Gisele Oliveira Schlatter MULHERES, ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NA FRONTEIRA MERIDIONAL DO BRASIL (ALEGRETE, 1850-1870)

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(1)Gisele Oliveira Schlatter MULHERES, ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NA FRONTEIRA MERIDIONAL DO BRASIL (ALEGRETE, 1850-1870) SANTA MARIA, RS 2009

(2) 1 Gisele Oliveira Schlatter MULHERES, ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NA FRONTEIRA MERIDIONAL DO BRASIL (ALEGRETE, 1850-1870) Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História. Orientadora: Lenir Cassel Agostini Santa Maria, RS 2009

(3) 2 Gisele Oliveira Schlatter MULHERES, ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NA FRONTEIRA MERIDIONAL DO BRASIL (ALEGRETE, 1850-1870) Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em História. Profª. Ms. Lenir Cassel Agostini – Orientadora (UNIFRA) Profª. Ms. Elisabeth Weber Medeiros (UNIFRA) Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (UNIFRA) Aprovado em ..........de ............................................ de 2009.

(4) 3 Agradeço a Deus por ter me permitido conviver com uma pessoa que me aceitou e me amou como se eu realmente fosse “cria de seu ventre”, dedicando por quase trinta anos um amor incondicional por mim. Apesar de não estarmos mais juntas, pois, o curso natural da vida assim o quis, quero agradecer por todo o bem e por todo o amor que recebi. E, como uma vez prometi: “mãe, dedico este trabalho à sua pessoa, e obrigada por não ter desistido de mim”.

(5) 4 [...] as cartas de alforria transmitem uma variedade de sentimentos naqueles que as lêem: afetividades, identidades étnicas, laços familiares, enfim, um caleidoscópio de esforços individuais e coletivos cujo objetivo final era a destruição dos laços compulsórios do cativeiro e a esperança de viver em liberdade (MOREIRA; TASSONI, 2007).

(6) 5 RESUMO O presente estudo visa identificar as variáveis que proporcionaram a concessão de cartas de alforrias para as mulheres cativas e os tipos de alforrias que foram concedidas para as mesmas no município de Alegrete, RS, entre os anos de 1850 e 1870. Partindo da necessidade de contextualizar o cenário nacional, regional e local do período proposto, foi realizada uma consulta historiográfica, permeada pela análise documental das cartas de alforria. Tais procedimentos se fizeram necessários para entender como uma sociedade de fronteira, assentada em uma base pecuária, se portava frente ao regime escravocrata predominante na época, diante das figuras das mulheres escravas. No contexto nacional, ocorriam mudanças significativas em relação à aprovação das leis Eusébio de Queirós e da Lei de Terras; em âmbito regional, a pecuária sulina destacava-se ao lado das charqueadas, onde era utilizada largamente a mão-de-obra escrava. Deste modo, Alegrete estava inserido nesta transição, caracterizando-se por ser uma região que praticava a pecuária extensiva, com o predomínio da mão-de-obra cativa masculina, mas também com a presença significativa de escravas domésticas. Nesse sentido, busca-se entender como as mulheres cativas agiram para conquistar sua liberdade. Identificam-se ainda, as estratégias que as escravas utilizavam para obterem a alforria, e também como elas dialogavam e interagiam com o contexto no qual estavam inseridas. Palavras-chave: alforria; Alegrete; mulheres cativas. ABSTRACT This study pretends to identify the conditions which permit the concession of manumission letters to the slave women and the kinds of manumissions conceded to their in the city of Alegrete, RS, in the time period between the years 1850 and 1870. Starting from the necessity of local, regional and national contextualization of the studied period, a historiography consult, allied to the documental analysis of the manumission letters, was realized. They were necessary to understand how a frontier society, based in the cattle-raising, acted in the face of the slavery and the slave women. In national context, significant transformations occurred regarding the Eusébio de Queirós Law and Law of Lands; in regional context, the south cattle-raising and the charqueadas used specially the slave labor. Alegrete was inserted in this transition, constituting a region of extensive cattle-raising, with the male labor predominate, but also a significant presence of domestic slave women. In this way, this work pretends to understand how the captive women acted to conquest their liberty. It also pretends to identify strategies which the slave women used to obtain the manumission, as well as to perceive how these women talked and interacted with their contexts of insertion. Keywords: manumission; Alegrete; slave women.

(7) 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO………………………………………………………………………….. 8 1 REFERENCIAL TEÓRICO ………………………………………………………… 11 2 METODOLOGIA…………………………………………………………………….. 14 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO……………………………………………………… 16 3.1 O CENÁRIO BRASILEIRO ENTRE 1850 E 1870...................................................... 16 3.2 O RIO GRANDE DO SUL ENTRE 1850 E 1870...................................................... 26 3.3 ALEGRETE PECUARISTA E MULHERES CATIVAS: A PROCURA PELA LIBERDADE EM UM JOGO DESIGUAL........................................................................ 32 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................ 46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................ 48 OBRAS CONSULTADAS................................................................................................ 51 FONTES DOCUMENTAIS.............................................................................................. 52 FONTES ELETRÔNICAS............................................................................................... 53

(8) 7 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - População de Alegrete segundo sua condição jurídica, 1859............................ 33 Tabela 2 - Alforrias pagas pelas cativas ou terceiros.......................................................... 37 Tabela 3 - Alforrias concedidas através da prestação de bons serviços ou condição......... 38 Tabela 4 - Alforrias gratuitas ou plenas.............................................................................. 39 Tabela 5 - Alforrias concedidas sob condições................................................................... 39 Tabela 6 - Tipos de alforrias concedidas............................................................................. 43 Tabela 7 - Períodos de concessão de alforrias.................................................................... 43 Tabela 8 - Origem e número de escravas............................................................................ 44 Tabela 9 - Faixa etária das cativas alforriadas.................................................................... 44

(9) 8 INTRODUÇÃO O presente trabalho objetiva, por meio da leitura das cartas de alforria concedidas para as mulheres cativas no município de Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870, identificar quais foram os motivos que possibilitaram a aquisição das manumissões para as escravas desta localidade. Para tanto, foram utilizadas 791 (setenta e nove) cartas de alforrias femininas, referentes ao período e espaço propostos. Tal procedimento nos possibilitou apontar também quais foram os tipos de concessões oferecidas para as escravas, além de determinar a origem e a faixa etária das mesmas. A escolha da primeira baliza temporal motiva-se pela aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 1850, que proibiu o tráfico internacional de escravos africanos para o Brasil. Consequentemente, em função dessa lei, ocorreu o encarecimento do preço dos cativos, pois os mesmos passaram a ser vendidos para outras regiões do país, onde a economia encontravase em grande desenvolvimento, principalmente nas grandes lavouras (plantations). Paralelamente, a partir da década de 1860, ocorreu uma crise do sistema pecuário e charqueador no território sul-rio-grandense, fato que colaborou para a diminuição da população escrava nesse território. A escolha da data final está relacionada ao término da Guerra do Paraguai, em 1870, momento a partir do qual a estrutura econômica do Brasil passou a sofrer transformações modernizantes. Estas transformações estão ligadas à crise do sistema escravista e da produção do charque, ao cercamento dos campos, à instalação de frigoríficos e ferrovias, à introdução de novas raças bovinas na pecuária e à maior profissionalização do exército após o conflito. O Município de Alegrete, na época, era o maior e mais importante município pecuário do território sulino, na região da Campanha. Devido à sua localização e por ser um município que continha grandes estâncias criadoras de gado, se destacou por ser uma região com grande fluxo comercial durante o período estudado. Sendo assim, questionamos como essa sociedade agropecuarista lidou com a questão da escravidão feminina, e o que motivou os proprietários de escravos a concederem a liberdade para as suas cativas. 1 A documentação está disponível no Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS). Nos Livros Notariais de Transmissões e Notas e de Registros Diversos do 1º e do 2º Tabelionato de Alegrete: 1° Tabelionato: Talão 2. 1848-1853. Talão 3. 1852-1855. Talão 4. 1855-1858. 2° Tabelionato: Talão 1. 1859-1877. E ainda está disponível em: Documentos da escravidão. Catálogo Seletivo de cartas de liberdade. Acervo dos Tabelionatos de municípios do interior do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CORAG, 2006. II Volumes.

(10) 9 No primeiro capítulo deste trabalho, abordamos o cenário nacional brasileiro no período proposto, analisando o contexto econômico, social e político do país. Também discorremos sobre as transformações ocorridas em decorrência da aprovação da Lei Eusébio de Queirós e da Lei de Terras. A partir da promulgação das mesmas, o sistema escravista vigente na época foi diretamente afetado, principalmente em função da proibição do tráfico internacional de escravos. Tal fato provocou uma crise neste sistema, a partir de 1860, que se intensificou com o final da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, fazendo com que a estrutura econômica do Brasil passasse por várias mudanças que contribuíram para a crise da monarquia, a partir de 1870. No segundo capítulo, esboçamos o cenário do Rio Grande do Sul no período, salientando o desenvolvimento das charqueadas sulinas e a inserção das mesmas no mercado interno brasileiro. Também apontamos a intensa utilização da mão-de-obra cativa na produção pecuária sul-rio-grandense, juntamente com a mão-de-obra do homem livre. No terceiro e último capítulo, abordamos o município de Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870, enfatizando a presença da mão-de-obra cativa feminina, que apesar de ser em menor número que a masculina, também foi utilizada, principalmente nos serviços domésticos das estâncias alegretenses. Percebemos que, mesmo com a desproporcionalidade entre os sexos das escravarias deste município, muitas foram as cativas que conseguiram conquistar a sua alforria durante o período. Neste capítulo, identificamos por meio da análise realizada na documentação disponível os motivos, os tipos de manumissão, a faixa etária e a origem das cativas. Neste sentido, a presente pesquisa torna-se relevante, pois ainda carecemos de trabalhos historiográficos que abordem a escravidão feminina e a questão da concessão de cartas de alforria para as mulheres cativas nas zonas charqueadoras da Campanha sulina. Com relação à importância das cartas de alforria, nos reportamos a Moreira e Tassoni (2007, p.134): Os documentos [...] representam fragmentos de histórias, pequenos lapsos da existência desses seres humanos – escravos e seus senhores – que se defrontavam na cotidianidade do Rio Grande de São Pedro colonial e imperial, com proximidade e, às vezes, intimidade. [...]. Podemos entender as cartas de alforria como um elemento cênico da trama construída pelos senhores de escravos que procuravam negar, anular, esvaziar, a luta de classes (e étnica) que transcorria no cotidiano escravista. A partir desta leitura, evidencia-se a importância de percebermos as cartas de alforria como fontes históricas para compreender a escravidão feminina no sul do Brasil, notadamente

(11) 10 na região da Campanha, pois nelas identificamos os encontros e desencontros dos interesses das cativas e de seus senhores, elas em busca da liberdade; eles, da manutenção do cativeiro.

(12) 11 1 REFERENCIAL TEÓRICO O estudo “Mulheres, Escravidão e Liberdade na Fronteira Meridional do Brasil (Alegrete, 1850-1870)”, contempla a História Social, ancorada na História das Mulheres. Estes vieses teóricos nos forneceram os subsídios necessários para a elaboração da presente pesquisa. A historiografia brasileira pouco abordou a importância e o significado das mulheres escravas na construção da história brasileira e sul-rio-grandense. Porém, sabemos que isso é um quadro que não se configura apenas com relação às mulheres cativas. As abordagens historiográficas sobre a História das Mulheres, nos mais diversos aspectos, são recentes, devido ao grande período em que o feminino foi percebido como atrelado ao masculino. Neste trabalho, percebemos as cartas de alforria como um possível espaço de atuação e negociação do feminino escravizado no século XIX, e não como um simples ato de “bondade” de seus senhores. No Brasil, as pesquisas historiográficas que abordam como tema a escravidão feminina, despontaram somente nos últimos 20 anos, demonstrando a necessidade de mais estudos historiográficos que contemplem essa temática. Nesse sentido, Dias (1995) foi uma das pioneiras em dedicar sua pesquisa às práticas sociais e à vida cotidiana de negras, escravas e libertas em São Paulo, no século XIX. Assim como Dias (1995), Faria (2001) analisou as formas de constituição das unidades domésticas, de investimentos e de transmissão de herança de mulheres forras, entre o século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, analisando 258 testamentos de homens e mulheres livres e forros do Rio de Janeiro, redigidos entre 1707 e 1812, e 48 testamentos de homens e mulheres forros, além de 18 inventários de forras de São João Del Rei, Comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais, escritos entre 1730 e 1839. Em sua pesquisa, Faria (2001) constata que as mulheres alforriadas, mesmo vivendo em uma sociedade escravista, conseguiram, através das experiências e escolhas que fizeram manter o universo cultural de suas terras de origem, mesmo limitadas à realidade social na qual estavam inseridas e que ajudaram a construir. Percebe-se que as mulheres forras mantinham-se unidas, através de laços de amizades, de solidariedades, de compadrio e de convivências mútuas, mesmo que fossem de tribos ou nações africanas diferentes, pois todas objetivavam manterem vivas as suas raízes culturais, sociais e religiosas. Isto apesar das dificuldades que lhes eram impostas pelos duros estigmas

(13) 12 sociais de serem ex-escravas e de serem percebidas, não por suas condições sociais atuais, mas sim por uma discriminação em relação à sua antiga condição. Com relação a este contexto, Faria (1998, p.135) aponta: Conquistar a alforria significava, sem dúvida, um ganho não desprezível para homens e mulheres cativos. Resultado, muitas vezes, de anos de trabalho duro para poupar o equivalente a seu preço ou tempos de “dedicação ao senhor” e de “bons serviços prestados”; na realidade o ganho mais evidente era o exercício da liberdade de movimento. As condições materiais de vida, em geral, não se modificavam, assim como a constante referência social ao seu passado escravo. O movimento de integração ao mundo livre demandava tempo, no mais das vezes só atingido nas gerações seguintes, quase sempre a dos netos dos alforriados. Nesse sentido, percebe-se que a constatação feita por Faria (1998), com relação ao estigma social sofrido pelas mulheres forras no Rio de Janeiro, entre o século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, também é válida para outras regiões brasileiras. Esta autora afirma ainda que “a caracterização de um indivíduo como preto/pardo, livre/liberto, significava uma evidente proximidade com um recente passado ou antepassado escravo” (FARIA, 1998, p. 135). Moreira e Tassoni (2007), ao pesquisarem as cartas de alforria que foram concedidas em Porto Alegre, no período de 1748 a 1888, também reconhecem que, provavelmente, os escravos homens após libertos tinham muitas dificuldades para serem incluídos na sociedade e sofriam discriminações por causa de sua ex-condição. Porém, os mesmos autores apontam que as mulheres alforriadas conseguiam mais facilmente serem inseridas no mercado de trabalho, pois elas podiam realizar um maior número de ofícios, podendo se empregar como domésticas na casa de seus ex-senhores, ou vender seus produtos ou serviços, como doceiras, rendeiras, lavadeiras, entre outros. Eles, assim como Faria (1998) e Dias (1995), também identificaram que as mulheres cativas tinham mais facilidade em conquistar a alforria, pois detinham maior oportunidade de negociarem com seus senhores a aquisição da liberdade. Deste modo, este trabalho acorda com MATOS (2009), ao pensar as mulheres cativas como “sujeitos ativos, de modo que as imagens de pacificidade, ociosidade [...] vêm sendo questionadas, descortinando-se esferas de influência e recuperando-se testemunhos femininos” (MATOS, 2009, p. 282). Estas mulheres são agentes históricos, atuantes em seu tempo e espaço. Tudo isto enfatizando que a História das Mulheres ainda carece de estudos sobre a escravidão feminina e promove a descoberta de diferentes verdades e sensações, permitindo o desvelamento das “histórias de gente sem história” (MATOS, 2009). A mesma autora comenta:

(14) 13 Este esclarecimento se faz mais necessário quando nos damos conta de que a história não recupera o real no passado, não narra o passado, mas constrói um discurso sobre este, trazendo tanto o olhar, quando a própria subjetividade, do historiador que recorta e narra o passado (MATOS, 2009, p. 280). Em relação a isso, não cabe aqui dicotomizarmos a História das Mulheres, mesmo no que se refere às mulheres escravas, pois estas também desenvolveram estratégias que vão além de uma relação de dominação. Nesse sentido, identificamos, através da análise das cartas de alforria concedidas às mulheres cativas em Alegrete no período de 1850 a 1870, que as mesmas articularam meios de negociar com seus proprietários a conquista de suas liberdades. Tal fato pode ser comprovado por meio das cartas de alforrias, que “possibilitam apontar não o excepcional, mas sim, descobrir o que até então era inatingível, por estar submerso” (MATOS, 2009, p. 282).

(15) 14 2 METODOLOGIA Para a realização deste estudo, utilizamos como fontes documentais 79 (setenta e nove) cartas de alforria, disponíveis no Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS)2, concedidas às mulheres escravas, entre as quais mencionamos as mais significativas, pois seria inviável citar todos os documentos consultados neste trabalho. Situamos nossa pesquisa no Município de Alegrete, RS, entre os anos de 1850 e 1870. Os documentos selecionados foram utilizados para exemplificar os motivos, os tipos de alforrias, a origem das cativas e a faixa etária das mesmas, realizando-se um levantamento de todas as cartas. Explicitamos os dados encontrados através de tabelas, compreendendo um trabalho de aspectos qualitativos e quantitativos. Realizamos um entrecruzamento da documentação com a bibliografia pertinente ao tema. Para isso, utilizamos Moreira e Tassoni (2007), que trabalharam com cartas de alforria concedidas aos escravos em Porto Alegre, no período de 1748 a 1888. Estes autores constataram que a maioria das cartas concedidas foram para as cativas, destacando que as mesmas foram gratuitas. Apontaram também, que as mulheres escravas tinham mais facilidade em barganhar a liberdade com seus senhores. Faria (1998), assim como Moreira e Tassoni (2007), percebeu que a maioria das cartas de alforrias concedidas no Rio de Janeiro, nos séculos XVII e XVIII, foram concedidas a mulheres. Também pontuou que as mesmas tinham facilidade em manterem negociações com seus senhores. Para abordarmos o contexto de Alegrete, utilizamos o trabalho de Farinatti (2007), no qual o mesmo apontou a importância e a utilização da mão-de-obra escrava ao lado da mãode-obra do homem livre para as lides e o costeio do gado, destacando as características sociais, econômicas e políticas do município no período proposto. O autor observou que o número de cativas era menor do que o de homens escravizados, e ainda mostrou que as escravas eram utilizadas nos serviços domésticos. Nesse sentido, a bibliografia utilizada dialoga e interage com a fonte documental, propiciando uma análise mais detalhada acerca da escravidão feminina e da concessão de alforrias no local e período eleitos para este estudo. Para compreendermos o cenário nacional brasileiro, utilizamos as considerações encontradas nas pesquisas realizadas por: Machado (1999); Costa (1999); Fragoso; Silva 2 Localizado à Rua Riachuelo, 1031 – Porto Alegre/ Rio Grande do Sul.

(16) 15 (1990); Moura (1994); Cervo; Bueno (1986); Fragoso; Martins (2003); Zarth (2002); Doratioto (2002); Farinatti (2007) e Kühn (2002). As mesmas subsidiaram a contextualização da economia, política e sociedade brasileiras no período estudado. Com o mesmo intuito, utilizamos, para definir o cenário sul-rio-grandense, as obras de: Kühn (2002); Pesavento (2002); Machado (1999); Osório (2004); Cardoso (1977); Maestri (1984); Freitas (1980); Zarth (2002) e Farinatti (2006). Já para caracterizarmos o município de Alegrete no intervalo de tempo investigado, nos aportamos nas pesquisas de Farinatti (2005), (2006) e (2007). Também abordarmos as questões que tratam sobre cartas de alforria nos reportando aos trabalhos de Sônego (2008); Reis (2008) e Moreira; Tassoni (2007), bem como, para identificarmos as mulheres cativas como agentes históricos, utilizamos as obras de Faria (2001) e Matos (2009). Este trabalho conta ainda com a Micro-história italiana, que sob o ponto de vista metodológico, inspirado nas análises de Ginzburg e Poni (1989), utiliza o nome como fio condutor de suas investigações, possibilitando o acompanhamento de um mesmo sujeito em diferentes momentos e contextos sociais. Esta análise metodológica visa identificar os agentes sociais nos mais variados tipos de documentações. No caso da presente pesquisa, as cartas de alforria oportunizaram, através dos nomes das escravas, indicar quais foram os motivos de alforria e os tipos de concessões de liberdade oferecidos para as mesmas, assim como a faixa etária e a origem das cativas.

(17) 16 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 O CENÁRIO BRASILEIRO ENTRE 1850 E 1870 O centro das decisões políticas no Brasil Imperial localizava-se no Rio de Janeiro. O poder político, segundo Machado (1999), era disputado pelo Partido Conservador e pelo Partido Liberal, que se alternavam no poder. Após 1847, as manobras políticas seguiam os moldes do sistema parlamentarista3. Porém, as decisões políticas cabiam ao Poder Moderador4, cujo poder centralizava-se na autoridade de D. Pedro II, que fazia prevalecer os interesses das elites dominantes da época (MACHADO, 1999). Nesse sentido, as elites políticas conseguiram manter um clima de paz favorecido pela sua atuação e pelo crescimento da produção e exportação do café. O mesmo passou a ser a principal fonte econômica exportadora do país, contribuindo assim para o aumento do valor da balança comercial e do volume das exportações brasileiras em meados do século XIX (COSTA, 1999). A expansão da produção cafeeira foi maior nas províncias do Rio de Janeiro (Vale do Paraíba), Minas Gerais e no Oeste Paulista. Essas regiões passaram a representar os interesses e as aspirações das elites. No entanto, para os menos favorecidos, que eram a maioria da população brasileira na época, a produção cafeeira não favoreceu significativamente nem as suas aspirações e nem seus interesses, mesmo tendo proporcionado algumas transformações em todos os setores da sociedade brasileira no decorrer do século XIX (MACHADO, 1999). 3 Sistema Parlamentar ou Sistema de Gabinete: (Ciência Política). Sistema parlamentar em que um corpo de ministros, escolhidos pelo primeiro-ministro, administra o país. Esse gabinete pode dissolver-se por noção de desconfiança do parlamento (DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998, vol. 04. p. 365). Parlamentarismo: (Ciência Política). Regime político de governo em que o gabinete, composto dos Ministros de Estado, liderados pelo primeiro-ministro, é o responsável, por ter a chefia do governo perante o parlamento, que, por seu intermédio, dirige a nação e faz cumprir as normas constitucionais. Nesta forma de governo, há a dominação política do parlamento. É o sistema em que a direção dos negócios públicos pertence ao chefe de Estado e ao parlamento, que age por meio do gabinete e por ele se responsabiliza (DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998, vol. 03. p. 521). 4 Poder Moderador: História do Direito: Poder que no Brasil Império era exercido pelo Imperador, servindo de árbitro em conflitos havidos entre Executivo, Legislativo e Judiciário, mantendo a harmonia. Direito Comparado: Poder em que o Soberano, na Monarquia, tem autoridade para sancionar normas do Parlamento, convocá-lo extraordinariamente, demitir ministros, perdoar ou moderar penas impostas a condenados e conceder anistia política. Ciência Política: Poder soberano de intervir em assuntos de competência dos demais poderes, para que haja equilíbrio dentro dos limites constitucionais (DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998, vol. 03. p. 683).

(18) 17 Deste modo, percebe-se que para a maioria da população pobre do período, nada havia mudado. Ela continuou à margem dos planos políticos das elites dominantes, persistindo a dependência e a manutenção da ordem escravista na economia. Além disso, era do interesse das elites políticas que fossem preservadas a mão-de-obra cativa e o controle da política brasileira, pois a mão-de-obra escrava representava prestígio social e servia para a aquisição de créditos e de terras. O poder econômico dos grandes fazendeiros era medido, segundo Machado (1999, p.153), “conforme o número de escravos e os pés de café que possuíssem”. A estrutura da produção da plantation escravista somente era possível, na peculiar compreensão da época, através do trabalho compulsório, pois a organização da produção cafeeira ainda era um prolongamento da estrutura econômica que foi praticada durante o período colonial. No entanto, durante o período Imperial, ocorreram várias transformações na economia e na sociedade brasileira. Costa (1999, p.304-05) afirma que: [...] as ferrovias substituíram em certas regiões os meios de transportes tradicionais, servindo para solucionar o sistema de transporte e o escoamento da produção. Progressivamente, os barcos à vela foram sendo substituídos pelos barcos a vapor. Foram implantadas novas técnicas na fabricação do açúcar, assim como, também foram introduzidos novos processos de aperfeiçoamento no beneficiamento do café, colaborando para o aumento da produtividade do mesmo. A mesma autora também explica que novas indústrias surgiram, principalmente, após a década de 1850, delineando o surgimento do capitalismo industrial. As instituições financeiras de crédito multiplicaram-se, a economia do país tornou-se mais complexa e diversificada, pois ocorreu um significativo crescimento populacional, provocando a urbanização em diversas regiões. Foi nesse cenário que o mercado interno brasileiro intensificou-se, apoiado, principalmente pela entrada do capital inglês: [...] os capitais foram aplicados em outros setores da economia, como por exemplo, no estabelecimento de indústrias têxteis, na construção de vias férreas, nas instituições de crédito, [...] a partir destas transformações, a agricultura não seria mais o único empreendimento possível, pois novos setores surgiam colaborando para o desenvolvimento econômico e social brasileiro (COSTA, 1999. p. 304-05). Entretanto, Fragoso e Silva (1990, p.208) entendem que: [...] o fim do trabalho escravo não significou o aparecimento de relações capitalistas de produção no campo e que a estrutura agrária continuaria a ter a hegemonia de relações não-capitalitas. Da mesma maneira, tal mudança não representou um deslocamento das oligarquias rurais do poder, que continuava nas mãos dos grupos agrários. Por outro lado, apesar de um certo crescimento urbano e industrial (com as

(19) 18 suas respectivas classes sociais), esse ainda era incipiente, e o desempenho da “industrialização” paulista nessa época continuava dependente, de uma forma ou de outra, do ritmo da agroexportação. Percebemos, segundo as analises de Costa (1999) e Fragoso e Silva (1990), pontos de acordo no que tange ao desenvolvimento do mercado interno e externo do país, estando, contudo, este mercado sempre atrelado à economia agrária e exportadora, dependendo do capital estrangeiro para a sua manutenção. Já Machado (1999, p.169) afirma que “a economia imperial não se restringiu, entretanto, aos gêneros agrícolas de exportação. A pecuária ocupou um lugar de expressão na província do Rio Grande do Sul, com uma produção voltada basicamente para o mercado interno”. Porém, o sistema escravista começou a entrar em crise após a década de 1860, arruinado pelas novas condições econômicas que a Revolução Industrial havia criado no cenário internacional, e pelas mudanças que estavam ocorrendo na economia e legislação brasileiras (MACHADO, 1999). Nesse universo de significativa relevância, buscamos identificar quais foram às primeiras leis aprovadas no país que modificaram o cenário do trabalho escravo a partir da segunda metade do século XIX. A Lei Eusébio de Queirós, aprovada em 1850, estabeleceu a proibição do tráfico internacional de escravos africanos para o Brasil. Essa lei, como destaca Moura (1994), instituiu punições severas para os contrabandistas de escravos, que poderiam ter as suas embarcações confiscadas e, paralelamente, os escravos africanos seriam repatriados para a África. A ratificação dessa lei resultou da pressão realizada por parte da Inglaterra com o Bill Aberdeen de 1845. O mesmo fora aprovado naquele ano pelo Parlamento inglês. Essa lei unilateral estabeleceu o aprisionamento, pela marinha inglesa, de qualquer embarcação suspeita de estar realizando o comércio de escravos, mesmo que esse fosse praticado em águas territoriais de outros países, sendo o julgamento da tripulação realizado por tribunais ingleses (COSTA, 1999). Essa atitude, conforme Moura (1994), foi uma resposta ao governo brasileiro pelo fato do mesmo não ter tomado nenhuma providência para o término do tráfico de escravos oriundos da África. Em virtude da extinção do tráfico inglês, em 1807, das idéias liberais que percorriam toda a Europa em função da Revolução Industrial e da tarifa Alves Branco de 1844, que elevava o valor dos produtos importados, o governo britânico e a opinião pública

(20) 19 pressionavam o governo brasileiro a definir sua posição em relação ao tráfico internacional de escravos. A Lei Eusébio de Queirós, para Moura (1994), prenunciou a abolição da escravatura no Brasil. Já Cervo e Bueno (1986) afirmam que essa lei contribuiu para a política imigrantista, após a década de 1850, colaborando para que ocorresse o término do tráfico internacional de cativos africanos no Brasil. Porém, muitos traficantes de escravos conseguiram burlar a fiscalização, provocando o tráfico interno no país. No entanto, a lei Eusébio de Queirós foi direta nos seus objetivos e eficiente nos seus efeitos, pois delineou o cenário da crise do sistema escravista, no período de transição da mão-de-obra cativa para a livre. Proibiu a continuidade do tráfico e interrompeu a grande fonte de reprodução da mão-de-obra escrava, pois esvaziou a dinâmica demográfica que sustentava a escravidão. Conforme Moura (1994, p.90): [...] o certo é que essa lei impedindo o tráfico internacional de africanos deu o golpe de morte ao escravismo pleno no Brasil. A partir daí o tráfico de escravos será feito interprovincialmente. Ele passará a ser o mecanismo de abastecimento de escravos para aquelas províncias onde a economia cafeeira estava se expandindo. O tráfico interprovincial passará a ser o mecanismo que irá substituir o africano importado e se constituirá em um dos traços do escravismo tardio. E, complementar a ele, o aumento do preço do escravo e a elevação progressiva de taxas que dificultavam esse processo migratório. Esse tráfico interno foi também proibido em medida que favorecerá ainda mais a política imigrantista do governo. Era o golpe de misericórdia dado ao escravismo pleno no Brasil. Nesse sentido, percebeu-se um decréscimo na demografia populacional dos escravos africanos no Brasil, pois com o final do tráfico atlântico diminuiu sensivelmente o número destes indivíduos na população escrava brasileira. Porém, em função da Lei Eusébio de Queirós, ocorreu o aumento da taxa de natalidade de escravos crioulos, pois a mesma foi incentivada com o final do tráfico negreiro, para aumentar e suprir a carência da mão-de-obra cativa para as regiões cafeeiras do sudeste do país. Isto provocou o tráfico inter e intraprovinciais. Em função da carência de mão-de-obra para essas regiões, iniciou o processo de substituição do trabalho escravo pelo do imigrante, fato que também colaborou para a queda do número de cativos africanos no território brasileiro.

(21) 20 Moura (1994) destaca que o escravismo pleno5, antes da aprovação da Lei Eusébio de Queirós, contribuiu para a entrada de um grande contingente de escravos africanos no Brasil. Mesmo após a aprovação dessa lei, que provocou o decréscimo do número de cativos africanos no país, a economia agroexportadora brasileira ainda manteve-se alicerçada na mãode-obra escrava até a penúltima década do século XIX. Compreende-se que o escravismo tardio6 deu-se em função da aprovação dessa lei e da Lei de Terras em 1850, mas as mesmas não possibilitaram o acesso a terra por parte dos escravos após a Abolição da Escravatura. Os ex-cativos ficaram impedidos de participarem do processo de mobilidade social, devido à política programada do governo que favoreceu a vinda de imigrantes para o Brasil, criando oportunidades para que esses se tornassem proprietários no país, principalmente após a crise do regime escravocrata, a partir de 1860. Em função do final do tráfico atlântico, como aponta Moura (1994), os cafeicultores do Oeste paulista possuíam mais recursos financeiros para a aquisição da mão-de-obra cativa das regiões menos favorecidas, como o nordeste e o sul do Brasil, possibilitando o tráfico interprovincial. A primeira região enfrentava uma crise gerada pela decadência da produção açucareira, em meados do século XIX; na segunda, ocorria o declínio das charqueadas sulinas após a década de 1860. Neste mesmo período, a região do Vale do Paraíba entrou em declínio. Os cafeicultores fluminenses, ainda arraigados à utilização da mão-de-obra cativa, não investiam em novas técnicas agrícolas para o beneficiamento do café, sendo também contrários à utilização da mão-de-obra livre e imigrante, diferentemente dos cafeicultores do Oeste paulista. Estes investiam em novas técnicas e eram favoráveis à utilização do trabalho do homem livre e do imigrante, embora ainda mantivessem o uso da mão-de-obra escrava (MACHADO, 1999). Observamos, portanto, que a mão-de-obra cativa, apesar do término do tráfico atlântico, ainda era muito utilizada em todas as regiões do país, mobilizando o tráfico inter e intraprovincial para as zonas cafeeiras, que eram o centro da economia brasileira na época. Neste contexto, as elites dirigentes, segundo Fragoso e Martins (2003), com o intuito da manutenção da ordem escravista e do controle social, ditavam as tendências políticas a serem seguidas pelo governo, que, por sua vez, estabelecia as regras a serem cumpridas e que, 5 Escravismo Pleno (1550-1850), caracterizado pelo predomínio das relações escravistas. Nesse período o tráfico internacional de escravos africanos era constante, e a utilização da mão-de-obra cativa contribuía para a acumulação de lucros dos senhores de escravos. 6 Escravismo Tardio (1851-1888), caracterizado pelas relações de bases escravistas decorrentes do processo de modernização da economia brasileira dependente do capital estrangeiro. Período em que ocorreu a passagem do trabalho cativo para o trabalho livre.

(22) 21 posteriormente, beneficiariam os grandes cafeicultores do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista. Essas elites dominavam o cenário político, econômico e social, e eram representadas por “indivíduos que poderiam ser, e muitas vezes eram, simultaneamente, capitalistas, negociantes, políticos, fazendeiros e intelectuais” (FRAGOSO E MARTINS, 2003, p.160). Os mesmos autores compreendem que as relações pessoais destas elites eram muito fortes, pois as mesmas se uniam através de laços variados, que se intensificavam conforme as crenças e os valores eram compartilhados. Segundo Fragoso e Martins (2003, p.160), os componentes destas elites eram os mesmos que: [...] legislavam, julgavam, elaboravam e definiam a política econômica do governo Imperial, como membros do legislativo, do judiciário e do executivo. Indiretamente, implementavam, interferiam ou garantiam a implementação dessas diretrizes, através de seus contatos cada vez mais profundos e estreitos com a iniciativa privada, procurando controlar, mesmo que à distância, as principais instituições financeiras do país. Entende-se, neste contexto, a formação de uma sociedade que ainda valorizava a posse de terra, representando um elemento identificador dos indivíduos que asseguravam a manutenção do sistema escravista e o controle político e econômico do país. Percebe-se que as redes de relações sociais das elites políticas possibilitaram uma hierarquização social excludente, pois para a maioria da população empobrecida da época foram negadas a posse de terras e a ascensão social. O governo, apoiado por essas elites, beneficiou os grandes proprietários de terras, que visando aumentar os seus lucros expropriavam os antigos colonos ou posseiros de suas terras, considerando os mesmos desinteressados e preguiçosos. Segundo os latifundiários, os colonos não colaboravam para o desenvolvimento econômico do país, já que suas produções agrícolas não contribuíam para o aumento da arrecadação fiscal, como acontecia com a produção cafeeira (COSTA, 1999). O governo Imperial, visando acalmar os ânimos e colocar um final nos difíceis confrontos ocorridos entre os pequenos e grandes posseiros e os senhores de terras, estabeleceu, em quatorze de setembro de 1850, a Lei de Terras, já que ainda não existia uma legislação que regulamentasse a posse de terras no país. Essa lei proibiu que as terras públicas fossem obtidas, a não ser que as mesmas fossem compradas. O Estado passou a ser o mediador entre o domínio público e o provável proprietário que desejasse comprar terras. A lei legitimou as sesmarias e as posses adquiridas, desde que a produção agrícola fosse

(23) 22 lucrativa, também estabelecendo a exigência do registro das terras irregulares (MACHADO, 1999). Zarth (2002) destaca que a Lei de Terras de 1850 foi um instrumento que serviu de empecilho para o acesso a terra na região dos cafezais do sudeste do país, obrigando assim, o imigrante a manter-se submetido aos cafeicultores. Apenas com relação ao Rio Grande do Sul o governo criou condições que favoreceram aos imigrantes o acesso a terra. As vantagens oferecidas aos colonos, através da lei provincial nº 229, de 4 de dezembro de 1851, incluíam, [...] a concessão gratuita de terras, despesa de transporte desde o porto de Rio Grande até as colônias, ferramentas e sementes, liberdade religiosa e pagamento de uma gratificação de três patacões, para cada imigrante entre 7 e 35 anos [...]. Como se vê, todos os esforços do governo provincial eram no sentido de formar pequenas propriedades na província. [...] Além dessas vantagens, o governo continuaria dando assistência técnica através do Diretor da Colônia, encarregado de organizar a infraestrutura e orientar o trabalho agrícola (ZARTH, 2002, p.79-0). Compreende-se, nesse sentido, que o governo da província sul-rio-grandense incentivava a imigração, não somente com o intuito de que se formassem pequenas propriedades, como também o de povoar o território sulino. Almejava-se, além disso, o branqueamento da população, visto que o número de escravos na província era considerável, como apontam diversos estudos sobre o tema. Na leitura de Moura (1994), as antigas formas de distribuição de terras que se davam, através de doações ou de posses concedidas pela Coroa, não ocorreram mais, em função da aprovação da Lei de Terras de 1850, pois a mesma representou um instrumento jurídico em defesa das terras devolutas que pertenciam ao Estado: A lei de Terras foi uma política programada para uma manobra de branqueamento no seu nível ideológico nada tendo haver com o favorecimento à integração das populações brasileiras compostas de negros, mulatos, mamelucos e não-brancos em geral. Com essa montagem seletora e discriminatória no setor agrário, essas populações ficam nos espaços marginais da estrutura agrária. Ela é montada, pelo contrário, para que a corrente migratória tenha possibilidades concretas de conseguir ser proprietária no Brasil. Finalmente, resguarda-se o latifúndio escravista de ver aprovada no parlamento uma lei que doe terras do Estado aos escravos libertados após a Abolição. Estava fechado o circuito, estabelecendo-se a profilaxia que impediria a mobilidade da sociedade brasileira rumo a um estágio com possibilidades iguais para todos os seus filhos. Depois disto, a Abolição poderia vir sem nenhum susto ou trauma para as classes senhoriais. Tudo ficou sob controle (MOURA, 1994, p.78-9). A sociedade escravocrata temia que os escravos e libertos viessem a ocupar as terras dos senhores brancos, pois isso feria os padrões morais e sociais, porque ninguém gostaria de

(24) 23 ter um ex-escravo negro, analfabeto, sem perspectiva de futuro, em suas propriedades. Nesse sentido, seria mais vantajoso e mais aceitável que os imigrantes adquirissem pequenos lotes de terra nas propriedades dos grandes fazendeiros da época. A partir da promulgação da Lei de Terras, a economia brasileira passou por várias mudanças, entre elas o desenvolvimento da lavoura cafeeira do Oeste Paulista, que se transformou no novo centro econômico e político do país. Essa região, como aponta Machado (1999), contava com grande disponibilidade de terras, que contribuíram para a expansão cafeeira, através da organização da lavoura de plantation e da mão-de-obra escrava. Aqui nota-se a importância da mão-de-obra cativa, que mesmo sendo substituída progressivamente pela do trabalhador livre e do imigrante, ainda era muito utilizada. Machado (1999) aponta que o desenvolvimento econômico do país foi possível em função das novas condições econômicas internas e externas ocorridas no Brasil, principalmente após a década de 1870. O capitalismo estava em expansão e angariou recursos financeiros para as regiões que exportavam matérias-primas, efetuando investimentos no setor de serviços e de transportes, principalmente no setor ferroviário, favorecendo o escoamento da produção cafeeira para o porto de Santos. Em função disso, o governo passou a incentivar, através da política de imigração subvencionada, a vinda de imigrantes para o Brasil. Essa política, como ressalta Costa (1999), foi o resultado da grande propaganda governamental brasileira feita em torno da imigração. Ocorria na Europa a Revolução Industrial inglesa, que contribuiu para a escassez de empregos e de gêneros alimentícios. Tais fatos possibilitaram ao governo imperial pagar as passagens dos imigrantes, na condição que os mesmos viessem trabalhar nos cafezais da região da plantation escravista. Por outro lado, nas regiões cafeeiras, os problemas relacionados à mão-de-obra encontraram soluções na migração escrava inter e intraprovinciais, em decorrência do fim do tráfico de escravos africanos para o Brasil, contribuindo para o encarecimento do preço dos cativos e para a crise do sistema escravocrata brasileiro (MACHADO, 1999). Em meio a este cenário de desenvolvimento econômico interno e externo do país, paradoxalmente associado à crise do escravismo, o governo brasileiro viu-se envolvido mais uma vez nas questões territoriais para poder garantir áreas de livre comércio na região platina (COSTA, 1999). A partir do final de 1864, teve início a Guerra do Paraguai. Seus antecedentes vinham desde a Guerra Civil Uruguaia, com a oposição entre blancos e colorados. Os blancos, como pontuam Cervo e Bueno (1986), instaurados no poder, indispuseram-se contra o Império do Brasil, em função dos conflitos territoriais de fronteira e da suposta perseguição aos

(25) 24 fazendeiros sul-rio-grandenses que possuíam terras e gados na parte norte do território uruguaio. Além das medidas arbitrárias do governo uruguaio em represália aos estancieiros gaúchos que apoiavam os colorados. Esse apoio também se dava por parte do governo argentino, pois interessava tanto para o Brasil como para a Argentina a vitória dos colorados. Nesse sentido, conforme os autores citados acima, o presidente argentino Mitre (colorado) era favorável à livre navegação brasileira no Prata, pois a mesma era muito importante para a integridade territorial do Império brasileiro, visto que a Província do Mato Grosso, isolada por terra, mantinha contato com o Rio de Janeiro através da navegação dos Rios Paraná e Paraguai. O apoio dado por Mitre ao governo brasileiro visava à estabilidade política na região platina e beneficiava ambos os países. O Império brasileiro após várias tentativas de negociações e acordos com o governo do Uruguai enviou uma missão especial, encarregada de proteger e exigir a garantia dos direitos e dos prejuízos causados aos fazendeiros gaúchos pelos uruguaios, decorrentes dos conflitos de fronteira. Porém, o governo uruguaio recusou-se aceitar as exigências brasileiras. Devido a essa decisão, o governo brasileiro em outubro de 1864 ordena que suas tropas invadam o Uruguai para deporem Aguirre (blanco), contando com o apoio dos partidários do colorado Venâncio Flores e da Argentina (DORATIOTO, 2002). Solano López, presidente paraguaio, conforme aponta Doratioto (2002), em represália à intervenção no Uruguai ordenou a apreensão do vapor brasileiro Marquês de Olinda que rumava via rio Paraguai para a Província do Mato Grosso em novembro de 1864. Em dezembro do mesmo ano, o governo paraguaio declara guerra ao Império brasileiro, e posteriormente, à Argentina e ao Uruguai, que na época já era governado por Venâncio Flores, que apoiou o governo brasileiro e consequentemente o argentino. Em função das atitudes assumidas por López, o Brasil, a Argentina e o Uruguai assinaram secretamente em maio de 1865 o Tratado da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Esse tratado determinava entre outras medidas que a guerra somente acabaria com a deposição de Solano López. Também estabelecia a livre navegação pelos rios do Prata, sem a interferência do governo paraguaio, além de delimitar as fronteiras do Brasil e da Argentina com o Paraguai (DORATIOTO, 2002). O Brasil envolve-se nesse conflito por questões geopolíticas na região platina, em função de obter a livre navegação dos rios do Prata para garantir a comunicação com a Província do Mato Grosso, pois essa dava acesso à navegação do Rio Paraguai7. A rivalidade 7 Com relação à Guerra do Paraguai, ver: DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

(26) 25 entre o Brasil e o Paraguai, como aponta Doratioto (2002), além das questões territoriais, também envolvia a disputa pelo mercado de consumo da erva-mate, produto muito utilizado no Prata para a elaboração do chimarrão. Com o final da Guerra do Paraguai, em 1870, a estrutura econômica do Brasil passou por transformações modernizantes. Estas transformações estão relacionadas à crise do sistema escravista e da produção do charque, a qual se liga ao cercamento dos campos, à instalação de frigoríficos e das ferrovias e à introdução de novas raças bovinas na pecuária. Também influenciaram a maior profissionalização do exército após a guerra, além dos movimentos abolicionistas que visavam à aprovação da Lei do Ventre Livre, ocorrida em final de setembro de 1871 (FARINATTI, 2007). Porém, por outro lado, é preciso considerar que a Guerra do Paraguai foi um dos fatores que contribuíram para a crise da Monarquia a partir de 1870. Um dos resultados imediatos do conflito foi uma perda humana e financeira muito grande para todos os lados envolvidos. Para os países que participaram da guerra, restaram muitas dívidas, principalmente para o Paraguai, que teve sua economia prejudicada ao final do confronto. Costa (1999) salienta que o endividamento do Brasil junto ao capital estrangeiro, mais a contrariedade da opinião pública e da imprensa da época, colaboraram para que o sistema monárquico tivesse suas bases abaladas. Além das pressões dos líderes políticos contrários ao governo imperial, que condenaram a participação do país neste confronto armado, contribuindo assim para desestruturar a monarquia. Some-se a isto o desgaste da figura do imperador junto às elites e a imagem negativa que um Brasil escravocrata gerava junto aos outros países, sobretudo a Inglaterra. Doratioto (2002, p.461) comenta sobre outras consequências da guerra: [...] o Rio Grande, província vista como problemática pelo governo central brasileiro, não só incorporou-se ao esforço nacional com sua cavalaria, como foi talvez, a província mais beneficiada financeiramente, graças ao fortalecimento de suprimentos para o teatro de guerra. Outra conseqüência da guerra foi que o Paraguai deixou de representar uma ameaça em relação ao Mato Grosso e, ao ser derrotado, teve que aceitar os limites que o Império pleiteava, bem como garantir a livre navegação de seus rios internacionais pelas embarcações brasileiras. Tais considerações nos propiciam uma visão de como se configurava o contexto social, político e econômico no qual se inseria o país nesta época, influenciando diretamente o Rio Grande do Sul. Desta abordagem do contexto nacional brasileiro, passamos agora a esboçar o cenário regional sulino em suas especificidades.

(27) 26 3.2 O RIO GRANDE DO SUL ENTRE 1850 E 1870 Durante a transição do século XVIII para o XIX, a então Província do Rio Grande de São Pedro estava inserida economicamente no mercado interno brasileiro, através do cultivo de trigo e da produção pecuária. O cultivo do trigo possibilitou, segundo Kühn (2002), o enriquecimento e a ascensão social de alguns açorianos que povoavam este território, e o acesso dos mesmos à mão-de-obra escrava. Os mercados consumidores do trigo sulino eram o Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. Porém, a produção tritícola, como percebe Kühn (2002), a partir do início do século XIX, entrou em decadência, em função da ferrugem (praga que ataca a plantação), da concorrência externa do trigo dos Estados Unidos da América, das solicitações impostas por parte da Coroa para o abastecimento de suas tropas, do recrutamento dos agricultores para integrarem o contingente militar do exército e da inexistência de silos para o armazenamento da safra. A pecuária sul-rio-grandense, como compreende Kühn (2002), caracterizou-se na sua primeira fase pela preia do gado selvagem, que vivia solto nos campos. Devido à produção aurífera na região de Minas Gerais, o território sulino passou a integrar a economia do Brasil colonial: [...] o Rio Grande do Sul inseriu-se na economia colonial como fornecedor de gado bovino, cavalar e muar para o abastecimento (no caso das reses) e transporte de pessoas e mercadorias nas Minas. Na região mineradora, em função do alto poder aquisitivo da sociedade que ali se formou, surgiu um mercado interno para os produtos sul-rio-grandenses. A importância do gado sulino fez com que tropeiros (paulistas e lagunistas) viessem buscar o gado em pé para levá-los às Minas (KÜHN, 2002, p.66). Pesavento (2002) destaca que o Rio Grande do Sul tinha uma função estratégica para a Coroa portuguesa, pois o mesmo representava um ponto de apoio para a conservação do domínio luso no Prata. Assim como Kühn (2002), Pesavento (2002) também destaca que o cultivo do trigo havia entrado em decadência a partir do início do século XIX, com a produção charqueadora passando a movimentar a economia sulina, inserindo a mesma no mercado interno brasileiro, durante o século XIX. A pecuária sulina, como enfatiza Pesavento (2002), tornou-se um centro atrativo ao possibilitar a criação de um mercado regional para o gado. A valorização da mesma no mercado, que independia das flutuações da economia brasileira, deu-se porque essa produção

(28) 27 servia de alimento para as escravarias, e o governo imperial incentivava o desenvolvimento dela para a economia nacional. Ainda conforme Pesavento (2002), a charqueada sul-rio-grandense foi beneficiada, durante o período colonial, em decorrência da crise das charqueadas platinas, devido às lutas pela independência dos territórios do Prata. Com isso, o gado platino foi encaminhado para as charqueadas sulinas, que foram beneficiadas em função desta crise. Os interesses sulinos estavam fortalecidos na Campanha uruguaia, com o estabelecimento de estâncias nessa região, que permitiam o recolhimento de matéria-prima para as charqueadas rio-grandenses. Em meio a este universo, cabe destacar, segundo Kühn (2002), que as atividades charqueadoras já existiam na província do Rio Grande do Sul, porém as mesmas não eram voltadas para o comércio. A implantação da primeira charqueada com fins comerciais visando o mercado exportador deu-se nas margens do Arroio Pelotas, sendo construída por José Pinto Martins, em 1780, em terras concedidas pelo governo. Devido ao fato de Pelotas estar próxima à região do Porto de Rio Grande, por onde escoava a produção, a mesma tornou-se um dos maiores pólos charqueadores do território sulino na época (MACHADO, 1999). Cabe destacar que, a partir do século XIX, as charqueadas sulinas tiveram um grande destaque econômico no cenário nacional, inserindo-se no mercado interno brasileiro, através da utilização da mão-deobra escrava e dos peões livres. O desenvolvimento das charqueadas sulinas, como entende Kühn (2002, p.67-8), se deu em função de três fatores: [...] a situação de paz decorrente da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso (1777), que permitiu a expansão das estâncias de criação sobre as novas terras, agora economicamente ocupadas; [...], influência das secas ocorridas no Nordeste (Ceará, Piauí e Bahia) nas décadas de 1770 e 1790, que desarticularam a produção de carne seca nessas regiões, criando um nicho de mercado que passou a ser ocupado pela produção do Continente; finalmente, foi decisivo o aumento crescente da demanda de gêneros alimentícios no Centro e Nordeste do Brasil, em virtude do aumento populacional. O Rio Grande aumentou sua produção de charque em um curto período de tempo, transformando-se numa das áreas de crescimento mais acelerado do Império português no período de 1780 a 1820, além de integrar-se definitivamente [...] ao mercado interno brasileiro. O charque produzido em território sulino era destinado tanto para a alimentação da população pobre do país, quanto para os escravos da região das plantations. O desenvolvimento da produção charqueadora sul-rio-grandense, através da utilização da mãode-obra cativa, acarretou o crescimento dessa população no território da província, perfazendo

(29) 28 um total de 25% da população existente no Rio Grande do Sul ao final da década de 1850 (MACHADO, 1999). Os maiores consumidores da produção de charque sul-rio-grandense, como destaca Kühn (2002), eram o Rio de Janeiro, Pernambuco e a Bahia, locais para onde iam, além da carne seca, os couros e o gado em pé (cavalo, mula e bovino). O restante das mercadorias exportadas eram o trigo e a produção de queijo. O mesmo autor aponta que o desenvolvimento da economia charqueadora deu-se em função de uma maior valorização do rebanho bovino e do aumento do número de cativos africanos do sexo masculino, que eram a preferência dos pecuaristas, pois, estes podiam utilizá-los nas lides pesadas da pecuária, tais como carnear o gado, retirar o couro, salgar a carne, entre outras. Em função da necessidade de investimentos em cativos e insumos importados, como o sal, e o baixo valor pago pelo charque sulino, os produtores sul-rio-grandenses pagavam valores muito irrisórios para os criadores de gado, que, devido a isso, não tinham condições de investirem nas melhorias de seus rebanhos. Kühn (2002) ressalta que a atividade charqueadora formou um mercado regional para o gado no território sulino, onde os charqueadores obtinham mais lucros do que os criadores de gado. Em função da concorrência do charque sul-rio-grandense com o charque platino, muitos produtores sulinos tiveram que baixar o valor de seus produtos para poderem abastecer o mercado interno brasileiro (KÜHN, 2002). O mesmo autor pontua que, no Rio Grande do Sul, a mão-de-obra escrava foi utilizada intensamente, e parte dos charqueadores sulinos temiam essa concorrência, visto que, os produtores platinos utilizavam a mão-de-obra livre, que dispendia menos recursos financeiros de produção. Pesavento (2002, p.18) afirma que: O charque rio-grandense, proporcionando riqueza, foi capaz de introduzir em grande escala o escravo no Rio Grande do Sul. As relações escravistas de produção estabeleceram-se assim de forma decisiva no sul, constituindo-se o negro na mãode-obra por excelência das charqueadas rio-grandenses. A importância e a utilização da mão-de-obra escrava na pecuária sulina, em especial, na região da fronteira sul-rio-grandense, foram, durante muito tempo, minimizadas pela historiografia brasileira das décadas de 1960 e 1970. Destaca-se neste período, a obra de Cardoso (1977), abordando a formação da sociedade escravista sul-rio-grandense, a economia e a situação social que os negros assumiam no Rio Grande do Sul, a partir do final do século

(30) 29 XVIII e durante o século XIX. Evidenciando a importância e a utilização da mão-de-obra escrava nas charqueadas e “desmistificando” a ideia de uma escravidão mais branda no território sulino, Cardoso (1977) aponta que o escravo no Rio Grande do Sul era considerado como “peça” de um sistema que já estava montado, e que a sociedade sul-rio-grandense da época tornou-se charqueadora através da mão-de-obra cativa. Cardoso (1977, p.148) comenta: [...] nas charqueadas, o escravo transformava-se num instrumento de trabalho para a manutenção do lucro de seu senhor, por ser considerado um objeto, a dominação senhorial se impunha através da violência e da coação, pois estava legitimada pelo “código moral cristão” que desqualificava o escravo enquanto categoria de pessoa, de ser humano [...]. Entende-se que a mão-de-obra cativa, ao ser utilizada nas charqueadas sulinas, era vista apenas como um meio de manutenção capitalista para os proprietários que investiam na mesma, visto que, para esses últimos, os cativos somente representavam peças das engrenagens que moviam a economia pecuarista sul-rio-grandense. Cardoso (1977) destaca também que o trabalho escravo era utilizado nas estâncias nas mais variadas atividades, incluindo o trato com o gado, fato que colaborou para comprovar que o negro cativo foi fundamental para o desenvolvimento da economia charqueadora sulina. Porém, sem negar o caráter pioneiro de sua obra e sua crítica contundente ao “mito da democracia sulina”, é preciso concordar que Cardoso (1977) subvalorizou a participação dos escravos como sujeitos históricos, e também negligenciou o fato de que a escravidão teve um papel importante nas zonas pecuárias da Campanha sulina. Além disso, negou a participação de outros agentes históricos que compunham o cenário sulino do período, como por exemplo, os pequenos e os médios comerciantes e os intermediários desse comércio, assim como os pequenos e médios proprietários de terras e gados. Assim como Cardoso (1977), as obras de Maestri (1984), Freitas (1980) e Pesavento (2002) abordam a presença da mão-de-obra escrava nas charqueadas. Contudo, nas estâncias, os mesmos veem os escravos desempenhando mais tarefas como lavradores e serviços domésticos, não percebendo como possível que o trabalho cativo fosse central nas lides com o gado. Assim, fizeram-se necessárias novas pesquisas regionalizadas para o estudo da pecuária sul-rio-grandense. A partir das décadas de 1980 e 1990, através da utilização de novas fontes de pesquisa, baseadas em fontes primárias (inventários post mortem, registros cartoriais, processos-crime, censos demográficos, cartas de alforria, entre outros), comprovou-

(31) 30 se que a mão-de-obra cativa foi utilizada em todos os setores da economia sulina durante o século XIX, não somente em algumas atividades acessórias. Nesta linha, destaca-se o trabalho de Zarth (2002), pesquisador que aponta a importância do trabalho escravo nas grandes estâncias do Rio Grande do Sul rural do século XIX, demonstrando que o mesmo foi utilizado tanto nos serviços domésticos, como na agricultura e no costeio do gado. Neste mesmo trabalho, ainda sugeriu que os escravos roceiros representavam a maioria da mão-de-obra cativa nas estâncias, mesmo havendo um número significativo de escravos campeiros. Com relação à importância estrutural da mão-de-obra escrava nas grandes estâncias, Osório (2004), para o período colonial, e Farinatti (2006), para o século XIX, demonstraram que o trabalho cativo foi utilizado ao lado do trabalho livre nas grandes propriedades. Farinatti (2006), ao analisar algumas características demográficas da população escrava e a sua distribuição entre os pecuaristas de diferentes classes econômicas, nas estâncias do Município de Alegrete, na primeira metade do século XIX, percebe a importância da utilização dessa mão-de-obra, e quais eram as atividades em que o trabalho escravo era utilizado nas grandes fazendas criadoras de gado, destacando principalmente o emprego da mão-de-obra cativa masculina, já que a mesma era a maioria nos plantéis alegretenses. Este autor também demonstra que a escravidão esteve presente na maioria das estâncias criadoras de gado. O trabalho escravo era utilizado para a realização do comércio com a região das charqueadas, com as estâncias se reproduzindo em função da atividade pecuária. Esta atividade teve uma ligação direta com o poder econômico dos produtores e a estrutura de seus plantéis, principalmente, quanto ao número total de escravos, à proporção de homens adultos e à presença de escravos africanos (FARINATTI, 2006). A utilização da mão-de-obra cativa, principalmente a dos escravos campeiros, entre os grandes estancieiros alegretenses, atendeu, em partes, às demandas regulares destes trabalhadores no trato com o gado. Os peões livres também integravam o contingente de mãode-obra que era utilizada nas grandes estâncias. A causa dessa mistura de relações de produção está baseada no fato de que a mão-de-obra dos peões livres existia, porém era cara e instável, pois os mesmos não permaneciam muito tempo nos empregos (FARINATTI, 2006). Farinatti (2006) ainda destaca a importância dos estudos relacionados à presença escrava nas estâncias pecuaristas do Rio Grande do Sul da época, pois os mesmos possibilitam verificar que os criadores de gado do período não podiam continuar a serem tratados de forma monolítica, como um grupo único. A concentração de escravos, principalmente homens e africanos, indica a existência de uma grande desigualdade social e

(32) 31 econômica, tanto entre os criadores e suas escravarias quanto entre os estancieiros e os peões, como também, atingindo as relações entre os próprios criadores de gado da região da Campanha. Os estancieiros necessitavam da mão-de-obra cativa e a reprodução das relações escravistas não pode ser vista somente através da violência e da vigilância, conforme apontam alguns trabalhos historiográficos sobre as diferentes regiões do Brasil escravocrata da época (FARINATTI, 2006). Percebe-se que as relações entre proprietários e cativos foram perpassadas por uma variedade de negociações entre as duas partes e, mesmo sendo desiguais, elas foram ao encontro das necessidades dos cativos, apesar do difícil cotidiano do regime escravista. Por isso, fez-se necessária neste estudo à abordagem da produção pecuária sulina, em especial da importância das charqueadas sul-rio-grandenses e da utilização da mão-de-obra cativa. Nesse contexto destaca-se o município de Alegrete, que, em meados do século XIX, foi um dos maiores municípios charqueadores do interior da Província do Rio Grande de São Pedro, na região da Campanha, contando com a utilização tanto da mão-de-obra escrava, como com a mão-de-obra de peões livres para as lides e o costeio do gado, conforme comprovam os estudos recentes sobre o tema8. Entende-se que a preferência dos pecuaristas alegretenses pela utilização da mão-deobra cativa masculina para as lides com o gado deu-se em função da mesma ser utilizada para os serviços mais pesados nas estâncias charqueadoras. No entanto, estas unidades produtoras contaram também com a utilização da mão-de-obra escrava feminina, ainda que em menor número. Identificamos que existe a necessidade de estudos historiográficos que abordem a escravidão feminina nas zonas charqueadoras da região da Campanha, no século XIX. Em função disso, escolhemos trabalhar com a questão da concessão de cartas de alforrias para as mulheres cativas de Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870. Sendo assim, a seguir enfocamos o contexto do município de Alegrete, no período proposto. 8 Sobre a utilização da mão-de-obra escrava juntamente com a mão-de-obra de homens livres no Rio Grande do Sul, verificar os trabalhos de: Araújo (2008), Farinatti (2007), Kühn (2002), Moreira e Tassoni (2007), Osório (2004), Zarth (2002), entre outros.

(33) 32 3.3 ALEGRETE PECUARISTA E MULHERES CATIVAS: A PROCURA PELA LIBERDADE EM UM JOGO DESIGUAL A cidade de Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870, era o maior e mais importante município pecuarista na fronteira meridional do Rio Grande do Sul, na região da Campanha sulina. Devido à sua localização e por ser um município que continha grandes estâncias criadoras de gado, destacou-se por ser uma região com grande fluxo comercial, contando com a utilização da mão-de-obra escrava, principalmente masculina, e também com a mão-de-obra de homens livres para as lides com o gado (FARINATTI, 2006). Alegrete, como destaca Farinatti (2005), por ser uma planície levemente ondulada, coberta por campos, possuía as melhores pastagens da província, sendo elevado a município em 1831, três anos após a derrota do Brasil na Guerra Cisplatina. Segundo este autor, “Alegrete e toda a Campanha passavam, então, a constituir-se na estremadura dos domínios brasileiros junto aos lindes que o separavam da república uruguaia” (FARINATTI, 2005, p.4). Devido a isso, vários estancieiros brasileiros possuíam terras, gado, relações familiares, políticas e comerciais na metade norte do território uruguaio, contribuindo para a integração e o intercâmbio social e econômico nesse espaço fronteiriço. A estrutura agrária desse município proporcionou, como aponta Farinatti (2005), a formação de grandes estâncias, algumas contendo mais de 10.000 reses. Também existiram as médias e pequenas propriedades, demonstrando que havia uma diferença econômica e social entre os criadores de gado: Ao lado desses enormes estabelecimentos, havia um número expressivo de medianos e pequenos produtores, muitos deles sem a propriedade da terra onde criavam seus gados e plantavam suas pequenas lavouras. Nas quatro décadas que se estendem entre 1831 e 1870, essa configuração agrária apresentou transformações e continuidades. Em primeiro lugar, preservou-se ao longo de todo o período a diversidade da envergadura econômica dos criadores de gado. Ao contrário da clássica imagem da Campanha Rio-grandense como uma sociedade dicotomizada entre grandes estancieiros e seus peões, em Alegrete a pecuária era praticada tanto por grandes criadores quanto por produtores mais modestos (FARINATTI, 2005, p.5). Compreende-se que, neste universo pecuarista localizado na região da fronteira meridional brasileira, as diferenças sociais e econômicas entre os produtores de diferentes poderes aquisitivos também ocorriam, assim como no restante do Brasil, ao longo do século XIX.

(34) 33 O número de grandes estancieiros alegretenses manteve-se estável até a década de 1830. Porém, como demonstra Farinatti (2005), com o transcorrer das décadas seguintes esse número diminuiu sensivelmente. Esses grandes estancieiros compuseram um pequeno grupo de famílias abastadas detentoras de prestígio social, político e econômico que estavam entrelaçadas entre si, e passaram a controlar grande parte das terras, animais e escravos. Ao lado desses proprietários, havia um número cada vez maior de médios e pequenos produtores, sendo que os últimos eram a maioria, sendo também proprietários de cativos, terras e rebanhos. O comércio da produção bovina era a principal atividade econômica de Alegrete. O gado era anualmente comercializado para as charqueadas localizadas ao leste da província (em especial para a região charqueadora de Pelotas), que vendiam o charque. Este era então enviado para os portos de Salvador, de Recife e do Rio de Janeiro, comercializando-se também os couros e outros derivados do gado com a Europa e os Estados Unidos (FARINATTI, 2005). Nesse sentido, percebemos que a produção pecuária alegretense se deu em moldes extensivos, contando com a utilização do trabalho livre e escravo para o trato com o gado, além de empregar a mão-de-obra cativa em outras atividades internas nas estâncias. De acordo com Farinatti (2005, p.6), “apesar de seu caráter de produção voltada para o mercado interno, a pecuária extensiva tinha por característica a incorporação contínua de trabalhadores escravos”. Conforme Farinatti (2007), o único levantamento que abrange a população existente em Alegrete no período aqui estudado remonta ao ano de 1859, dele constando que existiam 10.699 habitantes, divididos como nos mostra a tabela seguinte: Tabela 1 População de Alegrete segundo sua condição jurídica, 1859 LIVRES % ESCRAVOS % LIBERTOS % HOMENS 4.191 52,6 1.339 53 104 49,8 MULHERES 3.774 47,4 1.186 47 105 50,2 TOTAL 7.965 100 2.525 100 209 100 Fonte: “Mappa statístico da população da província classificada por idades, sexos, estados e condições com o resumo do total de livres, libertos e escravos”. In: FEE, “De Província de São Pedro a Estado do RS”, 1981, p.69. apud FARINATTI, 2007, p.45.

(35) 34 Farinatti (2006) concentrou-se na primeira metade do século XIX, investigando 62 inventários post mortem de pecuaristas alegretenses, nos quais constavam 633 escravos, sendo que a média era de 10 escravos por proprietário. A relação entre os sexos era desproporcional, com 177 homens para cada 100 mulheres escravas, razão pela qual a masculinidade representava 177,6%, havendo uma proporção de apenas 36% de escravas mulheres no total analisado. Quanto à origem, os escravos africanos, representavam 42,4% da população escrava analisada, sendo que a população de cativos crioulos compunha a maioria das escravarias em Alegrete. A predominância do sexo masculino era maior entre os escravos africanos, porém, a maioria dos escravos de ambos os sexos nas estâncias alegretenses era a de crioulos. Entre os escravos crioulos havia uma proporção mais equilibrada entre os sexos, apesar da predominância do sexo masculino. Estes escravos eram mestiços de negros africanos com brancos, índios, pardos, caboclos, cabras, mulatos, sendo todos estes nascidos no Brasil (FARINATTI, 2006). Percebe-se nesse período o pequeno percentual da população cativa feminina existente em Alegrete. A preferência por parte dos produtores pela mão-de-obra escrava masculina demonstra a desproporcionalidade entre os sexos das escravarias alegretenses na primeira metade do século XIX. Essa mesma situação se patenteava no restante do Brasil durante esse período. Farinatti (2006) destaca que, a partir das décadas de 1840 e 1850, houve um acréscimo quanto ao número de crianças escravas nas estâncias alegretenses, se mantendo constante na década 1860. Ocorreu o mesmo em relação ao equilíbrio entre os sexos, pois o número de escravos africanos reduziu significativamente a partir do final da década de 1850, em consequência do final do tráfico atlântico, provocando o encarecimento do preço deste tipo mão-de-obra cativa. Farinatti (2006) também aponta que as transformações que alteraram as características demográficas gerais da população cativa alegretense não ocorreram somente com o término do tráfico atlântico de cativos, em 1850. Essas transformações já vinham ocorrendo desde a década de 1840, quando o município passou por uma série de fatores conjunturais, como secas, epizootias (tipo de peste que acabou dizimando um grande número de gado), além da Guerra dos Farrapos (1835-1845). Todos esses fatores provocaram sérios prejuízos para os criadores de gado da Campanha, que tiveram, muitas vezes, seus rebanhos abatidos, inclusive por desertores da guerra. Como percebe Farinatti (2005), tais situações contribuíram para a ruína de vários

(36) 35 grandes estancieiros e provocaram a queda do preço do gado, que era a principal fonte dos lucros das estâncias, ocasionando a diminuição da compra de cativos, a redução do número dos grandes criadores e a ampliação do número de médios e pequenos proprietários. Com menos gado, havia uma menor necessidade de trabalho escravo, reduzindo o fluxo normal da aquisição de cativos. No entanto, após o término da guerra e com a reestruturação quantitativa dos rebanhos, foi possível aos grandes estancieiros recuperarem suas perdas, voltando a investir na aquisição de cativos para recomporem os seus plantéis, embora o mesmo não tenha acontecido com os pequenos produtores. Por isso, a ocorrência, a partir da década de 1850, de um maior equilíbrio entre os sexos nas escravarias alegretenses ocasionou uma ligeira vantagem para as cativas mulheres (FARINATTI, 2005). Farinatti (2005) enfatiza que, nos últimos anos da década de 1850, quando a elevação dos preços dos cativos aumentou significativamente em função do final do tráfico atlântico de escravos, os mesmos continuaram sendo empregados nas lides pecuárias, apesar da dificuldade da reprodução do trabalho escravo na região, principalmente em relação ao acesso desses trabalhadores via mercado. Nesse contexto, Farinatti (2005, p.16) demonstra que: [...] ao menos durante a década de 1850, a economia local tenha tido uma certa resistência contra a força gravitacional que puxava seus escravos para as regiões mais capitalizadas e dependentes de cativos, como as charqueadas de Pelotas e as áreas de expansão do café, no sudeste brasileiro. Cabe lembrar que, com o término do tráfico internacional de escravos, em 1850, a província sulina foi uma região vendedora da mão-de-obra cativa na dinâmica do tráfico intra e interprovincial, pois as áreas que mais necessitavam desse tipo de mão-de-obra eram as regiões charqueadoras do leste da província e as das grandes lavouras de plantation do sudeste brasileiro, que absorviam os cativos das zonas mais especializadas da pecuária sul-riograndense. Após essa década, os grandes criadores de gado ainda conseguiram resistir à drenagem de seus escravos pelo tráfico interprovincial em função da valorização que o gado atingiu neste período. Porém, essa conjuntura, no entendimento de Farinatti (2005), modificou-se a partir da década de 1860 com a desvalorização do gado. Isto acabou se refletindo em todas as escravarias de Alegrete, provocando uma crise no setor pecuário, a qual não atingiu somente o município, mas também as demais regiões pecuaristas da província.

(37) 36 Percebemos que os dados encontrados por Farinatti (2006) comprovam a importância da escravidão para a região da Campanha, onde a criação de gado ocorreu em moldes extensivos. A grande incidência de escravos homens nas estâncias alegretenses indica a razão do aproveitamento da mão-de-obra desses cativos em vários ofícios, por exemplo, como pedreiros, carpinteiros, roceiros, entre outros. Foi através desses escravos que os grandes estancieiros se organizaram e garantiram o aumento de seus lucros e a subsistência de suas propriedades, através da venda dos produtos agrícolas excedentes, e com os jornais de seus cativos “oficiais”. Identificamos na pesquisa de Farinatti (2007) que a mão-de-obra cativa feminina em Alegrete, entre os anos de 1825 e 1865, era utilizada nos serviços domésticos. As escravas eram cozinheiras, costureiras e rendeiras. O mesmo autor afirma que não encontrou nenhuma referência quanto a escravas roceiras. Este trabalho doméstico era fundamental para a conservação do modus vivendi das unidades charqueadoras. Ao abordar os condicionantes de liberdade dos ex-escravos em Alegrete, no período de 1832 a 1847, Sônego (2008) destaca que as cartas de alforria não significavam o fim das obrigações devidas pelos escravos para com seus ex-proprietários. Ao contrário, representavam um novo tipo de relacionamento que ligava o ex-cativo ao seu antigo dono. O liberto, não tendo na maioria das vezes condições para manter-se, via-se condicionado a continuar dependente financeiramente do seu ex-senhor, prestando serviços para o mesmo. Esse era o caso das mulheres forras deste município, cuja condição Sônego (2008) investiga por meio do estudo da concessão de cartas de alforria para a população cativa naquele período. Este autor percebeu que a maioria das cartas de alforria concedidas destinava-se às mulheres escravas, o mesmo sendo constatado por Reis para a Bahia: Segundo os estudos feitos sobre Salvador oitocentista, os homens, que eram a maioria na população escrava, tinham mais dificuldade para se alforriar do que as mulheres, uma vez que essas, por sua maior presença nos serviços domésticos e conseqüente proximidade com a família senhorial, podiam melhor negociar os termos de suas alforrias, mesmo se tivessem de pagar por elas. Mas não só isso. As mulheres escravizadas tinham, em geral, valor de mercado menor do que os homens, apesar de grande número delas conseguir ocupações, particularmente de ganhadeira, que facilitavam a formação de poupança com vistas à compra da liberdade (2008, p.207-08). Este benefício também esteve presente nas concessões das cartas de alforria para as mulheres escravas do município de Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870. Ao trabalharmos com as cartas de alforria, percebemos a necessidade de abordarmos a Micro-história italiana, que sob o ponto de vista metodológico, utiliza o nome como fio condutor de suas

(38) 37 investigações, permitindo assim que se possa acompanhar um mesmo sujeito em diferentes momentos e contextos sociais, visando reconhecer esses agentes nos mais variados tipos de documentações. É o caso das cartas de alforria pesquisadas, pois através dos nomes das cativas podemos indicar quais foram os motivos e os tipos de concessões que as cartas ofereceram para as mesmas, assim como a faixa etária e a origem destas mulheres. Através da leitura das 799 cartas de alforria de que dispomos para o período e espaço determinados, percebemos que vários motivos possibilitaram a liberdade das cativas. Algumas mulheres compraram sua liberdade nesta região onde predominava a economia rural, o que pode ser constatado nas seguintes cartas de alforria: Joaquina; Sr. Lereno José Bueno; dt. conc. 03-01-56; dt. reg. 31-01-56 (Talão 4, p. 13v). Desc.: A carta foi concedida mediante o pagamento, pela escrava, de 600 $. Vivência; Mina; 45; Sr. Gaspar Salecias; dt. conc. 06-04-54; dt. reg. 10-04-54 (Talão 03, p. 66 r). Desc.: A carta foi concedida mediante o pagamento pela escrava, de 800$. O senhor declara estar registrando a 2ª carta em razão da escrava ter perdido a primeira. Ao analisarmos estes documentos, nota-se a possível relação de negociação dessas escravas com os seus senhores, demonstrando que as mesmas tiveram condições de pagar por sua alforria. Porém, as cartas não nos informam a procedência do dinheiro utilizado para a compra de sua liberdade. Sugerem, porém, que ocorreram estas relações, e que, provavelmente, as cativas contaram também com a ajuda de terceiros para a aquisição de sua liberdade através da alforria. Através da seguinte tabela, podem-se observar quantas cativas pagaram por sua alforria ou a obtiveram através da ajuda de terceiros em Alegrete no período aqui estudado. Para tanto, subdividimos os períodos estudados em subperíodos de 5 (cinco) anos: Tabela 2 Alforrias pagas pelas cativas ou terceiros Período 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total Nº de alforrias 06 06 00 07 19 9 Cartas de alforria, Livros Notariais de Transmissões e Notas e de Registros Diversos do 1º e do 2º Tabelionato de Alegrete: 1° Tabelionato: Talão 2. 1848-1853. Talão 3. 1852-1855. Talão 4. 1855-1858. 2° Tabelionato: Talão 1. 1859-1877. Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS). As mesmas também estão disponíveis em: Documentos da escravidão. Catálogo Seletivo de cartas de liberdade. Acervo dos Tabelionatos de municípios do interior do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CORAG, 2006. II Volumes.

(39) 38 Em outras cartas, encontramos elementos que nos permitem perceber as relações estabelecidas entre as cativas e seus senhores, pois encontramos justificativas como “a prestação de bons serviços”, “obediência”, “bem que nos tem servido”, por parte de seus proprietários. Leiam-se as cartas a seguir: Constança; Nação; entre 40 e 50; Sr. Manoel Ferreira Bica e Maria de Oliveira Bica; dt. conc. 25-09-66; dt. reg. 14-01-67 (Talão 1, p. 15r). Desc.: A carta foi concedida “sem condição nem restrição [...] em remuneração ao bem que tem nos servido”. Maria; Crioula; Sra. Eufrázia Dorotéa da Silveira; dt. conc. 02-05-68; dt. reg. 2905-68; da Estância do Rincão de Itapororó (Talão 1, p. 25r). Desc.: A carta foi concedida em atenção aos bons serviços prestados. Por não saber escrever, a senhora pediu a Francisco José Coelho que fizesse a carta, e a seu rogo, a assinasse. Através do estabelecimento das relações entre as cativas e os seus senhores, os mesmos concederam algumas cartas de alforria sem ônus ou condições, devido à prestação de bons serviços. Em função da análise dos documentos, encontramos um número significativo de alforrias desse tipo, sendo que as mesmas compõem a maioria das manumissões concedidas para escravas, como podemos observar na tabela abaixo: Tabela 3 Alforrias concedidas pela prestação de bons serviços (sem ônus ou condições) Período 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total Nº de alforrias 07 10 00 11 28 As relações estabelecidas entre as partes demonstram que as cativas, apesar do difícil cotidiano do cativeiro, atuaram enquanto agentes históricos, pois souberam utilizar artimanhas que lhes possibilitaram negociar com seus senhores, mesmo que para isso elas mantivessem a “obediência” e a “servidão” como armas para lutarem por melhores condições de vida, contrariando a ideia de que aceitavam a dominação senhorial passivamente. Nesse sentido, Moreira e Tassoni (2007, p.14) percebem que: [...] para os senhores de escravos, era politicamente proveitoso que seus cativos aceitassem a imagem de doce submissão, inaptidão para a rebeldia e profundo afeto com a família de seus proprietários, o jogo social escravista estimulava que os cativos procurassem dissimular (com competência) seus sentimentos sob uma aparência dócil, respeitosa e diligente.

(40) 39 Em função da afirmação de Moreira e Tassoni (2007), notamos que essa possível dissimulação fazia parte também do cotidiano das cativas de Alegrete, pois elas a utilizavam para conseguirem suas cartas de alforria. Leia-se: Castora; Parda; 40; Sr. Joaquim Rodrigues Jacques; dt. conc. 01-01-57; dt. reg. 3012-57 (Talão 4, p. 94r). Desc.: A carta foi concedida em retribuição aos bons serviços prestados, “amor e fidelidade com que sempre me prestou”. Josefa; Crioula; Sr. Joaquim Francisco de Moura (e sua mulher, Bárbara A. de Jesus); dt. conc. 02-10-54; dt. reg. 04-03-58; no 2º Distrito de Alegrete (Talão 4, p. 97r). Desc.: A carta concede plena liberdade “por esta sempre nos ter servido com muito gosto”. Os senhores pediram a João Bernardo da Silva que a assinasse a rogo da senhora, por esta não saber ler nem escrever. Estes foram alguns exemplos de cartas de alforria concedidas gratuitamente, conferindo plena liberdade para as cativas. Ainda se mencionam mais alforrias, registradas na tabela abaixo: Tabela 4 Alforrias gratuitas ou plenas Período 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total Nº de alforrias 05 04 00 12 21 Este foi o total de cartas que encontramos de alforrias plenas ou gratuitas, mas também encontramos alforrias que, apesar de gratuitas, estabeleciam condições para as cativas, como descrito na tabela abaixo: Tabela 5 Alforrias concedidas sob condições Período 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total Nº de alforrias 08 01 00 02 11 Com relação à tabela acima, encontramos 10 alforrias que foram concedidas com a condição das cativas servirem até a morte de seus senhores; e em uma delas encontramos a condicionante da escrava servir a sua senhora por mais cinco anos. Essa constatação fica evidente na seguinte carta:

(41) 40 Leonarda; Crioula; 40; Sra. Maria Jacques; dt. conc. 24-08-48; dt. reg. 04-07-53; de Capão do Vevé (Talão 03, p. 21r). Desc.: “Tenho por bem dar-lhe grátis a sua carta de liberdade, da qual poderá gozar findos que sejam 5 anos contados do 1º de maio deste ano em diante, durante cujo tempo servirá como boa e fiel escrava, que em tudo ainda fica sendo, a meu genro Antônio Luiz Ferraz, e a meu filho Constantino José Gularte; ficando de nenhum efeito o que acima fica dito se ela fielmente não cumprir o seus deveres e as suas obrigações que lhe encarreguem”. A senhora pediu a Antônio Luiz Ferraz que a fizesse e assinasse a seu rogo. Outros aspectos relevantes encontrados nos documentos são os laços de solidariedade entre as próprias cativas, delas com suas senhoras e com seus familiares, amásios, amigos e demais pessoas que pudessem contar, os quais podem ser constatados através das seguintes cartas: Tereza; preta; Sr. Demétrio Ribeiro (Coronel); dt. conc. 19-02-70; dt. reg. 02-03-70 (Talão 1; p. 45r). Desc.: A carta foi concedida mediante o pagamento, pela escrava de 170$ que deveria entregar a Paulino Alves dos Santos “no prazo de 6 meses a contar da data desta”, em razão da escrava haver servido muitos anos ao senhor “sem que tenha dado motivo de imcômodos”. O senhor recebeu a cativa em um inventário, o qual não é especificado no documento. Eva; parda; Srs. Brígido da Rosa Neri (e sua mulher, Maria Gomes da Rosa) e Manoel da Rosa Néri (e sua mulher, Maria Joaquina da Rosa); dt. conc. 06-06-55; dt. reg. 14-11-56; em Conceição (Talão 4, p. 52v). Desc.: A carta foi concedida “pelo muito que nos mereceu [...] tanto por sua boa conduta, como pelo carinho, respeito e amor com que acalentou nossas esposas no berço de suas infantis idades”. Os senhores pediram a Fortunato Antônio de Toledo e Araújo que a fizesse. Entende-se, nas entrelinhas, com relação às cartas transcritas acima, que havia laços de afetividade e de amizade entre as cativas e seus senhores, pois as mesmas conseguiram atingir seus objetivos conquistando as alforrias. A primeira conseguiu negociar com seu senhor a sua liberdade pagando por ela. Porém, a carta não nos informa quais eram as relações desta cativa com Paulino Alves dos Santos. Na segunda, subentende-se que a cativa era mais velha, e por consideração para com a mesma, a família de seus proprietários decidiu libertá-la. Através de um olhar mais cuidadoso, podemos observar, no caso da cativa Eva, a provável culpa de seus senhores, que afirmavam “considerá-la muito”, o que se deu, provavelmente, em função da mesma ter sido ama de leite de suas senhoras, que criadas “com desvelo e amor”. Como bem se sabe, nem todas as cativas tinham desvelo e amor para com seus proprietários; havia também, nessas relações, um jogo de interesses entre ambas as partes, eles com o intuito da manutenção do cativeiro, elas objetivando a liberdade. Neste sentido, Moreira e Tassoni (2007, p.30) citam que “negociações como esta aparecem nas cartas, muitas vezes sintetizadas em linguagem que mistura a religiosidade e desencargo da consciência, absolvição, obrigação, culpa”.

(42) 41 Este também parece ser o caso da carta de alforria concedida em Alegrete, em 1852, para a escrava Ângela, crioula, com mais de 50 anos. Esta teve sua manumissão concedida em retribuição aos bons serviços prestados, não só por ter servido às famílias dos falecidos pais de seu senhor, como também a este, sendo que o mesmo, por consideração e recompensa devida aos escravos que serviam com lealdade, amor e zelo, concedeu alforria à cativa. Porém, as estratégias sabiamente utilizadas pelas mulheres escravas não se restringiam às citadas acima, pois identificamos relações de afetividade através dos laços de compadrio entre as cativas e suas senhoras, ratificando a possível solidariedade feminina num universo marcado pela desigualdade social e pela dominação do masculino. Leia-se a seguinte manumissão: Rosa; Leocádia (sua mãe natural, parda, escrava da mesma senhora); pardinha/mulatinha; Sra. Rita Maria de Oliveira; dt. conc. 17-08-69; dt. reg. 30-0869 (Talão 1, p. 38v). Desc.: A carta concede plena liberdade em virtude da senhora haver mandado batizar a escrava como forra. Por não saber ler nem escrever a senhora pediu seu filho, Manoel Antônio de Oliveira que fizesse a carta, e a seu rogo assinasse. No que se refere à relação de compadrio entre senhoras e suas cativas, Moreira e Tassoni (2007, p.30) destacam que: [...] escravos alforriados sem ônus ou condição eram afilhados dos seus senhores. Ora, sabemos que não era hábito os proprietários apadrinharem os filhos de seus trabalhadores escravizados, assim, certamente tal ato marcava uma relação especial entre eles, sacramentada pelo batismo. Provavelmente tratava-se de escravos crias da casa, cujas mães a anos recompensavam seus senhores com descendentes, fidelidade, etc. Quanto à carta de alforria de Rosa, podemos perceber que algumas cativas em Alegrete, assim como ocorria nos demais territórios brasileiros, tinham a “sorte” de terem seus filhos batizados por seus senhores, o que poderia resultar na concessão da carta de alforria para a criança. No entanto, apesar de forras, as crianças não tinham como sobreviverem sozinhas, ficando atreladas ao cativeiro imposto às suas mães e, consequentemente, não estavam libertas, mesmo que oficialmente o fossem, permanecendo sob o julgo dos seus senhores. Também constatamos que havia cartas de alforrias concedidas às cativas em função do número de crias dadas aos seus senhores, atuando a fertilidade em troca de sua liberdade. Não devemos nos esquecer que as escravas eram as “matrizes” reprodutoras de novos escravos, e também elos essenciais para o aumento da população cativa. Portanto deve-se

(43) 42 relativizar o seu “pequeno valor comercial” e demográfico. Este é o caso de Teresa, preta, Benguela, que teve sua carta concedida em função da mesma servir até a morte do senhor, e ter dado ao mesmo, durante os seus 30 anos de cativeiro, uma produção de Crioulos. Estas escravas, mesmo sendo consideradas mercadorias, utilizaram seus filhos como moeda de troca, almejando a liberdade com o intuito da alforria para si. Essa atitude pode nos parecer cruel, mas ao nos reportarmos àquele universo, não havia para algumas delas, outros meios de negociação. Assim, Moreira e Tassoni (2007, p.30) reforçam essa idéia: [...] parece que existia uma espécie de “costume” que influenciava as relações escravistas, como, [...], o “hábito” que tinham os senhores em recompensar as escravas que haviam não só servido com afinco, mas gerado em seus ventres novas “mercadorias” que aumentaram o capital de seus senhores. No entanto, se por um lado algumas mulheres escravas usavam seus filhos para conseguirem a liberdade através das cartas de alforria, outras conseguiam negociar com seus senhores a manumissão de seus filhos, podendo contar para isso com a ajuda de seus familiares, como podemos perceber nas cartas a seguir: Joaquina; Leocádia (sua mãe, Crioula; escrava dos mesmos senhores); Crioula; 1; Sr. Silvano Bernardes da Silva (e sua mulher Bernardina Cândida da Silva); dt. conc. 14-08-55; dt. reg. 11-12-55 (Talão 4, p. 5v). Desc.: A carta foi concedida mediante o pagamento de 320$ pelo preto Francisco Leão “que se apelida pai da mencionada Crioula Joaquina”. Os senhores pediram a Antônio Bernardes da Silva que a assinasse a rogo pela senhora, em razão desta não saber escrever. Marcelina; Eufrázia (sua mãe, parda); parda; Sr. Antônio Mendes Ferreira; dt. conc. 09-10-66; dt. reg. 30-11-70 (Talão 1, p.51v). Desc.: A carta foi concedida mediante o pagamento de 1:200$, quantia ajustada entre a escrava e o senhor, paga pela mãe da mesma. Constatamos, com relação à primeira carta, que a mesma foi paga pelo suposto pai da cativa, evidenciando a relação familiar existente, visto que Leocádia, a mãe, permanecia em cativeiro. Mesmo assim, ela e o seu suposto companheiro conseguiram acumular pecúlio necessário para a compra de liberdade de sua filha. No que se refere à segunda, a mãe conseguiu, através de um acordo ajustado entre ela e seu proprietário, adquirir a manumissão da sua filha. Assim como no primeiro caso, a mãe também permaneceu em cativeiro. Com relação a estas cartas de alforria, percebemos a existência e a importância da família escrava em Alegrete, fato que também ocorreu nas demais regiões do país, conforme comprovam estudos sobre o tema.

(44) 43 Dentre as cartas de alforria analisadas, encontramos apenas uma em que mãe e filha foram alforriadas no mesmo documento. Foi o caso de Vitória, parda, 33 anos, e sua filha (sem nome), de três meses de idade. Ambas foram libertas em função de um acordo feito entre os herdeiros de sua finada senhora, sendo a carta concedida porque Vitória prestou bons serviços à sua ex-proprietária. Esta foi a única alforria em que estava citado o número de filhos da cativa. Ao analisar as 79 cartas de alforria concedidas em Alegrete, no período de 1850 a 1870, encontramos as seguintes informações: 19 das alforrias (24,05%) foram pagas pelas cativas ou por terceiros; 28 (35,44%) foram por bons serviços prestados sem ônus ou condições; 21 manumissões (26,58%) foram gratuitas ou plenas e 11 (13,92%) foram dadas sob a condição de a escrava servir até a morte de seu proprietário (a), ou por um período determinado, conforme mostra a tabela a seguir: Tabela 6 Tipos de alforrias concedidas 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total % Pagas 6 6 0 7 19 24,05% Bons serviços 7 10 0 11 28 35,44% Gratuitas 5 4 0 12 21 26,58% Condicional 8 1 0 2 11 13,92% Total 26 21 0 32 79 100,00% Com relação à análise das cartas de alforria para cada sub-período, veja-se a tabela abaixo: Tabela 7 Períodos de concessão de alforrias 1850-1854 1855-1859 1860-1864 1865-1870 Total Pagas 6 6 0 7 19 Bons serviços 7 10 0 11 28 Gratuitas 5 4 0 12 21 Condicional 8 1 0 2 11 Total 26 21 0 32 79 32,91% 26,58% 0,00% 40,51% 100,00% % Do total de 79 alforrias pesquisadas para o período, 26 delas (32,91%) foram concedidas no período de 1850-1854; 21 (26,58%) no período de 1855-1859; 0 (0%) entre

(45) 44 1860-1864 e 32 (40,51%) no período de 1865-1870. Podemos constatar, conforme a análise realizada, que a maioria das cartas de alforria do período foram concedidas entre 1865 e 1870, sendo seguidas de 1850 a 1854 e de 1855 a 1859. Quanto à origem das escravas alforriadas, encontramos os seguintes dados, que estão apontados na tabela a seguir: Tabela 8 Origem e número de escravas Origem Nação N° de Da Costa 05 Cativas Benguela Crioula Mulata Rebolo Mina Africana Moçambique N/C* 03 02 33 03 02 02 01 02 26 *N/C - Não consta Com relação à tabela acima, destacamos que grande parte das alforrias concedidas em Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870, foi para escravas de origem Crioula, por elas terem sido a maioria entre a população cativa feminina. Acreditamos que este número elevado de escravas crioulas seja decorrente do término do tráfico Atlântico, pois sabemos que nesse período houve um acréscimo na reprodução interna das estâncias, aumentando as taxas de natalidade, o que contribuiu para a manutenção do sistema escravista. Isto possibilitou o tráfico intra e interprovincial, fato também salientado nas pesquisas de Faria (2001) para o Rio de Janeiro e Minas Gerais, e Moreira e Tassoni (2007) para a cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Com relação à idade das cativas libertas de Alegrete, encontramos os seguintes números: Tabela 9 Faixa etária das cativas alforriadas Faixa Etária (em anos) 0-10 Nº de cativas 05 11-20 21-30 31-40 02 05 06 41-50 51-60 N/C* 10 05 46 *N/C - Não consta Nas 33 cartas em que constavam as idades das cativas, percebemos que a maioria delas (16) tinha entre 31 e 50 anos, sendo que as mesmas conseguiram estabelecer

(46) 45 negociações com seus proprietários para conquistarem as suas alforrias, mesmo ainda estando aptas para o trabalho. Pela analise das cartas de alforria, sugere-se que as mulheres escravas de Alegrete, no período proposto, não foram passivas em relação ao cativeiro que lhes era imposto. Elas foram atuantes, criativas e audaciosas em elaborarem, mesmo que inconscientemente, estratégias como, por exemplo, os laços de amizade, de compadrio, de afetividade entre si, seus familiares, seus senhores e com quem mais pudessem contar, para conquistarem suas alforrias, tornando-se livres. Tal fenômeno teve lugar, surpreendente, em uma sociedade rural, elitista e agropecuarista, num período marcado por relações de dominados e dominantes. Nesse sentido, nos reportamos a Matos (2009, p.282): Procurou-se rever imagens e enraizamentos impostos pela historiografia, bem como dar visibilidade as mulheres, questionando a dimensão de exclusão a que estavam submetidas, entre outros fatores, por um discurso universal masculino. Revelaram-se novos perfis femininos, outras histórias foram contadas e outras falas foram recuperadas [...] procurando se recuperar a atuação das mulheres no processo histórico enquanto sujeitos ativos. Percebemos assim, que as mulheres cativas em Alegrete, entre os anos de 1850 e 1870, foram sujeitos históricos de seu tempo. Ao negociarem com os seus senhores as suas cartas de alforria, conquistando assim a liberdade, tornaram-se agentes de transformação em suas próprias vidas. Neste contexto, identificamos as cartas de alforria como um espaço de atuação do feminino escravizado.

(47) 46 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo “Mulheres, Escravidão e Liberdade na Fronteira Meridional do Brasil (Alegrete, 1850-1870)” identificou, por meio da leitura das cartas mais significativas entre as que compunham o rol de 79 documentos de alforria concedidos a mulheres cativas, que vários foram os motivos que permitiram a elas conquistarem sua liberdade. Algumas conseguiram pagar por suas alforrias; outras utilizaram estratégias menos convencionais, tais como: estabeleceram redes de amizade e solidariedade entre si, seus familiares e com seus proprietários, na tentativa de articularem possibilidades para a conquista de suas manumissões. Também contaram com a ajuda de terceiros, formaram famílias e tiveram filhos que funcionaram como moeda de troca para a aquisição da alforria. Percebemos também, que os elementos encontrados em algumas cartas de alforria, como obediência, fidelidade, zelo, amor, dedicação, entre outros, em um primeiro olhar, podem nos sugerir características de submissão das cativas, mas não necessariamente revelam esta condição. Parece-nos que este comportamento pode ter sido uma estratégia de sobrevivência, assim como também de conquista da liberdade. Deste modo, é importante relembrar que o cenário nacional brasileiro, no período, passava por significativas transformações econômicas, políticas e sociais, que influenciaram diretamente no sistema escravista vigente, provocando a crise do mesmo. Paralelamente, no contexto sulino, as charqueadas tornaram-se o centro da economia sul-rio-grandense, inserindo-se no mercado interno nacional. As mesmas utilizaram em larga escala a mão-deobra cativa, empregada também ao lado da mão-de-obra do homem livre para as lides e costeio do gado. Neste universo dominado pelo masculino, destacamos a mão-de-obra feminina, utilizada, principalmente nos serviços domésticos. Observamos através das analises das cartas de alforria dessas cativas que as mesmas, apesar do difícil cotidiano do cativeiro, souberam elaborar estratégias para adquirirem sua liberdade. Nesse sentido, notamos que estas cativas, mesmo vivendo em uma sociedade desigual, marcada pela grande diferença econômica entre escravas e senhores e pelas duras condições impostas pelo cativeiro, foram agentes históricos de seu tempo, utilizando artimanhas que lhes permitiram agir e negociar por sua condição de mulheres livres. Acreditamos, no entanto, que a presente pesquisa ainda é apenas um pequeno fragmento em um universo obscuro, na busca do esclarecimento sobre a escravidão feminina em Alegrete, na região da Campanha. Persistem muitos questionamentos sem respostas, solicitando um maior aprofundamento a respeito do tema: Como as mulheres forras foram

(48) 47 percebidas e inseridas na sociedade alegretense? Quais foram às atividades desempenhadas pelas cativas após libertas? Como elas lidaram com a questão da liberdade? Assim, faz-se necessário elucidar as lacunas históricas ainda existentes, a fim de possibilitar um melhor entendimento acerca da escravidão feminina neste município e nesta região.

(49) 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Thiago Leitão de. Escravidão, fronteira e liberdade: políticas de domínio, trabalho e luta em um contexto produtivo agropecuário (vila da Cruz Alta, província do Rio Grande de São Pedro, 1834-1884). 2008. 279 f. Dissertação (Mestrado em História) – Curso de Pós-Graduação em História. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008. CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. CERVO, Luiz Amado.; BUENO, Clodoaldo. A Política Externa Brasileira (1822-1985). São Paulo: Editora Ática, 1986. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 7. Ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998, vol. 03. p. 365, 521 e 683. DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Fortuna e família co cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. __________. Sinhás Pretas: acumulação de pecúlio e transmissão de bens de mulheres forras no sudeste escravista (sécs. XVIII-XIX). In: SILVA, Francisco C. da.; MATTOS, Hebe M.; FRAGOSO, João. (Orgs.) Escritos sobre História e Educação – Homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Ed. da FAPERJ, 2001. p.289-329. FARINATTI, Luís Augusto Ebling. Nos rodeios, nas roças e em tudo mais: trabalhadores escravos na Campanha Rio-grandense. CD-ROM [do] II Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional: Porto Alegre, outubro de 2005.

(50) 49 __________. Escravos nas estâncias e nos campos: escravidão e trabalho na Campanha Riograndense (1831-1870). Conservatória: Anais do VI Congresso Brasileiro de História Econômica, CD-ROM, 2005. __________. Escravos do Pastoreio. Pecuária e Escravidão na Fronteira Meridional do Brasil (Alegrete, 1831-1850). In: Ciência e Ambiente. Número 33 (jul/dez, 2006); Santa Maria: UFSM, 2006. __________. Confins Meridionais: famílias de elite e sociedade agrária na Fronteira Sul do Brasil (1825-1865). 2007. 421f. Tese (Doutorado em História) – Programa de PósGraduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007. FRAGOSO, João L. SILVA, Francisco C. da. A Política no Império e no início da República Velha: dos barões aos coronéis. In: LINHARES, Maria Yedda (Org.). História Geral do Brasil. 9. Ed. Rio de Janeiro, RJ: Campus, 1990. p.197-223. FRAGOSO, João L.; MARTINS, Maria Fernanda. Grandes Negociantes e Elite Política nas últimas Décadas da Escravidão 1850-1880. In: FLORENTINO, Manolo.; MACHADO, Cacilda [Orgs.]. Ensaios sobre a Escravidão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. p.143164. FREITAS, Décio. O Gaúcho: O Mito da Produção sem Trabalho. In: DACANAL, J. H.; GONZAGA, S., RS: Cultura e Ideologia. Porto Alegre: EST-UCS, 1980. GINZBURG, Carlo.; PONI, Carlo. O Nome e o Como: troca desigual no mercado historiográfico. In: _____. A Micro-história e outros ensaios. Lisboa: Difel. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. KÜHN, Fábio. Breve História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Leitura XXI, 2002. MATOS, Maria Izilda. In: MELO, Hildete Pereira de.;PISCITELLI, Adriana.; MALUF, Sônia Weidner.; PUGA, Vera Lúcia (Orgs.). Olhares Femininos. Brasília: Ministério da Educação e UNESCO, 2009. p.277-289. MACHADO, Humberto. O poder do Café. In: NEVES, Lúcia M. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p.143-181.

(51) 50 MAESTRI, Mário. O Escravo no Rio Grande do Sul. A Charqueada e a Gênese do Escravismo Gaúcho. Porto Alegre: EST, 1984. MOREIRA. Paulo Roberto Staudt.; TASSONI, Tatiani de Souza. Que com seu trabalho nos sustenta: as cartas de alforria de Porto Alegre (1748-1888). Porto Alegre: EST, 2007. p.0990. MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil Negro. São Paulo: Anita, 1994. p.66-90. OSÓRIO, Helen. “Estancieiros que plantam, lavradores que criam e comerciantes que charqueiam: Rio Grande de São Pedro, 1760-1825”. In: GRIJÓ, Luiz Alberto; KÜHN, Fábio; GUAZZELLI, César; NEUMANN, Eduardo. Capítulos de História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, p.75-90. PESAVENTO, Sandra J. História do Rio Grande do Sul. 9. Ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002. p.37-45. REIS, João José. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ZARTH, Paulo Afonso. Do arcaico ao moderno: as transformações no Rio Grande do Sul do século XIX. Ijuí: Ed. Unijuí, 2002.

(52) 51 OBRAS CONSULTADAS FARINATTI, Luís Augusto Ebling. Um Campo de Possibilidades: notas sobre as formas de mão-de-obra na pecuária (Rio Grande do Sul, século XIX). História – São Leopoldo: Unisinos. N. 08, V. 07, julho/dezembro, 2003. FILHO, Afonso de Alencastro Graça.; PINTO, Fábio Carlos Vieira.; MALAQUIAS, Carlos de Oliveira. Famílias escravas em Minas Gerais nos inventários e registros de casamento: o caso de São José do Rio das Mortes, 1743-1850. In: Varia História. Universidade Federal São João. UFSJ. Minas Gerais. Belo Horizonte, vol. 23, n° 37: p.184-207, Jan/Jun 2007. FLORENTINO, Manolo.; MACHADO, Cacilda. Famílias e Mercado: Tipologias Parentais de acordo ao grau de afastamento do Mercado de Cativos (Século XIX). In: Afro-Ásia, n° 24. Universidade Federal da Bahia. Bahia, 2000, p.51-70. KÜHN, Fábio. Gente de fronteira: sociedade e família no sul da América portuguesa – século XVIII. In: GRIJÓ, Luiz Alberto; KÜHN, Fábio; GUAZZELLI, César; NEUMANN, Eduardo. Capítulos de História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, p.47-74. MOREIRA. Paulo Roberto Staudt. Justiçando o Cativeiro: a cultura de resistência escrava. In: PICCOLO, Helga.; PADOIM, Maria Medianeira (Orgs.). História Geral do Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Méritos, 2006. v.2, p.215-231. _________. Os Cativos e os Homens de Bem. Experiências negras no espaço urbano. Porto Alegre: EST Edições, 2003. REIS, João José.; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. REMOD, René. Por uma História Política. Rio de Janeiro: FGV, 2003. SLENES, Robert. Na Senzala uma flor – esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil, sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. ZARTH, Paulo Afonso. A Estrutura Agrária. In: PICOLLO, Helga; PADOIM, Maria M. (Orgs.) História Geral do Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Méritos, 2006, p.187-213. v.2

(53) 52 FONTES DOCUMENTAIS ARQUIVO PÚBLICO DO RIO GRANDE DO SUL – APERS. Cartas de alforria, Livros Notariais de Transmissões e Notas e de Registros Diversos do 1º e do 2º Tabelionato de Alegrete: 1° Tabelionato: Talão 2. 1848-1853. Talão 3. 1852-1855. Talão 4. 1855-1858. 2° Tabelionato: Talão 1. 1859-1877. Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS). _________. Documentos da escravidão. Catálogo Seletivo de cartas de liberdade. Acervo dos Tabelionatos de municípios do interior do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CORAG, 2006. II Volumes.

(54) 53 FONTES ELETRÔNICAS SÔNEGO, Márcio Jesus Ferreira. Cartas de Alforria em Alegrete (1832-1847). Biblos. Rio Grande. Vol. 22, N° 1 (2008) p. 143-154. Disponível em: . Acesso em: 13 nov. 2009.

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