Christian Almeida Di Giacomo A CARTA CONSTITUCIONAL CASTILHISTA DE 1891: ORDEM E PROGRESSO (RS)

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Christian Almeida Di Giacomo

A CARTA CONSTITUCIONAL CASTILHISTA DE 1891:

ORDEM E PROGRESSO (RS)

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Christian Almeida Di Giacomo

A CARTA CONSTITUCIONAL CASTILHISTA DE 1891:

ORDEM E PROGRESSO (RS)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História - Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciado em História.

Orientador: Profª. Ms. Roselâine Casanova Corrêa

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Christian Almeida Di Giacomo

A CARTA CONSTITUCIONAL CASTILHISTA DE 1891:

ORDEM E PROGRESSO (RS)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História - Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciado em História.

____________________________________________________ Profª. Ms. Roselâine Casanova Corrêa – Orientadora (UNIFRA)

___________________________________________________ Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim (UNIFRA)

____________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (UNIFRA)

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Dedico essa pesquisa ao Senhor Jesus Cristo, que é a essência da minha vida e sempre me deu forças para alcançar meus objetivos, assim como me ajudou a chegar até aqui.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha família, em especial à minha mãe Maria Inez Monteiro de Almeida, que sempre esteve ao meu lado me ajudando.

Aos meus irmãos, sobrinha e cunhados.

Aos amigos

que estiveram comigo em todos os momentos, desta caminhada.

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A presente Constituição do Rio Grande foi concebida e decretada em previsão de tempos revoltos e difíceis, que segundo a opinião do seu autor e de muitos outros republicanos ilustres,

reclamava a concentração do poder nas mãos do chefe do governo [...] Eu mesmo ouvi do legislador da Constituição que o seu projeto tinha dois fins: o primeiro era criar um aparelho capaz de agüentar a onda opositora que começava

a invadir; o segundo era tapar a boca aos então dissidentes republicanos a cuja frente se achava o nosso velho benemérito companheiro Demétrio Ribeiro.

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RESUMO

Esta pesquisa teve como tema a Carta Constitucional de 1891 e o castilhismo elaborado por Júlio Prates de Castilhos, sob o enfoque da propagação do Ideal Positivista, no cenário político do Rio Grande do Sul. Fundamenta-se em fontes bibliográficas, eletrônicas e documentais, como o jornal A Federação, presente no Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria (RS). A criação do Partido Republicano Rio-Grandense – PRR (1882), fundado por Júlio Prates de Castilhos e seus correligionários, objetivava a propagação do ideal republicano positivista. O positivismo de Augusto Comte (1798-1846) previa a organização moral da sociedade. Para Comte, a crise na sociedade liberal deve-se mais ao fato do predomínio dos jogos de interesses políticos do que à reforma das opiniões e dos costumes. Para Castilhos e seus correligionários, a monarquia brasileira não tinha mais sustentabilidade política para permanecer como forma administrativa no âmbito nacional e menos ainda no Rio Grande do Sul.

Palavras-Chave: Positivismo; Rio Grande do Sul; Júlio Prates de Castilhos; Carta Constitucional de 1891.

ABSTRACT

This research was based on the Constitutional Charter of 1891 and prepared by Castilho Julio Prates de Castilhos, from the standpoint of the spread of the ideal positivist, on the political scene of Rio Grande do Sul It is based on the bibliographical sources, and electronic documents, such as The Federation newspaper, this Municipal Historical Archives de Santa Maria (RS). The creation of the Republican Party Rio Grande – PRR (1882), founded by Julio Prates de Castilhos and his associates, was aimed at the spread of republican ideal positivist. The positivism of Auguste Comte (1798-1846) provided for the organization‟s moral must society. For Comte, the crisis in liberal society must be more to the fact that the prevalence of games of political interests than the reform of the opinions and customs. For the Castilhos and his fellow Brasilian monarchy was no longer political sustainability as a way to stay in the national administrative and even less in Rio Grande do Sul.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 9

2 AUGUSTO COMTE: DISCIPLINA, HIERARQUIA E CIÊNCIA ... 11

3 JULIO PRATES DE CASTILHOS: MORAL E ÉTICA ... 14

4 O POSITIVISMO NO BRASIL ... 17

5 O POSITIVISMO NO RIO GRANDE DO SUL ... 19

6 O CASTILHISMO: ORDEM E PROGRESSO ... 23

7 CARTA CONSTITUCIONAL DE 1891 E O PRR: PARTIDO ÚNICO? ... 26

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 33

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1 INTRODUÇÃO

Este Trabalho Final de Graduação (TFG) pretendeu demonstrar como ocorreu, em âmbito regional (RS), a propagação do ideal positivista, elaborado por Augusto Comte, a partir do advento da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

A partir do ano de 1882, com a criação do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) e com o trabalho desenvolvido por Júlio Prates de Castilhos e seus correligionários na criação do jornal A Federação, teve início, no Rio Grande do Sul, um novo cenário político. Baseou-se nos pressupostos autoritários e de partido único, que se efetivaria logo após, na República Federativa Brasileira. O sistema político vigente até então, a Monarquia, atravessava momentos difíceis na sua forma política administrativa.

Sendo assim, ocorreram manifestações de desagravo em todo território nacional a este modelo político ao qual a Estado brasileiro estava submetido, crescendo os movimentos republicanos, em todo território nacional. Em especial, no Rio Grande do Sul, a defesa dos ideais republicanos acentuou-se com a atuação de Júlio Prates de Castilhos e as diretrizes políticas adotadas pelo PRR.

Em meio às lutas na defesa do modelo político republicano no Rio Grande do Sul, Júlio Prates de Castilhos elaborou a Carta Constitucional de 1891, baseando-se no pensamento positivista comteano, pilar de sua formação educacional.

O ideal de modelo republicano positivista-castilhista floresceu, sem embargo, com o processo conturbado da transição do sistema político monárquico para o sistema político republicano, em 1889. Assim, Júlio Prates de Castilhos, de forma incisiva, defendeu a República no Brasil, demonstrando ser um enfático jornalista com seus artigos publicados no jornal A Federação e um carismático líder político na administração do governo no Rio Grande do Sul (1891/1893/1898). Respeitado e temido por seus adversários políticos, tornou-se uma liderança preponderante no estado do Rio Grande do Sul sob o advento da república.

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2 AUGUSTO COMTE: DISCIPLINA, HIERARQUIA E CIÊNCIA

Augusto Comte nasceu na cidade francesa de Montpellier, vindo a falecer em Paris e foi considerado pelos seus contemporâneos o „Pai do Positivismo‟. Comte acreditava ser possível ordenar, organizar o desenvolvimento da sociedade e do indivíduo com critérios das ciências exatas e biológicas. Sua educação ocorreu no meio familiar, sendo que aos nove anos foi internado no Liceu Montpellier (SOARES, 1998).

No Liceu de Montpellier, Augusto Comte acabou tornando-se um menino excepcional, desenvolvendo vários campos do conhecimento, como a matemática e a filosofia, tendo assim, destaque perante seus superiores, como o mestre Daniel Encontre. Desenvolvendo o seu conhecimento filosófico, Comte teve a certeza de sua convicção para a defesa da República e a busca da liberdade e igualdade.

Segundo Larizza (1999, p. 52): “Comte vira na República a síntese de todos os aspectos do processo revolucionário,de seus conteúdos críticos-negativos assim como de suas potencialidades positivas”.

No ano de 1814, Augusto Comte, matriculou-se na Escola Politécnica de Paris, para ele a Meca do Saber, tendo, desde cedo, se manifestado a favor da república e partidário exaltado. Assim, suas principais idéias transitavam pela abolição da realeza, supressão do Estado e da religião com a liberdade de cultos (SOARES, 1998).

Em Paris, Augusto Comte, objetivou seu foco no conhecimento, mesmo em condições adversas de pobreza e privação. Suas convicções eram pautadas pela Humanidade, Verdade, Justiça, Liberdade e Pátria.

Tendo o seu sonho de viver na “pátria de todos os republicanos do mundo” frustrado, refugiou-se na busca da liberdade e da igualdade, onde acreditava que poderia desenvolver o regime de regeneração social da humanidade (SOARES, 1998, p. 21). Nos fins de 1817, um de seus amigos, percebendo a semelhança de suas idéias com as de Saint-Simon (1760-1825)1, apresentou-o a este, com quem

1 Saint-

Simon: “Teórico Social francês, um dos fundadores do chamado „Socialismo Utópico‟.

Pertencente a uma família Aristocrática empobrecida, porém conhecida na literatura através de um primo de seu avô, o Duque de Saint-Simon, que havia escrito suas memórias referentes à corte de

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desenvolveu uma estreita amizade, tornando-se seu secretário e obtendo forte influência de o Conde Saint-Simon.

Foi então que desenvolveu um intenso conhecimento intelectual, vindo a publicar o opúsculo que contém o embrião de sua filosofia da história (1822). Comte, porém, rompeu sua relação com Saint-Simon (1824) ao reimprimir o opúsculo2, pois, não admitiu a tarefa prática de reforma da sociedade, sem um embasamento teórico (DIDONET, 1977, p. 13).

Seu casamento com Carolina Massim (jovem prostituta) teve vários dissabores, muito em virtude da falta de dinheiro, em decorrência da ruptura com Saint-Simon. Mas voltou a dar aula de matemática (1826), inaugurando também o Curso de Filosofia Positiva, na sua própria casa, “um total fracasso” (DIDONET, 1977, p. 14).

Apesar dos desentendimentos e da separação dos corpos entre Comte e Carolina, esta nunca se ausentou por completo da vida do filosófo. Assistia assiduamente a suas conferências, estava a par de suas lutas, recebia regularmente os subsídios que ele instituíra e com ele trocava cartas pontilhadas de mútuas recriminações (SOARES, 1998, p. 75).

O primeiro volume do Curso de Filosofia Positiva (1830) expôs seu pensamento filosófico, obra concluída em 1842. Logo depois, se apaixonou pela jovem Clotilde de Vaux, com quem manteve um relacionamento por pouco mais de um ano. Após o falecimento de Vaux (1851), publicou Sistema de Política Positiva ou Tratado de Sociologia instituindo a Religião da Humanidade (em 4 volumes). E ainda o Catecismo Positivista (DIDONET, 1977, p. 14 -15).

Segundo confissão de Comte, foi Clotilde quem acordou nele um melhor conhecimento da natureza feminina e, após sua morte prematura, conduziu-o aconduziu-o caminhconduziu-o de crescente aperfeiçconduziu-oamentconduziu-o mconduziu-oral, necessáriconduziu-o para construir à segunda parte de sua obra, consagrada à edificação do Positivismo religioso, contido na Política (SOARES, 1998, p. 75).

Assim, o Positivismo estava fundamentado em três vertentes Positivistas:

Comte explica que o sistema filosófico positivista basea-se no âmbito, científico, político e religioso neste sistema o Positivismo abrange todas as manifestações espirituais do homem. O domínio da inteligência ou território político, a atividade coletiva desdobra-se em ação do homem sobre o homem, ou a política e ação dele sobre a terra ou indústria. O segmento de

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maior importância para o destino da humanidade é a política que focaliza essencialmente a educação (SOARES, 1998, p. 72).

Tais princípios positivistas inspiraram a Carta Constitucional de 1891, no Rio Grande do Sul e sua organização político-administrativa, de caráter autoritária e de partido único – o PRR. Porém, no plano nacional, a doutrina positivista não obteve o mesmo êxito, como por exemplo, na primeira Constituição Brasileira, de 1889.

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3 JÚLIO PRATES DE CASTILHOS: MORAL E ÉTICA

Júlio Prates de Castilhos (1860-1903) nasceu na Fazenda da Reserva, antigo distrito de São Martinho, município de Vila Rica, atual Júlio de Castilhos. Alfabetizado na estância paterna por Francisca Miller Wellington, concluiu o ensino primário em Santa Maria. E o secundário em Porto Alegre, no Colégio Fernando Gomes (COHEN, 2000, p. 08).

Cursou a Faculdade de Direito em São Paulo (1877-1881), onde colaborava no jornal acadêmico A República e a Evolução. Já em Porto Alegre, foi relator do projeto sobre a primeira Convenção Republicana (1883). Participou do primeiro Congresso Republicano, onde se decidiu a criação de um órgão de propaganda e a “eleição de uma comissão de três membros encarregados de estudar e formular a futura constituição do Estado do Rio Grande do Sul. Recusa-se a ser o redator do jornal de A Federação” (COHEN, 2000, p. 08). Nesse momento, casou-se com Honorina Martins, em Pelotas (RS).

Começou a circular em Porto Alegre o jornal A Federação (1884), com o objetivo primeiro de:

[...] sustentar e desenvolver o programa do partido (cujo propósito era demonstrar a superioridade da República Federal sobre a monarquia3) e

sua oportunidade de para o povo as convicções republicanas, segundo empenhar-se para o desenvolvimento do comércio, artes e indústria da província, em geral tudo que pudesse concorrer para o progresso e civilização brasileira (COHEN, 2000, p. 08).

Júlio de Castilhos atuou decisivamente na chamada Questão Militar (1885-1887), percebendo que encontraria bons aliados para implantação do seu ideal republicano. No Segundo Império (1840-1889) os militares ainda não eram organizados, enquanto instituição em geral não possuía instrução e eram mal remunerados. Lutando e aliando-se ao ideal republicano de Júlio de Castilhos, o segmento militar auxiliou-se ao então líder republicano sulista, uma vez que tais militares acreditavam que seriam respeitados e mais valorizados com o advento da República no Brasil (FRANCO, 1996, p. 46).

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Castilhos debaterá a „Questão militar‟ até ás vésperas da Proclamação da República. Compreendia ele que o dissídio entre os militares e o poder civil se tornara irremediável e que ainda haveria de ser o estopim para a derrubada da Monarquia (FRANCO, 1996, p. 49).

Castilhos retirou-se do jornal A Federação (1888) e refugiou-se com a família em Vila Rica (1889), preferindo advogar por um tempo. Porém, continuou publicando no jornal sempre defendendo o sistema de governo republicano. Ao mesmo tempo, realizou a Convenção Republicana, tendo como objetivo a ação revolucionária contra a monarquia e retomou ao seu posto em A Federação. Proclamada a República (1889), foi nomeado Presidente do Estado do Rio Grande do Sul o Visconde de Pelotas, ou seja, José Antonio Correia da Câmara (1824- 1893).

Por se incompatibilizar com seus auxiliares, Visconde de Pelotas foi exonerado (1890) pelo Governo Provisório, que nomeou Júlio Prates de Castilhos e Antão Farias para os cargos de Presidente e Vice-Presidente do Estado do Rio Grande do Sul (COHEN, 2000, p. 09).

Acerca do advento da República no Brasil, refere Castilhos:

Grave, solemne e excepcional é o momento em que cabe a honra de dirigir a palavra à minha cara provincia natal. Acaba de consummar-se no paiz uma profunda revolução promovida pelo povo, pelo exercito e armada. Foi hontem deposto o governo do Imperio e constituído um Governo Provisório, que proclamou a deposição da dynastia e intallação da Republica (A FEDERAÇÃO, 1889, p. 01).

A Carta Constitucional de 1891 foi projetada e promulgada por Júlio de Castilhos, o que lhe rendeu inimigos políticos, como Gaspar Silveira Martins, Joaquim Francisco de Assis Brasil e Fernando About. Mas ele era novamente presidente constitucional do estado sulino.

Logo após o governicho e o Manifesto pela Federação4, Castilhos foi

reconduzido ao cargo pelo então Presidente da República Floriano Peixoto (1891-1894). Sob seu governo ocorreu a Revolução Federalista (1893-1895).

Soube o governo que os chefes federalistas reuniram-se em Buenos Ayres levando a bandeira da separação do Rio Grande e sua incorporação á Republica Argentina. O trapo separatista (que não e novo como programma

dos inimigos da Republica n‟este Estado...) é o refugium paseatorum, e o

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último cacho de amarra que estendem á vida política os náufragos da mais infame das revoluções! Mudaram a bandeira da restauração pela a do esphacelamento paiz. Não apellam mais para os Braganças banidos; atiram-se aos braços do estrangeiro (A FEDERAÇÃO, 1894,p. 01).

É então promulgada a lei de organização judiciária do Estado e promulgada a organização judiciária e policial do Estado. Isto é, definidos os crimes de responsabilidade do presidente do estado e o regulamento do processo e julgamento. Também é promulgada a lei eleitoral, que institui o voto a descoberto e reorganiza a instrução pública no Estado. Castilhos criou o Código Penal do Estado (1889) e exonerou-se do cargo, levando Antonio Augusto Borges de Medeiros ao poder (1898-1908/1913-1928). Sobre Castilhos: “[...] dizem que era afável e solidário com familiares, amigos e correligionários – e implacável severo e mau e inflexível com os adversários” (COHEN, 2000, p. 22).

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4 O POSITIVISMO NO BRASIL

O positivismo baseia-se, sobretudo, em três categorias, segundo Augusto Comte: 1) científico; 2) político; e, 3) religioso. O positivismo científico, do qual fazem parte os intelectuais, é considerado por Comte o menos expressivo. O positivismo político se atém somente ao âmbito administrativo e partidário.

No caso do Brasil, porém, o modelo do ideal positivista se adequou ao âmbito religioso, sendo este, de todas as expressões do positivismo, o que teve apreço no meio político brasileiro.

O Curso de Filosofia Positiva, para muitos sua obra capital, e na verdade o

primeiro degrau de uma escalada cujo fim e promover uma revolução de sentimentos e costumes necessária para regular a vida humana, individual e coletivamente (SOARES, 1998, p. 72).

O positivismo no Brasil surgiu no ano de 1844, com o estudo da disciplina de Biologia. Mas, durante muito tempo acreditava-se que inserção do positivismo em nosso país foi pelo ensino das Ciências Exatas, tais como Matemática e Astronomia – quer por meio da Escola Militar e da Marinha de Guerra, no Rio de Janeiro quer por meio das lições de Física e Química – na Escola Politécnica (SOARES, 1998).

A partir daí, cria-se no país um ambiente da Ideologia Positivista, a princípio com os discípulos de Comte, que vieram exercer no Brasil suas atividades, ou pessoas que mantiveram relações com o filósofo. Este é o caso da educadora Nísia Floresta5, e de José Pereira d‟ Almeida, Antonio de Campos Belos e Agostinho Roiz da Cunha e, ainda, do baiano Dr. Felipe Ferreira de Araujo Pinho (SOARES, 1990, p. 88).

O primeiro positivista a difundir a filosofia de Comte no Brasil foi Luiz Pereira Barreto. Nascido em Rezende (RJ), Barreto formou-se em Medicina em Bruxelas e, ao retornar ao Brasil, desenvolveu uma ação cultural, médica e política, tendo conhecimento da obra de Louis Pauster (1822-1895). Quando houve uma epidemia

5 Nisia Floresta Brasileira Augusta (1809-1885) foi uma educadora nascida no Rio Grande do Norte,

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de febre amarela no Brasil, dedicou-se ao combate desta doença, com êxito. Sobre Pereira Barreto, ressalta Soares que era de: “[...] inteligência viva e expressão elegante e fácil [...], um propagandista de primeira ordem do positivismo no Brasil” (SOARES, 1998, p. 90).

Pereira Barreto publicou o primeiro volume da obra As Três Filosofias, na qual trata do teologismo. Descendente de fazendeiros batalhou pelo incremento da viticultura em São Paulo. Era culto poliglota, a par do desenvolvimento intelectual nos países mais desenvolvidos e publicou, também, vários artigos de difusão do Positivismo na Europa, em francês, inglês e alemão (SOARES, 1998). Como político, foi eleito pelo Partido Republicano, escolhido Presidente da Assembléia Constituinte e do Senado Estadual. Desde 1850, infiltrou-se nas principais instituições brasileiras como a Escola Militar do Rio de Janeiro, a Escola da Marinha, o Colégio Pedro II, a Escola de Medicina e a Escola Politécnica (SOARES, 1998, p. 94).

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5 O POSITIVISMO NO RIO GRANDE DO SUL

O Rio Grande do Sul foi o estado brasileiro em que o Positivismo atingiu o seu mais expressivo desenvolvimento. Abrangue sua totalidade de expressões na política, nas ciências, na religião e na estética. Tanto que os preceitos positivos foram expressos nas idéias, nos monumentos, na arquitetura e na escultura (SOARES, 1998, p. 126).

No segundo ano do Movimento Farroupilha (1835-1845), em pleno regime monárquico, a Assembléia da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul promulgou a Lei nº. 12, praticamente desconhecida na atualidade, mas, de tal importância para o período mencionado, pois, seus principais artigos determinavam que:

Art. 1º - Haverá na Capital da província um colégio de Artes Mecânicas para o ensino de órfãos pobres, expostos e filhos de pais indigentes que tiveram chegado à idade de dez anos sem conseguirem alguma ocupação útil. Art. 3º - A cada um dos moços que forem recolhidos ao Colégio, se abonará pelas rendas provinciais cento e sessenta réis diários, para suas despesas, por todo tempo de ensino. Não se descuidou o legislador com o respeito à liberdade dos ofícios escolhidos: Art. 6º - Para aplicação dos aprendizes a cada um dos ofícios mecânicos que se ensinarem será consultada sua inclinação (SOARES, 1998, p. 129).

A Revolta de 35 ocorreu no Rio Grande do Sul, quando Augusto Comte elaborava sua obra na Europa. Os Farroupilhas organizaram uma pequena „pátria‟ com princípios baseados no regime da República Federativa, tendo como bandeira política a Liberdade, a Igualdade e a Humanidade, adotadas pelo sistema comteano (SOARES, 1998, p. 127).

No ano de 1872, o Partido Liberal alcançou expressiva vitória e dominou o panorama político da Província, tendo como líder Gaspar Silveira Martins (1834-1901), que iniciou sua trajetória política no Parlamento Brasileiro. Sendo ele Deputado, Senador, Conselheiro da Monarquia, com forte influência junto aos gabinetes ministeriais do país. O Partido Liberal tinha como objetivo propugnar6 pela

descentralização administrativa, obtendo mais ação executiva nas administrações provinciais (DIDONET, 1977, p. 51-52).

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Júlio Prates de Castilhos já estava imbuído da doutrina positivista desde os 19 anos. Desde 1868, com Apolinário Porto Alegre, escreveu em jornais a idéia republicana, buscando apoio político nas províncias do Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Othelo Rosa considera o Manifesto Republicano de 1870, publicado no jornal “A República”, que traça os motivos dos reclames de seus seguidores. Estes ecoam em todo território nacional, expondo a falta de liberdade de expressão, a corrupção governamental, o registro do “relaxamento moral” da sociedade brasileira, demonstrando, assim, a crise e o fim do regime monárquico e apontando como único meio de salvação social e governamental a implantação do regime federal. Tendo sido este o primeiro traço de solidariedade e de união do pensamento republicano nacional (DIDONET, 1977, p. 53).

Neste manifesto os signatários, na exposição de motivos e apresentam os reclamos que ecoam no território nacional, pela sufocação da liberdade e pela corrupção governamental, e pela decadência que se acentua dia a dia na Pátria Brasileira (DIDONET, 1977, p. 53).

No Rio Grande do Sul, a luta pela república começou a se estruturar com Venâncio Aires, Pinheiro Machado e demais companheiros políticos. Obteve dinamismo o ideal republicano com a chegada de Júlio Castilhos, após formar-se em Direito (1881). A partir da Convenção de Itu (1873), na Província de São Paulo, iniciaram-se outras convenções que irão estruturar as idéias republicanas, sendo que nesta Convenção, Julio de Castilhos tornou-se atuante, sendo ele redator do projeto à imprensa (DIDONET, 1977, p. 54).

A Convenção estabeleceu normas ao comportamento dos eleitores, condenando as abstenções nos pleitos; pregou o fim da abolição e a liberdade religiosa, eliminando o culto oficial.

A Convenção de 1882 deixa esboçadas, ou mesmo definidas, as grandes idéias e princípios que nortearam a ação do Partido Republicano Rio-Grandense; fazendo-se notar a influência de Júlio de Castilhos que e o mentor das idéias proclamadas pela Convenção e apresentador da direção orgânica que a política republicana deveria adotar (DIDONET, 1977, p. 54).

A Convenção intensificou a propaganda e a conquista de novos correligionários7, engrandecendo, assim, o PRR.

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Os republicanos esforçaram-se para organizar este partido. O campo político até então era dominado por dois partidos: o Partido Conservador, pouco expressivo e com baixo número de filiados; e, o Partido Liberal, chefiado por Gaspar Silveira Martins, tendo em sua maioria estancieiros, agricultores da área colonial, comerciantes e industriais (DIDONET, 1977, p. 55).

Em março de 1883, reuniu-se novamente o Congresso republicano, que, dentre outros interesses, criou o jornal A Federação, que seria o órgão oficial do PRR, propagando a defesa do sistema de governo com base no modelo republicano (DIDONET, 1977, p. 55).

Assim, aprovou-se o programa do órgão midiático que era considerado o porta-voz do PRR, uma idealização de Júlio de Castilhos, assinada por Antão Farias e Joaquim Francisco de Assis Brasil, que determinava em seus Artigos:

Art. 1º A folha oficial do Partido Republicano Rio-Grandense tem por missão principal: § 1 - Discutir e sustentar a legitimidade e oportunidade do sistema de governo republicano no Brasil. § 2 – Dentro da legalidade monárquica, e enquanto não se operar a mutação na forma de governo, empenhar-se por todas as reformas que auxiliem e facilitem a vitória do partido, prestando apoio a todos os atos da autoridade que tendam à efetuação dessas reformas. § 3 – Expor, sustentar e promulgar idéias e medidas administrativas e econômicas, sempre filiadas ao sistema federativo, que sejam de real utilidade pública. § 4 – Representar na publicidade o partido republicano e produzir sempre a defesa dos seus atos. Art. 2º - A linguagem da folha será invariavelmente moderada e cortês, instruindo e persuadindo, tratando os adversários ou quem quer que seja com delicadeza e cavalheirismo. Art. 3º- Nunca será permitido à redação ocupar-se de melindrosos assuntos individuais, quer pró, quer contra amigos ou adversários.

O programa de A Federação ainda propunha em seus demais artigos:

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O Rio Grande do Sul, por meio da representatividade política de Júlio Prates de Castilhos e seus correligionários do PRR, visavam, por meio da base de seu programa partidário, a luta para a consolidação da República no Brasil.

Também ambicionavam o fim do modelo político monárquico, pois, acreditavam que este regime não era capaz de conduzir a vida da sociedade brasileira, pois, não estava possibilitando mais o seu pleno desenvolvimento.

Na luta pelo advento da República no país, organizaram-se os chamados Clubes Republicanos em diversas localidades do estado como: Santa Maria, Pelotas, Porto Alegre, Rio Pardo, Cachoeira do Sul, Santana do Livramento, São Vicente e São Gabriel (FRANCO, 1996, p. 30).

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6 O CASTILHISMO: ORDEM E PROGRESSO

O castilhismo constituiu a mais aguerrida ideologia política que se desenvolveu no estado do Rio Grande do Sul e polarizou o debate em torno da forma republicana que as instituições emergentes deveriam adotar a partir de 15 de novembro de 1889, após a derrubada do Império8 (BOEIRA; GOLIN, 2007).

Na inspiração do castilhismo, a política no estado do Rio Grande do Sul passou a ser autoritária. Em âmbito nacional, o Brasil republicano consolidou-se através de um embate ideológico conturbado, entre duas concepções de mundo: a liberal e a positivista heterodoxa, representada no Rio Grande do Sul pelo castilhismo.

O castilhismo baseava-se no pressuposto de que a sociedade caminhava inexoravelmente rumo à estruturação racional. Os meios necessários para sua realização seriam alcançados mediante o cultivo da ciência social (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 63).

Para Júlio de Castilhos, como para todo o pensamento positivista:

O fim da sociedade liberal consistia nas transações empíricas, fruto da procura dos interesses materiais dos indivíduos. O líder sulino propunha ao Congresso Constituinte9 a instauração de um regime moralizador, não se baseando na preservação dos interesses materiais, mas fundado nas virtudes republicanas, não obtendo nenhum efeito no âmbito nacional, decidindo assim programar a sua idéia no governo do Rio Grande do Sul (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 60).

Assim,

[...] a República era reino de virtude. Somente os puros, os desambiciosos, os impregnados de espírito público, deviam exercer funções de governo. No seu conceito, a política jamais poderia constituir uma profissão, ou um meio de vida, mas um meio de prestar serviços à coletividade (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 62).

Quando uma personalidade esclarecida pela ciência social assumia o governo, poderia transformar o caráter de uma sociedade que levou séculos para se constituir. A ação política de Castilhos inscreveu-se nesse contexto: não consultou a opinião do povo por meio do voto, tampouco a opinião de seus companheiros de

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Império: “Autoridade; domínio; nação dirigida por imperador” (BUENO, 2007, p. 422).

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vida pública. Acerca do bem público, somente “[...] poderia ser encontrado onde achasse a essência mesma da sociedade ideal, que ele entendia em termos de „reinado de virtude‟” (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 64). As classes conservadoras, defensoras da ordem, foram conquistadas por Castilhos. Assim o líder gaúcho estabeleceu o „equilíbrio social‟, que lhe era tão caro.

Para Boeira e Golin (2007, p. 65): “A liberdade das pessoas, segundo a doutrina castilhista, está condicionada a elas se inserirem no contexto dos interesses do Estado. Como para ser bom cidadão o indivíduo deve despir-se dos seus interesses pessoais”.

O Castilhismo, no sentido de segurança pública e prosperidade do Estado, não podia permitir a liberdade para as pessoas, daí o motivo de o castilhismo combater tão duramente todos aqueles que ousaram exercer a liberdade fora da tutela do Estado. Segundo o castilhismo,

Os direitos dos indivíduos, bem como a legislação, estão a qualquer momento submetidos ao bem público. Nas épocas de perigo para a segurança do Estado. No cumprimento de sua missão moralizadora o governo deve orientar a sua conduta nos princípios fundamentais da ordem, segurança, salvação, existência da sociedade (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 66).

Mais do que as leis escritas ou a constituição, para o castilhismo a guarda do bem público dependia do zelo e do esclarecimento do governante iluminado pela ciência social e ornado com uma “pureza de intenções”. “O bem público para os castilhistas acontece na sociedade moralizada pelo Estado forte, que impõe o desinteresse individual, em benefício da segurança pública” (BOEIRA; GOLIN, 2007, p. 67). Vê-se que, para o castilhismo, como para o positivismo comteano, a moral era preponderante na formação da sociedade „ideal‟:

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No Rio Grande do Sul, este bem estar traduziu-se no fortalecimento do governo sobre as pessoas, com o desenvolvimento de uma sólida burocracia a serviço do partido único, no caso o PRR.

Algumas diretrizes políticas do PRR pautaram-se por um modelo de poder legislativo central, igualmente representante da vontade nacional, um exército nacional e uma armada nacional. O PRR desejava também programar de forma rápida as reformas. Ou seja, efetivar reformas que não tivessem que esperar pelo advento da república no país (FRANCO, 1996). Assim,

o PRR, apoiado nas diretrizes programáticas supracitadas e estruturado de forma coesa disciplinada, através de uma organização político-partidária rígida, realizou, portanto no decorrer de sete anos um trabalho de organização eficiente que lhe possibilitou chegar à República completamente estruturada (DACANAL; GONZAGA, 1993, p. 125).

Tais reformas referem-se:

[...] a extinção do poder moderador e do Conselho de Estado, temporariedade no senado, liberdade de cultos e secularização dos cemitérios, casamento civil obrigatório e indissolúvel, registro civil dos nascimentos e óbitos e liberdade de comércio e indústria (salvo os privilégios de invenção e outros aconselhados pelo interesses públicos) e supressão de privilégios, quer civis, quer políticos, à classe de diplomados (FRANCO, 1996, p. 31-32).

O modelo político adotado no Rio Grande do Sul, conhecido como castilhismo, tinha seus propósitos ao ser implantado através da ação política de Castilhos na sua forma autoritária, com a criação do Partido Republicano Rio-Grandense – partido único (1882), com objetivo da propagação para a sociedade do ideal republicano. O Jornal A federação (1884) buscou, através de seus artigos escritos, expor a sua luta para a breve implantação deste modelo político. De acordo com os princípios do castilhismo foi estabelecido este modelo de administração política no RS. O íntimo do pensamento político de Júlio de Castilhos, era para organizar e implantar um regime que perdurasse por várias décadas, pois, o país encontrava-se em transição para a extinção da Monarquia e o advento da República (1889).

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7 A CARTA CONSTITUCIONAL DE 1891

A Carta Constitucional, de 14 de julho de 1891, representou, em parte, a concretização de um projeto sob os princípios do Ideal Positivista de Augusto Comte, elaborada por Júlio Prates de Castilhos. Ainda que, em muitos pontos, tenha se prestado mais em fundamentar o caráter autoritário deste, do que em implantar a sociedade ideal daquele. Procurando aquilatar10 a influência do Positivismo na Constituição de 189111, a referida carta foi decretada e promulgada, desde a sua introdução, pelos representantes da sociedade rio-grandense, e não em nome de Deus ou em nome do povo, e sim em nome da família, da pátria e da humanidade, pressupostos básicos para a implantação de um estado positivista. Assim, o pensamento „positivo‟ substitui Deus pela Humanidade, não podendo admitir a invocação do testemunho divino. Dessa maneira, a Júlio de Castilhos era reconhecida:

[...] a dura tarefa de lançar, em sua província, os primeiros fundamentos da tão sonhada unidade federativa e a sua província, como os demais não estava preparada para o exercício das franquias constitucionais, num nascente regime que tinha liberdade o seu esteio [...] Daí, sem dúvida a adoção de algumas soluções inspiradoras no „Sistema de Política Positiva‟

de Comte, que dariam ao Executivo atribuições que bem poderiam ser ainda prematuras num legislativo de inseguros prognósticos [...] O autoritarismo de Castilhos, bem analisado, nos levará a uma razoável compreensão de seu comportamento, tanto sob o ponto de vista político, como administrativo (SOARES , 1996, p. 97).

Assim, quanto ao estado e o território, o Art. 1º. da Constituição de 1891 previa que o

[...] Rio Grande do Sul, como um dos membros componentes da União Federal Brasileira, constitui-se sob o regime republicano, no livre exercício de sua autonomia, sem restrições além das que estão expressamente estatuídas na Constituição da república dos Estados Unidos do Brasil (SOARES, 1996, p. 113)

10 Avaliar, aferir, apreciar (BUENO, 2007.p. 80). 11

“Lei fundamental que regula os direitos e deveres do cidadão em relação ao Estado” (BUENO,

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Este artigo previa a busca pela autonomia do Estado, conhecido como ‘pátrias

brasileiras’, pois visava à autoridade local e à força de representatividade que o Estado tinha perante o governo federal (Floriano Peixoto). Dessa maneira, não se admitia, segundo a Carta de 1891, em seu Art. 3º. a “[...] intervenção do Governo da União, salvo nos casos especificados no Art. 6 da Constituição Federal” (apud SOARES, 1996, p. 113). O Art. 6º, repelia, também, a “[...] invasão estrangeira, ou de um Estado em outro”, bem como restabelecia a “[...] ordem e a tranqüilidade nos Estados, à requisição dos respectivos Governos” e a “[...] execução das leis e sentenças federais” (SOARES, 1996, p. 114). Naturalmente, a ordem e o progresso compunham a base do positivismo para um pleno desenvolvimento do governo republicano. Assim, prevê-se, igualmente, no Art. 6º. que o

[...] aparelho governativo tem por órgãos a presidência do Estado, a Assembléia dos Representantes e a Magistratura, que funcionarão harmonicamente, sem prejuízo da independência que entre si devem guardar, na órbita da sua respectiva competência, definida nesta Constituição (SOARES, 1996, p. 114).

A influência positivista na Carta de 1891, explica em parte, a ausência dos termos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A Assembléia dos Representantes e a Magistratura funcionariam de forma harmônica, pelos pressupostos da ‘ordem e do progresso’ da sociedade. No Art. 7º, estipula-se que ao presidente do estado compete exercer o poder e as decisões “[...] livremente, conforme o bem público, interpretado de acordo com as leis (SOARES, 1996, p.114). Leis, naturalmente, supervisionadas pelo estado castilhista. Ainda no mesmo artigo, certifica-se o que é senso comum, em se tratando do estado sulino sob a égide do PRR: centralização das decisões político-administrativas no Poder Executivo, ou seja, decisões sob a tutela do Presidente do Estado. Para Júlio de Castilhos, o governante deveria se pautar absolutamente pela pureza das intenções, isto é, pela ausência dos interesses materiais (SOARES, 1996).

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[...] dentro de seis primeiros meses do período presidencial, o Presidente escolherá livremente um Vice-Presidente, que será seu imediato substituto no caso de impedimento temporário, no de renúncia ou morte, perda de cargo e incapacidade física (SOARES, 1996, p. 114).

Tanto o Artigo 9º, quanto o 10º, demonstravam a articulação da ação governamental, ou melhor, o autoritarismo castilhista na busca de pressupostos para a hereditariedade do cargo no governo, caso isto não ocorresse por meio do voto. Acerca das despesas decorrentes do cargo, prevê o Art. 15º, que:

[...] o Presidente perceberá um subsídio correspondente às necessidades da sua subsistência material e ás despesas de representação decorrentes do cargo. § 1.º O subsídio será fixado pela Assembléia dos Representantes na última sessão anterior a cada período presidencial, durante o qual na poderá ser aumentado e nem diminuído. § 2.º Ao substituto do Presidente, quando em exercício, competirá perceber o subsídio (SOARES, 1996, p. 115).

Isso porque, obviamente, o governante gozava de absoluta pureza das intenções, somente tendo o numerário para sua subsistência e não para outro fim. Isto vinha de encontro aos princípios positivistas, no que tange à gratuidade do trabalho (sic). Além disso, o Art. 20 observava que ao chefe supremo do governo competia “[...] promulgar as leis, que, conforme as regras adiante estabelecidas fossem de sua competência” (SOARES, 1996, p. 117).

Este 20º artigo demonstra o poder temporal do Presidente do Estado, que se institui na Ditadura Republicana, a plena responsabilidade de suas ações administrativas governamentais, fazendo com que isto contribua para o pleno desenvolvimento da sociedade. De tal maneira que o presidente do estado – segundo o Art. 22º, poderá ser:

[...] processado pela Assembléia dos Representantes e, desde que esta declare procedente a acusação, será julgado por um tribunal especial composto de dez membros da Assembléia, por ela escolhidos, e dos membros do Superior Tribunal (SOARES, 1996, p. 119).

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No Art. 31º, constata-se novamente o caráter autoritário do governo, uma vez que prevê que o Presidente do Estado poderá controlar a Assembléia dos Representantes, com a finalidade estritamente de fiscalizar a administração do governo. Assim, mantém a ‘ordem e o progresso’ idealizada pela filosofia Positivista. O Art. 32º coloca as condições elementares em uma Ditadura Republicana:

Art. 32º. Antes de promulgar uma lei qualquer, salvo o caso a que se refere o Art. 33º, o Presidente fará publicar com a maior amplitude o respectivo projeto acompanhado de uma detalhada exposição de motivos. § 3º Examinando cuidadosamente essas emendas e observações, o Presidente manterá inalterável o projeto, ou modifica-lo-á de acordo com as que julgar procedente. § 4º Em ambos os casos do parágrafo antecedente será o projeto, mediante promulgação convertido em lei do Estado, a qual será revogada, se a maioria dos Conselhos Municipais representar contra ela ao Presidente (SOARES, 1996, p. 121).

Isto demonstra, também, a responsabilidade do governante na administração pública e nos projetos de lei, levando-o para a „apreciação pública‟. Tendo assim, a autoridade, a total ausência dos interesses materiais, ou seja, o governante deve priorizar o bem estar coletivo da sociedade e não o bem estar de forma individualista.

No que se refere às reuniões, prevê o Art. 37º que a Assembléia:

[...] reunir-se-á anualmente na capital do Estado, sem depender de convocação, no dia 20 de setembro, e funcionará por dois meses contados do dia da abertura, podendo ser prorrogada ou convocada extraordinariamente a sua reunião. § 6º As votações poderão ser simbólicas ou nominais, não sendo nunca permitido o escrutínio secreto. Sempre que os votos houverem de ser dado por escrito, serão devidamente assinados

(SOARES, 1996, p. 122).

Novamente, o modelo político da República Castilhista, pautou-se pela moralidade na administração política do Estado, pois, estabeleceu o principio de viver de forma transparente aos olhos do povo. Quanto às nomeações, o Art. 54º estipula que

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Percebe-se ainda, nesse artigo, que a autoridade do Presidente do Estado e sua responsabilidade funcional assumiam todos os riscos e as divergências que a oposição pudesse fazer denegrí-lo perante a sociedade. O governante, afinal, pautava-se pelos princípios éticos e morais para exercer o cargo. Quanto aos magistrados, o Art. 56º indica que:

[...] são considerados magistrados, para todos os efeitos legais somente os membros do Superior Tribunal e os juízes da comarca. Parágrafo Único. Os magistrados só perderão seus cargos em virtude de sentença judicial; e a sua remoção só poderá ser determinada a pedido, ou mediante processo em que fique provada a inconveniência da sua continuação na respectiva comarca (SOARES, 1996, p. 127).

Ou seja, os magistrados constituem um órgão fiscalizador da sociedade para o bem estar da mesma, assumindo um caráter transformador na busca da ‘ordem e do progresso’, defendida pelos Positivistas. Sobre a divisão dos municípios, o Art. 62º relata que:

[...] o território do Estado, sob o ponto de vista administrativo, será dividido em municípios. § 2º O que não estiver nas condições de prover as despesas exigidas pelos serviços que lhe incumbem poderá reclamar ao Presidente do Estado a sua anexação a um dos municípios limítrofes, devendo o Presidente suprimi-lo, mesmo sem reclamação, se verificar aquela deficiência de meios (SOARES, 1996, p. 128).

Ou seja, na Ditadura Republicana, a autoridade do Presidente do Estado tem plenas condições de resolver os problemas dos municípios, tendo a busca de sua missão moralizadora e orientar na conduta, tanto da segurança, quanto da ordem, princípios fundamentais da existência da sociedade. E mais:

Art. 63º O Poder Municipal será exercido, na sede de cada município, por um intendente, que dirigirá todos os serviços, e por um conselho, que votará os meios de serem eles criados e mantidos. Parágrafo Único. O intendente e o Conselho serão simultaneamente eleitos pelo município mediante sufrágio direto dos cidadãos, de quatro em quatro anos (SOARES, 1996, p. 129).

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Positivismo. Tendo este o apoio dos munícipes através dos Conselhos Municipais, na administração do cargo. Em relação aos crimes, a Carta de 1891 determinou:

Art. 69º O Intendente, os Subintendentes e os membros do Conselho, pela faltas ou crimes em que houverem incorrido, serão processados e julgados pelo juiz da comarca, com apelação para o Superior Tribunal, em virtude de queixa de quem se julgar ofendido ou mediante denúncia de qualquer munícipe. Na lei orgânica será regulado este assunto (SOARES, 1996, p. 130).

Isso demonstra um ‘suposto‟ mecanismo de consulta à sociedade, na qual faziam parte os seus respectivos municípios, pois, os intendentes representam a sociedade, justamente para o bem de governar. Tem que haver políticos de total lisura para exercer o poder. Das garantias de ordem e progresso, prevê o Art. 71º que: “[...] nenhuma lei, salvo o caso do Art. 33º, será promulgada sem a exposição dos motivos que a justificam e sem haver sido previamente publicado o respectivo projeto com o prazo não inferior a três meses. §4º Todos são iguais perante a lei” (SOARES, 1996, p. 130-132). Isto posto, seguem os parágrafos:

§5º Não são admitidos também no serviço do Estado os privilégios de diplomas escolásticos ou acadêmicos, qualquer que sejam, sendo livre no seu território o exercício de todas as profissões de ordem, moral, intelectual e industrial. . §6º Os cargos superiores serão de livre nomeação do Governo com exclusão de diploma. §7º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bens [...] as disposições do direito comum. §9º É garantido aos habitantes do Estado o culto dos mortos, mediante a instituição dos cemitérios civis, administrados pela autoridade municipal, sem prejuízo dos cemitérios particulares [...] §10º Será leigo, livre e gratuito o ensino primário ministrado nos estabelecimentos do Estado. §12º A todos os cidadãos é lícito associarem-se e reunirem-se livremente e sem armas, no território do Estado, não podendo intervir a polícia senão para manter a ordem pública [...] (SOARES, 1996, p. 130 – 132).

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Estado, ou em serviço que lhes prestar em virtude das suas funções” (SOARES, 1996, p. 133).

Ratifica-se, portanto, a moral, a integridade, o caráter e a honestidade do funcionalismo público, não podendo ocorrer corrupção no funcionalismo, pois, o mesmo desenvolve seu trabalho para o crescimento da sociedade da qual faz parte. O Art. 76º demonstra um executivo forte, podendo ser solicitada a reforma da Constituição por meio dos Conselhos Municipais, sendo estes representantes munícipes, que exercem uma forte opinião pública. O governante tem que representar a sociedade da forma correta e moralizadora. Para tanto,

[...] a Constituição poderá ser reformada, ou por iniciativa do Presidente do Estado, ou em virtude de petição da maioria dos Conselhos Municipais. §1º Quando a reforma for promovida por iniciativa do Presidente, cumprirá a este publicar o respectivo plano, o qual prevalecerá se, dentro de três meses, for aprovado pela maioria dos Conselhos Municipais. §2º Se a reforma for pedida pela maioria dos Conselhos, o Presidente dará publicidade à petição, expondo-a apreciação pública durante três meses, findo este prazo, se aquela maioria mantiver o seu pedido, o Presidente promulgará a reforma (SOARES, 1996, p. 133).

A Carta Constitucional Castilhista de 1891, elaborada por Júlio Prates de Castilhos, demonstra em seus diversos artigos, as bases fundamentadas nos princípios do positivismo, pois encontrou, nos princípios ideológicos de Augusto Comte, as diretrizes políticas para organização política do Rio Grande do Sul.

A Carta Estadual demonstrou a existência de elementos ditatoriais, a exemplo do poder do presidente, em uma política fortemente centralizadora. Ao presidente do estado cabia a responsabilidade nas decisões que objetivavam a manutenção da Ordem e Progresso da sociedade.

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8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O texto intitulado A Carta Constitucional Castilhista de 1891: Ordem e Progresso (RS) observou o período que compreende o final da monarquia e o início da república, no Brasil, sob a influência do ideal Positivista de Augusto Comte, em especial no Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Carta Constitucional de 1891. Não por acaso, a bandeira nacional desfralda a expressão „ordem e progresso‟ em sua esfera azul-celeste, o que se convencionou chamar de „divisa positivista‟, criada sob o desenho do artista Décio Vilares.

A influência efetiva do positivismo na política sul-rio-grandense nos últimos anos do século XIX e o início do século XX deu-se por meio da Carta Constitucional de 1891, redigida e assinada única e exclusivamente pelo líder do PRR, Júlio Prates de Castilhos.

Tendo em sua compreensão política o princípio fundamental da política comtista, pautado na separação entre o poder temporal e o poder espiritual, Júlio de Castilhos impôs ao estado sulino um governo com forte caráter autoritário e baseado no partido único, o PRR. Isto é, instituiu uma política caracterizada pelo Poder Executivo centralizado e controlador, tanto no âmbito das instituições, quanto das liberdades individuais. Esta situação perdurou até a ascensão de Getúlio Dornelles Vargas na presidência do Rio Grande do Sul (1928-1930). Ou seja, este „estado autoritário‟ se estendeu por todo o governo de Antônio Augusto Borges de Medeiros (1898/1908-1913/1928), que antecedeu Vargas no Poder Executivo sul-rio-grandense.

Júlio Prates de Castilhos criou e manteve o jornal A Federação, para dar sustentação e visibilidade midiática ao seu regime político – o castilhismo - bem como enfrentou uma revolução (Revolução Federalista – 1893-1895), capitaneada pelos seus opositores, e esses eram muitos e tinham forte caráter liberal. Seu opositor mais famoso, Gaspar Silveira Martins, se fazia ouvir por meio do jornal A Reforma, naturalmente, o jornal da oposição por excelência.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FONTES DOCUMENTAIS

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