Para o estudo de um direito senhorial nas terras medievais de Alcobaça: o montado dos porcos A contribution to the study of a manorial right in the medieval lands of Alcobaça: the montado dos porcos

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ISSN 1646-740X

  De entre aqueles que geralmente eram atributo do senhor jurisdicional contavam-se, ao menos durante a Plena e sobretudo a Baixa Idade Média, os que podiam ser cobrados1 pela fruição dos incultos, nomeadamente dos espaços florestais, com toda a gama de Veja-se GONÇALVES, Iria – O património do mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV. 92-143), verificamos que, para lá dos Mestres das Ordens Militares e de alguns bispos –arcebispo de Braga e bispos de Lisboa, Coimbra e Évora, aliás, todos eles com os rendimentos divididos entre mesa episcopal e mesa capitular, para lá de alguns apréstamos –, só o mosteiro de Santa Cruz deCoimbra foi avaliado em maior quantia, dividida, também ela, entre mesa prioral e mesa conventual.

ISSN: 1646-740X

  De entre aqueles que geralmente eram atributo do senhor jurisdicional contavam-se, ao menos durante a Plena e sobretudo a Baixa Idade Média, os que podiam ser cobrados1 pela fruição dos incultos, nomeadamente dos espaços florestais, com toda a gama de Veja-se GONÇALVES, Iria – O património do mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV. 92-143), verificamos que, para lá dos Mestres das Ordens Militares e de alguns bispos –arcebispo de Braga e bispos de Lisboa, Coimbra e Évora, aliás, todos eles com os rendimentos divididos entre mesa episcopal e mesa capitular, para lá de alguns apréstamos –, só o mosteiro de Santa Cruz deCoimbra foi avaliado em maior quantia, dividida, também ela, entre mesa prioral e mesa conventual.

3 Na sequência de Julius Klein , parece consensual afirmar-se que a origem do montado

  Actas “I II – O porco A Idade Média criava os seus animais, em primeiro lugar, para deles obter produtos e serviços e só quando começavam a tornar-se menos rendosos e eventualmente quando jávelhos – e era o caso, sobre todos os outros, dos bois de lavoura – se sacrificavam para a obtenção de carne. Tratando-se de animais para venda, o aproveitamento da montanheira representava já uma grande vantagem para a negociaçãodos preços; tratando-se daquele que se havia escolhido para a matança do ano ou, no caso de muitas famílias citadinas, daquele que havia sido comprado para o mesmo 31 efeito , esse acabaria depois de ser cevado junto de casa, com toda a espécie de restos 32 possíveis de carrear .

III. 1 – As matas

  Sendo a mata formação imprescindível a uma Idade Média que de tantas maneiras a utilizava, ela tinha de encontrar-se, mais ou menos dispersa e desgastada, mais oumenos compacta e bem cuidada, mas ajudando a compor todas as paisagens. Mas como todas as florestas climácicas, que estas eram, apresentavam-se compostas por grande heterogeneidade florística, que aqui se mostrava particularmenterica, a reflectir a interpenetração de influências climáticas que no nosso País se verificam, com as respectivas consequências no comportamento da flora.

40 Mediterrâneo , mas coexistindo todas elas. E se a mais vincada dessas influências nas

  41 terras de Alcobaça é a do clima mediterrânico, os solos calcários aqui encontrados , 42 por serem quentes e secos favorecem o desenvolvimento dessas plantas , pelo que acolhem em boas condições azinheiras, carrascos e outras árvores e arbustos muito 43 enriquecedores destas matas e em especial na vertente que aqui mais interessa: na 44 generosa dádiva de frutos de Outono. Assim sendo não apenas pelas dominâncias mas também pelas outras plantas que as acompanhavam, em todas as matas haveria bomalimento para os cerdos da terra e ainda outros, de fora, que aí vinham.

III. 2 – Os direitos de uso – o montado

  Como a generalidade dos senhores medievais dentro das terras da sua jurisdição, os monges de Alcobaça reservavam para si próprios, em exploração directa, a totalidade olhar de um geógrafo . As normas então estabelecidas baseavam-se em sentenças decorrentes de pleitos entre o mosteiro e algumas das suas vilas e posteriormente aprovadas por D.

47 Duarte , as quais pouco se afastavam do que os monges afirmavam ser a prática então

  Um documento de 1380 respeitante a Aljubarrota diz-nos que desde o começo da povoação até 1357, pouco mais ou menos, o concelho esteve na posse de uma matano termo para pascigo dos seus gados e para outras utilizações várias e que só a partir 50 daí os abades começaram a colocar entraves ao livre usufruto da mata . Sabe-se, por exemplo, que o mosteiro de Moreruela, que tinha possessões em Trás-os-Montes, gozava do privilégio de os seus gados poderem pastar em todo o lado e de os seus pastores obterem tudo o quenecessitassem, incluindo varas compridas para varejar a lande (ALFONSO ANTÓN, Isabel – Lacolonización cisterciense en la meseta del Duero. El dominio de Moreruela (siglos XII-XIV) .

69 XIV estava fixada em cinco soldos e mais tarde, no segundo quartel de Quatrocentos

  56-58); dado que não eram estes os espaços da sua primeira escolha, uma vez que preferia o clima mais húmido das terras altas do Norte e os seus solos graníticos;sendo, nos coutos de Alcobaça, menos abundantes e precisando de maiores cuidados, a presença dos animais era aí mais controlada, mas isso não os impedia de entrar em alguns soutos – não em todos – a83 aproveitar os seus frutos. Em Abrantes, por exemplo, sabe-se que apastagem era livre para os residentes no concelho e os de fora só se as utilizassem sem licença é que estavam sujeitos, e em conceito de multa, a ser-lhes tomado um porco em cada vinte, “asy dos bons como95 dos que tais nom forem” (“O LIVRO DE POSTURAS da vila de Abrantes…”, p. 81).96 TT, O.

XII- XIV) . Lisboa: Ed. Colibri, 2015

  COMO CITAR ESTE ARTIGO Referência electrónica: GONÇALVES, Iria – “Para o estudo de um direito senhorial nas terras medievais deAlcobaça: o montado dos porcos”. Medievalista 22 (Julho-Dezembro 2017).

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