UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMADE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS ALLYSON DE ANDRADE PEREZ

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMADE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  

(INTER)CAMBIANDO SENTIDOS:

  produção discursiva do gênero, da sexualidade e da individualidade nas relações entre jovens intercambistas e famílias anfitriãs em São Luís São Luís

  2013

  

(INTER)CAMBIANDO SENTIDOS:

  produção discursiva do gênero, da sexualidade e da individualidade nas relações entre jovens intercambistas e famílias anfitriãs em São Luís

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientadora: Profa. Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa.

  São Luís 2013 PEREZ, Allyson de Andrade (Inter)cambiando sentidos: produção discursiva do gênero, da sexualidade e da individualidade nas relações entre jovens intercambistas e famílias anfitriãs em São Luís / Allyson de Andrade Perez.

  • – 2013. 168 f. Orientadora: Profa. Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais)
  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2013.

  1. Intercâmbio

  • – Sociologia – Relação – Gênero

  2. Sexualidade 3. Discurso 4. Identidade 5. Individualidade I. Título CDU 316.776-055 (812.1)

  

(INTER)CAMBIANDO SENTIDOS:

  produção discursiva do gênero, da sexualidade e da individualidade nas relações entre jovens intercambistas e famílias anfitriãs em São Luís

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientadora: Profa. Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa.

  Aprovada em: ___/____/____ BANCA EXAMINADORA

  _________________________________________________ Profa. Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa (Orientadora)

  Universidade Federal do Maranhão

  • – UFMA Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP

  _________________________________________________ 1ª. Examinadora

  Profa. Pós-Dra. Berenice Bento Universidade Federal do Rio Grande do Norte

  • – UFRN Pós-Doutora em Saúde Coletiva pelo NESPROM/CEAM/UnB

  _________________________________________________ 2º. Examinador

  Prof. Dr. Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior Universidade Federal do Maranhão

  • – UFMA Doutor em Ciência Humanas – Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro –

  UFRJ

  A todas/os aquelas/es que, em diferentes tempos e espaços, correram ou correm os riscos de pensar e produzir um mundo menos violento em meio aos paradoxos entre diferenças e igualdades. AGRADECIMENTOS Ao longo dos caminhos de minha pesquisa e da escrita deste trabalho, muitas/os foram as/os que contribuíram, à sua maneira e de forma menos ou mais intensa, para seus resultados. Apenas de forma ilusória, este trabalho poderia ser reduzido a uma pretensa individualidade, pois é fruto das diversas interações com todas as pessoas que participaram desse percurso. Agradeço carinhosa e respeitosamente a todas elas, desculpando-me por algum eventual esquecimento, e em especial:

  À Profa. Sandra Maria Nascimento Sousa, pelo acolhimento e incentivo às ideias iniciais do projeto, pela orientação atenciosa e motivadora, construída através de um diálogo aberto, respeitoso e instigante, e pela amizade que me permitiu conhecer mais de perto e com crescente admiração essa mulher tão especial.

  • – Às/Aos participantes do Grupo de Estudos em Gênero, Identidade e Memória

  GENI da Universidade Federal do Maranhão, pelas interlocuções tão enriquecedoras e pela partilha de ideais comuns acerca das relações de gênero, em especial e com muito carinho a Juciana Sampaio, Josie Bastos, Dora Fonseca, Mayana Nunes, Luciene Galvão e a Katiuscia Pinheiro, amiga que me apresentou ao grupo, me incentivou para a realização do Mestrado e discutiu comigo tantas questões importantes.

  Às/Aos Coordenadores e funcionárias/os do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, nas pessoas dos Profs. Marcelo Carneiro e Igor Gastal Grill, pelo trabalho dedicado ao bom funcionamento do Programa, pelas orientações e pela solução dos problemas que se apresentaram.

  Às/Aos Professoras/es das disciplinas do Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, Igor Gastal Grill, Marcelo Carneiro, Benedito Souza Filho, Maristela de Paula Andrade e Sandra Maria Nascimento Sousa, pelas discussões tão fecundas e pela paixão com que se dedicam às Ciências Sociais.

  À Profa. Maria da Glória Correia e ao Prof. Horácio

Antunes de Sant’Ana Júnior pelas observações e sugestões valiosas por ocasião da banca de qualificação, as quais me

  ajudaram a aprimorar o presente trabalho.

  Às/Aos Colegas e Amigas/os da turma do Mestrado, Josinelma Rolande, Michelle Louzeiro, Cristiana Cerkeira, Hugo Freitas, Carolina Pitanga, Isabell Mendonça, Andréa Gonçalves, Maria Tereza Trabulsi, Rafael Campos, Romário Barros e Paulo Melo Sousa, pelo companheirismo, pelos debates e pelo apoio mútuo, e, em especial, a Sariza Caetano, pelas trocas tão intensas de ideias e pela amizade tão bonita que nasceu.

  Às/Aos estudantes da disciplina “Relações Sociais de Gênero” do Curso de Graduação e Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão do 2º. semestre de 2012, que, durante minha experiência de estágio docente, me ofereceram oportunidades preciosas de trocas de conhecimento e aprendizado.

  À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

  • – CAPES, pela concessão da bolsa de estudos que deu suporte financeiro à realização da pesquisa.

  À Equipe da empresa Via Mundo pelo acolhimento e pelo acesso a informações valiosas para a pesquisa, de forma bastante especial a Antonio Bacelar Junior, Ivo Santos e Anne Møller Nielsen, com quem também pude debater ideias muito interessantes sobre os temas pesquisados.

  À amiga e brilhante antropóloga Nilvanete de Lima, com imensa gratidão, pelo tempo que dedicou a discutir comigo angústias e temas do trabalho, dando-me sugestões sempre muito oportunas, encorajando-me a expor e a elaborar minhas descobertas, e pela amizade sincera e presente.

  À minha família, em especial à minha mãe, Maria Elizabeth de Andrade Perez, e a meu pai, Leonerez Soares Perez, pelo carinho, incentivo e apoio constantes. Às pessoas mais que queridas cujo entusiasmo me incentivou a seguir avançando quando as dificuldades se impuseram e pelas muitas descobertas e alegrias partilhadas:

  Jefferson Quijano, Alexandra Nicolas, Martin Messier, Antonio Rafael da Silva Junior, Marcelo Braga e Lícia Marques.

  Às/Aos autoras/es que, dedicando-se intensamente às pesquisas no campo dos estudos de gênero, dividiram publicamente suas experiências e elaborações, estimulando-nos a continuar abrindo caminhos.

  Com gratidão inestimável, aos sujeitos da minha pesquisa, intercambistas e membros das famílias anfitriãs entrevistadas/os e/ou observadas/os, verdadeiras/os coautoras/es deste texto, que com suas falas e experiências partilhadas muito me ensinaram e dão vida a este trabalho.

  Eles sem dúvida têm tido bastante dificuldade em reconhecer que sua história, sua economia, suas práticas sociais, a língua que eles falam, sua mitologia ancestral, até mesmo as fábulas contadas a eles na infância, obedecem a regras que não são dadas à sua consciência; eles dificilmente desejam ser despossuídos, além disso, desse discurso no qual eles querem poder dizer imediatamente, diretamente, o que eles pensam, acreditam ou imaginam; eles preferem negar que o discurso é uma prática complexa e diferenciada, sujeita a regras analisáveis e a transformações, em vez de serem privados dessa certeza suave, consoladora, de ser capazes de mudar, se não o mundo, se não a vida, pelo menos seu ‘sentido’, pelo simples frescor de uma palavra que provem apenas deles e permanece para sempre fechada à sua fonte. Tantas coisas, em sua linguagem, já escaparam a eles; eles não têm intenção de perder, além disso, o que eles dizem, esse pequeno fragmento de discurso

  • – fala ou escrita, pouco importa – cuja existência frágil e incerta é necessária para prolongar sua vida no tempo e no espaço. Eles não conseguem suportar
  • – e pode-se entendê-los um p
  • – ser falados: o discurso não é a vida; o tempo dele não é o de vocês [...] (FOUCAULT, 1991, p. 71-2).
RESUMO Estudo da produção discursiva do gênero e da sexualidade, bem como da individualidade nas relações entre intercambistas e membros de suas famílias anfitriãs, participantes de um programa de intercâmbio cultural em São Luís (MA). Apresentam-se os sujeitos da pesquisa, bem como seu contexto de convivência e seus marcadores sociais mais relevantes. Expõem-se os caminhos metodológicos e as referências teóricas utilizadas para a construção do objeto da investigação. Examinam-se as referências discursivas acionadas pelos sujeitos na produção do gênero, discutindo-se o processo de constituição de identidades binárias de gênero e sua característica de suplementaridade, bem como sua classificação hierárquica dentro de uma matriz heteronormativa de inteligibilidade do gênero. Analisa-se o trabalho performativo de corporificação de normas sociais realizado para a produção de um efeito estável do gênero e para a instituição de práticas da sexualidade tidas como legítimas, considerando-se, ainda, o mecanismo de exclusão de identidades abjetas. Descreve-se como é exercida a autoridade por parte dos membros adultos das famílias anfitriãs com relação às/aos filhas/os e intercambistas, discutindo-se os procedimentos de adestramento pelos quais se produz um tipo de identidade jovem nessas camadas sociais e apontando-se o papel da vigilância hierárquica como instrumento de controle e da performatividade como prática materializadora de ideais normativos que constroem diferenças geracionais. Destacam-se tensões discursivas entre concepções diferentes do indivíduo na convivência dos sujeitos pesquisados.

  Palavras-chave: Gênero. Sexualidade. Discurso. Intercâmbio. Identidade. Individualidade.

  ABSTRACT Study about the discursive production of gender and sexuality, as well as about individuality in the relationship between exchange students and their host family members, participating in a cultural exchange program in São Luís (MA). This paper presents the subjects of the research, as well the context of their experience of living together and their most important social markers. It also exposes the methodological paths and theoretical references used to build the object of research. It examines the discursive references activated by the subjects in the production of gender, discussing the process of constitution of binary gender identities and its feature of supplementarity, as well as its hierarchical classification within a heteronormative matrix of gender intelligibility. It analyzes the work of performative embodiment of social norms held for the production of a stable effect of gender and for the institution of practices of sexuality seen as legitimate, considering also the mechanism of exclusion of abject identities. The paper describes how the authority is exercised by the adult members of the host families regarding their daughters/sons and the exchange students, discussing the procedures of training through which a type of young identity is produced in these social strata and pointing out the role of hierarchical surveillance as an instrument of control and of performativity as the practice that materializes normative ideals that build up generational differences. It lays emphasis on the discursive clash of different conceptions of the individual in the experience of the researched subjects.

  Keywords: Gender. Sexuality. Discourse. Exchange. Identity. Individuality.

  SUMÁRIO INTRODUđấO............................................................................................

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  1

  16

  2 VEREDAS TEÓRICAS E METODOLÓGICAS.........................................

  16 2.1 O Programa de Ensino Médio no Brasil da empresa Via Mundo ................

  19 2.2 Os sujeitos da pesquisa e o percurso metodológico........................................

  34 2.3 Referências teóricas .....................................................................................

  3 PRODUđấO DISCURSIVA DO GÊNERO E DA SEXUALIDADE NAS

RELAđỏES ENTRE INTERCAMBISTAS E FAMễLIAS ANFITRIấS ...

  63

  3.1 Gendramentos: gêneros inteligíveis, hierarquias e performatividade de

  63

gênero .................................................................................................................

  3.1.1 A inteligibilidade heteronormativa ..................................................................

  63

  3.1.2 Construindo e questionando identidades e hierarquias de gênero .............................................................................................................................

  69

  3.1.3 Não ser mulher nem gay: referências discursivas para uma identidade de gênero hegemônica ............................................................................................

  77 3.1.4 Desobediências e deslocamentos no gênero .......................................................

  85 3.1.5 Estilizações corporais e performatividade de gênero ........................................

  90 3.2 Produzindo sexualidade a partir de falas, silêncios e segredos .....................

  94

  3.2.1 Sobre as mulheres “dóceis”, as “preparadas” e as “escandalosas”..................... 96

  3.2.2 “Ficar”, namorar e o exercício da sexualidade na casa da família anfitriã ......... 105

  3.2.3 Sexualidades “desviantes”, dispositivo do armário e abjeção de gênero ........... 112

  4 ENTRE ỀSUJEIđấOỂ E ỀAUTONOMIAỂ: RELAđỏES DE PODER, PRODUđấO DE DIFERENđAS GERACIONAIS E CONCEPđỏES DO

  118

  INDIVÍDUO

  4.1

  119

  “Eu sou sua mãe, eu sei; você não sabe. Eu sou sua autoridade; faça como eu disse!”: relações de hierarquia e processo de adestramento das/os jovens

  142

  4.2 “[...] eu faço coisas que eu quero e eu acho que minha família [anfitriã] não gosta muito disso”: a produção discursiva do indivíduo nas tensões entre perspectivas hierarquizantes e individualistas CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................ 160

  5 REFERÊNCIAS................................................................................................... 164

  O gênero e a sexualidade não são fatos naturais. Não se trata de algo com que já se nasça e que apenas se desdobraria no curso da vida, a partir de um núcleo original. São, na verdade, processos sociais e históricos complexos de produção de sujeitos, no curso dos quais interferem diferentes fatores e que envolvem, dentre outras coisas, a atualização e o questionamento de normas sociais regulatórias.

  São, por outro lado, e ao mesmo tempo, o efeito mais ou menos instável e incompleto desses processos, os quais têm início, para cada sujeito, muito antes de ele poder dar-se conta disso. Quando se conhece o resultado do exame que designa o sexo de uma/um

  1

  filha/o ou quando, antes desse momento, fantasia-se o bebê que se deseja ter, desde então já se desencadeia um intricado processo de produção do gênero e da sexualidade, que, relançado diversas vezes ao longo da vida social, nunca vão estar concluídos.

  As interpelações pelas quais se designa o sexo

  • – “É uma menina!”/“É um menino!” – longe de apenas referenciarem uma realidade, conformam a realidade a que se referem e fincam referências para a sua construção. A realidade do gênero e da sexualidade não é, afinal de contas, natural, biológica, mas linguageira e social; materializa-se no universo das construções simbólicas, das fabricações significantes em que estamos enredados enquanto seres falantes. Assim, tais ditos devem ser entendidos como performativos no sentido de que, em vez de simplesmente designarem o que a realidade é, produzem essa realidade mesma pela injunção de que assim seja.

  Mas, a realidade do gênero e da sexualidade não é uma mera decorrência direta e sem desvios de enunciações discursivas. Se coisas importantes, no que diz respeito ao gênero e à sexualidade, se produzem em momentos precoces da vida, desde as socializações 1 mais primárias, não é menos verdade que seu curso posterior se encarrega de pô-las à prova e

  

Pesquisadoras/es e teóricas/os dos estudos de gênero têm lançado mão de formas diferentes de escrita do

gênero gramatical na Língua Portuguesa, ora indicando os dois gêneros gramaticalmente possíveis (minha

opção no presente texto), ora substituindo o artigo indicador do gênero por um outro símbolo, como “x”, “*”

ou

  “@”, por exemplo (o “?” também é possível). Com minha opção por essa forma específica de escrita, não

pretendo propor a sua adoção generalizada, nem mesmo a sua preferibilidade, mas tão somente questionar a

naturalização da diferença sexual e da hierarquização a ela associada na língua, quando expressa em uma de

suas formas mais reificadas, a saber, aquilo que Mariza Corrêa (1999, p. 2), referindo-se à crítica feminista,

menciona como a “monopolização gramatical do universal”, a apropriação do masculino para se referir à

universalidade dos seres falantes. Em meu entendimento, expor essa dicotomia na escrita (e com a forma

feminina em primeiro lugar) possibilita a discussão do que fica invisibilizado no uso do masculino universal.

Quando o texto se referir a uma pessoa específica e for importante melhor caracterizá-la, utilizarei apenas a ensejar novos movimentos. A fabricação do gênero e da sexualidade se efetua através de repetições e ritualizações sustentadas em normas. Para Teresa de Lauretis (1994), a maneira como homens e mulheres são falados, pensados e diferenciados produz a diferença mesma entre ambos, de tal modo que essa diferença não preexiste à sua representação, mas é um efeito mesmo desse trabalho. Para a autora, está em jogo um processo constante pelo qual a construção do gênero é, ao mesmo tempo, sua desconstrução. E isso nos mais diferentes espaços sociais.

  O presente trabalho, sem nenhuma pretensão de exaustão do tema estudado, apresenta alguns aspectos da produção do gênero e da sexualidade no contexto da convivência entre jovens estrangeiras/os participantes de um programa de intercâmbio cultural e os grupos de camadas médias urbanas que as/os acolhem durante essa experiência na cidade de São Luís (MA). Seu foco principal recai sobre as produções discursivas de gênero e sexualidade realizadas por esses sujeitos no interior de um regime hegemônico de gênero e sobre possibilidades de deslocamento que se dão nesse contexto, levando-se em conta as disputas de poder que atravessam a convivência entre os sujeitos. Dadas as especificidades desta, este trabalho também aborda a produção de diferenças geracionais no contexto de relações hierárquicas de autoridade e de processos de individuação que perpassam essa convivência.

  O encontro com o tema de pesquisa se deu no curso de meu trabalho com

  2

  3

  intercâmbio cultural , desenvolvido no âmbito da empresa maranhense Via Mundo , que organiza, dentre outros, programas de intercâmbio cultural de ensino médio para estudantes estrangeiras/os em São Luís.

  As/Os participantes desses programas têm sido, de forma geral, categorizadas/os pela empresa como intercambistas, denominação esta que adotarei, neste trabalho, para me referir a tais sujeitos.

  Integro a equipe responsável pelo funcionamento do Programa de Ensino

  países, predominantemente europeus e norte-americanos. Lidando com intercambistas e 2 famílias anfitriãs, e também, a partir dos últimos anos, principalmente com as/os

  

Para fins deste trabalho, proponho entender os assim chamados programas de intercâmbio cultural como

viagens organizadas por instituições sem fins lucrativos ou empresas, nas quais estudantes têm a oportunidade

de viver em outro país por determinado período de tempo

  • – até um ano – aprendendo a língua do país

    escolhido, frequentando uma instituição educacional e morando com pessoas nativas daquele país. Está em

    jogo a ideia de troca de conhecimentos e perspectivas culturais entre as pessoas envolvidas durante o tempo de

  • 3 convivência. 4 A empresa iniciou suas atividades em 1999.

      

    Com o objetivo de situar o contexto em que se dá a convivência entre os sujeitos da pesquisa, apresentarei, no coordenadoras/es locais responsáveis por seu acompanhamento, travei contato com diversas situações que expunham algumas características e também desafios em jogo na convivência entre esses sujeitos. Pude observar que dificilmente a convivência entre eles

    • – e também entre esses sujeitos e as/os coordenadoras/es locais
    • se dava sem questionamentos, mal-entendidos e mesmo conflitos. A equipe do programa recebia periodicamente questões, pedidos de ajuda, reclamações e era demandada a intervir na relação entre os sujeitos, quer para mediar conversas, quer para solucionar um problema específico, inclusive, algumas vezes, para simplesmente providenciar a acomodação da/o intercambista com outra família anfitriã.

      Acompanhar o trabalho das/os coordenadoras/es locais me deu a oportunidade de perceber que as relações entre intercambistas e suas respectivas famílias anfitriãs

    • – bem como entre essas/es e as/os coordenadoras/es locais
    • – são, como todas as relações sociais, relações de poder, atravessadas por disputas nas quais os sujeitos buscam manter ou modificar situações de influência uns sobre os outros, numa dinâmica mais ou menos instável.

      Temas diversos apareceram no curso das observações que tive oportunidade de fazer. Começando pelo curioso fato de que as pessoas interessadas em hospedar uma/um intercambista costumavam colocar, logo de saída, o seu interesse por um gênero específico, na grande maioria das vezes, mulheres. Eu me perguntava, então, o que levava essas pessoas a demandarem hospedar uma mulher. Era apenas uma preferência? Que fatores influenciavam essa motivação? Que representações do gênero estavam na base desse desejo? Eu também me perguntava se essas mesmas representações não poderiam funcionar de modo a produzir uma determinada realidade, colocando limites dentro dos quais os sujeitos seriam engendrados conforme os significados sociais dominantes do “ser mulher” e “ser homem” no contexto local.

      Alguns exemplos ajudam a ilustrar essas questões. Alguns intercambistas se queixaram da pressão sobre eles exercida, geralmente por membros de suas famílias anfitriãs, para que se comportassem segundo certos padrões locais de masculinidade. Uma intercambista relatou, espantada, o episódio de que seu pai anfitrião, preocupado com que o filho de sete anos de idade viesse a se tornar homossexual, comprava-lhe revistas eróticas masculinas na expectativa de que, lendo tais revistas, a suposta tendência se revertesse.

      Em outras situações, intercambistas se mostraram surpresas/os ante a divisão do trabalho doméstico, com certas atividades cabendo exclusivamente às mulheres. Em mais de uma oportunidade, escutei relatos de intercambistas mulheres no sentido de que suas mães e/ou irmãs anfitriãs desaprovavam sua forma de se vestir, por considerá-la pouco feminina.

      Em várias situações, intercambistas também questionaram a forma pela qual mãe e/ou pai anfitrião exercia(m) autoridade, principalmente no que dizia respeito ao controle sobre sua liberdade de ir e vir e ao impedimento para fazer certas atividades. Muitas/os

      5

      e que, a princípio, sentiam-se intercambistas afirmaram desconhecer a prática do “ficar” incomodadas/os com ela, embora não fosse raro que elas/es acabassem vivenciando a experiência, pelo menos alguma vez, durante sua permanência em São Luís.

      Ao mesmo tempo, era comum que mães e/ou pais anfitriões procurassem a equipe do programa para reclamar de alguns comportamentos das/os intercambistas que hospedavam. Algumas reclamações recorrentes giravam em torno do grau de liberdade e autonomia que essas/es jovens buscavam ter em suas experiências. Outras diziam respeito a práticas de intimidade e/ou sexualidade consideradas inaceitáveis pelas famílias anfitriãs em questão. Outras, ainda, expunham certo descontentamento de pai e/ou mãe anfitriã com o que consideravam um desrespeito a sua autoridade por parte de intercambistas.

      Também fui testemunha de reclamações de membros das famílias anfitriãs sobre o isolamento e a falta de interação ou comunicação por parte de algumas/ns intercambistas, que costumariam passar muito tempo em seus quartos. Pude igualmente observar fortes reações por parte de pais e/ou mães anfitriãs no sentido de que a/o intercambista fosse imediatamente retirada/o de sua casa pela empresa.

      As diversas referências discursivas ligadas a esses temas me indicaram certa recorrência de questões que giravam em torno: das normas de gênero e dos significados atribuídos, a partir das mesmas, aos sujeitos, constituindo-os hierarquicamente em mulheres e homens; de práticas sexuais e de intimidade consideradas normais ou inaceitáveis; de referência a determinados padrões de relação entre as gerações; e da forma como os sujeitos se percebiam enquanto indivíduos.

      Nem todas as situações eram obviamente de conflito, embora estas fossem as mais comumente trazidas ao conhecimento da equipe do programa. Situações como as descritas acima me inquietaram ao ponto de eu querer constitui-las como problemas a serem aprofundados em uma investigação de campo, com vistas à produção de um trabalho dissertativo, suscitando as seguintes questões, dentre outras possíveis: O que é considerado permitido ou proibido aos sujeitos dessa relação em função do gênero e por quê? Que práticas 5 sexuais são relatadas como legítimas ou desviantes para homens e mulheres? O que uma

      

    O termo “ficar” é aqui utilizado para significar um tipo de relacionamento afetivo de caráter passageiro,

    eventual e aberto, no qual as pessoas não se sentem compromissadas ou envolvidas. Geralmente, incluem a

    prática de beijos, abraços, afagos, carícias, mas também relações sexuais, sem que o relacionamento se possível homossexualidade do filho teria de tão perturbador para um pai a ponto de o mesmo buscar evitá-la através da prática da leitura de revistas eróticas pelo filho? Por que as mulheres, intercambistas e irmãs anfitriãs, precisariam mostrar sua suposta feminilidade através das roupas que usam? O que incomoda as/os intercamb istas na prática do “ficar”? E por que, afinal, muitas/os acabam experimentando-a? Quais as razões para um controle às vezes tão forte da autonomia e da liberdade das/os intercambistas e, em particular, das mulheres por pai e/ou mãe anfitriã? Em que medida tal controle se relaciona ao exercício de um poder capaz de produzir hierarquias geracionais entre pessoas adultas e jovens? Por que algumas/ns pais e/ou mães anfitriãs se mostravam tão incomodadas/os ante uma perspectiva de negociação menos hierárquica com as/os intercambistas? Por que as queixas das famílias anfitriãs eram geralmente levadas ao conhecimento da empresa pelas mães anfitriãs?

      Tais questões convergem para uma problemática de pesquisa.

      “Ser homem” e “ser mulher” são significados de forma diversa e conflituosa por intercambistas e membros das famílias anfitriãs em sua convivência? Se o são, em que referências discursivas se sustentam as divergências que se expressam entre esses sujeitos? Em que sentidos as permissões, proibições com relação às condutas das/os intercambistas, os conselhos, queixas, solicitações de retirada das/os intercambistas das famílias anfitriãs, bem como queixas e relatos de conflitos, por parte de intercambistas, estão sintonizados aos discursos que instituem o gênero e a sexualidade como configurações de um heteronormatividade que se atualiza em/ou revela em formas diversas? Os conflitos apontados se remetem à ordem normativa do gênero?

      Tais questões me colocaram diante do desafio de buscar compreender que referências discursivas de gênero e sexualidade estavam em jogo na convivência entre intercambistas e membros das famílias anfitriãs e como esses discursos engendravam subjetividades. Como, afinal, o regime hegemônico de gênero se atualizava no interior dessas relações? A partir da formulação dessas questões, começou a se delinear uma problemática de pesquisa.

      De forma geral, busco, neste trabalho, compreender como famílias anfitriãs e intercambistas, no curso de suas relações de convivência (que são relações de poder), produzem, atualizam e questionam o gênero como norma. Mais especificamente, pretendo identificar através de que estratégias se dá a produção discursiva do gênero e da sexualidade nessas relações, destacando como as normas sociais são impostas, incorporadas, resistidas e/ou negociadas e que deslocamentos se revelam possíveis. A interpretação das falas dos interpretação e análise: a produção de diferenças geracionais e, em particular, da juventude, e as perspectivas dos sujeitos acerca de seu lugar como indivíduos no interior dessas relações.

      O presente trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro deles, apresento os sujeitos da pesquisa, situando o contexto no qual estabeleceram sua convivência, bem como os caminhos metodológicos percorridos para a construção da investigação. Discuto, ainda, as referências teóricas utilizadas para a análise do material construído.

      Nos demais capítulos, realizo a análise do material. No segundo, trato da produção discursiva do gênero e da sexualidade entre famílias anfitriãs e intercambistas e de suas referências na produção e contestação do gênero normativo, a partir das diversas situações relatadas.

      No terceiro capítulo, examino como se constroem discursivamente as relações de autoridade e as diferenças geracionais entre os sujeitos estudados, analisando a produção de um tipo de identidade jovem e suas características específicas no contexto local. Finalmente, analiso o modo como os sujeitos se situam discursivamente como indivíduos e as possíveis tensões existentes em seus relatos acerca dessa questão.

      Nas Considerações Finais, apresento os principais achados do trabalho com relação aos problemas inicialmente propostos, destacando que as questões permanecem abertas a futuros estudos e investigações.

      É sempre possível dizer o verdadeiro no espaço de uma exterioridade selvagem; mas não nos encontramos no verdadeiro senão obedecendo às regras de uma ‘polícia’ discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos (Michel Foucault, A ordem do discurso).

      O presente trabalho se situa dentro do horizonte mais amplo dos estudos sobre a produção das diferenças sociais e, em particular, da diferença sexual. Pareceu-me relevante tentar compreender como pessoas de diferentes contextos culturais transacionavam representações e normas de gênero e sexualidade, bem como diferenças geracionais e concepções do indivíduo. Busquei com a pesquisa uma melhor compreensão, principalmente, de como se dá o processo de produção social das subjetividades gendradas, bem como as possibilidades de agência dos sujeitos no interior de regimes normativos hegemônicos de poder. Em última instância, a pesquisa se alinha aos inúmeros esforços, no campo das ciências sociais, para compreender as formas de produção das diferenças sociais e os processos de classificação e hierarquização dos sujeitos.

      A pesquisa não foi

    • – como nunca poderia sê-lo – um caminho em linha reta, uma jornada em que eu já soubesse de antemão aonde ia chegar. Os limites inicialmente traçados foram sendo questionados ao longo da experiência efetiva, a qual exigiu constante reflexão crítica e incontáveis esforços de retomada. Do projeto inicial da pesquisa a este trabalho que materializa seus resultados, foram muitas as construções e desconstruções, que somente puderam ser realizadas através de recursos teóricos e metodológicos específicos, os quais foram delineando caminhos e construindo olhares possíveis.

      Trata-se, então, inicialmente, de situar as circunstâncias que possibilitam a convivência entre os sujeitos da pesquisa, através de uma breve descrição do programa de intercâmbio de que participam, apresentá-los e situá-los também do ponto de vista de alguns de seus marcadores sociais, bem como de discorrer sobre os caminhos metodológicos e teóricos percorridos para construir o objeto dessa investigação.

      É na medida em que participam desse programa que os sujeitos da pesquisa estabelecem uma convivência. Tal programa, iniciado em 2001, destina-se a jovens de 14 a 18 anos de idade, cursando o ensino médio em seus países de origem e propõe a elas/es a oportunidade de estudar em uma escola de ensino médio local, conviver em um grupo que as/os acolhe e cuida de sua hospedagem e alimentação, estudar português e participar de atividades diversas.

      A equipe de trabalho do referido programa é composta por cinco pessoas cujos cargos são assim denominados: um diretor geral, um coordenador geral, uma coordenadora local, um coordenador local e um estagiário. O diretor geral tem por função estabelecer as diretrizes para o programa e coordenar toda a equipe, além de realizar a divulgação do programa no exterior e firmar parcerias com as agências que selecionam as/os participantes para o mesmo. O coordenador geral

    • – função que me cabe na equipe – deve coordenar o trabalho dos coordenadores locais, que são as pessoas diretamente responsáveis pela seleção das acomodações, pela colocação das/os intercambistas nestas e nas escolas e pelo acompanhamento e suporte a todas/os as/os que participam do programa. Há uma coordenadora local estrangeira e um coordenador local da cidade. Um estagiário estrangeiro auxilia no desenvolvimento das diversas atividades da equipe.

      A empresa estabeleceu que, para participar do programa, as/os candidatas/os, além de estarem situadas/os na faixa etária entre 14 e 18 anos de idade, devem atender aos seguintes requisitos: bom desempenho acadêmico nos últimos dois anos imediatamente anteriores ao início do programa, o que significa ter alcançado, na escola, certa média mínima anual de notas, o que é aferido pela análise dos respectivos históricos escolares; boa saúde, o que é atestado por um médico no país de origem após exame clínico e preenchimento de formulário relativo à saúde da/o candidata/o; maturidade e disposição para se adaptar a um contexto cultural diferente, o que é aferido através de entrevista pessoal com a/o candidata/o, conduzida pela agência parceira da empresa no exterior; e, finalmente, que a decisão pela participação no programa seja da/o própria/o candidata/o e não de outras pessoas, como pais

      6 ou professores.

      Para se candidatar ao programa, as/os participantes preenchem, a princípio, um

      

    dossiê de inscrição (conjunto de formulários sobre aspectos diferentes de sua vida) e anexa

    alguns documentos exigidos (históricos escolares e cópia do passaporte, por exemplo).

      Contam, para isso, com a orientação de agências estrangeiras parceiras da empresa, através das quais se candidatam. Em seguida, esses dossiês são enviados à empresa para análise pela 6 equipe do programa que, então, decide pela aceitação ou não da/o candidata/o. Uma vez aceita/o a/o candidata/o, passa-se à sua colocação em uma escola e em uma acomodação. Depois de feita a colocação, são emitidos os documentos exigidos pelas autoridades consulares brasileiras no exterior e enviados às/aos participantes para a solicitação de visto temporário de estudos.

      ao Brasil. Essa lei prevê a concessão de vistos temporários a estrangeiras/os que venham ao

      8

      país no âmbito de programas de intercâmbio educacional. Uma resolução normativa , que complementa a referida lei, estabelece que as/os participantes de tais programas no Brasil devem ficar sob a responsabilidade de pessoas locais, na medida em que estabelece como

      9

      requisito para a solicitação do visto a qualificação dos responsáveis . Seguindo a tradição de programas similares em outros países, a empresa Via Mundo optou por adotar o modelo de acomodação das/os intercambistas com grupos locais, os quais são denominados pela empresa de famílias anfitriãs. Provavelmente, tal expressão é a tradução da expressão inglesa

      , que também pode ser traduzida por família hospedeira ou de acolhimento. Neste

      host family

      projeto, adotarei a categoria êmica família anfitriã para me referir aos grupos que acolhem as/os intercambistas durante seu programa em São Luís, bem como as expressões correlatas (pai anfitrião, mãe anfitriã, irmãos anfitriões etc.).

      A responsabilidade pelas/os intercambistas fica, assim, dividida entre a empresa e as famílias anfitriãs. No caso destas últimas, essa responsabilidade é estabelecida contratualmente. Os requisitos e responsabilidades contratuais para a participação das famílias anfitriãs no programa tais como estabelecidos pela empresa e colhidos junto aos documentos que analisei são os seguintes: a) concordância de todos os membros do grupo sobre o acolhimento da/o intercambista, o que é perguntando pela/o coordenadora/r local durante visita realizada na residência das pessoas; b) condições financeiras mínimas para acolher a/o intercambista, no sentido de que a acomodação da/o mesma/o não deve trazer impacto financeiro negativo no orçamento do grupo (nenhum documento de renda é analisado; a empresa apenas solicita que as pessoas responsáveis pelo sustento financeiro do grupo assim o declarem); c) disponibilização de quarto individual ou dividido com filha/o do mesmo sexo

      7 o Lei n.

      6. 815, de 19 de agosto de 1980, conhecida popularmente como “Estatuto do Estrangeiro”, que define a situação jurídica do estrangeiro no Brasil e cria o Conselho Nacional de Imigração.

      8 o

    Resolução normativa n. 49, de 19 de dezembro de 2000, do Conselho Nacional de Imigração, que disciplina a

    concessão de visto a estrangeiros que venham estudar no Brasil no âmbito de programa de intercâmbio

    educacional.

      

    intercambistas que viajem ao Brasil em programas de intercâmbio educacional não são consideradas/os

    autônomas/os, devendo ficar, durante sua permanência no país, sob a responsabilidade de outras pessoas. As e cama individual para acomodação da/o intercambista; d) oferecimento de três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) à/ao intercambista; e) ausência de registros de antecedentes criminais relativos às pessoas do grupo.

      Após a candidatura a participar do programa, que se dá pelo preenchimento de uma ficha de cadastro, uma/um coordenadora/r local visita as pessoas em sua residência para uma entrevista. Em seguida, a equipe do programa se reúne para discutir a aceitação do grupo o qual, se aprovado, passa a aguardar que a/o coordenadora/r local lhe envie o dossiê de inscrição de uma/um intercambista para análise. Quando decidem acolher a/o intercambista, a então denominada família anfitriã assina um contrato através do qual assume formalmente as responsabilidades acima descritas.

      As assim chamadas famílias anfitriãs não são remuneradas por sua participação no programa e o contrato pode ser unilateralmente rescindido pelas mesmas, com a respectiva interrupção de sua participação e subsequente desobrigação de acomodar a/o intercambista, situação em que esta/e é então acomodada/o com outra família anfitriã. Antes da chegada das/os intercambistas a São Luís, a empresa organiza dois encontros com as famílias anfitriãs participantes para orientação sobre os aspectos gerais e o funcionamento do Programa e sobre os desafios da experiência de intercâmbio cultural, o que inclui a discussão de diferenças culturais importantes como as diferenças de comportamento religioso, sexual e de relacionamento entre as gerações, dentre outras.

      Quanto ao aspecto escolar, as/os intercambistas têm estudado em escolas

      10

      particulares de ensino médio da cidade. Além de estudar em uma escola de ensino médio, as/os intercambistas frequentam aulas de português no âmbito da empresa durante o primeiro semestre do Programa.

      Tendo descrito, em linhas gerais, a organização e o funcionamento do programa, no âmbito do qual se deu a convivência entre os sujeitos da pesquisa, passo a apresentá-los e caracterizá-los, bem como a expor as perspectivas metodológicas que nortearam a investigação.

      Segundo informações obtidas na empresa, podem participar do programa de intercâmbio cultural grupos que não correspondam ao modelo tradicional de família nuclear, com mãe, pai e filha/o(s). Percebi, no entanto, que, dentre as famílias observadas e/ou entrevistadas, havia, predominantemente, famílias nucleares, originárias ou recompostas (novas uniões que incluíam filhas/os oriundas/os de relações ou casamentos anteriores dos cônjuges). Essas pessoas se inscreveram para participar do programa através de estandes realizados pela empresa em escolas de ensino médio em São Luís, através do site da empresa ou pessoalmente na sede da mesma. Essa inscrição se deu através do preenchimento de ficha de cadastro. Em seguida, uma/um coordenadora/r local da empresa visitou cada grupo em sua residência, preenchendo, nessa ocasião, um formulário de entrevista.

      A partir da análise das fichas e formulários das famílias anfitriãs entrevistadas, pude perceber que pertencem a camadas médias urbanas de São Luís. É impossível delimitar fronteiras rígidas que permitam categorizar, de forma cabal, tais grupos em sua posição

      11

      social. No entanto, alguns indicadores nos permitem classificá-las nessa categoria: a profissão da mãe e/ou do pai (empresárias/os, profissionais autônomas/os, funcionárias/os públicas/os municipais, estaduais e federais de escalões variados) e seu nível de escolaridade (geralmente superior, mas no mínimo médio), bem como as escolas onde as/os filhas/os estudam (escolas particulares de ensino médio). Como não há a exigência de comprovação de renda por essas pessoas para que se inscrevam e participem do programa, tal dado não consta da ficha de cadastro da empresa e por isso não foi analisado. Os bairros e os tipos de residência também nos servem como indicativos de seu posicionamento predominantemente em camadas médias da população. As famílias anfitriãs entrevistadas e/ou observadas residiam no São Francisco, no Renascença, no Turu, no Anil, no Residencial Novo Tempo II, no Olho D’Água e no Araçagi.

      As/Os jovens que participaram como intercambistas do programa de intercâmbio cultural durante o tempo em que realizei minha pesquisa eram oriundas/os de diversos países: Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, EUA e Holanda. Com base na análise de seus dossiês de inscrição, pude constatar que as/os mesmas/os são, por sua vez, também oriundos de camadas médias urbanas em seus países de origem, tanto das capitais como de cidades do interior. Os dados que constam dos referidos dossiês de inscrição analisados e que permitem categorizar as famílias como de camadas médias são, principalmente, a escolaridade e as profissões do pai e da mãe, bem como algumas

      

    social. Quaisquer critérios utilizados para tal categorização não devem ser tomados como absolutos, mas características do estilo de vida das famílias (viagens a diversos países, interesses e atividades prediletas, por exemplo).

      Os custos da participação das/os intercambistas no programa foram quase sempre arcados por pessoas de suas próprias famílias de origem ou, com bem menor frequência, financiados, de forma total ou parcial, pelos governos de seus países através de bolsas de estudo. As/Os intercambistas se inscreveram no programa através de agências parceiras da empresa Via Mundo nesses países e escolheram elas/es próprias/os a duração de sua estadia, que podia ser de um semestre ou um ano. A maioria delas/es viveu em São Luís durante o período de um ano, a partir de julho de 2011 até meados de junho ou início de julho de 2012. Também houve, embora em menor número, intercambistas iniciando seus programas em meados do mês de janeiro de 2012 e encerrando-os em dezembro do mesmo ano ou iniciando-os em meados de julho de 2012, com previsão de término para junho/julho de 2013.

      O material etnográfico consistiu de vinte e três entrevistas, sendo seis com

      12

      famílias anfitriãs, dezesseis com intercambistas (onze mulheres e cinco homens) e uma com coordenador local da empresa, no período de dezembro de 2011 a dezembro de 2012. As entrevistas foram demandadas a membros das famílias anfitriãs e intercambistas que estavam atravessando, naquele momento, a experiência de convivência ou que a tivessem concluído há pouco tempo. As entrevistas foram solicitadas diretamente, por e-mail, telefone ou mensagens na rede social Facebook, bastante utilizada pelas/os intercambistas. Realizei também observações: por ocasião das entrevistas, de forma suplementar a elas; na empresa, durante conversas entre as famílias anfitriãs e/ou intercambistas com a/o coordenadora/r local do programa; e também durante quatro eventos realizados pela empresa: três reuniões para orientação de famílias anfitriãs antes do início da experiência de convivência e uma reunião com famílias anfitriãs durante o período de convivência para discutir o andamento da mesma e as possíveis dificuldades e desafios. As observações foram registradas em anotações no meu caderno de campo.

      De todas as entrevistas solicitadas às famílias anfitriãs, cinco foram aceitas, mas não realizadas. Após um primeiro contato em que (geralmente) a mãe anfitriã confirmou a possibilidade de realização da entrevista, não houve mais retorno aos meus contatos posteriores. Apesar de ter solicitado conversar com todos os membros da família anfitriã, em 12 apenas três das seis entrevistas realizadas de fato as/os irmãs/ãos anfitriãs/ões participaram.

      

    Desde o início, tratava-se para mim de entrevistar igualmente mulheres e homens, sendo que, no momento da

    pesquisa, havia bem mais mulheres que homens participando do programa de intercâmbio em São Luís, o que Em uma dessas entrevistas apenas, mãe e irmã anfitriã da intercambista falaram por um tempo mais ou menos igual. Nas outras duas, as/os irmãs/ãos anfitriãs/ões falaram durante momentos muito pontuais. Quanto às/aos intercambistas, das entrevistas solicitadas, cinco foram aceitas, mas não realizadas. Destas, apenas uma foi abertamente recusada.

      O quadro abaixo apresenta algumas informações relevantes sobre os membros das famílias anfitriãs e as/os intercambistas que foram entrevistadas/os e/ou observada/os ao longo da pesquisa:

    FAMÍLIAS ANFITRIÃS ANA Mãe anfitriã. 42 anos. Cor da pele branca. FAMÍLIA ANFITRIÃ A Casada. Graduada (ensino superior)

      Católica. ANDRÉ Pai anfitrião. 44 anos. Cor da pele parda.

      Casado. Graduado (Ensino superior). Católico. AMANDA Irmã anfitriã. 16 anos. Cor da pele parda.

      Estudante. Católica. Hospedaram as intercambistas Joanne, Monica e Olivia, em diferentes momentos. Apenas a primeira foi entrevistada.

      BEATRIZ Mãe anfitriã. 41 anos. Cor da pele parda.

    FAMÍLIA ANFITRIÃ B Casada. Pós-graduada. Católica

      BERNARDO Pai anfitrião. 49 anos. Cor da pele negra.

      Casado. Pós-graduado. Católico. BIANCA Irmã anfitriã. 17 anos. Cor da pele parda.

      Estudante. Católica. Não participou da entrevista. Hospedaram a intercambista Lara, que não foi entrevistada.

    FAMÍLIA ANFITRIÃ C CRISTINA Mãe anfitriã. 34 anos. Cor da pele parda

      Casada. Pós-graduada. Educação evangélica, mas não é praticante. CARLOS Pai anfitrião. 59 anos. Cor da pele branca.

      Casado. Graduado (ensino superior). Evangélico. Não participou da entrevista. CAMILA Irmã anfitriã. 14 anos. Cor da pele parda.

      Estudante. Não foi possível saber sua religião. Não participou da entrevista. Hospedaram a intercambista Kate, que não foi entrevistada.

      DALVA Mãe anfitriã. 47 anos. Cor da pele negra.

      FAMÍLIA ANFITRIÃ D Divorciada. Pós-graduada. Católica.

      DENISE Irmã anfitriã. 17 anos. Cor da pele negra.

      Estudante. Católica. Hospedaram a intercambista Emily, a qual foi entrevistada.

      ELEN Mãe anfitriã. 47 anos. Cor da pele branca.

    FAMÍLIA ANFITRIÃ E Casada. Graduada (ensino superior)

      Católica. EDUARDO Pai anfitrião. 49 anos. Cor da pele branca.

      Casado. Graduado (ensino superior). Católico. ÉRICO Irmão anfitrião. 20 anos. Cor da pele branca.

      Estudante. Católico. ESTER Irmã anfitriã. 17 anos. Cor da pele branca.

      Estudante. Católica. Hospedaram a intercambista Rebecca, que não foi entrevistada.

      FÁTIMA Mãe anfitriã. 52 anos. Cor da pele parda.

    FAMÍLIA ANFITRIÃ F Casada. Graduada (ensino superior)

      Católica. FRANCISO Pai anfitrião. 64 anos. Cor da pele parda.

      Casado. Pós-graduado. Católico. FLÁVIA Irmã anfitriã. 17 anos. Cor da pele parda.

      Estudante. Católica. Hospedaram a intercambista Sandra, que não foi entrevistada.

      GRAÇA Mãe anfitriã. 42 anos. Cor da pele parda.

    FAMÍLIA ANFITRIÃ G Casada. Graduado (ensino médio)

      Evangélica. GLAUBER Pai anfitrião. 44 anos. Cor da pele parda.

      Casado. Graduado (ensino superior). Evangélico. GLENDA Irmã anfitriã. 15 anos. Cor da pela parda.

      Estudante. Evangélica. GLÁUCIA Irmã anfitriã. 14 anos. Cor da pela parda.

      Estudante. Evangélica. Hospedaram o intercambista Erick, que não foi entrevistado. Esta família anfitriã não foi entrevistada, mas apenas observada por ocasião de eventos e conversas na empresa.

    INTERCAMBISTAS

      18 anos. Cor da pele branca. Católica. Viveu por um ano em São

      ALICE Luís com uma mesma família anfitriã. Foi entrevistada.

    ADRIAN 19 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Viveu

      por um ano em São Luís com uma mesma família anfitriã. Foi entrevistado. 19 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Viveu

    BARBARA

      por um ano em São Luís, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada. 16 anos. Cor da pele branca. Da Europa Central. Protestante. Viveu

    BRYAN

      por um ano em São Luís, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistado. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Iria

    CAROLINE

      viver por um ano em São Luís, mas veio a ser desligada do programa no mês de maio/2012 pela empresa Via Mundo, um mês antes de seu

      13

      término oficial, por violação de regras do programa . Morou com uma mesma família anfitriã. Foi entrevistada. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Central. Declarou não seguir

    CHARLES

      nenhuma religião. Viveu por um ano em São Luís, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistado. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Declarou não

    DIANA

      seguir nenhuma religião e não frequentava serviços religiosos em 13 São Luís. Viveu em São Luís por um ano com uma família anfitriã.

      

    A empresa Via Mundo estabelece uma série de regras para o funcionamento do Programa de Ensino Médio no

    Brasil , as quais estão listadas no dossiê de inscrição que as/os intercambistas preenchem ao se candidatar. Tais

    regras preveem três punições possíveis: “advertência”, “probação” e “desligamento”. São várias as situações

    que ensejam punições, destacando-se o consumo de bebidas alcoolicas por intercambistas com menos de 18

    anos ou de drogas ilícitas, condução de veículos motorizados, baixo desempenho ou frequência escolar, bem

      Foi entrevistada. 18 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Iria

    EMILY

      viver por um ano em São Luís, mas se desligou do programa por iniciativa própria aproximadamente três meses antes de seu término oficial, por não conseguir se adaptar à experiência escolar. Viveu com uma mesma família anfitriã. Foi entrevistada. 16 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Está

    ERICK

      atualmente em São Luís, vivendo com uma segunda família anfitriã, com previsão de permanência de um ano. Observei situações envolvendo o intercambista e as registrei em caderno de campo. 15 anos. Cor da pele branca. Da Europa Central. Protestante. Viveu

    FERNANDA

      por um ano em São Luís, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada. 18 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Declarou não

    FRANK

      seguir nenhuma religião. Iria viver por um ano em São Luís, mas se desligou do programa por iniciativa própria aproximadamente quatro meses antes de seu término oficial, por não conseguir se adaptar a alguns aspectos culturais. Viveu com duas famílias anfitriãs. Tive com ele conversas informais, não gravadas, e registrei as informações em caderno de campo. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Viveu

    GISELLE

      em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Central. Protestante. Viveu

    GUSTAV

      em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistado.

      

    HANNAH 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Ocidental. Protestante.

      Viveu em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Central. Protestante (não

    HERALD

      praticante). Viveu em São Luís por um ano, com uma família anfitriã. Foi entrevistado. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Está

      IAN atualmente em São Luís, vivendo com uma segunda família anfitriã, com previsão de permanência de um ano. Tive com o intercambista conversas informais, bem como observei situações envolvendo o mesmo e as registrei em caderno de campo. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Iria

    INGRID

      viver por um ano em São Luís, mas se desligou do programa por iniciativa própria aproximadamente dois meses antes de seu término oficial, alegando que “não conseguia se adaptar à cultura”. Morou com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada.

      16 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Declarou não

    JOANNE

      seguir nenhuma religião. Viveu em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs. Foi entrevistada. 16 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Protestante. Viveu

    KATE

      em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs. Observei situações envolvendo a intercambista e as registrei em caderno de campo. 17 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Cristã. Viveu em

    LARA

      São Luís por um semestre, com uma mesma família anfitriã, vindo a ser desligada por violação de regras do programa. Observei situações envolvendo a intercambista e as registrei em caderno de campo. 15 anos. Cor da pele branca. Da América do Norte. Protestante.

      NATALIE Viveu em São Luís por um ano, com duas famílias anfitriãs.

      Observei situações envolvendo a intercambista e as registrei em caderno de campo. 17 anos. Cor da pele parda. Da Europa Nórdica. Declarou não seguir

    TANYA

      nenhuma religião. Viveu em São Luís por um ano, com três famílias anfitriãs. Foi entrevistada.

    COORDENADORA/R LOCAL DA EMPRESA DE INTERCÂMBIO

      25 anos. Cor da pele parda. Brasileiro. Convivente. Graduado

      GEORGE (ensino superior). Católico. Foi entrevistado.

      30 anos. Cor da pele branca. Da Europa Nórdica. Solteira. Pós-

      MARIA

      graduada. Sem religião. Tive com ela diversas conversas informais, ao mesmo tempo em que pude observar vários contatos seus com intercambistas e famílias anfitriãs no âmbito da empresa, registrando as informações em meu caderno de campo.

      Algumas explicações ajudam a melhor compreender o quadro cima. Utilizei nomes fictícios. Os membros das famílias anfitriãs foram sempre referidos por relação à/ao intercambista. No que se refere à localidade de origem das/os intercambistas, a maioria me solicitou não revelar seu país de origem, vez que, em função de algumas situações narradas, seriam facilmente identificadas/os. Acolhendo seu pedido, mas entendendo que o pertencimento a determinada localidade ou região é um elemento sociológico relevante para as análises que farei a seguir, optei por registrar não o país, mas o continente de origem e a região dentro dele. Quanto à cor da pele, um marcador de classificação racial privilegiado, utilizei as categorias que constam do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e

    • – IBGE maior quanto à cor da pele. Quanto às famílias anfitriãs, percebi uma maior miscigenação étnica.

      As entrevistas com as famílias anfitriãs foram realizadas na própria residência das/os entrevistadas/os, com exceção de uma delas em que a mãe anfitriã pediu para ser entrevistada sozinha na própria empresa, vez que atravessava dificuldades na relação com o marido, as quais repercutiram na própria experiência de convivência com a intercambista que hospedavam. Ao propor entrevistar os membros das famílias anfitriãs juntos, eu visava perceber as possíveis tensões e dissensos que poderiam existir entre as falas dos membros adultos e jovens. Isso foi possível na única entrevista em que mãe e irmã anfitriãs falaram em tempo mais ou menos igual. Nas demais entrevistas, como expus acima, ou as/os irmãs/ãos anfitriãs/ões não participaram ou sua fala foi muito restrita, o que nos revelou, no entanto, um dado importante para a pesquisa: uma visível dissimetria nas relações entre membros adultos e jovens nesses grupos.

      Percebi, assim, o funcionamento de um regime discursivo em que os membros adultos da família anfitriã tinham suas falas valorizadas em detrimento das falas das/os jovens. O que estas/es teriam a dizer não parecia ser considerado de igual valor ou tão relevante quanto aquilo que as/os adultas/os diziam. Isso nos revela o que Michel Foucault (2010b, p. 9) descreve ao tratar dos procedimentos através dos quais a produção do discurso é 14 controlada e organizada com vistas a “conjurar seus poderes e perigos, dominar seu

      

    As categorias de cor ou raça utilizadas pelo IBGE no censo de 2012 são: preta, parda, amarela, branca e acontecimento aleatório”. Ao analisar os procedimentos de exclusão, ele destaca a interdição como sendo o mais familiar e que se caracteriza pelo tabu do objeto (não se tem o direito de dizer tudo), pelo ritual da circunstância (não se pode falar de tudo em qualquer ocasião) e pelo

      

    direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala (qualquer um não pode falar de

      qualquer coisa). Os membros adultos da família anfitriã gozariam, portanto, dentro desse regime discursivo, do direito privilegiado ou exclusivo de falar, produzindo, dessa forma, a manutenção de uma posição hierarquicamente superior frente às falas das/os jovens. Trata-se, parece-me, de buscar conjurar um perigo. Cynthia Sarti (2004, p. 123) nos ajuda a pensar a questão ao afirmar que o lugar do jovem é:

      [...] aquele de quem introduz o ‘outro’ necessário da família, por meio de novos discursos que abalam o discurso oficial

    • – seja pela ruptura, pela inversão ou, mesmo, pela reafirmação deste discurso. Reações diversas
    • – de fechamento ou de abertura ante o estr
    • – serão decisivas para as relações familiares e, particularmente, para o lugar do jovem, em busca de uma identidade própria, que se constrói pelas várias alteridades com as quais se confronta.

      Torna-se mais claro por que o discurso da/o jovem deveria ser controlado na medida em que, pelo menos, potencialmente, apresenta-se como desestabilizador pelas referências outras que pode mobilizar frente aos discursos oficiais de seus meios de convivência, em particular a família.

      As entrevistas foram todas realizadas no âmbito da empresa, com exceção de uma, realizada no próprio endereço de residência do intercambista em São Luís. Esta entrevista foi feita no salão de festas do condomínio, vez que sua mãe anfitriã estava presente no apartamento e ele não se sentia à vontade para falar em sua presença. As/Os intercambistas me pareceram bastante abertas/os e se expressaram com facilidade sobre os diversos temas abordados. Fiquei surpreso com o grau relativamente alto de reflexividade que a maioria delas/es exercitou ao falar de suas experiências, o que também me pareceu bastante significativo e indicativo de uma particularidade que se manifestou em diferentes situações relatadas em entrevistas e também observadas. Trata-se de certa noção de individualidade diferente da que se pode comumente perceber com relação a jovens da mesma idade no contexto local, o que merece uma tentativa de compreensão. Retornarei esse tópico mais adiante.

      As entrevistas foram realizadas durante um momento em que as/os intercambistas já falavam razoavelmente bem o português. No entanto, apenas algumas entrevistas foram completamente realizadas nessa língua; as demais foram realizadas em inglês ou mesclaram ambas as línguas. As entrevistas foram todas gravadas com o consentimento das/os entrevistadas/os e duraram, no mínimo, uma hora e, no máximo, duas horas e quinze minutos, sendo o tempo médio delas de uma hora e trinta minutos, aproximadamente. No início de cada entrevista, firmei com as/os entrevistadas/os um compromisso segundo o qual: a) as informações trocadas seriam apenas utilizadas para fins do trabalho de pesquisa e não seriam levadas nem ao conhecimento da empresa, inclusive as que envolvessem a violação de regras do programa, nem ao das famílias anfitriãs, no caso das entrevistas com intercambistas, nem, ainda, ao destas/es, no caso das entrevistas com famílias anfitriãs; b) ao utilizar informações da entrevista em um futuro trabalho, eu cuidaria para que as/os entrevistados não pudessem ser identificadas/os, omitindo algumas informações (como a nacionalidade das/os intercambistas, por exemplo) e/ou alterando outras que facilitassem sua identificação (como os nomes, por exemplo); e c) eu poderia disponibilizar uma cópia da entrevista caso elas/es me solicitassem. Apenas um intercambista me solicitou uma cópia da de sua entrevista. Algumas/ns intercambistas, mais que os membros das famílias anfitriãs entrevistadas/os, mostraram preocupação com sua possível identificação futura. Por outro lado, percebi que as/os intercambistas falaram de maneira mais espontânea sobre situações difíceis e conflituosas do que os membros das famílias anfitriãs. Escutei todas as gravações e efetuei, eu mesmo, suas transcrições, evitando, assim, a identificação das/os entrevistadas/os. As transcrições foram todas feitas em língua portuguesa. Depois de transcritas as entrevistas, li-as mais de uma vez, efetuei recortes e seleções de várias passagens que me pareceram significativas e esclarecedoras acerca da problemática da pesquisa.

      As/os intercambistas me pareceram bastante à vontade para tratar de qualquer tema comigo. Apontaria talvez uma única situação em que uma das intercambistas considerou uma pergunta sobre suas experiências afetivas muito pessoal, mas acabou, na sequência, falando do tema sem maiores resistências. Nas famílias anfitriãs, em apenas uma das entrevistas, percebi que a mãe anfitriã falava bem menos que o pai anfitrião. Nas demais, quando não se tratava apenas de entrevista com uma só mãe ou pai anfitrião, houve um equilíbrio e mesmo uma disputa pela oportunidade de falar.

      Percebei que foi mais fácil ter acesso a entrevistar as/os intercambistas que as famílias anfitriãs e me perguntei sobre o sentido disso. Da mesma forma, algumas/ns intercambistas também acabaram por não buscar efetivar o encontro para a entrevista. A falta de retorno de alguns membros das famílias anfitriãs bem como a falta de contato da/o intercambista depois do aceite podem ser consideradas como recusas veladas ou tácitas à

      Tania Salem (1978, p. 49) comenta sobre essa situação quanto a seu trabalho de campo, baseado em entrevistas com famílias de camadas médias. Algumas delas, segundo relata, se negaram a aceitar uma primeira visita, na qual ela daria detalhes sobre a pesquisa. Alegaram, em geral, que o tema era muito particular para ser conversado com estranhos. Em uma situação apenas, não houve, conforme a autora, uma negativa direta, mas um possível encontro foi sendo adiado por sucessivas e diferentes alegações, até que a pesquisadora desistiu.

      Segundo Stéphane Beaud e Florence Weber (2007, p. 127-8), as entrevistas que são negadas o são, antes de tudo, por razões objetivas: a posição social dos pesquisados (sentimento forte de desvalorização social, conjuntura difícil ou posição institucional crítica ou muito exposta); a percepção dos efeitos que a pesquisa pode ter na vida profissional ou doméstica do pesquisado; e a percepção da inscrição da/o pesquisadora/r no meio pesquisado.

    Acrescentam que as recusas não podem ser interpretadas só como “fracassos”, por serem sempre instrutivas sob a condição de que se reserve tempo para analisar as razões

      Sem pretender oferecer uma explicação, intuí com as recusas uma tentativa de evitar a exposição de informações que talvez conflitassem com e pusessem em xeque a imagem que os sujeitos se esforçavam em promover publicamente, o que não pode, a meu ver, ser desvinculado de sua posição social enquanto pessoas localizadas em camadas sociais médias.

      Para a realização das entrevistas, utilizei-me de um roteiro inicial aberto, de modo a possibilitar falas mais extensas, desdobramentos em torno das seguintes questões: a)

      Para entrevistar as famílias anfitriãs:  Por que decidiram receber uma/um intercambista e de quem partiu a iniciativa de se cadastrar;  Informações sobre os membros da família anfitriã;  Desafios, dificuldades e possíveis conflitos com a/o intercambista;  Em que a/o intercambista é diferente das mulheres ou dos homens da família anfitriã e de seu círculo de convivência;  Em que a/o intercambista mudou desde a sua chegada;  Que mudanças ocorreram nos membros da família anfitriã em função da convivência com a/o intercambista.

      b) Para entrevistar as/os intercambistas:

       Por que escolheu o Brasil como destino de intercâmbio cultural;

       Qual o conhecimento prévio sobre o país;  Impressões iniciais, logo ao chegar a São Luís;  Informações sobre a família de origem e sobre a família anfitriã;  Desafios, dificuldades e possíveis conflitos com a família anfitriã;  Como é o relacionamento com a mãe o pai anfitrião e com irmã/irmão anfitriã/ão;  Em que ser mulher ou ser homem em São Luís é diferente por comparação com o contexto cultural de origem;  Em que sentiu que mudou desde sua chegada a São Luís e se houve mudanças na forma de se vestir.

      c) Para entrevistar a/o coordenadora/r local:

       Como são selecionadas as famílias anfitriãs;  As famílias anfitriãs que participam são em sua maioria de camadas populares, médias ou de elite;  Participam mais intercambistas mulheres ou homens;  Como é a relação entre você como coordenadora/r local e a/o intercambista;  Que problemas ou conflitos são mais comumente trazidos a você por famílias anfitriãs e intercambistas;  Quem vivencia mais problemas: as intercambistas mulheres ou os homens?  Há problemas que giram em torno das relações afetivas, amorosas de intimidade e das práticas sexuais;  Quem traz mais problemas ao conhecimento de vocês;  Que tipo de vínculo se forma entre intercambistas e famílias anfitriãs; No mais, cuidei para que as/os entrevistadas/os pudessem se expressar sobre outras temáticas e falar o mais livremente possível. É importante registrar que algumas das temáticas previstas em meu roteiro inicial acima acabaram por ser espontaneamente trazidas pelas/os próprias/os entrevistadas/os no curso do diálogo. Igualmente, nem sempre as/os entrevistadas/os responderam algumas das questões propostas, desviando-se para outros temas. Em algumas situações, quando considerei importante que respondessem uma determinada questão antes proposta e não respondida, voltei a colocá-la, cuidando para não utilizar um tom autoritário.

      De modo geral, fui sempre muito bem tratado e recebido pelas/os entrevistadas/os, o que também pode ter a ver com o fato de que algumas pessoas já me conheciam da empresa, e me senti muito mais ansioso antes das entrevistas com os membros das famílias anfitriãs. Igualmente, não pude deixar de experimentar a sensação de que, estando nas casas das famílias anfitriãs, me sentia como que invadindo sua privacidade.

      Ainda que se argumente ser a observação a principal ferramenta da pesquisa etnográfica e a entrevista seu complemento mais ou menos indispensável (BEAUD; WEBER, 2007, p. 118), há pesquisas de campo que, pelas características de seu objeto, devem se apoiar mais em entrevistas etnográficas, suplementadas por observações. Foi o caso desta pesquisa, a qual privilegiou as entrevistas como principal ferramenta para a construção dos dados. Ora, seria muito difícil, em vários sentidos, instalar-me como observador participante no seio das famílias anfitriãs pesquisadas. Por outro lado, ainda que tal estratégia fosse adotada, ela não garantiria por si mesma acesso às situações capazes de expor os conteúdos sociais objeto da investigação. “[...] se o pesquisador não pode observar in situ, pede aos pesquisados que lhe relatem suas próprias observações” (BEAUD; WEBER, 2007, p. 118). Assim, é que elegi como ferramenta mais apropriada à pesquisa a das entrevistas aprofundadas, tendo em mente que elas não podem ser isoladas da situação da pesquisa (e, portanto, tratei de suplementá-las com observações sempre que possível) e que as falas das/os entrevistadas/os não adquirem peso por si sós, mas necessitam ser referidas aos contextos enunciativos e relacionadas com elementos exteriores a elas. Da mesma forma, seguindo os ensinamentos de Stéphane Beaud e Florence Weber (2007, p. 119), tivemos sempre em mente que o número de entrevistas a realizar era uma falsa questão, na medida em que as várias entrevistas têm diferentes status e que “[...] não visam a produzir dados quantitativos e, portanto, não precisam ser numerosas”.

    Tratava-se, afinal de contas, de faz er aparecer a “singularidade do ponto de vista” da/o

      entrevistada/o.

      Finalmente, sobre esse tópico, cuidei para que a interpretação das entrevistas não repousasse apenas sobre sua transcrição. Sempre após cada entrevista, registrei em meu caderno de campo as circunstâncias da mesma, adiantando ali alguns esboços de interpretação e as ideias e impressões mais fortes que me ocorriam, pois me apareciam como preciosas para buscar essa singularidade de que falei há pouco. Da mesma forma, durante as próprias transcrições, estive atento ao tom das/os entrevistadas/os ao enunciar certos relatos e, obviamente, também aos seus silêncios, ou seja, a formas de comunicação que não se dessem apenas pela literalidade das palavras enunciadas e que pudessem ajudar a esclarecer questões importantes da pesquisa.

      Um dos desafios da investigação não foi apenas o fato de estar pesquisando frente a temáticas com as quais estava habituado a lidar a partir de meu trabalho como coordenador geral do programa de intercâmbio cultural. O principal desafio consistiu em buscar não pensar o objeto de pesquisa a partir das categorias nativas, já bastante naturalizadas em seu uso (como a de família, por exemplo). Em vários momentos, fiz questão de pensar a diferença entre buscar um bom funcionamento para o programa, o que incluía a elaboração de vários juízos normativos (minha função como coordenador geral), e compreender como e por que se davam as disputas de poder entre intercambistas e famílias anfitriãs principalmente no tocante às relações de gênero (minha função como pesquisador), o que implicava, dentre outras coisas, em pensar, inclusive, na participação que eu próprio e os demais membros da equipe do programa tínhamos nessa produção. Esse exercício, nem sempre fácil, de objetivação foi aprofundado através da prática de escrever da forma mais densa possível

      15

      e com a discussão dessa produção escrita com minha Orientadora, que a partir de seu estranhamento de algumas elaborações me apontou questões importantes a pensar.

      Tratou-se, para mim enquanto pesquisador, do exercício de buscar “transformar o familiar em exótico”, nas palavras de Gilberto Velho (1978, p. 28, grifos do autor):

      [...] vestir a capa de etnólogo é aprender a realizar a dupla tarefa que pode ser grosseiramente contida nas seguintes fórmulas: (a) transformar o exótico em familiar e/ou b) transformar o familiar em exótico. E, em ambos os casos, é necessária a presença dos dois termos (que representam dois universos de significação) e, mais basicamente, uma vivência dos dois domínios por um mesmo sujeito disposto a situá-los e apanhá-los. [...] A segunda transformação parece corresponder ao momento presente, quando a disciplina se volta para a nossa própria sociedade, num movimento semelhante a um autoexorcismo, pois já não se trata mais de depositar no selvagem africano ou melanésico o mundo de práticas primitivas que se deseja objetificar e inventariar, mas de descobri-las em nós, nas nossas instituições, na nossa prática política e religiosa. O problema é, então, o de tirar a capa de membro de uma classe e de um grupo social específico para poder

    • – como etnólogo – estranhar alguma regra social familiar e assim descobrir (ou recolocar, como fazem as crianças quando perguntam os ‘porquês’) o exótico no que está petrificado dentro de nós pela reificação e pelos mecanismos de legitimação.

      Assim, foi necessário, como ensina Gilberto Velho (1978, p. 30), um desligamento emocional, pois a familiaridade do costume não é obtida via intelecto, mas 15 Por descrição densa, entendo, com Clifford Geertz (2008), a prática de escrita detalhada que busca expor as

      estruturas significantes com base nas quais os comportamentos e falas dos sujeitos são produzidos, percebidos através de coerção socializadora. Como acrescenta o autor, a mediação para essa tarefa é realizada p or um “corpo de princípios guias”, as chamadas teorias antropológicas. Foi esse corpo de construtos intelectuais abstratos, mais ou menos inter-relacionados, que nos auxiliaram na tarefa de buscar objetivar as relações sociais estudadas, controlando prenoções acerca do objeto da investigação.

      O gênero e a sexualidade têm sido tomados como temas de investigação no âmbito de diversos saberes, incluindo as ciências sociais, e com respeito a variados objetos específicos de estudo. Anthony Giddens (2005) faz um repertório das principais questões ligadas a esses temas e das teorias que têm se debruçado sobre elas. Para o autor, o movimento feminista iniciou, nos anos 1970, mudanças drásticas que inspiraram novos esforços para compreender como se criam, se sustentam e se transformam os padrões e as desigualdades de gênero, apontando o estudo do gênero e da sexualidade como uma das mais crescentes e intrigantes dimensões na sociologia contemporânea.

      Ainda segundo o autor, há diferentes abordagens para explicar a formação das identidades de gênero e as funções sociais que nelas se sustentam. Em linhas gerais, ele aponta três abordagens. A primeira, a da “diferença natural”, privilegia as bases biológicas das diferenças de comportamento entre homens e mulheres, negando o papel fundamental da socialização na determinação do comportamento. A segunda, que ele chama a da “socialização do gênero”, confere importância central ao aprendizado das funções de gênero com base em estruturas sociais, trazendo à luz o caráter cultural da produção das diferenças de gênero. A aprendizagem dos papéis sexuais e das identidades de gênero se daria pela internalização de normas e pela imposição de sanções positivas e negativas. Há, nessa abordagem, uma distinção entre sexo, como biológico, e gênero, como socialmente desenvolvido. Uma terceira e mais recente abordagem, a da “construção social do sexo e do gênero”, sustenta que sexo e gênero não possuem qualquer base biológica, sendo completamente construídos através das socializações do sujeito. As teorias dessa última abordagem operam uma desnaturalização do sexo e do gênero e empreendem a crítica a qualquer noção de essência ou de substância do gênero

      . “As identidades de gênero surgem, alegam [as teorias], em relação às diferenças sexuais percebidas na sociedade, ajudando a moldar, por sua vez, essas diferenças” (GIDDENS, 2005, p. 106). No entanto, o movimento de teorização do gênero e da sexualidade extrapola, a meu ver, o quadro construído por Anthony Giddens. Mais recentemente, as análises pós-

      16

      estruturalistas do gênero e os assim chamados estudos queer , que se tornaram mais profícuos principalmente a partir da década de 90 do século passado, vêm colocando em

      

    17

      questão algumas formulações construcionistas do gênero e da sexualidade, principalmente aquelas empreendidas sob a égide do estruturalismo.

      Maria Luiza Heilborn (1996), autora que advoga a utilização de uma perspectiva estruturalista no estudo do gênero, enfatiza o fato da generalidade da assimetria intrínseca aos sistemas de gênero, tal como demonstrado pela antropologia. Essa compreensão estaria, segundo a autora, calcada numa certa tradição da Escola Sociológica Francesa com destaque para Émile Durkheim, Claude Lévi-Strauss e Louis Dumont. Do último autor, Maria Luiza Heilborn trabalha com a premissa da universalidade da hierarquia no mundo social, aplicando-a às classificações de gênero, isto é, ela pressupõe uma constante estrutural de assimetria na estruturação das relações entre os gêneros. Apoiando-se em Claude Lévi- Strauss, a autora propõe remontar à universalidade do incesto como momento inaugural da cultura, com o qual a assimetria de gênero estaria conectada em um plano lógico. Assim, a lei da exogamia é entendida como necessariamente lei de troca de mulheres entre os homens. Dessa forma, a autora sustenta a natureza binária da constituição dos gêneros, embora, para ela, isso não signifique:

      afirmar que a existência de dois sexos na natureza implique alguma característica universal, apenas que a estrutura subjacente à montagem das relações de gênero mantém um pendor assimétrico [ou]... acolher a idéia de que existe o dimorfismo sexual da espécie não impede que se reconheça que o sexo possa ser uma categoria historicamente datada (p. 53).

      Maria Gabriela Hita (1999) critica as posições de Maria Luiza Heilborn e percebe em seus argumentos uma simpatia e afinidade com a ideia de uma certa 16 “universalidade da subordinação feminina”.

      

    Queer é um termo da língua inglesa usado em contextos homofóbicos para insultar e agredir gays, lésbicas,

    bissexu ais, travestis, transexuais e outras identidades consideradas “estranhas”. Termo de difícil tradução, pode ser vertido por “estranho”, “raro”, “esquisito”, “singular”, “excêntrico”, “suspeito” dentre outras possibilidades. Nenhum desses sentidos, no entanto, denota a carga pejorativa que o termo tem em inglês e que pode ser melhor percebida em nossa língua em termos como “bicha”, “viado”, “sapatão”. O termo foi apropriado numa ressignificação irônica pela teórica Teresa de Lauretis para diferenciar sua proposta teórica dos estudos gays e lésbicos (MISKOLCI, 2009, p. 151-2). Prefiro utilizar, neste trabalho, a expressão “estudos” a “teoria” queer, com a intenção de promover um sentido de abertura desse campo de investigações, 17 salientando, acima de tudo, seu viés crítico.

      

    Algumas/ns autoras/es têm preferido a expressão “construtivismo”. Neste trabalho, faço opção pelo termo

      Nesse sentido, a simpatia de Heilborn com a noção de um dimorfismo sexual e hierárquico entre os sexos, fundamentado no pilar do estruturalismo francês, estaria tomando como ‘dadas’ explicações gerais e de senso comum que algumas teorias feministas pós-modernas procuram problematizar sobre o modelo hegemônico das relações entre sexos, denominado de

      ‘heterossexualidade compulsiva’ por Butler. Uma desconstrução e problematização desse modelo hegemônico de heterossexualidade compulsiva até suas últimas conseqüências

    • – passo na análise que a autora não termina de realizar, apesar de estar sempre apontando pistas nessa direção
    • – é o que permitiria realmente desvincular e melhor diferenciar categorias como ‘sexo’/‘gênero’/‘desejo’ (o que dá lugar a uma matriz bem mais complexa de possibilidades identitárias), assim como superar perspectivas de análises baseadas em dicotomias (HITA, 1999, p. 377).

      Pode-se, assim, entender o pós-estruturalismo como um conjunto de elaborações críticas das posições modernistas e estruturalistas do sujeito. Estas baseiam sua compreensão da realidade em oposições binárias relativas, mas excludentes. No campo das pesquisas sobre gênero, o pós-estruturalismo busca ressaltar a complexidade da constituição subjetiva e as possibilidades de identidades de gênero que não se encerram em um binarismo

      18 reducionista como o de homem/mulher ou masculino/feminino .

      As elaborações pós-estruturalistas levam a cabo uma análise

      19

      desconstrucionista dos binários do gênero, principalmente aquele que opõe mulheres e homens como encarnações estáveis e não problemáticas de características universais femininas e masculinas. Foi esta a principal perspectiva teórica utilizada para a construção da pesquisa e para as análises neste trabalho.

      As principais referências teóricas que fundamentam esses estudos vêm da filosofia francesa, com Michel Foucault e Jacques Derrida. Michel Foucault (1988) operou uma ruptura com a chamada “hipótese repressiva” pela qual a sexualidade era compreendida como sendo objeto de um poder fundamentalmente repressor. O projeto foucaultiano visava a questionar precisamente o discurso da repressão. A hipótese repressiva apresentava o século

      XVII como o início de um período repressor da sexualidade, próprio das sociedades modernas burguesas. Esse ciclo repressivo teria perdurado até o século XX, quando, enfim, as proibições teriam começado a ceder e teria se dado um afrouxamento dos mecanismos de 18 repressão, com relativa tolerância a práticas antes coibidas.

      

    “[...] certos dualismos têm sido persistentes nas tradições ocidentais; eles têm sido essenciais à lógica e à

    prática da dominação sobre as mulheres, as pessoas de cor, a natureza, os trabalhadores, os animais

    • – em suma, a dominação de todos aqueles que foram constituídos como outros e cuja tarefa consiste em espelhar o eu [dominante]. Estes são os mais importantes desses problemáticos dualismos: eu/outro, mente/corpo, cultura/natureza, macho/fêmea, civilizado/primitivo, realidade/aparência, todo/parte, agente/instrumento, o que faz/o que é feito, ativo/pas sivo, certo/errado, verdade/ilusão, total/parcial, Deus/homem” (HARAWAY, 2009, p. 90-1).
    Contra esses argumentos, Michel Foucault expõe a explosão discursiva de que a sociedade moderna ocidental foi palco a propósito do sexo. Essa ampla produção discursiva teria se acelerado a partir do século XVIII. O sexo se tornava, então, objeto de disputas discursivas e, longe de estar calado, confinado ao silêncio, tornava-se o objeto privilegiado dos discursos médico, jurídico e psicológico. Não que o autor (1988, p. 18) afirmasse que a interdição do sexo seria uma ilusão, mas que seria uma ilusão fazer dela o elemento fundamental para escrever uma história da sexualidade a partir da Idade Moderna.

      No fundo de tais argumentos, o autor coloca a questão fundamental sobre os modos de funcionamento do poder: seria ele essencialmente repressivo, operando de forma negativa, através de proibições, censuras, impedimentos, interdições, vetos, proscrições? Ou, fundamentalmente produtivo, fabricando novas realidades e subjetividades através de mecanismos e técnicas sutis e reiteradas? Johanna Oksala (2011, p. 89, grifos meus) afirma que, para contestar a relação aceita entre sexualidade e poder repressivo, Michel Foucault teve de reconceber a natureza do poder.

      Ele não opera reprimindo e proibindo as expressões verdadeiras e autênticas de uma sexualidade natural. O que ele faz é produzir, através de práticas normativas culturais e discursos científicos, as maneiras como experimentamos e concebemos nossa sexualidade. Relações de poder são as

      ‘condições internas’ de nossas identidades sexuais .

      Dessa forma, Michel Foucault (1988, p. 99-100) se propõe analisar a produção da sexualidade através do exercício do poder e não em termos de repressão ou de lei. Ele propõe abandonar uma concepção jurídica do poder em prol de um modelo estratégico do mesmo, cujos novos procedimentos são: a técnica, em vez do direito; a normalização, em vez da lei; e o controle, em vez do castigo. Para o autor, o poder não deve ser entendido como o conjunto de aparelhos e instituições cuidando da sujeição dos cidadãos em um Estado, nem como um modo de sujeição pela regra, por oposição à violência; nem, ainda, como um sistema geral de dominação exercido por um elemento ou grupo sobre outro.

      Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei,

    nas hegemonias sociais (FOUCAULT, 1988, p. 102-3). Michel Foucault (1988, p. 104-7) elenca, assim, algumas proposições que entendo como muito importantes para a construção do objeto de investigação, na medida em que as relações entre intercambistas e famílias anfitriãs são, antes de qualquer coisa, relações de poder. O poder não é uma propriedade, um bem, algo que pode ser adquirido ou perdido, mas algo que se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a relações desiguais e móveis. As relações de poder são inerentes a todo e qualquer tipo de relação (econômicas, de conhecimento, familiares, sexuais etc.). Não há, no princípio das relações de poder, uma matriz geral e global que oponha dominadores e dominados. O poder se origina

      “de baixo” e de diversos focos. Ao mesmo tempo, as relações de poder são inintencionais e não subjetivas. Implicam um cálculo, mas que não pode ser atribuído a uma escolha ou decisão de um indivíduo, grupo, classe, casta etc. Onde há poder, há resistência, a qual nunca é exterior a ele. Estamos sempre “no poder” e as correlações de poder são sempre estritamente relacionais. Os focos de resistência se espalham nas redes de poder de modo mais ou menos denso e são transitórios e móveis, introduzindo clivagens. Os jogos do poder se deslocam, quebram unidades, produzem reagrupamentos, podendo ou não gerar grandes rupturas. A rede das relações de poder forma um “tecido espesso” que não atravessa as instituições sem se localizar exatamente nelas. Assim, para Michel Foucault, o estudo dos mecanismos de poder deve ser levado a cabo nesse campo de correlações de força.

      Quanto à sexualidade, Michel Foucault afirma que não se trata de um ímpeto rebelde ao poder, o qual se esforçaria para domá-la. Não é algo natural, com uma existência independente, mas produzida através de mecanismos de poder. A sexualidade seria um dispositivo de poder historicamente constituído e que operaria pela produção de corpos e subjetividades dentro de certos limites normativos. Com a noção de dispositivo, o autor quer significar:

      [...] um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos. [...] entre esses elementos, discursivos ou não, existe um tipo de jogo, ou seja, mudanças de posição, modificações de funções, que também podem ser muito diferentes. [...] entendo dispositivo como um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante (FOUCAULT, 1979, p. 244). Em Vigiar e punir, Michel Foucault (1987) analisa a produção de uma nova subjetividade

    • – a do delinquente – pela análise das técnicas modernas de encarceramento. Ele desvenda uma nova tecnologia política do corpo que faz com que o corpo supliciado
    • – numa determinada técnica p
    • – seja substituído pelo corpo controlado, vigiado, corrigido. A figura do carrasco dá lugar a um conjunto de técnicas produtoras de corpos dóceis, a que Michel Foucault nomeia de poder disciplinar.

      Esse tipo de poder, característico, para o autor, das sociedades ocidentais contemporâneas, dispõe de recursos para adestrar os corpos, sujeitá-los e utilizá-los. O corpo exibe os sinais de uma incorporação que atesta o trabalho produtivo do poder. O poder não é essencialmente repressão, interdição, proibição, mas também e, sobretudo, criação, produção, fabricação. Essas técnicas disciplinares encontráveis nas correlações de poder mais variadas são, segundo descreve: a distribuição dos indivíduos no espaço (localização no espaço); o controle das atividades (imposição da administração do tempo); a organização das gêneses (organização das sequências e estabelecimento do que o autor chama de séries de séries nas quais o indivíduo encontra seu nível e categoria); e a composição das forças (o corpo faz parte de uma engrenagem conjunta em que um se orienta pelo outro).

      Ora, se a disciplina é uma técnica específica de poder que fabrica indivíduos, atuando de forma discreta e processual, sua efetivação se deve ao uso de alguns instrumentos que são: a vigilância hierárquica (controle por um jogo de olhares que está em toda parte, sem poder ser substancializado em um ponto específico), a sanção normalizadora (tudo o que é desviante, não conforme, deve ser corrigido, num exercício reiterado) e o procedimento do exame, que combina os dois primeiros, diferenciando e sancionando os indivíduos.

      

    O exame como fixação ao mesmo tempo ritual e

    ‘científica’ das diferenças individuais, como aposição de cada um à sua própria singularidade [...] indica bem a aparição de uma nova modalidade de poder em que cada um recebe como status sua

    própria individualidade [...] (FOUCAULT, 1987, p. 170-1).

      Um dos temas da argumentação foucaultiana é o da subjetivação por disciplinamento, que também pode ser chamada de processo de normalização, no curso do qual certas identidades emergem como fruto da corporificação de normas por reiteração dentro de um aparato discursivo de poder.

      Em Arqueologia do saber, o autor desenvolve o conceito central de “formação discursiva

      ”, dispositivo metodológico com o qual se propõe uma análise arqueológica dos discursos, em particular das ditas ciências modernas.

      No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por

    convenção, que se trata de uma formação discursiva

    • – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e conseqüências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como ‘ciência’ ou ‘ideologia’, ou ‘teoria’, ou

      ‘domínio de objetividade’ (FOUCAULT, 2010a, p. 43).

      Conforme Maria do Rosário Gregolin (2006, p. 42), o que, para Michel Foucault, torna uma frase, uma proposição, um ato de fala em um enunciado é a função enunciativa: “o fato de ele ser produzido por um sujeito, em um lugar institucional, determinado por regras sócio- históricas que definem e possibilitam que ele seja enunciado”.

      Os discursos não podem, assim, ser concebidos como conjuntos de signos; não são meras palavras que se referem a coisas, a realidades prontas.

      [...] os ‘discursos’, tais como podemos ouvi-los, tais como podemos lê-los sob a forma de texto, não são, como se poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e de palavras: trama obscura das coisas, cadeia manifesta, visível e colorida das palavras; gostaria de mostrar que o discurso não é uma estreita superfície de contato, ou de confronto, entre uma realidade e uma língua, o intrincamento entre um léxico e uma experiência; gostaria de mostrar por meio de exemplos precisos, que, analisando os próprios discursos, vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes entre as palavras e as coisas, e destacar-se um conjunto de regras, próprias da prática discursiva. Essas regras definem não a existência muda de uma realidade, não o uso canônico de um vocabulário, mas o regime dos objetos. ‘As palavras e as coisas’ é o título – sério – de um problema; é título

    • – irônico – do trabalho que lhe modifica a forma, lhe desloca os dados e revela, afinal de contas, uma tarefa inteiramente diferente, que consiste em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato de fala. É esse mais que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever (FOUCAULT, 2010a, p. 54-5, grifos do autor).

      Portanto, tentando formular o essencial da argumentação de Michel Foucault, entendo como discurso essa prática através da qual são formados, produzidos os objetos de que se fala. Trata-se de um conjunto de estratégias normativas para construir sentidos e que opera pela atualização de normas. É, portanto, uma prática normativa, na qual a linguagem não se reduz à língua, isto é, não é um mero instrumento de descrição dos referentes, mas o que engendra a própria realidade a que busca se referir.

      A noção de discurso de Michel Foucault, apropriada por muitas/os teóricas/os feministas e pós-estruturalistas, foi fundamental para nossa pesquisa. Ela permitiu dotados de um sentido interno e cujos signos estariam referenciados na realidade, mas como a atualização de normas e estratégias ao mesmo tempo exteriores e interiores, conjugando representações e práticas e engendrando as realidades a que se referem. A proposta epistemológica de Michel Foucault leva à formulação de que não existe realidade separada da ordem discursiva e na busca da descrição e explicação das realidades, devemos buscar expor o funcionamento dos discursos como produtores dos objetos que estudamos.

      Em A Ordem do Discurso, o autor (2010b) faz o repertório de uma série de procedimentos de controle da produção discursiva: procedimento de exclusão, que operam do exterior (a interdição; a separação e a rejeição; a oposição do verdadeiro e do falso; e a vontade de verdade); procedimentos internos, através do quais os discursos exercem seu próprio controle (o comentário; o princípio do autor; e as disciplinas); e procedimentos de rarefação dos sujeitos que falam (o ritual; as sociedades do discurso; as doutrinas; e as

      20 apropriações sociais).

      De Jacques Derrida, por sua vez, as/os autoras/es pós-estruturalistas se apropriaram, principalmente, da noção de suplementaridade do signo e do método

      21 desconstrucionista .

      Ivan Teixeira (1998) nos explica que o eixo do pensamento derridiano consiste na teoria da diferença. Criticando a teoria do signo de Ferdinand de Saussure, Jacques Derrida forja o neologismo différance, que se diferencia do vocábulo francês différence (diferença), mas também o complementa. Différance

    • – que, ademais, se pronuncia exatamente como

      différence

    • – deriva do verbo différer, significando, ao mesmo tempo, diferenciar (o signo se explicaria pela configuração de seu contrário) e adiar (o signo retardaria continuamente a ideia de presença).

      Observem-se os fonemas /b/ e /p/: ambos são bilabiais explosivos. A diferença essencial entre eles é que o primeiro se caracteriza por uma propriedade positiva: é sonoro; ao passo que o segundo, por uma propriedade negativa: é surdo. Por causa de sua condição positiva, a lingüística tradicional tende a atribuir ao fonema /b/ o privilégio do centro. Derrida considera essa conclusão uma construção metafísica, afirmando que a propriedade positiva do primeiro decorre da condição negativa do segundo, assim como o sentido de Deus depende da noção de diabo. O vocábulo différance foi inventado para caracterizar esse processo de geração do sentido, em que um significado continuamente se refere a outro significado e a toda a rede de significados da língua, processo também designado de suplementaridade do signo 20 (TEIXEIRA, 1998, p. 36, grifos do autor).

      

    Não farei aqui a descrição de tais procedimentos, limitando-me a indicá-los e retomando-os sempre que a

    21 interpretação dos dados da pesquisa assim o exija.

      

    A tradução consagrada do método proposto por Derrida é “desconstrutivismo”. Apenas por uma questão de

      Richard Miskolci (2009, p. 153) nos explica que a suplementaridade é a relação entre significados organizada em termos de presença e ausência de modo que “[...] o que parece estar fora de um sistema já está dentro dele e o que parece natural é histórico”. Assim, por exemplo, a masculinidade precisa da feminilidade para se definir, de modo que um homem somente pode se definir através dos significados suplementares de mulher. Esses significados suplementares, longe de estarem fora, encontram-se no íntimo do sujeito, instabilizando sua identidade.

      “Descontruir”, por sua vez, para o autor,

      é explicitar o jogo de presença e ausência, e a suplementaridade é o efeito da interpretação porque oposições binárias como a de hetero/homossexualidade, [sic] são reatualizadas e reforçadas em todo ato de significação, de forma que estamos sempre dentro de uma lógica binária que, toda vez que tentamos quebrar,

    terminamos por reinscrever (MISKOLCI, 2009, p. 153-4).

      A propósito do método desconstrucionista, Miguel Almeida afirma (2008):

      Esta [a posição desconstrutivista] não se reduz à afirmação de que tudo é discursivamente construído; Desconstruir é reconhecer e analisar as operações de exclusão, elisão e abjecção na construção discursiva do sujeito

      . A construção não é um processo unilateral iniciado por um sujeito, nem o discurso e o poder são actos personificados ou atribuídos a um só agente (p. 8-9, grifos meus).

      Observa, a esse mesmo respeito, Jonathan Culler (1999, p.122) que:

      Desconstruir uma oposição é mostrar que ela não é natural e nem inevitável mas uma construção, produzida por discursos que se apóiam nela, e mostrar que ela é uma construção num trabalho de desconstrução que busca desmantelá-la e reinscrevê-la

    • – isto é, não destruí-la mas dar-lhe uma estrutura e funcionamento diferentes.

      Os estudos queer reconhecem a centralidade dos mecanismos sociais ligados ao binarismo hetero/homossexualidade. A ordem social é compreendida como ordem sexual/sexuada e que se funda, para a produção de sujeitos, no dispositivo de heteronormatividade, pelo qual a heterossexualidade é pressuposta como natural. Richard Miskolci (2009) distingue historicamente a heterossexualidade compulsória (que ele data da invenção da homossexualidade como patologia e crime no séc. XIX) da heteronormatividade (construção da orientação heterossexual como modelo, datada do séc. XX).

      Conforme nos explica Richard Miskolci (2009), os estudos queer questionam as formas canônicas de compreensão das desigualdades sociais e estudam a construção da subjetividade política com base em constelações transversais. Para o autor (2009), o havia se firmado no campo das ciências sociais. No entanto, para o autor, até a década de 1990, a ordem social era estudada como sinônimo de ordem heterossexual, mesmo quando se tratava de estudos sobre sexualidades não hegemônicas. Para ele, a centralidade do tema da sexualidade não teria sido reconhecida pela sociologia canônica.

      Diversas/os autoras/es dialogaram com a filosofia francesa

      22

      para expandir caminhos nas pesquisas sobre a dinâmica da produção da diferença sexual e de sua conformação em termos heteronormativos. Não podemos pretender, no entanto, unificar essas diferentes posições teóricas.

      Judith Butler (2006) critica a noção de gênero como significados culturais que um suposto corpo natural sexuado assumiria com sua entrada em uma cultura. É a própria distinção sexo/gênero que é posta em xeque, bem como a pressuposição de um sexo natural anterior à sua inscrição cultural.

      Não faria sentido, então, definir gênero como a interpretação cultural do sexo, se o sexo ele próprio é uma categoria gendrada. Gênero não deve ser concebido meramente como a inscrição cultural de significado sobre um sexo previamente dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o aparato mesmo de produção por meio do qual os próprios sexos são estabelecidos. Como um resultado, gênero não está para cultura assim como sexo está para natureza; gênero é também o meio discursivo/cultural pelo qual ‘a natureza sexuada’ ou ‘um sexo natural’ é produzido e estabelecido como ‘pré-discursivo’, anterior à cultura, uma superfície politicamente neutra sobre a qual a cultura age (BUTLER, 2006, p. 10, grifos da autora). 23 Para a autora, o gênero é uma construção complexa, pois, dentre outras coisas,

      “se interseciona com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de

      espécie de ruptura do diálogo com a filosofia e, para algumas/ns teóricas/os, parece inadmissível que sejam feitas pesquisas sociais com base em um diálogo com referenciais “exteriores” ao campo das ciências sociais.

      A esse propósito, Bernard Lahire (2002) nos adverte: “Não que os sociólogos devam deixar que lhes sejam impostas teorias sociológicas pelos filósofos, mas a filosofia

    • – uma parte das reflexões filosóficas em todo caso
    • – contribui, às vezes, para esclarecer de maneira útil os conceitos utilizados pelos sociólogos em suas pesquisas sobre o mundo social. Na França se instalou um medo tal em torno da idéia de a sociologia recair na filosofia social (o que evidentemente não é desejável) que uma grande parte dos sociólogos vive permanentemente na má consciência teórica. Qualquer discussão conceitual só pode ser suspeita de ‘intelectualismo’, de ‘verborréia inútil’ ou de ‘má filosofia’. É claro que os mesmos sociólogos que gritam contra teoreticismo (insulto acadêmico supremo em certos clãs da tribo dos sociólogos) não se preocupam em teorizar, pois, como se diz, é sempre a teoria dos outros que é oca e verbalista...” (p. 12-3).
    • 23 Texto original: It would make no sense, then, to define gender as the cultural interpretation of sex, if sex itself is a gendered category. Gender ought not to conceived merely as the cultural inscription of meaning on a pregiven sex (a juridical conception); gender must also designate the very apparatus of production whereby the sexes themselves are established. As a result, gender is not to culture as sex is to nature; gender is also the discursive/cultural means by which “sexed nature” or a “natural sex” is produced and established as

        24

        . Nenhuma pessoa é ou tem um identidades discursivamente constituídas” (2006, p. 4) gênero. Este é apenas um dos marcadores que constituem as subjetividades e identidades dos sujeitos. O gênero não confere substância ou essência a um ser, mas aponta para uma convergência cultural, histórica e contextual entre conjuntos de relações.

        A noção de gênero como aparato discursivo de produção dos sexos e das identidades de gênero nos permite considerar a experiência de convivência das/os intercambistas e suas famílias anfitriãs como um processo em que a produção do gênero é continuamente relançada e questionada. As identidades de gênero são tomadas como construções complexas, discursivamente constituídas através de interseções entre diferentes modalidades de diferenciação social. Essa ênfase nas interseções é importante, pois não hierarquiza o gênero acima de outras diferenças sociais e permite sondar como a produção da diferença sexual é articulada com outras diferenças sociais na constituição discursiva de corpos e identidades.

        Sexo e corpo são objetos de práticas discursivas de poder e funcionam dentro de matrizes políticas normativas. O gênero é, assim, seu próprio processo de construção, o que, para Judith Butler, significa que a experiência nunca totalizante e não homogênea da construção do gênero é sempre condicionada pelo discurso.

        Isso não é dizer que quaisquer e todas as possibilidades gendradas estão abertas, mas que as fronteiras de análises sugerem os limites de uma experiência discursivamente condicionada. Esses limites são sempre estabelecidos dentro dos termos de um discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que aparecem como a 25 linguagem da racionalidade universal (2006, p. 12).

        Judith Butler (2011, p. xvii, grifos da autora) articula que:

        [...] a construção do gênero opera através de meios excludentes, de tal forma que o humano não é apenas produzido sobre e contra o inumano, mas através de um conjunto de forclusões, rasuras radicais, que, estritamente falando, têm recusada a possibilidade de articulação cultural. Por isso, não é suficiente alegar que sujeitos humanos são construídos, porque a construção do humano é uma operação diferencial que produz o mais e o menos 26 ‘humano’, o inumano e o humanamente 24 impensável.

        

      Texto original: [...] intersects with racial, class, ethnic, sexual, and regional modalities of discursively

      25 constituted identities.

        

      Texto original: This is not to say that any and all gendered possibilities are open, but that the boundaries of

      analysis suggest the limits of a discursively conditioned experience. These limits are always set within the terms of a hegemonic cultural discourse predicated on binary structures that appear as the language of 26 universal rationality.

        

      Texto original: [...] the construction of gender operates through exclusionary means, such that the human is not

      only produced over and against the inhuman, but through a set of foreclosures, radical erasures, that are, strictly speaking, refused the possibility of cultural articulation. Hence, it is not enough to claim that human subjects are constructed, for the construction of the human is a differential operation that produces the more

        Teresa de Lauretis (1994) também ressignifica o conceito de gênero, a partir da crítica à distinção entre sexo e gênero, pretendendo ir além do que aponta como uma limitação nas elaborações de Michel Foucault. Este não teria levado em conta os investimentos divergentes em sujeitos femininos e masculinos, tratando, ainda, de um sujeito universal. A sexualidade para ele não é gendrada, mas idêntica para todos e, portanto, masculina. A sexualidade é, assim, tida como uma construção histórica, mas que se processa como sendo uma especificidade de gênero: uma sexualidade feminina tem sido definida por relação e oposição a uma sexualidade masculina. Portanto, as posições colocadas à disposição de homens e mulheres no discurso são diferenciadas e os significados são construídos por cada uma/um de acordo com o gênero.

        A autora (1994) parte da noção de tecnologia do sexo de Michel Foucault (conjunto de técnicas para maximizar a vida) para pensá-la, então, como tecnologia de gênero. A função do gênero, para a autora, seria constituir indivíduos concretos em homens e mulheres. O gênero é pensado como processo e produto, como representação e autorrepresentação, produzidas por diferentes tecnologias sociais e por discursos, epistemologias e práticas críticas institucionalizadas ou mesmo da vida cotidiana. Essa construção é o efeito resultante do acionamento de normas sociais. Para a autora, o “gênero nada mais é do que a configuração variável de posicionalidades sexuais- discursivas” (1994, p. 214).

        A autora entende que a representação de gênero é também a sua construção. Por isso, a definição do sujeito está sempre em andamento, o que implica que o gênero não constitui um sistema fechado. O sujeito gendrado (produzido pela tecnologia de gênero) está, ao mesmo tempo, dentro e fora do gênero. A autora resguarda, dessa forma, uma possibilidade de agenciamento e de autodeterminação. A consciência da cumplicidade com as ideologias de gênero não significa adesão a elas. Para Teresa de Lauretis (1994), não é possível resolver a ambiguidade de se estar dentro e fora do gênero (p. 219).

        Teresa de Lauretis (1994) promove o conceito de investimento para se referir ao poder que motiva as pessoas a se posicionarem em certo discurso e não em outro. Trata-se de “algo entre um comprometimento emocional e um interesse investido no poder relativo (satisfação, recompensa, vantagem) que tal posição promete (mas não necessariamente garante)” (p. 225). Isto inclui o entendimento de que o agenciamento (e não a escolha) possa ser percebido pelo sujeito.

        Tendo em vista que pensamos intercambistas e membros das famílias anfitriãs referencial que utilizamos. Teresa de Lauretis (1994, p. 208) concebe o sujeito social como múltiplo e contraditório em vez de único e simplesmente dividido, constituído através da experiência de variadas relações sociais de diferenciação. Para Judith Butler (2011, p. xiii), o sujeito é formado em virtude de ter atravessado um processo de assumir um sexo. O sujeito não preexiste ao seu processo de subjetivação, sendo constituído através da força de exclusão e abjeção, a qual produz um exterior constitutivo para o sujeito, um exterior “abjetado”, o qual está, afinal, dentro do sujeito como seu próprio repúdio fundador. Não se trata de um sujeito unitário.

        O sujeito unitário é aquele que já sabe o que é, que entra na conversa da mesma forma tal como existe, que fracassa em colocar suas próprias certezas epistemológicas em risco no encontro com o outro, e assim permanece no lugar, guarda seu lugar, e se torna um emblema para propriedade e território, recusando a

        , ironicamente, em nome do sujeito (BUTLER, 2004, p. 228, autotransformação 27 grifos da autora).

        Comentando o trabalho de Gayatri Spivak, Judith Butler (2004, p. 228) afirma que a autora possui uma noção do sujeito como fraturado. Para aquela, a categoria “mulheres” como categoria unitária não consegue conter, descrever, e, portanto, deve sofrer uma crise e expor suas fraturas ao discurso público.

        Stuart Hall (2011) concebe o sujeito como uma figura discursiva, um dispositivo conceitual, e desenvolve o argumento de que, pressuposto em sua forma unificada e em sua identidade racional pelo pensamento moderno, passa a uma condição de “descentramento” na modernidade tardia. Isso mostra que as conceitualizações sobre o sujeito são históricas e mudam com o tempo. O autor, ainda tomando como centro as sociedades europeias, faz uma diferenciação entre sociedades modernas e as sociedades ditas “tradicionais”, nas quais os indivíduos seriam conceitualizados de forma diferente, estando apoiados de forma estável nas tradições e estruturas. A partir do séc. XVI, vários movimentos teriam, segundo ele, contribuído para a emergência de uma nova concepção de sujeito como indivíduo: Reforma; Protestantismo; Humanismo Renascentista; revoluções científicas; e o Iluminismo. Essa nova concepção

      • – tendo por eixo a noção de individualidade – teria emergido a partir do

        “colapso da ordem medieval”. Note-se que é claramente uma noção de a que está sendo trabalhada pelo autor. 27 modernidade europeia

        

      Texto original: The unitary subject is the one who knows already what it is, who enters the conversation the

      same way as it exits, who fails to put its own epistemological certainties at risk in the encounter with the other, and so stays in place, guards it place, and becomes an emblem for the property and territory, refusing

        O autor argumenta que a concepção do sujeito moderno sofreu, na segunda metade do séc. XX, um deslocamento, a partir de diversas rupturas nos discursos do conhecimento moderno, rupturas essas que tiveram por consequência operar um descentramento do sujeito cartesiano, racional, consciente e individual. Essas rupturas teriam sido perpetradas pelo pensamento marxista (com as relações ocupando o centro de seu sistema teórico), pela descoberta freudiana do inconsciente (que retirou a razão, a consciência e o eu do centro da psique e deu ênfase aos processos de identificação), o trabalho da linguística estrutural de Ferdinand de Saussure (que desloco u os falantes do lugar de “autores” das afirmações e significados, afirmando a língua como sistema social e preexistente ao sujeito), o trabalho genealógico do sujeito moderno produzido por Michel Foucault (com ênfase para o poder disciplinar cujas técnicas produziriam uma individualização do sujeito) e o feminismo enquanto crítica teórica e movimento social (pelo questionamento da distinção clássica entre espaços público e privado, afirmando o “pessoal como político”). Emerge, portanto, um conceito de sujeito que possibilita perceber identidades abertas, contraditórias, inacabadas e fragmentadas (HALL, 2011, p. 34-46).

        A partir de suas identidades contraditórias e fragmentadas, os sujeitos fazem investimentos e tomam posições diferentes quanto ao gênero, práticas e identidades sexuais. Teresa de Lauretis (1994, p. 225) aponta que outras dimensões importantes da diferença social (classe e raça, por exemplo) cruzam o gênero para favorecer ou desfavorecer certas posições. Toda prática social é percebida como sendo, ao mesmo tempo, um locus de reprodução e de mudança. Por isso, ganha relevância a questão: o que leva os sujeitos a investir em certos posicionamentos ou a mudar os seus investimentos? E o que leva um determinado investimento em outras fontes de poder a promover mudanças nas relações de gênero? Para poder responder a tais questões, a autora propõe o afastamento radical do referencial androcêntrico e aponta o esforço conjunto de feministas contemporâneas em sua crítica a esse referencial.

        Outra noção bastante relevante para nosso trabalho, proposta por Judith Butler (2006, p. 22), é a de que “as ‘pessoas’ só se tornam inteligíveis através do processo de se tornarem gendradas em conformidade com padrões reconhecíveis de inteligibilidade de

        28

        . Com a gênero” proposta conceitual de “gêneros inteligíveis”, a autora critica a discussão 28 sociológica convencional e também certo discurso filosófico, para os quais a noção de

        Texto original: [...] “persons” only become intelligible through becoming gendered in conformity with

        “pessoa” goza de uma anterioridade e de uma “prioridade ontológica” ante os diversos papéis e funções sociais através dos quais viriam a se significar posteriormente.

        Gêneros ‘inteligíveis’ são aqueles que em certo sentido instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Em outras palavras, os espectros de descontinuidade e incoerência, eles próprios concebíveis apenas em relação a normas existentes de continuidade e coerência, são constantemente proibidos e produzidos pelas mesmas leis que buscam estabelecer linhas causais ou expressivas de conexão entre sexo biológico, gêneros culturalmente constituídos e a ‘expressão’ ou ‘efeito’ de ambos na manifestação do desejo sexual através da prática sexual (BUTLER, 2006, p. 23). 29 A identidade de gênero não é, portanto, uma decorrência das características

        internas da pessoa, mas forjada a partir de práticas reguladoras de formação e divisão do gênero. De um lado, tem-se um ideal normativo a ser corporificado e, de outro, um processo de normalização social dos sujeitos através do qual o sexo, o gênero e a sexualidade vão ganhando coerência e estabilidade. Para a autora, a construção do gênero se faz sempre no interior de uma matriz discursiva hegemônica, uma matriz normativa de poder que varia historicamente. O discurso hegemônico pode ser lido, atualmente, como a matriz heteronormativa das relações entre os sujeitos, que estabelece distinções entre as diversas experiências sexuadas, relacionando-as de forma assimétrica e dentro de uma escala de valores, regrando-as de forma a que reproduzam a oposição entr e o que é “normal” e permitido e o que é patológico ou abjeto. A construção da coerência de gênero, de acordo com a matriz hegemônica de inteligibilidade, esconde as descontinuidades de gênero nos variados contextos.

        Igualmente, o gênero é pensado não apenas como aparato cultural de produção de seres “gendrados”, mas também como o efeito dessa produção, efeito esse que Judith Butler chama de performativo.

        [...] Gênero é performativo até onde é o efeito do regime regulador da diferença de gênero, no qual os gêneros são divididos e hierarquizados sob coerção. A coerção social, tabus, proibições, punições operam como repetição ritualizada de normas e esta repetição constitui a cena temporal da construção e desestabilização do gênero. Não há sujeito precedente à ação e repetição das normas . Até onde esta repetição cria um efeito de uniformidade de gênero, um efeito estável de masculinidade e feminilidade, produz e desestabiliza a noção de sujeito da mesma forma, pois o sujeito só aparece enquanto inteligível nas matrizes de gênero. [...] 29 Texto original: “Intelligible” genders are those which in some sense institute and maintain relations of coherence and continuity among sex, gender, sexual practice, and desire. In other words, the spectres of discontinuity and incoherence, themselves thinkable only in relation to existing norms of continuity and coherence, are constantly prohibited and produced by the very laws that seek to establish causal or expressive lines of connection among biological sex, culturally constit uted genders, and the “expression” or “effect” of

        Nã o há subjetividade ‘livre’ fora destas normas para negociá-las à distância; ao contrário, o sujeito é retroativamente produzido por estas normas em sua repetição, precisamente como seu efeito (BUTLER apud ST. HILAIRE, 2000, p. 93, grifos meus).

        A noção de performatividade diz respeito ao mecanismo de ação social através do qual uma norma é corporificada, isto é, produzida como ao mesmo tempo externa e interna ao sujeito, através de seu corpo. A performatividade é a expressão reiterada mas descontínua de uma norma no corpo. Com base em Michel Foucault e Jacques Derrida, Judith Butler (2006) propõe pensar o gênero como a produção disciplinar do corpo e do sexo por meios de exclusões e negações, de ausências significantes. Performatizar significa corporificar, sempre de maneira incompleta, determinadas normas enunciadas no interior de uma relação social.

        Os tabus contra a homossexualidade e o tabu do incesto são, para Judith Butler (2006), os momentos generativos da identidade de gênero, como proibições produtoras de identidades nas grades de inteligibilidade cultural de uma heterossexualidade idealizada e compulsória. Essa produção deixa oculta as descontinuidades do gênero presentes em todas as identidades construídas (heterossexuais, bissexuais, gays, lésbicas, transexuais etc.) nas quais há desencontros entre sexo e gênero e sexualidade/desejo e gênero. A heterossexualidade necessita da homossexualidade como o outro necessário para a garantia de sua estabilidade e vice-versa.

        [...] atos, gestos e desejo produzem o efeito de um núcleo ou substância interna, mas produzem isso na superfície do corpo, através do jogo de ausências significantes que sugerem, mas nunca revelam, o princípio organizador da identidade como uma causa. Tais atos, gestos, atuações, interpretados em termos gerais, são performativos no sentido de que a essência ou identidade que de outro modo pretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas através de signos corpóreos e outros meios discursivos. Que o corpo gendrado seja performativo sugere que ele não tem status ontológico separado dos vários atos que constituem sua realidade. Isso também sugere que se essa realidade é fabricada como uma essência interna, essa interioridade mesma é um efeito e função de um discurso decididamente social e público, a regulação pública da fantasia pela política de superfície do corpo, o controle de fronteira do gênero que diferencia o interno do externo e, assim, institui a ‘integridade’ do sujeito (BUTLER, 2006, p. 185, grifos da autora). 30 30 Texto original: [...] acts, gestures, and desire produce the effect of an internal core or substance, but produce this on the surface of the body, through the play of signifying absences that suggest, but never reveal, the organizing principle of identity as a cause. Such acts, gestures, enactments, generally construed, are performative in the sense that the essence or identity that they otherwise purport to express are fabrications manufactured and sustained through corporeal signs and other discursive means. That the gendered body is performative suggests that it has no ontological status apart from the various acts which constitute its reality. This also suggests that if that reality is fabricated as an interior essence, that very interiority is an effect and function of a decidedly public and social discourse, the public regulation of fantasy through the surface politics of the body, the gender border control that differentiates inner from outer, and so institutes the Miguel Almeida (2008) chama a atenção para a importante distinção entre performance e performatividade no trabalho de Judith Butler. Aquela se refere a um sujeito pré-existente, enquanto esta última questiona a própria noção de sujeito e seu caráter instável. O autor aponta que, ao tratar da performance paródica, Judith Butler teoriza o caráter imitativo de todas as identidades de gênero, pondo em xeque a noção de originalidade no gênero. É preocupação fundamental da autora apontar as possibilidades de agência e subversão, ainda que presas aos discursos e estruturas de poder em que se localizam. Para ela, não se pode atuar do exterior, mas de dentro da própria matriz hegemônica de poder.

        Judith Butler (2011, p. 178) afirma que:

        [...] a performance como ato delimitado é distinta da performatividade até onde a última consiste em uma reiteração de normas que precedem, coagem e excedem o ator [performer] e nesse sentido não pode ser tomada como a fabricação da “vontade” ou “escolha” do ator [performer]; além disso, o que é “atuado” [performed] trabalha para ocultar, se não para repudiar [disavow], o que permanece opaco, inconsciente, não representável [performable]. A redução da 31 performatividade à performance seria um erro.

        A noção de performatividade diz respeito a como os sujeitos produzem suas identidades que, afinal, restam fragmentadas, pois os ideais normativos nunca podem ser inteiramente corporificados.

        Baseada no conceito de interpelação de Althusser, a autora o ressignifica como um ato performativo que não relata simplesmente o que vê ou um fato, mas consigna e engendra um corpo nas teias do discurso. O gênero, assim, é uma identidade tenuemente constituída no tempo através da repetição estilizada de atos. O efeito do gênero se produz pela estilização do corpo (BUTLER, 2006).

        A autora (2011) propõe que entendamos a performatividade não como um ato pelo qual um sujeito traz à existência algo que ela/e nomeia, mas como o poder reiterativo do discurso para produzir os fenômenos que ele regula e coage. Judith Butler (2006, p. xv) afirma que originalmente tomou uma pista de como ler a performatividade de gênero a partir da leitura que Jacques Derrida fez do conto “Diante da lei” de Franz Kafka. No conto, aquele que espera pela lei, senta-se diante da porta da lei, atribui certa força a essa lei pela qual 31 espera. A antecipação de uma revelação oficial de significado é o meio pelo qual aquela

        

      Texto original: [...] performance as a bounded “act” is distinguished from performativity insofar as the latter consists in a reiteration of norms which precede, constrain, and exceed the performer and in that sense cannot be taken as the fabrication of the performer’s “will” or “choice”; further, what is “performed” works to conceal, if not disavow, what remains opaque, unconscious, unperformable. The reduction of performativity autoridade é atribuída e instalada. Ela se questiona, então, se, no que concerne ao gênero, não trabalhamos sob uma expectativa similar, de que o gênero opera como uma essência interior que deveria ser exposta, uma expectativa que acaba por produzir o próprio fenômeno que ela antecipa. Em primeira instância, então, a performatividade de gênero gira em torno da forma pela qual a antecipação de uma essência gendrada produz aquilo mesmo que ela coloca como externo. Em segundo lugar, a performatividade não é um ato singular, mas uma repetição e um ritual, que alcança seus efeitos através de sua naturalização no contexto de um corpo, compreendida, em parte, como uma duração temporal culturalmente sustentada. Em suma, aquilo que é tomado como uma essência interna do gênero é “manufaturado através de um

        32 conjunto sustentado de atos, posto através da estilização gendrada do corpo”.

        A pesquisa realizada teve seu foco na produção, atualização, questionamento e/ou instabilização do gênero normativo nas relações entre intercambistas e membros de suas famílias anfitriãs. Para tanto, a noção de performatividade aparece como fundamental, na medida em que enfatiza a repetição e a ritualização como mecanismos de produção do gênero e de seu efeito naturalizado, ao mesmo tempo em que evidencia possíveis descontinuidades no processo de materialização das normas sociais de gênero. É importante perceber, no entanto, que tal processo vai além das normas de gênero, alcançando outras esferas das relações sociais. Como já adiantei, outras dimensões das diferenças sociais estão sempre articuladas ao gênero, o qual nunca é encontrado em estado isolado. Em meu objeto de investigação, ele se cruza com outras dimensões, com destaque para as relações intergeracionais, consideradas em um contexto bastante específico de convivência, a qual vai se dar, principalmente, no interior de um espaço doméstico. Sem adentrar o debate sobre parentesco e ainda que as/os intercambistas não sejam filhas/os dessas famílias que os acolhem, é no seio de uma família local que elas/es deverão conviver. Ao estar com e numa família, ainda que não a sua, a/o intercambista será confrontada/o com e, por assim dizer, enredada/o em relações de poder e tecnologias que funcionam nesse espaço. Assim, a 32 produção de diferenças geracionais se articulará à dinâmica própria da instituição familiar em

        

      Algumas indicações de Judith Butler (2011) ajudam a operar com a noção de performatividade. A performatividade de gênero não pode ser teorizada separadamente da prática forçosa e reiterativa dos regimes sexuais regulatórios. Da mesma forma, a explicação da agência condicionada por esses regimes de discurso/poder não pode ser confundida com voluntarismo ou individualismo. A materialidade do sexo é formada e sustentada através de uma materialização de normas regulatórias que são, em parte, aquelas da hegemonia sexual, dentro do regime de heterossexualidade. A materialização dessas normas exige, por sua vez, processos identificatórios pelos quais as normas são assumidas e apropriadas e essas identificações precedem o sujeito, mas não são executadas por ele. Finalmente, para a autora, os limites do construcionismo ficam expostos nas fronteiras da vida corporal nas quais corpos abjetos ou deslegitimados fracassam em termos de relações de poder e autoridade. Aqui, a perspectiva foucaultiana da normalização dos sujeitos, realizada através do concurso de técnicas diversas reiteradas ao longo do tempo, dialoga com a noção de performatividade de Judith Butler, exposta anteriormente.

        Michel Foucault (1988) aponta que os discursos científicos que tomaram por objeto o corpo feminino, dos jovens, a procriação e a sexualidade não genital, tida como perversa, se consolidaram especialmente na família. Seus estudos ressaltaram que o espaço das relações familiares é um espaço de relações de poder, marcado, ao mesmo tempo, por estados de dominação e também de resistências. Para além das funções a ela atribuídas por discursos oficiais e também sem negar seus vieses repressores, a família é, para o autor, um dos dispositivos privilegiados daquilo que chamou de tecnologia do sexo. De acordo com ele, a família, em toda a sua heterogeneidade, pode ser pensada como um conjunto de relações que concorrem, juntamente com outros dispositivos, para a produção de sujeitos normalizados de acordo com certas grades de referência. Esses sujeitos, no entendimento do autor, são seres sociais assujeitados a redes de poder que lhes ultrapassam, escapam e sobredeterminam e, portanto, constituídos pela e na sujeição. São o efeito ou produto do cruzamento de práticas discursivas que operam pela repetição de técnicas ao longo do tempo e cuja ação é normalizadora.

        As relações de poder familiares, envolvendo a classificação dos atores sociais por categorias de geração e gênero, portanto, fazem parte da trama complexa da tecnologia da normalização, na qual pela técnica, controle e disciplinamento, produzem-se efeitos subjetivos que são, a posteriori, naturalizados como uma essência original.

        Para Michel Foucault (1988), no âmbito de funcionamento do dispositivo de sexualidade, o corpo foi tomado e valorizado como objeto de saber e como elemento nas relações de poder. A família teve nesse processo um lugar fundamental, permitindo, segundo o autor, que em suas duas dimensões principais (eixo marido-mulher e eixo pais-filhos), se desenvolvessem os elementos mais importantes do dispositivo: o corpo feminino, a precocidade infantil, a regulação dos nascimentos e, em menor escala, a especificação dos perversos. O papel da família não é o de refrear a sexualidade, mas o de fixá-la e constituir seu suporte permanente, sendo seu ponto privilegiado de eclosão (FOUCAULT, 1988, p. 119). Podemos aproveitar o que o autor elabora acerca do dispositivo de sexualidade para também situar a família enquanto espaço de produção de subjetividades normalizadas, marcadas também pelas diferenças de geração.

        Geraldo Romanelli (1995, p.74) afirma que as relações de autoridade e poder gênero e idade. O autor afirma, com base em pesquisa, que, no Brasil, haveria um predomínio

      • – da família de tipo nuclear (que, segundo ele, se constituiu em modelo hegemônico referencial e ideal
      • – para a ordenação da vida doméstica), com aumento das famílias matrifocais. Os atributos básicos desse modelo de família nuclear, segundo o autor, seriam: estrutura hierarquizada, com o marido/pai exercendo autoridade e poder sobre esposa/filhos; divisão sexual do trabalho bastante rígida; maior proximidade entre mãe e filhos em termos afetivos; controle da sexualidade feminina; e dupla moral sexual. Mas é, segundo o autor, um modelo flexível e variável como todos os outros, variando também de acordo com a camada social (ROMANELLI, 1995, p. 75). Nas relações familiares, ainda segundo o autor, projetos mais individualizados podem conflitar com projetos coletivos, capitaneados principalmente por mãe e pai. A cena doméstica seria carregada de tensões, posto que a expressão destas seria mais livre que no domínio público.

        Para Geraldo Romanelli (1995), poder e autoridade não seriam categorias intercambiáveis. Refere tais conceitos não apenas à esfera macropolítica de relações, mas também aos contextos cotidianos, incluindo aí a vida doméstica. Para ele, a autoridade supõe comando e obediência em uma ordem hierárquica, excluindo meios externos de coerção. Seu exercício não dependeria da persuasão, mas estaria baseado em experiências comuns, consideradas incontestáveis e aceitas por todos (ROMANELLI, 1995, p. 79-80).

        Para conceituar o poder, o autor recorre a Michel Foucault, afirmando que o poder não é uma propriedade que alguém possui, mas antes uma relação fluida.

        A autoridade reporta-se a experiências comuns vividas no passado e seu exercício visa preservar posições hierárquicas já estabelecidas e que fazem parte da tradição de comando no interior de um grupo ou associação. Já as relações de poder se manifestam no confronto com o instituído e abrem caminho para se transformarem, até mesmo subvertendo a (sic) posições tradicionais de comando (ROMANELLI, 1995, p. 80).

        De fato, se tais categorias não são intercambiáveis, tampouco nos parecem poder ser referidas a realidades distintas. O exercício da autoridade se processa no âmbito de regimes de poder com dimensões ao mesmo tempo instituídas e instituintes.

      Gostaria de expor minha opção pelo uso do termo “jovem” e não “adolescente” no contexto deste trabalho. A categoria juventude é aqui tomada em sua complexidade, longe

        das perspectivas biológicas e destacada como uma categoria social de tipo geracional. Ela é discursivamente construída e de modo relacional, só adquirindo sentido dentro de um determinado contexto histórico e cultural por sua referência a outras categorias que se refiram a diferentes momentos da vida. Trata-se também de evitar cair no equívoco de conceber as/os jovens como constituindo um grupo social. Segundo Maria Cecilia Minayo (1999, p. 13), a juventude é “uma categoria sociológica, que constitui um processo sociocultural demarcado pela preparação d os indivíduos para assumirem o papel de adulto na sociedade”. Esse processo da vida social está ligado às disputas de poder entre as gerações. A juventude é uma construção social e histórica, cujo processo de tensão e contradição é constantemente atualizado na prática social, nas interações entre as/os próprias/os jovens e entre elas/es e outras categorias geracionais, principalmente a das/os adultas/os.

        Regina Novaes e Paulo Vannuchi (2004, p. 10-1) também entendem juventude numa perspectiva histórica, contingente, como uma construção cultural arbitrária, baseada em regras socialmente instituídas, e não ancorada em parâmetros etários fixos. O que determina quando se muda de uma fase da vida para outra são arbitrários culturais e regras sociais, ao mesmo tempo em que a sequência infância-juventude-maturidade é objeto de disputas acadêmicas e políticas. Não obstante, a maioria dos organismos internacionais considera jovem a faixa etária de 15 a 24 anos, embora outros limites de idade sejam propostos em abordagens acadêmicas.

        Finalmente, a discussão sobre as relações familiares se articula a uma questão muito relevante para a pesquisa. No início desta, dada a diferente proveniência dos sujeitos em termos de localidade, pensei em analisar os discursos também a partir de categorias como

        33

        as de identidade e cultura nacionais. Enquanto as famílias anfitriãs eram todas provenientes da cidade de São Luís (MA), as/os intercambistas, por sua vez, vieram de países distintos, todos localizados na Europa (regiões Ocidental, Central e Norte) e América (região Norte). Isso me colocou de saída a questão de como esse contexto transcultural de convivência influenciaria as experiências concernentes ao gênero, à sexualidade e às relações geracionais. 33 A essa altura, entrevia que alguns dos conflitos vivenciados pelas/os entrevistadas/os

        

      Tais como apresentadas por Stuart Hall (2011). O autor propõe que “Uma cultura nacional é um discurso – um

      modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. [...] As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre ‘a nação’, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas histórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. Como argumentou Benedict Anderson, a identidade nacional é uma ‘comunidade imaginada’ (HALL, 2011, p. 51, grifos meus). As culturas nacionais devem ser pensadas como um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. No mesmo sentido, Homi Bha bha (1998) afirma que “Os próprios conceitos de culturas nacionais homogêneas, a transmissão consensual ou contígua de tradições históricas, ou comunidades

        étnicas ‘orgânicas’ – enquanto base do comparativismo cultural –, estão em profundo processo de redefinição ” (p. 24, grifos do autor). Não há identidade nacional pura. As comunidades nacionais são comunidades imaginadas e as culturas nacionais também vão sendo produzidas a partir da perspectiva de minorias destituídas. É preciso conceber as disputas simbólicas de poder através das quais certas hegemonias pudessem ter origem em diferentes perspectivas identitárias culturais, concebidas como discursos homogeneizantes. Ao longo da pesquisa, no entanto, essa expectativa não se mostrou profícua. Embora as/os entrevistadas/os, para se referir a suas experiências, acionassem algumas vezes categorias relativas às suas supostas identidades nacionais (“a/o brasileira/o”, “a/o dinamarquesa/ês”, “a/o alemã/o” etc.), aparentemente atualizando noções de pertencimento nacional, pareceu-me que, de fato, dentro de um espectro mais abrangente, articulavam formas diferentes de conceber a ideia de indivíduo.

        A problemática da individualidade tem sido analisada no âmbito das ciências sociais a partir de diferentes perspectivas teóricas. Se, atualmente, nos reconhecemos como indivíduos e tendemos a tomar tal noção como universal e até mesmo natural, diversas pesquisas nos apontam que a ideia de indivíduo, tal como nos é familiar hoje, é, na verdade, uma produção social e histórica recente. Dentre as/os autoras/es que têm trabalhado essa questão, destaca-se Louis Dumont.

        A partir de seus estudos sobre a cultura hindu, em comparação com a cultura ocidental, Louis Dumont (1985) vai forjar as noções de holismo e individualismo para explicar como tais culturas concebem a ideia de indivíduo. Para o autor, quando se fala de indivíduo, designam-se duas coisas ao mesmo tempo: um objeto fora de nós e um valor. Ele, então, distingue, do ponto de vista analítico, dois aspectos: de um lado, o sujeito empírico falante, pensante e volitivo, a amostra individual da espécie humana, tal qual o encontramos em todas as sociedades; e, por outro lado, o ser moral independente, autônomo, e portanto essencialmente não social, que carrega nossos valores supremos e se encontra em primeiro lugar na nossa ideologia moderna do homem e da sociedade. “Desse ponto de vista, há dois tipos de sociedades. Onde o indivíduo é o valor supremo eu falo de individualismo; no caso oposto, onde o valor se encontra na sociedade como um todo, eu falo de holismo

        ” (DUMONT, 1985, p. 37, grifos do autor). A pesquisa de Dumont (1985) consiste basicamente no problema das origens do individualismo, em como essa ideologia, que caracteriza as sociedades modernas, pode se originar a partir da ideologia das sociedades “tradicionais”, que ele concebe como sociedades holistas. Nas visões de mundo holistas, temos a representação de um indivíduo-fora-do- mundo, não reconhecido enquanto tal ou separadamente do grupo em que se insere, vez que está subsumido em uma estrutura hierarquizante (ele, então, só pode conquistar um status de indivíduo pela saída do grupo, como um indivíduo extramundano). Nas sociedades modernas, individualistas, surge a figura do indivíduo-no-mundo, um ser independente e autônomo, Apropriando-se de e criticando as formulações de Louis Dumont, Gilberto Velho (1997) aponta o alto nível de generalidade e abstração com que aquele autor trabalha. Para Louis Dumont, a antinomia holismo-individualismo está associada a uma oposição entre sociedades e culturas distintas, operando, portanto, em nível global. Esse autor constrói suas elaborações com base em uma antropologia comparada entre culturas e civilizações. Por isso, ele fala sobre dois tipos de sociedade que se opõem. Teríamos, assim, culturas holistas ou individualistas. No entanto, essa elaboração se torna problemática quando operamos em níveis mais localizados de análise. Como observa Gilberto Velho (1997

        , p. 24), “[...], quando a pesquisa e a investigação se aproximam de conjunturas históricas específicas e do nível

        

      etnográfico propriamente dito , há que tomar cuidado para não utilizarmos canhões para

      enfrentar passarinhos” (grifos do autor).

        Sem negar a distinção entre visões de mundo e linguagens hierarquizantes e individualistas, Gilberto Velho (1997, p 24-5) enfatiza, através de diversos exemplos, que mesmo nas culturas mais totalizadas ou organizadas em termos de hierarquia, existem sempre possibilidades de individualização. É o caso dos movimentos heréticos durante a Idade Média funcionando como um contraponto ao elemento totalizador representado pela religião durante esse período histórico e, ao mesmo tempo, dos renunciantes na Índia, exemplo estudado por Louis Dumont, que se retiram da sociedade e que bastam-se a si mesmos. Gilberto Velho destaca que não apenas as sociedades tradicionais produzem experiências individualizadoras radicais, como nas modernas sociedades industriais individualistas, ocorrem processos de desindividualização.

        Acrescenta o autor (1997, p. 26) que, nas situações em que os processos de individualização vão de encontro às fronteiras simbólicas de dado universo cultural ou as ultrapassa, teremos provavelmente as situações de desvios com acusações e, em certos casos, de estigmatização. Haveria para o autor uma constante ambivalência

      • – podemos mesmo dizer paradoxo
      • – entre fragmentação individual e totalização social e mesmo um compromisso entre individualização e inserção em contextos mais englobantes.

        Em grande parte das sociedades tribais, das tradicionais e das complexas tradicionais o agente empírico é basicamente valorizado enquanto parte de um todo

      • – linhagem, família, clã etc,
      • –, não se constituindo na unidade significativa. A sociedade de castas hindu, estudada por Dumont seria o caso clássico. Mas, como foi exemplificado com a Europa do século XII, isso só pode ser entendido como tendência, em certas situaç&otild
      • – dominância, mas nunca como uma anulação ou exclusão da individualidade em qualquer contexto (VELHO, 1997, p. 26).
      Para Gilberto Velho (1997, p. 53-4) não haveria, então, uma única modalidade de individualismo, mas duas. Num primeiro modelo, que figura uma situação mais tradicional e estável, os indivíduos são avaliados e situados dentro de um modelo hierarquizante, com categorias, em princípio, bem definidas. Em contraposição a esse padrão hierárquico, o outro se apoiaria numa ideologia que enfatiza o indivíduo enquanto valor, sujeito moral e unidade mínima significativa. No entanto, adverte o autor, essa formulação pode não ser fácil de distinguir em situações particulares. Assim, propõe considerá-los como duas tendências distintas para lidar com a individualidade. Percebe-se o deslocamento com relação à proposta de Louis Dumont, pois já não se trata de uma classificação de tipos de sociedade, mas de formas diferentes e não excludentes de articular a individualidade, ainda que nos mesmos contextos. Gilberto Velho (1997) destaca a contradição permanente entre particularização e universalização nos contextos sociais mais diversos. Segundo o autor:

        Tomando-se como referência qualquer sociedade poder-se-ia dizer que ela vive permanentemente a contradição entre as particularizações de experiências restritas a certos segmentos, categorias, grupos e até indivíduos e a universalização de outras experiências que se expressam culturalmente através de conjuntos de símbolos homogeneizadores

      • – paradigmas, temas etc. Na realidade, esse é, por excelência, o problema básico da própria existência do que chamamos de cultura [...] (VELHO, 1997, p. 17-8, grifos do autor).

        Apesar das elaborações de Gilberto Velho (1997) refinarem as de Louis Dumont, permitindo avançar na compreensão dos processos de individualização, acredito que seja possível acrescentar a essa discussão uma nova perspectiva para conceber o que Velho chama de modelos como discursos no sentido que Foucault dá ao termo, ou seja, enquanto práticas normativas, sustentadas em instituições sociais (família, escola, Igreja etc.), e a partir das quais os corpos e as subjetividades, bem como a própria realidade social, vão se

        34

        produzindo em função de estratégias de controle . O discurso define, portanto, o que pode e o que não pode ser dito e, a partir disso, o que se materializa ou não. A partir do que foi discutido, e tomando em conta o objeto de investigação, proponho distinguir entre discursos que se baseiam no princípio de que o grupo (no caso a família) é a referência primeira, à qual o indivíduo estaria subordinado, e no qual a autoridade é enunciada como uma propriedade do 34 grupo e as relações de poder distribuídas de modo desigual de acordo com as posições de

        

      Como afirma Roberto Machado (2006, p. 153), “o discurso é um conjunto de regras dado como sistema de

      relações. Essas relações constituem o discurso em seu volume próprio, em sua espessura, isto é, caracterizam- no como prática. Considerá- lo como prática, ‘prática discursiva’, significa defini-lo como ‘um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada e para determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de existência da função sujeito, e discursos, articulados à construção do sujeito moderno ocidental, que promovem o indivíduo como valor supremo e em sua autonomia e independência ante a qualquer estrutura social mais global. Tais discursos ora entrariam em contradição, ora se suplementariam, num jogo complexo e variável. Entendo que a produção das diferenças de gênero e geração deve estar referida à articulação dinâmica conflitiva ou não desses discursos.

        Essa discussão nos leva ao tema da articulação entre relações familiares e individualização. O fato de que as/os intercambistas convivam em grupos denominados de

        

      famílias anfitriãs não implica, obviamente, que haja entre os sujeitos uma forma dada de

        parentesco, muito menos que esses grupos se constituam para elas/es efetivamente enquanto famílias. Trata-se de uma categoria nativa forjada em um contexto social específico. A discussão de seu sentido, embora importante, extrapola os limites deste trabalho. No entanto, como as/os intercambistas tiveram experiências de convivência com famílias locais, entendo pertinente levar em consideração como essas famílias são afetadas e, por sua vez, participam dos processos de individualização característicos das sociedades ditas contemporâneas.

        François de Singly (2000, p. 13) afirma que a instituição familiar conheceu mudanças importantes ao longo da segunda metade do século XX, principalmente nos países ocidentais: o decréscimo dos casamentos, das famílias numerosas, o crescimento das concubinagens, dos divórcios, das “famílias pequenas”, das famílias monoparentais, recompostas e do trabalho assalariado das mulheres. Os indivíduos das sociedades contemporâneas ocidentais, segundo o autor, não se parecem com os indivíduos das gerações precedentes. As sociedades contemporâneas teriam imposto o surgimento do “indivíduo original”, o qual pretensamente esconderia, no fundo de si mesmo, um “verdadeiro eu”, uma identid ade pessoal, o que acabou se constituindo como “evidência normativa”, juntando-se a isso o imperativo da autonomia. As sociedades contemporâneas são, nesse sentido, sociedades individualistas, nas quais a família toma para si a função de tentar consolidar em permanência o “eu” de adultos e crianças. “Inversamente ao que o termo individualismo pode levar a crer, o indivíduo precisa assim, para tornar-se ele mesmo, do olhar das pessoas a que ele atribui importância e sentido. Esses outros significativos são, freqüentemente, o cônjuge ou o parceiro para um homem ou uma mulher, os pais para os filhos (e reciprocamente), ainda que outros próximos possam preencher tal função” (SINGLY, 2000, p. 14).

        O momento mais significativo das elaborações do autor sobre o tema é o da distinção que ele faz entre dois momentos históricos da modernidade aos quais corresponderiam duas espécies de família. A família que ele chama de “moderna 1” refere-se de grupo, centrada no amor e na afeição, com os adultos a serviço do grupo e principalmente das crianças: o homem “provedor” vai ao trabalho e a mulher, localizada no espaço doméstico, se ocupa da casa, das crianças e do marido. Valoriza-se a instituição do casamento como o melhor quadro para garantir esses objetivos. As famílias atuais são designadas pelo autor de “modernas 2” e não estariam em completa ruptura com o modelo anterior, na medida em que a lógica de amor se imporia ainda mais: os cônjuges somente estão juntos na medida em que se amam e os pais devem dar ainda mais atenção aos filhos. A distinção estaria no

        peso que essa família atual daria ao processo de individualização

        . “O elemento central não é mais o grupo reunido, são os membros que a compõem. A família se transforma em um espaço privado a serviço dos indivíduos”. Isso seria percebido através de vários indicadores quanto à relação conjugal (maior independência das mulheres, divórcio por consentimento mútuo, fim da autoridade paternal) e à relação pedagógica (negociação das necessidades da criança, novas formas de pedagogia com respeito à natureza da criança). Esse tipo de família se articula à individualização. Sua permanência se dá a esse preço, sua instabilidade também. Por isso, paradoxalmente, a família pode parecer frágil e forte: frágil, pois poucos casais conhecem antecipadamente a duração de sua existência, e forte porque a vida privada com uma ou várias pessoas próximas é desejada pela grande maioria das pessoas (sob certas condições, ou seja, se a família não é percebida como sufocante). O autor designa essa família de “relacional e individualista” e sanciona que é na tensão entre esses dois polos que se constroem e se desfazem as famílias contemporâneas (SINGLY, 2000, p. 15).

        No contexto dessa “família moderna 2”, afirma-se o eu individualizado que reivindica assumir o papel principal. E isso tem repercussões sobre como as pessoas concebem a vida em comum. Essa passa a demandar o reconhecimento da pessoa enquanto pessoa. A família seria, para o autor (2000, p. 18), o espaço privilegiado dos processos de individualização tais como vividos na modernidade, nos quais destaca duas dimensões: a autonomia (conhecimento do mundo no qual a pessoa vive, definido pela elaboração de regras pessoais e regras constituídas na negociação entre várias pessoas) e a independência (maneira de depender menos dos próximos, principalmente pelos recursos retirados da própria atividade). “Quando essas duas dimensões estão reunidas – independência e autonomia – então, o indivíduo moderno tem o sentimento de estar livre, pelo menos na sua vida privada”.

        Buscando compreender as tendências contemporâneas da sociedade brasileira em termos de arranjos familiares e suas articulações com o individualismo, Lia Machado (2002) também compreende que o individualismo da alta modernidade produziu efeitos nas formas familiares. Para a autora, o crescente processo de individualização consolidou as sociedades de direitos individuais e os “Estados de Bem-Estar”.

        A autora aborda pontos diferenciais entre os contextos brasileiro e latino- americano, de um lado, e europeu e norte-americano, de outro.

        De um lado, nem no Brasil, nem nas nações hispanoamericanas, se alcançou o Estado de bem-estar ou se generalizaram os direitos cidadãos, tal como, por diferentes percursos, o ‘mundo ocidental desenvolvido’ alcançou. De outro, o paradigma cultural ibero-americano que informa a construção social das formas de família, da sociabilidade e da noção de indivíduo apresenta historicamente forte enraizamento católico, em certo grau arabizado. Muito se distancia também do paradigma cultural luterano-calvinista preeminente no mundo anglo-saxão, mas também presente, em diferentes graus, na Europa Continental, especialmente na não latina . Marca, ainda, sua distância com o paradigma laico, jacobino e iluminista do mundo francês, ainda que tenha sido fortemente permeado pelo romantismo e pela cultura sulina mediterrânea (MACHADO, 2002, p. 13, grifos meus).

        Para Lia Machado, os esquemas teórico-metodológicos dos intelectuais de países centrais do mundo ocidental, principalmente franceses e anglo-saxões, predominam como base para as pesquisas em Ciências Sociais e História no Brasil. No entanto, segundo ela, tais autoras/es tendem, de forma preponderante e acrítica, a homogeneizar e generalizar contextos específicos como se fossem um mundo homogêneo, relegando outras diversidades (culturais e de situação de classe, por exemplo). Seus estudos parecem apoiar-se na ideia de primazia de um modelo geral e moderno de família, europeu e norte-americano, quiçá ocidental. Assim, para a autora, nem as elaborações de François de Singly nem as de Anthony Giddens sobre a modernidade, que em alguns pontos de aproximariam, indagam sobre a importância metodológica de buscar as diferenças nacionais, regionais ou de classe (MACHADO, 2002, p. 14). Cabe mencionar, também, as diferenças étnicas.

        Intelectuais brasileiras/os, por sua vez, se dividiram entre buscar ora o padrão ou modelo familiar brasileiro, ora a diversidade de modalidades de família no Brasil, seja por classe ou regiões. Há autoras/es que enfatizam a dominância do modelo familiar patriarcal gilbertiano, não só na história colonial como na moderna e na contemporânea, enquanto outras/os destacam a presença de arranjos familiares diversos durante toda a história do país, desde os tempos coloniais.

        A interpretação de que um modelo cultural relacional e hierárquico de sociabilidade se instituiu na sociedade brasileira colonial e permaneceu interrelacionado aos processos posteriores de instituição e construção de um modelo igualitário e individualista em suas diferentes fases está presente em vários autores brasileiros (MACHADO, 2002, p. 16). Segundo ela, Gilberto Velho, por exemplo, enfatiza o valor do individualismo como específico das camadas médias, para as quais as relações de família e de parentesco continuam a ser referenciais, mas cada vez mais afetadas pela vontade ou interesse do indivíduo. De forma geral, segundo depreende a autora, nos estudos brasileiros sobre família por ela analisados, a família aparece como valor mais englobante à medida em que nos aproximamos das camadas altas e elites políticas e das camadas populares. As camadas médias seriam, assim, depositárias de valores mais individualistas.

        No entanto, Lia Machado, ainda que não trabalhe numa perspectiva foucaultiana, apresenta uma proposta teórica própria que nos parece adequada ao presente trabalho e que caminha no sentido da distinção que construímos acima entre dois discursos que lidam com a produção da individualidade. A autora distingue entre dois códigos regedores dos arranjos familiares e de sua articulação com a individualidade: um código relacional, ancorado nas noções de honra, reciprocidade e hierarquia; e um código individualista. Afirma trabalhar com a coexistência entre esses códigos, que, para ela, não seriam excludentes.

        A co-existência dos dois códigos, o relacional e o individualista, no meu entender, atravessa, assim, toda a sociedade, constituindo variedades de formas de articulação e de preeminência de um ou outro código de acordo com as posições e situações de classe. O desafio metodológico é pensá-las nos diferentes segmentos sociais e nas diferentes temporalidades. Outro é também o desafio de não tornar o sentido do individualismo monolítico, diferenciando-se, no mínimo, a presença de uma noção de indivíduo centrada nos direitos de cidadãos de outra centrada nos interesses auto- referidos e no valor da

        ‘escolha’ e opção auto-direcionada (MACHADO, 2002, p. 16-7).

      Segundo a autora, ao teorizar a “família moderna 2”, François de Singly deixa de apontar a força das tensões entre diferentes lógicas presentes na primeira família e

        pensadas como excluídas da segunda: tensão entre a lógica do grupo e a do indivíduo; tensão entre a divisão hierárquica de gêneros e divisão igualitária entre cônjuges; e tensão entre uma pedagogia retificadora e uma pedagogia da negociação. A autora propõe, então, que essas tensões podem organizar diferentes formas de arranjo. Lia Machado (2002, p. 21) trabalha com a simultaneidade da atualização desses dois códigos: códigos relacionais da honra e códigos baseados nos valores do individualismo de direitos. Ela busca não reificar as distâncias na construção das subjetividades nas classes populares e médias. Em suas pesquisas, a autora afirma encontrar referências aos dois códigos. Esclarece, ainda, que o modo como percebe as transformações da contemporaneidade quanto aos arranjos familiares e aos valores que constituem a ideia de família se entrelaça ao modo como ela interroga sobre as transformações contemporâneas das relações de gênero.

        As tendências contemporâneas da família no Brasil, como, de resto, no mundo ocidental desenvolvido não podem, segundo Lia Machado, ser reiteradamente analisadas como se obedecessem a um caminho linear único. A autora também ressalta os paradoxos presentes em cada um dos códigos que regem os arranjos familiares.

        Se o ‘código relacional da honra’, tão presente nos modelos tradicionais das famílias brasileiras, é em grande parte responsável pela legitimação de relações violentas no seu âmbito e pela legitimação das relações hierárquicas e de poder de gênero, este mesmo código é, em grande parte, responsável pela legitimação de relações baseadas na reciprocidade e na responsabilidade do pertencimento a uma comunidade social.

        De outro lado, o ‘código individualista’, cada vez mais presente nos modelos das famílias da modernidade clássica e da alta modernidade, é em grande parte responsável pela responsabilização e autonomização dos indivíduos, e pela dessensibilização do indivíduo em relação ao seu semelhante e em relação ao seu pertencimento social, diminuindo a apreensão dos seus limites e da sua situação de compartilhamento (MACHADO, 2002, p. 24).

        Esses códigos são pensados enquanto princípios estruturadores das famílias ou, de forma geral, dos agrupamentos e sociedades. Nesse sentido, acredito possível concebê-los de forma articulada ao que busco discutir, numa perspectiva alinhada à teoria do discurso ou dos dispositivos tecnológicos de Michel Foucault, como referências discursivas diferentes, articuladas e conflitantes, para a produção do indivíduo no contexto das famílias de camadas médias por mim pesquisadas.

        Expostos os caminhos metodológicos seguidos e os aportes teóricos que nortearam a realização da pesquisa, passo a apresentar a análise do material construído em escutas, relatos, experiências constituídas em relações de aproximação, distanciamentos, negociações e, certamente, transformação dos sujeitos envolvidos.

        

      3 PRODUđấO DISCURSIVA DO GÊNERO E DA SEXUALIDADE NAS RELAđỏES

      ENTRE INTERCAMBISTAS E FAMÍLIAS ANFITRIÃS Uma norma não é o mesmo que uma regra, e não é o mesmo que uma lei. Uma norma opera dentro de práticas sociais como o padrão implícito de normalização. Embora uma norma possa ser analiticamente separável das práticas nas quais está embutida, também pode se mostrar recalcitrante a qualquer esforço para descontextualizar sua operação. Normas podem ou não ser explícitas, e quando elas operam como o princípio normalizador na prática social, elas geralmente permanecem implícitas, difíceis de ler, discerníveis mais clara e dramaticamente nos efeitos que elas produzem (Judith Butler, Undoing gender).

        3.1.1 A inteligibilidade heteronormativa Judith Butler (2006) argumenta que não existe uma pessoa substancial anterior

        à sua sujeição a normas de inteligibilidade de gênero. Conforme a autora, essas normas, no caso do gênero, buscam manter relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, desejo e prática sexual, articulando esses elementos em linhas de conexão causal. Trabalho aqui com a noção de que, em um momento histórico específico, nas diferentes sociedades e mesmo em suas distintas camadas sociais, está sempre em vigor um regime político hegemônico de gênero, cuja articulação entre os elementos acima indicados se configura como paradigmática e se impõe como referência obrigatória, enquanto outras possibilidades de articulação, embora também sempre presentes, são compreendidas como irregularidades, defeitos, violações e/ou transgressões.

        É assim que se pode compreender a heteronormatividade: um regime político- discursivo historicamente situado, através do qual os sujeitos se engendram conforme normas que estabelecem gêneros e identidades sexuais binárias

      • – como masculino/feminino; heterossexual/homossexual, dentre outras oposições
      • – e segundo as quais o gênero masculino é universalizado e hierarquizado como superior, enquanto a orientação heterossexual é construída como modelo para as relações entre os gêneros. Assim, por exemplo, uma pessoa do sexo biológico masculino (o que significa ter nascido com pênis), deveria desenvolver um gênero masculino, portando e exibindo atributos específicos, desejar pessoas do sexo oposto e
      praticar com elas certos atos sexuais normativamente sancionados, dentro de certa compreensão da sexualidade.

        A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária na qual o termo masculino é diferenciado de um termo feminino, e esta diferenciação é alcançada através das práticas do desejo heterossexual. O ato de diferenciar os dois momentos oposicionais do binário resulta em uma consolidação de cada termo, a respectiva coerência interna de sexo, gênero 35 e desejo (BUTLER, 2006, p. 31).

        O fato de que as famílias anfitriãs entrevistadas, bem como as observadas em outros contextos, escolheram, na maioria das vezes, suas/seus intercambistas primeiramente em função do gênero, tem algo a nos ensinar sobre a questão da inteligibilidade social do gênero e sua produção discursiva. É importante enfatizar, no entanto, que as situações descritas e as análises que lhes correspondem desenvolvidas ao longo de todo o capítulo não podem ser generalizadas, sendo indicativas de como os processos de gendramento, entendidos em sentido amplo, configuram-se no interior de famílias de camadas médias locais.

        participar do programa desejaria hospedar mulheres. Acrescentou que a colocação de intercambistas homens sempre tinha sido mais difícil e que, na maioria das vezes, seriam as últimas a ser feitas. As intercambistas mulheres, segundo ele, seriam muito mais facilmente acomodadas. Nas próprias fichas de cadastro que tive a oportunidade de analisar, a maioria das famílias anfitriãs candidatas indicou, no campo reservado para observações: “Queremos menina” ou “Preferencialmente menina”.

        Ao perguntar a Dalva e Denise, se tanto fazia hospedar um homem ou uma

        37 mulher, Dalva respondeu que pensaram .

        em “receber uma menina” Dalva: Primeiro, por questões assim bem práticas. A gente mora em apartamento muito pequeno. Eu não tive nenhum filho homem e fiquei com medo de não saber conduzir a coisa. O pai dela também. Porque o pai dela com certeza não iria

        

      concordar que fosse um menino. Então, pensando nessas coisas, achei que fosse

        38 35 melhor uma moça [grifos meus].

        

      Texto original: The institution of compulsory and naturalized heterosexuality requires and regulates gender as

      a binary relation in which the masculine term is differentiated from a feminine term, and this differentiation is accomplished through the practices of heterosexual desire. The act of differentiating the two oppositional moments of the binary results in a consolidation of each term, the respective internal coherence of sex, 36 gender, and desire.

        

      A/O leitora/r deve se referir ao quadro de pessoas entrevistadas e/ou observadas, no capítulo anterior, para se

      37 orientar quanto aos nomes utilizados no presente capítulo e também no seguinte. 38 Palavras e expressões entre aspas indicam o próprio discurso dos sujeitos da pesquisa.

        

      Escolhi distinguir entre as citações das entrevistas e as citações bibliográficas. Enquanto, para estas, sigo as

        Ana e André disseram que queriam receber uma intercambista mulher. A princípio, justificaram que seria para dividir o quarto com a filha, Amanda.

        39 Ana: Não, porque na época que veio Joanne, veio David e David teve uma época

        que tava sem... que a família dele... que ele veio pra uma casa aqui perto da nossa,

        40

        a primeira família dele. Aí, depois que ele foi pra casa de Gabriel . Mas, antes de ele mudar pra casa de Gabriel, eu perguntei pra André se ele não gostaria de receber. Ele: “Não, menino não”! [tom categórico e risos]. Eu não tenho problema nenhum, mas André na mesma hora “Não, menino não”!

        André: Porque a menina é mais fácil de lidar; o homem, não. Eu penso assim: se eu for dar uma opinião, ele pode não querer aceitar, aí vem rebater, aí não dá certo. E mais por causa de Amanda também [grifos meus].

        Ana afirmou que, para ela, não haveria problema em hospedar o intercambista. André não queria hospedá-lo simplesmente porque era homem. Acreditava que seria mais fácil lidar com mulheres e expressou uma preocupação de a filha conviver com o intercambista no espaço da casa.

        Durante a observação de um evento envolvendo intercambistas e famílias anfitriãs, escutei um jovem dizer a George que ele e sua família gostariam de receber uma intercambista mulher em casa. Enfatizou que deveria ser uma mulher, pois seu pai não queria homens por causa da filha (irmã do jovem que falava). O jovem justificou que seu pai tinha medo de que algo pudesse acontecer.

        A família anfitriã do intercambista Erick pareceu, a princípio, contrariar essa tendência de as famílias anfitriãs quererem receber preferencialmente mulheres, principalmente quando têm filhas. A mãe anfitriã afirmou, durante uma conversa na empresa com Maria, a qual observei, que pensou que o intercambista seria uma ótima companhia para o marido por causa da paixão de ambos pelo futebol. No entanto, pareceu-me que, de fato, foi o seu próprio desejo que pesou mais para que aceitassem o intercambista, já que o marido e as filhas queriam, a princípio, receber uma intercambista mulher, segundo o que ela e o próprio marido, que também estava presente, relataram. Essa mãe anfitriã tinha um filho mais velho

        

      espaçamento e as margens. Busco, com esse recurso, dar uma visibilidade diferente às falas das/os

      39 entrevistadas/os no meu trabalho, do qual são verdadeiras/os coautoras/es. 40 Intercambista europeu que viveu em São Luís no mesmo período que Joanne.

        Irmão anfitrião de David em sua segunda família anfitriã. fruto de uma união anterior e afirmou que não tivera a oportunidade de conviver com o filho “durante o período de sua adolescência”; assim, me pareceu que tinha a expectativa de compensar um pouco isso convivendo com o intercambista. Em última instância, havia também no início um interesse de hospedar uma mulher.

        Beatriz e Bernardo afirmaram que, em tese, seria indiferente receber um homem ou uma mulher, mas que Bianca, a filha, escolheria sempre uma mulher, porque ela queria conviver de forma mais próxima, dormir no mesmo quarto, dentre outras coisas.

        Diferentemente de quando tiveram as/os suas/seus próprias/os filhas/os, os membros das famílias anfitriãs puderam escolher o gênero da/o intercambista com quem iriam conviver por determinado período de tempo. E essa escolha me parece bastante significativa de como normas discursivas de gênero repercutem, desde antes mesmo do encontro entre esses sujeitos, em suas experiências de convivência.

        Se a maioria das famílias anfitriãs candidatas a hospedar uma/um intercambista deseja receber mulheres e se as intercambistas mulheres são muito mais fácil e rapidamente acomodadas, como relatou George e como tive também a oportunidade de observar, podemos entender que estão em jogo representações acerca dos significados atribuídos a mulheres e homens no contexto estudado. Por que o pai de Denise não iria concordar que ela e Dalva convivessem com um intercambista em casa? Por que uma mulher seria mais fácil de lidar que um homem e como entender a recusa mais ou menos categórica de André

      • – tal como enunciada por Ana – quanto a hospedar um intercambista e sua justificativa de que seria “por causa de Amanda”? O “por causa da filha” também aparece na fala do jovem do evento que observei. O que seu pai temia que acontecesse entre um intercambista, situado em posição de gênero idealizada, e a filha? Como podemos entender a própria preocupação, vez que não está fundada em nenhuma situação concreta? A convivência com as intercambistas mulheres seria, de fato, para as famílias anfitriãs, mais fácil e menos problemática que a convivência com os intercambistas homens?

        Conforme algumas falas acima, a presença de um intercambista homem na casa parece ser temida e o temor geralmente enunciado por ou pelo menos associado a um homem. A figura do intercambista parece ser imediatamente associada à possibilidade de relações sexuais com uma mulher jovem da família anfitriã. Trata-se de evitar a convivência entre os dois, por temor de que algo

      • – negativamente avaliado – possa acontecer. Interpretar essa escolha por um gênero e não por outro mostra a presença e funcionamento de normas discursivas que informam efeitos de processos de socialização de homens e mulheres. Estas
      e estão figuradas em posição de objeto de desejo de um homem pressuposto sujeito, ativo, cujo desejo sexual seria irresistível e poderia levá-lo a assediar essa mulher, tida como objeto indefeso.

        No entanto, esses traços projetados nos intercambistas podem encontrar-se, de fato, nos homens locais. Durante uma conversa informal comigo, a mãe anfitriã de uma intercambista da Europa Nórdica me relatou o que seu marido lhe havia confidenciado. Em um almoço em sua casa, alguns amigos do marido teriam lhe perguntado se ele “nunca tinha tido vontade de pegar

        ” a intercambista. Um deles, inclusive, teria acrescentado: “porque se ela estivesse lá em casa...”, sugerindo que supostamente faria algo de natureza sexual com ela.

      Trata- se aqui da construção discursiva do homem enquanto sujeito ativo e “pegador”. O

        curioso é que tal construção é enunciada diante de outros homens. Trata-se de que, diante de outros homens, um homem deve performatizar essa atitude de possuir um desejo irresistível e meramente sexual por uma mulher considerada atraente, ainda que desse desejo não decorra nenhuma ação concreta.

        Maria Rita Kehl (1998) ressalta a construção articulada na cultura europeia dos séculos XVIII e XIX, através da concorrência de vários discursos, pela qual se buscava a adequação das mulheres a um conjunto de atributos, funções, predicados e restrições chamado de feminilidade. Dentre esses, destacavam-se o recato, a docilidade e a receptividade passiva com relação às necessidades dos homens e dos filhos.

        Nos discursos ora analisados, a relação entre um homem e uma mulher é, também, prontamente sexualizada e pensada dentro dos limites discursivos a que nos referimos acima. Os gêneros são deduzidos dos sexos biológicos dos sujeitos e, de acordo com a lógica interna do regime discursivo, seus desejos e práticas sexuais compreendidos à luz do dispositivo heteronormativo, que se baseia na ideia de uma atração irresistível e necessária, em qualquer situação, entre pessoas do sexo oposto. Portanto, está em jogo igualmente a presunção de uma heterossexualidade universal, embora algumas/ns das/os intercambistas possam não se representar assim. Segundo George, até hoje, apenas um intercambista teria explicitamente se apresentado como gay, embora membros das famílias anfitriãs e amigas/os de outras/os intercambistas já tenham comentado sobre a suposta bi ou homossexualidade delas/es. Além disso, observe-se que as/os intercambistas são pensadas/os em função das representações de gênero locais, não ocorrendo, geralmente, a ideia de que são provenientes de outros contextos culturais.

        Segundo Ingrid, em seu contexto cultural de origem, “garotas” são amigas de informação à percepção de que, no contexto local, isso seria considerado mais difícil para os pais anfitriões, como se a convivência entre uma mulher e um homem, para eles, implicasse necessariamente na eventualidade de relações sexuais.

        Diversas autoras feministas criticaram a associação produzida, nos discursos ocidentais, entre subjetividade, masculinidade e universalidade. Judith Butler (2006, p. 13,) comenta o argumento de Luce Irigaray de que tanto a noção de sujeito quanto a de Outro são

        42

        produções masculinas dentro de uma economia significante falogocêntrica que alcança sua finalidade totalizante pela exclusão do feminino de modo geral. É isso o que a autora chama,

        43

        em outra passagem, de . Ela afirma que, a “rasura falogocêntrica do sexo feminino” (p. 36)

        44

        nos termos do falogocentrismo. Sua portanto, “o sujeito é sempre já masculino” (p. 158) crítica permite descontruir o binário sujeito-outro, apontando seu caráter falso, posto que produzido dentro de um regime discursivo masculinista, que disfarça o masculino em universal e nega ao feminino o atributo de sujeito, significando-o como uma ausência ou falta irrepresentável. Ainda que se possa questionar uma possível universalização presente nas construções da autora, percebemos em seu argumento que as posições masculina e feminina são instituídas através de construções de linguagem, de normas que produzem gêneros inteligíveis.

        Um dado curioso, que me foi relatado por George e que também pude observar, é o de que a maioria dos problemas enfrentados pelas famílias anfitriãs em sua convivência com intercambistas dizem respeito precisamente às intercambistas mulheres, contrariando a expectativa de muitas famílias anfitriãs de que seria mais problemático conviver com intercambistas homens em casa. O olhar de atribuição de papéis de gênero pelas famílias anfitriãs se dá a partir de suas referências culturais as quais, em vários aspectos, como enunciado pelas/os intercambistas, divergem de seus padrões de comportamento referidos ao gênero.

        Podemos perceber, então, que escolher uma/um intercambista é, antes de tudo, escolher um gênero e, assim, concorrer para sua fabricação através do acionamento normas discursivas de gendramento.

        

      por Jacques Derrida a partir de falocentrismo e logocentrismo, para designar o primado concedido de uma lado

      pela filosofia ocidental ao logos platônico e, de outro, pela psicanálise à simbólica greco-freudiana do Falo,

      segundo a qual não existiria senão uma libido (ou energia sexual) e que e 43 sta seria de essência masculina”.

        Texto original: phallogocentric erasure of the female.

        3.1.2 Construindo e questionando identidades e hierarquias de gênero Adrian me relatou que sua namorada o orientou a pedir ao avô dela

      • – com quem ela morava
      • – para que pudessem namorar. O interessante é que já estavam namorando desde antes do momento em que Adrian finalmente, em um ritual formal e tradicional, para o qual inclusive comprou um anel de compromisso, pediu que o avô autorizasse o namoro.

      Que foi quando você conversou com o avô?

        Adrian: Exatamente. Tipo fazendo coragem. Eu lembrei estava muito nervoso porque conversar com avô dela não [é] coisa que você faz sozinho. Toda a família vai olhar e ficar sempre do lado, ele nunca está sozinho. Porque ele está um pouco antigo

        . Ele sempre manda “Eu quero água; Renata, pega”; “Eu quero comida; Rose pega pra mi m”. Ele nunca faz coisas sozinho.

      O avô?

        Avô. E tipo isso eu acho que é uma coisa antiga, isso está mudando aqui no Brasil. Na minha família eu estou olhando isso, os homens têm mais poder do que mulheres. Mas, eu acho que isso está mudando muito aqui.

        O avô aparece no discurso de Renata como aquele que vai decidir se ela pode ou não namorar o intercambista, ainda que o ritual seja apenas uma encenação. O avô encarnaria a instância última de decisão dentro da família e sua relação com Renata seria de heteronomia. Renata, na situação relatada, é representada como objeto de uma negociação entre homens e encenará aceitar a decisão que um homem tomará acerca de sua vida afetiva e sexual.

        Para Bar bara, a mulher no contexto local estaria “abaixo do homem”. Em sua experiência na segunda família anfitriã, era o pai anfitrião a última instância de decisões, ele teria sempre a palavra final. “[...] você tem que perguntar para o pai, você se dirige ao pai e o pai decide. Se você se dirigir à mãe, a mãe se aconselha com o pai, a mãe tem que perguntar ao pai”, relatou ela.

        Essa forma hierárquica de funcionamento familiar tem algumas de suas raízes históricas no período colonial brasileiro. Jurandir Costa (1999, p. 95) aponta que a família colonial fundava sua coesão sobre um sistema piramidal em cujo topo se encontrava o homem em sua polivalente função de pai, marido, chefe de empresa e comandante de tropa. Dele era exigida toda iniciativa econômica, cultural, social e sexual. Os demais membros do grupo se ligavam ao pai de modo absolutamente passivo. “O pai representava o princípio de unidade da propriedade, da moral, da autoridade, da hierarquia, enfim, de todos os valores que mantinham a tradição e o status quo da família” [grifos do autor]. Ainda segundo o autor, esse tipo de solidariedade desestimulava todo elo afetivo que incentivasse motivações e vontades individuais. “O convívio familiar não devia nem podia ordenar-se de forma a privilegiar a escuta, a atenção e a realização de desejos e aspirações particulares. [...] O único interesse visado era o do grupo e da propriedade, expresso sempre pelo pai”.

        Dessa forma, atribuía-se ao pai um direito quase natural de comando e a reação deveria ser de imediata e irrestrita obediência. Dentre outras coisas, era o pai que determinava, e supostamente em nome do grupo, as escolhas afetivas e sexuais de seus dependentes. Certamente, não pretendo com essa interpolação de natureza histórica dissimular a existência de diferentes formas de organização familiar no Brasil colonial e sugerir a ideia de que uma determinada forma de família

      • – como a patriarcal ou a família conjugal moderna, por exemplo
      • – seriam a única ou o fundamento da organização social mais geral. Nesse sentido, o importante trabalho de Mariza Corrêa (1981) aparece como uma referência importante, na medida em que ela busca precisamente descontruir a visão de que a família patriarcal foi a instituição fundamental do Brasil colonial substituída, com a urbanização, pela família conjugal moderna; pois tal visão excluiria do panorama das pesquisas a possibilidade de investigar formas alternativas de organização familiar. Também sugeriria a ideia de uma uniformidade na constituição das famílias, impedindo a percepção do caráter contraditório e multívoco dessas relações. Igualmente não se trata de acompanhar as teses que postulam um patriarcado universal como origem da opressão de gênero.

        Ainda assim, as situações relatadas acima me parecem atualizar dentro das famílias anfitriãs uma referência discursiva historicamente constituída e significativa na dinâmica das relações familiares, segundo a qual o homem-pai é identificado como polo de autoridade e objeto de um temor emocional por parte de seus “dependentes”. E nessa conformação discursiva se percebe uma forte assimetria de gênero, bem como uma intensa inibição da individualidade pela subsunção dos interesses e desejos do indivíduo ao grupo em que ele se integra. Nessa configuração, a mulher deveria ocupar um lugar específico, de subordinação ao homem e marido e de retraimento doméstico, constituindo-se também como agente reprodutor dessa ordem normativa preponderante. Outro elemento importante dessa organização é a distância afetiva do pai na família, consolidadora de sua autoridade. Quanto menos ele necessitar falar, valendo-se da mulher como sua porta-voz para isso, mais sua autoridade se assenta. No limite, coloca- se o ideal do “basta olhar” para que se produza temor

        Ana era a pessoa que, no dia-a-dia, falava das normas, impunha os limites. André acreditava que por Joanne ser mulher, era Ana quem tinha de impor os limites diretamente. Com Amanda, também agia assim, conforme relatou. Quando via alguma coisa errada, não se dirigia diretamente a Amanda, mas sim a Ana para que esta então conversasse com a filha. Além disso, Ana também se disse muito caseira e que André era “louco por bola” (que jogava, então, três vezes por semana).

        Alice relatou que era sempre a mãe anfitriã quem vinha e falava das regras e exercia mais diretamente o controle de suas idas e vindas e de sua autonomia. O pai anfitrião, assim como em outras famílias anfitriãs, mostrava-se mais silencioso, deixando à mulher o papel de efetuar esse controle e de conversar com Alice e a filha. O pai anfitrião, segundo ela, não demonstrava muito interesse por ela e muitas vezes nem sabia onde ela estava. Ela acrescentou que, em comparação, o pai europeu era mais interessado. Alice também disse que, na família anfitriã dela, as tarefas domésticas cabiam à mãe anfitriã. O pai anfitrião nunca ajudava, segundo o que ela relatou. Disse, ainda, que, em sua família na Europa, os pais dividiam o trabalho de casa (o pai também cozinhava e limpava a casa, por exemplo).

        Cristina relatou que estava passando por problemas com seus irmãos, pois seu pai estava muito doente e ninguém mais na família queria cuidar dele. Os irmãos entendiam, segundo ela, que era sua a obrigação de cuidar do pai doente, porque ela era mulher. Por conta disso, ela havia se desentendido com os irmãos. Finalmente, o pai havia sido levado para sua casa. Ela também relatou que sua filha, de quase quinze anos, nunca tinha convivido com alguém da idade dela antes de Kate vi r morar com elas e que era “meio sozinha também, porque ela não sai”. Cristina também contou que uma das insatisfações de Carlos para com ela é que ele queria que ela fosse dona de casa, “mãe das meninas”, que tomasse conta das meninas e que ela não tinha que estar se preocupando com outras coisas (estudo, emprego). “É pra eu me preocupar só com filhos”. George me informou que Kate lhe relatou, inconformada, que as responsabilidades de casa ficavam todas com sua mãe anfitriã, Cristina. Segundo Kate, Carlos não costumava fazer nenhuma tarefa doméstica e Kate se chateava com tal situação.

        Percebemos, nessas situações, uma associação entre identidades de gênero e espaços sociais, bem como alguns eixos para a construção de identidades gendradas. O espaço doméstico, por exemplo, é construído como aquele que se destinaria às mulheres. Elas ficariam responsáveis por gerir a casa, pelas tarefas domésticas (limpar, cozinhar, lavar etc.) ou por administrar as pessoas contratadas para cuidar destas e também pelos cuidados com que têm definido a identidade de gênero das mulheres: a maternidade (ser mãe), o matrimônio (ser esposa) e o trabalho (ser trabalhadora). Para o autor, esses três eixos conceituais não operam apenas no momento de sua aparição empírica, mas estão sempre presentes como “formas sociais” que orientam a conduta, são símbolos que descreveriam, organizariam e qualificariam o que significa “ser mulher”.

        As expectativas de André e Carlos se colocam no sentido de que suas companheiras realizem esses símbolos de “mãe” e “esposa” e de que se realizem nessas vivências. Ao descrever- se como “caseira”, apesar de também trabalhar fora de casa, Ana parece falar, sem perceber, de sua localização em função de sua identidade de gênero. A mulher deve pertencer ao espaço doméstico, seu ambiente por excelência, onde, dentre outras coisas, tem de cuidar das/os filhas/os e de seu controle no dia-a-dia. É delas que se espera a realização das tarefas domésticas, como no caso da mãe anfitriã de Alice e de Cristina. Esta, que estudava e realizava atividades fora de casa, expressou a pressão que sentia de Carlos para que se dedicasse mais à casa e às filhas. Relatou que, certa vez, ao chegar em casa mais tarde

      • – em torno das 00:30 – voltando de uma festa de aniversário com Kate, encontrou Carlos no portão esperando por ela e visivelmente chateado. “O circo estava armado”, dando a entender que Carlos estava bastante irritado por seu comportamento de mulher mais independente, que não está prioritariamente em casa e que também realiza atividades suas, permitindo-se incorporar representações que, no contexto local, estariam prioritariamente identificadas aos homens, como a autonomia e o “estar na rua”. Carlos parece se irritar porque Cristina não encarna docilmente o atributo de “mulher de casa”.

        Tania Swain (2000) argumenta que as imagens da mãe e da prostituta são dois traços importantes da representação social das mulheres. A construção discursiva da maternidade atrelou historicamente a mulher ao espaço doméstico, negativando sua inserção em espaços públicos. É o que se pode perceber pela simples comparação, em nossa língua, entre expressões como “homem público” e “mulher pública” que, num caso, tem acepção positiva, enquanto, no outro, assume um sentido pejorativo. “Mãe e esposa, sexo domesticado, moralidade, espaço privado, família, reprodução do social. Prostituta, mulher pública, liberação do vício e da lascívia latentes do feminino” (p. 53). Acrescenta a autora que:

        A instituição social do casamento e seu corolário, a maternidade, aparecem como elementos constitutivos do ‘ser mulher’ enquanto locus ideal do feminino. Há cerca de 30 anos a pesquisa feminista vem indicando os mecanismos sociais produtores destas representações cristalizadas, cuja matriz, a heterossexualidade, aparece como fundamento para corpos ‘diferentes’ e complementares (feminino/masculino) ligados d e maneira inexorável pela ‘natureza’ ou pela ‘ordem divina’. A instituição da noção de “família” restrita, de núcleo familiar constituído pela mãe, pai e filhos como base do social, completa a estreita ligação entre casamento, maternidade e heterossexualidade (SWAIN, 2000, p. 54¸ grifos da autora).

        A representação da mulher como esposa e mãe aparece como um ideal normativo regulador da construção das identidades de gênero. As falas das/os entrevistadas/os sobre diversas situações correlatas apontam que, para além das vivências específicas, e apesar de nenhuma mulher encarnar na totalidade esses atributos, esse ideal ainda se mostra bastante presente e ativo.

        Em uma pesquisa sobre a relação entre o trabalho doméstico e o assalariado, realizada com homens e mulheres, Rafaela Cyrino (2009) fez achados que expõem as tensões entre “tradição” e “modernidade” – oposição cuja naturalização merece ser questionada – presentes no interior das famílias e que corroboram os dados desta pesquisa. Enquanto a igualdade de gênero é afirmada nas falas das/os pesquisadas/os, as práticas revelam incoerências: a existência, nos domicílios, de relações desiguais e assimétricas entre os gêneros seria antes a regra que a exceção.

        No que diz respeito ao tradicionalismo, ainda presente nas relações familiares, o aspecto mais notável foi observado através da recorrente associação entre as mulheres e o cuidado com os filhos. No caso do grupo dos homens, recorreu-se, inclusive, ao discurso de especialistas em educação infantil para a afirmação de que a mulher é uma presença imprescindível e insubstituível, que deve estar efetivamente presente no âmbito doméstico, principalmente quando os filhos ainda são pequenos. No caso das mulheres, o conflito se traduz, por exemplo, em um discurso feminista a favor da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no que se refere ao trabalho, concomitante a um discurso favorável a um trabalho nitidamente diferenciado da mulher, com uma carga horária menor do que a do homem para que a mesma possa dedicar-se também, à conservação e cuidado do grupo familiar.

        [...] Outra questão importante observada na pesquisa se refere à maneira diferenciada pela qual homens e mulheres compreendem o que seja ‘a divisão das tarefas domésticas ’. Enquanto as mulheres reclamam do pouco envolvimento masculino no trabalho doméstico, os homens possuem um discurso em que se percebem ‘dividindo efetivamente tais afazeres’ com as mulheres. Entretanto, enquanto as mulheres percebem as atividades domésticas como trabalho efetivo, alguns homens as percebem como parte do que chamam de ‘lazer’ (CYRINO, 2009, p. 87-8).

        A maioria das famílias entrevistadas e/ou observadas contavam com os serviços de empregadas domésticas, todas elas mulheres. Cristina relatou que sempre contaram com uma ou duas empregadas que faziam os trabalhos domésticos em casa. Bryan afirmou que quase ninguém tem empregada doméstica em seu país, mas que aqui nas famílias anfitriãs em que morou, sim, havia empregadas que cuidavam das tarefas domésticas. Na casa dele na Europa, ele afirmou que limpava o próprio quarto, colocava os pratos e talheres na máquina de lavar pratos, enquanto que aqui ele não fazia quase nada; “as empregadas fazem tudo; a vida aqui é melhor” [por não ter que fazer muitas tarefas domésticas]. Lara teria contado para Beatriz que, em seu país, quem fazia as tarefas de casa era o padrasto. A maioria das/os intercambistas relatou que, em suas casas, na Europa, os membros da família costumavam dividir as tarefas domésticas, dando a entender que não esperavam que a mãe fosse a pessoa originalmente responsável por elas. Natalie, intercambista da América do Norte, teria informado a George que, em certa ocasião, se manifestou contra a mãe anfitriã que acordou a ela e à irmã anfitriã para que limpassem a casa e fizessem outras tarefas domésticas, enquanto o irmão anfitrião continuou dormindo. Para ela, tal situação se configurava como “injusta”.

        Percebemos no discurso das/os intercambistas que elas/es se orientam por outras possibilidades de representação das identidades de gênero. Em seus contextos culturais de origem, relatam, os homens participariam de maneira ativa da realização das tarefas domésticas, o que nos permite questionar se já teria havido um deslocamento na identificação do trabalho doméstico como eixo estruturante de identidade para as mulheres. As/os intercambistas se expressaram em desacordo ante a forma de divisão do trabalho doméstico que observavam em suas casas em São Luís, afirmando que em suas famílias de origem a divisão do trabalho doméstico era mais partilhada entre os membros da família e não se dava em razão do gênero.

        Uma breve incursão por alguns acontecimentos históricos importantes do século passado nos ajuda a compreender a posição discursiva dessas/es intercambistas a esse respeito. Göran Therborn (2006), em seu abrangente estudo sociológico sobre a família no mundo no século XX, avalia os destinos do patriarcado e sua herança para o século XXI. O autor efetua suas análises com base no conceito de patriarcado, entendido como dominação do pai e do marido sobre filhas/os e mulher, respectivamente, mas admite que a discriminação e a desigualdade de gênero devem ser vistos como conceitos mais amplos, que não se reduzem ao de patriarcado. Ainda assim, os dados de seu trabalho nos ajudam a entender diferenças históricas importantes quanto ao tratamento das questões de gênero na região de onde a maioria das/os intercambistas provém.

        O autor afirma, numa perspectiva que podemos considerar etnocêntrica, que, patriarcais, embora o poder de pais e irmãos diferisse entre culturas e classes. No final do século, no entanto, essa instituição teria se retraído mais que qualquer outra. Ao apontar os três principais momentos de mudança nas relações de gênero e geracionais, Göran Therborn (2006, p. 114) destaca o pioneirismo e prioridade que a Escandinávia teve logo no início do século XX, com a implementação de uma nova Lei do Casamento em 1915, na Suécia, e um programa escandinavo de reforma do Direito de Família redigido antes da Primeira Grande Guerra.

        Os resultados das deliberações da comissão [de juristas encarregada das propostas de reforma legal], criada em 1909, consistiram em propostas a favor de uma concepção individualista e explicitamente igualitária de casamento . O primeiro traço manifestava-se de forma mais direta no divórcio pelo consentimento mútuo e pela ausência de culpa por dano irreparável. [...] (THERBORN, 2006, p. 123, grifos meus).

        Essas mudanças legais, o que implicou no reconhecimento público e em nível geral da igualdade legal entre os gêneros no casamento, prepararam evidentemente o terreno para modificações sociais importantes no sentido de um profundo abalo do poder masculino. A instituição pública de direitos funcionaria, nesse sentido, como um elemento discursivo importante nas lutas por maior igualdade. Ainda segundo o autor:

        Um movimento de mulheres significativo e com algo de filiação de massa emergira nos países escandinavos e era reconhecido pelos governos como grupos a serem consultados. As mulheres finlandesas conquistaram o direito de voto em 1906 (na trilha das sublevações russas de 1905), as norueguesas em 1907, as dinamarquesas em 1915, as suecas em 1921, mas com a primeira decisão em 1919. As mulheres norueguesas e dinamarquesas tinham maior influência política, visto que estavam bem articuladas com o liberalismo de esquerda masculino, especialmente na Noruega. Mas as organizações femininas da Suécia também conseguiram ser ouvidas na preparação da nova Lei de Casamento e quatro especialistas mulheres foram oficialmente consultadas. Em 1914, as dinamarquesas tomaram a iniciativa de um encontro feminista escandinavo visando pressionar a reforma do Direito de Família e, em 1915, um membro feminino foi acrescentado a cada uma das comissões nacionais sobre Direito de Família (THERBORN, 2006, p. 126-7).

        Nesses países da Europa Nórdica, muito antes que no Brasil, os sujeitos puderam se referir às normas legais estatais para reivindicar direitos igualitários entre os gêneros. No Brasil, embora as mulheres tenham obtido direito ao voto em 1932, somente com a Constituição Federal de 1988, deu-se a igualdade de direitos entre os gêneros, com a abolição da chefia masculina na família, o que implicou na elaboração de um novo Código Civil (incluindo o livro que trata do Direito de Família) em 2001. Essa distância histórica nos parece relevante para destacar como o discurso do gênero se constitui nas duas localidades (Europa Nórdica e Brasil).

        Podemos supor que as relações de gênero testemunhadas por essas/es intercambistas em suas famílias de origem, inclusive por efeito de um discurso público que há muito incorporou a exigência da igualdade de gênero, estejam mais próximas do que Tania

      Salem (1987) aponta como sendo a ideologia do “casal igualitário”, isto é, de uma

        organização social individualista fundada no princípio do igualitarismo, sobre a qual tecerei, nesse ponto, apenas comentários superficiais. Essa referência discursiva, como podemos compreendê-la, impõe como ideal normativo a igualdade entre os membros da relação conjugal, na qual o casal não derivaria sua realidade dos grupos a que cada sujeito pertencia antes do enlace, mas a construiria tomando como referência o desejo de ambos os cônjuges. Essas representações repercutem sobre as relações de gênero na medida em que o princípio do igualitarismo expressa a não existência de âmbitos ou qualidades simbólicas que fossem exclusivos de cada um dos gêneros.

        Transpondo essas idéias para o plano da relação entre gêneros deve-se ter em mente que o valor da igualdade não postula que homem e mulher sejam substancialmente iguais. Ele postula, antes, uma indistinção valorativa de seus atributos, bem como de seus respectivos domínios. Decorre, justamente dessa indiferenciação valorativa do feminino e do masculino, a incitação para que cada gênero ingresse e experimente, concreta ou simbolicamente, o universo e até mesmo, eventualmente, a identidade do outro (SALEM, 1987, p. 3).

        De acordo com a autora, as correlações paradigmáticas estritas entre, de um lado, homem-masculino-domínio público-funções instrumentais-razão e, de outro, mulher- feminino-domínio privado-funções afetivas-emoção são suspensas e afetadas por uma indistinção valorativa. Dessa forma, quando Natalie se indispõe contra a correlação estrita induzida pela mãe anfitriã entre mulher e tarefas domésticas, ela parece acionar um dispositivo segundo o qual essa atividade pode muito bem e deve ser realizada por qualquer membro da família independentemente de seu gênero.

        No entanto, pareceu persistir no interior das famílias anfitriãs uma associação bastante estrita entre mulher, maternidade e espaço doméstico, com destaque para o fato de que todas as empregadas domésticas eram mulheres.

        Finalmente, parecem reforçar este argumento as falas de Bryan, que me relatou que seus pais anfitriões sempre lhe deram muita liberdade de ir e vir, e a de Barbara, que afirmou que, de fato, nunca viu uma única “garota” dirigindo carro em São Luís, enquanto

        Barbara: Eu sinto que duas pessoas de dezesseis anos, uma garota e um garoto, eles não seriam tratados... o garoto seria tratado com muito mais liberdade do que

        

      uma garota seria . Isso é o que eu sinto... E também a grande diferença também é

        que muitos garotos aqui têm carros... não tem muitas garotas que vão por aí dirigindo um carro , tipo quando elas são jovens... [grifos meus].

        Se entendermos que o acesso ao carro como meio de locomoção é um importante fator de autonomia e se os homens teriam mais acesso a ele quando jovens, podemos entender que se reproduz, dessa forma, a associação entre homem e espaço público e mulher e espaço doméstico, bem como salta aos olhos uma diferenciação hierarquizante das mulheres com relação aos homens jovens.

        3.1.3 Não ser mulher nem gay: referências discursivas para uma identidade de gênero hegemônica Um aspecto importante dos dados da pesquisa diz respeito à construção de identidades de gênero por homens do contexto local e intercambistas. Aqui, me permiti extrapolar um pouco os limites da problemática inicial proposta para incluir as referências das/os intercambistas entrevistadas/os a suas experiências e relações com colegas e amigas/os. Isto porque, como não consegui entrevistar nenhuma família anfitriã que tenha hospedado intercambistas homens (minhas propostas de entrevistas acabaram sendo objeto de uma recusa tácita, como apontei no capítulo anterior), e, assim, não pude acessar de maneira direta os discursos das famílias anfitriãs sobre o tema, considerei relevante refletir sobre como as questões acerca do “ser homem”, no contexto local, chegavam até as/os intercambistas em suas interações com outros sujeitos. De qualquer forma, nas famílias anfitriãs entrevistadas, também levei em conta o discurso dos pais anfitriões.

        Para Bryan, era mais fácil ser homem em seu contexto de origem porque “aqui eles são muito machos, sempre falando sobre sexo e essas coisas e pegar mulher...”. Em sua fala, na escola, os colegas costumavam falar sobre sexo com ele. Ele considerava muito estranho, pois não tinha tal experiência com isso em seu contexto de origem. Neste, isso seria um assunto mais privado e, assim, não conversava sobre sexo com os amigos europeus de maneira tão aberta e direta. Afirmou que, em seu país, os homens respeitariam mais as mulheres. Aqui, os colegas falavam:

        “Pega ela, beija ela!”. “Aqui, as mulheres às vezes eu sinto que só pra fazer sexo, só pra divertir. Homens só pensam nisso... Eu sinto um pouco

        relatou Bryan, uma pressão dos colegas e/ou amigos para que ele, como homem, aderisse a esse comportamento com relação às mulheres.

        Bryan: “Tu tem que pegar essa mulher, tu tem que fazer sexo com ela. Isso na

        45

        ___________ não existe. Eu acho que eles pensam que a mulher não é mulher;

        

      ela é um objeto pra fazer sexo . Eu sinto assim. [...] E também sobre a

        homossexualidade, eles são... não gosto disso... muito radicais aqui. Às vezes, eles usam muito violência; o que tu faz, tu sempre eles... muitas pessoas acham que os

        

      homossexuais não são normais, eles são doentes ; na __________, eles estão bem

        mais abertos assim. Eu não gosto muito disso não. Eu sinto às vezes não é confortável. Porque quando eu digo “Eu acho que isso não é assim”, é um pouco difícil porque eles te chamam de homossexual, não sei o quê. [...]

        

      Me dá um exemplo. Você, por exemplo, já teve uma conversa assim com

      alguém?

        Um amigo meu, não sei, ele é mais radical, ele me fala “Homossexual”, não sei o quê... Aí, eu falei:

        “Rapaz, eu não gosto muito do teu pensamento, não! Eu não concordo contigo, eu acho que... eu fiquei zangado com isso porque tu pensa assim

        ”. Aí, até hoje ele às vezes me xinga com isso e me chama de simpatizante com homossexual. [...]

      Ele acha que isso é uma coisa negativa?

        Isso. Não só ele, muitas pessoas, muitas pessoas... [com ênfase]. [...] Na minha sala, tem um... todo mundo acha que ele é homossexual e eles xingam muito ele... não são muito abertos por essas coisas.

      E por que eles acham que ele é homossexual?

        

      Pelo jeito dele, como fala . E eu tenho um grande problema com isso porque eu

      acho que isso é errado [grifos meus].

        Bryan relatou que seu irmão anfitrião mais velho da primeira família anfitriã, o qual vivia em outra cidade, era gay. Eles o visitaram uma vez e ele disse que conversou com ele “de boa”. Relatou que gostou muito dele e disse que não tinha problema nenhum [com o fato de o irmão anfitrião identificar-se como gay]. Entretanto, na segunda família anfitriã, conforme Bryan, o pai anfitrião era radical sobre o tema:

        Bryan: Ele fala que homossexualidade é anormal. Às vezes, eu discuto com ele sobre isso. [...] Não é tipo assim que ele não me ouve; é um discurso normal. Eu posso discutir com ele de boa, não tem problema nenhum; mas o pensamento dele 45 é muito... por exemplo, tinha um amigo meu, ele tava de brinco. Aí, entrou no

        

      Quando da citação das falas das/os entrevistadas/os, substituirei os nomes dos países por espaços no sentido de

        

      carro e meu pai começou a xingar ele, e falou que isso é coisa de viado, ele falou

      assim “Não sei se tu é, mas eu acho que mais tarde vai virar”... Só porque ele

      tinha brinco! Não sei, eu achei isso muito ...

        E esse teu amigo é gay? Não [grifos meus].

        Bryan afirmou que os irmãos anfitriões da segunda família também pensavam como o pai e que às vezes discutia com eles sobre isso. Ele relatou, ainda, que os colegas da escola tinham muitas

        “conversas safadas” sobre as mulheres, falando de “vagina, bundas, coisas assim”. E também alguns amigos “lhe ofereceriam” mulheres para fazer sexo. Eles teriam algumas amigas com quem fariam sexo e perguntavam a Bryan se ele não queria fazer sexo com elas

        . “Porque ele acha que quando ele me convida, eu acho que ele é legal, entendeu?”. Os colegas, segundo Bryan, falavam muito de suas experiências sexuais. Bryan admitiu que, em alguns aspectos, teria sofrido a influência da convivência com os colegas: “Eu acho que eu piorei”. Ele me disse que quando ficava com um dos irmãos anfitriões no quarto e ficavam juntos olhando Facebook, a conversa era quase que totalmente apenas sobre mulheres e sexo e acrescentou que com seus amigos europeus, havia mais assuntos. Ele achava que aqui no Brasil se começa mais cedo a falar sobre esses temas.

        Adrian me relatou que já fora censurado, algumas vezes, por colegas e amigas/os quanto a alguns comportamentos seus: “Não faz isso que isso é muito gay”, teriam lhe dito. Apesar de lhe pedir que me desse mais detalhes sobre essas situações, ele acabou não me respondendo e se desviou do tema. Talvez sentisse algum mal-estar por ter de se expor em situações em que havia sido estigmatizado. O que pude observar foi que o entrevistado apresentava em sua forma de falar e se comportar alguns traços que talvez não fossem identificados por algumas pessoas de seu convívio como

        “masculinos”. Comparando experiências suas em São Luís e em seu contexto cultural de origem, Adrian disse que: Adrian:

        [...] tipo coisas ‘viados’ não é muito comum [em sua cidade]. Tipo se tu faz alguma coisa as pessoas não pensam ‘você é viado’; pessoas pensam você um pouco louco. Aqui, é muito... uma coisa eu sempre escuto no colégio... tem três coisas você pode ser: normal; viado; louco. Acabou. Três possibilidades você pode ser. Isso é um coisa engraçado. Lá [em sua cidade], cabeça diferente. A gente não tipo pensa ‘Você é viado’. Se tu beija um homem, a gente vai pensar. Se tu faz sexo com um homem, a gente vai pensar, mas tipo pegar... eu tenho três amigos, três ótimos amigos... [...] nós temos uma brincadeira, tipo fazer... tipo

        reação]? ‘Ah, eu não te quero’. É uma brincadeira! Mas a gente nunca vai pensar ‘Ele é viado’. Porque eu sei ele não é. Mas se ele estava andando com bunda vai e vem, se ele estava usando mãos tipo... como tu chama isso? [faz gesto de mão desmunhecada], ou bebendo com esse dedo [faz gesto de pegar um copo com o dedo mínimo levantado]... Assim, claro a gente vai tipo começar de pensar, mas não... a gente não tem isso lá. [...] Sexo é uma coisa muito aberto lá. É uma coisa você pode falar com tua família, é uma coisa que você pode falar no colégio, teus professores, uma coisa muito aberta [grifos meus].

        Segundo me relatou numa conversa informal, Frank, certa vez, estava conversando com colegas da escola em uma roda e, logo após um deles se ausentar e se afastar, outro colega teria feito o seguinte comentário “Ah, não liga pra ele não, que ele é gay

        ”, acompanhado de um gesto pejorativo com a mão (formando um círculo com os dedos

        46

        polegar e indicador e deixando os outros três mais ou menos retos ) para indicar o que havia dito. Frank me disse que escutou esses comentários outras vezes; em algumas situações, eram ditos diretamente pelos colegas homens uns aos outros. Ele disse ter concluído, primeiramente, que os comentários de fato denotavam a orientação sexual dos colegas de turma, ao mesmo tempo em que expressavam a homofobia daqueles que os faziam. Isso, conforme me relatou, lhe desagradava, pois Frank se apresentava como um heterossexual

        47

        categoricamente contrário à homofobia . Narrou, ainda, que, num determinado momento, pensou “Não faz sentido que mais da metade da turma seja gay” e entendeu que os comentários eram, na verdade, “brincadeiras”.

        Gustav me relatou que, em São Luís, se brincava mais com temas gays. Disse, como exemplo, que o irmão anfitrião às vezes brincava de chamá-lo de gay. Disse também que, ao chegar a São Luís, gostava de vestir calças apertadas, coladas ao corpo, hábito que trouxe de seu contexto de origem, onde costumava vestir-se assim. Afirmou que, enquanto em seu país isso era normal, em São Luís, algumas pessoas o teriam chamado de gay ao vê-lo vestido assim (“Olha o gringo gay”; “Lá vem o gringo gay”). Acrescentou que, por isso, teria deixado de usá-las.

        Apontando diferenças entre ser homem em seu contexto cultural de origem e no contexto local, Charles afirmou: Charles: Uma coisa talvez. É sobre gay, homossexual. Porque, na __________, eu gosto, quando eu estou com meus amigos, eu gosto de fazer brincadeiras gay, tipo 46 “Não seja assim” ou algo do tipo. Todo mundo vê isso como engraçado; mas se eu 47 Gesto que indica de maneira pejorativa que um homem é homossexual.

        

      Durante o primeiro semestre de seu programa, Frank viveu com uma família anfitriã composta por um casal de

        fizer brincadeiras ou algo assim aqui no Brasil todo mundo fica muito distensed [palavra não dicionarizada em inglês – talvez ele tenha querido dizer “tensos”]. [...] eles não veem como uma brincadeira, eles veem como um palavrão, como algo ruim. Ou às vezes quando alguém te chama de gay [em seu país], eles dizem “E daí? Você tem um problema com isso?” e, então, todo mundo gosta, OK, não tem problema, e daí continua. Aí, q uando eu faço isso aqui, todo mundo fica “O quê? O quê? Isso não pode ser verdade! [tom de espanto] [...] Por exemplo, eu estava em um aniversário na semana passada e estavam lá a irmã [anfitriã] e [trecho inaudível], 62 anos ou mais jovem. Então, meu irmão [anfitrião] disse a elas “Ele é gay” [referindo-se a Charles]. E eu disse, eu sabia que era brincadeira, e eu olhei pra ele e perguntei “Você tem um problema com isso?”, porque eles estavam rindo de mim porque ele me disse isso... Eu disse “Qual o problema?”, e eles ficaram tipo “Ó, meu deus! Ó, meu Deus!”. [...] Com os caras na escola, então eles ficam de fato chocados, eles ficam rindo de você, eles não veem muito como uma brincadeira. Eu não acho que é uma brincadeira pra eles.

        Charles achava que eles ficavam chocados porque pensavam que, ao responder assim, ele estaria afirmando-se gay de fato e isso seria um problema para eles. Acrescentou que, em seu país, as pessoas não levam tão a sério se você é ou não gay.

        Charles: Eu nunca vi brasileiros fazendo brincadeiras gay, porque quando eles fazem... Houve uma conversa no Facebook, era sobre a aula; então, tinha esse cara, nos estávamos escrevendo, e então um cara disse “Tu és gay” pra mim e eu disse “Eu também te amo” e ele disse “Ah, tu és realmente gay!” e aí ele tirou uma cópia da conversa na tela e compartilhou e escreveu “Charles é gay” e colocou uma seta apontando pra mim. Mas, então, por causa do “Eu também te amo” [que Charles havia escrito], todo mundo disse “Ah, TU és gay” [referindo- se ao amigo], porque tu provavelmente disseste que o amava e ele então respondeu assim.

        E ele, então, ficou muito assustado e disse “Não, eu não sou gay, eu não sou gay

        ”. E eu estava tipo “Onde está o problema se alguém pensa se você é gay ou não? Eu não me importaria”. Os caras aqui se preocupam mais sobre serem gays [grifos meus].

        Ele acrescentou que quase todos as/os brasileiras/os que conhecia eram muito “negativas/os” quanto ao tema gay, sendo as mulheres que conheceu um pouco mais abertas sobre isso.

        As falas acima nos permitem refletir sobre os processos discursivos de produção do gênero. Cumpre observar que se trata de processos sociais, que se constroem na interação entre sujeitos. Do mesmo modo, podemos perceber que existem normas discursivas socialmente partilhadas bastante específicas que norteiam essa produção e que acionam os ideais normativos locais hegemônicos de masculinidade, os quais parecem se organizar em torno da desvalorização dos atributos de feminilidade, bem como do rechaço da homossexualidade.

        Os colegas homens de Bryan e um de seus irmãos anfitriões pareciam privilegiar, em suas trocas discursivas com ele, alguns temas: conversavam sobre mulheres e sexo e também traziam à tona a temática da homossexualidade. Com relação às mulheres, seus discursos as representavam em posição de subordinação e enquanto objetos sexuais do desejo do homem, objetos esses que podiam, inclusive, ser negociados, numa postura, pelos menos simbolicamente, muita próxima do proxenetismo. Ao mesmo tempo, tratava-se de recusar tenazmente em si mesmo

      • – às vezes pelo recurso de apontá-los em outrem – qualquer traço passível de ser referido à homossexualidade. Esta parecia servir, nos contextos estudados, de referência permanente para a construção de uma identidade hegemônica pelos homens, sempre de forma relacional. Dessa forma, ser homem seria, antes de tudo e ao mesmo tempo, não ser mulher e não ser homossexual. O sujeito sexualmente ativo, sempre disposto ao contato sexual com mulheres-objeto e afetivamente desapegado, cuja imagem se tratava de performatizar diante dos outros homens, afirmava sua identidade com base na depreciação de mulheres e gays.

        Daniel Welzer-Lang (2001, p. 462), fazendo referência a um trabalho anterior de sua autoria, enfatizou sua descrição de como a educação de meninos em lugares monossexuados (pátios de colégios, clubes desportivos, cafés etc.)

      • – nos quais os homens teriam exclusividade de uso ou presença
      • – estrutura o masculino de forma paradoxal e inculca neles a ideia de que “para ser um (verdadeiro) homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres

        ”: “Eu quero ser um homem e portanto eu quero me distinguir do oposto (ser uma mulher). Eu quero me dissociar do mundo das mulheres e das crianças” (WELZER-LANG, 2001, p. 463).

        Para o autor, na socialização masculina, é necessário não ser associado a uma mulher para alcançar ser um homem.

        “O feminino se torna até o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de ser também assimilado a uma mulher e ser

        (mal) tratado como tal” (Daniel WELZER-LANG, 2001, p. 465). Assim, a identidade hegemônica do homem seria construída, dentro do sistema heteronormativo de gênero, com base em uma concepção binária e hierarquizada das relações de gênero, em que homens e mulheres ocupariam posições desiguais. Dentro dessa lógica, os homens seriam chamados o tempo todo a dar provas de que estão à altura do ideal normativo de seu gênero, sob pena de reprimendas. Comportamentos ou traços que possam identificar o sujeito com o gênero oposicional podem lhe valer censuras, como nos casos de Adrian (gestos) e Gustav (vestimenta).

        Daniel Welzer-Lang (2001) argumenta, ainda, que dentro dessa estruturação, mulheres e homossexuais seriam equivalentes simbólicos, o que talvez permita entender porque, conforme relatou Charles, as mulheres seriam um pouco mais abertas sobre o tema gay.

        O paradigma naturalista da dominação masculina divide homens e mulheres em grupos hierárquicos, dá privilégios aos homens à custa das mulheres. E em relação aos homens tentados, por diferentes razões, de não reproduzir esta divisão (ou, o que é pior, de recusá-la para si próprios), a dominação masculina produz homofobia para que, com ameaças, os homens se calquem sobre os esquemas ditos normais da virilidade (WELZER-LANG, 2001, p. 465).

        Elisabeth Badinter (1992, p. 172), afirma que, no quadro de uma identificação entre masculinidade e heterossexualidade, a homofobia e a misoginia têm um papel importante no sentimento da identidade masculina. Segundo ela, alguns autores dizem que são duas forças de socialização as mais críticas na vida de um garoto. A homofobia significaria o ódio a qualidades femininas nos homens, ao passo que a misoginia seria o ódio às qualidades femininas nas mulheres.

        Para a autora, tradicionalmente a masculinidade se define mais pelo evitamento de alguma coisa: não ser feminino, não ser homossexual, não ser dócil; dependente; submisso; não ser efeminado em sua aparência física ou maneiras; não ter relações sexuais ou íntimas com outros homens; não ser impotente com as mulheres. O homossexual não é verdadeiramente aquele que tem relações sexuais com outro homem, mas o que é suposto ser

        

      passivo , símbolo de declínio. Assim, referindo-se ao trabalho de um autor, destaca o peso da

        ofensa “vai dar teu cu” (não se costuma utilizar a ação contrária como expressão ofensiva) (BADINTER, 1992, p. 173).

        Para Elisabeth Badinter (1992, p. 175-6), ver características femininas em homens remete às próprias características femininas e o medo ou angústia vêm do fato de que se as considera como signos de fraqueza, passíveis de censura ou reprovação sociais. A homofobia é uma estratégia para evitar o reconhecimento de uma parte inaceitável em si. Assim, um heterossexual exprimiria seus preconceitos contra os gays para através disso ganhar a aprovação dos outros e aumentar sua confiança em si.

        A produção discursiva de identidades põe sempre em jogo a relação entre diferenças simbolicamente constituídas. Tomaz Silva (2000) aborda esse processo de produção discursiva e social das diferenças e das identidades, destacando que as identidades não são nem naturais nem autossuficientes. Para o autor, a forma afirmativa pela qual expressamos a identidade tende a esconder que identidade e diferença estão em estreita dependência.

        A afirmação ‘sou brasileiro’, na verdade, é parte de uma extensa cadeia de ‘negações’, de expressões negativas de identidade, de diferenças. Por trás da afirmação

        ‘sou brasileiro’ deve-se ler: ‘não sou argentino’, ‘não sou chinês’, ‘não sou japonês ’ e assim por diante, numa cadeia, neste caso, quase interminável. Admitamos: ficaria muito complicado pronunciar todas essas frases negativas cada vez que eu quisesse fazer uma declaração sobre minha identidade. A gramática nos permite a simplificação de simplesmente dizer ‘sou brasileiro’. Como ocorre em outros casos, a gramática ajuda, mas também esconde (SILVA, 2000, p. 75).

        Identidades e diferenças são, conforme nos mostra o autor, ativamente produzidas no campo da linguagem e no contexto de relações sociais e culturais de poder. Apoiando-se em Jacques Derrida, Tomaz Silva faz referência à indeterminação fatal da linguagem calcada na impossibilidade de que a coisa ou conceito referidos estejam presentes no signo linguístico. Essa impossibilidade de presença impõe que o signo dependa de um processo de diferenciação. Para Jacques Derrida (apud Tomaz Silva, 2000, p. 79), o signo carregaria sempre não apenas o traço do que substitui, mas também o da sua diferença.

        Isso significa que nenhum signo pode ser simplesmente reduzido a si mesmo, ou seja, à identidade. Se quisermos retomar o exemplo da identidade e da diferença cultural, a declaração de identidade ‘sou brasileiro’, ou seja, a identidade brasileira, carrega, contém em si mesma, o traço do outro, da diferença

      • – ‘não sou italiano’, ‘não sou chinês’ etc. A mesmidade (ou a identidade) porta sempre o traço da outridade (ou da diferença).

      Tomaz Silva (2000) ressalta que a existência do signo é marcada pela diferença que sobrevive em cada um deles como um traço, como “fantasma e assombração”. Ora, todas

        essas elaborações podem ser aplicadas à construção das identidades de gênero e, em particular, aos discursos que estou analisando. No capítulo anterior, discorri brevemente sobre a noção de suplementaridade de Jacques Derrida, segundo a qual os significados se organizam em termos de presença e de ausência, de tal modo que só podem se definir por relação a outras possibilidades que são, ao mesmo tempo, negadas. Os signos teriam, assim, um caráter remissivo, referindo-se em cadeia a todos os demais signos que compõem o campo da linguagem. Dessa forma, o significado suplementar é logicamente necessário para a sustentação de qualquer significado.

        É dessa forma que podemos entender a necessidade de referência ao significado suplementar gay ou homossexual para a constituição da identidade de homem. A preocupação em negar essa diferença e a recorrência de assinalá-la no outro, por parte dos Miskolci (2009, p. 176-7) afirma que o subtraído no processo de afirmação de uma identidade é, na verdade, seu Outro internalizado, necessário, mas mantido como inferior. O processo linguageiro da suplementaridade nos expõe uma característica fundamental das identidades de gênero: que elas não são externalizações de naturezas essenciais, nem desdobramentos a partir de um núcleo estático imutável. Afirmar-se como homem, por exemplo, implica a ratificação reiterada de certos significados no discurso, a partir da instabilidade permanente causada pela “assombração” dos significados repudiados ou negados. Por isso, o colega de Bryan, na situação relatada, fica tão assustado quando pessoas lhe imputam um traço de identidade homossexual. Isso que atemoriza não está nem vem de fora: está internalizado e pode emergir a qualquer momento exibindo sua força desestabilizadora das identidades tenazmente performatizadas. É o caráter eminentemente instável e artesanal de sua identidade que sua reação exibe. Isso se deve, por sua vez, à peculiaridade de que a linguagem, conforme assinala Tomaz Silva (2000, p. 80), é, em sua estrutura, necessariamente vacilante, indeterminada e instável.

        Ainda com base neste autor, podemos afirmar que essa demarcação de fronteiras, através de operações de inclusão e exclusão, próprias dos processos de produção de identidades, são atos de poder que se entrelaçam aos processos de classificação e hierarquização, através dos quais as diferentes identidades são diferentemente valoradas e relacionadas.

        Finalmente, é curioso que Bryan e Gustav tenham alterado comportamentos em função das interpelações normativas em seus contextos de convivência. Podemos imaginar que essas interpelações são de tal forma difundidas, reiteradas e veementes, a ponto de eles terem cedido, em alguns pontos, com relação a suas representações para poderem ser reconhecidos e aceitos através dos códigos locais. Percebemos a força discursiva das normas hegemônicas, embora não possamos concluir daí sua unilateralidade, como nos ensinam as reações instabilizadoras de Charles e conforme discuto a seguir.

        3.1.4 Desobedências e deslocamentos no gênero Segundo Judith Butler (2011, p.81-82), na noção de interpelação de Louis

        Althusser, é a polícia que inicia o chamado ou a fala pela qual um sujeito se torna socialmente constituído. O policial não apenas representa a lei, mas sua abordagem “Ei, tu!” tem o efeito de amarrar a lei àquela/e que é chamada/o. Este é formativo (generativo) e até mesmo argumenta que, para Louis Althusser, a interpelação ou chamado seria um ato unilateral, que impõe ao sujeito medo e confere a ele, em troca, reconhecimento e certa ordem de existência social, persistindo, no entanto, uma relação de desconhecimento entre a lei e o sujeito que ela constrange. A autora, por sua vez, argumenta que o autor não considera a série de

        

      desobediência que uma lei interpeladora poderia produzir. A lei poderia não apenas ser

        recusada, mas rompida, forçada a uma rearticulação que coloca em questão a força monoteística de sua própria operação unilateral.

        Onde a uniformidade do sujeito é esperada, onde a conformidade comportamental do sujeito é ordenada, poderia ser produzida uma recusa da lei na forma da habitação paródica de conformidade que sutilmente põe em causa a legitimidade da ordem, uma repetição da lei em hipérbole, uma rearticulação da lei contra a autoridade daquele que a profere. Aqui o performativo, o chamado pela lei que busca produzir um sujeito legal (lawful) produz um conjunto de consequências que excedem e confundem o que parece ser a intenção disciplinadora que motiva a lei. A interpelação perde o seu status como um simples performativo, um ato de discurso com o poder de criar aquilo a que ele se refere, e cria mais do que sempre o quis, 48 significando em excesso a qualquer referente pretendido (BUTLER, 2011, p. 82).

        Para a autora, é essa falha constitutiva do performativo, o deslizamento entre a ordem discursiva e seu efeito apropriado, que oferece a oportunidade e indicação linguística para uma consequente desobediência. Aí estaria a ambivalência constitutiva de ser socialmente constituída/o, onde “constituição” carregaria ambos os sentidos possibilitador e violador da “sujeição” (BUTLER, 2011, p. 83). Em última instância, é com a questão de uma possível agência do sujeito

      • – sem entendê-la como um movimento voluntarista, já que ele somente se subjetiva pela sujeição
      • – dentro dos regimes discursivos de gênero que a autora se preocupa.

        Dessa forma, é importante discernir que nenhum regime de gênero, por hegemônico que seja, funciona de maneira homogênea e sem possibilidades de ruptura e ressignificação. Algumas situações narradas pelas/os entrevistadas/os podem ajudar a esclarecer isso. Um dos pontos de afinidade com Emily, para Denise, era o boxe, que as duas praticavam. Nenhuma das amigas, disse Denise, gostava de luta, mas Emily, sim. No começo, 48 Dalva não queria que Denise fizesse luta “de jeito nenhum”, mas luta, disse Denise, tinha

        

      Texto original: Where the uniformity of the subject is expected, where the behavioral conformity of the subject is commanded, there might be produced the refusal of the law in the form of the parodic inhabiting of conformity that subtly calls into question the legitimacy of the command, a repetition of the law into hyperbole, a rearticulation of the law against the authority of the one who delivers it. Here the performative, the call by the law which seeks to produce a lawful subject, produces a set of consequences that exceed and confound what appears to be the disciplining intention motivating the law. Interpellation thus loses its status as a simple performative, an act of discourse with the power to create that to which it refers, and creates more muito a ver com ela. O sonho de Dalva, conforme relatou, era o de que Denise fizesse balé. “Como toda mãe”, acrescentou Dalva. “Isso é uma coisa mais do meu pai”, disse Denise referindo-se ao interesse pelo boxe. Dalva relatou que até tentou colocar Denise em algumas aulas de balé, mas que não havia funcionado. Como Denise optou pelo boxe e tinha até saco de luta, Dalva comprou para ela uma fita cor de rosa “para dar um ar feminino ao saco”, disse.

        Em acréscimo, Dalva afirmou que Denise não era uma pessoa “meiguinha”.

        Ao gostar de e praticar boxe, Denise contrariava as expectativas da mãe

      • – que podemos apontar como encarnando o socialmente hegemônico
      • – que queria que ela dançasse balé e encarnasse atributos conferidos às mulheres no regime local de gênero e que fariam da filha uma mulher inteligível: a meiguice, por exemplo. Se o boxe era uma coisa mais do pai, como disse Denise, podemos perceber que prevaleceu, para ela nesse aspecto, uma identificação com outros atributos. Entre as representações hegemônicas de gênero e sua materialização pelo sujeito, há caminhos a percorrer, de maneira alguma determinados de antemão. Teresa de Lauretis (1994, p. 225, grifos da autora) afirma que:

        Se em um dado momento existem vários discursos sobre a sexualidade competindo entre si e mesmo se contradizendo

      • – e não uma única, abrangente e ou monolítica, ideologia
      • –, então o que faz alguém se posicionar num certo discurso e não em outro é um “investimento” (termo traduzido do alemão Besetzung, palavra empregada por Freud e expressa em inglês por cathexis), algo entre um comprometimento emocional e um interesse investido no poder relativo (satisfação, recompensa, vantagem) que tal posição promete (mas não necessariamente garante).

        Os diferentes investimentos possíveis mostram que, embora todo e qualquer processo de subjetivação se dê dentro de regimes de poder com discursos hegemônicos, existe um espaço para certo agenciamento dos sujeitos. Os atributos associados aos gêneros devem ser vistos não como características imanentes, mas como recursos de linguagem que ao mesmo tempo em que marcam os sujeitos por sua força normativa, ensejam desobediências em função de interesses investidos.

        Dessa forma, mesmo comportamentos longamente performatizados são passíveis de alteração pela realocação de investimentos. Amanda, por exemplo, nunca havia tomado ônibus antes.

        Aqui, é interessante que entendamos o “tomar ônibus” como uma atividade que franqueia o acesso dela a uma circulação nos espaços públicos. Ana: [...] Amanda hoje anda de ônibus pra tudo o que é lado.

        Antes, ela...

        Ana: Amanda nunca andou de ônibus [com muita ênfase]. Nunca! Amanda pra ir bem aí no Matheus [supermercado local ] que é atravessando a avenida “Ô, mãe, por favor, vamos lá comigo”.

      Isso era antes..

        Ana: Antes de uma intercambista vir aqui pra casa. Joanne, nossa, Joanne especificamente, Monica também, mas vamos falar de Joanne que foi com quem eu mais convivi.

      Ela passou mais tempo que as outras.

        Ana: Mais tempo. Joanne, eu só fui uma vez na Via Mundo de ônibus porque eu me preocupo com as pessoas. Eu não ia soltar essa menina de ônibus; Ah tu solta? não! Eu fui com ela de ônibus e vim... pra ensinar onde ela ia saltar, qual o ônibus e voltei de ônibus, coisa que faz muitos anos que eu não ando. Mas, eu me... fiz isso, porque ela ia precisar. Fui de ônibus pra escola, voltei, pra ela saber mais ou menos como é que faria; só fui uma vez. Acabou. Joanne rodou São Luís inteira de ônibus. Joanne sabia ir de ônibus onde eu nunca nem fui. E Amanda com ela, Amanda aprendeu, Amanda que não tinha São Luís na mente, bairro tal, onde fica, ela não sabia, se eu botasse Amanda

        , “Amanda pra que lado é a COHAB [bairro de São Luís] ”? ela não sabia se ela pra lá, se era pra lá. Ela não tinha... agora, ela tem isso em mente. Tudo eu devo a Joanne.

      Mas, como foi? Joanne saía e convidava?

        Ana: Não, porque eu levei uma vez e quando foi na outra aula, “Minha filha, você fica indo com ela até a gente sentir que ela tá segura”. E Amanda ficou indo com ela. Eu acho que Amanda foi assim uns cinco dias com ela. Até que chegou um dia, ela disse “Não, Amanda, não precisa eu já sei”. Elas iam pro shopping de ônibus, aí pronto, basta... menino, ela [Joanne] sabia andar de ônibus melhor que acho que muita gente aqui dentro de São Luís.

      Claro, isso foi uma coisa diferente pra Amanda..

        Ana: Muito! [com ênfase]. Muito, muito.

      E como é que ela recebeu isso?

        Ana: A Amanda? Positivo. A Amanda hoje ela tá mais resolvida. Eu acho que ela

        amadureceu. Ela já conversa comigo. A forma que ela fala já tá diferente; ela já pensa de forma diferente. Que antes eu sempre via imaturidade nela . Não, eu vejo

        que ela amadureceu, ela amadureceu. [...] Ana: Ela amadureceu nesse sentido. Eu não acordo mais Amanda pra ir pra escola; ela levanta só. Que antes de Joanne vir pra cá era um Deus nos acuda pra essa moça levantar.

      Era mesmo?

        Ana: O quê? Tu é louco! Pense que meu marido, não era, Bem? Te lembra? Antes de Joanne vir pra cá pra Amanda levantar pra ir pra escola? André: Era uma briga. Ana: Todo dia era uma confusão. E hoje em dia, meu amor? Ela levanta sozinha! André: Até o ano passado ainda dava ainda...

        Ana: Não, mas ela, depois que Joanne veio pra cá, Amanda melhorou muito. Amanda melhorou demais! Muito!

      Uma mudança que houve foi que ela ficou mais responsável?

        Ana: Mais responsável, mais independente. Eu percebo que até as palavras de Amanda têm mais... estão maduras; não têm aquele raciocínio infantil, não tem mais. Ela amadureceu. Ah, Ana, mas poxa ela já completou 16! Sim, ela completou 16 anos, mas tem menina de 16 anos que pensava igual a Amanda. Amanda hoje chega pra mim e diz “Mãe, eu não estou namorando; quando eu estiver, não se preocupe, você vai ser a primeira a sab er”. Tu tá entendendo até onde ela está madura? Ela diz “Mãe...”, que ela vai pra festa lógico. Aí ela diz “Mãe, eu beijo um garoto, mas eu não estou namorando”; ela diz. “E se eu namorar, você vai ser a primeira a saber”. Antes Amanda não dizia isso. Amanda

        

      nunca ia dizer na minha cara que beijou um menino. Ela tinha medo. Ela

      escondia de mim. E hoje não, ela fala tudo. E isso ela aprendeu com quem? Com

      Joanne . Joanne era muito aberta. Joanne falava o que era certo, assim... e eu

        achava sempre que ela tava mentindo e não era, ela tava falando a verdade [grifos meus].

        Nesse contexto, é necessário observar que também havia aspectos geracionais, além dos de gênero, envolvidos na situação de não utilização, por Amanda, do transporte público e de sua dependência de pessoas adultas (principalmente da mãe) para sair de casa e se locomover. Ainda assim, me pareceu digna de comentário a ênfase colocada por Ana na repercussão da presença de Joanne sobre Amanda, durante o período de sua convivência. Joanne para ter apresentado a Amanda outras possibilidades de agir como jovem e mulher, por exemplo, quando, contrariando o funcionamento da família anfitriã, demandou andar de ônibus pela cidade. Obviamente, isso somente parece ter sido possível pela sanção que Ana deu a esse interesse, mas também pelo investimento da própria Amanda. A presença de Joanne, no entanto, parece ter tido um papel importante nessa situação, vez que ela materializava possibilidades de gendramento não performatizadas por Ana e Amanda.

        3.1.5 Estilizações corporais e performatividade de gênero Ingrid afirmou enfaticamente que sua maneira de se vestir mudou desde que chegara a São Luís. Uma das primeiras irmãs anfitriãs uma vez lhe p erguntou: “Você vai sair com essa roupa?” e ela ficou chateada com ela por isso. Na segunda família anfitriã, as mulheres, segundo ela, se preocupavam muito com a maneira de se vestir. Mencionou que teve a experiência de ir a salões de beleza para cuidar dos cabelos e unhas. Muitas pessoas, para ela, se preocupam em parecer perfeitas todo o tempo.

        Denise disse que Emily ficou mais brasileira, que dançava mais, diferente de quando chegou. Essa diferença estava em que a dança era “mais sensual”, com o “corpo mais solto e relaxado”. Ela acrescentou que Emily olhava as pessoas na rua “com a barriga de fora” e ficava surpresa. Quando ela olhava um determinado programa de televisão, no qual mulheres dançavam expondo os corpos com pouca roupa

        , relatou Denise, “ela não aceitava, não aceita até hoje; achava uma coisa desnecessária, ver as meninas de biquíni na TV... audiência pelo corpo”. Ela não gostava desse programa, afirmou Denise. Na época, “mostrar a barriga” para ela seria tido como algo “vulgar”. Denise disse: “Eu não sei como, mas com o tempo ela acabou gostando. Ela ficou mais brasileira por esse sentido. Porque, no começo ela não gostava”. Dalva disse que Emily ficava chocada por as mulheres mostrarem tanto o corpo e disse que explicou a ela que uma coisa era “mostrar a barriguinha” e outra coisa era “se vestir de forma vulgar”. Este modo de se vestir seria característico do que Dalva chamou de “periguetes”.

        Para Bernardo, Lara não tinha a “nossa noção de vaidade”. Beatriz uma vez a convidara para ir ao salão, mas ela não quis. Lara não incorporou esse hábito de ir ao salão e cuidar de cabelos e unhas, como geralmente as mulheres locais costumariam fazer. Bianca, por sua vez, segundo os pais, era muito vaidosa. Bernardo e Beatriz disseram que Lara saía de casa de qualquer jeito, com qualquer roupa, sem essa preocupação de se arrumar como Beatriz e Bianca. Beatriz também afirmou que Lara nunca usou maquiagem para sair de casa.

        Barbara relatou que a forma de as mulheres se vestirem aqui é muito diferente da sua. “São muitas roupas curtas” e disse que não estava acostumada a usar roupas tão curtas. Sentiu que as mulheres que conheceu se vestiam mais ou menos da mesma maneira, que havia uma uniformidade maior, que não se vestiam tanto para se expressar do ponto de vista pessoal e que a moda aqui era mais mainstream

        [literalmente “corrente principal”, o que é mais comum, usual, geral]. Afirmou perceber uma diferença no estilo entre pessoas com

        dinheiro e pessoas sem dinheiro. Mas que isso das roupas curtas para mulheres estaria presente nesses dois grupos.

        Alice, por sua vez, disse que seu modo de se vestir não mudou muito.

        

      Você acha que as mulheres aqui se vestem de uma maneira diferente da

      __________?

        Alice: Sim.

        

      E eu não estou falando só sobre o frio, porque eu sei que lá é muito frio, vocês

      têm que usar casacos, cachecóis, às vezes luvas e coisas assim...

        Sim, eu acho que elas usam menos que o necessário [risos]. As roupas abertas nas costas [decotadas]... mais sexy do que na __________.

        

      Mais sexy significa... você deu um exemplo, um buraco nas costas, mas o que

      mais você vê que parece sexy a você?

        Às vezes, saias curtas, que você pode ver a barriga delas ou saias muito curtas, vestidos muito curtos, ou muito decotados.

        E na __________, você não vê isso com muita frequência? Não tanto quanto aqui.

        

      E vamos supor que você se vestisse assim na __________. Qual seria a

      impressão das pessoas sobre você?

        Eu não sei [risos]. Eu nunca tentei.

        

      Mas você tentou aqui se vestir como as mulheres se vestem, como você disse

      mais sexy do que você faria na __________?

        Sim, eu acho que às vezes eu estou me vestindo diferente do que eu me vestiria na __________. Aqui, não há reação de outras pessoas quando eu estou me vestindo como elas, com um buraco nas costas ou algo assim.

        Você tentou isso? Sim, eu tenho uma blusa que é tipo assim...

        

      Como você se sente? Você se sente estranha quando usa ou pra você está ok

      agora? Não, está ok . Eu vejo as outras, elas também estão vestidas assim, então...

        Nas falas acima, dois temas se destacam no que se refere ao gendramento das

        mais especificamente com unhas e cabelos) e uma forma particular de se vestir, chamada de “sensual”, em que prevalece certo jogo entre esconder e expor o corpo. Como podemos compreender esses cuidados com o corpo e essa forma particular de se vestir das mulheres?

        Laura Zambrini (2010) afirma que, para os historiadores do traje, foi a partir do século XIX que a vestimenta incrementou a divisão dos imaginários do feminino e do masculino. Nesse século, o ocidente teria criado através da moda dois padrões excludentes de modos de vestir, um para mulheres e outro para homens, os quais deviam conotar valores opostos, tanto de distinção social como de gênero. O modo de vestir feminino deveria denotar o sentido da sedução das mulheres, o qual deveria estar ausente das vestimentas masculinas. Os elementos decorativos foram associados ao feminino e a indumentária feminina deu lugar ao uso de acessórios, recriando uma estética feminina associada aos adornos e ao decorativo como traço identitário. Para a autora, na lógica heteronormativa e binária, as técnicas corporais femininas se diferenciam das masculinas, operando em consonância com os modos de vestir. Dessa forma, o vestir e sua relação com o corpo se dão dentro de uma prática de construção corporal que produz identidades socialmente inteligíveis.

        A autora continua sua argumentação propondo que a indumentária cumpre um papel fundamental na prática de construção de corpos masculinos e femininos, pois marca e reforça as fronteiras de identidades de gênero binárias. Michel Foucault já havia teorizado, embora sem levar em conta o gênero, as técnicas de sujeição e produção de corpos normalizados no interior de dispositivos de poder.

        Em “Vigiar e Punir”, por exemplo, o autor analisa a produção de uma nova subjetividade

      • – a do delinquente – pela análise das técnicas modernas de encarceramento. Ele desvenda uma nova tecnologia política do corpo que faz com que o corpo supliciado
      • – numa determinada técnica penal – seja substituído pelo corpo

        . A figura do carrasco dá lugar a um conjunto de técnicas

        controlado, vigiado, corrigido

        produtoras de “corpos dóceis”, a que o autor nomeia de poder disciplinar (FOUCAULT, 1987).

        Esse tipo de poder, característico para o autor das sociedades ocidentais contemporâneas, dispõe de recursos para adestrar os corpos, sujeitá-los e utilizá-los. O corpo exibe os sinais de uma incorporação que confirma o trabalho produtivo do poder. Com base nesse aporte, mas tendo em conta as clivagens do gênero, Laura Zambrini (2010) busca interpretar as práticas do vestir como fatos que evidenciam a conformação social dos corpos.

        Esses “corpos dóceis” são, na interpretação de Susan Bordo (1997, p. 20),

        “aqueles cujas forças e energias estão habituadas ao controle externo, à sujeição, à necessidade de um discurso político capaz de descontruir essas estratégias de controle social disciplinar e normalizador, a autora promove a noção do corpo não apenas como um lugar de docilidade e de reprodução do gênero, mas também um lugar de luta contra as dominações.

        Rosa Maria Fischer (1996) descreve a atuação extremamente sutil de mecanismos de poder que, reiteradamente reproduzidos e não questionados, expandem-se e asseguram a produção de sujeitos normalizados. Destaco, na tese da autora, o tema da subjetivação pelo disciplinamento como modo de produção dos sexos. No capítulo

        “O disciplinamento do corpo forma a menina”, a autora analisa como uma revista dirigida ao público feminino

      • – portanto, aparentemente, para mulheres já constituídas – concorre, através de várias prescrições normativas (acompanhar a moda, cuidar do corpo e das proporções, não ser vulgar etc.), para a fabricação de certo tipo de subjetividade feminina e, portanto, de mulher.

        A autora aponta como historicamente passou-se de um determinado conceito estético da mulher a outro segundo o qual ela deveria ser magra, esbelta e possuir corpo delgado. Os dispositivos vão gerindo a produção de corpos sem substância, desde a mais tenra i dade e alcançando também os “sujeitos masculinos”. No entanto, é ainda como “mulher para um homem

        ” que as adolescentes devem se constituir e, assim, dá-se a reprodução de uma sujeição social, pela instigação de um sentimento de humilhação e inferioridade acerca do próprio corpo que gera a demanda de orientação e de modelos em direção a um corpo normalizado.

        Vimos que tanto Emily como Alice corporificaram algumas normas locais de gênero, as quais se refletiriam em seus modos de se vestir. Esse processo de realizar uma norma no corpo e, desse modo, ir produzindo o próprio gênero é o que Judith Butler (2006) chamou de performatividade de gênero. Para esta autora (2006, p. 191), o gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituída em um espaço exterior através de uma

        repetição estilizada de atos

        . “O efeito de gênero é produzido através de uma estilização do corpo e por isso deve ser entendido como a forma mundana na qual gestos, movimentos e

        49

        estilos de vários tipos constituem a ilusão de uma natu O corpo reza gendrada permanente”. gendrado é construído através de um processo de estilização corporal que tem na performatividade seu eixo principal. Dessa forma, a reiteração de certos cuidados corporais e 49 do uso de certas vestimentas produzem um gênero feminino com base em sentidos culturais

        

      Texto original: The effect of gender is produced through the stylization of the body, and, hence, must be understood as the mundane way in which bodily gestures, movements, and styles of various kinds constitute prevalecentes. Esses sentidos, como antes apontei, representam a mulher como objeto para um sujeito masculino e seu corpo, sujeitado a várias técnicas de estilização, deverá exibir os atributos da sedução pelos quais ela se faz desejável para um homem.

        É importante destacar o esclarecimento de Joana Pinto (2007, p. 4, grifos da autora) ao afirmar que:

        O termo stylization, utilizado por Butler para definir gênero, é uma nominalização do verbo stylize, cuja melhor tradução seria fazer conformar a um dado estilo ou tornar convencional . Esse termo, portanto, tem menos a ver com estilo subjetivo (como no uso em português de ‘estudos estilísticos’), e muito mais com a repetição de normas sociais rígidas para convencionar práticas e comportamentos sociais.

        A performatividade de gênero não deve ser entendida com um ato singular ou deliberado, mas como a prática reiterativa e citacional [do conceito derridiano de

        50 ] pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia (BUTLER, 2011, p. xxi). citacionalidade

        O sexo do corpo, a diferença sexual são materializadas de maneira performativa. Mas, como a performatividade implica reiteração, isto é, repetição no tempo, em diferentes momentos, o processo inclui, além das materializações bem-sucedidas do ideal normativo em questão, as instabilidades e falhas em alcançá-lo. Ao mesmo tempo, o sucesso das reiterações depende de uma operação discursiva que produz um exterior constitutivo que é repudiado na identificação em jogo. Esse exterior constitutivo que é foracluído (literalmente

        “incluído fora”) e negado é precisamente o campo que constitui o que a autora chama de corpos abjetos como uma permanente ameaça às identidades legítimas corporificadas.

        Nesse contexto, a desconstrução significa buscar identificar nos processos de construção das corporeidades a operação de exclusão pelas quais se produzem as abjeções. As alternativas binárias (como homem/mulher; homo/hetero; normal/patológico) parecem constituir uma totalidade, mas, de fato, sua constituição implica a exclusão mais ou menos tácita de um resto que lhe é constitutivo (BUTLER, 2011).

        Apenas para fins de exposição, pode-se pretender separar as produções do gênero e da sexualidade, as quais são interdependentes e mutuamente condicionadas. Os processos de gendramento incluem também a normalização de desejos e práticas sexuais. 50 Como antes argumentei, com base em Judith Butler (2006), a matriz heteronormativa de

        

      A noção de citacionalidade, utilizada por Butler a partir de Derrida, refere-se à possibilidade que um signo tem de ser citado, independente do contexto no qual foi gerado. A produtividade e inteligibilidade do signo gênero busca estabelecer uma correlação estrita entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais, de tal modo que “pertencer a um gênero” significa também materializar as práticas sexuais dentro de limites normativos. Mas, assim como o gênero deve ser antes tomado como um aparato de produção através do qual os próprios sexos são estabelecidos, a sexualidade não pode, por sua vez, ser reduzida às práticas sexuais.

        Uma das principais referências deste trabalho é a noção de Michel Foucault (1988) de que a sexualidade não é um dado natural, um instinto biológico que o poder buscaria refrear, mas um dispositivo histórico, isto é, um conjunto heterogêneo de elementos que se articulam para produzir corpos sexuados. Esse conjunto englobaria instituições (como a família, a escola, as instituições religiosas, a mídia, a Justiça, dentre outras), normas oficiais e discursos. A história da sexualidade poderia ser descrita como a história da articulação desses elementos, principalmente, dos discursos sobre a sexualidade.

        No entanto, Michel Foucault é criticado por algumas teóricas, como Teresa de Lauretis (1994), pelo fato de ter teorizado sobre uma sexualidade idêntica para todas/os e, portanto, universal. Assim, à sua revelia, seu esquema teórico acabaria por reforçar a identificação operada nas grandes teorias ocidentais entre subjetividade e masculinidade. Por isso, a necessidade de pensar a sexualidade como um dispositivo que possui uma especificidade de gênero.

        No discurso do senso comum, a diferença sexual tem sido bastante naturalizada, tomada como expressão de um dado biológico irrefutável. Não se trata aqui de negar diferenças biológicas, mas de questionar o sentido que elas poderiam adquirir fora do campo discursivo, social, político. Dessa forma, sem um esquema prévio de referência, não é possível dar sentido a essa diferença, a qual aparece então como efeito de produção de um

        51 complexo mecanismo que, ademais, é histórico e, portanto, variável.

        Segundo Guacira Louro (1997, p. 26), Michel Foucault entende a sexualidade como uma “invenção social”, constituindo-se a partir de múltiplos discursos sobre o sexo. Ainda segundo a autora, a sexualidade não pode ser tomada como um assunto privado, algo que pertence à esfera íntima dos sujeitos, mas como uma construção social e política permanente. Faz-se de processos culturais plurais que compõem diferentes respostas sexuais nas quais interferem inúmeros fatores (geração, raça, etnia, nacionalidade, religião, classe 51 etc.). A sexualidade não é inata, mas “aprendida” no curso das interações e experiências

        

      Cf. por exemplo o trabalho de Thomas Laqueur (2001) no qual ele analisa a passagem histórica de um modelo

        socializadoras. “As possibilidades da sexualidade – das formas de expressar os desejos e prazeres

      • – também são sempre socialmente estabelecidas” (LOURO, 2001, p. 11).

        Nesta seção, abordo como intercambistas e famílias anfitriãs participam dessa produção discursiva da sexualidade a partir de suas falas e silêncios. Espero com isso mostrar como, ao acionar discursos de sexualidade, esses sujeitos estão, de fato, concorrendo para a produção desta: diferentemente de uma suposta expressão de um instinto biológico, sua sexuação é uma produção efetivada dentro de limites sobretudo discursivos.

        3.2.1 Sobre as mulheres “dóceis”, as “preparadas” e as “escandalosas” Ana relatou que Joanne gostava muito de festa e que queria sair sempre. André disse que tanto ele quanto Ana tinham preocupação com isso e eis em que termos a expressou:

        André: [...] como eu sempre falava pra ela porque hoje em dia os homens quando eles têm uma oportunidade de encontrar uma pessoa assim muito fácil, então eles

        

      aproveitam e no dia seguinte, não querem nem saber o que aconteceu ontem.

        . A minha preocupação e a dela era de

        Então, só quem sai perdendo é a mulher

      numa situação dessa ela beber, o cara se aproveitar da situação. Aí então, era

      dela engravidar... então, tudo isso era porque a gente tinha uma preocupação.

        [...] A preocupação que eu vejo assim do intercambista quando vem pra casa assim de uma pessoa estranha, no nosso caso era isso, porque corre muito risco de isso acontecer porque do jeito que a esperteza do homem, com a facilidade, ele não tá

        

      nem aí . E Joanne eu achava ela uma menina assim, muito meiga, muito

        ; às vezes, a pessoa poderia confundir, né?, o carinho dela e levar pra

        carinhosa outro lado [grifos meus].

        Por outro lado, Ana afirmava convictamente que Joanne já era “totalmente preparada para o mundo” e, comparando-a com Amanda, sua filha, via uma grande diferença.

        Ana: Quer dizer, uma menina de 16 anos? [tom se surpresa] Totalmente preparada pro mundo. Ela sabia de tudo, prevenção, tudo, tudo, tudo, tudo!

        

      Você falou uma vez, eu acho até... numa reunião da Via Mundo, num

      encontro...

        São preparadíssimas...

        ...que do ponto de vista da sexualidade, que elas são preparadas...

        Elas não têm problema nenhum. Não existe nenhum bloqueio, assim, nada que

        

      elas precisam saber, elas já vêm pre-pa-ra-díssimas ! [com ênfase]. É muito mais

      fácil uma filha do Brasil engravidar lá fora do que uma estrangeira engravidar

      aqui . Eu acho. Pelo menos, assim, as que eu conheci. Que foi Joanne, Monica e

      Olivia. Essas três...

      Você sentiu que isso..

        ...eram resolvidas na cabeça delas, altamente resolvidas. Claro, cada uma com um temperamento diferente [grifos meus].

        Ana enfatizou, não sem admiração, essa diferença na forma das intercambistas lidarem com temas sexuais por comparação com as jovens locais (talvez pensando, principalmente na filha, mas também em suas próprias experiências). Amanda, segundo o que relatou, não tinha o mesmo comportamento, não era tão “preparada”.

        Em outro momento da entrevista, Ana relatou, ainda, que a única “briga” – depois me dei conta de que não foi a única

      • – que teve com Joanne, ao longo de sua convivência, ocorreu quando, depois de uma aula de português, Joanne foi para a casa de outra intercambista.

        Ana: Quando eu cheguei lá, tava só ela, Paula [intercambista] e dois rapazes, banhando de piscina. Aquela cena ali foi chocante pra mim. Veja bem, você deixou sua filha no curso de português, ela disse que vai pra casa de uma amiga e tu vai buscar tá ela e outra amiga e dois rapazes dentro duma piscina! Foi chocante! Aí você imaginou que podia...

        Ana: Não, eu imaginei outras coisas, que eles iam se aproveitar delas. Como eu te disse, é como André falou, ela não tinha maldade. Ela era meiga e doce com

        qualquer um .

        André: É tanto que ela disse “Não, normal”!

        Ana: Ela dizia “Normal, normal”! Pra ela, aquilo era normal, eu disse No

        Brasil, não é normal

        ”! Garota conheceu garoto à noite, banhando de piscina... A

        

      mãe saiu e deixou só eles quatro . Não tinha mais ninguém na casa. Então, eu não

      gostei . Eu não achei certo porque como eu recriminaria minha filha, eu

      recriminei ela .

      Aí, você conversou com ela sobre isso?

        Ana: Nossa, nesse dia, ela chorou, chorou, só falava que era normal e ela não falava português, eu não falava inglês, Amanda ainda não falava nada de inglês assim, e foi no Google e pense que sai tudo distorcido e aí ela ligou pra George, se

        pode se trancar”, porque a gente não sabe a pessoa nervosa, e aí foi que ela abriu, aí ela falou com George, eu não entendia nada, que eu não entendia mesmo, até hoje não entendo; aí foi que eu falei com George e ele me explicou tudinho, que ela não achou... na cultura dela, aquilo era normal... nada, tranquilo. Só que não

        ; é tanto que quando o rapazinho me viu, o irmão de Paula, ele ficou todo

        tava

      errado . Ele sentiu que aquilo não era certo. A gente... Menino, eu sentia o clima!

        O irmão da Paula... Menino, meu santo não bateu, não foi legal, na hora que eu olhei... não dá certo. Não tava e ele ficou todo errado quando ele me viu. Tu acha?

        

      Ele ia se aproveitar dela . Poderia até não ser naquele dia, mas que ele ia dar o

        pontapé inicial naquele dia ele ia. Não gostei; foi aí onde, foi um choque pra mim essa parte [grifos meus].

        André temia que os homens “se aproveitassem” de Joanne e se preocupava com que ela mantivesse relações sexuais, o que supostamente significaria para ela uma

        “perda”. A ideia que André fazia das mulheres jovens, aparentemente partilhada por Ana, era a de que eram objetos sexuais indefesos, ingênuos e inexperientes. A meiguice, a docilidade, a ingenuidade e a incapacidade de defender-se: são esses os atributos conferidos a Joanne, ou seja, são essas as normas que ela deveria corporificar enquanto uma mulher jovem no contexto local. Essa imagem contrasta com a ideia sobre os homens como espertos e aproveitadores. O homem é representado no discurso de André como aproveitador, astuto, alguém que não está interessado na mulher como sujeito, mas apenas como objeto de uma satisfação sexual passageira. Além disso, Ana e André pareciam pressupor que Joanne não tinha (ou não deveria ter) uma vida sexualmente ativa e também que não fosse capaz de por si própria barrar propostas sexuais que não lhe interessassem. A mulher jovem é, aqui, representada como vítima indefesa de um desejo sexual que é do outro.

        Em mais de uma situação, testemunhei que George tendia a ser mais rigoroso no trato com as intercambistas mulheres e, em algumas situações, fez comentários que se podem descrever como preconceituosos acerca da vida sexualmente ativa de algumas delas, ao mesmo tempo em que, em outras situações, se referia com certo orgulho e solidariedade de gênero a alguns intercambistas “com fama de pegadores”. Pude perceber que também em várias situações, no entanto, ele também se posicionava de forma mais isenta.

        Sandra Sousa (1998), em seu trabalho sobre a participação das mulheres nos bailes de máscara do carnaval de São Luís, nos anos de 1950 a 1960, aborda as qualidades e virtudes que se impunham como obrigatórias nos processos de socialização das mulheres. Analisa alguns jornais da época

      • – lembremos que a mídia é um dos elementos privilegiados do dispositivo de sexualidade
      • – e escuta as mulheres testemunhas históricas dos acontecimentos para expor as regras fixas e naturalizadas que tinham como alvo as mulheres e

        que revelavam representações sociais em voga para seu sexo. Suas interlocutoras falavam do passado como um tempo de maior respeito e se representavam como mulheres respeitáveis, associadas aos atributos da pureza, do recato, de ser angelical, principalmente no que tangia às relações sexuais e amorosas. As transgressões, segundo a autora, aconteciam, mas de um modo muito discreto e também penoso para as mulheres. Destaca, ainda, com base em trabalhos de autoras feministas, que, a partir do século XIX, teria se operado uma vinculação entre as estruturas sexual e reprodutiva, retirando a conotação de prazer sexual do ato sexual para a mulher.

        Entre suas entrevistadas, Sandra Sousa encontrou a visão de que a relação sexual somente era considerada legítima quando voltada à procriação e, portanto, vivida dentro do casamento, enquanto os desejos sexuais seriam propriamente masculinos. Uma das entrevistadas considerava os seus como “pecaminosos” (p. 113).

        É muito evidente, nesses relatos, o temor ao namoro, ou às consequências que deste adviriam: a relação sexual, a gravidez, a desonra vergonhosa para a mulher, sobretudo para as não casadas. Encarregadas de manterem virgens as suas filhas, até o casamento, as mães aterrorizavam-se ante a possibilidade de falharem socialmente, e muitas vezes criavam-se entre mães e filhas bloqueios afetivos, que só seriam

      superados muitos anos à frente (SOUSA, 1998, p. 114).

        Algumas dessas representações se mantêm, todavia, atuantes através dos tempos. Ana se disse chocada com a cena que viu na piscina. Percebemos que, para ela, o desejo sexual também é atribuído ao homem, como polo ativo, do qual partiriam sempre as investidas e, por isso, a afirmação de que “eles iam se aproveitar delas”. Ao referir-se a

      Joanne como “filha”, Ana revela como agiria com sua própria filha em uma situação similar e denota que essa conduta de encontrar-se a sós, isto é, sem a vigilância ou supervisão de

        uma/um adulta/o, com pessoas do sexo oposto contraria as expectativas sociais preponderantes sobre comportamento sexual adequado para mulheres jovens. Ela percebeu ou atribuiu à cena um caráter sexual, principalmente pelo fato de haver dois homens e duas mulheres num mesmo espaço e sem a supervisão de uma/um adulta/o.

        Pela forma como ressaltou que a mãe não estava em casa, deixando as/os jovens sozinhas/os, Ana revelou uma importante função que caberia às pessoas adultas/os (principalmente às mães) desempenhar perante as/os jovens: a vigilância e controle de sua sexualidade. Eis aí um dos recursos destacados por Michel Foucault (1987) para o bom adestramento dos corpos. A vigilância hierárquica implica uma sujeição que se processa a partir de um jogo do olhar. Coloca-se a exigência de uma visibilidade geral associada a um controle intenso e contínuo. É o que esperava Ana ao censurar, por seu tom, a ausência da dona da casa: a vigilância não pode falhar; não se pode deixar homens e mulheres jovens nessa situação. O efeito desse olhar vigilante pode ser percebido na expressão “Quando o rapazinho me viu... ele ficou todo errado”. O rapaz, que partilhava com Ana os códigos locais de conduta sexual, parece ter imediatamente compreendido uma possível desaprovação social da situação. Joanne, por sua vez, não, pois parece ter sentido com abalo a intervenção de Ana (expressa através do choro compulsivo). Com suas limitações de comunicação, Joanne apenas afirmou que via a situação como “normal”. Essa é uma questão interessante, pois Joanne por sua reação, no mínimo demonstra que não esperava tal intervenção por parte de Ana e deixa entrever que em seu contexto de origem a cena não seria compreendida da mesma forma que para Ana.

        Se, por um lado, André e Ana não pareciam conceber a ideia de que as mulheres também pudessem ocupar uma posição de sujeitos do desejo sexual, tomando a iniciativa do contato e buscando efetivamente o prazer sexual como algo positivo, essa imagem contrasta, por outro lado, com a que Ana fazia de Joanne como uma “menina preparada, esperta”, que “sabia sobre tudo” [em matéria sexual]. A ênfase de Ana – e perceba- se que ela não se limitou a dizer “tudo” uma vez (“Ela sabia de tudo, prevenção, tudo, tudo, tudo, tudo!

        ”) – deixa clara a sua percepção de que Joanne teria sido socializada de forma diferente nesse aspecto. Ana se dava conta, então, de que Joanne pensava e se comportava diferentemente quanto à sua sexualidade, mas tal percepção não parecia ser capaz de se sobrepor à força das representações e normas dominantes.

        André se mostrou preocupado com a possibilidade de gravidez. Ana, por sua vez, acreditava diferentemente que era “muito mais fácil uma filha do Brasil engravidar lá fora do que uma estrangeira engravidar aqui

        ”. Isso nos mostra que não podemos supor homogeneidade no interior dos espaços de socialização. Mas, através da preocupação com a gravidez, podemos encontrar a preocupação com a condenação moral e a desonra da mulher, em particular a jovem, que exerce livremente sua sexualidade, isto é, fora dos contextos geralmente esperados de um relacionamento estável e duradouro, do qual o casamento seria o ideal normativo.

        Joanne e Amanda são faladas diferentemente no discurso de Ana. Esta relatou que Amanda, antes do contato com Joanne, tinha medo de falar de namoro e de sua intimidade com ela; Amanda parecia não expor as próprias práticas sexuais ou íntimas à mãe. Por que falar de namoro, de beijar garotos, de intimidade ou práticas sexuais era, antes, motivo de medo para Amanda, algo a ser escondido, silenciado na relação com a mãe? A dos sexos, conforme dito anteriormente. A socialização de Amanda parece ter sido orientada pelas referências que podemos perceber a partir do discurso de Ana e André. Ela parecia performatizar os atributos referidos ao seu sexo, como a posição de objeto e a passividade sexual. O silêncio sobre os temas sexuais parece atestar o funcionamento do controle da sexualidade e a imagem de que uma mulher deveria ser o mais discreta possível sobre seus desejos e vivências sexuais, para ser socialmente apreciada. O controle busca assegurar que a mulher corporifique os atributos da “pureza”, “inocência” e “bondade”. Um comportamento diferente implica imediatamente na associação com as representações de “mulher da vida”, “vadia”, “ruim”. É, então, possível afirmar que Ana acreditou ter salvo a “inocência” de Joanne. O regime de inteligibilidade de gênero parece se impor quando Ana não considera o que disse Joanne. Quando Ana afirmou “no Brasil, não é normal” e “só que não tava” [tranquilo, normal], prevaleceu, para ela, o entendimento naturalizado de como deveria ser e se comportar uma mulher.

        Dessa forma, vemos que não é uma suposta natureza biológica que se manifesta nos comportamentos das mulheres. Aprendemos com as situações relatadas que são as ideias construídas sobre homens e mulheres e acionadas em diferentes contextos, as representações diferenciadas acerca de como elas/es devem ser, enfim, os ideais normativos de gênero e sexualidade que produzem a realidade da mulher “passiva”, “ingênua”, “submissa”, “discreta”, “dócil”. Não é a mulher que é naturalmente indefesa nem o homem naturalmente aproveitador, mas sua adesão a normas e dispositivos de controle sexual, enunciados através dos discursos de seus espaços de socialização (aqui a família é um deles), que consolida esse efeito. Percebemos, assim, não apenas o caráter diferenciado, mas, sobretudo, assimétrico da relação entre os sexos no discurso.

        Elaine Brandão (2004), com base em sua pesquisa sobre gravidez na adolescência em camad as médias, trata das “difíceis conversas sobre sexo em família” entre diferentes gerações, afirmando que essas conversas revelam-se ainda pouco explícitas. O fato de a sexualidade ser objeto de discurso nas famílias não significa necessariamente que isso pressupõe o diálogo entre as gerações. A autora percebeu em sua pesquisa que a comunicação é predominantemente indireta e que são raras as famílias que conseguem abordar o tema diretamente, voltando-se para as experiências das/os filhas/os. Nesse contexto, ainda seriam as mães as que mais se esforçariam para abordar a temática da sexualidade com estas/es.

        Ana relatou que, depois do contato com Joanne, pareceu que esse aspecto de falar da vida erótica teria sido facilitado para Amanda e Ana mesma justificava isso assim. A convivência entre Amanda e Joanne, que não se dera sem mal-entendidos e desentendimentos, teria oferecido à primeira a oportunidade de ressignificar algumas ideias e comportamentos.

        Já vimos acima a afirmação de Adrian

      • – que, ademais, é do mesmo país que Joanne – de que, em seu contexto cultural de origem, o sexo seria “uma coisa muito aberta”, no sentido de ser um tema discutido abertamente em diferentes espaços. Essa característica parece contrastar, em geral, com a forma como as famílias anfitriãs geralmente tratam o tema.

        Bernardo afirmou ter ficado com a impressão de que Lara era mais “liberal” que as “adolescentes” e mulheres daqui, por seus comportamentos em algumas situações (por exemplo, pelo que dizia quando ingeria bebidas alcoolicas). Ele afirmou que não parecia um problema para ela essa atividade sexual desde cedo. Bernardo acrescentou que explicou a ela que, no Brasil, era inclusive crime se alguém maior de dezoito anos tivesse uma relação sexual com alguém menor de dezoito anos, mesmo que de forma consentida. Assim, deu a Lara a orientação de tomar muito cuidado com quem ela namorasse e se relacionasse em São Luís. E acrescentou que ela precisava ter um cuidado maior ainda: “Você não veio aqui pra ter um filho brasil eiro [risos]”. Bernardo afirmou que ele e Beatriz se preocupavam com a vida sexual dela por conta disso. Afirmaram que nunca tiveram desconfiança de que ela tivesse passado a noite com alguém [no sentido de ter mantido relações sexuais]; quanto a isso, George, no entanto, me informou que tomara conhecimento de uma situação em que, sim, Lara havia mantido relações sexuais com um rapaz na casa de uma amiga dela. Esse acontecimento teria gerado tensões entre Lara e os donos da casa.

        Bernardo disse que aqui “as meninas se cuidam como meninas”, não apenas cuidados pessoais, mas de como os meninos as veem e as colegas as veem. Disse que há coisas que inclusive as “meninas” aqui não fazem porque pensam no que os pais e as/os colegas vão pensar.

        Bernardo: No caso de Lara não me pareceu muito isso. Parece que a oportunidade de viver alguns momentos de diversão pra ela era mais importante. Tanto que em alguns momentos em que elas estavam no shopping, que bebiam, aí ela... só depois eu fiquei sabendo dessas coisas, conversando com Bianca mesmo, com George [da empresa]... e teve momentos assim que ela declarava o amor por um dos meninos do intercâmbio ou então por algum que era irmão de alguém lá, dizia “Ah, eu amo esse menino” [imitando a voz dela e em tom alto], fazendo aquilo

        

      que a gente chama de um escândalo, um circo, então pra ela isso não parecia ser

      problema, não . Se tivesse que ficar à noite e não tivesse esse compromisso de

      voltar pra casa, então provavelmente viraria a noite se divertindo, sem hora. Eu

        não sei se de fato isso era uma questão de personalidade, condicionada pelas diferentes culturas evidentemente, ou se era uma questão da oportunidade; ela estava aqui e queria aproveitar ao máximo. Eu acho que tinha essa diferença

        

      básica. E Bianca, não! Bianca estava com todos os condicionantes de quem não

      tinha saído de casa. Ela tem os compromissos dela, tem a vigilância, quer dizer...

      entre aspas, vigilância dos pais, de todos os que a conhecem . Então, Bianca na

      verdade não teve esse deslocamento de ambiente [grifos meus].

        Cristina disse que se considerava “mais avançada” que a filha, Camila. Esta seria “mais conservadora”, principalmente em matéria de sexualidade e chegava, às vezes, a recriminar Cristina por suas vestimentas ou por coisas que ela falava. Para Cristina, Camila achava que certas coisas, como namorar, ainda “não eram para a idade dela”. A despeito das posições e comportamentos mais “avançados” de Cristina, Camila teria acabado por se identificar com um modelo mais hegemônico de gênero.

        As falas e situações acima parecem nos apontar que, enquanto no âmbito das famílias anfitriãs a sexualidade seria, de forma talvez predominante, um tema tabu, ela seria discutida e vivenciada de maneira mais aberta e livre nos contextos de origem das/os intercambistas. Evidentemente, tal compreensão é bastante questionável e nos apresenta uma visão superficial da questão em jogo. Sem negar que as localidades de origem das/os intercambistas teriam sido palcos privilegiados das transformações da intimidade no ocidente, de que nos fala Anthony Giddens (1993), e que as culturas e subculturas locais possam carregar ainda uma forte herança histórica de práticas consideradas tradicionais, não tomarei como fundamento a ideia de que a sexualidade é objeto de repressão num lugar e de liberação em outro. Antes, buscarei discutir suas referências discursivas e como estas se articulam para conformar uma determinada realidade sexual.

        Alguns temas são recorrentes; outros, não. Bernardo, por exemplo, disse ver Lara como uma mu lher mais “liberal” que as mulheres locais. Também expressou sua preocupação com uma possível gravidez sua e ele e Beatriz afirmaram nunca ter desconfiado de que Lara estivesse tendo uma vida sexualmente ativa. Bernardo se refere ao modo como Lara enuncia seu interesse por alguns homens recorrendo às metáforas do “escândalo” e do “circo”. Ele parece avaliar como “excessiva” a conduta de Lara, numa exigência velada de discrição que ela não parece apresentar. Em seu entendimento, Lara, se fosse uma mulher local, deveria considerar um problema expressar-se daquela forma. Mas, podemos perguntar: O que é aí escandaloso e tão mobilizador das atenções como uma atração circense? O que temos é que Lara enuncia de maneira aberta, clara e, talvez, incisiva seus desejos sexuais, expondo de maneira desconfortável para os padrões locais de gênero sua atividade e iniciativa sexuais. É nisso talvez que ela é uma “menina” diferente das “meninas” daqui: ela não se comporta com base na preocupação sobre como os “meninos” e as colegas a veem.

        A preocupação com a gravidez novamente se insinua e podemos perguntar por que ela geralmente vem em primeiro lugar em se tratando da vida sexual das mulheres jovens. Certamente, não podemos supor que haja uma única resposta e devemos admitir sempre as motivações de ordem bem prática. No entanto, essa preocupação me parece eloquente. Uma mulher supostamente “liberal” e mais aberta sobre seus desejos sexuais não correria mais o risco de engravidar do que outra mulher com condutas mais “conservadoras”. Há também o dado de que, se os temas sexuais parecem ser mais abertamente discutidos nos contextos de origem das/os intercambistas (inclusive o uso de preservativos e contraceptivos), como a maioria das/os intercambistas entrevistadas/os me relatou, pareceria menos provável

      • – sem pretender generalizar o argumento
      • – o risco da gravidez indesejada. Mas, a gravidez talvez seja aqui, mais do que uma preocupação e um fato provável, um símbolo significativo da constelação discursiva que busca produzir m ulheres “dóceis” e “discretas” e disponíveis no mercado matrimonial de acordo com os símbolos que nele são valorizados. Afinal, uma gravidez revelaria inequivocamente a atividade sexual dessa mulher, fato “escandaloso” num contexto em que a “inocência” e o “recato” são a norma.

        Bernardo disse ter dado a Lara a informação acerca da idade legal para consentimento sexual no Brasil, isto é, da idade a partir da qual o indivíduo teria autonomia para praticar atos sexuais sem que fosse presumida nenhuma violência e nem que a prática

        o

        implicasse qualquer tipo de crime. De acordo com o artigo n 217-A do Código Penal

        o

        Brasileiro (BRASIL, 2012) atualmente em vigor e modificado por lei recente (Lei n . 12.015, de 2009), presume- se a violência quando há “conjunção carnal” ou “outro ato libidinoso” com menor de 14 anos. Assim, manter relações sexuais com uma pessoa com menos de 14 anos é considerado crime, ainda que ela tenha consentido. De modo geral, então, essa é a idade de consentimento sexual. Nas situações de assédio sexual, prostituição, exploração sexual e

        o

        tráfico de pessoas para fins de exploração sexual ; 231,

      • – artigos 216-A; 218-B; 227; 230, § 1

        o o

        § 2 , I; e 231-A, § 2 , I do Código Penal Brasileiro e o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 2012)

      • –, a idade mínima legal para o sexo, ainda que tenha havido consentimento, aumenta para 18 anos. Ainda que Bernardo possa ter se confundido, ao efetuar essa generalização, parece reproduzir a ideia de que uma sexualidade livre e autônoma seria prerrogativa apenas de pessoas adultas/os, num exemplo em que se cruzam marcadores de gênero e de geração.

        Elaine Brandão (2004) registra a alusão parental aos filhos como “crianças”, por repetidas vezes em entrevistas. Para a autora, a utilização da ex pressão “namoro de filhos. A autora cita estudos que atestam que, nos países do norte europeu, seria melhor percebida uma tendência para aproximação dos calendários na iniciação sexual de homens e mulheres. Já nos países de cultura latina e mediterrânea, se manteria um diferencial em favor da precocidade dos homens.

        É o que afirma Göran Therborn (2006, p. 309):

        Na Finlândia, de 6% a 9% das mulheres nascidas entre 1933 e 1942 fizeram sexo antes dos 18 anos; entre as nascidas depois de 1972, a porcentagem correspondente era de 55% a 60%, sendo que entre um quarto e um quinto delas fez sexo antes dos 16 anos. Na Suécia, a idade mediana da iniciação sexual feminina é de cerca de 16 anos, e parece ter sido assim desde as coortes do nascimento do final da década de 1950.

        O autor também registra que no sul da Europa (incluindo a França), o padrão de atividade sexual muito mais precoce para os homens do que para as mulheres ainda se mantém. Miriam Abramovay, Mary Castro e Lorena Silva (2004, p. 122) constataram, em sua pesquisa com estudantes em diferentes cidades do país, que a idade média da primeira relação sexual é mais baixa entre alunos do sexo masculino, em média pelo menos um ano antes das estudantes mulheres.

        3.2.2 “Ficar”, namorar e o exercício da sexualidade na casa da família anfitriã Ingrid relatou ter tido a experiência de “ficar” durante sua estada em São Luís.

        Disse que isso acontecia em seu contexto cultural de origem, mas menos. Ela disse achar que havia algo positivo “na coisa do ficar” (entendi que pela flexibilidade nas relações). Segundo relatou, nessa prática, uma pessoa poderia beijar, sair com outros, com mais de uma pessoa inclusive, até chegar a assumir com alguém o compromisso de namorar. Ela acrescentou que na Europa “os relacionamentos têm mais responsabilidade”. Seria, segundo ela, mais difícil “pular a cerca”; haveria “mais aspectos negativos”.

        A maioria das/os intercambistas entrevistadas/os falou sobre a prática do “ficar” como algo diferente do “namorar” e que como algo que afirmavam não conhecer em seus contextos culturais de origem. Algumas/ns afirmaram que, sim, pode-se conhecer alguém e beijá-la/o naquela noite sem que isso se repita e isso seria “uma coisa de uma noite só”. Mas, ressaltaram, em geral, que, em São Luís, essa prática seria bem mais comum e mais estabelecida. Pode-se, segundo alguns relatos, em uma única festa, beijar e abraçar pessoas diferentes, mais de uma, sem que isso seja socialmente condenável entre as/os jovens.

        Sobre a diferença entre “ficar” e “namorar”, Barbara disse que tentava explicar em São Luís, era mais aceito alguém sair e beijar uma pessoa num dia e, no dia seguinte, beijar outra.

        Alice disse acreditar que essa prática de “ficar” só existe aqui no Brasil. Disse que em seu país seria diferente. Segundo relatou, uma prática assim lá seria avaliada negativamente, ao que parece, e afirmou que, lá, as coisas iriam passo a passo de uma distância até uma intimidade maior. Afirmou que se, em seu país, “ficasse com vários” rapazes, seria tida como “vagabunda”, mas aqui não. As amigas a incentivavam a “ficar” com “garotos” e diziam, ante a resistência dela, que isso era completamente normal aqui.

        Bryan se referiu ao “ficar” como algo “muito legal”. Disse que aqui era muito mais fácil beijar as mulheres do que em seu contexto de origem. Ele disse que, em seu país, “não tem ‘ficar’; tu beija a mulher só quando tu quer namorar com ela”. Lá, antes de um contato mais íntimo, de beijar, por exemplo, ele disse que convidaria a mulher para o cinema.

        Miriam Abramovay, Mary Castro e Lorena Silva (2004, p. 87) afirmam que o “ficar” seria entendido por alguns como um comportamento sexual que reelabora o namoro e por outros como uma forma própria de interação sexual e afetiva. Em geral, a prática do “ficar” inclui afetividade, mas exclui um compromisso de continuidade ou exclusividade, podendo ou não vir a se transformar em namoro.

        Nos discursos dos jovens o ficar configura-se, de certa forma, como uma interação afetiva e sexual onde se pode lidar com as demandas referentes às relações de namoro, consideradas mais rígidas. Neste sentido, o ficar aparece como uma forma alterativa ao namorar, cujos aspectos mais enfatizados por rapazes e moças, dizem respeito ao relaxamento dos acordos mais complexos, pertinentes às relações estáveis (ABRAMOVAY; CASTRO; SILVA, 2004, p. 88, grifos das autoras].

        Para as autoras, de acordo com os achados de sua pesquisa, o “ficar” flexibilizaria alguns aspectos das relações mais estáveis, como a obrigação de fidelidade.

        Destacam-se os traços da ausência de compromisso e da superficialidade. O namoro, por sua vez, estaria sempre associado a responsabilidades.

        Para alguns, a ética do “ficar” extrapolaria as divisões sexuais tradicionais. A iniciativa poderia partir de moças ou rapazes e estas/es poderiam

        “ficar” com moças ou rapazes. Mas, de fato, não pareceu às autoras que se conseguiria ultrapassar as tradicionais hierarquias nas relações de gênero.

      O “ficar” é, amiúde, considerado uma novidade e pode, além de estar desestabilizando relações hierárquicas de gênero, estar propiciando às/aos jovens novas

        experiências de prazeres e afetividades. Mas, não se esgota num sentido único e libertário. Para Miriam Abramovay, Mary Castro e Lorena Silva (2004), pode comportar uma igualitárias, haveria uma valoração moral distinta do “ficar” para homens e mulheres. A possibilidade de variação de parceiras para “ficar” recebe um valor positivo para os homens jovens. Para as mulheres jovens, a prática pode estabelecer limites e implicar em rotulações.

        Tal pensar dicotômico sugere novas roupagens para velhos preconceitos que

      colaboraram nas valorações diferenciadas das mulheres

      • – as boas para casar e aquelas, para as “outras coisas”, como para uma sexualidade descompromissada e separada do afeto (ABRAMOVAY; CASTRO; e SILVA, 2004, p. 92).

        Dois aspectos podem ser ressaltados a partir das falas das/os entrevistadas/os. O primeiro diz respeito às próprias características do “ficar”, por relação ao namoro, destacando-se aqui um modelo menos rígido e complexo de interações afetivas e sexuais. O “ficar” nos aparece, assim, como uma flexibilização do namoro e, no limite, da própria noção do casamento, enquanto vínculo baseado na exclusividade, perenidade e associado à vida adulta. O outro aspecto se refere ao caráter “localizado” da prática, na medida em que foi afirmada como desconhecida ou estranhada pela maioria das/os intercambistas. As falas permitem inferir que o casamento se perfila como modelo hegemônico de relações, pelo qual os demais tipos de interações eróticas são referenciados. O “ficar” apareceria, assim, como uma construção geracional que questiona os códigos estritos da moral sexual vigente, fundada na lógica do casal heterossexual monogâmico estável.

        A prática do “ficar” parece também conveniente às/aos intercambistas em função da transitoriedade de sua permanência em São Luís (um semestre ou, no máximo, um ano). A maioria delas/es afirmou não ter namorado, mas apenas “ficado”.

        O tema “namoro e relações sexuais na casa da família anfitriã” também se mostrou significativo no material das entrevistas. Dalva achou Emily muito parecida consigo e com a filha enquanto mulher, mas disse que pôde ver uma diferença com relação a “trazer o namorado em casa”. Dalva relatou que Emily lhe teria dito que seu namorado na Europa podia dormir na casa dela. Denise colocou que uma das regras que Dalva impõe em casa é que nem Denise nem Emily podem ficar a sós com um possível namorado em casa. Dalva disse que esse é o lado

        “conservador” dela. Denise disse que essa regra de não poder ficar a sós com namorado em casa, ela e Emily sempre cumpriam, apesar de desobedecerem outras (como a do horário de retorno pra casa), “até porque ela [Dalva] podia chegar a qualquer momento”.

        Dalva relatou que tinha um lado meio conservador: “isso de ficar só em casa

        [com namorado], não ”. Afirmou que era muito por conta do pai de Denise, pois ele seria muito mais conservador. Dalva disse procurar não entrar em atrito com ele.

        “O que puder evitar de confusão, é melhor ”. Ingrid afirmou que, em seu contexto cultural de origem, podia dormir com o namorado na casa dela ou na dele. “Aqui, é mais ‘uou’! [imitando reação de surpresa]. Não é bom! Ela pode engravidar! Ela é muito nova!”. “Os homens são ruins”, costumava lhe dizer, segundo ela, sua primeira mãe anfitriã. Conforme me relatou, o segundo pai anfitrião era muito contra ela sair com garotos. Pelo pai, ela nunca podia ir de carona sozinha com um garoto. Ele não achava seguro, conforme disse Ingrid.

        Barbara afirmou que nenhuma das garotas que conheceu em São Luís tinha permissão para dormir na casa do namorado nem para estar no mesmo quarto com ele com a porta fechada. Enfatizou que esta era uma grande diferença. Ela relatou que enquanto, para ela, não haveria problema de dormir na casa do namorado em seu país, tanto sua irmã anfitriã (da primeira família anfitriã), que era um ano mais velha que ela, quanto sua irmã da segunda família anfitriã, um ano mais nova, nunca puderam dormir na casa dos namorados. Barbara entendia que o controle dos pais no sentido de evitar que as filhas ficassem nos quartos a sós com os namorados ou que fossem dormir nas casas deles significa que não queriam que as filhas fizessem sexo.

        

      Os pais, eles mantêm essa regra tanto para mulheres como para homens da

      mesma forma?

        Barbara: Não. Eu acho que não.

      Por que não?

        Porque... bem, eu tenho amigos aqui e eles têm namoradas e eu também ouvi bastante, eu não sei ao certo... mas, a minha impressão é que garotos dormirem na casa das garotas é mais tolerado que garotas dormirem na casa dos garotos.

        A respeito disso, relatou Adrian que sua família anfitriã não aceitava que ele levasse a namorada para namorar em casa nem para dormir lá. Também não permitiam que ele dormisse fora, nem na casa da namorada. Mas, segundo o que acrescentou, a mãe da namorada aceitava bem a ideia de ele dormir na casa dela

      • – embora nunca junto com a filha –, mas não permitiria que a filha dormisse na casa dele.

        Adrian: Uma coisa que minha sogra falou: eu posso dormir na casa dela, mas ela não pode dormir na casa minha.

        Minha sogra.

      Sua sogra, tá. Que você pode dormir na casa dela [da namorada], mas ela não pode dormir na sua casa..

        Porque lá, ela pode olhar, aqui não.

      Mas, olhar o quê?

        Se a gente faz algumas coisas erradas. Eu acho que é sempre assim, as mães quer a filha sempre é uma moça, sempre é branca... até o casamento.

      Como assim? Ah, sim, você diz virgem..

        Isso. Até o casamento.

      Então, você acha que, por exemplo, que a mãe dela não sabe que vocês têm relação sexual? Ela não sabe. Ela não sabe? Ela não sabe. Ela acha que vocês não têm, que vocês só namoram..

      Ela sempre fala pra mim “Eu nunca vi coisas erradas; eu gosto muito de você porque eu nunca olhei coisas erradas”. E quando ela fala isso, eu olho pra o outro

        lado [risos dele e meus].

        Ao falar sobre por que não podia levar a namorada em sua casa, Adrian disse: Adrian: Eu não posso namorar em casa porque minha mãe é um pouco antiga. Pra meu pai, ele queria levar minha namorada pra qualquer lugar, mas minha mãe não gosta. Eu uma vez levei dois amigos e minha namorada pra minha casa e minha mãe estava muito, muito mal pra minha namorada. Tipo, meu amigos, ah, tá tudo bem, mas minha namorada, ela não queria ela entrar, mas como ela também não queria ser mal pra todo mundo, ela estava só mostrando ela não gostou ela estava lá.

      Entendi, ela não disse nada..

        Ela não disse nada, mas ela mostrou. E tipo quando eles queriam ir embora, minha namorada queria tipo ficar comigo no apartamento pra esperar a mãe dela buscar ela e minha mãe “Ah, eu penso é melhor você ir no ônibus com os teus amigos”. Ela sempre queria tipo ela ir embora. E eu vi minha mãe, elas nunca vai ficar juntos.

      E ela alguma vez já te disse por quê?

        [pensando] Não, não. Meu pai fala isso é uma coisa dela, porque ela é antiga, tipo meus irmãos também não podem namorar em casa. Quando eles tinham namorados, sempre foi tipo no shopping, nunca foi em casa. Sempre algum lugar;

        

      nunca em casa . E eles também não podem ir pra casa deles. É sempre um lugar

      público.

        Adrian disse que em seu país podia levar a namorada para o quarto porque é o

        

      quarto dele . Lá, disse ele, seria normal que um dia ele dormisse na casa da namorada e outro

        dia, ela dormisse na sua, mas aqui, não. Adrian disse que as pessoas a partir de 15 e 16 anos já

        52

        fazem assim . Disse também que sexo é uma coisa muito normal lá no sentido de que a família não interfere para proibir ou permitir. A preocupação se daria com o uso de preservativos e “remédios” [provavelmente contraceptivos]. Os pais, disse ele, respeitam sua

        privacidade

        e, se veem a porta do quarto fechada, respeitam e não interrompem. “Aqui, eu estou vendo se tu quer fazer isso você vai pra motel ou praia, carro, alguma coisa para

        ninguém vai olhar

        . Isso é uma coisa engraçada” [grifos meus]. Prosseguindo, Adrian acrescentou: Adrian: Tipo se... uma história: primeira vez eu fiz com uma namorada, também foi primeira vez dela. Quando você faz primeira vez dela, ela tem um pouco sangue depois.

      Sim..

        Tipo eu tinha um pouquinho vergonha falar isso pra minha mãe, mas eu realmente não sabia por quê, porque isso é uma coisa muito normal e minha mãe pegou todas as minhas coisas, lavou e pronto! Não tem briga, não tinha nada. Porque isso é uma coisa normal .

      Sim. A sua mãe não falou sobre isso com você?

        Tipo, sexo a gente fala é tipo para juntar mais. É para fazer uma relação mais forte. Tipo, aqui você tem alianças de compromisso [risos]. Mas, mesmo assim, ainda pessoas sai pra motel, carro, essas lugares.

        

      Então, assim, deixa ver se eu entendi: lá, os seus pais sabem que você faz

      sexo, que você pode trazer a namorada pro quarto, eles sabem que o sexo vai

      acontecer? Um-rrum [concordando].

        

      Aqui, os pais, eles não querem que você tenha sexo na casa ou de jeito

      nenhum? Ou...

        Eu não posso levar ela pra casa [grifos meus].

        Na despedida de Adrian no aeroporto, a qual presenciei, ele compartilhou comigo uma situação. Seus pais anfitriões

      • – que estavam lá, juntamente com a namorada e a mãe desta
      • – teriam descoberto, algum tempo antes, pílulas anticoncepcionais em uma bolsa dele, concluindo daí que ele estaria tendo uma vida sexualmente ativa com a namorada e o condenaram por tal atitude. De fato, segundo Adrian, a mãe e o pai anfitrião disseram a ele que estavam muito “decepcionados” com ele. Ameaçaram contar a história à mãe da namorada.

        Bryan relatou que, em seu país, tinha uma namorada e que não havia problema de ficar com ela no quarto. Disse que ela também já dormiu com ele no quarto em sua casa e que não houve problema por isso para sua família. Disse que aqui isso seria um problema “porque os pais acham que eles vão transar; aqui, eles não gostam”. Acrescentou que aqui, como não é possível transar em casa, as pessoas vão para o motel. “Todo mundo sabe que eles já transaram [referindo-se a um casal hipotético], só não na casa. Eu acho que é burrice de não deixar eles dormirem em casa. Porque se eles não fizerem lá, eles vão pra motel”.

        Podemos perceber que há, por parte das/os adultas/os anfitriões, com foco na figura da mãe anfitriã, uma especial atenção, vigilância e controle sobre deixar as/os filhos, inclusive as/os filhas/os anfitriãs/ões, sozinhas/os com suas/seus respectivas/os namoradas/os em casa. Busca-se prevenir a ocorrência de relações sexuais ou pelo menos a evidenciação de que estejam ocorrendo. A presença de outras pessoas na casa ou o namoro em lugares públicos cumpririam a função de vigilância e controle que se busca garantir.

        Dalva buscou justificar a proibição fazendo referência ao ex-marido e pai de Denise. Por quê? Ela parecia temer algum tipo de cobrança ou repreensão dele caso algo acontecesse. Aqui, começamos a entrever uma importante função atribuída à figura da mãe no dispositivo de sexualidade. No item anterior, tratei da vigilância hierárquica que funcionava no sentido de assegurar a produção de uma sexualidade conforme às normas hegemônicas vigentes. Agora, é possível precisar que essa função é, sobretudo, atribuída à mulher enquanto mãe, como uma responsabilidade sua.

        A mãe anfitriã de Adrian não permitia nem mesmo que ele trouxesse a namorada em casa. A mãe da namorada de Adrian, por sua vez, permitia que ele dormisse na casa dela, mas não que sua filha dormisse na dele. Na casa dela, ela poderia se assegurar da função que lhe cabia enquanto mãe: manter a virgindade da filha até o casamento, como já antecipei quando discuti a sexualização das mulheres com base em Sandra Sousa (1998). Adrian pareceu perceber essa expectativa de virgindade com relação às mulheres jovens muito bem, ao afirmar que as mães queriam as filhas “brancas” (virgens) até o casamento.

        As preocupações de mãe e pai anfitrião seriam com uma possível gravidez e com a idade (“ela é muito nova”). Eis aí de novo a expectativa de que mulheres jovens devem abster-se do sexo. Nesse locus discursivo, o casamento se coloca como o principal objetivo da vida de uma mulher, a qual deve manter- se “pura” para o homem, sob o risco de ser rechaçada. O namoro parece revestir-se de características mais rígidas tendo como modelo o casamento, para o qual deve se encaminhar.

        A “aliança de compromisso” equipara os namoros aos casamentos e talvez inconscientemente pode funcionar como uma forma de apaziguar a culpa pela transgressão da norma tão difundida da abstinência sexual para as mulheres jovens. As relações sexuais mediante compromisso

      • – como se o namoro se encaminhasse para um possível casamento futuro – estariam mais autorizadas.

        Há um paradoxo marcante: o sexo é produzido como um segredo, como algo a ser mantido na esfera íntima do sujeito, mas ao mesmo tempo nada aparece como mais público, incitado: opera-se como efeito dessa vigilância uma verdadeira sexualização das relações. Esse controle parece muito disseminado e presente, ao ponto de poder ter

        53 características de controle panóptico , como na fala de Denise.

        3.2.3 Sexualid ades “desviantes”, dispositivo do armário e abjeção de gênero Após vários episódios de ciúmes e de instabilidade emocional, a irmã anfitriã de Alice, segundo esta me relatou, se disse apaixonada por ela. Alice teria tentado conversar com ela tranquilamente, dizendo que nunca iria

        “gostar de garotas” e que não era um problema para ela que a irmã anfitriã “gostasse de garotas”. Apenas “não era a minha”, disse ela. Então, teria proposto que elas continuassem a ser amigas. Mas, conforme relatou, isso não funcionou bem. Primeiro, a irmã anfitriã teria dito

        “ok” e agradecido, mas não funcionou e seguiram-se novos episódios de ciúmes e problemas de relacionamento com a irmã anfitriã. Alice acabou permanecendo na mesma família anfitriã até o final, ainda que os problemas de relacionamento com a irmã anfitriã, por causa de sua paixão, tivessem persistido, de algum modo, até o final. Mas, o que nos interessa nessa situação a propósito do

        dispositivo de sexualidade e do regime normativo hegemônico de gênero é a forma como a questão do desejo sexual fora da norma de heterossexualidade compulsória é tratada. A certa altura, Alice teria acordado com a irmã anfitriã que esta conversaria com sua mãe. A intercambista me disse acreditar que ela o fez, mas não tinha certeza absoluta. O assunto nunca tinha sido conversado abertamente na família anfitriã e a irmã anfitriã lhe pediu que nunca comentasse com ninguém, mostrando ter muito medo de que sua família ou outras pessoas viessem a descobrir. Alice disse ter

        “100% de certeza” de que o pai anfitrião não sabia de nada. Relatou que a irmã anfitriã ficava às vezes muito depressiva e que dizias coisas como

        “Minha vida é uma merda!”, “Você não sabe nada sobre a minha vida!” e que “a mãe dela não a amaria sabendo que ela era desse jeito ” [grifos meus]. Alice comparou a posição de sua irmã anfitriã com a de outra mulher que conheceu.

        Alice: Eu realmente não sei, porque minha irmã, ela é muito... ela não quer... ela quer esconder tanto, ela não quer que ninguém saiba sobre isso. E ela tem realmente muito medo de que alguém venha a saber isso, a descobrir. Mas, o que... eu não sei. Eu conheço outra garota e ela também é lésbica, ela tem uma namorada...

      Aqui?

        Aqui no Brasil. E, sim, ela é aberta sobre isso. As pessoas em volta dela, os amigos dela eles sabem e eles são completamente normais com ela.

      Ela tem a mesma idade mais ou menos? Ela tem 16 ou 17 anos. Mas, ela não é da sua escola? Não, eu só a conheço através de uma amiga da escola. Você sabe se ela enfrenta alguma dificuldade por causa disso?

        Ela não parece. Ela só me disse que é difícil por causa dos pais... mais por causa dos pais da namorada dela. Eles não querem que elas se encontrem.

        

      E você acha que é da mesma maneira que acontece na __________? Por

      exemplo, se alguém é gay ou lésbica, os pais ficariam preocupados ou

      interfeririam nisso?

        Eu acho que mesmo lá é mais difícil. Por exemplo, eu tinha um colega de classe, ele é gay e ele disse isso a alguns amigos próximos, e era óbvio que ele era, mas

        ele disse que não podia dizer a sua família, que ele tinha medo de que não aceitariam [grifos meus].

        Cristina relatou que a fi lha, Camila, já havia percebido que Kate não “gostava de meninos e, sim, de meninas”. Ela ouvira um amigo da intercambista perguntar pela “namorada dela”. Cristina perguntou a Camila se ela tinha algum problema com isso e ela disse que não: “por mim, tudo bem”. A empregada teria visto algumas cenas como Kate dormindo junto com uma amiga, uma fazendo carícia na outra, tomando banho de piscina juntas. A empregada havia contado a Carlos que tinha visto Kate na piscina se beijando com uma menina, se acariciando. Carlos, então, teria chamado Cristina para perguntar se ela já sabia e se isso era fato. Cristina disse que não, apesar de já ter conversado com a filha. Mas, isso, segundo Cristina, começou a gerar angústia nele.

        Kate não teria, segundo Cristina, conversado com ela sobre sua vida particular e sobre sua suposta homossexualidade, embora tenha tido abertura para isso. Cristina acrescentou que, se tivessem tido a oportunidade de conversar, teria dito a Kate que aqui, caso ela quisesse ter uma namorada, ela teria que ter mais reservas que em seu país, pois as coisas eram diferentes. Cristina se preocupava com o marido e com os convidados. “Quando eles estiverem presentes, você não pode estar esboçando certos tipos de comportamento”, diria Cristina se tivesse tido oportunidade. Cristina afirmou que os comentários sobre a suposta homossexualidade de Kate foram o fator decisivo para que Carlos não quisesse mais que ela permanecesse na casa. Por Cristina, ela teria continuado até o final. Teria sido Carlos quem, de fato, não mais aceitara que ela permanecesse. Cristina relatou que Carlos falou com ela e que queria que ela fosse até a empresa e que inventasse qualquer motivo para tirá-la da casa.

      De fato, conforme me relataram Maria e George, Carlos teria se aproveitado de uma situação para “expulsar” Kate de casa: esta retornara de uma viagem e como não encontrara ninguém

        esperando por ela no aeroporto, teria ido juntamente com uma amiga para a casa desta.

        O medo da irmã anfitriã de Alice de não ter o próprio desejo sancionado pelo Outro indica, em primeiro lugar, o caráter socialmente hegemônico das normas que estabelecem o ideal de um desejo e de uma sexualidade heterossexuais. O efeito depressivo mencionado por Alice com relação à irmã anfitriã parece mostrar não apenas que o desejo desta contraria a norma hegemônica, mas que um ideal normativo heterossexista foi efetivamente incorporado. Ficou claro para Alice que a irmã anfitriã se angustiava ante o fato de ter desejos sexuais que receava não ser aceitos pela mãe e pelo pai ou pelas pessoas com quem convivia. A norma de heterossexualidade compulsória impõe que os desejos de caráter diferente sejam tidos como “desviantes” ou “anormais” e, portanto, submetidos a um regime de segredo e invisibilidade, não devendo ser assumidos publicamente, sob pena de sanções variadas.

        Foi o que Cristina comunicou a Kate, mesmo mostrando-se mais tolerante que Carlos com relação ao tema. O marido e os convidados encarnam esse público idealmente heterossexual, diante do qual Kate teria que se comportar reservadamente, escondendo os comportamentos fora das expectativas hegemônicas. Cristina apontou uma diferença entre “assumir-se” lésbica aqui e no contexto de origem de Kate: as coisas seriam diferentes.

        Caberia questionar em quê. Alice indicou que também para um colega de escola em seu país haveria um medo de não aceitação: “Eu acho que mesmo lá é mais difícil”, disse ela.

        Eve Sedgwick (2007) teoriza que o “armário” é, na verdade, um regime de conhecimento e um dispositivo de regulação da vida de gays e lésbicas que também concerne aos heterossexuais. Esse dispositivo se sustentaria no privilégio de hegemonia de valores e de visibilidade dado à heterossexualidade. A autora aponta que mesmo pessoas assumidamente homossexuais, pelo menos e m alguns contextos, entram de novo “no armário”. Embora o armário não seja uma característica exclusiva de gays, ela é a característica fundamental da vida social de gays e lésbicas (p. 22).

        Tiago Duque (2009, p. 5) afirma que:

        o ‘armário’ é a forma como a ordem sexual – desde ao menos o final do século XIX

      • – se constitui dividindo a todos dentro do binário hetero-homo de forma a garantir a manutenção do espaço público como sinônimo de heterossexualidade pela restrição da homossexualidade ao privado.

        Eve Sedgwick destaca as contradições desse regime presentes nas articulações entre privado/público, dentro/fora, conhecimento/ignorância. A autora destaca a articulação foucaultiana entre “conhecimento” e “sexualidade”, a partir da incitação discursiva sobre o sexo, abordada no capítulo anterior.

        Ao final do século XIX, quando virou voz corrente

      • – tão óbvio para a Rainha Vitória quanto para Freud – que conhecimento significava conhecimento sexual, e segredos, segredos sexuais, o efeito gradualmente reificante dessa recusa significou que se havia desenvolvido, de fato, uma sexualidade particular, distintivamente constituída

        como segredo: o objeto perfeito para a ansiedade epistemológica/sexual do sujeito da virada do século, hoje exacerbada. Novamente, foi uma longa cadeia de identificações entre uma sexualidade e um posicionamento cognitivo particular (neste caso, a denominação feita por São Paulo, rotineiramente reproduzida e reelaborada, da sodomia como o crime cujo nome não deve ser pronunciado e, portanto, cujo acesso ao conhecimento é o único adiado), que culminou no pronunciamento marcante de Lorde Alfred Douglas:

        ‘Eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome ’. Em textos como Billy Budd e Dorian Gray, e através de sua da iniciação, do segredo e da revelação

      • – tornaram-se não de forma contingente, mas integralmente, inspiradas por um objeto particular de cognição: não mais a sexualidade como um todo, mas ainda mais especificamente, agora, o tópico

        homossexual (SEDGWICK, 2007, p. 30, grifos da autora).

        Ao falar de uma amiga que seria “aberta” com relação à sua homossexualidade, Alice pareceu sugerir que essa situação seria preferível à de manter o segredo como a irmã anfitriã. No entanto, “estar no armário” e “assumir-se” não apenas não são situações definitivas, estados aos quais se passaria de uma vez por todas, como não são decisões individuais. Estão ambas submetidas a esse dispositivo de regulação da sexualidade que faz equivaler simbolicamente uma heterossexualidade ideal ao espaço público e à visibilidade, enquanto as demais formas de sexualidade são confinadas ao segredo e invisibilizadas.

        Nos regimes normativos hegemônicos de gênero, a produção da subjetividade está intrínseca e simultaneamente associada à produção de seres abjetos cuja exclusão dos parâmetros de normalidade sustenta as categorias gendradas “legítimas”. Judith Butler (2006, p. 181) elaborou sua noção de abjeção de gênero a partir da discussão de Julia Kristeva sobre a noção de um tabu constitutivo de fronteira para o propósito de construir um sujeito discreto através da exclusão. O “abjeto” designaria aquilo que foi expulso do corpo, descarregado como excremento, literalmente tornado “Outro”. “A construção do “não-eu” como abjeto estabelece as fronteiras do corpo que são também os primeiros contornos do sujeito”.

        A autora faz também referência ao trabalho de Iris Young que, apropriando-se de Julia Kristeva para compreender o sexismo, a homofobia e o racismo, sugeriu que o repúdio de corpos pelo seu sexo, sexualidade e/ou cor é uma “expulsão” seguida de uma “repulsão” que funda e consolida identidades culturalmente hegemônicas ao longo de eixos de diferenciação de sexo/raça/sexualidade.

        O que constitui através da divisão os mundos ‘interior’ e ‘exterior’ do sujeito é uma margem e fronteira tenuemente mantida para os propósitos de regulação e controle sociais. A fronteira entre o interno e o externo é perturbada por aquelas passagens excrementícias nas quais o interno efetivamente se torna externo, e essa função excretora se torna, por assim dizer, o modelo pelo qual outras formas de identidade- diferenciação são realizadas. Com efeito, esse é o modo pelo qual os Outros se tornam merda. Para que os mundos interior e exterior permaneçam completamente distintos, a superfície inteira do corpo teria que alcançar uma impermeabilidade impossível. A vedação de sua superfície constituiria a fronteira sem emenda do sujeito; mas esse invólucro seria invariavelmente explodido precisamente pela sujeira excrementícia que ele teme (BUTLER, 2006, p. 182). 54 54 Texto original: What constitutes through divison the “inner” and the “outer” worlds of the subject is a border and boundary tenuously maintained for the purposes of social regulation and control. The boundary between the inner and outer is confounded by those excremental passages in which the inner effectively becomes

      outer, and this excreting function becomes, as it were, the model by which other forms of identity- Se a abjeção é uma operação de exclusão sem a qual o sujeito não pode existir, podemos, então, afirmar que ela cria e sustenta a legitimidade discursiva de certas identidades. A abjeção da homossexualidade delimita as fronteiras do corpo heterossexual normal e sua emergência ou aparição se constitui como força poluidora e ameaçadora desses contornos discursivamente estabelecidos. A abjeção é uma ameaça sentida por todas/os aquelas/es que se distanciam das posições sexuais marcadas nos regimes discursivos hegemônicos de gênero.

        No mesmo sentido, Berenice Bento (2011) afirma que a garantia de reprodução da heteronormatividade se fundamenta na produção de seres abjetos e poluentes: “gays, lésbicas, travestis, transexuais e todos os seres que fogem à norma de gênero”. Ela também se refere a essa operação de exclusão quando sustenta que o “abjeto” deve, em princípio, permanecer invisível, aparecendo no discurso apenas para ser eliminado. Os seres abjetos são uma espécie de resto que sustenta as identidades de gênero legítimas ou o que autora chama de mulher/homem “de verdade”.

        Quando se age e se deseja reproduzir a/o mulher/homem “de verdade”, desejando que cada ato seja reconhecido como aquele que nos posiciona legitimamente na ordem de gênero, nem sempre o resultado corresponde àquilo definido e aceito socialmente como atos próprios a um/a homem/mulher. Se as ações não conseguem corresponder às expectativas estruturadas a partir de suposições, abre-se uma possibilidade para se desestabilizarem as normas de gênero, que geralmente utilizam da violência física e/ou simbólica para manter essas práticas às margens do considerado humanamente normal. O processo de naturalização das identidades e a patologização fazem parte desse processo de produção das margens, local habitado pelos seres abjetos (BENTO, 2011, p. 553).

        Judith Butler (2011, p. 67) argumenta que, num regime de heterossexualidade compulsória, a assunção de posições sexuadas têm como preço a homossexualidade, ou seja, se constitui através da abjeção desta. Isso implicaria a existência de uma possível identificação com uma homossexualidade abjeta no coração da identificação heterossexual. Finalmente, afirma a autora que não se deve ver a abjeção como uma identidade e sim como um processo que tem determinantes históricos e contextuais. A abjeção, para a autora, sinaliza o que fica fora das oposições binárias a ponto mesmo de possibilitar os binarismos (PRINS; MEIJER, 2002, p. 165).

        worlds, to remain utterly distinct, the entire surface of the body would have to achieve an impossible impermeability. This sealing of its surfaces would constitute the seamless boundary of the subject; but this

        [...] embora necessitemos de normas para viver, e para viver bem, e para saber em que direção transformar nosso mundo social, nós também somos constrangidos por normas de maneiras que, por vezes, nos violentam e às quais, por razões de justiça social, devemos nos contrapor (Judith Butler, Undoing gender).

        Já me referi ao fato de que a convivência entre intercambistas e membros das famílias anfitriãs se materializa, principalmente, no interior do espaço doméstico. Os dados que discuto neste capítulo permitem lançar luz não apenas sobre as relações entre esses sujeitos, mas também sobre a forma como se arranjam, em termos de poder, famílias de camadas médias locais, sobretudo quando se trata das relações entre pessoas adultas e jovens no interior desses grupos. A presença da/o intercambista nessas famílias e as possíveis diferenças e conflitos advindos na convivência permitem compreender, por efeito de contraste, o regime micropolítico em funcionamento nesse espaço.

        O gênero e a sexualidade, discutidos mais especificamente no capítulo anterior, são duas das várias produções discursivas que se atualizam nas relações entre as/os intercambistas e famílias anfitriãs estudadas/os. Gostaria, então, de destacar outras questões que me pareceram bastante significativas no contexto da convivência entre esses sujeitos, a partir das observações e entrevistas que realizei. Trata-se do exercício da autoridade por pessoas adultas das famílias anfitriãs com relação a filhas/os e intercambistas, articulado à produção de diferenças geracionais, bem como do enquadre discursivo da individualidade, tendo em vista o confronto, expresso nos relatos, entre percepções diferenciadas do indivíduo e de sua relação com o grupo, para os sujeitos em questão.

        O registro reiterado de percepções diferentes acerca do indivíduo nas falas das/os intercambistas e dos membros das famílias locais de camadas médias que as/os acolhem em São Luís parece oportunizar desafios e originar parte dos mal-entendidos e conflitos que se manifestam ao longo da convivência entre os sujeitos.

        Ressalto, uma vez mais, que as situações pesquisadas se referem à experiência de camadas médias urbanas da cidade de São Luís, o que particulariza as análises que são feitas a seguir.

        4.1 “Eu sou sua mãe, eu sei; você não sabe. Eu sou sua autoridade; faça como eu disse!”: relações de hierarquia e processo de adestramento das/os jovens

        A pesquisa mostrou que a produção de diferenças geracionais e diferenças de gênero, no interior das famílias anfitriãs estudadas, articula-se à dinâmica das relações de poder na instituição familiar.

        Segundo o que me relatou Maria, a primeira família anfitriã de Ian pediu à empresa que o retirassem de sua casa e encontrassem uma nova família anfitriã para ele. Alguns acontecimentos teriam levado a essa decisão. A princípio, a mãe anfitriã teria pedido a Ian que sempre a informasse por telefone sobre sua localização e deslocamentos pela cidade. Tratava-se, segunda ela teria dito a Maria, de uma precaução com a segurança dele, vez que o intercambista ainda não falava a língua local nem sabia se localizar bem na cidade. Segundo Maria, Ian, por sua vez, alegando que não estava acostumado a proceder assim em seu contexto de origem, nunca telefonava, o que deixava a mãe anfitriã chateada e a levava a considerar a atitude do intercambista como um desrespeito. Numa das conversas entre Ian e sua mãe anfitriã, esta, segundo o intercambista teria relatado a Maria, teria lhe chamado a atenção sobre o fato de que ele não fazia as ligações e não lhe comunicava sobre seu paradeiro. Nessa oportunidade, Ian teria perguntado a ela por que ela, então, que seria a pessoa preocupada com ele, não tomava a iniciativa de telefonar. Ela teria lhe respondido, então, que

        “os pais brasileiros eram muito ocupados, trabalhavam muito e que não tinham tempo para telefonar para as/os filhas/os, devendo estas/es fazê- lo”, ao que ele teria respondido

        “Mas, isso não parece muito responsável”. Essa resposta teria desagradado à mãe anfitriã, soando para ela, ao que tudo indicou, como ofensiva.

        Em outra oportunidade, ainda segundo Maria, Ian pediu para ir a uma festa e a mãe anfitriã combinou com ele um horário de retorno, dizendo que alguém na casa ficaria acordado para abrir a porta quando ele chegasse. Ian, então, teria descumprido o combinado, chegando mais tarde que o horário estipulado e que entrou sem que ninguém abrisse a porta, levando sua namorada para dormir com ele em casa. Essa situação, segundo Maria, foi considerada pela mãe e pai anfitrião como inaceitável, pois Ian teria, sem autorização, levado a chave da casa consigo para a festa, além de, sem prévio conhecimento e autorização, ter levado sua namorada para dormir em casa. Durante uma conversa mediada por Maria na casa da família anfitriã, Ian, que a princípio havia negado esse fato, admitiu que levara a chave da casa consigo. A mãe anfitriã teria dito que se sentiu ofendida, pois as negativas do a namorada não dormira lá, chegando apenas pela manhã. Pai e mãe anfitriã teriam sido enfáticos em afirmar que não havia possibilidade de a namorada ter entrado na casa sem que eles notassem. Em outra ocasião, posterior a esse encontro, o irmão anfitrião teria dito a Maria e a seu pai e mãe que Ian lhe contara que, de fato, havia levado a namorada para dormir com ele na casa. Durante a conversa, pai e mãe anfitriã também teriam dito a Ian que o questionamento de pai e mãe pelas/os filhas/os não era parte de sua rotina e queriam que ele se adaptasse a isso, além de sempre pedir permissão para sair e informar onde se encontrava. Durante a conversa,

        Maria, conforme me relatou, teria dito que “a relação entre pais e filhos é muito mais horizontal na Europa e que Ian não estava questionando para magoar a família, mas porque isso é normal pra ele”. Após essa conversa, a família anfitriã teria, no entanto, decidido não mais hospedá-lo e Ian passou a viver com outra família anfitriã.

        Essa situação parece bastante ilustrativa de como as relações de poder podem se configurar no interior de famílias de camadas médias locais. Também permitem perceber como as categorias geracionais vão se construindo discursivamente, a partir de coordenadas antes de tudo simbólicas e através de técnicas disciplinares de controle e sujeição. A exigência da mãe anfitriã de que o intercambista pedisse sempre autorização para sair, além de ter que lhe comunicar sobre todos os seus movimentos e sobre sua localização, expõe um dos mecanismos políticos de produção da juventude nessa camada social. Sobretudo, temos que uma/um jovem desses estratos é alguém que deve estar em uma relação de subordinação para com uma/um adulta/o, na dependência de sua autorização para poder ir e vir e não podendo decidir livremente sobre suas atividades. Desvela-se um regime discursivo hierarquizado de relações no interior da família, com as/os filhas/os e as/os mais jovens em situação subalterna com relação a pai/mãe e pessoas mais velhas.

        Havia, segundo a mãe anfitriã, uma preocupação com a segurança do intercambista. Tive oportunidade de escutar relatos similares em diferentes situações em que isso era também enunciado com relação às/aos filhas/os biológicas/os da família. Ao mesmo tempo em que a esta parecia trazer para si a responsabilidade pela segurança da/o filha/o ou intercambista

      • – por razões que podem estar relacionadas à recorrência da violência nas relações sociais locais e à falta de confiabilidade nas instituições públicas para lidar com o problema
      • –, o controle tão abrangente que as figuras de autoridade na família buscam exercer parece apontar também para outras questões.

        No capítulo anterior, já discuti a questão da sexualidade e de seu controle e produção segundo um dispositivo específico. Outra dessas questões é a do exercício da autoridade combinado com o adestramento das/os jovens no interior das famílias de camadas médias.

        Nesses grupos, a autoridade das pessoas adultas é exercida com viés predominantemente unilateral, com a expectativa de que a/o jovem apenas acate as suas decisões sem questionamento. Isso pode ser percebido na situação em que mãe e pai anfitrião estipulam um horário de retorno à casa para o intercambista, sem que isso seja negociado com ele, e também quando enunciam que, em sua rotina, as/os filhas/os não devem questionar pai e mãe. No entanto, é necessário não se deixar capturar pela imagem de uma estrutura rígida e vertical em que o poder se concentraria no polo superior, enquanto o inferior sofreria meramente seus efeitos. Aplica-se aqui o que já discuti, no capítulo anterior, a propósito da vigilância hierárquica como um dos instrumentos do poder disciplinar, tal como o concebe Michel Foucault (1987).

        Para esse autor, as sociedades ditas modernas são atravessadas por um tipo de poder, bastante diferente do poder da soberania. A disciplina diz respeito, sobretudo, ao adestramento dos corpos. Trata-se, para Michel Foucault (1987, p. 153), da técnica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e instrumentos de seu exercício. Para levar esse adestramento a cabo, utiliza-se de instrumentos simples, dentre eles o do olhar, presente na vigilância hierárquica.

        O ideal da vigilância hierárquica é, no limite, a incorporação de um olhar onipresente que olha sem ser visto. Um sujeito adestrado carrega esse olhar consigo e passa a vigiar-se a si próprio. Dá-se, nesse regime político, a exigência de uma visibilidade geral e irrestrita, que permita um controle detalhado. A mãe anfitriã de Ian reproduz essa exigência ao pedir que ele informe sempre sobre todos os seus deslocamentos. Nesse sentido, as figuras de autoridade na família funcionam como operadores de adestramento e sua forma de controlar revela o caráter intenso e contínuo do tipo de vigilância em jogo.

        Os questionamentos de Ian às figuras de autoridade em sua família anfitriã e sua resistência em simplesmente aderir a certos comandos produziram situações de desconforto e tocaram em pontos sensíveis do regime hierárquico de relações em funcionamento no grupo. A decisão de trazer consigo a chave da casa para a festa, mesmo tendo sido combinado algo diferente, aparece como uma estratégia de resistência a essa autoridade e de exercício da autonomia. Ao questionar a mãe anfitriã acerca da necessidade das ligações e também sobre a obrigação de ele ter de efetuá-las, Ian parece confrontar o

        

      princípio hierárquico presente na fala da mãe anfitriã com um princípio igualitário, pelo qual

        Ressalto o que Foucault (1988) aponta com relação aos regimes de poder disciplinares: não existe poder sem resistência e, portanto, não podemos pensar nas posições como consolidadas e nos vetores das ações como tendo um sentido único. As relações de poder estabelecem uma dinâmica própria na qual, ao lado de estados de dominação relativamente estáveis, há todo um movimento de fluxos e refluxos capazes de produzir desestabilizações e deslocamentos.

        As atitudes de Ian parecem ter repercutido para sua família anfitriã mais do que ofensivas, como ameaçadoras e, por isso, quando perceberam que ele não incorporava as regras da família e questionava o fundamento da autoridade de seus membros adultos, decidiram por sua saída da casa, buscando eliminar, assim, de forma cabal, qualquer possível instabilidade no regime político da família. Esse parece ser o último recurso utilizado pelas famílias anfitriãs para evitar a ruptura dos limites discursivos dentro dos quais se dá a socialização das/os filhas/os e a vida social no espaço doméstico. Deslocamentos como os apontados nas falas de Ian e de pai e mãe anfitriã revelam a construção da autoridade como instrumento de ordenação, controle e produção de dependência das/os jovens, de sua “imaturidade” para resolver os próprios problemas, o que, por sua vez, já direciona nossa perspectiva para a construção política dos papéis sociais dos membros de uma família.

        Podemos, afinal, perceber que o adestramento da/o jovem em camadas médias se orienta por uma tendência à valorização de uma atitude aquiescente e não questionadora, a ser performatizada em diversas situações. A comunicação reiterada sobre a localização e o pedido de autorização para cada ausência da casa, por exemplo, são mecanismos de controle, técnicas de sujeição voltadas para a produção de sujeitos normalizados nesse sentido. A noção de performatividade, tal como trabalhada por Judith Butler (2004; 2006; 2011) me parece, aqui mais uma vez, pertinente para a compreensão desse processo de adestramento. Como já antecipei, ela se refere ao mecanismo através do qual normas sociais são corporificadas, através de expressões reiteradas, mas sempre descontínuas e incompletas.

        A noção de performatividade supõe, por um lado, a enunciação de ideais normativos por sujeitos em situação de autoridade e, por outro, a introjeção e reiteração dessas normas por sujeitos que, enlaçados em identificações, fracassam, em maior ou menor medida, em incorporar inteiramente aqueles ideais. Apesar do peso que se reconhece ao processo de interpelação, preserva-se, uma abertura para a agência. A performatividade implica, ao mesmo tempo, em antecipação de uma suposta essência e na ritualização de comportamentos normativos com produção de um efeito naturalizado. Ora, as normas a ser materializadas são aquelas do regime político hegemônico e sua corporificação implica a produção de corpos deslegitimados que sustentam as subjetividades consideradas normais.

        Apesar de a autora ter construído tais elaborações para abordar o gênero como aparato de produção de corpos sexuados, podemos transpô-las para o tema em questão. Afinal, esse processo pode ser percebido na situação descrita acima. Os ideais normativos sobre a juventude enunciados pelas figuras de autoridade na família anfitriã

      • – a atitude aquiescente, a postura de não questionamento, a submissão a um controle constante e abrangente, a dependência, dentre outros
      • – são incorporados na medida em que se apoiam em processos identificatórios, tão mais facilitados quanto sejam contínuas e de longa duração a relação entre os sujeitos. As ações realizadas por pai e mãe anfitriã se baseiam em regras não conscientes e antecipam a/o jovem dependente, imaturo e respeitoso que se trata de produzir através da ritualização de práticas como a de sempre pedir autorização e comunicar a localização, por exemplo.

        Ao longo da pesquisa, relatos recorrentes da maioria das/os intercambistas deixaram claro que levar uma/um namorada/o para dormir consigo em casa em seus contextos de origem era uma prática social comum e que, pelo menos a partir de certa idade, não dependeria da autorização prévia nem reiterada de pai e mãe. É possível que, ao levar a namorada para dormir consigo em casa, Ian se orientasse por regras incorporadas em seu processo anterior de socialização. No entanto, essa prática não é comum no contexto local e tal questão foi discutida no capítulo anterior, com suas nuances de gênero. No entanto, ao negar diante do pai e da mãe anfitriã que havia levado a namorada para dormir consigo, Ian deve ter se dado conta de que infringia um código relevante de condutas e que talvez consequências importantes pudessem se seguir a esse ato.

        Ainda sobre o controle das pessoas adultas sobre as/os jovens, tive a oportunidade de observar uma conversa em que a mãe anfitriã do intercambista Erick disse a Maria que ele não pedia permissão e que simplesmente comunicava que ia sair. Tal qual na situação envolvendo Ian, a mãe anfitriã de Erick deixava claro que esperava por um pedido de autorização para, então, dar ou não a sua permissão. Segundo ela, nas situações em que ela não autorizava sua saída, Erick se aborrecia. A certa altura da conversa, a mãe anfitriã acrescentou que, nas ocasiões em que levava suas filhas ao shopping center, não as deixava sozinhas, ficando sempre presente e observando-as à distância. Justificou que tinha medo do que pudesse acontecer a elas e citou um caso de estupro que teria ocorrido dentro de um dos shopping centers da cidade.

        Erick se via confrontado com uma situação à qual não parecia estar habituado: ter que pedir autorização para sair. O que parecia aborrecer o intercambista era não apenas a exigência de pedir permissão, mas também quando o pedido era negado. Em geral, para as/os intercambistas entrevistadas/os e/ou observadas/os, o argumento da preocupação com a segurança era relevante, mas não vislumbravam que a solução fosse não sair de casa ou sair o mínimo possível. Elas/es prefeririam ser orientadas/os a como se proteger, sobre o que evitar e a como agir em caso de situações de violência. A fala de Erick revelou uma frustração, aparentemente mais intensa na medida em que se referia a uma decisão que ele próprio sentia ter autonomia para tomar. Seu incômodo parecia também estar relacionado a uma situação inescapável de sujeição à autoridade de sua mãe anfitriã.

        Alice me relatou que, até certo tempo depois que chegou a São Luís, não podia sair sozinha. Pai e mãe anfitriã diziam que era perigoso e que ela não sabia Português muito bem, numa situação bastante similar à de Ian. Alice completou dezoito anos durante o tempo em que morou em São Luís. Até isso acontecer, acrescentou, somente saía de casa com a irmã anfitriã. Em outras situações, para sair, ela tinha de pedir permissão à mãe anfitriã e dar uma série de informações:

        “quando, como, onde, com quem, a que horas”, dentre outras. Ela relatou que, se dissesse tudo isso à mãe anfitriã, não havia problemas para sair. Acrescentou que se surpreendeu com que houvesse pessoas na escola para controlar a entrada e saída das/os estudantes. Em seu país, segundo relatou, a/o estudante simplesmente podia entrar e sair da escola, sem nenhum tipo de controle por parte de funcionários da mesma. Ela apontou que, do ponto de vista da relação com as figuras de autoridade na família, considerava-se mais independente em seu país de origem que em São Luís. Nesta

        , ela tinha de avisar sobre “cada pequeno passo, cada pequena coisa” que fazia “para que a mãe anfitriã não se preocupasse”. Ela disse acreditar que a mãe anfitriã se preocupava porque sabia que aqui era mais perigoso. Esse mesmo controle, relatou ela, também existia com relação à sua irmã anfitriã. Ao contrário de Ian, Alice relatou que se adaptou às regras da família e, apesar de às vezes sentir-se frustrada, sempre acatava as decisões de sua mãe anfitriã, inclusive quanto a não sair. Percebi, quanto a isso, uma recorrência importante: as posturas mais resistentes quanto às regras familiares locais pareceram estar mais presentes e ser mais fortes nas/os intercambistas da Europa nórdica que nos da Europa central.

        No relato de Adrian, apareceu como a principal dificuldade na relação com a família anfitriã, o horário de retorno para casa à noite. Antes, ele podia sair até mais tarde, argumento era o de que o pai trabalhava cedo todos os dias e eles não podiam acordar para abrir a porta do apartamento muito tarde.

        No início, quando moravam em uma casa, Adrian tinha uma cópia da chave; depois que passaram a morar em um apartamento, a família anfitriã, no entanto, não lhe havia dado uma cópia da chave. Ele relatou que não perguntou por quê, apenas respeitava a decisão. Ian, no início de sua convivência com a primeira família anfitriã, também recebeu uma cópia da chave da casa, a qual, posteriormente, lhe foi retirada. Nos relatos das entrevistas, percebi que não era comum que as famílias anfitriãs dessem uma cópia da chave da residência à/ao intercambista. A situação de Adrian e Ian, no que se refere às cópias das chaves, parece apontar, uma vez mais, para uma tentativa de controle ante uma possível condição de autonomia da/o jovem considerada indesejável e dissonante com as normas locais pelas figuras de autoridade da família anfitriã.

        Outro ponto que Adrian observou foi que, diferentemente de seu contexto cultural de origem, ele não via as/os jovens saírem juntas/os depois da escola.

        Adrian: Muito diferente. Tipo eu não estou vendo muitas pessoas saírem juntas. Tipo uma coisa bem normal pra mim é depois do colégio pegar um amigo, ir pra casa, jogar videogames, passar até dez horas da noite. Aqui, se tu faz isso é para estudar, talvez isso porque eu estou no terceiro ano, eu não sei disso mas eu acho que é isso. E namorado, você vai para o shopping, você vai para um bar, alguma coisa assim; casa não é muito comum.

        Adrian também relatou que precisava responder a várias perguntas do pai e/ou mãe anfitriã antes de poder sair.

        Adrian: Eu preciso falar onde [batendo na mesa] eu estou, o que [batendo na mesa] eu estou fazendo e quando [batendo na mesa] eu vou voltar. Minha família...

      Isso também acontece com os seus irmãos brasileiros? Adrian: Sim. Não sou só eu

        Adiante, Adrian acrescentou que isso se modificou um pouco. Adrian: [...] agora está um pouco diferente do que antes, antes eu precisava falar toda hora onde eu estou, agora isso mudou um pouquinho porque eu acho que eles olharam que eu tenho 19 anos, eu tenho a probabilidade de pensar sozinho e sempre estou com as mesmas pessoas e eles conhecem eles, então eu acho que eles têm uma segurança nisso. E meus irmãos, eu acho que eles precisam sempre falar porque eles ainda estão um pouco novos [grifos meus].

        Pedir permissão significa reconhecer e submeter-se ao princípio da autoridade hierárquica. Conforme seus relatos, para muitas/os intercambistas isso significava abrir mão de uma autonomia que já haviam conquistado. E isso nos ensina sobre ser jovem nesse contexto em que agora se encontravam. Uma/um jovem aí deve ser, sobretudo, alguém adestrado como dependente, sem autonomia e poder de decisão sobre suas questões, o que acarreta consequências importantes sobre a dita maturidade dessas pessoas e sobre a vivência de seus desejos. Para as/os intercambistas, em geral, estar num regime de tão ampla dependência e falta de autonomia equivalia às vezes a estar encarcerada/o, segundo as palavras de mais de uma/um delas/es. Algumas/uns usaram metáforas similares para se referir ao mesmo tempo à família e à escola, alegando se sentirem como que em uma “prisão”.

        Nessas famílias de camadas médias, a escola e a casa parecem ser os espaços por excelência destinados à/ao jovem. Certa clausura parece fazer parte de sua socialização. A casa e a escola não são apenas espaços que garantem a segurança, mas também o controle intenso e contínuo a que nos referimos acima. Quando não se pode evitar que a/o jovem transite para fora desses espaços, o controle passa a consistir em colher o maior número de informações possível. Através desse procedimento, transmite-se à/ao filha/o que o olhar controlador a/o acompanhará mesmo à distância das pessoas encarregadas da vigilância. Espera-se que a/o filha/o se comprometa através das respostas. Obviamente que pai e mãe não podem se assegurar plenamente de que a/o filha/o irá fazer exatamente o que diz. Mas, o que parece importar aqui é levar o sujeito a incorporar o controle e a performatizar as regras por si mesmo. A clausura, portanto, não é necessariamente física, mas simbólica e, nem por isso, menos real.

        Com seu poder de decisão quanto a si própria/o praticamente anulado ou bastante circunscrito, a/o jovem não é investida/o como alguém que pode/sabe tomar suas próprias decisões, mas como alguém que ainda não tem competência ou maturidade para fazê- lo e, portanto, depende de outrem para tanto. Muitas famílias de camadas médias levam esse controle ao extremo, mantendo as/os filhas/os dentro de casa quase o tempo todo. As saídas são, então, controladas e agenciadas por pai e mãe, que levam e buscam, quando não ficam presentes nos locais, dando prosseguimento ao controle, como afirmou fazer a mãe anfitriã de Erick. As perguntas detalhadas de mãe e pai anfitrião sobre as atividades das/os intercambistas não se reduzem, como já antecipamos, apenas às preocupações com violência. De fato, parece estar em jogo um processo muito mais abrangente de vigilância e inculcação de normas que se referem à classe social, ao gênero, à sexualidade, à raça, dentre outras.

        Podemos perceber, pelos discursos analisados, que as relações hierárquicas não se dão apenas no espaço familiar, mas também no espaço da escola onde elas são reproduzidas e inculcadas nas gerações mais jovens. A manutenção da/o jovem no espaço da escola faz parte dos mesmos mecanismos sociais de controle através dos quais se produzem subjetividades específicas. Observe-se que se trata de escolas privadas, destinadas às camadas médias da população. Praticamente, todas/os as/os intercambistas entrevistadas/os e/ou observadas/os se referiram ao controle de entrada e saída das/os estudantes nessas escolas (algumas usam inclusive catracas eletrônicas e identificação por digitais).

        É interessante perceber que Michel Foucault (1987) se dedica a tratar um pouco sobre a vigilância nas escolas como uma engrenagem específica do poder disciplinar. O mesmo movimento de restruturação das instituições modernas em função do novo regime de vigilância, com novos modelos de acampamento militar, hospitais e fábricas, também alcançou as escolas, com destaque, em seu interior, para as funções de fiscalização. Dentro da hierarquia escolar, os “observadores” devem registrar toda uma série de detalhes sobre comportamentos cotidianos. Essa fiscalização vai adquirindo, com o tempo, um caráter cada vez mais pedagógico: não se tata tanto de punir o comportamento desviante, mas produzir um adestramento do corpo pela postura adequada, pela caligrafia bem desenhada, pelo controle do tempo nas atividades etc. “Uma relação de fiscalização, definida e regulada, está inserida na essência da prática do ensino; não como uma peça trazida ou adjacente, mas como um mecanismo que lhe é inerente, e multiplica sua eficiência” (FOUCAULT, 1987, p. 158).

        Voltando ao tema das relações entre pessoas adultas e jovens no contexto das famílias anfitriãs, destaco a entrevista de Barbara que foi bastante esclarecedora a esse propósito. Ela apontou uma diferença de tratamento entre as pessoas na sua família do país de origem e na família anfitriã de São Luís. Essa diferença, em suas palavras, dizia respeito a “ser adulto e ser filha/o”, a como os adultos tratam as/os filhas/os ou as pessoas mais jovens. Queixava-se de uma forma de tratamento e tipo de autoridade que parecia ser mais vertical, não dando à/ao jovem a mesma voz e poder de decisão que são dados à/ao adulta/o. Tratava- se, para ela, de uma relação de subordinação, em que a/o filha/o ou jovem está submetida/o à autoridade da pessoa adulta, sem ter o direito de dialogar de igual para igual nem de questionar nenhuma ordem.

        Na tentativa de se fazer mais clara sobre esse ponto, ressaltou uma situação que viveu em um hospital da cidade, quando, durante um atendimento de emergência, uma enfermeira teria lhe pedido para assinar papéis sem lhe explicar de que se tratava. Sentiu que,

        esperasse que ela apenas assinasse sem questionar. Entendeu, com a situação, que a enfermeira não esperava um questionamento desses partindo dela. Seria talvez mais comum que alguma pessoa adulta responsável por ela perguntasse algo, mas a ela caberia apenas atender ao que fora solicitado. Comparando as/os jovens com quem convivia em seu país e as/os com que quem interagia aqui, afirmou que as/os locais seriam tratadas

        /os como “mais jovens do que são”. Essa era sua grande queixa: ser tratada “como se tivesse três anos de idade

        ”, conforme se expressou. A hipérbole em seu discurso parece indicar o quanto a forma como era tratada pelas pessoas adultas, em particular pela mãe e pai anfitrião, a incomodava: forma na qual lhe era imputada uma falta de autonomia e maturidade. Indicava, assim, que essa forma era bem diferente daquela a que estava acostumada em seu contexto de origem.

        Barbara: O porquê de eu ter trazido isso é porque eu disse que estava questionando muitas coisas e aí eu sinto que eu não tenho a permissão de questionar coisas às vezes porque é tipo “Só assina”, entende?, ou “Só faça isso;

        não questione tanto ”.

        [...] Isso sou eu estereotipando... Isso foi a experiência que eu tive. Eu sinto que as pessoas estão me questionando “Por que você está fazendo isso? Por que você está fazendo aquilo?” e quando eu faço o mesmo, eu não estou autorizada porque eu

        

      sou dez anos mais jovem que você ou porque você tem o... eu sinto que as pessoas

        querem... porque eu estou na escola... porque eu tenho essa idade, as pessoas gostam de ser tipo “Eu sou a autoridade”, “Eu decido sobre você” e isso é, eu não , porque eu estou acostumada a nós estamos

        estou realmente acostumada com isso

      no mesmo nível , eu posso perguntar, você pode perguntar, e aqui é: eu estou aqui,

        você está aqui [faz uma diferença de níveis com as mãos, indicando que uma das posições é superior], você entende o que eu quero dizer? [...] Eu fui ensinada que isso é bom, porque isso é o que a gente aprende na escola, a pensar, a questionar muito, e aqui eu acho que as pessoas tomam isso de uma maneira errada, as pessoas tomam isso como se eu estivesse dizendo que elas

        

      estão erradas, que eu estou atacando elas e isso é tipo um grande mal-entendido

      [grifos meus].

        Os questionamentos, quando partem de uma/um jovem a uma/um adulta/o, são tomados às vezes com afrontas, como se uma/um jovem não devesse dialogar com a/o adulta/o de igual para igual. Pretendendo-se portar com uma/um adulta/o, ela/e estaria quebrando com um dispositivo de socialização segundo o qual à pessoa adulta são reservados alguns privilégios: de fala, de comando, de decisão. A relação hierárquica entre adultas/os e

        jovens parece ser aqui uma vez mais bastante evidente. A associação entre ser jovem e não ter voz e poder de decisão com relação a algumas questões sobressai no discurso de Barbara. O discurso enunciado pelas figuras de autoridade parece sustentar-se numa oposição entre duas cadeias enunciativas suplementares: de um lado, adulta/o-autoridade-fala-saber-decisão-

        55

        superioridade-maturidade;

        e, de outro, jovem-sujeição-não-questionamento-dependência- inferioridade-imaturidade. O sentimento de ataque a que se refere Barbara parece indicar a naturalização com que as posições hierárquicas são percebidas.

        Barbara: Eu acho que ela tem que quase constantemente me dizer que “Eu sou sua

        mãe, eu sei; você não sabe. Eu sou sua autoridade; faça como eu disse!

        ”, e vai ficando irritante , pra ser honesta. Porque eu não estou fazendo nada para ser “Eu sou mais velha do que você, eu sei melhor que você”, nada, eu tô fazendo o que ela diz [...] [grifos meus].

        Barbara relatou que decidiu não conversar com a mãe anfitriã sobre essas questões porque sentia que ela tomaria como um insulto, de um jeito ruim e que essa, de fato, foi a sua reação quando ela tentou conversar uma vez. A sensação de Barbara, conforme seu relato, era a de que a reação a um questionamento seu aos adultos era “Para de perguntar!”. Eis outro exemplo que ela deu e que mostra como teria sido seu relacionamento com sua segunda mãe anfitriã em termos de autoridade:

        Barbara: Tipo, quando a empregada está limpando meu quarto, eu digo a ela pra fazer isso, mas então minha mãe foi e disse a ela uma outra coisa, tipo onde colocar as minhas coisas, se ela vai mudá- las de lugar eu digo tipo “Por favor, deixa isso aqui”, mas aí minha mãe vai e diz “Não, coloca isso aqui!” [usa um tom mais forte], sabe?, tipo eu não sei de nada, realmente uma idiota.

        Com base em Jurandir Costa (1999), adiantei, no capítulo anterior que essa forma hierárquica de funcionamento familiar e de exercício da autoridade tem raízes históricas na forma com a família politicamente dominante se organizava no período colonial brasileiro. Segundo o autor, no sistema colonial, no interior dessa família socialmente dominante, a/o filha/o ocupava uma posição instrumental, secundária. Estava, como os demais 55 membros da família, a serviço do poder paterno, recebendo apenas uma atenção genérica, não

        

      Várias/os intercambistas destacaram o fato de que nas escolas em que estudavam em São Luís a/o professora/r ocupava um papel mais central na dinâmica das atividades escolares. Segundo Alice, por exemplo, em seu país, as/os estudantes seriam mais convocadas/os a participar das aulas. Segundo Beatriz e Bernardo, Lara se referia à escola como algo “muito chato”. Dizia ela que as/os professoras/es falavam muito e cobravam demais. Ela não entendia porque os professores falavam tanto. Isso aponta para a valorização discursiva da/o adulta/o e da figura de autoridade. A escola também parece reproduzir, como as famílias, o discurso personalizada. O pai, por sua vez, sendo o polo gravitacional da vida familiar, ausentava-se de maiores compromissos ou manifestações afetivas para com os filhos (COSTA, 1999, p. 153). O universo cultural dos três primeiros séculos, no interior desses grupos, caracterizava-se pelo culto à propriedade, ao passado (saber tradicional) e à religião. A ordem escravocrata teve importância nesse contexto: subsistir materialmente significava apropriar-se ou deixar-se apropriar. A parcela de homens livres era mínima. O pai, então, encarnava o polo de garantia de subsistência financeira da família e de poder por ter sido aquele que vencera a luta pela propriedade, escapando à escravidão.

        Numa época em que a defesa dos bens dependia, em grande parte, da violência com que o meio ambiente era subjugado, a iniciativa pessoal, a presteza de ação, a força moral e o respeito social eram condições imprescindíveis a quem pretendesse adquiri-los ou mantê-los. Culturalmente, todos esses predicados eram privilégio do homem adulto, chefe da casa. Só ele possuía a energia necessária para explorar escravos; produzir bastardos; destruir opositores; vingar atentados à honra da família, etc. O pai era o princípio da vitalidade doméstica, que encontrava nele o ponto máximo de sua resistência. Seu poder, prestígio e honorabilidade não podiam ser tocados, sob pena de ruir todo o edifício familiar. Ele precisava, portanto, da aquiescência e da submissão completa de todos os outros membros do grupo para cumprir seu papel. Esta posição nevrálgica explica a passividade com que os filhos sujeitavam-se ao seu despotismo (COSTA, 1999, p. 155-6, grifos meus).

        Proponho considerar tais argumentos menos como uma descrição de fatos e mais como as coordenadas de um discurso socialmente hegemônico, pelo qual se conduzia a socialização das pessoas no interior de certo tipo de grupo familiar. Já me referi aos esforços teóricos que buscam descontruir a ideia de que a família patriarcal seria a instituição fundamental do Brasil colonial, indicando a existência de formas alternativas de organização familiar (Cf. CORRÊA, 1981). O que busco, portanto, é indicar a força dessas regras sociais que promoviam a obediência sem limites à autoridade paterna e seu caráter bastante disseminado, sem deixar de situar que elas possuíam um contexto familiar específico. Principalmente, porque algo desse discurso parece persistir no seio dessas famílias (de camadas médias) estudadas.

        De fato, não é possível nem desejável conceber aqui uma oposição em termos de tradição-modernidade, nem supor uma uniformidade ou homogeneidade nessas relações, mas localizar historicamente pontos de eclosão desse discurso que situa a autoridade parental como absoluta e a/o filho como sujeito passivo e subjugado.

        Ainda segundo Jurandir Costa (1999, p. 158), na colônia, sobreviver era sinônimo de repetir. Pai sábio e eficiente era o que conseguia reeditar da maneira mais fidedigna possível as fórmulas de dominação de seus antecessores. Assim, o conhecimento mais importante era o oriundo da tradição oral e da experiência própria, sendo o velho valorado como mais importante que o novo .

        A excessiva importância dada ao pai, ao patrimônio e à religião reduziu, expressivamente, o espaço físico e sentimental da criança. Tratada como um “adulto incompetente

        ”, sua existência não possuía, por assim dizer, nenhum conteúdo positivo. Ela era percebida negativamente, por oposição ao adulto (COSTA, 1999, p. 160, grifos meus).

        Essa percepção ainda se faz presente em experiências atuais, mas agora confrontada a outros elementos. Segundo Geraldo Romanelli (1995, p. 73), as rápidas mudanças que vêm ocorrendo na sociedade brasileira fazem com que o grupo de pares se constitua como referência fundamental para crianças e adolescentes, em vez da experiência dos adultos. Também não podemos deixar de salientar as mudanças discursivas que transformaram a forma de se encarar as crianças e jovens, tal como nos aponta Jurandir Costa (1999). Segundo ele, o discurso higienista promoveu uma apropriação médica da infância, à revelia dos pais, e a ideia do meio familiar como nocivo. Tratou-se, a partir do século XIX, de proteger a infância contra os abusos do ambiente doméstico e, para tanto, a escola foi chamada a desempenhar um papel importante. Por outro lado, também não podemos supor que a socialização das/os jovens seja efetuada com um único vetor e que não haja diferenças significativas e mesmo contradições na relação que mantêm com mãe e pai e/ou outras pessoas no contexto familiar.

        Assim, podemos afirmar que o espaço familiar é heterogênero e essencialmente conflitivo, na medida em que projetos coletivos (geralmente conduzidos por mãe e pai) estão confrontados com projetos individuais e na medida em que as exigências de igualdade social entre os gêneros produzem mais discussão e divergências acerca das decisões a ser tomadas. Segundo Geraldo Romanelli (1995, p. 77), a crescente participação das mulheres na força de trabalho é uma das transformações mais significativas com repercussões na dinâmica familiar. O autor destaca a atuação do movimento feminista. A hierarquização e a dominância masculina persistem, mas haveria mais equilíbrio na relação entre os gêneros e isso principalmente nas camadas médias da sociedade.

        A incorporação de modalidades alternativas de conduta entre os gêneros não se distribui do mesmo modo nas diferentes camadas sociais, tendendo a ocorrer com maior frequência entre segmentos das camadas médias com maior grau de escolarização e mais abertos a inovações culturais. Uma das mudanças mais significativas que o autor descobriu em suas pesquisas com pais e filhos de camadas médias foi a que envolvia o relacionamento com o pai, o qual seria de maior proximidade e mais afetuoso (ROMANELLI, 1995, p. 78). No entanto, observei a frequência com que, nas famílias estudadas, era a mãe anfitriã aquela que dialogava com a/o intercambista, que efetuava o controle sobre seus deslocamentos e também enunciava as regras de convivência, estando também numa maior proximidade afetiva para com aquela/e. Os pais anfitriões, em grande parte, permanecem figuras ausentes, deixando à mãe anfitriã a função de abordar as/os filhas/os e intercambistas. Percebo, assim, que, a despeito das transformações ocorridas, a referência discursiva ao pai como autoridade inconteste e superior ainda se faz presente.

        Em seu discurso, Barbara ilustra a diferença de situação entre pessoas adultas (mãe anfitriã, professoras/es, funcionária do hospital etc.) e jovens, falando de níveis diferentes em relação de hierarquia. A ela não caberia questionar ou mesmo conversar sobre certos temas pelo simples fato de estar situada em um locus inferior dentro dessa configuração. Seu sentimento era o de ser tratada como uma idiota, conforme relatou, o que remete à figura do “adulto incompetente” que ela teria que encarnar, definindo-se negativamente por oposição a uma/um adulta/o.

        Geraldo Romanelli (1995, p. 80) afirma que, numa estrutura hierárquica, cada membro encontraria um lugar predeterminado e fixo. Nesse contexto, os exemplos e feitos dos antepassados viriam a adquirir força coercitiva. A autoridade, em seu exercício, buscaria preservar as posições hierárquicas já determinadas e todo questionamento do instituído seria afastado com vistas à reprodução da ordem. Acrescento que, por isso também, as ordens de mãe e pai anfitrião são dadas sem explicação, pois não visam ao convencimento, mas à mera aquiescência.

        Pude também perceber que, ao mesmo tempo em que houve intercambistas que sustentavam discursos mais acirrados e questionavam atos despóticos de autoridade em vigor na família anfitriã, houve também aquelas/es que, de alguma forma, cediam e se submetiam ao modo como as relações de poder funcionavam no contexto local, adaptando-se sem maiores conflitos à dinâmica da família anfitriã.

        As/Os intercambistas entrevistadas/os foram unânimes em apontar que percebiam uma diferença de maturidade entre elas/es mesmas/os e outras/os jovens de São Luís de mesma idade. Essa diferença também foi reconhecida por famílias anfitriãs, embora às vezes fosse valorada com sentido negativo. Por vezes, as/os intercambistas também idade, concluindo sempre que as/os jovens locais seriam em geral mais imaturos. Esse é precisamente o efeito naturalizado do trabalho performativo de que fala Judith Butler. O que amiúde se toma como a essência interna de determinados sujeitos, aquilo que Dalva deixa transparecer em sua fala quando diz “Sabe como são os adolescentes!”, é na verdade “manufaturado através de um conjunto sustentado de atos” (BUTLER, 2006, p. xvii). A diferença de maturidade entre jovens apontada acima expõe bem esse processo histórico de produção de corpos marcados por símbolos. Inexistem, portanto, características essenciais da juventude como fase e é esse trabalho histórico e social de produção performativa dessas características que deve ser revelado.

        Possivelmente, Erick havia se queixado à mãe sobre o tratamento dispensado a ele pela família anfitriã em termos de autoridade e controle de sua autonomia, pois Graça, sua mãe anfitriã, informou a Maria, durante uma conversa que observei, que a mãe de Erick havia escrito uma mensagem a eles e que, falando sobre o filho, teria afirmado que “ele era maduro”, buscando talvez com isso interferir na forma como a família anfitriã o vinha tratando. A mãe anfitriã, no entanto, afirmou para Maria, em tom veemente, que “Não!”, que “Ele não é maduro, ainda!”.

        Duas opiniões contrárias estão em jogo sobre o intercambista. Enquanto a mãe o dizia maduro, Graça afirmou veementemente que ele ainda não o era. Como não se trata aqui de aferir realidades, mas aprender sobre os jogos discursivos e sobre o poder performativo da linguagem, temos aqui um excelente exemplo. Assim, essas falas não devem ser tomadas como descrições, mas como ditos performativos, no sentido já discutido nos capítulos anteriores. A afirmação da mãe anfitriã não pareceu se basear numa avaliação do próprio jovem, pois ela nem mesmo relatou argumentos ou justificativas para sua afirmação. O que a ela parece enunciar em sua fala é que a maturidade não é uma característica que deva ser atribuída a uma/um jovem. Assim, mais do que descrever um fato, esse dito conforma essa realidade e prepara uma identificação que, se realizada pelas pessoas a quem se dirige, ordena o terreno para reiteração de atos e comportamentos que podem, então, ir produzindo e sedimentando essa imaturidade.

        Não existem fronteiras rígidas separando as gerações, mas sim arbitrários discursivos que funcionam para demarcar tais fronteiras. É no campo da linguagem que essas categorizações surgem e ganham densidade. Afirmar, pois, que uma/um jovem não é madura/o, muito mais do que meramente se referir a uma realidade anterior, engendra a produção dessa realidade mesma. Essa enunciação, partindo de alguém que está em posição produzir um efeito de adesão e inculcação, capaz de assegurar a reprodução da norma em questão.

        O sentimento de Barbara, conforme relatou, era o de que sua segunda mãe e pai anfitrião não tratavam a filha e o filho como adulta/o. Segundo ela, a filha e o filho não questionavam as ordens parentais e faziam tudo o que pai e mãe diziam a eles para fazer. Pelo menos, podemos supor, não havia um questionamento explícito. Outro exemplo que Barbara deu a propósito do que, para ela, seria a falta de autonomia das/os jovens foi o dos estudos. Mais de uma/um intercambista relatou que se impunha às/aos jovens locais que o estudo fosse a sua principal atividade, a prioridade de suas vidas, ao mesmo tempo em que as/os adultas/os (mãe e pai, professoras/es, coordenadoras/es etc.) exigiam reiteradamente das/os jovens que elas/es estudassem.

        Barbara: Isso também é a coisa aqui com os estudos, é um ótimo exemplo. Quando as pessoas estudam aqui, muitos pais dizem “Você tem que estudar!, Você tem que fa zer isso!”, muitos professores dizem, todo dia um professor entra na minha sala na escola e diz “Você tem que estudar esse tanto!” [tom impositivo].

        “Para passar, vocês têm que estudar esse tanto!” tem sempre muito de outras pessoas “Você tem que fazer isso, você tem que fazer isso!”, muito dos pais “Você não pode sair, você tem que estudar!”, muito dos professores, “Você tem que estudar!”. E, na __________, é mais “Se você é estúpido ao ponto de não estudar e não passar, isso é sua própria culpa ” [grifos meus].

        Barbara sugeriu que estudar, em seu contexto cultural de origem, era algo pelo qual ela própria, enquanto estudante, se responsabilizaria. Não caberia a pai, mãe ou aos professoras/es lembrar ou exigir isso. Pelo menos não, segundo ela, nessa faixa de idade. Ela me relatou que isso acontece quando a/o filha/o é muito pequena/o. Mas, destaca-se aqui a prática da reiteração de argumentos que, de tão repetidos, vão sendo incorporados e se naturalizando.

        Quando perguntei a Bernardo e Beatriz se Bianca era caseira, Bernardo afirmou que “não pela personalidade, e mais pela dedicação que a escola exige”. Bianca seria, segundo ele, muito dedicada ao estudo. Lara, por sua vez, teria comentado com Beatriz que não entendia porque as/os jovens e Bianca, em particular, estudavam tanto em São Luís. Lara estranhou e teria afirmado que “os jovens aqui não vivem, não curtem a vida”. Beatriz explicou a ela que, “como o acesso à universidade não estava democratizado, os jovens disputavam para conquistar os melhores lugares e por isso tinham que estudar tanto”.

        Vemos que há uma exigência sobre as/os jovens para que se ocupem, o camadas médias é desobrigada/o de muitas atividades para que se dedique quase que exclusivamente aos estudos. Gilberto Velho (1997, p. 23) destaca, nesse contexto, a importância relativa do desempenho individual em famílias de camadas médias. Segundo o autor, “[...] num contexto de camada média com projeto de ascensão social o fraco rendimento escolar de um filho é vivido como uma real ameaça a sua própria identidade”. Trata-se para o autor da problemática da individualidade tal como é vivenciada nesse contexto específico. Nas famílias de camadas médias, intelectualizadas, os projetos individuais seriam mais valorizados, sendo o indivíduo um elemento mais central. Isso se refere, para o autor, às noções de prestígio e ascensão relacionadas às diferentes formas de viver e lidar com a questão da individualidade (VELHO, 1997, p. 45).

        Em suas pesquisas com famílias de camadas médias no Rio de Janeiro, Gilberto Velho (1997) percebeu com ênfase as expectativas e projetos que os pais tinham com relação aos filhos. A perspectiva era a de que a família continuasse a ascender socialmente, prosperasse e aumentasse seu status. O autor remete esse projeto individualista da família nuclear ao que chama de processo de nuclearização, pelo qual as famílias teriam sofrido um enfraquecimento de seus laços com o universo mais amplo de parentes.

        O controle social por parte dos pais exerceu-se cada vez com maior vigor, desaparecendo ou tornando-se menos significativas as presenças de outros adultos. As exigências e expectativas em relação aos filhos expressavam-se com muita clareza e explicitação. Obviamente a dependência entre os membros do grupo familiar tende a ficar maior à medida que se diluem e rareiam os contatos com outros parentes, vizinhos e com o enfraquecimento de laços de solidariedade mais diversificados (VELHO, 1997, p. 73-4).

        Nesse contexto de nuclearização da família e de projeto de ascensão social da mesma, o controle e a vigilância por parte dos pais tendem a se exacerbar. E um dos principais sinais de que esse projeto não caminha bem é, segundo o autor, identificado pelos pais no desinteresse dos filhos pelos estudos ou nos maus resultados obtidos (VELHO, 1997, p. 74).

        Em várias situações, esse controle pode ser sentido pelas/os filhas/os como excessivo e sufocante. Isso se relaciona ao sentimento de encarceramento a que se referiam as/os intercambistas para falar não apenas das escolas, mas também da relação com pai e mãe anfitriã. “Uma palavra muito usada pelos acusados quando falavam de suas famílias era

        

      sufoco , dizendo que seus pais estavam sempre atrás deles, perguntando e mandando fazer

        coisas” (VELHO, 1997, p. 79). Esse movimento de nuclearização também parece implicar que o mundo exterior seja visto como ameaçador e poluidor, devendo as/os filhas/os ser

        mantidas/os na maior parte do tempo dentro de casa. O controle extenso e contínuo performatizado por pai e mãe nessas famílias de camadas médias também visa a afastar a/o filho da rua, identificada muitas vezes como um espaço hedonista de convivência.

        No entanto, é preciso enfatizar, com o autor, que a valorização do indivíduo não pode ser vista como mecânica, linear e acabada. Afinal, o que parece se destacar é a tensão permanente entre projetos individuais e o caráter englobador de certos grupos como a família. O excesso na exigência quanto aos estudos percebido pelas/os intercambistas indica isso. É sinal de um projeto que valoriza as aspirações individuais e, ao mesmo tempo, repõe hierarquias dentro do espaço familiar.

        

      Então, aqui você sente que tem muita pressão dos pais e professores sobre os

      estudantes?

        Barbara: Sim, não só pressão, é tipo “Você não sabe, nós temos que dizer a você!

        Você não é maduro o suficiente!

        ” E isso também está baseado no papel do adulto, “Eu sei; você é uma/um filha/o, você não sabe”. “Eu sei o quanto você precisa estudar para poder passar, eu sei o quanto você precisa estudar, você não pode ligar para seus amigos, porque você vai estudar isso, você vai fazer isso, e você não consegue assar biscoito, você tem que fazer assim...” e se você... o que eu

        56 também vi é que muitos para o filho...

        pais estão “varrendo os pés”

      O que você quer dizer?

        

      Os pais estão fazendo muito para os filhos, eles não são realmente independentes,

      eles estão dependendo dos pais, muito, tipo eles... antes de tudo, isso é

      simplesmente cultural, eles não cozinham, eles não limpam o quarto ou limpam as

      roupas nem nada, isso é algo que as pessoas na __________ fazem muito mais,

      então nós não temos empregados domésticos , ou algumas pessoas têm mas eu,

      não. Então, você tem que limpar o seu quarto...

        [...]

      E ambas as suas famílias tiveram empregado doméstico?

        Um-rrum [afirmando]. Mas isso também é paradoxal, eles estão aprendendo a

        

      não fazer nada por eles próprios, e aí gritam com eles porque eles não estão

      fazendo nada por conta própria. É como se houvesse dois mundos ... eles

        também... os pais que eu vi, eles os levam a todos os lugares que eles querem ir, porque os ônibus não são realmente para pessoas com dinheiro, o ônibus não é realmente uma opção, os pais de preferência levam os filhos eles mesmos... eles estão “varrendo os pés” para os filhos deles. Eles...

        Varrendo?

        Sim. Se você está caminhando...

      Varrendo antes para que você tenha um caminho mais fácil?

        Sim. Mas então como eu disse, também é paradoxal pra mim porque eles não

        

      estão sendo criados para ser independentes, até que eles sejam muito adultos eles

      estão sendo tratados... assim . E então, eles de repente... eu não sei como colocar.

        Eles... As famílias em que eu estive. Eles fariam qualquer coisa pelos filhos. Eles fazem muitas coisas. Como eu lhe falei, eles têm dois cursos de inglês, eles poderiam facilmente pegar um ônibus e estar lá em 20 minutos. Mas, eles dirigem na ida e na volta, segunda, terça, sexta... [grifos meus].

        Ao mesmo tempo em que a preocupação com os estudos revelam o desejo de ascensão social, também funciona, segundo Barbara, para caracterizar a geração mais jovem como imatura e dependente e para demarcar uma superioridade das pessoas adultas. Afinal, uma/um jovem não sabe: uma/um adulta/o tem que dizer a ele, orientá-la/o. Barbara destaca o caráter paradoxal que percebeu na exigência de que as/os filhas/os deem mostras de independência e maturidade, quando seu dispositivo de socialização funciona num sentido contrário, reforçando sua dependência e levando-as/os a performatizar uma postura de sujeição e insipiência. Conforme observou Barbara e outras/os intercambistas entrevistadas/os, as/os irmãs/ãos anfitriãs/ões geralmente não possuem responsabilidades domésticas, ficando estas ou para a mãe ou para uma pessoa contratada para executar tais serviços na casa. Também não utilizam transporte público, dependendo da mãe e/ou o pai para seu deslocamento pela cidade.

        O controle contínuo e intenso percebido pelas/os intercambistas e que ultrapassa as fronteiras de famílias e escolas deve ser compreendido em sua incidência social, no sentido em que Michel Foucault o destaca referindo-o ao poder disciplinar. Para o autor (1987, p. 189), este não se identifica com uma instituição nem com um aparelho. Trata-se de uma modalidade para exercer o poder, comportando um conjunto de instrumentos, técnicas, procedimentos, níveis de aplicação e alvos. É, em suma, uma tecnologia que tanto pode ficar a cargo de instituições que ele chama de especializadas (penitenciárias), seja de instituições que dela se servem como instrumento especial (casas de educação, hospitais), ou de aparelhos estatais para disciplina em ampla escala (polícia) ou que têm a disciplina como princípio de funcionamento interno, seja, finalmente, de outras preexistentes que através dela reforçam ou reorganizam seus mecanismos internos de poder. Este último seria o caso da instituição familiar.

        [...] um dia se precisará mostrar como as relações intrafamiliares, essencialmente na célula pais- filhos, se ‘disciplinaram’, absorvendo desde a era clássica esquemas externos, escolares, militares, depois médicos, psiquiátricos, psicológicos, que fizeram da família o local se surgimento privilegiado para a questão disciplinar do

      normal e do anormal [...] (FOUCAULT, 1987, p. 189).

        Ao se referir ao modelo panóptico de Bentham, Michel Foucault esclarece os aspectos fundamentais do dispositivo disciplinar: policiamento espacial estrito, inspeção constante, registro permanente de informações. Trata-se de um espaço recortado, vigiado em todos os seus pontos, com os indivíduos inseridos em um lugar fixo e constantemente localizados, examinados e distribuídos entre diferentes categorias. O poder se exerce sem divisão segundo uma hierarquia contínua. Um dos efeitos principais dessa forma de funcion amento do poder é o que o autor chama de a “determinação final do indivíduo”, isto é, de sua caracterização, da definição daquilo que lhe pertence. Esse processo de individualização é utilizado para fazer a marcação dos sujeitos e sua divisão binária entre louco/não louco, perigoso/inofensivo, normal/anormal etc. Ora, a partir do estabelecimento de quem é anormal, de onde está localizado, pode-se então aplicar técnicas para fazer controlar e corrigir os anormais (FOUCAULT, 1987, p. 176).

        O panóptico seria, para Michel Foucault (1987), uma espécie de laboratório de poder, um local privilegiado para fazer experiência com homens, para analisar as transformações que se pode obter neles. Seria uma máquina de comportamento, para treino reiterado dos indivíduos. É interessante perceber aqui o caráter produtivo do poder, tantas vezes destacado pelo autor. Sem negar os aspectos repressivos que venham a estar em jogo nas relações de poder, é preciso perceber que o poder disciplinar, sem apoiar-se na força e nem no espetáculo, se materializa através de exercícios e treinamentos constantes, num trabalho de incorporação. É no próprio corpo que os signos do poder se inscrevem, dando a ver o trabalho de normalização efetuado. É esse conjunto de técnicas que funcionam para fabricar indivíduos dóceis e úteis que também está em jogo nas relações intrafamiliares. É necessário um treinamento minucioso para que seja produzido, por exemplo, a/o jovem

        

      dependente e imaturo no interior das famílias anfitriãs estudadas, assim como as/os jovens

        e independentes que as/os intercambistas dizem encarnar. Podemos perceber,

        mais maduros

        então, que para que a imaturidade, a dependência e a submissão passem a ser características definidoras da juventude nessas famílias de camadas médias várias técnicas precisam ser reiteradamente exercitadas.

        A maturidade das/os intercambistas, por comparação com as/os jovens locais, também foi destacada no discurso de famílias anfitriãs. Cristina relatou que Kate era madura o suficiente para ouvir as intimidades que ela lhe contava. Cristina disse que conversava com Kate assuntos que não conversava com a filha, Camila, porque ainda não considerava esta madura o suficiente. Cristina via Kate como madura. “Ela tinha o comportamento de uma pess oa adulta, de ouvir como uma pessoa adulta e não como adolescente”. Enquanto, para Cristina, Camila, sua filha, era muito infantil, Kate seria uma “menina muito esperta, muito madura”.

        Ana também destacou a maturidade de Joanne e como a própria filha teria amadurecido no contato com a intercambista. Ana se disse bastante impressionada que Joanne falasse sempre a verdade. “Ela não mentia”. Isso lhe chamou a atenção porque ela própria, “quando adolescente”, mentia a sua mãe para poder fazer algumas atividades que sabia, de antemão, que ela não permitiria. Era uma forma de burlar um controle muito rígido da liberdade. Ana sabia que a filha, Amanda, também contava essas mentiras, mas Joanne, não. Ana disse que cresceu com isso, com essa ideia “... de que adolescente é danado!”. Perceba-se aqui, uma vez mais, a essencialização de uma característica socialmente construída.

      Mas, mentia por quê? Se falasse a verdade..

        Ana: Mamãe não deixava eu ir. Eu queria ir pro cinema e não vou dizer pra minha mãe “Eu vou pro cinema”; “Mãe, eu vou na casa de não sei quem estudar”. Eu usava muito disso. Então, eu acho que elas são assim, porque eu fui adolescente, né? Então, quando Joanne falava eu ficava assim

        “Hum, será que é mesmo?” Só que ela falava realmente a verdade. Algumas/ns intercambistas já se queixaram à equipe do Programa de que suas/seus irmãs/irmãos anfitriãs/ões mentiam aos pais para poder fazer algumas atividades que estas não lhes permitiam. As/Os intercambistas declararam não se sentir bem com a situação de mentir. Não pareciam entender porque não se podia falar a verdade.

        Já destaquei que as relações de poder implicam sempre no desencadeamento de resistências, de efeitos de contrapoder. Eis aqui uma estratégia utilizada pelas/os jovens locais nesse sentido: a mentira, utilizada como forma de escapar ao controle minucioso exercido pelos pais e como forma de exercício de autonomia. Mentir aparece como método capaz de assegurar um espaço mínimo de liberdade para as/os filhas/os e assim ter uma esfera própria de decisões e de ações. Mas seu sentido está relacionado à forma como as relações familiares se organizam no contexto estudado, pois para as/os intercambistas, por exemplo, não parecia fazer sentido mentir para fazer certas atividades.

        Outras situações ilustram esse movimento de resistência. Lara, por exemplo, nunca questionou as regras, mas também nunca obedeceu, segundo relataram Beatriz e Bernardo. Lara costumava fazer as coisas tais como recomendadas por Beatriz e Bernardo uma vez, mas depois não fazia mais. Mas não entrava em conflito. Bernardo afirmou que Lara era uma “menina muito esperta”. Ela nunca os afrontou e nunca se contrapôs às regras e sempre agiu de forma muito diplomática.

        Duas situações similares também podem ser compreendidas no sentido de estratégias de resistência ou de contrapoder. A coordenação pedagógica da escola de Kate entrou em contato com a família anfitriã dela para comunicar que não conseguia encontrá-la na escola, o que gerou preocupação e tensão. Algum tempo depois, encontraram Kate no banheiro conversando com uma amiga também intercambista. Elas haviam tentado sair da escola mais cedo e como não foram autorizadas, decidiram ir para o banheiro porque não queriam retornar para a sala de aula. Outra intercambista, Sandra, agiu da mesma forma em sua escola. Uma vez que não tinha autorização para sair de lá, decidiu ir para o banheiro, e lá permaneceu por certo tempo até ser encontrada por uma funcionária.

        Nessas duas situações, ir para o banheiro aparece como forma de escapar à obrigatoriedade de estar enquadrado em um espaço definido e controlado. Pela reação que funcionárias/os das duas escolas tiveram, a atitude foi interpretada, segundo me relatou George, como bastante séria e indicativa de um suposto problema comportamental das intercambistas. Eis como a marcação de anormalidade visa a assegurar o funcionamento da técnica disciplinar de normalização. O estudante normal seria o que reconhece seu lugar e o aceita sem questionamentos.

        Não podemos, todavia, supor que o funcionamento do poder disciplinar se realize sem brechas e da mesma forma em todo grupo familiar. Geraldo Romanelli (1995, p. 79) afirma que nas camadas médias da população seria mais comum a emergência de condutas alternativas. Ao mesmo tempo em que há mães anfitriãs que reproduzem os padrões de autoridade hierárquica, há outras que se orientam por outras referências. Um exemplo ilustra isso. Depois de falar que havia conversado com outra mãe anfitriã, Cristina afirmou a propósito da conversa com ela: “Ô classe de gente retrógrada, é essa de São Luís; a gente não imagina o quanto!”. Cristina estava se referindo ao controle que essa mãe anfitriã exercia sobre a intercambista que hospedava. “Ela não queria que a menina fosse ao shopping, não queria que a menina fizesse nada!

        ”, relatou com ênfase. Cristina afirmou que, diferentemente, permitia a Kate que saísse e fizesse várias atividades. Quanto às/os filhas/os e intercambistas, também não podemos supor que a docilidade seja sempre o resultado concretizado. Alguns exemplos acima mostraram que possíveis. No entanto, a força do dispositivo disciplinar se faz sentir também nesses episódios e é sempre preciso indagar sob que condições é possível desestabilizar seu funcionamento. É Michel Foucault (1987, p. 193) quem nos diz que a disciplina:

        [...] deve neutralizar os efeitos de contrapoder que dela nascem e que formam resistência ao poder que quer dominá-la: agitações, revoltas, organizações espontâneas, conluios

      • – tudo o que pode se originar das conjunções horizontais. Daí o fato de as disciplinas utilizarem processos de separação e de verticalidade, de introduzirem entre os diversos elementos de mesmo plano barreiras tão estanques quanto possível, de definirem redes hierárquicas precisas, em suma de oporem à força intrínseca e adversa da multiplicidade o processo da pirâmide contínua e individualizante.

        Como vimos acima, a presença de uma/um intercambista no interior de uma família local pode acarretar instabilidades. O que nos leva a questionar por que uma família aceitaria receber uma/um dessas/es jovens para uma convivência intensa e próxima de média ou longa duração. Beatriz e Bernardo afirmaram que foi de Bianca quem partiu a ideia de receberem Lara em sua casa. Bianca tinha o projeto de fazer intercâmbio, mas acabou não viajando. Então, viu na possibilidade de receber a possibilidade de ter essa experiência. Beatriz e Bernardo relataram que aceitaram “de cara”. Da mesma forma, no capítulo anterior, vimos como a ideia de receber uma intercambista em casa partiu de Denise e, só posteriormente, foi abraçada por sua mãe, Dalva. Em muitas situações, observei que o desejo inicial de receber uma/um intercambista em casa partiu de uma/um filha/o da família. A proposta era então levada ao pai e/ou à mãe e, então, aceita. É legítimo indagar se esse desejo não expressaria também, por parte das/os jovens em questão, uma estratégia de poder pelo impacto que a presença de uma/um jovem oriundo de contexto cultural diverso traria para as relações familiares locais.

        Se entendermos com Cynthia Sarti (2004) que a/o jovem é aquela/e que introduz o “outro” necessário na família, podemos lançar um pouco de luz sobre a questão, ainda que sem a pretensão de resolvê-la. A autora situa a/o jovem como agente de novos discursos que abalam o

        “discurso oficial” de sua família, seja pela ruptura, pela inversão ou pela reafirmação deste discurso. As/os jovens, em seu processo de individuação e de construção de suas identidades, buscariam outros referenciais fora da família, principalmente na relação com os grupos de pares.

        Na relação dos jovens com a família joga um papel fundamental a forma como esta incorpora esses ‘outros’, estranhos ao meio familiar, que o jovem traz para casa, porque ele neles se reconhece, sendo parte essencial da busca de sentido para a sua existência pessoal. A disponibilidade e a definição dos limites da família para deixar relações na família nesse momento de sua vida (SARTI, 2004, p. 123-4, grifos da autora).

        Precisamos igualmente considerar o processo de transformações e complexificações dos arranjos familiares contemporâneos, afetados pelos processos de individuação nas sociedades ocidentais. Como já antecipamos, Lia Machado (2002) ressalta as tensões em meio às quais se desenrola a experiência das famílias contemporâneas divididas entre a lógica do grupo e a do indivíduo; entre a divisão hierárquica de gêneros e divisão igualitária entre cônjuges; e entre uma pedagogia retificadora ou corretiva e uma pedagogia da negociação. No seio das relações de poder familiares, as/os jovens viveriam os paradoxos de ter de lidar com uma demanda para priorizar o grupo e as exigências das figuras de autoridade na família ao mesmo tempo em que, questionando-as como referências únicas, ser chamadas/os a construir uma individualidade própria, apoiando-se em referências outras.

        A/O intercambista parece, então, encarnar uma dessas formas de alteridade, através da qual a/o jovem local poderia esperar escapar à lógica englobante dos discursos de pai e mãe e a desestabilização de um regime de poder familiar que funciona para discipliná- la/o e subjugá-la/o, mas, no interior do qual, também encontra possibilidades outras de subjetivação. As diferenças, às vezes significativas, encarnadas pelas/os intercambistas podem ser um elemento efetivo no processo de construção da individualidade pelo qual a/o jovem local pode conquistar mais autonomia e promover, com o apoio de uma espécie de exemplo vivo, suas contestações, interesses e desejos. O desejo de hospedar uma/um intercambista pode ser, assim, interpretado, com os limites que essa interpretação necessariamente tem, como uma estratégia política: a de introduzir no regime das relações familiares um elemento novo que desestabilize o jogo e as hierarquias e inaugure novas possibilidades de relação.

        4.2 “[...] eu faço coisas que eu quero e eu acho que minha família [anfitriã] não gosta muito disso”: a produção discursiva do indivíduo nas tensões entre perspectivas hierarquizantes e individualistas

        Um dos temas que se impuseram ao longo do processo de pesquisa foi o dos processos de individuação, de como é discursivamente situado o indivíduo no contexto das famílias pesquisadas/observadas em comparação e/ou confronto com a perspectiva sobre a questão que as/os intercambistas expunham em seus próprios relatos. No limite, impõe-se pensar em diferentes possibilidades de arranjos familiares e como estes se articulam à questão

        contemporaneidade. Acredito que a coexistência entre perspectivas discursivas diferentes acerca do indivíduo e de sua relação com instâncias coletivas mais abrangentes (em primeiro lugar, aqui, a própria família anfitriã) caracterizava profundamente a experiência dos sujeitos pesquisados. Essa me pareceu ser uma razão frequente de divergências e conflitos.

        Em várias das situações relatadas acima, observamos que, nos embates discursivos envolvendo intercambistas e membros de suas famílias anfitriãs, eram enunciadas diferenças de expectativas bem como resistências a normas locais e comportamentos dos sujeitos: em termos de gênero, sexualidade, autoridade, geração etc. Essas diferenças e resistências nos pareceram significativas e podem nos orientar na discussão do assunto em questão. Barbara, por exemplo, relatou que pôde perceber que algumas mulheres com quem conviveu aqui eram tratadas de uma forma diferente da que ela seria em seu contexto de origem.

        Barbara: [...] eu sinto que aqui é mais... objetificado.

      Objetificado?

        Eu fico com a impressão de muitos rapazes que é só ficar por ficar, ficar com uma garota gostosa, não se importa realmente quem é, não precisa realmente saber o

        nome dela ... E também eu sinto que...

      A garota é mais como um objeto, por isso você disse objetificada?

        Sim, eu sinto que... mas, às vezes são os garotos também, sabe? Uma garota poderia sair e apenas “Oh...”. Mas as pessoas são vistas mais como uma coisa

        

      leve , você pode fazer o que quiser, assim... E também eu sinto que aqui... porque

        minha amiga na minha sala de aula um dia ela estava tão feliz porque esse cara disse a ela que ele queria ficar com ela e eu realmente não vejo porque ela estaria feliz, eu sentiria isso talvez como um insulto... não, eu não sentiria como um insulto porque esse é o jeito que é aqui, mas eu sentiria como “Oh, você quer... ele

        

      não quer me levar a um encontro, ele só quer ficar comigo . Entende? Eu não

      estaria “Oh, eu estou tão feliz!”.

      Você quer dizer mais num se ntido sexual? Quando você diz “ficar” é mais..

        Ele não quer me levar... não que eu esteja dizendo ir a um encontro romântico, mas ele não quer “Oh, você quer ir tomar um sorvete?” Ele só quer sair, talvez não ter sexo, mas beijar ou algo... Eu simplesmente senti, quando ela disse isso, que ela estava...

        “Por que você está se contentando com isso?” Porque esse cara, ele nunca tinha falado com ela, ele nunca mostrou nenhum interesse em falar com ela na vida real, tudo o que ele quer fazer é... beijá-la e eu acho que é se contentar

        ... Argh, isso é tão difícil, você entende o que eu

        com menos porque eu nunca iria

        estou dizendo? Ela está tão feliz... “Por que você está feliz com isso?” E foi do mesmo jeito, teve esse cara comigo, e ele me perguntou se eu queria ficar com ele,

        foi a mesma coisa comigo, e ele “Você quer ficar comigo?” E eu disse “OK”. Então ele diz “Então, quando a gente pode se encontrar e ficar? E eu fiquei assim “O que você quer dizer?” Ele queria “Vem pra minha casa e vamos ficar”. Eu disse “Não”.

        

      Ele não te convidou pra sair “Vamos tomar um sorvete, vamos ao cinema...”

      Não, foi “Quando a gente pode fazer sexo?”, tipo assim. Desculpa por algo, mas...

        você entende? E é isso o que eu sinto que muitas garotas estão fazendo aqui, elas estão “Oh...” [imitando tom de deslumbramento] elas realmente não se importam se ele é um cavalheiro ou não, se ele está traindo... “Alguém quer ficar comigo” [arremedando] [grifos meus].

        Parece claro que o que insulta Barbara na maneira como algumas mulheres locais são tratadas e como ela própria, estando no contexto local, veio a sê-lo foi a quebra de um princípio que, para ela é fundamental: o de que o indivíduo é um valor básico e prioritário nas relações sociais, importando mais do que os grupos de que eventualmente faça parte. Isso porta uma demanda de reconhecimento da pessoa enquanto tal, como articula François de Singly (2000), e não por sua localização no interior de uma organização hierárquica mais englobante, na qual ela teria sua individualidade subordinada a papéis ou lugares pré- definidos. O contentar-se com menos que ela enuncia pode ser entendido como aceitar a posição de mero objeto sexual que é atribuída a uma mulher dentro de um esquema hierárquico de relações de gênero. O fato de que sua amiga se mostrava “muito feliz” com a proposta pode indicar um comportamento mais ou menos típico, embora não se possa generalizar e concluir que essa seria a atitude de qualquer outra mulher na mesma situação.

        De qualquer forma, ressalta-se no discurso acima a diferença de perspectivas: ali onde sua amiga vê um motivo para sentir-se feliz, por estar sendo desejada sexualmente, Barbara percebe uma desvalorização da pessoa enquanto indivíduo e sua recusa à proposta feita significou sustentar esse valor do respeito à sua individualidade.

        Essa postura individualista deve ser compreendida no contexto dos processos de individuação próprios da modernidade ocidental. Já apresentei uma síntese das posições de um autor pioneiro nesses estudos. Louis Dumont (1985) distingue entre sociedades holistas e individualistas. Nestas, o indivíduo é tomado como um valor supremo, posto acima dos grupos e da sociedade enquanto tal. Para o autor, as sociedades ocidentais modernas devem ser caracterizadas como individualistas, pelo predomínio que dão ao indivíduo sobre as estruturas mais englobantes.

        No entanto, discuti a partir de Gilberto Velho (1997) o impasse de tomar as necessário reconhecer a diferença entre visões de mundo hierarquizantes e individualistas, mas buscar situá-las em contextos específicos, levando em conta também suas contradições e articulações. Isso porque, mesmo no seio dos discursos mais hierarquizantes, colocam-se sempre possibilidades de individuação, bem como, a sustentação de um individualismo igualitarista não elimina hierarquias e referências grupais mais amplas. Temos, então, de um lado, a valorização do indivíduo como parte de uma rede mais abrangente e hierarquizada de relações; de outro, sua constituição como a unidade fundamental e significativa, enquanto valor de base para a experiência social.

        No capítulo II, situei, com base em Stuart Hall (2011), a emergência de uma nova concepção de sujeito a partir de diversos eventos históricos relacionados, os quais assinalaram a ruína da ordem medieval e o advento da modernidade. O eixo dessa nova concepção de sujeito era a individualidade unificada e centrada, referida ao que o autor chama de sujeito do Iluminismo. Trata-se de uma concepção individualista da subjetividade pela qual a pessoa humana era representada como indivíduo centrado, unificado, racional, consciente e capaz de agir conforme sua razão e consciência. Essa concepção supunha, para o autor, um “centro”, uma espécie de núcleo interior que o sujeito traria consigo desde o seu nascimento e que se desenvolveria com ele, continuando, no entanto, idêntico a si mesmo. “O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa” (HALL, 2011, p. 10-1).

        Percebemos que essa representação do sujeito como indivíduo promove o eu coerente e estável como núcleo da personalidade. Para Stuart Hall, essa ilusão de segurança, estabilidade e coerência foi, ao mesmo tempo, uma produção do pensamento moderno e um resultado dos processos que caracterizaram a modernidade. O autor afirma que, nos tempos pré-modernos, a individualidade era vivenciada e conceitualizada de forma diferente.

        As transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas. Antes se acreditava que essas eram divinamente estabelecidas; não estavam sujeitas, portanto, a mudanças fundamentais. O status, a cla ssificação e posição de uma pessoa na ‘grande cadeia do ser’ – a ordem secular e divina das coisas – predominavam sobre qualquer sentimento de que a pessoa fosse um indivíduo soberano. O nascimento do ‘indivíduo soberano’, entre o Humanismo Renascentista do século XVI e o Iluminismo do século XVIII, representou uma ruptura importante com o passado (HALL, 2011, p. 25, grifos do autor).

        O autor destaca, ainda, as características da indivisibilidade e da singularidade como compondo essa concepção moderna do sujeito individual. Para Stuart Hall (2011, p. 25- 6), as elaborações de René Descartes do sujeito racional, pensante e consciente e de John Locke de uma identidade subjetiva que permanecia a mesma e era contínua ao sujeito,

        contribuíram para a construção da subjetividade moderna como individualidade soberana. Os discursos da modernidade ressaltaram a existência do homem acima de seu lugar e função numa ordem social rígida e hierarquizada. Importa aqui destacar que a existência primária e original do indivíduo foi um postulado presente nos discursos que caracterizaram a modernidade.

        Para situar o caráter contingente e representacional dessa concepção, é importante situar, com Michel Foucault (1982, p. 781), que a forma de poder característica da modernidade produz um sujeito, ao mesmo tempo, amarrado a sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento e “sujeitado” a alguém por controle e dependência. Trata-se de uma forma de poder que faz indivíduos sujeitos ao tempo em que, podemos acrescentar, torna sujeitos em indivíduos.

        Alice relatou que teve a impressão de que “os brasileiros são muito ciumentos”.

        Alice: [...] tipo, eu não sei se é verdade, mas minha amiga me disse que quando o namorado dela estava com muitos ciúmes dela quando ela estava saindo ou que ele não queria que ela saísse com outras pessoas e não com ele, mesmo se fossem apenas amigos indo ao cinema... então, tem algumas garotas que dizem “Não, eu

        não posso ir porque meu namorado não quer

        ”. E eu ficava “O quê?” [com tom de espanto].

        

      E isso acontece na __________? Já aconteceu alguma vez com você na

      __________?

      Comigo, não, mas claro que tem alguns garotos que pensam que eles podem dizer

      às namoradas o que elas têm que fazer , mas eu acho que aqui é mais... muito

      mais .

      Pra você, é algo estranho, algo com que você não concorda?

        Sim, eu nunca deixaria me dizer o que eu tenho que fazer, se eu posso sair com os meus amigos ou não... do meu namorado .

        

      E acontece com suas amigas mulheres também, tipo elas também ficam com

      ciúmes dos namorados e elas dizem a eles o que fazer e não fazer aqui no

      Brasil?

      Isso eu nunca ouvi, elas dizerem “Não, não vai com...”

        

      Então, o que você escuta é que acontece mais com os rapazes, os rapazes

      dizendo a suas namoradas o que elas têm que fazer ou não e ficando com

      ciúmes porque elas estão fazendo algo sem eles?

        Sim.

        O mesmo desconforto foi expresso por Tanya. Ela relatou que, nos namoros de que tinha conhecimento em São Luís, percebia que os homens queriam sentir que tinham o poder, que controlavam a relação. Eles acompanhariam as vidas das namoradas e proibiriam ou se aborreceriam se elas saíssem sozinhas para ir a um show, por exemplo. Em seu contexto de origem, segundo ela me disse, seu namorado não faria isso por saber que era “uma decisão dela”. Sobre as relações entre os sexos, afirmou que “aqui é mais como nos velhos tempos” e que existiria uma espécie de “dominação masculina”.

        Alice enuncia que não aceitaria estabelecer com um namorado uma relação de submissão, na qual ele teria o poder de impor ou decidir sobre seus próprios interesses ou atividades. No discurso individualista, a autonomia aparece como valor preponderante e o igualitarismo como um corolário lógico da concepção dos indivíduos enquanto referências primeiras. Em contraponto, tanto Alice quanto Tanya deixam entrever que, no contexto de suas relações com amigas locais, seria mais ou menos comum sua posição de submissão em relações com forte vetor hierárquico, nas quais, para não desagradarem nem se indisporem com seus respectivos namorados, deveriam se submeter a sua autoridade enquanto polo mais importante. Destacam que, ao agirem assim, essas amigas, diferentemente das intercambistas, não se priorizam enquanto indivíduos. Nesse sentido, estariam expondo uma individualidade subordinada a regimes hierárquicos que as englobam e as localizam em posições específicas que elas devem conservar, posições de sujeito vinculadas a discursos constantes em relações heteronormativas.

        Ao mesmo tempo, Alice deixa claro que discursos mais hierarquizados também existem em seu contexto de origem, não sendo exclusivos dos contextos locais. Não se trata, portanto, de buscar opor modelos culturais globais. Põe-se, efetivamente, a questão de uma recorrência ou preeminência discursiva, de uma hegemonia soc ial ou importância do “código relacional hierárquico”, segundo a proposta de Lia Machado (2002), como uma das matrizes de sociabilidade no Brasil.

      A inquietação de Barbara com a suposta “objetificação” das pessoas (“garotas” e também “garotos”), a ponto de sentir como ultrajante a proposta de “ficar” feita por um

        rapaz à amiga, e o espanto de Alice (e o desconforto de Tanya) com o fato da submissão das mulheres jovens a um controle de sua liberdade pelos namorados, revelam um mesmo e importante aspecto de suas relações sociais no contexto local. As falas das entrevistadas revelam o incômodo com situações, aparentemente bastante disseminadas, em que sentem que

        as pessoas são tratadas sem que seja reconhecida sua importância ou autonomia enquanto indivíduos, reforçando a produção de desigualdades quanto a direitos e oportunidades.

        A propósito de como Lara seria diferente de outras jovens locais, eis como Beatriz se expressou:

        Beatriz: É, eu acho que tem essa coisa... as brasileiras me parecem mais vaidosas, mais preocupadas com a aparência. A questão também de higiene, né? Esse é um aspecto, mas tem um outro assim... nós, mulheres, até as meninas daqui são mais... digamos... como é que eu falo? Não é expressivas, mais... comunicativas,

        

      dividem mais, compartilham mais as suas coisas, as suas experiências, as suas

      ideias e tudo. Eu acho que ela era mais trancada, entendeu? Mais fechada.

      Então, a gente não via esse compartilhar, essa coisa de formar grupos . As

      meninas aqui, as adolescentes elas formam mais grupo e elas entre elas, elas

      compartilham as coisas, as informações, as dúvidas, as experiências, e acabam se

      fortalecendo enquanto grupos . São grupos duráveis, então elas ficam com

        amizades longas, às vezes essas amizades podem durar a vida inteira. [...] Como Bianca é muito comunicativa, ela é muito popular, como eles dizem lá na escola, ela é daquele tipo mais agregadora e popular, e conversa com todo mundo e tudo.

        . Eu não

        Então, nesse aspecto, a Lara não! Ela é mais fechada, mais trancada percebia ela formar grupo nenhum [grifos meus].

        Beatriz e Bernardo apontaram, ainda, que Lara convivia mais com outras intercambistas, inclusive com uma do mesmo país. Ela não teria se enturmado com as colegas de Bianca. Quando estas visitavam a casa, Lara não ficava junto com elas. Bernardo afirmou que, quando Lara estava em casa, ela preferia ficar no quarto, muito tempo no quarto, lendo. “Não era muito de estar convivendo”. Beatriz acrescentou que “raramente, ela vinha sentar aqui conosco [na sala]”.

        A expectativa de Bernardo e Beatriz era a de que Lara viesse juntar-se a eles em atividades de grupo ou de que ficasse junto e interagisse com as colegas de Bianca quando estas estavam em casa. Mas Lara, diferentemente, ficava sozinha no quarto lendo. Percebemos que no discurso de pai e mãe anfitriã prevalece a referência do grupo como valor primeiro. O grupo deve, por assim dizer, prevalecer sobre os indivíduos; estes devem abdicar de seus interesses pessoais e inserir-se nos grupos. Formar grupo não é apenas estabelecer relações de trocas com outras/os, mas encarnar o princípio de uma valorização pela inserção no grupo. Ao falar de Lara como fechada e trancada, Beatriz, na verdade, estranha uma forma diferente de conceber o exercício da individualidade, pela qual Lara se sente autônoma para decidir ela própria

      • – sem que o grupo lhe exerça uma força de atração – suas atividades e com quem interage. O isolamento é um signo desse indivíduo concebido como átomo, célula fundamental, percebendo-se lado a lado com outros indivíduos iguais e igualmente livres para

        Lara sustentava a referência do indivíduo autônomo e põe em questão as expectativas de uma inserção grupal e de respeito às relações hierárquicas estabilizadas de gênero e geração, por exemplo. Percebida como mais “fechada”, “trancada”, Lara parece exibir uma espécie de núcleo não negociável de sua subjetividade.

        Percebemos, nessas situações, o confronto entre duas perspectivas discursivas diferentes que, a princípio, diferenciam os relatos dos membros das famílias anfitriãs e colegas e amigas/os locais e das/os intercambistas: a valorização da família e da preeminência grupal em uma perspectiva e o indivíduo como valor supremo e a exigência de tratamento igualitário na outra. É importante, desde já, não tomá-las como excludentes, mas não deixar de reparar que se impõem como preponderantes em determinados contextos.

        François de Singly (2000) destaca, no seio das sociedades contemporâneas, o surgimento do “indivíduo original” que carregaria em seu interior uma identidade pessoal, articulada a imperativos de autonomia. Sua referência é a sociedade francesa e, de modo mais geral, a sociedade europeia, cujo modelo é generalizado como característico de todo o ocidente na alta modernidade. A família seria a instituição privilegiada na função de consolidar esse

        “eu” autônomo de crianças e adultos. É no processo de socialização primária que o sujeito começa a se constituir como indivíduo nessa referência normativa de valor prioritário e de autonomia. A família, segundo o autor, teria se transformado em espaço privado a serviço dos indivíduos (SINGLY, 2000, p. 18).

      Lia Machado (2002) sublinha diferenças entre as nações brasileira e hispano- americanas em geral e as nações do “mundo ocidental desenvolvido” ou central quanto à

        consolidação do Estado de bem-estar social. Este tem como um de seus pilares as noções de sujeito individual, livre e igual, e de direitos do cidadão que limitariam a ação do Estado. A consolidação desse modelo teria sido muito mais ampla na Europa e na América do Norte do que no Brasil, por exemplo. Dessa forma, podemos inferir, que a referência discursiva do indivíduo como valor central nessas regiões se faria sentir de forma mais significativa.

        Tive a oportunidade de apontar que as/os intercambistas entrevistadas/os e observadas/os provêm, principalmente, de países da Europa Nórdica e Central e também da América do Norte. Cuidando para não cair em generalizações fáceis, mas buscando compreender o peso que uma perspectiva individualista tem no discurso das/os intercambistas, gostaria de destacar o trabalho de Magdalena Jarvin (2000) sobre o individualismo na cultura sueca na busca de compreender os processos de emancipação e autonomização das/os jovens com relação à casa parental.

        A autora destaca duas representações correntes da cultura sueca: forte espírito coletivista (obediência e respeito dos cidadãos ao Estado) e espírito individualista, com poucas interações sociais (o indivíduo é instado a realizar seus interesses pessoais a qualquer custo, em uma forma de individualismo que a autora diz poder ser chamada de “americanização”). A autora se dedica a estudar o aspecto individualista em questão.

        Ela antecipa que esse processo de autonomização da/o jovem começa na mais tenra idade, com os princípios de responsabilidade e autonomia integrados na educação familiar bem como no ensino e na educação ministrada no contexto escolar. Ao tratar do Estado-providência, segundo o modelo sueco, aborda a invasão da esfera familiar pela esfera social.

        Na Suécia, um grande número das alocações é atribuído às famílias cuja renda é considerada insuficiente (alocações para as crianças, moradia, viagens). Essa ajuda financeira tem como objetivo contribuir para a economia familiar durante os estudos secundários dos jovens, o que elimina a responsabilidade de mantê-los, uma vez terminada a escolaridade obrigatória. A busca de liberdade na escolha da atividade profissional ulterior foi concretizada pela decisão política de oferecer uma formação de base geral, que pode ser prolongada através dos estudos superiores e de cursos para adultos. Assim, o ensino é gratuito e todo estudante recebe bolsas de estudo, sem que a atribuição dessa ajuda financeira seja baseada em critérios sociais. Os estudantes podem igualmente obter empréstimos a taxas muito interessantes. Tais medidas visam à supressão dos obstáculos materiais à formação, aplicando-se essencialmente àqueles indivíduos cujos pais não dispõem mais de recursos econômicos para mantê-los ” (JARVIN, 2000, p. 24-5).

        A autora verificou nas falas de suas/seus entrevistadas/os que estas/es, mesmo em situação de dificuldade financeira, preferem não recorrer às figuras parentais, pois a ajuda familiar é percebida como uma “derrota”, uma falta de responsabilidade e autonomia. Magdalena Jarvin ressalta, então, que a cultura sueca se funda em uma ideologia centrada na noção de indivíduo. Este se torna a unidade primária do grupo, há como que uma fronteira simbólica traçada ao redor de cada indivíduo, embora essa ideologia raramente existiria em estado puro.

        “A ideologia sueca enfatiza a subordinação das configurações sociais ao indivíduo e não há laços tradicionais que limitem sua liberdade”, afirma Magdalena Jarvin (2000, p. 26). Na verdade, nas situações de dificuldade financeira, não recorrer à família implica recorrer ao Estado o que ilustra o que a autora chama de recuperação da esfera privada pela pública. Com base no que discuti anteriormente, isso, no Brasil, não pode se passar da mesma forma, já que a esfera privada parece ser chamada a cada momento a suprir as ausências e/ou deficiências na prestação dos serviços públicos pelo Estado, quer em termos de educação, saúde ou segurança pública e seguridade social. A cultura sueca, por sua vez, estaria, segundo a autora o percebeu, fundada sobre o princípio da integridade pessoal que representaria o “direito inviolável de ser seu próprio juiz”. A autora aponta como, através de regras e práticas nos contextos familiar e escolar, as crianças são encorajadas desde muito cedo a desenvolverem um sentimento de responsabilidade e de autonomia.

        Magdalena Jarvin acrescenta que, na cultura sueca, desde o início do século passado, havia a noção de que as crianças pertenciam ao Estado.

        Ainda hoje os municípios assumem cada vez mais a responsabilidade das crianças, das pessoas idosas e dos doentes, tendência que encoraja cada membro da família a desfrutar de uma maior independência. Assim, todo adulto deve responsabilizar-se por si mesmo da maneira mais cabal, tanto econômica quanto moralmente (JARVIN, 2000, p. 27, grifos meus).

        O que deve ser estimulado é o desenvolvimento do indivíduo e da coletividade; a família não seria a referência principal. Segundo a autora, caberia à esfera pública tornar os indivíduos independentes do grupo familiar. Os novos princípios de educação e ensino, enfatizados a partir da II Guerra Mundial, destacam os valores da proibição de castigos corporais, da recompensa como estímulo à aprendizagem, do desenvolvimento individual e autônomo com valorização dos recursos pessoais e da democracia como palavra de ordem, com autonomia e participação na tomada de decisões (JARVIN, 2000, p. 27-8).

        A autoridade e a hierarquia, segundo a autora, tornam-se valores fora de moda. Magdalena Jarvin cita estudos que destacam que os suecos trabalhariam para tornar as crianças independentes desde a mais tenra idade. “Poucos pais declaram ‘tomar a decisão’ sobre o futuro de seus filhos, porque são estes que devem escolher o caminho que desejam seguir

      • – o que não os impede de pedir conselhos aos mais velhos” (JARVIN, 2000, p. 28). Essa autonomia para as próprias escolhas das/os jovens pode ser ilustrada na fala de Adrian quando relata que, em seu país, o regime educacional permite às/aos estudantes escolherem a área de estudos que querem e, portanto, a que disciplinas vão dedicar mais atenção em função dos seus interesses. Há mais espaço para a construção de um caminho próprio de estudos. Em São Luís, nas escolas de ensino médio das/os intercambistas, não há a possibilidade de eleger disciplinas em função de um projeto de estudos. Todas/os as/os estudantes devem cursar as mesmas disciplinas obrigatórias.

        Finalmente, a autora afirma que a individualização das/os jovens suecos não significa necessariamente uma dissolução da solidariedade familiar. Numerosos laços familiares se conservam, mesmo com a dispersão geográfica. A autora se refere a uma suposta privatização das relações familiares, em que elas não são mais vividas como obrigatórias e impostas, mas pertencem à ordem das escolhas voluntárias. Destaque-se, ainda, que, para ela, o Estado-providência ofereceria aos indivíduos a possibilidade de se emanciparem do grupo familiar, graças ao apoio financeiro que concede. No contexto local estudado, como as/os jovens se encontravam na dependência financeira da família, podemos pensar que tal situação afeta consideravelmente seu processo de autonomização.

        Analisemos outras situações à luz desses aportes. Segundo Ingrid, intercambistas da Europa Nórdica, quinze anos seria, em seu país, a idade legal mínima de consentimento para relações sexuais. A forma como enunciou isso me pareceu que queria destacar tratar-se de um direito individual. Caberia, portanto, à própria pessoa e somente a ela decidir o melhor momento de iniciar sua vida sexual a partir desse limite de idade. Ela relatou de forma enfática que, em seu país “os pais não podem dizer a ela que ela não pode namorar ou sair com um determinado homem”. Essa ideia de que as figuras parentais não devem ocupar esse lugar de quem decide ou impõe uma solução ou caminho a seguir em diferentes esferas da vida da/o filha/o apareceu em diversas falas das/os intercambistas, ora referindo-se às relações pessoais e afetivas, ora aos projetos individuais, incluindo carreiras de estudo e profissionais.

        A promoção dessa perspectiva individualista parece, em geral, confrontar a perspectiva dos membros das famílias anfitriãs, que privilegiariam as prerrogativas do grupo. Adrian relatou que sua família anfitriã não gostava de sua postura muito independente, no sentido de planejar suas próprias atividades. Queriam que ele fizesse atividades com a família.

        Adrian: Então... [tentando lembrar] o que eu queria falar? Sim, eu faço coisas que

        

      eu quero e eu acho que minha família não gosta muito disso , porque eles querem

      que eu faça coisas com eles

        . E uma vez meu pai falou pra mim: “Esse fim de semana a gente quer ficar contigo”. Eu fiquei a semana inteira esperando, nada [com ênfase] aconteceu. Eu estava esperando alguma coisa, mas tinha nada [grifos meus].

        Chama a atenção o fato de que o que o pai anfitrião planejou com Adrian não se realizou. Adrian acrescentou que esse fato se repetia: algo em família era planejado, ele ficava na expectativa, inclusive cancelando outros compromissos, mas o combinado não se realizava, o que lhe deixava frustrado. Uma possível leitura da situação nos mostra que o pai anfitrião, percebendo que Adrian costumava planejar suas próprias atividades de forma independente e com outras pessoas que não os membros da família anfitriã, acordava alguma atividade com ele antecipadamente, o que deixava Adrian disponível para estar com eles, mas repetidamente a atividade combinada não se realizava. O que faz com que as ações do pai anfitrião apareçam como estratégias para limitar o impulso autônomo de Adrian e de submetê- lo ao princípio de estar sempre disponível para as atividades da família anfitriã em primeiro lugar. Não parece apenas que desejem que Adrian faça coisas com eles, pois às vezes algumas atividades nem chegam a acontecer, mas principalmente que ele não sustente uma atitude independente e autônoma, ou que pelo menos não a sustente sem levar em consideração o lugar proeminente dado à família sobre o indivíduo no contexto local e o ocupado por pai e mãe dentro da hierarquia familiar.

        Uma postura autônoma performatizada por uma/um intercambista parece produzir nas figuras de autoridade das famílias anfitriãs com regimes muito hierarquizados, um incômodo similar ao dessa mãe anfitriã que, segundo me relatou Maria, se mostrou bastante contrafeita e mesmo agressiva ante a situação de ter de sentar com Maria e a intercambista que morava com ela para discutir algumas questões que incomodavam a intercambista no convívio familiar. Maria teria tido que insistir para que a conversa acontecesse. Conversar de igual para igual com uma/um jovem em situação similar à de filha/o seria, nesse contexto, tomado como um questionamento da posição hierárquica.

        Referindo-se ao tema do namoro, mas para destacar sua autonomia no sentido de fazer as próprias escolhas no contexto de origem, Adrian relatou que seus pais, ainda que não gostassem de uma namorada sua, não poderiam interferir na relação.

        Adrian: Eles não podem falar pra mim “Deixa ela; a gente não gosta dela”.

        

      Porque eu, eu escolho minhas coisas . Tipo meus pais pode falar comigo, pode me

        falar o que eles gostam, mas ele não pode escolher pra mim. Então, se eu tenho uma namorada que eles não gostam, eles não podem fazer nada, mas mesmo assim eles vão tentar de respeitar e tentar de fazer alguma relação pra isso melhorar [grifos meus].

        Vimos, no capítulo anterior, que a mãe anfitriã de Adrian não era muito simpática à sua namorada e à própria ideia de seu namoro e que ele não podia namorar em casa. Adrian destacou em seu relato que, em seu contexto de origem, não apenas poderia levar a namorada para casa, como poderia levá-la para seu quarto porque seria o quarto dele. Vimos, com François de Singly (2000, p. 18), que a família é o universo privilegiado para a socialização da criança enquanto ser individualizado. Uma das técnicas utilizadas para isso é a diferenciação, feita pelas figuras parentais, da criança para com seus irmãos e irmãs e também a demarcação de um território simbólico dentro do espaço da casa para a/o filha/o e que seria seu quarto próprio, no interior do qual ele faz suas próprias regras e pode exercitar sua liberdade. Sua utilização do quarto, nesse sentido, pode mesmo sugerir uma anarquia ao olhar dos outros, como afirma o autor.

        O tema da utilização do quarto é recorrente nas entrevistas de intercambistas e famílias anfitriãs. Cristina, por exemplo, me disse que colocou algumas regras para Kate, principalmente quanto à higiene e organização do quarto, mas Kate não guardava as regras. Se Cristina fizesse uma observação de manhã, no mesmo dia à tarde Kate repetia o que havia feito, como o fato de deixar as roupas íntimas sujas expostas dentro do quarto e este, bastante desorganizado. Esse tema da desorganização das/os intercambistas, principalmente quanto ao uso do quarto nas casas de suas famílias anfitriãs, é bastante abordado por estas no contato com Maria. Esse tema foi inclusive, segundo observei, discutido por ocasião das reuniões de orientação para famílias anfitriãs, organizadas pela empresa. As/os intercambistas também se queixam de que em suas experiências aqui teriam menos privacidade e menos autonomia no uso dos quartos: geralmente, estes teriam que estar sempre de portas abertas e organizados de acordo com o que pai e mãe anfitriã estabelecem. Dessa forma, no âmbito das casas das famílias anfitriãs entrevistadas, o quarto não é exatamente o território da/o filha/o, mas deve ser inserido no contexto mais amplo da casa e das regras impostas pelas figuras de autoridade.

        Outra questão recorrente nas falas das/os entrevistadas/os foi a do contato entre intercambistas e pai e mãe do país de origem durante a experiência de intercâmbio. De modo geral, o contato era muito raro. Cristina relatou que parecia que Kate não sentia falta da mãe. Isso porque Kate passava longos períodos de tempo (às vezes um mês) sem falar com ela. Cristina chegou a insistir com Kate pra que falasse com a mãe pelo menos aos domingos, mas ela não manteve muito contato. Cristina disse que como às vezes não tinha como dar muita atenção pra ela, queria que ela tivesse “um pouco de afeto da mãe”.

        Cristina: Aí eu não sei se é o comportamento deles, mas algumas vezes que eu vi ela conversando com o pai eu achei assim muito fria a relação, olhando da nossa maneira, achei assim muito fria a maneira dela falar, a maneira dele falar; algumas vezes eu cheguei a ver, ela me chamou pra me mostrar o pai dela de criação, no caso.

        Bernardo disse, com surpresa, que só falou duas vezes com os pais de Lara. Eles nunca teriam enviado nenhum e-mail perguntando se Lara estava bem. Mandaram presentes para ela e no Natal também para eles. Mas, não perguntavam por Lara. Isso surpreendia Bernardo.

        Esse aspecto da relação entre as/os intercambistas e seus pais e mães foi Destacavam o fato de que o contato não era frequente e que às vezes não havia contato algum ou também que o contato era mais distante ou frio. Geralmente, pais e mães quase não interferiam na experiência das/os intercambistas, limitando-se a contatos esporádicos, o que sempre causava estranheza em pais e mães anfitriãs, que esperavam um grau maior de participação daquelas/es na experiência de intercâmbio da/o filha/o. A falta de contato parecia ser identificada com falta de afeto ou de preocupação ou mesmo um sinal de abandono afetivo. Quanto às/aos intercambistas, a maioria me relatou que de fato não mantinha um contato tão frequente com pai e mãe e que não costumava recorrer a elas/es sequer para resolver algum tipo de problema que tivessem. O contato com as figuras parentais nessas situações era afirmado como um último recurso, a ser usado em caso de emergências.

        É possível perceber aqui uma semelhança para com as situações de dificuldade financeira das/os jovens suecas/os, tal como descrita por Magdalena Jarvin (2000) acima. Assim como nessas situações, durante suas experiências de intercâmbio, as/os intercambistas guardariam uma distância para com as figuras parentais como sinal de autonomia e de responsabilidade. O recurso a pai e mãe para a solução de problemas parece ter uma conotação negativa na medida em que põe em questão a capacidade do indivíduo para lidar sozinho com a situação. Da mesma forma, a suposta frieza e distância no contato, tal como percebida por membros das famílias anfitriãs, remete à forma como a educação das/os jovens parece ser levada a cabo em seus contextos de origem. Não parecem significar em absoluto uma falta de interesse ou afeto, sem excluir essas possibilidades, mas sim uma maneira individualista de lidar com a situação: as figuras parentais não interferem na experiência da/o filha/o, respeitando o limite simbólico do indivíduo. Afinal, toda/o adulta/o deve ser capaz de se responsabilizar por si mesma/o da maneira mais rigorosa e completa possível. Esse é o ideal que parece estar incorporado por essas/es jovens e que se manifesta em seus relatos.

        Outro tema que nos permite perceber o contraste entre as formas discursivas concernentes à produção da individualidade é o dos castigos corporais. Durante o período em que realizei a pesquisa, pelo menos três intercambistas mudaram de família anfitriã devido ao fato de que o pai e/ou mãe anfitriã se utilizavam de violência física na educação das/os filhas/os. Mas, de fato, foram relatados mais casos que esses à empresa. As situações eram normalmente trazidas ao conhecimento de Maria e relatadas com bastante espanto e indignação. Essas/es intercambistas relatavam que era inconcebível que irmãs/irmãos anfitriões sofressem algum tipo de violência física. A reação do pai e/ou mãe anfitriã era geralmente de buscar justificar o método como forma de disciplina e recusavam categorizá-lo família anfitriã e Maria, a mãe anfitriã de Fernanda afirmou, em tom veemente: “Eu bato mesmo, vou continuar batendo, a filha é minha e eu não vou deixar que ninguém me diga como eu devo educar a minha filha”.

        Vimos como, logo após a II Guerra Mundial, segundo Magdalena Jarvin (2000), os novos princípios de educação e ensino na Suécia impuseram a proibição de castigos corporais na educação das crianças. Trata-se, a meu ver, de um dos efeitos do processo de individualização em curso no ocidente moderno: a construção da individualidade como valor supremo implica na preservação de um núcleo inviolável da subjetividade da/o filha/o e na proibição das relações hierárquicas fundadas na violência. A utilização de violência física para educar representaria a ruptura da barreira simbólica que protege e constrói a individualidade como espaço sacralizado. Por isso, quando as/os intercambistas presenciam uma cena de agressão física entre pai/mãe e filhas/os, o choque é resultado da percepção de que essa barreira pode ser e foi rompida.

        Quando os irmãos de Cristina, segundo esta relatou, enunciam que ela deveria cuidar do pai doente por ser mulher, eles não partem da referência de indivíduos iguais que teriam as mesmas obrigações, mas de uma organização hierárquica em que o indivíduo está submetido ao lugar que ocupa dentro dela. No final, Cristina, apesar de a princípio reagir à forma de pensar dos irmãos, acabou levando o pai para sua casa. Por outro lado, Carlos, seu esposo, se mostrava insatisfeito com ela porque queria que ela fosse mais “dona de casa”. O que ele parece criticar, afinal, é que ela assuma uma postura mais individualista, no sentido de dar prioridade a interesses pessoais acima de interesses que impliquem o grupo em que se insere, a família, no caso. Para Carlos, Cristina, enquanto indivíduo só adquire sentido como

        

      esposa e mãe, devendo realizar-se nesses papéis. Kate, por sua vez, se mostrava inconformada

        que as responsabilidades de casa devessem ficar sob a responsabilidade de Cristina tão- somente, já que Carlos não costumava realizar nenhuma tarefa doméstica. Ela concebia que tais responsabilidades deveriam ser partilhadas de forma igualitária entre Cristina e Carlos.

        As/Os intercambistas, de forma unânime, destacaram que, em seus contextos de origem, maridos e mulheres costumavam participar de maneira igualmente ativa da realização das tarefas domésticas. Isso não pareceu significar que não houvesse divisão do trabalho entre homens e mulheres, mas que a referência não era de indivíduos tomados em seus gêneros, mas como sujeitos livres e iguais.

        Antecipei, através da discussão de diferentes referências teóricas, a explicitação de questões atinentes à temática do individualismo relacionadas aos dados da com base em Jurandir Costa (1999), discuti que o tipo de solidariedade presente na organização da família colonial brasileira desestimulava todo elo afetivo que incentivasse motivações e vontades individuais. O autor salientou que o convívio familiar não se orientava para privilegiar a escuta, a atenção e a realização de desejos e aspirações particulares. Da mesma forma, Göran Therborn (2006) nos traz dados interessantes acerca da concepção individualista que presidiu modificações importantes na legislação de direito de família dos escandinavos no início do século passado. Essas discussões anteciparam a importância que essa temática adquire no contexto deste estudo.

        A produção de instabilidades nos regimes locais de poder

      • – o de gênero e das relações intergeracionais em particular
      • – a partir do lugar das/os intercambistas parece ter a ver com o acionamento de um discurso individualista em cujo cerne está a referência normativa de um indivíduo valorizado como átomo ou célula independente de relações sociais mais englobantes. Nesse discurso, o princípio igualitarista se mostra vigoroso, afirmando-se no sentido do questionamento das hierarquias.

        Podemos, obviamente, supor que, nos contextos de onde provêm as/os intercambistas, as relações sociais também são marcadas por hierarquias diversas. O que talvez se possa inferir é que, prevalecendo uma referência discursiva individualista, essas hierarquias estariam submetidas a um grau maior de instabilidade e variação pelo acionamento recorrente de um princípio fundado no igualitarismo e na autonomia dos sujeitos concebidos como indivíduos. No contexto local, por outro lado, sendo hegemônica uma concepção hierarquizante de individualidade, coloca-se uma expectativa social de que o indivíduo abdique de parcela de sua autonomia em função do sentimento de pertença a um grupo englobante. Com isso, dá-se um enfraquecimento no discurso dos padrões igualitários e um reforço das identidades grupais e das relações hierárquicas.

        No entanto, já enfatizei que esses discursos coexistem em diferentes contextos e operam, não de forma isolada, mas através de suas tensões. Denise não correspondeu ao projeto da mãe de que ela fizesse balé, mas se inclinou em direção às lutas e ao boxe. Esse investimento específico tem a ver também com uma perspectiva individualizante, pela qual o sujeito rompe com projetos impostos pelas figuras de autoridade na família. Dalva, mãe de

      Denise, se dizia “liberal” em alguns aspectos, mas “conservadora” em outros. A presença de

        Joanne influenciou Amanda no sentido de uma autonomia maior, conforme relatado pela mãe anfitriã. Dentre outras coisas, Amanda, que antes somente se locomovia dentro dos esquemas estabelecidos pela família, começou a usar o transporte público, fato improvável num casa. Muitas outras situações poderiam ser apontadas e pesquisas realizadas com essa perspectiva metodológica da coexistência entre discursos diferentes sobre a individualidade podem ajudar a esclarecer o quanto os regimes de poder, apesar de qualquer hegemonia vigente, oferecem oportunidades de deslocamento e variação.

        Em várias situações, no entanto, as tensões ora enfocadas atingiram momentos paroxísticos e produziram rupturas. Foi quando, no limite de suas capacidades para lidar com as diferenças que se colocavam, membros das famílias anfitriãs decidiram pela saída da/os intercambistas de suas casas ou intercambistas optaram pela saída do programa e o retorno ao seu país de origem. Analisando o quadro de sujeitos entrevistados e/ou observados na pesquisa, no Capítulo II, podemos perceber que de um total de vinte e dois intercambistas, quinze mudaram de família anfitriã pelo menos uma vez. Três intercambistas decidiram antecipar o fim de seus programas. Isso nos indica que, na experiência desses sujeitos, na maioria das vezes as tensões não puderam ser elaboradas e somente a separação real permitiu encontrar alívio para elas. Como se a distância das pessoas “estranhas” devolvesse os sujeitos à familiaridade com a qual estavam acostumados e aos sentidos estáveis já incorporados do contexto cultural de origem. Para certos sujeitos, então, a experiência de intercâmbio esbarrou em resistências poderosas e na impossibilidade das trocas. No entanto, observe-se que a maioria das/os intercambistas que mudaram de família anfitriã concluiu seus programas, o que nos permite supor um grau maior de tolerância e/ou uma familiaridade maior com os códigos locais.

        Mas, parece ser na tensão entre perspectivas mais englobantes ou mais individualistas que uma parte importante da experiência dos sujeitos se desenrola. Há, no entanto, algo de ordem variável também na recorrência que os indivíduos fazem ora de códigos relacionais hierarquizantes, ora de códigos individualistas. É esse movimento de tensão entre concepções diferentes de individualidade que, repercutindo sobre as relações de gênero e intergeracionais, parece, na experiência dos sujeitos estudados, concorrer tanto para a conservação de estados de dominação e suas respectivas relações de poder hierárquicas, ou impor resistências e deslocamentos capazes de oportunizar novos modos de relacionamento. Concluo dessas análises, sintonizado com Lia Machado (2002, p. 24), que ambos os códigos contêm seus paradoxos internos constitutivos. O código hierarquizante ao mesmo tempo em que legitima relações sociais violentas e assimétricas é também responsável pela legitimação de relações de reciprocidade e de uma responsabilidade do pertencimento a uma comunidade social. Isso parece se relacionar ao que intercambistas identificam como sendo um traço gregário das relações. E o sentimento de que, no final, viveram uma experiência positiva pareceu, em grande parte, referir-se a uma nova perspectiva descoberta no contexto local de se relacionar socialmente. O código individualista, por sua vez, implica a responsabilização e uma maior autonomização dos indivíduos, mas também a dessensibilização do indivíduo perante os outros e a diminuição das situações de compartilhamento. A realidade social, sempre mais complexa, se definirá pela forma como tais códigos são acionados e articulados em diferentes contextos pelos indivíduos.

        No presente trabalho, tratei de compreender como se dava a produção discursiva do gênero, da sexualidade e da individualidade nas relações entre jovens intercambistas e suas famílias anfitriãs, participantes de um programa de intercâmbio cultural em São Luís (MA).

        As análises dos discursos dos sujeitos da pesquisa nos revelaram o funcionamento, no âmbito de camadas médias da população, de um regime discursivo local, no qual homens e mulheres são socializadas/os segundo sentidos bem definidos do “ser homem” e do “ser mulher”. As relações de gênero são construídas no interior de uma matriz heteronormativa, cujas identidades carregam a característica da binariedade e da suplementaridade. A inteligibilidade social do gênero se produzia discursivamente pela correlação estrita entre gênero, sexo, desejo e práticas sexuais e as experiências situadas fora desse eixo de significação eram categorizadas negativamente, como no exemplo das identidades homossexuais. Essa construção de identidades ilegítimas revela o processo de abjeção pelo qual certas identidades são excluídas das zonas do socialmente aceitável para sustentar as identidades tidas como normais.

        Ao mesmo tempo, percebemos que o funcionamento desse regime discursivo não se mostrava sempre uniforme. Tanto membros das famílias anfitriãs, como, de forma mais recorrente, as/os intercambistas apresentaram resistências e questionamentos a sentidos hegemônicos veiculados nos discursos locais a propósito das relações e identidades de gênero. Se tais relações e identidades não eram fruto de nenhuma espécie de voluntarismo pelo qual os sujeitos decidissem livremente que normas incorporar e como fazê-lo, tampouco eram o efeito de um determinismo social irrestrito. Temos, assim, em ação um processo dinâmico e complexo que não é nem totalizante nem linear, e que guarda aberturas para a agência dos sujeitos, ainda que seja necessário reconhecer o peso que a hegemonia discursiva tem sobre os mesmos, induzindo a reprodução de certas práticas, a conformação de comportamentos, enfim, a incorporação de normas sociais historicamente construídas e em vigor num determinado regime político.

        Nesse contexto, ganha relevância a compreensão da noção de performatividade, proposta por Judith Butler, como mecanismo social de corporificação de normas através da antecipação e da reiteração. É exatamente o que nos permite perceber o caráter não-natural, artificialmente fabricado da construção do gênero e da sexualidade, mas Acredito ser bastante frutífera a realização de pesquisas sobre as diferenças sociais tendo-se como perspectiva a da performatividade. Ser homem, mulher, heterossexual, homossexual, jovem, adulta/o, indivíduo autônomo ou submisso

      • – dentre tantas outras categorias classificatórias da subjetividade
      • – não é efeito da exteriorização de uma natureza pré-definida cujo sentido seria fixo e estabelecido de uma vez por todas. A performatividade é o processo pelo qual esses sentidos vão sendo construídos, mas também deslocados, e o próprio corpo vai adquirindo seus contornos, fronteiras e feições. Se o disciplinamento rigoroso, o adestramento, o aperfeiçoamento técnico, a docilização do corpo apontam para o aspecto imperioso da normalização social, a performatividade implica a participação do sujeito em seu processo de normalização. A assunção de ideais normativos não se faz sem rasuras e sem descontinuidades e é nesse espaço que o desejo pode se insinuar para reorientar sentidos, como em algumas das situações descritas no trabalho.

        Uma das peculiaridades da pesquisa foi ter enfocado a convivência entre sujeitos provenientes de contextos culturais diferentes. A princípio, eu acreditava que essa

        

      localização fosse comparecer de forma recorrente nas falas dos sujeitos o que me pareceria

        implicar um trabalho sobre as categorias de identidades e culturas nacionais e sua repercussão na experiência de convivência em questão. No entanto, essas referências em termos de nacionalidade não se mostraram tão prevalentes, ainda que eu tenha claro que elas estavam, de alguma forma, presentes e mescladas a outras. Fica, no entanto, como questão aberta a ser trabalhada em futuras pesquisas. Assim, perspectivas eurocêntricas ou colonizadas, por exemplo, não foram discutidas no trabalho, a não ser de forma muito indireta. Por outro lado, diversos relatos e situações observadas revelaram um aspecto singular do objeto de investigação que, de fato, pareceu caracterizar bastante as perspectivas dos sujeitos estudados. Esse aspecto não foi, a princípio, ponderado e se mostrou como uma descoberta da pesquisa. Tratou-se do confronto entre concepções divergentes do indivíduo. Principalmente, as/os intercambistas, predominantemente europeus e, em especial, da Europa nórdica, traziam em seus discursos uma referência muito vigorosa e às vezes incisiva de uma ideologia individualista. O indivíduo era discursivamente promovido como a referência primeira e mais importante, como um valor quase sagrado, associado a uma demanda igualitarista também muito intensa. Essa referência estava presente na forma como as/os intercambistas concebiam seus programas de intercâmbio (como projetos bastante individualizados), na forma como se orientavam nas relações com as pessoas locais e também na maneira pela qual buscavam solucionar os conflitos que surgiam.

        Em geral, essa postura individualista, que se desdobrava em diferentes situações, produzia fortes incômodos em membros das famílias anfitriãs, que tinham a expectativa de que as/os intercambistas se comportassem em conformidade com padrões locais de relações entre pessoas adultas e jovens e entre homens e mulheres, por exemplo, padrões esses que impunham o reconhecimento de hierarquias e de certa prevalência de uma

        

      razão de grupo sobre os interesses individuais. As/os intercambistas, por sua vez, pareciam se

        sentir violentadas/os em sua individualidade e sentimento de autonomia por certas posturas das figuras de autoridade nas famílias anfitriãs e nas escolas e mesmo por parte de irmãs/ãos anfitriãs/ões: sugestões e ordens que deveriam ser meramente acatadas; admoestações em função de escolhas pessoais; controle da liberdade e exigência de pedidos de permissão dentre outros. Essa pareceu ser uma das principais razões para dissensos e conflitos na convivência entre os sujeitos.

        Ora, a concepção de que o indivíduo se localiza acima dos agrupamentos de que vem a fazer parte e a demanda igualitarista quanto a suas relações nos diversos contextos em que interage parecem induzir instabilidades em regimes hierárquicos, como os identificados nesses grupos locais de camadas médias. É dessa forma que, talvez, diversos comportamentos das/os intercambistas tenham sido sentidos como potencialmente desestabilizadores e mesmo afrontosos ou desrespeitosos. A própria reivindicação de diálogo ali onde ele não era geralmente praticado entre pai/mãe e filhas/os era, geralmente, já sentida como perturbadora.

        Tal conjuntura nos põe a pensar em até que ponto essa noção do indivíduo como valor preeminente e referência central, tal como produzida no dito “mundo ocidental desenvolvido”, como se expressa Lia Machado (2002), teria sido apropriada e elaborada no contexto da cultura brasileira e, em particular, da cultura local. Por outro lado, coloca-se a questão de como diferentes concepções sobre a individualidade podem se articular e repercutir sobre as relações sociais, com destaque aqui para as de gênero e as geracionais. Em outras palavras: em que extensão, as relações de gênero, por exemplo, teriam sua configuração e funcionamento condicionados pela forma como o indivíduo é concebido? Questão que deixo como instigadora para novos estudos.

        Uma palavra sobre o discurso. A perspectiva de não buscar sondar pretensas realidades objetivas, mas vislumbrar as regras que organizam as falas e a apreensão dessas realidades pelos sujeitos me parece potencialmente fértil no campo das ciências sociais. O estudo da prática discursiva, tal como destacada por Foucault, permite apreender como, ao falar sobre os objetos, os sujeitos de fato os constroem e os produzem. Dessa forma, conhecer e expor tais regras me parecem ensejar formas importantes de atuação política.

        Finalmente, destaco a percepção, enunciada por muitos dos sujeitos entrevistados e/ou observados de que, apesar de todos os desafios e dificuldades, a experiência de convivência que tiveram teria valido a pena e sido, em alguma extensão, transformadora de algumas de suas perspectivas. Ao lado das resistências e obstinações em função de normas e comportamentos longamente incorporados e performatizados, é possível vislumbrar, no encontro das diferenças, a produção de deslocamentos ou trocas de sentidos, como sugere o título do presente trabalho.

        Ao concluí-lo, fica claro para mim seu caráter de esforço, de tentativa, de exercício e o fato de que diversas questões permanecem abertas, enquanto outras não foram sequer tocadas. Uma preocupação

      • – com a transformação dos estados de dominação nas relações de poder, as de gênero em particular
      • – e uma crença – na teoria como transformadora – que partilho com Judith Butler, estiveram sempre presentes nesse percurso.

        [...] eu argumentarei que a teoria é ela própria transformadora, então vou colocar isso de saída. Mas deve-se também entender que eu não acho que a teoria seja suficiente para a transformação política e social. Algo além da teoria deve acontecer, tais como intervenções em níveis sociais e políticos que envolvam ações, trabalho sustentado e prática institucionalizada, que não são exatamente a mesma coisa que o exercício da teoria. Eu acrescentaria, no entanto, que em todas essas práticas, a 57 teoria é pressuposta (BUTLER, 2004, p. 204-5).

        Assim, como um ponto final me parece inadequado, deixo a questão: que tipo de teoria é capaz de induzir alguma transformação em contextos de convivência marcados por assimetrias, para que os sujeitos implicados possam transitar em outros sentidos?

        understand that I do not think theory is sufficient for social and political transformation. Something besides theory must take place, such as interventions at social and political levels that involve actions, sustained labor, and institutionalized practice, which are not quite the same as the exercise of theory. I would add, however,

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