E A PROPAGANDA DA RELIGIÃO DA HUMANIDADE NA CIDADE DO RIO GRANDE (1891-1894)

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(1)o CLUB COOPERADOR POSITIVISTA SUL-RIO-GRANDENSEzyxwv E A PROPAGANDA DA RELIGIÃO DA HUMANIDADE NA CIDADE DO RIO GRANDE (1891-1894) PAULO RICARDO PEZAT* RESUMO Pouco aceito na Europa, o pensamento político e religioso de Auguste Comte encontrou um terreno fértil no Brasil ao final do século XIX e início do século XX, desempenhando importante papel nas transformações então ocorridas no país. O Rio Grande do Sul, em especial, serviu de palco para a mais profunda e duradoura experiência de estruturação de uma sociedade a partir do ideário político comtiano, ao longo da República Velha (1889-1930). Por sua vez, a cidade do Rio Grande abrigou no princípio da República um dos mais importantes e ativos núcleos brasileiros de propaganda da Religião da Humanidade, a vertente religiosa do positivismo. Tal núcleo era composto basicamente por engenheiros e militares envolvidos com as obras da barra e do porto do Rio Grande. PALAVRAS-CHAVE: Positivismo; Rio Grande. 1 - INTRODUÇÃO Rechaçado na França e no restante da Europa, o pensamento de Auguste Comte (1798-1857) esteve no centro dos debates que marcaram o período de transição do Império para a República no Brasil. Caracterizado à razão e à ciência, o positivismo comtiano exerceu forte atração pelo culto DCBA sobre os jovens privilegiados que freqüentavam as poucas instituições de ensino superior existentes no país ao final do século XIX, decorrendo tal influência de sua capacidade de conciliar propostas modernizantes com outras conservadoras. Ao mesmo tempo em que contestava o regime monárquico, o escravismo e a união da Igreja Católica ao Estado (tripé de sustentação do Império no Brasil), o positivismo defendia a via pacífica para a realização de mudanças políticas, além de justificar a necessidade da existência de distintas classes sociais. Procurando fazer do positivismo um instrumento de reforma moral e intelectual do homem, libertando-o do teologismo, Comte criou em seus últimos anos de vida (a partir da influência que recebeu de sua musa * Mestre em História BIBLOS, Rio Grande, 11: 107-117, pela UFRGS 1999. e professor substituto do DBH / FURG. 107

(2) inspiradora Clotilde de Vaux) a "Religião da Humanidade", pretendendo dar1 . No Brasil, a propaganda sistemática do positivismo lhe bases científicas DCBA religioso teve início com a fundação no Rio de Janeiro do Apostolado Positivista do Brasil (APB)2, em maio de 1881, por iniciativa de Miguel Lemos e Teixeira Mendes. 2 - O POSITIVISMO NO RIO GRANDE 00 SUL No Rio Grande do Sul, o positivismo começou a ser difundido inicialmente em sua vertente política, através do Partido Republicano RioGrandense (PRR), fundado em janeiro de 1882. Portanto, apenas oito meses separam a fundação do APB, no Rio de Janeiro, da fundação do PRR, em Porto Alegre. Em comum, ambas as instituições tinham o apego ao ideário comtiano, embora em graus distintos: ao passo que os positivistas ortodoxos aceitavam integralmente o pensamento de Cornte (enquanto filosofia da história, método científico, projeto político e doutrina religiosa), os positivistas políticos rejeitavam a Religião da Humanidade. Outra diferença entre os positivistas religiosos e os positivistas políticos diz respeito ao perfil profissional dos adeptos destas vertentes: enquanto os primeiros eram principalmente engenheiros civis, engenheiros militares e funcionários públicos", os segundos eram, em geral, bacharéis em direito, oriundos de famílias de proprietários de terras." Já no princípio de 1883, o APB e o PRR estabeleceram relações, tendo como interlocutor comum o engenheiro Demétrio Nunes Ribeiro, um dos líderes dos republicanos gaúchos e ex-colega de Miguel Lemos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. A correspondência mantida entre ambos demonstra que Demétrio Ribeiro se aconselhava com o fundador do APB acerca dos rumos que deveria dar à sua ação partidária." Ao longo dos últimos anos do Império, Demétrio Ribeiro foi o principal representante do APB no Rio Grande do Sul, encarregando-se de distribuir 1 2 as publicações feitas pela í n s t t t u í ç ã o " . Entretanto, em nenhum momento tomou a iniciativa de realizar o culto da Religião da Humanidade? em Porto Alegre, o que se chocaria com suas atividades políticas. Com a proclamação da República, em novembro de 1889, Demétrio Ribeiro passou a ocupar o Ministério da Agricultura e Obras Públicas, sendo um dos interlocutores do APB junto ao governo provisório que então se instalou. A ação de propaganda empreendida pelo APB obteve relativo sucesso nos primórdios da República, neste sentido destacando-se a oficialização pelo governo provisório da bandeira nacional (com o lema positivista o rd e m e p ro g re s s o ) concebida pelo a p ó s to lo Teixeira Mendes e executada por Décio Villares. A saída de Demétrio Ribeiro do governo provisório, em fevereiro de 1890, levou ao acirramento de sua luta com Júlio de Castilhos pelo comando do PRR. Já no final de 1890, durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em que ambos atuaram como representantes do Rio Grande do Sul, notava-se a preponderância de Castilhos sobre o conjunto da bancada gaúcha - integralmente composta por membros do PRR. 3 - A FUNDAÇÃO GRANDENSE título de PONMLKJIHGFEDCBA a p ó s to lo s da Religião da Humanidade. 3 Neste sentido, cabe ressaltar que Comte tinha formação em matemática, a qual, em seu entender, era a ciência que dava sustentação a todas as demais. De outra parte, o filósofo entendia que o indivíduo deveria servir à família, à pátria e à humanidade, daí a predominância de engenheiros e servidores públicos entre os adeptos do positivismo religioso. 4 Este era o caso de algumas das principais lideranças do PRR quando de sua fundação, como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Pinheiro Machado e Assis Brasil. 5 Esta correspondência acha-se depositada nos arquivos da Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro. As relações entre o PRR e o APB são analisadas de forma mais ampla em minha dissertação de mestrado (Pezat, POSITIVISTA SUL-RIO- Os cidadãos abaixo assinados, tendo em alta consideração os fins eloqüentemente humanos e, por conseguinte, patrióticos da propaganda positivista, no seu tríplice aspecto, moral, intelectual e prático, e persuadidos 6 O APB desenvolveu ampla atividade editorial entre o final do século XIX e o princípio do século XX, participando ativamente de todos os debates públicos relevantes ocorridos no Brasil ao longo do período. Estas obras estão catalogadas em Pezat e Leal, 1996. 7 Este culto consiste essencialmente na exposição dominical do C a te c is m o P o s itiv is ta de Comte, comemoração Bastilha etc. além da celebração das datas de outras de nascimento datas e morte relevantes de Comte para e Clotilde seus adeptos, como de Vaux, da queda a da ll Esta correspondência, que serve de base para o presente artigo, acha-se depositada nos arquivos da Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro. Entre os anos de 1891 e 1894, 47 cartas foram remetidas de Rio Grande para Miguel Lemos, enquanto Teixeira Mendes recebeu 17 cartas da mesma procedência. 1997). BIBLOS, 108 COOPERADOR Foi neste contexto que um pequeno grupo de simpatizantes da Religião da Humanidade na cidade do Rio Grande começou a corresponderse com os a p ó s to lo s Miguel Lemos e Teixeira Mendes." Em 26 de janeiro de 1891, por iniciativa de Domingos Pinto de Figueiredo Mascarenhas, estudante de medicina, e de Tito Corrêa Lopes, auxiliar técnico da Comissão de Obras da Barra e do Porto do Rio Grande, realizou-se na residência do primeiro, na mesma cidade, uma reunião visando a fundação de um clube, cujos objetivos foram esclarecidos em moção por eles elaborada nos seguintes termos: Os fundamentos da Religião da Humanidade acham-se expostos em COMTE, 1895. Inicialmente chamado de Centro Positivista do Rio de Janeiro, posteriormente recebeu as denominações de Apostolado Positivista do Brazil, Igreja e Apostolado Positivista do Brasil e, finalmente, Igreja Positivista do Brasil. Tais variações explicam-se pelo fato de que apenas Miguel Lemos e Raymundo Teixeira Mendes, os fundadores da instituição, tinham o DO CLUB BIBLOS, Rio Grande, 11: 107-117, 1999. Rio Grande, 11: 107-117, 1999. 109

(3) de que a essa propaganda deve ser prestado todo o apoio possível, convidam os cidadãos presentes a fundarem o "Club Cooperador Sul-riograndense". Considerando, porém, que o Apostolado Positivista do Brasil é o único órgão sistemático dessa propaganda em nossa Pátria; Considerando que inúmeros são os serviços por ele prestados DCBA à família, à pátria e à humanidade; e Considerando, finalmente, que muitos são assim os que há de prestar por sua incontestável competência moral, intelectual e prática, deliberam que esse apoio lhe seja dado, visando assim este club, antes de tudo, a continuação da existência deste Apostolado, como segura garantia da dignificação da pátria brasileira, e paz e felicidade da humanidade." Além dos dois signatários desta moção, compareceram à reunião as seguintes pessoas: Antônio Alves de Azambuja, engenheiro e 1º ajudante do inspetor do 6º Distrito Marítimo da República; Florimundo Torres Galindo, 1 º escriturário da Comissão de Obras da Barra e do Porto do Rio Grande; Vicente Nunes Tavares, cônsul de Portugal na cidade do Rio Grande; Francisco de Paula Chaves Campello, contador do Banco do Brasil; Juvêncio Augusto de Figueiredo Mascarenhas, sem ocupação à época; João de Figueiredo Mascarenhas, negociante; e Orlando Corrêa Lopes, estudante do preparatório." Sendo tal moção aceita por unanimidade pelos presentes, passou-se a tratar do regimento interno da nova associação. Igualmente redigido por Domingos Pinto de Figueiredo Mascarenhas e Tito Corrêa Lopes e também aprovado por todos os presentes, o estatuto do Club Cooperador Sul-RioGrandense 11 ratificou o apoio à propaganda desenvolvida pelo APB (artigo I), comprometendo-se também a auxiliá-Io financeiramente (artigo VI) e a realizar a distribuição de suas publicações na cidade do Rio Grande e região (artigo XII). Aquele estatuto também estabelecia as datas em que o Club deveria realizar sessões solenes (no dia 5 de abril, data da morte de Clotilde de Vau x e de José Bonifácio, no dia 5 de setembro, comemorando a data da "transformação subjetiva" de Comte, e no dia 15 de novembro, em homenagem à proclamação da República - artigo 1 1 ) , a escolha pelos sócios do presidente, que indicaria o secretário e o tesoureiro, além de seu sucessor após três anos - prorrogáveis - de mandato (artigos 1 1 1 e IV). O estatuto definia ainda que qualquer assunto sobre o qual o Club tivesse de manifestar-se seria submetido à apreciação dos sócios, que sobre ele dariam suas opiniões, após o que o presidente resolveria a posição a ser adotada, e que todo sócio seria obrigado a assinar todos os seus escritos públicos, declarando neles o local de sua residência (artigo V). Também era definido que o Club organizaria uma biblioteca, a qual seria composta das obras aconselhadas por Comte em sua B ib lio te c a P o s itiv is te '" e de todas as publicações de propaganda da Religião da Humanidade (artigo VII).13 Aprovado o estatuto do Club, procedeu-se à escolha do presidente. Antônio Alves de Azambuja recebeu seis votos, enquanto Tito Corrêa Lopes e Domingos Pinto de Figueiredo Mascarenhas receberam um voto cada 14. Empossado no mesmo momento, Antônio Alves de Azambuja escolheu Florimundo Torres Galindo para secretário e Tito Corrêa Lopes para tesoureiro. A mesma assembléia decidiu registrar em ata a presença, "em coração e em espírito", de Ernesto de Otero, José da Costa Gama, Luiz de Otero e Carlos Soares Bento 15, além de estabelecer que seriam considerados como sócios fundadores aqueles que entrassem para o Club no prazo de trinta dias a contar daquela data (26 de janeiro de 1891). Em função desta última deliberação, associaram-se no referido prazo os seguintes indivíduos: Ernesto de Otero, engenheiro e inspetor do 6º Distrito Marítimo da República; Luiz de Otero, comerciante, importador e exportador; Carlos Soares Bento, empregado do comércio; José da Costa Gama, engenheiro e 2º ajudante do inspetor do 6º Distrito Marítimo da República; Francisco de Ávila, engenheiro e condutor de 2ª classe da Comissão de Obras da Barra e do Porto do Rio Grande; José Ripper Monteiro, secretário da mesma comissão; Joaquim da Silva Azevedo, amanuense da mesma comissão; Osvaldo Augusto Job, idem; Francisco Antônio Ferreira, idem; Francisco Leonardo Falcão Júnior, juiz municipal do Rio Grande; João Luiz de Faria Santos, engenheiro e condutor de 1 ª classe da Comissão de Obras da Barra e do Porto do Rio Grande; Manoel Antônio Affonso Reis, médico; Daciano Reis, negociante; Francisco da Silva Rasteiro, comerciante, importador e exportador; José Arthur Montenegro, empregado do escritório da estrada de ferro de Porto Alegre a Uruguaiana; e Fructuoso Sertório Portinho, secretário na mesma estrada de t e r r c . " Como se percebe, era grande o número de funcionários públicos entre os sócios fundadores do Club Cooperador Positivista Sul-RioGrandense: em um total de 2 4 sócios, quinze eram funcionários públicos, dos quais onze trabalhavam nas obras da barra e do porto e cinco eram 1 2 Comte elaborou uma lista de 1 5 0 obras (divididas em quatro áreas: história, ciências, literatura e síntese filosófica e religiosa) que sintetizariam o saber acumulado pela humanidade ao longo dos séculos. Tal relação acha-se reproduzida no seu C a te c is m o P o s itiv is ta 1 3 (1 8 9 5 ). Carta (AIPB). 9 Carta de Antônio Alves de Azambuja a Teixeira Mendes, 5 de fevereiro de 1891 (Arquivo1~a Igreja Positivista do Brasil - AIPB). Idem. 11 Nos primeiros documentos é omitida a palavra PONMLKJIHGFEDCBA P o s itiv is ta na denominação do clube, ficando tal caráter explícito apenas nos estatutos. Posteriormente, a associação passa a ser chamada de Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense. BIBLOS, Rio Grande, 11: 107-117, 1999. Alves de Azambuja a Teixeira Mendes, 5 de fevereiro 1 4 O Cônsul de Portugal, Vicente Nunes Tavares, presente à reunião, votar e de integrar formalmente o Club, em vista do cargo oficial que ocupava. 15 Cf. carta de Antônio Alves de Azambuja a Teixeira Mendes, de 1891 absteve-se 5 de fevereiro de de 1891 (AIPB). 16 Cf. carta de Florimundo BIBLOS, 110 de Antônio . Rio Grande, 11: 107-117, Torres Galindo a Miguel Lemos, 24 de maio de 1891 (AIPB). 1999. 111

(4) engenheiros. Sendo um dos objetivos do Club a formação de uma biblioteca com as obras de Comte e as edições do APB, seus integrantes faziam constantes encomendas de livros DCBA 1 7 . Por outro lado, o Club também procurava realizar as cerimônias cívicas e religiosas aconselhadas por Miguel Lemos e constantes de seu estatuto. Neste sentido, em 11 de abril de 1891, Antônio Alves de Azambuja escreveu a Miguel Lemos informandoo de que no dia 5 daquele mês havia sido realizada uma sessão solene em homenagem a José Bonifácio, junto remetendo os jornais de Rio Grande que noticiaram o a c o n t e c i m e n t o . " Além do presidente Antônio de Azambuja, outros membros do Club correspondiam-se freqüentemente com a direção do APB. Tal era o caso do engenheiro José da Costa Gama, que em maio de 1891 escreveu a Miguel Lemos nos seguintes termos: Acuso o recebimento de vossa carta em que gentilmente agradeceis o diminuto donativo que fiz para subsidiar o Apostolado Positivista, a quem sou devedor de um certo conforto moral que experimento depois que fui, graças a ele, iniciado na Religião da Humanidade, propaganda essa que também tem influído beneficamente no desdobramento de acontecimentos políticos de nossa Pátria. Diz-me (...) a consciência que jamais saldarei tal dívida. Em 17 de abril de 1891, menos de três meses após a fundação do Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense, foi fundado o Club 1 9 Cooperador Positivista de Porto Alegre , por iniciativa de Demétrio Ribeiro. Em função da existência no Rio Grande do Sul destes dois clubes cooperadores da propaganda desenvolvida pelo APB, o diretor desta instituição alterou seu estatuto, incluindo um artigo que estabelecia: Os clubes cooperadores da propaganda positivista já fundados nas cidades de São Paulo, Porto Alegre e Rio Grande, e os que vierem a fundar-se com o pode-se citar a carta remetida por Antônio Alves de Azambuja a 17 Como exemplo Miguel Lemos, em 27 de março de 1891 (AIPB), onde indicava o envio de recursos para o pagamento de 20 exemplares do PONMLKJIHGFEDCBA C a te c is m o P o s itiv is ta , dois exemplares do C o u rs d e p h i/o s o p h ie p o s itiv e e dois exemplares do S y s té m e d e p o litiq u e p o s itiv e , todas essas obras de Comte, questionando ainda o valor do estandarte do C lu b que havia sido encomendado a Décio Villares. 1 8 Estes jornais eram o E c h o d o S u l e o D iá rio d o R io G ra n d e . No momento está en andamento uma pesquisa nos periódicos de Rio Grande editados ao longo da República Velha acerca da propaganda positivista na cidade, contando com o auxílio de Luciana Oliveira Gerundo, acadêmica de História da FURG. 19 Os sócios fundadores foram Demétrio Ribeiro, Domingos Pinto de Figueiredo Mascarenhas - que também foi um dos fundadores do Club de Rio Grande -, Augusto de Azevedo Siqueira, Joaquim Marques da Cunha, Jerônimo dos Santos Paiva, Antônio Pereira Prestes (pai do tenente Luis Carlos Prestes), João Cândido Jacques, Pedro de Castro Araújo, Anphilóquio de Azevedo e Henrique Alberto Carlos - presidente da instituição. Cf. carta de Henrique Alberto Carlos a Miguel Lemos, 21 de abril de 1891 (AIPB). 112 BIBLOS, Rio Grande, 11: 107-117, 1999. mesmo fim em outras localidades, ficam considerados elementos coletivos da liga religiosa, compostos de pessoas que já simpatizam em graus diversos com as soluções oferecidas pelo Positivismo, mas sem nenhuma filiação sistemática ao Apostolado" Esta passagem revela o grau em que se dava a relação entre os clubes cooperadores positivistas existentes no sul do país e o APB: aqueles compunham-se de simpatizantes, mas não incluíam nenhum c o n fra d e , isto é, nenhum membro orgânico do APB, que jamais teve mais de duas centenas de componentes em todo o Brasil. Entretanto, não demorou para que Miguel Lemos se arrependesse da decisão que tomou de tolerar a existência destes clubes: já em maio de 1891, Demétrio Ribeiro passou a contestar o projeto de constituição sul-riograndense elaborado por Júlio de Castilhos. Naquele contexto ocorreu a ruptura entre os ex-colegas Miguel Lemos e Demétrio Ribeiro, que não aceitou o apoio público dado pelo diretor do APB à constituição castilhista, 21 promulgada em 14 de julho de 1891 . Influenciado por Demétrio Ribeiro, o Club Cooperado r Positivista de Porto Alegre passou a manifestar-se publicamente contra Castilhos, agindo à revelia de Miguel Lemos. O Club Cooperado r Positivista Sul-Rio-Grandense, por sua vez, evitou acompanhar a dissidência promovida por Demétrio Ribeiro, que rompeu com o PRR e uniu-se à oposição liderada por Gaspar Silveira Martins. Entretanto, o número de sócios em dia com as mensalidades caiu bastante, possivelmente em decorrência daqueles acontecimentos políticos. Além disso, conforme relatou a Miguel Lemos o secretário do Club de Rio 22 Grande , não passava de três ou quatro o número de sócios que freqüentavam suas reuniões. Com a deposição de Júlio de Castilhos do governo estadual, em novembro de 1891, as atividades do Club esvaziaram-se mais ainda. Em carta enviada a Miguel Lemos em junho de 1892, Florimundo Torres Galindo comunicava que nenhuma cerimônia havia sido realizada durante aquele ano, e que apenas sete dos 24 sócios estavam em dia com as rnensaltdades'". Em sua C irc u la r a n u a l de 1892, o diretor do APB assim manifestou-se sobre a propaganda que os clubes cooperadores vinham desenvolvendo no 2 0 LEMOS, 1892, p. V. Miguel Lemos declarou publicamente que considerava a Constituição sul-riograndense de 14 de julho de 1891, de autoria de Júlio de Castilhos, como "a mais avançada do Ocidente". 21 2 2 Cf. carta de Florimundo Torres Galindo a Miguel Lemos, 7 de outubro de 1891 (AIPB). 2 3 Os sócios em dia eram Antônio de Azambuja, Ernesto de Otero, Luiz de Otero, José da Costa Gama, Florimundo Torres Galindo, Domingos Mascarenhas e Oswaldo Augusto Job. Muitos dos sócios haviam partido de Rio Grande, enquanto outros declararam que não mais contribuiriam, como Fructuoso Sertório Portinho, Daciano Reis e Manoel Antônio Reis. Cf. carta de Florimundo Torres Galindo a Miguel Lemos, 11 de junho de 1892 (AI PB). BIBLOS. Rio Grande, 11: 107-117. 1999. 113

(5) Rio Grande do Sul: Os clubes cooperadores formados nesse estado, fora de nossa iniciativa, não tardaram em confirmar minhas apreensões acerca deles. Fácil era prever que esses grupos heterogêneos não vingariam. Compostos de elementos muito imperfeitamente modificados pela nossa doutrina, vários dos quais se achavam ativamente imiscuídos nas dissenções locais, eu havia pressagiado desde o princípio que esses clubes ou se extinguiriam por si mesmos, ou então haviam de suscitar dificuldades ao nosso Apostolado, por falta de suficiente convergência. As perturbações civis apressaram este duplo resultado. O grupo de Porto Alegre, posto que em extremo reduzido e que só existia nominalmente, por assim dizer, declarou-se dissolvido (...) como protesto contra minhas declarações desfavoráveis aos revolucionários de seu estado. O da cidade do Rio Grande, se bem que não tenha sido órgão de nenhuma manifestação deste gênero, acha-se hoje reduzido a quatro subscritores, e sua próxima extinção não é duvidosa." Entretanto o Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense ainda persistiu com suas atividades por mais algum tempo, embora de forma melancólica. Ocorre que no princípio de 1893 chegou à cidade do Rio Grande o médico-militar Joaquim Bagueira Leal, que veio acompanhando as tropas federais enviadas ao sul para engajarem-se ao lado das forças castilhistas na luta contra os revolucionários tederalistas'". O Or. Bagueira Leal era um dos mais antigos "confrades" do grêmio religioso fundado por Miguel Lemos. Escrevendo a Miguel Lemos em 5 de abril de 1893, data em que os positivistas religiosos celebram a "transformação subjetiva" de Clotilde de Vaux, Bagueira Leal refere a iniciativa que teve, de promover a edição de um folheto homenageando a musa inspiradora de Comte, sugerindo que aquela era a primeira iniciativa do tipo que ocorria fora do Rio de Janeiro. Na mesma ocasião, Bagueira Leal reclamava da frieza de Florimundo Torres Galindo e Antônio de Azambuja, que pouco o visitavam. Quanto a este último, referia ainda o seguinte: Nas diversas vezes que com ele tenho me encontrado, procuro ser o mais amável possível e tenho, até com insistência, oferecido a minha casa. Ontem, tendo precisado falar com o Sr. Galindo na repartição [da Comissão das Obras da Barra e do Porto], aí estive umas duas horas com o Or. Azambuja. Ele não mostrou nenhuma preocupação pelo positivismo, mas bastante simpatia pelos revoltosos rio-qrandenses" DCBA 2 4 Lemos, 1894, p. 46-47. Os quatro subscritores referidos eram Antônio Alves de Azambuja, Florimundo Torres Galindo, João Luiz de Faria Santos e Emesto de Otero. Cf. carta de Florimundo Torres Galindo a Miguel Lemos, 7 de fevereiro de 1894 (AIPB). 2 5 Bagueira Leal residiu em Rio Grande entre o princípio de 1893 e metade de 1894, quando transferiu residência para Pelotas, onde manteve um depósito de publicações positivistas em sua residência (na rua Félix da Cunha) até 1896, ano de seu retorno ao Rio de Janeiro. Se Bagueira Leal tinha queixas do presidente e do secretário do Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense, o mesmo não ocorria relativamente a alguns de seus sócios, como José da Costa Gama e Ernesto de Otero, com quem mantinha relações atáveis.:" 4 - A EXTINÇÃO GRANDENSE Carta de Joaquim 11: 107·117, 1999. R POSITIVISTA SUL-RIO- Ainda no mês de maio, Galindo enviou uma nova carta a Miguel Lemos comunicando-lhe que remetera aos sócios do Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense uma circular em que os informava de que a referida associação estava e x t i n t a . " Entretanto, a extinção formal do Club não impediu que seus antigos sócios continuassem mantendo relações com os diretores do APB e realizando atividades de difusão do positivismo. Em carta enviada a Miguel Lemos em 5 de julho de 1894, Antônio Alves de Azambuja referia que havia feito reproduzir em jornais de Rio Grande alguns artigos do a p ó s to lo Teixeira Mendes acerca da prisão indevida de anarquistas. Em outra carta, datada de 30 julho, o ex-presidente do Club enviava uma tradução que fizera do opúsculo do positivista irlandês Henry Oix-Hutton intitulado C o m te , o h o m e m e o fu n d a d o r, solicitando autorização para publicá-lo", Além de Antônio de 27 28 29 Bagueira Leal a Miguel Lemos, 5 de abril de 1893 (AIPB). SISLOS, Rio Grande, COOPERADO Na última carta que dirigistes ao Or. Otero e que esse teve a bondade de mostrar-me, perguntais se não recebi a vossa carta de 24 de fevereiro. Recebi, sim; (...) e, conforme nela dizeis, consultei o Or. Otero sobre a proposta ou antes indicação vossa para o acabamento do Club Cooperado r Rio-Grandense. Ele disse-me que, com grande pesar, via que não tínhamos outra coisa a fazer. O mesmo disse o Or. Azambuja, a quem também, como ao Or. Otero, mostrei a vossa carta'". SISLOS, 114 CLUB Embora o Club Cooperador Positivista Sul-Rio-Grandense não tivesse a mesma postura independente adotada pelo seu congênere de Porto Alegre, sua existência deixou de interessar ao APB. Sem desenvolver as celebrações previstas em seu estatuto e esvaziado da maior parte de seus sócios-contribuintes, além de contar em seus quadros com alguns simpatizantes da dissidência republicana promovida por Oemétrio Ribeiro, o PONM C lu b d e R io G ra n d e foi extinto no princípio de 1894, conforme demonstra a carta remetida a Miguel Lemos por Florimundo Torres Galindo, em maio daquele ano: 3 0 26 DO Idem. Carta de Florimundo Torres Galindo a Miguel Lemos, 29 de maio de 1894 (AIPB). Carta de Florimundo Torres Galindo a Miguel Lemos, 31 de maio de 1894 (AIPB). Miguel Lemos autorizou tal edição. Em carta a este, enviada por Antônio Azambuja, Rio Grande, 11: 107-117, 1999. 115

(6) Azambuja, outros ex-integrantes do Club continuaram correspondendo-se com Miguel Lemos e Teixeira Mendes, como foi o caso de José da Costa 31 Gama, José Arthur Montenegro, João Luiz de Faria Santos DCBA e Ernesto de 3 2 Otero. Outros rio-grandinos que simpatizavam com o positivismo religioso também mantiveram correspondência com Miguel Lemos e Teixeira Mendes ao longo dos últimos anos do século XIX. Tal foi o caso dos irmãos Carlos Alberto Miller e Juvenal Octaviano Miller, além do primo de ambos, Conrado Miller de Campos. As atividades por eles desenvolvidas transcendem o objetivo e o período que me propus abordar neste artigo, razão pela qual restrinjo-me a citar o envolvimento que tiveram com o APB. Entretanto, são indicativas da influência que a vertente religiosa do positivismo comtiano teve em Rio Grande ao longo das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Tal influência restringiu-se a alguns poucos indivíduos, jamais atingindo diretamente o conjunto da população. Mas, em função das atividades profissionais desenvolvidas por aquela elite intelectual de engenheiros, militares e funcionários públicos, indiretamente deixou marcas notáveis no desenvolvimento da cidade. 5. 6. LEAL, Joaquim Bagueira. H o m e n a g e m a C lo tild e d e V a u x . Rio Grande: (s. e.), 1894. LEMOS, Miguel. O A p o s to la d o P o z itiv is ta n o B ra z il: undécima circular anual (1891). Rio de Janeiro: Igreja Pozitivista do Brazil, 1892. 7. - - - o 8. PEZAT, Paulo Ricardo. A u g u s te C o m te e os fe tic h is ta s : estudo sobre as relações entre a Igreja Positivista do Brasil, o Partido Republicano Rio-grandense e a política indigenista na República Velha. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1997. 9. PEZAT, O A p o s to la d o P o z ifiv is ta n o B ra z il Janeiro: Igreja Pozitivista do Brazil, 1894. Paulo Ricardo, LEAL, Elisabete : duodécima da Costa. acervo bibliográfico, documental e iconográfico. Cultura: PPG-História-UFRGS, 1996. C a p e la circular anual P o s itiv is ta Porto Alegre: (1892). de Secretaria P o rto Rio de A le g re : Municipal de BIBLIOGRAFIA 1. 2. 3. 4. COMTE, Auguste. PONMLKJIHGFEDCBA C a te c is m o P o z itiv is ta . 2 ed. Rio de Janeiro Pozitivista do Brazil, 1895. - - - o C o u rs d e p h ilo s o p h ie p o s itiv e . Paris, 1836-1842. 6v. Igreja e Apostolado S y s te m e d e p o litiq u e p o s itiv o . Paris, 1851-1854. 4v. HUTTON, Henry Dix. C o m te : o h o m e m , o fu n d a d o r. Trad. de Antônio Alves de Azambuja. Rio Grande: (s. e.), 1894. - - - o em 8 de setembro de 1894, era-lhe dito que seriam remetidos ao APB 400 exemplares do folheto \rxiste um exemplar na Capela Positivista de Porto Alegre). 1 João Luiz de Faria Santos, nascido em Jaguarão no ano de 1855, formou-se engenheiro pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1884. Trabalhou na Comissão Obras da Barra e do Porto do Rio Grande entre 1890 e 1895. Foi intendente das de Porto Alegre durante o ano de 1896, ao final do qual passou a ocupar a Diretoria de Viação Fluvial da Secretaria Estadual de Obras Públicas - encarregada do acompanhamento das obras do porto do Rio Grande -, ficando em tal função até 1913. Posteriormente continuou atuando na mesma secretaria. Foi um dos mais ativos propagandistas do núcleo de positivistas religiosos de Porto Alegre que se constituiu em 1899 e atuou até meados da década de 1930, e que construiu a Capela Positivista de Porto Alegre. Em meados dos anos trinta, já aposentado, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a integrar a Delegação Executiva - comissão dos treze confrades mais antigos da Igreja Positivista do Brasil (denominação que o APB recebeu após 1927), que passou a dirigi-Ia após a morte de Miguel Lemos (1917) e de Teixeira Mendes ~1927). Faleceu no Rio de Janeiro em 1936. 3 Emesto de Otero nasceu em Jaguarão no ano de 1857. Engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Ao longo da década de 1890 foi inspetor do 6 Distrito Marítimo da República, que abrangia boa parte do litoral sul-rio-grandense. Nos primeiros anos do século XX transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar no comércio de importação e exportação. Como c o n fra d e da Igreja Positivista do Brasil, foi, individualmente, o maior contribuinte (em termos financeiros) para a construção do 'Templo da Humanidade", sede daquela instituição no Rio de Janeiro. Faleceu naquela cidade em 1943. Q BIBLOS, 116 BIBLOS. Rio Grande. 1 1 : 1 0 7 ·1 1 7 , 1 9 9 9 . Rio Grande, 1 1 : 1 0 7 ·1 1 7 , 1 9 9 9 . 117

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