agricultores simples que na terra trabalhavam e dela tiravam o seu sustento e, assim, iam construindo o seu futuro (p. 11).

  Nesse ambiente religioso e de convivência entre as famílias católicas e luteranas, Dom

  6 Ivo aprendeu, desde cedo, o sentido e a importância do ecumenismo . Sugere-se que dessa 6 vivência e nos diversos encargos assumidos na Igreja, Dom Ivo empenhou-se pela causa

Ecumenismo, para os católicos, é essencialmente um movimento que visa favorecer o restabelecimento da ecumênica na Igreja e na sociedade, conforme seu próprio depoimento a Barichello; Belmonte (2004):

  A minha família era católica, mas havia em nossa vizinhança uma grande quantidade de famílias de fé luterana. Lá nos dávamos muito bem com eles. E a isso eu atribuo um pouco a esse fato de ter convivido longos anos com essas famílias luteranas o meu gosto pelo Ecumenismo. Um de meus antepassados foi padrinho da primeira criança luterana que foi batizada naquela região. Havia muita participação mútua nas festas luteranas e católicas, nos sepultamentos. Por isso, para mim, o ecumenismo é um dos grandes desafios (p.17).

  Nessa perspectiva, a Casa do Índio foi fundada no dia 13 de janeiro de 2001, junto ao Parque da Medianeira. Em A Razão (13 e 14/01/2001) sugere-se que essa casa de passagem servisse de abrigo e repouso aos grupos indígenas, especialmente Guaranis e Kaiganges, que, em determinadas épocas do ano, dirigem-se a Santa Maria para vender seus artesanatos ou buscar tratamentos de saúde. A Casa do Índio foi organizada e administrada pelas seguintes Igrejas: Católica Romana, Evangélica Luterana, Episcopal Anglicana e Metodista. Em virtude das muitas dificuldades em se manter este projeto a contento, a Casa do Índio foi fechada e encerrou suas atividades em 2005.

  Essa identidade ecumênica em Dom Ivo, no entanto, parece não ter permanecido restrita apenas aos cristãos de outras Igrejas. Sugere-se uma proximidade sua também com outras religiões, como o Judaísmo. Nesse sentido, Dom Ivo foi convidado por algumas autoridades judaicas a viajar para Israel em 1987, sugerindo, assim, o reconhecimento e a gratidão da comunidade israelita pelo seu trabalho na Igreja do Brasil. Este ato de gratidão indica relevância histórica, pois a comunidade judaica instalou-se no Rio Grande do Sul, a partir de Santa Maria, na Colônia Philipson, em Pinhal, desde 1904 (A RAZÃO, 25/03/1987).

  Além desta bagagem cultural, religiosa e ecumênica, adquirida na família e na comunidade, a consulta a Mombach (2002) indica que Dom Ivo recebeu instrução escolar desde cedo. Iniciou seus estudos numa Escola Paroquial em São José do Hortêncio, onde residiu na casa paroquial, para facilitar seu acesso aos estudos. Seus estudos prosseguiram no Seminário Menor São José em Gravataí e a Filosofia foi cursada no Seminário Central de São Leopoldo.

  A forte tradição religiosa da sua família e a sua inserção na comunidade paroquial católica insuflou em Dom Ivo a decisão vocacional pelo sacerdócio, a ponto de, ainda na infância, decidir iniciar a sua formação sacerdotal, provavelmente também pelo encorajamento de seu irmão Vendelino, que já era seminarista. Dom Ivo indica, porém, que a decisão final em seguir a vocação sacerdotal teria sido uma escolha pessoal e livre de sua parte, apoiada pela sua família, conforme relato em Mombach (2002):

  Meu irmão mais velho, Vendelino, já havia ido para o seminário. Quando tinha 11 anos, estava na 4ª. série, senti o mesmo gosto dele. Eu era coroinha, me senti atraído e por isso fui ao seminário. Os pais não me influenciaram; apenas me aprovaram (p. 22).

  Apesar dessa clareza interior a respeito da sua vocação sacerdotal, Dom Ivo sugere que em sua juventude teve a idéia de que, caso não fosse de fato ser padre, seguiria uma carreira na política, conforme entrevista a Barichello; Belmonte (2004):

  Mas eu me lembro que uma vez me sobreveio, no seminário menor, uma pergunta: Mas se eu não fosse Padre, o que deveria ser, o que eu gostaria de ser? Eu quero só dizer que lá me veio essa idéia, mas eu não a aprofundei. E a idéia era a seguinte: um outro caminho seria, para mim, o mundo da política! (p. 16).

  Dom Ivo, no entanto, parecia entender a política não apenas como política partidária ou ideológica, mas antes de tudo, como um serviço desprovido de interesses pessoais e sectários, realizado em vista do bem-estar de toda a sociedade humana, conforme esclarece o Projeto Esperança/Cooesperança (2007), “Política, no melhor sentido que eu possa entendê-la, é arte do bem comum, da busca do bem-estar, da prosperidade de toda coletividade” (p.22). Sugere-se em A Razão (24/04/1979), que sua desenvoltura política estivesse fundamentada, sobretudo, numa atitude de diálogo para com todas as pessoas e instituições com quem manteve contatos:

  Caracterizado como um homem de diálogo, Dom Ivo mantém a mesma desenvoltura no trato com os fiéis de sua diocese como no contato com as autoridades políticas do país sempre que sua presença seja necessária como pastor ou como mediador religioso (p.12).

  Além dessa compreensão da política, a dedicação de Dom Ivo aos estudos sugere um acúmulo de conhecimentos e de formação em sua bagagem intelectual. A sua formação superior e teológica deu-se na Universidade Gregoriana, em Roma e foi concluída em 1952, onde foi ordenado sacerdote, no dia 20 de dezembro. Mesmo estando no exterior, Dom Ivo dava a entender que estivesse informado e interessado pelo Brasil, sempre próximo da realidade do povo brasileiro, conforme indica em seu depoimento a Barichello; Belmonte (2004):

  Enquanto estávamos em Roma, tínhamos um grande desejo e esforço de conhecer e nos imbuir mais do Brasil. Quando vinham bispos brasileiros ao colégio, davam- nos as melhores informações: sabíamos mais do Brasil do que se estivéssemos nele. Isso nos deu um espírito de universalidade e também de inserção na realidade brasileira (p. 19).

  Retornando ao Brasil após a sua ordenação sacerdotal em 1952, o então Pe. José Ivo exerceu as funções de professor no Seminário Maior em Viamão e, posteriormente, Reitor do Seminário Menor de Gravataí e, ainda, Reitor do Seminário Maior de Viamão. Foi ordenado bispo no dia 06 de março de 1966, na Catedral Metropolitana, em Porto Alegre, exercendo aí a função de bispo auxiliar. Dom Ivo teve a oportunidade de participar das sessões finais de conclusão do Concílio Vaticano II em 1965, como bispo nomeado. A renovação da Igreja, promovida nesse Concílio, influenciou e comprometeu positivamente Dom Ivo, conforme aponta em seu relato à Barichello; Belmonte (2004):

  Logo que fui nomeado Bispo, sendo as últimas semanas do Concílio Vaticano II, Dom Vicente Scherer, pediu-me para ir a Roma e participar das últimas sessões do Concílio. Assim, sem ser sagrado bispo, eu fui e isto se tornou uma experiência riquíssima. Eu votei nos últimos documentos, participei das últimas discussões e também daquelas cerimônias de conclusão do Concílio. Foi muito gostoso. Voltei, depois, ao Brasil para preparar minha consagração episcopal em março de 1966. E pensei: Deus me colocou, nesse momento, no colégio dos Bispos, quer que eu me esforce para propor a vivência e aplicação desse Concílio (p.24).

  Nessa perspectiva de renovação conciliar em curso na Igreja, entende-se que a implantação das novidades do Concílio Vaticano II nas dioceses tenha sido um desafio a ser coordenado e executado por todos os bispos. Dom Ivo foi ordenado bispo numa época em que se indicava a necessidade de discernimento para manter as conquistas positivas da tradição milenar da Igreja e para acolher, ao mesmo tempo, as novidades e os valores do mundo atual, conforme sugeria o concílio. Nesse sentido, é pertinente uma referência ao escudo episcopal adotado por Dom Ivo em sua ordenação episcopal. Os símbolos de seu escudo expressam e sugerem basicamente o seu ideal pessoal em procurar sempre esse discernimento e equilíbrio entre a tradição e a novidade na Igreja, necessários nessa época, conforme A Razão (23/04/1974):

  O Bispo usa escudo não como brasão nobiliárquico e sim como sinal de identificação. O escudo de Dom José Ivo Lorscheiter compõem-se dos seguintes elementos: Além dos distintivos comuns do escudo episcopal – chapéu verde e cruz saliente – dois campos desiguais, um em azul celeste e outro em ouro velho, projetam uma orquídea branca e lilás. O conjunto quer exprimir a mesma idéia do lema “NOVA ET VETERA” – Coisas Novas e Velhas” (Mt 13, 52): o azul do céu, sempre renovado, se sobrepõe ao ouro velho, cor da terra; a orquídea é flor que cresce sobre troncos velhos. Tudo quer significar um programa de constante renovação, sem eliminação dos valores permanentes e imutáveis (p.9).

  Além desses símbolos contidos em seu brasão, Dom Ivo propôs como lema episcopal a expressão Nova et vetera (Mateus 13,52), que significa: Coisas novas e velhas. Demonstra esse lema a disposição de Dom Ivo e a necessidade de reflexão e discernimento permanentes em sua missão de preservar os aspectos positivos herdados da fé cristã e da humanidade. Ao mesmo tempo, esse lema indica a exigência e a capacidade de acolher e aderir criticamente às novidades e às renovações, próprias do tempo presente em que a Igreja está inserida, conforme A Razão (21/04/1982):

  Sobre a escolha do tema de sua vivência episcopal, D. Ivo disse, quando assumiu a diocese de Santa Maria que “quando a humanidade e a Igreja vivem sujeitas a rapidíssimas e profundas mudanças, urge compreender e viver corretamente o lema “Nova et Vetera”. Com ele queremos exprimir honesta coragem de apresentar e representar as legítimas coisas novas, o sincero esforço de não chegar atrasados nos confrontos com o mundo, a piedosa disposição de renovar ou inovar o que disso necessita. Mas, ao mesmo tempo, esse lema significa o nosso empenho de fidelidade em conservar e defender as verdades e normas que não podem mudar, por serem intocáveis legados de Cristo, ou irreformáveis afirmações da Igreja, ou

sábias heranças da experiência da humanidade” (p.12).

  Nesse sentido, provavelmente a urgência das atividades pós-conciliares e de atualização da Igreja foram determinantes na designação de Dom Ivo para funções importantes na Igreja, em nível regional, como secretário regional da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) no regional Sul III, que abrangia os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Nessa época de transição e de mudanças, certamente considerava-se prioritária a aplicação das novidades do Concílio, possivelmente em primeiro lugar, nas bases da própria Igreja. Dessa forma, entende-se que a formação e a atualização do clero da região tenha sido a tarefa inicial mais importante para Dom Ivo, conforme relata à Barichello; Belmonte (2004):

  Interessante foi que, como bispo auxiliar de Porto Alegre, o Arcebispo Scherer me nomeou logo como Secretário da CNBB-Sul III que naquele tempo abrangia também o estado de Santa Catarina. E assim, como outros auxiliares nos colocamos a trabalhar para implementar o Concílio em todo o regional da CNBB. Começamos organizando cursos de atualização para todo o clero desses dois estados. Cada padre, religioso ou diocesano, devia num espaço de dois anos, realizar esse curso. Foi uma enorme riqueza e vivência (p. 25-6).

  Nessa época de renovações profundas, insuflava-se o estudo e a aplicação das decisões do Concílio Vaticano II na Igreja do Brasil e da América Latina, como no restante do mundo. Os ventos renovadores desse Concílio certamente incidiram com eficiência sobre a Igreja do de Medellín, na Colômbia, em 1968, Puebla, no México, em 1979 e Santo Domingo em 1992. Através dessas conferências, entende-se que o Concílio renovou e atualizou a Igreja na América Latina. Houve uma expressiva participação da Igreja do Brasil nessas conferências, que esteve representada por vários bispos brasileiros da CNBB, inclusive Dom Ivo.

  Nessa perspectiva, há indícios de que, após o Vaticano II, a Igreja do Brasil e da América Latina tenha ultrapassado os limites e ambientes eclesiásticos. Sugere-se que a Igreja tenha se voltado, com mais clareza e intensidade, aos problemas sociais e políticos desses países, após a realização dessas conferências, conforme esclarece Dom Ivo a Barichello; Belmonte (2004): “Foi o Concílio e as assembléias de Medellín, Puebla e Santo Domingo que nos impulsionaram para agir nos ambientes não só eclesiais, nos problemas políticos e sociais” (p. 71).

  Nesse contexto de renovações significativas em curso na Igreja, Mombach (2002) indica que Dom Ivo foi eleito Secretário Geral da CNBB, de 1972 a 1978 e Presidente, por dois mandatos, de 1979 a 1986, sucedendo, nesse cargo, a seu primo Dom Aloísio Lorscheider. Sugere-se, desse modo, que em muitos aspectos, Dom Ivo tenha delimitado o modo de ser e de atuar da CNBB.

  Entende-se que a liderança de Dom Ivo tenha assegurado a unidade interna e a coesão dos bispos brasileiros na CNBB, frente as suas diversas correntes ideológicas. Para isso, busca-se identificar Dom Ivo como sendo um bispo progressista, apesar de sua discordância quanto às rotulações ideológicas. Dom Ivo faz pensar que o importante é a busca da unidade em torno dos objetivos comuns da Igreja, conforme A Razão (24/04/1979):

  O novo presidente da CNBB não concorda com a identificação que fazem das correntes progressistas e conservadoras dentro do episcopado brasileiro e afirma que não se devia acentuar muito a existência de duas correntes, pelo menos com estes adjetivos que se empregam na grande opinião pública. Sendo identificado como da ala progressista, Dom Ivo diz que “é claro que cada um tem as suas preferências quando há eleições, mas isto não significa que vá existir uma falta de coesão e colaboração de todos os bispos, porque afinal as metas são as mesmas e

não se trata de uma corrente se sobrepor a outras” (p.12).

  Nessa perspectiva, Dom Aloísio Lorscheider esclarece e percebe que Dom Ivo, apesar de considerado progressista por alguns setores da sociedade, tenha adotado uma posição de equilíbrio em sua prática episcopal, conforme consulta a Mombach (2002): “Dom Ivo, às vezes considerado muito progressista, na realidade é uma pessoa equilibrada” (p. 11).

  Nesse sentido, conforme registro do DOPS/RG (15/12/1967), na Secretaria da Segurança Pública, ao abordar o tema Religião, o relatório apresenta Dom Ivo como um bispo progressista e moderado, alinhado com o pensamento social da Igreja, nos seguintes termos:

  VI – RELIGIÃO No ensejo do 1º. Aniversário da publicação da Encíclica “POPULORUM PROGRESSIO”, a AL/RS comemorou o fato com uma sessão solene, tendo usado a palavra, além dos representantes da ARENA e MDB, o Bispo Auxiliar de PA, Dom Ivo Lorscheiter, cuja oração foi entremeada de citações daquela Encíclica. Em 31.03.1968, por iniciativa do III EX, foi rezada na Catedral Metropolitana, missa comemorativa ao 4º. Aniversário da Revolução de MAR. 64, sendo oficiante o Bispo Auxiliar de PA, Dom Ivo, digo, Dom Edmundo Luiz Kunz, cuja homilia versou sobre conceitos da “POPULORUM PROGRESSIO” e sobre a Campanha da Fraternidade em pleno desenvolvimento. Em certo trecho de sua oração fez uma breve referência ao “grande presidente CASTELO BRANCO”. APRECIAđấO: Os dois Bispos Auxiliares da Arquidiocese de PORTO ALEGRE, acima citados, são considerados “progressistas moderados”, por uma ponderável corrente católica (p. 14-5).

  Esse relatório demonstra e sugere uma relação entre a fé cristã e a vida, no sentido de que D. Ivo entendia e praticava a vivência entre os compromissos pastorais e a dimensão política na sociedade. Nesse sentido, para além dessas rotulações ideológicas, Dom Ivo dava a entender que a fé cristã seria basicamente a vivência harmoniosa e equilibrada de suas duas dimensões essenciais: a espiritual e a social. A fé e a vida seriam, portanto, inerentes ao cristianismo defendido pela Igreja e, desse modo, não poderiam ser consideradas antagônicas ou excludentes, mas complementares e dependentes uma da outra.

  Esta correlação entre a dimensão social e espiritual do cristianismo é claramente explicada na Doutrina Social da Igreja e será abordada posteriormente. Os problemas sociais do mundo devem, portanto, ser iluminados pela fé, em busca de sua solução, conforme A Razão (10/02/1982):

  A Igreja, com efeito, deve aperfeiçoar sempre mais seus quadros, sua espiritualidade, os aspectos religiosos de sua atuação, mas ela deve também e sempre ser fermento, luz e sal e, por isso, deve tocar, iluminar e transformar os problemas humanos e sociais. Uma Igreja só sociológica, ou uma Igreja só espiritualista não seria a Igreja de Cristo (p.3).

  Após estas considerações a respeito do papel social e espiritual da Igreja na atuação de Dom Ivo junto à CNBB, ressalta-se a sua nomeação, pelo Papa Paulo VI, para o cargo de 6º. Bispo da Diocese de Santa Maria. Desse modo, Dom Ivo tomou posse nesta diocese no dia 21 de abril de 1974, sucedendo ao bispo Dom Érico Ferrari. A vinda de Dom Ivo, como novo bispo, indica a existência de uma expectativa positiva na comunidade local em relação a sua pessoa nessa época, bem como ressalta a importância da comunidade católica santamariense no cenário eclesial, conforme A Razão (21/04/1974):

  Dom Ivo vem para Santa Maria com um passado que o credencia para a missão que irá assumir. Nos cargos e funções a ele confiados, houve-se sempre com dedicação e competência. Acompanha-o uma vasta cultura geral e uma notável bagagem teológica e grande dose de iniciativa e organização [...] Dom Ivo, que hoje assume, vem precedido de uma larga folha de serviços prestados aos católicos brasileiros. É homem de reconhecido dinamismo e capacidade. É destacado personagem do clero nacional e sua indicação para a diocese local, diz da importância que representa a comunidade católica santa-mariense, que está certa de que o labor de seu novo bispo será profícuo e servirá para projetar ainda mais os nomes da diocese e da cidade (p.4 e 11).

  Nessa perspectiva de acolhida e das expectativas da comunidade local em relação ao seu novo bispo, o Projeto Esperança/Cooesperança (2007) sugere que Dom Ivo tenha encontrado respaldo em alguns setores da sociedade para a execução de seus projetos. Um indício desse apoio evidencia-se, sobretudo, no crescimento significativo da devoção à Medianeira de Todas as Graças, após a posse de Dom Ivo e a partir da construção do Altar Monumento e do Santuário Basílica Menor, em Santa Maria. Celebrações importantes se realizam nesses espaços, no Parque da Medianeira, especialmente a Romaria Estadual da Medianeira, sempre no segundo domingo do mês de novembro, todos os anos. Nos últimos anos, a Romaria da Medianeira tem concentrado cerca de 300 mil romeiros na cidade .

  Nesse sentido, apesar da ênfase social do episcopado de Dom Ivo, a sua dedicação e o seu apoio à devoção popular à Medianeira evidenciam também uma preocupação quanto aos anseios espirituais dos fiéis. Dom Ivo endossa a importância da unidade entre a dimensão espiritual e social na prática religiosa dos cristãos. Propõe, dessa forma, que a devoção à Medianeira não seja um ato de fé intimista, mas uma oportunidade de levar os fiéis e os romeiros a um engajamento comunitário e social, em vista de um mundo melhor, mais justo e pacifico para, conforme seu relato em A Razão (17/11/1983):

  Temos esperanças de que esses toques profundamente religiosos tenham também consequências e repercussões na vida comunitária e no campo social. A religião, com efeito, não pode permanecer circunscrita ao âmbito pessoal ou intimista, mas deve ter uma dimensão de influência na vida pública. Por isso mesmo, vamos rezar para que aconteça a paz social, a prosperidade verdadeira e participada, a justiça, a superação das guerras e das outras formas de violência (p.11).

  Além dessa dedicação pastoral às massas de romeiros e devotos da Medianeira, Dom Ivo também marcou presença no cenário local, em espaços e grupos reduzidos e diferenciados. No que se refere à educação, por exemplo, há indícios da sua presença junto às escolas da região, orientando a comunidade escolar para os valores cristãos e o desenvolvimento social. Suas visitas às escolas da rede municipal evidenciam, por outro lado, a sua predisposição política em fortalecer os laços entre o Poder Público e a Igreja, na busca do mesmo objetivo, o bem comum para toda a sociedade (A RAZÃO, 28/05/1975).

  Essa visão política de Dom Ivo, baseada no diálogo crítico e na cooperação com os poderes públicos, identifica uma nova relação entre a Igreja e o Estado. Sugere-se que a Igreja do Brasil no passado servia aos interesses do Estado e mantinha-se submissa a este, como, por exemplo, no tempo da Colônia e do Império, através do sistema do Padroado. O Ultramontanismo e o pensamento liberal advindos da Europa, no entanto, geraram uma crise no Padroado, levando muitos bispos brasileiros à insubordinação ao Estado. Indica-se que a autoridade e o poder do Papa, em Roma, passaram a ser reforçados e a romanização da Igreja levou à sua autonomia em relação ao Estado, efetivada na Proclamação da República, em 1889. A partir daí, a meta da Igreja foi a recristianização da sociedade que estava a caminho da secularização (BIASOLI, 2005).

  Nessa perspectiva, entende-se na consulta ao Decreto Christus Dominus de Paulo VI (1965), que a ação política de Dom Ivo e de vários bispos contemporâneos seus esteja em conformidade com as orientações atuais da Igreja, evidenciadas no Concílio Vaticano II. Os documentos e decretos desse Concílio indicam um novo modelo de episcopado, onde os bispos tenham liberdade e independência diante dos poderes públicos, para exercer suas funções eclesiais. A Igreja indica, por outro lado, que os bispos cooperem respeitosamente com as autoridades públicas, obedecendo às leis justas dos países, e agindo em favor do progresso e da prosperidade social e civil.

  Nesse sentido, para realizar o seu trabalho de bispo, de acordo com essas orientações e princípios delimitados pela Igreja, percebe-se um grande esforço da parte de Dom Ivo. Na diocese, em Santa Maria e na CNBB, em Brasília, a sua presença foi constante em muitas reuniões, viagens, palestras e assessorias, bem como na sua proximidade junto aos pobres, às famílias e aos doentes. Desse modo, evidencia-se o pouco tempo disponível e o excesso de atividades e compromissos em sua agenda, conforme testemunha Ir. Cecília Dahmer em Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

  Cada dia 22 do mês, Dom Ivo viajava à Brasília para cumprir sua agenda como presidente, secretário ou responsável pelo setor dos Meios de Comunicação Social da CNBB, muitas vezes com a saúde debilitada. Voltava dia 30 do mês às 5 horas da madrugada, dormia um pouco e às 8 horas já estava a caminho das incansáveis visitas pastorais pela Diocese [...] Dom Ivo tinha um grande amor por todos sem distinção, mas dava preferência aos pobres, às famílias, às crianças e aos doentes (p. 29).

  Além desses compromissos na Diocese de Santa Maria e na CNBB, para atender compromissos também no exterior, Dom Ivo marcou presença em instituições e eventos em outros países. Dom Ivo, a serviço do Vaticano, da Igreja da América Latina, do Brasil, da CNBB e da Diocese de Santa Maria, viajou por vários países, de diferentes ideologias, tais como: Estados Unidos, Rússia, Argentina, Canadá, Alemanha e outros. Outras viagens teriam sido feitas por convites de entidades internacionais diversas. O relato de algumas dessas viagens, e sua relação com os objetivos da presente pesquisa serão abordados nos próximos capítulos. Percebe-se, por outro lado, que em virtude dessas viagens, Dom Ivo tenha recebido também algumas críticas pela necessária ausência na pastoral da diocese de Santa Maria e por sua postura política na direção da CNBB, especialmente no início de seu episcopado, conforme A Razão (16 e 17/10/1982):

  Durante os primeiros anos como bispo de Santa Maria, Dom Ivo sofreu críticas porque, segundo alguns fiéis, passava mais tempo em viagens do que em sua Diocese [...] Nessa época, enfrentou problemas porque desempenhava a dupla função, de pastor e de político. No recinto da Diocese, procurava assumir a postura de bispo, voltado exclusivamente às questões pastorais; ao embarcar para Brasília, sede da CNBB, voltava-se mais para os assuntos de ordem política (p.24).

  Essa crítica da postura de Dom Ivo na Diocese e na CNBB demonstra, mais uma vez, que havia associação entre a prática pastoral e política. Entende-se que o trabalho político na esfera nacional vai ter seu reflexo na esfera regional.

  Nesse cenário, Dom Ivo conviveu com a ditadura civil-militar, instaurada no Brasil de 1964 a 1985. A relação entre o Estado ditatorial e a Igreja no Brasil, nesse período, foi marcada pela pluralidade de posicionamentos. Nos capítulos posteriores desse trabalho, serão abordadas as posturas de Dom Ivo frente a essa conjuntura nacional. Nota-se em A Razão (22 e 23/05/2004) uma postura avançada e firme em Dom Ivo, frente aos excessos do Regime Militar:

  Como presidente da CNBB em duas vezes consecutivas, de 1979 a 1986, ele assumiu algumas posições avançadas dentro da Igreja e na defesa dos direitos humanos durante o Regime Militar. Chegou a enfrentar insinuações de que era comunista, mas nem por isso deixou de lutar e defender, por exemplo, a vida dos presos políticos. Jamais baixou a cabeça para os excessos cometidos pelo Regime Militar e seus líderes (p.13). Nesse cenário político do regime militar, houve críticas por parte de alguns setores da Igreja, considerados porta-vozes da insatisfação social. Entendiam que a política econômica adotada e preservada pelos governos civis-militares seria a principal causa do crescimento da pobreza, da miséria e dos problemas sociais no Brasil. Apesar disso, Dom Ivo e a CNBB apoiavam as reformas necessárias para reverter esse quadro e resolver os problemas sociais, conforme A Razão (22/08/1979):

  “O Governo tenta a todo custo preservar o modelo econômico, contra as pretensões das bases insatisfeitas, o modelo deverá ser modificado”, disse Dom Ivo acusando o modelo de causador das insatisfações sociais [...] “A Igreja e a CNBB entendem que o Brasil pode ainda comprometer-se com a busca interna pela Justiça, e esta, pelo atendimento das mais humildes aspirações de um povo que sofre, busca formas de realização humana a menores custos ecológicos” (p.5).

  Sugere-se, dessa forma, que Dom Ivo e a Igreja não apenas criticavam o modelo econômico vigente e o conseqüente agravamento dos problemas sociais, mas também apresentavam sugestões para a sua superação. Propõe-se em A Razão (22/08/1979), que a

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  reforma agrária, política e econômica, bem como a Anistia indicadas pela Igreja, seriam necessárias para o desenvolvimento e o bem comum ameaçados no país:

  Dom Ivo afirmou que, desde os seus primórdios, a CNBB tem se preocupado com o homem brasileiro, citando o problema da Reforma Agrária. Dom Ivo reafirmou que a CNBB continuará a insistir nas reformas políticas, as quais devem repousar em dois pilares: participação e igualdade. Assim a CNBB estaria encorajando os políticos em função do bem comum. Sublinhou a urgência de ser revisto o nosso modelo econômico para que não se perpetue a procura de um desenvolvimento falaz e discriminatório, e a urgência de um grande gesto de reconciliação através de uma Anistia sábia e digna desse nome (p.5).

  Nessa perspectiva, indica-se um reflexo dos problemas sociais do Brasil também no plano regional e local. Entende-se que Dom Ivo, percebendo essas problemáticas sociais no contexto nacional, centra-se na diocese de Santa Maria, indicando a necessidade de inserção da Igreja local nos problemas sociais do povo, na busca de alternativas à sua superação, conforme seu depoimento à Barichello; Belmonte (2004): “Quando fui nomeado para ser Bispo em Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, eu me dei conta de que esta região do Estado era relativamente pobre, isto é, tanto as cidades como o campo tinham muitas 7 carências” (p. 121).

  

A Anistia foi decretada em 1979 e possibilitou a volta dos exilados políticos ao Brasil. Os militares envolvidos

na repressão e nos crimes de tortura foram poupados de julgamento, o que não aconteceu com os guerrilheiros da

luta armada. A Anistia, mesmo assim, foi possível e importante, graças à articulação e à pressão política das

  Nesse sentido, sugere-se que os problemas sociais existentes em Santa Maria tenham

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  motivado Dom Ivo a fundar o Banco da Esperança em 1977, para oferecer oportunidades de trabalho e promoção humana na Diocese de Santa Maria. As atividades e os projetos sociais do Banco da Esperança e a sua relação com a Doutrina Social da Igreja serão tratados no capítulo posterior. Percebe-se que, a partir do Banco da Esperança, foram planejadas, executadas as iniciativas sociais da diocese de Santa Maria, conforme sugere o Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

  Uma das principais preocupações de Dom Ivo, ao ser nomeado Bispo de Santa Maria, era com a pobreza da região e a falta de oportunidade de trabalho para as pessoas mais humildes. Inspirado em um projeto criado por Dom Hélder Câmara no Rio de Janeiro (Feira da Providência), implantou em Santa Maria a Feira da Primavera, reunindo produtos de todas as cidades da Diocese. Foi a semente para a criação do Banco da Esperança, que reúne diversos projetos sociais (p. 14).

  Nessa perspectiva, percebe-se que Dom Ivo tenha motivado a Igreja a inserir-se no campo econômico e social não apenas em nível local, mas também em nível regional, junto à

  social, precisa superar a caridade entendida como mero assistencialismo. Indica-se que a justiça social e a caridade cristã são inseparáveis na prática social da Igreja, conforme o Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

  Nos anos 1970/80, por ocasião de três Congressos, ele desafiava a Cáritas e as Obras Sociais Católicas – os congressos e a ação da Cáritas naquela época se referiam bastante às Obras Sociais – a superarem a caridade para chegar à justiça [...] Ao mesmo tempo em que dizia que devemos superar a caridade para chegar a justiça, ele enfatizava a importância de nunca separarmos a justiça da caridade, pois esta, além de motivar-nos para a prática da justiça, funciona como óleo do motor de um veículo que faz evitar os atritos quando lutamos por justiça (p. 46).

  Desse modo, as ações de Dom Ivo, nessa luta pela justiça social, indicam uma valorização e incentivo também aos meios de comunicação social, na transmissão dos valores e dos princípios cristãos. Com o objetivo de incentivar os profissionais dos meios de comunicação da região a guiar-se por estes valores, instituiu-se na diocese de Santa Maria, em

  

planejar, coordenar e executar os programas e os projetos da Diocese de Santa Maria no campo econômico e

9 social (ARQUIVO DOM IVO LORSCHEITER, 2009).

  

A Cáritas Regional foi fundada no Rio Grande do Sul em 1961, como extensão da Cáritas Brasileira, criada

pela CNBB em 1956. Esta entidade coordena e dinamiza toda a ação social da Igreja Católica no Brasil

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  1986, o Prêmio Landell de Moura . Esse prêmio vem sendo entregue aos comunicadores que reconhecidamente apregoam em seu trabalho a defesa dos valores humanos e cristãos e incentivam a educação comunitária. Anualmente, no Dia das Comunicações Sociais, se faz a entrega deste prêmio aos vencedores, conforme A Razão (13/08/1986):

  Destina-se o Prêmio à pessoa ou empresa que, no campo da Comunicação Social e no âmbito dos 19 Municípios da Diocese de Santa Maria, alcançar especial benemerência na promoção e na defesa dos Valores Humanos e Cristãos e na Educação Comunitária. Queremos assim homenagear e promover este nobre apostolado da Comunicação de Massa, instrumento de formidável e salutar eficácia, desde que usado conscienciosamente segundo os critérios da Verdade e da Virtude (p.3).

  Nessa perspectiva, indica-se em A Razão (10 e 11/05/1986), que a fim de incutir o pensamento e os valores cristãos defendidos pela Doutrina Social da Igreja em diferentes ambientes e grupos sociais, Dom Ivo instituiu na Diocese de Santa Maria, em 1986, a devoção a Santo Ivo, patrono dos advogados, juízes, cultores e intérpretes do Direito, conforme A Razão (17 e 18/05/1986). A devoção a Santo Ivo ocorre sempre no dia 19 de cada mês, no Santuário Medianeira e, em maio, realiza-se a Romaria de Santo Ivo.

  Nesse sentido, entende-se em A Razão (21/12/1974) que a atuação de Dom Ivo em vários ambientes e espaços sociais e suas iniciativas em favor do desenvolvimento da sociedade identificam o reconhecimento e o agradecimento da comunidade local e regional em várias oportunidades. Assim, na inauguração do Banco da Esperança, no dia 20 de dezembro de 1977, ocasião em que Dom Ivo celebrava 25 anos de sua ordenação sacerdotal, a comunidade local e autoridades civis e religiosas de outras regiões e do país, marcaram presença e expressaram a sua gratidão e reconhecimento.

  Nessa mesma perspectiva, Dom Ivo foi homenageado em 1993, pela Câmara de Vereadores de Santa Maria. Dom Ivo, ao lado de outras pessoas homenageadas, recebeu, nesse ano, o título de Cidadão Santa-mariense. Essa homenagem vincula-se a sua destacada atuação e dedicação pessoal em prol da cidade, bem como a sua atitude de diálogo e a implantação de idéias novas (A RAZÃO, 14/12/1993).

  O Centro Universitário Franciscano - UNIFRA também aponta a relevância de Dom Ivo para o mundo acadêmico ao conceder-lhe, em 2005, o título de “Doutor Honoris Causa”. Este título honorífico sugere e traduz o reconhecimento da comunidade acadêmica e da própria região, pelo esforço e pela atuação de Dom Ivo na Igreja, em vista da promoção humana e social e do desenvolvimento local (ARQUIVO DOM IVO LORSCHEITER, 2009).

  Conforme A Razão (09/12/2002), a caminhada de Dom Ivo, como bispo de Santa Maria, vai até o pedido de renúncia, aos 75 anos, em dezembro de 2002, ao completar também 50 anos de sacerdócio. Em meio a homenagens, a comunidade local e a Diocese de Santa Maria celebraram estas datas. Segundo o costume na Igreja Católica, Dom Ivo solicitou nessa época ao Papa João Paulo II o seu pedido formal de renúncia ao cargo de bispo diocesano.

  Desse modo, não obstante as homenagens e o reconhecimento da comunidade pela realização de sua missão, Dom Ivo entende que existiram também lacunas e falhas em seu trabalho, como, por exemplo, as limitações e as dificuldades da Igreja em atuar no mundo acadêmico. Apesar dos projetos e iniciativas da Diocese, especialmente no campo econômico e social, Dom Ivo aponta as falhas da Igreja em relação à evangelização nas universidades em Santa Maria, reconhecida como cidade universitária, e sugere a superação desses limites e desafios, conforme seu relato à Barichello; Belmonte (2004):

  Me diziam: é importante que você vá para Santa Maria lembrando-se que é uma cidade universitária. Procure dar muito apoio a essa situação. Esse foi o meu receio porque fazer um trabalho apropriado com esse mundo universitário não é tão fácil assim. É científico, psicológico, com estudantes e professores. Eu reconheço que não consegui o que sempre se devia nesse mundo universitário. Mas eu sempre procurei cultivar isso, embora sabendo que nem sempre consegui uma verdadeira atuação pastoral. Deus vai perdoar por isso. Hoje Santa Maria tem aumentado cada vez mais em universidades, faculdades e colégios e eu creio que é preciso um trabalho mais especializado nessa área (p.31).

  Nesse sentido, essa autocrítica de Dom Ivo indica uma presença sua no mundo acadêmico não somente no sentido evangelizador. O Reitor da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM em 2004, Paulo Jorge Sarkis evidencia a importância da presença e da interação de Dom Ivo na cidade de Santa Maria e na universidade, conforme A Razão (22 e 23/05/2004): “O Dom Ivo sempre foi presença permanente nos grandes eventos e momentos cruciais da cidade. Interagiu com todos os setores da sociedade e na UFSM não foi diferente” (p.13). A afirmação do Reitor, no sentido dessa interação de Dom Ivo, não se vincula, porém a uma evangelização no mundo acadêmico.

  Além dessas considerações a respeito dos principais acontecimentos na sua trajetória de vida, o Projeto Esperança/Cooesperança (2007) indica que Dom Ivo sempre enfrentou problemas de saúde, bem como enfermidades adquiridas ao longo da vida. Indica-se, por exemplo, que Dom Ivo quase teria morrido sufocado na hora do seu nascimento, pois os médicos não perceberam logo que se tratava de duas crianças gêmeas, na hora do parto. Quando seminarista em Roma, Dom Ivo quase morreu devido a uma inflamação do peritônio, causada por uma forte pancada durante um jogo de basquete entre os seminaristas. Indica-se ainda que, um dia após a sua posse como bispo em Santa Maria, Dom Ivo foi hospitalizado às pressas para se submeter a uma cirurgia de retirada do baço.

  Ao concluir este capítulo sobre a trajetória de Dom Ivo, conforme A Razão (25/03 e 21/05/2004) é pertinente a indicação de que o Papa João Paulo II, no dia 24 de março de 2004, tenha aceitado o seu pedido de renúncia ao cargo de Bispo de Santa Maria. A posse do seu sucessor, Dom Hélio Adelar Rubert, ocorreu no dia 23 de maio de 2004. Na ocasião da despedida de Dom Ivo, após 30 anos como bispo de Santa Maria, indentifica-se o recebimento de homenagens e agradecimentos de vários setores e entidades da sociedade, pelo trabalho realizado. A partir da posse do novo bispo, Dom Ivo permaneceu na condição de Bispo

  Após identificar a trajetória episcopal de Dom Ivo, faz-se necessário a relação entre o seu trabalho pastoral e a Doutrina Social da Igreja. Na segunda parte, serão relacionados alguns aspectos da prática social de Dom Ivo e as orientações e princípios da moral social da Igreja Católica, especialmente através das encíclicas sociais.

  

3.2 A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo

Lorscheiter:

  considerado o documento basilar e norteador das demais encíclicas sociais que, juntas formam o corolário da Doutrina Social da Igreja. Nesse sentido, o magistério social da Igreja, formulado e enriquecido ao longo do tempo, orienta e fundamenta a prática social dos fiéis católicos em épocas e contextos diversos.

  Nessa perspectiva, a Rerum Novarum foi publicada num contexto de profundas transformações sociais ocorridas na Europa e no mundo inteiro, pela afirmação do capitalismo 11 industrial e do consequente surgimento da classe operária, no final do século XIX. Temas

  

Na Igreja Católica, os Bispos, ao completar 75 anos de vida, enviam ao Papa um pedido formal de renúncia ao

seu mandato episcopal. Quando o Papa aceita e confirma este pedido de renúncia, o bispo permanece na

12 condição de “Bispo Emérito” (JOÃO PAULO II, Código de Direito Canônico, 1987).

  

Encíclica é uma carta circular escrita e publicada pelo Papa, na abordagem de assuntos e temas próprios da novos e de difícil compreensão para os católicos dessa época, aguardavam uma orientação da Igreja no que se referia aos critérios da justiça social frente a essa conturbada relação entre os capitalistas e os operários. A “condição dos operários”, diante desse conflito estabelecido entre os detentores do capital e o proletariado, é o fio condutor dessa encíclica, e tornou-se o pano de fundo das demais encíclicas sociais da Igreja, como entende Leão XIII (1891):

  Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados e outros assuntos análogos, refutando, segundo nos pareceu oportuno, as opiniões errôneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. [...] É difícil, efetivamente, precisar com exatidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho (p. 1).

  O conflito estabelecido indica uma relação desigual e injusta entre o capital e o trabalho nessa época, o que motivou Leão XIII a conduzir a Igreja numa posição de auxílio às classes proletárias, em conformidade com o princípio cristão da justiça social. O proletariado estava relegado a uma situação de miséria, causada pelo monopólio da riqueza produzida pelo seu trabalho, concentrada nas mãos de uma minoria, que oprimia e explorava as massas operárias, conforme sugere Leão XIII (1891):

  É necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio das classes inferiores, atendendo a que elas estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida [...] A tudo isso se deve acrescentar que o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão de proletários (p. 2).

  A condição dos operários e a situação miserável da classe proletária, indicados por Leão XIII (1891), indicam um paralelo com a realidade brasileira, analisada sob a perspectiva da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano analisa a realidade brasileira e, nessa perspectiva, apresenta os principais problemas a serem combatidos pela Igreja do Brasil no campo social da evangelização tendo em vista o bem comum, o desenvolvimento e a justiça social no Brasil. A Igreja orienta, dessa maneira, os bispos, no sentido de priorizar as iniciativas sociais, conforme relata Dom Ivo em A Razão (16 e 17/03/1991):

  A partir de relatórios escritos, de conversas orais e de observações pessoais, Roma enxerga assim a situação social do nosso país: 1) Incerteza quanto à direção e rumo que tomará o Brasil; 2) má distribuição de bens entre regiões e entre classes sociais; 3) persistência dos males sociais, como analfabetismo, falta de saúde e previdência social; 4) injusta distribuição da terra e paralisação da Reforma Agrária; 5) clima de dos Índios; 9) destruição do meio-ambiente, pela destruição da vegetação e uso de tóxicos; 10) pesada dívida externa e dependência da economia global (p.2).

  Em nível regional Dom Ivo indica, nesse sentido, uma preocupação pastoral com a situação precária do Rio Grande do Sul, no âmbito econômico. A realidade evidenciada por Dom Ivo sugere uma estagnação financeira e um entrave no desenvolvimento regional, bem como a luta por interesses meramente corporativistas sem a preocupação com o bem comum, conforme A Razão (08/07/1987):

  Lançando um olhar pastoral sobre o Rio Grande do Sul, Dom Ivo diz que não pode deixar de sentir uma profunda preocupação. Precariedade financeira, impedindo uma ação de urgentes investimentos, aumentos salariais de alguns segmentos privilegiados em detrimento de outros; perigo de um corporativismo desagregador, que faz as classes reivindicarem exclusivamente seus interesses; greve do magistério estadual – estas são algumas das questões que estão preocupando Dom Ivo (p.5).

  Nessa perspectiva, Dom Ivo indica a importância do estudo e da aplicação da Doutrina Social da Igreja, diante dos graves problemas sociais existentes no contexto atual. A condição dos operários se repete e se atualiza na sociedade, com novas roupagens e em diferentes contextos. A falta de convergência entre muitos católicos, a respeito da moral social da Igreja, bem como o crescente aumento da pobreza e da miséria em algumas regiões, entre elas o Brasil, sugere o estudo e a inserção social da Igreja nesta realidade, conforme demonstrado por Dom Ivo sobre o discurso do Papa João Paulo II, em A Razão (14/01/1982):

  O bispo de Santa Maria lembra que a chamada Doutrina Social da Igreja merece um estudo atento e uma aplicação cuidadosa, especialmente nos dias de hoje, quando os problemas sociais se tornam mais graves e as posições, também dos católicos, nem sempre são convergentes. Foi o que enfatizou o Papa João Paulo II no discurso inaugural de Puebla: “Quando se exacerbam as injustiças e cresce dolorosamente a distância entre ricos e pobres, a Doutrina Social, em forma criativa e aberta aos amplos campos da presença da Igreja, deve ser precioso instrumento de formação e ação” (p.4).

  Demonstra-se uma mudança na Igreja a respeito da sua concepção acerca da moral social. Especialmente após o Concílio Vaticano II, sugere-se aos católicos a superação das atitudes de resignação e de conformismo diante dos problemas estruturais do mundo. A moral social evidenciada na Doutrina Social da Igreja sugere um esforço e um empenho coletivo na superação dos problemas do mundo e se relaciona, desse modo, com as práticas e iniciativas sociais de Dom Ivo. Essa nova percepção da moral social se esclarece em Vázquez (2003):

  [...] a reviravolta começa a esboçar-se na nossa época dentro do cristianismo – e especialmente dentro do catolicismo pós-conciliar –, no sentido de que os cristãos se orientem mais para este mundo e para o homem, participando inclusive com os não-crentes na transformação real dele, imprimindo uma nova feição à moral de inspiração religiosa. Esta dupla orientação para o mundo real e para o homem permite que as velhas virtudes – resignação, humildade, conformismo etc. – cedam lugar a outras vinculadas com o esforço coletivo para a emancipação efetiva neste mundo real (p. 91-2).

  Percebe-se que a Doutrina Social da Igreja muitas vezes é incompreendida em seus princípios e, por isso, é rejeitada por alguns cristãos e católicos, por motivos diversos. Em alguns aspectos, a Doutrina Social da Igreja é considerada próxima ao socialismo, o que causa certa confusão. As diversas concepções e pontos de vistas, às vezes equivocadas ou desvirtuadas, a respeito do magistério social da Igreja, não diminuem a importância da Doutrina Social da Igreja, especialmente no seu aspecto doutrinário, conforme indica Dom Ivo em A Razão (07/05/1989):

  Existem pessoas e grupos, mesmo entre os católicos, que não aceitam a expressão e a existência da “Doutrina Social da Igreja”, e isto por motivos diversos. Para alguns, a Igreja não deve doutrinar ou interferir em questões sociais [...] Todas essas alegações não se conseguem obscurecer ou invalidar a bem entendida Doutrina Social da Igreja. O Magistério Eclesiástico tem o encargo de iluminar e defender a ordem moral, não os aspectos técnicos da convivência humana (p.2).

  Nessa perspectiva, Leão XIII (1891) já advertia para a necessidade de cautela em relação às opiniões diversas, bem como às soluções propostas pelas ideologias da época, na busca de superação dos problemas relacionados à condição dos operários. A luta de classes entre pobres e ricos, proposta pelos socialistas revolucionários, ou comunistas, é condenada por Leão XIII (1891): “Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida” (p. 2).

  A consulta a Leão XIII (1891) sugere uma rejeição ao socialismo pela proposta de coletivização dos bens nas mãos do Estado, pois esta contraria o direito natural dos indivíduos à propriedade privada e causa perturbação da ordem pública. A Igreja condena o socialismo em seus princípios materialistas, que reduzem a natureza e o homem ao seu aspecto meramente material, dissociando-o da sua dimensão espiritual e cristã, e da sua relação com Deus, conforme esclarece Pio XI (1937): “É, pois, evidente que neste sistema não há lugar sequer para a idéia de Deus” (p. 3).

  Nesse sentido, Leão XIII (1891) admoesta também os capitalistas, os ricos e os patrões a respeitar os critérios da justiça social, a não escravizar os seus operários, a não desrespeitar a sua dignidade humana e cristã e a não considerá-los como meros instrumentos de lucro. Indica-se aos ricos o não-uso da violência, da fraude e da usura contra os pobres, considerados pela Igreja como os mais indefesos. Critica com veemência os abastados, pois em sua opinião eles formam: “uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, desvia o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais” (p. 20).

  O capitalismo liberal é da mesma forma condenado por Paulo VI (1967). O liberalismo econômico promovido pelo sistema capitalista visa ao progresso econômico, somente a partir do lucro e da concorrência no mercado e considera o direito à propriedade dos bens de produção como valor absoluto e ilimitado. O capitalismo, desse modo, promove apenas o progresso econômico, mas não se empenha pelo progresso social e, por isso, é condenado pela Igreja.

  Além das considerações da Igreja a respeito do socialismo e do capitalismo, na consulta a Bottomore (1983) entende-se, quanto ao “capitalismo”, que o capital é considerado o principal meio de produção, evidenciado em diferentes formatos. A propriedade privada do capital está concentrada nas mãos da classe dos capitalistas. O restante da população, que não integra esta classe, deve apenas constituir o modo de produção tipicamente capitalista, ou seja, o trabalho. Na leitura de Netto (1986), deduz-se que o “socialismo”, originário do marxismo, é concebido a partir da sua ruptura interna, cristalizada na fundação da Internacional Comunista em 1919. A partir daí, formaram-se duas correntes socialistas: os social-democratas, considerados reformistas e próximos da burguesia; e os comunistas, que agrupam os setores revolucionários do socialismo.

  Relacionando as orientações da Igreja a respeito da proposta socialista, Pio XI (1931) sugere uma função social inerente ao próprio conceito de propriedade privada: “Efetivamente que deva o homem atender não só ao próprio interesse, mas também ao bem comum, deduz-se da própria índole, a um tempo individual e social, do domínio a que nos referimos” (p. 10). Para Dom Ivo, essa concepção a respeito do “direito à propriedade privada”, no caso do Brasil, se aplica também ao direito à posse e ao domínio da terra. O direito à posse da terra é legítimo, no entanto, apenas quando este tipo de propriedade não é especulativo, mas também está disponível à geração de trabalho aos que dela precisam. Graves problemas sociais se acumulam no Brasil, em virtude da histórica concentração de propriedades de terra em latifúndios e minifúndios que não cumprem essa “função social”, sugere Dom Ivo (A RAZÃO, 22/07/1987).

  Conforme A Razão (11 e 12/04/1981) esse cenário, em âmbito nacional, reflete-se no padecem pela falta de incentivo e de apoio das autoridades, no que se refere à saúde e à educação para o homem do campo, bem como no difícil acesso pelo estado precário das estradas, pela falta de recursos e de assistência. Nesse sentido, propõe Dom Ivo em A Razão (22/07/1987): “uma melhor e mais justa distribuição da terra, de maneira que a possuam os que dela precisam para trabalhar” O bispo também recomenda a “eliminação dos minifúndios e que se evitem os latifúndios desnecessários e anti-sociais” (p.5).

  Na perspectiva da Doutrina Social da Igreja, a concentração da terra nos latifúndios do Brasil desperta a atenção e o interesse do Papa João Paulo II, ao propor Reforma Agrária no país, conforme relata Dom Ivo em A Razão (30/10/1986): “No encontro que mantive com sua santidade, no último sábado, ele demonstrou sua preocupação com a Reforma Agrária no Brasil, afirmando que ela não pode fracassar porque é uma questão de justiça e democracia” (p.15). Esse discurso demonstra a relação existente entre a prática de Dom Ivo e a Doutrina Social da Igreja.

  Nesse sentido, a partir dessas considerações, Dom Ivo confirma que a Igreja rejeita o socialismo, especialmente a sua corrente revolucionária ou comunista e, ao mesmo tempo, repele o capitalismo, pois ambas são consideradas ideologias incompatíveis com os princípios cristãos. Não existe, por outro lado, uma ideologia acabada e perfeita na sociedade, mas a Igreja sugere princípios cristãos na busca contínua de um sistema ideal de organização social, conforme esclarece Dom Ivo em A Razão (18/09/1979):

  [...] os dois sistemas são incompatíveis com o nosso modo de ver as coisas e com a visão Cristã. Não serve nem o sistema do liberalismo capitalista nem o sistema do marxismo comunista, enfatiza D. Ivo. Conclui afirmando que o sistema deve ainda ser buscado, a Igreja não pode montar o sistema com o modelo completo, ela dá os princípios (p.3).

  Diante dessa rejeição ao capitalismo e ao socialismo, a Doutrina Social da Igreja sugere a democracia como a opção política mais próxima ao ideal, ainda que imperfeita como as demais ideologias. Busca-se em Bobbio (1998) a definição de democracia, como um conjunto de regras e procedimentos claros e éticos, aplicados na constituição dos governos e nas decisões políticas que dizem respeito à comunidade humana. Paulo VI (1971) reflete que nenhuma ideologia ou sistema político é perfeito, nem mesmo a democracia. A busca do sistema político ideal permanece, portanto, aberta e sujeita às diferentes experiências políticas e ideológicas.

  A Igreja, ao defender e indicar a democracia, denuncia, por outro lado, a ausência da liberdade democrática e a existência de regimes ditatoriais em alguns países do mundo. As ditaduras são condenadas pela Igreja, pois contrariam a justiça social e os princípios democráticos. A consulta a Paulo VI (1971) evidencia a situação de muitos cristãos submetidos aos regimes totalitários, ou ditatoriais:

  Sem dúvida que são muito diversas as situações nas quais, voluntária ou forçosamente, se encontram comprometidos os cristãos [...] Em algumas partes, eles são reduzidos ao silêncio e olhados com suspeita e, por assim dizer, postos à margem da sociedade, enquadrados, sem liberdade, num sistema totalitário (p. 2).

  Nessa perspectiva, durante muitos anos em que Dom Ivo exerceu as funções de bispo de Santa Maria, Secretário e Presidente da CNBB vigorou no Brasil um sistema ditatorial e contrário aos princípios democráticos defendidos pela Doutrina Social da Igreja. O governo civil-militar perdurou no Brasil de 1964 a 1985. A década de 1970 evidencia na sociedade brasileira a contradição do assim chamado “milagre econômico” e o aumento da miséria social. Na consulta a Habert (1992), entende-se que o regime civil-militar favoreceu o enriquecimento abundante para alguns setores privilegiados da sociedade e promoveu o empobrecimento e a miséria dos trabalhadores e do povo, sobretudo através da política de arrocho salarial:

  Ao final de cada balanço econômico, o governo e a burguesia parabenizavam-se pelos números, pelo “clima de calma e tranqüilidade” que diziam existir no país e, é claro, pelas altíssimas taxas de lucros obtidos. No país dos recordes estatísticos, outros números desnudavam a face real do “milagre” para a imensa massa de trabalhadores da cidade e do campo. Mais da metade dos assalariados recebiam menos de um salário mínimo. Em matéria de subnutrição, mortalidade infantil e acidentes de trabalho, o Brasil estava entre os primeiros do mundo (p.11).

  Nesse cenário de aparente ordem e progresso, os problemas sociais e a insatisfação em relação ao regime civil-militar cresciam em vários setores da sociedade. Dom Ivo manteve oficialmente uma postura de diálogo crítico com o Estado ditatorial, indicando algumas fases mais difíceis e outras mais amenas. A insatisfação diante das contradições sociais geradas pela ditadura era reprimida com violência. Os escalões subalternos dos militares promoviam prisões arbitrárias, torturas e mortes de presos políticos, estudantes, operários e jornalistas, nos porões da ditadura, especialmente nas regiões de São Paulo e no Rio de Janeiro. Diante desses excessos, a CNBB reagia com mais veemência, criando problemas com os subalternos da ditadura, relata Dom Ivo (A RAZÃO, 05/10/1974).

  Nessa perspectiva, a consulta a Barichello; Belmonte (2004) sugere uma pluralidade de posicionamentos da Igreja em relação ao regime ditatorial. Inicialmente, ao ser deflagrado o golpe civil-militar, alguns setores da Igreja o apoiaram, devido ao discurso moralizante dos golpistas, decididos a combater a corrupção e a subversão no país. Esse discurso, segundo Dom Ivo, agradou a Igreja no Brasil, frente à situação de instabilidade política do país naquele período. O desenrolar dos fatos e o enrijecimento do autoritarismo do governo, pela imposição da censura à imprensa, das torturas, prisões e mortes de muitas pessoas, levaram alguns bispos e lideranças da Igreja, entre eles Dom Ivo, a mudar de opinião e de atitudes frente à ditadura.

  Para Ferreira; Delgado (2003), o regime civil-militar vigorou no Brasil num período de renovação interna da Igreja, promovida pelo Concílio Vaticano II. Nesse contexto, a Igreja do Brasil passou a se envolver mais nas questões sociais do país, bem como no seu posicionamento mais crítico frente aos governos ditatoriais. A CNBB, liderada por Dom Ivo, promovia a defesa dos direitos humanos e sociais, ameaçados pelo regime. As denúncias e críticas da Igreja aos excessos de violência cometidos na ditadura, geravam momentos de tensão em sua relação com o Estado.

  Nesse cenário, indicam Barichello; Belmonte (2004), a iniciativa de diálogo com o Estado partia da CNBB e era a melhor opção encontrada por Dom Ivo, na luta pelo fim da ditadura e pela redemocratização do Brasil. Sugere-se que esse diálogo tornou-se oficial com a instalação da Comissão Tripartite proposta pela CNBB e aceita pelos militares. A Igreja propunha, nessa Comissão, a intermediação do diálogo entre os governos militares e a sociedade civil, bem como os grupos de oposição à ditadura. Essa Comissão ajudou a conter os excessos e a violência da ditadura em várias situações, bem como favoreceu a sinalização da volta da democracia ao país, dos partidos políticos e a promoção dos direitos humanos, conforme relata Dom Ivo a Barichello; Belmonte (2004):

  A proposta era de uma comissão de três componentes ou três agrupamentos, três partidos. Por isso Tripartite: o Governo, a Igreja, os Empresários. Essa sugestão foi aceita e o Governo nomeou um General como representante oficial do governo [...] Agora vejo nessa Comissão Tripartite uma boa vontade nossa, dos Bispos que a projetamos. Queríamos encaminhar a democracia, o funcionamento dos partidos, os direitos humanos, etc (p. 45-6).

  Apesar dessa atitude oficial de diálogo da Igreja com o Estado ditatorial, sugere-se que a CNBB também se uniu às forças de oposição à ditadura e se empenhou pela abertura do regime e pela redemocratização do país. Para Dom Ivo, no entanto, não bastava apenas a distensão política e o fim da ditadura. Era preciso conscientizar o povo da importância da democracia que se busca novamente no país, bem como as suas implicações na sociedade brasileira, conforme indica A Razão (01/05/1979):

  Mesmo que ultimamente a Igreja venha se destacando como uma voz de Oposição no Brasil, Dom Ivo lembra que a CNBB é uma Oposição no Partido de Cristo, contrariando aqueles que se opõem ao plano de Deus. Dom Ivo acredita que não faltará diálogo entre o governo e a Igreja [...] O presidente da CNBB considera que a Democracia anunciada pela abertura não será fácil de aplicar, já que o povo tem que aprender o que ela representa (p.2).

  Em nível local, percebe-se os reflexos da ditadura não apenas na Igreja, mas também em outros espaços públicos, como a Câmara de Vereadores de Santa Maria. A leitura das atas da Câmara, durante o período da ditadura, evidencia a pluralidade de posicionamentos e a falta de consenso em relação à mesma. Alguns vereadores, ao ocupar a tribuna, teceram críticas à ditadura e a denunciaram como sendo a causa do empobrecimento e da miséria da população brasileira, também em nível local. Outros vereadores apoiavam abertamente o regime militar e justificavam as mazelas sociais com outros motivos. O vereador Orcy de Oliveira, por exemplo, manteve uma postura crítica em seus discursos e sugeriu que a CNBB

  e, portanto também Dom Ivo, não tenham compactuado com a ditadura. Na ata da Câmara de Vereadores (05/11/1979) Orcy de Oliveira evidencia que a CNNB e outras entidades se uniram em oposição à ditadura:

  ORCY DE OLIVEIRA: [...] refere-se ao pronunciamento do vereador Dallazzana, o qual disse querer participar de um partido de FAMINTOS, dos sem moradia, sem pão, etc; no entanto este vereador afirma que o referido partido é da maioria do povo brasileiro, devido ao regime instalado no País após 1964 e que continua dividindo a Nação entre BONS e MAUS brasileiros, pois BONS são aqueles que fazem parte do governo e que aplaudem seus atos, sendo que MAUS são todos os que somaram à oposição e que o MDB comandou nestes 15 anos e também aos que se somaram à CNBB e a OAB, entidades sindicais e todos os seguimentos sociais do País (fl. 4).

  Nessa perspectiva, o vereador Adelmo Genro Filho comenta o conteúdo de um panfleto difamatório contra a CNBB, distribuído na Câmara de Vereadores em Santa Maria. Em A Razão (27/05/1977), esclarece as posições da Igreja: “Não é estranho que surjam acusações a bispos que se colocam na defesa dos lavradores, operários, índios e os humildes em geral. Não é de estranhar, a acusação à maioria dos bispos da CNBB, que se tem posicionado a favor dos pobres” (p.16). Verifica-se, desse modo, um posicionamento crítico da Igreja frente à ditadura e uma preocupação com os problemas sociais enfrentados pelo povo brasileiro, nesse contexto.

  Nesse sentido, a Igreja reconhece a importância de Dom Ivo frente à CNBB, especialmente nos tempos mais difíceis da ditadura. Nesse período, Dom Ivo se manteve firme na luta pela defesa da justiça e dos direitos humanos e no auxilio aos perseguidos pelo para todos, obteve o reconhecimento e o respeito de todos, conforme sugere a consulta à Rádio Vaticana (2007):

  Dom Ivo Lorscheiter, que esteve à frente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) durante grande parte do período do regime militar no país, destacou-se, na época, por seu discurso em defesa dos direitos humanos e por seus trabalhos na busca por desaparecidos políticos [...] e se destacou como uma figura emblemática durante a ditadura, por suas críticas constantes às violações dos direitos humanos e a ajuda aos perseguidos políticos (p. 1).

  Percebe-se que o trabalho social não pode fugir das políticas públicas para efetuar as políticas sociais. Daí, entende-se que, além da defesa do processo democrático, o empenho de Dom Ivo pela dignidade humana relaciona-se com o social, no momento em que estas políticas públicas favorecem as alternativas de superação dos problemas sociais. Esse processo se coaduna com a perspectiva de Paulo VI (1971).

  Nessa perspectiva, a política econômica adotada pelos governos militares criou um profundo abismo social entre ricos e pobres, com grave comprometimento do tecido social brasileiro. Em nome do desenvolvimento e da segurança nacional, os governos militares optaram pela concentração do capital e da riqueza, pelo arrocho salarial e pelo favorecimento das multinacionais. A leitura em Mendonça; Fontes (1988) indica a inflação, o aumento da dívida externa e o desemprego como causa dos graves problemas sociais no país:

  O regime pós-64 representou, também, a afirmação do grande capital, consubstanciada na aliança empresariado, tecnocratas e militares na gestão de um modelo econômico concentracionista e progressivamente internacionalizado. Orientada para o azeitamento do padrão de acumulação vigente, a política econômica do governo, através de seus dois eixos – a concentração do capital e da renda versus arrocho salarial e privilegiamento das multinacionais -, acabou por aprofundar suas contradições latentes. Os limites desse modelo emergiram por volta de 1974, através dos índices inusitados das dívidas interna e externa. Daí por diante, a história econômica do Brasil resumiu-se num conjunto de tentativas inibidoras do binômio endividamento/ inflação, sem resultados palpáveis (p. 79).

  Nesse sentido, na fase final do regime militar, o empenho pessoal de Dom Ivo no diálogo com o último presidente militar, João Baptista Figueiredo é indicado como fundamental para o início do processo de abertura política. Na avaliação de A Razão (30/05/1979) o relacionamento entre a Igreja e o Estado se fortaleceu na fase final da ditadura:

  Tido pelos observadores políticos como o marco da nova fase de relacionamento entre a Igreja e o Governo, aconteceu [...] o encontro do Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e bispo diocesano de Santa Maria, D. Ivo Lorscheiter com o Presidente da República João Baptista Figueiredo. Após a reunião [...] D.Ivo afirmou que considera positivo o processo de abertura política no país e que, sem dúvida, isto favorece o relacionamento entre a Igreja e o Estado (p.3).

  O fim da ditadura e a redemocratização do Brasil, no entanto, não bastaram para resolver os problemas sociais do país. A Igreja ficou mais unida após a ditadura e continuou a desempenhar a sua missão, promovendo uma evangelização mais claramente voltada ao seu aspecto espiritual e social, no empenho pelas reformas sociais necessárias ao desenvolvimento do país. Como balanço desse período obscuro da história recente do Brasil, Dom Ivo indica em A Razão (18 e 19/04/1987):

  “O tempo da ditadura uniu muito os Bispos e clareou qual é a verdadeira tarefa pastoral da Igreja, que deve incluir, ao lado do espiritual, também o social, nos seus aspectos éticos. Por outro lado, a nova situação política do país não modificou os comportamentos da Igreja e da CNBB; se é mais fácil o acesso às pessoas do atual regime, continua a tarefa de defender os mais fracos e promover as reformas necessárias” (p.10).

  Nessa perspectiva, a dívida externa e interna aumentou no Brasil, especialmente durante a ditadura, engessou o país e impediu o seu crescimento econômico e o seu desenvolvimento social. Nessa perspectiva, sugere-se uma revisão das dívidas dos países pobres. João Paulo II (1991) considera justo o pagamento das dívidas, no entanto, condena o seu pagamento mediante os sacrifícios que se impõe às populações empobrecidas:

  Com certeza que é justo o princípio de que as dívidas devem ser pagas; não é lícito, porém, pedir ou pretender um pagamento, quando esse levaria de fato a impor opções políticas tais que condenariam à fome e ao desespero populações inteiras. Não se pode pretender que as dívidas contraídas sejam pagas com sacrifícios insuportáveis (p. 24).

  Nesse sentido, Dom Ivo na CNBB e vários movimentos populares, sindicatos e Igrejas se empenharam em organizar um plebiscito sobre a dívida externa e interna do Brasil. Essa iniciativa, apesar de não ser oficial e nem ter poder legal, foi uma oportunidade de reflexão e de discussão a respeito das causas e consequências das dívidas do Brasil. Na avaliação de Dom Ivo, a política econômica imposta pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) ao país, e os seus impactos são nocivos à sociedade brasileira. Os questionamentos sugeridos nesse plebiscito são apresentados por Dom Ivo em A Razão (18/07/2000): Conforme Dom Ivo Lorscheiter, três questionamentos vão nortear o plebiscito.

  Previamente definidas, o primeiro deles indaga se o governo deve manter o atual acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O outro questiona se o país deve continuar pagando a dívida externa, sem realizar auditoria interna desta pergunta se os governos federais, estaduais e municipais devem continuar usando grande parte do orçamento público para pagar a dívida interna (p.5).

  Nessa perspectiva, apontada no campo político e econômico, a Doutrina Social da Igreja sugere um engajamento político aos fiéis, pois, conforme indica Paulo VI (1971): “O cristão tem o dever de participar também ele nesta busca diligente, na organização e na vida da sociedade política” (p. 9). Por outro lado, a política, no sentido cristão, é autêntica somente quando concebida e praticada como um serviço à sociedade, desvinculado de ideologias e práticas contrárias à fé e a concepção cristã acerca da pessoa humana (PAULO VI, 1971).

  Dom Ivo sugere a política, no sentido da fé, como um exercício autêntico do poder, que considera e incentiva a participação popular e o despertar de lideranças políticas honestas e capazes. Indica-se que a Igreja não tenha opções político-partidárias, mas orienta os fiéis no exercício da democracia. Propõe-se que o povo tenha o direito de escolher livremente seus candidatos nas eleições, de acordo com suas preferências sem, no entanto, ser coagido e respeitando sempre as diferentes opiniões políticas. Sugere-se, por exemplo, que no processo eleitoral, os eleitores escolham sempre candidatos não apenas honestos, mas que sejam também capazes (A RAZÃO, 19/05/1976).

  Dom Ivo propõe a missão educativa da Igreja em relação à formação política dos cristãos em A Razão (02/09/1981): “A Igreja deve promover uma verdadeira educação política do povo, e ajuizar, inclusive sobre os critérios e programas partidários, julgando também os candidatos” (p.3). A dimensão política da fé cristã não se reduz à possibilidade de votar nas eleições democráticas. A ação política tem por finalidade realizar o projeto de Deus na sociedade humana, através da militância em favor do bem comum. O serviço dos cristãos à política nesse sentido, se entende na escolha responsável dos partidos e candidatos competentes, honestos, com espírito democrático (A RAZÃO, 21/02/1996).

  Dom Ivo ressalta que a Igreja, no entanto, não pode ser confundida com partidos políticos, conforme se posicionou o próprio Cristo em relação às questões políticas de seu tempo. Embora não tenha filiação partidária, a Igreja defende os princípios cristãos também no campo da política. Apesar das críticas de setores políticos que se incomodam com esses princípios, indica Dom Ivo em A Razão (26/03/1978): “a Igreja não pode ser confundida com partido político. Cristo não disse como seria o governo da Palestina. A Igreja só defende as posições que acha certa e não se preocupa com as fórmulas. Apesar disso, ela tem sido acusada de falar demais” (p.5).

  Nesse sentido, Dom Ivo evidencia a pouca representação política da comunidade local e regional, no sentido de se pleitearem projetos políticos em favor comunidade, ao afirmar em A Razão (24 e 25/09/1988): [...] “em toda a nossa região centro do Estado hoje em dia, devemos reconhecer que somos realmente pobres em representações políticas, até numericamente” (p.8).

  Em âmbito nacional, Dom Ivo indica a participação política da Igreja e dos católicos no processo de discussão em torno da formulação da nova Constituição Federal de 1988. Após a ditadura, com a redemocratização do Brasil, iniciou-se o processo de formulação da Constituição, com a ampla participação de toda a sociedade, inclusive a Igreja ao sugerir a discussão de temas indicados em A Razão (13 e 14/06/1987): “Família, Educação, Direitos do Homem e da Mulher, Ordem Econômica, Religião e Questão Indígena” (p. 3). Sugere-se, nesse processo o compromisso da Igreja, especialmente dos leigos, na vivência política da fé conforme A Razão (18/04/1985):

  Deverão iniciar-se agora os estudos sobre o Momento Nacional e a participação dos católicos na discussão da nova Constituição Federal. Dom Ivo diz que esta será uma oportunidade para concretizar a tarefa dos leigos, como também dos bispos, na nova fase política brasileira, mais aberta à participação de todos (p.5).

  Na sociedade brasileira, a corrupção e a falta de ética em muitos políticos e autoridades é umas dos aspectos evidentes da não observação da justiça social no país, bem como a causa do seu atraso e do subdesenvolvimento. Nessa perspectiva, a CNBB indicou em certa ocasião um Jejum, a fim de sensibilizar politicamente a sociedade brasileira, no combate à corrupção e na conscientização a respeito dos valores éticos e morais ausentes em grande parte da política nacional, afirma A Razão (08/09/1992):

  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolheu uma maneira singular para marcar a sua posição contra a corrupção no país: o jejum no dia 7 de Setembro [...] A situação nacional, na análise de Dom Ivo, vai propiciar uma mudança no sentido do resgate dos valores morais [...] se deve utilizar todos os mecanismos que a democracia dispõe e adotar medidas fortes no combate à corrupção (p.3).

  Percebe-se, nesse empenho de Dom Ivo e da CNNB pela ética na política, uma relação com a Doutrina Social da Igreja, ao compreender a política como um serviço ao bem comum na sociedade, desvinculado de interesses pessoais, conforme Paulo VI (1971). O desafio em sugerirem-se valores éticos na política se evidencia na consulta a Vázquez (2003), pois a ética objetiva antes o exame e a compreensão da moral. A ética, desse modo, não determina, mas investiga e explica os diversos comportamentos morais:

  A ética é teoria, investigação ou explicação de um tipo de experiência humana ou forma de comportamento dos homens, o da moral, considerado, porém na sua totalidade, diversidade e variedade [...] O valor da ética como teoria está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vistas à ação em situações concretas (p.21).

  Nessa perspectiva, a politização do povo e a formação para a ética na política se fazem necessárias, através de espaços de formação política. A “Escola de Educação Política”, foi fundada, nessa perspectiva, pela Diocese de Santa Maria e outras dioceses da região. Nessa Escola se oportuniza um estudo sistemático sobre a Política, nos parâmetros da Doutrina Social da Igreja, conforme relato de Dom Ivo em A Razão (07 e 08/01/1995):

  Entre outras iniciativas pastorais, as 6 Dioceses de Santa Cruz do Sul, Cachoeira do Sul, Cruz Alta, Santo Ângelo, Uruguaiana e Santa Maria decidiram criar em 1995, uma Escola de Educação Política [...] A planejada Escola compreenderá conteúdos doutrinários e práticos. A parte doutrinária abrangerá os conceitos fundamentais a partir da Bíblia, do Ensinamento Social da Igreja e da Ética Social; o conceito de Ideologia e as principais Ideologias atuais; o sentido de Estado, de Política e dos Partidos (p.2).

  Nessa perspectiva de incentivo à politização dos fiéis, a partir dos critérios da Doutrina Social da Igreja, sugere-se uma correlação da política com a economia, nos parâmetros da justiça social. Pio XI (1931) indica, por exemplo, a necessidade da tutela do Estado sobre a economia, contendo os seus excessos, pois: “A livre concorrência contida dentro de justos e razoáveis limites e mais ainda o poderio econômico devem estar sujeitos à autoridade pública [...] as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum” (p. 20).

  Paulo VI (1965) enfatiza que os bens produzidos pela economia estão a serviço da pessoa, e não o contrário. Uma economia justa, nesta perspectiva, supõe o acesso a esses bens e a garantia dos direitos da pessoa humana, em vista do progresso e da harmonia social:

  É preciso portanto que se tornem acessíveis ao homem todas aquelas coisas que lhe são necessárias para levar uma vida verdadeiramente humana. Tais são: alimento, roupa, habitação, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo a norma reta de sua consciência, direito à proteção da vida particular e à justa liberdade, também em matéria religiosa. Portanto, a ordem social e o seu progresso devem ordenar-se incessantemente ao bem das pessoas, pois a organização das coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas e não ao contrário (p. 31).

  Nessa perspectiva de busca de solução para a condição operária e dos problemas sociais persistentes na sociedade, a consulta a João XXIII (1961) indica uma relação política entre a questão social e a economia, pois: “o progresso social deve acompanhar e igualar o desenvolvimento econômico, de modo que todas as categorias sociais tenham parte nos produtos obtidos em maior quantidade” (p. 11). A finalidade última da economia é a melhoria das condições de vida de todos os membros da sociedade. Para isso, não basta a abundância de bens produzidos na sociedade. É preciso que a sua partilha e distribuição seja real e eficaz, com critérios justos. Para isso, João XXIII (1961) aponta soluções alternativas na superação dos problemas sociais, provocados pela economia liberal, a fim de promover o bem comum: “Devem-se conservar e promover, de harmonia com o bem comum e conforme as possibilidades técnicas, a empresa artesanal, a exploração agrícola familiar e também a empresa cooperativista, como integração das duas precedentes” (p. 13).

  A eficácia dos resultados desejados no combate aos problemas sociais depende, no entanto, do cumprimento prévio de alguns passos metodológicos, conforme sugere João

  XXIII (1961): “estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e diretrizes; exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e as diretrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou reclama” (p.33).

  Nessa perspectiva, a condição dos operários denunciada pelo Papa Leão XIII (1891) tem se agravado ao longo do tempo, devido ao fortalecimento da economia excludente e liberal e do aumento da distância social entre ricos e pobres, em escala mundial. A Doutrina Social da Igreja, diante dessa realidade, enfatiza os direitos do ser humano em nível universal, conforme sugere João XXIII (1963):

  [...] o ser humano tem direito à existência, à integridade física, aos recursos correspondentes a um digno padrão de vida: tais são especialmente o alimento, o vestuário, a moradia, o repouso, a assistência sanitária, os serviços indispensáveis. Segue-se daí que a pessoa tem também o direito de ser amparada em caso de doença, de invalidez, de velhice, de desemprego forçado, e em qualquer outro caso de privação dos meios de sustento por circunstâncias independentes de sua vontade (p. 5).

  A realidade concreta evidencia, no entanto, que estes direitos estão longe de ser assegurados a todos os seres humanos. Persistem em várias partes do mundo os problemas enunciados pela Doutrina Social da Igreja. A sociedade brasileira é um exemplo claro desse distanciamento abismal entre ricos e pobres, condenado pela Igreja. Nesse sentido, sugere-se a necessidade de inserção da Igreja não apenas no aspecto espiritual e religioso, mas também na dimensão social da evangelização. As contradições sociais e os sofrimentos do mundo, portanto, fazem parte da missão evangelizadora da Igreja. Para tanto, sugere-se a formulação de iniciativas de superação dessas contradições e sofrimentos a que grande parcela da humanidade permanece submetida, conforme Leão XIII (1891):

  Não se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor [...] A Igreja, além disso, provê também diretamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e sustentação de instituições que ela julga próprias para aliviar a sua miséria (p. 12-3).

  A inserção da Igreja, pela liderança de Dom Ivo, demonstra que a Igreja não está presente somente na parte espiritual, mas também vai ao encontro das realidades do mundo, no caso do Brasil, através da CNBB. A natureza espiritual e social do ser humano se evidencia numa religiosidade autêntica. As mais profundas crenças religiosas brotam do interior das pessoas e as levam a se comunicar com os outros e a viver a sua religião em comunidade. As manifestações religiosas têm também uma dimensão comunitária, conforme sugere Paulo VI na Declaração Dignitatis Humanae (1965): “A própria natureza social do homem exige que ele manifeste externamente atos internos de religião, que se comunique com outros em matéria religiosa, que professe sua religião de forma comunitária” (p. 602).

  De acordo com esta compreensão a respeito da totalidade do ser humano e da prática comunitária de sua religiosidade, Adelmo Genro Filho, indica em Dom Ivo e na Igreja Católica, uma fidelidade a esta percepção. Dom Ivo e a Igreja em suas iniciativas e práticas de solidariedade humana, bem como o incentivo à irmandade entre os pobres da sociedade, são apontados nessa perspectiva por Adelmo Genro Filho na Câmara de Vereadores de Santa Maria (06/04/1981):

  Adelmo Genro Filho: a visita de D. Ivo – que tem todo o seu testemunho de solidariedade humana – reflete para o PMDB um estímulo e irmandade de objetivos em favor dos marginalizados e oprimidos. Para o vereador, D. Ivo deu ao país provas e testemunho de que a participação da Igreja entende o homem como um ser transcendente para igualar-se (fl 1).

  Nessa perspectiva, as classes menos favorecidas permanecem sujeitas a um crescente empobrecimento, a exemplo da condição dos operários evidenciada por Leão XIII (1891) e denotam a estagnação do desenvolvimento social também em épocas mais recentes. A consulta a João Paulo II na encíclica Sollicitudo rei Socialis (1987) indica, nesse sentido, a “opção preferencial pelos pobres”. Essa opção não é exclusiva, mas sugere a prioridade dos pobres na evangelização da Igreja, pois estes são os mais necessitados de ajuda e de promoção humana. Na sociedade, a pobreza se expressa de múltiplas formas e maneiras. Na avaliação de João Paulo II (1987) esta realidade faz parte da missão a ser evangelizada pela Igreja, à qual os cristãos não podem se esquivar, na perspectiva da justiça social:

  [...] a opção ou amor preferencial pelos pobres. Trata-se de uma opção, ou de uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja [...] hoje, dada a dimensão mundial que a questão social assumiu, este amor preferencial, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, de sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor: não se pode deixar de ter em conta a existência destas realidades (p. 30-1).

  A pobreza tem aumentado significativamente em várias partes do mundo. A falta de oportunidades de trabalho é apontada como um das principais causas desse empobrecimento, em escala mundial. João Paulo II (1981) indica, nessa perspectiva, o direito ao trabalho para todos, como fundamento na construção do progresso e da reta ordem social. Se as oportunidades de trabalho forem incorporadas às estruturas econômicas, os problemas sociais serão solucionados, pois: “o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem homem” (p. 9). Na avaliação de João Paulo II (1981), desde o começo da industrialização, a Igreja ressalta a importância do homem, como sujeito principal do trabalho:

  Tanto a primeira industrialização, que fez com que surgisse a chamada questão operária, como as sucessivas mudanças industriais e pós-industriais demonstram claramente que, mesmo na época do “trabalho” cada dia mais mecanizado, o sujeito do trabalho continua a ser o homem (p. 13).

  Nesse sentido, sugere-se que a Igreja reflita sobre estas realidades do mundo do trabalho, sobretudo o desemprego que causa problemas sociais graves e a necessidade de reformas, em vista de mais possibilidades de trabalho, indica Dom Ivo em A Razão (18/02/1999): “a Igreja quer estimular o debate sobre o trabalho e ampliação de projetos como a reforma agrária, agricultura familiar e cooperativas de trabalho” (p. 4).

  Na avaliação de Singer; Souza (2000) o desemprego e a falta efetiva de trabalho para todos sugerem a importância dos projetos e alternativas solidárias na superação dos problemas sociais gerados. A economia solidária é indicada como benéfica para a sociedade e para os trabalhadores nesse contexto de exclusão social desencadeada pelo desemprego. As cooperativas, redes de solidariedade, sindicatos, setores de auto-gestão, a reforma agrária e as universidades exercem papel fundamental na busca de uma alternativa solidária à economia excludente. Esses setores promovem a mudança da mentalidade na sociedade ao divulgar estratégias de construção de uma sociedade democrática, com uma economia solidária, voltada à dignidade humana e à justiça social. Essas propostas e iniciativas convergem para os princípios apontados na Doutrina Social da Igreja.

  Para Leão XIII (1891) a ausência da justiça social no mundo do trabalho gera violência na sociedade e leva os trabalhadores a pressionar as autoridades e os patrões através do recurso das greves: “o trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves” (p.17). O Estado, nessa perspectiva, deve regular as relações entre o trabalho e o capital para que a violência das greves não seja utilizada: [...] “porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns [...] põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública” (p. 17).

  Na avaliação de Dom Ivo em A Razão (05/05/1995), o recurso às greves é legítimo apenas em último caso, em situações extremas, para se conquistar o que é socialmente justo: “O Bispo de Santa Maria considera a greve um instrumento legítimo de pressão, “o último que deve ser usado”, frisou. Dom Ivo acredita que “as paralisações constituem o método de pressionar para que haja mais justiça social” (p. 8).

  Durante a onda de greves no Brasil, a partir de 1979, Dom Ivo e a CNBB apoiaram os grevistas metalúrgicos do ABC em São Paulo, por considerarem justas as suas reivindicações, voltadas aos interesses comuns da sociedade brasileira. Este posicionamento de Dom Ivo, na defesa dos grevistas, gerou descontentamento no governo, conforme A Razão (25/04/1980): “o presidente João Figueiredo [...] não só manifestou que a Igreja incita a greve, disse que ela está de certa forma agindo contra a lei, já que para o governo a greve dos metalúrgicos do ABC é ilegal” (p. 15).

  Nessa perspectiva, João Paulo II (1981) afirma e sugere a necessidade de promoção de iniciativas de solidariedade entre os trabalhadores, para que a justiça social seja implantada no trabalho, pois: “Para se realizar a justiça social nas diversas partes do mundo, nos vários países e nas relações entre eles, é preciso que haja sempre novos movimentos de solidariedade

  

dos homens do trabalho e de solidariedade com os homens do trabalho” (p.22). Os

  trabalhadores organizados nas instituições sindicais, nas diversas categorias profissionais, têm papel relevante na luta pela implantação da justiça social no mundo do trabalho: “Eles são, sim, um expoente da luta pela justiça social, pelos justos direitos dos homens do trabalho segundo as suas diversas profissões” (p. 53).

  Nessa perspectiva, Dom Ivo sugere a preocupação da Igreja em promover também a organização dos trabalhadores rurais, no sentido de uni-los em torno da luta pela justiça social no campo. Não somente os operários das cidades, mas também os trabalhadores do campo são auxiliados pela Igreja em sua organização sindical em vista da sua união na busca pelos seus direitos, conforme demonstra Dom Ivo em A Razão (01/05/1976): “A Igreja, especialmente no Rio Grande do Sul, muito se empenhou pela sindicalização rural” (p. 8).

  Dom Ivo, ao longo de seu episcopado na Diocese de Santa Maria, indica a consecução de vários projetos e iniciativas de cunho social, em favor da redenção material e espiritual do seu rebanho, contribuindo com o desenvolvimento social, nos critérios da justiça social. Desde o início de seu episcopado na diocese de Santa Maria, em 1974, Dom Ivo sugeria a busca de parcerias com o poder público local, na superação dos problemas do povo. As iniciativas de Dom Ivo e da Igreja no campo social obtiveram sempre o reconhecimento das autoridades públicas, como sugere A Razão (10/09/1974):

  Oficialmente o bispo foi saudado pelos Vereadores João Gilberto Lucas Coelho, do MDB e Augusto Cechin, da Arena. O emedebista que falou em primeiro lugar, após a as saudações iniciais, ofereceu a “solidariedade da bancada do MDB às posições e ao trabalho da Igreja em defesa e pela promoção do homem e do povo brasileiro”. Por sua vez, o orador arenista destacou a necessidade de um trabalho conjunto entre o Legislativo e a Diocese local “pois todos buscamos o mesmo fim” (p. 16).

  Nessa perspectiva de parcerias e cooperação entre a Igreja e o poder público, na busca do desenvolvimento e da justiça social, sugere-se a organização de encontros de estudo e de partilha entre os prefeitos e vereadores dos municípios da Diocese de Santa Maria e o bispo diocesano. Nestes encontros objetiva-se conforme A Razão (31/12/1982): “uma análise da situação dos municípios da região e a discussão de formas de colaboração entre a Igreja os Governos Municipais” (p. 12). Essa união de esforços na superação dos problemas sociais a nível local aponta a iniciativa da Diocese de Santa Maria em colaborar com o poder público municipal, por exemplo, na doação de terrenos da Igreja para a construção de escolas e através da participação no ensino religioso, como indica A Razão (11/01/1989):

  Segundo Dom Ivo, será necessária uma cooperação entre a Igreja de Santa Maria e o Governo Municipal, especialmente com relação às escolas municipais, onde a primeira instituição vem cedendo terrenos para a construção de prédios e marca presença através do ensino religioso (p. 3).

  Na avaliação de A Razão (24/08/1994), o apoio da Diocese de Santa Maria ao Lar Recanto da Esperança, fundado por uma iniciativa privada em 1994, demonstra o interesse de Dom Ivo em somar forças na causa social da Igreja. O Lar Recanto da Esperança não é de responsabilidade da Diocese de Santa Maria, pois foi idealizado por uma empresária, Edite Undertmark, em consonância com o Conselho Tutelar de Santa Maria. O apoio de Dom Ivo se deu na cedência de um espaço junto ao Altar Monumento no Parque Medianeira para este projeto, onde crianças e adolescentes em situação de risco recebem atendimento e acolhida.

  Na leitura de A Razão (01 e 02/06/1991) evidencia-se a organização do “Seminário de Alternativas à Cultura do Fumo”, uma iniciativa social empreendida por Dom Ivo e a Diocese de Santa Maria, em 1991, em parceria com outras dioceses da região, no combate ao tabagismo. A Diocese de Santa Maria pretende conscientizar a população a respeito dos malefícios do fumo, a exemplo de outros projetos e iniciativas referentes ao alcoolismo e às drogas. Além de ser prejudicial à saúde humana, o fumo causa a morte de milhares de pessoas no mundo. As dioceses envolvidas pretendem, além disso, discutir e propor novas alternativas de renda aos produtores atrelados à monocultura do tabaco nessas regiões.

  Conforme A Razão (09/01 e 17/03/2003), a cooperação da Igreja com o poder público se evidencia também, em nível local, na ocasião em que foi lançado pelo governo federal, o programa Fome Zero. A CNBB lançou, ao mesmo tempo, o Mutirão Nacional do Combate à Fome e à Miséria. A Diocese e o Município de Santa Maria se uniram na busca de soluções para o problema da fome e da miséria na região, com a perspectiva de levar assistência e gerar oportunidades de emprego e renda aos mais pobres. O primeiro passo, nesse projeto, foi o levantamento dos bolsões de miséria existentes em Santa Maria. Para Dom Ivo, esta iniciativa não deve ser assistencialista nem tomar contornos político-partidários.

  Além dessas iniciativas sociais de caráter pontual, Dom Ivo organizou projetos sociais na Diocese de Santa Maria desde a sua posse, como bispo diocesano em 1974. Nessa época a Ação Social da Diocese já estava organizada, com várias atividades sociais em andamento, desde a sua fundação em 1969, conforme aponta o Diário da Justiça Estado do Rio Grande do Sul (14/07/1969):

  1ử. Denominaão: A AđấO SOCIAL DIOCESANA DE SANTA MARIA (ASD) foi fundada a vinte de março de mil novecentos e sessenta e nove (...) 3º. FINS – A AđấO SOCIAL DIOCESANA é uma sociedade de âmbito diocesano que tem por finalidade promover atividades de assistência social e educação de base e promoção humana de pessoas, de grupos e comunidade econômica e culturalmente necessitadas (s/p.).

  A Razão (23/06/1976) afirma que o “Mensageiro da Caridade” e a “Operação Periferia” foram os primeiros projetos sociais empreendidos por Dom Ivo na Diocese de Santa Maria, a partir das práticas sociais já existentes na Ação Social Diocesana. Através do Mensageiro da Caridade, Dom Ivo desejava arrecadar donativos para o trabalho da Ação Social Diocesana, a serem destinados aos mais pobres. A Operação Periferia foi organizada em equipes de religiosos e leigos voluntários, desafiados a percorrer as vilas da cidade de Santa Maria e as comunidades rurais do município, para realizar um levantamento da situação social da região. A constatação das equipes pode ser resumida na miséria em que se encontrava grande parte dessas populações. Dom Ivo queria, com esses primeiros projetos sociais, criar vínculos de solidariedade entre a população do centro e das vilas empobrecidas, na busca de solução desses problemas, conscientizando a todos da totalidade do ser humano a ser evangelizada, em sua realidade corporal e espiritual, conforme esclarece Dom Ivo em A Razão (23/06/1976):

  Sem nos negar a outros programas, do nosso Setor de Ação Social, já continuaremos a desenvolver dois projetos conhecidos da opinião pública e para os quais pedimos ainda maior apoio e colaboração. O primeiro é o “Mensageiro da Caridade”, que recolhe e distribue aos pobres alimentos, vestidos, agasalhos e outros objetos necessários; o segundo é a “Operação Periferia”, que deseja lançar equipes voluntárias e plurivalentes para animar e desenvolver os núcleos mais carentes dos nossos bairros e vilas (p. 3).

  O aumento das demandas sociais na cidade e na Diocese de Santa Maria, sobretudo pela miséria e vulnerabilidade social, constatadas na Operação Periferia, motivou Dom Ivo a organizar a “Feira da Primavera”, em 1976, no Parque Medianeira. Através dessa Feira, Dom Ivo desejava organizar melhor a assistência social da Igreja. Para isso, Dom Ivo contava com a participação anual das paróquias e dos municípios que compunham a Diocese de Santa Maria nesse evento, conforme relata em A Razão (09/09/1976):

  O resultado da Feira será destinado às obras sociais da Diocese e das Paróquias, num novo de sermos úteis aos nossos irmãos carentes. É nossa pretensão repetir anualmente esta Feira, ampliando cada vez mais seu volume e, portanto, seu alcance e seus resultados [...] A partir do próximo ano, iremos convidar os 19 Municípios abrangidos pela nossa Diocese para que organizem suas tendas numa atmosfera de congraçamento, de promoção dos seus aspectos típicos e de conjugação de esforços em prol dos pobres (p. 3).

  Além do aspecto econômico da Feira da Primavera, ao possibilitar o financiamento parcial da Ação Social da Diocese, Humberto Gabbi Zanatta em A Razão (23/09/1977), destaca a conscientização social que se desperta entre a população, em cada edição da Feira, sobretudo na percepção das realidades de pobreza e de miséria a que muitas pessoas estão submetidas na Diocese:

  [...] a Feira da Primavera tem condições de se tornar, a cada ano que passa, um novo apelo e uma nova consciência, permanecendo nos corações de todos o convite de que é preciso fazer acontecer uma primavera imorredoura de sincera fraternidade para os que estão na “faixa dos mais necessitados de toda a Diocese, hoje alargada pelas numerosas ameaças de resvalar para a miséria” (p. 2).

  Em A Razão (03/10/1981), Osvaldo Nascimento da Silva, prefeito de Santa Maria na época, afirma que a Feira da Primavera evidencia a prática social da Igreja e a sua preocupação em auxiliar na solução dos problemas sociais da população mais pobre: “a Feira da Primavera dá um testemunho de preocupação com o bem-comum e com os menos favorecidos” (p. 7).

  Na leitura de A Razão (11/09/2000) indica-se que as obras sociais da Diocese de Santa Maria eram financiadas, sobretudo, pela Feira da Primavera e, devido ao aumento das demandas da Ação Social Diocesana, passaram a ser organizadas e reunidas no “Banco da Esperança”, fundado por Dom Ivo no dia 20 de dezembro de 1977. A partir daí, os recursos obtidos com a comercialização anual de produtos na Feira da Primavera são destinados aos projetos financiados pelo Banco da Esperança, retornando às paróquias e aos municípios que fazem parte da diocese de Santa Maria.

  A coordenação do Banco da Esperança foi delegada por Dom Ivo a algumas Irmãs do Amor Divino. Ir. Cecília Dahmer, coordenadora do Banco da Esperança por muitos anos, resume as finalidades desse Banco, que é mantido em grande parte com os recursos obtidos nas Feiras da Primavera. O Banco da Esperança financia pequenas iniciativas e projetos sociais em vista do desenvolvimento das comunidades mais pobres, de acordo com os princípios da Doutrina Social da Igreja, conforme relata Ir. Cecília Dahmer em A Razão (03/10/2003):

  A Coordenadora do Banco da Esperança, irmã Cecília Dahmer, explica que a feira tem, entre seus objetivos, incentivar, assessorar e financiar pequenos empreendimentos industriais e agropecuários, visando ao desenvolvimento das comunidades empobrecidas. “Também buscamos a articulação e organização de cursos de formação profissional objetivando a promoção integral das pessoas através da ação social”, disse a irmã (p. 5).

  No Arquivo Dom Ivo Lorscheiter (2009), documentos relacionam os aspectos históricos do Banco da Esperança e suas origens na Ação Social Diocesana. Com o passar dos anos, diante dos novos fatos e das necessidades sociais que foram surgindo, o Banco da Esperança foi ampliando suas atividades e agregando os diversos setores que, de forma organizada e sintonizada, atendem as solicitações e demandas que surgem na diocese:

  O Banco da Esperança iniciou como Ação Social Diocese de Santa Maria ou Cáritas Diocesana, fundada em 29 de março de 1969. É uma entidade de âmbito visando a uma sociedade mais solidária. Está organizada em diversos SETORES para atender as necessidades do tempo; em razão disso, foram ampliadas suas atividades. Em 20 de dezembro de 1977 foi fundado o Banco da Esperança, com a possibilidade de criar novos setores, assumindo assim, os desafios que o mundo da tecnologia e da globalização exigem [...] o Banco da Esperança passou a congregar a Ação Social Diocesana, com todas as Carteiras já existentes (apr/dr, cx 27).

  A leitura de documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter (2009) sugere que o Banco da Esperança, em sua natureza trata-se de uma entidade beneficiente, vinculado à Diocese de Santa Maria, que presta assistência social em múltiplas atividades, nas diversas situações e demandas da sociedade, fundamentadas nos princípios da Doutrina Social, especialmente a justiça e a solidariedade, em vista do desenvolvimento da sociedade. As finalidades do Banco da Esperança se referem aos aspectos da formação profissional, programas de solidariedade, saúde comunitária, associativismo, financiamento de pequenos projetos e recolhimento e repasse de materiais:

  NATUREZA: O Banco da Esperança é uma entidade Beneficiente de Assistência Social, sem fins lucrativos, é órgão vinculado à Mitra Diocesana de Santa Maria, que realiza atividades sociais, educacionais, culturais e assistenciais, visando uma sociedade mais justa e solidária. FINALIDADES: I - articular e organizar cursos de formação profissional, visando a promoção integral das pessoas; II - implementar ações e programas de solidariedade, através do “Projeto Criança Esperança, Projeto Esperança” e outros; III – promover a saúde comunitária na prevenção e inserção social, através de unidades sanitárias, comunidade terapêutica, grupos de mútua ajuda e casa de triagem; IV – realizar a educação do espírito comunitário, associativo e transformador, especialmente das comunidades de baixa renda do meio urbano e rural; V – incentivar, assessorar e financiar pequenos empreendimentos industriais e agropecuários, visando ao autodesenvolvimento das comunidades empobrecidas; VI – recolher e repassar pedagogicamente objetos materiais, como: roupas, móveis, alimentos e remédios; VII – promover, anualmente, a Feira da Primavera com a participação das Prefeituras Municipais e Paróquias da região da Diocese de Santa Maria (apr/dr, cx 27).

  O Banco da Esperança está organizado em diversos Setores que favorecem, de forma organizada e sistemática, um atendimento qualificado às demandas sociais existentes na Diocese de Santa Maria. Estes setores são: Ajuda e Emergência; Saúde Comunitária; Jurídico; Qualificação Profissional; Escola de Educação Infantil – Creches; Projeto Criança Esperança; Centro de Orientação e Apoio à Família – COAF; Pastoral de Auxilio Comunitário ao Toxicômano – PACTO: Grupo de Mútua Ajuda, Grupo de Prevenção, Casa de Triagem, Comunidade Terapêutica Fazenda do Senhor Jesus; Mensageiro da Caridade; Feira da Primavera; Projeto Esperança/Cooesperança; Pastoral da Pessoa Idosa; Pastoral de DST/AIDS (ARQUIVO DOM IVO LORSCHEITER, 2009). Além desses setores do Banco da Esperança, existem outras pastorais, iniciativas e projetos sociais em funcionamento na Diocese de Santa Maria, que não foram idealizadas ou fundadas por Dom Ivo, mas receberam seu apoio: Pastoral da Criança, Pastoral da Saúde, Pastoral Familiar, Pastoral Carcerária e Pastoral da Comunicação e outras.

  Em A Razão (03 e 04/09/1988) o Projeto Esperança/Cooesperança é citado como um dos setores do Banco da Esperança e procura responder às orientações da Doutrina Social da Igreja, no que se refere à superação dos modelos capitalista e socialista de sociedade e na implantação de uma nova ordem social e econômica, solidária e essencialmente cristã. Essa visão sobre a economia indica um caminho alternativo, destinado à solução dos problemas sociais dos mais pobres, conforme aponta Ir. Lourdes Dill, coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança à Marilisi De Zotti:

  “O Projeto Esperança quer a transformação da economia através da solidariedade dos grupos. Estamos procurando um terceiro caminho econômico, entre o capitalismo e o socialismo”. Desta forma, a irmã Lourdes Dill, da equipe do programa, define os objetivos do Projeto Esperança, que está sendo desenvolvido pela Diocese de Santa Maria, procurando dar meios às populações mais carentes de desenvolverem uma atividade produtiva que lhes proporcione possibilidades de sobrevivência (p. 2).

  Conforme A Razão (20 e 21/08/1988) o Projeto Esperança/Cooesperança, idealizado por Dom Ivo é um dos Setores do Banco da Esperança que se destaca na atuação social da Diocese de Santa Maria, ao propor iniciativas econômicas marcadas pela solidariedade entre os grupos envolvidos. Para Dom Ivo o Projeto Esperança tem o mérito de assessorar as comunidades e os grupos no fomento do cooperativismo e de iniciativas econômicas que lhes garantam renda e sejam, ao mesmo tempo, humanizadoras. Esse Projeto se propõe a financiar estas pequenas iniciativas, inicialmente com a organização de um Fundo Rotativo com recursos advindos de entidades da Igreja da Alemanha, conforme indica Dom Ivo:

  O Projeto motivará essas Comunidades a organizar-se em associações ou cooperativas, dentro de uma forte mística de solidariedade, e as ajudará a iniciar suas atividades econômicas rendosas e humanizadoras [...] A coordenação geral do Projeto, ligada ao Banco da Esperança oferecerá assessoria, assistência técnica e financiamentos iniciais [...] Os recursos financeiros iniciais serão assegurados pela Ação MISEREOR da Igreja Católica da Alemanha, devendo depois constituir-se um Fundo Rotativo (p. 2).

  A partir do Projeto Esperança/Cooesperança, em seus desdobramentos, outras iniciativas e projetos foram sendo organizados ao longo dos anos. Novas frentes e realidades, bem como novas demandas no campo de ação social da Igreja forjaram essas ramificações do Projeto. Nesse sentido, destaca-se o Terminal de Comercialização, fundado em 1989, onde

  são vendidos os produtos numa relação direta entre os produtores cooperativados e os consumidores, conforme esclarece Dom Ivo em A Razão (03 e 04/06/1989):

  Os pequenos empreendimentos industriais, artesanais, agrícolas e horti-granjeiros, organizados em Cooperativa, colocarão aqui à venda, sem intermediários, os seus produtos [...] Quer-se assim estimular e aumentar a renda das famílias carentes organizadas em Associações; e quer-se favorecer aos consumidores, de preferência também organizados em associação; o acesso aos produtos de que necessitam [...] Com o tempo, o Terminal pretende criar Postos Volantes de venda nas principais Vilas da Cidade (p. 2).

  Nessa mesma perspectiva foi fundado, partir do Projeto Esperança, o “Shopping do Cooperativismo” em 1997. Nesse espaço são comercializados os produtos artesanais das cooperativas, gerando renda aos seus integrantes, basicamente associações rurais e urbanas.

  Também são expostos à venda mercadorias produzidas por grupos integrantes do Projeto Esperança conforme A Razão (03/12/1997):

  O Projeto Esperança/Cooesperança inaugura [...] do Shopping do Cooperativismo Alternativo e a Casa do Artesão Sepé Tiarajú. “O empreendimento surgiu da necessidade de se ter um espaço para comercialização de produtos artesanais ou feitos dentro do sistema cooperativista”, afirma Irmã Lourdes Dill [...] De acordo com ela, a iniciativa funciona também como uma forma de gerar trabalho. O shopping vai reunir um total de 70 associações rurais e urbanas. Serão vendidos no local: calçados, roupas, produtos coloniais, de higiene e limpeza. Na Casa do Artesão serão expostas mercadorias produzidas por grupos vinculados ao Projeto Esperança [...] O espaço onde irão funcionar o Shopping e a Casa foi cedido pela SOME – Irmãos Maristas (p. 5).

  Nesse sentido, o Projeto Esperança/Cooesperança, vinculado ao Banco da Esperança, propõe-se a fomentar relações econômicas alternativas, não motivadas pelo lucro capitalista, nem pelo coletivismo socialista, mas pela cooperação. A solidariedade é indicada como eixo condutor dessa nova alternativa social, de acordo com as premissas da Doutrina Social da Igreja. Para apresentar mais visivelmente esta alternativa cristã de sociedade, é organizada anualmente a “Feira do Cooperativismo”, junto ao Terminal de Comercialização, com a participação de centenas de grupos da região e do Estado, afirma A Razão (03/07/1998):

  O evento é uma mostra da economia solidária que estimula a organização familiar e comunitária através de projetos de geração de emprego e renda. Realizada no Terminal de Comercialização Direta do Projeto Esperança, a feira tem a participação de aproximadamente 100 grupos do Estado [...] o objetivo é estimular a participação de outros locais (p. 14).

  Nessa perspectiva de cooperação e de solidariedade o Banco da Esperança, em seus diversos setores, apóia pequenas e simples iniciativas e projetos de desenvolvimento social e

  de promoção humana. Essa forma de transformar a sociedade através de alternativas econômicas e solidárias, voltadas ao social, aos pequenos e aos menos favorecidos evidencia- se na consulta a Tévoédjrè (1982), que afirma: “Reinventar a economia significa [...] torná-la consubstancial com o social. Assim, o valor comercial e a produção para o mercado não se tornam os critérios e os fins de toda a economia” (p. 73). Dom Ivo sugeriu, em várias ocasiões, o estudo desse autor, pois apresenta soluções econômicas simples e modernas para a superação dos graves problemas sociais que afligem o mundo, na perspectiva da Doutrina Social da Igreja. A respeito do livro “A pobreza, riqueza dos Povos – A transformação pela solidariedade”, de Albert Tévoédjrè (1982), comenta Dom Ivo em A Razão (08/02/1984):

  A proposta do livro é apontar saídas para os problemas graves do Terceiro Mundo. O modo, explica Dom Ivo, não é recorrer a projetos faraônicos, mas à força criativa da própria pobreza, que saberá inventar o contrato de solidariedade, a criação de pequenas cooperativas para todos os setores da vida humana, a utilização de meios pobres para resolver, de maneira nova e harmoniosa, as distorções atuais da sociedade (p. 12).

  Nessa perspectiva, a obra social de Dom Ivo, feita de pequenas iniciativas e projetos sociais, foi possível graças a uma rede de colaboradores, voluntários e benfeitores que, unidos, empenharam-se pela redenção humana e espiritual dos menos favorecidos, sobretudo, pelo Banco da Esperança e seus setores. Dom Ivo realizou muitas viagens nacionais e internacionais, no desejo de estabelecer pontes de solidariedade entre os países mais abastados e os pobres do Brasil, especialmente da Diocese de Santa Maria. A busca de Dom Ivo por parcerias e cooperação nesse empreendimento pelo desenvolvimento social e pela promoção humana, evidencia a relação com a Doutrina Social da Igreja indicada por João XXIII (1961).

  13 As agências benfeitoras, entre elas a Adveniat , da Alemanha, não queriam que a sua

  ajuda financeira criasse dependência nos países pobres como o Brasil. O auxílio recebido destas entidades destina-se à superação da ignorância e da miséria, para que os pobres conquistem o seu pleno desenvolvimento e autonomia. Respondendo a estes propósitos, Dom Ivo prestou contas nessas agências desses auxílios recebidos pela Igreja do Brasil e pela diocese de Santa Maria (A RAZÃO, 14/12/1974).

  Por outro lado, essas entidades e dioceses benfeitoras não apenas doavam recursos financeiros, mas também recebiam algo em troca, como, por exemplo, a experiência da prática pastoral e da inserção social da Igreja na América Latina, com destaque no Brasil. 13 Grandes temas como a teologia da libertação, a discriminação racial e a juventude, a realidade

  

Adveniat é uma agência filantrópica da Igreja Católica da Alemanha, fundada em 1961, especialmente voltada social e outros, eram abordados por Dom Ivo nessas viagens. As Igrejas desses países desenvolvidos da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá, se interessavam pelos temas sociais trazidos por Dom Ivo e se empenhavam a buscar também a solução dos seus próprios problemas, ao mesmo tempo em que se comprometiam em ajudar os países onde se necessitasse uma maior contribuição da Igreja (A RAZÃO, 24/01 e 24/09/1986).

  Além dos Estados Unidos e outros países capitalistas, Dom Ivo visitou também a Rússia, conhecida pela aplicação do socialismo revolucionário, ou comunismo. A missão episcopal de Dom Ivo nessas viagens, não se atrelava às ideologias desses diferentes países. A Doutrina Social da Igreja tem reservas em relação a ambas, conforme atesta Dom Ivo em A Razão (10 e 11/10/1987): “No Ocidente, onde apregoamos as liberdades, há pouca aproximação das pessoas, há demasiada desigualdade. No bloco comunista, onde talvez se proclame maior igualdade entre as pessoas, faltam as liberdades justas” (p. 10).

  Dom Ivo tornou-se conhecido no exterior pela sua atuação na CNBB em favor das causas sociais e da inserção na realidade brasileira. Sugere-se na consulta em Projeto Esperança/Cooesperança (2007), que esta ação social da Igreja não teve um caráter assistencialista, mas antes visava à promoção dos pobres, como sujeitos da reconstrução de

  14

  sua própria dignidade, como afirma o Diretor Gerente da Misereor na Alemanha, Dr. Martin Bröcklemann-Simon:

  Na Alemanha, Dom Ivo foi um interlocutor requerido [...] Mesmo firme na sua opinião, era sempre aberto para a opinião dos outros [...] Para a Misereor, ele foi um colaborador na ajuda aos pobres e na busca da realização de direitos humanos no Brasil no sentido mais amplo da palavra. Mas Dom Ivo não só foi um bispo benévolo aos projetos da Misereor. Ele foi mais, foi um amigo verdadeiro, animado pelos mesmos motivos, acreditando na mesma verdade, confiando na mesma força das populações carentes (p. 25).

  Além dessas viagens internacionais, Dom Ivo se locomoveu praticamente por todo território nacional, a serviço da CNBB e acompanhou inclusive o Papa João Paulo II em sua viagem ao Brasil em 1980, conforme relato em A Razão (02/07/1980): “O bispo diocesano de Santa Maria e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Dom Ivo Lorscheiter, desde dia 30 de junho, acompanha o Papa João Paulo II em sua visita ao Brasil” (p. 9). Desse modo, Dom Ivo inseria-se no cenário nacional, para conhecer as dificuldades e as 14 possibilidades da Igreja comprometer-se com as demandas sociais.

  

Misereor é uma instituição da Igreja Católica da Alemanha fundada em 1958. Seu objetivo principal é

financiar projetos sociais que combatem a miséria no mundo. As dioceses interessadas enviam seus projetos

  Isto posto, percebe-se no episcopado de Dom Ivo uma relação com a Doutrina Social da Igreja e a sua trajetória espiritual, mas revestida na inserção e na luta em defesa de um processo democrático, para alcançar uma justiça social.

  Nesse sentido, percebe-se a busca de Dom Ivo na Doutrina Social da Igreja, onde se sugere que foi a condutora do seu projeto evangelizador e, também, em busca de um contexto que pudesse a Igreja ajudar a minimizar as injustiças sociais.

CONSIDERAđỏES GERAIS

  Nesta pesquisa, identifica-se a relação entre as iniciativas e projetos sociais de Dom José Ivo Lorscheiter, na sua liderança à frente da Diocese de Santa Maria e da CNNB (Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil) e à Doutrina Social da Igreja. Esta relação se evidencia na concordância e adaptação das orientações da moral social da Igreja, acolhidas e postas em prática por Dom Ivo em seu episcopado, de forma contextualizada e adaptada à realidade regional e local.

  Percebe-se uma preocupação pastoral de Dom Ivo frente à problemática social evidenciada na Doutrina Social da Igreja desde a encíclica Rerum Novarum, em que o Papa Leão XIII (1891) trazia à tona a condição dos operários. A persistência dos problemas sociais e políticos que foram refletidos pela doutrina social estiveram sempre presentes nas prioridades pastorais de Dom Ivo.

  A Diocese de Santa Maria inseriu-se no contexto social, com o objetivo de atenuar a problemática social. Dom Ivo incentivou em seu episcopado o estudo e a aplicação da Doutrina Social na evangelização. Sugere-se que a inserção da Igreja no episcopado de Dom Ivo não foi ideológica, porém buscou um processo democrático e cristão, para a busca da justiça social.

  É pertinente, nessa conjuntura associar Dom Ivo na defesa dos ideais democráticos, pois se inseriu na luta pelo processo de redemocratização do Brasil, durante o período do governo civil-militar, como representante da CNBB. Percebe-se a presença de Dom Ivo no cenário político fomentando a politização, na organização de espaços de estudo e formação política para lideranças cristãs, partindo dos critérios identificados na Doutrina Social da Igreja.

  Sugere-se, nessa postura individual de Dom Ivo, a existência da pluralidade de posicionamentos na Igreja. Nesse cenário, houve a possibilidade de atualização da mentalidade do magistério da Igreja em relação à moral social.

  A trajetória episcopal de Dom Ivo identifica a conjugação da espiritualidade e da materialidade do ser humano na vivência do cristianismo, conforme sugerem as encíclicas sociais da Igreja. Partindo desse princípio, Dom Ivo fomentou projetos sociais no campo econômico, evidenciando a fundação de projetos alternativos de renda e de trabalho, de promoção humana aos excluídos pela economia liberal. O Banco da Esperança engloba essas iniciativas que visam à implantação de uma economia solidária, que promova também o bem

  Na implantação e execução dos projetos sociais na Diocese de Santa Maria, Dom Ivo contou com a colaboração de várias pessoas, entidades e o poder público. Apesar das iniciativas serem individuais, Dom Ivo sempre buscou parceria e cooperação nesses setores e também junto à entidades benfeitoras da Igreja no exterior. Os projetos sociais idealizados por Dom Ivo, nesse sentido, não eram assistencialistas, mas visavam à promoção humana, ao desenvolvimento da comunidade e à transformação social, a partir da justiça social, apregoada pela Doutrina Social da Igreja.

  Percebe-se, portanto, uma relação do episcopado de Dom Ivo e a Doutrina Social da Igreja. Nesse sentido, o episcopado de Dom Ivo, embasado na moral social da Igreja, buscou conduzir a Diocese de Santa Maria numa evangelização voltada aos aspectos espirituais e materiais da comunidade, estabelecendo uma relação orgânica entre a fé e a vida.

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2004.

  Câmara de Vereadores, Santa Maria, Ata n. 57/79 [fl.04], 05 de Nov. 1979. Câmara de Vereadores, Santa Maria, Ata n. 09/81 [fl.01], 06 de Abr. 1981.

  Diário da Justiça Estado do Rio Grande do Sul Diário da Justiça Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 5251, 14 de Jul. 1969.

Processo do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) – Arquivo Histórico do

  Rio Grande do Sul: Antigo Prédio dos Correios. Praça da Alfândega. Porto Alegre: 1957- 1982. DOPS/RG – SOPS/LV – 4 – 5759.52.18. Pedro Américo Leal, 15 de Dezembro de 1967. 15ª região (1957-1982).

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