Gibran Gonçalves Jensen “REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926).”

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Gibran Gonçalves Jensen

“REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição

(1892 – 1926).”

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

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Gibran Gonçalves Jensen

REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição

(1892 – 1926)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

______________________________________________ Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter – Orientadora UNIFRA

_____________________________________ Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn – UNIFRA

___________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan – UNIFRA

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RESUMO

Neste estudo, temos por objetivo compreendermos os espaços de inclusão/exclusão social destinados aos homens nacionais marcados pela cor e por ela estigmatizados como perigosos às demais classes sociais brasileiras, em fins do século XIX e início do XX. Para tanto, realizou-se um estudo bibliográfico aliado a metodologia quantitativa e qualitativa,

ressaltando-se alguns aspectos mais relevantes das fontes. Acreditamos que a temática que norteia esta pesquisa proporciona reflexões e análises sobre a história dos homens marcados pela cor, que buscavam inserir-se na sociedade, empregando-se como praças de polícia da Brigada Militar. A atividade policial estava marcada por estigmas sociais, era considerada trabalho destinado a homens de menor qualidade social, a quem se concedia uma cidadania de segunda classe em fins do XIX e início do XX. A sociedade do período tinha a percepção de que aqueles que compunham os efetivos policiais eram os homens marcados pelos “defeitos” da cor, o que era motivo de desprestígio para a polícia. Por sua vez, a significativa presença de homens de cor na Brigada Militar reproduzia a divisão das classes sociais do Estado do Rio Grande do Sul, do período. Isso teve seu equivalente na Santa Maria da década de 1920, quando a cidade recebeu o 1° Regimento de Cavalaria da Brigada Militar, que viera transferido da cidade de Porto Alegre.

Palavras-chave: Estigmas - Cor - Trabalho - Praças de Polícia.

ABSTRACT

In this study we aimed at understanding the spaces of social inclusion / exclusion for the national men marked by color, and for this, branded as dangerous to other social classes in Brazil in the late nineteenth and early twentieth century‟s. To this end, we carried out a bibliographic study combined with quantitative and qualitative methodology emphasizing some aspects most relevant sources. We believe that the theme that guides this research provides analysis and reflections on the history of men marked by the color, which sought to insert themselves in society, using squares as Military Police Brigade. The police activity was marked by social stigma, considered work to men of lower social quality, who was granted a second-class citizenship in the late nineteenth and early twentieth century‟s. The society of the period had the perception that those police officers who made the men were marked by "defects" of color, which was a cause of discredit to the police. In turn, the significant presence of men of color in the Military Brigade, reproduced the division of social classes in the state of Rio Grande do Sul, in the period. This came to have its equivalent in Santa Maria in the 1920s, when the city hosted the 1st Cavalry Regiment Military Police, which was transferred from Porto Alegre.

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AGRADECIMENTOS

Expresso minha gratidão, primeiramente, reconhecendo a importância de uma pessoa, nos últimos quinze anos de minha vida, ou seja, os incentivos e carinhos de Julia Eunice Machado dos Santos, minha sogra. Muito obrigado, “Dona Julia,” por ser minha mãe do coração e por ter sempre motivado este seu filho que a ama muito. Mais do qualquer outra coisa, seus estímulos foram sempre de coração e com uma atenção sem igual. Meu beijo e meu abraço.

A minha esposa, Janice Machado dos Santos Jensen, a quem devo a inspiração para buscar força para seguir estudando e não desistir nunca. Muito obrigado por ser a companheira e amiga que sempre foi comigo: uma pessoa que tem todo meu amor, carinho e confiança. Meu amor, meu esforço e estudo são para que tenhamos um mundo melhor, para que possamos viver em paz e foi com esse pensamento que escrevi minhas palavras ao longo deste trabalho.

Meu pai, Luiz Fernando Noriega Jensen, com quem posso contar sempre, o meu mais sincero amigo do peito. Pai, sei que muitas de nossas discussões e pontos de vista, muitas vezes contraditórios, deixam-no chocado algumas vezes. Saiba que não desprezo a caserna, muito menos a carreira militar, a qual proporcionou um grande avanço na minha vida. Se não reconhecesse isso, não estaria escrevendo a respeito de milicos, pai. Acalme seu coração! Seu filho mais velho não é “comunista”, certo? Apenas desejo maior reconhecimento profissional e pessoal.

Minha orientadora, Nikelen Acosta Witter, a quem chamo de mestre, uma professora do mais alto nível e uma pessoa que, com toda a certeza, serviu e sempre servirá de inspiração. Espero um dia ter o privilégio de voltar a trabalhar novamente com ela, pois, se hoje, possuo melhor compreensão da ciência da história devo isso a sua calma, paciência e, acima de tudo, a sua sabedoria.

Ao professor que foi a minha primeira inspiração, Luís Augusto Ebling Farinatti, cujas aulas nunca foram entediantes. Nós, os acadêmicos de história, falávamos nos corredores da UNIFRA, que não era preciso ler os textos indicados pelo professor para assistir a suas aulas, tamanhas eram sua qualidade e técnica em sala de aula.

À professora que, ao longo do curso, sempre mexeu com minhas convicções em sala de aula, Paula Simone Bolzan, pessoa que tem uma impressionante leitura de mundo e, acima de tudo, educação para tratar com seus alunos, a qual, algum dia, espero alcançar.

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Dedico, de todo meu coração, este trabalho aos meus falecidos avós, Manoel Pereira Gonçalves e Marta Militz Gonçalves.

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LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 - FAIXA ETÁRIA DOS HOMENS QUE SENTARAM PRAÇA NA

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LISTA DE FIGURAS

GRÁFICO 1 - EFETIVO DA BRIGADA MILITAR (1895 – 1903)...37

GRÁFICO 2 - OS HOMENS DE COR ...38

GRÁFICO 3 - MOTIVOS DE SAÍDA DA BM ...43

GRÁFICO 4 - PUNIÇÕES DAS PRAÇAS DO 1° ESQUADRÃO ...47

GRÁFICO 5 - EFETIVO BM EM SANTA MARIA – 1922 ...56

GRÁFICO 6 - HOMENS DE COR – 3° ESQUADRÃO – 1° REGIMENTO DE CAVALARIA EM SANTA MARIA...57

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...10

2 A marca da escravidão... 15

2.1 A busca por novas balizas sociais...16

2.2 A divisão dos trabalhadores... 25

3 A polícia precisa ser policiada...32

3.1 A duvidosa prática policial...33

3.2 A nova polícia que não era tão nova assim...35

3.3 Uma imagem mais próxima dos efetivos policiais...39

4 A Brigada Militar em Santa Maria...49

4.1 Santa Maria uma cidade multiétnica...49

4.2 Quem eram os policiais...55

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...61

FONTES...64

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1 – INTRODUÇÃO

“Em quem confiar?” Foi a pergunta feita aos santa-marienses pelo jornal Diário de Santa Maria, em sua manchete de fim de semana, datada de 26 e 27 de março de 2011. A pergunta refere-se ao espanto causado na sociedade rio-grandense após o desfecho do roubo do Banco Sicredi, localizado no Distrito de Val de Serra, na cidade de Júlio de Castilhos. Espanto e perplexidade mesclavam raiva, frustração e profunda sensação de insegurança na sociedade rio-grandense. Esses sentimentos eram causados pela descoberta que, dentre os quatro personagens do assalto ao banco, três deveriam fazer parte do time dos mocinhos. Eram homens que tinham autorização do Estado para usarem a farda da Brigada Militar e, com ela, imporem a ordem e o respeito às leis vigentes.

Essa mesma pergunta poderia facilmente estar estampada na capa de qualquer periódico de fins do século XIX ou início do XX. Foi o que demonstrou o estudo da historiadora Claudia Mauch (2004) que buscava analisar como era percebida a atuação policial pela população de Porto Alegre naquele período. Com o auxílio dos periódicos,“Gazeta da Tarde” e “Gazetinha”, a autora mapeou as críticas públicas direcionadas aos policias, e não à instituição que eles representavam. Isso difere das notícias a respeito do roubo ao banco de Val de Serra, publicada nos jornais atuais. Nelas, as críticas não são direcionadas aos policias em particular, pelo contrário, não há uma acusação pessoal ou exaltação a qualidades pejorativas que seriam típicas aos policiais. Não existe a priori, no discurso atual dos jornais, uma justificativa para a prática criminosa dos policiais, pautada por critérios étnicos.

Possivelmente, na atualidade, não se deseja desmoralizar as instituições policiais e militares, nem os próprios policiais. Isso ocorre porque não se rotulam os policiais como parte de classes ou de pessoas que poderiam ser consideradas, por princípio, perigosas à sociedade. Tal fato ficou demonstrado pelo próprio Diário de Santa Maria, em reportagem dos dias 02 e 03 de abril de 2011, uma semana após o roubo ao banco em Val de Serra. Com manchete de página central, “A Quadrilha Fardada”, sutilmente abrandada ao destacar a incompreensão do porquê de militares, com comportamento exemplar, terem se desviado para o caminho do crime. O jornal relaciona as possíveis justificativas para esse desvio de conduta, como por exemplo: a baixa remuneração, a falta de uma melhor perspectiva profissional, ou mesmo, a falta de melhores condições de educação. Mas, em nenhum momento, correlaciona o crime dos policiais a qualquer característica física ou étnica.

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reportagem: “Aumentam expulsões na Brigada Militar”. Essa reportagem descreve a atuação da polícia da polícia, ou seja, a eficiência da corregedoria da Brigada Militar em apurar o envolvimento dos policiais com o crime, de forma a acentuar o profissionalismo da instituição policial. Na mesma página de Zero Hora, em entrevista, João Gilberto Fritz, corregedor-geral da Brigada Militar, relata, de maneira significativa, o entendimento institucional a respeito do envolvimento de policiais com o crime. O corregedor considera que os membros da Brigada Militar são parte integrante de nossa sociedade e, com ela, compartilham dos mesmos problemas que o cidadão comum. Os policiais têm de possuir maior equilíbrio emocional para enfrentar o dia a dia do serviço policial, porém, enfatiza o corregedor, não se pode justificar pelos baixos salários o envolvimento dos policias com o crime. Caso fosse esse o principal motivo, a quase totalidade da população brasileira, que ganha menos que os policiais, teria que recorrer ao crime para se sustentar.

O que se depreende da leitura das reportagens em questão é que, mesmo ao fazer críticas e oportunizar uma reflexão sobre a atuação policial e suas condições de trabalho, em nenhum momento, os policiais são rotulados ou estereotipados como parte integrante de alguma parcela da sociedade que oferecesse maior perigo que as demais classes sociais. Ou seja, por serem homens oriundos das classes pobres da sociedade e por partilharem das mesmas condições socioeconômicas dessas, não se poderia esperar outra atitude, senão, a prática do crime.

A motivação desta pesquisa, em seu início, era compreender o processo de inclusão/exclusão social dos egressos do cativeiro na cidade de Santa Maria, em fins do século XIX e início do XX. Desvendar quem eram esses homens marcados pela experiência da escravidão, quais as possibilidades de sobrevivência acessíveis a eles, em qual tipo de atividade produtiva eles teriam passado a buscar seu sustento. Contudo, quais seriam os espaços de atuação na sociedade, que a recém-proclamada República do Brasil, destinava aos homens marcados pela escravidão e pela cor de sua pele?

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O longo e exaustivo trabalho de leitura das fontes, os livros de assentamento de praças da Brigada Militar, instituição policial-militar criada em fins do ano de 1892, proporcionaram-nos uma rica seleção de informações. Essas, além de nos revelarem a composição étnica dos efetivos da Brigada Militar, demonstravam que esta possuía uma significativa parcela de homens resultantes da miscigenação étnica, dos longos séculos de escravidão. Por meio da descrição física da cor, contida nas páginas dos livros, identificamos os homens pertencentes às classes subalternas da sociedade brasileira.

Uma Brigada Militar composta por pretos, mulatos, pardos, morenos, índios e mistos, direcionou nossas leituras historiográficas para a autores que pesquisassem os subalternos nacionais. Sidney Chalhoub (1990), Sandra Pesavento (1989) e Paulo Moreira (1995) pesquisam as classes subalternas da sociedade brasileira de fins do XIX. Subalternos, que formavam a parcela pobre da população nacional, e que eram estigmatizados como “classe perigosa”. Tal fato, segundo os pesquisadores, fazia parte de um discurso político moralizante e impregnado de racismo, que objetivava impor uma nova lógica do trabalho ao homem nacional na pós-abolição.

Os livros de assentamento de praças nos possibilitam vislumbrar e comprovar a atuação policial desses homens marcados pela cor. Porém, para melhor pesquisarmos a atividade policial das praças da Brigada Militar, e assim qualificarmos nossa pesquisa, buscamos uma historiografia que privilegiasse nosso objeto de estudo. Para contemplarmos nosso intento, optamos por pesquisadores que fizeram uso maciço dos processos-crimes como fonte documental de pesquisa. Embora esse tipo de documento não tenha sido pesquisado aqui, o recorrer a esses trabalhos enriqueceu o que a nossa documentação trazia à luz.

Chalhoub (1990), Matos (1998), Moreira (1995), Mauch (2004) e Carvalho (2005) são pesquisadores que fizeram uso do processo-crime como fonte documental de pesquisa; e o utilizaram como forma de dar tridimensionalidade às classes excluídas, inclusive, da História do Brasil. Essa fonte possibilita analisar a atuação policial, tanto na confecção do próprio documento, quanto na construção das possíveis versões a respeito da atuação dos personagens presentes na peça processual. Aliar e cruzar a análise feita por essa historiografia, para melhor explorarmos os espaços de interpretação que nossas fontes proporcionavam, possibilitou- nos maior clareza em relação ao nosso objeto de estudo. Ou seja, possibilitou-nos elucidar a participação das classes subalternas na atividade policial-militar.

Houve dificuldade para delimitarmos o objeto de pesquisa, o que só foi alcançado mediante muita leitura. E essa foi intermediada por acaloradas discussões teórico-metodológicas,

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pesquisa. Isso em virtude da ambígua condição que o policial de cor ocupava e exercia na instituição policial-militar e na própria sociedade republicana que se afirmava em fins do século XIX. Procuramos, assim, não reproduzir a história do excluído social, que não teria capacidade de interagir com seu ambiente social e, por isso, de escolher as oportunidades em que lhe fossem possíveis a sobrevivência e a colocação profissional.

No primeiro capítulo, intitulado, “A marca da escravidão”, descreve-se o processo de transição pelo qual passavam as relações de poder no mundo do trabalho, em fins do século XIX. Mudanças que se operavam na passagem da relação de propriedade para a de coerção e controle dos corpos dos trabalhadores nacionais. A passagem do regime de trabalho servil para o livre e assalariado, em fins do século XIX, obrigou as classes dominantes a uma nova tomada de posição em relação às classes subalternas da sociedade brasileira. Isso ocorreu por meio da restrição da cidadania, que era dispensada aos homens e mulheres nacionais marcados pela miscigenação étnica, os quais eram rotulados e estigmatizados como “classes perigosas”.

No segundo capítulo, “Ospoliciais precisam ser policiados”, descrevem-se os motivos do crescente antagonismo entre policiais e populares, configurado em fins do século XIX. Antagonismo causado pela imposição de preceitos e normas de conduta exteriores aos populares, pelos policiais, no cotidiano das ruas. Nesse sentido, os efetivos da Brigada Militar, instituição criada em fins de 1892, constituem-se em importante fonte de pesquisa para compreendermos aquele contexto social. O levantamento quantitativo e qualitativo dos efetivos nos proporcionou visualizar a tendência de se compor o corpo policial por homens das classes sociais subalternas da sociedade. Além disso, passamos a ter a possibilidade de compreender o que significava, para esses homens nacionais, o “estar” policial. Profissão que tinha, na vida da grande maioria deles, um caráter temporário.

No terceiro capítulo, “A Brigada Militar em Santa Maria”, o foco das observações é compreender o impacto sociocultural que a chegada do 1° Regimento de Cavalaria gerou na cidade. Para tanto, analisou-se a conjuntura étnica de Santa Maria, pesquisando-se o processo de formação da população na segunda metade do século XIX e início do XX. Com base nessa análise, verificamos que a população possuía uma pluralidade de origens e que os principais setores econômicos do município eram dominados por pessoas com procedência estrangeira, em especial, imigrantes europeus.

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tiveram, a partir da chegada do 1° RC, em 1922, uma alternativa de emprego. Fato que não deve ter passado despercebido aos habitantes santa-marienses.

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2 – A MARCA DA ESCRAVIDÃO

Ao findar a escravidão no Brasil (1888) não cessaram seus efeitos sobre “as gentes” do país. O pleno direito à cidadania continuou a ser negado aos egressos do cativeiro (CHALHOUB, 1990 e MATOS, 1998), o que os tornava uma espécie de cidadãos de segunda classe. Esses, com parte da massa populacional nascida livre, despossuída e marcada pela miscigenação étnica, eram rotulados e estigmatizados como “classes perigosas”. Os “estigmas sociais” ligados a esses homens derivam dos “discursos” que respaldaram por muito tempo a escravidão no Brasil e transformavam o negro em “coisa” e “mercadoria”. Tais discursos “rotularam” esses homens e mulheres como um produto, desprovido de pudores, racionalidade e humanidade.

Entre as possibilidades de colocação profissional e sobrevivência disponível a esses homens, rotulados e estigmatizados, estaria o serviço policial (Moreira, 1995). Desde os anos finais do Império, recrutar os “cidadãos de bem” para essa atividade não era tarefa fácil, pois eles acabavam por isentar-se do serviço policial-militar 1. Tal tendência se mantém nos primeiros anos da República, devido à baixa remuneração e à falta de prestígio do trabalho policial (MAUCH, 2004). O governo tinha então dificuldades para arregimentar efetivos para os corpos policias e acabava por tornar a atividade acessível a homens oriundos das classes subalternas da sociedade, sendo que, com eles, vinham os “estigmas sociais” ligados a critérios étnicos, que acabavam sendo considerados como próprios da classe policial.

Por volta de 1890, o policiamento de Porto Alegre foi alvo de críticas dos jornais

“Gazeta da Tarde” e “Gazetinha”. Os periódicos se colocaram ao lado de uma campanha de saneamento moral e disciplinar direcionada às forças de segurança. De acordo com Claudia Mauch (2004), que estudou o período, eram constantes as críticas feitas aos policiais que agiam com truculência e confundiam trabalhadores com turbulentos. A falta de formação dada a estes homens seria a origem de sua ação indiscriminada e de violência desproporcional (MAUCH, 2004).

Os homens nacionais, que faziam parte da polícia e eram parte atuante nesta, em fins do século XIX e início do XX, eram fruto de três séculos de escravidão e resultado de longa

1 “Percebemos que o recrutamento era visto como uma escola de disciplinamento dos indivíduos engajados. Pretendia-se ao sujeitá-los à dura disciplina militar, podar os maus instintos, os vícios da ociosidade e do crime”.

É, em oposição, a estes homens, para os quais o serviço militar era obrigatório que os “cidadãos de bem”, isto é,

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miscigenação étnica, tinham, por isso, de ser enquadrados e divididos por novas categorias sociais em que as opções utilizadas eram antagonizar o trabalhador nacional ao estrangeiro, bem como relacionar o preguiçoso ao aplicado e dedicado. Eles eram os mesmos homens e mulheres que encontramos na Santa Maria do período e carregavam consigo os estigmas sociais vinculados ao passado escravo, pois a cor de sua pele marcava-os e distinguia-os dos demais cidadãos santa-marienses. Assim, os homens de cor, considerados cidadãos de segunda classe, tanto em nível nacional como local, estavam identificados com as “classes perigosas”.

2.1– A BUSCA POR NOVAS BALIZAS SOCIAIS

A sociedade brasileira do período, acostumada basicamente a estar dividida entre ser ou não livre era obrigada a encontrar e desenvolver novas diretrizes normativas hierárquicas sociais. Conforme afirma Michel Foucault, é nas sociedades disciplinadoras, que surgem no século XVIII, onde ganha força a formulação de normas gerais de “dominação” dos corpos, “diferentes da escravidão, pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos” (FOUCAULT, 1977, p.126). Assim, torna-se necessário reacomodar tais balizas que definiam a posição que cada homem ou mulher deveria ocupar na sociedade de seu tempo.

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. (FOUCAULT, 1977, p.127)

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foi a proclamação da República o vetor dessa transformação social, mas somente foi parte de um longo processo.

Desde a década de 1850, então, quando a questão da transição do trabalho escravo para o livre já se colocava de forma incontestável para os diversos setores da classe dominante, delineia-se uma política clara de condicionar esta transição a um projeto mais amplo de continuação da dominação social dos proprietários dos meios de produção. (CHALHOUB, 2001, p. 47)

Com o fim do regime de trabalho escravo, em 1888, e a passagem do Império para República em 1889, tornou-se mais premente readequar os meios de controle e persuasão das classes subalternas da sociedade. Sendo que, desde o início do século XIX, a vigilância social já era uma preocupação em virtude do crescimento das massas livres, fora do direto controle senhorial. (CHALHOUB, 1990) Isso, para Foucault, significava o crescimento da necessidade das elites dominantes de encontrar um novo enquadramento social, uma nova reordenação das “multidões confusas, inúteis ou perigosas.” (1977, p.135)

Entendemos que esse período de ressignificação do mundo do trabalho, pelo qual passou o Brasil em fins do século XIX, possui algumas semelhanças com o que Edward Palmer Thompson (2010) descreveu sobre a passagem do trabalho servil para o trabalho assalariado e fabril na Inglaterra do século XVIII. Isso porque a “cultura popular costumeira”,

descrita pelo autor, não se moldava facilmente ao mercado livre burguês que se instalava. Tal fato ocorria por este não levar em consideração a tradicional reciprocidade de interesses entre a elite dominante e a classe trabalhadora inglesa de modo geral. Segundo Thompson, a “gentry”, elite política e intelectual inglesa, atuou com a imposição de sua força política para controlar e organizar a mão de obra, a partir do simbolismo dado a sua autoridade e hegemonia patriarcais.

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Delineia-se, então, um processo social amplo que, após muita luta e resistência por parte dos populares, levaria a configuração de relações sociais de tipo burguês-capitalista (...) A imersão do trabalhador previamente expropriado nas leis do mercado de trabalho assalariado passa por dois movimentos essenciais, simultâneos e não excludentes: a construção de uma nova ideologia do trabalho e a vigilância e repressão contínuas exercidas pelas autoridades policiais e judiciárias. (CHALHOUB, 2001, p.47)

O processo de formação da classe trabalhadora brasileira colocava, de um lado, as variadas elites nacionais, fosse ela a cafeeira, a pecuarista, fosse a incipiente industrial e, do outro, “os trabalhadores nacionais” que englobavam um grande número de homens e mulheres com as mais variadas origens. Dessa maneira, é nessa grande massa heterogênea de trabalhadores que estão inclusos os egressos do cativeiro, e todos aqueles homens e mulheres que possuíam ascendência interétnica, frutos da miscigenação racial2e que passaram a ser antagonizados pelos imigrantes europeus trazidos para serem seus substitutos.

Esse homem nacional, resultado da miscigenação étnica durante o período escravista, teve sua condição social baseada no ser ou não livre. No período republicano, esses mesmos sujeitos herdaram os estigmas sociais vinculados ao cativeiro. O mais persistente deles: a construção político-ideológica da inata negligência do trabalhador nacional e sua incapacidade de adequar-se a um mercado de trabalho livre e assalariado, tendo que ser, necessariamente, coagido e reprimido a trabalhar.

Em suma, cabe enfatizar que mitos como a “preguiça” do brasileiro, a “promiscuidade sexual” dos populares e outros congêneres são construções das

classes dominantes para justificar sua dominação de classe, sendo, então, apenas

uma versão ou leitura possível da “realidade”, apresentada, mais ou menos

consciente pelos agentes históricos destas classes. (CHALHOUB, 2001, p.80)

A anterior hierarquia social brasileira, que tinha como uma das balizas referenciais o ser ou não livre até o advento da abolição em 1888, passava por um longo processo, vindo de meados do século XIX de reacomodação social. “As categorias e identidades socioculturais” deixaram subitamente de fazer sentido. (MATOS, 1998, p.275) E na falta de um amparo legal que garantisse a demarcação da hierarquia social, cresceu em importância a busca por referenciais simbólicos que demarcassem as divisões sociais. A cor3 era um, dentre outros

2“A ideia de raça é, seguramente, o mais eficaz instrumento de dominação social inventado nos últimos 500 anos. Produzida no início da formação da América e do capitalismo, na passagem do século XV para o XVI, nos séculos seguintes foi imposta sobre toda a população do planeta como parte da dominação colonial da Europa”.

(QUIJANO, 2010, p.43)

3 “A palavra negro foi utilizada na linguagem coloquial, por quase todo o século XIX, como uma espécie de sinônimo de escravo ou ex-escravo, com variantes que definiam os diversos tipos de cativos, como o africano – comumente chamado de “preto” até meados do século – ou o cativo nascido no Brasil – conhecido como

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definidores de classe, ligada a “estigmas sociais”, que se fez sentir na atuação policial evidenciada por Matos (1998), na violência racial dos periódicos, ao retratarem com melancolia cenas do cotidiano. “Presenciaram hoje os moradores desta cidade um espetáculo verdadeiramente contristador. Um Homem de cor branca, ensanguentado, amarrado, era conduzido por dois negros, portadores de uma carta dirigida ao senhor delegado de polícia”. (1998, p.279)

A concessão de “direitos civis” e de “cidadania” aos libertos colocou esta sociedade diante de um dilema de orgulho pessoal. Presenciar um branco ser conduzido preso por negros poderia significar simbolicamente que nenhum outro branco estaria livre dessa humilhação. Esses sentimentos, somados aos interesses econômicos e necessidade de mão de obra ordeira e submissa, orientaram as investidas das classes dominantes, a fim de tutelarem a concessão da cidadania aos negros. “Foi a tentativa muitas vezes violenta, de se forçar os libertos a se manterem não como „negros escravos‟, mas como „negros libertos‟, de mantê-los numa condição civil de fato, diferenciada dos demais homens livres.” (MATOS, 1998, p.287) Logo, mesmo com o fim da escravidão, a cor continuava a ser um dos possíveis referenciais no embate cotidiano da autoafirmação da cidadania.

Além da cor como fator estigmatizante do trabalhador nacional, a propriedade do homem sobre o homem erigiu a “coisificação do escravo”4, a partir da ferrenha defesa do direito de propriedade que o senhor fazia sobre o seu negro, preto ou crioulo. Assim, para compreendermos os significados do termo “estigmas sociais”, torna-se necessário desvendar a “coisificação do escravo”. Sidney Chalhoub (1990), ao contrastar as obras de Perdigão Malheiros e Fernando Henrique Cardoso, aponta os elementos para se pensar este fenômeno histórico-social. Obras separadas no tempo por mais de um século são fundamentais para a discussão de temas como a “coisificação” e “animalização” dos escravos, ou seja, dos homens de cor. Eles são descritos pelos autores com base em diferentes fontes. Perdigão Malheiros era abolicionista, político do Império e, ao mesmo tempo, proprietário de escravos, portanto, um homem de seu tempo. Já Fernando Henrique Cardoso é um pesquisador acadêmico que tem por fonte os escritos dos viajantes estrangeiros, que passaram pelo Sul do Brasil e fizeram anotações sobre suas impressões.

4 A coisificação do escravo fez parte do arcabouço retórico que constituiu os estigmas sociais, colados aos homens e mulheres egressos do cativeiro, e a todos aqueles que possuíam na cor de sua pele, a marca da escravidão. E que aqui, neste trabalho, nos ajuda a desmistificar as origens pejorativas que marcaram todas

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... F. H. Cardoso se empenha em esmiuçá-la. Ele explica que os escravos se auto-representavam como seres incapazes de ação autônoma; ou seja, os negros seriam incapazes de produzir valores e normas próprias que orientassem sua conduta social. A conclusão óbvia, expressa no segundo parágrafo, é a de que os escravos apenas espelhavam passivamente os significados sociais impostos pelos senhores. (CHALHOUB, 1990, p. 38)

Ambos os autores analisados por Chalhoub constroem o modelo do “escravo coisa”, a partir de uma visão externa ao próprio escravo. Têm por base o que os proprietários de escravos julgavam sobre a qualidade humana ou não, sobre suas propriedades e emitiram o parecer de que o próprio escravo via a si mesmo como um quase animal, “uma besta fera”. Malheiros e Cardoso defendem a ideia de que o escravo considerava-se, conscientemente, inferior aos homens brancos e que tinha por único consolo considerar-se melhor que os animais existentes a sua volta, que também eram propriedade de seus donos e senhores.

De qualquer forma, o que aparece na pena de Perdigão como uma hipótese, é defendido por Cardoso como uma verdade expressa com o rigor acadêmico. Afirma Chalhoub que a ideia de Cardoso era “que os escravos se auto-representavam como seres incapazes de ação autônoma (...) como os negros se comparavam aos animais e não aos homens livres” (1990, p. 38), ou seja, aos homens brancos.

Para Chalhoub, a construção do “escravo coisa”, fez parte da corrente historiográfica que, por muito tempo, considerou, que o escravo só “oscilava entre a passividade e a rebeldia”, portanto, negando qualquer senso crítico e visão de mundo pertinente aos negros, pretos e crioulos. Fraga Filho (2006) ajuda a demonstrar essa ideia, ao analisar a retórica do discurso de defesa da instituição escravista, proferido pelos senhores de escravos. Estes não creditavam as suas “propriedades” qualquer capacidade inventiva e de visão de mundo, considerando que os atos de rebeldia, fuga, arrogância, insubordinação e desrespeito eram somente consequência da infiltração de malfeitores propagandistas em meio à escravaria.

A maioria dos senhores acreditava que estes atos eram resultado exclusivo da infiltração de propaganda abolicionista em seus domínios. Era difícil admitir que os escravos pudessem tirar suas próprias conclusões sobre o que acontecia a sua volta. Sem dúvida o comportamento dos escravos dos engenhos estava fundado na percepção de que seus senhores estavam cada vez mais isolados; que discussões e debates sobre o destino da escravidão eram tratados nas instancias centrais do poder e que já era possível questionar abertamente as bases de domínio escravista. (FRAGA FILHO, 2006, p. 112)

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modo, os escravos, aparentemente pacatos e submissos, poderiam de um dia para outro rebelar-se conforme as circunstâncias. Essa imprevisibilidade, para os senhores, fazia parte de um “conjunto de artimanhas” 5 escravas que poderiam ser bem ou malsucedidas no campo de batalha em que se definiam os limites do que era aceitável ou não para ambas as partes da disputa.

O “conjunto de artimanhas escravas” refere-se às evidências empíricas, hoje arroladas por pesquisas historiográficas, que defendem a capacidade de negociação escrava com o sistema escravista que os oprimia. As estratégias e recursos, presentes nesse conjunto, eram utilizadas pelos cativos e demonstravam a capacidade de leitura do contexto a sua volta, o que lhes proporcionava a escolha das melhores formas de lidar com as restrições e assim continuar a viver a vida da melhor forma possível.

Tais negociações, por outro lado, nada tiveram a ver com a vigência de relações harmoniosas, para alguns autores até idílicas, ente senhor e escravo. Só sugerimos que, ao lodo da sempre presente violência, havia espaço social que se tecia tanto de barganhas quanto de conflitos. (REIS, 1989, p.7)

Os pesquisadores recentes desconstruíram a ideia de “coisificação do escravo”, demonstrando que estes não faziam parte de um bloco coeso e antagônico aos senhores, pois existiam “as rivalidades africanas, as diferenças de origem, língua e religião.” (REIS, 1989) Essa diversidade da população escrava se refletia no tênue campo das negociações do cativeiro, onde crioulos e ladinos eram diferentes dos africanos de nação, o que era acentuado em um complicado jogo de busca por melhores condições de sobrevivência.

Seja como for, já não é possível pensar os escravos como meros instrumentos sobre os quais operam as assim chamadas forças transformadoras da história. Não, podemos tampouco, pensá-los como um bloco homogêneo apenas por serem escravos (...) tudo o que os dividia não podia ser apagado pelo simples fato de viverem um calvário comum. (REIS, 1989, p.20)

No Rio Grande do Sul, o destino dos escravos e a capacidade de escolha destes para o lado para o qual penderiam influenciaram na forte dicotomia entre o Partido Liberal

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Monarquista e o Partido Republicano Rio-grandense, acalorando ainda mais as disputas intraelite (PESAVENTO, 1989). Ambas as parcelas da elite defendiam o fim do regime escravocrata de diferentes maneiras, mas com um objetivo final muito parecido: angariar, dentro do contexto de disputa moral, política e paternal, o reconhecimento por parte dos ex-escravos de quem seriam seus supostos benfeitores.

“A dar crédito às notícias da imprensa da época, a escravidão teria findado no Rio Grande do Sul em 1884”, tamanha era a campanha “publicitária” vinculada nos periódicos do período. (PESAVENTO, 1989, p.32) Esses noticiavam os atos de grande caridade e desapego “material” de inúmeros senhores ao darem carta de liberdade “aos seus”. Na prática, essas atitudes foram mais um alongamento, uma sobrevida das relações escravistas, pois eram, na grande maioria, liberdades condicionais, ou seja, em troca de “alguns anos” a mais de prestação de serviços. De acordo com Pesavento (1989), nos mesmos periódicos em que se exaltavam tais beneméritas e despretensiosas atitudes, declarando a quase extinção do cativeiro na província no ano anterior à abolição total e irrestrita, criticava- se a forte insurreição escrava ocorrida no município de Pelotas, reduto de grandes charqueadores. Contra a ideia de uma abolição precoce no Rio Grande do Sul ainda pesam os dados levantados por Pesavento de que, em 1888, ainda se registravam 8.842 matrículas de escravos na Província do Rio Grande do Sul, sem contar aqueles que ainda prestavam serviços a seus “antigos senhores” mediante contrato. (1989, p.32)

Nos anos finais do sistema escravista na Província do Rio Grande do Sul, a elite senhorial ligada ao Partido Liberal esperava prolongar o máximo possível a escravidão, tirando proveito moral das alforrias condicionais de prestação de serviço. Os republicanos eram contra as alforrias condicionais de 1884, defendendo a abolição total e sem indenização aos senhores. Tinham sua fundamentação ideológica no “espírito Comteano”, o qual buscava incorporar o proletariado à sociedade moderna, devendo, contudo, serem tomadas medidas “protetoras” para os recém-libertos. Não se pense, porém, que essas medidas não tinham preconceito com as classes mais baixas, pois não é à toa que são os mesmos republicanos que irão sempre ver as classes trabalhadoras como classes perigosas. Logo, pode-se perceber que, tais medidas eram muito mais para proteger as elites das atitudes e comportamentos dos recém-libertos do que para a “proteção” destes últimos.

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ampla adesão da maioria dos proprietários de terras, inclusive de seus antigos opositores entrincheirados nas fileiras abolicionistas. Naquele momento, tentavam, juntos, resolverem a questão da mão de obra assalariada, suas variadas formas de regulamentação e controle. Mesmo que as elites regionais encarassem de forma desigual o problema da mão de obra, o que elas tinham em comum, tanto no Sul ou Sudeste brasileiros, era a necessidade de evitar que o recém-estabelecido mercado de trabalho livre viesse a lhes ser desfavorável.

As distintas posturas, contudo, não eliminavam ou divergiam de uma questão central: a de que se encontrava em curso um processo de formação de um mercado de trabalho livre e, fosse qual fosse o destino do liberto, era preciso controlá-lo, cerceá-lo na sua mobilidade e vigiá-lo na sua nova condição. (PESAVENTO, 1989, p.34)

Fraga Filho (2006), ao reconstituir o cenário do recôncavo baiano, a partir da ruptura do modelo de mão de obra escravocrata, vê no simbolismo senhorial a possibilidade de compreender como se deram as oportunidades de acesso aos meios de subsistência pelos ex-cativos. Meios de sobrevivência que se traduziram em práticas como os “furtos” de gado, descritos a partir do ponto de vista dos ex-senhores, ou das “

comedelas

”, a partir do ponto de vista dos egressos da escravidão. Para estes, o furto possuía um significado simbólico, ao criar um cenário de confraternização, ao mesmo tempo, de ritualização metafórica do acerto de contas e da morte da autoridade senhorial no instante em que se faziam os abates dos animais. Os depoimentos dos acusados de furto são reveladores, pois de acordo com os relatos feitos pelo delegado, os furtos eram praticados com “pouco caso” e “desembaraço”, por serem parte de uma prática corriqueira e normal, com base no costume.

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outros, em que o abatimento do animal funcionaria como uma forma de retaliação e punição aos proprietários mais “descuidados”.

O conjunto de argumentos historiográficos, até o momento elencados por nós, fez parte da construção da imagem social que as “classes perigosas” 6 possuíam na virada do século XIX para o XX. Entre os “estigmas sociais”, destacamos a coisificação do negro quando na condição de cativo, e consequentemente a retórica senhorial da sua falta de capacidade de leitura e compreensão do mundo a sua volta. A saber, a pretensa inclinação à vadiagem e promiscuidade sexual dos populares brasileiros, profundamente marcados pela miscigenação racial. Eram os “maus costumes” adquiridos por esses homens e mulheres após gerações que vivenciaram o cotidiano da vida cativa. Costumes que, antes da ruptura política e social representada pelo fim da escravidão, faziam parte de suas práticas de sobrevivência, os quais, aqui representamos, pela prática do furto abigeato que passava de costume aceitável para atividade criminosa. Mas, representados, principalmente, pela quebra do referencial desta sociedade, “o ser e o não livre”, condição básica de status social ao longo do período escravista brasileiro.

Mais do que isto, a lei de 13 de maio era percebida como uma ameaça à ordem porque nivelava todas as classes de um dia para o outro, provocando um deslocamento de profissões e de hábitos de conseqüências imprevisíveis (...) provocando assim o caos social (...). (CHALHOUB, 2001, p.67)

Uma das consequências da perda dessa baliza social estava no exagero do discurso político da época, sobre o caos social para o qual se encaminhava a sociedade brasileira do período. Por mais que o regime escravista aparentasse sinais de que estivesse por findar-se, causou assombro na sociedade a possibilidade de igualdade do status de classe. É nesse contexto que ganha força o antagonismo entre o trabalhador nacional de cor, diante dos demais trabalhadores estrangeiros, principalmente, os de origem europeia. Tal fato catalisa os “estigmas sociais” que pesquisadores como Pesavento (1989), Chalhoub (1990) e Carvalho (2005) demonstram fazer parte da construção da noção de “classes perigosas”. São destes subalternos da sociedade, marcados pelos estigmas sociais, que irá sair grande parte dos policiais do regime republicano que se iniciava.7

6 Expressão que, em meados do XIX, na Europa, significava o conjunto de pessoas com passagem pela prisão. Paulatinamente, seu significado se ampliou para o de pessoas “potencialmente perigosas,” passando a ter

correlação direta com as classes mais pobres da sociedade. “No Brasil de fins do século XIX a noção de classes perigosas aparece impregnada de um indiscutível racismo”. (MAUCH, 2004, p.109)

7 Santa Maria, em 1884, na correspondência do delegado de polícia, pesquisada por Carvalho, em que o

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2.2. A DIVISÃO DOS TRABALHADORES

O estado republicano brasileiro, que se inaugurou no dia 15 de novembro de 1889, tinha um projeto de reforma social e cultural centrado e “comprometido com a penetração de capital e bens industrializados provenientes das metrópoles capitalistas avançadas.” (CHALHOUB, 2001, p.252) Esse comprometimento fica evidente a partir das políticas sociais autoritárias, de caráter totalizante, na repressão policial dos corpos e mentes da população em geral, um de seus braços fiscais mais importantes.

Este projeto avassalador de mudança social – cujas linhas de força fundamentais vinham de fora para dentro do país e de cima para baixo do ponto de vista da estrutura social interna – havia sido concebido como um processo linear, natural e inevitável por seus protagonistas. Tratava-se, afinal, de fazer com que o país se

inserisse na “civilização”. (CHALHOUB, 2001, p. 253)

No Rio Grande do Sul, a implantação do estado republicano esteve durante todo o período da República Velha nas mãos do Partido Republicano Riograndense (PRR). Estes “organizaram um aparato de hegemonia” política, que também tinha na polícia uma de suas principais ferramentas de repressão e refreamento social dos costumes. Aproveitaram-se, para isso, do período de modificação das “relações reais entre os homens e o mundo econômico ou de produção” (PESAVENTO, 1988, p. 56), reorientando a sociedade a partir de uma nova tomada de posição ideológica por parte da classe dominante. O momento de transição política e também de transição dos meios e modos de trabalho proporcionou campo fértil para a implantação de um estado positivista no Rio Grande.

É realmente na transição do trabalho escravo para o trabalho livre, na passagem da Monarquia para a República e na reorientação do pacto dominante de classes que seriam forjadas melhores condições institucionais para o desenvolvimento industrial. (PESAVENTO, 1988, p. 92)

Pesavento e Chalhoub descrevem que o momento de transição que a sociedade brasileira vivenciava, em fins do XIX, teria, na abolição da escravidão e no incentivo da política imigratória, a contribuição decisiva no processo de formação “do mercado de trabalho capitalista”. Este mercado de trabalho, para Chalhoub, era fundamentalmente antagônico, no que diz respeito “à relação trabalho assalariado versus capital.” (2001, p. 254) Pois, no discurso da proclamação da República, o homem livre trabalhador tornava-se

vigiados e controlados, “os policiais pareciam ser um dos alvos preferenciais das intenções moralizadoras das

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cidadão, ao vender sua força de trabalho, passando à condição de cidadão incluso e assalariado. Na visão do autor, o melhor seria dizer que, na proclamação da República, o homem livre pobre passaria a ser base de sustentação da sociedade, a partir de um amplo projeto de estado, pensado e elaborado com a intenção de transformá-lo em um “trabalhador, ou seja, em fonte de acumulação de capital.” (CHALHOUB, 2001, 254)

Desnudar o ímpeto do estado brasileiro, em especial, do governo do Estado do Rio Grande do Sul de moldar os hábitos, costumes e a iniciativa de ordenar o mundo do trabalho do homem nacional é, também, descrever a formação e organização do aparato policial, pois este fazia parte da imposição do assalariamento aos trabalhadores. Dessa forma, criou-se entre aqueles, de modo geral, e os policiais uma relação com base em antagonismos e reconciliações dentro da própria classe trabalhadora. Relação que era acentuada por imposições de normas e valores exteriores à classe trabalhadora por meio da repressão policial e isto era lidar com o popular, do qual os próprios policiais faziam parte e usavam no cotidiano de suas atribuições ordenadoras e moralizadoras da sociedade à sua volta.

No caso do Rio Grande do Sul, o crescimento urbano e industrial dos anos finais do XIX fez surgir uma classe trabalhadora livre, a partir da concentração populacional nas cidades. Essa proporcionou “o reforço dos laços de solidariedade entre os grupos que apresentavam padrão de vida e condições de trabalho semelhantes.” (PESAVENTO, 1988, p.152) Semelhanças essas que se refletiam na distribuição populacional no espaço físico, reproduzindo as divisões por classe econômica, em bairros nobres, ocupados pela elite econômica e, em bairros industriais, ocupados pelos trabalhadores agrupados em volta das indústrias.

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da própria classe trabalhadora. Isso fica bem claro na atitude da imprensa, ao tentar desarticular os movimentos grevistas, nos anos iniciais do século XX.

... a imprensa tratava de divulgar noticias de que das colônias chegavam muitos oferecimentos de operários, pedindo preferência de colocação das fábricas e oficinas, num claro intuito de demonstrar que seria possível aos empresários realizarem com presteza a substituição dos grevistas. (PESAVENTO, 1988, p. 158)

As greves e reivindicações básicas dos trabalhadores, como jornada de oito horas de trabalho, somadas ao aumento da população de baixa renda nos principais centros urbanos do estado, entre eles, Santa Maria, não chegaram “a abalar o período da “pax positivista”, que se seguiria ao fim da Revolução de 1893 e que marcou a consolidação do PRR no estado. (PESAVENTO, 1988, p. 154) A cômoda situação do empresariado gaúcho era respaldada por um governo que não intervinha nas relações privadas de negociação entre trabalhadores e empresários. O Estado só atuava para “garantir a ordem” e para obter o progresso.

Deixando à burguesia resolver na esfera privada, diretamente com os operários, as demandas pretendidas, o governo atuou em favor do capital, comandando a repressão e divulgando através da imprensa editoriais que defendiam o empresariado. No primeiro caso, foi fundamental a ação da Brigada Militar, dissolvendo comícios e passeatas, prendendo grevistas e garantindo o retorno ao trabalho, com o concurso de cavalos e baionetas. (PESAVENTO, 1989, p. 157)

O ano de 1906 ficou marcado pela criação da FORGS (Federação Operária do Rio Grande do Sul), depois dos primeiros choques de maior vulto entre o proletariado, os representantes do estado e empresariado. Esses conflitos desencadearam as greves ocorridas naquele ano, as quais não se restringiram somente a capital do estado, estendendo-se a outros municípios como Pelotas, Rio Grande, Cachoeira, Bagé e também Santa Maria. Mesmo que os movimentos grevistas tivessem alcance estadual (sic) no ano de 1906, o governo “deveria manter uma posição neutra, garantindo a ordem material e punindo as infrações” (PESAVENTO, 1989, p. 143), o que recaia, na maioria das vezes, em forte repressão policial aos grevistas.

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noticiados pela imprensa oficial da época, que muito se esforçava para desvinculá-los do caráter coercitivo e repressivo do governo do estado, denotando a personalidade “paternal” que este queria passar.

Mauch (2004) observa na Porto Alegre da década de 1890, que a imprensa “livre” – aquela não ligada ao PRR – não deixava de participar da campanha publicitária em prol da moralidade saneadora da sociedade em questão. Os periódicos “Gazetinha” e “Gazeta da Tarde” compartilhavam da convicção “de que o trabalho é fator indispensável de moralização e educação.” (2004, p.105) O ponto de diferenciação utilizado pelo discurso dos periódicos era o de qualificar o trabalhador desordeiro e o disciplinado “em função do trabalho e do não trabalho”, evidenciando esta posição, quando ambos criticavam de forma contundente o excesso de patrões, bem como a ineficácia policial ao confundir bons trabalhadores com vagabundos.

O quadro de desordem e turbulência social, que era descrito por esses periódicos, estigmatizava muitos homens, mulheres e crianças que não estavam “enquadradas no mercado de trabalho „formal‟, capitalista.” (MAUCH, 2004, p. 107) Provavelmente, grande parte desses, que eram enquadrados como ociosos e vagabundos, eram trabalhadores eventuais, jornaleiros, ou seja, pessoas que ganhavam a vida no cotidiano das ruas, conforme as oportunidades que lhes eram possíveis.

Embora não se disponha de dados sobre a estrutura ocupacional de Porto Alegre na época, sabe-se que era grande o número de habitantes ocupados em “biscates” ou

trabalho não fixo, contingente este composto por muitos negros e mestiços. Em tal tipo de atividade, por não passar por uma jornada de trabalho fixa em um local definido sob o olhar vigilante do patrão. (...). Tal opinião provavelmente não era compartilhada por muitos soldados, marinheiros e operários que, pelo menos aos domingos, juntavam-se aos “não-trabalhadores.” (MAUCH, 2004, p. 107)

As espeluncas 8, local de lazer das classes subalternas da sociedade e por este motivo

estigmatizados, eram foco de preocupação das autoridades. O costume de frequentar espeluncas pela classe trabalhadora rompia com a lógica linear do trabalho, proporcionando aos populares, nas horas de descanso, ou mesmo durante os horários de expediente, um refúgio de suas dores e frustrações do dia a dia.

A visão corrente era que bares e botequins, locais de lazer populares, eram frequentados por “vagabundos” e “desocupados”, aos quais Mauch (2004) faz referência na

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Porto Alegre de fins do XIX e que eram foco de grande indignação da imprensa local, por serem pontos de reunião de desordeiros. Isso é compatível com o que Chalhoub (2001) pesquisou sobre os significados dos botequins para a cidade do Rio de Janeiro de fins do XIX e início do XX. Portanto, a partir da atitude dos governantes em “restringir os hábitos populares de conversar e bebericar ao espaço interno do botequim” (2001, p. 260), os proprietários passaram a ser aliados das forças de repressão. Em consequência, esses tinham que zelar por seu estabelecimento comercial, mantendo a ordem e moralidade no local e, ao mesmo tempo, passaram a informantes importantes para os policiais a respeito dos frequentadores desses locais infames.

Atitude parecida teriam os empresários do Rio Grande do Sul, ao proporcionarem locais de lazer, festas e comemorações, cursos técnicos e de nível escolar dentro dos espaços físicos de suas empresas. Tais atividades, na maioria das vezes, eram após a jornada de trabalho. (PESAVENTO, 1988, p.71). Isso tinha o objetivo de manter o máximo de tempo possível seus funcionários afastados dos locais tidos por eles, como profundamente prejudiciais ao bom trabalhador. Esses locais públicos, botequins, bares e espeluncas eram o constante foco das preocupações dos empresários e governantes do Rio Grande do Sul, em função de serem frequentados pelas “classes perigosas”.

O aparato jurídico-policial do estado, com respaldo de governantes, empresários e imprensa, buscava, cada vez mais, controlar e reformar os costumes de trabalhadores e populares. Pressão social, que acaba conduzindo as organizações operárias em meados de 1917, no Rio Grande do Sul, a conclamarem “os trabalhadores a tomar medidas enérgicas frente à situação calamitosa em que se achavam.” (PESAVENTO, 1989, p. 163) Esse fato foi acompanhado de perto pelas autoridades policiais, mediante um levantamento prévio, feito junto às indústrias das relações nominais dos operários, tudo com a intenção de regular as ações das organizações e sindicatos.

Em meio a todos estes acontecimentos e a comícios exaltados nas ruas da capital, chegou a Porto Alegre a notícia de que neste dia, 31 de julho, os empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul haviam-se declarado em grave em Santa Maria (centro ferroviário mais importante do estado), tendo em vista a recusa do inspetor geral da companhia, Mr. Cartwight, em conceder aumento salarial, e jornada de 8 horas e semana inglesa. A partir deste momento, espalhou-se o movimento grevista na capital, com o apoio da FORGS. (PESAVENTO, 1989, p. 163)

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consequência direta da privatização das relações e negociações trabalhistas e da intervenção pontual do estado que enfatizava seu caráter paternal para com a sociedade. Algo aos moldes do que Thompson (2010) descreveu sobre o simbolismo paternal que a gentry exercia na sociedade inglesa do século XVIII. Porém, no Rio Grande do Sul, isso se fez conforme os ditames positivistas e, por isso mesmo, foi extremamente centralizado, o que favoreceu o uso de um aparato jurídico-repressivo para conter as reivindicações operárias.

O período que se estende após a Primeira Guerra Mundial marcou o crescimento das reivindicações operárias. Com isso, o estado se fez mais presente ainda na sociedade por meio da coerção e repressão a qualquer movimento grevista. O empresariado passou a demitir os grevistas para “manter a disciplina”, substituindo mão de obra qualificada por aprendizes. A greve de 1919 parou todos os serviços de Porto Alegre e a reivindicação básica dos operários eram 8 horas diárias de trabalho. A cidade ficou sem luz e com as comunicações debilitadas por força das greves da Companhia Força e Luz e da Companhia Telefônica. Isso forçou uma reunião do empresariado porto-alegrense, que decidiu não atender aos pedidos grevistas e ainda solicitar apoio e providências do estado.

As providencias, aliás, já se encontravam em andamento, pois desde o início do conflito era forte o policiamento que a Brigada Militar realizava nos bairros operários e fabris. Atentados a bomba, tiros e enfrentamentos entre policiais e trabalhadores e outros atos de violência geraram um clima de pânico na cidade, levando o governo a fechar as associações operárias. (...). Sindicatos operários e a própria FORGS foram fechados e ocupados pela Brigada Militar, determinando o fim do movimento. (PESAVENTO, 1989, p. 173 e 174)

O embate corporal entre policiais e operários foi mais um ingrediente a acentuar o antagonismo social existente dentro da própria classe trabalhadora, bem como entre estes e o governo do estado Rio Grande do Sul do início do século XX. O que podemos visualizar, em Pesavento (1989), é que, ao longo de grande parte de sua pesquisa, ele descreveu o franco favorecimento aos trabalhadores que possuíam origem ou ascendência estrangeira por parte do empresariado rio-grandense, contando estes, com o incentivo dos governantes do estado. Essa tendência em compor os postos de trabalho do meio urbano e industrial com operários que possuíam ascendência estrangeira fazia parte também do contexto santa-mariense de início do século XX.

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3 - “A POLÍCIA PRECISA SER POLICIADA”

A crescente complexidade social no Brasil do século XIX forçou “a reorganização do policiamento nas cidades brasileiras, na década de 1890.” (MAUCH, 2004, p.25) Reformulação que se fazia necessária para readequar a força policial às mudanças sociais do período, as quais vinham acompanhadas do discurso político sobre a periculosidade das classes subalternas da sociedade. A análise das reformas das instituições policiais cresce, em significado subjetivo, quando constatamos que parte dos policiais originava-se das chamadas camadas perigosas da sociedade, as mesmas que deveriam ter seu dia a dia controlado e vigiado pela polícia. Assim, a indispensável existência da polícia não deve ser vista como uma “simples resposta do estado à necessidade (...) de controlar os trabalhadores,” correndo o risco de não se compreender “a autonomia da ação policial” que a composição dos efetivos implicava. (MAUCH, 2004, p.31)

É na percepção da existência do espaço de autonomia da ação policial que a frase, que dá o título a este capítulo, ganha em sentido metafórico. A frase foi escrita, em 1884, pelo delegado de polícia de Santa Maria em sua correspondência. (CARVALHO, 2005, p.89) Nela podemos perceber claramente a percepção do delegado dos estigmas sociais vinculados aos homens da lei, isto é, aos policiais não oficiais. O fato de os policiais compartilharem dos costumes e hábitos das classes subalternas da sociedade colocava-os em uma condição ambígua, pois tinham que reprimir as práticas populares que faziam parte do seu próprio cotidiano. Isso os tornava foco de críticas tanto das elites econômicas, às quais deviam justificativas, quanto dos populares, dos quais faziam parte.

Com vistas à condição policial, os motivos que originaram a criação da Brigada Militar iam além dos preparativos para a “Revolução de 1893” e se inseriam também, na política de reformulação do corpo policial do Estado do Rio Grande do Sul. “O governo preocupou-se em montar um aparato militar com a justificativa da necessidade de criar condições concretas para manter e consolidar o regime republicano.” (MAUCH, 2004, p.43) Isso significava juntar os interesses do estado aos dos populares, fazendo com que estes se sentissem parte do projeto modernizador da sociedade, o que abriria espaço para os populares sentarempraça na Brigada Militar, uma oportunidade de trabalho e inclusão social, mas que também era uma forma de o estado controlar os homens potencialmente perigosos para a sociedade.

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favor e contra seus opositores. As consequentes tentativas foram de reforma da instituição policial, seguidas da iniciativa de moldar os costumes e práticas dos policiais. Para tanto, delimitou-se e aproximou-se a imagem do corpo policial à realidade e imagem do contexto social a sua volta para, assim, demonstrar-se a composição étnica dos efetivos de praças da Brigada Militar.

3.1. A DUVIDOSA PRÁTICA POLICIAL

A prática policial era foco da constante suspeita dos juízes, que tinham a atitude de questionar os procedimentos policiais no momento de tomada dos depoimentos nas delegacias de polícia. (CHALHOUB, 2001) Os contraditórios procedimentos policiais fazem parte do que Moreira (1995) descreve, ao constatar que a ação policial era objeto de críticas tanto da elite, a qual deveria proteger, quanto dos subalternos, os quais deviam ser intimidados por sua atuação profissional. A vigilância policial causava rancor na população, pois “o governo não tinha dinheiro e, no entanto pagava vagabundos para estarem em pé, nas esquinas.” (CHALHOUB, 2001, p. 275) Essa frase, retirada de um processo-crime, enfatiza a aplicação de rótulos sociais ligados às esferas do poder na sociedade, aqui representadas pela atuação policial.

A imposição da presença policial no cotidiano da população não tinha apenas a atribuição de prevenir possíveis crimes contra o patrimônio ou o bem-estar público. Segundo Chalhoub (2001), no estado republicano nascente, o caráter da prática policiesca tinha, antes de tudo, profundas atribuições moralizadoras da sociedade. Tratava-se de uma das linhas de ação governamental, que acreditava ser necessário acomodar e refrear os maus costumes dos trabalhadores nacionais, diante dos novos tempos da modernidade e das necessidades que o mercado de trabalho exigia. (PESAVENTO, 1989)

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No Rio Grande, da virada do século XIX para o XX, a retórica antes descrita fazia parte do discurso das elites políticas. (PESAVENTO, 1989) Estas se debatiam entre dois modelos diferenciados de governo. De um lado, estavam representantes dos grandes proprietários de terras e charqueadores, defensores de uma lenta e gradual passagem da mão de obra servil para a livre assalariada através das alforrias condicionais. Do outro lado, estavam os republicanos, contrários em protelar a emancipação total do cativeiro. De acordo com o ideário positivista, a escravidão, naquele momento, se tornara um entrave para atingir a “etapa das sociedades científicas”, de acordo com os estágios evolutivos do homem, baseados nas explicações de August Comte.

Em suma, para os charqueadores do império interessava reter força-trabalho junto à tradicional empresa saladeiril da província. Já os republicanos, que tinham entre as propostas de seu partido o desenvolvimento global do Rio Grande, a partir da diversificação de sua economia, contemplando neste intento as indústrias, encaravam a questão sob outro prisma. (PESAVENTO, 1989, p. 34)

Ambos os lados da disputa política, diante dos novos tempos, teriam que lidar e, por vezes, negociar com as parcelas subalternas da sociedade. As resistências, impostas pelos populares às restrições de seu cotidiano nas ruas, eram motivo de constante preocupação das autoridades políticas, judiciárias e policiais, pois a manutenção do status de elite mandatária passava pela manutenção das classes subalternas nessa sua condição. (CHALHOUB, 2001) O estado passaria, então, a assumir seu papel de interlocutor com a imensa massa de trabalhadores livres e mestiços, a qual possuía na cor de sua pele a “marca da escravidão”.

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Os documentos policiais referentes ao período mostram um quadro bastante confuso do policiamento na capital. Embora a partir de sua criação, fosse oficialmente a guarda municipal a responsável pelo policiamento da cidade, alguns documentos e notícias de jornais dão conta de que as funções do policiamento de Porto Alegre eram exercidas também por outras corporações. (MAUCH, 2004, p. 143)

A partir disso, surgem sucessivas tentativas de organização e profissionalização do policiamento, que esbarraram na inexistência de um saber ser policial, recaindo nas mesmas indefinições de papéis entre os praças das guardas municipais, os do exército federal e os da Brigada Militar. Esta última foi constituída, em 1892, para combater a oposição federalista que se armava e queria retomar o governo do estado. Esse confuso cenário só vem acentuar a falta de prestígio do policial perante as demais classes profissionais. Ainda mais em uma sociedade profundamente marcada por preconceitos étnicos e com grande hierarquização social, na qual a presença de homens de cor na polícia causava um forte desprestígio para a profissão.

O desprezo pela profissão de policial era agravado pelas indefinidas atribuições dos órgãos de controle e repressão social do governo. O que abriu espaço para o que Mauch (2004) chamava de “poder discricionário do policial”. Devido à falta de técnicas, normas e regulamentos claros que dessem amparo ao policial diante dos inúmeros e imprevistos acontecimentos do dia a dia, o policial se viu na situação de “intérprete das leis e um árbitro das normas morais e sociais.” (MAUCH, 2004, p.176)

3.2. A NOVA POLÍCIA QUE NÃO ERA TÃO NOVA ASSIM

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A constituição dos efetivos da Brigada Militar torna-se importante recurso de análise, para compreendermos o seu papel social na sociedade de então. Quem eram os homens que compunham e vestiam a farda desta importante instituição mantenedora da ordem pública e um dos sustentáculos dos republicanos no poder político do Rio Grande do Sul? A partir desse questionamento, pesquisamos os livros de assentamento de praças do período pós-revolucionário, tendo por referencial de partida o ano de 1895, data em que foram abertos os livros por nós utilizados.

A Brigada Militar terá a seguinte formação: três corpos, sendo dois Batalhões de Infantaria e um Regimento de Cavalaria num total de 1266 homens. Também haverá a formação de três corpos da reserva nas mesmas condições da força ativa. As forças de reserva serão arregimentadas e organizadas para que possam entrar em ação quando necessária à manutenção da ordem. (MORAIS, 2002, p.49)

Entre as organizações militares da Brigada Militar, escolhemos, como objeto de nossas análises, o 1° Regimento de Cavalaria (1° RC), que, nos dias atuais, é o 1° Regimento de Polícia Montada (1° RPMon), sediado no município de Santa Maria. A escolha foi feita porque, desde sua criação, quando da constituição da própria Brigada Militar, é este corpo militar o principal responsável pelo policiamento na região central do estado.

Ao nos questionarmos sobre o período histórico da República Velha no estado do Rio Grande do Sul, saímos em busca de uma bibliografia que abordasse a construção do cenário político-social para nosso recorte temporal. Entretanto, as imagens construídas a partir das primeiras leituras chocaram-se frontalmente com as da leitura dos livros de assentamento de praças da Brigada Militar.9 Neles esperávamos encontrar a expressão material da imagem de um estado profundamente composto de imigrantes italianos e alemães, entre outros grupos de imigrantes europeus, que compõem a tradicional história da composição étnica de nosso estado. Os grupos étnicos, que esperávamos encontrar nos efetivos da Brigada Militar, não se faziam presentes de forma massiva. A imagem, que passamos a vislumbrar desses efetivos, era composta por nacionais, ou melhor, por homens de cor.

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