UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC ESCOLA SUPERIOR DE ADMINISTRAÇÃO E GERÊNCIA – ESAG CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO: GESTÃO ESTRATÉGICA DAS ORGANIZAÇÕES

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Full text

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CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO:

GESTÃO ESTRATÉGICA DAS ORGANIZAÇÕES

ESTRATÉGIAS ADOTADAS POR ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO

SETOR NUMA PERSPECTIVA DE ACCOUNTABILITY SOB A

ABORDAGEM DE ORIENTAÇÃO: O CASO AEBAS

WALERY LUCI DA SILVA MACIEL

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WALERY LUCI DA SILVA MACIEL

ESTRATÉGIAS ADOTADAS POR ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO

SETOR NUMA PERSPECTIVA DE ACCOUNTABILITY SOB A

ABORDAGEM DE ORIENTAÇÃO: O CASO AEBAS

FLORIANÓPOLIS, NOVEMBRO DE 2005.

Esta dissertação foi apresentada para a obtenção do título de Mestre no Curso de Mestrado em

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WALERY LUCI DA SILVA MACIEL

ESTRATÉGIAS ADOTADAS POR ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO

SETOR NUMA PERSPECTIVA DE ACCOUNTABILITY SOB A

ABORDAGEM DE ORIENTAÇÃO: O CASO AEBAS

Esta dissertação foi julgada adequada para a obtenção do título de Mestre em Administração: Gestão Estratégica das Organizações da Escola Superior em Administração e Gerência da Universidade do Estado de Santa Catarina .

Florianópolis, 28 de Novembro de 2005.

Professor Mário César Barreto Moraes, Dr. Coordenador do Curso de Mestrado

Professora Maria Ester Menegasso, Dra.

(Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC – Orientadora)

Professor Nério Amboni , Dr.

(Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC)

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Agradecimentos:

A Deus pelo Dom da vida...

Ao Sérgio, Fabíola e Lucas, pelo apoio e paciência neste tempo de trabalho e ausências.

Aos meus pais, Valésio e Luci, em nome de toda minha família, pelo carinho constante.

À Professora Maria Ester, pela confiança e apoio nesta trajetória.

A Direção do Curso de Mestrado em Administração da ESAG pela oportunidade de realizar este curso.

A todos aqueles com quem diariamente compartilho um trabalho tão gratificante, meus amigos da AEBAS , Conselheiros, Diretores, Colaboradores.

São tantos nomes e lembranças, e palavras não são suficientes para expressar minha gratidão.

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Resumo:

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ABSTRACT

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SUMÁRIO:

DEDICATÓRIA ...IV AGRADECIMENTOS ... V

RESUMO ... VI ABSTRATC ...VII LISTA DE FIGURAS ... XI LISTA DE ANEXOS ... XII

1 INTRODUÇÃO ... 1

1.1 EXPOSIÇÃO DO ASSUNTO ... 1

1.2 DEFINIÇÃO DOS PRINCIPAIS TERMOS ... 4

1.3 ORGANIZAÇÃO DO DOCUMENTO ... 5

1.4 DISCUSSÃO DO TEMA E DO PROBLEMA ... 6

1.5 DEFINIÇÃO DOS OBJETIVOS ... 10

1.5.1 Objetivo geral ...10

1.5.2 Objetivos específicos ... 11

1.6 RELEVÂNCIA E JUSTIFICATIVA PARA ESCOLHA DO TEMA ... 11

1.7 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 13

1.7.1 Caracterização e Método da Pesquisa ... 14

1.7.2 Trajetória da Pesquisa: Coleta e análise de dados ... 16

1.7.3 Limites da Pesquisa ... 18

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...20

2.1 ACCOUNTABILITY NAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR ... 20

2.1.1 Conceituação e Concepções de Accountability... 21

2.1.2 Contextualizando o tema nas Organizações do Terceiro Setor ... 25

2.2 TERCEIRO SETOR: CONTEXTUALIZANDO O TEMA ... 28

2.2.1 A Expansão do terceiro setor nas últimas décadas ... 30

2.2.2 Perspectiva do Terceiro Setor no Brasil ... 32

2.2.3 A Conceituação do terceiro setor e o debate sobre sua composição ... 39

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2.3.1 Especificidades e Identificação ... 46

2.3.1.1 A Relação com o Público Interno e Externo ... 48

2.3.1.2 O Processo de Acompanhamento e Avaliação do Trabalho ... 50

2.3.1.3 A Estrutura das Organizações ... 53

2.3 AS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR ... 46

2.4 ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR E RESPONSABILIDADE SOCIAL ...56

2.4.1 Contextualizando Responsabilidade Social. ... 57

2.4.2 Responsabilidade Social e Ética ... 59

2.4.3 Responsabilidade Social e Justiça Social ... 61

2.4.4 A Responsabilidade Social das Organizações do Terceiro Setor ... 64

2.5 AS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR E O PENSAMENTO ESTRATÉGICO ... 71

2.6 ACCOUNTABILITY NAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR: PARÂMETROS PARA ANÁLISE... 75

3 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DA PESQUISA EMPÍRICA ... 81

3.1 INTRODUÇÃO ... 81

3.1.1. Contextualizando a AEBAS – Associação Evangélica Beneficente de Assistência Social – 1955 a 2005... ... 81

3.1.2. De 1955 a 1981 – Os primeiros vinte e seis anos: a sedimentação do futuro... 82

3.1.3. De 1981 a 1998 – A confirmação do trabalho na área da infância e adolescência ... 90

3.1.4 De 1998 a 2005 – A ampliação do trabalho e o resgate dos sonhos ... 95

3.2 APRESENTAÇÃO E DESCRIÇÃO DA PESQUISA EMPÍRICA ... 106

3.2.1 A Estrutura da Organização ... 106

3.2.2 A Relação com o Público Interno e Externo ... 115

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4 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ... 136

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LISTA DE FIGURAS E TABELAS:

Tabela 1: Concentração de organizações por região geográfica ... 34

Tabela 2: Tempo de funcionamento e atuação das organizações ... 34

Tabela 3: Porte das Organizações ... 35

Tabela 4: Área de atuação das organizações e período de fundação ... 36

Tabela 5: Ocupação da mão-de-obra nas organizações... 38

Figura 1: Tipos de Prestação de contas e relação de accountability... 26

Figura 2: Tipologia das associações... 45

Figura 3: Características e similaridades das organizações do terceiro setor... 47

Figura 4: Parâmetro para análise da Estrutura das Organizações...78

Figura 5: Parâmetro para análise da relação com o público interno e externo... 79

Figura 6: Parâmetro para análise do processo de acompanhamento e avaliação... 80

Figura 7: Quadro Síntese – Histórico da AEBAS no período de 1955 a 2005 ... 105

Figura 8: Síntese da análise da estrutura das organizações...115

Figura 9: Síntese da análise da relação com o público interno e externo... 128

Figura 10: Síntese da análise do processo de acompanhamento e avaliação do trabalho... 132

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LISTA DE ANEXOS

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1. INTRODUÇÃO

1.1 Exposição do Assunto

Esta dissertação tem como tema o estudo da accountability na relação entre as organizações do terceiro setor e sociedade em geral. Trata-se de um Estudo de Caso junto à AEBAS – Associação Evangélica Beneficente de Assistência Social, organização filantrópica, localizada em Florianópolis, atuando há cinqüenta anos em projetos na área da saúde, educação e assistência social, e voltada ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social.

No contexto desta pesquisa o termo accountability, terá o significado de prestação de contas com a intenção de estabelecimento de relações de transparência, de atendimento de expectativas, numa perspectiva baseada na ética da convicção implícita a toda ação referida a valores, portanto de origem pessoal e individual. Essa ética, segundo Ramos (1983) tem sua origem na racionalidade substantiva que agrega em sua concepção nuances éticas, tendo um padrão de valores transcendentes, postos acima de noções puramente econômicas.

Até bem pouco tempo, a prestação de contas, ou transparência na gestão das organizações do terceiro setor, era algo que não preocupava o universo administrativo das mesmas. O amor ao próximo, a solidariedade, o altruísmo, constituíam uma espécie de pano de fundo que isentava estas iniciativas de qualquer suspeita ou dúvida, quanto aos seus propósitos, missão, administração e gestão dos serviços e recursos. Por outro lado a relação com o público alvo ou beneficiário era pautada pela prestação de serviço vista como beneficência, tendo um caráter predominantemente assistencialista ou paternalista ausente da perspectiva do direito à cidadania.

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socialmente responsáveis. A atitude suspeita, e posteriormente comprovada de alguns gestores e dos motivos que realmente levaram a criação e implantação de algumas organizações filantrópicas, aliado ao surgimento de leis e estatutos em defesa dos direitos do cidadão, têm provocado mudanças nos papéis; proclama-se então o protagonismo do público beneficiado, ou dos apoiadores, não como agentes passivos, mas como atores sociais, cuja atuação passa a ser repensada no contexto da sociedade e das organizações. A originalidade e relevância de determinadas iniciativas passam a ser melhor analisadas, levando-se em conta seu grau de transparência e sua capacidade para atender e responder às expectativas.

A partir desta nova realidade decorre a necessidade de que se estabeleçam mecanismos que promovam uma maior abertura, que inaugurem processos transparentes nas relações das organizações do terceiro setor com a sociedade em geral. Trata-se da responsabilização ou accountability, numa concepção que, além da prestação de contas formal, legal, prevista nos contratos e convênios firmados por estas organizações com o setor público ou com o mercado, promova também o estabelecimento de relações espontâneas, transparentes, fruto da postura ética e moral dos gestores destas organizações.

As organizações beneficentes, filantrópicas, voltadas para a produção do bem comum, não constituem um fenômeno recente da vida em sociedade. Analisando-se a história da humanidade vê-se que, independente do momento histórico, da cultura ou civilização, dos aspectos políticos ou econômicos estudados, o homem sempre esteve voltado para a busca de soluções de problemas e limites vivenciados na coletividade, seja o enfrentamento de uma catástrofe, guerra, diferenças sociais. Encontramos nos anais da história, iniciativas e movimentos voltados para a busca da solução dos problemas advindos de situações que colocavam em risco a segurança, a igualdade ou até mesmo a sobrevivência da humanidade. Sem sombra de dúvida, pode-se afirmar que não fosse o sentimento de ajuda, de solidariedade, a humanidade não teria sobrepujado negros períodos de sua história repletos de situações violentas e destruidoras.

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sociais entre outros, que povoam este universo, que nos últimos trinta anos passou a ser identificado como terceiro setor.

Entender essas organizações, e o papel que vêm desenvolvendo no cenário mundial e nacional, as possibilidades e limites de sua atuação é de grande relevância, pois se trata de um campo de estudo e pesquisa relativamente novo, e de um setor em franco crescimento tanto no número de iniciativas quanto na pluralidade de ações e demandas.

Segundo dados do IBGE (2004), no Brasil atuam mais de 250 mil organizações do terceiro setor, empregando mais de um milhão e meio de pessoas. De acordo com pesquisa realizada pela antropóloga Leilah Landin e pela economista Neide Beris, em 1999 atuavam no terceiro setor cerca de 330 mil voluntários. O total de profissionais em atividade no setor compõe 1,7% da população ocupada no país. Esses dados agregados a outras informações, conferem ao setor uma relevância que não pode mais ser ignorada, ao mesmo tempo que conferem às organizações que o compõe uma visibilidade, se não estatística, então de fato, considerando, o crescente aumento no número de iniciativas como também o desenvolvimento de novas práticas que vêm se descortinando no cenário de atuação destas organizações nas últimas décadas.

A sustentabilidade e manutenção das ações nas organizações do terceiro setor, acontecem a partir de uma série de iniciativas que vão desde o recebimento de recursos de órgãos públicos municipais, estaduais ou federais, por meio de convênios ou subvenções sociais, pela parceria formada com a iniciativa privada ou organizações não governamentais nacionais ou internacionais, por meio da realização de eventos, campanhas e promoções ou ainda pela contribuição de pessoas físicas ou jurídicas, geralmente associadas ao empreendimento. Destacam-se ainda como forma de captação de recursos as doações recebidas via isenções, imunidades ou incentivos fiscais. O trabalho voluntário constitui também, fator relevante na sustentabilidade dessas organizações.

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1.2 Definição dos Principais Termos

Accountability O termo não possui uma tradução literal, pode ser entendido como prestar contas à, corresponder, atender à expectativas. Para fins deste estudo o termo será traduzido não de forma descontextualizada ou isolada, antes será apreendido a partir de uma realidade que envolve relações de transparência e atendimento de expectativas.

Abordagem de

Orientação

Concepção na qual a accountability acontece a partir de uma variedade de forças interativas, tendo como fundamentos uma base de poder e uma base moral ,sendo esta última proveniente de valores que configuram o que é ético, legal e justo.

Terceiro Setor Setor que agrega organizações voltadas para a produção do bem

comum e que tem como especificidades: Objetivo social, portanto sem fins lucrativos; são independentes do estado e do mercado no que diz respeito a sua administração;reinvestem todo seu resultado financeiro na prestação de serviços a que se propõe ou na própria organização.

Responsabilidade

Social Partindo do pressuposto que as ações das pessoas e de suas instituições ou organizações são mobilizadoras e formadoras de padrões de comportamentos, e que estas ações ou omissões têm conseqüências que se estendem no tempo e alem de seu entorno, a responsabilidade social configura as respostas econômicas, sociais, ambientais, que são dadas às demandas que surgem no contexto da sociedade provocadas por estas ações ou omissões.

Associações Organizações que se caracterizam como iniciativas voluntárias de

pessoas que tem como objetivos comuns a superação de dificuldades e a geração de benefícios voltados ao público. Tem como características a adesão livre e voluntária, a gestão democrática pelos associados, autonomia e independência, e o interesse pelo que é comunitário e a não lucratividade de suas ações.

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1.3 Organização do Documento

Esta dissertação está organizada em quatro capítulos. No capítulo introdutório, primeiramente, realiza-se a exposição do assunto abordado neste estudo; na seqüência, onde são discutidos o tema e o problema de pesquisa, é feita uma breve abordagem acerca do universo do terceiro setor e suas organizações, correlacionando-os com o tema da accountability, e responsabilidade social. São definidos, o problema de pesquisa, seus objetivos gerais e específicos, e por fim a relevância da pesquisa, os procedimentos metodológicos adotados para sua consecução, sua trajetória e limites.

No segundo capítulo, realiza-se uma revisão da literatura, iniciando pela abordagem da accountability, quando é feita sua conceituação e contextualização num âmbito maior, e no universo das organizações do terceiro setor. Segue-se com a contextualização do terceiro setor, sua expansão, composição, e perspectiva do setor no Brasil. São analisadas na seqüência as especificidades e características das organizações do terceiro setor, sendo destacadas particularmente três destas: a relação com o público interno e externo, a estrutura das organizações, e o processo de acompanhamento e avaliação do trabalho. Na continuidade deste capítulo são abordados os seguintes temas: a responsabilidade social das organizações do terceiro setor, e para dar concretude ao debate, foram inseridos os temas da justiça social e a ética nas organizações, assuntos que são seguidos pela abordagem de como se dá a inserção do pensamento estratégico nas organizações do terceiro setor. O capítulo se encerra com a definição das categorias de análise que subsidiarão o estudo de caso.

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Nas páginas finais, estão as referências bibliográficas e os anexos utilizados na elaboração do trabalho.

1.4 Discussão do Tema e do Problema

O tema desta dissertação é a accountability em organizações do terceiro setor. Trata-se de um assunto cujo debate é recente entre estas organizações, e que pode ser abordado sob diferentes enfoques. Para evitar armadilhas que dispersem o estudo, definiram-se alguns assuntos que, expostos, contribuirão para o entendimento do problema proposto. Neste sentido, o entendimento do que é o terceiro setor, quais as especificidades e a conceituação das organizações que o compõe, o debate sobre responsabilidade social, ética e justiça socialsão assuntos que se encadeiam ao tema da dissertação.

O entendimento do universo formado pelas organizações do terceiro setor passa precisamente pelo conceito de sociedade civil e sua relação com o estado e com o mercado, apontando para um fenômeno que tem como principal característica a participação espontânea e ativa dos cidadãos e de suas organizações numa multiplicidade de iniciativas, buscando, para além do estado e do mercado a completude do ser humano e a superação dos limites a sua plena realização.

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fortalecimento do senso de comunidade e de pertencimento do indivíduo, contribuindo para o fortalecimento de sua realização pessoal e social.(RAMOS, 1989).

Neste cenário, politicamente organizado e de realização do ser humano, encontramos como um dos enclaves, as organizações do terceiro setor. Nas últimas décadas vimos crescer um fenômeno antigo, em que homens e mulheres das mais diversas classes sociais, culturas e raízes étnicas organizam-se de diferenciadas maneiras para juntos promoverem causas que vão desde a defesa do meio ambiente, direitos humanos, ajuda aos mais frágeis, enfrentamento de catástrofes e de situações de conflitos e riscos. É a emergência do protagonismo de atores não estatais, numa verdadeira revolução associativa, trazendo em seu conteúdo uma nova forma de relação entre estado mercado e sociedade civil.

A emergência do chamado terceiro setor em nível mundial nas três últimas décadas, se deve a um variado número de acontecimentos e fatos com implicações políticas, sociais, econômicas, culturais, ambientais e tecnológicas, fortemente influenciadas pelo modelo neoliberal. Fenômenos que suscitaram em escala global a intervenção e participação da sociedade civil em parceria com o poder público na busca de soluções para problemas que ameaçavam a vida em sociedade. (SALAMOM, 1998; RIFKIN, 1995; OLIVEIRA, 2001).

No Brasil, numa história recente, marcada pelo final do regime militar, e pela promulgação da Constituição de 1988, restaura-se a participação da sociedade civil na esfera pública. De acordo com Rego (2004), movimentos que antes ocupavam espaços clandestinos na luta armada contra a ordem então imposta, começam a se institucionalizarem tomando a forma de organizações que trazem em seu bojo o ideário de liberdade e participação, inaugurando assim outras formas de fazer política. Geralmente ligados às ações comunitárias desenvolvidas pelas igrejas ou outras organizações então estabelecidas, estes movimentos contribuíram para a expansão do terceiro setor no cenário nacional.

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uma classe média escolarizada. Contribuiu também a chegada no país, nos anos 70, do apoio e incentivo financeiro das ONG’s do Norte, organizações solidárias internacionais européias e canadenses que criaram condições materiais para a inauguração de muitas organizações do terceiro setor no Brasil.

A conceituação das organizações do terceiro setor é campo profícuo de muito debate e incertezas. Motivados pela iminência de um fenômeno que passa por uma reconstrução, pelo descaso das pesquisas e estatísticas no âmbito político e econômico, ou do próprio meio acadêmico, como também pela diversidade de organizações e iniciativas hoje abrigadas neste nicho da sociedade.

De acordo com o sociólogo Miguel Darci de Oliveira (2001), o terceiro setor pode ser identificado como o espaço que congrega a participação espontânea e ativa do cidadão e de suas organizações numa gama variada de iniciativas, que indo além do Estado e do mercado, influenciam e alteram a ordem das coisas tento na esfera local e nacional quanto no plano internacional. Para Rifkin (1995) e Fernandes (2001), o terceiro setor é o espaço no qual as pessoas aprendem a vivenciar a democracia, encontrando e dispensando ajuda, e no qual são atendidas demandas não satisfeitas pelo mercado e pelo estado. Para Drucker (1997), as organizações do terceiro setor existem para provocar mudanças nos indivíduos, tendo como produto final um ser humano mudado.

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O debate sobre responsabilidade social, até então restrito ao setor público e privado, buscando resgatar a imputabilidade de seus gestores às situações problemas geradas por suas decisões ou omissões, agora adentra ao universo das organizações do terceiro setor, que a despeito de sua essência e originalidade, incorrem no risco de se tornarem socialmente irresponsáveis, à medida que, na intenção de “profissionalizarem” sua gestão, ou de se adequarem às regras e exigências do mercado, são invadidas e influenciadas pela lógica e a ética que predominam nas ações dos dois primeiros setores, e abandonam valores como justiça, eqüidade, igualdade entre outros.

As organizações do terceiro setor se caracterizam como um campo fértil no qual brotam os mais diversos desejos e sentimentos humanos quando se trata da produção do bem comum, do atendimento de necessidades públicas. Desde seus fundadores, gestores, voluntários e efetivos, indo até ao público alvo de suas ações, encontra-se uma mescla de solidariedade, altruísmo, desejos de realização pessoal, satisfação de necessidades de caráter social, econômico, cultural, pessoal e emocional. Neste universo movem-se as mais diversas expectativas, para as quais, então, os gestores destas organizações devem apresentar respostas.

A responsabilidade do atendimento dessas expectativas será então de sujeitos morais, e não de organizações abstratas. Trata-se da postura ética e moral de seus gestores, responsáveis pela prestação de contas e pelo atendimento de expectativas a partir da ética da convicção, baseada em valores, e da responsabilidade, baseada no cumprimento dos fins propostos ou contratados para o atendimento de necessidades e expectativas.

No contexto desta pesquisa, e termo accountability será entendido a partir da abordagem de “orientação”, que de acordo com Etzione “baseia-se numa variedade de forças interativas, não apenas num atributo ou mecanismo isolado” (1998, p.11). Para o autor, nesta concepção a accountability apresenta ao mesmo tempo uma base de poder e uma base moral.

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indiretamente com a organização – os beneficiados por suas ações, seus voluntários, seus efetivos, apoiadores financeiros e seus fundadores.

Nesta conjuntura, se descortina a accountability como responsabilização ou atendimento de expectativas. Segundo Heidemann (1998), é nesta ótica que será demandada dos administradores uma postura ética, mista de convicção e de responsabilidade que coloca frente a frente o detentor de expectativas e o agente encarregado de sua satisfação.

Sem desconsiderar a importância da base de poder na concepção e entendimento da accountability, esta pesquisa centrará sua atenção à base moral, na qual o termo adquire a conotação de responsabilização ou atendimento de expectativas.

Dado o caráter subjetivo desta postura ou base, o conhecimento dos níveis de accountability nas organizações do terceiro setor, demanda por uma pesquisa muito mais qualitativa que quantitativa. Requer o mergulho na história e nas concepções destas organizações, e na forma, como ao longo do tempo seus gestores buscaram corresponder às expectativas, e de que maneira prestaram e prestam contas à sociedade. Partindo deste enfoque, este estudo estabelece os seguintes problemas de pesquisa:

Quais as características de accountability encontradas na AEBAS – Associação Evangélica Beneficente de Assistência Social, no período de 1955 à 2005 a partir das estratégias implementadas?

E quais as estratégias adotadas pela organização para ser accountable?

1.5 Definição dos Objetivos

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1.5.1 Objetivo Geral

Identificar características de accountability na organização AEBAS, a partir das estratégias implementadas no período de 1955 a 2005.

1.5.2 Objetivos Específicos

a) Contextualizar a organização pesquisada, resgatando aspectos históricos, sociais e econômicos;

b) Desenvolver teoricamente os conceitos básicos associados ao tema;

c) Definir categorias de análise que possibilitem a identificação de características de accountability e suas estratégias de implantação.

d) Desenvolver um estudo teórico-prático que resulte na construção de um arcabouço teórico que venha contribuir para a vivência da accountability em organizações do terceiro setor

1.6 Relevância e Justificativa para escolha do tema

Considera-se que este estudo justifica-se pelo caráter inovador que apresenta, tendo em vista a inexistência de produção científica sobre o tema da accountability aplicado à organizações do terceiro setor, particularmente com o enfoque que será dado nesta pesquisa. Do levantamento bibliográfico até então realizado, foram identificados vários estudos e pesquisas sobre o assunto, aplicados prioritariamente ao setor público e dentro de uma perspectiva financeira, contábil ou elencado às questões pertinentes às políticas públicas.

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Se considerarmos a essência do trabalho realizado por estas organizações, podemos afirmar que estas não são novas, pois o estar voltado para o outro, a solidariedade, a ajuda mútua, são ações que fazem parte da história do homem e de seu viver em sociedade, porém a “explosão” de organizações e iniciativas nas três últimas décadas decorrem de fatores políticos, econômicos e sociais os quais, de acordo com Oliveira (apud REGO, 2004) combinados, serviram de berço para a participação do cidadão nos interstícios do Estado; novas formas de ação inventadas na base da sociedade, múltiplas e diferenciadas, abrangendo um considerável leque de atividades e ações. Estas organizações padecem de melhor definição e de um maior conhecimento e desmistificação diante da sociedade.

Desta forma, podem ser identificados quatro grandes desafios que hoje são colocados às organizações do terceiro setor: A produção e disseminação de informações sobre o que são e o que fazem, a melhoria na qualidade e eficiência da gestão destas organizações e dos projetos sociais, o aumento na base dos recursos para a sustentabilidade e manutenção de seus projetos e programas, e a ampliação de espaços para a ação voluntária.

A esses quatro desafios, se insere um quinto, o qual seria o estabelecimento de estratégias que confiram às organizações do terceiro setor características e práticas de accountability, a partir de um posicionamento ético por parte de seus gestores, as quais possam, de forma espontânea e voluntária, manifestar à sociedade informações suficientes, que permitam que esta se posicione a seu respeito: o que são? O que fazem? Para que vieram? Como aplicam seus recursos? As respostas a essas e as outras questões, estarão colaborando para a transposição da, ainda contraditória, invisibilidade, para o aumento da base de recursos e apoios, para a aproximação do trabalho voluntário, ao tempo que possibilitarão a disseminação sistemática de informações, colaborando diretamente para o aperfeiçoamento da gestão nestas organizações.

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Salienta-se ainda, que a AEBAS – Associação Evangélica Beneficente de Assistência Social merece uma investigação sistemática, considerando o tempo de atuação na sociedade, a pluralidade de seu trabalho, e o fato de atender um considerável número de crianças e adolescentes, contribuindo para o processo de educação e formação intelectual das mesmas, numa proposta de construção e resgate da cidadania.

O caráter original da pesquisa ora proposta decorre de duas situações: primeiramente, como foi mencionado anteriormente, até o momento são desconhecidos estudos e pesquisas neste tema, com o enfoque que está sendo proposto; num segundo aspecto considera-se a necessidade que se desenvolva um arcabouço teórico que permita a revisão e construção de conceitos que venham embasar práticas norteadas para a gestão transparente, accountable, que atendam as expectativas de todos os envolvidos nas organizações e nos projetos sociais. Desta forma esta pesquisa pretende contribuir para a construção de uma literatura sobre o tema proposto e que venha servir para consultas posteriores.

Por fim cabe mencionar que o que até aqui foi proposto emerge de inquietações e questionamentos da pesquisadora, profissional do social atuando há dezoito anos em organizações do terceiro setor, e seriamente preocupada em desenvolver um referencial teórico e prático que venha contribuir para a gestão transparente e accountable nestas organizações.

Para o desenvolvimento da pesquisa serão adotados alguns procedimentos metodológicos, os quais serão explicitados no item a seguir.

1.7 Procedimentos Metodológicos

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necessário a definição de procedimentos metodológicos, que apontem para a caracterização da pesquisa, sua trajetória e seus limites.

Tendo como referenciais o tema e o problema de pesquisa, bem como os objetivos da dissertação, desenvolvem-se os procedimentos metodológicos adotados na condução da pesquisa.

1.7.1 Caracterização e Método da Pesquisa

Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa. A abordagem qualitativa vem despertando o interesse de pesquisadores, dada a proximidade que permite entre o pesquisador e seu objeto de estudo, segundo Minayo (1994, p.22) “ela se envolve com empatia aos motivos, às intenções, aos projetos dos atores, a partir dos quais as ações, as estruturas e as relações tornam-se significativas”. A pesquisa qualitativa permite, desta forma, atingir o nível dos significados, valores, expressos nos momentos de investigação e comuns no cotidiano. Corroborando com este posicionamento afirma Richardsom (1999, p.79) “ a abordagem qualitativa de um problema, além de ser uma opção do investigador, justifica-se sobretudo, por ser uma forma adequada para entender a natureza de um fenômeno social”. Permite a descrição da complexidade de determinado problema, ao mesmo tempo em que possibilita a compreensão e a interação de processos dinâmicos vividos pelos atores.

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A dinamicidade e flexibilidade da abordagem qualitativa permite então a apreensão dos fenômenos que permeiam o campo de pesquisa constituinte das organizações do terceiro setor, para tanto a pesquisa qualitativa preserva algumas características: Parte de questões flexíveis, que poderão ser melhor definidas no decorrer do trabalho; envolve uma ampla interação entre o pesquisador com a situação estudada, e por último envolve a obtenção de dados descritivos sobre pessoas, situações, processos e lugares (AMBONI, 1997; GODOY, 1995; RICHARDSON,1999).

Além da abordagem qualitativa, a pesquisa caracteriza-se também como descritiva e exploratória. Descritiva tendo como foco o estudo da accountability identificando suas características e descrevendo as estratégias adotadas pela organização pesquisada para ser accountable, e exploratória, pois se trata de um tema pouco explorado e de difícil precisão e operacionalização. Segundo Gil (1999), as pesquisas descritivas e exploratórias são as que habitualmente são utilizadas por pesquisadores sociais preocupados com a atuação prática.

Tendo como base o objetivo geral da investigação, a pesquisadora optou por adotar como método o Estudo de Caso, cuja metodologia possibilita o uso de diferentes técnicas de coleta e análise de dados.

De acordo com Bruyne (1977), Gil (1999), Vergara (2000), o estudo de caso é caracterizado pelo estudo aprofundado e exaustivo, de maneira que permite o conhecimento amplo e detalhado de um determinado objeto ou fenômeno. O estudo de caso volta-se à realidade objetiva, investigando e interpretando os fatos sociais que lhe dão contorno e conteúdo. Seu uso é adequado para investigar tanto a vida de uma pessoa quanto a existência de uma organização.

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Para Bruyne (1977), o estudo de caso permite que o pesquisador vá ao encontro dos fatos empíricos e proponha uma análise intensiva. Já num sentido mais operacional, Chizzotti (2005), afirma que o estudo de caso pode designar uma diversidade de pesquisas que coletam e registram dados que, após ordenados e relatados permitem a tomada de decisão ou a proposição de uma ação transformadora, “o caso é tomado como unidade significativa do todo e , por isso, suficiente tanto para aprofundar um julgamento fidedigno quanto propor uma intervenção” (CHIZZOTTI, 2005, p.102).

Considerando a especificidade do campo e do assunto de pesquisa, os aspectos subjetivos que os envolvem, o estudo de caso possibilitou a descoberta das interações dos fatores significativos, permitindo a apreensão da realidade de forma objetiva e a conseqüente reconstrução dos fenômenos observados.

1.7.2 Trajetória da pesquisa: coleta e análise de dados.

O início deste estudo ocorreu em junho de 2002, quando pesquisadora e orientadora definiram o problema de pesquisa a partir de alguns questionamentos levantados na época em grupo de estudo. Ao longo deste período, o tema foi aos poucos melhor se definindo à medida que foram buscadas fontes de pesquisa bibliográfica aliada à experiência e vivência da pesquisadora em seu campo de trabalho e pesquisa.

O processo de construção desta dissertação constituiu-se em três etapas, que não ocorreram de forma linear, mas que se articularam em todo o desenvolvimento do estudo.

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resulta num número reduzido de material bibliográfico, foi possível o acesso a um material que exaustivamente estudado permitiu o suporte teórico necessário à pesquisa.

Na segunda etapa , que configura o Estudo de Caso, a pesquisadora utilizou como técnica de coleta de dados a pesquisa documental (GODOY, 1995; GIL, 1999), que consistiu na investigação e análise de documentos da organização pesquisada: atas, registros históricos, trabalhos de conclusão de curso, entre outros, disponibilizados para a pesquisa. Neste momento da pesquisa foi realizada a contextualização da organização pesquisada, bem como a busca de informações que subsidiaram a análise a partir da matriz então estabelecida.

Como parte ainda da coleta de dados aconteceram entrevistas não estruturadas ou informais (CHIZZOTTI, 2005; GIL, 1999; RICHARDSON, 1999), que buscaram apreender dos entrevistados os aspectos considerados mais relevante na análise do assunto abordado. O pesquisador, partindo dos aspectos relevantes ao estudo, formula alguns pontos deixando o entrevistado livre para expressar-se e manifestar-se a respeito do tema em estudo, “o que se pretende com entrevista deste tipo é a obtenção de uma visão geral do problema pesquisado, bem como a identificação de alguns aspectos da personalidade do entrevistado” (GIL, 1999, p. 119). A entrevista não estruturada ou informal é recomendada nos estudos exploratórios, que buscam abordar realidades poucos conhecidas , permitindo uma visão aproximada do problema pesquisado.

Foram selecionados para a entrevista gestores, colaboradores, fundadores, cidadãos beneficiários ou parceiros mais representativos junto à organização pesquisada.

A terceira e última etapa da pesquisa consistiu na análise dos dados coletados e na posterior elaboração das conclusões alcançadas. A análise ocorreu a partir de uma matriz formulada por meio da confluência entre o aporte teórico levantado, e os dados coletados na pesquisa de campo. Para tanto foram utilizadas técnicas de análise de dados específicas de pesquisas qualitativas, a análise documental para os documentos, e a análise de conteúdo para as entrevistas (CHIZZOTTI, 2005; RICHARDSON, 1999).

(31)

1.7.3 Limites da pesquisa

Esta pesquisa de caráter qualitativo, descritiva e exploratória, não tem como pretensão o esgotamento do tema em estudo. Por se tratar de temática relativamente recente no contexto acadêmico, quer antes, despertar o interesse e a busca por novas investigações.

Por esta razão não foi realizado um confronto entre as diferentes abordagens, antes se buscou resgatar de cada autor a contribuição para o alcance dos objetivos traçados, no sentido de elucidar o problema de pesquisa. A preocupação foi relacionar os vários conceitos que poderiam contribuir para o entendimento do processo de accountability nas organizações do terceiros setor.

Convém mencionar que o ineditismo do tema em estudo, aliado ao fato de tratar-se de um fenômeno dinâmico e ainda em formação provocaram algumas lacunas na análise, neste sentido, a abordagem não apresenta a profundidade desejada, ao mesmo tempo que desafia a continuidade e aprofundamento do estudo.

Tendo em vista a diversidade, complexidade e abrangência do setor, a pesquisa se limitou ao estudo de uma organização, que tem como recorte a atuação em projetos junto à crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social, cuja atuação abrange a região metropolitana de Florianópolis. O fez mediante Estudo de Caso, o que constitui outro fator limitante, pois os dados obtidos não podem ser aplicados a outras organizações, constituindo-se somente como referenciais para outras abordagens.

Por fim há que se mencionar que a pesquisadora é também gestora da organização pesquisada, o que gera alguns limites à análise, tendo em vista o envolvimento com o objeto de estudo, o que pode comprometer a formação de uma visão crítica quanto ao contexto organizacional, e sua atuação individual e técnica.

(32)
(33)

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este capítulo tem como objetivo apresentar as principais perspectivas epistemológicas pesquisadas a partir da literatura, em relação ao tema e problema de análise desta dissertação, ou seja, a accountability no universo das organizações do terceiro setor. Para tanto se inicia o estudo da accountability, principiando com a sua conceituação e concepções, prosseguindo com sua contextualização nas organizações do terceiro setor. Na seqüência é realizada a contextualização do setor, sua perspectiva no Brasil e as características e especificidades das organizações que o compõe. O estudo prossegue com uma imersão na temática da responsabilidade social, ética e justiça social elencadas às organizações do terceiro setor, a estas se soma o debate sobre estratégia na tentativa de aproximar o tema à proposta deste estudo.

O capítulo finaliza com a apresentação da matriz de análise com a qual serão trabalhados os dados coletados na pesquisa de campo e no estudo de caso.

2.1

Accountability nas Organizações do Terceiro Setor

O tema da accountability tem sido largamente estudado no âmbito da gestão pública focando a responsabilização dos governantes e administradores no trato da coisa pública, ou no âmbito da iniciativa privada, quando alguns autores aproximam o tema ao debate da responsabilidade social. Seu estudo no nível do terceiro setor é fato recente, como mencionado no inicio deste trabalho, a pesquisadora, após exaustivo levantamento junto à literatura nacional e internacional não encontrou pesquisas ou estudos onde seja abordado o tema no contexto das organizações do terceiro setor com o enfoque ora proposto.

(34)

pública e privada, e partindo dos conceitos então desenvolvidos buscou-se fazer uma aproximação para o debate no contexto das organizações do terceiro setor.

2.1.1 Conceituação e Concepções de Accountability

O termo accountabiliy não possui uma tradução literal por esta razão, de acordo com Heidemann (1998), a palavra portuguesa que melhor expressa o significado genérico de accountability é responsabilidade. Etimologicamente o termo ‘responsabilidade' deriva do latim, re + spondere, que juntos expressam a idéia de prometer em retorno, em resposta, corresponder. A expressão Accountability deriva de ad + computare , que pode ser traduzido como prestar contas a, dar satisfação a, corresponder à expectativa. Sendo assim, para fins deste estudo o termo não será traduzido de forma isolada ou descontextualizada, antes será apreendido a partir de uma realidade que envolve relações de transparência e atendimento de expectativa.

Giacoman e Opazo (2002) na abordagem que fazem sobre responsabilidade social, entendem que esta acontece em duas dimensões, a ética e a prática, e em três níveis, global, contextual e institucional.

Dentro da dimensão ética, no nível global, a organização se faz responsável pelas conseqüências sociais de suas ações num contexto macro e abrangente chegando ao nível da preocupação da sobrevivência do ser humano na terra. No social contextual, a responsabilidade diz respeito aos problemas sociais, políticos, econômicos que afetam o contexto no entorno da organização numa esfera mais local.

Na dimensão prática e no nível social institucional, a organização, dentro de um conceito de accountability, não responde aos problemas, mas às demandas feitas pelo marcado, pelo estado e pela sociedade civil.

(35)

entorno imediato da organização, prestando contas do que foi realizado, do quanto essas demandas foram atendidas, como também dos resultados obtidos.

Savage e Moore (2004), interpretando a accountability nos serviços de saúde, propõem o estudo a partir de dois níveis: structural accountability, no qual desenvolvem-se padrões de divulgação tendo como características a visibilidade e a transparência a partir do aparato organizacional e legal; e a attitudinal accountability nível no qual acontece a prestação de contas a partir de uma predisposição interna, como atributo ético e moral do prestador de serviço.

No Documento RS8 Transparency and accountability(2004) os termos são definidos como a preocupação dos administradores das organizações do terceiro setor (filantropias), em repassar a todos os envolvidos com a organização informações confiáveis, que possam ser averiguadas, dimensionadas, de forma que todos os seus stakeholders possam sentir transparência e responsabilidade em sua gestão.

Analisando a accountability na esfera pública, Branco (2000), Corbari (2004), referem-se à responsabilidade de entidades e seus agentes em diferentes âmbitos aplicando-se a governantes ou entidades encarregadas de administrarem recursos públicos seja na área da saúde, educação ou assistência social. Num sentido mais amplo, o termo deve englobar, além dos aspectos legais, conceitos como eficiência no desempenho prevendo acesso, qualidade, custo, confiabilidade. Segundo as autoras esta esfera extrapola os aspectos legais controlados quantitativamente e abrange temas como qualidade, preenchimento de expectativa, indicadores subjetivos próprios dos projetos voltados à construção da cidadania.

(36)

Partindo da dicotomia estado e sociedade o conceito de societal accountability, é tratado como uma concepção alternativa do controle da sociedade sobre a ação governamental constituindo uma especificidade e merecendo uma distinção à parte das perspectivas de accountability.

O artigo de Peruzzotti e Smulovitz (2000), apresenta a noção de societal accountability como um mecanismo de controle não eleitoral, que emprega ferramentas institucionais e não institucionais, e que se baseia na ação de múltiplas iniciativas e movimentos da sociedade civil, movimentos sociais, organizações do terceiro setor, tendo como objetivo expor as ações e ou omissões dos governantes, inaugurando novos debates e influenciando as decisões.

Corroborando com essa perspectiva, Grau(2000) afirma que nestes espaços convergem oportunidades para o exercício do controle social , o que segundo a autora, pode se dar, mesmo que não exclusivamente, por novos atores – organizações da sociedade civil que passam a influenciar as decisões e a formação de políticas, para o que dentro da concepção de accountability societal, “é indispensável a participação cidadã que se traduz na expressão e defesa dos interesses sociais, transcendendo a interesses particulares e representando legitimamente os interesses dos cidadãos”, (GRAU, 2000, p.5).

Numa análise mais abrangente do assunto, Etizione (1998), partindo do pressuposto que accountability baseia-se numa variedade de forças interativas, não apenas num atributo ou mecanismo isolado, apresenta quatro processos onde o fenômeno é vivenciado de formas diferenciadas: o uso simbólico do termo, como processo político, como mecanismo formal e legal, e por último como abordagem de orientação.

(37)

Como um processo político, o controle se dá por meio de estruturas de poder envolvendo negociação, confronto, ajustes de demandas. Nesse contexto a accountability se torna a instância efetiva e real quando responde aos reclames e demandas dos diversos grupos de interesse. Esta perspectiva resgata os conceitos trabalhados por vários autores, (BRANCO, 2000; CARNEIRO, 2005; CORBARI, 2004; GRAU, 2000; PERUZZOTTI e SMULOVITZ, 2000) nos quais o processo da accountability se dá na convergência de várias forças tanto da esfera pública quanto da sociedade civil organizada.

Como mecanismo formal ou legal, a accontability é vista como um processo voltado à prestação de contas e satisfação do público interno e externo, sob a forma de mecanismos, regras formais e legais ( BRANCO, 2000; ETZIONE, 1998, GIACOMAN E OPAZO, 2002; SAVAGE e MOORE, 2004). Nessa concepção ficam de fora padrões de comportamento, na maioria das vezes informais, emergentes da estrutura ou configuração da organização, para os quais não estão previstos mecanismos de controle, o que debilita e fragiliza o processo de accountability, considerando a possibilidade da formação de coalizões que venham interessar determinados grupos ou segmentos em detrimento da organização como um todo.

Como abordagem de orientação, a visão da accountability “baseia-se numa variedade de forças interativas não apenas num atributo ou mecanismo isolado” (ETZIONE 1998,p.11). Mudando o foco anteriormente baseado unicamente no poder, o autor concebe a accountability tendo ao mesmo tempo uma base de poder e uma base moral.

A base moral advém dos valores internalizados dentro da organização e se configura no que é ético, legal e justo. Nesta concepção a accountability acontece por meio da mobilização, da combinação que leva a organização cada vez mais próxima do sistema desejado. Trata-se de um processo educativo, onde acontecem coalizões que se mobilizam para alcançar o que é desejado, e que gera novas alternativas à medida que a accountability alcança níveis mais elevados.

(38)

De acordo com Ramos (1983) a ética da responsabilidade corresponde à ação racional referida a fins. Segundo Srour (2000) a máxima da ética da responsabilidade é que o ser humano é responsável por suas ações, e o faz com base em avaliações com vistas à obtenção de resultados. Dentro da ética da responsabilidade e num contexto de accountability, as organizações vêem-se confrontadas frente a frente com seu público alvo, detentores de expectativas, a quem seus administradores devem prestar contas.

Considerando que a abordagem de orientação tem, além da base de poder uma base moral, que por sua vez é composta por valores, o processo de accountability nas organizações do terceiro setor se dá também a partir da ética da convicção, que de acordo com Ramos (1983) é a ética do valor absoluto, voltada a toda ação referida a valores. “O ser humano está orientado em seu comportamento por valores, isto é, por estimações e avaliações das quais decorre sua concepção de mundo, seu ideal de realização própria e social e que consubstanciam sua ética de convicção” (RAMOS 1983,p.43), estes valores a despeito do caráter prescritivo (SROUR 2000), irão influenciar significativamente no estabelecimento da relação de accountability entre a organização do terceiro setor e seu público alvo.

Segundo Etzione (1999) uma sociedade será mais comunitária quanto mais se apoiar em valores legitimamente construídos por seus membros, dos quais advêm comportamentos voluntários voltados para o que é considerado justo e legítimo, segundo o autor “a sociedade comunitária, não é uma instância baseada unicamente em leis e ordem, mas que se baseia em valores morais compartilhados por seus membros” (ETZIONE, 1999, p. 171). Trazendo este raciocínio para o contexto organizacional, depreende-se que uma organização será mais accountable à medida que as relações – internas e externas – estiverem baseadas em princípios e valores, produto de um misto da ética da responsabilidade e convicção.

2.1.2 Contextualizando o tema no âmbito das Organizações do Terceiro

Setor

(39)

(2000), questões ligadas ao profissionalismo, moral, desempenho organizacional e capacidade de responder às necessidades e expectativas dos principais grupos de interesse na organização. Consideram os autores, não somente como uma obrigação legal, ou uma opção administrativa mas como um dever a ser cumprido.

As organizações do terceiro setor desfrutam de considerável liberdade e flexibilidade no que diz respeito à prestação de contas no sentido de atendimento de expectativas. Considerando que os resultados de sua ação se traduzem em bens sociais (NANUS e DOBBS 2000), observáveis e medidos fora do âmbito da organização (DRUCKER 2001), eminentemente subjetivos, difíceis de mensurar. Cabe aos seus gestores a preocupação de desenvolver atitudes que permitam aos diversos grupos de interesse, seja no âmbito interno ou externo perceber, sentir estes resultados, além de terem suas expectativas e demandas atendidas.

Nanus e Dobbs (2000) identificam oito tipos de situações nas quais a administração de uma organização do terceiro setor realiza sua prestação de contas, ou responde às expectativas ou demandas, as quais direcionadas a distintos públicos prevêem o estabelecimento de relações transparentes, accountable.

Na intenção de sintetizar a idéia proposta pelos autores elaborou-se o quadro a seguir, no qual é feito a identificação do tipo de prestação de contas, relacionado-a à perspectiva de accountability estabelecida a partir da proposta de Etzione (1998) como mecanismo formal, como processo político, ou a partir da abordagem de orientação.

Tipos de Prestação de contas

Características Relação de

Accountability 1. Prestação de contas

legal

- Acontece em conformidade com a lei; - Cumpre o que está previsto nos contratos e convênios

Como mecanismo formal ou legal

2. Prestação de contas para a direção

- Divulgação de resultados de desempenho - Divulgação da situação financeira -Atendimento de decisões

- Adesão à missão, visão, princípios da organização

- Administração de recursos - Profissionalismo

Como mecanismo formal e legal Como abordagem de orientação

3. Prestação de Contas aos doadores e financiadores

- Administração e aplicação dos recursos de forma eficiente e eficaz

- Consonância com a intenção do doador ou do plano de aplicação proposto

Como processo político

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- Equilíbrio nas contas e custo administrativo da organização

- Divulgação do desempenho

- Alto impacto sobre as causas abordadas 4. Prestação de

Contas para o cidadão-beneficiário

- Prestação de serviço eficaz e eficiente - Respeito pela dignidade e necessidade do cidadão-benficiário

- Padrões e princípios morais elevados - Sigilo no atendimento

- Promoção da independentização do cidadão-beneficário

- Reduzido nível de burocracia

Como abordagem de orientação

5. Prestação de contas para colaboradores internos efetivos e voluntários

- Liderança eficaz

- Clareza na missão, visão, objetivos e políticas

- Respeito às necessidades individuais e diversidades

- Treinamento eficaz

- Condições adequadas para realização do trabalho

- Tratamento justo e igualitário

- Oportunidade e incentivo para o crescimento pessoal e profissional

- Reconhecimento e recompensa pelos serviços prestados.

Como abordagem de orientação Como processo político

6. Prestação de contas para a Comunidade

- Participação na vida comunitária

- Alto nível de comprometimento na prestação de serviço

- Padrões morais elevados

- Administração dos recursos da comunidade

- Impacto sobre a vida da comunidade a partir da prestação de serviço

Como abordagem de orientação Como processo político

7. Prestação de Contas institucional

- Atendimento aos princípios, valores, da instituição

- Zelo pela imagem da instituição junto à sociedade

- Atendimento aos planos e metas estabelecidos e programados

Como abordagem de orientação Como mecanismo legal formal

8. Auto-prestação de contas

- Ações éticas - Probidade - Compromisso

- Identificação e paixão pela causa

- Delegação de tarefas e descentralização da tomada de decisão

- formação de futuras lideranças

- equilíbrio entre trabalho e vida pessoal

Como abordagem de orientação

Figura 1 Tipos de Prestação de Contas e Relação de Accountability

(41)

Além da prestação de contas, ou atendimento de expectativas no sentido de dar respostas aos seus variados públicos, resgata-se também como parte desta relação de accountability o papel das organizações do terceiro setor como fiscalizadoras das ações e omissões do estado e do mercado, sua ação na elaboração, execução e fiscalização das políticas públicas, garantindo assim sua efetiva participação nos projetos de reconstrução e conquista das condições de cidadania para todos, assuntos que serão analisados na continuação desta pesquisa.

Na continuidade, e antes de abordar os temas acima mencionados far-se-á o estudo do que é o terceiro setor, assunto que passa a ser analisado na próxima seção.

2.2 Terceiro Setor: Contextualizando o tema.

Ao longo da história da humanidade se percebe a ação de pessoas, isoladas ou organizadas, voltadas para a ajuda, a resolução de problemas individuais ou coletivos. Vontades que se juntam para contribuir, defender, preservar, causas sociais, aspectos culturais, vidas humanas, o meio ambiente. Segundo Oliveira (2001, p.2):

O fato de pessoas que fazem parte de um mesmo grupo ou comunidade se juntarem para somar esforços e se ajudarem uns aos outros a enfrentar problemas comuns, não é por certo uma novidade. Desde tempos imemoriais, carinho, compaixão e ajuda mútua tem sido atributos específicos da raça humana.

Não fosse a ação voluntária e solidária não teríamos vencido crises, catástrofes, guerras e situações semelhantes que de alguma forma colocaram em risco a sobrevivência da raça humana.

(42)

que apontavam para a obrigatoriedade de acolher, dividir, atender aqueles que se encontravam em situação vulnerável e de risco (HUDSON,1999, SALAMON, 1998).

Desta forma, ao longo da história, e à medida que a sociedade passou por transformações e revoluções que em seu bojo trouxeram significativas alterações no modo de vida, seja econômico, social, ou cultural, as quais conseqüentemente geraram uma série de problemas e conflitos, esta, em contrapartida respondeu com iniciativas e ações que buscaram preservar e resgatar a dignidade da vida humana.

No entanto, das atitudes isoladas, ou de pequenos grupos, se observa no mundo contemporâneo um novo fenômeno: a participação cidadã. Trata-se da solidariedade que chegou à esfera pública numa escala global. É o que Melo Neto e Froes (2005), citando o Sociólogo alemão Claus Offe, designam como “a nova ordem social”, na qual se estabelece uma gigantesca reforma nas relações entre o cidadão e o governo. Dos interstícios da sociedade civil organizada surgem iniciativas onde predominam a ação comunitária, a abertura de novos canais de ação e reivindicação, e a emergência de uma verdadeira rede de solidariedade social.

Segundo Oliveira (2001, p.2) “este protagonismo dos cidadãos e de suas organizações tem como características a espontaneidade e a diversidade”.

A espontaneidade se caracteriza pelo fato que as iniciativas surgem do desejo voluntário, da participação popular, não advindo de um eixo controlador, de uma iniciativa única ou centralizadora.

(43)

2.2.1 A Expansão do Terceiro Setor nas últimas décadas

De acordo com Salamon (1998), o crescimento das atividades no terceiro setor nas últimas décadas deve-se a quatro crises e duas mudanças revolucionárias as quais convergiram para limitar o poder do estado e para abrir o caminho para o aumento das iniciativas voluntárias e organizadas.

A primeira crise é a do modero Welfare State, quando o estado sobrecarregado e burocratizado não suportou a demanda das amplas e diversificadas tarefas sociais que lhe foram designadas abrindo espaço para as iniciativas comunitárias e voluntárias, (SALAMON 1998; DRUCKER ,1997; OLIVEIRA, 2001; HUDSON 1999).

A crise do desenvolvimento nos anos 70 e 80, que resultou no acelerado empobrecimento da população nos paises da África, Ásia e América latina, configura o segundo impulso que contribuiu para o fortalecimento do terceiro setor. Segundo Salamom (1998) a realidade desanimadora que então se apresentava levou a um repensar dos requisitos do tão necessário e almejado progresso econômico. Como resultado, paralelo ao consenso dos limites do Estado, surge a consciência da necessidade e das vantagens do engajamento da sociedade na geração de serviços de interesse e abrangência pública.

A crise ambiental global, que em seu bojo trouxe a tona a fragilidade e o desgaste dos recursos naturais e os conseqüentes riscos à vida humana, configura o terceiro impulso, pois em defesa da preservação do meio ambiente, surgiram inúmeras iniciativas privadas que trouxeram em suas agendas ações e proposições que intencionavam reverter o quadro de desgaste e destruição que então se apresentava (SALAMON, 1998; OLIVEIRA, 2001).

(44)

Com a mudança de direção da atenção das agências européias, organizações da América latina e África tiveram que buscar novos apoios e redimensionar suas redes de relacionamento (COSTA JÙNIOR, 1997).

Salamom, identifica duas mudanças estruturais que também explicam o crescimento do terceiro setor. A primeira, a revolução nas comunicações ocorrida nos anos 70 e 80, que contribuiu para o rompimento de barreiras culturais, para a disseminação de idéias, “graças às tecnologias para trabalho em grupo, de transmissão de dados à distancia, etc, as organizações passaram a funcionar de maneira mais horizontalizada e articulando-se em rede” (COSTA JÚNIOR, 1997, p.11). A segunda mudança está no crescimento econômico ocorrido nos anos 60 e o inicio da década de 70 que resultou no fortalecimento de uma classe média urbana, cuja liderança foi essencial para a emergência de organizações comunitárias e sem fins lucrativos (SALAMON, 1998).

Na intenção de entender o porquê do crescimento do terceiro setor e de suas organizações, Carvalho (2000), recorre a três grandes eixos teóricos: Num primeiro conjunto de teorias as organizações surgem como um contraponto à ineficiência do estado, prestando serviços de forma eficiente principalmente a grupos sociais marginalizados ou em situações problemáticas. Um segundo conjunto de teorias evidencia as vantagens comparativas destas organizações que apresentam qualidade em seus empreendimentos não tendo como motivação o lucro. O terceiro eixo explicativo, segundo a autora, destaca as razões ideológicas, tais como a disseminação de valores, os quais se traduzem na missão, nos objetivos, e se manifestam na prática cotidiana destas organizações.

(45)

passam a conviver num mesmo espaço com outras iniciativas notadamente legítimas e comprometidas com as causas sociais.

A despeito do debate que possa haver em torno do surgimento e expansão do terceiro setor, o que não pode ser negado, é que se percebem no seio da sociedade inquietações, que tem gerado mobilizações que tem conduzido ao protagonismo de cidadãos, tanto na atuação direta quanto em questionamentos acerca das ações e ou omissões do mercado e do Estado.

Para Drucker (1997), Rifkin (1995), Fernandes (2001) o terceiro setor é a maior inovação social do século XXI, apresentando a solução dos problemas gerados pela omissão e recrudescimento do Estado, e pela atuação evasiva do mercado, que por sua vez gera demandas que não consegue satisfazer. “Socialmente o terceiro setor é o mais responsável dos três setores. É o plano da solicitude que atende as necessidades e aspirações de milhões de pessoas que de alguma forma foram excluídas ou não foram adequadamente atendidas pela esfera comercial ou pública.” (RIFKIN, 1995,p 66).

2.2.2 Perspectiva do Terceiro Setor no Brasil

O conhecimento do universo das organizações que compõe o terceiro setor no cenário brasileiro constitui um dado de grande relevância quando se empreende um estudo na área pois permite uma visão da abrangência do setor e o entendimento da importância do mesmo na sociedade brasileira.

(46)

Partindo dos dados do CEMPRE-IBGE – Cadastro Central de Empresas, cobrindo o período de 1996 a 2002, foram coletados os dados que resultaram neste estudo. No CEMPRE/IBGE, são cadastradas todas as organizações inscritas no CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica do Ministério da fazenda, e deste banco de dados foram selecionadas primeiramente todas as empresas identificadas como entidades sem fins lucrativos, divididas em 14 categorias.

Buscando a construção de estatísticas comparáveis internacionalmente, os pesquisadores optaram por adotar como referência para definição das FASFIL - Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos - a metodologia Handbook on Nonprofit Institutions in the Systen of National Accounts (Manual Sobre Instituições sem Fins Lucrativos no Sistema de Contas Nacionais), elaborado pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas em conjunto com a Universidade John Hopkins, em 2002. A partir deste referencial foram classificados como FASFIL as organizações que atenderam os seguintes critérios:

- Privadas em relação ao Estado; - Sem fins lucrativos;

- Institucionalizadas, legalmente constituídas; - Auto Administradas;

- Voluntárias – constituídas de forma espontânea.

Tendo como referência os critérios acima mencionados, o universo antes formado por 500.155 mil entidades sem fins lucrativos, após o recorte passou a ser integrado por 276 mil FASFIL – Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos, universo sobre o qual desenvolveu-se então o levantamento de dados, dos quais foram capturadas algumas informações que interessam neste momento da pesquisa, e que foram privilegiadas pela pesquisadora em detrimento de outras informações, dado o caráter sério e crível dos dados coletados.

DADOS DO TERCEIRO SETOR NO BRASIL

Numero absoluto de organizações pesquisadas e denominadas como

(47)

Tabela 1. Concentração de Organizações por Região Geográfica

Região N.° Absoluto de

organizações

N.° Relativo de organizações (%)

Total 275.895 100,00

Sudeste 121.175 43,92

Sul 63.562 23,04

Nordeste 61.295 22,22

Centro-Oeste 18.148 6,58

Norte 11.715 4,25

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Na análise da tabela 1 , percebe-se uma maior concentração das FASFIL na Região Sudeste, com 44%, havendo similaridade entre as regiões Nordeste e Sul, ambas abrigando um mesmo número de organizações, cerca de 60 mil, o que equivale a aproximadamente 23% das FASFIL em todo o Brasil. A maior concentração de organizações na região sudeste deve ser elencada ao fato que a região abriga 43% da população do país o que configura conseqüentemente uma concentração de problemas de ordem econômica, social, ambiental entre outros, fomentadores de iniciativas voltadas à busca de soluções e que são apoiadas pelo aporte político e econômico da região.

Tabela 2.Tempo de Funcionamento e Atuação das Organizações

Ano de Fundação N.° Absoluto de

organizações

N.° Relativo de organizações (%)

Total 275.895 100,00

Fundadas até 1970 10.998 3,99

De 1971 - 1980 32.858 11,91

De 1981 - 1990 61.970 22,46

De 1991 - 2000 139.187 50,45

De 2001 - 2002 30.882 11,19

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

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