Nívia Maria de Oliveira de Cordova TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO A REPRESENTAÇÃO DO TRABALHO FEMININO NO BRASIL SEGUNDO A REVISTA CADERNOS PAGU (UNICAMP)

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  Nívia Maria de Oliveira de Cordova

  TRABALHO FINAL DE GRADUAđấO

  A REPRESENTAđấO DO TRABALHO FEMININO NO BRASIL SEGUNDO A REVISTA CADERNOS PAGU (UNICAMP)

  Santa Maria, RS 2012 Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Ensino e Pesquisa em História, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

  Professor Orientador: Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel Santa Maria, RS

  

Nívia Maria de Oliveira de Cordova

A REPRESENTAđấO DO TRABALHO FEMININO NO BRASIL SEGUNDO A

REVISTA CADERNOS PAGU (UNICAMP)

  • – Licenciada em Ensino e Pesquisa em História.

  2012 Nívia Maria de Oliveira de Cordova

  

A REPRESENTAđấO DO TRABALHO FEMININO NO BRASIL SEGUNDO A

REVISTA CADERNOS PAGU (UNICAMP)

  Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Ensino e Pesquisa em História, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

  • – Licenciada em Ensino e Pesquisa em História.

  ______________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel - Orientador (UNIFRA)

  _______________________________________ Roselâine Casanova Corrêa - (UNIFRA)

  _______________________________________ Paula Simone Bolzan - (UNIFRA) Aprovado em 18 de Junho de 2012.

  

AGRADECIMENTOS

  A minha mãe Maria Nilva Santos de Oliveira e ao meu marido Rafael Portela de Cordova, pessoas especiais na minha vida, que sempre me incentivaram para que eu seguisse os meus estudos.

  Ao professor Carlos Rangel, meus sinceros agradecimentos pela orientação. Aos professores que me ajudaram encaminhando nos estudos durante o processo acadêmico.

  Aos meus colegas, pela convivência durante o período de vida acadêmica, em especial a Joselaine e a Isabel. A todos que me incentivaram durante esta caminhada... Muito Obrigado!

  

RESUMO

  A presente monografia tem por objeto avaliar como ocorreram as representações das mulheres no mercado de trabalho no século XX, segundo os artigos que se dedicam a este tema, publicados na revista Cadernos PAGU (Unicamp). Para atender esse objetivo foram avaliados os mais recentes, ou seja, de 2000 até 2009, dos quais foram escolhidos cinco artigos que tratam mais diretamente da inserção da mulher no mercado de trabalho. Como procedimento metodológico, foram estabelecidos os seguintes parâmetros de análises: a) as relações de produção em função da divisão social do trabalho, atendendo critérios de gêneros; b) a alteridade entre homens e mulheres nas relações produtivas do mercado de trabalho; c) as estratégias de superação empregadas pelas mulheres no seu esforço para ingresso e permanecia no mercado de trabalho, em condição de igualdade com os homens. Também se usou obras e textos que discutem sobre o assunto, bem como dados estatísticos (IBGE) e (SEADE). Como resultados pode-se destacar: a) as autoras priorizaram aspectos conjunturais e circunstanciais do trabalho feminino, sem aprofundar a discussão sobre classes sociais, a estrutura capitalista e sua funcionalidade; b) a definição do trabalho feminino ocorreu mais por detalhamento das condições e dos afazeres das trabalhadoras do que pela alteridade estabelecida com o universo masculino e c) as estratégias de superação das mulheres foram abordadas, sobretudo com relação aos preconceitos, mas também de forma objetiva na conquista de postos de trabalho e de segmentos do mercado capitalista.

  Palavras-chave: Mulheres, trabalho, artigos científicos.

  

ABSTRACT

  The present paper to evaluate the accounts as they occurred. The women in this labor market twentieth century, according to the count of articles dedicated to this topic published in the magazine entitled Pagu (Unicamp). To meet this objective were evaluated more recent, 2000 at 2009, of which five were selected articles that address more directly the insertion of women in the labor market. As methodological procedure Magician, were established following pair meters an analyzes: a) the relationships production of in the fun of the division the social labor, with criteries of generos b) the otherness between men and women in relation s productive labor market, c) strategies to overcome employed by the women in your effort to the entry and remained in the labor market in conditions to equality with men. Is used works and texts that discuss the subject, as well as data estatics (IBGE) and (SEADE). The results can be highlighted: a) the authors prioritized aspects situational and circumstantial women's work, without further discussion about the classes social, the capitalist structure and its functionality, b) the set of the female labor occurred for more details of the conditions and to- do than by the workers otherness established with the male universe and c) strategies to overcome of women were addressed, particularly with relation the prejudices, but objectively in achievement of jobs and segments of the capitalist market.

  Keywords: Women, work, articles cientifics. Graphics.

  

SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

1. INTRODUđấO

  A presente monografia traz os resultados da pesquisa que teve por objetivo geral avaliar as representações sobre a mulher no mercado de trabalho, segundo o conteúdo dos artigos sobre esse tema, publicados na revista de âmbito nacional Caderno Pagu (UNICAMP) especializada em estudos sobre o gênero feminino. Para tanto, foram analisadas as edições mais recentes, de 2000 até 2009. Serão utilizados cinco artigos que contemplam diferentes modalidades de trabalho conforme o setor econômico e proximidade/distanciamento das tarefas tradicionais executadas pela mulher, normalmente no âmbito doméstico. A escolha por estes cinco artigos, tem como critério, ser os que a revista Cadernos Pagu nos ofereceu sobre o referido assunto.

  Portanto entre os cinco artigos analisados encontram-se: Pilla (2008), que trata da mulher no desempenho do papel de “rainha do lar” no Brasil do início do século XX; Brites (2007), a empregada na realização das tarefas de cuidado e manutenção das famílias de camadas médias no Brasil; Leite (2009), a história das trabalhadoras do bordado de Ibitinga; Bonadio (2004), profissão de modelo e manequim, mais especificamente as manequins Rhodia; Rago (2000), a luta das primeiras mulheres médicas para ingressar num campo tradicionalmente masculino da medicina.

  O referido tema é importante, pois nos permite compreender a visão dos pesquisadores sociais sobre as razões pelas quais a mulher tem sido vista como incapaz ou inferior ao homem, não podendo desempenhar uma atividade fora do âmbito familiar, uma vez que seu lugar deveria ser em casa, cuidando do lar, do marido e da educação dos filhos. Contudo, foi importante perceber que nos dados estatísticos mais contemporâneos assim como nos artigos analisados, demostra-se um processo crescente de conquistas femininas no que se refere ao trabalho formal.

  Os limites temporais tiveram em conta que as representações criadas pelos autores atendem a critérios científicos e, portanto, de natureza empírica e passíveis de comprovação. Por mais que exista um comprometimento ideológico ou militância por parte dos autores, suas considerações partem de dados concretos obtidos da realidade imediata na qual eles estão inseridos. Portanto, quanto mais recentes forem os artigos, mais atrelados aos dados estatísticos contemporâneos e mais verossímeis com a atual situação da mulher no mercado de trabalho. Como se pretende verificar as representações mais atuais e presentes sobre o assunto já destacado, buscaram-se as dez últimas edições.

  Consequentemente, a presente monografia trata sobre a filiação histórica e ideológica dos enunciados criados por especialistas em questões de gênero, que publicaram sobre a mulher no mercado de trabalho, no período de 2000 a 2009, na revista Cadernos Pagu da UNICAMP. Para isso, partiu-se da seguinte problematização: como ocorreram as representações sobre a mulher brasileira no mercado de trabalho, segundo o conteúdo dos artigos dedicados a esse tema e publicados na revista Cadernos Pagu, entre 2000 e 2009?

  A partir dessa questão central, surgiram os objetivos específicos que foram:

  a) Identificar como os autores contextualizam a inserção da mulher no mercado de trabalho, avaliando como são apresentadas as relações de produção em função da divisão social do trabalho atendendo critérios de gênero.

  b) Avaliar como os autores estabelecem a alteridade entre homens e mulheres nas relações produtivas do mercado de trabalho.

  c) Identificar se os autores apontam as estratégias de superação empregadas pelas mulheres no seu esforço do ingresso e permanência no mercado de trabalho em igualdade de condições com os homens e, caso positivo, destacar quais foram essas estratégias.

  Para responder ao problema e aos objetivos descritos acima, utilizaram-se os artigos selecionados da revista mencionada, obras sobre o gênero feminino ou que tratam da trajetória da mulher em busca do seu espaço no mercado de trabalho, dados estatísticos do Brasil (IBGE) e textos que discutem conceitos e metodologias que foram empregados na pesquisa.

  Portanto, trata-se de uma pesquisa bibliográfica que tem as seguintes premissas: a) as revistas selecionadas são lidas preponderadamente pelo público acadêmico (comunidade de intelectuais) interessado em pesquisas sobre o gênero feminino; b) os artigos de divulgação científica encontrados nessas revistas, não apenas informam sobre os avanços no conhecimento sobre o tema, mas também reforçam e atualizam abordagens teóricas, metodológicas e ideológicas sobre a mulher, enquanto sujeito historicamente localizado; c) consequentemente, é possível identificar paradigmas teóricos, metodológicos e ideológicos que se apresentam com maior constância nessa difusão dos saberes sobre a mulher entre o público acadêmico.

  Os parâmetros que servirão de base para a pesquisa já estão implícitos nos objetivos específicos, a lembrar: a) as relações de produção em função da divisão social do trabalho atendendo critérios de gênero; b) a alteridade entre homens e mulheres nas relações mulheres no seu esforço de ingresso e permanência no mercado de trabalho em condições de igualdade com os homens.

  A partir desses parâmetros, serão avaliadas as abordagens dos autores, tendo em conta suas perspectivas teóricas e ideológicas. Por exemplo, a mulher é destacada enquanto membro de uma classe social dentro do modo de produção capitalista ou ocorre a abstração de sua classe social em face do destaque a sua condição de gênero? Outra questão importante a ser indagada sobre a produção intelectual desses autores é como verificam ou destacam as relações de poder estabelecidos entre homens e mulheres no mercado de trabalho, assim como a forma como se posicionam ideologicamente sobre essas relações.

  Igualmente relevante é apontar as perspectivas prognósticas da luta das mulheres pelo ingresso e permanência no mercado de trabalho em igualdade de condições com os homens, avaliando se prevalece uma visão conformista, reformista, descritiva, contrativa ou ideologicamente alinhada com a militância feminista.

  Como referencial teórico, enfatizou-se as historiadoras e os historiadores que se dedicam a história sobre o gênero feminino, especialmente seus textos que enfatizam o ingresso e a presença da mulher no mercado de trabalho formal. Esse referencial irá auxiliar a localização histórica dos discursos emitidos pelos especialistas selecionados na revista.

  As representações sociais têm como premissa analisar, explicar e formar opiniões, possibilitando uma melhor compreensão da sociedade. Como mostra Maria Laura Franco (2004 p. 170)

  “as representações sociais são elementos simbólicos que os homens expressam mediante o uso de palavras Além disso, através das palavras as pessoas explicam e de gestos.” aquilo que pensam sobre determinado fato, objeto ou ideia. Essas mensagens são construídas socialmente com base nas situações reais.

  Para compreender as representações do contexto em que o indivíduo está inserido, deve-se fazer uma análise contextual da sociedade. Isso porque as representações são historicamente construídas ao longo do tempo e encontram-se estritamente vinculadas aos diferentes grupos sócio-econômicos.

  Como lembra Maria Franco, (2004, p. 172) “dentre os elementos que merecem maiores esclarecimentos, destacam-se dois processos sociocognitivos que atuam, dialeticamente, na formação das representações sociais: a objetivação e a ancoragem”.

  Na objetivação ocorre a “transformação de uma ideia, de um conceito ou de uma opinião em algo concreto, algo real na opinião da pessoa que expressa essa ideia”. Quando se trata da ancoragem, tratam-se das diferentes opiniões das pessoas sobre o que está sendo pp. 175-176), que são: a) objetivação daquilo que se compreende e é transmissível; b) aquilo que se adapta da representação e as transforma no contexto; c) surge um esquema que é organizado pelo núcleo central da representação, garantindo o funcionamento instantâneo da representação; d) a proteção do núcleo central da representação para absorver as informações novas que poderiam questionar a questão do mesmo; e) a representação seria contextualizada historicamente.

  Já para Roseane Xavier (2002, p. 24) as representações sociais são um sistema ou sistemas que interpretam a realidade, organizando as relações do indivíduo com o mundo, orientando as suas condutas de comportamento na sociedade, onde interioriza as experiências praticadas na sociedade e os modelos de conduta, da mesma forma que constrói e se apropria de objetos socializados.

  Portanto as representações não estão isentas de vontades políticas e das relações de poder que localizam os indivíduos na estrutura social. Na verdade, elas estabelecem os parâmetros de reciprocidade que pode haver entre eles, ou seja, as representações podem ter um conteúdo ideológico. Sabemos que ideologia é um conjunto de pensamentos de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, podendo estar ligada a economia, ações políticas e sociais. Como destaca Maria Laura Franco as ideologias:

  São explicações que nos expõem somente a descrições, a constatação ou mesmo a interpretação dos fatos, sem que se procure desvendar os mecanismos sociais que os engendram e que se, por um lado, condicionam a produção desses fatos, por outro, possibilitam sua superação, mediante a atividade humana e o desenvolvimento da consciência. (2004, p. 177)

  Para atender ao proposto, a presente monografia está dividida nos seguintes subtítulos: O trabalho feminino: aqui a análise é feita através de obras, textos e dados estatísticos sobre esse tema. As representações da mulher no mercado de trabalho: neste subtítulo ocorre a análise dos cinco artigos selecionados, a partir dos já referidos parâmetros de análise.

2. O TRABALHO FEMININO

  Sobre a contribuição dos historiadores acerca do trabalho feminino, Duby e Perrot destacam que:

  Os nossos conhecimentos sobre as condições do trabalho das mulheres na Idade Média são resultados de uma intensa investigação particularmente por parte dos historiadores e historiadoras americanas e alemães, que chamam a atenção para o fato de que a exclusão de um grande número de mulheres do artesanato, da produção e da indústria era um fenômeno específico do século XIX burguês e que as mulheres trabalhadoras eram encaradas como um caso normal e de modo algum como um caso excepcional na economia dos séculos precedentes. (1990, p. 390)

  Com o crescimento da população Europeia no século XII surgiu, em primeiro lugar, um novo modelo de relação entre trabalho e vida cotidiana, um modelo ligado ao crescimento das cidades e de uma densa rede de povoações aldeãs. A concentração populacional também favoreceu um grande número de casamentos, de tal maneira que o casal trabalhava em comum formava o núcleo da nova organização da atividade econômica de empresas familiares autônomas, de artesãos, comerciantes e camponeses.

  As empresas familiares urbanas, e mais tardiamente as rurais, começaram a trabalhar na busca de um mercado consumidor que substituiria a antiga economia senhorial, na qual os senhores moldavam a vida e o trabalho das famílias camponesas dependentes. Todavia, como destacam Duby e Perrot (1990, p. 391), a emancipação não era possível para os indivíduos isolados, mas apenas para os casais que trabalhavam em comum.

  Nas cidades esse processo ocorreu com mais intensidade do que no campo, pois um artesanato especializado e independente esteve presente nos intercâmbios comerciais, transregionais e internacionais, contribuindo para a especialização e para a divisão social do trabalho.

  A especialização não deixava de se aplicar às relações entre os sexos: a intensificação e a especialização do trabalho na cidade, bem como no campo, conduzia, com efeito, à mencionada economia familiar fundada no casal que trabalha em comum e nas formas de trabalho assalariado associadas à unidade familiar.

  De fato, esse tipo de trabalho complementava a renda da família e acabou favorecendo o alargamento das modalidades de assalariamento e acelerou a divisão do trabalho entre a cidade e o campo. Assim, desenvolveram-se domínios e competências específicas para os homens e as mulheres. Para estas últimas, ficou reservado o cuidado do interior das casas, do pequeno espaço de atuação, restava a competência para os setores têxteis, indústrias da alimentação e trabalho no pequeno comércio.

  Como nos lembra Michele Perrot (2005, p. 155), as mulheres formavam cerca de 30 % da população industrial ativa na segunda metade do século XIX, enquanto que em 1906 totalizavam 37,7%. Segundo os estudos dessa historiadora, pode-se afirmar que a mulher francesa, no final do século XIX, trabalhava preponderantemente na família ou na costura, pois 73% de toda a mão de obra feminina empregada concentrava-se no setor têxtil ou na costura realizada no interior das casas.

  Também é importante ressaltar que as mulheres recebiam salários inferiores aos homens e quase nunca eram levadas a sério em suas reinvindicações por melhores condições de trabalho. No entanto Hobsbawm faz a ressalva que:

  A condição feminina foi mudando e transformando-se ao longo do tempo. A emancipação feminina no interior de países de capitalismo desenvolvido ou em desenvolvimento era ainda modesto, mas havia algumas mulheres que ocupavam lugares que eram restritos aos homens. As mulheres do mundo desenvolvido de 1875 passavam a ter menos filhos, esse controle de natalidade possibilitou a essas famílias menores, dedicar mais tempo, cuidado e recursos a seus filhos. (2001, pp. 271-272)

  Sendo assim, nas últimas décadas do século XIX percebeu-se a mudança na posição e na expectativa das mulheres com relativo poder aquisitivo, nas sociedades ocidentais da Europa. Prost Antoine e Vincent Gerard apontam que:

  Havia uma grande diferença entre trabalhar na própria casa ou na casa dos outros. O ideal para uma jovem é ficar na casa dos pais sem trabalhar, se precisar o melhor é que trabalhe permanecendo na casa dos pais, por exemplo, costurando por encomenda. É somente nas camadas mais baixas da escala social que uma jovem vai trabalhar fora na fábrica, na oficina ou na casa de um particular como doméstica. (1992, p. 21)

  Mas uma das grandes evoluções do século XX é que, o trabalho doméstico das mulheres passou a ser denunciado como uma alienação e uma sujeição ao homem, ao passo que trabalhar fora se tornou para as mulheres o sinal concreto de sua emancipação. Essa mudança foi apenas o início de uma longa transformação nos discursos sobre o trabalho da mulher, que perpassaram todo o século XX, especialmente após a Segunda Guerra mundial, como veremos mais a frente.

  Na origem da revolução industrial, o trabalho das mulheres na fábrica era uma ameaça para a família, conclua-se que esta deveria apenas permanecer em casa. A mulher era vista como inferior aos homens em todo o lugar, até nas prisões, onde as rações alimentares das detentas eram menores do que a dos homens, assim como nas greves o socorro atribuído às operárias era inferior.

  As mulheres trouxeram toda a sua energia na luta contra a introdução das máquinas destruidoras do modo de trabalho tradicional tentando organizar greves e tumultos que explodiam em maio de 1846, quando a fábrica e a casa de alguns fabricantes foram queimadas porque queriam introduzir máquinas de triar lã inglesa, destinadas a substituir as mulheres, que até então faziam este trabalho em suas casas. (PERROT, 2005, p. 209)

  Para a maioria das mulheres, ser empregada representava um momento de existência, o início na vida ativa. Frequentemente, a mulher se empregava para migrar, para fugir da mediocridade do vilarejo, do peso das obrigações familiares ou para esconder uma gravidez, sendo as empregadas mais remuneradas que uma operária.

  A penetração acelerada das mulheres no setor terciário constituiu uma das novidades do século XX. Em 1906, elas ocupavam parte de 40 % dos empregados do setor, no banco 38 %, sendo assim os colegas masculinos não gostaram, deixando para elas o baixo escalão, refugiando-se nos cargos superiores. Importante destacar que, nas sociedades pré-industriais, as condições de vida e o padrão de existência feminina não permaneceram iguais. NO caso das mulheres das zonas rurais, longe das zonas desenvolvidas, os agricultores precisavam das esposas para o trabalho da fazenda, assim como para cozinhar e cuidar dos filhos e os artesãos e pequenos comerciantes para conduzirem seu comércio.

  As mulheres realizavam um duplo trabalho e eram inferiores aos homens. Com a revolução econômica do final do século XVIII e princípios do XIX, o que hoje chamamos de proto-industrialização, cresceu o número de indústrias domésticas e a domicílio, sendo um tipo de manufatura doméstica feminina, como a renda, a palha trançada, o que oferecia as mulheres um meio de ganhar um pouco de dinheiro. Em meados do século XIX, essas indústrias sofreram a concorrência de outras maiores e deixaram de ser empreendimentos de família, tornando-se um emprego mal pago. Para Eric Hobsbawm:

  A segunda fase dessa industrialização foi mais radical, pois separava a casa do local de trabalho, mas é claro que o salário das mulheres era bem menor que dos homens, porque o sustento deveria ser os homens que traziam para casa. O salário das mulheres tinha que ser apenas um complemento. (2001, p. 278)

  As mulheres quase sempre trabalhavam quando solteiras, se fossem abandonadas pelo marido ou quando viúvas. Mas quando eram casadas, tornava-se difícil sair de casa, porque os filhos e o marido as mantinham fixas à casa e o fato dela não precisar trabalhar era, perante a sociedade, a prova de que a família não passava por necessidades financeiras. Sendo assim, como mostra Hobsbawm, foi se produzindo uma masculinização daquilo que a economia reconhecia como trabalho.

  A política, assim como a economia, também foi masculinizada. Conforme a democratização avançava e o direito ao voto era conquistado por mais pessoas, as mulheres eram excluídas, sendo política assunto apenas para homens que discutiam em tavernas e cafés. Essa situação começou a mudar nas últimas décadas do século XIX, quando as expectativas das mulheres, sobretudo as da classe média, foram ampliadas graças à atuação das sufragistas ou sufragettes em prol do direito ao voto.

  Deve-se acrescentar que a expansão da educação secundária para meninas foi sem dúvida um grande progresso, mesmo que não fosse a mesma dos rapazes da mesma idade. O simples fato de a educação secundária formal para mulheres de classe média se haver tornado familiar, e em certos países quase normal, tornou-se um marco sem precedentes para a progressiva autonomia das mulheres no seu convívio com os homens. No rastro dessa formação intelectual progressiva, em 1908 foi nomeada a primeira mulher professora universitária na Alemanha. Segundo Hobsbawm, essa crescente autonomia não se restringia à formação intelectual, mas também na maior liberdade corporal:

  O segundo sintoma da mudança foi maior liberdade do movimento na sociedade, tanto em seu próprio direito como pessoa, como nas relações com homens, como a prática da dança social nos lugares públicos. Também as roupas soltas, bem como o sutiã. O esporte possibilitou liberdade as mulheres, como andar de bicicleta. (2001, p. 288)

  No rastro dessa crescente presença das mulheres no espaço público, editaram-se revistas especializadas para as mulheres recentemente alfabetizadas e o livro de referências inglês, Homens dos Tempos mudou o título para Homens e Mulheres dos tempos. Entretanto, essa crescente participação não implicou em ganho significativo de espaço na vida cultural ainda dominada pela presença dos homens, de tal maneira que a maior proporção delas praticava atividades compatíveis com a feminilidade tradicional, tais como as artes teatrais ou para mulheres de classe média (em especial casadas) a literatura.

  Reconhece-se que de uma forma ou de outra a mulher sempre esteve presente nas atividades diárias de trabalho ou na vida cultural. Mas sua presença assumia uma dimensão secundária. Durante gerações o ideal consistia em que as mulheres ficassem em casa e cuidassem do lar, onde trabalhar fora era sinal de uma condição pobre e desprezível.

  Contudo, no século XX, houve uma verdadeira revolução do conceito de trabalho feminino. Com as mudanças da conjuntura econômica, especialmente a partir dos anos 1940, o trabalho doméstico das mulheres passou a ser denunciado como uma forma de alienação, uma sujeição ao homem ao passo que trabalhar fora tornou-se para as mulheres o sinal concreto de sua emancipação. Assim, em 1970, a principal justificativa do trabalho feminino, entre os quadros superiores, era a igualdade dos sexos e a independência da mulher, ao passo que entre os operários e os empregados do comércio e dos escritórios ainda predominam as justificativas sobre a necessidade econômica do trabalho feminino, especialmente no sustento familiar.

  Para Antoine Prost e Girard Vincent:

  Essa incontestável evolução coloca diversas questões. O historiador toma em primeiro lugar a questão da data: porque nessa época e não antes ou depois? Os argumentos que fundam os novos rumos do trabalho feminino teriam sido igualmente válidos, fosse vinte, trinta ou cem anos atrás? Por que foi preciso esperar pelos meados do século XX? Por que essa evolução se deu antes nas camadas urbanas assalariadas, para só depois ganhar progressivamente e devagar o conjunto da sociedade? (1992, p. 40-41)

  Tais perguntas encontram resposta na antiga indiferenciação do espaço e das tarefas e em seu posterior desaparecimento. Enquanto as tarefas caseiras e profissionais eram realizadas em simultâneo no seio do mesmo universo doméstico, a divisão sexual do trabalho não era vista como desigualdade ou uma sujeição. A subordinação da mulher ao homem era marcada pelos costumes, como naqueles lares rurais em que a mulher permanecendo em pé, servia o homem e esperava que ele acabasse de comer para então se sentar à mesa. Mas as tarefas domésticas nem por isso eram desvalorizadas, o homem e a mulher trabalhavam um com o outro e ambos de maneira exaustiva. Portanto, nessa economia da miséria, entre os operários ou os camponeses pobres, as mulheres realizavam uma parte do trabalho produtivo.

  A especialização dos espaços rompeu a igualdade conjugal e instituiu a mulher como criada. Ao mesmo tempo, a economia se tornou mais monetarizada: o dinheiro poupado nas despesas contava menos do que o dinheiro ganho. O trabalho assalariado do homem adquiriu uma nova dignidade e a mulher que ficava em casa se tornou a empregada do marido.

  A separação entre o espaço produtivo e o espaço doméstico transformou o sentido da divisão sexual das tarefas e introduz no casal a relação entre o patrão e o criado, antes característica da burguesia. Era algo tão pouco tolerável que no conjunto da sociedade tornou- se anormal trabalhar no espaço privado de qualquer outra pessoa. Se o trabalho assalariado das mulheres assumiu no século XX um valor emancipador é devido a uma evolução ainda mais global, que modificou as normas do trabalho assalariado.

  Existe certo consenso que a I e II Guerra Mundial favoreceu o ingresso da mulher no mercado de trabalho formal, quando a mulher viu-se na obrigação de deixar o serviço da casa e os filhos para assumir os negócios, levar adiante os projetos e o trabalho realizado pelos seus maridos, pois eram as mulheres quem cuidavam do sustento da família enquanto eles estivessem fora. Essas conjunturas excepcionais fomentaram os movimentos feministas, em prol da igualdade entre homens e mulheres no ambiente de trabalho.

  Essa conjuntura de guerras associou-se a outros fatores que consolidaram a mulher em alguns segmentos do mercado de trabalho formal, especialmente nas fábricas que exigiam tarefas repetitivas e detalhistas na linha de produção. Quando se consolidou o sistema capitalista no século XIX, ocorreu um avanço na tecnologia, bem como o aumento das máquinas nas fábricas, para onde uma boa parcela das mulheres foi trabalhar. Sendo assim, algumas leis passaram a beneficiar as mulheres, ficando estabelecido na Constituição brasileira de 1934 que não ocorreria no trabalho distinção entre os sexos. Essa prerrogativa legal favoreceu alguns ganhos específicos para a mulher trabalhadora como a licença do trabalho por motivo da gravidez.

  Entende-se que foi um longo percurso que as mulheres enfrentaram ao longo desses anos para chegarem a sua independência, acompanhadas de preconceito, discriminação e desigualdades. Hoje, o modo de vida das mulheres é bem diferente do início do século XIX, pois ocupam cargos de responsabilidades, cuidam da casa, dos filhos e do marido e até algumas recebem salários maiores que o marido, onde este último, em alguns casos, assumem a manutenção da casa e o cuidado dos filhos.

  Segundo os dados levantados por Elisiana Renata Probst (2012), sobre a condição da mulher no mercado de trabalho brasileiro, nas três últimas décadas do século passado, vem crescendo o número de mulheres na diretoria de empresas. Segundo os dados do artigo de Probst:

  No Brasil, as mulheres são 41% da força de trabalho, mas ocupam somente 24% dos cargos de gerência. O balanço anual da Gazeta Mercantil revela que a parcela de mulheres nos cargos executivos das 300 maiores empresas subiu de 8% em 1990 para 13% em 2000. No geral, entretanto, as mulheres brasileiras recebem, em média, o correspondente a 71% do salário dos homens. Essa diferença é mais visível nas funções menos qualificadas. No topo, elas quase alcançam os homens. Os estudos mostram que, no universo do trabalho, as mulheres são ainda preferidas para as funções de rotina. De cada dez pessoas afetadas pelas lesões por esforço repetitivo, oito são mulheres. (2012, p. 3) O artigo nos mostra que, segundo uma pesquisa recente feita pelo Grupo Catho, empresa de recrutamento de seleção de executivos, as mulheres tornavam-se diretoras aos 36 anos de idade e os homens aos 40. No entanto, essas executivas recebem salários mais baixos que os homens, em média 22,8%. Mas, o mesmo estudo, conforme Probst demonstra que essa diferença vem mudando.

  Em 1991, a renda média das brasileiras correspondiam a 63% do rendimento masculino. Em 2000, chegou a 71%. As conquistas comprovam dedicação, mas também necessidade. Em 1991, 18% das famílias eram chefiadas por mulheres. (...) Das 10,1 milhões de vagas de trabalhos abertas entre 1989 e 1999, quase 7 milhões acabaram preenchidas por mulheres. As pesquisas revelam que quase 30% delas apresentam em seus currículos mais de dez anos de escolaridade, contra 20% dos profissionais masculinos. (2012, p.3)

  Pesquisas mostram que, no Brasil, as mulheres são escolhidas para a maior parte das novas vagas de trabalho e também elas tem se preocupado mais do que os homens com o ensino. A Fundação Seade mostra que, em 1994, 35% das mulheres tinham o ensino médio completo, ao final da década passou para 43%.

  Nos dias atuais temos alguns exemplos de competência feminina nos cargos de direção, como Eliana Probist nos mostra em seu artigo: é o caso de Marluci Dias, na Rede Globo, e de Maria Silvia Bastos Marques, na Companhia Siderúrgica Nacional (CSNI). Ainda a autora citou o caso de Chiek o Aoki, do Grupo Blue Tru Hotels, que iniciou a carreira como secretária bilíngue na Ford e que depois atuou na Construtora Guarantã, com muito esforço e dedicação, criou sua própria empresa de administração hoteleira.

  Percebe-se que aos poucos a mulher vai ampliando seu espaço no trabalho. O processo é lento, mas progressivo, segundo Probst:

  Em 1973, apenas 30,9% da População Economicamente Ativa (PEA) do Brasil era do sexo [feminino]. Segundo os dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD), em 1999, elas já representavam 41,4% do total da força de trabalho. Um exército de aproximadamente 33 milhões. Em Santa Catarina, elas ocupavam 36,7% das vagas existentes em 1997. Quatro anos depois, em 2000 mais 62 mil mulheres ingressaram pela primeira vez no mercado, aumentando a participação em 1,1 ponto percentual. (2012, p.5)

  Com o tempo, foi ocorrendo uma mudança no que diz respeito ao trabalho no Brasil, foi consolidando-se um amplo sistema de proteção ao empregado, em especial no salário, onde este passou a ser protegido contra abusos de patrões, credores e credores do empregador. A promulgação da Constituição de 1988 veio completar, no sistema jurídico do nosso país, uma serie de direitos e garantias dos cidadãos, onde dentre estas, encontra-se o princípio da igualdade. Essa isonomia é um princípio que

  (...) garante a todos os cidadãos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Brasil a igualdade formal perante a lei, ou seja, a generalidade na atribuição de direitos e na imposição de deveres, isto é, os direitos a todos devem beneficiar e os deveres a todos devem sujeitar. (ALVES; GUIMARÃES, 2009, p. 40)

  Sendo assim, as lutas contra a discriminação ganharam mais força, inclusive no mercado de trabalho houve mais proteção dos empregados e também as pessoas foram beneficiadas com esse princípio de igualdade independente de sexo, idade, cor/raça, condição física e do tipo do trabalho exercido. Como lembram Bruno Alves e Marina Guimarães:

  Pensando em mudar esta situação é que a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, em seu artigo 23, § 2º, estabeleceu a igualdade de salário por trabalho iguais, assim como o Pacto de Internacional relativo aos direitos econômicos, sociais e culturais de 1960, em seu 7º artigo, alíneas “a” e “i”, reafirmando a igualdade de salário, bem como, a remuneração paga por um trabalho de mesmo valor. (2009, p. 41)

  Como nos mostra os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE:

  É crescente a participação das mulheres no mercado de trabalho onde pesquisa realizada nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre indica que as mulheres representam 45,5% da população economicamente ativa. (2008).

  Além da crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, deve-se reconhecer que estão cada vez mais preparadas para disputar os melhores cargos. Bruno Alves e Marina Guimarães destacam os dados do IBGE de 2008 com as seguintes palavras: Em geral, as mulheres possuem uma média de escolaridade superior a dos homens.

  Talvez a explicação para isto resida no fato de as mulheres possuírem maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho o que as impulsiona a obter melhor qualificação para alçar sua competitividade. Entre as mulheres trabalhadoras, 51,3% possuíam 11 anos ou mais de estudo em janeiro de 2003, contra 59,9% em janeiro de 2008. Entre os homens, esses mesmos níveis de escolaridade eram de 41,9% e 51,9% respectivamente nos meses de janeiro de 2003 e de 2008. (2009, p. 42)

  Enquanto as mulheres que residem na cidade possuem média escolar de sete anos, os homens possuem 6,8 anos, sendo que esta diferença aumenta se analisarmos a população que trabalha, já que neste grupo as mulheres possuem 8,4 anos de estudo contra 7,5 dos homens. Se esta análise for feita com base nos anos de estudo, verifica-se que entre as mulheres com ocupação, 39,1% possuem 11 anos de escolaridade enquanto que no grupo masculino este número cai para 28,3%. Em Janeiro de 2008, a taxa de desocupação entre ás mulheres foi de 10,1% e de 62% entre os homens.

  Podemos verificar que, mesmo com esses dados positivos, as mulheres ainda não têm garantida a igualdade de salários. Em relação aos homens, as mulheres ocupadas recebem até meio salário mínimo e a faixa entre os homens ocupados é de 16%, já os que recebem mais de cinco salários mínimos são de 12,4%, e as mulheres correspondem a 7,3%. Além disso, o rendimento médio habitualmente das mulheres em janeiro de 2008 é de 71,3%, dos homens.

  Ainda segundo o IBGE:

  Se a análise for feita com base nos anos de estudo, em 2008, em média, as mulheres que possuíam nível superior completo ganhavam em torno de 60,0% do rendimento recebido pelos homens e este quadro ao longo da série da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) não se modificou significativamente. (2008, p.42)

  Dessa forma, com base nesses dados, percebe-se que as mulheres, mesmo protegidas legalmente, ainda terão um longo percurso a trilhar em prol da igualdade entre os sexos e da efetivação dos direitos que tem formalmente garantidos.

  Dados mais recentes, obtidos na região metropolitana de São Paulo, mostram que a taxa de participação das mulheres na Região Metropolitana teve uma redução de 56,2% para 55,4% entre 2010 e 2011. Para os homens, essa taxa ficou praticamente estável, ao passar de 71,6% em 2010 para 71,3% em 2011, situando-se no menor valor da série da pesquisa iniciada em 1985.

  • – Entretanto, segundo os dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Seade:

  Pelo oitavo ano consecutivo diminui a taxa de desemprego total feminina, ao passar de 14,7% para 12,5% entre 2010 e 2011. Movimento semelhante ocorreu entre os homens, cuja taxa de desemprego total retraiu-se de 9,5% para 8,6% no período. (2012, p.5).

  Novas oportunidades de trabalho foram maiores para as mulheres 25% do que para os homens 15%, no entanto pouco alterou a participação feminina no total de ocupados entre 2010 e 2011 45,3% para 45,5%.

  Como nos mostra os dados do Seade:

  O nível de ocupação feminina mostrou desempenho positivo nos serviços (4,6%) e no comércio (42%). Houve retração na indústria (0,7%) e decréscimo expressivo nos serviços domésticos (4,1%) comportamento observado pelo segundo ano consecutivo. A elevação do número de ocupações masculinas foi mais generalizada apenas a construção apresentou desempenho negativo (1,5%) e na indústria

praticamente não houve alteração (-0,3%).(2012, p.8).

  O bom desempenho nos serviços a partir dos anos 2000, fez com que este setor fosse ocupado por mais da metade das mulheres trabalhadoras da Região Metropolitana de São Paulo, onde vem crescendo a cada ano. O oposto ocorreu nos serviços domésticos que, após períodos elevados, tiveram, em 2011, a menor parcela de trabalhadoras, 14,7%, permanecendo neste setor apenas aquelas com menos escolaridade.

  Nota-se que no período recente com maior e mais oferta de trabalho, as mulheres estão se ocupando em setores estruturados e de maior prestígio. Os dados revelam que aumentou o número de ocupações mais protegidas pela legislação trabalhista, assalariamento com carteira assinada no setor privado e assalariamento no setor público, bem como o contingente de empregadores.

  Dessa forma, segundo os dados do Seade:

  Como consequência desse desempenho, a estrutura ocupacional das mulheres avançou, ainda que lentamente, ampliando sua presença como assalariada no setor privado com carteira de trabalho assinada (de 44,6%, em 2010 para 46,6%, em 2011) empregada do setor público (de 10,1% para 10,5%) e empregadora (de 2,3% para 25%). (2012, p.10)

  Em 2011, o rendimento médio real das mulheres ocupadas na Região Metropolitana de São Paulo equivaleria a R$ 1.221 e o dos homens a R$ 1.796. No entanto, a jornada semanal de trabalho média dos homens (44 horas) é maior do que as das mulheres (39 horas). Dessa forma torna o rendimento médio real por hora a medida mais apropriada para comparar esses segmentos.

  Conforme os dados do Seade:

  Para as mulheres tal indicador era de R$ 7,32, em 2011, 2,4% superior ao registrado no ano anterior, ao passo que para os homens, seu valor equivaleria a R$ 9,54, ligeiramente maior (0,4%) do que em 2010. Essa diferenciação no ritmo de crescimento dos rendimentos do trabalho recebidos por mulheres e homens aproximou seus respectivos valores: em 2010, o rendimento médio por hora das primeiras correspondia a 75,2% do recebido pelos últimos e, em 2011, esse percentual elevou-se para 76,7%. (2012, p. 12).

  O aumento do rendimento médio real por hora das mulheres refletiu sua elevação no possivelmente influenciado pelos reajustes do salário mínimo e dos pisos regionais do estado de São Paulo. Nos serviços houve redução e na indústria verificou-se relativa estabilidade dos rendimentos e dos horários das mulheres. Para os homens, houve crescimento apenas nos rendimento pago na indústria.

  Segundo dados do Seade:

  Devido às direções e ritmos distintos na evolução dos rendimentos obtidos nos setores de atividade para mulheres e homens, a relação entre dois também foi diferenciada. Na indústria, o rendimento médio por hora das mulheres, que em 2010 correspondia a 70,4% do rendimento masculino, passou a equivaler a 69,1%, em 2011. No comércio, essa relação aumentou de 77,9% para 81,4% e nos serviços, diminui de 82,6% para 81,1% no mesmo período. (2012, p.13).

  Ainda conforme os dados do Seade:

  Por posição na ocupação o rendimento médio real por hora das mulheres aumentou de forma generalizada, exceto para as assalariadas no setor público (redução de 4,8%). Entre as assalariadas do setor privado com carteira de trabalho assinada houve aumento de 2,5% e, para aquelas sem carteira, acréscimo de 7,3%. O rendimento por hora das trabalhadoras autônomas pouco se elevou (0,9%).(2012, p. 13)

  Entre os homens, o salário médio por hora cresceu entre os ocupados no setor público e no setor privado com carteira assinada, mas diminuiu entre os sem carteira. Os rendimentos dos autônomos aumentaram também, mas diminuíram os dos empregadores e permaneceram estável os dos classificados nas demais posições ocupacionais.

  

3. AS REPRESENTAđỏES DA MULHER NO MERCADO DE

TRABALHO

  Neste subtítulo ocorre a análise dos artigos selecionados e tal análise tem os seguintes critérios. Inicialmente ocorre a descrição formal do texto, apontando a autoria, a formação acadêmica do autor, data da publicação, a área de conhecimento do artigo e tema central. A seguir, explora-se o conteúdo do artigo segundo os objetivos específicos da pesquisa, destacando-se um a um esses objetivos.

3.1 Sobre as trabalhadoras do lar

  O primeiro artigo analisado é Labores, quitutes e panelas: em busca do lar ideal de autoria de Maria Cecília Barreto Amorim Pilla, aceito em março de 2006, publicado em janeiro de 2007. A autora possui graduação em Direito - Faculdades Integradas Curitiba (1990), graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (1993), mestrado em História pela Universidade Federal do Paraná (1999) e doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná (2004).

  O tema central do artigo é sobre a mulher no desempenho do papel de “rainha do lar”, no Brasil, do início do século XX. A autora faz uma reflexão sobre os ensinamentos de como as mulheres deveriam administrar a casa, em especial a cozinha e a dispensa. Para tanto, as fontes analisadas são manuais de administração do lar, e livros de cozinha que circulavam no Brasil da virada do século XX até meados dos anos de 1960.

  Sendo assim, neste artigo a mulher não é apresentada como trabalhadora do mercado formal, mas trabalhadora do lar. Dessa forma, a autora do artigo destaca que no Brasil do século XX, frente às mudanças que estavam ocorrendo, como a urbanização, modernização tecnológica e industrialização, os conservadores estabeleceram, principalmente para as mulheres das classes sociais médias e altas, toda uma preparação para o casamento. Isso tinha a intenção de reforçar o que foi aprendido anteriormente, para que estes ensinamentos não se perdessem mediante a modernização mencionada anteriormente.

  Como lembra Maria Pilla (2008, p.3), citando Schaponhnik (1198, p.440).

  Frente às mudanças, os con servadores procuram criar um “verdadeiro culto de estrutura terá como principal resultado a construção de uma vida privada ligada ao público, ‘repercutindo na organização do espaço doméstico, na decoração requintada dos ambientes e nas novas formas de convivialidade

  ’.

  Com relação o primeiro parâmetro de análise, ou seja, como se davam as relações de gênero, a autora explora o conceito de “auto-governo” da mulher sobre si mesma, na condição de dona da casa, onde fica subentendido como a mulher deveria governar (administrar) a casa, os filhos e o marido, de tal maneira que ele pudesse mostrar aos outros que era capaz de ter uma família organizada e harmoniosa e, assim, mostrar-se pronto para conquistar esferas superiores na hierarquia social.

  Segundo Pilla:

  As fontes analisadas, manuais de administração do lar e livros de cozinha que circulavam no Brasil da virada do século XX até meados dos anos 1960, apresentam situações qu e evidenciam a valorização de uma conduta controlada da “rainha do lar”, que como dona de casa, deveria manter o controle sobre tudo e sobre todos, demonstrando assim sua capacidade de governar a si, seu lar e sua família, apoiada pela figura do marido. Para o marido, possuir um lar organizado era prova do governo dos outros como extensão do governo de si, podendo servir como indício de sua possível competência para a administração dos ambientes públicos, além dos domínios dos espaços da vida privada. (2008, p. 5).

  Como nos mostra este artigo, tanto os manuais de administração do lar, como os livros de cozinha, apresentam este último cômodo como a parte principal de uma casa, pois é lá que são preparados os alimentos e, portanto, deve ser bem higienizado, sendo tarefa da dona de casa fazê-lo ou mandar fazer. Sendo assim, para os higienistas da época, cuidar da casa era preocupar-se com a higiene e a limpeza, na luta contra germes, poeira, lixo, tudo o que pudesse vir a prejudicar o lar ideal.

  A autora do artigo também destaca os impactos da sociedade capitalista industrial dos anos 1950 no interior da casa e na forma como deveria atuar a mulher dona de casa. Para isso, cita Isabel Serrano autora de Minha casa (1949) e Perpétua de Lemos autora de Enciclopédia

  da arte culinária

  , visando demonstrar que a cozinha devia ser uma espécie de laboratório “de bom gosto” que está diretamente relacionado com a saúde da família. Portanto a mulher dona de casa nos anos 1950 deveria ser preparada, treinada e ter conhecimento de assepsia e controle sanitário, tornando- se uma “profissional” do lar. Igualmente, os manuais citados anteriormente reconhecem que na cozinha de 1950 havia mais recursos e aparelhos que ofereciam praticidade bem maior do que em décadas anteriores. Selecionando esses extratos, a autora Maria Pilla quer mostrar que critérios de trabalho do mundo exterior ao lar foram transpostos para o interior das casas. Contudo, deve- se acrescentar que não era qualquer casa. Mas as moradias das classes que podiam ter acesso ao mercado de consumo de bens duráveis e de tecnologia.

  No que concerne às estratégias de superação da mulher enquanto trabalhadora, a autora não trata especificamente do mercado de trabalho formal, como já foi destacado anteriormente. Entretanto, na sua escolha dos manuais e mais precisamente na sua escolha dos extratos dos textos citados, percebe-se que há a necessidade de reportar-se a tal mercado, como se pode perceber na citação do manual já citado de Cleser:

  Pode, mesmo em posição modesta, ter a sua casa em estrita ordem e sobrar-lhe-á tempo para exercer uma ocupação profissional com que aumente as suas rendas. Onde as circunstâncias não exigem poderá ler um bom livro ou continuar e aperfeiçoar a sua instrução. (1906, p.6).

  Em outros autores de manuais e livros selecionados por Maria Pilla, nota-se que se preocupam mais com a decoração e os equipamentos para facilitarem o trabalho e o cuidado das casas, especialmente n as chamadas “cozinhas modernas”. A mulher deveria ter uma preparação rigorosa para a vida matrimonial, de forma a conduzir muito bem os cuidados com a sua família. Sendo assim, uma boa dona de casa tinha que manter a ordem, não poderia deixar objetos fora do lugar, limpar muito bem a casa, móveis e paredes, ou seja, tudo deveria estar sobre o governo da dona de casa.

  Percebe-se que o perfil da mulher analisada neste artigo é o de uma mulher abastada, que não precisava trabalhar fora, sua preocupação era a de manter o lar ideal, casa bem organizada e limpa, filhos educados e maridos satisfeitos e seguros o suficiente para ir trabalhar e buscar o sustento da família.

  Ao longo do artigo e especialmente nas suas considerações finais, percebe-se que há uma visão fatalista do papel da mulher de classe média e alta na sociedade brasileira dos anos 1950. A autora coloca os manuais como condicionadores do comportamento feminino e como reflexo do que realmente ocorria no interior dos lares mais abastados.

  Portanto, não se percebe o destaque a qualquer estratégia emancipatória, prevalecendo a visão conformista que supostamente haveria entre as mulheres desse extrato social, no período histórico estudado

  . Nem mesmo o conceito de “auto-governo” é suficientemente libertador, uma vez que tal autonomia e auto-controle serviria unicamente para permitir o sucesso do marido.

3.2 Sobre as empregadas domésticas e seus empregadores

  Até aqui tínhamos analisado a mulher que não exerce uma profissão fora de sua casa, mas desempenha os cuidados do lar, dos filhos e do marido. Agora analisaremos a mulher que trabalha no lar de outras pessoas.

  Dessa forma, o segundo artigo tem o título Afeto e Desigualdade: gênero, geração e

  classe entre empregadas domésticas e seus empregadores

  de autoria de Jurema Brites, recebido para publicação em maio de 2007, aceito em agosto de 2007. A autora possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1988), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1993) e doutorado em Antropologia Social pela mesma universidade concluído em 2001. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Santa Maria. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: grupos populares, trabalho doméstico, família e gênero.

  O referido artigo trata da mulher que trabalha como empregada nos lares brasileiros de classe média, desempenhando todo o trabalho doméstico, inclusive o cuidado das crianças. No artigo fica claro certa hierarquia, na relação dos empregadores e suas empregadas, mas também uma afetividade entre as mulheres e as crianças.

  Dessa forma, Brites:

  No Brasil, a manutenção adequada desse sistema hierárquico que o serviço doméstico tem reforçado, em particular por uma ambiguidade afetiva entre os empregadores, sobretudo as mulheres e as crianças e as trabalhadoras domésticas. Nas negociações de pagamentos extrassalariais, na troca de serviços não vinculados ao contrato, nas fofocas entre mulheres e trocas de carinhos com as crianças é impossível deixar de reconhecer a existência de uma carga forte de afetividade. Esta, no entanto, não impede uma relação hierárquica, com clara demarcação entre chefe e subalterno, isto é, entre aqueles que podem comprar os serviços domésticos e aqueles que encontram, na oferta de seus serviços, uma das alternativas menos duras de sobrevivência no Brasil. (2007, p.93).

  Com relação à divisão social do trabalho, atendendo critérios de gênero, a autora não expõem apenas sobre gênero, mas idade e classe na distribuição das funções de cada indivíduo da família, na cena doméstica.

  Sendo assim, Brites, ressalta:

  Aqui, enfocamos as famílias de classe média que compuseram nossa amostra, onde é esperado da empregada doméstica o cumprimento das tarefas de limpeza, do cuidado da casa, das crianças dos velhos e dos animais de forma discreta e afetiva. Com isso, os outros membros adultos podem se dedicar às atividades remuneradas fora do lar. A mãe, além de trabalhar fora, toma para si os cuidados com saúde, higiene e decoração do lar, além de amparar e gerenciar os afetos e a rede de sociabilidade mais ampla. Do marido, é esperado a parte principal da manutenção econômica da família, que dará respaldo ao investimento nas carreiras estudantis e sociais dos filhos. Poucas tarefas domésticas lhe são destinadas: às vezes, faz compras no supermercado, leva algum filho à escola, repara algo na casa ou no carro. Não se destinam trabalhos domésticos para crianças e jovens, sobretudo do sexo masculino. Em geral, esses jovens têm seus dias quase totalmente ocupados pela escola e, sobretudo, por cursos complementares de inglês, matemática, música, dança e esportes. (2007, p.96)

  Seguindo este contexto, nota-se que a mulher desempenha mais atividades que os homens quando trabalham fora. Além disso, a divisão social do trabalho dentro do espaço doméstico está subordinada às atividades produtivas ou à preparação para as atividades produtivas no mercado de trabalho formal e externo à unidade familiar. Portanto o gênero não é o critério exclusivo, mas a ele se soma a idade e a posição individual na hierarquia familiar.

  Nessa perspectiva, a empregada doméstica tem relações laborais de prestação de serviço com cada indivíduo da unidade familiar, atendendo necessidades do uso das instalações, de alimentação, acesso e utilização de utensílios ou vestuário, entre outros. Para dar conta desse demanda interna ela terá de negociar ou, ao menos, ajustar-se ao comportamento dos seus clientes. Entretanto, seu vínculo contratual (ainda que de forma verbal) foi estabelecido com seu par de gênero, ou seja, a mulher de maior hierarquia dentro daquela unidade social. Disso resulta uma ambiguidade que pode gerar conflitos internos e mesmo o rompimento de cláusulas implícitas ou explícitas do acordo estabelecido inicialmente entre a empregadora e a empregada.

  Sobre a questão de hierarquia, já referida acima, fica evidente no artigo de Brites a relação de afeto entre as crianças com a empregada, bem como a distância social que as separam:

  Edilene conta, com evidente orgulho, o que a filha de sua patroa, uma menina de cinco anos, disse para ela: Lene, tu podia acertar na sena, né? Ai tu só vinha aqui para brincar comigo. Tu podias almoçar e deitar na cama da mamãe, para descansar, como ela faz. [Edilene fecha seu relato acrescentando] A idéia da menina! Deitar na sua cama? (2007, p.97)

  As crianças aprendem a distância social entre elas e as empregadas, no dizer dos pais e na disposição dos espaços, ou seja, “quarto de empregada”, “banheiro de empregada”, onde a dependência de empregada geralmente está separada dos demais membros da família, de tal maneira que ali podem ser depositados vassouras, baldes e tudo que não serve ou não deve ser visto como perturbação da ordem da casa.

  Entrevistando uma patroa em Praia Velha, Brites relata:

  Durante a entrevista, estavam presentes a patroa, suas duas filhas (16 e 5 anos), meu assistente de pesquisa e eu. A patroa nos falava do quanto é necessário “tratar bem” as empregadas, sem deixar que as pessoas confundam as coisas. Outro dia, eu cheguei em casa e encontrei Alcina esparramada no sofá, assistindo TV. Os pés em cima da mesa, aqueles braços abertos sobre o encosto do sofá. Vê se pode? No mesmo lugar que depois eu e as minhas filhas vamos descansar! E ela lá com aquela “inhacá” no meu sofá!! Então, ensinando como devemos nos comportar diante desta quebra da etiqueta, a patroa acrescenta: Ah, não tive dúvida chamei ela num canto e conversei com jeito, que é para não ofender, entende? Porque também não se pode ter um inimigo em casa, melhor é

usar do bom entendimento, percebe? (...)(2007, p. 105).

  Por esse extrato do artigo, percebe-se que a autora enfatiza as relações trabalhistas entre duas categorias sociais separadas por critérios econômicos e de função social. Ou seja, o lugar social da patroa e de suas filhas não era o mesmo da empregada. Disso se pode perceber que as relações de diferença gênero são diluídas ou mesmo totalmente substituídas por diferenças hierárquicas existentes entre mulheres.

  A escolha da autora por esse enfoque difici lmente seria outro porque o “homem” enquanto categoria a ser analisada pela autora simplesmente não faz parte do contexto. Trata- se de um universo laboral dominantemente feminino. Entretanto, a ausência do “homem” nesse discurso não significa que ele não exista, mas que foi omitido. O fato da autora não ter contemplado essa situação concreta com algum tipo de comentário ou observação revela que também para ela naturalizou-se a separação das responsabilidades pelo lar, conforme critérios de gênero, historicamente construídos.

  Em relação ao afeto, nota-se que em quase todas as casas que a autora investigou, as crianças, quando não estavam na escola, ficavam com a empregada, enquanto os pais trabalhavam. Assim, em muitos casos, criava-se um vínculo que extrapolava a situação profissional. Para Brites:

  É comum mesmo quando o contrato de trabalho é suspenso as empregadas continuarem a acompanhar a vida das crianças de quem tomaram conta. Telefona eventualmente para falar com elas, consulta uma colega que esteja trabalhando na rede de sociabilidade da ex-patroa, ou simplesmente calcula suas idades, de longe lembrando a data de seus aniversários ou mantendo fotos das crianças nos seus álbuns de recordação. (2007, p.98)

  Nota-se que a mulher, no desempenho da profissão de empregada nos lares brasileiros, analisada, neste artigo, é em alguns casos bem tratada pelos seus empregadores, mas o que não impede de obedecer a uma hierarquia, onde cada um deve saber o seu lugar. Como mostra diferentes a empregada seria igualada a seus empregadores e assim ocuparia os mesmos espaços e a afetividade tornar-se-ia amizade.

3.3 As mulheres no desempenho do bordado

  Depois de analisarmos as trabalhadoras do lar e as que desempenham atividades na casa de outras pessoas, passaremos a analisar outra forma de trabalho de origem doméstica e normalmente associado às mulheres.

  O terceiro artigo analisado é As bordadeiras de Ibitinga: trabalho a domicílio e de autoria de Marcia de Paula Leite, recebido para publicação em outubro

  prática sindical

  2007, aceito em fevereiro de 2008. A autora possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1972), mestrado em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (1983) e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1990).

  Atualmente é professora colaboradora voluntária da Universidade Estadual de Campinas. Faz parte do conselho editorial das seguintes publicações: Revista latino-americana de estúdios del trabajo, Enterprise and Work Innovation Studies, Sociologia del Trabajo, Revista Trabajo e Organizações e Trabalho. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: mercado de trabalho, reestruturação produtiva, relações sociais de gênero. Atualmente é presidente da Associação Latinoamericana de Estudos do Trabalho (ALAST).

  O tema central do artigo é sobre a história das trabalhadoras do bordado de Ibitinga, cidade do interior do estado de São Paulo. Conforme demonstra o artigo, Ibitinga dedicou-se historicamente à agricultura do café, a qual após um período inicial de crescimento entrou em uma fase de estagnação, devido à crise dos anos de 1930.

  Dessa forma, o bordado como atividade sistemática e organizada coletivamente foi introduzido na cidade por uma senhora de origem portuguesa que começou a praticar o bordado em sua casa juntamente com outras mulheres a partir de 1945.

  Sendo assim, segundo a autora, em 1950 surgiu a primeira máquina de bordado industrial na cidade, a partir de uma adaptação realizada na máquina de costura da Singer. Com ela iniciou-se a indústria do bordado em Ibitinga.

  No que se refere ao primeiro parâmetro de análise, sobre as relações de produção, atendendo critérios de gênero, observa-se que este trabalho está mais voltado para as mulheres, onde as atividades são executadas especialmente no âmbito doméstico, misturando- feminina e consideradas complementares em relação ao trabalho masculino, mesmo que tais atividades fossem responsáveis pela maior parte do sustento da família.

  Contudo, a autora demonstra que, mais tarde, o homem passou a ser inserido de forma direta nessa atividade.

  Valéria faz uma reflexão aqui sobre esse movimento de inserção da força de trabalho masculina no bordado. De acordo com Sawaia (1979), a partir de 1974, começou a ser desenvolvida uma campanha destinada a atrair a força de trabalho masculina para a atividade, que buscou valorizar o bordado enquanto atividade profissional, desvinculando-se de sua tradicional relação com o trabalho feminino. (SAWAIA apud LEITE, p. 187).

  Segundo o artigo, evidencia-se que, mesmo sendo uma atividade tradicionalmente feminina, à medida que o bordado foi se destacando na economia local foi se promovendo esse trabalho feminino à condição de principal agente produtivo, ou seja, o papel da mulher no desempenho dessa atividade adquiriu uma centralidade excepcional, mesmo com a entrada dos homens no ramo.

  A autora aponta que essa centralidade ultrapassou a natureza histórica de um trabalho tipicamente feminino para atingir um status econômico e político, na medida em que os sindicatos da categoria passaram a ser dirigidos preponderantemente e mesmo exclusivamente por mulheres nos cargos mais importantes como presidente, tesoureira e secretária.

  A autora comenta que as trabalhadoras do bordado e confecção de Ibitinga, até o final de 1980, viviam uma realidade difícil na qual se encontravam dispersas em pequenas empresas, salões de bordado e, sobretudo, no trabalho a domicílio. Não possuíam registro em carteira e regulamentação da profissão, assim como ganhavam por peças de roupa, o que não era suficiente para o seu sustento. As condições de trabalho eram igualmente desfavoráveis, pois trabalhavam até doze horas por dia, sem seguridade social e sujeitas às demandas sazonais de seus produtos.

  Portanto, ainda que a divisão social do trabalho tenha dado à mulher uma centralidade nas relações produtivas, as condições de trabalho e a forma como se organizavam as forças produtivas e os meios de produção conduziam para uma condição de marginalidade em relação ao trabalho formal e institucionalmente reconhecido como atividade produtiva.

  Em relação ao terceiro parâmetro de análise, sobre as estratégias de superação das mulheres, compreende-se que no caso de Ibitinga além da inserção ou permanência no mercado de trabalho conquistada a partir de uma habilidade normalmente desenvolvida pelas mulheres, observa-se que através da formação de sindicatos fundados por mulheres houve um esforço de defesa dos seus direitos trabalhistas e da regulamentação do bordado como profissão.

  Essa estratégia de organização do grupo que além de se distinguir pelo gênero também mostrava o perfil de uma classe de trabalhadores foi auxiliado por um trabalho de pesquisa e extensão desenvolvido por quatro estudantes (duas das quais também eram bordadeiras em Ibitinga) do Departamento de Comunicação Social da Universidade de Bauru. A partir desse esse esforço cooperativo, em 1987 foi criada uma Associação Profissional dos Empregados em Empresas de Artesanato em Geral de Ibitinga, que consistiu no primeiro passo do processo de organização da categoria. Segundo a autora,

  Transformando-se rapidamente no Sindicato dos Bordadores de Ibitinga, a entidade protagonizou uma história de lutas que colaborou para mudar a situação dos trabalhadores, sobretudo das trabalhadoras da confecção e do bordado, bem como para redefinir a estratégia das empresas, num processo que tornou a região em um dos polos industriais de produtos de cama, mesa e banho mais importantes do estado e do país. LEITE (2009, p. 185).

  Como elucida o artigo, em agosto de 1988 tomou posse a primeira diretoria do sindicato, que alguns anos mais tarde mudou o nome para Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Confecção e Bordado de Ibitinga e Região, porque no início o bordado não era reconhecido como profissão. Dessa forma o centro da luta continuou a ser o registro em carteira das bordadeiras, fossem elas empregadas de empresa, salões de bordado ou a domicílio.

  A autora comenta que alguns depoimentos e documentos recolhidos durante a pesquisa ilustram a respeito das condições de trabalho das bordadeiras nas fábricas e salões, que eram extremamente duras.

  Em matéria publicada em 1989 na primeira edição do “Nossa Luta”, órgão informativo do sindicato, o jornal denunciava que em muitas empresas havia “encarregados de salão”, que ficavam posicionados em frente às máquinas de bordar, advertindo as bordadeiras a cada simples virada de cabeça. Não pode haver paradas nem para relaxar a coluna. Quando vão ao banheiro, existe um tempo estipulado que, caso ultrapassado, é descontado no salário. Os trabalhadores devem ocupar suas máquinas ou funções 15 minutos antes do horário, para quando soar o sinal não haver perda de tempo (Nossa Luta, novembro de 1989). LEITE (2009, p. 190).

  A luta do sindicato redundou, em abril de 2001, na conquista do registro em carteira por todos os empregados que executem serviços na empresa (salão), ou fora “dele”, com máquinas próprias ou de “terceiros”, garantindo-lhes o salário e todos os benefícios adquiridos pela categoria (Convenção coletiva dos Trabalhadores na Indústria de Confecções e do Bordado de Ibitinga e Região, abril de 2001).

  Segundo o artigo, conclui-se que , apesar de todas essas mudanças pelas quais vem passando o mercado de trabalho da cidade e de todo o esforço que o sindicato dos trabalhadores continua a desenvolver, é importante ressaltar que o trabalho a domicílio continua a ser realizado e que parte importante dele segue sem registro em carteira. Segundo a autora do artigo:

  É importante sublinhar, entretanto, conforme alertado anteriormente, que esse conjunto de mudanças não foi suficiente para eliminar o trabalho feminino a domicílio, embora bastante reduzido, ele traz ainda a luz a manutenção do imaginário patriarcal que confere às mulheres a responsabilidade pelo trabalho doméstico. É ele que está por trás da preferência de um conjunto de mulheres, ainda que pouco expressivo pelo trabalho a domicílio na região. LEITE (2009, p.2012)

  Percebe-se que a pesquisadora dedicou especial atenção para as questões organizativas e para as conquistas formais e legais das trabalhadoras de Ibitinga, que conseguiram, por suas estratégias de luta, superar um quadro de exploração e de marginalidade no mercado de trabalho. O contexto mais amplo do sistema capitalista e das formas como segrega os trabalhadores por diferentes critérios, inclusive o de gênero, não foi destacado e a maneira como os homens passaram a interagir com as mulheres em um ramo cuja habilidade preponderante é de ordem feminina também ficou obscuro no artigo da autora.

3.4 A mulher bonita como trabalhadora

  O quarto artigo analisado é Dignidade, celibato e bom comportamento: relatos sobre a de autoria de Maria Claudia Bonadio,

  profissão de modelo e manequim nos anos de 1960

  recebido para a publicação em março de 2004, aceito em maio de 2004. Maria Claudia Bonadio possui Bacharelado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1996) mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (2000) e doutorado em História pela mesma universidade (2005). Atualmente, é professora do Centro Universitário Senac, na área de Design de moda e pesquisadora da linha de pesquisa cultura e comportamento.

  Até aqui tratou-se da mulher no desempenho de tarefas laborais próximas daquelas executadas tradicionalmente nos cuidados da casa, dos filhos e do marido. Neste artigo, encontra-se uma abordagem histórica, com forte influencia sociológica, sobre o trabalho da mulher como modelo ou manequim, nos anos de 1960, mediante relatos orais de ex- participantes do grupo de criação e desenvolvimento da publicidade da Rhodia têxtil.

  Sobre a organização que foi estudada, a autora destaca que:

  Instalada no Brasil desde 1919, a Rhodia S.A. obtém em 1958 as patentes para a fabricação dos fios e fibras sintéticas no Brasil. A divisão têxtil da Rhodia inicia então o processo substituição de matéria prima, tendo como meta a produção de um novo fio e a sua popularização. O último objetivo é alcançado através da publicidade de moda produzida pela empresa, visando agradar fabricantes, comerciantes e o consumidor, alvo final da produção de fibras sintéticas. (BONADIO, 2004, pp. 50,51)

  A tarefa de criar o fio sintético no Brasil foi confiada à equipe coordenada por Livio Rangan, gerente de publicidade da empresa, que iniciou a publicidade de moda associada a esse tipo de produto com desfiles associados a números de danças, apresentações musicais e teatrais, lançados anualmente na FENIT (Feira Nacional da indústria têxtil). Tais apresentações não se restringiam a esse evento, mas viajavam por todo o Brasil e, em alguns casos, ao exterior.

  Como já foi visto anteriormente, a mulher percorreu um longo caminho para se inserir no mercado de trabalho formal. Na década de 1960, nos grandes centros de produção industrial brasileiros, essa realidade passava por uma transformação que se aprofundaria nas décadas seguintes. A autora para dar conta desse processo de inserção da mulher em diferentes seguimentos do mercado de trabalho, apresenta dados estatísticos nos quais se pode observar que havia pouco mais de quatro milhões de mulheres economicamente ativas e que existia uma legislação específica de proteção e amparo da mulher no trabalho, como o Decreto-Lei nº 5452 de 1º de maio de 1943, que incluía artigos de proteção à ocupação profissional feminina quanto a horários, licença para gravidez e tipos de trabalho.

  A autora, com base nos relatos das ex-modelos e manequins expostos neste artigo, destaca justamente um segmento laboral dessa classe média, ou seja, mulheres que aceitavam trabalhar na Rhodia para poderem pagar a faculdade, comprar apartamento, carro e outras comodidades da sociedade de consumo. A autora não faz uma diferenciação clara entre modelos e manequins, mas permite inferir que O termo modelo é usado para fotografias e comerciais, e manequim é usado para passarela.

  Quanto ao primeiro parâmetro de análise dessa monografia, a lembrar, como os autores dos artigos trataram a divisão social do trabalho atendendo critérios de gênero, a autora Maria Claudio Bonadio deteve-se em uma atividade profissional executada quase que com o universo masculino dava-se pela própria natureza da profissão, uma vez que o suporte laboral é o corpo feminino idealizado nas suas formas e na maneira perfeita de ajuste com o vestuário a ser vendido.

  Justamente por essa ênfase na estética feminina e a utilização do corpo como suporte material de um produto, esse trabalho suscitava olhares de julgamento conservador e preconceituoso, gerando resistência a esse tipo de labor feminino. Além disso, havia uma diferenciação entre as profissionais bem-sucedidas e com projeção no mercado daquelas modelos e manequins de “segunda linha”, ou seja, profissionais que atuavam como freelance e desfilavam lingeries e maiôs. Essa diferenciação interna implicava em diferente tipo de remuneração como também em diferente status social, pois as da primeira linha trabalhavam na alta costura e realizavam viagens para lugares distantes.

  Contudo, a autora não aborda questões concretas sobre a formalidade legal desse trabalho e de sua remuneração. Assim, não se pode verificar qual a inserção desse tipo de trabalhadora no mercado de trabalho e de como obtinha autonomia e estabilidade financeira ao longo do tempo. Sabe-se por inferência, que se trata de uma profissão com curto tempo de duração e que, por esse motivo, normalmente é vista como uma atividade temporária, mais que trabalho ou profissão. Mas também sobre esse tipo de diferenciação não se pode avançar tomando o texto publicado como ponto de partida.

  Entretanto, a autora buscou destacar o segmento social de onde vinham essas profissionais, normalmente de classe média e de alta escolaridade. Também deixa supor que o resultado final esperado pelas trabalhadoras era a conquista rápida de algum tipo de bem que pudesse dar a elas certa segurança com relação ao futuro.

  Esse quadro destacado pela autora revela uma série de atitudes e formas de resistência adotada pelas modelos e manequins contra a estigmatização. Nessa profissão, segundo a autora do artigo, as mulheres tinham que ter muita coragem, força e dedicação para suportar o preconceito da sociedade. Disso pode-se avaliar como a autora contemplou as estratégias de superação das trabalhadoras, ao transcrever relatos como o da manequim Eidi Poletti, integrante da segunda linha, que atuava como freelance e desfilava lingerie e peças de banho. Essa profissional conta que deixou de integrar o Grupo principal da Rhodia em 1963 para se casar:

  Eu acho que eu antecipei esse casamento porque eu tinha uma educação muito provinciana, eu morava em um bairro aqui em São Paulo que hoje é uma periferia muito ruim, chama-se Santo Amaro. As famílias de lá como minha família, eram famílias antigas, tinham um preconceito muito grande. Modelo desfilou? Era sem vergonha, era sem vergonha. Veja, eu me casei virgem, não tinha nada ver uma coisa com a outra, mas dentro da moral... Eu não tive estrutura para sustentar, então eu tive que me casar, para limpar esse preconceito. Eu me casei, era uma moral muito rígida. Cada fotografia que saía em revista e jornal era um comentário muito forte. (BONADIO, 2007, p. 62) Ainda Maria Bonadio (2004, p.63) relata o depoimento de Bia Slivak e Bettina Valk.

  Bia Slivak diz: “...era preconceito muito grande da família, para todo mundo ser modelo era ser mulher fácil...

  ”. Já no depoimento de Bettina Valk, encontra-se:

  Não era muito bem vista, claro. Eu perdi amigos na época porque existia exatamente essa diferença, entre as mulheres que eram para casar, aquele modelo clássico “família”, e as “raparigas”. Então vamos pensar que a manequim era algo no meio desse caminho. E tinha lógico, nesse começo de momento sociológico, as feministas. Aquela coisa de queimar sutiã, aquela coisa de “quero ser feia”. Em que lugar se localiza uma manequim, uma modelo, nesse meio? Não necessariamente é mulher fácil e também não é feminista; mas também não é certinha, dona de casa para casar. Na verdade fica num limbo, é uma coisa no meio do caminho de todos os caminhos, é uma espécie de limbo. (BONADIO, 2007, p. 63)

  A autora quando deu voz a essas profissionais, permitiu que relatassem o quanto foram objeto de preconceito e, dessa forma, as entrevistadas puderam verbalizar um certo ressentimento pelo tratamento estigmatizador recebido pela sociedade em geral. As formas como essas profissionais reagiam também é apresentada, especialmente quando envolvia aproximação e contato com homens no local de trabalho. Sabendo o tipo de imagem que suscitavam, as profissionais buscavam ter um comportamento exemplar e eram aconselhadas a manter uma severa autodisciplina, porque tinham um nome e uma carreira que facilmente poderia ser destruída pela maledicência do público consumidor da moda.

  Nesse sentido, a autora destaca o papel de Livio Rangan, gerente de publicidade da empresa Rhodia, que procurou dignificar a profissão, onde mostrava o que era ser modelo e manequim, tentando tirar a imagem que a sociedade via da profissão, ditas como prostitutas, que só eram contratadas porque namoravam o filho do dono da confecção, etc.

  Conforme foi passando os anos, algumas mudanças ocorreram no modo da sociedade pensar a profissão de modelo e manequim. No entanto, mediante os relatos deste artigo, nota- se um grande ressentimento, de terem sofrido preconceito, sendo mal vistas pela sociedade.

  Nesta perspectiva, pode-se compreender o posicionamento ideológico da autora, que embora não assuma uma radicalidade feminista, adota um discurso de denúncia contra os preconceitos que existiram (ou talvez ainda existam) com relação à mulher em uma determinada profissão. Conforme Bonadio:

  Relacionamentos afetivos, alienação fantasia, ´mulher objeto` (cabide nas palavras de Vely Derwe) excesso de controle, deslocam social, preconceito, são os temas presentes dos depoimentos coletados entre as modelos e que surgem como diferença em relação aos relatos dos homens que participavam do mesmo grupo. Observando as principais questões presentes nos relatos, não seria exagero afirmar que os depoimentos femininos são carregados de ressentimentos, “sentimento de in significância e importância individual” e que em alguns casos, levam Claudine Haroche, a própria negação da existência, que surgiria como “resposta inconsciente efeito longínquo de uma angustia ignorada”, traços perfeitamente visíveis no caso de Vely Derwe quando relata o episódio em que queimou as fotos, pois não queria mais ser lembrada como modelo e manequim. (2004, pp. 79,80).

  Sobre a profissão de modelo e manequim em relação aos homens, a autora coloca que na Rhodia não tinham manequins e modelos masculinos fixos, pois estes eram contratados eventualmente. Essa realidade só mudou depois de 1970, quando foi criada por Livio Rangan o Clube Um, que reunia mais de 10 tecelagens e 20 confecções, sendo as roupas masculinas bastante divulgadas.

  Ainda com relação a presença masculina nas atividades de modelo, a autora acrescenta que:

  A opção por trabalhar com depoimentos de homens e mulheres de diferentes áreas se justifica por que foram esses profissionais que permaneceram mais tempo trabalhando junto á publicidade da empresa e formaram uma equipe de trabalho. Além disso, são escassas as referencias aos modelos masculinos nos depoimentos (em geral, eles são pouco lembrados, e mesmo quando citados, cita-se apenas o seu primeiro nome) e é difícil localizar esses profissionais (nenhuma das entrevistadas soube informar o paradeiro ou o contato de algum dos ex-modelos). (BONADIO, 2004, p.58)

  O que deu para perceber ao analisar este artigo é que a mulher foi muito julgada, por uma sociedade machista onde só o homem tinha voz e vez. Tudo o que a mulher fizesse fora do ambiente familiar era visto com maus olhos socialmente. Algumas casavam para limpar o nome de mulheres fáceis, as que seguiam, tinham que ser fortes para enfrentar os comentários do povo. Dessa forma, no próximo artigo analisaremos a luta das mulheres para inserir-se numa profissão vista como masculina.

3.5 A Mulher na medicina

  O quinto artigo analisado é A ruptura do mundo masculino da medicina: médicas

  

brasileiras no século XIX de Elizabeth Juliska Rago, recebido para publicação em dezembro

  de 2000. A autora possui graduação em Comunicação Social pela Faculdade de Comunicação Social Anhembi (1978), graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1968), mestrado Programa de Estudos Pós-Graduados em História - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992) e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005). Atualmente é assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Outras Sociologias Específicas e Ciências Sociais Aplicadas à Administração - Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, trabalho, medicina, feminismo, gênero- trabalho-medicina, cultura e feminismo.

  O tema central do artigo é sobre a luta das primeiras mulheres médicas para ingressar num campo tradicionalmente masculino, o da medicina, na segunda metade do século XIX. A autora introduz este artigo relatando a história de uma menina de 12 anos, Maria

  Augusta Generosa Estrela, filha de um abastado português ligado ao ramo farmacêutico, que havia deixado a mesma em Funchal, Ilha da Madeira. Segundo a autora, a menina já se destacava por sua autonomia e coragem, desde a infância e cedo se decidiu pela medicina. A razão da autora lembrar dessa personagem é discutir sobre quem teria sido a primeira médica do Brasil, confrontando diferentes autores.

  Outra razão foi para mostrar os atributos psicológicos dessa personagem histórica, que teria sofrido com a discriminação social ao dedicar-se ao ramo da medicina. Para tanto, a autora destaca que no Brasil, até o ano de 1879 as mulheres não podiam frequentar os cursos superiores e que isso só ocorreu mediante debates dos intelectuais sobre o assunto, o que levou D. Pedro II a aprovar a Reforma Leôncio de Carvalho nesse ano.

  Isso demonstra a reserva de mercado que os homens teriam estabelecido para as profissões de maior status social como a medicina, criando uma série de obstáculos culturais e institucionais para impedir o acesso das mulheres aos cursos de formação dessas profissões. Exemplar dessa resistência foi a oposição do deputado Malaquias Gonçalves de Pernambuco que discursou contra o pedido de estudar medicina de Josefa Aguida nessa época. A autora do artigo destacou alguns argumentos do deputado para reforçar sua tese de que as mulheres estavam sendo afastadas da profissão de medicina, pois para o parlamentar a mulher não tinha capacidade física e intelectual para tal estudo.

  Procurando historiar o percurso das primeiras médicas do Brasil e as formas como elas surgida entre Josefa Aguida Felisbela Mercedes de Oliveira e Maria Augusta Generosa (outra das primeiras médicas do Brasil) que se conheceram no New York Medical College for

  women

  , onde estudaram juntas. Esse foi o início de uma intensa atividade de luta a favor da igualdade de condições entre homens e mulheres no exercício da medicina, sobretudo no periódico A Mulher em circulação desde 1881.

  Como destaca Rago:

  A Mulher fora projetada para convencer as mulheres brasileiras de suas aptidões latentes, e para mostrar que tanto a mulher como o homem podem se dedicar ao estudo das ciências (...) as duas estudantes expressavam a idéia de vantagem da escolha da profissão de médicas tanto para as mulheres quanto para a sociedade, mostrando que as mulheres médicas gentis podiam inspirar a confiança das pacientes que no Brasil, frequentemente, relutavam em expor seus corpos e seus males aos médicos. (2000,p.125).

  Mediante essa mesma, linha de raciocínio a autora continua sua argumentação ao, demonstrando que não apenas no ensino superior, mas também na educação básica ocorria a segregação da maior parte do público feminino, de tal maneira que se observa que a instrução das mulheres nos anos que antecederam a República era restrita, sendo apenas preparatória para que se tornassem boas mães.

  Ainda Rago acrescenta que:

  No decorrer do século XIX, as meninas não podiam frequentar o ensino oficial ministrado no colégio Pedro II no Rio de Janeiro, o que só aconteceu no século XX, portanto, alguns anos já transcorridos desde a Reforma Leôncio de Carvalho. Em contraste com outras escolas particulares, o colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, seguramente era o que oferecia o melhor ensino da época. Saffoti afirma em seu livro pioneiro que a educação secundária feminina se fazia então, quase exclusivamente em colégios confessionais, alguns dos quais protestantes e a maioria católicos. (2000, p.221).

  Com relação ao parâmetro que destaca as formas de inserção da mulher no mercado de trabalho formal, pode-se perceber que a autora levanta dados que revelam a dificuldade de se aceitar as médicas como profissionais confiáveis. Dentro da sua argumentação, lembra que as mulheres que praticavam a medicina, na segunda metade do século XIX, sofreram todo tipo de pressão da sociedade para que se afastassem dessa profissão, até peças de teatro eram feitas para ridicularizar as médicas brasileiras, assim como um artigo jornalístico que classificou uma médica recém- formada de “machona”.

  Como lembra Rago:

  Essas ocorrências não se verificam apenas no Brasil. Em Buenos Aires, Cecília Guierson, futura primeira médica argentina foi recebida pelos colegas homens com profunda zombaria o que lhe dificultava os estudos. Nos Estados Unidos, as estudantes de medicina eram vaiadas quando passavam e, muitas vezes lhe atiravam pontas de cigarros e bolinhas de papel no rosto. Quanto à atitude das outras mulheres, conta-se que as funcionárias do Genove College afastavam-se com asco quando avistavam Elizabeth Blackwele, considerando que dama alguma, possuidora de um pouco de decência, se exporia às coisas horríveis, ensinadas nas escolas médicas. (2000, p. 218).

  No que tange o terceiro parâmetro a ser analisado. As estratégias de superação empregadas pelas mulheres no seu esforço, ingresso e permanência no mercado de trabalho. Elisabeth Rago acrescenta que:

  Algumas mulheres médicas conquistaram o reconhecimento público no Brasil ou no exterior, enquanto outras vieram e trabalharam num círculo mais restrito. Enquanto grupos minoritário e subalterno, essas pioneiras utilizavam o recurso da competência como arma para ingressar e permanecer num campo masculino por excelência. (RAGO, 2000, p. 220)

  A autora cita no artigo um exemplo de superação, de uma médica, de nome Elisabett Blacwell, que rompeu as barreiras que excluía as mulheres da medicina, quando consegui ser admitida no Genova College of Medicina em Nova York. Mais tarde fundou o primeiro hospital do mundo dirigido por mulheres o New York Infirmary for Women and Children. Sendo assim, em 1857, passou a receber médicas formadas para fazerem residência, o que era negado às mulheres nos hospitais dos Estados Unidos, o que dificultava o desenvolvimento de suas carreiras.

  Para Rago:

  A inserção das mulheres na medicina foi um processo lento e difícil e muitos obstáculos tiveram de ser removidos, até que as primeiras médicas no mundo todo fossem reconhecidas, tanto pelos médicos como pela sociedade em geral. (2000, p.223).

  As mulheres que investiram na profissão da medicina tiveram que lutar contra o preconceito da sociedade, onde desde o final do século XIX, foram muito pressionadas não apenas pelos homens, mas por outras mulheres, às vezes familiares que entendiam ser esta uma profissão masculina. Afinal o imaginário cultural do século XIX nos países estrangeiros e no Brasil foi marcada pelas idéias do determinismo biológico.

  A autora menciona um fato importante,

  As famílias das médicas apresentadas neste artigo gozavam de independência econômica para enfrentar o desafio aos costumes sociais daquela época, onde isto representou um fator relevante na ousadia dessas mulheres, para penetrar num universo, no qual o poder masculino se fazia presente (RAGO, 2000, pp. 224, 225).

  Percebe-se que as mulheres tiveram que enfrentar o preconceito da sociedade, bem como dos médicos, para inserir-se na medicina, os quais julgavam uma profissão imprópria para as mulheres. Foi um processo lento e difícil, mas as mulheres conseguiram vencer os obstáculos que as impediam de exercer a medicina.

4. CONSIDERAđỏES FINAIS

  A presente monografia traz os resultados da pesquisa que teve por objetivo geral avaliar as representações sobre a mulher no mercado de trabalho, segundo o conteúdo dos artigos sobre esse tema, publicados na revista de âmbito nacional Caderno Pagu (UNICAMP) especializada em estudos sobre o gênero feminino.

  Buscou-se entender como as mulheres venceram as barreiras do preconceito da sociedade, segundo a análise dos cientistas sociais encontradas nas revistas selecionadas. Depois de analisar os cinco artigos pode-se concluir o que se segue abaixo.

  Os cinco artigos que tratam mais diretamente deste assunto, publicados na Revista

  

Cadernos Pagu (Unicamp), bem como obras e textos e dados estatísticos (IBGE) e (SEADE),

  nos possibilitaram, através dos parâmetros de análise a entendermos, como foi a trajetória da mulher em busca do seu espaço no mercado de trabalho formal.

  As autoras de uma maneira geral priorizam os aspectos circunstanciais e da realidade imediata das trabalhadoras analisadas, sem aprofundar a discussão sobre as relações de produção e a divisão social do trabalho, dentro de uma estrutura capitalista. Portanto, trataram-se de estudo de casos, com uma contextualização circunscrita ao espaço no qual se dava o vínculo empregatício ou atividades laborais.

  Consequentemente, o critério preponderante utilizado pelas autoras com relação à divisão social do trabalho foi o do gênero, destacando condições particulares que caracterizam o trabalho feminino em uma dada conjuntura.

  Ainda assim, a especificação de trabalho feminino como empregada doméstica, trabalhadoras do lar, modelo e bordadeira não se fez por meio de alteridades com os trabalhadores homens. Inicialmente porque se trata de trabalho tradicionalmente das mulheres e porque eram trabalhos que ocorriam dentro de relações sociais fortemente definidas por papéis sociais, estranhos ao universo masculino.

  Entretanto, percebe-se a ausência de uma discussão aprofundada sobre estas divisões sociais do trabalho tradicionais em relação às atitudes, comportamentos e valores dos homens em relação às mulheres, sendo mais apropriado afirmar que os artigos analisados enquadram- se em uma corrente historiográfica denominada história das mulheres e não história de relações de gênero.

  Por fim, em relação ao destaque dado pelas autoras às estratégias de superação trabalho, percebe-se que em alguns artigos, como o da mulher na medicina e os das trabalhadoras da moda, conseguiram ultrapassar a segregação profissional de larga trajetória. Também no artigo referido ás bordadeiras percebe-se uma superação da condição de trabalho doméstico artesanal na direção de um empreendimento tipicamente capitalista, quando os meios de produção, forças produtivas e mão de obra articulam-se para conquistar mercados com maior competitividade.

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