ODILON KIELING MACHADO A CONTRIBUIÇÃO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

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ODILON KIELING MACHADO

  

A CONTRIBUIđấO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO

CONTEXTO DA TEOLOGIA DA LIBERTAđấO

Santa Maria, RS

ODILON KIELING MACHADO

  

A CONTRIBUIđấO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO

DA TEOLOGIA DA LIBERTAđấO

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências

Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção

do grau de Licenciado em História.

  

Orientadora: Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim

Santa Maria, RS

  

Odilon Kieling Machado

A CONTRIBUIđấO DAS CEBs NO BRASIL DENTRO DO CONTEXTO

DA TEOLOGIA DA LIBERTAđấO

  

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências

Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção

do grau de Licenciado em História.

  _________________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim – Orientadora (Unifra) ___________________________________________________

  Profª. Ms. Elizabeth Weber Medeiros (Unifra) ____________________________________________________

  Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn (Unifra) Aprovado em _____ dezembro de 2010.

  AGRADECIMENTOS

  Ao Deus da vida e da libertação, que me fortalece na fé e me motiva para seguir a caminhada a favor da justiça social. À professora Ms. Paula Simone Bolzan Jardim, por me orientar nesta pesquisa e permitir que a elaboração da mesma fosse possível. Seu exemplo pedagógico de dedicação e seu profissionalismo naquilo que faz e acredita, incentiva seus alunos para o caminho acadêmico. Obrigado Paula.

  À minha esposa Patrícia, incansável e incentivadora, pelo apoio e compreensão.

  RESUMO

  O presente trabalho tem por objetivo analisar a contribuição das CEBs no Brasil dentro do contexto da teologia da libertação entre a ditadura civil militar brasileira e o processo de redemocratização do país na segunda metade do século XX. A metodologia empregada foi a análise historiográfica em livros. Através da pesquisa, observou-se a influência das CEBs na renovação da Igreja Católica e na ação transformadora dos movimentos populares, políticos e sindicais, por meio da mística cristã e a opção evangélica preferencial pelos pobres.A pesquisa ajudou a compreender a força que emerge dos setores populares excluídos da sociedade brasileira, em termos de organização de forma comunitária e coletiva para resolver suas demandas e mudar a sociedade. Ao fazer uma análise da atuação das CEBs, verifiquei que uma grande mudança de paradigmas em termos de ação , é a gestação de um projeto político democrático, participativo e solidário construído a partir do protagonismo dos pobres e oprimidos, aliados aos demais setores da sociedade que lutam pela mesma causa.

  Palavras-chave: CEBs; Teologia da Libertação.

  ABSTRACT

  This study aims to examine the contribution of the CEBs in Brazil within the context of liberation theology among the Brazilian military dictatorship and civil process of democratization of the country in the second half of the twentieth century. The methodology employed was the historical analysis in books. Through research, we observed the influence of the CEBs in the renewal of the Catholic Church and the transforming action of popular movements, political and union, through the mystical Christian and evangelical option for the poor. The research helped it emerge To understand the strength of excluded popular sectors of Brazilian society, in terms of organization collectively and collectively to address their demands and changing society. By making an analysis of the performance of CEBs, I found that a major paradigm shift in terms of action, is the pregnancy of a political democratic, participatory and supportive built from the role of the poor and oppressed, along with the other sectors of society that fighting for the same cause.

  Key words: CEBs; Theology of Liberation.

  SUMÁRIO

  INTRODUđấO........................................................................................................08

  

1 A MÍSTICA QUE RENOVA A IGREJA.............................................................16

  1.1 MÍSTICA................................................................................................................16

  1.2 CONCÍLIO VATICANO II....................................................................................22

  1.3 CONFERÊNCIA DE MEDELLIN E CONFERÊNCIA DE PUEBLA..................25

  2 A TEOLOGIA QUE TRANSFORMA A SOCIEDADE......................................30

  2.1 COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBs)................................................30

  CONSIDERAđỏES FINAIS.....................................................................................44 REFERÊNCIAS..........................................................................................................46 ANEXOS......................................................................................................................49

LISTA DE ANEXOS

  ANEXO A - 11° Encontro Intereclesial de Base das CEBs, ocorrido em julho de 2005 em Ipatinga / MG............................................................................................................................50 ANEXO B – 1° Sulão das Comunidades Eclesiais de Base, ocorrido em julho de 2003 em Registro / SP..............................................................................................................................54 ANEXO C – 8° Encontro Intereclesial de Base das CEBs, ocorrido em setembro de 1992 em Santa Maria / RS.......................................................................................................................56

  INTRODUđấO “Esta nova forma de ser Igreja propicia a conscientização do povo”.

  Leonardo Boff

  O presente trabalho versa sobre um tema que possui importância histórica, na medida em que pretende mostrar a contribuição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil durante a ditadura civil militar e no período inicial da redemocratização. Havia uma vertente doutrinária interna da Igreja Católica chamada Teologia da Libertação, marcada pela opção de luta pela democracia, justiça e direitos humanos. Os membros das Comunidades Eclesiais de

1 Base (CEBs) aliados às pastorais sociais, pretendiam exercer um protagonismo junto às

  2

  forças populares , tanto na dimensão eclesial, social e como política. Baseavam-se nos valores cristãos de justiça, igualdade e solidariedade, como está descrito na Bíblia Sagrada em Atos dos Apóstolos:

  Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1.393)

  A fé cristã foi o que motivou a ação dos cristãos que atuavam nesse núcleo procurando suscitar crítica e consciência sobre a estrutura social e política que os cercavam, apontando suas contradições e estimulando a transformação. Neste sentido, esse setor específico da Igreja propôs uma mudança mais radical em busca da construção de uma sociedade justa. Para tanto, objetivaram algo mais profundo que uma reforma no sistema sociopolítico. Essas diretrizes foram definidas em vários momentos, como nos encontros regionais das CEBs e nos

1 Ao início dos anos 60 surgiu entre as classes populares do Brasil um novo modo de a Igreja ser: as

  

Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs são grupos de 20 ou mais pessoas que se reúnem uma ou duas vez por

mês na capela da roça, no sítio do pequeno agricultor, no salão da casa paroquial, no centro comunitário da vila,

no barraco da favela, para refletir, nutrir e celebrar sua vida de fé. São comunidades porque as pessoas se

conhecem pelo nome, partilham suas vidas e seus problemas, põem em comum seus bens e seus esforços, lutam

juntos por melhorias no bairro, conquista da terra ou da moradia, uma vida melhor. São eclesiais porque o eixo

em torno no qual giram é a palavra de Deus, o uso da Bíblia dentro da realidade conflitiva em que vivem, a

comunhão com a Igreja, da qual são células vivas. São de base porque integradas por subempregados,

aposentados, jovens, lavradores, operários, donas de casa, em fim gente pobre e oprimida que forma a base da

3 Encontros Intereclesiais de Base com momentos de reflexão a respeito da caminhada, das

  prioridades e da avaliação do processo. Esses encontros nacionais aconteciam periodicamente

  4

  com representantes dos estados, que por sua vez representavam uma diocese composta por várias Comunidades Eclesiais de Base. (Anexos).

  Devemos considerar o surgimento das CEBs durante a ditadura civil militar brasileira e o início do processo de redemocratização do país, dentro da perspectiva da Teologia da

5 Libertação . O intuito era unir a prática religiosa e social cristã com a realidade conflitiva da

  sociedade, aliando fé e vida. Esta posição se enquadra dentro de uma visão de esquerda, com o uso do instrumental marxista para entender a sociedade capitalista buscando articular com os princípios evangélicos. Nesse sentido, foi retomada a prática dos primeiros cristãos que viviam sua fé religiosa através de um testemunho comunitário e fraterno, situação que servia de ideal para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária no dia-a-dia. A fé religiosa aplicada à luta por uma sociedade mais justa e democrática indica a dimensão política. O caminho para mudar a realidade passava pela ação coletiva e organizada de baixo para cima, tendo nos pobres e excluídos os sujeitos desta transformação aliados aos intelectuais engajados na mesma luta.

  Para abordar esta temática que está inserida na História do Brasil no final do regime civil-militar e início da redemocratização, é preciso entender a Teologia da Libertação como a base teórica, cujos principais ideólogos são Leonardo Boff e Frei Betto.

  No campo teórico, parte-se do entendimento da arena política como espaço mais amplo do que as ações ligadas ao papel do Estado. Participavam os setores da sociedade que lutavam por políticas sociais (RÉMOND, 2003). Em relação a aspectos político-ideológicos, principalmente com referência a participação popular e para conceituar o movimento de esquerda, usarei como referência Bobbio:

  [...] creio poder dizer que o que o faz de um movimento de libertação um 3 movimento de esquerda é o fim ou resultado a que se propõe: a derrubada de um

O encontro de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) de âmbito nacional é sempre um momento forte e ímpar

de mobilização das comunidades. Espaço privilegiado para troca de experiências, análise da realidade,

4 celebração da caminhada, encorajamento mútuo e fortalecimento dos sonhos (BENICÁ, 2006, p. 15).

  

Uma região sob governo de um bispo. A diocese é também chamada Igreja local. Nova Iguaçu, por exemplo,

no estado do Rio, é uma diocese. Algumas cidades, por sua importância no passado ou no presente, recebem o

5 título de Arquidiocese. O papa é o bispo da diocese de Roma (BETTO, 1991, p.250).

  

A Teologia da Libertação nasce das CEBs surgidas na América Latina a partir dos anos 60. É a reflexão da fé

dos pobres, dentro de suas lutas por libertação, que produz as bases da Teologia da Libertação. Porém foi

sistematizado pela primeira vez pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, em 1971, em sua obra Teologia da

Libertação (Petrópolis, Vozes). A Teologia da Libertação é um novo modo ou método de ser fazer teologia. Ou regime despótico fundado na desigualdade entre quem está em cima e quem estão embaixo na escala social, percebido como uma ordem injusta, e injustiça precisamente porque inigualitária, porque hierarquicamente constituída; é a luta contra uma sociedade na qual existem classes privilegiadas e, portanto, em defesa e pela instauração de uma sociedade de iguais juridicamente, politicamente, socialmente, contra as mais comuns formas de discriminação (1995, p.19-20).

  A participação dos cristãos em um movimento de esquerda no processo de conscientização política ocorrido no Brasil foi uma ação importante que contribuiu para a construção da ideia democrática aliada à justiça social.

  Ao longo da História, a influência do pensamento religioso deixou marcas na trajetória humana através de suas práticas sociais, políticas e culturais. No mundo ocidental, o cristianismo tem sido, em diferentes épocas, uma força importante tanto em aspectos teóricos como em práticas comunitárias e evangélicas em nome de uma fé religiosa. Um exemplo que pode ser citado é o da influência do cristianismo entre as camadas mais pobres da sociedade durante o Império Romano com perseguições e mortes de fiéis. Houve a conversão em poder religioso oficial desta mesma fé, quando o referido Império, mostrou uma transferência da esfera de atuação. Ao procurarmos, no correr da história, teremos vários exemplos da defesa da fé católica que ecoavam de lugares distintos e por vezes rivais, basta citarmos o movimento franciscano que questionou frontalmente a forma como o poder da Igreja estava estruturado no período medieval. Em especial a relação entre religião e política é recorrente e contemporaneamente está visível entre setores de esquerda e populares. Todavia é preciso ressaltar que esses movimentos inspirados na Teologia da Libertação não constituem maioria entre os católicos, pois a posição conservadora e individualista tem uma presença mais importante.

  A Teologia da Libertação frente ao Vaticano, desde sua origem tem causado preocupação aos setores hierárquicos mais conservadores da Igreja Católica. Normalmente são críticas pontuais em relação à dimensão sócio-política de suas teses, principalmente em relação à análise do instrumental marxista. Nos documentos oficiais da Igreja, especialmente a mensagem que o Papa João Paulo II fez na sua primeira viagem ao Brasil, afirmou que a Teologia da Libertação é útil e necessária. Estas questões são analisadas na seguinte publicação:

  [...] “Estamos convencidos, nós e os senhores [os bispos do Brasil], de que a Teologia da Libertação, é não só oportuna, mas útil e necessária.” [...] “Os pobres deste país, que têm nos senhores os seus pastores, os pobres deste continente são os primeiros a sentir urgente necessidade deste evangelho da libertação radical e integral. Sonegá-lo seria defraudá-los e desiludi-los” (João Paulo II, Mensagem aos

  teses fundamentais da teologia da Libertação, por serem evangélicas e segundo a melhor tradição: a opção pela libertação dos pobres, a dimensão social da fé e as expressões populares das comunidades de base. [...] Rejeita o marxismo enquanto sistema global, ideologia e filosofia materialista. Assume dele o traço dialético e

elementos da análise da sociedade. (LIBÂNIO, s/d, p. 48).

  A Teologia da Libertação emergiu dentro do contexto da chamada Guerra Fria a partir do Concílio Vaticano II. Este documento fez história dentro da Igreja Católica porque marcou uma guinada no sentido progressista e de ação social envolvendo os pobres. Esta mudança não se deu em toda a estrutura religiosa, dividiu um pouco os apoios e ampliou a participação da instituição na luta cotidiana das classes populares. Marcou espaço no combate constante ao socialismo:

  [...] Frente aos diversos totalitarismos, a Igreja reagiu de modo diverso, porque diversas eram as circunstâncias em que eles nasceram e se desenvolveram. O comunismo russo, inspirado num rígido marxismo ortodoxo, declarou-se, desde o início, inimiga incondicional da religião qualificada de “ópio do povo”. [...] o Estado soviético promove oficialmente o ateísmo. Assim se explicam as condenações repetidas das instâncias eclesiásticas, não contra o ideal comunista da igualdade, mas contra a sua deturpação totalitária (HORTAL, 1985, p. 53).

  Durante esta fase na América Latina ocorreu a formação da Teologia da Libertação a partir dos anos 60 do século XX, unindo a mística cristã com uma força política no combate às injustiças, abrindo espaço para a ação dos católicos progressistas como uma força junto às camadas populares na luta por direitos sociais e humanos. Neste aspecto Delgado; Passos caracteriza da seguinte forma:

  [...] capitalismo internacional tem repercussões nos países da América Latina [...] A participação dos católicos nos movimentos sociais e políticos foram-se tornando significativa [...] Os fatores de mudança social, econômica, política e religiosa são amplos e complexos. [...] As mudanças vão-se inscrevendo em vários países latino- americanos de formas diferentes. [...] O principal interlocutor, para diversos setores da Igreja, passa a ser a sociedade civil [...] Esse processo possibilitou a aproximação entre Igreja e várias manifestações culturais, a expansão da ação social e, ainda, uma compreensão mais ampla desse exercício, reforçando, assim, sua aliança com as camadas populares [...] No entanto, as posições são múltiplas dentro da Igreja. A polarização também se fez sentir na hierarquia religiosa e junto aos leigos (2009, p. 104-05).

  O enfrentamento da Guerra Fria na América Latina deu-se na forma de apoio à governos autoritários apoiados pelos estadunidenses. Combatia-se organizações de esquerda que pudessem instalar governos comunistas, pois havia o argumento de que era preferível abandonar a democracia por governos autoritários. O mal maior era o comunismo. Dentro

  dimensão política cristã identificada com um projeto de esquerda na sociedade, rejeitou desde o início o caráter filosófico ateísta, embora usasse o instrumental marxista para entender a sociedade capitalista, apontando que a maior contradição da sociedade não era entre crentes e não crentes, mas entre opressores e oprimidos. Não se posicionou como comunista ou socialista. A saída proposta pela teologia era fraterna e solidária com raiz evangélica. Segundo Boff:

  Para quem tem fé, a utilização do materialismo histórico não pode representar um perigo fatal; somente para espíritos anêmicos, com fé que não crê em sua própria grandeza e superioridade, o marxismo representa o anjo exterminador do mau. A fé, por sua natureza, se movimenta num horizonte muito mais vasto, aquele do Absoluto diante do qual podemos, sem perder a dignidade, ajoelhar-nos, dentro do qual cabe a contribuição da teoria marxista da sociedade, na medida em que é produtora de luz sobre os problemas sócio-históricos (1991, p. 25-6).

  O chamado “socialismo real”, na verdade transformou-se em um estado autoritário, embora o início da “Revolução de 1917”, tenha ocorrido em tom de “liberdade de classe” e autonomia via sovietes. No decorrer do processo o que se viu foi uma espécie de comunismo de quartel, abandonando o princípio humanista de uma sociedade socialista. O fortalecimento do aparelho burocrático do poder, o marxismo dogmático, o sectarismo político, as concepções mecanicistas ideológicas e o partido único são todos elementos contrários a dignidade humana (MARQUES, 1991).

  Os trabalhadores foram privados de liberdade e democracia participativa, embora houvesse melhorias sociais, criando-se uma sociedade mais igualitária em relação aos países capitalistas. Por outro lado é importante salientar que o ser humano não vive só de pão, mas também de beleza. Esta análise é reforçada por Boff, inclusive em relação ao ateísmo:

  O socialismo trouxe avanços inestimáveis ás imensas maiorias que historicamente sempre foram marginalizadas. Criou-se uma sociedade, indiscutivelmente, mais igualitária que qualquer outra no mundo. Fez-se a revolução da fome, coisa que na América Latina nunca fizemos. [...] Mas o socialismo seguiu pela vertente autoritária, da centralização a partir do Estado e do partido único. Isso levou a que fosse apenas beneficente e não participativo. Faltou a revolução da liberdade. E o

ser humano vive de pão e também de beleza. (1991, p. 26). [...] Se eu defino o marxismo como uma cosmovisão atéia do homem, do mundo, dos destinos últimos do mundo, o marxismo como uma metafísica é uma coisa com o qual não comungo. Entretanto, o marxismo não é só isso, o marxismo também é, pretende ser, uma prática científica. [...] Nesse nível, eu não vejo oposição entre fé e marxismo, porque são dois níveis diferentes. O cristianismo é uma mensagem que define o sentido último do homem e da vida, e o marxismo é uma ciência e, como toda uma ciência, é uma hipótese, é um modelo teórico para conhecer mecanismos da história. São dois níveis: um da teoria científica e o outro da cosmovisão. (1991, p. 36). Partindo dessa perspectiva, no referido período histórico podemos entender a Teologia da Libertação dentro da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, ou seja, sob a égide de uma cosmovisão religiosa que expande sua atuação para o campo da vida material. Assim, de 1962 a 1965 foi realizado o Concílio Ecumênico Vaticano II, no qual a Igreja Católica começa uma fase de abertura ao mundo. Procurava, através da sua Doutrina Social, contribuir e influenciar às diferentes transformações que a humanidade atravessava, lutando pela dignidade humana e por uma mudança em favor dos pobres.

  Esta nova perspectiva tem influência na América Latina através das Conferências

  6

  7 Latino Americanas de Medellín (1968) e Puebla (1979) , conforme nos relatam os vários

  autores. Camargo (1981) afirma que esta trajetória da Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II e sua influência nas Conferências de Medellín e Puebla na América Latina tem como proposta a construção das comunidades de base:

  Essa mudança tem uma forte influência na América Latina, através das Conferências de Medellín na Colômbia em 1968 e Puebla no México em 1979, através da ligação fé e vida e da chamada opção evangélica preferencial pelos pobres. Fazendo uma analogia entre o Concílio Vaticano II e as conferências de Medellín e Puebla podemos verificar que o Concílio foram os encaminhamentos oficiais da Igreja para o mundo e as conferências foram os encaminhamentos oficiais para a América Latina. A reunião de Medellín, na Colômbia, canonizaria essas tendências. Os documentos do II Encontro do episcopado Latino-americano (CELAM), reunido naquela cidade em 1968, documentos emitidos em caráter oficial, definem duas linhas básicas de ação que transformariam no estandarte legitimador e referencial dos novos grupos de cristãos: a opção pelos pobres e as comunidades de base (CAMARGO, 1981, p.66-8).

  A mudança de posição traz consigo uma aproximação com os movimentos sociais por democracia e justiça social. A conjuntura política marcada por ditaduras militares dentro do contexto da Guerra Fria marca uma nova trajetória da Igreja, especialmente no Brasil. O elemento agregador da força popular por mudanças está na profunda fé religiosa do povo, que encontra em setores da Igreja uma aliada em suas demandas. Muitos teólogos procuram teorizar uma alternativa dentro dos parâmetros cristãos na qual a Igreja se tornasse mais 6 Cidade da Colômbia na qual se realizou a 2ª conferência geral do CELAM (Conselho Episcopal Latino-

  

americano), em 1968. Na reunião procurou-se adaptar à realidade da América Latina as conclusões do Concílio

Vaticano II e o conteúdo da encíclica Popularum Progressio (1967), do Papa Paulo VI. O Documento de

Medellín, assinado por 130 bispos do continente, condena o capitalismo e o neoliberalismo, apóia os

movimentos populares, especialmente as Comunidades Eclesiais de Base, defende a mudança das estruturas

econômicas e políticas injustas e abre a Igreja latino-americana a via da “opção preferencial pelos pobres”

7 (BETTO, 1991, p.256).

  

Cidade do México que abrigou a 3ª Conferência Geral do CELAM (Conferência Episcopal Latino-americano),

em 1979, á qual esteve presente o papa João Paulo II. O Documento de Puebla reafirma as principais conclusões evangélica e profética e ao mesmo tempo inspirasse os cristãos a lutarem nas diferentes organizações populares por uma sociedade fraterna e solidária.

  No Brasil, a partir dos anos 60, esta alternativa foi gradativamente elaborada pela Teologia da Libertação. Procurou-se, a partir da constatação da exploração vivida pelos oprimidos, sistematizar uma visão e traçar um plano de ações que pudesse mudar a sociedade na luta por liberdade e democracia baseadas nos princípios da Bíblia.

  A contribuição das Comunidades Eclesiais de Base nasce nesse berço e frutificou na criação e nas ações das pastorais sociais. As CEBs forneceram o tecido para a constituição de diferentes movimentos políticos e sociais, que serviram de base para alavancar os movimentos populares, sindicais e agrários. Esta nova base popular ganhou força e sedimentou-se no período histórico que antecedeu o término do governo civil-militar no Brasil. O movimento operário urbano e rural de massas foi o mais importante da história recente brasileira. A criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o PT (Partidos dos Trabalhadores) são exemplos desta ação oriunda das CEBs (LÖWY, 1991). Esta prática proporcionou uma força popular que gerou muitas lideranças engajadas nos diferentes movimentos sociais brasileiros: o Movimento dos Sem Terra (MST) e os movimentos por habitação por emprego e renda. Foi também através de lideranças oriundas das CEBs e das pastorais sociais que se fortaleceu o movimento sindical combativo do ABC paulista nos anos 80 e a formação do Partido dos Trabalhadores (PT) no mesmo período. Lideranças da Igreja Católica como Dom Helder Câmara nos anos 60, Dom Paulo Evaristo Arns nos anos 70 e 80, além dos teólogos Leonardo Boff e Frei Betto, deram apoio teórico e prático para o fortalecimento e o crescimento das CEBs dentro de setores de uma Igreja renovada ligada às mudanças históricas, sociais e políticas em busca de libertação. Neste sentido os pobres não seriam mais objetos de caridade, mais sim sujeitos transformadores da história.

  Para compreender com mais profundidade, o próximo capítulo aborda as questões de mística e da conversão nas ações internas a partir dos concílios. Para equacionar o tema proposto, o texto possui dois capítulos, que no seu conjunto justificam a importância desta pesquisa e a contribuição da mesma para a História do Brasil. No primeiro capítulo, será abordada a mística cristã como fonte que inspira a experiência histórica dos primeiros cristãos, através da passagem dos Atos dos Apóstolos, onde a partilha dos bens essenciais à vida produzia justiça e solidariedade. O Concílio Vaticano II no final dos anos 60 renova a Igreja Católica em sua relação com os mais necessitados e a preocupação com a dignidade humana. Está mudança ilumina a caminhada preferencial pelos pobres, a igreja como povo de Deus e a formação das CEBs. Embora não seja homogênea, está nova postura impulsiona uma parcela da Igreja a uma prática progressista.

  No segundo capítulo, é pesquisado a influência da Teologia da Libertação no Brasil, tendo as CEBs como instrumento, dentro dos pressupostos das Conferências latino- americanas a partir dos pobres e oprimidos. Para atingir os objetivos da pesquisa acadêmica é aprofundado a importância da CEBs, como núcleo de formação de lideranças para renovar a ação da Igreja e potencializar os movimentos populares para transformar politicamente o país, durante a ditadura civil militar e no processo de redemocratização, para uma democracia participativa a esquerda da sociedade.

1 A MÍSTICA QUE RENOVA A IGREJA

  “Para a Teologia da Libertação, toda a história humana deve ser encarada a partir dos interesses e das aspirações dos oprimidos”.

  Frei Betto

  1.1 MÍSTICA A força interior inerente a todo ser humano em busca de algo que possa lhe dar um sentido à sua existência pode ser denominada mística. É uma angústia humanista ou religiosa, em busca de explicação e do sentido mais profundo da existência. É a procura por mais dignidade e justiça aos seres humanos. Como evidencia Boff:

  Procuram descobrir em si as várias dimensões do mistério da vida e os níveis de profundidade da indagação humana. Identificam aí os grandes sonhos e visões de um mundo novo e de relações humanas e sociais mais benevolentes e amorosas que povoam nosso imaginário e que de tempos em tempos, incendeiam nossos corações (1994, p. 11).

  Na América Latina, como no Brasil, este sentimento está ligado a muitos movimentos sociais religiosos de cunho popular que lutaram principalmente a partir da década de 60 do século XX. Eram impulsionados pela mística para uma mudança mais profunda na sociedade. Dentro desta perspectiva é importante destacar a seguinte reflexão de Leonardo Boff:

  No nosso continente sempre houve espíritos que se deixaram inspirar pela utopia originária do cristianismo, de uma forma fraternal e sororal, justa e participativa, carregada de ternura pelos pobres e marginalizados [...] A opção das Igrejas pelos pobres traduz emblematicamente, para nossos dias, as dimensões libertárias da memória “subversiva” de Jesus de Nazaré. Outros retomam as idéias emancipatórias da Revolução Francesa, de liberdade, igualdade [...] o socialismo e o marxismo foram uma torrente de generosidade e uma fonte inspiradora de verdadeiro amor aos oprimidos e de visões revolucionárias [...] Apesar da crise do socialismo “real”, que é um tipo de organização da sociedade e do Estado (como por exemplo, através da concepção leninista do partido único), o ideário socialista permanece como uma vertente mobilizadora de engajamento social. Para outros, são um humanismo radical e uma ética da compaixão e da solidariedade que motivam compromissos sérios em defesa dos índios, mulheres, aidéticos, hansenianos e outros penalizados pela sociedade dominante (1994, p. 10 -11).

  A mística, como um sentido existencial do ser humano, está ligado à vida e tudo que, de uma forma ou de outra, está relacionado ao mistério da eterna busca do conhecimento, inclusive de caráter científico. Ao mesmo tempo está envolvida com a esperança de uma vida transformadora. É importante destacar que a palavra mística é adjetivo de mistério e este é entendido como fascinação e interesse humano por sua subjetividade. Não faz parte dessa definição o sentido de sinalizar realidades escondidas ou aquilo que não pode ser explicado concretamente pela razão. O texto do teólogo apóia-se nas palavras do cientista Albert Eistein:

  O mistério da vida me causa a forte emoção. É este sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação de mistério ou não pode mais experimentar espanto e surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos cegaram. Aureolada de temor é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. [...] Afirmo com todo vigor que a religião cósmica é móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa... o espírito científico, armado fortemente com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica (ensaio “Como vejo o mundo”, apud: BOFF,1994, p. 15-16).

  O cristianismo é uma religião histórica, tendo na Bíblia a palavra inspiradora para uma fé concreta no mundo. É inspirada por Deus e vivenciada ao longo do tempo por diferentes pessoas, contextos culturais, políticos e econômicos. Neste sentido como a cruz de Cristo, a mística cristã possui duas dimensões que se cruzam e se entrelaçam na vida, uma não exclui a outra e as duas se somam para dar sentido ao projeto de vida. De um lado a transcendência no sentido vertical entre o ser humano e um Deus que dá as motivações de acreditar na eternidade e na esperança; de outro lado, o sentido horizontal da imanência, da missão e do compromisso de construir no mundo um projeto de solidariedade, onde os seres humanos possam ser irmãos e as estruturas da sociedade sejam eivadas de igualdade e fraternidade. Os cristãos, diante da realidade do mundo, têm como modelo central a figura histórica de Jesus Cristo, na Palestina dominada pelo Império Romano. Cristo ao anunciar e viver a Boa Nova (Evangelhos) propõe uma nova postura e uma nova prática para a humanidade e de modo especial para seus discípulos (cristãos), na medida em que fala aos pobres e excluídos de seu tempo em justiça, fraternidade e amor ao próximo. Foi condenado e crucificado, passando pelo martírio e pela tortura e ao mesmo tempo por uma condenação religiosa. Contrariou o

8 Império Romano, os saduceus , aliados deste poder que dominava a Palestina, também aos

  9

  10 8 escribas e aos fariseus , como podemos verificar nos relatos de Frei Betto:

O grupo dos saduceus é formado pelos grandes proprietários de terra (anciões) e pelos membros da elite

sacerdotal. Têm o poder na mão, e controlam a administração da justiça no Tribunal Supremo (Sinédrio).

  

Embora não se relacionem diretamente com o povo, são intransigentes em relação a ele, e vivem preocupados

com a ordem pública. São os principais responsáveis pela morte de Jesus. Os saduceus são os maiores

colaboradores do Império Romano, e tendem para uma política de conciliação, com medo de perder seus cargos

e privilégios. No que se refere à religião, são conservadores (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1234).

  O centro de decisões políticas e econômicas da Palestina ficava em Roma. O imperialismo romano estendia as suas garras até a pátria de Jesus. Aqueles que governavam a Palestina eram nomeados por Roma e apenas cumpriam ordens vindas do centro do Império [...] Era essa a situação da Palestina quando Jesus nasceu. O filho de Deus nasceu na mesma situação em que muitas pessoas ainda nascem no Terceiro Mundo: num país politicamente dominado, economicamente dependente militarmente ocupado. [...] Deus que se revela como homem dentro da história concreta de um povo (1991. p. 46).

  Jesus incomoda porque trata Deus com uma intimidade desconcertante (Mc 2,7; Jo 5,18), despreza as formalidades (Mc 12, 38-40), [...], critica os que se apegam ás riquezas (Mt 6,24) [...] acolhe os marginalizados (Mc 7, 31-37). [...] Os que tinham poder tentaram tudo contra Jesus; denunciar seus milagres como obra do demônio (Mc 3,22; Jo 7,20), coloca-lo publicamente em ridículo (Mc 12,18-23) jogá-lo contra o povo (Lc 11, 53-54), [...] prendê-lo (Mc 11,18; Jô 10,39) apedreja-lo (Jo 8,59; 10,31) e, por fim, decidem assassina-lo (Mc 3,6; Jo 11, 49-50) (1991. p. 64-5).

  A postura e a prática dos primeiros cristãos mostram que o mundo em que se vive deve ser transformado, pois a mensagem é contrária à toda forma de opressão e injustiça ao longo da história, a começar pela própria vida e morte de Cristo. Assim como Cristo foi perseguido, preso e torturado. No Brasil, durante a ditadura militar décadas de 60 a 80 do século XX, muitos cristãos ao dar testemunho dos valores evangélicos sofreram formas semelhantes de injustiças por estarem envolvidos em lutas sociais, mas também diante de diferentes governos mantiveram a coerência de seus princípios. Diante deste processo o próprio Cristo no seu Evangelho orienta para o cuidado e ao mesmo tempo a coragem de agir e dar testemunho de sua fé inserida na realidade humana:

  Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tenham cuidado com os homens, porque eles entregarão vocês aos tribunais. [...] Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido. (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1251-1252). Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o gosto, em que podemos salgá-lo? Não serve para mais nada; serve só para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada de baixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim

abastada, os doutores da lei gozam de uma posição estratégica sem igual. Monopolizando a interpretação das

escrituras, tornam-se guias espirituais do povo, determinando até mesmo as regras que dirigem o culto. Sua

grande autoridade repousa sobre uma tradição esotérica: não ensinam tudo o que sabem, e escondem ao máximo

10 a maneira como chegam a determinadas conclusões (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1234).

  

Fariseu que dizer separado. Inicialmente aliados à elite sacerdotal e aos grandes proprietários de terra, os

fariseus deles se afastam para dirigir o povo, embora mantenham distância do povo mais simples (que não

conhece a lei). São nacionalistas e hostis ao Império Romano, mas sua resistência é do tipo passiva. [...] No

terreno religioso, os fariseus se caracterizam pelo rigoroso cumprimento da lei em todos os campos e situações

da vida diária. [...] Esperam um messias político-espiritual, cuja função será precipitar o fim dos tempos e a

  também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p.1243).

  Esta inspiração traduz uma prática de libertação, onde o texto bíblico não é visto como um fato do passado, mas sim atualização presente para construir o Reino de Deus. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1370), diz Cristo no Evangelho, pois o cristianismo tem na sua essência um compromisso com a vida e sua dignidade, para que a vida do povo dentro de um projeto coletivo de sociedade possa ser um projeto de justiça. Toda forma de ditadura, seja ela política, econômica e social deve ser combatida e denunciada. Combater e denunciar exige determinação e coragem para os cristãos vinculados a essa visão teológica. Traz consequências, inclusive de crítica interna de outros setores da Igreja, cuja interpretação mais tradicional está ligada a uma forma de contemplação do mundo e não de ação. Os cristãos progressistas são associados ao socialismo. Para eles a transformação libertadora significa lutar por alternativas políticas para haver no mundo uma sociedade mais humana, onde o povo possa usufruir aos bens essenciais, à vida, à saúde e à alimentação, não como uma dádiva dos governantes, mas um direito fundamental do ser humano.

  A vida cristã dentro de uma visão progressista de um projeto mais equânime de sociedade, considerando a democracia como princípio estratégico, tem como inspiração a passagem do evangelho que diz: “Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1245). A riqueza econômica de poucos, a pobreza e a miséria da maioria da população seriam uma ofensa ao Deus da vida e ao mesmo tempo uma injustiça que atinge principalmente os trabalhadores. Nessa visão teológica marcada pela análise material da vida o capitalismo seria um sistema excludente, que mantém uma situação de desigualdade social. Os cristãos então teriam a responsabilidade de conhecer e denunciar suas contradições, neste sentido o referencial marxista é fundamental. A democracia seria construída de forma coletiva em todas as esferas da sociedade, para que o ser humano não se torne objeto do lucro e do consumismo, mas um ser valorizado e reconhecido sem preconceitos e opressões. Assim estaria de acordo com uma nova concepção de democracia que leva em conta as questões sociais, segundo René Rémond:

  [...] As novas orientações históricas estavam em harmonia com o ambiente compaixão pelos deserdados, a solidariedade com os pequenos, a simpatia pelos “esquecidos da história” inspiravam um vivo desejo de reparar a injustiça da história para com eles e restituir-lhes o lugar que tinham direito (RÉMOND, 2003, p. 19).

  A visão progressista de aproximação dos católicos com políticas de esquerda também é ressaltada, através da seguinte reflexão:

  O fenômeno recente que data de meados dos anos 60 é o afastamento de uma parte dos católicos praticantes das organizações de direita. Um em cada quatro aproximadamente vota hoje nas formações de esquerda. O fenômeno é difícil de interpretar, e está sem dúvida ligada a evolução da sociedade e da Igreja (COUTROT, 2003, p. 353).

  No Antigo Testamento da Bíblia cristã a passagem central para entender a relação entre o Deus que se preocupa com seu povo e o liberta da opressão, está relatada na passagem do Êxodo: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios” (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 72). Ao longo da história dentro de uma interpretação mais atual do cristianismo, este processo histórico é fundamental para fazer uma analogia com a situação de opressão e a busca por libertação dos povos oprimidos. Nessa visão, o regime autoritário brasileiro, ao colocar os cristãos entre a palavra de Deus e a realidade a ser transformada, impulsionou a ação das CEBs na luta por uma nova estrutura política para ser compatível com o plano religioso. Uma sociedade que militarmente mantém o povo sob seu jugo, ou economicamente não partilha os bens produzidos pelos trabalhadores de forma igualitária, ou ainda mantém uma elite ligada à privilégios políticos e econômicos através do sacrifício do povo, seria uma versão da metáfora dos Faraós do Egito Antigo. Outro elemento a ser considerado é a afirmação cultural de desigualdades que acabam introjetando no povo oprimido verdades e hipocrisias construídas pelos opressores (BETTO, 1982).

  A justiça, a fraternidade e a opção pelos pobres e necessitados como parâmetros de uma nova sociedade, são critérios para uma fé religiosa ligada à vida e à um contexto social de exclusão e não apenas decisão individual. Neste sentido podemos citar uma passagem do Evangelho de Mateus descrito na Bíblia Sagrada:

  Um jovem se aproximou, e disse a Jesus “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna? Jesus respondeu: Por que você me pergunta sobre o que é bom? Um só é o bom. Se você que entrar para a vida, guarde os mandamentos”. O homem perguntou: “Quais mandamentos?” Jesus respondeu: “Não mate, não cometa essas coisas. O que ainda me falta fazer?” Jesus respondeu: “Se você que ser perfeito, vá, venda tudo que tem, de o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga-me.” Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. Então Jesus disse aos discípulos: “Eu garanto a vocês: um rico dificilmente entrará no Reino do Céu. E digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.” (1990, p. 1265).

  Podemos também verificar, o critério que Cristo define no chamado “juízo final”, isto é, aqueles que por sua prática de vida alcançarão à salvação eterna. Este critério coloca os cristãos diante do dilema para alcançar a vida eterna. É necessário ter uma prática de vida que ligue a fé com uma dimensão social e política, na medida em que o Reino de Deus começa na dimensão humana e completa-se na eternidade. Até o Concílio Vaticano II, muitas gerações de cristãos tinham em mente que bastava seguir os mandamentos da Igreja, uma vida de oração e sacramentos para alcançar a eternidade, evidenciando que não havia uma preocupação de mudar a realidade material. Era uma visão de religião como uma espécie de poupança para depois da morte, sem compromissos com a justiça, especialmente com os pobres, descrito no Evangelho de São Mateus:

  [...] Recebam como herança o Reino que meu Pai lhe preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em casa, eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar. Então os justos lhe perguntarão: Senhor , quando foi que te vimos com fome e te temos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que vimos como estrangeiro e te recebemos em casa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar? (...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizerem isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizerem. (...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizerem isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna (BÍBLIA SAGRADA, 1990, p. 1274).

  A mística cristã, dentro de uma visão libertadora é histórica, na medida em que impulsiona os cristãos a um compromisso com o bem comum, de modo especial com os deserdados da sociedade que sofrem todo tipo de discriminação e opressão. Quanto mais a sociedade for justa, solidária e fraterna, maior a proximidade com a utopia cristã, cuja realização definitiva seria na eternidade (Reino de Deus

  11

  ). Neste sentido, regimes políticos que oprimem os seres humanos como o capitalismo

  12

  que não alteram as injustiças sociais e 11 O Reino de Deus é a transformação radical das pessoas e do Universo. É a civilização do amor. O fim de todas

  

as formas de injustiças. [...] Esse Reino não está ainda completamente realizado na história, mas foi realizado por

Jesus, que plantou seu germe entre nós. Essa semente cresce no mundo sem que a gente perceba: em todo lugar onde a justiça vence a injustiça, a liberdade vence a opressão, a vida vence a morte (BETTO, 1991, p.39). econômicas e deixam os pobres à própria sorte, seriam contrários aos ideais cristãos não tanto pelas suas consequências, mas por seus princípios.

  1.2 CONCÍLIO VATICANO II O Concílio Vaticano II (1959-1965) marcou a abertura da Igreja Católica ao mundo contemporâneo com uma aliança com a vida humana. Por paradoxal que pareça esse encontro foi decisivo para que ela se encontrasse consigo mesma. A relação com a humanidade comprometia o próprio sentido e a razão de ser da Igreja, tanto na forma de entender-se a si mesma, com também a sua relação com a história. A Igreja ao assumir o desafio de dialogar com o pensamento da sociedade contemporânea é levada a buscar uma nova maneira de estar no mundo. A inspiração desta opção encontra-se em dois documentos do Concílio que foram de fundamental importância: A Lúmen Gentium (LG) (Luz dos Povos) e a Gaudium et Spes (GS) (As alegrias e Esperanças).

  Ao mesmo tempo a Igreja se propõe a lutar para que o ser humano seja respeitado na sua integridade, revelando uma dimensão social de mudança interna. Afirma a preocupação em salvar também o “corpo”, isto é, o ser humano na sua integridade e não apenas a “alma”. O Concílio Vaticano II na sua Constituição pastoral Gaudium et Spes destaca esta renovação:

  [...] iluminando-os à luz tirada do Evangelho e fornecendo ao gênero humano os recursos de salvação que a própria Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe de seu fundador. É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade, que será o eixo de toda a nossa explanação. Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação. Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito guiada pelo Espírito Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para a salvar e não condenar, para servir e não para ser servido (VIER, 2000, p. 40).

  Para o Concílio Vaticano II, a mística cristã é traduzida na forma de sacramento e entendida como uma unidade da Igreja a serviço do mundo. A Igreja Católica que se encerrara na questão espiritual e que tinha relação próxima com instituições e governos ligados a elites abre-se a uma ação pastoral ligada aos pobres e necessitados. Estabelece uma ligação entre a

  

necessariamente pessoal; c) processos de racionalização dos meios e métodos diretos e indiretos para a vida de Cristo e a relação próxima com os necessitados. Foi o embrião da transformação na ação da igreja a partir do centro de sua hierarquia no Vaticano. Tem o Concílio Vaticano II como instrumento, atingindo o Brasil e a América Latina, conforme podemos verificar no primeiro capítulo do referido encontro no documento Lúmen Gentium (LG) intitulado “O mistério da Igreja”:

  [...] Cristo consumou sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação. Cristo Jesus, “como subsistisse na condição de Deus, despojou- se a si mesmo, tomando a condição de servo” (Filip 2,6) e por nossa causa “fez-se pobre embora fosse rico” (2 Cor 8,9): da mesma maneira a Igreja, embora necessite dos bens humanos para executar sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar,também pelo seu próprio exemplo, a humildade e a abnegação. Cristo foi enviado pelo Pai para “evangelizar os pobres, sanar os contritos do coração (Lc 4,18), “procurar e salvar o que tinha parecido” (Lc 19,10): semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem do seu fundador pobre e sofredor. Faz o possível para mitigar-lhes a pobreza e neles procura servir a Cristo,“ santo, inocente, imaculado” (Heb 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5,21) a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre na necessidade de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação (VIER, 2000, p. 47).

  Esta mística, denominada mistério na dimensão religiosa católica, fortalece os cristãos na medida em que ao mesmo tempo, dá coragem diante das injustiças e diversidades sociais, também dá esperança e fortaleza para transpor as utopias e chegar a uma dimensão onde a coerência e o testemunho evangélico alcancem a plenitude diante de Deus.

  [...] Cristo inaugurou na terra o Reino dos céus, revelou-nos. seu mistério, e por sua obediência realizou a redenção. A Igreja [...] já presente em mistério, pelo poder de Deus cresce visivelmente no mundo. Este começo e crescimento são ambos os significados pelo sangue e pela água que manaram do lado aberto de Jesus crucificado (cf. Jo 19,34) e preanunciado pelas palavras do Senhor acerca de sua morte na cruz: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32). Exerce-se a obra de nossa redenção sempre que o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo

nossa Páscoa foi imolado (1 Cor 5,7) (VIER, 2000, p. 40).

13 A dimensão pastoral é outro elemento importante do Concílio Vaticano II, cuja

  13 proposta traz em si uma forma de ação conjunta da Igreja em relação ao mundo dentro do

  

É a atividade evangelizadora da Igreja. No Brasil, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

define para o conjunto da Igreja no país grandes linhas pastorais que orientam e inspiram a atividade das

dioceses, das paróquias, das CEBs e dos movimentos evangelizadores. Cada diocese possui também seu próprio

Plano de Pastoral, em geral válido por três ou quatro anos, no qual se elencam as prioridades a serem assumidas

por todos os católicos em comunhão com o Pastor (= bispo) daquela igreja local. Há na Igreja no Brasil

movimentos pastorais articulados em nível nacional para atuação em áreas e setores específicos, como é o caso espírito de renovação. Impulsiona os cristãos a uma ação evangelizadora. Esta dimensão vai influenciar de maneira direta as pastorais sociais na América Latina, e em especial no Brasil. No Concílio Vaticano II esta ação pastoral é destacada pelo Papa Paulo VI, no discurso de abertura da segunda sessão em 29 de dezembro de 1963, reafirmando a intenção do idealizador do encontro, o Papa João XXIII:

  Um concílio conscientemente pastoral parte do princípio de que a doutrina nos foi dada para ser vivida, [...] para demonstrar sua virtude salvadora na realidade histórica; que é preciso unir a ação da inteligência á da vontade, o pensamento ao trabalho, a verdade á ação, a doutrina ao apostolado, o magistério ao ministério; [...] Um concílio conscientemente pastoral procura perceber as relações entre os valores eternos da verdade cristã e sua inserção na realidade dinâmica, hoje extremamente mutável, da vida humana tal qual é, contínua e diversamente moldada na história presente, inquieta, conturbada e fecunda. (VIER, 2000, p.09 e 10).

  A mensagem cristã em termos pastorais deve ser levada ao mundo, através da missão dos cristãos de transformar a realidade para que este mundo possa conhecer, e ao mesmo tempo possa optar por uma proposta com mais justiça e igualdade. Em relação à justiça, o Concílio Vaticano II na Constituição pastoral “Gaudium et Spes” alerta para que a dignidade da pessoa humana seja respeitada e ao mesmo tempo faz uma crítica a todo regime político que explora ou causa desigualdades sociais ou econômicas.

  Assim, na América Latina surge a organização das Conferências Episcopais de Medellín na Colômbia e Puebla no México, e a atuação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na organização das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e diversas pastorais sociais. É uma mudança de posição importante da Igreja geral na medida em que os pronunciamentos e documentos oficiais davam mais ênfase à crítica aos governos autoritários do leste europeu, representado pelo socialismo real, e agora a crítica também é feita mesmo que de forma indireta ao capitalismo.

  Na verdade, nem todos os homens se equiparam na capacidade física, que é variada, e nas forças intelectuais e morais, que são diversas. Contudo qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou funde-se no sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada, porque contrária ao plano de Deus. É de lamentar realmente que aqueles direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda garantidos por toda a parte. [...] a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais eqüitativa. Pois as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre membros e povos da única família humana provocam escândalo e são contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional. As instituições humanas, particulares ou públicas, se esforcem para servir à dignidade e ao fim do homem. Ao mesmo tempo lutem denodamente contra qualquer espécie de servidão, tanto social quanto política e respeitem os direitos Com a mesma força o Concílio Vaticano II faz crítica contra as discriminações e as injustiças sociais e políticas, procura orientar os cristãos católicos para combaterem com veemência o individualismo, buscando como alternativa, convivência social mais humana através de práticas comunitárias. A leitura destes ideais também ilumina as práticas cristãs na América Latina, e de modo especial no Brasil com a organização e formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), enquanto espaço eclesial (âmbito da Igreja) e uma ação cristã que busca a integridade do ser humano em uma nova sociedade mais solidária e fraterna.

  O Concílio Vaticano II aponta a necessidade de participação dos cristãos para agir diretamente nas relações econômicas, sociais e políticas em atitudes individuais e coletivas na busca de bem comum, sob influência dos valores evangélicos. Esta perspectiva modifica uma prática secular de viver uma fé mais intimista, cuja preocupação era uma relação individual entre aquele que crê e no Deus que se acredita. As relações de sociabilidade entre as pessoas eram reduzidas apenas à esfera da caridade. Uma prática alijada da relação com o mundo, que acabava por favorecer a invisibilidade das injustiças sociais, mantendo uma separação entre fé e vida. Precisava-se enfatizar o impacto das orientações contidas neste documento na América Latina devido a se tratar de espaço com um elevado contingente de católicos e de pobres.

  1.3 CONFERÊNCIA DE MEDELLIN E CONFERÊNCIA DE PUEBLA A Conferência Episcopal Latino-americana de Medellín (1968), na Colômbia, foi coordenada por Bispos latino-americanos. Foi um reflexo direto e uma adaptação para a realidade das conclusões do Concílio Vaticano II. Em relação à perspectiva de justiça, a denúncia do pecado estrutural causado pelos sistemas políticos, a Conferência de Medellín aponta na seguinte direção:

  A Igreja Latino-americana tem uma mensagem para todos os homens que neste continente têm “fome e sede de justiça”. O próprio Deus cria o homem à sua imagem e semelhança, cria a “terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos, de forma mais justa” (G.S. 69), e lhes dá poder para que solidariamente transforme a aperfeiçoe o mundo (Gen. 1,29). É o próprio Deus que na plenitude dos tempos, envia seu filho para que, feito carne, liberte a todos os homens de todas as escravidões a que foi submetido pelo pecado: a fome, a miséria e a ignorância, numa palavra a injustiça que tem origem no egoísmo humano (Jo.8,32-34) (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 8 e 9). A realidade sócio-política na América Latina no final dos anos 60 do séc. XX foi permeada por ditaduras militares e o capitalismo dependente, com consequência de miséria e exclusão social. Sob o contexto político da Guerra Fria, os Estados Unidos continuavam desenvolvendo seu modelo de desenvolvimento social, econômico e político na América Latina com apoio das elites locais. Os efeitos da Revolução Cubana influenciam as organizações de esquerda pela causa revolucionária e acabam por ser considerados setores como inimigos internos dentro dos países que desenvolviam uma política anticomunista. Governos civil-militares estiveram apoiados nos Estados Unidos com o argumento que é preferível um governo autoritário a um governo comunista. Para reforçar no plano econômico esta estratégia, a Aliança para o Progresso, com sua política de subsídio às economias dos países alinhados com os EUA, tentava amenizar a pobreza e a pressão interna. Desta forma, com apoio político e econômico evita a influência da esquerda e a reprodução do governo cubano na América Latina (GUAZELLI, 1993); (PECEQUILO, 2003); (COGGIOLA, 2001).

  Nesse contexto, a renovação da Igreja Católica a partir da Conferência de Medellín, assume um caráter revolucionário não só para os cristãos. As pastorais sociais e as comunidades adquirem um papel importante, na medida em que organizam o povo para mudanças efetivas, em relação à realidade no qual estão inseridos. Estas considerações estão no seguinte relato dos documentos desta conferência:

  [...] Orientação da transformação social: A igreja latino-americana julga dever orientá-la no sentido de formação de comunidades nacionais que espelhem uma organização global, onde toda a população e especialmente as classes populares tenham através de estruturas territoriais e funcionais uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma nova sociedade. Essas estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado devem ser organizadas livremente, sem a intervenção indevida da autoridade ou de grupos dominantes, em seu desenvolvimento e em sua participação concreta na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. É também a expressão real da liberdade e da solidariedade dos cidadãos (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 10).

  Dentro dessa atualização, em Medellín afirma-se textualmente: “Igreja povo de Deus”. Esta definição marca uma transformação importante internamente e de atuação em uma instituição milenar, inserida em um continente de exclusão e pobreza. “Igreja povo de Deus” engloba todos os membros da Igreja Católica, seja sua hierarquia composta do Papa, bispos, padres, religiosos, mas também os leigos. É uma perspectiva evangélica de todos os seus membros atuando em conjunto. Historicamente é uma mudança substancial, pois até aquele momento quando se falava em Igreja referia-se a toda sua hierarquia sendo os leigos em maior atuação mais comunitária e democrática, inclusive perante a realidade do mundo. Evidencia- se a ação junto ao povo na denúncia e participação.

  A Igreja Povo de Deus prestará sua ajuda aos desvalidos de qualquer tipo e meio social, para que conheçam seus próprios direitos e saibam usá-los. Para isso a igreja utilizará sua força moral e buscará colaboração de profissionais e instituições competentes (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 14).

  Defender, segundo o mandato evangélico, os direitos dos pobres e oprimidos, urgindo nossos governos para que eliminem tudo quanto destrua a paz social: injustiça, inércia, venalidade, insensibilidade. Denunciar energicamente os abusos e as injustas conseqüências das desiguladades excessivas entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos. Alentar e favorecer todos os esforços do povo para criar e desenvolver suas próprias organizações de base, na reivindicação e consolidação de seus direitos e na procura de uma verdadeira justiça (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 23).

  A maior contribuição da Conferência Episcopal Latino-americana de Medellín em relação à Igreja Católica foi a “opção preferencial evangélica pelos pobres” e a formação das “Comunidades Eclesiais de Base”. Esta ação teve uma dimensão política, pois aproximou os cristãos de organizações populares, mesmo sofrendo oposição de outros setores da Igreja. Esta aproximação define uma visão com caráter solidário dentro da ideia de democracia. Esta opção está relatada da seguinte forma:

  Por tudo isso, queremos que a igreja da América latina seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunho do valor dos bens do reino e humildade servidora de todos os homens de nossos povos. Seus pastores e demais membros do Povo de Deus hão de dar á sua vida, palavras atitudes e ação a coerência necessária com as exigências evangélicas e as necessidades dos homens latino-americanos. Preferência e solidariedade: O particular mandato do Senhor de evangelizar os pobres deve levar-nos a uma distribuição de esforços e de pessoal apostólicos que de preferência atenda os setores mais pobres e necessitados e os segregados por qualquer causa, alentando e acelerando as iniciativas e os estudos que, com este fim, já se fazem. [...] Devemos aguçar a consciência de dever de solidariedade com os pobres, [...] Esta solidariedade há de significar fazer nossos seus problemas e sua lutas, e saber por eles. [...] Isto há de concretizar-se na denúncia da injustiça e da opressão, na luta contra a intolerável situação que suporta com freqüência o pobre. (SECRETARIADO REGIONAL SUL 3 CNBB, 1968, p. 96-7).

  O incentivo a formação das Comunidades Eclesiais de Base com objetivo de retomar a experiência dos primeiros cristãos de viver em comunidade e partilhar os bens essenciais à vida, quebra com a lógica capitalista do individualismo e do materialismo. Por outro lado, na sociedade ocorre certa desconfiança sobre esta nova postura de setores do cristianismo, em função da aproximação com o marxismo como inspiração das organizações populares. Os desafios em entender e modificar as desigualdades tornam as CEBs um espaço de análise teoria, reflexão e prática. Os integrantes são os protagonistas da análise e os primeiros a serem beneficiados por essa nova postura. Outro elemento da renovação da Igreja em Medellín é o suporte aos trabalhadores por uma força ativa na base social. Abria-se espaço concreto para que eles mesmos construíssem seus sindicatos.

  A Conferência Episcopal Latino-americana de Puebla no México, em 1979, teve o mérito de confirmar as opções e definições da Conferência de Medellín. Alguns teólogos chegam a afirmar que existiu na Igreja Católica um binômio Medellín-Puebla.

  O contexto histórico das ditaduras na região exige uma ação mais direta no sentido de dar testemunho evangélico e colocar em prática a nova postura de uma igreja popular, engajada na luta pela justiça e pela democracia. Nesse mesmo espírito de busca por mudanças na sociedade e na realidade de opressão, a conferência de Puebla faz um apelo de união aos cristãos e a todos aqueles que comungavam da mesma visão em favor do povo e suas organizações de base.

  Na conjuntura atual da América Latina, as mudanças poderão ser rápidas e profundas em benefício de todos, especialmente os pobres, [...] Para tanto, propomos a mobilização de todos os homens de boa vontade. Que eles se unam, com novas esperanças, para essa tarefa imensa. Queremos escutá-los com viva sensibilidade, unir-nos a eles em sua ação construtiva. Com nossos irmãos que professam a mesma fé em Cristo, embora não pertençam a Igreja Católica, esperamos unir esforços, preparando constantes e progressivas convergências que apressem a chegada do Reino de Deus. Aos filhos da igreja que se empenham em postos de vanguarda, queremos transmitir-lhes nossa confiança em sua ação, fazendo deles nossos mensageiros de novas esperanças. Sabemos que, no Evangelho, na oração e na eucaristia, procurarão encontrar a fonte de constantes revisões de vida e a força de Deus para sua ação transformadora (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, CNBB, 1983, p. 295).

  A denúncia da opressão causada pelos governos civis-militares na América Latina foi uma atitude corajosa. Este aspecto foi textualmente colocado nos documentos de Puebla, inclusive destacando a contradição do fato do continente ser majoritariamente cristão, mas com práticas repressivas que contradiziam os valores defendidos por essa teologia. A conferência torna-se uma verdadeira bandeira na defesa dos direitos humanos, além disso, foi uma influência para os partidos políticos e organizações populares dos cristãos progressistas que tem nesse evento um divisor de águas.

  Puebla, além de ser um espaço de denúncia e defesa da dignidade humana, foi também um lugar de críticas diretas ao sistema capitalista. A relação econômica imperialista, cujo centro de poder estava localizado em países do primeiro mundo, dos quais dependem regiões entre ricos e pobres. Estas questões podem ser percebidas dentro dos princípios de comunhão e participação propostos por essa conferência da seguinte forma:

  [...] o poderio de empresas multinacionais se sobrepõe ao exercício da cidadania das nações e ao pleno domínio de seus recursos naturais. Devido a isso, vemos o ideal da integração latino-americano ameaçado, [...] Finalmente, não se torna estranho neste complexo problema social o aumento dos gastos com armamentos, como tampouco a criação artificial de necessidades supérfluas, impostas de fora aos países pobres. [...] Por isso a Igreja, perita em humanidade, deve ser a voz (da pessoa, da comunidade perante a sociedade, das nações fracas perante as poderosas) cabendo- lhe uma ação de docência, denuncia e serviço em prol da comunhão e participação [...] Em povos de arraigada fé cristã impuseram-se estruturas geradoras de injustiça. Estas, que estão em conexão com o processo de expansão do capitalismo liberal (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, CNBB, 1983, P. 298- 9).

  No seu propósito de formar as Comunidades Eclesiais de Base, o documento de Puebla, ressalta as mesmas como núcleo de formação e de reflexão sobre a Palavra de Deus, fortalecendo a ação de uma Igreja renovada, missionária, participativa e transformadora. Ao questionar a sociedade consumista, egoísta e excludente, os cristãos das CEBs são questionados e perseguidos pelos grupos conservadores tanto da Igreja quanto da sociedade (CNBB, 1983). Esta nova postura confirma uma guinada ideológica de muitos cristãos, que a exemplo de Cristo não temem ser perseguidos e muitas vezes martirizados.

  A Conferência Episcopal latino-americana de Puebla, em 1979, no México foi uma verdadeira afirmação da ligação intrínseca da Igreja como povo oprimido, dentro da confirmação das opções da Conferência Episcopal de Medellín, em 1968, na Colômbia. Foi a continuidade de uma visão evangélica e renovadora, que teve início na década de 60 em nível mundial e encontrou sua afirmação e engajamento mais concreto nestas duas conferências na América Latina. Esta nova postura teve em Puebla um espaço de denúncia, seja contra as ditaduras civil-militares como ao sistema capitalista, de forma mais explícita que Medellín. Estas denúncias ao mesmo tempo consolidam uma Igreja atuante junto às organizações populares e sofrem oposição de governos e organizações que têm por objetivo manter suas influências e seus sistemas sócio-políticos.

2 A TEOLOGIA QUE TRANSFORMA A SOCIEDADE

  “Quando a voz da verdade se ouvir e a mentira não mais existir será enfim tempo novo de eterna justiça sem mais ódio, sem sangue ou cobiça vai ser assim.”

  Zé Vicente

  2.1 COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE (CEBS) As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) formam uma nova organização da Igreja

  Católica a partir de pequenos grupos comunitários. É um novo modo da “Igreja ser” tendo como horizonte uma estrutura mais fraterna, diferente das paróquias tradicionalmente organizadas. Torna-se para os cristãos um local de encontro, discussão sobre as dificuldades do cotidiano, e de organização sob inspiração da Bíblia. A ligação da fé com a vida ajuda a interpretar, ligar acontecimentos e mensagens para enfrentar os conflitos do dia-a-dia. O livro do Catecismo Popular de Frei Betto elucida:

  Comunidades Eclesiais de Base: grupos de gente simples do povo (operários, agricultores, bóias-frias, desempregados, etc.) que se reúnem periodicamente para celebrar e refletir sobre sua vida de fé a partir da realidade social em que vivem e a luz da Palavra de Deus. Conhecidas como “o novo modo de a Igreja ser”, as CEBs nasceram no Brasil por volta anos 60 e hoje encontram-se em quase todos os países da América Latina. Não constituem um movimento da Igreja, mas a própria maneira de a paróquia organizar-se numa região popular. No Brasil calcula-se que sejam cerca de 150000 (1991, p. 249).

  O povo que se organiza através das CEBs vai adquirindo consciência da realidade em que vive, portando vai criando força para lutar, dentro do processo de uma organização social de forma comunitária. Comunga de uma visão que impulsiona e fortalece uma ação transformadora com vistas à utopia da terra sem males no mundo material. Há um projeto de sociedade igualitária onde a ajuda mútua é uma realidade constante, como Gregory; Guisleni evidencia:

  O processo das CEBs implica uma opção, ora mais ora menos explícita, de partir do povo, das bases: o que por sua vez implica, para ser consistente, que as bases verdadeiramente, participem do processo [...] encerra uma boa dose de utopia, como, aliás, todas as demais tentativas comunitárias que surgiram ao longo da história. Essa nos mostra um predomínio crescente de formas societárias de organização social (1979, p. 37).

  As CEBs foram constituídas dentro da Igreja por leigos (cristãos que não pertencem à eram os protagonistas dessas unidades eclesiais cuja inspiração central foi a de oferecer o relacionamento solidário entre os homens, conforme a um modelo democrático de autogestão” (CAMARGO 1981, p. 78). Entre os objetivos da CEBs está a luta interna para adquirir mais espaço na igreja em termos de participação e valorização. Esta tomada de decisão foi a grande novidade nas últimas décadas do século XX, pois o aspecto clerical tradicional era muito forte, considerando que as mudanças práticas nesta instituição de caráter milenar, eram muito lentas. Apesar destes desafios as CEBs avançaram através da fé, trabalho e dedicação como destaca Cândido Camargo:

  As CEBs se propõe construir uma igreja nas bases, uma Igreja a partir do povo; a formulação desse objetivo implica necessariamente a ampliação da participação do leigo na vida da Igreja. A quase totalidade dos membros da Igreja é constituída por esses leigos[...] As CEBs vivem e trabalham com amor e dedicação; muitos leigos procuram, através de sua participação, ampliar as bases da Igreja (1981, p. 47).

  No âmbito externo, as CEBs procuravam de forma consciente, através da formação religiosa que possuíam, relacionar a opressão do povo relatada no Antigo e no Novo Testamento com as que são vividas na atualidade. Com isso fornecer apoio para todos aqueles que lutavam nos espaços sociais, sindicais e políticos para mudar a sociedade. No nível nacional as lideranças se encontram periodicamente para analisar e projetar a sua caminhada, através dos Encontros Intereclesiais, conforme salienta o sociólogo da religião Pedro Oliveira:

  O 4º Encontro Intereclesial da CEBS, em 1981, suscitou muita discussão, tanto pelo contexto sócio-político (o apoio á greves do ABC paulista, envolvimento nas lutas pela terra e no nascente Partido dos Trabalhadores), [...] Daí a iniciativa da CNBB em pronunciar-se, em novembro de 1982, sobre esta nova realidade eclesial, pelo Documento nº 25: As Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil. Nele é usada, pela primeira vez, a expressão “uma nova forma de ser Igreja” para indicar que “o novo que as CEBs trouxeram foi o fato de oferecerem, dentro da Igreja, um espaço para o próprio povo simples participar da evangelização da sociedade através da luta pela justiça. Nesse sentido a mediação entre Igreja e Sociedade, Fé e Política, celebração e ação, Bíblia e História, as CEBs são a maior contribuição do Brasil à Igreja Católica Romana, e a maior contribuição contemporânea da Igreja Católica à sociedade brasileira (s. d., p. 83).

  As CEBs procuram reviver no mundo contemporâneo a experiência dos primeiros cristãos. Eles davam o seu testemunho de partilha e solidariedade inspirados na fé. Este testemunho inserido na história tem um caráter ideológico, na medida em que o povo oprimido procura colocar em segundo plano seus bens e em primeiro plano viver suas vidas em comum acordo com suas necessidades, com objetivo de, num futuro, não ter mais pobres CEBs, o espírito fraterno iluminado pela palavra e ação de um Deus que está ao lado do seu povo, impulsionando os fiéis a transformar a realidade com espírito de comunidade e ajuda mútua. A realidade social, econômica e política são campos a serem transformados de forma harmônica por meio das relações humanas. Nesse sentido pode-se perceber que esse objetivo não coaduna com a proposta de Karl Marx ou dos marxistas sobre a forma pela qual ocorrem as mudanças na sociedade. Para Marx, o aspecto da contradição das sociedades só será superado por via revolucionária, com batalha, enfrentamento e ruptura. Transições harmônicas ou negociadas segundo essa visão não seriam possíveis devido ao jogo de interesses e das forças produtivas que estariam em franco enfrentamento, devido à contradição entre as classes ter levado ao extremo da exploração e do próprio sistema produtivo exaurido da sua capacidade de se reformular (MARX & ENGELS, 2007). Não podemos considerar como comunista ou socialista a ideia de transformação social construída a partir da CEBs, em termos de uma análise científica, através do conceito que Marx deu a estas terminologias, pois o elemento religioso se coloca frontalmente à questão do derramamento de sangue e chama a participação dos seres humanos como irmãos, sob o paradigma do “amar ao próximo como a si mesmo ” pregado no Novo Testamento.

  Embora a mudança pregada pela Teologia da Libertação, onde a CEBs é um instrumento da ação concreta na sociedade, a chamada harmonia fraterna no sentido evangélico, é um princípio que poderá ser realizado na esfera humana por ação transformadora chamada de “libertação”. Essa seria uma fase mais avançada da humanidade e podendo haver rupturas progressivas (processo de libertação), pois havia luta de classes, como aponta o teólogo da libertação Gustavo Gutiérrez. Para a Teologia da Libertação o que realmente importa é o pobre ser explorado, porque ninguém quer viver nessa condição: pobreza e miséria seriam os frutos da injustiça. Não foi o marxismo que levou amplos setores cristãos a descobrirem os pobres. Foram os pobres que levaram os cristãos a descobrirem a importância das mediações analíticas (Betto, 2006, p. 306-7). Podemos verificar na seguinte reflexão, uma breve análise ao socialismo com bases cristãs:

  Negar o fato da luta de classes é, em realidade, tomar partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade, nesse assunto, é impossível. O que se trata é suprimir a apropriação, por alguns, da mais-valia, criada pelo trabalho de um grande número, e não de fazer apelos líricos em favor da harmonia social. Construir uma sociedade socialista, mais justa e mais humana, e não uma sociedade de conciliação e de falsa e aparente igualdade. O que conduz logicamente á seguinte conclusão prática: Construir uma sociedade justa passa hoje em dia, necessariamente, pela participação consciente e ativa na luta de classes que se realiza diante de nossos olhos. Como libertá-los também, libertando-os da sua própria alienação, da sua ambição, do seu egoísmo, em uma palavra, da sua condição desumana. Mas, para isso, é preciso optar resolutamente pelos oprimidos e combater real e eficazmente a classe dos opressores (LÖWY, 1991, p. 97-8).

  A análise do pensamento de Marx, ao longo da história produziu diferentes interpretações sobre as transformações da sociedade. Entre esses estudiosos está o marxista

  14

  italiano Antônio Gramsci e seu conceito de hegemonia , podendo ser aplicado ao processo de libertação dos oprimidos. Em uma analogia com a Teologia da Libertação, em termos políticos e sociais, os oprimidos são identificados dentro da classe trabalhadora e os opressores identificados com a burguesia.

  A vanguarda revolucionária, formada por intelectuais, e criticada por Gramsci no pensamento marxista, eram os que educavam politicamente e conduziam o processo revolucionário das massas (entendida como a classe proletária). A crítica também é feita a Marx quando enfatiza a economia (infraestrutura) e não a cultura e a religião (superestrutura). Neste sentido esta nova posição se assemelha com o pensamento libertador dos membros da igreja progressista. “A relação entre intelectuais e a massa de trabalhadores oprimidos é uma prática política de interação, onde a Teologia da Libertação acentua mais que os intelectuais marxistas, incluindo os teólogos, que devem ser uma retaguarda e não uma vanguarda”. Esta compreensão dos cristãos da libertação coloca os pobres como protagonistas e sujeitos da nova sociedade a ser construída a partir de suas lutas e conquistas. Há uma ação e ele se constrói e atua de baixo para cima. Os teóricos, que muitas vezes não são pobres, são os parceiros nesta luta por mudanças. A reflexão de Antonio Gramsci sobre esta questão é citada no obra de Luciano Gruppi:

14 Da forma desenvolvida pelo marxista italiano Antonio GRAMSCI, hegemonia é um conceito que se refere a

  

uma forma particular de dominação na qual uma classe torna legítima sua posição e obtém aceitação, quando não

apoio irrestrito, dos que se encontram abaixo. Até certo ponto, toda dominação baseia-se em coerção e no

potencial do uso da força. Este tipo de poder, no entanto, é relativamente estável. Para que a dominação seja

estável, a classe governante precisa criar e manter estilos de ampla aceitação de pensar sobre o mundo que

definam sua dominação como razoável, justa e no melhor interesse da sociedade como um todo. As sociedades

socialistas, por exemplo, assentavam-se em parte, até bem recentemente, no pressuposto de que a elite política

representava e agia nos melhores interesses da classe operária. Dessa maneira, a crítica a elite era considerada

como um ataque à própria sociedade e, por conseguinte, dificilmente tolerável. De modo semelhante, a cultura

capitalista inclui a crença em que aquilo que é bom para a empresa é bom para a sociedade como um todo, e que

trabalho árduo e talento são os principais determinantes do sucesso. Neste tipo de sistemas de crenças, a classe

dominante pode depender menos da força como maneira de manter o domínio e defender seus interesses, embora

a polícia e outros meios de coerção jamais possam ser inteiramente abolidos. Hegemonia, então, refere-se tanto

aos mecanismos e bases sociais da dominação quanto ao fato da própria dominação. Como conceito, focaliza

atenção em como dominação e subordinação são definidos como parte da estrutura normal da sociedade e

  [...] conceito de hegemonia que parte da crítica de Gramsci à deformações do marxismo, entendido como materialismo mecânico e vulgar, que explica mecanicamente tudo e reduz tudo a economia. A polêmica de Gramsci é voltada contra toda a interpretação do marxismo, aquela da II Internacional, que deforma Marx no sentido positivista. Nessa interpretação, perde-se de vista o momento da luta política, da ação cultural, da influência das idéias, que para Engles aparecia como a terceira frente de luta, ao lado da economia e da política. O materialismo mecânico concebe o desenvolvimento social como rigorosamente determinado por causas objetivas, que não deixam espaço efetivo para o sujeito, para o partido, para a iniciativa política (1978, p. 75-6).

  No nível de vanguarda (e, quando fala de intelectuais, Gramsci se refere à vanguarda ao partido, ou seja, ao intelectual como quadro da sociedade), o materialismo vulgar converte-se num impasse, já que mantém a classe em sua posição subalterna e impede o desenvolvimento da iniciativa política (1978, p. 77).

  As CEBs entram em conflito com os interesses do Estado brasileiro durante a ditadura civil militar, na medida em que esta célula da Igreja Católica pretendia organizar os grupos oprimidos e os trabalhadores tanto para interpretar a realidade quanto para agir pela mudança. Ora, de certa forma esta é uma proposta subversiva, pois queria atenuar a exploração do trabalho e incentivar o protagonismo dos populares na vida social. Esta proposta confunde-se com o comunismo num primeiro olhar e este sistema socioeconômico era o arquiinimigo do militares que estavam governando o país. Todo o aparato repressivo do estado estava voltado também para controlar e apagar os focos de influência ideológica dessa natureza.

  Esta vertente religiosa de esquerda agrega valores humanistas e democráticos, como justiça social e valorização da participação coletiva de lutas em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Esta luta é apoiada por teólogos e setores progressistas da Igreja Católica em nível eclesial (Igreja) e em nível social e político (mundo) na participação dos movimentos populares e sindicais, além de partidos políticos que têm identificação com estas causas.

  É importante destacar que três vertentes da Igreja Católica estão em ação neste período histórico, mostrando que esta instituição não era formada por um grupo homogêneo. Assim, tinha uma ala mais conservadora vinculada ao status quo do regime civil militar; uma outra vertente mais reformista sob a luz da Doutrina Social da Igreja procura relacionar capital e trabalho a sua prática; e como terceira vertente mais a esquerda sob a égide da Teologia da Libertação, que fortaleceu as ações das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

  A relação da Igreja Católica, no início do regime civil militar, é comentada por Delgado; Passos:

  [...] O apoio que a Igreja deu ao regime militar, inicialmente, foi-se afrouxando, pois

  Alguns membros da hierarquia eclesiástica se mantiveram numa fronteira indecisa ou mesmo divergente. Tiveram dificuldades em aceitar o novo projeto, negaram a proposta e seu percurso. No entanto, essas sombras não rastrearam a unidade orquestrada pela CNBB. Outros prelados compreenderam a questão de forma diferente e ressaltaram que a causa pela dignidade da vida não é apenas uma ação conjuntural ou casuística (2009, p. 121-2).

  Apesar de a Igreja Católica, principalmente através de sua alta hierarquia, estar politicamente ligada ao Estado e afastada do povo em suas dificuldades e opressões, a partir da segunda metade dos anos 60 do séc. XX a situação mudou-se significativamente. Tendo como antecedente no final da década de 50, a força do movimento “Ação Católica”, que procurava dar apoio a questões sociais e políticas, fornecendo um contraponto a visão conservadora e assistencial praticada pela elite cristã. Este movimento tinha como método ver

  • – julgar – agir para desenvolver uma análise de conjuntura, adotado depois pelas CEBs. A Ação Católica nos anos 60 teve grupos especializados ligados aos jovens, como a Juventude Universitária Católica (JUC), Juventude Operária Católica (JOC) e a Juventude Agrária Católica (JAC), que depois seriam banidos pela ditadura. Este movimento é evidenciado por Delgado; Passos:

  [...] Como outros movimentos leigos, a Ação Católica, num primeiro momento, se inscreve num esforço de reintroduzir os valores cristãos na sociedade brasileira. Paulatinamente, as diversas formas de atuação foram se desenvolvendo, Juventude Agrária Católica (JAC), Juventude Estudantil Católica (JEC) para os estudantes secundaristas, Juventude Independente Católica (JIC), Juventude Operária Católica (JOC) e Juventude Universitária Católica (JUC) (2009, p.101).

  Os “Círculos Bíblicos”, surgidos no início dos anos 60, deram uma contribuição inicial por ligarem o texto bíblico com a realidade do mundo, tendo uma visão dialética que favoreceu a prática das CEBs em sua ação transformadora no Brasil. A fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na década de 50, por Dom Hélder Câmara, considerado o “bispo dos pobres”, foi uma instituição que ajudou a fortalecer uma visão libertadora da Igreja nas décadas seguintes. A CNBB assume a nova postura de uma igreja renovada, desenvolvendo uma ação construindo credibilidade e poder de articulação no catolicismo brasileiro. Em relação à importância da CNBB:

  Uma unidade histórica de grande sentido alarga a forma de atuação do catolicismo brasileiro, como também sua ulterior evolução, a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1952. Esse organismo oficial entra em cena, facilitando a comunicação do episcopado, coordenando as diversas atividades e tornando-se um canal de mediação entre as dioceses. [...] Um novo passo assinalava a história do catolicismo, possibilitando novas aproximações, relações sociais diversas e formulações mais concretas. Assim, a questão social começa a sair do

  Câmara, juntamente com um grupo significativo de bispos na direção da CNBB (DELGADO; PASSOS, 2009, p. 107-8).

  Este processo de engajamento político no Brasil pelos cristãos progressistas começa a ligar esses ideais religiosos com os ideais políticos socialistas, usando a análise instrumental marxista como base para entender o capitalismo. Este engajamento motivado pela mística cristã ligado às práticas de esquerda politicamente, teve uma força importante a partir do final dos anos 60, quando nos chamados “anos de chumbo”, intensifica-se o combate aos chamados “subversivos” e adversários da ditadura.

  No período em questão alguns acontecimentos se tornam emblemáticos dentre os quais, a morte do jornalista Vladimir Herzog pelo regime civil militar. O culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, depois da sua morte, foi considerado um ato de resistência e contestação. Entre os líderes deste ato, estavam o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns e o rabino da Confederação Israelita de São Paulo, Henri Sobel. Estes dois líderes ajudaram a organizar anos depois o livro “Brasil nunca mais” composto por vários depoimentos a respeito das ações do Estado e das diversas organizações clandestinas que combateram a ditadura civil militar. Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Aluisio Lorscheiter no nordeste e Dom Ivo Lorscheider no sul do país, que chegaram a presidir a CNBB, foram autoridades religiosas importantes na resistência e denúncias contra a ditadura. A CNBB foi considerada um esteio para a chamada ala progressista da Igreja Católica, principalmente em relação às CEBs, às pastorais sociais e à Teologia da Libertação. Assim como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, a morte do estudante Edson Luiz em manifestações contra a ditadura tem repercussão nacional, e posição firme desses setores da Igreja Católica defensores dos direitos humanos.

  Trata-se, não só de uma necessidade, mas principalmente de um direito. Aos ataques difamatórios, a igreja responde com denúncias, lutas e seu envolvimento. Em 1968, o governo militar criticava as manifestações na celebração da missa de sétimo dia, pelo assassinato do estudante Edson Luís (Comissão Arquidiocesana de Pastoral de Direitos Humanos e Marginalizados, 1978, p.8). Nesse panorama, a Comissão central da CNBB publica, em setembro de 1969, uma nota com o título: “Igreja na atual conjuntura”. Faz uma análise sobre os acontecimentos nacionais, os abusos de autoridade, a injustiça social e os atentados contra a dignidade da pessoa humana. No final do documento, afirmam os membros da Comissão Central: “Fazemos nossas as conclusões de Medellín, as diretrizes Conciliares Pontifíciais, em matéria de filosofia social. [...] para que o Brasil, de fato, se reencontre, sob inspiração da justiça e da liberdade, do amor e da verdade” (CNBB,1977.p.35) (DELGADO; PASSOS, 2009, p. 118).

  Considerando que a Igreja Católica possuía uma força importante, junto aos governos relação conflitiva entre o poder secular instituído e o poder religioso progressista. A partir dos anos 70, a Igreja Católica torna-se praticamente a única instituição que é preservada das ações do governo ditatorial, embora muitos leigos e religiosos sejam afetados pela ditadura, em termos de repressão ou tortura. A situação mais emblemática em relação a este aspecto é a perseguição aos frades dominicanos em São Paulo, devido ao apoio dado ao líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, grupo político de combate à ditadura. Entre os líderes desta organização que eram religiosos destaca-se o teólogo Frei Betto, denunciado no Rio Grande do Sul pela ala conservadora da Igreja. Frei Betto foi preso em São Paulo. Outro frade dominicano que sofreu a repressão da ditadura pelo mesmo motivo foi Frei Tito de Alencar, que foi preso e torturado. Esta relação entre os religiosos católicos e a ALN, foi documentado no livro “Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella”. Um relato do próprio Frei Tito na prisão política é textualmente descrito por Frei Betto:

  Muitas vezes somos arrastados para onde não queremos ir. Temo que isso venha acontecer com o conjunto da Igreja do Brasil. Se vier, e se for como conseqüência de uma fidelidade e de uma responsabilidade mais profunda ao Evangelho, que seja bem vinda esta hora. Na cadeia, tenho descoberto o Evangelho de S. Mateus. O troço tem que ser ou pão ou pedra. Noutras Palavras, acho que ele nos convida a sermos simplesmente homens. É impressionante como tantos não-cristãos aqui vivem isso até as últimas conseqüências. Outro dia dizia-me um jovem: “Não falei nada porque fiz uma opção

e diante dela morrer ou não é secundário” (1982, p. 227).

  O ano de 1968 tem como marco a Conferência Episcopal latino-americana de Medellín, pois deu nova face ao catolicismo na América Latina, ao formar as CEBs. O método ver-julgar-agir da Ação Católica e os Círculos Bíblicos, refletindo a palavra de Deus na realidade do mundo, ajudam na formação de comunidades de base. Embalada por uma igreja renovada, onde a Teologia da Libertação injeta forças, ocorrendo um favorecimento para uma ação política contra a ditadura. Ao mesmo tempo, ocorre uma repressão maior do regime autoritário.

  Alguns teólogos, no final dos anos 70, serão assessores regionais e nacionais das CEBs e enfrentam a ditadura civil-militar ao mesmo tempo em que acumulam forças. Prisões e torturas marcam as vidas e a trajetórias dos integrantes da igreja popular, produzindo consciência. Entre esses ativistas podemos citar Frei Betto, com o seguinte depoimento:

  Na militância contra a ditadura, liguei-me ao grupo de Carlos Marighella, a ALN (Aliança Libertadora Nacional). [...] Éramos uma célula de frades dominicanos dentro da ALN [...] dos quatro anos que ficamos preso, nos últimos dois anos fomos

  um preso comum, que não tem ninguém por ele! Não podem imaginar o que é ódio boçal de meia dúzia de carcereiros espancando um preso a noite inteira. E, no inverno de São Paulo, ainda jogavam água fria no chão da cela de ladrilho, deixando-o nu, porque se ele quisesse dormir teria que ser no frio e em cima da água. [...] Depois da prisão fui para Vitória, morar numa favela, integrando a Confederação dos Barracos, nos quais viviam agentes pastorais, inseridos no meio do povo. Ali comecei a trabalhar com CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) (MOVIMENTO NACIONAL DE FÉ E POLÍTICA, 2001, p. 58 – 61)

  O irmão marista Antônio Cechin, também passou pela prisão, além de ser torturado, sendo depois a maior liderança das CEBs no Rio Grande do Sul. Seu testemunho sobre sua experiência nos cárceres do regime militar e sua vivência comunitária posterior é um exemplo de fé e coragem.

  Dentro do meu trabalho ligado a CNBB, a primeira atividade que desenvolvi foi em torno da chamada catequese, ou seja, aulas de religião. Daquela catequese de perguntas e respostas passamos para uma Catequese Libertadora, que dizer, aproveitando o método Paulo Freire e a Teologia da Libertação, quer dizer, levar os alunos e as pessoas, em geral, a refletir sobre o mundo ao seu redor e suas condições de vida. [...] Essas fichas, depois de terem sido mimeografadas e cedidas a professores que havíamos treinados, foram declaradas altamente subversivas (CECHIN, 2009, p. 65-6).

  [...] fui levado para o DOPS. Lá, na noite seguinte, às 4 horas da madrugada, interrogaram-me, não sobre as fichas, mas sobre Frei Betto. [...] depois de dois dias, minha irmã Matilde Cechin, em prantos até Dom Vicente Scherer e ele pressionou o secretário de Segurança. [...] Em 1971, fui novamente detido. Aí me pegaram e me torturaram. Usaram o soro da verdade, me deram choques, ultrassons, [...] Foram dez dias [...] Massacraram-me. [...] Depois que saí da prisão, depois de dez dias que fiquei lá, a tortura havia me deixado meio biruta. [...] Decidi passar a trabalhar com comunidades na periferia. Fui morar na periferia. Comecei a opção pelos pobres no Rio Grande do Sul, de maneira concreta, com as chamadas Comunidades Eclesiais de Base (CECHIN, 2009, p. 69-71).

  Durante a década de 70, as Comunidades Eclesiais de Base atingem uma experiência maior desenvolvida em todo o país. Este período histórico torna as CEBs um importante meio de fortalecimento da fé e compromisso político. A ditadura civil militar torna-se mais repressiva e a CEBs tornam-se um espaço de articulação e ação contra as injustiças sociais, principalmente depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5). As denúncias contra os direitos humanos têm nas CEBs uma trincheira de lutas (FERREIRA, 2009).

  As CEBs foram um instrumento importante na formação dos movimentos populares, sejam eclesiais ou sociais, que a partir da década de 70 tiveram uma importância na história do Brasil. Formaram lideranças para pastorais sociais e para partidos políticos juntamente com grupos políticos de esquerda que lutavam por ideais comuns.

  O movimento sindical brasileiro, através do chamado “sindicalismo combativo” no

  trabalho e direito de greve era pauta do dia, como também a oposição ao governo civil militar e ao sistema capitalista. A participação da ala progressista da igreja foi determinante nesta organização sindical, ligada às pastorais sociais. Destacou-se a Pastoral Operária assessorada, neste período, por Frei Betto, no ABC paulista. Ocorreram vários encontros nacionais para organizar este movimento sindical no país, como o encontro de João Monlevade (MG), São Bernardo do Campo (SP) e Vitória (ES). Estes encontros, além de fortalecer o movimento sindical brasileiro, foram decisivos para organizar a futura Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT). Tanto a CUT quanto o PT, articularam-se no sentido de serem duas forças nacionais que representavam, em diferentes esferas, a organização popular nascida das bases pelos próprios trabalhadores para mudar a realidade (RODRIGUES, 1991). Organizações populares e sindicais de várias matizes ideológicas de esquerda conseguiram uma articulação vitoriosa em plena ditadura civil militar. Houve apoio dos setores mais progressistas da Igreja Católica como podemos evidenciar:

  Por volta do final dos anos 70, quando a abertura política se acelerou, as novas lideranças sindicais, dentro e fora da estrutura oficial, começam a se articular [...] (RODRIGUES, 1991, p. 15). Mas o dado novo, que viria alterar profundamente o quadro de lutas sindicais no país, foi a “esquerdização” do comportamento da Igreja e sua franca oposição ao governo militar e também ao modelo econômico capitalista (RODRIGUES, 1991, p. 16). Depois da reunião de João Monlevade, as mesmas tendências voltariam a se reunir, em julho do mesmo ano, na cidade de Taboão da Serra (SP). As organizações da Igreja tiveram, também nessa reunião, um forte peso. Das 50 entidades que assinaram o documento de São Bernardo, 24 eram diretores de sindicatos, enquanto 14 eram representantes de organizações católicas (pastorais, ação católica, FASE, etc.), entre os quais frei Beto. Mas para medir a influência da Igreja, é necessário ter em conta a presença dos diretores católicos “progressistas” dos sindicatos oficiais. Segundo a antropóloga Ana Maria Doimo, sem contar os sindicalistas, havia 23 representantes de diversos tipos de movimentos sociais, direta ou indiretamente ligados a Igreja, entre eles doze representantes de pastorais (operária ou da terra) e de comunidades eclesiais de base (RODRIGUES, 1991, 19).

  A luta dos movimentos sociais no meio rural, nos anos 70, em seu processo de organização, teve na Teologia da Libertação uma base de inspiração. A Comissão Pastoral da Terra e as CEBs deram a força mística junto com suas lideranças nas dificuldades iniciais para articular estes movimentos de cunho popular. Após este período inicial, todas as organizações tiveram independência, embora a mística continuasse ainda muito forte nas estruturas internas. Podemos destacar neste sentido: O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR) e o Movimento dos tanto nas organizações rurais populares, quanto na cidade. O destaque maior é o MST, considerado o maior movimento social brasileiro. A capilaridade, a organização e a luta por suas necessidades são relatadas pelo Frei Sérgio Görgen:

  Esses movimentos cresceram na nova conjuntura e colocaram suas questões no cenário nacional, conquistando avanços significativos. O maior exemplo é a Reforma Agrária, com a participação efetiva do Movimento dos Sem Terra [...] Houve também uma espécie de especialização entre os movimentos sociais. Todos nascidos de um trabalho geral de organização de base iniciado com o trabalho evangelizador das CEBs e da Pastoral da Terra, cada movimento passou a organizar um segmento específico de camponeses, de acordo com as necessidades sociais, econômicas e culturais de cada um deles (1998, p. 9).

  O Estado do Acre no norte do país tem um papel importante na luta pela organização dos trabalhadores rurais e na defesa dos povos da floresta. Entre os líderes esteve o sindicalista Chico Mendes, reconhecido internacionalmente, como também a Senadora Marina Silva e sua luta ecológica. Estes dois líderes tiveram sua formação inicial religiosa e política nas CEBs, como relata a Senadora Marina Silva:

  Como é do conhecimento de todos, minha raiz política, a minha ética, germinou dentro das Comunidades Eclesiais de Base. Nunca me esqueço daquela experiência que vivi por volta dos meus 17 anos, quando quase me tornei freira.[...] Um dia eu fui á missa na paróquia Imaculada Conceição, e vi um cartaz num canto: Curso de Formação de Lideranças. Era um curso promovido pela Comissão Pastoral da Terra, com a participação de Chico Mendes. O Chico era ligado ás Comunidades Eclesiais de Base (MOVIMENTO NACIONAL FÉ E POLÍTICA, 2001, p. 36-7).

  O Partido dos Trabalhadores é considerado o primeiro partido político brasileiro, construído pelos próprios trabalhadores, no ano de 1980. Ainda sob a luta política contra a ditadura civil militar e o processo de redemocratização do Brasil. Forma-se com a participação de alguns exilados políticos no então nascente pluripartidarismo partidário. O PT na sua origem possui três vertentes de esquerda: uma composta pelo movimento sindical combativo e independente; outra, formada pelos intelectuais marxistas oriundos da luta armada; e outra pelas Comunidades Eclesiais de Base, aglutinando setores progressistas da Igreja Católica, identificados com a Teologia da Libertação. Portanto as CEBs além de contribuírem, no Brasil, para formação dos movimentos populares, sindicais, agrários e comunitários também participaram com suas lideranças na formação deste partido político. Os objetivos das CEBs têm semelhanças com os do PT no que tange a transformação da sociedade, embora sejam instâncias diferentes e independentes. Esta novidade no campo ideológico de esquerda produz uma força popular significativa na história contemporânea do Brasil, na perspectiva de um socialismo com bases democráticas. Para ilustrar este processo ressaltamos o relato do professor de história, Paulo Adílio Prestes Ferreira:

  Uma vez analisadas as características geográficas e econômicas do Brasil, torna-se fácil compreender a origem do PT no ABC Paulista, região de grande concentração industrial e principal pólo econômico do país. Desde a origem, entretanto, o PT teve a dimensão nacional, contando, entre outros fundadores, com trabalhadores de diversas regiões do Brasil. A composição política do PT reuniu três grandes vertentes: os setores do sindicalismo independente; os movimentos populares e as comunidades eclesiais de base ligados á Igreja e os setores de esquerda revolucionária que vivia na clandestinidade. [...] “A leitura do manifesto do PT revela um partido novo, democrático, construído a partir das bases, pluralista, socialista, profundamente comprometido com a democracia, porque lutava contra a ditadura militar e já trazia em si a crítica ao socialismo burocrático e totalitário, e porque queria que o Brasil respeitasse o direito e a cidadania dos seus trabalhadores ” (1999, p. 25-6).

  No Partido dos Trabalhadores a questão religiosa está ligada à Teologia da Libertação, seja em relação às CEBs ou às pastorais sociais. Entre seus líderes destaca-se desde a origem o metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva. Independente da liderança de Lula, tanto no movimento sindical, quanto no PT, sua vida e sua trajetória também foram marcadas pela fé religiosa. Esta característica de Lula e do PT é evidenciada no seu próprio depoimento: Você precisa fazer outras coisas, sem perder a sua fé, sem perder a sua religiosidade.

  Eu acho que isso me deu um caminho, a mistura de consciência política com minha fé cristã. [...] Para mim isso foi muito importante, porque a minha vida política nasceu intimamente ligada a Igreja! O PT só surgiu por causa da Igreja progressista. É verdade que se não fosse Leonardo Boff, Dom Tomás Balduíno, Frei Betto, Clodovis Boff, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Marcelo Cavalheira, Dom Paulo Evaristo Arns e tantos leigos espalhados por este Brasil a fora, a gente não tinha criado esse partido político. Tem gente que pensa que o PT nasceu só do sindicalismo. È verdade que o sindicalismo teve um papel importante, mas se não fosse os milhões ou os milhares de padres, de freiras, de leigos espalhados por este Brasil afora, organizados em comunidades, pastorais de juventude e operária, a gente não teria chegado aonde nós chegamos. Essa é a verdade nua e crua. Daí o ódio que nós despertamos nas pessoas da elite (MOVIMENTO NACIONAL DE FÉ E POLÍTICA, 2001, p. 10-1).

  No processo de redemocratização do Brasil, a partir do final do governo civil militar as CEBs continuam reafirmando seus ideais e seus propósitos desde a sua origem. Este novo período histórico, de maneira gradativa acrescenta na caminhada das CEBs outras prioridades, principalmente ligadas às culturas oprimidas. Estes novos temas foram amplamente debatidos no 8º Encontro Intereclesial de CEBs, na cidade de Santa Maria (RS), em 1991. Estes aspectos culturais estão ligados à organização das mulheres, dos afro-descendentes, dos migrantes, além das questões ecológicas. O tema central desse encontro foi “Culturas com o aspecto cultural, considerando cultura tudo o que é produzido pelo ser humano, foi necessário evidenciar este aspecto para afirmar esta preocupação. O texto base deste encontro nacional faz as seguintes referências:

  Para entender a questão da cultura na caminhada geral das CEBs precisamos considerá-la uma dimensão que atravessa todas práticas humanas. Se a economia fala do trabalho e de seus frutos, a política fala do poder e de organização, a cultura fala do sentido e valor que os grupos humanos atribuem a suas ações e coisas [...] (EQUIPE CENTRAL DO 8º ENCONTRO INTERECLESIAL DE CEBS, 1991, p. 11). As culturas oprimidas funcionam como suporte simbólico para a identidade social dos grupos subalternos. Na medida em que elas se mantêm, ajudam esses grupos a sobreviverem; quando ao contrário, um grupo deixa morrer sua cultura, ele próprio se dilui na grande massa de oprimidos, tornando-se facilmente manipulável pelas elites do poder (EQUIPE CENTRAL DO 8º ENCONTRO INTERECLESIAL DE CEBS, 1991, p. 13).

  Assim percebe-se que as CEBs têm uma atuação no âmbito da sociedade em várias frentes através de seus membros. Atuam em várias vertentes da sociedade, considerando o seu compromisso por uma sociedade mais justa e fraterna iluminada pela mística cristã. Conforme destaca o sociólogo Michael Löwy:

  [...] pouco a pouco os debates e as atividades da comunidade se ampliam, geralmente com a ajuda do clero progressista, e ela começa a assumir tarefas sociais: lutas por habitação, eletricidade e água dentro das favelas, luta por terra no campo. Em alguns casos a experiência dessas lutas conduz à politização e à adesão de inúmeros animadores ou membros das CEBs aos partidos de classe ou às frentes revolucionárias. A experiência das CEBs tem freqüentemente levado uma nova qualidade aos movimentos sociais e políticos que elas tem irrigado: um enraizamento na vida cotidiana das camadas populares e suas preocupações humildes e concretas, um encorajamento para auto-organização de base, uma desconfiança face a manipulação política, a tagarelice eleitoral, ao paternalismo de Estado (1991, p. 46-7).

  As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tanto no período da ditadura civil militar brasileira como no processo de redemocratização do país, tiveram um papel relevante na história do Brasil. A mística cristã irradiou força e coragem com intuito de transformar tanto as estruturas internas da Igreja Católica, quanto à sociedade excludente e materialista. A grande novidade das CEBs foi ser um canal de participação popular no país ao combinar o aspecto religioso, social, político, cultural e econômico como ferramentas para transformação das realidades. Internamente as CEBs deram vitalidade aqueles que necessitavam partilhar suas vidas e alimentar sua fé.

  Os movimentos populares, políticos e sindicais tiveram nas CEBs a força espiritual e humana para a formação e a ação de seus membros e lideranças. O aspecto religioso renovou a Igreja, o aspecto político renovou à esquerda, no aspecto cultural a eliminação dos preconceitos e a libertação das injustiças foi busca constante. O amor aos pobres e oprimidos, contra a pobreza em prol da libertação, continua sendo a causa maior de uma prática evangélica libertadora. Embora aparentemente tenha perdido sua força, as CEBs como a Teologia da Libertação estão presentes na Igreja e na sociedade, pois enquanto houver pobres e oprimidos, estarão os profetas para denunciar os erros e para apontar caminhos de vida e de fraternidade.

  CONSIDERAđỏES FINAIS “Há aqueles que lutam um dia e por isso são bons; Há aqueles que lutam muitos dias e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos e são melhores ainda;

  Porém, há aqueles que lutam toda a vida.

  Esses são os imprescindíveis.” Bertolt Brecht

  Analisar a contribuição das CEBs no Brasil dentro do contexto da Teologia da Libertação é procurar, dentro de um processo histórico, estabelecer a importância para uma caminhada de lutas, conquistas e desafios.

  A relação interna das CEBs com a Igreja Católica dentro dos parâmetros de uma instituição renovada, mas evangélica e participativa, é um elemento determinante de práxis. Com sua ação ligada à libertação dos oprimidos, na busca pela conquista de uma nova sociedade coerente com a proposta cristã original e um novo sistema sócio-político mais justo e fraterno. Ligando Mística e Ação; Fé e Vida; Bíblia e História; igreja e sociedade; pobres e libertação como eixos de uma vida mais digna, onde os seres humanos não sejam oprimidos pelo capital e nem sufocados por um Estado total.

  A proposta das CEBs não foi apenas para os cristãos, mas para que todos usufruíssem da democracia nos campos político, econômico e cultural, com justiça e solidariedade como parâmetros definidores uma nova sociedade.

  A valorização do ser humano em sua integridade é fundamental na ação e na formação das CEBs. Esta integralidade evidencia as diversas dimensões que compõem a vida humana, como a afetividade, a religiosidade, o social e o político. A solidariedade é um meio e a justiça é um fim.

  As CEBs constituem um instrumento de formação de lideranças políticas e da Igreja ao mesmo tempo. Esses dois eixos procuram, através de uma radicalidade da justiça social, contribuir para que tenhamos uma verdadeira democracia. Este processo democrático supera tanto a ortodoxia do pensamento conservador da Igreja, quanto o pensamento mais sectário da esquerda. Assim a história contemporânea brasileira nas três últimas décadas do século XX, dentro da ditadura civil militar e no processo de redemocratização, teve nas CEBs uma força popular significativa. A Teologia da Libertação aliada às pastorais sociais, deram os subsídios necessários para que as CEBs contribuíssem para uma guinada da Igreja em direção aos pobres e oprimidos.

  Os movimentos populares combativos no aspecto social, sindical e político foram potencializados por esse segmento progressista da Igreja Católica, construindo o seu próprio espaço como protagonistas na construção de uma democracia participativa, sem tutela, assistencialismo ou cooptação.

  A contribuição das CEBs no Brasil dentro do contexto da Teologia da Libertação, forneceu um novo paradigma na medida que os pobres e oprimidos pelo sistema sócio- político tiveram uma consciência revolucionária como células que alimentam o tecido social, mas que agem para garantir dignidade, justiça e solidariedade, conferindo luz e vida para todos aqueles que nunca tiveram voz e vez.

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  VIER, Frei Frederico (Org.). Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis. Vozes, 2000.

  ANEXOS ANEXO A11° Encontro Intereclesial de Base das CEBs, ocorrido em julho de 2005 em Ipatinga / MG.

  15 Odilon Kieling Machado

  16

  17 Frei Betto

  (Teólogo da Libertação e Assessor Nacional das CEBs) ANEXO B – 1° Sulão das Comunidades Eclesiais de Base, ocorrido em julho de 2003 em Registro / SP.

  Leonardo Boff (Teólogo da Libertação e Assessor Nacional das CEBs)

  18 Leonardo Boff e Irmão Cechin (Assessor Estadual das CEBs / RS) ANEXO C – 8° Encontro Intereclesial de Base das CEBs, ocorrido em setembro de 1992 em Santa Maria / RS.

19 Fontes: Jornal: A Caminho. Boletim do 8° Encontro Intereclesial de CEBs, n° 10, outubro de 1992 e Jornal: A

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