Leandro Goya Fontella AO SOPÉ DA SERRA GERAL: escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

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Leandro Goya Fontella

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

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Leandro Goya Fontella

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

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Leandro Goya Fontella

AO SOPÉ DA SERRA GERAL:

escravidão e hierarquias sociais no Brasil meridional (Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter – Orientadora UNIFRA

Profª. Ms. Janaína Souza Teixeira – UNIFRA

Profª. Ms. Paula Simone Bolzan – UNIFRA

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RESUMO

Este trabalho dedica-se a estudar algumas características da composição social, e os desdobramentos destas sobre a lógica das hierarquias sociais, em uma região de economia periférica do Brasil Meridional, nas primeiras décadas do século XIX. O foco do estudo recai sobre o povoado de Santa Maria da Boca do Monte, entre os anos de 1814 e 1822. Ao contrário do que a historiografia costumava afirmar até os anos 1980, o espaço agrário sul rio-grandense caracterizou-se pela diversidade sócio-econômica e cultural dos agentes históricos. Nesse sentido, as informações obtidas por meio da quantificação dos registros de batismo da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte expressam que, desde os primeiros tempos da ocupação e povoamento luso-brasileiro, esta localidade fora marcada por uma considerável presença de escravos, inclusive africanos, e pela significativa diversidade étnica. Esta última circunstância nos sugere que, embora a dinâmica social tenha ocorrido sob a hegemonia da matriz cultural ibérica, o produto cultural resultante teve considerável contribuição das matrizes culturais guarani(s) e africana(s). Por sua vez, a significativa presença de cativos africanos indica que essa região era tocada pelo tráfico atlântico de escravos, o qual, por seu turno, cumpria a função sociológica de reproduzir o lugar social de uma elite que buscava se distanciar do restante da população livre.

Palavras-chave: Escravidão. Hierarquias sociais. Batismos. Brasil Meridional.

ABSTRACT

This paper is dedicated to study some characteristics of social composition and its ramifications on the logic social hierarchies in a region of peripheral economy of Southern

Brazil in the early decades of nineteenth century. The study's focus is on the village of” Santa Maria da Boca do Monte”, between 1814 and 1822. Contrary to the historiography used to say, until the 1980s, the agrarian space south rio-grandense was characterized by diversity socio-economic and cultural of historical agents. The information‟s obtained by quantifying the baptism of “Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte” express that since the occupation “luso-brasileiro”, this location was marked by a considerable presence of slaves,

including African countries, and significant ethnic diversity. The last fact suggests us that although the social dynamics occurring in the Iberian cultural hegemony, the resulting product had significant cultural contribution from African(s) and Guarani(s) culture. The significant presence of African captives indicates that in this region there was Atlantic slave trade, which has a sociological function of reproducing a social place of one elite that wanted distance from the rest free population.

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AGRADECIMENTOS

Como não poderia deixar de ser, sou infinitamente grato aos meus pais Leda e Carlos Nazário por suas descomunais generosidades, paciências, carinho, compreensão e amor. Por estarem em cada momento de minha existência incondicionalmente ao meu lado, me incentivando e acreditando em meus projetos, sonhos e ilusões. Agradeço ainda aos financiamentos recebidos do FAPHisCNF (Fundo de amparo à pesquisa histórica Carlos Nazário Fontella) e do FACELG (Fundo de ajuda de custo estudantil Leda Goya). Mamma e

Pai, muitíssimo obrigado por existirem em minha vida!

Agradeço também a meu Mano Gustavo, amigo-irmão para todo o sempre, pela sua amizade e amor irrestritos.

À Taís, minha Florzinha, por compartilhar comigo os mais distintos momentos de nossas existências, desde os alegres até os angustiantes, tornando meus dias mais leves e felizes. Pelo seu amor, carinho e perene incentivo, e por ter a sensibilidade e a paciência de saber perdoar meus inúmeros momentos ranzinzas.

Ao meu amigo Max, vulgo Índio, por sua perspicácia teórica que, constantemente, nos remove do conforto das respostas fáceis e prontas. Perspicácia essa, aguçada nos inúmeros diálogos que tivemos nos momentos em que se manifestavam nossos hábitos etílicos. Pela sua abissal e admirável generosidade de convidar-me a pesquisar na mesma documentação, e ainda, por me disponibilizar o banco de dados que construiu, o qual acabou se tornando base empírica deste trabalho. Sem essa generosidade esse trabalho jamais teria tomado forma, muito obrigado! Por fim, gostaria de deixar registrado aqui minha felicidade de saber que o

Índio e seu grupo familiar, recentemente, ascenderam à classe média, parabéns!

Ao amigo André, vulgo Piruca, companheiro desde os primeiros passos desta jornada, por compartilhar os importantes momentos das primeiras e intensas experiências intelectuais, que bagunçam o nosso mundo, o qual, até então, estava perfeitamente organizado. E nada do que tu, Piruca, vieres a argumentar vai me convencer que não bagunça.

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Ao amigo Jonas Moreira Vargas pela parceria no Bi-Campeonato Colorado da América, e por já ter me esclarecido cento e dezenove vezes que Bourdieu explicou quase tudo, mas que ainda assim a pesquisa histórica pode auxiliar a responder o que esse autor não conseguiu explicar.

Ao amigo Junior Paniz pelas traduções e abstracts que acabou sendo “obrigado” a

elaborar para mim e, principalmente, por sua amizade e pelas conversas e filosofias de botequim que temos nas raras oportunidades em que conseguimos nos encontrar.

À querida Paraninfa e mestre, no significado romântico do termo, Nikelen Acosta Witter, de quem tive o privilégio de ser orientando, por compartilhar sua vasta erudição e pela constante exigência de maturidade acadêmica. Por ter exigido clareza na redação dos textos e nos conceitos utilizados (realmente não sei se consegui atender essas exigências), e por ter sido uma leitora atenta e crítica deste estudo.

Sou grato também ao mestre, igualmente na acepção lírica da palavra, Luis Augusto Farinatti, companheiro de paixão pela História e pelo Colorado, pelo estímulo constante, por exigir sempre rigor teórico-metodológico nas análises histórico-sociais. Por ajudar a ver que o mundo é tão mais complexo do que conseguimos enxergar.

A esses dois últimos (Profºs. Nika e Guto), além da amizade, agradeço-lhes pelas inestimáveis contribuições ao longo de minha recente trajetória como estudioso de História, em especial pelos constantes alertas contra as análises anacrônicas e etnocêntricas, e por terem se constituído, no decorrer dela, em fontes de inspiração e admiração.

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À minha Mamminha, guria sensível e faceira, de sorriso fácil e contagiante.

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Concentração dos batismos de escravos

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)... 48 Quadro 2 - Concentração dos batismos de escravos africanos

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814-1822)... 50 Quadro 3 - Relação dos proprietários que mais tiveram escravos batizados

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LISTA DE FIGURAS

Gráfico 1 - Distribuição dos batismos segundo a condição jurídica dos batizandos

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814 - 1822)... 36 Gráfico 2 - Distribuição dos batismos quanto a cor de pele e/ou origem dos batizandos (Santa Maria da Boca do Monte, 1814 – 1822)... 38 Gráfico 3 –Distribuição de escravos quanto à origem

(Santa Maria da Boca do Monte, 1814 -1822)... 46 Gráfico 4 - Ocorrência de batismos de africanos ao longo do tempo

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...11

2 Parte I... 13

2.1 Historiografia da Escravidão no Brasil e no Rio Grande do Sul... 13

2.2 Inspirações teórico-metodológica... 23

3 Parte II... 28

3.1 Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos... 28

3.2 Hierarquias sociais costumeiras e diversidade étnica... 33

4 Parte III... 43

4.1 Da África ao Brasil Meridional... 43

4.2 Batismos de africanos e função sociológica do tráfico negreiro... 46

5 CONCLUSÕES... 53

FONTES... 56

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...56

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1 INTRODUÇÃO

A inspiração para esta pesquisa surgiu no contato com dois conjuntos de obras de análise histórica. O primeiro com foco em história agrária, e o segundo em história social da escravidão, ambos tendo o Brasil como tema. Os trabalhos em história agrária vêm, desde a década de 1980, demonstrando, entre outros fatores, o vigor das produções voltadas para o mercado interno, a disseminação das relações escravistas para muito além das atividades produtivas destinadas à exportação, a diversidade dos grupos sociais externos as plantations e a reprodução de uma hierarquia social excludente em contextos históricos diversos.1

Por sua vez, a história social da escravidão no Brasil, também a partir dos anos 1980, progrediu em diversos aspectos, alterando significativamente a compreensão que até então se tinha sobre aquela instituição e sobre o processo histórico em que ela se desenrolou e reiterou-se. A historiografia antropológica da escravidão, termo cunhado por Sheila Faria (1997), se preocupou em entender as relações escravistas também a partir da perspectiva dos cativos, percebendo estes como sujeitos históricos ativos, e não apenas como indivíduos passivos. Postura teórica essa que busca compreender as relações de dominação, intrínsecas a uma sociedade escravista, a partir de uma análise social mais rica, com variáveis mais numerosas, mais complexas e também mais móveis; e que, de forma alguma, subestima a centralidade do caráter coercitivo e explorador do escravismo brasileiro. 2

Em termos gerais, se pode considerar que a partir desses estudos a compreensão do processo histórico brasileiro passou por um redimensionamento. Por consequência, juntamente com as novas interpretações das relações escravistas, as pesquisas históricas têm dispensado maior atenção às regiões periféricas, às dinâmicas do mercado interno e às variadas realidades regionais.

Nesse sentido, o estudo aqui desenvolvido enquadra-se dentro dessa ampla tendência historiográfica. Acreditamos que estudar a constituição das relações escravistas em uma região fronteiriça com produção destinada ao mercado interno pode contribuir para um melhor entendimento sobre como se desenrolou o processo histórico de formação da

1 Dentre os mais representativos trabalhos desse quadro historiográfico destacam-se: CASTRO, (1987);

LINHARES (1997); FARIA (1998); FLORENTINO; FRAGOSO (2001); FRAGOSO; BICALHO; GOUVÊA (2010); FARINATTI, (2010a).

2 Dentre os mais representativos trabalhos desse campo historiográfico destacam-se: REIS; SILVA (1999);

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sociedade no Brasil Meridional. Enfim, a análise da escravidão para além do contexto das

plantations faz-se necessária, já que, o entendimento do conjunto do escravismo brasileiro passa também pela compreensão dos diversos contextos específicos onde o regime de mão de obra cativa se estabeleceu, como por exemplo, na região de Santa Maria da Boca do Monte.

O estudo que desenvolvemos foi divido em três partes. A primeira delas vai no sentido de situar o leitor sobre como nosso objeto de estudo, os escravos, foi abordado na historiografia que buscou analisar o processo histórico sul rio-grandense. Procuramos identificar quais foram as principais vertentes interpretativas, os autores mais relevantes de cada uma, as diferenças básicas de abordagem, expor qual é o atual debate em torno da escravidão no Brasil e Rio Grande do Sul, onde se enquadra nossa pesquisa e qual a sua relevância. Ainda nessa primeira parte buscamos mostrar, mais detalhadamente, quais foram as principais correntes teóricas e metodológicas que inspiraram esse trabalho.

Na Parte II, a partir de uma contextualização histórico-espacial apresentamos a localidade de Santa Maria da Boca do Monte, e qual era o contexto histórico em que ela estava inserida nas primeiras décadas do século XIX. Os raros trabalhos que tratam sobre o processo histórico de Santa Maria ao longo da primeira metade do Oitocentos, Beltrão (1979) e Belém (2000), expõem um cenário social monolítico, atribuindo importância apenas a matriz cultural ibérica. Considerando frágeis e insuficientes as explicações dadas por estes memorialistas, pretendeu-se, principalmente, deixar claro que, desde aqueles primeiros tempos da ocupação e povoamento luso-brasileiro, Santa Maria da Boca do Monte havia se caracterizado pela diversidade sócio-econômica dos agentes sociais que ali residiam. Encerrando esta segunda parte, por meio de nossa base empírica, os assentos de batismos da Capela Curada de Santa Maria da Boca do Monte, entre os anos 1814 a 1822, apresentamos uma composição social etnicamente bastante diversificada, e com significativa presença de escravos.

Na terceira, e última, parte desse estudo, com base nas proporcionalidades da distribuição dos assentos de batismos por proprietários, elaboramos uma estimativa da estrutura de posse de escravos para a região. Além disso, buscamos analisar, quais foram as principais implicações que a significativa presença de escravos africanos provocou na conformação e na dinâmica social dessa região.

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2 Parte I

2.1 Historiografia da Escravidão no Rio Grande do Sul

A partir da interpretação dos escritos de viajantes europeus3, elaborou-se, entre as últimas décadas do século XIX e meados do século XX, um paradigma historiográfico de cunho regionalista, o qual pretendeu afirmar para o Rio Grande do Sul uma identidade liberal e democrática.4 No dia 31 de julho de 1820, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire escreveu o seguinte relato:

[...] não há talvez, no Brasil, lugar algum onde os escravos sejam mais felizes do que nesta capitania. Os senhores trabalham tanto quanto os escravos; conservam-se próximos deles e tratam-nos com menos desprezo. O escravo come carne à vontade; não veste mal; não anda a pé; sua principal ocupação consiste em galopar pelos campos, o que constitui exercício mais saudável do que fatigante; enfim, ele faz sentir aos animais que o cercam uma superioridade consoladora de sua condição baixa, elevando-se aos seus próprios olhos (1997, p. 53).

Baseados em fragmentos como este, os autores vinculados à corrente regionalista deram origem ao chamado mito da democracia gaúcha.5 Esta, entre outras coisas, argumentava que: no espaço sul rio-grandense a escravidão fora mais branda que no restante do Brasil. Tendo assumindo um caráter paternal e benigno, visto que, a proximidade entre senhores e escravos implicou na desconstrução das desigualdades entre eles.

Na verdade, essas interpretações estiveram atreladas à concepção mitológica do passado farroupilha rio-grandense. Esta mitologia sustentava que os líderes farroupilhas estiveram imbuídos por um espírito republicano, liberal, democrático e antiescravista. Assim sendo, a historiografia regionalista buscou enaltecer o passado farroupilha do Rio Grande do Sul. Para isso, deliberadamente, selecionou fragmentos da obra de Saint-Hilaire que corroborassem com a aquela visão mitológica.

3 Os primeiros relatos realizados sobre a presença de escravos no Rio Grande do Sul foram feitos por viajantes

europeus que passaram por estas terras durante o século XIX. Além de Auguste de Saint-Hilaire, pode-se destacar também outros viajantes europeus como Nicolau Dreys, Arsène Isabelle e A. Baguet.

4 Este paradigma historiográfico é conhecido pelo seu forte caráter ensaístico. Dentre inúmeros autores-ensaístas

que fizeram parte desta historiografia regionalista destacamos entre outros: Joaquim Francisco de Assis Brasil, Arthur Ferreira Filho, Aurélio Porto, Walter Spalding, Sousa Docca e Moysés Velhinho.

5 GOULART (1978). “[Jorge] Salis Goulart foi o primeiro intelectual sul riograndense que procurou dar base

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Por outro lado, em diversas outras passagens o naturalista francês descreveu os maus tratos dispensados aos escravos, mas que, no entanto, não foram levadas em consideração nas obras daqueles autores. Em um destes, no relato do dia 13 de maio de 1821, Saint-Hilaire narrou o seguinte episódio:

antes de nossa chegada, o patrão mandou sua gente içar o corpo de um de seus negros, que se afogara na travessia a barco do rio Pardo. Logo que demos com o cadáver desse infeliz, o patrão gritou: “Ah, meu dinheiro! Meu dinheiro! Que me custa tanto a ganhar!” Sua mulher entrou na embarcação, para providenciar o enterro do corpo; fincaram na sepultura uma cruz de bambu, e quando a mulher retornou ao barco, estava banhada em lágrimas, mas a rudeza com que tratava os escravos me faz crer que ela não chorava outra coisa se não seu dinheiro (1997, p. 368-369).

Percebe-se, portanto, que as análises elaboradas pelos autores deste panorama historiográfico se destinavam a legitimar uma versão idealizada do processo histórico sul rio-grandense. Nesse sentido, o discurso adotado a partir dos relatos dos viajantes acabou obedecendo a escolhas conscientes sobre quais fragmentos deveriam ser mencionados, e quais precisavam ser sonegados. Consequentemente, menosprezando a importância da escravidão para a formação social rio-grandense, a historiografia regionalista não atribuiu qualquer tipo de protagonismo aos escravos, no tocante às relações sociais nas quais estavam inseridos. Enfim, para esta corrente historiográfica, o Rio Grande do Sul foi forjado alheio a quaisquer influências culturais provenientes de africanos e seus descendentes.

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ocorreu a partir da liderança da matriz cultural européia, restando aos negros e índios uma acomodação passiva a esse processo histórico.

Nesse contexto, percebe-se que Laytano fez parte do esforço da intelectualidade brasileira para construir a identidade do país. Essa deveria ser composta pela convergência das peculiaridades regionais, mas também por relações sociais marcadas pela harmonia entre as raças formadoras da população nacional, a qual encontrou na miscigenação seu ponto de convergência. Não obstante ter reconhecido que a cultura afro-brasileira tivera influência no processo histórico rio-grandense, Laytano acabou elaborando teses que, mais uma vez, sonegaram protagonismo social aos africanos e afro-descendentes – independente de sua condição jurídica e do período histórico. Para esse autor, apesar do “folclore no Rio Grande

do Sul emana[r] de fontes várias. [...] [a matriz] luso-açoriano-brasileira é seu desenho

geométrico número um, o principal” (LAYTANO, 1987, p. 13).6 Enfim, partindo de seu objeto de pesquisa [o folclore], Laytano considerou irrelevante a contribuição histórico-social da matriz cultural afro-brasileira, avaliando que os escravos africanos e afro-descendentes foram agentes históricos apáticos sem margem de autonomia para imprimirem ações políticas conscientes.

Na década de 1960, as pesquisas de Fernando Henrique Cardoso vieram a revelar a intensa presença de escravos nas regiões charqueadoras, e admitiram a ocorrência da escravidão, mesmo que em pequena escala, nas áreas de atividade pecuária (CARDOSO, 1991). Cardoso argumentou que a produção pecuária, a qual abastecia as charqueadas, não era satisfatoriamente rentável ao ponto de poder permitir uma reiterada agregação de cativos às unidades produtivas. Nesse contexto, para esse autor, a presença de escravos, nas regiões predominantemente pecuaristas, jamais teria se constituído como uma necessidade estrutural. Outro aspecto proeminente de sua obra é a compreensão da escravidão como um sistema rígido, capaz de reificar socialmente os indivíduos escravizados. Isso implica dizer que, para Cardoso, os cativos não possuiriam margem alguma de autonomia. Logo, não teriam a possibilidade de elaborar projetos próprios, já que:

[...] o escravo auto-representava-se e era representado pelos homes livres como um ser incapaz de ação autonômica. Noutras palavras, o escravo se apresentava, enquanto ser humano tornado coisa, como alguém que, embora fosse capaz de empreender ações humanas, exprimia, na própria consciência e nos atos que praticava, orientações e significações sociais impostas pelos senhores. [...]. Nesse sentido, a consciência do escravo apenas registrava e espelhava, passivamente, os

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significados sociais que lhe eram impostos (CARDOSO apud CHALHOUB, 2003, p. 38).

Dessa forma, Cardoso considerou os escravos como agentes históricos passivos que, simplesmente, reproduziam a cultura senhorial a qual lhes era imposta.

Na esteira dos estudos realizados por Cardoso, Décio Freitas (1977; 1980) e Mário Maestri Filho (1984; 1993; 2002) acolheram algumas das conclusões as quais aquele chegou. Esses três autores acabaram se tornando a espinha dorsal de uma vertente historiográfica de cunho revisionista que, por sua vez, alinhava-se à tradição teórica, com fortes conotações estruturalistas, defendida pela Escola Paulista de Sociologia, da qual Cardoso fazia parte.7 Os revisionistas se opuseram à historiografia regionalista (também dita tradicional) que procurava ignorar a importância da escravidão no Rio Grande do Sul. Embora se encontrem algumas diferenças significativas em suas obras, estes autores procuraram entender a escravidão no espaço rio-grandense, sobretudo, sob a ótica econômica de sua formação social. Para Freitas (1977; 1980), o escravismo nas regiões pastoris seria inviável economicamente por diversas razões, entre as quais se destacam: a) a pecuária não geraria excedentes que determinassem a contínua incorporação de escravos nas estâncias; b) os serviços perenes do pastoreio demandavam poucos indivíduos, e para supri-los haveria considerável oferta de mão-de-obra livre nessas regiões; c) a localização fronteiriça rio-grandense com Estados onde não mais existia a escravidão inviabilizaria a manutenção de um aparato de vigilância e coerção, indispensáveis, na sua avaliação, para conservação do sistema escravista.

Por sua vez, Mário Maestri (1984; 1993; 2002) aderiu ao modelo teórico elaborado por Jacob Gorender (1988; 1991) e Ciro Flamarion Cardoso (1975; 1988), o qual pregava que o Brasil havia sido o palco de um modo de produção escravista-colonial. Sendo assim, os estudos de Maestri tiveram por objetivo definir se ocorreu ou não um modo de produção escravista no Rio Grande do Sul (ZARTH, 2002). Maestri não só reforçou as ilações de Cardoso, como também acrescentou que a única maneira dos escravos romperem com a reificação subjetiva, se daria através da negação total do sistema escravista. Assim, apenas os cativos que se rebelavam abertamente contra aquele regime (através de fugas, suicídio, aquilombamentos, rebeliões, ataques contra senhores) haviam tomado decisões conscientes, pois, suas ações teriam tido a franca pretensão de superar o escravismo. Nesta lógica, os escravos que não se sublevavam explicitamente contra o sistema escravista, teriam servido

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mais para perpetuá-lo do que para subvertê-lo e, por consequência, não teriam resistido conscientemente à dominação senhorial.

Os autores desta vertente historiográfica conceberam um sistema escravista rígido, no qual o trabalho compulsório seria garantido por um regime de terror constante. Thiago Leitão de Araújo argumenta que, para esses autores, a profunda rigidez do escravismo se exprimia no

cotidiano das regiões charqueadoras, porém, nas áreas pastoris, “a escravidão teria perdido seu caráter coercitivo e assumido um conteúdo patriarcal” (2008, p. 12). Essa realidade se

daria em função do fato de que, nas regiões de pecuária, a escravidão não havia se constituído como necessidade estrutural.

Sobre o contexto das charqueadas, porém, os estudos dedicados a entender o regime escravista no Rio Grande do Sul foram mais profundos. Berenice Corsetti (1983) procurou compreender, por meio de apoio documental e dados quantitativos, a organização da indústria charqueadora sul rio-grandense. Amparada por inventários, indicadores de taxas tributárias, legislação, mapas estatísticos, Corsetti refutou a tese de Cardoso, a qual sustentava o argumento da irracionalidade econômica do emprego da mão-de-obra cativa. Para Cardoso (1991), o trabalho cativo seria pouco produtivo se comparado ao trabalho assalariado. Porém, sobre o regime de trabalho predominante nas regiões de pecuária, a pesquisa de Corsetti não trouxe significativa contribuição. Araújo (2008) considera que ela endossa as afirmações elaboradas pela historiografia revisionista. Ou seja, de que a presença de escravos nas lidas pastoris se conformou como residual, esporádica e ocasional.8 Embora não neguem a ocorrência de cativos nas estâncias, todos eles sustentaram que estes eram utilizados principalmente nas atividades domésticas e como lavradores. Assim, para esses autores, nas áreas de produção pastoril no Rio Grande do Sul, teria havido escravidão, mas não escravismo. Isto significa dizer que, naquelas regiões a escravidão não era a forma de produção predominante.

Não obstante, ao mesmo tempo em que trouxe reflexões inovadoras, a historiografia revisionista acabou, em alguns aspectos, não se afastando substancialmente das interpretações do paradigma tradicional e regionalista as quais criticava. Na perspectiva dos revisionistas as estruturas do sistema escravista possuíam uma dimensão tão poderosa que desprovia o escravo de qualquer margem de autonomia e, até mesmo, de sua a própria condição humana, ou seja, equiparou os cativos como se fossem meros semoventes. Além disso, o conjunto de

8 Esses foram alguns dos adjetivos utilizados por esses autores para caracterizar a presença de cativos nas

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sua obra acabou, também, por negar que os escravos pudessem ter sido sujeitos históricos conscientes e protagonistas de ações dotadas de significados, obtidos a partir de heranças culturais africanas e de suas experiências ao longo do tempo de cativeiro. Logo, enquanto a historiografia tradicional quase desconsiderava a existência da escravidão no Rio Grande do Sul, e enfatizava o seu caráter brando, os revisionistas rejeitaram esse caráter ameno, e denunciaram a coerção e a exploração inerentes a essa instituição. Contudo, ao mesmo tempo em que revelou o passado escravista sul rio-grandense, a vertente revisionista acabou também por negar autonomia e protagonismo histórico aos agentes sociais escravizados, concluindo que estes apenas reproduziam a cultura senhorial dominante. Esse debate entre regionalistas e revisionistas foi, na esfera sul rio-grandense, a reprodução da contenda que se dava em nível nacional entre Gilberto Freyre e a Escola Sociológica Paulista. Esta defendida pela historiografia revisionista, enquanto aquele pela regionalista.

Curiosamente, tanto a vertente da historiografia regionalista quanto a de cunho revisionista, embora tenham divergido, embasaram suas interpretações quase que exclusivamente nos relatos dos viajantes, em especial nos escritos de Auguste de Saint-Hilaire. Na percepção de diversos autores contemporâneos, foi essa postura que contribuiu para estagnar as pesquisas em história social da escravidão no Rio Grande do Sul. Segundo

Paulo Afonso Zarth, “em grande medida, os argumentos dos historiadores em relação à

presença de escravos nas estâncias estão baseados nas informações dos viajantes e cronistas

do século XIX” (2002, p. 111). Por sua vez, Helen Osório (2008) também teceu críticas às

fragilidades teórico-metodológicas dos autores ligados a historiografia revisionista. Para ela, esses autores não só insistiam em consultar exclusivamente os relatos de viajantes, como persistiam em analisar os escritos, sempre, dos mesmos viajantes.

A partir da década de 1990, em resposta aos estudos vinculados a vertente historiográfica revisionista, novas pesquisas começaram a reinterpretar de forma significativa o papel do escravo africano e afro-descendente no Rio Grande do Sul. Estes trabalhos vêm sendo amparados a uma rigorosa análise de fontes primárias, como por exemplo: inventários

post-mortem, testamentos, processos-crimes, cartas de alforrias.

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parcela dos cativos da estância. Contudo, também por meio da análise de inventários post-mortem, Helen Osório (2008) e Luís Augusto Farinatti (2010) não comprovaram a hipótese de Zarth.

Para Osório, a mão-de-obra escrava tornou-se imprescindível no sul da América portuguesa desde os primórdios da colonização luso-brasileira. Analisando a partir de um viés econômico, a autora coloca que o escravismo ganhou importância devido a pouca disponibilidade de trabalhadores livres, e porque o espaço territorial rio-grandense se configurava como fronteira agrária aberta. No entendimento da historiadora, essas peculiaridades engendraram condições que exigiram o trabalho cativo. A relativa facilidade do acesso à terra teria dificultado o estabelecimento de uma ampla oferta de mão-de-obra livre, já que, muitos homens pobres teriam preferido se tornar pequenos produtores a se tornarem peões em tempo integral, reservando a esta atividade apenas alguns meses no ano, quando se empregavam nas estâncias como trabalhadores temporários.

Por sua vez, estudando a fronteira meridional do Brasil, no decorrer do processo de consolidação do Estado Imperial Brasileiro, Luís Augusto Farinatti (2010) utilizando, não só, mas principalmente, inventários post-mortem corroborou com a ideia de Osório sobre o emprego de escravos, sobretudo, nas atividades de pastoreio. No entanto, por meio do cruzamento de diversas fontes, a análise de Farinatti revela que o universo das estâncias e das atividades campeiras era significativamente mais complexo do que até então a historiografia estava habituada a considerar. Nesse contexto, levando em consideração a existência de inúmeros condicionantes9, constatou que a estrutura do quadro de trabalhadores empregados no pastoreio nas grandes estâncias obedeceria a um padrão, o qual se reiterava pelas maiores propriedades pecuaristas rio-grandenses e pelas regiões vizinhas. Esse padrão da força de trabalho das estâncias se constituiria numa combinação entre trabalhadores cativos e livres, e trabalhadores regulares e eventuais. Haveria, portanto, um núcleo estável de escravos campeiros, e os trabalhadores livres estariam dispostos em: peões mensais que ficavam por longo tempo e peões mensais que permaneciam apenas alguns meses. Desse modo, o autor argumenta que a conservação da escravidão no Império brasileiro, antagonicamente ao que

ocorreu nos Estados vizinhos da região platina, teria “dotado a pecuária rio-grandense de um

pouco mais de elasticidade para resistir à irregularidade da oferta de mão de obra livre”

(FARINATTI, 2010, p. 382).

9 Entre esses condicionantes destacam-se: as condições das pastagens naturais intrinsecamente ligadas ao ciclo

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Enfim, apesar de possuírem diferenças significativas, consideramos que os trabalhos desses três historiadores se configuram como referenciais de uma nova matriz historiográfica sobre a história agrária do Rio Grande do Sul. Entretanto, embora tenham contribuído expressivamente para reinterpretação da participação do escravo africano e afro-descendente no processo histórico rio-grandense, nenhum desses autores tinha como objeto de estudo principal os cativos, a escravidão ou o sistema escravista nas paragens do sul do Brasil.

Contudo, alguns historiadores têm buscado compreender o processo histórico do Rio Grande do Sul tendo como objeto de pesquisa a escravidão e a população negra. Dentre estes destacam-se Paulo Moreira (1996; 2003; 2007) e Regina Xavier (2005; 2007). Concentrando suas pesquisas no meio urbano – Porto Alegre, durante do século XIX –, Moreira vêm estudando o processo histórico rio-grandense a partir das experiências dos escravos e libertos, especialmente, em momentos críticos de suas existências, como por exemplo, a conquista da liberdade. Outro aspecto de destaque em seus trabalhos é a atenção que suas análises prestam a elementos como a etnicidade no estabelecimento de relações sociais entre os cativos. Se, por um lado, Moreira discordou da historiografia revisionista, a qual considerava que a escravidão suprimia a humanidade e restringia, quase que completamente, a margem de autonomia dos cativos, por outro, criticou a historiografia tradicional e regionalista que, por sua vez, omitia a participação das comunidades negras no processo histórico rio-grandense.

Mais recentemente, Regina Xavier (2005) corroborou com as ideias de Moreira. A autora argumentou que: ao desconsiderar a importância dos africanos para a formação social rio-grandense, a historiografia regionalista elaborou “uma imagem que relega a escravidão e

aos africanos um papel menor na constituição da população e em seu desenvolvimento social.

Sem deixar de pontuar, o caráter benigno aqui adquirido” (2005, p. 8). Nos últimos anos, focando suas pesquisas a partir da perspectiva do que significa ser negro no Rio Grande do Sul, Xavier vem buscando entender como as hierarquias raciais influenciaram na construção das identidades sociais neste Estado.

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(2008) refletiu sobre as relações sociais de trabalho em um período histórico que se caracterizou pela consolidação do Estado Imperial e a reorganização das relações de trabalho e de propriedade da terra.10 Nesse sentido, Teixeira mostrou que, mesmo em uma região empobrecida e caracterizada pela produção agro-pecuária de pequeno porte, a posse de escravos era disseminada pelas unidades produtivas e dividia espaço com o trabalho livre e familiar.

Nos últimos anos, alguns autores têm elaborado seus trabalhos a partir da análise –

qualitativa e quantitativa – das cartas de alforrias. Além dessas fontes, Thiago de Araújo (2008), por exemplo, recorreu a séries documentais para analisar os mecanismos de dominação senhorial que permitiam a manutenção e reprodução das relações escravistas em um contexto fronteiriço de produção agropecuária.11 Concomitantemente, Araújo procurou compreender quais tinham e como haviam sido colocadas em práticas as estratégias de escravos e libertos na luta contra a dominação senhorial. Entre outras coisas, sua pesquisa demonstrou que, mesmo numa região de fronteira e com base econômica agro-pecuarista, os escravos haviam conquistado o direito à acumulação de pecúlio, com o qual poderiam alcançar a liberdade. No espaço urbano e portuário de Rio Grande, ao longo do século XIX, Jovani Scherer (2008) buscou compreender como se desenvolvia o processo de busca de liberdade.12 Assim, ao averiguar que mulheres e africanos foram os grupos sociais que mais conquistaram suas manumissões, o autor destaca que a experiência pela busca pela liberdade esteve, fundamentalmente, influenciada pela ação em comunidade. Para um contexto bastante parecido ao estudado por Scherer, Gabriel Aladrén (2008), estudando os padrões de alforrias e a inserção social de libertos em Porto Alegre, nas primeiras três décadas do Oitocentos, verificou que os escravos faziam-se presentes em praticamente todas as atividades produtivas. Além disso, evidenciou que a difusão da prática da alforria criara um significativo contingente populacional de libertos, e que a maior incidência de conquista das manumissões por parte de crioulos passava por uma relação mais próxima, de cunho paternalista, entre esses escravos e seus senhores.

10 A pesquisa de Teixeira teve foco no distrito São Francisco de Paula de Cima da Serra, RS, entre os anos 1850

e 1871, e se baseou, principalmente, a partir da análise de inventários post-mortem, processos-crime, correspondências entre autoridades locais e provinciais.

11 Araújo escolheu estudar a Vila de Cruz Alta ao longo de quase todo o período imperial brasileiro (1834

1884). Para isso, além dos registros de manumissões utilizou-se de documentos como os inventários post-mortem, testamentos, processos criminais, registros de compra e venda de escravos, as correspondências da Câmara Municipal da vila e os relatórios de Presidentes da Província.

12 O autor amparou-se por uma diversidade de fontes como censos, mapas populacionais, inventários, processos

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Por sua vez, utilizando-se de uma ampla variedade de fontes, Silmei Petiz (2009) realizou estudo sobre o comportamento e as práticas familiares dos escravos na fronteira oeste do Rio Grande de São Pedro entre os anos de 1750 e 1835.13 Além de destacar a relevante presença de escravos nesta região desde os primórdios da colonização lusa no espaço rio-grandense, Petiz percebeu que a constituição de famílias estáveis entre os cativos configurou-se numa realidade importante para a experiência histórica destes agentes sociais. Utilizando exclusivamente registros paroquiais, Sherol Santos (2009) procurou perceber como os primeiros povoadores do Rio Grande de São Pedro, estabelecidos na região de Santo Antônio da Patrulha, se relacionavam com seus escravos. Acreditando que o compadrio fora uma das principais estratégias utilizadas para firmar relações de reciprocidade, seja entre livres e escravos, ou somente entre cativos, a autora procurou também analisar como se constituíram os laços familiares e as redes de parentescos dos escravos.

Enfim, essas novas pesquisas vêm reinterpretando o papel da escravidão e dos negros na formação da sociedade rio-grandense. Todavia, em sua maioria, têm ainda privilegiado o estudo destes temas em áreas de latifúndio pastoril ou regiões mais urbanizadas, ou seja, em espaços ligados a atividades econômicas hegemônicas e rotas comerciais que ligavam o sul ao sudeste do Brasil.

Desta forma, a partir de seu objeto de estudo, os escravos, inseridos em uma região com predominância de pequenas propriedades voltadas à economia de subsistência, este trabalho se propõe estudar o processo histórico de formação social sul rio-grandense. Nesse contexto, justifica-se o recorte espacial pela região de Santa Maria da Boca do Monte. Para isso, contamos com registros paroquiais de batismos da Capela dessa localidade entre os anos de 1814 e 1822. Estes documentos registraram a presença de cativos e libertos nesta região. Além da condição social – escravo, forro ou livre –, a análise dessas fontes nos proporciona identificar, dentre outras informações, a origem – africanos ou crioulos –, a legitimidade e o nome dos pais e dos padrinhos dos indivíduos referidos.

Outro relevante elemento que justifica não só o recorte temporal, como também o espacial deste estudo, é o fato de não existirem pesquisas que contemplem a primeira metade do século XIX para esta região. Os estudos que de alguma forma abordaram a presença do escravismo na região de Santa Maria concentraram-se no período pós-1850.14 Portanto, a

13 A pesquisa de Petiz enfocou principalmente a vila de Rio Pardo, e amparou-se em fontes como, registros de

batismos, casamentos, óbitos, inventários post-mortem e cartas de alforrias.

14 Referimo-nos aos seguintes trabalhos: FARINATTI (2010b); WITTER (2001); SILVEIRA GUTERRES

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partir destas lacunas e das fontes das quais dispomos, nos parece viável realizar um estudo o qual: além de averiguar a representatividade da população escrava em Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos; oportunize-nos a perceber, quais foram as principais hierarquias sociais costumeiras, a composição étnica daquela sociedade, e quais implicações a significativa presença de africanos acarretou sobre a conformação social dessa região.

2.2 Inspirações teórico-metodológicas

Desde os anos 1980, as pesquisas sobre a história social da escravidão no Brasil apresentam, em sentido amplo, alguns pontos em comum. Dentre estes, Hebe Mattos de Castro (1997) destaca: a) um sentido revisionista em relação às abordagens econômicas e sociológicas predominantes nos decênios de 1960 e 1970; b) um diálogo mais intenso com a historiografia internacional sobre a Afro-América; e c ) uma redução da escala de abordagem, a valorização da experiência e da cultura como matrizes explicativas e a utilização do nome como elo condutor de análise das fontes, inclusive nas tentativas de agregação.

Talvez se possa dizer que, atualmente, o sentido revisionista, referido por Castro, em meados da década de 1990, já não se encontre tão enfaticamente presente nos estudos sobre o sistema escravista brasileiro. Uma vez que, a corrente historiográfica desenvolvida a partir da década de 1980, consolidou-se como hegemônica. Não obstante, tanto o segundo quanto o terceiro pontos expostos por Hebe Castro têm cada vez mais influenciado as pesquisas alinhadas à historiografia antropológica da escravidão. Para a autora, essa vertente historiográfica possibilitou que a humanidade cultural dos escravos viesse a ser percebida, já

que, “a vida do escravo comum passou a ser vista a partir da herança cultural africana e das

condições possíveis de organização social dentro do cativeiro” (FARIA, 1997, p.258).

A postura teórica da historiografia antropológica da escravidão deve muito à influência da obra do historiador inglês Edward Palmer Thompson que, na década de 1960, a partir de um peculiar aproximação entre a história e a antropologia, cunhou um amplo panorama historiográfico, o qual convencionou-se a chamar de história vista de baixo

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essa perspectiva atraiu de imediato aqueles historiadores ansiosos por ampliar os limites de sua disciplina, abrir novas áreas de pesquisa e, acima de tudo, explorar as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão frequentemente ignorada, tacitamente aceita ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história (1992, p. 41).

Assim, esta pesquisa situa-se dentro do campo composto por esta abordagem. Nesse contexto, para explorar as experiências históricas dos cativos e cativas, no sul do Brasil colonial, buscamos os rastros de suas existências em registros paroquiais, como os assentos de batismo. Sendo a Igreja um braço do Estado Imperial Português, os senhores de escravos eram impelidos a levarem seus cativos a receberem os sacramentos do catolicismo, dentre o quais, o de maior incidência entre os escravos foi o batismo. Silvia Brügger (2007) e Stuart Schuartz (2001) colocam que o registro de batismo se configurava como um documento que comprovava a posse do senhor sobre os escravos batizados. Conforme Schwartz,

considerava-se responsabilidade de todos os senhores o batismo dos escravos, já que uma das principais justificativas da escravatura era a conversão dos pagãos e a salvação das almas. A principal legislação do império Português, as Ordenações Filipinas (1603), exigiam que todos os senhores batizassem seus escravos africanos com mais de dez anos de idade no máximo em seis meses, e os que tivessem menos de dez anos em um mês após a compra, caso contrário a Coroa os confiscaria. Os filhos de escravas nascidos em terras do rei de Portugal eram batizados na mesma época e da mesma maneira que as outras crianças recebiam o sacramento. Deixar de batizá-los resultaria no confisco pela Coroa (2001, p. 268) [grifos do autor].

Segundo Sheila Faria (1997), as pesquisas recentes em história social da escravidão no Brasil, baseadas na demografia histórica, além de terem redimensionado a visão sobre o cotidiano do cativeiro, tido anteriormente como produto da ação e vontade do senhores, têm constatado que a escolha dos padrinhos e do cônjuge era prerrogativa dos próprios escravos. Portanto, acreditamos que a análise das informações contidas nestes registros possam desvendar boa parte da multiplicidade das relações sociais em que os cativos inseriam-se.

Ainda conforme Faria, “foi com um demógrafo, Louis Henry, no Institut National

d’Études Démographiques (INED), em Paris, junto com o historiador Michel Fleury, que, em 1956, se consubstanciou, inicialmente, uma metodologia específica para o tratamento das

fontes paroquiais” (FARIA, 1997, p. 244). A demografia histórica acabou sendo tomada como

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origem e condição social. Todavia, embora a pesquisa proposta tenha inspiração nos pressupostos teórico-metodológicos desta abordagem, torna-se necessário realizar algumas ressalvas.

Atualmente, é praticamente consenso entre os estudiosos de história social que, se por um lado, a metodologia quantitativa trouxe as grandes massas para a história, ao trabalhar quase que exclusivamente com dados agregados, tendeu a retirar destas a sua face humana (CASTRO, 1997). Além disso, a visualização de longo período, proposta pela história

quantitativa serial pode, até mesmo, “gerar uma abstracta, homogeneizada história social, desprovida de carne e de sangue, e não convincente apesar do seu estatuto científico”

(KAPLAN apud GINZBURG, 1989, p. 171). Consciente destas fragilidades, nosso estudo contempla também alguns preceitos que norteiam a micro-história italiana, como por exemplo, a reconstrução de trajetórias de vida e relações sociais de diferentes sujeitos, a partir da busca dos nomes dos agentes históricos em diferentes contextos. Para Jacques Revel, o nome se constitui na

[...] baliza que permitiria construir uma modalidade nova de uma história social atenta aos indivíduos percebidos em suas relações com outros indivíduos. Pois a escolha do individual não é vista [...] como contraditória à do social: ela deve tornar possível uma abordagem diferente deste, ao acompanhar o fio de um destino particular – de um homem, de um grupo de homens – e, com ele, a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais ele se inscreve (REVEL, 1998, p. 21).

A preservação do nome dos sujeitos históricos possibilita ao pesquisador transformá-lo

no fio condutor da investigação histórica, e sendo o ambiente desta “suficientemente

circunscrito, as séries documentais podem sobrepor-se no tempo e no espaço de modo a permitir-nos encontrar o mesmo indivíduo ou grupos de indivíduos em contextos sociais

diversos” (GINZBURG, 1989, p. 174). Contudo, neste trabalho não serão realizadas reconstruções de trajetórias individuais. O método onomástico demandaria a utilização e análise de variados tipos de fontes primárias como registros de óbitos, cartas de alforrias, inventários post-mortem, róis de confessados, processos-crimes, entre outras, que não caberiam nas dimensões deste trabalho.

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representatividade dos escravos africanos nestes. Além disso, procura-se refletir sobre a diversidade étnica que marcou aquela região no decorrer do processo de constituição da sociedade sul rio-grandense.

A utilização de registros paroquiais como fontes históricas tem permitido aos historiadores enriquecer suas análises sociais. Entretanto, a larga produção destes documentos ocorreu graças a uma nova postura da Igreja Romana, qual seja: a preocupação com o registro dos fatos da vida cotidiana de seus fiéis. Segundo, Sheila de Castro Faria,

no período moderno, [...] a Igreja tridentina passou a se preocupar insistentemente com as relações familiares [...]. [A partir disso,] a Igreja católica passou a produzir

uma vasta documentação, antes inexistente, que se tornou a base das pesquisas que viriam estabelecer as diretrizes principais do campo da história da família, inclusive com técnicas e metodologias bem delimitadas, trazidas pela demografia histórica (FARIA, 1997, p. 243) [grifos meus].

Dentre esta vasta documentação produzida pela Igreja Católica estão os registros dos seus sacramentos. No Brasil, Dom Sebastião da Vide, em 1707, escreveu as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, documento que tinha por objetivo estabelecer as normas de funcionamento da Igreja Católica no Brasil. Consta neste documento, que era de responsabilidade de cada paróquia registrar os ritos sacramentais de seus fregueses.

Para Santa Maria da Boca do Monte, encontram-se registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos a partir de 1814, ano em que esta localidade foi alçada à condição de Capela Curada. Esta documentação está arquivada no Arquivo da Cúria Diocesana de Santa Maria. Os assentos de batismos, fontes que serão a base empírica desta pesquisa, estão distribuídos em vários livros, os quais estão divididos em intervalos de tempo. Por exemplo, o livro 1 de batismos corresponde aos assentos registrados entre os anos de 1814 e 1822. Como o objeto de estudo desta pesquisa são os escravos, faz-se necessário ressalvar que foi comum a prática de lavrar os assentos paroquiais de livres e escravos em livros distintos. Todavia, isso parece não ter ocorrido nos primeiros livros de batismos da referida Capela Curada, já que, no mesmo livro aparecem registrados cativos e livres.

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que fosse construído um banco de dados nominal em formato Excel for Windows.15 Esse banco de dados foi dividido em 48 campos analíticos, como nome do batizando, cor, condição social, origem, legitimidade, nome dos pais do batizando, nomes dos padrinhos; além disso, quanto aos pais e padrinhos, os registros oferecem ainda outras informações como cor, origem e condição social.

Contudo, o tratamento dos dados dispostos nesse banco de dados requer certos cuidados. A transcrição dos termos lavrados nos registros, para as categorias analíticas estabelecidas na planilha, precisa manter a fidedignidade destes. Nesse sentido, mesmo em um trabalho com abordagem quantitativa e serial, é imprescindível realizar um esforço de interpretação das fontes respeitando a terminologia da época. Portanto, a transcrição tem respeitado desde a grafia das palavras, da mesma forma que fora escrita, até as insígnias sociais, como patentes militares, condição social e cor da pele. Este esforço de interpretação das distinções sociais registradas pelos Curas pode nos aproximar de diversos aspectos daquela sociedade – como por exemplo, o seu grau de hierarquização, o prestígio social de alguns indivíduos, etc –, que somente com a quantificação não conseguiríamos perceber.

15 O acadêmico Max Roberto Pereira Ribeiro gentilmente cedeu-nos o banco de dados que elaborou com as

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3 Parte II

3.1 Santa Maria da Boca do Monte nas primeiras décadas do Oitocentos

Nos dias presentes, Santa Maria está localizada no centro do atual território do Estado do Rio Grande do Sul. Entretanto, no princípio do século XIX, estava inserida em um contexto que a caracterizava como espaço de fronteira em construção e ainda indefinida. Mesmo após a incorporação da região dos Sete Povos missioneiros orientais em 1801, o espaço territorial santa-mariense continuaria, durante boa parte do Oitocentos, se constituindo como uma área de povoamento recente, fronteira agrária aberta e imersa num contexto de endemia bélica.16 Sobre este último aspecto, José Iran Ribeiro destaca que

[...] ainda que Santa Maria não tenha sido um palco de batalhas significativas e também não possuísse uma população significativamente numerosa para ser mobilizada militarmente, [...] a constante mobilização militar no Rio Grande do Sul daqueles anos [primeira metade do século XIX], não deixou de influir de alguma forma no pequeno lugarejo [...] (2010, p. 227).

Nesse contexto, entende-se que a própria origem do lugar, no ano de 1797, esteja vinculada a um acampamento militar da comissão lusitana de demarcação de limites entre as possessões americanas dos Impérios espanhol e português, de acordo com o tratado de Santo Ildefonso (1778). Não tardou para que habitantes das proximidades se juntassem ao acampamento promovendo o efetivo início da povoação.

De passagem por Santa Maria no ano de 1821, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire descreveu o seguinte quadro sobre essa região:

[...] a Vila de Santa Maria, chamada geralmente Capela de Santa Maria, se localiza em posição, a meio quarto de légua da serra. Está construída numa colina muito irregular; de um lado, avista-se uma alegre planície, revestida de pastagens e tufos de capim; do outro lado, a vista é limitada por montanhas cobertas de florestas sombrias e espessas. A vila se compõe, atualmente, de umas trinta casas, que formam um par de ruas, onde existem várias lojas comerciais bem montadas. A capela, muito pequena, se acha numa praça, ainda em projeto (1997, p. 338).

16 A região de Santa Maria da Boca do Monte foi até o ano de 1858 um distrito de Cachoeira, e abrangia os

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Partindo desta clássica descrição de Santa Maria, far-se-á algumas considerações sobre como se configurava esta povoação nas primeiras décadas do século XIX. Assim, esperamos situar o leitor sobre como se desencadeou o processo de conquista e ocupação luso-brasileira nesse espaço territorial. Conforme o viajante, havia em Santa Maria um acanhado núcleo urbanizado, o qual ele chamou de Vila, além de duas áreas bastante distintas. De um lado [ao sul], uma extensão territorial repleta de pastagens, e de outro [ao norte] uma região composta por montanhas com cobertura florestal. Percebe-se, deste modo, que Santa Maria era uma região quase que exclusivamente rural, situação similar a todas as outras povoações localizada no interior no sul da América portuguesa nas primeiras décadas do século XIX. Devido a essa circunstância, deter-nos-emos, a partir de agora, a contextualizar sobre a diversidade dos agentes sociais que povoaram aquelas áreas descritas pelo naturalista francês e, sobre qual foi a estrutura agrária e econômica produzida por estes. Para isso, iremos recorrer à única e importante pesquisa sobre lavradores nacionais nessa região desenvolvida por Luis Augusto Farinatti.17 Portanto, os próximos parágrafos estão alicerçados, principalmente, nos argumentos construídos por esse autor.

Os primeiros povoadores daquelas paragens foram atraídos de imediato pelas planícies levemente onduladas ao sul, as quais se alargavam rumo ao pampa rio-grandense e onde predominavam zonas de campos nativos de baixa qualidade, pontuados por pequenas manchas florestais. Aquelas áreas acabaram abrigando quase a totalidade das atividades pastoris da região. Estas estavam voltadas, principalmente, para a criação de bovinos que visava o rentável mercado das charqueadas do Jacuí, de Porto Alegre e de Pelotas. Contudo, em considerável medida, a agricultura também era empreendida nestes espaços, podendo ou não estar conjugada com o pastoreio. As atividades agrícolas eram desenvolvidas em escala variada nas unidades produtivas onde a pecuária se constituía como a atividade mais importante. Nas palavras de Farinatti,

havia desde aqueles que possuíam apenas pequenas roças de alimentos, até verdadeiros criadores-lavradores, que consorciavam a produção pecuária com a produção comercial de gêneros, como farinha-de-mandioca. Esse tipo de estabelecimento também podia aparecer nas zonas mistas, em que campo e floresta estavam lado a lado ou entremeados (2010b, p. 249).

17 FARINATTI (2010b). Embora este autor tenha focado seu estudo em meados do século XIX, ele apresenta

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Além disso, faz-se importante ressaltar que aqueles campos abrigavam unidades produtivas pastoris de diversas dimensões, ou seja, grandes estâncias dividiam espaços com propriedades mais modestas de pequenos e médios criadores. Portanto, mesmo a região sul do território santa-mariense, que devido a suas pastagens se aproximava do estereótipo criado para a campanha sul rio-grandense, apresentava uma paisagem agrária mais complexa e com maior diversidade de agentes sociais.18

Posteriormente, as regiões florestais da Serra Geral, localizadas ao norte, também acabaram sendo alvo de ocupação. Estes espaços se configuraram em alternativas principalmente para os pequenos lavradores e suas famílias. E neles, estes agricultores implantaram uma economia predominantemente de subsistência, baseada em técnicas agrícolas rudimentares. Essas, por sua vez, eram herdeiras de técnicas utilizadas por diversas culturas indígenas, e consistia no sistema de queimadas e derrubadas, com utilização do pousio e primazia pelo avanço sobre as matas virgens, que eram largamente praticados em todo o Brasil desde os primórdios da colonização até o século XIX (FRAGOSO apud FARINATTI, 2010b). No entanto, não foram raros os casos em que essas famílias de lavradores geravam algum excedente produtivo para o mercado. Esta realidade desvenda que também nas regiões florestais havia uma significativa variabilidade nas dimensões das propriedades, situação que acabava por produzir uma complexa heterogeneidade social entre os sujeitos históricos que transitavam naquele universo. As circunstâncias acima descritas nos apresentam um cenário em que famílias de agricultores, em sua grande maioria pobres, buscavam conservar sua condição de produtores autônomos (FARINATTI, 2010b).

Essa conjuntura foi um dos elementos que mais contribuiu para que a escravidão se instituísse como uma necessidade estrutural para a economia agropecuária estabelecida naquelas paragens. As possibilidades que os homens pobres tinham de se tornar pequenos produtores, condição típica de uma região de fronteira agrária aberta, fez com que eles não se tornassem uma massa de despossuídos dos meios de produção, pronta a se empregarem nas estâncias por baixos salários. Embora tenha existido uma parcela de agentes sociais

18Esse estereótipo pode genericamente ser entendido como o descrito por Farinatti: “um universo monotônico,

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despossuídos que poderiam apenas a recorrer aos empregos existentes nas estâncias, sua

dimensão não era “em número suficiente para cobrir de forma segura todas as necessidades de

trabalhos nos grandes estabelecimentos de criação” (FARINATTI, 2010b, p. 260).

No tocante à estrutura da mão de obra empregada nas distintas atividades produtivas, mais uma vez se torna necessário levar em consideração as envergaduras de cada propriedade. Nas grandes propriedades pecuaristas, devido à sazonalidade intrínseca dos serviços pastoris, havia uma combinação de trabalho livre e escravo, e trabalhadores regulares e eventuais. Nesse padrão que era comum às grandes estâncias platinas e rio-grandenses, escravos campeiros e alguns peões pagos por mês compunham um núcleo regular de trabalhadores.19 Além desse núcleo, havia peões assalariados que ficavam poucos meses por ano na estância e peões eventuais que se empregavam por poucos dias para executarem tarefas eventuais. Estes últimos eram solicitados, especialmente, em períodos de marcação, castração ou para recrutamento do gado evadido. Além disso, existiriam também outros cativos que, entre outras atividades, seriam encarregados da faina agrícola, das lidas domésticas e dos serviços gerais ou especializados (FARINATTI, 2006). Já para o pastoreio de pouca monta em Santa Maria, como constatado para outras regiões do Rio Grande do Sul e do Prata20, fora uma atividade produtiva eminentemente familiar. E além de ter se tornado uma alternativa aos menos favorecidos, essa situação contribui para que nas grandes propriedades pastoris a escravidão tivesse se constituído em um elemento imprescindível (FARINATTI, 2010b).

Como nas pequenas propriedades pastoris, os estabelecimentos voltados para a agricultura de alimentos, que em sua maioria pertencia a famílias de pequenos lavradores e produziam para subsistência, empregavam a mão de obra familiar. Entretanto,

ao lado da maioria dessas famílias de vida precária, um pequeno grupo de lavradores conseguiu atingir relativa prosperidade, calcados principalmente na mão-de-obra escrava e, por vezes, contando com maquinismos de beneficiamento (atafonas para fabricar farinha-de-mandioca; engenhos para fabricação de aguardente, para secar arroz ou para „tirar madeiras‟). [...] Esses lavradores produziam para o mercado, abastecendo o núcleo urbano de Santa Maria e também regiões próximas, como era o caso da Campanha Rio-grandense [...] (FARINATTI, 2010b, p. 251).

Nota-se, portanto, que havia certa parcela das propriedades voltadas às atividades agrícolas que conseguiam gerar excedentes, os quais lhes permitiam investir em trabalhadores escravos. Farinatti (2010b) mostrou que a escravidão esteve disseminada por diversos setores

19 GARAVAGLIA (1999); GELMAN (1998); OSÓRIO (2007) apud FARINATTI (2010b).

20 FARINATTI (2010a); GARAVAGLIA (1999); GELMAN, (1998); OSÓRIO, (2007) apud FARINATTI,

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da sociedade santa-mariense, e que a posse e concentração de cativos obedeciam a uma estratificação sócio-econômica entre as distintas atividades produtivas e, posteriormente, a uma hierarquização conforme a grandeza entre os próprios estabelecimentos.

Em suma, partindo ainda de uma perspectiva comparativa, o mesmo autor coloca que o universo agrário de Santa Maria caracterizava-se pela existência de uma pecuária mais acanhada e menos especializada do que a da Campanha, e que se associava com a lavoura de alimentos. Esse padrão era encontrado em boa parte da Depressão Central – Cachoeira, Rio Pardo, Encruzilhada, Taquari – e nas regiões do Planalto e das Missões – onde, porém, era acompanhado de importantes atividades, como por exemplo, a extração da erva-mate (FARINATTI, 2010b).

De um modo geral, a paisagem agrária santa-mariense, constituído ao longo do século XIX, caracterizou-se pela diversidade dos agentes sociais que ali coabitavam, situação que fora condicionada pela própria heterogeneidade do relevo e da vegetação. Muitas das pessoas que compunham o conjunto populacional deste povoado buscavam, e/ou eram levados a receberem, os sacramentos católicos. De certa forma,

desde o início da formação de Portugal, no século XII, a Igreja esteve ligada ao Estado e o Brasil colonial e monárquico se formaram dentro dessa tradição. Tanto a Igreja não concebia uma outra forma de organização política da sociedade, quanto os próprios leigos não se pensavam independentes do mundo do sagrado e das formas institucionais que este adquiria. As sociedades do mundo ocidental se pensavam cristãs e era dessa maneira que se constituíam: com a Igreja como um dos pilares e a matriz de suas normas jurídicas, políticas e sociais.

A monarquia portuguesa, desde sua formação, concedeu direitos e privilégios à Igreja e tornou-a parte integrante do Estado, contando com seu apoio do ponto de vista ideológico e da participação de seus quadros letrados na burocracia estatal. A este sistema foi dado o nome de padroado e ele acompanhou o Estado português, a colônia portuguesa na América e também o Brasil monárquico. A vida política e social era marcada por ritos católicos [...] (BIASOLI, 2010, p. 170).

A presença de um capelão e um oratório na Comissão Demarcadora de 1797 mostra que a Igreja esteve presente desde o marco de fundação de Santa Maria. Em 1804, o povoado foi alçado à condição de Oratório, para que, em 1814, conquistasse a qualidade de Capela Curada (BIASOLI, 2010). É, portanto, a partir desta data, que encontramos os assentos paroquiais de batismos, fontes com as quais desenvolve-se esta pesquisa.

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macro-político brasileiro, e que, possivelmente, tenha acarretado alterações no modo em que a sociedade se organizava. A análise de nosso objeto de estudo, os escravos, em outro contexto sociopolítico, o qual talvez tenha sido ensejado pela independência brasileira, demandaria a conjugação de outros tipos de fontes com as já propostas neste trabalho. Todavia, uma pesquisa deste porte seria incompatível com as dimensões exigidas em uma monografia de conclusão de graduação.

Enfim, após essa breve contextualização histórico-espacial – na qual buscamos expor aos leitores a diversidade sócio-econômica da região de Santa Maria da Boca do Monte, na primeira metade do século XIX –, esperamos ter dado mais cores àquele quadro descrito por Auguste de Saint-Hilaire, em 1821. Almejamos ainda que até as últimas linhas desse estudo possamos enriquecê-lo ainda mais.

3.2 Hierarquias sociais costumeiras e diversidade étnica

No primeiro contato com os livros de batismos de Santa Maria da Boca do Monte da primeira metade do século XIX, as informações que, de imediato, nos saltam aos olhos são as discriminações da condição jurídica e da cor da pele e/ou de origem dos agentes sociais. Isto é, os párocos responsáveis por lavrar aqueles assentos preocupavam-se, antes de qualquer coisa, em identificar se os indivíduos que estavam recebendo os sacramentos católicos eram livres ou escravos. Posteriormente, não é difícil perceber que outra forte marca de distinção social se constituía a partir da cor da pele e/ou de origem dos sujeitos históricos.Neste ponto, havia uma diversidade de termos empregados pelos clérigos, como por exemplo: índio, preto,

crioulo, mestiço, pardo. De acordo com Hebe Mattos, “[...] a colônia brasileira se diferenciava no âmbito do Império [português], constituindo-se enquanto sociedade colonial e escravista com hierarquias sociais e classificações proto-raciais específicas” (MATTOS, 2010, p. 150).

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