LUCIANA MEIRELES REIS UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão - 1876)

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

LUCIANA MEIRELES REIS

  o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão - 1876)

LUCIANA MEIRELES REIS UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:

  o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti. Reis, Luciana Meireles. Um crime contra escravo numa sociedade escravista: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876).

  149 f. Impresso por computador (Fotocópia). Orientadora: Mundicarmo Maria Rocha Ferretti. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, 2012.

1. Sociedade escravagista – Maranhão 2. Crime 3. Autos do processo- crime 4. Relação senhor-escravo I.Título.

  CDU 316.323.3 (812.1)

LUCIANA MEIRELES REIS UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:

  o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha

Ferretti.

  BANCA EXAMINADORA ________________________________________________________

  Profª. Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti (Orientadora) ________________________________________________________

  Profª. Dra. Maria da Glória Guimarães Correia ________________________________________________________

  Profª Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa _________________________________________________________

  Prof. Dr. Sérgio Figueiredo Ferretti (Suplente)

  

AGRADECIMENTOS

  É muito satisfatória a sensação de que mais um ciclo se fecha. Maior ainda é a alegria de saber que, com bastante trabalho e pensamento positivo, novos caminhos serão abertos, outros desafios serão enfrentados, novas amizades serão feitas. Nada disso seria fácil de conquistar sem o apoio de minha família. Por isso, meus sinceros agradecimentos à minha mãe, Angela Maria e às minhas irmãs e grandes amigas, Érica e Thatyane, por um auxílio que vai muito além da concretização deste trabalho.

  A João Guilherme, amor novinho, que, sem saber, muito tem contribuído para nos dar felicidade. Aos amigos do peito, Fabienne, Cláudia Letícia, Jane C., José Mariano e

  Márcio pelos anos de muitas conversas agradáveis, divertidas e distraídas. Também agradeço aos raros, porém, interessantíssimos encontros com Renato Kerly.

  Aos colegas da graduação em História e, por extensão aos do mestrado da turma de 2010, são eles: Carol, Jorge, João Gilberto, Antônio Carlos Poser, Emerson, Thimóteo, Cristiane, Bruno, Marco Antônio, Dora, Joelma, Carla, Daisy e Ingrid, pelas angústias e alegrias divididas.

  Aos professores do Departamento, em especial, àqueles que tive a oportunidade de conhecer deste as etapas de seleção: os professores Igor Gastal Grill, Horácio Antunes e Álvaro Pires e demais professores das disciplinas, Sérgio Ferretti, Marcelo Carneiro, Paulo Keller.

  À minha orientadora, professora Mundicarmo Ferretti pela paciência e troca de ideias, e também à banca avaliadora, composta, como na etapa de Qualificação, pelas professoras, Glória Correia e Sandra Nascimento.

  Às meninas da secretaria do Departamento: Mary, Soraya e Rosana, pela atenção e cuidado prestados. À Silvana e Ivone, funcionárias do Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM), sempre muito atentas e cuidadosas com minhas solicitações. À Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), pelo financiamento de nosso trabalho. Agradeço, mais do que tudo, a Deus, que sempre está comigo, nas horas

  

Embora fosse bastante amplo o salão do Tribunal,

com largo espaço reservado ao público, desde

cedo já era difícil encontrar um lugar nas galerias.

Um senhor chegou a observar que o auditório

estava tão cheio que ali não cabia mais uma

bengala. E como o calor abafava, a despeito das

janelas abertas sobre a rua, quase toda gente

procurava abanar-se, mesmo com o chapéu ou a

folha de jornal dobrado, e isto acentuava ainda

mais a atmosfera nervosa do auditório, com os

movimentos das mãos e a expectativa do julgamento, patente em cada semblante... RESUMO Estudo de caso sustentado em uma análise qualitativa dos Autos do Processo-crime movido, entre os anos de 1876 e 1877 na cidade de São Luís, contra a aristocrata e escravocrata maranhense Anna Rosa Vianna Ribeiro, agraciada, em 1884, com o título de Baronesa de Grajaú. Exercício a partir do qual procuramos examinar, sobretudo as circunstâncias que levaram um integrante das classes dominantes de uma sociedade amplamente identificada com a exploração do trabalho escravo, a ser submetida a um procedimento jurídico, sob a acusação de maltratar e, consequentemente, levar à morte um escravo seu menor de idade. Caso este que nos possibilitou perceber alguns ângulos acerca do caráter tenso, conflituoso e multifacetado que marcou as relações estabelecidas entre os ditos senhores e escravos, assunto sobre o qual tem se debruçado muitos estudiosos da escravidão no Brasil e que nos fez questionar a própria extensão da arbitrariedade e autoridade do poder senhorial, enquanto única instância de governo da massa escravizada, particularmente, no Maranhão da segunda metade do século XIX. No interior desta proposta, a necessidade de compreender tanto a noção de crime para o contexto em evidência quanto a dinâmica do sistema jurídico da época, sobretudo no que tange à sua leitura acerca da condição social do elemento servil. Palavras-chave: Sociedade escrava. Crime. Autos do processo-crime. Relação senhor x escravo.

ABSTRACT This case study is supported by a qualitative analysis of the Records of Criminal Proceedings during the period from 1876 to 1877 in São Luís, against the aristocrat and enslaver from Maranhão, Anna Rosa Vianna Ribeiro, who was honored in 1884 with the title of Baroness of Grajaú. Through this analysis, we will try to explain what circumstances led that woman, from a ruling class in a slave society, to be subjected to a court case, under the accusation of ill-treating and killing one of her minor slave. This study allowed us to realize some tense, conflicted, multifaceted and outstanding character between the masters and slaves, subject which has been theme of many scholars interested in Brazilian slavery, and made us think of the master‟s arbitrary and authority power as the only instance of government of an enslaved mass, particularly in Maranhão in the second half of the nineteenth century. Therefore, from this proposal, there is the necessity to understand the concept of crime as much as the dynamics of that legal system, especially, the social condition of those slaves. Key-words: Slave society. Crime. Records of criminal proceedings. Relationship between master and slave.

  SUMÁRIO

  1 INTRODUđấO ...................................................................................................... 9

  1.1 O campo de pesquisa ......................................................................................... 9

  

1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais ................................... 10

  

1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa ....................... 13

  

1.4 Uma metodologia de pesquisa: o estudo de caso com base documental ......... 22

  

2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO ........................................ 25

  

2.1 A noção de crime numa sociedade escravista ................................................. 35

  

2.2 O sistema jurídico da época .............................................................................. 45

  

3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA ..... 54

  

3.1 Os autos de exame de corpo de delito ............................................................ 59

  

3.2 Alegações da defesa: o papel do Dr. Francisco de Paula Belfort ....................... 71

  

3.3 As argumentações da acusação ....................................................................... 78

  

3.4 O desenlace do processo .................................................................................. 82

  

4 OUTRAS INTERPRETAđỏES ............................................................................. 88

  

4.1 Liberdade à imaginação: olhares da literatura ................................................... 89

  

4.2 Formadores de opinião pública: a fala dos jornais ............................................ 99

  

5 CONSIDERAđỏES FINAIS.................................................................................. 112

  REFERÊNCIAS .................................................................................................... 115 ANEXOS ............................................................................................................... 120

1 INTRODUđấO

1.1 O campo de pesquisa

  A recorrência ao uso de fontes documentais para a elaboração deste trabalho, com toda certeza resulta da forte influência que a graduação em História teve em minha vida. Os primeiros passos para o manejamento de materiais desta ordem, embora bastante atrapalhados, chamaram mais e mais minha atenção, pois, a partir deles, tive oportunidade de analisar uma realidade social afastada temporalmente da nossa. Falo em termos temporais devido mesmo à dedicação que dispenso, sobretudo à segunda metade do século XIX, período delineado em meu trabalho monográfico e atualmente em minha dissertação.

  As frequentes idas aos arquivos, principalmente ao Arquivo Público do Estado do Maranhão, me permitiram e ainda permitem acesso amplo a uma série infindável de documentações que muito têm a dizer, não apenas sobre o passado, mas à maneira como vivenciamos nossas instituições sociais contemporaneamente.

  E, mais do que a busca, o encontro com o material adequado para os fins de uma pesquisa, significa para o pesquisador o estar de frente com um mundo de possibilidades explicativas às quais dependem substancialmente do seu potencial de sensibilidade e do estar atento ao não dito pelo documento.

  Inicialmente, minhas incursões pelos arquivos da cidade centraram-se na busca de jornais com os quais pretendia realizar – com base no projeto original – um levantamento que me permitisse refletir sobre as possíveis vozes de um segmento específico da sociedade ludovicense oitocentista, vozes estas que pareciam dissonantes em relação às representações que se construíram em torno deste segmento. Vasculhando os materiais para o desenvolvimento deste trabalho e, principalmente, seguindo sugestões de minha orientadora, tive acesso a um documento que muito chamou minha atenção e que trata de um processo-crime a que foi submetido um membro da aristocracia da Província do Maranhão, trabalho este já transcrito desde 2009 com o apoio do Ministério Público Estadual em comemoração ao patronato do então promotor público que participou do processo, o Dr. Celso Magalhães. pesquisa. Já não refletiria mais sobre os discursos marginais às representações acerca do ideal de feminilidade burguês e, embora me concentre no mesmo plano espaço-temporal da proposta anterior, minha perspectiva analítica tornou-se mais localizada, uma vez que voltada para o estudo de um caso criminal que teve grande repercussão na São Luís da década de 1870 e que trata do processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, a futura Baronesa de Grajaú.

  A princípio, as ideias que giravam em torno da maneira como desenvolver um estudo com base nesta documentação pareceram incipientes e muito vagas, de maneira que, somente a consciência de que tal material daria subsídios para compreender mais uma entre tantas das facetas de uma realidade social tão tensa e conflituosa como é o caso da sociedade ludovicense da segunda metade do século XIX, me fez buscar mecanismos para que a mesma se efetivasse.

  A leitura e releitura das quase 700 páginas transcritas do processo-crime movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro renderam muitas idas ao Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM), local que também tive acesso a um montante considerável de bibliografias que, se não chegam a tratar diretamente do caso, puderam contribuir significativamente para sua reflexão.

  E, embora tenha frequentado com mais assiduidade o Arquivo Público do Estado, seria impossível me limitar a este campo de pesquisa, de forma que foi essencial buscar outros documentos que viessem a subsidiá-la, materiais estes encontrados no Arquivo Público do Tribunal de Justiça, no próprio Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão e nas Bibliotecas da UFMA, da UEMA e, em proporção bem menor, no anexo da Biblioteca Pública Benedito Leite.

1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais

  Sabemos que, embora situadas numa área de conhecimento dedicada ao estudo da atividade humana no seu sentido mais diversificado, os métodos e as técnicas adotados pelas ciências sociais e históricas variam significativamente. O uso de documentos escritos, por exemplo, substância fundamental para a produção historiográfica, nem sempre foi ou está vinculado aos métodos empregados pelas ciências sociais. Isso talvez esteja relacionado ao que o sociólogo alemão Norbert alienação do sujeito. Uma das maneiras que o autor utiliza para analisar estas relações ele encontra na perspectiva de tempo, instância a partir da qual, segundo reforça o sociólogo, pode ter tratamento diferenciado quando trabalhado pelo cientista social – o sociólogo em particular – e pelo o historiador ou o etnógrafo, por exemplo. Partindo desta prerrogativa, o autor considera ser mais comum entre os estudos dos sociólogos uma atenção com o tempo presente e, consequentemente, com a curta duração, deixando em aberto, ou para um segundo plano, uma projeção de caráter processual mais amplo.

  Contudo, mesmo não sendo apresentada como método procedente do campo das ciências sociais, a coleta de documentos de arquivos, que sustenta não apenas esta pesquisa, mas tantas outras já realizadas por outros estudiosos, não se furta em ser tomada de empréstimo para análises neste campo do saber. E como nos fala Jean-Claude Combessie, pode ser considerada “um ponto essencial de muitas pesquisas sociológicas e um método a ser empregado desde o início, antes mesmo da exploração do campo” (2004, p.23).

  No caso específico deste estudo, o uso de documento escrito é a pedra de toque de toda a pesquisa já que calcada na análise do processo-crime tramitado contra Anna Rosa Vianna Ribeiro entre os anos de 1876-1877. O uso de tal documentação exige, portanto, uma série de cuidados, devido, sobretudo à distância em relação ao tempo em que foi produzido/registrado. Nesse sentido, a reflexão baseada em materiais de tal dimensão difere em relação ao, digamos, método de observação participante ou de uma entrevista (técnicas acentuadamente exploradas nas ciências sociais) de maneira que a própria estada no campo de pesquisa, neste caso particular, nos arquivos, requer uma lógica de tratamento com os dados um tanto quanto distinta em relação a estes outros procedimentos. Sendo assim, a análise de documentos escritos deve pôr em discussão não apenas o conteúdo nele registrado, mas principalmente sua própria credibilidade, o que nos levará a colocar em evidência, questões tais como as sugeridas por Uwe Flick: “Quem produziu este documento? Com que objetivo e para quem? Quais eram as intenções pessoais ou institucionais com a produção e o provimento desse documento ou desta espécie de documento? (2009, p.232).

  A análise qualitativa do material coletado deve atentar, portanto, ao

  1

  contexto em que foi produzido sempre levando em consideração que o mesmo

  2

  deve ser visto como mais uma versão de uma dada realidade , quesitos que exige do pesquisador rigorosa vigilância metódica, embora se reconheça que o exercício interpretativo do observador de alguma forma interfere na transformação do objeto analisado.

  Mais do que uma fonte escrita, o conjunto dos Autos do Processo-crime da Baronesa de Grajaú, figura como um material de ordem jurídica, fortemente permeado de termos bem específicos da área e de cujo vocabulário deve ser compreendido com o mínimo de anacronismo possível. É bem verdade que utilização de documentos com tal característica por algum tempo foi visto com certa reserva entre os pesquisadores, uma vez que eram percebidos como produto da classe dominante. No entanto, à medida que foi se ampliando o campo de estudos centrados na análise da relação entre escravidão e violência, gradualmente os documentos jurídicos passaram a assumir maior relevância enquanto dados capazes de demonstrar mais um ângulo de uma realidade social específica.

  O conteúdo destes documentos permite traçar perfis baseados nas estatísticas de agressões físicas, homicídios, furtos, rebeliões que revelaram panoramas os mais variados sobre a luta pela resistência escrava à dominação senhorial. O problema é que muitos destes estudos visualizavam crimes cometidos por escravos, não figurando estes, de um modo geral, como vítimas diretas dos delitos, resultado mesmo da maneira dicotômica de como foi tratada tradicionalmente a relação senhor/escravo. Diferente de nossa pesquisa, que procura investigar um crime cometido contra um escravo menor de idade, tendo como ponto de partida a acusação conferida à sua respectiva senhora, acontecimento ocorrido na segunda metade do século XIX, momento em que começavam a se difundir com maior intensidade, os ideais abolicionistas e republicanos tanto num plano nacional como na tradicional capital da Província do Maranhão. Embora as abordagens teóricas feitas acerca da crueldade da exploração do sistema escravista tenham grande relevância para esta pesquisa, 1 este processo-crime chama a atenção também porque leva ao banco dos réus um membro influente da aristocracia ludovicense numa época em que se encontrava fortemente enraizado na mentalidade coletiva a recorrência às práticas de violência contra escravos como mecanismo de controle social.

  A partir da análise desta documentação nos será viável reconhecer, por exemplo, não apenas os traços de crueldade atribuídos a um senhor contra seu escravo, neste caso particular, de Anna Rosa Vianna Ribeiro contra seu escravo Innocencio, o que fica bastante evidente no conteúdo dos dois corpos de delito que constam no inquérito policial, mas também registrar imagens de um cotidiano povoado de gestos de ameaça, de resignação e mesmo de conivência entre senhores e escravos, o que parece ficar explícito quando uma escrava da senhora Anna Rosa alega não ser esta a autora dos maus tratos cometidos contra o escravo.

  3 Mais do que um caso de sevícia cometida contra um escravo, os Autos

  do Processo-crime da Baronesa de Grajaú propiciam revelar a própria maneira como o judiciário costumava ler acontecimentos desta natureza, circunstância que nos possibilitará entrever um poder que, se por um lado poderia pouco discordar ou desamparar a exploração senhorial, por outro também limitava este tipo de exploração, fato comprovado pela própria denúncia ministerial feita contra a aristocrata.

1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa.

  Em 13 de novembro de 1876 um rumoroso crime repercutiu na cidade de São Luís do Maranhão, e desde então tornou-se suscetível às mais variadas interpretações não apenas entre os jornalistas da época – os quais o exploraram em suas mais diversas nuances – mas também entre os memorialistas, literatos e pesquisadores interessados senão apenas em descrevê-lo ou dele relembrar, tecer análises que contribuíram para compreender a atmosfera social que lhe serviu de cenário.

  Trata-se de um crime de homicídio cometido contra um escravinho – tal como é muitas vezes designado nos autos – de aproximadamente 8 anos de idade, chamado Innocencio, cuja a acusação foi atribuída a um membro das elites da Província, estando talvez aí a peculiaridade deste fato quando sabemos que, por se tratar de uma sociedade escravista, foi se consolidando uma lógica moralista pouco ou nada estranha à exploração mais vil contra os negros africanos e seus descendentes por aqueles que se atribuíram o direito de sujeitá-los, os ditos proprietários ou senhores de escravos, exploração esta, por sua vez, amparada por um legislativo amplamente consonante, mas também ambíguo na relação com esta instituição.

  4 A acusada, Anna Rosa Vianna Ribeiro , foi submetida a todo um processo

  criminal altamente constrangedor para sua posição social, que evoluiu da investigação policial, corpo de delito, denúncia, defesa, interrogatório da acusada nas fases policial e judicial à inquirição de testemunhas, impronúncia, fase recursal, culminando com a sentença absolutória. Todas estas etapas foram documentadas e encontram-se transcritas, como mencionado anteriormente, desde 2009 com o apoio do Ministério Público do Estado do Maranhão. Este conteúdo servirá como importante fonte de análise para compreender a dinâmica das relações sociais quando da tramitação do processo-crime movido contra a futura Baronesa de Grajaú, buscando refletir, a partir deste caso particular, sobre a prática de crimes cometidos contra escravos, sobretudo quando tais delitos são atribuídos a seus respectivos proprietários, propondo demonstrar assim mais uma dentre tantas facetas de uma realidade social escravista tal como é o caso de São Luís do Maranhão ainda na segunda metade do século XIX, configurando este o principal problema de nossa análise.

  Daí a preocupação em questionar: Qual a noção de crime numa sociedade escravista? Como se caracterizava o sistema jurídico da época? Quais as possibilidades explicativas para a compreensão da acusação de um membro da aristocracia, quando sabemos tratar-se de uma sociedade amplamente desigual? Que mecanismos foram operados para que se alcançasse a absolvição da ré? Quem eram as pessoas envolvidas no processo, entre acusadores e defensores? 4 Haveria condições para que fosse diferente o resultado deste processo? E mais,

  

Optamos por utilizar o nome da futura baronesa no original. Com base no trabalho desenvolvido

pelo jurista maranhense José Eulálio Figueiredo de Almeida, Anna Rosa Vianna Ribeiro nasceu na

freguesia de Codó, Província do Maranhão, era filha do comendador Raimundo Gabriel Vianna e de

Dona Francisca Isabel Lamagnere, mulher de muitas posses nesta região. Também era esposa do teria sido o homicídio cometido contra um escravo o que mais importava neste libelo? Estas, bem como outras possíveis indagações ajudarão a trilhar o caminho a ser percorrido por este estudo cuja justificativa deve-se à sua relevância sócio-histórica, uma vez que tratar-se de um acontecimento a partir do qual se possibilitou e ainda possibilita discutir não apenas o exercício institucional jurídico da época como também nos é dada a chance de analisar as relações de poder articuladas pelos atores envolvidos neste processo-crime. Vale considerar que o produto destas discussões pode ser bastante proveitoso para observar até que ponto os elementos operados nesta querela jurídica podem ser percebidos em circunstâncias mais contemporâneas, demonstrando, com isso, que muitos dos elementos característicos de nossa organização social advém de situações comuns a um passado não tão distante de nós.

  Sendo assim, dois componentes sociais servirão como pano de fundo para nossa análise: primeiro, a escravidão enquanto instituição social radicalmente repressora cujas representações construídas em torno dela encontram-se profundamente arraigadas na mentalidade social do período que ora nos ocupa e, em segundo lugar, as tramas políticas da época, às quais foram dinamizadas por personagens cujos interesses partidários e pessoais nos fazem sugerir a não isenção de algumas delas no caso em evidência.

  Boa parte de nosso referencial teórico, como não poderia deixar de ser, enquadra-se na discussão em torno da multiplicidade de estudos dedicados ao debate sobre a escravidão, cuja considerável produção científica nos permite entrever três grandes ramos explicativos em meio às milhares de interpretações que foram elaboradas em torno deste tema. Uma delas remete a uma longa tradição entre os estudiosos que defendem sua forte orientação econômica, perspectiva a partir da qual foi-se fortalecendo a noção de que a dominação e a exploração dos escravos era fundamental para a manutenção do sistema escravista.

  Tal interpretação deu margem para a percepção de dois grandes segmentos sociais altamente bem definidos: de um lado figuravam os proprietários

  5

  de terra, donos dos meios de produção, e de outro, os escravos , fonte de trabalho compulsório. Entre estas duas categorias a constatação do seu caráter fortemente repreensivo e inflexível. A possibilidade de compreensão das relações estabelecidas entre estes grupos sociais era, portanto, bastante limitada já que ambas constituíam categorias rigorosamente separadas e cristalizadas, não permitindo perceber a contento outras configurações sociais para além desta classificação.

  Em contrapartida, uma outra linha interpretativa procurou defender os aspectos ideológicos e sociais da escravidão postulando a necessidade de compreender este sistema a partir de seus traços mais relativizados, abarcando não somente a questão do conflito – ou indo para além dele – mas também da negociação em suas mais diversas nuances. Um dos efeitos desta proposta de pensamento permite inclusive a elaboração de teses – inauguradas pelo o sociólogo pernambucano Gilberto Freire – que apostam na existência de uma suavização das relações senhor/escravo.

  Estudos mais recentes, porém, apontam um outro reflexo alcançado pela historiografia da escravidão, pesquisas nas quais se propõe entender o indivíduo escravizado como sujeito atuante no processo histórico, permitindo tal perspectiva teórica não somente ir além da tradicional leitura historiográfica que concebe de maneira rigidamente hierarquizada a relação de dominação que envolvia sujeitos escravizados e senhores, mas também demonstrar as milhares de faces tomadas e permeadas por e nesta relação. Debate que tem como um de seus mais expressivos ingredientes o estudo das diversas formas de resistência escrava bem como as variadas estratégias de controle dos cativos adotadas pelos escravagistas como meios de manter uma autoridade não tão absoluta como estamos acostumados a saber.

  Inseridos neste campo de debate podemos mencionar o livro

  Ser escravo

no Brasil (2003) da historiadora Kátia Mattoso, obra em que busca desvendar as

  estratégias de dominação e poder articuladas entre senhores e escravos, reafirmando a possibilidade deste último manifestar-se como agente social no ambiente em que vivia, acreditando que o negro adquiriu – quando de uma certa aceitação de sua condição no corpo social – capacidade de ajustar-se ao ambiente de exploração senhorial e dele tirar proveito para si.

  Outro importante trabalho desenvolvido no interior desta linha interpretativa encontramos no livro do historiador João José Reis intitulado

  

Negociação e conflito (1989), onde critica estudos que veem a escravidão como

  um sistema absolutamente rígido, pontuando que “os negros não foram nem vítimas nem heróis o tempo todo, se situando na sua maioria e na maior parte do tempo numa zona de indefinição entre um e outro polo” (REIS, 1989, p.7). Perspectiva que para este autor, aponta para a necessidade de que os negros escravizados fossem percebidos para além da noção de que eram força de trabalho, engrenagens de uma produção econômica. Também constitui importante exemplo desta abordagem o trabalho do historiador Sidney Chalhoub no livro

  Visões da liberdade (1990),

  através do qual analisa as últimas décadas da escravidão na Corte Imperial a partir da análise de ações de liberdade, processos criminais e civis, destacando a visão e percepção dos escravizados sobre o cativeiro e a liberdade, assinalando que, à diferença do que pregava a „teoria da coisificação‟ defendida por Fernando Henrique

6 Cardoso e Jacob Gorender , por exemplo, os escravos eram dotados de

  sentimentos que os permitiam articular mecanismos para mitigar o peso da autoridade senhorial.

  Como parte integrante das pesquisas acerca da multifacetada resistência escrava, a questão da criminalidade aparece como ponto proeminente nestas

  7

  discussões , pois revela aspectos outros das relações estabelecidas entre senhores e escravos, notadamente quando se possibilita restituir, a partir do estudo das fontes criminais, não somente um evento criminoso, mas também o cotidiano das experiências sociais que lhe serviram de cenário, tal como fez a historiadora Maria Helena Machado no livro

  Crime e escravidão (1987). Numa perspectiva temática

  semelhante, a historiadora Sílvia Hunold Lara no livro

  Campos de violência (1988)

  propôs examinar como a questão da violência marcou a relação entre os cativos e seus senhores demonstrando um cotidiano caracterizado por confrontos, acomodações e solidariedades múltiplas e diversas entre estes segmentos.

  Como temos dito, embora posicionadas em campos analíticos distintos, 6 tais teorias não deixam de compor em seu pano de fundo, reflexões pautadas na

  

Devemos pontuar que a crítica aos clássicos da produção acadêmica sobre a escravidão devem

também reconhecer a importância que os mesmo tiveram para os rumos tomados pelos estudos

  8

  relação entre violência e escravidão, de maneira que nenhuma delas desconsidera a possibilidade de sua manifestação. E como nos explica a pesquisadora Sílvia Hunold Lara:

  A visão suave e doce do cativeiro no Brasil a enxerga como exceção, fruto das paixões humanas, abusos logo cerceados. Os estudos comparativos acentuam seu grau maior ou menor, aqui ou alhures, sem nunca negar sua existência. As obras que se referem à crueldade dos castigos descrevem-na como necessária, frutos dos interesses econômicos de farta e imediata remuneração do capital. Vista como intrínseca à exploração que se apropriava não só do excedente mas do próprio trabalhador, localizada nos castigos excessivos ou na crueldade do tráfico, a violência e suas diversas manifestações têm sido descritas, apontadas ou denunciadas por diversos autores (LARA, 1988, p.19).

  Muito se tem refletido sobre atos violentos no período colonial e imperial brasileiro, seja pelo simples emprego de castigos pelos escravagistas, seja pela resistência dos escravos à dominação senhorial, seja por conflitos entre os próprios escravos e outros estratos sociais subalternos. Por isso, é sem fugir desta perspectiva, que nossa pesquisa centrará esforços para compreender, de maneira bem específica, mais uma das faces dessa violência: a criminalidade contra sujeito s escravizados e, consequentemente, a limitação do poder senhorial pelas instâncias

  9 públicas .

  Ao expor estas principais leituras sobre a escravidão não pretendemos com isso discutir seu valor explicativo nem queremos nos posicionar a favor ou contra uma destas linhas interpretativas. Nosso exercício implica muito mais na tentativa de com elas dialogar, visto que, cada uma a seu modo, traz contribuições significativas para se entender o caráter tenso, conflituoso e controverso de uma sociedade calcada na ampla e tornada obrigatória submissão de homens por outros homens. Sendo essencial, no bojo desta análise, problematizar que, reconhecida a polissemia de atitudes e negociações, torna-se impossível tratar de escravos e senhores como dois segmentos sociais essencialmente homogêneos e antagônicos, figurando „o escravo‟ como vítima absoluta no interior deste processo e „o senhor‟ 8 como detentor inconteste desta força de trabalho. Existiam, no âmago desta lógica

  

Por questões terminológicas devemos atentar que é mais adequado utilizarmos o termo sevícia ao

9 invés de violência, para analisar o tempo em relevo.

  

Como não poderia deixar de ser, é amplo o debate historiográfico acerca da problemática de

domínio da escravaria e mais especificamente da intervenção do poder público na tutela do cativo.

Alguns autores como a historiadora Leila Algranti consideram que, principalmente no século XIX social, relações muito mais conflituosas e complexas do que supõe a simples existência de grupos marcados por uma acirrada desigualdade.

  Ao nos propormos estudar especificamente uma acusação de crime cometido contra um cativo não poderemos analisá-lo em profundidade se adotarmos uma postura monolítica. Por se tratar de uma instituição que, embora nunca fuja de suas linhas mestras, seja bastante suscetível à tomada das mais diversas feições que variam conforme o tempo, o espaço e as características que assume em cada situação social, os estudos sobre esta temática devem estar sempre atentos à multiplicidade de elementos que possivelmente venham elucidá-lo com maior propriedade.

  Por isso, somado às leituras dos estudos mais recentes sobre a escravidão e que citamos anteriormente, não podemos deixar de considerar outros tantos trabalhos que contribuíram significativamente para trilhar e ampliar os caminhos de análise acerca deste tema a nível nacional, entre estes estudos podemos citar os de Emília Viotti da Costa que em seu livro

  Da senzala à colônia

  analisa a economia cafeeira oitocentista reconhecendo tanto a manifestação de medidas coercitivas de manutenção senhorial quanto uma espécie de humanização da relação senhor/escravo em momento de crise econômica. Numa perspectiva

  10

  semelhante, temos os estudos de Maria Sylvia Carvalho Franco da qual defendia que as relações estabelecidas dentro do latifúndio eram marcadas por elementos contraditórios que mesclavam uma complexa síntese entre benignidade e violência não sendo possível acentuar uma destas relações. E, mesmo estando suas análises

  11

  situadas num tempo e num espaço diferentes ao de nossa pesquisa, tais estudos trarão elementos explicativos esclarecedores para este trabalho. Autores que asseveram o recurso dos senhores à violência física e às punições corporais como formas de controle e manutenção do sistema escravista também assumem importante relevância nesse debate, cabendo, neste caso, mencionar os trabalhos desenvolvidos por Octavio Ianni, Suely Robles Reis de Queiroz, Fernando Henrique

  12 10 Cardoso, Roger Bastide e Florestan Fernandes , trabalhos cuja a ênfase das 11 Em artigo intitulado Organização social do trabalho no período colonial.

  

O evento a ser analisado exige discussão sobre uma outra categoria de escravos, ou seja, o

escravo urbano da segunda metade do século XIX, visto que o crime submetido à análise ocorreu na análises recai, de modo geral, nas relações de produção escravista, figurando o escravo neste processo apenas como um objeto da atividade produtiva, reforçando a ideia de coisificação do cativo.

  Baseado no uso destes e de outros possíveis materiais, nosso estudo foi distribuído em 3 capítulos, além da introdução e das considerações finais, assim dispostos: no primeiro deles, A atmosfera social à época do processo, de ordem mais teórica, buscamos desenvolver um resgate histórico-social destacando não apenas o período em que ocorreu o crime, mas também descrevemos os elementos que o caracterizaram. Exercício que, consequentemente, exigiu uma discussão em torno da noção de crime para a sociedade em relevo, já partindo da constatação – com a qual o sociólogo francês Émile Durkheim trouxe significativa contribuição – do caráter sócio-histórico da leitura que se faz desta categoria. Outrossim, o estudo da concepção de crime foi acompanhado de uma análise sobre o sistema jurídico característico desta organização social, que serviu de cenário para a investigação do caso criminal, objeto desta pesquisa.

  No segundo capítulo,

  Um olhar sobre os Autos do processo-crime da

Baronesa, foi feita uma análise sustentada predominantemente no documento em

  suas etapas principais para compreender como os evolvidos no inquérito judicial, entre defensores e acusadores, se utilizaram das estratégias baseadas nos referenciais institucionais da época para orientar suas posições diante do processo. Neste caso foi necessário tratar primeiramente dos dois corpos de delito realizados em Innocencio, e que compõem os autos. Baseado no conteúdo destes exames e somado às alegações das testemunhas e informantes, foram orientadas as posições tanto do promotor público Celso da Cunha Magalhães, cuja atuação foi bastante expressiva uma vez que colocou no banco dos réus uma filha da aristocrática e escravista sociedade ludovicense, quanto do advogado de defesa da futura baronesa, o Dr. Francisco de Paula Belfort. Sustentando-nos na composição das afirmações desenvolvidas por ambas as partes, refletiremos sobre os elementos que culminaram no desenlace do processo, ou seja, na absolvição de Anna Rosa.

  Concretizada a análise alicerçada no conjunto dos autos do processo, prosseguiremos no terceiro capítulo, intitulado

  Outras interpretações, explorando algumas outras leituras que abordaram, à sua maneira, este processo criminal, ou como pano de fundo de um enredo literário para se compreender as desigualdades manifestas no sistema escravista como assim o faz o escritor Josué Montello em Os

  

Tambores de São Luís (1985) ou como resultado de uma breve menção dos fatos

  oriunda de conversas, recordações e memórias registradas em livros como o de Dunshee de Abranches em O cativeiro (1992) e O meu próprio romance (1996) do escritor Graça Aranha. Somada às fontes literárias temos também as falas dos jornais enquanto meio de formação de opinião e instigador da tomada de medidas eficazes para a resolução do trâmite pelas autoridades.

  À luz da análise dos elementos sociais característicos deste período e com base nas fontes que sobre eles obtivemos, esperamos trazer mais uma contribuição para a compreensão de um acontecimento que por si só carrega uma série de indícios que refletem uma dinâmica social cujos traços essenciais são assentados numa desigualdade social exacerbada que sobrevive, em muitos de seus aspectos, e embora com outras roupagens, em nossa realidade social atual.

  Enquanto recurso analítico essencial para esta pesquisa,

  os Autos do

Processo-crime da Baronesa de Grajaú nos possibilitaram acesso não somente

  às peças criminais etapa por etapa, mas também deram margens para analisá-lo em suas entrelinhas, permitindo-nos um exercício de interpretação mais amplo do que nos oferece a simples leitura de seu conteúdo. Tal constatação não nos permite, entretanto, fazer divagações aleatórias ou até mesmo romantizadas sobre o caso em relevo, requer sim e sempre um olhar mais atento e cauteloso já que também

  13 alvo bastante suscetível a distorções .

  A dificuldade de acesso a um conjunto mais amplo de informações que poderiam ser obtidas através de uma bibliografia mais específica e de fontes documentais que as subsidiasse, hora ou outra pode deixar em suspenso alguns pontos de compreensão que nos permitirão apenas construir em torno dela algumas hipóteses, isso porque o distanciamento espaço-temporal existente entre a pesquisadora e o caso a ser estudado, somado, sobretudo ao uso de fonte 13 documental – matéria-prima dos historiadores – ainda é assunto bastante polêmico e

  

Dizemos isto por conta da própria leitura feita pelo juiz José Eulálio Figueiredo em relação a este debatível no campo das ciências sociais, sendo, portanto, tarefa delicada traçar, a partir dos ditames de sua metodologia, um esquema analítico que seja tão contundente com a forma que esta área de conhecimento se propõe a refletir sobre a coleta e a maneira de trabalhar com os dados.

  Uma observação a mais. Devemos salientar não ter sido nosso objetivo demonstrar a aplicabilidade de teorias gerais acerca da dinâmica da dominação característica da instituição escravista maranhense ao tratar de um único caso no qual suas feições primeiras remetem apenas a mais um exemplo, entre milhares, da manifestação do peso da autoridade senhorial. Ele nos revela mais que isso, é um emaranhado de conflitos que apontam para a problematização desta mesma autoridade, permitindo-nos observar as diversas faces tomadas pela relação entre senhores e escravos e do qual o crime da futura Baronesa de Grajaú é apenas mais um episódio que, claro, não se encerra com nossa interpretação.

1.4 Uma metodologia de pesquisa: o estudo de caso com base documental.

  Para esta pesquisa utilizaremos como um dos principais procedimentos o método de estudo de caso com base documental, uma vez que se trata de estudar, a relação entre criminalidade e escravidão, a partir de um caso particular, qual seja, o crime da futura Baronesa de Grajaú, a ser investigado, sobretudo nos Autos do

14 Processo-crime (1876-1877) a partir de uma análise qualitativa do mesmo. Isso

  levando em consideração o que observou Uwe Flick ao apostar no entendimento de que os documentos devem ser analisados dentro do contexto em que foram produzidos, já que eles “representam uma versão específica de realidades construídas para objetos específicos” (2009, p.234). Ele aconselha ainda que quando optamos pela utilização de determinado documento numa pesquisa devemos sempre nos questionar em que atmosfera social ele foi produzido, quem o produziu e com quais objetivos (FLICK, 2009, p. 234-235).

  Com base nesta prerrogativa e como dissemos anteriormente, será prudente investigar não apenas a veracidade deste delito, mas também no que nele 14 pode haver de mais anedótico, quando sabemos que muitas das opiniões foram formadas ou até possivelmente distorcidas sobre este caso no decorrer do tempo. É válido atentar também aos trâmites referentes à própria transcrição dos autos do processo somente ocorrida quando sua guarda passou do domínio do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (onde ficou há quase 35 anos) para compor o acervo do Memorial do Ministério Público do Estado do Maranhão.

  Como parte do conjunto de análise em torno do famoso crime da futura baronesa optamos também por comentar o processo da então recém alforriada Amélia Rosa, cujos autos foram transcritos pela historiadora Jacira Pavão da Silva e constam em livro organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti. Um dos pontos fundamentais presentes nesta obra está relacionado à menção feita a respeito da vinculação ou de alguma aproximação entre estes dois casos, dado que, conforme interpretação sugerida no final do processo na argumentação do Dr. Aristides Augusto Coelho de Souza, tudo indica que com a efetivação do processo de Amélia Rosa intuía-se mais do que punir a ré e suas companheiras pelo tratamento realizado ou pelas „sevícias‟ dispensadas a uma escrava de nome Joanna, desejava-se antes apresentar como cruéis os que acusaram Dona Anna Rosa Vianna Ribeiro de crueldade contra os filhos de Germiniana e exterminar a pajelança que atraía tantos negros (FERRETTI, 2004, p.14), sendo este um elemento essencial que contribuiu para o estudo da relação entre estes dois processos.

  Outrossim, faremos uma abordagem qualitativa de outros tantos documentos tais como o Livro de crimes e fatos notáveis (1873-1881), o Código de Processo Criminal do Império, as Coleções de leis, decretos e resoluções da Província do Maranhão e de fontes jornalísticas, dado que a imprensa da época, assim como nos explica Almeida, explorou intensamente o fato reforçando opiniões contra ou a favor da acusada. Além das fontes jornalísticas, serão investigadas fontes a partir das quais o crime e o processo da Baronesa foram recriados literariamente. Nesta perspectiva, podemos citar, sem ordem cronológica, o livro Os Tambores de São Luís de Josué Montello que teve acesso direto aos manuscritos

  15

  do conjunto do processo ; Dunshee de Abranches no livro O cativeiro e Graça 15 Aranha em Meu próprio romance.

  É lúcido acrescentar que recorrer ao uso do método de estudo de caso não é tarefa fácil, uma vez que exige do pesquisador o estar atento, sobretudo a um dos maiores riscos que pode estar sujeito, qual seja, o de tentar verificar a veracidade de algumas teorias a partir do encaixe da mesma no desenvolvimento das proposições sobre o caso em relevo, como se o estudo deste servisse apenas para dar credibilidade a teorias já elaboradas. E, obviamente, não descartando a validade dos referenciais teóricos desenvolvidos sobre determinado tema, é necessário que o observador esteja muito mais atento aos próprios limites e configurações característicos de um caso particular que pretende examinar. Embora, o crime da senhora Anna Rosa Vianna Ribeiro não esteja em dissonância com a maneira como se representavam as instituições daquela época, não podemos perder de vista a peculiaridade que concerne a este fato.

2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO

  Não concerne a este estudo priorizar uma narrativa longa e minuciosa, baseada em noções cristalizadas, a respeito da dinâmica social característica da realidade ludovicense da segunda metade do século XIX. No entanto, também parece não haver sentido analisar um caso criminal ocorrido neste período sem levar em consideração os elementos institucionais que possivelmente orientaram as relações sociais de então, como se os atores sociais envolvidos nesta querela jurídica estivessem de todo desprovidos das influências dos discursos comuns para aquela realidade. Por isso, a abordagem que faremos a respeito do cenário social que constituiu pano de fundo para o andamento do processo-crime movido contra a futura Baronesa de Grajaú, propõe muito mais alargar os ângulos de visão que

  16

  poderão permitir uma leitura mais apropriada e coerente do fato em evidência do que enfatizar detalhes e mais detalhes de uma realidade tão tensa e conflituosa como é o caso da sociedade imperial brasileira e, num sentido mais particular, da tradicional sociedade ludovicense do período que ora nos ocupa.

  Uma multiplicidade de estudos interessados na reflexão dos mais vários aspectos constituintes da sociedade imperial brasileira da segunda metade do século XIX vem questionando uma estrutura explicativa que por muito tempo guiou a produção científica sobre o assunto. A principal crítica manifesta nestas abordagens considera que a tradicional interpretação pautada nos aspectos econômicos do sistema escravista: produção agrícola em larga escala nos latifúndios sustentada na mão de obra escrava para atender as necessidades do mercado externo, enquanto elementos que caracterizariam todo o período colonial brasileiro e que se estenderiam ao Império, fortaleceu uma aceitação considerável entre os pesquisadores a respeito do caráter estamental desta sociedade. A ênfase dada a tal tradição explicativa limitava um entendimento mais adensado acerca das várias faces tomadas pela relação senhor/escravo, tidos, teoricamente, como os dois principais grupos sociais antagônicos do período. Privilegiava-se nestas leituras o caráter cruel e violento do sistema escravista brasileiro, partindo de uma compreensão um tanto quanto truncada a respeito da maneira como as relações de desigualdade eram manifestadas entre estes grupos.

  Caio Prado Júnior – guardada e reconhecida sua perspectiva analítica e o tempo de sua escrita – um dos mais expressivos expoentes neste campo de debates, encontra na escravidão e em seu alto grau de exploração um dos componentes mais significativos da organização social colonial brasileira. Sua leitura economicista de orientação materialista histórica acerca do processo colonizador no Brasil, o faz analisar nossa formação social orientado por um esquema teórico baseado no tripé propriedade – monocultura – mão de obra escrava africana, a partir do qual prevalece a compreensão de que os laços estabelecidos entre senhores e escravos foram marcados por uma radical hierarquia na qual o escravo figurava como mero instrumento de força bruta, material, relação esta que não teve outro objetivo senão o de realizar uma vasta empresa colonial no Brasil (PRADO, 1999, p.341).

  O seu discurso a respeito do caráter compulsório da escravidão é tão forte que, mesmo mencionando a existência de outras configurações sociais comuns a este sistema – quando destaca as figuras dos homens livres pobres, agregados de senhores ou lavradores mais modestos – o faz ressalvando a peculiaridade das relações articuladas entre estes grupos. Em um dos trechos do livro

  Formação do

Brasil Contemporâneo (1999), Caio Prado abre espaço para discorrer, mesmo que

  momentaneamente, aspectos outros da organização social colonial ao considerar que este período:

  Constituí-se assim no grande domínio um conjunto de relações diferentes das de simples propriedade escravista e exploração econômica. Relações mais amenas, mais humanas, que envolvem toda sorte de sentimentos afetivos. E se de um lado estas novas relações abrandam e atenuam o poder absoluto e o rigor da autoridade do proprietário, doutro elas a reforçam, porque a tornam mais consentida e aceita por todos (1999, p.289).

  Sua conclusão a respeito da manifestação de outras formas de relações sociais para além daquela marcada pela exploração senhorial serve, portanto, apenas para que o autor assevere sua postura a respeito da sobreposição da primeira, dado que esses traços mais suavizados não representavam algo mais

  17

  expressivo do que a constatação acerca da total submissão do sujeito escravizado a outrem. A predominância do estudo acerca da dinâmica das relações de produção colonial, portanto, partem já da concepção de que existem dois grupos sociais antagônicos e hierarquizados movidos por relações de dominação e exploração.

  A atenção prestada até o presente momento a uma literatura dedicada a um período mais recuado em relação ao nosso tempo de análise da pesquisa, explica-se pela preocupação e importância que tais leituras têm para uma reflexão sobre a estrutura social característica da segunda metade do século XIX, período no qual se atem nosso estudo. Isso porque, parece ser comum entre os pesquisadores da área, a ideia de que não ocorreram alterações profundas nas estruturas sócio- econômicas da sociedade brasileira na transição da colônia ao império. Se houve, digamos, uma reorganização no âmbito político com a formação de partidos cuja distinção, a princípio, se estabelecia quanto ao interesse de separação ou não em relação à Coroa Portuguesa, a escravidão se manteve como uma das instituições mais expressivas no âmbito sócio-econômico, marcando um período reconhecido pela historiografia como de profunda instabilidade social.

  Conforme a produção científica sobre o assunto, ainda na segunda metade do século XIX o elemento servil figurava como principal instrumento de

  18

  exploração não apenas nas lavouras como também nas cidades . Acreditamos, via de regra, que a legitimidade desta exploração era reflexo de uma infindável produção discursiva que, desde os primórdios da chamada escravidão moderna, construiu, reforçou e manteve a noção de inferioridade do negro. Essas representações – delineadas nas falas dos cronistas, religiosos e estudiosos europeus – encontravam-se já bastante arraigadas na mentalidade imperial oitocentista brasileira, muito se escreveu sobre elas. E, sem intenções de alimentar um debate militante ou radical sobre o tema, somos levados a orientar nossa análise a respeito do crime cometido contra um escravo em São Luís do Maranhão, como 17 Tal viés interpretativo ganhará muitos adeptos no campo de estudo das humanidades.

  

Reconhecendo estes mesmos traços sociais podemos observar as contribuições de Celso Furtado em Formação Econômica do Brasil (2009) e Fernando Novais na obra Portugal e Brasil na crise

do Antigo Sistema Colonial (1777-1808) (1985), os quais apostam na supremacia das questões

econômicas e consequente exploração senhorial para explicar os elementos sociais constituintes do 18 período colonial. sendo mais um dos efeitos do reconhecimento dessa inferioridade e, consequentemente, do uso feito da legitimidade de sua exploração.

  Devemos acrescentar ainda que, a este período, a intensificação da propaganda abolicionista e republicana não somente na Corte Imperial Brasileira e adjacências, mas também em regiões afastadas a ela, como é o caso da Província do Maranhão, onde tais ideias disseminavam-se pelas vozes dos filhos das elites que tinham por costume levar seus filhos para formarem-se na Europa, berço do pensamento liberal, batia-se com a internalização da instituição escravista, ainda bastante viva nas atitudes da população, fossem proprietários, cativos ou homens livres pobres.

  Esta consideração fica bastante evidente em passagens de alguns livros de memórias nos quais temos oportunidade de acesso a registros, ainda que fortemente marcados de parcialidade, sobre o período. Este é o caso, por exemplo, de

  O cativeiro (1992), importante romance histórico do escritor maranhense

  Dunshee de Abranches no qual faz um retrato marcante acerca da escravidão negra no Maranhão. Num dos trechos desta obra ele descreve que:

  O regímen da escravidão embotara fundamente os corações. Os negros africanos viviam colocados abaixo dos animais domésticos nas casas onde serviam. Mal alimentados, curtidos de sevícias, não lhes era permitido terem descanso nem sono nem moléstias. Dia e noite labutavam rudemente, quer nos trabalhos do senhor, quer alugados para as obras públicas. O preto da canga em São Luís tinha em geral um aspecto monstruoso: forçado a carregar aos ombros toneladas e a servir de máquina de quebrar blocos enormes de cantaria, além de roído sempre pelas verminoses, tornava-se cambaio e apresentava o corpo coberto de hérnias... (grifos do autor, 1992, p.113).

  Passagens desse gênero encontramos espaçadas no decorrer de todo esse registro de memórias feitas pelo autor. Suas impressões sobre a realidade escravista em São Luís – resultado das coisas que lia, via e escutava na infância e adolescência – revelam um tempo em que a condição do escravo era bastante degradante, tensa e permeada de controvérsias, não houve um tempo que assim não fosse. Dizemos isto porque, conforme o próprio conteúdo destas memórias, as relações entre senhores e escravos, embora marcadamente hierarquizadas, eram

  19

  também permeadas por indícios de sentimentos outros que os de pura desigualdade e dos quais, a nosso ver, somente podem ser compreendidos no interior do sistema escravista já que faces desta mesma realidade. Formas de resistências mais veladas, relações afetivas mais proeminentes, silêncios, conivências, demonstram um ângulo de visão diferente daquele pregado por uma leitura sustentada puramente nos aspectos econômicos da organização social imperial brasileira. As tensões desta conjuntura social, assim, digladiavam-se ainda mais com a ampliação das influências das ideias de libertação dos escravos.

  Não queremos com isso reforçar uma linha de pensamento inaugurada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freire, que ao intentar definir uma identidade nacional brasileira, encontrou na miscigenação entre negros e brancos, um dos reflexos do afrouxamento das relações escravagistas. No entanto, não podemos deixar de considerar a relevância de suas argumentações, sobretudo por possibilitar um exercício de abstração que nos permite pensar a escravidão não de forma romântica ou dicotômica, mas diferenciada, onde a dinâmica destas relações ultrapassa a simples constatação do negro trabalhando no eito ou servindo como escravo de ganho nas cidades, sendo mecanicamente punido caso manifestasse alguma transgressão à ordem estabelecida. Esta relação existiu, afirmamo-la, no entanto, ela se mostra muito mais densa e complexa do que pregam os estudos mais tradicionais sobre a escravidão.

  O reconhecimento desta complexidade serve-nos, contudo, para reforçar a noção de que as diferentes facetas tomadas pela relação senhor/escravo não apaziguavam as tensões entre estes dois estratos sociais, pelo contrário, estudos

  20

  apontam que formas de resistência menos abertas partem do pressuposto de reconhecimento do grau de imposição da dominação senhorial, as relações se dinamizavam no interior dos mecanismos de controle social adotados por este sistema. Salientamos isso não apenas num plano estrutural, como marca de um esquema geral, mas também em termos mais específicos, mais localizados e alimentados pelo trato do cotidiano, questão que nos parece bastante evidente quando submetemos à análise um caso de sevícia cometida contra um escravo na

  

escravo que, conforme palavras de Dunshee, era fiel de raça e de sentimentos, preferindo “a servidão capital da Província maranhense na segunda metade do século XIX, objeto principal de nossa pesquisa.

  A ênfase que damos à questão da crueldade característica da escravidão ressalta não àquela que resulta de uma violência comum quando da aplicação de castigos aos negros ditos rebeldes, ou àquele que não cumpre a contento as funções designadas pelo seu senhor, não se trata também de discorrer sobre um dos reflexos da imposição senhorial que envolve uma forma de resistência direta resultante dos crimes que muitos negros cometiam contra seus senhores e demais algozes. A forma de violência que nos interessa aqui refletir envolve um ângulo específico, explícito num crime no qual a vítima, neste particular, é um escravo menor de idade cuja morte, conforme inquérito policial constante nos autos do

  21

  processo-crime, resultou direta ou indiretamente de maus tratos contra ele infligidos. Circunstância esta que culminou com a denúncia e julgamento de sua proprietária e nos revela dois pontos fundamentais: primeiro, a autoridade senhorial não era tão absoluta quanto prega a produção mais tradicional sobre o tema e, segundo, que esta limitação da dominação senhorial se encontrava, por exemplo, no direito que tinha o senhor de castigar seu escravo, porém, não de tirar-lhe a vida por este recurso, sob pena de punição, fato constante nas alegações dos autos do processo-crime da futura baronesa.

  Estamos na segunda metade do século XIX, já a este tempo os cativos reivindicavam perante a justiça direitos de representação, ainda que esta se manifestasse das maneiras as mais enviesadas possíveis. Isso porque, como escreve a historiadora Hebe Mattos de Castro, com a política emancipacionista houve uma tendência da legislação imperial de garantir “direitos” aos escravos (CASTRO, 1997, p.374). Direitos dúbios e restritos, o sabemos, mas que revelam contornos outros a respeito dos conflitos estabelecidos entre senhores e escravos, como assim o demonstra a historiadora Joseli Nunes Mendonça no livro

  Cenas da

abolição (2001), quando trata dos efeitos das leis emancipacionistas da escravidão

  • – Lei do fim do tráfico (1850); Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei do Sexagenário (1885) – nas atitudes dos escravos, o que lhe permite perceber as diversas maneiras que os cativos articularam para conseguir suas cartas de alforria, fosse
através de negociações diretas com seus senhores, fosse por meio da procura às

  22 instâncias jurídicas para que o objetivo se efetivasse .

  Na introdução deste trabalho descrevemos, grosso modo, as principais características do processo-crime que pôs em evidência não apenas um crime

  23

  cometido contra um escravo menor de idade , mas também o fato de que este mesmo crime tenha sido atribuído a um influente membro da aristocracia política e econômica de São Luís do Maranhão. Anna Rosa Ribeiro, futura Baronesa de Grajaú, foi submetida a todo um processo judicial que teve forte repercussão nos jornais, na opinião pública, nos livros.

  Como dissemos anteriormente, São Luís era uma região onde os traços de dominação senhorial eram ainda bastante vivos e alimentados por um discurso que concebia os africanos escravizados “como uma massa de seres embrutecidos, no limiar entre a animalidade e a racionalidade” e onde “feiúra, maldade, depravação e irracionalidade eram-lhes atribuídos” (FARIA, 2004, p.83).

  Vista a partir de sua estrutura econômica, a cidade, que até antes da segunda metade do século XVIII, vivia às margens da política mercantil de exportação, como explica a historiadora Jalila Ayoub Jorge Ribeiro, passa daí em

  24

  diante a integrar-se, mesmo que momentaneamente , ao conjunto da economia internacional como importante fornecedor de produtos agrícolas. Conforme a autora, tal transformação na estrutura econômica teve como um de seus reflexos o aumento 22 na importação de mão de obra escrava africana devido à demanda do mercado

  

Nos parece bastante útil mencionar um estudo desenvolvido pela historiadora Enidelce Bertin,

quando analisa uma categoria de negros chegados ao Brasil após o fim do tráfico e que, de certa

forma, oscilavam entre a condição de homens „livres‟ e tutelados. Livres porque resgatados do tráfico

por uma comissão mista estabelecida no Rio de Janeiro sob os auspícios dos interesses britânicos,

mas tutelados devido a interferência do Estado quanto ao controle desta população. Essa custódia

rendeu a estes segmentos uma experiência cotidiana semelhante à que viviam os demais negros

escravizados, não apenas em relação ao trabalho, mas também como eram vistos por aqueles que

arrendavam seus serviços (BERTIN, 2001, p.105). A questão é que, entendidos de sua condição, os

chamados africanos livres, reivindicavam o reconhecimento deste status frente às autoridades,

circunstância que permitiu à Bertin observar as formas de resistências por eles articuladas

cotidianamente para que tal finalidade fosse concretizada. Os exemplos de que se utiliza – ofícios dos

administradores públicos encontrados no Arquivo do Estado de São Paulo – para sustentar sua

análise demonstra que muitas foram as ocasiões nas quais estes homens recorriam à Justiça afim de

23 se alcançar uma liberdade efetiva.

  

Consta nos autos do processo que, quando de sua morte, Inocêncio contava com aproximadamente

24 8 anos de idade.

  

No livro A desagregação do sistema escravista no Maranhão (1850-1888) (1990), Jalila Ribeiro europeu e à constatação pelas elites de que esta seria o único tipo de mão de obra que poderiam aproveitar. Esta consideração lembra a observação feita pela pesquisadora Regina Helena Martins de Faria ao afirmar que o recurso aos escravos africanos enquanto único meio de mão de obra nas lavouras era amparado pela noção de que estes eram os mais “capazes de suportar os rigores do trabalho agrícola em regiões de clima quente e insalubre...” (2004, p.83).

  25 Esse aumento do fluxo de escravos não se limitava, porém, às zonas de

  cultivo, sendo cada vez mais comum a presença de negros no centro da cidade, configurando uma categoria de escravos que, embora submetidos à mesma estrutura de dominação senhorial – no sentido de condição de propriedade – se distinguiam pelas atividades a que se dedicavam e ao maior grau de circularidade que consequentemente lhes era dado para exercer suas funções.

  Nesse sentido, encontramos a figura do chamado escravo urbano, categoria ainda pouco estudada entre os pesquisadores da área, devido mesmo à tradicional perspectiva de se analisar a presença de escravos no campo, na rotina da vida rural. Estes estudos trazem uma contribuição significativa para os debates em torno do tema da escravidão, revelam outras faces do mesmo sistema.

  Ainda que poucos, exemplos de trabalhos desta natureza podemos encontrar nas pesquisas desenvolvidas por Marilene Rosa Nogueira da Silva que, com base em larga documentação, estuda os aspectos de um setor específico de escravos citadinos, os ditos escravos ao ganho da cidade do Rio de Janeiro no período imperial. Sua proposta se insere num quadro de debates que põe em questão abordagens já tidas como resolvidas sobre o assunto, tais como a “relação escravidão-terra, escravidão-capital estrangeiro, escravidão-religião, escravidão- rebelião, escravidão-indústria, escravidão-cidade, entre outros temas” (SILVA, 1988, p.28), mostrando aspectos outros do escravismo, embalada mesmo por uma tendência teórica que procura ter mais atenção às diferenças espaço-temporais da atividade escravista. Por isso, em suas argumentações, a autora assinala que a escravidão urbana ainda não recebeu a atenção devida entre os pesquisadores por 25 conta da tradicional justificativa a respeito da qual se enfatiza que a implantação da

  

Ribeiro explica ainda que nem mesmo a supressão do tráfico negreiro em 1850 foi suficiente para

transformar o perfil da cidade, pois, “apesar das condições contrárias à continuidade do sistema e das escravidão no Novo Mundo resultou da necessidade de implementar a agricultura de exportação de produtos tropicais, “enquanto a escravidão urbana não se apresentaria como elemento definidor do sistema” (SILVA, 1988, p.28).

  Tal queixa, porém, aos poucos vem sendo mitigada através de trabalhos como o desenvolvido por Leila Mezan Algranti (1988) que, em estudo sobre a escravidão urbana no Brasil na época de D. João VI, relata em detalhes o ritmo de vida dos escravos de ganho, categoria a partir da qual desvenda ângulos de um mundo marcado por tensões e também „acordos‟ entre senhores e escravos, como assim o demonstra a descrição que faz sobre o funcionamento desta forma de trabalho escravo, no qual o lucro adquirido com a venda de seus serviços a outrem que não seu senhor era com ele repartido, no geral, a partir de uma quantia diária ou semanal previamente fixada por seu proprietário. No seu quadro analítico, porém, a autora assinala que, embora gozasse o escravo urbano de maior flexibilidade de circulação, nem por isso o cativeiro lhe poderia ser melhor que o do seu semelhante no campo.

  Eram diversas as atividades a que poderiam se dedicar os escravos urbanos. Estudando sobre este contingente na cidade do Rio de Janeiro no século

  XIX, o historiador Luiz Carlos Soares, explica que era ampla a presença de cativos nos serviços de limpeza urbana, na iluminação da cidade, nas obras públicas e no transporte de cargas e passageiros, sobretudo na primeira parte deste século (SOARES, 2007, p.160). Numa ampla descrição a respeito dos regimes de trabalho

  26

  escravo doméstico, de ganho, alugados e citadinos de um modo geral – sustentada em vários exemplos extraídos de anúncios de jornais, processos criminais e pedidos de licença emitidos pelos senhores à Câmara Municipal para os escravos circularem ao ganho na cidade do Rio de Janeiro – o autor aponta o grau de especialização de muitos destes trabalhadores (na culinária, carpintaria, marcenaria, comércio), revelando tal circunstância o delineamento de hierarquias e acirramento de disputas (veladas ou não) entre os próprios escravos, fosse no interior das casas onde a divisão das tarefas normalmente privilegiava as amas- secas ou de leite que lidavam diretamente com os filhos dos senhores em 26 detrimento, por exemplo, dos escravos que lidavam com os despejos dos dejetos e dos lixos das residências, fosse nas ruas onde a necessidade de pagamento ao senhor da renda adquirida no trabalho externo muitas vezes levavam os escravos de

  27 ganho a conflitarem por espaços de venda ou de negócios mais lucrativos .

  Não foge a capital da Província maranhense de uma configuração semelhante à vivida na Corte Imperial no que tange ao uso da mão de obra escrava na cidade. Aqui, como nos assinala o historiador Josenildo de Jesus Pereira, o trabalho escravo urbano foi mais dinâmico na cidade de São Luís, e um grande entreposto comercial e portuário. Os trabalhadores escravos urbanos, fossem na condição de ganhadores ou de trabalhadores de aluguel, praticavam as mais diversas atividades. No geral, os homens, entre outras ocupações, desempenhavam as funções de marinheiros, carregadores, estivadores, oficiais da construção civil, de marcenaria, de barbearia. As mulheres, por sua vez ocupavam-se de serviços domésticos (cozinhar, lavar e passar), do comércio informal de alimentos (peixes, vísceras de gado, frutas, doces) e outros artigos, além de exercerem funções de parteiras e amas-de-leite, principalmente dos filhos das classes dominantes (PEREIRA, 2009, p.235).

  Percebemos suas características também nos próprios autos do processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro. Quando da qualificação dos depoentes, visualizamos as figuras de Primo, Annisio e Geraldo, todos declarados pretos escravos, moradores à casa de seus senhores, mas que, no entanto,

  28

  ocupavam-se também das funções de jornaleiro , oficial de carpina e ganhador,

  29

  respectivamente, atividades estas executadas a serviço de outrem , o que nos possibilita inferir que tratavam-se estes indivíduos de escravos ao ganho. Vemos ainda exemplos de pretas forras moradoras em casa por elas alugadas e que se dedicavam a tarefas que muito provavelmente aprenderam em tempos de cativeiro, caso de Geminianna e Simplícia às quais trabalhavam como cozinheiras e nos serviços domésticos de modo geral. É sobre este regime de trabalho escravo que 27 debruçamos nossas análises.

  

Tal como nos ilustra Soares com um interessante exemplo acerca de um processo criminal no qual

envolvia uma briga, numa manhã de 1855, entre a escrava Amélia Mina e a preta liberta Josepha

Alves de Menezes, ambas quitandeiras e de cujo desentendimento o autor hipotetiza estar

relacionado à concorrência que desenvolviam como vendedoras no mesmo ponto, o Largo da Sé, no

28 Rio de Janeiro.

  Como mencionamos anteriormente, a constatação da existência de um

  30

  fluxo maior de escravos na cidade , e também de libertos, não modificou ou mesmo amenizou as tensões estabelecidas entre os cativos e seus senhores. Nem mesmo o desejo de tornar a cidade um núcleo organizado aos moldes da civilização europeia fez com que as elites de então abrissem mão da exploração compulsória desse contingente de trabalho. A população cativa citadina, embora submetida a atividades distintas às exercidas no campo, continuou refém das marcas mais agressivas e controversas de controle social. Dizemos controversas porque, como veremos mais adiante, a própria legislação instituída a partir da independência do Brasil, tanto serviu como mais um mecanismo limitador do arbítrio senhorial quanto funcionou como um instrumento de controle da população escrava, circunstância que nos obriga a colocar em questão a própria noção de crime para a sociedade em relevo.

2.1 A noção de crime numa sociedade escravista.

  Existe um caloroso debate acerca do que vem a ser conceituado como crime nas ciências sociais. Tema largamente explorado no campo das ciências biológicas e psicológicas, o crime, enquanto categoria analítica, por muito tempo foi pensado como algo que parte intrinsecamente do indivíduo, seja ou por seus traços anatômicos, hereditários ou por seu perfil mental. Uma ampla produção científica –

  31

  • – cuja figura mais eminente encontramos no criminalista italiano Césare Lombroso asseverava que elementos somáticos exprimiriam a maior ou menor propensão das pessoas à criminalidade. E, embora sujeita a muitas críticas, tal perspectiva – de alto teor positivista – fez escola e teve forte influência nos mais diversos campos de
  • 30 saber a ele contemporâneos (medicina legal, psiquiatria, antropologia criminal,

      

    A pesquisadora Mundicarmo Ferretti indica que no início da década de 1870, “havia no município

    de São Luís cinco freguesias, com os escravos representando 22,2%. Os cativos estavam

    concentrados nas duas principais freguesias urbanas: Nossa Senhora da Vitória e Nossa Senhora da

    Conceição, com 64%. Já os africanos 75% (entre livres e escravos) ocupavam a área mais central da

    cidade, No geral, pardos e pretos constituíam 51,5% de toda a população livre do município de São

    31 Luís” (FERRETTI, 2004, pp.11-12).

      

    Em 1876, Lombroso lançou o livro O Homem Delinquente, sua primeira importante obra no campo

    da criminologia, na qual faz rigorosa menção à figura do criminoso nato, indivíduo por ele considerado

    inferior, atávico e que apresentaria características físicas peculiares (assimetria craniana saliente, direito positivo), marcando, desta forma, uma lógica de pensamento que incide muito mais sobre o estudo do criminoso em si (precisamente da mente criminosa) do que à noção de crime ou criminalidade enquanto um fenômeno coletivo.

      Ao que parece, a ênfase dada ao indivíduo pelas teorias biológicas e psicológicas eram desenvolvidas com a finalidade de se ter um maior controle sobre problemas que por ventura viriam a ameaçar a ordem social, sobretudo em se tratando da complexa formação do Estado nacional brasileiro no século XIX. Ou seja, era necessário, a partir de um olhar científico – enquanto forma de saber legitimado – detectar, classificar e tratar doenças nos indivíduos como medida de proteção para o conjunto da sociedade. Desta forma, nestas teorias, partia-se do indivíduo para a coletividade, acarretando numa outra demanda de discussões envolvendo, em contrapartida, os teóricos da sociedade, que argumentavam ser fundamental o papel do contexto cultural e social no qual o crime ocorre, definindo assim, tal eventualidade como fruto das instituições sociais características de uma determinada sociedade, o que deu início desta maneira, a uma compreensão muito mais sociológica do crime e da criminalidade enquanto, respectivamente, ato e fenômeno oriundos de fatores sociais.

      O reconhecimento do caráter socialmente construído da noção de crime insere-se num debate bastante caro à Sociologia desde a sua constituição enquanto campo de conhecimento científico e que diz respeito à relação indivíduo/sociedade. Émile Durkheim, por exemplo, sociólogo francês que trouxe grandes contribuições para esta disciplina, atestava que os fenômenos sociais deveriam ser estudados de forma objetiva, de maneira que, somente a partir do seu exterior se poderia

      32

      compreender os mecanismos do que ele denomina de consciência coletiva . Tal conceito representa um dos pilares do pensamento durkheimiano, o qual postula a sobreposição da coletividade sobre o indivíduo, sendo este apenas regido pelas leis da sociedade.

      No interior de sua argumentação sobre os valores comuns à média dos membros de uma dada formação social, Durkheim pontua a questão do crime enquanto reflexo da violação de um imperativo social, sendo este imperativo

      33

      entendido como parte integrante da consciência coletiva . Para o sociólogo, nas sociedades ditas mais modernas, nas quais o grau de diferenciação entre os indivíduos é mais evidente, existem maiores possibilidades para o inconformismo com as regras sociais – nenhuma sociedade alcança o total consenso – o que pode ser percebido através da transgressão das leis instituídas. É nessa transgressão das regras e na ameaça aos valores morais e éticos comuns a uma sociedade que, para Durkheim, se localiza o crime.

      Assim, com base nesta perspectiva teórica, acreditamos que o crime somente se apresenta enquanto tal dependendo da compreensão que determinada sociedade tem do que é certo ou errado, lícito ou ilícito, bom ou mau para os membros que a compõe, o que para as sociedades modernas fica bem mais evidente com a formalização ou contratualização da jurisprudência com seus códigos, leis e proibições.

      Talvez a perspectiva relativista do pensamento durkheimiano sobre o crime represente uma das principais contribuições para o debate sobre o tema.

      34 Teorias sociológicas sobre o crime mais recentes leem-no a partir de análises

      pautadas numa atmosfera social mais atual, com base em estatísticas e fatos criminais consequentes de problemas que, senão próprios das sociedades capitalistas, adquiriram um perfil específico resultante das pressões e fragilidades típicas às exigências destas sociedades. Conflitos entre gangues, tráficos os mais variados, consumo de drogas ilícitas, sequestros, formação de milícias parecem circunstâncias mais proeminentes em organizações sociais nas quais os níveis de disparidade financeira são mais acentuados.

      A complexidade de formações sociais deste tipo difere, por exemplo, do tipo de complexidade característica de sociedades escravistas, alvo de nossa análise. Nestas, as disparidades sociais operavam-se sob uma outra lógica, 33 marcadamente orientada pela cor da pele do indivíduo e sua consequente

      Essa discussão é encontrada no livro Da divisão do trabalho social (1999), obra na qual o autor

    questiona os mecanismos que contribuem para a condição da existência de sociabilidade entre os

    indivíduos. Para tanto ele distingui duas formas de solidariedade: a solidariedade mecânica ou por

    semelhança, típica das sociedades ditas primitivas e de cujos laços sociais pouco diferem os

    indivíduos uns dos outros e a solidariedade orgânica na qual o grau de diferenciação entre os

    34 indivíduos é muito mais acentuado.

      Outras tantas teorias foram elaboradas sobre o crime. No livro Sociologia (2004), o sociólogo possibilidade à condição de propriedade em relação a outrem. A concepção de crime nesta estrutura social também se diferenciava. Ocorrências de homicídios, roubos, furtos praticados pelos cativos normalmente eram motivadas por fatores outros diretamente relacionados aos efeitos da dominação senhorial, a partir da qual os escravos teriam que buscar mecanismos de sobrevivência, muitos deles escusos, em um ambiente bastante hostil para sua condição.

      35 Ainda que seja um tema recentemente explorado , o debate sobre a

      relação entre crime e escravidão, torna-se aí bastante relevante, não se restringindo, porém, apenas ao campo da Sociologia, também sendo de grande interesse entre os historiadores da escravidão. Como dissemos anteriormente, aqui, a multiplicidade de estudos sobre o assunto permite entrever três possibilidades explicativas que, grosso modo, oscilam entre o caráter cruel, suave e/ou multifacetado da relação senhor/escravo. A noção de crime aparece no bojo destas discussões como instrumento analítico fundamental.

      A pesquisadora Maria Helena Toledo Machado, por exemplo, no livro

      

    Crime e escravidão (1987), aborda a questão da criminalidade, e do crime mais

      especificamente, enquanto resposta dos cativos à exploração senhorial, apontando casos de homicídios, agressões e rebeliões como formas de resistência ao regime servil. Sua proposta de redefinição da concepção de resistência, no entanto, enquadra-se num esforço de recuperar o universo mental e ideológico do escravo, sua vida cotidiana, no interior do sistema escravista quando do seu funcionamento (MACHADO, 1987, p.19).

      Em sua pesquisa sobre a grande empresa agroexportadora paulista entre 1830-1888, a autora procura analisar a dominação escravista a partir da dinâmica das tensões, resistências e ajustamentos à disciplina e vigilância no que tange ao trabalho dos cativos, defendendo a possibilidade de existência de uma relação de interdependência entre senhores e escravos numa conjuntura na qual os traços de dominação senhorial eram bastante acentuados, de forma que seria impossível tratar de uma história dos escravos apartada de uma história do senhor. Nas palavras da autora:

      A consecução de um trabalho rigidamente disciplinarizado, adequado às exigências econômicas da produção, pressupunha um jogo mais complexo que a imposição, por parte dos senhores e seus prepostos, de castigos continuados aos escravos, mas tinha que se inserir num quadro capaz de conjugar disciplina, vigilância e castigos com incentivos mais ou menos diretos ao produtor (MACHADO, 1987, p.58).

      Dito desta forma, podemos observar que a postura adotada pela autora situa-se num quadro de discussões que procura conciliar, ou pelo menos estabelecer uma comunicação entre correntes mais tradicionais sobre a escravidão as quais enfatizam a primazia dos fatores econômicos da exploração senhorial e aquelas que procuram compreender a dinâmica do sistema servil de forma mais adensada, revelando uma atmosfera marcada por diversas estratégias de sobrevivência entre os dois grandes segmentos sociais em questão.

      36 Para Machado, lido sob a luz de novos estudos , o crime exprime-se

      como valioso indicador de complexas e dinâmicas relações sociais de dominação à medida que considerado enquanto produto orgânico da vida cotidiana de determinado grupo historicamente localizado, de maneira que o enfoque proposto pela história social do crime afasta-se da tentativa de cotejar, através da análise da criminalidade, um padrão psicológico individual e grupal (MACHADO, 1987, p.24), ou seja, não é o crime resultado da manifestação de condutas inerentemente desviantes como por muito tempo foi sugerido pelos estudos naturalistas. Tampouco pode-se associar a execução de atos criminosos como constituintes da natureza de um segmento social específico. Ao buscar entender os aspectos da vida cotidiana dessas camadas dominadas com base na análise de autos de processos criminais, Machado o faz enfocando casos em que os escravos figuravam como autores dos delitos, sempre os enfatizando como resposta a um contexto social extremamente ofensivo à condição escrava.

      Numa linha de análise semelhante, a historiadora Sílvia Hunold Lara no livro

      Campos de violência (1988), embora concentre sua pesquisa no período

      colonial brasileiro, destaca a questão da relação violência/escravidão retomando o longo debate acerca do caráter violento e/ou patriarcal do sistema servil, enfatizando, também a partir da análise de processos criminais e cíveis, que a relação senhor/escravo era marcada por um cotidiano permeado por confrontos, 36 resistências, acomodações, solidariedades e tensões diversas.

      Como parte de sua proposta interpretativa, Lara destaca a questão do crime, delineando algumas circunstâncias nas quais se sobrepõem infrações praticadas por escravos. No entanto, descarta a precisa vinculação feita entre “criminalidade escrava e reação instintiva à prepotência e arbítrio de senhores e feitores materializados em inomináveis maus-tratos” (LARA, 1988, p.281), considerando ser essencial visualizar a questão pelo prisma das diferenças e diversidades da natureza da dominação escravista e do controle social em períodos e regiões também diferentes, sobretudo quando da crescente intervenção do Estado no controle social, em contraposição (ou não) ao controle exercido essencialmente a partir de relações pessoais de dominação.

      No geral, as abordagens que enfocam a relação crime/escravidão, embora tragam importante contribuição para o estudo do sistema escravista brasileiro, o fazem, como mencionamos anteriormente, analisando situações nas quais a autoria dos crimes é atribuída ao elemento servil, demonstrando, com isso, apenas mais um ângulo da complexa dinâmica desta formação social.

      Alguns fatores podem nos ajudar a compreender o porquê tais pesquisas assumiram essa característica. A principal delas nos parece estar relacionada à própria dificuldade de encontrar registros sobre a fala e as cenas de vida diretamente produzidas pelas camadas dominadas. Boa parte da documentação escrita de caráter judicial levantada nestas pesquisas remete a um conjunto de discussões que envolvem a questão da coisificação do negro. Assunto já bastante explorado no campo das humanidades, está intrinsecamente vinculado à concepção de que o escravo era desprovido de sensibilidade e vontade próprias, enfatizando- se, com isso, sua condição de propriedade, conferindo ao seu respectivo senhor um suposto direito e legitimidade ao recurso da violência física e moral contra o mesmo.

      Esse não reconhecimento do escravo enquanto pessoa inclui, por conseguinte, uma problemática já apontada por Sílvia Lara quando trata das margens fluidas entre o poder de dominação senhorial e o envolvimento da justiça enquanto mecanismos de controle da massa escrava. Durante o período colonial, como nos afirma a autora, os instrumentos jurídico-administrativos metropolitanos buscavam manter a exploração escravista para garantir os lucros provindos das unidades produtoras, conferindo ampla autonomia aos proprietários de escravos no sobre a escravidão, não tinha meios para controlar diretamente a força de trabalho que dispunha em terras coloniais. Nesse sentido Lara assinala que:

      À Metrópole interessava a manutenção da relação senhor/escravo, porque implicava a produção escravista; não dispunha, porém, de recursos para o controle da massa escrava nem de meios para efetivá-lo internamente à unidade de produção. Legislando sobre o tráfico de escravos, além de abocanhar importante quinhão de lucros através das taxas e tributos, ela garantia o abastecimento de mão-de-obra e, assim, a produção colonial (...) Garantindo a continuidade da produção escravista no nível geral, a Coroa portuguesa não contava com recursos suficientes para garantir a continuidade da dominação do senhor sobre seus escravos. Garantia, sim, a dominação e exploração coloniais e a exploração escravista, mas, quanto à continuidade da dominação (senhorial) sobre os escravos, sua intervenção se dava somente fora da unidade de produção (1988, p.41).

      A possibilidade mais viável encontrada pela Coroa portuguesa, portanto, foi atribuir legítimo poder de exploração aos senhores de terras da colônia cuja autoridade, no decorrer do século XIX, já Brasil Império, embora fortemente arraigada, foi-se confundindo ou mesmo limitando com a intervenção de uma Justiça gradativamente institucionalizada. Confundida, no sentido de que não estava de todo eximida a possibilidade de, na prática, o poder público não interferir em assuntos que eram de sua alçada, uma vez que nem sempre chegava a seus ouvidos (ou mesmo fazia-se „vista grossa‟) às denúncias de crimes cometidos nas propriedades de um senhor, como nos indica Machado.

      Isso talvez se explique pelo o que a própria autora salienta ao considerar que: “ciosos de seu poderio, os senhores procuraram resolver parte dos conflitos que envolviam escravos nos limites das próprias unidades rurais” (MACHADO, 1987, p.28), desviando-se, desta maneira, também do prejuízo financeiro ao qual estaria sujeito o proprietário de escravos caso seu cativo fosse submetido às severas punições empregadas pelas leis penais (prisão, mutilação consequência dos castigos). No entanto, ao mesmo tempo que a autoridade senhorial receava a intromissão da justiça em sua esfera de poder particular, era também consciente da fragilidade dos mecanismos de dominação paternalista de que dispunha, sempre tendo os cativos como uma ameaça em potencial. Segundo argumentação de Machado, esse “temor aos escravos permeou a instituição escravista e encontrou, na Justiça, especial ressonância com a repressão exemplar dos crimes contra a autoridade senhorial” (1987, p.35). jurídica na conflituosa relação estabelecida entre senhores e escravos. Se por um lado, o tratamento dispensado pela lei – em se tratando de uma sociedade escravista – poderia distinguir-se conforme a condição étnico-social do envolvido em um trâmite jurídico, como nos sugere o jurista maranhense José Eulálio Figueiredo de Almeida ao assinalar que, quando o escravo figurava como vítima de algum crime, nada era investigado pelas autoridades, por ser ele considerado objeto, mercadoria, propriedade do seu senhor, ou, do contrário, quando era apontado como autor de algum delito, assumia a condição de delinquente, visto que a criminalidade do elemento servil (punida com a pena de morte) era uma lógica de pensamento bastante difundida àquela época. (2005, p.18). Por outro lado, principalmente a partir de meados do século XIX, uma paulatina intervenção do Estado na regulamentação das relações entre senhores e escravos – como assim o comprova o caudal de leis, decretos, avisos e alvarás que se somaram e superpuseram nas últimas décadas da escravidão, regulamentando a instituição escravista e a esfera de poder senhorial (MACHADO, 1987, p.31) – aponta para uma espécie de amparo jurídico, ainda que deficiente, em favor dos cativos. Como assim o atestam, por exemplo, artigos presentes na Coleção das leis, decretos e

      37

      resoluções da Província do Maranhão , a respeito dos quais versam sobre o risco de infração e punição policial a que pode estar sujeito um senhor ao desamparar um escravo seu devido sua idade avançada ou por moléstias. Circunstância relevante não pelo questionamento de que tenha sido, esta resolução, respeitada ou não, mas pela própria possibilidade de sua existência sob a base de uma leitura legal, legitimada e marcadora da limitação do poderio senhorial.

      Neste sentido, podemos observar que a intervenção de uma justiça pública mediando, com seus códigos, leis e penas, a relação senhor/escravo demonstra-nos que a fragilidade e ambiguidade na maneira como se dinamizou tal instituição – que ora reprimia ora intervinha em favor do cativo – limitou, de forma bastante peculiar é verdade, a autoridade senhorial, revelando-nos que este poder não era tão arbitrário como estamos acostumados a pensar. O caso criminal que aqui submetemos à análise é bastante ilustrativo desta afirmação, na medida em que a denúncia judicial concretizada contra Anna Rosa Ribeiro, acusada de seviciar até a morte uma criança escrava de sua propriedade, embora represente um indício de restrição dessa autoridade senhorial, revela também que na decisão final do processo prevaleceu a manifestação de interesses particulares.

      É importante observar que trabalhos brasileiros dedicados ao estudo da dita criança escrava, destacam a complexidade de compreensão acerca do ritmo de vida deste segmento na medida em que a possibilidade de reconhecimento da fragilidade destes indivíduos, até certa idade, não se dissociou do entendimento, entre os escravistas, de que se tratavam de mercadorias, uma forma de reprodução de uma população já escravizada e, portanto, submetida a autoridade de um proprietário e ao trabalho forçado. Assim, Kátia Mattoso, salienta que, desde cedo, para as denominadas crianças escravas, a base das relações são estabelecidas muito mais a partir dos laços de vizinhança, de trabalho, de recreação, de ajuda mútua e associação religiosa do que por meio da família nuclear (instituição, para o escravo, mais instável pela própria condição de coisa e moeda de troca que lhe foi atribuída), de forma que a vida pública, para ela, adianta-se à vida privada. Além do mais, conforme Mattoso, acaba tendo esta criança que submeter-se a uma dupla criação caracterizada, de um lado, pela obediência exigida por „seu‟ senhor e, de outro, pela tentativa de sua comunidade de absorvê-la, e, embora venham a conviver, nos primeiros anos de suas vidas, com as demais crianças brancas, sobretudo nas fazendas, logo se dava conta de sua condição inferior em relação à criança livre e de que as exigências de seus senhores tornavam-se mais precisas e indiscutíveis (MATTOSO, 2003, pp.128-129).

      Tratando deste mesma questão e sustentando-se em conteúdos de relatos de viajantes que estiveram no Brasil na primeira metade do século XIX, a pesquisadora Maria Lúcia de Barros Mott, aponta traços relevantes a respeito deste contingente, percebendo haver, entre os senhores, diversas formas de tratamento dispensadas a estes escravos de pouca idade, fossem elas afetuosas, amistosas, indiferentes ou cruéis. Fato é que muito precocemente – a autora sugere uma média de idade entre 5 a 7 anos aproximadamente – estas crianças escravas, como assim são designadas nos próprios documentos de que teve acesso, aparecem nos relatos desempenhando alguma atividade e mesmo se especializando em determinado tipo de trabalho (MOTT, 1979, p.61). A problemática apontada pela autora, no entanto, abarcam uma faixa etária bastante ampla, de maneira que, quando não identificada a idade de quem se descreve uma narrativa, torna-se complicado determinar a quem (se criança, jovem ou adulto) um autor estava se referindo (MOTT, 1979, p.67).

      Embora as fontes de análise que se utiliza Mott estejam localizadas na primeira metade dos oitocentos, a sobrevivência do possível sentido atribuído a ideia de criança escrava pode ser observada na própria maneira como Innocencio é tratado nos autos do processo-crime de Anna Rosa Ribeiro. Além de criança, termos como escravinho, inocente, menor e anjo são amplamente observados nas falas contidas nos autos, o que nos possibilita inferir que, além de refletirem a noção que o termo assume para aquela realidade, o uso destas nomenclaturas serviram também como forma de apelo da defesa frente a representação judicial.

      A absolvição da ré, num processo, diga-se de passagem bastante curto para os padrões de um inquérito judicial, que mesmo àquela época demandava mais tempo e recurso, nos dá margem para inferir que a posição social privilegiada da acusada, contribuiu para um desfecho não tão surpreendente assim, se compararmos este caso a um outro processo-crime ocorrido pouco tempo depois

      38

      (entre 1877-1878) contra Amélia Rosa , negra forra, processada e condenada, junto com outras pessoas de seu grupo, acusada de ter seviciado e quase tirado a vida de Joanna, escrava que teria recorrido à ré em busca de solução para problemas de saúde por saber que esta fazia uso de rituais de pajelança. A condenação de Amélia Rosa à prisão e pagamento de multa, somado a uma série de outros tantos

      39

      agravantes , exprimem grande desigualdade no tratamento dado aos dois processos, demonstrando a acentuada dubiedade no cuidado prestado pela esfera judicial aos casos criminais conforme a condição social do indivíduo.

      Essa parcialidade da Justiça Pública, sobretudo em se tratando em termos de Maranhão Imperial, a qual discorreremos mais detidamente no tópico posterior, envolve, por conseguinte, uma questão mais ampla: a de que a noção de crime, abordada para além das „tipificações inscritas nos códigos penais‟, concordando com a concepção do historiador Boris Fausto, exprime-se enquanto ato singular de um fenômeno mais geral (criminalidade) cuja riqueza nunca se encerra 38 em si mesma, mas abre caminho para muitas percepções (FAUSTO, 2001, p.19) devendo estas serem pensadas em articulação com as tramas sociais que lhe serviram de pano de fundo.

      Pensado a partir das tensões, contradições e padrões culturais comuns às sociedades escravistas, portanto, o crime, obviamente, difere da ideia mais contemporânea que dele temos, devido mesmo a uma legislação que àquela época era bastante tolerante e conivente com as práticas de castigos e sevícias impostas aos cativos não apenas por seus „donos‟, mas também pelo próprio aparato judicial que fazia uso destas ações para punir os escravos.

      Tolerante e conivente com o domínio senhorial, mas também, sobretudo na segunda metade do século XIX, obrigada a atentar para algumas reivindicações reclamadas pelos escravos (tais como o direito de alforria, de não ser vendido para outro senhor sob o risco de afastar-se de sua família) na medida em que a

      40

      propaganda abolicionista, as fugas e outras formas de resistência escrava acentuavam o desejo de liberdade da população cativa e ameaçavam aquela ordem social.

    2.2 O sistema jurídico da época

      Impossível realizar uma análise pautada na noção de crime sem colocar 40 em discussão o tema sobre as práticas jurídicas e, consequentemente, sua

      

    Um outro instrumento a que os escravos poderiam recorrer para a obtenção da carta de liberdade

    encontramos na fundação de sociedades manumissoras, organizações ditas beneficentes que

    negociavam com os senhores a compra de escravos com a finalidade de alforriá-los. Como exemplo

    podemos citar a Sociedade Manumissora 28 de julho, criada na cidade de São Luís em 1869, cujo

    estatuto tinha por objetivo libertar o maior número possível de escravas menores de idade, não

    adultas tal como expunha em seu artigo 1. É preciso salientar que a burocratização de seu estatuto

    de certa forma restringia o número de cativas a serem contempladas com este projeto na medida em

    que a submissão aos critérios pregados pela sociedade incluíam o fato de não sofrer a beneficiada de

    moléstia incurável na opinião escrita de um médico; ser vacinada e provar legalmente sua idade

    (art.38); além do que nenhuma carta poderia exceder a quantia de 500$ réis. Afora a aprovação do

    estatuto desta Sociedade, o catálogo sobre

      O negro e o índio na legislação do Maranhão (1835-

    1889) indica uma portaria do dia 11 de abril de 1871 que aprova um estatuto para a fundação da

    Sociedade Manumissora Coroataense revelando-nos, assim que recorria-se a esta empresa também

    no interior da Província, ainda que provavelmente de forma diminuta pois não nos foi possível

    encontrar menção a outras sociedades alforriadoras. No entanto, em estudo monográfico acerca das

    confederações abolicionistas no Maranhão, o pesquisador Wellington Barbosa dos Santos, além de

    mencionar como instituições registradas (com estatutos e atas) a Sociedade Manumissora 28 de

    julho, cita uma outra, a chamada Centro Artístico Abolicionista criada em 1881 na capital e que, no

    geral, incentivava a fuga de escravos. O autor elenca também outras entidades não registradas como percepção enquanto fruto da atividade humana situada e variada no tempo e no espaço, às quais exprimem – como nos contribui o filósofo francês Michel Foucault – inumeráveis séries de regras a partir das quais se concebeu e definiu a maneira como os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido (FOUCAULT, 2003, p.11).

      Partindo desta observação, podemos considerar que, a dinamização das práticas jurídicas com suas especificidades terminológicas, pressupõe, de antemão, a fatalidade do crime – ou da infração, termo utilizado por Foucault para definir a transgressão de uma regra social – devendo o mesmo ser entendido não como resultado de algum tipo de „instinto natural ao homem desviado‟ (como por muito tempo pregaram os naturalistas), mas, como dissemos anteriormente, enquanto reflexo do que foi construído socialmente como certo ou errado, lícito ou ilícito por determinada sociedade.

      Tão historicizada quanto a noção de crime, a ideia de justiça, sobretudo para as sociedades ocidentais, articulou-se no decorrer do tempo elaborando e reelaborando mecanismos judiciários capazes, digamos, de „recompensar', „reequilibrar‟ conflitos instigados por danos e ofensas causados entre indivíduos. Foucault, no livro

      A verdade e as formas jurídicas (2003), traça toda uma trajetória

      sobre as práticas e procedimentos judiciários (prova, inquérito e exame) enquanto uma das formas mais elucidativas para se compreender como as sociedades definiram tipos de subjetividade, formas de saber. No bojo de seu projeto de análise, o autor aponta uma questão bastante profícua para o tema a que se destina nosso estudo, o qual trata da paulatina institucionalização do poder judiciário através do controle estatal. Se antes, como o autor descreve no decorrer de boa parte de suas conferências, o sentido de justiça era um tanto quanto fluido uma vez que movido majoritariamente por sentimentos de honra e vingança entre indivíduos ou grupos de alguma maneira lesados entre si, com o fortalecimento dos Estados Nacionais, houve uma apropriação da instância judiciária e uma consequente reformulação na sua lógica operacional. Conflitos „resolvidos‟ entre duas partes conforme melhor acordo estabelecido entre ambas, com o passar do tempo foram substituídos pela intervenção de uma terceira parte (a Justiça Pública, o Direito Penal) regulamentando procedimentos de investigação criminal e regras de punição. devidas peculiaridades – no entanto, devemos salientar também que boa parte do que caracteriza a Justiça neste continente foi comungada, é certo que sob diferentes roupagens, pelos países colonizados da América e num sentido mais estrito, teve

      41 forte influência na literatura jurídica brasileira .

      Aqui no Brasil, a institucionalização da Justiça operou-se de forma bastante lenta e dúbia, isso porque o próprio processo de independência política deu-se nos mesmos termos. Yuri Costa, em artigo no qual trata do tema da criminalidade escrava, nos explica que este complexo processo de organização política e jurídica nacional dá-se enquanto tentativa, principalmente por parte da Corte Imperial, de construção do público, pautada não numa mera estruturação dos aspectos político-administrativo do país, mas numa estruturação civilizada orientada por ideologias e sistemas modernos transplantados do modelo europeu e norte- americano (COSTA, 2004, p.114). O problema é que os traços sócio-jurídicos

      42

      herdados do período colonial , marcados pela prevalecência de interesses privados

    • – ordem que estabeleceu relações sociais e valores predominantes em nossa sociedade – fragilizou e distorceu a formação de uma ideia de público capaz de abarcar boa parte do que seu sentido lhe confere. No estado social do Império

      43

      brasileiro , acabou se manifestando, conforme Yuri Costa, “um sistema sem sistematicidade, onde as „leis‟ seriam pessoais e, por isso, caóticas” (2004, p.115). Da velha ordem privada colonial derivou uma ordem pública bastante peculiar em 41 Influência, sobretudo lusitana, dada não apenas através das Ordenações Portuguesas durante o

      

    período colonial, mas também pela formação de estudantes, filhos das elites brasileiras, que,

    principalmente de Coimbra, traziam conhecimentos de Direito contribuindo para a constituição de um

    ensino acadêmico que formará os primeiros bacharéis brasileiros antes formados em Portugal, dando

    início, assim, a um lento, porém não acabado, processo de nacionalização de nossa cultura jurídica

    42 no decorrer do período imperial (DUTRA, 2004, p.24).

      

    Não poderia ter sido outro o direito que haveria de reger a colônia senão aquele transplantado – é

    certo que com suas peculiaridades e adaptações ao território – do direito lusitano, pois, concordando

    com a afirmação do pesquisador Antônio Luís Machado Neto, “como a atividade colonizadora é algo

    que se faz a mando da metrópole, com vistas a um projeto que é também colonizador, via de regra, a

    tarefa colonial é algo que se faz com os olhos voltados para a metrópole, já que a colônia não tem a

    necessária substância para conter e aprisionar em seu seio, em seu precário centro de interesses, o

    homem colonizador” (MACHADO NETO, 1987, p.307). Na esteira destes debates acrescentam-se os

    trabalhos de Sílvia Hunold Lara que organiza e comenta em introdução o Livro V das Ordenações

    Filipinas que trata das penas, assinalando que o sistema legislativo e jurídico colonial brasileiro não

    poderia ter deixado de ser uma extensão de sua metrópole portuguesa e o de Stuart Schwartz que,

    no livro

      Burocracia e sociedade no Brasil colonial (1979) não somente desenvolve uma minuciosa

    restituição da máquina judiciária colonial brasileira como demonstra que as leis metropolitanas se

    43 ajustaram à sociedade colonial.

      

    Conforme argumentação de Cunha, “o que se dá a partir da independência política brasileira é uma nossa realidade, caracterizada pelo afrouxamento e falta de rigor com o cumprimento dos deveres e responsabilidades atinentes à gestão pública.

      Essa ambiguidade que impossibilita entrever uma separação entre público e privado na sociedade brasileira se torna ainda mais problemática quando da formação de um aparato judiciário frente a uma sociedade calcada no trabalho escravo, sobretudo a partir do fim do tráfico negreiro internacional em 1850 quando aumenta a atuação direta do poder público na tutela do cativo, acarretando numa interferência cada vez maior desta instância nas relações senhoriais com os escravos, como nos indica Costa.

      Tão controversa quanto o caso nacional, é a situação da justiça

      44

      característica da sociedade maranhense imperial , espaço que mais interessa em nossa análise. Aqui também a formação do aparato judicial influenciou-se pelas imagens de civilidade enaltecidas com o processo de urbanização da Província do Maranhão (dando ênfase à cidade de São Luís), principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Pelo menos num plano teórico, no que tange às questões jurídicas, “os conflitos interpessoais não mais poderiam ser diluídos pela justiça do „mais forte‟ ou pelo confronto „bárbaro‟ direto – e por vezes físico – das partes. Havia uma espécie de reação „civilizada‟ pela necessidade de mediação da Justiça em tais conflitos” (COSTA, 2004, 119).

      A institucionalização político-jurídica do Estado maranhense, de teor „essencialmente civilizador‟, contudo, não se mantinha quando colocada frente à escravidão. Nas palavras de Costa:

      O discurso „oficial‟ que, pelo menos a partir de 1872, prega o „fim inevitável da escravidão‟, contrastava-se com o interesse quase que direto da Corte em manter as relações senhor-escravo, visto que estas implicavam na própria estruturação de toda a produção econômica brasileira. É por isso que, em grande parte, não contando com recursos eficientes para garantir a continuidade da „dominação‟ do senhor sobre seus escravos dentro das fazendas/casas senhoriais, a Coroa garantia a continuidade da produção escravista no nível „geral‟, como, por exemplo, através da reposição do contingente de trabalhadores ou da repressão ao que pudesse interromper

    a produção ou contestar a escravidão (2004, p.123).

    44 Yuri Costa aponta uma questão ilustrativa ao mencionar que a partir da década de 1820

      

    desenvolvem-se quatro fatores que seriam centrais na institucionalização do poder Judiciário do

      Com base nesta observação, Costa acrescenta que essa institucionalização da Justiça Pública assume um caráter quase que constitutivo do escravismo, „uma espécie de espinha dorsal da sociedade escravista imperial‟ (COSTA, 2004, p.123), servindo muito mais como instrumento de manutenção do sistema, do que um mecanismo capaz de mitigar as tão acentuadas desigualdades de cor e classe existente entre os dois principais grupos sociais componentes desta sociedade.

      45 Somado aos interesses econômicos e políticos que de alguma forma

      aproximavam o poder judiciário à dominação senhorial, cabe destacar um dos efeitos mais emblemáticos desta relação, ou seja, aquele que implica nos seus efeitos ideológicos. Ao falarmos deste aspecto, necessariamente nos remetemos ao tema da coisificação do escravo e, sobretudo à questão da dubiedade de sua condição jurídica num momento em que o indivíduo escravizado passa a ser não apenas domínio de seu proprietário, mas também a ser tutelado pelo Estado, ou seja, a submeter-se tanto à instância privada quanto pública, estas por sua vez, mesclando-se e confundindo-se com a manutenção de interesses particulares, mas que, ao mesmo tempo, limitava este domínio senhorial na medida em que também passou a legislar – pelo menos em termos teóricos – a favor dos cativos.

      Perante tal afirmativa somos induzidos a fazer as seguintes indagações: como a Justiça Pública interpretava a condição do escravo? Em casos de tramitação de processos-crime, por exemplo, cativos e proprietários de terras, recebiam tratamento semelhante quando figuravam como vítimas ou autores de crimes? Eram submetidos às mesmas punições?

      Difícil traçar um perfil padrão, com base em estatísticas, sobre a criminalidade escrava ou contra o escravo num contexto no qual não há garantia de que grande parte das infrações (agressões, roubos, furtos, homicídios) fosse parar nos registros policiais. Isso porque muitas das contendas que aconteciam no interior das fazendas e/ou casas senhoriais eram resolvidas nos limites territoriais do proprietário e sob suas próprias „recomendações‟. Além do mais, é muito complicado encontrar resquícios da fala dos cativos em tais circunstâncias, devido mesmo à própria condição de coisa, que em momentos mais pertinentes, a eles era atribuído.

      Em importante estudo em que trata do processo de subjetivação do escravo no discurso judiciário maranhense do século XIX, Yuri Costa, parafraseando Jacob Gorender, afirma que “o primeiro ato humano do escravo foi o crime” (2009, p.196). Tal afirmação é bastante coerente quando pensamos que foi a partir do momento em que, enquanto autor de crimes, o cativo teria o dever de assumir suas responsabilidades, o que lhe conferia, ainda que se encontrasse na condição e propriedade, algum estatuto de humanidade. Conforme Costa:

      As formas jurídicas que primeiro vão conferir certa subjetividade ao cativo atribuem-lhe, na verdade, responsabilidades, e não direitos. Como autor de crime, o escravo mantém sua condição de coisa e, ao mesmo tempo, responde pelo delito. Nega-se pela primeira vez o discurso civilista (do Direito Civil) da coisificação, pois é ilógico entender que uma propriedade, despida de vontade, transmuta-se em sujeito ao cometer um delito. O escravo foi, na História da Humanidade, a única propriedade punível (2009, p.196, grifo do autor).

      Essa oscilação entre a condição de propriedade e de sujeito atribuída ao escravo revelava práticas jurídicas um tanto paradoxais quando se pensa que o Direito Moderno associa-se obstinadamente à pretensão de “um todo integrado e hierarquizado, que se entende completo e coerente de princípios universais” (LOPES apud COSTA, 2009, p.195). Na prática, na rotina de vida dos tribunais maranhenses da segunda metade do século XIX – é claro que tal situação não se restringia apenas a este plano espaço-temporal – o que imperava era um dissenso em relação ao status do escravo conforme figurasse como autor ou vítima de crimes, o que demonstrava a ambiguidade da instituição judiciária no tratamento prestado ao que a ele se encontrava sujeitado.

      O caso de Dona Anna Rosa Ribeiro, neste aspecto carrega muitos traços da desigualdade de cuidados prestados ao indivíduo conforme sua condição social. A absolvição da ré, filha das elites do Maranhão, diante de um caso criminal em que muito dos indícios recaiam contra a acusada, possibilitam pensar – embora não nos permitam extrair teorias gerais – que, em muitos casos criminais nos quais o escravo estava na posição de vítima, o tratamento a ele dispensado era menos compromissado em relação ao que pregava a letra da lei. Já que, como diz Yuri Costa, quando agia em favor do escravo, a Justiça não alcançava a maior parte dos conflitos interpessoais, ou, quando os alcançava, chegava totalmente desfigurada,

      É oportuno considerar que não é necessariamente a absolvição da acusada o que nos chama mais atenção neste processo-crime, mas sim por figurar, no banco dos réus, um membro da tradicional aristocracia maranhense numa época em que, como nos diz Maria Helena Machado, raramente um senhor era

      46

      diretamente denunciado como causador de maus-tratos em seus cativos e a ocorrência de tal situação condicionava-se à conjunção de diversos fatores, ligados principalmente à gestação de uma opinião pública, refletida na imprensa local e à quebra flagrante das regras paternalistas vigentes entre a classe senhorial. Nas palavras de Machado

      Dessa forma, quando um senhor, desprezando as conveniências, insistia notoriamente na aplicação de castigos imoderados aos escravos, sem acautelar-se em envolvê-los em tons discretos, arriscava-se a ser denunciado e ter que sujeitar-se à intromissão da Justiça em seus negócios particulares. Assim, se a fazenda era um domínio e nela o senhor era todo poderoso, no século XIX, essa realidade deveria ser vivenciada discretamente (MACHADO, 1987, p.73).

      Embora a natureza desta interpretação seja fundamental para compreendermos uma leitura jurídica das relações mantidas entre senhores e escravos, o entendimento de que a interferência do poder público implicaria, em sua amplitude, num favorecimento do domínio senhorial exprimem apenas um ângulo – por vezes uma grosseira simplificação da realidade – de uma conjuntura muito mais complexa e conflituosa.

      Nas duas últimas décadas da escravidão brasileira, a ampla influência da propaganda abolicionista somada às mais diversas formas de resistência escrava insuflaram os espíritos dos cativos obrigando as instâncias jurídicas a atenderem os anseios desta população para assim tentar mitigar a pressão social que a este tempo alterava o perfil psicossocial da cidade. Nesta perspectiva, acreditamos que o próprio ato de denúncia de Anna Rosa Ribeiro enquadra-se neste contexto de 46 tensões, no qual a mediação do poder público nas questões escravistas poderia

      

    Devemos atentar para o fato de que a conclusão a que chega Machado diz respeito a análise que

    faz dos autos de processos criminais tramitados nas cidades paulistas de Campinas e Taubaté entre

    os anos de 1830-1888. No caso de nossa pesquisa, um único caso não é capaz de traçar um perfil

    social geral sobre a interferência das instâncias públicas no governo dos escravos. No

      Livro de

    crimes e fatos notáveis (1873-1881) cuja data de registro que escolhemos intercala o ano em que

    se processou o caso de Anna Rosa Ribeiro aponta-se a descrição de variados tipos de delitos bem demonstrar também certa atenção da Justiça em favor da representação jurídica do cativo.

      Um outro elemento nos parece bastante expressivo nesse trâmite, o qual implica na atitude abolicionista tomada pelo promotor público do processo, o Dr. Celso Magalhães, que conseguiu sujeitar às autoridades jurídicas, para o espanto da escravista sociedade maranhense, um membro da aristocracia. “Muita gente naquela época não acreditava que uma respeitável senhora da sociedade ludovicense, famosa pelo poder do seu marido e por fazer parte da aristocracia social e política, pudesse sentar no banco dos réus, pois cometer crimes contra escravos era tido, pela legislação imperial, como coisa lícita e um indiferente penal” (ALMEIDA, 2005, p.31).

      Sabemos que àquele tempo o Maranhão era uma Província largamente identificada com o cativeiro negro, mesmo diante de valores um tanto quanto débeis na medida em que a necessidade que as elites tinham de absorver os ideais civilizadores batia de frente com o interesse de manutenção da exploração do trabalho escravo. Em meio a esta atmosfera manifestavam-se com maior intensidade as críticas ao regime servil, oriundos mesmo de pessoas pertencentes aos segmentos das elites escravistas, estudantes cuja formação acadêmica refletia fácil abertura para a assimilação do ideário abolicionista que fervia na Europa e nas décadas finais da escravidão se disseminavam com mais força em território nacional. Homens letrados que, notadamente, envolviam-se com a produção literária, científica e jornalística, influenciados, sobretudo pelo pensamento positivista, pelo Realismo ou Naturalismo e pelas teorias raciais do século XIX, tais como o próprio Celso Magalhães.

      Difícil definir, portanto, os efeitos da atividade jurídica nos conflitos existentes entre os cativos e seus senhores. Ao mesmo tempo que sua interferência representava mais um mecanismo de controle da população escrava muitas vezes em prol da manutenção do domínio senhorial, era também um instrumento a que os cativos e abolicionistas acionavam como forma de atenuar o peso da autoridade dos escravagistas.

      Embora reconheçamos que a análise de um único caso criminal não seja suficiente para traçarmos perfis mais amplos sobre determinada conjuntura social, veremos detalhadamente no próximo capítulo, a maneira como foi se desenrolando o processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro em 1876, nos permite entrever e refletir como alguns mecanismos institucionais eram articulados nas falas dos atores envolvidos na evolução do processo, bem como na descrição das atitudes dos personagens quando do recolhimento dos depoimentos no inquérito judicial.

    3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA

      Por tanto tempo banalizado no próprio campo da historiografia, o uso de processos criminais (bem como de tantos outros documentos históricos) adquiriu importância significativa para o estudo das relações sociais, sobretudo àquelas cujas leituras dos elementos institucionais que delineiam sua conjuntura estão, numa perspectiva temporal, um tanto quanto afastadas da nossa.

      Documento central nesta análise, o processo criminal, concordando com o argumento de Maria Helena Machado, caracteriza-se a partir de sua funcionalidade, qual seja, de documento oficial, normativo, interessado no estabelecimento da verdade sobre um crime. E, enquanto mecanismo de controle social do aparelho judiciário, é um documento marcado por um padrão de linguagem, a jurídica, e pela intermediação imposta, pelo escrivão, entre o réu, as testemunhas e o registro escrito (MACHADO, 1987, p.23).

      É de fundamental importância salientarmos que a maneira como se definem as características de funcionalidade do processo criminal (linguagem formal, objetiva, informativa) induzem-nos a um conjunto mais amplo de discussões das quais a forma como se estrutura este tipo de documento é a penas mais um de seus efeitos. Falamos de um assunto para o qual Michel Foucault traz frutífera contribuição ao interessar-se em examinar como puderam ser formados domínios de saber a partir de práticas sociais. Enquadrando-se seu exercício analítico no sentido de desenvolver uma leitura historicizada do sujeito, do conhecimento e da ideia de verdade, Foucault defende o pressuposto de que o conhecimento não está inscrito na natureza humana, mas nas relações de poder perpassadas nas práticas sociais. Sendo assim, para o autor, nem o sujeito humano nem as formas do conhecimento são, de certo modo, dados prévia e definitivamente. Em suas palavras, “as práticas sociais podem chegar a engendrar domínios de saber que não somente fazem aparecer novos objetos, novos conceitos, novas técnicas, mas também fazem nascer formas totalmente novas de sujeitos e de sujeitos de conhecimento” (FOUCAULT, 2003, p.08). Assim, encontra nas práticas judiciárias ocidentais, uma maneira de perceber como a análise histórica é capaz de localizar a emergência de novas formas de subjetividade e de produção do saber a partir da qual se construiu predominantemente por uma linguagem formal, exata porque inserida na lógica do pensamento científico e racional, saber revestido – sobretudo a partir do século XIX com a compartimentalização do conhecimento em várias disciplinas (Antropologia, Sociologia, Direito, Psicologia) – de credibilidade, competência e autoridade já que comprometida com a busca da „verdade‟ através de um rigoroso exercício de verificação teórica, de conceitos e experiências.

      Lido por esta óptica, podemos observar que as formas jurídicas adotam métodos para a obtenção da verdade que variam (assim como esta mesma verdade) conforme a época e a maneira como as sociedades lidam com suas práticas sociais, como assim observamos com a própria reorganização do aparelho judiciário brasileiro. Aqui, como nas demais nações, o projeto de formação do Estado e de suas instituições – enquanto estruturas de personificação do poder social – procurava, ao menos em sua aparência, atribuir a estas instâncias, um estatuto calcado em princípios de racionalidade e objetividade a partir dos quais deveriam submeter-se, sem distinção, todos os seus membros.

      Foi no interior desta conjuntura que delineou-se nosso sistema judiciário, na medida em que, enquanto órgão instituído como instrumento de controle social formal, encarregou-se de reger as condutas dos indivíduos de forma coercitiva, organizada, inexorável e incondicionada, através da imposição de dispositivos objetivos de aplicação do Direito e a execução de suas sanções, estas, por sua vez, efetivadas por meio da implantação de mecanismos de investigação, dando destaque ao inquérito e a instauração de processos criminais, nos quais se reúnem e avaliam as peças que o compõem.

      Sendo assim, mais do que um instrumento de representação jurídica, o processo-crime pode ser utilizado como documento de análise capaz de revelar aspectos de uma determinada conjuntura social, cujo perfil requer um exame sob ângulos ainda pouco explorados, tal como nos indica Machado, buscando filtrar a visão de mundo das camadas dominadas de modo a que se possa entrever as relações sociais reais ou informais, o que exige apreender para além do conteúdo que consta no documento, “o testemunho do outro, ou seja, das massas anônimas que, apesar de marginalizadas do discurso institucional, nele se colocam de maneira sutil mas indubitável” (MACHADO, 1987, p. 22). respeito da criminalidade escrava e os usos e interpretações das fontes policiais e judiciais, para assinalar a possibilita de acesso a relevante gama de informações a respeito, por exemplo, da relação crime e escravidão, tema de nossa pesquisa, sob os mais variados ângulos. Fontes de ordem judicial oferecem excelente oportunidade para formar-se opinião acerca do papel desempenhado pela magistratura num contexto de intervenção do poder público na disciplina da população escrava e pobre livre, diz Campos (2007, p.215).

      Mas não só isso, eles permitem também uma inserção num mundo a partir do qual se pode perceber e inferir nas entrelinhas uma série de elementos que envolvem questões como o significado da condição social dos indivíduos e os privilégios que podem ou não obter conforme tal posição social, o que implica discutir não apenas as formas díspares e por vezes contraditórias de se tratar o escravo submetido a um procedimento judicial, como nos sugere Yuri Costa, mas também permite observar casos, ainda que bem pouco registrados, em que o escravo se encontra na condição de vítima e, como réu, figura um membro das classes mais abastadas e não um outro escravo ou alguém pertencente aos estratos sociais mais desfavorecidos economicamente, circunstância para a qual existe um número mais significativo de estudos. A prática judiciária, assim, “pode apresentar novos elementos para a interpretação dos aspectos jurídicos sobre a escravidão ainda pouco claros nas legislações e doutrinas da época” (CAMPOS, 2007, p.222).

      Aqui uma menção ao papel do inquérito enquanto procedimento jurídico faz-se bastante relevante. Prática, segundo Foucault, empregada desde a Idade Média europeia – mas que no século XIX com a ascensão do controle preventivo do Estado aparece como método fundamental de obtenção da verdade – o sistema de inquérito surge, conforme pensamento do autor, como mecanismo racional de estabelecimento da verdade. Tomando como referência uma definição do filósofo, “o inquérito é precisamente uma forma política, uma forma de gestão, de exercício do poder que, por meio da instituição judiciária, veio a ser uma maneira, na cultura ocidental, de autentificar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas como verdadeiras e de as transmitir” (2003, p.78).

      O método de investigação do inquérito consiste, no interior da prática jurídica, como forma de procurar saber o que havia ocorrido após a execução de um da qual se busca reatualizar um acontecimento passado por meio de testemunhos apresentados por pessoas que, por uma ou outra razão – por sua sabedoria ou pelo fato de terem presenciado o acontecimento – eram tidas como capazes de saber, explica Foucault.

      Transplantado sob outra linguagem aos países colonizados, o sistema de inquérito policial, concordando com a argumentação de Regina Lúcia Teixeira Mendes, foi utilizado no Brasil Imperial a partir de 1871 com a reforma do Código de Processo Criminal de 1832, e que, conforme explicação de Mendes representou uma grande vitória legislativa dos liberais radicais – posterior à abdicação de Dom Pedro I – uma vez que enfatizou, na organização judiciária, a descentralização do poder. Tal documento alterou substancialmente o sistema judiciário brasileiro, ao praticamente extinguir o antigo sistema colonial (de forte inspiração portuguesa) e introduzir novidades trazidas da Inglaterra, como já havia sido previsto pela Constituição de 1824 (MENDES, 2008, p.155).

      O conteúdo do Código de Processo Criminal de 1832 declarava, segundo Mandes, que nos casos de averiguação dos fatos, a investigação criminal realizada para a formação da culpa só seria feita a partir de denúncias que ofendessem interesses do Estado (crime público), ou interesses particulares (crime privado), assumindo um caráter processual que seguia a lógica de construção da verdade

      47

      jurídica a ser aproveitada pelo Conselho de Jurado tanto para se julgar a admissão da acusação quanto para julgar o mérito da mesma. Interessante observar que, à diferença do que ocorre hoje, o material preliminar colhido antes da abertura do processo judicial não era desqualificado enquanto provas suficientes e capazes de interferir na sentença final do libelo (2008, p.159).

      Mendes nos diz que a crítica ao caráter descentralizador do Código de Processo Criminal de 1832, que do ponto de vista político, fazia com que a classe dos magistrados e advogados – de forte influência na política imperial – se sentisse ameaçada por uma possível diminuição de seus poderes devido ao fortalecimento do poder local, promoveu reformas no conteúdo do documento no ano de 1841 e 1871. É esta última releitura (a da Lei nº 2.033, de 20 de setembro de 1871), a que nos interessa refletir, pois foi neste material que se introduziu no sistema brasileiro o método de inquérito policial:

      Instrumento público e cartorial que tem a função de consolidar e documentar a fase da formação da culpa para fundamentar a propositura da ação penal – e o júri de acusação ou pronúncia. Tal fato mudou substancialmente o sistema de construção da verdade jurídica em matéria criminal no Brasil. A fase de formação da culpa – que no Código de 1841 era judicial, de competência do juiz de paz, que deveria submeter a pronúncia do réu ao Conselho de Jurados – passa a ser, após a reforma de 1871, de competência do desembargador chefe da Polícia Judiciária, que tem poderes para nomear seus delegados. Transforma-se em um instrumento público dotado de fé pública e produzido em um cartório da Polícia Judiciária com a finalidade de fundamentar a propositura da ação penal (MENDES, 2008, p.162).

      É válido salientar que com esta reorganização da justiça brasileira, pós-1871, houve, em consequência, um remanejamento das funções atribuídas tanto à instituição policial quanto à instância judiciária, o que provocou uma série de divergências entre ambas. Tal incongruência foi mitigada pela adoção de um sistema de duplo inquérito que, conforme Mendes, validou a importância das duas instâncias uma vez que este sistema passou a ser formado por um inquérito policial preliminar seguido de um inquérito judicial.

      Embora tais considerações estejam relacionadas ao plano nacional, quando nos voltamos para o caso maranhense, a dinâmica do sistema judiciário não se diferenciava consistentemente. Mesmo com o processo de adesão do Maranhão

      48

      à Independência, se manteve o Tribunal da Relação , que consistiu no órgão máximo do judiciário provincial e o Maranhão se submeteu aos ditames do Código de Processo Criminal de 1832 e suas reformas.

      Yuri Costa faz uma observação interessante ao assinalar que a institucionalização do aparato judiciário maranhense viu coincidir sua estruturação com uma demanda que marcaria o cotidiano dos tribunais até o final da década de 1880 (com o fim da escravidão) a qual estaria vinculada ao tratamento jurídico a ser conferido ao sujeito escravizado, um dos principais objetos de preocupação deste nascente sistema de leis e punições. Como dissemos anteriormente, embora tivesse 48 – pelo menos num plano teórico – pretensões universalizantes no tange aos direitos e deveres dos cidadãos (nem todos os indivíduos se enquadravam em tal categoria), o aparelho judiciário se comportava ambiguamente quando se encontrava envolvido, vítima ou culpado, um escravo numa desavença jurídica.

      Dito isto, é com base nas considerações teóricas feitas até o presente momento que submeteremos a uma análise mais minuciosa o processo-crime movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, os chamados Autos do Processo-crime

      

    da Baronesa de Grajaú (1876-1877), a partir do qual nos será dado a oportunidade

      de resgatar, é claro que com a devida cautela, aspectos da vida cotidiana de uma determinada conjuntura social, pois, como nos sugere Machado, ao interessar-se a Justiça em reconstituir um evento criminoso, “penetra no dia-a-dia dos implicados, desvenda suas vidas íntimas, investiga seus laços familiares e afetivos, registrando o corriqueiro de suas existências” (1987, p.23).

      Além do mais, uma análise sustentada em autos criminais, como é o nosso caso, permite uma abordagem apreciável sobre os aspectos sociais das camadas desfavorecidas econômica e socialmente, suas relações de amizade, trabalho, parentesco e vizinhança, ainda que não estejam registrados na superfície do material coletado. A multiplicidade de interpretações a que pode estar sujeito o documento também não pode ser negada. Isso porque, como veremos a partir de agora, nas etapas que compõem os autos do processo criminal, a própria fala dos atores envolvidos no processo; o comportamento dos representantes jurídicos, revelam, com base na leitura que se fez das instituições da época, não somente posturas díspares diante de um mesmo conteúdo criminal, mas também a maneira como estes representantes manipularam a substância destes autos.

    3.1 Os autos de exame de corpo de delito

      Como dissemos no tópico anterior, uma das principais características da reforma do Código de Processo Criminal do Império feita em 1871 no que tange ao procedimento judiciário de investigação criminal, envolveu uma adaptação do papel do inquérito policial, prática cuja substância tanto poderia possibilitar a admissão de um processo judicial como também servir de anexo para a resolução de um trâmite jurídico. dia 13 de novembro do mesmo ano e por meio de maus-tratos, um escravo menor de idade chamado Innocencio. Antes da denúncia formal ao juiz pela promotoria, foi realizado um inquérito policial, instaurado pela Subdelegacia de Polícia do 2º Distrito, então chefiada por Antonio José da Silva Sá. O conteúdo fundamental do inquérito policial é composto pelo primeiro exame de corpo de delito realizado em 15 de novembro de 1876 no cadáver de Innocencio no cemitério da Santa Casa de Misericórdia e de cuja perícia foi executada pelos tenentes cirurgiões do Exército

      49 Raymundo José Pereira de Castro e Augusto José de Lemos e testemunhado por

      José Jacintho Ribeiro e Joaquim Mariano Marques, além do referido subdelegado do 2º distrito policial e o escrivão. Procedida a etapa pericial, o corpo documental se compunha dos seguintes quesitos:

      1º) Si houve morte?; 2º) Qual a sua/ causa immediata?; 3º) Qual o/ meio empregado que a produ/sio?; 4º) Si a morte foi causa/da por castigos immodera/dos?; 5º) Qual a especie des/ses castigos, e com que instru/mentos praticados?; 6º) Quais/ as partes do corpo foram mal/tratadas, a naturesa dos máos tractos e si delles poderia re/sultar a morte, ainda que hou/vesse cuidado no tratamento?; 7º) Si o cadaver, pelo habito/ externo, denota ter estado o/ menor Innocencio em abando/no e sem cuidados humani/tarios? (AUTOS, 2009, p.71).

      Ao que, após uma descrição minuciosa e sustentada em critérios

      50

      científicos , os peritos concluíram que: houve morte, que sua causa imediata foi provavelmente oriunda de maus tratos e castigos, que, embora não tenham sido imoderados, foram repetitivos – circunstância que fica evidente pelas marcas de agressão (antigas e recentes) encontradas em boa parte da extensão do corpo da vítima – o que fez com que o menor não pudesse suportar. Acrescente-se a isso a conclusão de que “o estado do corpo da infe/liz criança demonstrava que a /morte apparecera não em vir/tude de uma moléstia ou consumpção e sim por uma /causa qualquer rapida que /pouco lhe alterou o seu esta[fl.12]do physico” (AUTOS, 2009, p.72).

      Somado ao conteúdo do primeiro corpo de delito foram anexados ao inquérito policial, os depoimentos de testemunhas e informantes convocadas e 49 ouvidas pelo subdelegado do 2º Distrito de Polícia, dentre os quais, parece-nos, foi

      

    Não nos foi possível encontrar resquícios acerca do lugar social destes facultativos afora o que de importante valia o testemunho do negociante e proprietário da firma contratada para realizar o enterro de Innocencio e também tenente coronel, João Marcelino Romeu, testemunho a partir do qual parece convergir boa parte das alegações proferidas por outras tantas testemunhas. Em seu depoimento, Marcelino Romeu detalhou com certo rigor os acontecimentos que esteve ciente, segundo ele, desde que soube da morte de um escravo de Dona Anna Rosa até o momento em que o corpo do mesmo foi levado ao cemitério, pondo aos olhos da polícia figuras supostamente suspeitas de envolvimento, em qualquer grau, com o delito investigado e de cujas atitudes estão direta ou indiretamente vinculadas a prováveis mandos e desmandos da acusada.

      É o caso das testemunhas: Gregória Rosa Salustiana, cozinheira, que a este tempo estava alugada como criada aos serviços de Anna Rosa, e que, quando perguntada o que teria ido fazer à casa de Romeu na madrugada do dia 14 de novembro (de 1876), respondeu que foi a mando de Dona Anna Rosa transmitir um recado ao armador para que o enterro do escravinho se fizesse até às 6 horas daquele dia; Antônio Gonçalves da Silva, armador e sócio de Marcelino Romeu, afirmou ter confeccionado o caixão de Innocencio com base em medidas recebidas por volta das 9 horas da noite do dia 13 de novembro de um escravo velho às quais admite que foram enviadas a ele testemunha em nome da senhora Anna Rosa, confirmou ainda a recomendação da mesma para que o enterro do escravo tivesse entrada até às 6 horas da manhã; Sebastião dos Santos Jacintho, escravo do Dr. Antônio dos Santos Jacintho, citado em depoimento como aquele que levou as medidas do caixão para ser produzido, informando também ter sido ele quem vestiu calça e camisa em Innocencio estando este já falecido, negando, porém, ter visto qualquer ferida no corpo do mesmo. Acrescente a estas testemunhas as declarações dos informantes Primo, Anisio e Geraldo indicados como os carregadores do caixão de Innocencio até o cemitério. Segundo conclusão do subdelegado de polícia, todos eles confirmam o fechamento do caixão da vítima quando de seu translado e a recomendação feita por Anna Rosa para que não o abrissem senão no ato da encomendação do cadáver, atitude atípica aos costumes da época, pois como encontramos explícito no corpo dos autos, era de amplo

      51

      conhecimento que sempre iam abertos o caixão de anjos , militares, donzelas e padres (AUTOS, 2009, p.210-242-243).

      Embora não seja aqui nosso objetivo tecer juízos de valor acerca das presumidas ações praticadas pela acusada, podemos observar que – sustentando- nos no conteúdo das alegações feitas por Marcelino Romeu, bem como pelas testemunhas e informantes há pouco mencionados – Anna Rosa conseguiu mobilizar, imbuída da autoridade que lhe confere sua privilegiada posição social, escravos e homens livres, cujas atitudes refletem o empenho que teve em livrar-se o mais rapidamente possível do corpo de Innocencio. Afirmamos isso devido a pressa que a mesma teve em mandar confeccionar o caixão da vítima e agilizar, antes das 6 horas da manhã, o enterro do mesmo, insistindo ainda na possibilidade de que este saísse em casa alheia à sua, todas estas informações afirmadas por ela em interrogatório.

      Acrescente-se a tais circunstâncias o depoimento do Dr. Antônio dos

      52

      53 Santos Jacintho ao declarar que Innocencio morreu de hypoemia intertropical ,

      consequência do hábito que este tinha de comer terra, estando ele testemunha convencido de que o “escravinho nunca teve em/ poder da Senhora Dona/ Anna Rosa Vianna ali/mentação, nem sufficiente/ nem dada a hora propria” (AUTOS, 2009, p.136). Chegando neste ponto a uma argumentação um tanto quanto dúbia e problemática ao acrescentar que com isso não quer dizer que tenha havido abandono completo do menor, mas sim uma “insuficiencia/ dos meios adquados a debe/lar a dita molestia” (AUTOS, 2009, p.136). A dubiedade desta declaração, em que se reconhece a ausência na prestação de cuidados a serem dados à vítima, mas que obscurece (ou pelo menos tenta obscurecer) a responsabilidade de quem se absteve do tratamento, torna-a suscetível a uma série de distorções, o que, neste particular, acabou servindo como elemento favorável à acusada, circunstância que 51 Interessante observar que, ao menos neste particular, o caráter da indagação incidia na

      

    possibilidade do menor Innocencio ser incluído na categoria de anjo, conferindo, neste aspecto, um

    tom humanizado ao escravo, tal como podemos observar no depoimento do próprio Marcelino Romeu

    que, quando questionado nos autos se é costume fazerem-se enterros de pessoas da idade de

    Innocencio em caixão fechado, responde ser costume invariável que caixões de anjos, militares,

    52 donselas e padres fossem levados abertos ao cemitério (AUOTS, 2009, p.210).

      

    Como veremos no decorrer da análise, da condição de testemunha que ocupa no inquérito policial,

    o Dr. Santos Jacintho passa à condição de principal perito do 2º corpo de delito realizado no corpo de será melhor elucidada quando tratarmos do 2º corpo de delito feito no corpo do menor.

      Em sua defesa a própria Anna Rosa alega em auto de qualificação e interrogatório em que foi submetida no dia 19 de novembro de 1876 pelo

      54

      subdelegado Antônio José da Silva Sá , enquanto documento a ser anexado na etapa de inquérito policial, que pelo fato de se encontrar só em sua residência quando do ocorrido, estando apenas servida pela preta Zuraida, “não desejava presenciar/ o triste quadro de enterro, tanto/ que por esta razão ella res/pondente deligenciou manda/lo tratar-se fora” (AUTOS, 2009, p.94). Ainda nestes autos não divergiu de boa parte das alegações feitas pelas testemunhas e informantes durante a fase de coleta dos depoimentos, afirmando ter ordenado a Sebastião, escravo do Dr. Santos Jacintho tomar as medidas do cadáver de Innocencio bem como fazê-lo enterrar antes do nascer do sol. Afirmou também que incumbia a mulata Olympia de aplicar corretamente o tratamento a ser dado ao escravinho, tratamento este baseado no emprego de medicamentos e dieta alimentar, contrariando assim a alegação do Dr. Santos Jacintho de que a falta de uma alimentação fortificante apropriada contribuiu para acelerar a morte de quem já estava acometido pela hypoemia intertropical.

      Não era apenas a suspeita de não prover uma dieta alimentar e de ter descuidado no emprego dos medicamentos de Innocencio o que pesava contra Anna Rosa. Já era grande sua fama de maltratar escravos de sua propriedade, de maneira que a formalização da acusação feita contra ela por ter seviciado o menor, trouxe à tona uma série de outros tantos comentários acerca do costume que a acusada tinha de seviciar uns escravos seus e de levar outros à morte por conta destas mesmas sevícias. É o caso de Jacintho, irmão de Innocencio, também escravo de Anna Rosa, morto dia 27 de outubro de 1876, menos de um mês antes e sob os mesmos indícios que levaram à morte de Innocencio, fato este também explorado no decorrer do inquérito policial. Neste aspecto, houve constante interesse em tomar conhecimento sobre as condições de morte e enterro de 54 Jacintho, questões que não ficaram elucidadas não apenas por ser Innocencio a vítima formal do inquérito, mas por não dizer muito os depoimentos das testemunhas nele envolvidas.

      Acrescenta-se a tais informações o depoimento do tenente do 5º Batalhão de Infantaria, Valério Sigisnando de Carvalho, que afirmou conhecer um escravo de Anna Rosa que diversas vezes foi à casa do irmão dele testemunha pedir para que o comprasse por não mais aguentar as barbaridades cometidas por sua senhora. Diz ainda a testemunha saber por terceiros que a senhora Anna Rosa mandara numa

      55

      ocasião arrancar todos os dentes de uma mulata pelo simples fato de os ter achado bonito seu marido, o Dr. Carlos Fernando Ribeiro. No entanto, uma informação a mais neste depoimento nos parece bastante significativa, a de que uma mulher queria empenhar um par de rosetas numa loja à Rua do Sol dizendo ser o seu produto para comprar alguma coisa para seus netos comerem, uma vez que estavam morrendo de fome em companhia da senhora deles que, no caso, seria a própria Anna Rosa.

      Com base nas alegações que constam nos depoimentos, podemos asseverar que esta mulher tratava-se de Simplicia Maria da Conceição Teixeira Belfort, liberta e incluída nos autos sob a condição de informante, declarou ser avó de Innocencio e Jacintho. Embora tenha sido um tanto evasiva na fase policial do processo, Simplicia foi mais minuciosa em suas declarações durante o inquérito judicial, denunciando as agressões sofridas por seus netos e afirmando que estas provinham das mãos de Anna Rosa Ribeiro. Disse ainda que pouco falou durante o depoimento policial por achar que não seria mais preciso fazê-lo uma vez que já teria denunciado os maus tratos cometidos por Anna Rosa ao chefe de policia numa

      56 ocasião anterior .

    55 Não nos interessa aqui discutir a veracidade deste fato, sendo válido apenas destacar que esta

      

    estória é bastante ilustrativa das atrocidades cometidas contra os cativos, estando longe de ser

    56 atribuída somente à Anna Rosa Ribeiro.

      

    Na descrição feita por Simplicia a respeito da denúncia de agressão, em que estavam submetidos

      57 Relevante também foi o depoimento de Geminianna , preta forra que

      declarou ser mãe de Jacintho e Innocencio, e quando, perguntada o que sabia acerca do falecimento de seus filhos respondeu:

      Quando morreo/ seo filho Jacintho foi ella infor/mante a casa de Dona Anna/ Rosa Vianna Ribeiro pedir/ que a deichasse ver, ao que lhe/ respondeo Dona Rosa que o fos/se ver no Semiterio, porque/ quando os comprou não sa/bia que tinha mae e que/ quando morreo Innocencio, em/contrando ella o enterro per/guntou de quem era e saben/do que era de casa de Dona/ Anna Rosa, dirigio-se ao/ semiterio para vel-o; e alli/ chegando não querião consen/tir que fosse aberto o caixão e/ ella dizendo que queria/ ver depois de morto seo filho/ já que em vida não o via,/ o sachristão abrio o caixão e/ ella vio que era o seo filho/ Innocencio, o qual estava com/ [fl.39v] os pulços feridos, proveniente de/ ter sido amarrado com corda,/ tendo mais uma ferida no bra/co, uma nas costas e outra no/ cotuvello. (AUTOS, 2009, p.111).

      Diz ainda não ter recebido recado algum da parte de Anna Rosa sobre o falecimento de Innocencio, como teria informado às autoridades a acusada. Respondeu ainda, na fase judicial do processo, que antes de serem vendidos, seus filhos não demonstravam qualquer tendência para o vício de comer terra, contrariando a alegação da senhora Anna Rosa que afirmou já tê-los recebido com este mau hábito. Por fim, Geminianna atribui os ferimentos encontrados em seu filho como provenientes “de cas/tigos e maos tractos; os dos pul/sos devidos a ter sido amarrados/ com cordas, os das costas pro/dusidos por chicote, não sa/bendo o que pensar a res/peito do ferimento do cotovelo/ que poderia ter sido occa/sionado por uma queda” (AUTOS, 2009, p.245), e que ao vê-lo nestas condições logo supôs que tais castigos foram praticados em casa de Anna Rosa.

      58 No decorrer da leitura dos depoimentos registrados tanto no inquérito

      policial quanto na etapa judicial, podemos observar a existência de duas categorias em relação àqueles que falam numa inquirição, no que tange ao sistema jurídico imperial brasileiro: é o caso da testemunha e do informante, que embora exerçam a mesma função – qual seja, a de descrever o que se sabe sobre um fato ocorrido – 57 difere no que diz respeito à condição daquele que depõe. A distinção dá-se,

      

    É esta mesma Geminianna que se encontra como uma das principais acusadas no processo

    movido contra a pajé Amélia Rosa nos anos de 1877-1878 - de quem Geminianna era braço direito, o

    58 de ter praticado sevícias na escrava Joanna pertencente à Dona Anna Araújo Trindade.

      

    Assim atestam a clara distinção estabelecida, no conteúdo do processo de Anna Rosa Ribeiro, sobretudo quanto ao fato da testemunha encontrar-se na condição de homem livre e em consequência disso parecendo ter mais validada sua fala, ao passo que o informante, representado pela figura do cativo, devido sua condição jurídica de coisa, tem mais ambígua e problemática a credibilidade de sua informação.

      Quanto a este aspecto, o historiador maranhense Yuri Costa faz uma observação bastante pertinente a respeito do processo de subjetivação do escravo no discurso jurídico brasileiro quando argumenta que um dos mecanismos que envolvem a valoração de diferentes ações do cativo encontra-se no direito que este tem de depor em juízo e ter sua fala validada, circunstância esta por muito tempo imediatamente descartada pela legislação portuguesa (Ordenações Filipinas) implantada em território nacional, em que se afirmava categoricamente que “o escravo não pode ser testemunha, nem será perguntado geralmente em feito algum,

      59 salvo nos casos por Direito especialmente determinados” .

      A condição formal de coisa atribuída ao elemento servil não o impossibilitava de forma absoluta a contribuir num processo investigativo. Yuri Costa explica que nos casos em que se entendesse “que o depoimento de pessoa proibida de testemunhar pudesse ter valia para a solução do crime, sua fala poderia ser tomada na condição de informante, terminologia, segundo Costa, inventada para formalizar a fala do escravo no discurso judiciário imperial, sendo algo que transita entre os extremos do testemunho e da informação. Salienta ainda que “era considerado informante quem não podia ser testemunha, por lhe ser vedado proferir juramento ou pelo fato de esse juramento, mesmo sendo possível, ter sido feito de forma irregular” (COSTA, 2009, p.213). Quanto a este critério parece enquadrar-se as pessoas de Simplicia e Geminniana que, mesmo na condição de negras forras foi-lhes atribuído papel de informantes no processo-crime, circunstância esta que de alguma maneira fragilizava seus depoimentos.

      Finalizada a etapa de obtenção dos depoimentos, o subdelegado reuniu- os ao laudo do primeiro exame de corpo de delito e ao conteúdo do interrogatório da acusada, resumindo todo este material em relatório no qual, com base nas informações nele contidas, concluiu com convicção a existência de um delito e que seu autor seria a senhora Anna Rosa Vianna Ribeiro. Entregue os autos do inquérito policial ao Ministério Público, representado pelo Promotor Público Adjunto Antônio Gonçalves de Abreu formalizou-se a denúncia contra a futura Baronesa de Grajaú ao Tribunal do Júri sob a acusação logo abaixo por ele exposta:

      Constando, pela voz pública, ao Sub/delegado de Policia do 2º districto, no dia/ 14 deste mez, pelas nove horas da manhã,/ que no Cemiterio da Santa Casa de Mise/ricordia, se achava para ser sepultado, o ca/daver de um menor de nome Innocencio, es/cravo da denunciada, apresentando signaes de/ sevicias, e tão recentes, que faziam convencer/ de que ellas tinham occasionado a morte do/ dito menor; dirigiu-se, o Subdelegado, ao/ Cemiterio, e verificou a existencia dos casti/gos denunciados pelo povo. Providencian/do immediatamente acerca do necessário cor/po de delicto, pelos facultativos, Dr. Augusto Jo/zé de Lemos e Dr. Raimundo José Pereira de/ Castro, confirmaram estes a existencia dos cas/tigos descriptos no auto a fl.5 à 8v do inquéri/[fl.2v]to junto, declarando ter o infeliz escravo mor/rido em consequencia das sevicias e maus tra/tos que o cadaver patenteava e ficavam demon/stradas [sic] pelo exame á que haviam procedido/ externa e internamente, como se vê do mesmo/ auto (AUTO, 2009, p.49).

      E logo adiante acrescenta:

      E, com effeito, das inquirições e pesqui/zas constantes dos autos annexos, resultam/ os mais vehementes indicios de terem sido es/es castigos e maus tratos, mais de uma vez ve/rificados no cadaver do menor Innocencio/ inflingidos pela senhora do mesmo, a denun/[fl.3]ciada, d. Anna Rosa Vianna Ribeiro, n‟ausen/cia de seu marido, o Dr. Carlos Fernando Ribei/ro: o que bem e claramente se evidencia das/ diligencias que ella empregou exigindo a prom/ptificação do caixão, de modo que o enterro se fi/zesse antes das seis horas da manhã d‟aquele dia 14, e da recommendação expressa de/ se não abrir o caixão, se não no acto da en/commendação do cadaver, fechando-se depois,/ e logo mettido na sepultura, isto sem duvi/da para subtrahi-lo ás vistas do público; sen/do tambem para notar, que tendo estado o ca/daver de Innocencio, insepulto desde o dia/ 14 até 15, por ordem do Subdelegado, afim de/ proceder-se ao corpo de delicto, a denuncia/da, que tudo sabia dos rumores espalhados, guar/dava a maior indifferença acerca do que se/ passava á respeito do seu escravo, quando era/ natural que ella procurasse convencer ao pu/blico de que d‟outra causa, que não os castigos, provinha a morte de Innocencio... Desta sorte indigitada a denunciada,/ como autora das sevicias e maus tratos encon/trados e reconhecidos no cadaver de seu escravo In/nocencio, visto que este durante o tempo em que/ foi possuido por ella, jamais esteve em outro po/[fl.3v]der e debaixo de outras vistas, torna-se a mes/ma denunciada, d. Anna Rosa Vianna Ri/beiro criminosa; e por isso, e em cumprimen/to da lei, dá o abaixo assignado a presente/ denuncia, para o fim de ser ella punida/ com as penas decretadas no art. 193 do Códi/go Criminal... (AUTOS, 2009, p.50).

      O teor do ato de denúncia aponta para um aspecto importante a respeito de uma leitura da escravidão enquanto instituição em vias de supressão no Brasil. Falamos da intervenção do Estado nos embates ocorridos entre senhores e escravos, intervenção esta que poderia ocorrer não somente quando os escravos se

      Sabemos que, pela óptica daquela realidade, era comum e de direito de um dito senhor de escravos castigar física e moralmente um outro encontrado na condição de cativo, a restrição deste direito situava-se no abuso destes castigos, implicando tal fato em ato de sevícia, atitude social e juridicamente reprovada, o que permitia a este indivíduo escravizado ou a outrem a possibilidade de denúncia aos órgãos competentes, como assim o fez a Promotoria Pública do Estado do Maranhão contra a senhora Anna Rosa Ribeiro.

      Admitida a abertura do processo judicial contra a aristocrata, uma das primeiras medidas tomadas pelo substituto do Juiz de Direito do Terceiro Distrito Criminal, Torquato Mendes Vianna, foi intimá-la para, perante dele, depor. Ocorre, no entanto, que, em alegando problemas de saúde, a acusada, representada por seu advogado – o Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte de quem falaremos mais adiante – entrou com petição para que ou se fizesse representar diante do juiz por seu advogado durante todo processo ou que o sumário se realizasse no local de sua residência. Pedido indeferido, o que fez com que a ré fosse considerada revel, ou seja, a tramitação do processo dar-se-ia sem a participação e acompanhamento da denunciada. Foi o que aconteceu durante boa parte da etapa de coleta dos depoimentos das testemunhas e informantes, os quais, diga-se de passagem, mantiveram-se em sua maioria não apenas em relação aos intimados, mas também ao conteúdo de suas falas na fase policial.

      A insistência da denunciada em tal petição não cessou, de maneira que foi enviado ao juiz um novo pedido, este agora acompanhado de atestado médico –

      60

      assinado pelo Dr. José Maria Faria de Mattos - em que se certificava que após exame realizado em Anna Rosa, a mesma sofria de beriberi e hepatite sub-aguda, achando-se, portanto, sob uso de remédios e impossibilitada de sair de casa. Ao que o juiz considerou: “Junto aos autos, proceda-se ao interrogatorio em/ casa da denunciada, visto mostrar com attestado,/ que apresenta, que ainda continua a 60 impossibilidade/ de comparecer na sala das audiencias (AUTOS, 2009, p.273-274)”.

      

    Que compõe o corpo de facultativos participantes do 2º corpo de delito. E, conforme informação de

    César Augusto Marques, era filho de José Maria Faria de Matos, major da extinta Cavalaria Franca da

    capital e de Dona Margarida Cândida Galvão, nascido nesta cidade a 19 de dezembro de 1820.

      Chegado o dia 15 de dezembro de 1876 deu-se os autos de qualificação e interrogatório da acusada, em sua casa de morada como teria sido acordado, estando aí presente o juiz substituto, o advogado de defesa e o promotor público, na ocasião, Celso Magalhães, negando-se este a assinar o documento. Não mudou ela o conteúdo de suas alegações prestadas ao subdelegado de polícia, comunicando- se ora com poucas palavras ora mostrando-se um tanto evasiva e contraditória. Respondeu que não castigou nem fez castigar a Innocencio. Que as escoriações nele encontradas provavelmente foram provenientes de quedas que o escravinho teve repetidas vezes no quintal de sua casa. Informa ainda que exigia que o enterro da vítima fosse o mais breve possível para livrar-se deste incômodo e para não ver a repetição de um ato para ela bastante doloroso e que se deu poucos dias antes com a morte de Jacintho. Por fim, atribui sua denúncia a “um inimigo occulto e gra/tuito que tem espalhado/ estes boatos contra ella in/terrogada” (AUTOS, 2009, p.288).

      Como parte do conjunto de documentos a serem reunidos para a formulação da defesa de Anna Rosa, seu advogado Francisco de Paula requereu, ainda na fase policial, um pedido de exumação do corpo de Innocencio para que se realizasse novo corpo de delito, agora periciado pelos Drs. Antonio dos Santos Jacintho, José Maria Faria de Mattos, Fabio Augusto Bayma, Manoel José Ribeiro da Cunha, Raimundo José Pereira de Castro e Augusto José de Lemos, estes dois últimos, peritos do primeiro exame. Deferido o pedido, deu-se andamento ao

      61

      procedimento , cujo laudo orientou-se pelos seguintes quesitos:

      Primeiro, si a mor/te foi natural ou causada/ por violencia; 2º, si por/ molestia poder-se-ha de/terminar a naturesa della,/ e era ella capas de produ/sir a morte; terceiro, no caso/ sujeito, si foi morte cau/sada pela molestia, a que/ a attribuio o attestado do Fa/cultativo; quarto, se apre/senta o cadaver contusões/ e são estas capazes de digo/ de justificar a morte por/ violencia; quinto, si pelos/ caracteres das contusões,/ pode-se assegurar que o/ individuo morto houves/se sido repetidas veses/[fl.240v] castigado corporalmente,/ e em tal caso, si o aban/dono ou carencia de tra/tamento erão sufficientes/ para produzirem a morte;/ sexto, si o estado do cada/ver denota, que o indivi/duo não tivesse sido ali/mentado regularmente até/ a morte, ou si os indicios/ de alteração physica são/ ou não provenientes e expli/caveis por moléstias; septi/mo, si há contusões na/ cabeça, e são estas de/ naturesa especial, e pode-/se determinar a causa/ dellas (AUTOS, 2009, p.324). Ao que o primeiro grupo de facultativos, formado pelo Drs. Antonio dos Santos Jacintho, José Maria Faria de Mattos, Fabio Augusto Bayma e Manoel José Ribeiro da Cunha, concluíram, após inspeção minuciosa no trato externo e interno do cadáver que: a morte foi natural uma vez que resultante do fato de a vítima ter adquirido hypoemia intertropical, doença que, segundo os doutores, pode ser suficiente para causar a morte. Que havia contusões na extensão do corpo, porém, que estas eram insuficientes para levar a óbito. Admitem também que Innocencio foi castigado, embora não saibam determinar o número de vezes. Por fim, informam que o alimento encontrado no estômago do cadáver não era adequado à natureza da moléstia, mas que com isso não podem afirmar que houve carência de tratamento, circunstância que por si só poderia ocasionar a morte.

      Em divergência com tais observações, o segundo grupo de peritos, composto pelos facultativos que realizaram o primeiro corpo de delito, considera que

    • – em acréscimo ao já dito no exame anterior – os parasitas encontrados no estômago do menor eram tão em pequeno número que não se pode asseverar terem sido estes a causa do seu falecimento, assim como não se pode descartar a possibilidade deste ter sucumbido em consequência dos castigos a ele infligidos. Quanto à questão alimentar do menor, consideram que este não demonstrava estar entregue ao abandono nem deixado de ser alimentado, mas que parecia sê-lo de uma maneira inconveniente ao tratamento da moléstia.

      Chama atenção nestas alegações, sobretudo o posicionamento do Dr. Antônio dos Santos Jacintho, o qual trouxe para a investigação um novo ingrediente causador da morte do escravo, visto que, se antes a suspeita policial pairava em maior grau para os indícios de maus tratos e descaso no emprego de medicamento e alimentação apropriados como motivadores do falecimento do menor conforme indicação do primeiro laudo cadavérico, com a intervenção do Dr. Santos Jacintho, houve, digamos que um desvirtuamento da linha investigativa, quando afirmou ter Innocencio entrado em óbito devido a „circunstâncias naturais‟ consequência da doença hypoemia intertropical.

      A defesa de tal posição rendeu a Antônio Jacintho uma série de inconvenientes sociais de forma que, como nos argumenta o jurista José Eulálio Figueiredo de Almeida, foi necessário que o mesmo abrisse mão do cargo que aqui em que se encontrava envolvida a futura Baronesa de Grajaú, com isso, demonstrando uma opinião pública atenta e exigente à resolução do processo. Afirmamos uma vez mais que a repercussão deste caso demonstra predominantemente uma manifestação da interferência do poder público nos conflitos entremeados por senhores e cativos numa época de ampliação da atividade abolicionista na capital. O reconhecimento desta intervenção, porém, não nos viabiliza afirmar, como veremos a seguir, que a autoridade senhorial ou a importância deste domínio teria se dissipado ou pelo menos minimizado.

      Sem, obviamente, desmerecer a importância de muitos dos depoimentos presente nos autos, devemos destacar a relevância que tiveram os laudos cadavéricos feitos em Innocencio uma vez que, através deles e de suas divergências, podemos observar, se possível dizer, a tendenciosidade de algumas observações ali contidas, veladas em meias palavras e informações um tanto quanto contraditórias, sobretudo em se tratando das ofensas físicas a que foi submetido e a aplicação da dieta alimentar correta ou não ao dito escravinho.

      Com base nesta documentação erigiu-se boa parte das argumentações desenvolvidas tanto pela defesa quanto pela acusação, ambas as partes atentas a cada detalhe de seu conteúdo utilizando-os sob a letra da lei e a lógica de pensamento característico de uma sociedade sustentada na dominação escrava. É o que veremos nos próximos tópicos.

    3.2 Alegações da defesa: o papel do Dr.Francisco de Paula Belfort

      Em paralelo ao andamento do inquérito policial correu um trabalho prévio de formulação da defesa de Anna Rosa Ribeiro, elaborada, como já tivemos a oportunidade de mencionar, pelo Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte, advogado, político e jornalista maranhense cuja trajetória profissional foi sinteticamente lembrada e exaltada por César Augusto Marques em seu

      Dicionário histórico-

    geográfico da Província do Maranhão (2008, pp.80-81). Ainda assim, pouco se

      sabe sobre dados biográficos mais aprofundados sobre o defensor da senhora Anna Rosa Ribeiro. Sabemos ser oriundo de uma das três principais famílias da Província

    • – Bruces, Burgos e Belforts – que disputavam entre si a hegemonia política na
    pelo Partido Liberal, então chefiado por Carlos Fernando Ribeiro, marido de Anna Rosa. Figura paradoxal, Paula Duarte gravitou entre os Partidos da Monarquia por um dos quais foi eleito deputado geral pelo 1º Distrito na legislatura entre 1867 e 1870, quando aderiu às ideias republicanas. Integrou ainda a Junta Governativa que governou a Província do Maranhão no ano de 1889 e fez parte da comissão revisora do Código Criminal do Império de 1890 (2005, p.79).

      No conteúdo de sua defesa consta uma extensa e detalhada carta na qual o advogado da senhora Anna Rosa constrói uma linha argumentativa sustentada nas supostas falhas do documento elaborado na fase do inquérito policial, e, tomando como referência autores de forte expressão na ciência criminal da época – ou mesmo antes dela – cita estudiosos como Sedillot, Briand, Chaudé, Casper, Mittermayer, Pimenta Bueno, bem como fragmentos de Códigos Penais europeus, para tecer duras críticas, às várias etapas do processo criminal. A primeira delas está relacionada à maneira como se procedeu e consequentemente se confeccionou o primeiro exame de corpo de delito, diga-se de passagem, bastante prejudicial à sua cliente.

      Apoiando-se obstinadamente na valorização dos princípios científicos e jurídicos para a constituição de sua defesa, Francisco de Paula assinala que este procedimento é nulo de pleno direito e insuficiente para atestar a existência jurídica do crime, acrescentando ainda que:

      A esse acto não pre/sidiram as solemnidades da lei, nem os preceitos/ scientificos, nem finalmente os escrupulos vul/gares que a gravidade da missão dos peritos/ impõe e aconselha. Superficial e pouco/ detido, o primeiro exame no cadaver em ques/tão indica apenas a idéa preconcebida do cri/me, a preocupação que dispensa a analyse/ [fl.214v] a postergação das formulas que conduz sempre/ ao erro irreparavel. Convidados a constatar a existência de/ um crime, de cujas imaginarias peripecias/ tinham tido previamente vagas informações,/ desnaturadas e apaixonadas, os peritos, tendo/ à vista o cadaver não examinaram fria e/ scientificamente os signaes que elle apresenta/va, contentando-se com descrever confusamen/te as contusões, echymoses e marcas que des/cobriram á primeira vista e de cuja grandesa,/ profundidade e caracter olvidaram a minu/ciosa menção, que lhes é recommendada pe/los preceitos da arte e especialmente pela/ lei criminal. Pimenta Bueno pag.89 (AUTOS, 2009, p.293).

      Os erros que aponta neste exame, para ele, estão relacionados não apenas à presença do que denominou de „espectadores inúteis‟ no ato da autópsia, científicas adequadas à prática dos médicos legistas, em que postula, citando ele Sedillot, ser necessário examinar as três grandes cavidades do tronco: cabeça, peito e abdômen, pois nelas residem frequentemente as lesões mais graves, sendo os membros raras vezes a sede de feridas suficientes para causar a morte (AUTOS, 2009, p.294). Descrevemos esta afirmação por considerar que, foi com base nesta prerrogativa que Francisco de Paula começou a dissolver, pelo menos em termos científicos e jurídicos, a possibilidade de que Innocencio tenha falecido de maus tratos, já que boa parte das contusões apontadas no corpo da vítima pelos legistas do primeiro exame encontravam-se nos braços e nas pernas, sendo fundamental constatar o fato de que estes mesmos legistas não examinaram as tais três principais partes do corpo, falha altamente propícia ao desenvolvimento de hipóteses favoráveis a acusada, como assim aconteceu.

      Com base em tais considerações acabou o advogado de defesa taxando o primeiro exame cadavérico de fantasioso, contraditório, insignificante, duvidoso e recheado de parcialidade, pontuando que:

      aos peritos de um corpo de delicto, não/ é licito fundamentar as suas conclusões/ em conjecturas mais ou menos arriscadas/ e audaciosas – as suas respostas devem ser/ firmes, absolutas, positivas por isso que/ são o fructo da observação scientifica e/ as consequencias resultantes da inspec/cão ocular. Desde que esta não é suffici/ente, ajudada dos recursos da arte, para/ determinar a convicção, aconselha o ma/is vulgar critério que se conclua pela não/ existencia do phenomemo apparente, que/ não pode dar lugar ao procedimento da/ justiça” (AUTOS, 2009, p.295).

      A racionalidade de sua argumentação a respeito da preferência legal pela inexistência de crime quando não categóricas e absolutas as conclusões que asseverem a sua concretude, encontra respaldo na documentação a partir da qual desenvolve sua defesa, na medida em que, não foi apresentada, com base em provas cabais, a existência de assassinato no primeiro procedimento.

      É válido acrescentar, no entanto, que a crítica que o Dr. Francisco de Paula fez em relação aos termos que provocam descrédito no primeiro exame, tais como provavelmente, possivelmente, talvez, pode ser, que levam a um distanciamento da verificação jurídica, encontram-se também na escrita do segundo corpo de delito, para este advogado considerado como mais apreciável e digno de laudo, tornando-se mais próximo do alcance de uma verdade científica quando os peritos afirmam com convicção que Innocencio faleceu de morte natural, resultado de hypeomia intertropical. Conforme observação de Francisco de Paula:

      Presidiram ao segundo exame to/das as solemnidades estabelecidas na/ lei; consagrou-o a presença do agente da/ justiça publica; a mais ampla analy/se e discussão foi aberta; e de tantas ga/[fl.220v]rantias para a justiça foi elle ladeado,/ que os mesmos peritos da primeira au/topsia compareceram á diligencia á convi/te da authoridade exposeram e motivaram/ as suas conclusões, que foram vencidas pe/lo parecer unisono dos quatro médicos [do segundo corpo de delito] (AUTOS, 2009, p.299).

      A confrontação que o Dr. Francisco de Paula estabeleceu entre os dois laudos periciais realizados em Innocencio – considerados por nós os principais documentos que constituem o processo-crime – demonstram a credibilidade que o mesmo atribui ao segundo exame em detrimento do primeiro procedimento por encontrar naquele, indícios mais favoráveis à absolvição de Anna Rosa Ribeiro, imbuído que estava da função de defendê-la.

      Isso porque, para Francisco de Paula, à diferença do primeiro exame de corpo de delito, o segundo laudo seguiu mais à risca as regras a que deve se submeter uma „legítima perícia‟, em que se exige ser orientada pelo exame das premissas emitidas pelo perito, sendo estas analisadas com base nas leis científicas e comparadas às alegações, depoimentos, confissões do(a) acusado(a) e de outras peças de convicção (AUTOS, 2009, p.299).

      Assim ele procedeu na etapa de Justificação, cujo conteúdo também foi anexado ao material da defesa. Nesta ocasião foram submetidos a novo depoimento o Dr. José Mariano da Costa, então Chefe de Polícia da Província; Luiz Travassos da Rosa; Carlos Augusto Nunes Paes, que agenciou eventualmente, a compra dos escravinhos Jacintho e Innocencio para Anna Rosa Ribeiro; Olympia Francisca

      62 62 Ribeiro , liberta e encarregada do tratamento do menor e, por fim e mais

    É válido mencionar o papel desempenhado por Olympia Francisca Ribeiro neste processo, pois foi

    nele bastante categórica ao defender sua senhora, declarando que Innocencio tinha o hábito de

    comer terra, que os ferimentos de seus punhos eram oriundos de queimaduras e que nunca houve

    ausência de cuidados nem na aplicação dos remédios nem no fornecimento de alimento ao menor.

      

    Tais informações foram altamente favoráveis à Anna Rosa, mas, mais que isso, revelam quão

    diversificada era a relação senhor/escravo no trato do cotidiano, já que mesmo submetida à

    exploração que sua condição étnico-social lhe impunha, Olympia agiu em defesa de sua dona, importante, o Dr. Antônio dos Santos Jacintho, do qual partiu a constatação de que Innocencio teria falecido de hypoemia intertropical, devido ao vício deste de comer terra. A estes depoentes foram inquiridas, pelo Dr. Francisco de Paula, as seguintes proposições:

      1º= Que o escravo Innocencio de menor eda/de, pertencente ao Dr. Carlos Fernando Ribeiro/ ausente, e que fallecêra recentemente suc/umbido á uma hypoemia, proveniente do/ habito de comer terra, tendo-lhe sobrevindo/ desyntheria sanguinea, estado edematoso e prolapso do annus. 2º= Que o dito escravo menór tinha em toda/ a superficie do corpo marcas e signaes de/ pancadas, antes de adquirido pelo seu ulti/mo senhor. 3º= Que em o pulso ou punho apresen/tava elle antes de fallecer e depois de/ fallecido uma cicatriz ou ferida, provenien/te de queimadura, occasionada por impru/dencia, tendo o fallecido se queimado no acto/ de assar um pedaço de carne em um fo/gareiro. 4º= Que o dito Innocencio fôra sempre/ tractado, cuidado, medicado e alimenta/do convenientemente.

      Ao que as colocações dos inquiridos convergiram incisivamente para a seguinte conclusão: que a morte de Innocencio deu-se por hypoemia intertropical; que existiam marcas e sinais de pancadas em seu corpo, porém, que estas eram já anteriores ao domínio da acusada e que houve emprego de tratamento, cuidados, medicação e alimentação convenientes. Tais afirmações fazem com que o advogado de defesa acrescente que: “a idéa do crime está pois excluida; e/ como onde não existe o crime não pode haver/ delinquente – certo e manifesto é que falta ao/ summario a base, a pedra angular em que/ tem de repousar a procedimento official” (AUTOS, 2009, p.301). Argumentação amplamente imparcial e sustentada pela lógica operacional jurídica.

      Não somente o primeiro exame cadavérico feito no escravinho esteve sujeito às críticas de Francisco de Paula. Também os dois processos a que foi

      63

      submetida sua cliente Anna Rosa, tanto na fase policial quanto judicial , foram, conforme sua declaração, abusivamente arbitrários. Ao inquérito policial atribuiu completa falta de senso e compromisso com a letra da lei uma vez que não cumpriu com rigor e racionalidade as etapas que lhe compete pelas regras da ciência criminal, às quais, segundo o Dr. Francisco de Paula estariam vinculadas à coleta de 63 provas vivas e recentíssimas em relação ao delito, dada através de uma atuação

      

    A fase do sumário é, por Francisco de Paula, brevemente referida como um dos maiores exemplos pronta, decisiva e que deva ser tão resumida quanto eficiente; que cumpra à risca o procedimento de corpo de delito, verifique o fato punível, os depoimentos

      64

      bem como os autores e cúmplices deste (AUTOS, 2009, p.302). Daí considerar que:

      O que elle foi [o inquérito policial] – sabe a população in/teira desta capital – uma devassa diffa/matoria, onde menos se inquiriu do de/lito do que da vida privada, da condu/cta domestica, das realações intimas, da/ accusada... os sulcos que elle abriu cons/tituem feridas profundas, que produsi/rão um dia seus lamentaveis effeitos,/ não sendo o maior delles a usurpação/ [fl.223v] e o confisco das attribuições da magistratura/ em proveito da policia, avida e insaciavel/ de arbítrio, prompta sempre para sacrificar/ em seu altar a liberdade individual e politi/ca dos membros da nossa sociedade tanto/ mais infeliz quanto mais facilmente expo/liavel (AUTOS, 2009, p.302).

      Acusa ainda falhas na maneira como procedeu o subdelegado de polícia do 2º Distrito devido ao trato que este teve com as testemunhas e informantes, e ao permitir, já nesta etapa, a intervenção de um promotor público no andamento da fase de coleta dos depoimentos, considerando estar caracterizado no Código Criminal a ilegalidade deste procedimento

      65

      . Ilegalidade esta que aponta estar presente também no ato de interrogatório da denunciada, considerando:

      Digno da mais alta censura, arbítrio pe/rigoso, execravel e funesto [ser] o interrogatório a/ que esteve a accusada sugeita com manifesta surpresa, tanto mais condemnavel quanto de/balde interpoz a justa reclamação da assisten/cia de seu advogado, que lhe foi negada, viola/do assim o principio capital da lei moral e/ criminal, por virtude de cujo preceito não de/vem os agentes do poder publico desrespeitar o/ domicilio, nem pretender por meios capciosos a/ extorsão de indicios compromettedores da seguran/ça do accusado. A confissão apenas vale quan/do é coincidente com as provas dos autos – o que/ quer dizer tanto como não ser licito á Juiz al/gum buscar arranca-la ao medo, a perturbação, á fraqueza do sexo... (AUTOS, 2009, p.304-305).

      Um parêntese aqui nos parece bastante válido quando o advogado de defesa de Anna Rosa Ribeiro, acrescenta um ingrediente a mais na substância de 64 Quanto à etapa da coleta de depoimentos na fase policial, Dr. Francisco de Paula destaca ainda

      

    que “das vinte e seis testemunhas ouvidas – uma/ não há que haja assistido ao pretendido crime,/ ou

    delle tenha tido a menor noção” (AUTOS, 2009, 303). Esta declaração serve, portanto, para reforçar a

    conclusão juridicamente viável da não existência do crime, e consequente de um autor. Além do

    mais, considera que, afora as alegações de Carlos Augusto Paes, Gregoria Rosa, Olympia Francisca

    Ribeiro e Antônio dos Santos Jacintho que „falam bem alto em favor da inocência da acusada‟

    (AUTOS, 2009, p.309), os depoimentos adquiridos na fase judicial são nulos e despojados de

    critérios, uns difamatórios e outros inverossímeis, justamente por não conter neles provas reais que sua defesa ao mencionar a fraqueza do sexo que pertence sua cliente, quando sabemos fazer parte da mentalidade da época – e Michel Foucault tem contribuição significativa sobre o tema – que as relações de gênero, do que se definiria como feminino e/ou masculino, já era assunto largamente explorado nas ciências (medicina, psiquiatria, economia, pedagogia e mesmo do direito) que estavam em processo de institucionalização no século XIX, com a instauração das chamadas sociedades burguesas. Pensada como ser débil, frágil e, por isso, suscetível às mais diversas perturbações, essa característica representativa do ser feminino acabou, neste caso particular, agregando valor positivo à circunstância em que estava submetida Anna Rosa Ribeiro, sinalizando assim que já há produção de um ser „fraco‟ no discurso jurídico.

      66 No entanto, acreditamos que, não foi exatamente o fato de ser mulher o

      que motivou sobremaneira a absolvição da ré, mas por pertencer esta às camadas economicamente e politicamente mais privilegiadas da capital da Província e por se tratar a outra parte de um indivíduo marcado pela condição de escravo.

      Notemos que com as duras críticas apontadas por Francisco de Paula ao conteúdo do inquérito policial houve um redirecionamento da leitura jurídica dos fatos na medida em que os argumentos por ele articulados incidiam sobremaneira na supostas deficiências de cunho científico – a partir do qual se define o legítimo saber jurídico – demonstradas nesta primeira etapa da investigação, o que não nos permite afiançar que esta colocação refletia alguma espécie de hierarquia na legitimidade dos discursos policial e jurídico. Entendemos que sua crítica à fase policial, que não chega a ser uma crítica ao método de inquérito policial de modo 66 geral, esteja vinculada a um desfavorecimento que seu conteúdo poderia gerar para

      

    Embora não nos seja possível traçar, a partir das particularidades deste caso, noções mais amplas

    a respeito da condição feminina para uma realidade escravista, podemos conjecturar, no entanto, que

    a fama atribuída a Anna Rosa Ribeiro, pela opinião pública, de maltratar seus escravos, e que

    antecedia ao processo a que foi sujeita, indicam que as atitudes da acusada diferiam dos padrões de

    feminilidade (submissão, passividade, confinamento ao espaço doméstico) privilegiados naquele

    período, especialmente àquelas provenientes das classes dominantes para as quais se dirigiam,

    predominantemente, os discursos de feminilidade burguês. Anna Rosa não era um caso isolado. Em

    estudo biográfico sobre personalidades marcantes para a História do Maranhão, a pesquisadora

    Elizabeth Abrantes discorre sobre a vida de Ana Jansen, mulher de “trajetória singular e em muitos

    aspectos contrária aos estereótipos atribuídos ao sexo feminino” (ABRANTES, 2011, p.53), devido

    tanto ao reconhecimento de sua forte influência na vida política e econômica da capital da Província

    quanto pela crueldade com que tratava seus escravos. Talvez a ideia de fragilidade que se tentou

    vincular às mulheres, sobretudo às mais abastadas, se dissipasse frente ao poderio social a que sua defendida. A ênfase nas falhas científicas indicam a própria maneira como se pretendia o discurso jurídico e suas instituições submeterem os membros de uma sociedade e de uma época.

      Tão expressiva quanto a formulação da defesa foi o papel da acusação, que, à diferença do que se acostumou a dizer sobre este processo, foi iniciada a partir de denúncia efetivada pelo promotor adjunto Antônio Gonçalves de Abreu uma vez que o promotor público titular da capital, Celso da Cunha Magalhães, encontrava-se, segundo explicações presentes na Introdução dos autos transcritos, em licença por motivos de enfermidade, somente reassumindo suas funções a 9 de dezembro de 1876, já em andamento a fase judicial dos depoimentos.

    3.3 As argumentações da acusação Vejo a figura atraente, fascinante, de Celso Magalhães, o promotor público.

      Em torno dele uma admiração entusiástica, comovida, que eu não compreendia, mas cuja intensidade me avassalava. Das impressões que então recebi, ficou-me a imagem de um rapaz muito magro, feio, ossudo, encovado, móvel e falador. Não me lembro como se trajava, apenas me recordo de que trazia na botoeira do paletó uma flor vermelha, lágrima-de- sangue, que por muito tempo se chamou no Maranhão a flor do Celso. Morreu moço, logo depois da subida dos liberais ao poder, cujo primeiro ato de governo fora demitir a bem do serviço público o promotor, que ousara

      67 acusar a assassina do escravinho Inocêncio...

      Assim escrevia Graça Aranha, ainda bem jovem, em exaltação à figura de Celso Magalhães, personagem de expressiva participação na história jurídica da Província do Maranhão. Bastante ilustrativa, a fala de Aranha reverberava um pensamento, ainda que romantizado, de um homem reconhecido ainda em vida pela coragem e profissionalismo com que colocou no banco dos réus um membro da elite provinciana maranhense e que por isso lutou, com todos os recursos de que lhe dispunha diante da autoridade da lei, orientado, sobretudo pelos fortes ideais republicanos e abolicionistas que guiavam suas ações.

      À diferença do Dr. Francisco de Paula – e por motivos não muito claros para nós – falou-se e ainda fala-se muito sobre a breve trajetória do advogado, jornalista e escritor responsável pela acusação de Anna Rosa Ribeiro, e cuja biografia encontramos com riqueza de detalhes no

      Livro do Sesquicentenário de

      

    Celso Magalhães (1849-1879) (2008), organizado pelo escritor maranhense Jomar

      Moraes. Neste livro Magalhães é mencionado como

      Um precursor, sem dúvida, um homem avançado, um verdadeiro chevalier sans peur et sans reproche pois não lhe faltou, em instante decisivo de sua vida, nem a coragem nem a determinação para cumprir seu dever como promotor público, e como cidadão, ao denunciar a fidalga Ana Rosa Ribeiro, esposa do presidente do Partido Liberal, Carlos Fernando Ribeiro, pela morte de um escravo de 9 anos de idade. Celso agiu e fez a polícia agir, instaurando o inquérito para apurar o crime que hoje seria rigorosamente classificado como hediondo, tantas e tais as torturas infligidas à pequena vítima pela cruel senhora (1999, p. 29-30).

      Marcadamente sustentada na dominação e exploração senhorial, esse tipo de sociedade percebia como corriqueiros os castigos infligidos a um escravo por seu senhor ou a mando dele, circunstância esta que também encontrava amparo na própria lógica jurídica da época em que, como exemplo ilustrativo, podemos mencionar a argumentação de defesa de Anna Rosa ao destacar que “o castigo/ do escravo é um direito do senhor” (AUTOS, 2009, p.309). Direito cada vez mais questionado, sobretudo nos anos finais da escravidão não somente pelos intelectuais abolicionistas, mas pelas próprias ações dos escravos quando recorriam a estas mesmas instâncias com intuito senão de libertar-se, mitigar a imposição da autoridade senhorial.

      O acompanhamento do processo por Celso Magalhães desde a etapa policial e sua efetiva participação a partir da fase judicial, tão criticada na fala do Dr. Francisco de Paula, fez com que o promotor público, antes mesmo de elaborar suas alegações de acusação, entrasse, no dia 21 de dezembro de 1876, com pedido de prisão contra Anna Rosa Ribeiro, já que, segundo ele, foi “processada n‟esse Juiso por crime classi/ficado no art. 193 do Cod. Criminal, visto co/mo, tanto do inquérito policial, como do suma/rio, resultam vehementes indicios de sua cri/minalidade...” (AUTOS, 2009, p.377). Ao que o juiz ponderou que:

      Não me julgo com competência para ordenar/ a prisão, visto importar o despacho que a tivesse de de/terminar prejulgamento da questão que faz o objeto da/ sentença de pronuncia, sendo o fundamento daquella/ determinação exactamente o mesmo que serve de base à/ pronuncia (AUTOS, 2009, p.377). rebatimento dos pretensos erros apontados pelo advogado de Anna Rosa Ribeiro no processo-crime. Bastante breve em suas argumentações, Magalhães declara, inicialmente, que não houve negligencia dos peritos nem quanto uma suposta permissão destes à presença de curiosos no local da autópsia, nem nas formalidades legais para execução do corpo de delito ou do andamento do processo em si. Consta, desta forma, em suas considerações que:

      Apesar do grande esforço dispendido pelo Advogado da accusada/ para provar a innocencia de sua constituinte, na analyse do/ inquérito e do sumario, na exaltação desvairada da linguagem,/ na accusação habitual e programmatica contra os encarrega/dos da justiça pública, na prodigalidade offensiva do dóesto e/ dos qualificativos acerados, não conseguio elle provar o seguin/te – a não existencia de um delicto e que não fosse sua

    consti/tuinte a authôra d‟elle (AUTOS, 2009, p. 387).

      Ao que parece, para Magalhães, a incapacidade, por parte do Dr. Francisco de Paula em provar a inexistência do crime e com isso anular as suspeitas que incidiam sobre sua cliente, fizeram com que o advogado de defesa adotasse uma postura de ataque ao conjunto das peças que compunham os autos. Em resposta à crítica feita pelo defensor em relação ao primeiro corpo de delito Magalhães retruca que:

      O corpo de delicto não está inquinado de nullidade, nem/ tão pouco deixa caminho aberto para concluir-se que não/ houve um delicto. As pretendidas accusações, de que não fo/ram abertas as principaes cavidades e de que o exame não foi/ minuncioso, não podem subsistir. Dizer que os peritos do cor/po de delicto não trataram de medir a extenção, profundidade/ e caracter das echymoses e escoriações encontradas no cadaver de/ Innocencio e que as descreveram confusamente, que não usa/ram dos meios praticos para verificarem a natureza das con/tusões, é affirmar um facto sem proval-o, visto como o advo/gado da deffeza não presenciou o processo de que se serviram os/ peritos para o exame. O auto não podia conter todo/ o processado do exame e n‟elle lavram-se unicamente os seus/ resultados. Foi, pois, uma affirmação vasia e desajudada de/ prova, tanto mais quanto o Dr. Santos Jacintho declara,/ na carta apresentada pela deffeza, que encontrára incisões/ [fl.292] praticadas nas echymoses, meio pratico de reconhecer-lhes o ca/racter (AUTOS, 2009, p. 387-388).

      Magalhães assevera ainda que o conteúdo do segundo corpo de delito, à diferença da leitura feita pelo Dr. Francisco de Paula, somente serve para reafirmar a existência de um crime, uma vez que o reconhecimento de que o menor tenha falecido devido a presença de hypoemia intertropical, doença que, quando exames cadavéricos, a existência de sevícias. Contribui ainda para esta conclusão o delineamento que faz a promotoria acerca da trajetória das atitudes de Anna Rosa Ribeiro após a morte do escravo, sustentado-se no que disse as testemunhas no decorrer dos depoimentos. Partindo destas informações considerou-se que o empenho da denunciada em livra-se do corpo de Innocencio, somado à constatação da existência de maus tratos e suspeitas de que não eram empregados adequadamente nem alimentação nem medicamentos ao menor, fez o promotor afirmar que tudo concorre para a pronúncia da acusada como autora do delito.

      Chegada a etapa final de coleta de provas cujo material compõe-se principalmente de dois laudos cadavéricos amplamente divergentes, decidiu o juiz do processo, José Manoel de Freitas, convocar nova junta médica afim de aproximar-se definitivamente de uma conclusão mais imparcial da causa da morte do menor, ação que não surtiu efeito devido à não aceitação de boa parte dos facultativos em participar do novo procedimento, tornando-se, desta forma, inviável o cumprimento da diligencia uma vez que não existiam, na cidade, médicos suficientes para realizá-lo, conforme número mínimo estabelecido pela lei.

      Sendo assim, em 23 de janeiro de 1877, após vistoria dos autos, foi proferido pelo juiz que:

      O cod. do Proc. Crim., no art. 145, e/ o Reg. nº 120 de 31 de janeiro de 1842,/ no art. 286, determinam que “quando/ o juiz não obtenha pleno conhecimento/ do delicto, ou indícios vehementes de/ quem seja o delinquente, declarará/ por seu despacho nos autos que não/ julga procedente a queixa ou a de/nuncia” (AUTOS, 2009, p.433).

      Baseado neste princípio foi anunciada a sentença de impronúncia, argumentando o juiz, não haver provas suficientes que atestem ter a ré Anna Rosa Vianna Ribeiro assassinado seu escravo. O principal fundamento para a definição destes termos sustentou-se na consideração de que o primeiro corpo de delito tornou-se deficiente para provar que a vítima morrera em consequência de ofensas físicas uma vez que apoiou-se em respostas vagas, conjecturais e indecisas tornando inviável ao juiz estabelecer um fundamento seguro acerca da fatalidade do crime que se investigava.

      A partir desta resolução deu-se início a nova etapa do processo criminal decisão de impronúncia feita pelo juiz por entender não estar esta condizente com as alegações dos autos. Sendo assim, houve uma releitura do material colhido até então, de maneira que estes serviram como base para a elaboração dos recursos, contra-razões e apelações formuladas por ambas as partes, acusação e defesa, chegando-se com isso a uma decisão final e incontestável pelo Superior Tribunal da Relação, etapa que veremos logo a seguir.

    3.4 O desenlace do processo

      Logo que proferida a decisão, Celso Magalhães apresentou recurso contra a impronúncia alegando ao Supremo Tribunal da Relação ter o juiz da causa orientado sua conclusão com base, essencialmente, no exame de corpo de delito, não privilegiando assim, as informações oriundas dos depoimentos das testemunhas, por esse motivo reclamou que:

      ... o delicto não se prova unicamente com o exame res/pectivo e, para a sua verificação, attendem-se á todas/ as circunstancias anteriôres, concumitantes e poste/riôres, levam-se em conta todos os factos que podem/ esclarecer e, na pronuncia, dirige-se o processo para/ o tribunal do jury, afim de ahi ser plenamente/ [fl.340] discutido perante os juizes populares, que tem o poder discrec/cionario de condemnar ou absolver (AUTOS, 2009, 455).

      Magalhães acrescenta à sua argumentação ter sido este um princípio legislativo para o qual o juiz deu pouco peso não apenas por desqualificar a praticidade do conteúdo deste documento, mas também por não agregar a ele uma leitura sustentada em elementos morais, o que com isso, não retirava seu valor jurídico, critério necessário para provocar uma convicção lógica e razoável sobre o caso.

      O corpo de delicto não é unicamente um acto de verificação/ material do crime, que deixe de parte o exame dos ele/mentos moraes, que possa ser encarado somente pela/ descripção physica do objeto examinado. Para que elle/ possa valer, deve acompanhal-o um concurso de elemen/tos moraes, que – comparado com o facto incrimina/do – dê em conclusão um resultado lógico (AUTOS, 2009, p.456).

      Seguindo esta perspectiva, Magalhães alega que, embora as respostas repousa um encadeamento

       de probabilidades racionais que ao juiz incumbe pesar

      antes de declarar sua posição, posição esta que deve estar submetida a uma interpretação que faz acerca do conjunto das peças reunidas no decorrer não apenas do procedimento cadavérico, mas também da coleta de provas e depoimentos de testemunhas.

      Somado às razões do recurso, o promotor anexou uma certidão em que procurou demonstrar ter a acusada o hábito de maltratar seus escravos, informação esta, segundo ele, sancionada mesmo pela voz pública, através dos fatos que narram diariamente a seu respeito. No conteúdo deste documento descreve-se que:

      Aos dose dias do mes de Agosto de/ mil oitocentos setenta e dous, nesta/ Cidade do Maranhão, na Secretaria/ de Policia, onde se achava o Senhor/ João Hircano Alves Maciel, Chefe de/ Policia, ahi compareceu/ Dona Anna Rosa Vianna Ribeiro, se/nhora da escrava Ignez, crioula, de/ desaseis annos de idade pouco mais/ ou menos, que vindo pedir garantias/ pelo seu bom tratamento, visto como/ tem sido castigada immoderada/mente, o mesmo Doutor Chefe de Policia/ mandou lavrar o presente termo de/ responsabilidade, pelo qual se obrigou/ a mesma Senhora Dona Anna, no caso/ de querer continuar a possuir a dita/ escrava, a tratal-a bem, deixando de/ a castigar immoderadamente debaixo/ das penas da lei, assim como obrigou/se tambem a mandar apresentar nes/ta Repartição a dita escrava sempre/ que for para isso exigido. Para cons/tar lavro o presente termo, em que as/signou, e rubricado pelo Dou/tor Chefe de Policia. Eu Antonio Fran/cisco de Salles Junior, amanuense o [fl.356] escrevi. João Hircano. D. Anna Rosa Vianna. Termo de entrega... (AUTOS, 2009, p.504).

      Baseando-se neste termo de responsabilidade Magalhães endossou o questionamento sobre a procedência de vida da ré, antes de sua denúncia formal, fosse tão ilibada quanto pregava seu advogado, argumento por si só favorável ao exercício jurídico e legítimo da promotoria, pois, amparando-se nas leis do Código de Processo Criminal então vigente, era também responsabilidade da esfera pública a proteção do cativo.

      Além das razões do recurso e da certidão que declara a prática de maus tratos a escravos por Anna Rosa, Magalhães anexou um requerimento em que constam quesitos que põem em discussão se houve ou não existência de sevicias, se estas apressaram a morte da vítima e, por fim, se existiu carência do tratamento na doença do menor e se esta pode ser considerada natural ou provocada. Ao que os doutores Francisco de Paula Oliveira Guimarães, Augusto Teixeira Belfort Roxo e José Ricardo Jauffret responderam que a morte decorreu de maus tratos, que embora não se garanta fossem repetidos, contribuíram para acelerar a morte, não

      68 podendo se afirmar, com isso, que houve morte natural .

      Seguido ao pedido de recurso pela promotoria e como parte do procedimento judicial, encarregou-se o advogado de defesa, em nome de sua cliente, de elaborar as contra-razões e as anexações de documentos necessárias à sua defesa. Neste arrazoado Francisco de Paula reforça as argumentações elaboradas na defesa anterior considerando que a substância do sumário vai contra os princípios legislativos empregados pelo Código Criminal, o que ficou demonstrado pela constante falta de fundamento da acusação. Insistiu o defensor na ausência do emprego correto das técnicas científicas para a realização do exame de corpo de delito, a partir do qual não ficou certificado a fatalidade do crime e tampouco quem seria seu executor. Com este posicionamento buscou Francisco de Paula reforçar a importância que um laudo cadavérico tem para uma decisão judicial uma vez que, em casos de homicídio, o corpo de delito apresenta-se como meio mais eficaz de verificação de que pode dispor o juiz para fundamentar o conhecimento definitivo do ato criminoso. Nas palavras do advogado:

      Os recursos que o processo offerece pa/ra o conhecimento do crime são – art.134 do/ código do processo – quanto aos crimes que dei/xam vestigios que possa, ser ocularmente/ examinados – o auto de corpo de delicto – não/ existindo vestigios – o depoimento de testemunhas/ inquiridas no summario – art. 47 da lei de 3 de desembro de 1841. E deste ultimo/ texto legal decorre que sem corpo de delicto/ não se poderá formar processo por crimes/ que deixam vestigios, visto como o auto/ do corpo de delicto é em taes casos o meio/ único de attingir ao conhecimento pleno,/ exigido pelo artigo 145, da infração da lei/ penal (AUTOS, 2009, p. 512).

      Dando sequencia à formalidade processual e tomando por referência os argumentos do recurso da promotoria, o desembargador Antonio Barros Vasconcelos, presidente da Relação desta Província, deu parecer favorável ao andamento do libelo declarando que:

      Faço saber, que nos autos de recurso cri/me, em que é recorrente o Promotor Públi/co da Capital, e recorrida D. Anna Rosa/ Vianna Ribeiro, se proferio em 13 do corren/te Accordão dando provimento ao recurso/ para o fim de pronunciar a denunciada/ no art. 193 do Cod. penal, e sujeitando-a/ a prizão e livramento, e mandando lançou/ o seu nome no rol dos culpados – custas a/ recorrida, O que se cumpra,/ remettendo se estes autos ao juízo a quo... (AUTOS, 2009, p.532).

      À reforma da decisão recorrida através do Tribunal da Relação, no dia 13 de fevereiro de 1877 efetuou-se imediato mandato de prisão contra Anna Rosa, ficou ela recolhida no 5º Batalhão de Infantaria e logo transferida para a Cadeia Pública, situação sine qua non para os padrões de hierarquia da época.

      Por meio do libelo acusatório buscou a promotoria provar à Justiça Pública: primeiro, que a ré infligiu sevicias em Innocencio desde o ato de sua compra até o dia de seu falecimento, maus tratos estes verificados no corpo de delito; segundo, que estando o menor acometido por moléstia, teve a morte acelerada por estes castigos; terceiro, tenta provar ainda que o crime executado foi premeditado devido á insistência contínua na aplicação dos castigos estando sua autora ciente das consequências deste ato. Tais circunstâncias não permitem atenuante algum a favor da acusada. Sob estes critérios foram arroladas e submetidas boa parte das testemunhas já declarantes desde a abertura inicial do processo-crime, às quais foram designadas para depor, desta vez, diante do Tribunal do Júri. Quanto à defesa, Francisco de Paula, apresentou em cartório, termo no qual enfatiza a contrariedade do libelo.

      Devidamente preparado e apresentado os autos do processo à instância por ele responsável, promoveu-se a sessão de julgamento após leitura dos termos formais para sua abertura com o anúncio das testemunhas oferecidas pelo promotor público, estas, após sorteio do Júri de Sentença, ficaram recolhidas numa sala sem poder ouvir os debates nem as declarações umas das outras.

      Nesta etapa, não se lê em detalhes nem a fala da acusação nem da defesa. No documento não ficam registrados o conteúdo de suas argumentações, nele se descreve apenas terem as partes desenvolvido suas posições, expondo provas, fatos e razões que sustentaram ou a culpa ou a inocência da denunciada. Finalizado tal procedimento afirmou o Júri de Sentença estar suficientemente esclarecido para julgar a causa, no que, por unanimidade de votos declararam não ter Anna Rosa Ribeiro castigado ou seviciado o escravinho Innocencio, o que, consequentemente, não pode ser apontado como motivo que levou à morte do mesmo. Conforme este parecer o juiz Umbelino Moreira de Oliveira Lima anunciou: “Em vista da decisão do Jury absolvo a ré/ [fl.398] D. Anna Rosa Vianna Ribeiro da accusação que lhe foi intentada, mando se risque seu nome do rol dos culpados,/ se

      Ainda como último recurso, requereu o promotor Celso Magalhães permissão para elaborar um arrazoado em que apelava da sentença absolutória para o Supremo Tribunal da Relação. A esta altura, mesmo com o deferimento do órgão judiciário responsável pelo trâmite, se tornavam cada vez menores as possibilidades de que houvesse uma reviravolta no resultado do processo já que nesta fase, não foi acrescentado nenhum novo elemento que viesse a comprometer as argumentações anteriormente expressas pela defensoria.

      Dentre as razões da apelação, Magalhães critica, inicialmente, a maneira como foram elaborados os quesitos a que foram sujeitados responder os jurados bem como a incongruência destas respostas. Aponta falhas na garantia de sigilo entre as testemunhas já que, segundo o promotor, estavam as mesmas dispostas em completa comunicação com os espectadores, conversando numa sala francamente aberta ao público, podendo se tomar conhecimento do que se passava no tribunal. Considerou irregular também o andamento do interrogatório da acusada que, segundo ele, teve constante amparo do seu advogado para efetuar suas respostas, atentando Magalhães para o fato de que:

      O interrogatório é considerado entre nós como um meio/ de prova (art.94 do Cod. do Proc. Crim), e por isso/ é um acto deixado unicamente á vontade do accusado./ A insinuação de uma pessoa que vê os fatos de fóra,/ na frieza da analyse e do calculo, na sultileza da ex/plicação das circunstancias que poderiam provar o de/licto, é manifestamente illegal e nullifica o acto, tor/nando-o sem valôr moral e juridico (AUTOS, 2009, p.642).

      Com base nestas alegações procurou a promotoria atestar suas convicções tomando como referência os depoimentos de algumas testemunhas através das quais, entre alguns silêncios e poucas negações, sobrepôs-se a afirmativa de que houve contato entre a ré e seu advogado bem como entre os integrantes do júri, contrariando assim, o princípio legislativo de isolamento entre todas estas partes.

      Numa brevíssima explanação, o advogado de Anna Rosa argumentou não existir razão jurídica para a referida apelação uma vez que as alegações nela contidas são infundadas e carentes de provas sólidas capazes de destruir as afirmativas constantes na ata da sessão do júri.

      Cumprida as formalidades do processo e com base na releitura de seu relatório, julgou-se improcedente a apelação interposta da sentença. Findo processo, definitiva absolvição da ré.

      Permeando as razões da denúncia, as argumentações da defesa, os recursos, as contra-razões e apelações, enquanto etapas deste processo, exprimiam-se os usos e falas que, através das posturas da acusação e da defesa, se fez e se pode perceber acerca da famigerada instituição escravista no Maranhão, cuja desigualdade social era marcada e mantida, notadamente, por práticas de exploração e violência, que se não inerentes a este tipo de sociedade, como dissemos anteriormente, adquiria nela um âmbito bastante peculiar já que, percebido na condição jurídica de propriedade, o escravo viu-se submetido às mais variadas arbitrariedades daqueles que se atribuíram o direito de serem seus proprietários.

      Mesmo com a limitação da esfera de dominação senhorial pela interferência do poder judiciário nas questões escravistas, predominou neste caso criminal a autoridade daqueles que detinham a posse privada do elemento servil. Na realidade, houve uma confluência na atuação do judiciário frente o interesse dos grupos mais abastados da Província, a que pertence a ré, pois, excetuando o posicionamento de Celso Magalhães, prevaleceu neste trâmite (questão bastante emblemática) não o fato de a vítima ter sido castigada, o que segundo os padrões mentais da época era um direito do proprietário, mas, sobretudo, a discussão incidia sobre a qualidade dos castigos, se moderados ou imoderados, se repetitivos ou não, enfim, se aceleraram ou não a morte do menor.

      A constatação de que Innocencio teria sido seviciado por Anna Rosa, portanto, perdia seu valor moral diante da leitura jurídica que se fez do caso. O crime em sua autenticidade, o fato tal como ocorreu, foi de certa forma desvirtuado quando submetido aos critérios jurídicos então vigentes. E nesse sentido, concordamos com a argumentação da antropóloga Mariza Corrêa, ao tratar do caráter representativo de um processo criminal, considerando que “no momento em que os atos se transformam em autos, os fatos em versões, o concreto perde quase toda sua importância e o debate se dá entre os atores jurídicos, cada um deles usando a parte do „real‟ que melhor reforce o seu ponto de vista” (CORRÊA, 1983, p.40). Nesse sentido, foi a teatralização do processo em si o que se apresentou de mais

    4 OUTRAS INTERPRETAđỏES

      Não se limitou apenas ao plano jurídico as interpretações feitas sobre este famoso caso criminal ocorrido na capital da Província do Maranhão na segunda metade do século XIX. Outras tantas leituras em torno do mesmo crime encontraram espaço, sobretudo no campo da literatura e da imprensa, revelando ou possibilitando acesso a uma gama mais ampla de explicações sobre o assunto. Por isso, consideramos ser válido trabalhar, neste último capítulo do estudo e com base no material que tivemos condições de dispor, com as falas acrescentadas à compreensão, sob outros ângulos, deste caso criminal.

      A atmosfera suscitada em torno do processo judicial a que respondeu Anna Rosa Vianna Ribeiro e, sobretudo da configuração tomada pelo crime em si, permitem entrever, como temos observado desde linhas anteriores, que sua repercussão é reflexo de uma conjuntura econômico-social em que as bases da exploração escravagista encontravam-se então relativamente ameaçadas não apenas pelo problema de abastecimento de mão de obra escrava, com o fim do tráfico negreiro internacional em meados do século XIX e que de alguma maneira afetou o perfil deste tipo de exploração de trabalho, mas também, e o que mais nos interessa pontuar, pela intensificação da intervenção do poder público regulando a relação senhor/escravo somado à presença de uma mais acentuada propaganda abolicionista na Província, encabeçada por segmentos mais intelectualizados e críticos do sistema, ou porque denunciavam a escravidão em termos humanitários evidenciando a degradação da dominação senhorial, ou porque viam no fim legal e inevitável da escravidão a necessidade de reorganização das classes dominantes, como possibilita sugerir, o historiador Josenildo de Jesus Pereira (2009).

      Nesta perspectiva, a denúncia formalizada contra a futura baronesa, por exemplo, embora não seja um primeiro registro de acusação legal de um membro das elites da Província maranhense – como bem o atesta o caso Pontes Visgueiro – é mais claramente entendida dentro do quadro de tensões e complexidades que vivia a capital, numa época em que a autoridade senhorial e a arraigada mentalidade escravista perturbavam-se frente aos embates gerados por essa ideologia de libertação dos negros do cativeiro, embates estes amplamente alimentados não desenvolveu sobre o tema aqui no Maranhão e do qual o caso criminal da futura Baronesa de Grajaú compunha apenas mais um capítulo.

    4.1 Liberdade à imaginação: olhares da literatura

      Não há possibilidade de falar sobre a literatura brasileira oitocentista sem tratar do tema da escravidão e, consequentemente, da construção de algumas representações elaboradas em torno do escravo negro africano. Sua trajetória no mundo ficcional dos poetas e prosadores do século XIX que por este assunto transitaram, desdobrou-se predominantemente em configurações e percepções calcadas em valores sociais europeizantes marcados, há séculos, pela prevalecência de uma lógica de pensamento que imprimia na cor negra uma relação intrínseca com uma suposta inferiorização social e racial daquele que a possuía. Nesta perspectiva, no campo da produção literária e à semelhança do que produziram as perspectivas histórica e sociológica, o negro foi assumindo diferentes conotações que oscilaram desde o escravo cruel com seu senhor uma vez que embrutecido pela força da escravidão ao negro vítima, sobretudo quando na condição de escravo e, portanto, objeto de exaltação de liberdade e defesa da causa abolicionista como explica Domício Proença Filho (2004), entre estas interpretações e se reconhecendo as inesgotáveis possibilidades dos exemplos dele representativos foi-se cristalizando a visão do negro nobre, fiel, herói, mas também do negro escravo orgulhoso, vingativo, injustiçado e criminoso.

      Exemplos de literatura que o afirmem são inúmeros e mesmo não sendo aqui nosso objetivo considerá-las uma a uma, é essencial que a algumas delas se faça referência, recaindo nossa ênfase, sobretudo àquelas divulgadas na segunda metade do século XIX. Nesse sentido, no que tange à predominância de uma leitura com tom mais pejorativo em relação ao sujeito escravizado, nos parece ser bastante emblemática a obra

      As vítimas-algozes escrita por Joaquim Manuel de Macedo e

      publicada em 1869 numa época em que eram crescentes as discussões sobre o aumento das fugas, furtos e crimes dos cativos (LUFT; WELTER, 2009). Dividida em

      69

      três novelas , nestas narrativas o autor faz prevalecer uma atmosfera de medo dos escravocratas diante do potencial perigo, individual ou coletivo, representado pela figura do cativo aqui lido como indecente, ingrato e perverso, reiterando em cada uma das peças a necessidade de banir a escravidão não por questões humanitárias, mas por considerar que os escravos degeneram física e moralmente a sociedade civilizada dos brancos. Numa das passagens do livro, mais especificamente no quadro „Simeão, o crioulo‟, após descrição de todo o drama que culmina na trágica punição do escravo personagem protagonista, o autor conclui:

      Entre os escravos a ingratidão e a perversidade fazem a regra; e o que não é ingrato nem perverso entra apenas na exceção. Porquanto, e todos o sabem, a liberdade moraliza, nobilita, e é capaz de fazer virtuoso o homem. E a escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes. A lei matou Simeão na forca. A escravidão multiplica os Simeão nas casas e fazendas onde há escravos. Este Simeão vos horroriza?... Pois eu vos juro que a forca não o matou de uma vez; ele existe e existirá enquanto existir a escravidão no Brasil. Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão. A forca que matou Simeão é impotente, e inutilmente imoral. Há só uma forca que vos pode livrar dos escravos ingratos e perversos, dos inimigos que vos cercam em vossas casas. É a forca santa do carrasco anjo: é a civilização armando a lei que enforque para sempre a escravidão (p. 36).

      Perpassa, portanto, por toda esta obra de Joaquim Manuel de Macedo a preocupação em demonstrar que, em sendo corrompidos pela crueldade do sistema escravista acabam os escravos por vitimar seus senhores, operando-se tal circunstância a partir de uma lógica quase que matemática, cujos proprietários somente estariam gradualmente livres com a abolição da escravidão.

      É, no entanto, uma outra visão, também bastante estereotipada do negro, que ganha larguíssimo espaço no campo literário nacional oitocentista, a que diz respeito à imagem do escravo vítima. Isso porque na segunda metade deste século, como dissemos anteriormente, acirraram-se no Brasil os debates em torno da crítica ao sistema escravocrata, atingindo o campo das letras através de uma literatura de denúncia, que, no geral, preocupava-se em colocar em questão os horrores do sistema e a necessidade de bani-lo. Obras clássicas e bastante representativas deste propósito podemos encontrar, é claro que com marcas bastante peculiares, em Castro Alves no romance

      O navio negreiro (1869) e Os Escravos (1883);

      Bernardo Guimarães em

      A Escrava Isaura (1875); Machado de Assis que fez

      percorrer este tema nas entrelinhas de boa parte se suas obras; além de Cruz e

      As críticas à escravidão também se fizeram ressoar significativamente na conservadora sociedade maranhense, mesmo antes da intensificação da campanha abolicionista. É sabido entre os estudiosos da sociedade maranhense do século XIX sobre a constituição de grupos não homogênios de intelectuais, sobretudo bacharéis em Direito, formados em sua maioria nas universidades europeias fruto do costume que as classes locais mais abastadas tinham de oferecer a seus filhos uma formação profissional mais apreciável, estes, retornando à cidade natal carregados de valores e ideais europeizantes, procuraram interpretar a sociedade tal como aqui a encontraram.

      Na primeira metade do século XIX, por exemplo, é reconhecidamente expressiva a contribuição de Gonçalves Dias que condenava o sistema ao lamentar a situação de opressão a que estavam sujeitos os negros e reclamar a respeito das condições desumanas como estes eram tratados, o que podemos identificar no poema A escrava (1846) e num texto em prosa denominado A meditação (1849). Nas últimas décadas do século XIX a condenação das bases do sistema eram bem mais abertamente severas que outrora, embora marcadas por duras críticas por aqueles que insistiam na manutenção da escravidão ainda que os indícios sociais (pressões sociais, conjectura econômica internacional) levassem à constatação de seu fim.

      Assim aconteceu com a obra

      O mulato do escritor maranhense Aluísio

      Azevedo publicada em 1881, reta final para a abolição, livro em que o autor trata da vida e dos costumes da sociedade maranhense procurando colocar em evidência seu lado mais preconceituoso. Faz isso ao descrever a história de Raimundo que mesmo tendo uma vida material confortável, tinha também sangue negro correndo nas veias, condição que tomou conhecimento somente quando teve negado por seu tio o pedido de casamento à Ana Rosa. Quando de sua divulgação, o livro teve péssima repercussão na capital, pois tocava diretamente nos louros daqueles mais abastados, tendo seu autor que deslocar-se para o Rio de Janeiro onde teve mais reconhecido seu trabalho.

      Outrossim, a participação do promotor público Celso Magalhães na campanha abolicionista não se deu somente no ato de denúncia jurídica feito contra a futura baronesa, sua dedicação à poesia também revela uma parte importante de aborda os problemas inerentes a este sistema (resistências, revoltas, exploração compulsória) e exaltando a necessidade da libertação destes cativos. É válido considerar que mesmo defendendo o fim da escravidão, Magalhães era ferrenho adepto da teoria sobre as diferenças entre as raças, alimentando ou sendo alimentado por uma crença de que nem índios nem negros construíram ou contribuíram em seus modos de vida e em suas culturas valores positivos à civilização brasileira.

      É bem verdade que mesmo não tendo a literatura omitido falar sobre o negro e com isso trazido muitas contribuições para compreender o cotidiano das relações escravistas, não nos é permitido – deficiência comum em disciplinas das ciências humanas que lidam com o tempo transcorrido – apreciar estas mesmas relações sob o ponto de vista dos negros, a partir de uma produção pautada em suas próprias falas e ações, ficando as leituras sobre este segmento tão

      70

      multifacetado a cargo, salvo algumas exceções , daqueles que se apropriaram do direito dele representar (intelectuais, políticos, movimentos sociais). Tal observação, contudo, não nos inviabiliza recorrer ao campo de produção literária enquanto mais um subsídio analítico para o entendimento das relações sociais nos seus mais variados aspectos e, mais particularmente, na compreensão do ângulo que aqui mais nos interessa tratar, a saber, a relação escravidão e criminalidade.

      Isso porque concordamos com a afirmação da historiadora Sandra Pesavento, que ao tratar da relação entre História e Literatura e, consequentemente, da credibilidade que esta última tem enquanto fonte para a compreensão de um contexto social, assinala:

      Pode-se dizer que o discurso literário, consagradamente tido como o campo preferencial de realização do imaginário, comporta, também, a preocupação da verossimilhança. A ficção não seria, pois, o avesso do real, mas uma outra forma de captá-la, onde os limites de criação e fantasia são mais amplos do que aqueles permitidos pelo historiador (PESAVENTO, 1995, p.117).

      Sendo assim, ainda que o discurso literário distinga-se do discurso histórico quanto ao método, a finalidade e o estatuto, haja vista não se orientar por critérios de verdade e cientificidade tal como ocorre com a produção histórica, aquele contribui para este na medida em que também é uma maneira de ler uma realidade social. É claro que devemos levar em conta os limites desta ficcionalidade no domínio histórico justamente por não poder o historiador abandonar o critério de veracidade tal como é permitido aos poetas e romancistas. Obras literárias através em que perpassam o tema da escravidão são um bom exemplo desta afirmação. Seja credibilizando o sistema ou o depreciando, muitos destes textos demonstram as múltiplas facetas das relações escravagistas através da descrição do cotidiano e dos conflitos que regem as ações dos personagens.

      71 Assim, temos no romance do escritor Os tambores de São Luís (1975)

      maranhense Josué Montello uma importante fonte interpretativa não somente sobre a conjuntura social do Maranhão oitocentista, mas, principalmente, uma leitura do autor sobre o episódio criminal que envolveu Anna Rosa Vianna Ribeiro. Pois, uma das principais características desta obra tão rica de detalhes e de conteúdo está na construção de um enredo cuja trama intercambia – a partir de um olhar temporalmente distanciado do autor – liberdade de criação imaginativa própria da produção literária a acontecimentos que realmente fizeram parte da história do Maranhão no século XIX.

      Caracterizado predominantemente pela existência de dois planos temporais: o presente narrativo, marcado pela descrição da noite da caminhada de Damião (protagonista do romance) de sua casa no Largo do Santiago até à Camboa para dar às boas vindas a um seu trineto e o passado narrativo, que compõe a maior parte da obra e sendo representado pelas lembranças de Damião durante esta caminhada (KREUTZER, 1992, p.09), o romance trata, através da descrição da história de vida deste personagem principal, do cotidiano, conflitos e tensões característicos da sociedade escravista ludovicense e por entre um misto de

      72

      personagens, espaços e situações fictícios como ele , mas muitas vezes também historicamente reais (onde podemos observar a pessoa de Donana Jansen, a própria Anna Rosa Vianna Ribeiro, o seu marido Carlos Fernando, o Dr. Paula Duarte, Celso Magalhães, Sotero dos Reis, Sousândrade), o autor narra enquanto componentes relacionais elementos transmutativos que vão desde a espoliação 71 física e moral a que eram submetidos os cativos por seus proprietários; as suas mais variadas formas de resistência (coletiva, individual, velada ou aberta) e também de resignação; até a efetiva libertação dos escravos, enfatizando sobremaneira a

      73 polaridade entre negros e brancos .

      Foi neste ínterim que o autor retratou o caso criminal da futura Baronesa de Grajaú, enquanto evento marcante na transformação do perfil da exploração senhorial, dado principalmente a partir, como temos tratado desde capítulos anteriores, da ambígua interferência do poder público na regulamentação das relações escravagistas.

      É bem verdade que a descrição feita por Montello em torno do acontecimento que culminou na denúncia e julgamento de Anna Rosa Ribeiro esteja carregada de detalhes que fogem ao conteúdo que compõe os autos do processo por meio dos quais o autor desenvolveu e sustentou sua narrativa, pertencendo estes pormenores inteiramente ao exercício imaginativo do autor e que não nos cabe discutir sua credibilidade, uma vez que não nos foi possível encontrar tais informações em outros documentos que as comprovem e, portanto, não se encaixando no rigoroso critério de verificação científica, como assim o atestam a maneira em que o caso é dado a falar no romance, no momento em que Dona Santinha – integrante da Casa das Minas – avisa a Damião do ocorrido ao dizer:

      E esse caso da Dona Ana Rosa Ribeiro? Ainda não lhe contaram? Ah, você precisa saber. Um horror. Um verdadeiro horror. Consegui saber de tudo, e dentro da casa da própria megera. Fui lá com os meus chapéus e os meus vestidos. Só para ver de perto a cara dela. Por fora, um anjo de bondade;

    por dentro, um Satanás (MONTELLO, 1985, 448).

      A trama, a partir de então, é descrita por Santinha com um envolvimento tão vivaz na interação com os personagens que nele estiveram realmente envolvidos que nos faz pensar na veracidade dos acontecimentos tal como por ela ou pelo autor narrados. Daí em diante, por exemplo, ela afirma, categoricamente, ter sabido através da escrava Gregória, que então trabalhava em casa de Anna Rosa Ribeiro, o fato de esta ter matado os menores Jacintho e Innocêncio (MONTELLO, 1985, 73 p.449). Aliás, em „Os tambores‟, por todo o espaço dedicado à descrição do caso

      

    Ainda que mencione situações do cotidiano que revelam ângulos não tão solidários entre os criminal envolvendo a futura baronesa, predomina a constatação da autoria do crime de Anna Rosa. Não se questiona esta autoria entre os personagens que dela tratam. Circunstância que talvez esteja associada a uma intenção de Montello em retratar este caso sob o ponto de vista daqueles que de alguma forma também se sentiam lesados pelas brutalidades oriundas da exploração senhorial.

      Nessa perspectiva, é sob o olhar do narrador que acompanhamos as atitudes de Damião (símbolo da saga dos cativos) frente ao desenrolar dos acontecimentos pós-crime, ações que vão desde o seu pedido de ajuda a Celso Magalhães para representação legal em nome da causa negra, seu rigoroso acompanhamento das peças criminais até sua frustração com a resolução final pela absolvição da ré.

      Porém, no decorrer do enredo, percebemos que o reconhecimento da autoria do crime de Anna Rosa vêm imbricado a duas outras marcantes considerações estabelecidas sem uma ordem específica, pois intimamente relacionadas entre si e que põem por terra as esperanças de condenação da acusada. A primeira delas, envolve questões referentes a uma lógica discriminatória orientada a partir das marcas de distinção social que faz prevalecer o respeito pelas hierarquias (genericamente, negros, escravos e pobres de um lado e brancos e ricos de outro), característica social bastante debatida nos diálogos que Damião tem com Barão, figura com ideias bastante díspares da maneira como esse concebia a liberdade dos cativos. Numa destas conversas Damião questiona a Barão:

    • – E você acha que uma peste dessas, com todos os testemunhos contra

      ela, não vai ser condenada? Tem de ser, tem de ser.

    • – Não, não vai – confirmou o Barão, em tom sereno. – Se o processo for adiante (e eu duvido que seja ao menos começado), o marido larga a fazenda em Alcântara e vem para São Luís defender a mulher, embora sabendo que ela é mesmo assassina. Podes escrever o que estou te dizendo. E os brancos vão ficar do lado deles. Nessa hora, todos se juntam (MONTELLO, 1985, p.468).

      O personagem Barão representa, portanto, a descrença na possibilidade de que essa hierarquia pudesse ser corrompida mesmo através da intervenção de uma instância pública que se dizia protetora e vigilante legal das igualdades sociais. Numa época em que, embora a denúncia e o julgamento de um membro das classes das relações senhores/escravos, era corrente também a consciência da dificuldade de representação jurídica a favor destes últimos. O que nos permite considerar, uma vez mais, que a sociedade maranhense da segunda metade do século XIX caracterizava-se muito mais por tensões e conflitos do que por uma simples contradição social entre aqueles que mandavam e os que necessariamente e obrigatoriamente obedeciam.

      É ainda através das conversas que Damião mantém ora com Dona Santinha ora com Barão que o narrador nos possibilita tratar de um segundo ponto de análise sobre a inviabilidade de condenação de Anna Rosa Ribeiro, circunstância esta bastante representativa das relações de poder características de sociedades radicalmente desiguais como a que aqui analisamos e que refere-se ao lugar social ocupado pela ré. Sabemos ter sido ela, filha de influente família da região de Codó (município maranhense), mas foi, sobretudo com o matrimônio contraído com o Dr.

      Carlos Fernando Ribeiro o qual, como temos dito, possuía significativo prestígio econômico e principalmente político, que se mostrou mais contundente o status social a ela conferido. A posição social de Carlos Fernando Ribeiro é então descrita logo na introdução dos diálogos sobre o crime, como: “Um graúdo. Gente alta, de sobradão em Alcântara e de palacete aqui em São Luís...” (MONTELLO, 1985, p.448), talvez com o intuito do narrador de colocar a crítica à posição social do marido da acusada como importante ingrediente facilitador de sua absolvição.

      Contudo, a constatação mais ilustrativa na descrença da condenação é feita por Barão ao duvidar de que haveria justiça em um julgamento de uma branca e rica contra um negrinho, atentando também aos privilégios oriundos da condição social de Anna Rosa. Numa das passagens ele indaga a Damião:

    • – E tu pensas que esse Promotor vai tomar o partido do escravo morto contra a branca? Não sejas bobo, Damião. A Dona Ana Rosa Ribeiro, além de branca e rica, tem do seu lado a força do marido, que é graúdo na política. Perdes o teu tempo. Te digo mais: se o Promotor ficar do lado do negro, vai comer da banda podre. Não sou profeta, mas posso te garantir que nada vai acontecer a Dona Ana Rosa Ribeiro. Nada. Absolutamente nada. Estás vendo aquela estrela, ali por cima da igreja do Carmo, a tremer como se lhe estivessem fazendo cócegas? Está rindo de tua ingenuidade, Damião (MONTELLO, 1985, p.467).

      A lucidez das afirmações de Barão, fruto de larga experiência de vida e da os fatos em torno do processo criminal. Se havia esperanças a alguns pelo simples fato de que devia explicações à Justiça um integrante da aristocracia – fato em si bastante relevante – a outros isso parecia muito mais incongruente com a realidade tal como se dinamizava.

      Se em Os tambores de São Luís a ênfase no sucesso da absolvição de

      74 Anna Rosa Ribeiro recaía sobre a importância da posição social do cônjuge

      e, consequentemente, da ré, em

      O meu próprio romance (1996), do escritor Graça

      Aranha essa perspectiva ganha outros contornos. Antes, porém, devemos considerar que a leitura de Aranha sobre o caso criminal da futura baronesa era fruto das lembranças de um garoto que, embora se dissesse já provido de aguçada sensibilidade, contava com apenas oito anos de idade quando da tramitação do processo e desde sua infância, como retrata em suas memórias, viveu também envolto pelas conversas sobre política que seu pai Temístocles Aranha, correligionário dos conservadores, tinha em reuniões com outros intelectuais e políticos em seu sobradão.

      A partir de suas recordações o autor interpreta ser este caso resultado direto do jogo político provincial, acreditando que este processo criminal seria mais um episódio da histórica disputa política entre liberais e conservadores pelos postos

      75

      de comando no Maranhão . Assim o comprova uma breve, porém, polêmica afirmação sua de que os conservadores, que então estavam no poder, aproveitaram a ocasião em que a mulher do chefe do Partido Liberal fora energicamente acusada de ter matado por sevícias um escravo seu, para processar e levar até o júri „a odiosa acusada‟ (ARANHA, 1996, p.80). Consideração esta que levava a crer não apenas que Celso Magalhães trabalhava na acusação em nome do Partido

    74 Embora não seja explicitado ou enfatizado no livro Os tambores de São Luís as tramas políticas

      

    articuladas ao tempo do processo criminal, não quer dizer que esta circunstância não tenha sido

    75 observada nas entrelinhas do romance.

      Yuri Costa acrescenta ainda um elemento peculiar na disputa política maranhense, que

    ocasionalmente pode ter interferido na „briga‟ entre os dois principais partidos políticos de então

    quando da tramitação do processo judicial, a saber, as antigas desavenças entre Carlos Fernando

    Ribeiro (líder do Partido Liberal) e Francisco Mariano Viveiros Sobrinho (chefia do Partido

    Conservador), ambos naturais de Alcântara e representantes da hegemônica aristocracia rural. Os

    conflitos entre as partes vinham de longa data, quando Carlos Ribeiro acusou, através de seu jornal

    „O Progresso‟, a família Viveiros Sobrinho de ter mandado assassinar, em Viana, o boticário Luís

    76 Conservador , mas também que o próprio órgão acusador de Anna Rosa Ribeiro

      era guiado por tais interesses. Questões conjecturais percebidas no interior de uma realidade social não tão incoerente com estas informações.

      Uma vez mais este drama jurídico é tratado também em

      O cativeiro

      (1992), outro livro de memórias desta vez de autoria do escritor maranhense João Dunshee de Abranches Moura, em que se propôs resgatar os costumes da sociedade de seu tempo, revelando predominantemente traços significativos da dinâmica do sistema escravista local, através das leituras de documentos familiares nos quais diz ter encontrado amplos conteúdos sobre psicologia social e também das conversas que manteve com Dona Emília Branco, senhora de distinta capacidade intelectual. Foi, segundo Abranches, como fruto de tais conversas que

      77

      lhe foi narrado o então recente crime de uma senhora, fazendeira em Alcântara e esposa de um eminente político da região contra dois escravos menores de idade de sua propriedade (ABRANCHES, 1992, p.119).

      A menção feita por Abranches sobre o que ficou conhecido posteriormente como o crime da baronesa, no entanto, carregava alguns fatos um tanto quanto problemáticos e desconexos com o conteúdo dos autos do processo-

      78

      crime , circunstância que podemos constatar, por exemplo, através de sua interpretação de que fizeram Anna Rosa passar por louca enquanto forma de justificar os delitos por ela cometidos quando não encontramos nos documentos nenhum registro deste gênero que venha a confirmar tal informação, constando nos autos, e no que diz respeito a este aspecto, apenas a indicação de que, com base em exame médico, sofria a acusada de problemas orgânicos.

      Acrescente-se ainda o fato de Abranches pontuar terem, as vítimas de Anna Rosa Ribeiro, sucumbido por peritonite quando sabemos constar nos autos a ocorrência de divergências na definição da causa da morte da última vítima, se por problemas de saúde se por sevícias, não havendo qualquer menção à doença 76 indicada pelo autor.

      

    A despeito da impressão que diz ter tido sobre este drama, Aranha relembra da agitação em sua

    casa durante o julgamento, localizada próximo ao Tribunal do Júri e onde iam repousar e discutir seu

    andamento, políticos e demais figuras do Partido Conservador, dentre os quais o autor menciona o

      Informações desencontradas, recordações não comprovadas, mas também suposições, hipóteses, inferências e mesmo afirmações convergentes com a dinâmica dos fatos que giraram em torno do crime e processo movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro. Entre tantas interpretações sobre o assunto, a certeza de sua visibilidade social tanto porque feria os brios da aristocracia local quanto porque apresentava-se como mais um tópico na efervescente discussão sobre a condição social do sujeito escravizado no Maranhão da segunda metade do século XIX. Expressividade presente não somente no campo da literatura, mas que também foi acompanhada de perto pela imprensa da cidade que, como veremos a seguir, alimentou opiniões contra e/ou a favor da denunciada.

    4.2 Formadores de opinião pública: a fala dos jornais

      A apreciação de jornais enquanto fontes que testemunharam a história de uma época é para nós (assim como para muitos outros pesquisadores) algo inquestionável e de grande contribuição. Em se tratando da análise do que a nós é extemporâneo, tal afirmativa parece ainda mais relevante, pois, concordando com a observação de Sebastião Barros Jorge, para além de um testemunho da História, os jornais são autores dessa mesma História devido sua participação efetiva na vida política e cultural de um lugar (JORGE, 1997, p.10).

      Dessa leitura da vida pública e cultural emanam também fragmentos de um cotidiano marcado por conflitos ideológicos e de interesse, ingredientes a partir dos quais nos parece ser o processo criminal movido contra a futura baronesa de Grajaú apenas mais uma de suas manifestações, sobretudo por se tratar de um acontecimento atípico para aquela conjuntura social.

      Antes de adentrarmos nas leituras que os periódicos fizeram deste caso, porém, achamos válido tecer alguns comentários sobre a História da Imprensa no Maranhão do século XIX, assunto sobre o qual escreveram figuras expoentes neste campo de saber tais como os jornalistas José Maria Correia Frias, Joaquim Maria Serra Sobrinho, Antônio Lopes e mais recentemente o já citado Sebastião Jorge,

      79 além de alguns outros estudos a este último anteriores . Podemos considerar tardia a implantação do empreendimento jornalístico na Província Maranhense, embora Antônio Lopes em sua

      História da Imprensa no

    Maranhão (1821-1841) sugira ter havido muitas inspeções neste gênero de escrita

      antes mesmo da introdução da imprensa no Estado no ano de 1821 com a inauguração da primeira tipografia local, a Tipografia Nacional ou Tipografia

    80 Nacional Maranhense . A respeito deste aspecto, nos explica ainda Joaquim Serra

      Sobrinho que, antes da independência do Império, a imprensa jornalística pouco mais era do que o veículo da opinião oficial, sendo que os jornais deste tempo, aqui no Maranhão, além de atos do governo, ocupavam-se com pequenas notícias de interesse geral e transcrição de artigos inocentes. Tudo fiscalizado pela junta que administrava a tipografia. Após a independência, e em todo período anterior à Constituição, a liberdade jornalística era ampla e as restrições que a autoridade

      81 pretendia impor , sempre motivavam sérios clamores (SOBRINHO, 2001, p.56).

      Parece ser comum entre aqueles que se interessaram em escrever sobre a trajetória da atividade jornalística no Maranhão oitocentista a reclamação acerca da dificuldade em se elaborar um estudo rigoroso e minucioso com base nas fontes de informação existentes. Isso porque, segundo eles, não foram conservadas todas as coleções de periódicos e tampouco reservados, na íntegra, os exemplares destas publicações, o que se justifica tanto porque umas foram danificadas quanto porque outras desapareceram, circunstância que permitiu a estes estudiosos apenas contemplar fragmentos acerca da dinâmica desta instituição.

      Para além das memórias descritas por José Maria Correia de Frias, por exemplo, que, no livro Memória sobre a tipografia maranhense, tratou predominantemente sobre a morfologia da prática tipográfica na Província (do material empregado, de sua qualidade, das habilidades do pessoal tipográfico e

      

    Castro em catálogo de jornais entregue ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Luís Antônio

    Viera da Silva com a História da Independência da Província do Maranhão; Antônio Henriques

      Leal no livro Pantheon Maranhense, entre outros. Todas estas referências foram extraídas do livro 80 História da Imprensa no Maranhão (1821-1841) de Antônio Lopes.

      

    A título de informação acrescente-se que, segundo o Dicionário... de César Augusto Marques, a

    primeira tipografia foi pedida à Lisboa pelo então governador provisório Bernardo da Silveira Pinto da

    Fonseca e, funcionando com exclusividade até o ano de 1830, como assinala Joaquim Serra

    Sobrinho, quando, em São Luís, surgiram outras tipografias, algumas delas se destacando pela

    melhoria dos instrumentos utilizados para a confecção de jornais e revistas como é o caso da

    81 Tipografia Constitucional, fundada por Clementino José Lisboa (SOBRINHO, 2001, p.21).

      

    Sobre este assunto nos fala Sebastião Jorge sobre a Lei da Imprensa, de origem portuguesa, mas análise de seus produtos), interessa-nos observar as características, digamos que, imateriais do exercício jornalístico, através de leituras que contribuíram para exprimir percepções de costumes, ideias e mentalidades vigentes num determinado espaço histórico-cultural, já que, como prefacia Aline Nascimento em trabalho sobre os jornais catalogados na Biblioteca Pública Benedito Leite, suas informações são variadas e representam os saberes e fazeres de uma comunidade, cidade ou região (MARANHÃO, 2007, p.10). Fossem eles noticiosos, políticos, literários, comerciais, críticos, humorísticos e/ou literários, reside nestes jornais importante soma de conhecimentos de um tempo, em alguns aspectos, não contemporâneos a nós, sobretudo na lida com as relações de trabalho, prerrogativa em que se definiu todo um diverso perfil social.

      Se, contudo, foi grande a crítica no que tange à pobreza de fontes históricas para o estudo da imprensa no Estado, era ainda maior a exaltação dos estudiosos àqueles que contribuíram para delinear seus caminhos. Assim, das obras por nós pesquisadas depreendem-se a de João Antônio Garcia de Abranches com o jornal „O Censor‟, Manuel Odorico Mendes com o „Argos da lei‟, José Cândido de Morais Silva fundador do „Farol Maranhense‟, João Francisco Lisboa que, entre tantos outros, trabalhou com „O Brasileiro‟ e „A Crônica Maranhense‟, Joaquim Maria Serra Sobrinho com o „Semanário Maranhense‟. Todos estes brevemente biografados por Lopes bem como tantos outros por ele rapidamente mencionados, tal como, Francisco Sotero dos Reis, Cândido Mendes de Almeida, Antônio Henriques Leal, Luís Antônio Vieira da Silva, Gentil Homem de Almeida Braga.

      Homens reconhecidos por seus próprios contemporâneos não apenas por sua dedicação ao exercício jornalístico, mas por oferecerem também habilidosas contribuições no campo literário e artístico, local e nacionalmente. Assim atesta Lopes:

      Mormente ao tempo em que o Maranhão foi parte integrante do Império a sua imprensa causava admiração pela superioridade moral, a competência com que discutia as questões, as luzes que projetava para os meios cultos do país, talento e a coragem cívica dos seus jornalistas, o valor dos homens que saíram do jornalismo para a administração pública, o parlamento, a magistratura, o clero, o magistério, a ciência e as letras e ainda pela colaboração que lhe prestaram insignes escritores que a província deu à literatura brasileira (1959, p.34). Insignes escritores que a Província deu à literatura brasileira, precisamos enfatizar, pois daí eram excluídos e rechaçados aqueles “jornalecos onde a infâmia e a calúnia campeavam de mãos dadas”, como alega Antônio Lopes. Os motivos das acusações dirigidas a estes jornais não nos vêm de pronto à transparência, somente permitindo-nos inferir que estes se caracterizavam pela depreciação de desafetos pessoais e pelo uso mesquinho das disputas políticas, mesmo entendendo que tais fatores não se anularam ou deixaram de se manifestar na imprensa mais valorizada, já que nestas também prevaleceram, talvez com um outro nível de rebuscamento, notáveis influências de cunho político-partidário quando

      82

      sabemos das tendências conservadoras ou liberais , antiescravistas ou não, antirepublicanas ou antimonarquistas, que dividiam a opinião pública num século em que as tensões sociais, respeitada e reconhecida a distância temporal de suas

      83

      eclosões , agitaram os espíritos daquela época. Na opinião de Sebastião Jorge, por exemplo, os jornalistas se caracterizavam pela ideologia e posições assumidas na política, o que contribuiu para o surgimento de uma imprensa doutrinária e combativa, sendo o gênero opinativo dominante e a informação se reduzia a alguns avisos (JORGE, 1987, p.110).

      Além de ser um importante veículo de comunicação em que se refletia muito das querelas políticas locais, ocupava-se a imprensa maranhense de outro tema também bastante significativo para aquela realidade, a saber, a estrutura em que repousava o sistema escravista. Apoiando ou criticando, muitas foram as opiniões emitidas sobre esta instituição, antes mesmo que este assunto tenha se tornado alvo mais evidente e de forte ataque entre os abolicionistas na segunda metade do século XIX, como assim o comprovam os artigos de João Francisco Lisboa publicados nas páginas do „Jornal de Tímon‟ e nos quais se atacava o tráfico de escravos.

      Entendemos ter sido no bojo das críticas ao sistema escravista – já largamente correntes na Província – e das tensões vividas naquele contexto social, que se polemizou o caso criminal da futura baronesa de Grajaú. Temos dito desde o 82 início deste trabalho, que a peculiaridade deste acontecimento reside tanto no fato

      

    Configuração bipartidária definida a partir da década de 1860, fruto de uma reorganização político- de que um integrante da aristocracia local tenha passado pelo constrangimento de responder judicialmente por uma prática que, em si, fazia parte daquela lógica social, quanto no fato, sobretudo de ter se concretizado uma denúncia de crime de violência cometido por um escravagista contra um escravo menor de idade.

      Sua repercussão parece ter sido significativa na imprensa maranhense. Dizemos em termos de suposição, pois não nos foi possível abarcar uma quantidade relevante de jornais que trataram do assunto pelos motivos já expostos anteriormente. No entanto, muito nos falam os jornais de que tivemos acesso no anexo da Biblioteca Pública Benedito Leite, no Arquivo Público do Estado do Maranhão e nas transcrições feitas pela historiadora Jacira Pavão da Silva em livro organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti e que constam em nossos anexos.

      Neles, ainda que contendo notícias em datas espaçadas devido mesmo a característica de sua periodicidade, a possibilidade de perceber algumas leituras produzidas sobre o caso e dos quais serão por nós comentados respeitando, não necessariamente as ordens das datas de publicação dos exemplares, mas, os títulos dos jornais de que dispomos.

      É comum nestes periódicos a descrição, ipsis litteris, das peças criminais que compõem o libelo (dos exames cadavéricos, depoimentos policiais e judiciais, da resolução do processo), acompanhada ou não de artigos que, no geral, não

      84

      vinham rubricados por seus autores. Assim no „Publicador Maranhense‟ , após alguns anúncios a respeito do início das investigações, divulgou-se:

      Agita-se presentemente nesta capital uma questão gravissima, sob a epigraphe acima [A morte de Innocencio], e que traz a população seriamente impressionada. Esta questão é o boato sinistro de ter sido immolado, por meio de sevicias, um infeliz escravo menor de dez annos de idade, pertencente ao Dr. Carlos Fernando Ribeiro, que ha muito se acha ausente desta cidade em seu engenho, no termo de Alcantara. Logo que circulou este boato, chegou, naturalmente aos ouvidos da policia uma denuncia de que este escravo havia sido morto por violência... (PUBLICADOR MARANHENSE, 23 de nov. de 1876).

      Boatos. Assim se espalhavam as primeiras informações sobre o caso, 84 estando lá já os ingredientes que lhes definiram as características principais, no

      

    Órgão oficial ludovicense fundado em 1842, tornando-se diário a partir de 1862. Foi dirigido por

    João Lisboa (1856); Sotero dos Reis (1861); Temístocles Aranha (1863) entre outros. Se dizia neutro caso, morte por sevícias de um escravo menor de idade bem como sua repercussão negativa na opinião pública, como assim nos parece demonstrar as interpretações dos exemplares, alimentada também pela incitação dos periódicos para que as instâncias responsáveis se encarregassem de bem desempenhar suas funções. Como o demonstra o mesmo „Publicador‟:

      Tem a sociedade maranhense a mais plena confiança nas justiças do paiz, para não lhe passar pela mente que, se criminoso houver neste drama de sangue, encorage-o a impunidade para a continuação de novos sacrifícios. A voz publica já deu à autoridade a ponta do fio para guia-la no labyrintho. Cumpre pois que não descance, que ponha de parte as attenções para só se consagrar à causa da justiça, à causa da humanidade... Não descance a justiça. Não esmoreça a autoridade na pesquisa do autor ou autores deste crime, se crime existe, sejam elles pobres ou ricos (PUBLICADOR, MARANHENSE, 23 de nov. de 1876).

      Neste momento do artigo as cobranças para que se fizesse justiça ganha tons mais fortes. Isso porque, com base no andamento das investigações e no resultado da primeira autópsia, a possibilidade da existência de crime assume contornos científicos e, portanto, mais suscetíveis à avaliação jurídica, reforçando ainda mais as suspeitas que pairavam, na cidade, contra a denunciada. Não só isso. Imbricado às contingências do caso, os indícios não somente de seu autor, mas também de seu lugar social, donde podemos perceber através da afirmação „sejam eles pobres ou ricos‟. „A voz do povo‟, como assim se encontra assinado o noticiário do dia 23 de novembro de 1876, não deixa de pontuar a quem pertence o escravo nem se furta em discutir a tendenciosidade das conclusões do segundo corpo de delito devido mesmo à posição social daqueles que compunham o corpo de facultativos nele envolvidos, circunstância que parece bastante transparente no trecho a seguir:

      Attenda que alguns dos medicos do segundo corpo de delito não eram as mais competentes para funcionar nelle. E se não vejamos: O dr. Santos Jacintho, foi o medico encarregado do tratamento do menor, tomou parte no negócio depois do fallecimento deste e forneceu o attestado de óbito; devia, portanto, declinar de si a competencia para o exame como fez quando foi chamado a primeira vez no Lycêu, segundo se vê do seu depoimento. O dr. Fabio Bayma por parentesco com o indigitado criminoso, figurou indebitamente no corpo de delito. Restam os drs. Faria de Mattos e Ribeiro da Cunha. Pode, portanto, no

      Os caracteres que citamos inspiram-nos; mas a sociedade tem leis, tem exigencias a que nos devemos subordinar (PUBLICADOR MARANHENSE, 23 de nov. de 1876).

      Embora a inspiração de que trata o artigo, limite-se a considerações capazes de nutrir a insatisfação social diante do fato, estas apresentaram-se apenas ao nível das insinuações, não infundadas nos parece, mas bem mais úteis e relevantes para acirrar os ânimos e pressionar os órgãos competentes, do que para definir o andamento do processo.

      85

      À semelhança do „Publicador Maranhense‟, ocupou-se o jornal „O Paiz‟ em acompanhar o desenrolar dos acontecimentos acerca da morte de Innocencio. Dos noticiários de que tivemos acesso, podemos considerar que, com base na publicação integral que fez dos dois exames de corpo de delito, procurou o periódico não somente expor as duas linhas investigativas resultantes das autópsias – morte por maus tratos ou morte natural consequência do hábito da vítima de comer terra – mas, exigir das autoridades a justa resolução dos fatos, como podemos observar no trecho a seguir:

      Se, como dizem os peritos, há um crime, não hesite por contemplação alguma em entregar a pessoa que o commeteo ao juiz que a deve punir, pois se o fizer commeterá também um crime perante Deus e os homens. Se o boato, porem, foi falso, se a criança morreu de comer terra, como dizem alguns medicos, mostre a improcedencia da accusação, que tambem assim prestara um serviço real á sociedade. Em questões desta ordem a autoridade, elevando-se a altura do cargo de que está investida, deve proceder com a maior serenidade e reflexão, com a mais nobre independência. Diante de si só Deos e a lei deve ser igual para todos (O PAIZ, 16 de nov. de 1876).

      Embora informe „O Paiz‟, no dia 17 de novembro de 1876 que, em havendo divergências num exame médico, não haveria meios para inocentar ou incriminar alguém, este mesmo periódico não deixa de apresentar indícios quanto à existência de um autor do delito ao mencionar as suspeitas da população ao associarem a causa da morte de Innocencio à de seu irmão Jacintho, falecido um 85 mês antes. Assinala o periódico:

      

    Jornal fundado e dirigido por Temístocles Aranha em 1863. Segundo informação do Catálogo de

    jornais da Biblioteca Pública Benedito Leite, foi considerado o periódico mais completo antes da

      Desde a morte de um irmão de Innocencio fallou-se que tinha aquelle sido victima de sevicias. Fallou-se, mas nada provou-se, e, segundo dizem-nos,

    o cadáver da criança não tinha indícios de castigos.

    Fallecendo agora este, começou de novo a voz publica a dizer que a morte não tinha sido natural, que o corpo da criança mostrava o que Ella tinha soffrido (O PAIZ, 16 de nov. de 1876).

      Dos três periódicos contemporâneos aos acontecimentos e por ora aqui analisados, parece ter sido o jornal „O Apreciável‟

      86

      o que adotou uma postura menos velada em relação às suas colocações diante dos fatos, mostrando suas suposições de forma bem mais direta quanto ao posicionamento que dividiam as investigações e as opiniões da população. Assim, no noticiário do dia 18 de novembro de 1876 diz:

      É attribuida a morte do infeliz escravinho Innocencio aos castigos, que lhe resultaram civicias averiguadas no exame médico, que tinha opportunidade de ser combatido ou explicado, no acto do inquérito ou formação de culpa, etc. etc;

      Mas já se está barulhando tudo, para illudir a verdade, desviando-a do verdadeiro caminho!...

      Para que esse segundo exame ou autopsia que veio deixar “peior a emenda que o sonetto”? Onde se vio justificação em materia criminal, sem dizer em nome de quem, para provar antecipadamente que não praticou tal ou tal crime esse nome que não se declina? Será nova jurisprudência do Advogado ou do Juiz que a admittiu?... (O APRECIÁVEL, 18 de nov. de 1876, grifo nosso).

      Ainda que ora ou outra tenha o cuidado de admitir ser imprudente antecipar juízos em relação a questões pendentes de decisão do Tribunal, „O Apreciável‟ não abre mão de colocar em debate alguns pontos que, para ele, tornam desnecessário o seguimento das investigações, visto ser evidente a conclusão dos dois autos do corpo de delito. Concordando com os resultados da primeira autópsia, tece duras críticas ao conteúdo do segundo corpo de delito por creditar-se nele ter falecido Innocencio devido ao fato de ter adquirido hipoemia intertropical, conclusão esta que anula ou pelo menos desvirtua a até então afirmada alegação de que teria o escravo sucumbido por conta de maus tratos. Descendo aos detalhes, pontua a fragilidade não somente das argumentações de que as marcas de sevícias encontradas no corpo do menor teriam sido lidas pelos médicos da segunda

      86

      87

      autópsia como manchas cadavéricas , mas principalmente da problemática acerca da afirmação de que os quatro ancilóstomos encontrados no corpo de Innocencio fossem suficientes para lhe causar a morte. Sobre este ponto a descrição abaixo é bastante ilustrativa:

      Não sabemos como se pode explicar a morte por quatro anchylostomos duodenaes, como causa – de comer terra! Ora a sciencia tem quase sempre encontrado no duodeno de quase todos os cadaveres autopsiados, esses animais sem que durante a vida esses individuos commessem terra. Ainda à sciencia não provou, que o anchylostomos duodenaes devem ter como effeito de sua presença o depravado apetite de terra! Há somente hypotheses e estas ainda não verificadas – porque individuos ha que morrerão de outras doenças – que não – chlorose do Egypto, da India, hypoemia intertropical, e no entanto no duodeno forão encontradas centenas de anchylostomos duodenaes? Como admittir que quatro anchylostomos podessem produzir a morte, quando pelo primeiro corpo de delicto, assim como pelo segundo, havião graves sevicias no cadaver?! (O APRECIÁVEL, 25 de nov. de 1876).

      Para o periódico, portanto, a improcedência da possibilidade de ter morrido o escravo pelos motivos alegados no segundo corpo de delito – cuja conclusão, segundo ele, fere os preceitos da Medicina Legal bem como subestima o pensamento científico – o fazem reavivar a convicção de que a morte do menor tenha decorrido de maus tratos, circunstância cujos indícios são claramente detalhados nos dois laudos e de que, portanto, houve crime. O tom um tanto quanto ácido de suas colocações não o impede inclusive de sinalizar a autora do delito, atitude não adotada pelos outros jornais, embora este fato fosse do conhecimento tanto da imprensa quanto da população. A reivindicação do periódico é bastante clara quando diz:

    87 Observação em que argumenta: “Ora as manchas cadavericas são violectas, e nos pontos de

      

    contacto com o plano onde se acha o cadaver; e as provenientes de contusões são profundas

    interressando o tecido cellular, sendo de notar que a putrefação se faz mais depressa nos pontos

    feridos, nos contusos, do que nas outras partes do corpo. Seria admitir que essas manchas tivessem

    o instincto de apparecer sobretudo nos pontos contusos – descriptos no primeiro corpo de delicto –

    tomando, quando já demasiado putrefacto o cadaver, o nome de manchas cadavericas para se

    desenvolver de preferência nesses ditos pontos? Ora de duas uma: ou o corpo estava

    completamente em estado de putrefação, e neste caso essas manchas erão signaes de contusões,

    ou a putrefação não se achava senão no começo, e neste caso as manchas erão cadavéricas e falsa

    a asseveração de já se achar adiantada a putrefação como foi declarado no começo da descripção

    do segundo corpo de delicto! Seria facil verificar essas manchas de côr violecta, das contusões, que

      Si foramos juiz saberíamos, com a força de nossa authoridade, chamar os medicos da 1ª e 2ª autopcia no cadaver de Innocencio às explicações; em face de Medicina Legal, e depois daríamos nossa decisão sem temer a pessoa poderosa da acusada, e nem trepidar ahte qual quer falsa opinião publica, que pela ventura si houvesse levantado... (O APRECIÁVEL, 23 de dez. de1876, grifo nosso).

      A transparência de suas afirmações, portanto, revela a necessidade que tinha de posicionar-se diante de acontecimento tão irascível e que trazia a opinião pública, como disseram os jornais, tão indignada, sobretudo por se saber dos privilégios a que estava sujeita a acusada devido mesmo a importância de sua posição social. Embora a denúncia jurídica de um membro das classes abastadas da cidade fosse um salto significativo na luta pelo reconhecimento da humanização dos negros, era viva também a consciência da quase inviabilidade de quebrar marcas de distinção social tão arraigadas, mantidas e vigiadas pelos que se beneficiavam destes preceitos.

      Sabemos, outrossim, que as discussões em torno deste caso criminal não tiveram fim com a resolução do processo. Como dissemos, tempos depois, ainda reverberava nas memórias e romances de escritores, bem como nos noticiários dos jornais, comentários acerca da propensa discutibilidade do caso, como assim o atestam os artigos publicados por Antônio Lopes e José Ribeiro de Oliveira mais de 40 anos após os acontecimentos. Nestes, um debate acalorado em torno da conduta tomada tanto pelo promotor público do processo quanto pelo marido da acusada, o Dr. Carlos Fernando Ribeiro.

      Antônio Lopes, já citado em outra ocasião, era professor, historiador e jornalista, válido dizer, também sobrinho do então por ele homenageado Celso Magalhães a quem, em artigo publicado dia 10 de novembro de 1917 no jornal „Pacotilha‟, foram enaltecidas as mais valorosas qualidades intelectuais. Pontuando sua habilidade para o exercício literário e jornalístico, Lopes traça um relativamente breve estudo biográfico de Magalhães ressaltando não somente sua trajetória de vida pessoal, mas principalmente o desenrolar de sua vida pública, salientando a sensibilidade deste no trato com assuntos de relevante valor social. A escravidão, a cultura popular, os usos e costumes da Província eram temas que muito lhe apetecia. No entanto, foi exaltando suas propriedades jurídicas que Antônio Lopes relembrou o caso em que esteve envolvida Anna Rosa Vianna Ribeiro, “senhora da mais alta aristocracia maranhense acusada de ter assassinado a sevícias uma criança escrava” (LOPES, PACOTILHA, 10 de novembro de 1917).

      No rol das considerações por este tecidas acerca do polêmico caso, a afirmação de que a ilibada postura do promotor público fora inclusive – no decorrer do trâmite jurídico – assediada por ofertas e pedidos, mas também ameaçada sua própria existência diante de um misto de interesses pessoais e políticos dos quais conseguiu desvencilhar-se devido sua „impavidez diante da situação‟. Não pode, contudo, o mesmo livrar-se da autoridade do Dr. Carlos Fernando Ribeiro assim que este tomou posse da Presidência da Província do Maranhão no ano de 1878, quando, nas palavras de Lopes, numa atitude vingativa e covarde, o principal

      88 interessado na causa célebre, demitiu a bem do serviço público Celso Magalhães .

      Em contrapartida, sentiu José Ribeiro de Oliveira, sobrinho do então falecido Carlos Fernando Ribeiro, necessidade de „restabelecer a verdade‟ frente às declarações feitas por Antônio Lopes. Num tom sarcástico, em artigo divulgado pelo „Pacotilha‟ no dia 13 de novembro de 1917, argumentou que este autor emprestou brilho exagerado às atitudes tomadas pelo promotor no processo-crime, considerando tratar-se a denúncia da esposa do chefe do Partido Liberal fruto das querelas políticas locais já conhecidas pelo costume que tinha de depreciar a imagem de seus desafetos. Nas palavras de Oliveira:

      [...] a esse tempo, já era habito fezerem-se e desfazerem-se reputações, ao sabor das conveniências e dos interesses do momento. Aproveitando-se do caso, inimigos políticos e pessoaes do dr. Carlos Fernandes Ribeiro, o mais tarde barão de Grajahú, fizeram circular, com afirmações categóricas, que Innocencio fora victima de maus tratos, infligidos pela mulher do seu senhor,

    d. Anna Rosa Vianna Ribeiro (OLIVEIRA, PACOTILHA, 13 de nov. de 1917).

      Sua convicção de que a acusação de maus tratos não passava de uma falácia da oposição (da qual Celso Magalhães agiu instigado pelo ardor da 88 campanha política adversária), visto que o segundo atestado comprovava a morte

      

    Ao que Lopes reclama: “Era um funcionário destes que se demitia, por conveniência do serviço

    público. Que o acto de demissão foi injusto, não resta, a menor dúvida, pois Celso de Magalhães,

    durante a serventia do cargo só fizera honrar a justiça com a sua probidade e saber. Sabe toda gente,

    contemporâneos ou não do infeliz maranhense, na sua terra, que não tinha a demissão outro motivo

    que o da vingança pessoal

      , e, como já foi exposto, sem base plausível. Tanto assim que se revestia

      89

      dada por questões naturais , o fazem prosseguir num pensamento de que prevalecia nesta contenda jurídica, reflexos de uma trama em que a prática da perseguição política era seu mais funesto ingrediente. Para Oliveira, portanto, era Carlos Ribeiro mais uma vítima dos esforços de seus inimigos políticos para deturpar negativamente a imagem de quem, ao tempo do processo, se encontrava, conforme palavras do próprio Oliveira, em rigoroso „ostracismo político‟ e para quem somente se viu feita justiça para o caso criminal do qual esteve indiretamente envolvido devido a integridade e eficácia dos órgãos competentes (OLIVEIRA, PACOTILHA, 13 de nov. de 1917).

      É válido acrescentar que, em trabalho recente e já mencionado, José Eulálio de Almeida concorda com o fato de não ter o marido da acusada exercido qualquer interferência sobre a escolha dos jurados e a decisão do conselho de sentença justamente por estar, neste período, fora do poder provincial uma vez que sem mandato. Almeida parece não atentar, porém, que independente ou não de

      90

      estar numa gestão, exercia Ribeiro importante e longínqua influência no jogo político da capital.

      Em resposta aos argumentos de José Ribeiro de Oliveira, Antônio Lopes noticia, em novo artigo, não ter formulado qualquer juízo a respeito da responsabilidade de Anna Rosa Ribeiro no caso em relevo, afirmando que:

      Ao traçar as linhas de sábado passado não tínhamos em vista ennublar a memória de mortos por certo respeitáveis, como todos os que repoisam no sagrado seio dos sepulcros, tanto assim que não fizemos a menor acuzação que pudesse magoar os membros da família da iditosa Senhora que a fatalidade envolveu, em liames de agitada tragédia (LOPES, PACOTILHA, 19 de nov. de 1917).

      Foi, contudo, criticando a acusação de ter agido Celso Magalhães por motivos políticos que se concentrou boa parte da contestação de Antônio Lopes ao artigo de José Ribeiro Oliveira. Considerando que:

    89 No que acrescenta: “A causa da morte do pequeno foi hypotenia inter-tropical, mal de que já se

      

    achava elle accommettido, quando comprado pelo barão. Esse facto, já por si, era sufficiente para

    afastar as suspeitas que vieram a ser levantadas em torno dessa morte, conhecido, como era, o dr.

    Santos Jacintho, não só pela sua competência, como ainda pela nobresa e elevação dos seus

      Celso limitou-se a cumprir o seu dever. Grandes foram as suas responsabilidades no momento e não nos consta as houvesse encarado com atitude menos recomendável á sua dignidade de funcionário. Não se diga que levou paixão para a acção que desenvolveu na célebre causa, excedendo os limites da lei em qualquer oportunidade, quando as paixões referviam em torno ao infausto caso. E porque não levou? Sem dúvida por isto, principalmente: Celso não era político até então (LOPES, PACOTILHA, 19 de nov. de 1917, grifo do autor).

      Explica de forma categórica e – segundo ele, com base tão somente num trato fiel com os testemunhos do passado – que, embora Celso pertencesse a uma família de tradições conservadoras, este manteve-se afastado destas inspirações em boa parte de sua abreviada vida, dedicando-a bem mais às suas aptidões literárias, e, somente tendo entrado efetivamente para o Partido Conservador, tempos posteriores ao processo criminal e mesmo após sua demissão do cargo de promotor público pelo Barão de Grajaú. Julga ainda Antônio Lopes, ter assumido Celso Magalhães a vida partidária muito mais como reação pública à injustiça por ele sofrida do que por uma aspiração de seu espírito para a política, circunstância que reforça ainda mais a argumentação de que o promotor não tenha agido de forma sugestionada no libelo, sendo a perseguição, tão apontada por Oliveira, instrumento utilizado, em verdade, contra Magalhães.

      Observamos, assim, que contemporâneos ou não aos acontecimentos que circundaram o processo-crime movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, os jornais, volta e meia, apontavam tanto a posição social do marido da acusada quanto as disputas políticas da capital provinciana como fatores que exerceram influência significativa no resultado do trâmite jurídico. Argumentos inclusive e ao que parece, bem mais insistentes do que a consideração de que tratava-se a vítima de um escravo menor de idade numa época em que essa denúncia exprimia não somente um certo redirecionamento no tratamento jurídico conferido ao cativo, quando o aparato judiciário passou a interferir legalmente nas relações senhores e escravos, mas também por ser alvo das críticas abolicionistas que naquele momento ferviam nas linhas escritas pelos literatos, jornalistas e incitavam as rodas de conversa da cidade.

    5 CONSIDERAđỏES FINAIS

      Nos últimos anos a multiplicidade de estudos desenvolvidos em torno do tema da escravidão brasileira tem contribuído para ampliar o redirecionamento de uma perspectiva teórica que tradicionalmente concebeu senhores de escravos e cativos como duas categorias sociais distintas, homogêneas e, consequentemente, cristalizadas. Teorias sobre as quais não podemos deixar de reconhecer nem a importância para o crescimento da produção acadêmica sobre o tema nem o lugar de quem as escreveu, mas que com o tempo tornaram-se insuficientes para abarcar a complexidade do debate, abrindo caminho a outras leituras.

      As críticas a esta maneira de interpretar uma instituição tão expressiva e cara ao processo histórico brasileiro quanto o foi o sistema escravista, inserem-se no esforço de empreender – principalmente com base em estudos locais e regionais e a diversificação das fontes utilizadas para as pesquisas – um exercício que permita perceber as várias formas assumidas pelo convívio mantido não somente entre senhores e sujeitos escravizados, mas também as conivências e os conflitos estabelecidos entre os próprios cativos, aspecto este questionador da noção de que prevalecia uma identidade comum que ligava, radicalmente, os membros deste segmento entre si.

      No interior desta produção, a questão da resistência escrava assume papel bastante relevante ao salientar os mecanismos articulados pelos indivíduos escravizados para, senão livrar-se do domínio senhorial, pelo menos atenuar o peso desta autoridade. Assim, praticaram desde resistências as mais abertas, experienciadas através de insurreições, fugas, aquilombamentos, assassinatos, roubos, atos criminosos em sua ampla variedade, compras ou pedidos de alforrias, a recursos mais velados ou negociados a respeito dos quais dependia a criatividade, inteligência e sorte dos cativos, como assim observa o historiador João José Reis.

      Enquanto parte fundamental para a compreensão das múltiplas formas de resistência escrava, a problemática do crime assumiu importante valor em nosso estudo, pois ao considerá-lo em sua historicidade pudemos observar que sua concepção na sociedade escravista brasileira estava diretamente associada à leitura jurídica feita a respeito da condição social do cativo, permitindo-nos considerar que, em suas resoluções, ou como autor de um ato criminoso, onde era mais respeitada a aplicação da lei. Essa conclusão, entretanto, pode estar vinculada à dificuldade em se encontrar fontes que permitam apontar situações em que se possa visualizar, por exemplo, crimes cometidos pelos senhores contra seus cativos já que esta prática, por mais que seja teoricamente punível quando configurada como sevícia, por muitos motivos – dentre os quais podemos mencionar a negligência dos senhores e da polícia – não chegava a formar registro policial e muito menos a concretizar processo judicial, o que de certa forma diminui a viabilidade das pesquisas interessadas neste aspecto das relações escravistas e apontam um outro âmbito, cujos os registros parecem mais abundantes, qual seja, o da criminalidade escrava.

      Foi, no entanto, sob a perspectiva da criminalidade contra escravos que se desenvolveu nosso interesse em analisar o processo-crime ocorrido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, importante dama da sociedade ludovicense da segunda metade do século XIX e de cuja acusação nos parece estar vinculada não somente a um reflexo da intensa propaganda abolicionista disseminada àquele período, mas também a um assunto bastante profícuo ao estudo das relações escravistas, e que diz respeito à intervenção do poder público na regulamentação da relação senhores/escravos. Interferência esta ambígua e complexa, diga-se de passagem, pois se por um lado ela intervinha a favor do cativo, como assim ocorreu com o ato de denúncia promovido pela Promotoria Pública do Estado do Maranhão contra a futura baronesa, por outro lado, mostrava-se relapsa e débil frente aos interesses particulares dos escravagistas, como assim revela a atitude marcada pela absolvição da ré, ainda que a acusação de sevícia que contra ela pesava, fosse juridicamente reprovada.

      A dubiedade da condição do cativo, percebido ora como coisa ora como pessoa dotada de ciência, refletia a maneira mesmo como se institucionalizou o aparato judiciário maranhense no período imperial, cuja herança colonial tornou problemática sua relação com a ideia de público, circunstância que acabou dificultando uma intervenção mais objetiva e imparcial – como assim se propunha o discurso jurídico – diante dos interesses e privilégios dos escravistas, de maneira que tornou complicado falar de uma delimitação do controle entre o âmbito público e privado quanto à tutela do cativo, já que ambas as instâncias, na prática, se

      Aliás, essa objetividade e imparcialidade sobre a qual repousou (e ainda repousa) o discurso jurídico, fruto mesmo da racionalidade científica que tomou para si a autoridade e credibilidade do saber, foi um dos critérios fundamentais para a formulação da defesa de Anna Rosa, quando seu advogado insistiu na crítica às deficiências de ordem científica a que estiveram sujeitos os procedimentos policiais na coleta de informações para a investigação, enfatizando, de quando em quando, assentar-se o discurso jurídico em preceitos orientados pela busca da verdade e a aplicação legal e devida das penalidades.

      Enquanto produto de concepções cultural e historicamente construídas, todo o aparato jurídico característico desta época e sociedade, ainda que arbitrário, tomava para si o status de instituição puramente formal e objetiva, impondo aos indivíduos, simplesmente, obedecer o conteúdo de suas leis e não questioná-la ou transgredi-la sob pena de punição. Na prática, como tivemos a oportunidade de observar no caso criminal movido contra Anna Rosa Ribeiro, o uso feito desse conteúdo jurídico permitia perceber que a manifestação de interesses particulares estava longe de ser eximida. Entre as partes envolvidas no processo figurava, de um lado, um escravo menor de idade cuja mãe, negra forra, respondeu a um processo criminal meses após o processo que investigava a morte de seu filho, do outro lado, uma mulher oriunda de família abastada, proprietária de escravos e, principalmente, esposa do chefe do Partido Liberal na Província, que, mesmo não estando no poder, quando se encontrava sua cônjuge sob investigação, teve importante influência no jogo político regional.

      A forte repercussão deste fato na literatura e imprensa, aliás, incidiram sobremaneira neste último aspecto, acreditando que, mesmo sendo a denúncia jurídica de uma escravocrata algo quase inusitado para aquela conjuntura, sua absolvição não representou alguma surpresa para a opinião pública, visto exprimir, mais uma vez, a autoridade e o interesse dos mais privilegiados.

      Tratamos de apenas um único caso de acusação contra os desmandos senhoriais. Muitos traços da conflituosa relação escravista nos foram revelados. Nossas conclusões estão longe de abarcar a complexidade desta sociedade, representam apenas um flash diante de uma realidade muito mais ampla e plural a respeito da qual cada vez mais se multiplicam e enriquecem suas interpretações.

      

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      ANEXOS

      Jornais que noticiaram a morte de Innocencio O Publicador Maranhense (sexta-feira, 17 de nov. de 1876)

      Exame de um cadáver – Ante-hontem espalhou-se nesta cidade que um escravo de 11 anos, de propriedade do Sr. Dr. Carlos Fernandes Ribeiro, que se acha ausente em sua fazenda em Alcântara falleceu victima de sevicias.

      A policia tendo disto conhecimento procedeu immediatamente como lhe cumpria. Procedido o corpo de delito pelos peritos drs. Raimundo de Castro e Lemos, acharam o seguinte (descrição do 1º corpo de delito). Consta-nos que vai proceder ao inquérito o Sr. Dr. Chefe de policia.

      O Publicador Maranhense (sábado, 18 de nov. de 1876)

      Novo exame cadavérico – Em presença da Sr. Dr. Chefe de policia, de um amanuense de sua secretaria que o acompanhava e do promotor público interino procedeu-se ante-hontem, a requerimento do Sr. Dr. Paula Duarte, a novo exame no cadáver do escravinho do Sr. Dr. Carlos Ribeiro, de que hontem nos occupamos, e cuja morte é atribuída a sevicias.

      Feita a exhumação procederam ao exame os peritos indicados pelo Sr. Dr. Paula Duarte em sua petição, e foram estes os Srs. Drs. A. dos Santos Jacintho, Fábio A. Baima, J. M. Faria de Mattos e Manoel J. Ribeiro da Cunha, sendo também a acto assistido pelos do exame anterior (descrição do 2º corpo de delito).

      O Publicador Maranhense (quinta-feira, 23 de nov. de 1876)

      Secção geral A morte de Inncencio

      Agita-se presentemente nesta capital uma questão gravissima, sob a epigraphe, acima e que traz a população seriamente impressionada. Esta questão é o boato sinistro de ter sido immolado, por meio de sevicias, um infeliz escravo menor de dez annos de idade, pertencente ao Dr. Carlos

      Fernando Ribeiro, que ha muito se acha ausente desta cidade em seu engenho, no termo de Alcantara.

      Logo que circulou este boato, chegou, naturalmente aos ouvidos da policia uma denuncia de que este escravo havia sido morto por violência. O Sr. Silva e Sá, subdelegado do 2º distrito, foi a primeira auctoridade que tomou, por iniciativa própria, conhecimento deste fato, cuja gravidade chamou logo sua atenção.

      Dous medicos, convocados para o exame, os drs. R. de Castro e Lemos, procederam ao respectivo corpo de delicto e declararam o que consta do exame publicado nos jornais desta capital. Logo apoz este exame requereu o Dr. Paula Duarte, por interesse de terceiro, cujo nome não declarou, segundo exame, indicado

      Feito este, externaram elles o seu parecer pelo modo constante de suas respostas, também publicados nos referidos jornaes. Ao mesmo tempo que a policia trabalhava por sua parte, requeria o Dr. Paula Duarte perante o juiz criminal da 1ª vara uma justificação sobre este fato, na qual figuram como testemunhos pessoas muito importantes, principiando o depoimento pelo exmo. Dr. Chefe de policia, que sem duvida mal avisado, inutilisou- se neste negocio, sobre que lhe cabia tomar a principal parte. Outros testemunhos já tem deposto – o dr. Santos Jacintho, srs. Travassos da Bosa e major Nunes Paes e consta-nos que faltam ainda muitas.

      Dos tres primeiros já estão no dominio do publico os respectivos depoimentos, sendo o do dr. Santos jacintho muito longo e minucioso. Aguardemos os mais. É este o estado em que pára esta questão que, não cessaremos de repetir, é da maior gravidade e traz a população seriamente impressionada. Tem a sociedade maranhense a mais plena confiança nas justiças do paiz, para não lhe passar pela mente que, se criminoso houver neste drama de sangue, encorage-o a impunidade para a continuação de novos sacrifícios.

      A voz publica já deu à autoridade a ponta do fio para guia-la no labyrintho. Cumpre pois que não descance, que ponha de parte as attenções para só se consagrar à causa da justiça, á causa da humanidade.

      Attenda que alguns dos medicos do segundo corpo de delito não eram as mais competentes para funcionar nelle. E se não vejamos: O dr. Santos Jacintho, foi o medico encarregado do tratamento do menor, tomou parte no negócio depois do fallecimento deste e forneceu o attestado de

      óbito; devia, portanto, declinar de si a competencia para o exame como fez quando foi chamado a primeira vez no Lycêu, segundo se vê do seu depoimento.

      O dr. Fabio Bayma por parentesco com o indigitado criminoso, figurou indebitamente no corpo de delito. Restam os drs. Faria de Mattos e Ribeiro da Cunha. Pode, portanto, no terreno dos bons princípios, ser aceito, sem censura, um tal modo de proceder? Respondam-nos, mas façam-no com a mão da consciência. Os caracteres que citamos inspiram-nos; mas a sociedade tem leis, tem exigencias a que nos devemos subordinar. Vamos fechar este artigo com o seguinte appello: Não descance a justiça. Não esmoreça a autoridade na pesquisa do autor ou autores deste crime, se crime existe, sejam elles pobres ou ricos. Ponha de parte as considerações mal entendidas, as attenções indevidas: só assim merecerão os applausos do povo os depositários da lei e da justiça. Continuaremos 21 de novembro de 1876 A voz do povo.

      Jornal: O Paiz (São Luís - MA), 16 de novembro de 1876 (p.03, c. 02) Transcrito por: Jacira Pavão da Silva Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

      Notícias Exame de um cadaver – Correu antehontem que um escravo, de 11 annos, do Sr. Dr. Carlos Fernando Ribeiro, falleceu de sevicias, nesta cidade. O Sr. Dr. Carlos está há muito tempo ausente, em seu engenho em Alcantara e ignora completamente esta ocorrência. Fez-se o corpo de delicto como, abaixo dizemos, e tem a policia em seu poder os elementos para conhecer a verdade. Se, como dizem os peritos, há um crime, não hesite por contemplação alguma em entregar a pessoa que o commeteo ao juiz que a deve punir, pois se o fizer commeterá também um crime perante Deus e os homens. Se o boato, porem, foi falso, se a criança morreu de comer terra, como dizem alguns medicos, mostre a improcedencia da accusação, que tambem assim prestara um serviço real á sociedade.

      Em questões desta ordem a autoridade, elevando-se a altura do cargo de que está investida, deve proceder com a maior serenidade e reflexão, com a mais nobre independência. Diante de si só Deos e a lei deve ser igual para todos.

    • São estes os pormenores que colhemos: Desde a morte de um irmão de Innocencio fallou-se que tinha aquelle sido victima de sevicias. Fallou-se, mas nada provou-se, e, segundo dizem-nos, o cadáver da criança não tinha indícios de castigos.

      Fallecendo agora este, começou de novo a voz publica a dizer que a morte não tinha sido natural, que o corpo da criança mostrava o que Ella tinha soffrido.

      Neste sentido uma denuncia foi levada ao Sr. Dr. Chefe de policia, que mandou o Sr. Subdelegado do 2º districto fazer as primeiras indagações. Dirigio-se o Sr. Subdelegado Silva e Sá na manhã de 14 ao cemitério e ahi achou o cadaver da criança, que ainda estava insepulto, por ter sido levado sem o bilhete de sepultura e certificado do escrivão e do juiz de paz.

      Examinando o Sr. Subdelegado o cadaver, pedio logo que fosse posto á disposição da policia para o exame preciso, como effectivamente ficou. Nesse dia não se fez o exame, consta-nos por não se ter encontrado medico que se prestasse. Hontem foi feito o corpo de delicto, no qual foram peritos os Srs. Drs. Raimundo de Castro e P. Guimarães.

      As respostas dadas pelos peritos são as seguintes. – São bem positivas – morte por castigos repetidos ou continuados, e por todo o corpo! Dizem os peritos: Quanto ao habito externo – que a cabeça tinha uma contusão na região occipital pelo lado direito, junto á sutura com o parietal correspondente; uma outra na região frontal do mesmo lado, em sua parte media; outra ainda na mesma região pela sua parte esquerda, marchando para a região temporal correspondente – escoriações na orelha direita, em seus bordos; feridas e echimoses no lábio inferior; um ferimento já cicatrisado, mas recente no pescoço e correspondendo ao osso e apagadas, mas que se pode affirmar produ-/zidas há pouco tempo; prolapso no recto ruptura, ainda que pequena, em alguns pontos da circumferencia do sprincter.

      No braço direito escoriações e echimoses na região escapulo-humeral, produzidas pela pressão exercida, provavelmente, por cordas, durante alguma tempo; - na região do cotovello escoriações recentes, no anti-braço, pela sua parte posterior, e em seu terço inferior – uma ferida de forma ovóide de tres ou quatro centímetro d extensão, no seu maior diametro.

      O braço esquerdo tambem escoriado e echimosado nos pontos notados no braço direito. Nas pernas marcas antigas de castigos, por toda extensão e nos joelhos escoriações recentes. Quanto ao habito interno: acharam, igualmente, um derramamento sanguineo pouco considerável na região cerebral. Na caixa thorascica não havia nada de notavel. Na região abdominal tambem nada havia digno de menção. O cadaver, comquanto estivesse insepulto para mais de 24 horas e n‟um clima como o nosso, a putrefação era pouco adiantada. O estado do corpo da infeliz criança demonstrava que a morte apparecera, não em virtude de uma molestia e longa consumpção

      91

      e sim por uma causa qualquer, rápida, que pouco lhe alterou o seu estado physico. Aos quesitos responderam: 1º Que houve morte 2º Foi provavelmente máu tracto e castigo 3º Que quanto ao meio que o produziu, satisfazem com a resposta ao 2º 4º Que a morte não foi causada por castigos immoderados, mas provavelmente por castigos repetidos e mau trato continuado o que o infeliz não pôde suportar .

      5º Que os castigos foram praticados provavelmente com cordas, chicote e qualquer outro instrumento contundente e de maior peso. 6º Pode-se dizer que todo corpo foi maltratado com castigos repetidos, e se houvesse cuidado, de certo não teria havido a morte. 7º Que o habito externo do cadaver não denota que o menor estivesse em abandono de cuidados humanitários, ao menos pelo que apparecia na occasião. 8º Que o damno causado foi a perda da vida.

    • Consta-nos que vai proceder ao inquérito o Sr. Dr. Chefe de policia. Temos a mais plena confiança neste digno magistrado.

      Jornal: O Paiz (São Luís – MA), Sexta-feira, 17 de novembro de 1876 (microfilmado). (p.02 e 03, c.06 e 01-03). Transcrito por: Jacira Pavão da Silva Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

      A morte de Innocencio A morte de Inoccencio – Requereo o Sr.Dr. Paula Duarte, por interesse de terceiro, que fosse exumado e de novo examinado por outros peritos que indicou, o cadáver do menor Innocencio, escravo do Sr.Dr. Carlos Fernando Ribeiro, escravo que aqui estava em companhia de sua senhora, e de cuja morte demos hontem noticia.

      Deferida esta petição, o Sr. Dr. chefe de policia convocou os ditos peritos para o exame requerido hontem as 11 horas da manhã. A essa hora achavão-se no cemitério o Sr.Dr.chefe de policia, José

      Marianno da Costa, acompanhado do amanauense, o Sr. R. Rego, os peritos nomeados, Drs. A. dos Santos Jacintho/ Fabio A. Baima, J.M. Faria de Matos, Manoel J. Ribeiro da Cunha e também os peritos do exame anterior, os Srs. Drs. R. Castro e Augusto Lemos, o Sr. Promotor Publico interino, Antonio Gonçalves de Abreu, o advogado Dr. Paula Duarte, e mais outras pessoas.

      Ao meio dia foi desenterrado o cadáver, que já estava em adiantada putrefacção, e principiaram os peritos o exame. Foi demorado e muito minucioso este exame, durante o qual o Sr.Dr. Santos Jacintho ferio-se; usando, porem, das cautelas que para estes casos a sciencia recomemmda, não [ileg.] más consequencias o seu ferimento.

      Eram 2 horas da tarde - quando terminou. Reunidos os peritos, em um dos consistório da capella foram pelo advogado Dr. Paula Duarte apresentados os seguintes quesitos:

      1º A morte foi natural ou causada por violência?

      2º Si por moléstia, pode se determinar a natureza della e era Ella capaz de produzir a morte?

      3º No caso sujeito foi a morte causada por moléstia a que atribuio o attestado do facultativo?

      4º Apresenta o cadáver contusões e são estas capazes de justificar a morte por violência?

      5º Se pelos caracteres das contusões, pode se assegurar que o individuo morto houvesse sido repetidas vezes castigado corporalmente, e em caso se o abandono ou carência de tratamento eram sufficientes para produzirem a morte?

      6º Se o estado do cadáver denota que o individuo não tivese sido alimentado regurlamente até a morte, ou se os indícios da alteração física são ou não provenientes e explicáveis por moléstia?

      7º Há contusões na cabeça, são estas de natureza especial, pode-se determinar a causa d‟ellas? Em conseqüência passaram os peritos a fazer os exames e investigações ordenadas e as que julgaram necessárias, concluídas as quaes declararam o seguinte:

      Inspecção externa 1º Era o cadáver de um menor de cor preta, o qual indicava ter pouco mais ou

      2º Tinha abertas as cavidades craneada e abdominal, em conseqüência da autopsia anterior e apresentava da parte de fora desta ultima cavidade o estomago e o grosso intestino não abertos. 3º Na cabeça nota-se uma pequena echymose circular de 2 centimetros de diâmetro situada sobre a sutura sagital perto do ângulo superior do occipital. 4º No pescoço nada há de notável e como em outros pontos está também denudado da epiderme, a face também nada apresenta que mereca menção. 5º No tórax – (peito) encontra-se uma escoriação de 12 milimetros de comprimento e 6 de largura situada sobre a appophyse acramion esquerda, e manchas cadavéricas verificadas por incisões. 6º Na parede anterior do abdômen nada se encontrou digno de menção, a excepção de manchas cadavericas. 7º Na região lombar encontra-se uma echymose de 1 decimetro e 5 centimetros de largura. 8º No membro thoraxico direito há uma escoriação ao nível da extremidade superior do radius sob a face posterior da articulação humero cubital; há também uma cicatriz de5 milimetros de diâmetro na parte interna do cotovello ao nível da epitróclea; e ainda mais uma solução de continuidade de 25 milmetros de comprimento de forma elíptica a qual interessa todo o tegumento e tecidos subjacentes até o periósteo exclusive, e é situada no terço inferior do antebraço sobre a borda intrena do cubetus; e finalmente uma echymose de um decímetro de comprimento com 25 milimetros de largura na face do braço. 9º No membro thoraxico esquerdo há uma echymose circular de 12 milimetros de diâmetro na face dorsal do corpo junto a articulação radio-carpiana. 10º Na região glutea (nadegas) há manchas cadavericas que forão verificadas por incisões. 11º No membro abdominal direito há uma echimose circular de 25 milimetros de diametro no terço superior da face interna da tibia, e uma cicatriz circular de 6 milimetros de diametro situada ao nivel do segundo osso domettatarso sobre a face dorsal do pé. 12º No membro abdominal esquerdo a uma echymose circular de 37 milimetros de diametro ao nivel do lado interno da rotula, uma cicatriz circular de 12 milimetros de diametro situada ao nivel da face anterior da mesma rotula e uma echymose de 5 centimetros de comprimento com 12 milimetros de largura situada abaixo do mallealo externo - .

      Inspeção interna 13º Na cavidade craneana nada se encontra a não serem detritos de massa encephalyca e as membranas do cérebro mais ou menos lacerados. 14º Aberta a cavidade thoraxica encontrarão o coração em via de decomposição, facil de lacerar-se, com as suas cavidades vasias do sangue e anemico. Tambem não tinha sangue a arteria pulmonar. Nos pulmões nada de notavel. 15º Aberto o estomago encontram-no cheio de uma grande quantidade, digo de uma massa composta de farinha, carne e terra vermelha que reconhecerão lavando a massa e separando a terra. 16º Aberto o duodenum encontrarão pequenos vermes de espécie anchylostomum duodenale dos quaes recolherão quatro que depositando em um pequeno vidro com

      17º O figado se acha anemico. No grosso intestino há fezes em pequena quantidade. Há prolapso do recto. O esphincler do anus apresenta pequenas dilacerações em alguns pontos da sua circunferencia; e que portanto respondem aos quesitos apresentados pelo advogado.

      Ao 1º quesito – A morte foi natural. Ao 2º Que a autopsia tendo demonstrado a existenci a de anchylostomus duodenaes confirma a molestia qualificada de hypoemia in/tertropical, que é por si so sufficiente para produzir a morte. Ao 3º Que sim. Ao 4º Sim, que o cadaver tem contusões que são por si sós insufficientes para causar a morte.

      Ao 5º Sim, que foi castigado, mas não podem determinar o numero de vezes; que se houve abandono ou carencia de tratamento o que não podem reconhecer, era istp sufficiente para produzir a morte. 6º Que o alimento encontrado no estomago não era adequado á natureza da molestia; mas ignorão se foi sempre essa a alimentação empregada. 7º Que há uma contusão na cabeça, mas que não podem precisar a natureza d‟ella.

      Pelos Drs. Raimundo José Pereira da Castro e Augusto José de Lemos foi dito que, discordando elles da opinião de seus colegas, passão a expor: Que pelo exame cadaverico hoje novamente praticado no menor Innocencio, escravo do Dr. Carlos Fernando Ribeiro, auxiliados pelos Drs. Manoel José Ribeiro Cunha, Antonio dos Santos Jacintho, Fabio Augusto Bayma e José Maria Faria de Mattos encontrarão, alem do que hontem mencionarão no auto de corpo de delicto, feito perante o subdelegado de policia, mais o seguinte, pela abertura feita no estomago encontrarão nelle um deposito recente de comida – farinha em grande quantidade, tres pequenos pedaços de carne e terra vermelha; e como as digestões se costumão fazer de quatro a seis horas da refeição, se quer-se que esta alimentação fôra introduzida no estomago poucas horas antes do falecimento do pequeno; e como nessa occasião a infeliz criança devia achar-se luctando com a morte, de certo esta alimentação lhe fora trazida, visto como se achava ella sem forças para procural-a E quem nos diz ou nos affirma que a terra achada no estomago não fôra trazida de envolta com a farinha? No duodenum encontrarão anchylostomus duodenaes em pequeno numero e que por si só não podião por forma alguma provar evidentemente que fosse essa a única causa da morte. Feitas estas considerações, respondem aos quesitos pela forma seguinte. Ao 1º quesito. Que comquanto tivessem encontrado no duodenum quatro anchylostomus duodenaes e no estomago terra de envolta com os alimentos, repondem que se os vermes podião trazer a morte, pela mesma forma os castigos inflingidos na creança? Quem nos diz que, não obstante a presença da moléstia hypoemia intertropical, não teria a creança succumbido pela pancada que recebeu na cabeça e que lhe podia trazer como consequencia uma commoção cerebral e depois a morte? Quem nos affiança ainda que a pancada exercida na região lombar e provada pela grande echymosis que ahi se notava, não tivesse compromettido a substancia medular rachitiana e trazido como consequencia a morte? Ao 2º Que talvez. Ao 5º Sim, pode-se provar que por vezes foi corporalmente castigado. Crem que ao menos, pelo que se notava no cadaver na occasião do exame, não estivesse elle entregue ao abandono. Ao 6º que não demonstrava ter deixado de ser alimentado, mas que parecia sel-o de uma maneira inconveniente, attendendo-se ao diagnostico do medico assistente e cá apreciação alimenticia, que provavelmente fizera a pessoa encarregada do doente. Ao 7º sim, há contusões, e que sendo demonstrado que qualquer pancada na cabeça um tanto mais forte, com quanto não traga solução de continuidade deve ser bem attendida pelos facultativos, visto a consequencia: quanto a causa da pancada ignorão.

      Assignaram as respostas acima os Srs. Drs. Santos Jacintho, Bayma, F. de Mattos e Ribeiro da Cunha.

      O Sr. promotor, depois de ouvir ler estas respostas, apresentou de sua parte estes quesitos: 1º De que moléstia falleceu Inncencio? 2º Qual o estado de decomposição em que foi encontrado o cadaver, com relação ao tempo do fallecimento? 3º O facto de Innocencio comer terra importava para inchação geral do corpo ou somente dos orgãos principaes, e quaes são os que mais de prompto deviam estar affectados e prejudicados? 4º Depois da morte do individuo que come terra, a inchação concorre para acelerar-lhe a decomposição do corpo? 5º Dado o caso de ser a morte occasionada pelo vicio de comer terra, as sevicias encontradas e descriptas teriam concorrido para o termo da vida? 6º A comida encontrada no estomago de Innocencio, misturada de terra, era de recente data ou denota ter estado demorada neste orgam? 7º De que natureza era essa comida, e de que qualidade a terra achada? 8º Em que tempo se faz a digestão das materias ingeridas no estomago, no estado de molestia em que se diz se achava o escravo Inncencio? 9º Os vermes encontrados no duodenum, são nherentes [sic.] ao corpo ou somente provenientes do vicio de comer terra? 10º De que natureza são esses vermes? Poderião elles por si só concorrer para a morte immediata de Innocencio? 11º A porção de terra encontrada no estomago era sifficiente para matar? Dada a morte, que carater apresentaria o defunto á primeira vista? A estes quesitos responderam os peritos do 2º exame: Ao 3º Que sim, importa importa para a inchação geral do corpo. Ao 4º Não. Ao 5º Que podião concorrer para apressar. Ao 6º Que o alimento encontrado no estomago não estava digerido. Ao 7º Que estava respondido. Ao 8º Que varia conforme a qualidade do alimento e que em geral é demorada em virtude da atonia do estomago.

      Ao 9º Que o anchylostomos duodenaes não se encontram sinão nas pessoas que sofrem de hypoemia intertropical e que são a causa essencial desta molestia. Ao 10º Que são de natureza parasitaria e matam produzindo o impobrecimento de sangue. Ao 11º Que não foi a terra encontrada no estomago que matou de uma maneira immediata a Innocencio, mas que ella demonstra que o seu apetite se achava depravado em virtude da molestia produzida pelo anchylostomos e que finalmente apresentaria o carater de edemacia e descaramento dos tecidos, indicando uma cachexia [sic.].

      Pelos Srs. Drs. Castro e Lemos forão respondidos os mesmos quesitos pela maneira seguinte: Ao 1º Que já responderão Ao 2º Que em estado de putrefação bastante adiantada em relação ao tempo decorrido. Ao 3º Que importa, mas que a inchação observada é muito mais pronunciada que hontem. Ao 4º Sim, concorre. Ao 5º Sim, podem concorrer e mesmo determinar. Ao 6º Que a comida era recente e não digerida. Ao 7º Que já está respondido. Ao 8º Que a digestão torna-se um tanto mais demorada que o estado normal, attendendo-se ao estado do estomago e a qualidade do alimento. Ao 9º Que os anchylostomos duodenaes teem sido encontrados as mais das vezes na hypoemia inter-tropical. Ao 10º Que são de natureza parasitaria. Ao 11º Que a quantidade de terra encontrada não era sufficiente para matar e crêem mesmo que não fosse a causa da morte.

      Posta a questão neste pé, temos duas opiniões bem distinctas: os medicos do primeiro exame dizem que a morte foi violenta, foi occasionada por castigos repetidos e mãos tractos; os medicos do segundo exame dizem que a morte foi natural, em consequencia de ter a criança o vicio de comer terra.

      Tomando em consideração ambos os exames, temos que a autoridade ha-de prosseguir nas diligencias encetadas para descobrir a verdade. A acção da autoridade deve ser prompta e energica. O interrogatorio das pessoas de casa, o qual desde logo devia ter sido feito, não seja espaçado. Crime ou não, a sociedade exige que seja feita a luz neste tenebroso negocio. O exame medico, sobretudo quando ha divergencia, não innocenta e não crimina a ninguem.

      Cumpre-nos fazer uma correção à noticia que sobre este facto demos anteriormente. Forão as primeiras diligencias policiaes feitas pelo Sr. subdelegado do 2º districto, antes de ter recebido communicação do Sr. Dr. Chafe de policia, logo que soube do que a voz publica dizna.

      O perito que funccionou no primeiro exame com o Sr. Dr. Castro foi o Sr. Dr. Lemos e não o Sr. Dr. Paula Guimarães, como dissemos.

      O Apreciável – sábado 18 de novembro de 1876, nº 44

      Noticiário Morte por civicias – Chegado ao conhecimento do subdelegado de policia do 2º districto desta cidade, que havia fallecido o menor Innocencio escravo, em conseqüência de civicias e mãos tractos, tractou immediatamente de ordenar ao capellão do cemiterio da Mizericordia que, fosse sobrestado o enterramento do mesmo menor (hé isto e o que se segue que nos communicaram).

      Desejando immediatamente como lhe cumpria, proceder a corpo de delicto, não o poude fazer, pelas difficuldades em que actualmente se veem as auctoridades policiaes, por não se encontrar um facultativo que se quizesse prestar para este mister.

      Hontem, porem, às 8 horas da manhã, sendo convidados os drs. Castro e Lemos, medicos militares, dirigindo-se ao cemiterio acompanhado dos mesmos, escrivão e testemunhas e ahi procedeo-se a vestoria, e fizera a autopsia no cadaver.

      Eis: (resumo do auto do 1º corpo de delicto)... O escravinho Innocencio É attribuida a morte do infeliz escravinho Innocencio aos castigos, que lhe resultaram civicias averiguadas no exame médico, que tinha opportunidade de ser combatido ou explicado, no acto do inquérito ou formação de culpa, etc. etc; Mas já se está barulhando tudo, para illudir a verdade, desviando-a do verdadeiro caminho!...

      Para que esse segundo exame ou autopsia que veio deixar “peior a emenda que o sonetto”? Onde se vio justificação em materia criminal, sem dizer em nome de quem, para provar antecipadamente que não praticou tal ou tal crime esse nome que não se declina? Será nova jurisprudência do Advogado ou do Juiz que a admittiu?... Em todo caso, o negocio vai já encaminhando-se a marcha que levou o processo sobre o assassinato da infeliz Maria da Conceição: sobre tudo depois de haver o ilustre Sr. Dr. Chefe de policia se-prestado a ser testemunha da tal justificação, sem se saber o nome de quem se-justifica! Não temos (por habito) costume de antecipar juizo em questões pendentes de decisão dos tribunaes e por isso aguardamos o resultado do inquérito, e formação de culpa, si lá chegar, para dizermos “A VERDADE TODA INTEIRA”...

      O Apreciável – sábado, 25 de novembro de 1876, nº 45

      O cadaver de Innocencio (Lê-se no Diario, n. 988) Apreciação dos dois corpos de delicto Primeiro corpo de delicto (Vid o Diario n.984) Segundo corpo de delicto (Vid o Diario n.985) As contusões notadas no primeiro craneo, não podião ser notadas pelo segundo visto como tinha sido sorrada essa abobada – e sobretudo o derrame notado pelo 1º de modo algum podia ser notado pelo 2º.

      No entanto este não negou as sevicias encontradas por aquelle, apenas notou algumas outras – com o nome de manchas cadavéricas! Como se pode dizer em boa logica que as manchas existentes erão signaes cadavéricos, quando forão observadas no periodo de putrefação adiantada? Ora as manchas cadavericas são violectas, e nos pontos de contacto com o plano onde se acha o cadaver; e as provenientes de contusões são profundas interressando o tecido cellular, sendo de notar que a putrefação se faz mais depressa nos pontos feridos, nos contusos, do que nas outras partes do corpo.

      Seria admitir que essas manchas tivessem o instincto de apparecer sobretudo nos pontos contusos – descriptos no primeiro corpo de delicto – tomando, quando já demasiado putrefacto o cadaver, o nome de manchas cadavericas para se desenvolver de preferência nesses ditos pontos?

      Ora de duas uma: ou o corpo estava completamente em estado de putrefação, e neste caso essas manchas erão signaes de contusões, ou a putrefação não se achava senão no começo, e neste caso as manchas erão cadavéricas e falsa a asseveração de já se achar adiantada a putrefação como foi declarado no começo da descripção do segundo corpo de delicto! Seria facil verificar essas manchas de côr violecta, das contusões, que são escuras, alem disto, na putrefação se verificaria que nas primeiras apelle era só alterada, e nas segundas apelle, o tessido cellular, sem nenhum traço de sangue por ser já adiantada a decomposição.

      Querer negar esta facto – é torcer os preceitos de um bom exame medico-legal, porque a pelle alterada até o tessido cellular, constitue o signal de echymosis provenientes de pancadas antes da morte.

      Não sabemos como se pode explicar a morte por quatro anchylostomos duodenaes, como causa – de comer terra! Ora a sciencia tem quase sempre encontrado no duodeno de quase todos os cadaveres autopsiados, esses animais sem que durante a vida esses individuos commessem terra. Ainda à sciencia não provou, que o anchylostomos duodenaes devem ter como effeito de sua presença o depravado apetite de terra! Há somente hypotheses e estas ainda não verificadas – porque individuos ha que morrerão de outras doenças – que não – chlorose do Egypto, da India, hypoemia intertropical, e no entanto no duodeno forão encontradas centenas de anchylostomos duodenaes?

      Como admittir que quatro anchylostomos podessem produzir a morte, quando pelo primeiro corpo de delicto, assim como pelo segundo, havião graves sevicias no cadaver?!

      Não se trata de saber se havia anchylostomos, nem se o pequeno Innocencio comia terra – trata-se de saber se verificadas, como forão pelos dois

      A resposta do 5º quesito – é a seguinte – “Sim: foi castigado, mas não podem dizer o numero das vezes, que se houve abandono ou carencia de tratamento – era isto sufficiente para produzir a morte”.

      O que era sufficiente para produzir a morte – os castigos ou a carencia do tratamento?! No entanto ela foi natural? Ora uma contusão na cabeça dando lugar um derramamento sanguineo não é bastante para produzir a morte sobretudo em uma criança? Negar este facto quando o segundo corpo de delicto diz – havia um a contusão na cabeça (parte do occipital) e o primeiro corpo de delicto dezia – havia contusão na cabeça e mais ainda derrame na cavidade do craneo?

      Como negar em consciencia tal facto sendo, como diz o segundo corpo de delicto – que essa contusão era na sutura sagital de uma criança de 10 annos, que ainda não se acha demasiado ossificada?!

      Diz o segundo corpo de delicto – há manchas cadavericas ao pescoço, no peito, na parede anterior do abdomen – sendo a putrefação adiantada! Pois essas echymosis na região lombar também serão manchas cadavericas ou resultado de anchylostomos duodenaes? Também serão dependentes do anchylostomos duodenaes essas manchas do pulso, do cotovello, a cicatriz do pé, assim como as encontradas na rotula, no maléolo externo?

      Serão também manchas cadavericas ou resultado de anchylostomos duodenaes esses factos verificados pelo segundo corpo de delicto?! Como se poderá explicar a declaração apontada no segundo corpo de delicto no exphincter anal? Por inflamação – não – por tenesmos – não – por oxyures – não – porque nenhum desses factos pathologicos podem delacerar, porem produzem pequenas feridas mais bem distinctas das declarações. Serão também os anchylostomos duodenaes, que delacerão esta parte dos anus?

      Dizer que a morte é natural só porque se encontrou quatro anchylostomos duodenaes é, permitta-se-nos – a expressão dar de barato os exames medico- legaes.

      Dizer que ha uma contusão na cabeça e não se pode precizar a natureza é confessar que não se sabe dizer a causa da morte. Em quanto ao diagnostico dos anchylostomos duodenaes – estamos em nosso dever de perguntar – forão verificados pelo microscópio? – Sem este exame medico alguem poderá dizer a priori se são anchylostomos, thicocephalos, oxyures – visto como são elles demasiado pequenos, e só o campo do microscopio poderá estabelecer sua differença.

      Sabe-se e a sciencia o prova – que esses animaes só podem produzir a morte quando em grande quantidade, e não com essas contusões, que ambos os corpos de delicto verificarão, provando de um lado, que houve o crime, e do outro que essas sevicias erão tão vesiveis e não se pôde desconhecel-as em todo corpo. Como em boa logica, e de consciência se poderá afiançar que na cabeça nada havia de notável!

      Foi feito exame no intestino reto para provar que tinhão por causa dessas delacerações os anchylostomos e não corpos estranhos! Cousa notavel! As echymosis erão de preferencia nos braços, nos cotovelos, nos pulsos, nas coxas, porem as das costas, as das nadegas – essas

      Não podemos deixar de tomar parte na discussão dos corpos de delicto, por ser elle do dominio do publico e neste nosso proceder outro fim não temos – senão a sciencia e sobretudo o estrangeiro, que admirado perguntara por certo como se encontrando n‟um cadaver – sevicias descriptas por dois corpos de delicto se vai buscar uma causa frivola para explicar a morte.

      Resumindo perguntamos se o facto de Innocencio soffrer de hypoemia intertropical tendo complicadamente anchylostomos duodenaes – está elle livre de fallecer por violencias externas, quando ellas forão verificadas no seu cadaver delle?

      Não nos parece que uma boa razão possa certamente responder, que esses anchylostomos duodenaes erão um salvo conducto de criminalidade. Não acreditamos que haja medico algum, que com toda a tranqüilidade fosse dizer – que sevicias descriptas pelos dois corpos de delicto erão encapazes de produzir a morte, e que esta era mais proveniente de quatro anchylostomos duodenaes encontrados no duodeno, no intestino delgado, porque a sciencia diz que esses animaculos podem existir em maior numero, sem que haja doença especial.

      Sentimos ser forçado, por amor da sciencia, tomar parte nesta discussão, o que porem os collegas nos desculparão, visto como estas questões scientificas não ficão somente nesta capital, e sim tem de correr mundo, e mundo illustrado, ficando deste modo sabido que nós, segundo o nosso pensar, não fomos indifferentes às questões scientificas, que entre collegas se houverão levantado – e não enchergamos o autor desse crime por ver que ainda a policia não declarou o nome do indigitado.

      O Apreciável – sábado 2 de dezembro de 1876, nº 46

      Denuncia criminal – Sobre a morte do escravinho Innocencio communicam-nos que o ministerio publico apresentou ao Dr. Juiz Substituto do 3º Districto a denuncia constante da copia infra, de que nos pedem a publicação.

      “Illm. Sr. Dr. juiz substituto do 3º districto criminal”

      O Apreciável – sábado 23 de dezembro de 1876, nº 47

      Processo pela morte de Innocencio; zum-zum no Theatro Já o dissemos e todos sabem: não emittiremos nosso juízo em questões pendentes de decisão, principalmente quando parece querêr-se prevenir a opinião dos Juizes e Tribunaes: mal que nesta provincia é chronico, por quanto vê-se, quase quotidianamente publicado nos jornaes o que VÃO JURANDO testemunhas em um processo, e até officios reservados e suas respostas em questões criminaes!...

      Acabar-se-hia o segrêdo de justiça, tão recommendado nas Leis ainda vigentes... Como quer que seja, ouvirmos estar se afirmando que o Ministerio

      Publico requisitará a presão da pessoa indigitada no crime da morte do escravinho Innocencio; que o juiz investigante se considerará sem jurisdicção, e que o juiz competente despresara a requisição, por inconveniente e d‟ahi os commentarios.

      Si foramos juiz saberíamos, com a força de nossa authoridade, chamar os medicos da 1ª e 2ª autopcia no cadaver de Innocencio às explicações; em face de Medicina Legal, e depois daríamos nossa decisão sem temer a pessoa poderosa da acusada, e nem trepidar ahte qual quer falsa opinião publica, que pela ventura si

      Assim, portanto, consideramos prejudicial ao espirito publico esse zum- zum, sem rasão plausivel e com o que nada se ganha quer na moralidade quer na repressão do crime, quando se procura entibiar a acção da justiça.

      À prudencia, em factos de tamanha gravidade, deve ser o característico dos que desejão chegar ao conhecimento da verdade, pois que esta pode mui bem ser prejudicada por uma energia innoportuna; com o fim de satisfazer a certa anxiedade, creada, talvez, por preconceitos anteriores, que he bem possivel nada tenhão com a occurrencia de que se tratar no presente...

      Jornal: Pacotilha (São Luís – MA) – Ano XXXVII Sábado, 10 de novembro de 1917. Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite Celso Magalhães

      Antônio Lopes Via a Academia Maranhense, ora empenhada em fazer o elogio dos seus patronos numa série de sessões públicas, promover uma significativa homenagem a Celso Magalhães.

      Que o preito que se vai prestar á memória do escritor patrício é merecido, não será tão grande a suspeição de quem escreve estas linhas – sobrinho daquele – que no-lo impeça de reconhecer.

      Celso é, todos os respeitos, o escritor maranhense mais curioso do seu tempo, não só por haver espraiado a sua actividade mental por mais variados ramos da literatura do que os seus contemporâneos, como por se ter, para assim dizer, distanciando deles, para a frente, na concepção das mais modernas tendências literárias e por ser, apesar de quase inédito, um escritor de significação menos local do que os da época a que pertenceu.

      Assim, qualquer estudo, em que se tende bosquejar o complexo da sua personalidade, haverá de distinguir nela o poeta, o romancista, o critico e autor dramático e, ainda, o investigador que já explorava a sociologia, abeirando-se da psicologia coletiva pelo contacto com o estudo das tradições populares. Nas poucas linhas que lhe teem sido consagradas, escassas contribuições em que da eiva de truncados elementos mal recolhemos um esboço pálido de tão interessante figura, ainda não foram estudados todos aqueles aspectos.

      Forramo-nos, aqui, a um estudo crítico completo, resumindo estas linhas a um escorço biográfico, tanto quanto possível. Nasceu Celso Tertuliano da Cunha – pois era esse o seu nome de baptismo – na comarca, de Viana aos II de novembro de 1842, e teria, em data igual deste ano, se vivesse, 72 anos de idade, e não 58, como suponho acreditem os homenageadores de domingo, á vista da notícia da sessão acadêmica que enviaram

      

    92 92 á “Pacotilha” e há dias estampou este jornal . Foram seus pais o coronel José Mariano da Cunha e sua mulher d. Maria Quitéria de Magalhães Cunha, aquele falecido pouco depois de bacharelado Celso, e esta, no atrasado, na avançada idade de 94 anos.

      Pelo lado materno, Celso descendia de um português do norte, seu avô, cirurgião pela escola médica de Coimbra, se não enganamos, que veiu despachado, ainda antes da independência, para o Brasil. Pelo lado paterno, o bisavô era igualmente luso, um dos capitães-mores do tempo colonial – título este que já tinha valor quase puramente honorífico, depois da fundação do Estado do Maranhão e de obliterada a antiga divisão desta parte do Brasil em capitanias.

      Brasileira podemos garantir que fosse, pelo menos em parte, a sua avó materna, como é provável o fosse a do lado paterno, dada a preferência dos colonos pelas mulheres indígenas, sobretudo depois que algumas vantagens pecuniárias foram pela coroa portuguesa facultadas áqueles que com índias se cazassem.

      Não vêem ao caso, porêm,estas investigações genealógicas. O que é certo é que uma circunstância vinha contribuir, por ocasião do nascimento de Celso, para que ele, já rapaz, depois, mudasse o seu nome para de

      Celso da Cunha Magalhães ou mais simplesmente, Celso de Magalhães, que tal era como assinava as suas produções literárias, excepto a primeira, a que após o nome por extenso.

      A progenitora de Celso esteve á morte quando o deu á luz, sendo operada pelo cirurgião seu pai. Por algum tempo arrastou-se a convalescença, após uma pertubação séria das meninges, dando isto motivo a que o assistente, muito de caso pensado, conduzisse a criança da localidade onde ocorrera o nascimento para a sua fazenda próximo do „Descanso”. Onde aquela bebeu o primeiro leite em peitos estranhos.

      E não só esta circunstância como a existência de um compromisso, entre filha e pai de dar aquela a este o primeiro filho varão, que o velho queria educar, concorreram para indissoluvelmente ligar o avô ao neto, que por vontade própria e com a devida licença paterna acabou por acrescentar ao nome o sobrenome de Magalhães.

      Criou-se, pois, Celso na casa do avô e aí, sem dúvida com este, estudou as primeiras letras. Destinava-o ó cirurgião á carreira das leis. Provavelmente não foi algures e sim na convivência com o avô, que despertou no futuro homem de letras a vocação literária. Não era o esculápio alheio, talvez ás boas letras. Temos elementos para o afirmar, por antigos livros que lhe pertenceram, aos quais é possível a predileção que Celso revelaria pela literatura, pois não nos atrevemos a afirmar que a soubesse por direto influxo do avô, homem de certo amigos de livros, mas prático e infenso a veleidades de escrivinhador.

      Regosijava-se, de certo, com a inteligência espontânea do neto, tanto assim que o enviou á capital, onde veio estudar humanidades no colégio do educador Perdigão.

      A morte do velho veio encontrar Celso em fins do curso de preparatórios, já ensaiando a cultura das letras com os entusiasmos naturais da idade juvenil. No testamento que fez o cirurgião estava garantida a formatura do rapaz com o legado de cinco ou seis contos de réis, para aqueles tempos folgados.

      O período decorrente entre a vinda para os estudos do jovem poeta – já então o era – e a morte de seu avô, á qual assistiu, encerra vá decantadas de plainos verdes e lagos encantados bebeu o mágico licor da poesia, que nele se revelou num lirismo tão eminentemente pastoril, e algumas paixões românticas resultantes das trafegas sugestões de olhos matutos.

      Românticas, dizemos, no sentido de que não correspondiam á intensa realidade humana dos amores verdadeiros. Celso tinha lido de Musset, Sand, Gerrett e outros sentimentais. Mas levou para a vida um lastro de literatura clássica

      e, no fundo, não se conseguira mais que exaltar passageiramente por tais autores, em algum dos quais vibra uma nota insólita de desespero. Por temperamento era um sentimental de outra espécie, meigo e timorato, e o seu romantismo arraigara-se primeiro em Lamartine. Este jogo de influências explica nele a tendência para o real e humano e o equilíbrio que atesta a sua organização estética.

      Dita desse tempo a elaboração das poesias, contidas no seu primeiro livro, editado, em 1870, pelo grande tipógrafo maranhense Belarmino de Matos, quando o poeta contava vinte e quatro anos. São produções dos 16 aos 22 anos.

      Entre os versos do último ano que passou na província natal, esse mesmo ano em que morreu seu avô, durante uma revolução de pretos fugidos em Viana – contam-se os do poemeto Os Calhámbolas, escrito sob a impressão imediata dos acontecimentos. Durante os estudos, em S. Luís, colaborou em várias folhas juvenis, entre os quais „O Domingo’, de Artur Azevedo.

      Morto o avô, em fins de 1867 ou começo de 1868, Celso passa-se ao Recife, onde leva em mira obter carta de bacharel em direito, deixando nos prelos seu livro de versos, a que apôs algumas composições elaboradas na capital pernambucana e de lá remetidas ao livreiro.

      Ainda era cascabulho quando daqui partiu, faltando-lhe alguns exames para a matrícula acadêmica (1868). No intuito de os obter, no fim do ano referido, cursou as aulas no extinto

      Colégio das Artes, que era praticamente um anexo da faculdade jurídica. Estudante consciencioso, embora, e já reputado entre seus contemporâneos, tinha pressa em se passar aos bancos acadêmicos.

      Sabendo, pois que o governo mandara abrir época de exames no Rio Grande do Norte, onde não costumavam os examinadores ser muito rigorosos, para ali se dirigiu sem detença, afim de concluir os dois ou três preparatórios que lhe faltavam, entre os quais física e química e história universal. As viagens em vapor eram, a esse tempo, muito vasqueiras e Celso teve de afrontar as injúrias de um cruzeiro em barcaça, embarcação suigeneris, que ainda hoje trafega de Acarati a Penedo, metade jangadas e metade barcos, aos trambolhões por aquelas costas ouriçadas de parceis em que o mar arrebenta furioso e traiçoeiro.

      Em 1869, tendo passado nos exames, vamos encontrá-lo matriculado no curso jurídico da faculdade de Recife, vale dizer – caloiro. Tinha então, vinte e três anos, conforme os assentos de matrícula que encontramos na faculdade do Recife.

      Ia, nos cinco anos de curso, completar a sua educação literária e concomitantemente, adquirir uma sólida cultura jurídica, de que deu depois notável demonstração, no exercício de cargo de justiça nesta capital, e numa obra de direito, cujos originais, ficaram depois de sua morte, nas mãos do extinto conselheiro Gomes de Castro, seu amigo e chefe do partido a que pertenceu, ao qual a entregará para dar parecer.

      A influência do espírito de Celso na sua geração foi intensa, di-no-lo Sílvio Romero e confirmam quantos conviveram, na sua época, na cidade académica do norte.

      Continuando a postar, nas horas vagas, Celso atira-se fortemente á literatura em suas múltiplas manifestações: escreve romances, artigos jornalísticos de todo gênero que encontravam guarida em todas as folhas pernambucanas, as grandes e de intensa validade, como as pequenas e efêmeras, entre as quais muitas de estudante, colaborando mais assiduamente na então mais importante e literária – “o Jornal do Recife”; escreve duas novelas de tomo e um grande romance original,

      e, ao fechar-se o ciclo de sua trajectória académica, funda, com Generino dos Santos, Clementino Lisboa, António de Sousa Pinto e Rangel de Sam Paio – “O Trabalho”, periódico literário, de propaganda filosófica e social, no qual colaboraram outros luminares da grei estudantil, entre os quais ia abrindo caminho o arrojado talento de Sílvio Romero, então estreante na vida académica e literária.

      Não é só. Celso impressiona-se fortemente com o teatro. Camarada de Xisto Baía, Pontes e outros actores notáveis, com os quais lhe facilitava constante revelação a sua vida activa de imprensa, começa por exercer a crítica dramática, tornando-se o seu confeu no Recife. Nesta qualidade prefaciou um drama anti- jesuítico do seu colega Rangel de Sam Paio, jovem publicista de grande capacidade, a ocupar a coluna teatral do “Jornal do Recife”, por muito tempo, assinalando a sua passagem neste género por um senso singular, aliado a uma bela orientação nacionalista.

      Da crítica passou á composição dramática, escrevendo, provavelmente entre outras tentativas, como a da comédia A CERRAđấO NO BOLSO representada no Pará e em Recife, aliás sem êxito, um drama de 4 actos, e mais tarde outro, que se perdeu, intitulado O PADRE ESTANISLAU.

      A fase mais laboriosa da sua carreira literária é talvez essa do ano de 1873 a que pertencem Aquêle primeiro drama e os estudos sobre a poesia popular brasileira, além de outras produções.

      Celso não se deixará ficar de ronda aos campos da actividade puramente beletrística. Fôra além. Cultivara o seu espírito na filosofia de August Comte, estudara a sciência da linguagem e a mitologia comparada em Max Muller, alcançara os horizontes da renovação crítica do naturalismo, que embora, por índole e Poe educação literária, ainda preso a algum sentimentalismo, ia ensaiar o romance, e enveredara para as sciências novas do grupo sociológico com energia e sagacidade.

      Temos notícia de um estudo seu sobre a existência de habitações lacustres da época prehistórica no nordeste do Brasil, o qual nunca podemos identificar.

      Em suma, espírito ávido de novo, aprendeu o Direito com os mestres da academia e, nas outras sciências, fez-se autodidata. Lia tudo, procurando abeberar- se ás fontes mais límpidas e modernas. Vemo-lo, assim, a braços ao mesmo tempo com a História da Arte, de Taine, com a Geografia Física do Mar, de Maury, com a Origem das Espécies de Darwin e com os romances de Emile Zola.

      Dispensamos dizer que dirante o período acadêmico Celso veio repetidas vezes ao Maranhão, onde colaborou em diversos jornais. Da orientação política de seu espírito, nessa época, excusado é dizer que era republícana e abolicionista. É curioso que, tendo vindo visitar a família em um mais, tarde, veio a morrer seu pai, tocandolhe na partilha dos bens alguns captivos, libertou-os imediatamente sem a menor consideração ás delicadas condições econômicas em que ficava a família, e ele próprio individualmente.

      Em 1873 Celso, já acreditando como um escritor de real mérito, não só na sua terra, como em o seio da sua geração, volta ao Maranhão disposto a abrir carreira munido da sua carta de bacharel, mas sem esquecer um só momento os seus livros e suas preocupações de vida intelectual.

      A fama de que vinha precedido colocava-o numa evidência sem par, entre os rapazes do seu tempo. Logo ao chegar Maranhão depois de um curto passeio a Viana recebeu, em 1874, nomeação de promotor público da Capital das mãos do presidente José Francisco de Viveiros que o tinha em relevância, vendo nele, pelas tradições conservadoras da família e pelo talento, um elemento de grande futuro para o partido.

      Ocupou Celso aquele cargo por espaço de cerca de 4 a 5 anos, dirante ao quais não lhe tergiversou um instante a conscência no cumprimento do dever. Vezes muitas a mão corrupta do suborno tentou desviá-lo da linha severa da justiça, mas o jovem e preclaro representante desta não se poluiu ao contacto do asqueroso instrumento. O prato culminante da sua vida pública é o célebre processo em que esteve envolvida uma senhora da mais alta aristocracia maranhense, acusada de ter assassinado a sevícias uma criança escrava. O promotor público, assediado de ofertas, pedidos, ameaçado em sua própria existência, soube enfrentar, com impavidez, dignidade e comedimento, a situação, que envolvia os mais graves interesses sociais conturbados por manejos políticos os mais deprimentes para a época. E sereno, impertubável, mas, ao mesmo tempo, inflexível, arcou com todas as comprometimentos em que importava a acusação, para, um funcionário novo, pobre de fortuna, é verdade, mas a quem o saber e o caráter escudaram o suficientemente, durante a missão que se lhe imponha, resguardando-lhe bem alto a consciência contra a turba-multa de interrêsses desencadeados, cada qual mais inconfessável.

      Logo há uma transformação política, indo as rédeas do governo provincial ao partido de Carlos Ribeiro, o principal interessado na causa célebre, homem vingativo e cobarde, sem dúvida, que julgara abrir caminho mais fácil para a absolvição isto é, induzindo por peita e ameaça, sucessivamente, mas sempre debalde a Celso, a quem se afastasse do processo, sob a capa de uma dessas suspeições hoje tão costumeiras na justiça e tão abundantes. E sem a menor hesitação na consciência, mal assume a presidência, o mandão descarrega a brutalidade dos ódios de sua alma de escravista sobre Celso de Magalhães, demitindo-o da promotoria pública, a bem do serviço público.

      Foi profundo o desgosto do escritor com este golpe, e tanto mais doloroso quanto o atingia numa fase delicada de sua vida, quando havia constituído família, casando-se com a exma. Sr. d. Amélia Leal Magalhães, que ainda hoje vive entre nós.

      Alma delicada, espírito feito de generosidade e de nobreza, Celso retraiu- se depois disto, ao seu lar e ao convívio dos seus, atravessando a crise mais pungente de sua vida moral tão pura, sem embargo do éco profundo das vozes de todas as consciências rectas, que resoou ao leu [sic.] lado, a ponto de ter ele a satisfação de ter transcrito em todos os jornais mais importantes do império, das províncias do norte até o Rio Grande do Sul, o luminoso memorial que dirigiu ao

      Retirou-se, pois, com a êsposa para Viana e ali se demorou largos mêses, regressando á capital em 1879, e aqui abriu banca de advogado. Pouco depois subia o partido conservador, e Celso, que tinha direito a uma reparação política, estava apontado por Gomes de Castro para deputado na chapa das eleições para a Assembléia Geral, que se iam fazer nesse anno, quando veiu a falecer de uma febre álgida, na casa de sua residência, á rua das Hortas, inesperadamente.

      Adoeceu ás 5 horas da manhã e expirou ás II do mesmo dia 9 de junho de 1879. A causa de sua morte foi, sem a menor dúvida um acesso de febre perniciosa. De uma organização franzina e delicada, abalada por contínuo esforço mental, não resistiu ao mal, cedendo-lhe á acção ao primeiro embate.

      A época de sua vida no Maranhão foi marcada por uma actividade literária constante, na imprensa e no gabinete, a que se juntaram para lhe agravar a saúde, as lides florenses. No “Diário do Maranhão”, no “País” e “Tempo” e em outros periódicos da época, estão os vestígios desse labor, em numerosos folhetins género em qué escellia [sic.] pela sua espiritualidade fascinante, e colaborações de todos os gêneros. Jamais abandonou a poesia, mesmo através de todas as dificuldades da vida prática. Apresentava-se [sic.] para completar os seus estudos sobre o flk’lore nacional com inúmeras contribuições. O seu nome ia irrompendo nos meios literários do sul do país: pouco antes de morrer encetou a publicação do seu romance UM ESTUDO DE TEMPERAMENTO na Revista Brasileira. Depois suspensa esta, continuou a obra a aparecer nas colunas no “País” desta capital.

      Celso morreu aos 33 anos, incompletos, pobre, tendo apenas começado uma vida promissora para as letras brasileiras, pois êle encarava a literatura a sério, havia precedido o seu ingresso definitivo nos domínios literários de uma sólida e conscienciosa preparação scientífica e tinha um talento vigoroso, dotado das mais elevadas faculdades assimiladoras, e criadoras e observadoras, do qual nos legou algumas provas evidentes nos escritos que se seguem:

      1 VERSOS de Celso da Cunha Magalhães, natural da província do Maranhão – Na tipografia de Belarmino de Matos – Maranhão 1870. (Um volume).

      2 PELO CORREIO novela publicada em folhetins, no Diário de Magalhães, e escrita de Pernambuco (1873).

      3 ELA POR ELA – novela publicada no País, do Maranhão, em folhetins, a partir de 1870.

      4 UM ESTUDO DE TEMPERAMENTO, romance orijinal publicado em parte da “Revista Brasileira”,e , em parte, no País, o periódico de Temístocles Aranha.

      5 Crônicas teatrais, sob o pseudómino de Giacomo de Montorello, (que Celso adaptou em outros escritos) publicadas no “Jornal do Recife”, e aqui, no País.

      6 O PROCESSO VALADARES, tentativa dramática de Celso de Magalhães. Em 4 actos, 1878. (Inédito, em meu poder. Manuscritos de 108 folhas, (261 paginas), na letra do autor).

      7 A POESIA POPULAR série de estudos estampados no “Trabalho”, de Pernambuco, 1873.

      8 Artigos, crónicas poesias publicadas em vários jornais de Pernambuco, no período de 1869-73.

      9 Artigos, folhetins e polémicas em periódicas do Maranhão, no período de 1873-78, alguns antes.

      10 Vários inéditos, em prosa e verso, ora em poder de Francis Paxeco entre os quais a comédia em I acto CERRAđấO NO BOLSO, datante de 1869.

      11 Outros inéditos em meu poder

      12 O PADRE ESTANILAU, drama que, entregue ao actor Câmara, da Companhia Xisto – Baía, nunca mais foi devolvido ao autor, apesar de reiterados pedidos deste.

      Eis ai esboçada, a traços sintéticos, a personalidade de Celso Magalhães. A sua produção abre margem a um largo estudo crítico a que um dia talvez nos abalançaremos e não caberia no quadro, necessariamente exíguo, de um simples artigo de jornal.

      Oferecendo ao público estas notas vasadas um pouco atabalhoadamente, mas em que exaramos com exactidão escrupulosa todos os dados da biografia do escritor, segundo o que podemos recolher na família, bem como o que nos foi possível respigar em documentos e inéditos que deixou – não nos moveu outro intuito que não o de fornecer alguns informes seguros sobre a sua vida, a pedido de Fran Paxeco, o seu panegirista de hoje, e a quantos se interessam pela história das letras maranhenses.

      Antonio Lopes.

      Jornal: Pacotilha (São Luís – MA) – Ano XXXVII terça-feira, 13 de novembro de 1917. Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

    Restabelecendo a verdade

    José Ribeiro de Oliveira.

      No louvável intuito de pôr em relevo os méritos reaes de seu tio, o dr. Celso Cunha Magalhães, o dr. Antônio Lopes, provavelmente mal informado, empresta um brilho excepcional á attitude do ilustre maranhense no processo-crime que a paixão partidária, então muito accesa entre nós, fez instaurar contra a mulher do meu tio, o barão de Grajahú.

      Natural é, pois, que eu, também puguando pelo nome de quem sou portador, venha esclarecer esse ponto de bello trabalho do dr. Antonio Lopes. Corria o anno de 1876, quando, nesta capital, falleceu o pequeno

      Innocencio, escravo do meu tio, e conforme attestado firmado pelo medico assistente, o finado dr. Antonio dos Santos Jacintho, a causa da morte, do pequeno foi hypotenia inter-tropical, mal de que já se achava elle accommettido, quando comprado pelo barão. Esse facto, já por si, era sufficiente para afastar as suspeitas que vieram a ser levantadas em torno dessa morte, conhecido, como era, o dr. Santos Jacintho, não só pela sua competência, como ainda pela nobresa e elevação dos seus sentimentos e pelas suas profundas crenças religiosas.

      Mas, a esse tempo, já era habito fezerem-se e desfazerem-se reputações, ao sabor das conveniências e dos interesses do momento. Aproveitando-se do caso, inimigos políticos e pessoaes do dr. Carlos Fernandes Ribeiro, o mais tarde barão de Grajahú, fizeram circular, com afirmações categóricas, que Innocencio fora victima de maus tratos, infligidos pela mulher do seu senhor, d. Anna Rosa Vianna Ribeiro.

      E, de posse de todos os elementos necessários para a formação de um processo-crime, fácil lhes foi, aos desaffectos do meu tio, vibrar contra elle um golpe de effeito, embora passageiro.

      Mas, por isso mesmo que se tratava de uma mera perseguição com que se procurava inutilizar um dos chefes políticos mais influentes da nossa então província, muito passageiro foi, na realidade, tal efeito.

      O primeiro juiz que do processo teve de conhecer, logo o deitou por terra. Ultimada a formação da culpa, os foram conclusos ao dr. José Manoel de Freitas, cujo nome de magistrado integérrimo, que não há entre nós quem não conheça já havia então transposto as fronteiras da província. O dr. José Manoel de Freitas, que exerceu a judicatura em diffetentes comarcas do Maranhão, (Rosário, Caxias e São Luiz), donde passou para o Recife, gozava já, com effeito, naquela epoca, do nome invejável com que morreu, feito á custa sua vasta erudição e do seu inflexível caracter, dotes a que deveu ainda as elevedas posições políticas, que ocupou, de presidente do Maranhão e de Pernambuco.

      E foi esse juiz, contra cuja integridade não se poderia articular, que declarou improcedente a denuncia, deixando de pronunciar a acusada. senão para que mais luz se fizesse sobre os factos e viesse a desvendar-se inteiramente os moveis a que o processo obedecêra.

      Apezar, com effeito, dos ingentes esforços empregados pelos rancorosos inimigos do meu tio, por arrancar do jury a condemnação da sua mulher, numa situação que lhes era, a taes inimigos, inteiramente propicia, a absolvição foi proferida por unanimidade de votos. E esta sentença, alcançada assim, na atmosphera de hostilidades poderosas que envolvia o meu tio, foi confirmada, em grau de appellação, também unanimemente, pelo mesmo tribunal que antes reformara o despacho de não pronuncia e do qual faziam parte Monteiro de Andrade, Barros e Vasconcellos, Lisboa, Augusto Silva e Silva Braga.

      Antes que o tribunal popular fizesse a justiça devida no caso e que o tribunal da relação o secundasse, foram sobre o processo ouvidas as maiores sumidades nas letras jurídicas, não só na nossa então província, como fora della, na corte do império; e os parecerem que emitiram todos vieram corroborar eloquentemente o despacho do íntegro juiz singular.

      Estes ajustes foram, entre outros, Francisco de Vilhena, então o nosso maior advogado, mestre eminentíssimo na sciencia do direito; Francisco Octaviano, talento flexível, diplomata, parlamentar e causídico, que, em qualquer desses aspectos, se nos apresentava como um espírito rutilante; Ameida e Oliveira, cujo espírito scintila hoje nas obras jurídicas que nos legou; Zacharias de Góes e Vasconcellos, emérito professor, grande estadista, consciência que não conhecia transacções com interesses de qualquer natureza, fora da linha recta do seu dever, catholico de uma sinceridade profunda, do que deu mostras positivas, quando, perante o Supremo Tribunal de Justiça, compareceram os bispos do Pará e Olinda; Antonio Joaquim Ribas, que foi na fase do grande Lafayette, omestre de todos nós; Andrade Figueira, varão de Plutarco, como lhe chamou Ruy Barbosa, espírito cultíssimo, todo votado ao direito; do que nos deu os mais notáveis documentos, ainda pouco tempo antes de sua morte, na memorável discussão do Codigo Civil; Abilio Ferreira Franco, que recolheu aqui a sucessão de Vilhena, e era membro proeminente do partido opposto ao barão de Grajahú; Encarnação e Silva e Ricardo Décio Salazar, advogados de renome, pela sutileza de espírito que sempre revelaram. O que se vê dos substanciosos pareceres desses juristas é que o primeiro corpo de delicto, no qual a denuncia se baseara, constituía uma peça contraditória, imprestável, onde não se poderia estribar um despacho de pronuncia, senão por “despotismo”. “Para denuncia do despotismo que prevalecia no processo criminal”, dizia com effeito Francisco Octaviano ao digno magistrado prolator da sentença reformada, “bastava observar que essa decisão se tornára assumpto de duvida e discussão”.

      Contrastando com “esse chamado corpo de delicto”, a que esses mesmos termos se refere um dos pareceres citados, foi feito novo exame, onde os peritos, accordes declararam á justiça que não encontraram indícios de um delicto, mas a certeza de um accidente natural, isto é, que a morte fora o termo inevitável de uma moléstia fatal”.

      Longe de mim á Idea de attribuir ao dr. Celso de Magalhães os sentimentos de ódio e de vingança, que tanto inflamaram contra o meu tio, na pessoa da sua mulher, os seus inexoráveis desaffectos. Quero antes acreditar que elle foi suggestionado pelo ardor da campanha impiedosa.

      Como quer que seja, porem. Ou tivesse obedecido a sua suggestão, ou escândalo se fasia, não é possível encontrar a razão porque, entre os títulos rememoráveis do dr.Celso de Magalhães, vem a ser enquadrada a attitude que assumiu no processo de que me occupo.

      Muitos possuía o illustre maranhense, capazes de ó recomendar á admiração dos eus pósteros. E, por isso mesmo não havia necessidade de reviver esse caso, que não pode ser recordado senão em defesa da memória de uma senhora que tão ultrajada foi em vida.

      Compreende-se que se cite o caso desse processo, para mostrar, por exemplo, a serenidade imperturbavel do juiz, que, respirando aquela atmosphera de ódios e prevenções, desencadeados pelos poderosos do dia, contra um chefe político, então em rigoroso ostracismo, soube, entretanto, abstrair da situação, para fazer a justiça, posteriormente reconhecida em documentos tão valiosos, como esses que se acaba de enumerar.

      A posição do dr. Celso no processo era, não há duvida, differente da do dr. José Manoel de Freitas, que funcionava como juiz, emquanto aquelle era promotor. Tambem não digo que o dr. Celso não tivesse, noutra situação, um idêntico procedimento. Mas, na situação em que interveio no processo, se a sua attitude não lhe foi desairosa, também não pode constituir esse titulo honroso que o ilustre dr. Antonio Lopes enumera ao fazer a apologia das brilhantes qualidades do nosso extinto conterrâneo.

      O barão de Grajahú, como já deixei dito, era, com effeito, um político em opposição, ao tempo do processo. Contra elle se atirava a situação dominante. E o dr.Celso de Magalhães era simpathico a essa situação.

      Quanto á causa da morte do Dr. Celso, a verdade, como já uma vez disse, se não me engano, Arthur Azevedo, é que elle morreu em conseqüência de uma enfermidade incurável, que lhe vinha, desde muito, minando a existência. Tambem não posso deixar passar sem uma observação o qualificativo de cobarde que o dr. Antonio Lopes empresta ao meu tio. Podia o barão de Grajahú ter tido ortros defeitos. Desse, porem, não póde com justiça ser accusado. Nunca tivemos um homem de partido e de governo que, mais do que elle, assumisse desassombradamente a responsabilidade dos seus actos.

      Timbrava mesmo em assumila com desassombro, quaesquer que fossem os actos que praticasse e as suas consequencias. Pode, pois, ser accusado por estes; nunca porem, por os haver praticado covardemente. Parece que nada havia de mais natural que do que occorer ou á imprensa em defesa da memória de pessoas que tão caras me foram, e o Dr. Antonio Lopes, estou bem certo, não só reconhecera isso, como também que a verdade histórica, no caso, é essa que ahi fica exposta, sem o propósito, aliás, de estabelecer polemica.

      Declaro, mesmo, que com estas linhas dou por terminado o incidente. São Luiz, 12 de Novembro de 1917. 2831[sic]

      José Ribeiro de Oliveira

      Jornal: Pacotilha (São Luís-MA)- Ano XXXVII segunda-feira, 19 de novembro de 1917. Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite Celso Magalhães Antônio Lopes.

      Lemos atentamente as linhas que o Sr. José Ribeiro de Oliveira publicou, ante-ontem, na “Pacotilha” acerca do nosso trabalho anteriormente estampado no mesmo jornal sobre a individualidade do escritor maranhense dr. Celso da Cunha Magalhães.

      Visa o artigo a contestar o que o Sr. José Ribeiro de Oliveira supõe ter sido por nós afirmado sobre seu tio, o falecido dr. Carlos Fernandes Ribeiro, barão de Grajaú e, ao mesmo tempo, atribuindo-nos pecha de procurar engrandecer a memória de Celso de Magalhães em detrimento de quem quer que seja, revelar que na conducta do falecido homem de letras durante o processo a que respondeu a exma. Senhora daquele titular, houve falhas que – contraditoriamente explana o articulista – se lhe não desdoiram, ao promotor de então, a figura moral, não podem servir de prova da sua honradez no exercício do cargo público por ele ocupado durante cinco anos, ou pouco menos, nesta capital.

      Para dar cabal resposta, que o caso está a reclamar, a tais acusações, umas dirigidas á nossa humilde pessoa, outras á memória de Celso de Magalhães, dês de já pomos de parte qualquer referência directa ao crime de que era acusada a exma. Espôsa do dr. Carlos Ribeiro, do que aliás nos abstivemos, absolutamente, em o aludido estudo biográfico recentemente dado á estampa sobre o malogrado poeta, critico e romancista maranhense.

      A imputação do crime á extinta Senhora, cujos destinos somos dos primeiros a lamentar, não tendo, repetimos, entrado, em nosso mencionao artigo, em quaisquer análises a respeito da sua imputabilidade, foi facto concretizado num processo, existiu, - não iniciada por Celso de Magalhães, porêm emana da de inquérito policial.

      Em circunstancias tais, não lhe competindo prejulgar dos acontecimentos, o dever do órgão da justiça pública era acusar, á vista dos elementos contidos nos autos, e estes, por certo, não excusavam absolutamente a intervenção da promotoria, tratando-se de uma imputação criminal que encontrava em via de indagação e á qual, por intrínseca obrigação do seu cargo, tinha de dar andamento, até final sentença sobre a matéria imputada, garantindo a lei contra qualquer alternativa de violação que visasse a perturbar a marcha do processo.

      Celso limitou-se a cumprir o seu dever. Grandes foram as suas responsabilidades no momento e não nos consta as houvesse encarado com atitude menos recomendável á sua dignidade de funcionário. Não se diga que levou paixão para a acção que desenvolveu na célebre causa, excedendo os limites da lei em qualquer oportunidade, quando as paixões referviam em torno ao infausto caso. E porque não levou? Sem dúvida por isto, principalmente: Celso não era político até

      então. posteriores ao processo, de dia posterior até á sua demissão pelo barão de Grajaú. A partir de então Celso, mas só de então, passou a militar nas fileiras do partido conservador e fazer parte do órgão respectivo na imprensa local.

      Poderá isto parecer contraditório ao que já dissemos com relação ás esperanças que nutriam, sobre o jovem maranhense, desde que saía da academia jurídica de Recife com a sua carta de bacharel, os chefes conservadores da sua província natal. Não o é, porêm, Celso pertencia a uma família de tradições conservadoras, mas achava-se realmente divorciado dela em matéria de opiniões políticas. Pelo seu talento, era natural fosse objecto da atenção dos conservadores como dos liberais e, quanto possível, atraído e disputado até por ambos os elementos políticos de então.

      Não obstante, como frisou mais de um testimunho da época em que aqui viveu, Celso de Magalhães conservou-se afastado de todas as organizações políticas de então.

      O pólo das suas aspirações achava-se situado em direcção oposta á política, nas regiões da vida intelectual, de cujos ideais jamais se divorciou. Rapaz culto de uma grande comunicabilidade e muita vida, enquanto as lutas políticas revolviam a nossa capital, limitava-se a escrever seus artigos literários, seus versos, a cuidar dos deveres do seu cargo, com assiduidade, e sem outro espírito que não um de um simples funcionário, e a freqüentar, nesta cidade, as rodas da alta sociedade, sem distinção partidária, rodas nas quais abundavam, então como nunca, as recepções, concertos, saraus, pic nics, reuniões, visitas. E nestes deveres mundanos absorvia todo o tempo que não lhe tomava o movimento da promotoria, que era considerável, alheio ao pandemônio das lutas políticas, despreocupado, recitando, cantando, fazendo corte ás moças do seu tempo.

      Comprova-lo-emos quando exigirem, este alheiamento á política, com os minunciosos diários que deixou, e se acham em nosso poder. Nesses diários interessantíssimos sob o ponto de vista social, pois oferecem retrospecto completo e animado do Maranhão daquele tempo, tão curioso e grande, anotava êle todos os passos da sua vida, sem o menor olvido, au jour le jour, as visitas, as cartas, as conversações, os negócios, as despezas ainda as menores, os trabalhos tanto da promotoria como literários, enfim os factos mais comesinhos de sua vida intima e pública.

      Encarava com indiferença, embora talvez com bonhomia, o choque das paixões partidárias, observando-as á distancia, como e sociólogo e psicólogo que era, e sem abandonar um momento – trabalhador infatigável – as suas obrigações de promotor e a sua obra literária.

      Não pode haver testimunho mais insofismável disto do que a própria folha conservadora referida, que no seu necrológico frisava, em1879, a isenção em que se conservará da política até o dia de sua demissão da promotoria pública. Copiamos, textualmente: 93

      “Alheio, até então, ás luctas politicas , foi, não obstante, a primeira vitima da reacção liberal nesta província. A injuria magoou cruelmente obrioso mancebo. Trouxe-o a reflexão para as fileiras do partido conservador; e honrando-nos com a sua companhia na redação do Tempo, depôz a Penna

    quando a mão gelada não podia mais empunhal-a”. Dissemos que testimunho tal era insuspeito, porque o interêsse do jornal conservador era, naturalmente, envaidecer-se de uma antiga solidariedade do escritor ao partido, ao que não podia a redação do “Tempo” atender sem ir de encontro a toda verosimilhança. Mais: a entrada de Celso de Magalhães para a vida partidária, depois de sua demissão, obedecia menos a uma tendência qualquer do seu espírito para a política do que a um impulso de alma indignada e contundida, á necessidade, em que, moralmente, se encontrava, de reagir publicamente contra o rude golpe que o apanhara. Convicções partidárias, não as levava para á redacção do “Tempo” quem, de feitio, era impropenso ás atitudes exaltadas e avesso á cúbica.

      Que havia soma enorme de energias no seu caracter, não se pode duvidar. Demonstrou-o por ocasião de muita polémica literária acirrada e na serventia do ministério público. Mas, ao transpor os penetrais do pandemônio político, iludia-se quanto ás suas próprias inclinações.

      A política do império degenera muito. Fé no regime monárquico, o espírito de Celso, não só por índole, como por se achar bastante avançado em sociologia, como demonstram á saciedade numerosos escritos seus, estava predisposto para não na ter, para, em uma palavra, compreender lucidamente a derrocada em que iam as instituições imperiais.

      A razão mesma do seu afastamento do feroz partidarismo que no Maranhão se degladiava sem comedimento, naquela quadra, residia no seu republicanismo intenso, manifestado desde a academia, onde, como testimunha o competente historiógrafo professor Ribeiro do Amaral, seu contemporâneo e condiscípulo, e exarou Fran Paxeco em substanciosa e recente palestra, Celso concitava, abertamente, numa reunião pública, o impertérrito (?) Osório a derrubar o trono, que ia cambaleante sôbre as solapadas bases.

      Conseguintemente não há increpar-lhe, na atitude assumida a quando da acusação da infeliz Senhora, partidarismo. “Era um vigoroso talento, um nobilíssimo caracter.

      Exercendo por muitos annos o cargo de promotor”- constata outra folha local á data de sua morte – jamais teve a justiça sacerdote mais devotado. Para o pobre, para o desvalido e para o potentato foi sempre o mesmo, e embora levantassem contra si os protesto dos desgostosos, cumpria impassível o seu dever, porque compreendia a justiça uma, indivisível, sem gradações; e assim, no dia em que desceu daquela cadeira que alto levou, passou com a fronte erguida, animado pelo legitimo orgulho de um procedimento immaculado, por entre a multidão que respeitosa o contemplava.

      Não somos nós, pois, que reivindicamos glorias para Celso, nem influiriam, sobre o julgamento que a posteridade formulasse definitivamente da sua personalidade, qualquer esforço estulto, que por ventura alimentasse-mos, de torcer os acontecimentos em seu favor. Aqui, como ontem, com uma intenção meramente documentável, que outra não trouxemos ao escoçar a biografia de Celso, limitamo- nos a recolher testimunhos do passado com inteira fidelidade aos respectivos textos.

      Vê-se, por conseguinte, que não é aceitável, sem documentação, a idade de que Celso de Magalhães fosse deixar-se levar por manejos da política, no seio dos sepulcros, tanto assim que não fizemos a menor acuzação que pudesse magoar os membros da família da iditosa Senhora que a fatalidade envolveu, em liames de agitada tragédia.

      Na afirmação de que “se viu acusada de ter assassinado uma criança escrava sevícias” “não se contém absolutamente uma acusação, pois nem ao de leve formulamos juízo algum sobre a responsabilidade da falecida Espôsa do dr. Carlos Fernando Ribeiro.

      Engana-se, outrossim, o articulista de ante-ontem quando supõe que o trecho contendo referencias ao carácter do barão de Grajaú, o qual parece ter, mais directamente dado causa ao seu artigo, seja juízo nosso próprio. As linhas mencionadas apenas as respingamos de um artigo sobre a individualidade de Celso de Magalhães publicado poucos anos depois da morte deste por seu colega dr. Pereira de Albuquerque, numa folha recifensa. Pela precipitação com que foi vazado e revisto o nosso trabalho de 10 do corrente escapou o sinal de transcrição, de que aparecerá a consignação de vida, na próxima edição em folheto dos referidos assentos biográficos.

      De resto, a revisão escoimanto não logrou êxito na referida publicação, pois que até a data da morte de Celso, como a do nascimento, saíram truncadas, sendo coisas tão capitais em escritos do gênero.

      Provada, assim, a insenção que levamos de qualquer intenção que visasse a contundir susceptibilidades de qualquer naturesa, analisemos o acto da demissão de Celso, somente para aclarar este ponto da sua biografia que não decumentámos suficientemente ainda.

      Nomeado em 16 de fevereiro de 1874, tirou o titulo em 7 de março desse ano, e entrou, para assim dizer, em funções, desempenhando-se de delicada comissão na comarca de Guimarães para onde partiu com remoção, afim de sindicar com pertubações á justiça ali ocorridas, apurando as responsabilidades com muito senso das suas obrigações de funcionário. E se assim se estreava na vida pública, assim nela se manteve, durante o tempo em que exerceu o cargo, recebendo as melhores provas de apreço á sua conduta.

      Dêsse promotor que se quer dar a crer pudesse ser capaz de agir sugestionado, expressavam-se os magistrados do seu tempo desta maneira, em reiteradas vezes, como poderá o articulista verificar nos arquivos da Secretaria do Governo do Estado quando lá quizer ir conosco revolver velha, mas duradoira papelada:

      “No desempenho do seu emprego se houve com honra, zelo, intelligencia e actividade”.- Juiz de direito do Comércio. “Cumpriu zelosamente os deveres.- Juiz de Direito da 1ª vara da Capital”. “Cumpriu os seus deveres com solicitude, honradez e intelligencia”.- Do juiz de Direito da 1ª vara da Capital. Se a ele se dirigiam os seus superiores, era nos termos seguintes que o faziam, ao cometer-lhe sindicâncias de uma suma importância dentro,das atribuições da sua função pública:

      “Informará Vmcê. Qual tem sido o procedimento das authoridades do termo, em ordem a habilitar-me a providenciar como for de lei. Certo de sua intelligencia e zelo pelos interesses da justiça, confio que no desempenho desta comissão terei novos motivos para recomendal-o ao governo imperial. Deus guarde‟ a V.S.”

      Era um funcionário destes que se demitia, por conveniência do serviço público. Que o acto de demissão foi injusto, não resta, a menor dúvida, pois Celso de Magalhães, durante a serventia do cargo só fizera honrar a justiça com a sua probidade e saber. Sabe toda gente, contemporâneos ou não do infeliz maranhense, na sua terra, que não tinha a demissão outro motivo que o da vingança pessoal

      , e,

      como já foi exposto, sem base plausível. Tanto assim que se revestia de um carácter de acinte iniludível. O dr. Carlos Ribeiro assumiu o governo a 28 de março, e, logo a 29, era Celso de Magalhães demitido, sendo a sua primeira demissão, e, simultaneamente, o – primeiro acto, para bem dizer, do presidente no dia anterior empossado.

      Traduzia, pois, a demissão do promotor de então a bem do serviço público, uma perseguição, uma incoercível vindicta exercida por autoridade que absolutamente não podia servir-se do seu posto para tomar vinganças pessoais e, no entanto, a tomava, no caso [sic.] vertente, dando ao seu acto o máximo de violência possível, mas – bem entendido- violência exercida em segurança, acobertada por uma posição poderosa, de onde podia pronunciar imperativamente o

      noli me tangere aos indefesos.

      Eis a portaria: (2 sessão) “Palácio da Presidência do Maranhão, em 29 de março de 1878.

      O Vice – Presidente da província resolve, a bem do serviço publico, demitir o bacharel Celso da Cunha Magalhães do cargo de promotor publico da comarca da capital, e nomeia em seu lugar o bacharel José Pires da Fonseca. (Assim.) Carlos F. Ribeiro

      Ora, a demissão a bem do serviço público não era, como não é, medida de que se possa lançar mão contra funcionário, sinão em caso de grave falta deste, de malversação, de suborno, de manifesta imoralidade. Degradante, ela só se aplicava e se aplica aos degradados na escola moral, aos funcionários relapsos, de má nota evidente, aos reincidentes incorrigíveis da peita. Quem apontará o acto cometido por Celso que o tornasse passível de semelhante punição? Ninguêm,- ontem, como hoje, e em qualquer tempo.

      E para que ocultar que assim foi o acto? Por todo o resto dos curtos anos de Celso de Magalhães, os políticos que os demitiram perseguiram-no com uma tenacidade sem termo. E‟ facto que não se limitaram a corta-lhe o emprego. Foram ao extremo de tentar impedir-lhe que, por outra via, dentro da carreira que abraçava, procurasse meios de subsistência. Era o sítio, era a fome.

      O caso é que, tendo aberto, aqui banca de advogado, numa das primeiras questões que teve no foro suscitaram a nulidade do feito, por não ter Celso registrado na Relação, a sua carta de bacharel, registro que, então, como hoje, raro faziam os diplomados em direito, e do qual nem os juízes, nem os governos faziam caso, quer para o exercício da advocacia, quer para o provimento em cargos de justiça, tanto assim que o próprio Celso de Magalhães fora, sem o haver feito, nomeado promotor da capital e exercera a função por quatro anos a foi.

      Não fora a integridade do juiz a quem subiram os autos, para decidir do incidente, e que o desprezou, reconhecendo a Celso o direito de advogar, teria este de emigrar, por certo, ou ficar exposto a fome, porquanto era paupérrimo, como

      Um ano depois Celso morria, não de tuberculose como erroneamente afirmou Arthur Azevedo, que alíás só o viu em a única vez na sua vida, de passagem, nem tampouco de um traumatismo moral resultante das perseguições que lhe moveram te [sic.] á beira do túmulo, sinão de uma febre perniciosa, apanhada, durante a estação anormal de 78, nos campos de Viana, porêm sem duvida ralado dos desgostos que colhera na sua curta vida pública.

      A quando de seu falecimento, se os jornais do Maranhão e de outras partes do Brasil estamparam o seu retrato e, tecendo encômios á sua obra literária e ao seu carácter, lamentaram a sua mocidade ceifada prematuramente pelo destino, não se renderam seus adversários ás sugestões niveladoras da Morte, pois o “Publicador Maranhense”, órgão oficial do governo reaccionário de então, noticiando o seu pensamento, limitava-se a dizer em quatro linhas, no meio da consternação geral:

      “Fallecimento – falleceu, hontem, proveniente de uma febre perniciosa, seno hontem sepultado, o dr. Celso de Magalhães, que exerceu o cargo de promotor público da capital, e ultimamente tinha escriptorio de advocacia n‟esta cidade.

      O estilo era de quem passava o recibo á Parca. Nem uma palavra de piedade, tão natural diante do destino tão adverso quanto o do moço escritor, colhido em plena flor da existência, por torrente fatal. Por muito, uma frase indiferente, que mal salvava a cortesia jornalística e a oficiosidade da gaseta, deixando comprometida a gramática:” sentimentamos aos parentes do finado”.

      Evidente que nem por sombra queremos demonstrar a odiosidade a menor, ainda, contra quem quer que seja. Tantos anos passados, o facto de não serem do nosso tempo acontecimentos tais, não podiam deixar de apagar ressentimentos, na hipótese de que os houvera.

      Não balanceamos; narramos, procurando a documentação que o tempo exarou sem procurar glorias para este nem desdoiros para aquele. Não os pertubam, siquer umas e outras coisas, no letargo eterno em que jazem. Acredite o articulista que esta é a suprema verdade que, ao fim de tudo, fica de pé.

      Lamentável é que tenha acusado Celso de Magalhães, repetidamente, de ser capaz de se deixar sugestionar, fazendo uma inconcebível, injustificável distinção entre o carácter do dr. José Manoel de Freitas e o daquele sôbre cuja inteireza moral esse juiz formava, como atraz se mostrou, o mais elevado conceito.

      Positivamente não se coadna com os actos do dr. Celso o juízo que ora

      94

      se quer dele fazer, de um títere em mãos de políticos ambiciosos. E não só no processo célebre de que tratamos, como em todos sobre os quais se teve de manifestar como representante da justiça pública.

      Com estas palavras pomos fim ao caso 2880 [sic.] 1917, novembro

      Antônio Lopes

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