Silvia Bonotto do Couto ENTRE OS FUZIS E A MÚSICA: A DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL (1964-1970)

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Full text

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Silvia Bonotto do Couto

ENTRE OS FUZIS E A MÚSICA: A DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL (1964-1970)

SANTA MARIA, RS 2008

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ENTRE OS FUZIS E A MÚSICA: A DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL (1964-1970)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências

Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção

do grau de Licenciada em História.

Orientadora: Roselâine Casanova Corrêa

Santa Maria, RS

2008

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ENTRE OS FUZIS E A MÚSICA: A DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL (1964-1970)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas,

do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciada em História.

___________________________________

Ms. Roselâine Casanova Corrêa – Orientadora (Unifra)

___________________________________

Ms. Lenir Cassel Agostini (Unifra)

_____________________________________

Ms. Rosana Cabral Zucolo (Unifra)

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Este trabalho é dedicado às minhas queridas Suely, Nelcy, Elisa e Lili.

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O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor

andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija,

nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a

frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o

errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

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RESUMO

A partir de fontes documentais e bibliográficas pesquisadas, a respeito dos anos de 1960 e 1970, em especial sobre o Regime Civil-Militar e a Música Popular Brasileira, podemos vislumbrar um cenário de manifestações culturais ocorridas em todo o mundo durante esse período. No Brasil, por meio de uma política de repressão e censura, a produção artística e a música popular brasileira tiveram um de seus períodos de maior efervescência. O fenômeno da MPB tornou-se a voz de muitos estudantes e intelectuais, que através de manifestações artísticas, principalmente das canções, anunciavam sua contestação e oposição a um regime ditatorial que caçava, torturava e matava cidadãos que não concordassem com seu governo e suas medidas autoritárias. Neste trabalho, identificamos o processo cultural da Música Popular Brasileira (MPB), a partir do cenário da Ditadura Civil-Militar no Brasil, demonstrando as formas de censura e de repressão que influenciaram no movimento cultural, sobretudo na música, no país.

Palavras-chave: Regime Civil-Militar; Contracultura; Música Popular Brasileira; Censura.

ABSTRACT

From researched documental and bibliographical sources, concerning the years from 1960 to 1970, especially the Civil-Military Regime and Brazilian Popular Music (MPB), we are able to glimpse a scenery of cultural demonstrations which occurred all over the world during this period. In Brazil, through a repression and censorship policy, the artistic production and the Brazilian popular music had their great period of effervescence. The MPB phenomenon became the voice of many students and intellectuals who, through artistic demonstration, especially songs, announced their contestation opposition to the dictatorial regime which hunted, tortured and killed citizens who did not agree wit the government and its authoritarian measures. In this paper, the cultural process of the Brazilian Popular Music (MPB) was identified, from the scenery of the Civil-Military Dictatorship in Brazil, showing the censorship and repression forms which influenced the cultural movement, overall the music, in the country.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO --- 9

METODOLOGIA --- 12

1. Entre fuzis e decretos: a ditadura civil-militar (1964-1970) ---- 12

2. Pra não dizer que não falei das flores: a Música Popular Brasileira diante dos fuzis -- 34

3. Apesar de você: a Música Popular Brasileira sob censura (1964-1970) --- 51

4. CONCLUSÃO --- 62

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS --- 63

6. REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS --- 64

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INTRODUÇÃO

Ao longo dessa pesquisa procuramos identificar o processo da chamada música engajada dos anos de 1960 e metade dos anos de 1970, no Brasil. O estudo se debruçou nos movimentos culturais e contra-culturais, nos artistas e na juventude engajadas e principalmente, na música como manifestação cultural e política em contraposição aos anos de Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1970).

Nesse período, a política internacional, caracterizada pelo fim da Segunda Guerra Mundial, apresenta a hegemonia de duas potências: Estados Unidos e União Soviética. Esse conflito conhecido como Guerra Fria, fazia com que esses dois países disputassem à influência mundial e a implantação, em outros países, dos seus sistemas políticos e econômicos.

No caso do Brasil, a intervenção da Guerra Fria foi determinada pelas práticas capitalistas norte-americanas como, por exemplo, a evolução dos meios de comunicação e a expansão do mercado consumidor. Na verdade os Estados Unidos procurava assegurar-se de que o Brasil e a América Latina seriam seus aliados políticos e econômicos no plano internacional.

A década de 1960 é identificada com uma série de acontecimentos interligados e um quadro político-social bastante agitado. Além disso, caracteriza-se por um avanço das manifestações culturais e da cultura jovem no interior das sociedades. Esse movimento cultural revela-se como uma forma de expressão dos jovens e assume questionamentos

relativos aos valores políticos e morais da cultura ocidental1.

A negação dessa cultura ocidental vigente, que era sustentada em valores tradicionais e preconceituosos como, por exemplo, discriminar os negros e desvalorizar as minorias sociais, ligada à formação de um mercado de consumidores caracterizados por uma excessiva aquisição de bens de consumo, representava o chamado estilo de vida americano.

Um grupo de jovens - principalmente norte-americanos de classe média baixa, ou ingleses oriundos da classe trabalhadora, rebelaram-se contra esse sistema, dando origem aos movimentos chamados contra-culturais.

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A caracterização desse movimento ocorreu através da oposição e da contestação, demonstrando total aversão aos padrões conservadores da sociedade em curso, que, incorporada principalmente por um novo estilo musical em desenvolvimento, encontrou milhares de simpatizantes no mundo e transformou o modo de vida, as referências culturais, a estrutura social e principalmente a música mundial.

O avanço do capitalismo em nível mundial encontrou o Brasil em uma forma especial de desenvolvimento, onde a entrada de capitais externos era discutida como saída para acelerar o seu crescimento. As chamadas reformas de base, que pretendiam reformar as bases do sistema político e econômico, já estavam em descrédito e não conseguiriam ser postas em prática legalmente. A direita brasileira se articulava juntamente com as Forças Armadas e os partidos conservadores, desenvolvendo um movimento ofensivo de defesa da legalidade e da ordem democrática.

Nesse processo, um fenômeno novo caracterizava a juventude brasileira, pois aqui encontra-se uma juventude politizada e militante, que passa a ser influenciada pela euforia mundial, e acompanhada da nascente efervescência artística e cultural do Brasil.

Nesse mesmo contexto, o Brasil, em março de 1964, iniciou um período da Ditadura Civil-Militar, representado como um ato de conspiração entre alguns segmentos da sociedade civil. Seu objetivo inicial, dizia-se, era de assegurar as reformas econômicas e dominar as forças radicais em crescimento, além de assegurar a democracia e os valores cristãos.

Durante os primeiros anos de ditadura (1964 a 1968), os brasileiros ainda tinham a ilusão de que o regime democrático retornaria, mas, com o tempo, esta se acabou. Já durante os primeiros meses do Regime Civil-Militar, as Forças Armadas decretaram a eliminação dos cidadãos considerados subversivos, dando origem às resistências contra o regime.

Em um momento de ruptura e transformações históricas, o engajamento político, a cultura nacional e a força revolucionária, foram atores desse processo político de fundamentação do Estado militar brasileiro. A partir disso, a música foi introduzida como um tipo de expressão com significado não somente artístico, mas principalmente de conscientização popular e negação do Estado autoritário instalado.

Durante a formação dessa nova ordem política nacional e diante do contexto internacional dos anos de 1960, a Música Popular Brasileira (MPB), tornou-se significativa protagonista do processo cultural brasileiro.

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engajada, acompanhando o processo de consolidação da TV2 como meio de comunicação de massa. A grande euforia e ascensão da MPB neste período dos festivais foi ocasionada por um público cada vez mais engajado e contestador, que aliou-se aos compositores e artistas brasileiros como Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil e Elis Regina.

Naquele momento, esses artistas desejavam representar a situação político-cultural que se enfrentava no país, devido ao Golpe Civil-Militar e a conseqüente repressão instaurada. E assim foi formada uma resistência social ao regime, que contou com o avanço da televisão brasileira. A atividade artística cresceu juntamente com essa atitude engajada, e fortaleceu um eixo que engloba público, artista e música, transformando aquele grupo de jovens e artistas, em agentes do próprio movimento cultural.

Tendências musicais, assim como posicionamentos político-culturais, eram defendidos e caracterizados diante desse público, pois esses artistas faziam do palco seu veículo, desenvolvendo assim, um processo de assimilação dos movimentos contra-culturais. Ou seja, dessa forma de expressão dos jovens que procuram construir um mundo alternativo, por meio do rock'n'roll e do movimento hippie. A juventude universitária de esquerda, os artistas, a classe média, as manifestações culturais, os movimentos sociais, todos foram, a partir de março de 1964, reprimidos e oprimidos por um Estado Brasileiro, que tornou-se autoritário e excludente, através da ascensão dos militares ao governo.

A resistência política procurou, então, assumir uma forma cada vez mais sólida, e atingiu um caráter político-ideológico representado pelo engajamento de artistas e compositores, que se expressavam por meio de canções da MPB, simbolizando um período excepcional de manifestações culturais no Brasil.

Assim, a influência musical participou ativamente do processo político-cultural e conviveu por muito tempo com o estorvo e as repressões do Estado Militar Brasileiro, porém nunca deixou de denunciar, de revelar-se, principalmente por meio da produção musical e da indústria fonográfica, consolidando seu espaço no universo nacional.

Por fim, de que forma esse processo político participou do processo cultural nos anos de 1960? Que influências as manifestações culturais sofreram diante dessa nova sociedade conservadora? Identifica-se que a música popular brasileira desenvolveu-se como uma contestação política e uma música engajada contra o regime?

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Para equacionar alguns desses elementos, seccionamos este texto em três subtítulos, a

saber, Entre fuzis e decretos: a ditadura civil-militar (1964-1970), que trata do contexto

histórico aqui abordado, sobretudo a transição de um Estado democrático para um regime

autoritário; Pra não dizer que não falei das flores: a Música Popular Brasileira diante dos

fuzis, que aborda as manifestações culturais e a ascensão da Música Popular Brasileira nos anos de 1960 e 1970; Apesar de você: a Música Popular Brasileira sob censura (1964-1970), que aponta as letras de músicas produzidas no período pesquisado e uma breve observação das mesmas enquanto forma de protesto.

METODOLOGIA

Para alcançar os objetivos propostos nesta pesquisa, foram utilizadas fontes documentais, bibliográficas e eletrônicas. Das fontes documentais, privilegiou-se a documentação existente no Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria e a do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, no que tange as determinações do regime civil-militar (1960-1970) quanto ao cercamento à produção cultural de contestação. Das fontes bibliográficas, fez-se uso de obras pertinentes ao tema e ao período proposto, tais como: História e Música, de Marcos Napolitano (2005);A MPB em movimento: música, festivais e censura, de Ramon Casas Vilarino (1999); Movimentos culturais da juventude, de Antonio

Brandão e Milton Duarte (1990); História e Música: canção popular e conhecimento

histórico, de José Moraes (2000); O Movimento tropicalista e o "rock brasileiro", de José

Ramos Tinhorão (1998); 1968: O ano que não terminou, de Zuenir Ventura (1988) e 1968:

Eles só queriam mudar o mundo, de Regina Zappa, e Ernesto Soto (2008). Das fontes eletrônicas utilizou-se artigos pertinentes ao tema, bem como textos de apoio à pesquisa ora apresentada.

1. Entre fuzis e decretos: a Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964-1970)

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Defendendo um projeto nacional-reformista, o inverso do projeto anterior, João Goulart propunha reformas, que seriam a solução para os problemas sociais e regionais do Brasil. As reformas iriam atingir o sistema econômico, bancário, eleitoral, agrário, educacional e urbano, entre outros. Possuindo o apoio do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Goulart aumentava o desgosto de seus opositores. Além disso, as propostas de reformas adiavam as medidas populares, o que causava intensa insatisfação do povo, que pressionava o governo a realizar as promessas anunciadas. Seu governo era alvo constante de denúncias de corrupção, incompetência, infiltração comunista e esquerdização, o que abalava muito seu mandato, fomentando a oposição cada vez mais (PAES, 2004).

Por outro lado, a direita congregava-se em organizações suprapartidárias como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), financiados pelos Estados Unidos, e outras que se uniram para impedir as reformas sociais (VILARINO,1999). Nesse meio destacou-se a ação, muitas vezes esquecida, dos empresários, que

temiam que as reformas de base, uma vez implementadas, subvertessem os padrões habituais de dominação e as taxas de lucro. Foram peças decisivas na articulação do IPES e do IBAD, no comando da grande mídia – jornais e televisão -, no financiamento de projetos e de organizações [...] e alianças nacionais e internacionais (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 38).

Na verdade, essas organizações foram uma articulação da elite do movimento civil-militar, que dava apoio material e preparava o clima para a intervenção militar. Como exemplo temos uma declaração do Sr. Rui Gomes, presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil, que assim descreve o pensamento da burguesia brasileira no período:

Descomunizar o país enérgica e radicalmente, para reintegrá-lo de fato na vida democrática. Esta descomunização deverá processar-se contínua e persistentemente, de forma que se elimine da vida política o risco de sermos vítimas amanhã de novas traições (O GLOBO, 1964, p. 2).

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Goulart. Para os proprietários rurais significava o fim do pacto Estado e Latifúndio3.

Pensava-se que por Pensava-ser aliado do PCB, da CGT e dar apoio as forças nacionalistas, Goulart preparava um golpe de Estado, já que

os sindicatos, urbanos e rurais fazem parte do processo de mobilização da sociedade viabilizando condições para a rota final da Revolução Socialista, onde o movimento estudantil acreditava que o país se encontrava (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 88).

Nesse momento, no campo, as chamadas Ligas Camponesas se manifestavam, principalmente no Estado de Minas Gerais. Eram pequenos agricultores e não-proprietários que lutavam contra a tentativa de expulsão das terras onde trabalhavam. Radicais e defensores da reforma agrária tinham como lema: Reforma Agrária, na lei ou na marra, e assistiram à criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em 1963. A imprensa nacional fazia questão de divulgar objetivos subversivos e revolucionários das Ligas, inquietando alguns setores da sociedade que passaram a temer o movimento (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Aliás, uma das justificativas do Golpe sustentava-se fortemente na idéia de ameaça comunista, e dela os militares se utilizavam, para fazer a base de suas atitudes frente ao poder nacional. Dizia-se inclusive que uma Revolução Comunista estava a caminho no Brasil, e que ela ocorreria dia 1º de maio:

de acordo com a documentação subversiva em poder das autoridades militares, chegou-se a conclusão de que a tomada de posição das Forças Armadas antecedeu de um mês apenas, aqui, a eclosão do movimento revolucionário comunista. O Movimento de Cultura Popular, através de seus setores de ação mais discretos estava com a incumbência de confeccionar fardamento para os lavradores [...] a polícia mantêm sob rigoroso sigilo o manifesto comunista do ex-governador Miguel Arraes, mimeografado para ser no 1º de maio. O manifesto é altamente subversivo [...] (O GLOBO, 1964, p. 4).

Além disso, começaram a surgir casos de indisciplina dentro das Forças Armadas, como a Revolta dos Marinheiros. Esses fuzileiros navais reclamavam da falta de liberdade, da crueldade dos oficiais e da péssima comida fornecida. No dia 26 de março de 1964, três dias antes do golpe, eles resolveram reunir-se em assembléia na sede do Sindicato dos

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Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, para comemorar o aniversário da sua corporação. A reunião não foi bem interpretada pelo governo, e o Ministro da Marinha mandou acabar com o encontro, porém os próprios oficiais é que deveriam expulsar os marinheiros do sindicato, e eles se negaram a fazê-lo, o que ocasionou a demissão do Ministro da Marinha e o exército teve de intervir. O fato foi noticiado assim na cidade:

Tropas do exército montam guarda do lado de fora do edifício onde milhares de marinheiros se mantêm em rebeldia, desde ontem, após haverem desafiado as ordens do Ministro da Marinha [...] também fuzileiros navais, que atrás de uma cerca, tentam persuadir seus colegas em armas, do lado de fora, a aderir a eles ao invés de os prender (CORREIO DO POVO, 1964, p. 2).

Nomeado um novo ministro para o cargo, este acatou as condições dos marinheiros para encerrar a crise, o que não agradou muito a oficialidade (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Observando todo esse contexto nacional de agitação e conflitos, a burguesia, as Forças Armadas, a direita civil no Congresso e o empresariado, começaram a articular uma ação golpista contra o governo, com atitudes conspiratórias que acabavam por desestabilizar João Goulart. Sabia-se que era necessária uma ação, porém ainda não se tinha definida que ação seria esta. Preparava-se o golpe nos bastidores (VENTURA, 1988). Na verdade percebe-se que não foi uma ação tão escondida, visto que foi noticiado no Jornal Última Hora, de abril de 1964, o seguinte texto:

A nação toda já está alerta sobre as forças que estão tentando subverter o regime democrático [...] Na manhã de hoje parte das forças militares sediadas em Minas Gerais, rebelou-se sob o comando dos generais Guedes e Mourão [...] o movimento subversivo que repetiria as mesmas tentativas anteriores de golpe de estado, sempre repudiadas (ÚLTIMA HORA,1964, p. 2).

Em 1º de abril de 1964, o país entrava em uma Ditadura Civil-Militar. Um golpe muito bem articulado trouxe as tropas do General Olympio Mourão Filho, na madrugada de 31 de março, marchando de Minas Gerais. Junto com uma conjunção de forças militares e políticas de direita do país, tomou-se o poder do Presidente da República Brasileira. João Goulart e outros representantes fugiram do país exilados, e os Estados Unidos, como esperado, reconheceu o novo governo brasileiro. Começava um longo período de Ditadura Civil-Militar no Brasil (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

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cenário pré-1964. Observa-se a formação da conspiração militar, com o apoio de grupos econômicos brasileiros, e também a unificação da direita civil e militar. Entretanto, “desarmadas, desorganizadas e fragmentadas, as forças progressistas e de esquerda não ofereceram resistência” (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 80).

Prisões e protestos imediatamente começaram a ocorrer em todo o país, a sede da UNE, no Rio, foi incendiada e tomada pelo governo militar, e a entidade passou a atuar na

ilegalidade. Além disso, o acervo do CPC4 foi todo destruído. As universidades passaram a

ser vigiadas, os intelectuais e artistas reprimidos, o Brasil escurecia (VILARINO, 1999). Como foi publicado em alguns jornais do país:

[...] nas ruas, a repressão aos movimentos populares era das mais violentas sendo dissolvidas com balas, bombas de gás e cassetetes, quaisquer manifestações contrárias ao golpe já em andamento. Começava, então, a guerra psicológica, com a divulgação de boatos, puramente mentirosos alguns e outros simplesmente ridículos. À uma hora da madrugada, chegou a ser lido "telegrama" do governador Ildo Meneghetti, apozado a libertação do Brasil [...]. Mais adiante anunciava-se que o general Adalberto, comandante do 3º Regimento de Infantaria, havia ocupado Porto Alegre e controlava a situação em favor da guerra contra o comunismo (ÚLTIMA HORA, 1964, p. 4).

De acordo com a direita nacional, articuladora do Golpe, o que houve em 1º de Abril

de 1964 teria sido uma Revolução e, além disso, teria sido feita uma intervenção salvadora,

pela defesa da democracia e da sociedade cristã, e “para isso mobilizaram-se grandes meios propagandísticos e educacionais”, manipulando a opinião pública (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 39).

Realmente não temos elementos que possam qualificar um ato conspiratório e bem articulado como o que ocorreu contra a sociedade brasileira em 1964 como uma Revolução. Primeiro porque não houve mudanças de caráter estrutural no campo social ou econômico, e nem mudanças nas relações políticas ou de Estado, que seria o mínimo significado da palavra Revolução. Segundo, porque, se avaliarmos a situação, o que ocorreu foi apenas um movimento de reação ao temor de que o Brasil se transformasse em um governo de esquerda ou que aderisse às reformas de base propostas por Jango. Mas

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a ameaça revolucionária [...] não passara de infelizes declarações retóricas e metafóricas de um punhado de lideranças esquerdistas desavisadas, uma espécie de bicho-papão, habilmente explorados pelas direitas na manipulação deste profundo sentimento humano, que posto a serviço da política pode gerar uma tremenda energia: o medo (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 40).

E mais, o Golpe foi protagonizado por setores sociais ricos, influências internacionais e Forças Armadas, não se percebendo participação popular ou trabalhadora no movimento. Pelo contrário, estas ficaram apenas concordando, ou em outras linhas, reagindo (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Um exemplo foram os estudantes, que tão logo foi dada a notícia das forças mineiras contra João Goulart, mobilizaram-se, inclusive no Rio Grande do Sul:

O movimento universitário do Rio Grande do Sul, tendo em vista a ameaça à legalidade constitucional, representada pelo movimento golpista desfechado pelo governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto [...] julga-se no dever de manifestar sua posição aos estudantes e ao povo do Estado: 1.º entende o citado movimento como uma tentativa desesperada das minorias privilegiadas de frear o avanço das medidas progressistas reclamadas pelo povo brasileiro que vem sendo ultimamente tomadas pelo Sr. João Goulart [...] (ÚLTIMA HORA, 1964, p. 5)5

Uma Junta Militar então assumiu o governo, composta por três representantes das Forças Armadas Brasileiras: Artur da Costa e Silva, representante do Exército, Augusto Hamann Rademaker Grünewald, representante da Marinha e Francisco de Assis Correia de Melo, representante da Aeronáutica. Oito dias depois, era decretado o primeiro Ato Institucional, que propunha um novo modelo institucional, uma maior centralização do poder, e deixava uma esperança nacional, de que houvesse eleições presidenciais em um prazo até Outubro de 1965 (PAES, 2004).

O Ato Institucional nº. 1, de 1964, foi o primeiro golpe repressivo oficial da Ditadura, principalmente porque cassava os mandatos políticos dos opositores do novo regime. Assim, funcionários públicos foram convidados a deixar seus cargos e várias organizações foram fechadas, como a Central dos Trabalhadores, as Ligas Camponesas, a UNE e o CPC. Pode-se dizer que o AI–1 desmascarava as intenções democráticas dos militares. E, a partir disso, as representações culturais foram uma das poucas alternativas da oposição.

Nesse momento, os estudantes inquietos, juntamente com setores operários, demonstram através de manifestações e mobilização de suas atividades, seu repúdio às Forças Armadas. Instaladas com extremo autoritarismo e violência, e achando como justificava de

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seus atos o uso da palavra democracia, fizeram uso da força policial para obrigar as resistências nacionais a desarticularem-se imediatamente. Como declarado em nota jornalística,

as autoridades policiais estão colaborando com as autoridades militares para que os inconformados com a vitória da democracia sejam obstados nos seus propósitos de continuar promovendo a subversão da ordem e a criação de focos de agitação nas diversas classes [...] as medidas serão, contudo, acompanhadas de procedimento mais enérgico se houver tentativa de formação de piquetes ou de pressão sobre os trabalhadores para que permaneçam de braços cruzados (O GLOBO, 1964, p. 17).

Os estudantes brasileiros reivindicavam mudanças na educação, no sistema de ensino, e queriam ter participação no processo educacional, visando à democratização do ensino. Mas as reivindicações se ampliaram e passaram a pedir o fim da ditadura, gerando greves, ocupação de universidades, passeatas e manifestações constantes.

Mas já existiam duas tendências para assumir a Presidência: os Generais Humberto de Alencar Castelo Branco e Artur da Costa e Silva. Deixava claro que a presidência deveria ser

exercida por uma liderança do oficialato, de credo democrático e legalista, que pudesse

conduzir reformas econômicas e liberais, mas também expurgar as forças políticas radicais (GOMES, 2002).

Em 11 de Abril de 1964, o nome de Castelo Branco se sobressaiu devido à síntese do modelo de pacto civil-militar que propunha, sendo referendado pelo Congresso. Logo após

iniciava a chamada operação limpeza, quando intervenções foram feitas e diversos líderes

foram cassados e presos. Começou um longo confronto entre militares, estudantes e operários. O terror foi geral, e esse era apenas o começo (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004). A imprensa escrita dava o tom do que ocorria no momento, afirmando que

o Capitão Homero Barreto determinou que fossem fechadas as entidades sindicais do Estado do Rio. Os ônibus do SERVE foram requisitados para transportar tropas e policiais para o interior. Fontes ligadas ao comando militar asseguram a O GLOBO que ascende a mais de 800 o número de presos políticos. Estuda o Capitão Homero a possibilidade de requisitar o Ginásio Caio Martins para transformá-lo em presídio provisório, uma vez que os xadrezes estão superlotados (O GLOBO, 1964, p. 4).

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a criação cultural no Brasil estava em ebulição, embora enfrentasse uma atuante censura desde o golpe de 1964 [...] mas o ambiente cultural vinha de anos férteis e criativos em que as artes dialogaram como nunca entre si, refletindo conscientização política e desejo de transformação (ZAPPA, 2008, p. 22).

Entre 1965 e 1968, deslocou-se a resistência política para a esfera intelectual e

artística.A efervescência artística do pré-1964 desdobrou-se após o Golpe, em movimento de

resistência cultural contra o governo. Do ponto de vista político, se observa a radicalização da classe média intelectualizada, frente a um operariado ligado ao sindicalismo, que se somou a participação da juventude estudantil. Do ponto de vista cultural, as manifestações culturais não cessaram diante do regime, mas era preciso encontrar outras formas, e a música foi uma delas (NAPOLITANO, 2004).

O Presidente Castelo Branco logo tomou algumas medidas, como: a nacionalização do setor petrolífero, a proibição da desapropriação de terras, a cassação dos direitos políticos de alguns parlamentares e ex-presidentes, o rompimento das relações com Cuba e a investigação contra os opositores ao governo. E, além disso, os movimentos estudantis e a UNE foram colocados na ilegalidade, os centros de ensino superior do país passaram a ser constantemente vistoriados por autoridades do Regime Militar (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

O sistema militar passou a intervir na educação nacional também, e o Ministério da Educação recorreu aos Estados Unidos para reorientar a educação brasileira. A proposta educacional era erradicar o método Paulo Freire, muito utilizado até então, e uniformizar o

ensino através da Lei de Reforma Universitária6.

O regime necessitava de bases ideológicas para mascarar seu verdadeiro sistema e

apostar na seriedade do brasileiro fazia parte disso, é claro. Com lemas como ordem e

progresso ou este é um país que vai pra frente, as classes dominantes ficavam a serviço de uma imagem boa do Brasil, que era usada pelos veículos de comunicação de massa, apropriando-se de temas nacionais e reelaborando-os para formular uma ideologia que tivesse trânsito fácil (OLIVEN, 1982).

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É possível perceber que os meios de comunicação, no princípio, ainda possuíam uma autonomia relativa, os jornais ainda publicavam algumas notícias denunciando prisões arbitrárias e práticas de tortura. Mas, claro que essa autonomia logo foi caçada, e alguns jornais imediatamente aderiram à ideologia do regime. A palavra firmada era garantir o fim da ameaça comunista, reprimir os movimentos de contestação e reorientar a economia.

A montagem da estrutura necessária para dar conta de pontos fundamentais para a manutenção da ditadura tinha sido montada: a repressão e a informação. Temos a partir disso a criação de estruturas com o objetivo de policiar a população e mantê-la sob total controle do regime. Os órgãos de informações, por exemplo, agiram nesse sentido. Por isso, em 1964 temos a elaboração de um sistema de informações nacional (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Idealizado por um dos integrantes do IPES, o chamado Serviço Nacional de Informação (SNI) era um órgão da presidência, que surgiu com a finalidade de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contra-informações no Brasil e exterior, em

particular as que interessavam à segurança nacional. Sua estrutura era composta por um

chefe, que tinha status de ministro. Seu poder de ação e decisão era imenso, pois dele

poderiam proceder atitudes do chefe de Estado, como mandar investigar um suspeito, ou até expurgá-lo do país. Suas agências eram centrais e regionais. Dias após a deflagração do golpe pelos militares, noticiava-se:

O Tenente Osni Gonçalves, que foi nomeado diretor do Serviço Nacional de Informações, logo após assumir o cargo, recebeu instruções do Chefe de Polícia, Coronel Serra, para iniciar diligências, a fim de localizar e deter líderes sindicais e agitadores [...] Uma lista de pessoas procuradas pelas autoridades policiais e militares foi distribuída em todos os locais de saída da capital. Nesta lista estão os nomes de líderes sindicais comunistas e conhecidos agitadores, bem como de pessoas influentes ligadas ao antigo governo (O GLOBO, 1964, p. 13).

Em 1965, outro Ato Institucional foi decretado. O chamado AI-2 foi responsável por dissolver todos os partidos políticos, deu poder ao Executivo para que fechasse o Congresso caso achasse necessário, estabeleceu eleições indiretas para a presidência e tinha como um dos objetivos refrear as vias de oposição institucional e popular (PAES, 2004).

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uma oposição consentida (PAES, 1996). Popularmente tais partidos ficaram conhecidos respectivamente como o partido do sim e partido do sim senhor (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

A política econômica de Castelo Branco executava o Plano de Ação Econômica do Governo, que visava sanear a economia e buscar o crescimento nacional. Uma das principais características do plano consistia em enxugar os gastos públicos e aumentar os impostos. Dessa maneira, propunha a recessão, o que gerou falências e desemprego no país, e o que manteve uma classe trabalhadora desprestigiada e oprimida pelos militares (PAES, 2004).

A esquerda nacional, nesse momento, tinha os estudantes como um dos principais representantes da sua força política, e assim a oposição deslocou-se para a esfera intelectual e artística, desdobrando-se em movimento de resistência cultural contra o governo. De qualquer maneira, o jovem da época não tinha muitas opções: ou era a luta armada, ou o “desbunde da contracultura”, ou, então, a conformidade com o sistema (BARROS, 2004, p. 34).

A população brasileira começava a se movimentar e duvidar das intenções democráticas defendidas pelo governo, reagindo contra o autoritarismo dos militares. Várias passeatas, manifestações e mobilizações estudantis tomaram as ruas exigindo o fim da ditadura. Em resposta, é claro, os militares colocavam os seus soldados para responder violentamente aos protestos.

Em janeiro de 1966, foi redigido o Ato Institucional nº. 3 que ampliou o controle político do Regime Civil-Militar. Ele estabelecia a eleição indireta para a escolha dos governadores estaduais, assim os prefeitos dos grandes centros urbanos só poderiam chegar ao poder através da nomeação dos governadores. Além disso, o regime militar poderia decretar Estado de Sítio sem a aprovação prévia do Congresso Nacional, e tinha total poder de intervenção nos Estados (PAES, 2004).

Dessa forma, foi praticado o afastamento dos políticos que apoiaram o golpe, e começaram a surgir críticas ao regime, por exemplo, contra a política econômica. Tudo isso significou a transferência do poder político para o interior das Forças Armadas (PAES, 2004).

O medo da perda do poder político e a volta do poder civil pela via eleitoral, fez com que Castelo Branco criasse a Lei de Imprensa, em fevereiro de 1967, e a Lei de Segurança Nacional, em março de 1967. A Lei de Imprensa passou a limitar a função política da

imprensa, controlando a divulgação de informações.Responsável pela repressão do direito à

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O censor era o grande incômodo da imprensa, já que tinha autoridade para decidir o que podia e o que não podia ser publicado (PAES, 2004).

Em seu governo, Castelo Branco decretou ainda uma nova Constituição Nacional. A Constituição de 1967 traz em seu conteúdo a extinção da publicação de livros e periódicos. A partir daí, não seriam mais toleradas publicações consideradas como propaganda de subversão da ordem. Ao mesmo tempo, ela transformou em lei todas as punições, exclusões e marginalizações políticas decretadas por meio dos AI’s anteriores. Esta Constituição, na verdade, veio confirmar e institucionalizar o regime militar e suas formas de atuação.

O Decreto-Lei nº. 314, pelo qual entrou em vigor a nova Lei de Segurança Nacional,

transformava em legislação a Doutrina de Segurança Nacional7, que era fundamento do

Estado após o Golpe de 64. A Doutrina tinha como objetivo principal identificar e eliminar os inimigos internos. Ou seja, aniquilar todos aqueles que questionavam e criticavam o regime estabelecido. E o inimigo interno era antes de tudo, comunista.

Nas palavras de Vilarino (1999, p. 86):

a ideologia da Segurança Nacional estava, para o Brasil, assim como as religiões estavam para ‘as sociedades tradicionais’. O Estado era o fio condutor de integração de toda a sociedade [...] dessa forma, a cultura envolvia uma relação de poder, pois com dissidentes, ela se tornaria maléfica aos objetivos de integração e harmonia social.

Esta foi, durante muito tempo, a principal base que justificou as atividades da Comunidade de Informações no Brasil, que tinha em vista garantir a segurança nacional do Estado contra a subversão da lei e da ordem, fazendo conseqüentemente o controle social.

Esses órgãos proporcionaram a abertura na cadeia de comando e a quebra na rígida hierarquia militar, ao vinculá-los diretamente aos ministros militares. Desta maneira foi possível que se criasse um poder paralelo ao estabelecido, que fugia ao controle dos próprios superiores. Os órgãos de informações, assim sendo, tiveram um relevante crescimento durante o processo de ascensão dos militares considerados da linha dura, a partir da posse do Presidente Costa e Silva (1967-1969) (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

A chamada linha dura, entretanto, posicionou-se conquistando mais espaço e poder, e Castelo Branco não teve forças para enfrentá-la no fim do seu mandato. Um anseio que de

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fato existia desde os primeiros momentos do regime, quando a linha dura já fazia-se ouvir (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Assim sendo, tínhamos paralelamente uma disputa pelo poder. Segundo Paes, “uma disputa intra-militar com três tendências em busca da hegemonia política”: a primeira da ESG (Escola Superior de Guerra), que participou da derrubada de Goulart em 1964; a segunda da

chamada linha dura, que era composta por escalões intermediários, Costa e Silva está entre

estes; e a terceira, as manifestações isoladas, como por exemplo a atitude do General Olympio Mourão Filho em 1964 (2004, p. 61).

A vitória da linha dura ocorreu, então, posteriormente ao governo de Castelo Branco, pelo endurecimento do regime prestado através dos Atos Institucionais, e a intensificação do conflito militar. Igualmente, como menciona Reis; Ridenti; Motta,

é possível encontrar a lógica da dinâmica interna da ditadura em dois processos permanentes de crise, visíveis do começo ao fim do regime militar. Refiro-me, por um lado, à natural disputa pelo poder no seio da alta hierarquia em torno das sucessões presidenciais. Por outro lado, às tensões comuns aos setores mais militantes da oficialidade, segundo a qual o regime militar era um regime dos

militares (2004, p. 126).

O General Artur da Costa e Silva chegou desse modo à Presidência, como sucessor de Castelo Branco em março de 1967, e como era de se esperar, o representante da linha dura endureceu nitidamente a situação política do país. Durante seu governo, embora se perceba grande expansão na indústria e nas exportações, aumentam os movimentos sociais e as manifestações, além de organizações que defendiam a luta armada.

Em todas as áreas a política fazia-se presente, e mantinha acesa no campo das artes uma polêmica que opunha experimentalismo e engajamento, participação e alienação. O movimento estudantil não parava de crescer, e juntamente com ele a repressão. No dia 28 de março de 1968, uma manifestação contra a má qualidade do ensino, realizada no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, foi violentamente reprimida pela polícia, resultando na morte do estudante Edson Luís Lima Souto (VENTURA, 1988).

A morte do estudante, entendida corretamente como um assassinato, foi o primeiro incidente que sensibilizou a opinião pública para a luta estudantil. Uma missa pela morte do estudante realizada na Igreja da Candelária, palco de manifestações no centro da cidade, foi lotada por estudantes e militantes de esquerda (VENTURA, 1988).

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ruas juntamente com a PM, e a missa propiciou que os militares montassem um cerco fora da Igreja, aguardando o término do culto. Entretanto, os próprios padres, percebendo o que ocorria, fizeram um cordão de proteção aos estudantes, e deixaram a Igreja protegendo-os da violência dos militares:

Parecia uma operação estudada, diabólica, porque não deixava nenhuma saída para as vítimas: estas tinham atrás as portas fechadas; pela frente e por cima os sabres; por baixo, as patas. Os que por milagre conseguiam fugir, eram perseguidos por outros piquetes, porque cavalos não faltavam [...] Até que um padre disse: [...] deixem que os padres saiam na frente. Vamos todos sair em ordem. Ao chegarem à porta, os sacerdotes se deram as mãos e formaram duas correntes, no meio das quais iam os estudantes. [...] o silêncio do cortejo permitia que se ouvisse a impaciência do inimigo, mas, a ordem final do major foi dispensar [...] os sacerdotes permaneceram na esquina até que passasse a última pessoa das que assistiram à missa (VENTURA, 1988, p. 120,122,123).

O fato do assassinato de Edson Luís comoveu e revoltou todo o país, e serviu para acirrar os ânimos e fortalecer a luta pela liberdade entre as massas. O regime militar deu aos estudantes uma razão a mais pela qual lutar, já que se mostraram capazes de matar um deles tão friamente.

A Passeata dos Cem Mil, realizada em 26 de junho de 1968, é considerada a manifestação popular mais importante da resistência contra a ditadura militar. Ela marca o ponto alto do movimento estudantil, pois nos primeiros meses de 1968, várias manifestações tinham sido reprimidas com violência, e então a partir de junho, organizou-se um número cada vez maior de manifestações públicas. Logo pela manhã, milhares de manifestantes tomaram as ruas do centro do Rio para demonstrar o crescente descontentamento com o governo:

A visão era de um espetáculo inédito. As pessoas iam chegando como nos últimos tempos, no Maracanã ou aos desfiles de escolas de samba: em grupos alegres, aos poucos, carregando cartazes com palavras de ordem que identificavam os setores – professores, bancários, estudantes secundaristas e universitários, mães, geris, engenheiros, arquitetos, médicos, padres (VENTURA, 1988, p. 158).

Uma massa humana penetrou pelas ruas do Rio de Janeiro, em um gesto grandioso de indignação, mas sobretudo de esperança no retorno ao estado democrático de direito. Os estudantes mobilizados assistiram ao discurso do presidente da UME, Vladimir Palmeira, que subiu as escadarias da Assembléia Legislativa, interrompeu as palmas, pediu silêncio e que todos se sentassem e assim o fizeram. Em seguida, Vladimir começou o seu primeiro discurso do dia dizendo:

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autoridades [...] nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura poderá conter o avanço do povo (apud VENTURA, 1988, p. 157).

Mais tarde, após outros discursos, para encerrar a concentração e iniciar a passeata, Vladimir volta a falar rapidamente:

Minha gente, não pense que aplaudir e gritar 'abaixo a ditadura' é uma vitória. Hoje a repressão não veio porque não pode. E a nossa vitória é esta: ter saído na raça porque achava que tinha que sair. Mas a gente vai voltar pra casa, o estudante pra aula, operário pra fábrica, repórter pro jornal, artistas pro teatro. E é em casa, no trabalho, que a gente vai continuar a luta (apud VENTURA, 1988, p. 161).

Em ordem e todos em silêncio, os manifestantes iniciaram a passeata, segurando seus cartazes e recebendo os aplausos das janelas dos edifícios, de onde os moradores jogavam papel picado. De braços dados, as mais importantes figuras da cultura carioca, como Chico Buarque, Nana Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros, entusiasmavam a multidão em movimento. A polícia inquieta assistiu a toda movimentação de perto, sem reagir, conforme o acordo feito com as lideranças dias antes do protesto.

Depois de terminada a Passeata, um grupo havia sido convidado pelo Presidente para uma audiência. Os estudantes tinham uma pauta de reivindicações, que incluíam a libertação de presos, a reabertura do Calabouço, uma reforma universitária com participação estudantil e até o fim da censura. O presidente, por sua vez, não gostou muito da conversa, e deixava evidente que dificilmente cederia a esses pontos, e chegou a sugerir aos estudantes o fim de suas passeatas, mas estes logo recusaram a oferta, dizendo que não estavam abertos a negociações. O general insistia e os estudantes demonstrando-se irrequietos acabaram por dar um tratamento indevido ao presidente, que irritado deu por encerrada a reunião (VENTURA, 1988).

Naquele momento, nota-se o choque entre os novos e inexperientes, e velhos e conservadores líderes, eles próprios admitiam "que a posição deles, os mais velhos, era de conciliação, enquanto a dos estudantes jovens era de enfrentamento – talvez porque já pensassem longinquamente na luta armada, na guerrilha" (VENTURA, 1988, p. 180).

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podiam divergir e divergiam, e se consumiam nestas divergências, a respeito de como nomear o processo que desejavam empreender, mas havia um acordo básico no que se desejava realizar: nada menos do que a revolucionarização social, política e econômica, profunda e radical da sociedade (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 47).

A divisão era nítida entre os estudantes, como ressalta uma reportagem do Jornal O

Globo:

Os líderes Vladimir Palmeira, da ex-UME, Elinor Brito, da FUEC e Edson Soares, da ex-UNE, durante entrevista concedida ontem pela manhã [...] confirmaram a cisão na diretoria da ex-UNE, com um grupo liderado pelo estudante Luís Travassos, segundo afirmaram, tentando dividir o movimento para levá-lo unicamente para o campo político, sem atentar para os problemas estudantis. Acrescentaram que os estudantes, através da grande maioria de seus diretórios, repudiam a atitude do presidente da ex-UNE e não acatarão qualquer decisão tomada por ele e seu grupo [...] (1968, p. 07).

Sabia-se que era preciso mobilizar o povo, levá-lo às ruas, mas as pessoas às vezes davam mais importância em estar contra ou a favor de alguém, do que as suas idéias. Como defendido até por um oficial do Exército, em uma coluna no Jornal do Brasil:

toda e qualquer guerra revolucionária só pode ter sucesso se se apoiar nas massas. Trata-se, então, em primeiro lugar, de conquistá-las, torná-las obedientes ao menor sinal dos ativistas e dos agitadores [...] um dos instrumentos básicos na conquista das massas é a propaganda, ferramenta empregada na catequese de adeptos, de simpatizantes e de inocentes (O GLOBO, 1964, p. 10).

Isso deixa claro o papel ideológico da propaganda utilizada com grande sucesso pelos promotores do golpe de 1964, pelo qual a massa da população alienava-se sobre as verdadeiras ocorrências do governo militar, como a tortura e a violência gratuita. A violência praticada contra os estudantes aparece durante o regime, deste ponto de vista, um revide policial.

As próximas passeatas e protestos já incorporados à paisagem urbana dos grandes centros, possuíam um mecanismo bastante complexo de preparação e estratégia. Inclusive era entregue aos manifestantes um manual contendo recomendações como: de que maneira se vestir, o que comer, como se comportar. As recomendações eram seguidas à risca, era preciso organizar-se, pois a polícia não brincava. Entretanto,

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irrefreável para a doação [...] anulando-se como indivíduos para se encontrar como massa (VENTURA, 1988, p. 85).

Nos últimos meses do ano de 1968, o país acumulou uma considerável soma de crises em todas as áreas. A intolerância tomava cada vez mais conta do governo militar, e a única resposta parecia ser o radicalismo, que começava a ser demonstrado no movimento estudantil, nas artes e na música. "Era hora do enfrentamento, a intolerância não tinha mais ideologia" (VENTURA, 1988, p. 201). Mas o plano do governo era justamente empurrar o país para um impasse cuja solução levasse ao endurecimento.

Desde o golpe de 1964, os generais procuravam à implantação de um projeto repressivo e centralizado, além de muito eficiente. A união de diversas correntes militares

dava origem a uma chamada utopia autoritária, ou seja, a crença na superioridade dos

militares sobre os civis. Dela vinham às idéias de sanear o comunismo e suprir deficiências do povo brasileiro, e com ela vinham os sistemas de repressão e censura, informação e espionagem, articulados pelo regime civil-militar brasileiro. Na verdade, faz parte de um jogo de poder autoritário, frio e calculista para eliminar qualquer suspeita e contestação contra o governo, seja ela verdadeira ou não (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Os pilares básicos da ditadura estabelecem-se através da polícia política, espionagem, censura e propaganda política. Três centros atuavam como os principais responsáveis pelo processo de espionagem: o CIE – Centro de Informações do Exército; o CENIMAR – Centro de Informações da Marinha e o CISA - Centro de Informações da Aeronáutica (REIS, 2004).

Ligado a essas instituições estava o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), criado em 1924. Durante o regime militar este órgão atuou como serviço de vigilância e repressão. O DOPS destacava-se pela responsabilidade de produzir: "relatórios, dossiês, prontuários e outros gêneros de escrita burocrática" (NAPOLITANO, 2004, p. 103), do mesmo modo que controlava: "entidades da sociedade civil, espaços de sociabilidade e cultura, atuação pública de personalidades críticas, todo o tecido social e os espaços públicos"

(NAPOLITANO, 2004,p. 104).

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informada do que realmente ocorria nesses centros, principalmente porque o governo disseminava uma farsa, através do patrocínio de intensa propaganda política nacional.

A obsessão pela vigilância como forma de prevenir a atuação "subversiva", sobretudo naquilo que os manuais da Doutrina de Segurança Nacional chamavam de "propaganda subversiva" e "guerra psicológica contra as instituições democráticas e cristãs", acabava por gerar uma lógica da suspeita (NAPOLITANO, 2004, p. 104).

Dentro dessa lógica, os serviços de informações elaboravam perfis, criavam conspirações, usavam de estratégias para criar um inimigo interno, produzindo assim o fenômeno de produção da suspeita (NAPOLITANO, 2004).

A lógica da produção da suspeita era caracterizada pela falta de critérios e improvisação. A participação em eventos, declarações na imprensa e ligação direta com um subversivo eram motivos de intervenção dos agentes de repressão, nesse sentido Chico Buarque era um dos mais citados.

Todas as ações e declarações que se chocassem contra a moral dominante, a ordem política vigente, ou que escapassem aos padrões de comportamento da moral conservadora, eram vistos como suspeitos. No caso da música, o conteúdo das letras cantadas, a performance e as eventuais declarações que o artista proferisse durante os seus shows, também poderiam agravar o seu "perfil suspeito", ganhando destaque nas anotações dos agentes da repressão política (NAPOLITANO, 2004, p. 107).

Além disso, tínhamos, por exemplo, o cômico DCDP – Divisão de Censura de Diversões Públicas, responsável por representar a população contra atentados à moral e aos bons costumes. De maneira geral buscava-se o controle e o esvaziamento político do espaço público. É importante salientar que todos esses órgãos consistiam em atividade oficial do Regime, já que foram devidamente regulamentados por legislação (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

O General Costa e Silva temia estar perdendo o controle e conseqüentemente a aplicação da Constituição, assim o governo militar usou os protestos como uma das formas de justificar a aplicação de um novo Ato Institucional, dessa vez o pior de todos. O que veio com o Ato Institucional nº. 5 (AI-5), caracterizado pelo auge das cassações, prisões, torturas e assassinatos e o fechamento do Congresso Nacional (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

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Será secreta a reunião da manhã de hoje do Conselho de Segurança Nacional, no Laranjeiras [...] o Estado de Sítio será longamente examinado e defendido [...] é possível, mesmo, sua decretação, embora, à esse respeito, dividam-se as opiniões: para alguns, o sítio virá imediatamente; para outros, apenas depois de uma crise de rua, estudantil, ou terrorista (1968, p. 3).

Este Ato, portanto, implantou a censura prévia em todos os veículos de comunicação, enfraqueceu o movimento estudantil e colocou a produção cultural em crise, muitos artistas foram exilados.

Desde o final dos anos 60 e início dos 70, a peça teatral, o livro, o filme, enfim o produto cultural que os censores julgassem inadequado ao momento político e ofensivo ao Estado seria proibido e seus autores ficariam sob estreita vigilância do DOPS (BRANDÃO, 1990, p. 84).

Aprovado pelo Conselho de Segurança Nacional em 13 de dezembro de 1968 com quase todos os votos a favor, com exceção do vice-presidente Pedro Aleixo, o AI-5 teve 10 anos de vigência. Nesse período foram censurados cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, 100 revistas, 500 letras de música, programas de rádio. Quanto ao tolhimento das liberdades individuais,

não é possível calcular o número exato de prisões mas se estima que, no período que se seguiu ao 13 de dezembro, algumas centenas de intelectuais, estudantes, artistas, jornalistas, tenham sido recolhidos às celas do DOPS, da PM e aos vários quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em todo o país (VENTURA, 1988, p. 290).

O Ato dava, portanto, plenos poderes ao Estado, destacando a vitória dos militares da “linha dura”, representados pela radicalização e avanço das medidas repressivas. Além disso, o Ato executava medidas que não podiam ser contestadas pela Justiça. Conhecida como golpe dentro do golpe, a linha dura instituiu o terrorismo de Estado, que utilizou o extermínio de qualquer oposição ao regime como forma de governar (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004).

Assim sendo, parece evidente que havia um projeto coeso, repressivo e centralizado por parte do Regime Civil-Militar em todo o país. Como nos auxilia Napolitano (2004, p. 104), o Regime:

concentrou-se em vigiar e controlar o espaço público, regido por uma lógica de desmobilização política da sociedade como garantia da "paz social" [...] Neste sentido, esses regimes poderiam ser caracterizados como autoritários, pois sua atuação voltava-se para o controle e esvaziamento político do espaço público, preservando certas formas de liberdade individual privada.

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possibilidade de realizar greves ou protestos e submetidos ao arrocho salarial do governo, por isso intensificou-se a produção de bens de consumo, como eletrodomésticos e automóveis. Assim, esse aumento da produção foi chamado pelos meios de comunicação do regime de “milagre brasileiro”. O AI-5 nada mais era do que o pano de fundo da "era do milagre" nacional (PAES, 2004).

Mas a ditadura não se manteve somente com a violência física. Ela soube se valer de uma propaganda ideológica massacrante. Numa época em que todas as críticas ao governo eram censuradas, os jornais, a TV, os rádios e as revistas transmitiam a idéia de que o Brasil tinha encontrado um caminho maravilhoso de desenvolvimento e progresso. Reportagens sobre grandes obras do governo e o crescimento econômico do país convenciam a população de que vivíamos numa época incrível. Nas ruas, só se via a frase: Ninguém segura esse país.

Assim sendo, a esquerda brasileira articulava propostas de como derrubar a ditadura. Duas vias eram possíveis: o enfrentamento armado, apoiado pelos setores estudantis, nomeados de revolucionários de esquerda; e a acumulação de forças, organizado pelo PCB, nomeados de reformistas e conciliadores. É visto que o PCB perdeu então sua identidade, a organização mais antiga que deveria ter tomado uma atitude real, ficou todos esses anos assistindo ao regime, e ainda defendia uma via conciliadora no fim da década.

Além disso, lembremo-nos que as lideranças estudantis também estavam divididas quanto as suas posições, o que fragmentava muito os jovens engajados. Mas como analisa Ventura:

É prudente afirmar que o movimento estudantil, no que ele tinha de mais responsável e conseqüente, acreditava poder derrubar a ditadura naquele momento. Mas é mais fácil ver isto hoje, nos depoimentos dos líderes, do que nos textos da época. De fora do movimento, eram quase imperceptíveis as nuanças que dividiam os vários agrupamentos (1988, p. 68).

Parte da juventude nacional partiu então para o conflito armado contra o regime, "o militante apostou na vida a serviço de uma idéia, de um projeto, que não fosse individual e que servisse a muitos e a seu país" (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 313). Além disso, nacionalmente os ânimos ficavam cada vez mais tensos, foram proibidas as manifestações de rua e engrossada a intervenção em alguns sindicatos. Mais tarde, agentes do Comando de Caça aos Comunistas, o sinistro CCC, haviam depredado o Teatro de Arena, em São Paulo, onde era levada a peça Roda Viva, do cantor Chico Buarque de Holanda.

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Armados de cassetetes, revólveres e soco inglês, os invasores espancaram barbaramente os atores, despiram as atrizes (VENTURA, 1988, p. 236).

Para as esquerdas ficou impossível qualquer mobilização de massa, o que levava a dois destinos, a clandestinidade e a luta armada (PAES, 2004). Desse modo, grupos clandestinos com propostas revolucionárias como: Ação Nacional Libertadora (ALN), liderada por Carlos Marighella, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada por Carlos Lamarca, passaram a praticar diversas ações armadas em algumas cidades brasileiras.

Além disso, noticiava-se na Revista Veja, que

a história do terrorismo ativo começa em 1967, depois que várias dissidências do PCB – entre elas o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Partido Operário Trotskista (PORT), a Polícia Operária (Polop), a Organização Revolucionária Marxista (ORM) – se subdividiram em grupos de ação violenta que tentam unir-se em torno de uma Aliança de Libertação Nacional (ALN) (1969, p. 26).

Esses grupos viam a resistência armada como um último recurso para combater a ditadura, reorganizar os movimentos populares e realizar a revolução. Nesse momento sobressaíram mais críticas ao PCB, o único que continuava a defender duas etapas para a revolução, sendo que

todas as outras organizações optaram pela luta armada, norteando-se pelos modelos de Revolução Russa, Maoísta ou Cubana. A grande maioria aderiu ao modelo cubano ou teoria do foco revolucionário, que negava uma etapa antiimperialista defendendo a passagem direta ao socialismo (PAES, 2004, p. 65).

Mas já no início dos anos 1970, a ditadura do governo Médici acaba com as guerrilhas, a maioria das organizações tinham sido dizimadas ou tinham se desagregado. Questão decisiva foi a violenta repressão que se abateu sobre elas (HABERT, 1994). Nos anos seguintes, novas organizações tentaram se articular em torno dos movimentos operários dos anos de 1970.

É importante salientar que foi característica da imprensa brasileira durante a Ditadura Civil-Militar, a homogeneização dos guerrilheiros como pertencentes a uma única organização, sem identificar e especificar os grupos dos quais estava se referindo. Assim,

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esquerda, seria um importante instrumento para se conscientizar o povo de sua situação e de sua própria identidade. A música, especificamente, pela sua maior difusão nos meios de comunicação, era um demonstrativo importante da situação social, política e econômica do país (BARROS, 2004, p. 34).

Os guerrilheiros eram apresentados como terroristas, inimigos da pátria, agentes

subversivos. Qualquer crítica era vista como coisa de comunista, de baderneiro. Houve até quem chegasse a acusar os comunistas de responsáveis pela difusão das drogas e da pornografia (PAES, 2004).

Dentro desse contexto político nacional, os líderes estudantis articularam clandestinamente um Congresso Geral da UNE. O lugar escolhido foi um sítio afastado da cidade, perto de um vilarejo, na localidade de Ibiúna (SP). Cerca de mil estudantes compareceram a concentração durante 30 dias mais ou menos.

Os estudantes acabaram descobertos pelos militares, através de uma denúncia feita no vilarejo onde eram obtidos os mantimentos. A população suspeitou de tantos jovens reunidos durante tanto tempo, e o DOPS enviou representantes ao local. Ao receber a informação que o Congresso ia cair ao meio-dia, pensou-se em evacuar o local:

A situação era tensa, o risco enorme, mas a divisão era maior: a reunião de emergência não chegou a um acordo. Havia uma proposta da direção para que tentasse salvar as lideranças, já que não haveria condições para retirada de mais de 50 pessoas [...] a solução seria marcar uma sessão plenária às 7 horas da manhã para democraticamente decidir o impasse (VENTURA, 1988, p. 248).

Entretanto, não houve tempo para uma decisão democrática, tiros foram ouvidos, e os estudantes vigias anunciavam que cerca de 400 soldados do DOPS estavam invadindo o sítio. Quando perceberam, todos já estavam cercados (VENTURA, 1988).

A invasão do XXX Congresso da UNE, foi um tanto estranha, “olhando retrospectivamente, mais do que um erro, foi um ato suicida. Não se conhece uma organização capaz de reunir cerca de mil pessoas clandestinamente. É evidente que a polícia descobriria” (VENTURA, 1988, p. 249). Os jovens não reagiram, mas também não fugiram dos militares. Uma atitude considerada covarde por parte dos estudantes, como se na hora da atitude a união naufragasse. E foi o que aconteceu. Vladmir, José Dirceu e Luís Travassos foram uns dos líderes presos.

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pois a única afinidade existente era o fim da ditadura (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 57).

Nesse momento o Regime Civil-Militar já apresentava sinais de esgotamento. Primeiramente, pelo fato da sociedade já não aceitar a justificativa de defesa da democracia defendida pelos militares durante todos estes anos, pois as suas atitudes de repressão e tortura estavam cada vez mais ativas e ao mesmo tempo preocupantes. Segundo, pela questão econômica nacional, onde a inflação estava em ritmo ascendente, a dívida externa já era absurda e a recessão estava ativa. Claro que esses pontos eram notórios entre as camadas mais baixas, já que os ricos ficavam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres.

Discussões em torno do retorno do quadro democrático verdadeiramente estavam afluindo cada vez mais. Diante disso até

a Igreja Católica mudara radicalmente de lado, substituindo a benção aos militares pela condenação ao capitalismo selvagem, à tortura e ao arbítrio [...] Até mesmo setores importantes da base política do governo inclinavam-se pela distensão e pela democracia. Entre os próprios militares, conscientes dos perigos de derrapagem engendrados pela crescente autonomia dos aparelhos de repressão [...] isolavam-se os radicais que desejavam permanecer grudados nas fórmulas ditatoriais (REIS; RIDENTI; MOTTA, 2004, p. 44-45).

A ditadura, como se percebe, perdia gradativamente a legitimidade como forma política. Começavam a ser elaboradas perspectivas democráticas e a permanência do regime começava a ser vista como indefinida.

Em agosto de 1969, o presidente Costa e Silva sofreu um derrame, sendo obrigado a afastar-se da presidência, uma junta militar assumiu o poder, e mais tarde o colocou nas mãos do General Emílio Garrastazu Médici. De 1969 a 1974, Médici protagonizou o auge do terrorismo de Estado, registrando o maior índice de torturas, invasões de domicílios e assassinatos. A violação dos direitos humanos foi constante, e

a tortura nesses tempos não foi portanto ocasional, mas sistemática e resultado da ação das Forças Armadas. O Estado de Segurança Nacional foi, de fato, um Estado terrorista, que adotou a tortura, o assassinato, o sumiço de presos políticos como estratégias para eliminar toda e qualquer oposição (PAES, 2004, p. 73).

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O gaúcho Thomas Koch, de 24 anos, várias vezes campeão internacional de tênis pelo Brasil [...] enquanto treinava mostrava um arranhão de quatro centímetros no lado esquerdo do rosto, hematomas azulados nas pernas, nos braços e no peito. Eram marcas dos espancamentos que sofreu da polícia gaúcha sábado passado em Santa Cruz do Sul (1969, p. 27).

Médici governava basicamente por decretos-leis, através do Conselho de Segurança Nacional, do AI-5 e da censura e da repressão devidamente institucionalizadas pelo Regime,

um exemplo desta grande centralização de poder autoritário foi o decreto, [...] que permitia ao Presidente assinar decretos secretos, cujo conteúdo era do exclusivo conhecimento das altas esferas do poder, publicando-se apenas seu número no Diário Oficial (HABERT, 1994, p. 25).

Médici seguiu seu governo até 1974, portanto seu modelo autoritário seguiu por mais alguns anos. O modelo econômico era tido como ideal, mas não durou muito e logo esgotou-se. O modelo político seguiu por mais um tempo, até ser decretada a abertura, lenta e gradual rumo à democracia. Mas o nosso estudo propôs-se a pesquisa até o ano de 1970, em função da necessidade de avaliar o AI-5 no contexto cultural observado.

Os estudos em torno do Golpe de 1964 são inúmeros, e vem crescendo mais a cada ano. De fato, é instigante observar o contexto de um dos períodos mais dramáticos da História do Brasil, mas mais que isso, busca-se entender como de fato ocorreu esse momento e que elementos estavam envolvidos nesse contexto. É visto que circulam sobre o tema as mais diversas interpretações. Possivelmente fique a idéia de garantir que um fato como esse não se repita, ou de tentar esclarecer ao leitor o que foi o Golpe de 1964, ou a tentativa de conscientizá-lo, de fazê-lo refletir sobre tal período tão sombrio da História Brasileira Contemporânea.

2. Pra não dizer que não falei das flores: a Música Popular Brasileira diante dos fuzis

Sabe-se que a música como prática cultural e humana surgiu quando começou a ser construída em meio às sociedades ainda rústicas e antigas como uma forma de arte. Devido à dificuldade de se determinar o seu desenvolvimento de forma precisa, a história da música confunde-se com a própria história do desenvolvimento das culturas humanas. A música como instrumento cultural tornou-se ao longo dos séculos presença constante nas manifestações da sociedade em geral.

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