ODILON KIELING MACHADO A CONTRIBUIÇÃO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

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ODILON KIELING MACHADO

A CONTRIBUIÇÃO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO

CONTEXTO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

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A CONTRIBUIÇÃO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO

DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências

Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção

do grau de Licenciado em História.

Orientadora: Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim

Santa Maria, RS

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Odilon Kieling Machado

A CONTRIBUIÇÃO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO

DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências

Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção

do grau de Licenciado em História.

_________________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim – Orientadora (Unifra)

___________________________________________________ Profª. Ms. Elizabeth Weber Medeiros (Unifra)

____________________________________________________

Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn (Unifra)

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Ao Deus da vida e da libertação, que me fortalece na fé e me motiva para seguir a caminhada a favor da justiça social.

À professora Ms. Paula Simone Bolzan Jardim, por me orientar nesta pesquisa e permitir que a elaboração da mesma fosse possível. Seu exemplo pedagógico de dedicação e seu profissionalismo naquilo que faz e acredita, incentiva seus alunos para o caminho acadêmico. Obrigado Paula.

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RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo analisar a contribuição das CEBs no Brasil dentro do contexto da teologia da libertação entre a ditadura civil militar brasileira e o processo de redemocratização do país na segunda metade do século XX. A metodologia empregada foi a análise historiográfica em livros. Através da pesquisa, observou-se a influência das CEBs na renovação da Igreja Católica e na ação transformadora dos movimentos populares, políticos e sindicais, por meio da mística cristã e a opção evangélica preferencial pelos pobres.A pesquisa ajudou a compreender a força que emerge dos setores populares excluídos da sociedade brasileira, em termos de organização de forma comunitária e coletiva para resolver suas demandas e mudar a sociedade. Ao fazer uma análise da atuação das CEBs, verifiquei que uma grande mudança de paradigmas em termos de ação , é a gestação de um projeto político democrático, participativo e solidário construído a partir do protagonismo dos pobres e oprimidos, aliados aos demais setores da sociedade que lutam pela mesma causa.

Palavras-chave: CEBs; Teologia da Libertação.

ABSTRACT

This study aims to examine the contribution of the CEBs in Brazil within the context of liberation theology among the Brazilian military dictatorship and civil process of democratization of the country in the second half of the twentieth century. The methodology employed was the historical analysis in books. Through research, we observed the influence of the CEBs in the renewal of the Catholic Church and the transforming action of popular movements, political and union, through the mystical Christian and evangelical option for the poor. The research helped it emerge To understand the strength of excluded popular sectors of Brazilian society, in terms of organization collectively and collectively to address their demands and changing society. By making an analysis of the performance of CEBs, I found that a major paradigm shift in terms of action, is the pregnancy of a political democratic, participatory and supportive built from the role of the poor and oppressed, along with the other sectors of society that fighting for the same cause.

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INTRODUÇÃO...08

1 A MÍSTICA QUE RENOVA A IGREJA...16

1.1 MÍSTICA...16

1.2 CONCÍLIO VATICANO II...22

1.3 CONFERÊNCIA DE MEDELLIN E CONFERÊNCIA DE PUEBLA...25

2 A TEOLOGIA QUE TRANSFORMA A SOCIEDADE...30

2.1 COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBs)...30

CONSIDERAÇÕES FINAIS...44

REFERÊNCIAS...46

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LISTA DE ANEXOS

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INTRODUÇÃO

“Esta nova forma de ser Igreja propicia a conscientização do povo”.

Leonardo Boff

O presente trabalho versa sobre um tema que possui importância histórica, na medida em que pretende mostrar a contribuição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil durante a ditadura civil militar e no período inicial da redemocratização. Havia uma vertente doutrinária interna da Igreja Católica chamada Teologia da Libertação, marcada pela opção de luta pela democracia, justiça e direitos humanos. Os membros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)1 aliados às pastorais sociais, pretendiam exercer um protagonismo junto às forças populares2, tanto na dimensão eclesial, social e como política. Baseavam-se nos valores cristãos de justiça, igualdade e solidariedade, como está descrito na Bíblia Sagrada em Atos dos Apóstolos:

Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1.393)

A fé cristã foi o que motivou a ação dos cristãos que atuavam nesse núcleo procurando suscitar crítica e consciência sobre a estrutura social e política que os cercavam, apontando suas contradições e estimulando a transformação. Neste sentido, esse setor específico da Igreja propôs uma mudança mais radical em busca da construção de uma sociedade justa. Para tanto, objetivaram algo mais profundo que uma reforma no sistema sociopolítico. Essas diretrizes foram definidas em vários momentos, como nos encontros regionais das CEBs e nos

1 Ao início dos anos 60 surgiu entre as classes populares do Brasil um novo modo de a Igreja ser: as

Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs são grupos de 20 ou mais pessoas que se reúnem uma ou duas vez por mês na capela da roça, no sítio do pequeno agricultor, no salão da casa paroquial, no centro comunitário da vila, no barraco da favela, para refletir, nutrir e celebrar sua vida de fé. São comunidades porque as pessoas se conhecem pelo nome, partilham suas vidas e seus problemas, põem em comum seus bens e seus esforços, lutam juntos por melhorias no bairro, conquista da terra ou da moradia, uma vida melhor. São eclesiais porque o eixo em torno no qual giram é a palavra de Deus, o uso da Bíblia dentro da realidade conflitiva em que vivem, a comunhão com a Igreja, da qual são células vivas. São de base porque integradas por subempregados, aposentados, jovens, lavradores, operários, donas de casa, em fim gente pobre e oprimida que forma a base da sociedade (BETTO, 1991, p.152).

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Encontros Intereclesiais de Base3 com momentos de reflexão a respeito da caminhada, das prioridades e da avaliação do processo. Esses encontros nacionais aconteciam periodicamente com representantes dos estados, que por sua vez representavam uma diocese4 composta por várias Comunidades Eclesiais de Base. (Anexos).

Devemos considerar o surgimento das CEBs durante a ditadura civil militar brasileira e o início do processo de redemocratização do país, dentro da perspectiva da Teologia da Libertação5. O intuito era unir a prática religiosa e social cristã com a realidade conflitiva da sociedade, aliando fé e vida. Esta posição se enquadra dentro de uma visão de esquerda, com o uso do instrumental marxista para entender a sociedade capitalista buscando articular com os princípios evangélicos. Nesse sentido, foi retomada a prática dos primeiros cristãos que viviam sua fé religiosa através de um testemunho comunitário e fraterno, situação que servia de ideal para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária no dia-a-dia. A fé religiosa aplicada à luta por uma sociedade mais justa e democrática indica a dimensão política. O caminho para mudar a realidade passava pela ação coletiva e organizada de baixo para cima, tendo nos pobres e excluídos os sujeitos desta transformação aliados aos intelectuais engajados na mesma luta.

Para abordar esta temática que está inserida na História do Brasil no final do regime civil-militar e início da redemocratização, é preciso entender a Teologia da Libertação como a base teórica, cujos principais ideólogos são Leonardo Boff e Frei Betto.

No campo teórico, parte-se do entendimento da arena política como espaço mais amplo do que as ações ligadas ao papel do Estado. Participavam os setores da sociedade que lutavam por políticas sociais (RÉMOND, 2003). Em relação a aspectos político-ideológicos, principalmente com referência a participação popular e para conceituar o movimento de esquerda, usarei como referência Bobbio:

[...] creio poder dizer que o que o faz de um movimento de libertação um movimento de esquerda é o fim ou resultado a que se propõe: a derrubada de um

3 O encontro de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) de âmbito nacional é sempre um momento forte e ímpar

de mobilização das comunidades. Espaço privilegiado para troca de experiências, análise da realidade, celebração da caminhada, encorajamento mútuo e fortalecimento dos sonhos (BENICÁ, 2006, p. 15).

4 Uma região sob governo de um bispo. A diocese é também chamada Igreja local. Nova Iguaçu, por exemplo,

no estado do Rio, é uma diocese. Algumas cidades, por sua importância no passado ou no presente, recebem o título de Arquidiocese. O papa é o bispo da diocese de Roma (BETTO, 1991, p.250).

5 A Teologia da Libertação nasce das CEBs surgidas na América Latina a partir dos anos 60. É a reflexão da fé

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regime despótico fundado na desigualdade entre quem está em cima e quem estão embaixo na escala social, percebido como uma ordem injusta, e injustiça precisamente porque inigualitária, porque hierarquicamente constituída; é a luta contra uma sociedade na qual existem classes privilegiadas e, portanto, em defesa e pela instauração de uma sociedade de iguais juridicamente, politicamente, socialmente, contra as mais comuns formas de discriminação (1995, p.19-20).

A participação dos cristãos em um movimento de esquerda no processo de conscientização política ocorrido no Brasil foi uma ação importante que contribuiu para a construção da ideia democrática aliada à justiça social.

Ao longo da História, a influência do pensamento religioso deixou marcas na trajetória humana através de suas práticas sociais, políticas e culturais. No mundo ocidental, o cristianismo tem sido, em diferentes épocas, uma força importante tanto em aspectos teóricos como em práticas comunitárias e evangélicas em nome de uma fé religiosa. Um exemplo que pode ser citado é o da influência do cristianismo entre as camadas mais pobres da sociedade durante o Império Romano com perseguições e mortes de fiéis. Houve a conversão em poder religioso oficial desta mesma fé, quando o referido Império, mostrou uma transferência da esfera de atuação. Ao procurarmos, no correr da história, teremos vários exemplos da defesa da fé católica que ecoavam de lugares distintos e por vezes rivais, basta citarmos o movimento franciscano que questionou frontalmente a forma como o poder da Igreja estava estruturado no período medieval. Em especial a relação entre religião e política é recorrente e contemporaneamente está visível entre setores de esquerda e populares. Todavia é preciso ressaltar que esses movimentos inspirados na Teologia da Libertação não constituem maioria entre os católicos, pois a posição conservadora e individualista tem uma presença mais importante.

A Teologia da Libertação frente ao Vaticano, desde sua origem tem causado preocupação aos setores hierárquicos mais conservadores da Igreja Católica. Normalmente são críticas pontuais em relação à dimensão sócio-política de suas teses, principalmente em relação à análise do instrumental marxista. Nos documentos oficiais da Igreja, especialmente a mensagem que o Papa João Paulo II fez na sua primeira viagem ao Brasil, afirmou que a Teologia da Libertação é útil e necessária. Estas questões são analisadas na seguinte publicação:

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teses fundamentais da teologia da Libertação, por serem evangélicas e segundo a melhor tradição: a opção pela libertação dos pobres, a dimensão social da fé e as expressões populares das comunidades de base. [...] Rejeita o marxismo enquanto sistema global, ideologia e filosofia materialista. Assume dele o traço dialético e elementos da análise da sociedade. (LIBÂNIO, s/d, p. 48).

A Teologia da Libertação emergiu dentro do contexto da chamada Guerra Fria a partir do Concílio Vaticano II. Este documento fez história dentro da Igreja Católica porque marcou uma guinada no sentido progressista e de ação social envolvendo os pobres. Esta mudança não se deu em toda a estrutura religiosa, dividiu um pouco os apoios e ampliou a participação da instituição na luta cotidiana das classes populares. Marcou espaço no combate constante ao socialismo:

[...] Frente aos diversos totalitarismos, a Igreja reagiu de modo diverso, porque diversas eram as circunstâncias em que eles nasceram e se desenvolveram. O comunismo russo, inspirado num rígido marxismo ortodoxo, declarou-se, desde o início, inimiga incondicional da religião qualificada de “ópio do povo”. [...] o Estado soviético promove oficialmente o ateísmo. Assim se explicam as condenações repetidas das instâncias eclesiásticas, não contra o ideal comunista da igualdade, mas contra a sua deturpação totalitária (HORTAL, 1985, p. 53).

Durante esta fase na América Latina ocorreu a formação da Teologia da Libertação a partir dos anos 60 do século XX, unindo a mística cristã com uma força política no combate às injustiças, abrindo espaço para a ação dos católicos progressistas como uma força junto às camadas populares na luta por direitos sociais e humanos. Neste aspecto Delgado; Passos caracteriza da seguinte forma:

[...] capitalismo internacional tem repercussões nos países da América Latina [...] A participação dos católicos nos movimentos sociais e políticos foram-se tornando significativa [...] Os fatores de mudança social, econômica, política e religiosa são amplos e complexos. [...] As mudanças vão-se inscrevendo em vários países latino-americanos de formas diferentes. [...] O principal interlocutor, para diversos setores da Igreja, passa a ser a sociedade civil [...] Esse processo possibilitou a aproximação entre Igreja e várias manifestações culturais, a expansão da ação social e, ainda, uma compreensão mais ampla desse exercício, reforçando, assim, sua aliança com as camadas populares [...] No entanto, as posições são múltiplas dentro da Igreja. A polarização também se fez sentir na hierarquia religiosa e junto aos leigos (2009, p. 104-05).

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dimensão política cristã identificada com um projeto de esquerda na sociedade, rejeitou desde o início o caráter filosófico ateísta, embora usasse o instrumental marxista para entender a sociedade capitalista, apontando que a maior contradição da sociedade não era entre crentes e não crentes, mas entre opressores e oprimidos. Não se posicionou como comunista ou socialista. A saída proposta pela teologia era fraterna e solidária com raiz evangélica. Segundo Boff:

Para quem tem fé, a utilização do materialismo histórico não pode representar um perigo fatal; somente para espíritos anêmicos, com fé que não crê em sua própria grandeza e superioridade, o marxismo representa o anjo exterminador do mau. A fé, por sua natureza, se movimenta num horizonte muito mais vasto, aquele do Absoluto diante do qual podemos, sem perder a dignidade, ajoelhar-nos, dentro do qual cabe a contribuição da teoria marxista da sociedade, na medida em que é produtora de luz sobre os problemas sócio-históricos (1991, p. 25-6).

O chamado “socialismo real”, na verdade transformou-se em um estado autoritário, embora o início da “Revolução de 1917”, tenha ocorrido em tom de “liberdade de classe” e autonomia via sovietes. No decorrer do processo o que se viu foi uma espécie de comunismo de quartel, abandonando o princípio humanista de uma sociedade socialista. O fortalecimento do aparelho burocrático do poder, o marxismo dogmático, o sectarismo político, as concepções mecanicistas ideológicas e o partido único são todos elementos contrários a dignidade humana (MARQUES, 1991).

Os trabalhadores foram privados de liberdade e democracia participativa, embora houvesse melhorias sociais, criando-se uma sociedade mais igualitária em relação aos países capitalistas. Por outro lado é importante salientar que o ser humano não vive só de pão, mas também de beleza. Esta análise é reforçada por Boff, inclusive em relação ao ateísmo:

O socialismo trouxe avanços inestimáveis ás imensas maiorias que historicamente sempre foram marginalizadas. Criou-se uma sociedade, indiscutivelmente, mais igualitária que qualquer outra no mundo. Fez-se a revolução da fome, coisa que na América Latina nunca fizemos. [...] Mas o socialismo seguiu pela vertente autoritária, da centralização a partir do Estado e do partido único. Isso levou a que fosse apenas beneficente e não participativo. Faltou a revolução da liberdade. E o ser humano vive de pão e também de beleza. (1991, p. 26).

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Partindo dessa perspectiva, no referido período histórico podemos entender a Teologia da Libertação dentro da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, ou seja, sob a égide de uma cosmovisão religiosa que expande sua atuação para o campo da vida material. Assim, de 1962 a 1965 foi realizado o Concílio Ecumênico Vaticano II, no qual a Igreja Católica começa uma fase de abertura ao mundo. Procurava, através da sua Doutrina Social, contribuir e influenciar às diferentes transformações que a humanidade atravessava, lutando pela dignidade humana e por uma mudança em favor dos pobres.

Esta nova perspectiva tem influência na América Latina através das Conferências Latino Americanas de Medellín6 (1968) e Puebla (1979)7, conforme nos relatam os vários autores. Camargo (1981) afirma que esta trajetória da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II e sua influência nas Conferências de Medellín e Puebla na América Latina tem como proposta a construção das comunidades de base:

Essa mudança tem uma forte influência na América Latina, através das Conferências de Medellín na Colômbia em 1968 e Puebla no México em 1979, através da ligação fé e vida e da chamada opção evangélica preferencial pelos pobres. Fazendo uma analogia entre o Concílio Vaticano II e as conferências de Medellín e Puebla podemos verificar que o Concílio foram os encaminhamentos oficiais da Igreja para o mundo e as conferências foram os encaminhamentos oficiais para a América Latina. A reunião de Medellín, na Colômbia, canonizaria essas tendências. Os documentos do II Encontro do episcopado Latino-americano (CELAM), reunido naquela cidade em 1968, documentos emitidos em caráter oficial, definem duas linhas básicas de ação que transformariam no estandarte legitimador e referencial dos novos grupos de cristãos: a opção pelos pobres e as comunidades de base (CAMARGO, 1981, p.66-8).

A mudança de posição traz consigo uma aproximação com os movimentos sociais por democracia e justiça social. A conjuntura política marcada por ditaduras militares dentro do contexto da Guerra Fria marca uma nova trajetória da Igreja, especialmente no Brasil. O elemento agregador da força popular por mudanças está na profunda fé religiosa do povo, que encontra em setores da Igreja uma aliada em suas demandas. Muitos teólogos procuram teorizar uma alternativa dentro dos parâmetros cristãos na qual a Igreja se tornasse mais

6 Cidade da Colômbia na qual se realizou a 2ª conferência geral do CELAM (Conselho Episcopal

Latino-americano), em 1968. Na reunião procurou-se adaptar à realidade da América Latina as conclusões do Concílio Vaticano II e o conteúdo da encíclica Popularum Progressio (1967), do Papa Paulo VI. O Documento de Medellín, assinado por 130 bispos do continente, condena o capitalismo e o neoliberalismo, apóia os movimentos populares, especialmente as Comunidades Eclesiais de Base, defende a mudança das estruturas econômicas e políticas injustas e abre a Igreja latino-americana a via da “opção preferencial pelos pobres” (BETTO, 1991, p.256).

7 Cidade do México que abrigou a 3ª Conferência Geral do CELAM (Conferência Episcopal Latino-americano),

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evangélica e profética e ao mesmo tempo inspirasse os cristãos a lutarem nas diferentes organizações populares por uma sociedade fraterna e solidária.

No Brasil, a partir dos anos 60, esta alternativa foi gradativamente elaborada pela Teologia da Libertação. Procurou-se, a partir da constatação da exploração vivida pelos oprimidos, sistematizar uma visão e traçar um plano de ações que pudesse mudar a sociedade na luta por liberdade e democracia baseadas nos princípios da Bíblia.

A contribuição das Comunidades Eclesiais de Base nasce nesse berço e frutificou na criação e nas ações das pastorais sociais. As CEBs forneceram o tecido para a constituição de diferentes movimentos políticos e sociais, que serviram de base para alavancar os movimentos populares, sindicais e agrários. Esta nova base popular ganhou força e sedimentou-se no período histórico que antecedeu o término do governo civil-militar no Brasil. O movimento operário urbano e rural de massas foi o mais importante da história recente brasileira. A criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o PT (Partidos dos Trabalhadores) são exemplos desta ação oriunda das CEBs (LÖWY, 1991). Esta prática proporcionou uma força popular que gerou muitas lideranças engajadas nos diferentes movimentos sociais brasileiros: o Movimento dos Sem Terra (MST) e os movimentos por habitação por emprego e renda. Foi também através de lideranças oriundas das CEBs e das pastorais sociais que se fortaleceu o movimento sindical combativo do ABC paulista nos anos 80 e a formação do Partido dos Trabalhadores (PT) no mesmo período. Lideranças da Igreja Católica como Dom Helder Câmara nos anos 60, Dom Paulo Evaristo Arns nos anos 70 e 80, além dos teólogos Leonardo Boff e Frei Betto, deram apoio teórico e prático para o fortalecimento e o crescimento das CEBs dentro de setores de uma Igreja renovada ligada às mudanças históricas, sociais e políticas em busca de libertação. Neste sentido os pobres não seriam mais objetos de caridade, mais sim sujeitos transformadores da história.

Para compreender com mais profundidade, o próximo capítulo aborda as questões de mística e da conversão nas ações internas a partir dos concílios.

Para equacionar o tema proposto, o texto possui dois capítulos, que no seu conjunto justificam a importância desta pesquisa e a contribuição da mesma para a História do Brasil.

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preferencial pelos pobres, a igreja como povo de Deus e a formação das CEBs. Embora não seja homogênea, está nova postura impulsiona uma parcela da Igreja a uma prática progressista.

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1 A MÍSTICA QUE RENOVA A IGREJA

“Para a Teologia da Libertação, toda a história humana deve ser encarada a partir dos interesses e das aspirações dos oprimidos”.

Frei Betto

1.1 MÍSTICA

A força interior inerente a todo ser humano em busca de algo que possa lhe dar um sentido à sua existência pode ser denominada mística. É uma angústia humanista ou religiosa, em busca de explicação e do sentido mais profundo da existência. É a procura por mais dignidade e justiça aos seres humanos. Como evidencia Boff:

Procuram descobrir em si as várias dimensões do mistério da vida e os níveis de profundidade da indagação humana. Identificam aí os grandes sonhos e visões de um mundo novo e de relações humanas e sociais mais benevolentes e amorosas que povoam nosso imaginário e que de tempos em tempos, incendeiam nossos corações (1994, p. 11).

Na América Latina, como no Brasil, este sentimento está ligado a muitos movimentos sociais religiosos de cunho popular que lutaram principalmente a partir da década de 60 do século XX. Eram impulsionados pela mística para uma mudança mais profunda na sociedade. Dentro desta perspectiva é importante destacar a seguinte reflexão de Leonardo Boff:

No nosso continente sempre houve espíritos que se deixaram inspirar pela utopia originária do cristianismo, de uma forma fraternal e sororal, justa e participativa, carregada de ternura pelos pobres e marginalizados [...] A opção das Igrejas pelos pobres traduz emblematicamente, para nossos dias, as dimensões libertárias da memória “subversiva” de Jesus de Nazaré. Outros retomam as idéias emancipatórias da Revolução Francesa, de liberdade, igualdade [...] o socialismo e o marxismo foram uma torrente de generosidade e uma fonte inspiradora de verdadeiro amor aos oprimidos e de visões revolucionárias [...] Apesar da crise do socialismo “real”, que é um tipo de organização da sociedade e do Estado (como por exemplo, através da concepção leninista do partido único), o ideário socialista permanece como uma vertente mobilizadora de engajamento social. Para outros, são um humanismo radical e uma ética da compaixão e da solidariedade que motivam compromissos sérios em defesa dos índios, mulheres, aidéticos, hansenianos e outros penalizados pela sociedade dominante (1994, p. 10 -11).

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transformadora. É importante destacar que a palavra mística é adjetivo de mistério e este é entendido como fascinação e interesse humano por sua subjetividade. Não faz parte dessa definição o sentido de sinalizar realidades escondidas ou aquilo que não pode ser explicado concretamente pela razão. O texto do teólogo apóia-se nas palavras do cientista Albert Eistein:

O mistério da vida me causa a forte emoção. É este sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação de mistério ou não pode mais experimentar espanto e surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos cegaram. Aureolada de temor é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. [...] Afirmo com todo vigor que a religião cósmica é móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa... o espírito científico, armado fortemente com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica (ensaio “Como vejo o mundo”, apud: BOFF,1994, p. 15-16).

O cristianismo é uma religião histórica, tendo na Bíblia a palavra inspiradora para uma fé concreta no mundo. É inspirada por Deus e vivenciada ao longo do tempo por diferentes pessoas, contextos culturais, políticos e econômicos. Neste sentido como a cruz de Cristo, a mística cristã possui duas dimensões que se cruzam e se entrelaçam na vida, uma não exclui a outra e as duas se somam para dar sentido ao projeto de vida. De um lado a transcendência no sentido vertical entre o ser humano e um Deus que dá as motivações de acreditar na eternidade e na esperança; de outro lado, o sentido horizontal da imanência, da missão e do compromisso de construir no mundo um projeto de solidariedade, onde os seres humanos possam ser irmãos e as estruturas da sociedade sejam eivadas de igualdade e fraternidade. Os cristãos, diante da realidade do mundo, têm como modelo central a figura histórica de Jesus Cristo, na Palestina dominada pelo Império Romano. Cristo ao anunciar e viver a Boa Nova (Evangelhos) propõe uma nova postura e uma nova prática para a humanidade e de modo especial para seus discípulos (cristãos), na medida em que fala aos pobres e excluídos de seu tempo em justiça, fraternidade e amor ao próximo. Foi condenado e crucificado, passando pelo martírio e pela tortura e ao mesmo tempo por uma condenação religiosa. Contrariou o Império Romano, os saduceus8, aliados deste poder que dominava a Palestina, também aos escribas9 e aos fariseus10, como podemos verificar nos relatos de Frei Betto:

8 O grupo dos saduceus é formado pelos grandes proprietários de terra (anciões) e pelos membros da elite

sacerdotal. Têm o poder na mão, e controlam a administração da justiça no Tribunal Supremo (Sinédrio). Embora não se relacionem diretamente com o povo, são intransigentes em relação a ele, e vivem preocupados com a ordem pública. São os principais responsáveis pela morte de Jesus. Os saduceus são os maiores colaboradores do Império Romano, e tendem para uma política de conciliação, com medo de perder seus cargos e privilégios. No que se refere à religião, são conservadores (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1234).

9 Escribas (doutores da lei). Os grupos dos doutores da lei vão adquirindo cada vez mais prestígio na sociedade

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O centro de decisões políticas e econômicas da Palestina ficava em Roma. O imperialismo romano estendia as suas garras até a pátria de Jesus. Aqueles que governavam a Palestina eram nomeados por Roma e apenas cumpriam ordens vindas do centro do Império [...] Era essa a situação da Palestina quando Jesus nasceu. O filho de Deus nasceu na mesma situação em que muitas pessoas ainda nascem no Terceiro Mundo: num país politicamente dominado, economicamente dependente militarmente ocupado. [...] Deus que se revela como homem dentro da história concreta de um povo (1991. p. 46).

Jesus incomoda porque trata Deus com uma intimidade desconcertante (Mc 2,7; Jo 5,18), despreza as formalidades (Mc 12, 38-40), [...], critica os que se apegam ás riquezas (Mt 6,24) [...] acolhe os marginalizados (Mc 7, 31-37). [...] Os que tinham poder tentaram tudo contra Jesus; denunciar seus milagres como obra do demônio (Mc 3,22; Jo 7,20), coloca-lo publicamente em ridículo (Mc 12,18-23) jogá-lo contra o povo (Lc 11, 53-54), [...] prendê-lo (Mc 11,18; Jô 10,39) apedreja-lo (Jo 8,59; 10,31) e, por fim, decidem assassina-lo (Mc 3,6; Jo 11, 49-50) (1991. p. 64-5).

A postura e a prática dos primeiros cristãos mostram que o mundo em que se vive deve ser transformado, pois a mensagem é contrária à toda forma de opressão e injustiça ao longo da história, a começar pela própria vida e morte de Cristo. Assim como Cristo foi perseguido, preso e torturado. No Brasil, durante a ditadura militar décadas de 60 a 80 do século XX, muitos cristãos ao dar testemunho dos valores evangélicos sofreram formas semelhantes de injustiças por estarem envolvidos em lutas sociais, mas também diante de diferentes governos mantiveram a coerência de seus princípios. Diante deste processo o próprio Cristo no seu Evangelho orienta para o cuidado e ao mesmo tempo a coragem de agir e dar testemunho de sua fé inserida na realidade humana:

Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tenham cuidado com os homens, porque eles entregarão vocês aos tribunais. [...] Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido. (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1251-1252).

Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o gosto, em que podemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada de baixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim

abastada, os doutores da lei gozam de uma posição estratégica sem igual. Monopolizando a interpretação das escrituras, tornam-se guias espirituais do povo, determinando até mesmo as regras que dirigem o culto. Sua grande autoridade repousa sobre uma tradição esotérica: não ensinam tudo o que sabem, e escondem ao máximo a maneira como chegam a determinadas conclusões (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1234).

10 Fariseu que dizer separado. Inicialmente aliados à elite sacerdotal e aos grandes proprietários de terra, os

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também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p.1243).

Esta inspiração traduz uma prática de libertação, onde o texto bíblico não é visto como um fato do passado, mas sim atualização presente para construir o Reino de Deus. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1370), diz Cristo no Evangelho, pois o cristianismo tem na sua essência um compromisso com a vida e sua dignidade, para que a vida do povo dentro de um projeto coletivo de sociedade possa ser um projeto de justiça. Toda forma de ditadura, seja ela política, econômica e social deve ser combatida e denunciada. Combater e denunciar exige determinação e coragem para os cristãos vinculados a essa visão teológica. Traz consequências, inclusive de crítica interna de outros setores da Igreja, cuja interpretação mais tradicional está ligada a uma forma de contemplação do mundo e não de ação. Os cristãos progressistas são associados ao socialismo. Para eles a transformação libertadora significa lutar por alternativas políticas para haver no mundo uma sociedade mais humana, onde o povo possa usufruir aos bens essenciais, à vida, à saúde e à alimentação, não como uma dádiva dos governantes, mas um direito fundamental do ser humano.

A vida cristã dentro de uma visão progressista de um projeto mais equânime de sociedade, considerando a democracia como princípio estratégico, tem como inspiração a passagem do evangelho que diz: “Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1245). A riqueza econômica de poucos, a pobreza e a miséria da maioria da população seriam uma ofensa ao Deus da vida e ao mesmo tempo uma injustiça que atinge principalmente os trabalhadores. Nessa visão teológica marcada pela análise material da vida o capitalismo seria um sistema excludente, que mantém uma situação de desigualdade social. Os cristãos então teriam a responsabilidade de conhecer e denunciar suas contradições, neste sentido o referencial marxista é fundamental. A democracia seria construída de forma coletiva em todas as esferas da sociedade, para que o ser humano não se torne objeto do lucro e do consumismo, mas um ser valorizado e reconhecido sem preconceitos e opressões. Assim estaria de acordo com uma nova concepção de democracia que leva em conta as questões sociais, segundo René Rémond:

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compaixão pelos deserdados, a solidariedade com os pequenos, a simpatia pelos “esquecidos da história” inspiravam um vivo desejo de reparar a injustiça da história para com eles e restituir-lhes o lugar que tinham direito (RÉMOND, 2003, p. 19).

A visão progressista de aproximação dos católicos com políticas de esquerda também é ressaltada, através da seguinte reflexão:

O fenômeno recente que data de meados dos anos 60 é o afastamento de uma parte dos católicos praticantes das organizações de direita. Um em cada quatro aproximadamente vota hoje nas formações de esquerda. O fenômeno é difícil de interpretar, e está sem dúvida ligada a evolução da sociedade e da Igreja (COUTROT, 2003, p. 353).

No Antigo Testamento da Bíblia cristã a passagem central para entender a relação entre o Deus que se preocupa com seu povo e o liberta da opressão, está relatada na passagem do Êxodo: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 72). Ao longo da história dentro de uma interpretação mais atual do cristianismo, este processo histórico é fundamental para fazer uma analogia com a situação de opressão e a busca por libertação dos povos oprimidos. Nessa visão, o regime autoritário brasileiro, ao colocar os cristãos entre a palavra de Deus e a realidade a ser transformada, impulsionou a ação das CEBs na luta por uma nova estrutura política para ser compatível com o plano religioso. Uma sociedade que militarmente mantém o povo sob seu jugo, ou economicamente não partilha os bens produzidos pelos trabalhadores de forma igualitária, ou ainda mantém uma elite ligada à privilégios políticos e econômicos através do sacrifício do povo, seria uma versão da metáfora dos Faraós do Egito Antigo. Outro elemento a ser considerado é a afirmação cultural de desigualdades que acabam introjetando no povo oprimido verdades e hipocrisias construídas pelos opressores (BETTO, 1982).

A justiça, a fraternidade e a opção pelos pobres e necessitados como parâmetros de uma nova sociedade, são critérios para uma fé religiosa ligada à vida e à um contexto social de exclusão e não apenas decisão individual. Neste sentido podemos citar uma passagem do Evangelho de Mateus descrito na Bíblia Sagrada:

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essas coisas. O que ainda me falta fazer?” Jesus respondeu: “Se você que ser perfeito, vá, venda tudo que tem, de o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga-me.” Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. Então Jesus disse aos discípulos: “Eu garanto a vocês: um rico dificilmente entrará no Reino do Céu. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.” (1990, p. 1265).

Podemos também verificar, o critério que Cristo define no chamado “juízo final”, isto é, aqueles que por sua prática de vida alcançarão à salvação eterna. Este critério coloca os cristãos diante do dilema para alcançar a vida eterna. É necessário ter uma prática de vida que ligue a fé com uma dimensão social e política, na medida em que o Reino de Deus começa na dimensão humana e completa-se na eternidade. Até o Concílio Vaticano II, muitas gerações de cristãos tinham em mente que bastava seguir os mandamentos da Igreja, uma vida de oração e sacramentos para alcançar a eternidade, evidenciando que não havia uma preocupação de mudar a realidade material. Era uma visão de religião como uma espécie de poupança para depois da morte, sem compromissos com a justiça, especialmente com os pobres, descrito no Evangelho de São Mateus:

[...] Recebam como herança o Reino que meu Pai lhe preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em casa, eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar. Então os justos lhe perguntarão: Senhor , quando foi que te vimos com fome e te temos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que vimos como estrangeiro e te recebemos em casa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar? (...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizerem isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizerem. (...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizerem isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1274).

A mística cristã, dentro de uma visão libertadora é histórica, na medida em que impulsiona os cristãos a um compromisso com o bem comum, de modo especial com os deserdados da sociedade que sofrem todo tipo de discriminação e opressão. Quanto mais a sociedade for justa, solidária e fraterna, maior a proximidade com a utopia cristã, cuja realização definitiva seria na eternidade (Reino de Deus11). Neste sentido, regimes políticos que oprimem os seres humanos como o capitalismo12 que não alteram as injustiças sociais e

11 O Reino de Deus é a transformação radical das pessoas e do Universo. É a civilização do amor. O fim de todas

as formas de injustiças. [...] Esse Reino não está ainda completamente realizado na história, mas foi realizado por Jesus, que plantou seu germe entre nós. Essa semente cresce no mundo sem que a gente perceba: em todo lugar onde a justiça vence a injustiça, a liberdade vence a opressão, a vida vence a morte (BETTO, 1991, p.39).

12 a) propriedade privada dos meios de produção, para cuja ativação é necessária a presença do trabalho

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econômicas e deixam os pobres à própria sorte, seriam contrários aos ideais cristãos não tanto pelas suas consequências, mas por seus princípios.

1.2 CONCÍLIO VATICANO II

O Concílio Vaticano II (1959-1965) marcou a abertura da Igreja Católica ao mundo contemporâneo com uma aliança com a vida humana. Por paradoxal que pareça esse encontro foi decisivo para que ela se encontrasse consigo mesma. A relação com a humanidade comprometia o próprio sentido e a razão de ser da Igreja, tanto na forma de entender-se a si mesma, com também a sua relação com a história. A Igreja ao assumir o desafio de dialogar com o pensamento da sociedade contemporânea é levada a buscar uma nova maneira de estar no mundo. A inspiração desta opção encontra-se em dois documentos do Concílio que foram de fundamental importância: A Lúmen Gentium (LG) (Luz dos Povos) e a Gaudium et Spes (GS) (As alegrias e Esperanças).

Ao mesmo tempo a Igreja se propõe a lutar para que o ser humano seja respeitado na sua integridade, revelando uma dimensão social de mudança interna. Afirma a preocupação em salvar também o “corpo”, isto é, o ser humano na sua integridade e não apenas a “alma”. O Concílio Vaticano II na sua Constituição pastoral Gaudium et Spes destaca esta renovação:

[...] iluminando-os à luz tirada do Evangelho e fornecendo ao gênero humano os recursos de salvação que a própria Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe de seu fundador. É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade, que será o eixo de toda a nossa explanação. Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação. Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito guiada pelo Espírito Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para a salvar e não condenar, para servir e não para ser servido (VIER, 2000, p. 40).

Para o Concílio Vaticano II, a mística cristã é traduzida na forma de sacramento e entendida como uma unidade da Igreja a serviço do mundo. A Igreja Católica que se encerrara na questão espiritual e que tinha relação próxima com instituições e governos ligados a elites abre-se a uma ação pastoral ligada aos pobres e necessitados. Estabelece uma ligação entre a

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vida de Cristo e a relação próxima com os necessitados. Foi o embrião da transformação na ação da igreja a partir do centro de sua hierarquia no Vaticano. Tem o Concílio Vaticano II como instrumento, atingindo o Brasil e a América Latina, conforme podemos verificar no primeiro capítulo do referido encontro no documento Lúmen Gentium (LG) intitulado “O mistério da Igreja”:

[...] Cristo consumou sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação. Cristo Jesus, “como subsistisse na condição de Deus, despojou-se a si mesmo, tomando a condição de despojou-servo” (Filip 2,6) e por nossa causa “fez-despojou-se pobre embora fosse rico” (2 Cor 8,9): da mesma maneira a Igreja, embora necessite dos bens humanos para executar sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar,também pelo seu próprio exemplo, a humildade e a abnegação. Cristo foi enviado pelo Pai para “evangelizar os pobres, sanar os contritos do coração (Lc 4,18), “procurar e salvar o que tinha parecido” (Lc 19,10): semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem do seu fundador pobre e sofredor. Faz o possível para mitigar-lhes a pobreza e neles procura servir a Cristo,“ santo, inocente, imaculado” (Heb 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5,21) a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre na necessidade de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação (VIER, 2000, p. 47).

Esta mística, denominada mistério na dimensão religiosa católica, fortalece os cristãos na medida em que ao mesmo tempo, dá coragem diante das injustiças e diversidades sociais, também dá esperança e fortaleza para transpor as utopias e chegar a uma dimensão onde a coerência e o testemunho evangélico alcancem a plenitude diante de Deus.

[...] Cristo inaugurou na terra o Reino dos céus, revelou-nos. seu mistério, e por sua obediência realizou a redenção. A Igreja [...] já presente em mistério, pelo poder de Deus cresce visivelmente no mundo. Este começo e crescimento são ambos os significados pelo sangue e pela água que manaram do lado aberto de Jesus crucificado (cf. Jo 19,34) e preanunciado pelas palavras do Senhor acerca de sua morte na cruz: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32). Exerce-se a obra de nossa redenção sempre que o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo nossa Páscoa foi imolado (1 Cor 5,7) (VIER, 2000, p. 40).

A dimensão pastoral13 é outro elemento importante do Concílio Vaticano II, cuja proposta traz em si uma forma de ação conjunta da Igreja em relação ao mundo dentro do

13 É a atividade evangelizadora da Igreja. No Brasil, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

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espírito de renovação. Impulsiona os cristãos a uma ação evangelizadora. Esta dimensão vai influenciar de maneira direta as pastorais sociais na América Latina, e em especial no Brasil. No Concílio Vaticano II esta ação pastoral é destacada pelo Papa Paulo VI, no discurso de abertura da segunda sessão em 29 de dezembro de 1963, reafirmando a intenção do idealizador do encontro, o Papa João XXIII:

Um concílio conscientemente pastoral parte do princípio de que a doutrina nos foi dada para ser vivida, [...] para demonstrar sua virtude salvadora na realidade histórica; que é preciso unir a ação da inteligência á da vontade, o pensamento ao trabalho, a verdade á ação, a doutrina ao apostolado, o magistério ao ministério; [...] Um concílio conscientemente pastoral procura perceber as relações entre os valores eternos da verdade cristã e sua inserção na realidade dinâmica, hoje extremamente mutável, da vida humana tal qual é, contínua e diversamente moldada na história presente, inquieta, conturbada e fecunda. (VIER, 2000, p.09 e 10).

A mensagem cristã em termos pastorais deve ser levada ao mundo, através da missão dos cristãos de transformar a realidade para que este mundo possa conhecer, e ao mesmo tempo possa optar por uma proposta com mais justiça e igualdade. Em relação à justiça, o Concílio Vaticano II na Constituição pastoral “Gaudium et Spes” alerta para que a dignidade da pessoa humana seja respeitada e ao mesmo tempo faz uma crítica a todo regime político que explora ou causa desigualdades sociais ou econômicas.

Assim, na América Latina surge a organização das Conferências Episcopais de Medellín na Colômbia e Puebla no México, e a atuação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na organização das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e diversas pastorais sociais. É uma mudança de posição importante da Igreja geral na medida em que os pronunciamentos e documentos oficiais davam mais ênfase à crítica aos governos autoritários do leste europeu, representado pelo socialismo real, e agora a crítica também é feita mesmo que de forma indireta ao capitalismo.

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Com a mesma força o Concílio Vaticano II faz crítica contra as discriminações e as injustiças sociais e políticas, procura orientar os cristãos católicos para combaterem com veemência o individualismo, buscando como alternativa, convivência social mais humana através de práticas comunitárias. A leitura destes ideais também ilumina as práticas cristãs na América Latina, e de modo especial no Brasil com a organização e formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), enquanto espaço eclesial (âmbito da Igreja) e uma ação cristã que busca a integridade do ser humano em uma nova sociedade mais solidária e fraterna.

O Concílio Vaticano II aponta a necessidade de participação dos cristãos para agir diretamente nas relações econômicas, sociais e políticas em atitudes individuais e coletivas na busca de bem comum, sob influência dos valores evangélicos. Esta perspectiva modifica uma prática secular de viver uma fé mais intimista, cuja preocupação era uma relação individual entre aquele que crê e no Deus que se acredita. As relações de sociabilidade entre as pessoas eram reduzidas apenas à esfera da caridade. Uma prática alijada da relação com o mundo, que acabava por favorecer a invisibilidade das injustiças sociais, mantendo uma separação entre fé e vida. Precisava-se enfatizar o impacto das orientações contidas neste documento na América Latina devido a se tratar de espaço com um elevado contingente de católicos e de pobres.

1.3 CONFERÊNCIA DE MEDELLIN E CONFERÊNCIA DE PUEBLA

A Conferência Episcopal Latino-americana de Medellín (1968), na Colômbia, foi coordenada por Bispos latino-americanos. Foi um reflexo direto e uma adaptação para a realidade das conclusões do Concílio Vaticano II. Em relação à perspectiva de justiça, a denúncia do pecado estrutural causado pelos sistemas políticos, a Conferência de Medellín aponta na seguinte direção:

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A realidade sócio-política na América Latina no final dos anos 60 do séc. XX foi permeada por ditaduras militares e o capitalismo dependente, com consequência de miséria e exclusão social. Sob o contexto político da Guerra Fria, os Estados Unidos continuavam desenvolvendo seu modelo de desenvolvimento social, econômico e político na América Latina com apoio das elites locais. Os efeitos da Revolução Cubana influenciam as organizações de esquerda pela causa revolucionária e acabam por ser considerados setores como inimigos internos dentro dos países que desenvolviam uma política anticomunista. Governos civil-militares estiveram apoiados nos Estados Unidos com o argumento que é preferível um governo autoritário a um governo comunista. Para reforçar no plano econômico esta estratégia, a Aliança para o Progresso, com sua política de subsídio às economias dos países alinhados com os EUA, tentava amenizar a pobreza e a pressão interna. Desta forma, com apoio político e econômico evita a influência da esquerda e a reprodução do governo cubano na América Latina (GUAZELLI, 1993); (PECEQUILO, 2003); (COGGIOLA, 2001).

Nesse contexto, a renovação da Igreja Católica a partir da Conferência de Medellín, assume um caráter revolucionário não só para os cristãos. As pastorais sociais e as comunidades adquirem um papel importante, na medida em que organizam o povo para mudanças efetivas, em relação à realidade no qual estão inseridos. Estas considerações estão no seguinte relato dos documentos desta conferência:

[...] Orientação da transformação social: A igreja latino-americana julga dever orientá-la no sentido de formação de comunidades nacionais que espelhem uma organização global, onde toda a população e especialmente as classes populares tenham através de estruturas territoriais e funcionais uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma nova sociedade. Essas estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado devem ser organizadas livremente, sem a intervenção indevida da autoridade ou de grupos dominantes, em seu desenvolvimento e em sua participação concreta na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. É também a expressão real da liberdade e da solidariedade dos cidadãos (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 10).

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atuação mais comunitária e democrática, inclusive perante a realidade do mundo. Evidencia-se a ação junto ao povo na denúncia e participação.

A Igreja Povo de Deus prestará sua ajuda aos desvalidos de qualquer tipo e meio social, para que conheçam seus próprios direitos e saibam usá-los. Para isso a igreja utilizará sua força moral e buscará colaboração de profissionais e instituições competentes (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 14).

Defender, segundo o mandato evangélico, os direitos dos pobres e oprimidos, urgindo nossos governos para que eliminem tudo quanto destrua a paz social: injustiça, inércia, venalidade, insensibilidade. Denunciar energicamente os abusos e as injustas conseqüências das desiguladades excessivas entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos. Alentar e favorecer todos os esforços do povo para criar e desenvolver suas próprias organizações de base, na reivindicação e consolidação de seus direitos e na procura de uma verdadeira justiça (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 23).

A maior contribuição da Conferência Episcopal Latino-americana de Medellín em relação à Igreja Católica foi a “opção preferencial evangélica pelos pobres” e a formação das “Comunidades Eclesiais de Base”. Esta ação teve uma dimensão política, pois aproximou os cristãos de organizações populares, mesmo sofrendo oposição de outros setores da Igreja. Esta aproximação define uma visão com caráter solidário dentro da ideia de democracia. Esta opção está relatada da seguinte forma:

Por tudo isso, queremos que a igreja da América latina seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunho do valor dos bens do reino e humildade servidora de todos os homens de nossos povos. Seus pastores e demais membros do Povo de Deus hão de dar á sua vida, palavras atitudes e ação a coerência necessária com as exigências evangélicas e as necessidades dos homens latino-americanos. Preferência e solidariedade: O particular mandato do Senhor de evangelizar os pobres deve levar-nos a uma distribuição de esforços e de pessoal apostólicos que de preferência atenda os setores mais pobres e necessitados e os segregados por qualquer causa, alentando e acelerando as iniciativas e os estudos que, com este fim, já se fazem. [...] Devemos aguçar a consciência de dever de solidariedade com os pobres, [...] Esta solidariedade há de significar fazer nossos seus problemas e sua lutas, e saber por eles. [...] Isto há de concretizar-se na denúncia da injustiça e da opressão, na luta contra a intolerável situação que suporta com freqüência o pobre. (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 96-7).

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teoria, reflexão e prática. Os integrantes são os protagonistas da análise e os primeiros a serem beneficiados por essa nova postura. Outro elemento da renovação da Igreja em Medellín é o suporte aos trabalhadores por uma força ativa na base social. Abria-se espaço concreto para que eles mesmos construíssem seus sindicatos.

A Conferência Episcopal Latino-americana de Puebla no México, em 1979, teve o mérito de confirmar as opções e definições da Conferência de Medellín. Alguns teólogos chegam a afirmar que existiu na Igreja Católica um binômio Medellín-Puebla.

O contexto histórico das ditaduras na região exige uma ação mais direta no sentido de dar testemunho evangélico e colocar em prática a nova postura de uma igreja popular, engajada na luta pela justiça e pela democracia. Nesse mesmo espírito de busca por mudanças na sociedade e na realidade de opressão, a conferência de Puebla faz um apelo de união aos cristãos e a todos aqueles que comungavam da mesma visão em favor do povo e suas organizações de base.

Na conjuntura atual da América Latina, as mudanças poderão ser rápidas e profundas em benefício de todos, especialmente os pobres, [...] Para tanto, propomos a mobilização de todos os homens de boa vontade. Que eles se unam, com novas esperanças, para essa tarefa imensa. Queremos escutá-los com viva sensibilidade, unir-nos a eles em sua ação construtiva. Com nossos irmãos que professam a mesma fé em Cristo, embora não pertençam a Igreja Católica, esperamos unir esforços, preparando constantes e progressivas convergências que apressem a chegada do Reino de Deus. Aos filhos da igreja que se empenham em postos de vanguarda, queremos transmitir-lhes nossa confiança em sua ação, fazendo deles nossos mensageiros de novas esperanças. Sabemos que, no Evangelho, na oração e na eucaristia, procurarão encontrar a fonte de constantes revisões de vida e a força de Deus para sua ação transformadora (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, CNBB, 1983, p. 295).

A denúncia da opressão causada pelos governos civis-militares na América Latina foi uma atitude corajosa. Este aspecto foi textualmente colocado nos documentos de Puebla, inclusive destacando a contradição do fato do continente ser majoritariamente cristão, mas com práticas repressivas que contradiziam os valores defendidos por essa teologia. A conferência torna-se uma verdadeira bandeira na defesa dos direitos humanos, além disso, foi uma influência para os partidos políticos e organizações populares dos cristãos progressistas que tem nesse evento um divisor de águas.

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entre ricos e pobres. Estas questões podem ser percebidas dentro dos princípios de comunhão e participação propostos por essa conferência da seguinte forma:

[...] o poderio de empresas multinacionais se sobrepõe ao exercício da cidadania das nações e ao pleno domínio de seus recursos naturais. Devido a isso, vemos o ideal da integração latino-americano ameaçado, [...] Finalmente, não se torna estranho neste complexo problema social o aumento dos gastos com armamentos, como tampouco a criação artificial de necessidades supérfluas, impostas de fora aos países pobres. [...] Por isso a Igreja, perita em humanidade, deve ser a voz (da pessoa, da comunidade perante a sociedade, das nações fracas perante as poderosas) cabendo-lhe uma ação de docência, denuncia e serviço em prol da comunhão e participação [...] Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça. Estas, que estão em conexão com o processo de expansão do capitalismo liberal (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, CNBB, 1983, P. 298-9).

No seu propósito de formar as Comunidades Eclesiais de Base, o documento de Puebla, ressalta as mesmas como núcleo de formação e de reflexão sobre a Palavra de Deus, fortalecendo a ação de uma Igreja renovada, missionária, participativa e transformadora. Ao questionar a sociedade consumista, egoísta e excludente, os cristãos das CEBs são questionados e perseguidos pelos grupos conservadores tanto da Igreja quanto da sociedade (CNBB, 1983). Esta nova postura confirma uma guinada ideológica de muitos cristãos, que a exemplo de Cristo não temem ser perseguidos e muitas vezes martirizados.

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2 A TEOLOGIA QUE TRANSFORMA A SOCIEDADE

“Quando a voz da verdade se ouvir e a mentira não mais existir será enfim tempo novo de eterna justiça sem mais ódio, sem sangue ou cobiça vai ser assim.” Zé Vicente

2.1 COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBS)

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) formam uma nova organização da Igreja Católica a partir de pequenos grupos comunitários. É um novo modo da “Igreja ser” tendo como horizonte uma estrutura mais fraterna, diferente das paróquias tradicionalmente organizadas. Torna-se para os cristãos um local de encontro, discussão sobre as dificuldades do cotidiano, e de organização sob inspiração da Bíblia. A ligação da fé com a vida ajuda a interpretar, ligar acontecimentos e mensagens para enfrentar os conflitos do dia-a-dia. O livro do Catecismo Popular de Frei Betto elucida:

Comunidades Eclesiais de Base: grupos de gente simples do povo (operários, agricultores, bóias-frias, desempregados, etc.) que se reúnem periodicamente para celebrar e refletir sobre sua vida de fé a partir da realidade social em que vivem e a luz da Palavra de Deus. Conhecidas como “o novo modo de a Igreja ser”, as CEBs nasceram no Brasil por volta anos 60 e hoje encontram-se em quase todos os países da América Latina. Não constituem um movimento da Igreja, mas a própria maneira de a paróquia organizar-se numa região popular. No Brasil calcula-se que sejam cerca de 150000 (1991, p. 249).

O povo que se organiza através das CEBs vai adquirindo consciência da realidade em que vive, portando vai criando força para lutar, dentro do processo de uma organização social de forma comunitária. Comunga de uma visão que impulsiona e fortalece uma ação transformadora com vistas à utopia da terra sem males no mundo material. Há um projeto de

sociedade igualitária onde a ajuda mútua é uma realidade constante, como Gregory; Guisleni evidencia:

O processo das CEBs implica uma opção, ora mais ora menos explícita, de partir do povo, das bases: o que por sua vez implica, para ser consistente, que as bases verdadeiramente, participem do processo [...] encerra uma boa dose de utopia, como, aliás, todas as demais tentativas comunitárias que surgiram ao longo da história. Essa nos mostra um predomínio crescente de formas societárias de organização social (1979, p. 37).

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eram os protagonistas dessas unidades eclesiais cuja inspiração central foi a de oferecer o relacionamento solidário entre os homens, conforme a um modelo democrático de autogestão” (CAMARGO 1981, p. 78). Entre os objetivos da CEBs está a luta interna para adquirir mais espaço na igreja em termos de participação e valorização. Esta tomada de decisão foi a grande novidade nas últimas décadas do século XX, pois o aspecto clerical tradicional era muito forte, considerando que as mudanças práticas nesta instituição de caráter milenar, eram muito lentas. Apesar destes desafios as CEBs avançaram através da fé, trabalho e dedicação como destaca Cândido Camargo:

As CEBs se propõe construir uma igreja nas bases, uma Igreja a partir do povo; a formulação desse objetivo implica necessariamente a ampliação da participação do leigo na vida da Igreja. A quase totalidade dos membros da Igreja é constituída por esses leigos[...] As CEBs vivem e trabalham com amor e dedicação; muitos leigos procuram, através de sua participação, ampliar as bases da Igreja (1981, p. 47).

No âmbito externo, as CEBs procuravam de forma consciente, através da formação religiosa que possuíam, relacionar a opressão do povo relatada no Antigo e no Novo Testamento com as que são vividas na atualidade. Com isso fornecer apoio para todos aqueles que lutavam nos espaços sociais, sindicais e políticos para mudar a sociedade. No nível nacional as lideranças se encontram periodicamente para analisar e projetar a sua caminhada, através dos Encontros Intereclesiais, conforme salienta o sociólogo da religião Pedro Oliveira:

O 4º Encontro Intereclesial da CEBS, em 1981, suscitou muita discussão, tanto pelo contexto sócio-político (o apoio á greves do ABC paulista, envolvimento nas lutas pela terra e no nascente Partido dos Trabalhadores), [...] Daí a iniciativa da CNBB em pronunciar-se, em novembro de 1982, sobre esta nova realidade eclesial, pelo Documento nº 25: As Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil. Nele é usada, pela primeira vez, a expressão “uma nova forma de ser Igreja” para indicar que “o novo que as CEBs trouxeram foi o fato de oferecerem, dentro da Igreja, um espaço para o próprio povo simples participar da evangelização da sociedade através da luta pela justiça. Nesse sentido a mediação entre Igreja e Sociedade, Fé e Política, celebração e ação, Bíblia e História, as CEBs são a maior contribuição do Brasil à Igreja Católica Romana, e a maior contribuição contemporânea da Igreja Católica à sociedade brasileira (s. d., p. 83).

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CEBs, o espírito fraterno iluminado pela palavra e ação de um Deus que está ao lado do seu povo, impulsionando os fiéis a transformar a realidade com espírito de comunidade e ajuda mútua. A realidade social, econômica e política são campos a serem transformados de forma harmônica por meio das relações humanas. Nesse sentido pode-se perceber que esse objetivo não coaduna com a proposta de Karl Marx ou dos marxistas sobre a forma pela qual ocorrem as mudanças na sociedade. Para Marx, o aspecto da contradição das sociedades só será superado por via revolucionária, com batalha, enfrentamento e ruptura. Transições harmônicas ou negociadas segundo essa visão não seriam possíveis devido ao jogo de interesses e das forças produtivas que estariam em franco enfrentamento, devido à contradição entre as classes ter levado ao extremo da exploração e do próprio sistema produtivo exaurido da sua capacidade de se reformular (MARX & ENGELS, 2007). Não podemos considerar como comunista ou socialista a ideia de transformação social construída a partir da CEBs, em termos de uma análise científica, através do conceito que Marx deu a estas terminologias, pois o elemento religioso se coloca frontalmente à questão do derramamento de sangue e chama a participação dos seres humanos como irmãos, sob o paradigma do “amar ao próximo como a

si mesmo” pregado no Novo Testamento.

Embora a mudança pregada pela Teologia da Libertação, onde a CEBs é um instrumento da ação concreta na sociedade, a chamada harmonia fraterna no sentido evangélico, é um princípio que poderá ser realizado na esfera humana por ação transformadora chamada de “libertação”. Essa seria uma fase mais avançada da humanidade e podendo haver rupturas progressivas (processo de libertação), pois havia luta de classes, como aponta o teólogo da libertação Gustavo Gutiérrez. Para a Teologia da Libertação o que realmente importa é o pobre ser explorado, porque ninguém quer viver nessa condição: pobreza e miséria seriam os frutos da injustiça. Não foi o marxismo que levou amplos setores cristãos a descobrirem os pobres. Foram os pobres que levaram os cristãos a descobrirem a importância das mediações analíticas (Betto, 2006, p. 306-7). Podemos verificar na seguinte reflexão, uma breve análise ao socialismo com bases cristãs:

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libertá-los também, libertando-os da sua própria alienação, da sua ambição, do seu egoísmo, em uma palavra, da sua condição desumana. Mas, para isso, é preciso optar resolutamente pelos oprimidos e combater real e eficazmente a classe dos opressores (LÖWY, 1991, p. 97-8).

A análise do pensamento de Marx, ao longo da história produziu diferentes interpretações sobre as transformações da sociedade. Entre esses estudiosos está o marxista italiano Antônio Gramsci e seu conceito de hegemonia14, podendo ser aplicado ao processo de libertação dos oprimidos. Em uma analogia com a Teologia da Libertação, em termos políticos e sociais, os oprimidos são identificados dentro da classe trabalhadora e os opressores identificados com a burguesia.

A vanguarda revolucionária, formada por intelectuais, e criticada por Gramsci no pensamento marxista, eram os que educavam politicamente e conduziam o processo revolucionário das massas (entendida como a classe proletária). A crítica também é feita a Marx quando enfatiza a economia (infraestrutura) e não a cultura e a religião (superestrutura). Neste sentido esta nova posição se assemelha com o pensamento libertador dos membros da igreja progressista. “A relação entre intelectuais e a massa de trabalhadores oprimidos é uma prática política de interação, onde a Teologia da Libertação acentua mais que os intelectuais marxistas, incluindo os teólogos, que devem ser uma retaguarda e não uma vanguarda”. Esta compreensão dos cristãos da libertação coloca os pobres como protagonistas e sujeitos da nova sociedade a ser construída a partir de suas lutas e conquistas. Há uma ação e ele se constrói e atua de baixo para cima. Os teóricos, que muitas vezes não são pobres, são os parceiros nesta luta por mudanças. A reflexão de Antonio Gramsci sobre esta questão é citada no obra de Luciano Gruppi:

14 Da forma desenvolvida pelo marxista italiano Antonio GRAMSCI, hegemonia é um conceito que se refere a

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