MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIROS VASCONCELOS AVANÇOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENÇÃO ÀS SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL

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AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS

SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL

CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES:

A experiência de São José dos Campos

  

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

SÃO PAULO

2009

MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIROS VASCONCELOS AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: A experiência de São José dos Campos

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia Social, sob a orientação do Professor Doutor Raul Albino Pacheco Filho.

  SÃO PAULO 2009

  AVANđOS E DESAFIOS NA REDE DE ATENđấO ầS SITUAđỏES DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: A experiência de São José dos Campos

MARIA GORETE OLIVEIRA MEDEIRO VASCONCELOS BANCA EXAMINADORA

  ____________________________ ____________________________ ____________________________ Defendida e aprovada em ___/____/2009.

DEDICATÓRIA

  Cada linha com amor para o meu filho Pedro, pela esperança, força, e confiança de que dias melhores virão.

  Obrigada por você existir e por ter estado comigo nessa trajetória de mudanças e por compreender as ausências, os momentos de tristeza e por trazer cotidianamente alegria para a minha vida. A todas as crianças do meu país, no desejo de que seus direitos sejam preservados e de que a alegria da infância esteja sempre presente em nossas vidas.

  A Sabrina e a todos os profissionais que aceitaram o convite de contribuir com essa pesquisa, por meio de seus depoimentos, meu eterno agradecimento e carinho.

AGRADECIMENTOS

  O momento de agradecimento nos remete ao início dessa viagem, permeada por momentos distintos de alegrias, de descobertas, de retorno à Universidade e também marcado por momentos de mudanças bruscas, despedidas e dores. Em meio a essa travessia, por um longo e doloroso deserto, encontrei vários oásis, que representam o oxigênio, a força, a vitalidade e o apoio na hora certa. Esse tesouro encontrado e reencontrado em cada etapa dessa trajetória foram amigos e familiares, pacientes e confiantes durante esse trajeto. Sem o apoio de vocês com certeza eu não teria conseguido. Portanto, o carinho, a amizade e a gratidão por vocês são imensos e sempre estarão presente em meu existir.

  Na bagagem levarei sempre comigo as lições aprendidas, os acertos e desacertos e a certeza de que apesar de tudo valeu a pena! São muitas pessoas a agradecer, espero não esquecer ninguém, porém se porventura a memória me trair, queiram desculpar-me e saibam que estarão registrados em meu coração.

  Ao Departamento de Pós Graduação em Psicologia Social da Universidade Católica de São Paulo a Equipe de Professores e em especial à Profª. Drª. Mary Jane Spink e a querida e atenciosa Marlene.

  Ao CNPQ pela bolsa de estudos concedida, a qual viabilizou essa pesquisa. Ao meu Orientador Profº Dr. Raul Albino Pacheco Filho, pelas lições aprendidas e pela compreensão durante todo esse processo.

  Um obrigado especial a todos o colegas da Pós Graduação e do Núcleo de Psicanálise e Sociedade, pelas trocas, pelo companheirismo e pelo aprendizado (Margarete Carlinha, Gui, Cinara, Gêison, Sylvio Ferreira, Taeko, Fuad, Cris Sumita, Cria Andreotti, Graciela e Gabriela, Alessandro, Vinícius, Celso).

  Em especial, às queridas amigas, irmãs - Margarete Marques e Jaqueline Maio - que estiveram presentes em toda essa trajetória e principalmente nos momentos mais difíceis.

  Aos colegas e Consultores do Instituto WCF - Childhood Brasil, pela confiança, apoio, desafios e, sobretudo pela oportunidade profissional: Ana Drummond, Carolina Padilha,

  Rose Myahara, Margarete Marques, Jaqueline Maios, Zé Carlos, Isa Guará, Isabela, Tauly, Neusa, Eva e Elder.

  Aos queridos profissionais e amigos da Rede de Proteção de São José dos Campos, que não mediram esforços para contribuir com essa pesquisa, obrigada pelo acolhimento, amizade, profissionalismo e solidariedade: Mônica, Hélio, Ana Carla, Verônica, Rosane, Luigi, Sueli, Rosa, Marlene, Abud, Gilberto, Sandro, Lúcia, Silvério, Augusta, Rogério, Dora, Emídia, Cris, Michele, Sônia, Mariza, Silvério, entre tantas outras pessoas queridas.

  Às professoras Cristina Vicentim, Tatiana Landini, Renata Libório, Isa Guará, Catarina Koltai e Maria Lúcia Leal, pelo apoio, aprendizado e ética.

  Aos colegas e amigos pelo acolhimento e sonhos compartilhados: Créu, Welinton, Rô, Claudinha, Cláudia Fígaro, Zé Carlos Garcia, Tadeu, Alex, Claudio Cohen, Théo Lerner, Sandra Paulino, Alex, Tadeu, , Marcelo Neuman, Simone Malak,, Analene, Edilenie, Raniere, Denise, Marisa, Rejane, Ana Lúcia, Dilma Felizardo, Neuma Lúcia, Joelma, Fernando Silva, Eliane, Zélia, Jozélia, Madalena Fucks, Ademar Marques, Ana Luiza, Chris Gesteira, Ana Lúcia, Silvino, Malú, Gabi, Juliani, Eleonora, Inês, Joelson, Bárbara, Rosana, Juliani Loureiro, Michelle Lima, Inês, Rosana, Roseane Miranda e tantos outros...

  A Ede Oliveira por tudo que aprendi com você, pela escuta assertiva e pelo cuidado e acolhimento durante os anos em que vivi em São Paulo.

  A Pedro Leonardo, por me escutar e acolher em Recife, neste momento de transição. Às queridas Lourdes, Nice, Isaura e suas famílias, pela dedicação, fidelidade e amor dedicados a minha família e em especial ao meu filho, durante todos os anos em que vivi em Sampa. Enfim, a minha querida família: Ao Marinho pelo companheirismo, sonhos compartilhados, compreensão e amor dedicados ao nosso Pedro.

  A Pathy, Paulinha, Artur e Willian, com quem aprendi a por em prática o conceito de família ampliada, de solidariedade e companheirismo.

  Aos queridos Detinha e Lusinete e aos meus avós Amara, João Alexandre, Tita, e Hipólito in memorian.

  À minha mãe, pelo amor, solidariedade, presença e exemplo de luta e alegria. Ao meu pai pela vida, simplicidade e carinho. À minha querida tia Nair pela crença e amor dedicados a mim, presença incondicional em todos os momentos e aos meus tios Carlos, Jaziel, Anunciada e Totó, que me fazem lembrar os bons tempos da infância em Frei Miguelinho. Ao meu irmão Junior, à minha cunhada Marcina e aos meus amados sobrinhos Igor e Marina, com quem vivencio momentos de alegria, solidariedade e por representarem juntamente com o Pedro a continuidade da nossa família.

  Alberto Cunha Melo Com suas palavras Com seus pássaros,

  Ou a lembrança de seus pássaros, Com seus filhos Ou a lembrança de seus filhos, Com seu povo

  Ou a lembrança de seu povo, Todos emigram De uma quadra a outra do tempo, de uma praia a outra do Atlântico, de uma serra a outra das cordilheiras, todos emigram,

  para o corpo de Berenice ou para o coração de Wall Street, para o último templo ou a primeira dose de tóxicos para dentro de ti ou para todos, para sempre todos emigram.

  

RESUMO

  VASCONCELOS, Maria G. O. M. - Avanços e Desafios das Políticas Públicas na Rede de

  

Atenção às Situações de Violência Doméstica e Sexual contra Crianças e Adolescentes: a

  São Paulo, 2008, 141 p. Dissertação de Mestrado, experiência de São José dos Campos. Departamento de Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

  A presente dissertação visa desenvolver uma discussão acerca dos avanços ocorridos nas redes de atenção a crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual e problematizar os desafios ainda encontrados nesse campo para efetivamente cuidar, proteger, diagnosticar e acolher essas situações. Para tanto, a autora partiu da realidade de um município paulista, São José dos Campos, onde viveu a experiência do desenvolvimento de um projeto de articulação e formação especializada para a Rede de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente. O texto apresenta uma breve história da violência sexual contra crianças e adolescentes, em seus aspectos legais, conceituais e de mobilização social. Traz em seguida uma discussão sobre políticas públicas, em sua relação com as redes sociais e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Este último é apresentado em suas diferentes dimensões, nas quais estão inseridas o atendimento às situações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Autores como Hannah Arendt, Zizek, Gonçalves, Whitaker, Tschiedel e Brandt, Mynaio, Gabel, Cromberg, Faleiros, Gomes, Sousa, Leal, Libório e Landini são utilizados como fundamentação da discussão ao longo do texto.

  A experiência de São José dos Campos é relatada pela autora, com foco no serviço de atendimento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes e partindo da sua experiência, e de entrevistas com diferentes atores da Rede de Proteção Integral do município. Foram entrevistados nove profissionais e uma adolescente, com o objetivo de compreender como aconteceu a estruturação da política municipal de proteção especial às situações de violência doméstica e sexual. Na companhia de autores como Sandór Ferenczi e Motta, Donzelot foi desenvolvida a análise das entrevistas. Essa análise permite considerar, finalmente, que, embora tenham acontecido avanços importantes e significativos, há ainda grande dificuldade na rede de São José dos Campos para atender integralmente às situações de violência contra crianças e adolescentes. Essas dificuldades não estão relacionadas apenas à fatores específicos desse município, mas à própria complexidade do tema tratado, que ainda desafia profissionais em todo o mundo.

  Palavras Chave: Violência doméstica e sexual, Políticas Públicas, redes sociais.

  

ABSTRACT

  VASCONCELOS, Maria G. O. M. - Public Policies Achievements and Challenges at the

  

Attention Network to Domestic and Sexual Violence Situations against Children and

Adolescents: the experience of São José dos Campos. São Paulo, 2008, 141 pp. Master’s

  Degree Dissertation, Department of Social Psychology, Pontifical Catholic University of São Paulo - PUC/SP. The objective of this dissertation is to propose a discussion about the achievements in Public Policies in terms of the attention to domestic and sexual violence against children and adolescents, and to discuss the challenges that can still be found in this area to effectively take care, protect diagnostic and shelter people in this situation. In order to do it, the author was based on the reality of a São Paulo’s city, São José dos Campos, where she have had the experience of developing a project of articulation and specialized education for the Network of Integral Attention for children and adolescents.

  The text presents a brief history of sexual violence against child and adolescent, in its legal, conceptual and social mobilization aspects. After that, the text opens a discussion on public policies, in relation with social networks and the Unified System of Social Assistance (SUAS). This last, for instance, is presented in its different dimensions, where the assistance to sexual violence against children and adolescents is included. Authors such as Hannah Arendt, Zizek, Whitaker, Tschiedel and Brandt, Mynaio, Gabel, Cromberg, Gomes, Faleiros, Sousa, Leal, Libório e Landini are the discussion reference.

  The experience of São José dos Campos city is narrated by the author, focusing the specialized service of attention to domestic and sexual violence against children and adolescents, grounded on the author’s experience and on interviews with different actors from the Children and Adolescents Integral Attention Network. Nine professional and an adolescent were interviewed in order to comprehend how was structuring the city's policy for special protection on the situations of domestic and sexual violence. Accompanied by authors such as Sandór Ferenczi, Motta and Donzelot, author proceeds to the interviews’ analysis. Finally, this analysis takes to a consideration that, although there have been many important improvements and achievements, there is still significant difficulties in São José dos Campos’ Attention Network in order to take care integrally of the violence issues against children and adolescents. These difficulties are not exclusively related to the city’s particularities, but mostly to the complexity of the issue (sexual violence against children and adolescents) that challenges workers all through the world.

  Key Word Key Words: Sexual and Domestic Violence; Public Policies, Social

SUMÁRIO

  R ESUMO .................................................................................................................................10 ABSTRACT .............................................................................................................................12 Introdução .................................................................................................................................17 Capítulo I - Metodologia ..........................................................................................................22 Capítulo II - Um pouco de História da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes: Legislação, Movimentos Sociais e Conceitos ...........................................................................28 2.1 - Do Direito do Menor ao Estatuto da Criança e do Adolescente .......................................29 2.2 - Marcos Históricos e Legais da Violência Doméstica e Sexual .........................................33 2.3 - Violências e a Violência Doméstica e Sexual ..................................................................40 2.4 - Violência Doméstica .........................................................................................................44 2.5 - Abuso Sexual ou Incesto? .................................................................................................46 2. - Exploração Sexual Comercial .............................................................................................50 2.7 - Prostituição .......................................................................................................................54 2.8 - Turismo com Motivação Sexual .......................................................................................57 2.9 - Tráfico e Venda de Crianças para Propósitos Sexuais ......................................................58 2.10 - Pornografia Infantil ..........................................................................................................61 Capítulo III - Políticas Públicas, Redes Sociais e o Sistema Único de Assistência Social ........63 3.1 - Conversando sobre a relação entre Política, Estado e Ideologia .......................................64 3.2 - Conversando sobre a relação entre Políticas Públicas e Redes Sociais .............................67 3.3 - Políticas Públicas e o Sistema Único da Assistência Social - SUAS .................................73 3.4 - Estrutura do Sistema Único de Assistência Social - SUAS ...............................................75

  15

3.5 - Princípios e Diretrizes do SUAS ......................................................................................79

3.6 - Serviço de Proteção Social Básica ....................................................................................81

3.7 - Serviço de Proteção Social Especial .................................................................................82

3.8 - Matricialidade Sócio -Familiar .........................................................................................83

3.9 - O SUAS e o Controle Social ............................................................................................85

3.10 - Eixos Estruturantes do Sistema de Garantia de Direitos ................................................86

3.11 - Eixo Promoção ...............................................................................................................87

3.12 - Eixo Controle ..................................................................................................................87

3.13 - Eixo Defesa .....................................................................................................................88

3.14 - Estruturação da Rede de Proteção ..................................................................................89

Capítulo IV - Redes de Proteção no Município de São José dos Campos: um estudo de caso .92

4.1 - A rede d proteção integral à criança e ao adolescente em São José dos Campos .............93

4.2 - Um pouco da história de São José dos Campos ................................................................94

4.3 - Programa de atendimento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes .

....................................................................................................................................................96

4.4 - A Chegada do Programa Refazendo Laços de Proteção no Município ............................97

4.5 - Gestão do Programa ..........................................................................................................98

4.6 - Capacitações ....................................................................................................................100

4.7 - Composição da Rede .......................................................................................................101

4.8 - Formação da Rede de Proteção em São José dos Campos ..............................................103

4.9 - Desafios e recomendações ...............................................................................................104

4.10 - Pontos positivos .............................................................................................................104

4.11 - Questões e problematizações .........................................................................................105

  16

................................................................................................................................................106

4.13 - Recomendações visando à replicação ...........................................................................107

4.14 - Situação atual do Programa Refazendo laços de Proteção no município de São José dos

Campos ....................................................................................................................................108

Capítulo V - O funcionamento da Rede no Caso analisado: virtudes, fragilidades e tensões .112

5.1 - Contextualização .............................................................................................................112

5.2 - Sabrina - Adolescente .....................................................................................................114

5.3 - Sistema de Justiça ............................................................................................................124

5.4 - Sistema de Justiça ............................................................................................................128

5.5 - Gestor ..............................................................................................................................131

5.6 - Gestor ..............................................................................................................................134

5.7 - Sistema de Saúde .............................................................................................................136

5.8 - Programa Especializado no Atendimento à Crianças e Adolescentes em situação de

Violência Doméstica e Sexual .................................................................................................138

5.9 - Conselho Tutelar .............................................................................................................141

5.10 - Gestor ............................................................................................................................144

5.11- Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente .....................................147

5.12 - Fechamento da Análise das Entrevistas .........................................................................150

Considerações Finais ................................................................................................................153

Referências Bibliográficas .......................................................................................................157

Glossário...................................................................................................................................167

Anexo A....................................................................................................................................170

Anexo B....................................................................................................................................180

INTRODUđấO

  Criança é coisa séria! A criança é o princípio sem fim. O fim da criança é o princípio do fim. Quando uma sociedade deixa matar as crianças, é porque começou o suicídio como sociedade.

  Quando não as ama é porque deixou de se reconhecer como sociedade. Herbert de Souza, 1991

  A presente pesquisa tem uma relação direta com a minha trajetória profissional, sendo a mesma uma produção acadêmica motivada a partir da minha experiência prática.

  Nos últimos 20 anos, desenvolvi trabalhos com crianças e adolescentes vulneráveis à violência doméstica e sexual, além de participar de vários movimentos sociais. Na década de oitenta, período que antecedeu a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90, fiz parte da equipe multidisciplinar do Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente, atualmente, Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente do Estado de

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  situação de vulnerabilidade . Assim, foi a partir da escuta a esses sujeitos, que identificamos os motivos pelos quais muitas crianças fugiam de suas casas para viver nas ruas. Em suas histórias de vida, apareciam relatos de agressões e de abusos sexuais praticados, geralmente, por seus pais no ambiente familiar.

  1 O Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente, atualmente Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente no 2 Estado de PE, é um dos órgãos oficiais do Sistema de Garantia de Direitos.

  

Considera-se o conceito de vulnerabilidade “como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos

materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais,

econômicas, culturais que provêem do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado se traduz em debilidades ou

desvantagens para o desempenho e mobilidade social dos atores” (Vignoli, 2001; Figueira, 2001 apud Abramovay, 2002,

  Esses fatos determinavam as recorrentes fugas de casa, mobilizando toda a equipe em busca de alternativas de acompanhamento para essas crianças e os seus familiares, além de, também, serem tomadas todas as providências jurídicas referentes a cada caso atendido.

  Apesar da sensibilidade dos profissionais para com os problemas e dramas em tela, deparávamo-nos com limites pessoais e institucionais, com uma estrutura de rede frágil para

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  acompanhar - de forma singular - cada caso , além de uma formação técnica-científica insuficiente para a intervenção em uma temática tão complexa.

  Na prática, observávamos que as crianças e os adolescentes eram encaminhados para

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  as suas famílias de origem sem terem a garantia de um acompanhamento , ocasionando fugas posteriores e a instalação de um círculo vicioso e cronificante de rua-casa-rua, o que, na maioria das vezes, contribuía para a identificação dessas crianças com a rua e com o seu universo sedutor. Geralmente, nesse percurso, acontecia o inevitável encontro com o mundo das transgressões, ocorrendo, muitas vezes, o envolvimento com as drogas e com os agentes aliciadores de redes criminosas, como o tráfico de drogas e a exploração sexual. Para as meninas, o caminho da prostituição se apresentava como uma das possibilidades de sobrevivência, assim como o envolvimento dos meninos com a prática de pequenos delitos.

  Essas experiências de vida, vivenciadas a céu aberto, nos levaram a estudar o tema da violência doméstica e sexual contra a criança, no qual descobrimos a clínica de orientação psicanalítica como possibilidade ímpar de escuta e acolhimento ao sofrimento das crianças e das famílias. Nessa época, já identificávamos a importância da interdisciplinaridade no acompanhamento dessas situações, além da necessidade de ações complementares em rede, com interfaces entre as áreas da saúde, da justiça, do social e do político. Essa prática tinha, como pressuposto teórico, a “Incompletude Institucional”, de acordo com as concepções teóricas do profº. Antonio Carlos Gomes da Costa e com o modelo de intervenção instituído pelo Sistema de Garantia de Direitos – Estatuto da Criança e do Adolescente / ECA.

  

todas as crianças e adolescentes, embora a nossa missão institucional fosse de triagem, apoio breve e encaminhamento. Os

4 casos eram encaminhados para a Rede de Serviços e geralmente ficavam numa longa fila de espera.

  

Termo empregado no sentido de que a falta de uma estrutura de retaguarda na rede de atenção integral, principalmente nas

comunidades, nas famílias de origem das crianças, associadas à falta de vagas nas escolas, nos centros de saúde e nos

dispositivos comunitários, favorecem a volta das crianças para as ruas.

  Na década de 90 e no século atual, vem acontecendo um esforço significativo por parte do poder público e das ONGS na tentativa de estruturar políticas públicas que garantam o atendimento especializado à violência doméstica e sexual. Embora haja vontade política, ainda se observa uma carência de equipes multidisciplinares em formação continuada, para,de fato, atender as necessidades de acolhimento, acompanhamento e proteção que as situações de violência doméstica e sexual exigem.

  Esse aspecto relaciona-se ao objetivo desta pesquisa, que consiste em observar se os serviços existentes, na rede de proteção do município de São José dos Campos, estão respondendo à função de cuidado e proteção, diagnosticando, acolhendo e atendendo as situações de violência sexual contra crianças e adolescentes, respeitando as condições peculiares de desenvolvimento, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.

  Esses questionamentos foram delineando a estruturação do problema desta pesquisa, o qual foi se configurando a partir da oportunidade da pesquisadora em participar e observar o desenvolvimento de algumas metodologias de intervenção nas situações de violência doméstica e sexual. Essa experiência possibilitou o contato direto com as lacunas existentes no Sistema de Garantia de Direitos, o qual deveria estar estruturado para atender de forma integral a criança e o adolescente, o que, na prática, não acontece em sua totalidade, já que crianças e adolescentes expostos à exploração sexual geralmente não conseguem garantir o seu acompanhamento nessas instituições, as quais justificam que os mesmos não querem aderir à proposta institucional. Nesse sentido, a doutrina da proteção integral - preconizada no sistema de garantia de direitos - estabelece o trabalho em rede como condição sine qua non para o funcionamento desse sistema. Então, indagamos: a rede está aí? Como funciona? Quais são os desafios para a sua implementação?A relevância social desta pesquisa relaciona-se à existência de inúmeros desafios para garantir o funcionamento da rede de proteção à criança e ao adolescente com foco na violência doméstica e sexual. Embora tenham sido lançados os Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-juvenil e instaladas CPIs e CPMIs, que apresentam extrema importância na estruturação das políticas

  • – a exemplo do SUAS e SUS – estes não garantem a qualidade do atendimento. Essa qualidade está relacionada ao funcionamento de redes locais integradas e com profissionais especializados, comprometidos e em formação continuada.

  Nesse sentido, esta pesquisa tomará os dados como algo que ajudará a tornar concreto o fenômeno em questão, porém nos debruçaremos não sobre os números, mas sobre o funcionamento da rede de proteção e sobre as tensões e os possíveis avanços advindos da dinâmica de funcionamento deste sistema. O relato dos profissionais e a história de vida de uma adolescente - usuária dos diferentes serviços desta rede de proteção -, ou seja, Conselho Tutelar, Delegacia, Vara da Infância e Juventude, Centro de Referência, Unidade de Saúde, Abrigos e ONGS contribuirão para a análise dos pontos de tensões, das fragilidades e das potências deste sistema na estruturação das políticas públicas.

  Para viabilizar esta pesquisa, respondendo às questões apresentadas, foi realizado um estudo de caso a partir da experiência da rede de proteção do município paulista de São José dos Campos. Foram entrevistados profissionais do Sistema de Garantia de Direitos e uma adolescente, atendida pelos diferentes serviços dessa rede.

  No capítulo I abordaremos a metodologia adotada para a realização da pesquisa, a qual abrangeu a análise da estruturação da política de atendimento às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes no município de São José dos Campos .

  No capítulo II, abordaremos os aspectos legais, históricos e conceituais da violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. Situaremos o cenário internacional e nacional, bem como a contextualização das CPI de 1993, da CPMI de 2001 e dos movimentos sociais no enfrentamento a esse fenômeno.

  No capítulo III, discorreremos sobre redes sociais e sua importância no atendimento integral de crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Ainda, abordaremos os desafios e as conquistas do Brasil na estruturação das políticas públicas, com foco na violência doméstica e sexual, numa perspectiva de rede. Destacaremos o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), como política pública nacional, em processo de estruturação, visando a garantir o atendimento especializado nas situações de violência doméstica e sexual.

  No capítulo IV, apresentaremos um estudo de caso sobre a experiência do município paulista de São José dos Campos, na implantação da política municipal de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

  No Capítulo V, analisaremos as entrevistas realizadas com uma adolescente atendida pela rede de proteção do município de São José dos Campos e as entrevistas realizadas com os profissionais que compõem o Sistema de Garantia de Direitos desta cidade, ocupando posições diferentes nesta estrutura. Esses profissionais atuam no âmbito da saúde, da justiça, da assistência, dos conselhos, da gestão e da proposição de políticas. Por meio das falas e das vivências da adolescente - enquanto usuária destes serviços - e dos profissionais - enquanto cuidadores e operadores das políticas públicas, visando ao atendimento integral, conforme estabelecido no ECA, - Lei 8069/90, pretendemos analisar os desafios e as possibilidades do trabalho em rede na garantia da proteção integral de crianças e adolescentes.

  Finalizando nosso trabalho, faremos as considerações finais, procurando apontar possibilidades na prevenção, atenção integral e estruturação das políticas de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

CAPÍTULO I METODOLOGIA Sim, meu coração é muito pequeno

  Só agora vejo que nele não cabem homens.

  Os homens estão cá fora, estão na rua. A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

  Mas também a rua não cabe todos os homens.

  A rua é menor que o mundo.

  O mundo é grande. Carlos Drummond de Andrade Do ponto de vista metodológico, a pesquisa se caracteriza como de natureza qualitativa, realizada por meio de estudo de caso emblemático. Segundo Martinelli (1999):

  A pesquisa exploratória, categoria na qual se situa o estudo de caso, propõe uma busca e não uma verificação de informações. Seu objetivo é a descoberta de idéias que sejam úteis, críticas e

  (Martinelli, norteadoras de novas atitudes em relação ao mundo. 1999, p50)

  Para Ventura (2007), o estudo de caso emblemático se caracteriza por ser significativo e completo. Esse autor ainda ressalta que, embora o estudo de caso se processe de forma

  

relativamente simples, pode exigir do pesquisador muita atenção e cuidado, principalmente

porque ele está profundamente envolvido na investigação (p.385). Segundo Martinelli (1999),

  os princípios metodológicos que fazem do estudo de caso uma técnica de natureza qualitativa possibilitam explanações teleológicas na combinação das observações dos fatos com as leis gerais explicativas e acrescenta:

  A unidade social escolhida como caso demanda uma representatividade significativa da realidade social para a sua compreensão ampliada. A ampliação da tarefa científica na singularidade do estudo de caso está na escolha de recursos que

  (Martinelli,1999, p 55). auxiliem na coleta e classificação dos dados.

  Antes de realizarmos as entrevistas, entregamos previamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aos profissionais, à adolescente e ao coordenador da organização onde esta se encontrava abrigada. Naquele momento, foi possível conversar com os participantes da pesquisa, no sentido de explicar o objetivo da mesma, bem como ler com eles o TCLE, para que ficassem seguros quanto à confidencialidade das informações fornecidas. Relativamente a esse procedimento, Lakatos (2004) explica que:

  O pesquisador, antes da entrevista, deve informar ao entrevistado sobre o interesse, a utilidade, o objetivo, as condições da mesma e o compromisso do anonimato. É também importante que na conversação o pesquisador demonstre motivação e credibilidade. Além de tudo deve ser prudente. (Lakatos, 2004, p 278 apud Camargo, 2009, p 86). A entrevista representa um instrumento básico para a coleta de dados. Segundo Lakatos (2004), trata-se de uma conversa entre duas pessoas com o objetivo de obter informações importantes e de compreender as perspectivas e experiências das pessoas entrevistadas. Alves-Mazzotti (1999) aponta que, por ser de natureza interativa, a entrevista “permite tratar de temas complexos, que dificilmente poderiam ser investigados adequadamente através de questionários, explorando-os com profundidade” (ALVES- MAZZOTI, 1999 apud LAKATOS, 2004. p. 278).

  Para Lakatos (2004), as entrevistas qualitativas são muito pouco estruturadas. O principal interesse do pesquisador é conhecer os significados atribuídos pelo entrevistado aos fenômenos e eventos de sua vida cotidiana, utilizando sua própria linguagem. No caso particular desta pesquisa, busca-se compreender não a história individual de cada entrevistado, mas a sua relação com a rede de proteção do Sistema de Garantia de Direitos (SDG), de forma a evidenciar o funcionamento da rede de proteção.

  Minayo (1996) traz a entrevista para a “arena de conflitos e contradições”, considerando os critérios de representatividade da fala e a questão da interação social que está em jogo na interação pesquisador–pesquisado. (MINAYO, 1996, apud SZYMANSKI, ALMEIDA e PRANDINI, 2002, p 10).

  De acordo com Szymanski et al. (2002), ao considerarmos o caráter de interação social da entrevista, passamos a vê-la submetida às condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador-entrevistado influencia tanto o seu curso, como o tipo de informação que aparece.

  Lakatos (2004) aponta, ainda, que existem diversos tipos de entrevistas que podem variar de acordo com o propósito do investigador. Utilizamos, na presente pesquisa, a técnica de entrevista semi-estruturada, também denominada pela autora de assistemática, antropológica e livre, que consiste na liberdade que o entrevistador tem para desenvolver cada situação na direção que considere adequada, explorando mais amplamente a questão, as condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador-entrevistado influencia tanto o seu curso como o tipo de informação que aparece.

  Esse estudo de caso abrangeu a análise da estruturação da política de atendimento às José dos Campos, que se efetivou de uma forma pioneira, através da implantação do Projeto Refazendo Laços. Este projeto trouxe uma metodologia assentada em três eixos: a visão da violência sexual enquanto um fenômeno da sexualidade humana, a importância do cuidado com o profissional, e a consolidação das políticas públicas através do fortalecimento da rede de proteção.

  Para a coleta de dados, utilizamos análise documental, entrevistas semi-estruturadas e observação participante.

  Em relação à análise documental foram lidos e avaliados os seguintes documentos: Termo de Compromisso estabelecido entre o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, a Childhood-Brasil e a Prefeitura Municipal de São José dos Campos; Plano Municipal de Enfrentamento à Violência Sexual; Plano Pluri Anual do Município; o Projeto Técnico Refazendo Laços de Proteção; o Relatório da sistematização da experiência; o Regimento Interno do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente; o Processo Judiciário de uma adolescente atendida pela rede de proteção; registros de atas de reuniões entre os participantes do grupo de trabalho interinstitucional e o relatório elaborado pelo Comitê Técnico Científico de Avaliação do Projeto Técnico. Ressalta-se que tais documentos não foram anexados na dissertação por questões éticas, pelo fato dos mesmos poderem identificar facilmente os sujeitos participantes.

  Com relação às entrevistas semi-estruturadas, as mesmas foram realizadas com 09 profissionais que compõem a rede de proteção do SGD, sendo 01 da área da saúde, 01 da área de serviço social, 02 da área de gestão, 01 do Conselho Tutelar, 01 do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, 01 da área da psicologia, 02 do Sistema de Justiça e 01 adolescente em situação de abandono e violência sexual que foi atendida por vários serviços do Sistema de Garantia de Direitos. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Utilizou-se um roteiro com questões abertas, cujos tópicos foram organizados de formas diferentes de acordo com o campo de atuação dos profissionais, conforme os tópicos a seguir:

  • organização do Sistema de Garantia de Direitos onde o profissional trabalha e sua função;
  • lugar que sua organização ocupa no SGD;

  • proposta de atendimento da organização;
  • demanda de atendimento da organização;
  • recursos existentes na organização para garantir o atendimento integral às situações de violência doméstica e sexual;
  • estruturação da política de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes no município;
  • o processo de parceria estabelecido entre o município de São José dos Campos, o

  CMDCA e a Childhood Brasil;

  • fluxo de atendimento à VDSCCA no município;
  • relação da rede de proteção com o Sistema de Justiça;
  • operacionalização do atendimento integral às situações de VDSCCA na Vara da Infância e Juventude.

  O objetivo geral da presente pesquisa é:

  • analisar os serviços existentes na rede de proteção do Sistema de Garantia de

  Direitos do município de São José dos Campos, no sentido de verificar em que medida estão respondendo à função de cuidado e proteção, diagnosticando, acolhendo e atendendo às situações de violência sexual contra crianças e adolescentes, respeitando as condições peculiares de desenvolvimento, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.

  Os objetivos específicos são:

  • compreender o funcionamento da rede de proteção do Sistema de Garantia de

  Direitos do município de São José dos Campos, no que se refere ao atendimento dos casos de violência doméstica e sexual;

  • analisar as tensões, fragilidades, potências e oportunidades existentes nesses serviços;
  • verificar as características dos serviços existentes e sua articulação com os princípios da atenção integral de crianças, adolescentes e famílias e suas necessidades.

  Ter-se-á como referência os eixos norteadores do SGD: Promoção, Controle e Defesa e Reponsabilização, e procurar-se-á ilustrar cada etapa deste processo de estruturação da rede de proteção e as suas interfaces com as políticas públicas de saúde, educação, segurança e justiça, entre outras.

  Nesse sentido, compreendem-se por política pública as políticas que reúnem todos os cidadãos que dela necessitarem, proporcionando-lhes acesso universal e poder partilhado por todos. As políticas públicas reúnem as escolhas da sociedade, transformadas em atos públicos realizados pelo Estado. Neste estudo em particular, nos restringimos às políticas públicas de âmbito municipal, circunscritas no município de São José dos Campos, no estado de São Paulo, em consonância coma as diretrizes da Política Nacional e Estadual de Enfrentamento à Violência Doméstica e Sexual contra Crianças e Adolescentes.

  Chamamos de atenção integral, serviços que se constituem na intersetorialidade, cuja fundamentação encontramos no projeto político do ECA (artigo 86), o qual contempla os conceitos de integração e complementariedade, prevendo um conjunto articulado de ações governamentais da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Tal abordagem viabiliza as “condições necessárias para superação do paternalismo, do assistencialismo, do coorporativismo e do conservadorismo que historicamente marcaram as ações e políticas do Estado brasileiro” (CONANDA, 2000, apud Brasil, 2002).

  Considera-se que a especificidade de cada serviço, suas atribuições de acordo com os eixos estruturantes do SGD e as características de cada área são necessárias. Entretanto, eles devem trabalhar de forma integrada, evitando a fragmentação e a setorialização excessiva dos serviços.

CAPÍTULO II UM POUCO DE HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: LEGISLAđỏES, MOVIMENTOS SOCIAIS E CONCEITOS

  ...Criança no meu tempo de criança, Não valia mesmo nada.

  A gente grande da casa usava e abusava dos pretensos direitos de educação...

  Antiguidades - Cora Coralina

  2.1 - Do Direito do Menor ao Estatuto da Criança e do Adolescente

  O direito da criança e do adolescente teve a sua origem nos Estados Unidos, onde o primeiro Tribunal de Menores do mundo foi criado em 1899, na cidade de Íllinois.

  Em junho de 1911, foi realizado, em Paris, o primeiro Congresso Internacional de Menores, o qual estimulou a criação dos juízos de menores por toda a Europa e América Latina. No Brasil, o primeiro Tribunal de Menores foi inaugurado em 1923, no município do Rio de Janeiro, seguido de São Paulo, que o implantou no ano seguinte.

  Até o início do século passado, o mesmo sistema penal era aplicado para adultos e crianças, sendo a pena para a criança menor em um terço. O primeiro Código de Menores brasileiro foi sancionado em 1927 (Lei federal n° 17.943/1927). Neste código, o papel do juiz de menores era similar ao de um bom pai de família, que deveria definir a vida dos seus filhos, levando em conta o princípio da livre convicção.

  A Doutrina da Situação Irregular, preconizada nessa lei, funcionava apenas para as crianças sem assistência social, sem família, pobres, miseráveis, abandonados e para os infratores. O termo situação irregular serviu para definir as situações que fugiam ao padrão normal da sociedade saudável em que se imaginava viver. De acordo com essa lógica, os problemas eram focalizados exclusivamente nas pessoas que eram responsáveis pelos desvios e penalizadas. Sendo assim, o Código de Menores dava poderes ao juiz para internar, por um período sempre superior a dois anos, todos aqueles que se enquadrassem na chamada situação irregular, sob a justificativa de que essa era uma medida de proteção. O menor não era

  

julgado por seu ato, o que se levava em consideração era se esse menor se enquadrava ou

  (Costa, 2005:42). Foi nesse contexto que surgiu a famosa Fundação

  não na situação irregular

  do Bem-Estar do Menor (FEBEM), lugar em que os menores infratores eram misturados com os que estavam em situação de abandono, mendicância e violência. Aqueles que completavam 18 anos- e os juízes, na ocasião, julgavam que deveriam continuar internados - eram recambiados para uma entidade correcional de adultos e não tinham o direito de defesa.

  A criança- em situação regular- era aquela criada no seio da família, que podia ou não freqüentar escola e que tinha suas necessidades básicas de saúde, educação e moradia supridas por seus responsáveis. Não importava a qualidade das relações familiares e se os adultos, que exerciam a função paterna ou materna, se excediam ao aplicar castigos ou - até mesmo- se cometiam abuso sexual com suas crianças. As atitudes de um pai, padrasto ou responsável não eram questionadas, pelo menos, de maneira explícita. O pai tinha poder absoluto sobre a educação dos filhos e os tribunais não interferiam nas situações familiares.

  Aos poucos, foram acontecendo mudanças de concepção em relação ao lugar da criança em nossa sociedade e não somente no interior do sistema de justiça. A criança deixou de ser considerada um adulto em miniatura (Ariès, 1981), para ser concebida como um ser humano completo, em situação peculiar de desenvolvimento no plano sócio-jurídico; passou, portanto, a ser um cidadão.

  5 A promulgação da Declaração Universal dos Direitos da Criança não garantiu

  mudanças imediatas, pois levou algum tempo para que o sistema de justiça aderisse à nova conjuntura. O segundo Código de Menores brasileiro, de 1979, criado 20 anos depois da promulgação da Declaração da ONU, ainda não abarcava as mudanças apontadas pela nova concepção de infância e adolescência. O processo de adaptação da sociedade ao novo modelo proposto pela assembléia da ONU, da qual o Brasil foi e ainda é signatário, é um processo lento, que requer uma mudança de valores por parte da sociedade, no que se refere à concepção e ao tratamento dispensado a crianças e aos adolescentes.

  Nesse sentido, a sociedade foi percebendo que as leis vigentes e os pressupostos que as embasavam não eram suficientes para responder por toda a complexidade de demandas oriundas desse mais novo tecido social chamado infância e juventude.

  A partir dessa nova conjuntura em âmbito mundial, em contraposição à concepção do direito do menor, surgiu, no Brasil, o paradigma da proteção integral, que parte do pressuposto de que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos em relação a todas as instâncias da sociedade: família, escola, estado e justiça.

  Seguindo essa filosofia, setores progressistas da sociedade brasileira movimentaram- se para alinhar o sistema de justiça à nova concepção da criança como sujeito de direitos, respaldados no Art. 227 da Constituição Federal de 1988, o qual abriu espaço para a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente – lei 8069/90

  Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão .

  O panorama internacional continuava influenciando, trazendo novas proposições e recomendações aos países membros. Em 20 de novembro de 1989, a Assembléia Geral da ONU reuniu-se em Genebra e subscreveu a Convenção sobre o Direito da Criança. Os países signatários se comprometeram em ajustar seu sistema de justiça aos preceitos da Convenção,

  6 assumindo a responsabilidade de garantir os direitos das crianças .

  A sociedade solicitava um salto qualitativo no entendimento das questões da criança e do adolescente em relação à legislação vigente, visto que todos os estudos apontavam para a criança como sujeito em momento peculiar de desenvolvimento.

  O Brasil assumiu um compromisso internacional, no sentido de adotar essa nova filosofia. Nessa época, vivenciava-se a renovação de seu Estado democrático e empenhou-se, por meio dos movimentos sociais, para que a Convenção fosse transformada em lei.

  No clima de um país que aproveitava o momento oportuno, para modernizar seu sistema de justiça com a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 e no calor dos movimentos populares que reestruturavam os espaços democráticos da nação, em 13 de julho de 1990, foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA –, sendo implantado, no Brasil, o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, em consonância com o ECA.

  Com a promulgação da lei 8.069/90, o ECA foi estabelecido um novo reordenamento institucional, uma nova forma de organização nos aspectos legais e estruturais da política de 6 proteção à infância e juventude, atingindo os três níveis de governo e, também, a sociedade

  

O artigo 2° do ECA estabelece: “ Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade

incompletos, e adolescente aquela entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade.” Diferente da Convenção de Genebra e do sistema de justiça de outros países que consideram criança todo ser humano com menos de 18 anos de idade. civil organizada. Por meio dos conselhos de direitos e tutelares, passou-se a ter instrumentos fundamentais para a proposição e elaboração de políticas públicas e de controle social.

  Segundo Costa (2005), a Proteção Integral é prioridade absoluta, e esta doutrina e princípios são alicerçados na Convenção das Nações Unidas pelos Direitos da Criança, na Constituição Federal de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Penal, onde se encontram tipificados os crimes, dentre eles, aqueles praticados contra a criança e o adolescente.

  O ECA prevê a aplicação de medidas de proteção para crianças e adolescentes, as quais visam a reconstituir o direito ameaçado ou violado, sem deixar de lado as necessidades pedagógicas, psicológicas, sociais e de saúde, oportunizando medidas que fortaleçam os laços familiares e comunitários.

  A filosofia geral do Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 5º, estabelece que:

  Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais . (Ministério da Justiça - Fundo das Nações Unidas para a Infância, 2000:14).

  Dessa forma, a nova lei permite intervenções no espaço “sagrado e privado” da família, contribuindo para a identificação e prevenção das situações de violência doméstica e sexual. Prevê, ainda, a responsabilização daqueles que se omitirem em notificar ao Conselho Tutelar os casos de suspeita ou confirmação de violência ou de maus-tratos contra crianças e adolescentes (Lei 8.069/90 arts. 98 e 245).

  No que se refere aos direitos fundamentais, considera que devem ser garantidos às crianças e aos adolescentes brasileiros: o direito à vida, à saúde, à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer. Os maus-tratos são considerados violações dos direitos fundamentais de acordo com o Art. 13 do ECA.

  Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais . (Ministério da Justiça / Fundo das Nações Unidas para a Infância, 2002: 16).

  No ECA, encontram-se, ainda, artigos referentes à política de atendimento a crianças, aos adolescentes e às suas famílias e, também, às medidas aplicáveis aos pais e responsáveis, quando esses são os violadores de seus direitos. O mesmo versa, ainda, sobre a elaboração, implantação, implementação e financiamento das políticas de prevenção e atendimento a crianças e aos adolescentes em situação de violência, seguindo o preceito da descentralização, o que dá aos estados e municípios poderes de escolher qual direção a política local vai seguir nas diferentes áreas. Assim, o município deverá se mobilizar para estruturar redes de proteção social específicas, para garantir o atendimento das pessoas. Marcos Históricos e Legais da Violência Doméstica e Sexual.

  2.2 - Marcos Históricos e Legais da Violência Doméstica e Sexual

  No Brasil, na década de oitenta, surgiram as primeiras ONGs de atendimento a crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Nesse mesmo período - quando o país se debruçava sobre o movimento constituinte, sobre a elaboração do ECA- aconteceu o desvelamento da exploração sexual de crianças e adolescentes no turismo e nos garimpos do norte do Brasil.

  O governo brasileiro negou a existência desse fenômeno, porém o trabalho instigante

  7

  do movimento social e das ONGs históricas pautaram essa problemática nacional e internacionalmente. Somou-se ao trabalho destas ONGs a publicação de um livro sobre o tema, culminando na instalação da CPI da Prostituição Infantil de 1993.

  

Casa de Passagem, CENDHEC, CEDECA- BA, CECRIA, CNRVV, Casa Renascer, Centro das Mulheres do Cabo, CRAMI

– ABC, CEPAJ, Casa Zabelê, entre outras.

  Esse livro reuniu uma série de reportagens publicadas no jornal Folha de São Paulo, pelo jornalista Gilberto Dimenstein, intitulado Meninas da Noite (Dimenstein, 1992) e descrevia os dramas das adolescentes escravizadas sexualmente nos garimpos em Serra Pelada, no Pará.

  A Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Federal foi instaurada no período de 27 de maio de 1993 a julho de 1994 e se propôs a apurar as Responsabilidades pela

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  prostituição infanto-juvenil (Sousa,2004). Ouviu, em depoimentos públicos ou secretos, crianças, adolescentes e adultos e fez, também, investigações em diversos estados brasileiros, além de mobilizar a opinião pública, apresentando um relatório final à Câmara dos Deputados e à sociedade em geral.

  Segundo Sousa (2004), os relatórios gerados por essa CPI estão impregnados das concepções de infância, adolescência, sexualidade, família, sociedade e prostituição que perpassam a discussão sobre a prostituição infantil e juvenil no cenário contemporâneo brasileiro e confere legitimidade às políticas públicas de identidade e efetividade com relação à infância e adolescência pobre de uma forma geral, concluindo que:

  ...a discussão sobre infância, adolescência e sexualidade fica secundarizada e não recebe a ênfase que deveria ter, na medida em que a CPI se propôs a discutir aspectos ligados intimamente a esses temas... A sexualidade infantil e juvenil é um tema não dito ou (maldito?) nos depoimentos analisados. Quando aparece é pela ótica da negatividade sanitária e moral... (SOUSA, 2004).

  Em 1996, uma segunda publicação- com destaque internacional- foi elaborada pela

  9 ONG pernambucana “Coletivo Mulher Vida”, intitulada Islieb Dish : o que a gente não faz

  por um sonho? (Prestello, 1996). Essa contava sobre o envolvimento de adolescentes da periferia do Recife, que se relacionavam com turistas alemães; eram as chamadas “Cinderelas

  

prostituem, mas sim, são explorados sexualmente, ou são prostituídos. Manteve-se esta denominação nesta parte do texto, por

tratar-se de relatos de uma época em que ainda não se havia feito esta discussão conceitual, e a expressão utilizada era

9 “prostituição infanto-juvenil”.

  “Eu te amo” em alemão. da praia de Boa Viagem”, meninas que se apaixonavam pelos estrangeiros e esperavam viver um conto de fadas. Algumas seguiam com esses para a Alemanha, onde - muitas vezes - eram submetidas a um regime de exploração sexual. O governo de Pernambuco tentou impedir a veiculação do livro, mas uma manifestação pública garantiu sua difusão.

  Tornava-se, assim, evidente que a região litorânea do Nordeste, no período da

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  chamada “alta temporada”, recebia um número significativo de estrangeiros , que vinham para o Brasil em grupos, e- durante a sua permanência no país- se relacionavam sexualmente com brasileiras, em sua maioria, menores de idade, fato esse que persiste até os dias atuais.

  A atuação das ONGS e do movimento social em defesa dos direitos de crianças e

  adolescentes contribuiu para se concluir que a intensificação do fluxo turístico estava associada a uma prática freqüente, agenciada por uma rede de negócios, que envolvia desde o fretamento de vôos semanais, hospedagem em hotéis de luxo, boates, taxistas e pessoas várias trabalhando para atender as necessidades deste rentável negócio, que tem - como produtos principais - a venda de programas sexuais com adolescentes e o tráfico de mulheres.

  Continuando na linha histórica dos marcos sobre a violência sexual, o 1º Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças aconteceu em Estocolmo, na Suécia, no ano de 1996, reunindo líderes políticos, representantes governamentais, órgãos das nações unidas, organizações não- governamentais, bem como especialistas nesta temática e em temáticas afins. Essa iniciativa surgiu e foi promovida pela organização da campanha

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  internacional do ECPAT , que desempenha um papel de destaque na luta contra o abuso sexual da criança. Esse congresso reuniu 122 países, os quais se comprometeram com o cumprimento de uma agenda de ações, da qual o Brasil foi um dos signatários.

  Como preparação para o I Congresso Mundial, foram realizados seminários em todo o mundo. Nas Américas, destacou-se o Seminário de Brasília, cujos anais destacam que é fundamental a formação de uma rede internacional de ONGS, governos e pesquisadores,

  

para articular formas de denúncia e intercâmbio contra a exploração sexual comercial de

(Anais do Seminário de Brasília. 1996: 17). crianças e adolescentes

  O citado Congresso Mundial concentrou esforços na adoção de medidas contra a pornografia, prostituição infantil e o tráfico de crianças, considerando-os como as piores formas de violação dos direitos humanos de crianças. Foi adotada, também, uma agenda de ações globais, para tratar dos problemas pertinentes ao fenômeno da violência sexual infanto- juvenil.

  Nessa ocasião, a violência sexual foi reconhecida como crime contra a humanidade, havendo um pacto entre as agências colaterais internacionais e as ONGs, para o estabelecimento de cooperação técnica e financeira em projetos de combate à violência sexual infanto-juvenil.

  Muntarbhorn (apud Libório, 2003:45) refere que a declaração e a agenda de ação de Estocolmo complementaram as normativas da Convenção dos Direitos da Criança, por sugerir compromissos mais específicos para o enfrentamento da exploração sexual comercial infanto- juvenil, priorizando a cooperação entre os Estados e outras parcerias entre os governos, setores da sociedade e o fortalecimento das famílias.

  As medidas sugeridas neste Congresso favoreceram os contextos interdisciplinares, tendo sido proposto aos países participantes que se responsabilizassem pela elaboração de Planos Nacionais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil, para que essa problemática passasse a integrar a agenda pública nacional.

  No ano de 2000, o Brasil elaborou o seu Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil, acontecimento que contou com a participação de mais de 100 organizações, que se reuniram em Natal (RN) para esse fim. O Plano Nacional contém seis eixos estratégicos – atendimento, prevenção, mobilização e articulação, defesa e responsabilização, análise da situação e protagonismo infanto-juvenil e, atualmente, está passando por um processo de revisão. É o esboço de uma política pública em rede, visando à atenção integral de crianças e adolescentes em situações de violência sexual. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) adotou-o como diretriz básica na formulação de políticas públicas, prevendo a descentralização de ações para os estados brasileiros, a construção de planos estaduais e municipais e o fortalecimento de movimentos e redes sociais.

  No ano de 2001, aconteceu o II Congresso Mundial, em Yokohama, no Japão, que representado por uma delegação formada por agentes do governo e da sociedade civil organizada, pesquisadores e especialistas nesta temática. Neste Congresso, o Brasil apresentou seu Plano Nacional, sendo o primeiro país do mundo a fazê-lo. A partir deste evento, houve o reconhecimento de que a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes acontece globalmente, com características diferenciadas, atingindo países em desenvolvimento ou desenvolvidos, variando conforme a região e o país.

  Ainda destacou-se a importância do desenvolvimento de ações regionais, da descentralização dos Planos Nacionais e a necessidade de estabelecerem-se parcerias com a cooperação internacional e com o governo local, para favorecer a sustentabilidade das ações e coibir as formas não comerciais de exploração sexual que envolvem o abuso intrafamiliar e os matrimônios arranjados entre adultos e crianças.

  Nesse mesmo período, o governo brasileiro criou um programa nacional coordenado

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  pelo Ministério da Assistência Social em parceira com ministérios afins , para prover o atendimento especializado nas situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. A implantação deste programa- em nível nacional- aconteceu por meio da transferência de recursos para os estados e municípios. Estes entram com uma contrapartida para implantarem seus serviços de referência, denominado Programa Sentinela. Atualmente, com a estruturação do Sistema Único da Assistência Social – SUAS, ainda em processo de implantação, os serviços realizados pelo Sentinela tenderão a ser absorvidos pelos Centro de Referência de Assistência Social – CRAS – e Centro de Referência Especializada de Assistência Social – CREAS – que são os serviços idealizados para atender, de forma ampla, as vulnerabilidades sociais, prestando,desse modo, assistência básica, de média e alta complexidade. Posteriormente, será discorrido sobre a estruturação desta política.

  Importantes pesquisa e estudo analítico aconteceram nesse período, os quais contribuíram para a instauração da CPMI da exploração sexual em 2003. A pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial no Brasil (PESTRAF) apresentou resultados que foram fundamentais para orientar as ações da Secretaria Especial de Direitos Humanos – SEDH, da Comissão Interministerial e da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

  Foram identificadas 241 rotas de tráfico de seres humanos no Brasil, estabelecidas por via terrestres, hidroviárias, marítimas e aéreas, geralmente localizadas a partir das cidades que se encontram próximas às rodovias, aos portos, aeroportos oficiais e clandestinos, que são pontos de fácil mobilidade para o deslocamento de mulheres, crianças e adolescentes. Dessa forma, as rotas podem ser nacionais, interestaduais e internacionais (Leal & Leal, 2003).

  O Estudo Analítico do Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes no Brasil (período 1996 - 2004) identificou 930 municípios brasileiros que participam da ESCCA. (Leal & Leal, 2004)

  No ano de 2003, foi criada a CPMI para investigar as redes de exploração sexual de crianças e adolescentes, apresentando o seu relatório final em julho de 2004.

  Os membros desta CPMI percorreram todas as regiões do Brasil, e seu relatório final sugeriu o indiciamento de cerca de 250 pessoas, entre políticos, magistrados, líderes religiosos, esportistas, empresários e outras autoridades (Senado Federal, Brasil, 2004). Nesse documento, constatou-se que a prática da exploração sexual de crianças e adolescentes está disseminada em todo o Brasil, aparecendo tanto em cidades grandes, como em pequenos municípios. Concluiu-se, também, que a exploração sexual é um fenômeno complexo, que não está ligado somente à pobreza e à miséria, mas também a questões culturais, como o machismo, o preconceito racial e à idéia de que o adulto tem poder sobre a criança. Foi esclarecido, ainda, que, no Brasil, esta questão geralmente está associada à ação organizada de redes que reduzem crianças e adolescentes à condição de mercadoria, e, assim, são tratados como objeto para dar prazer ao adulto.

  Ainda se descobriu que o perfil dos clientes é muito diversificado, constatando que pessoas- que deveriam defender os direitos de crianças e adolescentes- estão envolvidas nas redes de exploração sexual.

  Ao longo das investigações, a CPMI encontrou crianças e adolescentes absolutamente e do Estado. Além disso, observaram-se, nessa investigação, as conseqüências e os impactos da violência sexual na vida das crianças e das famílias, principalmente, no que se refere aos papéis desempenhados por quem cuida e por quem merece cuidado, uma vez que muitas crianças e adolescentes sustentam suas famílias com o dinheiro proveniente do mercado do sexo.

  Os parlamentares, ainda, se depararam com a difícil tarefa de recebimento de denúncias, nas quais crianças e adolescentes - que foram expostos à violência sexual - temiam por suas vidas, pois, na maioria das vezes, os seus agressores as ameaçavam, além do fato de muitos serem pessoas influentes social, econômica e politicamente.

  Essa CPMI não se limitou apenas a demonstrar e denunciar as redes da Exploração Sexual Comercial. Em seu relatório final, ofereceu um conjunto de sugestões para aprimorar as políticas públicas na área da infância e alterações legislativas que procuram resguardar os direitos de crianças e adolescentes expostos à violência sexual e propiciar o enquadramento criminal dos responsáveis.

  A partir da década de 2000, começam a ocorrer diversas campanhas pelo enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, envolvendo os três setores da sociedade (público, privado e sociedade civil organizada). Entre elas, destaca-se, o dia 18 de Maio que foi instituído como o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração

  e, anualmente, ocorrem eventos e manifestos em alusão ao tema, nesta data, em diversos municípios pelo país. Além do Programa Sentinela, estão sendo desenvolvidos inúmeros projetos com apoio dos governos federal, estaduais e municipais, da cooperação internacional, de institutos, fundações e de empresas privadas.

  No cenário atual, aconteceu no Brasil o III Congresso Mundial Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizado na cidade do Rio de Janeiro em novembro de 2008. O tema de abertura do Congresso foi a Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e a sua Proteção contra a Exploração Sexual – Por uma Visão Sistêmica. Durante os três dias de encontro, foram realizadas oficinas, espaços de diálogo e apresentação de cinco 13 painéis – Formas de exploração Sexual Comercial e seus novos cenários; Marco Legal e

  

A data de 18 de Maio foi escolhida para relembrar o crime cometido no Espírito Santo, em que a menina Araceli foi violentada sexualmente e assassinada, tendo os agressores permanecido impunes. Responsabilização; Políticas Intersetoriais Integradas; Iniciativas de Responsabilidade Social; e Estratégias de Cooperação Internacional. Além de ser articulador e produtor de conhecimento, o evento produziu recomendações importantes quanto à forma como os países deverão enfrentar a exploração sexual de crianças e adolescentes.

  O Brasil foi escolhido para sediar esse Congresso pelo reconhecimento internacional dos avanços e das estratégias adotadas no país e que se constituem, hoje, referência não apenas no âmbito do Mercosul, como na cooperação Ibero-Americana no enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes.

  (Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2008)

  O Congresso é organizado pelo governo brasileiro (coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos com a parceria dos Ministérios do Turismo, do Desenvolvimento Social e do Combate a Fome e das Relações Exteriores), pela Articulação Internacional contra Prostituição, Pornografia e Tráfico de Crianças e Adolescentes (Ecpat), Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF) e pela rede internacional de organizações não-governamentais, NGO.

  A CPI da Pedofilia (Câmara Federal, 2008) identificou inúmeras redes organizadas de pornografia infantil na internet e apresentou, como importante resultado a quebra do sigilo do Google.

  2.3 - Violências e a Violência Doméstica e Sexual

  Para refletir sobre a violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, é necessária uma breve passagem anterior pelo conceito de violência de uma forma geral, para, posteriormente, conceituar as violências contra crianças e adolescentes, desde a doméstica até o abuso e a exploração sexual. Essas conceituações e as diferentes formas de compreensão desse fenômeno variam de acordo com as diferentes áreas de conhecimento. As diferentes visões serão abordadas nesta pesquisa e nos posicionaremos sobre com qual dessas o trabalho será desenvolvido.

  A palavra violência é de origem latina, “violentia”, e significa:

  ...violência, caráter violento ou cruel, força. O verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Esses termos devem ser relacionados a vis... Mais profundamente, a palavra vis significa a força em ação, o recurso de um corpo para exercer sua força, e, portanto a potência, o valor, a força vital.

  (Michaud, 1986:25).

  Para Minayo (2002), a violência é um fenômeno sócio- histórico, com múltiplos sentidos, formado por uma realidade plural, a qual deve ser pensada em rede, considerando os aspectos particulares e singulares de cada contexto, e a multidisciplinaridade.

  A Organização Mundial da Saúde, em seu Relatório Mundial sobre Violência e Saúde (2002), traz a seguinte definição:

  Violência é o uso intencional da força ou poder físico, em forma de ameaça ou efetivamente, contra si mesmo, outra pessoa, ou um grupo ou comunidade, que ocasiona ou tem grandes probabilidades de ocasionar lesões, morte, dano psíquico, alterações do desenvolvimento ou privações.

  OMS, 2002: 15)

  Segundo Gomes (1993), a violência é concebida como algo que faz parte das relações institucionais e interpessoais, sendo classificada a partir dos seguintes níveis:

  • Violência estrutural – referente às desigualdades sociais, engendradas pelo sistema social, incluindo as discriminações de classe, gênero, raça, sexo e idade;
  • Violência revolucionária ou de resistência – relacionada ao pretexto de forma organizada, daqueles que são discriminados; • Violência da delinqüência – caracterizada pelas transgressões sociais. O presente trabalho restringir- se- á abordar um tipo particular de violência, que é a doméstica e sexual, quando esta ocorre contra crianças e adolescentes, sendo ela uma das expressões da violência, relacionada ao que a nossa cultura não aceita, mas pratica, ou seja,
aquilo que reprovamos socialmente. Nesse sentido, a violência é um ato de transgressão de uma norma social, que coloca o sujeito em uma posição ambígua, pois quem a pratica sabe que seu ato é proibido, mas algo o impele a praticá - lo.

  Essa forma de violência é definida como um fenômeno complexo, de âmbito mundial, presente em todas as classes sociais. Faleiros (2000) refere que, nas deliberações do I Congresso Mundial sobre a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a violência sexual foi contextualizada em função da cultura, do padrão ético legal, do trabalho e do mercado. Foi, portanto, concebida como uma questão de cidadania e direitos humanos e sua violação considerada um crime contra a humanidade.

  No referido Congresso, houve uma tentativa de consenso, para a utilização do termo violência sexual e de suas subdivisões. Porém, essa tentativa não foi plenamente instaurada na prática, e, até hoje, encontram-se diferentes formas de se referir à violência doméstica e sexual.

  Para Landini (2005), a violência sexual contra crianças e adolescentes é um tema que vem sendo debatido e discutido há certo tempo. Porém, os grupos que participam deste debate vêm imprimindo um tom específico, que explicita mudanças na percepção da violência sexual em si e no entendimento do papel da mulher na sociedade, na valorização de determinado tipo de organização familiar e na função do Estado em relação à violência. Entretanto, para Leal (1999), o fenômeno da violência doméstica e sexual vem passando por avanços conceituais.

  Para Faleiros (2000), o abuso sexual é o elemento constitutivo conceitual, e, portanto, explicativo da natureza de todas as situações em que crianças e adolescentes são vitimizados sexualmente. Ela defende que esse termo extrapola o locus da violência intrafamiliar, abrangendo toda e qualquer situação em que ocorram relações permeadas pelo uso excessivo de poder, com fins sexuais, incluindo, as de caráter comercial. Até em uma mesma equipe de trabalho, às vezes, a forma de abordar e compreender o fenômeno são diferentes. Isso ocasiona tensões que se refletem no atendimento direto, em especial, no norteamento da proposta de intervenção. Essas tensões motivam a um posicionamento crítico sobre esses conceitos, os quais- muitas vezes- trazem conotações políticas e ideológicas.

  Na visão de Faleiros (2000), conceituar a violência sexual contra crianças e adolescentes implica em compreender a natureza do processo que seu caráter sexual confere à

  • deturpa as relações sócio-afetivas e culturais entre adultos, crianças e adolescentes ao transformá-las em relações genitalizadas, erotizadas, comerciais, violentas e criminosas;
  • confunde, nas crianças e nos adolescentes violentados, a representação social dos papéis dos adultos, descaracterizando as representações sociais de pai, irmão, avô, tio, professor, religioso, profissional, empregador, quando violentadores sexuais; o que implica a perda de legitimidade e da autoridade do adulto e de seus papéis e funções sociais;
  • inverte a natureza das relações adulto, criança e adolescente definidas socialmente, tornando-as desumanas em lugar de humanas; desprotetoras em lugar de protetoras; agressivas em lugar de afetivas; individualistas e narcisistas em lugar de solidárias; dominadoras em lugar de democráticas; dependentes em lugar de libertadoras; perversas em lugar de amorosas; desestruturadoras em lugar de socializadoras; • confunde os limites intergeracionais. Nesse sentido, é possível concordar e reforçar a posição da autora de que a violência sexual representa uma ultrapassagem de limites na qual a relação abusiva está circunscrita não apenas ao ato sexual, mas ao sentimento de invasão nas esferas da vida psíquica e social. Assim, esse tipo de invasão da sexualidade humana não se restringe à penetração, mas abarca diversos atos transgressivos: pode ser um toque, um olhar, um jogo de sedução, entre outros, atos de erotização precoce da criança. Qualquer que seja o tipo de violência sexual perpetrada, o outro é colocado no lugar de um objeto, não sendo visto como sujeito.

  Cromberg (2004) conceitua a violência sexual, como circunscrita a uma relação a dois, consistindo na violação do corpo e do espaço corporal, sendo esse o cerne dessa questão. Pressupõe, ainda, que não há um consentimento consciente, para que tal fato ocorra, caracterizando-o em um quadro de vitimização, com um agressor e uma vítima definidos. Assim, ressalta que um evento de violência sexual, geralmente, possibilita o estabelecimento de uma situação traumática, provocando sofrimento psíquico e a produção de fantasias sexuais inconscientes. Conclui-se, portanto, que a violência não deve ser concebida como uma qualidade natural, inata do ser humano, mas como algo que se produz nas relações intersubjetivas. Portanto, a relação violenta entre um agressor e um agredido deve ser concebida em um contexto de múltiplas variáveis.

  Observa-se, também, que há concordância entre os teóricos deste campo, no compartilhamento da idéia de que o adulto é sempre o responsável pelo ato abusivo, mesmo que a criança ou adolescente tenha um comportamento erotizado, não compatível com a sua idade. Em outras palavras, o limite na relação com a criança e o adolescente cabe ao adulto.

  2.4 - Violência Doméstica

  A delimitação da violência doméstica e sexual de acordo com os diferentes conceitos (violência física, sexual, psicológica, negligência, abandono) tem uma função didática, embora saibamos que na prática, eles estão muito próximos. Geralmente as pessoas expostas a violências podem, ao mesmo tempo, estar submetidas a mais de um tipo de violência. Muitas vezes elas acontecem concomitantemente ou de forma alternada. Essas violências mantêm uma relação entre si e as suas conseqüências variam de pessoa para pessoa, em função de vários fatores, como: idade da criança ou do adolescente; tipo de vínculo com o adulto que comete a violência; proteção recebida, entre outros. A partir da prática de atendimento a essas situações, observamos que a violência psicológica e a negligência freqüentemente estão presentes em todas as formas de violência, o que pode corroborar para o agravamento da situação.

  Os estudos sobre a violência doméstica, também chamada de violência intrafamiliar, foram precursores dos estudos sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, em termos de identificação do fenômeno, das intervenções e do desenvolvimento de pesquisas. Essa modalidade de violência é definida por Azevedo e Guerra (1988) como:

  ... todo ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis contra crianças e/ou adolescentes que – sendo capaz de causar dano físico, sexual e/ou psicológico à vítima – implica, de um lado, uma transgressão do poder/dever de proteção do adulto e, de outro, uma coisificação da infância. (Azevedo e Guerra, 1988:32) O abuso sexual, que ocorre no ambiente familiar, compõe o campo das violências domésticas contra crianças e adolescentes, que abarca outras formas de expressão da violência. As pesquisadoras Maria Amélia Azevedo e Viviane Guerra (1988) desenvolvem pesquisas com a orientação feminista, situando a violência sexual doméstica no campo da vitimização, no qual crianças e adolescentes são colocados na posição de vítimas. Dessa forma, essas pesquisadoras, classificam a incidência da violência sexual contra crianças e adolescentes em três grandes grupos:

  • orientação individualista - a qual atribui a responsabilidade da violência ao agressor;
  • orientação ambientalista – responsabiliza a família pela violência, destacando as situações que levam a patologização familiar;
  • orientação feminista – compreende a violência sexual como decorrente do falocentrismo e do adultocentrismo, nos quais se ressalta as relações sociais de gênero, de geração e de classe social.

  Assim, suas pesquisas, em primeira instância, visam ao eixo da justiça e ao aumento das denúncias das situações de violência doméstica contra crianças e adolescentes. Em outras palavras, há um caráter denuncista em seus estudos, priorizando a repressão e responsabilização dos supostos agressores, e, com isso, o enfoque do tratamento direcionado a todos os membros da família é deixado em segundo plano. Essa linha de pensamento exerce grande influência sobre os profissionais que atuam nesta área, que acabam por estabelecerem intervenções, muitas vezes, pautadas num modelo denuncista e legalista, que pode dificultar a adesão da criança, do adolescente, do agressor e de toda a família aos atendimentos

  14

  propostos . Segundo a concepção dessas pesquisadoras - adotada amplamente pelos profissionais que atuam no atendimento aos casos-, o fenômeno da violência doméstica é subdividido nas seguintes categorias: violência física, negligência, violência psicológica, abandono, abuso sexual intrafamiliar e violência fatal.

  

Criança (LACRI/USP), é de que os profissionais denunciem e acompanhem os processos de violência contra crianças e

adolescentes, depondo em juízo, elaborando laudos e pareceres para a justiça.

  2.5 - Abuso sexual ou incesto?

  A delimitação do que é incesto ou abuso sexual, requer uma compreensão do significado etimológico dessas palavras. A palavra “incesto” deriva de incestum, que significa sacrilégio, impuro, sujo. Também tem o sentido de “não casto”. Com a evolução da língua,

  

castus foi confundido com cassus, que significa “vazio”, isento de, a te suplantar como

  supino do verbo careo, que significa “eu falto”. Incesto, portanto, poderia aí ser traduzido sem exagero por “a quem nada falta” (Naouri, 1994 apud Cromberg, 2001).

  Já a palavra “abuso”, deriva de abusus, forjada por ab, prefixo que significa tanto privação, afastamento, como excesso e intensidade, e usu, que designa o aproveitamento de algo conforme o seu destino. A concepção antropológica mais recente da proibição do incesto tem o sentido de regulador do excesso de identidade e da ausência do diferente.

  Num sentido jurídico, abuso refere-se a aproveitar-se de alguém temporariamente, a título oneroso ou gratuito, das utilidades de uma coisa alheia, na medida das necessidades próprias e das de sua família (Cromberg, 2001).

  Cyrulnik (1994 apud Cromberg 2001) lembra o Marquês de Sade, que asseverava que o incesto é uma prova de amor, um instalador de fraternidade, e Diógenes que- por sua vez- achava que o interdito do canibalismo é suficiente para estruturar as sociedades, para contestar o horror ao incesto e pensar que a regra interditora é que é abusiva.

  Quando o abuso sexual ocorre dentro da família, entre seus membros, este é chamado

intrafamiliar ou incestuoso, ou seja, rompe o tabu do incesto, vigente na sociedade há séculos.

A luz destas leituras, Cromberg (2001) nos fala sobre a violência sexual sofrida pela mulher:

  Para uma mulher não existe horror maior do que ver e sentir seu corpo, seu espaço psíquico e corporal, ser penetrado e invadido por uma sexualidade estranha e estrangeira, sem que ela deseje esta invasão. O acesso ao gozo no corpo da mulher daria sentido ao buraco de mulher, que a enche de vida e saúde para que possa enfrentar com alegria o seu cotidiano. Quando acontece o ato violento esse buraco perde o sentido e passa a ser fonte de horror e

  de morte. Uma vez que a mulher sente que o seu corpo é tratado como coisa, buraco – instrumento. (Cromberg, 2001:16)

  A psicanálise, desde Freud, debruçou-se em diversos trabalhos sobre a questão do tabu do incesto, aprofundando seu interesse nas ressonâncias psíquicas originadas de sua proibição. Para essa teoria, a proibição do incesto é o marco fundamental para a estruturação da civilização e a organização e estruturação do aparelho psíquico. Para o antropólogo Lévi- Strauss (1976), citado por Freud em seus estudos, essa proibição é a passagem que o homem fez de seu estado de natureza para a cultura.

  Esse interdito não é somente natural ou somente cultural, pois pertence a ambos, ou seja, pertence à natureza pelo seu caráter de universalidade e, também, à cultura, uma vez que age e impõe sua regra no interior dos grupos sociais.

  Essa proibição estabelece o vínculo que une o estado natural do homem ao seu estado cultural, possibilitando a exogamia. Dessa forma, a proibição das relações sexuais entre parentes consangüíneos é considerada um tabu. Freud (1913) refere, ainda, que o termo “tabu” é de origem polinésia e significa algo consagrado, misterioso e perigoso. Ele cita Wundt, que descreveu o tabu como o código de leis não escrito mais antigo do homem (Wundt 1906, apud Freud, 1913:37).

  O texto de Sigmund Freud Totem e Tabu (1913) aborda as teorias antropológicas, sociológicas e psicológicas sobre a proibição do incesto, e contém a descrição da história mítica da horda primeva. Nos primórdios da humanidade, os homens viviam em grupos dominados por um macho mais velho, forte, poderoso e possuidor único de todas as fêmeas. Desse modo, os machos mais jovens não tinham acesso às mulheres. Revoltados, uniram-se e mataram o líder, devorando-o para incorporar seu poder e para terem acesso às fêmeas. No entanto, ao invés de se alegrarem e de se sentirem vitoriosos, sentiram remorso e culpa.

  A partir de então, o grupo conseguiu instituir um elemento de proibição, um elemento simbólico que lembraria, para sempre, os dois crimes que haviam praticado: o incesto e o assassinato do pai da horda. Esse elemento seria um totem, um animal, por exemplo, que jamais poderia ser tocado, morto ou ingerido, caso contrário, a punição seria a morte ou alguma desgraça para o grupo. Assim, conseguiram estruturar uma lei que se tornou a organizadora daquele grupo social: a proibição do incesto.

  O termo incesto é usado, de forma mais específica pela psicanálise, para designar relações que são interditadas em decorrência de um vínculo parental, o qual varia de cultura para cultura. Cohen (2000) define o incesto e o abuso o sexual da seguinte forma:

  Abuso sexual é qualquer relacionamento interpessoal no qual a sexualidade é veiculada sem o consentimento válido de uma das pessoas envolvidas, implicando em violência psicológica, social e/ou física. Incesto é o abuso sexual intra-familiar, com ou sem violência explícita, caracterizado pela estimulação sexual intencional por parte de um dos membros do grupo que possui um vínculo parental pelo qual lhe é proibido o matrimônio. (Cohen, 2000: 8).

  A partir do contato com a prática do Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual, coordenado por Cohen, e de seus escritos, é possível observar que este autor aponta para as dimensões de saúde mental e de justiça presentes nas situações de incesto e abuso sexual.

  Concorda-se com esta visão, e ela será adotada neste trabalho, mas com algumas considerações que somam aspectos importantes à mesma: a questão do incesto e do abuso sexual- além de envolver aspectos da justiça e da saúde mental - traz, em seu bojo, o contexto social, com fatores que podem contribuir para a vulnerabilidade de crianças e adolescentes à violência sexual. Esse contexto social pode tanto favorecer a ocorrência do abuso sexual, quanto evitá-lo, além de serem de extrema importância os pilares de sustentação que daí advêm – família, comunidade, rede de atendimento, etc – e que podem servir à atenção e proteção da criança e do adolescente quando a violência sexual já aconteceu. É importante observar que quando o autor diz na definição de abuso sexual, “sem o consentimento válido” de uma das partes, pois nas situações de abuso sexual contra crianças e adolescentes este fator deve ser sempre considerado. Isto porque, ainda que a criança ou o adolescente “digam sim” ao abuso, ou seja, não rejeitem a atitude sexualizada do adulto com ela (e), a situação não deixa de ser abusiva, uma vez que crianças e adolescentes são indivíduos em condição peculiar de desenvolvimento, e ainda apresentam limites quanto ao que podem ou não consentir e decidir por si mesmos. A responsabilidade pela interdição do incesto, pelo estabelecimento do limite na relação com a sexualidade infantil e adolescente é do adulto.

  Leclaire (1979) considera o termo incesto como significando “gozar sexualmente com a mãe”, seja menino ou menina. Ele ressalta que não é possível para uma criança de 3 a 5 anos entender o significado do incesto da mesma forma que um adulto, por isso o sentido do incesto para a criança consiste na posse da mãe, não se limitando à relação genital.

  Vistas as definições acima, volta-se à questão inicial: incesto ou abuso? São ermos com significados diferentes, embora -às vezes- interpretados como se fossem a mesma coisa. Cohen (2000) - ao conceituar o abuso sexual- circunscreveu-o como passível de acontecer em qualquer relacionamento social, enquanto - em relação ao incesto- foi categórico, delimitando-o como um tipo de abuso que acontece entre pessoas que possuem um vínculo parental pelo qual lhe é proibido o matrimônio. Para a justiça, não existe a categoria incesto tipificada na lei, mas, para os profissionais da saúde e do social, é fundamental compreender a diferença entre um episódio de abuso sexual e um abuso sexual incestuoso. O primeiro pode acontecer fora da relação familiar, quando, por exemplo, uma criança ou um adolescente sofre o abuso sexual cometido por um estranho. Já o segundo está diretamente relacionado à dinâmica familiar e envolve um “pacto de silêncio” entre os membros da família. Assim, todos sabem, mas ninguém se pronuncia no sentido de romper esse ciclo intergeracional. Para a equipe cuidadora da criança e da família, compreender a dinâmica do incesto é fundamental para nortear a proposta de intervenção.

  A delimitação da violência doméstica e sexual, de acordo com os diferentes conceitos, tem uma função didática, porém sabe-se que, na prática, eles estão muito próximos. Geralmente as pessoas expostas à violências podem, ao mesmo tempo, estar submetidas a mais de um tipo de violência. Muitas vezes, elas acontecem ao mesmo tempo ou de forma alternada. Essas violências mantêm uma relação entre si e as suas conseqüências variam de pessoa para pessoa. Em minha prática de atendimento a essas situações, observo que a violência psicológica e a negligência freqüentemente estão presentes em todas as formas de violência.

  Dessa forma, observa-se que a violência doméstica, o abuso e as diferentes formas de expressão da exploração sexual contra crianças e adolescentes estão intrinsecamente relacionadas, como procuraremos discutir a seguir.

  2.6 - Exploração Sexual Comercial

  A exploração sexual de crianças e adolescentes, embora muitas vezes apresente relação com situações de violência doméstica – sexual ou não – vividas pela criança ou pelo adolescente, enquadra-se nas formas de violência sexual extrafamiliares.

  Com base na classificação do Instituto Interamericano Del Nino (OEA:1998, apud Leal & Leal:2003), a violência sexual contra crianças e adolescentes foi subdividida em dois grupos: o abuso sexual e a exploração sexual comercial. Do primeiro grupo, fazem parte os atos abusivos intra e extra - familiares, perpetrados sem a intermediação do dinheiro, enquanto que, do segundo grupo, fazem parte aqueles atos em que, de certa forma, há a troca do sexo por uma remuneração.

  A exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, segundo Leal, está relacionada a:

  ... aspectos históricos, econômicos e ao sistema de valores arbitrados nas relações sociais, especialmente o patriarcalismo, o racismo e a apartação social, os quais se opõem a idéia de emancipação das liberdades econômicas, culturais e da sexualidade humana.

  (LEAL, 2001:8).

  Na avaliação dos aspectos desencandeantes e mantenedores deste fenômeno, Leal (2000) destacou três categorias complexas e distintas: o mercado, a sexualidade e a violência.

  Essas mesmas categorias foram analisadas por Libório (2003) que elegeu mais duas categorias para se pensar nos fatores que dão sustentação ao fenômeno, são eles: a violência e a sexualidade na adolescência e os riscos, danos e a vulnerabilidade, como aspectos psicológicos que interferem na construção da identidade do adolescente.

  Dessa forma, ambas associam a violência estrutural, social e interpessoal à violência sexual, sendo esta causadora de danos e riscos nos níveis pessoal e coletivo. Nessa lógica, o abuso sexual se relaciona à violência intra e extra-familiar e a exploração sexual comercial, além dos fatores intra-familiares, tem o mercado como base de sustentação. Assim, a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é definida como:

  As diferentes formas de expressão da exploração sexual comercial ainda estão associadas a fatores tais como (Leal, 2001):

  O uso da criança com propósitos sexuais na troca por dinheiro ou favores entre a criança, o consumidor, intermediário ou agente e outros. Dessa forma, considera-se que as três formas de exploração sexual comercial – prostituição infantil, tráfico e venda de crianças entre países, ou dentro dele, com propósitos sexuais e a pornografia infantil – estão extremamente ligadas. O tráfico com propósitos sexuais implica, como conseqüência, a prostituição e esta é freqüentemente combinada com a produção de fotos, vídeos e outras formas de material sexual explícito envolvendo crianças . (ECPAT, 2002:10)

  • desestruturação da família empurrando os jovens para as redes de exploração e ou de tráfico de drogas;
  • naturalização e incentivo da prostituição;
  • relação estreita entre exploração sexual e narcotráfico;
  • intercâmbio de crianças e adolescentes prostituídos (entre regiões e entre prostíbulos);
  • impunidade dos agressores e agenciadores;
  • >relação entre as redes de exploração sexual com os assassinatos de crianças e adolescentes;
  • políticas ineficientes; • cárcere privado associado à exploração sexual. Leal (2001) categorizou os indicadores macro-sociais e culturais que favorecem a exploração sexual comercial, associando-os ao consumo, tais como: a globalização da economia, as redes de exploração sexual no mercado transnacional e local, a exploração do
trabalho como gerador de pobreza e de desemprego; a desigualdade social, de gênero, raça e etnia; a desigualdade geossocial rural e urbana; a migração legal e ilegal; a desestruturação familiar e o consumo.

  Essas categorias explicativas da exploração sexual - associadas aos indicadores macro- sociais- são formas interessantes de dimensionamento deste fenômeno contemporâneo, complexo e polêmico. No entanto, é importante não limitar, unicamente, o dimensionamento e as causas da exploração sexual comercial, a essas categorias e indicadores, uma vez que existem aspectos relativos à subjetividade dos sujeitos, intrínsecos à história pessoal de cada indivíduo que, associados a fatores macro-sociais, contribuem para a inserção de adolescentes no mercado do sexo.

  Dessa forma, pode-se concluir que a exploração sexual é um problema sério e danoso para crianças e adolescentes, vitimizando um número significativo de meninas e meninos.

  Rebouças (2004), em sua pesquisa sobre o legado da prostituição e a violência familiar na constituição da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes na cidade de Santos, ressaltou que a exploração sexual comercial infanto-juvenil é um fenômeno cuja aparência não coincide com a sua verdadeira estrutura. A incidência, tal como se apresenta, é superficial, o que exige do pesquisador desvendar e tentar descobrir as suas determinações e seus atributos, para a constituição dos fatos concretos. Ele tentou, com isso, compreender os elementos que conduzem as crianças e os adolescentes para essa situação de risco, observando os seguintes elementos:

  1 - a negligência dos familiares em relação a suas crianças e aos seus adolescentesque sofreram violências de ordem psicológica, física e sexual; 2 - a transmissão geracional da cultura e dos valores do exercício da prostituição por mães ou responsáveis que foram ou que são trabalhadores do sexo repassam para as suas filhas na convivência

  

(Rebouças,2004)

familiar.

  Assim, o autor conclui que as conseqüências dessas violências vulnerabilizam crianças e adolescentes, favorecendo o ingresso no mercado do sexo. Pauta-se na convicção de que esse legado e essa violência, articulados e integrados com outros fatores, são desencadeadores de um processo que vitimiza crianças e adolescentes que ingressam precocemente e ilegalmente no mercado do sexo (Rebouças, 2004). 15 Rebouças (2004) conseguiu estabelecer, no Espaço Meninas , uma relação intrínseca entre o abuso sexual intrafamiliar e a exploração sexual comercial, vivenciada por 69 adolescentes atendidas neste serviço. Essas adolescentes foram acompanhadas pela equipe psicosocial e todas estavam envolvidas em situações de exploração sexual. Concluiu que 35% dessas adolescentes sofreram violência sexual na infância em seus próprios lares, podendo esse índice ser maior, pois os traumas decorrentes dessa violência podem inviabilizar ou dificultar a verbalização da situação vivida. Ainda, 34% dessas jovens possuem filhos, sendo a gravidez precoce, geralmente, uma válvula de escape para sair de casa, com a intenção de evitar a perpetuação da violência física ou sexual sofrida no lar. Assim, por meio da gravidez, as meninas tentam elaborar projetos de vida futuros, com o objetivo de obterem melhores condições de vida, porém, às vezes, passam a viver em locais e condições ainda mais precários do que os que viviam. Com isso, os dados dessa pesquisa confirmam o que já se havia pontuado em termos da interrelação entre as diferentes formas de violência.

  Outra pesquisa - desenvolvida por Gomes (1994), sobre a violência enquanto agravo à saúde de meninas que vivem nas ruas - teve como objetivo analisar a configuração dos programas voltados para o atendimento de meninas que vivem nas ruas, da exploração sexual infantil feminina e do processo saúde-doença vinculado à sexualidade. O autor procura articular a prostituição feminina com o processo saúde-doença ligados à sexualidade e à violência estrutural, perpassada pela questão da pobreza.

  Numa análise geral, essa pesquisa visou à configuração da exploração sexual entre meninas que vivem nas ruas, articulando os aspectos micro e macrossociais, na identificação do siginificado da prostituição para essas jovens.

  A pesquisa citada concluiu que as violências cometidas contra as meninas que vivem nas ruas, de um modo geral, revelam atos violentos ligados ao sexo, existindo, ainda, uma faceta da violência estrutural que assume um grau significativo no conjunto dos atos violentos cometidos contra a mulher.

  As marcas decorrentes dessas situações aparecem em relatos, com agravos no campo

  16

  da saúde mental , evidenciados por profundos comprometimentos emocionais, inseguranças, medos e baixa auto-estima, que podem ser caracterizados como comportamentos paralisantes num processo de recuperação da cidadania das meninas.

  2.7 – Prostituição

  O uso do termo prostituição infantil é um equívoco, uma vez que crianças e adolescentes não são prostitutos, mas sim prostituídos por agentes adultos. Embora a prostituição infantil seja classificada como uma das formas de expressão da exploração sexual comercial, deve-se ter cuidado na utilização deste termo, para não se incorrer na armadilha de revitimizar os jovens que estão vulneráveis a essa situação, culpabilizando-os pela mesma. O ECPAT definiu a prostituição como: o uso de uma criança em atividades sexuais em troca de

  (ECPAT, 2002: 12) remuneração ou outras formas de consideração. Saffioti (1989 e 1995) estabeleceu uma relação entre abuso sexual e prostituição, e contextualizou o fenômeno da exploração sexual de crianças numa perspectiva econômica.

  Concluiu que as crianças são envolvidas em atividades que causam prazer ao adulto, sendo essas prejudiciais a sua saúde mental. Associou essa problemática à vitimização sexual intrafamiliar, considerando-a um dos fatores de encaminhamento da criança e do adolescente para a prostituição.

  Leal (2000) categorizou a configuração da prostituição por meio de prostíbulos fechados, os quais se localizam, com freqüência, nas proximidades dos garimpos. Nesse local, a prostituição se apresenta de forma muito desumana, onde adolescentes são submetidos a situações extremas de humilhação e violência. Ainda destacou outras formas de prostituição que considera decorrentes da violência física ou sexual e ou de situações de extrema miséria e negligência sofridas no ambiente familiar. Concluiu, também, que essas violências sofridas, muitas vezes contribuem para que crianças e adolescentes vivam nas ruas, locais onde vendem o próprio corpo em troca de sobrevivência e, muitas vezes, de afeto.

  Continuando na mesma linha de pensamento, Saffioti (1995) afirmou que o incesto é altamente responsável pela prostituição infanto-juvenil, por ser um problema fechado dentro da família. Assim como Leal (2000), referiu que, para fugir dos abusos, geralmente crianças e adolescentes fogem de casa e se deparam, nas ruas, com a prostituição, como alternativa de sobrevivência, o uso do corpo é a única maneira de obter atenção, “afeto” , enfim, o corpo é

  

uma coisa com a qual se pode transacionar, como se fosse uma mercadoria (SAFFIOTI,

1995: 22).

  A menina vai repetir, nas ruas, exatamente o que aprendeu em casa, sendo que o diferencial- na repetição deste comportamento - é que, nas ruas, o sexo é pago. Estende-se, também, esse posicionamento para os meninos, pois meninos são freqüentemente abusados sexualmente em seu ambiente doméstico e, do mesmo modo, expostos à prostituição.

  Pensando na prostituição adulta, de onde muitas vezes se parte para pensar a situação da criança e do adolescente, pode-se citar Leite (1995) que apresenta três grandes concepções internacionais para esta atividade:

  • Regulamentarista – considera a prostituição um mal necessário; dessa forma, a sociedade controla, confina e fiscaliza a prostituição, por meio do discurso médico. Essa concepção prevaleceu no Brasil, do início do século XX até a década de 1960, e está baseada na medicina sanitária.
  • Abolicionismo – trata a mulher na prostituição como uma escrava, assim, a mulher

  é uma vítima que precisa ser salva. Essa concepção surgiu na França, associada ao consumismo, à sociedade capitalista ocidental e ao machismo. Essa corrente teve uma forte adesão no Brasil.

  • Autodeterminação – para essa corrente de pensamento, a mulher prostituta é concebida enquanto cidadão e sujeito de direitos. Essa concepção também surgiu na França, na década de 60, onde as mulheres prostitutas se posicionaram da seguinte forma: Todo mundo fala sobre nós. Nós queremos falar sobre nós

  mesmas . A partir daí, fundou-se o Comitê Internacional para os Direitos da

  Prostituta, o qual vem cristalizando um movimento de profissionais do sexo. Essa concepção possibilitou a fala da mulher prostituta e uma mudança, por parte das entidades de defesa desta causa, que concebiam a prostituição simplesmente como uma falta de opção. Leite (1995) refere que a prostituição é muito mais complexa e tem a ver com a questão de como a sociedade encara a sexualidade, os tabus com relação a sexo, com a concepção cristã ocidental de que sexo é igual a amor. A Associação Nacional de Prostitutas compreende a prostituição como um trabalho, porém se posiciona contra a prostituição e o trabalho infantil. Esse movimento parte do pressuposto de que crianças e adolescentes são prostituídos.

  A pesquisadora Juliano (2004) analisa que os fatores desencadeantes da prostituição estão relacionados ao contexto social, o qual favorece a atividade sexual, o trabalho sexual e o pagamento em dinheiro vivo. Com base nessas premissas, essa pesquisadora associa os fatores determinantes da prostituição às condições e possibilidades de trabalho, às formas de entender a sexualidade e os papéis de gênero. Ela, ainda, estabelece um paralelo entre o modelo masculino e a desvalorização do modelo feminino, e evidencia que- em uma sociedade de consumo - os estereótipos de independência pessoal se expressam por meio do delito e da prostituição, principalmente, para mulheres jovens e de classes sociais menos favorecidas.

  As pesquisas referentes à prostituição e a violência sexual, de uma forma geral, demonstram que existem várias leituras e interpretações desse fenômeno. Calligaris (2006), por exemplo, fazendo uso da psicanálise, fala sobre a representação da prostituição no psiquismo feminino e conceitua a “fantasia de prostituição” que, segundo a autora, seria constitutiva do imaginário feminino. A fantasia de prostituição estaria presente no imaginário de toda mulher, algo que a constitui como mulher e que contribui para o “afastamento do pai”, abrindo espaço para que possa vir a desejar outros homens. O problema se constitui quando a fantasia se transforma em passagem ao ato, como acontece na prostituição ou mesmo na violência sexual.

  Essa forma de problematizar e inserir a prostituição como sendo algo intrínseco ao psiquismo e à fantasia é importante, e deve ser considerado não apenas na escuta de mulheres adultas, mas também de adolescentes. No entanto, é fundamental que não se perca a dimensão dos aspectos sócio-econômicos referentes à violência e ao agenciamento que a atividade da prostituição impõe, primordialmente, em se tratando de adolescentes.

  2.8 - Turismo com Motivação Sexual

  Continuando a exposição e reflexão sobre as formas de exploração sexual de crianças e adolescentes e os conceitos relacionados, chega-se ao turismo com motivação sexual. Esse

  

se constitui como a exploração sexual de crianças por estrangeiros que visitam outros países,

geralmente, países em desenvolvimento, com o intuito de ter relações sexuais com crianças

  (ECPAT, 2002).

  É importante acrescentar-se a essa definição do ECPAT o fato de que o turismo nacional, também, pode envolver situações de exploração sexual de crianças e adolescentes, ou seja, que não apenas os turistas estrangeiros desenvolvem essa atividade, mas também aqueles que estão em viagem pelo próprio país.

  Esse tipo de exploração sexual acontece de forma organizada em redes de aliciamento e agenciamento, incluindo diversos interlocutores, entre agências de turismo nacionais e estrangeiras, hotéis, taxistas, boates, restaurantes, etc. As adolescentes do sexo feminino, pobres são os alvos desse comércio, que está diretamente ligado também ao tráfico internacional. No Brasil, esse tipo de turismo acontece de forma mais intensa nas regiões litorâneas, com maior incidência na região Nordeste. Já o turismo portuário e de fronteiras, tem maior incidência nas regiões banhadas por rios navegáveis das regiões Norte e Centro- Oeste do Brasil, em fronteiras nacionais e internacionais. Os usuários mais freqüentes dessa modalidade são turistas estrangeiros, tripulações de navios cargueiros e, também, a população local.

  O pesquisador Arim Soares do Bem (2003) analisa o crescimento do turismo com motivação sexual como uma das conseqüências do processo de ampliação de potencialidades produtivas no período pós-guerra, ancorado no modelo fordista de acúmulo de capitais. No que se refere ao Brasil, considera a falta de consolidação e de integração econômica como sendo um dos fatores desencadeantes do turismo com motivação sexual, destacando o

  Desse modo, um desses entraves pode ser atribuído ao caráter excludente do modelo de desenvolvimento que revela a manutenção de níveis elevados de concentração de renda e de pauperização de grandes setores da população, que são fatais para o desenvolvimento do turismo com motivação sexual na região.

  Entre os anos de 1955 e 1975, o processo de industrialização no Brasil favoreceu a redefinição da estrutura tradicional local, principalmente, no Nordeste, que iniciou um processo de reurbanização turístico, com destaque, para as capitais Salvador, Natal, Recife e Fortaleza, que passaram a ser cidades conhecidas como espaço do prazer e do consumo, sendo essas incluídas como destinação turística nacional e internacional.

  Esse fluxo turístico com caráter exótico foi intensificado a partir da década de 1970. Ao mesmo tempo, aumentava o fluxo migratório de mulheres provenientes de países do terceiro mundo, de alguns países do Leste Europeu, para os países industrializados, principalmente, para a Europa e os Estados Unidos, envolvendo mulheres originárias da América Latina, Ásia, Caribe, África, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, Rússia e Iugoslávia (Do Bem, 2003).

  A circulação crescente de seres humanos - para fins de exploração sexual- é caracterizada pelo surgimento de um mercado de alto risco e de altos ganhos para seus agenciadores e que só pode funcionar de forma organizada e criminosa nos vários países envolvidos conforme refere Do Bem (2003), a seguir:

  O mercado de migração e tráfico de mulheres, crianças e adolescentes está totalmente conectado com os eixos de circulação de drogas. Há, assim, uma interdependência estrutural e funcional entre as redes especializadas no transporte de “alto risco” de mercadorias e de seres humanos, por meio das fronteiras nacionais e

internacionais. (Do Bem, 2003: 36).

  2.9 - Tráfico e venda de crianças para propósitos sexuais

  Considera-se Tráfico de Seres Humanos:

  Todos os atos envolvendo o recrutamento ou transporte de pessoas entre ou através de fronteiras que implicam em engano, coerção, aliciamento ou fraude, com o propósito de colocar as pessoas em situação de exploração, como a prostituição forçada, práticas similares à escravidão, trabalhos forçados ou serviços domésticos, com o uso de extrema crueldade (ECPAT, 2002:22)

  O Relatório Nacional da Pesquisa Sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial (PESTRAF, 2003) mapeou 241 rotas de tráfico de seres humanos existentes no Brasil. Ainda, definiu que o tráfico para fins sexuais é predominantemente de mulheres e adolescentes afro-descendentes, entre 15 e 25 anos de idade, e que as mulheres e adolescentes submetidas a essa situação, geralmente, já sofreram algum tipo de violência intrafamiliar (abuso sexual, estupro, sedução, atentado violento ao pudor, maus-tratos, dentre outros) e extra-familiar em escolas, abrigos e em outras relações. Observa-se, também, que - no relatório da citada pesquisa - as mulheres e adolescentes são recrutadas para o tráfico doméstico e internacional com a promessa de melhoria das condições de vida, por meio de diferentes formas, tais como: anúncios em jornais para empregos de bailarinas, garçonetes, empregadas domésticas, casamentos, dentre outros.

  A PESTRAF cita, também, a existência da forma de contrato direto com os traficantes ou por intermédio de amigos, colegas, parentes ou conhecidos, entre outros. Nesse sentido, o

  

explorador é aquela pessoa que demanda mulheres, crianças e adolescentes para explorá-las

através das redes de favorecimento do tráfico para fins sexuais ou para consumir os serviços

sexuais ofertados por estas redes (PESTRAF, 2003:53).

  A fragilidade das redes protetivas – família, sociedade, estado, escola - favorece a inserção da criança e do adolescente nas redes de comercialização do sexo. Portanto, não ter uma estrutura de referência e proteção, torna a criança e o adolescente vulneráveis ao aliciamento.

  As máfias internacionais, russa, chinesa, japonesa, italiana, israelita, espanhola e mexicana, utilizam-se de pacotes turísticos e da internet, para agenciar a venda de meninas e contam com a conivência de alguns elementos das Polícias Civil e Militar, das Agências de

  Modelos, de Comissários de Menores e de funcionários de aeroportos. (Relatório Sudeste da PESTRAF, 2003:67)

  Dessa forma, o aliciamento e agenciamento de crianças, adolescentes e mulheres acontece por meio das redes do mercado da moda, das agências de modelo fotográfico, vídeos e filmes. Além dessas, as agências de emprego, de casamento, de tele-sexo, de turismo, entre outras, são fontes sedutoras que envolvem diariamente jovens no sonho de uma vida melhor.

  Além disso, o tráfico transnacional não envolve somente as pessoas em atividades relativas à exploração sexual comercial (prostituição, turismo sexual, pornografia e tráfico para fins sexuais), mas também em outras formas de exploração, tais como: o trabalho forçado e escravo na agricultura, nas casas de entretenimento, na pesca, nos serviços domésticos e outros. A visibilidade para esse fenômeno é difícil, por se tratar de uma questão que envolve o crime organizado e a corrupção.

  Ainda tem-se, como agravante, a fragilidade das redes de notificação existentes nas estruturas de poderes governamentais, o que provoca o descrédito da população nesses canais de interlocução, para a realização de denúncias. Atualmente o Brasil tem o Sistema de Notificação Nacional para casos de violência sexual, o disque 100. No entanto, cada país adota uma legislação específica para este assunto, o que se complica mais quando a situação envolve o tráfico internacional.

  As rotas de tráfico no Brasil são estrategicamente construídas a partir das cidades que estão próximas às rodovias, aos portos e aeroportos, sejam esses oficiais ou clandestinos.

  17 Esses locais são pontos de fácil mobilidade. De acordo com o relatório da PESTRAF , a rede

  de tráfico pode se utilizar de vias aéreas, terrestres, hidroviárias e marítimas para realizar o tráfico de seres humanos. De acordo com Do Bem:

  O tráfico produz novos efeitos perversos sobre a migração, atuando negativamente sobre toda a população de migrantes nos países industrializados, incentivando o acirramento de políticas de emigração altamente restritivas e excludentes, aumentado a 17 repressão sobre as minorias étnicas (Do Bem, 2005:38) Pesquisa Sobre Tráfico de Mulheres, Criança e Adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial.

  2.10 - Pornografia Infantil

  Uma forma de exploração sexual de crianças e adolescentes, que vem crescendo e cujos crimes relacionados têm sido amplamente difundidos na mídia, é a pornografia infantil. Essa é definida como qualquer representação, através de quaisquer meios de comunicação,

  

de uma criança engajada em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou qualquer

exibição impudica de seus genitais, com a finalidade de oferecer gratificação sexual ao

usuário, e, além disso, envolve a produção, distribuição e ou uso de tal material (ECPAT,

2002).

  A pornografia infantil, geralmente, está associada à pedofilia no senso comum, contudo existem diferenças entre as pessoas abusadoras sexualmente de crianças e aquelas consideradas pedófilas, das pessoas que são exploradores ocasionais e das pessoas que agenciam a pornografia infantil (que podem ou não ser pedófilas) e, geralmente, são investidoras de um negócio ilegal gerador de muito lucro.

  Os pedófilos são aqueles que preferem fazer sexo com meninas e meninos pré-púberes e seu comportamento segue um padrão praticamente definido. Regularmente, eles obtêm material pornográfico envolvendo crianças e são colecionadores de fotos, vídeos e outros meios de gravar a imagem daquelas com quem tem contato, com o objetivo de “congelar” sua

  18

  idade . A pedofilia é tratada como uma categoria dos transtornos psiquiátricos, devendo o diagnóstico diferencial ser definido por profissional qualificado na área médica. Nem todas as pessoas que cometem abuso sexual contra crianças e adolescentes podem ser consideradas pedófilas, pois a maioria delas não segue os padrões definidos para a categoria nosológica de pedofilia.

  Os exploradores ocasionais são aquelas pessoas que não se importam se o seu parceiro sexual é ou não criança. Em alguns casos, a demanda por menores de idade para o sexo está 18 baseada na crença de que eles têm menos chance de ter muitos parceiros e, portanto, têm

  

WORLD CONGRESS against sexual exploitation of children. Fact Sheets. Estocolmo, 1996b. Mimeo. Disponível no endereço http://www.childhub.ch/webpub/csechome/. menos chance de transmitir infecções. Em alguns locais, existem mitos de que fazer sexo com uma criança pode curar doenças, rejuvenescer ou até melhorar o trabalho. Algumas pessoas fazem sexo sem perguntar a idade do parceiro, e podem ser pessoas que, em circunstâncias normais, não se relacionariam com crianças, mas o faz em detrimento de uma situação excepcional, como um feriado num local exótico, estar alcoolizado ou sob o efeito de substâncias psicoativas.

  Segundo Landini (2000), a pornografia infantil serve a vários objetivos, tanto para pedófilos, como para molestadores de crianças. Os molestadores preferenciais de crianças, muitas vezes, possuem grandes coleções de pornografia infantil, que são meticulosamente catalogadas e cuidadosamente guardadas. Entretanto, eles não são os únicos a produzir ou consumir pornografia infantil. Um segmento ainda maior da população está interessado na pornografia que mostra adolescentes. Além disso, com a emergência do uso de computadores, para traficar pornografia infantil, um novo e crescente segmento de produtores e consumidores está sendo identificado: são os indivíduos que podem não ter uma preferência sexual por crianças, mas que já conhecem a pornografia adulta e estão à procura de um material mais bizarro ou novo.

CAPÍTULO – III POLÍTICAS PÚBLICAS, REDES SOCIAIS E O SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL

  ... Faro do planeta e do firmamento, Bússola enamorada da eternidade, Um sentimento lancinante de horizontes, um poder de abraçar, de envolver as coisas sofredoras, e levá-las no ombros, como os anhos e as cruzes. E somos um bando sonâmbulo, Passeando com felicidade

  Por lugares sem sol nem lua. Compromisso – Cecília Meirelles Neste capítulo, serão abordados os desafios existentes na estruturação das redes sociais e das políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, como integrantes das políticas de assistência social, em uma interface permanente com as demais políticas. Para tanto, será definido primeiramente, o que vem a ser política baseada nos princípios estabelecidos por Hanna Arendt. Para isso, passar-se-á rapidamente pelo conceito de ideologia segundo Zizek e, posteriormente, serão estabelecidos os principais conceitos de redes sociais, baseando-se em Whitaker, Castells, Brandt e Tschiedel.

  3.1 - Conversando sobre a relação entre Política, Estado e Ideologia

  As definições de política, na nossa língua portuguesa, são as seguintes:

  1. Ciência dos fenômenos do Estado; ciência política;

  2. Sistema de regras respeitantes à direção dos negócios políticos;

  3. Arte de bem governar os povos;

  4. Conjunto de objetivos que foram determinados pelo programa de ação

  governamental e condicionam a sua execução;

  5. Princípio doutrinário que caracteriza a estrutura constitucional do Estado;

  6. Posição ideológica a respeito dos fins do Estado; [...]

  7. Habilidades no trato das relações humanas, com vistas à obtenção dos resultados

  desejados;

  8. Civilidade, cortesia; 9. Astúcia, ardil, artifício, esperteza [...].

  (Ferreira, 2000:543)

  Dentre as definições de Ferreira, será destacada aquela que entende política como uma

  

posição ideológica a respeito dos fins do Estado. A razão dessa escolha é a crença de que

  qualquer conceituação sobre política sempre será atravessada pela idéia do que é a vida em comunidade e o que se pensa sobre a relação entre o governo e a vida do cidadão.

  Associando livremente é possível pensar que o conjunto de idéias articuladas sobre a vida em comunidade leva ao conceito de Estado, pois é o Estado que modernamente assume a função de mediar a vida dos cidadãos. Entretanto, há várias maneiras de se pensar esse papel político do Estado.

  Hanna Arendt recupera a origem do Estado democrático tendo por base o conceito de Aristóteles sobre a polis,no qual se pensava o político como sinônimo de liberdade. É possível ver o quanto a política se desvirtuou do seu verdadeiro sentido, pois considerando o fato da

  

pluralidade dos homens, ela [a política] deve, portanto, organizar e regular o convívio de

diferentes, não de iguais . (Arendt, 2007).

  Associando um pouco mais, pergunta-se sobre as ideologias que sustentam as opiniões e a manutenção do formato de Estado que se tem atualmente. Para tanto, parte-se do pressuposto que a ideologia nada tem a ver com “ilusão”, com uma representação

  

equivocada e distorcida do seu conteúdo social (Zizek, 1996, pg. 12). A visão de ideologia

  adotada neste trabalho é aquela que, mesmo apresentando um discurso verdadeiro de dizer o conteúdo dos fatos em si, ainda assim, esconde seu principal conteúdo, ou seja, a relação de dominação social (poder, exploração) de forma não transparente. Assim Zizek nos diz:

  O ponto de partida da crítica da ideologia tem que ser o pleno reconhecimento do fato de que é muito fácil “mentir sob o disfarce de verdade”. Quando, por exemplo, uma potência ocidental intervém num país do Terceiro Mundo em decorrência de violações dos direitos humanos mais elementares não têm sido respeitados, e que a intervenção ocidental irá efetivamente melhorar o quadro desses direitos. Mesmo assim essa legitimação é “ideológica”, na medida em que deixa de mencionar os verdadeiros motivos da intervenção (interesses econômicos etc). O modo mais destacado dessa “mentira sob o disfarce de verdade”, nos dias atuais, é o cinismo: com desconcertante fraqueza, “admite-se tudo”, mas em pleno reconhecimento de nossos interesses não nos impede, de maneira alguma, de persegui-los; a fórmula do cinismo já não é o clássico enunciado marxista do “eles não sabem, mas é o que estão fazendo”; agora é “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas fazem assim mesmo”.

  

(Zizek, 1996:14) Ainda segundo Zizek, a ideologia é um conjunto de idéias que sustentam as ações independentemente de termos ou não consciência delas. Entretanto, para que a ideologia seja eficaz em manter o sistema tal como é a lógica de legitimação da relação de dominação tem que permanecer oculta.

  É introduzido o tema da ideologia somente para ilustrar a seqüência de deslocamentos que o tema política leva a fazer, todavia não se discorrerá mais sobre o tema, visto que este capítulo pretende definir, minimamente, o termo, a fim de ajudar a sustentar a idéia das políticas públicas e, nesse sentido, faremos um recorte de um extrato da política pública de proteção especial, que cuida especificamente de crianças e adolescentes vulneráveis e ou em situação de violência doméstica e sexual.

  Para tanto, retomemos a concepção de Arendt de que a política faz parte da condição humana e surge não no homem, mas sim entre os homens e que a liberdade e a

  

espontaneidade dos diferentes homens são pressupostos necessários para o surgimento de um

espaço entre homens (Arendt, 1996, p 16).

  Com isso, a autora considera que as guerras e as revoluções marcaram a política do século passado. Assim, o funcionar dos governos e sua prioridade, que deveria ser o de mediar às relações comunitárias, ficaram em segundo plano. Por isso, todo e qualquer regime totalitário tende a restringir a liberdade e espontaneidade dos homens. Assim, todo regime ou ideologia que trabalha dessa forma acaba por desvirtuar o verdadeiro sentido da política, que é a promoção da liberdade e a regulação do convívio dos diferentes. A autora acredita que:

  A desgraça da política no século XX não reside no fato de que surgiram terríveis regimes totalitários que apagaram a liberdade como característica essencial do político, mas sim no fato de que seu surgimento levou também os sistemas políticos, que pretendem ser liberais, a correrem o perigo de ser infectados pelo bacilo totalitário. “Se um princípio de tamanha envergadura... chega ao mundo, é quase impossível limitá-lo (Arendt, 1996, p 10).

  Dessa forma, toda ideologia que restringe a liberdade e reprime a espontaneidade humana somadas às corrupções nas estruturas de poder sustentadas por mecanismos violentos, coercitivos e transgressivos, também constituem ameaças permanentes para a política dos sistemas que se pretendem liberais.

  Para se afastar de um pessimismo paralisante, que não é, em nenhuma medida, a intenção da Arendt, é oportuno lembrar que a filósofa apresenta muita esperança ao pensar sobre o futuro da política. Ela acredita que o homem é dotado do dom de fazer milagres, ou seja, entende que é possível agir e impor um novo começo para a política, fazendo com que ela recupere seus primeiros ideais pensados na Grécia (na era Socrática), pois o milagre da

  

liberdade está contido nesse poder começar que, por seu lado, está contido no fato de que

cada homem é em si um novo começo (Arendt, 1996, p 21), já que, por meio do nascimento,

  todo homem veio a habitar um mundo que já existia antes dele e que continuará existindo

  

depois dele . (Arendt, 1996, p 22) É nesse sentido que esse capítulo apresentará como a

  estrutura política foi moldada para responder às questões da infância. Pretende-se estabelecer uma reflexão entre os mecanismos que oprimem a expressão humana e aqueles que realmente tendem a libertar a expressão da criatividade e liberdade em nosso país. Nesse sentido, as ações políticas e ideológicas fazem parte da organização e do funcionamento da sociedade. Assim, faz-se necessário, nessa pesquisa, articular o tema das políticas públicas com o tema das redes sociais.

  3.2 - Conversando sobre a relação entre Políticas Públicas e Redes Sociais

  Diversos estudiosos do campo das políticas públicas no Brasil apontam o caráter piramidal, verticalizado e hierarquizado da estruturação das políticas em nosso país, neste caso específico, das políticas para a infância com foco no atendimento integral às situações de violência doméstica e sexual. Não faremos uma recuperação histórica dessa constituição, mas não podemos deixar de assinalar a herança autoritária, assistencialista e fragmentária dessas políticas. Essa visão conservadora se contrapõe à lógica atual de constituição das políticas públicas no Brasil, a qual deve inserir-se de acordo com os pressupostos da universalização, integralidade, equidade e igualdade.

  No caso específico das políticas de atenção à infância, consideramos os pressupostos filosóficos do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90), que orienta a estruturação de serviços com base em um conjunto contínuo e integrado de ações e equipamentos para a promoção, prevenção e proteção, contemplando a atenção integral para crianças, adolescentes e famílias.

  As políticas públicas nascem como resultado das necessidades e demandas da população e devem assegurar direitos e deveres do coletivo, através de ações que sejam permanentes, independentes dos interesses corporativos de categorias, partidos e setores econômicos.

  O público usuário das políticas públicas constitui-se de todo o cidadão que dela necessitar, ou seja, o seu acesso é universal e o seu poder é partilhado por todos, não sendo restrito ao Estado. Dessa forma, as políticas públicas reúnem as escolhas da sociedade, transformadas em atos públicos realizados pelo Estado.

  Segundo Gonçalves (2003), a proposta da psicologia social para a construção de políticas públicas, deverá orientar:

  a direção do indivíduo que tem projetos coletivos e que insere o seu . Para isso, projeto de felicidade individual na felicidade coletiva recupera a noção da historicidade do homem e reafirma o sujeito como histórico... Assim, a atuação em políticas públicas deve ter essa direção: resgatar o homem de seus medos, de sua introjeção, torná-lo saudável, em condições de participar da transformação da realidade que o oprime. A crítica constante de nossa prática e dos referenciais que utilizamos deve ser feita se queremos caminhar nessa direção.

  

(Gonçalves apud Bock, 2003, p 293).

  No entanto, para Yamamoto (2003) as prioridades das políticas sociais são definidas através das políticas setorizadas.Essa forma de definição traduz-se nos conflitos entre os

  

interesses, que se fazem presentes nas formações capitalistas e que se traduzem na oposição

entre os interesses de acumulação do capital e os interesses dos cidadãos. (Yamamoto, apud

  Bock, 2003, p 43).

  A desconstrução desta forma de funcionamento é um grande desafio, só possível por meio do estabelecimento de uma nova lógica de funcionamento, cujo princípio é a horizontalidade das ações, as quais deverão ser compartilhadas em rede.

  Para ajudar a compreensão sobre as políticas públicas e o funcionamento das redes, recorremos a Castells (2000), que as define como:

  [...] um tipo de organização específica que possui aspectos formais, arquitetura reticular, funcionamento horizontal e democrático. Elas constituem uma nova morfologia social, a sua lógica modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência do poder oculto (Castells, 2000:420)

  Com base nessa definição de Castells, observa-se que as redes são um tipo de organização específica, que provocam uma nova dinâmica nos sistemas em que elas operam. O funcionamento das redes prescindem de interconexão, participação, cooperação e vínculo entre os seus interlocutores.

  Carvalho Brandt (1999) ressalta que as redes têm um movimento permanente e mutável, já que elas se tecem ou se dissolvem continuamente em todos os campos da vida societária. Refere, ainda, que elas compõem nossa vida cotidiana, como nas relações de parentesco, nas relações de vizinhança, nas relações comunitárias, no mundo dos negócios e na vida pública (Brandt, 1999). Assim, infere-se que a existência de múltiplas redes explica a diversidade das necessidades humanas e sociais, contribuindo efetivamente com os processos de mudanças no campo das políticas públicas e sociais.

  Dessa forma, as redes são organizações específicas, com aspectos processuais fundados na multiplicidade de elementos, os quais estão interligados pela horizontalidade, sendo que os elos que unem seus elementos são o resultado de uma pactuação voluntária e não compulsória. Elas se interrompem nos pontos de inimizade, o que se pode chamar de nós ou de incompatibilidade. A adesão voluntária às redes são pressupostos importantes em seu funcionamento, porque provocam as interconexões que as mantém vivas.

  As redes não são invenções abstratas, mas partem da articulação de atores, organizações – forças existentes no território para uma ação conjunta multidimensional com responsabilidade compartilhada (parcerias) e negociada. (Faleiros, 2001:26) O entrelaçamento das redes alinhado às políticas públicas abre possibilidades para o desenvolvimento de ações que contemplem a escuta, o acolhimento e o cuidado da criança, do adolescente e de sua família em situação de violência doméstica e sexual. Quando isso acontece, os diferentes setores começam a estabelecer sintonia e complementaridade no acompanhamento de cada situação, em particular, compartilhando saberes e poderes.

  Com base nas observações descritas no parágrafo anterior e respaldadas nas posições teóricas sobre redes de Whitaker (2004), infere-se que uma estrutura em rede é uma alternativa à estrutura piramidal, correspondendo ao que o seu próprio nome indica:

  (...) Seus integrantes se ligam horizontalmente a todos os demais, diretamente ou através dos que o cercam. O conjunto resultante é como uma malha de múltiplos fios, que pode se espalhar indefinidamente para todos os lados, sem que nenhum dos nós possa ser considerado principal ou central, nem representante dos demais.

  (Whitaker, 2004, p3).

  Seguindo a mesma linha da definição anterior, Tschiedel (2006) esclarece que as redes são mais flexíveis do que os sistemas, mais históricas do que a noção de estrutura e mais empíricas do que a noção de complexidade. Respaldada nessa visão, a autora estabeleceu uma ponte entre as redes e as políticas públicas, referindo que essas são formuladas para funcionar em redes, porém o processo histórico das políticas formuladas por um modelo piramidal dificulta o seu funcionamento na horizontalidade. Assim, ressalta que as redes - na esfera macro - são assépticas e estão vinculadas às forças hegemônicas, as quais exercem controle para a manutenção do que está instituído. Na esfera micro ou molecular, as redes aludem às forças institucionais dos pequenos movimentos, nas pequenas esferas de convivência. Nesse sentido, conclui-se que as redes são o que os encontros entre as pessoas

  

podem produzir (Tschiedel, 2006, p12). Assim, as relações nelas traçadas estão ligadas ao

  ambiente em que se vive e a seus vários contextos. A rede social é a junção de todas as relações que o sujeito entende como essenciais para ele, sendo que ela também constitui o próprio sujeito.

  Dessa forma, compreende-se que para se trabalhar com a concepção de redes sociais é necessário que se reconstrua a maneira de compreender e de intervir no mundo em que se vive, considerando que tudo, de alguma forma, relaciona-se de múltiplas maneiras, ou seja, desde o tratamento do indivíduo para com a natureza, assim como os vínculos humanos subsistem em rede.

  A subsistência das redes, em todos os campos de relações, realça de forma mais visível o percurso das políticas públicas para a infância e adolescência. Essas políticas estão atreladas aos movimentos sociais, à estruturação do Sistema Único de Saúde - SUS e, atualmente, inserida no Sistema Único da Assistência Social – SUAS, do qual se falará especificamente no item seguinte.

  A partir da dinâmica ágil e da flexibilidade advinda do funcionamento em rede, a gestão das políticas públicas passa a introduzir a articulação, a negociação e a complementaridade como pressupostos fundamentais em sua execução.

  Dessa forma, a ação pública e os diversos sujeitos do fazer social ganham visibilidade. O Estado é central no fazer público, ele tem um poder regulador central e toda ação pública precisa de sua regulação. De acordo com esse modelo, a Sociedade Civil e a iniciativa privada são co-responsáveis pelo bem comum, possuem deveres e direitos que operam na defesa ou prestação de serviços sociais com caráter público, porém não estatal. Sendo, também, responsáveis pelo controle social, juntamente com os conselhos e a comunidade.

  Segundo Carvalho Brandt & Guará (1997), a dinâmica de funcionamento das redes sociais favoreceu a interlocução com as políticas públicas, estabelecendo novos padrões de funcionamento e de controle social, conforme segue:

  Relações descentradas e horizontais substituíram as tradicionais

  • relações centralizadas e hierarquias rígidas; Negociação e participação de todos pelo prisma da
  • multisetorialidade e interdisciplinaridade, substituindo os tradicionais recortes setoriais e especializações estanques; Ações públicas fortemente conectadas com o conjunto de sujeitos,
  • organizações e serviços da cidade (Carvalho Brandt & Guará, 1997:3).

  A descentralização e a municipalização das políticas facilitam a ação articulada entre as esferas de governo, entre as políticas e os programas públicos, estatais ou não, ao mesmo tempo em que reivindicam, do governo central, o papel assegurador da unidade e da

  As redes setoriais públicas são aquelas que prestam serviços de natureza específica e especializada, resultantes das obrigações e dos deveres do Estado para com seus cidadãos. As redes abrangem serviços e programas consagrados pelas políticas públicas setoriais – educação, saúde, habitação, segurança etc. Essas redes, infelizmente, ainda apresentam uma organização burocrática e pouco eficaz para responder aos problemas e às necessidades específicas de sua área de competência. Para superar as dificuldades na hierarquização das políticas públicas são neessáriasredes ágeis, que estruturem políticas com ênfase nas ações locais e transetoriais.

  A intersetorialidade entre as diferentes áreas do governo é imprescindível para o atendimento integral de crianças e adolescente, como prevê o ECA, respeitando a particularidade de todos os sujeitos envolvidos. Assim, a intersetorialidade exige cooperação, descentralização e autonomia gerencial para que as ações de base aconteçam, facilitando, com isso, a chegada dos recursos aos usuários, evitando que se percam nos fluxos burocráticos e administrativos, os quais geralmente retardam as ações programadas.

  Nesse sentido, trabalhar em uma perspectiva de rede implica pensar em totalidade e não em fragmentação. Compreendendo que as redes são processos dinâmicosnos quais se cruzam as organizações do estado e da sociedade, elas devem funcionar por meio de contratos dinâmicos, em movimento e conflito, a fim de realizar objetivos em que cada parte potencializa recursos, para juntos se tornarem mais eficientes. Carvalho Brandt (1997) refere que as redes devem conter:

  complementaridade – as instituições atendem parte das

  • necessidades de uma pessoa, necessitando da complementaridade de ações realizadas por outras instituições;

  colaboração – é preciso cuidar para que não ocorram

  • paralelismos e sobreposições de ações, bem como lacunas no atendimento. A colaboração implica apoio mútuo, divisão de

    trabalho e responsabilidades;

  articulação / integração – é fundamental que os envolvidos

  • assumam a co-responsabilidade por um plano comum, definindo conjuntamente os objetivos e os resultados desejados. Assim, o encaminhamento dentro da rede é visto como a inclusão do parceiro na responsabilidade pela execução de um plano de ação

    compartilhado . (Brandt, 1997)

Esses pressupostos consistem em desafios para a realização do trabalho em rede, o qual é a base para a garantia do atendimento integral às crianças, aos adolescentes e às famílias, sendo um dos pilares de sustentação das políticas públicas.

  Nesse sentido, pressupõe-se que a política pública da infância e adolescência não se restringe ao atendimento direto e imediato, requerendo, também, a implementação de uma rede de apoio, capaz de abarcar suas complexidades e o exercício da cidadania.

  O Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei 8069/90, no que se refere ao processo de municipalização das políticas, traz como exigência a organização dos sistemas locais de proteção à infância e adolescência e remete à participação da sociedade civil de forma paritária com o poder governamental, por meio de novas instâncias, tais como: CONANDA, Conselhos Estaduais e Municipais de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, as quais devem trabalhar articuladamente em rede e articuladas com todos os serviços e com as entidades que prestam atendimento e assistência às crianças e aos adolescentes.

  19 3.3 - Políticas Públicas e o Sistema Único da Assistência Social – (SUAS)

  A política social é um modo de política pública que indica as ações do Estado em um local com determinadas demandas, por meio de metas, regras e preceitos presentes e inclusivos.

  No Brasil, a Constituição Federal de 1988 garantiu o Sistema de Seguridade Social, respaldado no tripé saúde, previdência e assistência social. Esse sistema deve ser custeado pelo Estado, por meio dos encargos trabalhistas e de empregadores, de concursos de loterias e, também, com a contribuição dos governos federal, estadual e municipal. Nesse sistema, mesmo que o cidadão não contribua, o Estado tem a obrigação de ampará-lo, diferentemente do sistema anterior.

  Os anos seguintes à Constituição Federal foram de muita luta para regularizar os direitos já assegurados por essa lei. Na área da criança e do adolescente não foi diferente, nota-se que a participação da sociedade tem sido muito importante para a efetivação destas políticas.

  Os pressupostos das políticas públicas estabelecidas a partir da Constituição de 1988 consistem no repasse de recursos do Governo Federal para os estados e municípios, sendo o município o responsável pela execução das políticas. A administração dessas políticas deve acontecer através de uma relação dinâmica entre a sociedade, o governo e os movimentos sociais representativos em seus diferentes segmentos, priorizando - dessa forma - a descentralização e os sistemas locais.

  A tendência atual das políticas é de co-responsabilização no processo de implementação de decisão e resposta às necessidades sociais. Assim, pressupõe-se que haja articulação e complementaridade entre as esferas de governo, o que demanda uma gestão em rede intersetorial e a flexibilização dos serviços e programas.

  A sociedade civil organizada se destaca na proposição, execução e no controle social das políticas para a infância. Por meio dos Conselhos Nacional, Estadual e Municipal de direitos da criança e do adolescente, a sociedade civil garante a sua participação paritária nesse espaço institucionalizado, contribuindo na gestão intersetorial das políticas para a infância. Essa política ocupa um papel transversal em relação às políticas públicas. No caso particular das políticas de atenção às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, têm-se o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil - PETI e o Programa Sentinela, que atualmente estão sendo incorporados à estrutura dos Centros Especializados da Assistência Social (CREAS).

  Os programas e ações relativos ao enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes localizam-se de forma horizontal nas políticas públicas, uma vez que as ações pertinentes a esse tema têm interfaces com as políticas públicas setoriais de saúde, educação, assistência social e com o sistema de justiça. É a partir da organização da rede de atenção integral a crianças e adolescentes expostos a situações de violência doméstica e sexual que o atendimento especializado se estrutura.

  Dessa forma, a idéia de gestão intersetorial passa pela compreensão surgida na década autoritário por excelência, e pela institucionalidade de espaços nos quais a sociedade civil organizada tem assento, delibera e discute temas específicos. (Oliveira e Sousa, 2007:25).

  3.4 - Estrutura do Sistema Único de Assistência Social – SUAS

  O Sistema Único de Assistência Social - SUAS surgiu inspirado na política de Saúde, estabelecida a partir do Sistema Único de Saúde - SUS. A Constituição Cidadã de 1988 possibilitou a fundamentação e a estruturação das políticas públicas com uma nova concepção para a assistência social brasileira. Essa se inclui no âmbito da Seguridade Social, regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) em dezembro de 1993, como política social pública. A partir desse momento, a assistência social inicia seu trânsito para um campo novo: o campo dos direitos, da universalização dos acessos e da responsabilidade estatal.

  O SUAS constituiu-se como um sistema formado pelo conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios no âmbito da assistência social, prestados diretamente – ou através de convênios com organizações sem fins lucrativos – por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo poder público.

  A inserção dessa política na Seguridade Social assegura o seu caráter de política de Proteção Social articulada a outras políticas do campo social voltadas à garantia de direitos e de condições dignas de vida. Desse modo, a assistência social se configura como possibilidade de reconhecimento público da legitimidade das demandas de seus usuários e espaço de ampliação de seu protagonismo.

  A política de Assistência Social é um espaço para a defesa e atenção dos interesses e das necessidades sociais, particularmente, das famílias, dos seus membros e indivíduos mais empobrecidos e excluídos da sociedade. Ela é considerada como instrumento fundamental para o enfrentamento da discriminação e da subalternidade econômica, cultural e política em que vive grande parte da população brasileira.

  Dessa forma, cabe à Assistência Social as ações de prevenção, proteção, promoção e inserção, bem como o provimento de um conjunto de garantias ou seguranças que cubram, reduzam ou previnam exclusões, riscos e vulnerabilidades sociais. Essas garantias se efetivam pela construção de uma rede de proteção social básica e ou, especial, ou seja, por um conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios, na perspectiva de inclusão social e de atendimento às necessidades da população em situação de vulnerabilidade.

  Sabe-se que são diversos os fatores que configuram a vulnerabilidade, eventos e o risco social ou pessoal. Assim, para a formulação de ações da política de assistência social, faz-se necessário compreender a distinção entre vulnerabilidade, riscos e eventos.

  20 Por vulnerabilidade - conforme NOB/99 - entende-se a condição “desfavorável”

  dada. É a condição objetiva da situação de exclusão e que aumenta a probabilidade de um evento ocorrer. Desse modo o que a identifica são processos sociais e situações que produzem fragilidade, discriminação, desvantagem e exclusão social, econômica e cultural.

  Entende-se por prevenção, conforme NOB/99, a criação de apoios nas situações circunstanciais de vulnerabilidade, evitando que o cidadão resvale do patamar de renda alcançado ou perca o acesso que já possui aos bens e serviços mantendo-o incluído no sistema social a despeito de estar acima da linha de pobreza e ou atendido pelas políticas socioeconômicas setoriais. Assim, evita-se que as pessoas percam o acesso aos direitos sociais.

  Compreende-se por proteção, conforme NOB/99, a atenção às populações excluídas e vulneráveis socialmente, operacionalizada por meios de ações de redistribuição de renda direta e indireta e pelos serviços que integram a rede de proteção social básica e especial.

  Define-se promoção, conforme NOB/99, a função de viabilizar o exercício da cidadania, eliminando relações clientelistas que não se pautam por direitos e que submetem, fragmentam e desorganizam os destinatários da assistência social. Busca-se, com essa atuação, fomentar o protagonismo, a autonomia e a emancipação.

  No entanto, a inserção é compreendida, conforme NOB/99, a forma de inclusão dos destinatários da assistência social nas políticas sociais básicas, propiciando-lhes o acesso a bens, serviços e direitos usufruídos pelos demais segmentos da população.

  As vulnerabilidades são, em geral, o objeto de políticas ao nível “macro”, cujos efeitos se manifestam como “distribuição de probabilidades” para as populações afetadas. Desse modo, segundo Sposati (2004), é possível compreender que as vulnerabilidades constituem o contexto da ação da assistência social, no sentido da prevenção, proteção básica, promoção e inserção social, cujos efeitos definem, de maneira geral, o seu público. Ainda são elas: condições de vulnerabilidade próprias do ciclo de vida, que ocorrem, predominantemente, em crianças, adolescentes, jovens e idosos e, também as condições de desvantagem pessoal resultante de deficiências.

  Por situações de risco, entende-se a dimensão subjetiva na qual os indivíduos contrabalançam as condições de vulnerabilidade e as suas possibilidades e capacidades de enfrentá-las (Sposati, 2004:15). Diante de uma mesma situação objetiva de vulnerabilidade, os indivíduos, grupos e coletividades correm maior ou menor risco diante de suas capacidades subjetivas de agir.

  Nessas condições, a população está sujeita à violação de direitos pela negligência, violência, abandono e outras formas, o que exige ações de prevenção, proteção especial, promoção e inserção social. Desse modo, são situações circunstanciais, conjunturais como: maus-tratos, abuso e exploração sexual, trabalho infanto-juvenil, pessoas em situação de rua, migrantes, dependentes de substâncias psicoativas, vítimas de abandono e desagregação familiar, adolescentes em conflito com a lei.

  Para minimizar as vulnerabilidades sociais, as ações em redes aparecem como uma alternativa de organização das pessoas e tendem a se tornar um instrumento de transformação social que viabiliza a execução de projetos e ações conjuntas (Cunha, 2004:19).

  Assim, cabe à política de assistência social ampliar a proteção básica e especial, além da segurança das condições de vida das pessoas, através das dimensões complementares presentes nos padrões básicos dos mínimos sociais.

  Dessa forma, proteção social básica e especial é política pública da maior importância, como garantia permanente de vida digna e inclusão social. Esse é o propósito de todas as políticas públicas no projeto de Estado Social de Direito.

  É particularmente propósito da política de Assistência Social prover serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e ou especial para as famílias, indivíduos e grupos que estão fora dos canais de proteção pública.

  Na conjuntura atual, o público usuário da política de Assistência Social se constitui preferencialmente de cidadãos e grupos que estão fora dos mecanismos e sistemas de segurança social, obtidos pela via do trabalho, do usufruto das políticas públicas (saúde, educação, cultura, habitação, saneamento, esporte, entre outras) e da inserção em sociabilidade sócio-familiares.

  A centralidade dessa política se configura nas situações de vulnerabilidade e riscos, tais como: inserção social e familiar com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos de vida; identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; condições de desvantagem pessoal resultante de deficiências; exclusão pela pobreza e ou no acesso às políticas públicas e ou sociais; uso de substâncias psicoativas; sujeição a diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos, indivíduos, instituições, entre outras; inserção - precária ou não no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social.

  A reestruturação da política de assistência social está em consonância com os princípios da LOAS, que são: supremacia do atendimento, universalização de direitos sociais, respeito à dignidade do cidadão, igualdade de direitos no acesso ao atendimento, além da divulgação ampla dos benefícios, serviços, programas e projetos assistenciais que seguem os seguintes princípios:

  I. participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis;

  II. primazia da responsabilidade do Estado na condução da política de assistência social em cada esfera de governo;

  III. centralidade na família para concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos.

  Foi a partir da IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Dezembro de 2003, em Brasília-DF, que se apontou como principal deliberação a construção e implementação do Sistema Único da Assistência Social – SUAS.

  Assim, o SUAS se constituiu como uma política de assistência social, afiançadora de direitos, através de uma estrutura político-administrativa descentralizada quanto ao desenho do papel, da escala territorial, da organização dos serviços sócio-assistenciais e de seu respectivo co-financiamento.

  Esse sistema é formado por um conjunto de partes coordenadas entre si, por leis e princípios comuns, que regulam os direitos sociais básicos e especiais. Para a sua formalização, foi necessária a consolidação de um pacto federativo entre as esferas de governo e definições de competências.

  3.5 - Princípios e Diretrizes do SUAS

  Universalização do sistema através da fixação de níveis básicos de cobertura dos benefícios, serviços e ações de assistência social para o território nacional.

  Territorialização da rede de assistência social sob os critérios de oferta capilar de serviços baseada na lógica da proximidade do cidadão; localização dos serviços nos territórios com maior incidência de vulnerabilidades e riscos sociais para a população; garantia do comando único por instância de gestão.

  • Descentralização político-administrativa de modo a garantir a municipalização e o comando único em cada esfera de governo;
  • Gradualismo na implantação do SUAS, respeitando as diferenças regionais, locais e de organização de gestão dos municípios;

  • Padronização dos serviços de assistência social em sua nomenclatura, conteúdo, padrão de funcionamento para todo o território nacional.
  • Regulação da dinâmica do SUAS socialmente orientada pela ação pública, pela valorização do impacto social das diversas políticas estruturais e pelo desenvolvimento social sustentável, territorialmente adequado e democraticamente construído e na definição de competências específicas de cada esfera governamental.
  • Organização do SUAS através da integração de objetivos, ações, serviços, benefícios, programas e projetos em rede hierarquizada, baseada no princípio da completude em rede e incompletude individual dos serviços.
  • Garantia da proteção social, isto é, que não submeta o usuário ao princípio da tutela, mas à conquista de condições de autonomia, resiliência, sustentabilidade, protagonismo, acesso a oportunidades, capacitações, acessos a serviços, acessos a benefícios, acesso a condições de convívio e socialização, de acordo com sua capacidade, dignidade e projeto pessoal e social.
  • Substituição do paradigma assistencialista apartador de cidadãos à condição de

  “categorias de necessitados” pelo paradigma de proteção social, básica e especial, organizada sob sistema único, descentralizado e participativo de âmbito nacional com comando único por esfera de gestão.

  • Articulação institucional de ações e competências com demais sistemas de defesa dos direitos humanos em específico aqueles em defesa de direitos de crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, mulheres, minorias e de proteção às vítimas de exploração e violência social, sexual, familiar e adolescentes ameaçados de morte.
  • Articulação institucional de ações e competências com o sistema único de saúde, com destaque para a integração dos serviços complementares destinados aos cidadãos em risco pessoal, vítimas de drogadição, violência, deficiência, problemas de saúde mental e abandono, em qualquer momento do ciclo da vida, associado à vulnerabilidade pessoal, familiar e ausência de autonomia.

  • Articulação institucional de ações e competências com o sistema de justiça para garantir proteção especial a crianças e adolescentes nas ruas, em abandono, com deficiência; sob decisão judicial de apartação de pais e parentes, por ausência de condições familiares de guarda; aplicação de medidas sócio-educativas em meio aberto para adolescentes.
  • Articulação institucional com o sistema de justiça para a aplicação da pena alternativa de prestação de serviços à comunidade para adultos.
  • Unidade entre as três esferas de governo do reconhecimento governamental das organizações de assistência social e de sua inscrição nos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais de Assistência Social.
  • Disponibilização de sistema de informação sobre o funcionamento dos serviços e operações da área como direito a ser assegurado.

  3.6 - Serviço de Proteção Social Básica

  A proteção social básicas deve ser ofertada nos municípios de pequeno e médio e grande portes têm caráter preventivo e processador de inclusão social, acontece nos CRAS e destina-se a segmentos da população que vive em condições de vulnerabilidade social decorrentes da pobreza, privação, fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social. Esses serviços objetivam processar a inclusão de grupos em situação de risco social nas políticas públicas, no mundo do trabalho e na vida comunitária e societária.

  Essa proteção inclui a oferta de serviços de fortalecimento dos vínculos familiares, de fortalecimento da convivência comunitária, de desenvolvimento do sentido de pertencimento às redes micro territoriais, de serviços de referência para escuta, informação, apoio psicossocial, defesa, encaminhamentos monitorados, de inclusão nos serviços das demais políticas públicas e de desenvolvimento de competências e oportunidades de inclusão no mundo de trabalho e renda.

  3.7 - Serviço de Proteção Social Especial

  A proteção social especial deve ser ofertada nos municípios de médio e grande portes e acontece nos Centro de Referência Especial em Assistência Social (CREAS), que oferecem modalidade de atenção assistencial destinada a indivíduos que se encontram em situação de alta vulnerabilidade pessoal e social (crianças, adolescentes, jovens, idosos, portadores de deficiência nas várias situações caracterizadas como risco pessoal: ocorrência de abandono, vítimas de maus tratos físicos e/ou psíquicos, abuso sexual, usuários de drogas, adolescentes em conflito com a lei, moradores de rua). Essas são vulnerabilidades decorrentes do abandono, privação, perda de vínculos, exploração, violência, delinqüência etc.

  Por isso, a proteção especial oferta serviços de abrigamento de longa ou curta duração e serviços de acolhimento e atenção psicossociais especializados e destinados a criar vínculos de pertencimento e possibilidades de reinserção social.

  O abrigamento é oferecido em várias modalidades com o objetivo de atender diferentes grupos etários (criança, adulto, idoso, etc.) e situações com demandas distintas.

  Os serviços de proteção especial têm estreita interface com o sistema de justiça, exigindo,muitas vezes, uma gestão mais complexa e compartilhada com o poder judiciário e com outras ações do executivo.

  Essa política também prevê benefícios monetários em caráter de prestação continuada para idosos e pessoas portadoras de deficiência, incapacitadas para prover sua própria subsistência ou tê-la provida por sua família e outras situações de vulnerabilidade. Ainda, promove programas assistenciais que compreendem ações integradas e complementares com objetivos de qualificar, incentivar e melhorar os benefícios e os serviços assistenciais.

  Os projetos de enfrentamento da pobreza também recebem cobertura dessa política e compreendem a instituição de investimento econômico-social nos grupos populares, buscando subsidiar, financeira e tecnicamente, iniciativas que lhes garantam meios, elevação da qualidade de vida, contando com a participação das diferentes áreas governamentais, em sistema de cooperação com os organismos não-governamentais e com a sociedade civil.

  3.8 - Matricialidade Sócio – Familiar

  A Matricialidade Sócio- Familiar é um aspecto central da atual política de assistência social, a qual consiste na resignificação das formas de composição das famílias e no seu papel frente às novas configurações e demandas. Assim, ela reconhece as fortes pressões que os processos de exclusão sócio-cultural geram sobre as famílias brasileiras, acentuando suas fragilidades e contradições.

  Dessa forma, essa matricialidade estabeleceu a sua centralidade no âmbito das ações da política de assistência social, considerando que a família é o espaço privilegiado e insubstituível de proteção e socialização primárias, provedora de cuidados aos seus membros, mas que precisa também ser cuidada e protegida.

  Essa visão sobre a família está condizente com as concepções explicitadas na Constituição Federal de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Lei Orgânica de Assistência Social e no Estatuto do Idoso, os quais concebem a família na condição de sujeito de direitos.

  A família está para além dos formatos ou modelos que assume independente de padrões. Ela é o locus por excelência na história da humanidade, em que a pessoa aprende a ser e a conviver, sendo por isso, um espaço privilegiado de mediação das relações entre os sujeitos e a coletividade. É no âmbito da família que se delimitam, continuamente, os deslocamentos entre o público e o privado, delineando-seas modalidades comunitárias de vida.

  Todavia, não se pode desconsiderar que as relações familiares podem acontecer de forma contraditória, cuja dinâmica cotidiana de convivência é marcada por conflitos, desigualdades, competições, crueldade e violências.

  Nesse sentido, as novas configurações familiares estão intrínsecas e dialeticamente condicionadas às transformações societárias contemporâneas, ou seja, às transformações econômicas e sociais, de hábitos e costumes e ao avanço da ciência e da tecnologia. O novo cenário tem remetido à discussão do que seja a família, uma vez que as três dimensões clássicas de sua definição (sexualidade, procriação e convivência) já não têm o mesmo grau

  Nessa perspectiva, pode-se dizer que a sociedade está diante de uma família quando encontra um conjunto de pessoas unidas por laços consangüíneos, afetivos e ou de solidariedade.

  Reconhecer a importância da família na vida social e, também, como merecedora da proteção do Estado, é um avanço que atualmente vem sendo pautado de forma prioritária, à medida que a realidade vem sinalizando os processos de penalização e de desproteção das famílias brasileiras.

  Nesse contexto, a matricialidade sócio-familiar passa a ter papel de destaque no

  21

  âmbito da Política Nacional de Assistência Social – (PNAS ). Essa ênfase está ancorada na premissa de que a centralidade da família e a superação da focalização, no âmbito da política de Assistência Social, repousam no pressuposto de que, para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros é necessário, em primeiro lugar, garantir condições de sustentabilidade para tal.

  Dessa forma, as referências para a formulação da política de Assistência Socialseriam as necessidades das famílias, dos seus membros e indivíduos. Essa postulação se orienta pelo reconhecimento da realidade que se tem hoje, por meio de estudos e análises das mais diferentes áreas e tendências.

  Assim, quanto às mudanças ocorridas nas famílias, pode-se observar um enxugamento dos grupos familiares (famílias menores), uma variedade de arranjos familiares (monoparentais, reconstituídas), além dos processos de empobrecimento acelerado e da desterritorialização das famílias gerada pelos movimentos migratórios.

  A centralidade na família objetiva à superação da focalização, tanto relacionada a situações de risco, como a de segmentos. Igualmente, essa centralidade é garantida à medida quea Assistência Social, com base em indicadores das necessidades familiares, realize uma política de cunho universalista, que para além da transferência de renda em patamares aceitáveis se desenvolva, prioritariamente, em redes de proteção social que suportem as tarefas cotidianas de cuidado e que valorizem a convivência familiar e comunitária.

  Além disso, a Assistência Social - enquanto política pública, que compõe o tripé da Seguridade Social e considerando as características da população atendida por ela - deve funcionar com outras políticas sociais, particularmente as públicas de Saúde, Educação, Cultura, Esporte, Emprego, Habitação.

  Isso deve acontecer para que as ações não sejam fragmentárias e para que se mantenham o acesso e a qualidade dos serviços para todos.

  3.9 - O SUAS e o Controle Social

  A experiência de Conselhos Populares não é recente no Brasil e mesmo internacionalmente, mas os Conselhos como arenas de participação política e controle social na gestão das políticas públicas e sociais é inovação, conquistada pela população brasileira na Carta Magna. Assim, na conformação do Sistema Único de Assistência Social, os espaços privilegiados nos quaisse efetivam essa participação são os conselhos e as conferências, não sendo, no entanto, os únicos, já que outras instâncias (de mobilização política – fóruns; de gestão – órgãos gestores; de pactuação – comissões de gestão compartilhada, etc.) somam força a esse processo.

  As conferências têm o papel de avaliar a situação da assistência social, definir diretrizes para a política, verificar os avanços ocorridos num espaço de tempo determinado (artigo 18, inciso VI, da LOAS).

  Os conselhos têm como principais atribuições a deliberação e a fiscalização da execução da política e de seu financiamento, em consonância com as diretrizes propostas pela conferência; a aprovação do plano; a apreciação e aprovação da proposta orçamentária para a área e o plano de aplicação do fundo, com a definição dos critérios de partilha dos recursos, exercidas em cada instância em que estão estabelecidos.

  Eles, também, normatizam, disciplinam, acompanham, avaliam e fiscalizam os serviços de assistência social prestados pela rede de proteção social, definindo os padrões de

  

qualidade de atendimento, e estabelecendo os critérios para o repasse de recursos

financeiros (artigo 18, da LOAS).

  Os conselhos paritários, no campo da assistência social, têm como representação da sociedade civil os usuários ou organizações de usuários, entidades e organizações de assistência social (instituições de defesa de direitos e prestadoras de serviços) e trabalhadores do setor (Artigo 17 - ll).

  Na constituição do SUAS é fundamental fortalecer e resgatar o papel dos Conselhos como instâncias máximas de deliberação e ação estratégica. Nesse sentido, as deliberações das Conferências são norteadoras para a implantação do Sistema. Além disso, é necessário pensar em definições articuladas com os Conselhos da Criança e do Adolescente, do Idoso e das Pessoas com Deficiência, além dos grupos de trabalho e fóruns existentes.

  Pode-se, portanto, destacar que o SUAS notoriamente é um avanço no campo das políticas públicas no Brasil, em especial para a assistência social que passa a funcionar com a lógica da universalidade e da integralidade. No entanto, a política de atenção integral a criança e ao adolescente em situação de violência doméstica e sexual, pressupõe ações intersecretarias. Demandando diálogos e interfaces com todas as políticas do município. Dessa forma, se faz necessário que o município disponha de equipe especializada para cuidar especificamente das situações de violência doméstica e sexual.

  Nesse sentido, ressalta-se que a parceria com outras políticas é condição básica para a complementaridade do atendimento integral nas situações de violência doméstica e sexual.

  Portanto, a estruturação dos Centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAS) prescinde de articulação e parceria com as políticas, ações e programas já existentes no município, para evitar a sobreposição de ações.

  3.10- Eixos Estruturantes do Sistema de Garantia de Direitos

  A rede de proteção à criança e ao adolescente é a construção da igualdade da organização política da sociedade, requerendo que os diversos atores sociais - estado, família e sociedade civil – cumpram seus deveres de forma complementar e inter-relacionada. A rede é composta de três eixos: promoção; controle; defesa e responsabilização.

  3.12 - Eixo Controle Mobilização e Articulação – processo de sensibilizar o conjunto da sociedade por meio da transmissão de conhecimentos específicos. Inclui a mobilização da sociedade no sentido do comprometimento com a garantia do desenvolvimento integral da criança e do adolescente e a utilização do espaço da comissão municipal de enfrentamento da violência sexual para

  3.11 - Eixo Promoção Análise da Situação – ações que visam a conhecer, diagnosticar, monitorar e avaliar o fenômeno da violência sexual, visando à divulgação de dados à sociedade. Inclui, também, o levantamento prévio das situações de violência no município, a identificação das áreas mais problemáticas, a análise das denúncias, a identificação das instituições governamentais e não- governamentais que trabalham em prol da infância e a adequação constante das estatísticas.

  • Atendimento – efetuar e garantir o atendimento especializado e em rede realizado por profissionais capacitados às crianças e aos adolescentes em situação de violência e às suas famílias. Nesse sentido, a criança e o adolescente devem ter garantidos: o atendimento multiprofissional especializado; o acolhimento até que sejam mobilizados os órgãos competentes e tomadas as providências mais apropriadas para o caso; atividades sócio-educativas que visem à recuperação e reestruturação das famílias em situação de extrema vulnerabilidade.
  • Prevenção – assegurar ações que evitem ou diminuam os riscos de violência contra crianças e adolescentes, orientando-os no sentido de fortalecer sua auto-defesa. Para tanto, é necessário o envolvimento das redes familiares, de vizinhança e comunitárias. Além disso, deve haver uma equipe capacitada e disponível para desenvolver atividades de conscientização dos atores sociais a respeito da cultura da não violência.
elaboração e planejamento das ações necessárias, estabelecendo as responsabilidades de cada membro da comissão.

  Protagonismo Infanto-Juvenil – promover a participação ativa de crianças e adolescentes na defesa de seus direitos e o seu comprometimento com programas em andamentos. A equipe deve adotar o protagonismo infanto-juvenil como referência teórico- metodológica para suas ações, promover debates com crianças e adolescentes sobre o ECA e sobre os diversos tipos de violência, divulgar os serviços de notificação e atendimento junto às escolas, aos postos de saúde, às rádios comunitárias e aos movimentos de jovens no município.

  3.13 - Eixo Defesa

  Defesa diz respeito a todos os instrumentos disponíveis aos atores que integram o Sistema de Garantia dos Direitos para se contraporem às ameaças e violações dos direitos das crianças e adolescentes. Já a responsabilização refere-se às ações cabíveis, por meio de medidas judiciais, aos que praticam violência contra crianças e adolescentes, o que inclui a garantir o acesso direto à justiça por parte das vítimas e seus familiares. A fim de garantir a proteção jurídico-social prevista no ECA, é indispensável o apoio de serviços de assistência judiciária pública ou privada que possam oferecer advocacia gratuita na defesa e garantia de direitos e interesses das crianças e de seus familiares.

  Os eixos – promoção, controle e defesa – têm, como referência metodológica, o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. O Programa

  

Refazendo Laços priorizou a capacitação dos agentes envolvidos nesses três eixos,

preparando-os para a ação em rede.

  3.14 - A Estruturação da Rede de Proteção

  O atendimento em rede inicia-se no momento em que um caso de violência sexual é revelado, seja pela própria vítima, seja por outras pessoas que tenham conhecimento ou suspeite da violência. É obrigação daquele a quem a situação é revelada fazer uma notificação da queixa, ou seja:

  Dar ciência às autoridades constituídas de que o abuso sexual ocorre (ou dele se suspeita), o que é seguido do registro oficial da queixa, o que significa que o poder público assume a situação, se faz cargo da mesma, incluindo-a nos Fluxos de Defesa de Direitos, do Atendimento e da Responsabilização . (Faleiros, 2001: 30)

  A notificação de queixa deve ser feita aos Conselhos Tutelares, à Vara da Infância e da Juventude (caso não haja Conselho Tutelar no município) ou às Delegacias de Polícia (preferindo sempre as delegacias especializadas, onde houver).

  O Conselho Tutelar é considerado, por alguns autores, como “o epicentro do subsistema de proteção. Por ele devem passar todos os casos de crianças e adolescentes que estejam com seus direitos violados ou ameaçados de violação, necessitando de medidas de proteção.” (Pedroso, 2004).

  O fato de o Conselho Tutelar ser, muitas vezes, o primeiro órgão até onde chega a denúncia faz com que seja grande sua responsabilidade e importância no acolhimento da criança e do adolescente. A maneira como esses são recebidos, ouvidos e tratados nos primeiros atendimentos ou entrevistas pelas quais passam é determinante para o restante do andamento do caso e de sua possibilidade de recuperação. Além do recebimento da denúncia e da realização dos encaminhamentos necessários, cabe, também, ao Conselho Tutelar verificar se esses encaminhamentos foram seguidos e se os atendimentos estão sendo realizados.

  Compõem, assim, a gama de encaminhamentos necessários o atendimento médico, social, psicológico e legal. Vejamos o porquê da necessidade de cada um desses

O Atendimento Médico verificará as condições de saúde física da criança e/ou do

  adolescente vitimizados e realizará os procedimentos médicos necessários ao seu pleno restabelecimento. Em casos de abuso sexual, por exemplo, muitas vezes é necessário que a criança ou o adolescente receba medicamentos para prevenção de DST e AIDS, bem como a realização de exames de gravidez, entre outros.

  É necessário, também, lembrar que, em alguns casos, a criança ou o adolescente vitimizado (a) chega ao médico antes mesmo de existir uma denúncia, pois, em decorrência da violência sofrida, necessita de atendimento médico e é levado(a) pela família. Nessas situações, cabe ao profissional médico realizar a notificação ao Conselho Tutelar, sob pena de configurar infração administrativa, conforme previsto no ECA:

  “Art. 245: Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente”.

  O Atendimento Social levantará o histórico familiar e a dinâmica social da mesma,

  observando como seus membros estão inseridos na sociedade. Além disso, fará um diagnóstico das condições sócio-econômicas da família, de suas necessidades e dificuldades presentes. Assim, pode realizar orientações e encaminhamentos à rede de serviços do município da forma como julgar importante.

  O Atendimento Psicológico tem como objetivo oferecer à criança e ao adolescente

  um espaço protegido para que possa se expressar livremente, demonstrando seus sentimentos, angústias e sofrimentos, seja através da palavra, seja através de expressões gráficas e/ou lúdicas. Após a realização de uma avaliação psicológica, é possível perceber as conseqüências da vivência da violência sexual, bem como estabelecer quais são as necessidades para o restabelecimento do desenvolvimento emocional saudável. Esse atendimento psicológico não deve restringir-se à criança e ao adolescente vitimizados, mas sim se estender a toda a família, inclusive e principalmente, ao adulto agressor, de modo a viabilizar uma alteração da dinâmica familiar, interrompendo o ciclo de violência.

  O Atendimento Legal visa a garantia da defesa dos direitos da criança ou adolescente

  exposto (a) a violência, bem como a responsabilização daquele que desrespeitou esses

  Ministério Público são partes importantes do processo de interrupção do ciclo de violência doméstica e sexual.

  A violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes envolvem todos esses âmbitos e não deve ser tratada de forma isolada por nenhum deles. Apesar das especificidades e responsabilidades atribuídas a cada um, não podemos nunca nos esquecer de que uma mesma criança ou adolescente exposto (a) à violência passará por todos esses atendimentos. Caso não haja uma comunicação e uma rede articulada, é muito grande o risco de a criança ser re-vitimizada, desta vez dentro do próprio sistema de garantia de direitos. Se uma criança tiver que contar sua história a cada um dos profissionais que fazem parte do sistema de atendimento médico, social, psicológico e legal, certamente ficará ainda mais traumatizada, visto que a violência doméstica e sexual causam danos físicos, psicológicos e sociais bastante graves. Cabe aos profissionais fazer o possível para que a situação seja revertida, respeitando, desse modo, e protegendo da melhor forma possível. Para tanto, faz-se necessária uma rede articulada em cada região, que ofereça atendimentos multidisciplinares às crianças e aos adolescentes vitimizados e às suas famílias.

CAPÍTULO – IV A EXPERIÊNCIA DO PROGRAMA REFAZENDO LAÇOS: UM ESTUDO DE CASO

  Só existe o impossível, quando ainda não foi feito antes.

  Amyr Klink

  

4.1 - A Rede de Proteção Integral à Criança e ao Adolescente em São José dos Campos – SP

  Será apresentada a estruturação da Rede de Proteção Integral à Criança e ao Adolescente no município paulista de São José dos Campos, enfocando o atendimento e a prevenção às situações de violência doméstica e sexual que atingem essa população.

  A história contada a seguir fez parte do trabalho desta pesquisadora na implantação e no desenvolvimento do Programa Refazendo Laços – PRL. Nesse processo, foi possível ter acesso a documentos de sistematização, entrevistas com atores sociais da rede e coordenação de grupos os quais os profissionais discutiam suas dificuldades e elaboravam propostas de melhoria dos serviços da Rede.

  O Programa Refazendo Laços partia do pressuposto de que, no Brasil, muito já se avançou na discussão, formulação e implementação de políticas públicas que garantam os direitos das crianças e dos adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) instituiu princípios que só encontram paralelo em alguns poucos países. Os planos Nacional e Estadual, por sua vez, tiveram o mérito não apenas de dar visibilidade ao tema, como também de estabelecer direções para as medidas de enfrentamento e para as políticas públicas.

  Entretanto, ainda que o avanço tenha sido grande, ainda há muito trabalho pela frente. Por isso, um dos pontos que merece atenção especial é o Sistema de Garantia de Direitos ou Rede de Proteção Integral. O funcionamento descentralizado desse sistema ainda não avançou em sua plenitude, principalmente, no âmbito da violência sexual. O Programa Refazendo

  

Laços visava, justamente, a contribuir para a construção da rede de proteção integral de forma

plena e integrada.

  4.2 - Um Pouco da História de São José dos Campos

  O fato de São José dos Campos ser um município em que a pesquisadora trabalhou foi condição fundamental para sua escolha como objeto de estudo para o desenvolvimento desta pesquisa. Essa vivência permitiu conhecer aspectos singulares dessa rede, de sua constituição e funcionamento, que nos permitem tecer reflexões à luz das entrevistas colhidas.

  Entretanto, houve outro fato que contribuiu para essa escolha: o fato da Childhood Brasil, instituição na qual prestava consultoria, também tê-lo escolhido para implementação do Programa Refazendo Laços. Os fatores que levaram a Childhood fazer essa escolha foram:

  • possuir, segundo dados do IBGE em 2005, uma população de 600 mil habitantes;
  • localizar-se no eixo Rio-São Paulo, próximo à rodovia Presidente Dutra, uma das principais vias de escoamento de produtos no estado;
  • ser um dos centros industriais e de serviços mais importantes do interior paulista;
  • apresentar um movimento social engajado, com diversas parcerias entre as empresas e o poder público local.

  Com base nesse histórico, a Childhood Brasil acreditou na possibilidade de parcerias com esse município, que possuía um Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente – CMDCA, organizado, integrado e disposto a trabalhar em parceria estreita com o programa proposto. Mesmo antes da chegada do programa, vários serviços da rede de proteção já realizavam o atendimento às vítimas de violência doméstica no centro de referência especializado para o atendimento à violência doméstica intrafamiliar, sendo essa

  22 uma ação inter-secretarias .

  A existência de uma rede já em funcionamento, com certa infra-estrutura, foi fator importante para a implantação do programa, contudo é importante retomar, brevemente, um pouco da história da constituição dessa rede, antes de se pensar em sua configuração atual.

  O trabalho social junto a crianças e adolescentes em São José dos Campos teve início com a tradição do município no tratamento da tuberculose. Algumas instituições cuidavam das crianças cujos pais estavam internados para esse fim. Com o tempo, essas instituições foram se fechando - junto com os hospitais de tratamento - ou transformando-se em outro tipo de instituição. Nessa esteira, iniciou-se uma preocupação com os “menores” (adolescentes) que, na década de 1970, perambulavam pelas ruas, rasgando os lixos, causando desconforto à população. A prefeitura criou um programa que os colocava como “fiscais do lixo”, ou seja, transformava-os naqueles que deveriam cuidar para que o lixo não fosse rasgado.

  A partir daí, foi surgindo a necessidade de ampliação das ações voltadas a essa população e criou-se o Programa de Menores, com contratação de maior número de assistentes sociais. Nos documentos da Fundação Hélio Augusto de Sousa - FUNDHAS encontra-se o relato de que, por volta de 1975, o Programa de Menores passou a Centro de Orientação Sócio-Educativo do Menor Trabalhador, atendendo meninos que estavam nas ruas, realizando trabalhos nas feiras, como engraxates, entre outros. Devido ao reduzido número de profissionais para a realização do trabalho, os próprios adolescentes eram multiplicadores e ajudavam com o trabalho do Centro. Esse trabalho era concentrado na Secretaria Municipal de Educação do Município, antes da existência da FUNDHAS, que estava em processo de ser gestada, na década de 1980, sendo fundada em 1987.

  No início das atividades, a FUNDHAS realizava entre 500 e 800 atendimentos. Hoje, esses números chegam a 8500 crianças e adolescentes atendidos, o que mostra a dimensão do crescimento e do alcance dessa instituição no município. O campo de atuação da FUNDHAS foi definido em conjunto com a Secretaria de Desenvolvimento Social, tendo sido estabelecido que a Fundação cuidasse das situações de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, dos casos de trabalho infantil, medidas sócio-educativas em meio- aberto (liberdade assistida – LA), além do atendimento aos casos de violência doméstica e sexual. No que se refere às ações voltadas à infância e adolescência, à Secretaria de Desenvolvimento Social caberiam os atendimentos às situações de abrigo e a supervisão das políticas executadas pelas instituições conveniadas, sendo a gestora das políticas de assistência social no município.

  No último nicho citado como de atuação da FUNDHAS, o atendimento à violência contra crianças e adolescentes, surgiu o Programa Aquarela, especializado para este fim, no qual foi posteriormente desenvolvido o Programa Refazendo Laços. Esse programa emerge como uma ação intersecretarias, a partir da assinatura de um termo de cooperação, para que o mesmo fosse uma ação multiprofissional e multi-institucional. Envolve, até hoje, as Secretarias Municipais de Saúde, Desenvolvimento Social, Justiça e Segurança Pública, além da própria FUNDHAS. A demanda para criação do Programa Aquarela partiu da Secretaria de Desenvolvimento Social, na qual se desenvolvia anteriormente o chamado “Programa de Risco”, para o atendimento ao trabalho infantil, abuso, à violência doméstica e sexual. Diante da solicitação, a FUNDHAS realizou estudos diagnósticos e estruturou o atendimento especializado, que atenderia casos de violência doméstica e sexual de crianças com até 12 anos de idade e casos de outras formas de violência doméstica de crianças e adolescentes até 17 anos de idade. Dentro desse programa, havia duas frentes de atuação: a do diagnóstico dos casos e a de tratamento.

  O município foi pioneiro em ações voltadas à infância e adolescência, antecipando a criação do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente – (CMDCA), criado um ano antes da promulgação do ECA. Essa atuação, somada aos dados já citados, também foi importante na escolha do município para o desenvolvimento do PRL.

  

4.3 - Programa de Atendimento à Violência Doméstica e Sexual Contra Crianças e

Adolescentes

  Sendo o foco desta pesquisa a rede de atenção aos casos de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, é importante esclarecer o funcionamento do serviço especializado de atendimento a esse fenômeno no município de São José dos Campos, como já citado anteriormente.

  Quando instaurado, o Programa de atendimento já contava com ações intersecretarias e uma equipe constituída por psicólogo, assistente social, médico pediatra, psicopedagogo, cedidos das Secretarias de Saúde, Educação e Assistência Social. As demais Secretarias Municipais, como a de Esportes e Cultura, funcionam como apoio na priorização do atendimento das crianças e dos adolescentes quando encaminhados pelo Programa Especializado para as atividades esportivas e culturais, entre outras.

  Com a estrutura montada pelo município, notava-se, ainda, uma lacuna no que se refere ao atendimento aos casos de abuso sexual extra-familiar de adolescentes, bem como aos casos de exploração sexual comercial, uma vez que esses escapam ao perfil das situações que poderiam ser atendidas pelo Programa Especializado. Esse ponto chama a atenção para as atendimento à violência doméstica e sexual. Apesar de toda uma mobilização intersecretarias, o atendimento para todas as situações de violência sexual contra crianças e adolescentes não acontecia.

  4.4 - A Chegada do Programa Refazendo Laços

  Como citada anteriormente, a atuação do Programa Especializado ocorria em duas frentes: do diagnóstico e do tratamento médico e psicossocial. A dimensão da prevenção não estava contemplada de forma direta, deixando uma lacuna importante no trabalho desenvolvido no município.

  A proposta do Programa Refazendo Laços, apresentada pela Childhood Brasil, trazia a questão da prevenção à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, além de outras importantes proposições na direção da formulação de políticas, além da formação e do cuidado com o profissional que atua no atendimento a essas situações.

  O trabalho foi pensado e desenvolvido tendo como tripé de sustentação: o trabalho em Rede, a violência sexual como um sintoma da sexualidade humana e o cuidado com o profissional. Para tanto, propunha a formação contínua e, com qualidade, dos atores sociais e o monitoramento das ações por meio de supervisões também contínuas e a possibilidade de os profissionais perceberem a necessidade e sentirem-se autorizados a buscar ajuda sempre que necessário.

  Assim, para a concretização das ações, estabeleceu-se uma parceria entre a Childhood Brasil - Instituo WCF e o CMDCA de São José dos Campos. Um Grupo de Trabalho, mais tarde denominado Grupo Técnico – GT, constituído por representantes da Childhood, do CMDCA, do Conselho Tutelar, Vara da Infância e Juventude, FUNDHAS e das Secretarias Municipais de Saúde, Desenvolvimento Social, Educação e Esportes foi constituído como principal lócus de discussão, delineamento e avaliação das ações.

  4.5 - Gestão do Programa

  O programa adotou o modelo da co-gestão a qual foi compartilhada entre a Childhood Brasil e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente -CMDCA, incluindo Conselhos Tutelares, Secretarias municipais e a Fundação Hélio Augusto de Sousa - FUNDHAS nas decisões.

  A equipe de coordenação era composta por um coordenador geral da Childhood Brasil, um assistente de coordenação e um coordenador local designado pelo município. Essa equipe tinha como função fazer a mediação entre o nível macro, intermediário e o micro, além de articular o grupo técnico e viabilizar todas as ações do nível micro (cursos, supervisões e projetos), os quais serão explicados a seguir:

Nível macro: Refere-se ao âmbito macro-político, que contempla as articulações e

  parcerias entre o poder público municipal, a Childhood Brasil - Instituto WCF, ONGs, empresas e instituições privadas. Essas articulações e parcerias tinham o objetivo de assegurar a implantação e continuidade do Programa no município.

  Esse nível envolvia a relação entre a Childhood Brasil e o CMDCA. Desde o seu início, a equipe da Childhood Brasil procurou compreender a dinâmica do CMDCA- SJC, a sua autonomia frente ao poder púbico municipal e a participação da sociedade civil.

  Assumiu, também, uma posição de mediação frente à relação do CMDCA com os Conselhos Tutelares. Observou-se que houve vários embates entre essas duas instituições.

  Constatou-se, além disso, que na relação com as Secretarias Municipais foram necessárias articulações com os secretários para comprometê-los com a realização do projeto, o que funcionou melhor em alguns casos do que em outros. Ficou muito claro, para os articuladores do nível macro, que a atuação das secretarias estava diretamente relacionada à participação de seu representante nas reuniões do grupo técnico. Dessa forma, todas as decisões do programa passavam por esse nível. Esse campo de articulação é delicado por envolver interesses e poderes que geralmente estão além dos interesses específicos da criança e do adolescente.

  Nível intermediário: Cuidava dos processos de articulação dos serviços locais, a fim

  de mapear o fluxo de atendimento e aprimorar o funcionamento da rede de proteção, constituindo uma referência na atenção integral a crianças, adolescentes e às suas famílias.

Nível micro: Formação e acompanhamento dos profissionais em seu cotidiano

  garantindo que estejam preparados para trabalhar com crianças, adolescentes e famílias em situação de violência doméstica e sexual. Esse é o campo micro–-político no qual as ações chegam à base, aos usuários dos serviços. Essa ação se reverte na oferta e na qualidade dos serviços prestados pela rede aos seus usuários.

  A articulação intersecretarias consistia em envolver, nas capacitações, gestores e profissionais, para integração das ações. Assim, pretendia estabelecer uma linguagem comum, favorecendo a apropriação dos conceitos adotados.

  A co-gestão técnica e financeira foi compartilhada entre os parceiros e funcionou por meio de contrapartidas da Childhood Brasil – Instituto WCF, da empresa Duratex, do FUMCAD e do Poder Executivo. Esse modelo de gestão é complexo, porque implica em uma composição de forças inovadoras e desafiadoras entre atores do 1º Setor (Governo), 2º Setor (empresa privada) e 3º Setor (Sociedade Civil). Essa forma de gerir desencadeia um processo de parceria, na qual todos trocam saberes, estabelecem contrapartidas humanas e financeiras.

  A gestão do programa ainda pretendia favorecer a realização de ações em rede horizontalizada e a internalização de uma cultura de formação continuada, com a produção de material didático e revisão do fluxo de atendimento. Todos esses aspectos desencadearam uma repactuação, na qual o município reafirmou o compromisso político na prevenção à

  VDSCCA, como ação contínua nas diferentes secretarias municipais – entrada na política pública. Contribuiu, ainda, para identificar as lacunas existentes na rede de proteção. Foi a partir da percepção da inexistência de um serviço específico para atender aos casos de exploração sexual que o Conselho Tutelar realizou um levantamento dos casos, apresentando- os ao CMDCA, que constituiu um grupo de trabalho e, atualmente, vem estruturando esse serviço no município.

  4.6 – Capacitações

  Foram realizados três cursos de capacitação, para Conselheiros Tutelares, agentes multiplicadores e agentes de prevenção. Todos os cursos tinham como objetivo principal preparar as pessoas que fazem parte da Rede de Proteção à Infância e à Adolescência para trabalhar com o tema da violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

  Apesar desse objetivo geral em comum, os cursos foram adaptados para as necessidades de cada um dos grupos: os conselheiros tutelares receberam uma formação que contemplou todas as temáticas referentes à VDSCCA, porém foi dada ênfase a respeito do sistema de justiça e os agentes multiplicadores tiveram um tempo adicional para discutir questões relacionadas à sexualidade, incluindo gravidez na adolescência e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, o que havia sido uma demanda do próprio município.

  O processo de formação dos operadores do SGD no município de São José dos Campos contribuiu efetivamente para o fortalecimento das ações em rede, facilitando a integração entre as organizações e a definição do fluxo de atendimento às crianças e aos adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Nesse processo formativo dos profissionais das organizações governamentais, foi ressaltada a necessidade de capacitação para os profissionais das organizações não-governamentais (ONGs), as quais aconteceram no ano de 2007. Houve, com isso, um esforço de formação efetiva da rede, visando que as pessoas e organizações não mais trabalhem isoladamente, mas construam um todo integrado.

  Com esse trabalho, a necessidade de qualificação para os profissionais da rede de proteção foi ressaltada no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Exploração Sexual realizado em 2003, no âmbito do Congresso Nacional, conforme a seguir:

  Os programas e ações de cada política setorial, que têm como foco principal o atendimento e o cuidado das vítimas de crimes sexuais ou o seu combate e responsabilização, serão analisados sob a ótica da proteção especial. A CPMI comprovou, na prática, a necessidade de desenvolvimento dessas redes articuladas, capazes de atender e proteger as crianças e adolescentes. É precisamente pela condição de vulnerabilidade daqueles que são atingidos pela violência que se impõe a necessidade de que as redes de proteção sejam altamente

  23 que estão em todas as dimensões de sua existência . (CPMI , 2003: 219)

  Acreditando que a violência sexual contra crianças e adolescentes pode ser prevenida por meio da articulação da rede de proteção integral, o Programa Refazendo Laços construiu e implantou uma proposta de formação continuada, envolvendo educadores, professores, pais, profissionais de saúde, psicólogos, advogados e a sociedade em geral. Além disso, o

  

Programa busca aumentar a mobilização social e contribuir com a formulação de novas

estratégias.

  4.7 - Composição da Rede

  As situações de violência doméstica, abuso e/ ou exploração sexual podem ser reveladas em diferentes contextos e situações. Não é incomum, por exemplo, um pediatra deparar-se com uma criança que tenha sido ou esteja sendo submetida à violência, ou, ainda, um professor, que identifique indícios de violências em seus alunos, acompanhada de mudanças comportamentais.

  Assim, os serviços de emergência, as unidades básicas de saúde e ambulatórios da rede pública e privada, as delegacias de polícia e a escola são espaços que devem estar preparados para saber lidar com as situações de violência doméstica e sexual, caso essa se mostre presente. Como agir no caso de suspeita? Para onde encaminhar a criança e a família? Que serviços estão disponíveis e como contatá-los? Essas e outras questões envolvem a Rede

  

de Proteção Integral . Para que o projeto de Rede preconizado no Estatuto da Criança e do

  Adolescente se faça realidade, é imprescindível que as pessoas envolvidas com suspeitas ou revelações de violência doméstica, abuso ou exploração sexual, sejam elas profissionais ou cidadãos comuns, ajam de forma articulada.

  De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 13, para que uma denúncia seja realizada, não é necessário que uma pessoa tenha certeza de que uma criança esteja sendo vitimizada, a suspeita é o suficiente. Afirma-se, pois, no ECA:

  Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais. (ECA, 1994:38)

  Em outras palavras, basta que alguém suspeite de um caso de violência doméstica, abuso ou exploração sexual para que faça uma denúncia e, assim, acione a rede de proteção, na qual deverão estar integradas organizações que trabalham nos eixos da defesa dos direitos (Conselhos Tutelares, Varas da Infância e da Juventude, Ministério Público, Defensoria Pública e Centros de Defesa), do atendimento às crianças, aos adolescentes e as famílias (composto por instituições executoras de políticas sociais de saúde, educação, assistência, trabalho, cultura, lazer e profissionalização, bem como de serviços e programas de proteção especial e ONGs que atuam nessas áreas) e da responsabilização dos agressores (Delegacias de Polícia, Delegacias de Proteção a Crianças e ao Adolescente, Delegacia da Mulher, Instituto Médico Legal, Varas Criminais, Vara de Crimes contra a Criança e o Adolescente, Vara da Infância e da Juventude e o Ministério Público).

  Para garantia do atendimento integral a crianças e adolescentes submetidos à VDS, é necessária uma estrutura de políticas públicas com serviços especializados. Contudo, para que esses serviços cumpram o seu papel institucional, eles necessitam de profissionais qualificados, competentes, éticos e articulados em rede para darem sustentação às ações, já que elas necessitam de complementaridade, envolvendo minimamente os sistemas de justiça,

  

assistência social e saúde. Essas pré-condições para o desenvolvimento de ações em rede,

  estão em consonância com a visão de Faleiros (2001), conforme a seguir:

  Não são poucas, portanto, as organizações que estão implicadas em garantir os direitos de crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. O que caracteriza uma rede de proteção é justamente a aliança de atores e forças em um único bloco de ação. (Faleiros, 2001: 27-28)

  4.8 - Formação da Rede de Proteção em São José dos Campos

  A formação da rede de proteção de São José dos Campos aconteceu através da utilização de várias estratégias, tais como:

  • articulação política e institucional;
  • realização de diagnóstico participativo;
  • promoção de seminários municipais para construção dos planos operativos locais -

  POL;

  • constituição de comissões locais para monitoramento dos planos;
  • estruturação de cursos de formação para rede de proteção;
  • formalização de pactos, convênios e parcerias com a sociedade, empresas, fundações, entre outros, assegurando o compromisso dos Governos Federal, Estaduais e Municipais para o cumprimento das metas previstas nos Planos Municipais;
  • realização de campanhas locais para mobilização das instituições e da sociedade em geral.

  O Programa Refazendo Laços buscou, desde o início, articular a rede a partir do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de acordo com o Termo de Parceria firmado entre este e o Instituto WCF – Brasil, para a implementação do programa (ver anexo 1). Durante a execução do Programa, as ações foram desenvolvidas por meio da articulação entre todos os segmentos, sendo as decisões tomadas após as proposições do Grupo Técnico (Nível Intermediário) e encaminhadas para deliberação do Grupo Gestor (Nível Macro).

  Assim, ao final do ano de 2006, após 15 meses de projeto, o Programa Refazendo

  

Laços construiu um documento, enviado ao CMDCA, fazendo algumas proposições para a

  melhora da política de proteção integral à criança e ao adolescente (ver anexo 2). Esse documento foi construído a partir das contribuições dadas por todos aqueles que participaram do Programa ao longo desses 15 meses: profissionais das instituições que participaram dos cursos e das supervisões, professores, supervisores, membros do Grupo de Trabalho, equipe local, coordenação e assistente de coordenação.

  As ações mais duradouras do PRL no município, sempre com o objetivo de formar a rede de proteção e prevenir a ocorrência da violência doméstica e sexual, foram os cursos de formação para agentes multiplicadores e de prevenção e para conselheiros tutelares, seguida de supervisões para os três grupos.

  4.9 - Desafios e Recomendações

  O Programa Refazendo Laços passou por um processo de avaliação continuada e foi submetido à apreciação de um comitê técnico que realizou uma avaliação pontual, voltada para o alinhamento do projeto, com vistas à sua futura replicação em outros municípios brasileiros. Esse comitê foi formado por especialistas na área de políticas públicas e violência contra crianças e adolescentes e realizou suas discussões a partir do material apresentado no Seminário Regional do Programa Refazendo Laços.

  Como fruto dessa discussão, esses especialistas listaram os pontos positivos do projeto realizado até o momento, as questões e problematizações, indicativos de continuidade e recomendações visando à replicação.

  O projeto foi muito bem avaliado pelos membros do comitê técnico, que destacou os pontos positivos a seguir: Gestão compartilhada entre o terceiro setor (Instituto WCF) e o poder público municipal. Na visão do Comitê, isso é essencial para que a prevenção à violência sexual seja tratada como uma política pública do município e não como um mero projeto social, com período delimitado de realização.

  Além disso, enriqueceu muito o Programa o envolvimento de atores sociais diversos e que, normalmente, não são chamados a participar de projetos de prevenção à violência sexual, tais como os funcionários da Secretaria de Esportes e Lazer e os agentes comunitários de saúde. A participação desses e de outros atores sociais, no mesmo grupo de supervisão, possibilitou uma troca mais efetiva, possibilitando a formação da rede de proteção a partir da base, ou seja, não por uma decisão política, mas pela relação travada entre os atores.

  Outro aspecto positivo foi a forma inovadora de trabalhar o conceito de violência sexual ao longo dos cursos e supervisões, trazendo, para o debate, o tema da violência e o tema da sexualidade. Isso gerou projetos de intervenção no município que possuem uma visão menos “denuncista” e mais humana. Adiciona-se aqui a formação dos alunos voltada para a autonomia e o protagonismo, possibilitando, com isso, que os grupos formados a partir das supervisões tenham elaborado projetos de intervenção bastante criativos e também muito importantes, o que provocou, nos atores sociais, reflexões a respeito de suas próprias práticas. Dessa forma, os atores puderam se apropriar dos novos conhecimentos de forma não- mecânica, ou seja, incorporando-os em suas práticas profissionais.

  Apesar da forma de trabalhar o conceito de violência sexual como algo relacionado à sexualidade ter sido citado como algo positivo, os membros do comitê técnico observaram que houve diferenças na forma de abordar o tema, pautadas em pressupostos diferentes. Em alguns momentos do seminário, apareceu uma abordagem mais denuncista e militante, o que é um tanto quanto perigoso, pois as pessoas, muitas vezes, não se sentem confortáveis com essa abordagem. Disso, foi observada uma diferença nos processos de formação dos grupos de multiplicadores e de prevenção em termos do tempo de curso, da metodologia (uma mais voltada para a discussão da sexualidade e outra menos) e da periodicidade, o que acarretou projetos de intervenção também diferentes qualitativamente.

  Tendo isso em vista, o comitê entende que seja mais produtiva uma formação mais intensiva e menos quantitativa, ou seja, uma formação que possibilite a identificação do aluno com o tema, permitindo que ele incorpore a forma de tratar a violência sexual, ainda que isso impossibilite a formação de um número grande de alunos. Em outras palavras, o grupo considera mais eficaz formar bem um grupo reduzido de pessoas do que dar uma formação superficial a um grande número de alunos.

  O comitê técnico levantou, ainda, dois pontos acerca das abordagens empreendidas pelo PRL. Em primeiro lugar, foi questionado o uso do termo “cuidar do cuidador”. Essa forma de fazer referência à necessidade de que os profissionais tenham acesso a uma supervisão continuada e a um ambiente de trabalho mais sadio pode levar ao entendimento de que essa é uma abordagem muito assistencialista, o que não é o caso. Foi, também, questionado o trabalho sócio-dramático com jovens, já que quando esse é realizado por pessoas pouco preparadas pode trazer-lhes problemas, pois eles revivem as experiências de violência e abuso.

  4.12 - Indicações para a Continuidade do Programa em São José dos Campos

  As indicações para a continuidade do PRL abrangeram três frentes: a efetivação da rede de proteção, a inclusão de novos atores na rede, a ampliação de espaços de atendimento e as supervisões.

  Os membros do comitê técnico viram avanços na formação da rede de proteção, à medida que atores diversos encontraram um espaço comum de convivência e troca de idéias e propostas. Contudo, ainda que as supervisões tenham criado esse espaço comum, os projetos apresentados demonstram que os alunos de secretarias diferentes não trabalharam de forma conjunta, com raras exceções. Nesse sentido, recomenda-se que a transversalidade seja estimulada. De forma geral, há, portanto, consenso de que a rede ainda deve ser bastante trabalhada no sentido de ampliar a integração entre os serviços e secretarias, possibilitando, assim, que essa integração adquira maior autonomia, deixando de depender apenas dos estímulos do Programa Refazendo Laços. Além disso, recomenda-se a construção de um grupo de responsáveis, a quem os técnicos podem recorrer em situações específicas, possibilitando uma autonomia ainda maior.

  Ainda com relação à rede de proteção, recomenda-se que os projetos desenvolvidos comprometimento das secretarias e, conseqüentemente, um maior incentivo para que os atores sociais desenvolvam seus trabalhos com mais tranqüilidade e qualidade.

  Outra necessidade, também apresentada pelo Comitê, seria a ampliação dos espaços de atendimento a crianças, adolescentes e famílias em situação de violência doméstica e sexual. Esse ponto justifica-se, pois em havendo uma maior discussão do tema e uma efetivação da rede de proteção, é de se esperar que aumente o número de denúncias de abuso ou exploração sexual. Para não sobrecarregar os serviços já existentes, o que poderia acarretar uma piora em sua qualidade, seria adequada a ampliação desses serviços ou inclusão de novos espaços.

  Por fim, houve um consenso entre os membros do comitê técnico de que as supervisões estão trazendo um grande benefício e que devem continuar, para que o trabalho não seja deixado inacabado.

  4.13 - Recomendações Visando à Replicação

  O comitê técnico fez três recomendações para a replicação do Programa Refazendo

  Laços :

  • estabelecer critérios para a escolha do local, visando a que o Programa alcance seus objetivos. Assim, é interessante que a escolha dos municípios seja feita a partir de três critérios: municípios com alta vulnerabilidade social, comprometimento político do município e preocupação com o tema (o município deve assumir que tem problema de abuso e exploração sexual);
  • maior alinhamento conceitual da equipe do Instituto WCF;
  • trabalhar, de forma mais efetiva, o protagonismo e o empoderamento dos envolvidos, para além da gestão governamental.

  

4.14 - Situação Atual do Programa Refazendo Laços no Município de São José dos

Campos

  A parceria técnica e financeira estabelecida entre a Childhood Brasil e o Município de São José dos Campos foi encerrada em dezembro de 2007, após a formação continuada da Sociedade Civil. Esse processo foi trabalhado com o município nos níveis macro, intermediário e micro. Alguns documentos foram redigidos pelo Grupo Técnico e pelo Conselho Tutelar (vide anexo) e encaminhados para o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), com a finalidade de subsidiar esse Conselho na definição das prioridades da política de atendimento integral às crianças e aos adolescentes em situação de violência doméstica e sexual.

  O Município, durante o processo de execução do Refazendo Laços, foi se organizando de forma a absorver o programa em sua estrutura, conforme estabelecido desde o início da parceria. Assim, as condições foram sendo criadas na proporção que as ações desse Programa foram entrando na estrutura pública, na medida em que os cursos de formação e as supervisões foram fazendo sentido no cotidiano dos profissionais. Alguns deles se organizaram em grupos e começaram a desenvolver projetos de prevenção, bem como passaram a repensar o atendimento e o funcionamento da rede. Desse modo, foram localizando os furos e os nós existentes no fluxo de atendimento e, ao mesmo tempo, buscaram alternativas para a sua resolução.

  Esse movimento repercutiu em todos os níveis da estrutura pública e, dessa forma, a rede começou a ser repensada. Técnicos, secretários, gestores, conselheiros de direitos e tutelares, profissionais da vara da infância e juventude, dos abrigos, das escolas, enfim, todos se depararam com o desafio e com a complexidade de tentar acolher, atender e proteger crianças, adolescentes e famílias em situação de violência doméstica e sexual. Com isso, foi interessante observar o quanto esse processo mexeu com as pessoas, pois as verdades pré- estabelecidas passaram a ser questionadas. Esses questionamentos, inicialmente, provocaram um sentimento de impotência, que posteriormente foi transformado em busca pelo conhecimento e pela necessidade de compartilhar ações e integrar uma rede. Apesar dos furos e das falhas, os profissionais desta rede estão tentando se cuidar para poderem ser cuidadores.

  O processo em questão sempre foi permeado por muitos desafios, necessitando constantemente de articulações micro e macro políticas. Em vista disso, a equipe de Coordenação do Programa, dois Consultores da Childhood Brasil e três profissionais do Município de São José dos Campos recebiam supervisão e assessoria quinzenais de um psicanalista e de um especialista em políticas públicas, com o objetivo de afinar a linguagem, a metodologia e de trabalhar as questões referentes às relações interpessoais e o compartilhamento de responsabilidades e a divisão do poder. Esse processo foi muito rico para a formação da equipe gestora e, principalmente, para a elaboração da saída gradual dos Consultores da Childhood e para o amadurecimento da equipe de Coordenação do Município que, a partir do ano de 2008, assumiu integralmente a Coordenação do Programa.

  Atualmente, o Programa Refazendo Laços foi incorporado ao Programa Aquarela, especializado na atenção integral às situações de violência doméstica e sexual, o qual inicialmente realizava o serviço de diagnóstico e atendimento às situações de abuso sexual intra- familiar, sendo inserido no eixo preventivo. Para tanto, adotou-se a filosofia e metodologia do Refazendo Laços, que se transformou em ação permanente no município, com uma equipe específica, orçamento e estrutura física adequados para acompanhar o processo formativo dos operadores do SGD e realizar ações de prevenção à violência doméstica e sexual em todo o município. A sua esfera de atuação abrange o poder público e a sociedade civil nas formações continuadas, nas supervisões, nos estudos, pesquisas e intercâmbios interinstitucionais sobre essa temática específica.

  A equipe do Refazendo Laços estruturou-se de acordo com os eixos da promoção do controle e da defesa. Desse modo, foram mantidos a filosofia e o método adotado no Programa desde o seu início, sendo garantidos as supervisões das equipes e os cursos, os quais continuam abordando a violência sexual como um sintoma da sexualidade humana, estabelecendo interfaces com as políticas públicas intersetoriais e com as ações em rede. As equipes multiprofissionais incorporaram o cuidado com o profissional como premissa importante e fundamental no desenvolvimento de suas ações. As supervisões sistemáticas, embora continuem acontecendo, ainda são um processo que necessita de negociação permanente com os gestores. Mensalmente, toda a rede se reúne em um encontro que se chama “cesta básica”, momento em que as equipes se encontram para a troca de experiências e para a realização de atividades lúdicas.

  Uma ação importante - para a estruturação do atendimento integral a crianças, adolescentes e famílias em situação de violência sexual - está em processo de organização no município a partir deste ano em curso, que é a organização do atendimento especializado às situações de exploração sexual comercial. Esse debate foi desencadeado no município durante as formações e supervisões do Refazendo Laços, quando se identificou essa lacuna no Município, que não oferecia nenhum tipo de atendimento para essas situações.

  Dessa forma, a rede de atenção integral não conseguia ter a dimensão desse problema, que não era assumido, nem tampouco priorizado. Quando o Conselho Tutelar solicitava o acompanhamento dessas situações, que geralmente chegavam - de forma esporádica e quase sempre - com outra queixa, somente após a avaliação era que se identificava a demanda da exploração sexual. Os diferentes serviços da rede de proteção respondiam às solicitações do CT, informando que não tinham competência para acompanhar o caso e que esse serviço inexistia no município. O CT sempre comunicava ao Judiciário e ao CMDCA esse fato, solicitando a estruturação desse serviço no plano de ação do Conselho. O CMDCA respondia ao Conselho, referindo que não se justificava a implantação de um serviço sem a existência de um diagnóstico da situação, apontando a inexistência de um mapeamento dos casos.

  Esse processo de negociação angustiava imensamente os conselheiros, sendo pauta constante das supervisões, desencadeando um encontro temático com toda a rede sobre esse tema. Esse encontro teve, como deliberação, o mapeamento dos possíveis locais de agenciamento e o mapeamento dos casos.

  O CT abraçou esse desafio, que foi assessorado pelos supervisores, consistindo em um árduo e eficiente trabalho no qual foram identificados mais de trinta casos de exploração sexual comercial de adolescentes, sendo mapeados os pontos de agenciamento, os jovens e suas famílias. Esse trabalho resultou em um relatório, que foi encaminhado para o CMDCA sobre as contribuições para a Política Integral à Criança e ao Adolescente no Município. Com esse documento em mãos, o CMDCA constituiu um Grupo de Trabalho, com o apoio da Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência Sexual. Esse grupo vem subsidiando o CMDCA, na deliberação sobre a estruturação desta política.

  Finalmente, o Programa Aquarela está estruturando mais um braço de atuação e, apesar da resistência e do receio, está montando uma equipe de profissionais para o atendimento aos casos de exploração sexual.

  Esse amplo processo de formação, supervisão e articulação micro e macro-política, com o objetivo de promover a estruturação de uma política pública de âmbito municipal para o atendimento integral às situações de violência doméstica e sexual é um desafio permanente. Na situação específica do município de São José dos Campos, pode-se observar que a entrada dessa temática na política pública não é algo simples, pois apesar das condições favoráveis do município, ainda há muitos desafios.

  No capítulo seguinte, as entrevistas com os profissionais irão evidenciar e colocar em análise os desafios deste processo, associados aos aspectos subjetivos que esta temática impõe a todos que tentam compreender e atender essas questões. Esse percurso ainda denota que acolher, proteger e cuidar das situações de violência doméstica e sexual ainda é um desafio, já que as situações são singulares e não existe receita pronta para solucioná-las. As redes precisam ser tecidas constantemente e é preciso que elas se preparem para enfrentar os desafios.

  

CAPÍTULO – V

O FUNCIONAMENTO DA REDE NO CASO ANALISADO: VIRTUDES,

FRAGILIDADES E TENSÕES

  Queremos ver as meninas lindas, felizes e responsáveis por suas vidas, dentro do possível. A sexualidade das meninas a elas pertence, elas escolhem de que forma querem ter prazer, desde que seja com responsabilidade e orientação. (Profissional da Rede de Proteção)

  Como parte da metodologia dessa pesquisa, realizamos entrevistas que aconteceram em dois contextos diferentes. Inicialmente, foi realizada a entrevista com Sabrina, que deveria desdobrar-se em um acompanhamento regular, visando a compreender, de forma mais aprofundada, a sua história e o seu percurso nas instituições públicas do Município de São José dos Campos e, em especial, no Abrigo para Mães Adolescentes localizado em uma outra cidade.

  A adolescente desvinculou-se precocemente dessa organização e esse fato impossibilitou a continuidade da escuta já iniciada e o acompanhamento de seu processo de reorganização, tendo em vista observar as possibilidades de elaboração ou da permanência da adolescente na exploração sexual comercial. Ainda, pretendia-se observar - a partir do seu ponto de vista - como aconteceram o seu acolhimento, cuidado e proteção nessas organizações.

  No segundo momento, foram entrevistados nove profissionais do Sistema de Garantia de Direitos do Município de São José dos Campos, com o objetivo de compreender como aconteceu a estruturação da política municipal de proteção especial às situações de violência doméstica e sexual. Assim, ouviram-se gestores, técnicos das áreas de saúde, justiça e assistência social, além de conselheiros de direitos e tutelares.

  Essa escolha diversificada de profissionais objetivou conhecer e ouvir situações sob o ponto de vista de quem propõe e formula as políticas públicas e de quem as executa, escuta, acolhe, protege os usuários dessa política e responsabiliza àqueles que violam os direitos humanos de crianças e adolescentes. As informações colhidas nas entrevistas com os profissionais se somaram à entrevista com a adolescente, enquanto pessoa assistida por esta rede de proteção, tendo experienciado atendimento em vários serviços deste sistema.

  Os fragmentos das falas dos profissionais e da adolescente utilizados nesta análise trazem subsídios essenciais para responder ao problema de pesquisa, bem como observar as suas concepções sobre esse tema, suas vivências, reflexões, opiniões pessoais, conflitos, angústias, avanços e desafios. Levando em consideração o sigilo e a ética que uma pesquisa deve preservar, evitar-se-á relatar os dados pessoais dos profissionais e da adolescente, bem como das organizações onde essas pessoas trabalham. A missão e a filosofia das organizações não serão informadas, tendo em vista a preservação desses espaços, dos profissionais e da adolescente.

  O conteúdo das entrevistas traz questões institucionais e pessoais que sugere fazer uma reflexão sobre as tensões institucionais que permearam a fala dos nossos sujeitos. Foram escolhidos profissionais de diferentes serviços para que se pudesse ter uma visão ampla sobre diferentes serviços e profissionais nesta rede, levando em consideração o que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente-Lei 8069/90.

  A partir das questões apresentadas pelos entrevistados, serão articuladas suas falas com as opiniões de autores que trabalham as temáticas das políticas públicas e das redes sociais na estruturação dos serviços especializados de atenção às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes.

  Escolaridade: fundamental completo A entrevista com Sabrina aconteceu em dois momentos diferentes e específicos, os quais tinham a pretensão de desdobrar-se em um acompanhamento regular. O primeiro contato com a adolescente foi no Abrigo Municipal, onde ela se encontrava abrigada e no sétimo mês de gestação. O Segundo encontro aconteceu no mesmo local, após o nascimento da sua segunda filha (a primeira foi dada à adoção 2 anos antes). O terceiro momento seria no Abrigo para Mães Adolescentes, para onde ela foi transferida após o nascimento do seu bebê, mas não ocorreu.

  Com o objetivo de ajudar o leitor a ter uma visão ampla do contexto em que os fatos aconteceram, serão acrescentadas o conteúdo de reuniões com os profissionais que atenderam a adolescente no Abrigo municipal, no Sistema de Justiça e no Abrigo para Mães Adolescentes em outro município.

  O caminho que Sabrina percorreu na rede de proteção favoreceu a visualização das dificuldades, acertos, desacertos, tensões e contradições vivenciados por ela e pelos profissionais dos sistemas de proteção e justiça. Os conflitos de papéis e funções foram evidenciados em vários momentos, dificultando, com isso, a garantia da proteção integral da adolescente e de suas duas filhas.

  Será apresentada, a seguir, a história de Sabrina entrelaçada com as falas dos profissionais que a atenderam.

  Ao escutar a história de Sabrina, observa-se que ela não era tratada como criança na família e no abrigo, ou seja, de acordo com a metáfora de Ferenczi (1932:95), ela era vista como frutos que ficam maduros e saborosos depressa demais, após serem feridas pelo bico de um pássaro. Assim, essa adolescente desenvolveu características adultas precocemente, vivenciando experiências de abandono e invasão a sua sexualidade de forma intensa e prematura.

  Desde criança que me deixaram sozinha no mundo [...] Fiquei com a minha avó, mas, fui colocada no abrigo muito pequena. Passava um período aqui no abrigo e outra temporada com a minha avó ou pelas ruas. Fui morar com o meu pai e com a mulher dele, ele me estuprou. Saí de lá e voltei para a casa da minha avó, não deu certo, então retornei para o abrigo. Aos 11 anos, arranjei uma barriga, fazia programas e tinha um namorado [...] voltei para o abrigo, onde tive a minha primeira filha [...] Eu estava sem paciência, já não conseguia cuidar dela direito e ela foi adotada.

  O incesto vivenciado por ela e praticado por seu pai biológico nos remeteu, mais uma vez, ao texto de Ferenczi (1932), que compreendia o abuso sexual como uma invasão à sexualidade da criança e defendia a posição de que essa ultrapassagem de limites pelo adulto provoca na criança uma “confusão de línguas”, entre a linguagem da ternura e a da paixão. Ele se preocupou em alertar que os abusos sexuais em crianças e bebês são muito mais freqüentes do que a sociedade e, mesmo o mundo das ciências, suporta reconhecer.

  As dificuldades pelas quais Sabrina passou demandavam acompanhamento especializado pela rede de proteção do Sistema de Garantia de Direitos, porém isso não aconteceu. As circunstâncias particulares da história de vida da adolescente e das instituições que a atenderam, provocaram abrigamentos e desabrigamentos freqüentes e a instalação de um quadro de vivência de rua, que se consolidou desde tenra infância.

  Sabrina necessitava de uma rede de proteção fortalecida e qualificada para acolhê-la e protegê-la, já que a sua família havia falhado nesta função. Nesse caso específico, as instituições que a receberam também não conseguiram cumprir essa função de proteção e, aos onze anos de idade, já se encontrava grávida, vivendo nas ruas e fazendo programas, embora a adolescente estivesse inserida nos serviços oferecidos pela rede de proteção. Ao revelar aos profissionais do abrigo os abusos sofridos no período em que residia na casa do pai, ela não foi encaminhada para nenhum serviço que pudesse cuidar das conseqüências advindas desta vivência, verbalizada por ela de forma muito dolorosa. Esse fato chama atenção, em especial, porque aconteceu em uma cidade onde existem serviços especializados. Assim, observa-se a dificuldade de articulação entre os serviços da rede e a dificuldade dos profissionais para lidar com essa questão.

  Marques (2006), que pesquisou profissionais que trabalham diretamente na escuta às crianças e adolescentes em situação de violência sexual, encontrou na fala dos entrevistados queixas sobre a formação deficitária e pouco respaldo institucional para as ações de proteção que desempenham. A autora adverte a respeito da importância dos profissionais refletirem profundamente sobre o desejo que os movem a ser cuidadores e trabalharem nessa área, pois acredita que, para além das questões institucionais, há conflitos internos vivenciados pelos profissionais quando se deparam com os relatos dos casos de abuso sexual, muitos fazem essa

  

escolha sem antes elaborar adequadamente seus próprios conflitos psíquicos e acabam,utilizando a

posição de se tornar cuidadores como forma inconsciente de obter cuidados para si mesmo (Marques,

2006, p 115) .

  Refletindo sobre as conseqüências do abuso sexual sofridos na infância, (Gabel, 55,1997) diz que depende de vários fatores e que se deve levar em consideração o sentimento de desamparo e o medo decorrentes desta situação, os quais vão mobilizar atenção especial, pois é necessário reconhecer, no entanto, que o tema mobiliza muito no plano emocional. Por

  

isso, é preciso abordá-lo com prudência, sangue–frio e com o mínimo possível de emoção

(Gabel, I99:35), , es sas pré-condições falharam na condução da história de Sabrina.

  Passei a gravidez entre as ruas e o abrigo. A minha avó sempre me falava que não gostava de ter uma neta mulher. Em casa dela, eu tinha que conviver com o tráfico de drogas [...] Quando a minha mãe foi presa e eu voltei para o abrigo com a minha filha, estava muito nervosa, sem tolerância, sem o apoio da minha avó [...] Então, veio à proposta de adoção, fiquei sem saída e senti-me forçada a aceitar.

  Foi difícil, revoltante, não era isso que eu queria. Por falta de opção, fui convencida de que era o melhor para ela! [...] Fugi para as ruas e

voltei a me prostituir e a usar drogas.

Após a adoção da minha filha, meses depois, engravidei novamente e quando a barra começou a pesar na rua, voltei para o Abrigo, não tinha outra opção. Tenho muito receio que a Justiça tome esta minha

filha novamente [...] (Sabrina, 2006)

  A forma como Sabrina expressou o que vivenciou na adoção de sua filha vem reafirmar o que a literatura traz sobre a entrega de um filho para adoção. De acordo com

  

inúmeros estudos estrangeiros, esse processo cria conflitos e conduz a dificuldades

interpessoais, sentimentos de perda e depressão (Motta, 2001 p, apud Burnell & Norfleet,

  1979). Portanto, a adoção é uma questão complexa que mobiliza muito sofrimento, sendo necessário o desenvolvimento de um trabalho de preparação, mesmo quando a mãe verbaliza o desejo de entregar o filho para adoção.

  A entrega de um filho sem a preparação prévia necessária e o acompanhamento posterior adequado poderá redundar num processo carente de elaboração e, portanto potencialmente devastador para a saúde física e mental da mulher, como também poderá gerar atitudes e comportamentos prejudiciais á própria criança e ao sucesso do processo adotivo. (Motta, 200:28)

  A adoção da sua primeira filha aconteceu de forma bastante confusa e não foi dado à adolescente o tempo necessário para refletir e amadurecer sobre o que desejava.

  Ficou implícito, na atitude da família e dos profissionais da Rede, que ela e a sua filha não tinham um lugar definido na casa da avó, da mãe, do pai e tampouco nos serviços da rede de proteção, restando-lhe voltar às ruas, às drogas e à prostituição. A segunda gravidez, a nosso ver, foi uma reedição do que ficou mal resolvido na experiência anterior.

  Tivemos acesso ao processo da adolescente arquivado na Justiça, em que foram verificadas inúmeras contradições entre a posição das equipes dos diversos serviços da Rede. A forma como a adoção aconteceu gerou conflitos internos que foram verbalizados por um membro da Rede.

  Sabrina descompensou [...] ela gritava e repetia: todo ano vou voltar aqui com um filho no bucho para provocar [...]. A técnica que acompanhou o caso também saiu da audiência exaurida e teve uma crise de choro, não concordava com a decisão final, nem com a forma como esta aconteceu. (Rita, 2008) (...) O que mais incomodou foi o fato de a adolescente não ter tido voz por meio de um advogado. Fato esse que dificultou ouvir a vontade da mãe da criança no processo de adoção (...). A família que adotou a criança abriu a possibilidade de a adolescente ter acesso a sua filha, porém isso nunca foi comunicado à mãe da criança (...). Ao

  (Rita, 2008)

final, tenho uma sensação de fracasso.

  Esse desabafo demonstra o quanto essas situações delicadas, envolvendo crianças e famílias quando não encontram equipes multidisciplinares na Rede de Proteção, preparadas para dialogar e subsidiar o parecer final, provocam situações traumáticas de revitimização nas crianças e nos adolescentes e um imenso desconforto e mal-estar entre os profissionais da Rede.

  Ao verbalizar os seus planos para o futuro, a adolescente referiu:

  (...) preciso de ajuda para ir morar no Abrigo para mães

  25 adolescentes , você tem acesso a eles? Li o folder deles, aqui no abrigo e no projeto da Prefeitura. Sei que eles recebem as mães adolescentes com os bebês. Quero ir pra lá, viver com a minha filha e me profissionalizar, ter a minha casa e poder viver tranqüila.

  Esse pedido de ajuda nos mobilizou, haja vista, as condições atuais da adolescente e o receio de que a sua segunda filha também fosse para adoção. Ainda nos chamou a atenção a forma como a adolescente verbalizou a opinião de um profissional da Rede, quando cogitou a possibilidade de transferência para o Abrigo de mães adolescentes, conforme a seguir:

  25 ONG, apoiada pelo UNICEF, Childhood Brasil, entre outros. Atendendo mães adolescentes que são inseridas em programa de apoio psicossocial e de formação profissional.

  (...) falou que não acredita que tem jeito para mim!(...) Mas, não vou desistir! Não quero perder esse filho que carrego no bucho.

  (Sabrina, 2006).

  Apesar da descrença desse profissional, a adolescente não desistiu. Essa persistência representa um movimento de saúde, para além das marcas ela tinha esperança no futuro.

  A adolescente, após o nascimento da sua 2ª filha, estava sorridente e amamentando; nesse encontro, expressou alguns receios, inquietações e expectativas, tais como:

  Tenho medo de perder a minha filha, como perdi a outra. Dessa vez, estou conseguindo amamentar. Será que vou me adaptar ao Abrigo para mães adolescentes?Fiquei tanto tempo na rua

  ! (Sabrina, 2006) Ne ssa fala, ela denota receio de que a história se repita, expressando o medo de que a

  sua segunda filha também seja adotada, além de demonstrar insegurança sobre o processo de adaptação ao Abrigo para Mães Adolescentes. Esse sentimento é natural e pertinente frente às novas situações.

Reunião com Técnicos da Rede de Proteção

  Participamos de reunião com técnicos da Rede de Proteção, ouvimos a história da Sabrina contada por eles e tivemos acesso ao prontuário da adolescente.

  Foi falado sobre o percurso da adolescente no Abrigo e nos diferentes órgãos do Sistema de Garantia de Direitos, sendo ressaltado que era habitual a sua entrada no Conselho Tutelar, abrigo, retorno para família e para a rua. Nessa fala, a equipe denotou descrença na possibilidade de Sabrina organizar a vida, conforme comentário a seguir:

  Sabrina não quer nada com a vida, já fizemos de tudo, ela gosta de ficar na rua, de fazer programas, já teve muitas oportunidades (...) (Equipe Técnica, 2006). Essa fala confirma o que a adolescente havia verbalizado em sua primeira entrevista, a rede de proteção não acreditava na possibilidade de mudança, como se tudo já estivesse pré- determinado, sem saída. Demonstrando, com isso, o quanto é difícil ser cuidador e ser cuidado. Nesse sentido, ressalta-se a necessidade premente de investimento na qualificação e supervisão dessas equipes, sendo essa uma tentativa de evitar a revitimização de crianças e adolescentes nas organizações que são destinadas ao cuidado e à proteção.

Reunião com a equipe do Sistema de Justiça

  Realizou-se reunião com profissionais do Sistema de Justiça, com o apoio de um advogado especialista na área da infância, com o objetivo de se chegar a um consenso sobre a situação de Sabrina. Nessa reunião, conversamos sobre a função do SGD, na promoção do desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Observou-se certa tensão inicial, que foi mediada ao longo da reunião.

  Percebeu-se que a transferência da adolescente para o Abrigo de Mães Adolescente era um procedimento que causava insegurança à equipe do judiciário, pois a elaboração do relatório técnico favorável ou contra esse procedimento seria norteador para a decisão final. Percebeu-se, ainda, que esse fato fugia à rotina do judiciário, pois era de praxe, após o término da amamentação, a separação entre mãe e bebê, mesmo contrapondo-se ao ECA e ao Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, que, a nosso ver, contribui efetivamente para a quebra do vínculo mãe-bebê, favorecendo o abandono e, conseqüentemente, facilitando a adoção.

  Nesse diálogo, foi enfatizado o direito que a adolescente tem a ficar com sua filha, fortalecendo o vínculo mãe-bebê. Além disso, ressaltou-se que o Abrigo para Mães Adolescentes realiza um trabalho especializado que ajuda as meninas a aprenderem a ser mães e a construir um projeto de vida.

  Após a reunião, a equipe técnica elaborou um parecer favorável à transferência da adolescente para o novo Abrigo. O parecer final do Judiciário também foi favorável, com a ressalva de que o processo e o seu monitoramento continuariam vinculados à Comarca de São José dos Campos. O abrigo de Mães Adolescentes terá a responsabilidade de emitir relatórios periódicos para o Judiciário, sobre o desenvolvimento de Sabrina e da sua filha.

Transferência para o Abrigo de Mães Adolescentes e o Desenlace Final da História

  Após a transferência de Sabrina para o novo abrigo continuamos mantendo contato com ela e o Abrigo nos manteve informada sobre a sua adaptação. Agendei uma visita, porém, para a nossa surpresa, alguns dias antes da data marcada, fui informada que Sabrina havia voltado para o abrigo em SJC. Essa notícia provocou desconforto, ansiedade e preocupação, já que o acompanhamento da adolescente seria intensificado, a fim de colhermos material para nossa pesquisa. Acreditava-se na possibilidade gradativa dessa adolescente ressignificar sua situação de abandono e exploração sexual, por meio de um acolhimento adequado. Apesar da transferência da adolescente, fomos ao Abrigo para Mães Adolescentes, onde participamos de reunião com a equipe dessa organização, com a intenção de compreender o que havia acontecido.

  Nessa reunião, a equipe informou que Sabrina saíra para uma festa, levando consigo a sua filha de cinco meses, sem comunicar a ninguém. Sabrina passou a noite fora e retornou no dia seguinte e foi acolhida pela organização. Após o acolhimento, houve uma intervenção da equipe em que foi relembrado à adolescente que, quando houvesse qualquer quebra de regras e – principalmente - fuga, a equipe deveria comunicar a Rede de São José dos Campos, condição estabelecida para a sua transferência. A equipe e as jovens do abrigo pontuaram que, quando Sabrina quisesse ir para alguma festa, não precisava ir escondido e, muito menos, expor a sua filha a riscos.

  A Rede de Proteção de São José dos Campos foi comunicada sobre o ocorrido e informada que Sabrina e o bebê estavam bem. Dias depois, sem nenhuma interlocução entre as organizações, uma profissional da Rede de SJC chegou ao Abrigo para Mães Adolescentes, com uma ordem Judicial e levou a Sabrina com a sua filha de volta para o Abrigo em São José dos Campos.

  A Coordenadora do Abrigo para Mães Adolescentes referiu que as jovens inseridas na proposta da organização são trabalhadas para serem pessoas autônomas e fez a seguinte colocação:

  Algumas meninas casam entre si, não policiamos, nem trabalhamos com julgamentos ou pré-julgamentos morais, queremos ver as meninas lindas, felizes e responsáveis por suas vidas, dentro do possível. A sexualidade das meninas a elas pertence, elas escolhem de que forma querem ter prazer, desde que seja com responsabilidade e orientação, temos oficinas de corpo e sexualidade. A partir deste trabalho, ficam mais cuidadosas com o corpo e, principalmente, com a prevenção a gravidez. Tenho observado que algumas meninas que sofreram abuso sexual na infância, mesmo tendo passado por um processo de prostituição, na adolescência, relatam que não sentem prazer na relação sexual (...) . Assim, observamos que a forma como as meninas são encaminhadas, geralmente, é decisiva em seu processo de vinculação. Quando a equipe que encaminha a adolescente acredita no potencial da menina e na equipe do Abrigo para Mães Adolescentes, parece que tudo dá certo. A Sabrina chegou aqui, com um rótulo de fracasso, é difícil para alguém reverter isso, suportar esse carimbo. (Profissional do Abrigo para Mães Adolescentes, 2006)

  As reflexões da profissional foram endossadas, pois acreditamos que a forma de encaminhamento e a crença no potencial das meninas fazem a diferença no processo de acolhimento e adaptação. A fala dessa profissional é destituída de pré-conceitos e imbuída de compromisso, crença e desejo na possibilidade de crescimento das adolescentes com suas filhas.

Encontro com a técnica do Abrigo Municipal

  Após a visita ao Abrigo para Mães Adolescentes, contatamos a Rede de São José dos Campos para agendamento de uma reunião, que não aconteceu. Pretendia-se, nesse encontro, conversar com a equipe e ouvir a versão de Sabrina sobre os acontecimentos, porém nos informaram que a adolescente havia fugido do abrigo logo após a adoção da sua filha, voltando a morar nas ruas. Nesse contato telefônico, a pessoa da equipe que nos atendeu

  (...) Fizemos tudo por ela, como já prevíamos, não soube aproveitar, até com mulheres ela se envolveu, agora é “sapatona”, acho que as regras no Abrigo para Mães Adolescentes são muito frouxas.

  (Funcionário do Abrigo, 2006)

  Dias após o contato telefônico com o abrigo, encontramos uma profissional do Abrigo de São José dos Campos e, nesse momento, foi possível conversar com essa profissional sobre o que aconteceu com Sabrina.

  Nessa conversa, percebemos que a profissional estava auto-reflexiva, perguntando-se sobre os acertos e desacertos que propiciaram esse desfecho traumático para Sabrina e um grande mal-estar para a equipe. Por isso, ela se indagava: onde estamos errando no trabalho com as meninas, muitas estão fugindo, se prostituindo, engravidando. É difícil demais...

  Aproveitamos essa abertura da profissional e levantamos alguns questionamentos sobre a sua prática, destacando, através dessa situação, a importância da supervisão, da capacitação e do cuidado para com o profissional, uma vez que a condição humana de desamparo e fragilidade atravessa todos nós. Ressaltando que atender casos delicados, como o de Sabrina, provoca impactos em nossa subjetividade e exige do profissional abertura para lidar com o novo, com o não saber e, sobretudo, com frustrações. Ainda destacamos a importância de a equipe acreditar no potencial das crianças e dos adolescentes, escutando e acolhendo as suas dificuldades, mas também acreditando que é possível superá-las.

A última notícia de Sabrina

  Dois meses após a fuga da Sabrina do Abrigo Municipal de São José dos Campos, fui informada pela equipe do Abrigo para Mães Adolescentes que ela voltou para a região e que está residindo na cidade onde se encontra o Abrigo para Mães Adolescentes, vivendo maritalmente com uma jovem que morou nesse abrigo. Essa jovem tem duas filhas, já passou pelo ciclo de abrigamento e, atualmente, conquistou o seu espaço e montou a sua própria casa, onde reside com as filhas e com Sabrina. A jovem trabalha nos projetos de geração de renda

  5.3 - Sistema de Justiça

  Setor Técnico Profissional trabalha na instituição há 15 anos

  A entrevistada considera que o trabalho do Sistema de Garantia de Direitos existe para auxiliar o Juiz e o Ministério Público em suas decisões.

  A equipe realiza atendimento de apoio psicossocial ao Juiz por meio de pareceres, avaliações, laudos sociais e psicológicos (Rita, 2008). Entretanto, como a Vara de Família não tem quadro técnico no interior, solicita o nosso acompanhamento para avaliação de disputa de guarda (Rita, 2008).

  Com relação ao fluxo do atendimento às situações de violência sexual a crianças e adolescentes, fala que a partir da notificação ao Conselho Tutelar, o primeiro atendimento é realizado por um serviço, onde uma equipe especializada composta de Assistente Social,

  (Rita, 2008). Rita considera

  Psicólogo e Médico Pediatra ou Hebiatra realizam o diagnóstico

  que quando os casos que chegam em primeira instância ao Judiciário, as vezes encaminhados por outras Comarcas ou pela população, ocorre a quebra do fluxo e, também, cria um certo

  

desconforto na equipe, uma vez que alguns técnicos fazem o atendimento sem remetê-lo ao

fluxo pré-estabelecido (Rita, 2008).

  Assim, para prevenir essa quebra no fluxo esperado, a equipe está construindo um

  

Protocolo de Posturas (Rita, 2008). Esse documento pretende contribuir para que o fluxo não

  seja quebrado e, portanto, que os casos não sejam perdidos pelos profissionais da rede ou fiquem presos na burocracia do Sistema de Garantia de Direitos. A profissional entrevistada considera que a Rede de Proteção ainda perde muitos casos devido à forma de

  

encaminhamento (Rita, 2008). Para exemplificar a questão, Rita se refere a um caso no qual a

  Rede fracassou no sentido de proteger a criança que acabou prostituída:

  [...] a exemplo do caso da Sabrina, que você bem conhece. Essa menina foi encaminhada para o SGD com 4 anos de idade e aos 16, após duas gravidezes os filhos foram para adoção, ela se prostituía estando ainda no abrigo, toda a Rede de Proteção tinha conhecimento dessa situação e não conseguíamos intervir de forma a protegê-la, juntamente com suas filhas (Rita, 2008).

  A Profissional faz uma reflexão dizendo que o que mais incomodou aos técnicos foi o

  

fato da adolescente não ter tido voz por meio de um advogado (Rita, 2008). Dessa forma,

  denuncia a falta de uma política pública que defenda os direitos da criança e do adolescente em situação de vulnerabilidade social, anunciando que precisamos de mecanismos para que a lei seja cumprida.

  A entrevistada ainda fala que A adolescente descompensou após a audiência deixando um recado para o Judiciário: “Avisa [...] que eu sempre vou voltar aqui com um filho no colo todo ano, somente para provocar vocês” (Rita, 2008). Apesar da família que adotou a criança ter aberto a possibilidade de a adolescente visitar sua filha, esse fato nunca foi comunicado a Sabrina.

  Rita fala sobre o mal estar vivenciado pela equipe no desfecho desse caso, diz: Vivenciamos situações muito difíceis de conflito entre a equipe no encaminhamento desse caso. Ao final, tenho a sensação de fracasso (Rita, 2008).

  Ressalta também que a medida protetiva de afastamento do agressor sexual do lar muitas vezes não é cumprida porque a própria família compactua com a manutenção do

  

agressor no lar (Rita, 2008). Diz ainda que a equipe dificilmente consegue acompanhar a

família para garantir o cumprimento da medida, diz: a falta de um acompanhamento

sistemático do Judiciário acarreta a revitimização de muitas crianças, pois em média,

levamos seis meses para reavaliar a família (Rita, 2008).

  Rita fala que quando a equipe percebe que a criança continua a conviver com o suposto agressor sexual, a medida aplicada pelo Juiz é o abrigamento da criança. Se refletirmos sobre essa questão encontra-se uma nova contradição, pois se há uma precariedade no acompanhamento das famílias em situação de violência sexual, perguntamo-nos: como é que técnicos e Juízes sentem-se autorizados a encaminhar crianças e adolescentes para um atender devidamente os casos, que deveriam passar por diagnóstico, avaliações e receber visitas periódicas de um assistente social, como uma equipe sustenta essa posição? Segundo o Plano Nacional de Convivência Familiar e o ECA, o abrigamento deve ser medida de exceção, ou seja, deve-se até esgotar todas as possibilidades de preservar a convivência familiar de crianças e adolescentes:

  No tocante ao direito à convivência familiar e comunitária, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu no artigo 19 que toda criança ou adolescente tem direito de ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária. Esse dispositivo do Estatuto foi considerado, e somado aos princípios constitucionais e convencionais, como outro marco legal basilar na construção do Plano Nacional de Convivência Comunitária. Em função desse princípio, o ECA estabelece:

  A excepcionalidade e a provisoriedade do Acolhimento Institucional, obrigando que se assegure a “preservação dos vínculos familiares e a integração em família substituta quando esgotados os recursos de manutenção na família de origem” (Artigos 92 e 100). Nesta hipótese, o ECA estabelece que a colocação em família substituta se dê em definitivo por meio da adoção ou, provisoriamente, via tutela ou guarda (Artigos 28 a 52 do ECA), sempre por decisão judicial, processando-se dentro dos princípios e requisitos previstos na citada Lei 8.069/90, aplicando-se quando for o caso, subsidiariamente, as regras do Código Civil. Nesse ponto, a regulação das formas de colocação familiar citadas não foi alterado pelo novo Código Civil (2002) e por nenhuma outra posterior ao ECA. (Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2006:22)

  Rita, ressaltou dificuldade de o técnico argumentar, entretanto acredita que é um avanço a possibilidade desse diálogo existir, pois os profissionais procuram se articular com os outros atores da Rede de Proteção para garantir a proteção Integral, diz:

  [...] a gente avança a pequenos passos quando nos aproximamos da Rede. Às vezes, tenho a sensação que o Tribunal criou um setor técnico porque o ECA determina, mas ainda existe resistência e despreparo de alguns operadores do SGD para trabalhar em rede,

  (Rita, 2008). principalmente com uma equipe multidisciplinar. Ela identificou claramente o ponto de tensão entre os outros atores da Rede, atribuindo o conflito ao lugar que o judiciário ocupa na Rede, que é o de punir e coibir as violações de direitos cometidas contra crianças e adolescentes ou violações cometidas por esses (referindo- se aos atos infracionais). Esse lugar exige uma aproximação da Rede, [...] e requer um

  distanciamento [...] da Rede. (Rita, 2008).

  Quanto ao momento de proximidade do Poder Judiciário com a rede de atenção, a assistente social destaca que os encontros promovidos pelo Programa Refazendo Laços ajudaram na construção do fluxo, na discussão conjunta dos casos, no compartilhamento dos

  

avanços, das frustrações, as aulas, as supervisões, contribuíram para melhorar de forma

significativa o relacionamento entre os profissionais e serviços (Rita, 2008). Assim, as

  relações entre as redes, segundo a entrevistada, antes eram muito estanques, não conseguíamos nos comunicar (Rita, 2008).

  A Rita observa que:

  Apesar das dificuldades, percebo a comunicação fluindo entre os diferentes setores. O Setor Técnico do Judiciário está mais aberto, menos burocrático, alguns atendimentos se desdobram em vários procedimentos e intervenções, que o Juiz só vem referendar posteriormente, porque entra na dinâmica da rede, na interdisciplinaridade e quando observamos os avanços já aconteceram e a eficácia das intervenções assertivas começam a aparecer. (Rita, 2008).

  Com relação ao atendimento à exploração sexual no município, a entrevistada diz que ainda estão em processo de amadurecimento, pois há muitas dificuldades em lidar com essas situações, diz que se trata de uma situação pesada para intervir, todos se calam (Rita, 2008). Entretanto, os atores da rede estão refletindo sobre essa questão, a fim de encontrar uma alternativa na implantação dessa política, diz: Estamos caminhando para isto. Porém temos

  

situações graves e um mapeamento feito pelo Conselho Tutelar que apresenta mais de 40

adolescentes envolvidos com essa situação. (Rita, 2008). Aponta que muitos desses casos são

  de adolescentes que passaram muito tempo dentro dos abrigos, diz: As meninas circulam pela

  

Rede, passando pelo MP, Judiciário, CT, Centro de Referência, Abrigos, Escolas, entre

outros e acabamos não assumindo uma posição de proteção. (Rita, 2008).

  Para finalizar, Rita fala um pouco que a forma mais eficiente de se fazer a proteção de crianças e adolescentes é promover um maior entrosamento entre os serviços do eixo Defesa e Responsabilidade (no qual o Judiciário está incluído), com os demais serviços do Executivo (Rita, 2008). Dessa forma, destaca que as pessoas precisam se encontrar para poder cuidar, a exploração ainda é um tabu na Rede. É necessário trabalhar com as famílias e com os (as) adolescentes, aprofundando abordagens e metodologias de intervenção. Esse tema é complexo e difícil. (Rita, 2008).

  Vara da Infância e Juventude Formação: Direito

  Segundo Márcio, a função da instituição em que trabalha está baseada no ECA, que em seu art.145 diz:

  Estados e Distrito Federal poderão criar varas especializadas e exclusivas da infância e juventude... Assim o Juiz da Infância e Juventude exerce a função de Organização Judiciária local. Contando com o Serviço Auxiliar da equipe psicossocial de apoio ao Juiz. (Marcio, 2008).

  Quanto à relação do Poder Judiciário de SJC com a estruturação das políticas públicas para o enfrentamento à Violência sexual contra crianças e adolescentes, nosso entrevistado afirma que tem acompanhado conjuntamente com o Ministério Público a implantação de serviços, procurando dialogar com o poder executivo e com as organizações que desenvolvem os projetos de atendimento.

  Marcio relembra o caso de uma adolescente envolvida com a exploração sexual, o qual se lamenta da impossibilidade da Rede em conseguir solucionar de forma satisfatória a questão dessa jovem, diz:

  Tentamos fazer de tudo, a colocamos em um abrigo de gestantes menores de idade em Sorocaba. Chegou lá, não se adaptou ao regime disciplinar da entidade. Retornou a SJC com o filho, retornou para a

  26 vida e o filho foi encaminhado para adoção (Marcio, 2008) .

  O entrevistado admite dificuldades no trabalho com adolescentes e considera que a falta de afetividade nas relações familiares pode ser responsável pelos adolescentes precisarem dos serviços da Rede de proteção, diz:

  Trabalhar com adolescente é muito difícil, porque ele já tem uma opinião própria, uma formação, diferente de uma criança. O adolescente já vem com todo um passado de negligência familiar, vem com uma carência afetiva familiar muito grande, a complexidade

  (Márcio, 2008).

  é maior.

  A fala de Márcio sobre a instituição familiar nos faz lembrar Donzelo (1986) quando reflete sobre as visões maniqueístas de família, diz: esse esquema é muito pobre para

  

compreender tanto o atual perfil da família, quanto a natureza do apego que lhe devotam os

indivíduos das sociedades liberais (Donzelot,1986:53).

  Para esse autor, a compreensão das mudanças históricas que aconteceram no interior das famílias ao longo dos últimos séculos vai além de uma divisão entre o certo e o errado, entre boas ou más condições. Para ele, a organização familiar moderna está imbricada nas 26 transformações que o desenvolvimento do Estado democrático e o sistema capitalista

  

Em conversa com a diretora desse abrigo citado por Marcio, nos foi dito que a equipe técnica do Abrigo fez de tudo para

manter a jovem com eles. Por meio de relatórios tentaram convencer a equipe do fórum de SJC de que a menina necessitaria

de mais algum tempo para conseguir adaptar-se a rotina do abrigo. Entretanto a equipe técnica que auxilia o Dr. Marcio foi

extremamente rígida e não se dispôs a compreender o processo pelo qual estava passando a jovem e exigiu a remoção da

adolescente de volta a SJC com conseqüente destituição do poder familiar, ou seja, a adolescente foi bruscamente separada de provocaram nas sociedades. Dessa forma, a família moderna organiza seus vínculos de uma forma tão flexível e tão oposta à antiga rigidez jurídica [...] (Donzelot, 1986:53).

  Em outras palavras a questão não consiste em saber para que serve a família numa economia liberal ancorada na propriedade privada, mas sim, em compreender por que ela funciona, de que maneira pôde constituir um modo eficaz de afastar os perigos que planavam sobre uma definição liberal do Estado, por um lado devido à revolta dos pobres – exigindo torná-la o princípio reorganizador da sociedade – e, por outro lado, devido a insurreição dos indivíduos contra o arbítrio do poder familiar – ameaçando corroer essa frágil e decisiva muralha contra uma gestão estatal e coletiva dos cidadãos. O problema está, portanto, antes de mais nada, em sua transformação e não em sua conservação (Donzelot, 1986:53).

  O entrevistado informou que há serviços para atendimento aos adolescentes no município e refere que o mesmo recebeu apoio de uma organização internacional para melhorar qualidade do serviço. Entretanto fala: ainda não encontramos a forma para

trabalharmos com a demanda de jovens envolvidos com a exploração sexual (Marcio, 2008).

  Percebeu-se também que Márcio reduz a problemática da exploração sexual ao uso de drogas, ou seja, estabelece uma relação de causa e efeito na qual acredita que as meninas se prostituem em função da dependência química. Essa posição simplista estabelece uma tensão entre as diferentes instâncias de proteção e cuidado de crianças e adolescentes submetidos ao mercado do sexo, já que a literatura especializada e a posição dos profissionais especializados no acompanhamento destas situações se contrapõem a uma visão simplista, sendo unânimes na compreensão da complexidade desta questão.

  Logo após falar da impossibilidade do trabalho com adolescentes em exploração sexual fala do SINASE (Sistema Nacional Sócio Educativo) dizendo que o município avançou na sua implantação, diz:

  [...] tem curso profissionalizante, inserção no mundo do trabalho e sempre quando encontramos o Prefeito ou Secretários, debatemos com eles sobre melhorias para as políticas da infância e sempre estão

preocupados e abertos para mudança

  (Marcio, 2008). Pensando na fala sobre o SINASE, que apareceu logo após ter falado da impossibilidade do trabalho com adolescentes envolvidos com a exploração sexual comercial, podemos supor que nosso entrevistado veja na proposta sócio-educativa e no diálogo do executivo com o judiciário uma saída para o atendimento a esse fenômeno.

  5.5 – Gestor

  Idade: Não informada Tempo na organização: 1975 até 1983 e de 1996 até hoje.

  Joana contou a história da implantação da política de atenção à criança e ao adolescente no município. Esse processo parte de dois eixos: o primeiro é a imagem construída do município de São José dos Campos em torno da idéia de instância militar e tecnológica por ser a sede do CTA – Centro Tecnológico Aeronáutico.

  O segundo passa pela questão de que o município tinha grandes hospitais para o atendimento a pessoa com tuberculose, a cidade era voltada para o atendimento de tuberculose. Tinham grandes centros que abrigavam as crianças, cujos pais estivessem internados (Joana, 2008). Com o tempo os hospitais foram sendo desativados e transformados em outros serviços.

  O processo de implantação da primeira política social por volta do ano de 1975, teve como primeira intenção manter a ordem pública, pois pretendia impedir que meninos de rua fizessem arruaça nas ruas roubando sacos de lixo:

  Os meninos de rua furavam os sacos [...]. Esses meninos sempre estavam fazendo arruaça na rua, então para impedir esse problema, ele (o prefeito) começou um trabalho social, chamado Fiscais do Lixo, apelidando esses meninos de fiscais para que eles tomassem conta. (Joana, 2008) A Secretaria Municipal de Educação foi a primeira a executar o trabalho com as crianças e adolescentes, tendo como foco a profissionalização e, em 1987, após a estruturação da Fundação, esta passa a executar as ações sócio-educativas.

  Nossa entrevistada também participou da implantação do CMDCA-SJC, anterior ao ECA (1989), e foi sua primeira presidenta. Nossa entrevistada orgulha-se de seu município ter sido pioneiro na implantação do Conselho de Direitos da Criança e do adolescente.

  Hoje é gestora de uma organização social que tem a seguinte divisão:

  1. Atendimento à criança e ao adolescente em situação de vulnerabilidade social e os casos de violência doméstica e sexual.

  2. Trabalho infantil e medidas sócio-educativas em meio aberto, em que funciona também o Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (PETI).

  Com relação à função de atendimento e proteção da criança e do adolescente, a instituição parece ter um serviço de qualidade e está integrada ao sistema de garantia de direitos, pois todas as ações possuem interface com outros atores da Rede.

  Quanto à possibilidade de a Instituição estar aberta a novas idéias, percebemos que há estabelecimento de parcerias que promovam a capacitação dos profissionais e a discussão do tema da violência no município por meio de encontros temáticos, seminários e capacitações continuadas: As formações e os acompanhamentos da Rede se transformaram em ação

  

contínua de qualificação das equipes, sendo estendida essa metodologia para a formação das

(Joana, 2008). ONGs

  Percebeu-se, no discurso da gestora, que há preocupação com o trabalho em rede e que há um diálogo entre os serviços da execução das ações, porém Joana fala sobre a dificuldade das instâncias da política macro (Estado e Federação) em manter a continuidade do financiamento dos programas sociais, diz: A política Federal e Estadual é muito inconstante,

  eles lançam e desaparecem de uma hora para outra (Joana, 2008).

  A saída que o município encontrou para lidar com a inconstância das políticas Estaduais e Federais e manter os seus projetos sociais foi a seguinte:

  O Município tem que implantar o Programa como política pública para poder se desenvolver. Tomamos como base aqui em SJC uma política que vem do Federal e Estadual só para acrescentar o que já existe. Se você abre alguma coisa contando com esse recurso, aí desaparece de uma hora para outra, você tem que colocar como orçamento público (Joana, 2008).

  Com relação à atenção às situações de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, o município tem promovido discussões dentro do CMDCA, apropriando-se da problemática para poder propor uma política pública de atenção ao fenômeno, diz:

  No que se refere à exploração sexual, o CMDCA está se apropriando do diagnóstico que apresenta a demanda de atendimento, estruturou um GT que está analisando a melhor forma de implantar essa política em parceria com a Comissão Municipal de Enfrentamento a Violência Sexual . (Joana, 2008).

  Há uma crítica na fala da nossa entrevistada sobre a estrutura vertical das políticas

  

públicas no Brasil que dificultam o diálogo entre os diferentes segmentos (Joana, 2008). Essa

  crítica está em consonância com a visão de Chico Whitaker sobre as estrutura piramidais - verticais de funcionamento das políticas públicas, em oposição às estruturas horizontais de funcionamento das redes. Esse autor destaca a importância das estruturas horizontais, como sendo uma excelente alternativa para consolidação de um trabalho em rede.

  Segundo a sua visão, a estrutura em pirâmide corresponde às pessoas ou entidades que se organizam em níveis hierárquicos, os quais se superpõem e cada nível compreende menos integrantes do que o nível que lhe é inferior.

  O conjunto se afunila a partir de uma base que pode ser mais ou menos ampla, para chegar a um topo no qual pode se encontrar um único integrante – o “chefe” . A comunicação entre integrantes de diferentes níveis se faz de cima para baixo ou de baixo para cima, através dos níveis intermediários àqueles que se comunicam.

  (Whitaker, 2004) Esse tipo de organização é mais usual por causa da influência da cultura e dos modos de agir dominantes. Imita-se, quase naturalmente, a estruturação piramidal do poder na sociedade em que se vive. Além disso, no confronto ou negociação entre organizações colocam-se sempre, frente a frente, seus responsáveis ou dirigentes, ou seja, os topos das respectivas pirâmides – numa perspectiva de poder versus contra-poder. Todos se vêem, portanto, praticamente obrigados a assim se estruturar. A estrutura em rede é uma alternativa à estrutura piramidal, na qual seus integrantes se ligam horizontalmente.

  A entrevistada apresentou as alternativas dos gestores do município para lidarem com a verticalidade da estrutura das políticas públicas nacionais, diz:

  Estamos a passos lentos, quebrando essa estrutura de poder, por meio do estabelecimento de termos de cooperação intersecretarias.

  Esses Pactos são assinados pelo Prefeito e pelos Secretários. Dessa forma, estamos caminhando para realização de um trabalho integralizado em Rede, onde o poder é compartilhado. Isto não é uma ação fácil, gera muitas tensões e requer um trabalho de articulação permanente, essa prática ainda não está completamente incorporada à administração pública, é difícil, requer muito esforço para termos o comprometimento e o pertencimento de todos os envolvidos . (Joana, 2008)

  Idade: não informada Na organização há mais de 10 anos

  Segundo Lourdes, a atual Política Nacional, Estadual e Municipal de Assistência Social trabalha sem especificações dos tipos de violações de direito, que é dividida em dois grandes grupos: proteção básica e proteção especial de média e alta complexidade. A entrevistada diz que o município está em pleno processo de implantação do SUAS e sua

  

implantação, reformulação e execução em parceira com a Fundação Municipal que cuida da

política atenção integral à crianças e adolescentes (Lurdes, 2008).

  Observa-se que o município já dispunha do serviço CREAS proposto pelo SUAS. O que está sendo feito é uma adaptação para as normas que o SUAS propõe. Para tanto, escolheram um bairro da cidade e estão implantando um projeto piloto e, somente após a avaliação dessa experiência, irão estender o serviço aos outros bairros do município. Sobre a promoção de uma ação descentralizada e articulada em outros serviços da Rede, com base no SUAS diz:

  Eles montaram a estrutura e o trabalho para a comunidade e a partir de agora eles pretendem estender o trabalho para outras comunidades do município de São José [...] essas políticas não podem ser desarticuladas, ele vai ser o órgão centralizador de informações e definidor de políticas macro (Lourdes, 2008).

  Quanto à gestão financeira das políticas propostas pelo SUAS a entrevistada diz: eu

não tenho clareza , porque ainda estamos em processo de implantação e definições.

Entretanto, sabe que a organização destinada ao atendimento de algumas ações propostas pelos CREAS, ou seja, a Fundação tem uma administração financeira independente da Secretaria de desenvolvimento social:

  Estruturalmente, a Fundação faz uma administração financeira, completamente, independente da Prefeitura. Ela recebe uma cotação orçamentária, mas responde por esses serviços que está fazendo, independentemente do recurso que ela recebe. Ela tem o seu próprio sistema de compra, cartão, que respeita a Lei orçamentária do município, do mesmo jeito. O setor de compra da Fundação não é o mesmo setor de compra da Prefeitura, ela tem uma administração

financeira separada (Lourdes, 2008)

  Dessa forma, nota-se que o fato da Fundação ter certa independência em sua dotação orçamentária pode ser motivo causador de tensões durante o processo de adaptação do município às novas diretrizes do SUAS. Por isso, é importante destacar o que a entrevistada falou no início da sua entrevista e que está em consonância com a opinião emitida por Joana, no município e que vem dando certo, senão se corre o risco de desestabilizar o que já se tem. Sendo assim, o SUAS deve integralizar o Sistema de Assistência Social às demais políticas.

  5.7 - Sistema de Saúde

  Profissional da Saúde Flávia é uma profissional altamente qualificada, possuindo várias especializações. A fala dessa profissional evidenciou que a porta de entrada para os casos de violência doméstica e sexual dentro da Secretaria de Saúde do Município de São José dos Campos são as Unidades Básicas de Saúde - UBS e os Hospitais, onde

  27

  é realizado o atendimento emergencial e logo após o caso é encaminhado ao Programa Especializado.

  Assim, o pediatra na equipe de saúde tem a função de diagnosticar o grau de violência e de acionar os serviços da rede de proteção. Dessa forma, podemos dizer que a saúde está integrada ao Sistema de Garantia de Direitos.

  O trabalho do pediatra na equipe multidisciplinar em SJC consiste na realização do diagnóstico e no acompanhamento das situações de violência sexual. Primeiro, analisamos se a situação é de baixa, média ou alta complexidade. Nos casos de baixa complexidade, o acompanhamento é realizado pela Rede de Assistência Básica (UBS, Escola, Creche, Fundação

  28 , Secretaria de Esportes, entre outras). O acompanhamento da criança /adolescente que sofreu a violência diagnosticada de média ou alta complexidade é realizado pelo Ambulatório de Saúde, onde, a criança é avaliada por pediatras com especialização em Violência Doméstica e Sexual. Essa equipe atua nas três frentes no Programa Especializado: prevenção, atendimento e diagnóstico

(Flávia). Notamos que o trabalho na saúde é desenvolvido por equipes multiprofissionais, havendo uma preocupação especial com as questões referentes à prevenção das DST /AIDS, não somente nas crianças e adolescentes, mas também em toda a família. A base desse trabalho profilático é um manual elaborado pelos profissionais do próprio município e que segue as diretrizes do Ministério da Saúde.

  Em relação ao lugar ocupado pela saúde no município, percebemos que os profissionais assumem a função de prevenir e acompanhar todas as situações de saúde dos

  munícipes (Flávia).

  Flávia referiu que muitos de seus colegas de trabalho estão dispostos a receber novas idéias, demonstrando disposição em participar de capacitações continuadas e de desenvolver ações em rede. Porém, encontram dificuldades na estrutura administrativa da Secretaria, como por exemplo, a não liberação dos profissionais para participar dessas atividades. Alguns profissionais ainda apresentam resistências para aceitar novas metodologias de trabalho, principalmente quando envolvem o trabalho multidisciplinar. Encontramos algumas

  

resistências por parte de alguns profissionais [...] os quais ainda assumem uma postura de

atendimentos e intervenções individualizados. Entretanto, nota-se que há abertura para escutar

  as questões sobre sexualidade trazidas pelos adolescentes, sem fazer julgamentos morais.

  A profissional refere que é necessário que os profissionais mudem algumas posturas adotadas para poder acolher o adolescente que está envolvido com o mercado do sexo. Flávia tem consciência de que essa mudança de postura consiste em um trabalho complexo, já que mexe com valores pré–estabelecidos, ressaltando que os médicos devem trabalhar conjuntamente com equipes multidisciplinares, discutindo as questões referentes à sexualidade humana.

  Com relação à eficácia da rede na atenção às situações de violência sexual podemos dizer que, na Secretaria Municipal de Saúde, os profissionais têm consciência de que existem muitos adolescentes joseenses envolvidos com a exploração sexual. No entanto, em relação à qualificação para realizar a abordagem, há competência técnica e metodológica consolidada

  

para atender aos casos de violência doméstica e sexual (Flávia). Entretanto, para o a

  atendimento às situações de exploração sexual, não há metodologia consolidada, nem atendimento especializado. Os profissionais não estão preparados para ouvir, acolher, cuidar

  

e encaminhar os casos de exploração sexual (Flávia). Assim, a pediatra destaca a importância

e urgência na implantação de um serviço especializado que venha a atender esses casos.

  

5.8 – Programa Especializado no atendimento a crianças e adolescentes em situação de

violência doméstica e sexual

  Cargo: técnico A entrevistada tem bastante clareza sobre os conceitos das diferentes modalidades de violência contra crianças e adolescentes e atribui valor especial a dois processos: um é o de formação dos profissionais, que inclui até os gestores. A entrevistada considera que quando os gestores estão sensíveis, consegue-se uma alta participação dos profissionais, no

  desenvolvimento dos projetos, no repensar da prática profissional (Valéria, 2008).

  O outro, refere-se às ações de prevenção realizadas por sua instituição, que é bastante articulada com o Estatuto da criança e do Adolescente, principalmente no que tange ao envolvimento dos jovens nas ações de prevenção, diz: Essas ações têm norteado a ação

  

direta no nível da articulação e mobilização, a participação de outras entidades e dos órgãos

públicos acerca da temática que a gente desenvolve (Valéria, 2008).

  Percebeu-se que o Programa do qual a técnica faz parte faz um intenso movimento de articulação dos atores da rede para elaboração de propostas de intervenção em conjunto, diz:

  

Hoje o Programa Refazendo Laços tem fomentado esses encontros dos profissionais nas

discussões que permeiam essa temática. (Valéria, 2008).

  Além de uma articulação entre os serviços da Rede, há um profundo investimento da nossa entrevistada no trabalho na direção de articular subsídios para que esses profissionais

  

possam desenvolver suas práticas com maior segurança, maior aprofundamento e cuidados ,

  [...] cuidado com os profissionais, que é um momento específico, sendo coroado dentro do (Valéria, 2008).

  PRL.

  Assim, a articulação passa a ter uma dupla função, a de provocar espaços de discussões entre os profissionais da Rede, colocando suas práticas sobre a análise de profissionais de outras áreas e também o de promover a sensibilização dos profissionais para a necessidade desses cuidarem pessoalmente para preservarem sua saúde física e mental. Esses momentos proporcionados pela instituição são chamados por nossa entrevistada de cesta

  básica , diz: A Cesta básica, é um momento no qual os profissionais podem relaxar, estando fora do atendimento, propriamente dit., Neste encontro com os profissionais do atendimento direto à violência, busca-se o fortalecimento das equipes, o auto-conhecimento e a integração. Essa prática nasceu da dimensão do cuidado com o profissional desde a implantação do Refazendo Laços no município [...] todas as últimas sextas-feiras do mês é o momento de toda a (Valéria, 2008).

equipe se encontrar em outro contexto

  Esse trabalho de articulação e discussão é estendido aos outros atores da rede, que se reúnem mensalmente e, além de estudo, promovem discussões de casos, diz: aquele garoto ou

  

garota que estão em uma situação complicada, então sabemos quem são os nossos parceiros

e quem é a nossa rede de apoio (Valéria, 2008). Esses encontros propiciam contato entre os

  diversos segmentos: ONGs, secretarias, entre outros. A discussão estende-se à sociedade civil, provocando assim a interface entre o poder público e o privado. Dessa forma, a entrevistada acredita que o Programa Refazendo Laços está realmente sendo reconhecido como um projeto de prevenção, aperfeiçoamento das políticas existentes e provocação para a implantação de novas políticas públicas.

  Com relação ao trabalho com a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, a entrevistada faz referência à contribuição que a parceria com o Childhood Brasil proporcionou entre os anos de 2005 e 2007. Cita que a especificidade do trabalho do Programa era a atenção à violência doméstica intra-familiar e violência sexual extra-familiar

  

somente até 12 anos (Valéria, 2008). Porém, hoje já está sendo implantado um Projeto para

  atender também adolescentes, diz: Acho que o município conseguiu perceber e ver que essa é

  

uma questão forte, que temos que saber qual o cuidado que vamos ter para proteger as

crianças e adolescentes que estão nessa situação de exploração sexual (Valéria, 2008).

  Na medida em que foram elaborados alguns documentos, a clarificação dessa temática, da existência de crianças e adolescentes nessa situação, houve uma mobilização do poder público e até legislativo de dar resposta. Começaram a haver maiores reuniões de comando maior com o CMDCA, com a Câmara Municipal e até mesmo com o Governo. Acho que hoje, estamos no momento propício para discutir e implementar políticas públicas de atenção a exploração sexual no município. Acho que a partir daí, tem uma contribuição fundamental, a chegada do Refazendo Laços, da parceria com o Childhood Brasil, que nos mostrou as evidências

  (Valéria, 2008). desse desafio

  Notamos então o caminho que os profissionais da área da criança e adolescentes estão percorrendo no município pra provocar o poder público a instituir políticas de atenção ao fenômeno da exploração sexual de crianças e adolescentes. A partir dos espaços de discussões, formulam-se documentos que são encaminhados às esferas públicas, as quais pensam ações a esse respeito.

  Nossa entrevistada revela que o que a mobilizou a lutar pela melhora da política de atendimento a criança e adolescente em situação de exploração sexual foi um caso que atendeu no passado, diz:

  Isso foi uma coisa que profissionalmente me marcou muito, [...] porque naquele momento a gente fez tudo que podia, pegamos provas do aliciador, brigamos, fizemos tudo que podíamos, estávamos com aquela menina no atendimento e quando você vai naquele momento pedir ajuda de outra ordem, a instância jurídica, a Vara específica, nós não conseguimos fechar a proteção dessa menina. Estou falando desse fato, porque me marcou profundamente (Valéria, 2008).

  Valéria nos esclarece também sobre a importância da articulação da rede no atendimento a esse fenômeno, diz:

  Nós, do atendimento, precisamos que o trabalho aconteça de forma integrada em rede, essa interação favorece, mas não cabe só isso. Sabemos que o Sistema precisa ser integrado, responsável, com suas características definidas, porque a exploração sexual traz consigo a dimensão do tráfico. Então, têm outros segmentos e outros contextos que têm que estar bem articulados para saber quais os procedimentos que devem ser adotados . (Valéria, 2008) Ressalta, também, que o próprio tema da exploração sexual causa muita tensão quando o profissional não sabe o que fazer, parece que é ainda o desconhecido [...] é um tema que

  nos traz vários desafios e inquietações . (Valéria, 2008) 5.9 - Conselho Tutelar

  Cargo: Conselheira Tutelar Segundo nossa entrevistada, a função do Conselho Tutelar é garantir que a criança e o adolescente tenham um desenvolvimento biopsicossocial saudável, que não se permita a violação de seus direitos (Soraia, 2008), sendo que a criança que tenha seus direitos violados deve buscar orientação no Conselho Tutelar, que está integrado a outras instituições como escolas, hospitais, delegacias etc., que também solicitam a intervenção do Conselho quando se deparam com situações de violação.

  Quanto à abordagem da violência doméstica e sexual, Sonia diz que após o recebimento da notificação, o Programa de atendimento é acionado para fazer o diagnóstico e os pais são notificados para comparecer ao Conselho Tutelar. Assim, o conselheiro faz o

  

encaminhamento para acompanhamento e para o judiciário nas situações necessárias

(Soraia, 2008).

  A Conselheira faz uma crítica à necessidade de existência do Conselho, diz:

  Alguns dizem que o CT é a porta de entrada, já outros vêem como porta de saída. Eu vejo o Conselho Tutelar como um órgão dispensável. Se o Sistema de Garantia de Direitos (SGD) funcionasse adequadamente, se não houvesse violação de direitos, não precisaria existir. O CT é um órgão que atua quando alguém falha: seja o Estado, o Município ou a família (Soraia, 2008). Para a entrevistada, o papel fundamental do Conselho está em mapear os buracos e as

  

falhas da Rede (Soraia, 2008) e provocar o CMDCA e o Executivo para que estruturem as

  políticas. Acrescenta que é por meio das políticas públicas eficientes que encontramos a solução para a maioria das questões que chegam ao CT (Soraia, 2008).

  Quanto à relação do Conselho Tutelar com a Rede de Proteção, a entrevistada destaca que passou a haver uma interlocução fecunda entre os serviços a partir da intervenção de um Programa denominado Refazendo Laços (em pareceria com uma entidade internacional - Childhood Brasil) o qual instituiu uma prática de supervisão aos Conselheiros tutelares e de formação continuada aos atores da Rede. Fala que essas qualificações permanentes de todas

  

as equipes do município que atendem crianças e adolescentes têm facilitado o diálogo entre

os diferentes serviços e a ampliação das políticas públicas . (Soraia, 2008).

  Quanto ao trabalho específico do Conselho Tutelar com o fenômeno da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, a conselheira considera que ainda não estão preparados para intervir na Rede que sustenta a exploração sexual. Refere que essa intervenção é bastante complexa. Diz: ainda não temos uma metodologia consistente, nem um

  

fluxo estruturado para esse atendimento, no qual é fundamental que o Sistema de Justiça atue

coibindo os aliciadores e que os demais serviços de proteção à criança e ao adolescente

tenham uma política estruturada de acompanhamento (Soraia, 2008).

  Sônia parece ter uma boa consistência teórica sobre o fenômeno violência sexual, pois consegue diferenciar o abuso sexual intra-familiar da exploração sexual comercial e tem a plena consciência da dificuldade de fazer a proteção a crianças envolvidas com a exploração sexual e da importância da estruturação da Rede para o enfrentamento do fenômeno, diz:

  Nos casos de abuso sexual é mais fácil a nossa intervenção, porque temos um fluxo definido e uma política estabelecida para o enfrentamento dessa questão. É necessário e urgente melhorar o trabalho da Justiça, envolvendo as Delegacias, as Polícias Militar, Rodoviária e Federal, a Vara Criminal, a Vara da Infância e Juventude, o Conselho Tutelar e o Ministério Público, pois não dá para a VIJ e o CT trabalharem sozinhos na fiscalização, repressão e controle dos fatores que favorecem a exploração sexual. Observo que a rede de agenciamento é mais ampla e organizada do que nossa rede, as políticas públicas precisam ter eficácia para cuidar dos adolescentes e a Justiça para coibir a expansão das redes criminosas (Soraia, 2008). A entrevistada nos fala sobre o fracasso das intervenções com a exploração sexual de crianças e adolescentes, diz: essa situação sempre nos angustiou bastante e é pauta das

  

nossas supervisões (Soraia, 2008). Fala também que os conselheiros conseguiram, a partir do

  processo de supervisão feita por profissionais especializados, identificar 25 pontos onde ocorre o agenciamento de adolescentes e 44 casos de adolescentes envolvidos com a prostituição, porém não conseguem abordar os adolescentes e muito menos ter sucesso nas ações de repressão em parceria com a VIJ e a Polícia (Soraia, 2008).

  Dessa forma a conselheira fala que com base nesses dados elaboramos um relatório que foi encaminhado para o CMDCA se fundamentar na estruturação de um serviço especializado no município para atender essas situações (Soraia, 2008). Acrescenta que conseguir propor ao CMDCA a estruturação de um serviço especializado para atender a exploração sexual, baseado em dados fidedignos e em um diagnóstico consistente da realidade local, foi um grande desafio superado, pois quando o conselheiro solicitava um serviço especializado que atendesse a exploração sexual, o Executivo e o Conselho Municipal nos indagavam sobre a falta de um mapeamento e de uma demanda que justificasse a existência de um serviço especializado (Soraia, 2008).

  A partir desse diagnóstico, o Conselho Municipal estruturou um grupo de trabalho para analisar o nosso relatório e propor uma política de atendimento (Soraia, 2008). O município iniciou, então, ações um pouco mais elaboradas e fundamentadas no sentido do enfrentamento do fenômeno, diz:

  Atualmente, existem dois técnicos no Programa [...] que estão analisando a demanda e estruturando o serviço de atenção integral. A Vara da Infância e Juventude têm realizado ações de fiscalização nos bares, hotéis e similares. Hoje, o Município assume a existência dessa problemática, que durante muito tempo foi negada e colocada como tabu (Soraia, 2008).

  5.10 – Gestor

  Cargo: Gestor João acompanhou todo o processo de implantação do Programa de atendimento a crianças e adolescentes e situação que em sua primeira versão, quando se chamava Serviço

  Social de Risco e atendia crianças e adolescentes em situação de risco, violência doméstica,

  

evasão escolar, medida sócio-educativa, todo e qualquer tipo de trabalho desenvolvido nessa

linha (João, 2008).

  Diz que inicialmente a equipe era composta por assistentes sociais e psicólogos e o atendimento se subdividia entre as situações de Liberdade Assistida e Violência Doméstica.

  Após um diagnóstico elaborado pela FEBEM, constatou-se uma grande demanda de adolescentes em conflito com a lei, ou seja, seis mil. Em resposta às pressões do Estado para que o município assumisse esses casos, o serviço foi potencializado na Fundação responsável pela política da infância no município, em 10 de Junho de 2000, passou a ser a gestor do Programa, comprometendo-se a ampliar o quadro de profissionais e cuidar do processo de especialização, a fim de atender com qualidade às situações de crianças e adolescentes em conflito com a lei e em situação de violência doméstica.

  Diante da demanda crescente por atendimento, foi assinado em 2001 um pacto intersecretarias para compor a equipe de atendimento às crianças e aos adolescentes em situação de violência doméstica e adolescentes em cumprimento de medidas sócio-educativas.

  Em novembro de 2001, com a necessidade crescente de ter uma intervenção articulada, proporcionando maior acessibilidade aos diversos serviços do município, foi assinado o primeiro Pacto Inter– Secretarias. A demanda do Programa começou a crescer demais e a situação de violência doméstica começou a aparecer. Acredito que essa situação se deu, até mesmo, pela credibilidade do serviço prestado. Era uma equipe pequena que dava conta de fazer averiguações das denúncias, o atendimento, as articulações com a Rede, as palestras em outros locais, era como se fosse um “bombril”

que dava conta de tudo. (João, 2008) Notamos que João produz uma fala contraditória, pois ao mesmo tempo em que se orgulha de fazer parte de uma equipe que possui credibilidade dos parceiros também traz certo mal estar quando refere que pareciam ser bombril dando conta de tudo, de toda a

  

higienização que os governantes esperavam, ou seja, que as intervenções a essas famílias

pudessem ser eficazes o suficiente para tornar essas crianças e adolescentes dóceis e úteis.

  Lembrando que a solicitação ao município por parte do governo do Estado partiu em função de um diagnóstico da Fundação do bem Estar do Menor (FEBEM) e seu objetivo principal era o atendimento aos adolescentes que precisavam cumprir medidas sócio- educativas. Dessa forma, podemos dizer que o programa Aquarela surge para atender a demanda de uma instituição que tem como missão a repressão às infrações cometidas por adolescentes e, portanto, desde os gestores até os profissionais do atendimento deveriam responder a essa demanda. Talvez seja esse o motivo que levou João a ter uma fala contraditória quando se refere ao trabalho da equipe do projeto.

  Entretanto, escutando um pouco mais João, percebemos um intenso movimento dos profissionais em estabelecer um olhar crítico sobre a missão dada a priori para o Projeto. Há um movimento que busca o trabalho em rede na tentativa de acolher dignamente as famílias que chegam ao serviço. Se pensarmos em termos da psicanálise lacaniana, podemos dizer que

  29 há um esforço dos profissionais em ressignificar o motivo que levou o projeto a existir.

  Notamos outros motivos de orgulho para o Gestor em relação ao trabalho desenvolvido. O primeiro refere-se à implantação do serviço de averiguação e diagnóstico:

   [...] É um serviço de diagnóstico preventivo [...] O que avaliamos como maior ganho é quando passamos a ter uma equipe especializada no diagnóstico, a capacidade dessa equipe de perceber os indícios é muito grande. Estamos apresentando isso no Congresso de Goiânia, vamos ver se passa essa experiência que não tem em 29 nenhum outro lugar no país . (João, 2008)

  

Palavra derivada de significante introduzida pelo lingüista Ferdinand de Saussure: denomina significante a imagem

acústica de um conceito e chama de significado o conceito em si, o significante surge a partir do som, da pronúncia sonora.

Lacan em sua teoria priorizou o significante ao significado. Portanto ressignificar na teoria lacaniana pode ser entendido

como a mudança de posição do sujeito diante de um significante. (Plon e Roudinesco, 1998, pg. 708)

  Um segundo ponto que faz com que o profissional acredite na eficácia do trabalho está relacionada a uma parceria entre o Poder Público Municipal e uma Instituição Internacional chamada Childhood Brasil que promoveu algumas ações na área da prevenção á violência doméstica e sexual, visando efetivar uma política pública na área da prevenção a violência doméstica e sexual.

  No dia 6 de maio de 2005, a Childhood Brasil assinou com o poder público municipal e com o CMDCA, uma parceria para a implantação do Programa Refazendo Laços [...] que teria uma forte articulação e passaria por um processo de formação [...]. Então, em

2005, foram priorizadas as formações .

Em 2006, todos esses sujeitos qualificados passaram a desenvolver os projetos em suas secretarias e entidades. Inicialmente o trabalho aconteceu com o poder público, por uma escolha de fortalecimento e qualificação desse quadro, ainda em 2006 aconteceu um grande Seminário, no qual foram apresentados as propostas de prevenção e os projetos desenvolvidos pelos alunos. Esse foi um ponto crucial, porque foi quando sentimos a falta de mobilização da sociedade civil [...].Em 2008 foi iniciado no poder público e nas entidades sociais a disseminação dessa experiência coordenada pela equipe preventiva do Refazendo Laços enquanto ação local de políticas públicas . (João, 2008)

  Diante da fala do profissional, percebemos que há grandes esforços tanto do poder público municipal quanto dos profissionais em prestar um atendimento de qualidade às crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. Assim, podemos dizer que os profissionais estão sensibilizados para a importância do trabalho em Rede.

  O Programa de atenção a crianças e adolescentes em situação de violência é uma ação intersecretarias e, portanto, uma tentativa de que as situações de violência sejam cuidadas como um problema de todos e não somente da Secretaria de Desenvolvimento Social. O Programa também está dentro dos preceitos do Sistema de Garantia de Direitos.

  .Todo o nosso trabalho está integrado ao Departamento da Criança e do Adolescente (DECA) da Fundação, onde funciona o Sistema Integrado de Assistência Social (SIAS), em que temos acesso de

  a família estão integrados (escola, creches e em todos os possíveis atendimentos que o município já realiza com essa família). Nunca começamos do nada, levantamos toda a situação de articulação de atendimento dessa família na rede do município e começamos a trabalhar a partir dessa articulação. (João, 2008).

  O grande desafio a ser conquistado pela política municipal na atenção às situações de violência são os casos de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Na fala do coordenador percebemos que há ensaios e tentativas em lidar de forma qualificada com o fenômeno, porém é imprescindível que a atenção seja articulada a diversos serviços da Rede de atenção integral à criança e ao adolescente.

  Cargo: Conselheiro de Direitos – CMDCA Constatou-se, com a entrevista de Pedro, sua contribuição para a implantação das políticas na área da infância no município de SJC, juntamente com pessoas de várias secretarias de governo, diz: Iniciei minhas atividades na área da Infância no Conselho

  

Municipal, onde participei de reuniões para a organização do Conselho Tutelar, em conjunto

com as pessoas da comunidade, da Segurança Pública, Políticos, entre outros (Pedro, 2008).

  Pedro questiona-se sobre a dificuldade de discutir a questão da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Fala-nos ser este um tema considerado tabu, já que os profissionais acabavam deliberando que esse era um tema relacionado à segurança pública e um problema de polícia, diz:

  O debate sobre a problemática da exploração sexual sempre foi visto como “uma batata quente”, discutia-se e, ao final, chegava-se à conclusão, de maneira simplista, que era uma questão de Segurança Pública, imaginando que colocando a polícia na rua, ela resolveria o problema. Eu acredito que existia, naquela época, entre 2000 e 2001, pouca experiência para realizar uma intervenção assertiva e

  consistente, costumava-se realizar batidas policiais, abordando as meninas na rua com despreparo técnico (Pedro, 2008).

  Faz também uma crítica bastante construtiva sobre a maneira como a questão foi abordada, ou seja, sem a preocupação com os desdobramentos dessa atuação e o encaminhamento dos casos, e aponta que em qualquer intervenção é necessário definir

  

metodologia, um plano de ação e articulação. O resultado dessa ação mal planejada não deu

em nada. (Pedro, 2008)

  Aponta que somente em 2007 começou uma discussão mais madura sobre a problemática no CMDCA. Antes, observei que não se tocava no assunto da exploração sexual, era um silêncio absoluto. O problema existia, víamos meninas e meninos oferecendo seu corpo em vários pontos da cidade (Pedro, 2008).

  Considera que a equipe está mais madura para discutir a questão devido a projetos de capacitação continuada sobre o tema, que ajudou na estruturação de novas políticas públicas para o enfrentamento da questão. Diz que uma das primeiras ações foi a de identificar e mapear os casos existentes na cidade.

  Formamos um grupo intersetorial que passou a discutir a formulação da política de atendimento, resultando na estruturação de proposta de enfrentamento com base em três eixos: diagnóstico, defesa/responsabilização e atendimento. O Governo Municipal, a Vara da Infância, a Promotoria e as Secretarias Municipais se integraram a essa discussão, provocando o surgimento de uma Comissão Parlamentar na Câmara de Vereadores para tratar desse tema. Elaboramos uma proposta e fizemos à apresentação na Câmara (Pedro, 2008).

  O entrevistado conclui que as discussões dentro do CMDCA incluindo outros atores da Rede fez com que houvesse a consciência da importância e complexidade do tema e conseqüente implicação dos conselheiros municipais em estabelecer metas para a o financiamento de políticas que contemplem o tema, diz:

  A articulação para formulação de políticas para infância é complexa,

  violência sexual, hoje, é uma prioridade do CMDCA. Observamos que um Conselho comprometido associado a uma administração sensível ocasiona avanços significativos (Pedro, 2008).

  Nessa medida, percebemos que a Rede joseense está aberta para discutir novas idéias e concepções e que o tema da violência sexual não só entrou efetivamente na discussão sobre política pública no CMDCA-SJC, como ocupa um lugar central dentre as prioridades das ações. Ainda observamos que essa abertura está em consonância com o ECA - Lei 069/90 conforme a seguir:

  São diretrizes da política de atendimento:

I - Municipalização do Atendimento;

  II – Criação dos conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente, órgão deliberativo e controlador das ações de todos os níveis, assegurada a participação popular paritária por meio de organizações representativas, segundo

leis federal, estaduais e municipais (...)

(ECA: artigo 88, inciso I e II)

  O Conselho Municipal atua em diversas frentes que incluem a realização de algumas ações imprescindíveis: políticas públicas, controle e participação social, mobilização e articulação. Essas ações propõem a elaboração de estudos e pesquisas; a deliberação o acompanhamento e monitoramento das políticas no âmbito do município; elaboração de um plano de ação definindo as prioridades de atuação; acompanhar e participar da elaboração do Plano Plurianual – PPA, da Lei Orçamentária Anual-LOA; acompanhar os processos de elaboração da legislação municipal relacionada à infância, gerir o Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente.

  No município de São José dos Campos os avanços conseguidos em termos de estruturação da rede de proteção e das políticas públicas municipais de atenção à criança e ao adolescente foram possíveis graças à atuação e articulação intersetorial do Conselho Municipal nos níveis macro, intermediário e micro. Ou seja, a entrada da temática da violência doméstica e sexual em todas as instâncias do território municipal, aliada ao conhecimento das necessidades e a priorização das demandas, além da boa articulação com os poderes executivo, legislativo e judiciário.

  As entrevistas trouxeram informações fundamentais para compreensão da dinâmica de funcionamento da rede e sobre a organização das políticas. As falas da adolescente e dos profissionais que compõem o Sistema de Garantia de Direitos do Município de São José dos Campos trouxeram à tona a complexidade, os desafios e os avanços das políticas públicas no âmbito desse município, para garantir o atendimento especializado de crianças e adolescentes vulneráveis e em situação de violência doméstica e sexual.

  Nesse sentido, foi possível observar como a política pública para a infância e adolescência foi se estruturando no município. Ainda observaram-se as contradições existentes no funcionamento do Sistema de Garantia de Direitos, em um determinado território, sendo evidenciados os conflitos de competência entre os profissionais que executam esse Sistema.

  Assim, foi possível identificar que a teoria de Whitaker sobre o funcionamento das redes, explicitada no capítulo II dessa dissertação, aplica-se à realidade do Município de São José dos Campos, em especial, quando ele refere que as redes funcionam na horizontalidade e as políticas públicas na verticalidade, o que causa conflitos na execução das ações. Esse fato esteve presente em várias entrevistas, com destaque, para as entrevistas da Joana - Gestora e do Pedro - Conselheiro do CMDCA, onde enfatizaram o esforço do município para assegurar a continuidade das políticas e o seu processo de formulação, execução e controle. Ambos enalteceram o papel dos fóruns e das redes na consolidação das ações.

  O relato de Sabrina – Adolescente, sobre a sua experiência pessoal na rede de proteção, somada ao relato dos profissionais, enquanto gestores e operadores desse sistema veio, de forma prática, clarificar os conflitos de papéis e funções nas organizações onde a adolescente foi atendida. Essa situação real vivenciada por Sabrina e pelos profissionais - apesar de ser um caso singular- demonstra que, na teoria, a regulamentação das políticas públicas é bem definida, porém o acesso e a garantia de uma assistência de qualidade ainda é um desafio para todos os operadores do SGD e, em especial, para os seus usuários.

  A fala de Rita - técnica - expressa a sua frustração, os encontros e desencontros da equipe do judiciário com o próprio Sistema de Justiça, com as equipes dos abrigos, da saúde e da assistência social. Porém, apesar dos desencontros, essa profissional apresenta possibilidades de superação das dificuldades ao falar sobre o trabalho em rede, destacando o monitoramento, as reuniões, as supervisões, os cursos e os encontros sistemáticos como fundamentais no processo de fortalecimento da rede de proteção, nos quais se têm a possibilidade de tecer a rede, de redefinir o fluxo de atendimento, estruturando as políticas e evitando conflitos de competência.

  O sentimento de esperança expresso por Rita vem ao encontro do que Hanna Arendt traz sobre a política. Assim, apesar dos encontros e desencontros, é no movimento e nas reflexões que se encontram os caminhos.

  Dessa forma, foi possível observar que o Município de São José dos Campos escolheu um caminho sensato e responsável para a estruturação do SUAS. Esse caminho levou em consideração as políticas já existentes no município, preservando o Serviço Especializado de Atenção Integral às Situações de Violência Doméstica e Sexual, sendo esse serviço parceiro estratégico dos CREAS.

  Nesse sentido, com base no Sistema Único da Assistência Social (SUAS), o CREAS contará com uma equipe especializada para atender as situações de média e alta complexidade de crianças, adolescentes, adultos, idosos, entre outras demandas. Isso não deixa de ser um avanço, porém, em particular para o atendimento específico aos casos de violência doméstica e sexual, será mantido o Serviço Especializado Intersecretarias, com a sua equipe multidisciplinar. O atendimento inicial dos casos de violência doméstica e sexual poderá acontecer no CRAS, no CREAS, nos Conselhos Tutelares, nas Unidades de Saúde, entre outros. Porém, o diagnóstico e o acompanhamento especializados acontecerão no Centro de Referência, em parceria com o SGD.

  Um aspecto ainda desafiador e que foi ressaltado na fala dos Gestores foi a sustentabilidade das políticas públicas, já que, no Brasil, é muito freqüente a implantação de programas e projetos, com o suporte financeiro dos governos Federal e Estadual, contudo, mudanças de estratégias nessas gestões podem levar ao fracasso desses programas e projetos importantes para o Município. Os Gestores demonstraram preocupação nesse sentido e apresentaram as alternativas que o município encontrou para superação dessa questão, ou seja, organizam as políticas municipais com base nas diretrizes Nacional e Estadual, porém se articulando aos poderes Legislativo, Executivo, Judiciário, Conselhos, Fóruns e Redes locais, para garantir dotação orçamentária própria para execução e sustentabilidades das ações. Dessa forma, não dependem exclusivamente do repasse dos governos Federal e Estadual, o aporte de recursos Federal e Estadual soma-se, também à Contrapartida Municipal, não comprometendo a continuidade das ações.

  Essa forma de gestão adotada pelo Município de São José dos Campos vem ao encontro do que está proposto pelo SUAS - Política Federal - que visa a romper a fragmentação e a descontinuidade das ações, por meio de estratégias, orçamento e qualidade na assistência.

  Apesar de todo o esforço do Município de São José dos Campos e dos avanços, ainda se observa que a qualidade, eqüidade, eficiência e proteção necessários para o acolhimento e a atenção integral de crianças, adolescente e famílias, que se encontram em situação de vulnerabilidade e ou que já tiveram seus direitos violados, ainda são um desafio posto para todos. Por isso, são necessários esforço, vontade política e competência técnica para ousar esse desafio, como define a seguir uma gestora entrevistada:

  Estamos a passos lentos, quebrando essa estrutura de poder, por meio do estabelecimento de termos de cooperação intersecretarias.

  Esses Pactos são assinados pelo Prefeito e pelos Secretários. Dessa forma, estamos caminhando para a realização de um trabalho integralizado em Rede, onde o poder é compartilhado. Isso não é uma ação fácil, gera muitas tensões e requer um trabalho de articulação permanente, essa prática ainda não está completamente incorporada à administração pública, é difícil, requer muito esforço para termos o comprometimento e o pertencimento de todos os envolvidos . (Joana, 2008)

CONSIDERAđỏES FINAIS

  Também não se pode dizer com exatidão que os tempos sejam três: passado, presente e futuro.Dever-se- ia dizer mais propriamente que há três tempos:

  Um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes e um presente das coisas futuras... O presente das coisas idas é a memória.

  O das coisas presentes é o olhar E o das coisas futuras é a esperança.

  Santo Agostinho

  O desenvolvimento da presente pesquisa, com todas as suas etapas, desde a escolha da questão que a direciona, até as leituras e entrevistas, com respectivas análises e reflexões, possibilita-nos, neste momento, realizar algumas considerações que visem dar fechamento a este trabalho, ainda que não se vise ao fechamento da discussão sobre o tema.

  Inicialmente, retomando o questionamento quanto à efetividade da estruturação de uma rede de atenção às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, podemos citar resultados observados no município, decorrentes da implantação do Projeto Refazendo Laços.

  A partir da execução desse projeto, nota-se, pelo acompanhamento do mesmo e pelas entrevistas com os profissionais, que ocorreu a estruturação de um núcleo de formação continuada para agentes públicos, gestores e profissionais de organizações não governamentais. O Projeto Refazendo Laços foi incorporado pelo Programa Aquarela – de caráter inter-secretarias – tornando-se Política Pública, com orçamento previsto no planejamento municipal.

  A ampliação do orçamento público do município envolveu, com isso, além do cuidado com o profissional – por meio da formação continuada e das supervisões da prática – uma política pública também na área da prevenção à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes. Esse aspecto apresenta uma rede que sai do lugar exclusivamente de “tratamento curativo”, com a atenção focada no momento pós-violência, e passa a implicar-se em práticas que visem evitar que as situações de violência aconteçam, indo na direção do que se preconiza mundialmente enquanto caminhos para políticas públicas efetivas e eficazes: trabalhar com prevenção.

  Apesar do enfoque dado à prevenção, nota-se também atenção direcionada ao atendimento prestado às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, uma vez que o município também ampliou o núcleo de atendimento psicossocial a esses casos, a partir do reconhecimento de uma demanda reprimida, evidenciada nas formações dos profissionais da rede e nos números de notificações recebidos pelos órgãos competentes (Conselhos Tutelares e Vara da Infância e Juventude).

  Contudo, novamente à luz de nossa questão de pesquisa, é importante apontarmos para os desafios ainda presentes para a implementação e manutenção dessa Rede de Proteção, para que a mesma possa, de fato, responder à função de cuidado e proteção, diagnosticando, acolhendo e atendendo as situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, respeitando as condições peculiares de desenvolvimento, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente. A relevância desta pesquisa relaciona-se, justamente, à existência de tais desafios.

  O país vive um momento de implantação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e São José dos Campos, como outros municípios, vem tentando adequar seus serviços a esta prerrogativa nacional. Como no SUS (Sistema Único de Saúde), a qualidade está relacionada ao funcionamento de redes locais integradas e com profissionais especializados, comprometidos e em formação continuada.

  Nesse contexto de políticas públicas, surge o CREAS – Centro de Referência Especial em Assistência Social, que deve abarcar o atendimento às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, consideradas de alta complexidade. O que antes era demanda do Programa Sentinela, passa a ser demanda do CREAS, juntamente com outras situações de alta complexidade, como violência contra a mulher e o idoso. Importante ressaltar que a política de atendimento mantém-se restrita à assistência social. Cabe, então, questionarmos: irá o CREAS corresponder às necessidades complexas dos casos de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes? Precisamos considerar alguns pontos para pensar esta questão.

  Embora o SUAS tenha orçamento garantido nos municípios, sabemos que se não houver efetividade e vontade política nos estados e municípios para estruturar a política de proteção especial, ele não se consolidará. Além disso, situações de complexidade como a tratada nesta pesquisa demandam o envolvimento de diferentes serviços, numa ação intersetorial, que não se esgota em uma única área, como a Assistência Social.

  Voltando à questão, quanto à possibilidade do CREAS abarcar essa demanda, tememos que isto não seja possível, por acreditarmos, a partir de nossa pesquisa, que o ideal seria que o atendimento multidisciplinar, envolvendo especialmente o atendimento psicológico, pudesse ficar na área da saúde, e que a Assistência Social fosse responsável por cuidar das questões de garantia dos direitos básicos e especiais como profissionalização, programas de complementação e geração de renda, e acompanhamento das vulnerabilidades e risco.

  Sob essa perspectiva, considerando as falas dos entrevistados e a bibliografia consultada, apresenta-se a necessidade de um serviço de atenção, um centro de referência com equipes multiprofissionais especializadas para a escuta dos casos, com a perspectiva de parceria com universidades e centros de pesquisas para consolidação de metodologias para esse atendimento.

  Alem disso, os centros devem fazer parte de uma política intersetorial, a fim de evitar a fragmentação, sobreposição, burocratização e objetificação da criança e da família que necessitam, nesse momento, ser acolhidas e cuidadas de maneira integrada por toda a Rede de Proteção, em que cada serviço saiba exatamente qual o seu papel e função na contribuição para a reorganização da vida dessas pessoas. Dito de outro modo é urgente que os serviços dialoguem entre si e se complementem para proverem a atenção integral.

  Nesse sentido, devemos criar uma forma de a Assistência Social, Organizações Não- Governamentais, Saúde, Educação e o Sistema de Justiça sintonizarem suas ações de forma a prevenir os conflitos de competência. Diante do complexo fenômeno da violência doméstica e fazer a diferença na vida dessas pessoas, promovendo assim o bom funcionamento do Sistema de Garantia de Direitos.

  Frente a essas considerações, acreditamos que, embora tenha havido transformações no sentido de uma melhoria no funcionamento da Rede de Proteção no município de São José dos Campos, notam-se ainda obstáculos, “buracos” nessa rede, que permitem a revitimização das crianças e adolescentes, por não atenderem às suas necessidades de fato.

  Entretanto, apontar esses obstáculos como oriundos apenas de falhas nas Políticas Públicas desenvolvidas seria uma visão reducionista, que desconsideraria muito do que foi apresentado ao longo desta pesquisa sobre o tema da violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, em especial sobre a exploração sexual. A complexidade desse fenômeno engloba aspectos individuais, familiares, comunitários, sociais e econômicos, que se articulam promovendo um quadro de difícil intervenção. As dificuldades que os profissionais enfrentam passam por estas características específicas da exploração sexual comercial e esbarram nas questões pessoais de cada profissional, que necessitam trabalhá-las antes de poder desenvolver um trabalho significativo junto a essa população. Todo o tabu presente na temática da violência doméstica e sexual se reflete na formação das Redes de Proteção, demandando um aprofundamento das reflexões sobre o que é possível ser feito, quais as limitações, e quais as intervenções não invasivas e mais efetivas.

  Todo o processo de pesquisa e escrita dessa dissertação envolveu uma série de desafios e dificuldades, que foram enfrentados e superados pela pesquisadora. Apesar da vasta experiência no campo da militância na área da infância e adolescência, e no atendimento às situações de violência doméstica e sexual contra esta população, a experiência de debruçar-se enquanto pesquisadora sobre o tema, vivenciando as entrevistas com os profissionais e adolescentes, as cuidadosas leituras e o debate acadêmico com suas conseqüentes reflexões, trouxe à pesquisadora desafios que superaram sua vivência de campo enquanto técnica nos diferentes serviços nos quais trabalhou. O desenvolvimento desse trabalho acadêmico proporcionou, além de uma ampliação teórica, conceitual e metodológica, a experimentação do lugar de pesquisadora, que reflete sobre a própria prática, permitindo-se questioná-la, discuti-la e relacioná-la à literatura, gerando transformação nos âmbitos profissional e pessoal.

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GLOSSÁRIO

  B.O - Boletim de Ocorrência; CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito; CPMI - Comissão Parlamentar Mista de Inquérito; CRAMI - Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância; CECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações Sobre Crianças e Adolescentes; CEDECA - Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente; CEDCA - Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado de Pernambuco; CENDHEC - Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social; CMDCA - Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente; CONANDA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente; CONDECA - SP - Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo; CNRVV - Centro de Referência das Vítimas de Violência; CRAS - Centro de Referência da Assistência Social; CREAS - Centro de Referência Especializado da Assistência Social; CEPAJ - Centro de Estudos e Pesquisas Aldeia Juvenil; CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito; CPMI - Comissão Parlamentar Mista de Inquérito; ECA - Estatuto da Criança da Criança e do Adolescente; DPCA - Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente; FÓRUM DCA - Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente;

  FUMCAD - Fundo Municipal da Criança e do Adolescente; FUNDHAS - Fundação Hélio Augusto de Sousa; GPCA - Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente; ESCCA - Exploração Sexual Comercial Contra Crianças e Adolescentes;

  INSTITUTO WCF BRASI - Childhood - Brasil; LA - Liberdade Assistida; LOAS - Lei Orgânica da Assistência Social; MNMNR - Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua; MP - Ministério Público; ONU - Organização das Nações Unidas; ONG - Organização Não Governamental; PACTO / SP - Pacto São Paulo contra a Violência, Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; POL - Planos Operativos Locais; PNAS - Política Nacional de Assistência Social; PESTRAF - Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial; PRL - Programa Refazendo Laços; REDE DE COMBATE - Rede de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes do Estado de Pernambuco; SINASE - Sistema Nacional Sócio Educativo; SGD - Sistema de Garantia de Direitos; SJC - São José dos Campos; SUS - Sistema Único de Saúde;

  SUAS - Sistema Único de Assistência Social;

  VD - Violência Doméstica;

  VDS - Violência Doméstica e Sexual;

  VIJ - Vara da Infância e Juventude;

  VS - Violência Sexual; VDSCCA - Violência Doméstica e Sexual contra Crianças e Adolescentes.

  ANEXO A – Indicativos - CMDCA SJC

  

PROGRAMA REFAZENDO LAÇOS

  

INDICATIVOS AO CMDCA – SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

CONTRIBUIđỏES PARA A POLễTICA DE PROTEđấO

INTEGRAL À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE

  I) Apresentação No ano de 2005, estabeleceu-se uma parceria entre o CMDCA de SJC, o Instituto WCF-Brasil em que foi implantada a ação do Programa Refazendo Laços que capacitou e supervisionou mais de 120 agentes público da Rede de Proteção Integral, incluindo os Conselheiros Tutelares e representantes das diferentes secretarias municipais. Dessa experiência piloto resultou a edição de um Manual de Orientação sobre como proceder diante de casos de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes, um kit básico para o desenvolvimento de ações preventivas à VSCCA e educação sexual.

  O Programa Refazendo Laços priorizou as capacitações e supervisões dos agentes públicos preparando-os para a ação em Rede, que nada mais é do que um padrão organizacional que prima pela descentralização na tomada de decisões e pela democracia, pela flexibilidade e dinamismo de sua estrutura, pela autonomia e pela horizontalização das relações entre seus membros.

  Nessas bases, a Rede de Proteção é uma concepção de trabalho que dá ênfase à atuação integrada e intersetorial, envolvendo todas as instituições que desenvolvem atividades com crianças adolescentes e suas famílias no enfrentamento a Violência Doméstica e Sexual.

  A violência é um fenômeno multicausal que atinge sociedades de todo o mundo. Segundo Maria Cecília Mynayo, a violência faz parte da forma que a sociedade cria suas relações, suas comunicações e seu estilo de vida. A criança e o adolescente, por serem mais frágeis e estarem em uma condição peculiar de desenvolvimento, estão mais vulneráveis. Para ela, o contrário da violência não é a não-violência, mas a cidadania.

  De acordo com o Laboratório de Estudos da Criança (Lacri) do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, de 1996 a 2004, foram registrados 110.250 casos de violência doméstica. A modalidade de violência doméstica a que as crianças e adolescentes estão mais sujeitos é a negligência (44.890 casos), seguida da violência física (36.478) e da psicológica (17.171). Foram registrados 11.238 casos de violência sexual nesse período.

  As estatísticas oficiais sobre violência doméstica e sexual são escassas no Brasil. Relatório lançado pela Unicef, em dezembro de 2005, sobre a Situação da Infância Brasileira, mostra que os dados nacionais oficiais mais recentes datam de 1988. Pesquisa por amostragem nacional do IBGE, publicada em 1989, revela que o espaço familiar é o local mais freqüente de ocorrência de agressões físicas, tanto na infância quanto na adolescência. Segundo o sistema de denúncias do governo federal (Disque 100), que recebe notificação de maus tratos de crianças de todo o país desde maio de 2003, já foram encaminhadas para averiguação 9.490 denúncias. O Estado de São Paulo é o líder em notificações, sendo responsável por 14,53% das ligações. Em seguida vem o Rio de Janeiro com (11,73%), Rio Grande do Sul (11,44%) Bahia (8,39%) e Minas Gerais (7,88%). Das denuncias recebidas, 32,44% correspondem a abuso sexual, 17,11% a exploração sexual comercial e 50,45% por

  1 maus tratos.

  A Fundação Abrinq, em 2005, realizou uma pesquisa com 15 organizações da sociedade civil responsáveis pelo atendimento de 6.485 crianças e adolescentes da região metropolitana de 1 São Paulo. Esta revelou 683 casos de agressão contra crianças e adolescentes. Desse total, 359

  

Fonte: Matriz intersetorial de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes – Secretaria casos foram notificados aos Conselhos Tutelares: 132 casos de violência física, 133 de negligência e 162 de violência psicológica. Os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes (comercial, intra e extrafamiliar) somaram 57.

  Esses números mostram que a realidade da violência sofrida pelas crianças e adolescentes impõe ao Poder Público e à sociedade civil organizada a necessidade de uma abordagem ampla e integrada para a prevenção e proteção à infância. Apesar dos esforços em formar um banco de dados, sabemos que há muitos casos que não entram nas estatísticas. O problema da subnotificação dificulta o diagnóstico e a prevenção do fenômeno, principalmente quando o assunto é exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Essa modalidade de violência é difícil de ser identificada e mais difícil ainda de ser abordada, pois, muitas vezes, envolve rede de aliciadores e, dependendo da intervenção que o Conselheiro Tutelar ou qualquer Agente da Rede de Proteção fizer, pode colocar em risco tanto a vida da criança e/ou adolescente quanto sua a própria.

  II) O Lugar social do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente Desde a promulgação da Constituição federal de 1988, somados às mudanças exigidas pelo processo de globalização, o Brasil passa por um processo de transição na qual o rearranjo das funções do Estado, a consolidação da economia de mercado e o aperfeiçoamento das instituições democráticas podem propiciar surgimento de formas inovadoras entre os setores: Estado, Empresas privadas e Organizações do terceiro setor e Universidades. Quanto à esfera pública, a Constituição Federal reconheceu o município como ente autônomo da federação, mas não independente. Municipalizar é permitir, por meio da descentralização político-administrativa que algumas decisões políticas e determinados serviços sejam encaminhados e resolvidos no âmbito do município, sem excluir a participação da União, do Estado e da Sociedade civil organizada. Assim, numa sociedade democrática cabe ao município definir e executar uma política municipal de proteção integral para crianças e adolescentes e, o CMDCA, é o órgão legítimo para a eficaz formulação de políticas sociais publicas de atendimento aos direitos da criança e do adolescente.

  Criado pela lei nº 8069 –1990 – o Estatuto da criança e do Adolescente – o CMDCA é sobretudo uma instância de participação do cidadão na formulação da política de atendimento e do controle de suas ações. O aprimoramento das instituições democráticas, juntamente com o desenvolvimento sustentável, requer a capacidade de combinar competência para a colaboração em prol do benefício comum, construindo um ambiente no qual evolui a participação da cidadania organizada na formulação de políticas públicas, na agilização do atendimento à criança, ao adolescente e famílias. Levando em consideração que o contrário da violência não é a não violência, mas a cidadania, o Programa Refazendo Laços considera estar contribuindo para a diminuição da violência contra a criança e o adolescente no município de SJC, pois o documento que se segue foi constituído por meio dos princípios democráticos de participação popular na implementação da política pública de SJC à criança e adolescente.

  III) Indicativos para o CMDC para a implementação de políticas Este documento é a consolidação dos indicativos para implementação da política de proteção integral à criança e ao adolescente de São José dos campos. É resultado do trabalho de todos aqueles que participaram do Programa Refazendo Laços direta ou indiretamente desde o seu lançamento em maio de 2005 até o momento presente. Entendemos que seu objetivo é subsidiar o CMDCA para a implantação e implementação de políticas públicas na área da infância, priorizando ações de prevenção e proteção à crianças, adolescentes e famílias vulneráveis à violência doméstica e sexual na cidade de São José dos Campos. Dentre aqueles que contribuíram diretamente com o desenvolvimento do Programa Refazendo laços estão: os representantes dos eixos da Defesa, Promoção e Controle a VDSCCA; das Secretarias Municipais de Esporte e Lazer, Educação, Saúde e Desenvolvimento Social; da FUNDHAS; dos Conselhos Tutelares; alunos, supervisores e supervisionandos. Além da equipe do instituto WCF Brasil.

  Nosso objetivo está em consonância com as diretrizes do Plano de Ação do CMDCA, biênio 2004/2005, onde se enfoca os “... incentivos às ações de prevenção tais como: a gravidez não planejada, a violência contra crianças e adolescentes, com ênfase à violência sexual e trabalho infantil, dentre outros”. E ainda em consonância com a IV Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, de São José dos Campos – 18 de Agosto de 2005; com o Tema: “Participação, Controle Social e Garantia de Direitos – Por uma Política para a Criança e o Adolescente”, bem como os desdobramentos da VI Conferência Estadual da Criança e do Adolescente.

  Após minuciosa leitura do material extraído dos encontros temáticos e relatórios produzidos pelos supervisores dos grupos de prevenção, multiplicação e conselheiros tutelares somados as discussões entre equipe WCF; referência dos eixos defesa, promoção e controle, Grupo de Trabalho e supervisores, consolidamos esse documento.

  As mãos que auxiliaram a tecer esse documento constataram avanços na Política de atenção e nas ações dirigidas às crianças e aos adolescentes e suas respectivas famílias. Porém faz-se necessária à manutenção dos investimentos para a garantia de que a cidade de São José dos Campos possa manter essas conquistas.

  Propomos assim que novas formas de abordagem e intervenção no enfrentamento à Violência Doméstica e Sexual contra a Criança e o Adolescente – VDSCCA - devem ser pensadas e efetivadas pelo Município de São José dos Campos.

  A seguir estão elencados os indicativos que acreditamos ser pertinentes: Avanços:

  1. A parceria do CMDCA – SJC e o Instituto WCF – Brasil na implantação da Política de Prevenção a VDSCCA em São José dos Campos – Programa Refazendo Laços;

  2. Envolvimento das Secretarias Municipais no desenvolvimento do Programa Refazendo Laços;

  3. Formação e Capacitação de Agentes Públicos, na temática da VDSCCA e Sexualidade;

  4. Processo de supervisões sistemáticas com especialistas na temática de VDSCCA e Sexualidade que levou ao envolvimento dos profissionais capacitados para desenvolvimento das ações de prevenção;

  5. Elaboração dos projetos e execução dos mesmos pelos agentes de prevenção e multiplicação;

  6. Maior interlocução entre os profissionais da rede de proteção, ou seja, fortalecimento da rede;

  7. Construção de Referencial teórico conceitual sobre VDSCCA entre os profissionais da Rede de Proteção;

  8. Processo “Cuidando do Cuidador” para a equipe do PRL - WCF- Brasil e para os Conselheiros Tutelares;

  9. Aquisição de materiais para desenvolvimento das ações, bem como sua distribuição - “Kit” de prevenção – para os diversos parceiros – Secretarias Municipais e Fundações;

  10. Consolidação do Grupo Técnico (GT) com representação de diversos Atores Sociais;

  11. Elaboração do Regimento Interno do Grupo Técnico;

  12. Consolidação do “assento” do Programa Refazendo Laços na Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência Infanto Juvenil.

  Prioridades para a proteção Integral

  1. Ampliação do número de especialistas como psicólogos, pediatras, psiquiatras (adultos e crianças), terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicopedagogos, neuropediatras, oftalmologistas, fisioterapeutas, otorrinolaringologistas e demais especialidades para atendimento a crianças, adolescentes e famílias. Tendo em vista que foi indicado pelos profissionais que atuam na rede de proteção que a falta desses profissionais compromete a assistência integral a saúde e a possibilidade de oferecer condições para o desenvolvimento pleno da criança e do adolescente joseense;

  2. Implementação dos serviços da rede para a atenção à criança e ao adolescente com necessidades especiais como: dificuldades na aprendizagem, deficiência física, visual, auditiva, cognitiva entre outros. Foi indicado pelos profissionais que existe uma precariedade nesta rede de atenção e etc;

  3. Implantação de um sistema informatizado para o acompanhamento e monitoramento das questões da Infância e da Juventude, sendo o CMDCA o gerenciador do Sistema onde duplicidade do sistema de atenção e revitimizações dos casos de violência. Ainda este sistema propiciará uma maior interlocução da rede de Proteção Integral com o CMDCA;

  4. Capacitação continuada ao pessoal do Disk denúncia e COI afim de aumentar a credibilidade da população a esse serviço – alinhamento das ações do COI, CT e Plantão social;

  5. Estabelecimento de orçamento para compra de materiais e suporte para os profissionais da Rede (desde material gráfico até os específicos de cada área);

  6. Criação de materiais de apoio como: folders, vídeos, entre outros para serem utilizados em campanhas e ações educativas no Município;

  7. Campanhas para informar a população e os profissionais sobre os procedimentos de notificação e denúncia de suspeita de VDSCCA em SJC, mantendo o sigilo e ética em relação as casos atendidos;

  8. Desenvolvimento de cursos de formação e supervisão para a sociedade civil e ONGs credenciadas pelo poder público municipal visando a prevenção da VDSCCA;

  9. Priorizar capacitação e supervisões focadas nas questões de Defesa e Responsabilização aos profissionais da Rede de Proteção à Infância e Juventude e aos segmentos que compõem este eixo; das ONGs, escolas públicas e privadas, hospitais públicos e privados.

  10. Implementação da informatização do sistema incluindo as ONGs para melhor acompanhamento e monitoramento dos casos e para evitar a duplicidade de ações;

  11. Implantação de mais um Conselho Tutelar no município para atender a demanda dentro dos parâmetros estabelecidos por Lei;

  12. Socializar e publicizar a ficha de notificação compulsória de Violência VDSCCA e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes - ESCCA, na Rede de Proteção Integral de Criança e Adolescentes;

  13. Efetivação de uma única ficha de notificação;

  14. Necessidade de adequação e socialização do Fluxo de atenção à criança e adolescentes expostos a VDSCCA e a ESCCA;

  15. Implantação de serviço de atenção a crianças e adolescentes expostos a Exploração Sexual Comercial no Município de São José dos Campos, considerando:

  a) Que o serviço a ser implantado deve ser mais um braço do Programa Aquarela;

  b) As interfaces do fenômeno com os diversos segmentos: Justiça, Segurança, Fiscalização e Atendimento Bio-Psico-Social; c) O cuidado com a vida das crianças e adolescentes em situação de exploração sexual comercial, visto que pode haver aliciadores ligados a esses sujeitos.

  d) Que já existem 25 casos identificados e notificados em São José dos Campos e que não estão sendo atendidos;

  16. Implementação da Política de Atenção à Criança e Adolescentes em situação de abrigo.

  Os profissionais apontam a necessidade de:

  a) Não separar grupos de irmãos, assegurando os vínculos afetivos e familiares;

  b) Evitar as transferências de abrigos devido a questões etárias;

  c) Apoio aos adolescentes e aos que completam a maioridade sem perspectiva de retorno à família, planejando de forma digna a desinstitucionalização;

  d) Atenção a crianças e adolescente em situação de Exploração Sexual comercial;

  e) Melhoria no tratamento de crianças e adolescentes em situação de Dependência Química;

  f) Planejar melhor os recâmbios de Crianças e Adolescentes;

  g) Criação e supervisão de uma rede de famílias substitutas;

  h) Capacitação e supervisão continuada aos profissionais dos abrigos;

  17. Repactuação do acordo com o Poder Público Municipal considerando que:

  a) desenvolvimento das ações de prevenção a VDSCCA se darão por meio dos projetos específicos construídos em cada Secretaria Municipal, e que essas ações fazem parte das atribuições dos agentes públicos municipais supervisionados pelo Programa Refazendo Laços, devendo ser realizadas dentro de sua carga horária semanal prevista pelo seu contrato de trabalho; b) Ainda se faz necessária a assessoria do Instituto WCF- Brasil às ações do Programa Refazendo Laços em SJC no ano de 2007.

  Considerações finais Tendo em vista a dimensão da Temática da Violência, deixamos aqui o um pouco desse “Universo” que conseguimos apreender até o momento.

  Temos certeza que o CMDCA é sensível a essa questão e por isso, muito nos sentimos motivados e honrados em continuar juntos nesse caminho.

  Esperamos estar contribuindo e nos dispomos a juntos tecermos esta rede no município de São José dos com a implementação da política de proteção integral de acordo com o sistema de garantia de direitos.

  São Jose dos campos 14 de Novembro de 2006.

  Equipe da Childhood Brasil; Grupo Técnico; Conselho Tutelar e Comissão Municipal de Enfrentamento á Violência Doméstica e Sexual contra Crianças e Adolescentes.

  ANEXO B – Regimento interno PRL SJC REGIMENTO INTERNO DO PROGRAMA REFAZENDO LAÇOS PREFÁCIO

  O Programa Refazendo Laços (doravante designado simplesmente PRL) é uma parceria interinstitucional entre o Instituto WCF–Brasil (doravante designado simplesmente WCF-Brasil), braço brasileiro do World Childhood Foundation, e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São José dos Campos (doravante designado simplesmente CMDCA).

  A parceria tem o objetivo de contribuir com a política pública de prevenção e articulação da rede de atenção integral a crianças, adolescentes e famílias em situação de violência doméstica e sexual, priorizando a formação de agentes públicos, para que sejam agentes multiplicadores de referência na intervenção ao fenômeno.

  Em 06 de maio de 2005, foi assinado o termo de compromisso do PRL para pactuar a responsabilidade do CMDCA, como ente público e representante da sociedade civil, na implantação e implementação de políticas públicas de proteção de crianças e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual.

  Diante do exposto, observou-se a necessidade de composição de um Grupo Técnico (doravante designado simplesmente GT) como um fórum legitimo para propor, consensuar e nortear as ações do PRL, integrando a rede de proteção à criança e ao adolescente no Município de São José dos Campos.

  A partir de fevereiro de 2006, houve um reordenamento do modelo de gestão, após a avaliação no final de 2005.Diante desse novo quadro, o GT se propôs a elaborar um Regimento Interno com a finalidade de nortear as ações no PRL.

  CAPITULO I

  • Dos Objetivos - Art 1º - Com o objetivo de fortalecer ações integradas e em rede entre o Poder Público municipal e a sociedade civil na prevenção às situações de violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes e famílais, o GT se propõe a fomentar, discutir, sugerir, fornecer indicativos, integrar, articular, sensibilizar e subsidiar os objetivos do PRL, dentre outros:

  I. Assegurando a formação técnica - científica de atores sociais para trabalharem em rede e tornarem-se agentes multiplicadores na prevenção à violência doméstica e sexual contra crianças, adolescentes e famílias priorizando o acolhimento dos profissionais que trabalham diretamente no atendimento, bem como ações que garantam o cuidado com o cuidador.

  II. Garantindo que crianças, adolescentes e jovens tenham acesso a um desenvolvimento sexual saudável e responsável, de acordo com os pressupostos do “Plano Nacional de Direitos Humanos” – Brasília / 2002;

  III. Produzindo e sistematizando conhecimentos sobre uma intervenção ampla de prevenção e atendimento às situações de violência contra crianças e adolescentes, objetivando a sua replicação enquanto experiência inovadora no país;

  IV. Melhorando a qualidade e estrutura dos serviços de proteção a crianças, adolescentes e famílias, através da co–responsabilização dos diversos segmentos;

  V. Sensibilizando a opinião pública e os agentes públicos para o enfrentamento à violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes e famílias;

  VI. Promovendo a estruturação de uma política pública de âmbito municipal, no atendimento especializado e em rede às situações de violência doméstica e sexual contra crianças, adolescentes e famílias;

  VII. Assegurando que os membros de GT se mantenham no PRL durante toda a sua vigência.

  • Da Gestão -

Art 2º A gestão do PRL dar-se-á por meio de parceria interinstitucional entre o CMDCA e o WCF- Brasil e compreende três níveis de intervenção ;

  Macro – composto pelo CMDCA e pelo WCF- Brasil, responsável pela Gestão macro- política do PRL; Intermediário - Composto pela Coordenação e pelo GT, responsável pela execução das formações e ações técnicas do PRL;

  Micro – composto pelos agentes públicos, responsáveis pela execução dos programas preventivos e de multiplicação no município.

  • Das Assessorias – Art 3º - Durante a implantação e desenvolvimento das ações do PRL; ficam estabelecidas as seguintes assessorias: I. CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Comunidades.
Esta entidade denominou a Prof. Dra. Isa Guará para assessorar o PRL no níveis macro e intermediário;

  II. G&M Apoio a Projetos Ltda-ME: Organização responsável pela Coordenação do PRL nos níveis micro e intermediário, estabelecendo interfaces com o Comitê Gestor, as profissionais responsáveis são: Maria Gorete Oliveira Medeiros Vasconcelos e Margarete Santos Marques; III.

  INSTITUTO FONTE: Tem como objetivo a avaliação processual da implantação do PRL através de subsídios para a orientação, avaliação e diagnósticos das ações realizadas, a profissional responsável pela avaliação é:Mariângela Paiva;

  IV. SUPERVISÕES: Objetivam o cuidado com o cuidador, por meio de supervisões institucionais para a equipe executora do PRL, implantação de projetos preventivos e de multiplicação realizado pelos agentes públicos.

  • Da Composição – Art 4º - O PRL tem a seguinte estrutura organizacional:
I. Comitê Gestor: composto por representante do WCF-Brasil e do CMDCA;

  II. Coordenação: um membro do GT;

  III. Grupo Técnico: representantes dos seguintes organismos: (a) 1 representante da Secretaria de Esportes e Lazer; (b) 1 representante da Secretaria Municipal de Saúde; (c) 1 representante da Secretaria Municipal de Educação; (d) 1 representante da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social; (e) 1 representante da Vara da Infância e Juventude; (f) 1 representante de cada Conselho Tutelar; (g) 1 representante do CMDCA; (h) 2 representantes do WCF-Brasil; (i) 3 representantes designados para o PRL - Referência de Eixo (da Promoção, do Controle e da Defesa); (j) 2 representantes da Comissão Municipal de Enfrentamento a Violência Contra Criança e Adolescente, sendo 1 representante da sociedade civil e 1 do Poder Público; Art.5º - Os requisitos básicos para ser representante dos organismos no GT são:

  I. Ter feito uma das capacitações promovidas pelo PRL durante sua implantação ou cursos posteriores;

  II. Ser um profissional que atue ou tenha experiência na área da infância;

  III.Ter vínculo efetivo ou estável com o organismo o qual vai ser o representante;

  IV. Ter assiduidade nas reuniões do GT, não podendo estar ausente em mais de duas reuniões consecutivas ou três alternadas;

  V. Ter disponibilidade para participar das supervisões e dos eventos e encontros promovidos pelo PRL;

  

VI. Na inviabilidade de participar do GT, proceder à sucessão na íntegra

(contextualização, materiais, conhecimentos, entre outros);

  Art. 6º - Os três profissionais designados para ser Referência dos Eixos, de acordo com os Planos Nacional, Estadual e Municipal de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto – Juvenil, deverão ter disponibilidade integral para o PRL; Art 7º - O GT reunir-se-á:

  I. Ordinariamente, de quinze em quinze dias ou de acordo com o cronograma anual pré-estabelecido;

  Art 8º - A coordenação do PRL será exercida por um representante do GT; Art 9º - O coordenador será indicado pelo GT e aprovado pelo Comitê Gestor; Art 10º - Em caso de impossibilidade do coordenador em cumprir seu mandato, deve o mesmo proceder à renúncia oficialmente.

  CAPÍTULO V

  • Das Atribuições - Art 11º - Comitê Gestor: O WCF-Brasil e o CMDCA são responsáveis pela gestão compartilhada do PRL, pela captação de recursos, cabendo ainda ao CMDCA priorizar a continuidade deste programa após a saída gradual do WCF-Brasil a partir de 2007. Parágrafo Único: o Comitê Gestor poderá sempre consultar o GT para orientação e norteamento de suas decisões. Art 12º- Coordenação: O PRL será coordenado por um dos membros do GT, por um período de 12 meses, com a finalidade de coordenar a execução das ações dos eixos norteadores do programa, além de ser o elo de ligação entre o Comitê Gestor e o GT. Parágrafo único: Os cargos de Coordenador e de referencia de eixos não estão sujeitos à remuneração ou gratificação. Art 13º As Referências de Eixos se distribuem da seguinte forma:

  (a)

  

(b) Promoção: Envolve o atendimento a prevenção, e análise da situação,

  os profissionais responsáveis por este eixo deverão acompanhar as equipes que realizam o atendimento e a prevenção, dimensionando com estes os serviços, as potencialidades, as dificuldades e estratégias de integração da rede de proteção, além de mapear todos os atendimentos realizados;

  

(c) Controle: Envolve a mobilização, articulação e o protagonismo infanto-

  juvenil , os profissionais responsáveis por este eixo deverão mobilizar e articular a rede, além de realizar o levantamento da situação atual de violência doméstica e sexual no município, incluindo todos os projetos, programas e serviços que trabalham com esta temática, inclusive as ongs, fazer atualização constante das estatísticas referentes a VDSCC;

  

(d) Defesa: Envolve todos os instrumentos disponíveis aos atores que

  integram o Sistema de Garantia de Direitos para se contrapor às ameaças e violações dos direitos contra crianças e adolescentes. Esse eixo é o advocacy, os profissionais que o compõem devem articular o segmento da justiça, acompanhar as notificações de violência no município e as ações que são próprias da defesa.

  Art 14º - São atribuições dos técnicos responsáveis pelos eixos do PRL:

  I. Realizar interlocução com a coordenação e o CMDCA;

  II. Apoiar e acompanhar as supervisões dos cursos; III. Favorecer o apoio técnico aos grupos no município (cursos e projetos entre outros);

  IV. Elaborar e sistematizar relatórios de supervisões e reuniões do GT;

  V. Administrar a organização e distribuição dos materiais;

  VI. Participar das supervisões institucionais sistemáticas - cuidando do cuidador;

  VII. Ser referência municipal sobre o desenvolvimento das ações do PRL;

  VIII. Viabilizar infra-estrutura para o desenvolvimento das ações do PRL;

  IX. Participar de reuniões, eventos, congressos etc;

  X. Promover a divulgação do PRL com a imprensa e mídia local;

  XI. Articular e realizar ações do PRL dentro dos eixos; I. Garantir representação em comissões afins.

  CAPÍTULO VI

  • Da Divulgação- Art 15º - O PRL contará com uma assessoria de comunicação feita pela assessoria de imprensa do Poder Público municipal e, quando necessário, por uma assessoria contratada para este fim. Parágrafo Único - Os materiais de divulgação deverão ser classificados como material para distribuição, formação, peças para mídia em geral, informativos e periódicos.
  • Das Disposições Finais- Art 16º - O Poder Público municipal deverá prover meios para que o PRL tenha uma infra-estrutura suficiente para funcionar, disponibilizando espaço físico, materiais necessários, três funcionários efetivos, bem como aplicando recursos do FUMDICAD através do CMDCA, além dos investimentos já disponibilizados pela parceria entre este e o WCF-Brasil.
Art 17º - Os casos omissos e não previstos neste Regimento Interno serão propostos pelo GT e apresentados ao Comitê Gestor, que providenciará a regularização e efetivação da deliberação.

  Art 18º - Os membros do GT são autorizados pelos seus órgãos de representação para assegurar o seu posicionamento frente às decisões, deliberações, e ações propostas pelo GT.

  Art 19º - Modificações a este Regimento Interno serão propostas pelo GT e deliberadas pelo Comitê Gestor.

  Art 20º - Este Regimento Interno entra em vigor a partir da data da sua assinatura.

  São Jose dos Campos, 15 de abril de 2006

  __________________________________ Ana Maria Drummond Chicarino

  Diretora Executiva Instituto WCF-Brasil

  _________________________________ Antonio Carlos Silvério

  Presidente Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente

  ANEXO C – Termo de Compromisso do Programa Refazendo Laços de Proteção

  São José dos Campos, 28 de março de 2007

  

TERMO DE COMPROMISSO DO

PROGRAMA ỀREFAZENDO LAđOS DE PROTEđấO Ể

  O município de São José dos Campos tem o apoio do Poder Público Municipal para a proteção e prevenção à infância vulnerável à violência doméstica e sexual. Em 15 de maio de 2003 a Gestão Pública assinou o Pacto Municipal de Enfrentamento a este fenômeno, o qual foi publicado através do decreto 10978/03 em 20/05/2003, regulamentando a criação da Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência Infanto – Juvenil.

  A articulação entre o Poder Público e a Sociedade Civil tem como marco o fortalecimento dos atores sociais no enfrentamento às situações que expõem crianças e adolescentes à violência, constituindo-se em uma rede de proteção efetiva na defesa de direitos.

  Desta forma o Instituto WCF Brasil, desde abril de 2005, estabeleceu uma parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente – CMDCA e com a Prefeitura Municipal de São José dos Campos, por meio de algumas Secretarias tendo como compromisso executar o Programa “Refazendo Laços” o qual tem como princípio norteador a prevenção à violência Domestica e sexual, visando assegurar a garantia de direitos a crianças, adolescentes e famílias, e como estratégia, a capacitação e supervisão dos profissionais que atuam na Rede de Proteção Integral, bem como promoção de Encontros e Seminários. O Programa está em consonância com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal nº 8069 / 90 e a Constituição Federal de 1988.

  A partir de 01/01/2007 o Município passa a coordenar as ações desenvolvidas, e o Refazendo Laços foi incorporado ao Programa Aquarela (ação inter-Secretarias) como um braço preventivo. Para tanto, foi mantido basicamente a mesma estrutura de funcionamento e objetivos, são eles: Fortalecer ações integradas e em rede entre o Poder Público Municipal e a Sociedade Civil, na prevenção as situações de violência sexual contra crianças e adolescentes o “Programa Refazendo Laços” se propõe:

  I. Assegurar a formação técnico-científico de atores sociais, para trabalharem em rede e tornarem-se agentes multiplicadores na prevenção à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, priorizando o acolhimento dos profissionais que trabalham diretamente no atendimento;

  II. Garantir que crianças, adolescentes e jovens tenham acesso a um desenvolvimento sexual saudável e responsável de acordo com os pressupostos do “Plano Nacional de Direitos Humanos” – Brasília / 2002;

  III. Produzir e sistematizar conhecimentos sobre uma intervenção ampla de prevenção e atendimento às situações de violência contra crianças e adolescentes, objetivando a sua replicação enquanto experiência inovadora no país;

  IV. Melhorar a qualidade e estrutura dos serviços de proteção a crianças adolescentes e famílias, através da co–responsabilização dos diversos segmentos;

  V. Sensibilizar a opinião pública e a sociedade civil para o enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes;

  VI. Promover o fortalecimento da política pública de âmbito municipal, no atendimento especializado e em rede às situações de Violência Domestica e Sexual Contra Crianças e Adolescentes;

  Desta forma convidamos as Entidades Sociais a:

  • Garantir a efetiva participação do funcionário indicado pela entidade nas formações, encontros temáticos e outros eventos, de forma a exercerem o papel de multiplicadores de ações de proteção à infância vulnerável à violência doméstica e sexual dentro e fora da sua entidade.
  • Permitir que o funcionário possa executar suas tarefas de multiplicação dentro da sua carga horária semanal, de acordo com seu contrato de trabalho.
  • Colaborar para que a Sociedade Civil assuma o desenvolvimento e continuidade do “Programa Refazendo Laços" no município de São José dos Campos.

  A serem signatários deste Termo de Compromisso: o Instituto WCF – Brasil, os dirigentes das Entidades Sociais do Município de São José dos campos, a FUNDHAS/Programa Aquarela/Refazendo Laços e o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente - CMDCA-SJC.

  ____________________________ Prefeito do Município de São

  José dos Campos __________________________

  Childhood Brasil - Instituto WCF ___________________________

  Cordenador do CMDCA ____________________________

  Presidente da Fundação Hélio Augusto de Sousa

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