Leandro Goya Fontella AO SOPÉ DA SERRA GERAL: escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

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Leandro Goya Fontella

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional

  

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

  Leandro Goya Fontella

  

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano

  • – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

  Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter Santa Maria, RS

  Leandro Goya Fontella

  

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano

  • – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

  Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

  • – Orientadora UNIFRA Profª. Ms. Janaína Souza Teixeira – UNIFRA

  Profª. Ms. Paula Simone Bolzan

  • – UNIFRA

  RESUMO

  Este trabalho dedica-se a estudar algumas características da composição social, e os desdobramentos destas sobre a lógica das hierarquias sociais, em uma região de economia periférica do Brasil Meridional, nas primeiras décadas do século XIX. O foco do estudo recai sobre o povoado de Santa Maria da Boca do Monte, entre os anos de 1814 e 1822. Ao contrário do que a historiografia costumava afirmar até os anos 1980, o espaço agrário sul rio- grandense caracterizou-se pela diversidade sócio-econômica e cultural dos agentes históricos. Nesse sentido, as informações obtidas por meio da quantificação dos registros de batismo da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte expressam que, desde os primeiros tempos da ocupação e povoamento luso-brasileiro, esta localidade fora marcada por uma considerável presença de escravos, inclusive africanos, e pela significativa diversidade étnica. Esta última circunstância nos sugere que, embora a dinâmica social tenha ocorrido sob a hegemonia da matriz cultural ibérica, o produto cultural resultante teve considerável contribuição das matrizes culturais guarani(s) e africana(s). Por sua vez, a significativa presença de cativos africanos indica que essa região era tocada pelo tráfico atlântico de escravos, o qual, por seu turno, cumpria a função sociológica de reproduzir o lugar social de uma elite que buscava se distanciar do restante da população livre.

  Palavras-chave: Escravidão. Hierarquias sociais. Batismos. Brasil Meridional. ABSTRACT

  This paper is dedicated to study some characteristics of social composition and its ramifications on the logic social hierarchies in a region of peripheral economy of Southern Brazil in the early decades of nineteenth century. The study's focus is on the village of” Santa Maria da Boca do Monte”, between 1814 and 1822. Contrary to the historiography used to say, until the 1980s, the agrarian space south rio-grandense was characterized by diversity socio- economic and cultural of historical agents. The information‟s obtained by quantifying the baptism of “Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte” express that since the occupation “luso-brasileiro”, this location was marked by a considerable presence of slaves, including African countries, and significant ethnic diversity. The last fact suggests us that although the social dynamics occurring in the Iberian cultural hegemony, the resulting product had significant cultural contribution from African(s) and Guarani(s) culture. The significant presence of African captives indicates that in this region there was Atlantic slave trade, which has a sociological function of reproducing a social place of one elite that wanted distance from the rest free population.

  Word-key: Slavery. Social hierarchies. Baptisms. Southern Brazil.

  

AGRADECIMENTOS

  Como não poderia deixar de ser, sou infinitamente grato aos meus pais Leda e Carlos

  

Nazário por suas descomunais generosidades, paciências, carinho, compreensão e amor. Por

  estarem em cada momento de minha existência incondicionalmente ao meu lado, me incentivando e acreditando em meus projetos, sonhos e ilusões. Agradeço ainda aos financiamentos recebidos do FAPHisCNF (Fundo de amparo à pesquisa histórica Carlos

  

Nazário Fontella ) e do FACELG (Fundo de ajuda de custo estudantil Leda Goya). Mamma e

Pai , muitíssimo obrigado por existirem em minha vida!

  Agradeço também a meu Mano Gustavo, amigo-irmão para todo o sempre, pela sua amizade e amor irrestritos. À Taís, minha Florzinha, por compartilhar comigo os mais distintos momentos de nossas existências, desde os alegres até os angustiantes, tornando meus dias mais leves e felizes. Pelo seu amor, carinho e perene incentivo, e por ter a sensibilidade e a paciência de saber perdoar meus inúmeros momentos ranzinzas.

  Ao meu amigo Max, vulgo Índio, por sua perspicácia teórica que, constantemente, nos remove do conforto das respostas fáceis e prontas. Perspicácia essa, aguçada nos inúmeros diálogos que tivemos nos momentos em que se manifestavam nossos hábitos etílicos. Pela sua abissal e admirável generosidade de convidar-me a pesquisar na mesma documentação, e ainda, por me disponibilizar o banco de dados que construiu, o qual acabou se tornando base empírica deste trabalho. Sem essa generosidade esse trabalho jamais teria tomado forma, muito obrigado! Por fim, gostaria de deixar registrado aqui minha felicidade de saber que o

  Índio e seu grupo familiar, recentemente, ascenderam à classe média, parabéns!

  Ao amigo André, vulgo Piruca, companheiro desde os primeiros passos desta jornada, por compartilhar os importantes momentos das primeiras e intensas experiências intelectuais, que bagunçam o nosso mundo, o qual, até então, estava perfeitamente organizado. E nada do que tu, Piruca, vieres a argumentar vai me convencer que não bagunça.

  Ao amigo Marcelo Füher Matheus, vulgo Portuga, apesar de suas confusões com a fauna sul rio-grandense (confundindo capivara, vulgo capincho, com ovelha, perdiz com quero-quero), agradeço pelas caronas, pelos clássicos virtuais no Playstation, pelos clássicos reais, pelos pousos no posto avançado da Capital da Província do Rio Grande de São Pedro,

  Ao amigo Jonas Moreira Vargas pela parceria no Bi-Campeonato Colorado da América, e por já ter me esclarecido cento e dezenove vezes que Bourdieu explicou quase tudo, mas que ainda assim a pesquisa histórica pode auxiliar a responder o que esse autor não conseguiu explicar.

  Ao amigo Junior Paniz pelas traduções e abstracts que acabou sendo “obrigado” a elaborar para mim e, principalmente, por sua amizade e pelas conversas e filosofias de botequim que temos nas raras oportunidades em que conseguimos nos encontrar.

  À querida Paraninfa e mestre, no significado romântico do termo, Nikelen Acosta

  

Witter , de quem tive o privilégio de ser orientando, por compartilhar sua vasta erudição e pela

  constante exigência de maturidade acadêmica. Por ter exigido clareza na redação dos textos e nos conceitos utilizados (realmente não sei se consegui atender essas exigências), e por ter sido uma leitora atenta e crítica deste estudo.

  Sou grato também ao mestre, igualmente na acepção lírica da palavra, Luis Augusto , companheiro de paixão pela História e pelo Colorado, pelo estímulo constante, por

  Farinatti

  exigir sempre rigor teórico-metodológico nas análises histórico-sociais. Por ajudar a ver que o mundo é tão mais complexo do que conseguimos enxergar.

  A esses dois últimos (Profºs. Nika e Guto), além da amizade, agradeço-lhes pelas inestimáveis contribuições ao longo de minha recente trajetória como estudioso de História, em especial pelos constantes alertas contra as análises anacrônicas e etnocêntricas, e por terem se constituído, no decorrer dela, em fontes de inspiração e admiração.

  Por fim, quero agradecer ao Programa Universidade para Todos (PROUNI), do Governo Federal, o qual viabilizou que eu pudesse realizar minha graduação nesta Instituição de reconhecida qualidade.

  À minha Mamminha, guria sensível e faceira, de sorriso fácil e contagiante.

  Para meu Padico, guri desconfiado e sério em cada retrato.

  

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Concentração dos batismos de escravos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)................................................................... 48

  Quadro 2 - Concentração dos batismos de escravos africanos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)..................................................................... 50

  Quadro 3 - Relação dos proprietários que mais tiveram escravos batizados

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 -1822).................................................................... 51

  

LISTA DE FIGURAS

Gráfico 1 - Distribuição dos batismos segundo a condição jurídica dos batizandos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)................................................................... 36

  Gráfico 2 - Distribuição dos batismos quanto a cor de pele e/ou origem dos batizandos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814

  • – 1822).................................................................. 38

  Gráfico 3

  • Distribuição de escravos quanto à origem

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 -1822).................................................................... 46

  Gráfico 4 - Ocorrência de batismos de africanos ao longo do tempo

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 -1822).................................................................... 49

  

SUMÁRIO

  1 INTRODUđấO...............................................................................................................11

  2 Parte I.............................................................................................................................. 13

  2.1 Historiografia da Escravidão no Brasil e no Rio Grande do Sul................................... 13

  2.2 Inspirações teórico-metodológica................................................................................ 23

  3 Parte II............................................................................................................................. 28

  3.1 Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos.......................... 28

  3.2 Hierarquias sociais costumeiras e diversidade étnica.................................................... 33

  4 Parte III........................................................................................................................... 43

  4.1 Da África ao Brasil Meridional..................................................................................... 43

  4.2 Batismos de africanos e função sociológica do tráfico negreiro................................... 46

  5 CONCLUSÕES............................................................................................................... 53 FONTES............................................................................................................................. 56 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................56 ANEXO............................................................................................................................... 60

1 INTRODUđấO

  A inspiração para esta pesquisa surgiu no contato com dois conjuntos de obras de análise histórica. O primeiro com foco em história agrária, e o segundo em história social da escravidão, ambos tendo o Brasil como tema. Os trabalhos em história agrária vêm, desde a década de 1980, demonstrando, entre outros fatores, o vigor das produções voltadas para o mercado interno, a disseminação das relações escravistas para muito além das atividades produtivas destinadas à exportação, a diversidade dos grupos sociais externos as plantations e

  1 a reprodução de uma hierarquia social excludente em contextos históricos diversos.

  Por sua vez, a história social da escravidão no Brasil, também a partir dos anos 1980, progrediu em diversos aspectos, alterando significativamente a compreensão que até então se tinha sobre aquela instituição e sobre o processo histórico em que ela se desenrolou e reiterou- se. A historiografia antropológica da escravidão, termo cunhado por Sheila Faria (1997), se preocupou em entender as relações escravistas também a partir da perspectiva dos cativos, percebendo estes como sujeitos históricos ativos, e não apenas como indivíduos passivos. Postura teórica essa que busca compreender as relações de dominação, intrínsecas a uma sociedade escravista, a partir de uma análise social mais rica, com variáveis mais numerosas, mais complexas e também mais móveis; e que, de forma alguma, subestima a centralidade do

  2 caráter coercitivo e explorador do escravismo brasileiro.

  Em termos gerais, se pode considerar que a partir desses estudos a compreensão do processo histórico brasileiro passou por um redimensionamento. Por consequência, juntamente com as novas interpretações das relações escravistas, as pesquisas históricas têm dispensado maior atenção às regiões periféricas, às dinâmicas do mercado interno e às variadas realidades regionais.

  Nesse sentido, o estudo aqui desenvolvido enquadra-se dentro dessa ampla tendência historiográfica. Acreditamos que estudar a constituição das relações escravistas em uma região fronteiriça com produção destinada ao mercado interno pode contribuir para um 1 melhor entendimento sobre como se desenrolou o processo histórico de formação da

  

Dentre os mais representativos trabalhos desse quadro historiográfico destacam-se: CASTRO, (1987);

LINHARES (1997); FARIA (1998); FLORENTINO; FRAGOSO (2001); FRAGOSO; BICALHO; GOUVÊA 2 (2010); FARINATTI, (2010a). sociedade no Brasil Meridional. Enfim, a análise da escravidão para além do contexto das

  

plantations faz-se necessária, já que, o entendimento do conjunto do escravismo brasileiro

  passa também pela compreensão dos diversos contextos específicos onde o regime de mão de obra cativa se estabeleceu, como por exemplo, na região de Santa Maria da Boca do Monte.

  O estudo que desenvolvemos foi divido em três partes. A primeira delas vai no sentido de situar o leitor sobre como nosso objeto de estudo, os escravos, foi abordado na historiografia que buscou analisar o processo histórico sul rio-grandense. Procuramos identificar quais foram as principais vertentes interpretativas, os autores mais relevantes de cada uma, as diferenças básicas de abordagem, expor qual é o atual debate em torno da escravidão no Brasil e Rio Grande do Sul, onde se enquadra nossa pesquisa e qual a sua relevância. Ainda nessa primeira parte buscamos mostrar, mais detalhadamente, quais foram as principais correntes teóricas e metodológicas que inspiraram esse trabalho.

  Na Parte II, a partir de uma contextualização histórico-espacial apresentamos a localidade de Santa Maria da Boca do Monte, e qual era o contexto histórico em que ela estava inserida nas primeiras décadas do século XIX. Os raros trabalhos que tratam sobre o processo histórico de Santa Maria ao longo da primeira metade do Oitocentos, Beltrão (1979) e Belém (2000), expõem um cenário social monolítico, atribuindo importância apenas a matriz cultural ibérica. Considerando frágeis e insuficientes as explicações dadas por estes memorialistas, pretendeu-se, principalmente, deixar claro que, desde aqueles primeiros tempos da ocupação e povoamento luso-brasileiro, Santa Maria da Boca do Monte havia se caracterizado pela diversidade sócio-econômica dos agentes sociais que ali residiam. Encerrando esta segunda parte, por meio de nossa base empírica, os assentos de batismos da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, entre os anos 1814 a 1822, apresentamos uma composição social etnicamente bastante diversificada, e com significativa presença de escravos.

  Na terceira, e última, parte desse estudo, com base nas proporcionalidades da distribuição dos assentos de batismos por proprietários, elaboramos uma estimativa da estrutura de posse de escravos para a região. Além disso, buscamos analisar, quais foram as principais implicações que a significativa presença de escravos africanos provocou na conformação e na dinâmica social dessa região.

  Por fim, destinamos um espaço para a síntese de algumas conclusões que foram sendo

2 Parte I

2.1 Historiografia da Escravidão no Rio Grande do Sul

  3 A partir da interpretação dos escritos de viajantes europeus , elaborou-se, entre as

  últimas décadas do século XIX e meados do século XX, um paradigma historiográfico de cunho regionalista, o qual pretendeu afirmar para o Rio Grande do Sul uma identidade liberal

  4

  e democrática. No dia 31 de julho de 1820, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire escreveu o seguinte relato:

  [...] não há talvez, no Brasil, lugar algum onde os escravos sejam mais felizes do que nesta capitania. Os senhores trabalham tanto quanto os escravos; conservam-se próximos deles e tratam-nos com menos desprezo. O escravo come carne à vontade; não veste mal; não anda a pé; sua principal ocupação consiste em galopar pelos campos, o que constitui exercício mais saudável do que fatigante; enfim, ele faz sentir aos animais que o cercam uma superioridade consoladora de sua condição

baixa, elevando-se aos seus próprios olhos (1997, p. 53).

  Baseados em fragmentos como este, os autores vinculados à corrente regionalista

  5

  deram origem ao chamado mito da democracia gaúcha. Esta, entre outras coisas, argumentava que: no espaço sul rio-grandense a escravidão fora mais branda que no restante do Brasil. Tendo assumindo um caráter paternal e benigno, visto que, a proximidade entre senhores e escravos implicou na desconstrução das desigualdades entre eles.

  Na verdade, essas interpretações estiveram atreladas à concepção mitológica do passado farroupilha rio-grandense. Esta mitologia sustentava que os líderes farroupilhas estiveram imbuídos por um espírito republicano, liberal, democrático e antiescravista. Assim sendo, a historiografia regionalista buscou enaltecer o passado farroupilha do Rio Grande do Sul. Para isso, deliberadamente, selecionou fragmentos da obra de Saint-Hilaire que 3 corroborassem com a aquela visão mitológica.

  

Os primeiros relatos realizados sobre a presença de escravos no Rio Grande do Sul foram feitos por viajantes

europeus que passaram por estas terras durante o século XIX. Além de Auguste de Saint-Hilaire, pode-se

4 destacar também outros viajantes europeus como Nicolau Dreys, Arsène Isabelle e A. Baguet.

  

Este paradigma historiográfico é conhecido pelo seu forte caráter ensaístico. Dentre inúmeros autores-ensaístas

que fizeram parte desta historiografia regionalista destacamos entre outros: Joaquim Francisco de Assis Brasil,

5 Arthur Ferreira Filho, Aurélio Porto, Walter Spalding, Sousa Docca e Moysés Velhinho.

  

GOULART (1978). “[Jorge] Salis Goulart foi o primeiro intelectual sul riograndense que procurou dar base

sociológica sistemática e estrutural à história do RS, ou seja, compreender os principais aspectos da formação

  Por outro lado, em diversas outras passagens o naturalista francês descreveu os maus tratos dispensados aos escravos, mas que, no entanto, não foram levadas em consideração nas obras daqueles autores. Em um destes, no relato do dia 13 de maio de 1821, Saint-Hilaire narrou o seguinte episódio:

  antes de nossa chegada, o patrão mandou sua gente içar o corpo de um de seus negros, que se afogara na travessia a barco do rio Pardo. Logo que demos com o cadáver desse infeliz, o patrão gritou: “Ah, meu dinheiro! Meu dinheiro! Que me custa tanto a ganhar!” Sua mulher entrou na embarcação, para providenciar o enterro do corpo; fincaram na sepultura uma cruz de bambu, e quando a mulher retornou ao barco, estava banhada em lágrimas, mas a rudeza com que tratava os escravos me faz crer que ela não chorava outra coisa se não seu dinheiro (1997, p. 368-369).

  Percebe-se, portanto, que as análises elaboradas pelos autores deste panorama historiográfico se destinavam a legitimar uma versão idealizada do processo histórico sul rio- grandense. Nesse sentido, o discurso adotado a partir dos relatos dos viajantes acabou obedecendo a escolhas conscientes sobre quais fragmentos deveriam ser mencionados, e quais precisavam ser sonegados. Consequentemente, menosprezando a importância da escravidão para a formação social rio-grandense, a historiografia regionalista não atribuiu qualquer tipo de protagonismo aos escravos, no tocante às relações sociais nas quais estavam inseridos. Enfim, para esta corrente historiográfica, o Rio Grande do Sul foi forjado alheio a quaisquer influências culturais provenientes de africanos e seus descendentes.

  Entre as décadas de 1940 e 1950, Dante de Laytano tornou-se o primeiro autor a valorizar a influência dos elementos africanos, afro-descendentes e indígenas no Rio Grande do Sul. Em alguns aspectos Laytano, distinguiu-se significativamente do ensaísmo característico da historiografia regionalista, já que, buscou imprimir maior rigor científico a suas pesquisas. Além disso, ao enfocar pesquisas sobre o folclore, rompeu também com a tradição documentalista focada na história militar e política seguida, até então, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS), a qual ressaltava, quase que exclusivamente, os grandes heróis e feitos políticos e militares do Rio Grande. Inspirado na obra de Gilberto Freyre ( 1998) , Laytano procurou realizar estudos regionais que, no entanto, estivessem em sintonia com a cultura luso-brasileira e os arquétipos sociais que haviam sido eleitos para forjarem a identidade nacional do Brasil. Assim, da mesma forma que Freyre analisou o nordeste brasileiro, Dante de Laytano argumentou que o elemento principal da formação da sociedade sul rio-grandense foi o português, representado nestas paragens pelos ocorreu a partir da liderança da matriz cultural européia, restando aos negros e índios uma acomodação passiva a esse processo histórico.

  Nesse contexto, percebe-se que Laytano fez parte do esforço da intelectualidade brasileira para construir a identidade do país. Essa deveria ser composta pela convergência das peculiaridades regionais, mas também por relações sociais marcadas pela harmonia entre as raças formadoras da população nacional, a qual encontrou na miscigenação seu ponto de convergência. Não obstante ter reconhecido que a cultura afro-brasileira tivera influência no processo histórico rio-grandense, Laytano acabou elaborando teses que, mais uma vez, sonegaram protagonismo social aos africanos e afro-descendentes

  • – independente de sua condição jurídica e do período histórico. Para esse aut or, apesar do “folclore no Rio Grande do Sul emana[r] de fontes várias. [...] [a matriz] luso-açoriano-brasileira é seu desenho

  6 LAYTANO, 1987, p. 13) . Enfim, partindo de seu objeto

  geométrico número um, o principal” ( de pesquisa [o folclore], Laytano considerou irrelevante a contribuição histórico-social da matriz cultural afro-brasileira, avaliando que os escravos africanos e afro-descendentes foram agentes históricos apáticos sem margem de autonomia para imprimirem ações políticas conscientes.

  Na década de 1960, as pesquisas de Fernando Henrique Cardoso vieram a revelar a intensa presença de escravos nas regiões charqueadoras, e admitiram a ocorrência da escravidão, mesmo que em pequena escala, nas áreas de atividade pecuária (CARDOSO, 1991). Cardoso argumentou que a produção pecuária, a qual abastecia as charqueadas, não era satisfatoriamente rentável ao ponto de poder permitir uma reiterada agregação de cativos às unidades produtivas. Nesse contexto, para esse autor, a presença de escravos, nas regiões predominantemente pecuaristas, jamais teria se constituído como uma necessidade estrutural. Outro aspecto proeminente de sua obra é a compreensão da escravidão como um sistema rígido, capaz de reificar socialmente os indivíduos escravizados. Isso implica dizer que, para Cardoso, os cativos não possuiriam margem alguma de autonomia. Logo, não teriam a possibilidade de elaborar projetos próprios, já que:

  [...] o escravo auto-representava-se e era representado pelos homes livres como um ser incapaz de ação autonômica. Noutras palavras, o escravo se apresentava, enquanto ser humano tornado coisa, como alguém que, embora fosse capaz de empreender ações humanas, exprimia, na própria consciência e nos atos que praticava, orientações e significações sociais impostas pelos senhores. [...]. Nesse sentido, a consciência do escravo apenas registrava e espelhava, passivamente, os significados sociais que lhe eram impostos (CARDOSO apud CHALHOUB, 2003, p. 38).

  Dessa forma, Cardoso considerou os escravos como agentes históricos passivos que, simplesmente, reproduziam a cultura senhorial a qual lhes era imposta. Na esteira dos estudos realizados por Cardoso, Décio Freitas (1977; 1980) e Mário Maestri Filho (1984; 1993; 2002) acolheram algumas das conclusões as quais aquele chegou. Esses três autores acabaram se tornando a espinha dorsal de uma vertente historiográfica de cunho revisionista que, por sua vez, alinhava-se à tradição teórica, com fortes conotações

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  estruturalistas, defendida pela Escola Paulista de Sociologia, da qual Cardoso fazia parte. Os revisionistas se opuseram à historiografia regionalista (também dita tradicional) que procurava ignorar a importância da escravidão no Rio Grande do Sul. Embora se encontrem algumas diferenças significativas em suas obras, estes autores procuraram entender a escravidão no espaço rio-grandense, sobretudo, sob a ótica econômica de sua formação social. Para Freitas (1977; 1980), o escravismo nas regiões pastoris seria inviável economicamente por diversas razões, entre as quais se destacam: a) a pecuária não geraria excedentes que determinassem a contínua incorporação de escravos nas estâncias; b) os serviços perenes do pastoreio demandavam poucos indivíduos, e para supri-los haveria considerável oferta de mão-de-obra livre nessas regiões; c) a localização fronteiriça rio-grandense com Estados onde não mais existia a escravidão inviabilizaria a manutenção de um aparato de vigilância e coerção, indispensáveis, na sua avaliação, para conservação do sistema escravista.

  Por sua vez, Mário Maestri (1984; 1993; 2002) aderiu ao modelo teórico elaborado por Jacob Gorender (1988; 1991) e Ciro Flamarion Cardoso (1975; 1988), o qual pregava que o Brasil havia sido o palco de um modo de produção escravista-colonial. Sendo assim, os estudos de Maestri tiveram por objetivo definir se ocorreu ou não um modo de produção escravista no Rio Grande do Sul (ZARTH, 2002). Maestri não só reforçou as ilações de Cardoso, como também acrescentou que a única maneira dos escravos romperem com a reificação subjetiva, se daria através da negação total do sistema escravista. Assim, apenas os cativos que se rebelavam abertamente contra aquele regime (através de fugas, suicídio, aquilombamentos, rebeliões, ataques contra senhores) haviam tomado decisões conscientes, pois, suas ações teriam tido a franca pretensão de superar o escravismo. Nesta lógica, os escravos que não se sublevavam explicitamente contra o sistema escravista, teriam servido mais para perpetuá-lo do que para subvertê-lo e, por consequência, não teriam resistido conscientemente à dominação senhorial.

  Os autores desta vertente historiográfica conceberam um sistema escravista rígido, no qual o trabalho compulsório seria garantido por um regime de terror constante. Thiago Leitão de Araújo argumenta que, para esses autores, a profunda rigidez do escravismo se exprimia no cotidiano das regiões charqueadoras, porém, nas áreas pastoris, “a escravidão teria perdido seu caráter coercitivo e assumido um conteúdo patriarcal” (2008, p. 12). Essa realidade se daria em função do fato de que, nas regiões de pecuária, a escravidão não havia se constituído como necessidade estrutural.

  Sobre o contexto das charqueadas, porém, os estudos dedicados a entender o regime escravista no Rio Grande do Sul foram mais profundos. Berenice Corsetti (1983) procurou compreender, por meio de apoio documental e dados quantitativos, a organização da indústria charqueadora sul rio-grandense. Amparada por inventários, indicadores de taxas tributárias, legislação, mapas estatísticos, Corsetti refutou a tese de Cardoso, a qual sustentava o argumento da irracionalidade econômica do emprego da mão-de-obra cativa. Para Cardoso (1991), o trabalho cativo seria pouco produtivo se comparado ao trabalho assalariado. Porém, sobre o regime de trabalho predominante nas regiões de pecuária, a pesquisa de Corsetti não trouxe significativa contribuição. Araújo (2008) considera que ela endossa as afirmações elaboradas pela historiografia revisionista. Ou seja, de que a presença de escravos nas lidas

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  pastoris se conformou como residual, esporádica e ocasional. Embora não neguem a ocorrência de cativos nas estâncias, todos eles sustentaram que estes eram utilizados principalmente nas atividades domésticas e como lavradores. Assim, para esses autores, nas áreas de produção pastoril no Rio Grande do Sul, teria havido escravidão, mas não escravismo. Isto significa dizer que, naquelas regiões a escravidão não era a forma de produção predominante.

  Não obstante, ao mesmo tempo em que trouxe reflexões inovadoras, a historiografia revisionista acabou, em alguns aspectos, não se afastando substancialmente das interpretações do paradigma tradicional e regionalista as quais criticava. Na perspectiva dos revisionistas as estruturas do sistema escravista possuíam uma dimensão tão poderosa que desprovia o escravo de qualquer margem de autonomia e, até mesmo, de sua a própria condição humana, ou seja, equiparou os cativos como se fossem meros semoventes. Além disso, o conjunto de sua obra acabou, também, por negar que os escravos pudessem ter sido sujeitos históricos conscientes e protagonistas de ações dotadas de significados, obtidos a partir de heranças culturais africanas e de suas experiências ao longo do tempo de cativeiro. Logo, enquanto a historiografia tradicional quase desconsiderava a existência da escravidão no Rio Grande do Sul, e enfatizava o seu caráter brando, os revisionistas rejeitaram esse caráter ameno, e denunciaram a coerção e a exploração inerentes a essa instituição. Contudo, ao mesmo tempo em que revelou o passado escravista sul rio-grandense, a vertente revisionista acabou também por negar autonomia e protagonismo histórico aos agentes sociais escravizados, concluindo que estes apenas reproduziam a cultura senhorial dominante. Esse debate entre regionalistas e revisionistas foi, na esfera sul rio-grandense, a reprodução da contenda que se dava em nível nacional entre Gilberto Freyre e a Escola Sociológica Paulista. Esta defendida pela historiografia revisionista, enquanto aquele pela regionalista.

  Curiosamente, tanto a vertente da historiografia regionalista quanto a de cunho revisionista, embora tenham divergido, embasaram suas interpretações quase que exclusivamente nos relatos dos viajantes, em especial nos escritos de Auguste de Saint- Hilaire. Na percepção de diversos autores contemporâneos, foi essa postura que contribuiu para estagnar as pesquisas em história social da escravidão no Rio Grande do Sul. Segundo Paulo Afonso Zarth, “em grande medida, os argumentos dos historiadores em relação à presença de escravos nas estâncias estão baseados nas informações dos viajantes e cronistas do século XIX” (2002, p. 111). Por sua vez, Helen Osório (2008) também teceu críticas às fragilidades teórico-metodológicas dos autores ligados a historiografia revisionista. Para ela, esses autores não só insistiam em consultar exclusivamente os relatos de viajantes, como persistiam em analisar os escritos, sempre, dos mesmos viajantes.

  A partir da década de 1990, em resposta aos estudos vinculados a vertente historiográfica revisionista, novas pesquisas começaram a reinterpretar de forma significativa o papel do escravo africano e afro-descendente no Rio Grande do Sul. Estes trabalhos vêm sendo amparados a uma rigorosa análise de fontes primárias, como por exemplo: inventários

  post-mortem , testamentos, processos-crimes, cartas de alforrias.

  Analisando inventários post-mortem e considerando diversas regiões do espaço rio- grandense ao longo do Oitocentos, Zarth (2002) refutou as teses da historiografia revisionista que minimizavam a importância de cativos nas estâncias. Argumentando que nestas unidades produtivas também haviam espaços destinados à lavoura, Zarth, lançou a hipótese de que, parcela dos cativos da estância. Contudo, também por meio da análise de inventários post-

  

mortem , Helen Osório (2008) e Luís Augusto Farinatti (2010) não comprovaram a hipótese de

Zarth.

  Para Osório, a mão-de-obra escrava tornou-se imprescindível no sul da América portuguesa desde os primórdios da colonização luso-brasileira. Analisando a partir de um viés econômico, a autora coloca que o escravismo ganhou importância devido a pouca disponibilidade de trabalhadores livres, e porque o espaço territorial rio-grandense se configurava como fronteira agrária aberta. No entendimento da historiadora, essas peculiaridades engendraram condições que exigiram o trabalho cativo. A relativa facilidade do acesso à terra teria dificultado o estabelecimento de uma ampla oferta de mão-de-obra livre, já que, muitos homens pobres teriam preferido se tornar pequenos produtores a se tornarem peões em tempo integral, reservando a esta atividade apenas alguns meses no ano, quando se empregavam nas estâncias como trabalhadores temporários.

  Por sua vez, estudando a fronteira meridional do Brasil, no decorrer do processo de consolidação do Estado Imperial Brasileiro, Luís Augusto Farinatti (2010) utilizando, não só, mas principalmente, inventários post-mortem corroborou com a ideia de Osório sobre o emprego de escravos, sobretudo, nas atividades de pastoreio. No entanto, por meio do cruzamento de diversas fontes, a análise de Farinatti revela que o universo das estâncias e das atividades campeiras era significativamente mais complexo do que até então a historiografia estava habituada a considerar. Nesse contexto, levando em consideração a existência de

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  inúmeros condicionantes , constatou que a estrutura do quadro de trabalhadores empregados no pastoreio nas grandes estâncias obedeceria a um padrão, o qual se reiterava pelas maiores propriedades pecuaristas rio-grandenses e pelas regiões vizinhas. Esse padrão da força de trabalho das estâncias se constituiria numa combinação entre trabalhadores cativos e livres, e trabalhadores regulares e eventuais. Haveria, portanto, um núcleo estável de escravos campeiros, e os trabalhadores livres estariam dispostos em: peões mensais que ficavam por longo tempo e peões mensais que permaneciam apenas alguns meses. Desse modo, o autor argumenta que a conservação da escravidão no Império brasileiro, antagonicamente ao que ocorreu nos Estados vizinhos da região platina, teria “dotado a pecuária rio-grandense de um pouco mais de elasticidade para resistir à irregularidade da oferta de mão de obra livre” (FARINATTI, 2010, p. 382).

  Enfim, apesar de possuírem diferenças significativas, consideramos que os trabalhos desses três historiadores se configuram como referenciais de uma nova matriz historiográfica sobre a história agrária do Rio Grande do Sul. Entretanto, embora tenham contribuído expressivamente para reinterpretação da participação do escravo africano e afro-descendente no processo histórico rio-grandense, nenhum desses autores tinha como objeto de estudo principal os cativos, a escravidão ou o sistema escravista nas paragens do sul do Brasil.

  Contudo, alguns historiadores têm buscado compreender o processo histórico do Rio Grande do Sul tendo como objeto de pesquisa a escravidão e a população negra. Dentre estes destacam-se Paulo Moreira (1996; 2003; 2007) e Regina Xavier (2005; 2007). Concentrando suas pesquisas no meio urbano

  • – Porto Alegre, durante do século XIX –, Moreira vêm estudando o processo histórico rio-grandense a partir das experiências dos escravos e libertos, especialmente, em momentos críticos de suas existências, como por exemplo, a conquista da liberdade. Outro aspecto de destaque em seus trabalhos é a atenção que suas análises prestam a elementos como a etnicidade no estabelecimento de relações sociais entre os cativos. Se, por um lado, Moreira discordou da historiografia revisionista, a qual considerava que a escravidão suprimia a humanidade e restringia, quase que completamente, a margem de autonomia dos cativos, por outro, criticou a historiografia tradicional e regionalista que, por sua vez, omitia a participação das comunidades negras no processo histórico rio-grandense.

  Mais recentemente, Regina Xavier (2005) corroborou com as ideias de Moreira. A autora argumentou que: ao desconsiderar a importância dos africanos para a formação social rio- grandense, a historiografia regionalista elaborou “uma imagem que relega a escravidão e aos africanos um papel menor na constituição da população e em seu desenvolvimento social. Sem deixar de pontuar, o caráter benigno aqui adquirido” (2005, p. 8). Nos últimos anos, focando suas pesquisas a partir da perspectiva do que significa ser negro no Rio Grande do

  

Sul , Xavier vem buscando entender como as hierarquias raciais influenciaram na construção

das identidades sociais neste Estado.

  Inspirados nos trabalhos de Moreira e Xavier, diversos pesquisadores têm se dedicado a estudar temas ligados à escravidão, à cultura africana e afro-brasileira e à inserção social dos negros no período pós-abolição no espaço rio-grandense. Para a região de Santa Maria, Letícia Silveira Guterres (2005) constatou a presença de famílias escravas e, por conseguinte, analisou as im/possibilidades de constituição de laços familiares entre escravos e libertos na segunda metade do século XIX. Para isso, recorreu ao estudo demográfico realizado por

  (2008) refletiu sobre as relações sociais de trabalho em um período histórico que se caracterizou pela consolidação do Estado Imperial e a reorganização das relações de trabalho

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  e de propriedade da terra. Nesse sentido, Teixeira mostrou que, mesmo em uma região empobrecida e caracterizada pela produção agro-pecuária de pequeno porte, a posse de escravos era disseminada pelas unidades produtivas e dividia espaço com o trabalho livre e familiar.

  • – Nos últimos anos, alguns autores têm elaborado seus trabalhos a partir da análise qualitativa e quantitativa
  • – das cartas de alforrias. Além dessas fontes, Thiago de Araújo (2008), por exemplo, recorreu a séries documentais para analisar os mecanismos de dominação senhorial que permitiam a manutenção e reprodução das relações escravistas em

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  um contexto fronteiriço de produção agropecuária. Concomitantemente, Araújo procurou compreender quais tinham e como haviam sido colocadas em práticas as estratégias de escravos e libertos na luta contra a dominação senhorial. Entre outras coisas, sua pesquisa demonstrou que, mesmo numa região de fronteira e com base econômica agro-pecuarista, os escravos haviam conquistado o direito à acumulação de pecúlio, com o qual poderiam alcançar a liberdade. No espaço urbano e portuário de Rio Grande, ao longo do século XIX, Jovani Scherer (2008) buscou compreender como se desenvolvia o processo de busca de

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  liberdade. Assim, ao averiguar que mulheres e africanos foram os grupos sociais que mais conquistaram suas manumissões, o autor destaca que a experiência pela busca pela liberdade esteve, fundamentalmente, influenciada pela ação em comunidade. Para um contexto bastante parecido ao estudado por Scherer, Gabriel Aladrén (2008), estudando os padrões de alforrias e a inserção social de libertos em Porto Alegre, nas primeiras três décadas do Oitocentos, verificou que os escravos faziam-se presentes em praticamente todas as atividades produtivas. Além disso, evidenciou que a difusão da prática da alforria criara um significativo contingente populacional de libertos, e que a maior incidência de conquista das manumissões por parte de crioulos passava por uma relação mais próxima, de cunho paternalista, entre esses escravos e 10 seus senhores.

  

A pesquisa de Teixeira teve foco no distrito São Francisco de Paula de Cima da Serra, RS, entre os anos 1850

e 1871, e se baseou, principalmente, a partir da análise de inventários post-mortem, processos-crime,

11 correspondências entre autoridades locais e provinciais.

  • Araújo escolheu estudar a Vila de Cruz Alta ao longo de quase todo o período imperial brasileiro (1834

    1884). Para isso, além dos registros de manumissões utilizou-se de documentos como os inventários post-

  

mortem , testamentos, processos criminais, registros de compra e venda de escravos, as correspondências da

  Por sua vez, utilizando-se de uma ampla variedade de fontes, Silmei Petiz (2009) realizou estudo sobre o comportamento e as práticas familiares dos escravos na fronteira oeste

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  do Rio Grande de São Pedro entre os anos de 1750 e 1835. Além de destacar a relevante presença de escravos nesta região desde os primórdios da colonização lusa no espaço rio- grandense, Petiz percebeu que a constituição de famílias estáveis entre os cativos configurou- se numa realidade importante para a experiência histórica destes agentes sociais. Utilizando exclusivamente registros paroquiais, Sherol Santos (2009) procurou perceber como os primeiros povoadores do Rio Grande de São Pedro, estabelecidos na região de Santo Antônio da Patrulha, se relacionavam com seus escravos. Acreditando que o compadrio fora uma das principais estratégias utilizadas para firmar relações de reciprocidade, seja entre livres e escravos, ou somente entre cativos, a autora procurou também analisar como se constituíram os laços familiares e as redes de parentescos dos escravos.

  Enfim, essas novas pesquisas vêm reinterpretando o papel da escravidão e dos negros na formação da sociedade rio-grandense. Todavia, em sua maioria, têm ainda privilegiado o estudo destes temas em áreas de latifúndio pastoril ou regiões mais urbanizadas, ou seja, em espaços ligados a atividades econômicas hegemônicas e rotas comerciais que ligavam o sul ao sudeste do Brasil.

  Desta forma, a partir de seu objeto de estudo, os escravos, inseridos em uma região com predominância de pequenas propriedades voltadas à economia de subsistência, este trabalho se propõe estudar o processo histórico de formação social sul rio-grandense. Nesse contexto, justifica-se o recorte espacial pela região de Santa Maria da Boca do Monte. Para isso, contamos com registros paroquiais de batismos da Capela dessa localidade entre os anos de 1814 e 1822. Estes documentos registraram a presença de cativos e libertos nesta região. Além da condição social

  • – escravo, forro ou livre –, a análise dessas fontes nos proporciona identificar, dentre outras informações, a origem
  • – africanos ou crioulos –, a legitimidade e o nome dos pais e dos padrinhos dos indivíduos referidos.

  Outro relevante elemento que justifica não só o recorte temporal, como também o espacial deste estudo, é o fato de não existirem pesquisas que contemplem a primeira metade do século XIX para esta região. Os estudos que de alguma forma abordaram a presença do

  14 13 escravismo na região de Santa Maria concentraram-se no período pós-1850. Portanto, a

A pesquisa de Petiz enfocou principalmente a vila de Rio Pardo, e amparou-se em fontes como, registros de partir destas lacunas e das fontes das quais dispomos, nos parece viável realizar um estudo o qual: além de averiguar a representatividade da população escrava em Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos; oportunize-nos a perceber, quais foram as principais hierarquias sociais costumeiras, a composição étnica daquela sociedade, e quais implicações a significativa presença de africanos acarretou sobre a conformação social dessa região.

2.2 Inspirações teórico-metodológicas

  Desde os anos 1980, as pesquisas sobre a história social da escravidão no Brasil apresentam, em sentido amplo, alguns pontos em comum. Dentre estes, Hebe Mattos de Castro (1997) destaca: a) um sentido revisionista em relação às abordagens econômicas e sociológicas predominantes nos decênios de 1960 e 1970; b) um diálogo mais intenso com a historiografia internacional sobre a Afro-América; e c ) uma redução da escala de abordagem, a valorização da experiência e da cultura como matrizes explicativas e a utilização do nome como elo condutor de análise das fontes, inclusive nas tentativas de agregação.

  Talvez se possa dizer que, atualmente, o sentido revisionista, referido por Castro, em meados da década de 1990, já não se encontre tão enfaticamente presente nos estudos sobre o sistema escravista brasileiro. Uma vez que, a corrente historiográfica desenvolvida a partir da década de 1980, consolidou-se como hegemônica. Não obstante, tanto o segundo quanto o terceiro pontos expostos por Hebe Castro têm cada vez mais influenciado as pesquisas alinhadas à historiografia antropológica da escravidão. Para a autora, essa vertente historiográfica possibilitou que a humanidade cultural dos escravos viesse a ser percebida, já que, “a vida do escravo comum passou a ser vista a partir da herança cultural africana e das condições possíveis de organização social dentro do cativeiro” (FARIA, 1997, p.258).

  A postura teórica da historiografia antropológica da escravidão deve muito à influência da obra do historiador inglês Edward Palmer Thompson que, na década de 1960, a partir de um peculiar aproximação entre a história e a antropologia, cunhou um amplo panorama historiográfico, o qual convencionou-se a chamar de história vista de baixo (THOMPSON, 2007). De acordo com Sharp, essa perspectiva atraiu de imediato aqueles historiadores ansiosos por ampliar os limites de sua disciplina, abrir novas áreas de pesquisa e, acima de tudo, explorar as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão frequentemente ignorada, tacitamente aceita ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história (1992, p. 41).

  Assim, esta pesquisa situa-se dentro do campo composto por esta abordagem. Nesse contexto, para explorar as experiências históricas dos cativos e cativas, no sul do Brasil colonial, buscamos os rastros de suas existências em registros paroquiais, como os assentos de batismo. Sendo a Igreja um braço do Estado Imperial Português, os senhores de escravos eram impelidos a levarem seus cativos a receberem os sacramentos do catolicismo, dentre o quais, o de maior incidência entre os escravos foi o batismo. Silvia Brügger (2007) e Stuart Schuartz (2001) colocam que o registro de batismo se configurava como um documento que comprovava a posse do senhor sobre os escravos batizados. Conforme Schwartz,

  considerava-se responsabilidade de todos os senhores o batismo dos escravos, já que uma das principais justificativas da escravatura era a conversão dos pagãos e a salvação das almas. A principal legislação do império Português, as Ordenações Filipinas (1603), exigiam que todos os senhores batizassem seus escravos africanos com mais de dez anos de idade no máximo em seis meses, e os que tivessem menos de dez anos em um mês após a compra, caso contrário a Coroa os confiscaria. Os filhos de escravas nascidos em terras do rei de Portugal eram batizados na mesma época e da mesma maneira que as outras crianças recebiam o sacramento. Deixar de batizá-los resultaria no confisco pela Coroa (2001, p. 268) [grifos do autor].

  Segundo Sheila Faria (1997), as pesquisas recentes em história social da escravidão no Brasil, baseadas na demografia histórica, além de terem redimensionado a visão sobre o cotidiano do cativeiro, tido anteriormente como produto da ação e vontade do senhores, têm constatado que a escolha dos padrinhos e do cônjuge era prerrogativa dos próprios escravos. Portanto, acreditamos que a análise das informações contidas nestes registros possam desvendar boa parte da multiplicidade das relações sociais em que os cativos inseriam-se.

  Ainda conforme Faria, “foi com um demógrafo, Louis Henry, no Institut National

  

d’Études Démographiques (INED), em Paris, junto com o historiador Michel Fleury, que, em

  1956, se consubstanciou, inicialmente, uma metodologia específica para o tratamento das fontes paroquiais” (FARIA, 1997, p. 244). A demografia histórica acabou sendo tomada como método pela história social, os historiadores demógrafos utilizaram-se do método de quantificação das fontes paroquiais para posteriormente tratá-las de forma seriada. A utilização dos registros paroquiais de forma seriada, entre outras informações, nos possibilita origem e condição social. Todavia, embora a pesquisa proposta tenha inspiração nos pressupostos teórico-metodológicos desta abordagem, torna-se necessário realizar algumas ressalvas.

  Atualmente, é praticamente consenso entre os estudiosos de história social que, se por um lado, a metodologia quantitativa trouxe as grandes massas para a história, ao trabalhar quase que exclusivamente com dados agregados, tendeu a retirar destas a sua face humana (CASTRO, 1997). Além disso, a visualização de longo período, proposta pela história quantitativa serial pode, até mesmo, “gerar uma abstracta, homogeneizada história social, desprovida de carne e de sangue, e não convincente apesar do seu estatuto científico”

  KAPLAN apud GINZBURG, 1989, p. 171)

  ( . Consciente destas fragilidades, nosso estudo contempla também alguns preceitos que norteiam a micro-história italiana, como por exemplo, a reconstrução de trajetórias de vida e relações sociais de diferentes sujeitos, a partir da busca dos nomes dos agentes históricos em diferentes contextos. Para Jacques Revel, o nome se constitui na

  [...] baliza que permitiria construir uma modalidade nova de uma história social atenta aos indivíduos percebidos em suas relações com outros indivíduos. Pois a escolha do individual não é vista [...] como contraditória à do social: ela deve tornar possível uma abordagem diferente deste, ao acompanhar o fio de um destino particular – de um homem, de um grupo de homens – e, com ele, a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais ele se inscreve (REVEL, 1998, p. 21).

  A preservação do nome dos sujeitos históricos possibilita ao pesquisador transformá-lo no fio condutor da investigação histórica, e sendo o ambiente desta “suficientemente circunscrito, as séries documentais podem sobrepor-se no tempo e no espaço de modo a permitir-nos encontrar o mesmo indivíduo ou grupos de indivíduos em contextos sociais

  GINZBURG, 1989, p. 174) . Contudo, neste trabalho não serão realizadas

  diversos” ( reconstruções de trajetórias individuais. O método onomástico demandaria a utilização e análise de variados tipos de fontes primárias como registros de óbitos, cartas de alforrias, inventários post-mortem, róis de confessados, processos-crimes, entre outras, que não caberiam nas dimensões deste trabalho.

  Portanto, inspirados nos métodos quantitativo e serial consagrados, principalmente, pelos historiadores demógrafos vinculados a história social francesa, buscamos verificar a representatividade da população escrava do sul do Brasil Colonial a partir da análise das representatividade dos escravos africanos nestes. Além disso, procura-se refletir sobre a diversidade étnica que marcou aquela região no decorrer do processo de constituição da sociedade sul rio-grandense.

  A utilização de registros paroquiais como fontes históricas tem permitido aos historiadores enriquecer suas análises sociais. Entretanto, a larga produção destes documentos ocorreu graças a uma nova postura da Igreja Romana, qual seja: a preocupação com o registro dos fatos da vida cotidiana de seus fiéis. Segundo, Sheila de Castro Faria,

  no período moderno, [...] a Igreja tridentina passou a se preocupar insistentemente com as relações familiares [...]. [A partir disso,] a Igreja católica passou a produzir uma vasta documentação , antes inexistente, que se tornou a base das pesquisas que viriam estabelecer as diretrizes principais do campo da história da família, inclusive com técnicas e metodologias bem delimitadas, trazidas pela demografia histórica (FARIA, 1997, p. 243) [grifos meus].

  Dentre esta vasta documentação produzida pela Igreja Católica estão os registros dos seus sacramentos. No Brasil, Dom Sebastião da Vide, em 1707, escreveu as Constituições , documento que tinha por objetivo estabelecer as normas

  Primeiras do Arcebispado da Bahia

  de funcionamento da Igreja Católica no Brasil. Consta neste documento, que era de responsabilidade de cada paróquia registrar os ritos sacramentais de seus fregueses.

  Para Santa Maria da Boca do Monte, encontram-se registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos a partir de 1814, ano em que esta localidade foi alçada à condição de Capela Curada. Esta documentação está arquivada no Arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria. Os assentos de batismos, fontes que serão a base empírica desta pesquisa, estão distribuídos em vários livros, os quais estão divididos em intervalos de tempo. Por exemplo, o livro 1 de batismos corresponde aos assentos registrados entre os anos de 1814 e 1822. Como o objeto de estudo desta pesquisa são os escravos, faz-se necessário ressalvar que foi comum a prática de lavrar os assentos paroquiais de livres e escravos em livros distintos. Todavia, isso parece não ter ocorrido nos primeiros livros de batismos da referida Capela Curada, já que, no mesmo livro aparecem registrados cativos e livres.

  Após a consulta ao Arquivo Diocesano, fotografou-se os livros originais. Por conseguinte, fez-se o fichamento das fontes, em que os dados foram coletados de forma seriada. O tratamento seriado das informações

  • – contidas nos registros de batismos – permitiu

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  que fosse construído um banco de dados nominal em formato Excel for Windows. Esse banco de dados foi dividido em 48 campos analíticos, como nome do batizando, cor, condição social, origem, legitimidade, nome dos pais do batizando, nomes dos padrinhos; além disso, quanto aos pais e padrinhos, os registros oferecem ainda outras informações como cor, origem e condição social.

  Contudo, o tratamento dos dados dispostos nesse banco de dados requer certos cuidados. A transcrição dos termos lavrados nos registros, para as categorias analíticas estabelecidas na planilha, precisa manter a fidedignidade destes. Nesse sentido, mesmo em um trabalho com abordagem quantitativa e serial, é imprescindível realizar um esforço de interpretação das fontes respeitando a terminologia da época. Portanto, a transcrição tem respeitado desde a grafia das palavras, da mesma forma que fora escrita, até as insígnias sociais, como patentes militares, condição social e cor da pele. Este esforço de interpretação das distinções sociais registradas pelos Curas pode nos aproximar de diversos aspectos daquela sociedade

  • – como por exemplo, o seu grau de hierarquização, o prestígio social de alguns indivíduos, etc –, que somente com a quantificação não conseguiríamos perceber.

3 Parte II

3.1 Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos

  Nos dias presentes, Santa Maria está localizada no centro do atual território do Estado do Rio Grande do Sul. Entretanto, no princípio do século XIX, estava inserida em um contexto que a caracterizava como espaço de fronteira em construção e ainda indefinida.

  Mesmo após a incorporação da região dos Sete Povos missioneiros orientais em 1801, o espaço territorial santa-mariense continuaria, durante boa parte do Oitocentos, se constituindo como uma área de povoamento recente, fronteira agrária aberta e imersa num contexto de

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  endemia bélica. Sobre este último aspecto, José Iran Ribeiro destaca que

  [...] ainda que Santa Maria não tenha sido um palco de batalhas significativas e também não possuísse uma população significativamente numerosa para ser mobilizada militarmente, [...] a constante mobilização militar no Rio Grande do Sul daqueles anos [primeira metade do século XIX], não deixou de influir de alguma forma no pequeno lugarejo [...] (2010, p. 227).

  Nesse contexto, entende-se que a própria origem do lugar, no ano de 1797, esteja vinculada a um acampamento militar da comissão lusitana de demarcação de limites entre as possessões americanas dos Impérios espanhol e português, de acordo com o tratado de Santo Ildefonso (1778). Não tardou para que habitantes das proximidades se juntassem ao acampamento promovendo o efetivo início da povoação.

  De passagem por Santa Maria no ano de 1821, o naturalista francês Auguste de Saint- Hilaire descreveu o seguinte quadro sobre essa região:

  [...] a Vila de Santa Maria, chamada geralmente Capela de Santa Maria, se

  localiza em posição, a meio quarto de légua da serra. Está construída numa colina muito irregular; de um lado, avista-se uma alegre planície, revestida de pastagens e tufos de capim; do outro lado, a vista é limitada por montanhas cobertas de florestas sombrias e espessas. A vila se compõe, atualmente, de umas trinta casas, que formam um par de ruas, onde existem várias lojas comerciais bem montadas. A capela, muito pequena, se acha numa praça, ainda em projeto (1997, p. 338).

  16

  Partindo desta clássica descrição de Santa Maria, far-se-á algumas considerações sobre como se configurava esta povoação nas primeiras décadas do século XIX. Assim, esperamos situar o leitor sobre como se desencadeou o processo de conquista e ocupação luso-brasileira nesse espaço territorial. Conforme o viajante, havia em Santa Maria um acanhado núcleo urbanizado, o qual ele chamou de Vila, além de duas áreas bastante distintas. De um lado [ao sul], uma extensão territorial repleta de pastagens, e de outro [ao norte] uma região composta por montanhas com cobertura florestal. Percebe-se, deste modo, que Santa Maria era uma região quase que exclusivamente rural, situação similar a todas as outras povoações localizada no interior no sul da América portuguesa nas primeiras décadas do século XIX. Devido a essa circunstância, deter-nos-emos, a partir de agora, a contextualizar sobre a diversidade dos agentes sociais que povoaram aquelas áreas descritas pelo naturalista francês e, sobre qual foi a estrutura agrária e econômica produzida por estes. Para isso, iremos recorrer à única e importante pesquisa sobre lavradores nacionais nessa região desenvolvida

  17

  por Luis Augusto Farinatti. Portanto, os próximos parágrafos estão alicerçados, principalmente, nos argumentos construídos por esse autor.

  Os primeiros povoadores daquelas paragens foram atraídos de imediato pelas planícies levemente onduladas ao sul, as quais se alargavam rumo ao pampa rio-grandense e onde predominavam zonas de campos nativos de baixa qualidade, pontuados por pequenas manchas florestais. Aquelas áreas acabaram abrigando quase a totalidade das atividades pastoris da região. Estas estavam voltadas, principalmente, para a criação de bovinos que visava o rentável mercado das charqueadas do Jacuí, de Porto Alegre e de Pelotas. Contudo, em considerável medida, a agricultura também era empreendida nestes espaços, podendo ou não estar conjugada com o pastoreio. As atividades agrícolas eram desenvolvidas em escala variada nas unidades produtivas onde a pecuária se constituía como a atividade mais importante. Nas palavras de Farinatti,

  havia desde aqueles que possuíam apenas pequenas roças de alimentos, até verdadeiros criadores-lavradores, que consorciavam a produção pecuária com a produção comercial de gêneros, como farinha-de-mandioca. Esse tipo de estabelecimento também podia aparecer nas zonas mistas, em que campo e floresta estavam lado a lado ou entremeados (2010b, p. 249).

  17

  Além disso, faz-se importante ressaltar que aqueles campos abrigavam unidades produtivas pastoris de diversas dimensões, ou seja, grandes estâncias dividiam espaços com propriedades mais modestas de pequenos e médios criadores. Portanto, mesmo a região sul do território santa-mariense, que devido a suas pastagens se aproximava do estereótipo criado para a campanha sul rio-grandense, apresentava uma paisagem agrária mais complexa e com

  18 maior diversidade de agentes sociais.

  Posteriormente, as regiões florestais da Serra Geral, localizadas ao norte, também acabaram sendo alvo de ocupação. Estes espaços se configuraram em alternativas principalmente para os pequenos lavradores e suas famílias. E neles, estes agricultores implantaram uma economia predominantemente de subsistência, baseada em técnicas agrícolas rudimentares. Essas, por sua vez, eram herdeiras de técnicas utilizadas por diversas culturas indígenas, e consistia no sistema de queimadas e derrubadas, com utilização do pousio e primazia pelo avanço sobre as matas virgens, que eram largamente praticados em todo o Brasil desde os primórdios da colonização até o século XIX (FRAGOSO apud FARINATTI, 2010b). No entanto, não foram raros os casos em que essas famílias de lavradores geravam algum excedente produtivo para o mercado. Esta realidade desvenda que também nas regiões florestais havia uma significativa variabilidade nas dimensões das propriedades, situação que acabava por produzir uma complexa heterogeneidade social entre os sujeitos históricos que transitavam naquele universo. As circunstâncias acima descritas nos apresentam um cenário em que famílias de agricultores, em sua grande maioria pobres, buscavam conservar sua condição de produtores autônomos (FARINATTI, 2010b).

  Essa conjuntura foi um dos elementos que mais contribuiu para que a escravidão se instituísse como uma necessidade estrutural para a economia agropecuária estabelecida naquelas paragens. As possibilidades que os homens pobres tinham de se tornar pequenos produtores, condição típica de uma região de fronteira agrária aberta, fez com que eles não se tornassem uma massa de despossuídos dos meios de produção, pronta a se empregarem nas estâncias por baixos salários. Embora tenha existido uma parcela de agentes sociais 18 Esse estereótipo pode genericamente ser entendido como o descrito por Farinatti: “um universo monotônico,

  

marcado por enormes estâncias, gado a perder de vista e uns quantos gaúchos esquivos que oscilavam entre o

trabalho como peão e atividades ilícit as”. (2010b, p. 245). Logicamente, esta descrição se trata de um estereótipo

da campanha rio-grandense, o qual por quase todo o século XX foi sustentado por algumas correntes

historiográficas sul rio-grandenses

  • – entende-se que estas vertentes historiográficas são, a que denominamos

    nesse trabalho de regionalista, e aquela dita revisionista originada a partir dos trabalhos de Fernando Henrique

despossuídos que poderiam apenas a recorrer aos empregos existentes nas estâncias, sua dimensão não era “em número suficiente para cobrir de forma segura todas as necessidades de trabalhos nos grandes estabelecimentos de criação” (FARINATTI, 2010b, p. 260).

  No tocante à estrutura da mão de obra empregada nas distintas atividades produtivas, mais uma vez se torna necessário levar em consideração as envergaduras de cada propriedade. Nas grandes propriedades pecuaristas, devido à sazonalidade intrínseca dos serviços pastoris, havia uma combinação de trabalho livre e escravo, e trabalhadores regulares e eventuais. Nesse padrão que era comum às grandes estâncias platinas e rio-grandenses, escravos

  19 campeiros e alguns peões pagos por mês compunham um núcleo regular de trabalhadores.

  Além desse núcleo, havia peões assalariados que ficavam poucos meses por ano na estância e peões eventuais que se empregavam por poucos dias para executarem tarefas eventuais. Estes últimos eram solicitados, especialmente, em períodos de marcação, castração ou para recrutamento do gado evadido. Além disso, existiriam também outros cativos que, entre outras atividades, seriam encarregados da faina agrícola, das lidas domésticas e dos serviços gerais ou especializados ( FARINATTI, 2006) . Já para o pastoreio de pouca monta em Santa

  20 Maria, como constatado para outras regiões do Rio Grande do Sul e do Prata , fora uma

  atividade produtiva eminentemente familiar. E além de ter se tornado uma alternativa aos menos favorecidos, essa situação contribui para que nas grandes propriedades pastoris a escravidão tivesse se constituído em um elemento imprescindível (FARINATTI, 2010b).

  Como nas pequenas propriedades pastoris, os estabelecimentos voltados para a agricultura de alimentos, que em sua maioria pertencia a famílias de pequenos lavradores e produziam para subsistência, empregavam a mão de obra familiar. Entretanto,

  ao lado da maioria dessas famílias de vida precária, um pequeno grupo de lavradores conseguiu atingir relativa prosperidade, calcados principalmente na mão-de-obra escrava e, por vezes, contando com maquinismos de beneficiamento (atafonas para fabricar farinha-de-mandioca; engenhos para fabricação de aguardente, para secar arroz ou para „tirar madeiras‟). [...] Esses lavradores produziam para o mercado, abastecendo o núcleo urbano de Santa Maria e também regiões próximas, como era o caso da Campanha Rio-grandense [...] (FARINATTI, 2010b, p. 251).

  Nota-se, portanto, que havia certa parcela das propriedades voltadas às atividades agrícolas que conseguiam gerar excedentes, os quais lhes permitiam investir em trabalhadores 19 escravos. Farinatti (2010b) mostrou que a escravidão esteve disseminada por diversos setores da sociedade santa-mariense, e que a posse e concentração de cativos obedeciam a uma estratificação sócio-econômica entre as distintas atividades produtivas e, posteriormente, a uma hierarquização conforme a grandeza entre os próprios estabelecimentos.

  Em suma, partindo ainda de uma perspectiva comparativa, o mesmo autor coloca que o universo agrário de Santa Maria caracterizava-se pela existência de uma pecuária mais acanhada e menos especializada do que a da Campanha, e que se associava com a lavoura de alimentos. Esse padrão era encontrado em boa parte da Depressão Central

  • – Cachoeira, Rio Pardo, Encruzilhada, Taquari – e nas regiões do Planalto e das Missões – onde, porém, era acompanhado de importantes atividades, como por exemplo, a extração da erva-mate (FARINATTI, 2010b).

  De um modo geral, a paisagem agrária santa-mariense, constituído ao longo do século XIX, caracterizou-se pela diversidade dos agentes sociais que ali coabitavam, situação que fora condicionada pela própria heterogeneidade do relevo e da vegetação. Muitas das pessoas que compunham o conjunto populacional deste povoado buscavam, e/ou eram levados a receberem, os sacramentos católicos. De certa forma,

  desde o início da formação de Portugal, no século XII, a Igreja esteve ligada ao Estado e o Brasil colonial e monárquico se formaram dentro dessa tradição. Tanto a Igreja não concebia uma outra forma de organização política da sociedade, quanto os próprios leigos não se pensavam independentes do mundo do sagrado e das formas institucionais que este adquiria. As sociedades do mundo ocidental se pensavam cristãs e era dessa maneira que se constituíam: com a Igreja como um dos pilares e a matriz de suas normas jurídicas, políticas e sociais.

  A monarquia portuguesa, desde sua formação, concedeu direitos e privilégios à Igreja e tornou-a parte integrante do Estado, contando com seu apoio do ponto de vista ideológico e da participação de seus quadros letrados na burocracia estatal. A este sistema foi dado o nome de padroado e ele acompanhou o Estado português, a colônia portuguesa na América e também o Brasil monárquico. A vida política e social era marcada por ritos católicos [...] (BIASOLI, 2010, p. 170).

  A presença de um capelão e um oratório na Comissão Demarcadora de 1797 mostra que a Igreja esteve presente desde o marco de fundação de Santa Maria. Em 1804, o povoado foi alçado à condição de Oratório, para que, em 1814, conquistasse a qualidade de Capela Curada (BIASOLI, 2010). É, portanto, a partir desta data, que encontramos os assentos paroquiais de batismos, fontes com as quais desenvolve-se esta pesquisa.

  Dessa forma, esta monografia estuda o período que vai desde o princípio das atividades da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte (1814) até o ano da político brasileiro, e que, possivelmente, tenha acarretado alterações no modo em que a sociedade se organizava. A análise de nosso objeto de estudo, os escravos, em outro contexto sociopolítico, o qual talvez tenha sido ensejado pela independência brasileira, demandaria a conjugação de outros tipos de fontes com as já propostas neste trabalho. Todavia, uma pesquisa deste porte seria incompatível com as dimensões exigidas em uma monografia de conclusão de graduação.

  Enfim, após essa breve contextualização histórico-espacial

  • – na qual buscamos expor aos leitores a diversidade sócio-econômica da região de Santa Maria da Boca do Monte, na primeira metade do século XIX
  • –, esperamos ter dado mais cores àquele quadro descrito por Auguste de Saint-Hilaire, em 1821. Almejamos ainda que até as últimas linhas desse estudo possamos enriquecê-lo ainda mais.

3.2 Hierarquias sociais costumeiras e diversidade étnica

  No primeiro contato com os livros de batismos de Santa Maria da Boca do Monte da primeira metade do século XIX, as informações que, de imediato, nos saltam aos olhos são as discriminações da condição jurídica e da cor da pele e/ou de origem dos agentes sociais. Isto é, os párocos responsáveis por lavrar aqueles assentos preocupavam-se, antes de qualquer coisa, em identificar se os indivíduos que estavam recebendo os sacramentos católicos eram livres ou escravos. Posteriormente, não é difícil perceber que outra forte marca de distinção social se constituía a partir da cor da pele e/ou de origem dos sujeitos históricos. Neste ponto, havia uma diversidade de termos empregados pelos clérigos, como por exemplo: índio, preto, crioulo, mestiço, pardo. De acordo com Hebe Mattos, “[...] a colônia brasileira se diferenciava no âmbito do Império [português], constituindo-se enquanto sociedade colonial e escravista com hierarquias sociais e classificações proto- raciais específicas” (MATTOS, 2010, p. 150). Acreditamos que as informações extraídas desses registros traduzam o vocabulário social utilizado pela população que procurava e/ou era levada a receber os sacramentos católicos naquela capela. Logicamente, que essas informações tiveram como filtro os padres responsáveis pelas escriturações dos registros sacramentais. Mesmo assim, esta linguagem, em boa medida, está impregnada sobre o que aquelas pessoas indicavam sobre elas próprias, ou ao menos, como eram socialmente reconhecidas. Além disso, as referências contidas sociedade. Portanto, a análise daquele vocabulário social pode nos aproximar da composição social, econômica e étnica daquela sociedade.

  Sendo assim, nossa abordagem se pautará a partir da compreensão de que a condição jurídica e os distintivos de cor de pele e/ou de origem foram duas das principais classificações sociais responsáveis pela forte e complexa hierarquização social que caracterizou a América Portuguesa e, mais especificamente, o espaço rio-grandense.

  No dia vinte e cinco de janeiro do ano de 1814, Manoel Joaquim de Santa Anna e sua esposa, Maria das Dores, compareceram na Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, e na presença do Cura Antonio Jose Lopes, se tornaram padrinhos de Manoel, filho de Maria do Espírito Santo e de pai incógnito. O assento deste batizado fora lavrado pelo supracitado pároco no livro de batismos e acabou se tornando o primeiro registro de batismo documentado

  21

  naquela Capela. Depois do assento de Manoel, foram registrados no mesmo livro mais 1233 batizados.

  Entre esses 1234 batizados está o registro de Florinda, nascida a treze de janeiro de 1814, filha legítima da crioula escrava Josefa e do escravo africano Domingos. Este assento, lavrado no dia cinco de março do corrente ano, tornou-se o primeiro registro de batizado de um escravo daquela Capela, depois dele seriam mais 277 neste primeiro livro. Além de Florinda e seus pais, os quais possuíam enlace matrimonial sancionado pela Igreja, esse registro apresenta ainda o crioulo Manoel e a africana Rita, escravos que se tornaram

  22

  padrinhos da batizanda. De momento, cabe-nos ressaltar que, ao mesmo tempo em que esse assento mostra a presença de cinco cativos, sendo que dois deles são africanos, ele evidencia também a existência de uma família escrava confirmada pelo sacramento católico.

  Entre o batizado de Manoel e de Florinda transcorrem somente trinta e nove dias. Se levarmos em consideração o espaço físico do livro de batismos, os registros de suas iniciações ao mundo cristão-católico estão separados por outros quatro, ou então por uma única folha. As evidências mostram que seus pais frequentavam a mesma Capela Curada. Possivelmente, estes dois batizandos tenham recebidos os santos óleos na mesma pia batismal. E, se por ventura, suas vidas tenham se prolongado dentro da expectativa média de vida para o início do século XIX no sul da América Portuguesa, eles possam ter se cruzado em algumas 21 oportunidades. No entanto, havia uma significativa distância social que se colocava entre a 22 Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria, livro 1 de batismos, folha 1.

  escrava crioulinha Florinda e Manoel. Essa separação foi forjada principalmente pela diferença entre suas condições jurídicas e, também, por classificações sociais como categorias de cor de pele. Em suma, Florinda e Manoel eram indivíduos que fizeram parte de ordens diferentes de uma mesma sociedade, a qual concebia, legitimava e naturalizava as desigualdades e hierarquias sociais por meio de práticas costumeiras de poder (MATTOS, 2010).

  Entre muitas dessas práticas estava a própria escravidão que fora fundada em relações de poder construídas costumeiramente na expansão portuguesa na África, e se naturalizava

  23

  integrando-se à concepção corporativa da sociedade ibérica. Segundo Hebe Mattos, a legislação portuguesa em nenhum de seus códigos de leis instituía a escravidão, entretanto, sua existência como condição naturalizada esteve presente em diversos corpos legislativos do Império lusitano. Bom exemplo disso foi o caso sobre as alforrias, que fora inserida nas Ordenações Filipinas junto à parte de direito de propriedade (MATTOS, 2010). Esse caso é bastante elucidativo no que se refere à naturalização da escravidão no Império português. Mesmo que a circunstância do cativeiro não tenha sido prevista explicitamente em lei positiva, o fato de ter havido leis que normatizavam sobre a possibilidade de manumissão mostra que essa situação se configurava, naquela sociedade, não como exceção, mas sim como a normalidade.

  Desse modo, além de ser um fator que auxiliava a produzir as complexas estratificações sociais, a distinção entre as condições jurídicas também acabava condicionando a posição da hierarquia social a qual os sujeitos históricos ocupariam. Por sua vez, essa posição engendrava implicações ao longo de toda a trajetória de vida daqueles, desde as possibilidades de acesso aos meios de produção (principalmente a terra), até mesmo a autonomia de mobilidade espacial (bastante restrita aos escravos). Em Santa Maria da Boca do Monte, a partir do universo de 1234 registros de batismos do livro 1 da Capela Curada dessa localidade, podemos ter uma ideia da representatividade social das populações livre e cativa. Vejamos o gráfico 1 abaixo.

  Gráfico 1 - Distribuição dos batismos segundo a condição jurídica dos

  batizandos (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)

  0% 1% 23%

  Livres - 944 Escravos - 278 Forros - 08 Sem referência - 4

  76% Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

  O número total de 944 de registros de batismos de pessoas livres deixa patente que a ampla maioria dos batismos realizados foi de indivíduos que viviam sob a condição jurídica de livres. Esse percentual de 76% de batizados envolvendo agentes sociais livres representa, praticamente, que, para cada três pessoas livres batizadas ocorria o batizado de um escravo. Todavia, este dado indica também a significativa presença de escravos em Santa Maria da Boca do Monte. Assim sendo, o batizado destes 278 cativos insinua que, apesar desta localidade não ter pertencido a uma região de economia hegemônica, como por exemplo, a Campanha rio-grandense, a mão de obra cativa ocupava relevante espaço frente a outras modalidades de trabalho como o livre e o familiar. Contudo, o emprego de alguma destas modalidades de mão de obra não exclui as outras. Na maioria das vezes o emprego do trabalho escravo era conjugado com o familiar e/ou com trabalhadores livres, que poderiam ser permanentes ou eventuais, como demonstrou Farinatti para a região da Campanha e para o

  24

  espaço aqui abordado em meados do século XIX. Enfim, a simples conferência da condição jurídica contida nos assentos batismais nos sugere que o trabalho escravo se configurou como importante instrumento para o desenvolvimento das atividades produtivas daquele espaço já nas primeiras décadas do Oitocentos. Além disso, a percentagem de 23% de batismos de africanos ou afro-descendentes deixa claro que a presença dos recursos e orientações

  25

  valorativas africanas contribuíram consideravelmente no processo de constituição da sociedade santa-mariense, e de forma alguma podem ser desprezadas.

  É bem verdade que, como lembra João Fragoso, os africanos que passaram pela experiência de cativeiro “incorporaram a ideia de escravidão e hierarquias sociais como normas suas. Nesse processo, com certeza, alguns dos traços de suas regiões de origem devem ter ajudado” (FRAGOSO, 2009, p. 169). Isso significa dizer que, os indivíduos oriundos da África estavam dotados de recursos que lhes possibilitavam entender a escravidão e suas próprias condições de escravos. A partir desta realidade, podiam elaborar estratégias que os levassem a conquistar melhores condições de vida num mundo que lhes era hostil e que, até mesmo, lhes permitissem galgar alguns degraus nas complexas hierarquias sociais, fossem elas entre os próprios cativos ou para além das fronteiras do cativeiro.

  Se, talvez, a condição jurídica constituiu-se como o mais importante componente para a edificação daquela estrutura social hierarquizada. Os qualitativos sociais que distinguiam os agentes históricos a partir da cor da pele e/ou origem foram também essenciais para a sua compleição e, acabaram por dotá-la de rica complexidade. Como constatado para Santa Maria da Boca do Monte, o número de batizados de indivíduos livres e escravos, sem agregar qualquer outra variável à análise, nos possibilitou fazer algumas considerações sobre o contexto sócio-histórico do período e espaço abordados nesta pesquisa. No entanto, se não decompormos o montante dos batismos com os quais trabalhamos a partir de outras variáveis, correremos o risco de ocultar em grande medida a diversidade étnico-social presente naquele espaço. Isto porque, as hierarquias sociais costumeiras que se desenvolviam eram entremeadas por diversos fatores, os quais iam desde a condição jurídica, passavam pela cor da pele e/ou origem, até as desigualdades econômicas.

  Assim sendo, analisemos, junto ao gráfico 2, a distribuição dos batizados quanto a sua classificação de cor de pele e/ou origem dos batizandos.

25 Nesse estudo, o conceito de orientações valorativas é entendido a partir dos termos propostos por Fredrik

  

Barth (2000). Para esse autor, as orientações valorativas básicas são constituídas por padrões de moralidade e

excelência pelos quais as ações e atitudes das pessoas que formam os grupos (sociais e/ou étnicos) são julgadas.

  

Gráfico 2 - Distribuição dos batismos segundo a cor de pele e/ou origem dos batizandos

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)

11% 2% 0%

  Sem referência de cor - 534 12% 43% Indígenas - 393 Crioulos - 151 Africanos - 133 Pardos - 20 Mestiços - 3 32% Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

  Pode-se perceber que quatro das seis designações de cor de pele e/ou origem se destacam significativamente no universo dos 1234 batismos com os quais se trabalham. Os batizandos que não tiveram referência de cor especificada pelos clérigos foram a maioria, contando com 523 registros de batismos, número absoluto o qual corresponde a um percentual de 43% das pessoas batizadas. Os batismos de indígenas também registraram um número considerável, chegando a 393 assentos, chegando a 32% dos registros. Por sua vez, os crioulos totalizaram 151 batizados, perfazendo a percentagem de 12% do total de registros. Já os indivíduos africanos compareceram ao ritual do primeiro sacramento em 133 oportunidades, número que registra 11% dos 1234 assentos batismais registrados no livro 1 da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte.

  A partir desses números pode-se perceber que desde as primeiras décadas do Oitocentos, período no qual desenrolava-se a ocupação territorial e o povoamento da região, Santa Maria fora marcada por uma relativa diversidade étnica. Essa diversidade indica que, apesar da preponderância da forma de organização social luso-brasileira, nessas paragens havia significativa parcela da população que se guiava por meio de outras orientações valorativas e que, consequentemente, concebiam, idealizavam e projetavam outras formas de organizar a vida em sociedade. Assim, a forma com que essa sociedade se organizou nesse espaço territorial teve a contribuição dos diversos grupos sociais e étnicos que nele coabitavam com suas respectivas concepções culturais. mais antigas do leste da Capitania do Rio Grande de São Pedro e os territórios missioneiros, incorporados a América portuguesa em 1801, o território de Santa Maria acabou recebendo importantes influxos migratórios. No desenrolar deste processo, “a organização de uma economia agrária sob domínio luso-brasileiro trouxe para a região um afluxo importante de população escravizada e também atraiu migrantes guaranis missioneiros que vinham em busca de trabalho ou terras [...]” (FARINATTI, 2010b, p. 245). De tal modo, acreditamos que esse processo não tenha se desenvolvido de maneira harmoniosa, já que, aliada a esta diversidade étnico-social, haveria também a constante disputa pela posse da terra, situação típica em um contexto de fronteira agrária aberta e povoamento recente. Estas circunstâncias, possivelmente, tenham ensejado constantes conflitos entre os sujeitos históricos, os quais vinham implantando suas atividades produtivas naquele espaço, e entre estes e as instituições

  26 do Império português que, por sua vez, buscava se estabelecer definitivamente na região.

  Esta hipótese se tornou ainda mais plausível quando se verificou, por meio dos registros de batismos, que: uma parcela considerável dos luso-brasileiros provinha de diversos locais da América portuguesa, principalmente, da região leste da Capitania do Rio Grande de São Pedro, e da Capitania de São Paulo; a população guarani era oriunda, principalmente, dos Sete Povos missioneiros da margem esquerda do rio Uruguai; e que havia importante parcela de africanos adultos recém chegados.

  Baseando-se nestes dados demográficos, consideramos não ser exagerado sugerir que a sociedade santa-mariense constituiu-se a partir de um amálgama entre distintas matrizes culturais. Processo o qual, mesmo que tenha ocorrido sob a hegemonia da matriz cultural ibérica, teve seu produto sócio-cultural consideravelmente influenciado pelas matrizes culturais guarani e africana. Em texto recente, João Fragoso se pergunta e busca responder como grupos sociais distintos e, portanto, com orientações valorativas próprias, conseguiram viver juntos no espaço agrário fluminense no século XVII; e, além disso, questiona-se sobre quais as instituições e processos possibilitaram a emergência daquela sociedade escravista (FRAGOSO, 2006). Para responder as próprias indagações, o autor parte do conceito de sociedade fragmentada e aberta elaborada por Fredrik Barth. Conforme Fragoso,

26 Como lembrou José Iran Ribeiro, a constante mobilização militar no espaço sul rio-grandense ao longo da

  

primeira metade do século XIX não pode ser desconsiderada. Isto porque, os reflexos deste estado de endemia

  [...] Barth propõe discutir o conceito de sociedade considerando-a, simultaneamente, fragmentada e aberta. Fragmentada, em razão de os atores envolvidos nas interações serem personae diferentes e, portanto, agirem conforme seus recursos e orientações valorativas. Suas ações resultariam de escolhas e de estratégias próprias, o que confere à interação um certo grau de tensão e, neste sentido, de incerteza ou de imprevisibilidade.

  As sociedades são abertas, porque as ações dos agentes seriam guiadas por valores de distintos mundos. Basta lembrar a composição da sociedade escravista fluminense do Rio de Janeiro dos seiscentos. Nela temos grupos ligados ao recôncavo da Guanabara, mas ao mesmo tempo à Europa do Antigo Regime, como a nobreza da terra , ou aos reinos do Golfo da Guiné, a exemplo dos negros, sem falar dos demais grupos cujas relações sociais resultaram no Rio colonial (2006, p. 98) [grifos do autor].

  Do mesmo modo, diversos grupos sociais dividiam espaços em Santa Maria da Boca do Monte, no período abordado, e além de interagirem sócio-culturalmente entre si, mantinham vínculos culturais com outras sociedades. Entre os luso-brasileiros, haviam grupos que se ligavam a agentes sociais do leste da Capitania, a outras Capitanias da América portuguesa, e até mesmo da Europa, como também, havia grupos que, além destas ligações, mantinham fortes vínculos com a região do Prata. Ao mesmo tempo, existia significativa parcela de guaranis descendentes dos grupos que haviam passado pela experiência das reduções jesuíticas espanholas que possuía orientações valorativas bastante peculiares, e também conservava laços com as sociedades platinas. Além disso, os africanos e seus descendentes reelaboravam para o contexto de cativeiro, em um espaço geográfico bastante diferente da África, suas concepções e/ou heranças culturais, as quais eram periodicamente oxigenadas pela constante chegada de africanos.

  Deste modo, cremos que a sociedade que começava a emergir na região de Santa Maria da Boca do Monte, no início do século XIX, foi forjada a partir de relações culturais de reciprocidades desiguais. Ou seja, as distintas matrizes culturais se influenciaram mutuamente em um processo de intercâmbio cultural desigual. Processo no qual a matriz cultural ibérica configurou-se como hegemônica, mas que, necessariamente, teve que coabitar, relacionar-se,

  27 submeter e negociar com as matrizes culturais guarani(s) e africana(s).

  Assim, a própria lógica das hierarquias sociais obedecia a uma clara direção no sentido de aproximação com a matriz cultural ibérica. Isto é, quanto mais próximos das normas sócio- culturais ditadas pelos luso-brasileiros estivessem os demais agentes sociais, maior seria a probabilidade de ascenderem nas estratificações sociais. Mesmo bastante difícil e restrita, numa sociedade com fortes traços de Antigo Regime, a ascensão social passava pela aceitação e cumprimento daquelas regras e a consequente aproximação com o mundo regido, majoritariamente, pelos preceitos cristão-católicos. Estes, por sua vez, tiveram papel fundamental na formação e legitimação da escravidão moderna. Ao mesmo tempo em que as distinções de cor de pele e/ou origem e as características físicas da maioria dos cativos auxiliaram a reforçar as hierarquias sociais

  • – tanto entre livres, quanto entre escravos –, elas não foram imprescindíveis para justificar a escravidão.

  28 Contudo, afirmar que a legitimação da escravidão moderna não se fez em bases raciais não implica, entretanto, considerar que as estigmas e distinções com base na ascendência deixassem de estar presentes nas sociedades do Antigo Regime e, em especial, no Império português. [...]. O estatuto de pureza de sangue, apesar de sua base religiosa, construía, sem dúvida, uma estigmatização baseada na ascendência, de caráter proto- racial, que, entretanto, não era usada justificar a escravidão, mas antes para garantir os privilégios e a honra da nobreza, formada por cristãos velhos, no mundo dos homens livres (MATTOS, 2010, p. 148-149).

  Portanto, nos parece que as discriminações de cor de pele e/ou origem realizadas pelos párocos atendiam mais aos estímulos habituais de uma sociedade naturalmente hierarquizada, e que tinha nestes elementos outro componente fundamental de gradação, do que a necessidade de justificar o cativeiro. Todavia, afirmar isso não significa dizer que a doutrina cristão-católica não teve participação no que se refere à justificação da escravidão. Na verdade, foi em torno dos conceitos de guerra justa ou de justo cativeiro, teorizados e difundidos pela Igreja Católica, que giravam os discursos os quais legitimavam a escravidão. Segundo Hebe Mattos,

  neles [nos conceitos de guerra justa e justo cativeiro] residia a própria possibilidade de se pensar a expansão do Império, [logo], a possibilidade do cativeiro do gentio americano ou africano foi antes construção de quadros mentais e políticos, de fundo corporativo e religioso, possibilitadores daquela expansão, inclusive na sua dimensão comercial. Conseguir cativos índios ou africanos, o que significava tornar- se senhor de terras e escravos, afidalgando-se nas colônias, foi uma das grandes motivações a trazer milhares de colonos portugueses para a aventura da conquista (MATTOS, 2010, p. 147-148).

  Parece-nos, que este imaginário de conquista povoava a mente daqueles homens que empreenderam a conquista e a ocupação luso-brasileira da região de Santa Maria da Boca do Monte no início do século XIX. Além disso, as orientações valorativas daqueles homens haviam sido traçadas por meio de práticas sociais em que predominavam as relações de reciprocidade entre desiguais, como por exemplo, entre eles – súditos – e o seu monarca. Nesse contexto, eles viam a possibilidade de, por meio da prestação de serviços ao Estado Imperial de Portugal

  • – como alargar as extensões territoriais do Império, subjugar povos infiéis, conquistar mais súditos para seu soberano, em suma, aumentar a glória del Rei –, conquistarem o direito de receber mercês do monarca português.

  Assim sendo, a perspectiva de tornar-se terratenente e senhor de escravos africanos e afro-brasileiros eram duas possibilidades relativamente acessíveis, e que, provavelmente, tenham motivado muitos homens a se deslocarem e se estabelecerem na região de Santa Maria da Boca do Monte.

  No que tange a possibilidade de obtenção de escravos, o gráfico 2 nos apresentou um considerável número de batismos de cativos africanos na Capela da localidade. Dado o qual insinua que essa região da Capitania do Rio Grande de São Pedro era tocada pelo tráfico atlântico de escravos, circunstância a qual teria produzido influências importantes sobre a conformação social que ela assumiu. Porém, este assunto será analisado na próxima parte desse estudo.

4 Parte III

4.1 Da África ao Brasil Meridional

  Os escravos Manoel e Luiza compareceram na Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte no dia vinte e sete de março do ano de 1814. Nesse dia, eles se tornaram pais espirituais de Joaquim, que na ocasião, segundo o Cura Antonio Jose Lopes, contava com 216 meses de vida, ou seja, aproximadamente 18 anos de idade. Ao receber os santos óleos na pia batismal, Joaquim se tornou o primeiro escravo africano a ser batizado em Santa Maria da

29 Boca do Monte.

  De acordo com José Roberto Góes,

  os africanos, como se sabe, são em certo sentido, uma invenção americana. Trazidos dos mais diferentes lugares do „continente negro‟, foi nas fazendas e cidades americanas que milhões de homens e mulheres, oriundos de diversas sociedades e tradições culturais, foram levados a se fazerem africanos. A fôrma do africano foi a escravidão e o material usado [...] foram as tradições culturais específicas que traziam da África (2003, p. 206). [grifos do autor]

  Assim como na grande maioria dos assentos de batismos de indivíduos africanos, no registro de Joaquim não consta informações relevantes como, por exemplo, a sua etnia africana. Circunstância essa que, devido às fragilidades das informações de que dispomos sobre o meio social onde forjaram-se as orientações valorativas desses sujeitos, dificulta bastante as reflexões qualitativas sobre as experiências históricas desses agentes sociais. Contudo, a partir de algumas obras de referência sobre a África, a escravidão e o tráfico negreiro podemos nos aproximar, ou ao menos conceber uma ideia-representação, dessas experiências.

  Segundo Florentino (2010), eram três as principais áreas de procedência dos negreiros aportados no Rio de Janeiro, o porto brasileiro pelo qual entraram as mais vultosas somas de africanos, entre 1795 e 1830: África Central, Ocidental e Oriental. Foi da primeira dessas áreas de procedência

  • – África Central Atlântica – que provieram cerca de 90% da população africana que se espalhou pelo Sul-Sudeste da América portuguesa e posteriormente do Império do Brasil. Nesse contexto, para Slenes (1999) e Góes (2003), o tronco linguístico
banto era um dos elementos culturais comuns a todas as sociedades dessa área africana. Situação essa que, por consequência, segundo esses autores, pode ter possibilitado a formação de uma identidade, ou até mesmo uma proto-nação, banto entre os indivíduos que compunham a população africana radicada compulsoriamente no Brasil. Além disso, pesquisas recentes vêm mostrando que, em uma vas ta região da África Central, “a cultura é menos heterogênea e menos particularista do que geralmente se supõe” (CRAEMER apud

  SLENES, 1999, p. 143).

  Assim sendo, apesar de não termos base empírica, não é descabido tentar imaginar a trajetória percorrida por Joaquim antes de ele ter sido levado a receber o primeiro sacramento católico. A partir dos argumentos dos autores citados acima podemos presumir que Joaquim tenha passado significativa parte de sua vida em alguma tribo do interior da África Central. Também não é difícil imaginar que ele tivesse sido um lavrador, ou então que se dedicava ao pastoreio. Por outro lado, salvo alguma condição excepcional, possivelmente, Joaquim teria sido um dos guerreiros de sua tribo, e do mesmo modo que muitos outros integrantes desta, pode ter sido escravizado após a derrota em uma contenda tribal, ou ter sido alvo de uma expedição de apresamento de escravos promovida pelos grandes reinos africanos litorâneos.

  O caminho percorrido por Joaquim do interior da África até a longínqua paragem de Santa Maria da Boca do Monte, possivelmente, começou por longos dias de percurso terrestre pelo interior do continente negro em direção a alguma localidade portuária do litoral. Dali, após ter sido negociado com traficantes de escravos, ele acabou sendo embarcado em um dos navios negreiros que rumavam à América. Por conseguinte, após algumas semanas da travessia atlântica, provavelmente, Joaquim tenha desembarcado no porto de São Sebastião do Rio de Janeiro. Nesta altura de seu trajeto como cativo, é plausível crer que Joaquim já teria passado por intensas experiências como a abrupta apartação de sua família e o próprio desterro compulsório. Além disso, no decorrer da insalubre viagem nos porões negreiros ele teria também visto inúmeros de seus companheiros de cativeiro sucumbirem devido a doenças, fome ou aos maus tratos.

  Já em território luso-brasileiro, Joaquim acabou sendo separado da maioria dos parceiros africanos, os quais haveriam de seguir às plantations do sudeste e nordeste. Por sua vez, após algum tempo em poder de um mercador de escravos, seu destino acabou sendo selado: rumaria em direção aos confins meridionais da América portuguesa. Desta forma, mais uma vez, teria de passar pela sina de uma embarcação que transportava escravos, no Partindo do Rio de Janeiro em sentido austral, após mais algumas semanas, e depois de ter atracado em diversos entrepostos, o navio que transportava Joaquim deve ter chegado à última localidade luso-brasileira ao sul da América, a povoação de Rio Grande.

  Mas como sabemos, a longa marcha de Joaquim não teria fim ali. Indiferente dos diversos episódios que devem ter marcado a trajetória de nosso protagonista, podemos presumir que para chegar até Santa Maria da Boca do Monte, provavelmente, em Rio Grande tenham-no colocado noutra embarcação, a qual seguindo via Lagoa dos Patos desembarcaria, em poucos dias, na localidade de Porto Alegre. De lá, após outra mudança de embarcação, ele seguiria seu percurso, em direção oeste, pelo rio Jacuí até a povoação de Rio Pardo. A partir dali, seria preciso deslocar-se por terra até as proximidades do sopé da Serra Geral, local aonde se situava Santa Maria da Boca do Monte e, provavelmente, encontravam-se as

  

30

propriedades de Thomaz Cardoso, seu senhor.

  Essa pode ou não ter sido a trajetória de Joaquim desde o interior da África até o extremo meridional da América portuguesa. Mas provavelmente, muitos dos eventos superficialmente narrados aqui fizeram parte da trajetória de muitos dos africanos que chegaram a esses confins de que tratamos. Desde que foram escravizados até chegar a pia batismal da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, Joaquim e outros cento e trinta

  31

  e dois africanos tiveram que superar condições de existência extremamente inóspitas. Na verdade, essa narrativa não tem por finalidade vitimizar esses indivíduos. Muito antes pelo contrário, o que realmente pretendemos é mais uma vez afirmar que, as intensas experiências vividas por esses africanos, embora lhes infligisse um abissal sofrimento, acabava também os obrigando a elaborarem estratégias para que antes de qualquer coisa pudessem sobreviver.

  Como já colocamos nesse estudo, entendemos que os africanos possuíam um arcabouço cultural que lhes provia de recursos, com os quais compreendiam o cativeiro e suas próprias condições de cativos. Nesse sentido, todas as experiências pelas quais passavam os escravos africanos, ao longo de todo o trajeto desde seu continente natal até os mais remotos rincões da América, também se tornavam elementos que enriqueciam, de forma bastante dolorosa, o lastro cultural de cada indivíduo. Além disso, as violentas vivências as quais esses 30 sujeitos eram submetidos passavam, imediatamente, a servir como elementos para 31 Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria, livro 1 de batismos, folha 2.

  enfrentarem as difíceis demandas da escravidão em um contexto bastante distinto do

  32 africano.

  Enfim, a significativa presença de africanos nos assentos de batismos, além de constatar que os produtores da região de Santa Maria da Boca do Monte recorriam ao tráfico negreiro para a reincorporação de mão de obra cativa, pode nos contar mais sobre o caráter hierárquico daquela sociedade.

4.2 Batismos de africanos e função sociológica do tráfico negreiro

  Como se pôde perceber no Gráfico 2, os batismos de africanos representam 11% do total. Contudo, se levarmos em consideração somente o número de escravos, veremos que a presença de africanos foi realmente bastante significativa na região de Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do século XIX. Segundo a condição jurídica discriminada pelos clérigos, 278 destes registros são de escravos, número que corresponde a 23% do total de assentos. Dentre os 278 escravos batizados, 131 deles eram africanos, o que corresponde a um percentual de 47% do montante dos batizados de escravos. Vejamos o Gráfico 3 abaixo.

  

Gráfico 3 - Distribuição de escravos quanto a origem

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)

0%

  47% Crioulos - 146 Africanos - 131 Sem referência - 01 53% Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

32 Nesse contexto, faz-se imprescindível concordar com a ressalva que faz Nikelen Acosta Witter (2005), esta

  

autora lembra que um componente inerente a história da escravidão é que ela constituiu-se em uma história do

  Essa constatação é coerente com o quadro verificado por Florentino; Góes (1997). A partir da análise sobre a flutuação do desembarque anual de africanos no porto do Rio de Janeiro, esses autores colocam que entre os anos de 1810 e 1825 houve um período de elevação dos desembarques de africanos naquele porto. Os autores chamaram esse período de aceleração do tráfico de fase A, o qual foi diretamente influenciado pela presença da família real portuguesa no Brasil e as implicações ligadas a essa situação como, principalmente, a abertura dos portos coloniais ao comércio internacional. Situação que, grosso modo, possibilitou um significativo aumento das exportações brasileiras e, consequentemente, gerou uma forte demanda brasileira por escravos africanos.

  Assim, a expressiva representatividade de indivíduos africanos nos assentos batismais dessa capela sugere que a reincorporação de braços para as atividades produtivas nessa região passava pela sua vinculação com o tráfico atlântico de escravos. Isso se torna ainda mais relevante se levarmos em conta que se trata de uma região de economia periférica marcada, consideravelmente, por pequenas propriedades de produção voltadas à subsistência, que, no

  33

  entanto, dividiam espaço com propriedades pastoris de significativo porte. Este cenário pode indicar que: na região em torno de Santa Maria da Boca do Monte também ocorria à subordinação da sociedade ao que Florentino; Góes chamaram de função sociológica primária do tráfico transatlântico de cativos, qual seja, perpetuar a diferenciação social entre os agentes sociais livres. Segundo os autores,

  [...] em última instância, o tráfico destinava-se a abastecer de escravos não a sociedade como um todo, mas sim uma elite que, por meio dele, reproduzia seu lugar social e, desse modo, reiterava sua distância em relação a todos os outros homens livres (1997, p. 56) [grifo dos autores].

  Para averiguarmos essa hipótese, procurou-se realizar uma estimativa da estrutura de posse de escravos para a região atendida pela Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte a partir da base empírica da qual dispomos, ou seja, os assentos de batismos. Da mesma forma que Fragoso (2006), buscou-se perceber as proporcionalidades na distribuição da propriedade cativa, sem, no entanto, ter-se a pretensão de apresentar a exata estrutura da posse de escravos da região. Este mesmo procedimento, a que recorremos, foi realizado por Fragoso (2006). Na ocasião, esse autor admitiu ter consciência das distorções acarretadas por

  34

  esse método. Do mesmo modo, Engemann; Assis; Florentino (2003), ao utilizarem metodologia semelhante para estimarem a estrutura de posse de escravos a partir de assentos

  35

  de óbitos, também ponderaram sobre sua fragilidade. Todavia, devido a falta de inventários

  

post-mortem para essa região, no período abordado, ficamos impossibilitados de fazer um

  estudo fidedigno da estrutura da propriedade escrava. Nesse sentido, embora reconheçamos as limitações desse procedimento, ao se recorrer aos registros de batismos pôde-se elaborar uma estimativa da proporção da posse de escravos para a região de Santa Maria da Boca do Monte.

  A partir do quadro 1 começamos a ter uma ideia inicial de que maneira estava distribuída a posse de cativos na região e no período que abordamos. Em primeiro lugar, é necessário deixar claro que dos 278 batizados de escravos que foram registrados no livro 1 de batismos da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, em 31 deles não foi discriminado o senhor do escravo ou de sua mãe, ou ainda não nos foi possível identificar o nome do senhor. Logo, dos 247 batizados restantes foi possível identificar 136 senhores. Destes, 95 (70% do total) registraram somente 1 cativo. Por seu turno, estes 95 cativos representam 38,5% do total dos 247 escravos que foram batizados. Esses dados indicam certa dispersão da propriedade escrava, já que 70% dos proprietários batizaram ao menos um cativo. Além disso, como era de se esperar, essas informações sugerem também uma considerável importância de pequenos plantéis frente à estratificação da estrutura produtiva. Em contrapartida, aproximadamente 30% dos assentos foram feitos por apenas 9 senhores (6,5% do total). Portanto, além da significativa quantidade de senhores com poucos cativos batizados, nos parece que havia um razoável grau de concentração da escravaria em plantéis de poucos proprietários. Vejamos abaixo o quadro 1.

  Quadro 1 - Concentração dos batismos de escravos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)

  

Nº de Batismos Nº de Proprietários % Nº de escravos %

  1

  95

  70 95 38,5

  2 17 12,5 34 13,8

  3

  15

  11 45 18,2 4 ou mais 9 6,5 73 29,5 136 100 247 100

  Total Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria. Ao mesmo tempo em que os dados do quadro 1 indicam relativa dispersão da posse cativa, eles sugerem também certo grau de concentração dessa posse em poucas mãos. A partir da realidade encontrada, de que 6,5% dos senhores haviam concentrado 29,5% de todos os batismos de cativos, entendemos que a propriedade de escravos se configurava em um importante componente de diferenciação social entre os pares livres da sociedade.

  Entretanto, a incorporação de mão de obra escrava poderia ocorrer por outros veículos que não apenas o tráfico negreiro. Assim, para que nossa hipótese tenha coerência, entendemos que seria necessária a combinação de ao menos dois fatores. Em primeiro lugar, os proprietários de escravos da região abordada nessa pesquisa precisariam recorrer com razoável frequência ao tráfico atlântico de cativos. Em segundo, a reincorporação de africanos aos plantéis teria de obedecer ao mesmo padrão de concentração verificado no quadro 1, ou seja, considerável parcela dos batismos de africanos também devem ter sido realizados por poucos senhores.

  Como já se pôde averiguar, o primeiro fator parece ter ocorrido, visto que: entre os 278 escravos batizados no período abordado, 131 eram oriundos do continente africano (ver gráfico 3). Por sua vez, o gráfico 4 mostra a ocorrência dos batismos de escravos africanos ao longo do tempo.

  

Gráfico 4 - Ocorrência de batismos de africanos ao longo do tempo

25 30 35

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

10 15

  20 5

1814 1815 1816 1817 1818 1819 1820 1821 1822

Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

  A média geral de batizados de cativos africanos alcançou mais de 14 rituais por ano. O intervalo correspondente ao decréscimo de cerimônias envolvendo escravos africanos se deve a interrupção dos registros de batismo no final do ano de 1816, retornando em outubro de 1817. Desconhecemos ainda a causa, conquanto, supomos que a Capela fora fechada devido a do livro 1, com o qual desenvolve-se essa pesquisa, no final do mês de maio daquele ano. Contudo, acreditamos que essa limitação não comprometa as reflexões aqui promovidas, já que, o número de africanos batizados até maio de 1822 já se igualava ao montante de batismos realizados em todo o ano de 1821. Por consequência, a média geral e o número absoluto desses, muito provavelmente, teria sido maior. Circunstância essa que, salvo uma situação bastante anômala, não poderia gerar distorções no cenário de concentração de batizados de escravos africanos.

  No que tange ao segundo fator, percebe-se que o quadro de considerável dispersão da posse de escravos concomitante com a sua significativa concentração por uma elite de senhores, averiguado na distribuição de escravos em geral, também se repete nos batismos de escravos africanos. Dos 131 cativos africanos batizados, conseguiu-se identificar o seu proprietário em 128 assentos. Os registros destes 128 cativos africanos foram feito por 77 senhores diferentes. Sendo que, desse total de senhores, 55 (71,4% do total) deles batizaram somente 1 escravo africano. Esses números revelam que, mais de 70% dos senhores batizaram 43% dos escravos africanos. Situação essa que, como já se constatou para os escravos em geral, mostra a disseminação da posse de cativos africanos em pequenos plantéis. Em compensação, apenas 6 (7,8% do total) dos proprietários batizaram quatro africanos ou mais, reunindo, dessa forma, 29,7% dos batismos de cativos oriundos do continente africano. Esses dados indicam também a provável existência de uma elite de senhores que concentravam a propriedade de escravos africanos.

  Quadro 2 - Concentração dos batismos de escravos africanos

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)

  

Nº de Batismos Nº de Proprietários % Nº de escravos %

  1 55 71,4

  55

  43

  2 13 16,9 26 20,3

  3 3 3,9

  9

  7 4 ou mais 6 7,8 38 29,7 77 100 128 100

  Total Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

  Para reforçar ainda mais nosso argumento, fizemos no quadro 3 uma listagem com os verificamos que, dos 6 senhores que formaram a elite que mais batizou cativos africanos, 4 deles foram os proprietários que mais batizaram escravos em geral. Tendo, cada um deles, batizado nove ou mais escravos. Somente um dos cinco senhores que tiveram nove ou mais escravos batizados registrou menos de quatro batismos de escravos africanos. Essa situação foi protagonizada por José Cardoso da Silva.

  

Quadro 3 - Relação dos proprietários que mais tiveram escravos batizados

  (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 -1822)

  

Proprietários Crioulos Africanos Total

  Antonio da Costa Pavão

  7

  7

  14 Manoel Francisco da Silva (Capitão)

  1

  9

  10 Balthazar Pinto de Aguiar (Capitão)

  5

  5

  10 Jozé Machado Fagundes (Capitão)

  2

  7

  9 José Cardoso da Silva

  7

  2

  9 Manoel Carneiro da Silva e Fontoura (Tenente- Coronel)

  3

  5

  8

  • Manoel Ferreira Serpa

  5

  5 Manoel Joaquim Vieira

  2

  2

  4

  4 * Bento Gonçalves Chaves

  4 Total

  31

  42

  73 Fonte: arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria.

  Parece-nos que os dados até aqui expostos comprovam que o tráfico transatlântico de escravos africanos era uma possibilidade viável tanto para os grandes, quanto para certa parcela de pequenos produtores da região de Santa Maria da Boca do Monte, no período estudado. Por conseguinte, essa constatação implica dizer também que, a mão de obra cativa tornou-se componente imprescindível para o estabelecimento das atividades produtivas ainda durante o conturbado processo de ocupação territorial (luso-brasileiro) nas primeiras décadas do século XIX. Período no qual, essa região esteve imersa em um contexto de endemia bélica devido as frequentes lutas pela manutenção dos territórios conquistados e disputas fronteiriças no sul da América portuguesa. Assim, as possibilidades de fuga de escravos para os Estados suas pelejas intestinas, ou que esses fossem requisitados para o exército ou milícias que passavam pela região transformavam a aquisição de escravos

  • – principalmente africanos, por meio do tráfico negreiro
  • –, em um investimento econômico de alto risco. Mesmo assim, nessa região de economia periférica, marcada por constantes vicissitudes, reflexos do povoamento (luso-brasileiro) recente, fronteiras instáveis e endemia bélica, a escravidão era um regime de trabalho amplamente difundido.

  Essa circunstância, em nosso entendimento, reforça a ideia de que essa sociedade era marcada por fortes traços de Antigo Regime, em que práticas costumeiras de poder idealizavam, legitimavam e naturalizavam as desigualdades e as hierarquias sociais. E que, por sua vez, a escravidão se configurava como norma, e não como exceção. Logo, como já argumentamos no capítulo anterior, a possibilidade de se tornar proprietário de terras e escravos motivou muitos dos primeiros povoadores desse território em questão a se dirigirem a ele.

  Outro importante fator que deduzimos das informações até aqui apresentadas é que: mesmo em uma região onde predominavam os estabelecimentos voltados para produção de subsistência havia certa parcela de produtores que conseguia gerar excedentes, os quais lhes possibilitavam investir na aquisição de escravos, inclusive africanos.

  Além disso, entende-se que as informações levantadas corroboram com a coerência da hipótese de que, no espaço e período estudados, o tráfico negreiro cumpria a função sociológica de reproduzir o lugar social de uma elite que buscava se distanciar do restante da população livre. Enfim, a vinculação dessa região ao tráfico atlântico se configurava também em importante componente de reprodução das complexas hierarquias sociais daquela

  • – sociedade. Hierarquias essas que se manifestavam, grosso modo, tanto entre escravos crioulos, africanos ladinos, africanos boçais -, quanto entre escravos e livres e, também, entre os próprios pares livres – principalmente entre abastados e pobres.

  CONCLUSÕES

  Neste espaço faremos a síntese de algumas conclusões que foram sendo apresentadas no corpo deste trabalho. No entanto, não se tem por pretensão afirmar que as interpretações que fizemos ao longo deste estudo sejam absolutas, ou até mesmo livres de equívocos. Na verdade, as reflexões analisadas nessa pesquisa aproximam-se mais de novas questões, as quais demandariam pesquisas mais aprofundadas para serem respondidas, do que ilações categóricas sobre o processo histórico que abordamos.

  Elaboramos essa monografia trabalhando com apenas alguns dos elementos que os registros de batismos nos oferecem para a análise sócio-histórica. Faz-se importante ressaltar que as informações que podem ser extraídas dos assentos de batismos vão muito além dos

  36 dados analisados nesse estudo, e podem ensejar sofisticadas pesquisas em História social .

  Vimos neste trabalho que a paisagem agrária de Santa Maria da Boca do Monte, desde as primeiras décadas do Oitocentos, caracterizou-se pela diversidade sócio-econômica dos agentes sociais que ali residiam. Circunstância essa, que fora condicionada pela específica heterogeneidade do relevo e da vegetação daquele espaço. Os dados demográficos analisados apontam que, em pleno período no qual se desenrolava a ocupação territorial e o povoamento desta região, ela fora marcada por uma relativa diversidade étnica. Nesse sentido, consideramos não ser descabido sugerir que a sociedade santa-mariense constituiu-se a partir de um amálgama entre distintas matrizes culturais. Processo o qual mesmo que tenha ocorrido sob a hegemonia da matriz cultural ibérica teve seu produto sócio-cultural consideravelmente influenciado pelas matrizes culturais guarani(s) e africana(s), com as quais os luso-brasileiros tiveram que coabitar, relacionar-se, submeter e, sobretudo, negociar. Em outras palavras, em um contexto de emergência da sociedade no Brasil meridional, acreditamos que, na região de Santa Maria da Boca do Monte, as diferentes matrizes culturais se influenciaram reciprocamente num processo de intercâmbio cultural desigual. Processo este que, apesar de ter sido fortemente marcado pela hegemonia da matriz cultural ibérica, conformou-se também através de relações culturais de reciprocidades desiguais.

  Nesse contexto, a significativa presença de escravos no universo de assentos de batismos quantificados sugere que a mão de obra escrava se constituiu como importante instrumento para o desenvolvimento das atividades produtivas na região de Santa Maria da Boca do Monte, desde o início do século XIX. Além disso, a representatividade de africanos ou afro-descendentes nos batismos deixa evidente que os recursos e orientações valorativas africanas contribuíram consideravelmente no processo de constituição da sociedade santa- mariense, e de forma alguma podem ser desprezadas.

  Pudemos também perceber nesse estudo que, mesmo que fosse recentemente, a região de Santa Maria da Boca do Monte era território sob jurisdição do Império português. Logo, inseria-se em uma esfera de organização político-administrativa, econômico, social e cultural com fortes traços do Antigo Regime ibérico. No qual, práticas costumeiras de poder idealizavam, legitimavam e naturalizavam as desigualdades e as hierarquias sociais. Nesse contexto, a escravidão se instituía como norma, e não como exceção. Por seu turno, além de ser um fator que auxiliava a produzir e reiterar as complexas estratificações e hierarquias sociais, a distinção entre as condições jurídicas

  • – livres e escravos – configurava-se como um dos principais elementos que condicionavam a posição da hierarquia social a qual os sujeitos históricos ocupariam.

  No que tange as hierarquias sociais, entendemos que elas detinham uma lógica que obedecia a uma clara direção no sentido de aproximação com a matriz cultural ibérica. Ou seja, a ascensão social, mesmo bastante difícil e restrita numa sociedade com fortes traços de Antigo Regime, passava pela aceitação e cumprimento das regras estabelecidas pelos luso- brasileiros e a consequente aproximação com o mundo regido, majoritariamente, pelos preceitos cristão-católicos. Assim, quanto mais próximos das normas sócio-culturais ditadas pelos luso-brasileiros estivessem os demais agentes sociais, maior seria a probabilidade de ascenderem nas estratificações sociais.

  Ainda, a partir da estimativa da estrutura de posse de escravos para a região, baseada nas proporcionalidades da distribuição dos assentos de batismos por proprietários, pôde-se averiguar que, tanto a propriedade escrava em geral quanto a incorporação de cativos africanos aos plantéis da região obedeciam a um mesmo padrão de concentração. Por sua vez, esse padrão caracterizava-se pela concomitância entre a considerável dispersão da posse de escravos

  • – em geral e africanos –, e a significativa concentração desta por uma restrita elite de senhores.

  Em primeiro lugar, a disseminação da posse da mão de obra cativa sugere que havia uma considerável importância de pequenos plantéis frente à estratificação da estrutura parcela de produtores que conseguia gerar excedentes, os quais lhes possibilitavam investir na aquisição de escravos, inclusive africanos. Por conseguinte, a significativa presença de africanos nos assentos de batismos indica também que o tráfico transatlântico de escravos africanos era uma possibilidade viável aos produtores dessa região, no período estudado. Essa constatação implica dizer também que, mesmo tendo se constituído em um investimento de alto risco, devido às constantes vicissitudes, as quais Santa Maria da Boca do Monte estava sujeita

  • – reflexos do povoamento (luso-brasileiro) recente, fronteiras instáveis e endemia bélica
  • –, a escravidão tornou-se um regime de trabalho amplamente difundido nessa região de economia periférica.

  Por fim, no tocante à concentração da posse de cativos, entendemos que essa circunstância se configurou em importante componente de diferenciação social entre os pares livres da sociedade. Aliado isso, a concentração da propriedade de escravos africanos nos leva a pensar que, no espaço e período estudados, o tráfico negreiro cumpria a função sociológica de reproduzir o lugar social de uma elite que buscava se distanciar do restante da população livre. Enfim, cremos que reprodução das complexas hierarquias sociais daquela sociedade passava pela possibilidade relativamente acessível de se tornar terratenente e senhor de escravos, e consolidava-se pela capacidade de ampliação da posse da terra e dos plantéis de cativos.

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  SLENES, R. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava no sudeste do Brasil, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. TEIXEIRA, L. Muito mais que senhores e escravos: relações de trabalho, conflitos e mobilidade social em um distrito agropecuário do sul do Império do Brasil (São Francisco de Paula de Cima da Serra, RS, 1850-1871). Florianópolis: PPGH/UFSC, 2008. (Dissertação de Mestrado). THOMPSON, E. P. A história vista de baixo. IN: _________. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2007.

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  Unijuí, 2002.

  ANEXO

  Mapa com a localização de Santa Maria da Boca do Monte e territórios anexados aos domínios luso-brasileiros entre 1801 e 1828. Fonte: Adaptação a partir de História Ilustrada do Rio Grande do Sul / Coordenação [de] Elmar Bones da Costa, Ricardo Fonseca [e] Ricardo Schimitt.

  • – Porto Alegre: RBS Publicações, 2004, p. 82.

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