PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO SÃO PAULO 2012

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Henrique Meira de Castro

  

Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia

da Educação

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM

EDUCAđấO: PSICOLOGIA DA EDUCAđấO

  

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Henrique Meira de Castro

  

Medo e relações de poder: uma contribuição para a Psicologia

da Educação

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Educação: Psicologia da Educação, sob a a a orientação da Prof . Dr . Mitsuko Aparecida Makino Antunes.

  

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM

EDUCAđấO: PSICOLOGIA DA EDUCAđấO

  Banca Examinadora AGRADECIMENTOS Esta é aquela seção que lembramos e esquecemos um monte de pessoas importantes. Muitas vezes lembramos diversas pessoas que nos ajudaram nesse processo, normalmente as protagonistas, companheiras ou mais próximas. Que muitas vezes estão hierarquicamente acima ou igual a nós. E infelizmente muitas vezes é difícil lembrar os que não exercem protagonismos ou não são próximos, mas que são fundamentais.

  De quem lembrei gostaria de poder agradecer, À Laís, minha companheira e amiga, por todo o amor e carinho. Comigo durante todo o processo foi quem mais participou desse texto, compartilhando minhas angústias, dificuldades e felicidades. Além de ser sempre a primeira incentivadora, crítica, leitora e corretora;

  Aos meus pais, Joaquim e Ana Maria, que sempre apoiam e respeitam meus caminhos, mesmo que, muitas vezes não concordando com minhas opiniões ou decisões. Obrigado pelo apoio e carinho; Aos meus irmãos, Denise e Renato, pelos cuidados e apoios desde sempre.

  Agradecimentos que são estendidos para William (e pelas eternas conversas sobre ciência) e Camila; Ao Mateus e Maria por nos lembrar sempre da importância de sorrir; À Mitsuko pelas (des)orientações, paciência, confiança e apoio. Principalmente na reta final quando entreguei tudo em cima da hora... Valeu Mimi!! À Maria do Carmo pelo que aprendi em aulas, grupos e conversas. E pela grande ajuda e contribuição no Exame de Qualificação; Ao Sandro pelas contribuições no Exame de Qualificação e por ser um dos primeiros interlocutores deste trabalho no mestrado; Ao Netto pelos mais diversos motivos nesses últimos anos e por ser, também, um dos interlocutores; Ao Achilles pelas informações, ajudas e interlocuções deste trabalho;

  Aos companheir@s de Centro Acadêmico de Psicologia - CAPSI (Gestões Metonímia e Mimesis), Movimento Estudantil e Comandos de Greve da Unesp Bauru. Período no qual provavelmente mais, e melhor, aprendi a entender e enfrentar nossas correntes;

  Aos professores Nilma, Osvaldo, Angelo, Ari, Tuim, Ju Pasqualini, Marisa e Áurea da Unesp Bauru que foram fundamentais em minha formação profissional, científica, ética e política;

  A tod@s do Núcleo de Estudos em Psicologia Social e Educação: Contribuições do Marxismo – NEPPEM e dos núcleos Bauru e Cuesta da Associação Brasileira de Psicologia Social – ABRAPSO, em especial à Sueli Terezinha.

  Ao Tuga e Kester pelos primeiros acolhimentos científicos na universidade e, Ao Amauri por me acolher em seu laboratório e ensinar o valor da ciência e da pesquisa científica. Ao Caio e a todo o povo meio esquisito daquele laboratório! Ao Rafael, parceiro de graduação que me convidou para estudar a “Cultura do

Medo” no primeiro ano de graduação e, posteriormente me confiou a continuação deste trabalho;

  As tod@s professores do PED que contribuíram com minha formação. Obrigado Ia, Cláudia e Sérgio;

  Ao Edson que sempre ajuda e quebra os galhos dentro do PED; A todos os professores (formais ou não) que já tive desde os 2 anos; Aos amigos da Unesp e aos amigos de Botucatu. São tantos e tão diversos que seria desonesto citar alguns e possivelmente esquecer de outros; A todos que algum dia me permitiram a diversão de ter uma banda! Valeu

Janja, Pinky, D’Angelo, Guerrini, Dani, Jônatas, Boca, Rafinha, Cowboy, Papito

  Beakman, Kiko, Danilo, Eric, Testa, Lebrão e Murilinho A todos que algum dia sentaram comigo na mesa do bar e papearam por horas sobre absolutamente qualquer assunto, que foram sempre fundamentais! Ao povo brasileiro que sustenta o CNPq que financiou esta pesquisa.

  • - É de medo que todos nós nos perdemos! E aqueles que mandam em nós, tiram proveito do nosso medo e nos atemorizam mais ainda.

  A mãe suplicou gemendo:

  • - Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo!

  (Máximo Gorki – “A Mãe”)

  

Las Manos de América Latina (1963-1965) - Oswaldo Guayasamín

  

RESUMO

  CASTRO, Henrique Meira de. Medo e relações de poder: uma contribuição para a

  

Psicologia da Educação. Dissertação de mestrado, Educação: Psicologia da

Educação, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2012.

  A presente dissertação sobre medo e relações de poder é pesquisa bibliográfica e reflexão teórica sobre como o medo pode ser utilizado como instrumento de controle social. Toda a reflexão sobre medo e seu possível uso como instrumento de controle social é feita a partir da síntese que Vigotski faz em seus estudos sobre a teoria das emoções, na qual a emoção e, por conseguinte, o medo não são uma simples força natural e instintiva de sobrevivência, mas também, uma função psicológica superior que se constitui na mediação entre indivíduo e sociedade, portanto complexa, em transformação e síntese de múltiplas determinações. Após traçar uma breve história dos medos que afligiram, e continuam a afligir, o gênero humano, são apresentadas diversas situações nas quais o medo é utilizado como uma das formas de poder nas relações, desde textos bíblicos e lendas indígenas à veiculação massiva de notícias amedrontadoras do século XXI, passando pelas relações de poder dentro das famílias, escolas e no mundo do trabalho. A partir disso, discute possíveis consequências dessa cultura do medo como, uma expansão de conflitos armados, higienismo social, aumento de doenças relacionadas a esses fenômenos, a perpetuação das formas disciplinares na educação e como alguns setores da sociedade lucram com esses medos. Faz uma reflexão sobre como podemos superar essas relações e se isso é possível numa sociedade de classes.

  

Palavras-chave: medo, emoções, relações de poder, cultura do medo, Vigotski,

psicologia histórico-cultural.

  

ABSTRACT

  CASTRO, Henrique Meira de. Fear and relations of power: a contribution to educational psychology. Master’s degree dissertation. PUC-SP. São Paulo, 2012. This work on fear and relations of power is a bibliographical research and a theoretical approach to how fear can be used as an instrument of social control. All the reflection about fear and its possible uses as an instrument of social control is made from the synthesis of Vygotsky in his studies on the theory of emotions. For him, emotion, and therefore, fear is not a simple natural and instinctive survival strength, but also a higher psychological function that constitutes itself on a mediation between person and society, thus a complex synthesis of multiple determinations. After a very brief history of the fears that have plagued, and continues to plague, the human race, some situations in which fear is used as one of the forms of power in relationships are presented, from biblical scriptures and indigenous legends to the 21th century establishment of massive frightening news announcements, through the relations of power within families, schools and the labor’s world. Also, we discuss the possible consequences of this culture of fear as an expansion of armed conflicts, social hygienism, as well as the increase in related diseases to that phenomenon, the perpetuation of disciplinary forms of education and how some sectors of society profits from these fears. Finally, a reflection on how we can overcome these relationships, and if this is possible within a class society.

  

Keywords: fear, emotions, relations of power, culture of fear, Vygotsky, historical-

cultural psychology.

  

RESUMEN

  CASTRO, Henrique Meira de. El miedo y las relaciones de poder: Una contribuición

a la psicología de la educación. Disertación de maestría. PUC-SP, São Paulo, 2012.

Esta disertación sobre el miedo y las relaciones de poder es una investigación bibliográfica y una reflexión teórica sobre cómo el miedo puede ser utilizado como un instrumento de control social. Toda la reflexión sobre el miedo y su posible uso como instrumento de control social se realiza a partir de la síntesis que hace Vygotski en sus estudios sobre la teoría de las emociones, en el que la emoción, y por lo tanto, el miedo no son una mera fuerza natural e instintiva de supervivencia, sino también una función psicológica superiora que consiste en la mediación entre el individuo y la sociedad, en constante transformación y síntesis de múltiples determinaciones. Después de trazar una breve historia de los temores que han afectados, y siguen afectando, a la especie humana, se presentan diversas situaciones en las que el miedo es usado como una forma de poder en las relaciones, de los textos bíblicos y leyendas a la masiva divulgación de noticias aterradoras del siglo XXI, y también, en las relaciones de poder dentro de las familias, las escuelas y en el mundo del trabajo. A partir de esto, discute las posibles consecuencias de esta cultura del miedo como una expansión de los conflictos armados, de higienismo social, de el aumento de las enfermedades relacionadas con estos fenómenos, la perpetuación de la formas disciplinario de educación y cómo algunos sectores de la sociedade ganan com estos temores. Hace una reflexión sobre cómo podemos superar estas relaciones y si esto es posible en una sociedad de clases.

  

Palabras claves: miedo, emociones, relaciones de poder, cultura del miedo,

Vygotski, psicología histórico cultural.

  

SUMÁRIO

  

1. APRESENTAđấO .............................................................................................. 05

  

2. O GÊNERO HUMANO E A LONGA HISTÓRIA DE SEUS MEDOS ................ 11

  2.1. O medo na história do ocidente ................................................................... 15

  3. SOBRE EMOđấO E MEDO .............................................................................. 19

  3.1. Sobre emoção .............................................................................................. 20

  3.2. Teoria das emoções em Vigotski ................................................................. 23

  3.2.1. Primeiras definições ........................................................................... 26

  3.2.2. Definições posteriores ........................................................................ 30

  3.2.3. Uma teoria Vigotskiana das emoções ................................................ 36

  3.3. Sobre medo ................................................................................................. 39

  

4. O MEDO COMO INSTRUMENTO DE PODER ................................................. 43

  4.1. A cultura do medo ...................................................................................... 49

  4.2. Nesse mundo de medo .............................................................................. 53

  

5. É POSSÍVEL SUPERAR A CULTURA DO MEDO? ....................................... 56

  5.1. Sociedade de classes ................................................................................ 60

  5.2. Superando essa condição ......................................................................... 66

  6. CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................ 70

REFERÊNCIAS .............................................................................................. 73

  Vivemos um momento em que o modo de produção capitalista está definitivamente instalado nas universidades. Um modo de produção de velocidade intensa e tensa, diariamente intensificada e tensificada. Universidades são gerenciadas como fábricas,

  • – e financiadas por bancos, indústrias químicas, petroquímicas, farmacêuticas, automobilísticas, cosméticas, que nada tem a ver com
  • – o interesse do desenvolvimento da ciência ou da realidade social brasileira professores são contratados como auleiros sem espaços e condições adequadas para desenvolvimento sequer das aulas, quanto mais de extensões e pesquisas cientificas.

  A produção científica no Brasil vem sendo guiada por uma mentalidade de produção a qualquer custo. Números e estatísticas mascaram a realidade de uma produção científica pobre, efêmera, descolada da realidade. Prazos curtos e metas

  1 altíssimas são traçadas para todos dentro da academia.

  As discussões dentro das comunidades científicas são mínimas. Os congressos e encontros científicos se tornaram fábricas de certificados, para encher de linhas de currículos Lattes, na garantia de se conseguir ou manter uma bolsa de estudos ou um emprego.

  O que temos que ler e onde temos que escrever é previamente determinado por arbitrárias avaliações que pontuam revistas, livros e publicações. É como Brecht 1 escreveu em seu poema:

  Recomendo a leitura do manife sto “Por um movimento Slow Science” de Joël Candau, que

segue a linha de outros manifestos como o Slow Food (em contraposição à Fast Food) e

reivindica que as políticas de produção de Ciência e Tecnologia sejam repensadas e que a

  Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

  “Privatizado” Bertold Brecht

  É nesse caos que esta pesquisa se faz presente. E completamente dentro destas especificações se encontra seu autor.

  O tema abordado, o medo e seus possíveis usos como instrumento de poder, se fez presente durante todo o percurso da pesquisa. Medo de não conseguir uma bolsa de estudos (já que não teve durante os primeiros oito meses de curso), medo de não conseguir terminar o texto a tempo, medo de não fazer um trabalho bom e adequado para a defesa. Medo de cair em uma rotina acadêmica e esquecer a importância de estar atento à realidade a sua volta e não ter tempo para participar de nenhuma organização política e social por ter que cuidar da própria vida.

  No meio desse turbilhão de preocupações, também sofri muito com a atividade de escrever, tão pouco treinada e exigida na graduação e tão importante no mestrado.

  Houve diversos momentos de “branco” e de “travadas”, especialmente durante as leituras e escrita do capítulo sobre emoções, durante o qual pude, ironicamente, com mais entendimento teórico, vivenciar momentos emocionalmente difíceis.

  O tempo todo algumas questões balizavam a confecção deste mestrado, para quê e para quem estava fazendo esse trabalho?

  As perguntas críticas que os psicólogos devem se formular a respeito do caráter de sua atividade e, portanto, a respeito do papel que está desempenhando na sociedade, não devem centrar-se tanto no onde, nas no a partir de quem; não tanto em como se está realizando algo, outra), mas sobre quais são as consequências históricas concretas que essa atividade está produzindo. (MARTÍN-BARÓ, 1996, p. 22)

  • * *

  O presente estudo sobre o medo teve início muito antes do meu ingresso no mestrado. Comecei a investigar o tema no primeiro ano de graduação em psicologia da Unesp Bauru, no ano de 2004, quando junto de um colega fiz um trabalho intitulado “A apropriação do medo como forma de manutenção do poder vigente” para a disciplina de Antropologia. No ano seguinte, na disciplina de Metodologia Científica, continuamos o estudo com um projeto de pesquisa de título “Cultura do

Medo: O surgimento da figura de autoridade”. E ao longo da graduação continuei a estudar o tema, sempre com um enfoque diferente, de acordo com a matriz do

  pensamento psicológico que ia tomando conhecimento no curso: psicologia comportamental, psicanálise e psicobiologia.

  No entanto em nenhuma delas sentia firmeza de ser aquilo que gostaria de estudar e somente no terceiro ano de graduação, quando comecei a estudar a psicologia sócio-histórica na disciplina de Psicologia Social e a psicologia histórico- cultural na Psicologia da Educação é que vislumbrei um caminho que gostaria de trilhar.

  Por volta desse período passei a integrar o núcleo Bauru da ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social) e o NEPPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia Social e Educação: Contribuições do Marxismo) nos quais pude me aproximar do marxismo e de perspectivas mais críticas da psicologia, sobretudo da psicologia de Vigotski e Leontiev.

  Com um crescente interesse e estudo da psicologia soviética e, consequentemente, do marxismo, passei a entender melhor a realidade da universidade pública e do movimento estudantil, no qual militava, e comecei a perceber de forma bastante clara os usos do medo nas relações de poder que vinha, até então, estudando teoricamente.

  Como representante estudantil em órgãos colegiados e centro acadêmico, pude perceber que existia um grande número de estudantes interessados em participar das atividades e movimentos políticos, mas não o faziam com medo de possíveis perseguições por parte de professores e diretores da universidade. Em semelhante situação estava o movimento sindical dos servidores, afinal eram comuns represálias, processos administrativos, sindicâncias, demissões, reuniões a portas fechadas com ameaças de punições, entre tantas possíveis formas de tentativas de controle.

  Essa situação objetiva me fez pensar e refletir em todas as relações que, até então, estava inserido e comecei a perceber que aquelas não eram as primeiras formas de controle pelo medo a que havia sido submetido. Só percebia, até aquele momento, os usos do medo em grandes escalas de poder, como nas situações de guerras e conflitos de política governamental. Mas percebi que não era assim distante, que era possível que em todas as relações entre diferentes interesses e indivíduos, o medo estivesse como elemento constituinte.

  Regressei à minha infância e me lembrei dos primeiros ensinamentos em minha casa e na bela escola, particular e religiosa, quando aprendi que devia tomar aceitar coisas de ninguém que não conhecesse; que devia me comportar dentro de uma loja porque “o moço estava olhando”, ou ficar em silêncio na aula porque podia “parar na sala da diretora”. Pude perceber que em certas situações não aprendi o que era o certo a ser feito, mas o que não podia fazer porque alguém estava ali, pronto, para aplicar a devida punição.

  De volta à universidade retomei meu projeto e decidi estudar esse complicado tema. Não tinha claro o objetivo, nem o caminho, mas queria entender como se dava esse controle pelo medo que causava nos indivíduos um congelamento do enfrentamento, restrições do agir, uma possível heteronomia causada pelo medo da punição. Era um tema de tão poucos debates e tão poucas discussões. Seria, também, por medo?

  Infelizmente, por dificuldades de avançar com a pesquisa na graduação (estando nos últimos anos de graduação, as atividades de aula e estágios tomavam a maior parte do horário e o resto do tempo era dedicado ao Movimento Estudantil), ela foi adiada para uma pós-graduação.

  Ao finalizar a graduação com a perspectiva de me tornar professor universitário e pesquisador, decidi cursar um mestrado e por indicações quase unânimes de meus professores e colegas, vim para a PUC-SP e para o PED ser orientado pela professora Mitsuko (indicação também quase unânime).

  Desde o início com uma excelente relação com a orientadora começamos a discutir caminhos de como poderíamos desenvolver a pesquisa. Ao longo dos primeiros três semestres muitos caminhos foram traçados e tentados, mas pouco avancei.

  No exame de qualificação muitas novas ideias apareceram e a partir delas interesse em trazer as contribuições da Psicologia Soviética para esta produção, por entender e respeitar a complexidade da obra e não querer fazer uma leitura “pela metade” e comprometer meu trabalho. Mas o caminho sugerido no exame de qualificação foi de encarar esse desafio.

  Frente a isso, considero que este trabalho tenha um valor científico e político maior do que existiria sem ela, mesmo com uma maior possibilidade de dificuldades de interpretação e análise da teoria ou de problemas relacionados a ela.

  No entanto, o trabalho foi realizado sabendo dessas limitações, sabendo que a teoria de Vigotski não foi aprofundada e discutida em todas suas possibilidades. O trabalho realizado é o trabalho possível dentro das limitações técnicas, científicas e pessoais do autor, mas que se propôs a levantar e, dentro das possibilidades, continuar a discussão, por entender que é um tema bastante debatido em algumas ciências sociais, mas pouco estudado dentro da Psicologia.

  O trabalho também não é extenso, por uma limitação do autor, que apesar de grande revisão bibliográfica, não conseguiu trazer de forma efetiva a contribuição de tudo o que foi lido. Em outros momentos, no entanto, não achou necessário alongar uma discussão que considerasse adequada.

  Este, portanto, é o resultado possível ao final de dois anos e agradeço a todos que se disponham a ler e debatê-lo.

  existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo do depois da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

  “Congresso Internacional do Medo” Carlos Drummond de Andrade

  O gênero humano foi, e ainda é, atormentado por medos ao longo de toda sua existência. Desde os primeiros registros da história humana somos capazes de identificar situações de medo e ações que visavam a proteção contra os perigos da vida natural e, posteriormente, da vida social. Nesses registros podemos perceber explicações míticas e histórias, muitas vezes assustadoras, em culturas que tentavam compreender o mundo a sua volta. Essas explicações eram utilizadas para interpretar e narrar os acontecimentos cotidianos e, também, para transmitir certos ensinamentos.

  Mundukuru, descendente indígena brasileiro, conta que índios do que viria a ser o Brasil se utilizavam do medo quando criavam “uma série de narrativas para mostrar os perigos que nos rodeiam em nossa vida de florestas, de montanha ou de cerrado e também para lembrar às crianças a importância de estarem atentas aos desafios que a natureza nos impõe

  ” (MUNDUKURU, 2010, p.7). Função parecida com as máscaras confeccionadas por primitivas tribos africanas que eram usadas para traduzir, se defender e espalhar o medo (DELUMEAU, 1989). Tais máscaras e histórias simultaneamente camuflam e exprimem o que Delumeau, pelas palavras de Kochnitzky, descreveu:

  (...) medo dos gênios, medo das forças da natureza, medo dos mortos, dos animais selvagens à espreita na selva e, de sua desconhecido, de tudo que precede e segue a breve existência do homem. (DELUMEAU, 1989, p. 21)

  Na Grécia Helênica medo, temor, terror, pavor e pânico não eram simplesmente emoções e sentimentos humanos, eram deuses, semideuses e demônios. Como , deus dos pastores e dos rebanhos, que deu origem à palavra

  

pânico. Seu corpo era parte humano e parte bode, possuía cascos, chifres e o corpo

  coberto de pelos. Tinha uma aparência tão assustadora que sua própria mãe, a ninfa Dríope, ficou apavorada e o abandonou. Contam as histórias que “seus aparecimentos súbitos provocavam um pânico que se derramava pela natureza e impregnava todos os seres, ao pressentirem a presença de uma divindade que perturba o espí rito e enlouquece os sentidos” (BRANDÃO, 1991, p.222).

  Os demônios Phobos - palavra derivada do verbo grego phébesthai, que significa fugir espavoridamente e que é a origem da nossa palavra fobia - era a personificação do Medo e do Terror e seu irmão Deîmos, o Pavor, eram os cruéis e sanguinários filhos de Ares, deus da guerra e da violência e apareciam sempre ao lado de seu pai nas guerras e em derramamentos de sangue (BRANDÃO, 1991). Em Esparta, sacrifícios eram oferecidos a Phobos antes das guerras, e os romanos decidiram, sob ordens de Tulo Hostílio, consagrar dois santuários a Pallor - origem da palavra palidez no idioma português - e Pavor, correspondências romanas a Deimos e Phobos (DELUMEAU, 1989). Assim também fez Alexandre Magno antes da batalha de Arbelos, oferecendo a Phobos um sacrifício solene; esperava que, agradando ao deus do medo, seus soldados, durante o combate, não fugissem

  2 apavorados (A religião e o medo, 2005) . Em nossos dias, muitas religiões ainda trazem figuras representativas do medo, como, por exemplo, as representações demoníacas do cristianismo, apropriada de deuses de crenças pagãs, em oposição à graça divina (A religião e o medo, 2005). Mas, além disso, na vida cotidiana, seja no passado ou na atualidade, podemos citar alguns exemplos do infinito número de identificações da realidade com o medo, como o mar, a noite, a fome, os saqueadores, as doenças, as possibilidades de holocaustos ecológicos e nucleares, o desconhecido, o outro e a morte.

  O maior medo é o medo da morte, selecionado naturalmente como um dos mecanismos responsáveis por nossa existência e permanência como espécie, dele decorrem suas variações. Medo de quase morrer, medo do que ocasiona morte, medo da dor, de enfermidades, do sofrimento moral, da solidão, da carência etc.

  Mas, temendo a morte, ansiamos por maneiras de prolongar a vida. Personificamos a morte para melhor poder encará-la e confrontá-la. Em nosso temor da morte criamos um estado para nos proteger de algumas de suas armas, corroborando uma das teses de Hobbes (1651/1997), na qual o medo da morte, na guerra de todos os homens contra todos os homens, é o principal motivo para a existência do Estado.

  Entretanto, jamais alguém presenciou a “Dona Morte no final do túnel”, mas muitos tiveram de lidar com um diagnóstico de doença terminal ou foram engolidos por uma gigante onda em alto-mar. Em sua história, a humanidade sofreu os mais diversos medos, uma longa e duradoura exposição que pôde

  “criar um estado de desorientação e de inadaptação, uma cegueira afetiva, uma proliferação perigosa do imaginário, desencadear um mecanismo involutivo com a instalação de um clima interior de insegurança

  ” (DELUMEAU, 1989, p. 26).

  2.1. O MEDO NA HISTÓRIA DO OCIDENTE Um dos estudos clássicos e mais citados sobre a história do medo é o livro

  ‘História do medo no ocidente (1300-1800)”, escrito por Jean Delumeau, que será utilizado como base para esta revisão.

  Delumeau começa seu livro comprovando a tese do medo como natural e inerente aos seres humanos e aos animais, mas ressalta que, dentre estes, o homem é o único que sabe que vai morrer e cita Vercors para uma definição da amedrontada natureza humana, “os homens usam amuletos, os animais não os usam” (DELUMEAU, 1989, p. 19), mas não confunde o fato com covardia; para o autor, o medo não tem nada a ver com covardia ou coragem, apesar da literatura e do conhecimento medieval e renascentista

  • – e muitas teorias modernas – os terem colocado como dois lados de uma mesma moeda. Explica que esta comparação servia como instrumento de manutenção social, justificando a existência do nobre cavaleiro sem medo que zelava pelas massas de camponeses covardes, uma vez que “o medo é a prova de um nascimento baixo” (ENEIDA, IV, 13, apud DELUMEAU, 1989, p. 14).

  O autor define dois tipos de medo ao longo do período estudado, os medos permanentes e os medos cíclicos. Os medos permanentes eram mais naturais e amplamente sentidos por todas as classes sociais, na medida em que as afetavam todas.

  Eram medos “ligados ao mesmo tempo a um certo nível técnico e ao instrumental mental que lhe correspondia: medo do mar, das estrelas, dos presságios, dos fantasmas, etc.” (DELUMEAU, 1989, p. 31). Os medos cíclicos afetar apenas os mais pobres, como no caso da penúria diante de uma colheita ruim, de um inverno muito rigoroso ou da guerra.

  Mas uma coisa era certa, o medo era onipresente, fosse em terra, fosse em mar. Mar sempre revolto, com tempestades e gigantescas ondas contadas por Homero, Virgílio e Camões. Medo do novo, medo do desconhecido, medo do outro, do estrangeiro, que nos é diferente (DUBY, 1999).

  Ao longo dos séculos estudados, o autor apresenta uma longa lista dos temores sofridos pelas populações do ocidente. Medo do amanhã, medo do escuro, da noite e do sol não nascer novamente. Medo da fome, da falta de pão e de uma colheita ruim. Medo do inverno e do frio. Medo da peste e das doenças. Medo da violência, do roubo, do saque, das invasões. Dos soldados de exércitos oficiais e de soldados mercenários. Medo do Estado, da burocracia e dos altos impostos. Medo dos mendigos e vadios. Medo das revoltas, revoluções e da subversão. Medo dos demônios e de seus agentes, do anticristo e da heresia. Medo do fim do mundo, do apocalipse, juízo final e da eterna danação. Medo da reforma, da contrarreforma e das outras religiões. Medo das bruxas e também da inquisição.

  A constituição de Esparta era fundada sobre ele [o medo], sistematizando a organização dos “iguais” em casta militar. Mobilizados permanentemente, aguerridos desde a infância, viviam sob a constante ameaça de uma revolta dos hilotas. A fim de os paralisar pelo medo, Esparta precisou modificar-se ela cada vez mais radicalmente. As medidas “aloplásticas” iniciais dirigidas contra os hilotas logo acarretaram medidas “autoplásticas” ainda mais rigorosas “que transformaram Esparta em um campo fortificado”. Mais tarde, a Inquisição foi semelhantemente motivada e mantida pelo medo desse inimigo sem cessar renascente: a heresia que parecia perseguir incansavelmente a Igreja. Em nosso tempo, o fascismo e o nazismo beneficiaram-se dos alarmes dos possuidores de rendas e dos pequenos burgueses que temiam as perturbações sociais, a ruína da moeda e o comunismo. As tensões raciais na África do Sul e nos Estados Unidos, a mentalidade obsidional que reina em Israel, o “equilíbrio do terror” mantido pelas superpotências, a hostilidade que opõe a China e a URSS são umas tantas O autor resume, demonstrando que, em uma longa sequência de “traumatismo coletivo, o Ocidente venceu a angústia ‘nomeando’, isto é, identificando, ou até ‘fabricando’ medos particulares” (DELUMEAU, 1989, p. 26), medos fabricados que podem ser considerados responsáveis por terem gerado, e ainda gerarem, milhares de mortos em todo o mundo. Dos grandes conflitos armados entre nações, passando por internas guerras civis até o extermínio higienista de minorias.

  Medo, tão presente em nossas vidas, que foi e é estudado nas mais diversas áreas das ciências, seja como emoção, sentimento, paixão da alma, instinto de sobrevivência, traumas e recalques etc., e também retratado nas mais diversas manifestações artísticas, como na pintura, literatura, teatro, música, cinema, assim como em diversas outras manifestações da cultura humana. No entanto, muitas vezes, quando apenas considerado como natural e necessário, sua manifestação pode passar despercebida em outras situações que não estas.

  Utilizando o materialismo histórico e dialético como fundamentação teórica do presente estudo sobre o medo, tentar-se-á superar visões naturalistas que tratam o medo apenas como uma emoção necessária para a sobrevivência e visões medicalizantes e culpabilizadoras, que colocam o medo como uma emoção ruim, devendo ser evitado, confundindo-o e igualando-o com doenças ou transtornos psicológicos, tratando-os como culpas e fraquezas dos indivíduos, culpabilizando-os sem uma análise aprofundada das condições sócio-históricas em que se vive.

  Para alcançar tal objetivo, neste trabalho serão utilizadas as produções sobre emoções e sentimentos da obra do psicólogo soviético Lev Semionovitch Vigotski, em busca de elementos que permitam uma aproximação acerca da emoção medo, com base no materialismo histórico e dialético.

  Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre O meu sorriso é por consolação Porque sei conter para ninguém ver O pranto do meu coração

  “Quem me vê sorrindo” Cartola e Carlos Castro

  3.1. SOBRE EMOđấO Discutir e definir emoção é um trabalho extenso e controverso, começando pelo próprio termo utilizado. Desde o início das indagações sobre as reações humanas a determinados estímulos já foram utilizados, entre outras, emoção, sentimento, afeto, paixão, sendo que estas já ocorreram em nossas almas, espíritos, coração, sangue, fluídos, intestinos e cérebros. Portanto, discutir o tema não é fácil.

  Para uma introdução ao tema será feita uma breve revisão das teorias e definições de emoção de Platão às ciências modernas como a biologia, medicina e psicologia produzida por Abbagnano. Em seu dicionário de filosofia, Abbagnano (1998, p. 311) define emoção como

  “qualquer estado, movimento ou condição que provoque no animal ou no homem a percepção do valor (alcance ou importância) que determinada situação tem para sua vida, suas necessidades, seus interesses ”. Ou seja, como reações imediatas de homens e animais a situações favoráveis ou desfavoráveis que os colocam em estado de alerta para enfrentar uma determinada situação com os meios que possuem.

  Para Platão, existe um equilíbrio entre os elementos que compõem o ser vivo e que, se ameaçados ou comprometidos, produzirão dor e, uma vez restabelecido o acompanhadas pela dor ou pelo prazer, “sendo o prazer e a dor a percepção do valor que o fato ou a situação a que se refere a afeição tem para a vida ou para as necessidades do animal” (Abbagnano, 1998, p. 311). Para os estoicos, as emoções eram juízos errados, opiniões vazias e desprovidas de sentido e os sábios, por viverem segundo a razão, estariam imunes a elas, denotando uma clara oposição entre razão e emoção.

  Já no âmbito da filosofia moderna, Hobbes colocou as emoções como uma das quatro faculdades humanas fundamentais, junto à força física, experiência e razão. As emoções eram “princípios invisíveis do movimento do corpo humano” (HOBBES, apud ABBAGNANO, 1998, p. 313), que precedem ações visíveis e que costumam ser chamados de tendências, como desejos, apetites ou aversões.

  Descartes considerava as emoções como modificações passivas na alma, criadas pelos movimentos das forças mecânicas e espíritos vitais que agem em nosso corpo por meio da glândula pineal, sede das emoções; concordava com os estoicos na medida em que dizia que a força da alma consistia em vencer as emoções.

  Kant colocou os sentimentos como categoria autônoma e mediadora entre a razão e a vontade. Fazia uma distinção das emoções do ponto de vista moral e biológico. Biologicamente as emoções alegria e tristeza estão ligadas ao prazer e à dor e “estas têm a função de impelir o sujeito a permanecer na condição em que está ou a deixá-la. A alegria excessiva e a tristeza extrema, [...] são emoções que ameaç am a existência” (ABBAGNANO, 1998, p. 315). Já do ponto de vista moral concordava com os estoicos, considerando as emoções como doenças da alma, “é tal predomínio das sensações que se produz a supressão do controle da alma; portanto, é precipitada, ou seja, cresce rapidamente até tornar impossível a

  Na segunda metade do século XIX, as emoções tornam-se objeto de estudo das emergentes ciências naturais. Darwin parte da definição proposta por Spencer, para quem todas as experiências vividas dividem-se em duas classes: sensações e emoções. As sensações, simples, seriam produzidas por estímulos periféricos e as emoções, complexas, por estímulos centrais e ambas funcionariam como mecanismos de adaptação ou de resposta a estímulos exercidos sobre o corpo.

  Darwin (2000), em seu livro A expressão das emoções no homem e nos

  

animais de 1872, afirmou o caráter inato e universal, herdado de nossos ancestrais,

  das expressões das emoções. Considerava também que muitas expressões eram iguais para toda a espécie humana, demonstrando assim sua força e importância para nossa espécie. Essa teoria foi reafirmada e contestada teoricamente por

  3

  diversos autores , até os experimentos de campo de Ekman (2011), que mostraram fortes indícios da expressão inata de felicidade, raiva, aversão, tristeza, medo e surpresa, ainda que estes dois últimos fossem confundidos entre si em algumas situações experimentais.

  Com a teoria de Darwin, todas as explicações metafísicas foram deixadas de lado. As emoções, finalmente, foram colocadas no corpo, como mecanismos do corpo, o que abriu caminho para novas investigações e criou novas polêmicas como, por exemplo, onde estão e onde agem as emoções em nossos corpos.

  Para entender melhor essas novas investigações, serão apresentados alguns estudos de Vigotski sobre as emoções. Esta não será uma análise de sua 3 obra, tampouco sua apresentação visa apresentar toda a obra do autor sobre o

  

Ekman (2011, p.20-21) cita os autores Margaret Mead, Gregory Bateson, Edward Hall,

Ray Birdwhistell e Charles Osgood como os que se opunham à teoria de Darwin e Silvan tema, nem esgotar sua discussão, mas apenas poder compreender melhor as emoções e o medo, por meio de uma perspectiva marxista de psicologia, para posteriores análises do tema no decorrer deste trabalho.

  3.2. TEORIA DAS EMOđỏES EM VIGOTSKI

  Bielorrússia; mais tarde mudou-se para Gomel, também na Bielorrúsia, até se transferir para Moscou onde se formou em Direito na Universidade de Moscou. De acordo com Puziréi e Guippenréiter (1989), Vigotski foi conhecido por ter um amplo interesse por estudos humanísticos, como crítica teatral, história, economia política, crítica e análise literária, que refletiu em seu trabalho de conclusão de curso “A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca” na Universidade Popular Shaniavski.

  A produção de Vigotski deve ser lida e analisada com muito cuidado e consideração para que possamos ter uma melhor compreensão de sua obra. Apesar de uma morte prematura aos 37 anos, vítima de uma tuberculose que o acompanhara desde 1926, Vigotski teve uma vasta produção em variados temas, de análises literárias, passando pela psicologia da arte, defectologia, pedologia e educação e análise da crise da psicologia até a criação de uma psicologia erigida sobre os preceitos do materialismo histórico e dialético, que ficou conhecida posteriormente como psicologia histórico-cultural.

  Leontiev e eu ficamos encantados quando se tornou possível incluí-lo em nosso grupo de trabalho, que chamávamos de ‘troika’. Com Vigotskii como líder reconhecido, empreendemos uma revisão crítica da história e da situação da psicologia na Rússia e no resto do mundo, mais abrangente, de estudar os processos psicológicos humanos. (LURIA, 2001, p. 22)

  Também é importante citar o impacto da revolução bolchevique em sua produção, já que Vigotski pôde ver toda etapa final do processo revolucionário socialista na Rússia. Tinha nove anos quando do primeiro ensaio revolucionário em 1905 e vinte e um anos de idade quando se formou em Direito, no ano da revolução, em 1917.

  Vigotski foi um grande estudioso da obra de Karl Marx, de acordo com Luria, “Vigotskii era também o maior teórico do marxismo entre nós” (LURIA, 2001, p. 25), e por essa compreensão trouxe o método marxista

  • – “o historicismo e o sistematicismo, a unidade da teoria e a prática, com o papel determinante desta última, a primazia da existência em relação a sua imagem psíquica

  ” (IAROCHEVSKI,

  • – para sua produção científica e se propôs a criar uma psicologia para uma nova sociedade, que tinha acabado de derrubar o czar e a burguesia do poder. Vigotski escreveu nos anos que se seguiram à revolução, uma “época de transformação do velho mundo, de radical reestruturação das ideias sobre a personalidade humana e sobre as perspectivas de desenvolvimento social” (IAROCHEVSKI, GURGUENIDZE, 2004, p. 515). Portanto, sua obra deve ser analisada como o próprio Vigotski gostaria:

  Nossa ciência

  • – escrevia Vigotski – não podia nem pode se desenvolver na velha sociedade. Ser donos da verdade sobre a
  • 5 pessoa humana e da própria pessoa é impossível enquanto a

    O texto citado é o epílogo do Volume I das Obras Escolhidas de Vigotski, escrito por M. F.

humanidade não for dona da verdade sobre a sociedade e da própria sociedade. (IAROCHEVSKI, GURGUENIDZE, 2004, p. 513)

  Esse movimento de construção de uma nova psicologia para uma nova sociedade, baseada em um novo modo de produção, acompanhava um movimento muito mais amplo, de enorme efervescência científica e cultural, que era a construção de toda uma nova sociedade. Lênin (2005), em discurso no congresso da União das Juventudes Comunistas, de 1920, afirmava que a revolução tinha, até então, somente destruído as bases da exploração da velha vida capitalista e retirado do poder os antigos exploradores e que a sociedade comunista deveria ser construída, todo dia, pelos próximos quinze ou vinte anos; assim, afirmava que

  “[...] em cada aldeia, à medida que se desenvolver a emulação comunista, à medida que a juventude demonstrar que sabe unir seu trabalho, à medida que isso ocorrer, estará assegurado o êxito da construção comunista” (LÊNIN, 2005, p. 28). Assim como em toda sua obra, os escritos de Vigotski sobre emoções passaram por muitas mudanças ao longo de sua carreira. Na década de 1920, chegando na área da psicologia e, ainda, muito influenciado pela reflexologia que dominava a psicologia soviética da época, Vigotski produziu seus primeiros textos que tratavam das emoções. Algumas ideias foram apresentadas em seu livro

  

Psicologia da Arte, de 1925, e no capítulo: Educação no comportamento emocional,

  6 em seu livro Psicologia Pedagógica, de 1924 .

  Nos anos posteriores, Vigotski partiu para uma fase experimental, que serviu como base para seus estudos posteriores e foi muito importante para a radical 6 mudança epistemológica em sua obra. Analisando as produções existentes na

  

O livro “Psicologia Pedagógica” costuma ser datado como sendo de 1926, data de sua psicologia até então e buscando produzir uma psicologia para o novo homem, Vigotski ampliou seus estudos sobre a teoria das emoções agregando muitos estudos teóricos, experimentais e clínicos de diversas áreas como a psicologia, neurologia, fisiologia, filosofia, antropologia, teatro, que resultaram em diversas publicações sobre o tema e culminando em seu livro Teoría de las emociones:

  Essas produções serão brevemente apresentadas na sequência, enunciando algumas das principais ideias apresentadas pelo autor.

  3.2.1. PRIMEIRAS DEFINIđỏES Em seu texto A educação no comportamento emocional, de 1924, Vigotski afirmava que a teoria das emoções e sentimentos era o tema com menor elaboração na psicologia e justificava isto com o fato de ser um dos mais difíceis aspectos do comportamento a se estudar, descrever e classificar. E que, no entanto, apesar das dificuldades, a velha psicologia conseguira deixar alguns bons pontos de vista sobre a natureza das reações emocionais.

  8

  9 Um desses pontos de vista foram os estudos de James e Lange ,

  pesquisadores que de forma independente chegaram a conclusões semelhantes, 7 respectivamente nos anos de 1884 e 1885, fato que chamou a atenção de Vigotski,

  

Esse livro é a publicação de um manuscrito inacabado, escrito entre os anos de 1931 e

1933. Diferentes partes desse manuscrito foram publicadas com diversos títulos.

Recomenda-se, também, o confronto dessa edição espanhola com a edição em inglês,

publicada no Volume 6 das Obras Escolhidas, intitulada The teaching about emotions, que 8 contém as notas originais de rodapé, não presentes no livro da edição espanhola. que utilizou uma expressão de Goethe para explicar o fenômeno , “certas ideias amadurecem em determinadas épocas à semelhança dos frutos que caem simultaneamente em diferentes hortas” (VIGOTSKY, 2010, p. 5. tradução nossa).

  Seus estudos, que ficaram conhecidos como teoria organicista ou “Teoria James-

  Lange”, tiveram muita repercussão e influência nas ciências da época e perduraram como base do estudo das emoções por muitas décadas.

  Essa teoria afirmava que o senso comum e a psicologia existente distinguiam três momentos dos sentimentos:

  O primeiro

  • – A – é a percepção de algum objeto ou acontecimento ou uma noção dele (o encontro com um bandido, a lembrança da morte de uma pessoa querida, etc); B – um sentimento provocado por essa percepção (medo, tristeza); C – expressões corporais desse sentimento (tremor, lágrimas). (VIGOTSKI, 2004, pp. 127-128)

  E as expressões corporais que acompanham o sentimento eram de três tipos:

  O primeiro é o grupo dos movimentos mímicos e pantomímicos, das contrações especiais dos músculos, principalmente dos olhos, da boca, das maçãs do rosto, das mãos. É uma classe de reações- emoções motoras. O segundo grupo é formados pelas reações somáticas, ou seja, pelas mudanças de atividade de alguns órgãos relacionados com as mais importantes funções vitais do organismo: a respiração, os batimentos cardíacos e a circulação sanguínea. O terceiro grupo é formado pelas reações secretórias, por essas ou aquelas secreções de ordem externa e interna: lágrimas, suor, salivação, secreção interna das glândulas sexuais, etc. É desses três grupos que se forma a habitual expressão corporal de qualquer sentimento. (VIGOTSKI, 2004, p. 128. grifos nossos)

  Pelas teorias da época, o fluxo das emoções acontecia na sequência ABC (percepção

  • – sentimento – expressão); no entanto, James propõe que o correto fluxo fosse ACB, ou seja, percepção, expressão e, então, sentimento. As mudanças corporais são suscitadas por reflexos e o sentimento é um movimento secundário. O que antes era causa é agora efeito e o efeito se revela como causa:

  Costuma-se dizer: choramos porque estamos amargurados, batemos porque estamos irritados, trememos porque estamos com medo. Seria mais correto dizer: estamos amargurados porque choramos; estamos irritados porque batemos; estamos assustados porque trememos. (JAMES, apud VIGOTSKI, 2004, p. 129)

  Para comprovar sua tese, James propõe que ao nos levantarmos de manhã assumamos expressões de melancolia, que falemos com voz deprimida, suspiremos com mais frequência, andemos curvados e que, ao anoitecer, seremos tomados de uma grande tristeza. Ou, de forma inversa, que combatendo as expressões corporais faremos desaparecer as emoções.

  Um psicólogo conta que sempre que tinha acesso de raiva esticava a mão e abria os dedos. Isso paralisava invariavelmente a raiva porque é impossível ter raiva com a mão aberta já que raiva significa punhos cerrados e lábios crispados. (VIGOTSKI, 2004, p. 130)

  Vigotski afirma, então, concordando com James, que a emoção é um “sistema de reações relacionado de modo reflexo a esses ou aqueles estímulos” (VIGOTSKI, 2004, p. 131). Todo esse sistema demonstrava o caráter subjetivo dos sentimentos (momento B), uma vez que após a percepção (A) e a expressão (C), o corpo exerce uma percepção de segunda ordem, uma nova representação da primeira percepção.

  O que o indivíduo realmente experimenta (B) e o que outro indivíduo é capaz de observar (C) são dois processos diferentes.

  Vigotski continua seu texto mostrando as diferenças das naturezas biológicas e psicológicas das emoções. Aponta a opinião de muitos de sua época, para quem biologicamente as emoções são órgãos rudimentares que estão condenados à extinção, mas afirma que essa concepção é falsa. Concorda, no entanto, com o fato de que quanto maior o grau evolutivo da espécie, menor é sua expressão das emoções. O medo (uma fuga inibida) e a cólera (uma briga inibida), duas emoções elementares, eram muito mais fortes e expressivas em um cão do que no homem selvagem, e que são muito mais nítidas em crianças do que nos adultos.

  Não concordando com a teoria da extinção das emoções, Vigotski apresenta a ideia de que as emoções ajudam a diversificar e complexificar o comportamento,

  Um comportamento emocionalmente colorido adquire um caráter inteiramente diverso do comportamento insípido. As mesmas palavras, porém pronunciadas com sentimento, agem sobre nós de modo diferente daquelas pronunciadas sem vida. (VIGOTSKI, 2004, p. 135)

  Para Vigotski, todas as emoções são um chamado à ação ou uma renúncia a ela; dessa forma, as emoções servem como ajuda na organização interna do comportamento, preparando o corpo por meio de suas reações de excitação, estimulação ou inibição. O centro de todas essas emoções, concordando com Lange, é o coração,

  Se lembrarmos que a respiração e o sangue determinam o desenrolar de absolutamente todos os processos, em todos os órgãos e tecidos, compreenderemos por que as reações do coração podem exercer o papel de organizadores internos do

comportamento. (VIGOTSKI, 2004, pp. 139-140)

  Nesse período de sua produção, Vigotski, concordando com a teoria de James e Lange, formulou orientações para a educação dos sentimentos como, por exemplo, que as emoções devem ser trabalhadas no processo educativo, que uma educação que prioriza a lógica e a intelectualidade, em detrimento das emoções, esteriliza e insensibiliza emocionalmente os indivíduos, transformando-os em pequenos burgueses que levam uma vida ‘sem cor’, sem emoções e sentimentos.

  A completa ausência de sentimento que se tornou traço obrigatório de todos aqueles que passaram por essa educação. No homem atual tudo está tão automatizado, as suas impressões singulares se fundiram de tal modo a conceitos que a vida transcorre pacificamente, essa vida desprovida de alegria e tristeza, sem nítidos tempo recebeu a denominação de sentimento pequeno-burguês. (VIGOTSKI, 2004, pp. 143-144)

  Portanto, os professores não devem fazer com que os alunos apenas pensem e assimilem o conteúdo, mas que também os sintam, pois quanto maior a vinculação emocional com o conteúdo, melhor a retenção na memória sobre ele.

  Nenhuma pregação moral educa tanto quanto uma dor viva, um sentimento vivo, e neste sentido o aparelho das emoções é uma espécie de instrumento especialmente adaptado e delicado através do qual é mais fácil influenciar o comportamento (VIGOTSKI, 2004, p. 143).

  Vigotski afirmava que os indivíduos deveriam dominar suas emoções, dominando suas expressões, e que esse processo não era de repressão das emoções, mas de uma subordinação orientada a um fim.

  3.2.2. DEFINIđỏES POSTERIORES Após um intervalo de cinco anos, quando o estudo sobre as emoções foi colocado em um segundo plano, Vigotski voltou a tratar do assunto quando já tinha uma nova elaboração sobre psicologia, que fica nítida em seus escritos sobre emoções, principalmente em relação à teoria de James e Lange, a qual passou a negar contundentemente.

  Uma das principais mudanças do período refere-se à quantidade de autores que Vigotski traz em sua revisão. Se em um primeiro momento apenas citara James e Lange, grandes estudiosos das emoções à época, agora trazia para sua discussão, como é frequente em sua obra, uma exaustiva revisão das produções

  • – Nessa revisão, o autor demonstra o predomínio de um puro naturalismo “que era totalmente alheio aos demais capítulos da psicologia” (VIGOTSKI, 1998, p. 79).
  • – não ocorria em outros na teoria das emoções, inclusive em psicologias introspectivas e espiritualistas, e afirma que essa tradição vinha como resultado da força das explicações de Charles Darwin, que retirou os sentimentos do interior da alma humana ao explicar que emoções e sentimentos eram parte da evolução das espécies.

  Seguindo essa trilha, a psicologia inglesa, de forte tradição religiosa, utilizou essa explicação para provar que “as paixões terrenas do homem, suas inclinações egoístas, suas emoções, relacionadas com as preocupações concernentes ao seu próprio corpo são, na verdade, de origem animal” (VIGOTSKI, 1998, p. 80). Decorre

  10

  11

  desse período a Teoria dos Rudimentos de Spencer e Ribot que afirmavam que a expressão das emoções nos homens são restos rudimentares das expressões animais.

  As emoções, afirma Ribot, seriam ‘ciganos de nossa psique’, uma ‘tribo agonizante’ que estava em uma curva evolutiva descendente, caminhando para a extinção, “a gloriosa história da morte de todo um setor da vida psíquica” (VIGOTSKI, 1998, p. 82).

  Na sequência, Vigotski apresenta a teoria de James e Lange, já sem concordar com ela, mas reconhecendo a importância da teoria ao mostrar que tentaram encontrar a fonte das emoções no próprio organismo humano

  • – para James os órgãos internos como o estômago e coração e para Lange o sistema vasomotor – para poder derrubar a ideia de progressiva extinção das emoções.
Por conta dessas afirmações e do sistema reflexo de emoções que James e Lange haviam proposto foram acusados de formularem uma teoria materialista reduzida aos reflexos.

  Crítica refutada pelo próprio James que alegou não ser um materialista e que, apesar de sua teoria apontar o corpo como sede das emoções, dividiu as emoções em duas categorias, as inferiores, de valor fisiológico, como ira, desespero, fúria, que foram herdadas dos animais, e as emoções superiores, mais sutis e espirituais, como o sentimento religioso, o amor, a sensação estética, que não podem ser explicadas da mesma forma. Dessa forma, afirma Vigotski (1998, p. 84),

  “James procura dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.

  O verdadeiro valor da teoria de James e Lange residiu, segundo Vigotski, no fato que ela, retirou o caráter de ‘tribo agonizante’ do psiquismo, e também abriu caminho para uma série de investigações empíricas e clínicas sobre as emoções.

  Ao comparar o que James disse sobre isso com o que sabemos agora, pode-se ver realmente o enorme e frutífero caminho que James e Lange abriram para as pesquisas empíricas. Nisso consiste seu extraordinário mérito histórico. (VIGOTSKI, 1998, p. 88)

  12 Um desses experimentadores foi Cannon , aluno de James, que iniciou seus experimentos para poder comprovar a teoria organicista, mas acabou por refutá-las.

  Em experimentos com cães, gatos e outros mamíferos observou mudanças humorais profundas, relacionadas com glândulas de secreção interna, sendo que tais mudanças afetavam profundamente todo o sistema visceral. Tal descoberta parecia corroborar a ideia de James de que as emoções aconteciam nas vísceras, mas Cannon descreveu diversas emoções, muito diferentes e até contrárias entre si de um ponto de vista psicológico, com uma mesma expressão orgânica, negando uma conexão simples e direta entre emoção e sua expressão corporal.

  Cannon nega, baseando-se em seus dados experimentais, a conexão simples existente entre a emoção e sua expressão corporal: mostra que esta não é específica da natureza psíquica das emoções; o eletrocardiograma, as mudanças humorais e viscerais, a análise química, a análise de sangue dos animais não permitem estabelecer se o animal experimenta terror ou está furioso; em emoções diametralmente opostas do ponto de vista psicológico, as mudanças

corporais são iguais. (VIGOTSKI, 1998, p. 89)

  Dando um passo à frente em seus estudos, Cannon realizou uma série de experimentos nos quais cirurgicamente retirava o sistema nervoso simpático de gatos, que continuaram a exibir as mesmas expressões corporais de emoções, mesmo que, agora, sem a capacidade de qualquer reação de caráter fisiológico.

  Assim, Cannon demonstrou a presença de estados emocionais sem a sua correspondente reação vegetativa. Na tentativa de uma demonstração experimentalmente positiva, Cannon aplicou, em humanos, injeções com substâncias capazes de produzir fortes mudanças orgânicas análogas às observadas em fortes emoções. Nesses experimentos ocorreram as variações de açúcar no sangue, variações de frequências respiratórias e cardiovasculares, mas que não suscitaram nenhum estado emocional nos indivíduos.

  Rejeitando totalmente a teoria organicista, Cannon afirmou que a expressão emocional não é o fim, mas o início de uma ação que é vital para o organismo, preparando o corpo para o que porventura se seguirá. Em uma situação de perigo, as reações corporais preparam o corpo para uma possível luta ou fuga. Afirma, ainda, que os gatos com sistema nervoso simpático retirados apresentariam a expressão emocional, mas na natureza logo morreriam, pois seus corpos não estariam preparados para uma luta ou fuga.

  Nas condições do laboratório, diz Cannon, a gata que carece de sintomas fisiológicos de emoções se comporta da mesma maneira que a que os apresente. Mas isso só acontece nas circunstâncias de um laboratório experimental, onde a questão se limita a mudanças isoladas; numa situação natural, uma gata que carecesse desses sintomas morreria antes de uma que não carecesse deles. Se a gata tivesse medo e, além disso, tivesse de fugir, é claro que o animal cujos processos viscerais não organizaram, não mobilizaram o organismo para a fuga morreria antes do outro. (VIGOTSKI, 1998, p. 93)

  Esses estudos mostraram um novo deslocamento do entendimento das emoções, agora da periferia do corpo para o centro, “o papel das emoções na psique humana é outro; isolam-se cada vez mais do reino dos instintos e se deslocam para um plano totalmente novo” (VIGOTSKI, 1998, p. 94). Os processos emocionais não mais estavam em órgãos vegetativos, nem à parte da psique, mas eram constituídos por um processo que fosse capaz de regular todos estes, um mecanismo cerebral.

  Vigotski ainda se mostrava metodologicamente cauteloso em refutar de vez a teoria de James e Lange e procurou nos estudos clínicos novos dados que pudessem dar fim à polêmica. Assim como imaginara James, que havia dito em suas primeiras publicações que se algum dia alguém poderia confirmar ou refutar sua teoria, com certeza seriam os estudos clínicos que o fariam, por serem os únicos capazes de possuírem os dados necessários (VIGOTSKY, 2010).

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  14

  15 Baseado em relatos e estudos clínicos de Head , Dana , Wilson e outros,

  Vigotski apresentou casos de lesões cerebrais, de patologias e de outros problemas neurológicos de indivíduos que sentiam e expressavam de forma muito mais intensa 13 emoções em apenas um lado do corpo; casos de pacientes que tinham ausência de 14 Henry Head (1861-1940). Fisiologia e neurologista inglês. movimentos expressivos no rosto; pacientes que sentiam profunda tristeza, mas riam e pacientes felizes que choravam, até casos de tetraplegia que nada afetava a vivência emocional dos indivíduos, apesar destes não terem nenhuma reação corporal. Todos esses estudos puderam definitivamente deslocar as emoções para o cérebro, conferindo um lugar de destaque das emoções na vida psíquica dos indivíduos. Colocou, assim, um ponto final em toda a refutação da teoria organicista das emoções.

  16 Ainda dentro dos estudos clínicos, Vigotski confere mérito para Freud , por ter conferido uma dinâmica de desenvolvimento das emoções.

  As emoções não foram sempre o que são agora, que em diversos momentos, nas etapas precoces do desenvolvimento infantil, foram distintas das do homem adulto. Demonstrou que não são “um estado dentro de outro” e que só podem ser compreendidas no contexto de toda a dinâmica da vida humana. (VIGOTSKI, 1998, p. 96)

  17 Trazendo-as ainda mais para o centro da vida psíquica, Adler confere às

  emoções o estatuto de ser um dos determinantes na formação do caráter, deixando cada vez mais para trás a ideia de “tribo agonizante” para fazer parte dos processos de organização e formação da estrutura psicológica fundamental da personalidade.

  Outra importante contribuição para os estudos de Vigotski foram as análises

  18

  de Claparède , que confrontaram interpretações naturalistas que consideravam as emoções apenas como mecanismos biologicamente úteis e que não conseguiam responder por que algumas emoções eram fontes de perturbação, como quando 16 estamos preocupados com algo e não conseguimos pensar de forma organizada ou 17 Sigmund Freud (1856-1939). Médico austríaco, fundador da psicanálise.

  

Alfred Adler (1870-1937). Médio austríaco, seguidor de Freud, que abandonou a 18 psicanálise e fundou a psicologia do desenvolvimento individual. controlar os próprios atos. Na busca dessa resposta, Claparède inverte a pergunta, questionando:

  Se o significado funcional mais importante das emoções se reduz a sua utilidade biológica, como explicar que o mundo das emoções humanas, que se diversificam cada vez mais a cada novo passo dado pelo homem no seu desenvolvimento histórico, produz não só alterações na vida psíquica a que se refere Freud, mas toda a diversidade de conteúdo da vida psíquica do homem (que se manifesta pelo menos na arte)? Por que cada passo do desenvolvimento humano provoca a atuação desses processos “biológicos”, por que as vivências intelectuais do homem se refletem em forma de fortes sensações emocionais, por que, finalmente, diz Claparède, cada guinada importante no destino da criança e do homem está tão impregnada de elementos emocionais? (VIGOTSKI, 1998, p. 101)

  A resposta está em processos que Claparède chama de sentimentos, que surgem quando as reações biológicas não dão conta da realidade. Emoções e sentimentos são, portanto, processos distintos quanto a sua natureza psicológica.

  Com a devida importância, também devem ser considerados os apontamentos de Lewin

  19

  , que experimentalmente mostrou a dinâmica de reações emocionais, mostrando como um estado emocional pode se transformar em outro, como uma emoção não resolvida pode continuar existindo ocultamente. Sua ideia principal era a de que as emoções não poderiam aparecer isoladas na vida psíquica, pois todas elas são resultados de uma estrutura concreta do processo psíquico, resultando das mais diversas e possíveis situações de nossa vida.

  3.2.3. UMA TEORIA VIGOTSKIANA DAS EMOđỏES

  20

  É difícil a tarefa de definir qual é o conceito de emoção na obra de Vigotski , uma vez que o autor nunca chegou de fato a propor uma teoria das emoções. Suas contribuições ficaram distribuídas em suas obras na medida em que fazia sua leitura crítica, como indica Toassa (2009, p. 29): em

  “sua análise das psicologias particulares das emoções [...] o autor aponta-lhes os problemas, e, ainda que de modo esparso, tece considerações para sua superação

  ”. No entanto, é possível tirar algumas conclusões que podem ajudar na discussão sobre o medo proposta neste trabalho.

  As investigações de Vigotski deixam claro o deslocamento do centro das emoções em nossa vida.

  As emoções agora não mais eram ‘princípios invisíveis do movimento’ da alma, nem mais resquícios da evolução. O que fora paixão do espírito tornou-se reação visceral e, então, finalmente repousou no sistema nervoso central do organismo humano. Além disso, as emoções passaram para o primeiro plano da psique humana, não mais consideradas como uma tribo agonizante do psiquismo, sendo incorporadas à estrutura dos demais processos psíquicos.

  De acordo com Toassa (2009), a partir de 1932 o autor define as emoções como uma função psicológica superior, que transita da “imediatidade das condutas herdadas à regulação externa própria das relações sociais e dos meios culturais (a princípio, externos) e, posteriormente, a regulação interna e intencional pela própria consciência” (TOASSA, 2009, p. 287). Considerava a emoção como função que topograficamente opera no organismo como um todo, e no sistema nervoso em particular, com propriedades energéticas impulsivas que impelem o corpo à ação, 20 tem papel ativo nos processos de atividade, consciência e personalidade, com diferentes qualidades vivenciais (intenso, vago, intelectual, angustiante), com uma esfera cultural fundadora e, finalmente, de regulação voluntária em seu mais alto nível de desenvolvimento.

  As emoções frequentemente são postas como qualidade de outros processos psicológicos, servindo de adjetivo como em expressões: pensamento emocional, atitude emocional, significado emocional etc. Temos cada dimensão de nossa vida atravessada por uma esfera afetiva, no princípio em formas instintivamente programadas para a satisfação de necessidades urgentes, mas que se modificam logo nos primeiros momentos de aprendizagem do bebê. Desenvolvendo-se na relação com os outros e na apropriação da cultura, poderão operar na realidade.

  Em todas as acepções, Vigotski vai contra a ideia de simples utilidade biológica das emoções, afirmando que nem sempre elas produzem a melhor adaptação, muitas vezes causam sofrimento quando em relações sociais adoecidas. Além disso, são diferentes entre as pessoas. Dois indivíduos terão, certamente, vivências emocionais diferentes em relação a um mesmo objeto.

  O autor também demonstrou em seus estudos experimentais que as emoções incluíam-se nas diversas funções psicológicas envolvidas nos processos de tomadas de decisão e escolha.

  Pode-se concluir, a partir de uma perspectiva materialista histórica e dialética, que a emoção desenvolve-se na mediação entre indivíduo e sociedade, sendo, portanto, uma função psicológica culturalizada, demonstrando que o indivíduo pode ter domínio de todas as suas emoções.

  Essa definição traz em seu bojo um grande potencial de emancipação do indivíduo, colocando a possibilidade deste ser o ator de sua própria história, e não instintivas e naturais, para ser senhor de suas próprias emoções. Uma construção teórica que talvez, por esse exato motivo, não seja compartilhada pelo paradigma dominante da ciência, que reflete o paradigma dominante da sociedade, que nada mais é que a ideologia da classe dominante.

  É compreensível que a ideologia antidemocrática da desigualdade considere a biologia a sua ciência fundamental: somente através da justificação de uma desigualdade biologicamente insuperável entre os homens é que essa ideologia pode atribuir-se uma aparência racional. É certo que esta fundamentação biológica não tem caráter científico, sendo antes um mito, como se constata claramente já em Nietzsche: a sua ‘raça de senhores’ tem fundamentação romântica e moral. A biologia, aqui, não passa de um ornamento místico. (LUKÁCS, 2009, pp. 33-34)

  3.3. SOBRE MEDO O medo é uma complexa emoção humana, e assim como ela é de difícil definição e nomeação. O que hoje amplamente chamamos de medo é uma emoção que já teve e continua tendo muitos nomes. Já foram deuses e demônios com Pã, Phobos e Pavor e hoje seus sinônimos como temor, terror, pânico, aparecem presentes, em maior ou menor grau, em diferentes transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, estresse, fobias e, de acordo com Mira y López (1988), também aparecem camuflados na timidez, escrupulosidade, pessimismo e ceticismo.

  Na tentativa de uma definição dos termos, Darwin (2000, p. 271) apresenta uma gradação temporal e de intensidade, que se inicia com o espanto e vai se desenvolvendo para medo, terror e finalmente pânico, o mais alto grau do medo.

  O espanto é muito próximo do medo e ambos instantaneamente aguçam a Quando com medo, o homem fica paralisado, sem respiração, o coração acelera violentamente, mas sem conseguir funcionar melhor do que habitualmente, o que pode ser visto na pele que se torna pálida. A sudorese aumenta, os pelos se eriçam e os músculos tremem. Em decorrência de todas essas alterações, a respiração, que havia sido paralisada, retorna acelerada, a boca fica seca. Com o tremor dos músculos, em especial dos lábios e com a secura da boca a voz se torna rouca.

  Se o medo continua a aumentar, se torna “a agonia do terror” (DARWIN, 2000, p. 272) e os resultados são como os do medo, mas também com resultados diversos. O coração que há pouco disparara pode falhar. Os olhos podem saltar ou girar de um lado para o outro incessantemente, as pupilas dilatam-se e o tremor muscular pode transformar-se em convulsão. No pânico, o mais alto grau do medo, “um horrível grito de terror é ouvido” (DARWIN, 2000, p. 273), enormes gotas de suor escorrem, a capacidade mental se esgota, os músculos relaxam e os intestinos e esfíncteres são afetados.

  Tantas expressões de diferentes sistemas são o resultado de uma longa história filogênica, na qual o homem sofreu para escapar de inimigos e perigos, fosse lutando ou fugindo, mas o autor também traz um componente fisiológico que explica que muitas das expressões são “consequência direta da perturbação ou interrupção da transmissão de força nervosa do sistema cerebrospinal para as várias partes do corpo, por ter sido a mente tão imensamente afetada” (DARWIN, 2000, p. 288).

  No estudo que Vigotski fez sobre as emoções, muitas vezes o exemplo dado é o medo. Em seu texto de 1924, apresenta o medo, junto da cólera, como uma das emoções mais elementares, e explica que as alterações fisiológicas decorrentes do

  Palidez, interrupção da digestão e diarréia significam refluxo do sangue daqueles órgãos cuja atividade não apresenta no momento uma necessidade e uma importância vital de primeiro grau para o organismo e um afluxo do sangue àqueles órgãos aos quais cabe a palavra decisiva nesse momento. [...] e lança toda a força de sua alimentação aos seguimentos combativos, aqueles que salvam imediatamente do perigo. (VIGOTSKI, 2004, p. 133)

  O medo é, portanto, uma “forma solidificada que surgiu do instinto de autopreservação em sua forma defensiva” (VIGOTSKI, 2004, p. 133), é a mobilização de todas as forças do organismo para a fuga do perigo. Ou seja, a emoção medo e todas suas reações fisiológicas são uma fuga inibida

  21

  , corroborando a etimologia da palavra grega para o medo, que significa fugir.

  É pelo exato motivo do medo ser uma emoção tão antiga, de tão forte reação fisiológica e selecionada pela evolução como forma de preservação da vida e da espécie que se torna, então, de grande valor nas tentativas de ser usado como instrumento de poder.

  Vigotski, escrevendo sobre a educação dos sentimentos, afirmava que “o mecanismo educativo consiste em certa organização do meio. Assim, a educação dos sentimentos sempre é essencialmente uma reeducação desses sentimentos, ou seja, uma mudança no sentido da reação emocional inata” (VIGOTSKI, 2004, p.

  142).

  Partindo dessa possibilidade de educar os sentimentos e de criar situações e ambientes propícios para o desenvolvimento de certas emoções é que podemos afirmar que o medo pode ser utilizado como instrumento de controle, desde que condições adequadas sejam criadas:

  É possível que, digamos, haja um vínculo entre o sentimento de medo e um estímulo dissociado do estímulo incondicionado de medo na experiência mas que na experiência, da criança esteja vinculado a um sentimento de dor, desprazer, etc. Isso é o bastante para criar a chamada reação preventiva. [...] Se você quer que a criança nutra medo por alguma coisa, ligue a manifestação dessa coisa à dor ou ao sofrimento para o organismo que a devida dor surge por si mesma. (VIGOTSKI, 2004, p. 142-143)

  Considerando as descrições fisiológicas decorrentes do medo apresentadas não é de se espantar que essas expressões venham se transformando em patologias cada vez mais sérias e profundas. Para Delumeau, essas reações são “em si uma reação utilitária de legítima defesa, mas que o indivíduo, sobretudo sob

  

o efeito das agressões repetidas de nossa época, nem sempre emprega com

discernimento” (DELUMEAU, 1989, p. 23, grifos nossos).

  E é sobre essas repetidas agressões por meio do uso do medo, nas mais diversas esferas de relações de poder, que o próximo capítulo irá tratar.

  E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios Vadeamos.

  “O medo” Carlos Drummond de Andrade

  Aproximadamente no século VII a.C., o Código Deuteronômico começou a ser escrito por homens que organizavam e sistematizavam em leis aquilo que supostamente eram as revelações divinas que Moisés havia recebido e que todo o povo de Israel deveria obedecer para continuar sua nova aliança com Deus. Eram leis reveladas que não poderiam ser questionadas pelo homem e colocavam todo o poder nas mãos dos anciãos e dos sacerdotes, fiéis depositários das leis. A

  22

  importância histórica e política desse livro e de todo o Pentateuco reside no fato terem sido o guia máximo de toda uma sociedade durante muitos séculos, e que reverberou em diversas outras e continua hoje como fundamento de muitas tradições e, em alguns casos, como argumentos em debates legislativos de estados laicos.

  Nos livros da “Lei” o homem é ensinado a temer a Deus e suas leis.

  Se alguém tiver um filho rebelde e indócil, que não obedece ao pai e à mãe e não os ouve mesmo quando o corrigem, o pai e a mãe o pegarão e levarão aos anciãos da cidade, à porta do lugar, e dirão aos ancião s da cidade: ‘Este nosso filho é rebelde e indócil, não nos obedece, é devasso e beberrão’. E todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra. Deste modo extirparás o mal do teu meio, e todo Israel ouvirá e ficará com medo. (BÍBLIA, 2002a, p. 284. grifos nossos)

  Suscitando a lei de Talião, o texto sugere em casos de ser calúnia ou falsas acusações que a vítima aja conforme o caluniador maquinava “para que os outros ouçam, fiquem com medo, e nunca mais tornem a praticar semelhante mal no meio de ti que o teu olho não tenha piedade. Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (BÍBLIA, 2002c, p. 282). E tudo isto não era senão a extensão do temor inicial que o homem deveria ter a Deus. As leis e ensinamentos sempre relembravam ao homem

  “para que aprendas continuamente a temer Iahweh teu Deus” (BÍBLIA, 2002d, p. 277).

  Muitos séculos se passaram e o medo continuou na ordem do dia para aqueles que governam. A o Príncipe “é muito mais seguro ser temido do que amado”, aconselhava Maquiavel (1513/1999, p. 106), “pois o amor (...) rompe-se sempre que lhes aprouver, enquanto o medo que se incute é alimentado pelo terror

  23

  . O medo, essa emoção do castigo, sentimento que nunca se abandona” fundamental para a sobrevivência dos animais e da espécie humana, foi considerado por Maquiavel, no século XVI, em obra destinada aos reis absolutistas, como um dos elementos de exercício do poder; tese esta que, no período, não era exclusiva de Maquiavel. Em 1510, Symphorien Champier, médico e nobre, escr eveu: “O Senhor deve tirar prazer e delícia das coisas em que seus homens têm sofrimento e trabalho, [seu papel é o de] manter terra, pois pelo pavor que os homens do povo têm dos cavaleiros eles trabalham e cultivam as terras por pavor e medo de serem des truídos” (DELUMEAU, 1989, p. 15).

  Seguindo tais orientações, a colonização portuguesa no Brasil utilizou-se do medo de violentos castigos a quem não os obedecesse, como estratégia de dominação. De acordo com Manuel da Nóbrega, chefe da primeira missão jesuítica nas Américas, o medo era o que marcava as relações dos nativos com o poder 23 português. Tais observações levaram Manuel da Nóbrega e as missões jesuíticas a, também, utilizarem o medo como método para a cristianização (MASSIMI, MIRANDA, 2001), fato que é confirmado por uma sequência de cartas, ao longo de oito anos, nas quais Manuel da Nóbrega se convence da eficácia do uso do medo.

  [os índios] estão espantados de ver a magestade com que entramos e estamos, e temem-nos muito, o que também ajuda. (NÓBREGA em carta de 1549, apud MASSIMI, MIRANDA, 2001, p. 47) [os índios] talvez por medo se convertam mais depressa do que o fazem por amor. (NÓBREGA em carta de 6 de janeiro de 1550, apud MASSIMI, MIRANDA, 2001, p. 48) Assim por experiência vemos que por amor é muito difficultosa a sua conversão, mas como é gente servil por medo fazem tudo, e posto que nos grandes por não concorrer sua livre vontade, presumimos que não tenhão fé no coração, os filhos creados nisto ficarão firmes cristãos, porque é gente que por costume e criação com sujeição farão della o que quizerem, o que não será possível com razões nem argumentos. (NÓBREGA em carta de 1557, apud MASSIMI, MIRANDA, 2001, p. 48)

  Essa visão utilitarista do medo pela Companhia de Jesus já vinha, também, de sua origem aristotélica, uma vez que em sua obra Retórica, Aristóteles dizia que o medo é uma paixão suscitada pela imaginação de um mal vindouro que seja capaz de causar destruição ou dor, e a condição para que experimentemos o medo é que estes males pareçam iminentes (MASSIMI, MIRANDA, 2001).

  Um pouco mais para frente no tempo, já em nossa história moderna, em 1919, Winston Churchill, quando presidia a British Air Council, afirmou:

  “não consigo entender tantos melindres sobre o uso do gás. Estou muito a favor do uso do gás venenoso contra as tribos incivilizadas. Isso teria um bom efeito moral e difundiria um terror perdurável ” (GALEANO, 2012, p. 38, grifos nossos).

  O temor a Deus no Pentateuco do século VII a.C., as orientações de Maquiavel, os relatos jesuíticos do século XVI e a afirmação de Churchill no século tantos poderiam ser enumerados, mas estes poucos exemplos têm um significado importante por pertencerem a diferentes aspectos da vida social em diferentes períodos de tempo. O primeiro tinha caráter oficial, de legislação, o texto de Maquiavel foi como uma cartilha para as monarquias do período e a afirmação de Churchill soa como um desabafo de um líder militar que não pôde utilizar todo seu arsenal, seja este bélico ou, como o próprio admite, de força moral.

  Os exemplos políticos e militares trazem de forma muito elaborada o uso do medo; no entanto, também é possível seu uso em situações cotidianas, como em nossas relações pessoais com outras pessoas, nas práticas educativas e no mundo do trabalho etc.

  Em uma tentativa de ensinar aos pequenos indígenas os perigos de sair à noite pela mata, Mundukuru (2010) afirma que tribos indígenas criavam históricas míticas nas quais entes mágicos das florestas arrancavam os olhos dos que desafiavam a noite. Tais histórias, permeadas pelo medo, tinham a dupla função de preservar a sobrevivência da tribo e educar os mais jovens.

  Contudo é um equívoco pensar que somente no passado a humanidade recorreu a personagens míticos para transmitir ensinamentos por meio do medo.

  Hoje em dia ainda é comum ouvir adultos recomendarem que as crianças se comportem adequadamente , caso contrário poderão ser visitadas pelo ‘bicho-papão’ ou pelo

  ‘boi da cara preta’. Os perigos dos mares também são ainda representados na figura da Iara e outras sereias. Ou ainda em forma de cantigas para ninar, em que os cuidadores alertam para que as crianças durmam rapidamente, já que a ‘Cuca vem pegar’.

  Além dos personagens míticos, existem os reais personagens do medo. isso possa representar, mas pelo temor que o personagens do imaginário popular como o ‘homem do saco’ passe e as leve. E nas escolas, dentro das salas de aula o silêncio é barganhado com ameaças de suspensão ou de possíveis visitas à diretoria. Em ambientes públicos, a criança não pode nunca fazer algo proibido, pois sempre o

  ‘moço está olhando’. Esse uso do medo como punição ou ameaça é o que Sidman descreveu como coerção, o

  “uso da punição e da ameaça de punição para conseguir que os outros ajam como nós gostaríamos e à nossa pratica de recompensar pessoas deixando-as escapa r de nossas punições e ameaças” (SIDMAN, 2001, p. 17).

  O artifício usado pelos primeiros agrupamentos humanos pode ter começado, talvez, de forma ingênua, para orientar os mais jovens sobre os perigos existentes.

  Mas, uma vez inculcado no imaginário das pessoas, o que antes teve função de preservação passou a ter função pedagógica de controle. A função pedagógica incorporou o controle como uma de suas partes; o controle, antes meio para a ação pedagógica, tornou-se fim desta ação.

  Estava provado pelas relações do cotidiano que o medo funcionava e muito bem. E tal como os agrupamentos sociais foram paulatinamente se transformando em estado e a propriedade coletiva se transformando em propriedade privada, o conhecimento comum a todos também tornou-se propriedade da nascente classe dominante. Consequentemente, também sua produção e transmissão, resultando na apropriação do que uma vez fora conhecimento de todos compartilhado para defesa do coletivo, em conhecimento utilizado para controle e dominação, a serviço dos interesses de poucos.

  4.1. A CULTURA DO MEDO Assaltantes fazem arrastão em restaurante em Pinheiros.

  Tentativa de execução – Empresário baleado no Itaim-Bibi. Tiroteio em shopping deixa três baleados. Sequestro acaba após 22 km de perseguição. (BERGAMASCO, 2012, p. 28-31)

  Os trechos acima são títulos de reportagens de jornais que foram apresentados na matéria “Somos todos reféns”, da edição especial “Os retratos do medo” da Revista Veja São Paulo. Nessa reportagem recheada de números e estatísticas o que predomina é a mensagem de que ninguém está seguro, principalmente os moradores de grandes cidades como São Paulo.

  Levantamento exclusivo mostra que 71% dos entrevistados se sentem amedrontados por viver numa cidade onde ocorrem seis assaltos por dia a residências, um roubo ou furto de carro a cada seis minutos e o dobro de homicídios de Nova York (BERGAMASCO, 2012, p. 28).

  A constante veiculação de informações possivelmente amedrontadoras é uma forma de manter a população distraída e assustada, tornando-a potencialmente mais distante da possibilidade de reflexões mais aprofundadas sobre as causas dos problemas sociais que enfrentamos.

  “O maior problema da cultura do medo é que as pessoas ficam níveis mais altos de ansiedade, que atrapalham seu sono, seu raciocínio ou mesmo seu envolvimento na comunidade”. (GLASSNER apud COELHO, 2011). O sociólogo estadunidense Barry Glassner defende em seu livro,

  

Cultura do Medo (2003), que a população dos Estados Unidos da América teme

  cada vez mais o que deveria temer cada vez menos. Ao longo dos capítulos apresenta dados que demonstram as repetidas agressões a que somos submetidos por meio de uma superveiculação de notícias alarmantes, como no caso da redução país, mas com um aumento de 600% de histórias sobre assassinatos nos noticiários das redes de televisão, fazendo com que o homicídio, a 11ª causa mortis do país, recebesse aproximadamente a mesma quantidade de cobertura que recebeu a doença cardíaca, a primeira na lista de causa mortis.

  Fato similar ocorre com a cobertura sobre fatores de risco associados a doenças graves e óbitos, no qual o consumo de drogas, considerado como o menor fator de risco, ter tido praticamente tanta atenção quanto a falta de exercícios físicos e adequada dieta alimentar, o segundo principal fator de risco.

  Em relação à sua pergunta inicial o autor responde:

  A resposta sucinta a por que os americanos cultivam tantos medos ilegítimos é a seguinte: muito poder e dinheiro estão à espera daqueles que penetram em nossas inseguranças emocionais e nos fornecem substitutos simbólicos. (GLASSNER, 2003, p. 40)

  É, por exemplo, nas guerras que muito poder e dinheiro estão em jogo e nesses momentos decisões políticas arbitrárias podem ser amplamente apoiadas por uma população amedrontada. Nessa situação, o povo pode concordar com ações que em primeiro plano parecem resolver a situação, mas que se fossem analisadas com rigor e amplamente discutidas seriam ações que jamais teriam apoio popular. Assim afirma Goldstein, o inimigo do sistema e do Grande Irmão, no romance 1984:

  A consciência de estar em guerra e, portanto em perigo, faz parecer natural a entrega de todo o poder a uma pequena casta: é uma inevitável condição de sobrevivência (ORWELL, 1980, p.180).

  A “Guerra contra o Terror”, liderada pelos Estados Unidos logo após os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, é claro exemplo dessa “consciência

  A população dos Estados Unidos da América dificilmente aceitaria enviar massivamente seus filhos para um conflito armado após a Guerra do Vietnã; no entanto, concordou com a investida contra o Afeganistão em outubro de 2001 e ao Iraque em 2003. Os ataques ocorridos no dia 11 de setembro de 2001 e a ameaça

  24

  de novos ataques, como a ameaça de contaminação biológica do Antraz ou armas de destruição em massa de Saddam Hussein, criaram um medo generalizado na população estadunidense, que correu aos mercados para comprar provisões e equipamentos de sobrevivência, preparando-se para a possibilidade de novos ataques.

  Nas palavras de um congressista estadunidense, o psiquiatra Jim McDermott, é possível conseguir que uma população faça qualquer coisa quando amedrontada.

  O medo funciona sim. Você pode fazer com que o povo faça qualquer coisa quando estão com medo, e você os faz temer criando uma aura de infinita ameaça. O governo tem brincado conosco, eles sobem o alerta para o nível laranja e depois para o nível vermelho e, em seguida descem para o laranja novamente. [...] O povo americano vem sendo tratado assim, é realmente engenhoso e desagradável o que tem sido feito. Na minha opinião isso irá continuar enquanto essa administração estiver no comando... De tempos em tempos estimularão todos a sentirem medo, ‘no caso de 25 terem

  , não se esquecido’. Não chegará nunca verde ou azul 26 chegará nunca. (McDermott, 2004)

  Dez anos se passaram, o medo das armas iraquianas de destruição em

  27 24 massa, que não existiam, diminuiu; os inimigos Osama Bin Laden ,

Arma biológica que surgiu como ameaça após os ataques de 11 de setembro. Na época,

a mídia noticiou que muitas pessoas poderiam estar recebendo essa bactéria em pó em

25 suas correspondências, criando um pânico generalizado.

  

O congressista se refere a um painel, que estabelece o nível perigo de novos ataques

terroristas, e que possui as seguintes gradações: Verde

  • – Baixo (baixo risco de ataque terrorista), Azul – Atenção (algum risco de ataque), Amarelo – Elevado (significante risco de ataque), Laranja
  • 26 – Alto (alto risco de ataque) e Vermelho – Severo (severo risco de ataque).
Nesse período, os Estados Unidos com sua força política e bélica promoveram no mundo inteiro uma atualização da Pax romana, impondo que países de todo o mundo se posicionassem a favor da “Guerra contra o Terror”, caso contrário seriam declarados inimigos do desenvolvimento da paz mundial e, então, caçados como terroristas.

  Outra demonstração do medo como condutor de grandes decisões políticas é o que acontece nas periferias das grandes cidades brasileiras, como políticas de segurança baseadas no uso ostensivo do aparato militar e repressor do Estado como as Unidades de Polícia Pacificadoras

  responsabilizado pelos ataques de 11 de setembro, e Saddam Hussein (ambos anteriormente armados e treinados pelos Estados Unidos) foram mortos e os Estados Unidos ampliaram seu império direto de forma efetiva em mais dois países, à custa de milhares de vidas.

  • – UPP no Rio de Janeiro. A socióloga Vera Malaguti Batista (2003), afirma que a favela de hoje representa no ideário da classe dominante o que o quilombo era no século XIX,

  No Brasil a difusão do medo do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado das massas empobrecidas. O ordenamento introduzido pela escravidão na formação sócio-econômica sofre diversos abalos a qualquer ameaça de insurreição. O fim da escravidão a implantação da República (fenômenos quase concomitantes) não romperam jamais aquele ordenamento. Nem do ponto de vista sócio- econômico, nem do cultural. Daí as consecutivas ondas de medo da rebelião negra, da descida dos morros. Elas são necessárias para a implantação de políticas de lei e ordem. A massa negra, escrava ou liberta, se transforma num gigantesco Zumbi que assombra a civilização; dos quilombos ao arrastão nas praias cariocas (BATISTA, 2003, p. 21). Saindo da esfera de políticas de Estado, podemos buscar exemplos em situações presentes em nosso cotidiano. Qualquer que seja a direção para onde olhamos podemos encontrar relações sociais com indivíduos ou grupos, em diferentes níveis de poder, que estarão permeadas por relações baseadas no medo.

  Na escola, primeiro espaço organizado e sistematizado de reprodução social, encontramos diversos exemplos. Do professor que conduz uma sala em silêncio mediante uma ameaça de prova surpresa, ao aluno que cede seu lanche ao colega por uma ameaça de agressão. No mundo do trabalho, espaço máximo da produção e reprodução social, faríamos uma lista tão grande de usos do medo (e aqui também

  28 da violência quase, se não explicita) que precisaríamos de outro estudo para tal.

  4.2. NESSE MUNDO DE MEDO No século XVI, não se entra facilmente à noite em Augsburgo.

  Montaigne, que visita a cidade em 1580, maravilha-se diante da “porta falsa” que, graças a dois guardas, controla os viajantes que chegam depois do pôr-do-sol. Estes vão de encontro em primeiro lugar a uma poterna de ferro que o primeiro guarda, cujo quarto está situado a mais de cem passos dali, abre de seu alojamento graças a uma corrente de ferro que, “por um caminho muito longo e cheio de curvas”, puxa uma peça também de ferro. Passado esse obstáculo, a porta volta a fechar-se bruscamente. O visitante transpõe em seguida uma ponte coberta situada por cima de um fosso da cidade e chega a uma pequena praça onde declina sua identidade e indica o endereço onde ficará alojado em Augsburgo. O guarda, com um toque de sineta, adverte então um companheiro, que aciona uma mola situada numa galeria próxima ao seu quarto. Essa mola abre em primeiro lugar uma barreira

  • – sempre de ferro – e depois, por intermédio de uma grande roda, comanda a ponte l evadiça “sem que nada se possa perceber de todos esses movimentos: pois são conduzidos pelos pesos do muro e das portas, e subitamente tudo isso volta a fechar- se com grande ruído”. Para além da ponte levadiça abre- se uma grande porta, “muito espessa, que é de madeira e reforçada com várias grandes lâminas de ferro”. Através dela o estrangeiro tem acesso a uma sala onde se vê encerrado, só,
e sem luz. Mas uma outra porta semelhante à precedente permite-lhe entrar numa segunda sala onde, desta vez, “há luz” e lá descobre um vaso de bronze que pende de uma corrente. Ele aí deposita o dinheiro de sua passagem. O (segundo) porteiro puxa a corrente, recolhe o vaso, verifica a soma depositada pelo visitante. Se não está de acordo com a tarifa fixada, ele o deixará

  “de molho até o dia seguinte”. Mas, se fica satisfeito, “abre-lhe da mesma maneira mais uma grossa porta semelhante às outras, que se fecha logo que passa, e ei- lo na cidade”. Detalhe importante que completa esse dispositivo ao mesmo tempo pesado e engenhoso: sob as salas e as portas existe “um grande porão para alojar” quinhentos homens de armas com seus cavalos, no caso de qualquer eventualidade. Se for necessário, são enviados para a guerra “sem a chancela do povo da cidade” (DELUMEAU, 1989, pp. 11-12).

  O excerto de Montaigne mostra a proteção de uma cidade do século XVI, em que guardadas as devidas proporções de tecnologia e tempo são muito próximas da realidade dos condomínios das atuais cidades. Grandes portarias com diversos seguranças espalhados, portões duplos ou triplos para a entrada de carros, vigilância eletrônica por todos os lados, necessidade de se identificar e identificar seu destino, muitas vezes acompanhada da necessidade da apresentação de documentos. E tal qual o relato, em caso de qualquer eventualidade, o uso de força armada é enviada “sem a chancela do povo da cidade”.

  Ao falar do medo, outros dois fenômenos são suscitados, a segurança e a falta dela. Ao tratarmos do tema dentro de uma sociedade capitalista, na qual tudo se torna mercadoria, o medo se tornou responsável pela movimentação de uma grande indústria de trilhões de dólares que em nome da segurança não é questionada.

  Vivemos

  • – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Porque motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que
se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? (COUTO, 2011)

  A indústria da segurança, em nossos dias, fatura muito com os medos, seja em contratação de força de trabalho para segurança pessoal ou na intensa produção industrial de instrumentos de vigilância: alarmes, cercas elétricas, circuitos internos de filmagem, armamento não-letal, monitoramento via satélite, blindagem de carros e residências, entre tantos outros. De acordo com dados de Bergamasco (2012), na cidade de São Paulo, desde 2008, mais de 5000 carros são blindados por ano, entre 2006 e 2010 o faturamento do setor de segurança eletrônica saltou de R$256 milhões para R$420 milhões, um aumento de 64%. Em 2011, 6122 policiais militares foram formados pelo estudo, cerca de 3500 a mais que no ano anterior, além disso a polícia equipou todas suas 3500 viaturas com tablets e GPS, e outros 1200 aparelhos foram distribuídos para o efetivo a pé e de moto.

  Mas, sem dúvida, a mais lucrativa e de mais incessante produção, dentre

  • – estas, é a indústria bélica, sustentada por uma proclamada necessidade de defesa e ataque
  • – contra os inimigos, como afirma o escritor Mia Couto (2011), “para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos é imperioso

  29

  sust Afirmação que é confirmada por João Verdi Carvalho Leite, entar fantasmas.” presidente da Avibrás, maior fabricante de equipamentos militares da América Latina

  , “o mundo está ficando mais perigoso e isso traz perspectivas interessantes” (BARBOSA, 2001).

  De acordo com dados apresentados por Gianini (2011), no caso da guerra 29 contra o terror, os Estados Unidos da América passaram de US$12 bilhões gastos em 2002, para US$191 bilhões em 2011. A Universidade Brown (CHACRA, 2011) estima que em 10 anos os Estados Unidos tenham gastado algo em torno de US$4 trilhões nas guerras contra o Afeganistão e Iraque. Nessas guerras, que resultaram em mais de 225.000 mortos, incluindo 140.000 civis, as forças americanas dispararam, em média, 250.000 tiros para cada combatente inimigo morto.

  Outra vencedora dessa sociedade adoecida pelo medo é a indústria farmacêutica; ano após ano, a produção e o faturamento de medicamentos crescem, o consumo de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes e estimulantes vem aumentando assustadoramente em todos os segmentos sociais. Também são alarmantes os dados estatísticos apresentados sobre as doenças. Em uma análise das publicações do Washington Post, New York Times e USA Today em 1996, o jornalista Bob Garfield descobriu que na população dos Estados Unidos 59 milhões sofriam de doenças cardíacas, 53 milhões de enxaqueca, 25 milhões com osteoporose, 16 milhões com obesidade e 3 milhões com câncer. Em doenças mais obscuras, existem 10 milhões com disfunção da articulação temporomandibular e 2 milhões com distúrbios cerebrais; somando tudo, o jornalista observou que em uma população de 266 milhões de habitantes, 543 milhões estavam gravemente doentes, e concluiu “Ou estamos condenados como sociedade, ou alguém está chutando alto” (GARFIELD apud GLASSNER, 2003, p. 20).

  O crescente medo é também corresponsável pelo surgimento de novas justificativas para tirar de circulação

  • – por meio de prisões, internações compulsórias ou extermínio
  • – os ‘não desejáveis’, ‘os perigosos’, sejam estes o jovem negro de periferia, seja o morador de rua ou o viciado em crack, esque>– ou higienicamente retirado
  • – nas ruas das cidades e no campo. Uma tática parecida
pregava contra comunida des não cristãs na Europa medieval, “esses estrangeiros, [...] é preciso convertê-los ou, então, destruí- los” (DUBY, 1999, p. 63).

  Na necessidade de se encarcerar e perseguir pessoas são necessárias mudanças legais que retirem cada vez mais a privacidade e os direitos individuais em nome da segurança. Como a promulgação em tempo recorde da lei do “Ato

  30

  , nos Estados Unidos da América, que permite espionagem de Patriótico” telefonemas e e-mails e detenção - sem mandado e julgamento - por tempo indeterminado de estrangeiros considerados perigosos, abrindo brechas legais para diversas violações dos direitos humanos, incluindo torturas.

  Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. [...] Vivemos

  • – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. (COUTO, 2011)

  São tantos os perigos, as vigilâncias e as punições que a população, assustada e muitas vezes adoecida, vai se tornando progressivamente mais passiva, mais conformada. Reduzindo sua vida ao cotidiano de seu trabalho alienado, diminuindo sua autonomia e suas possibilidades de humanização, sem possibilidades (e sem desejo) de tentar mudar a realidade a sua volta.

  Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não 30 trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm

A lei Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstructing Terrorism ACT of 2001 - USA PATRIOT ACT conhecida por “Ato Patrióti co” foi apresentada na câmara “House of the Representatives” no dia 23 de outubro

de 2001 e aprovada no dia 24 de outubro por 357 votos favoráveis contra 66 contrários. No

dia seguinte, 25 de outubro, a lei foi aprovada na câmara “Senate” por 98 votos a 1. E

finalmente assinada pelo, então presidente, George W. Bush no dia 26 de outubro de 2001, medo da fome, têm medo da comida. Os motoristas têm medo de caminhas e os pedestres têm medo de ser atropelados. A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É o tempo do medo. (GALEANO, 2009, p. 83)

  Parece, então, clara a relação entre medo e poder, e que esse uso social do medo leva, analogamente, a uma paralisia social, fazendo com que indivíduos, grupos tenham reduzidas possibilidades de agirem no mundo.

  Partindo da premissa que a atividade é a categoria fundante do psiquismo humano, esses indivíduos e grupos teriam suas atividades restritas às imposições do cotidiano do trabalho alienado da sociedade capitalista, portanto não exercendo toda sua potência de humanização.

  5. É POSSÍVEL SUPERAR A CULTURA DO MEDO? Apresentada a discussão sobre uma teoria materialista, histórica e dialética das emoções nas quais o medo, sendo uma emoção, não é uma simples força natural e instintiva de sobrevivência, mas também, uma função psicológica superior que se constitui na mediação entre indivíduo e sociedade, portanto complexa, em transformação e síntese de múltiplas determinações e sobre uma existente cultura do medo em nossa sociedade, perguntamos: É possível superar a cultura do medo?

  Para fazer esta proposição, primeiro se faz necessário analisar as relações existentes nas sociedades de classes, essencialmente a capitalista, por entender como fundamental a necessidade de esclarecer seus artifícios de dominação na tentativa de superá-la e, assim, caminhar para a construção de uma sociedade sem classes.

  5.1. SOCIEDADE DE CLASSES Como posto por Marx & Engels no Manifesto do Partido Comunista (1848 /

  2010, p. 40), “a história de todas as sociedades até hoje existentes, é a história de luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de c orporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos”; tal antagonismo é resultado da exploração de uma classe sobre outra, produção que se dá no nível da estrutura, por meio da propriedade dos meios de e é garantida, entre outras, pelo domínio do poder de Estado no nível de superestrutura. Estado definido como o

  

Leviatã por Thomas Hobbes, em seu livro, que ofereceu bases científicas, filosóficas

  e religiosas para as monarquias absolutistas, como: autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. (HOBBES, 1997, p. 144)

  Estado também de finido como “um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”, por Marx & Engels (2010, p. 42). Portanto, o estado administra os recursos de todos para assegurar a paz e a defesa comum

  • – de toda a classe dominante
  • –, ou seja, é o principal meio de manutenção do status quo, o principal meio de manutenção da sociedade da forma como ela é.

  Nas diversas sociedades de classes que existiram até hoje, a classe dominante sempre desenvolveu métodos de manter o controle dos meios de produção e, consequentemente, da classe dominada, a ela submetida.

  Esse controle se deu, invariavelmente, pela violência física. Nas primeiras sociedades de classe os modos de produção baseados na força de trabalho escrava e serva, tinham na violência física dos corpos seu instrumento de controle. De acordo com Foucault (2007), o cárcere, as execuções e suplícios em praças públicas serviam para punir, mas também tinham a função de desencorajar que outros enveredassem pelo mesmo caminho.

  Por possuir o escravo como mercadoria própria, ou o controle da terra na qual o servo estava ligado, o Senhor tinha liberdade para fazer uso indiscriminado da violência. Com o advento das revoluções liberais burguesas, os meios de produção se modificaram e o trabalho, agora sob o jugo capitalista, acirrou as lutas entre as classes dominantes e dominadas. O trabalhador agora podia ser explorado de novas formas, mas já não era mais possível, fruto de muitas lutas da classe trabalhadora, o uso explícito da violência física dos corpos. Com o progresso das sociedades, a classe dominante teve de desenvolver novas técnicas de poder e controle, novos

  O corpo encontra-se aí em posição de instrumento ou de intermediário; qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento, pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao mesmo tempo como um direito e um bem. Segundo essa penalidade, o corpo é colocado num sistema de coação e privação, de obrigações e de interdições. O sofrimento físico, a dor do corpo não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia de direitos suspensos. Se a justiça ainda tiver que manipular e tocar o corpo dos justiçáveis, tal se fará à distância, propriamente, segundo regras rígidas e visando a um objetivo bem mais “elevado”. Por efeito dessa nova retenção, um exército inteiro de técnicos veio substituir o carrasco, anatomista imediato do sofrimento: os guardas, os médicos, os capelães, os psiquiatras, os psicólogos, os educadores; por sua simples presença ao lado do condenado, eles cantam à justiça o louvor de que ela precisa: eles lhe garantem que o corpo e a dor não são os objetos últimos de sua ação punitiva (FOUCAULT, 2007, p. 14).

  O desenvolvimento de novas técnicas, sejam estas de incremento das forças produtivas ou incremento das formas de poder do estado, pressupõe a existência de uma ciência, nunca neutra, que esteve, e assim continua, predominantemente a serviço de determinados interesses. Uma das formas mais eficazes de controle desenvolvidas foi a ideologia, que pode ser entendida como um conjunto de discursos para “legitimar o poder de uma classe ou grupo social dominante” (EAGLETON, 1997, p. 19, grifos nossos), referindo-se, então, a questões de poder, de dominação, que não poderão ser superadas nas sociedades de classes (MÉSZÁROS, 2004).

  Foi por meio de ideologias que durante longos períodos foi

  • – e em alguns casos ainda é
  • – possível acreditar que o homem é naturalmente mais forte e inteligente que a mulher ou que um ser humano é melhor que outro por ter nascido com determinadas características físicas; socialmente mais importante que outro por ter nascido em determinada classe ou casta, ou, ainda, mais importante por ter certas aptidões. Em outras palavras, por não ser eu ou um dos meus, ser um outro.

  “Proibida a entrada de cães e de chineses” (LOSURDO, 2010, p. 241), adverte um cartaz colocado na entrada da concessão francesa em Xangai do século XIX.

  Concluímos, ainda que apressadamente, que somente a violência no interior das relações de produção de riquezas não bastava, pois essa poderia ser o motivo de incontáveis revoltas. A violência deveria ser amenizada e legitimada por uma ideologia que precisaria se realizar no nível da “interiorização das relações vividas pelos indivíduos” (IASI, 2007, p. 15), na consciência. O trabalhador dominado deveria se sentir satisfeito pelo seu emprego e salário e constantemente entender que sua situação poderia ser diferente e muito pior. Para tanto, era necessário que esse indivíduo estivesse em um estado constante e permanente de não se sentir seguro, como em um permanente estado de medo.

  Diversas são as possíveis sensações de insegurança e diversos são os medos: medo de morrer, medo de perder suas posses, medo de perder seu emprego, medo de perder amigos, medo de perder a família. Medo de sofrer violência, parteira da história, e sustentáculo de todas as sociedades e todos estados, medo do enfrentamento da classe antagônica na luta de classes, medo de se confrontar contra seu superior. Medo da religião, medo de Deus, de não seguir as escrituras e passar a vida eterna em danação. Medo de não concordar com as regras na família, não aceitar a imposição e ser castigado. Castigado fisicamente, financeiramente, socialmente. Medo social, de não concordar com as determinações culturais vigentes e ser banido de um grupo, não gostar das mesmas músicas, mesmas roupas, mesmas coisas e temer não ter nada e, então, se dobrar às normas. Medo da polícia, braço armado do Estado, responsável direto pela violência que o Estado exerce, pela violência física, intimidatória, coercitiva, condenadora, punitiva, opressora e repressora. Medo do estado, de suas leis e do encarceramento, medo, medo e medos...

  Tantos medos que são aprendidos ao longo da vida pelas mais diversas relações às quais somos submetidos. Os exemplos a seguir são retirados da literatura que, apesar de seu caráter fictício, são críticas bastante fiéis às condições às quais estamos submersos. No romance

  “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley

  pinta com cores alarmantes uma sociedade tecnologicamente muito avançada que substitui a reprodução vivípara dos seres humanos por uma literal fabricação de novos indivíduos em

  “Centros de Incubação e Condicionamento”, nos quais os indivíduos são fabricados e condicionados de acordo com os desígnios para sua classe social.

  Nos berçários, a lição de Consciência de Classe Elementar havia terminado. [...]

  • – No fim – disse Mustafá Mond – os Administradores compreenderam a ineficácia da violência. Os métodos mais lentos, porém infinitamente mais seguros da ectogênese, do condicionamento pavloviano e da hipnopedia... (HUXLEY, 2009, pp. 91, 93) É o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos

  obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar. (HUXLEY, 2009, p. 44, grifos no original)

  No romanc e “1984, George Orwell apresenta uma seção diária de exaltação de ódio ao inimigo. No romance, o Partido

  • – único e comandado pelo Grande Irmão
  • – apresentava diariamente às 11h o programa “Dois Minutos do Ódio”, no qual o grande traidor do partido era o personagem central. A exibição tinha o intuito de sempre alimentar e relembrar, para seus cidadãos, o ódio, medo e desprezo pelos inimigos e outros povos com os quais o Partido estivesse em guerra naquele momento.
Mais um instante, e um guincho horrendo, áspero, como de uma máquina monstruosa funcionando sem óleo, saiu da grande teletela. Era um barulho de fazer ranger os dentes e arrepiar os cabelos da nuca. O Ódio começara. Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Aqui e ali houve assovios entre o público. A mulherzinha de cabelo cor de areia emitiu um uivo misto de medo e repugnância. [...] Winston sentiu contrair-se o diafragma. Nunca podia ver a face de Goldstein sem uma dolorosa mistura de emoções. [...] Antes do Ódio se haver desenrolado por trinta segundos, metade dos presentes soltava incontroláveis exclamações de fúria. Era demais, suportar a vista daquela cara. [...] No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. [...] Num momento de lucidez, Winston percebeu que ele também estava gritando com os outros e batendo os calcanhares violentamente contra a travessa da cadeira. O horrível dos Dois Minutos do Ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vindita, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas. (ORWELL, 1980, pp. 15-18)

  Nessas três passagens, em sociedades dominadas por sistemas opressivos, são utilizadas diversas formas de inculcação do que devemos fazer e o que devemos sentir. Ainda não estamos em uma realidade de ectogênese, nem de hipnopedia em Centros de Condicionamento, mas somos submetidos a diversos aparelhos de funções semelhantes, nos quais nossos desígnios são traçados. A distopia apresentada por George Orwell na passagem dos “Dois Minutos do Ódio” é muito próxima de qualquer telejornal que expõe a imagem de “degenerados bandidos” exaltando sua periculosidade, enquanto do outro lado da televisão as pessoas bradam por punições mais severas, penas capitais e a redução da maioridade penal. Tudo em nome do medo e de uma necessidade de segurança que nos falta.

  Em uma sociedade de classes, com uma educação que tem como objetivo o

  

31

  desenvolvimento desigual e combinado de futuras forças de trabalho, somos educados de acordo com os desígnios de nossa classe. Faz-se necessário que todos aqueles que possuem apenas sua força de trabalho como meio de sustento, sejam, desde a infância, inseridos em uma cultura de submissão, silêncio, obediência, entre outras formas veladas de violência por meio dos mais diversos métodos e um deles é, invariavelmente, o medo. E, então, sempre com medo da possível punição vamos tornando-nos obedientes, silenciados, prontos para receber ordens sem questionamentos; submissos como cães adestrados, estamos prontos para entrarmos na linha de produção e reprodução da sociedade de modo a mantê- la e de não tentar superá-la.

  Uma construção histórica e social, sistemática e intencionalmente organizada para controle, que é mascarada como natural e instintiva. Uma realidade muito próxima do que aconteciam nas fictícias lições de Consciência de Classe Elementar dos Centros de Condicionamento do já citado romance de Aldous Huxley.

  Elas cresceram com o que os psicólogos chamam de um ódio “instintivo” aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionais. (HUXLEY, 2009, p. 55)

  5.2. SUPERANDO ESSA CONDIđấO

  A hegemonia conservadora na nossa formação social trabalha a difusão do medo como mecanismo indutor e justificador de políticas autoritárias de controle social. O medo torna-se fator de tomadas de posição estratégicas seja no campo econômico, político ou social. (BATISTA, 2003, p. 23)

  É do interior da sociedade capitalista que surgem as condições para sua superação e também, como germe, faz-se possível o estabelecimento de diferentes relações de poder.

  O uso do medo como instrumento de controle social está tão cristalizado em nossa sociedade, que é ideologicamente tomado como natural, como imanente do ser humano e necessário para um bom estabelecimento de normas. Um clássico experimento da psicologia pode ajudar a entender melhor. Na década de 1960, o psicólogo Stanley Milgram (1983) desenvolveu uma pesquisa na qual um voluntário participante do experimento era colocado no comando de uma máquina ligada a outro indivíduo, que ele era capaz de ver através de um espelho falso, que infligiria choques ao seu comando. O voluntário era instruído pelo responsável na condução do experimento a acionar a máquina todas as vezes que o outro indivíduo errasse uma resposta e aumentar a descarga elétrica em 15 volts a cada erro cometido.

  Sem saber que o indivíduo ligado à máquina de choques era um ator participante da experiência que não receberia nenhum choque, 65% dos voluntários obedeceram as ordens até o final, que significaria uma intensidade fatal de 450 volts. Realizando algumas variações no procedimento, o pesquisador conseguiu que até 92% dos voluntários cumprissem as ordens finais, caso houvesse presente um segundo sujeito que obedecesse as orientações.

  O pesquisador, então, afirma:

  A obediência é um elemento básico da estrutura da vida social. É necessário algum tipo de autoridade na vida grupal, e apenas o homem que vive isolado não é forçado a atender, através do desafio ou da submissão, às ordens dos outros homens. [...] A obediência é o mecanismo psicológico que liga a ação individual a propósitos políticos. É o cimento que prende os homens aos sistemas de autoridade. (MILGRAM, 1983)

  É correto chegar a essa conclusão quando observamos apenas a aparência do fenômeno. Em uma sociedade de classes, o espontâneo será reflexo da realidade posta, no entanto, é possível estabelecer práticas que superem o uso do medo como estabelecimento de poder.

  A prática militante de transformação da sociedade exige uma mudança de ações e práticas para poder atuar nas contradições da sociedade capitalista. Em situações específicas é possível criar uma relação de hierarquia horizontal entre os indivíduos envolvidos e agir de forma cooperativa sem o estabelecimento de autoridades e regras sociais a priori. É possível a construção de um processo grupal, no qual intencionalmente as relações mercantis e de exploração da sociedade capitalista sejam deixadas de lado para o estabelecimento de novas formas de organização social.

  Processo grupal aqui entendido como “todo e qualquer grupo [que] exerce uma função histórica de manter ou transformar as relações sociais desenvolvidas em decorrência das relações de produção” (LANE, 1994, p. 82). Ou seja,

  A partir dessa perspectiva, estamos afirmando o fato de o próprio grupo ser uma experiência histórica, que se constrói num determinado espaço e tempo, fruto das relações que vão ocorrendo no cotidiano e, ao mesmo tempo, que traz para a experiência presente vários aspectos gerais da sociedade, expressas nas contradições que emergem no grupo, articulando aspectos pessoais, características grupais, vivência subjetiva e realidade objetiva. Ressaltar o caráter histórico do grupo implica compreender que o grupo, na sua singularidade, expressa múltiplas determinações e as contradições presentes na sociedade contemporânea. (MARTINS, 2007, p. 77)

  Entendendo tais condições é possível dentro de certas limitações, um estabelecimento de relações em que o medo não seja meio de controle. Tornando possível ensinar o perigo de sair à noite pela floresta a partir das dificuldades e arranca os olhos, ou que o silêncio é necessário em uma sala de aula para possibilitar um ambiente mais adequado ao ensino e não pela ameaça de suspensão, ou qualquer outra medida disciplinatória.

  Nessa perspectiva a atividade escolar poderia realizar, dentro de suas limitações objetivas, um trabalho diferente do que acontece hoje, por exemplo, dentro da sala de aula. A realidade escolar, para a grande parte dos alunos, é um misto de diversos medos. Mesmo em uma instituição que pouco ensina, que produz o fracasso escolar, ainda há a culpabilização do estudante que sente medo de mais um dia chegar à escola e não conseguir ler o que está escrito na lousa, medo da reprovação, da vergonha de não conseguir aprender e da angústia de não ver perspectivas.

  Mas é necessário ter a clareza que tudo não passará de experiências pontuais enquanto não houver uma transformação real da sociedade, caso contrário, todos os esforços realizados nessas experiências dificilmente se sustentarão e poderão dobrar-se frente a todas as outras relações a que estamos submetidos.

  Enquanto houver Estado protegendo e justificando a exploração do homem pelo homem não poderemos falar em liberdade.

  E tão logo que for possível falar-se de liberdade, o Estado como tal deixará de existir. Por isso, nós proporíamos que fosse dita sempre, em vez da palavra Estado , a palavra ‘Comunidade’ (Gemeinwesen), uma boa e antiga palavra alemã que equivale à palavra francesa ‘Commune’. (ENGELS, s/d, p. 230, grifos no original)

  E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.

  “Nada é impossível de mudar” Bertold Brecht

  Este estudo é fruto de uma longa reflexão sobre o tema abordado. Diversos caminhos poderiam ter sido tomados e diferentes poderiam ser as discussões e os exemplos. A questão da guerra, talvez, tenha sido muito explorada em detrimento de relações cotidianas como as relações familiares ou escolares.

  No entanto, para uma primeira aproximação do problema situações de guerra são mais fáceis de serem analisadas, já que o uso do medo se torna mais explícito, em uma campanha exacerbada de obediência ao comandante em chefe, patriotismo e obediência à autoridade e, por muitas vezes, nessas situações as declarações são mais diretas do que em períodos de “paz”, quando a verdade muitas vezes é dita apenas nas entrelinhas.

  As dificuldades de definição do problema encontradas durante a execução deste estudo derivaram, em parte, do fato que pouco se encontrou sobre o tema em publicações de educação e psicologia, sendo a literatura encontrada em sua maioria nas ciências políticas, sociais e na historiografia ou, então, em áreas das ciências naturais como biologia, evolução e etologia. Em algumas obras havia um bom equilíbrio do tratamento das duas grandes áreas, mas de forma geral, ao abordar a relegada a segundo plano com uma visão ambientalista. De maneira semelhante, os tratados sociais sobre o tema não traziam uma discussão específica sobre o medo, utilizando uma visão naturalista e instintiva. Este estudo tenta, dentro de suas limitações, trazer contribuições das mais diversas áreas na tentativa de compreender o fenômeno em sua totalidade e a partir de suas contradições.

  Não há, também, um julgamento moral e valorativo sobre o medo. Há uma condenação à inculcação do medo como estratégia de obtenção e manutenção do poder. No entanto, não há uma definição se o medo é bom ou ruim; na verdade, consideramos que o medo é uma emoção importante e necessária, não havendo mal, nem vergonha em sentir medo. Em uma tese de G. Delpierre, apresentada por Delumeau, existe, inclusive, uma objetivação do medo.

  Um [...] efeito do medo é a objetivação. Por exemplo, no medo da violência, o homem, ao invés de lançar-se à luta ou fugir dela, satisfaz-se olhando-a de fora. Encontra prazer em escrever, ler, ouvir, contar histórias de batalhas. Assiste com certa paixão às corridas perigosas, às lutas de boxe, às touradas. O instinto combativo deslocou-se para o objeto. (DELUMEAU, 1989, p. 30)

  Podemos completar com uma ampla lista os exemplos de Delpierre: filmes de ação, drama e terror, jogos eletrônicos, montanhas-russas e outros brinquedos de parques de diversão, esportes radicais, entre tantas outras atividades nas quais um dos objetivos é poder sentir e controlar o medo.

  A expectativa na execução deste estudo é, em um primeiro momento, de fomentar a discussão sobre os usos do medo dentro da psicologia e educação, com intuito de poder lidar com as possíveis consequências de sofrimento e adoecimento que estas podem causar nos indivíduos. Como afirma Delumeau (1989, p. 25), “medos repetidos podem criar uma inadaptação profunda em um sujeito e conduzi-lo a um estado de inquietação profunda gerador de crises de angústia”, não só em indivíduos, mas em pequenos e grandes grupos, até nações inteiras.

  Em um segundo momento, em uma análise mais profunda, é de poder entender tal uso instrumental na expectativa de poder superá-lo no advento de uma revolução socialista. Já foi afirmado que não é possível superar a cultura do medo dentro de uma sociedade de classes, no entanto, experiências são possíveis e devem ser fomentadas.

  O trabalho educativo é um desses possíveis espaços. Sabemos que a escola é contraditoriamente um espaço de produção de medo, mas é também, um dos meios para superá-lo. Ao socializar os conhecimentos da humanidade, transformar conceitos espontâneos em conceitos científicos, contribui-se para a superação de uma visão sincrética de sociedade e de si mesmo, como um dos meios para dar base à ação revolucionária.

  Mas devemos sempre continuar lutando no interior das contradições da sociedade capitalista, e que tenhamos força e entendimento para que não caiamos novamente em alguma armadilha do medo, para que nosso final não seja melancólico como o de Winston, protagonista do romance 1984:

  Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bidoge negro. Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! Oh, teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão. (ORWELL, 1980, p. 277)

  

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