LUCIANA MEIRELES REIS UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão - 1876)

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Full text

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:

o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão - 1876)

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LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti.

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Reis, Luciana Meireles.

Um crime contra escravo numa sociedade escravista: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876).

149 f.

Impresso por computador (Fotocópia).

Orientadora: Mundicarmo Maria Rocha Ferretti.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, 2012.

1. Sociedade escravagista – Maranhão 2. Crime 3. Autos do processo-crime 4. Relação senhor-escravo I.Título.

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LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA: o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________________ Profª. Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti (Orientadora)

________________________________________________________ Profª. Dra. Maria da Glória Guimarães Correia

________________________________________________________ Profª Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa

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AGRADECIMENTOS

É muito satisfatória a sensação de que mais um ciclo se fecha. Maior ainda é a alegria de saber que, com bastante trabalho e pensamento positivo, novos caminhos serão abertos, outros desafios serão enfrentados, novas amizades serão feitas. Nada disso seria fácil de conquistar sem o apoio de minha família. Por isso, meus sinceros agradecimentos à minha mãe, Angela Maria e às minhas irmãs e grandes amigas, Érica e Thatyane, por um auxílio que vai muito além da concretização deste trabalho.

A João Guilherme, amor novinho, que, sem saber, muito tem contribuído para nos dar felicidade.

Aos amigos do peito, Fabienne, Cláudia Letícia, Jane C., José Mariano e Márcio pelos anos de muitas conversas agradáveis, divertidas e distraídas. Também agradeço aos raros, porém, interessantíssimos encontros com Renato Kerly.

Aos colegas da graduação em História e, por extensão aos do mestrado da turma de 2010, são eles: Carol, Jorge, João Gilberto, Antônio Carlos Poser, Emerson, Thimóteo, Cristiane, Bruno, Marco Antônio, Dora, Joelma, Carla, Daisy e Ingrid, pelas angústias e alegrias divididas.

Aos professores do Departamento, em especial, àqueles que tive a oportunidade de conhecer deste as etapas de seleção: os professores Igor Gastal Grill, Horácio Antunes e Álvaro Pires e demais professores das disciplinas, Sérgio Ferretti, Marcelo Carneiro, Paulo Keller.

À minha orientadora, professora Mundicarmo Ferretti pela paciência e troca de ideias, e também à banca avaliadora, composta, como na etapa de Qualificação, pelas professoras, Glória Correia e Sandra Nascimento.

Às meninas da secretaria do Departamento: Mary, Soraya e Rosana, pela atenção e cuidado prestados.

À Silvana e Ivone, funcionárias do Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM), sempre muito atentas e cuidadosas com minhas solicitações.

À Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), pelo financiamento de nosso trabalho.

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Embora fosse bastante amplo o salão do Tribunal, com largo espaço reservado ao público, desde cedo já era difícil encontrar um lugar nas galerias. Um senhor chegou a observar que o auditório estava tão cheio que ali não cabia mais uma bengala. E como o calor abafava, a despeito das janelas abertas sobre a rua, quase toda gente procurava abanar-se, mesmo com o chapéu ou a folha de jornal dobrado, e isto acentuava ainda mais a atmosfera nervosa do auditório, com os movimentos das mãos e a expectativa do julgamento, patente em cada semblante...

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RESUMO

Estudo de caso sustentado em uma análise qualitativa dos Autos do Processo-crime movido, entre os anos de 1876 e 1877 na cidade de São Luís, contra a aristocrata e escravocrata maranhense Anna Rosa Vianna Ribeiro, agraciada, em 1884, com o título de Baronesa de Grajaú. Exercício a partir do qual procuramos examinar, sobretudo as circunstâncias que levaram um integrante das classes dominantes de uma sociedade amplamente identificada com a exploração do trabalho escravo, a ser submetida a um procedimento jurídico, sob a acusação de maltratar e, consequentemente, levar à morte um escravo seu menor de idade. Caso este que nos possibilitou perceber alguns ângulos acerca do caráter tenso, conflituoso e multifacetado que marcou as relações estabelecidas entre os ditos senhores e escravos, assunto sobre o qual tem se debruçado muitos estudiosos da escravidão no Brasil e que nos fez questionar a própria extensão da arbitrariedade e autoridade do poder senhorial, enquanto única instância de governo da massa escravizada, particularmente, no Maranhão da segunda metade do século XIX. No interior desta proposta, a necessidade de compreender tanto a noção de crime para o contexto em evidência quanto a dinâmica do sistema jurídico da época, sobretudo no que tange à sua leitura acerca da condição social do elemento servil.

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ABSTRACT

This case study is supported by a qualitative analysis of the Records of Criminal Proceedings during the period from 1876 to 1877 in São Luís, against the aristocrat and enslaver from Maranhão, Anna Rosa Vianna Ribeiro, who was honored in 1884 with the title of Baroness of Grajaú. Through this analysis, we will try to explain what circumstances led that woman, from a ruling class in a slave society, to be subjected to a court case, under the accusation of ill-treating and killing one of her minor slave. This study allowed us to realize some tense, conflicted, multifaceted and outstanding character between the masters and slaves, subject which has been theme of many scholars interested in Brazilian slavery, and made us think of the master‟s arbitrary and authority power as the only instance of government of an enslaved mass, particularly in Maranhão in the second half of the nineteenth century. Therefore, from this proposal, there is the necessity to understand the concept of crime as much as the dynamics of that legal system, especially, the social condition of those slaves.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 9

1.1 O campo de pesquisa ... 9

1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais ... 10

1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa ... 13

1.4 Uma metodologia de pesquisa: oestudo de caso com base documental ... 22

2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO ... 25

2.1 A noção de crime numa sociedade escravista ... 35

2.2 O sistema jurídico da época ... 45

3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA ... 54

3.1 Os autos de exame de corpo de delito ... 59

3.2 Alegações da defesa: o papel do Dr. Francisco de Paula Belfort ... 71

3.3 As argumentações da acusação ... 78

3.4 O desenlace do processo ... 82

4 OUTRAS INTERPRETAÇÕES ... 88

4.1 Liberdade à imaginação: olhares da literatura ... 89

4.2 Formadores de opinião pública: a fala dos jornais ... 99

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 112

REFERÊNCIAS ... 115

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1 INTRODUÇÃO

1.1 O campo de pesquisa

A recorrência ao uso de fontes documentais para a elaboração deste trabalho, com toda certeza resulta da forte influência que a graduação em História teve em minha vida. Os primeiros passos para o manejamento de materiais desta ordem, embora bastante atrapalhados, chamaram mais e mais minha atenção, pois, a partir deles, tive oportunidade de analisar uma realidade social afastada temporalmente da nossa. Falo em termos temporais devido mesmo à dedicação que dispenso, sobretudo à segunda metade do século XIX, período delineado em meu trabalho monográfico e atualmente em minha dissertação.

As frequentes idas aos arquivos, principalmente ao Arquivo Público do Estado do Maranhão, me permitiram e ainda permitem acesso amplo a uma série infindável de documentações que muito têm a dizer, não apenas sobre o passado, mas à maneira como vivenciamos nossas instituições sociais contemporaneamente. E, mais do que a busca, o encontro com o material adequado para os fins de uma pesquisa, significa para o pesquisador o estar de frente com um mundo de possibilidades explicativas às quais dependem substancialmente do seu potencial de sensibilidade e do estar atento ao não dito pelo documento.

Inicialmente, minhas incursões pelos arquivos da cidade centraram-se na busca de jornais com os quais pretendia realizar – com base no projeto original – um levantamento que me permitisse refletir sobre as possíveis vozes de um segmento específico da sociedade ludovicense oitocentista, vozes estas que pareciam dissonantes em relação às representações que se construíram em torno deste segmento. Vasculhando os materiais para o desenvolvimento deste trabalho e, principalmente, seguindo sugestões de minha orientadora, tive acesso a um documento que muito chamou minha atenção e que trata de um processo-crime a que foi submetido um membro da aristocracia da Província do Maranhão, trabalho este já transcrito desde 2009 com o apoio do Ministério Público Estadual em comemoração ao patronato do então promotor público que participou do processo, o Dr. Celso Magalhães.

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pesquisa. Já não refletiria mais sobre os discursos marginais às representações acerca do ideal de feminilidade burguês e, embora me concentre no mesmo plano espaço-temporal da proposta anterior, minha perspectiva analítica tornou-se mais localizada, uma vez que voltada para o estudo de um caso criminal que teve grande repercussão na São Luís da década de 1870 e que trata do processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, a futura Baronesa de Grajaú.

A princípio, as ideias que giravam em torno da maneira como desenvolver um estudo com base nesta documentação pareceram incipientes e muito vagas, de maneira que, somente a consciência de que tal material daria subsídios para compreender mais uma entre tantas das facetas de uma realidade social tão tensa e conflituosa como é o caso da sociedade ludovicense da segunda metade do século XIX, me fez buscar mecanismos para que a mesma se efetivasse.

A leitura e releitura das quase 700 páginas transcritas do processo-crime movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro renderam muitas idas ao Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM), local que também tive acesso a um montante considerável de bibliografias que, se não chegam a tratar diretamente do caso, puderam contribuir significativamente para sua reflexão.

E, embora tenha frequentado com mais assiduidade o Arquivo Público do Estado, seria impossível me limitar a este campo de pesquisa, de forma que foi essencial buscar outros documentos que viessem a subsidiá-la, materiais estes encontrados no Arquivo Público do Tribunal de Justiça, no próprio Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão e nas Bibliotecas da UFMA, da UEMA e, em proporção bem menor, no anexo da Biblioteca Pública Benedito Leite.

1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais

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alienação do sujeito. Uma das maneiras que o autor utiliza para analisar estas relações ele encontra na perspectiva de tempo, instância a partir da qual, segundo reforça o sociólogo, pode ter tratamento diferenciado quando trabalhado pelo cientista social – o sociólogo em particular – e pelo o historiador ou o etnógrafo, por exemplo. Partindo desta prerrogativa, o autor considera ser mais comum entre os estudos dos sociólogos uma atenção com o tempo presente e, consequentemente, com a curta duração, deixando em aberto, ou para um segundo plano, uma projeção de caráter processual mais amplo.

Contudo, mesmo não sendo apresentada como método procedente do campo das ciências sociais, a coleta de documentos de arquivos, que sustenta não apenas esta pesquisa, mas tantas outras já realizadas por outros estudiosos, não se furta em ser tomada de empréstimo para análises neste campo do saber. E como nos fala Jean-Claude Combessie, pode ser considerada “um ponto essencial de muitas pesquisas sociológicas e um método a ser empregado desde o início, antes mesmo da exploração do campo” (2004, p.23).

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A análise qualitativa do material coletado deve atentar, portanto, ao contexto em que foi produzido1 sempre levando em consideração que o mesmo

deve ser visto como mais uma versão de uma dada realidade2, quesitos que exige

do pesquisador rigorosa vigilância metódica, embora se reconheça que o exercício interpretativo do observador de alguma forma interfere na transformação do objeto analisado.

Mais do que uma fonte escrita, o conjunto dos Autos do Processo-crime da Baronesa de Grajaú, figura como um material de ordem jurídica, fortemente permeado de termos bem específicos da área e de cujo vocabulário deve ser compreendido com o mínimo de anacronismo possível. É bem verdade que utilização de documentos com tal característica por algum tempo foi visto com certa reserva entre os pesquisadores, uma vez que eram percebidos como produto da classe dominante. No entanto, à medida que foi se ampliando o campo de estudos centrados na análise da relação entre escravidão e violência, gradualmente os documentos jurídicos passaram a assumir maior relevância enquanto dados capazes de demonstrar mais um ângulo de uma realidade social específica.

O conteúdo destes documentos permite traçar perfis baseados nas estatísticas de agressões físicas, homicídios, furtos, rebeliões que revelaram panoramas os mais variados sobre a luta pela resistência escrava à dominação senhorial. O problema é que muitos destes estudos visualizavam crimes cometidos por escravos, não figurando estes, de um modo geral, como vítimas diretas dos delitos, resultado mesmo da maneira dicotômica de como foi tratada tradicionalmente a relação senhor/escravo. Diferente de nossa pesquisa, que procura investigar um crime cometido contra um escravo menor de idade, tendo como ponto de partida a acusação conferida à sua respectiva senhora, acontecimento ocorrido na segunda metade do século XIX, momento em que começavam a se difundir com maior intensidade, os ideais abolicionistas e republicanos tanto num plano nacional como na tradicional capital da Província do Maranhão. Embora as abordagens teóricas feitas acerca da crueldade da exploração do sistema escravista tenham grande relevância para esta pesquisa, este processo-crime chama a atenção também porque leva ao banco dos réus um

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É essencial a importância que deve ser dada à dinâmica das relações sociais a partir da qual são confeccionados os documentos.

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membro influente da aristocracia ludovicense numa época em que se encontrava fortemente enraizado na mentalidade coletiva a recorrência às práticas de violência contra escravos como mecanismo de controle social.

A partir da análise desta documentação nos será viável reconhecer, por exemplo, não apenas os traços de crueldade atribuídos a um senhor contra seu escravo, neste caso particular, de Anna Rosa Vianna Ribeiro contra seu escravo Innocencio, o que fica bastante evidente no conteúdo dos dois corpos de delito que constam no inquérito policial, mas também registrar imagens de um cotidiano povoado de gestos de ameaça, de resignação e mesmo de conivência entre senhores e escravos, o que parece ficar explícito quando uma escrava da senhora Anna Rosa alega não ser esta a autora dos maus tratos cometidos contra o escravo.

Mais do que um caso de sevícia3 cometida contra um escravo, os Autos do Processo-crime da Baronesa de Grajaú propiciam revelar a própria maneira como o judiciário costumava ler acontecimentos desta natureza, circunstância que nos possibilitará entrever um poder que, se por um lado poderia pouco discordar ou desamparar a exploração senhorial, por outro também limitava este tipo de exploração, fato comprovado pela própria denúncia ministerial feita contra a aristocrata.

1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa.

Em 13 de novembro de 1876 um rumoroso crime repercutiu na cidade de São Luís do Maranhão, e desde então tornou-se suscetível às mais variadas interpretações não apenas entre os jornalistas da época – os quais o exploraram em suas mais diversas nuances – mas também entre os memorialistas, literatos e pesquisadores interessados senão apenas em descrevê-lo ou dele relembrar, tecer análises que contribuíram para compreender a atmosfera social que lhe serviu de cenário.

Trata-se de um crime de homicídio cometido contra um escravinho – tal como é muitas vezes designado nos autos – de aproximadamente 8 anos de idade, chamado Innocencio, cuja a acusação foi atribuída a um membro das elites da Província, estando talvez aí a peculiaridade deste fato quando sabemos que, por se

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tratar de uma sociedade escravista, foi se consolidando uma lógica moralista pouco ou nada estranha à exploração mais vil contra os negros africanos e seus descendentes por aqueles que se atribuíram o direito de sujeitá-los, os ditos proprietários ou senhores de escravos, exploração esta, por sua vez, amparada por um legislativo amplamente consonante, mas também ambíguo na relação com esta instituição.

A acusada, Anna Rosa Vianna Ribeiro4, foi submetida a todo um processo criminal altamente constrangedor para sua posição social, que evoluiu da investigação policial, corpo de delito, denúncia, defesa, interrogatório da acusada nas fases policial e judicial à inquirição de testemunhas, impronúncia, fase recursal, culminando com a sentença absolutória. Todas estas etapas foram documentadas e encontram-se transcritas, como mencionado anteriormente, desde 2009 com o apoio do Ministério Público do Estado do Maranhão. Este conteúdo servirá como importante fonte de análise para compreender a dinâmica das relações sociais quando da tramitação do processo-crime movido contra a futura Baronesa de Grajaú, buscando refletir, a partir deste caso particular, sobre a prática de crimes cometidos contra escravos, sobretudo quando tais delitos são atribuídos a seus respectivos proprietários, propondo demonstrar assim mais uma dentre tantas facetas de uma realidade social escravista tal como é o caso de São Luís do Maranhão ainda na segunda metade do século XIX, configurando este o principal problema de nossa análise.

Daí a preocupação em questionar: Qual a noção de crime numa sociedade escravista? Como se caracterizava o sistema jurídico da época? Quais as possibilidades explicativas para a compreensão da acusação de um membro da aristocracia, quando sabemos tratar-se de uma sociedade amplamente desigual? Que mecanismos foram operados para que se alcançasse a absolvição da ré? Quem eram as pessoas envolvidas no processo, entre acusadores e defensores? Haveria condições para que fosse diferente o resultado deste processo? E mais,

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teria sido o homicídio cometido contra um escravo o que mais importava neste libelo?

Estas, bem como outras possíveis indagações ajudarão a trilhar o caminho a ser percorrido por este estudo cuja justificativa deve-se à sua relevância sócio-histórica, uma vez que tratar-se de um acontecimento a partir do qual se possibilitou e ainda possibilita discutir não apenas o exercício institucional jurídico da época como também nos é dada a chance de analisar as relações de poder articuladas pelos atores envolvidos neste processo-crime. Vale considerar que o produto destas discussões pode ser bastante proveitoso para observar até que ponto os elementos operados nesta querela jurídica podem ser percebidos em circunstâncias mais contemporâneas, demonstrando, com isso, que muitos dos elementos característicos de nossa organização social advém de situações comuns a um passado não tão distante de nós.

Sendo assim, dois componentes sociais servirão como pano de fundo para nossa análise: primeiro, a escravidão enquanto instituição social radicalmente repressora cujas representações construídas em torno dela encontram-se profundamente arraigadas na mentalidade social do período que ora nos ocupa e, em segundo lugar, as tramas políticas da época, às quais foram dinamizadas por personagens cujos interesses partidários e pessoais nos fazem sugerir a não isenção de algumas delas no caso em evidência.

Boa parte de nosso referencial teórico, como não poderia deixar de ser, enquadra-se na discussão em torno da multiplicidade de estudos dedicados ao debate sobre a escravidão, cuja considerável produção científica nos permite entrever três grandes ramos explicativos em meio às milhares de interpretações que foram elaboradas em torno deste tema. Uma delas remete a uma longa tradição entre os estudiosos que defendem sua forte orientação econômica, perspectiva a partir da qual foi-se fortalecendo a noção de que a dominação e a exploração dos escravos era fundamental para a manutenção do sistema escravista.

Tal interpretação deu margem para a percepção de dois grandes segmentos sociais altamente bem definidos: de um lado figuravam os proprietários de terra, donos dos meios de produção, e de outro, os escravos5, fonte de trabalho

5 Categoria mais inteligível quando entendida enquanto sujeitos escravizados na medida em que não

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compulsório. Entre estas duas categorias a constatação do seu caráter fortemente repreensivo e inflexível. A possibilidade de compreensão das relações estabelecidas entre estes grupos sociais era, portanto, bastante limitada já que ambas constituíam categorias rigorosamente separadas e cristalizadas, não permitindo perceber a contento outras configurações sociais para além desta classificação.

Em contrapartida, uma outra linha interpretativa procurou defender os aspectos ideológicos e sociais da escravidão postulando a necessidade de compreender este sistema a partir de seus traços mais relativizados, abarcando não somente a questão do conflito – ou indo para além dele – mas também da negociação em suas mais diversas nuances. Um dos efeitos desta proposta de pensamento permite inclusive a elaboração de teses – inauguradas pelo o sociólogo pernambucano Gilberto Freire – que apostam na existência de uma suavização das relações senhor/escravo.

Estudos mais recentes, porém, apontam um outro reflexo alcançado pela historiografia da escravidão, pesquisas nas quais se propõe entender o indivíduo escravizado como sujeito atuante no processo histórico, permitindo tal perspectiva teórica não somente ir além da tradicional leitura historiográfica que concebe de maneira rigidamente hierarquizada a relação de dominação que envolvia sujeitos escravizados e senhores, mas também demonstrar as milhares de faces tomadas e permeadas por e nesta relação. Debate que tem como um de seus mais expressivos ingredientes o estudo das diversas formas de resistência escrava bem como as variadas estratégias de controle dos cativos adotadas pelos escravagistas como meios de manter uma autoridade não tão absoluta como estamos acostumados a saber.

Inseridos neste campo de debate podemos mencionar o livro Ser escravo

no Brasil (2003) da historiadora Kátia Mattoso, obra em que busca desvendar as

estratégias de dominação e poder articuladas entre senhores e escravos, reafirmando a possibilidade deste último manifestar-se como agente social no ambiente em que vivia, acreditando que o negro adquiriu – quando de uma certa aceitação de sua condição no corpo social – capacidade de ajustar-se ao ambiente de exploração senhorial e dele tirar proveito para si.

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Outro importante trabalho desenvolvido no interior desta linha interpretativa encontramos no livro do historiador João José Reis intitulado

Negociação e conflito (1989), onde critica estudos que veem a escravidão como

um sistema absolutamente rígido, pontuando que “os negros não foram nem vítimas nem heróis o tempo todo, se situando na sua maioria e na maior parte do tempo numa zona de indefinição entre um e outro polo” (REIS, 1989, p.7). Perspectiva que para este autor, aponta para a necessidade de que os negros escravizados fossem percebidos para além da noção de que eram força de trabalho, engrenagens de uma produção econômica. Também constitui importante exemplo desta abordagem o trabalho do historiador Sidney Chalhoub no livro Visões da liberdade (1990), através do qual analisa as últimas décadas da escravidão na Corte Imperial a partir da análise de ações de liberdade, processos criminais e civis, destacando a visão e percepção dos escravizados sobre o cativeiro e a liberdade, assinalando que, à diferença do que pregava a „teoria da coisificação‟ defendida por Fernando Henrique Cardoso e Jacob Gorender6, por exemplo, os escravos eram dotados de

sentimentos que os permitiam articular mecanismos para mitigar o peso da autoridade senhorial.

Como parte integrante das pesquisas acerca da multifacetada resistência escrava, a questão da criminalidade aparece como ponto proeminente nestas discussões7, pois revela aspectos outros das relações estabelecidas entre senhores

e escravos, notadamente quando se possibilita restituir, a partir do estudo das fontes criminais, não somente um evento criminoso, mas também o cotidiano das experiências sociais que lhe serviram de cenário, tal como fez a historiadora Maria Helena Machado no livro Crime e escravidão (1987). Numa perspectiva temática semelhante, a historiadora Sílvia Hunold Lara no livro Campos de violência (1988) propôs examinar como a questão da violência marcou a relação entre os cativos e seus senhores demonstrando um cotidiano caracterizado por confrontos, acomodações e solidariedades múltiplas e diversas entre estes segmentos.

Como temos dito, embora posicionadas em campos analíticos distintos, tais teorias não deixam de compor em seu pano de fundo, reflexões pautadas na

6 Devemos pontuar que a crítica aos clássicos da produção acadêmica sobre a escravidão devem

também reconhecer a importância que os mesmo tiveram para os rumos tomados pelos estudos subsequentes.

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relação entre violência8 e escravidão, de maneira que nenhuma delas desconsidera

a possibilidade de sua manifestação. E como nos explica a pesquisadora Sílvia Hunold Lara:

A visão suave e doce do cativeiro no Brasil a enxerga como exceção, fruto das paixões humanas, abusos logo cerceados. Os estudos comparativos acentuam seu grau maior ou menor, aqui ou alhures, sem nunca negar sua existência. As obras que se referem à crueldade dos castigos descrevem-na como necessária, frutos dos interesses econômicos de farta e imediata remuneração do capital. Vista como intrínseca à exploração que se apropriava não só do excedente mas do próprio trabalhador, localizada nos castigos excessivos ou na crueldade do tráfico, a violência e suas diversas manifestações têm sido descritas, apontadas ou denunciadas por diversos autores (LARA, 1988, p.19).

Muito se tem refletido sobre atos violentos no período colonial e imperial brasileiro, seja pelo simples emprego de castigos pelos escravagistas, seja pela resistência dos escravos à dominação senhorial, seja por conflitos entre os próprios escravos e outros estratos sociais subalternos. Por isso, é sem fugir desta perspectiva, que nossa pesquisa centrará esforços para compreender, de maneira bem específica, mais uma das faces dessa violência: a criminalidade contra sujeito s escravizados e, consequentemente, a limitação do poder senhorial pelas instâncias públicas9.

Ao expor estas principais leituras sobre a escravidão não pretendemos com isso discutir seu valor explicativo nem queremos nos posicionar a favor ou contra uma destas linhas interpretativas. Nosso exercício implica muito mais na tentativa de com elas dialogar, visto que, cada uma a seu modo, traz contribuições significativas para se entender o caráter tenso, conflituoso e controverso de uma sociedade calcada na ampla e tornada obrigatória submissão de homens por outros homens. Sendo essencial, no bojo desta análise, problematizar que, reconhecida a polissemia de atitudes e negociações, torna-se impossível tratar de escravos e senhores como dois segmentos sociais essencialmente homogêneos e antagônicos, figurando „o escravo‟ como vítima absoluta no interior deste processo e „o senhor‟ como detentor inconteste desta força de trabalho. Existiam, no âmago desta lógica

8 Por questões terminológicas devemos atentar que é mais adequado utilizarmos o termo sevícia ao

invés de violência, para analisar o tempo em relevo.

9 Como não poderia deixar de ser, é amplo o debate historiográfico acerca da problemática de

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social, relações muito mais conflituosas e complexas do que supõe a simples existência de grupos marcados por uma acirrada desigualdade.

Ao nos propormos estudar especificamente uma acusação de crime cometido contra um cativo não poderemos analisá-lo em profundidade se adotarmos uma postura monolítica. Por se tratar de uma instituição que, embora nunca fuja de suas linhas mestras, seja bastante suscetível à tomada das mais diversas feições que variam conforme o tempo, o espaço e as características que assume em cada situação social, os estudos sobre esta temática devem estar sempre atentos à multiplicidade de elementos que possivelmente venham elucidá-lo com maior propriedade.

Por isso, somado às leituras dos estudos mais recentes sobre a escravidão e que citamos anteriormente, não podemos deixar de considerar outros tantos trabalhos que contribuíram significativamente para trilhar e ampliar os caminhos de análise acerca deste tema a nível nacional, entre estes estudos podemos citar os de Emília Viotti da Costa que em seu livro Da senzala à colônia analisa a economia cafeeira oitocentista reconhecendo tanto a manifestação de medidas coercitivas de manutenção senhorial quanto uma espécie de humanização da relação senhor/escravo em momento de crise econômica. Numa perspectiva semelhante, temos os estudos de Maria Sylvia Carvalho Franco10 da qual defendia

que as relações estabelecidas dentro do latifúndio eram marcadas por elementos contraditórios que mesclavam uma complexa síntese entre benignidade e violência não sendo possível acentuar uma destas relações. E, mesmo estando suas análises situadas num tempo e num espaço diferentes11 ao de nossa pesquisa, tais estudos

trarão elementos explicativos esclarecedores para este trabalho. Autores que asseveram o recurso dos senhores à violência física e às punições corporais como formas de controle e manutenção do sistema escravista também assumem importante relevância nesse debate, cabendo, neste caso, mencionar os trabalhos desenvolvidos por Octavio Ianni, Suely Robles Reis de Queiroz, Fernando Henrique Cardoso, Roger Bastide e Florestan Fernandes12, trabalhos cuja a ênfase das

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Em artigo intitulado Organização social do trabalho no período colonial.

11 O evento a ser analisado exige discussão sobre uma outra categoria de escravos, ou seja, o

escravo urbano da segunda metade do século XIX, visto que o crime submetido à análise ocorreu na capital da Província do Maranhão.

12 IANNI, Octávio. As metamorfoses do escravo. São Paulo: Difel, 1962; QUEIROZ, Suely Robles

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análises recai, de modo geral, nas relações de produção escravista, figurando o escravo neste processo apenas como um objeto da atividade produtiva, reforçando a ideia de coisificação do cativo.

Baseado no uso destes e de outros possíveis materiais, nosso estudo foi distribuído em 3 capítulos, além da introdução e das considerações finais, assim dispostos: no primeiro deles, A atmosfera social à época do processo, de ordem mais teórica, buscamos desenvolver um resgate histórico-social destacando não apenas o período em que ocorreu o crime, mas também descrevemos os elementos que o caracterizaram. Exercício que, consequentemente, exigiu uma discussão em torno da noção de crime para a sociedade em relevo, já partindo da constatação – com a qual o sociólogo francês Émile Durkheim trouxe significativa contribuição – do caráter sócio-histórico da leitura que se faz desta categoria. Outrossim, o estudo da concepção de crime foi acompanhado de uma análise sobre o sistema jurídico característico desta organização social, que serviu de cenário para a investigação do caso criminal, objeto desta pesquisa.

No segundo capítulo, Um olhar sobre os Autos do processo-crime da

Baronesa, foi feita uma análise sustentada predominantemente no documento em

suas etapas principais para compreender como os evolvidos no inquérito judicial, entre defensores e acusadores, se utilizaram das estratégias baseadas nos referenciais institucionais da época para orientar suas posições diante do processo. Neste caso foi necessário tratar primeiramente dos dois corpos de delito realizados em Innocencio, e que compõem os autos. Baseado no conteúdo destes exames e somado às alegações das testemunhas e informantes, foram orientadas as posições tanto do promotor público Celso da Cunha Magalhães, cuja atuação foi bastante expressiva uma vez que colocou no banco dos réus uma filha da aristocrática e escravista sociedade ludovicense, quanto do advogado de defesa da futura baronesa, o Dr. Francisco de Paula Belfort. Sustentando-nos na composição das afirmações desenvolvidas por ambas as partes, refletiremos sobre os elementos que culminaram no desenlace do processo, ou seja, na absolvição de Anna Rosa.

Concretizada a análise alicerçada no conjunto dos autos do processo, prosseguiremos no terceiro capítulo, intitulado Outras interpretações, explorando

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algumas outras leituras que abordaram, à sua maneira, este processo criminal, ou como pano de fundo de um enredo literário para se compreender as desigualdades manifestas no sistema escravista como assim o faz o escritor Josué Montello em Os

Tambores de São Luís (1985) ou como resultado de uma breve menção dos fatos

oriunda de conversas, recordações e memórias registradas em livros como o de Dunshee de Abranches em O cativeiro (1992) e O meu próprio romance (1996) do escritor Graça Aranha. Somada às fontes literárias temos também as falas dos jornais enquanto meio de formação de opinião e instigador da tomada de medidas eficazes para a resolução do trâmite pelas autoridades.

À luz da análise dos elementos sociais característicos deste período e com base nas fontes que sobre eles obtivemos, esperamos trazer mais uma contribuição para a compreensão de um acontecimento que por si só carrega uma série de indícios que refletem uma dinâmica social cujos traços essenciais são assentados numa desigualdade social exacerbada que sobrevive, em muitos de seus aspectos, e embora com outras roupagens, em nossa realidade social atual.

Enquanto recurso analítico essencial para esta pesquisa, os Autos do

Processo-crime da Baronesa de Grajaú nos possibilitaram acesso não somente

às peças criminais etapa por etapa, mas também deram margens para analisá-lo em suas entrelinhas, permitindo-nos um exercício de interpretação mais amplo do que nos oferece a simples leitura de seu conteúdo. Tal constatação não nos permite, entretanto, fazer divagações aleatórias ou até mesmo romantizadas sobre o caso em relevo, requer sim e sempre um olhar mais atento e cauteloso já que também alvo bastante suscetível a distorções13.

A dificuldade de acesso a um conjunto mais amplo de informações que poderiam ser obtidas através de uma bibliografia mais específica e de fontes documentais que as subsidiasse, hora ou outra pode deixar em suspenso alguns pontos de compreensão que nos permitirão apenas construir em torno dela algumas hipóteses, isso porque o distanciamento espaço-temporal existente entre a pesquisadora e o caso a ser estudado, somado, sobretudo ao uso de fonte documental – matéria-prima dos historiadores – ainda é assunto bastante polêmico e

13

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debatível no campo das ciências sociais, sendo, portanto, tarefa delicada traçar, a partir dos ditames de sua metodologia, um esquema analítico que seja tão contundente com a forma que esta área de conhecimento se propõe a refletir sobre a coleta e a maneira de trabalhar com os dados.

Uma observação a mais. Devemos salientar não ter sido nosso objetivo demonstrar a aplicabilidade de teorias gerais acerca da dinâmica da dominação característica da instituição escravista maranhense ao tratar de um único caso no qual suas feições primeiras remetem apenas a mais um exemplo, entre milhares, da manifestação do peso da autoridade senhorial. Ele nos revela mais que isso, é um emaranhado de conflitos que apontam para a problematização desta mesma autoridade, permitindo-nos observar as diversas faces tomadas pela relação entre senhores e escravos e do qual o crime da futura Baronesa de Grajaú é apenas mais um episódio que, claro, não se encerra com nossa interpretação.

1.4 Uma metodologia de pesquisa: oestudo de caso com base documental.

Para esta pesquisa utilizaremos como um dos principais procedimentos o método de estudo de caso com base documental, uma vez que se trata de estudar, a relação entre criminalidade e escravidão, a partir de um caso particular, qual seja, o crime da futura Baronesa de Grajaú, a ser investigado, sobretudo nos Autos do Processo-crime14 (1876-1877) a partir de uma análise qualitativa do mesmo. Isso

levando em consideração o que observou Uwe Flick ao apostar no entendimento de que os documentos devem ser analisados dentro do contexto em que foram produzidos, já que eles “representam uma versão específica de realidades construídas para objetos específicos” (2009, p.234). Ele aconselha ainda que quando optamos pela utilização de determinado documento numa pesquisa devemos sempre nos questionar em que atmosfera social ele foi produzido, quem o produziu e com quais objetivos (FLICK, 2009, p. 234-235).

Com base nesta prerrogativa e como dissemos anteriormente, será prudente investigar não apenas a veracidade deste delito, mas também no que nele pode haver de mais anedótico, quando sabemos que muitas das opiniões foram

14 Embora, assim como afirma Jean-Claude Combessie, a coleta documental nem sempre tenha sido

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formadas ou até possivelmente distorcidas sobre este caso no decorrer do tempo. É válido atentar também aos trâmites referentes à própria transcrição dos autos do processo somente ocorrida quando sua guarda passou do domínio do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (onde ficou há quase 35 anos) para compor o acervo do Memorial do Ministério Público do Estado do Maranhão.

Como parte do conjunto de análise em torno do famoso crime da futura baronesa optamos também por comentar o processo da então recém alforriada Amélia Rosa, cujos autos foram transcritos pela historiadora Jacira Pavão da Silva e constam em livro organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti. Um dos pontos fundamentais presentes nesta obra está relacionado à menção feita a respeito da vinculação ou de alguma aproximação entre estes dois casos, dado que, conforme interpretação sugerida no final do processo na argumentação do Dr. Aristides Augusto Coelho de Souza, tudo indica que com a efetivação do processo de Amélia Rosa intuía-se mais do que punir a ré e suas companheiras pelo tratamento realizado ou pelas „sevícias‟ dispensadas a uma escrava de nome Joanna, desejava-se antes apresentar como cruéis os que acusaram Dona Anna Rosa Vianna Ribeiro de crueldade contra os filhos de Germiniana e exterminar a pajelança que atraía tantos negros (FERRETTI, 2004, p.14), sendo este um elemento essencial que contribuiu para o estudo da relação entre estes dois processos.

Outrossim, faremos uma abordagem qualitativa de outros tantos documentos tais como o Livro de crimes e fatos notáveis (1873-1881), o Código de Processo Criminal do Império, as Coleções de leis, decretos e resoluções da Província do Maranhão e de fontes jornalísticas, dado que a imprensa da época, assim como nos explica Almeida, explorou intensamente o fato reforçando opiniões contra ou a favor da acusada. Além das fontes jornalísticas, serão investigadas fontes a partir das quais o crime e o processo da Baronesa foram recriados literariamente. Nesta perspectiva, podemos citar, sem ordem cronológica, o livro Os Tambores de São Luís de Josué Montello que teve acesso direto aos manuscritos do conjunto do processo15; Dunshee de Abranches no livro O cativeiro e Graça Aranha em Meu próprio romance.

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É lúcido acrescentar que recorrer ao uso do método de estudo de caso não é tarefa fácil, uma vez que exige do pesquisador o estar atento, sobretudo a um dos maiores riscos que pode estar sujeito, qual seja, o de tentar verificar a veracidade de algumas teorias a partir do encaixe da mesma no desenvolvimento das proposições sobre o caso em relevo, como se o estudo deste servisse apenas para dar credibilidade a teorias já elaboradas. E, obviamente, não descartando a validade dos referenciais teóricos desenvolvidos sobre determinado tema, é necessário que o observador esteja muito mais atento aos próprios limites e configurações característicos de um caso particular que pretende examinar. Embora, o crime da senhora Anna Rosa Vianna Ribeiro não esteja em dissonância com a maneira como se representavam as instituições daquela época, não podemos perder de vista a peculiaridade que concerne a este fato.

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2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO

Não concerne a este estudo priorizar uma narrativa longa e minuciosa, baseada em noções cristalizadas, a respeito da dinâmica social característica da realidade ludovicense da segunda metade do século XIX. No entanto, também parece não haver sentido analisar um caso criminal ocorrido neste período sem levar em consideração os elementos institucionais que possivelmente orientaram as relações sociais de então, como se os atores sociais envolvidos nesta querela jurídica estivessem de todo desprovidos das influências dos discursos comuns para aquela realidade. Por isso, a abordagem que faremos a respeito do cenário social que constituiu pano de fundo para o andamento do processo-crime movido contra a futura Baronesa de Grajaú, propõe muito mais alargar os ângulos de visão que poderão permitir uma leitura mais apropriada e coerente do fato em evidência16 do

que enfatizar detalhes e mais detalhes de uma realidade tão tensa e conflituosa como é o caso da sociedade imperial brasileira e, num sentido mais particular, da tradicional sociedade ludovicense do período que ora nos ocupa.

Uma multiplicidade de estudos interessados na reflexão dos mais vários aspectos constituintes da sociedade imperial brasileira da segunda metade do século XIX vem questionando uma estrutura explicativa que por muito tempo guiou a produção científica sobre o assunto. A principal crítica manifesta nestas abordagens considera que a tradicional interpretação pautada nos aspectos econômicos do sistema escravista: produção agrícola em larga escala nos latifúndios sustentada na mão de obra escrava para atender as necessidades do mercado externo, enquanto elementos que caracterizariam todo o período colonial brasileiro e que se estenderiam ao Império, fortaleceu uma aceitação considerável entre os pesquisadores a respeito do caráter estamental desta sociedade. A ênfase dada a tal tradição explicativa limitava um entendimento mais adensado acerca das várias faces tomadas pela relação senhor/escravo, tidos, teoricamente, como os dois principais grupos sociais antagônicos do período. Privilegiava-se nestas leituras o caráter cruel e violento do sistema escravista brasileiro, partindo de uma

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compreensão um tanto quanto truncada a respeito da maneira como as relações de desigualdade eram manifestadas entre estes grupos.

Caio Prado Júnior – guardada e reconhecida sua perspectiva analítica e o tempo de sua escrita – um dos mais expressivos expoentes neste campo de debates, encontra na escravidão e em seu alto grau de exploração um dos componentes mais significativos da organização social colonial brasileira. Sua leitura economicista de orientação materialista histórica acerca do processo colonizador no Brasil, o faz analisar nossa formação social orientado por um esquema teórico baseado no tripé propriedade – monocultura – mão de obra escrava africana, a partir do qual prevalece a compreensão de que os laços estabelecidos entre senhores e escravos foram marcados por uma radical hierarquia na qual o escravo figurava como mero instrumento de força bruta, material, relação esta que não teve outro objetivo senão o de realizar uma vasta empresa colonial no Brasil (PRADO, 1999, p.341).

O seu discurso a respeito do caráter compulsório da escravidão é tão forte que, mesmo mencionando a existência de outras configurações sociais comuns a este sistema – quando destaca as figuras dos homens livres pobres, agregados de senhores ou lavradores mais modestos – o faz ressalvando a peculiaridade das relações articuladas entre estes grupos. Em um dos trechos do livro Formação do

Brasil Contemporâneo (1999), Caio Prado abre espaço para discorrer, mesmo que

momentaneamente, aspectos outros da organização social colonial ao considerar que este período:

Constituí-se assim no grande domínio um conjunto de relações diferentes das de simples propriedade escravista e exploração econômica. Relações mais amenas, mais humanas, que envolvem toda sorte de sentimentos afetivos. E se de um lado estas novas relações abrandam e atenuam o poder absoluto e o rigor da autoridade do proprietário, doutro elas a reforçam, porque a tornam mais consentida e aceita por todos (1999, p.289).

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expressivo do que a constatação acerca da total submissão do sujeito escravizado17

a outrem. A predominância do estudo acerca da dinâmica das relações de produção colonial, portanto, partem já da concepção de que existem dois grupos sociais antagônicos e hierarquizados movidos por relações de dominação e exploração.

A atenção prestada até o presente momento a uma literatura dedicada a um período mais recuado em relação ao nosso tempo de análise da pesquisa, explica-se pela preocupação e importância que tais leituras têm para uma reflexão sobre a estrutura social característica da segunda metade do século XIX, período no qual se atem nosso estudo. Isso porque, parece ser comum entre os pesquisadores da área, a ideia de que não ocorreram alterações profundas nas estruturas sócio-econômicas da sociedade brasileira na transição da colônia ao império. Se houve, digamos, uma reorganização no âmbito político com a formação de partidos cuja distinção, a princípio, se estabelecia quanto ao interesse de separação ou não em relação à Coroa Portuguesa, a escravidão se manteve como uma das instituições mais expressivas no âmbito sócio-econômico, marcando um período reconhecido pela historiografia como de profunda instabilidade social.

Conforme a produção científica sobre o assunto, ainda na segunda metade do século XIX o elemento servil figurava como principal instrumento de exploração não apenas nas lavouras como também nas cidades18. Acreditamos, via

de regra, que a legitimidade desta exploração era reflexo de uma infindável produção discursiva que, desde os primórdios da chamada escravidão moderna, construiu, reforçou e manteve a noção de inferioridade do negro. Essas representações – delineadas nas falas dos cronistas, religiosos e estudiosos europeus – encontravam-se já bastante arraigadas na mentalidade imperial oitocentista brasileira, muito se escreveu sobre elas. E, sem intenções de alimentar um debate militante ou radical sobre o tema, somos levados a orientar nossa análise a respeito do crime cometido contra um escravo em São Luís do Maranhão, como

17

Tal viés interpretativo ganhará muitos adeptos no campo de estudo das humanidades. Reconhecendo estes mesmos traços sociais podemos observar as contribuições de Celso Furtado em Formação Econômica do Brasil (2009) e Fernando Novais na obra Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808) (1985), os quais apostam na supremacia das questões econômicas e consequente exploração senhorial para explicar os elementos sociais constituintes do período colonial.

18Mais adiante falaremos da importância que algumas pesquisas têm dedicado ao estudo de uma

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sendo mais um dos efeitos do reconhecimento dessa inferioridade e, consequentemente, do uso feito da legitimidade de sua exploração.

Devemos acrescentar ainda que, a este período, a intensificação da propaganda abolicionista e republicana não somente na Corte Imperial Brasileira e adjacências, mas também em regiões afastadas a ela, como é o caso da Província do Maranhão, onde tais ideias disseminavam-se pelas vozes dos filhos das elites que tinham por costume levar seus filhos para formarem-se na Europa, berço do pensamento liberal, batia-se com a internalização da instituição escravista, ainda bastante viva nas atitudes da população, fossem proprietários, cativos ou homens livres pobres.

Esta consideração fica bastante evidente em passagens de alguns livros de memórias nos quais temos oportunidade de acesso a registros, ainda que fortemente marcados de parcialidade, sobre o período. Este é o caso, por exemplo,

de O cativeiro (1992), importante romance histórico do escritor maranhense

Dunshee de Abranches no qual faz um retrato marcante acerca da escravidão negra no Maranhão. Num dos trechos desta obra ele descreve que:

O regímen da escravidão embotara fundamente os corações. Os negros africanos viviam colocados abaixo dos animais domésticos nas casas onde serviam. Mal alimentados, curtidos de sevícias, não lhes era permitido terem descanso nem sono nem moléstias. Dia e noite labutavam rudemente, quer nos trabalhos do senhor, quer alugados para as obras públicas. O preto da canga em São Luís tinha em geral um aspecto monstruoso: forçado a carregar aos ombros toneladas e a servir de máquina de quebrar blocos enormes de cantaria, além de roído sempre pelas verminoses, tornava-se cambaio e apresentava o corpo coberto de hérnias... (grifos do autor, 1992, p.113).

Passagens desse gênero encontramos espaçadas no decorrer de todo esse registro de memórias feitas pelo autor. Suas impressões sobre a realidade escravista em São Luís – resultado das coisas que lia, via e escutava na infância e adolescência – revelam um tempo em que a condição do escravo era bastante degradante, tensa e permeada de controvérsias, não houve um tempo que assim não fosse. Dizemos isto porque, conforme o próprio conteúdo destas memórias, as relações entre senhores e escravos, embora marcadamente hierarquizadas, eram também permeadas por indícios de sentimentos outros19 que os de pura

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desigualdade e dos quais, a nosso ver, somente podem ser compreendidos no interior do sistema escravista já que faces desta mesma realidade. Formas de resistências mais veladas, relações afetivas mais proeminentes, silêncios, conivências, demonstram um ângulo de visão diferente daquele pregado por uma leitura sustentada puramente nos aspectos econômicos da organização social imperial brasileira. As tensões desta conjuntura social, assim, digladiavam-se ainda mais com a ampliação das influências das ideias de libertação dos escravos.

Não queremos com isso reforçar uma linha de pensamento inaugurada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freire, que ao intentar definir uma identidade nacional brasileira, encontrou na miscigenação entre negros e brancos, um dos reflexos do afrouxamento das relações escravagistas. No entanto, não podemos deixar de considerar a relevância de suas argumentações, sobretudo por possibilitar um exercício de abstração que nos permite pensar a escravidão não de forma romântica ou dicotômica, mas diferenciada, onde a dinâmica destas relações ultrapassa a simples constatação do negro trabalhando no eito ou servindo como escravo de ganho nas cidades, sendo mecanicamente punido caso manifestasse alguma transgressão à ordem estabelecida. Esta relação existiu, afirmamo-la, no entanto, ela se mostra muito mais densa e complexa do que pregam os estudos mais tradicionais sobre a escravidão.

O reconhecimento desta complexidade serve-nos, contudo, para reforçar a noção de que as diferentes facetas tomadas pela relação senhor/escravo não apaziguavam as tensões entre estes dois estratos sociais, pelo contrário, estudos apontam20 que formas de resistência menos abertas partem do pressuposto de

reconhecimento do grau de imposição da dominação senhorial, as relações se dinamizavam no interior dos mecanismos de controle social adotados por este sistema. Salientamos isso não apenas num plano estrutural, como marca de um esquema geral, mas também em termos mais específicos, mais localizados e alimentados pelo trato do cotidiano, questão que nos parece bastante evidente quando submetemos à análise um caso de sevícia cometida contra um escravo na

escravo que, conforme palavras de Dunshee, era fiel de raça e de sentimentos, preferindo “a servidão a trair seu opressor e só mais tarde viu o sol da liberdade pela Lei de 13 de maio”. Para mais detalhes sobre esta narrativa ver páginas 149 e 150 do livro.

20 Tais como o de Kátia Mattoso em Ser escravo no Brasil (2003); João José Reis e Eduardo Silva

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capital da Província maranhense na segunda metade do século XIX, objeto principal de nossa pesquisa.

A ênfase que damos à questão da crueldade característica da escravidão ressalta não àquela que resulta de uma violência comum quando da aplicação de castigos aos negros ditos rebeldes, ou àquele que não cumpre a contento as funções designadas pelo seu senhor, não se trata também de discorrer sobre um dos reflexos da imposição senhorial que envolve uma forma de resistência direta resultante dos crimes que muitos negros cometiam contra seus senhores e demais algozes. A forma de violência que nos interessa aqui refletir envolve um ângulo específico, explícito num crime no qual a vítima, neste particular, é um escravo menor de idade cuja morte, conforme inquérito policial constante nos autos do processo-crime, resultou direta ou indiretamente de maus tratos21 contra ele infligidos. Circunstância esta que culminou com a denúncia e julgamento de sua proprietária e nos revela dois pontos fundamentais: primeiro, a autoridade senhorial não era tão absoluta quanto prega a produção mais tradicional sobre o tema e, segundo, que esta limitação da dominação senhorial se encontrava, por exemplo, no direito que tinha o senhor de castigar seu escravo, porém, não de tirar-lhe a vida por este recurso, sob pena de punição, fato constante nas alegações dos autos do processo-crime da futura baronesa.

Estamos na segunda metade do século XIX, já a este tempo os cativos reivindicavam perante a justiça direitos de representação, ainda que esta se manifestasse das maneiras as mais enviesadas possíveis. Isso porque, como escreve a historiadora Hebe Mattos de Castro, com a política emancipacionista houve uma tendência da legislação imperial de garantir “direitos” aos escravos (CASTRO, 1997, p.374). Direitos dúbios e restritos, o sabemos, mas que revelam contornos outros a respeito dos conflitos estabelecidos entre senhores e escravos, como assim o demonstra a historiadora Joseli Nunes Mendonça no livro Cenas da

abolição (2001), quando trata dos efeitos das leis emancipacionistas da escravidão

– Lei do fim do tráfico (1850); Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei do Sexagenário (1885) – nas atitudes dos escravos, o que lhe permite perceber as diversas maneiras que os cativos articularam para conseguir suas cartas de alforria, fosse

21 Veremos mais detidamente, no próximo capítulo, o conteúdo dos laudos do corpo de exame de

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através de negociações diretas com seus senhores, fosse por meio da procura às instâncias jurídicas para que o objetivo se efetivasse22.

Na introdução deste trabalho descrevemos, grosso modo, as principais características do processo-crime que pôs em evidência não apenas um crime cometido contra um escravo menor de idade23, mas também o fato de que este

mesmo crime tenha sido atribuído a um influente membro da aristocracia política e econômica de São Luís do Maranhão. Anna Rosa Ribeiro, futura Baronesa de Grajaú, foi submetida a todo um processo judicial que teve forte repercussão nos jornais, na opinião pública, nos livros.

Como dissemos anteriormente, São Luís era uma região onde os traços de dominação senhorial eram ainda bastante vivos e alimentados por um discurso que concebia os africanos escravizados “como uma massa de seres embrutecidos, no limiar entre a animalidade e a racionalidade” e onde “feiúra, maldade, depravação e irracionalidade eram-lhes atribuídos” (FARIA, 2004, p.83).

Vista a partir de sua estrutura econômica, a cidade, que até antes da segunda metade do século XVIII, vivia às margens da política mercantil de exportação, como explica a historiadora Jalila Ayoub Jorge Ribeiro, passa daí em diante a integrar-se, mesmo que momentaneamente24, ao conjunto da economia

internacional como importante fornecedor de produtos agrícolas. Conforme a autora, tal transformação na estrutura econômica teve como um de seus reflexos o aumento na importação de mão de obra escrava africana devido à demanda do mercado

22 Nos parece bastante útil mencionar um estudo desenvolvido pela historiadora Enidelce Bertin,

quando analisa uma categoria de negros chegados ao Brasil após o fim do tráfico e que, de certa forma, oscilavam entre a condição de homens „livres‟ e tutelados. Livres porque resgatados do tráfico por uma comissão mista estabelecida no Rio de Janeiro sob os auspícios dos interesses britânicos, mas tutelados devido a interferência do Estado quanto ao controle desta população. Essa custódia rendeu a estes segmentos uma experiência cotidiana semelhante à que viviam os demais negros escravizados, não apenas em relação ao trabalho, mas também como eram vistos por aqueles que arrendavam seus serviços (BERTIN, 2001, p.105). A questão é que, entendidos de sua condição, os chamados africanos livres, reivindicavam o reconhecimento deste status frente às autoridades, circunstância que permitiu à Bertin observar as formas de resistências por eles articuladas cotidianamente para que tal finalidade fosse concretizada. Os exemplos de que se utiliza – ofícios dos administradores públicos encontrados no Arquivo do Estado de São Paulo – para sustentar sua análise demonstra que muitas foram as ocasiões nas quais estes homens recorriam à Justiça afim de se alcançar uma liberdade efetiva.

23Consta nos autos do processo que, quando de sua morte, Inocêncio contava com aproximadamente

8 anos de idade. 24

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europeu e à constatação pelas elites de que esta seria o único tipo de mão de obra que poderiam aproveitar. Esta consideração lembra a observação feita pela pesquisadora Regina Helena Martins de Faria ao afirmar que o recurso aos escravos africanos enquanto único meio de mão de obra nas lavouras era amparado pela noção de que estes eram os mais “capazes de suportar os rigores do trabalho agrícola em regiões de clima quente e insalubre...” (2004, p.83).

Esse aumento do fluxo de escravos25 não se limitava, porém, às zonas de cultivo, sendo cada vez mais comum a presença de negros no centro da cidade, configurando uma categoria de escravos que, embora submetidos à mesma estrutura de dominação senhorial – no sentido de condição de propriedade – se distinguiam pelas atividades a que se dedicavam e ao maior grau de circularidade que consequentemente lhes era dado para exercer suas funções.

Nesse sentido, encontramos a figura do chamado escravo urbano, categoria ainda pouco estudada entre os pesquisadores da área, devido mesmo à tradicional perspectiva de se analisar a presença de escravos no campo, na rotina da vida rural. Estes estudos trazem uma contribuição significativa para os debates em torno do tema da escravidão, revelam outras faces do mesmo sistema.

Ainda que poucos, exemplos de trabalhos desta natureza podemos encontrar nas pesquisas desenvolvidas por Marilene Rosa Nogueira da Silva que, com base em larga documentação, estuda os aspectos de um setor específico de escravos citadinos, os ditos escravos ao ganho da cidade do Rio de Janeiro no período imperial. Sua proposta se insere num quadro de debates que põe em questão abordagens já tidas como resolvidas sobre o assunto, tais como a “relação terra, capital estrangeiro, religião, escravidão-rebelião, escravidão-indústria, escravidão-cidade, entre outros temas” (SILVA, 1988, p.28), mostrando aspectos outros do escravismo, embalada mesmo por uma tendência teórica que procura ter mais atenção às diferenças espaço-temporais da atividade escravista. Por isso, em suas argumentações, a autora assinala que a escravidão urbana ainda não recebeu a atenção devida entre os pesquisadores por conta da tradicional justificativa a respeito da qual se enfatiza que a implantação da

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escravidão no Novo Mundo resultou da necessidade de implementar a agricultura de exportação de produtos tropicais, “enquanto a escravidão urbana não se apresentaria como elemento definidor do sistema” (SILVA, 1988, p.28).

Tal queixa, porém, aos poucos vem sendo mitigada através de trabalhos como o desenvolvido por Leila Mezan Algranti (1988) que, em estudo sobre a escravidão urbana no Brasil na época de D. João VI, relata em detalhes o ritmo de vida dos escravos de ganho, categoria a partir da qual desvenda ângulos de um mundo marcado por tensões e também „acordos‟ entre senhores e escravos, como assim o demonstra a descrição que faz sobre o funcionamento desta forma de trabalho escravo, no qual o lucro adquirido com a venda de seus serviços a outrem que não seu senhor era com ele repartido, no geral, a partir de uma quantia diária ou semanal previamente fixada por seu proprietário. No seu quadro analítico, porém, a autora assinala que, embora gozasse o escravo urbano de maior flexibilidade de circulação, nem por isso o cativeiro lhe poderia ser melhor que o do seu semelhante no campo.

Eram diversas as atividades a que poderiam se dedicar os escravos urbanos. Estudando sobre este contingente na cidade do Rio de Janeiro no século XIX, o historiador Luiz Carlos Soares, explica que era ampla a presença de cativos nos serviços de limpeza urbana, na iluminação da cidade, nas obras públicas e no transporte de cargas e passageiros, sobretudo na primeira parte deste século (SOARES, 2007, p.160). Numa ampla descrição a respeito dos regimes de trabalho escravo doméstico, de ganho, alugados26 e citadinos de um modo geral –

sustentada em vários exemplos extraídos de anúncios de jornais, processos criminais e pedidos de licença emitidos pelos senhores à Câmara Municipal para os escravos circularem ao ganho na cidade do Rio de Janeiro – o autor aponta o grau de especialização de muitos destes trabalhadores (na culinária, carpintaria, marcenaria, comércio), revelando tal circunstância o delineamento de hierarquias e acirramento de disputas (veladas ou não) entre os próprios escravos, fosse no interior das casas onde a divisão das tarefas normalmente privilegiava as amas-secas ou de leite que lidavam diretamente com os filhos dos senhores em detrimento, por exemplo, dos escravos que lidavam com os despejos dos dejetos e

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dos lixos das residências, fosse nas ruas onde a necessidade de pagamento ao senhor da renda adquirida no trabalho externo muitas vezes levavam os escravos de ganho a conflitarem por espaços de venda ou de negócios mais lucrativos27.

Não foge a capital da Província maranhense de uma configuração semelhante à vivida na Corte Imperial no que tange ao uso da mão de obra escrava na cidade. Aqui, como nos assinala o historiador Josenildo de Jesus Pereira, o trabalho escravo urbano foi mais dinâmico na cidade de São Luís, e um grande entreposto comercial e portuário. Os trabalhadores escravos urbanos, fossem na condição de ganhadores ou de trabalhadores de aluguel, praticavam as mais diversas atividades. No geral, os homens, entre outras ocupações, desempenhavam as funções de marinheiros, carregadores, estivadores, oficiais da construção civil, de marcenaria, de barbearia. As mulheres, por sua vez ocupavam-se de serviços domésticos (cozinhar, lavar e passar), do comércio informal de alimentos (peixes, vísceras de gado, frutas, doces) e outros artigos, além de exercerem funções de parteiras e amas-de-leite, principalmente dos filhos das classes dominantes (PEREIRA, 2009, p.235).

Percebemos suas características também nos próprios autos do processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro. Quando da qualificação dos depoentes, visualizamos as figuras de Primo, Annisio e Geraldo, todos declarados pretos escravos, moradores à casa de seus senhores, mas que, no entanto, ocupavam-se também das funções de jornaleiro28, oficial de carpina e ganhador,

respectivamente, atividades estas executadas a serviço de outrem29, o que nos

possibilita inferir que tratavam-se estes indivíduos de escravos ao ganho. Vemos ainda exemplos de pretas forras moradoras em casa por elas alugadas e que se dedicavam a tarefas que muito provavelmente aprenderam em tempos de cativeiro, caso de Geminianna e Simplícia às quais trabalhavam como cozinheiras e nos serviços domésticos de modo geral. É sobre este regime de trabalho escravo que debruçamos nossas análises.

27 Tal como nos ilustra Soares com um interessante exemplo acerca de um processo criminal no qual

envolvia uma briga, numa manhã de 1855, entre a escrava Amélia Mina e a preta liberta Josepha Alves de Menezes, ambas quitandeiras e de cujo desentendimento o autor hipotetiza estar relacionado à concorrência que desenvolviam como vendedoras no mesmo ponto, o Largo da Sé, no Rio de Janeiro.

28

Também trabalhava aos serviços de Romeu e Silva, armadores nesta cidade. Ver página 107 dos Autos.

29 Primo, por exemplo, escravo da viúva Dona Inez Jansen Lima, ao tempo do processo, alegava

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