André do Nascimento Corrêa ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL: CAÇAPAVA (1831-1839)

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  André do Nascimento Corrêa

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL:

CAÇAPAVA (1831-1839)

  

Santa Maria, RS

2010

  

André do Nascimento Corrêa

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL:

CAÇAPAVA (1831-1839)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História - Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para aprovação no Curso de História.

  

Orientadora: Prof. Ms. Janaina Souza Teixeira

Santa Maria, RS

2010

  

André do Nascimento Corrêa

ESCRAVIDÃO E PAISAGEM AGRÁRIA NO SUL DO BRASIL:

CAÇAPAVA (1831-1839)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História

  • – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  ________________________________________

  

Profª. Ms. Janaina Souza Teixeira - Orientadora: (UNIFRA)

__________________________________________

Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter: (UNIFRA)

__________________________________________

  

Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim: (UNIFRA)

Aprovado em____ de______________ de 2010

  

Dedicatória

  Este trabalho eu dedico aos meus pais Teodoro e Ione que incondicionalmente sempre me apoiaram e, ainda e a Lívia, garota que nos últimos anos tens dividido a vida comigo.

  

Agradecimentos

  Primeiramente agradeço aos meus pais Teodoro e Ione que viabilizaram todas as condições para que eu pudesse efetuar esta graduação. Agradeço ao amigo Luciano Mota, pelo incentivo a voltar a estudar, sem aquelas conversas de meados anos 2001, não estaria aqui.

  Obrigado a Alessandro e Bruno e Vancler, pois foram os amigos com quem dividi a primeira morada, festas e cervejadas em Santa Maria. Da mesma forma agradeço ao Mesquita por inúmeras vezes ler os meus trabalhos, além de termos curtidos alguns sons nos DCEs da vida, valeu Marquinhos. Agradeço aos primos Tiago e Marcos Dede pelos anos de futebol no atlético, as festas a amizade que criamos.

  Agradeço ao Lukinha, amigo de todas as horas, papos, cevas, desabafos. Ao amigo e colega Leandro, pelas conversar, conselhos sobre este novo rumo que o curso de história esta nos proporcionando. Dá mesma forma agradeço ao Max, Marcelo e ao Jonas, amigos que conquistei nesta caminhada acadêmica. Um obrigado ao colega Gibran, por ter dividido o estágio III comigo, e pelas orientações da professora Paula nos estágios III e IV.

  Agradeço aos professores e amigos Farinatti, Nikelen pelas conversas sobre a vida, pesquisas, futebol. Vocês agregaram muitos valores na minha vida. Agradeço a minha amiga e orientadora professora Janaina, por ter me auxiliado nestes anos de pesquisa. Agradeço a todos os professores do curso de história da UNIFRA. O meu obrigado, Fê, Alan, Carioca, Alemão, Miltinho, Gazzoni, Moisés, e a todos que convivi nestes anos de graduação, pois com certeza, desde as festas as leituras todos acima citados tiveram participação em minha trajetória acadêmica.

  Agradeço também a Lívia, a garota por quem meus olhos brilham nestes últimos anos.

  RESUMO

  O objetivo da pesquisa é fazer uma análise das características sócio-econômicas da população de Caçapava na primeira metade do século XIX. Considerando o patrimônio familiar através de inventários post-mortem, da vila de Caçapava no período de (1831-1839). Entende-se que a análise do patrimônio contido nos “bens de raiz” dos inventários post-mortem permite elucidar melhor os agentes formadores deste contexto social. A partir da quantificação dos dados que constam nestes documentos, discutimos, entre outras questões, a presença da escravidão e o cenário agrário do contexto. Para isso, um diálogo bibliográfico acerca dos estudos sobre História Agrária e escravismo foi realizado. Neste debate, analisamos os estudos produzidos nos últimos anos com o fim de se discutir os conceitos fundamentais para o trato com o universo social e econômico que se pretende abordar. Esta discussão permitiu compreender as especificidades locais, ou seja, onde a mão-de-obra destes escravos estava sendo utilizada. A pesquisa foi de encontro com a literatura memorialista, que dava ênfase à questão da capital farroupilha, reproduzindo uma sociedade local formada com apenas grandes proprietários e peões, negligenciando os negros. A análise das fontes documentais aponta para uma diversidade no que tange à quantidade de bens, entre os escravos africanos e crioulos. Assim, sinalizando para um universo social com uma complexidade maior do que aquela geralmente descrita nas obras que tratam do contexto local neste período.

  Palavras-chaves: Escravidão; Sociedade; Inventários post-mortem; Caçapava.

  ABSTRACT

  The purpose of this research is to analyze social and economic characteristics of Caçapava population in the first half of the nineteenth century, considering the family heritage, through inventories, in the village of Caçapava, in the 1831-1839 period. It is understood that

  postmortem

  the analysis of assets contained in the "real property" of postmortem inventories allows elucidating the characteristics of this social context. For this, a dialogue of literature concerning studies of agrarian history and slavery was performed. In this debate, we reviewed the studies produced in recent years, in order to discuss the fundamental concepts for dealing with the social and economic universe which is being discussing. This discussion allows us to understand the specific local conditions where the slavery labors was being employed. The research went in a different way in relation of the memoir literature, which emphasized the issue of capital Farroupilha, reproducing a society formed with local landowners and farm workers only, neglecting the black. The analysis of documentary sources points to a diversity in terms of the quantity of goods between the Creoles and African slaves. Thus, signaling to a social universe with a complexity greater than that usually described in works that deal with the local context in this period.

  Keywords: Slavery, Society, post-mortem inventories; Caçapava

  

Lista de Tabelas

Tabela – 1. Distribuição do Gado Vacum em Caçapava (1831-1839)........................................ 29

Tabela

  • – 2. Relação de Ferramentas por Inventário e Presença de Campo

  em Caçapava................................................................................................................................. 33

  Tabela

  • – 3. Comparação de Criadores das Vilas de Alegrete, Caçapava, Santa Maria e

  São Gabriel................................................................................................................................... 42

  Tabela

  • – 4. Quantidade e Média de Escravos para Caçapava (1831-1839)................................ 48

  Lista de Gráficos

Gráfico – 1. Distribuição de inventários por ano segundo (APERS) para Caçapava..............24

Gráfico

  • – 2. Porcentagem de inventários com gado vacum e escravos...................................50 Gráfico
  • – 3. Porcentagem de escravos por origem ..................................................................53 Gráfico
  • – 4. Porcentagem africanos por sexo...........................................................................54 Gráfico
  • – 5. Porcentagem total de escravos por sexo...............................................................54 Gráfico
  • – 6. Porcentagem de escravos crioulos .......................................................................55

  Lista de Mapas

Mapa – 1. Mapa de Caçapava de 1850......................................................................................19

  

SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  1- INTRODUđấO

  A escravidão é um assunto que, para a vila de Caçapava, foi pouco discutido e

  1

  pesquisado. Nas últimas décadas, com toda uma renovação historiográfica , tivemos trabalhos

  2

  monográficos que começam a abordar regiões que ainda não tinham sido analisadas . No entanto ainda temos um grande campo a ser pesquisado. No que diz respeito a Caçapava, os poucos

  3

  estudos locais são de memorialistas. Estes não abordam ou quando de forma inexpressiva , sem que se faça um esforço de compreensão sobre sua especificidade. No entanto, percebemos através dos inventários post-mortem, em que aparecem significativamente nas relações dos bens de moradores do local, um passado em que o escravo esteve presente na vila e atuou enquanto

  4 agente histórico .

  A abertura de um processo de inventário tratava-se de um fato corriqueiro das pessoas que eram consideradas mais abastadas, não que este tipo de procedimento não ocorresse com outras camadas sociais. Como Fragoso e Pitzer mencionam:

  Assim sendo, a totalidade de inventários post-mortem de um certo ano, em uma certa região, permite apreender a sociedade considerada com a sua economia e diferenciações sociais em um dado momento. É como se tivéssemos uma fotografia de daquela sociedade naquele momento (1988, p. 30).

  A partir disso, é possível perceber que os processos de inventário demonstravam aspectos sociais e econômicos daqueles que eram inventariados. Aqui vamos trabalhar especialmente com o patrimônio descrito nestes documentos.

  No Ano de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e cinco,

nessa mesma Vila de Caçapava , era aberto no dia 28 de novembro o processo de inventário post-

1

mortem do Sargento Mor Antônio Adolpho Charão, este teve como inventariante sua esposa, a

O marco desta renovação historiográfica é CARDOSO, 2003. Na década de 80 tivemos trabalhos de FREITAS,

1980. MAESTRI FILHO, 1984. Nos últimos anos os trabalhos da chamada história agrária deram avanços

2 significativos: ZARTH, 2002; OSÓRIO, 2008; FARINATTI, 2010. 3 MORAES, 2008; PETIZ, 2009. 4 RUBERT, 1956; ABRÃO, 1992; _______, Nicolau S. CASSOL, 1985. _______, Nicolau S. CASSOL1988.

  

Embora não esteja trabalhando com Alforrias, estas servem para nos exemplificar estas questões da mobilidade dos

5 Dona Pacifica Julia Fontoura . Foram arrolados neste documento dentre outros, campos nesta

  vila, Pelotas e São Rafael, que hoje faz parte do município de São Sepé. Uma quantidade de gado e escravos extremamente relevante, tendo este 15.540 reses de criar, 99 bois, 595 reses mansas, 2.259 equinos, 800 ovelhas, 124 burros, 21 mulas. A sua escravaria era composta por 58 escravos.

  Quando a comparamos com as demais fontes do mesmo recorte temporal e espacial, percebe-se que se tratava de um senhor de escravos e um pecuarista de grosso trato. Portanto, nas primeiras análises feitas dos bens saltou aos nossos olhos o plantel de cativos, e o seu grande rebanho de gado vacum e estes nos interessam muito para a amostra desta pesquisa. Estes bens colocavam a família Charão no topo de uma elite pecuarista local.

  Nossa proposta aqui é abordar alguns elementos referentes ao processo escravista e as questões agrárias do sul do Brasil. O objeto principal da pesquisa foi identificar a presença de escravos em Caçapava e sua relação com a posse da terra e ou de gado vacum. Trabalharemos com um enfoque diferenciado no que diz respeito ao recorte espacial, comparando com o que já se foi mencionado ou abordado sobre este tema, referentes a esta vila de Caçapava.

  Analisando censo relativo à metade do século XX é possível perceber que Caçapava não

  6

  tinha uma atividade econômica de destaque como outras regiões . Naquele dado momento havia sim, uma mescla entre os cultivos agrícolas e a criação de gado vacum, o que hoje chamamos e conhecemos como agropecuária. O que deixa mais instigante saber o motivo pelo qual levava as

  7 pessoas a ter escravos em uma região que não tinha uma economia tão abrangente como outras .

  As pesquisas sobre escravidão no Rio Grande do Sul tiveram início na década de 70, com o trabalho do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (2003). Já nos anos 80 tivemos trabalhos que destacamos Mário Maestri (1984) e Décio Freitas (1980). Nas últimas décadas estes autores foram muito debatidos e superados. Pois, os estudos sobre cativos têm tomado um aporte rigoroso, principalmente na utilização das fontes primárias, como: inventários post-mortem, testamentos, processos-crimes, cartas de alforrias, registros de batismos, casamentos, óbitos,

  

8

5 compra e venda de escravos e terras, entre outras . Os resultados destas pesquisas demonstraram

Inventário post-mortem do casal Antônio Adolpho Charão e Dona Pacificam Julia Fontoura, Autos 88; Maço 4;

6 Estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes de Caçapava, 1835, (APERS). 7 Ver a respeito nos censo da FUNDAđấO DE ECONOMIA E ESTATễSTICA, 1981. 8 Principalmente as regiões de economia de charqueadas, agricultura e pecuárias.

  

Ver alguns trabalhos que utilizam com rigor estas fontes In. : ZARTH, 2002; OSÓRIO, 2008; FARINATTI, 2006, a presença extremamente significativa de cativos nas atividades da pecuária, agricultura e reafirmaram essa para as charqueadas.

  Assim, para este cenário agrário que possui uma economia voltada para o mercado interno, tentaremos entender o número que consideramos elevado de cativos em seus plantéis. Pensamos, portanto, que o correto não seria concluir pela inexpressividade da escravidão, como a visão memorialista a fez, mas sim entender as peculiaridades desta para a região que aqui pesquisamos.

  Desta maneira, selecionamos os inventários. Esta documentação é referente ao período compreendido de 1831 a 1839. Nosso objetivo é trabalhar o tema escravidão e o cenário agrário desta vila, pois como já mencionamos o período e o espaço são pouco explorados. A fonte documental utilizada fundamentalmente na pesquisa, conforme já mencionada anteriormente, serão os inventários post-mortem, sobre os quais Fragoso e Pitzer afirmam:

  a estrutura do inventário é bastante recorrente, com poucas variações no tempo, o que facilita uma exploração de sua lógica interna, que poderia ser dividida em quatro partes: 1) a abertura do inventário; 2) a avaliação dos bens; 3) documentos comprobatórios da avaliação e dívidas; 4) partilha dos bens (1988, p. 32).

  De certo modo, as possibilidades de tratamento serial, apresentada por este tipo de fonte, permitem uma sensível ampliação de alternativas de abordagem historiográfica. Nesta pesquisa, inicialmente, utilizamos todos os inventários post-mortem do município de Caçapava de 1831 a 1839. Estes somavam 61 processos, que foram recolhidos e digitalizados em uma planilha tipo

  

Excel for Windows 2007 . Esta tabela nos proporcionou 66 campos analíticos, entre estes,

inventariado , inventariante, gado vacum, escravos, dívidas entre outros. Em meio a estes foram

  retirados alguns dados para serem analisados quantitativamente. Ou seja, aqueles que se relacionam diretamente com o objetivo desta pesquisa, e tivessem dados referentes, em especial, aos escravos e as atividades econômicas que estes estavam inseridos. Lembrando que aqui trabalharemos apenas o que Fragoso e Pitzer (1988) classificaram como

  “item 2” a “avaliação dos bens ”, com isso, poderemos entender melhor o perfil social de parcela dos habitantes desta região.

  A metodologia aqui aplicada foi a quantitativa (CARDOSO, BRIGNOLI, 2002; VIEIRA, PEIXOTO, KHOURY 2002) baseada, essencialmente, nas hipóteses levantadas com base na chamada „História Serial‟ onde “o historiador estabelece uma série, e é esta aqui particularmente o interessa” (BARROS, 2005. p.122). Nesta pesquisa já temos uma série com base em inventários post-mortem. Segundo François Furet, em seu Atelier do Historiador,

  “ele define a História Serial em termos da constituição do fato histórico em séries homogêneas e comparáveis” (apud BARROS, 2005. p. 122). Em outras palavras, trata-se de

  “serializar” o fato histórico, o inventário post-mortem, para medi-lo, analisar as suas particularidades, compará-lo em sua repetição e sua variação através de um período determinado aqui para nós de 1831-1839.

  Portanto, com quantificação dos elementos existentes nos inventários post-mortem, conseguimos retirar os dados que melhor se encaixaram para tentarmos sanar as perguntas anteriormente feitas por esta pesquisa. Como por exemplo: a presença escrava na vila de Caçapava. E ainda, podermos identificar e diferenciar a quantidade de homens e mulheres, africanos e crioulos. Com isso, ainda termos uma melhor compreensão da economia local.

  Nosso trabalho foi dividido em três partes. Em um primeiro capítulo, nos dedicamos à uma revisão da historiografia tradicional produzida sobre a formação de Caçapava. Nesta parte também foi feita uma análise bibliográfica contando com memorialistas locais, em que estes apresentam informações sobre o processo histórico do município. A partir destas informações, e com base na historiografia mais recente, discutimos alguns dos aspectos relacionados à posse da terra, à formação social e à presença da escravidão.

  No segundo capítulo, a partir da documentação que analisamos e dos estudos da chamada História Agrária, discutimos elementos da economia local, especialmente a pecuária. Com isso foi possível visualizar uma elite local pecuarista, não mencionada pelas obras dos memorialistas e demais pesquisas existentes sobre o contexto. Esta camada mais abastada foi possível de ser visualizada pelo trabalho com inventários.

  Em um terceiro capítulo abordamos a posse de escravos por meio dos inventários post- , neste ponto foi possível perceber a quantidade de cativos entre outros elementos ligados

  mortem

  ao cativeiro. Aqui, no processo de quantificação foi cabível a criação de gráficos, e estes nos auxiliaram a demonstrar a posse de cativos e sua relação com a pecuária.

  2 - CAÇAPAVA EM MEADOS DO XIX Caçapava, antes mesmo de ter o desmembramento de seu território dos municípios de

  Cachoeira e Rio Pardo, já era conhecida pela sua paragem de tropeiros. Segundo Abrão (1992, p.16)

  , “muito antes de seu povoamento, já era conhecida a “paragem ou povo de Caçapava”, por tropeiros, aventureiros e, principalmente os bandeirantes paulistas que vinham ao continente de São Pedro do Sul [...] para arrebanhar o gado xucro que pastava solto pelo vasto pampa ”.

  Ao analisar estudos sobre o Continente do Rio Grande de São Pedro, referentes ao século

  XIX, percebemos que esta região, tinha a predominância da grande extensão de terra e uma

  9

  fronteira ainda não demarcada . Uma das variadas formas de se constituir e demarcar a fronteira, era por meio dos moradores destes confins. Pois, foi no final do XVIII e no início do XIX que o Império do Brasil vai ter maior interesse no sul, para apoiar a Colônia do Sacramento e para

  10 manter o fluxo de gado destes campos .

  As formas de se conseguir terras no sul eram variadas, pois estamos falando de um

  11

  período anterior a Lei de 1850 . Assim, podemos mencionar que a terra era adquirida por meio do recebimento de sesmarias, que consistia em benefícios por serviços prestados ao Império. Outra forma de aquisição eram os apossamentos. Em muitos casos, os sesmeiros recebiam sesmarias de campos e se apossavam de quantidades maiores, se baseando na fragilidade das instituições estatais que não possuíam controle eficiente sobre este aspecto. Havia também a

  12 questão das compras de terras e os arrendamentos, que não deixa de ser uma de forma de posse .

  Entendemos, que neste período do início do XIX, outro fator que demarcava territórios eram as guerras destas paragens. Desde as constantes guerras entre a coroa portuguesa e espanhola pela região. Exemplos também destes enfrentamentos eram as constantes batalhas com os castelhanos da banda oriental, muito em virtude de terras e gado vacum, pecúlios vitais economicamente para esta região que estava em formação.

  9 10 Ver In. : OSÓRIO, 1990. 11 In. : KÜHN, 2002.

  

Ver In. : MOTTA, Márcia. Sesmeiros e Posseiros nas Malhas da Lei. In. : _________Nas Fronteiras do Poder:

conflitos de terra e direito agrário no Brasil de meados do século XIX. Campinas: Unicamp-IFCH. Tese de

12 doutorado, pp. 156-209.

  Neste ponto das guerras podemos destacar outro forte conflito que foi a Guerra dos

13 Farrapos , esta mobilizou boa parte do povo que vivia aqui no Rio Grande de São Pedro. Esta

  teve como motivador central as questões econômicas ligadas ao gado vacum, especialmente, o valor do charque sulino. Pois naquele período era o motor da economia da província, com a exportação do charque para o mercado interno.

  O Brasil Meridional era uma região em que os rebanhos ainda circulavam livremente, este fato era um grande atrativo para os homens que vinham guerrear, e sentiam se atraídos por estas paragens e lá iam se estabelecendo, isso muito em virtude do gado e dos campos onde estas reses vagavam. As lutas para manter a posse da territorial e os benefícios que esta propiciava para as pessoas, tornavam estas questões mais fortes e complexas, pois lutar pelas terras da coroa tinha um significado, mas lutar pelos seus próprios campos que o Império os tinha concedido como sesmaria tinha outro status.

  Assim, visualizamos a forma como iam sendo formuladas na primeira metade do século

  XIX as sesmarias. Estas eram distribuídas para os que ali estavam se instalando, e com isso, constituindo uma espécie de linha fronteiriça, onde as propriedades eram o estímulo para manter as fronteiras contra as invasões castelhanas. Portanto, é possível perceber que o Sul estava dominado pela vastidão das terras, de tal modo, as propriedades foram sendo formadas e a diversidade produtiva. Muitas unidades produtivas vieram a desaguar nos grandes latifúndios.

  Primeiramente tivemos uma historiografia de cunho tradicional que trabalhava com um binômio, onde havia apenas os estancieiros e os peões nestas paragens. Neste ponto era negligenciada a presença dos lavradores e principalmente os escravos. No entanto, estas afirmações foram sendo superadas por uma historiografia que primeiramente trabalhou com as questões da escravidão, destacamos Fernando Henrique Cardoso (2003), embora já bastante discutida sua abordagem, mas esta foi uma das primeiras a afirmar que teve escravidão no Brasil

14 Meridional .

  Já para um período posterior, tivemos os trabalhos da chamada História Agrária. Estes superaram a visão de Cardoso e aprofundaram as análises, demonstrando o tão complexo era a vida na região sulina. Destacamos aqui três autores, Paulo Zarth (1997; 2002), Helen Osório

  13 14 Ver In. : PESAVENTO, 1980. LEITMAN, 1979.

  (2007) e Luís Augusto Farinatti (2010). Estes autores usaram em seu corpo documental de análise inventários post-mortem, mesmo tipo de fonte que aqui trabalharemos.

  Estes autores por intermédio de suas pesquisas foram demonstrando o quanto eram complexo viver nas paragens sulinas. Desde as formas como aquelas pessoas buscavam ganhar espaços, tanto economicamente quanto no âmbito social. Com isso estes autores cada vez mais levantaram questões para serem pesquisadas. Segundo Zarth:

  A província do Rio Grande do Sul, do século XIX, é um bom exemplo para ser estudado, pois caracterizou-se como uma região secundária dentro do contexto agro- exportador brasileiro. Sendo assim, poderemos verificar até onde as explicações da historiografia geral do Brasil, baseada nos centros agroexportadores, servem para esclarecer os fenômenos da história regional. O extremo Sul do Brasil, apesar de sua economia secundária no contexto brasileiro, foi muito importante em termos políticos e militares diante de sua condição estratégica na conflituosa bacia do Prata. Esta é uma das suas principais características e que influenciou muito no processo de ocupação do seu território. Por outro lado, assim como a província sulina possui características próprias, ela reproduziu em muitos aspectos o modelo geral do país (latifúndio e escravidão, por exemplo), o que nos leva a fazer constantes referências à historiografia geral do país ou a provinciais importantes (2002, p. 30-31).

  Partindo deste ponto, nossa pesquisa tem como alvo uma melhor compreensão sobre o tema escravidão e o cenário agrário sulino. Para isso elegemos um espaço a ser analisado, este a Vila de Caçapava. Com isso, abordaremos aqui um pequeno histórico sobre Caçapava.

  Nos anos de 1809 no início da formação do que hoje conhecemos como estado do Rio Grande do Sul possuía uma estrutura com apenas quatro cidades, que são: Porto Alegre, Rio

  , Santo Antônio da Patrulha e Rio Pardo. Caçapava por sua vez era Freguesia de Rio

  Grande Pardo.

  O município de Caçapava do Sul, que aqui trataremos apenas como Caçapava, pois ainda não tinha recebido a alteração toponímica municipal. No dia 5 de julho de 1800, como padroeira a Nossa Senhora da Assunção, foi criada uma Capela Curada. Este foi um passo muito importante para a população que ali vivia. Temos então desde 1800, um padre na vila, com isso haveria a presença de um padre na cidade, onde os casamentos e batismos e óbitos eram feitos ali mesmo. Este fato além de ter a compleição religiosa no local, fez com mais pessoas ali fossem

  15 15 morar. Assim, a incipiente povoação na região foi crescendo . A seguir, tivemos a elevação desta para categoria de vila, com a resolução de 25 de outubro de 1831.

  Segundo dados fornecidos por dois cultivadores dessa classe de estudos (padres) e até publicados alhures, a ereção da Freguesia teria efetuada a 25 de outubro de 1831, na mesma data em que por decreto n.° 13 Caçapava foi elevada à categoria de Vila (RUBERT, 1956. p. 31).

  Esta data de 1831 é um marco que utilizamos para início desta pesquisa. Em 19 de janeiro de 1834 deu-se a instalação do município, período que coincide com a maior quantidade documental de inventários que trabalhamos.

  E, finalmente, a 9 de dezembro de 1855, foi a vila de Caçapava elevada à categoria de cidade. O território foi desmembrado dos municípios de Rio Pardo e Cachoeira em 29 de maio de 1846, elevado à categoria de vila, tendo definido provisoriamente os seus limites municipais, que

  16

  seriam consolidados em 1871 . Percebemos que em poucos anos a paragem teve algumas alterações bem significativas para sua história.

  2.1 – Origem e Localização

  Caçapava está situada no centro oeste do estado do Rio Grande do Sul, a sua região

  17

  também e conhecida como Alto Camaquã, pois esta é banhada pelo rio Camaquã . Seu nome deriva da Paragem de Cassapava, que era um lugar onde tropas usavam para fazer seus acampamentos. Já a palavra Cassapava tem origem na língua Tupi Guarani, que significa

  

Clareira na Mata . Esta era a forma como os índios chamavam áreas entre matos justamente a

  18 região onde eram feitas as paragens, que hoje temos a cidade de Caçapava do Sul .

  A seguir temos um mapa com a localização de Caçapava, no entanto este é um mapa de alguns anos posterior ao nosso recorte, porém serve muito bem para nossa análise.

  16 17 CASSOL, 1985, 1988. ABRÃO, 1992. 18 COMISSÕES DE ESTUDOS MUNICIPAIS, 1985.

  ABRÃO, 1992.

  

Figura

  • – 1 Mapa do Rio Grande do Sul - 1850.

  

FONTE: Adaptado de ARAÚJO, 2008. p. 28.

  Com o passar do tempo esta região vai recebendo uma ocupação populacional, que é timidamente iniciada por volta das últimas décadas do século XVIII. Muito por conta dos acampamentos militares, que utilizavam esta região de clareira, pois, se tratava de locais geograficamente ideais para as observações militares de tropas inimigas.

  Temos relatado na obra do Pe. Arlindo Rubert (1956) menções sobre os primeiros povoamentos:

  Caçapava surgiu em terrenos pertencentes ao Capitão Francisco de Oliveira Porto. Mas êle não foi o primeiro senhor da localidade. Consta dos documentos que houve moradores na zona desde 1781. Em 1787, por exemplo, José Ortiz da Silva, pai do Padre Fidêncio, comprou uma sesmaria de campo nos galhos do Irapuá, que havia já estavam localizados diversos moradores, com seus estabelecimentos e benfeitorias, muito antes de 1800. O primeiro proprietário da área, onde hoje se ergueu a cidade, foi Vicente Venceslau Gomes de Carvalho, que dela se apossou por volta de 1783, o qual, a 30 de janeiro de 1792, vendeu sua posse ao Capitão Francisco de Oliveira Porto, de Rio Pardo, pelo avultada quantia de quatro contos de réis (1956, p.5).

  A região que veio a ser chamada de Caçapava acompanhou a lógica daquele momento histórico das formações das localidades, com os apossamentos e os recebimentos de sesmarias. Percebe-se na obra As Freguesias de Caçapava e de Santaninha, relatos da presença uma pequena parcela de moradores. Rubert (1956) denominou estes como lindeiros, ou seja, aqueles que estão longe do núcleo de povoamento. Mas para este caso, sabemos que não havia ainda uma urbanização de fato, ou um núcleo, este termo foi utilizado para fazer menção aos poucos agrupamentos que estavam surgindo ao redor do que hoje é conhecido e demarcado territorialmente como cidade de Caçapava do Sul.

  Foi possível perceber que desde a elevação da localidade para Capela Curata, que está

  19

  datada em 1800, sua população significativamente aumentou . Esta tinha suas origens diferenciadas; portuguesas, espanhóis, africanos, índios, e depois das imigrações de italianos e

  20

  alemães, estes também ali foram habitar . É claro que não podemos dizer que temos uma

  21 distribuição igualitária entre as etnias, mas estas estavam presentes no povoamento desta região .

  Temos cada etnia com suas particularidades, desde os negros africanos até seus senhores de origens européias. Embora, muito ainda tenha que ser pesquisado sobre a questão da escravidão nesta região, fica evidente a presença escrava. Segundo Rubert: “não havia, naqueles tempos, família sem escravos, até o bom Pe. Fidêncio os possuía [...]” (RUBERT, 1956. p.9), indo de encontro com a idéia de Cardoso que via “a importância relativamente pequena do escravo na organização do trabalho do Brasil Meridional” (CARDOSO, 2003. p.57). Rubert rebate ainda mais a idéia de Décio Freitas (1983) que para este autor “nos municípios agrícolas, ou que combinavam agricultura e pecuária, a população escrava era muito superior à dos municípios exclusivamente pastoris

  ” (1983, p.12). Pois, o número de cativos que encontramos é bem inferior aos encontrados na região que predominavam a pecuária. Farinatti (2006) encontrou 19 uma quantidade bem superior de cativos, comparando com o número de escravos aqui 20 Ver censos da FEE. FUNDAđấO DE ECONOMIA E ESTATễSTICA, 1981. 21 RUBERT, 1956.

  

Dentro deste viés, Rubert, este bem alinhado com a historiografia tradicional, a qual não percebia a qual encontrados.

  Aqui, tentamos mencionar alguns elementos sobre o histórico de Caçapava, pois este era um ponto que tínhamos que abordar para esta pesquisa e também para melhor situar o leitor. Na sequência desta pesquisa abordaremos mais sobre as formas econômicas que existiam naquele período. Juntamente com estes elementos que estão ligados às questões agrárias. Também trabalharemos a participação dos cativos nesta vila, pois entendemos que esta foi de vital importância para a manutenção econômica da paragem.

3- UMA ECONOMIA PERIFÉRICA: O CENÁRIO AGRÁRIO DA VILA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNđấO DE CAđAPAVA.

  22 Nas últimas décadas tivemos algumas obras referentes à História Agrária , estas

  pesquisas basearam-se nos trabalhos da história regional francesa de Marc Bloch (1992) e Pierre Goubert (1968). Estas pesquisas, como as de Castro (2009) e Fragoso (1998) demonstraram uma diversificação do mercado interno brasileiro, muito além do mercado exportador, usando como campo de análise o Rio de Janeiro.

  Para a esfera rio-grandense, tivemos pesquisas que buscaram referenciar estas obras anteriores. Desta forma, contribuíram substancialmente para o entendimento das relações existentes entre as pessoas que primeiramente ocuparam as paragens sulinas.

  Neste viés das novas abordagens, citamos a obra de Paulo Zarth (1997, 2002) como pioneira para o cenário sul meridional. A análise de Zarth, que enfocava o planalto gaúcho teve um embasamento nas fontes primárias. Este estudo veio desmitificar a bipolarização dos agentes sociais, ou seja, não havia somente estancieiros e peões. Dentro desta mesma perspectiva temos o trabalho de Helen Osório (1990, 2007) que demonstra uma sociedade que vai ocupando o Brasil Meridional, onde esta é diferenciada, tanto etnicamente, quanto pelas práticas econômicas que são baseadas na terra e nos pecúlios que ali eram gerados.

  Outro trabalho que vem contribuir consideravelmente no entendimento do que era viver em um cenário agrário, é a obra de Luís Augusto Farinatti (1999, 2010) que trabalha com a região central e a campanha. O autor além de corroborar com os autores sulinos anteriormente citados demonstram em suas análises uma vida social extremamente complexa. Onde havia uma sociedade que não era habitado apenas por estancieiros e peões, ali, também estavam escravos, libertos, índios e homens livres.

  Partindo destas obras, buscaremos o entendimento do cenário agrário da vila de Caçapava no período de 1831-1839. Tentaremos entender qual era ou quais eram as formas produtivas daquela região, será que as práticas da pecuária eram tão relevantes para essa localidade, quanto para outras? Com isso, buscaremos uma melhor compreensão da divisão social que ali existiu, e 22 assim, entender se o período foi realmente de um cenário bipolar, onde habitavam apenas

  

Os estudos sobre História Agrária surgem com Marc Bloch, quando este autor estuda a sociedade feudal agrária estancieiros e peões, ou era uma sociedade mais complexa, como acreditamos que fosse. Portanto, estas são questões que trabalharemos no decorrer desta parte da pesquisa sem deixar de observar as especificidades do tipo de fonte que estamos trabalhando.

  Para podermos fazer essas reflexões, utilizaremos uma fonte que possui dados de total 23 relevância, os inventários post-mortem O inventário é um documento extremamente rico,

  .

  embora não toque todos os extratos sociais. Sabemos que a prática de abrir um processo destes, não era praticada por todos, mas sim, as camadas mais abastadas. Contudo, não podemos excluir outras parcelas sociais de os realizarem, pois isso também ocorria.

  Assim, tentaremos demonstrar um pouco do que seria a economia de Caçapava, nestes anos do séc. XIX aqui propostos. Daremos suporte para pesquisa com as informações contidas nos inventários post-mortem, e cruzando estas com uma bibliografia que trabalhou as paisagens agrárias sulinas para este período pesquisado ou para tempos próximos.

  Nosso recorte espacial será a região de Caçapava. Já nossa demarcação temporal como anteriormente mencionamos será 1831-1839. Essas datas marcam primeiramente, em 1831 a elevação da freguesia de Caçapava para vila. Logo o ano de 1839 é bem mais emblemático, pois esta baliza não somente a chegada dos Farroupilhas nessa vila massivamente, mas também pela passagem desta para capital da República Sul Rio-grandense. O ano de 1839 também marca o

  24 esgotamento das nossas fontes, estas voltam a serem realizadas pós-guerra dos farrapos .

  Para este período, a escassez das fontes pode ser explicada pelo fato das constantes guerras, pois é algo que não podemos desconsiderar, estes são os anos em que os Farroupilhas ainda estão em certa vantagem. Podemos notar que até o ano de 1835 temos considerados números de inventários, embora este ano marque o início dos confrontos da Guerra dos Farrapos, e com isso teremos certamente uma desestabilidade nesta região.

  Ainda refletindo sobre o recorte por onde a pesquisa vai caminhar, esta pode nos revelar a quantidade de escravos e estes dados podem ser quase que absolutos no que se referem à fonte trabalhada. Pois trabalharemos aqui com todos os processos de inventários post-mortem que estão presentes no Arquivo Público do Rio Grande do Sul (APERS) para o período sugerido. Seria 23 muito interessante analisarmos os reflexos da guerra nos anos finais, ou seja, nos cinco primeiros 24 FRAGOSO, João; PITZER, Renato, 1988.

  

Os inventários post-mortem para Caçapava os primeiros anos da década de 1840 embora estejam nas listas do anos da década de 1840, porém, já foi mencionado que não encontramos nenhuma amostra de inventários para o período dos primeiros cinco desta década ( ver gráfico 1).

  Gráfico-1 Distribuição de inventários por ano segundo lista do (APERS) para Caçapava.

   Fontes não trabalhadas. Fontes trabalhadas Fonte: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, (APERS).

  O gráfico acima nos mostra os anos que pesquisamos dados que foram retirados da lista de inventários do Arquivo Público. No entanto, o número de processos para os anos de 1844-45 não foram encontrados no arquivo. Assim, nossa mostra, ficou mais reduzida em anos, com o recorte de 1831 a 1839. Tínhamos como meta também visualizar inventários que batessem com os anos finais da Revolução Farroupilha.

  Aqui, trabalhamos maciçamente com a parte dos bens dos processos post-mortem. O

  25

  inventário é uma fonte seriada que foi será o pilar central da pesquisa. Os dados contidos nestes 61 registros de analisados para este período foi possível mapearmos parcela dos bens daquela sociedade. Para podermos drenar estes informações, foi criado um banco de dados no Microsoft

  2007. Este banco de dados teve uma total de 66 campos analíticos, que foi possível

  Office Excel

  analisar, os bens dos inventariados. Para assim, tentarmos entender melhor como estes viviam economicamente. Para nossa surpresa tivemos uma grande maioria de processos nos anos de 25 1834 e 1835, que detalhamos no gráfico 1.

  Percebemos o promissor ano de 1834, pois contém uma representação documental que chega a 52% de toda a nossa mostra, ou seja, mais da metade dos processos deste período estão neste ano. Isso talvez possa ser explicado, pois, sabemos que determinados processos eram abertos em anos posteriores à morte do inventariado, sendo assim, podemos deduzir o grande número nos anos de 1835 e 1834, embora não possamos afirmar, pois não cruzamos aqui fontes de óbitos. Para corroborar com esta idéia, também não transcorriam muitos anos de paz, pós os ocorridos da Guerra Cisplatina.

  Outro fato é que essa região passava constantemente por uma endemia bélica e, por isso, talvez, não tenhamos uma maior mostra para outros anos com a mesma expressão. Pois o medo constante dos enfrentamentos pode ser visualizado no inventário de Maria Josefa de Araújo quando este é realizado:

  [...] declarou mais que por causa da invasão do inimigo se tem declarado neste inventário oito centos e sessenta reses da estância do Biquiri Mirim e trinta e oito cavalos e duas éguas madrinhas, únicos animais que por ora tem podido retirar dali e logo que o estado da guerra de lugar a que der cuidar no mais se acha [...] assim como outras muitas fazendas desta província de tudo não poder fazer sua 26 partilha .

  Podemos notar que não foi possível avaliar todos os bens por causa da guerra, e que esta,

  27 a guerra, também deveria estar afetando não só esta fazenda, mas outras desta região. .

  Outro ponto relevante é a provável organização de tropas para os confrontos da Guerra

  28

  dos Farrapos que tiveram duração de dez anos, e iniciaram em 1835, isso também pode explicar a falta desta documentação, ou a quantidade baixa em certos anos. Este último fato também auxilia-nos a explicar a falta de inventários para a década de 1840, pois se discute muito a forma itinerante das tropas republicanas, muito provavelmente isso trouxe um medo constante para os que viveram nestas bandas, onde as fronteiras eram ainda incertas.

  Portanto, a fonte que aqui estamos trabalhando, nos descreve muito dos agentes daquele tempo, em alguns momentos, podemos compreender que geralmente o inventariado é o patriarca de uma família ou sua esposa, claro isso não é regra, mas ocorre com uma grande frequência. Os

  26 Inventário post-mortem de José Munhoz de Camargo e sua esposa Maria Magdalena do Espírito Santo; Ano 27 1827. Autos 27; Maço 2; Estante 90; APERS. 28 Sobre este tema de guerras e seus relatos nos inventários em ver In. : FARINATTI, 2010.

  

Sobre a Guerra dos Farrapos ver In. : PESAVENTO, Sandra. In. : GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo, 2009. inventários eram abertos para realizar a discriminação dos bens das famílias, muito em virtude de futuras divisões dos mesmos que ali estavam arrolados. Assim, em alguns destes pode ser visualizado relatos diversos, como o de guerras, como citado anteriormente.

  3.1- Enxadas, Foices e Gado Vacum

  Ao fazermos uma análise dos bens de raiz, percebemos uma grande desigualdade, e esta fica bem evidente quando comparamos as quantidades de gado vacum. Primeiramente então, vamos abordar a distribuição deste rebanho vacum que está presente nos inventários, e assim, iremos pontuando as diversidades, não somente com aqueles que mais tinham reses, para os que menos tinham. Mas também, abordaremos as disparidades internas de cada faixa que aqui foi criada (ver tabela 1).

  Sabemos que as práticas com pecuária podem nos auxiliar a entender aquela sociedade.

  29

  30 Por exemplo: podemos diferenciar quem eram os criadores e lavradores , ou as mesclas entre a

  agricultura e pecuária. Segundo Helen Osório “a quantidade e tipos de animais possuídos por cada proprietário é o único dado relativo à produção, além da ocupação declarada, que a “Relação” fornece” (2006, p. 124), ou seja, a analogia entre o meio de produção e proprietário.

  Na tabela 1 percebe-se que a maior quantidade de inventários está na parcela dos

  31

  32

  produtores que tem de 101 a 500, mas isso não significa que ali estejam os mais ricos , ou os maiores rebanhos. Por sua vez, os maiores rebanhos estão representados pelo grupo 501 a 1.000 reses, isto, quando excluímos o maior rebanho, que passa das 10.000 cabeças de gado vacum, pois este foge a regra pela quantidade exorbitante de seu rebanho. Estas reses estavam nas fazendas da família Charão, que trataremos separadamente, tanto pela riqueza dos bens, e pelos detalhes que estão contidos no inventário de Adolpho Charão.

  Partindo da idéia que, as propriedades que “dominavam” ou mais apareciam no cenário da vila de Caçapava naquele período, claro levando em conta o gado vacum, eram os que tinham

  29 30 Chamaremos de criadores todos os que tiverem rebanhos superiores a 500 para esta vila e esta análise. 31 Aqui vamos utilizar a mesma denominação que Osório 2008 utilizou. 32 Estamos utilizando a denominação produtor em um âmbito geral.

  

Aqui usamos a expressão “rico” para denominar os que mais possuíam gado, embora, sabemos que não podemos

  501 a 1.000 cabeças. Dentro deste raio, temos 11 inventários, e chamamos a atenção para dois destes para tentamos melhor entender este grupo e suas diferenças (ver tabela 1).

  Primeiramente temos o inventário de Roberto Pinto dos Santos e sua esposa Maria Silveira com 508 cabeças de gado vacum, este era o casal que menos possuía gado nesta escala aqui criada. Em contrapartida, temos as 978 reses do casal Manoel de Souza Teixeira e sua esposa Perpétua Joaquina do Nascimento, que eram os que possuíam o maior rebanho vacum. Aqui, já percebemos uma diversidade, ou seja, uma disparidade, pois a quantidade de gado de Teixeira é quase o dobro do rebanho de Santos. Assim, percebemos que dentro de um mesmo “grupo” temos uma grande diferenciação, e por este fato, acreditamos que chamar um proprietário de lavrador ou de criador, simplesmente pela sua quantidade de gado não nos responda tudo.

  Helen Osório criou alguns modelos médios de animais que teriam os lavradores para o Rio Grande do sul.

  Um proprietário que possuísse 61 reses, 6 bois, 6 cavalos e uma égua era lavrador. [...] Exemplos da faixa pobre de lavradores, moradores da freguesia de Triunfo, dois deles pardos forros. Literalmente a informação diz “vive pobremente de algumas lavouras”. Possuíam eles de 12 a 30 reses, nenhum boi, alguns cavalos, éguas e potros, animais que não lhes garantiam uma existência decorosa (OSÓRIO, 2006.pp. 124-125).

  Estes valores também estão presentes em nossas análises, no entanto, não temos a convicção de afirmar se os lavradores com poucas reses não tinham condições de sobreviver somente com a pecuária, pois sabemos que este é um período em que as redes de clientela eram muito fortes. Neste caso, poderia haver a venda de algumas reses de pequenos e médios proprietários, juntamente com grandes rebanhos de estancieiros.

  Acreditamos que por esta região ser de pequeno porte, ou seja, de uma economia subsidiária inferior a outras, entendemos que os rebanhos são menores, principalmente se compararmos com as regiões de grande pecuária como os demonstrados por Farinatti. O autor aponta que os quinze maiores produtores para Alegrete tinham:

  uma média de 8.400 reses de gado vacum e todos eram proprietários de terras, sendo que 10 tinham mais de uma propriedade espacialmente descontínuas e sete eram donos de terras no Estado Oriental e treze possuíam casa e terrenos urbanos (2010, p.58). Pecuarista deste calibre em nossas fontes apenas o Adolpho Charão, pois é o único que possuía terras em lugares separados, casa na cidade e uma grande quantidade de gado vacum. Assim, os dois exemplos anteriormente mencionados encaixam-se em uma parcela de proprietários que tinham uma representatividade de 22% do gado vacum para esta análise. Isso, considerando o inventário do produtor que mais apresentava rebanho vacum. Este por sua vez, era detentor dos 50% de todo o montante de reses do período em questão. Mas quando retiramos este criador, por apresentar-se como uma exceção, vemos o valor duplicar, chegando a faixa à faixa de 44% do gado aqui considerado.

  Assim, temos dados que mostram que os criadores de gado vacum para esta região eram aqueles que tinham de 501 cabeças para mais, mas isso não exclui estes de terem outras formas produtivas, como as lavouras, embora os censos de 1858 não mencionem nenhuma produção

  33 agrícola, de exportação .

  Embora, tenhamos uma grande diferença, como as quantias de gado, mas havia muitas paridades e estas não se resumem apenas na posse de gado, mas também quando olhamos para os materiais, ou seja, Manoel de Souza Teixeira não possui ferramentas, como também Roberto Pinto dos Santos, não tinha arrolado em seus bens materiais do trato com terra, ou melhor, até os tinha, mas em uma quantidade ínfima. Estes se resumiam em uma enxada e uma foice. São traços que ligam este às atividades agrícolas, e não podemos negar.

33 Ver In: . FUNDAđấO DE ECONOMIA E ESTATễSTICA, 1981.

  

TABELA 1

Distribuição do gado vacum em Caçapava (1831-1839).

  

Nº de cabeças Nº de % de Quantidade de % de Gado

de Gado Inventários Inventários cabeças de Vacum

Vacum

  Gado Vacum

  1 13 24% 246 1%

  • – 50

  51 9 17% 712 2%

  • – 100 101

  16 30% 3.877 12%

  • – 500 501

  11 21% 7.044 22%

  • – 1000
    • de 1.000 3 6% 4.296 13%
    • de 10.000 1 2% 16.234 50%

  Total: 53 100% 32.409 100% Fonte: 53 Inventários post-mortem de Caçapava do Sul 1831-1839; (APERS).

  Quando levamos em conta a questão de uma maior representatividade, de inventários, então temos o montante de 30%, que nos apontam para uma escala que tem a terceira representação (ver tabela 1) em relação a quantidade de gado vacum, retirando o maior proprietário. Embora estes detivessem a maior quantidade inventários, mas isso não teve força na representação de gado vacum para o período em questão. Pois, a parcela de 6%, que representa apenas três proprietários, estes detinha um maior rebanho que era 13% contra os 12% dos anteriores. Para estes três, eles até podem ser chamados apenas de criadores, sem vincularmos outras atividades, não que estes não as tivessem.

  Em uma primeira análise, parece que temos um nível bem homogêneo, de 12 a 13%. Porém, o 1% de diferença, que seriam aproximadamente 420 reses, que não seria a quantidade de gado vacum de um criador em nossa pesquisa. Este montante equivale pouco menos do que às reses de dois proprietários, e é claro fazendo uma divisão igualitária. Portanto, grosso modo, a diferença entre estes dois proprietários, que são os da escala de 101-500 cabeça, estes tinham 242 reses, contra 1.432 do grupo dos mais de 1.000. Aqui, foi feita uma divisão do total de gado para todos dentro de cada grupo. E, assim, ficaria fácil de dizer quem eram os criadores e os lavradores, porém acreditamos em uma maior complexidade.

  Por isso, não podemos tomar por base apenas a quantidade de gado que estes tinham para identificar as suas produções, não estamos aqui trabalhando com grandes proprietários, no que

  34

  diz respeito ao cenário sul meridional . Aqui, temos uma quantidade pequena de proprietários com rebanhos superiores a 1.000 cabeças, como exemplificamos anteriormente, chegando índices de 8%. Isso também nos leva a crer que estes não viviam exclusivamente da pecuária. Porém, para este escala de pessoas ela colaborava substancialmente. Para reforçar estes dados, basta olharmos novamente para os bens de Roberto Pinto dos Santos, que tinha um rebanho de 500 reses, ele possui 8 bois, além de um número pequeno de ferramentas, que podemos ligar com atividades agrícolas.

  Este caso não se enquadra perfeitamente ao formato criado por Helen Osório (2007), mas,

  35

  é um proprietário que tinha mais criação do que lavoura, e não o contrário . Aqui acreditamos que este tem uma produção superior na pecuária, pois as ferramentas em seu inventário não passavam de uma foice e uma enxada, anteriormente mencionadas.

  Já Manoel de Souza Teixeira e sua esposa Perpétua Joaquina do Nascimento, estes podemos dizer com certeza que eram apenas criadores, pois não foi encontrada em seu inventário nenhuma ferramenta que os conectassem com as práticas agrícolas. Se este tinha estas práticas, os avalistas não fizeram questão de mencionar em seus bens. Assim, estes dois exemplos, que são os extremos dentro de nossa escala de 501-1.000, nos revelam um pouco de como era a sociedade naquele período. Mais adiante cruzaremos a questão do gado vacum com as ferramentas, para termos uma visão mais aproximada das atividades produtivas dos que ali viviam.

  Com um trabalho de mesmo viés, Osório (2007) apontou que cada produtor tivesse uma média de 6 bois para cada 61 reses, este seriam denominado lavradores, pela quantidade de gado vacum. Acreditamos nesses números, porém, nossa análise foge um pouco dos dados mostrados por Helen Osório. Aqui chamaremos de lavradores aqueles que tiverem arrolado em seus inventários ferramentas para o trato da terra, e com um número inferior a 500 cabeças de gado vacum. Destacamos que temos poucos criadores com mais de 1.000 cabeças de gado vacum, ou seja, 8% de nossa mostra. Por isso, acreditamos que um criador poderia ter de 500 reses. Portanto, não podemos dizer que os demais são lavradores por não ter uma quantidade igual ou superior a 1.000 reses, mas que as ferramentas arroladas em seus inventários dão indícios de lidas 34 com a terra. Certamente, teremos casos que somente essa fonte não dará as respostas, mas 35 Ver In. : FARINATTI, 2010.

  Ver in. : OSÓRIO, 2008. também temos certeza que muito será explicado como já estamos fazendo somente com esta fonte.

  Todavia, consideramos os trabalhos anteriores, que enquadram em subgrupos, como estamos fazendo aqui vitais. Porém, percebemos que as fontes nos mostravam um universo ainda bem mais complexo, onde, além deste primeiro exemplo anteriormente citado, temos outros, que possuem um leque diferenciado em suas produções. Para melhor entendermos estes agentes sociais, para Barth (apud FRAGOSO, 2006) entende se que esta sociedade que efetuavam relações com o meio ambiente, não podem simplesmente serem encaixadas em uma abordagem estruturalista. Como se todos que ali viveram fossem iguais, e que todos tivessem os mesmos semoventes. Assim, estas pessoas agiam conforme os seus recursos, por isso é um tanto simplista de nossa parte enquadrar simplesmente em parcelas como lavradores, e outros fazendeiros, apenas pela sua quantidade de gado. É claro que isso nos serve muito, mas não é regra, quando olhamos para esta região do Brasil.

  Para melhor exemplificar estas particularidades, que acreditamos não serem exclusivas desta paragem. Verificamos no inventário de Izabel Marques de Jesus e seu marido Manoel Corrêa Marques, estes, por sua vez, não se encaixam naqueles modelos em que Helen Osório (2007) coloca, pois estes possuíam 50 bois e 70 reses mansas, 12 cavalos mansos e 12 éguas xucras. Por este exemplo este não se encaixa em nenhum dos subgrupos de criadores feitos por Osório. Outro fato é que foram arrolados em seus bens ferramentas como três machados, três foices, seis enxadas e uma serra. Estes utensílios nos levam a crer que em seu rincão de terra havia alguma produção, em que seus onze escravos os auxiliavam, tanto as duas mulheres nas

  36

  lidas da casa quanto os nove homens . Estes, com certeza deveriam auxiliar no manejo com o gado manso, que deveriam retirar os derivados da carne e leite para o seu sustento e para algum tipo de comércio local, como também para produção de subsistência da propriedade, de tal forma que consideramos um lavrador.

  O inventário do casal acima citado está dentro do cenário dos que possuem entre 101 a 500 cabeças de gado. Para podermos entender um pouco melhor como era essa economia, pois percebemos que o gado vacum em sua grande maioria, estava nas mãos de uma parcela pequena 36 de produtores, como foi destacado na tabela 1 anteriormente. Outro ponto de destaque é a

  

Inventário post-mortem de Izabel Marques de Jesus e seu marido Manoel Corrêa Marques, Autos 71; Maço 3; presença de ferramentas associadas a terras. É claro, que muitos poderiam ser arrendatários, mas nossa fonte não nos forneceu nenhum dado referente a estes práticas pelo inventariado, nem nas dívidas ativas e nem passivas.

  Ao analisar a tabela 2 podemos perceber que mais da metade dos processos tinha ferramentas arroladas como bens. Chamamos atenção para o pouco número de materiais do trato da terra na escala de 0-50 cabeças de gado vacum. Neste ponto, consideramos todos os inventários, pois também temos que identificar as formas produtivas dos que temos certeza que não viviam do criar gado para abates, e dos que não os tinham.

  Neste recorte, temos um número muito pequeno de ferramentas, que é 19%, talvez seja um dos mais instigantes, pois quebra com uma visão de que os que menos tinham gado certamente estariam envolvidos com as lavouras, ou era algo que achávamos. Esta mostra comprova, via inventários, que 81% não possuíam nenhuma ferramenta, e estes, muitas vezes com pouquíssimas reses. É o caso do inventário de Anna Clara de Jesus, ao qual está incluída em seus bens uma vaca com cria nova, duas novilhas uma de dois e outra de um ano, um cavalo e

  37

  três escravas . Ou seja, as reses não chegam a 10 unidades. E alertamos para a presença de escravos, embora um plantel pequeno, mas representativo.

  O que podemos retirar deste exemplo, é que estes eram certamente mais pobres, e talvez fossem pessoas que viviam em uma situação econômica bem inferior. E muito provavelmente fizeram um inventário para dividir estes poucos bens que estes tinham, que em alguns casos foram recebidos por herança. Esses questionamentos são bem aceitos, pois nem todos abriam um processo de inventário. Assim, estes além de ter uma pecuária de subsistência, esta era associada com as atividades da agricultura. Exemplos destas práticas agrícolas foram encontrados em Alegrete, por Farinatti.

  A produção agrícola ocupava papéis distintos nos diferentes estabelecimentos de criação. Muitos deles levavam a cabo o cultivo de trigo, feijão, mandioca e milho, em escala reduzida, cobrindo apenas parte da necessidade de autoabastecimento, enquanto outros chegavam a produzir pequenos excedentes que enviavam para o mercado. Não há como medir, com maior precisão, o volume e o papel dessa produção, tanto mais quando se tratava daquela destinada apenas ao abastecimento interno (2010, p.126 ).

37 Inventário de Anna Clara de Jesus, Autos 57; Maço 3; estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes, Caçapava

  Para esta localidade também foi possível visualizar por meio dos inventários, o envolvimento de algumas propriedades com as práticas agrícola, em alguns casos, basta visualizar a tabela 2isso fica mais nítido. No entanto, podemos arriscar em dizer que para esta mostra os criadores possuíssem uma quantidade menor de gado em relação a outras localidades.

  Aqui, temos um grupo de proprietários que possuía 500 cabeças para mais, acreditamos que para esta localidade podemos chamar estes de criadores. Pois, pela análise de seus bens, estes poderiam ter vivido majoritariamente deste pecúlio, muito embora, acreditamos que em muitos casos pela falta de ferramentas ou pelo número reduzido destas. Mas, podemos relacioná-los com outros trabalhos, como a lavoura, as ferramentas estavam presentes, embora, às vezes em números reduzidíssimos.

  Por este fato acreditamos que fica muito difícil apenas dizer que estes proprietários eram criadores, mas não só, estes mesclavam as atividades, embora que neste caso como mencionamos antes, estes dois estavam dentro da escala criada onde se tem a maior quantidade de gado. Mas que para esta região, podemos chamar de criadores, sem excluir outros elementos. Acreditamos que podemos utilizar a denominação que Helen Osório (2007) utilizou para denominar os criadores e lavradores para o proprietário que tinha 508 reses. Porém, não podemos excluir as especificidades da fonte, em que esta nos aponta para criadores com até 500.

  

Tabela -2

  Relação de ferramentas por inventário e a presença de campo em Caçapava

  Nº de cabeças Nº de Nº de Nº de Nº de Nº de

de Gado Inventários Inventários Inventários Inventários Inventários

Vacum com sem com Campo sem Campo

  

Ferramentas Ferramentas

  21

  4

  17

  10

  11

  • – 50

  9

  51

  7

  3

  6

  4

  • – 100

  16

  101

  10

  6

  11

  5

  • – 500

  11

  501

  7

  3

  8

  2

  • – 1000

  4 Mais de 1000

  3 1 -

  4

  61 Total:

  31

  30

  39

  22 Fonte: 61 Inventários post-mortem de Caçapava do Sul 1831-1839; (APERS). A tabela anterior nos aponta claramente o número de processos que tinham ferramentas, e estas nos ajudam a entender as formas produtivas de uma parcela daquela sociedade. Temos um total 52% dos inventários com artefatos para a lida da terra, e estes nos guiam para uma provável diversidade na produção, com a agricultura e pecuária. Anteriormente mencionamos o exemplo de Anna Clara de Jesus, que tinha uma quantidade de gado vacum muito pequena, resumida a quatro reses e um cavalo. Não havia objetos para o trato com a terra, porém, tinha um pedaço de campo arrolado em seu inventário. Portanto, percebemos que se trata de um a sociedade bem complexa, e sem cruzarmos outra fonte fica muito difícil esclarecer de que forma esta retirava o seu sustento e lucro, mas provavelmente ela tenha vivido da soma destas duas atividades.

  Quando olhamos para o extremo da tabela, onde estão os que possuem mais de 1.000 cabeças de gado vacum, percebemos que apenas um não tinha ferramentas. Isso poderia nos levar a pensar que não ocorria às práticas agrícolas em suas terras. No entanto, quando nossas análises

  38

  foram feitas em seu inventário, encontramos arrolados em seus bens uma lavoura . Este fato de um produtor não ter ferramentas em seus bens, mas ter uma lavoura, talvez nos faça pensar em outras perguntas que surgiram no desenrolar da pesquisa e das análises.

  Como por exemplo: um produtor que não tinha terras, mas tinha gado e ferramentas, ele produzia em que campos? Muito provável que ele arrendasse algum quinhão para as suas atividades, ou quem sabe, este trabalhasse em solo de outros e ali junto criasse seu gado e cultivasse a sua lavoura. E talvez a sua produção tanto na lavoura como no criar o gado gerasse recursos para pagar a terra e o seu uso. Hebe Mattos em um trabalho sobre lavradores em Capivary no séc. XIX no atual município de Silva Jardim, Rio de Janeiro, nos ajuda a pensar. Ela cita que:

  [...] pastos constituíam parte integrante das fazendas rigorosamente preservadas e defendidas. A apropriação de uma extensão de terras muito maior que as necessidades imediatas da lavoura constituía condições indispensável à possibilidade de reprodução ampliada de grande fazenda. Muito difícil é determinar até que limite vão as necessidades de terra de cada fazendeiro. Em muitos casos, a incorporação de agregados e moradores comprova, as terras apropriadas excediam muito essas necessidades (2009, p.88).

38 Não estava especificado qual era o tipo de produção da lavoura no inventário post-mortem. Processo de Brígida

  

Maria e seu marido Antonio Teixeira Dornelles. Caçapava; Cartório de Órfãos e Ausentes; Autos 61; Maço 3;

  Estas são questões que nos fazem pensar, pois estamos falando de anos que compõem a primeira metade do século XIX. E, neste, período a Lei de Terras ainda não tinha sido promulgada ainda. Portanto, qual seria a dificuldade de se ter uma porção de campo nesta região para o período em questão? Não sabemos, mas o certo é que havia agregados, e que estes trabalhavam nas terras de outros, e ali acumulavam os seus pecúlios.

  Entendemos que a falta de ferramentas somadas a uma ausência de terras para produzir pode ser explicativo para as questões de um trabalho livre. Ou também como mencionou Farinatti, os inventários que não apresentam qualquer instrumento agrícola entre seus bens, indicavam que não havia práticas da agricultura. Portanto, estes deveriam ser compradores dos produtos que eram cultivados nas áreas florestais do município, por donos de unidades produtivas . mistas e, principalmente, por lavradores nacionais Farinatti (1999)

  Assim, com os inventários podemos afirmar apenas quem tinha ou não tinha terras, mas não podemos dizer que estes não trabalhavam nestas, é fato que muitos poderiam ter ou serem

  39

  arrendatários como percebemos em estudos feitos para outras regiões . Assim, o que mais nos intriga, não é ver que as quantidades mais altas de terras ficavam concentradas com poucos, e nem averiguar que algumas pessoas trabalhavam nas lavouras.

  Mas é ver aqueles que tinham números muito reduzidos de gado vacum, como a faixa de 0-50 na tabela acima, existia uma complexidade maior do que apenas dizer que eram pobres pela quantia de gado vacum ali representado. Este recorte nos aponta para a classe inventariada mais “pobre”. Nesta temos os menores índices de terras e ferramentas, somadas ainda com a falta de gado, talvez seja equivocado dizer que a falta de algum destes elementos justifique a falta do outro, mas pode colaborar. Portanto, aqui está a menor escala produtiva, com uma representação de 35% de nossa amostra, uma parcela muito significativa em termos numéricos, pois são 21 processos nesse recorte aqui criado, ou seja, 21 proprietários.

  Como relatamos anteriormente, a produção muito provavelmente girava em torno da criação do gado vacum e das plantações. Levantamos hipóteses de um trabalho fora do vínculo

  40

  escravista, com a existência de arrendatários , que seria feito por lavradores nacionais, como já

  41

  foi apontado em alguns trabalhos . Encontramos um relato nos inventários visualizamos prática 39 dos arrendamentos (ver 3.3 Arrendamentos Observados nas Dívidas Passivas). Exemplo é a 40 Ver sobre arrendamentos de terras In. : OSÓRIO, 1990; GARCIA, 2005; LEIPNITZ, 2009. 41 Os arrendamentos não efetuados apenas por lavradores, ver in. : LEIPNITZ, 2009. pesquisa de Farinatti (1999) para Santa Maria, região próxima desta vila. As pessoas que faziam da produção de alimentos sua principal atividade econômica, eram os lavradores. Assim, nos leva a crer que para Caçapava as escalas em que as quantidades de gado eram bem inferiores, ou não tinham terras poderiam ser lavradores arrendatários. A seguir, analisaremos alguns inventários, para entender melhor este caso encontrado, para isso as dívidas passivas evidenciam as relações produtivas.

  Na tabela 2 podemos perceber uma divisão entre proprietários, e esta se dá pela quantidade de gado vacum. Colocamos todos os inventários, ou seja, os que não tinham gado, pois estes merecem nossa atenção, e com acréscimo dos mesmos poderemos entender um pouco melhor aquela sociedade que fez parte do século XIX. Portanto, em alguns casos existe a representação das ferramentas, e isso nos leva a formas produtivas ligadas a terra. Como mencionou Auguste de Saint-Hilaire em sua passagem por Santa Maria em meados do XIX, que fica nas proximidades da vila de Caçapava, ele relatou que toda a produção era para subsistência

  42

  da localidade de Santa Maria, porém todo o seu excedente era comerciado com Alegrete . Este comércio talvez também fosse praticado pelas pessoas desta vila de Caçapava, no entanto, não encontramos neste momento nenhum relato nos inventários.

  Analisando a primeira escala 0-50, que representa 35% de processos, temos um total de 81% sem ferramentas, e ainda dentro dos 35%, temos 8 inventários que não possuem gado vacum, isso representa 38% do recorte. Assim, dos oito apenas 1 possuía ferramentas, ou seja, para esta parcela a questão de ter gado não tem tanta influência em ser lavrador, ainda mais que a maioria dos lavradores possuíam bois que os auxiliavam no lavrar a terra. Portanto, a questão de ter campo para a escala dos oito tem pouca expressão, pois destes apenas dois possuem terras arroladas em seus inventários, que nos representa 25% dos oito sem gado vacum. Já quando olhamos para os outros grupos da tabela, percebemos que tende a cair a falta de ferramentas e campo, ou seja, todos os outros recortes as quantidades de utensílios para o trato da terra e o campo são mais representativos do que a parcela dos produtores de 0-50, chegando a um total de 52% a amostra tendo campo ou ferramentas ou os dois juntos. Acreditávamos que a primeira parcela de 0-50 nos revelaria um universo com uma maior quantidade de ferramentas, pois estamos trabalhando com um período em que o mundo agrário é superior ao urbano, mas as 42 fontes no mostraram outra realidade.

  3.2- Arrendamentos Observados nas Dívidas Passivas.

  Como anteriormente mencionamos, é muito difícil dizer quem arrendava campos ou quem trabalhava para outros na criação de gado. Porém, quando olhamos as dívidas passivas destes proprietários que aqui estamos estudando podemos perceber, embora em poucos casos a presença do arrendamento de terras e reses, bem como a lida de cuidar o gado. Citaremos aqui dois inventários como exemplo.

  Primeiramente temos o inventário de Agostinho Rodrigues Nunes e sua esposa Laureana

43 Maria do Nascimento . Neste processo temos arrolado em suas dívidas passivas o valor de

  3$600 réis, este valor era referente ao pagamento que deveria ser feito por serviço prestado do cuidado do gado. E quem deveria receber esta soma era Constantino Vieira, provavelmente este seria um agregado da propriedade, ou mesmo alguém que apenas prestou esta ocupação. Encontramos em nosso banco de dados um inventário que tem como inventariado Constantino José Vieira, do ano de 1835, um ano posterior ao de Agostinho Rodrigues Nunes. Entretanto não podemos afirmar que era a mesma pessoa, no caso demandaria o cruzamento de outras fontes. Mas algo que pode corroborar para que este seja a mesma pessoa e na quantidade de seus bens, pois tinha um montante extremante limitado, neste caso este poderia ser um agregado.

  Podemos perceber ainda mais um exemplo das práticas que não contavam somente com a mão-de-obra escrava, pois Rodrigues Nunes, embora não tivessem um patrimônio muito elevado, possuía arrolados em seu inventário 7 cativos, 55 cavalos, 211 reses e 49 ovelhas, ou seja, este era um senhor de escravos como também o era Constantino Vieira, pois este tinha um escravo de

  44

  nome Domingos . Estas relações, entre estes dois senhores de escravos, embora que não tenhamos como comprovar se os Constantino são as mesmas pessoas, mas assim mesmo nos aponta para uma sociedade, complexa nas suas relações, onde a escravidão estava enraizada, e que o inventário enquanto fonte é extremamente rico, embora limitado, como Fragoso e Pitzer

  45 (1988) já havia mencionado o cuidado que se deve ter em trabalhar com apenas uma fonte . 43 Ainda arrolado no processo de Nunes, temos um valor a ser pago ao preto forro Bernardo, no

Inventário post-mortem de Agostinho Rodrigues Nunes e sua esposa Laureana Maria do Nascimento.

44 Caçapava; Cartório de Órfãos e Ausentes; Autos 60; Maço 3; Estante 90; Ano 1834.

  

Inventário post-mortem do casal Agostinho Rodrigues Nunes e Laureana Maria do Nascimento, Autos 60; 45 Maço 3; Estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes de Caçapava: 1834, (APERS). valor de 70$400 réis. Este valor pode nos levar a possibilidades deste ter trabalho para Rodrigues

  46 Nunes. No entanto, esta afirmação não pode ser feita, pois não cruzamos outra fonte .

  Em um segundo exemplo de inventário, que na verdade pode ser chamado de terceiro modelo, se considerar o processo de Constantino Vieira, com todas as incertezas e certezas que ali encontramos. O que exemplificaremos superficialmente agora se trata de uma prática de arrendamento, que não se limita apenas nas terras, também se fazendo presente para o gado. Esta

  47

  era uma prática que já foi demonstrada em outros trabalhos . Nossa proposta aqui não será trabalhar especificamente com os arrendamentos. Contudo, é importante salientar embora timidamente a presença de arrendamentos nos solos de Caçapava por meio dos inventários. Ainda que tenhamos apenas uma amostra, esta nos serve para corroborar nossa idéia de uma sociedade diversificada e complexa, em que o gado era, sim, um fator determinante economicamente, embora que esta região não seja comparada com a sociedade pecuarista de Bagé e Alegrete.

  No ano de 1833 foi aberto o processo de inventário de Anna Maria da Conceição e seu

  48

  marido Antônio de Araújo era o seu inventariante . Não vamos nos deter em mencionar tudo o que foi arrolado em seu processo, no entanto, para colaborar com esta parte de nossa pesquisa mencionaremos alguns pontos que nos apontam para as questões dos arrendamentos. Anteriormente já mencionamos o trabalho de Guinter (2009), que faz uma distinção de como ocorriam os arrendamentos de terra e de gado na campanha rio-grandense, na segunda metade do século XIX, mais precisamente no município de Uruguaiana. Aqui, não iremos pontuar estas questões, mas apenas citar um exemplo.

  O casal anteriormente citado tinha em seu inventário uma dívida passiva, e esta era referente a um arrendamento de gado e de terras no valor de 450$000 réis. Mais uma vez esta região nos chama atenção, pois as relações sociais ocorrendo através dos arrendamentos de campos. Isso pode colaborar com a idéia de que as terras estavam em poucas mãos, ou seja, a dos criadores. Farinatti (1999) aponta que em Santa Maria, então, o contexto agrário era formado por grandes extensões de áreas de campos. E estas estavam nas mãos de poucos proprietários, todos eles dedicados, preferencialmente, à criação de gado bovino. Külzer (2009) destaca que a família 46 Pinto em Santa Maria tinha um grande destaque na criação do gado bovino. Ainda em Farinatti, 47 Idem p. 49. 48 LEIPNITZ, 2009.

  

Inventário post-mortem de Anna Maria da Conceição e seu marido Antônio de Araújo. Caçapava; Cartório de

  (1999) as terras florestais eram com maior freqüência dos lavradores. Então, estes pontos nos revelam uma sociedade que buscava meios de se articular-se, pois quando tinham terras estas não tinham as melhores pastagens para criar seu gado, e muito menos os maiores rebanhos do momento, mas nem por isso deixavam de ter as suas particularidades como em outras regiões sulinas.

  Assim, quando falamos sobre os criadores e lavradores nos baseamos em uma bibliografia que já havia trabalhado o tema, não atribuímos denominações apenas pela quantidade de gado, embora que os maiores detentores de reses tenham sido denominados por este motivo. Mas como já falamos antes, para este trabalho, levamos em consideração as informações contidas nos processos de inventários post-mortem.

  Nossa forma analítica foi de averiguar quais eram os seus bens arrolados nos inventários. Daí então mencionar qual era a sua produção, ou sua forma de sobreviver em um período em que o pecúlio da carne dominava os solos sulinos. Caçapava embora não tivesse uma super pecuária, dependia muito economicamente desta prática econômica. Conseguimos perceber uma grande diversificação social, onde a maioria dos que ali moravam estavam ligados a terra, e aos pecúlios que ali eram produzidos ou extraídos.

  3.3- Destacados Criadores Sulinos

  Na década de 1830 tivemos nas paragens sulinas a presença de mais um dos viajantes europeus, este Arsène Isabelle, que esteve por estas regiões entre 1833-1834. O visitante “ilustre” fez uma expedição por várias regiões do solo sulino, passando pela região central, onde estava localizada a Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte. Passou também pela região centro oeste, que localizava a Vila de Caçapava, hoje o Município de Caçapava do Sul. Nos seus relatos quando esteve por estas bandas, e relacionando mais para a Vila de Caçapava, relatou um pouco de sua geografia, como florestas regiões montanhosas e pedregosas, também relatou os rios que banhavam estas regiões.

  Ficou muito surpreso e entusiasmado quando percebeu que a região de Caçapava possuía ouro: “o ouro puro se acha em grãos disseminados numa rocha, cuja natureza ignoro (suponho ser quartzosa), que quebram, com a ajuda de pilão, para extraí- lo” (ISABELLE, 1983, p.38). Embora, Isabelle tenha ficado surpreso com a presença de ouro na região, esta localidade não desenvolveu uma economia voltada para a exportação deste mineral no século XIX, foco deste estudo, somente no século XX é que tivemos a exploração dos recursos minerais desta vila.

  No entanto, este viajante não fez nenhuma menção sobre nenhuma grande propriedade na região. Talvez ele não tenha mencionado por não ter visto mesmo, outro fato que pode ter colaborado para uma má visualização é o terreno acidentado desta região, como o mesmo destacou.

  Mas acreditamos que qualquer pessoa que vivesse em Caçapava naquele período deveria conhecer Sargento Mor Adolpho Charão, ou ao menos ter ouvido falar no tal. Não somente pela questão de sua patente militar, mas pelo seu expressivo e numeroso patrimônio, e isso provavelmente o colocava em destaque nessa sociedade.

  Neste momento, buscaremos fazer comparações entre alguns proprietários sulinos, pegaremos um exemplo de Alegrete, São Gabriel, Santa Maria e Caçapava, sempre levando em

  49

  conta o gado vacum . Para Caçapava o exemplo será o inventário de Adolpho Charão, já para Alegrete buscaremos no trabalho de Farinatti (2010) os dados referentes do inventário do Brigadeiro Olivério José Ortiz e sua esposa, dona Febrônia Cândida. As informações do criador, o Tenente Coronel Thomaz Ferreira Valle e sua esposa Joana Ferreira Valle de São Gabriel foram retirados do artigo de Gomes (2009) e por último não menos importante são os valores do criador Francisco José Pinto de Santa Maria, que esta na dissertação de Külzer (2009).

  Em Alegrete, segundo Farinatti (2010), o senhor Ortiz possuía uma vasta quantidade de terras também era detentor de uma quantidade muito expressiva gado vacum e cavalar, além das benfeitorias que nas suas propriedades existiram. A quantidade de gado vacum o colocava em um grupo seleto, que apenas 9% dos inventariados eram detentoras de rebanhos com uma quantidade superior a 2.000 cabeças.

  Dentro deste mesmo viés de análise, comparamos os dados que obtivemos com o inventário do Sargento Mor Antônio Adolpho Charão e dona Pacifica Julia Fontoura. Este casal muito se assemelha com o abastado da fronteira, o brigadeiro Olivério José Ortiz e sua esposa, dona Febrônia Cândida. Como Farinatti (2010) colocou, que Ortiz tinha além das suas terras em Alegrete, ele possuía sesmarias em outras regiões, como na vila de São Gabriel e no Uruguai.

49 As outras localidades escolhidas foram pelo fato de termos estudos para suas regiões, além destes estarem a nosso

  Charão, por sua vez, também era detentor de terras em outras localidades, como Pelotas, em São Rafael q ue hoje e o município de São Sepé, além de ter “um pedaço de campo na fazenda

  50

  . Podemos perceber que estes dois estancieiros tinham terras das Palmas” nesta localidade espalhados pelo território sulino, e consequentemente uma boa quantidade bens em seu patrimônio.

  Ao analisar o fazendeiro mais abastado de São Gabriel não notamos muitas diferenças, pois este além de ter campos na localidade de São Gabriel, também tinha propriedade em São Borja. Vejamos mais detalhes deste criador,

  o mais afortunado dentre os inventariados da série, único grande estancieiro, com mais de cinco mil cabeças de gado, é o tenente-coronel Thomaz Ferreira Valle. Um entre os primeiros agraciados com sesmarias na região do Batovi, legou um patrimônio extenso a sua família. Em seu inventário constam 37% do patrimônio produtivo, 44,16% do rebanho e 41,24% do monte-mor totais. Seu plantel de 18 cativos representa 17,8% do total inventariado. Sua capacidade de acumulação de recursos per capita é duas vezes maior que a dos médio proprietários. Se excluirmos a faixa dos possuidores entre 2.001 e 5.000 cabeças, os outros 21 inventariados possuem menos da metade dos rebanhos, do patrimônio produtivo e do montante-mor inventariados (GOMES, 2009. p.5)

  Podemos até o momento perceber, que tratamos aqui de abastados senhores os três exemplos mencionados. Além de estes serem grandes criadores eram detentores de patente militar, a exceção nesta mostra fica por conta de Francisco José Pinto, pois este não era militar. No entanto, segundo Külzer (2009) este tinha o maior rebanho bovino que chegava a 5.000 cabeças. Também possuía uma grande quantidade de terras, mais de 13.000 hectares. Este criador para certo período em Santa Maria foi o mais abastado. Juntamente com os demais, faziam parte de uma elite sulina.

  Na tabela 3 podemos perceber as quantidades de gado vacum e escravos destes fazendeiros.

50 Inventário post-mortem do casal Sargento Mor Antônio Adolpho Charão e dona Pacifica Julia Fontoura. Autos;

  TABELA 3 Comparação de criadores das vilas de Alegrete, Caçapava, Santa Maria e São Gabriel. Localidade e Alegrete Caçapava São Gabriel Santa Maria ano (1851) (1835) (1848) (1859) Alguns bens Brigadeiro Sargento Mor Tenente Francisco Olivério José Antônio Adolpho Coronel José Pinto Ortiz Charão Thomaz Ferreira Valle

  18

  58

  18

  12 Escravos 3.200 16.234 + de 5.000 5.000

  Gado Vacum Fonte: Inventário post-mortem de Antônio Adolpho Charão (APERS); FARINATTI (2010); GOMES (2009); KÜLZER (2009).

  Podemos perceber boas diferenciações, números bem expressivos no que diz respeito ao patrimônio do morador de Caçapava. Mas não nos enganamos com estes números, não que estes estejam errados, eles não estão. A questão que nos referimos é no sentido deste ser uma exceção dentro do cenário „caçapavano‟. Pois quando olhamos para o restante dos criadores que nos dispomos a analisar, veremos que este aqui esta em um grupo seleto também, com um total de 7%, que representa aqueles criadores com mais de 1.000 cabeças de gado vacum. Porém, ele está acima deste grupo pela sua quantidade de gado, ponto central desta análise.

  Mais um ponto a ser mencionado e relacionado, pois na amostra de Farinatti (2010) o autor demonstrou um dado com 9%, que neste montante estavam os mais abastados criadores, onde o mínino de cabeças de gado assinalado foi de 2.000, uma boa diferença para a nossa mostra que tivemos a quantidade de 1.000, como já mencionamos anteriormente.

  Mas dentro deste montante de mil cabeças de gado vacum, apenas o inventário de Antônio Adolpho Charão possuía um valor superior, que chaga a 50% de todo o gado vacum da vila no período em questão. Este provavelmente seria um grande criador se fosse viver em outra localidade, como as que foram aqui mencionamos na tabela 3. Pois, Charão para esta localidade formava uma elite de um homem só, ou melhor, de uma família só. Sua família estava em uma elite bem superior ao dos criadores com 1.000.

  A grande semelhança entre estes criadores não esta apenas na quantidade de gado vacum que cada um tinha, nem no ser senhor de escravos, mas na posição social que este pecúlio, o gado vacum, os proporcionava um status de criador, e um provável comerciante de gado. Sabemos que não era somente por intermédio dos valores recebidos com o criar o gado que se estabelecia um grande estancieiro, mas este com certeza colaboravam.

  Analisando apenas pelas cabeças de gado, Ortiz dentro desta análise era o que no período que foi realizado o seu inventário possuía a menor quantidade de gado vacum. Porém, não podemos deixar de mencionar a sua localidade, Alegrete. A região dos maiores rebanhos bovinos do século XIX. Assim, ao analisar a quantia de gado de Ortiz que chegava a 3.200 reses, estas eram criadas em Alegrete, e isso significa muito, pois aquela região era onde estavam os maiores criadores, e para estar em um grupo seleto não era somente pelo fato de ter uma quantidade de gado, havia toda uma rede social.

  Portanto, quando elaboramos esta tabela, foi para termos uma melhor noção dos bens da família Charão, como mencionamos anteriormente, este fazia parte de uma elite única para Caçapava, pois o seu gado vacum, em nossa análise chega à metade de todo o montante. Este estava fora da realidade local, como os outros citados, exceto Ortiz que estava inserido dentro do maior núcleo pecuarista. Para a Santa Maria, segundo Külzer (2009) a família Pinto dominava o cenário local no que diz respeito às reses, chegando a valores que passam as 15.000 cabeças de gado bovino. Para São Gabriel, Valle era o criador mais abastado do período estudado por Gomes (2009).

  Assim, dentro desta pequena mostra onde relatamos alguns expoentes de cada região, sem nos fixar em um recorte temporal, embora não tenhamos omitido as datas para cada um dos proprietários aqui relacionados. Foi possível mostrar aqueles que conseguiam manter-se dentro de uma elite pecuarista. Estes, com suas divisas militares, suas grandes extensões de terra, ou às vezes quase com um monopólio familiar do gado. Outro fato também de estarem em locais de extrema importância os tornava diferentes enquanto elite que eram. E estes dentro deste status de ser de uma elite e esta era uma elite escravista, pois tiveram arrolado em seus bens, uma quantidade significativa de escravos. A seguir trabalharemos com a posse destes cativos para vila de Caçapava.

  4 - A POSSE DE ESCRAVOS NOS INVENTÁRIOS POST-MORTEM.

  A escravidão na região sul teve uma atuação indiscutível, tendo esta prática, chegado a diversos setores da economia regional. Dentro das questões econômicas, podemos destacar os grandes plantéis de cativos, que estavam interligados com as atividades, tanto nas lidas com a carne (citamos as charqueadas e a pecuária) como demonstrou Cardoso (2003) em sua obra pioneira. Também foi possível perceber cativos nas produções agrícolas, que nas primeiras décadas do XIX, teve um papel fundamental nas exportações de trigo, Osório (2007). Mas estas paragens também possuíram escravos em regiões, em que suas atividades eram basicamente a pecuária e a agricultura, e estas não chegavam a serem expressivas se comparadas com outras regiões. No entanto, nestas regiões havia uma economia voltada para o mercado interno.

  Dentro desta economia, chamamos atenção para a mão-de-obra que ali era desempenhada, não ficando apenas com os peões. Havia sim um contingente de cativos muito grande nestas paragens. A partir disso, encaixamos nossa pesquisa, pois a temática sobre a escravidão cada vez mais tem sido debatida. No entanto, o cativeiro é um assunto pouco discutido quando relacionado à vila de Caçapava, conforme é possível perceber nas obras já referidas. Os poucos estudos locais apenas um menciona este tema sobre o cativeiro.

  51 Dentro de uma renovação historiográfica temos o trabalho de Bruno Moraes , sendo o

  primeiro trabalho científico para a localidade. Mas assim mesmo, ainda percebemos a existência de lacunas a serem trabalhadas.

  Segundo Schwartz (2001) “a relação entre a economia interna e a de exportação, e entre a escravidão e outras formas de organização do trabalho, continuam inexploradas”. Embora que para região sul tenhamos um bom número de trabalhos sobre a sua economia. Percebemos ainda brechas e com as fontes visualizamos a existência de um passado em que os escravos estiveram presentes nesta região e atuaram enquanto agentes históricos.

  Nesta última parte de nosso trabalho abordaremos os cativos que estão presentes nos processos de inventários post-mortem. Sabemos que será impossível de diagnosticar a quantidade certa de escravos que habitavam a vila de Caçapava, pois trabalhamos somente com os

  52

  inventários para o período de 1831-1839 . Porém, podemos revelar dados significativos, como a 51 quantidade de cativos presentes nesta fonte, quais eram os ofícios que estes estavam inseridos, 52 A pesquisa é referente a conquista da liberdade MORAES, 2008.

  embora não tenhamos uma repetição tão grande. Outro ponto que pode ser levantado é a proporção de sexo entre os plantéis, dentre outros elementos que podemos retirar destes processos como valores atribuídos aos escravos e origem.

  Os inventários também nos apontaram outras questões daquela sociedade, como bem mencionou Helen Osório (2007):

  No Rio Grande do Sul, destacavam-se entre os mais afortunados, aqueles que eram comerciantes e que ao mesmo tempo atuavam nas charqueadas; os estancieiros que se dedicavam, primordialmente, a agro-pecuária e os comerciantes lavradores, que atuavam tanto na área rural quanto possuíam imóveis urbanos. Apesar de se dedicarem a atividades diferentes, suas fortunas eram constituídas, em grande parte, pela propriedade de escravos. Estes marcavam, inequivocamente, a hierarquia social (OSÓRIO apud

  XAVIER, 2009. p. 16).

  Nota-se que era uma sociedade formada com bases em uma hierarquia social, em que o fato de ter um cativo, em muitos momentos, poderia significar dentro outras coisas, o ser diferenciado, ao ser senhor de escravos.

  A historiografia referente à escravidão tem avançado cada vez mais sobre temas que por muito tempo eram negados. Exemplo destes, era a não aceitação de escravos em regiões de pecuária, por parte de uma historiografia revisionista, expoente desta visão Décio Freitas (1983). Felizmente estes pontos já foram superados, os debates em relação à escravidão não estão mais enraizados na comprovação dos cativos, terem ou não, participado dos quadros sociais e econômicos, mas sim de averiguar as formas de suas participações.

  A nova historiografia que se utiliza muito da antropologia entre outras interfaces, debate atualmente assuntos que envolvem as formas de como os escravos se organizavam, por exemplo, para acumular pecúlio para a compra de suas liberdades. Para exemplificar, mencionamos os

  53

  trabalhos recentes de Tiago Araújo (2008) e Marcelo Matheus (2009) que tem este enfoque, de perceber as diversas formas de se conseguir a liberdade. Nossa pesquisa tem por objetivo dialogar

  54

  com a nova historiografia , para tentarmos analisar os escravos que estavam presentes nos inventários post-mortem da vila de Caçapava. No entanto, sabemos que o diálogo aqui não será 53 tão aprofundado, por dois motivos. Primeiro, pelo fato de se tratar de um Trabalho de Final de 54 Ver In. : ARAÚJO, 2008; MATHEUS, 2009.

  

Aqui vamos debater com trabalhos da chamada História Agrária, pois estes deram passos largos no entendimento

das relações sociais e econômicas em que os cativos estavam inseridos. Destacamos os autores Paulo Zarth, Helen Osório, Luís Augusto Farinatti e Graciela Garcia. Graduação com limitações de tempo e extensão; segundo, utilizamos nesta pesquisa um único tipo de fonte, o que não permite aprofundar a análise em determinados aspectos.

  Sabemos que os inventários post-mortem têm as suas limitações, porém, esta fonte é extremamente rica, revela-nos o patrimônio de uma parcela da sociedade no qual temos os cativos, objeto de nosso estudo, além de outros elementos que mencionamos no decorrer desta pesquisa.

  A prática de abrir um processo destes era uma obrigação legal, embora saibamos que não era cumprida por toda a população, a expressiva quantidade de documentos deste tipo, corrobora para que tenhamos uma sequência considerável de inventários e consequentemente verificarmos a presença dos escravos nos patrimônios familiares.

  4.1 – Os Senhores de Poucos Escravos da Vila de Caçapava.

  Tivemos alguns trabalhos que contribuíram para o avanço das pesquisas referentes à escravidão, no entanto para a primeira metade do século XIX no que diz respeito ao sul do Brasil, ainda temos um espaço bem vasto a ser preenchido. Principalmente quando mencionamos regiões como a que estamos trabalhando, com uma economia periférica voltada para o mercado interno, com pouca significância econômica. Na segunda parte desta pesquisa, foi possível demonstrar um pouco do perfil das formas produtivas desta localidade. A grande quantidade de gado vacum estava nas mãos de poucos estancieiros, o que não era diferente para outras regiões, guardada suas devidas proporções, como por exemplo, a Alegrete que era detentora dos maiores rebanhos de gado vacum da região sulina.

  Ao analisar Alegrete, pela obra de Escravos do Pastoreio de Luís Augusto Farinatti (2006), percebemos algumas semelhanças para esta vila, porém, com uma redução muito grande nas quantidades de gado e cativos. Quando observamos o montante de inventários post-mortem de Caçapava, foi possível detectar, à primeira vista, que se tratava de uma região com uma grande quantidade de escravos para o suporte da vila.

  A historiografia rio-grandense nos últimos anos apontou um considerado número de trabalhos que demonstraram a grande quantidade de pecuaristas de grosso trato. No entanto, trabalhos mais recentes apontando para uma diversificação no campo. Estes nos apontando regiões que tinham poucos estancieiros, e um número maior de pequenos e médios proprietários, e estes eram extremamente relevantes. O trecho a seguir demonstra a percepção disso por parte de pesquisadores atuais: a presença de grandes estancieiros tem sido continuamente apontada pela historiografia.

  Contudo, ao lado desses vigorosos pecuaristas, aparece um número nada desprezível de produtores mais modestos, com menos de 1.000, 500 e até menos de 100 reses. Os médios e pequenos criadores de gado, já analisados por Osório nas áreas de colonização antiga, durante o período colonial, surgem expressivos também nas décadas de 1831 e 40, mesmo na Campanha, região tradicionalmente vista como palco único das enormes estâncias (FARINATTI, 2006. p. 143-144).

  Percebemos semelhanças deste tipo para esta vila também, pois os dados levantados por trabalhos anteriores batem com os nossos. A nossa pesquisa corrobora estas questões de não termos uma sociedade homogênea, e tão pouca bi-polarizada. Ainda mais quando estes números estão retirados de inventários, uma fonte que tem como principais representantes as pessoas mais abastada. A autora Graciela Garcia (2009) também faz menção a estes pontos de uma sociedade diversificada em Alegrete. Conforme segue:

  Apesar de até aqui termos demonstrado a existência não apenas de estancieiros, mas setores médios de criadores e até mesmo modestos pastores, que com seu pequeno rebanho não podiam garantir a sua subsistência sem trabalho sazonal, revelando ainda a existência de despossuídos entre os inventariados, ainda não tratamos do pólo oposto à camada mais afortunada: os escravos (2009, p.58).

  Entendemos que existe uma diversificação, porém, o gado aqui também está nas mãos de uma parcela de grandes proprietários, mas, também temos produtores pequenos e médios produtores que os possuem, e isto também é verdade para a distribuição dos cativos. Assim, a complexidade das relações ali existentes são maiores do que a mencionada por memorialistas. Nesta amostra temos muitos proprietários modestos que possuem uma quantidade bem razoável de escravos. E quando acrescentamos o cenário em que estas relações estão ocorrendo, uma economia periférica, a questão de se ter cativos fica mais instigante.

  Na tabela 4 a seguir analisaremos a posse de escravos em relação às unidades produtivas de Caçapava. Aqui, levaremos em conta a quantidade de gado vacum existente nesta vila, relacionadas nos inventários.

  TABELA – 4

Quantidade e média de escravos por inventário para Caçapava (1831-1839)

Nº de criadores Nº de Nº de Nº de Média de escravos

  Inventários Inventários com Escravos por inventário

Escravos

  21

  19

  61

  3

  • – 50

  10

  51

  8

  15

  2

  • – 100

  16

  101

  11

  62

  5

  • – 500

  10

  501

  10

  89

  9

  • – 1000

  4 Mais de 1000

  4

  81

  20

  61 Total:

  52 304

  6 FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  Por meio de uma quantificação, podemos chegar a estes valores, que foram extraídos dos inventários. Aqui não percebemos um amplo número de criadores com rebanhos de grandes cifras, discordando de Moraes que mencionou em sua pesquisa que

  “não era incomum encontrar nos inventários dos moradores de Caçapava a presença de milhares de gado” (2008, p.26) nossa amostra encontrou apenas quatro inventários com números superiores a 1.000 cabeças de gado. E

  55

  quando analisamos e se relacionarmos com outras regiões , todavia, para este microcosmo local estes têm uma representatividade muito efetiva, percebemos que os quatro grandes inventariados são detentores de mais da metade de todo o gado vacum inventariado nestes anos. Não era de se estranhar que a média de escravos mais alta estava em suas escravarias.

  A média de cativos para vila neste período era de 6 para cada núcleo produtivo, no entanto os quatro mais ricos tinham uma média de 20 escravos, ou seja, três vezes mais do que os demais núcleos produtivos. Aqui, chamamos a atenção para esta disparidade, que nos mostra uma sociedade estratificada, com um grupo mais abastado que detinha o poder econômico local, que era baseado no gado vacum.

  No entanto, a vila continha elementos que nos chamam a atenção, pois os produtores 55 mais abastados terem seus cativos nos faz termos um raciocínio mais objetivo, no sentindo dos

  

A vila de Caçapava não tinha um rebanho tão expressivo, pois a região da campanha como já mencionamos antes

possuía cifras maiores de gado vacum. No entanto a região central, com a vila de Santa Maria para um período

posterior foi registrado uma quantidade inferior de gado vacum. Sabemos que não é correto fazer comparações entre

períodos diferentes, pois algumas secas ou outros fatores podem ter influenciado para uma menor quantidade das reses. Ver a questão das quantidades de gado in. FARINATTI, 1999, 2010. que tinham condições de adquirirem seus escravos, muito pelo fato de sua condição econômica ser abrangente. Assim, ter um poder econômico teoricamente facilitaria na questão de ter seus cativos, e isso é correto. No entanto percebemos uma grande quantidade de processos que possuíam um número de cativos, e estes com 2 a 5 cativos. Estes nas faixas mais pobres de nossa amostra.

  Na tabela 4 anterior, podemos notar nas escalas que aqui foram criadas, que estas possuem uma grande paridade na quantidade de escravos. No entanto temos apenas uma faixa que foge à regra. E esta é a dos proprietários com 51-100 cabeças de gado vacum. Este escala é a que possuía a menor média de cativos, chegando a dois por inventário.

  Dentro desta análise foram levantados 61 inventários post-mortem, para o período em questão. Destes, 52 tinham arrolado em seus bens de raiz cativos, que representavam 85% dos inventários trabalhados. Apenas 9 dos inventários não tinham escravos, isso representa 15% nesta amostra. É seguro afirmar que representa um número expressivo, considerando-se que se trata de uma vila que não tinha uma produção econômica de ponta. O número total de escravos chegava a 304.

  Quando comparamos nossos dados com a pesquisa de Farinatti (2006) sobre a fronteira, mais precisamente a vila de Alegrete, para um período um pouco maior 1831-1850. O autor em seu levantamento com base em inventários demonstrou a presença de cativos. No seu trabalho teve um total de 74 processos destes 62 com escravos, chegando a média geral de 10 cativos por propriedade, um total de 633 escravos, cifra bem superior à nossa.

  Mas o que chamamos atenção é para as médias, muito próximas da que encontramos, é claro que o inventário não se trata de uma fonte que se repetia igualmente para todos os anos, ou seja, tem anos que se têm mais processos do que outros como qualquer outra fonte seriada. Nossa amostra tem uma maior concentração nos anos de 1834 e 1835 (ver gráfico 1). Acreditamos que com o acréscimo de mais inventários a quantidade de cativos aumentaria, mas os valores ficariam ainda mais baixos do que as somas encontradas por Farinatti para a campanha.

  Quando levantamos a questão dos escravos e cruzar estes com o pecúlio mais importante daquele momento, o gado vacum, podemos visualizar no gráfico a seguir esta relação, e a importância.

  

GRÁFICO -2

FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  Percebemos que 43 inventários possuíam gado vacum e também os cativos, um valor que passa da metade do montante de processos. Por outro lado, apenas 30% dos documentos não apresentavam arrolados em seu corpo os dois bens, os escravos ou as reses. Estes dados vêm corroborar autores como Helen Osório (2007), Paulo Zarth (2002) e Luís Augusto Farinatti (2006, 2010) que nas suas pesquisas já haviam demonstrado que a escravidão está presente em diversas parcelas, ou seja, que não eram somente as famílias mais abastadas que os possuíam cativos. Assim, podemos comprovar isso fazendo ligação com gráfico 2 e a tabela 4 antes mencionada, e corroborar estes autores anteriores na questão do escravo na pecuária.

  No entanto não podemos dizer ao certo se todos os cativos que aqui foram arrolados lidavam apenas com o gado, ou seja, com o ofício de campeiro. Algo que nos colocou dúvidas em relação à sua ocupação é que notamos que nas maiores escravarias a questão do ofício se repete com uma maior freqüência. Porém, não podemos afirmar com uma total certeza, mas foi o que podemos notar nas fontes, e isso não exclui que apareça ofício para senzalas pequenas. Mas, faz jus lembrar que muitos poderiam não identificar a profissão de seus escravos, pelo fato dele não se dedicar apenas a uma atividade.

  4.2 – Uma Faca de Prata, Um Espelho Grande e Oito Escravas Crioulas.

  As diferenças dos bens e das variedades encontrados dentro dos inventários é algo muito instigante. Pois, sabemos que pelos artefatos e quantidade de escravos e gado que ali estão arroladas podemos muito bem averiguar qual era a forma produtiva. Para esta vila e também estes anos pesquisados, ficou muito evidente que a questão do gado era sem dúvida o cerne de sua economia.

  Assim sendo, notamos uma variedade de bens alistados nos processos, que muito nos chamou a atenção. Aqui vamos destacar alguns, bem como a quantidade de inventários com escravos e os pouquíssimos bens, ou até mesmo sem bens além de seus cativos. Ou seja, inventários que os escravos eram os mais valiosos bens. Da mesma forma, ocorria o contrário: inventários com apenas dois escravos e mais de 500 cabeças de gado vacum. Questionamo-nos a este respeito, pois pelo nosso levantamento é o gado vacum que é a base econômica local, mas com certeza havia outros mecanismos de acúmulo de renda e consequentemente, meios de aquisição de cativos. A seguir, utilizaremos um inventário que melhor explicita a posse de escravos com poucos bens, o que não era o único caso, porém, o que mais nos chamou atenção.

  No ano de 1834 foi aberto o processo de inventário post-mortem de Jeronymo Francisco Severino. Este teve como seu inventariante o senhor João Baptista de Carvalho. Em seus bens, além de uma casa, poucos móveis e uma faca de prata, estavam relacionadas em seu processo oito escravas, e todas crioulas. As suas idades foram sonegadas e isso não nos possibilitou relacionar se tinha, por exemplo, mães e filhas. Outro ponto era o valor das escravas, estes

  56

  giravam entre 100$000 e 480$000 réis . Estes valores estavam entro os mais altos que encontramos o que podemos deduzir ser uma mulher com trinta e poucos anos. Já os valores menores, podem ser criança ou uma escrava com uma idade bem avançada.

  Este exemplo, que aqui estamos mencionando nos faz criar muitas perguntas, porém, poucas respostas. O que sabemos de Severino e suas escravas? Somente o que foi relatado, ou seja, o que está no inventário. Severino não tinha nenhuma cabeça de gado arrolada em seu inventário, mas isso não exclui a possibilidade deste ter tido. Pois sabemos estas paragens não eram tão seguras, e a guerra era algo que estava sempre iminente neste período. No entanto, são coisas que apenas levantamos como hipóteses para futuras análises, em que tentaremos entender melhor o que é ter escravos na vila de nossa Senhora da Assunção. A partir do exposto é possível perceber que não é possível estabelecer padrões rígidos para classificar ou mesmo compreender 56 as diferenças sociais, sobretudo, para se falar de escravismo na região.

  

Inventário post-mortem de Jeronymo Francisco Severino, Autos 73; Maço 3; Estante 90; Cartório de Órfãos e

Ausentes de Caçapava, 1834.

  Considerando todo o cuidado de se estabelecer conclusões a partir da pesquisa com inventários, somente, é possível refletir e problematizar a sociedade local. Percebemos, com isto, quão complexas eram as relações escravistas, e não podemos reduzir para o caráter econômico.

  No caso da escravaria de Severino, suas escravas poderiam muito bem todas serem da lida doméstica, algumas amas de leite. Mas o que sabemos é que o bem maior deste inventariado era as suas escravas, estas somavam 90% de seus bens. Difícil é compreender como foram adquiridas, talvez por herança.

  4.3 – Africanos, Crioulos e os Muitos Sem Referência.

  As questões sobre origem dos cativos por muito tempo vêm sendo trabalhadas. Dentro deste viés, primeiramente nos vem a questão dos africanos, pois estes foram os primeiros escravos negros no Brasil. Pesquisas como Tráfico, Cativeiro e Liberdade de organização de Manolo Florentino (2005), nos mostra um conjunto elementos desde as relações do tráfico,

  

57

  passando pelo cativeiro e chagando a liberdade . Nossa análise não terá pretensões de explanar todos estes campos, porém, sabemos que em muitos momentos estes se cruzem. Ou seja, quando se é trabalhada as trajetórias de alguns cativos, levamos em conta diversos elementos que aqui não poderemos trabalhar. Para exemplificar citamos a pesquisa de Paulo Moreira (2009) Joana

  Este trabalho o autor Mina, Marcelo Angola e Laura Crioula: os parentes contra o cativeiro. reconstrói a trajetória escrava, seu exemplo central e Joana que é traficada ainda criança para o

  58 Brasil, Moreira vai pontuando o protagonismo de Joana, enquanto agente social .

  Aqui chamaremos a atenção para um ponto, que é a questão da origem dos cativos da vila de Caçapava, principalmente por isto determinar o valor do escravo e, consequentemente, sua importância entre os bens relacionados no inventário. Esta pesquisa tem o seu recorte temporal na primeira metade do século XIX. O seu ano inicial 1831 coincide com a promulgação da lei para

  , que seria para terminar com o tráfico no atlântico e que declarava livres os africanos

  inglês ver 57 desembarcados em portos brasileiros desde aquele ano. No entanto esta prática não teve o seu 58 FLORENTINO, 2005.

  MOREIRA, In. : SILVA, G; SANTOS, J. 2009. fim, e muitos negros foram retirados de suas nações, e alguns chegaram ao Brasil, consequentemente, também em Caçapava.

  No gráfico a seguir, percebemos a quantidade de cativos e a sua origem.

  

GRÁFICO - 3

FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  O gráfico mostra a presença de africanos, e esta é bem relevante. No entanto, não são os mais frequentes, tendo um total de 63 cativos, cifra inferior quando comparada com os crioulos, que chegam ao total de 113 escravos. Mas, uma ressalva tem que ser feita, pois a quantidade de escravos sem referência é a mais alta chegando a 124 cativos. Assim, não sabemos o certo qual era a origem de todos os cativos presentes nestas fontes, o certo é que havia 304 cativos arrolados nos processos. Talvez ao analisar os seus valores pudéssemos ter uma base para dizer quem eram os africanos e quem eram os crioulos, pois os africanos geralmente eram mais caros. Mas não podemos cair em um erro em dizer que alguns que custavam mais caro que outros eram africanos. Pois, ainda temos a questão das idades que influenciavam muito no preço dos cativos.

  Em consenso nas pesquisas referentes à escravidão, e mais especificamente a que tratam sobre o tráfico, é possível dizer que chegavam nestas terras brasileiras mais homens do que mulheres. Em nossos dados também foi possível perceber esta questão. Vejamos o gráfico 4:

  GRÁFICO - 4

   FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  Percebemos que existia uma quantidade de homens africanos superior às mulheres, estes valores chegavam a quase três africanos para cada africana. Estes valores também aparecem na soma geral levando em conta o sexo. Havia uma quantidade maior de homens do que mulheres. Segundo Florentino e Góes, (1997) era uma constante o desequilíbrio entre homens e mulheres cativos no interior das propriedades de todos os tamanhos

  • – os homens representavam entre 55% e dois terços de toda escravaria.

  O próximo gráfico demonstra estes dados que corroboram com Florentino e Góes (1997).

  GRÁFICO - 5 FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  Aqui tivemos uma maior quantidade de homens, 19% a mais, estes valores vão corroborar com as questões do tráfico, onde entravam nos portos mais homens do que mulheres, segundo os dados conhecidos. No entanto, quando analisamos a questão dos crioulos, ou seja, aqueles que aqui nasceram, encontramos uma maior concentração de mulheres. O percentual é de 1,4% a mais de mulheres para cada homem.

  Dados semelhantes foram encontrados por Farinatti, em que a quantidade de homens cativos era bem superior à de mulheres. “A relação entre os sexos apresentava-se bastante desequilibrada, com uma média de mais de 177 homens para cada 100 mulheres escravas” (2006, p.141). Aqui temos uma diferença de 56 homens a mais, assim, para Alegrete estes valores são maiores. Mas em uma análise geral os valores se correspondem, pois a quantidade de cativos lá viveram eram superiores aos desta vila, pelo menos neste recorte analisado.

  No Gráfico a seguir contabilizamos os escravos crioulos, e nestes encontramos um número maior de mulheres. Vejamos o gráfico 6:

  GRÁFICO – 6 % de Escravos Crioulos por Sexo FONTE: Inventários post-mortem de Caçapava 1831 a 1839, (APERS).

  Embora a quantidade não seja tão elevada, ela é superior. Assim, a razão do sexo para os escravos crioulos, significava um maior número de mulheres, ou seja, havia certa vantagem de 1,3 mulheres a mais sobre os homens. Dados estes que não são tão corriqueiros de aparecerem, pois quase sempre temos uma maior quantidade de homens.

  Para entendermos melhor esta questão de termos uma maior quantidade de mulheres, fizemos uma análise nas idades, em que percebemos uma grande quantidade de escravas crianças. Se relacionar alguns inventários pode ser abordado questões sobre a presença de famílias escravas, pois encontramos alguns casos de mães e seus filhos arrolados nos processos.

  Citaremos mais uma vez nossa fonte, este exemplo direcionaremos para duas questões. Primeiramente o fato de termos mais escravas mulheres crioulas, explica-se, provavelmente, pela reprodução interna. A seguir, abordaremos um exemplo de família escrava, que está relacionada com a questão das mulheres crioulas.

  No inventário de Genoveva Carolina de Lima, que teve como inventariante seu marido Justiniano José de Oliveira tivemos arrolados cinco escravos, todos crioulos. Destes, quatro tinham um parentesco, eram uma mãe e seus três filhos dois meninos um de dezoito meses, de nome Mauricio e Pantaleão de cinco anos. Ainda uma menina de três anos de nome Eva. A mãe a preta Leocadia foi arrolada com a idade de trinta anos, mesma idade do outro escravo Adão.

  59 Adão poderia ser o pai das crianças, porém, não podemos afirmar .

  Este caso nos revela a fertilidade dos cativos, neste caso temos uma menina que vai corroborar para o maior número de mulheres, pois estas em sua maioria eram menores de onze anos. Havia 51 mulheres com menos de onze anos, que representa 78% de todas as mulheres. Ainda tinham mais 22% que eram maiores de onze anos, que somavam 14 escravas, do total de 65 mulheres escravas crioulas.

  Portanto, em poucas páginas conseguimos perceber a grande diversidade que era a vila de Caçapava. Nessa pequena amostra, foi possível visualizar diferentes características que formam o contexto. Destes destacamos a forma produtiva onde os cativos estavam inseridos, que era a pecuária. Ainda que nem sempre aparecessem os ofícios, questão que não abordamos diretamente. Outro aspecto é em relação à presença de africanos, que está relacionada às questões sobre a origem e também corroborando para o tráfico no atlântico.

  Também pontuamos, embora que muito discretamente, as questões sobre a presença de famílias escravas nos inventários. Aqui, mencionamos apenas um caso, mas gostaríamos de mencionar que este não era o único existente, e juntamente com este temos outros pontos, como o 59 casamento de cativos que eram relatados nos processos. Assim, acreditamos que trabalhar com o

  

Inventário post-mortem do casal Genoveva Carolina de Lima, seu marido Justiniano José de Oliveira, Autos 71; Maço 3; Estante 90; Cartório de Órfãos e Ausentes de Caçapava, 1834. tema escravidão é extremamente instigante e inspirador. Utilizar os inventários para tratar sobre os cativos, nos revela informações valiosas. Sem dúvida, o confronto com outras fontes contribuirá para o aprofundamento das pesquisas sobre o tema.

5- CONCLUSÃO

  Ao trabalhar com uma fonte do tipo seriada, esta o inventário post-mortem, nos abriu um

  

leque de objetos para serem analisados. Nosso foco inicialmente era de apontar e demonstrar por

  meio dos processos os cativos ali presentes. E isso foi efetuado em nosso terceiro capítulo. No entanto, as análises da fonte nos proporcionaram caminhos novos para esta pesquisa, como de abordar uma elite pecuarista que diagnosticamos por meio dos inventários, que até então não havia sido abordada para esta região.

   Mas, esta fonte não revelou apenas uma sociedade de estancieiros e peões. Havia uma parte da sociedade da vila de Caçapava, que não era detentora de grandes quantidades de gado vacum, pecúlio que mais se repetiu nos processos. Dentro deste universo de proprietários, foi possível visualizar, desde aqueles moldes criados por Helen Osório (2007) para identificar quem era lavrador, criador, criador e lavrador. Com isso, conseguimos perceber que aquele cenário agrário de Caçapava continha diversidades, pois seus habitantes eram escravos, criadores, lavradores entre outros.

  Aqui, procuremos construir por meio das quantificações o possível para o período em questão, que era 1831-1839, para assim, tentarmos reconstruir partes daquela sociedade. Mas sabemos que muito ainda pode ser feito para esse mesmo recorte. Pois, trabalhamos apenas com um tipo de fonte, se fossem agregadas outras acreditamos que muitas incertezas e dúvidas seriam esclarecidas. Porém, este não era o nosso foco, pois aqui nossa pretensão era em demonstrar a presença de cativos e alguns aspectos da economia no período em questão.

  No entanto, com este número de inventários, conseguimos perceber, por exemplo, o tráfico chegava nesta paragem, pois o elemento africano foi encontrado. Além disso, visualizamos que os escravos estavam em sua maioria ligados aos grandes proprietários, sem excluir os menos abastados. Ou seja, a escravidão para estes anos não estava concentrada apenas nos plantéis dos grandes criadores, embora estes tivessem as maiores escravarias. Os cativos estavam nos bens dos lavradores, dos pequenos proprietários e também naqueles que não sabemos identificar qual era, ou quais eram as suas atividades produtivas.

  Portanto, acreditamos que os objetivos deste trabalho tenham sido alcançados, claro, sempre existem coisas a serem melhoradas e aprimoradas. Mas conseguimos demonstrar a presença de cativos nos inventários. Dentro deste ponto alguns exemplos foram mencionados e analisados. Foi notória a grande quantidade de escravos para esta região. Ainda, levantamos questões sobre uma elite, e utilizamos um exemplo que era a exceção desta região para comparar com outros municípios sulinos.

  Por fim, percebemos que a parcela inventariada que analisamos além de terem no gado vacum seu principal recurso, em alguns casos sem excluir outras atividades como a trato com a terra. Estes em 85% de nossos processos eram detentores de escravos que variavam as suas quantias, indo de 1 a 58, tendo uma soma total de 304 cativos para recorte de 1831 a 1839.

  6- FONTES PRIMÁRIAS MANUSCRITAS

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Negro [recurso eletrônico]: cartografias sobre a produção do conhecimento / organizadores

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