Gildo José Brandt A RELAÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER, SANTA MARIA – 1974 A 2004

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Gildo José Brandt

A RELAÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER,

SANTA MARIA – 1974 A 2004

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Gildo José Brandt

A RELAÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER,

SANTA MARIA – 1974 A 2004

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientadora: Profª. Ms. Lenir Cassel Agostini

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Gildo José Brandt

A RELAÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA E O EPISCOPADO DE DOM JOSÉ IVO LORSCHEITER,

SANTA MARIA – 1974 A 2004

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História.

______________________________________________________ Profª. Ms. Lenir Cassel Agostini – Orientadora (Unifra)

______________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (Unifra)

______________________________________________________ Profª. Ms. Elisabeth Weber Medeiros (Unifra)

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DEDICATÓRIA

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AGRADECIMENTO

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RESUMO

Esta pesquisa tem como tema “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter” (Santa Maria, 1974 – 2004). Fundamenta-se em fontes bibliográficas, nas Encíclicas Sociais da Igreja e fontes documentais: Documento do DOPS/RS (Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul), presente no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, em Porto Alegre; os jornais A Razão, de 1974 a 2004, localizados no Arquivo Público Municipal, em Santa Maria; no Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, no Instituto São José, em Santa Maria e no Arquivo da Câmara Municipal de Vereadores, em Santa Maria. Na história social, buscaram-se os pressupostos básicos para averiguar e relacionar as iniciativas de cunho social na evangelização e na pastoral promovidas por Dom José Ivo Lorscheiter na Diocese de Santa Maria e na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Nesse cenário, percebe-se uma relação próxima entre os princípios da Doutrina Social da Igreja Católica e a prática episcopal de Dom Ivo. O Banco da Esperança engloba essas iniciativas sociais de Dom Ivo. Sugere-se que a dimensão social está indicada na prática de Dom Ivo acerca da inserção da Igreja na sociedade, na economia e na política. Nesse sentido, a ação social de Dom Ivo demonstra uma preocupação com a solução dos problemas sociais do Brasil em nível regional e local e a busca de parcerias com outras entidades e o poder público em vista da promoção humana e do desenvolvimento da comunidade.

Palavras-chave: Doutrina Social da Igreja. Dom José Ivo Lorscheiter. Solidariedade.

ABSTRACT

The theme of this research is “The relation between the Catholic Church Social Doctrine and the bishopric of Bishop José Ivo Lorscheiter” (Santa Maria, 1974 – 2004). It is based on bibliographic sources, in the Social Encyclicals of the Church and documental sources: DOPS/ RS document (Department of Political and Social Nature of Rio Grande do Sul), to be found in the Archive of Fight Against Military Dictatorship, in Porto Alegre; the newspaper A Razão, from 1974 through 2004, located at the Municipal Public Archive, in Santa Maria; in the Archive Bishop Ivo Lorscheiter, at the Institute São José, in Santa Maria and in the Archive of the City Council, in Santa Maria. In the social history, basic assumptions were sought to verify and relate the initiatives of social nature in evangelization and in pastoral promoted by Bishop José Ivo Lorscheiter in the Diocese of Santa Maria and at CNBB (Bishops National Conference of Brazil). In this scenario, a close relation between the Catholic Church Social Doctrine principles and the episcopal wont of Bishop Ivo was noticed. The Hope Bank comprises these social initiatives of Bishop Ivo. It is suggested that the social dimension is indicated in the wont of Bishop Ivo concerning the insertion of Church in society, in economics and in politics. To this end, the social practice of Bishop Ivo demonstrates a concern to find solution to the social problems of Brazil regarding local and regional levels and to search partnership with other entities and with the government seeking human promotion and community development.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 08

1 REFERENCIAL TEÓRICO... 10

2 METODOLOGIA ... 14

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES... 16

CONSIDERAÇÕES GERAIS... 58

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INTRODUÇÃO

Nesta pesquisa, pretende-se abordar as iniciativas e os projetos sociais de Dom José Ivo Lorscheiter em seu episcopado, no período entre 1974 a 2004, na Diocese1 de Santa Maria2, no âmbito local e regional, com projeção em nível nacional e internacional. Busca-se, também, relacionar essas iniciativas e projetos sociais com a Doutrina Social da Igreja Católica3 .

Na primeira parte da pesquisa, buscou-se a construção da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter, com destaque aos dados biográficos mais relevantes. Na segunda parte, foi pesquisada a ação episcopal e as iniciativas de Dom Ivo, a nível local, regional e nacional, com incidência no campo social, político e econômico da comunidade. Essas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo foram relacionadas com a Doutrina Social da Igreja Católica.

Para a construção dessa pesquisa, delimitou-se a Diocese de Santa Maria como foco principal do trabalho, pois, nesse espaço, foram concretizadas as iniciativas e os projetos sociais mais significativos do episcopado de Dom Ivo. Em nível nacional e internacional, foram pesquisados os posicionamentos, parcerias e iniciativas de Dom Ivo em suas funções e encargos exercidos na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)4, no serviço à Igreja em alguns projetos e em algumas viagens de intercâmbio com várias agências e entidades internacionais. Essa parte da pesquisa foi realizada a partir da consulta bibliográfica e, sobretudo, das fontes documentais.

Foram pesquisadas as principais iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo e seu impacto na transformação social da comunidade local e regional, com projeção no plano nacional e internacional. Nesse sentido, foi pertinente a leitura de Pesavento (1990), onde são identificadas as características da “história regional”. Essa perspectiva de abordagem

1 Diocese é uma porção dos fiéis católicos de uma determinada região que, sob a condução do Bispo Diocesano e do seu Presbitério, constituem uma Igreja Particular, onde está presente e atuante toda a Igreja Católica Apostólica Romana (JOÃO PAULO II, Código de Direito Canônico, 1987).

2 A Diocese de Santa Maria foi fundada em 1910 e abrange os seguintes municípios da região central do Estado do Rio Grande do Sul: Cacequi, Dilermando de Aguiar, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Formigueiro, Itaara, Ivorá, Jaguari, Jarí, Júlio de Castilhos, Mata, Nova Esperança do Sul, Nova Palma, Pinhal Grande, Quevedos, Restinga Seca, Santa Maria, São João do Polêsine, São Martinho da Serra, São Pedro do Sul, São Sepé, São Vicente do Sul, Silveira Martins, Toropi, Tupanciretã e Vila Nova do Sul (RUBERT, 2009).

3 A Doutrina Social da Igreja reúne o ideário da Igreja Católica a respeito dos problemas sociais do mundo e tem como princípios fundamentais e básicos: a dignidade da pessoa humana, o bem-comum, a subsidiariedade e a solidariedade. (PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ, 2008).

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historiográfica objetiva a transformação da sociedade, através de um conhecimento crítico e engajado do passado no processo de transformação social a que se propõe.

A temática apresentada não objetiva o destaque aos feitos dos “grandes heróis e vultos do passado”, mas investiga as pequenas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo entre as classes menos favorecidas da sociedade e nos ambientes sociais apontados pela Doutrina Social da Igreja. Essa perspectiva historiográfica se insere também na “história social” e sugere a leitura de Sharpe (1992). O autor apresenta um enfoque social à história, vista e analisada “de baixo”, a partir das pessoas e dos grupos menos favorecidos na sociedade. Nessa pesquisa, serão abordados os projetos e as iniciativas de Dom Ivo, direcionadas a estas parcelas da sociedade.

Na perspectiva da história social, busca-se ainda a experiência humana e a individualidade dos comportamentos a serem priorizados na pesquisa. Essa pesquisa se insere na história social ao propor na leitura Castro (1997), a averiguação da trajetória episcopal de Dom Ivo e suas iniciativas individuais e diferenciadas frente à sociedade e à Igreja, pois:

A história social mantém [...] seu nexo básico de constituição, enquanto forma de abordagem que prioriza a experiência humana e os processos de diferenciação e individuação dos comportamentos e identidades coletivos – sociais – na explicação histórica (p.54).

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1 REFERENCIAL TEÓRICO

Nessa abordagem sobre “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, Santa Maria, 1974 a 2004” foram consultadas as Encíclicas Sociais da Igreja Católica. A partir destas encíclicas, estabeleceu-se o referencial teórico dessa pesquisa. Nessa investigação, também foram interpretados os dados e informações encontradas nas fontes bibliográficas e documentais pertinentes à temática proposta.

Na elaboração deste trabalho, a parte introdutória indica a inserção da pesquisa na história regional na consulta a Pesavento (1990), ao identificar as iniciativas sociais de Dom Ivo na região de abrangência da Diocese de Santa Maria. A história social também se insere na pesquisa, na consulta a Sharpe (1992), ao pesquisar a incidência das iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo junto aos “de baixo”, ou seja, às classes menos favorecidas da sociedade. A pesquisa insere-se na história social também na consulta a Castro (1997), ao identificar a trajetória individual de Dom Ivo e a suas diferenciações frente à pluralidade de posicionamentos e iniciativas da Igreja na sociedade. Na explicação de conceitos e notas de rodapé, foram consultados João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Pontifício Conselho de Justiça e Paz (2008), Rubert (2009) e o Jornal A Razão (19/10/1977) como fonte documental.

Na primeira parte dessa pesquisa, traçou-se a trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter a partir da consulta aos autores Barichello; Belmonte (2004), Biasoli (2005), Mombach (2002) e Projeto Esperança/Cooesperança (2007). A pesquisa nestes autores forneceu dados biográficos essenciais sobre Dom José Ivo Lorscheiter, e conceitos pertinentes neste primeiro capítulo. Na busca em Cáritas/RS (2009), João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Mendonça; Fontes (1988), Paulo VI, no Decreto Christus Dominus (1965),

Rubert (2009) e no documento do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, encontraram-se as explicações das notas de rodapé.

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oferecem dados e informações fundamentais na compreensão da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter.

Ao elaborar o segundo capítulo, que trata especificamente da relação da Doutrina Social da Igreja e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter em Santa Maria, de 1974 a 2004, foram consultadas as encíclicas sociais da Igreja Católica, escritas pelos Papas. Nessa perspectiva, Leão XIII (1891), na encíclica Rerum Novarum, Coisas Novas, apresenta a

“Condição Operária” na Europa, no final do século XIX, em que se afirmava a industrialização e o consequente capitalismo liberal. Nesse cenário, Leão XIII condena os excessos da economia liberal e defende a classe operária da exploração e das injustiças cometidas pelos seus patrões capitalistas. Por outro lado, Leão XIII rejeita e condena o socialismo revolucionário, chamado de comunismo. Esta ideologia é considerada uma ameaça à estabilidade social, pois pretende usar a violência com a luta de classes entre os patrões ricos e os pobres operários. Além disso, a Igreja condena a coletivização e a estatização dos bens e o ateísmo comunista. Essa ideologia contraria o direito à propriedade privada, defendido pela Doutrina Social da Igreja. Leão XIII rejeita e condena, portanto, o capitalismo e o socialismo e sugere o cristianismo como caminho de superação dos problemas sociais enfrentados, sobretudo pela classe operária, em sua “Condição Operária”.

A classe proletária sujeita a essa Condição Operária é exortada por Pio XI (1931) na encíclica Quadragesimo Anno, Quadragésimo Ano, a buscar os seus direitos em sindicatos e

associações operárias de cunho cristão, imunes à influência do socialismo revolucionário, o comunismo. Pio XI reitera a condenação ao socialismo e ao capitalismo, como ideologias que reduzem o ser humano a sua condição histórica e material e desconsideram a sua dimensão espiritual e religiosa. Na encíclica Divini Redemptoris, Divino Redentor, Pio XI (1937) culpa

o capitalismo pela infiltração do comunismo entre as classes operárias, sobretudo por submetê-las a extensas e exaustivas jornadas de trabalho e salários irrisórios. Tratados dessa forma, os operários foram afastados da convivência comunitária e religiosa e se tornaram presas fáceis das idéias comunistas. Nessa perspectiva, o Estado é convocado a regular as relações entre o trabalho e o capital, conforme os critérios da justiça social, apregoados pelo cristianismo.

A Doutrina Social da Igreja, a partir de João XXIII (1961) na encíclica Mater et Magistra, Mãe e Mestra, sugere a aplicação da justiça social na esfera econômica, política,

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no sentido de regular a sociedade para que a justiça e a igualdade estejam asseguradas e os direitos dos operários sejam respeitados. O sentido universal da Doutrina Social da Igreja é apresentado por João XXIII (1963) na encíclica Pacem in Terris, Paz na Terra. A comunidade

mundial é convocada a se empenhar pela justiça social, pela paz e pelo desenvolvimento de toda a sociedade humana.

Durante o Concílio Vaticano II5, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, Alegria e

Esperança, de Paulo VI (1965), refere-se ao papel da Igreja no mundo atual. A Igreja é convocada à prática da solidariedade e à inserção na realidade social e nos problemas da família humana. A Declaração Dignitatis Humanae, Dignidade Humana, de Paulo VI (1965),

acrescentou à Doutrina Social da Igreja o princípio do respeito à liberdade religiosa às pessoas. A vivência religiosa se expressa em comunidade e gera transformação a partir dos valores espirituais interiores. Na encíclica Populorum Progressio, Desenvolvimento dos

Povos, PauloVI (1967) aponta a universalidade da questão social e aponta no liberalismo econômico as causas dos problemas sociais do mundo. Os países de todo mundo são convocados a se unir na busca de solução para os seus problemas sociais. Na encíclica

Octogesima Adveniens, Chegada da Octogésima, Paulo VI (1971) acrescenta temáticas atuais

ao corpo da Doutrina Social da Igreja, como: a urbanização, as grandes cidades, os jovens, a questão da mulher, os meios de comunicação social e o meio ambiente e sugere a inserção dos cristãos na política. A ação política, no sentido cristão, não é ideológica e visa ao bem comum e ao desenvolvimento da sociedade humana. Paulo VI condena os regimes totalitários e as ditaduras e propõe a democracia como caminho político mais adequado ao desenvolvimento da sociedade humana.

João Paulo II (1981), na encíclica Laboren exercens, Exercício do Trabalho, indica a

importância do trabalho, como um serviço ao bem-comum de todos os seres humanos e não apenas uma fonte de lucro, como pretende o liberalismo econômico. O trabalho não é apenas uma mercadoria ou uma força, mas é o caminho da realização humana e do desenvolvimento dos povos. Na encíclica Sollicitudo rei Socialis, Solicitude da Questão Social, João Paulo II

(1987) condena as dívidas externas e internas dos países pobres, as diferenças entre nações ricas e pobres e os problemas mundiais resultantes da Guerra Fria. Nesse cenário mundial, percebe-se o atraso de muitos povos. A vontade política dos governantes e a solidariedade entre os povos é a solução apontada para a solução da pobreza mundial e o desenvolvimento

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em vista da paz no mundo. Essa encíclica recorda o princípio básico da Doutrina Social da Igreja: a destinação universal dos bens do mundo. Na encíclica Centesimus Annus, Centésimo

Ano, João Paulo II (1991) incentiva o princípio da cooperação entre os povos e indivíduos, na busca de superação dos problemas sociais. A prática social da Igreja, no entanto, não deve ser ideológica. A família é considerada o ponto de partida para a construção de uma sociedade humana marcada pela justiça social.

Além dessas encíclicas sociais, na elaboração desse capítulo sobre a relação entre a Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, foram consultados os autores: Barichello; Belmonte (2004), Projeto Esperança/Cooesperança (2007) e Rádio Vaticana (2009). Esses autores apresentam exemplos concretos da aplicação da Doutrina Social da Igreja nas iniciativas e projetos sociais de Dom Ivo na Diocese de Santa Maria, bem como a sua projeção em nível nacional e internacional. Os autores: Bobbio; Matteucci (1998), Bottomore (1983), Ferreira; Delgado (2003), Habert (1992), Mendonça; Fontes (1988), Netto (1986), Singer; Souza (2000), Tévoédjré (1982) e Vázquez (2003) apresentam pontos de vista, perspectivas e definições conceituais apropriadas e pertinentes neste capítulo. Seus textos oferecem uma compreensão mais acurada e diversificada dos termos e conceitos apropriados pela Igreja nas suas encíclicas sociais e favorecem a compreensão da sua Doutrina Social. As notas de rodapé foram elaboradas na consulta a Adveniat (2009), Houaiss (2001) e Misereor (2009).

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2 METODOLOGIA

Nesta pesquisa, foi abordado o tema “A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter, Santa Maria (1974 a 2004)”. Na introdução, definiu-se a linha historiográfica dessa pesquisa pela história regional, na consulta de Pesavento (1990) e também pela história social, na leitura de Sharpe (1992) e Castro (1997). Os conceitos e notas de rodapé foram definidos a partir de João Paulo II no Código de Direito Canônico (1987), Pontifício Conselho Justiça e Paz (2008), Rubert (2009) e o Jornal A Razão (19/10/1977). Em seguida, realizou-se o levantamento bibliográfico, de acordo com a temática sugerida. Esse levantamento evidenciou a necessidade de ampliação das fontes de pesquisa. Nesse sentido, realizou-se também o levantamento das fontes documentais, referentes ao tema.

Após a leitura e o cruzamento dos dados, procedeu-se a composição do primeiro capítulo que trata da trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter. Essa composição foi realizada a partir de Barichello; Belmonte (2004), Biasoli (2005), Mombach (2002) e Projeto Esperança/Cooesperança (2007). Na definição de conceitos e notas de rodapé, recorreu-se aos autores: Cáritas/RS (2009), João Paulo II, no Código de Direito Canônico (1987), Mendonça; Fontes (1988), Paulo VI, no Decreto Christus Dominus (1965), Rubert (2009) e documento do

Arquivo Dom Ivo Lorscheiter (2009).

Além desses autores, nesse primeiro capítulo, foram pesquisadas as fontes documentais: Documentos do Arquivo Dom Ivo Lorscheiter, no Instituto São José, em Santa Maria; Jornais A Razão, de 1974 a 2004, disponíveis no Arquivo Histórico Municipal, em Santa Maria; Processo político produzido na Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS), presente no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, disponibilizado no sistema de arquivos do Estado, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre (1967).

O segundo capítulo, ao abordar a relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom Ivo, em Santa Maria, no período entre 1974 e 2004, foi construído a partir da consulta às encíclicas sociais e documentos dos Papas: Leão XIII (1891), Pio XI (1931 e 1937),João XXIII (1961 e1963), Paulo VI (1965, 1967, 1971) eJoão Paulo II (1981, 1987 e

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Delgado (2003), Habert (1992), Mendonça; Fontes (1988), Netto (1986), Singer; Souza (2000), Tévoédjrè (1982) e Vázquez (2003). As notas explicativas foram elaboradas a partir da consulta em Adveniat (2009), Misereor (2009) e Houaiss (2001).

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3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 A trajetória episcopal de Dom José Ivo Lorscheiter

José Ivo Lorscheiter, conhecido como “Dom Ivo”, nasceu no dia 7 de dezembro de 1927, em São José do Hortêncio, segundo distrito de São Sebastião do Caí, no Rio Grande do Sul. Sugere-se que Dom Ivo tenha deixado a sua terra natal nos primeiros anos da sua infância, devido aos estudos. Assim como a família de Dom Ivo, seus parentes e conterrâneos descendem de imigrantes alemães que foram alojados nessa região durante a colonização, conforme relato de Mombach (2002):

Os pais: Francisco Lorscheiter e Maria Mohr. Avós paternos: Pedro Lorscheiter e Catharina Reichert. Avós maternos: João Mohr e Suzana Hansen, naturais da Alemanha. Tiveram sete filhos, quatro mulheres e três homens. José Ivo é irmão-gêmeo de Lúcia (p. 19).

Nessa perspectiva, Barichello; Belmonte (2004) sugerem que esses imigrantes, em sua maioria, eram agricultores muito pobres e simples. Não obstante os dramas e a simplicidade da vida cotidiana indicam-se que algumas dessas famílias, como a de Dom Ivo, mantinham-se bem informadas sobre os acontecimentos da região e do mundo, com a leitura assídua de jornais e informativos disponíveis nessa época.

Apesar dessa pobreza material, esses imigrantes europeus trouxeram consigo uma identidade cultural germânica, bem como uma vigorosa experiência de fé cristã. Dom Ivo nasceu e viveu a sua infância nesta região e, neste ambiente, assimilando esta cultura e religiosidade, adquirindo provavelmente, desse modo, um carinho especial pela sua terra natal, conforme seu próprio relato a Barichello; Belmonte (2004):

Trata-se de uma região modesta, até relativamente pobre, de imigrantes alemães, que depois de imigrarem da Alemanha para o Brasil, vinham da região de São Leopoldo, para colonizarem aquelas terras do Rio Caí, através do trabalho na agricultura. Gente simples, de trabalho, de muita fé. Mas quando eu digo muita fé, tenho uma emoção muito especial em pensar que a população dessa minha terra natal não eram todos católicos. Mas todos viviam em unidade religiosa e social. Minha família toda era de agricultores simples que na terra trabalhavam e dela tiravam o seu sustento e, assim, iam construindo o seu futuro (p. 11).

Nesse ambiente religioso e de convivência entre as famílias católicas e luteranas, Dom Ivo aprendeu, desde cedo, o sentido e a importância do ecumenismo6. Sugere-se que dessa vivência e nos diversos encargos assumidos na Igreja, Dom Ivo empenhou-se pela causa

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ecumênica na Igreja e na sociedade, conforme seu próprio depoimento a Barichello; Belmonte (2004):

A minha família era católica, mas havia em nossa vizinhança uma grande quantidade de famílias de fé luterana. Lá nos dávamos muito bem com eles. E a isso eu atribuo um pouco a esse fato de ter convivido longos anos com essas famílias luteranas o meu gosto pelo Ecumenismo. Um de meus antepassados foi padrinho da primeira criança luterana que foi batizada naquela região. Havia muita participação mútua nas festas luteranas e católicas, nos sepultamentos. Por isso, para mim, o ecumenismo é um dos grandes desafios (p.17).

Nessa perspectiva, a Casa do Índio foi fundada no dia 13 de janeiro de 2001, junto ao Parque da Medianeira. Em A Razão (13 e 14/01/2001) sugere-se que essa casa de passagem servisse de abrigo e repouso aos grupos indígenas, especialmente Guaranis e Kaiganges, que, em determinadas épocas do ano, dirigem-se a Santa Maria para vender seus artesanatos ou buscar tratamentos de saúde. A Casa do Índio foi organizada e administrada pelas seguintes Igrejas: Católica Romana, Evangélica Luterana, Episcopal Anglicana e Metodista. Em virtude das muitas dificuldades em se manter este projeto a contento, a Casa do Índio foi fechada e encerrou suas atividades em 2005.

Essa identidade ecumênica em Dom Ivo, no entanto, parece não ter permanecido restrita apenas aos cristãos de outras Igrejas. Sugere-se uma proximidade sua também com outras religiões, como o Judaísmo. Nesse sentido, Dom Ivo foi convidado por algumas autoridades judaicas a viajar para Israel em 1987, sugerindo, assim, o reconhecimento e a gratidão da comunidade israelita pelo seu trabalho na Igreja do Brasil. Este ato de gratidão indica relevância histórica, pois a comunidade judaica instalou-se no Rio Grande do Sul, a partir de Santa Maria, na Colônia Philipson, em Pinhal, desde 1904 (A RAZÃO, 25/03/1987).

Além desta bagagem cultural, religiosa e ecumênica, adquirida na família e na comunidade, a consulta a Mombach (2002) indica que Dom Ivo recebeu instrução escolar desde cedo. Iniciou seus estudos numa Escola Paroquial em São José do Hortêncio, onde residiu na casa paroquial, para facilitar seu acesso aos estudos. Seus estudos prosseguiram no Seminário Menor São José em Gravataí e a Filosofia foi cursada no Seminário Central de São Leopoldo.

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decisão final em seguir a vocação sacerdotal teria sido uma escolha pessoal e livre de sua parte, apoiada pela sua família, conforme relato em Mombach (2002):

Meu irmão mais velho, Vendelino, já havia ido para o seminário. Quando tinha 11 anos, estava na 4ª. série, senti o mesmo gosto dele. Eu era coroinha, me senti atraído e por isso fui ao seminário. Os pais não me influenciaram; apenas me aprovaram (p. 22).

Apesar dessa clareza interior a respeito da sua vocação sacerdotal, Dom Ivo sugere que em sua juventude teve a idéia de que, caso não fosse de fato ser padre, seguiria uma carreira na política, conforme entrevista a Barichello; Belmonte (2004):

Mas eu me lembro que uma vez me sobreveio, no seminário menor, uma pergunta:

Mas se eu não fosse Padre, o que deveria ser, o que eu gostaria de ser? Eu quero

só dizer que lá me veio essa idéia, mas eu não a aprofundei. E a idéia era a seguinte: um outro caminho seria, para mim, o mundo da política! (p. 16).

Dom Ivo, no entanto, parecia entender a política não apenas como política partidária ou ideológica, mas antes de tudo, como um serviço desprovido de interesses pessoais e sectários, realizado em vista do bem-estar de toda a sociedade humana, conforme esclarece o Projeto Esperança/Cooesperança (2007), “Política, no melhor sentido que eu possa entendê-la, é arte do bem comum, da busca do bem-estar, da prosperidade de toda coletividade” (p.22). Sugere-se em A Razão (24/04/1979), que sua desenvoltura política estivesse fundamentada, sobretudo, numa atitude de diálogo para com todas as pessoas e instituições com quem manteve contatos:

Caracterizado como um homem de diálogo, Dom Ivo mantém a mesma desenvoltura no trato com os fiéis de sua diocese como no contato com as autoridades políticas do país sempre que sua presença seja necessária como pastor ou como mediador religioso (p.12).

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Enquanto estávamos em Roma, tínhamos um grande desejo e esforço de conhecer e nos imbuir mais do Brasil. Quando vinham bispos brasileiros ao colégio, davam-nos as melhores informações: sabíamos mais do Brasil do que se estivéssemos nele. Isso nos deu um espírito de universalidade e também de inserção na realidade brasileira (p. 19).

Retornando ao Brasil após a sua ordenação sacerdotal em 1952, o então Pe. José Ivo exerceu as funções de professor no Seminário Maior em Viamão e, posteriormente, Reitor do Seminário Menor de Gravataí e, ainda, Reitor do Seminário Maior de Viamão. Foi ordenado bispo no dia 06 de março de 1966, na Catedral Metropolitana, em Porto Alegre, exercendo aí a função de bispo auxiliar. Dom Ivo teve a oportunidade de participar das sessões finais de conclusão do Concílio Vaticano II em 1965, como bispo nomeado. A renovação da Igreja, promovida nesse Concílio, influenciou e comprometeu positivamente Dom Ivo, conforme aponta em seu relato à Barichello; Belmonte (2004):

Logo que fui nomeado Bispo, sendo as últimas semanas do Concílio Vaticano II, Dom Vicente Scherer, pediu-me para ir a Roma e participar das últimas sessões do Concílio. Assim, sem ser sagrado bispo, eu fui e isto se tornou uma experiência riquíssima. Eu votei nos últimos documentos, participei das últimas discussões e também daquelas cerimônias de conclusão do Concílio. Foi muito gostoso. Voltei, depois, ao Brasil para preparar minha consagração episcopal em março de 1966. E pensei: Deus me colocou, nesse momento, no colégio dos Bispos, quer que eu me esforce para propor a vivência e aplicação desse Concílio (p.24).

Nessa perspectiva de renovação conciliar em curso na Igreja, entende-se que a implantação das novidades do Concílio Vaticano II nas dioceses tenha sido um desafio a ser coordenado e executado por todos os bispos. Dom Ivo foi ordenado bispo numa época em que se indicava a necessidade de discernimento para manter as conquistas positivas da tradição milenar da Igreja e para acolher, ao mesmo tempo, as novidades e os valores do mundo atual, conforme sugeria o concílio. Nesse sentido, é pertinente uma referência ao escudo episcopal adotado por Dom Ivo em sua ordenação episcopal. Os símbolos de seu escudo expressam e sugerem basicamente o seu ideal pessoal em procurar sempre esse discernimento e equilíbrio entre a tradição e a novidade na Igreja, necessários nessa época, conforme A Razão (23/04/1974):

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cresce sobre troncos velhos. Tudo quer significar um programa de constante renovação, sem eliminação dos valores permanentes e imutáveis (p.9).

Além desses símbolos contidos em seu brasão, Dom Ivo propôs como lema episcopal a expressão Nova et vetera (Mateus 13,52), que significa: Coisas novas e velhas. Demonstra

esse lema a disposição de Dom Ivo e a necessidade de reflexão e discernimento permanentes em sua missão de preservar os aspectos positivos herdados da fé cristã e da humanidade. Ao mesmo tempo, esse lema indica a exigência e a capacidade de acolher e aderir criticamente às novidades e às renovações, próprias do tempo presente em que a Igreja está inserida, conforme A Razão (21/04/1982):

Sobre a escolha do tema de sua vivência episcopal, D. Ivo disse, quando assumiu a diocese de Santa Maria que “quando a humanidade e a Igreja vivem sujeitas a rapidíssimas e profundas mudanças, urge compreender e viver corretamente o lema “Nova et Vetera”. Com ele queremos exprimir honesta coragem de apresentar e representar as legítimas coisas novas, o sincero esforço de não chegar atrasados nos confrontos com o mundo, a piedosa disposição de renovar ou inovar o que disso necessita. Mas, ao mesmo tempo, esse lema significa o nosso empenho de fidelidade em conservar e defender as verdades e normas que não podem mudar, por serem intocáveis legados de Cristo, ou irreformáveis afirmações da Igreja, ou sábias heranças da experiência da humanidade” (p.12).

Nesse sentido, provavelmente a urgência das atividades pós-conciliares e de atualização da Igreja foram determinantes na designação de Dom Ivo para funções importantes na Igreja, em nível regional, como secretário regional da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) no regional Sul III, que abrangia os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Nessa época de transição e de mudanças, certamente considerava-se prioritária a aplicação das novidades do Concílio, possivelmente em primeiro lugar, nas bases da própria Igreja. Dessa forma, entende-se que a formação e a atualização do clero da região tenha sido a tarefa inicial mais importante para Dom Ivo, conforme relata à Barichello; Belmonte (2004):

Interessante foi que, como bispo auxiliar de Porto Alegre, o Arcebispo Scherer me nomeou logo como Secretário da CNBB-Sul III que naquele tempo abrangia também o estado de Santa Catarina. E assim, como outros auxiliares nos colocamos a trabalhar para implementar o Concílio em todo o regional da CNBB. Começamos organizando cursos de atualização para todo o clero desses dois estados. Cada padre, religioso ou diocesano, devia num espaço de dois anos, realizar esse curso. Foi uma enorme riqueza e vivência (p. 25-6).

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de Medellín, na Colômbia, em 1968, Puebla, no México, em 1979 e Santo Domingo em 1992. Através dessas conferências, entende-se que o Concílio renovou e atualizou a Igreja na América Latina. Houve uma expressiva participação da Igreja do Brasil nessas conferências, que esteve representada por vários bispos brasileiros da CNBB, inclusive Dom Ivo.

Nessa perspectiva, há indícios de que, após o Vaticano II, a Igreja do Brasil e da América Latina tenha ultrapassado os limites e ambientes eclesiásticos. Sugere-se que a Igreja tenha se voltado, com mais clareza e intensidade, aos problemas sociais e políticos desses países, após a realização dessas conferências, conforme esclarece Dom Ivo a Barichello; Belmonte (2004): “Foi o Concílio e as assembléias de Medellín, Puebla e Santo Domingo que nos impulsionaram para agir nos ambientes não só eclesiais, nos problemas políticos e sociais” (p. 71).

Nesse contexto de renovações significativas em curso na Igreja, Mombach (2002) indica que Dom Ivo foi eleito Secretário Geral da CNBB, de 1972 a 1978 e Presidente, por dois mandatos, de 1979 a 1986, sucedendo, nesse cargo, a seu primo Dom Aloísio Lorscheider. Sugere-se, desse modo, que em muitos aspectos, Dom Ivo tenha delimitado o modo de ser e de atuar da CNBB.

Entende-se que a liderança de Dom Ivo tenha assegurado a unidade interna e a coesão dos bispos brasileiros na CNBB, frente as suas diversas correntes ideológicas. Para isso, busca-se identificar Dom Ivo como sendo um bispo progressista, apesar de sua discordância quanto às rotulações ideológicas. Dom Ivo faz pensar que o importante é a busca da unidade em torno dos objetivos comuns da Igreja, conforme A Razão (24/04/1979):

O novo presidente da CNBB não concorda com a identificação que fazem das correntes progressistas e conservadoras dentro do episcopado brasileiro e afirma que não se devia acentuar muito a existência de duas correntes, pelo menos com estes adjetivos que se empregam na grande opinião pública. Sendo identificado como da ala progressista, Dom Ivo diz que “é claro que cada um tem as suas preferências quando há eleições, mas isto não significa que vá existir uma falta de coesão e colaboração de todos os bispos, porque afinal as metas são as mesmas e não se trata de uma corrente se sobrepor a outras” (p.12).

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Nesse sentido, conforme registro do DOPS/RG (15/12/1967), na Secretaria da Segurança Pública, ao abordar o tema Religião, o relatório apresenta Dom Ivo como um bispo progressista e moderado, alinhado com o pensamento social da Igreja, nos seguintes termos:

VI – RELIGIÃO No ensejo do 1º. Aniversário da publicação da Encíclica “POPULORUM PROGRESSIO”, a AL/RS comemorou o fato com uma sessão solene, tendo usado a palavra, além dos representantes da ARENA e MDB, o Bispo Auxiliar de PA, Dom Ivo Lorscheiter, cuja oração foi entremeada de citações daquela Encíclica. Em 31.03.1968, por iniciativa do III EX, foi rezada na Catedral Metropolitana, missa comemorativa ao 4º. Aniversário da Revolução de MAR. 64, sendo oficiante o Bispo Auxiliar de PA, Dom Ivo, digo, Dom Edmundo Luiz Kunz, cuja homilia versou sobre conceitos da “POPULORUM PROGRESSIO” e sobre a Campanha da Fraternidade em pleno desenvolvimento. Em certo trecho de sua oração fez uma breve referência ao “grande presidente CASTELO BRANCO”. APRECIAÇÃO: Os dois Bispos Auxiliares da Arquidiocese de PORTO ALEGRE, acima citados, são considerados “progressistas moderados”, por uma ponderável corrente católica (p. 14-5).

Esse relatório demonstra e sugere uma relação entre a fé cristã e a vida, no sentido de que D. Ivo entendia e praticava a vivência entre os compromissos pastorais e a dimensão política na sociedade. Nesse sentido, para além dessas rotulações ideológicas, Dom Ivo dava a entender que a fé cristã seria basicamente a vivência harmoniosa e equilibrada de suas duas dimensões essenciais: a espiritual e a social. A fé e a vida seriam, portanto, inerentes ao cristianismo defendido pela Igreja e, desse modo, não poderiam ser consideradas antagônicas ou excludentes, mas complementares e dependentes uma da outra.

Esta correlação entre a dimensão social e espiritual do cristianismo é claramente explicada na Doutrina Social da Igreja e será abordada posteriormente. Os problemas sociais do mundo devem, portanto, ser iluminados pela fé, em busca de sua solução, conforme A Razão (10/02/1982):

A Igreja, com efeito, deve aperfeiçoar sempre mais seus quadros, sua espiritualidade, os aspectos religiosos de sua atuação, mas ela deve também e sempre ser fermento, luz e sal e, por isso, deve tocar, iluminar e transformar os problemas humanos e sociais. Uma Igreja só sociológica, ou uma Igreja só espiritualista não seria a Igreja de Cristo (p.3).

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pessoa nessa época, bem como ressalta a importância da comunidade católica santamariense no cenário eclesial, conforme A Razão (21/04/1974):

Dom Ivo vem para Santa Maria com um passado que o credencia para a missão que irá assumir. Nos cargos e funções a ele confiados, houve-se sempre com dedicação e competência. Acompanha-o uma vasta cultura geral e uma notável bagagem teológica e grande dose de iniciativa e organização [...] Dom Ivo, que hoje assume, vem precedido de uma larga folha de serviços prestados aos católicos brasileiros. É homem de reconhecido dinamismo e capacidade. É destacado personagem do clero nacional e sua indicação para a diocese local, diz da importância que representa a comunidade católica santa-mariense, que está certa de que o labor de seu novo bispo será profícuo e servirá para projetar ainda mais os nomes da diocese e da cidade (p.4 e 11).

Nessa perspectiva de acolhida e das expectativas da comunidade local em relação ao seu novo bispo, o Projeto Esperança/Cooesperança (2007) sugere que Dom Ivo tenha encontrado respaldo em alguns setores da sociedade para a execução de seus projetos. Um indício desse apoio evidencia-se, sobretudo, no crescimento significativo da devoção à Medianeira de Todas as Graças, após a posse de Dom Ivo e a partir da construção do Altar Monumento e do Santuário Basílica Menor, em Santa Maria. Celebrações importantes se realizam nesses espaços, no Parque da Medianeira, especialmente a Romaria Estadual da Medianeira, sempre no segundo domingo do mês de novembro, todos os anos. Nos últimos anos, a Romaria da Medianeira tem concentrado cerca de 300 mil romeiros na cidade.

Nesse sentido, apesar da ênfase social do episcopado de Dom Ivo, a sua dedicação e o seu apoio à devoção popular à Medianeira evidenciam também uma preocupação quanto aos anseios espirituais dos fiéis. Dom Ivo endossa a importância da unidade entre a dimensão espiritual e social na prática religiosa dos cristãos. Propõe, dessa forma, que a devoção à Medianeira não seja um ato de fé intimista, mas uma oportunidade de levar os fiéis e os romeiros a um engajamento comunitário e social, em vista de um mundo melhor, mais justo e pacifico para, conforme seu relato em A Razão (17/11/1983):

Temos esperanças de que esses toques profundamente religiosos tenham também consequências e repercussões na vida comunitária e no campo social. A religião, com efeito, não pode permanecer circunscrita ao âmbito pessoal ou intimista, mas deve ter uma dimensão de influência na vida pública. Por isso mesmo, vamos rezar para que aconteça a paz social, a prosperidade verdadeira e participada, a justiça, a superação das guerras e das outras formas de violência (p.11).

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escolas da região, orientando a comunidade escolar para os valores cristãos e o desenvolvimento social. Suas visitas às escolas da rede municipal evidenciam, por outro lado, a sua predisposição política em fortalecer os laços entre o Poder Público e a Igreja, na busca do mesmo objetivo, o bem comum para toda a sociedade (A RAZÃO, 28/05/1975).

Essa visão política de Dom Ivo, baseada no diálogo crítico e na cooperação com os poderes públicos, identifica uma nova relação entre a Igreja e o Estado. Sugere-se que a Igreja do Brasil no passado servia aos interesses do Estado e mantinha-se submissa a este, como, por exemplo, no tempo da Colônia e do Império, através do sistema do Padroado. O Ultramontanismo e o pensamento liberal advindos da Europa, no entanto, geraram uma crise no Padroado, levando muitos bispos brasileiros à insubordinação ao Estado. Indica-se que a autoridade e o poder do Papa, em Roma, passaram a ser reforçados e a romanização da Igreja levou à sua autonomia em relação ao Estado, efetivada na Proclamação da República, em 1889. A partir daí, a meta da Igreja foi a recristianização da sociedade que estava a caminho da secularização (BIASOLI, 2005).

Nessa perspectiva, entende-se na consulta ao Decreto Christus Dominus de Paulo VI

(1965), que a ação política de Dom Ivo e de vários bispos contemporâneos seus esteja em conformidade com as orientações atuais da Igreja, evidenciadas no Concílio Vaticano II. Os documentos e decretos desse Concílio indicam um novo modelo de episcopado, onde os bispos tenham liberdade e independência diante dos poderes públicos, para exercer suas funções eclesiais. A Igreja indica, por outro lado, que os bispos cooperem respeitosamente com as autoridades públicas, obedecendo às leis justas dos países, e agindo em favor do progresso e da prosperidade social e civil.

Nesse sentido, para realizar o seu trabalho de bispo, de acordo com essas orientações e princípios delimitados pela Igreja, percebe-se um grande esforço da parte de Dom Ivo. Na diocese, em Santa Maria e na CNBB, em Brasília, a sua presença foi constante em muitas reuniões, viagens, palestras e assessorias, bem como na sua proximidade junto aos pobres, às famílias e aos doentes. Desse modo, evidencia-se o pouco tempo disponível e o excesso de atividades e compromissos em sua agenda, conforme testemunha Ir. Cecília Dahmer em Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

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distinção, mas dava preferência aos pobres, às famílias, às crianças e aos doentes (p. 29).

Além desses compromissos na Diocese de Santa Maria e na CNBB, para atender compromissos também no exterior, Dom Ivo marcou presença em instituições e eventos em outros países. Dom Ivo, a serviço do Vaticano, da Igreja da América Latina, do Brasil, da CNBB e da Diocese de Santa Maria, viajou por vários países, de diferentes ideologias, tais como: Estados Unidos, Rússia, Argentina, Canadá, Alemanha e outros. Outras viagens teriam sido feitas por convites de entidades internacionais diversas. O relato de algumas dessas viagens, e sua relação com os objetivos da presente pesquisa serão abordados nos próximos capítulos. Percebe-se, por outro lado, que em virtude dessas viagens, Dom Ivo tenha recebido também algumas críticas pela necessária ausência na pastoral da diocese de Santa Maria e por sua postura política na direção da CNBB, especialmente no início de seu episcopado, conforme A Razão (16 e 17/10/1982):

Durante os primeiros anos como bispo de Santa Maria, Dom Ivo sofreu críticas porque, segundo alguns fiéis, passava mais tempo em viagens do que em sua Diocese [...] Nessa época, enfrentou problemas porque desempenhava a dupla função, de pastor e de político. No recinto da Diocese, procurava assumir a postura de bispo, voltado exclusivamente às questões pastorais; ao embarcar para Brasília, sede da CNBB, voltava-se mais para os assuntos de ordem política (p.24).

Essa crítica da postura de Dom Ivo na Diocese e na CNBB demonstra, mais uma vez, que havia associação entre a prática pastoral e política. Entende-se que o trabalho político na esfera nacional vai ter seu reflexo na esfera regional.

Nesse cenário, Dom Ivo conviveu com a ditadura civil-militar, instaurada no Brasil de 1964 a 1985. A relação entre o Estado ditatorial e a Igreja no Brasil, nesse período, foi marcada pela pluralidade de posicionamentos. Nos capítulos posteriores desse trabalho, serão abordadas as posturas de Dom Ivo frente a essa conjuntura nacional. Nota-se em A Razão (22 e 23/05/2004) uma postura avançada e firme em Dom Ivo, frente aos excessos do Regime Militar:

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Nesse cenário político do regime militar, houve críticas por parte de alguns setores da Igreja, considerados porta-vozes da insatisfação social. Entendiam que a política econômica adotada e preservada pelos governos civis-militares seria a principal causa do crescimento da pobreza, da miséria e dos problemas sociais no Brasil. Apesar disso, Dom Ivo e a CNBB apoiavam as reformas necessárias para reverter esse quadro e resolver os problemas sociais, conforme A Razão (22/08/1979):

“O Governo tenta a todo custo preservar o modelo econômico, contra as pretensões das bases insatisfeitas, o modelo deverá ser modificado”, disse Dom Ivo acusando o modelo de causador das insatisfações sociais [...] “A Igreja e a CNBB entendem que o Brasil pode ainda comprometer-se com a busca interna pela Justiça, e esta, pelo atendimento das mais humildes aspirações de um povo que sofre, busca formas de realização humana a menores custos ecológicos” (p.5).

Sugere-se, dessa forma, que Dom Ivo e a Igreja não apenas criticavam o modelo econômico vigente e o conseqüente agravamento dos problemas sociais, mas também apresentavam sugestões para a sua superação. Propõe-se em A Razão (22/08/1979), que a reforma agrária, política e econômica, bem como a Anistia7 indicadas pela Igreja, seriam necessárias para o desenvolvimento e o bem comum ameaçados no país:

Dom Ivo afirmou que, desde os seus primórdios, a CNBB tem se preocupado com o homem brasileiro, citando o problema da Reforma Agrária. Dom Ivo reafirmou que a CNBB continuará a insistir nas reformas políticas, as quais devem repousar em dois pilares: participação e igualdade. Assim a CNBB estaria encorajando os políticos em função do bem comum. Sublinhou a urgência de ser revisto o nosso modelo econômico para que não se perpetue a procura de um desenvolvimento falaz e discriminatório, e a urgência de um grande gesto de reconciliação através de uma Anistia sábia e digna desse nome (p.5).

Nessa perspectiva, indica-se um reflexo dos problemas sociais do Brasil também no plano regional e local. Entende-se que Dom Ivo, percebendo essas problemáticas sociais no contexto nacional, centra-se na diocese de Santa Maria, indicando a necessidade de inserção da Igreja local nos problemas sociais do povo, na busca de alternativas à sua superação, conforme seu depoimento à Barichello; Belmonte (2004): “Quando fui nomeado para ser Bispo em Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, eu me dei conta de que esta região do Estado era relativamente pobre, isto é, tanto as cidades como o campo tinham muitas carências” (p. 121).

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Nesse sentido, sugere-se que os problemas sociais existentes em Santa Maria tenham motivado Dom Ivo a fundar o Banco da Esperança8 em 1977, para oferecer oportunidades de trabalho e promoção humana na Diocese de Santa Maria. As atividades e os projetos sociais do Banco da Esperança e a sua relação com a Doutrina Social da Igreja serão tratados no capítulo posterior. Percebe-se que, a partir do Banco da Esperança, foram planejadas, executadas as iniciativas sociais da diocese de Santa Maria, conforme sugere o Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

Uma das principais preocupações de Dom Ivo, ao ser nomeado Bispo de Santa Maria, era com a pobreza da região e a falta de oportunidade de trabalho para as pessoas mais humildes. Inspirado em um projeto criado por Dom Hélder Câmara no Rio de Janeiro (Feira da Providência), implantou em Santa Maria a Feira da Primavera, reunindo produtos de todas as cidades da Diocese. Foi a semente para a criação do Banco da Esperança, que reúne diversos projetos sociais (p. 14).

Nessa perspectiva, percebe-se que Dom Ivo tenha motivado a Igreja a inserir-se no campo econômico e social não apenas em nível local, mas também em nível regional, junto à Cáritas Regional9. Indica-se, desse modo, que a pastoral da Igreja, no campo econômico e social, precisa superar a caridade entendida como mero assistencialismo. Indica-se que a justiça social e a caridade cristã são inseparáveis na prática social da Igreja, conforme o Projeto Esperança/Cooesperança (2007):

Nos anos 1970/80, por ocasião de três Congressos, ele desafiava a Cáritas e as Obras Sociais Católicas – os congressos e a ação da Cáritas naquela época se referiam bastante às Obras Sociais – a superarem a caridade para chegar à justiça [...] Ao mesmo tempo em que dizia que devemos superar a caridade para chegar a justiça, ele enfatizava a importância de nunca separarmos a justiça da caridade, pois esta, além de motivar-nos para a prática da justiça, funciona como óleo do motor de um veículo que faz evitar os atritos quando lutamos por justiça (p. 46).

Desse modo, as ações de Dom Ivo, nessa luta pela justiça social, indicam uma valorização e incentivo também aos meios de comunicação social, na transmissão dos valores e dos princípios cristãos. Com o objetivo de incentivar os profissionais dos meios de comunicação da região a guiar-se por estes valores, instituiu-se na diocese de Santa Maria, em

8 O Banco da Esperança foi fundado por Dom José Ivo Lorscheiter no dia 20/12/1977, com o objetivo de planejar, coordenar e executar os programas e os projetos da Diocese de Santa Maria no campo econômico e social (ARQUIVO DOM IVO LORSCHEITER, 2009).

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1986, o Prêmio Landell de Moura10. Esse prêmio vem sendo entregue aos comunicadores que reconhecidamente apregoam em seu trabalho a defesa dos valores humanos e cristãos e incentivam a educação comunitária. Anualmente, no Dia das Comunicações Sociais, se faz a entrega deste prêmio aos vencedores, conforme A Razão (13/08/1986):

Destina-se o Prêmio à pessoa ou empresa que, no campo da Comunicação Social e no âmbito dos 19 Municípios da Diocese de Santa Maria, alcançar especial benemerência na promoção e na defesa dos Valores Humanos e Cristãos e na Educação Comunitária. Queremos assim homenagear e promover este nobre apostolado da Comunicação de Massa, instrumento de formidável e salutar eficácia, desde que usado conscienciosamente segundo os critérios da Verdade e da Virtude (p.3).

Nessa perspectiva, indica-se em A Razão (10 e 11/05/1986), que a fim de incutir o pensamento e os valores cristãos defendidos pela Doutrina Social da Igreja em diferentes ambientes e grupos sociais, Dom Ivo instituiu na Diocese de Santa Maria, em 1986, a devoção a Santo Ivo, patrono dos advogados, juízes, cultores e intérpretes do Direito, conforme A Razão (17 e 18/05/1986). A devoção a Santo Ivo ocorre sempre no dia 19 de cada mês, no Santuário Medianeira e, em maio, realiza-se a Romaria de Santo Ivo.

Nesse sentido, entende-se em A Razão (21/12/1974) que a atuação de Dom Ivo em vários ambientes e espaços sociais e suas iniciativas em favor do desenvolvimento da sociedade identificam o reconhecimento e o agradecimento da comunidade local e regional em várias oportunidades. Assim, na inauguração do Banco da Esperança, no dia 20 de dezembro de 1977, ocasião em que Dom Ivo celebrava 25 anos de sua ordenação sacerdotal, a comunidade local e autoridades civis e religiosas de outras regiões e do país, marcaram presença e expressaram a sua gratidão e reconhecimento.

Nessa mesma perspectiva, Dom Ivo foi homenageado em 1993, pela Câmara de Vereadores de Santa Maria. Dom Ivo, ao lado de outras pessoas homenageadas, recebeu, nesse ano, o título de Cidadão Santa-mariense. Essa homenagem vincula-se a sua destacada atuação e dedicação pessoal em prol da cidade, bem como a sua atitude de diálogo e a implantação de idéias novas (A RAZÃO, 14/12/1993).

O Centro Universitário Franciscano - UNIFRA também aponta a relevância de Dom Ivo para o mundo acadêmico ao conceder-lhe, em 2005, o título de “Doutor Honoris Causa”. Este título honorífico sugere e traduz o reconhecimento da comunidade acadêmica e da

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própria região, pelo esforço e pela atuação de Dom Ivo na Igreja, em vista da promoção humana e social e do desenvolvimento local (ARQUIVO DOM IVO LORSCHEITER, 2009).

Conforme A Razão (09/12/2002), a caminhada de Dom Ivo, como bispo de Santa Maria, vai até o pedido de renúncia, aos 75 anos, em dezembro de 2002, ao completar também 50 anos de sacerdócio. Em meio a homenagens, a comunidade local e a Diocese de Santa Maria celebraram estas datas. Segundo o costume na Igreja Católica, Dom Ivo solicitou nessa época ao Papa João Paulo II o seu pedido formal de renúncia ao cargo de bispo diocesano.

Desse modo, não obstante as homenagens e o reconhecimento da comunidade pela realização de sua missão, Dom Ivo entende que existiram também lacunas e falhas em seu trabalho, como, por exemplo, as limitações e as dificuldades da Igreja em atuar no mundo acadêmico. Apesar dos projetos e iniciativas da Diocese, especialmente no campo econômico e social, Dom Ivo aponta as falhas da Igreja em relação à evangelização nas universidades em Santa Maria, reconhecida como cidade universitária, e sugere a superação desses limites e desafios, conforme seu relato à Barichello; Belmonte (2004):

Me diziam: é importante que você vá para Santa Maria lembrando-se que é uma cidade universitária. Procure dar muito apoio a essa situação. Esse foi o meu

receio porque fazer um trabalho apropriado com esse mundo universitário não é tão fácil assim. É científico, psicológico, com estudantes e professores. Eu reconheço que não consegui o que sempre se devia nesse mundo universitário. Mas eu sempre procurei cultivar isso, embora sabendo que nem sempre consegui uma verdadeira atuação pastoral. Deus vai perdoar por isso. Hoje Santa Maria tem aumentado cada vez mais em universidades, faculdades e colégios e eu creio que é preciso um trabalho mais especializado nessa área (p.31).

Nesse sentido, essa autocrítica de Dom Ivo indica uma presença sua no mundo acadêmico não somente no sentido evangelizador. O Reitor da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM em 2004, Paulo Jorge Sarkis evidencia a importância da presença e da interação de Dom Ivo na cidade de Santa Maria e na universidade, conforme A Razão (22 e 23/05/2004): “O Dom Ivo sempre foi presença permanente nos grandes eventos e momentos cruciais da cidade. Interagiu com todos os setores da sociedade e na UFSM não foi diferente” (p.13). A afirmação do Reitor, no sentido dessa interação de Dom Ivo, não se vincula, porém a uma evangelização no mundo acadêmico.

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médicos não perceberam logo que se tratava de duas crianças gêmeas, na hora do parto. Quando seminarista em Roma, Dom Ivo quase morreu devido a uma inflamação do peritônio, causada por uma forte pancada durante um jogo de basquete entre os seminaristas. Indica-se ainda que, um dia após a sua posse como bispo em Santa Maria, Dom Ivo foi hospitalizado às pressas para se submeter a uma cirurgia de retirada do baço.

Ao concluir este capítulo sobre a trajetória de Dom Ivo, conforme A Razão (25/03 e 21/05/2004) é pertinente a indicação de que o Papa João Paulo II, no dia 24 de março de 2004, tenha aceitado o seu pedido de renúncia ao cargo de Bispo de Santa Maria. A posse do seu sucessor, Dom Hélio Adelar Rubert, ocorreu no dia 23 de maio de 2004. Na ocasião da despedida de Dom Ivo, após 30 anos como bispo de Santa Maria, indentifica-se o recebimento de homenagens e agradecimentos de vários setores e entidades da sociedade, pelo trabalho realizado. A partir da posse do novo bispo, Dom Ivo permaneceu na condição de Bispo Emérito11 da Diocese de Santa Maria, até o seu falecimento, ocorrido no dia 05 de março de 2007.

Após identificar a trajetória episcopal de Dom Ivo, faz-se necessário a relação entre o seu trabalho pastoral e a Doutrina Social da Igreja. Na segunda parte, serão relacionados alguns aspectos da prática social de Dom Ivo e as orientações e princípios da moral social da Igreja Católica, especialmente através das encíclicas sociais.

3.2 A relação da Doutrina Social da Igreja Católica e o episcopado de Dom José Ivo Lorscheiter:

A encíclica12 Rerum Novarum foi publicada em 1891, pelo Papa Leão XIII e é

considerado o documento basilar e norteador das demais encíclicas sociais que, juntas formam o corolário da Doutrina Social da Igreja. Nesse sentido, o magistério social da Igreja, formulado e enriquecido ao longo do tempo, orienta e fundamenta a prática social dos fiéis católicos em épocas e contextos diversos.

Nessa perspectiva, a Rerum Novarum foi publicada num contexto de profundas

transformações sociais ocorridas na Europa e no mundo inteiro, pela afirmação do capitalismo industrial e do consequente surgimento da classe operária, no final do século XIX. Temas

11 Na Igreja Católica, os Bispos, ao completar 75 anos de vida, enviam ao Papa um pedido formal de renúncia ao seu mandato episcopal. Quando o Papa aceita e confirma este pedido de renúncia, o bispo permanece na condição de “Bispo Emérito” (JOÃO PAULO II, Código de Direito Canônico, 1987).

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novos e de difícil compreensão para os católicos dessa época, aguardavam uma orientação da

Igreja no que se referia aos critérios da justiça social frente a essa conturbada relação entre os capitalistas e os operários. A “condição dos operários”, diante desse conflito estabelecido

entre os detentores do capital e o proletariado, é o fio condutor dessa encíclica, e tornou-se o pano de fundo das demais encíclicas sociais da Igreja, como entende Leão XIII (1891):

Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados e outros assuntos análogos,

refutando, segundo nos pareceu oportuno, as opiniões errôneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. [...] É difícil, efetivamente, precisar com exatidão os direitos e os

deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho (p. 1).

O conflito estabelecido indica uma relação desigual e injusta entre o capital e o trabalho nessa época, o que motivou Leão XIII a conduzir a Igreja numa posição de auxílio às classes proletárias, em conformidade com o princípio cristão da justiça social. O proletariado estava relegado a uma situação de miséria, causada pelo monopólio da riqueza produzida pelo seu trabalho, concentrada nas mãos de uma minoria, que oprimia e explorava as massas operárias, conforme sugere Leão XIII (1891):

É necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio das classes inferiores, atendendo a que elas estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida [...] A tudo isso se deve acrescentar que o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão de proletários (p. 2).

A condição dos operários e a situação miserável da classe proletária, indicados por Leão XIII (1891), indicam um paralelo com a realidade brasileira, analisada sob a perspectiva da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano analisa a realidade brasileira e, nessa perspectiva, apresenta os principais problemas a serem combatidos pela Igreja do Brasil no campo social da evangelização tendo em vista o bem comum, o desenvolvimento e a justiça social no Brasil. A Igreja orienta, dessa maneira, os bispos, no sentido de priorizar as iniciativas sociais, conforme relata Dom Ivo em A Razão (16 e 17/03/1991):

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dos Índios; 9) destruição do meio-ambiente, pela destruição da vegetação e uso de tóxicos; 10) pesada dívida externa e dependência da economia global (p.2).

Em nível regional Dom Ivo indica, nesse sentido, uma preocupação pastoral com a situação precária do Rio Grande do Sul, no âmbito econômico. A realidade evidenciada por Dom Ivo sugere uma estagnação financeira e um entrave no desenvolvimento regional, bem como a luta por interesses meramente corporativistas sem a preocupação com o bem comum, conforme A Razão (08/07/1987):

Lançando um olhar pastoral sobre o Rio Grande do Sul, Dom Ivo diz que não pode deixar de sentir uma profunda preocupação. Precariedade financeira, impedindo uma ação de urgentes investimentos, aumentos salariais de alguns segmentos privilegiados em detrimento de outros; perigo de um corporativismo desagregador, que faz as classes reivindicarem exclusivamente seus interesses; greve do magistério estadual – estas são algumas das questões que estão preocupando Dom Ivo (p.5).

Nessa perspectiva, Dom Ivo indica a importância do estudo e da aplicação da Doutrina Social da Igreja, diante dos graves problemas sociais existentes no contexto atual. A condição dos operários se repete e se atualiza na sociedade, com novas roupagens e em diferentes contextos. A falta de convergência entre muitos católicos, a respeito da moral social da Igreja, bem como o crescente aumento da pobreza e da miséria em algumas regiões, entre elas o Brasil, sugere o estudo e a inserção social da Igreja nesta realidade, conforme demonstrado por Dom Ivo sobre o discurso do Papa João Paulo II, em A Razão (14/01/1982):

O bispo de Santa Maria lembra que a chamada Doutrina Social da Igreja merece um estudo atento e uma aplicação cuidadosa, especialmente nos dias de hoje, quando os problemas sociais se tornam mais graves e as posições, também dos católicos, nem sempre são convergentes. Foi o que enfatizou o Papa João Paulo II no discurso inaugural de Puebla: “Quando se exacerbam as injustiças e cresce dolorosamente a distância entre ricos e pobres, a Doutrina Social, em forma criativa e aberta aos amplos campos da presença da Igreja, deve ser precioso instrumento de formação e ação” (p.4).

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[...] a reviravolta começa a esboçar-se na nossa época dentro do cristianismo – e especialmente dentro do catolicismo pós-conciliar –, no sentido de que os cristãos se orientem mais para este mundo e para o homem, participando inclusive com os não-crentes na transformação real dele, imprimindo uma nova feição à moral de inspiração religiosa. Esta dupla orientação para o mundo real e para o homem permite que as velhas virtudes – resignação, humildade, conformismo etc. – cedam lugar a outras vinculadas com o esforço coletivo para a emancipação efetiva neste mundo real (p. 91-2).

Percebe-se que a Doutrina Social da Igreja muitas vezes é incompreendida em seus princípios e, por isso, é rejeitada por alguns cristãos e católicos, por motivos diversos. Em alguns aspectos, a Doutrina Social da Igreja é considerada próxima ao socialismo, o que causa certa confusão. As diversas concepções e pontos de vistas, às vezes equivocadas ou desvirtuadas, a respeito do magistério social da Igreja, não diminuem a importância da Doutrina Social da Igreja, especialmente no seu aspecto doutrinário, conforme indica Dom Ivo em A Razão (07/05/1989):

Existem pessoas e grupos, mesmo entre os católicos, que não aceitam a expressão e a existência da “Doutrina Social da Igreja”, e isto por motivos diversos. Para alguns, a Igreja não deve doutrinar ou interferir em questões sociais [...] Todas essas alegações não se conseguem obscurecer ou invalidar a bem entendida Doutrina Social da Igreja. O Magistério Eclesiástico tem o encargo de iluminar e defender a ordem moral, não os aspectos técnicos da convivência humana (p.2).

Nessa perspectiva, Leão XIII (1891) já advertia para a necessidade de cautela em relação às opiniões diversas, bem como às soluções propostas pelas ideologias da época, na busca de superação dos problemas relacionados à condição dos operários. A luta de classes entre pobres e ricos, proposta pelos socialistas revolucionários, ou comunistas, é condenada por Leão XIII (1891): “Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio

invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida” (p. 2).

A consulta a Leão XIII (1891) sugere uma rejeição ao socialismo pela proposta de coletivização dos bens nas mãos do Estado, pois esta contraria o direito natural dos indivíduos à propriedade privada e causa perturbação da ordem pública. A Igreja condena o socialismo em seus princípios materialistas, que reduzem a natureza e o homem ao seu aspecto meramente material, dissociando-o da sua dimensão espiritual e cristã, e da sua relação com Deus, conforme esclarece Pio XI (1937): “É, pois, evidente que neste sistema não há lugar sequer para a idéia de Deus” (p. 3).

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a sua dignidade humana e cristã e a não considerá-los como meros instrumentos de lucro. Indica-se aos ricos o não-uso da violência, da fraude e da usura contra os pobres, considerados pela Igreja como os mais indefesos. Critica com veemência os abastados, pois em sua opinião eles formam: “uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, desvia o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais” (p. 20).

O capitalismo liberal é da mesma forma condenado por Paulo VI (1967). O liberalismo econômico promovido pelo sistema capitalista visa ao progresso econômico, somente a partir do lucro e da concorrência no mercado e considera o direito à propriedade dos bens de produção como valor absoluto e ilimitado. O capitalismo, desse modo, promove apenas o progresso econômico, mas não se empenha pelo progresso social e, por isso, é condenado pela Igreja.

Além das considerações da Igreja a respeito do socialismo e do capitalismo, na consulta a Bottomore (1983) entende-se, quanto ao “capitalismo”, que o capital é considerado o principal meio de produção, evidenciado em diferentes formatos. A propriedade privada do capital está concentrada nas mãos da classe dos capitalistas. O restante da população, que não integra esta classe, deve apenas constituir o modo de produção tipicamente capitalista, ou seja, o trabalho. Na leitura de Netto (1986), deduz-se que o “socialismo”, originário do marxismo, é concebido a partir da sua ruptura interna, cristalizada na fundação da Internacional Comunista em 1919. A partir daí, formaram-se duas correntes socialistas: os social-democratas, considerados reformistas e próximos da burguesia; e os comunistas, que agrupam os setores revolucionários do socialismo.

Relacionando as orientações da Igreja a respeito da proposta socialista, Pio XI (1931) sugere uma função social inerente ao próprio conceito de propriedade privada: “Efetivamente que deva o homem atender não só ao próprio interesse, mas também ao bem comum, deduz-se da própria índole, a um tempo individual e social, do domínio a que nos referimos” (p. 10). Para Dom Ivo, essa concepção a respeito do “direito à propriedade privada”, no caso do Brasil, se aplica também ao direito à posse e ao domínio da terra. O direito à posse da terra é legítimo, no entanto, apenas quando este tipo de propriedade não é especulativo, mas também está disponível à geração de trabalho aos que dela precisam. Graves problemas sociais se acumulam no Brasil, em virtude da histórica concentração de propriedades de terra em latifúndios e minifúndios que não cumprem essa “função social”, sugere Dom Ivo (A RAZÃO, 22/07/1987).

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