Luciano Mangini Ientsn TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO RODRIGO CAMBARÁ: A IMAGEM DO GAÚCHO A PARTIR DE ÉRICO VERÍSSIMO

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Luciano Mangini Ientsn

  TRABALHO FINAL DE GRADUAđấO

  

RODRIGO CAMBARÁ: A IMAGEM DO GAÚCHO A PARTIR DE ÉRICO VERÍSSIMO

  Santa Maria, RS 2013

  

Luciano Mangini Ientsn

RODRIGO CAMBARÁ: A IMAGEM DO GAÚCHO A PARTIR DE ÉRICO VERÍSSIMO

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História

  • – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – Unifra, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  Orientadora: Profª Ms.Janaína Souza Teixeira Santa Maria, RS

  2013

  

Luciano Mangini Ientsn

RODRIGO CAMBARÁ: A IMAGEM DO GAÚCHO A PARTIR DE ÉRICO VERÍSSIMO

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História

  • – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – Unifra, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  ________________________________________ Janaína Souza Teixeira

  • – Orientadora (Unifra) ________________________________________

  Alexandre Maccari Ferreira (Unifra) _______________________________________

  Roselâine Casanova Correa( Unifra) Aprovada em 10 de Julho de 2013

  RESUMO

Neste trabalho, procurou-se demonstrar o quanto a literatura e a história estão em constante diálogo,

uma vez que a literatura reproduz o pensamento de uma época de determinada corrente historiografia. A

partir disso, mostra-se, neste trabalho final de graduação, a construção da ideia de formação do Rio

Grande do Sul, através de duas matrizes

  ‒ a platina e a lusitana ‒ na obra O tempo e o vento, de Érico

Veríssimo, e como este suprime a ideia da matriz platina, fazendo os platinos passarem por bandoleiros,

saqueadores e invasores. Para isso, o autor utiliza-se da personagem Capitão Rodrigo Cambará, dando

a este anti-herói as características platinas. Com isso, o autor demonstra seu apreço pela matriz lusitana,

devido à influência que sofreu por meio de conversas que teve com historiadores de seu tempo. Utilizou-

se da historiografia moderna para contrapor as ideias do autor e demonstrar que não foram os platinos os

invasores do continente, mas sim os portugueses, que invadiram e impuseram suas vontades. As

conclusões a que se chegou é que, ao observar a personagem Capitão Rodrigo Cambará na obra de

Érico Veríssimo, percebe-se o quanto o autor foi influenciado por historiadores que seguiam a matriz

lusitana, como Moysés Vellinho, por exemplo, embora o autor não desconhecesse a matriz platina. Desta

matriz ele utiliza a ideia circundada do invasor, do saqueador, do desordeiro, ou seja, daquele que não

consegue viver em sociedade. E é com base nessa ideia que Veríssimo constrói a personagem do

Capitão Rodrigo Cambará. Percebe-se, assim, o modo como a Historiografia do Rio Grande do Sul

influenciou o romance de Érico, ajudando a manter, nos dias de hoje, o mito de que o gaúcho é um

homem valente, disposto a andar vagando nos pampas, sem rumo e destino; é um “gaudério” em busca

de uma guerra ou contenda da qual possa participar. Esse gaúcho não se adapta à vida em sociedade,

preferindo andar livre e solto pelos pampas sulinos a ter uma vida sedentária; não se adapta a um lugar

somente, preferindo vagar por toda a imensidão do Rio Grande do Sul a comer churrasco e andar a

cavalo.

  Palavras-Chave: Érico Veríssimo. Historiografia. Rio Grande do Sul.

  ABSTRACT

This study aimed to show how literature and history are in constant dialogue, since literature reproduces

the thoughts of a period of a certain historiography period. That being considered, this final graduation

  • – study shows the construction of the idea of the formation of Rio Grande do Sul from two arrays

    Lusitanian and Platinum – in the literary work O tempo e o vento of Érico Veríssimo, and how it

    suppresses the idea of the Platinum matrix, making the platinum pass by bandits, marauders and

    invaders. In order to do so, the author uses the character Captain Rodrigo Cambará, giving this anti-hero

    platinum characteristics. With this, the author demonstrates his appreciation for the Lusitan matrix, due to

    influence he suffered through the conversations he had with historians of his time. This study used the

    modern historiography to counter the ideas of the author and show that there were not the platinum who

    invaded the continent, but the Portugueses, who invaded and imposed their wills. The conclusions

    encountered are that by observing the character Capitain Rodrigo Cambará in the literary work of Érico

    Veríssimo, one realizes how much the author was influenced by historians who followed the Lusitan

    matrix, like Moysés Vellinho, for example, although the author was not unaware of the Platinum matrix.

    From this matrix, the author uses the idea of the attacker, the spoiler, the troublemaker, meaning, that who

    cannot live in society. It is based on this idea that Érico Veríssimo builds up the character Capitão Rodrigo

    Cambará. It is clear, therefore, how the historiography of Rio Grande do Sul influenced the novel, helping

    to maintain, nowadays, the myth that the gaucho is a brave man, willing to wander through the pampas

    without direction and destination; he is a “gaudério” in search of a war or strife in which he can participate.

    This gaucho does not adapt to life in society, preferring to walk freely and loose in the southerner pampas

  

rather than have a sedentary lifestyle; he does not adapt to an exclusive place, preferring to wander

across the expanse of Rio Grande do Sul eating barbecue and riding horses.

  Keywords: Érico Veríssimo. Historiography. Rio Grande do Sul.

  

SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  1 INTRODUđấO

  É sabido que existe uma vertente da historiografia moderna que aceita que a História e a Literatura estão em constante diálogo. Com base nisso, julga-se importante, para este trabalho final de graduação, perceber de que modo a História e a Literatura marcaram o pensamento e a cultura da população ao longo da história do Rio Grande do Sul, através da figura mítica do homem sul-rio-grandense

  • – o gaúcho. Para isso, será feita uma análise da obra O tempo e o vento, do autor gaúcho Érico Veríssimo, a fim de verificar a evolução de suas personagens, em especial do Capitão Rodrigo Cambará, e a maneira como este é retratado em todo o romance.

  Isso possibilitará averiguar como é visto o homem sul-rio-grandense pela Literatura e pela antiga historiografia sulina, evidenciando a perspectiva de que a colonização do Rio Grande do Sul começou com os portugueses e de que os espanhóis eram considerados os invasores. Tal fato se deve à antiga historiografia, que tem duas vertentes para explicar a colonização do Sul, uma de matriz platina e outra de matriz

  1

  lusitana . E no romance escrito por Veríssimo, é mostrada a ideia corrente em sua época de uma superioridade da matriz lusitana, em que os portugueses eram tidos como os colonizadores do Rio Grande do Sul e os espanhóis como os invasores.

  Diante disso, a bibliografia desta pesquisa tem como base autores que vêm justificar o que se procurou estudar da historiografia na obra ficcional de Veríssimo, obra essa que transmite a ideia de que somente a matriz portuguesa teve importância na formação do atual estado do Rio Grande do Sul, enquanto que a matriz platina atuou como saqueadores, bandoleiros e invasores.

  3 A autora, Ieda Gutfreind analisa a historiografia tradicional do Rio Grande do Sul, dividindo-a em duas

tendências a que chama de matrizes. A matriz lusitana é formada pelos autores que sustentam a ideia de

um Rio Grande do Sul fiel ao projeto português e, portanto, oposto às áreas de colonização espanholas.

  

Já a matriz platina é formada pelos autores que sustentam a ideia de uma área próxima aos domínios

  A História tradicional positivista, para falar dos diversos acontecimentos que marcaram toda a trajetória da humanidade, utilizou-se unicamente dos documentos oficiais e dos grandes heróis. Os documentos oficiais serviram para legitimar os fatos e acontecimentos que exaltaram os grandes heróis, como se estes estivessem sós na hora de seus feitos. Mas e o homem comum, onde ele estava? Foram somente os generais que, sozinhos, ganharam as batalhas? Onde estavam os soldados?

  A antiga historiografia sul-rio-grandense não difere da historiografia brasileira, que também sempre exaltou os grandes personagens históricos. No entanto, é muito difícil falar do homem comum sem fontes historiográficas que embasem a discussão. Diante dessa falta, tem-se a Literatura, que pode servir como fonte para discorrer sobre o homem comum do Rio Grande do Sul. Homem esse que viveu à margem da historiografia dita “oficial”, mas que teve também grande importância para a construção de sua sociedade, construindo pontes e casas, delimitando fronteiras e traçando o mapa do seu estado.

  A Literatura e a História devem andar juntas, pois tanto uma quanto outra são indispensáveis ao entendimento da realidade humana. Tradicionalmente, a preocupação do historiador com sua narrativa, suas fontes e a forma como descrever um fato ocorrido, mostrando determinados processos que motivaram esse fato ao invés de outros, gira em torno da oficialidade de suas fontes de pesquisas. Dentro dessa perspectiva, o historiador preocupa-se com o real ou com o que ele subentende como real.

  Desde que o estruturalismo e a chamada virada lingüística colocaram a linguagem e a narrativa no centro das discussões, no campo das Ciências Sociais, os historiadores vêm se debatendo com o fato de que escrevem, de que utilizam a linguagem, de que narram e de que a narrativa é a forma que através da qual se constrói a própria ação da temporalidade e, portanto, articulam seu próprio passado e seus eventos (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 43).

  A Literatura serve-se, igualmente, dessas mesmas fontes documentais para inspirar suas mais variadas temáticas, mas também se utiliza da ficção, o que, segundo a ótica tradicional, distingue-a da História. Conforme Chartier (2009), o historiador, por utilizar uma narrativa ao afirmar o seu discurso histórico, dá a este um caráter verdadeiro.

  A ficção permite ao escritor unir ações e fatos que não estariam correlacionados entre si, mas que ele gostaria que estivessem unidos. A fantasia criada na mente do escritor prende-se em um enredo que utiliza fatos, nomes e lugares históricos.

  Mas, sendo assim, História e Literatura estão tão distantes? Até que ponto os historiadores poderão servir-se das fontes literárias para embasarem suas teses, suas pesquisas? A Literatura não se exime de narrar o fato acontecido, mas cria, através dele, um mundo irreal, em que personagens históricos se entrelaçam nas tramas por ela contadas. A História, por sua vez, aborda os fatos em si, ou seja, não cria um mundo ficcional para seu “conto ficar bonito”. Para o historiador, o real é a vida pura, aquela que ele colhe em vastas pesquisas documentais, exaurindo todas as fontes até chegar à sua tese.

  Segundo Albuquerque Junior (2007, p. 28), o historiador procura utilizar-se da fonte literária com um máximo cuidado e rigor metodológico para que essa seja uma fonte fidedigna. Isso mostra o quanto o historiador teme que a fonte literária seja por demais ficcional, pois, para ele, o que separa a História da Literatura seria o compromisso em dizer o real.

  E o real seria, justamente, narrar o fato histórico tal qual aconteceu, através de estudo rigoroso feito com base em metodologias científicas, que regram o mundo da pesquisa historiográfica. O discurso historiográfico e literário faz parte do que Lacan chamou de simbólico, pois traz em suas linhas um universo que vai se formando a cada página e ganhando vida aos olhos do leitor, conforme explica Albuquerque Junior (2007, p. 45 apud “VALLEJO; MAGALHÃES, 1991, p. 16)”.

  A História molda-se aos diversos percursos que as civilizações percorreram e percorrem para o homem ser homem. Na Antiguidade, a História era vista apenas como uma narrativa a ser contada, e não existia uma preocupação com as fontes de onde as notícias eram tiradas. Foi somente no século XVIII, com o Iluminismo, que a História se transformou em ciência (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007).

  A partir de então, a História passou a operar com o que é conhecido e não com o ficcional, de modo que não existe “achismo” para o historiador. Mas o que, então, tanto assusta o historiador na Literatura?

  A Literatura ameaça a História à medida que nela ainda vem se alojar o estranhamento como nossa condição de existência, tanto coletiva quanto individual. Na literatura, os acontecimentos ainda não chegam racionalizados, podem vir como impressões e digressões, como expressão de sentimentos e sensações, eles ainda não perderam o perigoso índice de contaminação. A História já nasce ligada às grandes máquinas de territorialização. A Literatura ameaça a História à medida que nela ainda vem se alojar o estranhamento como nossa condição de existência, tanto coletiva quanto individual (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 48).

  Com base nisso, pode-se perceber o quão diferente História e Literatura são uma da outra. Porém, apesar disso, Albuquerque Junior (2007) sustenta que não há distinção entre a invenção literária e a invenção do historiador. Tendo esta afirmação em vista, acredita-se na possibilidade de analisar a contribuição da literatura de Érico Veríssimo, por meio da personagem Capitão Rodrigo Cambará, para a construção do mito do gaúcho.

  Sabe-se, entretanto, que a Literatura, muitas vezes, pelo fato de não haver nenhum outro documento material para embasar pesquisas nesse âmbito, serve como fonte histórica, ao tentar recontar a época narrada com um ar ficcional, mas utilizando, para isso, algumas fontes que serviram para construção de seus enredos. É através da Literatura, por exemplo, que se pode entender o homem sul-rio-grandense, seus desejos e anseios, a forma como era visto pela sociedade da época e como se comportava em seu meio familiar.

  Na obra de Veríssimo, O tempo e o vento, na primeira parte, O Continente, pode- se estudar o arquétipo através do qual foi construída a personagem Capitão Rodrigo Cambará. Para isso, o romance embasa seu enredo no cenário sulino do século XIX, o qual, não isento de ficção, serve para mostrar a construção histórica do período. Apesar da lógica documental e processual que a metodologia científica exige, é necessário considerar a Literatura como uma aliada do historiador e não como uma inimiga que transforma o fantasioso em real. A Literatura tece todo o perfil magistral em relação aos rigor metodológico do historiador, procura buscar fontes fidedignas acerca de acontecimentos históricos para formar o alicerce de seu mundo ficcional.

  O historiador precisa aprender a tornar a Literatura uma de suas fontes, obviamente separando o real da ficção, pois, se narrativas são construções de temporalidade, como diz Albuquerque Junior(20007) a Literatura, sendo temporal, também vai servir ao historiador como fonte para pesquisa. Os romances de época, por exemplo, são ótimos para vasculhar dados que, às vezes, faltam nos documentos “oficiais” para darem veracidade às pesquisas.

  A partir disso, pode-se, então, afirmar que a Literatura serve sim como fonte historiográfica e que é possível retirar de suas páginas, do que é fictício, o real. Nesse sentido, ela é tomada não como algo fantasioso ou utópico, mas como uma fonte de grande valia para o historiador. A Literatura, por procurar sempre retratar uma época ou uma sociedade tal qual era, acaba reproduzindo o real no romance ficcional. Obras como Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, utilizaram-se desses métodos, inspirando diversos autores a fazer o mesmo.

  Mas, então, o que seria Ficção? A Ficção também serve para delinear um passado, passado esse projetado por uma sociedade. Segundo Chartier (2009), enquanto a Ficção informa acerca do real, embora não pretenda representá-lo nem aboná-lo , a História pretende dar uma representação mais fiel da realidade que foi e já não é. Assim, tanto Ficção quanto História servem para representar o tempo real do objeto que se pretende estudar.

  Chartier (2009) ressalta ainda que a Literatura ajuda, muitas vezes, a moldar o cenário e o “enredo” mais poderosamente que os escritos dos historiadores. Seria, talvez, porque as obras literárias remetem a uma visão específica do cenário, ajudando a moldar mental e fisicamente determinada época. A representação do passado pela Literatura, e a maneira como esse passado foi construído, ajudou a moldar a identidade do homem sul-rio-grandense.

  Mesmo que em obras teatrais, embasadas na História, a Literatura sempre criou um enlace romântico entre os personagens comuns e aqueles fundamentados em figuras reais. Assim, não ficou restrita, a ver a história de cima, como a antiga feitos dos “comuns”. A História tem por obrigação distorcer realidades narradas pelo cronista, buscando uma representação, mesmo que ambígua, da realidade. Mas e a Ficção? Também não busca essa representação? Sim, a Ficção pretende uma representação da realidade, permeando os caminhos da verossimilhança para assegurar, como diz Chartier (2009), o parentesco entre o relato histórico e as histórias fingidas. Assim,

  O autor prossegue dizendo que:

  a divisão não é entre a história, e a fábula, mas sim entre os relatos verossímeis mesmo que se refiram ao real ou não- e os que não o são. Entendida deste modo a história esta radicalmente separada das exigências críticas próprias da erudição e muito desapegada da referência à realidade como garante seu discurso. Ao abandonar o verossímil a fábula, fortaleceu mais sua relação com a história, multiplicando as notações concretas destinadas a carregar a ficção de um peso de realidade e a produzir uma ilusão referencial (CHARTIER, 2009, p. 28).

  Para contrastar este efeito literário - necessário a toda forma de estética realista

  • com a história, BARTHES diz que, para esta, “o ter-estado-aí das coisas é um princípio suficiente da palavra.” Contudo, esse “ter-estado-aí”, esse “real concreto”, que é o fiador da verdade da história, deve ser introduzido no próprio discurso para certificá-lo como conhecimento autêntico. Esse é o papel, como observava Certeau, das citações das referências dos comentarios que convocam ao passado na escritura do historiador, demonstrando também sua autoridade (CHARTIER, 2009, p. 28).

  Daí a apropriação, pela Ficção, de algumas técnicas que são inerentes da História, dando uma ilusão de discurso histórico, mas, também, servindo como fonte de pesquisa histórica, embora se saiba da grande distância que separa a fábula do discurso de conhecimento, os referentes imaginários da realidade que foi (CHARTIER, 2009, p. 29). Isso mostra o quanto a História e a Ficção servem para moldar a identidade, seja nacional, seja regional, de um país ou estado, identidade essa que necessita de autoafirmação, não se limitando apenas à historiografia oficial, mas também à Literatura. Servindo, assim, de afirmação ou negação, a História vai construindo, juntamente com a Literatura, alicerces de um cenário do passado, por meio do qual o homem moderno busca legitimar as ações de seu tempo, exaltando antepassados distantes que, de certa forma, fazem-no ter uma identificação com sua terra, com o seu povo.

  Tanto a Ficção quanto a História estão recheadas de simbolismos. Enquanto a Ficção conta com o imaginário do autor, que tenta tecer seu enredo com os documentos oficiais e fatos históricos disponíveis para sua tese, a História conta com o imaginário do historiador, que vai criando um enredo e tentando deixar o mais verossímil possível seu relato do fato histórico (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 46).

  A Literatura sul-rio-grandense serviu para criar uma identidade e legitimar alguns “costumes” do homem dito comum do estado do Rio Grande do Sul, usando, para isso, a ficção, mas buscando referências nos documentos oficiais da época. Essa literatura influenciou gerações, recriando um universo passado, recheado de aventuras picantes e heroísmos por parte dos personagens. Foi o que fez Érico Veríssimo, ao escrever sua obra-prima O tempo e o vento, publicada em 1949. Fundamentou sua obra de ficção com a historiografia da

  época e “criou” um universo recheado de idealismo social e político, embasado na junção de famílias que delimitaram as fronteiras e povoaram o Rio Grande do Sul, mostrando o homem sul-rio-grandense através da figura do Capitão Rodrigo Cambará, alguém disposto à batalha, destemido, mulherengo e que não se apega a nada nem a ninguém.

  A influência da obra ficcional de Veríssimo, em especial o estudo do arquétipo do homem sul-rio-grandense na figura do personagem Capitão Rodrigo Cambará, será o tema de discussão desta monografia. Essa obra literária, se utilizou da historiografia para embasar o seu cenário, procurando mostrar a vida do homem comum sul-rio- grandense. Com isso, percebe-se que a Literatura busca em fontes historiográficas argumentos para criar o ambiente de suas personagens.

  Este estudo visa, assim, contribuir para a compreensão de como foi criado, historiograficamente, o mito de que o gaúcho do século XVIII era um homem destemido, que vivia desprendido de sua terra, andando em seu cavalo pelos campos sulinos sempre a procura de uma peleia e de uma china que estivesse disposta a se unir aos seus pelegos nas noites frias do Rio Grande do Sul. Para isso, levou-se em conta que toda identidade é construída através da memória coletiva, a qual faz com que personagens ao longo dos tempos, identificando costumes e ações por entre os lugares. Em especial no Rio Grande do Sul, a memória coletiva criou e reproduziu ao longe de sua história o mito do homem sul-rio-grandense. Isso se explica uma vez que, segundo Le Goff (1982), a memória tem a capacidade de conservar certas informações, recorrendo a funções psíquicas que fazem com que os homens tenham impressões ou informações acerca do passado, o que permite a construção de uma memória coletiva. Fala-se em construção, pois há um processo mnemônico, que vai se reproduzindo ao longo dos anos, fazendo com que um povo crie seus mitos e suas tradições e os fundamente em um passado memorável e histórico. A memória social coletiva é a base sobre a qual foi construída toda a ideologia do mito do homem sul-rio-grandense, chamado de gaúcho, mito esse que foi endossado pela literatura da época, a qual é retratada na obra de Veríssimo.

  Le Goff (1982) ressalta ainda que a memória coletiva tende a confundir história e mito. Sendo assim, a escrita seve para enfatizar essa memória no leitor, criando e reproduzindo mitos ao longo de gerações.

  A memória está sempre impregnada de religião, políticas e sentimentos que enaltecem os feitos heróicos e bravos das personagens narradas em epopeias e climatizadas por um romance de cunho regionalista. Tais personagens asseguravam e asseguram em suas páginas o mito, criando um senso comum coletivo, que vai se transformando ao longo dos tempos, e construindo, assim, a identidade memorável de um povo. O herói surge, então, nessas suas narrativas para enaltecer e fundamentar a memória coletiva, da qual todos participam. A memória coletiva cria, na sociedade, seus próprios heróis, em narrativas fundamentadas na exacerbação da personagem, que, através de seus atos e feitos, evidencia os valores de um povo.

  Em especial na obra O tempo e o vento, Veríssimo constrói seus heróis regionais, buscando recriar para seu leitor uma memória de valentias e bravuras através das ações de sua personagem singular o Capitão Rodrigo Cambará. Esse personagem serve, então, de ensejo para reproduzir uma literatura ideológica, que retrata a memória dos bravos feitos dos sul-rio-grandenses.

  2.2 A OBRA LITERÁRIA E SEU ALCANCE O romance épico de Érico Veríssimo surge como um discurso que busca uma reflexão social a um nível mais profundo, conforme afirma Chaves (1981). Em O tempo

  

e o vento, Érico consegue, através de suas personagens, obter uma síntese dos fatos

  correntes na história. Seu romance é realista no sentido em que faz viver e aflorar os sentimentos de amor, paixão e ódio, em um ambiente retratado com um detalhismo descritivo em que os personagens vão dando vida ao seu destino (CHAVES, 1981).

  As personagens criadas nesse romance se tornam tão reais e de carne e osso, que, como diz Chaves (1981), é possível visualizá-las. O autor explica ainda que:

  Essa filiação cultural explica em grande parte o fato de que, à medida que se ampliou sua capacidade de erguer personagens de carne e osso, ampliou-se igualmente a percepção do mecanismo social, prevalecendo o esforço para visualizá-lo numa interação que vai da constatação à crítica, e desta à reflexão histórica capaz de revelar ao leitor a sua condição de herdeiro necessário do

passado, de cidadão do mundo (CHAVES, 1981, p. 49).

  O autor segue sua argumentação, dizendo que

  Isto lhe tem sido recriminado por parte da crítica e aí vê uma pedagogia alheia ao literário” a desproporção entre a forma e o conteúdo”, de que fala Álvaro Lins. Mas não terá sido esta, justamente toda a história do Romance [...] É certo que o realismo neste e noutros autores sempre misturou a revelação da sociedade e a criação imaginária contaminando o puramente literário com a discussão da realidade factual que a originou (CHAVES, 1981, p. 49).

  Veríssimo, então, utilizou-se, de forma extraordinária, do regionalismo sul-rio- grandense para criar um romance literário com evidências factuais e envolver suas personagens em uma trama que remonta à colonização do Rio Grande do Sul até o início da Era Vargas, em 1930. Ele desenvolve uma reflexão histórica que não é encontrada em outros escritores ditos regionalistas. E é a partir de seu escrito que, nesta pesquisa, foi estudada a visão do homem sul-rio-grandense comum e o modo como este interagiu com a sociedade da época.

  Érico dá aos seus leitores uma visão historiográfica bastante concisa para entender esse homem e seu modo de interação, mostrando um homem valente, destemido e que está sempre pronto a guerrear por seus ideais e por tudo aquilo que for necessário. Para isso, utiliza, primordialmente, a personagem do Capitão Rodrigo Cambará, embora outras personagens também sejam importantes para demonstrar a visão geral que Veríssimo tinha sobre o modo de vida na fronteira sulina.

  O modo de apresentação da vida da personagem Capitão Rodrigo Cambará, que era dono de um carisma peculiar, mas que não era muito adaptado à vida em sociedade, não conseguindo, portanto, se sedentarizar como as outras personagens, revela que Érico se embasou na antiga historiografia sul-rio-grandense e que sofreu influência dos autores de sua época. A epopeia narrada em O tempo e o vento, em especial no capítulo Um certo Capitão Rodrigo, pertencente à parte O Continente, fornece dados esclarecedores sobre como a História e a Literatura utilizaram as mesmas fontes e sobre como a Literatura juntou a História à Ficção, criando o ambiente fictício de Santa Fé, onde o romance se desenvolve.

  Veríssimo, através de suas personagens, faz uma crítica social à sociedade da época. Para criá-las, ele faz uso de toda sua impressão familiar e de vida, construindo personagens que ganham vida, ao longo do romance, na imaginação do leitor.

  Sobre Veríssimo, Chaves diz que:

  Se como ser humano, como membro do grupo social ele esperava das outras criaturas que fossem fraternais e compassivas, tolerantes e equilibradas, não deixava de reconhecer que sem a incoerência e o ódio, o amor e a loucura , a desordem e o crime, não haveria elementos para a ficção. E ele gostava de escrever histórias. Era um modo de amplificar a vida no tempo e no espaço; de projetá-la talvez na quarta dimensão (1981, p. 68).

  Esse trecho mostra a importância que Érico dava à sua criação, procurando, em cada uma de suas personagens, fazer uma crítica social a todas as vicissitudes humanas. Sua obra insere-se, assim, em uma tradição naturalista, fazendo com que sua narrativa reproduza um falso pressuposto do que deveria passar adiante, como afirma Chaves (1981), informações registradas em um universo psicológico ficcional.

  Evoluindo da observação da realidade para a crítica social, e da denúncia da violência para a compreensão do sentido histórico da liberdade criadora do homem, o humanismo de Erico Veríssimo/Tônio Santiago alcança o limiar de O Continente. O texto é silêncio introduz a discussão sobre o sentido da literatura e porque aí a investigação existencial logrou finalmente sua definição: de um lado a sociedade reificada (a engrenagem é o seu código), de outro as verdadeiras relações sociais (isto é, humano) (CHAVES, 1981, p. 71).

  Chaves explica, ainda, que:

  O escritor “conta sua história”, constrói o texto de ficção na consciência desta cisão instaurada entre a sociedade e o social; e, ao construí-lo quer recompor o vínculo partido [...] No grupo dos romances de Érico Veríssimo que analisei fica evidente a intenção de formular um juízo crítico, sobre a sociedade rio- grandense dimensionando-o numa perspectiva histórica, ainda informe sob muitos aspectos, que transita de Jacarecanga provinciana para Porto Alegre urbanizada de 1940(1981, p. 71).

  Segue, enfatizando que

  da decadência do patriarcado rural para a formação da burguesia contemporânea, atingindo em qualquer dos casos o tema obsessivo da privação da liberdade individual e da sequencia de maldições a ela associadas. É a partir desta linha de raciocínio que deve surgir a interpretação do verdadeiro núcleo da sua obra: O Tempo e o vento, distribuído em suas três partes - O Continente, O retrato e O Arquipélago - cuja elaboração preenche mais de uma década de vida intelectual do romancista (CHAVES, 1981, p. 71).

  Em O Continente, Veríssimo retrata a simplicidade da vida do campo e de que maneira o tempo é vivido por suas personagens:

  [...] ninguém sabia ler, e mesmo naquele fim de mundo não existia calendário nem relógio. Eles guardavam de memória os dias da semana; viam as horas pela posição do sol; calculavam passagem dos meses pelas fases da lua; e era o cheiro do ar, o aspecto das arvores e a temperatura que lhe diziam das estações do ano (VERÍSSIMO,1972,p.73).

  Veríssimo prossegue dizendo que:

  Ana Terra era capaz de jurar que aquilo acontecera na primavera, porque o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no céu os pessegueiros estavam floridos e as árvores que o inverno despira, se enchiam outra vez de brotos verdes [Trecho de O Continente, de Érico Veríssimo] (VERÍSSIMO, 1972, p. 73).

  É com essa simplicidade de narrar seu romance que Veríssimo perpassa o ficcional, fazendo a história ganhar vida e suas personagens saírem do papel. O autor procura demonstrar a impressão dos primeiros habitantes da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, evidenciando a diferenciação social entre as várias personagens que habitavam o estado, com foco no caminho percorrido pela família Terra-Cambará. Érico busca resgatar, nesse romance histórico, todo o comprometimento das suas personagens para com a formação do Rio Grande do Sul. A narrativa demonstra que o transitório e o permanente se entrelaçam para delinear os aspectos que formaram o estado. Veríssimo, com toda sua ideologia humanista, procura demonstrar, em seu romance, através da ligação dos Terra-Cambará com o Rio Grande do Sul, que a Literatura permeia os caminhos da História e que a História é resgatada nessa Literatura denominada romance histórico.

  Em relação a isso, Chaves diz que,

  [...] na maioria dos grandes romances históricos, as personagens historicamente reais são secundárias e, via de regra, desempenham uma função secundária, na ação propriamente dita. O que define o caráter histórico da obra não é, pois, a distribuição entre as figuras decalcadas num modelo real e a puramente imaginárias, mas a intenção de problematizar a História tornando-a um tema ou, pelo menos, uma preocupação explícita do narrador (CHAVES,1981, p. 75).

  Veríssimo escreve seu romance com base na visão da classe dominante da época

  • – a sociedade sul-rio-grandense dos grandes estancieiros. Isso faz com que toda a saga gire em torno da visão dessa classe economicamente dominante. Segundo, ainda, afirma Chaves (1981), a homologia que há entre a desagregação do núcleo familiar e a desagregação da sociedade sul-rio-grandense faz determinar esse passado. A saga da família Terra-Cambará entrelaça a História factual e a Literatura de ficção para representar a formação do Rio Grande do Sul. A fragmentação da família burguesa, que compõe a elite social sul-rio-grandense, faz com que seu romance sirva de objeto de estudo para entender tanto sua visão sobre o homem sul-rio-grandense como a influência na maneira de construir as personagens e os fatos históricos presentes na sua obra oriunda de seu contato com historiadores da época.

  Érico consegue fazer uma crítica social à sociedade burguesa de sua época, mas também enaltece a figura mítica do homem sul-rio-grandense na personagem Capitão Rodrigo Cambará, simbolizando a coragem, a valentia e o desprendimento do gaúcho, para quem tudo é sempre levado às últimas consequências.

  “Aquêle inverno Maneco Terra foi ao Rio Pardo com um dos filhos e voltou de lá trazendo três escravos de papel passado ” (VERÍSSIMO, 1972, p. 112).

  Na chegada do Capitão Rodrigo Cambará a cidade de Santa Fé, pode-se perceber o mito do homem sul-rio-grandense, também demonstrado pela antiga historiografia do Rio Grande do Sul, ou seja, daquele que vive sem rumo. O modo como ele chega, sem ninguém saber de onde vem, exalta o jeito gaudério, de um homem sem rumo ou destino com modos truculentos, que exaltavam sua coragem frente aos perigos do Rio Grande do Sul. Esse homem estava sempre pronto a entrar em um combate e tinha, ao seu lado, um parceiro e fiel companheiro de todas as horas

  • – seu cavalo.

  Tôda a gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrava na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquêle seu olha de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas (VERÍSSIMO, 1972, p. 171).

  Nesse trecho, percebe-se a ideia de um homem sul-rio-grandense sem pátria, sem vínculos, inclusive familiares, de alguém que vivia livre e com destino incerto. A forma como a personagem é descrita traz consigo uma imagem de coragem inquestionável como um atributo nato do homem sul-rio-grandense, que se fazia notar pela maneira como se portava diante da vida, sendo destemido e valente e impondo, ao mesmo tempo, temor e fascínio.

  Freitas (1996, p. 11) já dizia que nenhuma dominação social pode subsistir sem uma concomitante dominação ideológica. Nesse sentido, a maneira com que a antiga historiografia sul-rio-grandense foi escrita corroborou para manter a crença, por muito tempo, nesse mito do gaúcho por parte dos próprios sul-rio-grandenses e dos demais habitantes do Brasil. A crença em um homem mítico sulino que trabalhava e guerreava mais por diversão do que por necessidades de ganho; um homem apreciador de um bom cavalo e do gozo da vida com liberdade extrema, não se apegando a nenhum lugar fixo. Essa imagem formaliza toda a maneira como a Literatura incorporou as ideias dos antigos historiadores.

  Para Freitas (1996), o trabalho é parte integrante da sociedade capitalista do Rio Grande do Sul no momento de sua formação. Vários outros estudiosos apontam as diferentes formas de trabalho presentes no Rio Grande do Sul no período em que se ambienta o romance de Érico. Ressalta-se que as subsistências desses trabalhadores provinham de seu trabalho, os quais ganhavam uma parte em dinheiro e outra em produtos, conforme explica Freitas (1996), mostrando que esses homens trabalhavam pela necessidade de sustento e não pela diversão, pois precisavam manter a si e a sua família.

  Devia andar pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira! (VERISSIMO, 1972, p. 171).

  Nessa parte, pode-se perceber a forma idealizada como é retratado o homem sul-rio-grandense. Impossível utilizar uma bombacha clara para as lides de campo sem que esta ficasse imunda. E o trabalho pastoril, além de não ser o único trabalho realizado, não era feito com roupas de passeio obviamente. E a roupa militar, para retratar aquele que vem e vai para as guerras, mostrando a imponência deste mítico homem do Rio Grande do Sul, que não teme os perigos da vida e adora participar de

  2

  uma batalha . Sergius Gonzaga já fala sobre como foi feita a implantação desse mito e de como este teve auxílio dos letrados da época para sua construção. Em relação a isso, Veríssimo também segue a mesma linha de pensamento, pois, em todo o romance, faz uma apresentação que se coaduna com a idealização presente em suas conversas com os antigos historiadores e pensadores do Rio Grande do Sul acerca desse homem sul-rio-grandense. Observe-se o seguinte trecho:

  

a recusa às privações da guerra e as dificuldades do recrutamento. Isso deixa claro que a atividade

  Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim, com ar de velho conhecido:

  • – Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! (VERÍSSIMO, 1972, p. 171).

  Essa passagem também evidencia o fato de que essa personagem está sempre pronta a pegar em armas, de que é um militar, alguém que se mostra valente e destemido, o que, segundo a antiga historiografia sul-rio-grandense, caracteriza uma forma de mostrar seu valor. Para esse homem, era tudo ou nada, como fala a própria personagem ao se referir a mais um gole de bebida:

  “– Pois comigo, companheiro, a coisa é diferente. Não tenho meias medidas. Ou é oito ou oitenta ” (VERÍSSIMO, 1972, p. 172).

  A imagem passada é de que o homem do Rio Grande do Sul teve ancestrais valentes, que forjou seu caráter na guerra, a ferro e fogo. Seria o homem macho, que não teme ninguém, adora as boas coisas da vida, como a bebida e as mulheres, e está sempre enamorado, embora não consiga viver fielmente com apenas uma mulher, tendo a necessidade de ter outras mais. Esse homem tem o seu próprio senso de justiça e suas próprias convicções políticas, o que fica claro pelo uso do lenço colorado ou branco. Tais características remetem à convivência de Veríssimo com historiadores da antiga escola sul-rio-grandense, que marcou a maneira de condução da trajetória da

  3 personagem Capitão Rodrigo Cambará .

  É sabido que Érico se reunia, na livraria do Globo (GUTEFREIND, 1992), em Porto Alegre, com historiadores como Moysés Vellinho, por exemplo, que afirma que a fronteira deu a fisionomia histórica ao Rio Grande do Sul. Esse historiador acredita também que o sul do Brasil teve uma ocupação tardia e que o gaúcho sul-rio-grandense era diferente do gaúcho platino (GUTEFREIND, 1992).

  A historiografia sul-rio-grandense, conforme destaca Gutefreind (1992), apresentava duas matrizes

  • – uma matriz platina e outra lusitana. O que é percebido em
  • 3 todo O tempo e o vento é uma forte matriz lusitana, pois o autor apresenta o Capitão

      

    A personagem é mostrada pelo autor como alguém que leva tudo às últimas consequências; alguém

    que tem uma moral um tanto quanto distorcida para os padrões sociais aceitáveis da época. Ela adora Rodrigo Cambará com forte sotaque platino, sotaque esse adquirido em muitas idas e vindas pela banda oriental e que demonstra a importância da região de fronteira. Quanto à banda oriental, no entanto, o autor mostra que tinha somente desordeiros e invasores e que os homens refinados eram aqueles de descendência lusitana.

      Veríssimo utiliza a matriz lusitana em seu romance, embora reconheça a importância e a influência da fronteira para a formação do Rio Grande do Sul. Isso pode ser percebido na medida em que constrói o Capitão Rodrigo Cambará com sotaque platino, dando a ele características de um anti-herói, pois, no romance, o platino é sempre o bandoleiro, o que veio para roubar a terra dos portugueses, saquear e invadir. Conforme Kühn (2002), a noção de fronteira na historiografia tradicional é idealizada, supervalorizando as rivalidades, como é mostrado no romance, e, consequentemente, a ação heroica de um grupo de conquistadores colonizadores. Tal ação teria garantido a posse do território sul-rio-grandense para os portugueses, conforme as abordagens encontradas na obra de Moysés Vellinho (KÜHN, 2002).

      A fronteira, como enfatiza Gutfreind (1992), é mostrada na obra como um lugar inóspito e com perigos constantes de invasões e saques por parte dos castelhanos e índios, embora se tenha conhecimento de que o limite de Tordesilhas e de Santo Ildefonso também não era respeitado (BANDEIRA, 1985). Sabe-se que, em 1801, ocorreu a tomada das Missões e que, em 1828, chega a cidade de Santa Fé o Capitão Rodrigo Cambará (personagem fictício da obra O tempo e o vento, de Érico Veríssimo). Entre 1821 e 1825, Cisplatina é província do Brasil e de 1825 a 1828 acontece a Guerra.

      Diante disso, é lógico afirmar que a guerra a qual o Capitão Rodrigo Cambará se refere é a Guerra Cisplatina. Ou seja, ele chega em Santa Fé exatamente no momento em que o Brasil perde a província Cisplatina, o que desperta uma mágoa muito grande por parte dos líderes militares-estancieiros do Rio Grande do Sul. Além disso, é necessário considerar que a noção de fronteira no período colonial deve ser relativizada por não levar em conta a inexistência dos estados nacionais unificados e definidos ao longo do século XVIII (KÜHN, 2002).

      

    pouco ao sedentarismo e sendo incapaz de levar uma vida pacata e regrada nos moldes das outras

      Segundo Bandeira (1935), toda a região onde hoje é o Rio Grande do Sul fazia parte da região platina. Desse modo, não foram os espanhóis que invadiram o Rio Grande do Sul, mas sim os portugueses. Essa ideia se distancia do que Érico apresenta em sua obra, fazendo acreditar que o invasor é o platino.

      Diante disso, importa ressaltar, conforme Reichel e Gutfreind (1995), que, após o fim das coroas ibéricas em 1640, intensificaram-se as disputas territoriais entre Portugal e Espanha:

      Portugal conseguiu, em 1676, que o papa Inocêncio II expedisse uma Bula, estabelecendo a jurisdição do bispado do Rio de Janeiro até o rio da Prata [...] fundara a Colônia do Sacramento, em frente a Buenos Aires, na margem direita do rio do Prata (p. 20).

      Conforme dito acima, em sua obra de tendências totalmente lusitanas, o autor de

      

    O tempo e o vento faz com que a matriz platina seja suprimida, apresentando essa

      matriz como a que praticava atos de vandalismo, saques e invasões ao Rio Grande de São Pedro. No entanto, foram os espanhóis os primeiros a fixarem-se nas terras da área do Prata (REICHEL; GUTFREIND,1995) e a obra de Veríssimo é escrita de tal maneira que a personagem principal não serve como um exemplo de herói, mas sim de anti-herói. Tal fato demonstra que o autor é mais cordato com a matriz lusitana do que com a matriz platina, pois denomina o espanhol de invasor e daquele com quem não pode conviver harmoniosamente em sociedade. Faz, então, com que a personagem Capitão Rodrigo Cambará vá se brutalizando de tal modo que sinta prazer em estar sempre guerreando, ora com os castelhanos, ora com o governo.

      Como diz Gutfreind (1992), e se pode perceber na obra, a História estava a serviço da política. Uma história vista através da elite estancieira, que tinha a sua mercê o comando de vários homens, dispondo de seus serviços para comandar com repressão suas províncias.

      Como ocorreu no final do século XIX, uma vez mais a história estava a serviço da política de uma forma direta e imediata. O nacionalismo ascende e o esforço de grupos políticos gaúchos de se lançarem à liderança nacional tomaram a historia como escudo e bandeira de batalha (GUTFREIND, 1992, p. 29). Na obra de Veríssimo, a tentativa de sedentarização da personagem dá-se através do seu casamento com a personagem Bibiana a fim de conter o forte desejo de aventuras e peleias nos pagos sulinos. Isso mostra o quão inquietante era pensar um homem sul-rio-grandense pacato e apegado a um lugar, pois este era, conforme a perspectiva da historiografia, errante e sem paradeiro definido, estando sempre pronto a encilhar o seu cavalo e partir a rumo, sem destino.

      Tal perspectiva é reproduzida na obra de Érico. Observe-se a seguinte passagem: “Tudo indicava que aquela vida sedentária atrás dum balcão, começava a intediá-lo. Não fora feito para aquilo. Para falar a verdade, também não fôra feito para o matrimônio ou, melhor, para uma mulher só ” (VERÍSSIMO, 1972, p. 259).

      Autores como Farinatti (2006) percebem um claro processo de sedentarização desse homem sul-rio-grandense, que possuiu, inclusive, escravos, fixando-se a terra, formando estâncias e estando presente em outros espaços desde os anos finais do século XVIII.

      “Os estancieiros precisavam de trabalhadores cativos e a reprodução das relações escravistas não podiam apenas passar pela vigilância e pela violência, ainda que estes elementos tivessem grande peso ” (FARINATTI, 2006, p. 154).

      Além dos estancieiros que oficialmente são contemplados com a concessão de terras, há uma variedade de outras categorias sociais com menores ou nenhum privilégio que também tendem a se sedentarizar desde esse período (final do século

      XVIII) em diante. Ocorre, porém, uma necessidade de constante busca por trabalho e sobrevivência, principalmente no contexto da pecuária, que é uma atividade sazonal.

      Ao estudar, na obra de Érico Veríssimo, a personagem Capitão Rodrigo Cambará, percebe-se o quanto o autor teve influência de historiadores que seguiam a matriz lusitana, como Moysés Vellinho, por exemplo, embora não desconhecesse a matriz platina. Desta matriz ele utiliza a ideia circundada do invasor, do saqueador, do desordeiro, daquele que não consegue viver em sociedade. E é através dessa ideia que Veríssimo constrói a personagem do Capitão Rodrigo Cambará. O modo como Veríssimo apresenta essa personagem ajuda a manter, nos dias de hoje, o mito de que o gaúcho é um homem valente, disposto a andar vagamente nos pampas, sem rumo e destino; um

      “gaudério” em busca de uma guerra ou contenda a participar. Não se adaptando à vida em sociedade, esse homem prefere andar livre e solto pelos pampas sulinos a ter uma vida sedentária. Não se adapta, pois, a um lugar somente, mas precisa vagar por toda a imensidão do Rio Grande do Sul a comer churrasco e andar a cavalo. Também conseguimos observar o quanto Veríssimo sofreu influência externa, seja pelos acontecimentos externos, como os movimentos que ocorreram no início do século XX. Tudo isso ajudou a formar a sua visão e maneira de expor esta visão em seu romance “ O tempo e o vento”. Seu romance começa a ser escrito a partir de 1947, quando ocorreu o primeiro congresso tradicionalista no Rio Grande do Sul, iniciando o Movimento Tradicionalista Gaúcho, o MTG. O que ajudou também a fazer com que o mito do gaúcho fosse cada vez mais divulgado e exaltado, como um exemplo a ser seguido, um ideal para homem do Rio Grande do Sul, a ser seguido, pela sua valentia e valores de hombridade. Passando a ser exaltadas características que fazem com que o gaúcho seja o herói dos pampas. Características estas ensinadas e passadas de geração em geração através dos Centros de Tradições Gaúchas, CTG, espalhados por todo o Rio Grande do Sul, Brasil e alguns países do mundo.

      Fazendo com que este mito, seja reproduzido e que transpasse as gerações, perpetuando assim a memória do herói dos pampas, o gaúcho.

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      FONTE ELETRÔNICA E-BIOGRAFIAS. Érico Veríssimo. 2012. Disponível em: . Acesso em: 01 mar. 2012.

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