André do Nascimento Corrêa ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL: CAÇAPAVA (1831-1839)

67 

Full text

(1)

André do Nascimento Corrêa

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL: CAÇAPAVA (1831-1839)

(2)

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL: CAÇAPAVA (1831-1839)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História - Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

Orientadora: Prof. Ms. Janaina Souza Teixeira

(3)

André do Nascimento Corrêa

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL: CAÇAPAVA (1831-1839)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do

Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

________________________________________

Profª. Ms. Janaina Souza Teixeira - Orientadora: (UNIFRA)

__________________________________________ Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter: (UNIFRA)

__________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim: (UNIFRA)

(4)

Este trabalho eu dedico aos meus pais Teodoro e Ione que incondicionalmente sempre me

(5)

condições para que eu pudesse efetuar esta graduação. Agradeço ao amigo Luciano Mota, pelo incentivo a voltar a estudar, sem aquelas conversas de meados anos 2001, não estaria aqui.

Obrigado a Alessandro e Bruno e Vancler, pois foram os amigos com quem dividi a primeira morada, festas e cervejadas em Santa Maria. Da mesma forma agradeço ao Mesquita por inúmeras vezes ler os meus trabalhos, além de termos curtidos alguns sons nos DCEs da vida, valeu Marquinhos. Agradeço aos primos Tiago e Marcos Dede pelos anos de futebol no atlético, as festas a amizade que criamos.

Agradeço ao Lukinha, amigo de todas as horas, papos, cevas, desabafos. Ao amigo e colega Leandro, pelas conversar, conselhos sobre este novo rumo que o curso de história esta nos proporcionando. Dá mesma forma agradeço ao Max, Marcelo e ao Jonas, amigos que conquistei nesta caminhada acadêmica. Um obrigado ao colega Gibran, por ter dividido o estágio III comigo, e pelas orientações da professora Paula nos estágios III e IV.

Agradeço aos professores e amigos Farinatti, Nikelen pelas conversas sobre a vida, pesquisas, futebol. Vocês agregaram muitos valores na minha vida.

Agradeço a minha amiga e orientadora professora Janaina, por ter me auxiliado nestes anos de pesquisa.

Agradeço a todos os professores do curso de história da UNIFRA.

O meu obrigado, Fê, Alan, Carioca, Alemão, Miltinho, Gazzoni, Moisés, e a todos que convivi nestes anos de graduação, pois com certeza, desde as festas as leituras todos acima citados tiveram participação em minha trajetória acadêmica.

Agradeço também a Lívia, a garota por quem meus olhos brilham nestes últimos anos.

(6)

população de Caçapava na primeira metade do século XIX. Considerando o patrimônio familiar

através de inventários post-mortem, da vila de Caçapava no período de (1831-1839). Entende-se

que a análise do patrimônio contido nos “bens de raiz” dos inventários post-mortem permite elucidar melhor os agentes formadores deste contexto social. A partir da quantificação dos dados que constam nestes documentos, discutimos, entre outras questões, a presença da escravidão e o cenário agrário do contexto. Para isso, um diálogo bibliográfico acerca dos estudos sobre História Agrária e escravismo foi realizado. Neste debate, analisamos os estudos produzidos nos últimos anos com o fim de se discutir os conceitos fundamentais para o trato com o universo social e econômico que se pretende abordar. Esta discussão permitiu compreender as especificidades locais, ou seja, onde a mão-de-obra destes escravos estava sendo utilizada. A pesquisa foi de

encontro com a literatura memorialista, que dava ênfase à questão da capital farroupilha,

reproduzindo uma sociedade local formada com apenas grandes proprietários e peões, negligenciando os negros. A análise das fontes documentais aponta para uma diversidade no que tange à quantidade de bens, entre os escravos africanos e crioulos. Assim, sinalizando para um universo social com uma complexidade maior do que aquela geralmente descrita nas obras que tratam do contexto local neste período.

Palavras-chaves: Escravidão; Sociedade; Inventários post-mortem; Caçapava.

ABSTRACT

The purpose of this research is to analyze social and economic characteristics of Caçapava population in the first half of the nineteenth century, considering the family heritage, through postmortem inventories, in the village of Caçapava, in the 1831-1839 period. It is understood that

the analysis of assets contained in the "real property" of postmortem inventories allows

elucidating the characteristics of this social context. For this, a dialogue of literature concerning studies of agrarian history and slavery was performed. In this debate, we reviewed the studies produced in recent years, in order to discuss the fundamental concepts for dealing with the social and economic universe which is being discussing. This discussion allows us to understand the specific local conditions where the slavery labors was being employed. The research went in a different way in relation of the memoir literature, which emphasized the issue of capital Farroupilha, reproducing a society formed with local landowners and farm workers only, neglecting the black. The analysis of documentary sources points to a diversity in terms of the quantity of goods between the Creoles and African slaves. Thus, signaling to a social universe with a complexity greater than that usually described in works that deal with the local context in this period.

(7)

Tabela – 2. Relação de Ferramentas por Inventário e Presença de Campo

em Caçapava... 33

Tabela – 3. Comparação de Criadores das Vilas de Alegrete, Caçapava, Santa Maria e

São Gabriel... 42

(8)

Gráfico – 2. Porcentagem de inventários com gado vacum e escravos...50

Gráfico – 3. Porcentagem de escravos por origem ...53

Gráfico – 4. Porcentagem africanos por sexo...54

Gráfico – 5. Porcentagem total de escravos por sexo...54

(9)
(10)

2 - CAÇAPAVA EM MEADOS DO XIX ... 15

2.1 – Origem e Localização ... 18

3- UMA ECONOMIA PERIFÉRICA: O CENÁRIO AGRÁRIO DA VILA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO DE CAÇAPAVA. ... 21

3.1- Enxadas, Foices e Gado Vacum ... 26

3.2- Arrendamentos Observados nas Dívidas Passivas. ... 37

3.3- Destacados Criadores Sulinos ... 39

4 - A POSSE DE ESCRAVOS NOS INVENTÁRIOS POST-MORTEM. ... 44

4.1 – Os Senhores de Poucos Escravos da Vila de Caçapava. ... 46

4.2 – Uma Faca de Prata, Um Espelho Grande e Oito Escravas Crioulas. ... 50

4.3 – Africanos, Crioulos e os Muitos Sem Referência. ... 52

5- CONCLUSÃO ... 58

6- FONTES PRIMÁRIAS MANUSCRITAS ... 60

7-FONTES PRIMÁRIAS IMPRESSAS ... 60

(11)

1- INTRODUÇÃO

A escravidão é um assunto que, para a vila de Caçapava, foi pouco discutido e

pesquisado. Nas últimas décadas, com toda uma renovação historiográfica1, tivemos trabalhos

monográficos que começam a abordar regiões que ainda não tinham sido analisadas2. No entanto

ainda temos um grande campo a ser pesquisado. No que diz respeito a Caçapava, os poucos

estudos locais são de memorialistas. Estes não abordam ou quando de forma inexpressiva3, sem

que se faça um esforço de compreensão sobre sua especificidade. No entanto, percebemos através

dos inventários post-mortem, em que aparecem significativamente nas relações dos bens de

moradores do local, um passado em que o escravo esteve presente na vila e atuou enquanto agente histórico4.

A abertura de um processo de inventário tratava-se de um fato corriqueiro das pessoas que eram consideradas mais abastadas, não que este tipo de procedimento não ocorresse com outras camadas sociais. Como Fragoso e Pitzer mencionam:

Assim sendo, a totalidade de inventários post-mortem de um certo ano, em uma certa região, permite apreender a sociedade considerada com a sua economia e diferenciações sociais em um dado momento. É como se tivéssemos uma fotografia de daquela sociedade naquele momento (1988, p. 30).

A partir disso, é possível perceber que os processos de inventário demonstravam aspectos sociais e econômicos daqueles que eram inventariados. Aqui vamos trabalhar especialmente com o patrimônio descrito nestes documentos.

No Ano de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e cinco, nessa mesma Vila de Caçapava, era aberto no dia 28 de novembro o processo de inventário post-mortem do Sargento Mor Antônio Adolpho Charão, este teve como inventariante sua esposa, a

1 O marco desta renovação historiográfica é CARDOSO, 2003. Na década de 80 tivemos trabalhos de FREITAS,

1980. MAESTRI FILHO, 1984. Nos últimos anos os trabalhos da chamada história agrária deram avanços significativos:ZARTH, 2002; OSÓRIO, 2008; FARINATTI, 2010.

2MORAES, 2008; PETIZ, 2009.

(12)

Dona Pacifica Julia Fontoura5. Foram arrolados neste documento dentre outros, campos nesta vila, Pelotas e São Rafael, que hoje faz parte do município de São Sepé. Uma quantidade de gado e escravos extremamente relevante, tendo este 15.540 reses de criar, 99 bois, 595 reses mansas, 2.259 equinos, 800 ovelhas, 124 burros, 21 mulas. A sua escravaria era composta por 58 escravos.

Quando a comparamos com as demais fontes do mesmo recorte temporal e espacial,

percebe-se que se tratava de um senhor de escravos e um pecuarista de grosso trato. Portanto,

nas primeiras análises feitas dos bens saltou aos nossos olhos o plantel decativos, e o seu grande

rebanho de gado vacum e estes nos interessam muito para a amostra desta pesquisa. Estes bens colocavam a família Charão no topo de uma elite pecuarista local.

Nossa proposta aqui é abordar alguns elementos referentes ao processo escravista e as questões agrárias do sul do Brasil. O objeto principal da pesquisa foi identificar a presença de escravos em Caçapava e sua relação com a posse da terra e ou de gado vacum. Trabalharemos com um enfoque diferenciado no que diz respeito ao recorte espacial, comparando com o que já se foi mencionado ou abordado sobre este tema, referentes a esta vila de Caçapava.

Analisando censo relativo à metade do século XX é possível perceber que Caçapava não

tinha uma atividade econômica de destaque como outras regiões6. Naquele dado momento havia

sim, uma mescla entre os cultivos agrícolas e a criação de gado vacum, o que hoje chamamos e

conhecemos como agropecuária. O que deixa mais instigante saber o motivo pelo qual levava as

pessoas a ter escravos em uma região que não tinha uma economia tão abrangente como outras7.

As pesquisas sobre escravidão no Rio Grande do Sul tiveram início na década de 70, com o trabalho do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (2003). Já nos anos 80 tivemos trabalhos que destacamos Mário Maestri (1984) e Décio Freitas (1980). Nas últimas décadas estes autores foram muito debatidos e superados. Pois, os estudos sobre cativos têm tomado um aporte

rigoroso, principalmente na utilização das fontes primárias, como: inventários post-mortem,

testamentos, processos-crimes, cartas de alforrias, registros de batismos, casamentos, óbitos,

compra e venda de escravos e terras, entre outras8. Os resultados destas pesquisas demonstraram

5 Inventário post-mortem do casal Antônio Adolpho Charão e Dona Pacificam Julia Fontoura, Autos 88; Maço 4; Estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes de Caçapava, 1835, (APERS).

6 Ver a respeito nos censo da FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA, 1981. 7 Principalmente as regiões de economia de charqueadas, agricultura e pecuárias.

(13)

a presença extremamente significativa de cativos nas atividades da pecuária, agricultura e reafirmaram essa para as charqueadas.

Assim, para este cenário agrário que possui uma economia voltada para o mercado

interno, tentaremos entender o número que consideramos elevado de cativos em seus plantéis.

Pensamos, portanto, que o correto não seria concluir pela inexpressividade da escravidão, como a visão memorialista a fez, mas sim entender as peculiaridades desta para a região que aqui pesquisamos.

Desta maneira, selecionamos os inventários. Esta documentação é referente ao período compreendido de 1831 a 1839. Nosso objetivo é trabalhar o tema escravidão e o cenário agrário desta vila, pois como já mencionamos o período e o espaço são pouco explorados. A fonte documental utilizada fundamentalmente na pesquisa, conforme já mencionada anteriormente,

serão os inventários post-mortem, sobre os quais Fragoso e Pitzer afirmam:

a estrutura do inventário é bastante recorrente, com poucas variações no tempo, o que facilita uma exploração de sua lógica interna, que poderia ser dividida em quatro partes: 1) a abertura do inventário; 2) a avaliação dos bens; 3) documentos comprobatórios da avaliação e dívidas; 4) partilha dos bens (1988, p. 32).

De certo modo, as possibilidades de tratamento serial, apresentada por este tipo de fonte, permitem uma sensível ampliação de alternativas de abordagem historiográfica. Nesta pesquisa,

inicialmente, utilizamos todos os inventários post-mortem do município de Caçapava de 1831 a

1839. Estes somavam 61 processos, que foram recolhidos e digitalizados em uma planilha tipo Excel for Windows 2007. Esta tabela nos proporcionou 66 campos analíticos, entre estes, inventariado, inventariante, gado vacum, escravos, dívidas entre outros. Em meio a estes foram retirados alguns dados para serem analisados quantitativamente. Ou seja, aqueles que se relacionam diretamente com o objetivo desta pesquisa, e tivessem dados referentes, em especial, aos escravos e as atividades econômicas que estes estavam inseridos. Lembrando que aqui

trabalharemos apenas o que Fragoso e Pitzer (1988) classificaram como “item 2” a “avaliação

dos bens”, com isso, poderemos entender melhor o perfil social de parcela dos habitantes desta

região.

A metodologia aqui aplicada foi a quantitativa (CARDOSO, BRIGNOLI, 2002; VIEIRA,

(14)

chamada „História Serial‟ onde “o historiador estabelece uma série, e é esta aqui particularmente o interessa” (BARROS, 2005. p.122). Nesta pesquisa já temos uma série com base em

inventários post-mortem. Segundo François Furet, em seu Atelier do Historiador, “ele define a

História Serial em termos da constituição do fato histórico em séries homogêneas e comparáveis”

(apud BARROS, 2005. p. 122). Em outras palavras, trata-se de “serializar” o fato histórico, o

inventário post-mortem, para medi-lo, analisar as suas particularidades, compará-lo em sua

repetição e sua variação através de um período determinado aqui para nós de 1831-1839.

Portanto, com quantificação dos elementos existentes nos inventários post-mortem,

conseguimos retirar os dados que melhor se encaixaram para tentarmos sanar as perguntas anteriormente feitas por esta pesquisa. Como por exemplo: a presença escrava na vila de Caçapava. E ainda, podermos identificar e diferenciar a quantidade de homens e mulheres, africanos e crioulos. Com isso, ainda termos uma melhor compreensão da economia local.

Nosso trabalho foi dividido em três partes. Em um primeiro capítulo, nos dedicamos à uma revisão da historiografia tradicional produzida sobre a formação de Caçapava. Nesta parte também foi feita uma análise bibliográfica contando com memorialistas locais, em que estes apresentam informações sobre o processo histórico do município. A partir destas informações, e com base na historiografia mais recente, discutimos alguns dos aspectos relacionados à posse da terra, à formação social e à presença da escravidão.

No segundo capítulo, a partir da documentação que analisamos e dos estudos da chamada História Agrária, discutimos elementos da economia local, especialmente a pecuária. Com isso foi possível visualizar uma elite local pecuarista, não mencionada pelas obras dos memorialistas e demais pesquisas existentes sobre o contexto. Esta camada mais abastada foi possível de ser visualizada pelo trabalho com inventários.

Em um terceiro capítulo abordamos a posse de escravos por meio dos inventários

(15)

2 - CAÇAPAVA EM MEADOS DO XIX

Caçapava, antes mesmo de ter o desmembramento de seu território dos municípios de Cachoeira e Rio Pardo, já era conhecida pela sua paragem de tropeiros. Segundo Abrão (1992,

p.16), “muito antes de seu povoamento, já era conhecida a “paragem ou povo de Caçapava”, por

tropeiros, aventureiros e, principalmente os bandeirantes paulistas que vinham ao continente de

São Pedro do Sul [...] para arrebanhar o gado xucro que pastava solto pelo vasto pampa”.

Ao analisar estudos sobre o Continente do Rio Grande de São Pedro, referentes ao século

XIX, percebemos que esta região, tinha a predominância da grande extensão de terra e uma

fronteira ainda não demarcada 9. Uma das variadas formas de se constituir e demarcar a fronteira,

era por meio dos moradores destes confins. Pois, foi no final do XVIII e no início do XIX que o Império do Brasil vai ter maior interesse no sul, para apoiar a Colônia do Sacramento e para

manter o fluxo de gado destes campos10.

As formas de se conseguir terras no sul eram variadas, pois estamos falando de um

período anterior a Lei de 185011. Assim, podemos mencionar que a terra era adquirida por meio

do recebimento de sesmarias, que consistia em benefícios por serviços prestados ao Império. Outra forma de aquisição eram os apossamentos. Em muitos casos, os sesmeiros recebiam sesmarias de campos e se apossavam de quantidades maiores, se baseando na fragilidade das instituições estatais que não possuíam controle eficiente sobre este aspecto. Havia também a

questão das compras de terras e os arrendamentos, que não deixa de ser uma de forma de posse12.

Entendemos, que neste período do início do XIX, outro fator que demarcava territórios eram as guerras destas paragens. Desde as constantes guerras entre a coroa portuguesa e espanhola pela região. Exemplos também destes enfrentamentos eram as constantes batalhas com os castelhanos da banda oriental, muito em virtude de terras e gado vacum, pecúlios vitais economicamente para esta região que estava em formação.

9 Ver In. : OSÓRIO, 1990.

10

In. : KÜHN, 2002.

11 Ver In. : MOTTA, Márcia. Sesmeiros e Posseiros nas Malhas da Lei. In. : _________Nas Fronteiras do Poder: conflitos de terra e direito agrário no Brasil de meados do século XIX. Campinas: Unicamp-IFCH. Tese de doutorado, pp. 156-209.

(16)

Neste ponto das guerras podemos destacar outro forte conflito que foi a Guerra dos

Farrapos13, esta mobilizou boa parte do povo que vivia aqui no Rio Grande de São Pedro. Esta

teve como motivador central as questões econômicas ligadas ao gado vacum, especialmente, o valor do charque sulino. Pois naquele período era o motor da economia da província, com a exportação do charque para o mercado interno.

O Brasil Meridional era uma região em que os rebanhos ainda circulavam livremente, este

fato era um grande atrativo para os homens que vinham guerrear, e sentiam se atraídos por estas

paragens e lá iam se estabelecendo, isso muito em virtude do gado e dos campos onde estas reses vagavam. As lutas para manter a posse da territorial e os benefícios que esta propiciava para as pessoas, tornavam estas questões mais fortes e complexas, pois lutar pelas terras da coroa tinha um significado, mas lutar pelos seus próprios campos que o Império os tinha concedido como

sesmaria tinha outro status.

Assim, visualizamos a forma como iam sendo formuladas na primeira metade do século XIX as sesmarias. Estas eram distribuídas para os que ali estavam se instalando, e com isso, constituindo uma espécie de linha fronteiriça, onde as propriedades eram o estímulo para manter as fronteiras contra as invasões castelhanas. Portanto, é possível perceber que o Sul estava dominado pela vastidão das terras, de tal modo, as propriedades foram sendo formadas e a diversidade produtiva. Muitas unidades produtivas vieram a desaguar nos grandes latifúndios.

Primeiramente tivemos uma historiografia de cunho tradicional que trabalhava com um binômio, onde havia apenas os estancieiros e os peões nestas paragens. Neste ponto era negligenciada a presença dos lavradores e principalmente os escravos. No entanto, estas afirmações foram sendo superadas por uma historiografia que primeiramente trabalhou com as questões da escravidão, destacamos Fernando Henrique Cardoso (2003), embora já bastante discutida sua abordagem, mas esta foi uma das primeiras a afirmar que teve escravidão no Brasil

Meridional14.

Já para um período posterior, tivemos os trabalhos da chamada História Agrária. Estes superaram a visão de Cardoso e aprofundaram as análises, demonstrando o tão complexo era a vida na região sulina. Destacamos aqui três autores, Paulo Zarth (1997; 2002), Helen Osório

(17)

(2007) e Luís Augusto Farinatti (2010). Estes autores usaram em seu corpo documental de análise

inventários post-mortem, mesmo tipo de fonte que aqui trabalharemos.

Estes autores por intermédio de suas pesquisas foram demonstrando o quanto eram complexo viver nas paragens sulinas. Desde as formas como aquelas pessoas buscavam ganhar

espaços, tanto economicamente quanto no âmbito social. Com isso estes autores cada vez mais

levantaram questões para serem pesquisadas. Segundo Zarth:

A província do Rio Grande do Sul, do século XIX, é um bom exemplo para ser estudado, pois caracterizou-se como uma região secundária dentro do contexto agro-exportador brasileiro. Sendo assim, poderemos verificar até onde as explicações da historiografia geral do Brasil, baseada nos centros agroexportadores, servem para esclarecer os fenômenos da história regional. O extremo Sul do Brasil, apesar de sua economia secundária no contexto brasileiro, foi muito importante em termos políticos e militares diante de sua condição estratégica na conflituosa bacia do Prata. Esta é uma das suas principais características e que influenciou muito no processo de ocupação do seu território. Por outro lado, assim como a província sulina possui características próprias, ela reproduziu em muitos aspectos o modelo geral do país (latifúndio e escravidão, por exemplo), o que nos leva a fazer constantes referências à historiografia geral do país ou a provinciais importantes (2002, p. 30-31).

Partindo deste ponto, nossa pesquisa tem como alvo uma melhor compreensão sobre o tema escravidão e o cenário agrário sulino. Para isso elegemos um espaço a ser analisado, este a Vila de Caçapava. Com isso, abordaremos aqui um pequeno histórico sobre Caçapava.

Nos anos de 1809 no início da formação do que hoje conhecemos como estado do Rio

Grande do Sul possuía uma estrutura com apenas quatro cidades, que são: Porto Alegre, Rio

Grande, Santo Antônio da Patrulha e Rio Pardo. Caçapava por sua vez era Freguesia de Rio Pardo.

O município de Caçapava do Sul, que aqui trataremos apenas como Caçapava, pois ainda não tinha recebido a alteração toponímica municipal. No dia 5 de julho de 1800, como padroeira a Nossa Senhora da Assunção, foi criada uma Capela Curada. Este foi um passo muito importante para a população que ali vivia. Temos então desde 1800, um padre na vila, com isso haveria a presença de um padre na cidade, onde os casamentos e batismos e óbitos eram feitos ali mesmo. Este fato além de ter a compleição religiosa no local, fez com mais pessoas ali fossem

morar. Assim, a incipiente povoação na região foi crescendo15.

(18)

A seguir, tivemos a elevação desta para categoria de vila, com a resolução de 25 de outubro de 1831.

Segundo dados fornecidos por dois cultivadores dessa classe de estudos (padres) e até publicados alhures, a ereção da Freguesia teria efetuada a 25 de outubro de 1831, na mesma data em que por decreto n.° 13 Caçapava foi elevada à categoria de Vila (RUBERT, 1956. p. 31).

Esta data de 1831 é um marco que utilizamos para início desta pesquisa. Em 19 de janeiro de 1834 deu-se a instalação do município, período que coincide com a maior quantidade documental de inventários que trabalhamos.

E, finalmente, a 9 de dezembro de 1855, foi a vila de Caçapava elevada à categoria de cidade. O território foi desmembrado dos municípios de Rio Pardo e Cachoeira em 29 de maio de 1846, elevado à categoria de vila, tendo definido provisoriamente os seus limites municipais, que

seriam consolidados em 187116. Percebemos que em poucos anos a paragem teve algumas

alterações bem significativas para sua história.

2.1 – Origem e Localização

Caçapava está situada no centro oeste do estado do Rio Grande do Sul, a sua região

também e conhecida como Alto Camaquã, pois esta é banhada pelo rio Camaquã17. Seu nome

deriva da Paragem de Cassapava, que era um lugar onde tropas usavam para fazer seus

acampamentos. Já a palavra Cassapava tem origem na língua Tupi Guarani, que significa

Clareira na Mata. Esta era a forma como os índios chamavam áreas entre matos justamente a

região onde eram feitas as paragens, que hoje temos a cidade de Caçapava do Sul18.

A seguir temos um mapa com a localização de Caçapava, no entanto este é um mapa de alguns anos posterior ao nosso recorte, porém serve muito bem para nossa análise.

16CASSOL, 1985, 1988. ABRÃO, 1992.

(19)

Figura – 1

Mapa do Rio Grande do Sul - 1850.

FONTE: Adaptado de ARAÚJO, 2008. p. 28.

Com o passar do tempo esta região vai recebendo uma ocupação populacional, que é

timidamente iniciada por volta das últimas décadas do século XVIII. Muito por conta dos acampamentos militares, que utilizavam esta região de clareira, pois, se tratava de locais geograficamente ideais para as observações militares de tropas inimigas.

Temos relatado na obra do Pe. Arlindo Rubert (1956) menções sobre os primeiros povoamentos:

Caçapava surgiu em terrenos pertencentes ao Capitão Francisco de Oliveira Porto. Mas êle não foi o primeiro senhor da localidade. Consta dos documentos que houve moradores na zona desde 1781. Em 1787, por exemplo, José Ortiz da Silva, pai do Padre Fidêncio, comprou uma sesmaria de campo nos galhos do Irapuá, que havia já

(20)

estavam localizados diversos moradores, com seus estabelecimentos e benfeitorias, muito antes de 1800. O primeiro proprietário da área, onde hoje se ergueu a cidade, foi Vicente Venceslau Gomes de Carvalho, que dela se apossou por volta de 1783, o qual, a 30 de janeiro de 1792, vendeu sua posse ao Capitão Francisco de Oliveira Porto, de Rio Pardo, pelo avultada quantia de quatro contos de réis (1956, p.5).

A região que veio a ser chamada de Caçapava acompanhou a lógica daquele momento histórico das formações das localidades, com os apossamentos e os recebimentos de sesmarias.

Percebe-se na obra As Freguesias de Caçapava e de Santaninha, relatos da presença uma

pequena parcela de moradores. Rubert (1956) denominou estes como lindeiros, ou seja, aqueles

que estão longe do núcleo de povoamento. Mas para este caso, sabemos que não havia ainda uma urbanização de fato, ou um núcleo, este termo foi utilizado para fazer menção aos poucos agrupamentos que estavam surgindo ao redor do que hoje é conhecido e demarcado territorialmente como cidade de Caçapava do Sul.

Foi possível perceber que desde a elevação da localidade para Capela Curata, que está

datada em 1800, sua população significativamente aumentou19. Esta tinha suas origens

diferenciadas; portuguesas, espanhóis, africanos, índios, e depois das imigrações de italianos e

alemães, estes também ali foram habitar20. É claro que não podemos dizer que temos uma

distribuição igualitária entre as etnias, mas estas estavam presentes no povoamento desta região21.

Temos cada etnia com suas particularidades, desde os negros africanos até seus senhores de origens européias. Embora, muito ainda tenha que ser pesquisado sobre a questão da escravidão nesta região, fica evidente a presença escrava. Segundo Rubert: “não havia, naqueles tempos, família sem escravos, até o bom Pe. Fidêncio os possuía [...]” (RUBERT, 1956. p.9),

indo de encontro com a idéia de Cardoso que via “a importância relativamente pequena do

escravo na organização do trabalho do Brasil Meridional” (CARDOSO, 2003. p.57). Rubert

rebate ainda mais a idéia de Décio Freitas (1983) que para este autor “nos municípios agrícolas,

ou que combinavam agricultura e pecuária, a população escrava era muito superior à dos

municípios exclusivamente pastoris” (1983, p.12). Pois, o número de cativos que encontramos é

bem inferior aos encontrados na região que predominavam a pecuária. Farinatti (2006) encontrou uma quantidade bem superior de cativos, comparando com o número de escravos aqui

19 Ver censos da FEE. FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA, 1981. 20 RUBERT, 1956.

(21)

encontrados.

(22)

3- UMA ECONOMIA PERIFÉRICA: O CENÁRIO AGRÁRIO DA VILA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO DE CAÇAPAVA.

Nas últimas décadas tivemos algumas obras referentes à História Agrária22, estas

pesquisas basearam-se nos trabalhos da história regional francesa de Marc Bloch (1992) e Pierre Goubert (1968). Estas pesquisas, como as de Castro (2009) e Fragoso (1998) demonstraram uma diversificação do mercado interno brasileiro, muito além do mercado exportador, usando como campo de análise o Rio de Janeiro.

Para a esfera rio-grandense, tivemos pesquisas que buscaram referenciar estas obras anteriores. Desta forma, contribuíram substancialmente para o entendimento das relações existentes entre as pessoas que primeiramente ocuparam as paragens sulinas.

Neste viés das novas abordagens, citamos a obra de Paulo Zarth (1997, 2002) como pioneira para o cenário sul meridional. A análise de Zarth, que enfocava o planalto gaúcho teve um embasamento nas fontes primárias. Este estudo veio desmitificar a bipolarização dos agentes sociais, ou seja, não havia somente estancieiros e peões. Dentro desta mesma perspectiva temos o trabalho de Helen Osório (1990, 2007) que demonstra uma sociedade que vai ocupando o Brasil Meridional, onde esta é diferenciada, tanto etnicamente, quanto pelas práticas econômicas que são baseadas na terra e nos pecúlios que ali eram gerados.

Outro trabalho que vem contribuir consideravelmente no entendimento do que era viver em um cenário agrário, é a obra de Luís Augusto Farinatti (1999, 2010) que trabalha com a região central e a campanha. O autor além de corroborar com os autores sulinos anteriormente citados demonstram em suas análises uma vida social extremamente complexa. Onde havia uma sociedade que não era habitado apenas por estancieiros e peões, ali, também estavam escravos, libertos, índios e homens livres.

Partindo destas obras, buscaremos o entendimento do cenário agrário da vila de Caçapava no período de 1831-1839. Tentaremos entender qual era ou quais eram as formas produtivas daquela região, será que as práticas da pecuária eram tão relevantes para essa localidade, quanto para outras? Com isso, buscaremos uma melhor compreensão da divisão social que ali existiu, e assim, entender se o período foi realmente de um cenário bipolar, onde habitavam apenas

(23)

estancieiros e peões, ou era uma sociedade mais complexa, como acreditamos que fosse. Portanto, estas são questões que trabalharemos no decorrer desta parte da pesquisa sem deixar de observar as especificidades do tipo de fonte que estamos trabalhando.

Para podermos fazer essas reflexões, utilizaremos uma fonte que possui dados de total

relevância, os inventários post-mortem23. O inventário é um documento extremamente rico,

embora não toque todos os extratos sociais. Sabemos que a prática de abrir um processo destes, não era praticada por todos, mas sim, as camadas mais abastadas. Contudo, não podemos excluir outras parcelas sociais de os realizarem, pois isso também ocorria.

Assim, tentaremos demonstrar um pouco do que seria a economia de Caçapava, nestes anos do séc. XIX aqui propostos. Daremos suporte para pesquisa com as informações contidas

nos inventários post-mortem, e cruzando estas com uma bibliografia que trabalhou as paisagens

agrárias sulinas para este período pesquisado ou para tempos próximos.

Nosso recorte espacial será a região de Caçapava. Já nossa demarcação temporal como anteriormente mencionamos será 1831-1839. Essas datas marcam primeiramente, em 1831 a elevação da freguesia de Caçapava para vila. Logo o ano de 1839 é bem mais emblemático, pois esta baliza não somente a chegada dos Farroupilhas nessa vila massivamente, mas também pela passagem desta para capital da República Sul Rio-grandense. O ano de 1839 também marca o

esgotamento das nossas fontes, estas voltam a serem realizadas pós-guerra dos farrapos24.

Para este período, a escassez das fontes pode ser explicada pelo fato das constantes guerras, pois é algo que não podemos desconsiderar, estes são os anos em que os Farroupilhas ainda estão em certa vantagem. Podemos notar que até o ano de 1835 temos considerados números de inventários, embora este ano marque o início dos confrontos da Guerra dos Farrapos, e com isso teremos certamente uma desestabilidade nesta região.

Ainda refletindo sobre o recorte por onde a pesquisa vai caminhar, esta pode nos revelar a

quantidade de escravos e estes dados podem ser quase que absolutos no que se referem à fonte

trabalhada. Pois trabalharemos aqui com todos os processos de inventários post-mortem que estão

presentes no Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS) para o período sugerido. Seria muito interessante analisarmos os reflexos da guerra nos anos finais, ou seja, nos cinco primeiros

23

FRAGOSO, João; PITZER, Renato, 1988.

(24)

anos da década de 1840, porém, já foi mencionado que não encontramos nenhuma amostra de inventários para o período dos primeiros cinco desta década ( ver gráfico 1).

Gráfico-1

Distribuição de inventários por ano segundo lista do (APERS) para Caçapava.

Fontes não trabalhadas. Fontes trabalhadas

Fonte: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, (APERS).

O gráfico acima nos mostra os anos que pesquisamos dados que foram retirados da lista de inventários do Arquivo Público. No entanto, o número de processos para os anos de 1844-45 não foram encontrados no arquivo. Assim, nossa mostra, ficou mais reduzida em anos, com o recorte de 1831 a 1839. Tínhamos como meta também visualizar inventários que batessem com os anos finais da Revolução Farroupilha.

Aqui, trabalhamos maciçamente com a parte dos bens dos processos post-mortem. O

inventário é uma fonte seriada25 que foi será o pilar central da pesquisa. Os dados contidos nestes

61 registros de analisados para este período foi possível mapearmos parcela dos bens daquela

sociedade. Para podermos drenar estes informações, foi criado um banco de dados no Microsoft

Office Excel2007. Este banco de dados teve uma total de 66 campos analíticos, que foi possível analisar, os bens dos inventariados. Para assim, tentarmos entender melhor como estes viviam economicamente. Para nossa surpresa tivemos uma grande maioria de processos nos anos de 1834 e 1835, que detalhamos no gráfico 1.

(25)

Percebemos o promissor ano de 1834, pois contém uma representação documental que chega a 52% de toda a nossa mostra, ou seja, mais da metade dos processos deste período estão neste ano. Isso talvez possa ser explicado, pois, sabemos que determinados processos eram abertos em anos posteriores à morte do inventariado, sendo assim, podemos deduzir o grande número nos anos de 1835 e 1834, embora não possamos afirmar, pois não cruzamos aqui fontes de óbitos. Para corroborar com esta idéia, também não transcorriam muitos anos de paz, pós os ocorridos da Guerra Cisplatina.

Outro fato é que essa região passava constantemente por uma endemia bélica e, por isso, talvez, não tenhamos uma maior mostra para outros anos com a mesma expressão. Pois o medo constante dos enfrentamentos pode ser visualizado no inventário de Maria Josefa de Araújo quando este é realizado:

[...] declarou mais que por causa da invasão do inimigo se tem declarado neste inventário oito centos e sessenta reses da estância do Biquiri Mirim e trinta e oito cavalos e duas éguas madrinhas, únicos animais que por ora tem podido retirar dali e logo que o estado da guerra de lugar a que der cuidar no mais se acha [...] assim como outras muitas fazendas desta província de tudo não poder fazer sua partilha26.

Podemos notar que não foi possível avaliar todos os bens por causa da guerra, e que esta,

a guerra, também deveria estar afetando não só esta fazenda, mas outras desta região.27.

Outro ponto relevante é a provável organização de tropas para os confrontos da Guerra

dos Farrapos28 que tiveram duração de dez anos, e iniciaram em 1835, isso também pode explicar

a falta desta documentação, ou a quantidade baixa em certos anos. Este último fato também auxilia-nos a explicar a falta de inventários para a década de 1840, pois se discute muito a forma itinerante das tropas republicanas, muito provavelmente isso trouxe um medo constante para os que viveram nestas bandas, onde as fronteiras eram ainda incertas.

Portanto, a fonte que aqui estamos trabalhando, nos descreve muito dos agentes daquele tempo, em alguns momentos, podemos compreender que geralmente o inventariado é o patriarca de uma família ou sua esposa, claro isso não é regra, mas ocorre com uma grande frequência. Os

26 Inventário

post-mortem de José Munhoz de Camargo e sua esposa Maria Magdalena do Espírito Santo; Ano

1827. Autos 27; Maço 2; Estante 90; APERS.

27 Sobre este tema de guerras e seus relatos nos inventários em ver

In. : FARINATTI, 2010.

(26)

inventários eram abertos para realizar a discriminação dos bens das famílias, muito em virtude de futuras divisões dos mesmos que ali estavam arrolados. Assim, em alguns destes pode ser visualizado relatos diversos, como o de guerras, como citado anteriormente.

3.1- Enxadas, Foices e Gado Vacum

Ao fazermos uma análise dos bens de raiz, percebemos uma grande desigualdade, e esta

fica bem evidente quando comparamos as quantidades de gado vacum. Primeiramente então, vamos abordar a distribuição deste rebanho vacum que está presente nos inventários, e assim, iremos pontuando as diversidades, não somente com aqueles que mais tinham reses, para os que menos tinham. Mas também, abordaremos as disparidades internas de cada faixa que aqui foi criada (ver tabela 1).

Sabemos que as práticas com pecuária podem nos auxiliar a entender aquela sociedade.

Por exemplo: podemos diferenciar quem eram os criadores29 e lavradores30, ou as mesclas entre a

agricultura e pecuária. Segundo Helen Osório “a quantidade e tipos de animais possuídos por cada proprietário é o único dado relativo à produção, além da ocupação declarada, que a “Relação” fornece” (2006, p. 124), ou seja, a analogia entre o meio de produção e proprietário.

Na tabela 1 percebe-se que a maior quantidade de inventários está na parcela dos

produtores31 que tem de 101 a 500, mas isso não significa que ali estejam os mais ricos32, ou os

maiores rebanhos. Por sua vez, os maiores rebanhos estão representados pelo grupo 501 a 1.000 reses, isto, quando excluímos o maior rebanho, que passa das 10.000 cabeças de gado vacum, pois este foge a regra pela quantidade exorbitante de seu rebanho. Estas reses estavam nas fazendas da família Charão, que trataremos separadamente, tanto pela riqueza dos bens, e pelos detalhes que estão contidos no inventário de Adolpho Charão.

Partindo da idéia que, as propriedades que “dominavam” ou mais apareciam no cenário da

vila de Caçapava naquele período, claro levando em conta o gado vacum, eram os que tinham

29 Chamaremos de criadores todos os que tiverem rebanhos superiores a 500 para esta vila e esta análise. 30 Aqui vamos utilizar a mesma denominação que Osório 2008 utilizou.

31 Estamos utilizando a denominação produtor em um âmbito geral.

(27)

501 a 1.000 cabeças. Dentro deste raio, temos 11 inventários, e chamamos a atenção para dois destes para tentamos melhor entender este grupo e suas diferenças (ver tabela 1).

Primeiramente temos o inventário de Roberto Pinto dos Santos e sua esposa Maria Silveira com 508 cabeças de gado vacum, este era o casal que menos possuía gado nesta escala aqui criada. Em contrapartida, temos as 978 reses do casal Manoel de Souza Teixeira e sua esposa Perpétua Joaquina do Nascimento, que eram os que possuíam o maior rebanho vacum. Aqui, já percebemos uma diversidade, ou seja, uma disparidade, pois a quantidade de gado de Teixeira é quase o dobro do rebanho de Santos. Assim, percebemos que dentro de um mesmo “grupo” temos uma grande diferenciação, e por este fato, acreditamos que chamar um proprietário de lavrador ou de criador, simplesmente pela sua quantidade de gado não nos responda tudo.

Helen Osório criou alguns modelos médios de animais que teriam os lavradores para o Rio Grande do sul.

Um proprietário que possuísse 61 reses, 6 bois, 6 cavalos e uma égua era lavrador. [...] Exemplos da faixa pobre de lavradores, moradores da freguesia de Triunfo, dois deles

pardos forros. Literalmente a informação diz “vive pobremente de algumas lavouras”.

Possuíam eles de 12 a 30 reses, nenhum boi, alguns cavalos, éguas e potros, animais que não lhes garantiam uma existência decorosa (OSÓRIO, 2006.pp. 124-125).

Estes valores também estão presentes em nossas análises, no entanto, não temos a convicção de afirmar se os lavradores com poucas reses não tinham condições de sobreviver somente com a pecuária, pois sabemos que este é um período em que as redes de clientela eram muito fortes. Neste caso, poderia haver a venda de algumas reses de pequenos e médios proprietários, juntamente com grandes rebanhos de estancieiros.

Acreditamos que por esta região ser de pequeno porte, ou seja, de uma economia subsidiária inferior a outras, entendemos que os rebanhos são menores, principalmente se compararmos com as regiões de grande pecuária como os demonstrados por Farinatti. O autor aponta que os quinze maiores produtores para Alegrete tinham:

(28)

Pecuarista deste calibre em nossas fontes apenas o Adolpho Charão, pois é o único que possuía terras em lugares separados, casa na cidade e uma grande quantidade de gado vacum.

Assim, os dois exemplos anteriormente mencionados encaixam-se em uma parcela de proprietários que tinham uma representatividade de 22% do gado vacum para esta análise. Isso, considerando o inventário do produtor que mais apresentava rebanho vacum. Este por sua vez, era detentor dos 50% de todo o montante de reses do período em questão. Mas quando retiramos este criador, por apresentar-se como uma exceção, vemos o valor duplicar, chegando a faixa à faixa de 44% do gado aqui considerado.

Assim, temos dados que mostram que os criadores de gado vacum para esta região eram aqueles que tinham de 501 cabeças para mais, mas isso não exclui estes de terem outras formas produtivas, como as lavouras, embora os censos de 1858 não mencionem nenhuma produção

agrícola, de exportação33.

Embora, tenhamos uma grande diferença, como as quantias de gado, mas havia muitas paridades e estas não se resumem apenas na posse de gado, mas também quando olhamos para os materiais, ou seja, Manoel de Souza Teixeira não possui ferramentas, como também Roberto Pinto dos Santos, não tinha arrolado em seus bens materiais do trato com terra, ou melhor, até os tinha, mas em uma quantidade ínfima. Estes se resumiam em uma enxada e uma foice. São traços que ligam este às atividades agrícolas, e não podemos negar.

(29)

TABELA 1

Distribuição do gado vacum em Caçapava (1831-1839).

Fonte: 53 Inventários post-mortem de Caçapava do Sul 1831-1839; (APERS).

Quando levamos em conta a questão de uma maior representatividade, de inventários, então temos o montante de 30%, que nos apontam para uma escala que tem a terceira representação (ver tabela 1) em relação a quantidade de gado vacum, retirando o maior proprietário. Embora estes detivessem a maior quantidade inventários, mas isso não teve força na representação de gado vacum para o período em questão. Pois, a parcela de 6%, que representa apenas três proprietários, estes detinha um maior rebanho que era 13% contra os 12% dos anteriores. Para estes três, eles até podem ser chamados apenas de criadores, sem vincularmos outras atividades, não que estes não as tivessem.

Em uma primeira análise, parece que temos um nível bem homogêneo, de 12 a 13%. Porém, o 1% de diferença, que seriam aproximadamente 420 reses, que não seria a quantidade de gado vacum de um criador em nossa pesquisa. Este montante equivale pouco menos do que às reses de dois proprietários, e é claro fazendo uma divisão igualitária. Portanto, grosso modo, a diferença entre estes dois proprietários, que são os da escala de 101-500 cabeça, estes tinham 242 reses, contra 1.432 do grupo dos mais de 1.000. Aqui, foi feita uma divisão do total de gado para todos dentro de cada grupo. E, assim, ficaria fácil de dizer quem eram os criadores e os lavradores, porém acreditamos em uma maior complexidade.

Por isso, não podemos tomar por base apenas a quantidade de gado que estes tinham para identificar as suas produções, não estamos aqui trabalhando com grandes proprietários, no que

Nº de cabeças de Gado

Vacum

Nº de

Inventários Inventários % de Quantidade de cabeças de Gado Vacum

% de Gado Vacum

1 – 50 13 24% 246 1%

51 – 100 9 17% 712 2%

101 – 500 16 30% 3.877 12%

501 – 1000 11 21% 7.044 22%

+ de 1.000 3 6% 4.296 13%

+ de 10.000 1 2% 16.234 50%

(30)

diz respeito ao cenário sul meridional34. Aqui, temos uma quantidade pequena de proprietários com rebanhos superiores a 1.000 cabeças, como exemplificamos anteriormente, chegando índices de 8%. Isso também nos leva a crer que estes não viviam exclusivamente da pecuária. Porém, para este escala de pessoas ela colaborava substancialmente. Para reforçar estes dados, basta olharmos novamente para os bens de Roberto Pinto dos Santos, que tinha um rebanho de 500 reses, ele possui 8 bois, além de um número pequeno de ferramentas, que podemos ligar com atividades agrícolas.

Este caso não se enquadra perfeitamente ao formato criado por Helen Osório (2007), mas,

é um proprietário que tinha mais criação do que lavoura, e não o contrário35. Aqui acreditamos

que este tem uma produção superior na pecuária, pois as ferramentas em seu inventário não passavam de uma foice e uma enxada, anteriormente mencionadas.

Já Manoel de Souza Teixeira e sua esposa Perpétua Joaquina do Nascimento, estes podemos dizer com certeza que eram apenas criadores, pois não foi encontrada em seu inventário nenhuma ferramenta que os conectassem com as práticas agrícolas. Se este tinha estas práticas, os avalistas não fizeram questão de mencionar em seus bens. Assim, estes dois exemplos, que são os extremos dentro de nossa escala de 501-1.000, nos revelam um pouco de como era a sociedade naquele período. Mais adiante cruzaremos a questão do gado vacum com as ferramentas, para termos uma visão mais aproximada das atividades produtivas dos que ali viviam.

Com um trabalho de mesmo viés, Osório (2007) apontou que cada produtor tivesse uma média de 6 bois para cada 61 reses, este seriam denominado lavradores, pela quantidade de gado vacum. Acreditamos nesses números, porém, nossa análise foge um pouco dos dados mostrados por Helen Osório. Aqui chamaremos de lavradores aqueles que tiverem arrolado em seus inventários ferramentas para o trato da terra, e com um número inferior a 500 cabeças de gado vacum. Destacamos que temos poucos criadores com mais de 1.000 cabeças de gado vacum, ou seja, 8% de nossa mostra. Por isso, acreditamos que um criador poderia ter de 500 reses. Portanto, não podemos dizer que os demais são lavradores por não ter uma quantidade igual ou superior a 1.000 reses, mas que as ferramentas arroladas em seus inventários dão indícios de lidas com a terra. Certamente, teremos casos que somente essa fonte não dará as respostas, mas

34

Ver In. : FARINATTI, 2010.

35

(31)

também temos certeza que muito será explicado como já estamos fazendo somente com esta fonte.

Todavia, consideramos os trabalhos anteriores, que enquadram em subgrupos, como estamos fazendo aqui vitais. Porém, percebemos que as fontes nos mostravam um universo ainda bem mais complexo, onde, além deste primeiro exemplo anteriormente citado, temos outros, que possuem um leque diferenciado em suas produções. Para melhor entendermos estes agentes sociais, para Barth (apud FRAGOSO, 2006) entende se que esta sociedade que efetuavam

relações com o meio ambiente, não podem simplesmente serem encaixadas em uma abordagem

estruturalista. Como se todos que ali viveram fossem iguais, e que todos tivessem os mesmos semoventes. Assim, estas pessoas agiam conforme os seus recursos, por isso é um tanto simplista de nossa parte enquadrar simplesmente em parcelas como lavradores, e outros fazendeiros, apenas pela sua quantidade de gado. É claro que isso nos serve muito, mas não é regra, quando olhamos para esta região do Brasil.

Para melhor exemplificar estas particularidades, que acreditamos não serem exclusivas

desta paragem. Verificamos no inventário de Izabel Marques de Jesus e seu marido Manoel Corrêa Marques, estes, por sua vez, não se encaixam naqueles modelos em que Helen Osório (2007) coloca, pois estes possuíam 50 bois e 70 reses mansas, 12 cavalos mansos e 12 éguas xucras. Por este exemplo este não se encaixa em nenhum dos subgrupos de criadores feitos por Osório. Outro fato é que foram arrolados em seus bens ferramentas como três machados, três foices, seis enxadas e uma serra. Estes utensílios nos levam a crer que em seu rincão de terra havia alguma produção, em que seus onze escravos os auxiliavam, tanto as duas mulheres nas

lidas da casa quanto os nove homens36. Estes, com certeza deveriam auxiliar no manejo com o

gado manso, que deveriam retirar os derivados da carne e leite para o seu sustento e para algum tipo de comércio local, como também para produção de subsistência da propriedade, de tal forma que consideramos um lavrador.

O inventário do casal acima citado está dentro do cenário dos que possuem entre 101 a 500 cabeças de gado. Para podermos entender um pouco melhor como era essa economia, pois percebemos que o gado vacum em sua grande maioria, estava nas mãos de uma parcela pequena de produtores, como foi destacado na tabela 1 anteriormente. Outro ponto de destaque é a

36

(32)

presença de ferramentas associadas a terras. É claro, que muitos poderiam ser arrendatários, mas nossa fonte não nos forneceu nenhum dado referente a estes práticas pelo inventariado, nem nas dívidas ativas e nem passivas.

Ao analisar a tabela 2 podemos perceber que mais da metade dos processos tinha ferramentas arroladas como bens. Chamamos atenção para o pouco número de materiais do trato da terra na escala de 0-50 cabeças de gado vacum. Neste ponto, consideramos todos os inventários, pois também temos que identificar as formas produtivas dos que temos certeza que não viviam do criar gado para abates, e dos que não os tinham.

Neste recorte, temos um número muito pequeno de ferramentas, que é 19%, talvez seja um dos mais instigantes, pois quebra com uma visão de que os que menos tinham gado certamente estariam envolvidos com as lavouras, ou era algo que achávamos. Esta mostra comprova, via inventários, que 81% não possuíam nenhuma ferramenta, e estes, muitas vezes com pouquíssimas reses. É o caso do inventário de Anna Clara de Jesus, ao qual está incluída em seus bens uma vaca com cria nova, duas novilhas uma de dois e outra de um ano, um cavalo e

três escravas37. Ou seja, as reses não chegam a 10 unidades. E alertamos para a presença de

escravos, embora um plantel pequeno, mas representativo.

O que podemos retirar deste exemplo, é que estes eram certamente mais pobres, e talvez fossem pessoas que viviam em uma situação econômica bem inferior. E muito provavelmente fizeram um inventário para dividir estes poucos bens que estes tinham, que em alguns casos foram recebidos por herança. Esses questionamentos são bem aceitos, pois nem todos abriam um processo de inventário. Assim, estes além de ter uma pecuária de subsistência, esta era associada com as atividades da agricultura. Exemplos destas práticas agrícolas foram encontrados em Alegrete, por Farinatti.

A produção agrícola ocupava papéis distintos nos diferentes estabelecimentos de criação. Muitos deles levavam a cabo o cultivo de trigo, feijão, mandioca e milho, em escala reduzida, cobrindo apenas parte da necessidade de autoabastecimento, enquanto outros chegavam a produzir pequenos excedentes que enviavam para o mercado. Não há como medir, com maior precisão, o volume e o papel dessa produção, tanto mais quando se tratava daquela destinada apenas ao abastecimento interno (2010, p.126).

(33)

Para esta localidade também foi possível visualizar por meio dos inventários, o envolvimento de algumas propriedades com as práticas agrícola, em alguns casos, basta visualizar a tabela 2isso fica mais nítido. No entanto, podemos arriscar em dizer que para esta mostra os criadores possuíssem uma quantidade menor de gado em relação a outras localidades.

Aqui, temos um grupo de proprietários que possuía 500 cabeças para mais, acreditamos que para esta localidade podemos chamar estes de criadores. Pois, pela análise de seus bens, estes poderiam ter vivido majoritariamente deste pecúlio, muito embora, acreditamos que em muitos casos pela falta de ferramentas ou pelo número reduzido destas. Mas, podemos relacioná-los com outros trabalhos, como a lavoura, as ferramentas estavam presentes, embora, às vezes em números reduzidíssimos.

Por este fato acreditamos que fica muito difícil apenas dizer que estes proprietários eram criadores, mas não só, estes mesclavam as atividades, embora que neste caso como mencionamos antes, estes dois estavam dentro da escala criada onde se tem a maior quantidade de gado. Mas que para esta região, podemos chamar de criadores, sem excluir outros elementos. Acreditamos que podemos utilizar a denominação que Helen Osório (2007) utilizou para denominar os criadores e lavradores para o proprietário que tinha 508 reses. Porém, não podemos excluir as especificidades da fonte, em que esta nos aponta para criadores com até 500.

Tabela -2

Relação de ferramentas por inventário e a presença de campo em Caçapava

Nº de cabeças de Gado

Vacum

Nº de

Inventários Inventários Nº de com Ferramentas Nº de Inventários sem Ferramentas Nº de Inventários com Campo Nº de Inventários sem Campo

0 – 50 21 4 17 10 11

51 – 100 9 7 3 6 4

101 – 500 16 10 6 11 5

501 – 1000 11 7 3 8 2

Mais de 1000 4 3 1 4 -

Total: 61 31 30 39 22

Fonte: 61 Inventários post-mortem de Caçapava do Sul 1831-1839; (APERS).

(34)

A tabela anterior nos aponta claramente o número de processos que tinham ferramentas, e estas nos ajudam a entender as formas produtivas de uma parcela daquela sociedade. Temos um total 52% dos inventários com artefatos para a lida da terra, e estes nos guiam para uma provável diversidade na produção, com a agricultura e pecuária. Anteriormente mencionamos o exemplo de Anna Clara de Jesus, que tinha uma quantidade de gado vacum muito pequena, resumida a quatro reses e um cavalo. Não havia objetos para o trato com a terra, porém, tinha um pedaço de campo arrolado em seu inventário. Portanto, percebemos que se trata de um a sociedade bem complexa, e sem cruzarmos outra fonte fica muito difícil esclarecer de que forma esta retirava o seu sustento e lucro, mas provavelmente ela tenha vivido da soma destas duas atividades.

Quando olhamos para o extremo da tabela, onde estão os que possuem mais de 1.000 cabeças de gado vacum, percebemos que apenas um não tinha ferramentas. Isso poderia nos levar a pensar que não ocorria às práticas agrícolas em suas terras. No entanto, quando nossas análises

foram feitas em seu inventário, encontramos arrolados em seus bens uma lavoura38. Este fato de

um produtor não ter ferramentas em seus bens, mas ter uma lavoura, talvez nos faça pensar em outras perguntas que surgiram no desenrolar da pesquisa e das análises.

Como por exemplo: um produtor que não tinha terras, mas tinha gado e ferramentas, ele produzia em que campos? Muito provável que ele arrendasse algum quinhão para as suas atividades, ou quem sabe, este trabalhasse em solo de outros e ali junto criasse seu gado e cultivasse a sua lavoura. E talvez a sua produção tanto na lavoura como no criar o gado gerasse recursos para pagar a terra e o seu uso. Hebe Mattos em um trabalho sobre lavradores em Capivary no séc. XIX no atual município de Silva Jardim, Rio de Janeiro, nos ajuda a pensar. Ela cita que:

[...] pastos constituíam parte integrante das fazendas rigorosamente preservadas e defendidas. A apropriação de uma extensão de terras muito maior que as necessidades imediatas da lavoura constituía condições indispensável à possibilidade de reprodução ampliada de grande fazenda. Muito difícil é determinar até que limite vão as necessidades de terra de cada fazendeiro. Em muitos casos, a incorporação de agregados e moradores comprova, as terras apropriadas excediam muito essas necessidades (2009, p.88).

38Não estava especificado qual era o tipo de produção da lavoura no inventário post-mortem. Processo de Brígida

(35)

Estas são questões que nos fazem pensar, pois estamos falando de anos que compõem a primeira metade do século XIX. E, neste, período a Lei de Terras ainda não tinha sido promulgada ainda. Portanto, qual seria a dificuldade de se ter uma porção de campo nesta região para o período em questão? Não sabemos, mas o certo é que havia agregados, e que estes trabalhavam nas terras de outros, e ali acumulavam os seus pecúlios.

Entendemos que a falta de ferramentas somadas a uma ausência de terras para produzir pode ser explicativo para as questões de um trabalho livre. Ou também como mencionou Farinatti, os inventários que não apresentam qualquer instrumento agrícola entre seus bens, indicavam que não havia práticas da agricultura. Portanto, estes deveriam ser compradores dos produtos que eram cultivados nas áreas florestais do município, por donos de unidades produtivas

mistas e, principalmente, por lavradores nacionais Farinatti (1999).

Assim, com os inventários podemos afirmar apenas quem tinha ou não tinha terras, mas não podemos dizer que estes não trabalhavam nestas, é fato que muitos poderiam ter ou serem

arrendatários como percebemos em estudos feitos para outras regiões39. Assim, o que mais nos

intriga, não é ver que as quantidades mais altas de terras ficavam concentradas com poucos, e nem averiguar que algumas pessoas trabalhavam nas lavouras.

Mas é ver aqueles que tinham números muito reduzidos de gado vacum, como a faixa de 0-50 na tabela acima, existia uma complexidade maior do que apenas dizer que eram pobres pela quantia de gado vacum ali representado. Este recorte nos aponta para a classe inventariada mais “pobre”. Nesta temos os menores índices de terras e ferramentas, somadas ainda com a falta de gado, talvez seja equivocado dizer que a falta de algum destes elementos justifique a falta do outro, mas pode colaborar. Portanto, aqui está a menor escala produtiva, com uma representação de 35% de nossa amostra, uma parcela muito significativa em termos numéricos, pois são 21 processos nesse recorte aqui criado, ou seja, 21 proprietários.

Como relatamos anteriormente, a produção muito provavelmente girava em torno da criação do gado vacum e das plantações. Levantamos hipóteses de um trabalho fora do vínculo

escravista, com a existência de arrendatários40, que seria feito por lavradores nacionais, como já

foi apontado em alguns trabalhos41. Encontramos um relato nos inventários visualizamos prática

dos arrendamentos (ver 3.3 Arrendamentos Observados nas Dívidas Passivas). Exemplo é a

39

Ver sobre arrendamentos de terras In. : OSÓRIO, 1990; GARCIA, 2005; LEIPNITZ, 2009.

(36)

pesquisa de Farinatti (1999) para Santa Maria, região próxima desta vila. As pessoas que faziam da produção de alimentos sua principal atividade econômica, eram os lavradores. Assim, nos leva a crer que para Caçapava as escalas em que as quantidades de gado eram bem inferiores, ou não tinham terras poderiam ser lavradores arrendatários. A seguir, analisaremos alguns inventários, para entender melhor este caso encontrado, para isso as dívidas passivas evidenciam as relações produtivas.

Na tabela 2 podemos perceber uma divisão entre proprietários, e esta se dá pela quantidade de gado vacum. Colocamos todos os inventários, ou seja, os que não tinham gado, pois estes merecem nossa atenção, e com acréscimo dos mesmos poderemos entender um pouco melhor aquela sociedade que fez parte do século XIX. Portanto, em alguns casos existe a representação das ferramentas, e isso nos leva a formas produtivas ligadas a terra. Como mencionou Auguste de Saint-Hilaire em sua passagem por Santa Maria em meados do XIX, que fica nas proximidades da vila de Caçapava, ele relatou que toda a produção era para subsistência

da localidade de Santa Maria, porém todo o seu excedente era comerciado com Alegrete42. Este

comércio talvez também fosse praticado pelas pessoas desta vila de Caçapava, no entanto, não encontramos neste momento nenhum relato nos inventários.

Analisando a primeira escala 0-50, que representa 35% de processos, temos um total de 81% sem ferramentas, e ainda dentro dos 35%, temos 8 inventários que não possuem gado vacum, isso representa 38% do recorte. Assim, dos oito apenas 1 possuía ferramentas, ou seja, para esta parcela a questão de ter gado não tem tanta influência em ser lavrador, ainda mais que a maioria dos lavradores possuíam bois que os auxiliavam no lavrar a terra. Portanto, a questão de ter campo para a escala dos oito tem pouca expressão, pois destes apenas dois possuem terras arroladas em seus inventários, que nos representa 25% dos oito sem gado vacum. Já quando olhamos para os outros grupos da tabela, percebemos que tende a cair a falta de ferramentas e campo, ou seja, todos os outros recortes as quantidades de utensílios para o trato da terra e o campo são mais representativos do que a parcela dos produtores de 0-50, chegando a um total de 52% a amostra tendo campo ou ferramentas ou os dois juntos. Acreditávamos que a primeira parcela de 0-50 nos revelaria um universo com uma maior quantidade de ferramentas, pois estamos trabalhando com um período em que o mundo agrário é superior ao urbano, mas as fontes no mostraram outra realidade.

(37)

3.2- Arrendamentos Observados nas Dívidas Passivas.

Como anteriormente mencionamos, é muito difícil dizer quem arrendava campos ou quem trabalhava para outros na criação de gado. Porém, quando olhamos as dívidas passivas destes proprietários que aqui estamos estudando podemos perceber, embora em poucos casos a presença do arrendamento de terras e reses, bem como a lida de cuidar o gado. Citaremos aqui dois inventários como exemplo.

Primeiramente temos o inventário de Agostinho Rodrigues Nunes e sua esposa Laureana

Maria do Nascimento43. Neste processo temos arrolado em suas dívidas passivas o valor de

3$600 réis, este valor era referente ao pagamento que deveria ser feito por serviço prestado do cuidado do gado. E quem deveria receber esta soma era Constantino Vieira, provavelmente este seria um agregado da propriedade, ou mesmo alguém que apenas prestou esta ocupação. Encontramos em nosso banco de dados um inventário que tem como inventariado Constantino José Vieira, do ano de 1835, um ano posterior ao de Agostinho Rodrigues Nunes. Entretanto não podemos afirmar que era a mesma pessoa, no caso demandaria o cruzamento de outras fontes. Mas algo que pode corroborar para que este seja a mesma pessoa e na quantidade de seus bens, pois tinha um montante extremante limitado, neste caso este poderia ser um agregado.

Podemos perceber ainda mais um exemplo das práticas que não contavam somente com a mão-de-obra escrava, pois Rodrigues Nunes, embora não tivessem um patrimônio muito elevado, possuía arrolados em seu inventário 7 cativos, 55 cavalos, 211 reses e 49 ovelhas, ou seja, este era um senhor de escravos como também o era Constantino Vieira, pois este tinha um escravo de

nome Domingos44. Estas relações, entre estes dois senhores de escravos, embora que não

tenhamos como comprovar se os Constantino são as mesmas pessoas, mas assim mesmo nos aponta para uma sociedade, complexa nas suas relações, onde a escravidão estava enraizada, e que o inventário enquanto fonte é extremamente rico, embora limitado, como Fragoso e Pitzer

(1988) já havia mencionado o cuidado que se deve ter em trabalhar com apenas uma fonte45.

Ainda arrolado no processo de Nunes, temos um valor a ser pago ao preto forro Bernardo, no

43 Inventário post-mortem de Agostinho Rodrigues Nunes e sua esposa Laureana Maria do Nascimento. Caçapava; Cartório de Órfãos e Ausentes; Autos 60; Maço 3; Estante 90; Ano 1834.

44

Inventário post-mortem do casal Agostinho Rodrigues Nunes e Laureana Maria do Nascimento, Autos 60; Maço 3; Estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes de Caçapava: 1834, (APERS).

Figure

Updating...

References

Updating...

Download now (67 página)