UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE MESTRADO MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE MESTRADO

  

MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ

USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO

NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO

  São Luís 2011

MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para a obtenção do Título de Mestre em

Ciências Sociais.

  Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller .

  São Luís 2011 CRUZ, Marco Antônio Martins da. Usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do Maranhão/Marco Antônio Martins da Cruz.

  • – São Luís, 2011 140f. Impresso por computador (fotocópia). Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller. Dissertação (Mestrado)
  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2011.

  1.

  • – Uso I. Título CDU 316.4.063.3:711.61 (812.1)

  

MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ

USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO NAS PRAđAS DE SấO

LUÍS DO MARANHÃO

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para a obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais.

  Aprovada em: ____/____/____

  

BANCA EXAMINADORA

  ______________________________________________

  

Prof. Dr. Paulo Fernandes Keller (Orientador)

  Doutor em Ciências Humanas (Sociologia) Universidade Federal do Maranhão

  ______________________________________________

  

Prof. Dr. Carlos Frederico Lago Burnett

  Doutor em Arquitetura e Urbanismo Universidade Estadual do Maranhão

  ______________________________________________

Prof. Dr. José Odval Alcântara Jr

  Doutor em Ciências Sociais Universidade Federal do Maranhão

  A Maria Lúcia, sempre companheira, pelo firme apoio e compreensão, sobretudo nos momentos de afastamento de seu convívio. AGRADECIMENTOS A Deus, pela enigmática dádiva da vida.

  Aos meus pais in memoriam Gilberto Martins da Cruz e Dária do Carmo Mendes Guimarães da Cruz, pelo eterno carinho, base na criação e perseverança no ensino da responsabilidade para com os afazeres diários.

  À minha esposa Maria Lúcia Soares da Cruz, pelo seguro apoio e compreensão nos momentos de afastamento para a redação deste estudo. Aos meus filhos Allan Kássio Beckman Soares da Cruz, Ricardo Bruno Beckman

  Soares da Cruz, Deborah Duane Beckman Soares da Cruz e Jean Renan Beckman Soares da Cruz, pela colaboração na pesquisa com a tabulação dos resultados.

  Aos meus irmãos Paulo Marcelo Martins da Cruz, Antônio Carlos Martins da Cruz e Márcia Valéria Martins da Cruz, pela torcida. À instituição de fomento Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento

  Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), pelo incentivo com a concessão de apoio financeiro, na forma de Auxilio

  • – Taxa de Bancada, como forma de apoiar a execução desse projeto de mestrado.

  Ao meu orientador, Professor Doutor Paulo Fernandes Keller, pela pronta atenção e orientação segura no percurso de pesquisa. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFMA, em especial a Igor Gastal Grill, Marcelo Domingos Sampaio Carneiro, Elizabeth Maria

  Beserra Coelho, Eliana Tavares dos Reis, Mundicarmo Maria Rocha Ferretti, Sergio Figueiredo Ferretti, que lecionaram as disciplinas cursadas, contribuindo em parte para a elaboração desta dissertação.

  A Mary Lourdes Gonzaga Costa, secretária do PPGCS, pela permanente atenção. A Rosana Santos Pinheiro, auxiliar da Secretaria do PPGCS, pelo bom atendimento.A Soraya Cristina Barbosa Carvalho, secretária da Revista Pós-Ciências Sociais, pela garantia na comunicação das informações do Programa.

  A todos os amigos e colegas de turma do Mestrado pelos momentos de convivência nesses dois anos de muitas aprendizagens. A todos, muito obrigado.

  “O espaço não é uma dimensão vazia ao longo da qual agrupamentos sociais vão sendo estruturados, mas deve ser considerado em função do seu envolvimento na constituição de sistemas de interação”.

  (Anthony Giddens)

RESUMO

  Usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do Maranhão compõe-se de um estudo sobre as práticas sociais de usos atribuídos pelos citadinos ao espaço social público contemporâneo da cidade. Compara-se o transcurso das condições sociais de usos, apropriações e interações nas praças públicas e o processo de construção de sociabilidades no cotidiano por indivíduos e grupos, enquanto habitantes de diferentes territórios, regiões e bairros da cidade. São discutidos em uma perspectiva interacionista os conceitos de espaço e lugar onde indivíduos e grupos estabelecem ações, relações e interações sociais. Descreve-se o processo histórico de transformações urbanas de São Luís, com seus reflexos nas mudanças e permanências na estrutura da cidade e configurações sociais nas praças. Estudam-se as articulações individuais e coletivas na composição do espaço social. Observa-se como a proximidade e o distanciamento possibilitam a construção de fronteiras sociosimbólicas entre indivíduos e grupos. Para compreender os usos, as apropriações e as interações sociais no espaço público são estudados os casos de três praças da cidade: Praça Gonçalves Dias, Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês. Por meio de observação direta e entrevistas são identificados e examinados os procedimentos interacionais que permitem a indivíduos e grupos estabelecer arranjos sociais direcionados aos usos e apropriações sociais do espaço público nas praças. Evidenciam-se, assim, as dinâmicas sociais dos rituais decorrentes das sociabilidades cotidianas, que caracterizam modalidades e estratégias de convívio na cidade.

  Palavras-chave: Uso. Apropriação. Espaço. Público. Praça. Interação.

ABSTRACT

  Uses and social appropriation of public space in the squares of São Luís do Maranhão is composed of a study on the social practices of uses attributed by city dwellers to the contemporary social space of the city. It compares the course of the social uses, appropriations and interactions in public places and the construction of sociability in everyday life by individuals and groups, as inhabitants of different territories, regions and neighborhoods. The concepts of space and place where individuals and groups establish actions, relationships and social interactions are discussed in an interactionist perspective. It is described the historical process of urban transformation of São Luís, with its reflections on the changes and continuities in the structure of the city and social settings in the squares. It is studied the collective and individual joints in the composition of social space. It notes how the proximity and distance allow the construction of socio symbolic boundaries between individuals and groups. In order to understand the uses, appropriations and social interactions in public space are studied the cases of three squares of the city: Gonçalves Dias Square, Ressurreição Square, and Conjunto dos Ipês Square. Through direct observation and interviews are identified and examined the interactional procedures that allow individuals and groups establish social arrangements directed to the social uses and appropriations of public space in squares. Became evident, therefore, the social dynamics of everyday rituals derived from sociability, featuring arrangements and strategies of living in the city.

  Keywords: Use. Appropriation. Space. Public. Square. Interaction.

  LISTA DE ILUSTRAđỏES Figura 1

  • – Mapa de São Luís com a localização das praças pesquisadas ............................. 94 Figura 2
  • – Mapa do Centro de São Luís com a localização da Praça Gonçalves Dias ......... 95 Figura 3
  • – Vista parcial da Praça Gonçalves Dias................................................................. 98 Figura 4
  • – Fotografia de satélite da Praça Gonçalves Dias ................................................... 99 Figura 5
  • – Cenários dos usos e apropriações na Praça Gonçalves Dias ................................ 105 Figura 6
  • – Mapa com a localização Praça da Ressurreição ................................................... 109 Figura 7
  • – Fotografia de satélite da Praça da Ressurreição ................................................... 110 Figura 8
  • – Vista parcial da Praça da Ressurreição ................................................................ 112 Figura 9
  • – Cenários dos usos e apropriações na Praça da Ressurreição................................ 115 Figur>– Mapa com a localização da Praça do Conjunto dos Ipês ................................... 117 Figura 11
  • – Fotografia de satélite da Praça do Conjunto dos Ipês ........................................ 119 Figura 12
  • – Vista parcial da Praça do Conjunto dos Ipês ...................................................... 121 Figura 13
  • – Cenários dos usos e apropriações na Praça do Conjunto dos Ipês ..................... 124

  LISTA DE TABELAS Tabela 1

  • – Evolução Demográfica de São Luís (1612 – 1820) ............................................... 65 Tabela 2
  • – Evolução Demográfica de São Luís (1872 – 2010) ............................................... 69 Tabela 3
  • – Evolução Demográfica de São Luís e Maranhão (1991 – 2010) ........................... 70 Tabela 4
  • – População Residente em São Luís (2010) ............................................................. 71

  

SUMÁRIO

  

4 USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO NAS PRAđAS

DE SÃO LUÍS ........................................................................................................................ 79

  

5 CONCLUSÃO ......................................................................................................... 126

  4.2.4 A Praça do Conjunto dos Ipês ................................................................................... 117

  4.2.3 A Praça da Ressurreição ............................................................................................ 107

  4.2.2 A Praça Gonçalves Dias ............................................................................................ 95

  4.2.1 Introdução ao estudo de caso..................................................................................... 90

  

4.2 Usos e apropriações sociais do espaço público: o caso das praças de São Luís .... 90

  

4.1 Usos e apropriações sociais do espaço público: introdução .................................. 79

  tradicional ao supermoderno ................................................................................................... 72

  1 INTRODUđấO ....................................................................................................... 12

  

3.2 Mudanças e permanências na composição urbana e os usos das praças: do

  

3.1 Histórico das transformações urbanas de São Luís ............................................. 55

  

3 HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO LUÍS .............. 55

  

2.3 As praças enquanto espaço público: conceituação e configurações ...................... 49

  

2.2 Espaço social público: condições objetivas para as interações................................ 37

  

2.1 Espaço e lugar: atores e relações sociais ................................................................. 22

  

2 REVISÃO DE LITERATURA .............................................................................. 22

  REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 137 ANEXO ..................................................................................................................... 141

  Neste estudo são analisados os usos, as apropriações e as interações sociais estabelecidas e mantidas no espaço público de praças localizadas na cidade de São Luís

  • –MA. Estas são compreendidas como lugares públicos de interação social, para refletir sobre como é construído e cultivado o processo de sociabilidades, as múltiplas formas em que transcorre a ordem da interação e como são exercitadas e sustentadas na cidade as relações intersubjetivas nas diversas dimensões sociais: cultural e simbólica, econômica e política. São pensados de modo articulado os conceitos fundamentais de espaço público e privado, praça, atores sociais, interação, sociabilidade, relação social, identidades, proximidade, distanciamento, individualidade, coletividade, usos e apropriações sociais. Reflete-se, portanto, sobre os atores

  1

  sociais copresentes e suas práticas interacionais, no contexto sócio-histórico contemporâneo, no qual prevalecem novas dinâmicas que requalificam os espaços públicos urbanos.

  O objeto de investigação refere-se aos usos, às apropriações e às interações sociais nos lugares constituídos em espaços públicos específicos da cidade de São Luís do Maranhão, a saber: Praça Gonçalves Dias, Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês. Justifica- se a escolha das três praças pela possibilidade de admitir uma análise que comportasse identificar e confrontar práticas interacionais em bairros e contextos sociais diversificados.

  Discutir usos, apropriações e interações sociais no espaço público é remeter às dinâmicas sociais básicas, concebendo a cidade como espaço de convivência e as praças públicas como lugares onde ocorrem ritos sociais de interação. Como pontua Goffman (2011), objetiva-se evidenciar a ordem comportamental encontrada nas praças de São Luís, quando as pessoas entram na presença imediata de outras. Considera-se teoricamente o espaço dos ajuntamentos sociais, no contexto do que Goffman (2011) chama de sociologia das ocasiões, observando as ações das pessoas em atividades interacionais temporárias. Afirma Goffman (2011, p. 9) que, nessas ações entre atores,

  “estão envolvidos um breve período de tempo, uma extensão limitada no espaço, e os eventos são restritos àqueles que devem ser completados depois de iniciados. Há um emaranhado complexo com as propriedades rituais das pessoas e 1 com as formas egocêntricas da territorialidade”.

  

Copresentes, neste contexto, refere-se à copresença que, para Goffman (2009, p. 11), pode ser entendida como

“o período em que o indivíduo está na presença imediata dos outros”. Ainda segundo este autor, “a copresença

  Assim, o que se visa é pensar sobre os citadinos, indivíduos e grupos que vivem o cotidiano contemporâneo da cidade de São Luís. Como diz Frúgoli Jr (2007, p. 48), interessa estudar os processos que “efetivamente emerge[m] de um encontro público, [...] Tendo em vista, portanto, que o citadino circula por mundos diferentes, contíguos porém distintos”. É parte dessa realidade citadina que se investigou.

  Na introdução a este estudo é oportuno considerar o que levou o pesquisador a indagar, querer estudar e refletir sobre os usos e apropriações sociais de praças, entre tantos prováveis fenômenos passíveis de investigação no universo social. O interesse pelo estudo das interações e sociabilidades nas praças foi despertado no curso de Graduação em Ciências Sociais (1983-1986) e aprofundado em uma Especialização em Sociologia Urbana (1994), concluídos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No exercício da docência, desde 1991, deve-se mencionar a continuidade dos estudos relacionados à temática da cidade.

  As praças públicas estão localizadas em determinados espaços físicos e sociais, nos quais são estabelecidas interações entre indivíduos e grupos que ali se encontram; lugares esses que se fazem presentes também no imaginário social coletivo, nas ideias e nas representações de mundo das pessoas. Foi no espaço público em que se fundaram historicamente as noções de política e cidadania. Não se pode conceber o espaço urbano sem incluir igualmente esses locais por onde se deslocam e nos quais interagem ou convivem as pessoas que habitam determinada região. São ambientes propícios à convivência, onde se desenvolve a construção de interações e envolvimentos na cidade.

A vida urbana “pressupõe encontros, confrontos das diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos dos modos de viver, dos „padrões‟ que coexistem na cidade”

  (LEFEBVRE, 2009, p. 22). Seja qual for o tamanho da cidade, seus habitantes percebem as praças como lugares peculiares, nos quais ocorrem encontros, interações, sociabilidades, jogos, manifestações culturais, feiras, trocas mercantis e não mercantis. Fatos ocorridos em espaços como esses são eventualmente rememorados e relatados em reminiscências pelas gerações mais velhas, recordando episódios vividos na frequência às praças em outros tempos.

  Entendem-se as praças como ambientes de interações heterogêneas. Conforme sua localização é possível identificar em seu entorno residências, edifícios públicos, igrejas, vendedores estabelecidos ou ambulantes e outras atividades como mendicância e prostituição. Configurações estas que permitem compor e renovar cotidianamente as modalidades de usos, apropriações e interações sociais no espaço público.

  As praças, em uma concepção tradicional, costumam ser pensadas como núcleos irradiadores a partir dos quais a urbe se desenvolve. Essa ideia, contudo, pode ser questionada na vida social contemporânea, quando a praça deixa de ter o sentido político que tivera no passado. É pertinente perguntar, então, se outros espaços têm ocupado o lugar social reservado outrora à praça pública. A propósito, representam as praças de alimentação nos shopping centers novos espaços de interação social e de sociabilidades na atual sociedade capitalista.

  Assim sendo, visa a pesquisa, por meio de um percurso investigativo a praças da cidade, compreender o espaço público considerando suas destinações, a concorrência relativa às suas apropriações sociais, seja pelos moradores da vizinhança, pelos que ali permanecem algumas horas dos dias, pelos que circundam aquele espaço, pelos que por lá transitam e pelo Estado, o qual deveria, em tese, zelar por esse locus privilegiado de interações e sociabilidades.

  A questão de pesquisa se coloca a partir de quais costumes e sob quais condições estruturais e interacionais os citadinos estabelecem, mantêm e tornam possíveis os usos e apropriações sociais em praças (públicas) na cidade de São Luís-MA no transcurso das situações sociais. Inicialmente, foram verificadas no cotidiano as diferentes maneiras pelas quais indivíduos e grupos conduzem espécies e padrões de usos nesses espaços urbanos. Do mesmo modo, constataram-se interações sociais marcadas por diversos tipos de trocas, sejam gratuitas, onerosas ou ainda marcadas por intercâmbios simbólicos de variados bens.

  Investiga-se, portanto, como os atores em suas interações são condicionados pelo contexto social da copresença nas praças de São Luís. O que os atores sociais costumam fazer para organizar e estabelecer espaços que são usados e apropriados nas praças? Quais são os padrões de conduta característicos das formas de revezamento para uso? Ocorrem conflitos interativos motivados por códigos de condutas, tradições, regras e normas divergentes entre os frequentadores desses espaços? São estabelecidos consensos para a distribuição e seletividade

  2 2 desses usos sociais? Quais os recursos que indivíduos e grupos lançam mão nas interações

Recursos empregados pelos agentes visam “manter um senso coerente dos eventos centrais das trocas” para cultivar as relações e sustentar as situações sociais? Como são articuladas no processo de interação as condições sociais para o uso e a apropriação de determinados territórios? Podem ser verificadas diferenças ao serem confrontados os usos sociais em bairros diversos? Quais são e como transcorrem os usos, as apropriações e as interações sociais no processo de construção de sociabilidades no cotidiano por indivíduos e grupos, enquanto habitantes de uma região da cidade? Como ocorrem as interações entre indivíduos conhecidos que conservam relações de proximidade com estranhos?

  A dissertação pretende contribuir com as discussões e debates sobre as formas de interações estabelecidas no espaço urbano, oferecendo meios para a elaboração de um diagnóstico acerca das sociabilidades nesse ambiente. A investigação a respeito das relações entre os diversos atores que circulam, transitam, ocupam, usam e vivem esses lugares deve proporcionar subsídios para reflexão a respeito das interações entre indivíduos, grupos e instituições nas praças da cidade de São Luís contemporânea.

  A pesquisa tem seu objeto associado à Antropologia e à Sociologia Urbana. As produções teóricas do urbanismo, disciplina conexa, merecem igualmente destaque. Os referenciais teóricos que orientam a metodologia deste estudo estão baseados, sobretudo, em autores como Max Weber, Georg Simmel, Norbert Elias, Erving Goffman, Anthony Giddens, Harold Garfinkel, Gilberto Freyre, Roberto DaMatta, José Alcântara Jr., entre outros. Discutem eles as interações e sociabilidades em determinados espaços sociais.

  Weber (2009) formulou conceitos adequados ao tema da pesquisa, como ação social e relação social, a qual pode ser comunitária ou associativa. Diferenciou ainda uso e costume, que permitem pensar os usos sociais das praças. O conceito e categorias da cidade (WEBER, 1987) possibilitam também relevantes aportes teóricos para analisar as praças no contexto urbano.

  Do mesmo modo, pensa-se a noção de sociabilidade. Para Simmel, este conceito expressa a aproximação com outras pessoas (SIMMEL, 2006). A ausência de sociabilidade pode ser desenvolvida em razão de atitudes opostas à aproximação, causando dificuldade de diálogo e convivência. Com isso, podem ser analisados os grupos e redes sociais de interações que se formam no cotidiano. Para caracterizar os espaços de sociabilidade utilizam-se também

  

suas situações de ação, envolvem a contextualidade das ações comuns, a observação de convenções normativas e as concepções de Elias. Considera este autor as redes de interdependência que os indivíduos estabelecem nas configurações que lhes são próprias (ELIAS, 1994). O conceito de configuração é aplicado à análise das formas de interação que tornam efetivos os usos sociais das praças.

  Estão, ainda, incluídas na pesquisa as concepções teóricas de Goffman. Trata ele da representação, que seria a totalidade da atividade de determinado indivíduo, em dada ocasião, realizada com o objetivo de influenciar de certa maneira um dos participantes (GOFFMAN, 2009). Alude este autor a diferentes estratégias e técnicas de atuação, analisando a dinâmica social como se acontecesse em palcos

  • – as praças –, com os atores desempenhando papéis de diferentes personagens.

  Da mesma forma, Giddens (2005b) considera a vida social a partir da interação que ocorre entre indivíduo e sociedade. Na condição de agente de suas ações, o indivíduo usa sua consciência discursiva e prática. Com base no conceito de consciência prática são estabelecidas relações com os atores sociais, que seriam não apenas aqueles que praticam a ação, mas os que possuem a capacidade para realizar determinada ação que deve produzir um efeito. A teoria da estruturação de Giddens (2003) permite também a análise de encontros sociais localizados segundo tempo, espaço e regionalização.

  Outra perspectiva nesta pesquisa é a da etnometodologia de Harold Garfinkel. O ponto de vista da etnometodologia é apresentado por Uwe Flick. De acordo ele,

  [...] a interação é produzida de uma maneira bem ordenada, sendo que o contexto constitui a estrutura da interação que é, ao mesmo tempo, produzida na interação e por meio dela. As decisões acerca do que seja relevante para os membros da interação social apenas podem ser tomadas por meio de uma análise da interação, e não pressupostas a priori. O foco não é o significado subjetivo para os participantes de uma interação ou de seus conteúdos, mas a forma como essa interação é organizada. O tema de pesquisa passa a ser o estudo das rotinas da vida cotidiana, em vez dos eventos extraordinários conscientemente percebidos e revestidos de significado. (FLICK, 2009, p.71).

  A etnometodologia estuda o raciocínio prático, considerando os fundamentos lógicos da ação nos contextos em que são usados. Neste sentido, pontua Heritage (1999, p. 382) que

  “cada ação social é um comentário reconhecível sobre o cenário de atividade no qual ela ocorre e uma inte rvenção nesse mesmo cenário”. Os estudos de Garfinkel estão voltados para fenômenos empíricos da atividade social e de organização das condutas sociais, o que admite pensar as diversificadas interações no contexto do espaço social das praças públicas.

  Ao buscar formulações conceituais que ampliem a capacidade de estudo, compreensão e crítica, serviram ainda como referências as orientações teóricas de Alex (2008), Gomes (2010) e Harvey (2007), que permitem discutir as formas de uso, apropriação e população usuária das praças públicas na cidade contemporânea.

  A metodologia adotada para realização da dissertação orientou-se pela perspectiva do interacionismo e da etnometodologia. Entre as técnicas empregadas nesta pesquisa qualitativa estão estudos bibliográficos, estudo de caso, observação direta e entrevista estruturada. A primeira etapa, que se desenvolveu simultaneamente à investigação de campo, foi marcada pelos estudos bibliográficos. A literatura com que se subsidia a análise buscou esboçar o conhecimento das produções teóricas de vários autores nas áreas da antropologia, da sociologia e das ciências sociais em geral acerca da questão do fenômeno das interações e sociabilidades relacionadas com o uso e a apropriação do espaço público das praças.

  Para o estudo propriamente das rotinas da vida cotidiana nas praças, o pesquisador iniciou como frequentador em observação direta. Enquanto usuário das praças foi possível anotar em Diário de Campo os ritmos conferidos pelos citadinos a esses espaços, permitindo reunir informações sobre a identificação de usuários individuais e coletivos, ocasionais e frequentes.

  Foram, também, delimitados horários nas manhãs, tardes e noites nos quais se manteve o critério de rodízio para examinar como ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça. A fluência à praça nos dias úteis é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. Nestas ocasiões, a copresença é maior e encontra-se na praça um número mais expressivo de pessoas.

  Para efetivar a observação sistemática direta esses espaços foram frequentados, com presença verificada em seriação ao longo dos dias da semana, em um período que abrange do dia 5 (cinco) de junho a 26 (vinte e seis) de agosto de 2011. Nesta fase coletou-se material fotográfico por meio de fotos tiradas nas praças, cujo acervo está exposto em parte para ilustrar com imagens o que se pôde compilar. A observação foi associada às entrevistas realizadas com frequentadores e transeuntes desses espaços. As entrevistas foram do tipo estruturado, contendo uma relação invariável e padronizada de perguntas em forma de questionário, cujo modelo de formulário está anexo ao final deste volume. Foram dirigidas, aproximadamente, a uma centena de entrevistados, classificados, conforme as observações prévias, em categorias para atender às finalidades da pesquisa em: skatistas, jovens, casais, estudantes uniformizados, estudantes universitários, religiosos, vizinhos, servidores públicos que trabalham no entorno das praças, turistas, vendedores ambulantes, flanelas guardadores de veículos e passantes.

  Com a aplicação das entrevistas buscavam-se informações sobre os citadinos usuários das praças, seus perfis socioeconômicos, hábitos e percepções a respeito do espaço e como são estabelecidos os limites que tornam possível a presença simultânea ou copresença para os usos e apropriações desses espaços sociais. Foi utilizada a análise de padrões e interdependência de comportamentos ao observar e entrevistar os diversos atores investigados, visando apreender similitudes e diferenças nas interações e sociabilidades. Os resultados da tabulação das entrevistas são apresentados a partir da exposição do que se apurou no estudo de caso das praças.

  As praças pesquisadas no estudo de caso estão localizadas em três regiões diferentes da cidade de São Luís

  • –MA. A Praça da Ressurreição e a Praça do Conjunto dos Ipês são praças de bairros, com as sociabilidades próprias aos que habitam aquelas zonas residenciais. A Praça Gonçalves Dias está situada em um espaço central, tradicional e histórico da cidade e tem sido retratada como cartão-postal. Apesar de fazerem parte de um conjunto de praças na mesma cidade, há ritmos e comportamentos diferenciados de usos e apropriações conforme os dias e horários da semana e a intervenção de diferentes e diversificados atores.

  O processo de seleção dos três casos estudados visou, antes de tudo, constituir um conjunto representativo do universo das praças da cidade, contemplando bairros tradicionais com ocupação anterior à primeira metade do século XX e regiões incorporadas recentemente à estrutura urbana da cidade. A primeira selecionada foi a Praça Gonçalves Dias. Em razão de sua posição central, os frequentadores e usuários procedem de vários bairros da cidade e nela pode ser percebido um amplo conjunto de interações sociais. Para a escolha foi observada a presença reiterada da representação dessa Praça em propagandas alusivas à cidade. Essa imagem veiculada exerce atração a muitos que ao espaço acedem. Não foram consideradas, nos limites deste estudo, relevâncias comerciais e políticas do passado, as quais certamente permitiriam escolher outros lugares, como o Largo do Carmo ou demais áreas do Centro, que outrora foram proeminentes na vida social de São Luís.

  Não bastava, para compor uma amostra significativa, conforme os propósitos da pesquisa, considerar apenas uma praça. Precisava-se incluir outra mais para fins de comparações e confrontos. Por isso, como segunda destacada está a Praça da Ressurreição, por representar uma região da cidade de ocupação contemporânea, com população composta majoritariamente por membros da classe trabalhadora. Localizada ao sudoeste da cidade tem, instalados em seu território, grandes grupos econômicos como Vale, Alumar e Eletronorte. Essa praça foi construída na década de 1970, quando a habitação do bairro era ainda recente. Fazia parte de um conjunto de espaços urbanos destinados ao exercício de lazeres naquela região. Nos anos 1990, quando o governo do Estado do Maranhão implantou a política dos “Vivas” foi urbanizada e dotada do atual traçado arquitetônico, que, em sua remodelagem, atendeu propósitos muito diferentes dos existentes ao tempo da inauguração da Praça Gonçalves Dias. Por sua localização, as interações e os usos sociais conferidos pelos frequentadores são mais restritos aos moradores do Anjo da Guarda e adjacências.

  Uma terceira praça foi adicionada para compor uma mostra mais expressiva. Representa um termo mediano entre as outras duas; não é a praça do cartão-postal, como o é a Gonçalves Dias, nem é tão pouco de grandes dimensões como a Praça da Ressurreição. A Praça do Conjunto dos Ipês, situada no Recanto dos Vinhais, está em um bairro habitado por uma população de classe média e foi construída na década de 1980. Como decorrência de sua localização, com frequentadores que provêm de mais de uma comunidade

  • – o núcleo do Conjunto dos Ipês e as áreas próximas de posse irregular
  • – os usos e apropriações sociais dessa praça apresentam interações diferenciadas ao se comparar com as demais listadas.

  A estrutura da dissertação conta com uma INTRODUđấO, na qual se delimitou o tema do trabalho, com indicação de questão de pesquisa. Apontam-se autores e conceitos que são operacionalizados ao longo do texto, bem como explicitada a metodologia utilizada.

  No capítulo intitulado REVISÃO DE LITERATURA são caracterizados os espaços nos quais transcorrem as interações. Inicialmente, estudam-se os conceitos fundantes de espaço e lugar nos quais indivíduos e grupos estabelecem ações, relações, usos e interações sociais, costumes, lutas e redes de interdependência. São examinados termos como ajuntamento, situação e ocasião social, interação focada e desfocada, fachada e pedaço. Em seguida, analisou-se o espaço enquanto público e privado e como se articulam as condições objetivas para as interações. Delimitou-se, igualmente, a noção de praça pública, enquanto lugar diferenciado no conjunto da cidade e equipamento urbano ou local onde ocorrem as interações entre indivíduos e grupos.

  Em HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO LUÍS são examinadas, em perspectiva histórica, as transformações urbanas e os movimentos populacionais de migração que afetaram a composição socioespacial da cidade com reflexos nas condições de uso e apropriação de suas praças. Com a apreciação dessas mudanças e permanências na composição da população residente na cidade, percebidas de um ponto de vista diacrônico, intentou-se evidenciar a criação das condições sociais para os usos das praças a partir do processo de urbanização de São Luís. Com o tempo, a estrutura da cidade e de seus edifícios passou do precário e artesanal às edificações aformoseadas com pretensões em observar estilos de construção caracteristicamente europeus. Esta transição reflete um processo incessante de transformações incorporadas à composição edificada e à vida citadina.

  No capắtulo USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO NAS PRAÇAS DE SÃO LUÍS são situadas territorialmente as relações sociais, que perpassam determinados espaços. São analisadas as noções de proximidade e distanciamento que podem ser verificadas nas interações sociais que ocorrem nas praças. Implicada nesta discussão está a reflexão sobre o individual e o coletivo. As noções de reconhecimento e estranhamento são ainda pensadas ao se indagar como o local e o estranho são habitualmente vividos, percebidos e concebidos nas praças. Nesse momento, cogitam-se as circunstâncias em que a situação social é mantida por indivíduos e grupos por meio de controles mútuos de aparências, linguagem corporal e atividades.

  Por fim, considera-se o caso das praças, onde são examinados os usos, as apropriações e as interações sociais no espaço público. É a etapa de análise dos dados colhidos na pesquisa de campo à luz da bibliografia selecionada e dos conceitos operacionalizados no estudo. São identificados e examinados os procedimentos interacionais que permitem aos atores estabelecer arranjos sociais direcionados aos usos e apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís do Maranhão. Nesse percurso investigativo, são evidenciadas as dinâmicas sociais dos rituais citadinos decorrentes das sociabilidades cotidianas, que tornam possíveis produzir e reconhecer modalidades e estratégias de convívio na cidade.

  “É estudando o espaço de uma sociedade que se pode lançar luz sobre questões tão importantes como o seu sistema ritual e o modo pelo qual ela faz sua dinâmica.” (Roberto DaMatta)

  Ao analisar o espaço em que os atores estabelecem relações sociais, é pertinente tratar preliminarmente do conceito e categorias da cidade, no sentido que Weber quis imprimir ao tema. Esse é o lugar mais amplo no qual ocorrem as relações sociais. Entende Weber (1987) que a cidade é um local de mercado. A cidade pode ser industrial, de consumidores e mercantil, mas destaca esse autor que “as cidades representam, quase sempre, tipos mistos e que, portanto, não podem ser classificadas em cada caso senão tendo-se em conta seus componentes predominantes” (WEBER, 1987, p. 73).

  Mas o conceito de cidade não deve estar restrito ao conteúdo econômico. Precisa ser encaixado em conceitos políticos. Nas palavras de Weber (1987, p. 76), “a cidade tem que se apresentar como uma associação autônoma em algum nível, como um aglomerado com instituições políticas e administrativas especiais”. O conceito de cidade está implicado, então, a “cidadania” e “comunidade urbana” (WEBER, 1987). Essa orientação é essencial para situar relações sociais estabelecidas por atores nas praças da cidade.

  É em determinado espaço e lugar que indivíduos e grupos transitam e estabelecem vivências diariamente. Nas praças públicas transcorrem ações, interações e relações sociais, que caracterizam a ordem legítima. Ao situar a atuação dos atores no espaço pretende-se instrumentalizar a pesquisa com referenciais teóricos que possibilitem a análise, a discussão, a reflexão e a compreensão acerca das situações sociais de usos e apropriações das praças públicas, entendidas como formas de ação. Pois, como destaca Alcântara Jr.(2011, p. 141), “compreensão é a possibilidade de se fazer entender a si mesmo e ao outro também”; nesse caso, os atores que interagem nas praças.

  Fundamental, portanto, é o conceito de ação social, formulado por Max Weber. Na perspectiva deste autor, a ação refere-se a um comportamento humano no qual o agente o relacione a um sentido subjetivo. O aspecto social define a ação no sentido visado pelo agente (WEBER, 2009). Esclarece Weber (2009) que a ação social pode ser racional, visando aos fins (determinada pelas expectativas no comportamento dos outros); racional, referente aos valores (orientada pela crença consciente em um valor); afetiva (norteada por afetos, emoções) e tradicional (pautada em um costume arraigado).

  Desta forma, os atores sociais conduzem os usos sociais de acordo com padrões sociais em diferenciados contextos. Na Praça Gonçalves Dias, que tem frequentadores de procedência mais diversificada, as ações podem ser classificadas de acordo com a tipologia

  3

  voltada a ações afetivas e racionais. É grande o número de ajuntamentos cuja ida compartilhada à praça é explicada por orientações emocionais e afetivas. Segundo Weber (2009

  , p. 15), “age de maneira afetiva quem satisfaz sua necessidade atual de [...] gozo, de entrega, de felicidade contemplativa ou de descarga de afetos”. No entorno da praça não há muitas residências, que se encontram situadas um pouco mais distantes, o que, certamente, não constitui obstáculo aos moradores. É possível visualizar continuamente indivíduos acompanhados

  • – casais, esportistas, amigos, estudantes, turistas – contemplando as belezas do lugar.

  Ao se comparar com a Praça da Ressurreição, percebe-se, desde logo, uma presença maior de comércio de bares, regulares e irregulares em sua organização e constituição física. Mostra-se nesta região uma participação com maior destaque para ações racionais voltadas para fins econômicos. Há muitos locais para lanches e socializações e flui uma clientela direcionada a esses serviços. Dentre as praças observadas é a que concentra o mais intenso comércio de serviços de bares e restaurantes.

  Em depoimentos colhidos nas entrevistas, os atores sociais que frequentam a Praça lembram a atração exercida pelos eventos extraordinários organizados ao longo do ano, como as festas juninas. Deve-se também mencionar o fato de que o nome que identificava a praça, após sua reurbanização nos anos 1990, era

  “Viva Anjo da Guarda”, a qual foi renomeada pela comunidade e rebatizada como Praça da Ressurreição, pois é montado em sua área anualmente 3 o espetáculo religioso da Paixão de Cristo. Na Praça é encenado o momento da ressurreição e

  

O termo ajuntamento é utilizado para fazer referência a “qualquer conjunto de dois ou mais indivíduos, cujos memb ros incluem todos e apenas aqueles que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento” da subida aos céus. Isso pode sugerir motivos referentes a crença religiosa; é um momento extraordinário do ano que conferiu ao espaço uma destinação que foi assinalada pelos usuários frequentadores.

  Na Praça do Conjunto dos Ipês os motivos para acessar o local são de ordem racional, voltados a fins econômicos, tais como idas ao supermercado ou ao quiosque de lanche que ficam em frente à Praça; ou ainda orientados a partir de valores comunitários que refletem as ações da associação de moradores. É destacada a presença dos residentes, o que demonstra apropriações que se desenvolvem por indivíduos e grupos que mantêm uma constante de ações afetivas e racionais determinadas por valores de vizinhança. Deve-se observar inicialmente também que esta Praça não possui designação oficial; foi nomeada na pesquisa como Praça do Conjunto dos Ipês para fins de identificação.

  Esclarece Max Weber (2009, p. 16) que

  [...] só muito raramente a ação, e particularmente a ação social, orienta-se exclusivamente de uma ou de outra destas maneiras. E, naturalmente, esses modos de orientação de modo algum representam uma classificação completa de todos os tipos de orientação possíveis, senão tipos conceitualmente puros, criados para fins sociológicos, dos quais a ação real se aproxima mais ou menos ou dos quais

  • – ainda mais frequentemente
  • – ela se compõe. Somente os resultados podem provar sua utilidade para nossos fins.

  A par da ação social, desenvolve-se a relação social. Conforme ainda a concepção de Weber, a relação social refere-se ao conteúdo de sentido do comportamento partilhado pelos agentes que se orientam por ele. Essa relação social pode ser comunitária ou associativa, aberta para fora ou fechada para fora, quanto ao comportamento e à participação de determinadas pessoas (WEBER, 2009). Segundo este autor, a relação social deve ser entendida como

  [...] o comportamento reciprocamente referido quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referência. A relação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que se aja socialmente numa forma indicável (pelo sentido). (WEBER, 2009, p. 16).

  Não significa que, no caso empírico, “os participantes da ação reciprocamente referida ponham o mesmo sentido na relação social [...] que exista, portanto,

  „reciprocidade‟ neste sentido da palavra” (WEBER, 2009, p. 16). Os sentidos nos lados da relação podem referir-se a atividades diferentes. Nesta hipótese, mesmo em relação objetivamente “unilateral” existe reciprocidade para Weber, pois, explica ele (WEBER, 2009, p. 17), “o agente pressupõe determinada atitude do parceiro perante a própria pessoa [...] e orienta por essa expectativa sua ação, o que pode ter, e na maioria das vezes terá, consequências para o curso da ação e a forma da relação”.

  Neste sentido, ao indagar os usuários sobre os critérios para escolher ir àqueles espaços específicos, o conteúdo das respostas é variado; estão incluídos diversão, encontro com outras pessoas, paquera, proximidade da residência, lanches (comprar ou vender). Os frequentadores consideram as praças como bons locais para conversas ou sociabilidades, mas, por vezes, perigosos e inseguros, não apenas em razão de violações à propriedade, mas em decorrência de brigas entre os frequentadores motivadas por disputas entre integrantes de certos grupos.

  Quando são observadas regularidades de fato no curso das ações com o mesmo ou vários agentes, com sentido homogêneo, verifica-se o que Weber chama de uso e costume. Diferencia Weber uso de costume. Para ele, o uso expressa regularidades na orientação da ação social, dentro de determinado círculo de pessoas, dada pelo exercício efetivo; é, portanto, norma de conduta não obrigatória. O costume representa o uso exercitado em hábito inveterado (WEBER, 2009). Os que não se orientam em suas ações pelos costumes que prevalecem em determinado espaço social, agem de maneira indevida; tendem a provocar resistência dos demais, e, provavelmente, prejudicam seus próprios interesses. Os momentos de briga parecem estar relacionados à não avaliação precisa dessas convenções ou da equivocada noção de que é possível ignorar, desconhecer ou comportar-se de modo discordante a esses arranjos normativos.

  O conceito de luta formulado por Weber permite compreender esses episódios. Anota ele (WEBER, 2009, p. 23) que

  “uma relação social denomina-se luta quando as ações se orientam pelo propósito de impor a própria vontade contra a resistência do ou dos parceiros

  ”. A luta que seria latente torna-se manifesta nas ocasiões de disputa não pacífica pelos espaços sociais nas praças. A concorrência pelo espaço transcorre de modo continuado nas relações sociais. Como ressalta Weber (2009, p. 24),

  “toda luta ou concorrência típica [...] leva, a longo prazo, finalmente à pessoais mais importantes , em média, para triunfar na luta”; pode-se cogitar que contribui a eventualidade dessas disputas com a seleção daqueles que usam e se apropriam dos espaços das praças.

  Ao considerar o espaço social, pode-se ainda apreciar a relação social como comunitária ou associativa.

  A relação social é denominada comunitária “quando e na medida em que a atitude na ação social [...] repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer (afetiva ou tradicionalmente) ao mesmo grupo

  ” (WEBER, 2009, p.25). É associativa “quando e na medida em que a atitude na ação social repousa num ajuste ou numa união de interesses racionalmente motivados ( com referência a valores ou fins)” (WEBER, 2009, p.25). Adverte, todavia, o autor que a maioria das relações sociais tem em parte caráter comunitário e associativo (WEBER, 2009).

  Predominam relações sociais de caráter comunitário na Praça da Ressurreição e associativo na Praça do Conjunto dos Ipês; a proximidade e o reconhecimento entre vizinhos tende a ser maior. O que não significa, entretanto, que em todas as relações nestas praças sobressaia o sentimento comunitário ou associativo. Os atores que compõem os ajuntamentos tendem ao reconhecimento de contrastes em relação a terceiros não residentes na redondeza. Na Praça Gonçalves Dias parecem sobressair as relações sociais associativas, haja vista a procedência diversificada de seus usuários. O que não significa, todavia, que só transcorrem relações desse tipo.

  As reflexões de Simmel proporcionam também importante subsídio para compreender as ações individuais e coletivas, que exercem influência sobre a produção social de espaços. De acordo com a proposta de análise de Simmel, a sociedade possui configurações e agrupamentos que se confundem com a vida de cada indivíduo envolvido. Não se deve, todavia, pensar que só se pode conhecer a realidade da vida social nas praças por meio do conhecimento de ações individuais. Os propósitos da pesquisa podem direcionar o investigador para a realidade vivida pelo sujeito individual ou coletivo (SIMMEL, 2006). De uma perspectiva ou de outra, a existência humana só se realiza nos indivíduos, sem com isso reduzir a validade do conceito de sociedade. Sendo assim, ao pensar o espaço e o lugar, levam-se em conta as noções de individual e social.

  Entende Simmel que “a sociedade, cuja vida se realiza num fluxo incessante, significa sempre que os indivíduos estão ligados uns aos outros pela influência mútua que exercem entre si e pela determinação recíproca que exercem uns sobre os outros” (SIMMEL, 2006, p. 17). Em razão disso, não se deveria falar de sociedade, mas de sociação. Conforme Simmel (2006, p. 18), a sociedade “é um acontecer que tem uma função pela qual cada um recebe de outrem ou comunica a outrem um destino e uma forma”. Logo, sociedade é “o nome para um círculo de indivíduos que estão, de uma maneira determinada, ligados uns aos outros por efeito das relações mútuas, e que por isso pod em ser caracterizados como uma unidade” (SIMMEL, 2006, p. 18). Grupos e indivíduos recebem e partilham impulsos recíprocos.

  Quando confronta o nível social e o nível individual, Simmel (2006, p. 40) explica que “as ações das sociedades teriam um propósito e uma objetividade muito mais definidos que os individuais”. As ações dos grupos sociais seriam determinadas como que por uma “lei natural”, enquanto os indivíduos se mostrariam “livres”. De tal modo, elucida o autor que

  [...] o indivíduo é pressionado, de todos os lados, por sentimentos, impulsos e pensamentos contraditórios, e de modo algum ele saberia decidir com segurança interna entre suas diversas possibilidades de comportamento – que dirá com certeza objetiva. Os grupos sociais, em contrapartida, mesmo que mudassem com frequência suas orientações de ação, estariam convencidos, a cada instante e sem hesitações, de uma determinada orientação, progredindo assim continuamente; sobretudo saberiam sempre quem deveriam tomar por inimigo e quem deveriam considerar amigo. Entre o querer e o fazer, os meios e os fins de uma universalidade, há uma discrepância

menor do que entre os indivíduos. (SIMMEL, 2006, p. 40).

  Ao refletir sobre as interações nas praças, considerando o que Simmel chama de nível social e nível individual, é possível avaliar a extensão da determinação dos grupos sobre as ações dos indivíduos. Esses espaços sociais são usados para muitos propósitos, frequentados por indivíduos e grupos. A maior presença, contudo, está relacionada a ações que se desenvolvem com a participação de grupos, transcorrendo socialmente. Muitas vezes as negociações para uso do espaço das praças se dão com base em premissas coletivas, com padrões de comportamentos grupais interferindo nas ações individuais. Ao apreciar, por exemplo, a prática de skate na Praça Gonçalves Dias, deve-se notar que existem ajuntamentos diferentes de skatistas. Em uma primeira observação, pode-se pensar que todos os que ali estão com seus skates praticam esse esporte. Mas, o pertencimento a alguns desses grupos requer também a posse e a observação de determinadas regras ou códigos, como condição essencial a ser observada para manter a interação. Há expectativas de condutas a serem satisfeitas para fazer parte e integrar-se aos grupos.

  A interação entre indivíduos “surge sempre a partir de determinados impulsos ou da busca de certas finalidades ” (SIMMEL, 2006, p. 59). Segundo Simmel (2006, p. 60), essas motivações são “fatores da sociação apenas quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro que pertencem ao conceito g eral de interação”. Assim, sociação é a forma na qual os indivíduos, em razão de seus interesses, desenvolvem-se conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam e formam a base da sociedade humana (SIMMEL, 2006). Quando indivíduos estabelecem laços sociais e interações nas praças, são constituídas sociações, fundamentos da vida social.

  Especifica ainda Simmel (2006, p. 65) a importante definição de sociabilidade como “forma lúdica de sociação”. Na perspectiva teórica de Simmel (2006, p. 69), pela sociabilidade “ninguém pode em princípio encontrar sua satisfação à custa de sentimentos alheios totalmente opostos aos seus”. É preciso cada indivíduo assegurar ao outro os valores sociais compatíveis com a sociabilidade. Deste modo, a sociabilidade decorre da satisfação de sentimentos similares e não antagônicos ou adversos. Os comportamentos de indivíduos e grupos devem convergir com determinada intencionalidade correspondida, para possibilitar o começo e a sustentação desse processo de trocas sociais. Os padrões de práticas interativas que se reproduzem nas praças asseguram a continuidade das ações de sociabilidade: respostas oportunas, revides aceitáveis, réplicas adequadas, deixas amoldadas à situação implicam na aprovação social pelo respeito demonstrado aos demais indivíduos envolvidos na interação.

  Elias também formulou instrumentos conceituais que permitem pensar e observar pessoas (ELIAS, 1994). Trabalha ele com a noção de redes de interdependência. Afirma esse autor que

  “conceitos como „família‟ ou „escola‟ referem-se essencialmente a grupos de seres humanos interdependentes, a configurações específicas que as pessoas formam umas com as outras

  ” (ELIAS, 2008, p. 13). Estas teias de interdependência ou configurações dos mais diversos tipos possibilitam refletir sobre as relações estabelecidas por indivíduos e grupos no ambiente das praças. As redes de interdependência podem ser percebidas nos grupos e ocasiões de interação. Díades, como casais de namorados, grupos menores ou maiores, como os skatistas que frequentam a Praça Gonçalves Dias, formam conjuntos de indivíduos cujas ações estão implicadas umas às outras.

  Explica do mesmo modo Elias o conceito de configuração. Segundo ele, este seria

  [...] o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores - não só pelos seus intelectos, mas pelo que eles são no seu todo, a totalidade das suas ações nas relações que sustentam uns com os outros. Podemos ver que esta configuração forma um entrançado flexível de tensões. A interdependência dos jogadores, que é uma condição prévia para que formem uma configuração, pode ser uma interdependência de aliados ou de adversários. (ELIAS, 2008, p. 142).

  O conceito de configuração pode ser aplicado a grupos pequenos ou grandes. Todavia, para Elias, as configurações formadas pelos membros de grandes grupos como os habitantes da cidade, não podem ser percebidas “diretamente, porque as cadeias de interdependência que os ligam são maiores e mais diferenciadas” (ELIAS, 2008, p. 143).

  Assim, conforme este ponto de vista, a configuração evidencia a interdependência das pessoas, cujos comportamentos são enredados, formando estruturas entrelaçadas (ELIAS, 2008). Podem ser notados esses elos de interdependência em grupos que usam as praças. Além de grupos destacados como casais e skatistas, os jovens que se apropriam dos espaços das praças o fazem cultivando perspectivas de reconhecimento e relacionamento com seus pares.

  De modo assertivo, confirma Elias que a procura pelos outros ocorre “para a realização de toda uma gama de necessidades emocionais

  ” (ELIAS, 2008, p. 148). Esses imperativos afetivos devem ser considerados para investigar indivíduos e grupos que afluem às praças. Acrescenta Elias que novas formas de ligação emocional são verificadas em unidades sociais maiores. Diz ele que, juntamente com ligações interpessoais, são encontradas “ligações unindo as pessoas a símbolos de unidades maiores, [...] a bandeiras e a conceitos carregados de aspectos emotivos

  ” (ELIAS, 2008, p. 150). Garante ainda Elias que “a afeição das pessoas por estas grandes unidades sociais é muitas vezes tão intensa como a sua afeição por uma pessoa amada

  ” (ELIAS, 2008, p. 151). Essas ligações emocionais e afetivas orientam envolvimentos nos grupos que são encontrados nas praças. Decerto, as demonstrações públicas de afetos, constatadas nas diferentes praças, envolvem o decoro, que é a

  “referência por meio da qual as relações sociais são construídas de um modo e não de outro e por meio da qual ganham sentido na vida cotidiana” (MARTINS, 1999, p. 10). Refere-se o decoro a pautas de condutas que definem as formas apropriadas de comportamento em diferentes situações (MARTINS, 1999). De acordo com este autor, “o decoro é mais do que um conjunto de regras – ele é essencialmente um conjunto de procedimentos pelos quais cada um se sente responsável não só pela sua própria conduta, mas também pela conduta dos circunstantes que com ele contracenam” (MARTINS, 1999, p. 12).

  Como observa Martins (1999, p. 14), quando o poder da vergonha e do decoro que regula a vida cotidiana “se atenua onde não deveria atenuar-se, estamos em face de mudanças sociais que se expressam na perda de autoridade das regras interiorizadas e que indicam a perda de substância da autoridade externa que nos co age a agir de um modo e não de outro”. Determinados gestos, sinais, expressões ou palavras antes impregnados de sentido pejorativo são agora aceitos, apreciados e necessariamente incluídos nas conversações. Conforme o contexto social, atitude, como alto volume da voz na fala, não quer dizer exasperar-se, mas conversar com a animação e o entusiasmo que as trocas devem ter; não significa conflito, mas de fato interação.

  Neste sentido, observa Giddens (2003, p. 331) que “todos os atores sociais possuem um considerável conhecimento das condições e consequências do que fazem em suas vidas cotidianas”. Com a teoria da estruturação, Giddens afirma que os seres humanos são agentes cognoscitivos. As rotinas dos agentes pensadas, dessa forma, permitem analisar a reprodução de práticas institucionalizadas, como os usos nas praças.

  Na teoria da estruturação, ao analisar o que chama de conduta estratégica, Giddens orienta que o foco deve incidir “sobre os modos como os atores sociais se apoiam nas propriedades estruturais para a constituição de relações sociais

  ” (GIDDENS, 2003, p. 339). Ao empreender essa análise, é preciso priorizar o que ele chama de consciências discursiva e prática (GIDDENS 2003).

  Apõe o autor (GIDDENS, 2003, p. 351) que esse “conceito de dualidade da estrutura, fundamental para a teoria da estruturação, está subentendido nos sent idos ramificados que os termos „condições‟ e „consequências‟ da ação têm”. De tal modo, as coerções estruturais operam por meio “dos motivos e razões dos agentes, estabelecendo condições e consequências que afetam opções abertas a outros, e o que eles querem das opções que têm

  ” (GIDDENS, 2003, p. 366). As condições e condicionamentos das ações, interações e relações sociais nas praças devem ser pensados enquanto vivências que se sucedem em espaço público.

  A propósito, Giddens articula orientação importante, segundo a qual “o espaço não

  é uma dimensão vazia ao longo da qual os agrupamentos sociais vão sendo estruturados, mas deve ser considerado em função do seu envolvimento na constituição de sistemas de interação ” (GIDDENS, 2003, p. 433). Esse direcionamento deve ser mantido ao se investigar as interações que favorecem as apropriações sociais das praças. Os conceitos de espaço e lugar permitem, consequentemente, refletir e pensar os usos sociais pesquisados.

  Há outros aportes teóricos que consideram o espaço e o lugar no contexto das interações, ações e relações sociais. Nesse sentido, Bourdieu, ao tratar do poder simbólico, discorre sobre o espaço social, avaliando que a sociologia se mostra como uma topologia social. De acordo com este autor, o mundo social pode ser representado em forma de um espaço construído baseado em princípios de diferenciação ou de distribuição formados

  “pelo conjunto das propriedades que atuam no universo social considerado, quer dizer, apropriadas a conferir, ao detentor delas, força ou poder neste universo (BOURDIEU, 2009, p. 133). O mundo social das praças é composto pelos agentes e suas posições no campo de forças. Frequentadores, skatistas, vendedores ambulantes, guardadores autônomos de veículos (flanelinhas), autoridades ocupam posições que se alteram de acordo com as propriedades relacionais.

  Dessa forma, agentes e grupos são definidos pelas posições ocupadas nesse espaço. O agente ocupa uma posição em uma região determinada do espaço. Explica, então, Bourdieu (2009, p. 134) que,

  [...] na medida em que as propriedades tidas em consideração para se construir este espaço são propriedades atuantes, ele pode ser descrito também como campo de forças, quer dizer, como um conjunto de relações de força objetivas impostas a todos os que entrem nesse campo e irredutíveis às intenções dos agentes individuais ou mesmo às interações diretas entre os agentes.

  Conforme este autor, as diversas espécies de poder ou de capital que ocorrem nos diferentes campos atuam como princípios de construção do espaço social, isto é, da sociedade (BOURDIEU, 2009). Desse modo, Bourdieu (2009) considera que a posição do agente no espaço social é definida pela posição por ele ocupada nos diferentes campos, pela distribuição dos poderes que neles atuam, consistindo o capital em econômico, cultural, social e simbólico. Esta perspectiva torna possível a construção de um modelo do campo social para pensar a posição do agente

  “em todos os espaços de jogo possíveis” (BOURDIEU, 2009, p. 135). O conhecimento da posição ocupada no espaço social informa “as propriedades intrínsecas (condição) e relacionais (posição) dos agentes” (BOURDIEU, 2009, p. 136). Ao apropriar-se dos espaços sociais, os agentes lutam, buscando estratégias para alcançar seus interesses. Suas ações não são necessariamente calculadas de maneira consciente, resultam de improvisações em um sentido prático. Assim, as ações ocorrem em condições de incerteza e situadas no espaço. Indivíduos e grupos, quando visam usar determinados espaços nas praças, criam disputas com os recursos de que dispõem para prevalecer sobre os demais frequentadores. Pode-se indagar o que torna controversas as interações para os usos dos espaços. Rixas costumam surgir quando grupos ultrapassam os limites simbolicamente estabelecidos para contenção de ações. Na Praça Gonçalves Dias, mesmo sem ter a intenção declarada, os skatistas ao circularem por toda a extensão da área provocam sentimentos difusos de antagonismo e repulsa. Essas condutas podem afastar usuários, que se poupam da eventualidade de disputas abertas.

  O espaço deve, então, ser concebido como território delimitado não apenas geograficamente, mas, sobretudo, socialmente. Esse espaço precisa ser também respeitado, com a expressão de atitudes de desatenção civil, como chamou Goffman (2010, p. 172). Muitas vezes indivíduos para impedir discussões e bate-bocas simulam não perceber nem identificar comportamentos indesejados ou não aprovados. Nas praças públicas prevalece a presença mútua em que pessoas em pontos diferentes podem observar outras pessoas e por elas também serem observadas. Para explicar esses acontecimentos, Goffman emprega alguns conceitos básicos que orientam seu programa de pesquisa. Entre estes está o ajuntamento, que ele utiliza para se referir a “qualquer conjunto de dois ou mais indivíduos cujos membros incluem todos e apenas aqueles que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento” (GOFFMAN, 2010, p. 28). Explica ele ainda que o termo situação faz referência ao “ambiente espacial completo em que ao o adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que está presente, ou que então se constitui. As situações começam quando o monitoramento mútuo ocorre, e pr escrevem quando a penúltima pessoa sai” (GOFFMAN, 2010, p. 28).

  Outro conceito fundamental é ocasião social. Segundo Goffman (2010, p. 28) “ela

  é um acontecimento, realização ou evento social mais amplo, limitado no espaço e no tempo e tipicamente facilitado por equipamentos fixos ”. Uma ocasião social fornece o contexto social estruturante em que as situações e ajuntamentos transcorrem, e um padrão de conduta tende a ser reconhecido como apropriado (GOFFMAN, 2010). Podem ser citados como exemplos de ocasiõe s sociais “uma festa social, um dia de trabalho num escritório, um piquenique, ou uma noite no teatro

  ” (GOFFMAN, 2010, p. 28). Um dia ou momentos nas praças podem ser concebidos e explicados, então, como ocasiões sociais. Noção importante é a de ordem pública, que Goffman (2010, p. 34) entende

  “quando pessoas estão conscientes da presença de outras, elas podem funcionar não meramente como instrumentos físicos, mas também comunicativos”. Ao interpretar o conceito, esclarece Joseph (2000, p. 93) que ordem pública é aquela

  “fundada no direito de olhar, isto é, num princípio de acessibilidade e disponibilidade das pessoas presentes. Estas tendem, quando se expõem, a dominar as impressões que causam em outrem e a de se observar enquanto agem”.

  Além disso, explica Goffman que o comportamento comunicativo dos imediatamente presentes pode ser considerado como em interação focada e desfocada (não focada). A interação focada ocorre quando

  “pessoas se juntam e cooperam abertamente para manter um único foco de atenção, tipicamente se revezando na fala” (GOFFMAN, 2010, p. 35). A interação por ele nomeada como desfocada ou não focada é o tipo de comunicação que ocorre “quando se recolhe informações sobre outra pessoa ao se olhar de relance para ela, ainda que apenas moment aneamente, quando ela entra e sai do campo de visão” (GOFFMAN, 2010, p. 34). Esta interação refere-se ao gerenciamento da mera copresença.

  Na análise dos elementos rituais na interação social, Goffman considera ainda o termo fachada, figuração ou face-work [expressões sinônimas nas traduções em língua portuguesa da obra de Goffman].

  Fachada pode ser definida como “o valor social positivo que uma pessoa efetivamente reivindica para si mesma através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu durante um contato particular” (GOFFMAN, 2011, p. 13). Para Goffman (2011, p. 14),

  “a fachada é uma imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados”. Igualmente, o conceito de equipe de representação ou equipe possibilita analisar os usos e apropriações sociais nas praças, designando

  “qualquer grupo de indivíduos que cooperem na encenação de uma rotina particular” (GOFFMAN, 2009, p. 78). Magnani (2003, p. 12) quando analisa relações sociais utiliza o termo pedaço para fazer menção a “um tipo particular de sociabilidade e apropriação do espaço urbano”. Na interpretação deste autor, as interações sociais estão situadas no “pedaço”. De acordo com componente de ordem esp acial, a que corresponde uma determinada rede de relações sociais”. Assim, espaço e rede de relações sociais são elementos essenciais na composição do “pedaço”. Discute ele ainda a existência de um núcleo e bordas em seu entorno, quando considera que “alguns pontos de referência delimitam seu núcleo. [...] No núcleo do „pedaço‟, enfim, estão localizados alguns serviços básicos

  • – locomoção, abastecimento, informação, culto, entretenimento
  • – que fazem dele ponto de encontro e passagem obrigatórios” (MAGNANI, 2003, p. 115). Ao estabelecer essas confrontações a respeito do “pedaço”, explica que,

  [...] enquanto o núcleo do „pedaço‟ apresenta um contorno nítido, suas bordas são fluidas e não possuem uma delimitação territorial precisa. O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade. (MAGNANI, 2003, p. 116).

  Afirma, desde logo, que “não basta, contudo, morar perto ou frequentar com certa assiduidade esses lugares: para ser do „pedaço‟ é preciso estar situado numa particular rede de relações que combina laços de parentes co, vizinhança, procedência” (MAGNANI, 2003, p. 115). Essa seria a zona do espaço em que seus habitantes teriam mais familiaridade. Segundo ele,

  [...] pertencer ao „pedaço‟ significa poder ser reconhecido em qualquer circunstância; o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade [...]. Pessoas de „pedaços‟ diferentes, ou alguém em trânsito por um „pedaço‟ que não o seu, são muito cautelosas: o conflito, a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar fora do

  „pedaço‟ é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto, do perigo. (MAGNANI, 2003, p. 116).

  Problemático é traçar os limites do pedaço com seus contornos claramente perceptíveis para usos e apropriações, quando indivíduos e grupos não estabelecem ou preservam demarcações físicas evidentes para todos. O pedaço é caracterizado também por uma rede de relações sociais, onde os vínculos estabelecidos são de tipo familiar ou vicinal.

  Roberto DaMatta (1997, p.32), interpretando o sentido geral de espaço, considera que este “é demarcado quando alguém estabelece fronteiras, separando um pedaço de chão do outro”. Mas, acrescenta ele que essa constatação não satisfaz, pois – prossegue o antropólogo fluminense

  • – “é preciso explicar de que modo as separações são feitas e como são legitimadas e aceitas pela comunidade da propriedade privada” (DAMATTA, 1997, p.32).

  Ao analisar as diferenças entre espaço e lugar, explica Augé que o termo espaço é mais abstrato que lugar . É usual fazer referência a “um acontecimento (que ocorreu), a um mito (lugar- dito) ou a uma história (lugar histórico)” (AUGÉ, 2010, p. 77). Faz este autor alusão ao que chama de lugar antropológico. Explica ele que o lugar antropológico refere-se

  [...] àquela construção concreta e simbólica do espaço que não poderia dar conta, somente por ela, das vicissitudes e contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles a quem ela designa um lugar, por mais humilde e modesto que seja. [...] o lugar antropológico é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem os observa. (AUGÉ, 2010, p. 51).

  O lugar antropológico “se completa pela fala, a troca alusiva de algumas senhas, na conivência e na intimidade cúmplice dos locutores” (AUGÉ, 2010, p. 73). Pode compreender esse lugar,

  [...] por um lado, itinerários, eixos ou caminhos que conduzem de um lugar a outro e foram traçados pelos homens e, por outro lado, em cruzamentos e praças onde os homens se cruzam, se encontram e se reúnem, que desenharam, conferindo-lhes, às vezes, vastas proporções para satisfazer principalmente, nos mercados, necessidades do intercâmbio econômico, e, enfim, centros mais ou menos monumentais, sejam eles religiosos ou políticos, construídos por certos homens e que definem, em troca, um espaço e fronteiras além das quais outros homens se definem como outros, em relação a outros centros e outros espaços. (AUGÉ, 2010, p. 55).

  As praças pensadas como lugares de interações podem ser objeto de investigação da antropologia e da sociologia. Determinado espaço social no qual se reúnem indivíduos e grupos que se identificam por sentimentos de pertencimento, caracteriza um lugar antropológico. Pontua Augé (2010, p. 52) que,

  “esses lugares [antropológicos] têm pelo menos três características comuns. Eles se pretendem identitários, relacionais e históricos”. O lugar que não se pode associar a essas peculiaridades corresponderia ao que ele chama de não lugar.

  Esclarece, então, Augé que

  [...] se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não se pode definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um não lugar. A hipótese aqui defendida é a de que a supermodernidade é produtora de não lugares, isto é, de espaços que não são em si

  lugares antropológicos e que, contrariamente à modernidade baudelairiana, não integram os lugares antigos: estes, repertoriados, classificados e promovidos a „lugares de memória‟, ocupam aí um lugar circunscrito e específico. (AUGÉ, 2010, p. 73).

  O não lugar é citado como contraponto ao conceito de lugar. Exemplifica e ilustra que esses não lugares seriam “as vias aéreas, ferroviárias, rodoviárias e os domicílios móveis considerados „meios de transporte‟ (aviões, trens, ônibus) [...] redes a cabo ou sem fio”

  (AUGÉ, 2010, p. 74). Esclarece ainda o autor que

  [...] por „não lugar‟ designamos duas realidades complementares, porém, distintas: espaços constituídos em relação a certos fins (transporte, trânsito, comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços. Se as duas relações se correspondem de maneira bastante ampla e, em todo caso, oficialmente (os indivíduos viajam, compram, repousam), não se confundem, no entanto, pois os não lugares medeiam todo um conjunto de relações consigo e com os outros que só dizem respeito indiretamente a seus fins: assim como os lugares antropológicos criam um social orgânico, os não lugares criam tensão solitária. (AUGÉ, 2010, p. 87).

  Acrescenta Augé (2010) que, quem faz uso do não lugar, está com este em relação contratual, na qual o contrato está sempre associado à identidade individual de quem o subscreve. Pontua ele que,

  [...] para ter acesso às salas de embarque de um aeroporto, é preciso, antes, apresentar a passagem ao check-in (o nome do passageiro está inscrito nela); a apresentação simultânea, ao controle de polícia, do visto de embarque e de algum documento de identificação fornece a prova de que o contrato foi respeitado. [...] O passageiro só conquista, então, seu anonimato após ter fornecido a prova de sua identidade, de certo modo, assinado o contrato. [...] o usuário do não lugar é sempre obrigado a provar sua inocência. O controle a priori ou a posteriori da identidade e do contrato coloca o espaço do consumo contemporâneo sob o signo do não lugar: só se tem acesso a ele se inocente. (AUGÉ, 2010, p. 94).

  Explica Augé (2010, p. 95) que, enquanto o passageiro aguarda para embarcar “obedece ao mesmo código que os outros, registra as mesmas mensagens, responde às mesmas solicitações. O espaço do não lugar não cria nem identidade singular nem relação, mas sim solidão e similitude”, conclui.

  Para Augé (2010, p. 98), “os lugares e os espaços, os lugares e os não lugares misturam-se, interpenetram- se”. Acrescenta ainda que “não há mais análise social que possa

  fazer economia dos indivíduos, nem análise dos indivíduos que possa ignorar por onde eles transitam ” (AUGÉ, 2010, p. 110). O chamado não lugar é um conceito com o qual se pode refletir sobre a presença e a permanência no espaço público das praças contemporâneas. As interações sociais nesses espaços sofrem os impactos dos novos processos tecnológicos informatizados, empregados como recursos na produção e que foram estendidos para a vida cotidiana.

  É no espaço social que os agentes, de modo individual ou em grupos, estabelecem dinâmicas de trocas. Nesse lugar, ações, interações e relações sociais são localizadas. Para manter situações sociais que favoreçam os usos verificados do espaço público, determinadas atitudes são acionadas pelos envolvidos. Ressalte-se que os usos e apropriações sociais das praças transcorrem basicamente em espaços que se reputam como públicos; nesta perspectiva devem ser investigadas as condições objetivas para as interações sociais ali entabuladas.

  Ao realizar o percurso deste estudo, entre as intenções está compreender como o espaço chamado público é usado e apropriado pelos citadinos. É oportuno, portanto, delimitar esse conceito relevante para aprofundar a análise. Determinar essa noção permite a aproximação da dimensão teórica e conceitual que interessa à investigação. Os referenciais teóricos percorrem esquemas interpretativos, que buscam explicar as variáveis que se articulam entre o espaço público e também o espaço privado de interações, onde os atores se encontram presentes.

  Apesar de o espaço social das praças ser público, esta noção comporta uma classificação dicotômica em pares opostos, pois, ao debater o público, a contrario sensu está o indicativo do conceito de privado, ainda que implicitamente. Desse modo, visando um melhor entendimento acerca dos usos e apropriações sociais das praças, caracteriza-se inicialmente o conceito de espaço público, sem, entretanto, perder de vista o espaço privado. Considera-se, então, a construção histórica das noções sociais de espaço público e de espaço privado, no mundo ocidental e no Brasil. Admitem esses espaços diversidades históricas de usos no que se refere às destinações sociais conferidas por indivíduos e grupos.

  Em obra notória sobre o espaço público, “O jardim e a praça”, Saldanha, jusfilósofo pernambucano, empreende uma análise de cunho antropológico sobre a praça.

  Focaliza Saldanha um conceito preliminar de espaço; considera ele que

  [...] o „organizar-se‟, desde as primeiras experiências grupais do ser humano, foi sempre, em parte ao menos, um problema de distinguir lugares, valorizando uns e abandonando ou evitando outros, e de construir espaços, demarcando porções do território e amontoando pedras com fim simbólico ou utilitário. (SALDANHA, 2005, p.20).

  A menção ao que aponta o autor traz ao debate a apropriação de um determinado espaço para fins de uso. A demarcação a que se refere na citação não constitui ainda um domínio no sentido de propriedade. Observe-se que, ao tratar de uso e apropriação social do espaço da praça, não se cogita do estabelecimento de uma forma de domínio senhorial (propriedade), mesmo porque a praça é considerada um bem público e é propriedade dos entes estatais. Como dispõe o Código Civil (BRASIL, 2002)

  • – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002
  • – no artigo 99, I, “[são bens públicos:] os de uso comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças”.

  A propósito, leciona Pereira (2010, p. 76), após cogitar de uma sociologia da propriedade, que “a propriedade como expressão da senhoria sobre a coisa, é excludente de outra senhoria sobre a mesma coisa, é exclusiva: plures eamdem rem in solidum possidere non

  possunt ”. Entre os caracteres da propriedade está, portanto, a sua exclusividade.

  Deste modo, quando se considera, atualmente, o espaço da praça não se questiona a existência de uma propriedade, que é pública. Sem, assim, remeter, necessariamente, à ideia de propriedade, considera Saldanha as demarcações feitas no território para fins de distinção de lugares. As porções assinaladas de território sinalizam na direção de certas apropriações necessárias do espaço para fins da convivência social (SALDANHA, 2005).

  Com as demarcações simbólicas feitas nas praças, os agentes visam poder usar parcelas do espaço para suas interações sociais. Esses limites definidos são ajustados e revisados por meio de regras e padrões que se repetem em determinados

  “cenários de negócios

  4

  cotidianos organizados (GARFINKEL, 2008, p.1). Indivíduos e grupos reservam certos ” 4 locais para permanência nas praças. Como ilustração, os alunos dos cursos da área da saúde da

  Universidade Federal do Maranhão, cujo prédio está localizado na lateral da Praça Gonçalves Dias, nos momentos que ficam na Praça, permanecem em frente ao edifício da Universidade. Outros ajuntamentos podem estar nas proximidades, mas observam e mantêm esses limites.

  Afirma Saldanha que os planos público e privado complementam-se. Explica ele (SALDANHA, 2005, p. 31) que

  [...] o viver social consiste e subsiste em várias dimensões, e uma delas ocorre nas casas [...]. E como as ruas

  • – da mesma forma que as praças – são já outra dimensão, a pública, eis que o plano público e o privado tocam-se, completam-se, complementam-se.

  O espaço, seja ele público ou privado, enquanto construção social e histórica, apresenta trajetórias no tempo que permitem visualizar sua caracterização ou configuração. Nesse percurso de análise diacrônica da constituição dos conceitos, pode-se inicialmente buscar explicação a partir do estudo dos processos de apropriação do espaço social na Idade Antiga. Nesse sentido, Saldanha, com o objetivo de realçar o espaço público, acredita que neste estão situados os elementos da vida pública. Esse local, na chamada Antiguidade Clássica, era a ágora, a praça do mercado, o símbolo na cidade da presença do povo na atividade política. Nota ele (SALDANHA, 2005, p. 57) que

  [...] naquele espaço central, situavam-se os elementos da vida pública: cenário, atores, ação. Nele estavam os debates e as facções, as queixas e as decisões, e sobretudo a palavra como componente da dimensão pública: ao fazer-se pública a palavra, publicizava-se a condição do homem. A polis, quase literalmente, teria tido na ágora a sua pulsação.

  Habermas contribui igualmente para o debate de ideias e estabelecimento desses conceitos. Em obra editada pela primeira vez em 1962, informa que as categorias do público e do privado foram legadas dos gregos, transmitidas adiante em uma versão romana. Conforme Habermas, a esfera pública representa o debate livre entre iguais. De acordo com ele,

  [...] tratam-se [o público e o privado] de categorias de origem grega que nos foram transmitidas em sua versão romana. Na cidade-estado grega desenvolvida, a esfera da pólis que é comum aos cidadãos livres (koiné) é rigorosamente separada da esfera do oikos , que é particular a cada indivíduo (idia). A vida pública, bios politikos, não é, no entanto, restrita a um local: o caráter público constitui-se na conversação (lexis), que também pode assumir a forma de conselho e de tribunal, bem como a de práxis comunitária (práxis), seja na guerra, seja nos jogos guerreiros. (HABERMAS, 2003, p. 15).

  O expoente da Escola de Frankfurt, ao confrontar o tema dos espaços de sociabilidades e interações, procura explicitar a importância social da esfera pública. Assegura ele que é nesta esfera que as coisas aparecem e se tornam visíveis. É na disputa entre pares por meio da conversação que os melhores cidadãos se destacariam e conquistariam, por conseguinte, a imortalidade da fama. Dessa maneira,

  [...] como nos limites do oikos a necessidade de subsistência e a manutenção do exigido à vida são escondidos com pudor, a pólis oferece campo livre para a distinção honorífica: ainda que os cidadãos transitem como iguais entre iguais (homoioi), cada um procura, no entanto, destacar-se (aristoiein). As virtudes, cujo catálogo Aristóteles codifica, mantêm apenas na esfera pública: lá é que elas encontram o seu reconhecimento. (HABERMAS, 2003, p. 16).

  O prestígio social pode ser associado às interações contemporâneas nas praças de São Luís. Um reconhecimento público pode ser alcançado em decorrência de presença e de interações no espaço social. Muitos intercâmbios são, todavia, de caráter efêmero. Indivíduos ocasionalmente interagem, mas existe a probabilidade de nunca mais se olharem outra vez. As praças podem ser pensadas como palcos em que indivíduos e grupos mostram-se para quem por lá estiver para vê-los. Nessas exposições públicas, os grupos podem atribuir capital simbólico, como considera Bourdieu (2009), àqueles que conseguem por meio de sua conduta, nesse espaço social de interações, obter prestígio, reputação, fama.

  A apresentação pública nas praças pode não proporcionar o prestígio que se supõe a princípio, mas granjear má reputação. Indivíduos e grupos que evidenciem determinado desempenho, mesmo em feitos que exijam habilidades raras, podem não conseguir a glória e a importância social que almejam. De acordo com a configuração dos grupos como formais ou informais e o contexto socioespacial, esses predicados desejados tendem a variar. Na Praça Gonçalves Dias, por exemplo, os grupos de skatistas que circulam pela praça ou o público de fiéis que aflui à igreja para assistir à missa têm expectativas acentuadamente diferenciadas para conferir celebridade a alguns de seus integrantes.

  Para situar as investigações sobre o público e o privado no Brasil, em Sobrados e mucambos, Freyre (2004) faz referência à pouca importância atribuída no Brasil colonial aos

  • – espaços públicos. Nesse livro, o sociólogo e antropólogo pernambucano inicia o capítulo II O engenho e a praça; a casa e a rua
  • – afirmando que “a praça venceu o engenho, mas aos poucos” (FREYRE, 2004, p. 135). Com relação aos usos e costumes, os espaços da rua e da praça não eram francamente acessíveis a todas as mulheres e mesmo a homens no tempo da colônia. Relara Freyre (2004, p. 145) que

  [...] nas ruas só se encontravam as escravas negras e as mulatas com quem às vezes, de noite, os velhotes do Recife namoravam, na ponte da Boa Vista. La Salle diz que também os homens pouco saíam de casa. No Rio de Janeiro dessa época talvez saíssem pouco: no Recife como em São Luís do Maranhão é tradição que viviam quase a tarde inteira na rua.

  Continua Freyre a confirma r esse entendimento ao dizer que “os burgueses de sobrado foram naquelas cidades do norte do Brasil homens de praça ou de rua como, outrora, os gregos, da ágora, ao contrário dos do Rio de Janeiro e da Bahia que raramente deixavam o interior dos sobrados” (FREYRE, 2004, p. 145). O motivo para isso residia no fato de que um dos sinais de distinção era ser menos visto possível para não ser confundido com o povo, que a fidalguia abominava. Assim, reitera-se que estar ou não nas praças pode ser sinal de distinção ou de reputação (boa ou má), conforme o momento histórico. Desse modo, a exposição pública pode não acarretar necessariamente o reconhecimento social desejado por alguns indivíduos.

  Observe-se também que não são sempre nitidamente demarcados os limites entre as esferas do público e do privado. Saldanha refere-se a essa dificuldade do estabelecimento de fronteiras entre elas. Lembra ele, então, que historicamente

  [...] o termo latino forum, que designa algo historicamente correlato à ágora grega, e que se associa para nós à ideia de um espaço público, designou primeiro o terreno fechado em torno de uma casa, e somente depois passou a denominar a área de fora das casas, nomeadamente a praça do mercado. (SALDANHA, 2005, p. 73).

  No período que abrange o que a historiografia tradicional nomeia como Idade Média, a ideia de espaço público atravessa alterações de significado. Com relação ao uso das categorias de público e privado, considerando sua difusão social, Habermas (2003, p. 16) menciona o fato de que “ao longo de toda a Idade Média, foram transmitidas as categorias de público e de privado nas definições do Direito Romano: a esfera pública como res publica

  ”; servindo, então, para a institucionalização jurídica de uma esfera política burguesa a partir de surgimento do Estado Moderno e da sociedade civil separada dele. Com o advento do Estado Moderno

  [...] a redução da representatividade pública que ocorre com a mediatização das autoridades estamentais através dos senhores feudais cede espaço a uma outra esfera, que é ligada à expressão esfera pública no sentido moderno: a esfera do poder público. Esta se objetiva numa administração permanente e no exército permanente; à permanência dos contatos no intercâmbio de mercadorias e de notícias (bolsa, imprensa) corresponde agora uma atividade estatal continuada. (HABERMAS, 2003, p. 31).

  Na acepção especificamente moderna, o público passa a definir o estatal, a esfera do chamado poder público. Alude, desde então, ao funcionamento regulamentado, conforme competências, a um aparelho dotado do monopólio legítimo do uso da força. Para Habermas (2003, p. 32), “o poderio senhorial converte-se em „polícia‟; as pessoas privadas, submetidas a ela enquanto destinatárias desse poder, constituem um público

  ”. No que se refere à regulação especificamente estatal das praças de São Luís, indivíduos e grupos queixam-se de modo recorrente da falta de segurança. Ao entrevistar indivíduos foi possível apurar a satisfação em estar naqueles locais, mas a sensação de medo decorrente da insegurança é comum entre os frequentadores. Há alguns anos podia ser observada a presença ostensiva de policiais militares instalados em trailer na Praça Gonçalves Dias, o qual, entretanto, foi recentemente removido e deslocado para a lateral de uma creche no bairro próximo da Camboa. Além dessa, outras ações do poder público estadual permitiram

  5

  a reurbanização da Praça do Anjo da Guarda , inserido em um programa de intervenções de natureza urbanística em espaços públicos com destinação a praças no final da década de 1990. A presença do poder público municipal se faz também pelas ações do Instituto Municipal de Paisagem Urbana (IMPUR); constituído em 2002, é o órgão da Prefeitura Municipal de São Luís responsável pelo gerenciamento paisagístico da cidade, incluindo a formulação e execução de medidas para a melhoria dos espaços públicos.

  0, a praça foi batizada pelas autoridades estaduais como “Viva Anjo da Ainda em perspectiva histórica, ao contemplar a Idade Moderna, Dupas ressalta a importância do Iluminismo para a concepção da acepção moderna de público e privado. De acordo com Dupas (2003, p. 29),

  [...] o sentido da esfera pública ampliou-se somente a partir desse início do século

  XVIII – com o Iluminismo – e consolidou-se com as revoluções americana e francesa, juntamente com a institucionalização de certos direitos políticos e civis, e a constituição do sistema judiciário para mediar conflitos. A decadência do chamado antigo regime foi acompanhada pela formação de uma nova cultura urbana burguesa. Durante esse período, o espaço público significou os vínculos de associação e compromisso que existem entre pessoas que não são unidas por laços familiares; é o caso da multidão, do povo ou das sociedades organizadas; ele adquiriu uma característica libertadora da opressão familiar e social pelo anonimato propiciado pelas grandes cidades. Assim, as condições necessárias para a existência de uma democracia real passaram a ser essencialmente a manutenção tanto de uma esfera pública como espaço de debate político, quanto dos fundamentos da „democracia formal

  ‟ herdados da sociedade burguesa, como o princípio da soberania popular e o Estado de direito.

  O Iluminismo teria sido uma tentativa de equilíbrio entre a esfera do público e do privado. Não existia ainda uma noção definida de espaço privado, mas uma distinção entre o público, como espaço da cultura, criado pelos homens, e o privado, personificado na família. Segundo ele (DUPAS, 2003, p. 29),

  [...] a esfera pública burguesa era um espaço social de intermediação envolvendo instituições e práticas sociais. De um lado, Estado e sociedade civil; de outro, interesses privados dos indivíduos na vida familiar, social e econômica. Era a ocasião do surgimento do cidadão e suas demandas, e das preocupações com a vida pública, os interesses comuns e a formação de consensos contra formas sociais ou públicas de poder arbitrário.

  A nomeada Idade Contemporânea teve seu início marcado pelo Iluminismo, que destacava afomentando igualmente as noções de igualdade e de liberdade individual. Ao final do século XVIII, são sistematizados institutos sociais que possibilitarão mais tarde consolidar o capitalismo.

  Sobre as oposições contemporâneas entre o público e o privado, aduz Ricardo Machado (2008, p. 83) que

  “na medida em que o espaço da rua [e da praça] passa a ser delineado e exercido enquanto espaço público passa-se a exigir novas formas de comportamento na rua”. Em tal conjuntura, o espaço público é percebido como um conjunto de rituais e comportamentos que delimitam a fronteira entre vida pública e vida privada. A sociabilidade exige a conservação de determinado distanciamento da observação íntima do outro. As máscaras sobre o eu, incluindo boas maneiras e gestos de polidez em situações públicas, constituem rituais de sociabilidade. É o que Saldanha (2005) diz ser a configuração de uma dualidade e ambivalência, pois defeitos e virtudes assumem sentidos diferentes conforme o espaço seja público ou privado. Na linguagem cotidiana, algumas palavras podem soar socialmente respeitosas nas praças e absolutamente descabidas em um recinto de casa.

  Ressalta Scaff (2005, p. 544) que Nelson Saldanha lembrava o fato de a vida pública revestir-se “de uma exterioridade em relação à casa, ao jardim, ao viver básico, dentro do qual se situa a existência privada, gerando, a partir daí, dois sistemas de valores: um com referência ao lar [...] e outro com relação à cidade

  ”. Nas diversas fases da história, é possível verificar períodos de ampliação de um ou de outro desses espaços. Representam eles uma antítese, na qual o crescimento de um implica na mudança do outro (SCAFF, 2005). No momento sócio-histórico contemporâneo,

  [...] a veneração da personalidade aparece, então, como resistência à fluidez na sociabilidade. Os poucos que se expressam em público tornam-se profissionais, mas estes também eram afetados pela superposição do imaginário privado sobre o público, introduzindo a personalidade na política, as figuras carismáticas e a valorização da performance e da representação pessoal (artistas, ícones da cultura do espetáculo). (DUPAS, 2003, p. 30).

  As dimensões do espaço em público e privado permitem pensar ainda as diferenças de comportamentos de indivíduos que vivem e moram nas ruas e nas praças, apropriando-se de forma particular de um espaço público. Cabe indagar se mantêm uma vida privada populações que fazem da rua e da praça sua casa. Nesse sentido, interpreta DaMatta (1997, p. 55) que “na gramaticidade dos espaços brasileiros, rua e casa se reproduzem mutuamente, posto que há espaços na rua que podem ser fechados ou apropriados por um grupo, categoria social ou pessoas, tornando- se sua „casa‟, ou seu „ponto‟”. “As praças e as ruas podem ser ocupadas permanentemente por categorias sociais que ali se estabelecem “como „se estivessem em casa‟, conforme salientamos em linguagem corrente” (DAMATTA, 1997, p. 55). Neste sentido, o público e o privado estão relacionados com as desigualdades sociais.

  Irma Rizzini e Irene Rizzini (apud FRÚGOLI JÚNIOR, 1995, p. 56), ao pesquisarem meninos que vivem em situação de risco na rua, esclarecem que é preciso distinguir as expressões meninos “de” rua e meninos “nas” ruas, pois, para elas,

  [...] distinguem-se os menores que vivem permanentemente nas ruas (sendo, portanto, das ruas) daqueles que passam o dia nas ruas, trabalhando por conta própria ou como „assalariados informais‟, cujas atividades mais praticadas são ambulantes (balas, chicletes, frutas, biscoitos, etc.), engraxates, guardadores e lavadores de carros e carregadores nas feiras e supermercados.

  Diferenciam, assim, o que seriam duas categorias. Dessa maneira, segundo observaram ainda Vogel e Mello (apud FRÚGOLI JÚNIOR, 1995, p. 57),

  [...] a vida na rua se distingue, em primeiro lugar, por formas diferenciais de apropriação do espaço e alocação do tempo. O espaço onde costuma desenrolar-se [...] encontra-se dividido em territórios, cada qual estruturado a partir do epicentro de algum logradouro público, em geral uma praça. Um território compreende toda uma rede de pontos da qual fazem parte os lugares preferenciais de atuação das turmas, além de toda uma série de trajetos, circuitos, rotas e atalhos, mediante os quais essa rede se integra. Aos mapas cognitivos da cidade, em particular de cada um de seus recortes territoriais, cabe articular lugares de reunião, [...], lugares de dormir ( „mocós‟), áreas de caça e pontos de apoio. Entre os últimos, inclui-se, neste caso, o aparato institucional de atendimento.

  A utilização do espaço da rua ou da praça como abrigo ou moradia caracterizaria três tipos de situação, de acordo com Frúgoli Júnior (1995, p. 59) , “ficar na rua

  (circunstancialmente), estar na rua (recentemente) e ser da rua (permanentemente). Cada um deles implicaria um tipo de condição, com decorrências na moradia, trabalho e grupo de referência

  ”. Instalam-se os indivíduos onde encontram uma menor pressão por parte do poder público e permissão social para a ocupação, tornando sua moradia o espaço da rua ou da praça (FRÚGOLI JÚNIOR, 1995). Essa apropriação do espaço da praça para fins de moradia não é verificada nos bairros pesquisados

  , pois, conforme frisado acima, não obtém a “permissão social” dos vizinhos quem pretende instalar-se nos recintos dessas praças. De modo diferenciado, como é menor a presença de moradores no entorno da Praça Gonçalves Dias, é possível constatar a presença de indivíduos que usam esse espaço como abrigo, seja durante o dia ou, sobretudo, à noite. Ao considerar aspecto social hodierno, Roberto DaMatta (1997, p. 57) percebe a rua como “terra que pertence ao „governo‟ ou ao „povo‟ e que está sempre repleta de fluidez e movimento. A rua é um local perigoso”. Consequentemente, também a praça ou o espaço público. Entende este autor (DAMATTA, 1997, p. 59) que as evidências estão a definir que

  “o espaço público é perigoso e como tudo que o representa é, em princípio, negativo porque tem um ponto de vista autoritário, impositivo, falho, fundado no descaso e na linguagem da lei que, igualando, subordina e explora

  ”. Além do risco e da insegurança no espaço público contemporâneo, outra limitação 6 para o uso social das praças é a utilização de redes sociais (networks) como suporte organizacional propiciada pelos avanços na tecnologia da informação e da comunicação. As redes sociais

  “têm sido utilizadas por psicólogos, sociólogos, antropólogos, cientistas da informação e pesquisadores da área da administração para explicar uma série de fenômenos caracterizados por troca intensiva de informação e conhecimento entre as pessoas” (SOUZA; QUANDT, 2008, p. 34).

  Como resultado desse processo de mudanças tecnológicas, o tempo real passa a conter em parte o presente e parte o futuro imediato, o que se pode chamar de tempo real ou tempo virtual. É possível estar fisicamente sentado em um banco na praça, mas virtualmente conectado à outra localidade por meio da web. O local aproxima-se do global e é por ele atingido. Uma categoria fundamental é a velocidade e não mais o tempo ou o espaço.

  “A lógica da aceleração do tempo está no centro da construção do mundo contemporâneo e é por ela que se devem perceber a realidade e os fatos ” (DUPAS, 2003, p. 55).

  Observa Gomes (2010) que uma concepção do espaço público que considere a separação do privado ou a garantia do acesso livre, não é suficiente para determinar seu caráter público. De acordo com este autor,

  “os atributos de um espaço público são aqueles que têm relação com a vida pública [...] P ara que esse „lugar‟ opere uma atividade pública, é necessário que se estabeleça, em primeiro lugar, uma copresença de indivíduos

  ” (GOMES, 2010, p. 160). O espaço público é aquele no qual existe a possibilidade de acesso e participação 6 de qualquer pessoa, conforme as regras de convívio social. Estas maneiras, lembra Alex,

  

Redes sociais, segundo Souza e Quandt (2008, p. 34), “são estruturas dinâmicas e complexas formadas por

pessoas com valores e/ou objetivos em comum, interligadas de forma horizontal e predominantemente devem ser observadas em qualquer espaço público para permitir a copresença e caracterizar seu sentido público; explica ele (ALEX, 2008, p. 20) que, “embora o espaço público possa ser também o lugar das indiferenças, ele caracteriza-se, na verdade, pela submissão às regras da civilidade”. Essas normas são condicionantes da cultura e podem ser compreendidas como portadoras de um sentido local, regional ou mesmo global.

  Esclarece ainda Gomes (2010, p. 163) que se trata “de uma área em que se processa a mistura social. Diferentes segmentos, com diferentes expectativas e interesses, nutrem-se da copresença, ultrapassando suas diversidades concretas e transcendendo o particularismo, em uma prática recorrente da civilidade e do diálogo”. O espaço público é explicado, então, como o lugar da sociabilidade no qual se exercita a arte da convivência, a da vida pública, das práticas sociais. Para Gomes (2010, p. 164),

  mise-en-scène

  “o lugar físico orienta as práticas, guia os comportamentos, e estes por sua vez reafirmam o estatuto público desse espaço ”.

  Lynch (apud ALEX, 2008, p. 21) sugere cinco dimensões para construir „bons‟ ambientes, e entender o controle desses lugares pelos usuários, são elas

  [...] presença, uso e ação, apropriação, modificação e disposição. A presença é o direito de acesso a um lugar, e sem ela o uso e a ação não são possíveis. Uso e ação referem-se às habilidades das pessoas de utilizar um espaço. Com a apropriação, os usuários tomam posse de um lugar, simbolicamente ou de fato. Modificação é o direito de alterar um espaço para facilitar o seu uso, e disposição é a possibilidade de desfazer-se de um espaço público.

  Dessa maneira, as dimensões sociais de uso/ação e de apropriação permitem compreender a detenção de certos espaços públicos por frequentadores em momentos de interação. Apreender a complexidade das interações e das relações sociais no mundo atual é, em parte, também apurar como tem sido articulado o uso da noção de espaço nas dimensões pública e privada. Como bem aponta DaMatta (1997, p. 60), a relação entre o público e o privado é intricada, pois

  [...] esses espaços, embora tenham entre si uma relação complexa, não estão separados. Relacionam-se por seus subespaços (praças, adros, mercados, jardins, portas, janelas, cozinhas e varandas) e também por ocasiões especiais em que a sua comunicação é possível, obrigatória e desejável.

  É possível ainda incluir na discussão a respeito das interações no espaço social público, visando compreender as relações entre as dimensões do público e do privado, a noção de bairro. A propósito, para Mayol (2009, p. 42),

  [...] pelo fato de seu uso habitual, o bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. Trata-se de um dispositivo prático que tem por função garantir uma solução de continuidade entre aquilo que é mais íntimo (o espaço privado da residência) e o que é mais desconhecido (o conjunto da cidade ou mesmo, por extensão, o resto do mundo) [...] E é na tensão entre esses dois termos, um dentro e um fora, que vai aos poucos se tornando o prolongamento de um dentro, que se efetua a apropriação do espaço.

  O limite público/privado representa a estrutura fundadora do bairro para um usuário, constituindo uma separação que une; entende, assim, Mayol (2009, p. 43) que “o público e o privado [...] são sempre interdependentes um do outro, porque, no bairro, um não tem nenhuma significação sem o outro”. As praças estão situadas fisicamente em determinado bairro, o qual influencia com as práticas culturais da população que ali habita as interações naquele espaço com seu peculiar modo de ser ou visão de mundo. O espaço do bairro

  • – e também da praça, pode-se dizer
  • – para Mayol (2009, p. 45) é

  [...] um objeto de consumo do qual se apropria o usuário no modo da privatização do espaço público. Aí se acham reunidas todas as condições para favorecer esse exercício: conhecimento dos lugares, trajetos cotidianos, relações de vizinhança (política), relações com os comerciantes (economia), sentimentos difusos de estar no próprio território (etologia), tudo isso como indícios cuja acumulação e combinação produzem, e mais tarde organizam o dispositivo social e cultural segundo o qual o espaço urbano se torna não somente o objeto de um conhecimento, mas o lugar de um reconhecimento.

  Expressa entendimento semelhante Mayol, quando analisa o bairro; seu raciocínio pode ser também aplicado a outros espaços, como a praça pública. Para ele (MAYOL, 2009, p. 43),

  [...] o limite público/privado, que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a prática de um usuário, não é apenas uma separação, mas constitui uma separação que une. O público e o privado não são remetidos um de costas para o outro, como dois elementos exógenos, embora coexistentes; são muito mais, são sempre interdependentes um do outro, porque, no bairro, um não tem nenhuma significação sem o outro.

  Mayol (2009, p. 42) escreve que “o bairro constitui o termo médio de uma dialética existencial entre o dentro [o íntimo espaço privado da residência] e o fora [o conjunto da cidade]. E é na tensão entre esses dois termos [...] que vai aos poucos se tornando o prolonga mento de um dentro, que se efetua a apropriação do espaço”. Neste sentido, a apropriação realizada a partir do uso social, dá significado ao espaço que se consolida como público.

  A observação dos usos e apropriações sociais cotidianas do espaço das praças públicas em São Luís permite entender como as dimensões dos espaços público e privado são complexas e articuladas. As praças estão situadas em certos bairros, compondo a paisagem urbana, encontram sua significação social na medida dos usos mantidos pelos citadinos. O acesso a esses espaços, a permanência neles ainda que transitória, a copresença e as vivências estabelecidas permitem compreender, por meio da análise das mais diversas práticas sociais, como os indivíduos e grupos interagem e tornam esses lugares oportunamente adequados às mais diferenciadas formas de sociabilidades e convivências.

  O espaço público urbano configura-se de múltiplas formas e tamanhos que incluem lugares destinados ao uso cotidiano, como as praças. Ao se qualificar o espaço como público presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. As ruas com seus traçados estruturam e vinculam a disposição das construções no espaço urbano, permitindo uma interligação entre os vários espaços localizados na cidade; representam o que se pode chamar de “espaços de fluxos” (FRÚGOLI JÚNIOR, 1995, p. 67). São destinas à circulação; diferente das praças, que denotam espaços voltados para a experiência de interações, relações sociais e sociabilidades.

  A praça reúne elementos históricos e formais que a tornam um dos mais importantes espaços da cidade. De acordo com Colchete Filho (2008, p. 32) ela é

  [...] um espaço diferenciado, ausente de construções, dentro da estrutura urbana quase sempre bastante adensada; e histórico, porque, ao possuir características que permitem a concentração de pessoas, atrai atividades importantes para o seu próprio espaço e para o entorno, atuando como um cenário importante dos fatos sociais. Conceber a praça como um cenário importante dos fatos sociais, implica em entendê-la como local onde os atores sociais

  • – indivíduos e grupos – exercitam interações. Em tal espaço basicamente urbano é possível estar, apresentar-se e reunir-se a outros, pois sua destinação social faculta essas probabilidades de usos. Observa Alex (2008, p. 10) que

  [...] a praça, em sua origem latina, caracteriza-se como espaço de encontro e convívio, urbano por natureza. Espaço este que se conforma por várias aberturas no tecido urbano que direcionam naturalmente os mais diversos fluxos em busca dos, também, mais diversos usos, que imprimem a esse espaço o caráter de lugar e ponto central de manifestação da vida pública. É, em sentido amplo, o espaço para a troca.

  Acentua Saldanha (2005, p. 13) que a praça é um espaço amplo e sem construções, “que se abre, na estrutura interna das cidades, como uma confluência de ruas, ou de qualquer sorte uma interrupção nos blocos edificados. Um espaço onde, em geral, encontram-se árvores, bancos, eventualmente monumentos, em alguns casos, pequenos lagos artificiais”.

  Para ele (SALDANHA, 2005), a praça compõe organicamente o conjunto formado pela cidade.

  Ao comentar que Saldanha justapõe a praça aos jardins, Colchete Filho (2008, p. 33) ressalta que

  “nas praças, as finalidades são mais genéricas, ligam-se ao espaço comum, comunitário. [...] o espaço da praça é mais complexo, pois é um desdobramento da produção econômica, da ordem política e da criação cultural”. Para Saldanha (2005), o conceito de praça indica o espaço público, comum, comunitário, ligado a amplas finalidades da vida social, como fins políticos, econômicos, religiosos ou militares. Observa ele que

  [...] poderia lembrar as praças sagradas dos astecas ou os terraços votivos dos incas; a ágora grega, arqui-exemplar, e sua continuação, o fórum romano – ambos, mistura de mercado e local de encontros, inclusive para meetings políticos. A óbvia extensão espacial da praça não é apenas extensão espacial: ela corresponde a um significado social, correlato do próprio espírito da cidade onde se insere. (SALDANHA, 2005, p.15).

  Destaca Saldanha, assim, o significado social do espaço da praça. À dimensão física está associada a dimensão sociorrelacional. Adverte ele, então, para o alcance público do que se venha a fazer na praça. Na visão do autor,

  [...] a praça, caracterizada em todas as civilizaçõe s como espaço „público‟, não tira seu significado do mer o fato da convergência de vias „públicas‟ Ela pode ser anterior às ruas, ao menos logicamente (ou estruturalmente) anterior. A rua, por sua vez, possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado urbano, que na praça se concentra, é algo público. A consagração histórica do fenômeno urbano significa, no fundo, a consagração ou consolidação da vida pública. (SALDANHA, 2005, p.44).

  Colchete Filho realça a importância social do espaço da praça no conjunto da cidade, em razão da reunião de atividades no entorno, com as quais podem deparar seus frequentadores. Por conseguinte, entre as consequências dessa aglomeração está a atração de pessoas para seus limites. Relata ele que,

  [...] ao longo da história, verificamos que é na praça que costuma se dar a presença do comércio mais intenso, das cerimônias públicas importantes, o que acaba por vincular um conteúdo simbólico forte às praças em geral. Por isso, as atividades de natureza comercial e cultural, preferencialmente em tempo integral, aliadas ao uso residencial, são tão características no entorno das praças, pois ampliam o potencial de uso coletivo que já possuem. (COLCHETE FILHO, 2008, p. 34).

  A praça representa a expressão cultural urbana. Do ponto de vista de Alex (2008, p. 23) “a praça não é apenas um espaço físico aberto, mas também um centro social integrado ao tecido urbano”; além do valor histórico, permite a participação contínua na vida da cidade, como lugar de convívio social. Alex avalia a importância social da praça, nos usos e na linguagem; assinala ele que,

  [...] mesmo sem o rigor urbanístico das plazas ou a herança arquitetônica das piazzas, a praça brasileira é igualmente enraizada nos hábitos de uso e da linguagem de seu povo. Fazem-se declarações à praça para tornar público um comunicado ou um aviso de perda de documentos. Preserva-se o bom nome na praça. Identifica-se praça com mercado para difundir produtos ou delimitar a aceitação de cheques. E, apesar das raras „plazas de armas‟ em nossas cidades, nossos soldados são treinados como „praças‟. (ALEX, 2008, p. 25).

  DaMatta (1997, p. 44), em perspectiva histórico-antropológica, considerando as cidades ibéricas e brasileiras, explica que “a praça abre um território especial, uma região teoricamente do „povo‟. Uma espécie de sala de visitas coletiva, onde se situam em nichos especiais o poder de Deus, cristalizado na igreja matriz [...], e o poder do Estado, manifesto no palácio do governo”. Ao conferir especificidade de significado e origem às praças brasileiras,

  Murillo Marx (apud ALEX, 2008, p. 24) destaca o caráter público e multifuncional desses espaços, ressaltando a origem religiosa, que, como praça de igreja grande e cuidada,

  [...] transcenderia o papel de adro para tornar-se um fórum brasileiro [...], a praça como tal, para reunião de gente e para exercício de um sem-número de atividades diferentes, surgiu entre nós, de maneira marcante e típica, diante de capelas ou igrejas, de conventos ou irmandades religiosas. Destacava, aqui e ali, na paisagem urbana estes estabelecimentos de prestígio social. Realçava os edifícios; acolhia os seus frequentadores.

  Opõe Marx (apud ALEX, 2008, p. 24) o desenho irregular da maioria dos espaços públicos brasileiros, em contraste com a regularidade do traçado das cidades da América espanhola, nas quais se instalavam ao redor da praça não apenas a igreja matriz, mas também os principais edifícios públicos. Além disso, enfatiza ele a ausência do poder civil demarcando esses espaços públicos, pois [...] as praças cívicas, diante de edifícios públicos importantes, são raras entre nós.

  São exceções [...] E, quando o esforço comum erguia uma construção para este fim, era pouco provável que se situasse num ponto condigno como uma praça que acolhesse os cidadãos, valorizasse o significado do prédio ou tirasse partido de seu projeto arquitetônico mais elaborado [...] Uma desordem, enfim, que esconde o poder público, que não revela a sua efetiva existência, que não clarifica sua responsabilidade social, que não dignifica o viver republicano. (MARX apud ALEX, 2008, p. 24).

  Representa a praça, portanto, a expressão cultural urbana. Como lugar de convívio social, possibilita a participação na vida da cidade. O espaço deve ser considerado em função da constituição de sistemas de interação. Ações e relações são ali empreendidas pelos atores sociais, que conduzem usos de acordo com padrões sociais em contextos que caracterizam a ordem legítima. Assim, as negociações para os usos sociais do espaço das praças se dão com base em padrões de comportamentos grupais que interferem nas ações individuais. Mas, para haver sociabilidade, os comportamentos de indivíduos e grupos devem convergir com determinada intencionalidade correspondida, que possibilite e sustente o processo de trocas sociais.

  Podem ser notadas redes de interdependência em grupos que usam as praças. Estas teias de interdependência ou configurações dos mais diversos tipos autorizam refletir sobre as relações estabelecidas por indivíduos e grupos no ambiente das praças. A configuração

  evidencia comportamentos enredados, formando estruturas entrelaçadas. No entanto, a utilização de redes sociais (networks), como suporte organizacional propiciada pelos avanços na tecnologia da informação e da comunicação, podem representar limitação para o uso social das praças. Pode-se estar fisicamente na praça, mas virtualmente conectado a outro lugar por meio da web.

  Nas praças públicas prevalece a presença mútua em que pessoas em pontos diferentes podem observar outras pessoas e por elas também serem observadas, são os ajuntamentos. A situação é o ambiente espacial completo em que ao o adentrar uma pessoa se torna um membro do ajuntamento que já está presente ou que se constitui. Conceito também relevante é ocasião social, enquanto um acontecimento ou evento social mais amplo, limitado no espaço e no tempo; fornece o contexto social estruturante em que as situações e ajuntamentos transcorrem, e um padrão de conduta tende a ser reconhecido como apropriado. Interações nas praças podem ser explicadas como ocasiões sociais. A noção de ordem pública é pensada quando pessoas estão conscientes da presença de outras e podem estabelecer padrões comunicativos.

  Quando são analisadas relações sociais nas praças o termo pedaço pode ser mencionado para tratar de um tipo particular de sociabilidade, uso e apropriação do espaço urbano. Podem as interações sociais estar situadas no pedaço, o qual se compõe do espaço e das redes de relações sociais estabelecidas. Ou ainda, ditos de outra forma, esses limites são definidos, ajustados e revisados por meio de regras e padrões que se repetem em cenários de negócios cotidianos organizados. Todavia, conforme o momento histórico, estar ou não nas praças pode ser sinal de distinção ou de reputação (boa ou má). A exposição pública pode não acarretar necessariamente o reconhecimento social por ventura desejado.

  Deve-se destacar também que, ao se qualificar o espaço como público, presume-se que seja franqueado o acesso a todos que intencionem frequentá-lo. As dimensões do espaço em público e privado permitem pensar ainda as diferenças de comportamentos de indivíduos que vivem e moram nas ruas e nas praças, apropriando-se de forma particular de um espaço público. Cabe indagar se mantêm uma vida privada populações que fazem da praça sua casa. Neste sentido, o público e o privado estão relacionados com as desigualdades sociais.

  Os usos e apropriações sociais das praças de São Luís têm variado conforme o momento histórico. Se hoje existe uma configuração socioespacial que permite sua utilização, a trajetória para a construção desse acervo foi lentamente processada. Considerar as transformações urbanas no tempo e os recursos acionados socialmente possibilita perceber como foram sendo criadas as condições sociais objetivas para os usos atualmente conferidos pelos citadinos a esses espaços públicos.

  São Luís foi fundada pelos franceses em possessões lusitanas e retomada pelos portugueses, invadida por holandeses, colonizada por ibéricos com caráter estratégico-militar, como expressam os fortes construídos no século XVII. Nesse momento, a presença portuguesa, “não revelou a perspectiva de povoamento imediato; ele foi sempre muito lento. Assim é que, em 1616, de uma população de aproximadamente 500 habitantes, 313 é de so ldados, estes últimos em número superior à Bahia (140) e Pernambuco (100)” (BOTELHO, 2007, p. 27).

  Apesar da referida fundação francesa, “a configuração urbana de São Luís foi moldada a partir do traçado enxadrezado ou ortogonal, tipicamente português” (SELBACH, 2009, p. 22). No primeiro século de colonização, o Maranhão apresentava uma incipiente estrutura urbana. Os núcleos de população estavam fixados na orla próxima aos rios Itapecuru e Mearim. E, como diz Lefebvre (2009, p. 13) ao tratar da constituição social de uma rede de cidades, “o que se levanta sobre essa base [de sistema urbano] é o Estado, o poder centralizado. Causa e efeito dessa centralização particular, a centralização do poder, uma cidade predomina sobre as outras: a capital”. São Luís – maior núcleo de povoamento da região

  • – em 1621 torna-se Vila e, em 1677, passa a ser considerada cidade. Conforme narra Botelho (2007, p. 31),

  [...] a cidade estava circunscrita ao eixo Praia Grande e Desterro. Desenho urbano desordenado, ruas sem calçamento e casas de palha e pau-a-pique. Desde os franceses, conheciam-se pontos da ilha como São Francisco, Turu, Vinhais, Timbuba

  e, posteriormente, Araçagi e Cutim. Além de São Luís existiam vilas e freguesias, tais como: Tapuytapera (Alcântara), Cumã (Guimarães), Icatu. Em seguida, a partir do século XVIII, surgiram novas vilas e cidades.

  Nesse sentido, ao fazer um estudo sobre a construção do espaço urbano a partir das

  7 7 cartas-de-datas e sesmarias , afirmam Mota e Mantovani (1998, p. 18) que

Para viabilizar a exploração do território, a Coroa Portuguesa distribuía terras a colonos interessados em usá-las

para a produção de alimentos, assegurando também assim o povoamento. Esse instituto jurídico de origem

  [...] a leitura das cartas nos permite acompanhar o processo de construção da cidade. Inicialmente, a malha urbana expressa as relações familiais que a articulam: os colonos vão se estabelecendo ao redor de parentes e de amigos.

  Destacam ainda Mota e Mantovani (1998, p. 18) que

  [...] pequenos núcleos tendem a se constituir em torno de pontos vitais para a coletividade: inúmeros são os pedidos de terrenos no caminho das fontes, próximo aos conventos [...] vemos a ocupação se iniciar na área do porto [...], próxima do Forte, das igrejas, das fontes (devido à indisponibilidade de canalização de água).

  Ao pesquisar a racionalidade do espaço urbano de São Luís, tratando do processo de construção social do traçado da cidade, acrescenta Carvalho que,

  [...] desde o século XVII a cidade de São Luís contava com alinhamento primário, pois o engenheiro fortificador Francisco Frias de Mesquita, sob ordem do capitão- mor Jerônimo de Albuquerque, desenhou a planta da cidade, definindo o traçado regular das ruas, além de construir uma casa para servir de modelo para as que seriam construídas posteriormente. (CARVALHO, 2005, p. 111).

  Assim, desde o final do século XVII, era possível constatar medidas que visavam organizar a estrutura da cidade, na qual as praças representavam o mais importante espaço urbano. No século seguinte, a cidade começa a esboçar mudanças em sua configuração citadina. Um interesse pela elegância urbanística se vai tornando mais pronunciado no final do século XVIII, quando se pode averiguar a definição de critérios para a construção de residências como a cobertura feita de telhas. De certa forma diferente do período anterior, para Mota e Mantovani (1998, p. 19),

  “percebe-se [...] a preocupação da administração municipal com o traçado da cidade, alinhamento das ruas, manutenção de quadras delineadas, feitura de calçadas, limpeza das estradas etc.

  ”. De acordo ainda com Mota e Mantovani (1998, p. 20), “a cidade se expande segundo dois movimentos distintos: abertura de novos espaços e consolidação, em que beneficiários tardios ocupam os terrenos vazios”. Mota e Mantovani (1998, p. 21) descrevem as etapas de ocupação de novas áreas e crescimento da cidade, considerando que

  [...] até a década de sessenta do século XVIII a área urbana se projeta, a partir do núcleo inicial localizado próximo ao Forte e ao Cais, em direção ao Largo do Carmo. A seguir, o povoamento se dá no sentido Carmo-Desterro, atraídos pelo Convento das Mercês e pela Fonte das Pedras. Mais tarde, a ocupação se orienta para o bairro do Egito, Rua do Ribeirão e cercanias da Casa de Recolhimento das Irmãs e da Igreja do Rosário dos Pretos, e algumas famílias também se dirigem para as proximidades da Igreja de São João. Já no final do século [XVIII], o povoamento se expande em diversas direções: ganha o rumo do Convento de Santo Antônio e Remédios e também o da Igreja de São Pantaleão e outras áreas já razoavelmente afastadas da que abrigava os primeiros prédios.

  Notam também Mota e Mantovani (1998, p. 22) que

  [...] no sistema colonial, centrado nas atividades agro-exportadoras, a função das cidades consistia apenas em entreposto de mercadorias, pois a dinâmica estava situada no campo, em que se desenvolviam as atividades que interessavam à metrópole.

  Pensar, deste modo, as interações, ações e relações sociais em São Luís no século XVIII, demanda tratar a vida social na qual prevalece um ethos mais rural que urbano. A respeito da população residente em São Luís em 1720,

  Viveiros afirma que “[o povoamento] se desenvolveu tão morosamente que não atingia a 1.40 0 moradores em 1720”

  (VIVEIROS apud MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 22). Observam Mota e Mantovani (1998, p. 22) que “São Luís, até bem avançado o século XVIII [...] não passava de uma vila. A média de 5,1 cartas-de-datas anuais emitidas pelo Senado da Câmara entre os anos de 1723 a 1760 constitui uma forte evidência da lentidão com que se deu o povoamento inicial

  ”. Até a primeira metade do século XVIII, as atividades econômicas no Maranhão eram rudimentares, o comércio estava baseado no trabalho indígena, na subsistência e na coleta de drogas do sertão. Explica Botelho (2007, p. 56) que,

  [...] em meados do século XVIII, o Maranhão passará por transformações, que [...] determinarão novas projeções sociopolíticas e econômicas [...]. Tudo isso é consequência [...] da política efetivada pelo Marquês de Pombal, que retirou o Maranhão da situação de pobreza e o colocou como província importante no século seguinte, a partir de uma nova reorientação mercantilista, cujo eixo central gravitava em torno da oferta de escravos para dinamizar a lavoura de exportação.

  Confirmam esse entendimento as considerações de Mota e Mantovani acerca do período. Mostram eles, com o trabalho de pesquisa, como a emissão das cartas-de-datas evidencia períodos distintos na vida da cidade, como

  [...] no momento inicial, até mais ou menos 1760, temos ainda uma cidade-enclave, marcada pelas preocupações com índios e com a invasão estrangeira. Levando em consideração a profissão dos primeiros povoadores

  • – soldados, capitães etc. – pode- se dizer que a cidade era pouco mais que um acampamento militar. Das cento e quatorze cartas emitidas na primeira fase estudada, quinze o foram em favor de soldados, cinco de capitães – um dos quais capitão-mor – duas para alferes e uma a sargento-mor. (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 23).

  Outras categorias do mesmo modo beneficiadas foram os artífices (pedreiros, ferreiros, carpinteiro, calafetador, alfaiate) e indivíduos ligados a algum ofício religioso (padres, clérigos presbíteros, procurador de igreja e sacristão da Sé) (MOTA; MANTOVANI, 1998). Percebe-se, então, que no século XVIII os usos sociais da cidade realizados por seus moradores provinham principalmente de militares, artífices e religiosos, que compunham a maioria da população de São Luís.

  Assim, nota-se que, até meados do século XVIII, a sociedade maranhense apresenta-se pouco diferenciada, verificando-se o predomínio de funcionários e militares nos precários centros urbanos da época. Conforme Botelho (2007, p. 106),

  “a partir da segunda metade do século XVIII, a sociedade maranhense passará por transformações com a chegada crescente de portugueses e de escravos africanos, o que incrementou a agroexportação, surgindo daí famílias abastadas”. É o tempo da fundação em 1755 da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, que dinamizou a economia regional. Para Botelho (2007, p. 58), essa Companhia permitiu “aos lavradores a possibilidade de crescimento econômico ao introduzir na região escravos, ferramentas, mantimentos e capital de custeio. Nos vinte anos de sua existência retirou o Maranhão da inexpressividade, tornando este Estado o mais próspero do final do século XVIII

  ”. Confirma a lição de Prado Jr. (1980, p. 115), ao assegurar que

  [...] coincidirem os portos de exportação com as maiores cidades da colônia. É à qualidade de entrepostos do comércio exportador que devem sua importância centros como o Rio de Janeiro, Bahia, Recife (Pernambuco), São Luís (Maranhão) e Belém (Pará): é nas proximidades e alcance deles que se concentram as maiores atividades da colônia. Esclarece ainda Prado Jr. (1980, p. 82) que

  [...] a primeira remessa de algodão brasileiro para o exterior [...], data, ao que parece, de 1760, e provém do Maranhão que neste ano exporta 651 arrobas. [...] é no Maranhão que o progresso da cultura algodoeira é mais interessante, porque ela parte aí do nada, de uma região pobre e inexpressiva no conjunto da colônia. O algodão dar-lhe-á vida e transformá-la-á, em poucos decênios, numa das mais ricas e destacadas capitanias. Deveu-se isto em particular à Companhia geral do comércio do Grão-Pará e do Maranhão, concessionária desde 1756 do monopólio desse comércio. [...] A Companhia não colherá os melhores frutos do seu trabalho: extingue-se em 1777 com a cessação do seu privilégio que não é renovado. Mas o impulso estava dado, e o Maranhão continuará em sua marcha ascendente. Será ultrapassado mais tarde por Pernambuco e Bahia, que contavam ao se lançarem na empresa com recursos de gente e capitais muito mais amplos. Mas o Maranhão terá, pelo menos num momento, seu lugar no grande cenário da economia brasileira.

  Antes da implantação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, o Maranhão enfrentava sérias dificuldades econômicas, mas, ao final do século XVIII, é uma das mais dinâmicas províncias da colônia. O forte impulso econômico é atribuído à Grã- Bretanha, que vem comprar nessa região o algodão que faltava para abastecer sua indústria têxtil, matéria-prima cuja oferta fora interrompida em razão do processo de independência de suas colônias na América do Norte. Dessa forma,

  “é no Maranhão que se dá a grande inserção do algodão no fim do século XVIII” (BOTELHO, 2007, p. 64). Assim, esse impulso econômico é perceptível ao final do século XVIII pela observação do crescente povoamento, “comprovado pelo aumento significativo do volume das cartas-de-datas: de uma média de 5,1 concessões anuais registrada no primeiro período analisado vê- se que nas últimas décadas já se altera significativamente o ritmo de emissão”

  (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 25). Neste contexto, observa Márcia Marques que

  Entre 1761 e 1779, período correspondente ao governo de Melo e Póvoas, ocorreram as principais intervenções urbanas em São Luís. Período marcado pelas demolições/construções, entre as quais a que construiu um jardim pertencente ao Largo do Palácio, que hoje equivale à atual Praça Pedro II. Houve também a duplicação da área suburbana de São Luís, com a abertura da estrada [Rua Rio Branco] que interligava a Rua Larga (atual Rua Grande) e o Largo dos Quartéis (atual Praça Deodoro), com a Ponta do Romeu (atual Praça dos Remédios ou Largo dos Amores). Em 1784, no governo de José Teles da Silva, iniciam-se as obras do aterro da Praia Grande. Nesse período, São Luís contava com aproximadamente 16.580 habitantes, distribuídos em 1482 fogos [residências de famílias], segundo registros do Vigário da freguesia. (MARQUES, 2002, p. 38).

  Ainda no final do século XVIII, atraídos pelo dinamismo econômico, agregam-se negociantes e escravos à população de São Luís, composta à época principalmente por militares, artífices e religiosos. A propósito, é possível identificar medidas conduzidas pela Coroa Portuguesa no sentido de estimular o povoamento. Conforme Viveiros (apud MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 26),

  [...] não tardaria o futuro Marquês de Pombal a encaminhar para o Estado do Grão- Pará e Maranhão uma intensa corrente imigratória, tendo como origem o Arquipélago dos Açores [...] a Coroa de Portugal assinou, em abril de 1751, com Joseph Álvares Torres um contrato para o transporte de mil pessoas das Ilhas dos

  Açores para o Estado do Grão-Pará. [...] Não há notícia de leva maior que esta.

  Nesse sentido, no século XVIII, como Belém, São Luís também é beneficiada pelas políticas e ações de incremento produtivo e populacional decorrentes da instalação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 32). No mesmo estudo a respeito do desenvolvimento urbano de São Luís sob a Lei das Sesmarias, Mota e Mantovani (1998, p. 33) dividiram dois momentos, nomeando o primeiro como

  “período de estabelecimento”, que compreende a fase histórica entre 1723 e 1760; neste passo,

  [...] as providências das autoridades municipais manifestam o sentido de fixar a escassa população, assim como o de elevá-la. Através das cartas-de-datas e sesmarias percebe-se que a prática dos primeiros colonos com relação à moradia consistia em se apropriar de um pedaço de chão e construir sua vivenda, sem qualquer legitimação que não fosse o trabalho de fazê-lo. (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 33).

  Com relação ao impacto das reformas pombalinas, Mota e Mantovani destacam o período que vai de 1760 a 1824. Para eles,

  [...] saindo do abandono em que se encontrava, São Luís, devido às suas atividades portuárias, passou a constituir-se em um espaço estratégico para o desenvolvimento então conhecido pela região. O espaço urbano inevitavelmente irá se alterar com as políticas de incentivo. Neste momento, as atividades urbanas se intensificam e a população se eleva e diversifica etnicamente. Uma das primeiras consequências deste fenômeno é a valorização dos chãos urbanos, pelo menos nas áreas sob a influência das atividades produtivas. (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 37).

  Ao final do século XVIII, em razão da ampliação das atividades econômicas voltadas para a exportação, com reflexos no aumento da população, passa interessar às autoridades controlar de modo mais seletivo a ocupação de espaço. De maneira diferente da adotada anteriormente, com a cessão sine causa de terrenos, são estabelecidos vários requisitos de cumprimento complexo e oneroso aos que solicitam lotes (MOTA; MANTOVANI, 1998).

  “Se antes, a orientação da Câmara era fixar moradores, as últimas décadas do século [XVIII] já manifestam um esforço no sentido de articular relações sociais, criar privilégios e

  • – em suma – instaurar uma classe dominante entre os homens livres” (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 49).

  César Marques (apud MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 40), ao discutir o aformoseamento da cidade naquele período, menciona um ofício que permite confirmar a observação de maior atenção e rigor por parte das autoridades para a concessão de lotes a pretendentes moradores, ao informar que

  [...] o Governador D. Antonio de Sales Noronha, em 17 de dezembro de 1779, oficiou ao Senado da Câmara dizendo “ter presenciado no corpo da cidade muitas casas cobertas de pindoba e assim ordenava que não se concedessem chãos a pessoas sem possibilidade para fazerem edifícios nobres, e que quando fossem concedidos devia ser debaixo dessas condições (MARQUES apud MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 40).

  Como diz Lefebvre (2009, p. 66), “a cidade contém assim a projeção dessas relações [sociais dominantes]”. A regulação das autoridades expressa a eficácia e a presença social dessas relações. Naquele momento, passa- se a verificar “um intenso processo de concentração de terrenos em mãos de particulares, e o núcleo urbano inicial se expande em vários bairros com vocações diferenciadas” (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 42). Afirmam estes autores que

  [...] desde as primeiras décadas do século [XVIII] as ordens religiosas eram o grande agente monopolizador de terras na colônia. [...] Nas terras recebidas construíram templos, conventos, colégios, sítios etc., feitorias que utilizavam mão de obra e, assim, fixavam população. Ao que parece, a vida da cidade girava ao seu redor nos

primeiros tempos. (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 42). Nas duas últimas décadas do século XVIII, a situação modifica-se e a acumulação de propriedade urbana passa a ser realizada por outros agentes. Informam Mota e Mantovani (1998, p. 43) que, “até este período os Anais da Câmara não registram acúmulo de terra por particulares; a partir de então, isto se torna uma prática comum e constante”. Naquele período da história da cidade e do Brasil, o algodão era um dos produtos de exportação que permitia a geração e a acumulação de riqueza. Para Botelho (2007, p. 65),

  [...] o algodão desenvolveu-se no Estado do Maranhão tendo um aumento das exportações e, consequentemente, um crescimento acelerado. O progresso do Maranhão continuou até o segundo decênio do século XIX, quando as exportações de algodão variaram, chegando ao ápice em 1818, produzindo-se um total de 402.793 arrobas. Nesta época, o Maranhão era o segundo maior produtor de algodão do Brasil, perdendo apenas para a Bahia, e figurava como a quarta província mais exitosa do Brasil, ficando abaixo apenas da Bahia, do Rio de Janeiro e de Pernambuco.

  Outro acontecimento importante para a configuração da cidade e feição de seus moradores foi a entrada, na segunda metade do século XVIII, de grande contingente de escravos negros oriundos da África para trabalhar nas plantações de algodão e arroz. Ilustra Botelho (2007, p. 68) que,

  “pelos idos de 1779, o Maranhão possuía 31.722 pretos e 18.573 mulatos, sendo 12.000 peças introduzidas pela Companhia [do Comércio do Estado do

  35.000 e 48.000 entre 1801 e 1820”. Observa, ainda, que “em percentuais, no ano de 1798, os escravos negros representavam 47% da população colonial e, em 1822, alcançavam 55%, excluindo- se os índios” (BOTELHO, 2007, p. 69). E “a população branca representava somente 16%” (BOTELHO, 2007, p. 107).

  Assim, com o final do século XVIII, em momento que se pode chamar de pós- pombalino, o que passou a exercer atração sobre a população residente não eram mais as igrejas e as fontes como outrora, mas o porto e as fábricas, estas voltadas ao beneficiamento do couro e soque de arroz (MOTA; MANTOVANI, 1998). É um período da história em que São Luís se converte em importante cidade. A expansão das áreas edificadas é acompanhada pelo aumento no número de praças na cidade. Prado Jr. (apud MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 28) nota que, [...] as cidades brasileiras, ainda em fins do regime colonial, eram insignificantes.

  Rio de Janeiro, então já a capital, não passava de 50.144 habitantes; Bahia, 45.600; Recife, 30.000; S. Luís do Maranhão, 22.000; S. Paulo, 16.000. Estas cinco cidades (as demais não passavam de aldeias) representam apenas 5,7% da população total do país, ou seja, 2.852.000 habitantes.

  Ainda estabelecendo comparações, no início do século XIX, a colônia portuguesa na América tinha uma população estimada em 3 milhões de habitantes, com uma densidade demográfica de aproximadamente 0,3 habitante por quilômetro quadrado. O povoamento estava concentrado no litoral. Por todo o território a população era distribuída de modo disperso, não existia uma rede urbana com cidades interligadas. Muitas vezes o transporte de mercadorias e pessoas era feito por cabotagem, margeando o extenso litoral.

  Nesse contexto, informa Prado Jr. (1980, p. 101) que “três daqueles núcleos são de grande importância: concentram-se em torno de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Dois outros seguem num segundo plano: Pará e Maranhão”. Logo, é possível inferir-se a formação de uma incipiente estrutura urbana em São Luís que se destaca no conjunto do País. No que se refere às outras vilas mais populosas do Maranhão em 1820, além de São Luís, assegura Botelho (2007, p. 73), eram elas,

  Alcântara com 3.000 habitantes, Caxias com 2.426 habitantes, Itapecuru que tinha 767 habitantes, Tutóia, com 760 moradores, Mearim com 680 moradores, Paço do Lumiar com 520 habitantes, Vinhais e Viana que possuíam 300 habitantes cada uma e Monção com 90 habitantes.

  Explica Márcia Marques a respeito das transformações urbanas de São Luís, que

  [...] no século XIX, as ruas se encontravam pavimentadas; havia uma preocupação com o espaço público, ajardinaram-se e arborizaram-se os largos, e as fontes receberam cuidados especiais. Durante o governo de Manoel Rodrigues de Oliveira, a cidade passou por uma grande expansão física e de marcante melhoria nas construções. Ainda no século XIX, houve a preocupação em relação às condições das edificações. [...] A cidade se encontrava em um período áureo, sendo a Praia Grande um foco para expansão comercial. Em 1805, concluíram-se as obras da margem direita da Foz do Bacanga e a construção da Casa das Tulhas [atual Feira da Praia Grande]. A cidade continuava a crescer e passava por inúmeras reformas, tais como reformas em edifícios públicos, calçamento das ruas e a transformação do Largo do

  Carmo e Largo dos Leões em agradáveis passeios públicos (1822). (MARQUES, 2002, p. 39).

  No século XIX a cidade vive um processo mais intenso de crescimento econômico, com reflexos em sua urbanização, caracterizando uma nova e complexa organização socioespacial. Os lotes residenciais urbanos, nas primeiras décadas do século, têm suas dimensões fixadas

  [...] pelos favores recebidos por alguns e a ousadia de outros. A regularidade dos lotes verificada antes

  • – de 5 braças de frente por 15 de fundo – deu lugar a lotes urbanos de até cinquenta braças ou mais, cercado por outros de quinze braças, e inúmeros de cinco, quatro e até duas braças e meia de testada. (MOTA; MANTOVANI, 1998, p. 51).

  A respeito de uma estratificação social de então, esclarece Botelho (2007, p. 107) que,

  [...] o bloco que comporá a base da pirâmide social será hegemonizada pelo escravo, doméstico, mas será também composto por negros forros, mulatos, cafuzos, camponeses brancos, mamelucos, muitos dos quais vaqueiros e artesãos, soldados, pescadores e coletores, compreendendo 45% da população. Apesar de escravista, havia um certo número de homens livres pobres que eram índios e indolentes, que viviam em meio aos escravos. Por outro lado, o estrato médio é formado por pequenos fazendeiros, oficiais militares, artesãos independentes, burocratas e profissionais liberais, cerca de 12% da população. A classe dominante, que compreendia apenas 3% da população, era formada pelos altos escalões administrativos, aristocracia rural e comerciantes abastados. Contará também com uma classe de comerciantes franceses e ingleses vinculados ao comércio.

  A entrada de escravos no Maranhão manteve-se crescente até o início da década de 1820, quando se reduziu. Pode-se dizer que a escravidão e a economia agroexportadora compõem importantes fatores para a ascensão econômica do Maranhão no século XIX.

  “O comércio de escravos era bastante dinâmico em São Luís e algumas cidades do interior. O grande comerciante José Gonçalves da Silva, “O Barateiro”, por exemplo, chegou a possuir 1.500 escravos, o que demonstra inserção dessa mão de obra neste período” (BOTELHO, 2007, p. 70).

  Ainda na mesma época, o Maranhão passa a sofrer a influência inglesa no comércio, pois o algodão atraiu investimentos ingleses que, “a partir de 1808, se estabeleceram no Maranhão, sobretudo em São Luís, disputando espaço comercial com os portugueses, brasileiros e até franceses. Os ingleses fundaram várias casas comerciais na região central de São Luís” (BOTELHO, 2007, p. 71). “Além dos comerciantes ingleses, franceses também se estabeleceram no Maranhão, disputando o comércio de joias e bijuterias. Portugueses e brasileiros dominavam o comércio do arroz, do cravo e outros setores do comércio” (BOTELHO, 2007, p. 73).

  Sobre a infraestrutura urbana da cidade em meados do século XIX, assinala Marques (2002, p. 40) que, em 1841,

  [...] o viajante Daniel Kidder relatou que São Luís era a quarta cidade do Império e Capital da importante província do Maranhão, contando naquela época com sofisticado sistema de transporte urbano: o BONDE. Possuía também companhias de luz, de telefone, de limpeza urbana e água (com o abastecimento d‟água feito através de seis chafarizes públicos). A iluminação no centro da cidade era feita por aperfeiçoado sistema de gás, alimentado por via subterrânea.

  Desde a fundação de São Luís em 1612 até aproximadamente o final do período colonial, o perfil populacional da cidade pouco foi alterado. Expressa a tabela a seguir, construída com base em dados esparsos apresentados nesta seção, o lento crescimento do número de habitantes. Em mais de duzentos anos de colonização a população e a estrutura urbana de São Luís mantiveram-se estabilizadas, não se configurando expressivas mudanças no território.

  Tabela 1

  • – Evolução Demográfica de São Luís (1612 – 1820)

  Período População de São Luís 1616

  500 1720

  1.400 1780

  16.000 1820

  22.000

Estimativas aproximadas com base nos dados referidos nos textos e citados acima.

  A partir do final da década de 1820 a crise na economia agroexportadora “trouxe consequências marcantes para o Maranhão, expressas na instabilidade política que norteou a nossa história nesse período, atingindo a década seguinte

  ” (BOTELHO, 2007, p. 73). Apenas no último quarto do século XIX, a indústria apresenta crescimento significativo no Maranhão, com a instalação de um parque têxtil de expressão.

  Para Feitosa e Trovão (2006, p. 189), “o crescimento econômico da cidade de São Luís motivou a instalação de um importante parque industrial que, no fim do século XIX, foi classificado [...] como o quarto mais importante do país”. Nesse sentido, informa Botelho (2007, p. 139) que,

  [...] entre 1875 e 1893, compunham o parque fabril maranhense 15 fábricas, sendo 10 em São Luís, 04 em Caxias e 01 em Codó. A fábrica de fiação e tecido Camboa situava-se às margens do rio Anil e originou o bairro da Camboa; a Companhia de Tecidos do Rio Anil, situada a 10 km do centro, foi uma das mais importantes fábricas têxteis da província; a companhia fabril foi definidora no tocante aos limites do Centro de São Luís. A Companhia de Fiação e Tecido Cânhamo, localizada no final da Rua de São Pantaleão, produzia fibra extraída da canabis sativa (cânhamo) para produzir tecidos; a companhia de fiação e tecelagem São Luís, também localizada na Rua de São Pantaleão; a fábrica Santa Amélia, a Companhia de Laticínios Maranhenses.

  Confirma Selbach (2009, p. 27) que “no final do século XIX, o número de habitantes em São Luís ainda girava em torno de 33 mil”. Nesse momento, no auge, a indústria têxtil em São Luís empregava grande contingente da mão de obra local.

  Contribuíram as fábricas para o surgimento de bairros como o Anil, a Madre Deus e a Camboa, a definição de limites da cidade, o alargamento do perímetro urbano. Lembra Márcia Marques (2002, p. 40) que, naquela época,

  “São Luís tinha como limites urbanos a Rua dos Remédios, indo deste à Ponta do Romeu e do Passeio, e o Caminho Grande ou Estrada Real, que levava ao interior da Ilha”.

  Informa Botelho (2007, p. 141) que “São Luís era considerada a „Manchester

  Brasileira ‟, devido à imponência do seu parque têxtil. Colocava-se a capital entre as principais cidades brasileiras. Mas, [...] a indústria maranhense também entrou em decadência ainda nos primeiros anos do século XX”. Ilustra Botelho (2007, p. 172) que “São Luís tinha uma grande fábrica na época, que chegou a empregar seiscentos operários

  ”. Ao final da República Velha, o Maranhão era um Estado de pouco peso econômico e político no contexto da nação. A maior parte de sua população vivia na zona rural, e ocupava-se com uma economia de subsistência. O historiador João Caldeira (apud BOTELHO, 2007, p. 179) mostra dados importantes da época,

  [...] em 1935, por exemplo, o estado possuía um total de 1.168.167 habitantes, enquanto sua capital, o centro urbano mais populoso, contava com 70.278 habitantes. Em 1933, nele existiam apenas 650 escolas de ensino primário, 18 de ensino secundário e 6 de ensino superior...entre os principais produtos da economia do estado, incluíam-se o arroz e o algodão com as seguintes médias de produção anual entre 1932 e 1935: arroz, 548.500 sacas de 60 quilos e algodão 28.273 toneladas, enquanto a atividade fabril contava com 44 fábricas entre as quais predominavam as do ramo têxtil e alimentos, que empregavam 3.105 operários em 1920. Ao longo da década de 1930, a quantidade de fábricas e operários permanece muito pouco alterada, e ainda diante da população economicamente ativa da região majoritariamente ocupada nas atividades agrícolas e extrativistas vegetais

  • – esse número de operários era pouco significativo.

  Sobre esse tempo da história da cidade, lembra Silva (apud SELBACH, 2009, p. 32) que, em 1936,

  “o interventor federal Paulo Martins da Sousa Ramos, procurou imprimir a nova visão para São Luís, onde o conjunto arquitetônico e urbanístico, até então preservado, passaria a ser visto como prova de atraso, contrário ao progresso modernista que se desejava impor no país

  ”. Esse patrimônio é formado por prédios e casario remanescentes dos séculos

  XVIII e XIX, “construídos de pedra pelos escravos, de azulejos importados de Portugal, de pedras de cantaria e de fachadas neoclássicas. [...] Destacam-se: a Praça do Comércio, Mercado Coberto, antiga Casa das Tulhas, Beco Catarina Mina, Beco da Prensa, o Convento das Mercês, dentre outros” (BOTELHO, 2007, p. 265). Deve-se frisar que, até o início do século XX, o número de praças na cidade de São Luís não chegava a duas dezenas, instaladas na região central e adjacências, pois a cidade ainda não experimentara alargamento espacial significativo como o observado na segunda parte do século.

  Na segunda metade do século XX, é construído o Porto do Itaqui. Data da mesma época o planejamento

  “do Distrito Industrial de São Luís, instalado a sudoeste da ilha para abrigar os complexos industriais e portuários previstos para as décadas seguintes, dentre os quais se destacam o da ALUMAR e o da Companhia Vale ” (FEITOSA; TROVÃO, 2006, p. 190).

  Com relação ao crescimento da cidade considerado a partir da década de 1950, Selbach

  (2009, p. 19) diz que “a zona metropolitana de São Luís do Maranhão [...] sofreu o impacto da urbanização tardia, mas acelerada. O fato de ser entrecortado pelos rios Anil e Bacanga contribuiu para a manutenção das características e feições originais do núcleo urbano inicial

  ”. Nessa área, atualmente denominada Centro Histórico, esclarece Silva (apud SELBACH, 2009, p. 19) encontra-se um “acervo arquitetônico – cerca de 3,5 mil construções

  que ocupam área aproximada de 250 hectares

  • – [...] tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1955 ”.

  Por muitas décadas a expansão urbana de São Luís foi limitada pelas dificuldades de transposição dos braços de mar do Anil e do Bacanga. Afirmam Feitosa e Trovão (2006, p. 190) que esses problemas foram superados

  [...] com a construção das pontes Newton Belo, José Sarney, Bandeira Tribuzi, Hilton Rodrigues e Sarney Filho, que facilitaram o acesso à zona norte do município, onde se situam as praias, [..] construção da barragem homônima [Bacanga] possibilitou o acesso à zona oeste, onde foi construído o complexo portuário.

  Entre as décadas de 1960 e 1970 a cidade experimenta um processo de expansão da população e de sua malha urbana. A cidade triplicara de tamanho, passando de 70 mil para 265 mil habitantes, de acordo com os dados do Censo Populacional 1970 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Selbach (2009, p. 19) resume as principais etapas desse processo,

  [...] a construção da barragem do Bacanga e da primeira ponte sobre o Rio Anil [...] a expansão fez-se quase exclusivamente no sentido leste-oeste, para as áreas como Camboa-Liberdade, Monte Castelo, Fátima, João Paulo e Alemanha, [...] para uma população urbana estimada em 205 mil habitantes (IBGE, 1970). A dinâmica de ocupação urbana de caráter espraiado, de baixa densidade populacional e expansão suburbana ou periférica, foi potencializada com a construção da primeira ponte sobre o rio Anil, o que permitiu o desenvolvimento da zona litorânea oeste-noroeste, nas áreas denominadas São Francisco, Ponta da Areia, Renascença, Calhau, Olho d‟Água e, posteriormente, Araçagy. Paralelo à zona litorânea, na parte interior, foram ocupadas as áreas do Cohama e Turu. Além disso, a zona urbana continuou expandindo no sentido leste-oeste, para o Anil, Cohatrac, Coroadinho, Bequimão e Angelim. No lado oposto da barragem do Bacanga, sentido sul do Centro, surgiram aglomerações periféricas, como Anjo da Guarda, Sá Viana e Vila Embratel.

  Botelho (2007) destaca, nessa mesma ocasião do processo de crescimento urbano, a intensa migração campo-cidade, resultante da miséria na zona rural, que contribuiu para expulsar populações e acarretar o êxodo rural, o crescimento urbano desordenado e a favelização.

  Observa Botelho (2007, p. 192) que “em 1969, diante de uma população estimada em 251.389 habitantes, aproximadamente 40.000 destes residiam em palafitas, que representavam, em termos proporcionais, cerca de 16% daquele número estimado ”.

  Não só a miséria no campo favoreceu a urbanização da população e crescimento urbano. Com o s grandes projetos de desenvolvimento do tempo do “milagre econômico” brasileiro nas décadas de 1960 e 1970, “a cidade de São Luís tornou-se área atrativa de grande contingente populacional, fato que provocou intensa aceleração dos processos de expansão urbana e de crescimento demográfico

  ” (FEITOSA; TROVÃO, 2006, p. 190). Pode-se dizer que, a partir da década de 1970, ocorre acentuada mudança na configuração urbana de São Luís. Para Selbach (2009, p. 39),

  [...] a capital maranhense foi palco de um processo concentrado de migração, especialmente nos anos 80-90, com a inclusão média de 200 mil habitantes por década, perfazendo no final do século 870 mil habitantes. Para comportar essa massa populacional, a cidade cresceu de forma espraiada, expandindo-se para além do núcleo central, para as margens opostas dos rios Anil e Bacanga, além da direção leste-oeste.

  Ao apurar o processo de crescimento populacional e urbano da cidade de São Luís ao longo da história, é possível caracterizar uma fase inicial que dura até a segunda década do século XX, na qual persiste um inexpressivo desenvolvimento, com poucas modificações em seu núcleo central originário do período colonial. Com o advento da República, verifica-se um decréscimo populacional em São Luís. A partir da década de 1930, configura-se um incremento urbano em novos patamares relativos e absolutos. Além do crescimento vegetativo, a cidade experimenta um aumento acelerado com o estabelecimento e a incorporação em seu território de novas populações de migrantes. Novos bairros são fundados e outra configuração urbana vai sendo delineada. A partir dos anos de 1970 não há como negar o ascendente crescimento da cidade, que se intensifica nas décadas seguintes. A Tabela 2 enuncia as mudanças verificadas na composição populacional de São Luís ao longo dos últimos 140 anos.

  

Tabela 2 – Evolução Demográfica de São Luís (1872 – 2010)

  População do Município Período São Luís

  1872 31.604

  1890 29.308

  1900 36.798

  1920 52.929

  1940 85.583 1950 119.785

  1960 159.628 1970 270.651 1980 460.320 1991 695.199 2000 868.047 2010 1.014.837

  

Fonte: Recenseamento do Brazil 1872-1920. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatística, 1872-1930; e IBGE,

Censo Demográfico 1940/2010. Até 1991, tabela extraída de: IBGE,

  

  Para esse rápido crescimento urbano verificado entre as décadas de 1970 e 2000, muito contribuiu o movimento populacional migratório, que deixou de ser orientado para a região sudeste do País e passou a ser direcionado à capital do Estado, São Luís, caracterizando um processo demográfico intraestadual. Conforme é possível apurar analisando as estatísticas do IBGE constantes da Tabela 3, São Luís atravessou um intenso e acelerado processo de crescimento nas últimas três décadas, com impactos significativos na sua estrutura. Em trinta anos a população da cidade de São Luís mais que dobrou.

  De um total de duas dezenas de praças no início do século XX, no limiar do século

  XXI conta a área urbana de São Luís com aproximadamente 300 (trezentas) praças, incluindo na contagem as existentes e os espaços destinados a construção de praças ainda não edificadas, conforme inferências a partir da leitura de mapas contidos no Plano da Paisagem Urbana do Município de São Luís, organizado pelo Instituto Municipal da Paisagem Urbana

  • – IMPUR – (2003), e no mapeamento do Instituto da Cidade (INCID), elaborado em 2009. Existe ainda demanda por mais praças; no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estão previstas para São Luís pelo menos quatro novas praças para o período 2010/2012. Esses espaços das praças estão, entretanto, dissociados do cotidiano urbano, o que reflete em usos e apropriações sociais aquém das necessidades e possibilidades dos moradores vizinhos.

  

Tabela 3 – Evolução Demográfica de São Luís e Maranhão (1991 – 2010)

População

  Crescimento Crescimento 1991 2000 2010 1991 - 2000 2000 - 2010

São Luís 666.433 870.028 1.011.943 3,05 1,50 Maranhão 4.930.275 5.651.475 6.569.683 1,54 1,52

Fonte: IBGE

9 Tabela 4

  • – População Residente em São Luís (2010)

  População Residente População Absoluta

  Percentual da População

  População Residente Total 1.014.837

  100%

  População Urbana 958.522

  94,5% População Rural 56.315 5,5%

  

Fonte: IBGE

  A Tabela 4 demonstra a população residente urbana e rural em números absolutos e relativos. São Luís é considerado um município com elevado índice de urbanização, somando quase 95% de residentes no perímetro urbano, de acordo com dados do IBGE. Com referência à composição e estrutura da cidade, o século XXI se anuncia como um período de grandes incorporações imobiliárias e verticalização, associado ao crescimento espraiado dos bairros periféricos. Esse processo foi encetado na década de 1990, tornando-se mais expressivo ao final do decênio.

  Atualmente, como consequências dessas mudanças, constata-se que é ampliada a pressão populacional por serviços, demandando, por conseguinte, investimentos em infraestrutura urbana, com adaptação de logradouros públicos, entre estes as praças, e melhorias no sistema de mobilidade e transporte público urbano. Devido ao acentuado crescimento populacional, passa a existir pressão sobre os recursos espaciais. Um número maior de usuários tem pleiteado o acesso às praças. Parcelas do solo da cidade com destinação futura reservada à construção de praças e áreas de lazer devem constar nos programas públicos do orçamento para edificação nos próximos anos.

  Multiplicam-se também na cidade a construção de shopping centers. A partir da década de 1990 vão sendo erguidos esses locais de concentração de comerciantes e oferta de diversão e lazer. Deve-se ressaltar que no curso da pesquisa é inaugurado o empreendimento econômico considerado de maior porte no Estado do Maranhão. Esses centros de compras

  9 também têm suas praças [de alimentação], que disputam frequentadores, exercendo atração sobre a crescente população da ilha.

  Assim, as transformações aludidas têm envolvido nos anos recentes importantes mudanças na composição do espaço social urbano. São Luís experimentou forte crescimento nos últimos cinquenta anos, mas os espaços de lazer e convivência ficaram restritos. O espaço público já não parece exercer a mesma atração ao convívio como ocorria no passado. O desafio presente parece ser preservar áreas e praças tradicionais, agregando outras novas como resposta às demandas por espaços públicos conservados, dotados de equipamentos modernos, adequados aos usos sociais que seus frequentadores citadinos julgam merecer. Por suas peculiaridades distintivas, em São Luís produz-se o novo, necessitando-se, no entanto, preservar um patrimônio cultural importante enquanto espaço social para as sociabilidades.

  tradicional ao supermoderno Ao tratar das mudanças e permanências na composição urbana da cidade, é preciso lembrar o Centro Histórico, herança do tempo colonial, que ainda se mantém erguido. Deve-se também pensar no processo de expansão experimentado por São Luís, sobretudo, ao longo do século XX. É em homenagem e reconhecimento a esse conjunto arquitetônico diferenciado que a Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) conferiu em 1997 à São Luís o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 1955, esse conjunto já havia sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

  Esse acervo de valor histórico e cultural pode ser encontrado também em outros bairros da cidade, não se fazendo presente apenas no Centro

  • – local onde está situada a Praça Gonçalves Dias. Mas, ao pensar em oposições como mudanças e permanências, o tradicional e o supermoderno, não restam dúvidas que aquela área com casario construído nos séculos

  XVIII e XIX merece destaque. Erguido por escravos com equipamentos e utensílios trazidos da Europa, a área que hoje compreende o Projeto Reviver, com sua singularidade e dimensão territorial, é associada à tradição, ao que ainda permanece, apesar das grandes mudanças experimentadas pela cidade nos últimos cem anos. Atualmente, com a preservação desse sítio, espera-se revitalizar o conjunto arquitetônico do Centro Histórico de São Luís. O Projeto contempla aproximadamente 15 (quinze) quadras e cerca de 200 (duzentos) imóveis, totalizando uma área com mais de cem mil metros quadrados.

  No Centro está localizada, portanto, a cidade histórica. Nesta região estão situadas as praças cujas origens datam dos séculos XVIII, XIX e início do XX. As praças com a configuração e o traçado tradicionais estão reunidas na zona central. Apresenta um conjunto homogêneo, usado socialmente por moradores e pessoas que circulam e trabalham naquela área. Com a expansão acelerada da cidade na segunda metade do século XX, os novos bairros construídos são desprovidos, em sua maioria, desses espaços públicos organizados e destinados a locais de sociabilidades.

  Um dos fatores que exerceu influência na composição moderna da cidade foi a instalação de indústrias. Como consequência desse processo econômico, São Luís inicia uma mudança de feições, deixando aos poucos de ser a cidade colonial. Conforme Lefebvre (2009, p. 11),

  “para apresentar e expor a „problemática urbana‟, impõe-se um ponto de partida: o processo de industrialização. [...] A in dustrialização caracteriza a sociedade moderna”. Para

  Lefebvre (2009, p. 14), “a industrialização pressupõe a ruptura desse sistema urbano preexistente; ela implica a desestruturação das estruturas estabelecidas”. A cidade, consequentemente, é modificada pelos processos históricos de mudança social. Para Frúgoli Júnior (1995, p. 13), “o capitalismo não apenas atrelou a centralidade urbana ao consumo, como aos poucos desfigurou as centralidades tradicionais”. Assertivamente, expõe Lefebvre (2009, p. 57) que, se

  [...] processos globais (econômicos, sociais, políticos, culturais) modelaram o espaço urbano e modelaram a cidade, eles o fizeram permitindo que grupos aí se introduzissem, que se encarregaram deles, que se apropriaram deles; e isto inventando, esculpindo o espaço, atribuindo-se ritmos. Tais grupos igualmente inovaram no modo de viver, de ter uma família, de criar e educar as crianças, de deixar um lugar mais ou menos grande às mulheres, de utilizar ou transmitir a riqueza. Essas transformações da vida cotidiana modificaram a realidade urbana, não sem tirar dela suas motivações. A cidade foi ao mesmo tempo o local e o meio, o teatro e a arena dessas interações complexas.

  São Luís sofreu rápidas transformações em seu cenário urbano, sobretudo na segunda metade do século XX. As oportunidades de empregos percebidas fizeram aumentar o contingente de migrantes do interior do estado na direção da cidade. A corrente migratória, direcionada aos centros regionais, tem como principal polo de atração no Maranhão sua capital. A urbanização acelerada trouxe grande contingente de camponeses estranhos àquele ambiente.

  Os espaços centrais da cidade, como as praças, passaram por esses impactos: novos atores, novos ritmos, novas configurações espaciais. Pesavento (apud MACHADO, 2008, p. 95), explica que a modernidade urbana é

  “representação sensível da renovação capitalista do mundo, a modernidade enquanto experiência histórica, individual e coletiva, faz da cidade mais que um lócus, um verdadeiro personagem”. Considera Lefebvre (2009) que é nesse contexto que a cidade torna-se um problema, como objeto de reflexão.

  Segundo Pesavento (apud MACHADO, 2008, p. 96), “a transformação da cidade desencadeia uma luta de representações entre o progresso e a tradição: uma cidade moderna é aquela que destrói para construir, arrasando para embelezar”. A partir de então, configura-se para Frúgoli Júnior (1995, p. 15),

  [...] na paisagem urbana das grandes cidades, um cenário irreversível marcado pelas multidões em movimento pelas ruas. Os espaços públicos são alvo de intensas intervenções urbanas visando priorizar o fluxo. Pressentem-se vivências inéditas, ao mesmo tempo em que crescem representações sobre a cidade moderna que ressaltam sua dimensão perigosa e ameaçadora.

  Conforme explica Frúgoli Júnior (1995, p. 16), “o modernismo característico de boa parcela do século XX vai priorizar a segmentação, especialização e funcionalidade do traçado urbano, integrando os espaços através das rodovias, cuja modernidade residiria em sua capaci dade de produzir circulação motorizada”.

  Em razão de suas peculiaridades, a cidade de São Luís contemporânea apresenta uma ativa articulação entre o tradicional e o moderno. A região central representava a cidade até recentemente; espaço de residência das famílias abastadas, a partir do meio do século XX passa a sofrer um processo lento de abandono por esses grupos familiares, que passam a morar em outros bairros. O centro tradicional começa a sofrer, então, um período de esvaziamento. Como decorrência, as praças têm conservada sua estrutura antiga colonial, mas passam a servir um público residente cada vez mais escasso.

  Com a instalação do regime militar, o País passa a experimentar a chamada modernização conservadora: ações e políticas governamentais com orientações modernizantes, mas de cunho autoritário e excludente, sem participação popular nas decisões dos agentes públicos. Seus reflexos na estrutura de São Luís estão presentes nos novos conjuntos e bairros construídos, que começam a formar como que ilhas isoladas na cidade. Em princípio, ainda dependentes do Centro, mas que aos poucos foram rivalizando com a região central, apresentando uma diversidade de opções de comércio e serviços; contribuíram eles para desarticular ainda mais o posicionamento outrora ocupado na cidade pelo núcleo original de procedência colonial.

  Nesse ambiente de mudanças urbanas, as praças públicas têm sido usadas e apropriadas socialmente pelos diversos indivíduos e grupos que as frequentam ou por elas transitam. Esses usos nem sempre se apresentam de forma harmoniosa e muitas vezes chegam a ser conflitivos. Essa característica da vida cotidiana dos grandes centros urbanos decorre, como diz Frúgoli Júnior (1995, p. 34),

  “da coexistência, no mesmo espaço, de uma multiplicidade de códigos e significados, acarretando muitas vezes relações conflitivas entre os grupos sociais, uma vez que se cruzam visões e práticas diferenciadas”. Conflitos podem ser notados nas praças, como os constatados entre grupos que não observam limites simbólicos ou territoriais às suas práticas. Os que transitam por toda a praça, não oportunizando condições a outros de usarem proveitosamente o espaço, podem incorrer em práticas dissociativas.

  Padrão que se repete é representado pelas reclamações provocadas pela violência nas praças, expressa por roubos, furtos, agressões, maus-tratos a animais indesejados por alguns grupos. Resulta dessas interações a percepção do espaço público contemporâneo como lugar perigoso e que passa a ser evitado como opção de frequência. Nesse sentido, manifesta- se Frúgoli Júnior (1995, p. 35), ao considerar que,

  [...] dentro desse cenário em permanente transformação, vários grupos sociais imprimem determinados usos ao espaço público, seja para a circulação ou a ocupação cotidiana, definindo, em decorrência, alguns padrões de interação, a partir dos quais se torna possível mapear as ruas, refletir sobre os grupos sociais que buscam se apropriar delas, os conflitos decorrentes dessas ocupações diversificadas, os destinos desses espaços públicos em sua dimensão cotidiana.

  Neste contexto, passam a coexistir “mundos diferentes que a cidade moderna estabelece, chaminés e campanários confundidos. [...] A perda do sujeito na multidão

  • – ou, ao contrário, o poder absoluto, reivindicado pela consciência individual ” (AUGÉ, 2010, p. 85).
Defende Martins que a modernidade no Brasil é anômala e inconclusa, com hesitações e contradições. Destaca Martins (2011, p. 18) que “mais se fala da modernidade do que ela efetivamente

  é”. Continua ele afirmando que “a modernidade só o é quando pode ser ao mesmo tempo o moderno e a consciência crítica do moderno; o moderno situado, objeto de consciência e ponderação

  ” (MARTINS, 2011, p. 18). As palavras de Martins cabem também a São Luís. Esclarece ele que

  [...] a anomalia está no fato de que se trata de uma modernidade sem crítica

  • – sem consciência da sua transitoriedade, de que tudo é moda e passageiro. É modernidade, mas sua constituição e difusão se enredam em referenciais do tradicionalismo sem se tornar conservadorismo. Porque também desse lado estamos em face do inconcluso, do insuficiente, do postiço. (MARTINS, 2011, p. 44).

  Sobre uma etapa adiante à modernidade, a pós-modernidade, Giddens (1991, p. 162) anota que

  “um sistema pós-moderno será institucionalmente complexo, e podemos caracterizá-lo como representando um movimento para „além‟ da modernidade”. Segundo parece para Giddens (1991), o perfil de uma ordem pós-moderna seria caracterizado por transformações com a participação democrática de múltiplas camadas, humanização da tecnologia, desmilitarização e implantação de um sistema pós-escassez.

  Harvey enfatiza a relação do que chama de movimento pós-moderno com a cultura da vida diária; afirma ele que “há inúmeros pontos de contato entre produtores de artefatos culturais e o público em geral: arquitetura, propaganda, moda, filmes, promoção de eventos multimídia, espetáculos grandiosos, campanhas políticas e a onipresente televisão” (HARVEY, 2007, p. 62).

  Mas, como destaca este autor, “façamos o que fizermos com o conceito, não devemos ler o pós-modernismo como uma corrente artística autônoma; seu enraizamento na vida cotidiana é uma de suas características mais patentemente claras” (HARVEY, 2007, 65).

  Além do tradicional, do moderno, do pós-moderno, é possível refletir sobre a existência de uma série de características que expressariam ainda o que se pode rotular de supermodernidade.

  Segundo Augé (2010, p. 100), “a supermodernidade procede simultaneamente das três figuras do excesso que são a superabundância factual, a superabundância espacial e a individualização das referências ”.

  Consoante a perspectiva desse autor,

  [...] a supermodernidade não é o todo da contemporaneidade. [...] O que o espectador da modernidade contempla é a imbricação do antigo e do novo. A supermodernidade faz do antigo (da história) um espetáculo específico

  • – como de todos os exotismos e particularismos locais (AUGÉ, 2010, p. 101).

  O espaço da supermodernidade difere daquele que é próprio à modernidade. Conforme Augé (2010, p. 101

  ), “o espaço da supermodernidade é trabalhado por esta contradição: ele só trata com indivíduos (clientes, passageiros, usuários, ouvintes), mas eles só são identificados, socializados e localizados (nome, profissão, local de nascimento, endereço) na entr ada ou na saída”. No mundo atual tornou-se fenômeno geral o que os etnólogos tradicionalmente chamavam de “contato cultural”; para Augé (2010, p. 100),

  [...] a primeira dificuldade de uma etnologia do „aqui‟ é que ela sempre trata com o „distante‟, sem que o estatuto desse „distante‟ possa ser constituído como objeto singular e distinto (exótico). A linguagem comprova essas impregnações múltiplas.

  O recurso ao basic english das tecnologias da comunicação ou do marketing é revelador a este respeito: ele marca menos o triunfo de uma linguagem sobre as outras do que a invasão de todas as línguas por um vocabulário de recepção universal.

  Ao cogitar as mudanças e permanências na composição urbana de São Luís, a intenção foi apurar como as transformações das condições sócio-históricas afetaram os usos e apropriações sociais das praças. Esses espaços foram pensados em âmbitos sociotemporais diferenciados, com o emprego de antonímias como as noções de tradicional, moderno, pós- moderno e supermoderno. Deve-se frisar que a praça representa um lugar, não se enquadrando na categoria de não lugar aludida por Augé quando trata da supermodernidade.

  Pode-se entender que diferentes usos e apropriações sociais do espaço convivem na cidade contemporânea. Práticas tradicionais coexistem com hábitos recentemente incorporados aos comportamentos dos citadinos. Relações mais intensas de vizinhança, reconhecimento e proximidade estão presentes nas praças de bairros, com a da Ressurreição e a do Conjunto dos Ipês. A Praça Gonçalves Dias, por exemplo, apresenta igualmente relações entre vizinhos, mas menos pronunciadas que nas outras duas praças pesquisadas.

  Ainda assim, as praças públicas de São Luís são também afetadas em suas destinações sociais pelo que seria a pós-modernidade ou a supermodernidade. As práticas de indivíduos e grupos já não são mais similares àquelas de uma sociedade tradicional, nem essencialmente eles são os mesmos. Nas praças os impulsos modernizadores foram sentidos, alcançando seus usuários, incutindo novos hábitos aos citadinos. O consumo direcionado ao intenso manuseio das tecnologias da informação e da comunicação foi constatado como dominando rotinas daqueles que frequentam os espaços públicos. Deve-se, igualmente, mencionar os shopping centers, enquanto espaços de uso coletivo com suas praças de alimentação, como locais receptivos à copresença. Seja no Centro da cidade, nos bairros próximos ou afastados, a inovação está presente e exerce poderosa influência sobre os padrões de interação social, marcados por novos usos e apropriações sociais das praças de São Luís.

  

4 USOS E APROPRIAđỏES SOCIAIS DO ESPAđO PÚBLICO NAS PRAđAS DE

SÃO LUÍS

  Os usos e apropriações sociais desses espaços por citadinos, individualmente considerados ou em grupos, conferem a esses locais a possibilidade de sua continuidade sócio-histórica, enquanto ambientes onde são produzidas e reproduzidas determinadas práticas, cultivadas civilidades e estabelecidos laços na vida social. Preliminarmente, um requisito que precisa ser referido como básico para assegurar o uso e apropriação social de um espaço é a permissão de acesso a ele, sem o qual não admite uso, muito menos apropriação. Ao levar em conta este aspecto, Carr (apud ALEX, 2008, p. 25) em sua obra Public space elabora uma classificação de tipos de acesso ao espaço público como físico, visual e simbólico ou social. Esquematiza ele que

  [...] acesso físico refere-se à ausência de barreiras espaciais ou arquitetônicas (construções, plantas, água, etc.) para entrar e sair de um lugar. [...] Acesso visual, ou visibilidade, define a qualidade do primeiro contato, mesmo a distância, do usuário com o lugar. [...] Acesso simbólico ou social refere-se à presença de sinais, sutis ou ostensivos, que sugerem quem é e quem não é bem-vindo ao lugar. (CARR apud ALEX, 2008, p. 25).

  Ao se analisar os usos e as apropriações sociais do espaço público nas praças de São Luís, com base nessa tipologia, buscam-se apurar determinadas condições que devem ser levadas em conta para estabelecer e manter situações sociais de interação. O estudo prestigia e está direcionado ao acesso no sentido simbólico ou social, que pode ser determinado pela presença de atores que podem ou não dificultar, embaraçar, inibir e impedir o acesso, atraindo ou repelindo frequentadores.

  Por conseguinte, são expressas por indivíduos e grupos, de modo ostensivo ou velado, a aceitação e a rejeição da copresença no espaço das praças, e são negociados cotidianamente os ingressos, as permanências e mantidas as posições sociais. Essas circunstâncias expressam, então,

  “aquilo que acontece na rua, nas praças, nos vazios, aquilo que aí se diz” (LEFEBVRE, 2009, p. 70); mas também a “língua da cidade: as particularidades próprias a tal cidade [ou praça] e que são expressas nas conversas, nos gestos, nas roupas, nas palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes”, observando o que diz Lefebvre (2009, p. 70). Park considera que os usos fazem a cidade viva. Pontua ele que

  [...] muito do que normalmente consideramos como a cidade

  • – seu estatuto, organização formal, edifícios, trilhos de rua, e assim por diante
  • – é, ou parece ser, mero artefato. Mas essas coisas em si mesmas são utilidades, dispositivos adventícios que somente se tornam parte da cidade viva quando, e enquanto, se interligam através do uso e costume, como uma ferramenta na mão do homem, com as forças vitais residentes nos indivíduos e na comunidade. (PARK, 1979, p. 27).

  Assim, os usos e apropriações sociais do espaço público sofrem condicionantes de diversos fatores, que podem ser de ordem natural ou social. Interessa aqui apreender os fatores sociais que interferem com as possibilidades de acesso, uso e apropriação do espaço das praças, as quais podem ser aproveitadas como arenas ou palcos para as mais variadas atividades diárias. Como as interações, ações e relações sociais entre indivíduos e grupos ocorrem em determinados espaços, o senso de territorialidade deve ser apurado. O social é também espacializado.

  Assim, na vida cotidiana, as relações sociais entre os citadinos transcorrem em certo espaço, com cenário e território delimitado, que pode ser concebido tal como um palco ou arena onde ocorrem os engajamentos e interações. A noção de territorialidade está associada a um espaço físico determinado, reservado à copresença de alguns atores que nele têm acesso para ingressos e saídas. A permissão para o trânsito, a chegada e a permanência é garantida com o emprego de estratégias que visem demonstrar o quanto algum pretendente à admissão nesse espaço é bem-vindo ou é considerado indesejado e percebido como intruso.

  As ações sociais dos atores ocorrem, assim, em um território. Mais do que espaço apenas, ele é qualificado pela divisão, demarcação e delimitação social enquanto terreno de alguns grupos de frequentadores e usuários. Neste sentido, afirma Park (1979, p. 29) que

  [...] a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que a habitam. A consequência é que a cidade possui uma organização moral bem como uma organização física e estas duas interagem mutuamente de modos característicos para se moldarem e modificarem uma a outra. Não apenas individualmente considerados na qualidade de atores, mas, sobretudo, enquanto grupos, os agentes sociais selecionam determinadas frações do território em que tendem a se fixar. Dentro desses limites apropriados decidem usos particulares, próprios às suas condições objetivas. Os conflitos se intensificam quando esses perímetros não estão claramente demarcados ou são extrapolados. Por conseguinte, pode-se conceber o espaço das praças como vários territórios definidos idealmente (vendedores ambulantes, flanelinhas

  • – por exemplo) e sobrepostos uns aos outros, disputados eventualmente por diversos atores sociais. Respeitar e acatar as determinações simbólicas desses limites representa sustentar as condições de copresença nesses espaços.

  Mostra Park (1979, p. 27) que “existem forças atuando dentro dos limites da comunidade urbana

  • – na verdade, dentro dos limites de qualquer área de habitação humana – forças que tendem a ocasionar um agrupamento típico e ordenado de sua população e instituições”. Essa perspectiva essencialmente espacial de Park

  [...] auxiliou a desenvolver um sentido de lugar, mas com uma margem de ambiguidade, pois se a cidade constitui um fenômeno territorial, é sempre um desafio avaliar a extensão antropológica do mesmo, devido à significativa mobilidade

espacial dos atores sociais (FRÚGOLI JR., 2007, p. 22).

  Pode-se verificar nas idas às praças, a formação desses contornos territoriais. Para fazer referência a essa dimensão das relações sociais, Magnani (2003) sugere o uso do conceito “pedaço”. No espaço físico encontra-se uma determinada rede de relações sociais que atrai para o local determinados indivíduos com atributos semelhantes ou compartilhados, que conferem a ele a qualidade de ponto de encontro obrigatório. No pedaço é desenvolvida uma sociabilidade básica e estável, na qual prevalecem relações sociais informais.

  Por conseguinte, o pedaço representa o espaço no qual está inserida determinada rede de relações sociais. Essas relações ocorrem fisicamente em um determinado ambiente, no qual são estabelecidos limites de copresença. Essa territorialidade contribui para a definição de fronteiras, mesmo que não demarcadas com claros limites dotados de marcos físicos, mas delimitadas por fronteiras simbólicas. O sentimento de pertencer a um grupo envolve a frequência a alguns espaços, que ratificam afetos e identidades individuais, personalíssimas e sociais. A construção social da rede de relações sociais é marcada pela conservação e sustentação das situações de interação, o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade, baseadas em atitudes como cumplicidade e conivência respeitosa. As redes combinam laços de parentesco, vizinhança e procedência, que permitem a seus integrantes reconhecerem-se em qualquer circunstância. A ação de escolha dos pedaços em todas as praças parece estar ligada ao ator social que se apropria e ao tipo de uso, o qual expressa as utilidades e funcionalidades buscadas naquele contexto socioespacial.

  Na Praça Gonçalves Dias indivíduos e grupos estão de forma mais distribuída pelo território. Existem pontos de encontro ou pedaços onde determinados ajuntamentos se congregam e permanecem interagindo, mas todos os cantos são usados pelos atores sociais. Os estudantes da área da saúde da Universidade Federal do Maranhão preferem ficar em frente ao prédio, pois a proximidade possibilita acessos mais rápidos de retorno às dependências do edifício. Quem aguarda a missa na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios senta-se em bancos nas imediações, para onde se deslocam vendedores ambulantes desejosos de vender pipoca ou sorvete. Os skatistas preferem a parte central, sobretudo quando suspendem momentaneamente suas atividades desportivas, mas, como o piso é o mesmo em toda a Praça, exercitam sua prática e estão em todos os espaços.

  De maneira um pouco diversa, na Praça da Ressurreição os territórios apropriados mais intensamente pelos atores sociais estão nas bordas e franjas, nas esquinas. O centro da Praça, com amplos degraus, praticamente não costuma ser usado, apenas em ocasiões extraordinárias como grandes eventos

  • – festejos religiosos ou parques de diversão instalados por temporada. Na calçada ao largo da rua ficam as lanchonetes, onde se reúnem os jovens e demais frequentadores. Existe uma articulação, que se evidencia em expectativas, dos que estão conversando ou lanchando com os que transitam pela via pública, que muitas vezes aguardam para se sentarem às mesas ou serem convidados a participar das conversas. Nessas situações sociais, além da convergência de interesses, são recursos importantes que lançam mão os atores para obter prestígio em suas interações: ter o necessário para pagar seu lanche e o de algum convidado, bem como deixar entrever ou exibir um automóvel ou motocicleta em que se deslocaram até a Praça.

  Na Praça do Conjunto dos Ipês os territórios e usuários estão mais dispersos, não se podendo identificar um espaçamento socioterritorial específico. Existe o pedaço para o qual convergem certas ações, como é o caso do abrigo no ponto final do ponto de ônibus, que é apropriado por usuários do transporte coletivo e rodoviários. Por ser local de concentração de pessoas, instala-se vendedor ambulante para a oferta de pequenos lanches e doces. Ao redor do supermercado localizado na Praça estão as vagas de estacionamento destinadas aos fregueses do estabelecimento comercial, os quais ao posicionarem seus carros de maneira desordenada, por vezes obstruem o fluxo de pessoas e automóveis no local. A Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE), entidade comunitária que zela pela Praça, tem escritório nela instalado, onde funciona a administração, ocorrem reuniões e são cumpridas algumas obrigações dos associados. Ali seria o pedaço institucional da Associação de Moradores, a partir do qual se pretende zelar pela Praça e pelo Conjunto.

  As praças apresentam, por conseguinte, suas particularidades. Limites socioespaciais, territórios, pedaços e redes de relações sociais são noções que permitem refletir as diferenciadas configurações socioespaciais. Os partícipes, ao interagirem individual ou coletivamente, produzem socialmente os espaços nos quais podem suceder os usos e apropriações. Indivíduos e grupos concorrem para a construção e atribuição de significados ao território. Singularidade e coletividade integram-se, com o exercício das intervenções sociais. Quando se busca compreender aspectos individuais e coletivos que influenciam a produção social de espaços, pretende- se empreender uma “interpretação mais clara e mais realista da estrutura das conexões humanas, particularmente dos padrões sociais de conflito que nelas se fundamentam” (ELIAS, 2008, p. 26).

  Nas praças predominam ações sociais com orientações em redes que permitem compartilhar o espaço. O espaço é produzido e reproduzido cotidianamente pelas ações reiteradas nas diversas manifestações dos atores atuantes nos engajamentos. Nisto consiste a eficácia das ações coletivas, como recursos de pressão que resultam na imposição de certos usos e apropriações dos espaços, pois facilitam a percepção das fronteiras sociosimbólicas em razão do número de participantes, permitindo verificar quem são os indivíduos bem-vindos ou indesejados.

  Nesse processo os atores reconhecem-se ou mantêm um maior distanciamento. Ser aceito como partícipe de um grupo requer uma série de atributos simbólicos, que conferem condições para o estabelecimento e a continuidade de engajamentos. Mesmo as relações sociais incidindo em um território no qual existe a proximidade física dos atores atuantes, o distanciamento simbólico pode permanecer. Se este for mantido, as oposições conflituosas latentes tendem a se manifestar. Nesse momento, indivíduos e grupos declaram reconhecerem- se como rivais ou inimigos, relacionando-se a partir de então de acordo com esta orientação. Para Elias (1998, p. 17), as ameaças de conflitos “tem raízes nas relações dos grupos de pessoas, em suas atitudes e em seus sentimentos recíprocos”.

  Os grupos tendem a não aceitar facilmente a presença de outros que concorrem para os usos dos espaços sociais das praças. Sejam integrantes de grupos de jovens ou expressando-se na categoria de skatistas, por vezes ocorrem conflitos decorrentes desse distanciamento social. Os antagonismos verificados estão relacionados a divergentes perspectivas do que é justo e legítimo nas condutas individuais e coletivas de acordo com os valores e sentimentos dos grupos. Os anseios de identidade e participação são reforçados pela reprodução de códigos de identificação, como linguajar partilhado, opiniões comuns sobre os outros e pontos de vista semelhantes que possibilitam a integração entre os membros dos ajuntamentos. As disputas podem ser graduadas, com manifestações que vão, desde uma demonstração de ansiedade em comportamentos intranquilos com gesticulações excessivas, apenas notadas em uma observação mais atenta, até embates que causam uma desordem pública.

  A autorrepresentação de pessoas e coletividades, “característica de seu envolvimento cognitivo e narcisista, é com frequência uniformemente boa, enquanto rivais ou inimigos tendem, segundo sua ótica, a não ter nenhum mérito, sendo completamente maus” (ELIAS, 1998, p. 20). Sobre esses estereótipos, alguns agrupamentos expressam forte sentimento de nós e de pertencimento. Entre estes está o grupo voltado a prática de atividades esportivas e de lazer. Apesar de diversificados em suas procedências socioespaciais, em decorrência do propósito utilitarista de usar e apropriar-se do espaço da Praça Gonçalves Dias, apresentam sentimentos mais intensos de solidariedade entre si, reagindo com atitudes de indiferença a episódios extragrupais. Muitos se exercitam no skate, mas não há um grupo apenas e cada um deles tem suas barreiras de acesso.

  Outra situação é percebida na Praça da Ressurreição. Tanto jovens quanto indivíduos mais velhos reconhecem facilmente, em razão de relações de vizinhança, a presença de estranhos recém chegados, o que pode despertar reações díspares, que vão desde bem receber com curiosidade até eventualmente caçoar dos que são considerados distantes ou diferentes.

  Na Praça do Conjunto dos Ipês em que também predominam relações sociais entre conhecidos que se reconhecem como vizinhos, os estranhos advindos podem ser observados, mas são consentidos e aceitos. As atividades comerciais desenvolvidas no entorno da Praça necessitam de consumidores dos bens e serviços ali ofertados.

  Aquele que se aproxima pode não ter sua condição de indivíduo destacada, mas ser visto como estranho com certas características. É possível, então, empregar essas noções para compreender as relações sociais nas quais estão envolvidos aspectos como proximidade e distanciamento. Conhecimento e percepções recíprocas sobre quem é tido como desconhecido ou familiar. Pode-se pensar que, ao identificar um indivíduo como estranho ou forasteiro, generalizam-se peculiaridades negativas, com as quais ele é tido como esquisito, extravagante, exótico, gerando desconfianças fundadas ou infundadas sobre quem se aproxima dos ajuntamentos. Elementos de um grupo não aceitam os de outro porque “eles não gostam da gente” ou “nós não gostamos deles”, com as mais diversas justificativas carregadas de percepções estereotipadas.

  Circulam nas praças conhecidos e desconhecidos pela vizinhança, desejados ou indesejados. Com as noções de locais ou estranhos é possível perceber como os frequentadores identificam, lidam e tratam aqueles com quem não têm relações de familiaridade. Certamente, o que se achega é objeto circunstancial de curiosidade. Em caso de aceitação do recém chegado, inicia-se um processo de assimilação no qual o admitido procura ser acolhido, reproduzindo os modos do ajuntamento. Não existindo a boa recepção do forasteiro, a aproximação pode gerar dúvidas, incertezas, suspeitas, insegurança e medo.

  Os usos e apropriações sociais do espaço público das praças comportam assim uma análise quanto ao fato de seus usuários, frequentadores ou transeuntes serem percebidos como estranhos, desconhecidos dos que estão presentes ali repetidamente. As relações sociais estabelecidas com estranhos e desconhecidos tendem a se desenvolver de maneiras diferenciadas em comparação com aquelas que são entabuladas por atores locais.

  Pode-se caracterizar e delinear os diversos tipos sociais que usam alguns espaços da cidade. Trajes diferentes dos padrões determinados para aqueles espaços sociais frustrariam expectativas quanto ao que se quer ver e mostrar. Não observar esses modelos de vestir e portar-se, poderia confirmar o fato de não estar habilitado a se engajar em algumas interações sociais. Nas praças investigadas pode-se notar nos usos, vestimentas e adereços de indivíduos e grupos o pertencimento ou não aos ajuntamentos locais. Por mais que se anuncie um tipo comum de traje da sociedade global, as especificidades são mantidas. Podem ser então percebidas as diferenças entre os grupos nos trajes, identificando-se com facilidade skatistas, guardadores de veículos, estudantes uniformizados, policiais militares.

  Em diversos momentos o estranhamento provoca sentimentos socialmente estruturados de ansiedade, espanto e medo em decorrência da sensação de insegurança provocada pelo não reconhecimento do provável parceiro de interação. O receio de arriscar-se em uma aproximação com indivíduo desconhecido, muitas vezes ocasiona evitar contatos e interações, sendo o indivíduo ignorado pelos demais presentes, deixado à parte dos processos de trocas sociais. No entanto, como afirmado, é possível também pensar o local e o estranho segundo o pertencimento ao “pedaço”, segundo define Magnani (2003). O fato de indivíduos estarem situados em redes específicas de relações sociais com liames de parentesco ou de vizinhança, tendo familiaridade entre si, permite ser reconhecido em qualquer ocasião.

  A discussão referente ao ser local, conhecido, familiar ou ser estranho, desconhecido, não familiar está ligada à diversidade de procedência dos frequentadores do espaço social das praças de uma cidade com grandes dimensões como São Luís. Essas diferenças podem trazer insegurança e até medo ou receio no contexto das relações sociais nesse espaço público, privando, assim, em determinadas casos, os atores das expectativas de interações.

  Quando transcorrem os momentos de copresença, as atitudes variam de acordo com o maior ou o menor envolvimento dos participantes, em interações focadas ou desfocadas, como diz Goffman (2010). Para estabelecer interações e preservar situações sociais determinados recursos práticos

  • – aparências, atitudes, expressões, expectativas,

  10

  perspectivas, linguagem verbal e corporal, convenções normativas, par de adjacência

  • – são empregados e controlados. Desse modo, para interpretar as ações sociais devem ser considerados os contextos nos quais elas se desenvolvem e os referenciais a partir dos quais os
  • 10 atores aí presentes pautam suas condutas.

      

    “Esse conceito [par de adjacência ou par-adjacência] incorpora a observação de que certos tipos de atividades

    são convencionalmente organizados como pares tais que a produção de um primeiro membro do par tanto projeta

    quanto requer que uma segunda ação, complementar, seja produzida „em seguida‟ pelo receptor da primeira. [...]

    O posicionamento adjacente proporciona a contínua a tualização das compreensões intersubjetivas” (HERITAGE,

      No anseio de manter uma situação que favoreça a interação e o estabelecimento de relações sociais, os indivíduos procuram certas maneiras para instituírem contatos e permitir a comunicação. Tentam sustentar um controle ao mesmo tempo de suas atitudes, aparências, linguagens fonéticas e corporais. Assim sendo, considera-se determinado conjunto de componentes sociais que reunidos concorrem para os usos e apropriações das praças.

      Nesse contexto de copresença, são observados os ritmos e comportamentos. Diariamente, são produzidas ações de usos e apropriações do espaço social das praças, com seus significados locais percebidos, interpretados e sustentados no cotidiano da cidade. A vida citadina pode ser pensada como organizada conforme dois registros,

      1. Os comportamentos, cujo sistema se torna visível no espaço social da rua e que se traduz pelo vestuário, pela aplicação mais ou menos estrita dos códigos de cortesia (saudações, palavras „amistosas‟, pedidos de „notícias‟), o ritmo do andar, o modo como se evita ou ao contrário se valoriza este ou aquele espaço público. 2. Os benefícios simbólicos que se espera obter pela maneira de „se portar‟ no espaço do bairro: o bom comportamento „compensa‟, mas o que traz de bom? A análise tem aqui enorme complexidade: não depende tanto da descrição, mas, sobretudo, da interpretação. Esses benefícios deitam suas raízes na tradição cultural do usuário, não se acham jamais totalmente presentes à sua consciência. Aparecem de maneira parcial, fragmentada, no modo como caminha, ou, de maneira mais geral, através do modo como „consome‟ o espaço público. Pode-se também elucidá-los através do discurso de sentido pelo qual o usuário relata a quase totalidade de suas iniciativas. (MAYOL, 2009, p. 38).

      Os ritmos cotidianos, conforme os dias da semana, têm concepção de tempo diferenciada e complementar, pois, sugere DaMatta (1997, p.36), “sábados e domingos são tempos muito mais internos, da casa e da família, ao passo que os

      „dias comuns da semana‟ são vividos como tempos externos, marcados pelo trabalho”. Ao pensar nos fins de semana, talvez os dias não sejam apenas da casa e da família, mas ainda de outros espaços para além desses ambientes, como as praças.

      No que se refere à análise temporal, Roberto DaMatta (1997, p.37) explica que “o contraste mais abrangente talvez seja o que pode ser estabelecido entre as rotinas diárias e as situações extraordinárias, anômalas ou fora do comum, mas socialmente programadas e inventadas pela própria sociedade

      ”. Seriam elas representadas por aqueles momentos de festas, cerimoniais e solenidades. Assim, as rotinas diárias mantêm o tempo “na sua duração

      “normal”, ao passo que nas festas o tempo pode ser acelerado ou vivido como tal” (DAMATTA, 1997, p. 41).

      De fato, momentos de festas na praça parecem obter da comunidade uma adesão destacada. Na Praça da Ressurreição ocasião de destaque social é a celebração da Paixão de Cristo, que contribuiu inclusive para renomear o espaço de “Praça Viva Anjo da Guarda” para “Praça da Ressurreição”. No período que antecede a Páscoa a comunidade se organiza com a repartição de tarefas para a consecução de encenação pública que é feita na Praça. Com um cenário grandioso e a participação de mais de uma centena de figurantes, atrai para o bairro e o entorno da Praça um público que vai assistir a apresentação.

      Na Praça Gonçalves Dias muitas são também essas ocasiões sociais extraordinárias ao longo do ano. Em razão de sua localização em região da cidade à qual afluem turistas e visitantes, é ela local privilegiado para concentrações populares e festas. No calendário anual de eventos da Prefeitura, mensalmente são organizadas festividades na Praça Maria Aragão, anexa à Gonçalves Dias. Esses momentos extraordinários atraem para a Praça além de seus usuais frequentadores, um público muito mais amplo e de composição diversificada.

      Na Praça do Conjunto dos Ipês não são observadas essas situações extraordinárias que poderiam ser inventadas e desenvolvidas pela comunidade ou pela Associação de Moradores. O que poderia ser entendido como algo mais fora de um mesmo ritmo seriam as reuniões ordinárias da Associação de Moradores. Relataram os residentes em entrevistas no curso da pesquisa que, outrora, nas décadas de 1980 e 1990, era possível organizar festejos no mês de junho aos santos reverenciados nesse período (Santo Antônio, São João e São Pedro), quando havia pronunciada adesão e participação de moradores. Esse sentimento de coesão comunitária parece não mais ser tão forte.

      Ao mesmo tempo, nos ritmos cotidianos ordinários são empreendidas as interações, ações e relações diárias com semelhanças e diferenças de acordo com os horários diários ou os dias da semana. Mas, seja nas ocasiões extraordinárias ou nas ordinárias, é necessário observar determinadas regras e procedimentos para manter a situação, com a consideração das chamadas propriedade situacionais, conforme Goffman (2010). É preciso, assim, resguardar as condições necessárias ao desempenho dos papéis dos atores sociais, o que é definido de modo convencional onde e quando existe a copresença.

      As praças existem como lugares onde se manifestam engajamentos sociais nos quais são estabelecidas convivências cotidianas com parceiros vinculados pela proximidade. O engajamento é entendido por Goffman (apud JOSEPH, 2000, p. 93) como

      [...] obrigação social que uma pessoa se impõe quando se envolve em um papel ou em uma ação conjunta e cuja intensidade varia da distração ao entusiasmo, conforme as outras obrigações que lhe caibam em outras cenas.

      Os engajamentos ou envolvimentos nas praças transcorrem em variadas situações sociais. Podem ocorrer entre conhecidos e desconhecidos; entre integrantes de díades, duplas ou casais; entre grupos com mais de dois componentes.

      Uma situação social pode ser entendida, no sentido que Goffman a ela quis atribuir, como “o espaço-tempo definido convencionalmente onde duas ou mais pessoa estão copresentes ou comunicam e controlam mutuamente suas aparências, sua linguagem corporal e suas atividades” (JOSEPH, 2000, p. 94). A situação é, portanto, antes de tudo, um contexto social, ambiente com os recursos disponíveis, no qual ocorrem as relações sociais e onde são estabelecidas as interações e os engajamentos, com os sentimentos de pertencimento, territorialidades e fronteiras de convivência.

      Nesses momentos de reciprocidade, as interações são focadas, e ocorrem quando indivíduos “estendem uma licença comunicativa espacial mutuamente e sustentam um tipo especial de atividade mútua que pode excluir outros participantes na situação

      ” (GOFFMAN, 2010, p. 95). Como exemplos estão as situações de face a face ou as conversações. As interações não focadas refletem o

      “que pode ser comunicado entre pessoas meramente através de sua presença conjunta na mesma situação social” (GOFFMAN, 2010, p. 95). Para ilustrar, podem ser mencionadas as situações de copresença no espaço público das praças ou nas ruas.

      Estes dois tipos de propriedades situacionais (interações focadas e não focadas) devem ser considerados quando são analisados os usos sociais nas praças. Conforme os agrupamentos e as ações no ambiente público, é possível verificar as variedades de casos, episódios e eventos situacionais em que as interações entre indivíduos e grupos podem ser focadas e não focadas.

      4.2.1 Introdução ao estudo de caso Com o propósito de analisar, refletir e compreender os usos e apropriações sociais do espaço público em praças da cidade de São Luís foram selecionados três casos empíricos de acordo com procedimentos metodológicos que são em seguida detalhados. De acordo também com o relatado acima, entre os objetivos da pesquisa está saber como se dão as práticas de usos e apropriações sociais desses espaços urbanos contemporâneos pelos diversos citadinos, que, de modo individual ou grupal, acessam esses lugares, estabelecendo interações, ações e relações sociais. Verificar os usos, desusos, contrausos, as apropriações formais, informais, individuais, grupais objetiva, portanto, contribuir para traçar um diagnóstico e um perfil da ordem da interação social no território da cidade.

      Esse conjunto de ações investigativas representa a possibilidade de entender a dinâmica da interação presente nos comportamentos cotidianos citadinos. Devem ser, então, delimitados cenários espaço-temporais, apontados atores e definidos papéis para compreender as situações sociais diárias. As diferenças e divergências apuradas caracterizam o que se pode nomear como ritmos da vida urbana. A copresença, que também se constata nas praças, marca fronteiras socioespaciais de contato e convivência entre indivíduos e grupos. Estes devem estabelecer regras que permitam manter a situação, o convívio e o diálogo, facultando os usos e apropriações sociais do espaço.

      Deve-se destacar a produção social do espaço a partir das interações nas quais estão envolvidas atuações individuais e coletivas. Ao compartilhar ou se fazer presente em um lugar onde estejam outros, é possível verificar acordos tácitos ou expressos sobre o sentido do espaço das praças como utilidade a ser desfrutada, usada segundo uma perspectiva pública ou privada, comum a todos ou de um modo particular; com acesso a um número maior de frequentadores ou apenas franqueada a poucos.

      Os agentes ou atores sociais podem ser localizados nas três praças examinadas e têm suas práticas sociais cotidianas assinaladas. A diversidade de atores é explicitada pela menção a moradores da vizinhança, visitantes, passantes, estudantes uniformizados, estudantes universitários, casais de namorados, religiosos, fiéis, jovens, idosos, skatistas, vendedores ambulantes ou instalados, policiais militares, guardadores autônomos de veículos, rodoviários, entre outros que usam esses espaços urbanos da cidade de São Luís.

      Indivíduos e grupos precisam estar próximos fisicamente nesses locais, o que permite associar o estudo à ideia do estabelecimento de fronteiras ou de zonas fronteiriças entre eles. As relações sociais em que estranhos ou desconhecidos estejam presentes são peculiares ao espaço público. Nem sempre, entretanto, o estranho causa medo ou insegurança aos que transitam pelas praças da cidade.

      As afinidades, antipatias e idiossincrasias entre indivíduos devem ser anunciadas, dissimuladas ou veladas com o intuito de manter determinadas situações sociais e proporcionar um uso comum do espaço das praças. Conhecidos e desconhecidos, vizinhos das redondezas, transeuntes expressam proximidade e distanciamento, o que é levado em conta no engajamento e na manutenção de interações breves ou prolongadas no âmbito das praças. São esses espaços urbanos destinados aos encontros, às diversões comunitárias e onde podem ocorrer conflitos e estabelecimento de territórios.

      As praças devem, portanto, ser concebidas como “espaços públicos articulados à rua e à arquitetura, usadas para encontros casuais ou atividades múltiplas” (ALEX, 2008, p. 275). São elas espaços de convívio social no contexto urbano. Como frisado anteriormente, situam-se as praças deste estudo em três regiões da cidade. No Centro, com um casario erguido desde o tempo da Colônia até meados do século XX, está a Praça Gonçalves Dias. É uma zona da cidade que tem sido objeto de intervenções urbanas desenvolvidas pelo Estado em atenção ao seu potencial de atração de turistas e negócios e importante referência sócio- histórica. Região na qual estão presentes indivíduos e grupos heterogêneos em sua composição e procedência social.

      A Praça Gonçalves Dias pode ser chamada de praça histórica por sua fundação no século XVIII. Possui uma estrutura espacial característica das cidades ibéricas: lá está localizada a igreja (Nossa Senhora dos Remédios); há repartições do Estado como o Palácio Cristo Rei, que pertence à Universidade Federal do Maranhão; o prédio da Faculdade de Medicina também da Universidade Federal do Maranhão; as Forças Armadas, como a Marinha e o Exército, têm setores administrativos funcionando nessa Praça. Em seu entorno estão ruas importantes para o fluxo de circulação para a saída do Centro, como a Rua Rio Branco e a Rua Barão de Itapary, descida para a Praça Maria Aragão.

      Enquanto espaço público, a Praça Gonçalves Dias é um local de encontro para uma população que reside, sobretudo, no Centro. Como sítio histórico, é também visitada por turistas que caminham por esta zona da cidade. Em razão da localização e do fácil acesso, é usada e apropriada socialmente por uma gama variada de indivíduos e grupos. Frequentam, usam e se apropriam desse espaço público skatistas, casais, estudantes uniformizados, religiosos, vizinhos, servidores públicos que trabalham no entorno, vendedores ambulantes, guardadores de veículos (popularmente conhecidos como flanelinhas), turistas, frequentadores de eventos na praça contígua (Praça Maria Aragão) e passantes.

      A Praça da Ressurreição está situada no bairro do Anjo da Guarda, localizado a sudoeste do Centro e habitado basicamente por uma população composta por pessoas da classe trabalhadora. Seu povoamento se intensifica a partir da década de 1960, quando é concluída a construção da barragem e da ponte sobre o rio Bacanga, que facilitou o acesso terrestre, encurtando o trajeto para essa área da ilha e tornando-a mais pegada ao Centro. De arrabalde pouco habitado, a região passou a se distinguir como um subúrbio que atrai e retém moradores, os quais ocasionalmente pressionam as autoridades municipais com propostas de emancipação e autonomia, exigindo melhorias na infraestrutura urbana.

      Essa Praça faz divisa entre a Avenida Palestina e a Avenida dos Portugueses; sendo esta via importante artéria de comunicação com os bairros da região sudoeste da cidade, conduzindo também ao Porto do Itaqui. Caso se suponha ser a Avenida dos Portugueses a frente da praça, seus fundos estariam para o conjunto do casario do bairro, área essa da praça por onde ocorre o maior fluxo de ingresso às suas dependências. Sua configuração atual é recente, datando a última reforma do final da década de 1990, e a proposta de intervenção urbanística está inserida em projeto de edificação de áreas de lazer para a população. Surgiu, portanto, em contexto sócio-histórico bem diferenciado da Praça Gonçalves Dias e da Praça do Conjunto dos Ipês no Recanto dos Vinhais.

      Os frequentadores são majoritariamente pessoas do bairro, que conferem uso ao local com encontros e sociabilidades. Entre esses estão agrupamentos de jovens, adultos, casais, vizinhos e comerciantes. A Praça parece ser mais frequentada à noite, quando a copresença é maior. Anualmente, ali é encenado o espetáculo da Paixão de Cristo por ocasião da Semana Santa. Existe uma organização da comunidade cujos membros se envolvem na preparação e apresentação do evento. Para a vida comunitária, a Praça da Ressurreição simboliza um lugar que destaca a autoestima de seus moradores.

      A Praça do Conjunto dos Ipês no Recanto dos Vinhais data da década de 1980 e tem uma identidade eminentemente comunitária. Localiza-se a nordeste da zona central da cidade de São Luís. Relaciona-se à Associação de Moradores desde a fundação do Conjunto pela mineradora Vale, que ergueu este empreendimento imobiliário para residência de seus funcionários, quando a empresa era ainda a estatal Companhia Vale do Rio Doce. A praça é contornada por vias de fluxo secundárias inseridas no bairro. Ali está instalada uma parada final de linha regular de ônibus urbano, que confere atrativo para a fixação utilitária de pessoas que a buscam para fazer uso do serviço de transporte coletivo.

      Usam e se apropriam cotidianamente do espaço da Praça vizinhos, casais que namoram nos bancos ou em automóveis, clientes do supermercado, rodoviários empregados e passageiros da empresa de ônibus. Entre as peculiaridades da Praça estão as diferenças socioeconômicas, pois nos arredores existe outra comunidade, que convive bem com o Conjunto, mas que faz uso diferente do espaço social. Aqueles que moram fora do Conjunto vêm à Praça para servir-se da linha de ônibus, ir ao supermercado ou percorrer um caminho de passagem. Os moradores do Conjunto, propriamente dito, que residem nas imediações da Praça, conferem a ela um uso aquém do que poderia indicar sua proximidade.

      O Conjunto dos Ipês no bairro do Recanto dos Vinhais localiza-se em região na qual crescem os empreendimentos de incorporação imobiliária, e tem uma população com perfil socioeconômico de renda média. O Conjunto está situado no contexto de maior densidade demográfica, em uma parte da cidade que tem experimentado pronunciado crescimento urbano nas últimas quatro décadas. Imóveis antes ocupados por sitiantes, hoje têm em seus terrenos condomínios de apartamentos ou de casas, que abrigam um contingente populacional que cresce acima da média do País, consoante dados do Instituto Brasileiro de

    Geografia e Estatística (IBGE), comparados entre 1991 e 2010 – Tabela 3

      Deve-se expor que, para investigar o espaço público urbano das praças, nas quais atores sociais copresentes exercitam práticas interativas de usos e apropriações, contou-se com a observação direta no período que abrange os meses de abril a agosto de 2011 em horários diversificados. Foram realizadas entrevistas com os usuários, frequentadores, vizinhos e transeuntes na praça. As entrevistas foram do tipo estruturado, contendo uma relação invariável e padronizada de perguntas em forma de questionário dirigidas aos entrevistados. Buscou-se também delimitar atores sociais que se apropriam do espaço.

      Realce-se também que o pesquisador foi objeto de curiosidade por parte dos usuários das praças. É preciso registrar a disposição em prestar os depoimentos; os entrevistados gostavam e queriam falar. Talvez se sentindo valorizados em participar e poder contribuir com suas experiências em um estudo da universidade, contando trazer melhorias ao espaço que costumam frequentar.

      Entre os procedimentos adotados para melhor identificar os ritmos e comportamentos, além de definir atores, foram delimitados horários nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça. Do mesmo modo, a fluência nos dias úteis da semana é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. Nestas ocasiões, a copresença é maior e encontra-se na praça um número maior de pessoas. No mesmo espaço, com um número maior de presentes, a proximidade física pode contribuir para gerar conflitos.

      Figura 1 – Mapa de São Luís com a localização das praças pesquisadas.

      

    Fonte: Google Mapas. Com o objetivo de permitir indicar visual e espacialmente a localização das praças pesquisadas no território, acima está o mapa de São Luís. Observe-se que a Gonçalves Dias está posicionada nos espaços da cidade entre as outras duas praças, o que permite o acesso, consequentemente, a um maior número de pretendentes frequentadores. É possível também notar o afastamento no contexto da cidade da região onde está situada a Praça da Ressurreição.

      4.2.2 A Praça Gonçalves Dias Localiza-se a Praça Gonçalves Dias na região outrora denominada Ponta do

      Romeu. O local onde está a praça pertencia à Ordem de São Francisco. A primeira denominação do lugar foi Largo dos Amores, inaugurado em 1860. Em razão da reforma da Igreja dos Remédios naquela mesma ocasião, a praça ficou conhecida também como Largo dos Remédios.

      Figura 2 – Mapa do Centro de São Luís com a localização da Praça Gonçalves Dias.

      

    Fonte: Google Mapas.

      Por meio da Resolução nº. 13, de 03 de novembro de 1900, a Câmara Municipal de São Luís conferiu àquele espaço o nome oficial de Praça Gonçalves Dias. Está situada na zona central da cidade, confrontando-se com a Rua Rio Branco e a Rua Barão de Itapary, que desce na direção da Praça Maria Aragão. Por esta rua o trânsito de veículos percorre o decesso ao Centro e trajeto de ingresso em outros bairros, como São Francisco à esquerda ou Camboa à direita no mapa (ver Figura 2).

      A região onde fica a Praça Gonçalves Dias tem sido palco de eventos sociais e culturais marcantes para os moradores da cidade. A festa de Nossa Senhora dos Remédios, realizada na Praça Gonçalves Dias, foi documentada por vários escritores. Relatava Aluísio Azevedo em O mulato, publicado originalmente em 1881, que João Lisboa já havia escrito um folhetim no Publicador Maranhense, número 1173, de 15 de outubro de 1851, em que contava detalhes sobre

      “a popular e pitoresca festa dos Remédios”. (AZEVEDO, 2010, p. 80). Nesse mesmo romance

    • – O mulato – é comentada com riqueza de detalhes a festa dos Remédios como ocorria no século XIX. Aluísio Azevedo começa descrevendo o Largo dos Remédios, “com a sua ermida toda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira, muito foguete, muito toque de sino. Descreveu [...] o luxo exagerado em que se apresentavam todos para a missa das seis e para a missa das dez nas quais [...] reúne-se a nata da nossa judiciosa sociedade!” (AZEVEDO, 2010, p. 80). Prossegue Azevedo narrando como os frequentadores da festa preparavam-se para comparecer à igreja de Nossa Senhora dos Remédios e à Praça, para onde se estendiam os festejos,

      [...] era tudo em folha, e do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam, desde o capitalista até o ralé caixeiro de balcão; velho ou moço, branco ou preto, ninguém lá ia, sem se haver preparado da cabeça aos pés; não se encontrava roupa velha, nem coração triste! - Às quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a encher. Pensará talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manhã... - Naturalmente... - Pois engana-se! É tudo outra vez novo! São novos

    vestidos, novas calças, novas... (AZEVEDO, 2010, p. 81).

      Continua Azevedo, por intermédio de Freitas

    • – personagem do romance –, destacando os excessos na indumentária. O traje e o porte eram evidenciados por todos os que se fizessem convidados. Assim, afirma Azevedo (2010, p. 81) que

      [...] nesse dia não há homem, por mais pichelingue, que não gaste seu bocado nos leilões, nas barracas, nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte; nem há mulher senhora ou moça-dama, que não arrote grandeza, pelo menos seu vestidinho novo de popelina. Veem-se enormes trouxas de doce seco, corações unidos de cocada, navios de massa com mastreação de alfenim jurarás dourados, cutias enfeitadas dentro da gaiola, pombos cheios de fitas, frascos de compota de murici, bacuri, buriti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas cativas, ou forras, surgem com os seus ouros, as suas ricas telhas de tartaruga, as suas ricas toalhas de rendas, suas belas saias de veludo, suas chinelas de polimento, seus anéis em todos os dedos, aos dois e aos três em cada um...

      Informa, ainda, o autor que a festa dos Remédios seguia noite adentro, mas o ambiente da Praça era mantido claro como o dia, o que expressava também que a excitação e a animação dos presentes permaneciam em suas atitudes. Nas palavras de Aluísio Azevedo (2010, p. 81).

    • À noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se grandes e deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os emblemas do Comércio e da Navegação. Que Nossa Senhora dos Remédios é padroeira do Comércio, e é este que lhe dá a festa. Mas bem, faz-se a iluminação: armas brasileiras, estrelas, vasos caprichosos, o nome da santa, tudo a bico de gás, não contando uma infinidade de balõezinhos chineses, que brilham por entre as bandeiras, os florões, os ariris, as casas de música; em uma palavra fica tudo, tudo, claro como o dia!

      Mesmo mais tarde, persistia a festa, com o povo envolvido. Enumera ainda o autor os tipos de atitudes das pessoas, quando diz que, nos grupos formados, elas riam, discutiam, namoravam, zangavam-se, ralhavam; in verbis

      Dão oito horas... Ah, meu caro amigo! Então surge de todos os cantos da cidade uma aluvião interminável de famílias, de velhos, moços, meninos, mulatinhas e negrinhas, que enchem o largo que nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades; desde o moleque até o tio velho, acodem, trazendo equilibradas nas cabeças imensas pilhas de cadeiras, e, com estas cadeiras, formam-se grandes rodas mesmo na praça, ao ar livre, e as famílias, ou ficam ai assentadas, ou, a titulo de passeio, acotovelam- se entre o povo. Fazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha... (AZEVEDO, 2010, p.82).

      Relata Aluísio Azevedo os pormenores da festa até seu apogeu com foguetório, no qual se vive um ambiente pleno de sons, cores, luzes e cheiros de charutos, perfumes e comidas. Na apoteose aparece a imagem de Nossa Senhora dos Remédios, que é o centro das atenções de devotos entusiasmados. A esses instantes de exaltação ou de divinização Aluísio Azevedo faz menção, narrando que se soltam

      [...] balões de papel fino; cruzam-se moças aos pares; giram aos pares os janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja, doces, pastéis, chupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela; gastam-se os últimos cartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e, finalmente, com grande júbilo geral arde o invariável fogo de artifício. Então rebentam todas as bandas de música a um só tempo, levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole, e, no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multidão, aparece no castelo, deslumbrante de luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Foguetes de lágrimas voam aos milhares pelo espaço; o céu some-se. Todos se descobrem em atenção à santa, e abrem o chapéu-de-sol com medo das tabocas. Há uma chuva de luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os grupos, todas as fisionomias, todas as casas, tomam sucessivamente as irradiações do prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contemplação mística, terminada a qual, está terminada a festa! (AZEVEDO, 2010, p. 82).

      A alusão à obra de Aluísio Azevedo permite, com o exemplo, situar no tempo a relevância social da Praça Gonçalves Dias para os citadinos. Os momentos de maior fervor eram vivenciados além dos estritos limites da igreja de Nossa Senhora dos Remédios, vinham desenrolar-se no recinto amplo, repleto e movimentado do então Largo dos Amores.

      Figura 3 – Vista parcial da Praça Gonçalves Dias.

      

    Foto do autor.

      Após essas digressões com que se intentou ilustrar usos e apropriações sociais passados que se têm consagrado à Praça estudada, são situados os termos do estudo ora empreendido. Pesquisar os usos e as apropriações sociais no espaço público da Praça Gonçalves Dias é remeter às dinâmicas sociais básicas de convivência, nesse lugar onde se verificam os ritos sociais da interação. Deve-se evidenciar a ordem comportamental encontrada na praça, quando as pessoas entram em copresença ou na presença imediata umas das outras. Considera-se o espaço dos ajuntamentos sociais na praça, observando as ações dos atores sociais em atividades interacionais temporárias, marcadas por chegadas, permanências e partidas.

      Situado o contexto das interações, as práticas sociais dos diferentes atores copresentes são analisadas, considerando como permitem elas negociar formas de usos e apropriações do espaço na Praça. Os diversos indivíduos envolvidos devem observar e revigorar cotidianamente as regras sociais que possibilitam pluralidades de ações mútuas no mesmo ambiente.

      Figura 4 – Fotografia de satélite da Praça Gonçalves Dias.

      

    Fonte: Google Mapas. Mesmo localizada no Centro da cidade (ver Figura 4), as relações de vizinhança permanecem, pois há moradores residindo nas circunvizinhanças da Praça, os quais a frequentam ocasional ou regularmente. A Praça Gonçalves Dias ainda conserva certa vida comunitária. Muitos vizinhos vêm cedo com suas crianças e preferem trechos mais internos, em que estas podem brincar com mais segurança. Alguns também permanecem nos bancos, mas reclamam que a falta de encosto cansa as costas, o que os faz não ficar muito tempo sentados.

      Existe uma diversidade de motivos para a interação na Praça. Entre os impulsos e finalidades para isso está desfrutar de um espaço agradável e do sol da manhã. Neste horário estão os praticantes da caminhada que circulam a praça e dividem o espaço com idosos. Mães com filhos e indivíduos que trazem seus animais domésticos (cães). Entre as atitudes próprias de vizinhos parece estar um sentimento de apego e desejo de conservação da Praça. Reconhecem nos outros a condição de vizinhos, que cumprimentam ou sentam-se ao lado, por vezes em pares de adjacência. Estabelecem acordos para ir à Praça em duplas ou em grupos para conversas. Reforçam suas redes sociais de vizinhança trocando lembranças e histórias.

      Relatam diversos episódios com riqueza de detalhes associados à violência. Como têm de conviver com indivíduos e grupos que não habitam próximo, mas que trabalham, estudam ou circulam pelo Centro da cidade, os residentes queixam-se da insegurança nos vários horários. Isso não está associado apenas à presença de desconhecidos, mas em razão de ocorrências centradas em um histórico de violências, narrado de maneira recorrente nas entrevistas que foram feitas.

      As disputas por espaços de uso são negociadas com mais hesitações com os skatistas, que não são bem vistos pelos moradores da vizinhança. Os skatistas compõem agrupamentos importantes numericamente, e estendem sua prática por todo o espaço físico da Praça, a qual reformada há nove anos, teve seu piso remodelado e aplainado de forma regular, o que facilitou ou possibilitou a prática do skate ou patins no local. Como informado acima, preferiu-se dizer agrupamentos de skatistas, pois não formam um grupo coeso apenas; as idades são variadas, como suas práticas e atitudes diferenciadas. O esporte é o mesmo, mas as práticas sociais são diferenciadas. Eventualmente, são relatados nas entrevistas conflitos que envolvem moradores ou frequentadores, não apenas em razão de o skate poder representar potencial risco de acidentes na Praça, mas por atitudes de alguns que são reputadas como socialmente reprováveis.

      Os agrupamentos nos quais os skatistas se reúnem estão concentrados no centro da Praça e podem ser classificados de acordo com as idades. Além de algumas crianças, há muitos adolescentes e adultos jovens praticando o esporte. O agrupamento composto por indivíduos de mais idade se destaca pelas roupas também. Em seu vestuário prevalecem cores escuras, com ênfase no preto. Alguns usam jaquetas que enaltecem a prática do skate.

      Exercitam o skate e juntam-se para ouvir música; a maioria deles prefere rock e, uma parcela menor, o hip hop.

      Roqueiros estão ligados a outros agrupamentos que se associam aos skatistas. Reúnem-se na Praça para ouvir músicas tocadas por bandas de rock pesado

    • heavy metal ou

      

    black metal . O volume do som incomoda os que estão nas proximidades. Muitos

      frequentadores evitam ficar perto quando percebem a presença dos roqueiros. Nem todos os skatistas são roqueiros, mas alguns roqueiros são skatistas.

      Às redes de skatistas e roqueiros são atribuídas práticas sociais designadas como inconvenientes e indesejadas pelos usuários da Praça. Os skatistas reclamam dos olhares de reprovação de outros usuários, que consideram como preconceituosos. Quando alguém entre os roqueiros não aparece por algum tempo, pode-se escutar durante a observação alguém perguntando:

      “estava preso?”, em tom de brincadeira. O motivo pode ser o uso de entorpecentes. Há relatos de histórico de prisão por porte de droga, o que explica o contexto da brincadeira.

      Casais de namorados estão presentes em todos os espaços da praça. Preferem essas díades sentar nos bancos e gramados. Situam-se o mais afastados que podem de outros frequentadores, se é que se pode manter distância em um espaço sem paredes e muros, sem obstáculos físicos para impedir a visão. As ações desses casais lembram vergonha e decoro de José de Souza Martins (1999). Devem preservar certos limites de carícias no espaço público. Quando entrevistados em conjunto sobre seu estado civil referem-se àquela relação do momento, se casados ou não, dependendo de expressões de afetos. Falam de sentimentos, do amor, da paixão, do futuro, entreolhando-se de soslaio. Casais podem ser visto na Praça durante todo o dia e à noite. O epít eto “largo dos amores” com que se nomeia também a Praça Gonçalves Dias continua atual, revivido diariamente.

      Entre os casais entrevistados são comuns algumas respostas às perguntas formuladas pelo pesquisador. Destacam a beleza do local, para o qual vêm já, em sua maioria, acompanhados, como no trecho:

    • - O que você poderia dizer sobre esta praça?
    • - Um bom lugar para namorar, conversar. É uma praça linda, movimentada e melhor vista da cidade, bonita e agradável.
    • - O que você costuma fazer nos momentos em que está na praça? - Namoro, converso, penso.
    • - Em sua opinião, o que de melhor a Praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam? - A paisagem é o melhor. (M., 19 anos).

      Enquanto atores nesse espaço social, os estudantes podem ser subdivididos em estudantes uniformizados e estudantes universitários. Os estudantes uniformizados são encontrados na Praça em horários variados ao longo do dia, mesmo nos turnos de aula. Pode- se presumir que, ou faltaram às aulas para ficar em ociosidade, ou por algum motivo não houve aula na escola. Ficam sentados nos bancos, conversam em rodas, brincam de correr. São facilmente identificados pelos uniformes, o que, no entanto, não gera constrangimentos para eles.

      Os estudantes universitários ficam em grande número em frente ao edifício da Universidade Federal do Maranhão em que funcionam turmas da área da saúde. A maioria não usa um uniforme padrão, mas alguns vestem camisas de curso da Universidade. Posicionam-se naquele pedaço da Praça aguardando a próxima aula ou algum colega que faz companhia na volta a casa. Portam mochilas, maços de papéis fotocopiados e livros. As interações aí são momentâneas, circunscritas a intervalos menores de tempo.

      Vendedores ambulantes são igualmente verificados em pontos de vendas no entorno e áreas interiores da praça. Entre os vendedores ambulantes estão pipoqueiros, fornecedores de lanches (alguns se autodenominam de bike lunch ou “bike lanche”), sorveteiros, vendedores de doces e camelôs chineses, que compartilham o espaço. Em sua maioria, são homens que residem nas proximidades, mas há vendedores que moram em outras regiões da cidade. A presença desses é para fins de trocas habituais e profissionais voltadas para a venda de alimentos e outras mercadorias. Aqueles que acessam o espaço para fins de comércio desejam pessoas na Praça para ampliar suas vendas. Quanto mais adensado de pessoas o espaço físico, melhor. Os que se situam em ponto ou pedaço fixo preferem os degraus que dão acesso à praça de baixo (Maria Aragão), pois passagens são estratégicas para oferta de bens e serviços. Os ambulantes circulam a Praça, parando em lugares de concentração, como a frente da Igreja dos Remédios. A fiscalização municipal não permite a instalação de vendedores na Praça; assim, os que a frequentam exercem atividade não autorizada.

      Por sua localização, a Praça Gonçalves Dias é local em que muitos motoristas estacionam seus veículos. Desse modo, são encontrados guardadores autônomos de veículos (flanelinhas), que dividiram e lotearam o espaço ao redor da Praça. Usualmente são vistos dois guardadores, em ocasiões extraordinárias podem ser observados até quatro, que negociam suas frações. Entre eles há relações de parentesco, o que pode ser interpretado como estratégia para ampliar os ganhos e garantir fidelidades. Parecem querer contribuir com a segurança, pois conhecem e reconhecem quem é estranho na Praça. Esboçam satisfação ao dizer que estão incluídos em um projeto da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Maranhão em parceria com a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social e o Ministério do Trabalho e Emprego, que identificou, cadastrou e treinou os guardadores “legalizados”, entregando a cada um deles certificado, crachá e fardamento, com autorização a guardar automóveis na região do Centro da cidade.

    Recebem pagamento para vigiar ou “tomar de conta” (sic) dos carros dos “patrões” – como costumam nomear os motoristas. Alguns dentre

      eles lavam carros e outros agenciam as lavagens, contratando o serviço e retendo parte do pagamento. Em depoimentos nas entrevistas, demonstram como conhecem os frequentadores usuais e costumeiros do espaço. A esse uso comercial por parte de flanelinhas estão associadas, assim, relações baseadas na amizade e na confiança com aqueles que estacionam seus veículos no entorno da Praça.

      Diariamente, existe um fluxo de pessoas que assistem à missa na igreja de Nossa Senhora dos Remédios situada na Praça. Religiosos ou fiéis regularmente se reúnem em frente à igreja para aguardar o início das missas. Nessas ocasiões, os vendedores ambulantes se aproximam ou por ali transitam para realizar suas vendas. Determinados indivíduos conversam sobre assuntos religiosos. Outros pregam aos que se encontram sentados nos bancos no espaço em frente à igreja. Atitude que pode permitir identificar quem tem pretensão em ser pregador é verificar se ele porta um exemplar da Bíblia. Durante a observação constatou-se indivíduo com o Livro em mãos, não fechado, mas marcado com o dedo indicador; o orador falava aos presentes sobre as glórias de Deus. Imbuído da convicção de quem adere à fé para servir ao Senhor, empostava a voz com segurança de modo entusiasmado para convencer. Parece uma prática desconexa pregar a retidão em um ambiente voltado ao lazer, à diversão e ao extravasamento. Mas, a presença de um templo ali também faz sugerir esta atitude, ainda que desconectada dos usos conferidos por certos agentes ao espaço frontal à igreja. Esse uso religioso na Praça Gonçalves Dias é exercitado principalmente por católicos, haja vista a presença de uma igreja deste credo.

      Servidores públicos que trabalham no entorno também fazem uso de pedaços da Praça. Estão situadas em suas laterais repartições públicas, que conferem a este espaço uma relevância administrativa. Ressaltam-se os prédios das Forças Armadas (Marinha e Exército) e o Palácio Cristo Rei, no qual outrora estivera instalada a Reitoria da Universidade Federal do Maranhão e sede atualmente de eventos culturais ligados à Universidade. Funciona também curso da área da saúde em edifício da Universidade Federal. Esses servidores não permanecem na praça, usam o espaço para estacionar seus carros, deixando sempre “algum” [dinheiro] para o guardador de veículos. Nas manhãs, o Exército faz uso da Praça para exercícios físicos, como marchas e corridas em grupos pequenos. Esses usos têm diminuído, pois, com as facilidades de transporte e deslocamentos, o Comando substitui por vezes o espaço da praça pela praia para animar sua tropa.

      A interferência das instituições relacionadas com o poder público nas interações decorre de sua imediação ao entorno da Praça. A presença militar não chega a inibir certas condutas tidas como desviantes ou inadequadas a um pacífico convívio social; quando se quer agir de modo desrespeitoso, pode-se articular uma ação individual ou coletiva sem a vigilância das forças de segurança. Muitas vezes não se tem a reverência devida ao poder público e à coisa pública.

      Deve-se notar que as intervenções arquitetônicas e paisagísticas na Praça efetivadas na década passada tornaram-na mais acessível aos visitantes. A atual configuração tenta estimular a lembrança de outros tempos. Os vizinhos mais antigos lamentam, entretanto, essas alterações “modernizantes”, que criaram uma feição nova do passado. Alguns moradores criticam o projeto de reforma, pois a pequena ponte com lago que existia no local foi retirada e a Praça perdeu certo encanto bucólico que possuía. O piso mais liso e não rugoso facilitou o exercício de esportes sobre rodas, que são praticados sem limites em toda a área física da Gonçalves Dias.

      Policiais militares também são vistos eventualmente na Praça. Há alguns anos havia um trailer da Polícia Militar (PM) no local, o qual foi deslocado para bairro vizinho. Atualmente, a presença da PM está restrita à circulação em rondas motorizadas ou com presença ostensiva maior nos momentos extraordinários de festas na Praça Maria Aragão, que fica ao lado, descendo a Gonçalves Dias. Depois da admiração da beleza da região, o medo da violência é o sentimento mais percebido quando se conversa com os usuários da Praça. Muitos evitam ir ali por receio a essas circunstâncias que ensejam perigo. Na Figura 5 está assinalado o panorama de cenários nos quais ocorrem os usos e apropriações do espaço público na Praça Gonçalves Dias.

      Figura 5 – Cenários dos usos e apropriações na Praça Gonçalves Dias. Vêm também à praça muitos turistas para apreciar o casario centenário e a vista privilegiada de parte da baía de São Marcos e da foz do Rio Anil. Os visitantes não residentes percebem o espaço pela sua beleza paisagística e pelos equipamentos em ordem ou danificados. Reclamam da falta de lugares adequados para refeições ou banheiros públicos. Por sua atitude curiosa, seus gestos que buscam olhar contemplativa e fixamente o espaço enquanto paisagem, suas roupas diferentes do que habitualmente se traja na cidade e na praça, são identificados com facilidade como europeus ou latino-americanos.

      Muitas pessoas vão à Praça enquanto passantes ou transeuntes, pois, como ela está em uma área situada na região central da cidade, o acesso é facilitado. O bairro é servido pela maioria das linhas de ônibus e transporte por vans. Aos moradores nas proximidades, são somados visitantes vindos de outras localidades da cidade, que conferem à Praça um mosaico de procedência de frequentadores, com destaque para usuários provenientes do Centro e do bairro adjacente da Liberdade.

      Nesse local no Centro da cidade

    • – Praça Gonçalves Dias – encontram-se, portanto, indivíduos e grupos conhecidos e desconhecidos. Com referência aos ritmos dos comportamentos, nos denominados dias úteis da semana, a frequência mais verificada ocorre pela manhã ou no final da tarde. Os usuários são em sua maioria estudantes. No horário vespertino, podem ser vistas pessoas que se dirigem à igreja. Em ocasiões extraordinárias, além das festas populares na praça vizinha (Maria Aragão), é possível testemunhar a partir do espaço da Praça a chegada de noivos e seus convidados às cerimônias de casamento que são realizadas na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.

      Nos fins de semana os usos sociais da Praça são marcados por um número maior e mais diversificado de atores. O processo de interações é efetivado com a ocupação do território da Praça por diferentes indivíduos e grupos. O agrupamento não afeito a limites físicos é o de skatistas que, circulando, parecem ter mais meios de dialogar com os que se fazem presentes. Isso nem sempre é necessariamente verdadeiro. Pode-se pensar que, por andar de skate, alguém já esteja incluído em tal grupo. É até provável que seja bem-vindo, mas não é essencialmente coparticipante. Existe um conjunto de predicados e reputações, ou ainda um capital simbólico, para iniciar e conservar a interação nesses grupos. Apóiam-se mutuamente, dissimulando por vezes algo que um de seus companheiros inadvertidamente tenha feito. Adicionam à sua linguagem expressões compreensíveis somente em seu restrito círculo de amizades.

      Com referência ao modo como os frequentadores chegam à Praça, de acordo com o que foi apurado nas entrevistas, equivale em números os que até ali caminham e os que vêm de transportes, o que comprova a imediação de moradias. O principal critério de escolha é, então, a proximidade, seguido da beleza e da limpeza da Praça.

      A falta de segurança, entretanto, é fator de afastamento. As mães que trazem filhos pequenos entendem que deveria existir um pedaço cercado e com sombra para deixar as crianças brincarem em segurança. Não é comum um uso solitário, os indivíduos vêm acompanhados à Praça e reúnem-se a outros ao chegar. Entre os múltiplos agrupamentos na Praça, os usuários reconhecem mais facilmente os skatistas. Declaram ainda os frequentadores que não permanecem nos mesmos lugares quando vêm à Praça; mudam conforme os dias e horários. Essas variações permitem supor a composição de negociações entre os atores para a apropriação de seus respectivos pedaços da Praça, já que, a cada nova vinda, são ordenados outros arranjos socioespaciais.

      Como dito acima, a marca da Praça Gonçalves Dias é sua beleza paisagística de cartão-postal. No que se refere às interações que possibilitam os usos e as apropriações sociais, existe uma grande variedade de atores que fazem desse espaço público citadino seu local de permanência e sociabilidades. Os atores e práticas relatadas não se reproduzem da mesma forma nas demais praças estudadas, há certas nuanças que carecem ser ainda analisadas a seguir.

      4.2.3 A Praça da Ressurreição Diferentemente do Centro da cidade, onde está situada a Praça Gonçalves Dias, o adensamento populacional que fez surgir o bairro do Anjo da Guarda, localizado a sudoeste da região central, está relacionado às migrações populacionais direcionadas a partir do interior do Estado à capital. O nome que é dado à região não é recente. No citado livro (O mulato), de 1881, Aluísio Azevedo

    • – do mesmo modo que tratou outras partes da cidade de São Luís – comentava a respeito do então arrabalde Anjo da Guarda, que, com sua vegetação, proporcionava sombra e brisa que compelia ao descanso. Narra o autor que

      [...] a viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens opostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar boas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as árvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras. (AZEVEDO, 2010, p. 21).

      A ocupação tomou maior impulso com a construção da ponte e da barragem sobre o rio Bacanga no final da década de 1960 e início da seguinte. O Anjo da Guarda aos poucos foi deixando de ser o retiro bucólico às margens do Bacanga, passando a receber um número crescente de moradores. Mudanças importantes no território do bairro do Anjo da Guarda e adjacências decorreram da instalação da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, na década de 1980.

      Em 1998, como parte de um programa de edificação de espaços públicos destinados ao lazer, o Governo do Estado do Maranhão concluiu a urbanização de uma área destinada à construção de praça que denominou

      “Viva Anjo da Guarda”, à qual a população renomeou de Praça da Ressurreição por ser ali celebrado, anualmente, o episódio da Paixão de Cristo, conforme o calendário religioso cristão. Havia também a estátua do anjo da guarda em outro espaço público, onde se situa a Praça do Anjo, que tem como limites a Avenida Odilo Costa Filho e a Avenida Vaticano. Essa praça teve a escultura retirada, sofrendo também a intervenção paisagística na mesma época em que se reurbanizou a Praça que passou a ser nomeada oficialmente de “Viva Anjo da Guarda”.

      A encenação do auto da paixão de Cristo na Via Sacra é evento que consta como atração na programação cultural e turística da cidade. Nele estão envolvidos de forma direta ou indireta aproximadamente 1.500 (mil e quinhentos) moradores das redondezas, que servem de figurantes, coadjuvantes e atores principais. Nesse momento extraordinário de interações predominam sentimentos de cooperação comunitária, com a distribuição de tarefas que devem ser cumpridas para permitir a realização do espetáculo. No ano de 2011 fez 30 (trinta) anos que a representação é apresentada nas ruas e praças do bairro. Um público estimado em mais de duzentas mil pessoas assiste ao espetáculo, que envolve também a presença ostensiva de policiais e bombeiros militares. Guardadores autônomos de veículos (flanelinhas) são cadastrados para operar nos dias das exibições públicas. Em 2011, quando foi desenvolvida a pesquisa, a Via Sacra do Anjo da Guarda teve o patrocínio da mineradora Vale, bem como o apoio da Prefeitura Municipal de São Luís e do Governo do Estado do Maranhão.

      A Praça da Ressurreição proporciona aos moradores do bairro um espaço público no qual são exercitadas as sociabilidades comunitárias. Está localizada entre duas avenidas: dentro do bairro, a Avenida Palestina, e, na parte externa, a Avenida dos Portugueses (consultar Figura 6). Entre as praças pesquisadas, esta é a que apresenta o maior espaço físico; sua configuração reflete uma amplitude espacial, o que pode facilitar a copresença e manter certo distanciamento corporal. Na extensa área central não existem árvores ou construções que originem sombras da luz do Sol, o que é entendido pelos frequentadores

    • – conforme apurado nas entrevistas
    • – como empecilho a um maior uso durante as horas do dia em que o calor é acentuado. Nas ocasiões em que parques itinerantes são instalados na Praça, sua largura é uma vantagem que permite a montagem de brinquedo popular, conhecido e apreciado como roda gigante.

      Figura 6 – Mapa com a localização da Praça da Ressurreição.

      

    Fonte: Google Mapas. A pesquisa na Praça da Ressurreição contou com observação direta entre os meses de abril a agosto de 2011, quando foram realizadas em diferentes horários entrevistas estruturadas com os usuários frequentes e ocasionais da praça. Nesta Praça foram delimitados atores que se apropriam do espaço, que podem ser distribuídos em díades, grupos e ajuntamentos classificados como vizinhos, jovens, casais, estudantes uniformizados, adultos, servidores públicos que trabalham no entorno, policiais militares e comerciantes.

      Para identificar e analisar os ritmos e comportamentos, os horários, nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços da Praça por indivíduos e grupos, devem ser percebidos de forma diferenciada. Nas manhãs os usos mais percebidos são próprios de indivíduos, díades e grupos que se exercitam fisicamente, caminhando ao redor da Praça, prática que se repete com menos intensidade ao anoitecer, quando a frequência à praça é maior. Do mesmo modo, a fluência de usuários verifica-se com mais intensidade nos fins de semana, quando a copresença é maior e mais pessoas se encontram na praça.

      Figura 7 – Fotografia de satélite da Praça da Ressurreição.

      

    Fonte: Google Mapas.

      Indivíduos e grupos procedem principalmente do bairro do Anjo da Guarda, mas são encontrados usuários de regiões adjacentes como Vila Isabel, Vila Mauro Fecury II, Vila Nova, Vila Gancharia, Gapara e Vila Fumacê. A maioria reside no bairro [Anjo da Guarda] e chega à Praça andando.

      A vizinhança reconhece na Praça um lugar importante na região (Figura 7). As relações entre vizinhos são mais intensas que na Praça Gonçalves Dias. Morar no entorno da Praça da Ressurreição é sinal distintivo. As casas têm melhor acabamento e várias são edificadas contando com varandas e sacadas que dão vista para a Praça. Alguns empreendedores, aproveitando a localização que pode atrair clientela, instalaram empresas em pontos comerciais em frente à Praça.

      Nos ritmos diários, a Ressurreição é bastante usada a partir do anoitecer, quando o movimento é grande. Os fins de semana não apresentam muita variação em comparação com os demais dias, provavelmente em razão de os usuários residirem nos arredores. As interações entre indivíduos que se conhecem com estranhos ou forasteiros são assinaladas por um sentimento aparente que pode ser graduado como curiosidade, indiferença ou até uma relativa aversão. Em princípio, demonstradas de maneira discreta. No curso do ano é comum a instalação de eventos como festas, encenações e parques de diversões itinerantes.

      O local é frequentado principalmente por agrupamentos que reúnem jovens, que se juntam nas imediações das barracas lanchonetes. Depois da praia, a praça é o principal lazer dos jovens. Entre os recursos de interação empregados para manter as situações sociais está uma linguagem que inclui expressões e atitudes próprias de grupos primários. Os indivíduos muitas vezes são “chegados” e participam do que seria confidencial para um forasteiro. Nas interações e relações sociais existe uma maior expressão de afetos públicos que contribuem para conservar a ocasião. Esse pedaço conta com lugares para comer e beber, onde parece ser maior o consumo de bebidas. Essas lanchonetes favorecem os encontros e a conversação (vide Figura 8 abaixo).

      Figura 8 – Vista parcial da Praça da Ressurreição.

      Foto do autor.

      Entre os jovens são encontrados principalmente estudantes, mas há os que exercem ofícios remunerados como armadores e soldadores, trabalhando no setor da construção civil em empreiteiras. Outros têm ocupação em confecções e comércio de roupas. Como principais usos conferidos à Praça pelos jovens estão: ficar sentado observando e olhando as pessoas e o movimento; lanchar com os amigos tomando guaraná, cerveja, chopp, sorvete, comendo cachorro quente, churrasco; namorar e conversar com os amigos.

      Quando indagados dos motivos para frequentar a Praça as respostas são variadas, conforme a faixa etária, o gênero, o grupo social ou a classe econômica. Alguns a consideram como parte de seu trajeto e, ao transitarem por ela, reconhecendo alguém, param para conversar. Existem aqueles que declaram ir para conhecer pessoas, pois percebem a Praça como lugar de paquera e namoro. Lanchar nas barracas é também opção bastante acionada. Assistir aos eventos é motivo de seleção identificado pelos usuários, que, no entanto, reclamam das poucas alternativas de lazer existentes no bairro. Há relatos nos quais se diz que usavam mais os espaços da Praça, mas foram deixando de comparecer por outros compromissos ou pela perda de amizades cultuadas com a conversa, que não mais tiveram oportunidades em prosseguir.

      Casais são vistos à noite na Praça, mas na companhia de outras pessoas. Esses pares de adjacência apresentam uma complexidade maior. Muitas vezes casais vêm à Praça com outros indivíduos ou lá se encontram. Os casais de namorados são em menor número em comparação aos observados na Praça Gonçalves Dias. Têm de peculiar o fato de poderem ficar no carro ou perto dele, o qual tende a ser usado por seus possuidores como recurso para a atração de potenciais consortes. O decoro nas interações entre casais pode parecer mais intenso nas atitudes de afeto, pois a proximidade da residência tende a facilitar a intromissão e gerar comentários de vizinhos. A possibilidade de vigilância é marcada como desagradável pelos jovens casais.

      Estudantes uniformizados são vistos na Praça ou em deslocamento pelo bairro, no qual estão situadas muitas escolas. Durante o dia podem ser vistos estudantes que transitam e pouco permanecem na Praça. No final da tarde os momentos de permanência aumentam. Mas é à noite que a presença de estudantes é maior. Muitos não usam uniformes, por se tratar de curso noturno, outros os retiram para ficar mais à vontade. Preferem os pedaços onde estão outros indivíduos, não se importando em serem vistos e notados apesar do uso de uniforme.

      Investigar os usos e apropriações dos espaços da Praça pelos jovens possibilita que se pense igualmente em ajuntamentos de adultos. Estes, quando vão à Praça, parecem estar direcionados a eventos que serão lá organizados, participando como arranjadores dos preparativos ou público para assistir com suas famílias. Em outras ocasiões comparecem também acompanhados de familiares, filhos e netos aos momentos extraordinários nos quais transcorrem os eventos realizados sazonalmente. No cotidiano, os jovens representam os atores que mais andam e caminham no perímetro da Praça.

      Entre os jovens entrevistados na Praça da Ressurreição os usos e apropriações do espaço social são exercitados, em regra, nos mesmos trechos da área, com poucas variações. O conceito de pedaço parece ser mais aplicável, enquanto modelo teórico explicativo, às interações nesta localidade. Realçam a amplitude do lugar, para onde vêm, em sua maioria, acompanhados, como no trecho:

    • - Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentar esta praça? - Conhecer pessoas, paquerar, lanchar, shows, festas juninas.
    • - Quais os horários do dia que você frequenta a Praça?

      - À noite.
    • - O que você costuma fazer nos momentos em que está na Praça? - Conversar e lanchar com amigos, conversar.
    • - Você vem sozinho ou acompanhado (a)? Se acompanhado (a), com quem? - Acompanhado, com os amigos.
    • - Quando vem à Praça você se estabelece sempre no mesmo local ou parte da Praça? - Sim.
    • - Em sua opinião, o que de melhor a Praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam?
    • - Conhecer pessoas legais e bancos para repousar, é um bom lugar para descansar e conversar, o ambiente livre, um bom momento de lazer, bom espaço e o lanche. (V., 21 anos).

      Determinados usos resultam das atividades de servidores públicos que trabalham nas repartições localizadas em pontos opostos ao redor da Praça, como a biblioteca Farol da Educação Antônio Neves e o Centro de Saúde Clodomir Pinheiro Costa. Os serviços desenvolvidos nesses dois prédios contribuem para as movimentações na Praça nos dias úteis da semana. Atraem grande quantidade de indivíduos que afluem às suas dependências, compondo um fluxo permanente nas imediações, que movimenta o comércio e o transporte de passageiros. Durante a noite e fins de semana esses edifícios são ensejos para afastar frequentadores da Praça, em razão de não serem ocupados nesses horários, não havendo então movimentação de pessoas.

      Assim, as interações entre frequentadores e o poder público podem ser expressas pelas repartições nos extremos da Praça ou pela presença da Polícia Militar em algumas ocasiões, sobretudo em momentos extraordinários de festas, como na encenação da Paixão de Cristo. Nesses episódios é grande a presença do contingente da Polícia Militar, que visa disciplinar os usos do recinto da Praça e proximidades, coibindo comportamentos que excedam os admitidos pela lei e convenções sociais, como a moral e os bons costumes.

      Comerciantes estabelecidos têm pontos de venda de lanches e bebidas instalados na Praça. As atividades econômicas de comércio de alimentos estão bem presentes na Praça: em quiosques, trailers e barracas ofertam e vendem diariamente ao público. Nestas relações econômicas há um sentido interativo de amizade, não apenas entre frequentadores, mas também entre estes e os donos das lanchonetes. Uma destas é nomeada “Encontro Social”. Durante a semana, nos chamados dias úteis, recebem e atendem uma clientela maior, principalmente composta por jovens, que se reúnem em pedaços mais próximos à Avenida Palestina, no limite da Praça voltado para o interior do bairro. O lixo gerado por essas ações é percebido, entretanto, como algo negativo trazido pelo comércio de alimentos, o qual é valorizado pelos usuários entre as preferências de lazer. Mas, ainda assim, a Praça é avaliada pelos frequentadores como apresentando condições satisfatórias de limpeza.

      Figura 9 – Cenários dos usos e apropriações na Praça da Ressurreição.

      Os usuários percebem a Praça como um espaço asseado e com boa estrutura física, mas que poderia melhorar e se tornar mais agradável, com mais iluminação à noite e melhor segurança, pois a delinquência os preocupa. A escuridão em alguns trechos e a falta de policiamento regular são fatores que repelem usuários. Mas a Praça é apreciada como um lugar divertido e bom para passear, onde as pessoas vão para conversar. Por vezes, podem ocorrer conflitos que acarretam brigas, afastando potenciais usuários.

      A maioria dos frequentadores não vem sozinha, mas acompanhada de amigos, namorados, cônjuges, filhos, netos e familiares. A Praça é usada para facilitar reuniões entre membros dos ajuntamentos. Quando indagados nas entrevistas, os usuários identificam indivíduos e grupos que frequentam a Praça, percebendo a copresença de estudantes, jovens, e parentes com famílias. Outro padrão é que indivíduos e grupos, em sua maioria, preferem estar sempre no mesmo pedaço da Praça. Modelo de apropriação que difere do que predomina na Praça Gonçalves Dias. É possível aventar a suposição de que, por se tratar de uma Praça de bairro, os indivíduos têm seu pedaço reservado no espaço social da comunidade. Mudanças no posicionamento poderiam implicar em disputas por territórios e espaços sociais de influência, conforme os cenários traçados na Figura 9.

      Quando indivíduos e grupos são indagados sobre o que de melhor a praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e utilizam entre as respostas está a sua imensidão espacial. De fato, entre as praças estudadas é a de maior extensão física. Outros usos visados são o futebol jogado na quadra esportiva, as festas juninas e as programações de eventos, lazer, divertimento e brincadeiras. Descansar e repousar nos bancos, conversar e conhecer pessoas legais são usos igualmente apontados pelos usuários. As lanchonetes e bares montados na Praça são sempre citados como espaços disponíveis aos usos coletivos, cuja apropriação tem permitido manter e ampliar a atração de frequentadores.

      A descrição e a análise da Praça da Ressurreição devem considerar aspectos pautados pelas vivências comunitárias. Os ritos sociais de interação nesta localidade são compostos fundamentalmente por relações entre próximos. As atividades interacionais que transcorrem nos ajuntamentos nas ocasiões de chegada, permanência e partida da Praça evidenciam os usos e apropriações da Praça como espaço de sociabilidades e manifestações culturais comunitárias. Um diferencial a ser destacado, são os investimentos em expressões culturais da região feitos por grandes grupos econômicos situados nesta zona da cidade, que patrocinam e apoiam eventos que são apresentados na Praça da Ressurreição.

      Deve ser avaliada como positiva a intervenção realizada pelo poder público no que se refere à construção da Praça. As relações e representações de indivíduos e grupos a respeito da Praça são bastante aprovativas. A percepção desse espaço pelos moradores ou por aqueles que os acessam por motivos comerciais são francamente favoráveis às benfeitorias na região. É possível apurar que a Praça é valorizada pelos usuários moradores, apesar das recorrentes reclamações quanto à insegurança no bairro. As reivindicações por segurança são semelhantes para os que usam o espaço para finalidades comerciais. O que se destaca na Praça da Ressurreição é sua adequação como local de interações comunitárias. É a praça de bairro na qual são vivenciadas importantes atuações dos atores sociais, que marcam o cotidiano do Anjo da Guarda e arredores, onde são situadas negociações que permitem os usos e apropriações do espaço e a producente construção de uma identidade local de seus moradores.

      4.2.4 A Praça do Conjunto dos Ipês A Praça do Conjunto dos Ipês está situada no bairro do Recanto dos Vinhais, que se localiza a nordeste do Centro da cidade (Figura 10). As casas que compõem o Conjunto foram erguidas pela Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, em 1979, com o propósito de dotar seus trabalhadores de residências. Toda a infraestrutura urbana inicial foi instalada pela mineradora. Na mesma época, foi urbanizada a área ao lado da antiga cooperativa dos funcionários da Vale e em frente à sede da Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE). As dimensões espaciais da Praça são bem menores quando comparadas às outras analisadas. Em forma de um triângulo (Figura 11), seus limites são as ruas Dois, Cinco e Seis, pois na designação dos logradouros do bairro as vias são identificadas por números e quadras.

      Figura 10 – Mapa com a localização da Praça do Conjunto dos Ipês.

      

    Fonte: Google Mapas.

      Na Praça do Conjunto dos Ipês a pesquisa foi realizada também com observação direta entre os meses de abril a agosto de 2011, em horários diferentes. Entrevistas do tipo estruturado, com rol invariável e padronizado de perguntas, foram aplicadas aos usuários, frequentadores, vizinhos e transeuntes. Apuraram-se categorias de atores sociais que se apropriam do espaço, entre eles estão incluídos vizinhos, associados da ASCOPE, grupos juvenis, casais, comerciantes e rodoviários de uma empresa de ônibus que tem ponto final na Praça.

      Figura 11 – Fotografia de satélite da Praça do Conjunto dos Ipês.

      

    Fonte: Google Mapas.

      Desse modo, com o propósito de analisar os ritmos e comportamentos, foram identificados indivíduos e grupos frequentes ocasional e habitualmente na Praça. Definiram- se, além disso, horários nos quais determinadas apropriações dos espaços ocorrem. O início da manhã, o fim da tarde e o início da noite são momentos de usos mais intensos da Praça. A fluência nos dias úteis da semana é diferente do que ocorre nos fins de semana. Entre segunda- feira e sexta-feira a copresença é maior, com um padrão de ritmo em seu uso e apropriação social diferente das duas outras praças pesquisadas.

      Os usos, apropriações e interações sociais no espaço da Praça do Conjunto dos Ipês são distinguidos por sua característica comunitária. Ao bairro, além dos moradores, afluem trabalhadores domésticos e empregados nas empresas ali instaladas. Do ponto de vista socioeconômico, o Conjunto é composto por uma vizinhança com casas erguidas ao final da década de 1970, nas quais residem famílias de renda média, e outras residências edificadas em lotes de ocupação fundiária não regularizada na área de baixo confinante ao Conjunto. Logo, as condições socioculturais apresentam-se diferenciadas. A Praça é mais usada por indivíduos e grupos que procedem de bairros como Recanto dos Vinhais, Vinhais e Bequimão.

      No que se refere às relações de vizinhança, as duas comunidades existentes convivem bem, mas dão usos à Praça nem sempre semelhantes. Os moradores do Conjunto conferem a ela usos comunitários e associativos. A outra parcela, que reside nas cercanias do Conjunto, comparece à área, apropriando-se, sobretudo, dos locais de espera de transporte. Nas origens do Conjunto havia um parquinho equipado com brinquedos para crianças, que se foi deteriorando com o tempo sem a manutenção devida e removido há uma década. Os moradores do Conjunto, que têm a Praça como sua, apropriam-se pouco dela, usando-a como local de passagem. Suas interações sociais devem suceder em outros cenários, com atores diversos dos que se situam nesse contexto público.

      Indivíduos e grupos marcam também suas relações no espaço da Praça sob a presença constante da Associação de Moradores, a qual realiza intervenções que o poder público municipal ou estadual deveria fazer. Em muitos aspectos, a Associação faz as vezes de poder público, desempenhado seu papel em substituição. O fornecimento de água é por conta da Associação que cobra pelo serviço, que alguns, entretanto, recalcitram em pagar; o que tem gerado disputas entre vizinhos no ambiente da comunidade.

      Os vizinhos, quando provocados em entrevistas, destacam entre as motivações para frequentar a Praça a proximidade de suas casas. Outros atrativos são aproveitar a tranquilidade da região, poder lanchar no quiosque instalado, ter momentos de lazer com filhos ou passear com o cachorro. Percebem os moradores a necessidade de melhoramentos, pois as demandas de conservação são maiores do que os recursos, serviços e medidas que a Associação de Moradores pode prover. Reconhecem, no entanto, os vizinhos que a Praça é boa, ventilada, aconchegante, agradável, tranquila, mesmo em dias com intenso movimento (Figura 12).

      Os moradores residentes no entorno da Praça do Conjunto dos Ipês usam e apropriam-se do espaço social também nos mesmos trechos, pouco variando as áreas usadas. Destacam a percepção comunitária, mas reclamam do pouco envolvimento dos habitantes do Conjunto nos problemas da comunidade, como no trecho de entrevista a seguir:

    • - Como você chega à Praça?
    • - Andando.
    • - Há quanto tempo você vem frequentando esta Praça?

      - Oito anos.
    • - Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentá-la? - Comunidade, fica próxima à minha casa.
    • - O que você poderia dizer sobre esta Praça?
    • - É uma Praça boa. Precisa ser melhorada, está mal tratada
    • - Quantas vezes na semana você vem à Praça? - Diariamente.
    • - O que você costuma fazer nos momentos em que está na Praça? - Conversar. (B., 65 anos).

      Figura 12 – Vista parcial da Praça do Conjunto dos Ipês.

      

    Foto do autor.

      Os horários preferidos para usos da Praça são as manhãs e finais da tarde. Na manhã é comum caminhar pelo bairro, “para aproveitar o sol e a ventilação saudável”, tendo a

      Praça como local de lazer e circulação. À tarde os moradores usam para passear com seus cães. O dia mais movimentado da semana é o sábado pela manhã, quando é grande o fluxo ao mercado existente em frente à Praça. Entre as principais práticas adotadas pelos vizinhos estão: conversar com os amigos e pessoas conhecidas, lanchar, caminhar, passear com o cão, observar o movimento, acompanhar filhos e netos menores, esperar o ônibus, ler, contemplar o céu e o horizonte. A Praça está situada em local elevado na paisagem, o que permite um arejamento com a brisa vinda do litoral e apreciada pelos moradores, motivo reconhecido como fator de atração pelos frequentadores.

      Alguns residentes deixaram de ir à Praça por determinado período. Entre os pretextos estão a falta de tempo e a insegurança durante a noite. Em sua maioria, os usuários vêm acompanhados à Praça, com filhos, netos, cônjuges, familiares, namorados, vizinhos e animais de estimação. Por vezes, reúnem-se com grupos de conhecidos como familiares, amigos, vizinhos e grupos de igreja que já estão aguardando. Diferentemente das outras duas praças (Gonçalves Dias e Ressurreição), não existe nesta a presença física de igreja.

      Do mesmo modo que na Praça da Ressurreição, quando vêm à Praça, os usuários moradores estabelecem-se no mesmo pedaço, repetindo o padrão da praça de bairro, na qual os mesmos lugares costumam ser apropriados de modo reiterado pelos grupos que se reconhecem e identificam-se nos espaços das praças. A maioria reside e frequenta a Praça há mais de dez anos, o que expressa certa permanência entre os comunitários.

      Grupos juvenis ocasionalmente apropriam-se de espaço para fins de exercício de sociabilidades como conversas nos bancos da Praça. Dizem que nos momentos de lazer preferem frequentar, em ordem de preferência: shopping center; praia; cinema; praça; clube; bar, restaurante e lanchonete; igreja e sítio. Como os demais usuários, os grupos de jovens chegam andando, pois residem nos arredores. Pode-se notar que a frequência à Praça não está entre as escolhas prioritárias, sendo pequena a permanência de grupos juvenis nesse espaço.

      Casais usam a Praça nos diversos horários da semana, com mais incidência à tarde

      e, sobretudo, à noite; ficam nos bancos ou em automóveis estacionados ao largo da Praça. O decoro nas interações entre casais não parece ser intenso como se poderia supor. Os que expressam afetos excessivos nos bancos não residem nas proximidades, são de outras localidades, granjeando a atenção dos vizinhos para os arroubos nas carícias. Alguns casais chegam à Praça de carro e aí permanecem sem ser importunados. Os casais veem a Praça como espaço adequado às interações entre namorados, que podem sentar nos bancos e conversar em paz.

      As relações na Praça atendem, além disso, finalidades utilitárias. Constataram-se interações sociais nas quais existe a presença de atores sociais que habitual e profissionalmente comercializam no entorno da Praça. Indivíduos frequentam ocasionalmente esse espaço para adquirir produtos nos estabelecimentos de comércio varejista ou em lanchonete. Um supermercado atrai para a área fregueses que a acessam com a finalidade de fazer compras, estacionando seus automóveis nas dependências da Praça. Interações são também efetivadas na lanchonete/quiosque onde há mesas, cadeiras e televisão, servindo à clientela do bairro. Quem exerce atividades comerciais percebe a Praça como lugar com boas perspectivas de usos comerciais por sua localização, fácil estacionamento e consumidores com poder de compra.

      Nas interações com indivíduos desconhecidos vigora certo grau de distanciamento social. Supõem os moradores que o estranho está aguardando o ônibus no ponto final ou indo ao mercado para fazer compras. Esses momentos são marcados pela sensação de insegurança, que é resultado de episódios de invasão de residências, roubos e furtos no bairro, o que deixa os moradores intranquilos. Existe uma desatenção civil associada à presença de indivíduos desconhecidos na Praça, que os moradores fingem não ver nem encaram fixamente, mas que tendem a despertar suspeitas de perigo iminente, fundado ou sem causa.

      Uma empresa de transporte urbano de passageiros tem ponto final na Praça e os rodoviários compõem outro grupo que usa e se apropria de seus espaços. Motoristas e cobradores ao chegarem à Praça fazem pausas em intervalos para retomar o percurso da linha de ônibus urbano, que liga o bairro ao terminal da Cohama. Nesses momentos lancham, conversam entre si, com passageiros e moradores que se encontram no abrigo de passageiros. Queixam-se da falta de sanitários. Outrora existia uma cabine com pequeno escritório e banheiro para os rodoviários, que pertencia à ASCOPE e foi demolida para dar lugar a um jardim, ampliando a área verde da Praça. Quando necessário, usam os rodoviários o lavabo do mercado próximo ou os do terminal da Cohama, quando chegam lá.

      O poder público não tem realizado intervenções na região. Eventualmente, conta- se com alguma ronda policial. O asfaltamento no entorno da Praça é antigo e começa a se desfazer, não providenciando o poder público municipal os reparos devidos. De um modo geral, a vizinhança tem criticado a ausência de prestação de serviços ou de colaboração do poder público com a comunidade do Conjunto.

      Quando indagados, os usuários identificam grupos que habitualmente frequentam, usam e apropriam-se de espaços da Praça (Figura 13). Indicam moradores e vizinhos, estudantes uniformizados, casais, passageiros da linha de ônibus, familiares e membros da igreja do bairro.

      Figura 13 – Cenários dos usos e apropriações na Praça do Conjunto dos Ipês.

      Como pontos fortes para um melhor uso do espaço da Praça os usuários apontam o que reputam como a boa localização, tranquilidade e ventilação, por se tratar de um lugar alto. Como fatores para afastamento e desuso da Praça listam os frequentadores a falta de uma área ou parque para as crianças brincarem, a insegurança causada pelos assaltos, a pouca presença de estabelecimentos comerciais e a quantidade excessiva de cachorros abandonados ou criados soltos por donos relapsos. Dentre as praças investigadas é a que apresenta a maior população de cães que perambulam, sujando e depreciando o espaço comunitário. Ainda do ponto de vista dos usuários, o que a Praça tem a oferecer de melhor são ventilação, tranquilidade, sossego, ponto de ônibus, lanchonete, sombra das árvores, ambiente agradável para encontrar e conversar com os amigos.

      Deve-se analisar de modo detido o fato de a Praça não ter um nome oficial nem oficioso conferido pelos usuários. Indivíduos e grupos frequentadores não sabem responder qual o nome desse logradouro público. Dizem que a Praça não tem nome, outros sugerem "Praça do ponto final do ônibus", "Praça do Mercadinho", "Praça da ASCOPE

      " ou “Praça sem nome”. A Praça é valorizada pelos usuários por sua ventilação, tranquilidade e localização central no interior do bairro, apesar de não usada como poderia ser. O fato de não ter o espaço um nome pode denotar a insuficiente apropriação, que se revela logo pela designação do lugar. Um espaço sem nome tende a sugerir afastamento e pouca intimidade, proporcionada pelo distanciamento afetivo. Deve-se realçar o que a Praça do Conjunto dos Ipês tem de peculiar, que é a atuação da Associação de Moradores como importante agente participante das interações sociais, contribuindo para os usos e apropriações sociais do espaço no ambiente onde convive a comunidade. Foram considerados no presente estudo os usos e as apropriações sociais de praças situadas na cidade de São Luís

    • –MA, decorrentes das interações sociais constituídas e mantidas no espaço público contemporâneo. A finalidade essencial foi evidenciar a ordem comportamental encontrada, quando indivíduos e grupos entram na presença imediata uns dos outros no espaço dos ajuntamentos sociais nas praças. Os espaços públicos específicos selecionados foram: Praça Gonçalves Dias, Praça da Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês.

      Ao término do percurso, é preciso expressar as conclusões sobre o estudo, como forma de analisar criticamente o que se observou e subsidiar futuras pesquisas. A investigação dos diferentes usos e apropriações sociais das praças, sua relação com os padrões de sociabilidade em atuação nos bairros permitiu constatar determinados comportamentos cotidianos no espaço da cidade. O estabelecimento de regras de convívio e padrões de civilidade puderam também ser examinados. Pôde-se investigar o que acontece nas praças, o que aí se faz. As particularidades próprias aos espaços públicos, consubstanciadas em conversas, palavras, gestos e vestimentas de indivíduos e grupos.

      Inicialmente, foi examinado, em perspectiva histórica, como as transformações urbanas e os movimentos populacionais de migração afetaram a composição socioespacial da cidade com reflexos nas condições de uso e apropriação de suas praças. A estrutura de São Luís e de seus prédios passaram do precário e artesanal às edificações aformoseadas com pretensões em observar estilos europeus de construção. No que se refere ao espaço público, não se deve entender que estivesse caracterizado em sua acepção hodierna no período colonial. Havia a intimidade das famílias em suas casas, sobrados e engenhos. Mas a vida pública no sentido moderno ainda não estava configurada. A modernidade se firma com a República, ainda que de modo excludente, com reflexos nas praças que devem expressar o novo, com desprezo ao que é centenário.

      Na metrópole contemporânea a vida social transcorre em espaços sociais de uso coletivo que não são precisamente públicos, como os shopping centers. São as praças, porém, os locais por excelência em que o acesso é franqueado de maneira mais ampla. É possível, então, perceber que as praças públicas passaram por um processo de transformação em suas funções sociais. Os usos políticos dos primórdios, que expressavam o exercício de uma cidadania voltada à discussão dos rumos da vida na pólis, já não se evidenciam com a mesma intensidade. Os usos coletivos estão associados às interações e sociabilidades em que prevalecem comportamentos diversificados, conforme os ritmos naturais e as diferenças entre os atores que usam e se apropriam do espaço público.

      Nesse contexto, a pesquisa cuidou das dinâmicas sociais básicas que se processam no curso da copresença, quando os envolvidos na interação dispõem de recursos inter- relacionados como a contextualidade das ações comuns, a observação das convenções normativas e o uso da linguagem com os quais são interpretadas, organizadas e mantidas as situações de ação. Com a contextualidade as ações comuns são interpretadas pelos agentes sociais de acordo com a ordem que ocupam as expressões entre os sujeitos nas ocasiões de troca. Os citadinos ao fazerem usos das praças procedem a vivências que permitem caracterizar o comportamento como apropriado ou desviante. Existe, portanto, uma percepção das responsabilidades entre os agentes nos contextos das ações. São estabelecidas, ainda que tacitamente, expectativas e obrigações morais entre os atores nas situações sociais.

      São as praças públicas concebidas como lugares típicos para o transcurso dos ritos sociais da interação. Refletiu-se sobre os espaços públicos urbanos, os atores sociais copresentes e suas práticas interacionais. Nessas interações estão envolvidos um período de tempo, uma extensão limitada no espaço, e os eventos são restritos àqueles que devem ser completados depois de iniciados. Visou-se, portanto, compreender o espaço público considerando suas destinações e a concorrência relativa às suas apropriações sociais, articuladas pelos moradores da vizinhança, pelos que ali permanecem algumas horas dos dias, pelos que circundam aquele espaço ou pelos que por lá transitam.

      Foram apontadas diferenças entre as praças, em relação aos seus usos e apropriações sociais. Esses ritmos e comportamentos tendem a variar conforme os padrões locais de sociabilidade, a existência de uma memória que estabeleça ligações afetivas com o bairro onde se situa a praça, a vivência de uma vida comunitária na qual sejam verificadas associações de moradores e outras entidades congêneres, ou o perfil sociocultural dos moradores. Pode-se dizer que a praça se completa ou se perfaz pelo uso, realizado a partir das diversas formas de apropriação pelos citadinos. Pois, de maneira contrária, o desuso traz a perda de oportunidades para a sociabilização e o não proveito de um espaço que, afinal, foi edificado para servir de palco à vida comunitária.

      No contexto social das praças de São Luís é possível constatar interações e sociabilidades que se repetem no tempo. O espaço público viabiliza a copresença e situações sociais de encontros. As sociabilidades podem ser verificadas e confrontadas ao pesquisar as praças. Não se tratam apenas de práticas novas, mas estão incluídos usos e costumes tradicionalmente antigos e reiterados que se tornaram diferentes na atualidade. Entre as novas sociabilidades podem ser pensadas aquelas que têm a intermediação de equipamentos novos, como skates; ou igualmente redes sociais que permitem agendar encontros nas praças. Novas práticas, novos hábitos e costumes permitem o arranjo de novas sociabilidades, admitindo usos distintos daqueles de antigamente. O espaço público modifica-se continuamente em sua configuração social com esses novos usos, que coexistem com os consagrados tradicionalmente.

      Os atores sociais são múltiplos, entre estes são arrolados moradores da vizinhança, visitantes, estudantes uniformizados, estudantes universitários, casais de namorados, religiosos, fiéis, jovens, idosos, skatistas, vendedores ambulantes ou instalados, policiais militares, rodoviários, guardadores autônomos de veículos (flanelinhas). Podem ser pensados de acordo com sua procedência espacial, faixa etária, gênero, grupo social, condição econômica e cultural. Em relação à origem socioespacial, os usuários podem ser analisados como residentes nas cercanias e vivenciando plenamente a vida comunitária ou serem forasteiros e frequentadores ocasionais. Pela faixa etária, as praças estudadas comportam a copresença de jovens, que totalizam a maioria dos frequentadores. Outro grupo etário é o de adultos. Idosos são vistos em menor número nas praças investigadas. Em relação ao gênero, o número de homens nas praças é um pouco maior que o de mulheres. Ajuntamentos, díades e grupos estão presentes em todas as praças. Quanto à condição econômica e cultural, as diferenças puderam ser observadas em cada uma das praças e conforme o bairro.

      Além de identificar usuários individuais e coletivos, foram delimitados horários nos quais ocorrem determinadas formas de apropriação dos espaços. O início da manhã ou o fim da tarde são momentos de maior frequência à praça; a fluência nos dias úteis é diferente em relação àquela verificada nos fins de semana. Nestas ocasiões, a copresença é maior e encontra-se nas praças um número mais expressivo de pessoas.

      No processo de interação são articuladas as condições sociais para o uso e a apropriação de determinados territórios. Essas modalidades de usos sociais tendem a variar conforme a localização da praça. Na região do Centro imperam interações que mudam de acordo com a procedência diversificada do público. Na região do Anjo da Guarda é possível apurar uma frequência intrabairro com a prevalência de interações entre jovens vizinhos. No Recanto dos Vinhais ocorre também uma frequência de bairro, com a atuação de um ator coletivo que se define socialmente como a Associação de Moradores. No que se refere às dimensões físicas de tamanho, a maior dentre as praças pesquisadas é a da Ressurreição; e a menor a do Conjunto dos Ipês.

      Os diversos atores sociais foram investigados em suas interações condicionadas pelo contexto da copresença. O espaço público é usado e apropriado por conjuntos de citadinos que ajustam suas presenças recíprocas nas praças. Em certas ocasiões sociais uns precisam permitir usos pelos demais copresentes. Episódios ilustrativos são representados pela convivência entre os usuários e os skatistas na Gonçalves Dias, os quais devem diariamente evitar choques físicos com os transeuntes decorrentes de sua prática desportiva. De acordo com os bairros onde estão situadas as praças, há similitudes entre os usos e apropriações. Cotidianamente, indivíduos e grupos interagem em ajuntamentos sociais não delimitados de forma clara, em processo de constituição de sociabilidades locais.

      Entre as práticas sociais que possibilitam os usos e apropriações do espaço público das praças pelos citadinos estão as negociações dos pedaços onde se instalam indivíduos e grupos. Essas se perfazem por ajustes e acordos tácitos ou expressos em que são processualmente combinados modos e limites de atuação. Conforme a copresença seja mais evidente ou velada, os indivíduos notam-se uns aos outros. Por meio de demarcações consensuais procuram assegurar espaços ou pedaços que supõem apropriações exclusivas temporárias, que, apesar de admitir concorrência de usos com entradas e saídas, tendem a evitar esses ingressos. Simpatias, antagonismos expressos ou velados e idiossincrasias interferem nas interações sociais no espaço público das praças.

      Nas interações diárias os aspectos culturais, como usos, hábitos, visões de mundo, projetos pessoais ganham relevo e ajudam a conduzir as ações comuns nas praças estudadas. As interações entre indivíduos e grupos tendem a ocorrer entre aqueles que se conhecem. As relações em que se compartilham sentimentos e afetos ou as aproximações com desconhecidos são marcadas por tensões, muitas vezes insuperáveis. Nesse aspecto, devem ser destacadas as praças de bairro

    • – Ressurreição e Conjunto dos Ipês –, nas quais fica mais evidente a presença de estranhos.

      Nas interações no espaço público indivíduos e grupos lançam mão de recursos contextuais comuns para cultivar as relações e situações sociais. Conforme o agrupamento há diversos recursos como convenções normativas, códigos e linguagens que possibilitam a copresença entre seus integrantes e estranhos. Devem ser consideradas as especificidades sociais das praças pesquisadas. Na Praça Gonçalves Dias, onde o fluxo de usuários é mais intenso, há um número maior de agrupamentos heterogêneos. Cada um com meios e códigos de identificação e reconhecimento entre seus componentes. Na Praça da Ressurreição, a mais homogênea em termos de procedência de atores, as interações obedecem a determinados padrões.

      São, sobretudo, posturas corporais e atitudes, antes de palavras que mostram se alguém é ou não bem-vindo. A percepção desses sinais indicativos torna possível a formação de contratos de convivência. Os limites instituídos parecem ser aqueles que possibilitem usos compartilhados pelos envolvidos. Determinadas configurações dos ajuntamentos influenciam na constituição dos acordos, como número de integrantes, homogeneidade de procedência, de gênero, de faixa etária e atitudes mais ou menos favoráveis à aceitação de comportamentos considerados como desviantes. A ética da aventura, principalmente entre os mais jovens, parece orientar as bases das escolhas. Conforme o contexto social onde se localiza uma interação, são percebidas variações de atitudes. A título de ilustração, podem ser citados grupos de vizinhos que ocupam um espaço na praça e excluem consciente ou inconscientemente outros pretendentes ao mesmo recinto. Ou os praticantes do skate que, por suas manobras, afastam aproximações de curiosos sob o temor implícito da ocorrência de acidentes, como eventuais choques com a prancha devido ao rápido deslocamento dos praticantes.

      Não há como traçar marcas físicas que evidenciem clara separação ou sinalizem áreas de influência. Assim, devem ser os afastamentos intuídos como demarcados simbolicamente. Entre os recursos para isso podem estar falar alto, olhares de aprovação ou de reprovação, gestos de crítica, maledicências, xingamentos e admoestações físicas. A aceitação ou condenação deve ser apurada tendo em vista o contexto em que ocorre a interação. De certo modo, a censura pode ser verificada com atitudes de frieza, desprezo ou rejeição. Essas formas de expressão servem para manter a coesão dos grupos que se instalam em certos espaços.

      As interações com as instituições ou o poder público acontecem em todas as praças, como não poderia deixar de ser. Mas, seguem ritmos diferentes. Na Praça Gonçalves Dias existe a presença de repartições públicas federais, que imprimem certos usos ao redor daquele espaço. Na Praça da Ressurreição uma biblioteca e um centro de saúde pública, que atraem usuários nas horas de funcionamento. O poder público, enquanto ator social, não tem ações localizadas na Praça do Conjunto dos Ipês. Logo, nas praças estudadas o poder público está instalado fisicamente, mas com poucas intervenções efetivas sendo processadas no curso das interações cotidianas.

      As intervenções outrora realizadas pelo poder público em praças de São Luís modificaram as relações e representações dos atores sobre espaços da cidade. A Praça Gonçalves Dias passou por ampla reforma há cerca de oito anos que readequou sua configuração ao cartão-postal, exercendo atração atualmente sobre um diversificado e maior público frequentador. A Praça da Ressurreição, implantada como Viva Anjo da Guarda no final dos anos 1990, é palco de múltiplas interações, usos e apropriações. Onde antes havia um terreno pouco apropriado socialmente, hoje há um local propício aos encontros e que se integra aos espaços sociais do bairro, acolhendo uma dinâmica e variada série de usos promovidos pelos citadinos. A Praça do Conjunto dos Ipês, entretanto, conserva a estrutura erguida pela mineradora Vale, não apresentando ingerências pronunciadas do poder público.

      O equilíbrio de poder nas praças é muitas vezes sutil. Quando desequilíbrios ficam evidentes, existem grupos ou ajuntamentos que ultrapassam os limites costumeiramente convencionados para frear certas condutas sociais. Logo, toda vez que indivíduos de um grupo invadem territórios de outros, advêm disputas e lutas.

      Para manter a harmonia, as fronteiras sociosimbólicas devem ser mantidas. Sua não percepção pode levar a sérias rupturas da ordem com conflitos abertos. Algumas vezes objetos são espalhados para assinalar territórios, como em jogos entre estudantes uniformizados na Praça da Ressurreição, quando são improvisadas traves. Podem ser oferecidas recompensas em forma de status e poder, como as proporcionadas ao jogador que desempenhe habilidades incomuns, admiradas pelos demais.

      Foram observados indícios de conflitos interativos motivados por códigos de condutas, tradições, regras e normas divergentes entre os frequentadores desses espaços. Um desses mais visíveis decorre dos excessos dos skatistas na Praça Gonçalves Dias, que têm antagonismos em relação a outros frequentadores, principalmente a vizinhos e guardadores de veículos, que os rotulam como criadores de confusão. Os moradores da região veem a Praça como local de lazer, onde podem recrear despreocupados. Os skatistas percebem o espaço como dotado das características certas para a prática de seu esporte, por ter um piso adequado àquele exercício. Indagam os frequentadores/residentes como se pode estar tranquilo quando existe a possibilidade de choque com uma prancha, cujo manobrista circula por toda a área. Em alguns momentos cresce a tensão sobre o destino a ser dado ao espaço. Tem prevalecido o desígnio do grupo mais presente e coeso, não necessariamente o mais numeroso. Não se pode negar, contudo, que a extensão numérica do grupo, apurada em uma contagem dos copresentes, interfere no exercício dos usos sociais.

      Os vizinhos e aqueles que usam e apropriam-se das praças para fins comerciais apreciam o espaço de maneira diversa. Os comerciantes tendem a ver a praça como o mercado no qual podem servir e vender a uma clientela de consumidores. Os moradores querem a comodidade de fazer um lanche perto de suas residências, desde que isso não lhes retire o espaço das praças em razão de uma apropriação excessiva por comerciantes estabelecidos ou ambulantes.

      De certo modo, são perceptíveis códigos ou padrões de conduta característicos nos revezamentos aos usos e apropriações dos espaços das praças. A adesão a eles facilita as trocas, sua infringência levanta obstáculos à comunicação. Proibições e interdições compartilhadas reforçam os laços que unem os atores. Díades de namorados não são observadas imediatamente adjacentes, o que permite concluir que algumas aproximações não são bem recebidas. Quando casais estão em determinado lugar, outro casal não fica tão junto sem que se possa caracterizar uma intenção dissimulada de intromissão nos assuntos alheios.

      Outra incompatibilidade não aparente está nos grupos de jovens na Praça da Ressurreição que, por residirem em áreas diferentes do bairro, relacionam-se por vezes de modo não amistoso com os que têm procedência diversa. Predomina uma categorização com a qual os indivíduos são vistos considerando seu pertencimento ao pedaço da vizinhança, para permitir, dificultar ou negar ingressos a lugares da Praça.

      Dessa maneira, indivíduos e grupos para cultivar as relações e sustentar as situações sociais de interação lançam mão de recursos, que são empregados para manter um senso coerente dos eventos centrais das trocas. Procuram observar o que pode e deve ser feito em determinadas ocasiões. O que consegue é “safo”, “malandro”, e muitas vezes respeitado pelos demais. O que não percebe nem se enquadra nos valores dos ajuntamentos é discriminado, sofrendo repreensões que podem chegar à recusa ao convívio com os demais. Esse padrão de repulsa pode ser apurado nas entrevistas ou por meio da observação ao longo de meses em que mudam as configurações interacionais, iniciando os indivíduos novos intercursos e não mais se comunicando com parceiros de outrora.

      Por vezes, a não observação a imperativos normativos está relacionada não apenas aos ajuntamentos particulares, mas às regras legais vigentes para regular o convívio social mais amplo. Pode, então, acarretar o exercício de punição mais contundente como a privação da liberdade por meio de prisão, executada por agentes públicos, como sucedeu com frequentador da Praça Gonçalves Dias. De acordo com relatos nas entrevistas, houve detenção de um dos roqueiros em consequência dos excessos na manipulação de substância tóxica ilícita.

      Mas consensos são formados para a distribuição e seletividade dos usos sociais. Indivíduos e grupos não podem estar permanentemente em conflito ou em tensão. Quando alguns se apropriam de determinados pedaços outros aguardam, o que é mais comum na Gonçalves Dias. Nas praças de bairro

    • – Ressurreição e Conjunto dos Ipês – os processos sociais não transcorrem dessa forma, pois os ajuntamentos costumam ter seus pedaços reservados conforme os usos e costumes, evitando entradas nos territórios de outros. O espaço público é mais compartimentado, portanto, em determinadas praças, onde as margens para negociações e concessões são mais estreitas.

      Diferenças foram, assim, verificadas quando se comparam os usos sociais em bairros diversos. Como dito, as praças de bairros apresentam localizações ou pedaços mais definidos. Demarcados pela presença reiterada de indivíduos naquele espaço, que são vistos, identificados e reconhecidos posteriormente, não se questionando sem resistência quem deve ou pode ocupar um espaço. Na Praça Gonçalves Dias há também grupos e ajuntamentos que têm seus espaços e privilégios reservados em certos lugares. Não há porque questionar o uso reiterado pelos estudantes da Universidade Federal do pedaço em frente ao edifício da Universidade.

      O processo de construção cotidiana de sociabilidades pelos citadinos, enquanto habitantes de uma região da cidade, tende, assim, a apresentar variações que podem ser vistas em comportamentos e ritmos próprios. O fato de usar um espaço social no qual haja uma prévia definição dos lugares marca as relações sociais nas praças de bairro. Deve-se ressaltar que o contexto social no qual transcorrem as interações assinala essas diferenças.

      As variantes nos comportamentos e nos ritmos, que foram identificadas a partir da observação direta e da aplicação de entrevistas, parecem apresentar, então, uma amplitude maior na Praça Gonçalves Dias, localizada no Centro da cidade. Determinadas condições e aspectos culturais, como costumes e valores, ganham relevo nas situações de interação, pois são recursos utilizados para mediar as relações sociais. Como foi possível apurar, a frequência às praças de bairro manteve-se mais uniforme no período da pesquisa, o que pode comprovar uma tendência de menor mobilidade socioespacial nos bairros em comparação com a área central da cidade. As práticas que se reiteram entre vizinhos aparecem quando informam os entrevistados sobre as mudanças nos frequentadores dos espaços, que majoritariamente têm sido os mesmos. Proximidade e acesso facilitado são fatores que contribuem para estar, usar e apropriar-se das praças públicas.

      Na Praça Gonçalves Dias as interações entre conhecidos referem-se àquelas entre os skatistas, os estudantes universitários, os estudantes uniformizados, os guardadores de veículos. As demais sociabilidades são assinaladas por certo distanciamento, circunstância a partir da qual a situação social deve ser mantida por meio de observância mais estrita de controles mútuos de aparências, atitudes e linguagem corporal. Desconhecidos recolhem indícios com os quais julgam as ações dos estranhos, visando um reconhecimento.

      Quando são cogitados os usos das praças de bairro

    • – Praça de Ressurreição e Praça do Conjunto dos Ipês –, é possível constatar também a busca por utilidades mais imediatas.

      Além de um lazer localizado nas cercanias das residências, os usuários acessam as praças à procura do ponto de ônibus, do mercado, do bar, de pessoas conhecidas. Intencionam algo ou alguém. De maneira diversa, a ida à Praça Gonçalves Dias está associada a finalidades como o desfrute da convivência em ambiente socioespacial aformoseado. Não se quer dizer que não se possa ir à Praça do Centro para satisfação de necessidades essenciais ou encontrar pessoas; o que se afirma é que os usos e apropriações sociais do espaço público nas praças da vizinhança são destituídos da reverência com a qual são tratados locais em que não se está habituado a permanecer continuadamente. A percepção de intimidade com o espaço é sentimento importante para as apropriações sociais mais intensas nos usos e constantes na frequência.

      As interações entre indivíduos conhecidos transcorrem de modo acentuado nas ditas praças de bairro. As associações com mais reservas se dão na Praça Gonçalves Dias, onde as relações de proximidade afetiva entre os usuários são menores. Verifica-se um maior número de interações com estranhos e desconhecidos na região central da cidade. Nos bairros, as redes de interdependência entre os envolvidos distinguem principalmente as trocas entre indivíduos que se conhecem e reconhecem. As interações se processam com mais intensidade, têm maior duração, sendo dotados de permanência e coerção. Os grupos juvenis da Ressurreição e os associados da ASCOPE do Conjunto dos Ipês são exemplos de atores sociais, que orientam os indivíduos a se comportarem de determinadas maneiras, conservando, assim, as condições da interação, bem como a estabilidade das práticas de usos e apropriações sociais das praças.

      Assim sendo, a proximidade e o distanciamento estão presentes nas ações intersubjetivas. As noções de conhecimento e estranhamento norteiam as relações sociais e permitem indagar como o local e o estranho são habitualmente vividos, percebidos e concebidos nas praças. Do mesmo modo, ao serem considerados os usos sociais do espaço público nas praças, as relações sociais que perpassam determinados espaços são situadas territorialmente. As interações transcorrem em certos territórios da cidade, que são apropriados por indivíduos e grupos que aí transitam. As praças são usadas em turnos de revezamento em disputas pelos espaços, em que os concorrentes procedem às negociações que possibilitam apropriações discutidas na dissertação.

      Estudar usos sociais das praças de São Luís do Maranhão permitiu especificar como atores individuais e coletivos estabelecem interações, ações e relações que tornam possíveis as apropriações desses espaços públicos urbanos contemporâneos. Examinar os usos, desusos, contrausos objetiva traçar um perfil da ordem da interação social na cidade. As praças são constituídas de diferentes pedaços que se mantêm mais definidos nas chamadas praças de bairros, que nos limites deste estudo foram a Praça da Ressurreição e a Praça do Conjunto dos Ipês. Em uma praça central na cidade, como a Gonçalves Dias, a frequência é heterogênea, existindo posicionamentos que se intercambiam ao longo do tempo no curso das interações.

      As relações entre vizinhos, que têm do mesmo modo as praças como cenários do dia a dia, transcorrem mais intensamente onde está presente a vida comunitária, isto é, nos bairros. Mesmo nestas regiões onde se tem destacado atualmente usos comerciais das praças, a amizade e a vontade de interagir são os motivos destacados pelos diversos atores sociais para estar, usar e apropriar-se desses espaços sociais públicos de São Luís, os quais devem possibilitar demonstrações de pertencimento a determinadas redes de relações. Mesmo na chamada pós-modernidade, as praças são vistas como espaços propícios às interações entre os citadinos. Por fim, acredita-se então que a compreensão dos recursos incorporados por indivíduos, díades e grupos para obter a aprovação social necessária à validade dos usos sociais das praças, permita refletir sobre os meios para a conservação das condições de interação no espaço público urbano contemporâneo.

    REFERÊNCIAS

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      ANEXO

      ANEXO

    • – QUESTIONÁRIO

      Data:___/___/____ Perfil do usuário:

      1- Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino 2-

       Estado Civil: __________________________________________________________ 3- Idade: _______________________________________________________________ 4- Escolaridade: __________________________________________________________

      _____________________________________________________________________

      5- Profissão: ____________________________________________________________ 6- Você está trabalhando atualmente? ________________________________________ 7- Você reside em São Luís? Se afirmativo, em que bairro? _______________________

      _________________________________________________________________

      8- Em sua casa, residem quantas pessoas? _____________________________________ 9- Que lugares você frequenta nos momentos de lazer? ___________________________

      ________________________________________________________________

      10- Como você chega à praça? _______________________________________________ 11- Há quanto tempo você vem frequentando esta praça? __________________________ 12- Desde que você começou a frequentar esta praça, os usuários têm mudado ou são os

      mesmos? _____________________________________________________________

      13- Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentar esta praça? _______________ 14- O que você poderia dizer sobre esta praça? __________________________________ 15- Quantas vezes na semana você vem à praça? _________________________________ 16- Quais os horários do dia que você frequenta a praça? __________________________ 17- Quanto tempo por semana (horas) você faz esse lazer na praça? _________________ 18- Se pudesse você gostaria de vir à praça em outro horário? Qual? Por quê? __________

      ________________________________________________________________

      19- Deixou de frequentar a praça em algum momento? Se afirmativo, qual foi o motivo? 20- O que você costuma fazer nos momentos em que está na praça? _________________

      _________________________________________________________________

      21-

    Você vem sozinho ou acompanhado(a)? Se acompanhado(a), com quem? __________

      _____________________________________________________________________

      22- Quando vem à praça você se reúne com algum grupo de conhecidos? Quem?

      _____________________________________________________________________ _________________________________________________________________

      23- Você identifica algum grupo de usuários que constantemente frequenta a praça? Se

      afirmativo, qual? _______________________________________________________

      24-

    Quando vem à praça você se estabelece sempre no mesmo local/parte da praça? ____

      _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________

      25- Qual o ponto forte e o ponto fraco para um melhor uso do espaço da praça que você pode

      assinalar? _____________________________________________________________

      26- Em sua opinião, o que de melhor a praça tem a oferecer àqueles que a frequentam e

      utilizam? _____________________________________________________________

      27-

    Você sabe o nome desta praça? ____________________________________________

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