UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS RITA DE CÁSSIA ANDRADE DE ALMEIDA O processo de implantação do Programa Município Verde na MRH de Paragominas: uma análise a partir de Dom Eliseu/PA

  São Luís-MA 2014

  RITA DE CÁSSIA ANDRADE DE ALMEIDA

O processo de implantação do Programa Município Verde na MRH de

Paragominas: uma análise a partir de Dom Eliseu/PA

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientador: Profº Dr. Marcelo Domingos Carneiro Sampaio

  São Luís-MA Almeida, Rita de Cássia Andrade

O processo de implantação do Programa Município Verde na

MRH de Paragominas: uma análise a partir de Dom Eliseu/PA / Rita

de Cássia Andrade Almeida.

  • – São Luís, MA, 2014. 119f Orientadora: Marcelo Domingos Carneiro Sampaio . Dissertação (Mestrado)
  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais.

  

1. Desmatamento. 2. Regulação ambiental 3. Sustentabilidade

ambiental. I. Título CDU 301:504.453

  

RITA DE CÁSSIA ANDRADE DE ALMEIDA

O processo de implantação do Programa Município Verde na MRH de

Paragominas: uma análise a partir de Dom Eliseu/PA

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais.

  Aprovada em ___/ ____/ ________ BANCA EXAMINADORA

  ___________________________________________________

  

Marcelo Domingos Sampaio Carneiro (Orientador)

  Doutor em Sociologia e Antropologia Universidade Federal do Maranhão

  ___________________________________________________

  

José Benevides Queiroz

  Doutor em Ciências Sociais Universidade Federal do Maranhão

  ___________________________________________________

  

Gamaliel da Silva Carreiro

  Doutor em Sociologia Universidade Federal do Maranhão

  AGRADECIMENTOS

  Manifesto minha gratidão a Deus, a quem busco a iluminação e o equilíbrio para não desanimar. Ao Professor e Orientador desse trabalho o Professor Dr. Marcelo D. C. Sampaio, pela confiança, orientações precisas e consistentes que me deram a segurança necessária para seguir nesta experiência acadêmica.

  Ao Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UFMA pela oportunidade de realizar essa importante etapa de estudo, com destaque para todo o corpo docente e funcionários, sobretudo àqueles com quem tive a oportunidade de conviver e compartilhar dos seus conhecimentos profissionais.

  Aos colegas de Mestrado em Ciências Sociais pelo encorajamento e a mútua ajuda para a superação dos desafios, em especial ao colega Waldecir e Maria Natividade que disponibilizaram tempo e paciência nos momentos de dúvida. Menciono ainda as colegas do Doutorado Lenir, Ana Carolina e Carla Suzi, pelas importantes dicas que me guiaram para uma melhor produtividade nos estudos.

  Agradeço ainda aos informantes, a todos que colaboraram direta e indiretamente na coleta de dados e a meu querido amigo Stênio Bezerra pelo incentivo e pelos preciosos contatos.

  E, por fim, não poderia deixar de registrar o precioso apoio dado pela minha família, esposo e filhas, que me deram conforto e tranquilidade para concretizar meu projeto, e, na mesma medida, registro o apoio dado pelos meus amigos, compadres e comadres: Alice, Edimilson, Kátia e Valter pelo alicerce em São Luís; e Abadiana e Hiula por se postarem à disposição de minha família em Dom Eliseu durante minhas ausências. E ainda, a todos os meus familiares: minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs.

  Dedico esse trabalho a meu pai querido que me deixou um pouco antes do início dessa experiência.

  RESUMO

  Essa dissertação analisa o processo de implantação da política pública estadual denominada “Programa Município Verde” na MRH de Paragominas a partir do município de Dom Eliseu/PA. O Programa foi formulado como uma alternativa às medidas de repressão utilizadas pelo governo federal para combater o desmatamento nos municípios críticos, estimulando a participação dos envolvidos no desmatamento em um processo de regularização ambiental de suas propriedades. O estudo discute o legado de políticas públicas na Amazônia, que foram centradas no fomento a atividades econômicas predatórias (pecuária extensiva e exploração madeireira), para destacar a estratégia estatal recente, que apresenta uma lógica contrária ao do período de colonização inicial. As ações prioritárias concentram esforços no combate ao desmatamento procurando inverter a lógica produtiva dos atores sociais, por meio de instrumentos regulatórios e medidas repressivas como a “Lista Suja do Desmatamento” e do incentivo à reestruturação das bases produtivas locais. Nesse sentido, destaca a atuação do Programa Estadual Município Verde, como uma política centrada no município, que se organiza em eixos estruturais que estimulam o controle do desmatamento, a gestão ambiental local compartilhada, o ordenamento territorial, ambiental e fundiário e o desenvolvimento de produção sustentável. O Programa dissemina os discursos de sustentabilidade ambiental e econômica como discurso oficial e como condição indiscutível aos proprietários de imóveis rurais que necessariamente devem ajustar-se à legislação ambiental sob pena de suspensão da atividade produtiva.

  

Palavras-chave: políticas públicas, desmatamento, regulação ambiental e territorial,

sustentabilidade ambiental e econômica.

  

ABSTRACT

  This these analyses the deployment process of the state public polity denominate “Program Green Town” in MRH of the Paragominas from of the municipality of Dom Eliseu, state of the Pará. This Program went formulate like an alternative to stately action of repression used to for federal government to combat the deflorestation in critic municipalities, incenting the action of the envolved actors in a process of environmental regularization of his ownership . The study argue the lead of public politic in Amazônia that were centered in furtherance to the destroyed economic activities (extensive peccary and wood exploration), to underline the recently stately strategy, showing an opposite logic to the period of early colonization. The priority actions focus efforts to combating the desflorestation looking to reverse the productive logic of the social actors, for way of regulatory tools and repressive actions like the “dirty list of the deflorestation” and of the incentive to rebuild of productive bases in local. In this toward, underline the actuation of the State Program Green Town, like a polity focused into municipality, that established in structural support that motivate the control of the deflorestation, the joined local environmental manager, the land environmental territorial order and development of sustainable production. The Program disseminate of the dissertation of economic environmental sustainability from official dissertation and incontestable to the owners of rural possess, that obligatory must attend the rules of law, otherwise, occurred the interruption of license to produce in possess.

  

Key words: public policies, deforestation, environmental and territorial regulatory,

environmental and economic sustainability.

  LISTA SIGLAS ADEPARÁ

  • – Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará APP
  • – Área de Preservação Permanente B>– Bolsa Verde do Rio de Janeiro CAR
  • – Cadastro Ambiental Rural CCIR - Certificados de Cadastro de Imóveis Rurais CER>– Programa Brasileiro de Certificação Florestal CICCIA-NACIONAL
  • – Comissão Interministerial de Combate aos Crimes e Infrações Ambientais>– Conselho Monetário Nacional CNMP
  • – Conselho Nacional do Ministério Público COADE - Cooperativa de Agronegócio de Dom Eliseu>– Centro de Pesquisa do Paricá CRA
  • – Cota de Reserva Legal DE>– Mapeamento da Degradação Florestal na Amazônia Brasileira DETER
  • – Desmatamento em Tempo Real EMATE
  • – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará

  EMBRAPA- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

  IBAMA

  • – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

  IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

  IDESP

  • – Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará

  IMAZON

  • – Instituto do Homem e Meio Ambiente na Amazônia

  INCRA

  • – Instituto Nacional de Reforma Agrária

  INPE

  • – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

  ITERPA- Instituto de Terras do Pará

  ITR- Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural

  IPAM

  • – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
MDF

  • – Medium Density Fiberboard (Fibra de Média Densidade) MMA
  • – Ministério do Meio Ambiente>– Ministério Público Federal MRH- Microrregião Homogênea OCDE - Organizações de Cooperação e Desenvolvimento Econômico ONGs
  • – Organizações não Governamentais>– Organização das Nações Unidas OSIP
  • – Organização da Sociedade de Interesse Público>– Plano Amazônia Sustentável PEMV
  • – Programa Estadual Municípios Verdes P>– Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental PNUD
  • – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PPCA
  • – Plano de Prevenção, Controle e Alternativas ao Desmatamento do Estado do Pará

  PPCDAm

  • – Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal PRAs
  • – Planos de Recuperação Ambiental PR>– Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélite PSA- Pagamento Pelos Serviços Ambientais REDD+ - Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação Florestal RL
  • – Reserva Legal RESEX- Reserva Extrativista>– Sistema de Alerta de Desmatamento SAGRI-PA
  • – Secretaria de Agricultura do Estado do Pará >– Secretaria de Meio Ambiente SEMAGRI
  • – Secretaria Municipal de Agricultura S>– Secretário Extraordinário do Estado para a Coordenação do Programa Municípios Verdes SIDRA- Sistema IBGE de Recuperação Automática SIGCAR
  • – Sistemas de Gestão do Cadastro Ambiental Rural SIMLAM- Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental
SUDAM

  • – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia Brasileira TAC
  • – Termo de Ajustamento de Conduta>– Termo de Cooperação Técnica TCU
  • – Tribunal de Contas da Uniã>– Terras Indígenas TNC
  • – The Nature Conservanc>– Unidade de Conservação ZEE
  • – Zoneamento Ecológico Econômico

  LISTA DE FIGURAS

  

Figura 1- Imagens da abertura da floresta, em 1959, para a construção da Rodovia

  Belém- Brasília. ..............................................................................................................27

  . Mapa da localização do município de Dom Eliseu - PA. ..............................31 Figura 2

Figura 3 - Mapa demonstrativo do IDHM dos estados brasileiros -2010..................... 60

Figura 4-Mapa dos municípios Prioritários Monitorados do Bioma Amazônia-2013. 74

Figura 5- Mapa com os municípios paraenses presentes n

  a lista “suja” do desmatamento, conforme Portarias MMA 28/2008 e 102/2009 ....................................89 LISTA DE TABELAS

  

Tabela 1- Volume de madeira em tora extraída, de madeira serrada pela indústria

  madeireira e área explorada da região de Paragominas (1979-1990). ........................... 41

  LISTA DE GRÁFICOS

  Gráfico 1

  • – Evolução do rebanho bovino de Dom Eliseu, entre 1990 e 2010............. 37

  

Gráfico 2- Desmatamento acumulado na Amazônia Legal Brasileira, entre 1992 e 2007

  (km²) chegando a 15%, com base nos dados do INPE (2008). ..................................... 71

  

Gráfico 3- Desmatamento na Amazônia Legal e a evolução do Produto Interno Bruto

  brasileiro no mesmo período. ...................................................................................... 82

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO .......................................................................................................... 15

  1. UMA TERRA PARA SER EXPLORADA: a superação da Amazônia- selvagem .......................................................................................................... 26

  1.1 A Política de Colonização da Amazônia: o começo da história ........................ 26

  1.2 Um início promissor... .................................................................................... 30

  1.3 A evolução das atividades econômicas na MRH de Paragominas .................... 35

  1.3.1 A Atividade Pecuária ................................................................. 36

  1.3.2 O Extrativismo vegetal: a atividade madeireira ......................... 39

  1.3.3 A Atividade de Reflorestamento ............................................... 44

  1.3.4 Principais atividades agrícolas municipal ................................ 48

  

2. POLÍTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS: PROCESSOS DE

CONSTRUđấO E ORDENAđấO DAS ATIVIDADES ANTRốPICAS ..51

  2.1. A Legislação Ambiental Brasileira: subsídio às Políticas Públicas de Proteção do ambiente ........................................................................................................ 52

  2.1.1. Lei 12.651/2012- O novo Código Florestal ................................................. 53

  2.2. Políticas Públicas Ambientais para Amazônia: combate e controle do desmatamento, regularização territorial e os incentivos às atividades produtivas sustentáveis. ...................................................................................................... 59

  2.2.1. Zoneamento Ecológico Econômico ............................................................ 63

  2.2.1.1.Macro Zoneamento Ecológico Econômico da Amazônia Legal- MacroZEE- AL ............................................................................................................... 64

  2.2.1.2. O Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Pará

  • –ZZE-PA .... 68

  2.2.2 Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal- PPCDAm ........................................................................................ 70

  2.2.3 O Plano de Prevenção Controle e Alternativas ao Desmatamento do Pará- PPCAD/PA................................................................................................. 84

  3 UMA TERRA PARA SER PRESERVADA: A emergência do Programa

  3.2 As operações de fiscalização na microrregião de Paragominas ...................... 90

  3.3 O ponto da virada: o caso de Paragominas ................................................... 93

  3.4 A criação do Programa Estadual Municípios Verdes .................................... 96

  3.5 A implantação do PEMV em Dom Eliseu-PA .............................................. 103

  

CONSIDERAđỏES FINAIS .................................................................................. 108

BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 114

  15

  INTRODUđấO No meado da primeira década deste milênio o uso intensivo dos recursos

  naturais começou a fazer parte das preocupações dos atores sociais do município de Dom Eliseu. Consciência ambiental até bem pouco tempo era um conceito distante das práticas produtivas e cotidianas das pessoas. O meio ambiente não era uma questão pública, o Estado era pouco presente, quase não intervinha sobre o uso dos recursos naturais, a baixa atuação dos órgãos de fiscalização estava longe de ser suficiente para inibir exploração predatória da floresta.

  O clima de permissividade atraiu uma legião de investidores de diferentes regiões do país que vieram para a região para instalarem seus negócios, estimulados pelo fácil acesso à terra, aos financiamentos e aos incentivos fiscais. Em decorrência dessa corrida expandiu-se a atividade pecuária, o extrativismo vegetal e bem depois, a agricultura comercial, essas atividades são destacadas como responsáveis pela devastação da floresta em escala alarmante. O fenômeno fez com que a Amazônia fosse destaque em debates sobre meio ambiente, dentro e fora do Brasil.

  Em decorrência desses debates o Estado formulou, dentre diversas políticas públicas ambientais, políticas específicas de combate e controle do desmatamento para a Região Amazônica com destaque para o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal- o PPCDAm que desencadeou uma série de medidas de intervenção do Estado produzindo um efeito devastador nas economias locais.

  Entre essas medidas está a publicação da chamada “lista suja do desmatamento” um marco da crise ambiental da região terminando vários prejuízos aos municípios. A primeira edição da lista expôs o nome de 43 municípios em todo o país, incluídos os municípios da microrregião de Paragominas, que são: o próprio município de Paragominas, Ulianópolis, Rondon do Pará e Dom Eliseu. Como parte dessa medida, o Estado, iniciou operações de fiscalização nos municípios críticos, autuando os empreendimentos irregulares. A sociedade local foi surpreendida com uma forte presença do Estado nunca vista antes, através de uma ação conjunta dos órgãos de fiscalização, da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança em uma mega várias propriedades, interdição de carvoarias e serraria, apreensão de maquinários e equipamentos, produtos agrícolas e algumas prisões, deixando um rastro de desolação nos municípios afetados. O embargo não foi somente para os proprietários infratores, abrangeu todo o município suspendendo a atividade produtiva no campo, cessando o crédito e comprometendo as relações comerciais. Essas penalidades travaram a economia municipal, desestabilizando a vida da comunidade local.

  Em resposta à crise ambiental o Programa Município Verde emerge, a princípio um Projeto- Paragominas Município Verde, construído no próprio município de Paragominas. O Programa é recebido por boa parte dos atores sociais afetados como uma política que abre caminhos à restituição da economia e à recuperação da capacidade de gerir a vida do município através do restabelecimento da funcionalidade produtiva. O Programa, no discurso de alguns atores locais, sobretudo dos gestores, foi auferido com otimismo, o standard de um novo tempo, sua inserção arrasta a pretensão de construir, nas localidades, uma nova cultura onde seja possível produzir e preservar, deixando para trás a cultura predatória da exploração desenfreada da floresta que marcou o processo de colonização.

  Diante essa breve contextualização o trabalho que ora apresentamos objetiva analisar a origem, fundamentos e estratégias do Programa Estadual Municípios Verdes na microrregião de Paragominas, destacando o processo de implantação no município de Dom Eliseu.

  O Programa foi implantado em três dos quatro municípios da microrregião que foram arrolados na lista dos municípios críticos do desmatamento: Paragominas, aonde o Programa se originou, Ulianópolis e Dom Eliseu. Apenas Rondon do Pará ainda não aderiu ao Programa.

  Concentramos as entrevistas com os atores do município de Dom Eliseu. Optamos por esse feito em razão de o município compor a microrregião de Paragominas, ter sido um dos primeiros a fazer a adesão ao Programa e apresentava no decorrer da pesquisa o mesmo status de Ulianópolis na escala de acompanhamento do processo pela Secretaria Estadual do Programa, a condição de município monitorado e sob acompanhamento.

  A partir da análise da origem no município de Paragominas e da implantação no município de Dom Eliseu procuramos identificar as diferentes reações (recusa, aceitação, conflito, cooperação) dos principais atores sociais atingidos pelo Programa, que são os produtores rurais (pequenos, médios e grandes) e os empresários do setor florestal. E ainda, identificar as principais motivações que justifiquem as adesões desses atores.

  Para compreender a dimensão social das adesões traremos à tona a reflexão do que significa ser um município verde, que benefícios sociais, além de econômicos, propriamente ditos, a implantação dessa política produz. Dessa maneira, na análise se procurou responder se a adesão dos atores se funda na consciência da finitude dos recursos ou na pressão dada pela aplicação dos dispositivos legais . Ainda nesse sentido, analisamos a força que um e outro tem no ajustamento da atividade produtiva. Essa análise é feita na perspectiva individual (opiniões particulares) e na perspectiva geral do município, refletindo na mobilização do coletivo para o acionamento de alternativas para sair do estado crítico e o peso que isso tem na adequação à circunstancias legais.

  Essa reflexão foi oportuna no caso de Dom Eliseu, mas, sobretudo em Paragominas, cuja experiência tem servido de referência para outros municípios. No decurso do trabalho esse conhecimento foi levado em consideração dando especial atenção à criação e implantação do Programa neste município, a condição de pioneiro na superação da crise ambiental na região e os esforços que o levou à conquista do título de “município verde” concedendo à Paragominas um status privilegiado na região. Considerando o papel deste município como referência para os demais, esta pesquisa indexa a experiência vivida por eles.

  Perguntamo-nos ainda sobre a dinâmica das relações imbricadas no processo de implantação e manutenção do Programa, sejam elas institucionais ou não, qual o valor destas na corroboração para a produção de formas alternativas diante do esgotamento de certa perspectiva.

  Cumprem-nos questionar, os interesses envolvidos, as disputas estabelecidas em volta do Programa Estadual dos Municípios Verdes. Quais os interesses em jogo? Estão de fato sendo implantadas estratégias para a emergência de uma nova economia? Na transcorrência do trabalho foi se evidenciando fatos e informações que nos permitiu discutir tais questões.

  Dessa maneira o trabalho desenvolvido prescreveu a fundamental tarefa de descrever as bases do Programa Estadual dos Municípios Verdes, considerando sua emergência precisamente a partir da experiência do Município de Paragominas, como dito a princípio, apenas um projeto local, até sua transformação em política pública estadual;

  Analisamos o processo de formação socioeconômica do município de Dom Eliseu, onde confirmamos o especial destaque ao papel desempenhado pela atividade pecuária e pela exploração madeireira no município, principais atividades do início da formação do lugar e a posterior inserção e fortalecimento do cultivo de grãos. Essa análise foi básica para podermos explicar como as ações do PEMV atingiram e ainda vêm atingindo os produtores rurais no município, bem como suas reações. Sem nos deixar envolver pelo entusiasmo dos atores protagonistas do Programa, não esquecemos de que como uma política pública, que se impõe diante de um dilema social e estrutural, é conveniente considerar seus alcances e suas limitações no contexto em que está instituído.

  A institucionalização da questão ambiental tem corroborado para a internalização do valor do ambiente como bem comum. Também tem favorecido a concepção de que a natureza é uma dimensão indissociada do homem. Em decorrência disso, nas últimas décadas, em diversos contextos, os atores tem se reunido em assembleia para discutirem questões ambientais locais e criarem mecanismos regulatórios.

  Em Dom Eliseu, as evidências demonstram que as implicações econômicas e os efeitos da desconsideração desse valor, levaram os atores da região a discutirem mudanças em sua base produtiva, pressionados pelos dispositivos legais. Contudo, vale discutir se esses fatores são capazes de alterar a consciência dos atores a ponto de internalizarem valores ambientais que possam ser a medida de orientação das atividades prescindindo da força do Estado.

  Isso nos orientou na reflexão dos interesses que estão em torno da conquista preceitos de sustentabilidade é o tema do momento e isso tem se constituído num campo de disputa, de poder e de prestígio por parte dos atores. A adoção dos discursos de sustentabilidade ambiental significa, em certa medida, fazer as pazes com as frentes de contestação e, simultaneamente assegurar a reprodução do processo produtivo. Cabe- nos, nesse trabalho, compreender se o PEMV promove um retorno à natureza e se assegura condições substanciais de sustentabilidade ambiental, econômica e social.

  O PEMV, como política pública que se propõe a produzir mudanças na base produtiva dos municípios, exige, sobremaneira, a análise da atuação do Estado e de suas estratégias. A instituição estatal ocupa papel fundamental, não apenas na tarefa de construir instrumentos regulatórios para a reestruturação da produção em base sustentáveis, mas também, no incentivo à criação de alternativas e na melhoria da gestão dos recursos naturais que assegurem as condições necessárias para superação da crise ambiental. Exposto isso, identificamos que o maior desafio das políticas públicas ambientais para Amazônia é elaborar e implantar políticas que respondam à necessidade de produzir e de preservar.

  As políticas do desenvolvimento sustentado se inscrevem nas vias de ajuste que a economia neoliberal aportaria à solução dos processos de degradação ambiental e ao uso racional dos recursos ambientais; ao mesmo tempo, responde à necessidade de legitimação da economia de mercado, que em seu movimento inercial resiste aos estampidos que lhe foi determinado pela sua inércia mecanicista.(LEFF, 2006, p. 144)

  Um programa que se manifesta para responder aos problemas ambientais e sociais implica em uma consistente articulação entre múltiplos atores, tanto com as instituições estatais quanto com as instituições não estatais envolvidas como a sociedade civil. No caso do PEMV essa articulação entre os diversos grupos e instituições é fortemente necessária, a despeito disso, compete-nos a análise das responsabilidades dos diferentes atores envolvidos no Programa.

  Considera-se ainda nessa articulação a legitimidade da política pública que alude a um reconhecimento dos atores envolvidos, civis ou institucionais, da estatal não está „a serviço‟ das necessidades ou exigências de qualquer grupo ou classe social, mas reage a problemas estruturais do aparelho estatal de dominação e de prestação de serviços”. (OFFE, p. 37).

  Nessa perspectiva a pesquisa foi ancorada nos estudos sobre as políticas públicas de proteção a vegetação nativa através do combate e controle do desmatamento ilegal, nas diretrizes e estratégias do zoneamento ecológico e econômico da Amazônia Legal e do Estado do Pará.

  Considerando que o Estado é o principal ator em relação a essas políticas atuando na elaboração e execução, pensamos na teoria do Estado de Claus Offe (1984) que explica as políticas sociais como instrumentos para gerir processos de inovação que visa a reestruturação da própria organização estatal. Para ele há uma contradição intrínseca ao capitalismo que é a base analítica do sistema para um desenvolvimento autodestrutivo que opera em três níveis por mecanismos auto-regulativos: i) organização das unidades produtoras para garantir a sobrevivência do capital particular; ii) desenvolvimento institucional da ciência e da tecnologia para garantir a sobrevivência do capital global iii) regulação das funções do poder político, indispensável para a estrutura global, política, econômica e social que determina o valor do capital.

  Através desses três mecanismos, Offe associa todas as inovações institucionais que intervêm no desenvolvimento do sistema capitalista, podendo ser interpretadas como reações defensivas aos problemas derivados da contradição fundamental do sistema. Os três mecanismos são passiveis de novas articulações e aperfeiçoamentos voltados para evitar o colapso da estrutura de base do capitalismo (OFFE, 1984). A teoria de Offe sobre um Estado no capitalismo recente sustenta que o Estado se desenvolve em respostas às crises periódicas que surgem na base da produção capitalista, estas crises dão origem ao desenvolvimento de mecanismos de adaptação, tanto internos ao mercado como através das funções ampliadas do Estado. Assim nos apresenta um Estado como mediador das crises capitalistas (CARNOY, 1988) Essa percepção teórica da ação Estatal nos parece pertinente na análise das políticas públicas para a Amazônia Legal no que tange ao controle do desmatamento.

  Observando esse entendimento, o combate ao desmatamento e a imposição de ambiente, mas por uma necessidade de ajustar o uso do território aos princípios de perservação como uma necessidade também interna da lógica produtiva do momento. Essa orientação implica na legitimação do Estado como ordenador da vida pública, como firmado nessa declaração de justificativa do MacroZEE da Amazônia Legal.

  O país está vigilante na reafirmação incondicional de sua soberania sobre a Amazônia e repudiará, pela prática de atos de desenvolvimento e de defesa, qualquer tentativa de tutela sobre as suas decisões a respeito da preservação, desenvolvimento e defesa da Amaônia. Da mesma forma, não permitirá que organizações ou indivíduos sirvam de instrumentos para interesses estrangeiros- políticos ou econômicos- que queiram enfraquecer a soberania brasileira. Quem cuida da Amazônia brasileira, a serviço da humanidade e de si mesmo, é o Brasil. (MMA p. 19, 2014).

  É mister a revisão dos estudos já publicados sobre o Programa Municípios Verdes para a explicação do fenômeno, assim recorremos a artigos, documentários, entrevistas, depoimentos produzidos sobre o Programa. Outro documento impreterível foi o que constitui o chamado Programa Município Verde, um guia de orientação para os atores locais e um documento que avalia os dois anos de implantação do programa.

  Esses documentos foram alicerces para a análise do objeto.

  Além disso, nos servirmos de fontes secundárias como banco de dados dos órgãos federais e estatais como Ministério do Meio Ambiente (MMA), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (ADEPARÁ), Secretaria Estadual de Agricultura, site do Programa Municípios Verdes, entre outros e arquivos e publicações

  

on line de Organizações não Governamentais como o Imazon. As entrevistas com os

  atores locais pactuados com o programa, bem como as entrevistas com os proprietários rurais foram imprescindíveis. As informações colhidas nas diversas fontes nos permitiu estabelecer a necessária comparação da experiência de Paragominas, precursor dessa política, com o processo de implantação deste em Dom Eliseu. Para isso utilizamos as publicações referentes ao Programa neste município como instrumento de análise, muitas destas publicações estão disponibilizadas na internet.

  Seguindo a orientação de Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999), argumentamos que é preciso submeter o conhecimento comum a uma crítica metódica para não recepcioná-lo como fato dado. Nestes termos, cumpre-nos como prudência problematizar os conceitos que estão consolidados nos discursos vigentes, tais como a noção de sustentabilidade, de desenvolvimento e de política pública, distanciando-se o quanto necessário do senso comum e das noções prévias que circundam o problema. Neste ponto reside um difícil desafio para o investigador, posto que o encantamento do discurso pode ser uma teia na qual o pesquisador pode se emaranhar.

  Não obstante, o afastamento do objeto não representa a negação do sujeito pesquisador, pois como afirma Louis Pinto (1996) o sociólogo faz parte do mundo social que pretende descrever e compreender, cabendo-lhe a incumbência de objetivar a própria experiência,

  “a objetivação sociológica possui uma dupla dimensão: a desconfiança em relação à experiência; e o fato de levar em consideração essa mesma experiência” (PINTO, 1996, p. 14). Nesse aspecto a descrição da problemática social, embora breve, permite-me justificar minha escolha pelo objeto de estudo que, mesmo considerando o fato de não ter empregado minha força de trabalho diretamente nas atividades extrativistas ou na agropecuária, assisti, como moradora de Dom Eliseu, às expectativas e entusiasmos de “lugar promissor” sucumbir à frustração e ao desânimo enquanto perspectiva de oportunidade. Vivi a experiência de ver o município alavancar e decair em torno das possibilidades econômicas e percebo como esse movimento interfere nas escolhas de vidas das pessoas, interferindo em suas práticas, em seus costumes e na concepção de vida.

  Desse modo, tomar o Programa Município Verde como objeto de estudo surge para mim não somente como uma oportunidade de produzir saberes, mas, também de compreender como uma política pública estratégica, proposta para responder ao problema socioambiental de um contexto, pode mobilizar mudanças na base produtiva dos atores econômicos e corroborar para a transformação de aspectos culturais. A dinâmica histórica do lugar confere um cíclico social onde crises são produzidas e em resposta a estas emergem a s “saídas” e esse movimento culmina na configuração do

  Portanto, analisar a implantação do Programa Estadual dos Municípios Verdes na microrregião de Paragominas numa perspectiva sociológica me pareceu relevante para a compreensão de processos sociais de muita importância para o debate sobre os rumos da questão ambiental na Amazônia contemporânea, bem como para os atores sociais presentes na realidade empírica investigada.

  No decurso da pesquisa esbarrei em dificuldades, como romper com a desconfiança de alguns atores, como os produtores de grãos e empresários do setor florestal, estes se apresentaram mais reservados. Entretanto, minha maior dificuldade foi pela própria escolha do objeto, distante da minha experiência profissional. Ao escolher estudar o PEMV sai da minha zona de conforto, fui garimpar em outras minas. Afastei- me do discurso do meu universo profissional que é a educação, acumulado durante vinte e dois anos. Em compensação me permitiu descobrir situações próximas a mim, mas que no cotidiano não enxergava, me permitiu desconstruir e construir conceitos e estabelecer novos links sociais importantes para a compreensão das percepções de mundo e das relações que se formam a partir destas.

  O afastamento da minha experiência profissional e pessoal exigiu um esforço maior para compreender a temática levando a um volume mais intenso de leitura para dar conta dos conceitos, da compreensão da dinâmica de atuação dos atores, da lógica de operação do Estado, da reação dos proprietários e dos impactos das diferentes políticas propostas para a região da década de 1960 até a atualidade.

  Os principais informantes foram os agentes do governo municipal, o prefeito, os secretários municipais de meio ambiente e agricultura, alguns funcionários envolvidos diretamente no Programa; representantes de instituições como o Sindicato dos Produtores Rurais (SPR), Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) e cooperativas; proprietários de terra, que arrendaram para o reflorestamento, que arrendaram para o cultivo de grãos, em especial a soja, produtores de soja, empresários do setor florestal, pecuarista e pequenos produtores. Esse contato possibilitou compreender a visão e o comportamento desses diferentes atores a respeito do Programa e, por conseguinte das demais políticas de combate e controle do desmatamento.

  O trabalho foi organizado em três capítulos, no primeiro resgatamos o processo de colonização da região e das políticas públicas que mobilizaram o povoamento da Amazônia materializado por grandes projetos estruturais interligando a região ao resto do país. A partir das obras, com a construção de BRs federais construídas em nome do desenvolvimento. Obras essas que permitiram que muitos investidores viessem para a região em busca de uma terra para explorar e produzir dando início a uma intensa experiência com uso do solo para a expansão das atividades pecuaristas, extrativistas e agrícolas caracterizadas por uma cultura predatória que se sustentou até a emergência da crise ambiental.

  No segundo capítulo, abordamos as políticas públicas ambientais e a função inerente ao Estado na formulação e execução de dispositivos legais para regular a ações antrópicas. Destacamos o novo Código Florestal, que estabelece e reafirma diretrizes gerais para a proteção da vegetação nativa, aprovado após um intenso debate entre economia e ambiente. Também discutimos o Zoneamento Ecológico e Econômico da Amazônia Legal e do Estado do Pará, um importante instrumento estratégico de orientação para o ordenamento do território e implementação das políticas públicas ambientais. Ambos os documentos estão pautados em duas diretrizes básicas: manutenção do potencial produtivo e manutenção dos serviços ecossistêmicos; Destacamos ainda o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal- o PPCDAm e o Plano de Prevenção, Controle e Alternativas ao Desmatamento do Estado do Pará- o PPCAD-PA, duas políticas importantes que operacionalizam um conjunto de medidas de combate e controle do desmatamento, regularização territorial e os incentivos às atividades produtivas sustentáveis.

  No terceiro e último capítulo tratamos da emergência do Programa Estadual Municípios Verdes na microrregião de Paragominas, sua origem no município polo do mesmo nome, considerado referência na microrregião e a implantação no município de Dom Eliseu. Nesse capítulo damos uma ênfase especial na publicação da lista suja do desmatamento dos municípios da microrregião, sobretudo Paragominas, e o que se desencadeou a partir dela. Abordamos a evidência da crise ambiental na região sublinhada em meio aos episódios descritos pela formação de um cerco sobre os municípios críticos do desmatamento provocando um colapso nas economias locais. representado pela reação dos atores que construíram estratégias de ajustamento das atividades econômicas às medidas estatais. O esforço para se reajustar à legislação resultou em projeto local próprio e em função das metas alcançadas em um espaço de tempo que superou as expectativas dos órgãos estatais levaram o estado do Pará a formalizar um projeto local em uma política pública de combate e controle do desmatamento. Dessa forma, o Programa Estadual Município Verde se apresenta com a pretensão de justapor-se a outras políticas dos governos estaduais e federais e construir uma nova base econômica para os municípios críticos do desmatamento.

1. UMA TERRA PARA SER EXPLORADA: a superação da Amazônia- selvagem

  1.1 A Política de Colonização da Amazônia: o começo da história...

  Um problema social é uma construção histórica e com frequência a história local acha-se vinculada à história política e social da sociedade regional e nacional. Considerando esse pressuposto entendemos como necessário recuperar os elementos históricos, políticos e sociais que explicam a contemporaneidade da situação a ser estudada, no caso em questão a análise da implantação do Programa Município Verde na microrregião de Paragominas levando em conta o processo no município de Dom Eliseu.

  A compreensão do Programa Município Verde como uma política do Estado que procura limitar o desmatamento, está estreitamente relacionada ao contexto socioeconômico de formação do sudeste paraense, como região maior que abarca Paragominas, Dom Eliseu e outros. Estes têm na construção da BR-010, a rodovia Belém-Brasília o seu principal marco.

  O início da construção dessa rodovia, no final da década de 1950, está relacionado com a atuação do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961), e o lançamento do “Plano de Metas”, uma política desenvolvimentista lançada com o propósito de alavancar a opinião pública a seu favor, fortalecer seu governo e dar celeridade a economia brasileira.

  O referido Plano era constituído de trinta meta-objetivos, que compunha investimentos em grandes obras. Dentre essas metas, a 31ª era a construção de Brasília, a nova capital da república no centro do país, com o fim de promover a integração nacional. As obras do Plano de Metas vieram acompanhadas de grande publicização com fins de conquistar apoio popular. O discurso governamental de então promovia a ideia de “integração nacional” e, assim, levar o desenvolvimento às populações que

  Como parte desse projeto nacional-desenvolvimentista estava a construção da rodovia Belém-Brasília, a princípio identificada como BR-14, também conhecida como

  1 Rodovia Transbrasiliana, e depois renomeada para BR-010 . A crença era de que a falta

  de comunicação entre as populações amazônicas com as demais regiões do país era a responsável pelo lento desenvolvimento da referida (ANDRADE, 2013). Em outras palavras o propósito político final era fazer da região um potencial de produção, integrando-a ao mercado nacional.

  Figura 1- Imagens da abertura da floresta, em 1959, para a construção da Belém- Brasília.

  Fonte: Sérgio Martins Pandolfo- 2013

  Essa perspectiva de desenvolvimento da região não fora inofensiva, embora refletindo os ânimos e o pensamento do período, resguardava a visão nutrida em relação aos nativos pelas demais regiões do país, que os concebiam como selvagens e atrasados. Tal percepção ganha sentido na explicação de estudos sobre as políticas e os processos

1 Em alguns trechos a rodovia foi nomeada de Bernardo Sayão, em homenagem ao engenheiro

  de colonização aplicados para a Amazônia Brasileira que registram um modelo de colonização perverso que violentou costumes e tradições. Em nome do processo modernizador se esmagaram as culturas das populações tradicionais, dando-se origem a um conjunto de processos violentos que marcariam a Amazônia nos anos 1960/1970 (PONTE, 2010).

  Essa maneira de conceber o espaço Amazônico, como um lugar a ser vencido, um lugar de atraso, um obstáculo ao desenvolvimento do país, configurou a forma predominante que tomou a relação homem-natureza. Foi essa perspectiva que orientou os colonizadores que migraram para a região em busca de uma terra para produzir, marcou também a relação homem-sociedade e imprimiu características peculiares na cultura das populações que se formariam a partir da construção dessa rodovia.

  Outra política que teve grande importância na formação do espaço regional, estruturando junto com a construção da Belém-Brasília o processo de ocupação da região, foi a política de incentivos fiscais, lançada a partir da chamada Operação

  2 Amazônia (1966). Essa política, estruturada pelo Decreto-Lei 1.376/1974 , foi

  desenvolvida com o objetivo de atrair investidores e incorporar a Amazônia à economia nacional. De acordo com um dos pioneiros da formação dos municípios da microrregião, que foi dono de serraria neste território

  : “A Sudam agenciava o incentivo fiscal, a maioria das serrarias tinham projeto com a Sudam e com o Banco da Amazônia e que fazia a isenção do imposto de renda, para desenvolver a região o governo fez isso, tinha uma placa na porta de toda serraria” (Entrevista com Divino Silva, realizada em 10/11/2013).

  Mobilizados por essas políticas e outras motivações que trataremos à frente, os colonizadores chegaram à região de modo desordenado, predominando uma colonização de características espontâneas. Muitos imigrantes se apossaram do território aleatoriamente, sem preocupação com a regularização da propriedade, conhecidos como “posseiros” ou mesmo fazendeiros que viu na ausência de políticas claras a possibilidade de aquisição de terras. Esse feito produziu o que nas décadas seguintes apareceria como sérios conflitos territoriais e, um pouco mais tarde, como o que se denominou de crise ambiental na Amazônia Brasileira.

  A região que estudamos neste trabalho é, portanto, um dos espaços povoados em virtude da abertura desta rodovia, onde se formou incialmente o município de Paragominas, colonizada nos anos de 1960, principalmente por goianos, mineiros,

  3 baianos e paulistas .

  A partir de então se intensificou o movimento migratório para essa região com destaque para a vinda de produtores rurais, a princípio pecuaristas do sul e sudeste do país, dando início a uma extensa experiência de uso dos recursos naturais como suporte de produção (ALMEIDA; UHL, 1998). Os migrantes instalaram seus empreendimentos e trouxeram consigo um modelo de colonização semelhante ao que preponderou em outros processos colonizadores (PONTE, 2010), similaridade percebida no trato etnocêntrico dispensado aos nativos e aos imigrantes nordestinos, vistos como atrasados e sem perspectiva empreendedora.

  Por outro lado, esses migrantes viam na natureza

  • – a floresta amazônica - uma inimiga, que precisava ser vencida. Nessa perspectiva, os “conquistadores” avançaram sobre a mata com uma velocidade espantosa, desmatando inicialmente as regiões mais próximas das estradas abertas e das áreas de povoamento. Eram vistos como quase heróis por desbravarem a selva para trazer o “desenvolvimento” e o “progresso” ação que ganhou força com a construção de estradas estratégicas (ANDRADE, 2010).

  Além da rodovia federal, outras estradas foram abertas para interligar uma região a outra dentro do próprio estado, como a Rodovia PA-70 (hoje BR-222), que ligou as regiões de colonização antiga ao sul e sudeste do Pará. A rodovia Belém- Brasília aumentou a capacidade de acesso a diferentes direções, assim outras rodovias se ramificaram a partir dela.

  O município em que se localiza nosso objeto de estudo assenta-se na região que foi colonizada tendo como referência o cruzamento dessas duas rodovias (Belém- Brasília e BR-222) e que compõe hoje a região que o IBGE classifica como

  4 microrregião de Paragominas .

  1.2 Um início promissor...

  O município de Dom Eliseu localiza-se numa área de fronteira Maranhão- Pará, sendo o primeiro município do sudeste paraense cortado pela BR 010 no sentido Brasília-Belém. O mesmo fica localizado no entroncamento de duas importantes rodovias (BR 010 e BR 222), a 450 km de Belém, a capital do estado. O município apresenta uma área de 5.253,2 km² e uma população de 51.319 habitantes, dos quais 63% estão na área urbana e 37%, na área rural (IDESP, 2013).

  Dom Eliseu foi desmembrado do município de Paragominas oficialmente em 1988, com o qual compartilha características semelhantes de sua colonização inicial e do desenvolvimento econômico posterior, assentado na exploração florestal, na atividade pecuária e agrícola.

  O município de Dom Eliseu faz fronteira à Leste e ao Sul com o estado do Maranhão, tendo ainda como vizinhos os municípios de Ulianopólis, Rondon do Pará e Goianésia (Figura 2). O principal povoamento do município, onde funcionam os serviços administrativos e a maior concentração populacional, a cidade de Dom Eliseu, surgiu ao redor do cruzamento das BRs acima citadas, o que permite atribuir ao município a função de um importante entroncamento rodoviário, um lugar de trânsito de mercadorias e de pessoas, permitindo uma forte dinâmica de crescimento.

4 O Estado do Pará está dividido em 22 microrregiões. A microrregião de Paragominas é composta por

  . Mapa da localização do município de Dom Eliseu - PA.

  Figura 2

FONTE: IMAZON/2013

  Conforme histórico descrito em fontes oficiais e produção monográfica (SANTOS, 2003; IDESP, 2013), até 1967 o município de Dom Eliseu era conhecido e denominado como “Quilômetro Zero” ou simplesmente “Zero” por estar no início da rodovia BR 222 (antiga PA-70) no território paraense, ligando a BR 010 (Belém- Brasília) à Marabá e demais municípios do Sul e Sudeste do Pará. Nesse momento, Dom Eliseu era somente uma vila, que, à medida que foi recebendo mais imigrantes recebeu a denominação de Felinto Müller sendo mais tarde, ao ser elevada à categoria de distrito, renomeada para Dom Eliseu, nome que recebeu em homenagem ao bispo da Diocese de Bragança, Dom Eliseu Corolli, que realizou importante trabalho evangelizador na região, em período predominado pelo catolicismo.

  Nesses primeiros momentos da ocupação do território, o extrativismo vegetal, caracterizado pela exploração da floresta nativa, era o chamado “ouro verde” para os migrantes que se acomodavam no local e em outros municípios da circunvizinhança. A “facilidade” de aquisição de terras férteis foi outro fator de atração, atraindo pessoas de várias regiões do país, com o objetivo de implantar seus negócios na localidade, incentivados tanto pelo investimento na atividade pecuária quanto pela atividade extrativista, predominantes naquela ocasião.

  Igual madeira na época que tinha madeira, nada dá não. Na época do valor da madeira, porque a aquisição dela era de graça. Comprei mata aí por mixaria e serrava o ano inteiro. Nós temos uma área aí é tudo chapada tá tudo coberta de floresta. Meu irmão fez até um projeto de manejo, nós tiramos a madeira melhor antigamente né? Meu irmão fez até um projeto de manejo nessa área, na época fui comprar do cara eu fui lá namorei uns 15 dias andando, conhecendo, cada pau que fazia... a coisa mais linda. Madeireiro você sabe, quando entra numa mata que ver pau o entusiasmo aumenta... altura!, essa área na época, o cara disse assim “eu te vendo por X e tudo com a terra e tudo eu te vendo por X + Y mas é uma coisa, um valor irrisório eu comprei com tudo. (Entrevista com Edgar Bonatto, realizada em 24/08/2013).

  Os incentivos governamentais estimularam o deslocamento para a região visando o estabelecimento da atividade pecuária, que foi o motivo inicial da maior parte dos deslocamentos para a região, então, os migrantes focavam-se na derrubada da mata, na queima com o propósito de limpar a propriedade e formar pastos. O despertar para a extração da madeira ocorreu um pouco depois.

  Pesquisa realizada por Veríssimo & Barros (2002), com o objetivo de apresentar um mapeamento qualitativo das atividades econômicas da região de Paragominas, revelou que somente 3% dos proprietários das indústrias madeireiras eram da Amazônia, metade dos empresários da área eram do Espírito Santo que transferiram suas indústrias para esta região, em função do declínio do setor na região sudeste nas Nordeste brasileiro. Os mineiros também representam um número relevante dentre os que se dedicaram a atividade pecuária. Foram essas duas atividades, as principais responsáveis pela movimentação econômica do município, inclusive a capacidade produtiva vigorosa do lugar teria sido o fator preponderante na luta pela emancipação política da localidade, que, como já foi adiantado, era apenas um distrito do município de Paragominas.

  Sirvo-me desse apanhado histórico para mostrar o potencial atrativo desempenhado por essas duas atividades econômicas na região, durante as três últimas décadas do século XX e primeiros anos do século XXI, (VERÍSSIMO & BARROS, 2002), funcionando com um importante atrativo para a implantação de pecuaristas e empresários da indústria madeireira, bem como para os trabalhadores que vinham vender sua força de trabalho para esses setores.

  Não há como compreender a trajetória social e econômica de Dom Eliseu sem analisarmos a trajetória do município de Paragominas, considerando não apenas a condição de ter sido desmembrado desse município, como também o fato deste representar um polo de referência na região, servindo de parâmetro para o desenvolvimento de políticas públicas regionais, como foi o caso do Programa Municípios Verdes. Essa importância regional de Paragominas é amplamente reconhecida, como atesta uma liderança política de Dom Eliseu:

  Paragominas como foi o iniciante teve um marketing maior, tem uma comunidade hoje mais consolidada... Era um município precário também que vivia das atividades do extrativismo [os atores] foram se conscientizando, mas essa conscientização é maior em função da cultura de seu povo, por ter passado por várias situações até piores, mais antigas que as nossas. Nós somos filhos de Paragominas, mas com andamento [avanço] de Paragominas aqueles que tiveram a humildade de acompanhar, de procurar e inteirar pode também sair [da lista suja] com mais rapidez...(Joaquim Nogueira Neto, Prefeito de Dom Eliseu, Entrevista Realizada em 29/10/2013 ).

  A relação dos primeiros migrantes com Dom Eliseu, no início, apresentou características fortemente predatórias, como prova o fato que alguns desses empresários trouxeram suas famílias. Nesse sentido, podemos dizer que Dom Eliseu representava apenas um lugar de ganhar dinheiro, com pouco ou nenhuma infraestrutura de equipamentos urbanos (escola, hospital, parques, etc.), pois, como relatou o Senhor

  5 .

  Divino Silva “quando cheguei aqui não tinha nada” Para dar um exemplo desse tipo de situação, encontrada até em meados dos anos noventa, a maior parte dos domicílios que predominavam na sede urbana do município eram feitos de madeira, isso indicava que não havia uma preocupação com a durabilidade do imóvel e com a perspectiva de que seus habitantes ficassem de forma mais permanente no município. Ou seja, existiu em Dom Eliseu, uma elevada população

  6

  flutuante , que acompanhou as oscilações da economia municipal, principalmente os ciclos de expansão da atividade madeireira e pecuária.

  Entretanto, conforme atestam os dados de nossa pesquisa, constatamos que nos últimos cinco anos essa relação com o lugar vem se transformando. Segundo os depoimentos recolhidos, observamos que o morador “flutuante” era característica dos empresários e trabalhadores da indústria madeireira, que vieram para trabalhar em Dom Eliseu acompanhando o deslocamento da frente madeireira. Entretanto, alguns destes se estabilizaram no lugar inserindo-se a outra atividade produtiva, como comércio, pecuária, agricultura ou reflorestamento.

  Eu acho que os produtores que vieram pra cá [ MRH ]eles estão todos no intuito de ficar aqui assim... às vezes tu acha que eles vem...[e vão embora] vieram pra ficar mesmo, não foi igual o madeireiro, o madeireiro estiveram aqui, extraíram a madeira e foram embora, a maioria foi embora. O produtor rural, o cara que planta grãos, que trabalha na agricultura é diferente, eles vieram pra ficar mesmo, até os que chegaram arrendando já adquiriram propriedade. O cara compra propriedade não dá pra se desfazer assim tão rápido né? (...) os donos de serraria eram assim, vieram pra cá, exploraram a madeira, ganharam dinheiro, aplicaram não sei a onde, a grande maioria foi embora, alguns ficaram, mudaram de ramo, não investiram no município.

  5 Divino Silva, ex-madeireiro, goiano, na região desde 1973, entrevista concedida em 05/05/2012.

  6 Embora não tenha acessado dados específicos é possível fazer essa análise pela intensidade de

  (Entrevista com José Antonio, Presidente do SPR

  • – Dom Eliseu, realizada em 23/08/2013).

  Na perspectiva desses atores, que passado os ciclos da atividade madeireira e pecuária conseguiram se estabelecer em Dom Eliseu, o município é um local de potencialidades e que pode permitir o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis, pelo menos do ponto de vista de sua reprodução econômica, como destaca um produtor que chegou à região no inicio dos anos 1980.

  ... a grande vantagem daqui do nosso município, eu vou te falar agora... o nosso município dá de ser exemplo pro Brasil e pro mundo inteiro. No nosso município tudo que se quiser produzir aqui dentro se produz, tudo, tudo, lavoura, pecuária, reflorestamento, aqui pra mim é um dos melhores lugares que tem do Brasil, porque lá na outra região nossa [próxima à cidade de Belém], lá é mais região de pecuária, é excelente, mas é região mais de pecuária, entendeu? Aqui tem essa vantagem você pode fazer essa rotação de cultura e manter o solo sempre com a fertilidade (...) então a região é uma região muito vantajosa nesse aspecto, tudo que você quiser produzir... (Entrevista com Humberto Prata, realizada em 15/11/2013)

  Ou seja, hoje podemos encontrar atores sociais que têm uma perspectiva

positiva do lugar, mesmo que queixosos da pressão ambiental reconhecem a

importância das medidas legais para controlar as atividades humanas.

1.3 A evolução das atividades econômicas na MRH de Paragominas .

  Como argumentamos antes, as primeiras experiências com o uso da terra (exploração madeireira, pecuária e agricultura) na MRH de Paragominas ocorreram a partir da abertura da BR 010, na década de 1960 (VERÍSSIMO & BARROS, 2002).

  Essas atividades foram se instalando na região, provocando diferentes tipos de impactos econômicos, sociais e ambientais. Antes desse período, contudo, registra-se o uso do solo com a atividade agrícola de corte e queima praticada por agricultores familiares em

  Os pecuaristas vieram com a abertura da Belém-Brasília na década de 1960, eles abriram grandes áreas de floresta para a criação de gado para corte. A atividade madeireira se instalou nos anos de 1970 e, gradativamente, foi se tornando um setor potencialmente produtivo, muitas serrarias se instalaram na região num ritmo muito veloz, atraindo centenas de empresários do ramo madeireiro e trabalhadores que vieram empregar sua mão de obra desde a extração da madeira na floresta à serragem nos pátios das serrarias. Entre pecuaristas e empresários da madeira se estabeleceu uma relação de reciprocidade, os madeireiros extraiam a madeira das áreas de floresta densa, das quais muitas eram de propriedade dos pecuaristas que abriam campos para a implantação de pastagens. (ALMEIDA & UHL, 1998).

  Contudo, o progressivo distanciamento das áreas florestais enfraqueceu a indústria madeireira, enquanto o uso extensivo do solo fragilizou a atividade pecuária, indicando um período de declínio para a economia da MRH de Paragominas. Será nesse contexto que, na primeira década do século XXI, surgirão duas novas atividades econômicas na região, a produção mecanizada de grãos (soja e milho) e o reflorestamento para fins industriais com Paricá e Eucalipto. Estendemos um pouco mais a reflexão sobre cada uma dessas atividades.

1.3.1 A Atividade Pecuária

  Entre os anos de 1990 a 2005 registrou-se um forte aumento da produção de bovinos no Brasil, fazendo do país o maior exportador mundial do setor. Grande parte desse aumento ocorreu na Amazônia, que, através do desmatamento de novas áreas, passou de 18% a 36% do total nacional. Além da abertura de novos pastos soma-se a essa compreensão o aumento da produtividade motivada pela alta nos preços de produtos agrícolas, os investimentos em tecnologias, o controle da febre aftosa e os subsídios públicos. O Pará merece destaque no mapeamento do crescimento da produção bovina considerando que somado ao estado do Mato Grosso equivale a 60% do rebanho total da Amazônia, (BARRETO; PEREIRA; ARIMA, 2008).

  A região de Paragominas, nos anos de 1983 a 1992, se manteve como o Contudo, a partir da segunda metade dos anos 1990, perdeu posições, ficando na sexta colocação em termos do rebanho bovino estadual em 2007 (PINTO et al, 2009). Atualmente, o município de São Félix do Xingu detém o maior rebanho paraense, vindo em seguida Altamira, Cumaru do Norte e Novo Progresso. Para a última classificação que dispomos de informações, válida para o ano de 2011, o município de Paragominas caiu para a 14ª posição, enquanto Dom Eliseu, que, em 2000 ocupava a 42ª posição, ocupa agora a 49ª posição, segundo dados da SAGRI-PA.

  Como mostraram Carneiro & Assis (2013, p.71), o rebanho bovino da MRH de Paragominas diminuiu fortemente a partir do final dos anos 1990, indicando a insustentabilidade econômica e ambiental da pecuária extensiva na região. No gráfico abaixo, mostramos a evolução do rebanho bovino para o município de Dom Eliseu. Como pode ser visto, no caso desse município, há um primeiro declínio no início dos anos 1990, seguido de uma recuperação na segunda metade da década de 1990. Depois, a partir de 2005, a tendência é novamente de forte diminuição do rebanho bovino.

  Gráfico 1 160000 – Evolução do rebanho bovino de Dom Eliseu, entre 1990 e 2010. 120000 140000 100000 80000 40000 60000 20000 9 9 1 9 1 1 9 2 9 1 9 9 3 1 9 4 1 9 9 1 9 5 9 9 1 6 9 1 9 9 7 9 1 8 9

9

9

9

1

2 1 2 2 2 2 3 2 4 5 2 2 6 7 2 8 2 2 9 2 1

  A primeira fase de redução do rebanho bovino em Dom Eliseu, que, conforme observado no gráfico acima, ocorreu a partir do início da década de 1990, pode ser explicada a partir da análise feita por pesquisa realizada pelo IMAZON (ALMEIDA; UHL, 1998). Como mostram os pesquisadores desse Instituto, na região de Paragominas houve pouca preocupação com o uso correto do solo para a atividade pecuária, pois, os proprietários não realizaram os investimentos necessários para a recuperação das áreas degradadas, fato que incentivou o aumento do deflorestamento para instalação de novos pastos e reduziu a capacidade de suporte do rebanho bovino na região.

  A segunda queda da produção bovina observada no gráfico, a partir do ano 2007, se explica por outro motivo, que foi a implantação do Projeto Vale Florestar no município, arrendando várias fazendas para o plantio de eucalipto, provocando a redução das áreas de pastos, que cederam lugar para o reflorestamento com Eucalipto. Segundo os produtores entrevistados, os custos com a criação bovina estavam muito elevados e a margem de lucro baixa, de forma que o arrendamento para o plantio de eucalipto se mostrou bastante vantajoso. Contudo, para o caso dos produtores que possuíam terra suficiente para realizar o arrendamento e continuar na atividade pecuária, os recursos obtidos no arrendamento serviram para a melhoria na qualidade do rebanho, como mostra o depoimento a seguir.

  O que me anima com a pecuária é porque quem ficou tá criando melhor, o pessoal aqui já tá gostando de fazer confinamento, semi-confinamento, integração lavoura pecuária, já estão adubando as pastagens, então isso é bom, porque aquele pecuarista tradicional, aquele pecuarista vai sair de cena, logo, logo, porque não fica mais, não tem como o cara ficar, 20 anos numa propriedade, numa pastagem sem colocar adubo sem fazer manutenção isso ai acabou. (Entrevista com Zé Antonio, Presidente do SPR-Dom Eliseu, realizada em 23/08/2013).

  1.3.2 Extrativismo vegetal: a atividade madeireira

  Antes da década de 1970 não se notava grande interesse na extração e no processamento de madeira, os primeiros colonizadores derrubavam a mata com o objetivo de formar pastos sem o aproveitamento regular das árvores derrubadas. Essa era a condição principal para obtenção de financiamento e posse da terra, era um dos princípios da política de desenvolvimento da região, como destacado por um entrevistado.

  ...o governo, o Banco da Amazônia só liberava dinheiro se desmatasse para mais pasto, então grande parte dessas florestas daqui da região, de Paragominas, essa região toda aqui, ela não foi serrada, ela foi queimada, ela foi queimada porque o seguinte, eu chegava aqui com o intuito... como por exemplo, a fazenda Ligação ali e muitas outras ai...eles vieram com intuito de arranjar dinheiro... o quê que tinha que fazer, meter o motosserra, queimar e formar pasto, era o que o governo queria...então muitos chegaram, poucos vieram pra montar madeireira, a madeireira veio quase depois disso aí. Essa parte aí de destruição da floresta foi muito antes da atividade madeireira. (Entrevista com Divino Silva, ex-madeireiro, realizada em 20/11/2013)

  A partir da década de 1970 a atividade de extração da madeira nativa ganhou força na região, tornando-se o principal negócio local. Nessa época, o comércio de madeira visava apenas às espécies de alto valor comercial, tais como a maçaranduba, angelim, freijó, ipê dentre outras, contudo, o número de serrarias instalado na região ainda era pequeno. Foi na década de 1980 que o processo de implantação de serrarias se intensificou impulsionado pelo deslocamento de empreendimentos do setor oriundos principalmente do Sudeste do país, com destaque para o Estado do Espírito Santo, em função da redução dos estoques de suprimentos madeireiros neste estado (ALMEIDA & UHL, 1998).

  A partir de então o mercado da madeira passou a alimentar empreendimentos industriais instalados na microrregião, que faziam o processamento das toras e

  transformando-os em um local de atração de milhares de trabalhadores. Contudo, é necessário destacar que a qualidade do emprego gerado era bastante precária, os vínculos das empresas com os operários eram instáveis, às vezes, no acerto da prestação de serviço, que era quinzenalmente, o operário não retornava, e quando retornava não tinham o compromisso de retornar necessariamente para a mesma firma.

  ...tinha muita falta de peão pra trabalhar, não tinha mão de obra, você buscava mão de obra em Paragominas, que [também] já não tinha por causa da quantidade de serraria que já tava tendo e aí buscava [mão de obra] em Açailândia, João Lisboa, nós mesmos tínhamos muito funcionário de João Lisboa. Então o que acontecia? Os pagamentos era quinzenal, quando chegava o dia do pagamento que eles recebiam, sumiam, na época era só homem, não tinha mulher, não tinha nada e outra coisa, vinha peão do Nordeste e de tudo quanto é de lugar, (...), a gente precisava da mão de obra não queria saber quem era ele não. (Entrevista com Divino Silva, ex-madeireiro, realizada em 20/11/2013).

  O vigor produtivo mobilizou também empregos indiretos como estivadores, trabalhadores contratados para carregar os caminhões e motoristas que transportavam a madeira da “mata” para as serrarias e das serrarias para as outras regiões do país, entre outros que aqueciam o mercado local. Pesquisa do IMAZON (VERÍSSIMO et al, apud ALMEIDA & UHL, 1998), realizada nos anos de 1990, mostrou que a região de Paragominas

  7 era responsável por 15% da produção madeireira na Amazônia.

  7

  Tabela 1 - Evolução da indústria madeireira da região de Paragominas (1970-1990).

  Nº de Vol. em tora Vol. serrado Área Ano indústrias extraída m³ produzida m³ explorada h/a funcionando

  1970 2 18.300 8.600 482 1971 2 18.300 8.600 482 1972 2 18.300 8.600 482 1973 5 45.750 21.500 1.204 1974 9 82.350 38.700 2.167 1975 12 109.800 51.600 2.889 1976 12 109.800 51.600 2.889 1977 21 192.100 90.300 5.055 1978 32 292.750 137.600 7.704 1979 47 428.495 202.100 11.276 1980 67 599.184 283.800 15.768 1981 82 751.917 356.900 19.787 1982 98 903.940 430.000 23.788 1983 110 1.087.120 516.00 28.608 1984 136 1.355.910 45.000 35.682 1985 154 1.663.176 791.200 43.768 1986 189 1.992.900 946.000 52.445 1987 215 2.259.390 1.075.000 59.458 1988 225 2.398.905 1.140.500 63.129 1989 234 2.578.120 1.204.000 67.845 1990 238 2.578.120 1.204.000 67.845 TOTAL 19.484.627 9.233.500 512.753 8 Fonte: IMAZON (VERISSIMO & BARROS, 2002)

  Como mostra a tabela acima, a década de 1980 pode ser considerada como o período do apogeu da indústria madeireira na região de Paragominas. Após esse período, a atividade madeireira declinou na região, como o deslocamento das serrarias para outras regiões do estado do Pará, onde os recursos florestais ainda eram abundantes e o desmatamento ainda não tinha atingido níveis elevados, ao contrário do que se observava em Dom Eliseu e municípios próximos.

  O desmatamento ocorreu de forma acelerada com o incentivo dos governos da época. Desflorestar era condição para a posse e titulação da terra favorecendo uma

8 Dados extraídos da publicação: A Expansão madeireira na Amazônia: Impactos e perspectiva para o

  relação perfeita entre madeireiros e pecuaristas, derrubar a floresta era visto como uma prestação de serviço público, uma prática abençoada pelo Estado, como destaca um entrevistado.

  ...o governo foi o maior culpado de tudo isso aí... porque o banco soltava dinheiro demais... então a corrida pra cá antes da madeira foi isso aí. A grande culpa disso aí tá tudo... Disso aí [floresta nativa] as serrarias não serrou 40% das madeira da mata em pé, antes disso aí entendeu, que já tinha essa destruição” (Entrevista com Divino Silva, ex-madeireiro, realizada em 20/11/2013)

  A princípio, como abordamos, o alvo dos motosserras foram as árvores frondosas de alto valor comercial, com a posterior escassez destas, o foco se deslocou para as árvores menores, visando a produção de carvão vegetal para as siderúrgicas localizadas no município de Açailândia/MA e também para as siderúrgicas de Marabá/PA, embora em menor quantidade.

  A abundância dos recursos, a fiscalização insuficiente e a ausência de dispositivos regulatórios acelerou o processo de colapso da atividade extrativista de madeira nativa, como foi destacado por pesquisadores do IMAZON: “prevíamos o declínio econômico no futuro próximo, em virtude da natureza não-sustentável das práticas atuais” (ALMEIDA; UHL, 1998, p.10) e por agentes econômicos envolvidos nessa atividade: “...a gente preocupou só em cortar e serrar, entendeu? agente achava que as matas não ia acabar nunca e aí depois começou a chegar gente, chegar gente, o con sumo de madeira foi aumentando...” (Entrevista com Divino Silva, ex-madeireiro, realizada em 20/11/2013).

  Com a intensificação das denúncias sobre a ampliação das áreas desmatadas na região, aumentou a pressão para a adoção de medidas de combate ao desmatamento, provocando, dessa forma, o desenvolvimento de uma intervenção estatal mais qualificada, como foi o caso da Lista Suja do Desmatamento.

  As medidas tomadas levaram os municípios da região a sentir a presença mais forte do Estado, através de ações no sentido de inibir o desmatamento ilegal, com

  região produzindo desempregos e situação de tensão social em função do fechamento de muitas serrarias e da interdição de fornos de produção de carvão vegetal, considerando que a indústria madeireira (serrarias e carvoeiras) empregava grande parte da mão de obra local.

  Essa crise do setor madeireiro produziu a fuga de alguns empreendimentos para outras regiões do estado, caso do município de Tailândia, localizado no nordeste paraense. Houve também migração para outros estados do norte onde acreditavam que a atividade extrativista de floresta nativa ainda apresentava reservas. No entanto, sem demora, os migrantes constatam que o dilema da escassez e as ações de combate e controle não são exclusividade dos municípios da microrregião de Paragominas.

  No ramo da madeira mesmo hoje, ficou muito pouco, se tiver 10% é muito, 10, 15% que tão persistindo ainda entendeu? O resto ficou por aí, mas estão mexendo com gado, agricultura, esses trem aí entendeu?, Muitos foram embora, mudou pra outra região, grande parte foi pra outras regiões, muita gente, ali de Ulianópolis foi muito, de Paragominas, foi muito pra região de Macapá, de Manaus, entendeu? Outros foram pra aí pros lados da Transamazônica, Uruará, Novo Repartimento, Quatro Bocas, foi descendo aí, onde tem madeira, onde tem mata, eles tão... ainda continua mudando de lugar, igual cigano. (Entrevista com Divino Silva, ex-madeireiro, realizada em 20/11/2013).

  A corrida para obtenção de terras e liberação de crédito vinculada à derrubada da floresta e a expansão da indústria madeireira criou a cultura do desmatamento, fato agravado pela valoração da floresta como riqueza. Hoje a política pública para a região define um movimento contrário que busca combinar o desenvolvimento econômico com a preservação da floresta. Nessa perspectiva os empreendedores do município que não migraram de lugar nem de atividade iniciaram experiências com o plantio de espécies que pudessem compor uma base florestal e abastecer a atividade extrativista.

1.3.3 A Atividade de Reflorestamento

  No início do século XXI a preocupação com a sobrevivência da atividade madeireira na região de Paragominas e no município de Dom Eliseu passou a ser levada mais a sério, dando início a experiências com plantio e espécies nativas, onde se

  9

  destacou o experimento com o Paricá. Posteriormente, em 2007, a empresa Vale começou a implantar na região o Projeto Vale Florestar, promovendo o desenvolvimento do reflorestamento com o plantio de espécies de eucalipto.

i) Experiência do reflorestamento com Paricá

  Na década de noventa a incerteza da atividade econômica tendo como base a madeira nativa tomou conta dos empresários do setor madeireiro da região, que, como dissemos antes, alguns se deslocaram para outras atividades econômicas, enquanto outros migraram para outras regiões atrás de floresta abundante. Entretanto, uma pequena minoria permaneceu no município e investiu no experimento da atividade de produção de madeira a partir do reflorestamento, trabalhando com uma espécie de crescimento mais rápido, o Paricá (Shizolobium amazonicum).

  A pesquisa de reflorestamento com Paricá foi parte de uma experiência pioneira, iniciada em 1993, pelo grupo Arboris e pelo grupo Concrem, ambos sediados no município de Dom Eliseu. Dentre as vantagens identificadas para o reflorestamento com o Paricá destacam-se: a abundância de sementes, excelente germinação, rápido crescimento, secagem fácil, uniformidade no produto, sem nós e cor clara que faz dessa árvore comercialmente interessante.

  Além das vantagens acima indicadas, o Paricá se apresentou com um produto que poderia reduzir a pressão sobre a floresta e assegurar a manutenção da atividade econômica no setor madeireiro, pois, pode ser usado na fabricação de placas de MDF e de lâminas de compensado.

  Em 2003 começou a produção de Paricá em escala comercial, de forma que em 2004 os grupos Arboris e Concrem fundaram o Centro de Pesquisa do Paricá

  • – CPP, com o fim de promover pesquisas para realizar o melhoramento genético e aumentar a produtividade.

  Embora as condições evidenciem a capacidade próspera do Paricá e a comprovação de que a produtividade por hectare se apresente superior ao eucalipto, tanto no estado primitivo quanto no cultivo acompanhado, as pesquisas ainda são incipientes no setor, insuficientes para a consolidação do produto. Segundo o empresário Marco Antonio Siviero, ainda não há o devido reconhecimento do valor do Paricá e nem dos esforços privados realizados para a consolidação dessa cultura por parte do Estado, falta apoio político, incentivos e investimento para o cultivo da planta, como revela nesse relato:

  “você vai lá o gerente diz que tem, pegue a lista, o valor que ele emprestou do ano passado, pergunta quanto emprestou para reflorestamento em 2013, perguntem, é dinheiro que nem Papai Noel todo mundo sabe que existe, mas ninguém vê” (Entrevista com Marco Antonio Siviero, empresário, realizada em 08/01/2014).

  Em função disso, as expectativas iniciais de reflorestamento com o Paricá declinaram, com a redução no plantio dessa espécie florestal. Esses fatores tem produzido o desânimo dos produtores maiores, que estão optando pelo plantio do eucalipto, por esta cultura já apresentar um mercado mais consolidado.

  Ainda segundo o depoimento do empresário Marco A. Siviero, o Paricá plantado será processado no próprio município gerando mais trabalho e renda na região, além de apresentar rentabilidade superior a do eucalipto. Segundo esse produtor, o metro cúbico do Paricá tem um preço três vezes maior que o do eucalipto, quando processado na região e apresenta um rendimento por hectare dez vezes maior do que a pecuária tradicional.

ii) Experiência do reflorestamento com o eucalipto

  A experiência do eucalipto surgiu em 2007, com implantação do projeto Vale através do reflorestamento de áreas degradadas com espécies nativas e também cultivar plantas de espécies industriais, no caso, o eucalipto. Sua atuação abrange os municípios de Dom Eliseu, onde a sede do projeto está localizada, Ulianópólis, Paragominas e

10 Rondon do Pará, .

  O projeto foi implantado no município no momento da crise com perdas de postos de trabalho em função da pressão sobre a atividade extrativista ilegal e o declínio da indústria madeireira e da atividade das carvoarias. Assim, a instalação do Vale Florestar trouxe novas perspectivas econômicas para a região, pois, considerando somente o emprego gerado, tivemos, no ano de 2012, a geração de 1.250 empregos (diretos e indiretos) no território dos municípios de Dom Eliseu, Paragominas, Rondon do Pará e Ulianopólis (OLIMPO, 2012).

  Em 2010 o Projeto se constituiu na empresa Vale Florestar S/A, fortalecendo sua importância como criadora de oportunidades que possibilitou a geração de renda e a minimização do impacto social gerado pela decadência das indústrias madeireiras.

  Embora o plantio do eucalipto tenha vindo depois do Paricá, foi ele que expandiu de forma mais intensiva a silvicultura na região, estimulando a implantação de indústrias de base florestal e as atividades associadas a ela. Estimulou ainda o processo de legalização das terras gerando um efeito multiplicador da renda e do emprego regional, como destacam os depoimentos a seguir.

  Se não tivesse... imagina só com aquelas ações do governo que teve com as carvoeiras e ai logo, logo veio a Vale, a Vale não veio dá emprego bom pra ninguém, mas pelo menos deu um empreguinho, se não tivesse vindo teria sido desemprego muito maior, até perigoso na questão da segurança pública. (Entrevista com Humberto Prata, produtor rural, realizada em 15/11/2013).

  No meu caso já foi a Vale que fez [regulação territorial], eles assumiram toda..., com a SEMA, o ambiente, o CAR. Tá cadastrado, foi eles que fizeram... A Vale assumiu todo esse

10 Segundo o Macrozoneamento Ecológico-Econômico (MacroZEE-PA) do Estado do Pará, esses

  processo, foi ela que fez, mas tá cadastrada, lá na SEMA. (Entrevista com Joaci M. Oliveira, arrendatário da Vale Florestar, realizada em 29/08/2013).

  A importância da atuação da empresa na região não se restringe somente a sua capacidade de geração de empregos, mas também por imprimir um papel na difusão e consolidação da cultura do reflorestamento tanto como forma de gerar renda para as pessoas da região como também auxiliar no processo de recuperação ambiental de propriedades antes dedicada a atividade da pecuária. Pois, apesar das leis ambientais e da estrutura estatal de fiscalização representar fortes elementos no combate ao desmatamento, seria muito mais difícil conter a devastação sem alternativas de produção.

  O principal mecanismo pelo qual a empresa vem atuando na região é o do arrendamento de terras de proprietários da região, ou seja, a Vale Florestar não compra terras, ela arrenda áreas de fazendeiros locais. O tempo de arrendamento das terras é de quinze anos, o que equivale ao período de dois cortes (colheita) do eucalipto.

  Entre 2007 e 2013 a empresa investiu 45.792 hectares de reflorestamento, dos quais 26.152 hectares estão situados no polo regional de Ulianópolis-Paragominas e

  11

  19.640 hectares no polo regional Dom Eliseu-Rondon . Esse total exclui a área de reserva legal e de preservação permanente, que ocupam algo próximo de 60% da área total da propriedade distribuída em cem fazendas arrendadas de tamanhos diversificados situadas nos territórios dos quatro municípios. A empresa ainda pretende ampliar um pouco esse quantitativo.

  O primeiro corte do eucalipto está previsto para início de 2014, quando completará o ciclo de sete anos. Nessa primeira etapa da produção foram certificadas 66,5 mil hectares de floresta da Vale Florestar, sendo 22 mil h/a de área plantada entre 2007 e 2009, distribuída em 37 fazendas arrendadas pela empresa. A segunda etapa de certificação está prevista para 2014 referentes aos plantios realizados entre 2010 a 2013 e que totalizam outros 23,7 mil h/a com florestas de eucalipto e próximo de 49 mil ha de reserva legal (VALE, 2013).

  Toda a produção da Vale Florestar será vendida para a empresa Suzano de Papel e Celulose, para processamento industrial em uma fábrica de celulose desse grupo localizada no município de Imperatriz, Estado do Maranhão. O futuro do eucalipto após o segundo corte e quando termina os contratos de arrendamento com os proprietários da região é incerto, o que há é especulação sobre novas parcerias com a própria Suzano. De qualquer modo, constatamos a existência de produtores independentes, o que nos permite acreditar que o reflorestamento está assentado nos municípios da microrregião como uma forte alternativa econômica.

1.3.4 Principais atividades da agricultura municipal. i) A produção empresarial de grãos.

  Antes de 2002 a agricultura no município se restringia ao cultivo de produtos voltados principalmente para o abastecimento interno. Com o declínio da atividade madeireira, os atores locais mostraram a preocupação com a necessidade de criar novas oportunidades econômicas e uma das alternativas buscadas foi a da produção de soja. Os primeiros experimentos com a lavoura da soja na região ocorreram em Paragominas, a partir de 1996, através de uma iniciativa acompanhada pela Embrapa. A partir de 1997 iniciou-se a produção em escala comercial naquele município, que, em seguida, se expandiu para os municípios de Ulianópolis, Dom Eliseu e Rondon do Pará.

  A partir das experiências positivas em relação à avaliação de solo e de clima o estado do Pará iniciou uma política para desenvolver um polo produtor de grãos na região, tendo como referência a lavoura de soja, milho e arroz em grande escala. Em Dom Eliseu, para o ano de 2012, essas lavouras responderam por mais de 95% da área plantada com lavouras temporárias no município, respondendo, respectivamente, por 20.000, 10.000 e 5.000 hectares de área plantada (IBGE, 2012).

  A produção de soja é toda exportada para o mercado internacional através das empresas comercializadoras como a Juparanã, Bünge e Cargill. A soja é um produto que tem mercado certo e, nos últimos anos, um alto preço. Além disso, os produtores de soja tem estrutura de secagem e armazenamento que garante melhor rendimento.

  A soja é toda exportada, nós temos a Bünge, a Cargill, e a própria Juparanã que está instalada aqui, inclusive a Juparanã financia parte dessa produção e também o plantio. Também tem outra empresa que está se instalando com a Juparanã já tá comprando área pra fazer parte de secagem e armazenagem de grãos, mas 100% da soja é exportação, inclusive a Bünge e a Cargill, às vezes antecipa a compra, o cara plantou aqui já vendeu a soja, oferece a saca a R$ 55,00 faz um contrato e depois só entregar. (Entrevista com Adálio Vitorino, Secretário de Agricultura de Dom Eliseu, realizada em 21/08/2013).

  Um fator limitante da repercussão econômica da produção de grãos para a região é o baixo nível de empregos gerados, principalmente quando nos referimos a empregos diretos. Mesmo considerando que ele apresente um volume de capital alto para o município, gera poucos postos de trabalho e ainda assim, estes requerem trabalhadores qualificados. A perspectiva de ampliação da geração de empregos a partir da produção de grãos é maior quando o volume dessa produção permite a implantação de empreendimentos voltados para o processamento do produto (transformação em óleo de soja), o que ainda não é o caso da região estudada.

ii) A produção da agricultura familiar e a fruticultura da goiaba.

  Segundo a avaliação da Secretaria de Agricultura e do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Dom Eliseu, a agricultura familiar vive um ótimo momento no município. Existem, atualmente na localidade, 23 associações de produtores e duas cooperativas de agricultores familiares. Essa forma de organização permite que os pequenos produtores estejam inseridos dentro das politicas públicas e assim tenham condições de melhorar seus sistemas de produção e comercialização dos

  12 12 produtos agrícolas .

  

Há quatro assentamentos de reforma agrária no município, com um total de 332 famílias assentadas.

  Dentre as culturas agrícolas que são cultivadas pela agricultura familiar a que possui maior destaque é a produção de goiaba, que apresenta a maior safra dentre as lavouras permanentes do município. De acordo com informações da SEMAGRI, a safra de 2012 foi de 6.000 mil toneladas, enquanto em 2013 foi de 1.200 toneladas produzidas por 30 produtores.

  A cultura da goiaba foi introduzida no ano de 1999 juntamente com a cultura do abacaxi, na época os produtores foram estimulados pela acessibilidade ao crédito que estava disponível para essas culturas na expectativa da implantação de uma fábrica para o processamento desses produtos no município. No entanto, o projeto não se desenvolveu e os produtores viveram um momento de frustração, pois ficaram sem ter comprador para a produção.

  Em função dessa situação, muitos agricultores abandonaram o cultivo da fruta e poucos mantiveram as plantações de goiaba. Com o tempo os produtores foram melhorando o cultivo, inclusive com o processo de irrigação de parte da produção. O processo de irrigação permite programar o tempo de plantio e tempo de colheita, e assim, diminuir a pressão no tempo da safra, bem como torna possível a colheita da fruta durante todo o ano. Hoje, existem trinta produtores trabalhando exclusivamente com a goiaba em 120 hectares inseridos na agricultura familiar e mais 200 hectares de um produtor independente, totalizando 320 h/a. Para alavancar o mercado se organizaram em cooperativa, conquistaram compradores certos e proveram a estrutura para escoamento da fruta. Hoje é uma produção que tem uma cadeia produtiva definida.

  Quanto à capacidade de empregabilidade, embora a base da agricultura familiar seja a própria família, na época da safra a goiaba gera três empregos diretos a cada hectare. Parte da produção é comprada pela Cooperativa Mista de Tomé-Açú (CAMTA) e a outra parte é exportada in natura para Ceasa em Belém, Castanhal, Parauapebas, Imperatriz e outros mercados próximos, além de abastecer o mercado interno. Já há no município uma iniciativa de uma pequena agroindústria para o processamento da fruta, produzindo polpa e doce gerida pela agricultura familiar.

  Além da goiaba outras culturas que possuem relevância, segundo dados do

  IBGE, em termos de área colhida no município são: a Pimenta-do-Reino (250 hectares), o Urucum (180 hectares) e o caju (100 hectares).

2 POLễTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS: PROCESSOS DE CONSTRUđấO E ORDENAđấO DAS ATIVIDADES ANTRốPICAS

  Quando abordamos uma temática relacionada com políticas públicas, devemos dispor esforços para identificar as ações estratégicas elaboradas e/ou assumidas pelo Estado para regular a vida social. Em sociedades que se organizam em torno de mercados, como é o caso da sociedade brasileira, as políticas públicas, muitas vezes, se chocam com os interesses econômicos (IPEA, 2010), conciliar o bem comum com o desenvolvimento econômico é um dos desafios mais imponentes no cumprimento da função estatal, se não o maior da contemporaneidade

  Considerando o papel do Estado como ordenador da vida pública, um conjunto de responsabilidades deve ser assumido para organizar ou estimular a atuação de diferentes atores sociais. Dentre estas responsabilidades a questão ambiental nas últimas décadas tem se tornada imperativa. Nesse aspecto, o posicionamento e a atuação do Estado brasileiro em fóruns ambientais, nos quais as organizações mundiais vêm discutindo a crise ambiental, tem se orientado a partir da perspectiva da sustentabilidade. Contudo, levamos em conta que sustentabilidade é um conceito que sofre variações e adquire distintas conotações, conforme os interesses em jogo.

  Um dos sentidos assumido nos discursos oficiais toma a sustentabilidade como uma relação entre sistemas econômicos dinâmicos e sistemas ecológicos maiores, e que, embora também sejam dinâmicos, modificam-se mais lentamente, de tal forma que a vida humana pode continuar indefinidamente. É uma relação na qual os efeitos das atividades humanas têm limitações e não desordenam outros sistemas (NORTON apud

  IPEA, 2010) Com base nessa definição os documentos legais brasileiros seguem a orientação consolidada nas reuniões de cúpula da ONU.

  Ao contrário da ideia que vê o conceito de sustentabilidade como um estado de equilíbrio e harmonia, um conceito estático, dado de antemão, é preciso vê-lo como um processo em transformação constante, mobilizado pelas mudanças no uso dos recursos, pela orientação dada para os investimentos, pelos rumos do desenvolvimento tecnológico e das necessidades dos povos (IPEA, 2010). Dessa maneira a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Assim sendo a racionalidade que orienta a ideia de sustentabilidade implica um encontro de racionalidades, formas de sentir, de pensar e de valorar as coisas, formando o que Leff (2006) denomina de racionalidade ambiental.

  A diferença entre a racionalidade ambiental e a racionalidade capitalista se expressa na confrontação de interesses sociais arraigados em estruturas institucionais, paradigmas de conhecimento, formas de compreensão do mundo e processos de legitimação, que enfrentam diferentes agentes, classes e grupos sociais. (LEFF, p. 249-250, 2006).

  Nessas bases analisaremos as ações e os discursos orientados pelos dispositivos legais e pelos instrumentos de políticas públicas disseminados num conjunto de medidas para disciplinar as atividades antrópicas em relação ao combate e controle do desmatamento e buscar formas alternativas de produção fundamentadas no conceito de sustentabilidade e nos discursos ancorados nele.

  Neste capítulo discutiremos a importância que o Estado adquire enquanto instância de formulação e implementação de políticas públicas, no caso, políticas públicas ambientais e como estas estão se estruturando como ferramenta na regulação das atividades econômicas em face dos múltiplos interesses.

2.1 A Legislação Ambiental Brasileira: subsídio às políticas públicas de proteção do ambiente

  A dimensão ambiental tem se constituído em um campo de disputa de poder, caracterizada por causas complexas e antagônicas, impondo grandes desafios à competência do organismo estatal. Assim apresentamos neste texto, os principais dispositivos legais que o Estado Brasileiro tem recentemente produzido para assegurar o uso responsável dos recursos naturais e as controvérsias em seu entorno, mas especificamente os dispositivos que diz respeito ao controle e combate do

  A construção de documentos legais parte dos preceitos conceptivos que se tem dos fenômenos sociais e naturais e de seu caráter semântico. O processo de elaboração dos atos regulatórios das questões ambientais traz em seu âmago as dissonâncias colocadas pelos diferentes grupos da sociedade, debate realizado entre atores pró- ambiente versus atores pró-economia. Assim, compreendemos que o conteúdo das leis reflete essas disputas, bem como as convergências culturais, as noções conceituais e as perspectivas que os atores têm em relação ao objeto legislado.

  A legislação ambiental, então, por todas as implicações relacionadas com a dificuldade da conciliação entre práticas econômicas e as formas de apropriação dos recursos naturais, apresenta muitos pontos de disputa. Entre eles está a tendência equivocada de equiparar crescimento econômico com desenvolvimento. Assim sendo, a ideia de desenvolvimento econômico na perspectiva do crescimento é colocada nos debates pró-economia como condição irrefutável para a promoção do bem em comum. Quanto à ideia de desenvolvimento, considerada dentro dos pressupostos trabalhados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNUD, pode ser compreendida como centrada nas pessoas e na construção de apoios para o fortalecimento de suas oportunidades e capacidades. Essa última perspectiva, implica questões mais abrangentes do que meramente o crescimento econômico, compreende o aspecto social, os anseios de justiça e de igualdade, se não econômica, pelo menos igualdade no acesso aos direitos fundamentais entre os diferentes grupos sociais.

  Feita essa introdução, passaremos para a análise de alguns dispositivos que tem servido de orientação à ação antrópica na Amazônia Oriental e no Estado do Pará, sobretudo nos munícipios que se encontram em situação crítica no que concerne aos índices de desmatamento.

2.1.1 Lei 12.651/2012- O novo Código Florestal

  O Código Florestal (Lei 12.651 de 25 de maio de 2012) que dispõe sobre a proteção da vegetação nativa é o mais recente dispositivo construído para dirimir as questões ambientais. A Lei foi aprovada após um exaustivo embate entre ruralistas e contornar os conflitos entre produção e preservação. Na concepção dos legisladores pró- código o novo Código Florestal é assim definido: ...um instrumento de consolidação do país como grande produtor de alimentos e de proteção ao meio ambiente, pondo fim aos desmatamentos ilegais. Ninguém produz bem sem ter o meio ambiente como aliado. O setor produtivo sabe disso. Esse impasse de tratar o produtor como adversário não traz uma árvore de volta (EM DISCUSSÃO, p. 9, 2013)

  Entretanto, esse dispositivo divide posicionamentos, por um lado, há a crença de que ele institucionaliza o desmatamento e anistia infratores, ao invés de premiar os atores que respeitam a legislação ambiental, por outro lado, há a perspectiva de que o Código viabilizará a promoção de maior segurança jurídica para os proprietários. Enfim, enquanto os ruralistas afirmam que o código privilegia o ambiente, os ambientalistas, ao contrário, argumentam que o conteúdo do texto revela a supremacia dos interesses dos produtores.

  Segundo o novo Código os proprietários ou possuidores poderão regularizar áreas já consolidadas dentro de Áreas de Preservação Permanentes (APPs) através dos Planos de Recuperação Ambiental (PRAs). Através dessa iniciativa e após a assinatura de termo de compromisso há a possibilidade da suspensão de processos administrativos e das multas impostas aos produtores autuados, as penalidades poderão ser convertidas em serviços de preservação, na melhoria e recuperação do meio ambiente. É nesse aspecto que o Código é denunciado pelos grupos preservacionistas como um instrumento amenizador da culpabilidade de infratores. Desvia, de certa maneira, o caráter criminal das infrações ambientais realizando um papel pacificador.

  13 A área de Reserva Legal (RL) destinada à Amazônia Legal é de 80% .

  Contudo, há ressalvas quanto a este percentual quando o Estado atende a certas condições e situações.

  Quando indicado pelo Zoneamento Ecológico-Econômico - ZEE estadual, realizado segundo metodologia unificada, o poder público federal poderá: I - reduzir, exclusivamente para fins de regularização, mediante recomposição, regeneração ou compensação da Reserva Legal de imóveis com área rural consolidada, situados em área de floresta localizada na Amazônia Legal, para até 50% (cinquenta por cento) da propriedade, excluídas as áreas prioritárias para conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos e os corredores ecológicos (Art. 13 Código Florestal- Lei 12./2012)

  Ainda sobre a área de Reserva Legal o novo código oferece várias oportunidades aos proprietários ou possuidores que não alcançaram os 50% de área de reserva. Para cumprir a Lei o proprietário pode adotar o regime de condomínio ou coletiva entre propriedades rurais (Art. 16 do Código Florestal). Nesse caso, o proprietário com déficit de reserva pode comprar ou arrendar reserva em outra localidade desde que dentro do mesmo bioma. O arrendador ou vendedor são os proprietários ou possuidores que mantêm RL conservada e averbada em área superior aos percentuais legais exigidos. O Código Florestal considera esta área excedente dos percentuais de reserva como área que possa ser titulada como Cota de Reserva Ambiental (CRA) e, portanto, apta ao regime de servidão ambiental (Art. 13, II,§ 1º).

  14 Para utilizar a dinâmica da compensação através da CRA ou excedente de

  RL, a propriedade deve estar inscrita no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a averbação de RL dissociada da propriedade em déficit de reserva. O processo de compensação dá- se mediante (Art. 66 § 5º):

  a) Aquisição de CRA;

  15

  b) Arrendamento de área sob regime de servidão ambiental ou Reserva 14 Legal;

  

Cotas de Reserva Ambiental-CRAs são títulos representativos de cobertura vegetal que podem ser

usados para cumprir a obrigação de Reserva Legal em outra propriedade. (BVRIO, 2014). Disponível em: 15 http://www.bvrio.org/site/index.php/mercados/florestal/cotas-de-reserva-ambiental

Servidão ambiental é uma inovação inserida pela Lei nº 11.284/06 e consiste na renúncia voluntária do

proprietário rural ao direito de uso, exploração ou supressão dos recursos naturais existentes em sua

propriedade, excetuando a áreas de RLs e APPs. (JUSBRASIL, 2014). Disponível em: c) Doação ao poder público de área localizada no interior da Unidade de Conservação- UC de domínio público pendente de regularização fundiária;

  d) Cadastramento de outra área equivalente e excedente à Reserva Legal, em imóvel da mesma titularidade ou adquirida em imóvel de terceiro, com vegetação nativa estabelecida, em regeneração ou recomposição, ressalvando que a área de compensação deve estar no mesmo bioma.

  Os produtores consideram essa alternativa mais positiva do que o processo de regeneração. Segundo eles, a regeneração não recompõe a floresta com a mesma diversidade biótica, após a abertura e a antropização o processo de recuperação é muito complexo e custoso. No relato de experiências de alguns proprietários que acompanham o processo de regeneração, afirmam que na vegetação regenerada espontaneamente, sem a ação de replantio programado, o que predomina são os cipós e as embaúbas, uma espécie de vegetação secundária que reflete uma condição de depauperação do solo pós-

  

16

  desmate em função da perda de nutrientes . Para recuperar a vegetação nativa, digo, o patrimônio arbóreo da região que se aproxime da floresta virgem só é possível pelo replantio das espécies regionais. Segundo os produtores esse é um procedimento dispendioso que os mesmos acreditam ser possível somente se houver retorno econômico e/ou pela obtenção de vantagens de alguma maneira. Há a crença entre os produtores de que é possível obter rendimento da floresta em pé, mas, alegam que a burocracia e o controle dos órgãos de fiscalização desencoraja essa perspectiva. Os produtores acreditam que é preciso melhorar os incentivos e o aparato normativo para o investimento nesse sentido.

  A cultura de preservação está sendo construído pela força da lei, pelos receios das penalidades. O sentimento de que é necessário usar os recursos naturais com ponderação é ainda muito frágil, mesmo quando há o reconhecimento da necessidade de preservar, a força do desejo de produzir se sobrepõe, “não existe ambientalismo o que existe é negócio” (Marco Antonio Savieiro, produtor, entrevista concedida em

  20/01/2014).

  Considerando esse aspecto, além do uso da força do Estado, outras estratégias legais devem ser reforçadas. Quanto a isso o novo Código Florestal prevê o sistema de compensação pelas medidas de conservação ambiental com vista a alcançar o objetivo de proteção da vegetação nativa fazendo uso dos seguintes instrumentos (alíneas de a-f, inciso II, Art. 41):

  a) Obtenção de crédito agrícola, em todas as suas modalidades, com taxas de juros menores, bem como limites e prazos maiores que os praticados no mercado;

  b) Contratação do seguro agrícola em condições melhores que as praticadas no mercado; c) Dedução das Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito da base de cálculo do Imposto sobre a Propriedade

  Territorial Rural - ITR, gerando créditos tributários;

  d) Destinação de parte dos recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água, na forma da Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, para a manutenção, recuperação ou recomposição das Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito na bacia de geração da receita; e) Linhas de financiamento para atender iniciativas voluntárias de vegetação nativa, proteção de espécies da flora nativa ameaçadas de extinção, manejo florestal e agroflorestal sustentável realizados na propriedade ou posse rural, ou recuperação de áreas degradadas; f) Isenção de impostos para os principais insumos e equipamentos, tais como: fios de arame, postes de madeira tratada, bombas d'água, trado de perfuração de solo, dentre outros utilizados para os processos de recuperação e manutenção das Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito. Dentre outras compensações e incentivos o Código prevê o apoio para a comercialização dos produtos rurais originados de propriedades que estejam ajustadas

  às normas da legislação ambiental levando em conta principalmente o comprometimento com a preservação e recuperação da vegetação nativa.

  O fundamento para o sistema de recompensa dos produtores que mantêm a qualidade dos serviços ambientais criando estruturas de incentivos com vista à melhoria da rentabilidade das atividades de proteção e uso sustentável de recursos. Dessa forma, o pagamento pelos serviços ambientais (PSA) baseia- se no princípio do “protetor recebedor” que tende a ser mais atraente ao produtor quando comparado ao princípio

  “poluidor pagador”. Considerando por esse ângulo, receber incentivos financeiros para preservar as riquezas naturais pode ser mais vantajoso do que assumir os custos pela recuperação dos prejuízos.

  No que se refere às orientações procedimentais das ações de controle do desmatamento, o novo Código Florestal mantém o que havia sido estabelecido em decretos anteriores em função da execução do PPCDAm, o qual será discutido à frente.

  Ao tomar conhecimento do desmatamento em desacordo com o disposto nesta Lei, deverá embargar a obra ou atividade que deu causa ao uso alternativo do solo, como medida administrativa voltada a impedir a continuidade do dano ambiental, propiciar a regeneração do meio ambiente e dar viabilidade à recuperação da área degradada. (Art. 51 Código Florestal, 2012).

  Além disso, ressalta a medida da disponibilização das informações sobre o imóvel embargado, inclusive por meio da rede mundial de computadores. Essa medida já vinha sendo executada na Região Amazônica.

  Dados estes determinantes do novo Código Florestal, podemos identificar um forte alinhamento da Lei com muitas outras políticas formuladas para a Amazônia Legal e já em curso. Além disso, o Código reforça a condição da natureza como prestadora de serviços criticada por grupos ambientalistas. Entretanto, o Código ainda se apresenta como um campo confuso e frágil, a atribuição de valores aos benefícios dos recursos naturais é uma tarefa contornada por controvérsias, justamente porque esses valores não estão diretamente envolvidos em transações mercantis convencionais, não há um valor monetário para o PSA.

2.2 Políticas Públicas Ambientais para Amazônia: combate e controle do desmatamento, regularização territorial e os incentivos às atividades produtivas sustentáveis.

  Para que as políticas e investimentos tenham um direcionamento definido são essenciais ações do Estado que levem em conta os valores e princípios consensuados pela sociedade, por valores e princípios que levem em conta o bem coletivo. A forma como os recursos florestais foram explorados no bioma Amazônia mostra que a suposta racionalidade do mercado não é um critério seguro para garantir o bem comum, posto que esta segue as consignas do próprio mercado, das altas e baixas dos preços dos produtos florestais, pecuários e agrícolas. Por conseguinte, urge que o Estado assuma as rédeas do processo produtivo e contenha as ânsias de crescimento a qualquer custo e assegure modelos de produção mais compatível com os indicadores de qualidade de vida e da equidade social.

  É importante registrar que a ação do Estado como legítimo ordenador da vida pública, no caso do Estado brasileiro, é orientada por políticas públicas diretamente relacionadas com as questões da liberdade e igualdade e, pelo controle democrático nas ações, como a distribuição de renda e das riquezas. Isso está diretamente relacionado ao direito dos indivíduos à satisfação de suas necessidades básicas, como emprego, educação, moradia, saúde, terra, meio ambiente, entre outras (PEREIRA, 2013).

  Considerando essas consignas e relacionando-as com a qualidade de vida das populações amazônicas podemos destacar que as formas predatórias suscitaram a geração de emprego e renda aos trabalhadores, geraram riquezas para os empreendedores, mas com baixa reversão para a melhoria da qualidade de vida, como mostra o mapa a seguir com base em dados do IBGE de 2010 compilados em 2013.

  Figura 3- Mapa demonstrativo do IDHM dos estados brasileiros publicado em 2010.

  FONTE: uol.com.br /2013

  Destarte analisamos as proposições das políticas públicas ambientais para Amazônia para compreendermos os impactos provocados pela ação do Estado no controle das atividades humanas no uso dos recursos naturais sobre a vida dos produtores, dos trabalhadores e dos cidadãos de modo geral. O ambiente, o modo de uso da terra não figurava na consciência dos atores locais como um valor interno, como questão de ocupação do Estado, que tenha relação com a vida social sistêmica, que tenha reflexos no cotidiano das pessoas. Essa ausência de consciência ecológica dos atores sociais e as implicações sobre a realidade na região pesam sobre as dificuldades de assimilar as novas exigências para a exploração dos insumos naturais. Pesa, portanto, compreender que práticas costumeiras, vistas como a maneira de “ganhar a vida”, e, dessa forma, consideradas legítimas pelos habitantes locais, são tratadas pela legislação

  Os crimes são socialmente aceitos, sem envolverem violência contra a pessoa e estão ligadas, normalmente, a aspectos econômicos. Penaliza-se, na maior parte das vezes, o fazendeiro, o mateiro, o dono de pequena propriedade rural ou prestador temporário de serviços. (IPEA, 2010, p. 240) ... O criminoso ambiental, via de regra, não oferece maior periculosidade, razão pela qual não precisa ser recolhido ao cárcere (FREITA apud IPEA, 2010, p. 240)

  Essa maneira de conceber a relação do homem com o ambiente, historicamente construída por uma cultura predatória, contribui para que os atores sociais considerem banal o caráter ilícito da degradação ambiental de modo que as políticas de preservação se encontram em confronto com as atividades econômicas concebidas por um viés liberal de direito à propriedade, como um direito real (LEMOS, apud IPEA, 2010).

  A questão aqui é que os madeireiros e pecuaristas que praticaram o crime ambiental (do desmatamento das áreas protegidas por lei), não consideram que estavam cometendo um crime, pois, para eles, o que estavam realizando era um tipo de trabalho, conforme a confirmação no seguinte depoimento:

  ...apontando arma para gente...[órgão de fiscalização] meu pai que nunca deu nem um cheque sem fundo, como ele dizia, nunca passou nem na porta de uma delegacia... Na hora de dar o apoio nunca apareceu ninguém, na hora de multar e humilhar as pessoas trabalhadoras eles vêm, quando saiu aquela lista, lista do trabalho escravo, eu achei até interessante, [disse o pai]

  “aqui meu filho a lista dos cabra que trabalha no Pará”. (Entrevista com Humberto Prata, Produtor Rural, realizada em 15/11/2013)

  Essa percepção não privilegia a valorização da legislação ambiental e as ações interventoras das atividades econômicas decorrentes dela a despeito do uso dos recursos florestais de forma irregular.

  Essa posição dos atores é explicada por meio do conhecimento do processo histórico de colonização da Região Amazônica que apresenta um comportamento avesso em relação às leis ambientais. Enquanto o mundo despertava para o fato da Amazônia Brasileira ocorre um movimento contrário, destacado pela permissividade do uso e abuso da exploração dos recursos, sobretudo, dos recursos florestais, disseminado por uma larga extensão territorial.

  Adiantamos em afirmar que a cultura da permissividade predatória é a razão que explica a forte atenção dispensada à Amazônia através da formulação de uma série de dispositivos legais orientadores das políticas públicas para região com o fim de se contrapor à devastação e frear o ritmo acelerado da produção com base na exploração sem limites dos recursos naturais. As medidas são centradas no controle das ações antrópicas e na proteção do que resta das áreas de floresta.

  Além das leis, há um emaranhado de atos normativos e operacionais para impor aos atores sociais uma nova perspectiva de uso dos recursos. No aspecto ambiental a atuação do Estado, até meados da década de 1990, se caracteriza por uma absoluta indiferença, adormecido para a ilicitude. Essa posição do Estado, orientada pelas políticas públicas da época, foi um estimulante para a construção da cultura anti conservacionista da região que considerou por muitos anos, banal e ordinário o caráter ilícito da degradação ambiental, favorecendo assim, no caráter liberal da subtração da natureza, a supremacia do direito de posse sem atentar para limitações dessa condição. Lemos (apud Ipea, 2010, p. 211) define o comportamento dos atores no debate jurídico como uma constante “...confrontando a necessidade de sua preservação com a liberdade econômica, a exploração e a objetividade do direito de propriedade enquanto direito real pessoal sobre determinado bem”.

  Dado essa perspectiva, avaliamos a dimensão do desafio das políticas de proteção ao ambiente para a Amazônia que somente a partir de 1988 iniciou a ação de monitoramento das florestas, quando da implementação do Programa de Cálculo do Deflorestamento da Amazônia realizado pelo Prodes, projeto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe), importante instrumento de fornecimento de informações sobre as taxas anuais de desmatamento na Amazônia Legal para o estabelecimento de políticas públicas. Dessa forma, as políticas de proteção ambiental detêm-se largamente sobre a questão do desmatamento, no que se refere ao bioma Amazônia, constitui o principal indicador para as políticas de preservação.

  Considerando o contexto social e histórico da Região Amazônica, os insumos naturais alvo da exploração, o papel dos dispositivos regulatórios, os instrumentos de política pública formulados pelo Estado para intervir na região têm a fundamental importância na implantação de outras bases produtivas que sobremaneira sejam capazes de mitigar os danos causados por anos de desatenção à extração da floresta. Adicionado a isso, destaca-se na função restauradora da legitimidade institucional e gestora do Estado através do comando das atividades econômicas e sociais nos alicerces do discurso da sustentabilidade socioambiental.

2.2.1 Zoneamento Ecológico Econômico

  O Zoneamento Ecológico Econômico-ZEE é um instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente amparada na Lei nº 6.938/1981 (inciso II, Art. 9º) e na regulamentação do Decreto Federal nº 4.297/2002, segundo esses dispositivos:

  Art. 2º O ZEE, instrumento de organização do território a ser obrigatoriamente seguido na implantação de planos, obras e atividades públicas e privadas, estabelece medidas e padrões de proteção ambiental destinados a assegurar a qualidade ambiental dos recursos hídricos e do solo e a conservação da biodiversidade, garantindo o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida da população. (DECRETO FEDERAL Nº 4.297/2002)

  O dispositivo ainda estabelece os objetivos e diretrizes principais do ZEE que devem servir de medida de orientação para os atores sociais, da esfera pública e privada, na gerência de projetos e programas de ação que impliquem em uso dos recursos naturais. O ZEE se pauta em duas linhas de orientação: manutenção do potencial produtivo e manutenção dos serviços ecossistêmicos, levando em conta a importância da natureza, as limitações e fragilidades dos ecossistemas. Sendo assim, o ZEE estabelece também restrições e alternativas de exploração do território.

  Dessa maneira, o Zoneamento Ecológico Econômico aparece no cenário das políticas públicas como instrumento estratégico de preservação e melhoria da qualidade ambiental como suporte a melhoria à qualidade de vida, sobretudo, das populações tradicionais.

  Os esforços para mapear o território brasileiro registram-se a partir da década de 1970, incluindo o território da Amazônia Legal que se apresentava complexo e desafiante. No entanto até o fim do século XX foram produzidos documentos que expressaram diagnósticos, orientações metodológicas e referenciais para se produzir o Zoneamento Ecológico da Amazônia. Nos primeiros anos do século XXI, através de um esforço de parcerias institucionais se conseguiu produzir Mapas Integrados dos ZEEs dos Estados da Amazônia Legal onde se torna evidente as diferenças territoriais reclamando zoneamentos específicos. Mesmo levando em conta a complexidade e os desafios da diversidade, não se descartou a necessidade da elaboração de um MacroZEE da Amazônia Legal que apresentasse uma visão geral da realidade socioambiental, econômica e territorial da região com condições de oferecer orientações estratégicas e recomendações de ações públicas capazes de ampliar o viés de sustentabilidade ambiental e econômica.

2.2.1.1 Macro Zoneamento Ecológico Econômico da Amazônia Legal

  O MacroZEE da Amazônia Legal aprovado pelo Decreto Federal nº 7.378/2010 é um dos dispositivos que deve compor a agenda dos projetos e programas de desenvolvimento regional e é indicado como subsídio de orientação estratégica que figura a Amazônia como território de transição para um desenvolvimento vinculado à sustentabilidade. Assim converte-se em instrumento de orientação para o poder público e para a sociedade na formulação e espacialização das políticas públicas no que tange ao desenvolvimento econômico e ao ordenamento territorial e ambiental.

  Um dos principais argumentos que qualificam o MacroZEE da Amazônia Legal como instrumento necessário à regulamentação ambiental do território é a busca pelo rompimento com a forma historicamente construída do processo de colonização que resultou em baixa qualidade de vida para as populações pela adoção de um crescimento econômico fundado na exploração extensiva dos recursos naturais. Esse modelo de uso do território derivou um desenvolvimento que não levou em conta a ocupavam a região e que sofreram os efeitos da exploração predatória dos recursos naturais e a consequente violência que acompanhou o processo colonizador.

  Considerando toda a complexidade do território da Amazônia Legal, baixa densidade e desordenamento fundiário causado principalmente pelo modelo de colonização, soma-se a ausência do Estado como modelador das políticas de desenvolvimento. O povoamento e a inserção de investidores de outras regiões foram amplamente incentivados pelo Estado, no entanto, pouco orientado. Isto coloca às políticas públicas para a Amazônia um desafio gigantesco e prioritário, superar a trajetória histórica de décadas passadas mercantilizando os produtos da estrutura dos ecossistemas para inserir uma concepção de natureza como fonte de conhecimento, como criadora de condições e oportunidades de produtividade que refuta o modelo destrutivo da floresta (BECKER MMA, p.25, 2014). As recomendações são

  apud

  dirigidas para a importância do uso de tecnologias inovadoras, uma política de estímulo pode possibilitar a maximização do uso do território ampliando a prosperidade associada à valorização da floresta em pé. A valorização aludida não se reporta a percepção da floresta como espaço que não pode ser explorado, mas como riqueza que gera saber, pesquisas e descobertas que tem mobilizado os mercados fármacos, cosméticos, alimentícios e outros.

  ... as regras do jogo para uma organização eficaz do território da

  Amazônia Legal não visam, de modo algum, deixá-la intocada e improdutiva. Pelo contrário, o que se pretende é superar a trajetória histórica que dificulta o seu desenvolvimento, inserindo-a no contexto do século XXI. (MMA, p.21 2014) .

  Outra novidade contemplada no McroZEE da Amazônia Legal é a mercantilização não apenas dos produtos ecossistêmicos, mas também das funções ecossistêmicas que se refere a todos os benefícios prestados pela natureza, também denominados serviços ambientais (MMA, 2014). Nesse caso, os serviços ambientais passam a ser mercantilizados como insumos imateriais especializados para a produção, sem se tornar parte do que é produzido. Trata-se de atribuição de valor pelo não uso: cujos benefícios da conservação são potencialmente importantes globalmente, mas que podem restringir as opções de desenvolvimento no plano local. Essa lógica não interessa ao País (MMA, 2014 p. 26 )

  Nessa perspectiva citamos a percepção das florestas pela análise de carbono, compreendendo-a como uma commodity, que é analisada, nos moldes estabelecidos até então, como uma valoração não apenas baixa como extremamente limitada do capital natural amazônico.

  Considerando o viés conservacionista do MacroZEE da Amazônia Legal que se contrapõe ao desenvolvimento a qualquer custo, se destaca a formação de grandes áreas protegidas compreendendo um total de 40% do território da Amazônia Legal (MMA, 2014) que são as Unidades de Conservação (UC) e Terras Indígenas (TI), essas áreas visam a garantia de direitos e meios de vida às populações indígenas e tradicionais aliados à garantia de conservação da biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais. Além disso, também dispensa uma maior atenção, pelo menos em termos formais, aos grupos excluídos a partir da implementação de Reservas Extrativistas (RESEX).

  O MacroZEE como instrumento técnico, e sobretudo político, é proposto como um conjunto de orientações necessárias às políticas de desenvolvimento das economias, das condições de vida das populações, da ordenação do território e da proteção ao meio ambiente. Contém assim, os fundamentos básicos para a regulação da vida das comunidades tradicionais, bem como das cidades, das economias camponesas e dos negócios patronais, apresentando um diagnóstico que pode servir de fundamento para os projetos e programas de gestão pública e privada, permitindo a análise e inferência administrativa e política em pontos cruciais no que dizem respeito, por exemplo, a regulamentação fundiária identificada como um fator de muita importância para o desenvolvimento da região, tanto para os pequenos produtores quanto para os que produzem em grande escala.

  O MacroZEE reforça o papel do Estado na definição de modelos de desenvolvimento e amplia sua capacidade regulatória. Entretanto, a realidade da região fiscalizadora, mostrando-se um tanto vulnerável no cumprimento de metas. Mostra-se ainda a insuficiência da instituição estatal em seu potencial investidor, de modo que, ainda não maximiza a capacidade produtiva sem a apelação do alargamento das fronteiras.

  Essas considerações expressam a importância de que para se alcançar objetivos e metas das políticas de desenvolvimento e de preservação necessário se faz construir articulações políticas e interinstitucionais sólidas que mobilizem os atores nas diferentes esferas de poder. Nesse aspecto, as diretrizes do MacroZEE da Amazônia Legal encontra-se alinhadas com as de outras políticas públicas formuladas e em execução na Amazônia.

  Vale reforçar que a implantação de políticas na Amazônia que exaltem paradigmas distintos dos que se localizam na raiz da cultura das populações, tradicionais ou migradas, exige mesmo múltiplos esforços, porque perpassa pela desconstrução de culturas para edificação de outra, exige a presença firme do Estado, considerando que a lei por si não opera mudanças. Além disso, trata-se de uma região que converge muitos e contraditórios interesses, desde os que concebem a floresta como intocável, pelo menos do ponto de vista do capital acumulativo, aos que acreditam que a natureza está para servi-los, caso dos investidores que sustentam a crença na infinitude dos recursos naturais.

  O texto do MacroZEE da Amazônia Legal é claro no posicionamento da conservação do patrimônio natural, porém, igualmente o categoriza como mercadoria a favor do desenvolvimento. A perspectiva mercantil, todavia, suscita aprendizado de novas formas de relacionamento com a natureza. Quanto à superação do modelo histórico de exploração será avaliado a partir da eficácia e consistência da execução das ações públicas.

  Dessa forma, o MacroZEE persegue a seguinte perspectiva: “a Amazônia hoje não é mais mero espaço para expansão da sociedade e da economia nacionais e, sim, uma região em si, com estrutura produtiva e dinâmica próprias, que requer não mais uma política de ocupação, mas sim de consolidação do desenvolvimento demandado por todos os atores regionais”

  Essa percepção implica em um protagonismo que as populações amazônicas, considerando a importância que a Região ocupa no debate mundial, terá que empregar esforços para equacionar muitas demandas, inclusive investir no fortalecimento de seus atores e de suas territoridades.

2.2.1.2 O Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Pará

  O Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) do estado do Pará foi instituído pela Lei Estadual nº 6.745/2005. Ele estabelece quatro zonas de uso e conservação para o Pará. A primeira zona inclui as Terras Indígenas e os quilombolas e representam 28% do Estado. A segunda zona é destinada para as UC de Uso Sustentável, as quais somam 27% do território ao considerar as unidades existentes, bem como aquelas a serem criadas. A terceira zona é alocada para as UC de Proteção Integral (Parques, Reservas Biológicas e Estação Ecológica) existentes e a serem criadas totalizando até 10% do território. Por fim, o ZEE estabelece uma zona para a consolidação e desenvolvimento de atividades produtivas ocupando 35% do território paraense. Portanto, de acordo com esse macrozoneamento o Estado será dividido em 65% das áreas para uso sustentável e

  17

  conservação florestal e 35% para a consolidação de atividades produtivas (VERÍSSIMO & et all, 2006, p. 34).

  O ZEE do Pará estabelece os seguintes objetivos: consolidar a fronteira produtiva já aberta com vista a i) aumentar o índice de aproveitamento do solo e do subsolo; ii) permitir a consolidação dos aglomerados humanos; iii) reduzir a velocidade da expansão para novos territórios; iv) estimular a formação de cadeias produtivas através da verticalização da produção mineral, agropecuária e florestal; v) promover o

17 Posteriormente, foram detalhadas as regiões prioritárias como a área de influência da BR-163,

  

zoneamento instituído pela Lei Estadual nº 7.243/2009, já referendado por Decreto presidencial e as

regiões da Calha do Norte e da Zona Leste, zoneamento instituído pela Lei Estadual 7.398/2010. Ademais

está em curso o desenvolvimento da metodologia para a elaboração do zoneamento costeiro do Estado envolvendo dezoito municípios. desenvolvimento do turismo, contribuindo para a geração de emprego e renda; e vi) desenvolver e difundir tecnologias alternativas para a exploração sustentável dos recursos naturais.

  Para atingir esses objetivos foram estabelecidas as seguintes estratégias do zoneamento: i) o ordenamento territorial e a gestão ambiental; ii) a regularização fundiária; iii) apoio à produção, estimulando processos locais de desenvolvimento e a garantia de acesso a serviços sociais básicos para a populações pobres.

  O ZEE do Pará foi instituído em período distinto ao do MacroZEE da Amazônia Legal. No entanto, há muita similaridade entre as duas proposições, pois todos são instrumentos de planejamento que procuram ordenar a ocupação do espaço amazônico, estabelecendo perspectivas diferenciadas de desenvolvimento, respeitando a legislação ambiental e as potencialidades regionais.

  Embora o estado do Pará apresente o zoneamento do seu território em estágio adiantado em termos de proposição, considerando que o novo Código Florestal/2012 estipula um prazo de cinco anos para que os estados formalizem o zoneamento do seu território, o estado tem executado algumas estratégias a passos muito curtos, como é caso da regularização fundiária como medida de execução dessa questão o zoneamento estipula o fortalecimento institucional dos órgãos regulatórios. Contudo, esse aspecto tem se posto como um gargalo para o desenvolvimento das economias posto que a paralisia da questão implique em baixos investimentos, desorganização de cadeias produtivas e baixa produtividade.

  A principal queixa aponta a ineficiência do Instituto de Terras do estado do Pará (ITERPA) em superar a burocracia e finalizar os processos de regularização.

  ...quer resolver o problema? Dar o título de propriedade para quem vive na terra. Dom Eliseu tem 70% do território sem título, então? Por que quê não resolvem isso? Por que ficam procrastinando com um Iterpa... quer resolver? Vai lá, ...resolvam esse troço dá o título de propriedade. Por que eles não dão? Quer resolver? Entrem aqui deem o título de propriedade, pronto. Por que não resolvem isso? Seria uma solução, primeiro dão o título. (Entrevista com Marco Antonio

2.2.2 Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal- PPCDAm

  As políticas de combate e controle do desmatamento têm raízes nos debates sobre as questões ambientais relacionadas às mudanças climáticas, com destaque para as conferências mundiais, como a que resultou no Protocolo de Kyoto, que firmou acordos com os países participantes para a redução da emissão de gases. Os países tem metas de redução diferenciadas, posto que cada país apresenta desafios de sustentabilidade ambiental também diferentes. A avaliação da aplicação do princípio de sustentabilidade faz-se a partir de indicadores que são referenciais pelos quais a sociedade tem conhecimento dos efeitos da pressão sobre a biodiversidade ao longo do tempo. Eles possibilitam a tomada de consciência e medidas públicas no sentido de criar mecanismos promotores de sustentabilidade (IPEA, 2010). No caso do Brasil a emissão de gases provém, em grande parte, da forma de uso da terra, como é chamado tecnicamente o desmatamento, com grande concentração no bioma Amazônia.

  Como já descrevemos neste trabalho o desmatamento motivado por fatores econômicos cresceu muito na Região Amazônica a partir da década de 1960, acumulando elevadas taxas, que colocou o país no alvo de pressões internacionais e da sociedade civil organizada (IPEA; CEPAL; GIZ, 2011) e somente na primeira década deste século é que o Estado vem tomando medidas para desacelerar a pressão do homem sobre a floresta.

  Gráfico 2- Desmatamento acumulado na Amazônia Legal Brasileira, entre 1992 e 2007 (km²) chegando a 15%, com base nos dados do INPE (2008).

3 FONTE: LUI; MOLINA (2009) adaptado do INPE (2008)

  Em resposta às pressões e às críticas geradas pelo crescente desmatamento e pela insuficiência na governança ambiental em anos passados, o Governo Federal, em 2003, reorganiza suas estratégias de combate à devastação na Amazônia e, consequentemente, reduzir as emissões de carbono na forma de CO² (dióxido de carbono), lança em 2004 o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, que se constitui na principal política de intervenção para inibir o desmatamento do bioma Amazônia e dessa maneira criar uma cultura de preservação da floresta. No Brasil, a forte atenção ao fator do desmatamento aplica-se por ser essa ação o principal indicador de emissões de gases para a atmosfera. A derrubada e a queima de florestas nativas no período de 1990 a 2005 contabilizaram aproximadamente 420 mil km² de floresta, que foram convertidas para diversos usos. Isso corresponde a uma taxa anual de desmatamento de 27,3 mil km² por ano (IPEA, 2010).

  Com base na necessidade de uma intervenção rápida e eficaz para inibir a pressão do homem sobre a floresta, o Plano foi formado por um Grupo Permanente de combinação de ações compartilhadas por vários ministérios, cuja coordenação está alocada na Casa Civil, condição que denota prioridade política ao plano. Essa política inaugura de certa forma um modelo de gestão diferenciada de outras políticas públicas que geralmente restringem-se a um ministério específico (IPEA; CEPAL; GIZ, 2011).

  O Plano foi estruturado em três eixos temáticos: i) Ordenamento fundiário e territorial; ii) Monitoramento e controle ambiental; e iii) Fomento às atividades produtivas sustentáveis. Na primeira fase do Plano (2003-2007), dentre os três eixos, o monitoramento e controle ambiental foi avaliado com o mais bem sucedido, o fomento às atividades produtivas não houve avanços e o ordenamento fundiário territorial houve avanço moderado em função da criação de Unidades de Conservação e homologação de terras indígenas (IPEA; CEPAL; GIZ, 2011).

  18 Após a avaliação da segunda fase do Plano (2009-2011) , ainda são

  identificados grandes desafios na implementação do plano nos eixos de regularização fundiária e a da estruturação de cadeias produtivas sustentáveis. O objetivo é substituir as práticas predatórias ainda muito fortes na região, promovendo estrutura de incentivos que premie escolhas sustentáveis e coíba o desmatamento ilegal (IPEA; CEPAL; GIZ, 2011).

  O PPCDAm tem como uma de suas estratégias o incentivo a estados e municípios para assumirem suas responsabilidades pelo controle do desmatamento, estimulando e apoiando, inclusive financeiramente, a elaboração dos Planos Estaduais de Prevenção e Controle do Desmatamento.

  No âmbito das ações de combate e controle como medida implementadora, novas medidas foram tomadas em 2007, o Decreto nº 6.321/07 introduziu instrumentos econômicos inibidores, alterando de maneira decisiva a forma de combater o

  19

  desmatamento na Amazônia e que efetivamente reduziu a retomada de corte raso, principalmente nos municípios com altas taxas de desmatamento. O destaque foi maior,

  18 A avaliação do Plano compreende o período de execução do PPCDAM de 2007 a 2011. (IPEA; 19 CEPAL; GIZ, 2011).

  

Corte raso é a remoção total da cobertura florestal eliminando toda e qualquer vegetação existente sobre

uma área. Normalmente um corte raso é feito para plantar outra cultura, seja agrícola ou florestal ao que como já dito, para as ações de comando e controle. Esse dispositivo se propôs a viabilizar a “responsabilidade compartilhada” dos atores governamentais e privados pelos desmatamentos no Bioma Amazônia.

  Outra estratégia demandada do Decreto 6.321/07 foi a identificação e publicização desses municípios com maiores problemas de desmatamento, seguida da priorização de ações nestas localidades no sentido de promover uma agenda positiva; Essas ações visam a integração entre regularização fundiária e ambiental, com a determinação da obrigatoriedade do recadastramento das propriedades rurais localizadas nos municípios críticos e restrição de crédito. São elas: a lista de municípios prioritários para as ações de prevenção, monitoramento e controle do desmatamento ilegal ou a lista “suja" do desmatamento; o Cadastro Ambiental Rural; as novas regras para o crédito rural; o embargo do uso econômico de áreas degradadas; e a responsabilização da cadeia de produção que adquire produtos oriundos de desmatamento ilegal embargado.

  Vejamos mais sobre a importância e efeitos dessas estratégias:

a) A lista de municípios prioritários para as ações de prevenção, monitoramento e controle do desmatamento ilegal ou a lista “suja" do desmatamento.

  A elaboração da lista dos municípios desmatadores foi considerada uma avaliação estratégica muito positiva como iniciativa dentro do PPCDAm, posto que assegurou uma melhor utilização dos recursos e estimulou a interação política entre os municípios, ou seja, o desmatamento passou a ser discutido e assumido por gestores e comunidade local. Como foco de prioridade, a inclusão na lista também demandava maior atenção não apenas às ações de comando e controle como também aos demais eixos do plano: ordenamento fundiário e incentivo a atividades econômicas ambientalmente sustentáveis (MMA/2013).

  O MMA é responsável pela edição anual da Portaria com as listas de municípios a serem prioritários para ações de prevenção e controle do desmatamento no Bioma Amazônia.

  

Figura 4- Mapa dos municípios Prioritários e Monitorados do Bioma Amazônia-2013

FONTE: MMA/2013

  Os critérios para que os municípios componham a lista são: I. Área total de floresta desmatada no município;

  II. Área total de floresta desmatada nos últimos três anos; e

  III. Aumento da taxa de desmatamento em pelo menos três, dos últimos cinco anos. O propósito da inclusão na lista, segundo o MMA, é concentrar esforço no município, o governo federal deve acompanhá-lo na implementação de ações que visem diminuir as taxas do desmatamento, buscando também a transição para uma economia de base sustentável. Ao alcançar as metas propostas pelo governo federal o município é excluído da lista e é classificado como um município com desmatamento sob controle e monitorado (MMA, 2013).

  A publicização da lista suja do desmatamento com o nome do município representa um constrangimento econômico, afetando a localidade com a paralização das constrangimento moral posto que a ação imprimiu aos municípios arrolados uma imagem marginalizada, o lugar passa a ser veiculado em rede nacional pela criminalidade ambiental afugentando os investidores e enfraquecendo as relações comerciais.

  Com a saída da lista o município recupera o crédito e o prestígio. Porém, segundo a avaliação do PPCDAm, ainda são baixos os incentivos para os municípios que se mobilizaram para sair da lista e controlaram o desma tamento: “ainda não há uma política formatada de benefícios e incentivos para os municípios que reduziram o desmatamento, realizaram o CAR e conseguiram sair da lista” (IPEA, CEPAL, GIZ, 2011, p. 56). Recomenda:

  É necessário elaborar um conjunto de políticas e incentivos específicos para que os municípios consigam sair da lista dos municípios críticos do desmatamento, especificamente aqueles onde se verifica maior risco de vazamento do desmatamento para municípios vizinhos. (IPEA, CEPAL, GIZ, 2011, p. 57)

  A avaliação ainda recomenda que seja criada “lista positiva” com o nome dos municípios que honraram com suas obrigações ambientais e saíram da ilegalidade.

b) O Cadastro Ambiental Rural

  O CAR é um registro eletrônico obrigatório a todo imóvel rural situado em áreas cadastráveis, ou seja, fora de TI, UC de domínio público e áreas urbanas. Ele é realizado diretamente no sítio eletrônico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente por intermédio de um profissional habilitado para fazê-lo. É um instrumento fundamental para auxiliar no processo de regularização ambiental de propriedades e posses rurais.

  Consiste no levantamento de informações georregerenciadas do imóvel, com delimitação das APPs, RL, remanescentes de vegetação nativa, área rural consolidada, áreas de interesse social e de utilidade pública, com o objetivo de traçar um mapa digital a partir do qual são calculados os valores das áreas para diagnóstico ambiental.

  Essa iniciativa é uma importante ferramenta para auxiliar no planejamento do imóvel rural e na recuperação de áreas degradadas. O CAR fomenta a formação de melhoria da qualidade ambiental; esse instrumento é usado pelos governos federal e estadual (MMA, 2013).

  O CAR, a princípio executado no âmbito do PPCDAm, foi incorporado em 2012 à Lei nº 12.651/2012 (novo Código Florestal), que criou o CAR em âmbito

  20

  nacional e foi regulamentado pelo Decreto nº 7.830/2012 . Portanto, o CAR fortalece a gestão ambiental e assegura segurança jurídica para os proprietários, entre outras vantagens.

  O recadastramento é feito mediante a apresentação pelo proprietário ou ocupante de informações georreferenciada do imóvel e de dados sobre uso do imóvel de forma a permitir um monitoramento mais preciso acerca da dinâmica de ocupação do uso do solo e ainda é fonte de dados para o INCRA. Os imóveis rurais que não apresentarem os dados necessários ao recadastramento no prazo definido terão os CCIRs tornados sem efeito. Isso significa, entre outras sanções, cessação do acesso ao crédito público e ainda, poderão sofrer com restrições nas transações (venda, arredamento, desmembramento) relacionadas ao imóvel.

  Segundo a avaliação do PPCDAm, o CAR é fundamental para promover as sinergias entre regularização ambiental e a regularização fundiária. Contudo, os números de CAR ainda é baixo na região do Bioma Amazônia. Contudo, no Estado do Pará houve um avanço significativo no número de imóveis cadastrados (68.927). A explicação para o baixo número de inscritos é a insegurança jurídica dos proprietários em relação às novas exigências legais, o que se acredita que será superado com a estabilidade das leis e das políticas (MMA; Grupo Permanente de Trabalho Interministerial, 2013). .

c) Novas regras para o crédito rural

  O Decreto 6.321/07 abriu ainda a possibilidade de um controle mais criterioso sobre a destinação do crédito rural. Com base neste dispositivo, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou, em 2008, a Resolução 3545/08 do Banco Central que estabelece um conjunto de condições ambientais para o acesso ao crédito pelos produtores rurais em imóveis situados nos municípios do Bioma Amazônia. As condições exigidas são as seguintes: i) CCIR válido; ii) regularidade em relação à Reserva Legal e Área de Preservação Permanente, ou ter dado entrada em procedimento formal para regularização junto ao órgão ambiental estadual; iii) imóvel do tomador não pode constar na lista do Ibama de imóveis embargados; e iv) seguir as condicionantes do Zoneamento Ecológico-Econômico, se houver (IPAM, 2013).

  Essa medida foi valiosa para a implementação das ações de controle do desmatamento ilegal controlando a concessão do crédito. O financiamento da produção sem observância da legalidade da propriedade financiava indiretamente o desmatamento. Com a restrição os produtores buscaram atender aos preceitos legais, em curto prazo essa ação produziu um efeito positivo para a redução das taxas de abertura de novas áreas.

  Quando o município sai da lista crítica do desmatamento o MMA o desembarga e a concessão do crédito volta a ser liberada. No entanto, os produtores queixam-se do excesso de burocracia e da morosidade para a aprovação do crédito. Essa perspectiva também foi considerada na avaliação do PPCDAm onde reconhece que as ações de fomento às atividades produtivas sustentáveis são colocadas como uma questão a ser implementada na revisão do Plano.

d) Embargo do uso econômico de áreas degradadas

  Essa estratégia é outro aspecto que produziu efeitos positivos, também derivada do Decreto 6.321/07, onde foi delegado ao agente fiscalizador o embargo de áreas desmatadas ilegalmente. Além da interdição da propriedade, as áreas degradadas passam a ser obrigatoriamente georeferenciadas a fim de tornar mais efetivo o monitoramento por satélites, sobrevoos e fiscalização de campo. O Decreto prevê, ainda, a vedação da comercialização do produto obtido na área embargada, a proibição de sua utilização econômica e pesadas sanções ao proprietário que desrespeite a medida punitiva. Entre estas penalizações, destacam-se a proibição de obtenção de crédito agropecuário em instituição oficial e o cancelamento de seus registros em órgãos operando de maneira similar à lista de trabalho escravo do Ministério do Trabalho, o Ministério do Meio Ambiente editou em página eletrônica do órgão a lista e os mapas por município dos imóveis e áreas rurais embargadas mantendo-os atualizados. Esse procedimento permite que o mercado consumidor distinga o produtor comprometido com a conservação da floresta Amazônica daquele que possui áreas embargadas por desmatamento ilegal.

  Essa estratégia de embargo das propriedades e dos produtos destas áreas se apresentou mais eficaz do que a aplicação de multas como sanção pela infração. Os embargos descapitaliza os infratores forçando os mesmos a ajustar-se à legislação e inibir a reincidência, o que ocorria quando da aplicação de multas meramente, pois leva o desmatador-investidor a uma maior percepção de risco:

  É necessário registrar que, em muitos casos, as multas emitidas têm valores tão elevados, que ultrapassam o valor das propriedades multadas, e isso é mais evidente no caso de pequenas propriedades. Nesses casos, em que não há possibilidade do pagamento de multas, cria-se uma situação jurídica de difícil solução, sem que isto seja uma peça chave para mudar o comportamento dos desmatadores (IPEA, CEPAL, GIZ, 2011, p. 75)

  A aplicação de multas como sanção às infrações ambientais tem origem e fundamento no princípio poluidor pagador, um instrumento recomendado pelo conselho das OCDE, de 1972, estabelecendo que o custo das medidas definidas pelas autoridades públicas para a proteção do meio ambiente deveria estar refletido no custo dos produtos e serviços cuja produção ou consumo causasse poluição (IPEA, 2010). Mas avaliando esse procedimento isoladamente e usando critérios razoáveis, os resultados mostram que ele tem sido pouco positivo, uma vez que a relação entre o montante de aplicações e muito superior ao montante de multas pagas.

  Embora considerando que as penalidades contribuem para certo grau de conscientização acredita-se que as políticas de incentivos podem produzir resultados com menos custos para o Estado e mais eficaz à longo prazo.

  ...o incentivo é capaz de modificar determinada situação, podendo levar dinamicidade ao que era estático. Dessa forma, é capaz de corrigir determinada situação de erro, desde que o estímulo seja no sentido de correção. Com isso, se antes não havia motivos

  • – ou estímulos – para o sentido correto, agora há...(p. 226) evitam que a máquina estatal exerça demasiadamente seu poder de polícia para o cumprimento das normas jurídicas. A punitiva exige fiscalização e penalidade, o incentivo gera, entre outros fatores positivos, a redução dos gastos do Estado, além da diminuição da sua força coercitiva perante a iniciativa privada (IPEA, 2010, p 236-238).

e) Responsabilização da cadeia de produção que adquire produtos oriundos de desmatamento ilegal embargado.

  O Decreto prevê ainda que as sanções pelo descumprimento do embargo de uso de área ilegalmente desmatada sejam aplicáveis não apenas ao produtor, mas também a quem for adquirir, intermediar, transportar ou comercializar produtos ou subprodutos de origem animal ou vegetal produzidos sobre área objeto de embargo lavrado. Com essa medida pretende-se impedir a circulação da produção da área embargada na cadeia produtiva. Essa extensão da sanção administrativa exigirá dos compradores ou intermediários (frigoríficos, serrarias e traders de grãos, por exemplo) o monitoramento e o controle de desmatamento junto aos seus fornecedores, sob pena de responsabilização compartilhada das empresas.

  A responsabilização da cadeia de produção é uma medida que tem elevado o nível de comprometimento dos atores, tanto os empresários como os consumidores. É evidente que as rédeas das atividades ilegais vão pouco a pouco se encurtando. A cultura do "jeitinho”, do “molhar a mão”, embora não superada, com a estabilidade das políticas, principalmente com a efetiva articulação institucional como a que caracteriza o PPCDAm, vão sendo enfraquecidas aos poucos. Trata-se de uma cultura sedimentada, isso demanda algum tempo para sua correção.

  Não restam dúvidas sobre quão essas medidas produziram de efeitos sobre o comportamento dos atores sociais. Mesmo quando consideradas drásticas por parte de alguns produtores, eles reconhecem que elas os despertaram para a necessidade de se buscar os caminhos da legalidade. Porém, essa demanda para o cumprimento da lei esbarra em procedimentos complexos que os produtores têm de enfrentar para colocarem suas propriedades e sua produção em conformidade com a lei.

  No âmbito do PPCDAm, seguramente o Decreto 6.321/07 representou uma ampla medida de ajuste à legislação de comando e controle do desmatamento nos últimos anos para o bioma Amazônia. Assim, esse dispositivo foi elaborado a partir da identificação das lacunas no aspecto da fiscalização ambiental na Amazônia quando da primeira avaliação do PPCDAm, cujas evidências mostram que esse dispositivo induziu à articulações cooperativas entre os órgãos e isso foi um aspecto forte da efetividade da intervenção do Estado. O dispositivo normatizou o trabalho integrado entre os órgãos do Estado, configurando uma estrutura de ação inusitada no modo de gerir os processos públicos, consistenciando as políticas ambientais, também fundiária e creditícia ao vincular os diversos órgãos envolvidos.

  O PPCDAm em seus primeiros anos de execução não inspirava credibilidade em função da histórica fragilidade na implementação das políticas públicas para a Região Amazônia. Contudo, segundo o documento de avaliação do PPCDAm (IPEA, CEPAL e GIZ, 2011), desde sua vigência, de 2004 a 2010, a taxa anual média de desmatamento na Amazônia foi de 15,6 km². A taxa anual passou de 27,4 mil km², em 2004 para 6,5 mil km² em 2010- nível mais baixo desde o início das medições anuais em 1988. Essa expressiva queda, explicada pelas ações do PPCDAm, é um indicativo de

  21

  avaliação do Plano como um instrumento eficaz das políticas públicas ambientais para a Amazônia.

  O Plano viabilizou a presença do Estado em muitas áreas da Amazônia, sobretudo nos municípios do Arco do Desmatamento. Essa presença constante do Estado tem favorecido a construção de uma agenda positiva em muitos municípios, como o caso de Paragominas e, posteriormente Dom Eliseu, nosso foco nesse estudo.

  No entanto, mesmo tendo sido avaliado positivamente quanto à redução do desmatamento, a avalição última do PPCDAm suscita desconfiança quanto a uma transformação das práticas predatórias para um modelo sustentável de desenvolvimento,

  21

  ... podemos dizer, pragmaticamente, que uma lei é eficaz pela sua observância, significa que agiu

  conforme a norma, sem que haja vínculo sancionatório, ou pela sua imposição (eficácia heterônoma), ou que expresse durabilidade das ações de preservação (IPEA, CEPAL & GIZ, 2011, p. 48) a redução do desmatamento observada nos últimos anos é “ ainda não está claro se perene ou conjuntural, uma vez que não houve transição efetiva no modelo econômico histórico para um de bases sustentáveis ”.

  Outra questão importante de se notar é que os incentivos para a recuperação das áreas abertas sem uso necessitam ser revistos, pois a agregação de valor para iniciativas desta natureza ainda é muito baixo. Segundo o TCU apud IPEA, CEPAL E GIZ (2011, p. 85),

  “as terras degradadas possuem valor de mercado maior do que as áreas com floresta em pé, ou seja, do ponto de vista privado, no que tange a valorização do ativo “terra”, ainda não vale a pena reflorestar um área aberta sem uso”

  Do ponto de vista dos resultados alcançados até 2010, as ações do PPCDAm têm influenciado as consecutivas quedas do desmatamento, devendo-se às ações de comando e controle. O sucesso nesse eixo conta com o Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélite (Prodes), existente desde 1988, com a criação da Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), funcionando a partir de 2004 e do Mapeamento da Degradação Florestal na Amazônia Brasileira (Degrad)

  • – operando desde 2009. Os três sistemas foram concebidos e são operados pelo Inpe (IPEA, CEPAL, GIZ, 2011). Entretanto, as ações programadas para promover a transição para uma economia sustentável de desenvolvimento na Amazônia que pode trazer redução a longo prazo através de ações autônomas ainda é muito baixa. O desafio nesta nova fase do PPCDAm é na implementação das ações de regularização fundiária e das ações de estruturação de cadeias produtivas sustentáveis substituindo o desmatamento ilegal (IPEA, CEPAL, GIZ, 2011).

  As ações de repressão têm um peso relevante para combater a derrubada da floresta em função dos resultados mais imediatos. Porém, elas precisam subsidiar as ações de regularização fundiária e de incentivos às práticas econômicas sustentáveis.

  O PPCDAm, no que tange à redução de dióxido de carbono em função da

  22

  devastação da flora, contribui diretamente para os objetivos de REDD+ e também mantém forte relação com outras estratégias nacional desse mecanismo.

  Desde que foi lançado em 2004, embora não tenha avançado nos eixos estruturais de Ordenamento Fundiário e Territorial e de Fomento as Atividades Produtivas Sustentável, no Monitoramento e Controle Ambiental foi muito positivo, como foi aferida por dados do desmatamento medidos pelo PRODES/INPE:

  

Gráfico 3 - Desmatamento na Amazônia Legal e a evolução do Produto Interno Bruto

brasileiro no período de 1990 a 2011.

  FONTE: PRODES/INPE (MMA; Grupo Permanente de Trabalho Interministerial, 2013)

  As ações do PPCDAm tiveram maior focalização nos municípios críticos do desmatamento, onde as operações foram mais intensas apresentando uma maior pressão sobre as atividades predatórias por meio do monitoramento e combate ao desmatamento ilegal, inibindo o comércio de produtos irregulares oriundos dos setores madeireiro e

22 REDD foi um conceito adotado pela Convenção do Clima da ONU. O REDD+ originou-se a partir do

  

conjunto de políticas de incentivos incorporados por projetos de conservação, manejo sustentável das

florestas e aumento de seus estoques em países em desenvolvimento (IPAM, 2013). Os objetivos de

REDD+ é retardar, deter e reverter a perda de cobertura florestal e de estoques de carbono. Os dois agropecuário. As ações do Plano têm demonstrado esforços para reverter a lógica produtiva ancorada no modelo extensivo de uso do solo. Com esse objetivo o PPCDAm coordenou articulações operacionais avultosas para os três eixos estratégicos como a operação arco de fogo do eixo Monitoramento e Controle. Essa operação, considerada uma das maiores do Plano, acionou ações de segurança pública promovidas pelas Polícias Federal, Civil e Militar, essa integração entre os órgãos estatais provocou efeitos impactantes sobre as atividades produtivas locais.

  A Operação Arco Verde, vinculada ao eixo do Fomento às Atividades Produtivas Sustentáveis, visou amenizar os impactos das ações de combate e controle propondo desenvolver junto às populações locais dos municípios críticos novos modelos de exploração econômica. Essa operação também envolveu diversos órgãos do Estado e das três instâncias governamentais. Ainda como parte da operação se acionou o Programa Terral Legal, também como medida inerente ao eixo Fomento às Atividades Produtivas Sustentáveis, com a finalidade de atender as demandas por maior presença do Governo Federal nos municípios prioritários e fortalecer a mediação da transição do modelo predatório para um modelo baseado na manutenção da floresta em pé. Desse modo, as perspectivas de geração de emprego e renda sustentáveis são elevadas, bem como a qualidade de vida da população.

  Observando a organização destas operações, o MMA classifica-as em: emergenciais e estruturantes. As emergenciais buscam atender as necessidades imediatas de emprego e renda para as famílias afetadas; as operações estruturantes, consideradas de médio prazo, destinam-se a fortalecer iniciativas socioeconômicas através de assistência técnica, disponibilização de tecnologias e outros apoios (MMA, 2013).

  Ao considerar a necessidade de implementação das ações do Plano, mesmo as de monitoramento e controle nessa nova fase de declínio do desmatamento, constata-se a importância deste receber outros encaminhamentos. Com esse propósito o PPCDAm inicia sua terceira fase (2012-2015) com um desafio ainda maior: prover ações condizentes com a nova situação do desmatamento possibilitando elevar a escala e a eficácia das atividades produtivas sustentáveis e da regularização fundiária.

  O PPCDAm produziu efeitos nas localidades, sobretudo nos municípios críticos. A partir desses efeitos os atores locais responderam a essa política, no caso estudado, a reação culminou na elaboração de um projeto local para se ajustar a legislação ambiental e retomar a vitalidade das atividades produtivas que estudaremos no capítulo à frente.

2.2.3 O Plano de Prevenção Controle e Alternativas ao Desmatamento do Pará

  Instituído pelo Decreto Estadual nº 1.697/2009 o Plano de Prevenção Controle e Alternativas ao Desmatamento do estado do Pará- PPCAD/PA estabelece um conjunto de 39 ações do governo do estado do Pará para fazer frente à perda de florestas do bioma Amazônica sob o domínio do Estado do Pará. O Plano segue o mesmo molde do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm. Da mesma maneira que este o PPCAD-PA busca, além de controlar o desmatamento, a consolidação de alternativas econômicas sustentáveis como a forma mais segura de perenizar a queda das taxas de desmatamento e alavancar um novo paradigma produtivo.

  Sendo assim o PPCAD-PA, igualmente, está estruturado em três eixos básicos: ordenamento territorial, fundiário e ambiental; fomento às atividades sustentáveis; e monitoramento e controle do desmatamento.

  O Plano estabelece como estratégia de ação e governança as parcerias interinstitucional, governamental e não-governamental. As ações seguem as diretrizes do zoneamento econômico ecológico e prevê a aglutinação das sinergias de outras políticas para planificar ações idênticas. Constitui-se assim em mais um instrumento de política de combate e controle do desflorestamento. O Plano foi elaborado com a vigência de 2009 a 2012 e ainda não foi disponibilizada a publicação da avaliação oficial de sua execução nesse período, bem como não foi publicada uma segunda etapa do mesmo.

  Ainda assim, usando pontos de comparação com o PPCDAm o eixo monitoramento e controle apresenta maior nível de êxito considerando que o monitoramento feito pelos órgãos de fiscalização. Quanto ao ordenamento territorial, fundiário e ambiental, houve avanço na definição de UC e no número de estabelecimentos com registro no CAR. No entanto, a regularização fundiária tem se processado muito lentamente, mesmo nos municípios críticos do desmatamento e mesmo considerando a presença do Programa Terra Legal em operação. O eixo de fomento às atividades sustentáveis também carece de implementação, os investimentos públicos ainda não são estimuladores segundo os produtores. Há morosidade, burocracia e falta de objetividade, essa queixa é manifestada tanto pelos produtores maiores quanto pelos pequenos.

  Mesmo considerando muitas lacunas a serem sanadas, os Planos de combate e controle têm tido relevante papel na queda das taxas do desmatamento. Isso foi fundamental na amenização da crise. A avaliação do estágio atual recomenda que haja investimentos em ações de longo prazo e autossustentáveis. Ou seja, as ações de monitoramento e controle não devem ser enfraquecidas, mas, no caso da questão ambiental, como uma questão estabelecida no cenário social, não pode ficar ancorada majoritariamente na repressão. É preciso se pensar com a mesma dedicação na construção da cultura de preservação, não como um cumprimento de ordem, mas como uma necessidade para vida coletiva, que seja incorporada à consciência comum e assim tornar menos necessário o uso da força estatal.

  No que tange às questões de meio ambiente, se desenvolveu uma percepção de fragilidade a respeito das políticas e leis ambientais (IPEA, 2010), no entanto, embora circundada de controvérsias e polêmicas, há muitas garantias protetivas ao meio ambiente na legislação ambiental brasileira. Nas últimas décadas, a Amazônia foi amplamente contemplada pelas políticas de proteção aos recursos naturais, dado que não dá para convencionar os dispositivos legais para a região, exatamente como frágeis. Em outras palavras, podemos dizer que não estamos tão mal servidos de leis, o problema, ousamos dizer, se centrava na posição da máquina estatal, ineficiente no controle do uso das reservas naturais. Ousamos dizer ainda, que essa ineficiência, não é necessariamente incapacidade, mas diz respeito aos interesses da própria condição do Estado, a quem não interessava impor limites às atividades econômicas de exploração dos recursos naturais.

  Referindo-se à exploração da floresta nas práticas de extrativismo vegetal na Amazônia até bem pouco tempo não contava com políticas ambientais que encorajava formas sustentáveis de apropriação (IPEA, 2010). O precário conhecimento dos atores, tanto da legislação quanto do funcionamento dos sistemas socioambientais, contribuiu para a cultura da degradação. Essa cultura predatória fez com que o desmatamento fosse avaliado como a principal ameaça à manutenção da biodiversidade amazônica e como maior indicador no território brasileiro para as mudanças climáticas mundiais.

  Dessa maneira, a análise das principais políticas públicas ambientais formuladas para a Região Amazônica representa a ratificação da legitimidade da instituição Estatal como ordenadora da vida social e dos negócios do país. Assim, os instrumentos regulatórios para o uso dos recursos naturais são estratégias de estruturação da funcionalidade do Estado em face das demandas globais e do prestígio político a nível nacional e internacional. O discurso legal sustenta o princípio da promoção da justiça e atuação em defesa do bem comum, levando em conta as práticas convencionadas. Dentro desta perspectiva, o Estado, no exercício de sua função, assegura sua legitimidade e fortalece o senso de responsabilidade institucional.

3. UMA TERRA PARA SER PRESERVADA: A emergência do Programa

  

Estadual Municípios Verdes e a adesão pelo município de Dom Eliseu

  O lançamento do PPCDAm, em 2004, elevou a pressão sobre os municípios críticos do desmatamento e afetou sobremaneira o estado do Pará, embargando municípios que mantinham importante participação na economia paraense. Levando em conta os compromissos assumidos pelo país nos eventos internacionais em reduzir a taxa do desmatamento, as ações de comando e controle ganharam destaques importantes na agenda do governo federal por meio da execução de fortes operações de fiscalização contínuas, impactando a economia e a vida em geral nas localidades identificadas como as mais degradadoras da floresta “nos municípios que constam da lista anexa incidirão ações prioritárias relativas à proteção de áreas ameaçadas de degradação e à racionalização do uso do solo, de forma a prevenir, monitorar e controlar o desmatamento ilegal” (PORTARIA MMA, Nº 28 de 24/01/2008).

  Para compreender o papel do Estado em relação às políticas públicas de controle do desmatamento para Amazônia, importa refletir seu papel elementar de ordenador da vida pública, buscando suprir as lacunas estruturais. Desse ângulo é possível entender a lógica estatal quando implantou as políticas desenvolvimentistas para a Amazônia, considerando o que essa região agregava ao Estado Brasileiro em termos de oportunidades econômicas, mas, também o desafio sobre a incapacidade para gerir seu território.

  O advento do século XXI muda a lógica desenvolvimentista. O cenário desvelado é outro, pois o desenvolvimento passa a ser necessariamente relacionado com o conceito de sustentabilidade ecológica. É nesse sentido que o Estado exerce sua função de responder aos problemas estruturais com políticas públicas que atendam aos interesses dos diversos atores (OFFE, 1984). No caso, espera-se a criação de uma política que busque assegurar a existência de uma sociedade em que o desenvolvimento sustentável precisa ser assumido como um modelo que configure a relação entre sociedade, economia e ambiente. Estado brasileiro para controlar o desmatamento na Amazônia e tentar estabelecer os rumos de uma política de desenvolvimento sustentável para a região. No presente capítulo, abordamos como uma das iniciativas geradas no âmbito do PPCDAm, o controle do desmatamento em municípios em situação crítica, ocorreu na Microrregião de Paragominas, especificando o caso de Paragominas e de Dom Eliseu.

3.1. A inclusão do município de Dom Eliseu na “lista suja” do desmatamento

  A edição pelo Ministério do Meio Ambiente da chamada “lista suja” do desmatamento, trouxe, em sua primeira publicação, em 2008, doze municípios paraenses em situação crítica de desmatamento, dentre os quais Paragominas, Ulianópolis, Rondon do Pará e Dom Eliseu, todos pertencentes à Microrregião de Paragominas. A edição dessa lista representou uma medida substancial do Estado para repreender práticas depredadoras da natureza e, para, a partir desta, procurar reverter a lógica do desmatamento com a proposição de outras medidas mitigadoras de regeneração do ambiente, que na contemporaneidade acha-se revestido de alto valor nos discursos oficiais.

  Na primeira edição da Lista Suja foram arrolados quarenta e três municípios, em todo o país, dentre estes, doze eram municípios paraense. No ano seguinte mais quatro municípios do estado do Pará foram adicionados à lista suja do desmatamento, totalizando dezesseis municípios em situação crítica de desmatamento.

  Figura 5- Mapa com os municípios paraens

  es presentes na lista “suja” do desmatamento, conforme Portarias MMA n ⁰ 28/2008 e n⁰ 102/2009.

FONTE: IPAM/2009

  Estar incluso na “lista suja” representa um constrangimento econômico, político e social para os municípios, uma vez que os agricultores e pecuaristas das localidades arroladas ficam impedidos de obter novos financiamentos pelo sistema bancário oficial, até cumprirem com as exigências do Estado. No mesmo sentido, fica proibida a emissão de novas licenças e a liberação de novas áreas para o plantio agrícola ou para expansão das áreas de pastagem. O município sofre a concentração de fiscalizações e ações repressoras paralisando as atividades produtivas e conduzindo o lugar a um estado de forte vulnerabilidade econômica.

  Como decorrência das circunstâncias acima citadas, a inserção de Dom Eliseu na Lista Suja do desmatamento significou um grande impacto na vida social do município, pois, a medida paralisou atividades econômicas, elevando o desemprego, gerando queda da renda dos trabalhadores e promovendo a intensificação da emigração

  ... a lista é marginalizadora, uma lista que praticamente marginalizava os municípios que mais desmatavam, hoje com a questão ambiental... o mundo tá na tela do computador e você poder ver os municípios..., realmente manchava nossa imagem, do nosso município de Dom Eliseu [a lista]... por isso lista suja... teve um impacto negativo, não vamos dizer que não teve. Você ter que parar serrarias, parar carvoeiras que sempre trabalharam na clandestinidade, gera um desemprego grande, gera insatisfação muito grande na comunidade é um dos fatores que agente sofreu um pouco [como] gestor, nós dos municípios. (Entrevista com Joaquim Nogueira Neto, Prefeito Municipal de Dom Eliseu, realizada em 29/10/2013).

  3.2. As operações de fiscalização na microrregião de Paragominas

  As ações de repressão ao desmatamento e queimadas ocorridas na microrregião de Paragominas fazem parte das ações articuladas do PPCDAm e são realizadas por uma ação conjunta e integrada das polícias Federal, Rodoviária Federal, Civil e Militar e da Força Nacional de Segurança Pública. A que teve maior destaque nos meios de comunicação e que apresentou maior repercussão para a adoção das políticas de

  23 controle do desmatamento foi a que ficou conhecida como .

  “Operação Arco de Fogo” A realização dessas ações, que são coordenadas pela Comissão

  Interministerial de Combate aos Crimes e Infrações Ambientais- CICCIA-

  24 NACIONAL , foram intensificadas a partir da edição do PPCDAm, obtendo um

  desempenho importante quanto a repressão aos infratores, pois, apenas na Operação Curupira, uma das intervenções iniciais da Operação Arco de Fogo, foram efetivadas a prisão de 85 acusados.

  As operações seguintes, também podem ser consideradas como exitosas em termos de resultados alcançados, embora tenham ocorrido manifestações violentas em algumas delas. A ação integrada dos Ministérios do Meio Ambiente e da Justiça, através

  23 Operação coordenada pela Polícia Federal com o apoio do IBAMA e Força Nacional de Segurança, decorrida a partir da Portaria nº 28 de 24/01/2008, entrou em Ação em fevereiro do mesmo ano.

  da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança, foi imprescindível para produzir um efeito positivo. Considerando a situação vulnerável do Ibama nas décadas anteriores e o desafio de combater práticas sedimentadas na cultura do lugar, possivelmente, a intervenção do órgão seria frustrada sem uma ação conjunta das instituições estatais.

  Cada operação de fiscalização foi identificada com nomes associados ao objetivo da intervenção, como no caso da Operação Caieira que, em setembro de 2008, combateu a produção de carvão vegetal ilegal e fiscalizou áreas fundiárias irregulares, uma das primeiras operações de atuação intensa do Ibama na região. Como resultado desta operação houve a derrubada de mais de cem fornos e a apreensão de caminhões e equipamentos de produção.

  Em seguida, outras operações foram postas em prática como Operação Fenix e Operação Repa, todas tinham objetivos de combater o desmatamento, a produção irregular, o transporte e o comércio de produtos florestais constatados como ilegais.

  Essas operações, a princípio, foram direcionadas intensamente para o município de Paragominas, depois se estenderam para outros municípios da microrregião, como Dom Eliseu e Ulianópolis, e outros de regiões distintas desta. Como destacou um proprietário rural em depoimento para nossa pesquisa:

  “foi o Ibama, e veio com helicóptero e parou bem aí nesse espaço da frente desceram armados até os dentes, nós até nos assustamos,

  „olha! o que que aconteceu?” (Entrevista com Luiza Prata, Produtor Rural, realizada em 15/11/2013)

  Tanto Paragominas quanto Dom Eliseu, bem como outros municípios em situação irregular, sofreram com as operações de combate aos crimes ambientais. Nas operações realizadas, as equipes de fiscalização apreenderam produtos florestais (madeira em tora, madeira serrada, carvão vegetal), agropecuários (bovinos, milho, soja) e maquinários (caminhões, tratores, motosserras, pá carregadeira). Foram embargadas as propriedades rurais onde se identificou ilegalidade, serrarias e madeireiras foram fechadas, fornos de carvoarias foram destruídos, multas severas foram aplicadas e mandados de prisão aos infratores foram cumpridos.

  Uma das operações realizadas na região, constante do relatório de diligências

  25

  do Ibama, denominada “Caça Fantasma,” teve como objetivo identificar empresas que existiam apenas formalmente, sendo usadas para legalizar a comercialização de produtos florestais, revelando a prática de emissão das chamadas “notas frias” que davam suporte para as firmas clandestinas.

  As operações realizadas deixaram impactos econômicos importantes nas localidades fiscalizadas. No caso de Dom Eliseu, após a fiscalização foi possível identificar a fuga de alguns empreendimentos da indústria madeireira para outras regiões do estado, principalmente para o município de Tailândia, localizado no nordeste paraense. Houve também o deslocamento desses empresários da madeira para outros estados da região Norte, que ainda dispunham de importantes reservas florestais. Vale registrar que alguns desses empresários tiveram seus negócios frustrados, ao constatarem que a política de combate ao desmatamento era mais ampla do que pensavam, de forma que acabaram retornando para Dom Eliseu.

  Somente as empresas com plano de manejo florestal aprovado permaneceram com suas atividades regulares na região de estudo, de forma que o número daquelas que funcionavam na irregularidade e que viviam na clandestinidade é cada vez menor. Existem indícios de firmas funcionando em condições irregulares em Dom Eliseu, porém, existe a constatação de que não há mais perspectiva para a atividade extrativista nesse modelo, pois os riscos de serem apanhados pela fiscalização são muito maiores hoje.

  Como consequência do aprimoramento da fiscalização ambiental pelo governo federal, os municípios da Microrregião de Paragominas enfrentaram um forte aumento do desemprego. A intervenção do Estado através da ação de combate às práticas irregulares instalou uma situação crítica na região e encerra o ciclo entusiástico que motivou muitos colonizadores nas décadas anteriores a migrarem para a região.

3.3. O ponto da virada: o caso de Paragominas

  A publicação da lista suja dos municípios que mais desmatavam na Amazônia representou um marco importante para o processo de transição de uma economia centrada no uso irrestrito do solo para uma economia de base mais sustentável. Junto com a publicação da lista veio a suspensão do crédito e o fechamento de oportunidades para a localidade.

  Desse modo , a publicação da “lista suja do desmatamento,” como é conhecida, tornou-se um importante elemento da institucionalização da problemática ambiental. A partir dessa medida pública, surgiram as respostas dos atores, que, adotaram estratégias de saída coletiva da situação crítica.

  No caso estudado, verificamos que os atores se apossaram do discurso oficial de desenvolvimento sustentável para construir novas formas de produção que levassem em conta o meio-ambiente, procurando inserir em seu contexto produtivo um conjunto de práticas denominadas de “práticas verdes” ou “ambientalmente corretas”, conquistando, assim, a legitimidade jurídica, social e política para a continuidade de sua atividade econômica.

  O ponto da virada começou no município de Paragominas, depois se espalhou para os demais municípios da microrregião, como no caso de Dom Eliseu. Em 2008, a “Operação Arco de Fogo” permaneceu por 40 dias em Paragominas, considerado um dos municípios com piores indicadores de desmatamento na Amazônia. Nesse tempo, a operação apreendeu produtos florestais, aplicou multas e outras ações para inibir as atividades ilegais. Paralelamente a esse episódio, o gestor municipal, juntamente com outras lideranças locais, se mobilizaram para apresentar a sociedade uma proposta de reorganização dos processos produtivos do lugar, com vistas a atender as exigências legais de controle do desmatamento.

  Entretanto, alguns empresários do setor madeireiro reagiram violentamente a essas operações e às restrições da extração ilegal de madeira. Dentre as reações dos manifestantes, a mais agressiva foi a ação de atear fogo à sede do Ibama em Paragominas, ato que obteve uma repercussão midiática intensa, produzindo em rede empresários outras ações foram suscitadas, como um reforço maior à atuação do Ibama

  26 no município, com o apoio de órgãos da segurança estadual e federal .

  Após sofrer as consequências das ações estatais de fiscalização e controle do desmatamento, o prefeito do município de Paragominas, o Sr. Adnan Demachki realizou uma campanha para sensibilizar os atores locais a assumirem o compromisso de cumprirem as exigências da legislação ambiental e dessa maneira evitar o desmatamento ilegal. Essa mobilização resultou na assinatura do chamado “Pacto pelo Desmatamento Zero”, compromisso assumido após evento público coordenado pelos líderes da localidade, representados pelo prefeito e pelo presidente do SPR. A partir de então, a prefeitura e entidades de Paragominas assumiram a iniciativa de construir alternativas produtivas sem desmatar e desse modo cumprir com a legislação ambiental. Com esse propósito lançaram o projeto “Paragominas Município Verde”.

  O projeto “Paragominas Município Verde” teve como objetivo principal criar as bases para a adequação ambiental dos processos produtivos em Paragominas, visando retirar o município da lista suja do desmatamento, o aprimoramento do uso do solo e dos recursos florestais rumo à uma produção sustentável (FERNANDES, 2011).

  Para atingir esse objetivo o projeto foi estruturado em sete linhas de atuação:

  a) Pesquisa: caracterização socioeconômica e florestal do município;

  b) Monitoramento mensal do desmatamento: feito por imagens de satélite e verificação em campo; c) Apoio ao Cadastro Ambiental Rural: inserção de pelo menos 80% dos imóveis rurais do município; d) Capacitação de agentes ambientais: suporte para o gerenciamento do monitoramento e gestão ambiental local;

26 Além dessa medida, o governo federal publica outros documentos normativos para fortalecer as

  

operações no Bioma Amazônia, como o decreto assinado pelos ministros do Meio Ambiente e da Justiça

concedendo autonomia ao Ibama para requerer a intervenção da Força Nacional de Segurança Pública no

combate a crimes ambientais sem um requerimento mediado pelos os governos dos Estados. Instituiu,

também, através de decreto, a CICCIA-NACIONAL. Um terceiro decreto cria a Guarda Nacional

Ambiental. Essas medidas emergiram tanto em razão dos episódios vivenciados no decurso das operações

como também para assessorar o cumprimento da legislação ambiental e dar suporte à continuidade das ações. e) Educação ambiental: inserção da educação ambiental no currículo das escolas públicas municipais; f) Ampliação das áreas de reflorestamento e manejo florestal;

  g) Boas práticas agropecuárias: implantação de práticas sustentáveis de produção através de articulação entre os setores produtivos e entidades de pesquisa. Procurando apoios para o encaminhamento do Projeto, a prefeitura do município articulou parcerias de ONG‟s como o Instituto do Homem da Amazônia

  (IMAZON), que já tinha trabalho de pesquisa realizado na região. Através dessa parceria, foi possível, por exemplo, criar um sistema de monitoramento via satélite das queimadas no território municipal. Outra parceria estabelecida foi com a ONG The Nature Conservancy (TNC), que assegurou a execução do Cadastro Ambiental Rural de quase todas as propriedades do município, uma ferramenta legal com informações sobre o perímetro e um mapeamento de vegetação nativa e áreas abertas de cada estabelecimento agropecuário (IMAZON, 2011)

  Em março de 2010, após esforço conjunto da sociedade, Paragominas registrou uma notável queda do desmatamento e mais de 80% dos estabelecimentos agropecuários do município foram cadastrados no CAR. Com o cumprimento dessas metas, o município foi o primeiro a sair da lista “suja” do desmatamento na Amazônia. Mas além de cumprir os requisitos para sair da lista, Paragominas foi mais adiante e implantou mudanças em sua base de produção agroflorestal e agropecuária (WHATELY, 2013).

  Com essas conquistas Paragominas tornou-se um exemplo para outros municípios da Amazônia. Sua experiência no processo de transição de um modelo baseado em atividades predatórias e extensivas para uma base mais intensiva e sustentável foi referência para outros municípios que desejavam reverter sua situação crítica e também foi fator de atração para investidores. Desse modo, o município recuperou postos de trabalhos que havia perdido no momento de crise e agregou mais qualidade nas áreas de reflorestamento e pecuária.

  O título de “município verde” trouxe reconhecimento nacional. Paragominas depreciativa imprimida pelas ocorrências passadas e divulgar uma imagem positiva de lugar que respeita a legislação e o ambiente. O discurso de sustentabilidade passou a ser um padrão para o discurso dos atores sociais locais: “o novo discurso verde se insere na busca por novos investimentos para Paragominas que vem sendo prioridade para a gestão pública municipal” (FERNANDES, 2011).

  A partir da experiência de Paragominas, em 2011, o Governo do Estado do Pará lançou o “Programa Estadual Municípios Verdes”, procurando estender a experiência de mobilização contra o desmatamento para o conjunto dos municípios em situação crítica. Assim, o governo estadual se apropria do modelo do Projeto Município Verde e o transforma em uma política estadual de combate e controle do desmatamento com foco nos municípios.

3.4. A criação do Programa Estadual Municípios Verdes

  O Programa Estadual Municípios Verdes (PEMV) é um programa do Governo do Pará desenvolvido em parceria com municípios, sociedade civil, iniciativa privada, Ibama e Ministério Público Federal, com o objetivo de combater o desmatamento e fortalecer a produção rural sustentável, desenvolvendo um conceito de "economia verde" - com baixa emissão de carbono e alto valor agregado por meio de ações estratégicas de ordenamento ambiental e fundiário e gestão ambiental, com foco em pactos locais, monitoramento do desmatamento, implantação do Cadastro Ambiental Rural e estruturação da gestão municipal, melhorando os sistemas municipais de meio ( ). ambiente WHATELY, 2013

  O Programa foi lançado em março de 2011, por meio do Decreto Estadual nº 54/2011, sob a coordenação da Casa Civil, especificamente gerida pela recém-criada Secretaria Extraordinária do Estado para coordenar o Programa Municípios Verdes (SEPMV). O programa conta com um Comitê Gestor multinstitucional responsável pelas decisões estratégicas e pelo plano de ação do programa, composto por 21 integrantes, sendo dez representantes do governo e onze representantes da sociedade civil, além do Ministério Público do Estado do Pará (WHATELY, 2013).

  As ações são executadas por um conjunto de instituições governamentais e não Programa são: i) redução do desmatamento em 80% no Estado do Pará até 2020, comparada à média anual de 6.255 Km² (1996-2005) e obter a partir dessa data, o desmatamento líquido zero; ii) crescimento de, no mínimo, 50% de inscrições no Cadastro Ambiental Rural em 2012, meta já alcançada (WHATELY, 2013).

  Para atingir essas metas, o PEMV estruturou quatro eixos ou linhas de ação:

  a) Controle e monitoramento do desmatamento

  Em nível de PEMV o monitoramento dos municípios é feito via satélite pelo Imazon a partir do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) “a cada mês, separamos a melhor composição de imagens e enviamos para os municípios onde foi detectado desmatamento”, diz Carlos Souza, coordenador de monitoramento do Imazon (WHATELY, 2013). A partir das informações recebidas pelo município, a equipe da SEMA municipal averigua a campo o desmatamento e, ao constatar a situação de (i)legalidade ambiental, encaminha relatório para a secretaria do PEMV, que dá seguimento às medidas cabíveis em caso de infração.

  Essa atividade é realizada também pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE), que usa os sistemas de monitoramento em tempo real

  • – o Deter, instrumento do PPCDAm.

  b) Ordenamento territorial, ambiental e fundiário.

  Com o lançamento do PEMV houve uma maior priorização das ações de ordenamento territorial e ambiental envolvendo áreas privadas, com ênfase no CAR e na participação dos municípios através de pactos locais. Esse componente prevê também a criação e consolidação de áreas protegidas e ações de regularização fundiária. O programa prevê ainda incentivos aos produtores que não desmatam e que estão em processo de regularização ambiental, inclusive com acessibilidade ao crédito e ao mercado consumidor. Com a demonstração de ordenamento do território se abre a possibilidade de desembargo de áreas detectados com uso irregular no município através de compromisso firmado com o Ibama e com o MPF.

  Essa linha de atuação tem apresentado dificuldades, não apenas no Pará, mas pelo processo desordenado como o que ocorreu na ocupação dos Estados Amazônicos. Esse entrave alimenta os conflitos sociais e agrários, dificulta a intensificação do uso da terra e por fim inibe os investimentos, considerado o vetor do desenvolvimento socioeconômico.

  c) Produção sustentável

  Considerando o histórico predatório do uso dos recursos naturais no estado do Pará, o desafio do PEMV é contribuir para a promoção de uma economia de baixo carbono e que também colabore para a melhoria de vida das populações pobres através de uma cultura agrícola diversificada e investindo em cadeias produtivas sustentáveis como: i) manejo de florestas nativas; ii) intensificação da produtividade da agropecuária; iii) apoio à silvicultura florestal; iv) restauração e/ou recomposição do

  27 passivo ambiental estadual; e v) investimento em pecuária verde .

  d) Gestão ambiental compartilhada.

  Esse componente se apresenta como um dos diferenciais das demais políticas de controle do desmatamento, posto que enfoca a descentralização da gestão ambiental comprometendo vários atores institucionais, bem como uma maior responsabilização dos atores locais, prefeito, SEMA municipal e Semagri por exemplo.

  Nesse sentido o PEMV apoia, em parceria com a SEMA, os municípios para a descentralização da gestão com instalação de sistemas municipais de meio ambiente, com a criação de órgãos municipais de meio ambiente, com conselhos e fundos específicos para a área ampliando a capacidade das prefeituras no combate ao desmatamento capacitando os agentes municipais para atuarem no campo, promover, incluir e validar o CAR das propriedades, licenciar atividades de impacto local com prioridades para atividades rurais e outras que potencialize o cumprimento da legislação ambiental.

27 Pecuária verde ou pecuária sustentável é um projeto que agrega mais qualidade na produção bovina e

  

valor ambiental. Consiste em produzir mais utilizando menos áreas através da inserção de conhecimento

e tecnologia e a capacitação dos atores; visa o maior aproveitamento das áreas antropizadas podendo

  A adesão dos municípios ao PEMV é voluntária. Mesmo assim, o governo até dezembro de 2013 contava com a participação de 97 de 144 municípios. Segundo o Coordenador Estadual do Programa, Justiniano Netto, a perspectiva é de que brevemente seja atingida a meta de cem adeptos (WHATELY, 2013).

  O Programa oferece as seguintes vantagens aos municípios para se tornar um município verde (WHATELY, 2013): a) Segurança jurídica: o cumprimento das leis ambientais garante tranquilidade dos produtores, que não sofrerão com sanções como multas e embargos econômicos;

  b) Valorização no mercado- os consumidores têm optado por produtos com procedência socioambiental correta e alguns países importantes têm restringido o comércio de produtos que causam danos ao meio ambiente. No Brasil, grandes varejistas, como Walmart, Carrefour e Pão-de-Açúcar, declararam não comprar mais produtos oriundos de desmatamento ilegal, assim sendo, assinaram TAC se comprometendo a firmar negócios apenas com fornecedores ambientalmente regulamentados.

  c) Atração de investimentos- ser um município verde é um diferencial de mercado e pode atrair bons investimentos, é o que tem acontecido nos municípios que conquistaram o título de Município Verde.

  d) Mais crédito, fomento e assistência técnica- o governo federal sinaliza mediante mudança de postura em relação às questões ambientais e sociais a priorização do crédito, fomento e assistência técnica.

  e) Outras vantagens- o governo estadual planeja a redução de impostos para os produtores com regularidade ambiental, além de prioridade na regularização ambiental. Embora seja uma política que ainda está se consolidando, onde a prudência e a ponderação dos ânimos precisam estar presentes, todas essas vantagens produzem um ambiente satisfatório para os municípios. Certamente, só o tempo poderá confirmar se essas vantagens podem inferir mudanças no âmbito dos municípios e melhorar a qualidade ambiental e produtiva. A adesão do município implica no estabelecimento de sete metas estratégicas com vistas a se atingir os objetivos do programa, são elas (WHATELY, 2013): i. Celebrar o pacto local contra o desmatamento com a sociedade e governos locais; ii. Criar o grupo de trabalho municipal de combate ao desmatamento ilegal; iii. Realizar as verificações em campo dos focos de desmatamento ilegal e reportar ao programa; iv. Manter a taxa anual de desmatamento abaixo de 40 km² (com base nos critérios do Prodes/Inpe); v. Possuir mais de 80% da área municipal cadastrada no CAR; vi. Não fazer parte da lista dos municípios que mais desmatam na

  Amazônia; vii. Introduzir nas escolas municipais noções de educação ambiental. O programa funciona alinhado com outras políticas de monitoramento e controle do desmatamento e de promoção do desenvolvimento sustentável como o

28 PAS, PPCDAm e PPCAD com muitas ações simultâneas. A particularidade do PEMV

  está nos arranjos institucionais, nas parcerias e no foco na descentralização da gestão ambiental sustentado no comprometimento dos atores locais.

  Além de instrumentalizar as prefeituras para capacidades de gestão ambiental, o PEMV tem nas parcerias uma forte aliança, imprescindível para lograr suas metas. Na rede de cooperação do PEMV destacamos:

  a) Imazon

  O Imazon é uma organização não governamental, um instituto de pesquisa na área de desenvolvimento sustentável da Amazônia fundado em 1990, sediado em Belém do Pará, seus estudos tem subsidiado a formulação de políticas públicas e disseminado amplamente informações e formação profissional. Pelos trabalhos publicados, foi qualificado pelo Ministério da Justiça do Brasil como Organização da Sociedade de Interesse Público (Oscip). O Instituto tem sido parceiro do PEMV desde sua origem no

28 PAS, criado em 2008, propõe um conjunto de diretrizes para orientar o desenvolvimento sustentável da

  município de Paragominas, além do monitoramento do desmatamento via SAD dispõe da ferramenta “PMV Indicadores Municipais” que funciona como um banco de informações sobre os aspectos ambientais, econômicos e sociais dos 144 municípios do

  Pará a respeito do desmatamento por municípios, informações demográficas, relatórios do CAR, bem como gráficos com a visualização dos dados. Os principais termos da cooperação entre Imazon e PEMV são:

   As SEMAs disponibilizam mensalmente para o Imazon as informações necessárias para a elaboração de produtos, estudos e pesquisas de interesses em comum, em especial fornecendo a base de dados do CAR; Fornecer informações sobre as validações em campo dos focos de desmatamento realizadas pelo município a partir dos boletins gerados pelo Imazon;  Divulgar e disponibilizar para ampla consulta pública a ferramenta contendo indicadores ambientais, econômicos e sociais do município, a ser doado pelo Imazon ao PEMV; Repassar ao município, definidos em plano de trabalho ou projeto específico, os sistemas de gestão CAR, denominados SIGCAR, doados pelo Imazon; Fornecer apoio jurídico e técnico ao município na implementação dos sistemas de gestão do CAR.

  b) Ibama

  A principal linha de ação do Ibama é de monitoramento, comando e controle, um dos eixos do PPCDAM. As ações de fiscalização também ganharam impulso com a criação do Plano Nacional Anual de Proteção Ambiental (PNAPA), por meio do qual o Ibama programa suas ações de fiscalização, priorizando os locais onde ocorrem os maiores desmatamentos ilegais e levando em conta a série histórica do monitoramento por satélite. (WHATELY, 2013). O Ibama compõe a rede de parceiros institucionais do PEMV e este fortalece as ações operacionais do órgão. c) Ministério Público Federal

  O papel do Ministério Público Federal no contexto das questões ambientais é o de tutor, mesmo considerando que este é um campo de interesses sociais conflitantes e difusos. Sendo assim, desde 2009 sua participação tem se evidenciada, com destaque para o caso da investigação das cadeias produtivas vinculadas ao desmatamento ilegal na Amazônia. Nesse contexto, a pecuária se destaca como a atividade que mais pressionou a abertura da floresta. Mediante esse o fato, o MPF interviu com a chamada das empresas do setor para a assinatura de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC). Através deles, os frigoríficos assumiram o compromisso de comprar gado apenas de fazendas legalizadas. O acordo prevê várias etapas até se alcançar a legalidade e a condição de sustentabilidade produtiva. A partir da assinatura do TAC, os produtores deveriam ingressar no CAR e obter o LAR dando início à regularização das áreas de RL e de APP.

  O papel do MPF não é apenas junto aos proprietários rurais, mas também junto ao estado e aos municípios que, com responsabilidades diferenciadas, igualmente são chamados a assinar termo de compromisso com a instituição. Essa medida acelera a adoção de políticas públicas. A atuação do MPF é disseminado por toda a Amazônia Legal, porém no Pará esse esforço é compartilhado por vários órgãos e o PEMV se destaca como uma política mobilizadora para qualificação das cadeias produtivas.

  A ênfase em soluções locais adaptadas ao contexto socioambiental materializada pelo PEMV e convertido em esforço com resultados positivos, o Conselho Nacional do Ministério Público-CNMP premia os municípios que deixaram a lista com o Prêmio CNMP como forma de inspirar e motivar os atores institucionais a promoverem ações de controle do desmatamento e promoção das atividades sustentáveis. Aliás, vale ressaltar a importância dada pelo PEMV às relações interativas entre os atores e as instituições, considerando que o programa é operado a partir de pactos que envolvem produtores rurais, organizações sociais e ambientais em parceria com os governos locais e estadual.

3.5. Implantação do PEMV em Dom Eliseu-PA

  As questões ambientais eram assunto distante para os atores sociais e econômicos de Dom Eliseu até bem pouco tempo. Não havia consciência ambiental ou preocupação com a degradação dos recursos naturais, embora já fossem frequentes notícias e veiculação midiática das questões inerentes ao meio ambiente e já se notasse a ação do Estado através do IBAMA realizando diligências de fiscalizações das práticas irregulares em atividades com uso do solo.

  A partir de 2008, as ações de controle do desmatamento se intensificaram, e Dom Eliseu foi arrolado entre os municípios que mais desmatam compondo a lista crítica do MMA, afetando negativamente as atividades produtivas ligadas à agricultura, à pecuária e à exploração madeireira. Esse foi um momento tenso para o município, marcado pela queda das atividades econômicas, a população viveu tempos nebulosos com a baixa perspectiva de emprego. Essa situação definiu a instalação de uma crise para a localidade.

  O lugar que havia acolhido muitos empreendimentos pecuários, madeireiros e comerciais estava sucumbido ao desânimo. O sentimento imediato dos atores locais foi de indignação, longe de compreender a lógica motora das ações do Estado, principalmente por parte do trabalhador comum. O pano de fundo do desmatamento tem sido as atividades econômicas (pecuária, exploração madeireira, carvoejamento) que, em algum nível, movimentaram a economia local e que ainda ocupa papel importante. Dessa forma, tratar a questão do desmatamento pela lógica da repressão é reduzir o problema ambiental como uma questão simples e desvinculá-lo do processo social e histórico do lugar.

  Foram mais de duas décadas construindo uma cultura econômica sustentada na ideia de desenvolvimento associado à exploração florestal, que ainda não foi superada de forma substantiva. Portanto, tratar os atores do processo produtivo meramente como infratores não é uma forma apropriada de tratar a questão ambiental enquanto pretexto para mudar as atividades antrópicas e como forma de construir novas bases para a economia.

  Assim, a hostilização inicial do Estado provocada pelas ações de comando e controle, embora insuficiente para manter-se com exclusividade a um longo prazo, se pôs como indispensável enquanto medida estatal de uma instituição que necessita imprimir poder e autoridade sobre seu território, sobretudo tratando-se de um contexto cujo histórico de ocupação ocorreu à revelia de uma política bem planejada. Foi importante também para estabelecer uma orientação produtiva diferente, constado que o processo de uso do solo e dos recursos naturais no conceito de desenvolvimento que fundou a ocupação da Amazônia, digo de modo acelerado e desordenado, resultou em pouca geração de qualidade de vida para os habitantes da região e em graves impactos ambientais. Assim podemos declarar que esse momento da repressão deu início à construção social da ilegitimidade do modelo de produção predatório na localidade, forçando os atores a compreender que não podem dispor dos recursos naturais sem considerar os critérios estabelecidos pela legislação ambiental.

  Segundo Lenoir (1996, p.89), a tomada de posse de um problema social, digo o reconhecimento pelas instâncias estatais, é o princípio da legitimação e institucionalização do mesmo demandando políticas que respondam aos interesses coletivos. No caso do desmatamento da Amazônia, a adoção das políticas ambientais, exemplificada no capítulo anterior, significa o reconhecimento estatal desse problema demandando estratégias para o enfrentamento da situação.

  Entretanto, temos a convicção de que a consolidação dos princípios de uma vida social e ambiental sustentável não se dá instantaneamente na consciência das pessoas. E, desde que as políticas de controle do desmatamento começaram a se materializar na localidade têm ocorrido uma forte divisão social, entre os que apoiam e os que são contrários a essas medidas, como temos visto na ocorrência dos fatos. A reação à intervenção do Estado revela que ainda é muito forte a resistência à aceitação dos novos termos.

  A inserção de Dom Eliseu na política de controle ao desmatamento não teve a mesma força do movimento que ocorreu em Paragominas. Contudo, os elementos são semelhantes nos dois processos, pois, as operações de fiscalização do IBAMA também foram acompanhadas por ataques de madeireiros que insistem em infringir a legislação

  29 em vigor e continuar derrubando ilegalmente a floresta nativa .

  Nessa perspectiva, a inserção de Dom Eliseu no PEMV se apresenta, na percepção dos gestores, não como uma política imposta diretamente, mas como um mecanismo estratégico que permite enfrentar de maneira positiva o problema do desmatamento, pois, apesar de ser uma política estadual, o foco do Programa está no âmbito local. Considerando essas premissas vamos analisar as nuanças do PEMV no município de Dom Eliseu.

  Em 28 de maio de 2011, os principais atores coletivos do município de Dom Eliseu assinaram o pacto pela redução do desmatamento e regularização ambiental, materializando o envolvimento da comunidade local, primeira meta do Programa Estadual do Município Verde. A partir de então, a Prefeitura Municipal tomou medidas para fortalecer a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SEMA) ampliando a equipe de atendimento para a criação do grupo de trabalho municipal de combate e controle do desmatamento, cumprindo assim a segunda meta.

  Juntamente com os parceiros, dentre os quais se destaca o Sindicato dos Produtores Rurais (SPR), a prefeitura deu início à campanha de divulgação do Programa, procurando sensibilizar os produtores para a realização do Cadastro Ambiental Rural de suas propriedades. Os agentes municipais (funcionários da SEMA, da SEMAGRI) realizaram um ciclo de reuniões com os diferentes interessados, de forma a conquistar adeptos para o processo de regularização ambiental.

  Diferentemente do que ocorreu em Paragominas, o processo de georreferenciamento das propriedades para inserção de seus dados no CAR não contou com o apoio de organizações não governamentais. Para realizar esse serviço foram contratadas duas empresas, através de convênio com o MMA pelo período de um ano (maio de 2011 a maio de 2012). Após esse período, a SEMA Municipal contratou uma engenheira florestal para continuar o serviço.

29 Conforme notícia publicada no G1-Pará, disponível em:

  A empresa Vale Florestar, que está na região desde 2007, também foi colaboradora nessa ação, pois, como havia arrendado várias fazendas na região, deu viabilidade ao processo de regularização ambiental destas propriedades.

  Um ano depois, em 2012, o município já tinha atingido outra meta do PEMV, com a redução do desmatamento para abaixo de 40 km². Faltava, portanto, atingir os 80% de imóveis rurais com o CAR.

  Como a estrutura funcional da SEMA é pequena, composta por uma engenheira florestal e um técnico administrativo, foi necessário estabelecer um mutirão para dar celeridade ao trabalho. Nesse sentido, parcerias foram firmadas com órgãos governamentais (a EMATER-PA, a SEMAGRI) e com as empresas Vale Florestar e Laminadora Concrem que disponibilizaram técnicos capacitados para a realização de inscrições no CAR e desse modo atingir o índice de 80% de cadastro e obter a exclusão da “lista suja do desmatamento”.

  Contudo, a maior dificuldade para atingir a meta de CAR foi no convencimento dos proprietários que precisavam autorizar a inserção de dados no sistema.

  ...nesse período de um ano fizemos várias oficinas de conscientização, chamamentos, tiramos o escritório da cidade e fomos pra Vila Nazaré e outras localidades para incentivar o proprietário a fazer inserção de dados... nós saímos a campo, com a lista dos proprietários, nós fomos visitar um por um, e fazer o chamamento dentro da propriedade, procurando as propriedades maiores, separamos os processos das maiores propriedades para as menores, pra agente agilizar o processo. A empresa parou em maio, e em agosto nos atingimos 87,4% (agosto de 2012) do CAR, nós atingimos, ultrapassamos a meta.(Entrevista com Adilberto Poggi, Secretário Municipal de Meio Ambiente, realizada em 21/08/2013).

  Em setembro de 2012, através da Portaria nº 324 de 28/09/2012, o município de Dom Eliseu foi formalmente excluído da lista do MMA dos maiores desmatadores, expedida pelo próprio Ministério. Com a apresentação de valores abaixo de 40 km² de condição de monitorado e sob controle, obtendo prioridade na alocação de incentivos econômicos e fiscais, bem como na inserção nos planos, programas e projetos da União que tem como fundamento o desenvolvimento econômico e social sustentáveis. (IMAZON, 2013). A partir de então, Dom Eliseu, juntamente com outros quatro municípios além de obterem a saída da lista, passaram a recuperar condições políticas e mercantis mais favoráveis dadas por esta nova condição.

  Após controlar e monitorar o desmatamento e alcançar os 80% de CAR considerada a segunda fase do Programa, o município inicia o processo de regularização dos passivos ambientais e o licenciamento das atividades rurais. Permanece ainda o desafio de manter a taxa anual de desmatamento abaixo de 40 km² (com base nos critérios do Prodes/Inpe); aumentar o percentual da área municipal cadastrada no CAR, visando alcançar 100% de estabelecimentos rurais inscritos; e implementar nas escolas municipais a educação ambiental, considerando que já havia, antes da adesão ao PEMV, um trabalho nas escolas com abordagem da temática, trabalhado esporadicamente, como

  30 projeto transversal .

30 Essa condição de ensino aborda o conhecimento como um lugar secundário ou um não-lugar no

  

currículo escolar, um ensino que atravessa os componentes curriculares sem necessariamente fazer parte

dele.

  CONSIDERAđỏES FINAIS

  A política de desenvolvimento atribuída à região, usando como critério de referência a busca do crescimento econômico mostrou-se como decorrência do esgotamento dos recursos naturais em outras regiões do país e da mudança de curso viabilizada e justificada pela construção de obras de infraestrutura, como as importantes rodovias cortando a selva e interligando regiões de porte econômico relevante. O acentuado declínio do comércio madeireiro centrado no desmatamento é um dos resultados produzidos pelas políticas desenvolvimentistas das décadas passadas.

  O estudo em tela não objetivou provocar um debate do paradoxo entre economia e ambiente com todas as contradições de interesses e de percepção do mundo à grandeza do embate. Contudo não resta dúvida de que o caminho a ser trilhado pelo Estado através da proposição de políticas públicas é em direção à construção de bases produtivas ambientalmente e socialmente sustentáveis.

  É com base nesse enunciado que as políticas públicas de combate e controle do desmatamento se disseminam e se consolidam como orientadoras das ações antrópicas, sejam elas pensadas para superar a lógica produtiva das décadas passadas, para que não passe de uma moldura jurídica ilustrativa; ou sejam para ajustar-se às novas lógicas produtivas orientadas por valores universais que circundam em torno do ambiente.

  De um lado, não discutimos a respeito do rompimento ou não com o conceito desenvolvimentista das políticas de integração da Amazônia implantadas em décadas anteriores ou de uma ruptura com a lógica capitalista de crescimento econômico, sabemos que suas raízes são profundas demais para falarmos na perspectiva de mudança de suas bases. De outro lado, também não cremos em consignas de determinismo social. Trata-se, portanto, de não romantizar a questão ambiental e nem tão pouco negligenciar a conjuntura de interesses em torno dos valores do capital.

  O modelo de degradação florestal associado ao processo de ocupação da região considerado uma das principais causas do desmatamento, resultou numa

  31

  . Em contraposição ao que foi culturalmente estabelecido economia de “boom-colapso” o Estado busca reformular a base estrutural e espacial das economias regionais e locais constituindo via mecanismos legais uma cultura mais preservacionista, uma reaproximação da natureza, uma consciência coletiva de que o modelo de desenvolvimento predatório é socialmente injusto.

  Mesmo considerando a importância das políticas formuladas para o complexo espaço amazônico, entendemos que elas não são suficientes para dirimir a diversidade sociocultural, ecológica e econômica da Amazônia; não há como elaborar estratégias válidas para todas as questões de todos os espaços.

  Assim, o PEMV visa imprimir uma competência similar às dos planos estaduais e regionais. Todavia, com a peculiaridade de focalizar os atores locais, os problemas locais, responsabilizando as instituições diretamente envolvidas na gestão do município. Nesse sentido, tem como estratégia de mobilização inicial inserir os principais atores no debate das questões em pauta e promover uma ação conjunta das organizações. Dessa forma, demonstra a pretensão de reduzir o impacto da verticalização das medidas públicas sobre os afetados. Afinal, os principais atores da implementação de uma política pública, além dos que a formula, são os que a operam ou que sofrem operação com base nela.

  Ponderando esse ângulo, o PEMV representa um braço estendido para as demais políticas estaduais e regionais e uma resposta para às principais medidas que afetam os atores locais decorridas dessas políticas. Dentre essas medidas merece destaque a publicização do nome do município como desmatador, a disponibilização on dos proprietários e propriedades autuadas por infração ambiental, inibindo as

  line

  relações comerciais e trazendo constrangimento jurídico e moral para o município de maneira geral.

  Quanto à efetividade e longevidade sobre a regulação do comportamento dos atores, faz se necessário a presença do Estado, inclusive respondendo positivamente

31 Isso significa que, nos primeiros anos da atividade econômica, ocorre um rápido e efêmero

  

crescimento (“boom”), seguido de um declínio severo em renda, emprego e arrecadação de impostos,

conforme esgotam- p.45) se os recursos naturais (“colapso”) ( WHATELY, 2013,

  às promessas feitas, à submissão dos atores às regras do jogo, todos esses acordos são estimulados e sustentados por relações de troca. Os produtores aguardam que o Estado seja mais eficaz na regularização das propriedades, considerada uma das questões mais urgentes, porque a partir dessa equação haverá maior fluidez da economia local, inclusive com mais acesso ao crédito, organização das cadeias produtivas e, por conseguinte, ampliação das relações comerciais.

  Um dos estimuladores para ampliação da fronteira agrícola e oscilação nas taxas de desmatamento foi o aumento dos preços dos produtos agrícolas, por isso, as políticas de controle do desmatamento precisaram mostrar um esforço na mesma medida dos estímulos. Mesmo levando em conta o fortalecimento das operações de fiscalização que ficaram mais efetivas com a apreensão de máquinas, produtos (madeira, carvão, grãos) e animais em imóveis rurais com desmatamentos ilegais, há uma preocupação quanto a suficiência das ações de combate e controle para dá conta de conter ou mesmo erradicar o desmatamento ilegal em longo prazo e manter a mesma intensidade das operações iniciais, considerando o elevado custo destas, conforme a avaliação do PPCDAm.

  Há a dúvida quanto à disposição para o retorno à ilegalidade, nesse caso, os programas de incentivos podem surtir efeito positivo após fase de repressão e restabelecimento da ordem. Em outras palavras, importa ao produtor a convicção de que vale mais trilhar os caminhos da legalidade do que a obtenção do lucro a qualquer custo, inclusive a sujeição a penalidades severas, como multas altíssimas que em alguns casos se aproximam ao valor da propriedade, isso porque o cálculo é feito considerando o dano ambiental. Registramos que, embora não buscamos os dados numéricos, os pagamentos dessas multas são baixíssimos, outras se arrastam por longos períodos na justiça e outras nem sequer são levadas em consideração.

  De qualquer forma, a eficácia das políticas de combate e controle do desmatamento do Estado aponta para as medidas de ordem regulatórias ou meramente repressiva, e estas, por si só, não dão conta de alterar a lógica das atividades produtivas e fomentar uma nova base econômica sustentável nos municípios da região. Isso porque depende da presença ostensiva dos órgãos de fiscalização e na retirada deste os expedientes ilegais e clandestinos entram em atividade novamente. As operações de combate ao desmatamento são dispendiosas para o Estado mantê-las por tempo indefinido.

  Perguntamo-nos acerca da gestão ambiental local, se esta representa uma semente plantada, mas ainda é muito cedo para avaliar se terá a força necessária para indispor-se com as forças de resistência dos empresários locais que insistem na atividade ilegal.

  Contudo, ponderamos que o PEMV se fundamenta principalmente em um pacto local, com ampla participação dos atores sociais e em um permanente diálogo com o poder Estadual. A expectativa é de que as relações entre Estado e comunidade sejam estreitadas, que haja espaço para as negociações, para o debate, para a construção de atividades alternativas; e que, desse modo estimule a gestão local, fortalecendo assim o Programa para a produção de resultados positivos na economia do município e efetivamente possa implicar na melhoria das condições vida para os diferentes grupos da sociedade.

  No momento atual, ele divide opinião entre os que o avaliam como um instrumento de disputa, utilizado pelo Estado para firmar poder e controle sobre os produtores, opinião que é compartilhada mais entre os produtores de grãos. Mas há também, os que o concebe como um instrumento necessário, resultado de uma conjuntura global, portanto inevitável, que vai alicerçar o começo de um novo tempo fundado em uma economia consolidada em bases sustentáveis. Esse discurso está presente nos atores vinculados ao governo.

  Controvérsias à parte, o PEMV soma-se às demais políticas públicas em execução na Amazônia Legal que propõe o desafio de equilibrar atividade econômica e proteção ambiental, um amplo diálogo que confronta diferentes interesses, um jogo de disputa entre dois campos que não cabe e nem se encerra num único programa. Ainda há um longo caminho a ser percorrido que envolve o comprometimento efetivo dos diversos segmentos sociais, como da educação que vise à constituição de consciências ambientais aos trabalhadores do campo, aos produtores, consumidores e outros atores.

  Sem essas pretensões de longo prazo qualquer política ambiental se mostrará frágil, considerando que a ação repressiva é uma medida mais imediata, viés animador que pode atrair adesões às regularizações das propriedades e dos procedimentos dos atores; nesse caso, o Estado precisa observar suas promessas para não gerar desconfianças e enfraquecer as dinâmicas das políticas propostas. Os produtores precisam ser convencidos de que vale a pena percorrer os caminhos da legalidade.

  Em Dom Eliseu, embora haja a crença de que os tempos tempestivos estão bem próximos da superação, há muito que se avançar no que tange principalmente a criação da cultura de preservação e a construção de uma consciência ambiental, uma consciência que oriente ações autônomas não justificadas pelo receio de sanções, mas da necessidade de produzir e preservar agregando qualidade de vida aos munícipes. Desse modo, a ciência da escassez dos recursos não teve relevância nas decisões dos atores; nesse caso, a adesão ao Programa funda-se na pressão do Estado. Isso explica a mobilização coletiva para a superação do estado crítico, posto que a iniciativa de comprometer a economia do município e a cadeia produtiva pesou na condução das atividades econômicas aos parâmetros legais.

  A disposição dos atores na participação para a constituição de novas diretrizes apresenta níveis de envolvimento diferente. Analisamos essa questão avaliando a receptividade dos proprietários em relação ao Programa e outras políticas públicas. Os produtores ou arrendadores de grãos se mostraram os menos interessados nos discursos ambientais, pois acreditam que o Estado faz uso da lei para inibir o potencial produtivo da região em função de interesses externos; os empresários florestais compartilham dessa mesma percepção. Os proprietários arrendadores para o reflorestamento apresentaram um discurso acerca da necessidade de se preservar para assegurar condições ambientais sustentáveis para as gerações futuras. Os pequenos se mostram mais receptíveis e sensíveis à causa ambiental.

  Considerando os múltiplos interesses em volta do Programa, os aspectos econômicos e políticos são mais evidentes do que a consciência da questão ambiental. Desse modo, não há equívoco na afirmação de que as políticas públicas ambientais formuladas para a Amazônia são, como sustenta Offe (1984), instrumentos estratégicos para resolver questões estruturais do Estado.

  As políticas integralistas que levaram ao desmatamento da Floresta Amazônica como estratégia para torná-la produtiva, responde às críticas sobre a (in)capacidade do Estado brasileiro de gerir sobre a totalidade do território e banir a ideia de incursões estrangeiras na Amazônia. Assim as políticas das décadas de 1960- 1970 que estimularam a derrubada da floresta conferiram naquele período a legitimidade política ao Estado brasileiro. E, concomitante, elas também aspiravam fortalecer a economia brasileira ampliando o espaço produtivo do país.

  Na mesma medida, as políticas de combate e controle do desmatamento procuram responder às críticas ao Estado quanto à ingerência sobre os recursos naturais que afeta também a questão da legitimidade e coloca ao mesmo o duplo desafio de conter o uso ilegal dos recursos florestais e assegurar a operacionalidade da economia.

  Considerando esse sentido as políticas públicas ambientais, enfatizamos que as políticas de combate e controle do desmatamento se alinham à teoria de Offe (1984) e procuram preencher um problema estrutural do Estado brasileiro.

  Dessa forma, o Programa Estadual Município Verde reforça as políticas federais e as demais estaduais que compartilham do propósito de combater e controlar o desmatamento ilegal e subsidiar ações que estimulem as práticas produtivas ambientalmente corretas. Como o Programa visa a uma aproximação maior entre o Estado e a localidade, espera-se que essa proximidade produza efeitos mais consistentes do que a produzida por políticas públicas com abrangência espacial mais ampla como é o caso das políticas propostas pelo governo federal.

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