Vinícius Renato Pompeo PERÓN E OS AMERICANOS: POLÍTICA EXTERNA DA ARGENTINA NO PRIMEIRO GOVERNO PERONISTA (1946-1951)

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Vinícius Renato Pompeo

PERÓN E OS AMERICANOS: POLÍTICA EXTERNA DA ARGENTINA NO PRIMEIRO GOVERNO PERONISTA (1946-1951)

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Vinícius Renato Pompeo

PERÓN E OS AMERICANOS: POLÍTICA EXTERNA DA ARGENTINA NO PRIMEIRO GOVERNO PERONISTA (1946-1951)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Historiador – Licenciatura Plena.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel

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Vinícius Renato Pompeo

PERÓN E OS AMERICANOS: POLÍTICA EXTERNA DA ARGENTINA NO PRIMEIRO GOVERNO PERONISTA (1946-1951)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para a obtenção do grau de Historiador – Licenciatura Plena.

________________________________________________________ Carlos Roberto da Rosa Rangel – Orientador (UNIFRA)

________________________________________________________ Lenir Cassel Agostini – (UNIFRA)

_________________________________________________________ Elisabeth Weber Medeiros – (UNIFRA)

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RESUMO:

A condução econômica do primeiro governo de Perón (1946-1951) fundamentou-se em uma política de distribuição de rendas, onde a valorização do trabalhador como ator político e agente de legitimação governamental, se sobrepôs aos interesses dos demais setores da sociedade argentina. A partir desse contexto, a pesquisa avaliou os conflitos e as aproximações que ocorreram entre os governos da Argentina e dos Estados Unidos da América, em função do projeto de desenvolvimento nacional proposto por Perón e suas equipes econômicas durante seu primeiro governo. O método foi o da pesquisa bibliográfica e os resultados apurados indicam que Perón fortaleceu as organizações trabalhistas utilizando emblemas como justiça social, adotando relacionamento direto com os sindicatos e ampliando as leis trabalhistas. Adotou uma política econômica nacionalista com a nacionalização de empresas estratégicas e incentivo à indústria por meio da substituição de importações. Entretanto, a configuração da nova ordem mundial nos anos do pós-guerra, as pressões externas lideradas pelos EUA e adoção da terceira posição por parte de Perón, acautelaram o nacionalismo econômico argentino. A sustentação de políticas de distribuição de rendas por longo período e a inflação decorrente da descapitalização em favor do consumo em massa de bens não duráveis, levou à crise econômica que acabou comprometendo a relação de apoio recíproco entre o governo Perón e os trabalhadores urbanos.

Palavras-chave: Perón; nacionalismo econômico; EUA

ABSTRACT

The economical conduction in Peron’s first government (1946-1951) was founded in a profit distribution politic, in which the worker valorization as a political actor and governmental legitimating agent, overlayed other Argentinean society sectors interests. Starting from this context, the research evaluated the conflicts and the approximations occurred between the Argentinean and the USA governments, due to the national development project proposed by Peron and his economical team in his first government. The method was the bibliographical research and the results founded out indicate that Peron have fortified the laborite organizations using emblems such as social justice, adopting direct relationship with the labor unions and amplifying the laborite laws. He have adopted a nationalist economic politic with the nationalization of strategic enterprises and incentive to the industry through importation substitution. However the new global order configuration, the external pressure, lead by the USA, and the adoption of the third position by Peron forewarn the Argentinean economic nationalism. The sustentation of profit distribution politics for long periods of time and the inflation due to the decapitalization in behalf of the mass consumption of non lasting goods, have led to the economic crisis that have endangered the mutual support relationship between the Peron government and the urban workers.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...6

2. POLITICA EXTERNA ARGENTINA (1930-1939) ...8

3. POLITICA INTERNA ARGENTINA ENTRE (1930-1945) ...12

4. BRADEN X PERÓN...14

5. A CHEGADA AO PODER ...20

6. POLITICA EXTERNA ARGENTINA NO MUNDO DO PÓS-GUERRA ...22

7. A CRISE INTERNA ...25

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...31

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1. INTRODUÇÃO

A presente monografia estuda os conflitos e as aproximações que ocorreram entre os governos da Argentina e Estados Unidos da América em função do projeto de desenvolvimento nacional proposto por Perón e suas equipes econômicas durante seu primeiro governo (1946 - 1951).

A temática envolve as relações internacionais entre Argentina e EUA, que serão analisadas historiograficamente, por meio de pesquisa bibliográfica. Deve-se destacar que é necessário aprofundar o entendimento sobre a situação diplomática argentina, logo após a II Guerra Mundial, pois isso facilita conhecer melhor o posicionamento político argentino que buscava garantir um espaço diplomático predominante na América Latina, com maior autonomia em relação aos EUA.

Quanto à pesquisa bibliográfica, os livros consultados são obras historiográficas, entre as quais se destaca Breve historia contemporánea de la Argentina, de Luíz Alberto Romero, na qual o autor disserta sobre a história argentina do período contemporâneo, mais especificamente entre 1916 e 1999, dando um tratamento todo especial às questões políticas e sociais. Ao longo da narrativa, ele demonstra de maneira simples, mas nem por isso superficial, os caminhos trilhados pelo povo argentino durante o século XX, suas experiências políticas, e mesmo seus momentos de grave crise.

Igualmente importante foi à obra Perón Y su tiempo, La Argentina era uma fiesta 1946-1949. – Tomo I, escrito por Félix Luna, que é dividida em dois volumes, sendo que para esta pesquisa trataremos do período tratado no TOMO I da obra, que se refere ao primeiro governo peronista (1946-1949). Trata-se de um trabalho singular de um renomado autor argentino e que, apesar de em alguns instantes o livro adotar uma abordagem historiográfica positivista, se torna interessante e importante por dois motivos básicos: primeiro por traçar uma cronologia que nos permite trabalhar melhor com a temporização do período e, segundo, por ser escrito por um ator que atuou em frentes estudantis contra o governo Perón naquele período.

Joseph A. Page, com a obra Perón, é mais uma das tantas biografias de Perón escrita ao longo dos anos depois de sua morte. Porém, o interessante dessa obra é o fato de ser escrita por um autor Estadunidense, que além de se debruçar sobre documentos e testemunhos argentinos, utilizou-se (e isto é de particular interesse desta pesquisa) de documentos do governo Americano, bem como de relatórios redigidos pela CIA.

O artigo, Juan Domingo Perón, do historiador peronista Fermín Chávez, foi de importante apoio a esta pesquisa, pois permitiu traçar um caminho na formação do então Coronel Perón, durante os anos precedentes a sua chegada ao governo, e nos anos em que foi a parte mais ativa na condução da politica interna do GOU.

Também foi usado o artigo, Rádio, populismo e cultura: Brasil e Argentina (1930-1955), de Dóris Fagundes Haussen, Professora Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, este artigo permitiu reconhecer algumas similaridades nos populismos brasileiro e argentino, de modo que possibilitou o delineamento de ações e posturas próprias do fenômeno populismo e não do caráter nacional.

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obviamente. As soluções encontradas apresentaram-se como sínteses das duas situações históricas contraditórias e caracterizaram a Argentina como um dos países latino-americanos que mais intensamente buscou alternativas de um desenvolvimento nacional autônomo em relação ao “apoio” econômico e tecnológico norte-americano

No que se refere a política externa argentina em relação aos EUA, destaca-se que a presente monografia terá uma abordagem contextualista, na qual a compreensão do todo antecede a análise das partes, de tal maneira que as partes só fazem sentido à medida que se compreende o todo envolvente.

Compreender as particularidades da Argentina em função das suas relações internacionais na década de 1940 é discutir também o conceito de populismo, de tal forma que se torna necessário compreender esse termo com maior cuidado. Nascido da nescessidade de designar uma série de movimentos políticos que tinham como personagem principal a ação do povo enquanto massa em oposição aos (ou ao lado dos) mecanismos de representação, próprios da democrácia representativa, e diferente do que muitas vezes se convenciona dizer, o populismo não é um movimento politíco de origem latino-americana, mas sim, um conjunto de práticas politícas que se formularam em diversos estados nacionais, onde a agitação politíca e o clamor social se faziam presentes.

Como exemplo, podemos citar o populismo russo no final do século XIX, onde se visava passar o poder politíco às comunas camponesas através de uma reforma agrária radical (a "partilha negra"), e até mesmo o populismo americano de origem Estadunidense, no mesmo período, que visava incentivar a pequena agricultura através de uma política monetária que favorecesse a expansão monetária e o crédito.

Porém, o termo populismo tornou-se mais conhecido por ilustrar alguns fenômenos políticos que se deflagram em países da América Latina, principalmente a partir dos anos 1930, estando diretamente associado ao processo de industrialização, urbanização e até mesmo devido ao clamor das massas na busca do rompimento das estruturas políticas oligárquicas, que durante décadas concentravam o poder político na mão de minorias rurais (WORSLEY, 1973).

A relação do populismo com as políticas nacionais de desenvolvimento tem a ver com o caráter normalmente nacionalista dos discursos dos líderes populistas, que contrapunham a economia nacional aos interesses estrangeiros no país. Contudo, figuras ilustrativas como Cárdenas no México, Perón na Argentina e Getúlio no Brasil não mantiveram uma política econômica plenamente nacionalista, mas desenvolveram negociações onde os mercados internos eram valorizados e a abertura ao capital internacional era medida por compensações por parte das economias em estágios mais avançados do capitalismo industrial.

Para compreender a Argentina desta época é preciso também ter a idéia de toda a situação política e social que se desenvolvia dentro do país, pois é impossível falar em Argentina na década de 1940 e não lembrar do populismo. Sabe-se que, dentro de uma perspectiva populista, havia a prioridade para a satisfação da necessidade de consumo de bens não duráveis, reprimida por décadas de carestia e aviltamento da capacidade de consumo dos grupos sociais subalternos da sociedade (a quem Perón chamava de “descamisados”). Sabe-se, igualmente, que tal política de pleno consumo e de Estado de Bem-Estar social traz como conseqüência imediata a inflação.

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altamente ligadas aos interesses das classes menos favorecidas como: justiça social, relações entre o trabalho e o capital, colaboração social, equilíbrio entre o individual e coletivo (Ianni, 1968).

Já numa outra visão o populismo é encarado como um movimento que “surge historicamente ligado a uma crise do discurso ideológico dominante que é, por sua vez, parte de uma crise social mais geral” (Laclau 1978, p. 182). Neste caso, esta crise pode originar-se como o resultado de uma cisão no bloco do poder, onde uma classe ou fração de uma classe tem como necessidade, para afirmar sua hegemonia, o apoio do povo contra a ideologia hora vigente em seu conjunto, de modo que o resultado de uma crise no sistema paralisa os setores dominados, significando uma crise do transformismo.

Com base no que foi escrito até aqui, nos subtítulos seguintes mostra-se como era o contexto internacional no qual a Argentina tinha de manobrar suas políticas econômicas e como os Estados Unidos da América procuraram intervir nas decisões do governo peronista durante os anos posteriores a segunda grande guerra mundial.

2. POLITICA EXTERNA ARGENTINA (1930-1939)

Os anos 1930 marcaram um período de tensões econômicas por todo mundo, tensões estas geradas pelos reflexos da crise de 1929 que abalou a economia. Porém, é importante entender como se deu a estabilização econômica desses países nos anos seguintes à crise, em especial o caso da Argentina, e como estava configurada sua balança comercial às vésperas da década de 1940, tendo em conta suas relações políticas e comerciais e principalmente suas relações de interdependência com países que tinham grande influência sobre a América Latina, tais como os Estados Unidos e o Reino Unido.

Na Europa, a partir da primeira metade da década de 1930, passaram a aflorar movimentos políticos de inspiração ultranacionalista, entre os quais se destacavam o fascismo (Itália) e o nazismo (Alemanha), que surgiram de um momento de acirramento ideológico com o comunismo internacional. A chegada ao poder desses novos regimes políticos e a reestruturação econômica de países já sabidamente hegemônicos como EUA e Reino Unido, despertou uma nova corrida por áreas de influência ao redor do globo, algo que lembrava muito as disputas imperialistas do século XIX. No entanto, as nações periféricas carentes de investimentos e relações comerciais com parceiros fortes, tiveram nesta corrida a possibilidade de estabelecer acordos econômicos e políticos favoráveis com àqueles países de sólida projeção internacional.

Um destes casos foi o ocorrido com a Argentina, que durante as duas primeiras décadas do século XX estabeleceu uma sucessão de acordos diplomáticos e comerciais, de cooperação econômica e investimentos, com a Europa e os Estados Unidos.

Estes tratados e acordos comerciais levaram ao estabelecimento de uma economia altamente ligada ao capital estrangeiro, exemplo disso é o fato de que, no fim da década de 1930, a economia argentina estava assim dividida: o setor ferroviário era quase que totalmente controlado por capitais britânicos; a situação do setor industrial não era menos problemática, considerando que 45% das indústrias eram de corporações estrangeiras, destacando-se a indústria automobilística de controle estadunidense, a de construção civil nas mãos das empresas alemãs e holandesas, bem como grupos suíços e norte-americanos no controle dos serviços públicos (PAGE, 1984, p.56).

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comercial favorável para a economia argentina, de modo a permitir o continuo desenvolvimento nacional sob o gerenciamento do governo nacional.

Mas, para isso, seria importante fortalecer a economia argentina com a garantia de mercados consumidores de carne e lã – produtos de destaque na balança comercial - o que acabou acontecendo com a nova situação mundial, quando a Alemanha invadiu a Polônia em 01 de setembro de 1939, dando início à Segunda Guerra Mundial com a conseqüente dependência de importação de alimentos para as forças armadas em combate.

Entretanto, enquanto a Argentina tinha de superar a realidade de uma economia quase estanque e um parque industrial sucateado ou sob controle externo, no hemisfério norte, os EUA reorganizavam-se após uma crise que deteriorou sua economia e deixou sua credibilidade de potência industrial abalada, pois a quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, foi apenas a culminância de uma série de problemas econômicos associados à grande depressão e à crise de superprodução na economia estadunidense.

Assim como para os países sul-americanos, os EUA tinham de reestruturar a economia e buscar novos mercados e áreas de influência econômica. Deve-se reconhecer que essa busca não era algo isolado ou atinente apenas aos países dos continentes americanos, mas era um propósito que impulsionava diversas nações neste período, como a Itália no seu esforço de expansão territorial já na metade da década de 1930, como as ações militares de Mussolini contra a Albânia e Etiópia.

Contudo, diferente das potências européias, os EUA preferiam manter a imagem de bom vizinho e buscar a conquista destas áreas de influencia através da barganha e de acordos político-comerciais. É bem conhecida a política intervencionista estadunidense advinda das práticas de relações internacionais que ficaram conhecidas como Big Stick e Gunboat Diplomacy, em relação aos seus vizinhos latino-americanos que viam essas ações e intervenções nada mais que uma tentativa de controle imperialista por parte do governo dos EUA, nada tendo de política de boa vizinhança ou de auxílio desinteressado para as nações pobres ou em desenvolvimento (PAGE, 1984 p. 8).

A década de 1930 foi um momento de graves transformações no mundo, compreendendo o inicio do conflito mundial que se alastrou por sete anos (1939-1945), que transformou o continente Europeu em escombros e nações inteiras tiveram que ser reconstruídas. As conseqüências geradas por este conflito global alteraram não apenas as relações entre os estados nacionais, mas também as condições de exercício do poder político e econômico no interior de cada país envolvido diretamente ou não no confronto.

Nas vésperas da década de 1940, a situação política e social nos EUA havia mudado e passado do quadro critico do inicio da década de 1930 para uma situação de equilíbrio econômico e político, que muitos creditaram à série de programas econômicos do então presidente Franklin Delano Roosevelt, sob o nome de New Deal (novo acordo). Tal programa consistia em ações protecionistas e altamente subsidiarias, as quais possibilitaram a abertura de postos de trabalho em diversas áreas, bem como a retomada do crescimento.

O ano de 1939 reservaria uma série de acontecimentos que mudariam a ordem mundial. A guerra que se iniciou na Europa neste ano era um reflexo direto do fortalecimento de regimes totalitários, somados à corrida por áreas de influência e ainda o sentimento revanchista ligado as experiências do tratado de Versalhes em 1918.

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política internacional estadunidense, que havia passado da neutralidade à liderança do bloco aliado, exercendo todo tipo de pressão para assegurar que seus vizinhos latinos não se aliassem ao bloco do eixo.

Os argentinos estavam distantes dos campos de batalha, mas viviam intensamente a realidade do conflito e estavam altamente vinculados comercialmente com ambos os lados em guerra, negociando matérias primas e materiais industrializados ligados à indústria frigorífica, combustível e metalúrgica tanto às nações do eixo, quanto aos aliados. A própria sociedade argentina estava altamente dividida por este período, aglutinando diversos sentimentos referentes ao que ocorria no mundo em guerra, havendo uma parcela da população que era pró-aliada e outra fatia que era neutralista, sem esquecer os militares do exército e algumas áreas empresariais que tinham o desejo de um alinhamento com as nações do eixo.

Tais questões, somadas à agitação política que aflorava na Argentina, em razão das novas eleições presidenciais, culminariam nos acontecimentos de 1943 (revolta militar), que instauraria uma nova ordem política e ideológica dentro do governo argentino, acirrando as ações diplomáticas estadunidenses na tentativa de evitar um alinhamento argentino com o eixo.

No entanto, enquanto na Europa homens lutavam por suas causas e nações, outros países, distantes dos campos de batalha europeus, viram no conflito que se desenrolava a sua chance de florescimento econômico, a exemplo da Argentina que vislumbrou uma oportunidade de crescer no cenário econômico mundial. Para tanto, o governo argentino manteve um caráter neutro durante o conflito, negociando com as diversas partes envolvidas na luta, vendendo produtos agrícolas e industriais. Porém, o real sentido deste posicionamento de neutralidade do governo de Buenos Aires pode ter uma explicação mais complexa que o simples interesse econômico.

Sabe-se que durante o século XIX os diferentes países sul-americanos passaram por uma reforma militar, que profissionalizou suas forças armadas aos moldes dos modernos exércitos europeus (ROUQUIÉ, 1984). Além disso, as próprias tensões existentes entre as diferentes nações européias levaram seus integrantes a buscar áreas de influência não só econômica como também de cooperação militar em diferentes partes do mundo. O acirramento das disputas e a própria Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), levaram franceses e alemães a colocar em prática esta política de “parcerias” com países em estágios mais atrasados de desenvolvimento econômico.

Quando as nações sul-americanas se viram diante da necessidade de modernização militar, seja estrutural ou administrativamente, Alemanha e França correram em seu apoio. Para tanto, os franceses - com uma larga história de cooperação e relacionamento com os países da América do Sul - levaram vantagem e firmaram parceiras com diversos países, inclusive com o Brasil, enquanto a Alemanha lutou politicamente e firmou tratados de cooperação militar apenas com a Argentina e o Chile (ROUQUIÉ, 1984, p. 91-121).

Com isso, o exército argentino tornou-se um espelho do militarismo alemão, o que por sua vez gerou um sentimento de identificação com o regime político alemão por parte do alto comando argentino. Somando-se isso ao fato de que os altos membros do exército, neste período, eram também influentes políticos ou membros importantes da sociedade, percebe-se a natural simpatia que se estabeleceu entre setores dirigentes argentinos e a Alemanha (POTASH, 1981).

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da sigla por eles adotada. O GOU era, na verdade, a reunião de um grupo de oficiais que desejam a moralização da política argentina e a implantação de um projeto de modernização das forças armadas. Tal fim é destacado por autores como o historiador peronista Fermín Chávez, que chegou a afirmar que o real significado desta sigla seria Grupo Obra de Unificación, muito mais condizente com as aspirações ultranacionalistas dos militares daquele período (CHÁVEZ, 1996).

O caráter ultranacionalista do grupo, bem como sua constituição, estiveram ligados à condução da política nacional e a postura do exército frente à guerra na Europa, especialmente durante os levantes militares no ano de 1943. Com a decisão do presidente Castillo (1942-1943) de apoiar a candidatura de Patrón Costas à presidência argentina e com a crescente afeição deste candidato com a causa aliada, os militares liderados por Urbano Vega, Miguel Monte e Juan Perón, que tinham uma opinião de neutralidade em relação à participação argentina na guerra, decidiram agir em nome do nacionalismo e do bem estar geral da pátria e do exército (PAGE, 1984, 62-63).

Porém, não se pode confundir os interesses deste grupo de pressão com o puro nacionalismo ufanista, pois muito embora não defendessem a participação no conflito mundial e combatessem setores internos como “políticos entreguistas” diante das usurpações do capitalismo estrangeiro, a postura do grupo era, também, um modo de controle do rumo político da nação, já que as decisões eram centradas nos interesses e aspirações de um grupo seleto de militares de alta hierarquia que protagonizavam golpes militares sobre os dirigentes civis desde 1929.

A despeito da escalada ao poder, após o golpe de estado de setembro de 1943, os militares mantiveram um caráter neutro em relação ao conflito mundial que se desenrolava em vários territórios do mundo. Essa atitude possibilitou a continuação do comércio com as diferentes nações, sendo que um de seus principais parceiros econômicos era a Inglaterra, que comprava produtos agrícolas e minerais e investia em bens duráveis no território argentino, como a instalação de ferrovias e frigoríficos, além da exploração do carvão.

As relações diplomáticas com o Reino Unido era realidade consagrada de tal maneira que às vésperas da década de 1940, este havia se tornado o maior parceiro econômico da Argentina. Porém, a eclosão da Segunda Grande Guerra e a divisão do mundo entre aliados e países do eixo, assim como o conseqüente delineamento das realidades nacionais durante a guerra, exigia o posicionamento das nações neutras, mas que mantinham relações econômicas com os países em conflito. Por sua vez, o governo de Buenos Aires mantinha uma postura de extrema neutralidade, vendendo aço, carvão e principalmente carne e outros gêneros alimentícios tanto aos aliados quanto à Alemanha nazista.

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3. POLITICA INTERNA ARGENTINA ENTRE 1930 E 1945

As tensões internacionais eram apenas um componente da agitação social em que estava mergulhada a sociedade argentina, em razão da própria situação política interna que vinha agitada desde os primeiros anos da década de 1930. A situação de anormalidade e decadência das instituições democráticas, em virtude dos golpes militares, fez com que o historiador José Luis Torres desse o nome de década infame para seu livro publicado em 1945 que analisava esse período no qual os civis, especialmente os integrante da União Cívica Radical, tiveram suas posições de poder comprometidas pela intervenção de forças políticas conservadoras associadas aos militares.

A Argentina nestes anos da década infame sofreu com inúmeros movimentos, ora civis e ora militares, que visavam subverter a ordem política vigente, enquanto em outro plano a classe política dirigente usava de fraudes eleitorais e corrupção generalizada para perpetuar sua estadia no poder. Foi neste ambiente de efervescência política e social que se sucedeu uma série de acordos econômicos entre Buenos Aires e Londres, dentro de uma política de substituição das importações.

No entanto, no campo político, a década infame se inicia com o golpe de estado liderado por Uriburu, contra o governo de Yrigoyen, que foi destituído de seu cargo e assistiu a instauração de um regime militar em 06 de setembro de 1930. Quatro dias mais tarde, Uriburu foi declarado presidente de fato da nação e suas primeiras medidas na presidência foram a dissolução do congresso, a declaração do estado de sitio em todo país e a colocação do exército nas ruas de todas as províncias, o que deu inicio a um governo de aspiração fascista e caráter elitista, admirado por muitos militares de alta patente do exército argentino (ROMERO, 2006, 70-72).

Seu governo foi ainda mais longe. Uriburu ordenou perseguições violentas contra seus opositores, inclusive o uso de tortura, sempre levados a feito por uma divisão especial da policia federal argentina, especialmente criada para este fim. Outra ação importante foi em relação às universidades e jornais, onde foi adotada a censura e se revogou os regimes de auto-gestão acadêmicos.

Em 1931, convocou eleições na província de Buenos Aires, mas assim que soube da vitória da Unión Cívica Radical declarou anulada a eleição e, sabendo do risco de nova derrota nas urnas, Uriburu proibiu a candidatura de radicalistas e organizou um sistema eleitoral publicamente reconhecido como fraudulento, o qual recebeu dos próprios militares a denominação de “fraude patriótica”, já que estes consideravam estar fazendo o bem maior para a nação, favorecendo o candidato governista General Augustín Justo, que chegou ao poder em 1932 e permaneceu até 1938.

No governo de Justo, a Argentina sofreria uma mudança de rumo em sua política interna e economia, haja vista que através de negociações e medidas administrativas, criou uma série de instituições governamentais que visavam o controle direto do Estado sobre a economia nacional. Entre estas instituições estavam as juntas nacionais de grãos e carnes, que visavam regulamentar e controlar os dois mais importantes setores econômicos do país.

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Por este período, a economia argentina estava quase que totalmente atrelada ao governo, que desta forma podia assegurar os direitos e o cumprimento dos tratados internacionais firmados principalmente com o Reino Unido. Porém, a situação política estava complicada, já que a CGT (Confederación General del Trabajo), que fazia oposição direta a esses acordos do governo Justo, havia convocado, no ano de 1936, uma série de protestos que reuniram representantes de todos os partidos de oposição, união que ocorria pela primeira vez em um período de quatro anos, demonstrando a força da oposição (ROMERO, 2006, 73-75).

Estes protestos somados à reestruturação dos partidos de oposição permitiram a ação política das províncias de Santa Fé, Buenos Aires e Mendonza em benefício da candidatura do radicalista anti-personalista Roberto M. Ortiz (1938-1940), que, com este apoio, sagrou-se vencedor nas eleições e passou a governar a nação no ano de 1938.

Ortiz em seu governo tentou estruturar um caminho democrático para a política argentina, porém não teve sucesso, pois suas ações esbarravam na oposição cerrada de membros do exército. Ortiz tentou também manter um dialogo mais direto com os diferentes grupos sociais de trabalhadores, principalmente os ferroviários, a quem tentou transformar em uma base de apoio sólida para sua política (ROMERO, 2006, 84).

Mas nenhuma ação do governo Ortiz foi tão controversa quanto a Circular Secreta Antisemitista, que previa a proibição da concessão de visto para imigrantes europeus de origem judaica que quisessem rumar para a Argentina, algo que teve similaridade no governo brasileiro de Getulio Vargas, e que dava margem aos seus opositores para levantar suspeitas sobre uma possível inspiração fascista no governo Ortiz.

A parte disto, a situação política complicar-se-ia novamente quando Ortiz caiu enfermo devido à diabetes, que além de deteriorar sua saúde e deixá-lo completamente cego, obrigou Ortiz a renunciar à presidência em favor de seu vice, Ramón Castillo (1939-1943), antigo governante da província de Tucumán, durante a ditadura de Uriburu.

Em seu governo, Castillo manteria uma postura autoritária e nacionalista, de modo que nacionalizou inúmeras indústrias e empresas de detenção estrangeira como o caso da companhia de gás que estava sob controle inglês, além de revogar concessões a alguns órgãos internacionais, como o caso do controlador francês do porto de Rosário. Na política externa, manteve a mesma conduta de Ortiz, continuando com a posição de neutralidade em relação a Segunda Guerra Mundial que se desenvolvia na Europa. Seu governo chegaria ao fim no dia 4 de junho de 1943, quando um golpe militar liderado por militares de alta patente do exército argentino o depuseram e colocaram em seu lugar o general Arturo Rawson.

O golpe de 1943 é marcado por peculiaridades, já que ao contrário de outras ações de mesmo caráter que ocorreram na Argentina, não teve uma preparação de grande porte, foi feito às pressas, visando impossibilitar a eleição de Patrón Costa à presidência através de fraudes eleitorais dirigidas por Castillo, e mesmo buscando evitar um alinhamento argentino com os aliados na segunda grande guerra.

O interessante, no entanto, é constatar que de inicio a classe política e mesmo a sociedade em geral apoiaram o golpe, sendo que a única oposição veio do Partido Comunista, eterno desafeto da classe militar argentina. Enquanto isso, no exterior, as reações ao golpe eram no mínimo estranhas naquele contexto de luta contra o fascismo e em favor da democracia. Os EUA e a Inglaterra apoiaram o golpe, que tinha justamente o propósito de evitar o alinhamento com a causa aliada na guerra. Vale acrescentar que o governo alemão tão logo soube dos preparativos do golpe de 1943 ordenou a queima de todos os seus documentos na embaixada em Buenos Aires, temendo que os militares se alinhassem aos EUA (KELLY, 1962, 32-34).

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sofreram perseguições violentas. Logo depois, intervieram na CGT, que estava, neste período, dividida entre facções de inspiração classista e os religiosos integristas, que deram ao sindicalismo um caráter messiânico, antiliberal e de busca de uma nova ordem social e política para o país. Estas idéias e ações governamentais permitiram aos oposicionistas identificar o regime golpista de Rawson com os totalitarismos que se desenvolviam na Europa e mais precisamente com o nazismo (ROMERO, 2006, 98).

Porém, um dos mais importantes atores políticos deste período seria justamente a CGT um órgão sindical, criado em 1931 com intuito de agregar um poder sindical unitário. Era formado na sua maioria por socialistas (e assim foi até 1945), mas também possuía grande participação de sindicalistas revolucionários e comunistas, além de pessoas ligadas às empresas privadas que tinham a função de mediar às discussões entre patrões e obreros.

Durante a década infame (anos 1930), a CGT ganhou força e tornou-se a maior e mais poderosa instituição opositora ao governo, já que os movimentos anarquistas perderam força e em muitos casos se dispersaram ao longo dos anos. Neste período, o principal sustentáculo do poder da CGT eram os sindicatos ligados ao setor ferroviário, que crescia rapidamente devido às modernizações advindas dos investimentos de empresas inglesas no setor ferroviário argentino, que necessitavam uma maior demanda de mão-de-obra e conseqüentemente se refletia em um aumento nos registros sindicais da classe ferroviária.

Em 1943, com o golpe militar, a CGT se viu diante de um dilema: apoiar ou não um governo não democrático. Essa dúvida se justificava porque, com o passar do tempo, a CGT passou a simpatizar com as políticas econômicas nacionalistas do militares e principalmente com o discurso do então ministro do trabalho, Juan Domingo Perón, que discursava em favor do direito dos trabalhadores e contra a usurpação dos patrões.

Perón na busca do apoio irrestrito por parte da CGT estabeleceu diálogos a cerca de uma aliança entre militares e sindicatos, em troca da aceitação de uma série de leis laborais, que a muito vinham sendo reivindicadas pelo movimento obreiro, como o fortalecimento dos sindicatos, concessão de aposentadorias e aumento da oferta de trabalho (LUNA, 1984).

As mudanças na sociedade argentina levariam ao surgimento de uma nova disputa política, onde o movimento obrero apoiaria diretamente Perón e a oposição encontraria no estrangeiro um adversário a altura do coronel.

4. BRADEN X PERÓN

As eleições de 24 de fevereiro de 1946 conduziram Juan Perón ao poder, em virtude de seu apoio às causas sociais. Tendo concorrido como candidato à presidência pelo Partido Laborista (trabalhista), Perón tinha a seu lado um candidato a vice de origem radical, da dissidente Junta Renovadora. A proximidade das eleições trouxe um grande clima de agitação política na Argentina com os diferentes grupos políticos manobrando na busca da garantia de seus interesses.

De tal forma que a Argentina assistiu uma polarização de forças políticas, que agregavam em suas fileiras membros diretamente interessados no que se seguiria a vitória de seus respectivos candidatos. Para tanto, os grupos políticos estavam assim divididos e apoiados: de um lado, os Peronistas que contavam com o apoio da CGT, a qual vislumbrava o aumento do poder da classe sindical e os grupos radicais de origem yrigoyenistas que simpatizavam com a política trabalhista de Perón (PAGE, 1984, P 113-117).

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(União Cívica Radical), Forja, Junta Renovadora, e também apoio internacional. A União Democrática contava com a simpatia do partido comunista, eterno desafeto dos militares e também dos partidos socialista e UCR (União Cívica Radical), além dos Democratas sempre contrários aos governos originados no golpe de 1943 e finalmente do governador da província de Bueno Aires.

Além da oposição interna, Perón e seus simpatizantes tinham de enfrentar uma poderosa força externa que era os EUA, por meio das ações do então embaixador Estadunidense em Buenos Aires, Spruille Braden, que assim como o seu governo central em Washington, compartilhava uma visão de consternação frente aos discursos peronistas da criação de uma nación en armas, o que fazia a diplomacia norte-americana temer a criação de um estado totalitário na Argentina, sob inspiração fascista, o que dificultaria sua ação política na América Latina.

No entanto, os 56% dos votos conquistados por Perón de maneira democrática nas urnas, o tornou presidente de fato da nação e tão logo foi empossado tratou de organizar e consolidar as bases de seu governo, bem como do seu poder pessoal. Para isso, dissolveu o partido laborista e o integrou ao novo Partido Único de La Revolución, mais tarde conhecido como peronista.

Este novo partido foi composto por três segmentos da sociedade argentina, que eram o sindical, o qual tinha origem na CGT e que por sua vez era a única instituição deste tipo permitida e reconhecida pelo governo, o segundo segmento era formado por políticos tradicionais que haviam sido seduzidos pelo discurso de Perón, e posteriormente, a partir de 1952, com a aprovação do sufrágio feminino, as mulheres tornaram-se importante segmento social de apoio aos peronistas.

Porém, a oposição a Perón se fazia forte dentro da Argentina, a exemplo dos grupos estudantis se rebelando contra a sua política obreira e organizando manifestações que agitavam a opinião pública. Entre estes atos estudantis estavam as pichações que estampavam o slogan libros sí, alpargatas no, num claro desafio ao governo que pregava justamente o inverso.

Os gritos estudantis pelo fim da ditadura das alpargatas levou Perón a intervir nas universidades de modo a controlar agitação advinda desta área da sociedade. Para conter tais ações estudantis, Perón passou a nomear pessoas diretamente ligados ao seu governo para reger estes espaços acadêmicos e, em casos mais extremos, ordenou o fechamento de universidades por longos períodos como as universidades de Córdoba, UBA, La Plata, Cuyo, Litoral y Tucumán (WEISS, 2005, P 42-45).

Entretanto, era necessário para a consolidação do discurso de Perón que houvesse um desenvolvimento nacional de caráter industrial, trazendo assim o tão esperado crescimento econômico e possibilitando a ascensão de classes obreras dentro da sociedade argentina. Para isso, seria necessária a formulação de uma ação conjunta entre governo e classe empresarial, sendo que esta última há muito se manifestava descontente e mesmo fortemente oposicionista ao governo de Perón, devido as suas políticas trabalhistas e o fortalecimento dos sindicatos, ações contrarias aos interesses da classe patronal.

Porém, é importante compreender que havia dois grupos patronais de caráter distinto dentro da Argentina daquela época. Um setor ligado às grandes indústrias e empresas estrangeira, que era composta em grande parte por pessoal enviado do país de origem da empresa, visando salvaguardar os interesses diretos do empregador estrangeiro. Além deste setor anti-peronista, havia um grupo mais suscetível às ações sedutoras de Perón em relação aos interesses dos empresários argentinos.

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uma economia nacionalizada e não mais refém do capital estrangeiro, de tal maneira que seria aumentada a participação do capital nacional ou seria promovida a proteção do mercado interno de consumidores.

Desta maneira, de um lado o discurso nacionalista de Perón, em relação à indústria nacional, atraia a burguesia argentina, por outro, afastava de seu governo as grandes corporações de origem estrangeira, situação que trazia o risco de fuga de receita interna e um déficit na balança comercial argentina, devido à queda nas exportações e uma falta de credibilidade internacional em relação ao governo peronista (TORRE, 1990).

Mas Perón havia alcançado seu objetivo principal, que era de consolidar uma base de apoio mista de patrões e obreros, com os quais pudesse estabelecer acordos e acomodações de interesses de ambos os grupos de pressão.

Deve-se reconhecer, no entanto, a dificuldade de compreensão da real composição do movimento obreiro, pois no contexto argentino do peronismo não se deve imaginar que era homogêneo. O movimento obreiro argentino, ocorrido nas décadas de 1930 e 1940, era inicialmente urbano, composto de trabalhadores ligados às indústrias já instaladas na Argentina nesta época. Esta massa de trabalhadores urbanos já estava organizada sindicalmente desde a fundação da Unión Tipográfica em 1877, o que nos permite inferir que esta parcela do movimento obreiro já possuía um nível de politização e consciência de classe bastante desenvolvidos.

Por outro lado, o rompimento com o caráter oligárquico da sociedade argentina, e a suplantação do modelo agrário de economia, e a conseqüente transição para o capitalismo industrial a partir da metade da década de 1930, fez surgir uma crise agrária e a instauração de uma migração interna dentro da Argentina. Sendo assim, os antigos produtores rurais de pequeno e médio porte tornaram-se mais dependentes do novo modelo político-econômico nacional que foi ganhando forma desde o colapso do governo radical de Yrigoyen e a implantação do governo militar de Uriburu (1929-1932).

Para essa massa de trabalhadores rurais, a saída foi deixar as províncias do interior e rumar para os grandes centros econômicos como Buenos Aires e Córdoba. A chegada desta massa de trabalhadores desorientados nas grandes cidades transformou-os em destinatários preferenciais dos enunciados do discurso populista de Perón, que parecia abraçar esta massa de trabalhadores bem como suas reivindicações (GERMANI, 1973).

Essa nova classe de trabalhadores que deixou o campo e se fixou nas cidades, tornar-se-ia a mão de obra necessária para o novo modelo de expansão industrial argentino. Esse grupo de migrantes tinha fraca mobilização política, como setor social com demandas e características exclusivas, e sua maior participação no cenário político nacional estava associada à orientação eleitoral dos setores econômicos dominantes do interior da Argentina, ligados a uma política oligárquica de currais eleitorais (RODRIGUES, 1970).

No entanto, em meados dos anos 1930, com sua chegada ao cenário urbano argentino (o que remete para a tese de Ianni sobre o conceito e as características do populismo), esta massa tornou-se o principal incremento na força de trabalho industrial e também no grupo trabalhador mais numeroso na Argentina.

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peronismo (atrasados politicamente) e os que se mantiveram fiéis aos pressupostos socialistas ou comunistas de luta social (mais desenvolvidos politicamente).

Contudo, admite-se que esses operários novos tornaram-se receptores atentos do discurso populista de Perón, conforme se pode verificar pela crescente filiação destes trabalhadores às agremiações e sindicatos ligados à CGT, o que acabou por fortalecer a sua participação na política peronista. O impacto do discurso populista de Perón foi mesmo de grande amplitude, pois além dessa dispersão no meio dos recém ingressos nos grandes centros urbanos (Buenos Aires, sobretudo) houve a dissensão de várias organizações operárias que também se tornaram simpáticos à política peronista e trouxeram consigo muitos militantes socialistas, comunistas e nacionalista para as fileiras do peronismo (MURMIS & PORTANTIERO, 1987, P. 60).

Portanto, estes novos operários passaram às fileiras do peronismo por dois motivos básicos, um deles foi a oportunidade de verem seus anseios atendidos por um governo que barganhava a garantia de alguns direitos trabalhistas por manifestações de apoio irrestrito às iniciativas peronistas, e o outro foi o colapso do sistema político tradicional que se esgotou na sua capacidade de controle social, dando origem a um relacionamento direto entre líder e as massas.

Embora essas duas idéias não sejam totalmente descartáveis, reconhece-se que a relação não foi de pura manipulação e alienação de uma parte e a total falência da capacidade de negociação e acomodamento das elites políticas de outra parte, mas de uma cultura política que implica em avanços democráticos e sócio-econômicos que garantiram a articulação do Estado com a sociedade civil. Isto trás a estranha impressão de uma ação oportunista do peronismo em relação aos trabalhadores urbanos, mas tratava-se apenas de uma corrida por uma conquista de base de apoio forte e sólida dentro de um ambiente de agitação política generalizada (RIVERA, 1998).

Perón conquistou uma base de apoio político, vinculada à força de interpelação do seu discurso em favor dos menos favorecidos, fazendo reverter o isolamento político que manteve esses grupos na clausura política e econômica por décadas, devido às relações oligárquicas e depois corruptas e entreguistas da política argentina. Essa base seria formada por trabalhadores ligados às diversas correntes sindicais e por patrões adeptos do nacionalismo econômico.

Entende-se por nacionalismo econômico estratégias desenvolvidas pelos Estados Nacionais no sentido de obter o desenvolvimento econômico com bases de apoio do empresariado nacional, valendo-se do mercado consumidor e da poupança acumulada por uma balança de comércio internacional favorável, conforme se demonstrará no caso argentino sob o comando de Perón, ao longo desta monografia.

Contudo, consolidada a base interna, Perón iria se deparar com a pressão internacional, ligada a sua política nacionalista que ameaçava os interesses políticos e principalmente econômicos de diversas empresas transnacionais instaladas no interior do território argentino.

Por mais que os partidos políticos argentinos estivessem montando planos de ação conjuntos pra enfrentar a política peronista, na tentativa de evitar sua vitória nas eleições de 1946, esses grupos da política argentina careciam de alguém que personificasse esta luta direta e real contra Perón.

Quando em 9 de abril de 1945, Argentina e Estado Unidos restabeleceram relações diplomáticas após um período de rompimento devido a posição neutralista da diplomacia argentina, frente à grande guerra, estava iniciando também um novo capitulo na política argentina.

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estabelecimento de relações políticas e comerciais de comum interesse com o governo argentino. Porém a própria orientação política de Braden, que somado a sua juventude vivida no Chile, nutria uma séria antipatia frente à política e o estado argentino (PAGE, 1984, P.119).

No entanto a morte do presidente Roosevelt e a ascensão de Trumam ao poder nos Estados Unidos, trouxeram um novo pensamento em relação as políticas frente à America latina. De tal forma Truman que enviou uma missão diplomática, sem consultar o embaixador Braden, com o intuito de estabelecer laços comerciais e de cooperação militar entre EUA e Argentina o que por sua vez era muito cobiçado pelo governo de Buenos Aires.

Porém Braden deixou claro a seu departamento de estado que considerava a possibilidade de tais acordos como um erro, e que não haveria nenhum acordo com a Argentina sem sua aprovação (um claro exemplo da força política de Braden na política externa estadunidense). Sua participação política se dava de maneira agressiva, era um patriota convicto, defendia os interesses dos EUA com unhas e dentes, bem como quando reconhecia erros nas ações de seus compatriotas exigia uma correção, foi assim com a Pan AM na Colômbia pouco antes de ir para a Argentina, onde exigiu que a companhia aérea estadunidense demitisse seus pilotos alemães, por dizer que entre eles haviam nazistas fugidos da Alemanha no final do conflito mundial. (Revista TIME,10-11-1945).

Em relação à Argentina, o principal argumento de Braden era o caráter autoritário e pró-facista do governo peronista. O embaixador americano era um firme defensor da liberdade de imprensa e expressão e não suportava a ação do governo militar argentino na busca de censurar estas duas premissas da democracia. Além disso, o representante do governo de Washington em Buenos Aires personificava em Perón toda a sua revolta contra o regime político argentino. Tal fato é comprovado pelo conteúdo de uma carta por ele enviada ao seu departamento de estado onde citava Perón como o principal líder político argentino, usando ainda termos como “controle fascista” e “nazis” para caracterizar o governo vigente, além de falar em uma “eliminação de Perón e dos militares” como caminho para que uma “democracia razoavelmente efetiva” pudesse ser estabelecida na Argentina (PAGE, 1984, p.115-122).

Pouco depois de sua chegada a Buenos Aires e de fazer discursos contra o governo argentino, Braden deu uma entrevista aos jornalistas locais e estrangeiros, onde foi questionada a política estadunidense de não intervir na política interna de outras nações (um claro questionamento a sua postura frente à realidade argentina), ao qual Bradem respondeu que, no entanto, era responsabilidade do departamento de estado e do governo dos EUA garantir governos democráticos e representativos que tivessem como premissa a liberdade de imprensa, assembléia e expressão em todo o continente americano. Disse ainda, que os EUA não haviam dado a vida de seus jovens na luta contra os regimes totalitários para, após vencerem, usar apenas o apelo verbal contra possíveis novos regimes deste caráter (PAGE, 1984, p.115-122).

Com tal discurso Bradem ganhou a simpatia de quase a totalidade dos jornalistas, que viam nele um defensor direto de sua classe. No entanto, o acontecimento mais controverso que ocorreu por esta época foi o encontro entre Braden e o então vice-presidente, coronel Perón, os quais conversaram sobre a necessidade argentina de receber material militar dos EUA nos termos do tratado firmado pela missão diplomática enviada por Truman e que ficou conhecida como missão Warren.

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premissas muito mal apresentadas na Argentina, o que era muito mau visto no cenário internacional.

A pressão de Braden surtiu resultado, pois algum tempo depois o governo de Washington deixou claro que nenhum tipo de apoio seria ofertado à Argentina até que o Regime do então presidente Farrel levasse adiante os termos do tratado de Chapultepec, principalmente quanto ao estabelecimento de eleições democráticas.

Com o passar do tempo as relações entre Braden e Perón tornaram-se mais antagônicas, o que fez emergir uma disputa política direta entre ambos, por meio da qual Perón se intitulava o defensor do povo e da pátria, descevendo Braden como um usurpador estrangeiro, representante da antiga oligarquia, formada de empresários imigrantes e por ricos produtores rurais.

Por outro lado, Braden reuniu em torno de si toda a liderança política anti-peronista feito aglutinador que há muito tempo era perseguido por forças de esquerda na Argentina sem sucesso, de tal maneira que essa disputa direta entre Perón e Braden, passou a movimentar inúmeras forças políticas dentro da Argentina.

Exemplar da formação do grupo social simpático ao posicionamento de Spruille Braden foi a iniciativa da Associação dos Produtores Rurais, órgão ligado aos ricos proprietários, que fortaleceu em muito a campanha do embaixador dos EUA contra o então vice-presidente Perón, o que acabou sendo somado aos manifestos da classe comercial em 15 de Junho de 1945 que se manifestavam contrários ao clima de agitação política gerado pelos últimos pronunciamentos de Perón (La Prensa y La nación, 16/06/1945).

Esse fortalecimento ao movimento anti-peronista, que se assistiu neste período, claramente despertou a atenção de Perón, que rapidamente tomou a providência de dirigir-se a sua base de apoio onde discursou sobre o risco externo e a necessidade do povo argentino se mobilizar contra essa união do interesse político externo com o interesse dos grupos dirigentes da economia nacional, destacando o suposto caráter entreguista e de valorização do lucro em detrimento do desenvolvimento nacional.

Com a necessidade de fortalecer ainda mais sua base de apoio político, Perón rapidamente articulou uma aliança com a igreja católica, o que lhe aproximou ainda mais dos grupos campesinos e da parcela da população que vivia na pobreza extrema. Essa aliança entre Perón e a igreja serviu como um fator legitimador da sua causa trabalhista e deu um caráter ainda mais messiânico a sua política (SCENNA, 1974, p. 25-46).

Depois de consolidado esse apoio, Perón passou a atacar Braden de maneira direta, dando idéia de que a disputa política na Argentina se resumia a uma disputa direta entre ele (Perón) e Braden, onde se lia nas entrelinhas algo como, nação e mudança social contra o entreguismo e a manutenção da ordem política e econômica de caráter elitista que se perpetuou por décadas no país.

A partir desta época, era comum ouvir ultranacionalistas vinculados a Perón bradarem gritos de “morte a Braden”, ou mesmo chamarem a ele de porco yankee, fossem em manifestações publicas ou mesmo nas conversas de rua. Por outro lado, os apoiadores do embaixador estadunidense se utilizavam de palavras como “viva a liberdade”, “viva a democracia” e “viva Braden”, em contraponto aos manifestos peronistas (Revista TIME, 06/08/1945).

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Porém o grande prestígio de Spruille Braden acabou servindo mais a Perón do que aos seus opositores. O Embaixador foi nomeado secretario de estado em substituição a Rockfeller, o que exigia o retorno de Braden a Washington para desempenhar esta tarefa. Braden, entretanto, antes de deixar Buenos Aires, fez um discurso aos seus apoiadores, quando citou a importância da luta continua pela democracia e pela liberdade e direitos individuais, e garantiu, ainda, que mesmo longe não deixaria de lado a árdua tarefa de lutar por um governo justo e democrático em todos os confins do continente e principalmente na Argentina (LUNA, 1984, p 132-35).

A retirada física de Braden do cenário político argentino enfraqueceu a oposição a Perón, que perdeu muito de seu apelo político e força organizacional, haja vista que os grupos anti-regime só conseguiram se agrupar como bloco político com a orientação de Braden. Já para Perón, este foi o momento de articular suas alianças e solidificar seu discurso político baseado nas necessidades da classe trabalhadora e no desenvolvimentismo nacional, como forma de ascensão econômica e social para os grupos até então marginalizados da sociedade

Além disso, Perón usava ainda a imagem de Braden como grande presença estrangeira na condução da política de seus opositores, afinal o inimigo externo sempre foi um grande elemento capaz de forjar um espírito nacionalista no povo, e essa estratégia era importante na retórica peronista (PAGE, 1984, P.126-128).

Através dessa relação próxima com os grupos sociais mais numerosos da sociedade argentina, Perón estava seguro da legitimidade de suas convicções e sabia que a chance de alcançar o poder era grande, porém ainda teria de superar duros percalços na corrida para a Presidência de República.

Esse contexto adverso ficou claro com seu afastamento do governo e sua posterior prisão por militares que não viam com bons olhos sua aproximação com as classes mais populares. Como resposta a esse afastamento forçado da vida pública do país, as organizações de apoio a Perón organizaram uma manifestação pública histórica na Praça de Maio, no dia 17 de outubro, após a sua libertação por parte do regime militar.

A concentração de milhares de pessoas em apoio à candidatura de Perón demonstrou aos opositores que não havia como evitar o confronto eleitoral por meios golpistas e que, diante da opinião pública, estabelecia-se o antagonismo entre as antigas oligarquias associadas ao militarismo e a moderna democracia com um partido de massas agregando a maioria da população do país.

Com todos esses acontecimentos a seu favor, Perón lançou sua candidatura oficial à Presidência da Republica, o que promoveu grandes manifestos de seus apoiadores em favor de sua candidatura, mas também de seus opositores, que se dirigiam contra sua presença na corrida eleitoral, alcunhando Perón como “fantoche da ditadura”.

No entanto, independente das idéias e as aspirações políticas envolvidas nesta disputa pelo poder, o futuro político da Argentina seria decidido através das urnas em uma votação justa, digna dos preceitos da democracia representativa.

5. A CHEGADA AO PODER

A eleição que conduziu Perón ao poder foi a primeira que empregou plenamente o sistema partidário-eleitoral desde a vitória de Ortiz em 1937 e foi a primeira a ser democrática e não fraudulenta, desde a eleição de 1928 que declarou Hipólito Yrigoyen como presidente da nação.

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de então, os antagonismos dos tempos da campanha eleitoral entre Perón e a oposição se transformaria numa clara posição de intransigência da segunda em relação a condução de governo do presidente recém eleito.

Os primeiros passos de Perón na presidência foram a ida ao congresso onde ele e seu vice-presidente, Quijano, prestaram o juramento à pátria, ocasião em que Perón assistiu a um boicote de seu juramento por parte dos políticos de oposição que deixaram o congresso em sua totalidade. Durante o juramento, Perón fez um discurso conciliatório na tentativa de aproximar as diferentes correntes políticas existentes naquela casa, afim de assim possibilitar uma governabilidade mais adequada a sua política.

Neste discurso, Perón se proclamou como, “o presidente de todos os argentinos, amigos e inimigos”, disse ainda que esqueceria as perseguições e insultos do passado em prol de uma Argentina unida onde a justiça social e o bem estar do povo fossem a conquista maior (LUNA, 1984).

Uma vez feito o juramento no congresso, Perón dirigiu-se à Casa Rosada onde recebeu das mãos do General Farrel o cetro e a faixa representativos do cargo presidencial, encerrando a etapa de transição e dando inicio aos trabalhos para a constituição de uma equipe de governo.

Porém esta tarefa mostrou-se de extrema dificuldade devido, em primeiro lugar, a carência de políticos experimentados nas fileiras peronistas, e, em segundo lugar, devido a forte critica sofrida por Perón em função da fragilidade da sua base de apoio de pouca expressão no cenário político argentino.

No entanto, se por um lado a oposição criticava as tentativas de formação de uma base governista por Perón, por outro assistiu a formação de um grupo de governo com nomes novos na política, o que deu a esse primeiro grupo de governo peronista um caráter altamente progressista, legitimando os discursos de Perón na busca de uma “nueva Argentina” (PAGE, 1984, P.186).

Entre os nomes que Perón nomeou para formar seu gabinete de governo estavam Juan A. Bramuglia que seria o Ministro das Relações Exteriores. De origem sindical, Bramuglia teve que lidar com as naturais dificuldades e responsabilidades de seu novo cargo, além de conviver com uma incrível antipatia nutrida contra sua pessoa por ninguém menos que Eva Perón.

O novo presidente nomeou também, como seu principal assessor econômico, o empresário Miguel Miranda, um self-made man que havia enriquecido durante a grande onda de industrializações nos anos 1930, e que embora inicialmente não fosse muito simpático a Perón, aos poucos foi se aproximando até se tornar um de seus mais confiáveis assessores.

Seria com estes nomes que o presidente Perón comporia o seu gabinete de governo e se prepararia para enfrentar os desafios de seu cargo. Sabendo dos problemas advindos da diminuição das exportações e a dependência argentina em relação aos produtos e ao capital internacional, Perón juntamente com seus assessores implementaram uma série de reformas visando estabelecer relações comerciais com outros países e melhorar os índices da balança comercial argentina.

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No entanto, somente essas ações não seriam suficientes para reativar a economia argentina aos níveis da época da guerra, onde as exportações eram a base da economia e o regulador dos níveis econômicos. A Argentina necessitava de maior capital para suprir suas necessidades e promover um desenvolvimento nos níveis desejados pela política de Perón (TONDINI, 2006, p. 111).

Uma saída para tal situação era a de o governo argentino cobrar da Inglaterra e dos EUA os saldos de suas dividas com a Argentina, contraídas principalmente durante a guerra. Os valores desta dívida eram respectivamente de 3,5 e 2 bilhões de dólares, e dariam um grande incremento na economia argentina.

Porém, ambos os devedores se recusaram a pagar os saldos da divida, o que levou Perón e seus ministros a iniciarem uma série de negociações na busca por equacionar tais questões. Após uma série de encontros e discussões acerca das reivindicações argentinas, Perón conseguiu utilizar as libras inglesas para comprar bens duráveis e de produção (maquinário pesado para a indústria) no mercado americano, que significava a possibilidade de desenvolvimento do parque industrial argentino.

O que na verdade isso significava era que este dinheiro que os britânicos dispuseram a Argentina eram créditos a serem gastos na economia americana, uma clara forma de manter o controle de como e onde o dinheiro seria gasto, sendo mais um claro exemplo do controle internacional promovido pela política externa estadunidense (TONDINI, 2006, P.111).

Mas o fato mais surpreendente desta busca de Perón por reaver o dinheiro devido por EUA e Inglaterra, foi que no momento em que a Argentina manifestou o interesse em fazer uso das libras inglesas para pagar as compras feitas nos Estados Unidos, o governo de Londres declarou a inconvertibilidade da moeda nacional, o que impossibilitava os planos argentinos de pagar suas compras com a moeda inglesa, e conseqüentemente transformava a Argentina de credor em devedor dos EUA, o que claramente pode arremeter a uma conspiração dos governos de Washington e Londres em converter a Argentina em um país ainda mais estanque de receita, o que tornaria o antipatizado Perón impotente na condução da economia argentina.

O mais interessante no entanto é que sem condições de pagar as compras feitas nos EUA, Perón se obrigou a negociar com Washington uma maneira de compensar tal problema o que se fez através do oferecimento do governo dos EUA de eliminar a divida argentina em favor do abatimento destes valores da própria divida estadunidense para com Buenos Aires. Dessa forma os EUA haviam atingido dois objetivos básicos, o primeiro era evitar a busca argentina de novos fornecedores de tecnologia industrial (a URSS principalmente), e o segundo de diminuir suas obrigações financeiras (divida externa), com o governo de Perón.

6. POLITICA EXTERNA ARGENTINA NO MUNDO DO PÓS-GUERRA

É interessante ressaltar que o mundo nesta época passava por um momento de reorganização no pós-guerra e enfrentava uma bipolarização capitaneada por Estados Unidos e União soviética que lutavam intensamente na busca de ampliar suas esferas de influência.

Embora o poder militar de dissuasão tenha sido o modelo mais comum na Guerra-fria, não foi somente no campo bélico que se deram pressões e ações diretas das duas nações polares neste contesto, também ações e sanções econômicas foram muitas vezes as substitutas do poder bélico como instrumento de proteção fosse por parte dos EUA ou da União Soviética (HALLIDAY, 1994).

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ideológico, tratava-se de uma disputa de blocos econômicos, pois quando se fala em guerra fria deve-se remeter à disputa entre o capitalismo e o comunismo (SANTOS, 2008).

Essa nova ordem mundial surgida da ascensão de duas potencias polarizadoras traria um novo contexto de conflito, desta vez no campo econômico e político, regida pelas relações externas que teriam em si um caráter muito mais agressivo de condução por parte das grandes potências, já que as disputas por áreas de influência eram ferozes e significavam o sucesso ou não das políticas de um grupo de governo, fosse ele capitalista ou comunista.

Neste contexto de reorganização e de busca de consolidação de uma esfera de influência, a América latina era para a política externa estadunidense como um quintal, onde o controle das ações políticas e econômicas bem como a inserção de tecnologia bélica e industrial deveria estar sempre sob o controle direto do Departamento de Estado dos EUA.

Embora muitos teóricos questionem a importância real da America Latina para a política externa americana, isso cai por terra quando se faz um estudo mais aprofundado e percebe-se que os Estados Unidos nunca abriram mão de sua presença nesta região. Outro fato que é interessante ser levado em conta é que sempre que os interesses estadunidenses na America latina foram contrariados, este não se furtou em usar toda sorte de mecanismos políticos, comerciais, econômicos, culturais e o terrorismo de estado para estabelecer um controle hegemônico na região (SANTOS, 2008, p 5-20).

Entretanto todas essas ações estadunidenses na região estiveram sempre intimamente ligadas as suas questões domésticas, como a segurança nacional, a política econômica e a difusão dos valores democráticos utilizados como símbolo da sociedade americana, este ultimo aspecto ideológico apresentava-se como sendo um claro contraponto às políticas comunistas, de controle do estado e de desapego às liberdades individuais.

Sendo assim, o governo americano de maneira alguma permitiria que a America latina deixasse de ser uma área de influência de sua política e economia, pois era sabido pelo Departamento de Estado americano que se países com projeção continental como Brasil e Argentina migrassem ou tivessem uma aspiração de consolidar um estado forte e centralizador, remetendo assim ao comunismo soviético, poderia haver um efeito dominó no continente, onde países menores e menos desenvolvidos que os acima citados, não podendo manter um estado com estas premissas (força e centralização) cairiam na dependência econômica e política da União Soviética.

Porém, ao compreender o cenário internacional que se moldava por esta época, Perón percebeu que buscar um alinhamento com qualquer um dos dois países, EUA ou U.R.S.S, seria um erro não só político como também de estratégia econômica. O alinhamento com um dos lados inviabilizaria a expansão comercial argentina e, conseqüentemente, dificultaria o esforço de reequilibrar a balança comercial.

Para tanto, Perón e sua equipe econômica perceberam que seria necessário encontrar uma terceira opção de fortalecimento e de parceria político-econômicas, uma opção que rendesse um bom terreno para firmar acordos políticos e comerciais sem ter de se submeter às exigências das grandes potências (BANDEIRA, 1987).

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