ARLINDO DA SILVA LOURENÇO

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ARLINDO DA SILVA LOURENÇO

  As Regularidades e as Singularidades dos Processos Educacionais no Interior de duas Instituições Prisionais e suas Repercussões na Escolarização de Prisioneiros: Um Contraponto à Noção de Sistema Penitenciário?

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Educação: História, Política, Sociedade, sob a orientação do Professor Doutor Marcos Cezar de Freitas.

  PUC / SÃO PAULO

  BANCA EXAMINADORA __________________________________________ __________________________________________ __________________________________________

AGRADECIMENTOS

  • Ao Professor Doutor Marcos Cezar de Freitas, pelo carinho, pela atenção e pelo respeito que me dispensou durante todo o percurso de minha pesquisa. Ele foi, com seu jeito simples, porém extremamente centrado, importantíssimo para o meu desenvolvimento como cientista. Fiquei muito honrado em conhecê-lo;
  • Ao Professor Doutor Bruno Bontempi Junior, o primeiro a orientar os meus passos no Programa. Suas contribuições à pesquisa ora concluída foram inegavelmente valiosas. Meus cordiais agradecimentos a mais este amigo.
  • Ao Professor Doutor José Geraldo Silveira Bueno, o primeiro que conheci no Programa. Pela sua presteza, o meu muito obrigado. Pelas contribuições por ocasião do Exame de Qualificação, meus sinceros agradecimentos.
  • Ao Professor Doutor Fernando Afonso Salla, pela simplicidade com que foi contribuindo para a conclusão desta pesquisa. Mais um amigo a quem sou muito grato.
  • Aos professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em

  Educação: História, Política, Sociedade, especialmente às Professoras Doutoras Maria das Mercês Ferreira Sampaio e Alda Junqueira Marin e ao Professor Doutor Odair Sass, pela atenção, carinho e confiança dispensados.

  • Aos colegas de curso no Mestrado. Conviver e trocar informações com vocês foi muito proveitoso.
  • Aos funcionários do Programa. Ao Marcos, à Kátia e à Rita.

  Obrigado pela atenção incondicional.

  • Aos funcionários, em especial ao Laerte Cacefo, aos diretores, aos sentenciados e aos monitores e monitoras das penitenciárias onde realizei a pesquisa. Sua atenção e colaboração contribuíram para o avanço da Ciência.
  • Ao Manoel Rodrigues Português. Sem suas opiniões e sugestões, não conseguiria concluir o trabalho. Obrigado.
  • À Professora Mônica, pela revisão.
  • Aos colegas que contribuíram para a pesquisa, mesmo que apenas “torcendo” para o seu término.
  • À FUNAP, pelas informações que me colocou à disposição.
  • Ao CAPES, pelo apoio oferecido à pesquisa.
  • À Rita, nossa secretária do lar. Sem seu auxílio diário, pouca coisa poderíamos fazer. Meu muito obrigado.
  • Aos meus pais, por ensinar o significado da existência humana.
  • À minha irmã e aos meus irmãos, cunhadas e sobrinhos. A vida tem mais valor com vocês presentes.
  • Às queridas Arlene, Maiara e Sofia. Vocês são muito importantes para mim. O amor, a paciência e a compreensão

  Tempo virá. Uma vacina preventiva de erros e violência se fará. As prisões se transformarão em escolas e oficinas. E os homens, imunizados contra o crime, cidadãos de um novo mundo, contarão às crianças do futuro, estórias absurdas de prisões, celas, altos muros, de um tempo superado.

RESUMO

  Esta é uma pesquisa sobre as regularidades e as singularidades nos processos educacionais levados a efeito em duas instituições prisionais do Estado de São Paulo. O trabalho tem por objetivo mostrar como políticas educacionais idealizadas para os presídios repercutem para os prisioneiros. O trabalho de campo demonstrou que as ações educacionais nos presídios são extremamente diferenciadas porque sofrem uma variação considerável à medida que variam também a “equipe dirigente” e o corpo de funcionários ou “staff” de cada instituição. Essa diferenciação do modo como se processa nas instituições prisionais a educação formal para a população reclusa possibilita pensar que a noção de sistema penitenciário, amplamente difundida, pode ser relativizada quanto ao seu alcance, na prática. Metodologicamente a pesquisa buscou apoio na antropologia, principalmente nos estudos de Gilberto Velho e seus colaboradores que trabalham com a antropologia social. A pesquisa de campo e o movimento empírico que sustentaram a pesquisa solicitou, à maneira do etnógrafo, estar “mergulhando” no interior das duas instituições prisionais e acompanhando, por um certo período, os “procedimentos ritualísticos” desenvolvidos nos processos educacionais para os prisioneiros. Com isso foi possível captar nuanças do ambiente institucional e dos sujeitos que o compõe, examinado as iniciativas escolares realizadas nas instituições sob quatro variáveis de análise: tempo, espaço, organização e práticas escolares. O referencial teórico foi ampliado com a utilização dos estudos de Foucault, Goffman e Sykes, sobre as prisões e de Apple, Canário, Nóvoa e Viñao Frago, sobre as escolas.

ABSTRACT

  This is a research about the regularity and singularity in the educacional processes used in two penitentiaries in São Paulo State. The work intends to show how idealized educational policies for prisons can reflect in prisioners life. The work has shown that educational actions in the penitentiaries are extremely different because they sufffer a considerable variation as the “leading team” and the staff from each institution also varies. The way this differential happens in the penitentiaries, the formal education for this population makes possible to think that the idea of a prisioning system which is widely spread, can be relative according to its achievements. When it comes to methodology, the research looked for support in anthropology, specially In Gilberto Velho’s studies and his partners who have worked in social anthropology. The research and the empirical studies that have supported the research, have required to be “immersed” in the inside of both penitentiaries by the means of the ethnographer and following, for a certain period, the “ritualistic procedures” developed in the educational processes for the prisioners. Hereby, it was possible to pick up the nuances of the institutional environment and the people who make part of it. After analyzing the school introductory stepes made in the institutions under four analyses variations: time, space, organization and school practices. The theory reference was enlarged with the use of Foucault’s, Goffman’s and Sykes’s studies about the prisons, and Apple’s, Canário’s, Nóvoa’s and Vinão Frago’s about schools.

  SUMÁRIO

INTRODUđấO

  10 CAPÍTULO I - AS ESCOLAS E OS PROCESSOS DE

  21 ESCOLARIZAđấO EM INSTITUIđỏES PRISIONAIS

  1. Introdução

  21

  2. Escolas em instituições prisionais: itinerários de pesquisa

  23

  3. Escolas em instituições prisionais: as leis e as normas que as regem

  36

  4. Autonomia institucional e autonomia da equipe dirigente e do corpo de funcionários em instituições prisionais

  45

  5 A autonomia da escola e os mecanismos de resistência à dominação por parte dos atores envolvidos

  49

  6. A escolha e a caracterização das duas instituições prisionais que foram investigadas

  56

  7. Os procedimentos adotados na pesquisa

  66 CAPÍTULO II – AS REGULARIDADES E AS SINGULARIDADES

  

DOS PROCESSOS EDUCACIONAIS EM INSTITUIđỏES

  70 PRISIONAIS

  1. Introdução

  70

  2. Regularidades e singularidades da escola nas prisões

  74

  2.1. Espaço escolar

  74

  2.2. Tempo escolar

  89

  2.3. Organização escolar 103

  2.4. Práticas escolares 110

CAPễTULO III Ố UM CONTRAPONTO ầ NOđấO DE SISTEMA

  115

  PENITENCIÁRIO?

  2. O conceito de sistema penitenciário em xeque 117 131

  CONSIDERAđỏES FINAIS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 137

  Leis, Regulamentos e Relatórios institucionais 142

  

ANEXOS 143

  

INTRODUđấO

(...) O homem que transpõe os seus umbrais como um criminoso, ali recebe o banho ilustral de inteligência, com que desenvolve todas as suas qualidades e desperta

para a vida social como um elemento eficiente e completamente normal.

O instituto não é uma prisão. Está muito longe disto. É antes de tudo e acima de tudo uma escola aparelhada e bem dirigida onde há aproveitamento e disciplina, obediência e ordem .

  (...) Salões de leitura, cinemas, estudos de música, desenho e pintura, oficinas de todos os ofícios, trabalho e respeito, movimento e ordem, o Instituto de Regeneração é um pequeno mundo à parte, realizando um trabalho gigantesco em benefício da coletividade e também em benefício dos que foram levados ao crime e se encontram ali para receber inteligência e caráter, coração e bondade (Duarte, 1941). (Itálicos meus).

  As palavras acima foram transcritas de uma correspondência intitulada “Impressões de Maria Duarte sobre o Instituto de Regeneração de São Paulo” e enviada em 21 de Janeiro de 1941 ao Administrador daquele estabelecimento de cumprimento de pena. Consta que essa senhora, que era poetiza e moradora do Estado do Rio de Janeiro, em visita pela cidade de São Paulo naquela ocasião, ficou tão maravilhada com o que viu naquele local que, numa outra correspondência de mesma data, informou ter doado à biblioteca do Instituto o seu livro de poemas, “e o fazia com grande alegria

  1 ”.

  As impressões destacadas em correspondência por Maria Duarte que, em visita a cidade de São Paulo, desejou conhecer o célebre Instituto de Regeneração, podem soar estranhas para aqueles que costumam olhar para as prisões como locais onde reinam soberanos a violência, o ódio, a vingança, a contravenção, a maldade e, por que não, a ociosidade completa.

  Admirou-se a poetiza ao observar homens condenados pela justiça espalhados por inúmeros espaços de trabalho, estudo e lazer, constatando que os 1 As duas correspondências da Senhora Maria Duarte, aqui transcritas em parte, foram obtidas no acervo

  

de documentos, fotografias e outros objetos históricos conservados no Museu Penitenciário de São Paulo,

localizado num espaço modesto no interior da Escola de Administração Penitenciária de São Paulo, mesmos estavam ali para “receber inteligência e caráter, coração e bondade” (Duarte,

  2 1941) .

  Já naquele momento chamava a atenção o grande e intenso movimento de pessoas no interior de uma instituição penitenciária. Eram, como ainda hoje, homens ou mulheres que se locomovem para postos de trabalho, campos de futebol, oficinas de artesanato e outros ofícios, ambulatórios médicos e odontológicos e ainda, por salas de aula destinadas para esse fim ou em outros espaços improvisados para essa prática, bibliotecas, cinemas, teatros, campos de futebol e quadras esportivas, entre outros. Dificilmente imaginamos essa dinâmica num local de cumprimento de pena se não o visitamos ou nele trabalhamos.

  Ao pesquisador atento não há como não se sentir atraído por este vai e vem de seres humanos excluídos do convívio social e reclusos por algum tempo de suas vidas e alojados, boa parte de seu tempo, no interior de celas de dimensões bastante limitadas, geralmente lúgubres e superpovoadas. O dia a dia para os presos de uma Penitenciária, assim como para os funcionários que ali trabalham, começa já nas primeiras horas da manhã. Em suas grandes cozinhas, por exemplo, a rotina de trabalho costuma começar já às quatro horas da manhã, segundo relatos dos próprios presos trabalhadores. Não raro, observamos os presos que estudam serem liberados de suas celas e de seus pavilhões rumo às salas de aula ainda às sete horas. Enfim, muitos são os homens e as mulheres que movimentam a vida naquela instituição.

  Guardadas as devidas proporções e particularidades, os locais destinados às diversas tarefas do dia-a-dia numa Penitenciária reproduzem locais semelhantes encontrados fora das mesmas. Assim, os imensos galpões que comportam as oficinas de trabalho nessas instituições lembram os galpões de nossas fábricas que cotidianamente 2 levam centenas de homens e mulheres livres para o seu interior em busca de sua

  

Assim como a Senhora Maria Duarte, inúmeras pessoas do “mundo livre” costumavam visitar o

Instituto de Regeneração já nas primeiras décadas do século XX. Fernando Salla (1999) nos dá mostras

dessa dimensão: “ (...) Luís Jimenez de Asúa, em 1927, quando visitou a Penitenciária em São Paulo,

afirmou que desde Enero a Septiembre del año 1927 la visitaron 20.000 personas, ajenas la mayoria a

los conocimientos jurídicos e penitenciários (1929: 132). Se aceita como verdadeira, essa espantosa cifra

significa que algo em torno de 75 pessoas diariamente passavam pela Penitenciária, 2.200 por mês, e que

até o final do ano o total de visitantes ultrapassaria 26.000. O sentido simbólico desta presença exterior sobrevivência através do salário que receberão em decorrência do trabalho executado. As suas bibliotecas podem não possuir o glamour de nossas imensas bibliotecas da vida livre, entretanto, estão também repletas de livros de temas diversos, revistas variadas e alguns jornais. Os locais destinados à prática de cultos religiosos também lembram nossas igrejas, capelas e templos, com seus altares e símbolos. Muito embora limitados

  3

  em seu espaço físico, os diversos locais de convívio e de atividades diversas para os prisioneiros buscam similaridades com os mesmos espaços físicos típicos encontrados fora das prisões:

  (...) Não são apenas os prisioneiros que são tratados como crianças, mas as crianças como prisioneiras. As crianças sofrem uma infantilização que não é a delas. Nesse sentido, é verdade que as escolas se parecem um pouco com as prisões, as fábricas se parecem muito com as prisões (Foucault, 2003, p. 73).

  Nas escolas das prisões não é diferente. Quando visitamos algumas instituições prisionais verificamos, geralmente escondidas num recôndito da instituição, salas de aula que abrigam prisioneiros em determinados momentos da sua vida no cárcere. São espaços arquitetonicamente planejados que se assemelham àqueles da vida

  4

  livre e que permitam, ao mesmo tempo nessas instituições, um controle disciplinar (Foucault) por parte do corpo de funcionários responsáveis pela ordem, pela disciplina e pela segurança da instituição, sobre àqueles que lá freqüentam.

  A tentativa de controle disciplinar e dos movimentos dos sujeitos no interior das instituições prisionais começa já quando de sua concepção arquitetônica pelos técnicos responsáveis. Os espaços físicos que comportarão os prisioneiros nos diversos momentos de sua vida no interior dessas instituições são pensados de forma a garantir o

  

conjunto de relações que são estabelecidas cotidianamente no interior dessas instituições, principalmente

4 entre o conjunto da população encarcerada.

  

Por disciplina, Foucault vai designar “esses métodos que permitem o controle minucioso das operações efetivo controle sobre os seus movimentos. Cusinato (1982, p. 23), estudando o “Espaço da Penitenciária de Araraquara”, notou que:

  5 (...) o pavilhão de trabalho e das salas de aula fica entre os raios 1 e 3. Sua localização no centro da penitenciária, entre os raios, tem duas finalidades: impedir a visualização e a comunicação dos presos através de sinais, de um raio para outro; diminuir o trajeto de circulação dos presos, dirigi-los para o interior do presídio, concentra-los. Na medida que os concentra, também os expõe à vigilância dos guardas.

  Normalmente não encontramos à entrada dos espaços destinados à escolarização dos prisioneiros, ou mesmo em seu interior, placas, cartazes, faixas ou mesmo murais que nos identifiquem ou nos informem acerca da finalidade desses, entretanto, a disposição física do local, o mobiliário e os objetos ali encontrados, bem como a movimentação, os gestos e a interação das pessoas em seu interior, nos evidenciam tratar-se ali de uma escola.

  Em todas as instituições escolares que tivemos a oportunidade e o privilégio de conhecer no interior das prisões - como docente de cursos de formação e aperfeiçoamento para Agentes de Segurança Penitenciária pela Escola de Administração Penitenciária do Estado, lecionamos em muitos desses espaços - vimos cadeiras e carteiras enfileiradas ou dispostas em círculo, quadros negros (pintados, simplesmente, à parede, ou mesmo desses de madeira que normalmente conhecemos), giz branco e colorido, mesas para os professores, cartazes com inscrições educativas e culturais nas paredes das salas ou dos corredores, listas de alunos espalhadas também pelos corredores, ou em mãos de funcionários de presídios, professores preparando suas aulas ou mesmo exercendo a docência, alunos, indo e voltando de seus lugares de origem e 5 quase sempre carregando consigo, ao menos, um lápis e um caderno, enfim, a finalidade

  

Desconhecemos a origem desse termo que designa, no linguajar típico do interior das instituições

prisionais, os pavilhões de moradia dos prisioneiros, entretanto, já foi utilizado por Bentham (2000, p. 18)

quando de seu Panóptico: “(...) Essas celas são separadas entre si e os prisioneiros, dessa forma,

impedidos de qualquer comunicação entre eles, por partições na forma de raios que saem da

circunferência em direção ao centro, estendendo-se por tantos pés quantos forem necessários para se obter desses espaços se mostrava evidente num simples correr de olhos. Era inevitável perceber inúmeras semelhanças e regularidades, fosse quando comparávamos o que víamos com outras escolas de outras instituições prisionais, ou quando comparávamos com escolas encontradas na sociedade dos “libertos”.

  Não podíamos fugir à lembrança de Narodowski (2001), principalmente quando nos contou que em 1991, encontrando-se em um Seminário sobre Filosofia da Educação numa Universidade em um município do interior do Estado de São Paulo, um colega seu apresentou para o público presente ao evento alguns slides que mostravam peculiaridades sobre processos educativos na região amazônica. Rememora o citado autor que as imagens que foram ali exibidas mostravam, segundo aquele que as havia preparado, construções bastante simples e sustentadas com matéria prima abundante na região – madeira, bambu e folhagens. Não eram necessários mais que dois ou três slides para que os presentes ao evento pudessem identificar o tipo de construção que ali se afigurava. Tratava-se de um prédio escolar.

  Este autor perguntou-se então quais eram, de fato, os limites arquitetônicos que permitiam, num simples olhar, determinar que naquela construção simples funcionava uma escola? Ele próprio nos responde que os

  (...) limites estavam tão precisamente demarcados pela cuidadosa distribuição do mobiliário e meticulosa localização das pessoas somadas a existência de elementos típicos (como o quadro negro) que o receptor da imagem podia concluir que esse rancho, essa tapera, esse barracão, constituía a realização de uma das instituições típicas da cultura ocidental; tratava-se nada mais e nada menos do que de uma escola (Narodowski, 2001, p. 13).

  Talvez não seja mais nenhuma novidade, principalmente no meio acadêmico, a existência de espaços arquitetônicos bastante atípicos e peculiares onde o processo educacional é gestado, organizado, processado e enfim, cuidadosamente administrado. Alunos, pais de alunos, professores, diretores, supervisores, orientadores pedagógicos, inspetores e outros funcionários convivem e interagem cotidianamente em espaços arquitetônicos bastante diversificados, e ainda assim, seus traços peculiares nos acostumados a ver e mesmo a visitar em nossos bairros, em nossas cidades e em nossos Estados, nos dão apenas uma pequena amostra da infinidade de modalidades arquitetônicas destinadas a essa instituição responsável pela transmissão da cultura através dos processos educacionais que se destinam a uma determinada e específica parcela da população:

  As organizações escolares, ainda que estejam integradas num contexto cultural mais amplo, produzem uma cultura interna que lhes é própria e que exprime os valores (ou os ideais sociais) e as crenças que os membros da organização partilham (Brunet, 1995, p. 29) .

  Sabemos de escolas que funcionam no interior de outras instituições, tais como igrejas, fábricas, escritórios, conventos, seminários, quartéis, entre outras. No nosso caso em particular, interessa-nos estudar a escola que funciona no interior dessas instituições bastante peculiares e emblemáticas que são as prisões, assim como o processo educacional elaborado e desenvolvido para os sujeitos que ali estão encarcerados:

  Trata-se de procurar escapar ao vaivém tradicional entre uma percepção micro e um olhar macro, privilegiando um nível meso de compreensão e de intervenção. As instituições escolares adquirem uma dimensão própria, enquanto espaço organizacional onde também se tomam importantes decisões, educativas, curriculares e pedagógicas (Nóvoa, 1995, p. 15).

  Particularmente, interessou-nos comparar os processos educacionais que são desenvolvidos em duas instituições prisionais com características semelhantes. Verificávamos, com o passar dos anos na condição de funcionário de uma delas, ao lado de semelhanças e regularidades típicas das escolas da sociedade livre, que a atuação de diferentes administradores e demais funcionários no interior das prisões em algumas circunstâncias, determinava padrões de conduta e de condução das práticas ou políticas

  6

  públicas para o setor nem sempre similares à adotada pela gestão anterior. Não raro, nos surpreendíamos com as estratégias de ação desenvolvidas por dois ou mais dirigentes distintos que assumiam a administração da penitenciária num determinado momento de nossas vidas funcionais e o quanto essas mesmas estratégias diferiam enormemente de uma para a outra.

  Por outro lado, na condição de docente em cursos de formação e aperfeiçoamento de funcionários, e tendo a possibilidade de conhecer outras instituições de cumprimento de pena, podíamos notar que as políticas gestadas e colocadas em prática para os prisioneiros variavam de instituição para instituição, muito vezes, de forma considerável.

  Para além de investigarmos as formas como essas propostas chegam até o prisioneiro, nosso interesse particular é observar e analisar, paralelamente à todas as regularidades encontradas, possíveis variações sofridas pelos processos de escolarização quando comparamos sua ocorrência no interior de duas instituições de cumprimento de pena similares. Nos parece que quando nos referimos às práticas pedagógicas colocadas a termo nestas instituições verificamos, a partir de nossa vivência como trabalhadores das prisões, que o próprio conceito de sistema, quando pensado como conjunto concatenado de ações visando a escolarização dos prisioneiros é, em grande medida, bastante precário dadas as diferenças de condutas e procedimentos pessoais adotados frente à administração da instituição por diferentes administradores e também pelos demais funcionários. Neste sentido, investigar regularidades, bem como singularidades de cada ação, pode ser mais relevante ao observador do que verificar o alcance educacional de um sistema que, na prática, pode nem existir.

  Se contrastarmos a variação na execução das políticas internas das instituições prisionais com os pressupostos derivados da existência de um órgão responsável por toda a política educacional no interior dos presídios, a FUNAP – 6 “Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” e considerarmos que este órgão

  

Adotamos aqui o conceito de políticas públicas penais de Adorno (1991, p. 25), como “um conjunto de

normas, meios e procedimentos técnicos que são adotados pelo Estado para prevenir a criminalidade,

conter a delinqüência, promover a reparação de um bem atingido pela ofensa criminal, custodiar cidadãos

condenados pela justiça e realizar a segurança da população”. A escolarização dos prisioneiros é vista, regulamenta as ações educativas através de diretrizes válidas para o conjunto das unidades penitenciárias do Estado de São Paulo e que, além disto, há uma política de educação para os presídios em âmbito nacional, respaldada em Leis, Decretos e outras normativas, perceberemos que na singularidade de cada instituição prisional reside um diferencial importantíssimo e que merece uma focalização adequada. Não se pode perder de vista, nesse caso, a presença de uma certa independência do pessoal

  

penitenciário em relação às políticas para o setor (Goffman, 1987, Foucault, 1984 e

  2003, e Sykes, 1999), Acreditamos ser possível transpor para o nosso trabalho de investigação uma citação de Hutmacher, contida em Nóvoa (1995). Muito embora, ambos estes autores tenham estudado as escolas regulares da sociedade européia, algumas particularidades presentes tanto nos estudos daquelas instituições como naquelas a que propomos investigar parecem evidentes:

  Olhando mais de perto, descobre-se que cada estabelecimento de ensino tem as suas características específicas, uma identidade própria; mas as diferenças e as identidades permanecem clandestinas muito tempo. A uniformidade, mesmo que fosse apenas de fachada, era (e é ainda) considerada como um garante da equidade do serviço público de ensino. A diferença era inconfessável (Hutmacher, 1995, p. 57) .

  No que se refere às observações sistemáticas das estratégias de escolarização nas duas instituições prisionais eleitas por nós para a pesquisa, suas regularidades e suas variações conforme o perfil das pessoas envolvidas com o processo, focalizaremos a formação do “espaço e do tempo escolares”, nessa realidade na qual a escolarização é aparentemente interditada (Viñao Frago, 2000). A concepção, distribuição e usos institucionais e pessoais do “espaço e do tempo escolares” podem se manifestar inclusive em instituições com a complexidade das penitenciárias.

  Ni el espacio ni el tiempo son estructuras neutras en las que se vacian procesos educativos. Siempre se aprende y se enseña en lugares y en tiempos concretos. Y promueven e inculcan unas determinadas concepciones de ambos, sino que, al mismo tiempo, constituyen elementos fundamentales de la organización escolar, condicionan la enseñanza de las diferentes disciplinas, y permiten o impiden la realización de unas u otras actividades. En síntesis, el espacio y el tiempo escolares no sólo conforman el clima y cultura de las instituciones educativas, sino que también educan (Viñao Frago, 2000, p. 99).

  A observação atenta da utilização dos espaços físicos, somada à verificação dos seus espaços de ocupação internos; da distribuição dos diversos locais para as atividades do cotidiano e, entre eles, da própria escola, são aqui, estratégias de pesquisa, no sentido que nos dá Graça (1999), citando Velho:

  São possíveis, ou mesmo inevitáveis, a coexistência e o entrecruzamento social de discursos simbólicos e universos de sentido diferenciado. Num certo espaço social, não só a cultura não exclui as diferenças, como, em certa medida, se alimenta delas, estabelecendo pontes, suscitando comunicação (Velho, apud Graça, 1999, p. 63).

  O que se tem em mente aqui são os espaços de prática de leitura e escrita quando dispostos e planejados para garantir um nível satisfatório de aprendizado adequado para aqueles que o buscam ou não. As salas de aula ou “celas de aula” (Leme, 2002), podem ser espaços abertos e agradáveis ou espaços mais confinados; as salas ou “celas” de aula podem possuir um número suficiente de carteiras atendendo aos prisioneiros que as freqüentam, ou não; o material pedagógico disponibilizado é adequado e suficiente ou inadequado e insuficiente; o trânsito de prisioneiros até a escola e o seu acesso até a sala de aula podem sofrer limitações e proibições ou ser liberados e mais flexíveis; os corredores da escola são iluminados ou escuros; suas paredes são limpas e indicam uma série de cuidados, como pintura recente ou o contrário; os banheiros são higienizados e adequados para a utilização imediata, ou estão sujos e indisponíveis para o uso; os professores que lecionam nas escolas da prisão estão devidamente qualificados ou carecem de qualificação para o ofício de ensinar. Todos estes são aspectos da maior relevância para o nosso trabalho de pesquisa, uma

  Há que se investigar também o conjunto de opiniões do pessoal responsável pela administração e pela segurança e disciplina das instituições prisionais a respeito da escolarização dos prisioneiros. É necessário considerar o que pensam as pessoas que detém uma grande parcela do poder de decidir quem chega e quem não chega à escola, e com isso, verificar sua ação sobre a possibilidade de crescimento pessoal do prisioneiro quando expressa vontade de estar em sala de aula.

  Ao falarmos de autonomia do pessoal responsável pela administração e pela condução das políticas internas nas instituições prisionais, devemos reconhecer também o seu contraponto, quer seja, a possível autonomia, tanto da escola e dos processos de escolarização em seu interior em relação à prisão, quanto daqueles atores envolvidos cotidianamente naquele espaço de manifestação de crenças, opiniões e dúvidas. Para estudar a escolarização em presídios é necessário acrescentar aos estudos de autores como de Foucault e Goffman, cujas contribuições para o entendimento das relações de poder no interior das instituições prisionais é evidente, autores como Apple (1989), Canário e colaboradores (1988 e 1996), cujos estudos sobre a autonomia da escola e da educação em relação às outras instâncias da sociedade também são, para nós, de imensa valia.

  É necessário compreender todas as variáveis e invariáveis que permeiam os espaços educacionais e as práticas educativas desenvolvidas no interior das prisões, pois, lembrando Canário (1996, p. 145):

  (...) Mesmo o prisioneiro, sujeito ao regime mais rigoroso, mantém capacidade de escolha e de decisão (colaborar ou não com os carcereiros, por exemplo) e, portanto, um determinado grau de autonomia.

  Assim, organizamos nosso trabalho de forma a contemplar esse objetivo. No primeiro capítulo, os autores com os quais dialogaremos se farão presentes e serão problematizados, primeiro com aqueles que trouxeram como objeto de pesquisa a escola no interior das instituições prisionais e depois aqueles outros com quem estes primeiros citados por nós, também dialogaram, buscando compreender melhor a dinâmica da instituição ou das relações entre os sujeitos em seu interior. Complementaremos o autonomia da escola, e finalizaremos com uma caracterização das duas instituições prisionais que desejamos comparar.

  O segundo capítulo será reservado para a análise, propriamente dita, do material empírico recolhido, tanto no que se refere às regularidades quanto às singularidades dos processos educacionais no interior das instituições prisionais, levando-se em conta quatro aspectos principais: espaço, tempo, organização e práticas escolares. Esta particularização pretende ter um caráter didático na apresentação do material observado em campo ou levantado nas entrevistas realizadas.

  Um terceiro capítulo se faz necessário para que possamos discutir e sustentar ou não o contraponto à noção de sistema penitenciário cogitado como uma de nossas hipóteses, a partir das práticas educacionais aferidas. Desejamos evidenciar se a noção, amplamente difundida e amplamente utilizada, seja no interior das instituições prisionais seja no seu exterior, de “sistema”, realmente se afigura na prática, depois de confrontados os processos educacionais em ambas.

  Figuras representando esquematicamente as duas instituições prisionais serão oportunamente mostradas. Fotografias de locais de trânsito ou de práticas dos prisioneiros completam o trabalho de observação de campo e estarão mescladas no corpo do texto, conforme sua apresentação seja necessária. Pretende-se com esse material ilustrativo, identificar ao leitor as particularidades dos espaços físicos com os quais estamos efetivamente tratando.

  Nos anexos, apresentaremos a transcrição literal do trabalho de observação de campo. Foram quatro visitas às unidades prisionais, duas em cada uma delas, com um espaço de, aproximadamente, seis meses entre ambas, onde foi possível recolher uma grande quantidade de informações que, depois de analisadas em detalhes, nos permitiram testar nossas hipóteses. Optamos em apresentar a transcrição literal de tudo o que vimos e ouvimos em nossas incursões pelo campo empírico gravado em CD- ROM (na versão impressa), entendendo que muitas das informações ali presentes já constam do corpo deste trabalho, seja exemplificando ou tipificando inúmeras e variadas situações das quais presenciamos.

  Cabe ainda fazer uma última observação ao leitor. Optamos neste trabalho em utilizar o próprio caderno de campo como fonte das informações colhidas, para além

  

CAPÍTULO I

AS ESCOLAS E OS PROCESSOS DE ESCOLARIZAđấO EM INSTITUIđỏES

PRISIONAIS

  A educação nas prisões é um desafio viável e os problemas e dificuldades que se apresentam, em quase nada diferem dos problemas e das dificuldades que a educação popular, em geral, enfrenta no seu dia-a-dia, uma vez que nossos objetivos também são comuns a ela (Rusche, 1995, p. 16).

  Em grande parte das prisões de São Paulo, ao menos naquelas que já conhecemos, geralmente localizamos o prédio ou o recinto escolar estrategicamente localizado em algum recôndito da instituição, conforme já dissemos. Para aquelas pessoas livres que desejam adentrar num prédio desses é necessário transpor inúmeros portões, todos eles muito bem vigiados. Para os sujeitos ali encarcerados e que desejam estudar, o número de portões a atravessar até que se chegue a e35 scola é menor, porém, o rigor, a disciplina e a ordem aos quais são

  7

  submetidos diariamente pela Equipe Dirigente e pelo corpo de funcionários, não são poucos e são quase ininterruptos.

  Numa das penitenciárias onde desenvolvemos a nossa pesquisa, por exemplo, oito enormes e barulhentos portões gradeados de ferro, vigiados ininterruptamente, devem ser ultrapassados para que se chegue ao prédio escolar da instituição, para quem chega do seu exterior. Em cada um desses portões, um ou mais 7 funcionários cuidam para que sejam abertos e fechados sincronicamente. São tantos

  

“Equipe Dirigente” é um dos conceitos cunhados por Erwing Goffman em seu clássico livro, “Prisões, portões e denotam tamanha imponência para aqueles que os atravessam, que se tem a impressão de que são muitos mais. São inúmeras as sensações que vamos tendo ao ingressar numa instituição como essa, geralmente negativas. Vejamos quais foram as palavras de um educador de jovens e adultos encarcerados, no início de suas atividades em sala de aula, em uma penitenciária no interior do Estado de São Paulo, cujo modelo arquitetônico é similar à penitenciária em questão:

  Enquanto passava pelos corredores, rumo à sala de aula, os agentes iam abrindo e fechando portas, umas quinze! Sentia-me preso entre corredores frios e portas de aço. Naquele dia, o caminho que me levou à sala de aula foi outro. Passei por dentro da prisão, por um corredor em frente à enfermaria, onde estava um grande número de detentos esperando atendimento. Passei no meio deles. Com muito medo, é claro! (Leite, 1997, p. 18).

  É como se nossa própria percepção fosse alterada e nossos sentidos

  8

  amplificados ao simples transpor dos primeiros portões de instituições como essa . Por questões de segurança interna, um portão nunca deve ser aberto enquanto o outro assim o estiver.

  Todos os indivíduos que desejam ingressar naquela instituição estão sob os olhares quase sempre desconfiados dos funcionários responsáveis pela vigilância, e passíveis de serem interrogados acerca de seus objetivos a qualquer momento. Aparelhos telefônicos celulares, óculos de proteção solar, alguns tipos de vestimenta, entre outros objetos de uso pessoal, não são ali dentro permitidos, sejam trazidos por funcionários ou visitantes. Caso traga consigo algum desses objetos, os mesmos devem ser deixados, depois de protocolados, aos cuidados de um funcionário ou funcionária na recepção da instituição. Em mãos de prisioneiros, alguns desses objetos se constituem em possibilidade de punição disciplinar.

  

estudo que faziam os respectivos autores. Então, temos que Michel Foucault (1984, p. 131) as designou

“instituições disciplinares”; Erwing Goffman (1987, p. 11), “instituições totais” e, finalmente, Rosa Maria

  Uma certa atmosfera ritualística permeia a entrada nessas instituições de cumprimento de pena, conforme já apontaram muitos dos autores que ali ousaram realizar suas pesquisas:

  (...) Entrar na Casa de Detenção era um verdadeiro ritual. Seis enormes portões de ferro separavam a rua do pavilhão onde se realizavam as entrevistas. Para ultrapassá-los o pesquisador dependia fundamentalmente da companhia de algum funcionário conhecido e “graduado”, cuja presença oferecia garantia aos porteiros sobre a pessoa convidada. Nenhum portão se abria sem que o seguinte estivesse fechado. Ultrapassando o primeiro portão, cujo acesso era livre, anunciava-se na portaria do presídio com quem queria falar. Os funcionários atendentes procuravam localizar a pessoa no interior da cadeia – no caso o chefe de expediente – que vinha até a entrada encaminhar o convidado para dentro. Com a chegada do chefe do expediente na portaria, o pesquisador recebia uma senha, trocada por sua carteira de identidade, com a qual adquiria o status de visitante o que significava que o funcionário, autor do convite, se encarregaria de ciceroneá-lo durante todo o tempo que estivesse no presídio (Ramalho, 1983, p. 26).

  Enfim, é no interior dessas instituições de cumprimento de pena que encontramos o nosso objeto de estudo, suas regularidades e suas particularidades, quais sejam: a escola e as estratégias de escolarização em presídios. Este objeto tem sido alvo, nos últimos tempos, de investigações dos pesquisadores brasileiros, e em especial, por parte de alunos de pós-graduação de nossas universidades. Nosso desejo é o de aprofundar, a partir de agora, questões específicas deste objeto que, para nós, não estão ainda completamente elucidadas pelas pesquisas anteriores (Leite, 1997; Português, 2001; Leme, 2002; Santos, 2002; Resende, 2002; Onofre, 2002 e Penna, 2003).

  (...) Porque a inteligência não vem da leitura, vem de si próprio, né. Eu creio que a leitura faz falta, mas eu já senti, eu mesmo, eu falo isso porque muitas vezes eu já senti falta da leitura, muitas vezes em São Paulo quando eu cheguei pra cá, eu queria uma coisa e não conseguia, queria ler no ônibus e não conseguia, tinha que na capacidade da mente do homem aqui na cadeia. A mentalidade humana é a coisa, a coisa mais perigosa do mundo é a mentalidade humana” (Relato de um prisioneiro da Casa de Detenção de São Paulo, in Ramalho, 1983, p. 227).

  Os primeiros retratos da educação formal em presídios no Brasil apontam para o período inicial da ditadura dos anos 60 do século XX como marco, muito embora tenhamos localizado fontes documentais e iconográficas que nos mostraram salas de aula repletas de prisioneiros já na primeira metade daquele século. A inauguração oficial da Penitenciária do Estado, construída para “substituir a velha Penitenciária da avenida Tiradentes” (Salla, 1999, p. 178), em São Paulo se deu em 21 de abril de 1920 ou nove anos depois do lançamento da pedra fundamental, ocorrida em 13 de maio de 1911 (p. 180). Já no primeiro ano de sua inauguração, o número de reclusos na mesma era de “pouco mais de 230 prisioneiros”, segundo reportagem do Jornal que se apresentava como o “Órgão dos Sentenciados da Penitenciária do Estado”, denominado

  9 de “O Nosso Jornal” .

  Português (2001), por exemplo, embora reconheça a existência de projetos e atividades voltadas à escolarização de prisioneiros nas instituições prisionais em momentos anteriores a 1964, afirma que a educação em presídios se desenvolve mesmo com o advento da última ditadura vivida no País:

  

ocasião deste número. Conseguimos encontrar a edição n. º 132 – Ano XII, de junho de 1954. Nesta

época, o referido jornal já contava com 16 páginas. Mantendo uma interatividade entre a Direção do

estabelecimento penal, os funcionários e os prisioneiros, “O Nosso Jornal” procurava ser um órgão de

informação acerca de todas as atividades ocorridas no âmbito da administração penitenciária da época,

bem como um espaço de divulgação de idéias de ambas as partes sobre a prisão, além de possibilitar a

publicação de poemas, escritos, provérbios religiosos, pedidos de desculpas ou perdão por uma conduta

inadequada por parte de algum preso, entre outros. Interessa-nos aqui o fato de que, já naquela época,

existia um periódico de publicação conjunta entre os funcionários e os prisioneiros, indicando a

  A partir da Lei de Segurança Nacional, inúmeros intelectuais e estudantes universitários condenados à pena de reclusão por crimes políticos e cumprindo a sentença em meio à população condenada por crimes comuns, começaram a constituir-se como parte dos encarcerados e irromperam uma série de atividades educativas a toda aquela população (Português, 2001, p. 107).

  Dos trabalhos que encontramos e que tinham como referência de estudo a escola no interior das prisões, nenhum deles tinha como objetivo o levantamento historiográfico da educação nessas instituições. Dois dos trabalhos analisados eram teses de doutoramento, uma delas defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2002 por Resende, e outra defendida, também em 2002 na Universidade

  

10

Estadual de São Paulo – UNESP, por Onofre , além de cinco dissertações de mestrado:

  Leite (1997), UNESP - Marília; Português (2001), Universidade de São Paulo (USP); e Leme (2002); Santos (2002) e Penna (2003), trabalhos apresentados à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

  Entre outras questões, os trabalhos desenvolvidos por esses autores buscavam responder as seguintes perguntas: É possível uma educação no interior dos presídios? Qual será a abordagem educacional ideal nesta instituição, considerando-se a peculiaridade da situação dos sujeitos que ali vivem? Será possível o exercício de uma pedagogia calcada em métodos tidos como “libertadores”, como por exemplo, aqueles defendidos por Paulo Freire ou Emília Ferreiro? Será possível “educar para a libertação” no interior de instituições punitivas como as prisões? Qual é o papel fundamental da educação no interior dos presídios, considerando-se o conjunto da terapêutica prisional (trabalho, escola, disciplina e ordem)? O que pensam os presos acerca da educação? E o que pensam os educadores que desenvolvem a sua pedagogia dentro destas instituições? Qual é o papel da FUNAP – Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”, órgão responsável pela implementação das políticas educacionais no interior das prisões, na 10 implantação dessas políticas?

  

Em seus apontamentos bibliográficos, Onofre nos aponta para outras possibilidades de leitura, das

quais destacamos as seguintes: POEL, M. S. V. Alfabetização de Adultos – Sistema Paulo Freire: Estudo

de Caso num Presídio , São Paulo: Editora Vozes; 1981 e RUSHE, J. R. Educação de Adultos

  . São Paulo: FUNAP, 1995. Também relevante é que em todas Prisioneiros: Uma proposta metodológica

as Teses e Dissertações lidas, os escritos de Sérgio Adorno, Michel Foucault, Erwing Goffman e Gresham Iniciamos por Leite (1997) que, sendo monitor de jovens e adultos presos numa instituição prisional do Estado de São Paulo, tinha contato cotidiano com as populações do cárcere e ao mesmo tempo em que não nos priva de seu entusiasmo com relação às possibilidades de desenvolvimento de uma política educacional de qualidade no interior das prisões, nos explicita toda a sua preocupação com relação a efetivação, por parte dos poderes públicos, dessa proposta. Concluiu o autor, após um trajeto de pesquisa que incluía as suas anotações de campo e observações de sala de aula, além de várias entrevistas com um grupo de alunos escolhidos entre os encarcerados que freqüentavam as aulas que, “a educação escolar, através de uma série de elementos, pode influenciar positivamente a prática punitiva carcerária propiciando a reinserção social dos encarcerados” (Leite, 1997, p. 11).

  Este autor deduziu essa possibilidade, qual seja, “que a escola é um espaço diferente dentro do sistema penitenciário” (p. 73) dos resultados obtidos nas entrevistas com o grupo de alunos encarcerados, cujas respostas à sua pergunta acerca da motivação para os estudos apontavam desde a possibilidade de “escrever cartas para os familiares; ser alguém na vida; obter melhor compreensão da vida; conseguir um bom emprego, ser respeitado e valorizado socialmente, ou ainda, fazer coisas úteis ao sair da prisão” (Leite, 1997, p. 84).

  Já Leme (2002, p. 14), concordando com Leite (1997), ou seja, com a possibilidade de implantação de uma eficiente prática educacional no interior dos presídios, acreditava que através de uma política educacional de qualidade, os sujeitos encarcerados poderiam empreender um novo significado para suas vidas. Desejava o autor encontrar respostas à sua principal indagação: “qual o sentido que a escola ganha na vida desses homens que estão cumprindo pena privativa de liberdade e que freqüentam a cela de aula?”.

  Esse autor entrevistou 22 sujeitos encarcerados que freqüentavam regularmente as aulas num determinado presídio de São Paulo, previamente escolhido por ele. Observou algumas características particulares presentes na instituição e que interferem sobremaneira nos processos de escolarização de prisioneiros que, a princípio, são bastante familiares a quem trabalha nestas instituições: a rotatividade dos alunos em sala de aula em decorrência das inúmeras transferências para outras instituições de cumprimento de pena ou de progressão de regime

  11

  (p. 19); “a heterogeneidade em relação ao aprendizado e ao desenvolvimento dos alunos numa mesma sala de aula (que) é imensa” (p. 20). Apresentou também alguns motivadores e outros tantos inibidores como a “obrigatoriedade da escolarização”, para a ida à escola por parte dos alunos, entendendo por motivadores “desde o desejo de aprender, ou encontrar-se com outras pessoas, ou ter a escola como um passatempo, ou mesmo, a busca de um parecer positivo no laudo criminológico”. Como fator inibidor, apontou principalmente, um “obstáculo a ser superado: estabelecer esse vínculo de confiança, sem quebrar, porém, os vínculos de papéis – professor e aluno” (p. 21), e apontou ainda os próprios paradoxos da instituição – vigiar e punir versus reabilitar. Por fim, em alguns casos a escola era vista como “esconderijo”:

  A educação formal surge como uma maneira de resistência. Dentre as poucas possibilidades de fuga da rotina da prisão, a escola poderá surgir como um esconderijo. Isto só será possível se a escola não fizer parte da lógica de transformação dos indivíduos, objetivo principal das instituições totais (Leme, 2002, p. 96).

  Esse mesmo autor percebeu ainda que, apesar da importância atribuída pelos encarcerados ao processo de escolarização oferecido nas prisões, a peculiaridade dos espaços educacionais geravam algumas dificuldades para os mesmos:

  Por ser um espaço diferenciado na estrutura fechada e autoritária da prisão, a sala de aula oferece uma oportunidade ímpar de convívio entre aqueles que ali freqüentam. A proximidade entre alunos e professores gera sentimentos de desconfiança e de inimizade entre estes e os demais encarcerados. Para os excluídos do processo educacional, a proximidade, beirando à intimidade entre os envolvidos neste processo, converte-se, quase que inequivocamente, em processos nefastos de alcagüetagem, privilégios, entre outros, que são nocivos à subcultura prisional (Leme, 2002, p. 170). 11 Conforme a Exposição de Motivos da Lei de Execução Penal (Luiz Flávio Gomes, 2000, 461), “(...) o

processo de execução (penal) deve ser dinâmico, sujeito a mutações. As mudanças no itinerário da

  O pequeno alcance das políticas educacionais que atingem apenas uma pequena parcela de indivíduos prisioneiros também foi analisado por Leme. No ano da defesa de sua dissertação (2002), para uma população de aproximadamente 100.000 (cem mil) prisioneiros encarcerados nas prisões paulistas, constatou-se que apenas 9.000 (nove mil) deles freqüentavam as salas de aula nestas instituições (p. 26), ou seja, menos de 10% (dez por cento) de todos os sujeitos encarcerados em São Paulo

  12 freqüentavam as salas de aula nos presídios do Estado de São Paulo no ano de 2002 .

  De grande importância para o nosso estudo é o que traz Português (2001) quando reflete sobre os três grandes princípios da reabilitação dos prisioneiros, seguindo Foucault (1984): o isolamento, o trabalho penitenciário e a autonomia da gestão penitenciária.

  No cerne do conceito de reabilitação penal, encontra-se a tarefa de transformar indivíduos criminosos em não criminosos. É ao que se propõe a prisão – sua terapêutica – mediante a participação (voluntária) dos apenados nos programas que dispõem, a concordância em seguir normas, regras e procedimentos, principalmente disciplinares, a fim de obter aquela recompensa, aquele direito: a reabilitação (Português, 2001, p. 78).

  Conclui Português que a partir dessa proposta de se transformar os indivíduos criminosos em não criminosos, desencadeada pela operação penitenciária e 12 fundada nos três grandes princípios elencados acima – isolamento, trabalho

  

Podemos dizer que houve um relativo incremento da educação para jovens e adultos presos nas

instituições prisionais do Estado de São Paulo nos últimos dois anos. Se, em 2002, menos de 10% de

prisioneiros freqüentavam as salas de aula nas prisões, em setembro de 2004, segundo dados da própria

Fundação que organiza o sistema educacional no interior dessas instituições, a FUNAP, este percentual

atinge 19,65% em relação ao número total de prisioneiros sob tutela da SAP – Secretaria de

Administração Penitenciária, já que, temos no Estado muitos prisioneiros cumprindo pena em delegacias

e cadeias públicas, unidades vinculadas à Secretaria de Estado da Segurança Pública. Apesar do

significativo aumento do número de prisioneiros em salas de aula nos últimos dois anos – para 80.543

prisioneiros, tínhamos, em setembro, 15.823 alunos, reafirmamos que o alcance das políticas educacionais

para os presídios no Estado de São Paulo ainda está longe de ser satisfatório (dados obtidos junto à penitenciário e gestão penitenciária, “tornou-se possível a edificação de um saber técnico – científico sobre os indivíduos, declinando o foco de ação do crime, para aquele que o cometeu. O indivíduo é o foco central do trabalho penitenciário, não o seu ato" (p. 79).

  Para ambos os autores citados (Português e Leme), a gestão penitenciária se sobrepõe às autoridades judiciárias e, efetivamente, são elas que “determinarão tanto as circunstâncias atenuantes como as agravantes da pena. Dessa forma a ação corretiva passa a ser exercida exclusivamente pelas pessoas que estão nos estabelecimentos penais” (Leme, 2002, p. 62):

  (...) Se o princípio da pena é sem dúvida uma decisão de justiça, sua gestão, sua qualidade e seus rigores devem pertencer a um mecanismo autônomo que controla os efeitos da punição no próprio interior do aparelho que os produz (Foucault, 1984, p. 219).

  O poder ilimitado dos dirigentes dessas instituições e, em especial, do diretor de segurança e disciplina foi esplendidamente anotado por Adorno (1991, p. 32). Falando da arbitrariedade que marca a atuação de muitos desses homens, esse autor nos diz que:

  (...) essa é (a arbitrariedade), entre outras, as razões pelas quais as prisões persistem administradas segundo um modelo patrimonial, que se manifesta em não poucos aspectos: na descentralização do poder local, o que torna a coordenação do sistema penitenciário problemática, uma verdadeira ficção; na prevalência da cultura organizacional, herdada da tradição institucional, como fonte imediata de orientação da conduta; nas prerrogativas pessoais invocadas pelos ocupantes de cargos públicos, sobretudo aqueles ligados à área de segurança e disciplina; na existência de verdadeiras famílias de funcionários, que se sucedem como gerações no acesso aos cargos administrativos, seja de vigilância, técnico ou de direção.

  Santos (2002), outro dentre os autores que tratam da escola no interior das instituições prisionais, realizou entrevistas com sujeitos encarcerados que freqüentavam pensam, como vivenciam e como percebem a necessidade de aprender a ler e a escrever no interior de uma prisão” (p. 7) a obter respostas à suas indagações. A ele interessava, principalmente, descortinar a ótica dos detentos com relação a pratica educacional no interior da prisão. Realizando investigação de caráter exploratório, o autor ouviu treze alunos que freqüentavam a escola em uma prisão localizada em região conhecida como Vale do Paraíba, interior do Estado de São Paulo, e concluiu que “esta escola e suas atividades não são autônomas e independentes dentro da organização penitenciária” (p. 18), e que “a unidade escolar de dentro da prisão, se caracteriza como um universo conflituoso e fortemente marcado pelas relações de força que influenciam a todos que convivem em seu interior” (p. 19). Para este autor, a educação, junto com a disciplina e o trabalho, formam o “tripé” responsável pelo processo conhecido como reabilitação (p. 97).

  Português (2001), já havia aprofundado essa análise sobre a relação existente entre a escola no interior da prisão e as outras práticas ali realizadas, principalmente entre as investigações técnicas realizadas por psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras entre o conjunto dos sujeitos encarcerados, conhecidas como pareceres de

  Os relatórios educacionais produzidos pelos monitores das instituições prisionais, na maioria das vezes, irá observar o autor em questão, serão divergentes daqueles relatórios emitidos por esses profissionais técnicos, principalmente no que se refere à conduta do prisioneiro no interior do cárcere. Português, que também foi monitor de jovens e adultos presos em tempos anteriores, preocupa-se com a possibilidade de que os programas reeducativos e, entre eles, a escolarização, venham

  

da Lei de Execução Penal (Lei 7.210/84): “Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em

forma progressiva, com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo Juiz, quando

o preso tiver cumprido ao menos um sexto da pena no regime anterior e seu mérito indicar a progressão.

  

Parágrafo único. A decisão será motivada e precedida de parecer da Comissão Técnica de Classificação

e do exame criminológico, quando necessário”. (Gomes, 1999, p. 487). (Itálico meu). Em 1º de dezembro

de 2003, a Lei Federal n° 10.792, torna facultativo à realização desses pareceres. Desde essa data, no

Estado de São Paulo, não se fazem mais pareceres de Comissão Técnica de Classificação para fins de se constituir em meios de controle e dominação da população encarcerada, compondo a lógica da punição e do ajustamento daqueles sujeitos.

  Investigando 100 prontuários de sujeitos encarcerados, Português (2001, p. 199) levantou que:

  (...) 99% das avaliações efetuadas pelas demais esferas da unidade prisional (educação, laborterapia e disciplina) apontavam uma série de esforços dos indivíduos: bom desempenho e bons índices de produtividade no trabalho, participação e freqüência às aulas, interesse para o aprendizado dos conteúdos programáticos da escola, integração com professores e demais alunos e compromisso com os estudos, entre outros. Esforços estes sumariamente ignorados pela Comissão Técnica de Classificação – CTC, a qual possui a mais absoluta convicção em seus resultados e procedimentos criminológicos, cujos fundamentos, saliente-se, produzem a anulação e mortificação dos sujeitos.

  Mortificação do “Eu” é outro dos conceitos de que se vale Goffman (1987,p, 24) para representar as conseqüências, nos sujeitos, à exposição acentuada de suas vidas em instituições como as prisões:

  (...) O novato chega ao estabelecimento com uma concepção de si mesmo que se tornou possível por algumas disposições sociais estáveis no seu mundo doméstico. Ao entrar, é imediatamente despido do apoio dado por tais disposições. Na linguagem exata de algumas de nossas mais antigas instituições totais, começa uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do eu. O seu eu é

sistematicamente, embora muitas vezes não intencionalmente, mortificado.

  Seguindo na esteira dos autores com quem estamos dialogando, a Penna (2003), interessou a investigação do “exercício da docência em seu interior (instituição

  

prisional ) e a forma como se constitui, sendo estabelecida por indivíduos que, como

  seus alunos, encontram-se na condição de detentos”, bem como “o significado da ação docente desenvolvida por esses sujeitos” (Penna, 2003, p. 02). Para ela, que também exerceu atividade docente e de supervisão no interior de instituições prisionais, contratada pela FUNAP, uma particularidade de alguns poucos presídios espalhados por São Paulo é o de que mantém em suas fileiras de monitores, sujeitos escolhidos dentre a

  14

  própria população carcerária . Tendo realizado entrevistas e observações sistemáticas em um presídio localizado na Grande São Paulo, observou que, para esses monitores docentes, a escola e a própria educação ganharam contornos relevantes na sociabilidade interna da instituição no transcorrer de suas sentenças judiciais.

  Para essa autora, em que pese a exarcebação do controle e da disciplina exercidas pela instituição e pelos funcionários contra os prisioneiros, a escola ainda era um referencial de “espaço diferenciado na prisão, representando valor e possibilidade de resistência e, no limite, a possibilidade de formação” (Penna, 2003, p. 110) dos sujeitos encarcerados.

  (...) os lugares ocupados pelos diferentes segmentos que compõe a população carcerária são claramente delimitados. As relações são explicitamente pautadas pela dualidade existente entre “homens de bem” em oposição a “homens do mal”, presente nas pessoas que lá vivem e trabalham. São relações de poder, permeadas pela clara divisão entre os grupos e no interior dos grupos, especialmente entre os presos, marcadas por um “código” não escrito de conduta (Penna, 2003, p. 89).

  Ainda que seja inegável a precariedade que acompanha a implementação efetiva de uma política educacional no interior das instituições prisionais, assim como evidentes as contradições entre a fala das autoridades responsáveis pelo processo educacional em relação à prática pedagógica que ocorre diariamente nessas instituições, os autores até aqui estudados apresentaram de maneira quase unânime uma grande dose de otimismo com relação aos resultados dos processos educacionais no interior das prisões, sendo expresso aqui numa frase de Onofre (2002, p. 178):

  

dos 359 monitores que lecionam nas instituições prisionais do Estado de São Paulo, 100 são monitores

presos, escolhidos dentre a própria população de sujeitos encarcerados. Esse número representa,

aproximadamente, 30% do número total de monitores a serviço da FUNAP em presídios, ou seja, pouco

mais de um terço desses monitores. Em conversas com a orientadora pedagógica que entrevistei para a

pesquisa e que será tratada com detalhes no Capítulo II, foi me dito que, a partir deste ano, existiria uma

certa orientação da FUNAP a fim de privilegiar a contratação de monitores presos para lecionar em

  (...) Se buscamos caminhos para a educação brasileira por se acreditar na sua transformação, se apostamos no poder dos educadores porque em qualquer situação o possível existe e pode ser realizado, desde que tenhamos desejo de mudança, há que se incluir, nessa possibilidade, a educação dos excluídos que vivem no interior das unidades prisionais.

  Para essa autora, fortemente influenciada pelo otimismo de Paulo Freire, “apostando que a educação pode fazer alguma coisa em qualquer espaço, incluindo espaços repressivos, como é o caso das prisões” (Onofre, 2002, p. 24), as escolas no interior das instituições prisionais seriam “as mediadoras entre saberes, culturas e a realidade, oferecendo possibilidades que, ao mesmo tempo, libertem e unam os excluídos que vivem no interior das unidades prisionais” (p. 06).

  Onofre também coletou seu material de pesquisa entre “alunos e professores, visto serem eles os protagonistas do espaço educativo na sala de aula” (p. 06) e refletiu sobre a prisão e a escola no seu interior, dialogando com alguns dos mesmos autores que vimos trazendo até o momento (Goffman, Foucault, Sykes, Adorno, entre outros). Transita pelos corredores da instituição prisional e da própria escola, apropriando-se da cultura institucional e se questiona:

  Diante dos dilemas e contradições do ideal educativo e do real punitivo, de tantos fatores que obstacularizam a formação para a vida social em liberdade, longe das grades, cabe perguntar: o que deve e o que pode fazer a educação escolar por trás das grades? (Onofre, 2002, p. 47).

  Revela, finalmente, após ter ouvido os protagonistas do processo educacional nas prisões e cumprido o ritual acadêmico de diálogo com aqueles autores que nos antecederam que:

  A contribuição acadêmica deste trabalho é a de desvelar que também em um espaço repressivo, como é o caso das prisões, a escola tem seu significado e sua essência mantidos, no estabelecimento de vínculos e de intersubjetividades (Onofre, 2002, p. 178).

  Uma crítica radical à política educacional no interior das prisões, bem como à própria possibilidade de se escolarizar efetivamente dentro dessas instituições é efetuada por Resende (2002). Ancorando seu referencial teórico em diversos escritos de Foucault, o autor é contundente quanto à caracterização e à constituição da escola no interior das instituições prisionais e ao próprio processo educacional desenvolvido para adultos encarcerados. Para Resende, ocorre uma sobreposição de duas instâncias de poderes – a escola e o presídio – cujos objetivos não manifestos descaracterizam qualquer possibilidade de desenvolvimento pessoal dos indivíduos ali envolvidos.

  (...) Cada uma tem sua inserção social específica, seu ponto particular de aplicação, mas ambas respondem a um mecanismo geral de transformação cuja garantia de realização está no seqüestro que promove na vida dos homens. (...) Esta transformação na vida dos sujeitos é possível através de um complexo de técnicas, mecanismos e procedimentos carcerários. O que os dois fazem no exercício de suas funções específicas é controlar e vigiar, buscando a sua transformação, a correção de suas falhas e desvios e a melhora de seus comportamentos, além da retífica de suas condutas (Resende, 2002, p. 128).

  Resende entrevistou treze sujeitos encarcerados que freqüentavam a sala de aula em um presídio no Estado de Minas Gerais e confrontou os achados das entrevistas, ou as histórias orais de vida com o material teórico produzido por Foucault, principalmente na “designada fase genealógica, no que diz respeito à produção do sujeito“ (p. 06). Interessou-se em perguntar quais eram as relações existentes entre a educação formal do homem preso e o processo de execução penal; que tipos de sujeitos são produzidos com tal reeducação? Como e que identidades são forjadas nas práticas carcerárias? Qual é a ligação entre a vida do preso, sua condição existencial e as relações sociais que estabelece? (p. 07).

  Os resultados de suas análises possibilitaram ao autor expressar uma crítica contundente quanto à prática educacional no interior das instituições prisionais. Para este autor, suas críticas derivam do reconhecimento de que o processo educacional na prisão ocorre de maneira inversa:

  Ao invés da propalada reeducação ocorre uma espécie de educação pelo avesso, mas certamente trata-se de uma modificação do indivíduo, de uma reprogramação de sua existência, o que implica um processo educativo operacionalizado pelo aparelho penitenciário. Trata-se, portanto de uma penetração do educacional na prisão, de uma dimensão da educação nas práticas educacionais (Resende, 2002, p. 126).

  Nesse ponto, Resende acaba concordando com diversos autores que reclamam de uma certa ultra-importância, nas prisões, de outros aspectos que não a escolarização ou quaisquer outras possibilidades de “transformação” do homem preso em “cidadão de bem”. Concorda primeiramente com Goffman (1987), quando diz que:

  Embora alguns dos papéis possam ser re-estabelecidos pelo internado, se e quando ele voltar para o mundo, é claro que outras perdas são irrecuperáveis e podem ser dolorosamente sentidas como tais. Pode não ser possível recuperar, em fase posterior do ciclo vital, o tempo não empregado no processo educacional (grifo meu) ou profissional, no namoro, na criação dos filhos (Resende, 2002, p. 25).

  Concorda também com Foucault quando este cita o “Relatório de Treilhard” e explicita os verdadeiros objetivos da pena de prisão – tornar os sujeitos dóceis e submissos a uma certa ordem social hegemônica:

  (...) A pena de detenção pronunciada pela Lei tem principalmente por objeto corrigir os indivíduos, ou seja, torná-los melhores, prepara-los, com provas mais ou menos longas, para retomar seu lugar na sociedade sem tornar a abusar... Os meios mais seguros de tornar melhores os indivíduos são o trabalho e a instrução. Esta consiste, não só em aprender a ler e a calcular, más também em reconciliar os condenados com as idéias de ordem, de moral, de respeito por si mesmos e pelos outros (Foucault, 1984, p. 270).

  Assim, finalizamos este tema do primeiro capítulo lembrando uma constatação de Português (2001, p. 85), para quem:

  As atividades identificadas com a área de reabilitação – educação, recreação, esportes, biblioteca, cursos em geral -assumem uma posição secundária se comparadas ao sistema de controle da prisão, cuja prioridade é fazer com que o encarcerado aprenda complacência às autoridades e aos regulamentos penais.

  É deste conjunto de Leis, normas e regulamentos e de sua efetivação no cotidiano das instituições prisionais que falaremos a seguir. Pode-se verificar que a produção científica acerca da educação no interior dos presídios vem crescendo de forma lenta e gradual. Essa produção crescente confirma a precariedade do conceito de sistema educacional quando aplicado a essas instituições, ainda que se leve em conta as particularidades de cada trabalho, muitos deles com referenciais teóricos inconciliáveis entre si.

  (...) Se o cotidiano de atores sociais presos dificilmente pode ser investigado apenas através de regulamentos e mecanismos legais, o abandono sumário de tais parâmetros consiste também em um equivoco, na medida em que permeiam de forma mais ou menos significativa as relações entre os presos e entre estes e a administração (Goifman, 1998, p. 22).

  Os processos educacionais que se desenvolvem atualmente nas instituições prisionais do Estado de São Paulo estão submetidos a uma tentativa de sistematização pelos administradores, gerentes, técnicos e docentes da FUNAP – Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”. Idealizada inicialmente como Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso, a FUNAP foi fundada em 1976, quando era Secretário Estadual da Justiça Manoel Pedro Pimentel. Tinha como objetivo especial o de “contribuir para a reabilitação social do homem preso, através da melhoria das suas condições de vida nos presídios” (FUNAP, 1995, p. 7).

  Em 1987, através da resolução SJ – 43, de 28 de outubro de 1987, da responsável pela educação básica do sistema penitenciário do Estado de São Paulo. Visava-se a unificar a metodologia de ensino básico nas unidades prisionais subordinadas à Coordenadoria dos Estabelecimentos Penitenciários do Estado - COESPE, segundo a justificativa da resolução (D.O.E., Seç. I. São Paulo, 97 (206), sexta-feira, 30 out, 1987). Com seus quatro artigos, a resolução estabelecia a implantação “dos programas de educação básica originária dos Convênios da Fundação Estadual de Amparo ao Trabalhador Preso com a Fundação Educar e a Fundação Roberto Marinho” (Art. 1º) e determinava o prazo de 31 de dezembro daquele ano para que todos os estabelecimentos Penais que ainda não estivessem participando dos referidos programas, a ele se congregassem (Art. 2º).

  Do ano de sua fundação até o presente, conforme a rotatividade dos dirigentes do Executivo Estadual, alteravam-se também algumas condições e também as direções tomadas pelo órgão – que também tinha seus dirigentes alternando-se na administração, no que se refere à política educacional para o homem e para a mulher presos. Parcerias foram realizadas (Fundação Educar/Mobral e Fundação Roberto Marinho, em 1978); Gerências de Educação (1989), Encontros Estaduais de Monitores de Alfabetização de Adultos Presos (1993 e 1994), Coordenadores Pedagógicos Regionais – CPRs (1994) e Monitores Orientadores (2004), foram algumas das estratégias pensadas e criadas com o fim de aprimorar o atendimento e a prestação da assistência educacional aos prisioneiros, além de professores-docentes que foram contratados para dar suporte a esta política.

  Ainda em 1995, a FUNAP (p. 15), da mesma forma que reconhecia a limitação de suas propostas por conta do “próprio espaço em que os nossos princípios metodológicos transformam-se em práticas pedagógicas, ou seja; uma escola dentro de uma instituição penal”, reconhecia que:

  (...) a educação de adultos, em geral, constitui-se no reconhecimento tardio do direito à escolarização em idade apropriada, negado ao cidadão, que agora, no nosso caso específico, tolhido do direito de exercer sua plena cidadania, pode ter, ao menos, respeitado, aquele direito (FUNAP, 1995, p. 15).

  Naquele momento, os responsáveis pelo órgão já apontavam para os mecanismos institucionais que dificultariam sobremaneira a consecução de suas metas:

  (...) nosso aluno vive numa instituição fechada e repressora. Passa grande parte de seu tempo vigiado. Ao menor deslize é gravemente punido. Seu tempo é totalmente administrado, da hora em que deve acordar, até a hora do sono. Possui tolhida a sua cidadania. Oscila entre uma culpabilização genérica da sociedade por seus atos, e entre um mea culpa exarcebada (FUNAP, 1995, p. 17).

  Os objetivos educacionais, políticos e institucionais da FUNAP não são, ao contrário do que se pode imaginar, modestos, ao menos atualmente. Pelo contrário, assumem uma perspectiva de atuar como ponta concatenada com uma política educacional mais ampla:

  (...) Construir e reconstruir um programa educacional que faça frente às novas demandas do campo educacional, no contexto prisional e, de uma população que tende a se renovar constantemente, não só em idade, mas também em expectativas quanto à escola, trazendo a esta população temas, assuntos e conteúdos que estão em consonância com o papel tradicionalmente atribuído à escola pela sociedade, o de civilizador (“aculturador”) e mediador entre o passado e presente, mas também demandas que refletem realidades contemporâneas, tais como: empregabilidade, relações sociais, novas tecnologias, desenvolvimento econômico, cidadania, direitos humanos, meio ambiente, trabalho, ciência etc.

  As habilidades (percepção, observação, comparação, criatividade, análise, síntese, socialização, transferência etc.) devem ser motivo de preocupação constante durante todo o processo de aprendizagem, por estarem presentes na formação do homem como um todo (FUNAP. Propostas Metodológicas, 2003).

  Ancorando-se nos ideais de educação de Paulo Freire, a FUNAP, em seu caderno de gestão (2004, s/p.) acredita que:

  (...) A transformação da educação deve partir da re-agregação deste homem (o preso). Neste sentido, devemos pensar as ações pedagógicas para se estabelecer a compreensão cada vez mais profunda sobre as articulações curriculares, buscando um currículo que rompa com a barreira da fragmentação, construindo um currículo organizado segundo as características e necessidades do educando, onde monitores

  Investigaremos no Capítulo II as prováveis contradições existentes entre uma teoria de cunho construtivista

  15

  e a prática da mesma no interior de instituições tão díspares e complexas como as prisões. Por ora, basta que transcrevamos uma citação de Rushe, (1995, p. 50) apontando o paradoxo que enfrentam todos aqueles que ousam praticar, nas prisões, os ideais de sociedade e de educação freirianos:

  No caso das instituições totais e populações extremamente carentes como é o caso das prisões, que são espaços constituídos por uma multiplicidade de culturas, ausência de um projeto comum, pelas proibições concretas de ir e vir, pela carência material e pelo estigma frente à sociedade; a visão de homem, de sociedade e de educação freirianos deve ser mantida para que o projeto educativo possa se diferenciar da técnica penitenciária, que tem o objetivo contrário de tornar os corpos dóceis, produtivos e disciplinados, e que trabalha para impedir a construção de uma sociedade crítica e criativa. Essas idéias, sendo levadas ao seu limite, seriam

impedidas de penetrar nas cadeias – esta é a contradição que enfrentamos.

  A FUNAP é um exemplo de órgão regulador, disciplinador e executor das políticas educacionais em instituições prisionais no Estado de São Paulo. Apesar das deficiências típicas de um órgão público no Brasil, tais como falta de recursos ou recursos insuficientes, quadro de pessoal abaixo do necessário, burocracia, recursos tecnológicos incipientes, entre outras, notícias bastante pulverizadas nos dão conta de que a política educacional em presídios, levada à cabo em outras unidades da Federação está muito aquém daquela realizada no Estado de São Paulo:

  Dados da organização não governamental Centro de Justiça Global sobre os “Direitos Humanos no Brasil em 2003”, divulgados em maio (de 2004), mostram que metade dos presos tem menos de 30 anos, é pobre, possui pouca escolaridade, sendo que 10,4% são analfabetos. O relatório mostra ainda que nenhum estado possui mais de 32% dos seus presos estudando

  ” (Agência Brasil – Radiobrás / Geral, 09/07/2004). (Itálicos meus). 15 Em “Educação de Adultos Presos – Uma Proposta Metodológica “(FUNAP, 1995), o órgão dirigente

reconhece utilizar os conhecimentos de Ana Teberosky, Emília Ferreiro, Jean Piaget e Lev Vigotsky

quando pensa as propostas metodológicas para a educação em instituições prisionais (p. 23): “O

construtivismo defende a idéia básica de que as estruturas do pensar, julgar e agir, são o resultado de um A escolarização de prisioneiros é cláusula que consta em documentos nacionais e internacionais que legislam e organizam o sistema penitenciário e penal nos diversos Países e Estados das Federações. Um desses documentos que regulam a atividade educacional no interior das prisões é a Lei n. º 7.210, de 11 de julho de 1984, denominada de Lei de Execução Penal, ou simplesmente LEP e que, em seu artigo 18, torna obrigatório o ensino de primeiro grau para todos os prisioneiros no Brasil.

  Para realizar esse objetivo, preconiza a LEP em seu artigo 21 que “em atendimento às condições locais dotar-se-à em cada estabelecimento de uma biblioteca para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos” (Gomes, 2000: 473).

  Em 1997, propostas aprovadas para a instalação do Programa Estadual de Direitos Humanos de São Paulo, reafirmaram a necessidade da implementação de uma política educacional nos presídios. A proposição de número 169 do referido programa diz que é

  (...) dever do Estado facilitar o acesso dos prisioneiros à educação, ao esporte e à cultura, fortalecendo projetos como Educação Básica, Educação pela Informática, Telecurso 2000, Teatro nas Prisões e Oficinas Culturais, privilegiando parcerias com Organizações Não-Governamentais e Universidades (Programa Estadual de

  O princípio n. º 6, dos “Princípios Básicos para o Tratamento de Pessoas Presas”, diz que “todas as pessoas presas terão o direito de participar de atividades culturais e educacionais destinadas ao pleno desenvolvimento da personalidade humana” (Coyle, 2004, p. 109). Outro documento internacional de proteção aos direitos dos prisioneiros é denominado de “Regras Mínimas para o Tratamento de Pessoas Presas”. Nesse documento, entre outras Regras, estão:

  

encaminhamentos tirados nos encontros de discussão sobre os Direitos Humanos no Estado de São Paulo,

que culminou com a realização da 1. ª Conferência Estadual de Direitos Humanos, promovida pela

  Regra 40: “Toda instituição deverá ter uma biblioteca para uso de todas as categorias de pessoas presas, adequadamente equipada com livros tanto de lazer quanto de instrução, e as pessoas presas deverão ser estimuladas a fazer uso dela”; Regra 77, (1): “Deverão ser tomadas providências com vistas à educação suplementar de todos os presidiários capazes de se beneficiar dela, inclusive instrução religiosa nos países onde isso for possível. A educação de analfabetos e presidiários jovens será obrigatória e a administração deverá dedicar-lhes especial atenção”;

  (2): “Tanto quanto possível, a educação das pessoas presas será integrada ao sistema educacional do país, de modo que, após sua soltura, elas possam continuar sua educação sem dificuldade”; Regra 78: “Atividades recreativas e culturais deverão ser proporcionadas em todas as instituições em prol da saúde mental e física das pessoas presas”.(Coyle, 2004, p. 110).

  Na Organização das Nações Unidas - ONU, organismo internacional ao qual o Brasil é Estado-Membro, a Resolução 1990/20, do Conselho Econômico e Social refere-se à educação nas prisões nos seguintes termos:

  a. A educação em prisões deve ter por objetivo o desenvolvimento integral da pessoa, levando-se em conta os antecedentes sociais, econômicos e culturais da pessoa presa;

  b. Todas as pessoas presas devem ter acesso à educação, inclusive programas de alfabetização, educação básica, capacitação profissionalizante, atividades criativas, religiosas e culturais, educação física e esportes, educação social, educação superior e bibliotecas; c. Todos os esforços devem ser envidados para estimular as pessoas presas a participarem ativamente de todos os aspectos da educação; d. Todas as pessoas que atuam na administração e gestão penitenciária devem facilitar e apoiar a educação tanto possível; e. A educação deve ser um elemento essencial do regime penitenciário; devem ser evitados desincentivos às pessoas presas que participam de programas educacionais formais e aprovados;

  f. A educação profissionalizante deve ter por objetivo o desenvolvimento mais amplo do indivíduo e ser sensível às tendências do mercado de trabalho; g. Atividades criativas e culturais devem desempenhar um papel significativo, uma vez que têm o potencial especial de permitir que as pessoas presas se

  17 programas educacionais fora da prisão ; i. Nos casos em que a educação ocorrer dentro do estabelecimento prisional, a

comunidade externa deve participar o mais ativamente possível;

j. Recursos financeiros, equipamentos e pessoal de ensino necessários devem ser colocados à disposição de modo a permitir que as pessoas presas recebam educação apropriada (Coyle, 2004, p. 110).

  Não é demais salientar que tanto a ONU é uma organização internacional reconhecida pelo Brasil quanto seus preceitos e fundamentos respeitados pelos governos da Nação. De outro modo, também, os documentos internacionais aqui citados, foram devidamente assinados pelas autoridades brasileiras e, assim, deveriam servir de parâmetros e de diretrizes para a efetivação das políticas ali mencionadas.

  As Leis não definem, até porque não é o seu propósito, a forma e os meios de se atingir o que prescrevem. De forma genérica são produzidos regulamentos padrões para a administração de instituições prisionais e que se propõem a orientar as políticas públicas no interior das mesmas, incluindo aí o trabalho educacional.

  Embora previstos em Leis, Decretos, Normativas e Regulamentos, a educação básica ou o ensino fundamental e mesmo o profissionalizante, assim como o trabalho, ou como é denominado nessas instituições de cumprimento de pena, a laborterapia, a realidade parece nos mostrar que essas práticas não chegam a uma parcela significativa de prisioneiros:

  

Amparo ao Trabalhador Preso (FUNAP-DF), denominado Projeto Novo Sol, procura dar oportunidade

para o preso que deseja cursar a graduação, fornecendo bolsas sociais para quem não tem condição de

bancar o curso, dando acompanhamento e apoio na vida estudantil. (...) O Projeto Novo Sol atende

atualmente 101 sentenciados que cursam diferentes graduações na Universidade e recebem

acompanhamento e apoio pedagógico” (Ministério da Educação - MEC, 05 de julho de 2004). Naquele

Distrito Federal, “A Portaria nº 005/2002, da Vara de Execução Criminal de Brasília, abriu a

possibilidade de presos do DF prestarem exames para ingresso em cursos superiores e, caso aprovados,

  Não é necessário dizer, também, que a formação educacional é deficitária. Se a formação escolar é deficitária em todo o país, no interior do Sistema é muito pior, não só pela baixa escolaridade dos presos, não só por uma ausência de tradição com a escola, mas, sobretudo por causa da alta-rotatividade dos presos no sistema. A formação profissional é ainda, profundamente exígua. As razões de ordem de segurança e disciplina prevalecem sobre as de ordem educacional. (Adorno, 1991, p. 30).

  E, novamente prevalecem sobre as políticas de assistência ao prisioneiro dois aspectos fundamentais que norteiam a vida de “organizações complexas” (Fischer, 1989) como as prisões: a segurança e a disciplina internas. É comum verificarmos que “salas de aula em penitenciárias transformam-se em celas” (Goifman, 1998, p. 117) com uma rapidez impressionante. “A improvisação parece ter sido transformada em solução institucional – nada eficaz para se enfrentar os problemas relativos à escassez de recursos” (p. 117). Ao lado do improviso e da solução imediata para problemas crônicos de falta de recursos, falta e ineficiência de pessoal, os prisioneiros vão se virando como podem:

  Na P 1 (Campinas/Sumaré), durante a pesquisa, uma escola e uma biblioteca funcionavam precariamente, mas existia demanda e uma freqüência assídua. Estudar na prisão, além de auxiliar a “matar o tempo”, é uma forma de “ser bem visto pela diretoria” (Goifman, 1998, p. 109).

  Se por um lado, alterações na distribuição dos espaços internos das instituições prisionais podem acarretar prejuízos à população carcerária, conforme nos mostra Cusinato (1982, p. 36), muitas das improvisações que realizam os dirigentes das instituições prisionais visam, inclusive, a possibilitar o mínimo de assistência aos prisioneiros. Assim, é possível admitir que existe uma co-relação entre os rumos da política educacional no interior dos presídios e a atuação do grupo de funcionários e da “Equipe Dirigente” (Goffman, 1987). Observações preliminares já realizadas, bem como análises realizadas por autores que investigaram as prisões apontam para a existência de diferenças significativas quanto ao trato das questões da administração interna dessa instituição: “(...) Essas políticas, na verdade, são gerenciadas pelos

  Nos parece que prevalece em instituições totais

  18

  (Goffman, 1987) como os quartéis, os manicômios, os conventos e, principalmente, as prisões, uma grande autonomia da Equipe Dirigente e mesmo do corpo de funcionários na condução das políticas internas da instituição:

  (...) numa instituição total, no entanto, os menores segmentos da atividade de uma pessoa podem estar sujeitos a regulamentos e julgamentos da equipe diretora: a vida do internado é constantemente penetrada pela interação de sanção vinda de cima, sobretudo durante o período inicial de estada, antes de o internado aceitar os regulamentos sem pensar no assunto (Goffman, 1987, p. 43).

  O poder de decisão desses funcionários parece extrapolar qualquer sentido de normatização exigido por instâncias superiores ou por Leis e Decretos regulamentados. Com relação a esse poder, nos diz Foucault (1974, p. 73) que “a prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral”, e também Adorno (1991, p. 29), afirmando que: (...) a distribuição de sentença penal é prerrogativa dos tribunais de justiça criminal.

  No entanto, dentro das prisões, há regulamentos que disciplinam os mais recônditos aspectos da existência individual e coletiva. A desobediência a esses regulamentos implica em sanções de três tipos, dispostas em uma escala de menor para maior gravidade: advertência, segregação em cela comum e segregação em cela forte. A distribuição dessas sanções é prerrogativa da área de segurança e disciplina, ficando

sob o arbítrio dos guardas penitenciários a detecção das faltas cometidas.

  No próximo item deste capítulo dialogaremos com esses autores que tratam das “autonomias”, primeiro da “equipe dirigente” e, depois na seqüência, da autonomia da própria escola e dos atores que nela interagem de maneira significativa.

  

definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação

  

4. Autonomia institucional e autonomia da equipe dirigente e do corpo de

funcionários em instituições prisionais (...) Não basta modernizar as práticas de gestão administrativa de massas carcerárias. Mais do que isso, é preciso introduzir políticas que sejam eficientemente capazes de re-equacionar sob outras bases, as relações internas de dominação entre dirigentes e internos. Sem isso, será quase impossível lograr algum êxito em implementar políticas penais compatíveis com o exercício democrático do poder (Goifman, 1998, p. 13).

  Parece-nos ser improvável pesquisar a bibliografia disponível sobre os estudos a respeito das instituições prisionais sem encontrar indicações que apontem para uma certa “autonomia” daqueles sujeitos que, cotidianamente, estão envolvidos na administração de uma instituição desse tipo. Essa autonomia é verificada quando se contrasta as ações e as práticas da “Equipe Dirigente” e do corpo de funcionários com os instrumentos que deveriam nortear as condutas mais gerais no interior dessas “organizações complexas”.

  Erwing Goffman, com o seu estudo sobre os “Manicômios, Prisões, Conventos”, originariamente publicado em 1961, é o autor que inaugura a discussão sobre os paradoxos e as contradições inerentes à prática no interior das “instituições totais”, marcadas que são por um conjunto de características próprias às mesmas que as diferenciariam das demais instituições da sociedade organizada. Da mesma forma, Goffman também percebeu, depois do estudo de campo que empreendeu num grande Hospital em Washington, DC, que “mundo do internado” e “mundo da Equipe Dirigente” são dois mundos bastante peculiares e diferenciados entre si, cujas dinâmicas possuem vida própria. Não é interesse desse autor centrar-se no mundo da Equipe Dirigente, entretanto, nos trouxe ele, com seus estudos, brilhantes contribuições para se entender de que forma funcionam as relações subjetivas no interior de instituições como as prisões, por exemplo: “O principal foco (de Goffman) refere-se ao mundo do internado, e não ao mundo do pessoal dirigente” (1987, p. 11).

  Uma das primeiras contribuições de Goffman (1987) quando trata da “equipe dirigente” nas “instituições totais” é a advertência de que a matéria prima por excelência que é trabalhada nessas instituições é o ser humano, diferentemente da matéria prima

  “melhorado” ou transformado é inanimado. Aliás, esse caráter de inanimado pode ser adquirido pelos sujeitos internados em instituições totais, segundo o autor: “Como material de trabalho, as pessoas podem adquirir características de objetos inanimados” (Goffman, 1987, p. 70). Assim, ao contrário das substâncias inanimadas, “os maus tratos em objetos inanimados podem deixar marcas visíveis para os supervisores” (p. 70).

  Uma segunda característica que irão encontrar aqueles que trabalham nas instituições elencadas por Goffman é que “os internados geralmente tem status e relações no mundo externo, e isso precisa ser considerado” (Goffman, 1987, p. 71). Essa contradição entre a possibilidade de usufruir da matéria prima, ou do “corpo do internado” a seu bel prazer e a possibilidade de ver descoberto um “erro”, uma “alteração”, um “descuido”ou uma “negligência” qualquer por outros membros de dentro da instituição (supervisores, gerentes ou pares) e mesmo de “fora” (parentes, amigos, autoridades) que acabam “fiscalizando” o trabalho desenvolvido, se refere, segundo o autor a “dilemas clássicos que precisam ser enfrentados por aqueles que governam os homens” (p. 72).

  Resulta daí que muitas das decisões que são tomadas e mesmo muitas das ações que são desenvolvidas no dia a dia de uma instituição total acabam escamoteadas ou mesmo “escondidas” do grupo de internados e mesmo da própria sociedade, graças a um espírito de corpo ou de equipe desenvolvido pelo conjunto de trabalhadores nessas instituições. Esse espírito de corpo surge como barreira pessoal e organizacional contra a possibilidade freqüente de críticas à postura e à atividade profissional no interior das instituições prisionais:

  (...) As pessoas da direção que estão em contato direto com os internados podem pensar que também elas estão diante de uma tarefa contraditória, pois precisam impor obediência aos internados e, ao mesmo tempo, dar a impressão de que os padrões humanitários estão sendo mantidos e os objetivos racionais da instituição estão sendo realizados (Goffman, 1987, p. 84).

  Foucault é um outro autor que vem ao nosso auxílio e, de certa forma, amplifica o nosso olhar em relação às instituições prisionais, com os conceitos de imaginamos, encontram-se destituídos de poder. Segundo Foucault, imperaria nas sociedades humanas uma rede indestrutível de “poderes”, que navegariam indistintamente por entre as diversas tarefas da vida dos sujeitos, regulando-os e sujeitando-os. A investidura desses poderes na vida humana se daria, segundo Machado que organiza, interpreta e revisa o original de Foucault, através de “dispositivos ou mecanismos que a nada ou ninguém escapa, a que não existe exterior possível, limites ou fronteiras” (Machado, 2003, p. XIV).

  Um desses mecanismos disciplinares, e talvez o mais conhecido para os

  19

  estudiosos das prisões, é o “Panopticon”, de Jeremy Bentham , que é descrito assim por Foucault (2003, p. 210):

  O princípio é: na periferia, uma construção em anel; no centro, uma torre; esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. A construção periférica é dividida em celas, cada uma ocupando toda a largura da construção. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se par o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, dando para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. Basta então colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Devido ao efeito de contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se na luminosidade, as pequenas silhuetas prisioneiras nas celas da periferia. Em suma, inverte-se o princípio da masmorra: a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro que, no fundo, o protegia.

  Mecanismos como o Panóptico de Bentham estariam disseminados pela nossa sociedade, bem como pelas disciplinas humanas, segundo Foucault. Seja na concepção de um projeto arquitetônico de prisão, hospital, fábrica ou mesmo escola, seja na antítese do “sonho rousseauniano presente em tantos revolucionários” (idem, p. 215) que sonharam com uma sociedade de iguais e acabaram por encontrar uma sociedade onde a visibilidade organizada gira “em torno de um olhar dominador e vigilante” (Idem, p. 215).

  Assim, a consecução dos objetivos concretos da prisão, por suas 19 características de fechamento e isolamento do restante da sociedade, passaria pela

Segundo Miller, J-A., em livro do próprio Bentham traduzido por ele, “O Panóptico não é uma prisão.

  20

  utilização de todo um conjunto de dispositivos e mecanismos disciplinares e disciplinadores por parte dos detentores do poder de decisão nesses estabelecimentos, entre eles, a equipe dirigente e o corpo de funcionários. A utilização do poder por parte dessas pessoas ser-lhes-ia, de certa forma, irresistível.

  Essa autonomia explícita de que se valem os funcionários das prisões no desenvolvimento de suas atividades é destacada pela maioria, se não, a totalidade dos autores com os quais aqui dialogamos. Para Adorno (1991, p. 26), por exemplo, essa é uma “autonomia no sentido perverso. Cada agência funciona segundo critérios extremamente próprios, para o que não deve prestar conta a ninguém nem a nada”. Em outro de seus escritos, esse autor reclama do que seria um poder ilimitado por parte dos diretores penais: “(...) não há o que possa contê-los, sobretudo quando adotam medidas, muitas vezes arbitrárias, em nome da preservação da segurança e da disciplina do sistema penitenciário” (Adorno, 1991a, p. 32).

  Salla (1993, p. 95) defende que se desvinculem os processos educacionais desenvolvidos nas instituições prisionais da lógica intrínseca à mesma: “(...) haveria absoluta necessidade de se desvincular todo e qualquer tratamento, qualquer programa de atividades para presos do esquema disciplinar das prisões”.

  Paixão (1985, p.101), também nos chama a atenção para essa questão quando diz que “(...) nas penitenciárias, os internos experimentam não apenas o arbítrio de guardas e administradores despreparados, quando não hostis e punitivos, mas também a exposição a uma forma peculiar de organização social”. Leme (2002, p. 118) também encontra essas práticas arbitrárias interferindo nos processos educacionais na prisão por ele estudada:

  A escola – e como conseqüência a educação escolar, nosso objeto de estudo – é tratada na maioria das vezes pelos funcionários como um lugar secundário, não dão valor, acreditam que o preso não precisa estudar – “malandro só procura a escola depois que vai preso”. Quando podem, dificultam o acesso dos alunos presos, até a sala de aula. Mesmo por motivos banais, podem de forma definitiva impedir que o aluno estude, interagem de forma negativa na avaliação do ex-aluno, dificultando 20 dessa forma, a obtenção de um benefício.

  

Como dispositivo, Foucault entende “a rede que se pode estabelecer entre estes elementos (o dito e o

não dito)” (Foucault, 2003, p. 244). Haveria não só uma distância enorme entre as coisas que são ditas e

  Enfim, tendemos a concordar com Adorno (1991a, p, 25) para quem:

  (...) instituições austeras e autoritárias como são as prisões reclamam de quem quer que viva sob seu abrigo, seja na condição de tutor ou de tutelado, um comportamento ambíguo e pleno de manhas. A instituição é pouco tolerante a críticas; todos e cada um em particular, desconfiam da própria sombra; não há solidariedade que resista à lógica de um mundo cuja lei predominante é a do mais forte. Logo, vive-se sob o domínio do medo e da incerteza, pisando-se em um terreno movediço cujo abismo é logo ali em frente. O próprio pesquisador acaba um pouco contaminado pelo ambiente na medida em que precisa se cercar de precauções quando conversa com presos, com guardas, com funcionários administrativos, com técnicos e com dirigentes.

  Concordar com essa afirmação não significa desconsiderar que existam verdadeiras “ilhas” (Goffman) de autonomia naqueles sujeitos “dominados”. O próprio Foucault (2003) reconhecia que contra o poder disseminado e disseminador existiriam possibilidade de resistência por parte daqueles que foram sujeitados. As resistências surgiriam em relances de imaginação e criatividade, mecanismos tipicamente humanos. Assim como vemos possibilidades de resistências individuais à dominação e à sujeição social, entendemos que é perfeitamente aceitável a tese de que, também algumas organizações possuem certo grau de autonomia frente à outras, ou em contraposição à outras.

  É dessa possibilidade que iremos tratar no próximo item deste trabalho.

  

5. A autonomia da escola e os mecanismos de resistência à dominação por parte

dos atores envolvidos (...) Mesmo no contexto de uma administração fortemente centralizada, e por mais autoritária que seja, a força da imposição normativa nem sempre é obedecida, traduzida em poder e em ações orientadas em conformidade, seja nos terrenos próprios da administração central, seja nos universos escolares concretos. A uniformidade, o elevado número e a eventual precisão dos instrumentos normativos não se constituem necessariamente como sinônimos, nem sequer como condição suficiente, de reprodução normativa em contexto escolar. Pelo contrário, são freqüentemente objeto de interpretações, alvo de observâncias seletivas e parciais, ou mesmo pretexto favorável, ou propiciador, para a produção de regras e decisões alternativas (Lima, 1996, p. 31).

  Partindo de questões que buscavam responder, entre outras coisas, “qual é a relação entre a educação e a sociedade mais ampla?”, e “quem acaba por beneficiar-se mais das formas pelas quais nossas escolas e as práticas curriculares e pedagógicas no seu interior são organizadas?”, Apple (1989, p. 7), nos trouxe reflexões importantíssimas e que não poderíamos deixar de trazer neste trabalho, principalmente no que se refere às resistências encontradas nas relações da escola e de seus atores com a sociedade mais ampla, com relação ao conjunto de regras e normas pré-estabelecidas e ainda, com relação aos “elementos de contradição, de resistência, de autonomia relativa que tem potencial transformativo” (Apple, 1989, p. 102), encontrados na sociedade como um todo e nas escolas, em particular.

  Ambas as instituições – prisão e escola, devem merecer todos os nossos esforços analíticos na tentativa de não reduzir uma a outra bem como não perder de vista que aquilo que se quer compreender é a escola funcionando dentro das prisões.

  Essas instituições, conforme já tratamos anteriormente, seguem um roteiro rigidamente estruturado para atingir seus objetivos, confessados ou não. Por outro lado, uma escola dentro da prisão, deve, em decorrência desta ter a sua estrutura e a sua existência marcada pelo fato de estar funcionando ali, dentro da prisão, obedecer as normas mais gerais daquela e esquematizar as suas próprias regras e normas de funcionamento para a consecução da tarefa a que se propôs. Abstraímos daqui que ambas as instituições funcionam segundo princípios que lhe são bastante próprios. A nossa pergunta fundamental é: como essas duas instituições sociais se relacionam e interagem num primeiro momento enquanto instâncias que têm propostas plenamente opostas: a prisão atua especificamente cerceando o sujeito que a ela é conduzido, em oposição à escola que, em tese, teria como finalidade, ampliar o senso de percepção da realidade em seus educandos.

  Quando Barroso (1996, p. 186) fala em “autonomia construída” da escola, deixa claro que “não há autonomia da escola sem o reconhecimento da autonomia dos indivíduos que a compõem”. Aqui, parece concordar com Apple (1989, p. 170) quando apregoa que “(...) é na interação entre o conteúdo, a forma e a cultura vivida dos estudantes que as subjetividades são formadas. Nenhum elemento desse conjunto de relações pode ser ignorado”. interior das instituições prisionais e que nos indiquem que há, sim, possibilidades de resistência e de autonomia mesmo em instituições reguladas por normas e regras extremamente rígidas do ponto de vista de sua organização interna. O que nos interessa aqui é encontrar aquelas atitudes que possam servir como parâmetros para o resultado do jogo de forças que, inexoravelmente, está ocorrendo, cotidianamente no interior das escolas em instituições prisionais.

  (...) A autonomia da escola não é a autonomia dos professores, ou a autonomia dos pais, ou a autonomia dos gestores. A autonomia, neste caso, é o resultado do equilíbrio de forças, numa determinada escola, entre diferentes detentores de influência (externa e interna), dos quais se destacam: o governo e os seus representantes, os professores, os alunos, os pais e outros membros da sociedade local (Barroso, 1996, p. 186).

  Nas instituições de privação da liberdade como as prisões, as resistências dos encarcerados às normas, às regras e ao instituto de poder total por parte dos dirigentes e dos funcionários, pode resultar num motim ou rebelião sem precedentes. A possibilidade de autonomia dos encarcerados em relação ao conjunto de regulamentos é, de alguma forma, rechaçada a todo instante pelos detentores do poder institucional, pois “a prisão de segurança máxima, como qualquer organização, leva a marca particular dos

  21

  homens no poder” (Sykes, 1999, p. 36) . Mais importante que a participação dos sujeitos encarcerados nas rotinas institucionais é a sua pronta disponibilidade para acatar o regulamento:

  (...) È o controle do comportamento dos prisioneiros que é enfatizado ao invés do controle da mente do prisioneiro, pela razão de que se as ações do indivíduo forem forçadas a combinar com as demandas normativas, a mente seguirá depois (Sykes, 1999, p. 37-38).

  Gresham Sykes, em sua obra de 1958, fez um levantamento empírico da vida social de aproximadamente 1200 prisioneiros, encarcerados numa prisão de segurança máxima de New Jersey, Estados Unidos da América. Já naquela ocasião, em que pese a constatação de que estavam os internos submetidos à rígida disciplina da prisão, foi possível, por intermédio do olhar crítico do cientista, perceber que em meio à essa intensa e forçada submissão às normas e à perda da autonomia individual, focos de resistência podiam se destacar das profundezas da instituição: “ofensas cometidas por um recluso contra o outro, como ofensas cometidas por reclusos contra os funcionários e suas regras” (Sykes, 1999, p. 42-43), ou ainda:

  (...) Apatia, sabotagem e a exibição de proeza ao invés da substância – as respostas tradicionais do escravo – surgem na prisão para incomodar o gerente-administrador e seus limitados meios de coerção não podem evitar ocorrer (Sykes, 1999, p. 28).

  Sykes também percebeu que, mesmo aqueles funcionários que detinham autoridade e a possibilidade de punição ao simples desrespeito à norma, não as detinham constante e continuamente. A convivência e o relacionamento prolongado entre prisioneiros e funcionários de prisões, a corrupção, o fato de que “guardas e prisioneiros são tirados da mesma cultura e mantêm muitos dos mesmos valores e crenças” (1999, p. 33), e ainda:

  (...) a ordem não emitida, a desobediência deliberadamente ignorada, o dever deixado de ser executado – estes são rachaduras no monólito justamente tão certamente como são os atos de desafio na população objeto (Sykes, 1999, p. 53).

  Em seu estudo, Sykes (1999) pouco traz acerca da escola ou dos processos de escolarização efetuados no interior daquela “prisão de segurança máxima” que estudou, até porque não era esse tema, especificamente, que lhe interessava enquanto pesquisador. Entretanto, é possível que os mesmos mecanismos, usados pelos prisioneiros de confrontação das normas, das regras e do poder exercido pelos funcionários no interior do cárcere, sejam encontrados no interior das escolas das prisões, inclusive de forma mais explícita, dada a peculiaridade do espaço escolar, normalmente entendido como de exposição do que as pessoas pensam sobre a realidade

  Nos trabalhos que orientaram a nossa pesquisa, ora o espaço escolar era visto como local privilegiado em relação aos outros locais de convivência e de circulação dos encarcerados (Português, 2001, p. 182; Onofre, 2002, p. 86; Leme, 2002, p. 122; Leite, 1997, p. 86; Santos, 2002, p. 93; Goifman, 1998, p. 109), ora privilegiado por deter normas e regras de funcionamento diferenciadas e mais flexíveis do que as normas gerais, bem como valores também diferenciados em relação aos valores institucionais (Onofre, 2002, p. 26; Leite, 1997, p, 7). È possível supor que o “clima organizacional”, originado e mantido nas escolas das instituições prisionais, contribui para essas percepções dos sujeitos que freqüentam o local, apesar da imposição vertical e hierarquizada das normas pela “equipe dirigente” e pelo corpo de funcionários.

  O que temos em mente, então, é que na confluência de inter-relações desenvolvidas por monitores, alunos, supervisores, funcionários, entre outros, com as características físicas instituídas para as escolas nas instituições prisionais, reside uma possibilidade de diferenciação dos sujeitos que ali se encontram. Para nós, num ambiente mais favorável, onde as relações entre as pessoas possam fluir com maior naturalidade e menor rigor, a “autonomia construída” dos sujeitos pode ser majorada quando comparada com aquela autonomia de sujeitos mantidos em condições menos favoráveis e em espaços menos flexíveis. Muito embora não seja nossa pretensão “calcular” o grau de eficácia comparativa entre duas escolas, cabe-nos aqui citar novamente Barroso (1996) quando diz, citando Good e Weinstein (1992), que:

  (...) existe uma variação significativa entre as escolas, no que se refere aos resultados escolares obtidos pelos alunos, bem como com a existência de um cem número de características próprias das escolas eficazes (Good e Weinstein apud Barroso, 1996, p. 179).

  Estão em jogo singularidades muito importantes quando realizamos o tipo de comparação entre dois espaços e formas escolares a fim de levantarmos as resistências e as autonomias encontradas. A estruturação dos espaços delimitados para as práticas educativas é uma delas e estes espaços podem ter relação direta com o tipo de atividade que se faz. Assim, imaginamos fazer muita diferença, por exemplo, freqüentar aulas em da vida livre, e “celas de aula” (Leme, 2002), trancadas à cadeado e feitas de chapas de aço e grades de ferro.

  A administração própria aos espaços escolares é uma outra característica que pode fazer a diferença para os alunos que freqüentam as escolas, quando temos em mente que cada escola é diferente em seu núcleo:

  (...) Se há uma organização administrativa igual para todas as escolas de determinado tipo, pode-se dizer que cada uma delas é diferente de outra, por apresentar características devidas à sua sociabilidade própria (Cândido, 1956, p. 107).

  Professores, monitores, supervisores escolares, enfim, os funcionários das escolas também podem contribuir para o sucesso ou o insucesso das práticas escolares e para o incremento ou não da autonomia produzida com seus alunos. Uma política educacional voltada para a qualificação de seu corpo de funcionários, para a possibilidade de apreensão de seu papel fundamental na trama dos processos educativos, na perspectiva de encarar os alunos também como sujeitos ativos no processo educacional e como portadores de uma história e de uma verdade que há de ser considerada, são vetores importantes a ser levados em conta, conforme argumenta Canário (1990), sustentando o que disseram Lesne e Mynvielle:

  (...) a formação, como processo organizado e intencional, corresponde a um aspecto particular de um processo contínuo e multiforme de socialização que coincide com a trajetória profissional de cada um ( , apud Canário, 1998,

  Lesne e Mynvielle p.10).

  Uma outra questão que nos diz respeito é a possibilidade de se encontrar diferenças significativas nas concepções e crenças pessoais entre os sujeitos que freqüentam as escolas das instituições prisionais, além da sua interação na turma ou sala de aula:

  (...) Contrariamente ao que se julgava, os efeitos da escola (enquanto organização) não podem ser dissociados dos efeitos da turma e do professor, uma vez que a maior parte dos estudos mais recentes que utilizam métodos de multivariáveis mostram que a maior parte das diferenças entre as escolas se devem a variações que se passam ao nível das turmas (Barroso, 1996, p. 180).

  Enfim, o questionamento pessoal do próprio lugar que ocupamos na sociedade e no mundo, de uma forma geral, bem como o questionamento das ações e das disciplinas dos homens de uma forma específica, deve ser levado em conta quando pensamos nas relações que se estabelecem nas escolas, principalmente quando elas (disciplinadoras!) se encontram instaladas no interior de instituições também disciplinadoras como as prisões. Aqui, Apple (1989, p. 112) é de grande ajuda, já que percebeu, mesmo entre os estudantes destinados socialmente à classe operária da economia americana, mecanismos algumas vezes bastantes sutis de resistência e autonomia frente á submissão desejada:

  (...) Os estudantes tornam-se bastante hábeis em driblar o sistema. Grande número deles nas escolas urbanas de áreas pobres, isto para não falar de outras áreas, adaptam, de forma criativa seus ambientes, de forma que possam fumar, sair da aula, colocar humor em suas rotinas, controlar informalmente a cadência da vida escolar e, de forma geral, tentar levar o dia. (...) Além disso, o ensino velado de pontualidade, asseio, obediência e outras normas e valores de raiz mais econômica, é simplesmente repudiado tanto quando possível. A verdadeira tarefa dos alunos é a de sobreviver até que o sinal soe.

  Como se organizam e se caracterizam as duas instituições prisionais que estudamos é o que interessa explorar no próximo item, juntamente com os mecanismos que condicionam a vida e os hábitos dos sujeitos que as habitam.

  

6. A escolha e a caracterização das duas instituições prisionais que foram

investigadas No fundo da prática científica existe um discurso que diz: “nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que, no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar” (Foucault).

  A guarda de presos condenados está atualmente sob a gerência da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. Esta Secretaria de Estado foi criada pela Lei n. º 8.209 de 04 de janeiro de 1993, meses após o grave incidente conhecido como o massacre da Casa de Detenção de São Paulo em outubro de 1992, quando pelo menos 111 presos foram assassinados após a entrada de policiais militares da tropa de choque do Estado, supostamente visando debelar uma rebelião iniciada pelos próprios sentenciados do pavilhão nove daquela unidade prisional. Até aquele momento, a custódia de presos condenados estava sob os cuidados da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

  Ainda sob o comando dessa Secretaria de Estado e em 1989, durante o Governo de Orestes Quércia, “os estabelecimentos penitenciários pularam de 22 para 39 unidades” (Português, 2001, p. 36), espalhados por todo o Estado. Buscando solucionar o grave problema das superlotações de prisioneiros em Delegacias e Cadeias Públicas espalhadas pelo Estado de São Paulo e com a desativação e posterior implosão da Casa de Detenção Professor Flamínio Fávero, localizada no complexo penitenciário do Carandiru, em São Paulo, ocorrida em 08 de dezembro de 2002, o Governo do Estado de São Paulo, viu-se obrigado a realizar um mutirão de construções de unidades prisionais no Estado. O déficit de vagas para homens e mulheres condenados pela justiça persistiu e o número de instituições prisionais triplicou, após quatorze anos, saltando para 117 unidades em junho de 2003. Em São Paulo, atualmente, não se passa um mês em que não haja inaugurações de instituições penais. Exemplo dessa constatação é o Decreto n. º 48.905, de 30 de Agosto de 2004 que “cria e organiza na

  Em termos de posição hierárquica, os diretores das atuais instituições prisionais estão subordinados aos Coordenadores de Presídios. Atualmente, cinco Coordenadorias de Presídios respondem por uma quantidade destas instituições numa determinada região do Estado de São Paulo, além de uma Coordenadoria de Saúde, que responde por toda a política de saúde e saúde mental no interior das instituições prisionais.

  Antes de 2001, ano em que foram criadas as Coordenadorias Regionais de Presídios, tínhamos basicamente seis tipos de construções destinadas a abrigar prisioneiros, cada uma delas com uma função específica: além das Penitenciárias – locais de cumprimento de pena para sujeitos já julgados e condenados pela justiça - para homens e outras para mulheres, tínhamos as Casas de Detenção – locais de cumprimento provisório de pena, para sujeitos ainda não julgados pelos seus crimes; os Manicômios Judiciários – locais destinados ao recolhimento de sujeitos considerados inimputáveis, ou seja, não passíveis de pena, os “doentes mentais” que cometem crimes; os Institutos Penais Agrícolas – locais para cumprimento de pena em regime semi- aberto, onde os prisioneiros podem trabalhar em locais externos ao presídio durante o dia, devendo recolher-se ao mesmo no período noturno; o Centro de Observação Criminológica – destinado à observação e classificação dos criminosos, além das Delegacias e Cadeias Públicas que, teoricamente, não deveriam abrigar sujeitos presos por um período longo de tempo – estas duas últimas subordinadas à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

  Atualmente, temos uma classificação muito mais ampla das instituições prisionais espalhadas pelo Estado de São Paulo. São elas: As Alas de Progressão Penitenciária, os Centros de Progressão Penitenciária e os Institutos Penais Agrícolas, todos eles destinados aos presos que cumprem pena em regime semi-aberto; os Centro de Detenção Provisória, que abrigam presos provisórios, sem condenação ainda pela justiça; os Centros de Ressocialização, presídios que são administrados por ONGs (Organizações Não Governamentais), construídos para, no máximo, 210 prisioneiros; as Penitenciárias Compactas – como o próprio nome sugere, são unidades penais de cumprimento de pena em regime fechado de modelo arquitetônico similar às Penitenciárias “comuns”, porém menores em termos de sua dimensão física e dos outros presídios e que “devem”, pela gravidade de seu “ato de desobediência”, ser afastados do convívio dos demais prisioneiros; os Hospitais Penitenciários, que são locais de tratamento aos prisioneiros adoecidos e que necessitem de cuidados especiais; os Hospitais de Custódia e Tratamento Penitenciário, denominação recente dos antigos Manicômios Judiciários e o Núcleo de Observação Criminológica, antigo Centro de Observação Criminológica, além das Penitenciárias Masculinas e Femininas mais antigas.

  Dessas unidades de cumprimento de pena, apenas as Penitenciárias Masculina e Feminina, as Penitenciárias Compactas, os Hospitais de Custódia e Tratamento Penitenciário e os Institutos Penais Agrícolas possuem, em sua estrutura física, espaços destinados às salas de aula. Outros locais de cumprimento de pena estudam alternativas possíveis à carência de espaços destinados à educação e ao trabalho dos sentenciados. Atualmente, já temos notícias de Centros de Detenção Provisória e de Centros de Ressocialização que montaram suas salas de aula.

  Quando falamos em números de prisioneiros freqüentando as salas de aula das instituições prisionais temos uma contradição: dados da própria Secretaria de

  prisioneiros freqüentando as salas de aula nas instituições a ela subordinada. Esse número representava 24,77 por cento do número total de 94.286 prisioneiros no Estado de São Paulo, sendo 72.347 presos condenados e 21.939 presos provisórios. Dados também já comentados da Superintendência – DIAPH, da FUNAP, de setembro de 2004, dois anos e dois meses depois daqueles da SAP, mostram 15.823 alunos estudando, num universo de 80.543 prisioneiros. Tivemos então, se os dois dados forem reais, um decréscimo de 2.096 alunos, no universo total de estudantes no interior das instituições prisionais, ao invés de um esperado acréscimo, ou uma diminuição

  23 percentual de 5,12% .

  22 Dados obtidos por intermédio do CD “O Sistema Prisional está mudando...”, de edição da própria

Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, elaborado pela Assessoria de

23 Imprensa da SAP, 2003.

  

Num dos textos de Adorno (1991) que utilizamos para o estudo que fazemos, o autor cita, em vários

  Em decorrência de nossa atuação profissional, conforme dissemos logo no início deste trabalho, primeiramente como psicólogo numa instituição prisional específica, depois, como docente da Escola de Administração Penitenciária - EAP e, posteriormente, como Diretor responsável pela implantação de uma política de saúde do trabalhador em todas as instituições prisionais, na mesma EAP, tivemos o raro privilégio de visitar um grande número dessas instituições, além de adentrar e conhecer suas instalações. Como já vínhamos nutrindo o desejo de pesquisar as práticas educacionais e a sua relação com o conjunto das outras práticas, aproveitávamos o momento de visita às unidades prisionais para observar informalmente as suas escolas. Assim, não foi muito difícil optar por quais das unidades prisionais iríamos escolher para a comparação que gostaríamos de realizar.

  Optamos então, em primeiro lugar por escolher duas instituições prisionais designadas como Penitenciárias; em segundo lugar decidimos que essas instituições deveriam contar com um período maior de existência, uma vez que, nelas, os processos de escolarização já estão devidamente instalados quando comparados com outras unidades prisionais de inauguração mais recente, que também visitamos eventualmente e onde os procedimentos de instalação da escola encontravam-se incipientes; em terceiro lugar, optamos por escolher uma penitenciária onde os processos educacionais se davam em salas de aula, em comparação à uma penitenciária onde esses mesmos processos se efetivavam em “celas” de aula, entendendo que essa discussão é, para nós, de caráter essencial, quando buscamos pistas para deduzir o que possa existir de diferença significativa no que se refere às repercussões para os prisioneiros num ou noutro modelo de escolarização. Também pesou na escolha, o fato de que, numa das penitenciárias, o conjunto de docentes é todo ele constituído por monitores presos, ao passo que na outra instituição, havia um misto de professores de “dentro” e de “fora” da instituição. Buscávamos possíveis diferenças nos modelos educacionais em duas instituições bastante separadas entre si na questão da distância física, entendendo que a distância de uma delas do centro administrativo da Secretaria de Administração Penitenciária e da FUNAP poderia mostrar alterações significativas quanto à condução das práticas educacionais por parte de seus gestores. Cabe dizer que essa última hipótese logo se mostrou irrelevante e sem fundamento, já que ambas, SAP e FUNAP, mantêm, esse acompanhamento não é, de forma alguma, sistematizado - das políticas gerais de seus respectivos órgãos.

  24 Tendo em vista a facilidade de ingresso pelo pesquisador , aliado a

  observações anteriores que já realizamos, uma das unidades prisionais por nós escolhida, foi justamente a Penitenciária 1, localizada em município da Grande São Paulo. Inaugurada em fins de 1990, esta Penitenciária foi construída para abrigar 792 prisioneiros, distribuídos em três pavilhões ou raios, entretanto, em setembro de 2004, contava com, aproximadamente, 1100 deles. Junto com mais um Presídio, dois Centros de Detenção Provisória e uma Ala de Progressão Penitenciária compõe o que, convencionou-se chamar de Complexo Penitenciário do município que os abriga.

  A Penitenciária 1 possui, no prédio destinado à escola, uma biblioteca com um acervo, em setembro de 2004, segundo os catálogos ali presentes, de 5.623 obras, entre livros de temas variados, incluindo didáticos, enciclopédias, dicionários, entre outros; uma sala utilizada para a guarda de produtos de higiene e limpeza; um sanitário destinado aos alunos; uma sala utilizada pelos professores e que também funciona como secretaria escolar e atendimento geral, e no interior desta, outro sanitário de uso dos monitores e de visitantes do setor e uma pequena sala que funciona como almoxarifado,

  

dos dados, tivemos que aguardar autorização legal do poder judiciário do Estado para que pudéssemos

ingressar nessa Penitenciária como pesquisador. Diferentemente da instituição prisional que chamaremos

de penitenciária 2, por nós elencada para a pesquisa e que autorizou de pronto o nosso ingresso na

mesma, o trâmite burocrático para se conseguir autorização na penitenciária 1, mostrou-se um grande

dificultador para o trabalho de pesquisa naquele momento. Nosso pedido de autorização para a pesquisa

nessa penitenciária circulou, primeiro, pela Direção Geral da Instituição Prisional, depois, pela

Coordenadoria de Presídios da região onde se localiza, na seqüência, pela Vara de Execuções Criminais

responsável e, soubemos depois, ainda pela Promotoria Pública do Estado. Procedimentos completamente

diversos entre uma unidade prisional, que nos autorizou de pronto o ingresso e outra que houve por bem,

enviar nosso pedido à instancias superiores. Esse fato, para além de curioso, vem somar pontos à nossa suspeita de procedimentos muito peculiares por parte de quem dirige essas instituições. guardando os materiais didáticos utilizados no dia a dia da escola, além de cinco salas

  25 de aula , conforme figura nº 1.

  26 25 Figura nº 1 – croqui da penitenciária 1 (escala aproximada: 1 cm = 20 metros) .

  

Quando realizamos uma primeira visita de campo à esta penitenciária, funcionava, no recinto escolar,

um mini-escritório onde podíamos escutar, quase que ininterruptamente, uma impressora matricial muito

barulhenta. Naquela ocasião, pudemos sentir a dificuldade dos alunos para estabelecer um nível adequado

de concentração para as matérias que lhes eram transmitidas caso a impressora estivesse em uso. Quando

Legendas:

  • – 1 Portaria 13- Sala de aula

  3 2 – Almoxarifado 14- Sala de aula 4 3 – Prédio da administração- diretoria geral 15- Sala de aula 5 4 – Administração – diretoria seg. e disciplina 16- Cozinha Geral 5 – Diretoria de reabilitação e diretoria escolar 17- Oficinas de trabalho 6 – Inclusão 18- Raio ou Pavilhão 2 7 - Raio ou Pavilhão 1 19- Raio ou Pavilhão 3

  • – 8 Enfermaria 20- Celas disciplinares 9 – Biblioteca 21- Gaiola dos raios 2 e 3 10- Sala de atendimento/professores 22- Gaiola do raio 1 11- Sala de aula 1 23- Galeria ou Radial 12- Sala de aula

  2 ____ = portões com funcionários de vigia

  • = portões abertos

  Sem a característica, já observada por nós, de gradear todo o seu espaço escolar, diferentemente do que observamos na penitenciária 2, em setembro de 2004, estavam matriculados em sua escola, 471 alunos, indicando um aumento de 102 alunos em relação à agosto de 2003, data de nossa primeira observação de campo. Esse número (471) representa um percentual de, aproximadamente, 42, 81% quando comparado com a população de prisioneiros, bem acima, portanto, da média percentual geral de alunos para o sistema prisional paulista de 19,65 %, conforme já dito anteriormente.

  A segunda instituição escolhida para a comparação que queríamos, e que designaremos de penitenciária 2, está localizada no extremo oeste do Estado de São Paulo, distante 620 quilômetros do centro de São Paulo e bem próxima à divisa de Estado com o Mato Grosso do Sul. É uma das mais antigas penitenciárias de São Paulo. Sua inauguração aconteceu à 05 de dezembro de 1961 e foi “a primeira de uma série de Penitenciárias Regionais de acordo com a moderna técnica penitenciária adotada pelo Departamento dos Institutos Penais do Estado”, segundo documento desse 26 Departamento – DIPE, datado de 1967 (Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça,

  

Diferentemente da figura nº 2, que é a reprodução fiel de uma planta da penitenciária 2, a figura nº 1 foi

elaborada a partir da observação e da medição dos espaços internos da penitenciária 1 pelo pesquisador,

tendo em vista a dificuldade em se conseguir material similar junto à administração dessa instituição.

  1967). Em decorrência de sua distância física em relação ao centro da cidade de São Paulo, a penitenciária 2 foi, durante muitos anos, utilizada como unidade penitenciária de “castigo”, para onde eram enviados os prisioneiros que mantinham, mesmo detidos, uma “conduta reprovável do ponto de vista de quem administrava as outras unidades prisionais existentes. Parece que a finalidade desse procedimento, incluído na “moderna técnica penitenciária”, era a de penalizar o prisioneiro retirando dele aquilo que ainda lhe restava de “mais sagrado”, a presença próxima de seus familiares. Durante muitos anos, as celas dessa penitenciária abrigaram apenas um prisioneiro. Com o passar dos anos e com a exigência de vagas no sistema prisional, as celas dessa penitenciária foram reformadas e adaptadas para receber dois prisioneiros.

  A presença de múltiplas grades em seu interior contrasta com aquela primeira imagem que temos dessa penitenciária. Sua estrutura física exterior lembra antes um hospital ou ainda uma instituição de abrigo para pessoas que necessitam de atenções especiais. As suas muralhas só podem ser avistadas quando ultrapassados os dois primeiros portões que, contrastando igualmente com os portões de grade de ferro localizados no interior, são constituídos de madeira maciça.

  No recinto escolar, localizado na mesma posição em que o encontramos na penitenciária 1, temos uma biblioteca com um acervo de, aproximadamente, 3.000 títulos, entre livros – didáticos ou não, enciclopédias e dicionários e que também serve como sala de professores. Dentro dessa biblioteca, temos um sanitário de uso exclusivo de monitores, funcionários e visitantes da instituição. Além dela, encontramos ainda, quatro salas de aula, todas elas com seus portões de acesso gradeados, imitando celas. Em todas as “celas” de aula, encontramos um sanitário, para uso dos alunos (vide figura nº 2).

  A penitenciária 2, contabilizava, em maio de 2004, quando realizamos nossa segunda observação de campo, 797 prisioneiros, divididos em dois pavilhões ou raios inferiores e dois pavilhões ou raios superiores. Inicialmente projetada para abrigar prisioneiros em celas individuais, hoje esta penitenciária comporta em cada cela, dois prisioneiros. Naquela ocasião, 375 alunos estavam matriculados na escola da instituição, ou 47,05% em relação ao número total de reclusos. Esse número (375) representava, em relação a agosto de 2003, quando realizamos nossa primeira investigação de campo, um

  12). Esse percentual também é superior ao encontrado na Penitenciária 1. Diferentemente da Penitenciária 1, onde todos os monitores foram recrutados a partir da população reclusa, nesta unidade prisional, quatro monitores são oriundos da própria população carcerária, dois monitores são contratados pela FUNAP e três são professores

  27 da rede municipal de ensino . 27 Figura nº 2 – croqui da penitenciária 2 (escala aproximada: 1cm = 15 metros)

Segundo os dados da Superintendência DIAPH/FUNAP de setembro de 2004, 63 monitores em ação no

sistema prisional paulista eram contratados via CLT, pela própria Fundação, 196 monitores eram

Legendas: Administração – Lado esquerdo – diretorias de reabilitação, educação e segurança e

  disciplina. Lado direito – diretoria geral

  1 Portaria

  13 Salão de visitas – – 2 – Cozinha Geral 14 – Oficina “Regina” 3 – Refeitório dos funcionários 15 – Sala vazia 4 – Oficina “Regina" 16 – Oficina de artesanato 5 – Oficina de carteiras 17 – Oficina de artes 6 – Sala de aula nº 4 18 – Oficina gráfica 7 – Sala de aula nº 3 19 – Galeria ou Radial 8 – Sala de aula nº 2 20 – 1ª Gaiola 9 – Sala de aula nº 1 21 – 2ª Gaiola (escola) 10- Salão de visitas (19 metros X 9 metros) 22 – 3ªGaiola

  23 Barbearia - 11- Biblioteca 12 – Oficina de Encadernação Temos assim, duas unidades prisionais de mesma finalidade em relação ao tipo de prisioneiro que recebe. Tanto a penitenciária 1 quanto a penitenciária 2 são unidades de cumprimento de pena em regime fechado. Ambas são consideradas de porte médio e de segurança máxima e ainda, são consideradas unidades departamentais, indicando uma hierarquização composta de Diretor de Departamento, Diretores de Divisão e Diretores de Serviço. Os funcionários responsáveis pela segurança interna são todos Agentes de Segurança Penitenciária.

  Possuem algumas diferenças, principalmente, em relação à estrutura física de suas instalações. Aproximadamente trinta anos separam as datas de suas construções e respectivas inaugurações. Estão separadas fisicamente por uma distância considerável. Uma localizada na Grande São Paulo, próxima então, do centro político do Governo, da Administração Penitenciária, da FUNAP e da Escola de Administração Penitenciária, órgão responsável pela troca de informações entre os funcionários de instituições prisionais e a outra, já próxima de outro Estado da Federação e longe, portanto, do que chamamos de centro político das propostas para o setor.

  Ao que sabemos, as únicas informações trocadas pela equipe dirigente das duas instituições se referem, basicamente, às transferências de prisioneiros entre ambas, já que o cotidiano das instituições prisionais é pautado pela administração de conflitos, a segurança da instituição, além da permuta entre prisioneiros quando da conveniência de uma ou de ambas as partes. Desconhecemos haver intercâmbio de informações pertinentes à escolarização de seus internos e aqui temos algo que também poderemos investigar.

  Acreditamos assim, que as variáveis testadas nesta pesquisa apareceram em um campo de ação privilegiado em ambas as instituições prisionais eleitas, dadas as suas características bastante peculiares.

  Pesquisar é antes de tudo descobrir algo novo, trilhar caminhos distintos dos convencionais, perturbar as certezas e convicções, embaralhar razão e paixão (Sérgio Adorno).

  Quando pensávamos na forma adequada para obter os dados para a nossa pesquisa, imediatamente, a observação sistemática dos locais, dos tempos, das práticas e dos atores envolvidos surgiu à mente. Se pretendíamos mostrar possíveis variações em relação às práticas educacionais levadas a cabo em duas instituições prisionais semelhantes, pareceu-nos ser esse o método mais apropriado e o que traria resultados mais fidedignos.

  Acreditávamos como a pesquisadora que:

  O trabalho de campo constitui, assim, um dileto e sempre refeito rito de passagem disciplinar, um ir-e-vir constante que, associando experiência subjetiva à reflexão teórica e expressando-se no modo etnográfico de narrar, está no âmago do ofício (Cavalcanti, 2003, p. 118).

  Assim, a observação atenta da utilização dos espaços físicos, somada à verificação dos seus espaços de ocupação internos; da distribuição dos diversos locais para as atividades do cotidiano e, entre eles, da própria escola e dos atores envolvidos,

  São possíveis, ou mesmo inevitáveis, a coexistência e o entrecruzamento social de discursos simbólicos e universos de sentido diferenciado. Num certo espaço social, não só a cultura não exclui as diferenças, como, em certa medida, se alimenta delas, estabelecendo pontes, suscitando comunicação.

  O que se tem em mente aqui é que os espaços de prática de leitura e escrita quando dispostos e planejados para garantir um nível satisfatório de aprendizado adequado para aqueles que o buscam ou não, podem apresentar singularidades, ou mesmo, regularidades que merecem uma análise particular

  28

  . Compartilhamos aqui da visão do cientista que diz que:

  (...) em todas estas ocasiões colhe-se comentários valiosos para a compreensão de vários aspectos da vida prisional, registra-se expressões espontâneas, observa-se comportamentos naturais de uma posição privilegiada (Coelho, 1987, p. 173).

  Também pretendíamos escapar a “duas dificuldades metodológicas sérias ao estudar uma organização tal como a prisão” (Sykes, 1999, p. 135):

  (...) Primeiro, o observador está constantemente em perigo de ser iludido por prisioneiros altamente articulados e fluentes que buscam vantagens pessoais. (...) Segundo, na sociedade polarizada da prisão é extremamente difícil não se tornar

partidário, consciente ou inconscientemente (Sykes, 1999, p. 135-136).

  Mesmo considerando as advertências acima, sentíamos a necessidade de investigar também o conjunto de opiniões de todos os sujeitos que, de uma forma mais ou menos explícita, mantinham com a escola uma certa interação, e os alunos prisioneiros eram um desses grupos. Também a equipe dirigente, o pessoal responsável pela segurança e disciplina das instituições prisionais e os professores, a respeito da escolarização dos prisioneiros. É necessário considerar o que pensam as pessoas que detém uma grande parcela do poder de decidir quem chega e quem não chega à escola, e 28 Fizemos duas visitas à ambas as instituições prisionais, num espaço de, aproximadamente, sete meses com isso, verificar sua ação sobre a possibilidade de crescimento pessoal do prisioneiro quando expressa vontade de estar em sala de aula. Para essa investigação, recorremos a entrevistas semi-estruturadas, que nos possibilitaram um certo “manejo” a partir das indicações que nos deram os entrevistados.

  Seguimos também um referencial de entrevistas proposto por Bourdieu (2003, p. 693) para quem:

  (...) muitas dezenas de anos de prática da pesquisa sob todas as suas formas, da etnologia à sociologia, do questionário dito fechado à entrevista mais aberta, convenceram-me que esta prática não encontra sua expressão adequada nem nas prescrições de uma metodologia freqüentemente mais cientista que cientifica, nem nas precauções anticientificas das místicas de fusão afetiva.

  Tendo claro as duas propriedades inerentes à relação de entrevista, proposta por esse autor, quais sejam: a) “é o entrevistador que inicia o jogo e estabelece a regra do jogo” e b) “o mercado dos bens lingüísticos e simbólicos que se institui por ocasião da entrevista varia em sua estrutura segundo a relação objetiva entre o pesquisador e o pesquisado”, coletamos dados que foram confrontados com o que observamos nas práticas cotidianas do universo escolar no interior das instituições prisionais. Isso nos levou a concordar com Selltiz, Wrightsman e Cook (1987, p. 15), que afirmam que “na pesquisa social, é muitas vezes difícil, ou até impossível, coletar dados sobre as pessoas através da observação pura e simples (Itálicos meus)”.

  Os autores acima ponderam sobre a aplicabilidade de um e de outro instrumento de coleta de dados. Chegam à conclusão de que é mais adequado para algumas análises de cunho sociológico combinar a aplicação da entrevista face a face com o uso do questionário, procedimento usualmente denominado de questionário auto- aplicado. Embora os autores avaliem que essa estratégia, freqüentemente, é bem sucedida na obtenção de altas taxas de respostas, ao mesmo tempo em que “permite ao informante privacidade no preenchimento do questionário por ele mesmo” (Selltiz, Wrightsman e Cook, 1987, p. 21) optamos, inicialmente, em não utilizar questionários, dada a amplitude e a relativa escassez de tempo para a análise de todo esse material.

  As entrevistas que realizamos vieram acompanhadas de um levantamento levantamento bastante específico foi obtido junto aos funcionários que tratam da segurança interna do presídio, neste caso, os Agentes de Segurança Penitenciária. Outro grupo eleito para ser entrevistado foi o dos monitores, fossem presos ou de “fora” da prisão, já que este grupo compõe, juntamente com os diretores das instituições prisionais, com os funcionários voltados à segurança e disciplina interna e os próprios sentenciados, os atores dos processos educacionais no interior dessas instituições. No percurso da pesquisa de campo, uma orientadora pedagógica que iniciava suas atividades nessa função na penitenciária 1,e que soube de nossas intenções, ofereceu-se espontaneamente para a entrevista, o que nos foi de imensa surpresa. Sua entrevista revelou-nos fatos bastante esclarecedores.

  Foram entrevistados 23 sujeitos, sendo 11 na Penitenciária 1 e 12 na Penitenciária 2, sendo dois alunos, dois Agentes de Segurança Penitenciária, quatro diretores, dois monitores presos e uma coordenadora pedagógica na penitenciária 1 e, três alunos, três Agentes de Segurança Penitenciária, quatro diretores e dois monitores – um deles preso, na penitenciária 2. Todos eles foram entrevistados uma única vez. Não escolhemos os entrevistados. Simplesmente, transmitíamos aos sujeitos com que íamos mantendo contato nas instituições prisionais, a pretensão de realizar algumas entrevistas com um grupo pequeno de atores envolvidos com a escola na prisão, com exceção do grupo dirigente, esse sim, elencado previamente. Os sujeitos foram surgindo, na condição de voluntários para a coleta de dados.

  Em ambas as instituições fizemos uso também de máquina fotográfica a fim de melhor ilustrar os lugares por onde passamos e por onde circulam uma grande quantidade de prisioneiros e outras pessoas da vida livre todos os dias.

  As impressões, obtidas através das observações sistemáticas dos dados de realidade do espaço escolar, além dos dados obtidos em entrevistas com os sujeitos, serão analisadas pormenorizadamente no próximo capítulo. As fotografias dos espaços de prática escolar e mesmo, de circulação dos prisioneiros, serão mostradas quando oportuno.

  

CAPÍTULO II

AS REGULARIDADES E AS SINGULARIDADES DOS PROCESSOS

EDUCACIONAIS EM INSTITUIđỏES PRISIONAIS

  (...) O estado me prendeu, más não se viu livre de mim, entendeu? Por mais que eles tivessem me matado, ainda assim, não se viu livre de mim, porque, enquanto eles não cuidarem daquelas crianças que tão lá sem as mínimas condições de escola, de estrutura familiar, entendeu? Que são a possibilidade de ter uma vida adequada, vai ter sempre alguém como eu colocando o revólver na cara da sociedade, entendeu? (Transcrição de relato de um monitor preso, maio de 2004).

  Prisões são, literalmente, instituições paradoxais. O trecho acima compõe, juntamente com outros relatos, um dos depoimentos recolhidos em entrevista com os diversos atores envolvidos no dia a dia dos processos educacionais no interior do cárcere. M., 25 anos, deseja cursar Psicologia ao sair da prisão. Condenado pela prática de assalto cumpre pena de privação de liberdade já há alguns anos. Em decorrência do seu grau de escolaridade diferenciado dos demais companheiros de prisão conseguiu vaga para monitor de alunos presos numa das penitenciárias que analisamos. Acredita que a escola no interior dessas instituições deveria, entre outras coisas, “falar mais de questões sociais, entendeu? O que acontece, falar sobre o governo, desse funcionamento da sociedade, entendeu?”. Questões sociais já implícitas na transcrição que fizemos para iniciar o capítulo. Ou a sociedade “cuida daquelas crianças que estão lá sem as mínimas condições de escola, de estrutura familiar”, ou “vai ter sempre alguém como eu colocando o revólver na cara da sociedade” (Transcrições de relato de entrevista, maio, 2004).

  Não foi apenas em sua relato que encontramos um determinado incômodo em relação às condições de vivência ou de habitabilidade na prisão. Nos momentos em que transitávamos pelas instituições prisionais, alguns gestos, algumas atitudes, olhares mais penetrantes ou mais hesitantes, faces cabisbaixas, andares trôpegos e forçados, de uma ou outra administração de presídios, por melhor que fosse a tentativa de “transformar” o prisioneiro em aluno por parte dos atores educacionais, a cultura do cárcere, mantida através de normas e regulamentos proibitivos e cerceadores, se mantinha firme e pesava sobre todas as cabeças, forçando os corações já apertados à obediência.

  A escola no interior das instituições prisionais convive diariamente com uma rotina de “radiais

  29

  ”, “raios

  30

  ”, celas e disciplina, mas também de cadernos, livros, lápis, borracha, ditado, matemática, português, quadro negro, apagador, biblioteca, ingresso de novos alunos, desistência ou “expulsão” de tantos outros, entre outras coisas típicas das escolas. Sua existência é marcada pela ambivalência. De um lado, busca auxiliar nos programas ditos “re-educativos”, visando à transformação e a alteração pessoal dos sujeitos que a buscam. Por outro lado, está ciente que deve essa mesma existência ao funcionamento correto e disciplinar de todo o resto. É assim que um diretor de reabilitação de uma das penitenciárias analisadas explicou o fechamento de uma escola numa das unidades prisionais onde havia trabalhado:

  (...) Foram problemas de segurança, tentativa de fuga pela escola e aí interditou-se a escola. Acabou na própria tentativa de fuga destruindo uma parte da escola, e daí, pra você construir de novo, era complicado. A segurança também ficou com o “pé atrás”. Foi lá que tentaram fuga, e a gente tinha que ver as prioridades, e a prioridade no caso, era para o preso não fugir (Transcrição de trecho de entrevista com um diretor de reabilitação, setembro, 2004).

  Quando não é visto como bandido, marginal e perigoso, o que faz dele um alvo permanente, ao alcance de todos os dispositivos de vigia da “equipe dirigente” o prisioneiro é tratado como criança:

  Olha, o preso, ele é tipo uma criança, né. Ele tá ali dentro, ele tá cumprindo a pena dele, pelo delito que ele cometeu. E, porque criança? Porque ela gosta de tá pedindo muito, te seduzindo. O preso em si é muito sedutor, né? Não só na parte de... é, sedução, como é com o próprio funcionário, ele gosta de seduzir, né? Ele hoje, ou a gente, se ele puder, ele te dá um bombom, ele quer fazer... a, um maior tempo, possível de amizade com você. Ele tá aqui 24 horas (Transcrição de trecho de entrevista com um diretor de segurança e disciplina, setembro, 2004).

  Foi considerando essa postura de sedução, “típica da criança”, inaceitável dentro do cárcere que muitos dos materiais escolares que acabavam sendo solicitados pelos prisioneiros não eram a eles entregues pelos funcionários. Tendo como resultado da cultura geral da população carcerária o fato de que se “trafica” tudo, se “comercializa” tudo no interior da instituição, como conseqüência vimos negado o direito a um caderno ou a uma borracha ao aluno que necessitava. Pelo lado da população reclusa, porém, não foram poucos os comentários e mesmo a observação de que, após a entrega de materiais de estudo, como caderno, lápis, caneta e borracha, ocasião em que a escola se mostrava repleta de alunos, nos dias subseqüentes, grande parte dos alunos já não comparecia às aulas. Por falta de condições materiais, muitos prisioneiros utilizam as folhas dos cadernos escolares para escrever correspondências a

  31

  seus familiares ou mesmo na confecção de “pipas ” que serão encaminhadas no interior da instituição.

  A circulação e a vida no interior dos corredores e das salas de aula das escolas nas prisões é intensa. Por ali circulam por dia, aproximadamente metade dos prisioneiros que cumprem pena de prisão. Na sua maioria homens simples, trazem debaixo do braço, enrolados nas mãos ou, aqueles mais zelosos, acondicionados em sacolas ou pastas plásticas, o material que utilizarão no aprendizado de uma nova matéria, um novo conteúdo, uma nova disciplina. Em seus pés, chinelos de dedo, tipo havaianas, sapatos, muitas vezes bastante “surrados”, ou até um “tênis de marca”. O

  32

  uniforme escolar é o uniforme “pago pela casa” , alguns já bastante desbotados pela

  

33

  longa trajetória de privação de seu possuidor . As feições nos rostos dos alunos variam da amargura pela “obrigação” aos estudos à alegria por freqüentar um local diferenciado 31 do restante da prisão.

  

“Pipa” é o nome de uma carta ou memorando, geralmente manuscrita, onde o prisioneiro pede para ser

32 ouvido pelos responsáveis dos diversos setores da instituição.

  

“Pagar” alguma coisa, em linguagem corrente da instituição prisional, é disponibilizar ao prisioneiro,

33 esse mesmo objeto. Assim, paga-se material escolar, uniforme, colchão, cela, almoço, pecúlio.

  

Adorno (1998, p. 1020) já havia percebido um outro aspecto bastante paradoxal em instituições

prisionais, descrevendo-o assim: “ao lado de detentos bem vestidos, agasalhados de modo adequado,

inclusive para enfrentar as mais adversas temperaturas – alguns ambientes são extremamente úmidos

  Num local onde o prisioneiro sente o rigor da ambiente um pouco abrandado é possível cumprimentar um colega que não via há algumas horas com um fraterno beijo no rosto, ou trocar aquelas confidências acerca da nova namorada, do filho que sua mulher está esperando, da esperança em sair logo da prisão, ou ainda, das “novidades” do cárcere. Noutros locais, mais restritivos e proibitivos, os cumprimentos nos corredores não passam de um aceno simples da cabeça ou das mãos. Afinal, saem das celas, passam pelas gaiolas e vão direto às salas de aula. Esses corredores, diversamente

  34 de outros, permanecem vazios e em silêncio a maior parte do tempo escolar .

  Aos funcionários que trabalham nas prisões resta cumprir o regulamento e seguir a Lei. Esse cumprimento da Lei ou do regulamento, entretanto, também sofre variações conforme o local e a disponibilidade interna desses sujeitos. Muitos acreditam que é possível alterar, para melhor, o sentido das coisas a partir de suas práticas. Outros, entretanto:

  (...) Ele (o funcionário ruim) acha que o sentenciado não merece escola, não merece trabalhar. O que a gente vê do sentenciado, é o seguinte, quer dizer, do funcionário: o sentenciado tem que ficar trancado, tá entendendo? E não é isso. Ele não acredita, é como eu te falei anteriormente, na reabilitação, na educação, numa escola para eles, numa recreação. Tem funcionários que é contra, e tem funcionários que são a favor, tem que ter essas coisas para evoluir gradativamente, e tem funcionários que são contra mesmo, a gente não vai citar nomes, né? Mas tem, a gente sabe, tá? Que é punitivo, preso tem que ser punido, punido, punido. É punir, punir, punir, não é isso, tá entendendo? (Transcrição de trecho de relato de um diretor de educação, maio, 2004).

  De sua parte, ao funcionário cabe aceitar o papel de cerceador que lhe é imposto. A ele sobra a questão de manutenção da ordem interna e da disciplina exigidas por regulamentos:

  

Particularmente, utilizamos quatro de seus livros como leitura obrigatória (Velho, 1975, 1977 e 1999 e

  (...) Eu, que na questão de funcionário, de Agente de Segurança Penitenciária, estou incumbido judicialmente de impedir qualquer tipo de anomalia, qualquer tipo de indisciplina ou qualquer tipo de tentativa de evasão, ele (o prisioneiro) nunca vai me ver como um mestre ou como uma pessoa que tá aqui propensa para ensinar alguma coisa do que eu aprendi para ele. (...) Ele vai me ver sempre como um cerceador, como um opressor, como uma pessoa que tá ali para impedir aquele bem que ele nasceu, que é a liberdade (Transcrição do trecho de relato de um Agente de Segurança Penitenciária, maio, 2004).

  É por esses caminhos labirínticos, trôpegos, muitas vezes lúgubres que caminham a escola e os processos de escolarização no interior das instituições prisionais. E são esses caminhos, com suas regularidades e singularidades, que iremos conhecer um pouco mais a seguir.

  Ao se observar o ambiente escolar já se poderia saber muito a respeito dos meios de controle disciplinar, porque o espaço é capaz de disciplinar sozinho um sujeito moldável que pouca, ou mesmo nenhuma influência tem, seja sobre o ambiente, no sentido de alterá-lo, seja no sentido de atuar sobre si próprio (pois que suas atitudes estão submetidas a essas estruturas) (Araújo, 2001, p. 33).

  Como já dissemos anteriormente, alguns anos separam as fundações das duas instituições prisionais que analisamos. Apesar da diferença de aproximadamente 27 anos entre ambas, as características internas dos dois prédios são bastante semelhantes. Para se chegar às instalações escolares, tanto da penitenciária 1 quanto da 2, temos que transitar antes, por um longo corredor, chamado de “galeria” ou ainda “radial” (conforme figura n. º 3 e 4).

  Figura n. º 3 – Galeria da penitenciária 1. Depois de nos identificarmos num local denominado “sub-portaria” onde, geralmente ocorre nossa primeira parada, para que consigamos atingir o local onde se encontra a escola da penitenciária 1, é necessário transpor nove portões semelhantes aos das figuras acima. Dois desses permanecem abertos, sem funcionários para abri-los ou fechá-los, a menos que um incidente mais grave obrigue o seu fechamento imediato. É necessário transpor ainda uma “gaiola”, local geralmente destinado à revista física dos prisioneiros e cuja semelhança com o objeto que lhe deu o nome é indiscutível (conforme figura n. º 5). Este local é estratégico no interior das instituições prisionais, pois é por aqui que passam todos os prisioneiros que saem ou entram nos pavilhões de habitação. Na penitenciária 2, o número de portões é menor, entretanto, nenhum deles permanece pouco tempo sequer sem vigilância de, ao menos um funcionário. São seis portões até o prédio escolar, que se localiza bem ao centro de uma das quatro “gaiolas” da instituição, fazendo frente com as oficinas de trabalho. Em ambas as instituições o prédio escolar se localiza ao “fundo” da instituição, estrategicamente localizado, visando a um controle maior da circulação de prisioneiros, conforme já dissemos.

  

Figura n. ° 5 – Gaiola, na penitenciária 2. A passagem por esses portões ou gaiolas nem sempre é tranqüila. Uma sensação de constante vigilância está presente o tempo todo. Muitas vezes, um portão “escapa” das mãos dos funcionários e bate pesadamente, causando um enorme barulho. Para eles, é como se nada acontecesse. Na penitenciária 2, local onde não nos conheciam muito, o desconforto era dobrado. Raramente pudemos caminhar sozinho e jamais “subimos” ao fundo da instituição sem que um funcionário nos escoltasse, diferentemente da penitenciária 1 onde, por nos conhecerem, permitiam nossa livre circulação pela galeria e mesmo pelo restante do presídio.

  De semelhante nos prédios escolares existe a entrada totalmente gradeada (conforme figura n. ° 6). À época de nossa primeira visita de observação à penitenciária 1, não havia nenhuma identificação daquele local. Passado, aproximadamente, um ano, já era possível observar letreiros identificação a escola (conforme figura n° 7). Nessa, mais uma particularidade: uma “gaiola” permanece aberta boa parte do tempo letivo.

Figura n° 7 – Portão de entrada da escola da penitenciária 1, com identificação do recinto. Logo no interior, o funcionário responsável pela vigilância do posto

  Em seu interior, a escola da penitenciária 1 abriga, na seqüência para quem adentra ao recinto, 1 biblioteca com 48,75 metros quadrados; 1 sala onde são guardados os produtos de higiene e limpeza com 7,5 metros quadrados; 1 sanitário para uso prioritário dos alunos, também com 7,5 metros quadrados; 1 sala dos professores e, em seu interior, outro sanitário de uso dos monitores e visitantes da escola, além de um mini-almoxarifado onde são guardados materiais didáticos. A dimensão total da sala é de 45 metros quadrados. Temos ainda quatro salas de aula, localizadas à esquerda de quem entra no prédio escolar, todas elas com 33,75 metros quadrados e uma outra com 37,5 metros quadrados, ao fundo do corredor.

  Em todas as salas encontramos identificação de sua finalidade. Todas as portas das salas são de madeira e o estado de conservação das mesmas é bom, com exceção da sala 5 – última sala para quem transita pelo corredor. A iluminação, tanto do dos “faxinas” – presos responsáveis pela conservação do local. Importante observar que, tanto o piso do corredor escolar quanto o piso das salas de aula é extremamente limpo (conforme figuras n.º 8 e 9). Foi possível verificar que os “faxinas” exerciam o ofício várias vezes ao dia, principalmente ao término de um período de aulas. Quando não estavam realizando o trabalho, era possível ouví-los conversando ou entoando hinos religiosos.

  

Figura n.º 8 – Sala de aula com o chão brilhando – penitenciária 1. Ao fundo, mapa

geográfico do Brasil.

  

Figura nº 9 – Corredor escolar da penitenciária 1 com o chão brilhando. Este

corredor mede 45,50 metros de cumprimento por três metros de largura. Ao fundo, os “faxinas”.

  Uma curiosidade dessa penitenciária, devido, talvez a uma maior flexibilidade em relação às regras por parte tanto da equipe dirigente quanto dos funcionários da prisão, é comum encontrar prisioneiros (alunos e não alunos) circulando de um lado a outro do corredor, seja conversando, seja lendo um livro ou cantando (conforme figura n. º 10). Ficamos sabendo que essa prática, nessa instituição, é comum e tem como finalidade “passar o tempo” ou estimular a prática de uma atividade física, nesse caso, a caminhada. Foi possível ver prisioneiros abraçados uns aos outros, diferentemente do que vimos na penitenciária 2, onde a liberdade de movimentos era quase nula e onde o corredor escolar permanece vazio durante boa parte do tempo.

Figura nº 10 – Alunos se exercitam, caminhando pelo corredor escolar da penitenciária 2

  Todas as salas de aula da escola da penitenciária 1 tinham carteiras escolares em número e condições físicas adequadas aos alunos. Em contrapartida, não vimos, em três salas de aula, mesas para suporte de material do monitor. Era prática, nessas salas, que o monitor estendesse o seu material de consulta sobre uma das carteiras escolares ali existentes. A luminosidade das salas era adequada. A acústica também permitia um grau de concentração satisfatório por parte dos alunos, já que pouco ruído, vindo do lado externo, penetrava o interior das salas de aula. Um quadro negro pintado à parede era visto em cada uma das salas de aula. Em todos eles, era possível também localizar o apagador, às vezes, de espuma – dessas de colchão. Como lixeiras, encontramos cestas improvisadas de madeira em todas as salas.

  Na penitenciária 2, temos, para quem adentra ao recinto escolar, no lado direito, uma biblioteca com 81 metros quadrados e em seu interior, um sanitário de uso

  Seguindo à frente, temos quatro salas de aula, duas à esquerda e duas à direita e uma em frente à outra. Em todas as salas de aula, diferentemente da penitenciária 1, temos um sanitário de uso dos alunos e, eventualmente, do próprio monitor. As dimensões das salas 1 e 2 é de 81 metros quadrados, da sala 3, 72 metros quadrados e da sala 4, 56 metros quadrados. Chama a atenção o fato de que todos os recintos dessa escola têm as suas portas de entrada gradeada (conforme figura n.° 11).

  O corredor da escola dessa penitenciária é um pouco mais estreito em relação à penitenciária 1 e também um pouco mais escuro (conforme figura n. 12). Há menos luz solar naquele espaço da instituição e a iluminação também era precária quando de nossa visita. O chão, de forma similar à outra instituição analisada estava rigorosamente limpo, entretanto, só víamos os “faxinas” no período da manhã.

  

Figura n.º 11 – Sala de aula da penitenciária 2. No detalhe, o portão gradeado.

Figura n.º 12 – Corredor escolar da penitenciária 2. No detalhe, o chão limpo e a aparência escura do corredor. As dimensões desse corredor são pouco menores que o da penitenciária 1. Este mede 33 metros de cumprimento (12,50 metros menor) por dois metros de largura (um metro menor)

  De forma similar à penitenciária 1, nas salas de aula dessa outra penitenciária, vimos carteiras escolares em número suficiente aos alunos e em boas condições físicas. Mesas para os monitores apoiarem os seus pertences foram vistas em todas as salas de aula. Como não havia a freqüência constante de “faxinas” para limpar as salas e mesmo os sanitários ali existentes, a condição de uso depois de determinado período de aula era precária (conforme figura n. ° 13). Detalhe importante é que estes sanitários no interior das salas de aula impediam que os alunos se locomovessem para fora das suas respectivas salas. Foi comum verificar que os alunos se dirigiam a esse espaço muitas vezes para fumar, pois aqui, também era proibido fumar em sala de aula, diferentemente da penitenciária 1.

Figura n.º 13 – Sanitário existente no interior das salas de aula da penitenciária 2. Grades ao fundo

  A utilização dos diversos espaços existentes em cada uma das escolas que analisamos era bastante diferenciado. Enquanto na penitenciária 1, a movimentação pelos corredores, o entra e sai das salas de aula, da biblioteca, da sala dos professores e mesmo do prédio escolar era intensa e, de certa forma, vigiada à distância por um funcionário responsável pela disciplina, na penitenciária 2, praticamente não havia movimentação pelo corredor escolar durante o período de aulas. Os únicos alunos que saíam das salas de aula nessa penitenciária estavam devidamente autorizados por ordem de algum dos diretores da instituição.

  Particular às duas instituições era a utilização do recinto da biblioteca (conforme figura n.° 14) pelos próprios prisioneiros encarregados de administrá-la. Esses, controlavam a saída e a entrada de livros (muito mais freqüente na penitenciária 1 do que na penitenciária 2) pelos colegas, catalogavam as obras existentes ou as que chegavam, advindas de alguma doação ou simplesmente, realizavam alguma atividade no computador. Na penitenciária 2, os prisioneiros confeccionavam cartões com

  35

  mensagens para o dia das mães e os “vendiam ” aos colegas interessados. Tanto o computador ali existente, quanto a impressora e mesmo os papéis com os quais confeccionavam os cartões ilustrativos eram de sua propriedade. A direção da

  36

  instituição havia concedido permissão para os monitores e para o bibliotecário realizarem aquela atividade (conforme figura n.º 15).

  

Figura n.º 14 - Biblioteca da penitenciária 1. Acervo de 5.623 obras em setembro

de 2004, entre livros didáticos, literatura, romance, suspense, revistas e outros. Quase a totalidade das obras aqui encontradas é resultado de doações de particulares, empresas e editoras.

  

moeda tal qual a conhecemos é de uso proibido aos prisioneiros. “Vender”, na linguagem da instituição,

significa trocar o referido objeto por um outro, geralmente, cigarro (essa é a “moeda” corrente dentro das

36 instituições prisionais).

  

Tanto na penitenciária 1 quanto na 2, o preso responsável pela biblioteca era conhecido como

bibliotecário. Entretanto, essa denominação era puramente informal, já que ambos não tinham

  

Figura n.º 15 – Biblioteca da penitenciária 2. Essa biblioteca possuía, em maio de

2004, um acervo de, aproximadamente, 3.000 obras. Ao fundo,

monitores presos trabalhando em computador.

  A utilização dos espaços de salas de aula por parte dos alunos também merece nossa reflexão. Em que pese as críticas, principalmente, dos diretores de educação e de reabilitação em relação à insuficiência de espaço físico para as aulas, pudemos observar nas visitas que realizamos que os espaços em sala de aula são sub- utilizados pelos alunos. No último dia de nossa segunda visita à penitenciária 1, por exemplo, encontramos uma freqüência de 50% dos alunos. Deveriam estar presentes no primeiro período de aula, 38 alunos e lá só se encontravam 19 deles. Aliás, a freqüência bastante reduzida de alunos em todos os dias daquela semana em que visitávamos a unidade prisional foi tema de uma conversa informal com o diretor de educação que nos deu, como justificativa, o fato de estar retornando de suas férias e, por essa razão, os funcionários que o sucederam na diretoria nessa época não teriam tido o mesmo empenho em “incentivar” os alunos à prática escolar. Empenho que seria traduzido por “buscar o aluno faltoso no interior do pavilhão de moradia”.

  Na penitenciária 2, onde estivemos em setembro de 2004, também encontramos uma freqüência bastante reduzida de alunos em sala de aula, quando de aula, um ou dois alunos, além do monitor. No primeiro dia de nossa visita, por exemplo, tivemos uma freqüência total, nos três períodos de aula, de 138 alunos. O número de alunos matriculados na escola da penitenciária, segundo dados da própria diretoria de educação era de 471. Uma ausência às aulas, portanto, de 71% dos alunos. A orientadora pedagógica recém nomeada para a função, apressou-se em justificar a ausência tão grande de alunos em decorrência de uma semana atípica: estavam previstos

  37

  para aquela semana o pagamento do pecúlio e um dia de suspensão das aulas (sexta- feira) em decorrência da antecipação do dia de recebimento de visitas por parte dos presos, antecipação esta em virtude das eleições municipais.

  Apesar dessa sub-utilização dos espaços das salas de aula em prisões, não foram poucos os comentários e as sugestões pedindo ampliações nos horários de estudos. Uma queixa bastante freqüente, principalmente, por parte dos alunos, dos monitores e dos diretores de educação e reabilitação, é que a atividade profissional em prisões acaba sendo uma concorrente direta da educação. Quando tem de optar entre uma ou outra atividade, normalmente é pela primeira que o prisioneiro acaba optando, já que trabalhar em prisões possibilita, além do recebimento de um salário, conforme o Artigo 29, Seção I, Capítulo III, Do Trabalho, da Lei 7.210/84: “o trabalho do preso será remunerado, mediante prévia tabela, não podendo ser inferior a três quartos do salário mínimo” (Gomes, 1999, p. 474), a remição da pena de prisão, conforme o Artigo 126, Seção IV, Da Remição, da citada Lei:

  O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semi-aberto poderá remir, pelo trabalho, parte do tempo de execução da pena. § 1º - A contagem de tempo para o fim deste artigo será feita à razão de 1 (um) dia de pena por 3 (três) de trabalho (Gomes, 1999, p. 488).

  

distribuídas uma vez por mês (principalmente produtos de higiene e limpeza, além de cigarros, isqueiros,

bombons, entre outros). Este pecúlio é pago com os recursos do próprio prisioneiro que trabalha. Uma

parte do dinheiro que recebe é depositado em conta poupança ou transferido para seus familiares, a seu

pedido, e uma outra parte, é destinada à compra de produtos de necessidade para o prisioneiro. Há ainda

um rateio entre os presos que trabalham nas oficinas e têm um salário para que aqueles que não

  Já existem inúmeras discussões sendo feitas nos fóruns apropriados do poder judiciário para que o tempo de estudo do prisioneiro também seja contado para fins de remição de pena. Enquanto isso não ocorre, a preferência do prisioneiro pelo trabalho e pelos “benefícios” dele oriundos, é inegável.

  Horários de aula no período noturno e aos sábados também foram sugeridos por parte das pessoas entrevistadas. Entretanto, todas elas reconhecem que essa prática esbarra nas questões de segurança da unidade, já que nesses períodos ou mesmo nesse dia da semana, o número de funcionários em atividade nas prisões diminui consideravelmente.

  As instalações da escola também costumam ter outro tipo de utilização, bem como outra clientela que não apenas os alunos. Na penitenciária 2, por exemplo, aos finais de semana, são utilizadas salas de aula para a realização de cultos religiosos das diversas ordens que ali freqüentam. Na penitenciária 1, salas de aula são utilizadas, no período em que estão vazias, por grupos musicais, que nelas ensaiam seus números e afinam seus instrumentos. Aos sábados, na biblioteca dessa penitenciária, ocorre um curso de pintura de quadros, organizado pelo “bibliotecário”. Duas vezes por semana, um professor voluntário ensina como trabalhar com injeção eletrônica aos presos interessados. Esse curso é o mais concorrido dentre todos os outros e sua freqüência chega a quase 100% dos alunos matriculados. Num dos dias em que era administrado, pudemos contar 40 alunos em sala de aula. Era o dia em que se pagaria pecúlio num dos pavilhões de habitação dos prisioneiros. Enquanto nas outras salas de aula, a freqüência de alunos chegava quase a zero, nesta sala de aula, a grande maioria dos alunos permaneceu até minutos depois de tocado o sinal que indicava o final das aulas. Muitos alunos continuavam a questionar o professor sobre a matéria lecionada.

  Peculiar apenas à penitenciária 1 é o fato de que os monitores, por serem presos, permanecem no recinto escolar no período do almoço e ali realizam suas refeições, em que pese as críticas da área de segurança e disciplina da instituição prisional. A escola da penitenciária 2 permanece trancada nas duas horas do horário de almoço.

  Finalmente, algo bastante particular com relação ao uso do espaço das escolas nas duas instituições analisadas é o fato de que, ao encerramento do horário penitenciária 1 e às 17 horas na penitenciária 2, encerram-se as atividades no prédio escolar. Nesses respectivos horários as diversas atividades realizadas no interior das prisões cessam, cessando também a movimentação de prisioneiros por corredores, galerias e gaiolas.

  El tiempo escolar es uma modalidad más del tiempo social y humano, un tiempo diverso y plural, individual e institucional, condicionante de y condicionado por otros tiempos sociales; un tiempo aprendido que conforma el aprendizaje del tiempo; una construcción, em suma, cultural y pedagógica: un “hecho cultural” (Viñao Frago, 2000, p. 104)

  “(...) Então, eles faz cumprir o horário, não deixa passar do horário, certo? Exige autorização e isso é uma forma de disciplina” (Transcrição de relato de entrevista de um aluno, outubro de 2004). Penitenciárias, tal qual aquelas fábricas de antigamente, funcionam à base de apitos, sirenes e campainhas. Sinais sonoros são escutados em várias ocasiões do dia. Desde os primeiros momentos do dia, prisioneiros e funcionários vão se dando conta do horário programado para as diversas atividades regulares da instituição. Após o ruído sonoro, é possível ainda ouvir vozes que convocam os homens que serão conduzidos aos seus respectivos setores: “ESCOLA!”, brada o funcionário para o interior das oficinas de trabalho, convocando os prisioneiros que deverão freqüentar as aulas naquele período. Os alunos trabalhadores dessa penitenciária (2) depois de desligadas suas máquinas, apanham seus cadernos e livros que deixaram pendurados nas grades da gaiola da escola, aguardando o momento certo para serem utilizados (conforme figura n.º 16).

Figura n.º 16 – “Descanso” de livros e cadernos na gaiola da escola da penitenciária 2

  Essa foi uma particularidade bastante marcante na penitenciária 2. Como não é permitido aos prisioneiros o retorno à suas celas durante o dia de atividades, quando estes saem dos pavilhões em direção ao trabalho ou à escola, devem carregar consigo o material escolar que utilizarão nas aulas. Enquanto trabalham, as grades da gaiola da escola servem de apoio ou descanso a esses materiais, pois também não lhes é permitido ingressar nas oficinas com os mesmos. Em nossas observações atentamos para o fato de que alguns cadernos e livros ficam “esquecidos” na gaiola por dias, em decorrência da “desistência” de prisioneiros de freqüentar as aulas.

  Aos prisioneiros é vedada a utilização de relógios de pulso. Alguns poucos setores de convívio dos mesmos contam com um relógio de parede. Normalmente, quando cruzam com um funcionário ou visitante, perguntam-lhe as horas. Parece que incluindo as ordens emitidas pelos funcionários, que devem “lembrar” aos prisioneiros “crianças” dos horários para as suas atividades.

  Isso nem sempre acontece:

  (...) a aula tava prevista, aquela aula ali, né? Era das oito, a aula tava prevista pra ter inicio às oito horas, oito e meia, quase nove horas, o guarda ia pensar (cínico). É, abrir, ou não, o portão pra gente. Né? Muitas das vezes, ele até abria, abria pra uns atendimentos, abria pra requisição. Pôxa, o mesmo, o ferrolho que abriu pro camarada, era pra abrir pra mim também, né? Más eu não era atendido. Então, eu esfriei. Foi tantas vezes e eu larguei de mão, né? (Trecho de entrevista de um aluno da penitenciária 1, setembro, 2004).

  O aluno acima que apresenta um relato dos mecanismos pessoais de cerceamento do direito ao estudo em uso por uma parte do corpo de funcionários da penitenciária, também alega ter abandonado os estudos em duas ocasiões, em decorrência do que chama de “uso de brutalidade e humilhação ao prisioneiro” (idem). Negar-se a abrir o portão de acesso à galeria, solicitar uma série de informações e autorizações ao prisioneiro, abrir o portão depois de muito tempo, ou simplesmente “forçar” para que o prisioneiro tenha uma atitude de “desrespeito” e “desacato”, são algumas das formas de que se utilizam alguns funcionários quando querem prejudicar o prisioneiro. Essa atitude é, muitas vezes, entendida como vinculada a um “estado de humor”:

  Às vezes, um funcionário tomou uma bronca de um superior dele ou, talvez esse mau humor, ele tá trazendo de casa, porque não tá legal lá o seu convívio, isso daí é uma base minha. Porque eu vejo, o ser humano, pra ele tá de mau humor, pra ele tá ofendendo alguém, né? Pra ele tá barrando, sendo uma “pedra de tropeço” para o próximo, é algo que deve ter acontecido pra ele, né? Toda ação, ela tem a sua reação, né? (idem, setembro, 2004).

  Em outros casos, o motivo do cerceamento pode estar num certo despreparo desses funcionários para o trabalho:

  Então, eu vejo que muitas vezes também é o, o, um despreparo aí, uma falta de, não sei se é isso, más talvez, talvez uma falta aí de um acompanhamento aí, é, do, de, de um trabalho, né? Psiquiátrico em cima deles aí, também, né? Uma falta, uma preparação nesse sentido aí. Porque muitas vezes eu já vi já, o preso chegar com toda a educação ali, inclusive até, evangélicos: “Senhor, por favor. Eu quero... ir pra escola, é duas horas...” O funcionário, no caso, eu não vou citar nomes aí, ta? Más o funcionário lá embaixo, no pavilhão dois, eu morei lá, o funcionário bater aquele guichezinho (a portinhola da gaiola) na cara do preso...com a maior brutalidade (idem, setembro, 2004).

  Os funcionários, de sua parte se defendem, alegando que basta qualquer imposição maior para que o prisioneiro transforme seu desejo de não comparecer às aulas ou mesmo de abandoná-las para justificar seu ato:

  Tem preso que ele vai, ele vai, ele pode desistir aquele dia de estudar por esse motivo (um tratamento mais duro por parte do funcionário), más aí ele sabe que o problema é um problema do funcionário, ele, de repente não vai estudar naquele dia, más outro dia ele volta, e tem uns que, que por causa desse motivo não volta mais, aproveita, más aí é, que nem eu falei, aí já é um problema, é, falta de interesse dele, né? (Trecho de relato de um funcionário, setembro, 2004).

  Seja como for, o tempo na prisão é um tempo regido, muito mais, por símbolos e por “vontades e não vontades” do que, propriamente, pelo tempo “livre” e “desimpedido”, tal qual o conhecemos. Nas escolas das prisões, não é diferente. Na penitenciária 1, o tempo escolar é ditado por uma campainha, disparada pelo “tempo” do funcionário de plantão naquele dia. Na penitenciária 2, o tempo é ditado pela sirene que anuncia um período de trabalho ou de aula e ainda, por uma campainha acionada pelo funcionário de plantão na gaiola da escola, bem como através das ordens ditadas por esses funcionários e pelos funcionários da própria escola. Na penitenciária 1, mesmo após a campainha que anuncia o início de um período de aulas, é possível encontrar alunos e monitores em trânsito pelos corredores. Na penitenciária 2, ao monitores. Não há trânsito pelos corredores após a ordem para a entrada dos prisioneiros em sala de aula nessa penitenciária.

  Com relação à carga horária, raros foram os momentos em que a vimos ser cumprida conforme o estabelecido. Este fato é de conhecimento dos atores que acompanham o dia-a-dia escolar:

  (...) Um critério estabelecido pela fundação (FUNAP), de duas horas, más nunca a carga horária dá duas horas. Se você subir lá hoje, até chamar um aluno, aumentaria certo? Já foi discutido com a disciplina. Nós tivemos um plano de colocar aula à noite, há muito tempo, há uns 20 anos atrás as aulas eram à noite, porque rendia mais, ta entendendo? A dificuldade ta com a disciplina, não é a disciplina em si é que vai, é alguns guardas que vão colocar obstáculos, que não dá, que não sei o que, a segurança, porque à noite ou à tarde renderia mais o ensino para mim. Teria que aumentar a carga horária, que é muito pouco, não dá mais carga horária, duas horas. Se der uma hora de dez, uma hora e vinte, é o máximo! (Trecho de relato de um diretor de reabilitação, 2004).

  Diferentemente da penitenciária 1, onde já se reclamava por uma carga horária maior e pela ampliação de horários de estudo, na penitenciária 2, a carga horária prescrita é de uma hora e trinta minutos de duração. Aqui, não se reclamou tanto da carga horária reduzida, entretanto, também foi sugerida a criação de horários de aula alternativos, como à noite ou aos sábados.

  Na penitenciária 1, foi possível verificar a presença de alunos há, pelo menos, quinze minutos do início previsto para as aulas, porém, a entrada em sala de aula, propriamente dita, raramente se dava antes de soar a campainha. Na penitenciária 2, os alunos chegam mais em “bloco” e são dirigidos às suas respectivas salas e trancados. Nessa penitenciária, em nenhum momento em que estávamos observando os processos de escolarização, pudemos presenciar a entrada de alunos “atrasados”, diferentemente de alguns poucos eventos presenciados na penitenciária 1, em que alunos chegavam atrasados às aulas. Num desses momentos, dois alunos chegaram para as aulas quando faltava apenas dez minutos para o final das mesmas. Alegaram, ao funcionário de plantão, que estavam num culto evangélico: “é compromisso com Deus, o Senhor sabe”. A permissão para ingressar na escola veio com um “eu sei, meu filho”, respondido pelo funcionário. Seis minutos após a chegada desses alunos, ou, ouvido. Nessa tarde, o mesmo sinal, soou às 14 horas e oito minutos indicando o início das aulas. Foram transcorridos uma hora e dezoito minutos de aula.

  Na penitenciária 2, apesar da tentativa maior de controle dos prisioneiros- alunos, foi possível observar algumas brechas nesse dispositivo. Justamente numa sexta- feira, dia em que parece, todos, prisioneiros e funcionários, estão mais cansados da longa jornada semanal e aguardam o final de semana que se aproxima. Nesse dia, último de nossa visita, deveriam estar freqüentes às aulas 108 alunos, não passavam dos 50 os que vimos nas salas. Exatamente às 13 horas e sete minutos chegam as professoras que lecionarão naquele período e são, imediatamente, conduzidas à biblioteca onde são trancadas. Às 13h10, um dos funcionários dos “pavilhões de cima” grita aos colegas que “podem mandar os presos para a escola”. Seis minutos depois, chegaram os primeiro alunos, em grupos de 10, e em silêncio absoluto, à escola. Às 13 horas e 22 minutos os

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  monitores se dirigiam à escola . Às 14 horas e trinta minutos, ou uma hora e oito minutos do início efetivo das aulas, um primeiro aluno deixa o prédio escolar em direção à gaiola, onde é aguardado por dois funcionários que, imediatamente, realizam uma inspeção física buscando possíveis objetos proibidos de posse do mesmo. Às 14h42 uma campainha toca e os alunos se alvoroçam, de forma comedida e desconfiada, no interior das celas de aula. Parecem ansiosos para deixar a escola. As monitoras são “soltas” antes dos alunos e se dirigem à gaiola onde um funcionário já as espera para escoltá-las à frente da instituição, repetindo o ritual anterior. Às 14h50 os últimos alunos são liberados pelos funcionários.

  Nesse mesmo dia, observamos que uma das celas de aula mantinha a sua porta aberta. Não havia aulas nessa “cela” em decorrência da ausência da monitora que havia sido convocada para um evento na região. Os seus alunos foram liberados quando já se dirigiam à escola, ainda na galeria. Ou seja, até ali, não sabiam que não teriam aula naquele dia. É o tempo imediatizado, outra característica muito presente nas prisões. É o mesmo procedimento de que se utilizam os funcionários quando da realização de uma

  

alunos cheguem à escola e também sejam trancados em suas celas de aula, rotina que estabelece um

verdadeiro e curioso ritual. Como eles, também permaneci trancado algumas vezes, observando os alunos

  39

  blitz , por exemplo. Os prisioneiros só sabem do que vai acontecer, no momento mesmo em que acontece algum evento.

  Os procedimentos ritualísticos (Velho, 1975, 1999 e Velho e Kuschnir, 2003) continuam na seqüência do dia:

  Às 14h57 avistamos outra professora conduzindo-se, escoltada, à escola. O caderno e os livros esquecidos pendurados nas grades da gaiola continuam aonde os vimos antes. Às 15h01, o funcionário acima de nossas cabeças, anda impacientemente de um lado ao outro da gaiola. Outro funcionário gesticula a nós. Quer saber se está tudo bem. Acenamos afirmativamente. Muitos desses funcionários balançam chaves. Muitas e pesadas chaves! Às 15h03, o “gaioleiro” como é conhecido ali, chama os alunos dos pavilhões inferiores – com exceção dos alunos da sala 2 que não terão aulas. Às 15h07, impaciente com o atraso dos alunos, o gaioleiro desce até onde estamos. Às 15h10 chegam os primeiros alunos. O gaioleiro brinca com um dos alunos, chamando outros pelos seus nomes. Alguns são tratados por apelidos e a outros apenas cumprimenta, acenando com a cabeça. Chama outro de São Paulino, referindo-se à derrota do São Paulo Futebol Clube para um time da Argentina na noite anterior. Às 15h13 passa por nós o que nos parece o último aluno da tarde.

  As carteiras escolares retiradas por ordem do diretor de segurança e disciplina continuam no local em que foram abandonadas ao relento. Nas salas de aula, enquanto os professores não entram, há descontração. O diretor de educação, visivelmente contrariado, vem nos dizer que os dois funcionários que lhe ajudam no setor já se retiraram da penitenciária: um deles teria saído para cumprir horário bancário – é dia de pagamento e os funcionários têm direito de sair mais cedo, revezando-se entre eles; e a outra teria uma solenidade para comparecer na escola onde seu filho estuda.

  Às 15h19, os professores são trancados em suas salas. Temos agora 25 alunos na sala 3; 10 alunos na sala 4 e 24 alunos na sala 1, da professora A. Às 15h23 é hora do lanche na biblioteca. No cardápio, pão fresco feito na padaria da penitenciária, além de manteiga e mortadela trazidas pela professora A., além de café puro, também feito na instituição. Às 15h39, alguns professores saem de suas salas de aula para apanhar materiais escolares para os alunos que faltaram no dia em que foram “pagos” - caderno brochura, lápis, caneta e borracha. Nessas salas, enquanto o professor se ausenta, os alunos permanecem copiando textos ou frases escritas no quadro negro ou resolvendo alguns exercícios. Às 15h43, os prisioneiros que trabalham na biblioteca discutem sobre quem teria “vendido” mais cartões este mês, bem como nos meses anteriores. Às 15h48, no quadro negro da sala 1, a mesma matéria de horários anteriores, ainda não apagada. (...) Nas salas de aula, vemos uma maioria de alunos de cor negra ou parda, em 39 comparação aos de cor branca. Às 15h58, dois alunos são liberados da sala 1 para

“Blitz” é o nome que se convencionou chamar as revistas cela a cela em busca de materiais proibidos

  

retornarem aos seus pavilhões. Um pouco depois vemos outro aluno se dirigindo à

saída do prédio escolar.

Na biblioteca é hora da faxina, realizada de forma silenciosa. Outros alunos vão

embora para seus pavilhões de destino. Esses alunos tiveram, aproximadamente, 39

minutos de aula, contados do momento em que o professor ingressou em sala de

aula (15h19) até este momento. O salão que irá receber as visitas dos prisioneiros

está sendo preparado. Foi lavado e sinto um aroma que lembra a desinfetante.

Agora, as mesas e as cadeiras já estão organizadas: duas cadeiras, uma em frente da

outra, tendo entre elas, uma pequena mesa. Estão todas dispostas em fileiras,

aguardando os momentos onde a saudade será atenuada e a esperança aumentada.

Parece-nos, àquela hora do dia, que todos já se preparam para o final de semana. O

sábado é reservado para faxinas dos prisioneiros em suas celas, além de descanso e

do famoso futebol entre os colegas de cárcere. Domingo é dia de renovar a

esperança e relembrar momentos de felicidades junto aos seus entes queridos.

  

Observamos somente agora que a janela da gaiola com vista ao prédio escolar está

semi-oculta por pedaços de papelão e sacos de estopa. Na galeria, um galão recolhe

a água que escorre de uma goteira no teto. O movimento de funcionários àquele

momento já é bem menor e menos intenso. Portões ainda são batidos e soam

retumbantes. Às 16h14, um aluno, também dispensado, chama pelo funcionário de

vigilância na gaiola, desatento que estava, pois conversava com outro colega e não

percebeu a presença do prisioneiro. Outro aluno na seqüência deixa o prédio escolar

e então, os dois funcionários estão atentos.

  

Às 16h21 conhecemos um prisioneiro que, informado de nossas atividades

profissionais em outro presídio, nos conta que tem família residindo no município

em que trabalhamos. Confessa que faz mais de dois anos que não vê a esposa e uma

filha que estava por nascer quando fora feito prisioneiro. Reclama que gostaria de

ser transferido para aquela penitenciária, aproximando-se mais dos seus familiares,

porém, sem sucesso até o momento. O funcionário ao nosso lado faz palavras

cruzadas.

A biblioteca é desocupada às 16h24. Os prisioneiros que ali trabalham, sabendo que

estamos indo embora no dia seguinte, desejam-nos boa sorte e sucesso em nosso

trabalho. É impossível não ser solidário com suas falas e também desejar boa sorte e

sucesso em suas vidas. Outro deles pede que Deus ilumine o nosso caminho.

Desejamos o mesmo a ele que continua: “quem sabe a gente não se tromba por aí”,

concluindo, enquanto carrega os trabalhos que realizava na biblioteca, até a galeria

onde é revistado, seguindo então para seu pavilhão. A biblioteca da penitenciária

tem um acervo de, aproximadamente, 3.000 livros, segundo nos contaram.

Entretanto, foram raros os momentos em que vimos a retirada de um único volume

daquele recinto.

  

Às 16h34 soa a campainha que alerta para o final das aulas do período e da semana.

Novo alvoroço nas salas de aula. Os primeiros a sair são as professoras, seguidas

pelos monitores presos que vão, imediatamente, para a gaiola onde são revistados,

seguindo depois para os seus pavilhões. Apenas dois funcionários estão na gaiola. O

mesmo caderno e o livro esquecido nas grades da gaiola ainda ali se encontram. Às

16h37 seguem as professoras para a administração. A um sinal do funcionário da

gaiola, os prisioneiros vão sendo liberados e, perfilados, são revistados. Partem, funcionário do andar superior da gaiola, dizendo que a comida dos prisioneiros está esfriando (são 16h40!). Continua dizendo que “hoje é dia de bife acebolado, hein? Bife acebolado e batatas fritas”. Novamente faz chacota com o São Paulino. Após ser revistado, um dos prisioneiros deseja bom descanso ao funcionário que o revistou, que acena positivamente. Às 16h42, o portão da escola, agora vazia, é trancado e as chaves sobem por um barbante até o funcionário do andar de cima da gaiola. No final de semana, apenas na eventualidade de um culto religioso por parte de alguma das várias igrejas que freqüentam a instituição, as salas de aula da escola serão novamente utilizadas. Final do expediente do dia. Nos pavilhões que cruzamos, vemos grande agitação. A janta dos prisioneiros sobe, acondicionada em grandes panelas em cima de um carrinho, aos pavilhões. Nos dá uma enorme vontade de descobrir se é mesmo bife acebolado com batatas fritas o que contém aqueles carrinhos. (Transcrição literal de trechos de anotações do caderno de campo, maio de 2004).

  Em sala de aula, o tempo escolar é vivido de forma bastante particular em cada uma das unidades prisionais que observamos. Como nas escolas que estamos acostumados a ver, ocorre de os alunos se interessarem pelo que está ocorrendo ou não. Assistimos a atitudes bastante interessantes por parte dos alunos que vimos. Na penitenciária 1, por exemplo, não era incomum, apesar de uma certa “flexibilidade” com relação às normas, de encontramos alunos olhando o vazio através das grades das janelas da sala de aula. Não nos permitíamos pensar outra coisa se não que esses alunos estavam, justamente, pensando na tão sonhada liberdade, pois olhavam longe, por sobre as muralhas da instituição. Já outros, preferiam continuar a conversa que travavam no corredor com os colegas. Juntavam-se em grupos e, enquanto o monitor, transcrevia em quadro negro uma matéria qualquer, colocavam os assuntos em dia. Outros ainda, preferiam cantarolar uma música qualquer ou aproveitavam para fumar – nessa escola é permitido fumar em sala de aula, diferentemente da penitenciária 2, onde os alunos deixavam para fumar nos sanitários existentes no interior das “celas” de aula.

  Na penitenciária 2, os movimentos dos alunos eram mais “nervosos”. Submetidos a uma vigilância de movimentos e de posturas bastante rígida (conforme figuras n°s 17 e 18), continham-se em seus lugares ou expressavam-se com os colegas de forma comedida. Muitos aproveitavam para fumar nos sanitários. Outros cantarolavam músicas agressivas. A maioria permanecia atenta, muito mais nos funcionários que os vigiavam do que, propriamente, na matéria sendo lecionada pelos

  

Figura nº 17 – Funcionário vigia alunos no interior das “celas” de aula –

penitenciária 2.

  

Figura n.º 18 – Funcionário vigia alunos no interior das “celas” de aula – A alusão

  Constitui uma regularidade em ambas as instituições o fato de que o tempo dos alunos parece ser diferente do tempo dos monitores. Todas as ações executadas pelos alunos pareciam passar alheias à observação do monitor, que persistia, apesar de manifestações que indicavam um certo desinteresse por parte dos alunos, a expor a matéria do dia. Particular também às duas instituições é a interrupção das aulas quando alguma “autoridade” da instituição ou de fora dela visita o prédio. Na penitenciária 2 vimos, inúmeras vezes, alunos interrompendo o que faziam a fim de buscar informações sobre a sua vida processual junto ao diretor de educação, que nos acompanhou algumas

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  vezes. Por entre as grades das “celas” de aula ou, através do visor lateral das “celas”, na penitenciária 2 (conforme figura n.º 19) , questionavam o funcionário em questão acerca de assuntos que eram de maior interesse naquele momento.

Figura n.º 19 – Visor lateral de sala de aula da penitenciária 2, constituído de tela de arame

  

eram totalmente de vidro (conforme figura n. º 20), ao passo que, na penitenciária 2 eram constituídos de

  

Figura n. º 20 – Visor lateral das salas de aula na penitenciária 1, medindo um

metro e quinze centímetros de cumprimento por 45 centímetros de altura.

  Também presenciamos muitos alunos interessados no que acontecia em sala ou “cela” de aula. Interações entre alunos e monitores com relação à matéria lecionada existiam tanto quanto em salas de aula que estamos acostumados a observar. Tempo para o ditado ou para o exercício em quadro negro. Tempo dispensado ao comentário do monitor à matéria do dia ou mesmo do aluno em relação à dúvidas com relação à mesma. Dúvidas que nem sempre são consideradas bem vindas. Acostumados à críticas constantes e normas rígidas, além de um calendário escolar apertado, alguns alunos manifestavam o entendimento de que a interrupção à aula para solucionar dúvidas sobre a matéria lecionada seria um desperdício:

  (...) A escola e a educação, é o coração da unidade, né? É o coração. E ela, ela, seria muito bom se conseguisse aí abrir esse espaço pra voltar, no caso, não voltar, ne? Iniciar as aulas à noite, né? E abrir esse espaço aí, né? Ampliar, no caso esse horário, aí, né senhor Arlindo. O senhor há de convir que uma hora e meia, uma hora e meia não dá pro camarada assimilar, muitas das vezes, o que acontece? Eu mesmo, eu já brequei a aula do A. lá no meio lá, e eu já, no bom sentido assim, tomei, vinte minutos dele, só perguntando. Eu sou aqueles caras meio chato. Tou no meio da aula lá e, e, e se eu não entendi, ó, eu quero entender ali, não, rapaz, explica faz, o camarada: “também tenho dúvidas, também”, já entra no assunto, aí, forma toda aquela, né? Aquele contexto ali, começa, nós começamos a aprender do profundo ali, né? E naquilo ali, eu, já atrasamos a aula do professor ali em vinte minutos, meia hora, é gostoso, a gente aprende, e a gente aperfeiçoa, más, se o tempo fosse maior, seria melhor, seria melhor (Transcrição literal de relato de um aluno, setembro, 2004).

  Seja como for, o tempo escolar no interior da sala ou da “cela” de aula é determinado por condições e circunstâncias, muitas vezes, alheias aos interesses daqueles que lá se encontram. Na primeira visita que realizamos à penitenciária 2, presenciamos um outro fato bastante curioso e, ao mesmo tempo, muito constrangedor:

  Enquanto o professor de uma dessas “celas” de aula está de costas para o vigia de plantão, assistindo junto aos alunos aula de Telecurso, esse vigia solicita, de forma bastante ríspida, que um dos alunos que está posicionado ao fundo da sala se retire. Ouvimos dizer pelo funcionário de plantão que esse aluno já estaria sendo “marcado” pelo comportamento displicente em “cela” de aula. O aluno sai obediente e a ele é solicitado o número de sua matrícula. Ao dize-lo, é “convidado” a abandonar o recinto escolar. Enquanto toda esta cena acontece, não assistimos a qualquer reação do monitor, que permanece em sua postura completamente alheia a esta e a outras movimentações em “cela” de aula. Cabe salientar que a acústica dessa sala (onde já se localizou, antigamente, o cinema da penitenciária) é muito ruim. Praticamente não se ouve o que se passa na televisão, deixando os alunos em estado de excitação ou de pleno desinteresse pela aula. Pode ser que esse desinteresse tenha motivado a atitude “confrontadora” do aluno às normas de conduta da penitenciária. (Trecho, com algumas alterações, de relato de observações de campo, agosto, 2003).

  Em outra ocasião, um funcionário que vigiava uma das “celas” de aula, também achou por bem, retirar um aluno da mesma por acreditar que esse estaria tendo uma postura displicente em relação à monitora presente:

  (...) O senhor que faz a vigilância de duas das “celas” de aula nos comunica que teve que levar um aluno para o “pote” – espécie de cela forte, para onde são conduzidos os sentenciados que cometem sanções disciplinares. O motivo para tal atitude teria sido um “certo desacato” sofrido pelo funcionário. Parece que a professora da sala nº dois teria dito aos alunos, após certa “bagunça” em sala de aula que, quem não estivesse motivado a assistir aula, poderia ficar à parte. Este aluno teria então pedido ao funcionário que o liberasse para o trabalho e daí o

  Não há a ocorrência de períodos vagos ou de “recreios”. Aos alunos, em ambas as instituições não é permitido a permanência no prédio escolar após o soar da campainha que indica o final do período de aula. Os alunos da penitenciária 1 têm permissão de retirar-se da sala de aula para ir ao sanitário existente no corredor da escola, sendo que muitos deles aproveitam esse tempo para conversar com os “faxinas” ou mesmo dirigir-se à sala de atendimento ou à biblioteca. Outros se encontram com colegas no próprio corredor. Apesar de uma certa flexibilidade dessa prática, muitas vezes presenciamos os dois funcionários de plantão nessa escola, “convidarem” os alunos a retornar à suas salas de aula, sempre de forma respeitosa.

  Outra particularidade observada às duas instituições prisionais foi uma certa ansiedade por parte dos alunos para o fim das aulas. Tanto na penitenciária 1 quanto na penitenciária 2, tão logo o sinal sonoro que anunciava o final do período de aula era ouvido, foi comum observar um certo movimento alvoroçado por parte dos alunos que, fechando seus cadernos e livros e apanhando o restante de seu material escolar, já se levantavam de suas carteiras e se preparavam para se retirar das salas de aula. Duas diferenças básicas marcam os procedimentos de saída observados nas duas instituições: o primeiro diz respeito ao fato de que, na penitenciária 1, tão logo saíam de sala de aula os monitores, os alunos saíam na seqüência, enquanto na 2, os alunos ainda aguardavam trancados a liberação para a “frente” do presídio, dos monitores, daí eram destrancados pelos vigias do setor escolar. A segunda diferença, para nós não menos importante, é o fato de que, a saída para os pavilhões pelos alunos da penitenciária 1 parecia ser mais “festiva”, pois foi possível vê-los saindo abraçados e conversando animadamente, ao passo que os alunos da penitenciária 2, saíam em silêncio e em fila (conforme figura n. º 21).

  

Figura n. º 21 – Alunos saem de suas salas de aula da penitenciária 2 em direção

aos seus respectivos pavilhões de moradia. No detalhe, a faixa escura no canto direito da parede.

  (...) As escolas constituem uma territorialidade espacial e cultural onde se exprime o jogo dos atores educativos internos e externos; por isso, a sua análise só tem verdadeiro sentido se conseguir mobilizar todas as dimensões pessoais, simbólicas e políticas da vida escolar, não reduzindo o pensamento e a ação educativa à perspectivas técnicas, de gestão ou de eficácia stricto senso (Nóvoa, 1995, p. 16).

  Como já dissemos anteriormente, os processos educacionais levados à cabo no interior das instituições prisionais são gerenciados pela FUNAP – Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”, organicamente vinculada ao próprio Secretário de objetivos a FUNAP conta com um corpo de funcionários que inclui aqueles ligados às questões administrativas, aqueles ligados à gerência dos programas de educação, supervisores e orientadores pedagógicos e ainda, o próprio corpo de auxiliares nas instituições prisionais, os monitores. Também já dissemos que a FUNAP mantém em seu quadro de pessoal docente, monitores contratados, estagiários, monitores oriundos de parcerias com prefeituras municipais de educação ou da própria rede pública estadual de educação e ainda, monitores selecionados e credenciados junto à própria população reclusa.

  Um certo distanciamento entre as políticas que a FUNAP propaga e as políticas que, efetivamente consegue implementar foi tema de algumas das entrevistas que realizamos com os sujeitos que vivem o cotidiano da educação nas prisões. Ouvimos queixas variadas com relação a esse aspecto, entretanto, o fato de que elas vieram de pessoas bastante próximas à própria Fundação nos leva a crer que devem ser relevantes:

  O relacionamento nosso com a FUNAP, eu acho que ainda deixa a deseja. Não com relação à nós aqui com a FUNAP. Eu acho que a FUNAP deveria participar mais... por exemplo: O gerente da FUNAP, deve estar há uns três meses, eu ainda não conheço esse novo gerente. Eu acho que cabe a eles vir se apresentar e visitar à escola (Transcrição de relato de um diretor de educação, 2004).

  Quando reuníamos o material coletado visando a sua sistematização para utilização neste trabalho, e líamos o conteúdo do relato desse funcionário, lembramos que dias após a nossa segunda visita de campo à penitenciária onde o mesmo trabalha, ocorreu uma solenidade de entrega de certificados de conclusão de ensino fundamental e médio à alguns alunos. Ocorre que, na semana anterior ao evento, quando visitávamos a unidade prisional, ouvimos comentários que apontavam para um certo desentendimento por parte da direção de educação da instituição e da própria FUNAP com relação a como deveria ser encaminhada a solenidade de formatura dos alunos. No dia marcado para a referida solenidade, momento em que eram aguardadas algumas “autoridades” da unidade prisional e da Fundação, aconteceu de essa solenidade acontecer apenas com a presença de representantes da FUNAP, entre eles, o gerente de educação nem o diretor geral da unidade prisional compareceram a fim de prestigiar o evento. Aproximadamente no meio da solenidade fez-se presente o diretor de reabilitação da unidade prisional.

  Para a orientadora pedagógica que entrevistamos esse procedimento tem a ver com um certo “jogo de forças” que medem os diretores da instituição prisional e a FUNAP:

  (...) A FUNAP pode dar uma série de regras para o seu professor, que não serão aplicadas aqui dentro se a direção da casa não permitir. (...) Na verdade, ainda que a FUNAP ache que não, a direção suprema, a FUNAP é submissa as regras da casa e o trabalho da FUNAP será conduzido de acordo com as regras dessa casa e de acordo com o jogo de cintura, com o jeito e com todo esse jogo político que esse funcionário da FUNAP tiver com a casa, se ele conseguir (Transcrição de relato de orientadora pedagógica, setembro, 2004).

  Embora reconheça essa distância entre as políticas pensadas para a educação em presídios e as ações efetivamente conduzidas nas instituições, uma da monitoras entrevistadas na penitenciária 2, diz verificar uma tamanha limitação da FUNAP em relação à possibilidade de concretização dessas políticas:

  Eu vejo assim, Arlindo. O sistema penitenciário, ele cresceu, deu uma inchada. Tanto que você pega os números de matrículas aí e a FUNAP não acompanhou o crescimento, não acompanhou assim, a FUNAP não teve pernas, e quando eu digo pernas, eu digo não teve o número de pessoas suficientes para acompanhar os números de unidades prisionais que hoje a FUNAP atende. Então, assim: você atende? Atende. Atende com que? Com material dentro do que é possível ser atendido, más em termos de informação, é muito complicado, porque, de repente, eu estou aqui, em (penitenciária 2), a FUNAP está lá, a 700 quilômetros de mim. Atualmente tem-se regional em ******, más mesmo assim, são lá 22 unidades prisionais para três pessoas atenderem. Então, como formar? Não dá para formar, porque o....., por exemplo, meu supervisor, ele veio aqui, a última reunião de formação foi em setembro, então, de setembro até maio, quantos meses se passou? (Transcrição de relato de entrevista de monitora, penitenciária 2, maio de 2004).

  A inter-relação entre a FUNAP e suas diretrizes para a educação nos presídios se dá por intermédio do diretor do núcleo de educação, subordinado pelo próprio governador do Estado. Essas atribuições, atualmente, constam do artigo 28

  • – “Os Núcleos e as Equipes de Educação têm as seguintes atribuições”, do decreto n.º 43.277, de 3 de julho de 1998, que “reorganiza os estabelecimentos penais da Secretaria da Administração Penitenciária e dá providências correlatas”. Um novo Decreto recém publicado, altera esse formato anterior, colocando juntos a educação e o trabalho penitenciário. Apesar de dizer respeito a organização de duas novas penitenciárias, recém inauguradas, imaginamos que esta será a diretriz futura para as prisões (conforme Seção III, – “Dos Centros de Trabalho e Educação”, Capítulo V, Decreto n.º 48.905, de 30 de Agosto de 2004).

  Em ambas as penitenciárias estudadas, os diretores de educação começaram a sua carreira nas prisões como Guardas de Presídio, denominação anterior do Agente de Segurança Penitenciária. Na penitenciária 1, o diretor de educação é Bacharel em Direito, exerce funções em presídio há 20 anos e está no cargo de diretor há, aproximadamente, dois anos. Já na penitenciária 2, o diretor de educação é Licenciado em Educação Física, está no cargo de diretor já há quatro anos, porém trabalha em setores ligados à educação desde o ano de 1981. Perguntados sobre se sabiam das propostas metodológicas da FUNAP para os presídios, reconheceram saber o mínimo. Suas funções eram mais voltadas à efetivação das políticas no interior das instituições prisionais. Questões metodológicas ou pedagógicas ficariam mais voltadas aos monitores, orientadores e supervisores pedagógicos.

  Na penitenciária 1, em suas cinco salas de aula e nos três períodos letivos, tínhamos, em setembro de 2004, 215 alunos freqüentando salas de alfabetização, ou ALFA I e II, sendo 83 alunos em ALFA I e 132 em ALFA II, 160 estudavam o Supletivo do ensino fundamental e 96 alunos cursam aulas de ensino médio, totalizando 471 alunos matriculados. Nessa penitenciária estudavam ainda, 45 alunos em curso profissionalizante de injeção eletrônica em veículos automotores. Já dissemos anteriormente que foi nessa última classe onde constatamos a maior freqüência de alunos. O número de alunos matriculados por classe variava de 18 alunos (ALFA II, das oito horas e trinta minutos às dez horas) à três turmas com mais de quarenta alunos matriculados: 49 no ensino médio das 14 horas às 15 horas e trinta minutos, 47 alunos também no ensino médio, das 16 horas às 17 horas e trinta minutos e 45 alunos no curso

  Na penitenciária 2, em suas quatro salas de aula e nos quatro períodos letivos, ao menos nos momentos em que lá estivemos observando os processos educativos, os 375 alunos matriculados recebiam apenas, a instrução do ensino fundamental, assim divididos: quatro turmas recebiam aulas de ALFA 1 (1ª e 2ª séries do ensino fundamental); três turmas estavam matriculadas no ALFA II (3ª e 4ª séries); 3 turmas faziam o Telecurso 1 (5ª à 8ª séries do ensino fundamental), que compreendia as matérias de Português e História; duas turmas tinham o Telecurso 2, com as matérias de Geografia e Ciências e finalmente, duas turmas freqüentavam o Telecurso 3, com as matérias de Matemática, Inglês e Artes. O número de alunos matriculados em sala de aula variava de 39 alunos (a de maior número de matrículas – ALFA II, das 15 horas às 16 horas e quarenta minutos), à 18 alunos (a de menor número de matrículas – ALFA I, das 13 horas às 14 horas e cinqüenta minutos). Já dissemos que as salas de aula eram amplas e, portanto comportavam, com certo conforto, o número de alunos matriculados. Entretanto, em que pese o número relativamente alto de alunos matriculados em sala de aula, raramente presenciamos a presença de mais de 30 alunos nas mesmas. Em entrevista, o diretor de educação nos disse que se tentava uma parceria com o SENAI – Serviço Nacional da Indústria, para a promoção de cursos profissionalizantes.

  A inscrição de alunos para a escola é similar a ambas as instituições:

  Quando o preso chega na unidade, ele fica, aproximadamente, 30 dias na cela habitacional. A gente chama de regime de observação ou período de observação, aonde, no período da manhã ele fica dentro da cela, ele não sai. Aonde ele vai observar se naquele raio habitacional que ele mora ali, aqueles sentenciados que habitam por ali não venham trazer nenhum problema à ele e, durante esse período desses 30 dias, ele vai passar pelo setor de inclusão, ele vai passar pela equipe de saúde, vai fazer uma avaliação pela equipe de inclusão da casa onde a gente vai fazer a sua inclusão aqui, a sua chegada. Vai receber todo o seu material, e pela equipe da educação, onde ele vai fazer essa prova de triagem, uma prova de avaliação, pra que? Saber onde que ele faz por necessidade continuar o estudo. Às vezes, na rua, ele já vem com algum certo nível de conhecimento. Nós vamos fazer essa prova de medição, de acordo com o resultado que ele tira, assim que ele for liberado desse período de prova de 30 dias, né, ele vai ser colocado naquela classe na qual ele teve resultado para estudar, é isso. Ele é chamado em sala de aula, já é uma prova, já é elaborada pela FUNAP. Nós utilizamos os professores da FUNAP, que faz esse trabalho de medição. Já há muito tempo ele vem com esse projeto aí, e nessa medição aonde que sai a classificação escolar dele. No dia seguinte dessa classificação, ele já inicia o trabalho de freqüência às aulas (Transcrição literal de trecho de entrevista com diretor de educação da penitenciária 2, maio, 2004).

  Cartazes alusivos à vida escolar são encontrados em ambas as escolas. No quadro mural da penitenciária 1 (um porta-avisos medindo 1 metro de largura por 80 centímetros de altura) estão: um aviso informando sobre como receber o certificado de conclusão das provas do CESU – Centro de Exames Supletivos, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo; um panfleto com a história do lápis, contada por um sábio alienígena – JEE; cópia do Jornal interno da penitenciária, denominado “CulturAção”, com poesias, frases de efeito, letras de músicas cifradas, curiosidades, caça-palavras e informações gerais aos prisioneiros; reportagem da revista “VEJA” tratando da questão de raça (identidade); dois pequenos trechos de reportagens com opiniões de especialistas sobre o fim da obrigatoriedade dos exames criminológicos para fins de benefícios e dois cartazes com animais em extinção e os dizeres: “só uma coisa pode salvar a vida destes dois sujeitos: a educação”. Ao lado do quadro-mural, uma folha ilustrada com uma cabeça de dinossauro enterrada e um homem sentado no que foi um dia o seu nariz, que está soterrado e os dizeres: “Quem não lê não sabe o que está perdendo”; um comunicado do setor “Rol de Visitas” com informações das normas e regras para a visita de sentenciados e cartazes alusivos à Olimpíadas de Atenas, feitos pelos próprios alunos – parece que a FUNAP patrocinou um concurso de cartazes sobre esse tema e aquele escolhido como melhor proporcionou a quem o fez um prêmio, um walkman.

  Diferentemente da penitenciária anterior, os avisos que pudemos visualizar na penitenciária 2, diziam respeito mais às normas e às sanções no caso de desrespeito às mesmas. Nas paredes do corredor escolar da penitenciária 2, vários comunicados e

  41

  listas de alunos (contendo apenas a matrícula dos mesmos ) estão afixadas – um deles, proíbe o uso de cigarros em sala de aula e promete “punir os faltosos com o rigor da lei, ou das normas internas”. Diz ainda que, “aquele que desejar fumar no momento de aula, deve dirigir-se ao banheiro existente”. A julgar pelo que vimos, o pedido de autorização ao professor é dispensado, bastando levantar e dirigir-se ao banheiro. Um outro cartaz buscava disciplinar a saída de sentenciados da sala de aula – “apenas com autorização 41 expressa e por escrito de porte de algum funcionário”.

  

Várias listas de alunos que tivemos acesso nessa penitenciária continham apenas o número de sua

  Bem próximo às salas do fundo do corredor escolar dessa penitenciária, vimos um aparelho telefônico grudado à parede. O volume sonoro de sua campainha estava bem alto. Apesar disso, nas vezes em que o ouvimos tocar, nos pareceu que ninguém que se encontrasse no corredor escolar ou mesmo nas salas de aula dispensava muita atenção àquele aparelho telefônico. Na penitenciária 1, o telefone do setor permanece em mesa distante das salas de aula, junto ao funcionário de vigia ao posto (conforme figura n.º . 22) e ao lado do livro de ocorrências – um livro que serve de anotações das ocorrências (caso haja alguma) no prédio escolar.

  A formação básica exigida pela FUNAP para os monitores presos é de ensino médio. Assim, dos três monitores presos que entrevistamos (dois na penitenciária 1 e um na penitenciária 2), apenas um deles cursava ensino superior quando foi preso e já tinha alguma experiência com a função docente. Um dos monitores docentes havia concluído o ensino médio no interior da prisão. A exigência da FUNAP para o corpo técnico contratado já é maior. Tanto a orientadora pedagógica entrevistada na penitenciária 1, quanto a monitora entrevistada na penitenciária 2, tinham formação superior em Letras. Ambas tinham nessa época uma longa trajetória de educação no interior das prisões.

  

Figura n. º 22 – Mesa do funcionário de vigia à escola na penitenciária 1. No

detalhe, aparelho telefônico e livro de ocorrências.

  (...) compreender esa doble naturaleza de la escuela como institución social condicionada y condicionante de la realidad social externa a ella, como uma institución relativamente autônoma que genera una cultura específica, unas práticas determinadas de transmisión y mediación cultural adoptadas posteriormente por otras instituciones o actores sociales y aceptadas como los únicos o las más adecuados modos de enseñanza y aprendizaje, de evaluación y acreditación (Viñao Frago, 2000, p. 109).

  As práticas escolares no interior das instituições prisionais não diferem daquelas práticas que costumamos observar nas escolas do mundo “livre”. Naquelas exercícios individuais e em grupos, leituras individuais, lições de casa, redações, tabuadas, avaliações, entre outros. Os monitores preparam suas aulas, conseguem cópias de textos para distribuir a seus alunos, orientam de maneira mais próxima aqueles que têm mais dificuldade, corrigem lições, ditados e exercícios, trazem material auxiliar às aulas, complementam suas informações e as repassam aos alunos. Da parte dos alunos, freqüentam as aulas e se esforçam em compreender o que o monitor está transmitindo. O material escolar que portam varia de aluno para aluno. Alguns trazem consigo, lápis, caneta, caderno e borracha. Outros trazem livros didáticos. Uns poucos estão de mãos vazias.

  Dez alunos assistem à aula sobre hiatos, ditongos e tritongos na sala três. Nessa sala, o monitor solicita a cada um dos alunos para se dirigir até o quadro negro para que respondam às perguntas apresentadas. Observamos que um dos alunos presentes na sala de aula nem caderno possui, porém, presta bastante atenção à aula. Na sala quatro, cinco alunos assistem à aula de Português. No quadro negro, o título da redação: “O circo chegou”. Dezoito alunos assistem à aula na sala cinco, que versa sobre história geral: “Os E.U.A. e a Guerra Fria – Revolução Francesa e Revolução Industrial”. O Subtítulo é “Os E.U.A. e a Guerra de Secessão”. (...). Na sala dois, o monitor copia no quadro negro um grande texto cujo título é “A fome tem nome”. Versa sobre uma família residente em favela que passa por necessidades financeiras e luta pela sobrevivência (Transcrição de trecho do relato de observação de campo, penitenciária 1, setembro, 2004).

  Enquanto líamos o texto acima, que acabava de ser transcrito para o quadro negro pelo monitor, imediatamente associávamos aquela história com as histórias de vida dos sujeitos que o copiavam para os seus cadernos. Embora muito triste, o texto era extremamente realista. Tratava-se da vida de uma família de desempregados que não possuíam o mínimo recurso financeiro para poder alimentar-se e aos seus filhos pequenos. Apenas no período subseqüente de aula, conseguimos identificar a fonte do texto que era, na verdade, um artigo de um articulista do Jornal “A Folha de S.Paulo”, Ricardo Kotsho, publicado em 28 de maio de 1994, à página 13, segundo o próprio monitor que, desta vez, credita o artigo.

  Num outro momento, em outra sala de aula, dois alunos tentavam resolver, no quadro negro, uma subtração: 4615 – 3627 + ? Apenas três alunos parecem prestar atenção ao movimento em sala de aula. Os demais conversam entre si, extenso. O monitor escreve com letra bem pequena, de forma que para os alunos mais afastados do quadro negro fica praticamente impossível visualizar o que está escrito. O texto fala de vírus e bactérias e os alunos “ficam sabendo” sobre caxumba, catapora, poliomielite e raiva.

  Nessa mesma penitenciária, em aula de alfabetização, o monitor circula de carteira em carteira e auxilia o aluno com dificuldade, segurando, junto com o mesmo, o lápis ou a caneta. No quadro negro a “família” F: fa, fé, fi, fo, fu, Fa, Fé, Fi, Fo, Fu, F- A-C-A. Àqueles que correspondem, elogia e incentiva com um ligeiro tapa nas costas. Paciência parece ser um de seus dons, pois insiste com cada um até que atinjam um grau satisfatório de escrita.

  Enquanto os monitores parecem se esforçar em repassar o conteúdo pedagógico do dia, muitos alunos parecem despreocupados com o que se passa:

  Na sala um, estão presentes quatro alunos, além do monitor. A aula é de Estudos Sociais: “A História”; na sala dois, oito alunos, além do monitor que leciona Matemática: 5x + 1: 3 = 2x – 3 : 2. Dois alunos fumam na sala de aula. No canto do quadro negro a data do dia está escrita em letras minúsculas. O cigarro é compartilhado entre os colegas de sala. Na sala 3, encontramos 10 alunos e o monitor que também leciona Matemática: problemas de cálculo em R$ (reais). Dois alunos estão em pé. Um deles, cujo pensamento parece bem longe, olha pela janela. Na sala quatro, oito alunos estão presentes. Sete deles estão concentrados na parte da frente, apenas um está ao fundo. O monitor copia os exercícios de Matemática: “Ana vai pendurar 186 bolas na àrvore de natal. Já pendurou 49. Quantas bolas falta pendurar? Nessa sala de aula, todos os alunos copiam a lição. Na sala 5, a matéria de injeção eletrônica (de dois dias antes!) ainda se encontra no quadro negro. Na sala vazia, encontramos vários equipamentos de som que serão utilizados num domingo próximo (Transcrição de relato de observação de campo, penitenciária 1, setembro, 2004).

  Na penitenciária 2, presenciamos, à distância, uma longa reunião com um aluno que teria enviado uma carta contendo declarações de amor à monitora. Essa monitora mostrou-se extremamente amargurada naquele dia. Soubemos depois, tratar-se de aluno reincidente nessa causa, declarando-se anteriormente a outra monitora. Foi devidamente advertido pelo diretor de educação da instituição. Noutra feita, ouvimos queixas de uma outra monitora que estaria sendo repudiada pelos alunos que não municipal de educação e já teria dado demonstrações de que não se sentia à vontade lecionando no interior da prisão. Na época do processo conhecido como atribuição de aulas, aquela sala de aula teria “sobrado” para ela.

  Nessa mesma penitenciária, o enfeite do entorno do quadro negro com tulipas feitas em papel cartão, realizado por uma das monitoras e seus alunos será, nos próximos dias, motivo de chacota por parte de funcionários e outros alunos. Ainda aqui, presenciamos um elevado prestígio de uma monitora, justamente a que nos concedeu a entrevista. Seu prestígio é percebido pelo grau de atenção prestado por seus alunos ao que diz e ao que pede para fazerem, além da presença de um número sempre elevado de alunos em sala de aula - nunca menor que 30!

  As práticas escolares não saem isentas dos “ataques” eventualmente existentes por parte de outros setores, especialmente a vigilância e a disciplina. Na penitenciária 2, na semana em que a visitávamos, inúmeras carteiras foram retiradas das salas de aula e colocadas num corredor externo e aberto ao lado da escola, supostamente por ordem do diretor de segurança e disciplina. A alegação dada para o fato curioso era de que, com a presença diminuta de alunos e com um número de carteiras escolares sobrando, uma possível discussão entre os alunos resultaria na possibilidade de utilização das carteiras escolares como armas para defesa ou ataque. Enquanto lá estivemos, as carteiras continuaram ao relento, empilhadas umas sobre as outras, impedindo inclusive a passagem de qualquer pessoa por aquela que deveria ser a saída de emergência da escola numa eventualidade que implicasse perigo físico.

  Por outro lado, os alunos também se “vingam” das atitudes autoritárias da instituição e dos seus administradores de formas variadas. Na primeira visita que realizamos à penitenciária 1, num quadro negro recém apagado, sobrevivia a palavra

  VIDA, escrita em letras de forma de tamanho grande. Nas carteiras escolares era possível avistar siglas de facções criminosas, de artigos do código penal, além de mensagens de esperança, liberdade e amor.

  A presença dos alunos em sala de aula é conferida pelos monitores e re- conferida pelos funcionários de plantão ao posto na penitenciária 2. Já na penitenciária 1, a chamada dos alunos é realizada juntamente com o funcionário do posto. Tenta-se coibir possíveis abusos, alegam aqueles que organizam a escola no interior das prisões alunos em relação aos monitores, já que todos são oriundos da própria população carcerária.

  Foi no âmbito das práticas educacionais no interior das prisões que encontramos mais semelhanças do que propriamente diferenças, ou seja, mais regularidades do que singularidades distintivas entre ambas as instituições prisionais. Desconhecemos as repercussões sociais dessas práticas. Sabemos que, em relação aos índices de reincidência criminal, elas não interferiam pois, conforme Piolli (1993, p. 87): “Nós não temos esses dados (de reincidência), o que nós sabemos é que o índice de reincidência é muito elevado e independe desse trabalho (a educação) que nós realizamos”. Vemos atualmente um movimento elevado de pessoas que discutem as questões da escolarização no interior dessas organizações complexas que são as prisões. Apesar do relativo aumento do número de alunos inscritos nos programas educacionais nas prisões, nos parece que alcançar uma escolarização significativa ainda está longe de ocorrer.

  A escola em prisões está intrinsecamente ligada às questões maiores de segurança e de disciplina internas. Talvez não possa ser diferente, dada a peculiaridade dessa instituição total que conhecemos como prisão.

  Em que pese diferenças significativas na condução das políticas educacionais no interior do cárcere, basta um evento qualquer que resulte em indisciplina para que as outras questões internas sejam revistas e, entre elas, a própria escolarização dos prisioneiros. Desejamos agora refletir sobre essas particularidades encontradas nas duas instituições similares, assim como sobre a noção de sistema que, embora amplamente difundida e largamente utilizada, nos parece enfraquecer quando observamos uma escola funcionando no interior desses estabelecimentos.

  

CAPÍTULO III

UM CONTRAPONTO ầ NOđấO DE SISTEMA PENITENCIÁRIO?

  (...) Eu acho que tem uma colocação muito grande com a direção do presídio. É assim: cada diretor tem uma maneira de ver o próprio presídio, a própria unidade onde ele está como diretor, e até a maneira como ele vê o homem preso. Então, a maneira como eu penso com relação a isso, a um preso, o que eu acredito que um preso é capaz ou que ele não é capaz, se eu acredito de fato na reabilitação dele ou, no limite, para essa reabilitação, isso vai possibilitar que eu trabalhe de forma com aquilo que eu acredito. Então, por exemplo, na P2 (uma outra penitenciária, próxima àquela que estudamos), o diretor, ele tinha uma visão do homem preso, essa visão que ele possui, isso vai refletir, ao meu ver, reflete no tratamento desse homem preso no setor disciplina, no setor de trabalho e não só no setor de educação (Transcrição de trecho do relato de entrevista de monitora de alunos presos, maio, 2004).

  No momento em que construíamos mentalmente o trajeto de nossa pesquisa, quando já possuíamos uma noção prévia do funcionamento de algumas instituições prisionais e buscávamos ampliar os referenciais teóricos que poderiam auxiliar na elucidação de algumas de nossas indagações iniciais, tínhamos por certo que a noção de sistema prisional, amplamente difundida na sociedade livre e mesmo na “sociedade dos cativos” (Sykes, 1999), não se sustentava quando confrontada com as práticas prisionais que assistíamos, tantas eram as singularidades e as variações microscópicas que observávamos em relação às mesmas no interior das prisões, quando comparadas entre si.

  Olhando para essas “Organizações Complexas” sob essa perspectiva, parecia-nos que a ação de alguns poucos personagens que ali estavam eram suficientes para estabelecer uma prática singular capaz de criar um diferencial entre as instituições. O diretor da unidade prisional era um deles, senão o mais influente ou talvez o mais importante, conforme nos mostram algumas das entrevistas que realizamos. “Cada diretor tem uma maneira de ver o próprio presídio, a própria unidade onde ele está como

  Não ousaríamos reduzir um conceito como o de sistema às variações na postura de um ou outro administrador de presídios. Entretanto, nos parecia que a ação desse personagem era uma amostra em um conjunto que visto de perto poderia colocar o conceito de sistema em xeque.

  É o próprio Sykes que, já em 1958, alertava para o fato de que:

  (...) As instituições (as prisões) diferem com respeito à extensão dos serviços psiquiátricos que elas fornecem, à natureza de seu programa de trabalho, à severidade da custódia, ao número de ocupantes e assim por diante. E no topo dessa variação , baseado em uma política deliberadamente designada, nós encontramos ainda outras diferenças provenientes das exigências de eventos diários e das filosofias pessoais daqueles encarregados com a responsabilidade de administrar os locais de confinamento (Sykes, 1999, p. xiii). (itálicos meus).

  Desejávamos, desde o início, entender o impacto das variações entre diferentes concepções pessoais de administração carcerária e, ao mesmo tempo, contrapor à noção de sistema prisional um leque de variações dentre as quais os processos de escolarização levados a cabo pelas administrações das unidades prisionais que, ora confirmavam a insuficiência da idéia de sistema ora faziam com que ele se justificasse plenamente, gerando no pesquisador inúmeras suspeitas e, porque não, também dúvidas:

  Embora você tenha um poder que seja coordenador do Sistema Penitenciário, ele não tem a capacidade de coordenar as Políticas Penais implementadas nos Sistemas Penitenciários. Essas políticas, na verdade, são gerenciadas pelos Diretores da prisão . Portanto, é muito difícil falar num Sistema propriamente dito. A idéia de sistema não me parece muito própria para dar conta dessa realidade (Adorno, 1991, p. 25). (itálicos meus) .

  Acreditamos ter obtido com a observação os elementos suficientes para indicar regularidades e singularidades nas práticas educacionais levadas a efeito no interior das instituições prisionais investigadas. Percebemos o quanto tais práticas acabam por sofrer os efeitos decorrentes daquilo que é peculiar à “instituição total”, à agora discutir a possibilidade de relativizar o alcance da noção de “Sistema Penitenciário”.

  A simples observação da dinâmica das Organizações Complexas indica que mesmo em situações de longa continuidade administrativa e de maior permanência de valores culturais, as relações entre poder e cultura apresentam modificações ao longo do tempo (Fischer, 1989, p. 6).

  Geralmente, os administradores de instituições prisionais não gostam de se submeter à comparação entre a unidade prisional que administram com uma outra qualquer. Percebemos isso logo nos primeiros instantes de nossa segunda visita à penitenciária 2, em maio de 2004, quando alguns dos atores com quem iríamos interagir quiseram saber mais sobre a nossa pesquisa.

  Ao relatarmos aos primeiros sujeitos que vimos, todos eles diretores, a intenção de distinguir possíveis diferenças entre a condução dos processos educacionais no interior de duas instituições prisionais o alerta foi dado: “as pessoas que serão abordadas são reclusas” e tomando isso como premissa universal consideraram que “em suas respectivas instituições não deveria haver tantas diferenças assim”, porque, afinal de contas, “sempre estava em questão a administração de penas de privação de liberdade aplicadas de acordo com o que rezam as normas e leis que dizem respeito à sua execução”. Esta afirmação, por si só, justificaria a presença das inúmeras grades que tanto caracterizam as instituições prisionais.

  É novamente uma monitora que entrevistamos nessa penitenciária que vem corroborar a primeira afirmação que fizemos acima:

  (...) Todas as vezes que eu entro em sala eu penso assim: eu preciso transformar essa cela em sala porque, talvez o meu aluno Arlindo, ele não veja assim, nenhum diferencial em sair da cela. Ele olha para a janela, é grade. Ele olha para a porta, é grade. Ele olha para a outra janela aqui na frente, é grade. Então, eu fui aprendendo estão quase aprovando. Se eu disser assim: “-Então, porque lá em****** é assim”, pronto, foi tudo por água abaixo. Eu tenho que provar que é importante, sem comparar outra unidade prisional. Eu tenho que discutir, tenho que provar, todo mundo aceita. Se não aceitar, é sonho, e sonho doce, guarda lá para quando puder (Transcrição de trecho do relato de entrevista de monitora, maio, 2004). (Itálicos meus).

  As “celas” de aula existentes na penitenciária 2 foram herdadas de administrações anteriores, assim como a estrutura física do prédio escolar. Como a rotina diária no interior daquela instituição indicava um funcionamento a contento daquela forma escolar, não se cogitava a transformação daquele espaço em outro mais flexível ou menos rígido, até porque não se entendia que assim o fosse:

  (...) Mudança (na escola) não teve. Não teve porque quando eu assumi, já havia uma estrutura montada, já havia trabalhos que vinham sendo desenvolvidos, né? E mudança, não fizemos nenhuma, não. O trabalho continuou sendo desenvolvido e a única coisa que a gente busca é ampliar o campo de parcerias, né? Mas mudanças no trabalho em si, não, porque já vinha dando bons resultados, já era bem administrado anteriormente (Transcrição de relato de entrevista, maio, 2004).

  Lembramos nesse momento de uma evocação de Fischer (1989) que para nós, faz pleno sentido quando tentamos entender essa recusa em transformar um determinado lugar:

  (...) Os agentes organizacionais (das organizações complexas, incluindo a prisão) reagirão para evitar as transformações que se lhes apresentam como uma ruptura dessa profunda identidade com a organização e uma negação de valores estabelecidos que lhes transmitam o sentimento de segurança e coesão (Fischer, 1989, p. 12).

  Prisões são instituições marcadas pelo isolamento e pelo “trancamento”, além da disciplina extremamente rígida e diuturnamente controlada pelos agentes institucionais. Sua forma original – essa forma marcada por celas, trancas, altos muros, considerados inaptos à vida na sociedade livre. Essa afirmativa parece demonstrar a existência de um certo consenso entre nós: “A prisão ainda tem um papel fundamental ao nível simbólico; ela é para a sociedade, infelizmente, o grande instrumento de punição e correção dos indivíduos” (Salla, 1994, p. 96). O que não imaginávamos é que encontraríamos a aceitação de alguns pressupostos da privação da liberdade entre os próprios sujeitos encarcerados.

  Enquanto na penitenciária 1, ouvimos vários comentários elogiando a maneira flexível com que os processos educacionais são tocados, como por exemplo: “Bom, eu já passei por outras experiências infelizmente em presídio, eu posso dizer que em relação da que eu estou, ela (a penitenciária 1) é bem maleável”, ou “Ah, bastante diferença, aí em outros presídios não temos a liberdade que eles dão aqui para tanto exercer a função tanto para o aluno quanto para o professor”, ou ainda “então, aqui o acesso para ir para a escola é muito fácil e a forma de como é passada a aula pros alunos também é simples” (Transcrições de relatos de entrevistas, setembro, 2004), já na penitenciária 2, o “trancamento”, a dificuldade de acesso e o arbítrio presente em determinadas ações dos funcionários não eram encarados como algo tão negativo, tanto por parte dos alunos, quanto por parte de alguns monitores, funcionários e mesmo, pelos diretores da instituição:

  (...) Em geral, os prisioneiros não sentem que os funcionários da prisão usurparam posições de poder que não são legitimamente deles, nem os prisioneiros sentem que as ordens e os regulamentos que procedem deles, de cima, representam extensão ilegal da concessão do governo a seus regentes (Sykes, 1999, p. 47).

  Apesar do esquema de extrema vigilância que vimos sendo executado na penitenciária 2, uma fala de um dos Agentes de Segurança entrevistados é, no mínimo, curiosa:

  Em 1983 é... 80, começo de 83, então, eu acho que nesse período havia mais disciplina, o sistema era voltado para uma recuperação do preso, havia melhor laborterapia, havia uma preocupação realmente, se ensinado o preso desde na hora da manhã, quando ele se levantava ele tinha a preocupação de aprender a cuidar da que você sugere, tudo falta, falta isso, falta aquilo, exige-se as coisas, más condição não tem, condição de trabalho hoje é péssima (Transcrição de relato de fala de um Agente de Segurança Penitenciária, maio, 2004).

  A própria movimentação dos prisioneiros pelas galerias da penitenciária 2 e de seus alunos através do corredor escolar, sempre cadenciada pelas ordens dos funcionários da vigilância, a maneira contida de seus gestos e o tom desconfiado de suas vozes, contrastando com a “alegria” em re-encontrar um colega residente em outro pavilhão, ou mesmo o beijo fraternal no rosto do amigo, na penitenciária 1, mostravam que, em que pese as semelhanças ou as regularidades encontradas em alguns dos aspectos da escolarização no interior das prisões, atitudes ou deliberações que indicam brandura na condução das políticas internas podiam fazer a diferença e colocavam, sim, a noção se sistema em xeque.

  “Atenção, aguarde na porta sua vez de ser revistado – SAIA DA JANELA! Esta mensagem é apenas uma das muitas mensagens que, de certa forma, buscavam disciplinar a vida dos sujeitos que freqüentavam a escola na penitenciária 2. Escrita manualmente numa pequena placa, estava localizada bem à saída do recinto escolar numa altura que pudesse ser imediatamente lida por todos aqueles que deixavam a escola. Já próximo ao telefone (figura nº 23), digitado numa folha de papel sulfite, estavam as regras da “casa” que, não cumpridas, visavam a excluir o aluno das atividades escolares: Após cinco faltas sem justificativa (em prisões os alunos também faltam, e muito, às aulas), o aluno seria advertido e intimado a comparecer à escola no dia subseqüente. Persistindo a conduta, seria automaticamente excluído. Soubemos, pelos sujeitos que entrevistamos que raramente essas regras eram seguidas à risca pela administração da penitenciária ou da escola. Buscava-se, na maioria dos casos, uma negociação com o aluno faltoso que pudesse evitar a sua exclusão da escola.

Figura nº 23 – Próximo ao telefone (lado esquerdo) folhas digitadas buscam disciplinar o dia-a-dia escolar na penitenciária 2

  De qualquer forma, essa perspectiva mais fechada, mais rígida, mais formal e mais disciplinadora, esteve, de certa forma, ausente na penitenciária 1, ao menos nos momentos em que lá estivemos. Não notamos a existência de cartazes alusivos à disciplinarização dos sujeitos nessa penitenciária. Entretanto, a dinâmica que encontramos na mesma compreendia a escolarização dos prisioneiros, tanto quanto na outra penitenciária que comparamos. Nos perguntamos então quais seriam as questões que estariam por trás quando duas administrações levam a termo suas políticas de assistência ao prisioneiro baseadas em perspectivas mais “fechadas” ou mais “brandas” de confinamento. Novamente Fischer (1989) nos indicou o caminho a seguir:

  (...) Compreender como as características da estrutura organizacional refletem ou mascaram o efetivo funcionamento de uma Organização Complexa, assim como se as políticas que adota são ou não adequadas à consecução de seus objetivos, implica utilizar concomitantemente métodos de análise dos sistemas administrativos e dos sistemas sociais (Fischer, 1989, p. 15).

  Uma perspectiva parecia muito clara para nós. As pessoas que administravam as duas penitenciárias por nós estudadas acreditavam estar realizando da forma mais adequada possível a tarefa para a qual foram convocadas: gerir uma instituição de privação de liberdade onde uma assistência deveria ser oferecida à população reclusa. Tanto é verdade que, para medir o grau de eficácia dos processos de escolarização nas penitenciárias que administravam, ambos diretores gerais garantiram ter a melhor média de aprovação nas avaliações do CESU – Centro de Exames Supletivos, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Ambos os diretores não pareciam ter dúvidas de que, administrativamente, a instituição que geriam oferecia produtos de relativa qualidade – educação, trabalho, saúde, levando-se em conta as particularidades da própria prisão.

  Muito embora as diversas pessoas entrevistadas por nós nas duas instituições não admitissem, encontramos uma característica marcante no planejamento e na organização das diferentes atividades no interior dos presídios que é, justamente, uma relativa “subordinação” dessas outras atividades – educação, trabalho, saúde, às questões de segurança e disciplina das instituições. Já apontamos em outros momentos do nosso relato inclusive, as diversas ocasiões onde essa prática se deu. Nas entrevistas que fizemos essa questão também transpareceu algumas vezes, como na resposta de um diretor de educação a uma das pergunta que fizemos:

  (...) Dentro do campo da disciplina, a gente tem que obedecer a diretoria de disciplina. Não tem como você elaborar um programa de escola ali, sem você ter apreciação deles. Você não pode montar aqui dentro da unidade um certo trabalho escolar ou uma certa atividade cultural sem a apreciação, e tudo que depende dessa área é difícil. (...) Nós temos que esperar a segurança da casa primeiro, que nos dá o sinal verde que tudo está em condições para se trabalhar. Então, nós dependemos, principalmente, desse setor (Transcrição de relato de entrevista, maio, 2004).

  A escolarização de adultos presos, assim como outras políticas de assistência no interior das instituições de privação de liberdade parecem sofrer uma limitação muita bem definida, mormente estabelecida pelas pessoas que lidam diretamente com as questões de segurança e disciplina:

  Se não tiver uma concordância da nossa área, da segurança, não só minha aqui, como diretor, né, dos chefes de plantão, de todo o “corpo funcional” é, fica inviável essa... Se nós aqui, colocarmos um obstáculo realmente, não vai... não vai funcionar... ou funciona precariamente (Transcrição de relato de entrevista, setembro, 2004).

  O limite para a flexibilização ou não das ações no interior das prisões não é bastante claro, tanto que vemos experiências bastante diversificadas nas unidades prisionais, entretanto, parece obedecer a uma lógica ligada muito mais às percepções pessoais dos trabalhadores nessas instituições em relação aos prisioneiros assim como também às suas experiências de vida e de trabalho no interior das mesmas:

  Se eu falar para você que eu era favorável (a questão de se ter monitores presos lecionando para os colegas), eu não era não. Eu... a gente veio aprender no sistema. A gente... todo dia é uma nova, é uma nova aprendizagem e aqui... a gente chegou, os presos estão monitorando, né? (transcrição de relato de entrevista, setembro, 2004).

  Seja como for, parece existir uma nítida superposição das ações de segurança e disciplina em detrimento de outras tarefas e atividades no interior das prisões e as prisões não conseguem se libertar de sua característica original:

  A despeito dos propósitos reformadores e ressocializadores embutidos na fala dos governantes e na convicção dos homens aos quais está incumbida a tarefa de administrar massas carcerárias, a prisão não consegue dissimular seu avesso: o de ser aparelho exemplarmente punitivo (Adorno, 1998, p. 1017).

  Para Coelho (1987, p. 41) “esta hierarquia (segurança e disciplina versus outras esferas administrativas) constitui a espinha dorsal daquilo que é a preocupação dominante nas prisões: a segurança”. Se por um lado, as questões de segurança e disciplina são acentuadas em detrimento das outras atividades no interior das prisões, possíveis tentativas de suavizar os esquemas rígidos de controle da população carcerária e equilibrar as relações entre aqueles setores e o setor de segurança e disciplina, podem

  Em algumas penitenciárias a política de liberalização e humanização levou a práticas pouco prudentes do ponto de vista disciplinar e de segurança: numa delas, os presos sentavam-se para as refeições à mesa com o diretor, adepto fervoroso da do sistema. Quando ocorreram fugas em seu estabelecimento, ele democratização considerou o fato como uma ofensa pessoal, ressentindo-se do abuso de confiança (Coelho, 1987, p. 121).

  O que está em jogo então, quando tratamos do sistema prisional é a ocorrência ou não de eventos que, uma vez franqueados à opinião pública, possam apontar para a quebra do equilíbrio interno e para a quebra do próprio equilíbrio do sistema social como um todo.

  Quando o desequilíbrio interno nas instituições prisionais coloca em risco o equilíbrio social, como nas rebeliões violentas e nas fugas em grande quantidade, por exemplo, renova-se a imagem de que a instituição existe em primeiro lugar para trancar, depois para assistir.

  O dia-a-dia da instituição prisional é uma contínua negociação entre administradores, funcionários e prisioneiros e “perturbações dentro do sistema tendem a causar perturbações adicionais que são inclinadas a resultar em um progressivo afastamento do equilíbrio” (Sykes, 1999, p. 110-111).

  “Todo o sistema está montado em cima da negociação. Negocia-se na polícia, no judiciário, nas prisões” (Adorno, 1991, p. 32) Assistimos a essas negociações em muitas ocasiões naqueles momentos em que estudávamos os processos de escolarização dos adultos presos nas duas instituições prisionais.

  Testemunhamos pedidos sedutores por parte dos prisioneiros para que os funcionários lhes arranjassem cadernos adicionais e outros materiais escolares, pedidos para entrada ou saída de salas de aula ou mesmo no prédio escolar em horários não autorizados, e testemunhamos também negociações envolvendo postura e comportamento dos alunos em relação às atividades na escola, como foi o caso daquele aluno convocado para reunião por enviar cartas apaixonadas para a sua monitora (penitenciária 2), ou daqueles alunos que chegaram à escola quando faltava apenas cinco minutos para o final do período letivo de aulas porque participavam de encontro entre pessoas de grupo religioso evangélico (penitenciária 1).

  Pequenos incidentes no interior da instituição são plenamente assimilados e do “desaparecimento” de um cabo de televisão nessa mesma penitenciária ou ainda do prisioneiro que vimos sendo transportado para a enfermaria por funcionários da penitenciária 1 depois deste ter sofrido agressões físicas de outros prisioneiros no interior do pavilhão onde residia. Lembramos das carteiras escolares retiradas das salas de aula por funcionários da penitenciária 2 e colocadas num corredor externo ao pavilhão escolar e deixadas ao relento, praticamente esquecidas por, ao menos, uma semana.

  Uma televisão simplesmente “desaparece” da sala de aula da penitenciária 1 e ninguém conhece o destino da mesma. O aluno toca o sinal para o final das aulas porque o funcionário não se encontra no setor escolar naquele momento. E mesmo a retirada de alunos do interior da sala de aula porque aparentemente confrontavam o poder dos funcionários é um evento rapidamente esquecido por todos os sujeitos que se encontram no interior das instituições prisionais.

  Já uma tentativa de fuga pelo recinto escolar pode ser “castigada” com a suspensão por tempo indeterminado das aulas na escola da prisão. A fuga frustrada pode se transformar num movimento de rebeldes que destroem a escola e parte da prisão, em represália. O próprio motim ou mesmo a fuga de prisioneiros pode representar, para os administradores, o seu afastamento dos cargos ocupados até então. Vive-se nas prisões o que Coelho (1987) denominou de “equilíbrio precário”.

  No planejamento das ações e na efetivação das políticas internas aos prisioneiros, diretores e funcionários avaliam quais as melhores formas de “controlar” esse “equilíbrio precário”. Todos os que ali estão sabem que a prisão é um “powder keg” (Sykes, 1999), barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Na penitenciária 2, o clima organizacional (em que pese as restrições sérias à circulação de prisioneiros) é, marcadamente, mais tenso do que na penitenciária 1. Alterações em práticas que parecem dar uma relativa estabilidade à prisão não são cogitadas nesse caso. Tem-se então, um clima organizacional propício para não se mexer demais com as estruturas organizativas das práticas previamente constituídas.

  Disso resulta termos tantas indagações a respeito da possível fragilidade do conceito de sistema penitenciário ou prisional ou ainda, sistema educacional no interior das prisões, pois num determinado momento e observando certas práticas singulares sistema prisional, algo imediatamente relembra o caráter totalizante da instituição, de forma inapelável.

  Dirigindo-nos novamente para as categorias de análise que expusemos no capítulo anterior de nosso trabalho – espaço, tempo, organização e práticas escolares e, confrontando, cada uma delas com a noção de sistema, tendemos a acreditar que nossas dúvidas com relação a substância do conceito, ao invés de diminuir, tenderão a aumentar. Ambas as escolas analisadas localizam-se no interior de duas instituições fechadas de cumprimento de pena. Os seus internos (como também os alunos, pois são os mesmos!) são considerados de periculosidade acentuada. As suas construções estão separadas por uma parcela considerável de anos, entretanto as estruturas físicas ou a arquitetura interna de ambas é, relativamente, a mesma. Os espaços de circulação dos prisioneiros foram estrategicamente pensados, e entre esses, a própria escola - bem ao meio do presídio.

  Buscando atenuar as fortes impressões que poderão ter aqueles que ali adentrarem, ambas as instituições mantém jardins bem conservados logo à entrada (conforme figuras n.ºs 24 e 25). Entretanto, quando comparadas em suas minúcias e entrelinhas, vislumbram-se as diferenças marcantes decorrentes das concepções pessoais por parte de quem administra a reclusão dos que lá estão.

  

Figura n.º 25 – Jardim interno da penitenciária 1.

  Aos prisioneiros restaria adequar-se aos esquemas de segurança e disciplina e aos mecanismos de contenção elaborados sob medida para a instituição prisional. Tenderíamos mesmo a dizer que os indivíduos que se encontram reclusos nessas duas

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  instituições “representariam ” alguns papéis desejados pela instituição, lembrando Goffman (1992). Para esse autor que, utilizando-se da “metáfora da ação teatral”, procurou mostrar que os sujeitos, quando se apresentam diante de seus semelhantes, tentam dirigir e dominar as impressões que possam ter dele, empregando certas técnicas para a sustentação de seu desempenho, tal qual um ator que representa uma personagem diante do público, muitos de nossos padrões de desempenho, teriam um caráter de “fachada” e serviriam, basicamente para a nossa correta adequação ao ambiente social que nos rodeia (Goffman, 1992, p. 29).

  Apesar da vigilância extremada de alguns locais, a escola é vista pelos prisioneiros como um local diferenciado dos outros locais de circulação no interior dos presídios e muitos se esforçam por encontrar nela novas possibilidades de existência:

  (...) A finalidade da escola nas prisões, na minha opinião, penso assim que eles deveriam, eles tão tentando, recuperar aquela pessoa no máximo de ajuda que ele

puderem dar. (Transcrição de relato de entrevista com aluno, maio, 2004).

  Ou então, como expressa a opinião abaixo:

  Acho que a ferramenta que o diretor tem pra tá moldando, pra tá melhorando o intelecto daquele preso, daquele que errou lá atrás, essa peça... essa ferramenta, é a educação, é a escola (enfático). É a escola. A escola que muda todo um curso de uma pessoa, como eu falei pro senhor. Muda o convívio do camarada, muda o linguajar, aquele camarada que... aquele camarada que, eu noto isso aí no dia-a-dia, o camarada que falava em gíria, ele não falava uma frase sem colocar uma gíria no meio... (...) Más, conforme ele chegou ali e começou a enfiar a cara nos livros ali, a aprender e teve ali o incentivo, o linguajar do camarada, o português dele, passou a ser outro, né? E isso também em todos os aspectos da vida dele... né? (Transcrição de relato de entrevista com aluno, setembro, 2004).

  As políticas de assistência aos prisioneiros trazem implícitas uma visão de direitos humanos que vem sendo difundida nos últimos tempos e, especialmente, no interior dessas instituições austeras:

  Não adianta você jogar o elemento dentro de uma unidade prisional e esquecer lá, porque a sociedade... é um outro ser humano que tá ali. Então, você tem que procurar também saber o que aconteceu com aquela vida, o que levou ele à praticar esse tipo de crime (Transcrição de relato de entrevista, maio, 2004).

  Esse preso para mim é um ser humano, certo? Que não teve... a oportunidade, certo? Desde a maternidade, ou seja, de criancinha. Que não teve condições e que cresceu vendo outras crianças obtendo coisas que ele gostaria de ter, ou seja, bicicleta, tênis, essas coisas que a molecada que ter, certo? (Transcrição de relato de entrevista, setembro, 2004).

  Dessa situação de dúvida, resulta a necessidade de concordar com Fischer (1989), para quem, a instituição prisional, ou a “organização complexa” como a autora a

  (...) Os órgãos e estabelecimentos do sistema penitenciário não constituem, efetivamente, um sistema administrativo, porque não estão estruturados para atuarem de modo coordenado; a ausência de diretrizes e parâmetros, assim como, de controles técnicos e administrativos para acompanhamento e avaliação, impelem para formas de atuação baseadas nas características específicas de cada estabelecimento, no desenho das relações formais e informais que constituem o corpo da organização, nas tendências conjunturais que estas relações assumem conforme as circunstâncias (Fischer, 1989, p. 80).

  Conclui-se daqui que as ações administrativas e funcionais levadas a cabo no interior das instituições prisionais e entre elas, o próprio processo de escolarização de prisioneiros leva em conta uma lógica que nasceu com o próprio surgimento da prisão, quer seja, “tornar efetiva a ação da prisão sobre os detentos” (Foucault, 1984, p. 219) ou ainda “fazer delas (das prisões) um instrumento de transformação dos indivíduos” (Foucault, 2003, p. 131) ou, se preferirmos, “empresas de reforma moral dos indivíduos” (Adorno, 1998, p. 1018).

  Estamos diante de uma situação paradoxal. Originariamente, a noção de sistema ainda se sustenta pela lógica do trancamento, do isolamento, da exclusão, da submissão de pessoas encarceradas a um poder extraordinário, do arbítrio nas ações no interior das instituições prisionais, da “mão pesada” da disciplina e da lógica da segurança, bem como das “atitudes de fachada” desempenhadas pelos diversos atores que tramam suas atividades naquele cenário. Administrativamente, o conceito de sistema sucumbe às artimanhas da lógica pessoal manifestas em cada um daqueles que participam do seu dia-a-dia na condição de “equipe dirigente” ou de “corpo funcional”. Talvez por não suportar o isolamento e a exclusão do outro, busca-se, algumas vezes, minorar o sofrimento pessoal daqueles que estão encarcerados no interior das prisões. As regras da instituição total podem até ser flexibilizadas, mesmo que ainda se busque garantir total controle pessoal sobre os prisioneiros:

  As mudanças que se verificam no funcionamento de cada instituição, optando por regimes mais fechados ou liberalizando as relações internas, estão associados às trocas de cargos à nível da sua direção e de alguns órgãos do sistema, ou mesmo, da Secretaria de Justiça; refletindo mais os processos internos de influência política e a disputa de poder do que a orientação de diretrizes técnicas ou administrativas advindas da COESPE (Fischer, 1989, p. 128)

  É a própria lógica de funcionamento da prisão que se afigura paradoxal quando analisamos as duas instituições prisionais em relação ao funcionamento de suas escolas e destas com o conjunto das práticas prisionais. Enquanto na penitenciária 1, a lógica do trancamento não se confirma plenamente para as práticas educacionais, na penitenciária 2, o trancamento é a sua própria essência. Ali, não se concebe uma instituição prisional se não pelo controle rigoroso de todas as atividades dos prisioneiros em seus mínimos e preciosos detalhes. A mesma política que é pensada para uma instituição também é pensada para a outra. Entretanto, fatores tais como as características físicas e arquitetônicas de ambos os locais, características e concepções pessoais dos sujeitos que as administram, resistências da instituição e dos sujeitos institucionais à mudanças, acabam por fazer a diferença que marca dois processos educacionais levados à cabo nessas prisões.

  Não foi nossa intenção neste trabalho insinuar avaliações sobre qual desses dois processos educacionais poderia ser considerado ideal ou pelo menos mais adequado para os prisioneiros. Por outro lado, foi para nós extremamente gratificante perceber que ocorrem nas instituições prisionais procedimentos administrativos que podem negar, ou ao menos, relativizar o conceito de sistema penitenciário. Os espaços, os tempos, as práticas e as organizações relativas à escola do mundo livre são transportados na medida do possível para um certo espaço físico no interior do cárcere e para um determinado tempo que “demora a passar”. Essa transposição sofre as interferências relativas aos projetos arquitetônicos das prisões, bem como das peculiaridades da “instituição total”, e também, das concepções e atitudes pessoais de cada uma daquelas pessoas que têm a incumbência social de gerir as penas de privação da liberdade.

  Seja como for, trata-se de prisões, de espaços de escolarização no interior dessas instituições, da forma como é administrado o dia-a-dia em seu interior pelos funcionários responsáveis e de como os prisioneiros agem e re-agem, atuam ou mascaram condutas, frente aos nem sempre muito sutis mecanismos de controle ali existentes.

  

CONSIDERAđỏES FINAIS

Temos que trabalhar até a exaustão essas contradições existentes dentro do presídio e pensar na liberdade. Eu acho que a única força que move um preso é a liberdade, ela é a grande força de pensar (Gadotti, 1994, p. 134).

  “(...) Segregar um ser humano numa prisão para você desenvolver um trabalho é complicado, realmente, é complicado. (...) O mundo dele se tornou dentro da prisão” (Transcrição de trecho de relato de entrevista de um diretor, maio, 2004). Tanto esta citação, quanto aquela com que iniciamos nossas considerações finais, nos dão conta das inúmeras contradições que, efetivamente, encontramos no interior das instituições prisionais. De um lado, a privação da liberdade, a exclusão social, o estigma, o desvio, as celas, os muros, a rígida disciplina, a submissão quase que completa do homem encarcerado. De outro, o “sonho” da humanização das prisões, das políticas públicas destinadas à população reclusa e, junto com isso, a constatação de que “a prisão, longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los ainda mais na criminalidade” (Foucault, 2003, p. 131-132).

  Assistimos, enquanto estávamos em campo pesquisando os processos de escolarização de prisioneiros, a um evento de entrega de certificados de conclusão de ensino fundamental e de ensino médio numa das penitenciárias que investigamos. O movimento de pessoas – alunos, monitores, coordenadora, “faxinas” em torno da escola e da própria solenidade foi intenso logo nos primeiros momentos do dia. Aqueles que haviam concluído os seus respectivos cursos e deveriam receber o certificado, expressavam grande contentamento em suas faces. Estavam, efetivamente, felizes e orgulhosos com a conquista.

  Para muitos desses presos, a possibilidade de retomar os estudos e mesmo de continuá-los se deu com a própria prisão: “Porque o Senhor freqüenta a escola aqui dentro (da penitenciária)? – Porque eu me encontro preso, né? Se eu tivesse na rua, estava trabalhando”, ou:

  (...) Então, cheguei aqui, eu já falei: - Tô um bom tempo parado, a fim de estudar, porque se eu sair na rua, eu sei que eu não vou estudar mais, que eu tenho meu filho, tem minha mulher, tem tudo. Então, tenho que correr atrás de serviço (Transcrição de relato de entrevista com aluno preso, maio, 2004).

  Temos que recorrer novamente à contradição que estamos apontando: o efetivo alcance das políticas educacionais no interior do cárcere. Desnudamos o interior dos processos educacionais em duas instituições prisionais. Verificamos regularidades e singularidades em seus espaços, tempos, organizações e práticas. Percebemos que, ao lado de uma certa “encenação” ou “teatralidade” nas condutas pessoais e mesmo grupais (Goffman, 1975), são vivenciados papéis similares aos da vida livre. Monitores presos vestem seus aventais brancos e seguram o lápis na mão do aluno difícil de aprender, ajudando-o e incentivando-o. Temas recorrentes dos espaços educativos são transpostos para trás das grades: ditongos, tritongos, dígrafos, história do Brasil, evolução das doenças, vacinas, cálculos matemáticos, revelo, clima, desenho livre, entre outros são, dia-a-dia trabalhados no interior das salas e das “celas” de aula das prisões.

  Foi extremamente importante para nós perceber como cada um dos atores envolvidos com a escolarização por trás das grades, se portava e se conduzia, desde o “grupo dirigente”: “(...) em alguns aspectos, a diretoria do estabelecimento é..., não reconhece, hein?” (trecho de entrevista de aluno, setembro, 2004), passando pelos funcionários responsáveis pela disciplina: “(...) Nós temos um pouco de dificuldades com alguns... funcionários” (trecho de entrevista de diretor, maio, 2004) e atingindo alunos, monitores, bibliotecários, coordenadores, entre outros.

  Ouvimos muitas queixas acerca da precariedade com que é tratada a escola na instituição. Livros infantis são utilizados para alfabetizar adultos presos. Os recursos físicos disponíveis são, muitas vezes, escassos: espaços físicos para as aulas, materiais escolares, roupas adequadas para vir à escola. Obstruções ao direito do prisioneiro aos estudos, utilizando-se dos mais variados e criativos dispositivos foram relatadas, oscilando entre a simples negação de um funcionário em abrir uma cela de residência no pavilhão até a ausência de horários alternativos ao estudo, pensando-se nos presos trabalhadores e na incompatibilidade de horário entre estudo e trabalho.

  qualquer forma, ambos no interior de instituições austeras e inflexíveis quanto à sua finalidade última: a manutenção da ordem e da disciplina, visando a não possibilidade de fugas por parte dos seus internos. Buscamos dar voz aos sujeitos que lidam cotidianamente com a prisão na tentativa de encontrar “leituras particulares de sua cultura, em função de suas características próprias” (Velho, 1977, p. 27). Buscamos dar

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  voz ao sujeito “que não está fora de sua cultura, más que faz uma leitura divergente ” dessa (Velho, 1977, p. 27).

  Sentimos a “estabilidade instável” ou a “instabilidade estável” ao nos depararmos com sujeitos agredidos pelos companheiros num dia qualquer. Esse clima institucional de “insegurança” também estava presente na escola que vê suas salas de aula esvaziadas na ocorrência de “blitz”, de pagamento de “pecúlio”, de alguma manifestação dos funcionários ou dos próprios presos, da ausência, justificada na hora, de uma professora, ou ainda, na retirada de sala de aula, pelos funcionários, de alunos “indisciplinados”.

  Se por um instante o prisioneiro sente-se “aluno”, com o soar da campainha que anuncia o final das aulas “veste-se” de novo como prisioneiro e caminha, cabisbaixo e segundo um ritual previamente estipulado, rumo ao pavilhão de residência onde passará o restante do dia, na presença de colegas que “às vezes atrapalham os outros porque têm a mente mais fraca” (Trecho de entrevista de aluno, setembro, 2004) e não desejam estudar. Mesmo procedimento adotado pelos monitores presos que, findo as aulas, retiram seu jaleco branco, apanham seu material de consulta e retornam aos seus pavilhões.

  Aliás, os papéis sociais na instituição prisional já se encontram previamente delimitados. Por mais que se descubra uma brincadeira como a do funcionário que satiriza a derrota do time pelo qual torce um determinado prisioneiro, a lógica das 43 atitudes e das acomodações de cada um dos atores está dada. Goldwasser (1977, p. 31)

  

Velho (1977) é o organizador de um volume que trata do comportamento desviante, com textos

redigidos também por outros autores. Esses autores farão uma crítica as tendências modernas de se

entender o comportamento desviante pelas lógicas psicológica ou sociológica do fenômeno. Velho, por

exemplo, criticará a mera oposição entre o sistema social e o indivíduo enquanto premissas a serem

estudadas.Para ele, é fundamental e necessário compreender “o político nas mais ‘microscópicas’ assim descreveu essa lógica, a partir de seus estudos numa instituição de abrigo para prostitutas do Rio de Janeiro. Trata-se de:

  (...) Determinar a lógica das relações que se estabelecem entre estes dois tipos de grupos sociais (os “normais” e os “desviantes”) quando já se acham dadas e estruturalmente definidas as suas respectivas posições como “desviantes” e “normais” no interior daquela organização (instituição total). Ver-se-á que a relação entre ambos será regida por um esquema de dominação-subordinação e que todo o esquema virá antes atuar no sentido de perpetuar a condição de “desvio” e reproduzir os argumentos em que se ancoram as racionalizações do estigma do que, ao contrário, instrumentalizar a “recuperação” dos desviantes.

  Quando discutíamos com colegas a existência de escolas no interior das prisões completamente gradeadas, ouvíamos, algumas vezes, risadas irônicas acrescentando que atualmente, algumas escolas da sociedade livre também apresentam em seu contorno grades, câmeras e altos muros. Devemos insistir, em que pese não ser esse o modelo de escolas que devemos oferecer aos nossos filhos e a às outras crianças, que se trata ainda da escola do mundo livre.

  É patrimônio inalienável dessas escolas a mobilidade em seu interior, ou naqueles momentos que antecedem o ingresso dos alunos nas suas dependências ou ainda, quando delas saem. Ao contrário, as escolas do mundo prisioneiro e os processos de escolarização levados à cabo no interior do cárcere obedecem a esquemas bastante rígidos de disciplina e estabelecem rituais visando à impossibilidade de ocorrências que a desestabilizem e ao presídio.

  Um outro aspecto que cabe salientar diz respeito ao grau de sociabilidade possível em escolas como essas no interior das prisões. Em escolas rígidas, fechadas e altamente disciplinadoras como essas, onde até o leve murmúrio pode levar algum aluno

  44

  ao “pote ”, e onde as relações se pautam antes pela desconfiança generalizada do outro, falar em sociabilidade parece fora de cogitação. Presenciamos atitudes de cordialidade, de respeito e de ternura muito mais na penitenciária onde as relações internas 44 estabelecidas no interior do recinto escolar estavam mais flexibilizadas. Na

  

Espécie de celas fechadas, geralmente localizadas no fundo da instituição, também são chamadas de penitenciária das “celas de aula”, aos alunos restava trocar informações e confidências com os colegas nos intervalos regulares entre a própria entrada dos alunos nas “celas de aula” e a entrada posterior dos monitores, ou na saída destes ao final das aulas até a abertura das “celas”, pelos funcionários de plantão, ao final das aulas. Seja como for, parece consenso entre os alunos, tanto da penitenciária 1, quanto da penitenciária 2 que, além dos portões, gradeados ou não, da escola, muitas grades ainda os esperam, cerceando qualquer possibilidade de ser e estar livre. Alguns alunos chegam a transformar em devaneios os momentos em sala de aula: olham distante através das grades das janelas, como se pudessem alcançar as muralhas que os cercam e respirar, libertos, o ar sem vícios da liberdade.

  Terminamos como indagou uma vez Paulo Freire: “Olha, vamos pensar nisso? Alfabetização em presídio é possível?” (Barreto, apud Freire, 1994, p. 37). Em que pese as dificuldades e os paradoxos, estamos com Salla (1994, p. 98) quando diz que:

  (...) Eu acho que apesar de todos esses problemas, já trabalhamos no sistema e devemos acreditar naquilo que fazemos. No conjunto, tudo isso tem uma força pequena; sabemos que os indivíduos acabam encontrando um novo caminho e nós

acabamos sendo uma esperança para muitas pessoas que estão condenadas.

  

Figura n.º 26 – Alunos em sala de aula de penitenciária. O quinto aluno, da

direita para a esquerda faz sinal de positivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ANEXOS

  45 RELATốRIOS DE OBSERVAđấO DE CAMPO (Arlindo da Silva Lourenço) I - Penitenciária 1 – Grande São Paulo.

  18 de Agosto de 2003. 1044 prisioneiros em maio de 2003. Localização: Saída da Rodovia Presidente Dutra, sentido Rio de Janeiro. Há placas indicando a localização de um outro Presídio, “Desembargador Adriano Marrey”, uma saída à frente - hoje, o município de Guarulhos conta com cinco unidades prisionais – a Penitenciária 1; o Presídio Desembargador Adriano Marrey; o Anexo Semi-Aberto de Guarulhos e os Centros de Detenção Provisória I e II, todos bastante próximos uns dos outros, compondo o que é conhecido como “Complexo Penitenciário de Guarulhos”.

  Uma pequena estrada asfaltada leva-nos até a Penitenciária, passando antes por uma grande transportadora de cargas de São Paulo, onde enormes carretas realizam suas manobras visando ao recebimento ou a troca de mercadorias. Distante três quilômetros do Aeroporto Internacional de Guarulhos o entorno da Penitenciária lembra uma região rural, embora não seja. Muitas árvores e capim rasteiro compõem a vista. Não é incomum encontrar cavalos e bois pastando próximos à instituição. Suas muralhas são avistadas tão logo transpomos o terminal de cargas. Do lado direito de uma sub-portaria, estão localizadas as residências de alguns dos diretores da penitenciária. Nessa primeira portaria, não encontramos qualquer funcionário neste dia. A entrada está livre. Algumas pessoas se encontram junto a guichês localizados ao lado da portaria principal da penitenciária. Ali são deixados alimentos, roupas, produtos de higiene, TVs, rádios e outros objetos que são “depositados” para algum familiar, amigo, 45 namorado ou esposo prisioneiro naquele estabelecimento e que deverão ser

  

As notas seguintes compõem a sistematização do material de campo obtido após observações

dos processos educacionais levados à cabo em duas instituições prisionais do Estado de São

Paulo pelo pesquisador e são partes integrantes da Dissertação intitulada “As regularidades e as

singularidades dos processos educacionais no interior de duas instituições prisionais e suas posteriormente encaminhados ao destinatário. Esse “depósito” é conhecido, na linguagem corrente da prisão, como “Jumbo”.

  Após identificação visual pelo funcionário de plantão à portaria através de um pequeno visor gradeado e, conseqüentemente, a permissão de entrada na penitenciária, passamos, primeiro por uma revista manual de apalpação e, depois, por uma porta detectora de metais que aciona um bip a partir da presença de relógios, moedas, cintos e outros objetos de metal. Devemos retirar esses objetos e deposita-los num balcão e, assim, realizar nova travessia pela porta até que o bip não seja mais ouvido. Só após esse ritual que visa coibir a entrada de objetos não permitidos no interior do presídio, podemos seguir adiante. Ao menos três ou quatro funcionários - homens e mulheres - são responsáveis por toda a movimentação nesse setor, quer seja de pessoas que irão adentrar ao recinto ou mesmo de veículos que chegam e saem da penitenciária constantemente.

  Alguns prisioneiros, vestindo calças na cor cáqui, estão trabalhando na reforma de um local próximo à portaria e que se destinará a abrigar alguns setores administrativos da penitenciária, entre eles a própria diretoria geral. Estes sujeitos trabalham sob o olhar vigilante de alguns funcionários que vestem calças na cor azul. Antes do terceiro portão de ferro, conhecido como P-3, à direita desse, vemos uma espécie de tanque, hoje sem água, com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que nos induz a uma prece. À esquerda desse mesmo portão encontram-se vários “boxes” que servem de local de revista minuciosa em visitantes de prisioneiros, geralmente utilizados aos domingos que é o dia oficial de visitas de parentes, amigos e conhecidos nesta unidade prisional. Na condição de funcionário da instituição, o acesso ao seu interior é facilitado.

  Não é necessário ser acompanhado por qualquer funcionário. Sabendo da localização precisa da escola da penitenciária, ultrapassamos mais quatro portões, todos vigiados por, ao menos, um funcionário e chegamos ao nosso destino. Como em outras escolas de presídios, não vemos na parte externa do recinto escolar, qualquer indicação do tipo de atividade que ali é desenvolvido. Há um portão que separa o corredor principal da penitenciária e a escola que é encontrado aberto no momento de nossa chegada. Uma mesa e uma cadeira – bastante deterioradas – nos sinalizam para a

  Arquitetonicamente idêntica a outras penitenciárias inauguradas no ano de 1989, para os prisioneiros do Pavilhão I, localizado do lado oposto à escola e antes desta para quem chega à instituição, há quatro portões de ferro a ultrapassar, contando o portão de suas celas. Os demais pavilhões (II e III) estão localizados ao “fundo” da penitenciária e após o recinto escolar para quem chega - um do lado direito e o outro do lado esquerdo.

  No interior da escola, avistamos, na seqüência, uma biblioteca; uma sala contendo produtos de higiene e limpeza; um sanitário utilizado pelos alunos; uma sala dos professores e que também funciona como secretaria escolar e atendimento geral; cinco salas de aula e um mini-escritório montado em divisórias, onde funciona quase que ininterruptamente, uma impressora matricial, muito barulhenta. O corredor de acesso às salas tem excelente iluminação. Suas paredes foram recentemente pintadas e estão bastante limpas. Vemos vários cartazes com temas educativos pendurados nas paredes (O que é Hanseníase, dengue, DTS-AIDS, Hipertensão, Tuberculose). Há muitos troféus pendurados em estantes localizadas em espaços do teto, oriundos, talvez, dos diversos campeonatos de futebol e música que ali são promovidos. Encontramos ainda um cartaz com mensagem de Paulo Freire, denominado “A Escola” e cartazes com o nome e a série de todos os alunos ali matriculados (não há o número de

  46 matrícula dos mesmos).

  A biblioteca da Penitenciária possui um acervo razoável de livros e revistas

  • – mais de 5.000 títulos. Várias estantes de ferro e algumas de madeira estão dispostas na sala e todas elas repletas de livros e/ou revistas, devidamente catalogados. Alguns prisioneiros trabalham neste setor e são responsáveis pelo andamento dos trabalhos dali. Mostram-se sorridentes e parecem felizes em mostrar o trabalho que realizam. Contam- nos a rotina de distribuição de livros no interior da instituição. O espaço da biblioteca também apresenta boa iluminação e ventilação adequada.

  Em todas as salas de aula encontramos alunos hoje. É possível se ter uma idéia das atividades realizadas no interior das salas porque todas elas possuem um visor de dimensões 1,15 metros de comprimento por 45 centímetros de altura, que permite a qualquer um que transite no corredor, ver o que se passa no interior das salas. Apesar dos vidros que recobrem os visores é possível também ouvir o que se passa, mesmo que num tom mais baixo. Os prisioneiros demonstram importar-se um pouco com a nossa presença naquele lugar. Conversam entre si, alguns cochicham e riem. Quanto aos professores, todos prisioneiros como os seus alunos, parecem importar-se menos com a movimentação externa. Não vemos funcionários (Agentes de Segurança Penitenciária) circulando pelos corredores da escola, ao menos, por enquanto. O portão de acesso a ela permanece aberto e a mesa e a cadeira encontradas à entrada da escola continuam vazias.

  Ouve-se então, um sinal sonoro indicando o final das aulas daquele período. Haverá um intervalo de meia hora até que outra turma de alunos venha para a escola. Há, agora, uma grande movimentação de alunos no corredor escolar. Alguns saem abraçados, permitindo-nos imaginar que persista, apesar da reclusão, a possibilidade de demonstração de afeto entre colegas de cárcere. Outros saem rindo ou entoando hinos religiosos e alguns saem desconfiados da nossa presença, estranha naquele dia. Alguns desses resolvem conversar conosco e nos questionam acerca das atividades que realizamos naquele ambiente. Explicamos rapidamente e sem entrar muito em detalhes e se mostram simpáticos à idéia de um estudo acerca das escolas em presídios. Outro prisioneiro nos interpela sobre a dificuldade de se conseguir uma audiência com os advogados da FUNAP, responsáveis pela defesa dos prisioneiros junto à justiça penal.

  Todos os prisioneiros estão de calça cumprida, de cor cáqui. O estilo do vestuário muda de homem para homem. Alguns deles vestem calças mais bem alinhadas enquanto outros vestem roupas bastante simples. Alguns trazem calçados tênis de marca reconhecida enquanto outros vestem sapatos “surrados” ou ainda chinelos, tipo havaianas. A maioria da população de estudantes é jovem, entretanto, observo pessoas de idade mais avançada. A expressão geral contida nos rostos dos alunos é de alegria e de felicidade, talvez de alívio pelos poucos momentos passados num outro ambiente da prisão que não o pavilhão onde residem. Alguns homens trazem debaixo do braço e dentro de sacos plásticos, seu material escolar (lápis, borracha e caderno e, às vezes, um livro). Outros trazem mochilas ou pastas plásticas e outros ainda, acondicionam o material enrolado na própria mão.

  As salas de aula, de uma forma geral são amplas, arejadas, limpas e bem responsáveis pela faxina do espaço escolar está apagando algumas lições deixadas pelo professor. Numa das salas de aula não vimos mesa para o professor. As portas das salas não contem trancas. São portas comuns, destas que vemos em escolas normais. Encontramos caixas de madeiras, feitas pelos próprios prisioneiros, que servem de lixeiras. Há giz e apagador em todas as salas de aula. Alguns poucos vidros faltam nas janelas gradeadas. Encontramos algumas carteiras feitas especialmente para pessoas que escrevem com a mão esquerda. Numa das salas, a palavra VIDA (em maiúsculo) sobrevive ao que de resto foi apagado.

  Apesar de limpo, o corredor é novamente varrido pelos prisioneiros responsáveis pela faxina do local. Outros colegas seus vão chegando aos poucos na escola e se concentrando no corredor. Já no corredor central da penitenciária há um grande fluxo de prisioneiros, pois este horário (16h) coincide com o término das atividades nas oficinas de trabalho. A grande maioria dos homens que por ali transitam mostram-se gentis e cumprimentam os que encontram pelo caminho. Muitos dos alunos que chegam à escola parecem que não se vêem a tempos. Lentamente vão entrando nas suas respectivas salas de aula quando soa o apito sonoro indicando o seu início. Não há qualquer impedimento para o ingresso do prisioneiro no portão da escola, onde não encontramos funcionário. Um telefone, localizado na mesa à entrada da escola, toca até a exaustão e ninguém aparece para atende-lo.

  Visitando novamente as salas, assistimos, pelo visor de vidro, a uma aula de alfabetização onde o professor ensina a letra F: fa, fé, fi, fo, fu, Fa, Fé, Fi, Fo, Fu, F- A- C- A. Em outra sala, o professor, também prisioneiro, segurando a mão de um aluno, ensina-lhe a grafia correta. Este mesmo professor congratula-se com um outro aluno que atingiu o objetivo proposto, abraçando-o e lhe dando um leve tapa nas costas. Fumar cigarros em sala de aula parece permitido. Vemos alguns prisioneiros compartilhando o único cigarro que têm. O professor não se importa. A aula prossegue, com alguns alunos demonstrando-se completamente alheios ao que se passa na sala de aula.

  Ao final das aulas, novamente após o som de um apito sonoro, os vários alunos que ali estudaram vão retornando sem muita pressa para os seus respectivos pavilhões, após passarem pelo portão de acesso aos mesmos, estes sim, vigiados por, ao menos, dois funcionários.

  

Dados da realidade escolar da Penitenciária: Coletados a partir dos cartazes afixados

  no corredor da escola:

  • Eram 12 as turmas de alunos previstas na penitenciária;
  • Eram disponibilizados aos prisioneiros três horários de aula: das 08h às 11h30; das 14h às 16h e da 16h às 18h, de segunda a sexta-feira;
  • A sala com maior número de alunos matriculados era a de ensino médio (das

  14h às 16h), com 42 alunos e a menor turma tinha 10 alunos (ALFA I – ensino de primeiro e segundo anos, das 8h30 às 10h30). Outras duas turmas tinham 40 e 41 alunos em sua sala, respectivamente;

  • Três turmas tinham aulas no período da manhã. Quatro turmas tinham aulas logo após o almoço e cinco turmas completavam o período letivo, com aulas no período da tarde.
  • Quatro professores, todos prisioneiros, compõem o quadro de docentes da

  Penitenciária. Esses professores são conhecidos como monitores presos. Não há, atualmente, nenhum professor de “fora” da instituição;

  • A Penitenciária de Guarulhos conta com uma supervisora de educação, a

  Senhora J. (concursada pela FUNAP), que nos deixou bastante à vontade para a realização desta tarefa inicial.

Observações Gerais: Como funcionário da instituição já de longa data é praticamente

  impossível não conhecer algum prisioneiro que ali se encontra. Num presídio, mesmo que não sejamos conhecidos visíveis deste ou daquele prisioneiro, o simples fato de exercer uma atividade considerada essencial para os encarcerados, acaba por tornar-nos conhecidos do restante da população reclusa, pois um sujeito passará para o outro qual foi o psicólogo ou assistente social que o atendeu. Assim, realizar a observação no interior dessa penitenciária, ao mesmo tempo em que favoreceu o nosso ingresso em seu interior, também nos tornou mais vulneráveis à influências externas, no sentido de que as pessoas, tanto prisioneiros quanto funcionários, se mostravam surpresas com a nossa presença num local que não freqüentamos cotidianamente e, a partir de suas surpresas, nos questionavam acerca de nosso objetivo naquele recinto. Apesar disso, pudemos observar coisas que não imaginávamos encontrar, como por exemplo, o acesso dos adolescência, nas quais conversávamos, ríamos e brincávamos, além de abraçarmos aqueles a quem sentíamos algum carinho ou afeto especial. A não ser pelos visores das salas, aquela era uma “escola normal”.

  II – Penitenciária 2 – Interior do Estado 21 de Agosto de 2003.

  763 prisioneiros em 20 de Agosto de 2003.

Localização: A Penitenciária 2 é uma das mais antigas unidades prisionais do Estado

  Fundada em 05 de Dezembro de 1961, dista dois quilômetros do centro do município de mesmo nome e cinco quilômetros e meio da Rodovia Raposo Tavares, sentido Mato Grosso do Sul. Distante 619 quilômetros do trevo de São Paulo é conhecida no meio carcerário como “Presidente Wenceslonge”, dada a sua distância da metrópole. Foi utilizada muitos anos como unidade de castigo para os prisioneiros já que, sendo transferido para tão longe de seus familiares, imaginava-se que este repensaria seus atos de indisciplina cometidos no interior de outra unidade prisional. A idéia implícita era penalizá-lo perante aquilo que o prisioneiro tinha de mais sagrado: seus familiares.

  A Penitenciária 2 se localiza bem próxima de um bairro constituído de residências elegantes, imaginando-se tratar de vizinhos de poder aquisitivo elevado. Uma sub-portaria, vigiada por dois funcionários avisa-nos que chegamos à mesma. Um dos funcionários solicita-nos a identificação, bem como o motivo de nossa visita. Após esse procedimento habitual, os portões de acesso à penitenciária são abertos e é permitido o nosso prosseguimento.

  Distante do centro do município, o bairro onde se localiza a penitenciária parece bastante sossegado. Vemos pouquíssimas pessoas transitando pelas imediações. Há um local para estacionamento de automóveis e á esquerda é possível avistar uma construção sendo erguida, ao que parece com mão de obra de prisioneiros. Mais além, também à esquerda avistamos uma vila de residências que parece abrigar alguns dos diretores da instituição. Sabemos que o Coordenador de Presídios da Região Oeste também ali reside.

  O modelo arquitetônico desta Penitenciária é bastante diferente das novas maciça precisa ser transposto. Apresentamo-nos novamente neste portão através de um visor gradeado e nossa entrada é autorizada pelo funcionário que nos recebeu. Observam que o Diretor de Educação já nos espera e somos então convidados a encontrá-lo logo adiante, além de mais dois portões, também de madeira.

  O Senhor L. C. nos convida à sua sala e depois de perguntar sobre as nossas pretensões, passa a nos explicar o funcionamento da instituição escolar naquela instituição. Segundo ele, a Penitenciária 2 foi inicialmente planejada para abrigar prisioneiros em celas individualizadas. Com o passar dos anos, o aumento vertiginoso do número de sujeitos prisioneiros e como a necessidade de se conseguir mais vagas no sistema prisional paulista, foi adaptada para receber dois prisioneiros em cada cela dos seus quatro pavilhões.

  Depois do evento conhecido como “mega-rebelião”, em fevereiro de 2001, uma norma administrativa partida da direção da Unidade prisional, autorizava a liberação de apenas dois pavilhões para as atividades cotidianas. Isso quer dizer que no dia-a-dia da instituição, prisioneiros de pavilhões “superiores” jamais cruzam com os prisioneiros habitantes de pavilhões “inferiores” e vice-versa. Para as atividades escolares isso não é diferente. Há horários escolares sempre distintos para prisioneiros dos pavilhões superiores e para aqueles dos pavilhões inferiores. Explica-nos ainda que, por ser um presídio antigo, a escola da unidade sofreu algumas modificações em termos de localização, com o passar dos anos. Há alguns anos atrás, a unidade escolar se localizava próxima às oficinas de trabalho e assim, possuía uma acústica muito deficitária. Atualmente, a unidade escolar se localiza onde anteriormente, se localizava o cinema da instituição.

  Tendo nos passado essas explicações iniciais, o Diretor de Educação nos convidou, sempre solícito, a conhecer o espaço escolar da Unidade prisional. Localizada à esquerda de quem entra na instituição, passados mais alguns portões, todos eles vigiados por funcionários, a escola do presídio é, igualmente, bastante vigiada. Dois portões, desta vez de ferro, separam o corredor da escola das “celas” de aula. “Celas” porque todas as salas de aula são fechadas com grades. Nos dirigimos a sala dos professores, onde funciona também a biblioteca da instituição. Dois prisioneiros desenvolvem atividades nesse setor. Os professores que iniciarão suas aulas também ali

  Segundo o Diretor que nos acompanha, não se permite que os professores se misturem ao restante da população carcerária. Estes professores são escoltados da portaria da instituição até o prédio escolar por, ao menos, dois funcionários e aguardam, trancados na sala dos professores, o início das aulas. Os prisioneiros, liberados aos poucos dos seus respectivos pavilhões são encaminhados, depois de identificados e revistados pelos Agentes de Segurança Penitenciária, às salas de aula e ao sinal sonoro que indica o início das atividades, os professores para lá também se dirigem. São então, trancados nas “celas de aula” junto aos prisioneiros. Nesta unidade penitenciária, dois funcionários se revezam na vigilância constante aos alunos e aos professores que se encontram em sala de aula.

  As “celas” de aula têm o portão gradeado vigiado, além de visores que também servem como ponto de observação. Uma cadeira está colocada estrategicamente em frente às salas e um funcionário ali permanece até o final das aulas. Antes de ingressar às aulas, uma professora (que soube depois ser da rede pública do município) demonstrou preocupação com as atividades que iria desenvolver. Esta professora estaria iniciando, naquele momento, suas atividades docentes naquela instituição. A partir do início das aulas, é proibido o acesso de quaisquer prisioneiros à escola, bem como sua saída sem prévia autorização dos funcionários de plantão ou dos diretores da instituição.

  O prédio escolar tem quatro salas de aula. É possível ouvir vozes de salas vizinhas, já que a distância entre elas é muito pequena e suas portas, vazadas. Duas salas de aula funcionam no final do corredor e formam um “V” de forma que apenas um funcionário pode realizar a vigilância nestas duas salas de aula ao mesmo tempo. Vemos uma cena bastante curiosa: enquanto o professor de uma dessas salas de aula está de costas para o vigia, assistindo, junto aos prisioneiros aula gravada em vídeo, o vigia que observa a movimentação nessa sala solicita de forma bastante ríspida que um dos prisioneiros localizado ao fundo da sala se retire. Ouvimos dizer pelo funcionário de plantão que este prisioneiro já estaria sendo “marcado” pelo comportamento displicente em sala de aula. O prisioneiro sai obediente e lhe é solicitado dizer o número de sua matrícula. Ao dizê-lo, é “convidado” a abandonar o recinto escolar. Enquanto toda essa cena acontece, não notamos quaisquer reações do professor em sala de aula, que localizou o cinema) é muito ruim. Além de se ouvir bem pouco da aula gravada em vídeo, a televisão disponível em sala de aula é muito pequena, fazendo com que a imagem também chegue de forma ruim aos prisioneiros que sentam no fundo da sala, deixando-os prisioneiros em estado de ligeira excitação, com muitas conversas entre eles.

  A iluminação das salas nos pareceu adequada. Notamos que havia carteiras escolares e cadeiras para todos os alunos. As salas de aula estavam limpas. Vimos os professores utilizando-se de giz à vontade e também de apagadores para quadro negro. Não observamos a existência de carteiras para prisioneiros que escrevessem com a mão esquerda (canhotos). As paredes de algumas salas de aula, estão escritas à caneta, à giz e à lápis. No corredor escolar vemos a indicação dos alunos que ali estudam -a relação apresenta apenas a matrícula dos prisioneiros, não há indicação de seus nomes na mesma. Esse corredor apresenta-se à meia luz, cuja luminosidade acaba sendo auxiliada pela luz solar. Ainda neste corredor, ao lado esquerdo, há uma “saída de emergência” recentemente construída e fazendo-nos avaliar que o dia-a-dia naquela instituição é bastante tenso.

  É proibido fumar nas salas de aula. A proibição vale para prisioneiros e também para os professores. Outra cena curiosa acontece então: enquanto um professor de outra sala explica a matéria do dia, alguns prisioneiros se achegam ao portão de acesso à sala de aula, fazendo algumas solicitações relativas à sua situação prisional ao Diretor de Educação. Solicitam ser atendidos pelos advogados, pelo Diretor de Disciplina ou mesmo pedem uma chance de rever os familiares. Noutra sala, os alunos interrompem a aula passando, por entre buracos bastante pequenos da grade do visor, papéis que desejam ser entregues a responsáveis por algum setor da unidade prisional. Normalmente são reivindicações que desejam ver atendidas. O detalhe curioso é que todas essa movimentação dos alunos sequer é notada pelos professores em sala de aula que continuam, de forma sistemática, a explicação de algum ponto da matéria.

  Todas as quatro salas de aula possuem um sanitário. Ao ingressar num deles após o horário das aulas, percebemos que os prisioneiros aproveitam esse espaço para fumar (chegando a compartilhar o cigarro), a ponto de que, além de extremamente sujos por conta do uso contínuo por parte dos alunos, o cheiro de nicotina era muito forte. que trabalham por ali, enquanto os prisioneiros se amontoam no portão da “cela” de aula. Um palavrório muito forte é ouvido e é comum que acabem conversando com colegas de salas vizinhas. Os docentes saem rapidamente escoltados por dois funcionários e se dirigem à saída da instituição. Assim que saem, os prisioneiros também são “libertados”, sala após sala e se dirigem, enfileirados, aos seus pavilhões de destino (saem conversando ou rindo).

  A grande maioria dos alunos parece de origem muito humilde. Vêm à escola de chinelos e alguns de sapatos ou tênis. Todos vestem calças cor cáqui e portam os materiais escolares (caderno, lápis, caneta e borracha e às vezes, um livro) debaixo dos braços. Poucos mantêm o seu material escolar acondicionado em sacolas ou sacos plásticos.

  

Dados da realidade escolar da Penitenciária: Coletados a partir de conversa com o

  Senhor L. C. (Diretor de Educação da Penitenciária), formado em Educação Física e que trabalha no setor de Educação já há onze anos:

  • 14 turmas de alunos estão previstas na penitenciária;
  • Eram disponibilizados aos prisioneiros quatro horários de aula: Das 07h às

  08h45, das 09h às 10h45; das 13h às 15h45 e das 15h às 16h45, de segunda a sexta-feira;

  • A sala com maior número de alunos era a de Telecurso - Módulo II (geografia e

  Ciências), das 15h às 16h30, no antigo cinema. No período matutino, das 09h às 10h45, uma sala de aula contém 51 alunos (Telecurso - Módulo I, Língua Portuguesa e História); • Apenas no primeiro período de aulas, há salas duas disponíveis e sem atividades.

  Nos outros períodos de aula, todas as salas são utilizadas;

  • 478 prisioneiros freqüentam as salas de aula da instituição;
  • Há dois professores da rede pública do município lecionando na penitenciária

  (uma das salas de aula participa do processo de atribuição de aulas da rede pública); dois estagiários da FUNDAP; dois docentes contratados pela FUNAP, além de dois professores escolhidos entre os próprios prisioneiros e que auxiliam alguns professores em sala de aula (são chamados monitores);

  • Segundo L.C. a FUNAP ficou de planejar, já há alguns anos, a construção de salas de aula em local mais adequado da Penitenciária, até hoje sem solução.

Observações Gerais: O que antes de ingressar nos evidenciava tratar de um presídio de

  rigidez atenuada do que aquela habitualmente enfrentada em outras unidades prisionais por nós conhecidas, logo se mostrou falso. O presídio todo é gradeado. Para quem entra na instituição e tem que se dirigir à escola são 13 portões a ultrapassar. Alguns batem pesadamente às suas costas. Todos eles são fortemente vigiados por ao menos, dois funcionários. Não tínhamos visto, ainda, “celas” de aula, espaços escolares tão marcadamente vigiados (lembramo-nos de maneira acentuada do Panotpicom, denunciado por Michel Foucault em seu livro “Vigiar e Punir”, um espaço de vigilância maciça de onde é impossível escapar dos olhares de terceiros). Nos impressionou também a forma como as aulas eram conduzidas pelos professores, alguns mais alheios do que outros acerca de tudo o que se passava no interior ou no exterior das salas. O forte esquema de segurança dispensado aos professores também nos foi bastante peculiar. Outro detalhe digno de nota é que o trabalho executado pelos funcionários encarregados de vigiar as salas de aula nos pareceu extremamente cansativo e estressante. Estes dois funcionários se revezavam nas cadeiras estrategicamente dispostas pelo setor e em suas andanças pelo corredor da escola. O poder do funcionário em detrimento do professor em sala de aula foi outro detalhe importante, demonstrando a submissão do processo educacional à regras de controle e vigilância extremamente rígidas mantidas pela instituição prisional.

III – Penitenciária 2 – Segunda observação 02 de maio de 2004, domingo, 12h00

  É neste horário que embarcamos em um ônibus interestadual rumo ao “interior” – interior como metáfora deste momento em que deveremos penetrar no interior de uma instituição penitenciária e, mais precisamente, no recinto escolar dessa, a fim de levantar ali todos os aspectos possíveis de sua peculiaridade em meio à prisão como um todo. Esses dados, depois de levantados e confrontados com outros, comporão linha fronteiriça de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Faremos esse trajeto em, ao menos, nove horas de viagem e, nesse tempo, teremos oportunidades suficientes para refletir mais e mais sobre as possibilidades e os limites de nossa empreitada.

  No caminho, conforme o veículo avança, percebemos que prédios cinzentos vão dando lugar ao bucolismo do campo, assim como o dia e o entardecer vão dando lugar a uma noite maravilhosa. O céu da capital de São Paulo, carregado de nuvens cinzentas, apesar do dia de pouca movimentação de veículos e de trabalhadores em suas fábricas, vai dando lugar ao que parece um outro céu, mais claro, mais azul, mais vibrante.

  Avistamos, enquanto a viagem prossegue, imensas áreas verdes, muitas delas cultivadas e outras servindo de pasto para bois, carneiros, galinhas e avestruzes. Não há como não pensar naquelas pessoas que estão detidas no interior da instituição prisional para a qual nos dirigimos e que estão lá, amontoadas em cubículos apertados e separadas de seus entes queridos.

  Depois de quase três horas de viagem, fazemos uma pausa para um lanche ou para um simples “esticar as pernas”. Quinze minutos depois, estamos novamente com os pneus na estrada. Algumas paradas mais e o dia já se vai e o sol radiante daquela tarde, lentamente vai dando lugar a uma lua imensa e majestosa. Pensamos na nossa família que deixamos em São Paulo e numa frase que ouvimos algum tempo atrás que dizia que “a vida de um pesquisador é uma vida de solidão”. Após novas paradas em municípios onde o ônibus deixava ou recolhia pessoas com os seus mais diversos destinos, finalmente chegamos ao nosso destino.

  Um pouco antes de nosso desembarque, no caminho da rodovia para a rodoviária, notamos que muitas pessoas conversavam descontraídas junto às suas calçadas, em frente às suas casas ou mesmo em animadas praças. Pareciam-nos despojadas e completamente despreocupadas com a vida que ali, parece custar a passar. Percebemos muitas casas com suas portas abertas e seus portões escancarados e, automaticamente, pensamos nas nossas “pobres” vidas de moradores de cidades grandes, com nossos imensos portões, nossas grades, nossas “pressas” e “correrias”, alguma solidão e indiferença.

  A rodoviária do município em que desembarcamos é bastante pequena e nos estreitos, a lanchonete é diminuta e algumas goteiras que caem sobre os assentos completam a nossa percepção daquele lugar.

  Enquanto aguardamos um veículo da própria unidade prisional nos buscar (fato que já havíamos previamente combinado com o gentil Diretor da instituição), aproveitamos para lanchar numa outra lanchonete próxima dali, melhor apresentável.

  Esta se mostrou mais limpa, mais nova e melhor equipada do que aquela da rodoviária e é onde várias pessoas, alguns casais e outros que parecem membros de algumas famílias aproveitam o final do domingo para um lanche, umas cervejas e uma boa conversa. É hora do “Fantástico”, programa dominical da Rede Globo de Televisão. Poucas pessoas acompanham a programação. Preferem conversar animadamente.

  Às 21h30, nove horas e trinta minutos depois de nossa partida de São Paulo, um veículo tipo Belina, desses veículos antigos que raramente vemos circulando pelas nossas ruas estaciona bem a nossa frente. Em suas portas laterais a identificação do órgão público ao qual pertence: Secretaria de Administração Penitenciária. Secretaria de Estado criada em 1993 em decorrência da grande rebelião de 1992 na Casa de Detenção de São Paulo onde 111 prisioneiros foram executados por policiais da tropa de choque da Polícia Militar, supostamente depois de tentativas frustradas de debelar um movimento iniciado pelos próprios prisioneiros. Desse veículo sai um senhor simpático que cumprimenta a dona da lanchonete e, imediatamente, também nos encontra. Cansados, pagamos a conta do lanche que comemos e tomamos o rumo da penitenciária, afastada do centro da cidade onde me localizamos, aproximadamente dois quilômetros. A sua volta, casas que parecem de alto valor e muita área verde.

  É possível avistar o prédio da penitenciária de uma certa distancia da mesma. Sua localização num ponto mais elevado do bairro nos permite identificar sua estrutura arquitetônica que nos lembra, antes, uma dessas fortificações que vemos em filmes na TV ou no cinema. À sua entrada, num portão vigiado por um funcionário, lemos as seguintes inscrições, em letras maiúsculas: PARE e IDENTIFIQUE-SE. Acima desse portão, o nome da Penitenciária é iluminado por poucas lâmpadas. Algumas delas piscam incessantemente. Deverão queimar em breve. A um simples aceno com o dedo polegar do motorista que nos acompanha, somos autorizados a avançar para o “interior” do imenso terreno onde a penitenciária está instalada desde o dia 05 de dezembro de Penitenciária do Estado, em São Paulo, fundada em 1920 e, a Casa de Detenção de São Paulo, fundada em 1944 e implodida em dezembro de 2002.

  No estacionamento das viaturas oficias da penitenciária, “descansam” vários veículos entre carros de passeio e viaturas de transporte de prisioneiros. É nesse local onde somos recepcionados por um outro funcionário que, também já ciente de nossa presença, nos passa às mãos a chave do alojamento que nos servirá de local de reflexão e anotação de tudo o que virmos e ouvirmos. O alojamento, contíguo à sala onde ficam de plantão os motoristas da penitenciária, é composto de dois cômodos, uma minúscula sala com um guarda roupa e uma escrivaninha e um quarto com duas camas de solteiro e um beliche com mais duas camas, além de um banheiro com chuveiro e lavatório. Apesar da observação de que alguém esteve ali há pouco tempo (uma das camas está ainda desarrumada), acreditamos que este espaço nos servirá para o período que estaremos disponíveis para a pesquisa de campo.

  Desfazemos nossas malas e dispomos nossas roupas e nossos objetos pessoais de forma organizada, preparando os objetos de que necessitaremos para iniciar as observações na penitenciária no dia seguinte. Depois disto feito, resta-nos descansar da longa e cansativa viagem. Viagem, aliás, que fazem continuamente vários familiares dos prisioneiros detidos naquela instituição.

  03 de maio de 2004, segunda-feira.

  Às 7h30 da manhã já estamos prontos para o dia de trabalho. Conferimos novamente o material de que necessitaremos para a pesquisa, tais como caderno de campo, caneta, lapiseira, prancheta, maquina fotográfica e gravador de áudio e seguimos para a penitenciária, distante alguns metros do nosso alojamento. Na sossegada alameda que percorremos, vemos algumas residências que, imaginamos, são cedidas pelo Governo do Estado para alguns dos funcionários que trabalham naquela unidade prisional, prioritariamente os Diretores e o Coordenador de presídios daquela região. O movimento de pessoas nas mesmas é bem pequeno naquele momento do dia.

  Somos avistados por um funcionário que trabalha na Coordenadoria de Presídios e que nos reconhece. Convida-nos a tomar um copo de café numa daquelas casas da alameda, transformada atualmente em espaço de trabalho (A divisão do Estado conhecida na época como COESPE – Coordenadoria dos Estabelecimentos Penais do Estado). Atualmente são seis as Coordenadorias Regionais: São Paulo e Grande São Paulo; Vale do Paraíba e Litoral; Oeste; Noroeste e Região Central, além de uma Coordenadoria de Saúde, esta responsável pelas ações de saúde de todas as Unidades Prisionais.

  Na casa adaptada para receber os funcionários da Coordenadoria Oeste, muitos deles já estão em seus postos (o horário de início das atividades profissionais ali é às 7h00), e alguns deles também são nossos conhecidos – desde 1995 temos lecionado para funcionários das instituições prisionais e ao largo desse tempo, realizamos inúmeras viagens pelas diversas localidades onde estão as unidades prisionais do Estado. Isto tornou-nos conhecido de uma grande parte desses funcionários. Somos questionados então, acerca do motivo de nossa presença em local tão distante de São Paulo – em vários momentos de nossa estadia, seremos questionados sobre as nossas intenções. Depois das informações de praxe, conversamos sobre as atuais dificuldades porque passa o funcionalismo público de uma forma geral e, do sistema prisional de uma forma particular: baixos salários, desmotivação pessoal e profissional, condições de trabalho precárias, entre outras.

  Passados mais alguns instantes, pedimos licença para nos retirar já que temos encontro agendado com o Diretor Geral da penitenciária. Nos despedimos e somos convidados a retornar ali quando assim o desejarmos. Em poucos minutos chegamos ao portão principal da instituição. Inteiramente constituído de ferro, é através de uma pequena abertura gradeada, localizada na altura dos nossos olhos, onde ocorre a identificação para as pessoas de dentro da Penitenciária, daqueles que ali desejam ingressar. Um funcionário solicita que nos identifiquemos. Ao faze-lo, é aberto o imenso portão e somos conduzidos à recepção localizada no lado direito de quem entra na instituição. Ali, uma funcionária solicita um documento de identificação e, por telefone, solicita a um outro funcionário autorização para nossa entrada. Anunciada a nossa presença ao Diretor da instituição sendo e autorizado o nosso prosseguimento, é- nos perguntado se portamos aparelho telefônico celular. Respondemos negativamente, porém, dizemos que portamos máquina fotográfica digital e aparelho gravador de áudio. Nova ligação tem de ser feita para conferir se podemos prosseguir com esses

  De posse de nova autorização, somos conduzidos a um novo portão, este, totalmente gradeado e, diferentemente do primeiro, de chapa única de ferro. Depois deste segundo portão, nos encontramos num pátio interno da instituição e avistamos dois jardins, muito bem conservados, um à esquerda e outro á direita. Nesta parte da instituição começam as muralhas propriamente ditas. Novo portão, parecido com o anterior nos permite o acesso a uma parte interna da instituição prisional. Cada um desses portões é guardado por, ao menos, um funcionário devidamente uniformizado (camisa branca e calças azuis) que, normalmente, responde ao nosso cumprimento formal de bom dia ou boa tarde.

  Perguntamos ao funcionário que nos abriu o portão onde se localiza o gabinete do Diretor Geral é somos instruídos a subir algumas escadas localizadas à direita desse portão, alcançando uma sala do lado esquerdo do corredor acima. Somos recebidos numa pequena ante-sala por outro funcionário que pede para aguardarmos alguns instantes até que o Diretor possa nos atender. Aproveitamos para “fotografar” mentalmente aquele pequeno espaço físico. Uma divisória de madeira separa aquela ante-sala do que nos informaram ser o gabinete do Diretor da instituição. Um funcionário e outras duas funcionárias se revezam nas atividades desse setor. Várias mesas, algumas cadeiras e outros equipamentos elétricos e eletrônicos presentes naquele espaço deixam pouco espaço para a mobilidade das pessoas que ali trabalham.

  Os móveis são bastante velhos, rústicos e encontram-se desgastados pela ação do tempo. Equipamentos eletrônicos de última linha se misturam a outros de uso estritamente limitado nos dias atuais: fax, computador, impressora, telefones e máquina de escrever manual completam o cenário daquele setor de trabalho onde não encontramos qualquer estilo estético. Temos a impressão de que, nas prisões como em outras repartições públicas, os moveis e os aparelhos elétricos e eletrônicos antigos não são jamais inutilizados e somam-se a outros, mais modernos.

  Enquanto aguardamos acomodados num canto da sala, observamos que muitas pessoas entram e saem da sala com diversos papéis debaixo de seus braços. Praticamente em todas as mesas ali existentes, acumulam-se inúmeros papéis espalhados em cima desta. Outros funcionários desejam apenas conversar com o Diretor da instituição. O funcionário dessa sala apanha uma carimbeira – são inúmeros os falar com o Diretor Geral. Pergunta-nos se pode “passar a nossa frente na audiência”, já que tem coisas muito importantes a tratar com o Diretor. Somos informados de que este funcionário que pede para ser primeiro atendido é o Diretor de Segurança e Disciplina da instituição. Não nos opomos e continuamos a aguardar. Ouvimos antes que o Diretor Geral da Penitenciária permaneceu alguns dias fora da instituição, participando de um evento qualquer.

  Finalmente, com a saída do Diretor de Disciplina, somos convidados a ingressar no gabinete do diretor geral da instituição. Esta sala também nos lembra construções antigas, com móveis bastante rústicos e a maioria de madeira muito grossa. O Diretor Geral da penitenciária foi nosso aluno em curso de formação de dirigentes prisionais, anos atrás. Conversamos inicialmente acerca de coisas corriqueiras: a derrota do Corinthians no dia anterior; a sua ausência da instituição por alguns dias; a temperatura daquele dia, entre outras coisas. O diretor solicita então a presença do diretor de reabilitação e, com os dois presentes, esclarecemos a nossa intenção para aqueles dias.

  Ao ser convidado para uma entrevista, em dia e hora agendados conforme a sua disponibilidade, o Diretor Geral solicita a leitura antecipada das perguntas que formulamos, pois deseja “preparar as respostas”. Preocupa-se claramente com o teor das informações que dará, assim como com o possível “acerto” ou “erro” nas suas respostas. Buscando tranqüilizá-lo, esclarecemos que não se trata de acertar ou errar nas respostas. Lembramos a ele do sigilo dos dados ao qual estamos submetidos enquanto pesquisadores, além da impossibilidade de lhe passar o questionário para ler antecipadamente com o risco de inviabilizar o processo de levantamento de dados. Apesar de sua concordância, percebemos que não se tranqüilizou, apesar desses esclarecimentos.

  Conversamos então sobre as condições de nossa permanência na unidade prisional (alojamento, refeição, autorização para colher fotografias e para coletar as entrevistas, circulação interna, entre outras coisas), quando entra na sala o Diretor de educação da penitenciária. Depois de nos cumprimentar, nos questiona se não terminamos a nossa pesquisa ainda (estivemos nessa mesma unidade prisional em agosto do ano passado, realizando nossas primeira observações). À nossa negação à sua Ao dizer-lhe que desejamos comparar duas instituições prisionais no que tange às políticas educacionais levadas à cabo nas mesmas, deseja saber quais seriam essas diferenças, pois, ao que sabe “são todas instituições de cumprimento de pena em regime fechado” (sic).

  Quando colocamos a questão das “celas de aula”, por exemplo, dizendo que, na outra penitenciária aonde também iremos realizar a pesquisa, as salas de aula não contêm grades, diferentemente do que já vimos aqui anteriormente, tentam ambos (diretor de educação e diretor geral) justificar essa particularidade dizendo que talvez, a outra instituição estudada seja mais recente do que esta ou ainda que, em algum momento, em algum local daquela instituição há grades a ser ultrapassadas pelos prisioneiros. Buscamos não prolongar este assunto, percebendo que criamos uma certa polêmica, talvez desnecessária. Conforme pudemos constatar posteriormente em decorrência de um relato gravado de uma das professoras daquela instituição, os diretores de presídios não gostam de comparações como a que infelizmente acabamos fazendo. Redirecionamos o assunto para a questão da nossa estadia e dos procedimentos formais de nossa permanência na instituição.

  Ao falar da necessidade de entrevistar dois ou mais prisioneiros que freqüentam a escola, o diretor da instituição nos diz que é possível, desde que um funcionário fique do lado de fora do espaço demarcado para a realização das entrevistas

  • “por questões de segurança, o funcionário não necessariamente precisa ouvir o que se fala no interior da sala, entretanto, é necessário que visualize o que ali se passa” (sic) – esta situação acabou não ocorrendo nas entrevistas que realizamos com os prisioneiros, ou seja, nenhum funcionário ficou “vigiando” a sala onde estas se realizavam.

  Concordamos com o proposto, desde que não haja interrupções da entrevista, fato que o diretor também concorda. Nos despedimos e saímos juntos, e o diretor de educação nos conduz até a sala onde trabalha. Ali conversamos um pouco mais até que uma sirene anunciou o fim dos trabalhos do período matutino. Eram 11h00. Aproveitamos o horário de intervalo para tirar as primeiras fotografias da escola da instituição – um prédio localizado no fundo da Penitenciária à sua esquerda. Além dos três portões que já atravessamos até chegar à administração da penitenciária, para alcançar a escola, é necessário atravessar mais quatro portões e duas “gaiolas” (termo nos acompanha ao recinto escolar não faz qualquer óbice às fotografias desde que as mostremos ao diretor de disciplina posteriormente, ao que concordamos.

  Almoçamos no refeitório dos funcionários da penitenciária. Um imenso cômodo, também bastante deteriorado pela ação do tempo. Azulejado até a metade de suas paredes, deixa-as à mostra e o quanto estão sujas e descascadas. Em alguns cantos presenciamos infiltração de água. Os ventiladores de teto estão desligados (sabemos depois que estão quebrados devido à um curto circuito) As mesas e as cadeiras onde os funcionários se sentam para almoçar ou jantar também estão bastante deterioradas. A comida é simples. Parece que ali almoçam apenas os funcionários plantonistas – a maioria dos funcionários que zelam pela vigilância e disciplina interna, pois os funcionários diaristas - a maioria, funcionários administrativos, saem da penitenciária para a refeição matinal em suas casas.

  Ás 13h00, nova sirene anuncia o início do período de trabalho vespertino. Na administração, vemos intensa movimentação de pessoas novamente. Estamos na sala do diretor de educação e chegam duas professoras da instituição que, imediatamente após deixarem algum material de uso pessoal num dos armários ali presentes, se dirigem até o portão de acesso aos pavilhões e à galeria central onde deverão aguardar escolta de algum funcionário que as levará até a escola. Ali, sabem que não haverá aulas no período da tarde porque os funcionários da vigilância estariam “batendo grade” (termo utilizado internamente para designar a revista minuciosa nas celas dos prisioneiros, ou as famosas “blitz”, quando são revistadas cela a cela em busca de materiais proibidos na instituição, tipo aparelho celular, serras, limas, facas e até armas de fogo) ou mesmo em busca de possíveis túneis cavados pelos prisioneiros para tentar fugas da instituição.

  Aproveitamos a “tarde livre” para visitar o local que serve como “arquivo morto” da penitenciária, onde podemos pesquisar a existência de documentos antigos sobre a escola da instituição, ou mesmo sobre os antigos alunos dessa. Não fazendo qualquer objeção à minha intenção, o diretor de educação atende ao meu pedido e, juntos, caminhamos até o referido local que se localiza num espaço junto ao jardim do pátio interno da instituição. È quase como um corredor. Há algumas prateleiras com material organizado nas mesmas, principalmente prontuários de prisioneiros de épocas anteriores e também de funcionários, além de livros de legislação. Há também vários pelo chão, equipamentos elétricos em desuso e até carpetes compõe aquele cenário. Ali, em consulta ao material que se encontra nas prateleiras, localizamos um registro do ano de 1968 daquele que seria o aluno mais antigo da Penitenciária.

  Aproveitamos a “tarde livre” em decorrência da “blitz” para levantar dados relativos ao ensino naquela instituição. Enquanto nos passa esses dados, o diretor de educação comenta que ficou impressionado com o número reduzido de alunos presentes às aulas que encontrou pela manhã. Conta que voltou de férias neste dia e que não esperava encontrar um movimento de alunos tão reduzido na escola. Credita essa situação à inoperância de seu substituto.

  A Penitenciária tem hoje 797 prisioneiros, espalhados por quatro pavilhões que, na linguagem corrente do local são conhecidos como “raios”. Nos dois “raios de cima” estão aqueles pertencentes a uma determinada facção prisional (soube-se realmente da existência de facções criminosas dentro dos presídios paulistas depois da mega-rebelião de 2002 quando uma facção criminosa denominada P.C.C. - Primeiro Comando da Capital, se responsabilizou e assumiu o planejamento e a autoria da mesma) e nos dois “raios de baixo”, prisioneiros de outra facção, rival à primeira. Em sala de aula, como nas oficinas, estes prisioneiros não se encontram em hipótese alguma, sob risco de motim ou outro movimento perturbador da ordem interna.

  São quatro os horários de aula na escola da instituição: das 07h00 às 08h50; das 09h00 às 10h45; das 13h00 às 14h50 e das 15h00 às 16h40, assim como são quatro as salas de aula. No primeiro horário do dia, estão matriculados 38 alunos que cursam ALFA I (ensino de primeira e segunda série do ensino fundamental), divididos em duas salas de aula com 19 alunos em cada uma delas. No segundo horário, estão matriculados: no ALFA I, 21 alunos; 31 alunos estão matriculados no ALFA II (ensino de terceira e quarta série do ensino fundamental); 53 alunos estão matriculados em ensino de TELECURSO 1 - primeiro grau, cursando as disciplinas de Português e História – 21 deles numa sala e 32 em outra; às 13h00, 18 alunos estão matriculados no ALFA 1 e 36 alunos no ALFA II. 22 alunos estão matriculados no TELECURSO 2 e cursam as disciplinas de geografia e ciências e 32 alunos, matriculados do TELECURSO 3, cursando as disciplinas de matemática, inglês e artes; Finalmente, às 15h00, tem-se 39 alunos matriculados no ALFA II, 35 alunos no TELECURSO 1, 27 no

  Para lecionar na escola da penitenciária, 11 professores de dividem em seus afazeres. Quatro desses professores foram recrutados pela FUNAP (Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel), órgão responsável pela viabilização da política de trabalho e de educação no interior dos presídios, entre os próprios prisioneiros da instituição. São os monitores presos. Dois professores são contratados pela própria FUNAP e cinco professores pertencem à própria rede estadual oficial de ensino. Além de se responsabilizar pelo pagamento mensal de salários para os professores contratados por ela, a FUNAP também se responsabiliza pelo pagamento de um ordenado aos monitores presos (em quantia inferior aos de “fora” do presídio) e também a um monitor de posto cultural, responsável pela biblioteca da instituição e um monitor do posto cultural, responsável pelo setor de esportes e recreação da instituição prisional.

  Em conversas que fomos mantendo, confirmadas depois em algumas entrevistas que realizamos, o diretor de educação teceu severas críticas aos funcionários responsáveis pela segurança e disciplina da instituição (Agentes de Segurança Penitenciária ou A.S.P.). Segundo o diretor, esses funcionários normalmente não colaboram ou contribuem para um andamento satisfatório das questões de educação no interior da instituição prisional. Dá um exemplo: à hora destinada à escola, o funcionário de uma determinada gaiola (temos três nesta Penitenciária), dá a “voz de comando”, chamando os prisioneiros daquele pavilhão às aulas, sem se importar com o fato de que este prisioneiro irá ouvir e aquele outro não (devemos lembrar que, aos prisioneiros é proibido o uso de relógios de pulso). Passados alguns instantes, o portão de acesso à galeria que leva até a escola é fechado e o trânsito de prisioneiros a partir daquele instante, proibido. Nos pavilhões, continua o diretor, os prisioneiros estão jogando futebol, conversando entre si, escutando rádios, assistindo TVs ou simplesmente distraídos. São estes os prisioneiros que não ouvirão o chamado para as aulas e, costumeiramente, perderão o dia letivo.

  Este fato também acontecerá quando, estando as celas fechadas nos intervalos de almoço e os funcionários passarem entre elas chamando para as aulas, um dos prisioneiros não comparecer imediatamente no visor da cela, apresentando-se pronto para as aulas. Se este funcionário já estiver na cela seguinte, aquele outro retardatário não deverá ser liberado para as aulas. Além das críticas a esses agentes, o unidades prisionais as questões pertinentes à educação. Reclama ainda de seus substitutos que deixaram de cumprir a contento a sua substituição no período de suas férias. Segundo ele, em apenas dois momentos, seu substituto teria sido visto no setor da escola. Acontece que os prisioneiros que freqüentam a escola acabam tendo muitas reivindicações a fazer e só as conseguem no momento em que estão na escola, junto ao responsável por esta. Como o seu substituto não teria ido ao recinto escolar neste mês, os prisioneiros se sentiram desmotivados a continuar os estudos. (quase todos os trabalhos acadêmicos produzidos sobre o tema “escola nas prisões” acaba falado desta função específica da escola que é o local onde os prisioneiros acabam tendo suas reivindicações ouvidas pelos responsáveis).

  Às 17h00 pontualmente, nova sirene soa indicando para o final do expediente do dia, especialmente para os funcionários diaristas. Neste momento, não há mais qualquer trânsito de prisioneiros pelas galerias. Já se encontram trancados em suas celas. Todos se preparam para sair, inclusive as professoras que, mesmo sem ter expediente a cumprir na escola, tiveram que permanecer na unidade prisional até o final do horário determinado. Não tendo mais o que fazer naquele momento, retiramo-nos para o alojamento que nos foi cedido, abandonando para trás a unidade prisional com uma ligeira sensação de alívio.

  04 de maio de 2004, terça-feira.

  Como combinamos com o diretor de educação que desejávamos observar os primeiros movimentos em torno da escola, já às 06h50 estamos na penitenciária. Como este diretor ainda não havia chegado à instituição, somos orientados na portaria da mesma, a aguardá-lo. Acabamos por ser conduzidos para o interior da instituição por uma das funcionárias desse diretor. Às 0710, já com a presença daquele, vamos até o refeitório da instituição. O diretor parece não ter pressa para chegar à escola. Ali no refeitório, comemos torradas (a padaria da instituição só funciona no período do dia, daí não haver pão fresco no período da manhã) e tomamos café com leite nessas canecas plásticas, típicas em escolas públicas. Um prisioneiro já está limpando as mesas e as cadeiras do local. Poucos funcionários fazem a refeição matutina (já é hora de expediente – a maioria dos funcionários já deve ter passado por ali mais cedo). Vemos

  é intensa. Chegam enfileirados, uns atrás dos outros, conduzidos por dois funcionários que caminham ao seu lado.

  Atravessamos então a galeria do presídio e chegamos à escola. Na gaiola desta, cinco funcionários conversam e riem animadamente. No chão do corredor da escola que, a esta hora, já está com a porta de acesso aberta, vemos muitas poças de água (choveu muito na noite anterior). Explicam-nos que, como o presídio é construído em desnível, as águas que acabam caindo na parte de cima (terceiro e quarto pavilhões) em decorrência de várias goteiras nas paredes, terminam por se concentrar no recinto escolar e nos pavilhões de baixo (primeiro e segundo), localizados em parte mais baixa, portanto. Os alunos e os professores já se encontram trancados em suas “celas” – traremos essa situação novamente, entretanto é bom um comentário preliminar: Os professores são os primeiros a chegar ao recinto escolar e são encaminhados até a biblioteca da instituição. Ali, são trancados enquanto aguardam a chegada dos alunos. Estes, ao chegar, são encaminhados às suas salas e também trancados nas mesmas. Só após a tranca da última sala de aula é que os professores são liberados da biblioteca e, posteriormente, trancados nas salas ou celas de aula. È importante ressaltar que, neste horário, apenas duas salas de aula estão sendo utilizadas, ambas com alunos cursando ALFA I.

  Dois funcionários fazem a vigilância do local. Normalmente, 1 deles vigia as primeiras salas (1 e 2) e o outro as duas últimas (3 e 4). Neste horário, ambos ficam vigiando as únicas duas salas de aula que funcionam (1 e 4). Há duas cadeiras (carteira escolar) no corredor, uma para cada um deles. Ao ingressar no recinto da escola juntamente com o diretor de educação, vários alunos interrompem seus afazeres e caminham até o portão de entrada das salas de aula, levando-lhe algumas reivindicações ou queixas. Comunicam-se em voz alta, tanto os alunos quando o próprio diretor de educação. As professoras parecem não se incomodar com a movimentação. Continuam com a matéria que estavam lecionando. Nas paredes do corredor escolar, vários comunicados e listas de alunos (contendo apenas a matrícula dos mesmos) estão afixadas – um deles, proíbe o uso de cigarros em sala de aula e promete “punir os faltosos com o rigor da lei, ou das normas internas”. Diz ainda que, “aquele que desejar fumar no momento de aula, deve dirigir-se ao banheiro existente” (há um deles, com

  Um outro cartaz busca disciplinar a saída de prisioneiros da sala de aula – “apenas com autorização expressa e por escrito de porte de algum funcionário”. Nossa atenção se volta então para um telefone que toca. O aparelho, grudado à parede, está localizado bem próximo à sala quatro. Sua campainha também é alta. É de pronto atendido pelo diretor de educação. Ninguém que se encontre no corredor ou mesmo nas salas de aula parece dar muita atenção àquele aparelho telefônico. Enquanto fazemos nossas anotações numa das salas de aula vazias, o diretor de educação vem até nós e nos mostra-me que alguém arrancou um pedaço de fio que compunha uma extensão que ligava o aparelho de televisão presente na sala e o vídeo-cassete (ambos protegidos num armário devidamente trancado com cadeado). O diretor acredita que não tenha sido os prisioneiros quem teria realizado o ato, pois os mesmos são revistados ao sair das salas de aula. Desconfia de funcionários, que levariam o pedaço de fio elétrico para poderem ligar as suas TVs ou rádios em seus respectivos postos de trabalho.

  Nesse momento, um prisioneiro (reconheço-o pelo uniforme – calças de cor caqui e camiseta branca com as inicias da penitenciária desenhadas na altura do peito) se aproxima e parece bravo, pois chega de forma intempestiva. Pergunta se o diretor sabe onde foram parar as demais carteiras que seriam de uso dos alunos em sala de aula. À resposta do diretor de que estariam emprestadas para um curso para os funcionários realizado em local anexo à instituição é desmentido pelo prisioneiro que diz estarem “jogadas ao relento, tomando chuva e sol, junto à saída de emergência localizada na escola, a pedido do próprio diretor de segurança e disciplina”. O diretor de educação, enrubescido, diz não acreditar, ao que é intimado pelo próprio prisioneiro a “ver com seus próprios olhos”. O diretor de educação diz ao prisioneiro que tomará as devidas providências ainda hoje, solicitando que retornem as carteiras às suas salas (convém dizer que, em que pese toda a disponibilidade desse diretor em buscar a solução desse fato, até o último dia de nossa estada na Penitenciária, as carteiras continuaram ao relento, atrapalhando inclusive a saída de emergência da escola). O diretor de educação sai apressado, deixando-nos só e solicitando que fiquemos à vontade.

  Percorrendo as duas salas de aula da escola, conseguimos ver no quadro negro de uma delas a palavra estereótipo grafada incorretamente pela professora (esteriótipo). Lecionava uma aula de história. No quadro negro uma outra frase nos professora. Só mais tarde, quando observamos em cima da mesa da biblioteca, o material escolar da professora, soubemos tratar-se de frase de um índio chamado KAIMBÉ.

  Os dois funcionários que fazem a vigilância da escola parecem aborrecidos com a rotina, com a mesmice daquele posto de trabalho – atentos ao que se passa no interior de cada uma das salas de aula da instituição.

  Ás 08h30 há distribuição de materiais escolares aos alunos, composto de um caderno universitário brochura de 100 folhas; um lápis preto número dois; uma caneta esferográfica tipo BIC e uma borracha branca. Antes desta distribuição, o diretor de educação, já de volta à escola, passa nas duas salas de aula gritando às professoras que lhe passem pela grade a lista de freqüência dos alunos. Às 08h42 soa uma campainha que anuncia o final das aulas daquele período (aulas que deveriam ir até às 08h50!). Antes disso, havia presenciado um dos funcionários de vigia da escola conversando por entre as grades com uma das professoras e mais um dos alunos. Um pouco depois e antes da campainha que anunciou o final das aulas, um outro funcionário conversava com um dos alunos de uma das salas de aula, por entre o visor (as salas de número 1 e de número 2 contêm um visor, todo gradeado que também serve como ponto de vigilância pelos funcionários). Esse prisioneiro desejava saber quanto tempo ainda restava para o final das aulas.

  Os funcionários que fazem a vigilância da escola “soltam” inicialmente os professores que se dirigem à biblioteca, para onde também vamos, conduzidos por um dos funcionários. Somos todos trancados naquele recinto. Às 08h44 os alunos começam a deixar a escola. Saem primeiro os alunos da sala um. Seguem em fila, um atrás do outro, em silêncio, seguindo uma faixa preta à direita do corredor, depois os alunos da sala 4, que reproduzem os passos dos primeiros. Às 08h46, somos destrancados.

  As professoras e os prisioneiros que trabalham na biblioteca (na penitenciária em questão, além dos monitores presos que estão submetidos aos mesmos procedimentos dos outros professores, mais dois outros prisioneiros se revezam em trabalhos num computador ali existente. Enquanto não estão lecionando, os monitores presos ou os outros prisioneiros, um deles, na função de bibliotecário sem o ser de formação, elaboram cartões com imagens e mensagens que serão “vendidos” aos outros feitos em papel sulfite, um maço - R$ 1,47; quando feitos em papel linho, três maços - R$ 4,41). O microcomputador utilizado, assim como a impressora, a tinta desta e o papel para os cartões são de propriedade dos próprios prisioneiros que ali trabalham.

  Às 09h00 presenciamos uma reunião do diretor de educação com os professores presentes (dois de fora da instituição e três monitores presos). Fazem diversas reclamações sobre as dificuldades – pedagógicas ou não - que enfrentam no dia-a-dia da escola. Comentam de um aluno que há oito anos freqüenta o ALFA I. Segundo dizem, esse prisioneiro consegue ler tudo o que vê, porém não consegue escrever uma única palavra. Enquanto aguardamos o início do próximo horário de aulas, definimos algumas entrevistas e pedimos aos professores que tentem uma autorização dos alunos para algumas fotografias.

  Novamente somos trancados na biblioteca e os prisioneiros iniciam seu trânsito em direção às salas de aulas. Neste horário estudariam os prisioneiros dos “pavilhões de cima” – 3 e 4. Seriam os prisioneiros considerados mais perigosos.

  Somos chamados em uma das salas de aula (3) pela professora que está tendo dificuldades com os alunos quando solicitou autorização para que tirássemos algumas fotos dos mesmos. Por entre as grades, os alunos nos questionam acerca de nossos reais objetivos. Perguntam-nos em quais questões pessoais, as nossas fotografias ou mesmo o nosso trabalho poderia ajuda-los em sua “caminhada” para a liberdade. Quando souberam que éramos funcionário de uma outra unidade prisional, nos questionaram dos motivos que levariam uma quantidade maior de prisioneiros a obter benefícios pessoais naquela, diferentemente desta onde me encontro. Pedimos ao funcionário de plantão e aos próprios alunos, permissão para entrar na sala de aula e explicar a pesquisa. Entramos eu e o diretor de educação. Explicamos que o objetivo do nosso trabalho, fundamentalmente, não é auxiliar este ou aquele prisioneiro e sim, que o objetivo primordial de nosso trabalho é mostrar as condições dos processos educacionais ali desenvolvidos. Digo que não são obrigados a posar para as fotos e que, mesmo que o queiram podem faze-los virados de costas. Após mais algumas explanações, permitiram a tomada de fotos. Após as mesmas, fizemos questão de mostrá-las (a máquina fotográfica digital permite que se veja no instante seguinte a foto tirada) aos prisioneiros que ficaram muito admirados, não só com as fotos, más muito mesmos. Pedimos desculpas à professora pela interrupção de sua aula, ao que assentiu positivamente.

  Somos informados pelo diretor de educação que a sala de aula número 1 já foi sala de aulas de música quando do início das atividades da penitenciária, em 1968. Às 10h00 entrevistamos o aluno J. no recinto da biblioteca. A duração da entrevista é de apenas 14’. J. é extremamente simples e de pouco repertório linguístico. Cursa alfabetização (ALFA 1). Ao final da entrevista, deixamos com o funcionário que faz a vigilância da escola duas pilhas alcalinas. São um presente a J. que reclamou não ter visitas e estar sem ouvir seu rádio de pilhas há um mês por falta de condições materiais para comprá-las.

  Percebemos que onde deveria haver um extintor, há apenas um espaço vazio. O referido extintor irá re-aparecer apenas na sexta-feira. O Diretor de Educação o localizou no hospital da instituição. Às 10h36 o sinal sonoro que indica o final das aulas do período soou (o final previsto era às 10h45!). Novamente saem primeiro os professores e agora, se dirigem imediatamente para a saída do recinto escolar. Estamos trancados na biblioteca e vemos os prisioneiros sendo liberados sala a sala e caminhando pelo corredor um após o outro sempre em fila e em silêncio. Às 10h45 as luzes da escola são apagadas e um funcionário já nos aguarda para a escolta até a administração do presídio. O portão de acesso à escola é trancado.

  O primeiro horário do período da tarde daquele dia é reservado para a realização de uma entrevista com outro Agente de Segurança Penitenciária. Sindicalista

  • participa como diretor regional da atual gestão do Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo, L. mantém uma postura bastante crítica com relação à sua atividade profissional e questiona bastante a postura de alguns colegas de trabalho. Ao mesmo tempo, mostra muita disposição e idealismo, de acordo com os seus comentários no decorrer da entrevista. Convém relembrar que os entrevistados foram surgindo, como voluntários ao procedimento de entrevista. Com exceção dos diretores, tanto os prisioneiros, quanto os funcionários ou mesmo os professores, não foram selecionados anteriormente para esse procedimento.

  Enquanto aguardamos o horário previamente agendado para a entrevista com o Diretor de Reabilitação (superior hierárquico ao Diretor de Educação, na estrutura sala. Ali, mostra-nos os objetos e materiais apreendidos na “blitz” realizada no dia anterior: um pacote plástico contendo algumas trouxas de maconha; quatro aparelhos telefônicos celulares; uma serra para ferro e uma lixa de ferro. Reclama de suas atividades e da exaustão relacionada ao cargo que ocupa. Reflete que nos últimos tempos, a tarefa de administrar a segurança e a disciplina de um presídio tem se tornado mais e mais inglória e desgastante ao extremo, além de perigosa. Acredita que a diminuição da idade em que normalmente as pessoas estão sendo presas atualmente, aliado ao fato de que muitas dessas pessoas serem oriundas de outras instituições de contenção como as FEBENs, têm “endurecido” (sic) o relacionamento deste ex- adolescente infrator em relação àqueles funcionários que o vigiarão na prisão. Conclui que os prisioneiros de hoje estão mais agressivos, violentos, desrespeitosos e inconseqüentes.

  O diretor de segurança e disciplina reclama ainda que as funções que executa não lhe dão direito a um descanso digno e merecido e que, não raro, é obrigado a abandonar atividades de lazer ou desmarcar compromissos assumidos com amigos em finais de semana, em decorrência de problemas ou conflitos importantes no interior da instituição prisional. Este diretor mostra-se, de fato, abatido.

  Mesmo sem lhe perguntar e, acreditando que já sabemos da questão das carteiras escolares que foram colocadas ao relento, justifica a ordem que deu aos seus subordinados, pois fora alertado para o fato de que as salas de aula, em decorrência do número diminuto de alunos em comparação ao número de carteiras, poderiam se transformar em campo de batalha, onde os prisioneiros poderiam utilizar-se das carteiras como armas contra possíveis inimigos. Sua ordem teria sido para que seus subordinados deixassem em sala de aula, número de carteiras escolares compatíveis ao número de alunos que estariam freqüentando a escola.

  Realizamos entrevista com o Diretor de Reabilitação que, entre outras coisas, reclama bastante das ações desarticuladas entre as diversas diretorias da penitenciária, principalmente entre a sua própria e a de segurança e disciplina. Embora reconheça a importância da segurança e disciplina internas, avalia que existe uma longa distância separando as ações de ambas as diretorias, tornando a tarefa de reabilitar o sujeito prisioneiro extremamente difícil. dirigimos. Parece sentir-se pouco a vontade no momento da entrevista, desejando terminar logo aquele processo.

  05 de maio de 2004, quarta-feira.

  Havíamos prometido aos prisioneiros que posaram para fotos no dia anterior, mostrar-lhes as imagens de 1968 que conseguimos no Museu Penitenciário do Estado e que mostravam alguns aspectos da penitenciária naquele ano, especialmente uma sala de música e uma sala de aula. Passamos as fotografias através da grade da cela de aula e, imediatamente, os alunos fizeram um círculo em volta do prisioneiro que as segurava para vê-las. Faziam inúmeros comentários sobre as mesmas, especialmente sobre aquelas que retratavam salas de aula e música.

  Um pouco antes disso, precisamente às 09h10, horário em que chegamos ao prédio escolar aquele dia, um dos funcionários de vigilância daquele setor mal nos olhou nos olhos. Estendendo a mão para cumprimenta-lo, o fez mecânica e friamente. Quanto ao colega que o auxiliava naquele posto não tivemos qualquer dificuldade de contato. Solicitamos a esse outro que nos autorizasse tirar umas fotos suas junto ao seu posto de vigilância. Em dúvida quanto ao procedimento a seguir, caminhou alguns passos em direção ao primeiro e lhe questionou a respeito, que recusando a operação, fez com que o amigo assim também o fizesse.

  Na seqüência o Diretor de Educação adentra ao recinto escolar. A sua presença ali é percebida por todos e, imediatamente, vários alunos se aglomeram em frente ao portão de entrada da sala de aula ou do visor lateral. Os pedidos que fazem dizem respeito, principalmente, a possíveis informações sobre o andamento de seus processos judiciais, especialmente, aqueles conhecidos como benefícios (progressão de regime – do fechado para o semi-aberto ou para o Livramento Condicional; remissão de pena decorrente de dias trabalhados, entre outros). Um dos prisioneiros questiona sobre a possibilidade de se arrumar carteiras escolares para sujeitos canhotos que estariam em sala de aula e mal acomodados nas carteiras para destros. Este pedido é prontamente atendido já que em outras salas de aula algumas carteiras para canhotos estão sobrando.

  Numa das salas de aula, vemos a professora conversando com outros dois alunos; ao menos três outros estão conversando com o Diretor de Educação junto ao preferindo o silencio, trazem olhares indicando que suas mentes estão muito além das muralhas da prisão. O Diretor de Educação nos informa que a sala de aula um é a mesma sala de música de uma das fotos do ano de 1968 que trazemos.

  De onde estamos localizados é possível observar que, depois de muita conversa, um dos alunos de uma das salas de aula, consegue convencer o funcionário de vigilância que o deixe sair para buscar o seu material escolar, esquecido junto à grade da oficina onde trabalha (sic). Do mesmo local é possível ouvir a voz grave do professor que leciona na sala 2 – sua aula é de língua portuguesa, especialmente pronomes. Ouvimos ainda o professor da sala um que leciona matemática e a professora da sala três que recita um poema. Na sala quatro, silêncio...

  Naquela manhã, nenhum dos dois funcionários de vigilância ao posto da escola sentaram nas carteiras disponíveis a eles no corredor. Pareciam desconfiados em decorrência de minha presença no local. Às 10h00, a professora que lecionava na sala de aula nº 4 vem até a biblioteca para tomar um copo de café. O faz rapidamente e retorna à sua sala de aula. Dois prisioneiros executam algumas atividades naquele setor. Um deles trabalha no computador – que tem o compartimento da CPU aberta para que um ventilador a refresque, e o outro prepara um painel num enorme papel cartão. Vemos o funcionário desconfiado passar pelo corredor da biblioteca, impaciente.

  Nesta manhã, todas as quatro salas de aula da escola têm um número de alunos reduzido. O corredor do prédio escolar é parcialmente iluminado. As paredes estão sujas e com a pintura descascada pela ação do tempo. O teto apresenta inúmeros remendos. Dos dois extintores que deveriam ali estar, avistamos apenas um deles – o diretor de educação nos dissera do sumiço do outro extintor, que irá reaparecer no último dia de nossa presença na escola, encontrado no setor da enfermaria pelo próprio diretor. Na parte de cima do único extintor ali presente, amparado entre o mesmo e a parede, descansa um livro – “A idade da Razão”, de Jean Paul Sartre. Pertence à biblioteca da Penitenciária e que o lê é o funcionário bastante desconfiado e impaciente.

  Do lugar onde nos encontramos, mais ou menos no meio do corredor e entre as salas de aula, é possível ouvir vozes vindo de todas elas – vozes de professores e dos alunos. O monitor preso que leciona na sala de aula nº 4 tem a voz muito grave e alta. Sentimos um forte odor de urina que parece vir de um dos banheiros das salas de aula. DA JANELA!”. A pequena placa se encontra pendurada numa abertura na “gaiola” do prédio escolar, escrita manualmente e num pedaço qualquer de papelão. Na gaiola, o funcionário de vigia está atento à movimentação do recinto. A porta de entrada da escola mantém-se apenas encostada. Próximo onde estamos agora, sentimos um agradável aroma de comida. Do lado direito de quem sai da escola há um grande salão, com muitas cadeiras e algumas mesas encostadas na parede. Está vazio neste momento. Sabemos depois que é naquele local aonde irão se encontrar os prisioneiros dos pavilhões três e quatro da penitenciária com seus parentes e amigos no próximo final de semana. Diferentemente de outras penitenciárias, onde a visitação aos prisioneiros é realizada nos próprios pavilhões de habitação, naquela instituição, isso é realizado em dois salões localizados no meio do estabelecimento.

  Às 10h30, vemos prisioneiros que saem das oficinas de trabalho localizadas em frente ao prédio escolar sendo revistados e após esse procedimento, seguirem pelas galerias até os seus pavilhões de origem para o almoço. Os prisioneiros que trabalham na biblioteca da escola também deixam as suas atividades e seguem o mesmo procedimento. São revistados e seguem seu destino. Os funcionários das gaiolas trocam mensagens onde afirmam faltar apenas os alunos para serem revistados. Logo depois, ouvimos a campainha que anuncia o final das aulas. Os alunos levantam-se alvoroçados e se aproximam das grades das salas de aula, entretanto, são os professores os primeiros “libertados”. Estes se dirigem imediatamente à biblioteca e dali para o portão de saída da escola. Somos convidados pelo funcionário desconfiado a nos retirar igualmente, junto aos professores, pedido que atendemos sem questionar. Já na galeria, vemos os prisioneiros saírem, um a um, serem revistados por quatro funcionários e seguirem seu rumo.

  Às 13 horas, uma sirene anuncia o inicio do expediente de trabalho do período da tarde. Aguardamos, junto às professoras daquele período, que algum funcionário nos escolte até o prédio escolar. “Descemos” todos, em silêncio. As professoras carregam, além do material de ensino, uma garrafa térmica que contém café. Vamos todos à biblioteca onde somos trancados, aguardando os alunos da tarde. Já são outros os funcionários que responderão pela vigilância daquele setor: Um deles, já com seus 60 anos de idade, mostra simplicidade e simpatia. Entre os dois funcionários, que ainda se encontrava na biblioteca se desloca à sala de aula. Parece não haver pressa naquele local.

  Às 13h30 conseguimos tirar umas fotografias dos funcionários de vigilância à escola em seus postos. Após uma explanação rápida de nossos objetivos, não titubeiam em se deixar fotografar em poses sérias defronte a seus postos de trabalho.

  Entre as 13h50 e às 14h30, realizamos entrevistas com dois alunos da professora A. – uma verdadeira entusiasta da educação no interior dos presídios, como poderemos verificar depois em sua própria entrevista. Nosso objetivo inicial era o de entrevistar apenas um dos prisioneiros, entretanto, o outro deles se mostrou contrariado com a indicação do colega e fez a professora interceder por ele para que também fosso chamasse, o que atendemos. Soubemos pouco depois que as salas de aula deste período é constituída, basicamente, por prisioneiros tidos como bastante problemáticos por parte da administração do presídio, segundo informações da própria professora. A entrevista com os dois nos mostrou o quanto estão habituados com a situação em que se encontram. As “celas de aula” não os afligem, pois se acostumaram com grades por todos os lados.

  Logo depois da entrevista, ao sair para o corredor da escola, o senhor que faz a vigilância de duas das salas de aula nos comunica que teve que levar um aluno para o “pote” – espécie de cela forte, para onde são conduzidos os prisioneiros que cometem sanções disciplinares. O motivo para tal atitude teria sido um “certo desacato” sofrido pelo funcionário. Parece que a professora da sala nº 2 teria dito aos alunos, após certa “bagunça” em sala de aula que, quem não estivesse motivado a assistir aula, poderia ficar à parte. Este aluno teria então pedido ao funcionário que o liberasse para o trabalho e daí o suposto desacato. Continuou o funcionário: “Parece até que eles acham que eu sou trouxa. Posso até ter cara de trouxa, más não o sou” (Sic). Às 14h39 soa a campainha anunciando o final do período letivo.

  Estes funcionários que realizam a vigilância no setor da escola nos permitem ficar do lado externo da biblioteca e assim, podemos nos locomover até a gaiola, onde desejamos presenciar a revista dos alunos pelos funcionários. Um detalhe, antes não percebido, chamou-nos a atenção: Pendurados nas grades da gaiola da escola se encontram vários livros e cadernos. Perguntando aos funcionários o significado daquele Assim, aqueles prisioneiros que trabalham e estudam, devem deixar pendurados nas grades da gaiola seus pertences escolares ao sair da escola e depois se dirigir às oficinas de trabalho. Ao sair destas, recolhem novamente o seu material para então se dirigir aos pavilhões. Para poder tirar fotografias daquela imagem, tivemos que pedir autorização, por telefone, ao diretor de reabilitação, que solicitou ao diretor de segurança e disciplina que, por fim, autorizou-nos. Confessamos que aquela cena emblemática nos deixou bastante curioso.

  Às 15h10 chegam os primeiros alunos na escola. Passam direto pelos funcionários da gaiola. Já foram revistados ao sair dos pavilhões. Às 15h30 vemos dois alunos sendo “libertados” para voltarem aos pavilhões. Perguntamos o motivo ao funcionário que os “libertou”, que diz não saber o motivo. Acrescenta que esta é uma questão das professoras em sala de aula: “a partir do momento que fecho o portão da sala de aula, a disciplina é por conta da professora. Os prisioneiros devem, entretanto, se comportar como gente” (sic). Este mesmo funcionário diz que, quando um dos alunos adentra em sala de aula que não a sua, naqueles momentos que antecedem as aulas e as salas ainda estão abertas, não permite mais que retorne a sua sala de origem. Ao reabrir a sala de aula para a professora entrar, pede para que o referido aluno deixe a sala de aula e retorne ao seu pavilhão. Terá perdido o dia letivo.

  Na sala de aula nº 2, a professora, juntamente com alguns alunos, enfeita o entorno da lousa negra com tulipas feitas em papel cartão. Este fato será, nos próximos dias, motivo de chacota por parte de funcionários e outros prisioneiros.

  Às 16h18, saem os prisioneiros que trabalham na biblioteca. Antes disso, ainda na biblioteca, trocamos, eu e os prisioneiros que ali trabalham, diálogos e opiniões sobre diversos temas, ligados, principalmente, à temática da violência, da criminalidade ou da própria prisão, ou ainda da educação e da psicologia. (É impossível ser invisível nessas instituições!). Um dos prisioneiros que também é docente na Penitenciária confessa que deseja fazer o curso superior de Psicologia, assim que for libertado. Falam de sonhos, de expectativas, de família e da vida em liberdade. Isto os torna também um pouco livres.

  Às 16h42 vemos os primeiros alunos deixando o recinto escolar. Saem em silêncio e em fila. Minutos antes disto, um deles, por entre o visor lateral da sala de anuncia o final dos trabalhos do dia. Depois deste horário, apenas os funcionários que trabalham em turnos permanecerão na penitenciária, até serem rendidos pelos colegas do turno da noite que se inicia às 19h00. Nesse horário já não há mais qualquer movimentação de prisioneiros. Todos já estão em suas celas, nos respectivos pavilhões. É hora da janta. Nos corredores da penitenciária, a descontração toma conta da tensão habitual. Os funcionários relaxam contando piadas e soltando sonoras gargalhadas. Alguns lancham: café e pão com manteiga. Para os funcionários diaristas, há uma fila que anda rápido para “bater o cartão de ponto”. Hora de deixar a penitenciária e se dirigir às suas casas e às suas famílias. Para nós, é hora de nos dirigir ao alojamento e preparar o material e o roteiro para o dia seguinte.

  06 de maio de 2004, quinta-feira.

  Às 6h55 chegamos à penitenciária. Junto com o diretor de educação, cruzamos rapidamente os pavilhões. Havíamos combinado no dia anterior que iríamos, hoje, realizar uma observação mais sistemática da movimentação em volta da escola. Desejávamos estar na gaiola dessa no momento de entrada dos primeiros prisioneiros, agora alunos. Enquanto cruzamos a galeria observamos que, nesse momento, apenas os portões de acesso aos pavilhões continuam fechados. Em toda a galeria, o acesso é livre. Aguardamos a campainha para o início das aulas, junto ao diretor de educação e de mais alguns funcionários, no interior da gaiola da escola.

  Às 07h00 em ponto, escutamos a sirene anunciando o início de mais um dia de trabalho. Às 07h02, dois prisioneiros rodam algumas poças de água que se encontram por perto. Choveu praticamente a noite toda. Às 07h03 chegam as professoras, escoltadas por dois funcionários. Uma delas traz uma garrafa térmica com café e a outra uma garrafa contendo água. Às 07h09, os prisioneiros realizam uma limpeza rápida no corredor do prédio escolar. Por causa do excesso de água que escorre das galerias superiores, a água acaba se acumulando naquele local.

  Às 07h11 vemos os primeiros prisioneiros saírem dos pavilhões. Estes irão trabalhar no parque agrícola da penitenciária, local anexo ao presídio. Irão cuidar de um rebanho de bois que ali são criados, sempre escoltados por alguns funcionários. Às 07h14, os primeiros alunos chegam à escola. Não são revistados na gaiola, porém já o daquele setor acaba indispondo-se com um dos alunos que chega: “ô ladrão, deixa eu ver por baixo de sua blusa”, esbraveja o mesmo. As temperaturas estão baixas e muitos dos prisioneiros vestem blusas. A maioria calça chinelos tipo havaianas.

  Um dos monitores presos se aproxima para reclamar da sujeira do banheiro da sala de aula nº 4. Pede ao diretor de educação que o verifique. Este pergunta se não teria vindo ninguém para limpá-lo ontem à tarde. O professor acena negativamente. Junto com o diretor de educação vamos até a sala 4 verificar o problema detectado. O vaso sanitário do banheiro está entupido. Há em seu interior restos de necessidades fisiológicas e muitos papéis higiênicos. O odor exalado é muito forte e desagradável. Não há aula neste período naquela sala que também se encontra bastante suja, com pedaços de papéis espalhados no chão. O diretor de educação percebe que “sumiu” uma tampa de um dos interruptores de energia (dessas de plástico). Na sala encontramos outras mais antigas, de ferro.

  Encontramos 10 alunos na sala de aula nº 2, além da professora. Na sala 1, são 15 os alunos, além do monitor. Um funcionário vem até a escola, supostamente para buscar a professora que participará de uma homenagem preparada pelos funcionários às mães que trabalham na penitenciária. Esse funcionário porta um instrumento denominado tonfa, conhecido na linguagem popular como “cassetete”. Às 07h30 somos convidado para um café no setor administrativo. Enquanto seguimos pela galeria, observamos prisioneiros cumprimentando-se por entre os pavilhões. Trocam sinais com as mãos e com movimentos dos lábios.

  O funcionário da gaiola inferior (pavilhões um e dois), porta uma enorme lista que contém a matrícula de todos os prisioneiros que devem deixar os pavilhões e seguir para alguma atividade naquele dia. Quando deixa o pavilhão, o próprio prisioneiro “canta” a sua matrícula ao funcionário que a risca na relação que porta. Os prisioneiros seguem então aos seus locais de destino: cabeça baixa, em fila e em silêncio.

  Às 08h07 já estamos de volta à escola. Nas duas salas de aula, silêncio. Naquela que a professora se ausentou, um monitor preso a substitui temporariamente. Os alunos estão copiando matéria escrita no quadro negro. Na biblioteca, dois prisioneiros trabalham no computador. O ventilador refresca a CPU aberta. Às 08h20 louza negra pelo professor. Às 08h25 o diretor de educação nos mostra as carteiras escolares retiradas das salas de aula e empilhadas num corredor de emergência localizado à esquerda de que entra no prédio escolar – parece que foram ali jogadas e abandonadas desde então. Estão molhadas e algumas, já quebradas. O corredor de emergência está interditado. Numa eventualidade qualquer, a saída por aquele lugar é inviável. O diretor mostra indignação e diz que providenciará para que retornem às salas de aula. Foram colocadas ali na segunda-feira e já é quinta-feira! – parece compor uma certa mentalidade das pessoas que trabalham no interior dessas instituições o “deixar para amanhã o que poderiam fazer hoje”. Ao menos o banheiro da sala de aula nº 4 já está desentupido e limpo, assim como a própria sala - antes de descermos ao refeitório houve uma intensa mobilização de pessoas, funcionários e prisioneiros, para a operação de desentupimento e limpeza da sala de aula.

  Num outro momento, já demonstrando menos indignação, o diretor de educação questiona o monitor preso que leciona na sala 2 se aqueles enfeites de tulipa no quadro negro foram feitos por ele. O docente nega veementemente, meio envergonhado.

  Às 08h36 presenciamos um alegre dialogo entre um dos funcionários que realizam a vigilância da escola (esposo da professora A., que leciona ali naquele momento e que sempre ouvi chamar os alunos por seu primeiro nome) e outros alunos, desta vez através das grades do portão de entrada da sala de aula. A professora parece não se incomodar com a movimentação. Esse diálogo não dura muito – parece que a nossa observação daquela cena inibiu a continuação daquela discussão. Às 08h49 toca a campainha anunciando o final das aulas. Às 08h51 saem os primeiros alunos. Na gaiola, três funcionários realizam revistas pessoas minuciosas. Olham cadernos e o restante do material que os alunos portam. Apalpam fisicamente os alunos. Para alguns é pedido que tirem os tênis ou os sapatos. Aqueles que não trabalham, seguem em fila para os pavilhões. É uma rotina de “ir” e “vir” constante. A movimentação por aquelas galerias durante o período de circulação dos prisioneiros é grande e quase ininterruptamente acompanhada pelos olhares atentos dos funcionários responsáveis pela vigilância e disciplina internas até que cheguem em seus destinos. Às 08h55 o último aluno deixou a escola e a revista, rumo ao pavilhão onde reside. funcionários daquele setor. Fomos informados então que, antes da mega-rebelião de 2002, existia um espaço destinado à barbearia. Foi completamente destruído naquela ocasião pelos prisioneiros descontrolados. Parece que os prisioneiros amotinados não tiveram acesso ao prédio escolar ou não o quiseram. Seja como for, nada do que ali existe sofreu a fúria dos amotinados, sendo preservado por estes, mostrando para nós o enorme significado que tem, para os prisioneiros, a escola no interior dos presídios. Um deles nos vê fazendo anotações e pergunta, acreditando que fôssemos agentes de segurança, se pode “descer”. Como não respondemos, continua sua caminhada.

  Às 09h00 uma das professoras é escoltada para a administração do presídio pelo próprio marido. Escutamos alguns dos funcionários da gaiola que discutem e criticam as leis atuais para o funcionalismo, principalmente aquelas voltadas à previdência social destes, que trariam perdas consideráveis em seus vencimentos, quando de sua aposentadoria. Um funcionário fuma no andar de cima da gaiola – temos uma sensação estranha quando o vemos andando de um lado para o outro acima de nossas cabeças e fumando, jogando as cinzas para o chão, justamente onde nos encontramos.

  Às 09h06 chega outra professora escoltada pelo mesmo funcionário que levou a anterior para a administração. Um minuto depois começam a chegar os alunos – um deles parece ter sérios problemas de coluna, pois anda com o corpo bastante inclinado. A maioria deles usa blusas, alguns calçam chinelos tipo havaianas, outros tênis e outros ainda, sapatos. Ouvimos o funcionário do andar inferior da gaiola, onde estou, gritar: “ESCOLA!” para o interior das oficinas de trabalho e, imediatamente, se apresentam alguns prisioneiros, que apanham o material que está pendurado nas grades da gaiola. são revistados ao deixar as oficinas. Um resto de cigarro “cai” bem onde estamos, ao nosso lado. O funcionário do andar de cima da gaiola não é de “muitos amigos” e parece ter jogado propositadamente o resto de cigarro. Apenas dois funcionários se encontram no andar térreo da gaiola e realizam a revista pessoal aos prisioneiros que por ali passam.

  Um prisioneiro passa pelo setor carregando um televisor 20 polegadas. Dirige-se ao pavilhão e passa direto. Mais um setor é liberado para as aulas. Agora são os prisioneiros que trabalham num local entre os pavilhões (os funcionários fazem a Alguns desses prisioneiros liberados agora reclamam que seus materiais escolares encontram-se ao lado, no chão. Parecem indignados, porém submissos. Às 09h14 um dos funcionários (aquele desconfiado que não se deixou fotografar) dá um sinal para o funcionário de vigia à escola de que não há mais alunos a chegar. Às 09h16 os professores são liberados da biblioteca para as suas respectivas salas de aula.

  Temos neste horário oito alunos na sala um, oito na sala dois, 19 alunos na sala três e 10 alunos na sala quatro. São 45 alunos ao total num horário que têm matriculados 105 alunos! Um dos alunos reclama que não tem caderno para anotar as lições. Não pôde vir à escola no dia em que os mesmos foram distribuídos -terça-feira. Não quer escrever a matéria em folhas que traz soltas consigo. Depois de muito argumentar por alguns minutos com os funcionários que fazem a vigilância do setor, finalmente é liberado para retornar ao pavilhão. Não conseguindo caderno, não assistirá aulas naquele dia. Os funcionários argumentam que esse aluno não demonstra interesse às aulas. O mesmo funcionário bastante gentil conosco e que nos permitiu fotografá-lo tenta justificar utilizando um termo muito comum nesses locais: “O material escolar já foi pago”. “Pagar alguma coisa ao prisioneiro”, “pagar a bóia” (refeição); “pagar o pecúlio” (dinheiro recebido pelos trabalhos que realizou); “pagar o material escolar” são expressões comuns do linguajar típico das prisões. Continuando o seu argumento diz: “Só porque esse prisioneiro cometeu um estupro na sua família (na nossa!) ou um latrocínio (assalto seguido de morte), o Estado tem a obrigação de pagar alguma coisa a esse sujeito. Isso me deixa indignado”, diz ressentido, evidenciando um pensamento comum aos funcionários que trabalham em prisões: o de que os prisioneiros devem ser tratados precariamente, sendo castigados pelo mal que cometeram.

  Na sala 2, um aluno dorme com o rosto encostado à carteira. O professor fala de maneira muito suave e metódica. A aula é de história do Brasil. O mesmo funcionário que nos confidenciou sua indignação com a “permissividade” do Estado momentos antes, conversa ao telefone, enquanto outros alunos conversam entre as grades das salas de aula 3 e 4. Os professores prosseguem na matéria que lecionam.

  Próximo ao telefone, anotações numa folha de sulfite esclarecem os critérios para exclusão da sala de aula: após cinco faltas sem justificativa, o aluno é advertido e intimado a comparecer à escola no dia subseqüente. Persistindo a conduta, é deixa essa situação acontecer – ele próprio iria até o pavilhão conversar com o aluno faltoso e tentava convencê-lo a retornar à escola, antes de consolidar a exclusão).

  Às 10h00 a professora da sala 3 reclama que não tem giz. Após essa reclamação, diz: “não tem problema. Explico a matéria”. Percorrendo as salas vejo, na sala 2, quatro apagadores para quadro negro. Muito embora o nome da cidade onde se localiza a penitenciária onde nos encontramos ter sua grafia inicial com W, vejo em duas salas de aula ser grafada com V. Apenas na sala 3 não há indicação de data e local, escritos no quadro negro nas outras salas de aula.

  Às 10h15 os funcionários que fazem a vigilância do local evidenciam sinais de tédio e insatisfação – um deles se encontra em frente às salas do fundo da escola. Fuma vários cigarros sucessivamente e está sentado na carteira localizada estrategicamente em frente às duas salas de aula. O outro funcionário está em pé, em frente à sala 1. Agora, não conversam com ninguém do interior das salas. Às 10h20, um dos alunos dessa sala levanta-se e cantarola uma canção qualquer. Dirige-se ao banheiro e parece nervoso. O ritmo da aula não sofre qualquer interrupção. Ao retornar do banheiro, o aluno caminha com falsa desenvoltura e, antes de sentar-se em sua carteira, conversa com outro colega por alguns instantes.

  Às 10h30, os dois funcionários da vigilância trocam animada conversa – ambos em suas posições anteriores, apenas o que estava sentado virou um pouco a sua carteira para poder visualizar o primeiro. Nesse instante, um dos funcionários, ao nos ver, avisa-me de que os alunos da sala 4 não concordaram em se deixar fotografar, de costas, ao deixar o corredor da escola (essa mesma turma também não nos deixou fotografá-los, quando os interrogamos sobre essa possibilidade!). Conseguimos autorização dos alunos de outras duas salas de aula.

  Às 10h33, os prisioneiros que trabalham na biblioteca deixam o prédio escolar. São revistados na galeria e seguem para os seus pavilhões de destino. Às 10h38, soa o sinal sonoro que anuncia o final das aulas. Às 10h42 conseguimos as fotos dos alunos se retirando e se dirigindo à gaiola. Às 10h48 saem os últimos alunos. Às 10h50, depois de uma revista pessoal às salas de aula, agora vazias, o funcionário apaga as luzes das mesmas e escolta-nos para a saída da penitenciária, até a administração da mesma. Os portões batem forte atrás de nós. Dois minutos depois, estamos na

  Às 13h00 ouvimos uma das professoras do período da tarde dizendo, ironicamente, que seus alunos teriam reivindicado a sua saída. O motivo teria sido que a mesma não explicava de forma inteligível a disciplina – essa professora é uma professora da rede pública estadual. Duas das salas de aula da penitenciária entram na atribuição de aulas da rede. A secretária do diretor de educação comenta que o problema é dos alunos.

  Às 13h07 já nos encontramos na escola. Percorremos juntos, eu, as professoras e um funcionário que nos escoltava, as galerias da penitenciária. Nesse mesmo horário começam a chegar os primeiros alunos. São liberados dos pavilhões em grupos de 10. Ao final do grupo de alunos do pavilhão, o funcionário do mesmo grita; “ALA INTERNA”, ao que é repetido por outro funcionário de outra gaiola. Saem os prisioneiros que irão trabalhar na ala interna da instituição. Também são liberados em grupos de 10. Às 13h15 chegam os últimos alunos e as professoras são liberadas para as salas de aula, às 13h20. Caminham sem muita pressa às suas salas. Um pouco antes, ainda na biblioteca, presenciamos uma discussão entre os professores sobre as dificuldades enfrentadas pelos alunos quando da aplicação de uma prova. Uma das professoras reclama e diz que da próxima vez, aplicará uma prova bem mais simples! Às 13h50 entrevistamos outro funcionário.

  Às 14h40 encontramos 18 alunos na sala 1, 14 alunos na sala 2, 16 alunos na sala 3 e sete alunos na sala 4. São 55 alunos onde deveriam estar 108! Às 14h50 soa a campainha para o final das aulas do período. Às 15h15 chegam os últimos alunos para as aulas desse último período. A professora A. comenta emocionada, o caso de um monitor preso que, após 25 anos de prisão, saiu do Regime Semi-Aberto de prisão - um regime intermediário entre o regime fechado – uma penitenciária e a liberdade, previsto na Lei 7.210, de 1984, no Brasil - para passar o dia dos pais com seus familiares. Nesse intervalo de tempo acabou praticando novo assalto, sendo perseguido por policiais militares que atenderam à ocorrência. Encurralado pelos policiais e para não retornar à prisão, este sujeito teria se suicidado com um tiro de pistola em sua própria cabeça. A. chora, lembrando com carinho do colega de sala de aula. São 15h24 e os professores continuam na biblioteca. Às 15h28, o funcionário de vigilância ao setor informa que as salas de aula já se encontram à disposição dos docentes. È justamente com a professora conteúdo, carregado de sentimentos fortes). Às 16h39 o sinal anunciando o final das aulas é disparado pelo funcionário da gaiola.

  Uma outra professora, que expressou praticamente a tarde toda, um misto de irritação, angústia e ansiedade, entra na biblioteca e marcamos a sua entrevista para o dia seguinte. Ela comenta que terá ainda hoje uma reunião com o diretor de educação a fim de resolver um problema relativo a uma correspondência que teria recebido de um aluno. Às 16h55 a professora é chamada pelo funcionário que realiza a vigilância do setor e se acomodam, ela, o diretor de educação e o funcionário da vigilância no interior de uma das salas de aula, neste momento, completamente vazia, ali permanecendo por, aproximadamente, vinte minutos. Não havíamos percebido, más estava também presente nessa reunião, o aluno citado pela professora. Só percebemos esse detalhe quando, ao sairmos todos do recinto escolar, esse aluno nos acompanhou. Na gaiola da escola, vários funcionários, demonstrando preocupação, aguardavam o referido aluno. Eram aproximadamente 10 funcionários os presentes naquele setor naquele momento. Reclamaram que realizaram a contagem de prisioneiros no pavilhão e deram pela falta de um deles e o estavam procurando. O diretor de educação diz, então, que havia pedido para um outro funcionário avisar ao colega do pavilhão a presença até um pouco mais tarde, daquele aluno na escola. O aluno é deixado com os funcionários que o revistam, bravos, e nos retiramos para a administração do presídio, momento em que encerramos as nossas atividades naquele dia.

  07 de maio de 2004, sexta-feira.

  Chegamos à escola às 08h09 e encontramos 11 alunos na sala 1 (seriam 19!), e oito alunos na sala 4 (seriam 19!). No total, 19 alunos estão presentes quando deveriam estar 38, 50% de ausência, portanto. Na gaiola da escola os mesmos funcionários de dois dias atrás. Perguntamos a um deles se poderia participar de uma entrevista, explicando-lhe o nosso trabalho. Recusa-se à tarefa, agradecendo o convite. O outro colega parece gostar da negativa daquele, pois ri deste fato. Às 08h15 entrevistamos um dos monitores presos da penitenciária – aquele que deseja cursar psicologia quando estiver em liberdade. Às 08h49 a campainha para o final das aulas é escutado. Às 09h05 os alunos são conduzidos (aliás, eles mesmos se conduzem, de

  09h15 os professores irão para as suas salas respectivas. Como nos dias e horários anteriores, poucos alunos estão em sala de aula.

  Às 09h25, a partir de um pedido nosso, o funcionário da gaiola da escola no dia de hoje - marido da professora A., encaminha-nos um colega seu para ser entrevistado. Esse funcionário adentra o recinto da biblioteca evidenciando muita desconfiança. Parece ansioso e aflito. Senta-se na cadeira disponível e diz que veio até aqui por causa de um pedido de outro funcionário, sem saber ao certo o que faria. A qualquer movimento dos prisioneiros às suas costas, esse funcionário interrompia o que dizia até que, finalmente, diz não se sentir bem e à vontade com prisioneiros circulando ao redor de si. Não gosta de conversar e ter sua conversa “gravada” pelos prisioneiros, continua. Convidamos os prisioneiros presentes a se retirar – um deles não gosta muito: “fazer o quê! Tem que ser, né?”, responde.

  O funcionário deseja saber das nossas pretensões. Ao ouvi-las, fala que talvez devêssemos “pegar outro funcionário mais crítico, pois ele não responderia a qualquer pergunta que colocasse em questão ou depreciasse a sua atividade profissional, já que não desejava ferir a ética profissional que reina entre ele e seus colegas”. O Tranqüilizamos dizendo que as perguntas que temos para ele diziam questão à escola da instituição e que o mesmo não estaria obrigado a responder qualquer pergunta que, do seu ponto de vista, ferisse alguma norma ou acordo de convivência internas. Enfim, concorda e realizamos a entrevista. Ao final da mesma e já com o gravador desligado, agradece a oportunidade que teve e persiste na tese defendida antes em entrevista, de se transferir o prédio escolar daquele lugar onde se encontra para um local de menor perigo, de preferência em algum lugar logo na entrada da penitenciária. Verbaliza também que, “por motivos que também sabemos”, os professores da escola na prisão, deveriam ser todos homens. Demonstra bastante preocupado com o fato de que as monitoras adentram o presídio até aquele local.

  Continua a sua argumentação dizendo que aprendeu, enquanto trabalha em prisões, a não dar as costas aos prisioneiros, pois esta situação é causadora de sérios transtornos. Filho de pais que são professores, “considera boa sua estrutura psicológica, diferentemente de alguns colegas que estariam dando socos em paredes”, em decorrência da atividade extremamente desgastante que realizam. maio de 2004. (A Penitenciária 2 é uma das Penitenciárias mais distantes do centro de São Paulo. Sempre que um prisioneiro cometia algum ato de desobediência em presídios mais próximos da capital, era comum ser ameaçado de ser transferido para Presidente Venceslonge). O monitor preso da sala número 2 nos olha de soslaio enquanto caminhamos pelos corredores da escola. A professora da sala 3 nos faz um sinal de positivo com o polegar da mão direita. São 10h17.

  Às 10h20, na sala 1, um dos alunos dorme com a cabeça encostada na carteira; um outro caminha por sobre uma borracha caída ao chão. Na volta, a recolhe. Um outro faz um comentário ao colega de carteira dizendo que não entende porque os seus colegas prisioneiros têm tanta dificuldade em aprender matemática. “Fazem (diz ele, tentando lembrar quanto tempo faz!) uns 43 anos que eu não estudo e ainda sei um pouco de matemática”. Um outro colega o chama para ajudá-lo e ele se encaminha para lá. Na sala 2, o monitor preso pergunta-nos as horas (ali nenhum deles porta relógios!). Ao saber que faltam poucos minutos para o final das aulas, volta a escrever no quadro negro (são sete os alunos em sua sala, a maioria não demonstra qualquer ânimo para as aulas).

  Às 10h30, os prisioneiros que trabalham na biblioteca se retiram. Antes, desligam o computador e o ventilador que refresca a CPU e organizam suas coisa sobre a mesa. Pela primeira vez durante aquela semana, vemos o funcionário substituto do diretor de educação vindo até a escola. O presenciamos conversando animadamente e por um período razoável de tempo, com os dois funcionários que fazem a vigilância do setor escolar. Às 10h34 soa o sinal sonoro que anuncia o final das aulas daquele período. Para aqueles alunos, apenas segunda-feira retornarão à escola. Às 10h40 já estamos na sala do diretor de educação. Fomos escoltados de volta por seu substituto.

  Às 12h49 retornamos à escola para realizar o mesmo procedimento sistemático do dia anterior pela manhã. Às 12h50 ouvimos um apito que visa preparar os prisioneiros para o início das atividades do período. Assim que ouvem aquele sinal sonoro, devem se preparar para deixar os pavilhões a fim de se dirigirem aos seus locais de destino: escola, oficinas e atendimentos pelos setores da instituição. Dentro de instantes, os funcionários que fazem a vigilância dos pavilhões liberarão os prisioneiros, em grupos de 10, para as tarefas da tarde. esquecidos de períodos anteriores. Uma sirene (parece dessas de fábricas) anuncia o início das atividades profissionais aos funcionários, às 12h59. Começa-se a anunciar pelos Agentes de Segurança Penitenciária, os setores de trabalho para liberar os prisioneiros: “LAVANDERIA!”, ouvimos aos berros. Dois funcionários se encontram na gaiola da escola. Devagar, outros dois vão se aproximando. Às 13h02 já são oito os funcionários naquele setor. Conversam despreocupadamente, encostados ao portão de acesso à gaiola (por motivos alegados de segurança, os mecanismos que abrem e fecham os portões são acionados no andar de cima pelo funcionário, com os próprios pés). Não nos permitem fotografar esse posto.

  Às 13h07 chegam as professoras do período da tarde. O funcionário que as escoltou até ali “sobe” para o posto da gaiola que até aquele momento estava vazio. Distribui inúmeras chaves aos funcionários que se encontram no térreo. Às 13h09 chegam os prisioneiros que trabalham na biblioteca. Às 13h10, um dos funcionários dos “pavilhões de cima” grita aos colegas que “podem mandar os prisioneiros para a escola”. O funcionário da gaiola da escola pede para aguardar um pouco e para não soltar os alunos da sala 2, pois a professora não dará aulas hoje (a mesma teria ido a um evento em local externo ao presídio – supervisão pedagógica, nos foi alegado. Aos alunos, nenhuma explicação do motivo da ausência foi dada). Há uma grande movimentação de funcionários neste local onde nos encontramos.

  Existem três gaiolas nessa penitenciária. A primeira delas permite o acesso da galeria da instituição aos pavilhões um e dois. A segunda, esta onde nos encontramos, permite acesso à escola e à algumas oficinas da instituição. A terceira e última, comunica a galeria com os pavilhões três e quatro. O funcionário da gaiola da escola grita ainda aos colegas de outras gaiolas que não haverá transito de prisioneiros para as oficinas (desconhecemos o motivo!).

  Às 13h16 chegam os primeiros prisioneiros à escola. Chegam em grupos de 10, em fila e em silêncio e seguem uma risca que acompanha os corredores da instituição. Nos presídios há uma norma que rege o caminhar dos prisioneiros, que devem caminhar sempre pela direita dos corredores, junto às paredes. Às 13h20 chegam dois alunos que iriam ter aula na sala 2. Apesar do rígido esquema adotado pelos funcionários ainda há “quebras” e falhas na comunicação. Esses dois alunos são Enquanto aguardam os professores, os alunos conversam animadamente, trancados nas “celas” de aula. À aproximação do funcionário que realiza a vigilância do local, cessam a conversação e retornam a suas carteiras. Dez alunos estão na sala 4, 14 na sala 3 – sete deles bem à frente e os sete restante na parte de trás da sala. No meio da sala um grande vazio. Na sala 1, da professora A., estão a maioria dos alunos do período, aproximadamente trinta! Deveriam estar na escola, no período da tarde 108 alunos. Não passam de 50!

  Às 13h50 dois monitores presos estudam matemática para poder transmitir aos seus alunos. Outros dois prisioneiros trabalham no computador (imprimem súmulas de jogos de futebol que ocorrerão no dia seguinte), tudo isso na biblioteca. Às 14h20, o prisioneiro que exerce a função de bibliotecário sem o ser de fato, reclama que não há mais cola para papéis, em que pese o pedido da professora da sala 1. É seguido por um dos monitores presos que diz estar sendo cobrado há mais de uma semana por um aluno que desejaria colar o seu caderno. Para finalizar, o prisioneiro bibliotecário diz que havia mais de 10 tubos de cola dias atrás e que agora só resta um. Despeja um tanto de cola do tubo num copo descartável, desses para café, e pede que o monitor preso leve até a professora que o solicitou.

  Às 14h24 toca o telefone do setor. Seu barulho é percebido mesmo na gaiola da escola, de tão alto. Ligam para nós, da administração. Querem saber o horário de nosso embarque para São Paulo amanhã, pois irão providenciar transporte da penitenciária até a rodoviária. Às 14h34 um aluno é liberado e revistado na gaiola da escola. Nesta altura do dia, também nós sentimos a monotonia e a rotina das atividades na galeria ou corredor da escola (é sexta-feira!). Andamos de um lado ao outro, como os funcionários, que às vezes, conversam um pouco sobre questões pessoais ou profissionais. Às 14h37 verificamos que a sala de aula cuja professora não veio está com o portão destrancado. Encontra-se suja, com pedaços de papéis no chão. Avistamos um “avião” feito com papel e esquecido num canto da sala que nos faz lembrar de nossas brincadeiras por ocasião de nosso ensino fundamental.

  Outro aluno é autorizado a deixar a sala de aula às 14h39. Na gaiola, a mesma rotina: um funcionário já o espera para revista-lo. O aluno, automaticamente lhe estende o caderno e levanta as mãos, aguardando a apalpação do funcionário. Às 14h42 tiramos da paisagem do lado externo do presídio (fazem novo alvoroço!). Às 14h52 uma das professoras “desce” até a administração, acompanhada por quatro funcionários. Escutamos os funcionários das gaiolas trocaram informações sobre certa festa de confraternização que estariam planejando. Portões são abertos e fechados vigorosamente. Próximo a nós, um prisioneiro empurra um carrinho, transportando enormes panelas. Contêm café e leite que será servido aos prisioneiros dos pavilhões superiores.

  Às 14h57 avistamos outra professora conduzindo-se, escoltada, à escola. O caderno e os livros esquecidos pendurados nas grades da gaiola continuam aonde os vimos antes. Às 15h01, o funcionário acima de nossas cabeças, anda impacientemente de um lado ao outro da gaiola. Outro funcionário gesticula a nós. Quer saber se está tudo bem. Acenamos afirmativamente. Muitos desses funcionários balançam chaves. Muitas e pesadas chaves! Às 15h03, o “gaioleiro” como é conhecido ali, chama os alunos dos pavilhões inferiores – com exceção dos alunos da sala 2 que não terão aulas. Às 15h07, impaciente com o atraso dos alunos, o gaioleiro desce até onde estamos. Às 15h10 chegam os primeiros alunos. O gaioleiro brinca com um dos alunos, chamando outros pelos seus nomes. Alguns são tratados por apelidos e a outros apenas cumprimenta, acenando com a cabeça. Chama outro de São Paulino, referindo-se à derrota do São Paulo Futebol Clube para um time da Argentina na noite anterior. Às 15h13 passa por nós o que nos parece o último aluno da tarde.

  As carteiras escolares retiradas por ordem do diretor de segurança e disciplina continuam no local em que foram abandonadas ao relento. Nas salas de aula, enquanto os professores não entram, há descontração. O diretor de educação, visivelmente contrariado, vem nos dizer que os dois funcionários que lhe ajudam no setor já se retiraram da penitenciária: um deles teria saído para cumprir horário bancário

  • – é dia de pagamento e os funcionários têm direito de sair mais cedo, revezando-se entre eles; e a outra teria uma solenidade para comparecer na escola onde seu filho estuda.

  Às 15h19, os professores são trancados em suas salas. Temos agora 25 alunos na sala 3; 10 alunos na sala 4 e 24 alunos na sala 1, da professora A. Às 15h23 é hora do lanche na biblioteca. No cardápio, pão fresco feito na padaria da penitenciária, além de manteiga e mortadela trazidas pela professora A., além de café puro, também caderno brochura, lápis, caneta e borracha. Nessas salas, enquanto o professor se ausenta, os alunos permanecem copiando textos ou frases escritas no quadro negro ou resolvendo alguns exercícios.

  Às 15h43, os prisioneiros que trabalham na biblioteca discutem sobre quem teria “vendido” mais cartões este mês, bem como nos meses anteriores. Às 15h48, no quadro negro da sala 1, a mesma matéria de horários anteriores, ainda não apagada. Ainda é possível visualizar no quadro negro o “Presidente Venceslonge” de outrora. Nas salas de aula, vemos uma maioria de alunos de cor negra ou parda, em comparação aos de cor branca. Às 15h58, dois alunos são liberados da sala 1 para retornarem aos seus pavilhões. Um pouco depois vemos outro aluno se dirigindo à saída do prédio escolar.

  Na biblioteca é hora da faxina, realizada de forma silenciosa. Outros alunos vão embora para seus pavilhões de destino. Esses alunos tiveram, aproximadamente, 39 minutos de aula, contados do momento em que o professor ingressou em sala de aula (15h19) até este momento. O salão que irá receber as visitas dos prisioneiros está sendo preparado. Foi lavado e sinto um aroma que lembra a desinfetante. Agora, as mesas e as cadeiras já estão organizadas: duas cadeiras, uma em frente da outra, tendo entre elas, uma pequena mesa. Estão todas dispostas em fileiras, aguardando os momentos onde a saudade será atenuada e a esperança aumentada.

  Parece-nos, àquela hora do dia, que todos já se preparam para o final de semana. O sábado é reservado para faxinas dos prisioneiros em suas celas, além de descanso e do famoso futebol entre os colegas de cárcere. Domingo é dia de renovar a esperança e relembrar momentos de felicidades junto aos seus entes queridos.

  Observamos somente agora que a janela da gaiola com vista ao prédio escolar está semi-oculta por pedaços de papelão e sacos de estopa. Na galeria, um galão recolhe a água que escorre de uma goteira no teto. O movimento de funcionários àquele momento já é bem menor e menos intenso. Portões ainda são batidos e soam retumbantes. Às 16h14, um aluno, também dispensado, chama pelo funcionário de vigilância na gaiola, desatento que estava, pois conversava com outro colega e não percebeu a presença do prisioneiro. Outro aluno na seqüência deixa o prédio escolar e então, os dois funcionários estão atentos. que trabalhamos. Confessa que faz mais de dois anos que não vê a esposa e uma filha que estava por nascer quando fora feito prisioneiro. Reclama que gostaria de ser transferido para aquela penitenciária, aproximando-se mais dos seus familiares, porém, sem sucesso até o momento. O funcionário ao nosso lado faz palavras cruzadas.

  A biblioteca é desocupada às 16h24. Os prisioneiros que ali trabalham, sabendo que estamos indo embora no dia seguinte, desejam-nos boa sorte e sucesso em nosso trabalho. É impossível não ser solidário com suas falas e também desejar boa sorte e sucesso em suas vidas. Outro deles pede que Deus ilumine o nosso caminho. Desejamos o mesmo a ele que continua: “quem sabe a gente não se tromba por aí”, concluindo, enquanto carrega os trabalhos que realizava na biblioteca, até a galeria onde é revistado, seguindo então para seu pavilhão. A biblioteca da penitenciária tem um acervo de, aproximadamente, 3.000 livros, segundo nos contaram. Entretanto, foram raros os momentos em que vimos a retirada de um único volume daquele recinto.

  Às 16h34 soa a campainha que alerta para o final das aulas do período e da semana. Novo alvoroço nas salas de aula. Os primeiros a sair são as professoras, seguidas pelos monitores presos que vão, imediatamente, para a gaiola onde são revistados, seguindo depois para os seus pavilhões. Apenas dois funcionários estão na gaiola. O mesmo caderno e o livro esquecido nas grades da gaiola ainda ali se encontram. Às 16h37 seguem as professoras para a administração. A um sinal do funcionário da gaiola, os prisioneiros vão sendo liberados e, perfilados, são revistados. Partem, depois de revistados, silenciosos e em fila, para os seus pavilhões. Alguns deles, enquanto esperam a sua vez de ser revistados, agarram nas grades e cantarolam canções tensas e nervosas. Há tempo ainda para uma brincadeira que faz o funcionário do andar superior da gaiola, dizendo que a comida dos prisioneiros está esfriando (são 16h40!). Continua dizendo que “hoje é dia de bife acebolado, hein? Bife acebolado e batatas fritas”. Novamente faz chacota com o São Paulino. Após ser revistado, um dos prisioneiros deseja bom descanso ao funcionário que o revistou, que acena positivamente.

  Às 16h42, o portão da escola, agora vazia, é trancado e as chaves sobem por um barbante até o funcionário do andar de cima da gaiola. No final de semana, apenas na eventualidade de um culto religioso por parte de alguma das várias igrejas que prisioneiros sobe, acondicionada em grandes panelas em cima de um carrinho, aos pavilhões. Nos dá uma enorme vontade de descobrir se é mesmo bife acebolado com batatas fritas o que contém aqueles carrinhos. Embora aliviados por terminar o nosso trabalho de forma adequada, não há porque não sentir saudades de todos aqueles que ali vimos e ouvimos e que, de forma simples, nos auxiliaram em nossa pesquisa.

IV – Penitenciária 1 – Segunda observação

  Antes de iniciarmos o relato de observação de campo propriamente dito, alguns comentários preliminares são importantes. Essas informações são, valiosas, inclusive, para que discutamos as singularidades de tratamento nas instituições prisionais e mesmo, nas outras instâncias deliberativas que compõe o sistema judicial- penal. Quando já havíamos delimitado quais as instituições prisionais seriam alvo de nossa pesquisa, por volta do início do mês de abril de 2004, solicitamos formalmente ao Diretor do Centro de Reabilitação (nosso superior hierárquico imediato) autorização para ingressar na instituição em dias pré-agendados e portando máquina fotográfica digital e aparelho de gravação. Nesse mesmo dia, enviamos solicitação similar ao Diretor Geral da Penitenciária 2, depois de comunicar-lhe por telefone e praticamente acertar, a nossa ida até aquela instituição.

  Sucedeu que a direção da Penitenciária em que trabalhamos (1) resolveu formalizar a nossa solicitação junto à Coordenadoria de Presídios da Capital e Grande São Paulo (órgão administrativamente superior à direção da Penitenciária) enquanto que a nossa outra solicitação (transmitida por fax) à outra instituição (2) acabou sendo formalizada via contato telefônico alguns dias após o seu envio. Estivemos na Penitenciária 2 na semana de três a sete de maio deste ano. O relato de observação de campo das práticas observadas está reproduzido acima.

  A solicitação expedida à Coordenadoria de Presídios da Capital e Grande São Paulo acabou sendo devolvida para a unidade prisional de origem com a informação de que as datas por nós solicitadas para a realização da pesquisa eram extemporâneas. A referida Coordenadoria negava-nos, assim, o pedido feito. No mesmo documento que devolveram à Penitenciária, desejavam saber qual era a outra instituição deveria ter ainda, autorização do Juiz de Execução Criminal da Comarca ou região onde se localizava a instituição prisional.

  Fizemos novo pedido de realização da pesquisa, desta vez para o Juiz que seria responsável pela autorização da pesquisa naquela instituição, conforme soubemos em contato com o nosso superior hierárquico. Este Juiz manteria seu gabinete no Fórum Criminal da Barra Funda. Lá estivemos em 24 de maio de 2004 e, após passarmos por uma revista típica das instituições que analisamos - com revista pessoal, de bolsa e passagem por detector de metais, fomos encaminhados para o gabinete do referido Juiz pelos funcionários da portaria do Fórum. Em contato pessoal com essa autoridade, que seria o responsável pelas execuções criminais do município em que se localiza a Penitenciária 1, soubemos que, na verdade, deveríamos procurar outro Juiz, desta vez, no próprio município em que desejávamos realizar a pesquisa. Refeito o pedido de autorização, já que se alterava o nome do destinatário, seguimos para a Vara de Execuções Criminais daquele município em 28 de maio e, depois de alguma demora num local onde sob as mesas de alguns funcionários se encontravam muitas e muitas pastas, uma atendente encaminhou-nos até este referido Juiz. Ao ler o nosso pedido, disse que não poderia “despachá-lo” sem antes ter outros documentos anexados: solicitou-nos então, cópia de Cédula de Identidade do pesquisador, pedido de autorização para a pesquisa em papel timbrado da instituição universitária (PUCSP) e assinatura do orientador da pesquisa com firma reconhecida em cartório, além de uma cópia do Projeto de Pesquisa. Além disto, fez-nos outra observação: o horário de atendimento ao público em geral iniciava-se às 13hs. Naquele dia, havíamos ido ao local no período da manhã. Consideramos muita sorte terem nos atendido naquele momento.

  Reunindo os documentos que nos foram solicitados o mais rápido possível, dirigimo-nos novamente à Vara de Execuções em lº de junho e protocolamos o nosso pedido. Vinte dias após ter protocolado o referido pedido de autorização para a pesquisa, precisamente em 21 de junho de 2004, o Excelentíssimo Juiz de Execução daquela Vara de Execuções Criminais o deferiu, com a ressalva de que deveria “ser sempre respeitado o critério de conveniência e oportunidade da direção desse estabelecimento, que poderá impedir adoção de alguma das práticas mencionadas no

  Soubemos do deferimento do nosso pedido, via contato telefônico e posterior por fax, com alguns dias de antecedência em relação à sua chegada na unidade prisional, e assim, agendamos entrevista com o Diretor do Centro de Reabilitação para o dia 02 de julho próximo, pois também sabíamos que este sairia de férias por alguns dias. Apesar de confirmá-la para o dia agendado, o referido diretor não compareceu ao trabalho naquele dia. Dias antes, em conversa de trabalho com este diretor, soube, o que até aquela ocasião era apenas boato, que algumas mudanças estariam por ocorrer na estrutura dos cargos no interior das instituições prisionais. Uma dessas mudanças seria a extinção do cargo de Diretor de Reabilitação (dele, portanto!). Em 30 de agosto de 2004, o decreto nº 48.905 que “cria e organiza, na Secretaria de Administração Penitenciária, as Penitenciárias I e II de Reginópolis e dá providências correlatas”, confirmaria o que até aquele momento era apenas um boato. A diretoria do Centro de Reabilitação já não constava dos níveis hierárquicos (Capítulo III) das Penitenciárias recém criadas. Outra mudança e que merecerá nossos comentários posteriormente é a que agrupa numa só diretoria os núcleos de trabalho e de escola, na diretoria recém criada: “Centro de Trabalho e Educação” (Inciso II, do artigo 5º - Dos Níveis Hierárquicos). Não saberíamos dizer se a ausência do diretor de reabilitação no dia pré- agendado para a entrevista teria alguma relação com esses boatos acerca da extinção do cargo que ocupava ou com as férias que se aproximavam, entretanto, sua ausência sem uma explicação prévia ou mesmo posterior foi para nós, bastante sintomático.

  Nós dias seguintes houve uma paralisação das atividades dos funcionários que trabalhavam em instituições prisionais, tornando inviável a possibilidade de levantar quaisquer dados para a nossa pesquisa. Foram duas semanas de intensa movimentação política por parte do conjunto dos trabalhadores (corpo de funcionários ou staff) e que impossibilitava qualquer trabalho de pesquisa no interior das instituições prisionais. Finalmente, agendamos uma semana de “imersão” na escola da penitenciária para a última semana de setembro.

  27 de setembro de 2004, segunda-feira.

  Nossa chegada à instituição prisional deu-se às 07h50. Na portaria, perguntamos aos funcionários de plantão se há autorização para a entrada conosco de por sua vez, solicita à mesma que telefone para o funcionário que auxilia o Diretor de Segurança e Disciplina na ausência deste, que confirma a autorização. Depois de transpor este posto, ninguém mais parece se importar com o objeto que trazemos agarrado ao cinto da calça (máquina fotográfica) ou mesmo aquele que carregamos entre as mãos (aparelho gravador).

  Vemos, já naquele momento, intensa movimentação de prisioneiros na “gaiola” do l° pavilhão. São os prisioneiros que saem para o trabalho em diversos setores da instituição e que começam a ser liberados pelos funcionários daquela gaiola.

  Às 08h10 passamos por essa gaiola onde, aproximadamente, 20 prisioneiros aguardam pelo lado de fora do corredor, em fila. São prisioneiros de outros pavilhões que aguardam sua liberação para aqueles trabalhos na “frente” da instituição. A nossa passagem pela gaiola se dá sem problemas. Na Galeria, cruzamos com mais uma grande quantidade de prisioneiros que circulam pelo lado direito do corredor (seguindo uma faixa azul com bordas na cor amarela, pintada no chão do corredor e já bastante apagada pelo passar dos anos). Percebemos imediatamente o quanto a movimentação de prisioneiros nesta Penitenciária (1) é bastante diferente daquela que vimos na outra Penitenciária (2) por nós investigada. Os prisioneiros parecem caminhar, ou “circular” pelos corredores de forma mais “solta”, mais “à vontade”, menos rígidos. Já no prédio

  47

  escolar, o funcionário que vigia o posto encontra-se aguardando os alunos para as aulas. Nesta penitenciária, diferentemente da outra por nós investigada, apenas um funcionário de cada plantão faz a vigilância da escola. Assim, neste dia, como nos dias ímpares deste mês de setembro, encontraremos esse mesmo funcionário. Nos dias pares, lá estará outro funcionário.

  Outra diferença por nós notada é que, enquanto na Penitenciária 2, a gaiola da escola se localiza na própria galeria, a gaiola da escola na Penitenciária 1 se localiza no interior da mesma. Convém dizer que, raramente, encontramos ambos os portões dessa gaiola fechados. Neste dia, o portão de entrada para a escola encontrava-se apenas encostado. No centro da gaiola, sentado numa cadeira disposta de frente para o corredor, o funcionário de vigia deste posto está ao telefone, enquanto alguns prisioneiros trabalham na limpeza dos corredores e das salas de aula da escola. Alguns monitores presos também já se encontram no local, mais precisamente, na sala dos professores. Parecem agitados com a possibilidade do início imediato das aulas.

  Às 8h20, os alunos começam a chegar no prédio escolar. Um deles faz o “sinal da cruz” (sinal católico de invocação da trindade – pai, filho e espírito santo) ao entrar. Desejamos observar como estes alunos saem dos seus respectivos pavilhões: vemos que saem “em bloco”, tanto do 2° quanto do 3° pavilhões, ao fundo da penitenciária. Caminham cabisbaixos, seguindo a faixa à direita deles. Alguns calçam chinelos havaianas, outros sapatos e outros ainda tênis, muitos destes de marcas conhecidas e caras. Vestem calça de cor amarelo ouro (em agosto de 2004, a Secretaria de Administração Penitenciária publicou resolução mudando a cor das vestimentas dos prisioneiros de todo o estado. Da cor cáqui passou-se à cor amarelo-ouro, de forte impacto aos olhos de quem os observa). Trazem seu material escolar em maletas plásticas ou mesmo debaixo dos braços ou ainda, segurando-os pela mão, quando só portam caderno, por exemplo. Alguns prisioneiros chegam à escola portando violão. Soubemos depois tratar-se de ensaio de uma banda composta por estes para a festa do dia das crianças (em instituições prisionais, algumas datas comemorativas são bastante festejadas, principalmente o dia das mães, o dia das crianças e o natal, datas em que ocorrem shows variados, muitos deles organizados pelos próprios prisioneiros e dedicados às suas visitas. Não é incomum verificarmos a presença de artistas da televisão e do teatro no interior das instituições prisionais nessas datas).

  Agora, no corredor escolar, assistimos a uma intensa movimentação de alunos que passaram pela gaiola sem quaisquer problemas ou restrições aparentes. Alguns deles conversam animadamente próximos ao local onde nos encontramos. Outros se acomodam em frente às portas das suas salas de aula. Da sala dos professores, escutamos som de máquinas de datilografar manuais. Muitos prisioneiros cumprimentam-nos e, curiosos, perguntam sobre o motivo de nossa presença ao local, já que não é comum a presença de funcionários conhecidos como técnicos (psicólogos e assistentes sociais) naquele local da instituição. Um dos monitores oferece-nos um impresso que se refere ao jornal interno produzido pelo setor de reabilitação da instituição em colaboração com os próprios prisioneiros e monitores. Outro prisioneiro conserta o que parece ser um mau contato numa lâmpada fluorescente à entrada da responsável pela vigilância do posto afastou-se há alguns minutos. Soubemos depois que este foi buscar uma supervisora da FUNAP em visita à instituição. Apenas às 08h40, concomitante ao seu retorno ao prédio escolar, soa o sinal sonoro para o início das aulas (deveriam iniciar-se às 08h00!). Vários prisioneiros continuam a caminhar pelo corredor da escola, conversando entre si. Um dos monitores caminha entre os mesmos. Vão até o fim do corredor, dão meia volta e retornam. Fazem isso de maneira frenética (sabemos depois que essa prática de caminhar de um lado ao outro do corredor é corriqueira entre os prisioneiros, que aproveitam uma certa flexibilidade do funcionário de vigilância e ainda, o comprimento do corredor escolar, para exercitar as pernas e aprofundar o contato com os colegas). Aos poucos, o corredor vai se tornando vazio e o barulho de vozes, menos intenso.

  alguém do interior da população prisional. Outro prisioneiro se aproxima e nos cumprimenta, acomodando-se em uma cadeira localizada atrás de uma mesa de trabalho. Parece escrever uma carta. Enquanto um outro prisioneiro chega, os outros três que mexiam num cadastro, saem. Perguntamos quantos trabalham naquele local e nos respondem que são três. O responsável pela biblioteca (bibliotecário na prática e não de formação, como na penitenciária 2) é bastante conhecido da população prisional. Soubemos pelo funcionário de vigilância que ele já cumpriu mais de 20 anos de sentença. Esse prisioneiro também nos conta que os outros três colegas seus que vimos mexendo num cadastro, trabalham separando correspondências para os prisioneiros das “pipas” (as “pipas” são cartas breves, geralmente manuscritas ou datilografadas, que os prisioneiros encaminham para algum setor ou alguma pessoa específica do interior da instituição prisional, contendo alguma solicitação pessoal). A tarefa destes prisioneiros que, seria a de separar as correspondências das “pipas”, enviando as primeiras para o

  49 setor de censura da instituição e as demais aos setores competentes.

  48 Segundo a relação de livros catalogados na biblioteca, o acervo contém 5.613 obras, incluindo

livros de romance, terror, aventura, policial, enciclopédias, dicionários e livros didáticos.

  

Conforme os funcionários que trabalham no setor, ainda existem vários livros não catalogados.

100% do acerco da biblioteca é fruto de doações de pessoas ou de instituições à Penitenciária.

  49 Muito embora seja proibida constitucionalmente a violação de correspondências (Artigo 5º,

  

XII, da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988), é comum encontrarmos, nas

instituições prisionais sob o conhecimento da justiça, um setor de censura de correspondências.

  A limpeza do prédio escolar continua. Agora, dois prisioneiros – conhecidos como “faxinas”, jogam desinfetante no chão do corredor. Na sala dos professores – que também funciona como secretaria e atendimento aos prisioneiros e alunos, alguém datilografa um documento qualquer; outros três procuram publicações relativas aos prisioneiros em Diário Oficial, Poder Judiciário (todas as decisões dos Tribunais Penais ou das Varas de Execução Criminais ou mesmo do Conselho Penitenciário são publicadas em Diário Oficial. Estas publicações são então recortadas e distribuídas ao respectivo prisioneiro); um dos monitores (o mesmo que passeava entre os prisioneiros pelo corredor escolar) está sentado em frente ao único computador ali existente; outros dois prisioneiros simplesmente circulam pelas dependências da sala.

  Às 08h50, alguns prisioneiros são dispensados da aula, após terem feito uma certa “avaliação”. Um dos “faxinas” canta música com teor religioso e evangélico. O portão da escola encontra-se encostado. O funcionário de vigilância não se encontra no recinto. Alguns prisioneiros persistem em circular pelo corredor escolar livremente. O clima é de descontração. Numa das salas de aula (a primeira), a supervisora da FUNAP está reunida com nove prisioneiros. Realiza um teste para futuros monitores. A avaliação se dá através de uma aula simulada que cada um dos candidatos deve lecionar. Na sala seguinte, seis alunos assistem à aula de geografia (aliás, fazem avaliação da matéria, percebemos depois. No quadro negro, escrito à giz, a programação do dia: 08h30 – avaliação de geografia; às 14h00 e às 16h00, ensino fundamental B.

  Neste momento, o funcionário de vigilância que já retornou ao prédio, passa em revista as salas, circulando pelo corredor da escola. Na sala posterior, 10 alunos também são submetidos à avaliação, que parece ser com a possibilidade de consulta ao material que possuem, pois os vemos folheando todo o material que dispõem e também

  

justificativa para tal ato é o de que, nas correspondências dos prisioneiros, estão contidas

informações que permitem descobrir crimes já ocorridos ou mesmo, crimes ora planejados

(seqüestros, extorsões, assassinatos, resgates, entre outros). O “Manual para servidores

penitenciários” – Administração Penitenciária: Uma abordagem de Direitos Humanos, de

Andrew Coyle, do International Centre for Prison Studies, publicado recentemente e distribuído

nas instituições prisionais de todo o País, reprovando essa prática, diz que “(...) não há qualquer

justificativa operacional, por razões de segurança, para se censurar toda a correspondência”. Na

seqüência, aponta para o que seria uma prática tolerável do ponto de vista da preservação dos

direitos das pessoas presas: “As autoridades têm o direito de assegurar que a correspondência

que entra na penitenciária não contenha qualquer material proibido, tais como armas ou drogas.

A boa prática em alguns países é que toda a correspondência que entra na penitenciária seja conversar com os colegas. No quadro negro, um texto escrito, fala sobre o descobrimento do Brasil. A circulação de prisioneiros pelo corredor da escola continua, porém tornou-se menos intenso. Alguns passam por nós extremamente curiosos. Na quarta sala, seis alunos assistem à aula de Português. Parecem concentrados na matéria. Um deles coça a cabeça evidenciando dúvidas. O monitor está sentado em cadeira localizada à esquerda dos alunos e também demonstra concentração – parece corrigir algum trabalho. Ganhamos um copo de café puro, trazido pelo “bibliotecário”. Finalmente, na sala do fundo do corredor (5), 10 alunos têm aula de música – aqui estão aqueles que vimos portando violão à entrada da escola. Estes alunos (ou, simplesmente, prisioneiros?) se agrupam de dois em dois ou em trio e “arranham” notas de seus instrumentos musicais – violões, guitarras e bateria. Notamos que o chão da escola brilha de tão limpo. A iluminação do prédio é adequada, tornando-o claro, diferentemente da penitenciária 2 onde a iluminação é precária e o prédio, lúgubre.

  Às 09h25, um dos alunos que fazem avaliação de geografia sai da sala reclamando que “a prova estava difícil”. Agora, apenas quatro alunos permanecem nessa sala, onde lemos acima da porta de entrada “Supletivo/Ensino Fundamental"; na sala dois, a mesma indicação, na três, “Alfa 2 / Ensino Fundamental”; na quatro, “Alfa 1 / Ensino Fundamental”; e na cinco, “2° Grau / Ensino Médio".

  No banheiro do corredor escolar, a tranca é improvisada. Um pedaço de ferro cortado é encaixado em buraco feito na própria porta, evitando assim, desconfortos e situações desagradáveis para quem o utiliza. Apesar de limpo e higienizado, não há papel higiênico. O portão de acesso à escola está fechado neste momento. Perguntamos ao funcionário o motivo, que diz que assim evita a aglomeração de prisioneiros que não os próprios alunos. Segundo ele, a escola localiza-se em local de trânsito dos prisioneiros (ao lado das oficinas e entre os pavilhões. Assim, muitos deles aproveitam- se deste fato para conversar com os colegas de cárcere neste recinto). O trânsito de prisioneiros só é permitido na eventualidade de algum pedido para retirada de livros da biblioteca. Continuando a conversa, o funcionário nos diz que está neste posto de trabalho já há, pelo menos, seis anos e “conhece cada rosto das pessoas que freqüentam a escola da instituição”. Perguntamos se o trânsito para a retirada de livros da biblioteca é livre, dos pavilhões ao prédio escolar e ele nos responde que, normalmente, os outros) e passam pela escola. De sua parte, o ingresso na escola é autorizado. Apenas “fica de olho” para que o prisioneiro faça a retirada do material da biblioteca o mais breve possível – “de vez em quando vou à biblioteca e cobro agilidade” diz.

  Às 09h45, o Diretor de Educação chega à escola e é logo acompanhado por um dos prisioneiros de serviço na biblioteca – no caso, o próprio responsável. Não há mais alunos na sala dois. Os seis alunos da sala três assistem agora à uma aula de matemática – frações equivalentes. A matéria encontra-se escrita no quadro negro e o monitor conversa nesse momento com o funcionário de vigilância que está à sua porta, retornando em seguida para o quadro negro. Às 09h55 os alunos da sala quatro são liberados. Evidenciando descontração, passam pelo portão da escola e retornam aos seus pavilhões de origem. Na sala cinco, o ensaio dos artistas da penitenciária prossegue. Na sala um também termina o processo de escolha dos futuros monitores. Nesse momento, na escola, estamos apenas nós e o funcionário de vigilância, os músicos na sala cinco, a supervisora da FUNAP com os candidatos à monitor no corredor. Essa supervisora parece explicar com maiores detalhes o procedimento e os critérios de escolha dos monitores, além dos prazos para que se divulgue o resultado da seleção realizada. Além destas pessoas, mais quatro prisioneiros continuam na sala dos professores. Um deles continua ao computador; um outro “descansa” em cadeira no canto e outros dois continuam consultando o Diário Oficial.

  Às 10h00, pela primeira vez desde o momento em que chegamos na escola, o corredor está vazio e a porta de entrada, aberta. Logo, um prisioneiro avança da galeria central da penitenciária para o interior da sala dos professores para conversar com aquele que está ao computador. No quadro mural (um porta-avisos medindo um metro de largura por 80 centímetros de altura) estão um aviso informando sobre como receber o certificado de conclusão das provas do CESU; um panfleto com a história do lápis, contada por um sábio alienígena – JEE; cópia do Jornal que nos foi oferecido no início das aulas, denominado “CulturAção – Informativo Cultural da Penitenciária I de

  • ”, com poesias, frases de efeito, letras de músicas cifradas, curiosidades, caça- palavras e informações gerais aos prisioneiros; reportagem da revista “VEJA” tratando da questão de raça (identidade); dois pequenos trechos de reportagens com opiniões de especialistas sobre o fim da obrigatoriedade dos exames criminológicos para fins de
ilustrada com uma cabeça de dinossauro enterrada e um homem sentado no que foi o seu nariz, que está soterrado e os dizeres: “Quem não lê não sabe o que está perdendo”; um comunicado do setor “Rol de Visitas” com informações das normas e regras para a visita de prisioneiros e cartazes alusivos à Olimpíadas de Atenas, feitos pelos próprios alunos – parece que a FUNAP patrocinou um concurso de cartazes sobre esse tema e aquele escolhido como melhor ou mais bonito proporcionou, como prêmio a quem o fez, um walkman.

  Na sala um, ocorre uma reunião da supervisora da FUNAP e os sete monitores presos atuais. Nas salas dois, três e quatro, a matéria do dia continua escrita no quadro negro. Não há mais alunos neste horário (10h15). Na sala cinco, sete músicos continuam “afinando” seus instrumentos musicais. Na sala dos professores, apenas o prisioneiro que trabalha no computador. Na biblioteca, presenciamos uma conversa amistosa entre os três prisioneiros que ali trabalham e o funcionário responsável pela vigilância. Logo depois, à saída de um dos prisioneiros que continuava no prédio escolar, este funcionário brinca perguntando se “deseja ir para casa”, já que a porta de entrada da escola encontra-se trancada. Depois de liberar o prisioneiro, o funcionário senta-se junto à nós, que estamos sentados à sua mesa e diz que “poderia escrever um livro com todo o material que temos recolhido”.

  Diferentemente da penitenciária 2, na escola desta outra, alguns monitores continuam no recinto mesmo depois de encerradas as aulas – preparam as aulas do período da tarde e mesmo almoçam no recinto. Isto apesar de uma solicitação do setor de vigilância para que todos os prisioneiros almocem em suas celas. À porta de entrada da biblioteca, duas folhas de sulfite nos mostram que: “A biblioteca é o templo do saber e este tem libertado mais pessoas do que todas as guerras da história” e “sabe mais, pensa melhor, compara idéias, prepara-se melhor, tem o que falar, tem o que responder, compreende melhor, melhora o vocabulário, tem mais chances na vida...quem lê”.

  Às 10h40 os últimos músicos deixam o prédio da escola. Agora, só a reunião da supervisora da FUNAP com os atuais monitores; os faxinas que limpam a pouca sujeira que se acumulou ao longo da manhã; o prisioneiro ao computador; dois outros na biblioteca; o vigia do setor e este pesquisador. Aguardamos mais alguns minutos e às 11h05 não há mais pessoas na escola além dos monitores que se preparam para almoçar. que também coloca um cadeado bem grosso – “por precaução”, diz ele, e ambos, o funcionário e nós, deixamos o recinto escolar.

  Às 13h25 retornamos à escola. Na gaiola do pavilhão 1, os funcionários brincam conosco: “O Senhor já é psicólogo. Porque deseja ir novamente à escola?”. Na galeria central, mais movimentação. Os prisioneiros também estão retornando às suas atividades regulares. Vários deles aguardam na própria galeria a sua vez de transpor os portões da gaiola, que está guardada por dois funcionários, como no período da manhã.

  Na escola, que já está aberta, ouvimos uma conversa com teor religioso e evangélico entre os dois prisioneiros responsáveis pela faxina e o funcionário responsável pela vigilância do posto. A porta de entrada para a escola está aberta. No corredor, nove prisioneiros, entre eles, alguns monitores e alguns que trabalham na biblioteca, conversam entre si. Alguns deles caminham pelo corredor. Um deles, caminhando até onde estamos, deseja saber sé é fácil ou não, conseguir uma bolsa de estudos numa Universidade, pois deseja continuar os estudos ao sair da Penitenciária. Nos pergunta ainda se conhecemos algum caso de prisioneiros em regime fechado de cumprimento de pena que tenha obtido autorização judicial para continuar os estudos, mesmo prisioneiro. Cita o caso de Guilherme de Pádua, prisioneiro do Rio de Janeiro que obteve autorização judicial para freqüentar os estudos superiores (o ator Guilherme de Pádua ficou mundialmente conhecido por assassinar, em dezembro de 1992 a atriz e colega de trabalho, Daniela Peres. Condenado, juntamente com a esposa, pelo crime, cumpriu parte da sentença em regime fechado e depois progrediu para o regime semi- aberto, quando retornou aos estudos). Enquanto conversamos, outro prisioneiro se aproxima e curioso, observa o que escrevemos. Volta-se para a biblioteca e retorna rapidamente, parando próximo à nós. Está portando um livro: “A magia de conquistar o que você quer”. A supervisora da FUNAP, que retornou no período da tarde para concluir os trabalhos da parte da manhã, também fica curiosa com o que escrevemos, perguntando o que estamos relatando. Logo depois é conduzida para a “frente” da instituição pelo funcionário de vigia do setor, nos dizendo que retornam em breve (na penitenciária 2 não permanecemos um minuto sequer sem que algum funcionário estivesse próximo a nós! – Talvez por ser também funcionário desta outra instituição?).

  Na biblioteca, alguns prisioneiros buscam livros nas estantes; outros três ou escolar e observando as salas de aula, observamos que na sala um, um pedaço de esponja parece desempenhar as funções do apagador de quadro negro; quatro pedaços de panos ou trapos estão pendurados na janela – são utilizados na limpeza do chão do recinto escolar e estão ali para secar ao sol. Na porta de entrada da sala um aviso: “Favor manter as portas das salas de aula fechadas”. Um dos prisioneiros responsáveis pela faxina vêm até à sala (neste momento vazia) para continuar a leitura de um livro que traz consigo: “O filho do fogo”. Sabemos por indicações dele próprio que o livro conta a história de um rapaz que cultuava o diabo e se “converte”, num dado momento

  50 de sua vida, ao Evangelho .

  Às 13h45 os alunos começam a chegar na escola. Alguns se dirigem rapidamente às salas de aula. Outros param no corredor para conversar. Um outro funcionário, que trabalha no pavilhão e não sabe que estamos realizando uma pesquisa na escola, pergunta-nos se é possível apanhar um monte de livros para distribuir no pavilhão. Segundo nos informou, teria havido muitos pedidos de saída de prisioneiros dos pavilhões para a biblioteca, acarretando problemas com a vigilância dos mesmos. Este funcionário é vizinho de um prisioneiro que ali se encontra (escutamos o próprio prisioneiro dizer isso – a diferença fundamental entre ambos é que, enquanto o funcionário tem 15 anos trabalhados em instituições prisionais, o prisioneiro cumpre já nove anos de prisão).

  Assistimos a dois grupos de prisioneiros que conversavam no corredor se dispersarem rapidamente. Nesta Penitenciária, porque nos conhecem, é a nós que os prisioneiros acabam recorrendo quando querem ver chegar suas solicitações aos setores da “frente” da instituição (diferentemente da penitenciária 2, onde as solicitações acabavam sendo destinadas ao diretor e aos funcionários do setor de educação). Recebemos, no período em que permanecemos realizando a pesquisa, inúmeras “pipas” que desejavam ver entregues aos setores competentes da instituição.

  Às 13h55, o movimento de prisioneiros na escola se intensificou. O telefone tocava insistentemente. O funcionário do posto, que escoltou a supervisora da FUNAP para a administração do presídio ainda não havia retornado. Observamos os prisioneiros

  

prisionais. Designa aquelas pessoas que, a partir de um determinado momento de suas vidas,

aceitam a religião protestante e os ensinamentos oriundos desta como orientadores de suas ações cumprimentando-se efusivamente. Dois deles beijam-se no rosto como dois jogadores de futebol após o gol. Outros prisioneiros se abraçam carinhosamente. Muitos caminham pelo corredor, raramente sozinhos. Alguns alunos trazem o caderno enrolado entre a mão, como se fossem folhas de sulfite ou outro material. Alguns outros olham o quadro de avisos. Às 14h00, concomitante à chegada do funcionário do posto, soa o sinal sonoro que indica o início das aulas. Um dos prisioneiros nos procura dizendo que necessita ir até a enfermaria. Pedimos para procurar pelo responsável pelo posto que lhe “receita” alguns comprimidos que traz consigo. Os alunos parecem não ter pressa para entrar em suas respectivas salas de aula. Continuam conversando no corredor. Às 14h05, o funcionário de vigilância “convida” os prisioneiros que conversam no corredor a ingressar em suas salas.

  Na sala um encontramos 12 alunos. Na sala dois, apenas cinco alunos. Dez alunos assistem à aula sobre hiatos, ditongos e tritongos na sala três. Nesta sala, o monitor solicita a cada um dos alunos para irem até o quadro negro e respondam às perguntas apresentadas. Vemos que um dos alunos presentes nesta sala nem caderno possui, porém, presta bastante atenção à aula. Na sala quatro, cinco alunos assistem à aula de Português. No quadro negro, o título da redação: “O circo chegou”. Dezoito alunos assistem à aula na sala cinco, que versa sobre história geral: “Os E.U.A. e a Guerra Fria – Revolução Francesa e Revolução Industrial”. O Subtítulo é “Os E.U.A. e a Guerra de Secessão”. Deste ponto do corredor é possível ouvir um forte e intermitente barulho de máquinas vindo das oficinas de trabalho que estão separadas do prédio escolar por uma parede apenas. Nesta sala, alguns dos alunos estão em pé ao fundo da sala, conversando. O professor parece não se importar (como na penitenciária 2, onde essas movimentações e manifestações de alunos parecem fazer parte da dinâmica das aulas). Outro aluno, ao nos ver pelo visor de vidro, retira-se da sala e nos pede para lembrar ao psicólogo que o atende de que necessita ser ouvido o mais rápido possível (parece que o último atendimento a este prisioneiro se deu a mais de 15 dias, segundo disse). Chegam mais dois alunos e entram na sala de aula. O monitor tem o seu material de auxílio à aula – duas pastas com livros e cadernos - expostos em cima de uma carteira escolar. Junto a estes, um pote plástico contém um punhado de giz e um apagador para quadro negro. Os alunos lêem um texto xerocopiado. idem. Também na sala dois, onde um dos alunos está sentado em cima da carteira, com uma das pernas descobertas pela calça que veste, deixando à mostra uma enorme tatuagem. Nesta sala de aula, o monitor copia no quadro negro um grande texto cujo título é “A fome tem nome” e que versa sobre uma família residente em favela que passa por necessidades financeiras e luta pela sobrevivência. Continuando a leitura do texto, vimos que, embora muito triste, é também bastante realista. Trata, sobretudo, de uma família de desempregados que não possui o mínimo recurso para poder alimentar- se e a seus filhos pequenos. Esta simples leitura nos deixa indignado com a situação social de nosso País. Ficamos imaginando quais os sentimentos e as sensações que o texto traria para aqueles que assistem à aula e que, de certa forma, tiveram, na maioria dos casos, vida idêntica àquela relatada no texto que acabou de ser transcrito para o quadro negro.

  Neste momento, às 14h30 já estão 14 alunos na sala um, que também fazem uma avaliação com consulta ao material que dispõe. Na biblioteca, um prisioneiro lê um livro, apoiado num pequeno pedestal que serve de escada. Outro prisioneiro procura para algo para ler, nas inúmeras estantes com livros ali existentes. Dois outros prisioneiros trabalham separando correspondências de “pipas” e o “bibliotecário” continua a escrever o que me parece ser uma longa carta. Um dos prisioneiros responsáveis pela faxina caminha pelo corredor da escola, num vai-e-vem frenético (parece buscar o que fazer naquele local onde não há mais nada para fazer. Tudo está tão limpo!). Nesse corredor, há três cestos de madeira para acondicionar restos de materiais ou outros objetos; dois carrinhos de ferro (desses que mais parecem uma maca para transporte de doentes) aguardam o momento onde lhes serão colocados os materiais de limpeza para uso na escola, ou quando transportarão livros para os pavilhões da penitenciária, além de um latão de lixo e duas pás feitas de latas de óleo (dessas de 18 litros) e duas cadeiras – uma sobre a outra.

  Na sala dos professores vemos: um grande armário de madeira com, aproximadamente um metro e meio de altura, com seis portas, que guarda materiais pedagógicos – livros, cadernos e apostilas; um outro armário, também em madeira e também com, aproximadamente, um metro de altura e duas portas; uma estante de ferro com quatro prateleiras onde estão acondicionados mapas, pastas e um violão; dois tamanho, aproximadamente, um metro e trinta centímetros e outra de, aproximadamente, um metro e meio, esta última utilizada para reuniões entre os monitores. Numa das mesas menores e acima dela, vemos um antigo computador (monitor, C.P.U. teclado e mouse), amparado por dois livros muito grossos, que faz com que o monitor permaneça à altura dos olhos daquele que o utiliza. Na mesa maior, uma máquina de datilografia manual, que é utilizada pelos prisioneiros que procuram publicações que dizem respeito ao dia-a-dia da instituição prisional, em Diário Oficial. Completam a paisagem da sala dos professores: um quadro ilustrativo do corpo humano; um Mapa Mundi; um mapa do Estado de São Paulo e outro do Brasil; sete cadeiras, três delas vazias no momento da observação; um cartaz contendo a seguinte observação: “STOP. Por favor, não joguem bitucas de cigarro nas janelas”; um relógio analógico no alto da parede, ao centro da sala; uma saletinha que funciona como almoxarifado do setor e onde também encontramos materiais pedagógicos e um banheiro, de uso exclusivo dos monitores ou de visitantes.

  Fora dali, no corredor, um dos prisioneiros responsáveis pela faxina do local pede para que observemos a sala onde são guardados os produtos utilizados na limpeza diária. Deseja que constatemos a não existência de lâmpadas naquela pequena sala, fato que a torna bastante escura e que dificulta, assim, a busca de qualquer material ou objeto de limpeza por parte dos prisioneiros. Isto feito pede então, que intercedamos junto à administração da penitenciária pela melhoria daquele local. O telefone sobre a mesa na gaiola da escola contém remendos em seus fios. Uma máquina de datilografar é transportada pelos próprios prisioneiros da sala dos professores para a biblioteca. Dois alunos aguardam para entrar no banheiro. Nos damos conta de que, raramente, o corredor da escola desta penitenciária, encontra-se vazio. São prisioneiros – alunos, monitores e outros, que circulam constantemente. Muitos vão ao banheiro, outros saem das salas de aula, simplesmente para conversar com colegas, outros ainda buscam a sala de atendimento ou a biblioteca (esta movimentação constante contrasta enormemente com o que observamos na penitenciária 2, onde, tanto as galerias quanto os corredores da escola permaneciam vazios boa parte do dia).

  Estamos agora trancados na escola, tanto nós, quanto aqueles que ali assistem aula. O funcionário do setor foi escoltar um dos monitores que teria sido galeria central, a movimentação de prisioneiros também já é constante, embora nada comparável aos períodos em que são “soltos” ou novamente “trancados”. Os alunos da sala cinco são liberados e também solicitamos que aguardem o retorno do funcionário do setor. Embora atendam a nossa solicitação sem qualquer queixa, permanecem próximos a nós ou dirigem-se às salas onde ainda há aulas para visualizar os colegas pelos visores de vidro. Na sala três também não há mais aulas. Às 15h20, os alunos são liberados. Um desses alunos, antes de deixar a sala de aula, deixa o seu nome impresso à giz no quadro negro. È a vez também dos alunos da sala quatro. O último a deixar esta sala de aula é o monitor, depois de apagar todo o quadro negro. Na sala dois, um dos alunos, em pé, olha pela janela (imagina a liberdade?).

  Às 15h22 soa o sinal sonoro indicando o final das aulas (como estamos no fundo do corredor não temos certeza disto, porém, parece que um dos próprios alunos apertou o interruptor que dispara a campainha). Há agora uma grande concentração de prisioneiros na gaiola da escola aguardando que o portão escolar seja aberto. Escutamos uma profusão de vozes e estamos torcendo para que o funcionário do setor retorne logo. Isto se dá às 15h25 e, rapidamente, todos os prisioneiros deixam o recinto escolar. Às 15h27, dois minutos após a chegada do funcionário, não há mais qualquer pessoa neste local (gaiola da escola).

  Às 15h50, enquanto aguardamos uma nova leva de alunos, deixamos a nossa prancheta com o caderno de campo sobre a mesa do funcionário do setor, resolvendo caminhar pelo corredor da escola. Ao voltar, vemos que um dos prisioneiros que conversava com aquele funcionário está lendo as nossas anotações. Ao perceber que nos aproximamos, interrompe imediatamente a leitura que fazia. Nesse ínterim, vimos que cinco dos monitores conversavam com um dos faxinas ao fundo da sala cinco, num local onde era possível sentir a luz e o calor do sol. A porta da sala de aula está fechada. Vemo-os pelo visor de vidro que existe na parede dessa sala. Mais ou menos neste momento, o movimento no interior da escola é retomado. Muitos prisioneiros que deixaram as oficinas de trabalho dirigem-se agora para o prédio escolar. Muitos deles chegam com a roupa suja e encharcada de óleo e graxa. Um forte odor de transpiração excessiva é sentido – esses prisioneiros não têm tempo para tomar banho e trocar de roupa ao deixar as oficinas de trabalho. fila, à direita de quem anda. Assim que são abertas as portas da gaiola e do pavilhão, passam todos. Na escola, a mesma cena de antes: vários alunos aguardam, no corredor, o horário para o início das aulas. Carrinhos transportando a janta passam pela galeria central – 45 minutos atrás, os vimos transportando café, leite e pão para o ambulatório médico da Penitenciária. Às 16h05 o funcionário do setor faz tocar o sinal para o início das aulas. Estamos junto a esse funcionário na galeria central, em frente à escola e, às 16h15 continuam a chegar prisioneiros que irão estudar.

  Encontramos 13 alunos presentes na sala um, que realizam avaliação. Na sala dois, cinco alunos lêem e escrevem o mesmo texto triste da aula do período anterior

  • – agora sabemos que o texto é de Ricardo Kotsho e foi publicado pelo jornal “A Folha de S.Paulo” em 28 de maio de 1994, à pagina 13, pois, desta vez, o monitor “reconhece” o seu crédito. Na sala três, 15 alunos têm aula de matemática. Dois alunos conversam entre si e o monitor interfere (primeira vez que vimos isso acontecer!) jogando um pedaço de giz entre eles, que então, interrompem a conversação. No quadro negro, problemas de matemática para resolver – adição e subtração, basicamente. Na sala quatro, 11 alunos e também a mesma matéria do período anterior – “O circo chegou” que está sendo re-escrita pelo mesmo monitor que a tinha apagado momento antes. Dezesseis alunos comparecem à sala de aula 5. Parecem ler o mesmo texto xerocopiado da aula do período anterior. Mais dois alunos adentram a sala. Chegam abraçados de forma fraternal. O corredor da escola está vazio nesse momento. Há silêncio neste espaço do recinto escolar, bem como há silêncio nas oficinas de trabalho, ao lado da escola. Às 16h45 chega um aluno retardatário para a aula na sala cinco. Trabalha na dispensa da penitenciária e seus horários são flexibilizados. Às 17 horas, o prisioneiro responsável pela biblioteca deixa o recinto da escola. Às 17h20 vários alunos já se acotovelam antes da gaiola da escola aguardando a liberação para a saída. Às 17h25, praticamente pressionado pela grande movimentação de alunos próximos a si, o funcionário do setor toca o sinal indicando o final das aulas.

  Às 17h27 apenas os monitores se encontram ainda na escola. Conversam entre si e arrumam os seus pertences para o dia seguinte. Tiram os aventais brancos e os depositam no interior de armários que existem na sala dos professores. Preparam-se para deixar o recinto escolar, que acontece exatamente às 17h30. Rapidamente, a porta

  Estiveram presentes assistindo as aulas deste dia, 138 alunos. O total de alunos matriculados na escola da Penitenciária, segundo dados da própria Diretoria de Educação é de 471. Portanto, estiveram presente as aulas, aproximadamente, 29% dos alunos efetivamente matriculados.

  28 de setembro de 2004, terça-feira

  Chegamos à escola às 08h05. No recinto, vários prisioneiros já se encontram no corredor. Vários deles cumprimentam-nos. Conversam de forma animada e amistosamente. Às 8h30 um sinal sonoro indica o início das aulas. Antes disso, atendemos a duas solicitações: um dos alunos deseja falar com o Diretor de Produção – “precisa trabalhar”, diz; um outro nos pede para encaminhá-lo a um psicólogo da instituição. Comprometemo-nos a levar suas reivindicações aos setores competentes. São 08h40 e ainda observamos que prisioneiros circulam livremente pelo corredor da escola.

  O funcionário do setor (hoje é um outro funcionário – traz a camisa aberta até quase a altura do umbigo) reclama a um aluno que “faz hora” e pede para que se dirija à sua sala de aula. Buscamos, entre os monitores presentes na sala dos professores, alguns voluntários para a entrevista que pretendemos realizar amanhã. Dos quatro monitores presentes, apenas um se manifesta positivamente. Ás 08h45 ainda há alunos que chegam ao prédio escolar. Um dos monitores também chega nesse momento e, às 08h55 mais um grupo de alunos ingressa pelo portão no prédio escolar.

  Apenas quatro alunos encontram-se na sala quatro, onde o monitor dita um texto. Esse monitor está sentado numa carteira, tendo os alunos à sua volta. Às 09h00, já são 10 os alunos presentes na sala de aula. Na sala três, sete alunos iniciam a aula. Logo depois, mais dois deles entram na sala. O monitor leciona Língua Portuguesa. No quadro negro, exercícios para classificação de frases (não entendemos muito que tipo de classificação era ali exigida!). Na sala dois, doze alunos tinham aula de Ciências: “Gripe. O que é?”. O monitor transcreve um texto e seus alunos copiam, em silêncio. Na sala um, onde inicialmente estavam quatro alunos, agora oito deles têm aula de substantivos. Na sala dos professores, um prisioneiro datilografa um texto qualquer e um outro digita no computador. Um outro sai do banheiro e um outro avalia o que o que está datilografando vêem em seu auxílio. O violão continua em cima do armário e agora, uma guitarra encontra-se sobre uma das mesas da sala dos professores. Dois prisioneiros ingressam na sala e “dedilham” a guitarra; outros dois prisioneiros entram na seqüência.

  Quatro faxinas se revezam na tarefa de limpar o corredor escolar. Na biblioteca, dois prisioneiros estão sentados e conversam com o funcionário do setor que está sentado naquele pequeno pedestal de madeira que também é utilizado como escada. Sete prisioneiros estão na sala cinco e afinam seus instrumentos musicais. Na sala quatro, às 09h30, a aula é de matemática. Dois alunos estão no quadro negro tentando resolver uma subtração: 4615 – 3627 + ? Os demais alunos, com exceção de uns três estão desinteressados, pois conversam entre si. Dois prisioneiros estão conversando bem à nossa frente, no corredor onde nos encontramos (escutamos falarem de pessoas que mudam de personalidade freqüentemente). Na sala dois, a matéria sobre vírus e bactéria prossegue: no quadro negro, explicações sobre sarampo, catapora, poliomielite, raiva. Os alunos continuam a copiar a matéria. Na sala um, estão apenas quatro alunos. Não sabemos para onde foram os demais.

  São 09h40 e nove prisioneiros estão circulando pelo prédio escolar – aliás, esse número variava enormemente, conforme os mesmos entravam e saíam de salas de aula, biblioteca, sala dos professores e banheiro. São os “faxinas”, principalmente, que conversam e falam sobre capítulos da Bíblia Sagrada. O funcionário do setor encontra- se junto à parede direita da galeria central, em frente à escola. Às 09h45 chega um carrinho com duas caixas de som, transportadas por dois prisioneiros. O funcionário abre uma das portas de entrada da escola, impedindo, propositadamente, uma passagem mais cômoda do carrinho e das caixas de som.

  Às 10h00 soa o sinal sonoro que indica o final das aulas. Alguns alunos se concentram no portão de entrada e saída da escola, que está trancado neste momento. Parece que esses alunos encontraram um colega que está sendo transferido para outro estabelecimento de cumprimento de pena, pois o mesmo segura debaixo dos braços, um colchonete. Por entre as grades do portão da escola, trocam cumprimentos e esperanças de se encontrar brevemente. Às 10h15 dirigimo-nos à frente da penitenciária, deixando para trás o funcionário do setor escolar e alguns monitores que lá permanecem. profissionais desenvolvidas na penitenciária. Depois da entrevista, fazemos uma visita às instalações da instituição, incluindo a escola. Na mesma, às 12hs, um ensaio generalizado de uma banda de música com um forte barulho de rock.

  Durante o período de almoço conversamos com a Senhora ****, que é a nova orientadora pedagógica dos monitores presos nesta instituição, que nos transmite a sua impressão acerca da escola nessa penitenciária. Segundo ela, a escola da penitenciária 1, devido a algumas particularidades, principalmente pelo fato de que trabalha com monitores presos já há muitos anos, é considerada pelos técnicos da FUNAP uma das melhores escolas em instituições prisionais. Às 13h40 retornamos à escola. Nesse momento, já observamos vários prisioneiros – alunos ou não, circulando pelo prédio escolar. Na sala cinco, uma sala repleta com 40 alunos (!) assiste uma aula profissionalizante de injeção eletrônica. O professor é um voluntário de fora da instituição. No quadro negro, elementos da mecânica (Tensão = Volts – Corrente = Ámpere). Essa aula se inicia às 13hs e tem seu término para às 15hs, às terças e quintas feiras. Alguns dos monitores presos da instituição freqüentam essas aulas, cujo curso foi iniciado semana passada.

  Alguns monitores preenchem, na sala dos professores e junto à orientadora pedagógica, relatórios acerca de suas atividades. Outros dois prisioneiros observam a movimentação no interior dessa sala, através do visor de vidro. Na sala um, um único e solitário aluno parece aguardar o início das aulas do período. Tendo o caderno aberto, escreve à caneta um texto que não identificamos. No quadro negro, a lição da parte da manhã permanece escrita. Na sala três, três alunos estão presentes. Um deles apaga o quadro negro. Na sala quatro, oito alunos conversam aos pares. O material escolar dos mesmos encontra-se sobre as carteiras. Apesar da mudança na cor dos uniformes ainda é possível ver um ou outro prisioneiro portando calças ou jalecos na cor anterior – cáqui. A maioria das roupas com a cor amarelo-ouro é muito grande e larga, de numeração bem superior àquela do porte físico dos prisioneiros.

  Os prisioneiros que realizam faxina cantam hinos religiosos. Às 14hs, na galeria central, a movimentação se inicia. Começa a vinda de alunos para a escola. Um dos prisioneiros porta camiseta de cor diferente da “cor padrão”, branca e imediatamente, é chamado a sua atenção para esse fato pelo funcionário do setor

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  outro funcionário que passa pela galeria central diz que pagará pecúlio para os prisioneiros do Pavilhão II. A esta informação, o funcionário da escola começa a dispensar os alunos que moram no referido pavilhão, dizendo aos mesmos que para lá retornem a fim de receberem o respectivo pecúlio. Depois de ter tomado a decisão de dispensar os alunos, o funcionário do setor resolve certificar-se sobre a possibilidade de dispensa dos alunos com a orientadora pedagógica presente à instituição. A movimentação no prédio escolar é bem abaixo do observado em outras vezes.

  Prisioneiros continuam cruzando as galerias da Penitenciária. Alguns se dirigem até às oficinas de trabalho e outros vão aos pavilhões do “fundo” da instituição. Mais alunos deixam o prédio escolar. Mostram-se aflitos e ansiosos. No corredor escolar, aproximadamente 30 alunos parecem aguardar instruções do que fazer. Sabemos, logo depois que as aulas estarão suspensas hoje e amanhã para o pagamento do pecúlio, já que amanhã o mesmo estará sendo “pago” para os prisioneiros dos pavilhões um e três. Escutamos que sexta-feira, em decorrência das eleições municipais de domingo e, tendo em vista as antecipações do dia de visita aos prisioneiros para o sábado, também não haverá aulas na penitenciária.

  O funcionário do setor de escola nos informa então que a supervisora ***** foi até a sala onde estava ocorrendo a aula de injeção eletrônica e avisou sobre o pagamento do pecúlio aos prisioneiros do pavilhão dois. Parece que assim que obtiveram esta informação, vários dos alunos presentes abandonou a aula, correndo para o seu pavilhão (nos certificamos nesta ocasião o quanto o recebimento de pecúlio é extremamente valioso e emblemático nas instituições prisionais. É neste dia que os prisioneiros aproveitam para “acertar as contas” entre eles, ou seja, muitos deles acabam contraindo dívidas que deverão ser pagas através desses materiais recebidos no pecúlio. Assim, ficou clara a expressão de ansiedade e aflição que vimos em seus rostos ao “abandonar” às pressas o prédio escolar. Muitos desejavam cobrar o que outros prisioneiros lhes deviam. Muitos corriam para pagar suas dívidas). As aulas ficaram então, prejudicadas por, ao menos, um dia e meio.

  

são distribuídas uma vez por mês (principalmente produtos de higiene e limpeza, além de

cigarros, isqueiros, entre outros). Este pecúlio é pago com os recursos do próprio prisioneiro que

trabalha. Uma parte do dinheiro que recebe é depositado em conta poupança ou transferido para

seus familiares, a seu pedido, e uma outra parte, é destinada à compra de produtos de

  Às 14h30, a circulação de prisioneiros nas galerias da Penitenciária e no corredor escolar já era bem diminuta. Na sala cinco (a única ainda com aula), restavam agora 30 alunos – 10 deles “correram” para os pavilhões e para o pecúlio. Na sala um, outro aluno solitário folheia um livro didático, denotando extremo interesse, a ponto de não notar a nossa aproximação pelo visor. Na sala dos professores, apenas quatro prisioneiros e a orientadora pedagógica da FUNAP. Dos quatro prisioneiros presentes, dois estão ao computador e os outros dois olham a ermo. Notamos agora, ao sentirmos sede, que a única fonte de água potável presente na escola encontra-se no lavatório de cada um dos banheiros existentes no prédio escolar.

  Na biblioteca, seis prisioneiros estão presentes: dois deles realizam uma atividade de recorte e colagem; três conversam entre si e um outro observa as estantes de livros. O funcionário do setor escolar está conversando no corredor com um outro colega funcionário. Falam do número provável de pessoas que adentrarão ao presídio no domingo quando se comemorará o dia das crianças (um domingo após as eleições municipais). No corredor escolar, quase nenhuma movimentação e um grande silêncio. Um prisioneiro vem até a escola e pede ao funcionário do setor que peça, na sala dos professores, a sua cumbuca de refeição, agora já vazia e lavada. É hora de faxina na escola. Às 15h10, o professor de injeção eletrônica encerra a sua aula. Na sala, alguns alunos permanecem, buscando tirar algumas dúvidas remanescentes. O professor é solidário. Um dos seus alunos retorna com um livro e o mostra ao professor. São 15h25 quando saem os últimos alunos daquela sala de aula (esta aula parece, efetivamente, atrair a atenção dos alunos, talvez pelo seu caráter profissionalizante!). Às 15h30 encerra-se o expediente na escola.

  29 de setembro de 2004, quarta-feira.

  Aproveitando que as aulas na escola estão suspensas em virtude do pagamento de pecúlio, realizamos várias das entrevistas de que necessitamos, nesse dia, além de fotografar as instalações escolares. A escola permanece fechada para as atividades pedagógicas. As únicas presenças naquele recinto são alguns monitores e os integrantes da banda de música que continuam a organizar o show em comemoração ao dia das crianças.

  30 de setembro de 2004, quinta-feira.

  A nossa chegada ao presídio se dá às 07h45. Não temos qualquer problema com os equipamentos eletrônicos que portamos. Encontramos o Senhor ****** (funcionário do posto escolar) no setor de reabilitação e descemos juntos à escola. Às 07h55 já nos encontramos na mesma, que ainda está às escuras e completamente fechada e vazia. Às 08h00, ouvimos um sinal sonoro que vem do “fundo” da penitenciária e que indica o início das atividades normais do dia. Já ás 08h05 é intensa a movimentação de prisioneiros e funcionários na galeria central. Observamos outro prisioneiro circulando pela galeria em cadeira de rodas. A maioria dos prisioneiros caminha em fila às oficinas, ou seja, do pavilhão I para trás, para o fundo. Muitos passam com sacolas (essa movimentação lembra, e muito, alguns filmes que retratam a vida dos trabalhadores quando se dirigem às suas fábricas). Na escola, chegam os primeiros “faxinas” e os primeiros monitores. Dois deles portam caixas de bombom (ontem foi dia de pecúlio!). Nesta penitenciária a movimentação por entre os corredores e galeria é bem mais intenso e dinâmico do que na outra penitenciária por nós investigada. Uns 20 prisioneiros aguardam a liberação de passagem pela gaiola do pavilhão 1. Não vemos os funcionários que deveriam estar na gaiola.

  São 08h08 e ouvimos novo apito vindo do “fundo” do presídio. Por enquanto nenhum sinal dos alunos. Mais prisioneiros continuam chegando dos pavilhões 2 e 3 para a gaiola do 1. Agora já somam mais de 30 aqueles que aguardam para liberação. Os prisioneiros que saem do pavilhão 1 são revistados na própria gaiola por um funcionário. Um outro funcionário, de posse de algumas listagens, confere o nome, a matrícula e o destino dos prisioneiros. Ás 08h12 chega um dos monitores que é oriundo dos pavilhões do “fundo”. Traz o material pedagógico debaixo do braço. Já no interior da escola, cumprimenta os colegas e se dirige, imediatamente, à sala dos professores. O funcionário do posto nos pergunta se sabemos da chegada, ontem, de um dos líderes da facção que é majoritária naquela Penitenciária, o CRBC – Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade. “Parece que o mesmo veio para botar ordem na casa”, confessa o funcionário. Soubemos depois que, “botar ordem na casa” significa “comandar os prisioneiros que parecem sem comando”.

  Ás 08h18, concomitante à chegada dos primeiros alunos para a escola, Penitenciária. Na galeria, em frente ao prédio escolar, é possível ter uma visão generalizada do que acontece nas duas gaiolas ou mesmo na própria galeria. Muitos prisioneiros continuam a chegar para as oficinas de trabalho. Na escola, muitos alunos transitam pelo recinto. Procuram atendimento na sala dos professores ou simplesmente conversam no corredor. Trazem o material escolar – muitas vezes apenas um caderno e uma caneta ou lápis, nas mãos ou debaixo dos braços. Um prisioneiro empurra um carrinho – sobre ele, uma caixa de plástico, dessas antigas de leite. Em seus braços, inúmeras tatuagens estão à mostra. Seu andar é despreocupado e consegue atravessar a gaiola do pavilhão 1 antes mesmo dos demais prisioneiros que ali aguardam sua liberação.

  Alguns prisioneiros passam com pedaços de papel escritos ou datilografados

  • – são as “pipas”. Um outro prisioneiro, homossexual, com tiara na cabeça, cabelos cumpridos e silicone nos peitos, pergunta-nos da biblioteca. O funcionário do posto escolar se interroga, duplamente preconceituoso: “o que faz um cara tão feio como esse ser bicha?”. Dois carrinhos, carregados de verduras transitam para a frente do presídio. Ambos são empurrados por prisioneiros que chegam a estar quase deitados, de tão encurvados pelo esforço.

  Às 08h25, o Senhor ****** aciona o sinal sonoro que demarca o início das aulas. Até agora, são poucos os alunos que vieram à escola. Outro carrinho, vazio, e com um dos eixos de roda bem torto, passa por nós em direção à “frente”. Outro funcionário conversa com dois prisioneiros bem em frente ao portão de entrada da escola. Mais alunos chegam em grupo, uns dez, desta vez! O Senhor ***** pede a um dos alunos que conversa em frente ao prédio escolar que entre para a escola ou se retire ao seu pavilhão. Apesar de ouvi-lo atentamente, o prisioneiro permanece onde estava. O funcionário, contrariado, parece desistir. Poucos segundos depois, o prisioneiro atende ao pedido feito anteriormente. Daqui para o “fundo” do presídio, a movimentação é pequena. Dois prisioneiros se dirigem à cozinha geral, mais abaixo da escola e do outro lado do presídio. Os quatro funcionários estão agora no interior da gaiola do pavilhão 1.

  Às 08h30 são sete os prisioneiros que encontramos no interior do corredor da escola. Dois deles realizam a faxina. O restante caminha e... conversam. Na biblioteca estão quatro prisioneiros: o encarregado, um outro “faxina” e outros dois que saem alunos e o monitor. A aula é de Estudos Sociais: “A História”; na sala dois, oito alunos e o monitor que leciona matemática: 5x+1=2x-3.

  3 2 Dois alunos fumam nessa sala. No canto do quadro negro a data de hoje esta escrita com letras bem pequenas: 30/09/04. O cigarro é compartilhado entre os colegas. Na sala três, 10 alunos e o monitor que leciona matemática: problemas de cálculo em reais. Dois alunos estão em pé. Um deles olha pela janela. Na sala quatro, oito alunos estão presentes. Sete deles estão concentrados na frente da sala; um deles encontra-se só no fundo da sala. O monitor copia a matéria de matemática: “Ana vai pendurar 186 bolas na árvore de natal. Já pendurou 49. Quantas bolas falta pendurar? (itálico meu)” Nesta sala todos copiam a lição. Na sala cinco, a matéria de injeção eletrônica (de terça-feira!) continua no quadro negro. Alguns equipamentos de som também lá estão. Vemos que a porta dessa sala de aula está em péssimo estado de conservação e já não tem fechadura.

  As carteiras continuam em fila, como anteriormente.

  Na sala três, quatro alunos trocam cigarros. Fazem um círculo enquanto o monitor continua escrevendo no quadro negro. Quando percebem a nossa presença por trás do visor de vidro da sala, desfazem o círculo e um deles se retira em direção ao banheiro. Apesar do circulo desfeito, continuam a conversar. Um minuto depois, o aluno que saiu da sala em direção ao banheiro retorna e, desconfiado, olha de soslaio para o que escrevemos. Outros dois alunos caminham de um extremo ao outro do corredor escolar, conversando. Aliás, são três os grupos de pares que andam de um lado ao outro do corredor. Observamos um pequeno círculo composto de seis prisioneiros, que conversam ao fundo do corredor. Ficam assim por, não mais que um minuto e se dispersam (parece que, ao perceberam a nossa atenção voltada para eles, desfazem os movimentos em que se encontram). Contamos 14 prisioneiros circulando pelo corredor escolar. Vão de sala em sala (de aula, dos professores, banheiro e biblioteca).

  Percebemos agora um novo cartaz impresso, afixado na parede do corredor que comunica a mudança de dia para a visita domiciliar esta semana, de domingo para sábado, em virtude das eleições municipais. Em decorrência disso, amanhã, sexta-feira, será dia de faxina nas celas e nos pavilhões da penitenciária, preparando esses recintos para o recebimento dos familiares e amigos dos prisioneiros. Em razão disso não haverá

  O funcionário do posto escolar dispersa os “bolinhos” de prisioneiros que conversam, solicitando aos mesmos que retornem às suas respectivas salas de aula. São 08h55 e três prisioneiros circulam agora pela escola. Na sala dos professores, dois outros prisioneiros recortam publicações do Diário Oficial do Estado; um está ao computador; um outro separa crachás de identificação. “Ganhamos” mais um copo de café puro, oferecido pelo “bibliotecário”. Em quatro salas de aula a acústica é excelente, estando as portas fechadas. O visor de vidro embutido na parede é inteiriço e impede a entrada ou saída de som, diferentemente do que ocorre na sala um, onde o visor deixa descoberto uma parte da parede e a acústica muda, com sons vindo de fora sendo ouvidos no interior da mesma. O visor de vidro desta sala de aula é bastante semelhante ao que encontramos na sala dos professores, porém aquele, tem dimensões um pouco maiores.

  Às 9h12 um dos prisioneiros responsáveis pela faxina do recinto escolar pede para que o funcionário de plantão o deixe retornar ao pavilhão onde reside para apanhar uma blusa, pois sente frio. A um sinal afirmativo com a cabeça, comenta com o prisioneiro que deve colocar o crachá identificando-o e ao setor em que trabalha e que utiliza para ultrapassar a gaiola, pois caso contrário terá problemas com os funcionários

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  da vigilância, principalmente na “radial” . Outro prisioneiro pede, por entre as grades do portão da escola, para falar com colega que estuda, sendo autorizado pelo funcionário do setor. Outro funcionário, desta vez aquele que é responsável pelos serviços de capelania na penitenciária adentra o recinto escolar e se interessa pelo livro que o prisioneiro que retornou ao pavilhão para apanhar uma blusa havia deixado sobre a mesa do setor: “Maturidade Cristã, além da Bíblia”.

  É muito comum na escola da penitenciária ou mesmo em outros setores dessa, ser cumprimentado através de uma saudação de tom religioso, tais como: “Na paz do Senhor”, ou “Deus te acompanhe”, ou ainda simplesmente “Amém”. Além do livro, também a Bíblia deixada junto ao livro é folheada pelo funcionário da capelania, que observa uma anotação à caneta escrita na mesma que diz: “o servo obedece ao Senhor” e questiona o que para ele é uma heresia dos prisioneiros: “anotam, lêem e não cumprem com o que está escrito”.

  Sete minutos depois de haver se retirado para buscar sua blusa, o prisioneiro retorna ao setor. Às 09h27, o funcionário responsável pelo setor nos diz que “chegará um pouco ali na frente e já retorna”. Deixa-nos só e tranca o portão da escola. Percorremos novamente as salas de aula e observamos que na sala três, os alunos estão resolvendo problemas envolvendo quantidades de coelhos, chaveiros e preço de uma filmadora. Na sala quatro, o mesmo exercício das bolas da árvore de Natal e algumas contas de subtração com três ou quatro algarismos. Quatro alunos conversam em plena aula. Na sala um, às 09h32, apenas um aluno assiste a aula. Mais dois alunos ingressam logo depois e mais um terceiro em seguida, totalizando quatro alunos em sala de aula. Na biblioteca, três prisioneiros procuram livros folheando alguns deles. Dois outros prisioneiros conversam num dos cantos do recinto e um outro datilografa um documento qualquer, enquanto o “bibliotecário” escreve o que parece ser uma resposta a uma correspondência recebida por ele. Às 09h38, o funcionário do setor retorna, tendo permanecido pouco mais de 10 minutos afastado dali. Assim que chega à escola, visita sala por sala. Parece fiscalizar, junto dos monitores, a lista de chamada dos alunos que estão freqüentes às aulas. Outros prisioneiros têm pressa em fazer entrar uma caixa de som na escola, contrastando com a atitude sem qualquer pressa do funcionário, que continua a entrar e sair das salas de aula, indiferente ao clamor dos prisioneiros que desejam entrar na escola. Ousamos Fazer um comentário mental: apesar da flexibilidade na movimentação dos prisioneiros, seja pela escola ou pelas demais instalações do presídio, não percebemos qualquer atitude da parte dos mesmos que pudesse ser considerada indisciplinada, estrito senso.

  Às 09h49, os alunos da sala quatro são liberados. O funcionário sai à frente desses. Agora ele abre o portão da escola e permite que os prisioneiros entrem com a caixa de som. Outros alunos, de outras salas de aula também deixam o recinto escolar em direção aos seus pavilhões. Observamos que a quantidade de alunos que trazem o seu material pedagógico acondicionado em pastas plásticas é mínimo. Às 09h52 soa o sinal sonoro que indica o final daquele período de aulas. Imediatamente, aqueles alunos que ainda estavam no interior de alguma sala de aula se dirigem à saída. Um prisioneiro que não se encontrava na escola pede caderno e caneta ao Senhor *****, funcionário do setor, que o encaminha para a sala de atendimento. Na galeria central ou “Radial”, nova de enfermaria. Aquele que se deixa carregar, traz feições de dor. Ambos os prisioneiros são revistados na gaiola do pavilhão 1 e liberados para avançar. A enfermaria está localizada bem próxima dali, do lado direito de quem sai do presídio. Um carrinho de ferro, transportado por dois prisioneiros, passa a nossa frente repleto de caixas plásticas contendo sacos de leite e um pacote de lingüiças. O Senhor ***** pergunta se não nos interessa observar a movimentação no setor da capela, já que para lá se dirige. À nossa negativa, diz que está levando um recado àquele funcionário responsável pelo setor. A capela da penitenciária 1 está localizada poucos metros a nossa frente, após a cozinha geral.

  Conforme combinado anteriormente com dois dos monitores presos, realizamos as entrevistas (individualmente) nesse momento, numa das salas de aula disponíveis. Às 11h25, enquanto entrevistamos o segundo monitor, vemos que o funcionário responsável pela escola acena para nós por entre o visor. Seu gesto indica “quero almoçar” ou “vamos almoçar”. Solicitamos, também gestualmente, que aguarde mais alguns momentos e, finalmente, às 11h35 estamos “descendo” a instituição em direção ao refeitório, depois de o funcionário da escola solicitar a um prisioneiro “estranho” à mesma que a abandone – aquele lhe dá um pequeno tapa nas costas e sai e assim, a porta da mesma é trancada.

  Retornamos sozinhos à escola às 12h45. No portão da “revisora” – um dos setores da penitenciária - nos dizem que já estamos sendo aguardados na escola. Lá já se encontram alguns monitores e alguns dos “faxinas”. Realizamos entrevista com a orientadora pedagógica da FUNAP (ela própria, quando soube da nossa pesquisa, sugeriu que fosse entrevistada, pois gostaria de participar desse trabalho), que nos passou as novas diretrizes do órgão, como por exemplo, uma que estabelece a prioridade de trabalho com monitores presos ao invés de monitores ou professores de “fora” da instituição. Às 13h50, recrutamos voluntários dentre os alunos para as entrevistas que pretendemos realizar amanhã. Nesse horário vários deles já estão chegando ao prédio. Novamente somos deixado sós na escola, pois o funcionário do setor mais *****, a orientadora pedagógica, vão até a administração. Retornam às 14h05 com notícias acerca da solenidade de entrega de certificados do CESU aos alunos que concluíram o ensino fundamental e o ensino médio, que será realizada na próxima autorização junto à diretoria de educação da penitenciária. Reclama ainda de alguns dos responsáveis pela FUNAP que não teriam se prontificado a negociar junto a esse Diretor a solenidade. Às 14h08 soa o sinal sonoro indicativo do início das aulas do período.

  Na biblioteca temos 10 prisioneiros – o “bibliotecário” pinta um quadro num dos cantos do recinto. Outro prisioneiro o observa. Dois outros realizam um trabalho burocrático – olham e anotam sobre listas com nomes e matrículas de prisioneiros; quatro outros olham nas prateleiras os livros que ali existem; dois estão acomodados numa mesa central. No corredor escolar, cinco prisioneiros estão reunidos em círculo – dois deles estão abraçados e todos riem. Na sala dos professores, cinco prisioneiros e a coordenadora pedagógica estão conversando. Na sala um, seis alunos estão presentes. Não vemos o monitor. Três alunos conversam entre si. Nesse momento, entram mais dois. Dois outros estão ao fundo da sala e folheiam um livro ou caderno. Um daqueles que entraram por último sai novamente. Um outro aluno lê uma apostila, sentado em sua carteira e um último está em pé, aparentemente sem nada para fazer. Retorna aquele que havia saído instantes atrás e senta-se ao fundo da sala. A sua postura indica reflexão – sua mão direita encontra-se na altura do nariz e dos olhos. A sala dois está vazia. Na sala três, 13 alunos e o monitor estão presentes e todos sentados. A aula é de matemática: 4+4+4 = 4x3 = 12; 6+6+6+6+6 + ?, além de problemas com chaveiros, corrida de colher e notas de reais para resolver. Na sala quatro, oito alunos assistem à aula de Português: separação de sílabas: a-be-lha; ba-na-na; i-lha, etc. O monitor chama um aluno para a lousa. Este aluno é auxiliado pelo monitor que segura a sua mão enquanto escreve. Quando acerta, o monitor o incentiva e o elogia, dando-lhe um ligeiro tapa nas costas. Na sala cinco, às 15h00, 11 alunos estudam o período Barroco da história: “características: insegurança, antítese, contradição, paradoxos, pessimismo, preocupação com a morte e cultismo. Autores do período: Padre Antonio Vieira, em Portugal; Bento Teixeira e Gregório de Matos, no Brasil”. O monitor está sentado sobre uma carteira universitária enquanto discursa sobre a matéria aos alunos.

  Na sala um, o monitor já está presente e escreve no quadro negro, matéria sobre os Países do Leste Europeu. A aula é de Geografia. Dos cinco alunos presentes, apenas dois copiam a matéria em seus cadernos. Os demais apenas acompanham a exposição pelo monitor e a escrita no quadro negro. Na biblioteca, o funcionário do prisioneiros circulam pelo corredor. Dois deles lêem os folhetos do quadro de avisos; os outros dois caminham de um lado ao outro do corredor escolar. Nesse momento, a orientadora pedagógica vem até nós e comenta sobre o número reduzido de alunos em sala de aula neste período. Segundo ela, a semana é bastante atípica, dado alguns motivos: o primeiro deles seria o fato de que já havia uma pré-determinação de que na sexta-feira desta semana não haveria aulas. O segundo deles e, este não previsto preliminarmente, foi o próprio pagamento de pecúlio na terça-feira à tarde e na quarta- feira o dia inteiro, o que fez com que vários alunos não retornassem à escola no dia de hoje, quinta-feira.

  Um pouco depois, às 15h20, dois prisioneiros chegam até o portão da escola e solicitam, ao funcionário do setor, o ingresso na mesma. Soubemos depois se tratar de alunos da escola, que são liberados pelo funcionário para o ingresso em sala de aula, criticando-os, entretanto, por chegar tão atrasados às aulas. Estes dois alunos justificam o atraso dizendo que estavam participando de ensaio de culto religioso: “é compromisso com Deus, o Senhor sabe”. “Eu sei meu filho” é a resposta dada pelo funcionário da escola. Ao terem sua entrada permitida, um dos alunos diz que, apesar do atraso, vieram à escola para “pegar a matéria do dia”. Um dos prisioneiros que caminha pelo corredor junto a um colega lê a este uma correspondência qualquer.

  Às 15h26 soa o sinal sonoro que anuncia o final das aulas do período. Logo depois, vemos que o funcionário da escola folheia as nossas anotações, colocadas sobre à sua mesa. Ao avistar um aluno vestindo uma blusa “fora dos padrões” (toda colorida e com botões), reclama com o mesmo que responde num Português precário que a tirará, agradecendo ao funcionário pela indicação (o prisioneiro é Nigeriano, soubemos depois pelo próprio funcionário). Às 15h45, um dos monitores nos traz pães quentes e café preto, repartindo entre os presentes o café da tarde. Dois monitores caminham pelo corredor, entoando em voz alta, hinos evangélicos. O senhor ***** e a orientadora pedagógica “descem” novamente até a administração do presídio. Antes disso, o funcionário de plantão nos diz: “- qualquer coisa, você é o guarda agora” e deixa o portão da escola destrancado.

  Às 16h00, ainda sem a presença do funcionário responsável pelo setor escolar, observamos, por entre as grades do portão da escola, uma grande concentrar na gaiola do pavilhão 1. De dois em dois são revistados pelos funcionários responsáveis e liberados para os seus pavilhões. Na escola, a concentração também é grande e os próprios monitores, mesmo sem o soar do sinal sonoro, começam a conduzir os seus alunos para as salas de aula. Às 16h10, apenas quatro prisioneiros permanecem no corredor - um deles conversa com a orientadora pedagógica que, há esta hora, já retornou da “frente” da instituição.

  Fazendo uma nova conferência por entre as salas do recinto escolar, observamos: na biblioteca estão quatro prisioneiros. Aquele que pinta um quadro e um outro que conversa com ele, além de outros dois que estão sentados na mesma central, aparentemente “jogando conversa fora”. Na sala dos professores, três prisioneiros lá se encontram, além da orientadora pedagógica. Um dos prisioneiros que ali se encontra é monitor preso. Na sala um, dois alunos aguardam aquele monitor que ainda se encontra na sala dos professores. Na sala dois, estão cinco alunos e o monitor. Três deles estão em círculo, em volta do monitor. Dois conversam ao fundo da sala de aula, saindo da mesma logo depois. Ouvimos um deles dizer ao colega que foi bom rever os “irmãos”. Na sala três, o monitor leciona matemática a 10 alunos. Os exercícios são os mesmos da aula de período anterior: bolas de natal, etc. Na sala quatro, nove alunos e a mesma aula de Português do período anterior: a-be-lha, be-ter-ra-ba, etc. Desta vez, o monitor caminha até a carteira de um dos alunos e o auxilia a realizar a separação de sílabas, segurando a sua mão e contornando a lição. Silêncio no restante da sala assim como no prédio escolar. Na sala cinco, 13 alunos assistem à uma aula de classes gramaticais: a+a

  • à. Pela primeira vez durante todo o dia, o corredor escolar está vazio. São 16h25. O silêncio chega a soar muito estranho aos ouvidos, acostumados que estamos com um grande alvoroço durante todo o dia, pessoas saindo rapidamente de salas e entrando, também rapidamente em outras.

  Na sala um, um único aluno copia a matéria de Geografia neste momento (16h30). A matéria é a mesma do período anterior: Os Países do Leste Europeu. O monitor, em sua mesa, aparenta desânimo. Ouvimos funcionários se comunicando em voz alta na galeria central: “Telefone para Ricardo”, grita um deles, da primeira gaiola, chamando alguém que deve estar de guarda nas gaiolas do “fundo”. Pouco depois presenciamos um incidente, infelizmente bastante comum em presídios: ouvimos, da todos, inclusive alguns alunos e monitores presos que saem de suas salas de aula. Depois de alguns instantes chega-nos a notícia de que um dos prisioneiros do pavilhão três havia sido agredido por seus “colegas” de cárcere. Mais funcionários “descem” ao pavilhão três e, instantes depois, dois funcionários auxiliam um prisioneiro, descalço e sem camisa, a caminhar. Levam-no à enfermaria. Esse prisioneiro traz, em suas costas, grandes vergalhões, atestando o espancamento que sofreu dos outros prisioneiros. Em seu rosto a expressão de susto: está extremamente pálido. Passados esses momentos, a vida do presídio segue seu ritmo. As atividades continuam. Voltamos à escola.

  Às 17h15, o funcionário de plantão à escola entra de sala em sala e acompanha, junto aos monitores a chamada dos alunos presentes. Às 17h20 soa o sinal que indica o término do período de aulas da semana, já que amanhã, sexta-feira não haverá expediente na escola. Os prisioneiros estarão ocupados com a limpeza de suas celas e de seus pavilhões, aguardando seus familiares que virão, desta vez, no sábado, tendo em vista o primeiro turno das eleições municipais para Prefeitos e vereadores. Os alunos saem da escola e, com pressa, retornam aos seus pavilhões. Alguns deles saem abraçados, fraternalmente.

Número de alunos matriculados na escola nesta data, segundo a diretoria de Educação:

  • Alfabetização: 215
  • Ensino Fundamental: 160
  • Ensino Médio:

  96 Total: 471 alunos -

Número de alunos por sala de aula e por nível de escolarização:

  Das 08h30 às 10h00:

  • Alfa II

  38 Sala I*

  • Supletivo Ensino Fundamental A

  38 Sala II Alfa

  II -

  18 Sala

  III Alfa

  I

  21 Sala

  IV -

  • Total do período 115 alunos

  Das 14h00 às 15h30:

  • Supletivo Ensino Fundamental B

  33 Sala I

  • Supletivo Ensino Fundamental A

  26 Sala II Alfa

  II

  35 Sala

  III - Alfa I -

  32 Sala

  IV

  • Ensino Médio

  49 Sala V

  • Total do período 175 alunos Das 16h00 às 17h30:
  • Supletivo Ensino Fundamental B

  25 Sala I

  • Supletivo Ensino Fundamental A

  38 Sala II Alfa I -

  30 Sala

  III Alfa

  II

  41 Sala

  IV - Ensino Médio

  47 Sala V -

  • Total do período 181 alunos Injeção eletrônica**:

  45 alunos

  Total: 516 alunos Observações: *- As salas de aula não contém numeração. A numeração que

  aqui utilizamos serviu meramente para fins de sistematização do material. A sala de número 1 é a sala que se localiza logo no início do corredor escolar, ou seja, a primeira sala de aula para quem entra na escola, logo depois da biblioteca, da sala de limpeza, do sanitário e da sala dos professores e, assim sucessivamente. A sala cinco é a última sala do corredor.

  • As aulas de injeção eletrônica acontecem às terças e quintas-feiras, das 13h00 às 15 horas, sempre na sala cinco. Nesses dias, os alunos que estudam o fundamental A e B são colocados juntos na sala dois, e a sala um é utilizada pelos alunos do ensino médio, deixando livre a sala cinco para o curso profissionalizante.

  1º de outubro de 2004, sexta-feira.

  Aproveitamos o período de recesso escolar para realizar algumas entrevistas realizamos as atividades normais de trabalho, no setor de reabilitação, além do próprio diretor de educação, que havia se esquivado por várias vezes deste momento. Este desejou ler as questões antecipadamente, “para poder responder com mais precisão” e “melhorar as respostas para mim”, nos disse ele. A entrevista transcorre sem problemas e depois, com o gravador desligado, o diretor diz: “agora vamos falar a verdade, que não pode ser dita, certo?” e fala muito mal dos funcionários e da falta de apoio por parte das autoridades que administram o governo do estado, principalmente com relação à escola. Fala ainda de seu desânimo (salarial e profissionalmente) e do desejo de deixar a diretoria de educação, já que o salário que recebe para dirigi-la é pouco maior que o salário original de Agente de Segurança Penitenciária, seu cargo. Cabe dizer que este funcionário que hoje dirige o setor de educação é neto de um dos administradores anteriores (já falecido) da Penitenciária do Estado.

  05 de outubro de 2004, terça-feira.

  Neste dia foi agendado a entrega de certificados do CESU aos alunos que concluíram o curso fundamental e o médio através da eliminação de matérias. Às 13h50 já nos encontramos na escola da penitenciária e percebemos que é grande a concentração de alunos e outros prisioneiros circulando pela mesma. É aguardada a presença de membros da FUNAP para acompanhar e prestigiar a entrega dos certificados. Na sala dos professores, a euforia é imensa e no fundo do corredor escolar, músicos preparam seus instrumentos e suas vozes para alguns momentos específicos da solenidade. Ouço, da parte da orientadora pedagógica que, desde dias anteriores vem preparando a solenidade que o diretor de educação da penitenciária não comparecerá à mesma. Está fora da instituição fazendo compras para a festividade do dias das crianças, que será realizada no próximo domingo, dia 10 de outubro. Às 14h10, a orientadora pedagógica prepara os alunos para a solenidade, solicitando aos monitores que comecem a agrupá-los na sala cinco, especialmente preparada para o evento. Enquanto aguardamos, conversamos com o funcionário de vigilância da escola que nos conta do “esquema” que pensou para evitar concentração de alunos no corredor escolar. Nos mostra algumas placas bem pequenas com número de sala e de cor diferente uma das outras. Segundo ele, essas placas de madeiras eram deixadas com os monitores e, numa sala de aula. Cabe salientar que, em nenhum momento do período em que estivemos realizando a observação na escola, vimos ou ouvimos falar dessas placas de identificação e controle. Duas delas estavam, inclusive, quebradas na ocasião em que nos foram mostradas por esse funcionário de plantão.

  Alguns instantes depois um dos prisioneiros (o carteiro da penitenciária, aquele que é responsável pela entrega das correspondências aos prisioneiros, em seus pavilhões), reclama do que chamou de problemas de circulação interna. Segundo ele, estaria sendo impedido de circular entre os pavilhões, principalmente no primeiro, apesar do crachá que portava e que lhe permitia a circulação entre os pavilhões. Logo depois, um outro prisioneiro, desta vez identificando-se como aluno, reclama que não foram enviadas as requisições de alunos para os funcionários das gaiolas do “fundo”. Assim, muitos deles, que deveriam estar presentes à escola para o recebimento de certificados, estavam sendo impedidos de se locomover até o recinto. Este prisioneiro teria conseguido “driblar” a vigilância dos funcionários dizendo que necessitava ir até a enfermaria do presídio. Um outro prisioneiro, aquele que é o encarregado da biblioteca e que hoje deverá receber o certificado de conclusão do ensino médio, conversa conosco sobre o seu desejo de continuar os estudos. Aflige-o, entretanto, a possibilidade de continuar mais alguns anos na prisão, tendo em vista o montante de pena a que está condenado. O som alto de guitarras ecoam pelo corredor escolar.

  Apenas às 15 horas chegam os representantes da FUNAP. Justificam-se dizendo que haviam sido informados de que a solenidade aconteceria neste momento e não às 14h00 como a orientadora pedagógica parece insistir. Na sala cinco, aproximadamente 60 alunos aguardam, sentados em fila, o recebimento de seus certificados. Até o momento, nenhum representante da penitenciária se faz presente. Sentamos em cadeira ao fundo da sala e acompanhamos a solenidade, que se inicia com uma fala de pessoa que se identifica como “gerente regional da FUNAP”. Em seu

  53

  discurso agradece ao antigo Gerente, Manoel Português e ao diretor de Educação da penitenciária, ambos ausentes à solenidade. Logo depois, chegou a vez de um aluno escolhido como orador da turma de formandos. Em sua fala enaltece a possibilidade de estudar e as vantagens que a educação trás àquele que a ela recorre. Agradece aos diretores da penitenciária a possibilidade de atingir este estágio em sua vida e aos colegas, o estímulo dedicado. Chega a vez da orientadora pedagógica que inicia a entrega dos certificados. Nesse momento, adentra ao recinto o Diretor de Reabilitação que, convidado a falar, recusa-se. Passa-se à leitura nominal dos alunos formados e a entrega dos certificados por cada um dos presentes à mesa de abertura. Após cada entrega, uma sonora salva de palmas. Os monitores, após a entrega dos certificados, realizam homenagens em forma de música aos formados: Primeiro tocam Legião Urbana e depois, um Hino Evangélico dedicado “ao milagre de vencer as atribulações da cadeia”. Alguns alunos já se levantam e se retiram da sala. Acabada a segunda musica, outros alunos se retiram, em silêncio, sem aguardar o encerramento da solenidade, que é feita pela orientadora pedagógica com a leitura do poema “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway. Seguem-se poses para fotos daqueles que permaneceram na sala. O clima é de felicidade pela etapa vencida.

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