Gibran Gonçalves Jensen “REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926).”

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Gibran Gonçalves Jensen “REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: polícia- uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926).”

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano

  • – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

  Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter Santa Maria, RS

  2011

  Gibran Gonçalves Jensen

REPRESSÃO SOCIAL E „A MARCA DA ESCRAVIDÃO‟: - polícia uma possibilidade de trabalho na Santa Maria do período pós-abolição (1892 – 1926)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano

  • – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História. ______________________________________________

  Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

  • – Orientadora UNIFRA _____________________________________

  Prof. Dr

  • – UNIFRA ___________________________________

  Profª. Ms. Paula Simone Bolzan

  • – UNIFRA

RESUMO

  Neste estudo, temos por objetivo compreendermos os espaços de inclusão/exclusão social destinados aos homens nacionais marcados pela cor e por ela estigmatizados como perigosos às demais classes sociais brasileiras, em fins do século XIX e início do XX. Para tanto, realizou-se um estudo bibliográfico aliado a metodologia quantitativa e qualitativa, ressaltando-se alguns aspectos mais relevantes das fontes. Acreditamos que a temática que norteia esta pesquisa proporciona reflexões e análises sobre a história dos homens marcados pela cor, que buscavam inserir-se na sociedade, empregando-se como praças de polícia da Brigada Militar. A atividade policial estava marcada por estigmas sociais, era considerada trabalho destinado a homens de menor qualidade social, a quem se concedia uma cidadania de segunda classe em fins do XIX e início do XX. A sociedade do período tinha a percepção de que aqueles que compunham os efetivos policiais eram os homens marcados pelos “defeitos” da cor, o que era motivo de desprestígio para a polícia. Por sua vez, a significativa presença de homens de cor na Brigada Militar reproduzia a divisão das classes sociais do Estado do Rio Grande do Sul, do período. Isso teve seu equivalente na Santa Maria da década de 1920, quando a cidade recebeu o 1° Regimento de Cavalaria da Brigada Militar, que viera transferido da cidade de Porto Alegre.

  Palavras-chave: Estigmas - Cor - Trabalho - Praças de Polícia.

ABSTRACT

  In this study we aimed at understanding the spaces of social inclusion / exclusion for the national men marked by color, and for this, branded as dangerous to other social classes in Brazil in the late nineteenth and early twentieth century‟s. To this end, we carried out a bibliographic study combined with quantitative and qualitative methodology emphasizing some aspects most relevant sources. We believe that the theme that guides this research provides analysis and reflections on the history of men marked by the color, which sought to insert themselves in society, using squares as Military Police Brigade. The police activity was marked by social stigma, considered work to men of lower social quality, who was granted a second-class citizenship in the late nineteenth and early twentieth century‟s. The society of the period had the perception that those police officers who made the men were marked by

  "defects" of color, which was a cause of discredit to the police. In turn, the significant presence of men of color in the Military Brigade, reproduced the division of social classes in the state of Rio Grande do Sul, in the period. This came to have its equivalent in Santa Maria in the 1920s, when the city hosted the 1st Cavalry Regiment Military Police, which was transferred from Porto Alegre.

  Keywords: Stigmata - Color - Work - Police Squares.

AGRADECIMENTOS

  Expresso minha gratidão, primeiramente, reconhecendo a importância de uma pessoa, nos últimos quinze anos de minha vida, ou seja, os incentivos e carinhos de Julia Eunice , minha sogra. Muito

  Machado dos Santos

  obrigado, “Dona Julia,” por ser minha mãe do coração e por ter sempre motivado este seu filho que a ama muito. Mais do qualquer outra coisa, seus estímulos foram sempre de coração e com uma atenção sem igual. Meu beijo e meu abraço.

  A minha esposa, Janice Machado dos Santos Jensen, a quem devo a inspiração para buscar força para seguir estudando e não desistir nunca. Muito obrigado por ser a companheira e amiga que sempre foi comigo: uma pessoa que tem todo meu amor, carinho e confiança. Meu amor, meu esforço e estudo são para que tenhamos um mundo melhor, para que possamos viver em paz e foi com esse pensamento que escrevi minhas palavras ao longo deste trabalho.

  Meu pai, Luiz Fernando Noriega Jensen, com quem posso contar sempre, o meu mais sincero amigo do peito. Pai, sei que muitas de nossas discussões e pontos de vista, muitas vezes contraditórios, deixam-no chocado algumas vezes. Saiba que não desprezo a caserna, muito menos a carreira militar, a qual proporcionou um grande avanço na minha vida. Se não reconhecesse isso, não estaria escrevendo a respeito de milicos, pai. Acalme seu coração! Seu filho mais velho não é “comunista”, certo? Apenas desejo maior reconhecimento profissional e pessoal.

  Minha orientadora, Nikelen Acosta Witter, a quem chamo de mestre, uma professora do mais alto nível e uma pessoa que, com toda a certeza, serviu e sempre servirá de inspiração. Espero um dia ter o privilégio de voltar a trabalhar novamente com ela, pois, se hoje, possuo melhor compreensão da ciência da história devo isso a sua calma, paciência e, acima de tudo, a sua sabedoria.

  Ao professor que foi a minha primeira inspiração, Luís Augusto Ebling Farinatti, cujas aulas nunca foram entediantes. Nós, os acadêmicos de história, falávamos nos corredores da UNIFRA, que não era preciso ler os textos indicados pelo professor para assistir a suas aulas, tamanhas eram sua qualidade e técnica em sala de aula.

  À professora que, ao longo do curso, sempre mexeu com minhas convicções em sala de aula, Paula Simone Bolzan, pessoa que tem uma impressionante leitura de mundo e, acima de tudo, educação para tratar com seus alunos, a qual, algum dia, espero alcançar. Dedico, de todo meu coração, este trabalho aos meus falecidos avós, Manoel Pereira Gonçalves e Marta Militz Gonçalves.

  Sempre vou lembrar-me dos nossos dias. Eu os amo muito.

  

LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 - FAIXA ETÁRIA DOS HOMENS QUE SENTARAM PRAÇA NA

BRIGADA MILITAR.............................................................................................................41

  

LISTA DE FIGURAS

GRÁFICO 1 - EFETIVO DA BRIGADA MILITAR (1895

  • – 1903).....................................37

  

GRÁFICO 2 - OS HOMENS DE COR .................................................................................38

GRÁFICO 3 - MOTIVOS DE SAÍDA DA BM .....................................................................43

GRÁFICO 4 - PUNIđỏES DAS PRAđAS DO 1ổ ESQUADRấO ......................................47

GRÁFICO 5 - EFETIVO BM EM SANTA MARIA

  • – 1922 .................................................56

  GRÁFICO 6 - HOMENS DE COR

  • – 3° ESQUADRÃO – 1° REGIMENTO DE CAVALARIA EM SANTA MARIA ......................................................................................57

  

GRÁFICO 7 - PRAÇAS COM REFERÊNCIA SERVIÇO POLICIAL ..............................59

  

SUMÁRIO

  

1 INTRODUđấO....................................................................................................................10

  2 A marca da escravidão....................................................................................................... 15

  2.1 A busca por novas balizas sociais.......................................................................................16

  2.2 A divisão dos trabalhadores............................................................................................... 25

  3 A polícia precisa ser policiada............................................................................................32

  3.1 A duvidosa prática policial.................................................................................................33

  3.2 A nova polícia que não era tão nova assim.........................................................................35

  3.3 Uma imagem mais próxima dos efetivos policiais.............................................................39

  4 A Brigada Militar em Santa Maria......................................................................................49

  4.1 Santa Maria uma cidade multiétnica...................................................................................49

  4.2 Quem eram os policiais.......................................................................................................55

  

5 CONSIDERAđỏES FINAIS..............................................................................................61

FONTES...................................................................................................................................64

REFERÊNCIAS......................................................................................................................65

  “Em quem confiar?” Foi a pergunta feita aos santa-marienses pelo jornal Diário de Santa , em sua manchete de fim de semana, datada de 26 e 27 de março de 2011. A pergunta

  Maria

  refere-se ao espanto causado na sociedade rio-grandense após o desfecho do roubo do Banco Sicredi, localizado no Distrito de Val de Serra, na cidade de Júlio de Castilhos. Espanto e perplexidade mesclavam raiva, frustração e profunda sensação de insegurança na sociedade rio- grandense. Esses sentimentos eram causados pela descoberta que, dentre os quatro personagens do assalto ao banco, três deveriam fazer parte do time dos mocinhos. Eram homens que tinham autorização do Estado para usarem a farda da Brigada Militar e, com ela, imporem a ordem e o respeito às leis vigentes.

  Essa mesma pergunta poderia facilmente estar estampada na capa de qualquer periódico de fins do século XIX ou início do XX. Foi o que demonstrou o estudo da historiadora Claudia Mauch (2004) que buscava analisar como era percebida a atuação policial pela população de Porto Alegre naquele período. Com o auxílio dos periódicos,

  “Gazeta da Tarde” e “Gazetinha”,

  a autora mapeou as críticas públicas direcionadas aos policias, e não à instituição que eles representavam. Isso difere das notícias a respeito do roubo ao banco de Val de Serra, publicada nos jornais atuais. Nelas, as críticas não são direcionadas aos policias em particular, pelo contrário, não há uma acusação pessoal ou exaltação a qualidades pejorativas que seriam típicas aos policiais. Não existe a priori, no discurso atual dos jornais, uma justificativa para a prática criminosa dos policiais, pautada por critérios étnicos.

  Possivelmente, na atualidade, não se deseja desmoralizar as instituições policiais e militares, nem os próprios policiais. Isso ocorre porque não se rotulam os policiais como parte de classes ou de pessoas que poderiam ser consideradas, por princípio, perigosas à sociedade. Tal fato ficou demonstrado pelo próprio Diário de Santa Maria, em reportagem dos dias 02 e 03 de abril de 2011, uma semana após o roubo ao banco em Val de Serra. Com manchete de página central,

  “A Quadrilha Fardada”, sutilmente abrandada ao destacar a incompreensão do porquê

  de militares, com comportamento exemplar, terem se desviado para o caminho do crime. O jornal relaciona as possíveis justificativas para esse desvio de conduta, como por exemplo: a baixa remuneração, a falta de uma melhor perspectiva profissional, ou mesmo, a falta de melhores condições de educação. Mas, em nenhum momento, correlaciona o crime dos policiais a qualquer característica física ou étnica.

  O jornal Zero Hora, em sua página policial do dia 04 de abril de 2011, publicou a reportagem: “Aumentam expulsões na Brigada Militar”. Essa reportagem descreve a atuação da polícia da polícia, ou seja, a eficiência da corregedoria da Brigada Militar em apurar o envolvimento dos policiais com o crime, de forma a acentuar o profissionalismo da instituição policial. Na mesma página de Zero Hora, em entrevista, João Gilberto Fritz, corregedor-geral da Brigada Militar, relata, de maneira significativa, o entendimento institucional a respeito do envolvimento de policiais com o crime. O corregedor considera que os membros da Brigada Militar são parte integrante de nossa sociedade e, com ela, compartilham dos mesmos problemas que o cidadão comum. Os policiais têm de possuir maior equilíbrio emocional para enfrentar o dia a dia do serviço policial, porém, enfatiza o corregedor, não se pode justificar pelos baixos salários o envolvimento dos policias com o crime. Caso fosse esse o principal motivo, a quase totalidade da população brasileira, que ganha menos que os policiais, teria que recorrer ao crime para se sustentar.

  O que se depreende da leitura das reportagens em questão é que, mesmo ao fazer críticas e oportunizar uma reflexão sobre a atuação policial e suas condições de trabalho, em nenhum momento, os policiais são rotulados ou estereotipados como parte integrante de alguma parcela da sociedade que oferecesse maior perigo que as demais classes sociais. Ou seja, por serem homens oriundos das classes pobres da sociedade e por partilharem das mesmas condições socioeconômicas dessas, não se poderia esperar outra atitude, senão, a prática do crime.

  A motivação desta pesquisa, em seu início, era compreender o processo de inclusão/exclusão social dos egressos do cativeiro na cidade de Santa Maria, em fins do século

  XIX e início do XX. Desvendar quem eram esses homens marcados pela experiência da escravidão, quais as possibilidades de sobrevivência acessíveis a eles, em qual tipo de atividade produtiva eles teriam passado a buscar seu sustento. Contudo, quais seriam os espaços de atuação na sociedade, que a recém-proclamada República do Brasil, destinava aos homens marcados pela escravidão e pela cor de sua pele?

  Com esse objetivo em mente, buscamos as fontes, no Centro Histórico Coronel Pilar, sediado nas dependências do 1° Regimento de Polícia Montada (RPMon). O primeiro contato com os livros de assentamento de praças ocasionou, após sua leitura, uma mudança na perspectiva de abordagem historiográfica em relação ao que havíamos proposto no primeiro momento. Ao invés de restringirmos nossa pesquisa aos ex-escravos, passaríamos a focá-la em uma maior parcela da sociedade de fins do XIX e início do XX, os homens nacionais marcados pela cor, categoria social definida por Chalhoub (1990). Por meio da descrição física da cor, contida nas páginas dos livros, identificamos grande parcela dos homens pertencentes às classes

  O longo e exaustivo trabalho de leitura das fontes, os livros de assentamento de praças da Brigada Militar, instituição policial-militar criada em fins do ano de 1892, proporcionaram-nos uma rica seleção de informações. Essas, além de nos revelarem a composição étnica dos efetivos da Brigada Militar, demonstravam que esta possuía uma significativa parcela de homens resultantes da miscigenação étnica, dos longos séculos de escravidão. Por meio da descrição física da cor, contida nas páginas dos livros, identificamos os homens pertencentes às classes subalternas da sociedade brasileira.

  Uma Brigada Militar composta por pretos, mulatos, pardos, morenos, índios e mistos, direcionou nossas leituras historiográficas para a autores que pesquisassem os subalternos nacionais. Sidney Chalhoub (1990), Sandra Pesavento (1989) e Paulo Moreira (1995) pesquisam as classes subalternas da sociedade brasileira de fins do XIX. Subalternos, que formavam a parcela pobre da população nacional, e que eram estigmatizados como “classe perigosa”. Tal fato, segundo os pesquisadores, fazia parte de um discurso político moralizante e impregnado de racismo, que objetivava impor uma nova lógica do trabalho ao homem nacional na pós-abolição.

  Os livros de assentamento de praças nos possibilitam vislumbrar e comprovar a atuação policial desses homens marcados pela cor. Porém, para melhor pesquisarmos a atividade policial das praças da Brigada Militar, e assim qualificarmos nossa pesquisa, buscamos uma historiografia que privilegiasse nosso objeto de estudo. Para contemplarmos nosso intento, optamos por pesquisadores que fizeram uso maciço dos processos-crimes como fonte documental de pesquisa. Embora esse tipo de documento não tenha sido pesquisado aqui, o recorrer a esses trabalhos enriqueceu o que a nossa documentação trazia à luz.

  Chalhoub (1990), Matos (1998), Moreira (1995), Mauch (2004) e Carvalho (2005) são pesquisadores que fizeram uso do processo-crime como fonte documental de pesquisa; e o utilizaram como forma de dar tridimensionalidade às classes excluídas, inclusive, da História do Brasil. Essa fonte possibilita analisar a atuação policial, tanto na confecção do próprio documento, quanto na construção das possíveis versões a respeito da atuação dos personagens presentes na peça processual. Aliar e cruzar a análise feita por essa historiografia, para melhor explorarmos os espaços de interpretação que nossas fontes proporcionavam, possibilitou- nos maior clareza em relação ao nosso objeto de estudo. Ou seja, possibilitou-nos elucidar a participação das classes subalternas na atividade policial-militar.

  Houve dificuldade para delimitarmos o objeto de pesquisa, o que só foi alcançado mediante muita leitura. E essa foi intermediada por acaloradas discussões teórico-metodológicas, proporcionadas pela orientação do projeto, que, na maioria das vezes, desconstruiu convicções pesquisa. Isso em virtude da ambígua condição que o policial de cor ocupava e exercia na instituição policial-militar e na própria sociedade republicana que se afirmava em fins do século

  XIX. Procuramos, assim, não reproduzir a história do excluído social, que não teria capacidade de interagir com seu ambiente social e, por isso, de escolher as oportunidades em que lhe fossem possíveis a sobrevivência e a colocação profissional.

  No primeiro capítulo, intitulado, “A marca da escravidão”, descreve-se o processo de transição pelo qual passavam as relações de poder no mundo do trabalho, em fins do século XIX.

  Mudanças que se operavam na passagem da relação de propriedade para a de coerção e controle dos corpos dos trabalhadores nacionais. A passagem do regime de trabalho servil para o livre e assalariado, em fins do século XIX, obrigou as classes dominantes a uma nova tomada de posição em relação às classes subalternas da sociedade brasileira. Isso ocorreu por meio da restrição da cidadania, que era dispensada aos homens e mulheres nacionais marcados pela miscigenação étnica, os quais eram rotulados e estigmatizados como “classes perigosas”.

  No segundo capítulo, “Os policiais precisam ser policiados”, descrevem-se os motivos do crescente antagonismo entre policiais e populares, configurado em fins do século XIX. Antagonismo causado pela imposição de preceitos e normas de conduta exteriores aos populares, pelos policiais, no cotidiano das ruas. Nesse sentido, os efetivos da Brigada Militar, instituição criada em fins de 1892, constituem-se em importante fonte de pesquisa para compreendermos aquele contexto social. O levantamento quantitativo e qualitativo dos efetivos nos proporcionou visualizar a tendência de se compor o corpo policial por homens das classes sociais subalternas da sociedade. Além disso, passamos a ter a possibilidade de compreender o que significava, para esses homens nacionais, o “estar” policial. Profissão que tinha, na vida da grande maioria deles, um caráter temporário.

No terceiro capítulo, “A Brigada Militar em Santa Maria”, o foco das observações é compreender o impacto sociocultural que a chegada do 1° Regimento de Cavalaria gerou na

  cidade. Para tanto, analisou-se a conjuntura étnica de Santa Maria, pesquisando-se o processo de formação da população na segunda metade do século XIX e início do XX. Com base nessa análise, verificamos que a população possuía uma pluralidade de origens e que os principais setores econômicos do município eram dominados por pessoas com procedência estrangeira, em especial, imigrantes europeus.

  Santa Maria possuía uma população de nacionais, ligados à posse da pequena propriedade agrícola, situação que contribuía com a baixa oferta de mão de obra e tinha direta ligação com a necessidade do trabalho escravo nas grandes e médias propriedades pecuaristas do município. tiveram, a partir da chegada do 1° RC, em 1922, uma alternativa de emprego. Fato que não deve ter passado despercebido aos habitantes santa-marienses.

  Os policiais de fins do século XIX e início do XX estavam marcados e rotulados por estigmas sociais vinculados a critérios étnicos e, por esse motivo, eram o foco de constante preocupação das autoridades políticas, além de serem considerados perigosos à sociedade. Nos dias atuais, os policiais continuam, em grande parte, oriundos das classes sociais mais pobres da sociedade, porém, diferentemente do passado, os atuais policiais são considerados vítimas de um sistema que não lhes dá condições para que exerçam sua profissão com dignidade e segurança para suas famílias. No passado, os policiais eram vistos como potenciais criminosos, hoje, são vistos como vítimas de um contexto social desfavorável a sua atividade profissional. Contudo, é na compreensão da origem das corporações policiais, histórica e sociologicamente, que as modernas questões acerca das atividades policiais ganharão a complexidade necessária a sua compreensão.

  2 – A MARCA DA ESCRAVIDÃO

  Ao findar a escravidão no Brasil (1888) não cessaram seus efeitos sobre “as gentes” do país. O pleno direito à cidadania continuou a ser negado aos egressos do cativeiro (CHALHOUB, 1990 e MATOS, 1998), o que os tornava uma espécie de cidadãos de segunda classe. Esses, com parte da massa populacional nascida livre, despossuída e marcada pela miscigenação étnica, eram rotulados e estigmatizados como “classes perigosas”. Os “estigmas sociais” ligados a esses homens derivam dos “discursos” que respaldaram por muito tempo a escravidão no Brasil e transformavam o negro em “coisa” e “mercadoria”. Tais discursos “rotularam” esses homens e mulheres como um produto, desprovido de pudores, racionalidade e humanidade.

  Entre as possibilidades de colocação profissional e sobrevivência disponível a esses homens, rotulados e estigmatizados, estaria o serviço policial (Moreira, 1995). Desde os anos finais do Império, recrutar os “cidadãos de bem” para essa atividade não era tarefa fácil, pois

  1

  eles acabavam por isentar-se do serviço policial-militar . Tal tendência se mantém nos primeiros anos da República, devido à baixa remuneração e à falta de prestígio do trabalho policial (MAUCH, 2004). O governo tinha então dificuldades para arregimentar efetivos para os corpos policias e acabava por tornar a atividade acessível a homens oriundos das classes subalternas da sociedade, sendo que, com eles, vinham os “estigmas sociais” ligados a critérios étnicos, que acabavam sendo considerados como próprios da classe policial.

  Por volta de 1890, o policiamento de Porto Alegre foi alvo de críticas dos jornais

  

“Gazeta da Tarde” e “Gazetinha”. Os periódicos se colocaram ao lado de uma campanha de

  saneamento moral e disciplinar direcionada às forças de segurança. De acordo com Claudia Mauch (2004), que estudou o período, eram constantes as críticas feitas aos policiais que agiam com truculência e confundiam trabalhadores com turbulentos. A falta de formação dada a estes homens seria a origem de sua ação indiscriminada e de violência desproporcional (MAUCH, 2004).

  Os homens nacionais, que faziam parte da polícia e eram parte atuante nesta, em fins 1 do século XIX e início do XX, eram fruto de três séculos de escravidão e resultado de longa

“Percebemos que o recrutamento era visto como uma escola de disciplinamento dos indivíduos engajados.

  Pretendia-se ao sujeitá- los à dura disciplina militar, podar os maus instintos, os vícios da ociosidade e do crime”. É, em oposição, a estes homens, para os quais o serviço militar era obrigatório que os “cidadãos de bem”, isto é,

homens que se valiam do seu poder econômico e político, ou eram qualificados, pois detinham tais poderes, que miscigenação étnica, tinham, por isso, de ser enquadrados e divididos por novas categorias sociais em que as opções utilizadas eram antagonizar o trabalhador nacional ao estrangeiro, bem como relacionar o preguiçoso ao aplicado e dedicado. Eles eram os mesmos homens e mulheres que encontramos na Santa Maria do período e carregavam consigo os estigmas sociais vinculados ao passado escravo, pois a cor de sua pele marcava-os e distinguia-os dos demais cidadãos santa-marienses. Assim, os homens de cor, considerados cidadãos de segunda classe, tanto em nível naci onal como local, estavam identificados com as “classes perigosas”.

  2.1 – A BUSCA POR NOVAS BALIZAS SOCIAIS

  A sociedade brasileira do período, acostumada basicamente a estar dividida entre ser ou não livre era obrigada a encontrar e desenvolver novas diretrizes normativas hierárquicas sociais. Conforme afirma Michel Foucault, é nas sociedades disciplinadoras, que surgem no século XVIII, onde ganha força a formulação de normas gerais de “dominação” dos corpos, “diferentes da escravidão, pois não se fundamentam numa relação de apropriação dos corpos” (FOUCAULT, 1977, p.126). Assim, torna-se necessário reacomodar tais balizas que definiam a posição que cada homem ou mulher deveria ocupar na sociedade de seu tempo.

  O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. (FOUCAULT, 1977, p.127)

  A desagregação da legitimidade, política e moral, da escravidão na sociedade brasileira formou-se através de um longo e amplo processo. Este teve como marco inicial, a Lei de Terras e a proibição do tráfico transatlântico de escravos, leis do ano de 1850. A primeira impediu o livre acesso às terras pelos pobres despossuídos, evitando que esses passassem à condição de pequenos proprietários. E a segunda impediu a constante realimentação do sistema escravista. Em consequência, houve a crescente perda do direito de propriedade do homem sobre o homem, ao longo da segunda metade do século XIX. Isso culminou com a formação de uma grande massa de homens e mulheres nacionais que, somados aos imigrantes, deveriam ingressar no mercado de trabalho assalariado. Logo não foi a proclamação da República o vetor dessa transformação social, mas somente foi parte de um longo processo.

  Desde a década de 1850, então, quando a questão da transição do trabalho escravo para o livre já se colocava de forma incontestável para os diversos setores da classe dominante, delineia-se uma política clara de condicionar esta transição a um projeto mais amplo de continuação da dominação social dos proprietários dos meios de produção. (CHALHOUB, 2001, p. 47)

  Com o fim do regime de trabalho escravo, em 1888, e a passagem do Império para República em 1889, tornou-se mais premente readequar os meios de controle e persuasão das classes subalternas da sociedade. Sendo que, desde o início do século XIX, a vigilância social já era uma preocupação em virtude do crescimento das massas livres, fora do direto controle senhorial. (CHALHOUB, 1990) Isso, para Foucault, significava o crescimento da necessidade das elites dominantes de encontrar um novo enquadramento social, uma nova reordenação das “multidões confusas, inúteis ou perigosas.” (1977, p.135)

  Entendemos que esse período de ressignificação do mundo do trabalho, pelo qual passou o Brasil em fins do século XIX, possui algumas semelhanças com o que Edward Palmer Thompson (2010) descreveu sobre a passagem do trabalho servil para o trabalho assalariado e fabril na Inglaterra do século XVIII. Isso porque a “cultura popular costumeira”, descrita pelo autor, não se moldava facilmente ao mercado livre burguês que se instalava. Tal fato ocorria por este não levar em consideração a tradicional reciprocidade de interesses entre a elite dominante e a classe trabalhadora inglesa de modo geral. Segundo Thompson, a “gentry”, elite política e intelectual inglesa, atuou com a imposição de sua força política para controlar e organizar a mão de obra, a partir do simbolismo dado a sua autoridade e hegemonia patriarcais.

  Já no Brasil de fins do século XIX, a imposição simbólica, moral e política da elite nacional teve que considerar uma substancial diferença para se impor: a heterogeneidade étnica dos trabalhadores nacionais. (CHALHOUB, 2001) A base da formação da classe trabalhadora brasileira forjou-se a partir da disputa por espaço de sobrevivência entre os trabalhadores nacionais livres e despossuídos e aqueles advindos do processo imigratório incentivado pelo governo. A submissão do trabalhador, fosse ele nacional, fosse estrangeiro, aos interesses das classes sociais mais abastadas, por exemplo, à classe empresarial rio- grandense, não ocorria somente com base na sua expropriação dos meios de subsistência, mas também através da imposição de novos costumes no mundo das relações sociais e trabalhistas.

  Delineia-se, então, um processo social amplo que, após muita luta e resistência por parte dos populares, levaria a configuração de relações sociais de tipo burguês- capitalista (...) A imersão do trabalhador previamente expropriado nas leis do mercado de trabalho assalariado passa por dois movimentos essenciais, simultâneos e não excludentes: a construção de uma nova ideologia do trabalho e a vigilância e repressão contínuas exercidas pelas autoridades policiais e judiciárias. (CHALHOUB, 2001, p.47)

  O processo de formação da classe trabalhadora brasileira colocava, de um lado, as variadas elites nacionais, fosse ela a cafeeira, a pecuarista, fosse a incipiente industrial e, do outro, “os trabalhadores nacionais” que englobavam um grande número de homens e mulheres com as mais variadas origens. Dessa maneira, é nessa grande massa heterogênea de trabalhadores que estão inclusos os egressos do cativeiro, e todos aqueles homens e mulheres

  2

  que possuíam ascendência interétnica, frutos da miscigenação racial e que passaram a ser antagonizados pelos imigrantes europeus trazidos para serem seus substitutos.

  Esse homem nacional, resultado da miscigenação étnica durante o período escravista, teve sua condição social baseada no ser ou não livre. No período republicano, esses mesmos sujeitos herdaram os estigmas sociais vinculados ao cativeiro. O mais persistente deles: a construção político-ideológica da inata negligência do trabalhador nacional e sua incapacidade de adequar-se a um mercado de trabalho livre e assalariado, tendo que ser, necessariamente, coagido e reprimido a trabalhar.

  Em suma, cabe enfatizar que mitos como a “preguiça” do brasileiro, a “promiscuidade sexual” dos populares e outros congêneres são construções das classes dominantes para justificar sua dominação de classe, sendo, então, apenas uma versão ou leitura possível da “realidade”, apresentada, mais ou menos consciente pelos agentes históricos destas classes. (CHALHOUB, 2001, p.80)

  A anterior hierarquia social brasileira, que tinha como uma das balizas referenciais o ser ou não livre até o advento da abolição em 1888, passava por um longo processo, vindo de meados do século XIX de reac omodação social. “As categorias e identidades socioculturais” deixaram subitamente de fazer sentido. (MATOS, 1998, p.275) E na falta de um amparo legal que garantisse a demarcação da hierarquia social, cresceu em importância a busca por

  3

  referenciais simbólicos que demarcassem as divisões sociais. A cor era um, dentre outros 2

  

“A ideia de raça é, seguramente, o mais eficaz instrumento de dominação social inventado nos últimos 500

anos. Produzida no início da formação da América e do capitalismo, na passagem do século XV para o XVI, nos

séculos seguintes foi imposta sobre toda a população do planeta como parte da dominação colonial da Europa”. 3 (QUIJANO, 2010, p.43)

“A palavra negro foi utilizada na linguagem coloquial, por quase todo o século XIX, como uma espécie de

  • – sinônimo de escravo ou ex-escravo, com variantes que definiam os diversos tipos de cativos, como o africano

    comumente chamado de “preto” até meados do século – ou o cativo nascido no Brasil – conhecido como

definidores de classe, ligada a “estigmas sociais”, que se fez sentir na atuação policial evidenciada por Matos (1998), na violência racial dos periódicos, ao retratarem com melancolia cenas do cotidiano. “Presenciaram hoje os moradores desta cidade um espetáculo verdadeiramente contristador. Um Homem de cor branca, ensanguentado, amarrado, era conduzido por dois negros, portadores de uma carta dirigida ao senhor delegado de polícia”. (1998, p.279)

  A concessão de “direitos civis” e de “cidadania” aos libertos colocou esta sociedade diante de um dilema de orgulho pessoal. Presenciar um branco ser conduzido preso por negros poderia significar simbolicamente que nenhum outro branco estaria livre dessa humilhação. Esses sentimentos, somados aos interesses econômicos e necessidade de mão de obra ordeira e submissa, orientaram as investidas das classes dominantes, a fim de tutelarem a concessão da cidadania aos negros. “Foi a tentativa muitas vezes violenta, de se forçar os libertos a se manterem não como „negros escravos‟, mas como „negros libertos‟, de mantê-los numa condição civil de fato, diferenciada dos demais homens livres.” (MATOS, 1998, p.287) Logo, mesmo com o fim da escravidão, a cor continuava a ser um dos possíveis referenciais no embate cotidiano da autoafirmação da cidadania.

  Além da cor como fator estigmatizante do trabalhador nacional, a propriedade do

  4 , a partir da ferrenha defesa do

  homem sobre o homem erigiu a “coisificação do escravo” direito de propriedade que o senhor fazia sobre o seu negro, preto ou crioulo. Assim, para compreendermos os significados do termo “estigmas sociais”, torna-se necessário desvendar a

  

“coisificação do escravo”. Sidney Chalhoub (1990), ao contrastar as obras de Perdigão

  Malheiros e Fernando Henrique Cardoso, aponta os elementos para se pensar este fenômeno histórico-social. Obras separadas no tempo por mais de um século são fundamentais para a discussão de temas como a “coisificação” e “animalização” dos escravos, ou seja, dos homens de cor. Eles são descritos pelos autores com base em diferentes fontes. Perdigão Malheiros era abolicionista, político do Império e, ao mesmo tempo, proprietário de escravos, portanto, um homem de seu tempo. Já Fernando Henrique Cardoso é um pesquisador acadêmico que tem por fonte os escritos dos viajantes estrangeiros, que passaram pelo Sul do 4 Brasil e fizeram anotações sobre suas impressões.

  

A coisificação do escravo fez parte do arcabouço retórico que constituiu os estigmas sociais, colados aos

homens e mulheres egressos do cativeiro, e a todos aqueles que possuíam na cor de sua pele, a marca da

escravidão. E que aqui, neste trabalho, nos ajuda a desmistificar as origens pejorativas que marcaram todas

  ... F. H. Cardoso se empenha em esmiuçá-la. Ele explica que os escravos se auto- representavam como seres incapazes de ação autônoma; ou seja, os negros seriam incapazes de produzir valores e normas próprias que orientassem sua conduta social. A conclusão óbvia, expressa no segundo parágrafo, é a de que os escravos apenas espelhavam passivamente os significados sociais impostos pelos senhores. (CHALHOUB, 1990, p. 38)

  Ambos os autores analisados por Chalhoub constroem o modelo do “escravo coisa”, a partir de uma visão externa ao próprio escravo. Têm por base o que os proprietários de escravos julgavam sobre a qualidade humana ou não, sobre suas propriedades e emitiram o parecer de que o próprio escravo via a si mesmo como um quase animal, “uma besta fera”. Malheiros e Cardoso defendem a ideia de que o escravo considerava-se, conscientemente, inferior aos homens brancos e que tinha por único consolo considerar-se melhor que os animais existentes a sua volta, que também eram propriedade de seus donos e senhores.

  De qualquer forma, o que aparece na pena de Perdigão como uma hipótese, é defendido por Cardoso como uma verdade expressa com o rigor acadêmico. Afirma Chalhoub que a ideia de Cardoso era

  “que os escravos se auto-representavam como seres incapazes de ação autônoma (...) como os negros se comparavam aos animais e não aos homens livres” (1990, p. 38), ou seja, aos homens brancos.

  Para Chalhoub, a construção do “escravo coisa”, fez parte da corrente historiográfica que, por muito tempo, considerou, que o escravo só “oscilava entre a passividade e a rebeldia”, portanto, negando qualquer senso crítico e visão de mundo pertinente aos negros, pretos e crioulos. Fraga Filho (2006) ajuda a demonstrar essa ideia, ao analisar a retórica do discurso de defesa da instituição escravista, proferido pelos senhores de escravos. Estes não creditavam as suas “propriedades” qualquer capacidade inventiva e de visão de mundo, considerando que os atos de rebeldia, fuga, arrogância, insubordinação e desrespeito eram somente consequência da infiltração de malfeitores propagandistas em meio à escravaria.

  A maioria dos senhores acreditava que estes atos eram resultado exclusivo da infiltração de propaganda abolicionista em seus domínios. Era difícil admitir que os escravos pudessem tirar suas próprias conclusões sobre o que acontecia a sua volta. Sem dúvida o comportamento dos escravos dos engenhos estava fundado na percepção de que seus senhores estavam cada vez mais isolados; que discussões e debates sobre o destino da escravidão eram tratados nas instancias centrais do poder e que já era possível questionar abertamente as bases de domínio escravista. (FRAGA FILHO, 2006, p. 112)

  João José Reis e Eduardo Silva descrevem a impossibilidade de que a escravidão fosse “um sistema absolutamente rígido, quase um campo de concentração” (1989, p. 7), no qual as relações entre senhor e escravo não se resumiam à absoluta vitimização do cativo. Desse modo, os escravos, aparentemente pacatos e submissos, poderiam de um dia para outro rebelar-se conforme as circunstâncias. Essa imprevisibilidade, para os senhores, fazia parte de

  5

  escravas que poderiam ser bem ou malsucedidas no campo de um “conjunto de artimanhas” batalha em que se definiam os limites do que era aceitável ou não para ambas as partes da disputa.

  O “conjunto de artimanhas escravas” refere-se às evidências empíricas, hoje arroladas por pesquisas historiográficas, que defendem a capacidade de negociação escrava com o sistema escravista que os oprimia. As estratégias e recursos, presentes nesse conjunto, eram utilizadas pelos cativos e demonstravam a capacidade de leitura do contexto a sua volta, o que lhes proporcionava a escolha das melhores formas de lidar com as restrições e assim continuar a viver a vida da melhor forma possível.

  Tais negociações, por outro lado, nada tiveram a ver com a vigência de relações harmoniosas, para alguns autores até idílicas, ente senhor e escravo. Só sugerimos que, ao lodo da sempre presente violência, havia espaço social que se tecia tanto de barganhas quanto de conflitos. (REIS, 1989, p.7)

  Os pe squisadores recentes desconstruíram a ideia de “coisificação do escravo”, demonstrando que estes não faziam parte de um bloco coeso e antagônico aos senhores, pois existiam “as rivalidades africanas, as diferenças de origem, língua e religião.” (REIS, 1989) Essa diversidade da população escrava se refletia no tênue campo das negociações do cativeiro, onde crioulos e ladinos eram diferentes dos africanos de nação, o que era acentuado em um complicado jogo de busca por melhores condições de sobrevivência.

  Seja como for, já não é possível pensar os escravos como meros instrumentos sobre os quais operam as assim chamadas forças transformadoras da história. Não, podemos tampouco, pensá-los como um bloco homogêneo apenas por serem escravos (...) tudo o que os dividia não podia ser apagado pelo simples fato de viverem um calvário comum. (REIS, 1989, p.20)

  No Rio Grande do Sul, o destino dos escravos e a capacidade de escolha destes para o 5 lado para o qual penderiam influenciaram na forte dicotomia entre o Partido Liberal

  

As “artimanhas escravas,” segundo algumas pesquisas historiográficas indicadas em “Negociação e Conflito”:

que estavam presentes na estabilidade da família escrava demonstrada por Robert Slenes (1983); novas

interpretações sobre a criminalidade escrava como forma de resistência demonstrada por Silvia Lara e Maria

Helena Machado (1987); a causa humanitária das cartas de alforria, algo relativizado por Kátia Mattoso (1972) e

Stuart Schwartz (1974); em que Ligia Belline (1972), na mesma trilha, enfatizou a alforria como o feliz resultado

de uma negociação cotidiana com o senhor. Novos estudos têm sugerido outra questão da maior importância:

uma parcela não desprezível da população cativa foi capaz de operar com êxito dentro da economia de mercado. (SILVA, 1989, p. 16 e 17) Monarquista e o Partido Republicano Rio-grandense, acalorando ainda mais as disputas intraelite (PESAVENTO, 1989). Ambas as parcelas da elite defendiam o fim do regime escravocrata de diferentes maneiras, mas com um objetivo final muito parecido: angariar, dentro do contexto de disputa moral, política e paternal, o reconhecimento por parte dos ex- escravos de quem seriam seus supostos benfeitores.

  “A dar crédito às notícias da imprensa da época, a escravidão teria findado no Rio Grande do Sul em 1884”, tamanha era a campanha “publicitária” vinculada nos periódicos do período. (PESAVENTO, 1989, p.32) Esses noticiavam os atos de grande caridade e desapego “material” de inúmeros senhores ao darem carta de liberdade “aos seus”. Na prática, essas atitudes foram mais um alongamento, uma sobrevida das relações escravistas, pois eram, na grande maioria, liberdades condicionais, ou seja, em troca de “alguns anos” a mais de prestação de serviços. De acordo com Pesavento (1989), nos mesmos periódicos em que se exaltavam tais beneméritas e despretensiosas atitudes, declarando a quase extinção do cativeiro na província no ano anterior à abolição total e irrestrita, criticava- se a forte insurreição escrava ocorrida no município de Pelotas, reduto de grandes charqueadores.

  Contra a ideia de uma abolição precoce no Rio Grande do Sul ainda pesam os dados levantados por Pesavento de que, em 1888, ainda se registravam 8.842 matrículas de escravos na Província do Rio Grande do Sul, sem contar aqueles que ainda prestavam serviços a seus “antigos senhores” mediante contrato. (1989, p.32)

  Nos anos finais do sistema escravista na Província do Rio Grande do Sul, a elite senhorial ligada ao Partido Liberal esperava prolongar o máximo possível a escravidão, tirando proveito moral das alforrias condicionais de prestação de serviço. Os republicanos eram contra as alforrias condicionais de 1884, defendendo a abolição total e sem indenização aos senhores. Tinham sua fundamentação ideológica no “espírito Comteano”, o qual buscava incorporar o proletariado à sociedade moderna, devendo, contudo, serem tomadas medidas “protetoras” para os recém-libertos. Não se pense, porém, que essas medidas não tinham preconceito com as classes mais baixas, pois não é à toa que são os mesmos republicanos que irão sempre ver as classes trabalhadoras como classes perigosas. Logo, pode-se perceber que, tais medidas eram muito mais para proteger as elites das atitudes e comportamentos dos recém- libertos do que para a “proteção” destes últimos.

  A forte divergência da elite rio-grandense sobre o processo de emancipação em curso dos escravos, bem como de sua posterior inclusão no mercado de trabalho, difere do que Matos (1998) constatou para o Sudeste brasileiro do mesmo período. A autora aponta para ampla adesão da maioria dos proprietários de terras, inclusive de seus antigos opositores entrincheirados nas fileiras abolicionistas. Naquele momento, tentavam, juntos, resolverem a questão da mão de obra assalariada, suas variadas formas de regulamentação e controle. Mesmo que as elites regionais encarassem de forma desigual o problema da mão de obra, o que elas tinham em comum, tanto no Sul ou Sudeste brasileiros, era a necessidade de evitar que o recém-estabelecido mercado de trabalho livre viesse a lhes ser desfavorável.

  As distintas posturas, contudo, não eliminavam ou divergiam de uma questão central: a de que se encontrava em curso um processo de formação de um mercado de trabalho livre e, fosse qual fosse o destino do liberto, era preciso controlá-lo, cerceá-lo na sua mobilidade e vigiá-lo na sua nova condição. (PESAVENTO, 1989, p.34)

  Fraga Filho (2006), ao reconstituir o cenário do recôncavo baiano, a partir da ruptura do modelo de mão de obra escravocrata, vê no simbolismo senhorial a possibilidade de compreender como se deram as oportunidades de acesso aos meios de subsistência pelos ex- cativos. Meios de sobrevivência que se traduziram em práticas como os “furtos” de gado, descritos a partir do ponto de vista dos ex-

  comedelas

  senhores, ou das “ ”, a partir do ponto de vista dos egressos da escravidão. Para estes, o furto possuía um significado simbólico, ao criar um cenário de confraternização, ao mesmo tempo, de ritualização metafórica do acerto de contas e da morte da autoridade senhorial no instante em que se faziam os abates dos animais. Os depoimentos dos acusados de furto são reveladores, pois de acordo com os relatos feitos pelo delegado, os furtos eram praticados com “pouco caso” e “desembaraço”, por serem parte de uma prática corriqueira e normal, com base no costume.

  Carvalho (2005) e Weimer (2007), pesquisando o Rio Grande do Sul dos primeiros anos da República, também encontram a prática do furto abigeato. Weimer (2007), ao observar as práticas das lidas com o gado na região serrana do Estado demonstrava resquícios da costumeira prática do roubo ou de gado. Esclareça-se que essas práticas

  apresamento

  poderiam ser tanto por costume como por ambições comerciais e políticas. Já Carvalho (2005), para a região central do Estado, pesquisou em processos-crime na cidade de Santa Maria, onde encontrou práticas costumeiras semelhantes as que Fraga Filho descreveu para o recôncavo baiano do mesmo período. Assim, “o furto não era feito em grande quantidade e sim de uma ou duas reses”, não configurando, dessa maneira, uma atividade ligada ao comércio, mas fruto de um contexto de pouco controle, em que o processo de cercar os campos não havia ainda se disseminado por completo. Houve casos em que os réus consideravam que o animal abatido não tinha dono e, por isso, poderia ser consumido, e, em outros, em que o abatimento do animal funcionaria como uma forma de retaliação e punição aos proprietários mais “descuidados”.

  O conjunto de argumentos historiográficos, até o momento elencados por nós, fez

  6

  parte da con possuíam na virada do strução da imagem social que as “classes perigosas” século XIX para o XX. Entre os “estigmas sociais”, destacamos a coisificação do negro quando na condição de cativo, e consequentemente a retórica senhorial da sua falta de capacidade de leitura e compreensão do mundo a sua volta. A saber, a pretensa inclinação à

  

vadiagem e promiscuidade sexual dos populares brasileiros, profundamente marcados pela

miscigenação racial

  . Eram os “maus costumes” adquiridos por esses homens e mulheres após gerações que vivenciaram o cotidiano da vida cativa. Costumes que, antes da ruptura política e social representada pelo fim da escravidão, faziam parte de suas práticas de sobrevivência, os quais, aqui representamos, pela prática do furto abigeato que passava de costume aceitável para atividade criminosa. Mas, representados, principalmente, pela quebra do referencial desta sociedade, “o ser e o não livre”, condição básica de status social ao longo do período escravista brasileiro.

  Mais do que isto, a lei de 13 de maio era percebida como uma ameaça à ordem porque nivelava todas as classes de um dia para o outro, provocando um deslocamento de profissões e de hábitos de conseqüências imprevisíveis (...) provocando assim o caos social (...). (CHALHOUB, 2001, p.67)

  Uma das consequências da perda dessa baliza social estava no exagero do discurso político da época, sobre o caos social para o qual se encaminhava a sociedade brasileira do período. Por mais que o regime escravista aparentasse sinais de que estivesse por findar-se, causou assombro na sociedade a possibilidade de igualdade do status de classe. É nesse contexto que ganha força o antagonismo entre o trabalhador nacional de cor, diante dos demais trabalhadores estrangeiros, principalmente, os de origem europeia. Tal fato catalisa os “estigmas sociais” que pesquisadores como Pesavento (1989), Chalhoub (1990) e Carvalho (2005) demonstram fazer parte da construção da noção de “classes perigosas”. São destes subalternos da sociedade, marcados pelos estigmas sociais, que irá sair grande parte dos

  

7

6 policiais do regime republicano que se iniciava.

  

Expressão que, em meados do XIX, na Europa, significava o conjunto de pessoas com passagem pela prisão.

Paulatinamente, seu significado se ampliou para o de pessoas “potencialmente perigosas,” passando a ter correlação direta com as classes mais pobres da sociedade. “No Brasil de fins do século XIX a noção de classes 7 perigosas aparece impregnada de um indiscutível racismo”. (MAUCH, 2004, p.109)

Santa Maria, em 1884, na correspondência do delegado de polícia, pesquisada por Carvalho, em que o

delegado escreve uma fala “proverbial – A polícia precisa ser policiada” – frase que bem resume o peso do

  O estado republicano brasileiro, que se inaugurou no dia 15 de novembro de 1889, tinha um projeto de reforma social e cultural centrado e “comprometido com a penetração de capital e bens industrializados provenientes das metrópoles capitalistas avançadas.”

  (CHALHOUB, 2001, p.252) Esse comprometimento fica evidente a partir das políticas sociais autoritárias, de caráter totalizante, na repressão policial dos corpos e mentes da população em geral, um de seus braços fiscais mais importantes.

  Este projeto avassalador de mudança social

  • – cujas linhas de força fundamentais vinham de fora para dentro do país e de cima para baixo do ponto de vista da estrutura social interna
  • – havia sido concebido como um processo linear, natural e inevitável por seus protagonistas. Tratava-se, afinal, de fazer com que o país se

    inserisse na “civilização”. (CHALHOUB, 2001, p. 253)

  No Rio Grande do Sul, a implantação do estado republicano esteve durante todo o período da República Velha nas mãos do Partido Republicano Riograndense (PRR). Estes “organizaram um aparato de hegemonia” política, que também tinha na polícia uma de suas principais ferramentas de repressão e refreamento social dos costumes. Aproveitaram-se, para isso, do período de modificação das “relações reais entre os homens e o mundo econômico ou de produção” (PESAVENTO, 1988, p. 56), reorientando a sociedade a partir de uma nova tomada de posição ideológica por parte da classe dominante. O momento de transição política e também de transição dos meios e modos de trabalho proporcionou campo fértil para a implantação de um estado positivista no Rio Grande.

  É realmente na transição do trabalho escravo para o trabalho livre, na passagem da Monarquia para a República e na reorientação do pacto dominante de classes que seriam forjadas melhores condições institucionais para o desenvolvimento industrial. (PESAVENTO, 1988, p. 92)

  Pesavento e Chalhoub descrevem que o momento de transição que a sociedade brasileira vivenciava, em fins do XIX, teria, na abolição da escravidão e no incentivo da política imigratória, a contribuição decisiva no processo de formação “do mercado de tr abalho capitalista”. Este mercado de trabalho, para Chalhoub, era fundamentalmente antagônico, no que diz respeito “à relação trabalho assalariado versus capital.” (2001, p. 254)

  Pois, no discurso da proclamação da República, o homem livre trabalhador tornava-se

  

vigiados e controlados, “os policiais pareciam ser um dos alvos preferenciais das intenções moralizadoras das autoridades públicas”. (CARVALHO, 2005, p. 89) cidadão, ao vender sua força de trabalho, passando à condição de cidadão incluso e assalariado. Na visão do autor, o melhor seria dizer que, na proclamação da República, o homem livre pobre passaria a ser base de sustentação da sociedade, a partir de um amplo projeto de estado, pensado e elaborado com a intenção de transformá- lo em um “trabalhador, ou seja, em fonte de acumulação de capital.” (CHALHOUB, 2001, 254)

  Desnudar o ímpeto do estado brasileiro, em especial, do governo do Estado do Rio Grande do Sul de moldar os hábitos, costumes e a iniciativa de ordenar o mundo do trabalho do homem nacional é, também, descrever a formação e organização do aparato policial, pois este fazia parte da imposição do assalariamento aos trabalhadores. Dessa forma, criou-se entre aqueles, de modo geral, e os policiais uma relação com base em antagonismos e reconciliações dentro da própria classe trabalhadora. Relação que era acentuada por imposições de normas e valores exteriores à classe trabalhadora por meio da repressão policial e isto era lidar com o popular, do qual os próprios policiais faziam parte e usavam no cotidiano de suas atribuições ordenadoras e moralizadoras da sociedade à sua volta.

  No caso do Rio Grande do Sul, o crescimento urbano e industrial dos anos finais do

  XIX fez surgir uma classe trabalhadora livre, a partir da concentração populacional nas cidades. Essa proporcionou “o reforço dos laços de solidariedade entre os grupos que apresentavam padrão de vida e condições de trabalho semelhantes.” (PESAVENTO, 1988, p.152) Semelhanças essas que se refletiam na distribuição populacional no espaço físico, reproduzindo as divisões por classe econômica, em bairros nobres, ocupados pela elite econômica e, em bairros industriais, ocupados pelos trabalhadores agrupados em volta das indústrias.

  A divisão da população por bairros possuía, além do caráter econômico, uma separação étnica entre nacionais e estrangeiros, o que aumentava as semelhanças da composição populacional interna dos bairros. (MAUCH, 2004) Tais semelhanças foram acentuadas, com base em uma atitude da classe empresarial de dar especial atenção aos trabalhadores de origem estrangeira, como é demonstrado pela organização de escolas e

  • - instituições de apoio aos imigrantes recém chegados. (PESAVENTO, 1988) Atitudes que,

  portanto, só fizeram aumentar o antagonismo entre os trabalhadores nacionais e os de origem estrangeira, fomentando as rivalidades nacionais, incrementados pelos discursos raciológicos. Dentro do contexto da época, esse não deixava de ser mais um fator a dificultar a organização da própria classe trabalhadora. Isso fica bem claro na atitude da imprensa, ao tentar desarticular os movimentos grevistas, nos anos iniciais do século XX.

  ... a imprensa tratava de divulgar noticias de que das colônias chegavam muitos oferecimentos de operários, pedindo preferência de colocação das fábricas e oficinas, num claro intuito de demonstrar que seria possível aos empresários realizarem com presteza a substituição dos grevistas. (PESAVENTO, 1988, p. 158)

  As greves e reivindicações básicas dos trabalhadores, como jornada de oito horas de trabalho, somadas ao aumento da população de baixa renda nos principais centros urbanos do estado, entre eles, Santa Maria, não chegaram “a abalar o período da “pax positivista”, que se seguiria ao fim da Revolução de 1893 e que marcou a consolidação do PRR no estado.

  (PESAVENTO, 1988, p. 154) A cômoda situação do empresariado gaúcho era respaldada por um governo que não intervinha nas relações privadas de negociação entre trabalhadores e empresários. O Estado só atuava para “garantir a ordem” e para obter o progresso.

  Deixando à burguesia resolver na esfera privada, diretamente com os operários, as demandas pretendidas, o governo atuou em favor do capital, comandando a repressão e divulgando através da imprensa editoriais que defendiam o empresariado. No primeiro caso, foi fundamental a ação da Brigada Militar, dissolvendo comícios e passeatas, prendendo grevistas e garantindo o retorno ao trabalho, com o concurso de cavalos e baionetas. (PESAVENTO, 1989, p. 157)

  O ano de 1906 ficou marcado pela criação da FORGS (Federação Operária do Rio Grande do Sul), depois dos primeiros choques de maior vulto entre o proletariado, os representantes do estado e empresariado. Esses conflitos desencadearam as greves ocorridas naquele ano, as quais não se restringiram somente a capital do estado, estendendo-se a outros municípios como Pelotas, Rio Grande, Cachoeira, Bagé e também Santa Maria. Mesmo que os movimentos grevi stas tivessem alcance estadual (sic) no ano de 1906, o governo “deveria manter uma posição neutra, garantindo a ordem material e punindo as infrações” (PESAVENTO, 1989, p. 143), o que recaia, na maioria das vezes, em forte repressão policial aos grevistas.

  A sociedade pacífica e ordeira planejada e, por muitas vezes, divulgada por meio do discurso positivista da época, foi abalada por inúmeros embates entre policiais e populares, nas ruas da capital e algumas cidades do interior do estado. No ano de 1915, o contexto de greves operárias, na cidade de Porto Alegre, “a ação dos soldados, a cavalo e com espadas, provocou pânico na multidão, que, armada, reagiu com tiros.” (PESAVENTO, 1989, p. 161) Esses distúrbios sociais, vistos como ataques à ordem e à moralidade pública, eram noticiados pela imprensa oficial da época, que muito se esforçava para desvinculá-los do caráter coercitivo e repressivo do governo do estado, denotando a personalidade “paternal” que este queria passar.

  Mauch (2004) observa na Porto Alegre da década de 1890, que a imprensa “livre” – aquela não ligada ao PRR

  • – não deixava de participar da campanha publicitária em prol da moralidade saneadora da sociedade em questão. Os periódicos

  “Gazetinha” e “Gazeta da

Tarde” compartilhavam da convicção “de que o trabalho é fator indispensável de

  moralização e educação.” (2004, p.105) O ponto de diferenciação utilizado pelo discurso dos periódicos era o de qualificar o trabalhador desordeiro e o disciplinado “em função do trabalho e do não trabalho”, evidenciando esta posição, quando ambos criticavam de forma contundente o excesso de patrões, bem como a ineficácia policial ao confundir bons trabalhadores com vagabundos.

  O quadro de desordem e turbulência social, que era descrito por esses periódicos, estigmatizava muitos homens, mulheres e crianças que não estavam “enquadradas no mercado de trabalho „formal‟, capitalista.” (MAUCH, 2004, p. 107) Provavelmente, grande parte desses, que eram enquadrados como ociosos e vagabundos, eram trabalhadores eventuais, jornaleiros, ou seja, pessoas que ganhavam a vida no cotidiano das ruas, conforme as oportunidades que lhes eram possíveis.

  Embora não se disponha de dados sobre a estrutura ocupacional de Porto Alegre na época, sabe-se que era grande o número de ha bitantes ocupados em “biscates” ou trabalho não fixo, contingente este composto por muitos negros e mestiços. Em tal tipo de atividade, por não passar por uma jornada de trabalho fixa em um local definido sob o olhar vigilante do patrão. (...). Tal opinião provavelmente não era compartilhada por muitos soldados, marinheiros e operários que, pelo menos aos domingos, juntavam- 8 se aos “não-trabalhadores.” (MAUCH, 2004, p. 107)

  As espeluncas , local de lazer das classes subalternas da sociedade e por este motivo estigmatizados, eram foco de preocupação das autoridades. O costume de frequentar espeluncas pela classe trabalhadora rompia com a lógica linear do trabalho, proporcionando aos populares, nas horas de descanso, ou mesmo durante os horários de expediente, um refúgio de suas dores e frustrações do dia a dia.

  A visão corrente era que bares e botequins, locais de lazer populares, eram 8 frequentados por “vagabundos” e “desocupados”, aos quais Mauch (2004) faz referência na

  

Botequins, bares, armazéns, locais descritos como impróprios para trabalhadores honestos e ordeiros,

frequentar esses locais era considerado desviar tempo que poderia ser destinado a um trabalho produtivo à Porto Alegre de fins do XIX e que eram foco de grande indignação da imprensa local, por serem pontos de reunião de desordeiros. Isso é compatível com o que Chalhoub (2001) pesquisou sobre os significados dos botequins para a cidade do Rio de Janeiro de fins do XIX e início do XX. Portanto, a partir da atitude dos governantes em “restringir os hábitos populares de conversar e bebericar ao espaço interno do botequim” (2001, p. 260), os proprietários passaram a ser aliados das forças de repressão. Em consequência, esses tinham que zelar por seu estabelecimento comercial, mantendo a ordem e moralidade no local e, ao mesmo tempo, passaram a informantes importantes para os policiais a respeito dos frequentadores desses locais infames.

  Atitude parecida teriam os empresários do Rio Grande do Sul, ao proporcionarem locais de lazer, festas e comemorações, cursos técnicos e de nível escolar dentro dos espaços físicos de suas empresas. Tais atividades, na maioria das vezes, eram após a jornada de trabalho. (PESAVENTO, 1988, p.71). Isso tinha o objetivo de manter o máximo de tempo possível seus funcionários afastados dos locais tidos por eles, como profundamente prejudiciais ao bom trabalhador. Esses locais públicos, botequins, bares e espeluncas eram o constante foco das preocupações dos empresários e governantes do Rio Grande do Sul, em função de serem frequentados pelas “classes perigosas”.

  O aparato jurídico-policial do estado, com respaldo de governantes, empresários e imprensa, buscava, cada vez mais, controlar e reformar os costumes de trabalhadores e populares. Pressão social, que acaba conduzindo as organizações operárias em meados de 1917, no Rio Grande do Sul, a conclamarem “os trabalhadores a tomar medidas enérgicas frente à situação calamitosa em que se achavam.” (PESAVENTO, 1989, p. 163) Esse fato foi acompanhado de perto pelas autoridades policiais, mediante um levantamento prévio, feito junto às indústrias das relações nominais dos operários, tudo com a intenção de regular as ações das organizações e sindicatos.

  Em meio a todos estes acontecimentos e a comícios exaltados nas ruas da capital, chegou a Porto Alegre a notícia de que neste dia, 31 de julho, os empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul haviam-se declarado em grave em Santa Maria (centro ferroviário mais importante do estado), tendo em vista a recusa do inspetor geral da companhia, Mr. Cartwight, em conceder aumento salarial, e jornada de 8 horas e semana inglesa. A partir deste momento, espalhou-se o movimento grevista na capital, com o apoio da FORGS. (PESAVENTO, 1989, p. 163)

  As greves que se sucederam ao longo de 1917, no Rio Grande do Sul, demonstram a extrema habilidade política do governo e do empresariado em tirar proveito da questão operária e saírem intitulando a si mesmos de pró-operários e trabalhistas. Tal fato foi uma consequência direta da privatização das relações e negociações trabalhistas e da intervenção pontual do estado que enfatizava seu caráter paternal para com a sociedade. Algo aos moldes do que Thompson (2010) descreveu sobre o simbolismo paternal que a gentry exercia na sociedade inglesa do século XVIII. Porém, no Rio Grande do Sul, isso se fez conforme os ditames positivistas e, por isso mesmo, foi extremamente centralizado, o que favoreceu o uso de um aparato jurídico-repressivo para conter as reivindicações operárias.

  O período que se estende após a Primeira Guerra Mundial marcou o crescimento das reivindicações operárias. Com isso, o estado se fez mais presente ainda na sociedade por meio da coerção e repressão a qualquer movimento grevista. O empresariado passou a demitir os grevistas para “manter a disciplina”, substituindo mão de obra qualificada por aprendizes. A greve de 1919 parou todos os serviços de Porto Alegre e a reivindicação básica dos operários eram 8 horas diárias de trabalho. A cidade ficou sem luz e com as comunicações debilitadas por força das greves da Companhia Força e Luz e da Companhia Telefônica. Isso forçou uma reunião do empresariado porto-alegrense, que decidiu não atender aos pedidos grevistas e ainda solicitar apoio e providências do estado.

  As providencias, aliás, já se encontravam em andamento, pois desde o início do conflito era forte o policiamento que a Brigada Militar realizava nos bairros operários e fabris. Atentados a bomba, tiros e enfrentamentos entre policiais e trabalhadores e outros atos de violência geraram um clima de pânico na cidade, levando o governo a fechar as associações operárias. (...). Sindicatos operários e a própria FORGS foram fechados e ocupados pela Brigada Militar, determinando o

fim do movimento. (PESAVENTO, 1989, p. 173 e 174)

  O embate corporal entre policiais e operários foi mais um ingrediente a acentuar o antagonismo social existente dentro da própria classe trabalhadora, bem como entre estes e o governo do estado Rio Grande do Sul do início do século XX. O que podemos visualizar, em Pesavento (1989), é que, ao longo de grande parte de sua pesquisa, ele descreveu o franco favorecimento aos trabalhadores que possuíam origem ou ascendência estrangeira por parte do empresariado rio-grandense, contando estes, com o incentivo dos governantes do estado. Essa tendência em compor os postos de trabalho do meio urbano e industrial com operários que possuíam ascendência estrangeira fazia parte também do contexto santa-mariense de início do século XX.

Nesse sentido, ganha força a afirmação de Carvalho (2005), ao descrever Santa Maria como um verdadeiro “caldeirão étnico”, fornecendo- nos em linhas gerais a leitura de uma

  cidade com intensa participação de imigrantes, em especial italianos e alemães. A mesma Santa Maria que, desde a segunda metade do século XIX, segundo Luís Augusto Farinatti

  (1999), já possuía um grande número de lavradores nacionais composto por índios, mestiços e negros. Foi essa variada composição étnica da população santa-mariense que, no período da República Velha, teve importante participação nos movimentos operários descritos por Pesavento. Então, com base nos antagonismos sociais que Chalhoub (2001) propõe para analisar o comportamento sociocultural da sociedade de então, a partir de agora desvendaremos quem eram os homens que compunham a Brigada Militar, órgão repressivo tão importante na atuação do Estado, e que se contrapunha frontalmente à classe operária.

  3 - “A POLÍCIA PRECISA SER POLICIADA”

  A crescente complexidade social no Brasil do século XIX forçou “a reorganização do policiamento nas cidades brasileiras, na década de 1890.” (MAUCH, 2004, p.25) Reformulação que se fazia necessária para readequar a força policial às mudanças sociais do período, as quais vinham acompanhadas do discurso político sobre a periculosidade das classes subalternas da sociedade. A análise das reformas das instituições policiais cresce, em significado subjetivo, quando constatamos que parte dos policiais originava-se das chamadas camadas perigosas da sociedade, as mesmas que deveriam ter seu dia a dia controlado e vigiado pela polícia. Assim, a indispensável existência da polícia não deve ser vista como uma “simples resposta do estado à necessidade (...) de controlar os trabalhadores,” correndo o risco de não se compreende r “a autonomia da ação policial” que a composição dos efetivos implicava. (MAUCH, 2004, p.31)

  É na percepção da existência do espaço de autonomia da ação policial que a frase, que dá o título a este capítulo, ganha em sentido metafórico. A frase foi escrita, em 1884, pelo delegado de polícia de Santa Maria em sua correspondência. (CARVALHO, 2005, p.89) Nela podemos perceber claramente a percepção do delegado dos estigmas sociais vinculados aos homens da lei, isto é, aos policiais não oficiais. O fato de os policiais compartilharem dos costumes e hábitos das classes subalternas da sociedade colocava-os em uma condição ambígua, pois tinham que reprimir as práticas populares que faziam parte do seu próprio cotidiano. Isso os tornava foco de críticas tanto das elites econômicas, às quais deviam justificativas, quanto dos populares, dos quais faziam parte.

  Com vistas à condição policial, os motivos que originaram a criação da Brigada Militar iam além dos preparativos para a

  “Revolução de 1893” e se inseriam também, na

  política de reformulação do corpo policial do Estado do Rio Grande do Sul. “O governo preocupou-se em montar um aparato militar com a justificativa da necessidade de criar condições concretas para manter e consolidar o regime republicano.” (MAUCH, 2004, p.43) Isso significava juntar os interesses do estado aos dos populares, fazendo com que estes se sentissem parte do projeto modernizador da sociedade, o que abriria espaço para os populares

  

sentarem praça na Brigada Militar, uma oportunidade de trabalho e inclusão social, mas que

  também era uma forma de o estado controlar os homens potencialmente perigosos para a sociedade.

  Ao longo deste capítulo, iremos abordar a desconfiança que a sociedade tinha da favor e contra seus opositores. As consequentes tentativas foram de reforma da instituição policial, seguidas da iniciativa de moldar os costumes e práticas dos policiais. Para tanto, delimitou-se e aproximou-se a imagem do corpo policial à realidade e imagem do contexto social a sua volta para, assim, demonstrar-se a composição étnica dos efetivos de praças da Brigada Militar.

  A prática policial era foco da constante suspeita dos juízes, que tinham a atitude de questionar os procedimentos policiais no momento de tomada dos depoimentos nas delegacias de polícia. (CHALHOUB, 2001) Os contraditórios procedimentos policiais fazem parte do que Moreira (1995) descreve, ao constatar que a ação policial era objeto de críticas tanto da elite, a qual deveria proteger, quanto dos subalternos, os quais deviam ser intimidados por sua atuação profissional. A vigilância policial causava rancor na população, pois “o governo não tinha dinheiro e, no entanto pagava vagabundos para estarem em pé, nas esquinas.”

  (CHALHOUB, 2001, p. 275) Essa frase, retirada de um processo-crime, enfatiza a aplicação de rótulos sociais ligados às esferas do poder na sociedade, aqui representadas pela atuação policial.

  A imposição da presença policial no cotidiano da população não tinha apenas a atribuição de prevenir possíveis crimes contra o patrimônio ou o bem-estar público. Segundo Chalhoub (2001), no estado republicano nascente, o caráter da prática policiesca tinha, antes de tudo, profundas atribuições moralizadoras da sociedade. Tratava-se de uma das linhas de ação governamental, que acreditava ser necessário acomodar e refrear os maus costumes dos trabalhadores nacionais, diante dos novos tempos da modernidade e das necessidades que o mercado de trabalho exigia. (PESAVENTO, 1989)

  Na nova sociedade que o estado republicano desejava refundar, na passagem do XIX para o XX, os trabalhadores nacionais, entre eles os policiais, carregavam consigo a herança escravista do período imperial. Estavam imersos em estigmas sociais vinculados aos homens de cor. Estes eram representados pelos homens tidos por “nacionais”, homens estes associados a estereótipos pejorativos que eram base da manutenção do discurso escravista do regime anterior. Em fins do século XIX e início do XX,

  “não havia uma preocupação com as multidões ou com os trabalhadores organizados”, o foco de tensão da classe dominante era o No Rio Grande, da virada do século XIX para o XX, a retórica antes descrita fazia parte do discurso das elites políticas. (PESAVENTO, 1989) Estas se debatiam entre dois modelos diferenciados de governo. De um lado, estavam representantes dos grandes proprietários de terras e charqueadores, defensores de uma lenta e gradual passagem da mão de obra servil para a livre assalariada através das alforrias condicionais. Do outro lado, estavam os republicanos, contrários em protelar a emancipação total do cativeiro. De acordo com o ideário positivista, a escravidão, naquele momento, se tornara um entrave para atingir a “etapa das sociedades científicas”, de acordo com os estágios evolutivos do homem, baseados nas explicações de August Comte.

  Em suma, para os charqueadores do império interessava reter força-trabalho junto à tradicional empresa saladeiril da província. Já os republicanos, que tinham entre as propostas de seu partido o desenvolvimento global do Rio Grande, a partir da diversificação de sua economia, contemplando neste intento as indústrias, encaravam a questão sob outro prisma. (PESAVENTO, 1989, p. 34)

  Ambos os lados da disputa política, diante dos novos tempos, teriam que lidar e, por vezes, negociar com as parcelas subalternas da sociedade. As resistências, impostas pelos populares às restrições de seu cotidiano nas ruas, eram motivo de constante preocupação das autoridades políticas, judiciárias e policiais, pois a manutenção do status de elite mandatária passava pela manutenção das classes subalternas nessa sua condição. (CHALHOUB, 2001) O estado passaria, então, a assumir seu papel de interlocutor com a imensa massa de trabalhadores livres e mestiços, a qual possuía na cor de sua pe le a “marca da escravidão”.

  A normatização e moralização, impostas à população através da direta interferência do estado por meio da ação repressora de seu policiamento, buscavam alterar costumes e modos de vida. Isso, contudo, não aconteceu de forma homogênea, nem sem gerar muitos conflitos e confusão de papéis naquele conturbado período político. (MAUCH, 2004) O caráter moralizador e progressista do Partido Republicano Rio - grandense, ao assumir o governo do estado em fins do ano de 1892, ficou claro a partir de sua postura política, ao considerar que: “Garantir a ordem para obter o progresso era uma tarefa precípua do Estado, para o que deveria o governo tomar providências que assegurassem a submissão da classe trabalhadora.” (PESAVENTO, 1988, p.153) Essa postura política foi acentuada pelo contexto social de 1893, com a Revolução Federalista, que transformou policiais em militares e militares em policiais, em uma clara indefinição de funções.

  Os documentos policiais referentes ao período mostram um quadro bastante confuso do policiamento na capital. Embora a partir de sua criação, fosse oficialmente a guarda municipal a responsável pelo policiamento da cidade, alguns documentos e notícias de jornais dão conta de que as funções do policiamento de Porto Alegre eram exercidas também por outras corporações. (MAUCH, 2004, p. 143)

  A partir disso, surgem sucessivas tentativas de organização e profissionalização do policiamento, que esbarraram na inexistência de um saber ser policial, recaindo nas mesmas indefinições de papéis entre os praças das guardas municipais, os do exército federal e os da Brigada Militar. Esta última foi constituída, em 1892, para combater a oposição federalista que se armava e queria retomar o governo do estado. Esse confuso cenário só vem acentuar a falta de prestígio do policial perante as demais classes profissionais. Ainda mais em uma sociedade profundamente marcada por preconceitos étnicos e com grande hierarquização social, na qual a presença de homens de cor na polícia causava um forte desprestígio para a profissão.

  O desprezo pela profissão de policial era agravado pelas indefinidas atribuições dos órgãos de controle e repressão social do governo. O que abriu espaço para o que Mauch (2004) chamava de “poder discricionário do policial”. Devido à falta de técnicas, normas e regulamentos claros que dessem amparo ao policial diante dos inúmeros e imprevistos acontecimentos do dia a dia, o policial se viu na situação de “intérprete das leis e um árbitro das normas morais e sociais.” (MAUCH, 2004, p.176)

  É nesse contexto de profundas mudanças políticas, econômicas e sociais, descrito anteriormente, que se insere a já mencionada criação da Brigada Militar, em 1892. Esta instituição militar e policial foi constituída no calor das disputas político-ideológicas e nas vésperas da Revolução Federalista de 1893, no estado do Rio Grande do Sul. Na época, o estado estava dividido entre republicanos (ou castilhistas) e federalistas (ou gasparistas). A partir desse momento, “a Brigada Militar começou a exercer um papel significativo na história do Rio Grande do Sul, principalmente como um aparato político do governo castilhista, que usou desse meio militar para manter- se (...) no poder do Estado.” (MAFFI,

  2008, p. 24)

  A constituição dos efetivos da Brigada Militar torna-se importante recurso de análise, para compreendermos o seu papel social na sociedade de então. Quem eram os homens que compunham e vestiam a farda desta importante instituição mantenedora da ordem pública e um dos sustentáculos dos republicanos no poder político do Rio Grande do Sul? A partir desse questionamento, pesquisamos os livros de assentamento de praças do período pós- revolucionário, tendo por referencial de partida o ano de 1895, data em que foram abertos os livros por nós utilizados.

  A Brigada Militar terá a seguinte formação: três corpos, sendo dois Batalhões de Infantaria e um Regimento de Cavalaria num total de 1266 homens. Também haverá a formação de três corpos da reserva nas mesmas condições da força ativa. As forças de reserva serão arregimentadas e organizadas para que possam entrar em ação quando necessária à manutenção da ordem. (MORAIS, 2002, p.49)

  Entre as organizações militares da Brigada Militar, escolhemos, como objeto de nossas análises, o 1° Regimento de Cavalaria (1° RC), que, nos dias atuais, é o 1° Regimento de Polícia Montada (1° RPMon), sediado no município de Santa Maria. A escolha foi feita porque, desde sua criação, quando da constituição da própria Brigada Militar, é este corpo militar o principal responsável pelo policiamento na região central do estado.

  Ao nos questionarmos sobre o período histórico da República Velha no estado do Rio Grande do Sul, saímos em busca de uma bibliografia que abordasse a construção do cenário político-social para nosso recorte temporal. Entretanto, as imagens construídas a partir das primeiras leituras chocaram-se frontalmente com as da leitura dos livros de assentamento de

  9

  praças da Brigada Militar. Neles esperávamos encontrar a expressão material da imagem de um estado profundamente composto de imigrantes italianos e alemães, entre outros grupos de imigrantes europeus, que compõem a tradicional história da composição étnica de nosso estado. Os grupos étnicos, que esperávamos encontrar nos efetivos da Brigada Militar, não se faziam presentes de forma massiva. A imagem, que passamos a vislumbrar desses efetivos, era composta por nacionais, ou melhor, por homens de cor.

  

n° 1 (1895 - 1903) do 1° Esqd, Livro n° 1 (1895 - 1902) do 2° Esqd, Livro n° 1 (1895 - 1903) do 3° Esqd, Livro

n° 1 (1895 - 1904) do 4° Esqd, todos arquivados no Centro Histórico Coronel Pilar sediado nas dependências do

  

GRÁFICO 1 - EFETIVO DA BRIGADA MILITAR (1895

  • – 1903)

  1 1) Praças sem identificação

  11% 2) Praças identificados como

  2 brancos

  3 30% 59%

  3) Praças identificados como Homens de cor.

  O efetivo total do 1° RC , contido no 1° livro de assentamento de

praças de cada um dos quatro esquadões é de: 1508 homens.

Fontes: Estão arquivados no Centro Histórico Cel. Pilar, sediado no 1° RPMon - SM

  A imagem e os números contidos nesse gráfico são tentadores para emitirmos pareceres a respeito da composição social da virada do século XIX para o XX. Isso porque seria plausível ali encontrarmos uma representação, uma amostra da sociedade da República Velha no estado do Rio Grande do Sul. Nos livros de assentamento de praças dos quatro esquadrões do 1° Regimento de Cavalaria, com expressiva maioria, destacam- se os “homens de cor”, relacionados nesses livros, o que poderia nos conduzir a uma falsa imagem social do período. O que nos chama a atenção, ainda mais, para a composição étnica da corporação militar e policial do período, em função de que se esperava um percentual majoritário de homens brancos no ofício policial em virtude de o Estado do Rio Grande do Sul ser marcado pela imigração europeia.

  Se não levarmos em consideração as praças sem identificação, os números são reveladores. Temos 65,89% de homens de cor, contra 34.11% de homens descritos como brancos. Esses números nos revelam um importante fator, que vem a somar-se a já

  10 Esses, além de terem que desprestigiada e malvista atuação dos policiais, os “morcegos”.

  enfrentar a má vontade da população, em função de sua intromissão no cotidiano popular, tinham que carregar consigo os estigmas sociais ligados aos homens de cor, em uma sociedade com a escravidão ainda bem viva na memória.

  10

“Não era à toa que os policiais atraíam o rancor popular, sua presença cada vez maior limitava os espaços de

relativa autonomia dos pobres urbanos

  • – daí serem classificados de MORCEGOS, pois deviam permanecer

GRÁFICO 2 - OS HOMENS DE COR

  1000 864

  900 800 700 600 500

  373 400

  222 300

  

195

200

  74 100

  Quantidade

Indios Pretos Pardos Morenos Total

ou Mulatos

  Dados retirados dos 4 primeiros livros de assentamento de praças (1895 - 1903). Total de indios: 373 - Total de pretos: 222 - Total de pardos: 195 - Total de morenos ou mulatos: 74 Fontes: Arquivadas no Centro Histórico Cel. Pilar - 1° RPMon - SM

  Segundo Mauch (2004), as constantes críticas feitas pelos jornais de Porto Alegre a respeito da qualidade do serviço policial, inúmeras vezes, eram direcionadas ao policial e não à instituição que ele representava. Criticavam a prática do policial por vê-la muito aquém do

  • - discurso das autoridades do recém nascido regime republicano que se instalava. Discurso em

  que se desejava a formação de uma moderna e eficiente polícia, calcada em preceitos de boa conduta e moralidade, os quais seriam compatíveis com os novos e desejados tempos de sociedade civilizada e moderna. O “bom policial” deveria ser “reflexo” e consequência dessa sociedade.

  Quando a formaçã o do “bom policial” pela instituição torna-se deficiente, o agente vê-se na contingência de tomar decisões baseadas quase que unicamente na sua própria apreciação dos indivíduos e dos conflitos. De forma que, ao classificar ou distinguir os indivíduos através de atribuições de valores à sua cor, sexo, idade, posição social e nacionalidade, o policial certamente estará ativando estigmas social e culturalmente aceitos. (MAUCH, 2004, p. 119)

  A partir dessa conclusão, Mauch considera que, na falta de uma estrutura específica de formação e seleção dos policiais, eles recorriam a sua experiência de vida na hora de avaliar e analisar essas práticas cotidianas de confronto, as quais também estavam de acordo com a população de modo geral. Suas “avaliações calcadas no senso comum” faziam parte da constituição do “ser policial” e estavam ligadas ao seu contexto social de origem com o qual interagiam.

  Moreira (1995), a partir da correspondência dos chefes de polícia dos anos finais do Império, demonstra a preocupação destes para com o baixo número de policiais, considerado insuficiente pelos delegados para garantir a propriedade. “Os relatórios do período constantemente enumeravam a precariedade da força policial como uma das causas da criminalidade.” (1995, p. 59) Mais adiante, o pesquisador descreve as dificuldades de se obter voluntários para o serviço policial, demonstrando os “abusos e tropelias praticados no recrutamento.” (MOREIRA, 1995, p. 65) Abusos que seriam praticados contra cidadãos pertencentes às classes sociais mais abastadas da sociedade, homens que eram considerados “isentos” do serviço policial e militar, ou seja, este tipo de serviço estaria relegado a homens oriundos das classes sociais subalternas, as quais eram consideradas “classes perigosas”.

  A inversão de papéis pesquisada por Carvalho (2005), a partir do levantamento das ocupações dos homens e mulheres arrolados em processos de crimes, tem seu paralelo na composição étnica das praças da Brigada Militar. A autora descreve o peso simbólico que tinha perante a justiça o ser europeu na hora do discurso de defesa dos réus com origem estrangeira, mesmo que parte significativa desses imigrantes não compartilhasse “o que se propagava sobre eles.” (2005, p. 99) O reflexo dessa inversão de papéis é, ironicamente, ser o homem nacional o principal responsável pela manutenção da ordem e um regulador da moralidade pública, ao menos era esse o desejo e discurso das autoridades no Rio Grande, segundo. (PESAVENTO, 1988)

  Para melhor compreendermos a imagem dos efetivos da Brigada Militar aqui desenhados, a partir de agora, vamos analisar, em especial, o 1° Esquadrão do 1° RC. Os dados pesquisados estão no livro número um do esquadrão, que foi elaborado de 1895 até 1903. O total de homens ali relacionados ao longo do período é de 436 praças, destes, 155 são descritos como brancos, 248 são descritos como homens de cor, ficando 33 praças sem qualquer tipo de identificação de sua etnia. Portanto, temos 35,55% de homens classificados como brancos e 7,56% de homens sem qualquer identificação. Novamente, seguindo a tendência geral da instituição, a maioria são os homens qualificados como de cor, somando um total de 56,88% dos 436 praças relacionados. Morais (2002) desenvolve uma história da Brigada Militar com base nos oficiais e não nos praças da instituição policial-militar, atribuindo profissionalismo aos oficiais e, com isso, desconsiderando os praças, que eram a maioria esmagadora dos efetivos. Para Morais, há uma ruptura entre o modelo coercitivo imperial e a formação do policial e militar do moderno modelo republicano. Este teria por base o profissionalismo, a disciplina e o espírito de grupo, o que teria possibilitado o surgimento do “militar puro, em outras palavras, do corpo despossuído da ideia de classe social e, ao mesmo tempo, identitariamente, identificado com o Estado.” (2002, p. 45) Não há como concordar com Morais nesse sentido. Primeiramente, porque Moreira (1995), ao fazer uma história das praças de polícia, já demonstrou não apenas a existência de um vínculo de classe social, mas também seu peso e importância na constituição dos efetivos policiais. Afinal, não era fácil recrutar, desde os tempos finais do Império, os homens das classes sociais mais abastadas. Isso pode ser constatar nos primeiros anos de constituição da Brigada Militar, a partir da continuidade da prática em recrutar homens oriundos das classes sociais subalternas da sociedade, ou seja, os nacionais de cor.

  Se não considerarmos as praças do 1° Esquadrão que não possuem identificação, os números nos são mais reveladores. Desse modo, teremos 38,46% de praças classificados como brancos, e uma grande maioria, 61,53% identificados como homens de cor. Composição étnica da polícia, que Carvalho (2005) considera possuir peso político no cotidiano das ruas em Santa Maria. A pesquisadora demonstrou, ao analisar processos crimes, em que ficava implícita a identificação étnica entre policiais e homens de cor, pois, “é preciso relativizar que as relações entre policiais e populares eram, via de regra

  , de animosidades.” (2005, p.213)

  Para Morais (2002), os soldados da Brigada Militar possuíam o “profissionalismo dos oficiais” e a possibilidade de estabilidade funcional na instituição, o que não estava ao alcance das praças, que estavam de passagem temporária na polícia. Isso seria, segundo o pesquisador, “uma política de identificação do soldado-burocrata com o estado republicano” (2002, p. 46), porque o soldado-burocrata seria fruto da modernização do aparato coativo do estado. Uma modernização que foi feita do ponto de vista da administração racional dos meios e recursos da instituição militar e do próprio estado burguês que se instalava.

  Conforme Morais (2002), o oficial teria uma relação de profunda identificação com o estado, proporcionada pelo fato de eles usufruirem do direito de pensão aos familiares em caso de seu falecimento e da possibilidade de aposentadoria; direitos que as praças não possuíam. Mariante (1972), que também escreve uma história dos oficiais, corrobora essa condição, ao descrever que nas instituições policiais, embrião da Brigada Militar, os oficiais já possuíam o direito à aposentadoria, o que não se estendia as praças.

  O oficial possui uma relação identitária com o estado de maior intensidade, o que demanda uma disciplina específica, atribuindo-lhe determinadas responsabilidades na administração da violência que o diferencia substancialmente do praça, um mero executor técnico. (MORAIS, 2002, p.89)

  11

  descrito por Dessa forma, o “soldado burocrata” ou mesmo o “militar militarizado,

  Morais, não condiz com a situação da grande maioria dos homens que compunham a instituição policial e militar do Estado do Rio Grande do Sul. Morais descreve um soldado moderno, disciplinado, bem preparado, enfim, um profissional que era desejado pelo discurso positivista referendado pelo governo castilhista. Estende tais características “aos soldados” de maneira generalizante, porém esse soldado ideal, reflexo dos oficiais da Brigada Militar, não nos foi possível visualizar nas tropas em geral. O compromisso com a corporação e a pretensa estabilidade na instituição não nos parece possível mediante a condição temporária que o serviço militar/policial tinha para o praça, antes ou mesmo após, a formação da Brigada Militar.

  Moreira (1995) já havia demonstrado o caráter transitório do “estar policial”, ou seja, a situação temporária que a profissão possuía nas vidas dos homens que optavam por essa ocupação nos anos finais do Império. Isso será visualizado para o 1° Esquadrão, a partir das faixas etárias do efetivo de praças que compunham organização militar:

QUADRO 1 – FAIXA ETÁRIA DOS HOMENS QUE SENTARAM PRAÇA NA BM

  Faixa etária de ingresso na BM Data referência Número Praças % De 15 a 20 anos 1880 36 24,48%

  • – 1885 De 21 a 25 anos 1875

  47 31,97%

  • – 1879 De 26 a 30 anos 1870

  37 25,17%

  • – 1874 De 31 a 35 anos 1860

  19 12,92%

  • – 1864 De 36 a 40 anos 1859 - 1855

  07 4,77% Com mais de 40 anos 1855 01 0,69%

  • – 1859

  Total de 147 100%

  Fonte: Arquivo do Centro Histórico Cel. Pilar 11 – 1° RPMon – Santa Maria – RS.

  

“A militarização do militar está diretamente ligada à despolitização interna da força e sua subordinação técnica

ao aparato administrativo estatal. A politização é substituída pelo espírito de corpo que forma a unidade

  Com base nas faixas etárias dos homens que sentavam praça, podemos constatar que não havia um limite de idade específico, ou seja, um pré-requisito para estar habilitado à atividade do policial-militar. Em nossa amostra, estão representados homens que sentaram praça pela primeira vez, com idade entre os 15 e os 50 anos de idade, em que temos uma significativa porcentagem de 18,38% do total, que sentavam praça pela primeira vez, com idade acima dos trinta anos. Podemos aqui destacar o caráter temporário que exercia na vida desses homens a atividade militar. Isso porque, ao implantar ordem burguesa de trabalho, o estar empregado e ter para si um ponto referencial naquela sociedade pareciam ser motivos suficientes para estar empregado como policial e, assim, escapar ao rótulo de vagabundo ou desocupado. (PESAVENTO, 1989) O empregar-se como policial era assumir uma atividade desprestigiada na sociedade de então, mas, ao que nos parece até o momento da análise, o ser policial era uma das principais atividades destinada e assumida pelos homens tidos por nacionais.

  Os policiais, conforme procuramos descrever neste artigo, encontravam-se na ambígua condição de sentinelas dos novos hábitos e ao mesmo tempo eram indivíduos que

  • – por sua origem popular – compartilhavam dos comportamentos que

    a sua instituição visava erradicar. (MOREIRA, 1995, p.94)

  Segundo Moreira, a partir da análise dos interrogatórios dos processos crimes de fins do século XIX, pode- se “constatar o caráter temporário e isento de profissionalização dos policiais.” (1995, p.65) Ser policial não era considerado uma ocupação profissional, mas um serviço ocasional. Temporalidade que podemos visualizar no gráfico a seguir, analisando os motivos que conduziam ao desligamento destes homens em relação à Brigada Militar, e também os meios e mecanismos da própria instituição, dos quais eles faziam uso, conforme seus objetivos e circunstâncias pessoais.

  

GRÁFICO 3 - MOTIVOS DE SAÍDA DA BM

100% 37,03% 18,51% 12,34% 9,88% 9,88% 6,18% 6,18%

  Foram considerados somente os praças que apresentavam o motivo de sua

saída da BM. Sendo considerados 81 praças do 1° Esqd neste gráfico.

Fonte: Arquivadas no Centro Histórico Cel. Pilar - 1° RPMon - SM.

  O que salta aos olhos, na primeira observação dos dados contidos no gráfico, é a condição de incapacidade física como o maior motivo do desligamento dos praças da BM. Os dados ficam ainda mais impressionantes, se somarmos aos praças que deram baixa do serviço policial-militar por motivo de falecimento. Nesse caso, chegaremos a 46,91% do total de praças dos quais temos as referências dos motivos de suas baixas do serviço. Com números que chegam a, praticamente, metade do total, certamente essas eram situações de conhecimento geral, o perigo para a saúde ou mesmo para a vida, devia ser levado em consideração na hora de assumir os riscos da profissão. Qualquer leitor, por mais desatento que seja, irá notar a existência de um grande número de referências a internações hospitalares, nos históricos contidos nos livros de assentamento de praças.

  O caso de Victal Vicente, natural deste estado, nascido em 1870, casado, preto, sentou praça em 10/04/1892, permanecendo até 23/04/1900, quando deu baixa do serviço policial-

  12

  militar por incapacidade física . Esse praça possui histórico de punições por insubordinação e também por mais de uma deserção, mas sempre se reapresentava e assumia novamente suas funções. Entre uma punição ou uma deserção, o mesmo praça possui relatos em seus assentamentos de que participou de diligências pelo interior do estado, ou seja, cumpria com seu serviço de policial. Histórico que podemos ter como modelo de utilização dos espaços de manobra que existiam dentro da própria força policial. Espaços que permitiam ao praça, 12 ausentar-se por tempo indeterminado, por motivos desconhecidos por nós, mas que faziam

  Fonte: Arquivada no Centro Histórico Cel. Pilar

  • – 1° RPMon – SM, referente ao livro de assentamento de
parte das possibilidades desses para resolverem assuntos particulares de seu interesse, ou mesmo, somente para afastar-se temporariamente de alguma obrigação indesejada em seus afazeres da caserna militar, mesmo que isso significasse posterior punição disciplinar.

  As possibilidades e brechas que o sistema disciplinar, controle e vigilância da Brigada Militar exercia em seus efetivos policiais foi constatado por nós nas páginas dos livros de assentamento dos praças. Estes deixavam espaços possíveis aos praças para uma opção de escolha. O praça (policial) poderia escolher entre uma punição ou o cumprimento de uma indesejada obrigação ou missão. Muito além de descumprir ordens ou regulamentos, o praça também fazia uso dos mecanismos legais da força que o favorecessem, pois não era só de conflito com o sistema que se fazia esta relação desigual de forças. Moreira (2003), para os anos finais do Império, em especial, para os anos da guerra do Paraguai, descreveu a prática de apresentação de substitutos para o serviço militar. Subterfúgio que os homens da elite colocaram em prática, com a intenção de se isentarem do serviço militar, ou para isentar um filho, ou ainda, um dos seus homens de confiança, que fizesse parte de seu círculo de influências políticas e econômicas.

  Na observação de nosso gráfico, chama-nos atenção, mais uma vez, a quantidade significativa de praças que apresentam para si um substituto, diferentemente do contexto de guerra em que Moreira (2003) observou essa prática. Os 6,18% de praças, que usaram da apresentação de um substituto para si, não estavam em um contexto de guerra e nem revolucionário, pois já havia terminado a Revolução Federalista. Não havia escravos para barganhar a troca, e também não eram homens oriundos da elite de então. Esses “homens de cor” – não se pode afirmar com exatidão – poderiam ter utilizado alguma reserva financeira para persuadir o seu substituto a ocupar sua vaga na Brigada Militar? Nossa documentação não possibilita afirmar essa prática, o que fica é a impressão do peso da indicação, da possibilidade de exercer uma função mais aceitável e menos perigosa dentro da corporação militar. A inclusão de um familiar ou amigo que ainda buscava uma melhor posição, etapa que ele, substituído, já teria superado por ter alcançado ocupação melhor e menos ariscada, que a de ser policial naquela sociedade e estar sempre na mira dos regulamentos disciplinares da instituição militar.

  Em foco nos regulamentos disciplinares da BM de então, estava a moralização e remodelação dos hábitos e costumes dos policiais e, em consequência, também dos populares. Conforme a doutrina do positivismo castilhista, o casamento assim como o trabalho fixo eram algumas das imposições do processo de normatização e moralização social que exigia o controlar a mobilidade espacial dos que não se ajustavam às regras do jogo republicano. Nesse sentido, seria normal constatarmos a constituição familiar oficializada perante o estado, nos efetivos da Brigada Militar. No entanto, dos 152 praças arrolados no 1° Esquadrão, 15,78% ou, apenas 24 praças, declaravam-se casados, contra 82,89% ou 126 praças que se diziam solteiros. Dentre estes, somente 1,31%, ou 02 praças, não havia informação se eram ou não casados.

  Segundo Silvia Arend (1995), na Porto Alegre de fins do XIX e início do XX, a mortalidade entre os populares era o grande motivo da quebra da unidade familiar. Isso, devido, entre outros motivos, as constantes epidemias de cólera, tifo e gripe e, além destas doenças, os populares conviviam com a tuberculose e doenças venéreas. É nesse contexto que a contrapartida ao casamento para os populares, o amasiamento, não era considerado tanto pela polícia quanto pela justiça “um estado equivalente ao casamento” (1995, p. 16). Então, os que ficavam vivos, não eram identificados pelo estado civil de viúvos ou viúvas, por terem perdido seus amásios.

  Mesmo havendo a possibilidade legal do casamento e ainda a expectativa de realizá- lo, talvez como forma figurada de ascender à ordem burguesa que o exigia, os populares preferiam o amasiamento (...) ao fazerem essa opção diante da “encruzilhada cultural” que se estabelecia os populares permaneciam “fiéis” ao seu próprio “universo.” (AREND, 1995, p.17)

  A campanha das autoridades políticas e policiais, além do trabalho fixo e do casamento como forma de controle social, promovia, no Rio de Janeiro, uma reformulação urbanística do centro da cidade. (CHALHOUB, 2001) Esta teria, como um dos seus focos moralizadores, restringirem o hábito de ingerirem bebidas espirituosas em ambientes de

  . Tal fato, na prática, significava a retirada de quiosques que serviam a

  passeio público branquinha, à beira das calçadas para os jornaleiros, ambulantes e trabalhadores em geral.

  Esses estavam em campanha para identificar e denunciar as zonas de desordem “constituídas por becos, tabernas e prostíbulos (...). Também eram qualificadas como zonas perigosas algumas comunidades inteiras, caso do Areal da Baronesa e da Colônia Africana (MAUCH, 2004, p.85). Bairros inteiros eram estigmatizados devido à composição étnica de sua população.

  ... o Areal da Baronesa ficou conhecido como um bairro predominantemente negro. Assim como a Rua da Margem e adjacências, o Areal da Baronesa também estava sujeito a alagamentos e só recebeu tratamento urbanístico depois dos anos cinqüenta de nosso século, permanecendo até esta época como local de moradia de famílias pobres e também de soldados, devido à proximidade de quartéis da Brigada Militar. (MAUCH, 2004, p. 86)

  As zonas de desordem eram definidas pela existência ou não de espeluncas (botequins e tabernas), fator suficiente para a área e adjacências serem consideradas “antros” suspeitos.

Nesses locais, considerados “propícios para o crime e a desordem” (MAUCH, 2004, p.87)

  era que boa parte dos praças da Brigada Militar residiam e conviviam com os costumes que deveriam evitar e controlar. Segundo Chalhoub (2001), era nas conversas das horas de descanso, nos botequins e espeluncas, que se entorpeciam os corpos e se afogavam as mágoas do labor diário. A estigmatização desses espaços de lazer por excelência fazia parte do que o pesquisador descreve como a tentativa de transformar o pobre nacional em um morigerado trabalhador.

  Dos 152 praças do Primeiro Esquadrão do 1° RC (Regimento de Cavalaria), 72 praças possuíam uma ou mais punições disciplinares, ou seja, 47,36% em um dado momento cumpriram prisão por terem cometido algum tipo de infração e terem sido apanhados por seus superiores hierárquicos. O policial-militar Augusto Luiz dos Santos, nascido em 1872, preto, praça, em 11/09/1896, ainda solteiro, casando-se durante o período em que

  sentou

  permaneceu na Brigada Militar. Possui em seus registros uma prisão por ter abandonado o serviço de patrulha e ter ido dançar e bebericar em um baile. Este policial faz parte dos 5,71% de praças que possuem punição por abandono de posto, bem como faz parte do universo representado no gráfico a seguir.

GRÁFICO 4 - PUNIđỏES DOS PRAđAS DO 1ổ ESQUADRấO 100% 26,66% 23,80% 12,38% 8,57% 6,66% 5,71% 4,76% 4,75% 6,74%

  Livro de Assentamento de praças do 1° Esquadrão (1895 - 1903) Fontes: Arquivadas no Centro Histórico Cel. Pilar - 1° RPMon - Santa Maria - RS

  Se somarmos os 5,71% que abandonaram o posto de serviço aos 23,8% que nem compareceram ao trabalho, podemos imaginar os motivos dessas faltas. Isso porque o costume de ingerir bebidas espirituosas parecia ser um hábito que fazia parte, inclusive, do ambiente de trabalho. O soldado Ignácio Raymundo dos Reis, nascido em 1877, preto, sentou praça em 04/11/1896 e possui em seus registros mais de uma prisão. Foi preso por estar embriagado e também por levar bebidas alcoólicas quando estava de serviço de patrulha. Podemos estimar os já 29,51% da soma anterior com os 26,66% de praças punidos por terem sido encontrados embriagados por algum de seus superiores hierárquicos.

  Conforme Chalhoub (2001), o estabelecimento de novos costumes pelas classes detentoras do dinheiro para as classes sociais subalternas significava justificar, ideologicamente, o poder de mando e o combate à ociosidade do trabalhador nacional. Ou seja, era necessário ao trabalhador estar subordinado a um patrão, a um superior hierárquico,

  

o que, segundo o próprio pesquisador, não aconteceu de forma harmônica e linear, situação,

  que está representada em nosso gráfico, a partir dos 6,66% de punições atribuídas a atos de insubordinação. É o caso de Valmiro de Souza, nascido em 1876, moreno, sentou praça em 23/11/1895, sendo punido com prisão por ter questionado um oficial superior a respeito da prisão de um companheiro seu, pois não aceitava os motivos da punição.

  Além das rivalidades, entre os praças e seus superiores, também existia a cumplicidade dos policiais-militares. José da Silva, nascido em 01/01/1877, preto, sentou praça em 14/01/1893, sendo punido com prisão por não ter detido dois companheiros seus de farda, que estavam provocando desordem pública. Era o tipo de ocorrência policial que, segundo Mauch (2004), era estampada nos periódicos.

  “Soldados, marinheiros e crioulos debochados” (...) seriam freqüentadores habituais das espeluncas, pois é raro não encontrar pelo menos um deles sendo citado nas matérias sobre o tema. Os soldados e policias, sejam eles praças da Brigada Militar, do Exército, da Guarda Nacional ou da Polícia municipal, são freqüentadores citados como protagonistas de desordens em botequins. (MAUCH, 2004, p.92)

  As políticas de repressão durante a República Velha tinham a intenção de controlar os hábitos populares das classes subalternas da sociedade. Estas faziam parte de um grande processo avassalador de mudança espiritual e cultural, segundo Chalhoub (2001). Esse projeto não foi alcançado sem muita luta e resistência por parte dos populares nacionais. A Brigada Militar fez parte desse grande projeto de imposição dos novos hábitos sociais no Estado do Rio Grande do Sul.

  Contudo, a historiografia que descreve a atuação desta instituição militar estadual, durante muito tempo, descaracterizou o caráter popular que os efetivos da Brigada Militar possuíam, ou seja, mascarava e maquiava com o que Morais (2002) chamou de militar- militarizado. Assim, subtraindo da instituição policial-militar o seu reflexo popular, trans- figurava a imagem que a sociedade fazia dos praças, a partir da imagem que esta fazia dos oficiais. Entre o esquecer e fazer vistas grossas, a partir do contato cotidiano entre populares e policiais, os praças forjaram a verdadeira imagem do policial-militar, fosse ela da elite dominante ou das classes subalternas.

  Morais (2002) busca em Mariante (1972) a explicação para a formação militar dos policiais da Brigada Militar. Todavia, ao fazer essa busca, incorreu no mesmo equívoco deste pesquisador. Ao afirmar que, na pós-Revolução Federalista, o efetivo da Brigada Estadual se aquartelou e lá “permaneceu quase que em sua totalidade na caserna,” não participando do serviço policial durante o período da Republica Velha. (MORAIS, 2002, p.141) Contudo, é justamente essa participação no policiamento que constatamos nas leituras dos históricos dos praças daquela corporação policial-militar. Assim, a partir do próximo capítulo, iremos analisar, a chegada da Brigada Militar no município de Santa Maria.

  4 – A BRIGADA MILITAR EM SANTA MARIA

  A Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul foi fundada em 1892, o que, para a historiografia santa-mariense, significou a presença do 1° RPMon (Primeiro Regimento de Polícia Montada) na cidade de Santa Maria desde aquele o ano. A esse regimento, que nos anos iniciais da República era denominado por 1° RC (Primeiro Regimento de Cavalaria), teria se somado o Sétimo Regimento de Infantaria em 1908.

A presença de ambos “trouxe um grande contingente de pessoas para residirem na cidade.” (GRUNEWALD, 2010, p.337)

  Nos arquivos do Centro Histórico Cel. Pilar, do hoje 1° RPMon, encontramos uma outra data para a chegada do 1° RC na cidade de Santa Maria. Todas as folhas dos livros de assentamento de praças, referentes ao ano de 1922, relatavam a transferência da sede do regimento para Santa Maria em maio daquele ano. Portanto, a Brigada Militar não possuía nenhum regimento sediado em Santa Maria anteriormente ao ano de 1922. No período anterior a essa data, existiu na cidade apenas um destacamento, uma representação de militares do 1° RC. Desse modo, não podemos desprezar o impacto social da chegada do completo efetivo de uma unidade policial-militar na cidade, e o que isso ensejou no cotidiano das ruas de Santa Maria. Para termos uma noção inicial do que poderia representar essa chegada à cidade, faz-se necessário compreender o que era a Santa Maria de início do século

  XX.

  4.1 – SANTA MARIA, UMA CIDADE MULTIÉTNICA

  O cenário social santa-mariense, delineado por Farinatti (2010) para o período pós-Lei de Terras de 1850, demonstrava que o arranjo social do município encontrava-se ancorado na mão de obra escrava e na falta de oferta de mão de obra livre disposta a assalariar-se. Tal fato, para o pesquisador, era consequência do espaço em que as classes subalternas da sociedade tinham de passar da situação de não proprietários de terra para a de pequenos proprietários de terra e isso ocorria no momento em que esses se embrenhavam nas matas da costa da Serra Geral e passavam à condição de posseiros. Esta situação proporcionava a subsistência e autonomia familiar com base na produção agrícola o que, por sua vez, gerava uma disputa pela posse da terra e de sua legitimação legal. A possibilidade, porém, tinha como consequência a falta de mão de obra disposta a recorrer ao trabalho assalariado.

  A pecuária de pequena escala era uma produção eminentemente familiar, possuindo uma lógica muito diferente daquela que regia as grandes estâncias. A possibilidade de criar rebanhos modestos em terras alheias ou, o que parece ter sido bastante comum em Santa Maria, em pequenas áreas de campo, também era uma alternativa aos menos favorecidos e impunha a presença da escravidão nos grandes estabelecimentos. (FARINATTI, 2010, p.261)

  A falta de trabalhadores para assalariamento estava diretamente relacionada à possibilidade da subsistência autônoma proporcionada pela posse da terra. Isso obrigava os grandes e médios estancieiros a manter um núcleo estável de mão de obra escrava, e assim, assumir os riscos da relação senhor/escravo. Tal distribuição social demonstrava que a imigração europeia, a partir da década de 1880, não teria se estendido sobre terras desocupadas ou selvagens,

  “que estariam à espera de serem cultivadas (serem civilizadas, ganhar cultura) pelo braço europeu.” (FARINATTI, 2010, p.263) As narrativas históricas a respeito desse processo de ocupação territorial pelo europeu fizeram parte dos “estigmas sociais” vinculados aos homens e mulheres nacionais, fruto da miscigenação racial. Ao barbarizarem essas pessoas, tornaram-na, por muito tempo, invisíveis nas narrativas históricas.

  Tudo isso serviu para eliminar o caráter conflituoso da instalação dos núcleos colonia is e prolongou uma antiga retórica, calcada no enaltecimento da gente “de origem”, em detrimento do elemento “nacional”, de índios, mestiços e negros, tidos como impróprios para a sociedade moderna, o progresso, a cidadania no Estado Nacional em construção. (FARINATTI, 2010, p.263)

  A grande presença de “famílias de lavradores nacionais” em pequenas propriedades nos arredores de Santa Maria, empenhados na produção de alimentos, que Farinatti (2010) constatou, nos anos anteriores da imigração italiana e da introdução da Viação Férrea na região. Esse não foi o mesmo contexto descrito por Padoin (2010) a respeito da produção agrícola nos anos inicias da República. Segundo a pesquisadora, o setor agrícola de Santa Maria e região passava a ter condições de acompanhar a evolução comercial proporcionada pela ferrovia devido à produção familiar do imigrante, afirmando que:

  (...) Santa Maria, por possuir uma produção considerável no setor agrícola, graças, especialmente, ao elemento imigrante alemão e italiano, que se dedicavam a esta atividade, principalmente no terceiro e quarto distritos rurais, São Pedro do Sul e Silveira Martins, respectivamente. (PADOIN, 2010, p.327)

  Com base no contexto descrito, ganhou força a hipótese lançada por Farinatti (2010). Segundo essa, a partir do incremento do imigrante europeu, a especulação e valorização das terras das matas, somadas a introdução da ferrovia, dificultavam a manutenção do lavrador nacional em sua condição de produtor autônomo e posseiro. Tal fato teria lançado o lavrador nacional no mercado de trabalho assalariado e, assim, também abriu espaço ao imigrante, e ainda, resolveu os problemas da falta de mão de obra causados pelo fim da escravidão.

  A introdução da ferrovia alçou Santa Maria no cenário estadual e nacional, ao transformar o município em um importante entroncamento ferroviário já em fins do século

  XIX, merecend o o “titulo nacional de cidade ferroviária.” (PADOIN, 2010, p.322) Os trilhos que passavam pela cidade, ligavam o estado de leste a oeste e com o principal centro econômico do país, São Paulo. E, ainda, havia uma linha internacional, a qual ligava a cidade aos países platinos e a colocava na rota de “companhias teatrais, inclusive francesas, que faziam temporadas no município.” (GRUNEWALTD, 2010, p.341)

  A importância da ferrovia para a cidade de Santa Maria ficava evidente nos 523% de aumento de renda municipal, em comparação com os anos anteriores, a partir de 1885, conforme Padoin (2010). Tomando esse ano como referência, “em um intervalo de 15 anos, a população de Santa Maria passou de 13.000 para 30.185 habitantes, perfazendo um aumento de 132,19%” (CARVALHO, 2005, p.54). A explosão demográfica e financeira, que demonstrava o peso dos trilhos no processo de urbanização de Santa Maria, tornou o município um atrativo para pessoas que buscavam emprego e oportunidade de colocação profissional. O que, para

  Carvalho conferia “à cidade a característica de ser uma cidade de passagem.” (2005, p.54) A Av. Progresso, atual Av. Rio Branco, via de acesso à Gare (Estação Ferroviária), local de passeio dos moradores da cidade e de fluxo dos passageiros que por ali passavam, não era mero corredor de passagem, pois havia ali inúmeros pontos de comércio. Estas, segundo Grunewaldt, eram atividades de “imigrantes, especialmente judeus, libaneses, alemães, instalaram casas de comércio, hotéis, restaurantes, jornal, entre outros, fazendo de Santa Maria cada vez mais um pólo comercial na região” (2010, p.337). Além do volume comercial que as estradas de ferro proporcionavam à cidade, esta ganhava em elegância com a chegada da “diretoria do Compagnie Auxiliare des Chemis de Fèr du Brèsil da Bélgica” em 1898. (PADOIN, 2010, p.324) A empresa assumiu o controle da Rede Ferroviária Rio- grandense de 1898 até 1920, trazendo consigo famílias belgas, as quais passaram a morar na Vila Belga, construída especialmente para acomodá-las.

  O cenário, até o momento delineado por nós, foi descrito por Carvalho (2005) como um “caldeirão cultural”, o qual estava representado nesta complexa e multiétnica composição entre nacionais e imigrantes italianos, alemães, judeus, libaneses, franceses, belgas, entre outras etnias, facilitava a circularidade de pessoas e mercadorias no meio urbano santa- mariense. O trânsito dessas pessoas abria espaço para atividades ocasionais, as quais eram preenchidas pelos populares nacionais, que não encontravam oportunidades no mercado de trabalho do centro urbano de Santa Maria que, notadamente, favorecia ao imigrante.

  Formas de trabalho ocasionais, resultado da mobilidade entre o universo rural e urbano santa-mariense, não eram serviços facilmente perceptíveis e considerados pelo observador estrangeiro à cidade. Nesse sentido, é que Carvalho (2005) destaca os relatos do engenheiro Ernesto Lassance, chefe da Comissão de Estudos e Construção de Estradas da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, em obra publicada em 1908. Lassance relatou a forte presença de alemães, espanhóis, uruguaios, argentinos, belgas e franceses na cidade, o que a tornava um centro urbano cosmopolita, com pessoas extremamente laboriosas e honestas, as quais

  • - usufruíam de um bem estar comum a todos.

  Contudo, acreditamos haver um excesso na fonte acima quando diz que a população gozava de todo bem estar, uma vez que temos pistas que nos conduzem a uma população bastante pobre e com muitas carências, tendo uma grande parte desta que trabalhar em mais de uma atividade para sobreviver. Isso sem falarmos da reincidente exaltação feita pelos contemporâneos sobre a laboriosidade desta população imigrante, discurso construído e fortemente veiculado pelo poder nos anos finais do Império e iniciais da República Brasileira, como forma de inserção do braço branco-livre no mercado de trabalho e em detrimento a toda uma população de cor que tinha ou que mantinha relação direta com um sistema escravista que se

precisava esquecer e negar. (CARVALHO, 2005, p.75)

  A Santa Maria multiétnica não estava à parte da imagem nacionalmente vinculada às classes subalternas da sociedade, pois ser pobre naquela sociedade, necessariamente, era estar incluso nas classes perigosas, as quais eram compostas, especialmente, por negros, mulatos, pardos e índios. O temor em relação aos subalternos conduziu a Câmara Municipal de Santa Maria, em 1898, mesmo ano da chegada da companhia belga à cidade, a organizar o primeiro 13 do município. Esse regulamentava, além da infraestrutura municipal da

  “código de posturas” época, os inúmeros comportamentos e costumes do cotidiano da população em geral, que poderiam ser ofensivos ou contrários ao modelo de cidadania de viver para a família e para o trabalho. Assim, defendia a prática dos bons costumes e da decência pública, numa clara 13 atitude repressiva contra os hábitos populares desregrados.

  

Os “Códigos de posturas” eram um conjunto de normas elaboradas nos principais centros urbanos do Brasil, em

fins do século XIX, que tinham por objetivo regrar os comportamentos e hábitos das classes sociais consideradas

  Entre as observações feitas por Grunewaldt (2010), sobre a aplicabilidade do código de posturas santa-mariense, destacamos a fixação dos horários de funcionamento das casas comerciais noturnas. Entre essas, estavam os hotéis, pois estes tinham que permanecer atendendo a seus clientes durante o período noturno. O atendimento ficava a cargo dos porteiros, e estes tinham a responsabilidade do controle de quem entrava e saía do estabelecimento. “E, no caso de introdução de meretrizes, o proprietário do hotel deve pagar uma das multas mais vultosas indicadas pelo código.” (2010, p.345) A necessidade da

  • - imposição dessas normas de controle social

  “expressas na forma da lei com punições para a

  quebra dessas”, (2010, p.346) considerados inadequados, aconteciam, cotidianamente, nas ruas de Santa Maria.

  • - nos possibilita a leitura, de que comportamentos,

  Além de códigos de postura, a cidade passou a se preocupar em organizar guardas municipais a fim de garantir a segurança e repressão dos maus costumes. Em 1893 foi estruturada a primeira guarda municipal de Santa Maria, a qual vai ser reestruturada novamente em 1912, com um efetivo de dezesseis. Assim, a partir desse período os conflitos urbanos passaram a ser resolvidos pelos soldados do exército ou por praças da guarda municipal (bailes e diversões populares). (GRUNEWALDT, 2010, p.346)

  As preocupações das autoridades santa-marienses não se restringiam somente aos desocupados ou vagabundos ou a quem descumpria o código de posturas municipal. A classe operária também era foco das preocupações, conforme destacamos no primeiro capítulo, quando abordamos os movimentos grevistas do ano de 1917, em que tiveram destacada atuação os trabalhadores da Viação Férrea de Santa Maria. Ciente das necessidades e operárias a classe empresarial de cidade, convencida da importância de atender às mínimas reivindicações dos operários da Viação Férrea, criou em 1913, a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Viação Férrea. (PADOIN, 2010)

  Entretanto, as greves operárias foram uma constante, na segunda década do século

  XX, no estado do Rio Grande do Sul, e nem sempre as reivindicações operárias foram acatadas pelos patrões ou governo estadual. Segundo Pesavento (1989), na maioria das vezes, sob forte repressão da Brigada Militar, foram fechados sindicatos, líderes grevistas foram presos e os movimentos abafados, sendo a atuação policial merecedora de elogios da classe empresarial. Por certo, essa efetiva participação da Brigada Militar contra os operários não passava despercebida aos trabalhadores santa-marienses.

  A imposição do policiamento nas ruas objetivava controlar e moldar os hábitos populares, dos quais, os próprios policiais faziam parte. Policiamento que não se restringia somente aos populares, mas também se direcionava aos operários, os quais consideravam que o serviço policial era destinado para vagabundos e desocupados, pois “o alistamento era ainda considerado um ato disciplinarizador dirigido preferencialmente para indivíduos turbulentos, descontrolados, vadios”. (CARVALHO, 2005, p.209) O recrutamento recaía sobre a população mais pobre na tentativa de dar ocupação aos homens nacionais sem recursos e de cor. É nesse sentido que “os policiais por vezes construíam laços de amizade para com aqueles indivíduos que estavam destinados a reprimir, em um processo de identificação social.” (CARVALHO, 2005, p.215)

  Ser praça de qualquer organização policial-militar, em fins do século XIX e início do

  XX, necessariamente estava ligado a uma condição social de pobreza e, por este motivo, estigmatizada como ocupação dos subalternos. A partir disso, o simbolismo pejorativo do uso da farda fazia-se refletir na falta de profissionalismo e na confusão de papéis entre os praças da guarda municipal, do exército e da Brigada Militar estadual, nos primeiros anos de

  14 República. (MAUCH, 2004) Nesse viés, ganha especial significado o processo-crime do

  ano de 1904, estudado por Carvalho (2005), o qual descreve a revolta da comunidade de Silveira Martins causada pelo recrutamento militar. Os envolvidos na revolta foram cerca de 100 homens, todos de origem italiana ou filhos de imigrantes italianos, que se revoltaram ao ver seus nomes nas listas para servir no exército ou na armada.

  A república ainda cambaleante parecia herdar de seu passado imperial fardos muito mais pesados do que imaginavam seus idealizadores. O temor das revoltas antes compostas de escravos e libertos e que acompanhou as elites por todo período escravista, agora se apresentava pelas alvas mãos daqueles indivíduos trazidos ao país, em grande parte via incentivo governamental, como símbolos de trabalhadores exemplares: os imigrantes. (CARVALHO, 2005, p.219)

  O imigrante que para cá viera, seduzido pelo discurso dos agentes das companhias de imigração, entendia que não era sua a obrigação de servir nos corpos militares locais. Achava que ele, imigrante, viera para fazer o Brasil e ter a possibilidade “de conseguir um pedaço de terra e se possível um dia enriquecer.” (CARVALHO, 2005, p.219) Assim, o serviço policial- militar recaía sobre os ombros dos homens nacionais, os quais, o discurso político da época, rotulava e estigmatizava como pessoas oriundas das “classes perigosas” da sociedade.

  • – Maço – Ano 1904, pesquisado

  4.2

  • – QUEM ERAM OS POLÍCIAIS

  Em 1922, foram transferidos da cidade de Porto Alegre a sede e o contingente do 1° Regimento de Cavalaria (1° RC) para o município de Santa Maria. Nesse mesmo ano, o Brasil vivenciava uma eleição presidencial, na qual, novamente, se aprofundavam as divergências políticas no estado. Divergências que colocaram do lado vencedor da eleição nacional os oposicionistas a Borges de Medeiros, então Presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Isso reacendeu antigas disputas políticas do já longínquo ano de 1893 e, desse modo, preparava-se o ambiente político- social para a “Revolução de 1923” no estado. Esta foi uma disputa política e armada, que tinha como principal foco de suas divergências a retirada ou manutenção de Borges de Medeiros na presidência do estado. É nesse contexto que a Brigada Militar chegou, em 1922, em Santa Maria, em meio a esta tensão revolucionária.

  O 1° Regimento de Cavalaria trouxe consigo centenas de novos moradores para a cidade de Santa Maria, praças que, no segundo capítulo, demonstramos terem sua origem, em grande parcela, nos chamados, “homens de cor”. Justamente esses homens, de origem humilde, no sentido de pobreza, estigmatizados como classes perigosas, eram os que, em 1922, chegavam à cidade para guarnecê-la e policiá-la.

  A Santa Maria multiétnica que esses novos moradores encontraram, também passaria a fornecer braços para o serviço policial, o que podemos constatar a partir do ano de 1922, ano em que o Regimento já estava com sua sede em Santa Maria. Portanto, no gráfico a seguir, demonstramos que a Santa Maria também destinava os nacionais de cor para o serviço policial-militar. Com isso, a transferência do 1° RC abrira uma possibilidade de trabalho aos homens de cor da cidade e de toda a região central do estado.

GRÁFICO 5 – EFETIVO BM EM SANTA MARIA – 1922 1) Praças sem identificação

  3 21% 2) Praças identificados por

  1 49% outras cores, que não a branca.

  2 3) Praças identificados

  30% como branco.

  Efetivo total do 1° RC em Santa Maria , contido nos livros de assentamento de praças de cada um dos quatro esquadões do período de 1922 até 1926. Com um total de: 2051 homens.

Fontes: Arquivadas no Centro Histórico Cel. Pirlar - 1° RPMon - Santa Maria - RS

  Os 49% de praças, que não possuíam identificação, correspondem aos homens que

  

sentaram praça na Brigada Militar em anos anteriores a 1922. O registro dos dados pessoais

  de cada praça eram feitos somente na primeira folha de seus assentamentos, não sendo repetida sua descrição fisica nas páginas posteriores que descreviam suas atividades militares. Assim, os praças, dos quais obtivemos os registros, foram os homens que sentaram praça, durante 1922 e nos anos seguintes, em Santa Maria.

  Quando passamos a considerar somente os homens, de quem acessamos aos dados pessoais e descrição física, os números nos revelam que 41,24% deles eram descritos como brancos e 58,76% formavam o grupo marcado pela cor. A importância desses percentuais nos mostram que a mudança de sede do 1° RC para Santa Maria, uma cidade com grande presença de imigrantes europeus, não modificou a tendência das classes subalternas de preencherem grande parcela dos efetivos da Brigada Militar. Portanto, não era a localidade que definia a composição dos efetivos policiais da Brigada Militar, mas a quem estava destinado esse trabalho. Ou seja, o serviço estava destinado aos homens que deveriam ser controlados e vigiados, na Santa Maria e no Brasil de início do século XX, e esstes eram os “homens de cor”.

  Esses homens, estigmatizados por sua condição social de subalternos, foram esquecidos ou tornados invisíveis na história santa-mariense como sugeriu Farinatti (2010). Ao iluminar e tirar das sombras os lavradores nacionais de Santa Maria de fins do XIX, Farinatti demonstrou que as terras a serem colonizadas pelo imigrante europeu não eram terras de nínguém. Somavam-se a esses lavradores os homens que possuíam ascendência dos antigos escravos dos grandes e médios proprietários de terras, que também Farinatti (2010) demonstrou existirem em Santa Maria. O resultado da miscigenação dessa população de despossuídos, constituídos por lavradores nacionais expulsos do campo e pelos descendentes dos negros egressos do cativeiro, permite analisar o próximo gráfico. Os homens de cor, representados em nossa amostra, sentaram praça após a instalação do 1° RC em Santa Maria.

GRÁFICO 6 – HOMENS DE COR – 3° ESQUADRÃO – 1° RC EM SM 100% 100,00% 80,00% 60,00% 38,33% 29,17% 17,50% 40,00% 7,50% 7,50% 20,00% 0,00% Efetivo do 3° Esquadrão do 1° RC, de um total de 222 homens

  Fontes: Arquivadas no Centro Histórico Cel Pilar - 1° RPMon - Santa Maria - RS

  Os praças aqui descritos como morenos, com 38,33% da amostra, não são homens brancos com cabelos e olhos pretos e, por este motivo, teriam sido denominados de morenos. São homens, em sua grande maioria, descritos fisicamente com cabelos “carapinhos”, narizes grandes e achatados, fenótipo característico de homens negros ou mulatos. Os índios, que eram a maioria da primeira amostra dos homens de cor, (ver gráfico número 02) perderam sensivelmente espaço na corporação, o que talvez fosse fruto da miscigenação étnica resultado da transferência do regimento ou dos próprios indígenas, cujo ritmo de vida era menos sedentário. (RIBEIRO, 2010) Os mulatos, que figuravam na amostra anterior, agora são substituídos pelos “mistos”, o que aqui consideramos serem fruto da micigenação entre brancos, negros e índios. Os “homens de cor”, da Santa Maria da década de 1920, completavam trinta anos do fim do regime escravista brasileiro e, com ele, o fim do controle social através do direito de propriedade do homem sobre “outro homem”. Ao longo dessas três décadas, havia se desenvolvido uma política de controle dos corpos o que, segundo Foucault (1975), se deu em um momento histórico de disciplinarização. Nesse aspecto, podemos visualizar o controle dos corpos dos homens que justamente estavam encarregados de vigiar e policiar a sociedade. Isso porque, ao preencher os efetivos policias com pessoas oriundas das classes subaltenas da sociedade, o que se fazia, ao mesmo tempo, era cerceá-los e usá-los para controlar as classes perigosas, os homens de cor.

  Em uma cidade como Santa Maria, em que o comércio era domimado por judeus, libaneses e alemães, a agricultura pelos italianos, a viação férrea por belgas e franceses, com exceção dos cargos subalternos e as grandes estâncias eram privilégio de poucos, ao homem nacional de cor restavam poucas oportunidades de trabalho fixo. E, entre estas, ser policial, ao que tudo indica, fazia parte de suas possíveis escolhas e oportunidades. Opção de trabalho malremunerado em Porto Alegre, (MAUCH, 2004) e uso de farda não aceito pelos imigrantes em Santa Maria. (CARVALHO, 2005) Assim, o trabalho policial era efetuado nas ruas de Santa Maria e cidades da região pelos praças da Brigada Militar, em especial, os homens de cor.

  Em 4 de janeiro de 1896, foi criada a Polícia Judiciária Estadual que tinha a incunbência de investigar os crimes já efetuados. Tal instituição foi criada com a intenção de reorganizar o aparato policial de maneira que o governo estadual possuísse maior controle sobre as guardas municipais. (MAUCH, 2004) Entretanto, de acordo com os registros a que tivemos acesso, os praças da Brigada Militar não deixaram de se envolver na investigação criminal. De fato, verificou-se uma atuação conjunta da Brigada Militar com a Polícia Judiciária Estadual. A Brigada Militar atuava na prevenção dos crimes, enquanto a Polícia Judiciária operava na investigação dos crimes já perpetrados. Os praças da Brigada Militar em Santa Maria, na década de 1920, portanto, faziam, além do tradicional patrulhamento ostensivo das ruas da cidade, também o serviço de investigação policial com a Polícia Judiciária Estadual. É o que passamos a representar no gráfico a seguir, com base nos assentamentos dos praças sobre suas atividades de investigação policial nas cidades circunvizinhas à Santa Maria, pois o registro da atividade de diligência policial contido nos livros de assentamento só eram feitos, quando esse serviço fosse efetuado fora de Santa Maria.

GRÁFICO 7 – PRAÇAS COM REFERÊNCIA À DILIGÊNCIA POLICIAL 100% 74,40% 100,00% 80,00% 60,00% 25,60% 40,00% 20,00% 0,00% Sem Referência Com Referência de diligência Total de Praças de diligência Policial Policial

  

Praças do 3° Esquadrão com direta referência a serviços policiais prestados em outros

municípios da região central do estado .

  Fontes: Arquivadas no Centro Histórico Cel. Pilar - 1° RPMon - Santa Maria.

  Os 25,6% de referências diretas à execução de diligências policiais por praças da Brigada Militar do 1° RC diziam respeito às incursões policiais direcionadas aos municípios circunvizinhos de Santa Maria, como por exemplo, São Gabriel, Caçapava do Sul, Rosário do Sul e São Sepé. Esses apontamentos, em relação a outros municípios e não à Santa Maria, tinham relação com a prática de apenas se registrarem os trabalhos que resultassem em locomoção de praças para fora da guarnição de Santa Maria. Podemos assim supor que a prática policial na sede do 1° RC, ou seja, Santa Maria, devia ser um serviço de constante patrulhamento ostensivo das ruas, efetuado por todo o efetivo do regimento.

  Do policiamento que era feito pelas patrulhas da Brigada Militar, nas ruas de Santa Maria, fazia parte o soldado José Lourenço Pereira. Ele havia nascido em 1889 e sentado praça em 21/07/1924, já com seus trinta e cinco anos de idade e fora descrito como preto.

  Esse policial, quando estava no serviço de patrulha, agrediu um cidadão sem motivo algum, como descrevem seus assentamentos, pois este não havia reagido à voz de prisão, o que resultou para o policial em trinta dias de detenção. Já o praça Virissimo de Almeida Pinto, que

  

sentou praça em 19/04/1922, é descrito como moreno, fora preso inúmeras vezes por estar

  embriagado, por abandono de posto quando no serviço de patrulha e por não prender um camarada seu, que estava provocando desordens em local público.

  Carvalho (2005) demonstrou em sua pesquisa que havia espaço para relações de cordialidade entre as patrulhas da guarda municipal e os populares em Santa Maria. Relações descritas pela pesquisadora com a intenção de demonstrar que laços de amizade e vínculos

  étnicos poderiam fazer parte das atitudes e decisões policiais em momentos de confronto no cotidiano policial. Podemos observar, na postura do policial Virissimo, possíveis relações de cumplicidade ou mesmo de identificação étnica com seu camarada, o que talvez o tivesse induzido a assumir os riscos de uma punição, ao não tomar uma atitude repressiva contra seu companheiro que provocava desordens públicas. O não cumprimento de suas funções e atribuições policiais resultou na sua prisão por trinta dias, mas não o impediu de ser escolhido

  

,entre os demais praças, para dar apoio à polícia judiciária, serviço de restrita seleção na

época.

  Os policiais eram os principais responsáveis pelo cumprimento das normas contidas no código de posturas, principalmente, as regras que a respeito de hábitos e lazeres populares. O policial Fioravante Ferreira da Silva, que sentou praça em 06/01/1916, é descrito como de cor “mista” (mulato) e foi preso por envolver-se com meretriz em local público. Enquanto o policial Desidério de Vasconcellos Costa, que sentou praça em 01/02/1924, é descrito como moreno, foi preso por agressão a um superior hierárquico, e ainda, por brigar em casa de conhecida meretriz, invadir a casa de um colega de farda e tentar agredi-lo por causa da referida prostituta.

  A indisciplina de praças da Brigada Militar não significava uma falha na formação do policial, antes disso, foi um dos terrenos de embate, de imposição de limites aos “nocivos comportamentos” dos subalternos da sociedade civil, e também contra os subalternos da caserna. “Ou seja, a vigilância „espiritual‟ do agente social expropriado que deveria se tornar trabalhador se completava, no cotidiano, pelo exercício da vigilância policial.” (CHALHOUB, 2001, p.50) Os policiais vigiavam a si mesmos pela própria formação rígida da hierarquia militar, além de serem cobrados a todo instante pelo olhar público.

  Estudar os populares da segunda metade do século XIX nos propôs inúmeros questionamentos ao longo da pesquisa. Com o passar do tempo, essas questões foram tomando forma mediante discussões teórico-metodológicas, as quais nos direcionaram para fins do XIX e início XX. Nossa pesquisa historiográfica demonstrou que a cidade de Santa Maria não estava desconectada dos acontecimentos político-sociais do contexto nacional. A preocupação em controlar os populares e moldar seus hábitos e costumes fazia parte também do cotidiano santa-mariense. O surto populacional e econômico de fins do XIX acentuou a necessidade de controle social a partir da chegada dos imigrantes europeus e da Viação Férrea, o que catalisou e deflagrou, enormemente, a disputa por espaço de sobrevivência na multiétnica Santa Maria. A sociedade em questão buscava redefinir suas balizas sociais no período pós-abolição, as quais deviam manter os populares nacionais de cor na condição de subalternos. A luta pela sobrevivência, que se traduzia na concorrência pela posse da terra e por oportunidades de trabalho, condições básicas para alcançar a plena cidadania, era negada aos nacionais de cor.

  A análise da colocação profissional dos homens marcados pela cor surgiu como uma das possibilidades de compreensão das oportunidades de socialização e sobrevivência a eles destinadas. A polícia se apresentava como uma entre outras possíveis profissões a que os homens de cor poderiam ter acesso e ocupar no contexto social em fins do XIX. A polícia, que, na década de 1890, passou por reformulações estruturais influenciadas pelo contexto revolucionário de 1893, que foram o motivo principal da criação da Brigada Militar em 1892. era assim uma instituição policial-militar que surgia como uma oportunidade de inclusão social dos populares que deveriam escapar ao rótulo de desocupados e vagabundos.

  O trabalho policial era considerado um serviço temporário para praças, pois estes não possuíam estabilidade funcional na instituição, que possuía grande rotatividade de pessoal. Isso significava que qualquer pessoa, em bom estado de saúde, poderia estar apto a sentar “praça de polícia”, ocupação passageira e desprovida de prestígio profissional, portanto ocupada por qualquer homem. A falta de critério na seleção dos policiais e a irrestrita possibilidade de acesso à profissão estavam na contramão do discurso político, que desejava impor barreiras à ascensão social dos subalternos, aos quais devia ser concedida uma cidadania de segunda classe. Então, colocando os subalternos na função de sentinelas da moral e dos bons costumes, sua ação repressiva recaía não só sobre os populares, mas também nos cidadãos tidos como trabalhadores e ordeiros, o que era foco de constantes críticas.

  A criação da Brigada Militar não determinou o fim do desprestígio e falta de profissionalismo creditados aos policiais pelas autoridades políticas, pelos meios públicos de comunicação e pelas classes sociais mais abastadas. Os

  “praças de polícia” herdaram os estigmas sociais que rotulavam os nacionais de cor como preguiçosos e vagabundos, o que veio a somar- se ao desprestigio do “estar policial”, atividade que contava com o rancor da população em geral.

  Praças da Brigada Militar desempenhavam uma posição antagônica na sociedade de fins do XIX e início do XX. Obrigados, devido à função policial, reprimiam as práticas dos populares, classe social da qual faziam parte. Eram vigiados e controlados pelos oficiais que pertenciam às classes sociais mais abastadas da sociedade, com os quais se antagonizavam dentro da própria instituição policial. Uma vez que os oficiais da Brigada Militar possuíam a possibilidade de aposentadoria, mas isso não se estendia a praças. No cumprimento de suas funções policiais, os praças ainda se contrapunham, frontalmente, aos operários industriais grevistas, que reivindicavam melhores salários e jornada de oito horas diárias de trabalho. O antagonismo entre operários e praças não ficava somente por conta da ação policial, suas diferenças passavam por rivalidades étnicas, pois grande parte do operariado gaúcho era de origem imigrante.

  A substancial presença de homens de cor, na condição de policiais militares, nos primeiros anos da República, como demonstramos em nossa pesquisa, manteve-se como uma tendência nas décadas subsequentes à criação da Brigada Militar. A imagem do efetivo policial proporcionada pela análise e leitura dos livros de assentamento de praças da Brigada Militar, entre os anos de 1895 e 1903, revelou a tendência em compor o corpo policial por homens nacionais, os homens de cor. Composição étnica que julgamos ter sido uma constante ao longo das primeiras décadas do século XX. Assim, nos primeiros anos a partir de 1922, quando o 1° Regimento de Cavalaria passou a ter sede em Santa Maria, manteve-se a tendência de recrutar os nacionais de cor para o serviço policial.

  Em uma conclusão simplista, recrutar os nacionais de cor poderia ser interpretada como uma atitude pensada pelo estado, visando usar os subalternos para reprimir seus próprios costumes, e assim, os cidadãos de pleno direito não teriam que sujar suas mãos. Tal fato nos faz concluir, de maneira inversa, que a historiografia centrada, mais especificamente na Brigada Militar, não a descreve como portadora de uma imagem popular, porque faz da sociedade. Interpretamos isso, subjetivamente, como reação à própria ação policial, pois quando esta atendia aos anseios da sociedade civilizada e moderna desejada pelos governantes, imediatamente sua ação era correlacionada à boa atuação dos oficiais, legítimos representantes do estado. Quando as ações policiais eram consideradas desastradas e foco de críticas públicas, logo eram correlacionadas àos “praças de polícia”, assim genericamente identificados.

  Os estigmas do passado escravista, colados aos egressos do cativeiro e à toda uma população nacional de cor, contribuíram de forma significativa para o desprestigio da atividade policial. Provocar desordens, brigar com civis e companheiros de farda, ingerir bebidas alcoólicas durante o serviço, envolver-se com meretrizes são alguns dos motivos das punições aplicadas aos policiais, os mesmos que eram encarregados de reprimir tais comportamentos. A ação repressora imposta pela polícia era recebida com rancor pelos populares que compartilhavam dos mesmos hábitos e costumes dos próprios policiais, o que aumentava a indignação popular e o receio das classes abastadas em relação aos policiais. O sentimento de que era necessário policiar a polícia, expresso no discurso político e nos periódicos, justificava-se pela composição popular dos efetivos policiais.

  Não foi objetivo neste trabalho apontar verdades ou certezas absolutas, antes, nossa intenção foi questionarmos como haviam se processado os preconceitos étnicos na pós- abolição. Preconceitos que se transfiguraram em estigmas sociais contra toda uma parcela da sociedade brasileira marcada pela cor de sua pele e que, na figura do policial, teve seus “atributos pejorativos” acentuados de forma contundente. Ser um policial preto, pardo, moreno, mulato ou misto era, necessariamente, credenciar-se a ser um criminoso em potencial. Portanto, para os homens de cor, ser policial era não só uma atividade carregada de estigmas, mas também de possibilidades, que não poderiam ser desprezadas. Logo, usar a farda poderia ser um facilitador de suas intenções mais imediatas, fossem elas de acordo com a lei ou não.

FONTES: Arquivo do Centro Histórico Coronel Pilar ( 1° RPMon) em Santa Maria

  • Livro n° 1 (1895 - 1903) do 1° ESQD
  • Livro n° 1 (1895 - 1902) do 2° ESQD
  • Livro n° 1 (1895 - 1903) do 3° ESQD
  • Livro n° 1 (1895 - 1904) do 4° ESQD
  • Livro n° 6 do 1° ESQD (1922
    • – 1926)

    >Livro n° 5 do 2° ESQD (1919 - 1923)
  • Livro n° 6 do 2° ESQD (1923 - 1925)
  • Livro n° 5 do 3° ESQD (1918 - 1923)
  • Livro n° 6 do 3° ESQD (1923 - 1924)
  • Livro n° 5 do 4° ESQD (1917 - 1924)
  • Livro n° 6 do 4° ESQD (1920 - 1924)

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  CARVALHO, Daniela Vallandro.

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  as Relações Interétnicas Populares Santa Maria

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